FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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jos de setores da burguesia, objetivando contrapor-se à prepo-
tência do latifúndio, enfrentando e destruindo suas hordas de
jagunços. Mas, ainda era cedo. E enquanto o Exército perma-
nece à margem dos acontecimentos \u2014 reservando-se apenas
para casos extremos e na defesa da própria ordem semifeudal,
como em Canudos \u2014 o presidente do Estado do Ceará, Ben-
jamin Barroso, envia uma numerosa força de polícia militar
para o Cariri, com a recomendação expressa a seu comandan-
te: "Não poupe bandido. Execute-os sumariamente"

1
. Não se

sabe ao certo quantos foram executados, embora se conheçam
os nomes de vários chefes de bandos que foram abatidos, mas
se mencionam mais de duas centenas de aprisionados, natu-
ralmente os menos periculosos, além dos muitos que foram
desbaratados.

Logo depois dos acontecimentos que culminaram com a
derrubada do Governo do Estado, e nos quais os grupos arma-
dos por Floro Bartolomeu, José de Borba Vasconcelos, Pedro
Silvino e outros correligionários do Padre Cícero desempenha-
ram o papel decisivo, os coronéis do Cariri \u2014 e com eles os
de todo o Nordeste \u2014 haviam obtido como que o reconhe-
cimento formal de sua soberania local e, inclusive, de seus
exércitos particulares de jagunços. E utilizavam-nos a seu bel-
prazer.

Por isso mesmo, o ambiente era extraordinariamente pro-
pício à continuação dos antigos conflitos pelo aumento de sua
influência política e de seus domínios territoriais. Assim, fora
rasgado para sempre o "pacto de harmonia" assinado sob a
égide do Padre Cícero.

Já vimos que o Cariri sofria permanente escassez de mão-
de-obra. No entanto, dada a existência de fortes elementos de
economia natural na zona, não lhe era possível absorver um
anormal excesso de braços num período de estiagem. E 1915
era um ano de seca a dizimar tudo. Nos começos do século, a

1
 A. Montenegro, História do cangaceirismo, pág. 79.

171

falta completa de chuvas na região nordestina reduzida à fome
ou à subnutrição extrema, aproximadamente metade da popu-
lação do Estado, avaliada então em 1 milhão e 200 mil habi-
tantes. Deslocava de seus míseros lares cerca de 100 000 pes-
soas

2
. Isto sem contar os elevados contingentes de flagelados

de outros Estados que demandavam o Ceará à procura de mei-
os mais fáceis de transporte para a Amazônia.

Desses 100 000 deslocados, a maior parte ficava peram-
bulando sem rumo certo, vivendo de esmolas, de roubos, de
assaltos a mão armada. Estão na história do Nordeste os gru-
pos aguerridos de salteadores, cujas ações se multiplicam nos
anos de seca: os Brilhantes, os Serenos, os Viriatos, os Simplí-
cios, os Meireles, os Calangros, os Quirinos, que em geral to-
mavam o nome ou apelido de seu chefe. Se o latifúndio os ge-
rava, as grandes estiagens, matando as lavouras, dizimando os
gados, exterminando a gente, exacerbava-lhes o desespero,
não lhes deixando outra alternativa a não ser o banditismo sem
quartel. Na grande seca de 1877-1879, quando começaram a
intensificar-se as ações dos grupos de bandoleiros, uma cor-
respondência da cidade caririense de Barbalha para Fortaleza
comentava este fato, que devia traduzir mais ou menos uma
realidade: "Hoje, é perigoso ser rico, pois o povo pobre [os
bandidos] lhes hão declarado guerra de extermínio"

3

Trecho de um relatório do Governo da Província referen-
te ao ano de 1878 indica a gravidade do problema. Diz o pre-
sidente: "Chegando ao meu conhecimento que hordas de sal-
teadores conhecidos pelos nomes e antonomásia dos chefes,
Viriato, Quirino e Calandro, que há alguns anos cometem toda
sorte de violência nos confins desta província com as de Per-
nambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, recomeçavam suas
excursões no Cariri, dirigi-me aos presidentes daquelas pro-
víncias requisitando a sua cooperação para perseguirmos efi-
cazmente os malfeitores, que com facilidade escapam fugindo
de uma para outra jurisdição". "Forças combinadas desta Pro-
víncia e da Paraíba conseguiram sitiar o grupo dos Viriatos,
por ventura o mais audaz e poderoso daqueles bandidos, na
2
 Rodolfo Teófilo, A seca de 1915, Rio. 1922, pág. 88.

