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Resumo do Livro Direitos Humanos e o Direito Constitucional 
Internacional de Flávia Piovesan 
 
 
Índice 
 
PRIMEIRA PARTE – A Constituição Brasileira de 1988 e os 
Tratados Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos 
 
Capítulo I – Introdução 
Capítulo II – Delimitando e Situando o Objeto de Estudo 
Capítulo III – A Constituição Brasileira de 1988 e o Processo de 
Democratização no Brasil – A institucionalização dos direitos e 
garantias fundamentais 
Capítulo IV – A Constituição Brasileira de 1988 e os Tratados 
Internacionais de Proteção aos Direitos Humanos 
 
SEGUNDA PARTE – O Sistema Internacional de Proteção aos 
Direitos Humanos 
 
Capítulo V – Precedentes Históricos do Processo de 
Internacionalização e Universalização dos Direitos Humanos 
Capítulo VI – Estrutura Normativa do Sistema Global de 
Proteção Internacional dos Direitos Humanos 
Capítulo VII – Estrutura Normativa do Sistema Regional de 
Proteção dos Direitos Humanos – O Sistema Interamericano 
 
TERCEIRA PARTE – O Sistema Internacional de Proteção dos 
Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil 
 
Capítulo VIII – O Estado Brasileiro e o Sistema Internacional 
de Proteção dos Direitos Humanos 
Capítulo IX – A Advocacia do Direito Internacional dos 
Direitos Humanos: Casos contra o Estado Brasileiro perante a 
Comissão Interamericana de direitos Humanos 
Capítulo X – Encerramento: O Direito Internacional dos 
Direitos Humanos e a Redefinição da Cidadania no Brasil 
 
 
 
PRIMEIRA PARTE 
 
A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 E OS 
TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO DOS 
DIREITOS HUMANOS 
 
 
CAPÍTULO I - INTRODUÇÃO 
 
A proposta do estudo do livro é 
analisar o modo pelo qual o direito brasileiro incorpora os 
instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, bem 
como em que sentido esses instrumentos podem contribuir para o 
reforço do sistema de implementação de direitos no Brasil, ou seja, 
verificar o modo pelo qual as normas de direito internacional 
podem, em dinâmica com a Constituição Federal, contribuir para a 
efetivação dos direitos internacionais no Brasil. 
 
Assim, o primeiro passo do 
trabalho é investigar a relação entre a Constituição Federal e os 
tratados internacionais de proteção dos direitos humanos, 
vislumbrando sempre que a Constituição é um marco jurídico de 
transição democrática e da institucionalização dos direitos humanos 
no Brasil. Para se chegar ao objetivo do trabalho, é importante se 
analisar se a Constituição, ao estabelecer novos princípios a reger as 
relações internacionais do Brasil e ao conferir tratamento especial 
aos Direitos Humanos, contribuiu para uma nova inserção do Brasil 
na sistemática internacional de proteção e quais as conseqüências e 
seus impactos. 
 
Neste diapasão, o livro busca analisar o modo pelo qual a 
Constituição incorpora os tratados internacionais de proteção aos 
direitos humanos, atribuindo-lhes um status hierárquico 
diferenciado, bem como analisando o modo como os tratados 
internacionais de direitos humanos são capazes de fortalecer o 
constitucionalismo de direito no país. Os tratado, apesar de serem 
direcionados aos Estados pactuantes, acabam por beneficiar os 
próprios indivíduos. Deste modo, a comunidade internacional tenta 
obrigar os Estados a melhorar as condições de vida dos indivíduos e 
a garantir a eles direitos fundamentais. 
 
A análise sobre a incorporação dos tratados internacionais de 
direitos humanos, lançando mão do exame de suas peculiaridades, 
limites e possibilidades, adotará como ponto de partida a reflexão 
sobre os antecedentes históricos do movimento de 
internacionalização dos direitos humanos. O estudo permitirá 
perceber que as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra 
Mundial foram as grandes impulsionadoras da universalização dos 
discursos sobre direitos humanos. 
 
