FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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herdada de geração a geração. Quando os enfermos procura-
vam o sacerdote, viam-no como um homem bondoso, que da-
va uma receita, muitas vezes simples conselhos higiênicos que
na sua extrema ignorância desconheciam e que davam resulta-
dos positivos. O conceito do Padre aumentava, sobretudo de-
vido ao fato de nada cobrar por tais conselhos.

Além dessa numerosa categoria de vítimas do latifúndio,
os enfermos, havia outra decerto igualmente numerosa: os re-
beldes primitivos contra a ordem dominante, muitos dos quais
se haviam transformado em cangaceiros ou jagunços, homens
válidos em disponibilidade, postos à margem da vida normal
por não encontrarem terra nem trabalho certo, mesmo nas ter-
ras alheias. As culturas temporárias do Nordeste árido ocupa-
vam braços apenas num breve lapso de tempo, durante o plan-
tio ou a colheita. Depois, eram levas e levas de desocupados
errantes. Os que se revoltavam, nas condições sociais da

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época e do meio, pegavam em armas para assaltos in-
discriminados contra a propriedade \u2014 e eram os cangaceiros
em bandos \u2014 ou como jagunços, os cabras dos latifundiários,
para a defesa dessa mesma grande propriedade que lhes cau-
sava a ruína. Sentiam-se, de alguma forma, identificados com
o sacerdote que fora suspenso de ordens, que aparecia como
vítima de perseguições da cúpula eclesiástica e que, portanto,
demonstrava também um espírito de rebeldia.

Uma terceira categoria dos que iriam povoar Juazeiro era
constituída pelos ingênuos curiosos, propensos a acreditar em
milagres, homens e mulheres de diferentes camadas sociais,
desde fazendeiros até pequenos-burgueses ou pobres trabalha-
dores iludidos. Era talvez a categoria menos numerosa, mas
não desimportante. Muitos deles levavam ao Padre dádivas,
jóias de estimação, animais e lhe ofereciam mesmo proprieda-
des em terra. Uns ficavam em Juazeiro, outros voltavam de-
sencantados. Testemunha o Padre Antônio Gomes de Araújo,
que depois seria historiador daqueles acontecimentos, que por
ocasião dos pretensos milagres do Padre Cícero \u2014 embustes,
ele os denomina \u2014 seu pai, Basílio Gomes, transportou-se
para Juazeiro com a família. "Mas apenas três dias eram pas-
mados, comunicou discretamente à esposa: 'Vamos embo-
ra. Aqui não há nada do outro mundo. Padre Cícero está enga-
nado"

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. Padre Gomes defende a tese de que o próprio Padre

Cícero teria sido vítima de um embuste. O sangue da hóstia
não passaria de um processo químico, arquitetado à revelia do
sacerdote.

Não dera, naturalmente, nenhum resultado favorável à
Igreja Católica local a viagem do Padre Cícero a Roma. Di-
ziam ter sido ele recebido pelo Papa, ao tempo Leão XIII.
Mas, se tal encontro houve, deve ter sido puramente formal.
Compareceu o sacerdote acusado de heresia perante o Sacro
Colégio, e este confirmou a penalidade imposta pelas autori-
dades eclesiásticas do Ceará: manteve a suspensão das ordens
sacerdotais.

Cícero Romão Batista regressou a seu Estado de origem

8
 Revista Itaytera, órgão do Instituto Cultural do Cariri, n.° 2, 1956, pág.

5.

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no mesmo ano de 1898, voltando a Juazeiro, contra a vontade
expressa de seus superiores hierárquicos. Estes, evidentemen-
te, haviam praticado um grave erro tático, ao permitirem sua
ida a Roma. Sua situação perante a Igreja não se alterava. Mas
o que repercutia entre a gente simples que o cercava e venera-
va, era o fato de ter ido à Santa Sé, falado pessoalmente com o
Papa, e voltar carregado de imagens sagradas benzidas pelo
Sumo Pontífice e um projeto de construção, numa eminência
junto a Juazeiro, de um templo católico imitando a igreja do
Horto, em Jerusalém. O mais era secundário... O sacerdote re-
gressava a Juazeiro num ano propício a que em torno dele se
adensasse a aglomeração de crentes: 1898, um ano de seca. Se
a grande maioria dos trabalhadores agrícolas do Nordeste era
temporária nas épocas normais, ocupando-se apenas durante o
plantio e a colheita, registrando-se assim um perene nomadis-
mo regional, a situação se agravava num ano de falta de chu-
vas ou em que elas eram escassas. Morriam as sementeiras, es-
tiolavam-se as plantações, dizimavam-se os rebanhos. O fe-
nômeno climático, aumentando a miséria, estimulava os pen-
dores à crendice. Juazeiro continuaria a crescer com a afluên-
cia desses infelizes despossuídos, que passavam a depositar
suas esperanças em milagres...

