FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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no
melhor lugar onde podem fazê-lo com segurança \u2014 uma gran-
de fazenda, abrigo em geral inviolável. E seu campo de ação
torna-se vastíssimo sob a proteção do coiteiro

7
.

A informação do presidente Barroso, em 1916, não pas-
sava de vã jactância. Os grupos de cangaceiros ainda vagabun-
deariam, em plena florescência, durante uma década, pelo me-
nos, até iniciar-se a sua decadência completa e definitiva. Tala-
riam todo o Nordeste, da Bahia ao Maranhão, numa verdadeira
conflagração regional. O seu número, dada a multiplicidade dos
grupos, o total de bandoleiros mortos, os aprisionados, os postos
fora de combate, e no entanto sua renovação-incessante, deveria
compreender vários milhares. Devidamente arregimentados,

5
 Caio Prado Jr., História econômica do Brasil, São Paulo, 1949,

pág. 248.
6
 Optato Gueiros, Lampião, 2.ª ed., São Paulo, 1953, pág. 32 ss.

7
 Ver o romance de José Américo de Almeida, Coiteiros.

174

com objetivos pré-determinados, conscientes de sua condição
de explorados e oprimidos em luta contra os exploradores e
opressores, os latifundiários, poderiam ter provocado uma mu-
dança radical na economia agrária do País. Dispersos, tornaram-
se impotentes, malbarataram o formidável potencial de energias
revolucionárias neles represadas durante séculos.

Nesse desbaratamento de forças potencialmente revolu-
cionárias, em busca de uma saída para a situação de miséria
das massas campesinas, o Padre Cícero e os coronéis do Cariri
desempenharam um papel decisivo.

O primeiro quartel do século XX foi o ponto culminante
da revolta primária das populações rurais pobres contra o la-
tifúndio. Os principais contingentes de revoltados concentra-
ram-se em Juazeiro. No entanto, o Padre Cícero, em cuja ori-
entação confiavam cegamente, desviou a torrente do rumo que
inevitavelmente tomaria: o assalto em massa às grandes pro-
priedades d,os fazendeiros, tanto do Cariri como de todo o
Nordeste. O sacerdote agiu aqui como um autêntico conci-
liador de interesses antagônicos, amortecedor de choques de
classes, em favor do latifúndio.

Em primeiro lugar, tratou sempre de fazer crer, nem que
fosse pelo silêncio, na sua capacidade de obrar milagres. Os
míseros que se aglomeravam em Juazeiro deviam, portanto,
esperar de fenômenos extraterrenos sua salvação. Era o pri-
meiro passo para quebrar-lhes o ânimo de luta, sabido embora
que Juazeiro foi durante muitos anos um foco permanente de
agitações, de conflitos, de atritos, de brigas, em que as armas
estavam à mostra e algumas vezes entravam em ação, nas
mãos de gente decidida.

Em segundo lugar, o Padre entregava, de pés e mãos ata-
dos, à insaciedade dos latifundiários do Cariri aqueles homens
que buscavam mais do que trabalho: buscavam, ainda que in-
conscientemente, a libertação social. Como já vimos, muitos
milhares de sertanejos foram distribuídos como gado entre os
coronéis do Cariri, dispersando-se e indo trabalhar quase de
graça nos sítios locais, inclusive do próprio Padre Cícero.

Em terceiro lugar, o Padre Cícero agia como advogado
dos grandes proprietários territoriais, exculpando-os pelas vio-
lências e arbítrios, que em condições normais provocari-

175

am choques. Como exemplo, é significativo este fato narrado
por Floro Bartolomeu:

"Um chefe político de um dos municípios do Cariri, ho-
mem de grande prestígio e por demais autoritário, em 1909,
fez recolher parte de seu gado de leite ao roçado de um de seus
rendeiros, que ainda conservava o milho virado, bem como o
algodão em plena produção. O pobre lavrador, temendo fazer
alguma reclamação ao autor [da façanha], foi ao Juazeiro e
queixou-se ao Padre Cícero. O Padre, não obstante ter a certe-
za de que tal chefe era o autor da perversidade, disse ao quei-
xoso não ter sido o dono da terra, mas sim algum perverso.
Fê-lo esperar e foi escrever uma carta ao chefe... O Padre
depois que o homem se retirou, disse: Foi o próprio chefe
quem mandou fazer isso [... ] Conclusão, o coronel, quando
recebeu a carta, simulando ignorar o fato, imediatamente man-
dou retirar o gado [... ] O pobre lavrador [... ] voltou ao Jua-
zeiro e disse [ao Padre]: "Bem meu padrinho disse que não foi
o coronel; pois ele mandou logo retirar o gado e garantiu que
castigava o perverso"

8
.

