FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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veria sua produção crescer,
enquanto se arruinava a do Estado do Rio e sobretudo a do
Nordeste. "No último decênio do Império o débito médio que
pesava sobre os engenhos e algodoais do Norte era de 60%,
pelo menos, do valor das terras, maquinismos e escravos, e
que no Sul, das 773 fazendas de café, 726 estavam hipoteca-
das."

2
 Estas cifras dão bem uma idéia da situação de decadên-

cia que atingira a economia agrícola do Brasil, a qual, na prá-
tica, já não pertencia aos que a exploravam.

A parcela da economia nordestina que conseguiu sobre-
viver ao maremoto da Abolição foi a agro-indústria do açúcar.
Renovara-se tecnicamente na década que precedeu a extinção
do regime servil. De 1875 a 1885 instalam-se umas cinqüenta
usinas de açúcar, modernamente equipadas.

Mas, por trás destas cifras há todo um drama. Elas ex-
pressam uma fase de arruinamento de um setor da agricultura
brasileira que, desde os inícios da colonização, fora o susten-
táculo de toda uma classe parasitária, cujo esplendor atingira o
grau "máximo no Segundo Reinado. Era a classe dos senhores
de engenho. Sem se renovar durante quatro séculos, não podia
mais sustentar a concorrência da produção estrangeira no mer-
cado internacional. A queda dessa classe coincidia com a que-
da do próprio Império e a Abolição da Escravatura, pois, era
uma classe, por excelência, de escravagistas. Iria substituí-la
uma nova classe, a dos usineiros. Com a ajuda dos capitais in-
gleses, criam-se, a partir da década de 70, as grandes fábricas
de açúcar, as usinas. A nova classe que surge com elas é ao
mesmo tempo de latifundiários e capitalistas. Mas os usineiros
não empreendem nenhuma revolução na zona canavieira. Im-
plantam a nova estrutura mecânica para a elaboração do

2
 Oliveira Lima, O império brasileiro, 2.ª' ed., S. Paulo, s/d., pág. 465.

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açúcar, mas aproveitam ao máximo o arcabouço do velho lati-
fúndio do antigo engenho. Coexistem por algum tempo, antes
da emancipação dos escravos, os trabalhadores escravos, ge-
ralmente no eito, e os trabalhadores livres em geral na usina.
Quando chega a Abolição, a mudança não é grande: todos são
semi-servos do usineiro.

A classe dos senhores de engenho passa a plano secun-
dário; sobrevive ainda, mas à sombra da usina, em situação
agônica, que duraria muitos decênios. Como em outros mo-
mentos da história econômico-social, vemos aí o lento perecer
de uma ordem de coisas que só se enterra depois de podre. As
forças revolucionárias que a sua degradação gerava tinham si-
do de tal forma dispersas pelo latifúndio monocultor que se
haviam quase anulado como forças sociais atuantes. A imo-
bilidade relativa da economia regional, com a conseqüente
imobilidade social, permitia a sobrevivência dos antigos se-
nhores de engenho como fornecedores de cana às usinas.

Notável particularidade do advento das usinas no fim do
século XIX é o gigantismo do latifúndio canavieiro. Sua fome
de terras não encontra limites. Compra os velhos engenhos
bangüês e os aposenta. O que lhe interessa é a terra. E a usina
vai estendendo ilimitadamente seus domínios.

Intensifica-se assim o processo de monopolização das
terras, que na região nordestina se concentram cada vez mais
nas mãos de uma minoria. Segundo dados estatísticos da dé-
cada de 40 deste século, somente as 20 principais usinas de
Pernambuco possuíam terras numa área superior a 270 mil
hectares

3
. Era um fenômeno antigo. Um colaborador do Diá-

rio de Pernambuco, já nos meados do século XIX, acentuava
que "a agricultura está cercada por uma barreira inacessível
para o homem pouco favorecido... E qual esta barreira? A
grande propriedade territorial. Esta entidade terrível que tem
arruinado e despovoado [. . . ] esta região que se estende so-
bre todo o litoral da nossa província até uma profundeza de
dez, doze, e às vezes quinze e dezoito léguas para o interior,
se acha dividida em engenhos até duas, três, e até quatro e

3
 Gileno De Carli, O processo histórico da usina em Pernambuco, Rio,

1942, págs. 57-58.