3
 Cearense, 17-3-1878.

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povoação de Boa Esperança, do termo de Milagres, da qual se
tinha assenhoreado; e aí travou-se o combate, em que mor-
reram doze salteadores e um soldado, tendo-se dado de parte a
parte muitos ferimentos. Vigorosamente atacado e batido, o
grosso da quadrilha pôde todavia evadir-se; mas ficaram treze
prisioneiros, mais de cem cavalgaduras, e valores de subida
importância, fruto de suas depredações". Prossegue o relatório
oficial: "Assim creio poder afirmar que o Cariri está libertado
desses facínoras que, originados em grande parte das provín-
cias vizinhas, haviam demandado em razão da seca à mais fér-
til região do Ceará, e inspiravam tal horror que, depois dos
morticínios e roubos praticados de julho do ano passado a
abril deste ano, entravam de público nas vilas e povoados, sol-
tavam os presos, tributavam a população e declaravam-se seus
protetores contra os outros bandos"

4
.

Por esse trecho do relatório do presidente da Província,
percebe-se o quanto era grave o problema, quando um único
bando, que consegue parcialmente escapar da captura, deixa
nas mãos de seus perseguidores mais de cem animais de mon-
taria; quando ocupa povoados e vilas e atua como poder local
sobre seus habitantes. O engano do presidente estava em supor
que o Cariri estava livre dos cangaceiros. Talvez não fosse en-
gano: pretendia contar vantagens como administrador. Outros
lhe seguiriam o exemplo...

O ano de 1915 distingue-se essencialmente do de 1877 ou
1878, por estarem agrupados em torno de chefetes locais os
principais contingentes de bandoleiros. O seu número, em
1915, devia ser enorme e ultrapassar todas as cifras anteriores.
Para isto concorria o término da luta de Juazeiro contra o Go-
verno do Estado, o ano de seca rigorosa e, simultaneamente,
da decadência da extração da borracha da maniçoba, pois sua
exportação caíra de maneira drástica. Em 1912, a exportação
da borracha brasileira alcança seu ponto culminante, com um
total de 42 000 toneladas. "Daí por diante é o declínio ... Nesse
ano, a exportação [... ] representa quase 40% da exportação to-
tal do País contra [... ] pouco mais de 40% representada pelo

4
 Cearense, 16-1-1879.

173

café"
5
. É verdade que a produção da borracha no Nordeste era

uma parcela mínima em relação à produção da Amazônia, mas
no Cariri, como já vimos, a maniçoba tornara-se um dos prin-
cipais cultivos.

Ao transmitir o Governo do Estado, em 1916, o presiden-
te Benjamin Barroso vangloriava-se de ter eliminado o canga-
ceirismo em todo o Ceará. Perseguira-o, é verdade, prendera
centenas de sertanejos insubmissos, matara muitos, destroçara
grupos inteiros. Mas a base fundamental, a matriz do canga-
ceiro e do jagunço permanecia intocada: o monopólio da terra,
onde o trabalhador vivia como um semi-servo. O latifúndio
produzia o mal e o alimentava. Provocava a miséria entre os
despossuídos, em cujo seio nasciam os bandoleiros, que se
voltavam contra o latifúndio, ainda que de maneira incons-
ciente. Mas a força deste era tão grande ainda que conseguia
corrompê-los, desviá-los do seu caminho de rebelião contra a
ordem dominante e colocá-los a seu serviço, alician-
do-os, como jagunços, para sua própria defesa. O cangaceiro
rebelado se transforma em "cangaceiro manso"

6
. É o capanga

ou jagunço, na fazenda de um grande proprietário. Os próprios
bandos autônomos se vêem enredados nas malhas do latifun-
diário. Para fugir às perseguições da polícia, ocultam-se