FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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imediato é granjear popularidade: não vacila 
em tomar uma medida que satisfaz ao maior número \u2014 a sus-
pensão do pagamento dos impostos até 30 de março do ano 
seguinte. 
Se praticamente não houve resistência interna em Jua-
zeiro, os rebeldes contavam como certa, porém, uma ofensiva 
das forças do governo de Franco Rabelo. Realmente, na se-
gunda quinzena de janeiro de 1914, tropas enviadas de Forta-
leza atacam Juazeiro. 
Os jagunços de Floro esperavam o ataque. À chegada das 
tropas adversárias, estava Juazeiro circundada por um enorme 
valado e uma barreira de terra, numa extensão, dizem, de nove 
quilômetros. As energias fabulosas de milhares de pessoas, 
homens, mulheres e crianças, munidos de instrumentos rudi-
mentares, haviam levantado aquela trincheira no curso de uma 
semana, trabalhando dia e noite. "Comboios intermináveis de 
rifles, e máuseres, chegavam cada noite, via Paraíba, ou via 
Recife... Lá estavam [em Juazeiro] homens que haviam guer-
reado em Canudos, na defesa de Antônio Conselheiro"
6
. "O 
grande corpo de combatentes era de fanáticos. Rodeavam-nos, 
mais intrépidos, todos os cangaceiros dos vastos sertões limí-
trofes"
7
. 
Como era de esperar, as forças atacantes foram logo repe-
lidas e postas em fuga. Os sediciosos de Floro Bartolomeu 
marcharam-lhes ao encalço e não deixaram pedra sobre pedra. 
Invadiram e saquearam sucessivamente o Crato, Barbalha, 
Quixadá, rumaram para Fortaleza, nos comboios da estrada de 
ferro, cujas pontas de linha ainda se encontravam em Iguatu. 
Nesse meio tempo, o Governo central havia desempenha-
do sua parte no drama tragicômico: decreta a intervenção fede-
ral no Ceará em 14 de março de 1914. Os jagunços de Floro 
Bartolomeu estavam às portas da capital, "a cidade" \u2014 Forta-
leza. 
 
 
6
 Lourenço Filho, Juazeiro do padre Cícero, 2.ª ed., s. d., São Paulo, pág. 
127. 
7
 Idem, pág. 146. 
159 
Franco Rabelo embarca de volta ao Rio. Assume o Go-
verno do Estado um homem de confiança imediata de Pinheiro 
Machado, o oficial do Exército Setembrino de Carvalho . 
Triunfara a sedição de Juazeiro, concertada entre Floro 
Bartolomeu, capitão de jagunços, deputado estadual, e o Poder 
supremo da República. 
O latifúndio \u2014 o coronelismo, sua expressão local \u2014 
mostrava que ainda era uma força, em plena segunda década 
do século XX, depois de desbancar do poder político na pro-
víncia, pelo menos temporariamente, a burguesia comercial e a 
pequena burguesia urbana do Ceará, e impor sua vontade. 
O nome de Floro Bartolomeu adquiriu ressonância na-
cional. E ainda não terminara ele sua carreira política verti-
ginosa. Novos sucessos lhe estavam reservados
8
. 
 
 
 
 
 
8
 Floro Bartolomeu não negava sua condição de chefe de jagunços. No seu 
relato histórico de 1923 sobre os acontecimentos de Juazeiro e a influência 
do Padre Cícero, disse textualmente: "Seria possível que não se saiba ainda 
hoje que fui eu o chefe da revolução do Juazeiro e o único responsável por 
ela...? Esse movimento que, por motivo de ordem especial fiz irromper no 
Juazeiro, não foi nem podia ter sido sustentado somente, por cangaceiros..." 
(Ob. cit., pág. 89). 
160 
 
 
5 
 
 
O Padre na Penumbra 
 
... Não fiz a revolução, nela não 
tomei parte nem para ela concorri, 
nem tive a menor parcela de res-
ponsabilidade direta ou indiretamen-
te nos fatos ocorridos. 
PADRE CÍCERO ROMÃO BATISTA 
 
 
 
 
 