A comunidade internacional passou a perceber que a proteção aos 
direitos humanos constitui questão de legítimo interesse e 
preocupação internacional, sendo motivo de transcender e 
extrapolar o domínio reservado ao Estado ou a sua competência 
nacional exclusiva. Sobre o tema, há a explanação de Richard B. 
Bilder, que assim expõe: 
 
“O movimento do Direito Humano é baseado na concepção de que 
toda nação tem a obrigação de respeitar os direitos humanos de seus 
cidadãos e de que todas as nações e a comunidade internacional têm 
o direito e responsabilidade de protestar, se um Estado não cumprir 
suas obrigações. O Direito Internacional dos Direitos Humanos 
consiste em um sistema de normas, procedimentos e instituições 
internacionais desenvolvidos para implementar esta concepção e 
promover o respeito dos direitos humanos em todos os países, no 
âmbito mundial. (...) Embora a idéia de que os seres humanos 
tenham direitos e liberdades fundamentais, que lhe são inerentes, há 
muito tempo tenha surgido no pensamento humano, a concepção de 
que os direito humanos constituem objeto próprio de uma regulação 
internacional, por sua vez, é bastante recente. (...)” 
 
A análise das normas internacionais buscará compreender a forma 
pela qual o sistema normativo de proteção internacional dos direitos 
humanos atribui aos indivíduos status de sujeito internacional, 
conferindo-lhes diretamente direitos e obrigações no plano 
internacional, com capacidade de possuir e exercer direitos e 
obrigações de cunho internacional. As atrocidades perpetradas 
contra os cidadãos na Segunda Guerra significaram uma verdadeira 
ameaça à paz e à estabilidade internacional, gerando uma revolução 
no direito internacional. Um novo Código Internacional foi 
desenvolvido, enumerando e definindo direitos e garantias 
fundamentais para todos os seres humanos, sendo certo que esses 
direitos não mais puderam ser concebidos como generosidades dos 
Estados soberanos, passando a serem inerentes aos indivíduos. 
 
O reconhecimento de que os indivíduos têm os direitos humanos 
como direitos inerentes à sua existência, implica a mudança na 
noção de soberania nacional. O Estado que se mostra omissa ou 
falha na tarefa de proteger os direitos humanos internacionalmente 
assegurados deve ser responsabilizado na arena internacional, 
havendo um monitoramento por parte da comunidade internacional. 
O sistema de proteção internacional, ao constituir uma garantia 
adicional de proteção, invoca dupla dimensão, quais sejam: a) 
parâmetro protetivo mínimo a ser observado pelos Estados, 
proporcionando avanços e evitando retrocessos no sistema nacional 
de direitos humanos, e b) instância de proteção dos direitos 
humanos, quando as instituições nacionais se mostram falhas ou 
omissas no dever de proteção desses direitos. 
 
Desse modo, a violação dos direitos humanos assegurados por meio 
de tratado internacional, anteriormente ratificado pelo Estado, é 
matéria de legítimo interesse internacional, acarretando a submissão 
à autoridade das instituições internacionais, o que vem a flexibilizar 
a noção de soberania nacional. Não basta para os princípios 
regedores dos direitos humanos apenas que o Estado cesse com as 
violações, mas também que este seja responsabilizado, se garantido 
os remédios adequados para se assegurar a justiça. 
 
Na parte final deste trabalho, passasse a analisar a posição do Brasil 
perante os tratados internacionais de direito humano, completando-
se o estudo com a observação sobre a advocacia do Direito 
Internacional dos Direitos Humanos no âmbito brasileiro, com 
enfoque sobre as lides que tramitam perante a Comissão 
Internacional de Direito Humanos, analisando-se qual a advocacia 
exercida, quais os atoressociais envolvidos e quais os direitos 
humanos violados. 
 
 
CAPÍTULO II – DELIMITANDO E SITUANDO O OBJETO 
DE ESTUDO 
 
a) Delimitando o Objeto de Estudo: A Constituição brasileira e 
o Direito Internacional dos Direitos Humanos. 
 
O livro tem como objeto analisar a forma que a Constituição se 
relaciona com as normas de direito internacional de direitos 
humanos, a forma pela qual incorpora os tratados internacionais de 
direitos humanos e o status jurídicos que ela lhes atribui, sendo 
certo que o trabalho se interessa, ainda, pelo modo pelo qual as 
normas internacionais de direitos humanos contribuem para a 
implementação de direitos no âmbito brasileiro, reforçando, neste 
sentido, o constitucionalismo de direitos inaugurados pela 
Constituição de 1988. 
 