E aqui vale destacar o fato de haver-se tornado consciente
para muitos romeiros que não podiam, em Juazeiro, esperar
"um novo Canudos". Antigo combatente de Canudos que de-
mandara Juazeiro, Honório Vilanova, "afirma que não havia
nenhuma relação entre a doutrina do Conselheiro e os ensina-
mentos do Padre Cícero. Frisava, por outro lado, que, na práti-
ca, havia uma grande diferença entre ambos, pois, enquanto o
patriarca de Juazeiro acumulava riquezas, as esmolas recebi-
das, o Conselheiro distribuía à pobreza tudo o que recebia.
Nas lutas que travavam, um contra as forças do Governo e o
outro contra a Igreja, encarnada na pessoa do Diocesano, An-
tônio Conselheiro reagia a mão armada, enquanto o Padre Cí-
cero pregava a obediência e a humildade"

9
.

Esta diferença é essencial para a compreensão dos dois
fenômenos.

O mesmo autor, citando Pedro Vergara, reforça com um
novo testemunho o caráter oposto dos dois acontecimentos.

8
 Ob. cit. Nota na pág. 78

9
 A. Montenegro, História de Fanatismo, pág. 52

176

"Aquele sacerdote [refere-se ao Padre Cícero], que mor-
reu com odor de santidade, desempenhou talvez papel decisivo
naquela região [o Cariri], não só por atenuar os horrores do
cangaço, como, sobretudo, por disciplinar, na medida do pos-
sível, os excessos da fé".

Aí temos o Padre Cícero enaltecido como elemento mo-
derador de "excessos" dos miseráveis que se arregimentavam
em torno dele, acreditando-o seu salvador.

Era assim perfeitamente natural a dispersão dos elemen-
tos mais aguerridos de Juazeiro por todo o Nordeste, depois de
se terem desiludido de melhor sorte na meca sertaneja. De-
zenas de bandos atuavam no cangaço, alguns ligados entre si,
outros adversários que se exterminavam mutuamente. O apo-
geu do cangaceirismo verifica-se aproximadamente do ano de
1914 (depois de terminada a luta principal dos coronéis do Ca-
riri por uma maior influência do Governo do Estado) até 1922
(quando os governos dos Estados do Nordeste concertam pla-
nos comuns de extermínio dos grupos volantes de bando-
leiros). É nessa época que aparecem diversos grupos, atuando
no Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Ala-
goas. Entre eles destaca-se o de Sebastião Pereira, no qual en-
traria em 1917 Virgulino Ferreira, o mais tarde famoso Lam-
pião. Este, com seu bando independente, torna-se o mais cé-
lebre cangaceiro de todo o Nordeste, que devassa de um extre-
mo a outro, durante vinte anos, despertando admiração e hor-
ror.

177

7

Modifica-se o Cariri

Até o ano de 1915, à semelhança
do que ocorria em todo o Cariri, eram po-
bres, no Crato, regra geral, os donos de
engenhos, presos aos cofres dos capita-
listas locais. [...] Da seca de 15 para
cá, melhoraram financeiramente os nossos
lavradores de cana-de-açúcar. .. Dentro
de meio século, mudou, radicalmente, a
situação financeira dos nossos donos
de sítios, que de pobres e endividados pas-
saram a ser ricos e prósperos.

IRINEU PINHEIRO
1

ENTRE OS FINS DO SÉCULO XIX E a segunda década do
século XX, o Cariri sofreu transformações de relativa impor-
tância. Embora escassos, os capitais penetravam na economia
agrícola, alterando-lhe a fisionomia, acentuando-lhe o caráter
mercantil. Era de significação