 
PROJETARA-SE DE TAL FORMA A 
figura singular de Floro Bartolomeu, homem enérgico, inteli-
gente, audaz, que no auge da chamada "revolução" de Juazeiro 
o nome do Padre Cícero fica relegado a um evidente segundo 
plano. No entanto, sua influência religiosa não diminuiria; ao 
contrário, com a vitória política da facção dos coronéis do Ca-
riri, comandados por Floro Bartolomeu, o prestígio do Padre 
crescera enormemente entre a população pobre do Nordeste. 
Mas tudo indica que o potentado político passava a su-
plantar nos demais terrenos o ditador espiritual das massas. 
Não há motivo para duvidar das palavras do sacerdote 
com que abrimos este capítulo. Quanto mais que uma carta te-
legráfica expedida por Floro Bartolomeu quando de sua per-
manência no Rio, tramando a intervenção federal no Estado, 
confirma plenamente que o Padre Cícero ficara reduzido na 
prática ao papel de arregimentador de homens que iriam ser-
161 
vir aos objetivos políticos (e econômicos, como veremos de-
pois) dos coronéis do Cariri. Diz a carta de Floro ao Padre: "... 
Aceite a minha opinião e faça como eu acho melhor... Envio-
lhe hoje mesmo uma cópia do telegrama para V. Revma. diri-
gir ao general Pinheiro [Pinheiro Machado] expondo a situa-
ção e dando os meios de uma acomodação séria [... ] Peço não 
apartar-se de minha orientação"
1
. 
Não é conhecida a resposta do Padre Cícero às atrevidas 
instruções de Floro Bartolomeu, mas pelos acontecimentos ul-
teriores deve ter seguido à risca as ordens terminantes do cau-
dilho. Tanto que sendo contrário a um movimento armado pa-
ra depor o Governo do Estado, não se atreveu a desautorizá-lo 
de público. Durante o ataque a Juazeiro pelas tropas governis-
tas, na execução das obras de entrincheiramento da vila e no 
curso da própria luta, o Padre Cícero fazia preleções diárias à 
multidão de romeiros aglomerados em frente à sua casa, incu-
tindo-lhes ânimo, dando-lhes esperanças na vitória final. 
Floro Bartolomeu, tampouco, seria algo sem o Padre. A 
diferença é que, em política, era Floro o elemento atuante. 
Neste ponto, mais uma vez o próprio sacerdote depõe decisi-
vamente. Não sendo atendido pelo presidente do Estado, Fran-
co Rabelo, para uma solução conciliatória do conflito criado 
antes da luta armada, mas quando esta já se tornara inevitável, 
o Padre Cícero confessa: "... Considerei finda a minha árdua 
tarefa, afastando-me do campo da ação política, deixando ao 
mesmo tempo que o Dr. Floro agisse segundo as ordens rece-
bidas..."
2
 
A marcha das operações militares, o acordo com as auto-
ridades federais para que os grupos aguerridos de jagunços 
não entrassem em Fortaleza, a volta imediata dos mesmos ja-
gunços ao Cariri \u2014 tudo isto foi decidido por Floro 
Bartolomeu. 
A esta altura dos acontecimentos o próprio caudilho ser-
tanejo deve ter receado a propagação das hostilidades além 
dos limites por ele previstos e desejados, de acordo com os 
 
1
 Irineu Pinheiro, ob. cit., págs. 238-239 
2
 Lourenço Filho, Juazeiro do padre Cícero. 3. cd., São Paulo, 
s. d., pág. 196. 
162 
chefes políticos do Rio. Basta pensar no estado de espírito da 
jagunçada vitoriosa, que invadira sucessivamente várias cida-
des, incendiara fazendas de adversários políticos de Floro, ha-
via colocado à sua mercê os comboios ferroviários que de-
mandavam Fortaleza \u2014 quando a imensa maioria deles via pe-
la primeira vez um trem e nele viajava. Ante o alarma da bur-
guesia comercial de Fortaleza, considerando-se ameaçada de 
saque pelos grupos armados de Floro Bartolomeu, este não va-
cila, transaciona e manda recuar os jagunços. Era um indício 
de quanto a burguesia comercial tinha influência, ainda que 
restrita, de quanto Floro era sensível a seus interesses, que em 
parte também eram os dele. 
Pode-se avaliar o quanto estes acontecimentos, precipita-
dos em poucos meses, contribuíram decisivamente para uma 
profunda modificação na psicologia do sertanejo envolvido na 
luta armada. 
Obedecendo as ordens de Floro Bartolomeu, os grupos de 
jagunços regressam ao Cariri e vão concentrar-se novamente 
em Juazeiro. 
A situação do Estado modificara-se