FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
228 pág.

FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


DisciplinaHistória e Historiografia575 materiais4.471 seguidores
Pré-visualização50 páginas
anos 
antes, em grande parte devido à ruína dos proprietários, Ro-
dolfo Teófilo, testemunha presencial do acontecimento, regis-
tra indignado: "O mercado de gado humano esteve aberto en-
quanto durou a fome, pois compradores nunca faltaram. Raro 
era o vapor que não conduzia grande número de cearenses"
2
. 
Os homens livres tinham virado escravos. 
Fazendo um cálculo global dos emigrados cearenses nos 
anos de estiagens (sem contar os de outros Estados nordesti-
nos, embora o maior volume, inclusive de flagelados daqueles 
Estados, saísse do Ceará) R. Teófilo calcula que mais de 300 
mil foram povoar a Amazônia até o ano de 1900. Tudo indica 
que esta cifra foi bem maior, aproximando-se talvez do meio 
milhão, senão mais. Um contemporâneo autorizado, Tomás 
Pompeu de Sousa Brasil, cita dados não só dos anos de seca 
mas também daqueles de invernos normais, em que a emigra-
 
1
 Ceará, homens e fatos, págs. 163-166. 
2
 Rodolfo Teófilo, História da seca do Ceará (1887/1880), Rio, 
1922, pág. 148. 
28 
ção de nordestinos para a Amazônia prosseguia intensa. Em 
1899, por exemplo, no primeiro semestre, isto é, na época 
mesmo das chuvas e quando elas caíam abundantes, mais de 
17 000 cearenses embarcaram para o Extremo Norte. O mes-
mo autor refere-se a saídas de emigrantes não somente pelo 
porto de Fortaleza e por conta da União, mas também pelo 
porto de Camocim e por conta própria ou dos contratantes de 
trabalhadores que eram mandados ao Nordeste pelos donos de 
seringais. Saíam também, em número avultado, pela fronteira 
do Piauí
3
. 
Mas essa transferência maciça de mão-de-obra \u2014 numa 
população extremamente rala, que orçava por 1 milhão de ha-
bitantes, não cessa no fim do século. O chamado "ciclo da bor-
racha" duraria ainda mais de uma década em plena florescên-
cia, contribuindo com cerca de 30% do valor da exportação 
nacional ao atingir o seu apogeu. 
A Amazônia continuava a atrair como miragem os pobres 
sertanejos nordestinos, que iam morrer de febre em suas flo-
restas exuberantes, nos seringais que alimentavam nababos a 
estadear riquezas em Manaus, Belém, nas capitais da Europa... 
Em 1900, abandonam o Ceará 40 000 vítimas da seca. Ainda 
em 1915, de cerca de 40 mil emigrantes que saem pelo porto 
de Fortaleza, enquanto 8 500 tomam o destino do Sul, 30 mil 
se dirigem pelo caminho habitual, o do Norte... 
Essa emigração em massa representa na prática uma rup-
tura com o latifúndio, um sério desfalque para ele. Para sobre-
viver como latifúndio semifeudal, ele deveria dispor de mão-
de-obra semi-servil. E esta lhe fugia agora. A sua salvação é 
que as malhas do sistema latifundiário semi-servil se estendi-
am a todo o País,, com alguns claros apenas na pequena pro-
priedade da extremidade meridional, no Rio Grande do Sul, e 
que não pesava no conjunto. 
O latifúndio fora violado irremediavelmente. Se jamais 
houvera feudo clássico, inteiramente fechado, nos limites do 
Brasil, uma vez que o nosso latifúndio possuía apenas certas 
características, não todas, do feudo clássico europeu, a emi-
 
