FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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Canudos, Juazeiro, o Contestado, Caldeirão,
Pau de Colher, Pedra Bonita, que precedeu a todos, com traços
mais ou menos idênticos, ao lado do cangaceirismo, que se pro-
longou até os fins da década de 30? Para a nossa história têm
sido encarados como fenômenos extra-históricos. "Banditismo",
"fanatismo" são expressões que os resumem, eliminando-os dos
acontecimentos que fazem parte de nossa evolução nacional, de
nossa integração como Nação, de nosso lento e deformado de-
senvolvimento econômico.

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Mas, seriam simples criminosos esses milhares, dezenas de
milhares de pobres do campo que se rebelavam nos sertões, du-
rante um tão largo período de nossa história?

Seriam apenas os "retardatários" da civilização, como os
qualificava Euclides da Cunha?

Evidentemente, não. Constituiriam, se assim fosse, uma
percentagem de criminosos de todo anormal, desconhecida em
qualquer país, em qualquer época histórica. Eram muito mais
frutos do nosso atraso econômico do que eles próprios retar-
datários. Hoje, compreendemos e sentimos que eles eram uma
componente natural do nosso processo evolutivo, a denúncia do
nosso próprio retardamento nacional, o protesto contra uma or-
dem de coisas ultrapassadas e que deveria desaparecer.

Tiveram, esses inúmeros surtos de "fanatismo" e de canga-
ceirismo, as suas causas internas e externas. As condições inter-
nas que os geraram vamos encontrá-las, precisamente e antes de
tudo, no monopólio da terra, cujas origens remontam aos tem-
pos coloniais, com a divisão do Brasil em capitanias hereditá-
rias e a subseqüente concessão das sesmarias, as quais deram
origem aos latifúndios atuais. Estes constituem, de há muito, ao
lado do domínio imperialista em ramos básicos da economia do
País, um dos dois grandes obstáculos ao nosso pleno desenvol-
vimento econômico, social, político e cultural.

O monopólio da terra, abrigando em seu seio uma econo-
mia monocultora voltada essencialmente para a exportação de
alguns produtos, entravou brutalmente o crescimento das forças
produtivas. Por mais de três séculos, baseou-se no regime do
trabalho escravo, que se levantou como uma barreira à propaga-
ção do trabalho livre. Do trabalho escravo ainda hoje restam
marcas evidentes em nossas relações de produção' no campo. É
o trabalho semi-servil em vastas áreas do interior, particular-
mente no Nordeste.

O monopólio da terra e o trabalho escravo impediram, por
sua vez, ou dificultaram muitíssimo o advento da tecnologia
moderna. Só nos últimos vinte anos vêm-se efetuando mudan-
ças, com a mecanização da agricultura em escala razoável, mas
ainda assim acompanhando a linha defeituosa do desenvolvi-
mento desequilibrado de nossa economia: um Sul capitalista e
um Norte mergulhado no atraso semifeudal.

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Foi ainda o monopólio da terra que nos reduziu ao mais
lamentável atraso cultural, com o isolamento, ou melhor, o en-
carceramento em massa das populações rurais na nossa hinter-
lândia, e que chamamos Sertão, estagnada por quatro séculos.
Analfabetismo quase generalizado. Ignorância completa do
mundo exterior, mesmo o exterior ao sertão, ainda que nos li-
mites do Brasil. A única forma de consciência do mundo, da
natureza, da sociedade, da vida, que possuíam as populações
interioranas, era dada pela religião ou por seitas nascidas nas
próprias comunidades rurais, variantes do catolicismo.

No Nordeste, a situação agravou-se quando, na segunda
metade do século XIX, o centro da gravidade econômica se foi
transferindo gradativamente para o Sul, mais desenvolvido do
ponto de vista capitalista. O Nordeste, com seus arraigados
remanescentes feudais e acentuada debilidade técnica, foi per-
dendo terreno em todos os domínios. A valorização do café
atraía para o Sul a mão-de-obra disponível no Nordeste, tanto
de escravos como de trabalhadores livres. Enquanto isso, era o
Sul que recebia a totalidade dos imigrantes europeus que, nos
fins do século, vieram modificar a fisionomia econômica e so-
cial da fazenda paulista.