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cinco léguas quadradas [. . .] Os proprietários se recusam a
vender estes terrenos e até a arrendá-los!" E ainda: "Como é
que se exige que esses infelizes [os agregados, gente pobre,
foreiros] plantem se eles não têm certeza de colha? Que in-
centivo existe que os induza a beneficiar um terreno, do qual
podem ser despojados de um instante para outro? Nas terras
dos grandes proprietários, eles não gozam de direito algum
político, porque não têm opinião livre; para eles o grande
proprietário é a polícia, os tribunais, a administração, numa
palavra, tudo; e afora o direito e a possibilidade de os deixa-
rem, a sorte desses infelizes em nada difere da dos servos da
Idade Média"

4
.

A situação dos pobres do campo no fim do século e
mesmo em pleno século XX não se diferenciava daquela de
1856. Era mais do que natural, era legítimo, que esses homens
sem terra, sem bens, sem direitos, sem garantias, buscassem
uma "saída" nos grupos de cangaceiros, nas seitas dos "fanáti-
cos", em torno dos beatos e conselheiros, sonhando a conquis-
ta de uma vida melhor. E muitas vezes lutando por ela a seu
modo, de armas nas mãos. Eram eles o fruto da decadência de
um sistema econômico-social que procurava sobreviver a si
mesmo. Os passageiros surtos econômicos neste ou naquele
ramo da agricultura serviam para evitar uma explosão de todo
o sistema. É o caso, por exemplo, do florescimento da borra-
cha na Amazônia, entre as duas últimas décadas do século
XIX e a primeira deste século. Depois, é o fragoroso baque,
com profundas repercussões sobre o Nordeste \u2014 sem falar no
Norte \u2014 e sobre a corrente migratória de seus "excedentes"
demográficos.

Este esboço de quadro seria incompleto se não levasse
em conta, entre as causas externas da ebulição no Nordeste, no
período em foco, o surto de criação de indústrias leve e de
alimentação e a construção ferroviária que se verificam nos
anos que antecedem imediatamente a emancipação dos escra-
vos e o advento da República, bem como sua repercussão no
domínio da ideologia. Mesmo com toda a diversidade de for-
mações econômicas que começavam a chocar-se no País,

4
 Cit. por Gilberto Freyre, Nordeste,."Rio, 1937, págs. 248-249

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havia entre elas uma certa acomodação. O Nordeste não vivia
uma vida estanque. Sobretudo a partir das primeiras vias fér-
reas e da navegação de cabotagem, a unidade nacional se
acentua. O crescimento econômico favoreceu-o. Somente no
lustro que precede a Proclamação da República, fundam-se
cerca de 250 estabelecimentos desse gênero, ocupando apro-
ximadamente, 55 mil operários.

Essas cifras, que hoje parecem insignificantes, devem ser
encaixadas num Brasil atrasado em todos os aspectos, cujas
classes dominantes se vangloriavam de ele ser "um país essen-
cialmente agrícola", ou se conformavam com isto, e cuja po-
pulação, num imenso território de 8,5 milhões de quilômetros
quadrados, totalizava 14 milhões de almas. Apenas uma parce-
la insignificante vivia nas cidades, menos de 20 por cento.

Semelhante incremento das iniciativas industriais, ferro-
viárias, bancárias tinha o efeito de uma sacudidela, um po-
deroso estímulo em toda a economia nacional. Acordava for-
çosamente o interior do Brasil, por mais entorpecido que ele
estivesse sob o guante do latifúndio semifeudal. Era o capita-
lismo que tentava mais uma vez impor sua presença na eco-
nomia e na sociedade brasileira, o primeiro grande impulso
que se verificava desde as malogradas tentativas encabeçadas
por Mauá nos meados do século XIX. A burguesia procurava
tomar iniciativa