3
 T. Pompeu de Sousa Brasil, O Ceará no centenário da Independência, 
Fortaleza, 1922, vol. I, págs. 239-255. 
29 
gração derrubara-lhe a cerca, deixara-o devassado ao mundo 
exterior, mais exposto em sua vulnerabilidade, passível de ser 
destruído pela desagregação interna, com a adoção de novas 
relações de produção, quando não através de lutas dos que lhe 
sofriam o domínio. As lutas poderiam advir precisamente da-
quela ruptura. 
Das grandes migrações provocadas pelas secas periódicas 
do Nordeste, nos fins do século XIX (depois de determinado 
estágio do desenvolvimento demográfico da região, ao influxo 
dos surtos econômicos efêmeros ocorridos em outras regiões, 
num nível já extremo da ruína do latifúndio semifeudal) ad-
vêm resultados diversos, uns favoráveis, outros contrários à 
conservação do latifúndio. Alguns desses resultados: 
a) a saída das levas de emigrantes para fora do meio 
rural nordestino subtrai ao latifúndio pré-capitalista, aí, um 
precioso excedente de mão-de-obra que lhe assegura a quase 
gratuidade da mesma e a possibilidade de impor-lhe condições 
de trabalho semi-servis; 
b) ao mesmo tempo, alivia a pressão que uma numerosa 
população inteiramente desprovida de recursos vitais poderia 
vir a exercer sobre o latifúndio para impor-lhe modificações e 
até mesmo a sua destruição como tal; 
c) a emigração em massa de trabalhadores rurais do 
Nordeste, para os emigrantes, tinha o valor de uma tomada de 
consciência de sua situação anterior. Viam que podiam livrar-
se do punho de ferro do latifundiário, do ignominioso regime 
servil que lhes era imposto. 
Porque essa emigração possuía um caráter geral progres-
sista. O progresso que era possível em semelhante sociedade, 
dirigida e dominada por um punhado de escravistas. Pois tinha 
seus aspectos monstruosos. Os nordestinos emigravam semi-
nus, descalços, famintos. Famílias inteiras se desgarravam, se-
paravam-se impiedosamente pais e filhos, marido e mulher. 
Alojavam-nos no porão ou no convés de navios costeiros, em 
piores condições do que animais. Muitos sucumbiam durante a 
viagem penosa. 
Os trabalhadores agrícolas saíam de um meio onde domi-
navam relações pré-capitalistas de produção e iam localizar-se 
em outro meio de condições idênticas no fundamental. Nos se-
30 
ringais da Amazônia imperava o trabalho semi-escravo, a re-
muneração parcialmente em espécie, a prisão por dívidas aos 
seringalistas, havendo um conluio entre estes para não admitir 
seringueiros endividados com seu anterior patrão. Além disso, 
como fenômeno de massa \u2014 havendo naturalmente as ex-
ceções \u2014 não se destinavam a atividades não-agrícolas, que 
pudessem arrancá-los da vida estagnada, econômica e social-
mente, que levavam, obscura e sem horizontes, no campo nor-
destino. 
Mas o simples fato de emigrarem retirava-os da imobili-
dade multissecular em que tinham vivido, através de gerações, 
representava o primeiro passo na busca de condições de vida 
diferentes daquelas que conheciam, jungidos ao latifúndio. 
Uma considerável vantagem levavam porém os que saíam so-
bre os que ficavam: entravam em contato com uma economia 
mercantil muito mais desenvolvida do que no Nordeste. 
A participação da borracha na exportação brasileira cres-
cera de 10%, em 1890, para atingir cerca de 40%, em 1910. 
Uma enorme quantidade de dinheiro se canaliza para o Ex-
tremo Norte, para a Amazônia, e fomenta seu comércio ur-
bano. O nordestino que ali chegava desconhecia praticamente 
a economia mercantil. O Ceará, de onde vinha a quase totali-
dade dos trabalhadores da borracha \u2014 agregados, meeiros, 
parceiros em geral \u2014 era terra da mais extrema pobreza. Suas 
populações sertanejas viviam mergulhadas numa economia 
seminatural, conseguindo os meios de subsistência em peque-
nos plantios nas terras alheias, roças de mandioca, milho, fei-
jão, melancias, a criação de resistentes caprinos para as épocas 
da seca. E quando chegava a estiagem anormal, de um ano a 
três, perdiam tudo, alimentavam-se de raízes, tubérculos, al-
guns frutos silvestres de árvores xerófilas. Em algumas zonas 
nem isso havia. É sabido que uma multidão de romeiros con-
seguia viver, sem trabalhar, em Juazeiro, nos tempos do Padre 
Cícero, alimentando-se basicamente do fruto do pequi, árvore 
nativa nas florestas da chapada do Araripe. 
Na Amazônia a sua situação modificava-se. O grosso de 
seus ganhos o patrão lhes dava em espécie: o charque, a fari-
nha de mandioca, a rapadura, a cachaça. Mas, resgatada a dí-
vida, uma parte daqueles escravos do seringal ia diretamente 
31 
ao mercado da cidade mais próxima