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3

Sementeiras de Capangas

Cada parte cuidou de aumentar o
seu bando de capangas. . . O monse-
nhor Afonso Pequeno guiou pessoal-
mente, até Crato, o numeroso grupo de
homens armados.

JOSÉ DE FIGUEIREDO BRITO

NOS PRIMEIROS ANOS DO DOMÍNIO

do Padre Cícero sobre essas populações deslocadas do seu lu-
gar de origem, é provável e quase certo que as pessoas válidas
que mais facilmente encontravam ocupação fossem as da
chamada categoria dos "desordeiros", isto é, os capangas pro-
fissionais ou aqueles dispostos a tornar-se capangas. Tudo os
favorecia. O clima local era de lutas permanentes entre gran-
des proprietários, alguns dos quais eram também chefes po-
líticos.

O século XX iniciava-se com renhidas lutas entre facções
diversas. Porfiavam em derrubar-se uns aos outros do

comando da politicagem dos respectivos municípios. Nestas
lutas influía decisivamente o prestígio sobre a massa de eleito-
res, a mais flutuante que se possa imaginar, sem habitação fi-
xa, sem partidos políticos estruturados, seguindo este ou aque-
le mandão local mais poderoso, transferindo-se de um a outro
município, às vezes de um a outro Estado vizinho. Já vimos,

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pelo depoimento de Irineu Pinheiro, que, de 1901 a 1909, fo-
ram depostos à mão armada, sucessivamente, os chefetes polí-
ticos de sete dos principais municípios do Cariri.

A mais séria dessas lutas foi travada entre dois coronéis
do Crato: José Belém de Figueiredo e Antônio Luís Alves Pe-
queno. Vinha o conflito de vários anos antes e ia decidir-se pe-
las armas em 1904.

Como a cidade mais adiantada, do ponto de vista comer-
cial, de todo o Cariri, o Crato era a encruzilhada onde se en-
contravam e se digladiavam os interesses opostos dos latifun-
diários e dos comerciantes. Orgulhava-se de ser a capital do
sul do Ceará. E, de fato, nenhuma outra cidade do vale dispu-
tava-lhe a primazia nas transações comerciais. Mas os capitais
comerciais cratenses estavam, naturalmente, estreitamente li-
gados ao latifúndio semifeudal. O próprio coronel Belém de
Figueiredo, chefe político do município nos primeiros anos do
século XX, fora inicialmente comerciante. Mais tarde, deixa o
comércio para dedicar-se à agricultura e à pecuária. Os capi-
tais de que dispunha lhe facilitaram as transações com terras e
gados. Só uma de suas fazendas, Serra Verde, tinha de frente
mais de duas léguas. Com semelhantes posses, controlava nu-
meroso contingente eleitoral, contribuindo decisivamente para
a eleição do presidente do Estado, dos candidatos oficiais ao
Parlamento federal e ele próprio a uma das vice-presidências
do Estado, como ocorreu em 1900. Belém contava com os ca-
pangas pagos pelos cofres municipais, os componentes da
chamada guarda local, além do seus próprios.

Seu principal antagonista era um grande comerciante cra-
tense, de uma família de antigos "donos" do lugar. "Ao chegar
o mês de junho [de 1904] \u2014 narra um cronista \u2014 cada parte
cuidou de aumentar seu bando de capangas, estendendo ao Es-
tado de Pernambuco o aliciamento de cabras valentes e treina-
dos em brigas... De Flores, recebeu o coronel Belém, enviados
pelo coronel Antônio Pereira da Silva, uns cem cangaceiros,
perfazendo com os que já tinha cerca de trezentos homens ar-
mados e bem municionados. De Vila Bela, atual