A evolução do Nordeste, nessa época, caracterizava-se
por sua extrema lentidão, própria de uma sociedade em es-
tágio econômico seminatural, com uma divisão de classes
sumária: o senhor de grandes extensões de terras e o homem
sem terra, o semi-servo. A população da zona nordestina
além da faixa litorânea não recebia sequer a influência bené-
fica das frágeis conquistas de tipo burguês que se operavam
nas zonas marítimas urbanas. No Nordeste, a vida das cida-
des processava-se em ritmo tão lento (até 1930) que elas não
exerciam atração sobre as populações despossuídas do interi-
or a não ser em proporções mínimas. As levas de nordestinos
sertanejos \u2014 flagelados \u2014 que nas épocas das longas estia-
gens, as secas, deixam o sertão, transitam rapidamente por
essas cidades, que são para elas apenas um porto de embar-
que. Quando não conseguem passagem para a Amazônia ou
para os cafezais de São Paulo, abrigam-se precariamente nos
arrabaldes urbanos, e aí são pasto da fome e de toda sorte de
doenças dela resultantes. Não há indústrias que possam ab-

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sorver sequer uma parte insignificante dessa mão-de-obra ex-
pulsa pelo latifúndio em seus estertores acrescidos pela seca.
As mesmas débeis indústrias alimentares ou têxteis têm sua si-
tuação agravada pelo fator climático, e em vez de admitir ope-
rários, despedem-nos.

Vemos então coexistirem, lado a lado, numa vizinhança
incômoda, por longos períodos, os latifundiários semifeudais e
a burguesia comercial e industrial, tão frágeis, ambos, que não
têm outro recurso senão tolerar-se mutuamente. A burguesia
sofre todas as limitações impostas pelo latifúndio semi-feudal,
sem poder destruí-lo, sem poder mesmo diminuir sua influên-
cia. Esta situação resulta do enorme atraso das forças produti-
vas, e estas, por sua vez, encontram naquela imobilidade um
freio ao seu desenvolvimento. Sabendo-se que o grau de de-
senvolvimento das forças produtivas determina a rapidez ou
lentidão das transformações econômicas e do progresso social,
aquela inércia dá a medida dessas transformações e desse
progresso.

Além de tudo, uma séria crise de estrutura minava a eco-
nomia agrária nacional. O regime escravista dera o que tinha
de dar e vivia seus últimos alentos. "No período de 1879 a
1888 eram gerais e os protestos das classes produtoras [pa-
tronais] que clamavam contra as oscilações violentas nos pre-
ços do café, da borracha e algodão, a falta de elasticidade do
meio circulante e as deficiências da organização do crédito.
Mal-estar esse agravado com a promulgação da lei de 13 de
Maio, pela forma como foi feita: ausência de indenização aos
proprietários de escravos, falta de previdência quanto à desor-
ganização completa do trabalho agrícola que a lei viria ocasio-
nar e que de fato ocasionou, pois que não foi colhida metade
das safras de 1888."

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Não seria, naturalmente, a indenização pelos escravos li-
bertos em cada fazenda que iria salvar a situação. A crise era
de estrutura, crise de um sistema econômico que atingira a fa-
se máxima de sua decadência, sem que na maior parte do País
tivessem surgido, em larga escala, relações de produção de ti-
po superior, à base do trabalho livre. Não era só a crise do ins-

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 Roberto Simonsen, As crises no Brasil, São Paulo, s/d., págs. 35-36.

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tituto escravista, era também a crise do latifúndio pré-
capitalista. Os trabalhadores livres importados da Europa em
escala considerável, no decênio anterior, e que, depois da
Abolição, entram numa média de mais de 100 mil por ano, até
o fim do século, concentram-se quase exclusivamente em São
Paulo, onde não se fazem sentir os tão alardeados efeitos ca-
lamitosos da lei de 13 de maio. Ao contrário, São Paulo, com
o trabalho livre em suas fazendas,