Adota-se no trabalho o entendimento contemporâneo de que os 
direitos humanos são concebidos como uma unidade indivisível, 
interdependente e inter-relacionada, na qual os valores de igualdade 
e liberdade se conjugam e se completam. Tendo a Constituição 
Federal como marco jurídico inicial da democratização, ao 
institucionalizar os direitos humanos no país, o estudo busca 
responder a 3 questões: 
 
1. Qual o impacto do processo de democratização do Brasil, 
iniciado em 1985, sobre a posição do país perante a ordem 
internacional? O processo de democratização implicou a reinserção 
do Estado brasileiro na arena internacional de proteção dos direitos 
humanos, estimulando a ratificação de instrumentos internacionais 
para esse fim? 
 
2. Como a Constituição brasileira de 1988 ser relaciona com 
o direito internacional de direitos humanos? De que modo incorpora 
os instrumentos internacionais de proteção de direitos humanos, 
como os tratados adotados pelas Nações Unidas e pela Organização 
dos Estados Americanos? 
 
3. Qual o impacto jurídico e político do sistema 
internacional de proteção dos direitos humanos no âmbito da 
sistemática constitucional brasileira de proteção de direitos? Como 
esse instrumento internacional pode fortalecer o regime de proteção 
de direito nacionalmente previstos e o próprio mecanismo de 
accountability, quando tais direitos são violados? 
 
A partir dessas questões centrais, este trabalho pretende enfocar a 
relação entre dois termos: a Constituição brasileira de 1988 e o 
Direito Internacional dos Direitos Humanos. 
 
b) Situando o objeto de estudo: os delineamentos do direito 
constitucional internacional 
 
O tema que se desenvolve neste item visa a inserir o estudo do livro 
em um ramo do direito, ponderando se o ramo é do direito 
internacional público ou no campo do direito constitucional. Ao 
tentar responder a questão mencionada, pondera, primeiramente, 
que, enquanto o Direito Internacional Público visa disciplinar 
relações de reciprocidade e equilíbrio entre Estados, por meio de 
negociações e concessões recíprocas que visam ao interesse dos 
próprios Estados pactuantes, o Direito Internacional dos Direitos 
Humanos objetiva garantir o exercício dos direitos da pessoa 
humana, o que, por si só já afasta o estudo do plano do direito 
internacional de direito público. 
 
Por sua vez o Direito Internacional de Direitos Humanos, ao 
concentrar o seu objeto nos direitos da pessoa humana, revela um 
conteúdo materialmente constitucional, apesar de possuir uma fonte 
de natureza internacional. Deste modo, o enfoque do trabalho, na 
verdade, é interdisciplinar. É uma interação entre o direito 
constitucional e o Direito Internacional dos Direitos Humanos, 
apontando para um resultado: Direito Constitucional Internacional. 
Isto é, o trabalho se atém a uma dialética da relação entre 
Constituição e Direito Internacional dos Direitos Humanos, no qual 
cada um dos termos da relação interfere no outro, com ele 
interagindo. 
 
C) Justificativa para a opção metodológica 
 
Primeiramente, no estudo que resultou no livro, houve uma 
avaliação dos avanços introduzidos pela Carta Magna de 1988 em 
relação aos direitos e garantias fundamentais, examinado como ela 
interage com os instrumentos internacionais de proteção dos 
direitos humanos, bem como o impacto desses instrumentos no 
direito brasileiro, suscitando uma abordagem aprofundada a 
respeito do sistema internacional dos direitos humanos. 
 
 
CAPÍTULO III – A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 
E O PROCESSO DE DEMOCRATIZAÇÃO NO BRASIL – A 
INSTITUCIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS E GARANTIAS 
FUNDAMENTAIS. 
 
O objetivo do presente capítulo é avaliar o modo pelo qual a atual 
Constituição disciplina os direitos e garantias fundamentais, norma 
que rompeu com o regime autoritário militar, assegurando direitos 
fundamentais. Para tanto, faz-se necessário a compreensão do 
processo de democratização no Brasil. 
 
a) O processo de democratização no Brasil e a Constituição 
brasileira de 1988. 
 
Após vinte e um anos de regime militar ditatorial deflagrou-se o 
processo de democratização no Brasil, sendo certo que, segundo a 
classificação de Guillermo O’Donell, no processo de 
democratização há duas transições: uma primeira do regime 
autoritário anterior para a instalação de um Governo Democrático, 
sendo a segunda deste Governo Democrático para a efetiva vigência 
de um regime democrático. Neste sentido, sustenta-se que, embora 
a primeira etapa do processo de democratização já tenha sido 
alcançada, a segunda fase ainda está se concretizando. 
 
Com o processo de abertura iniciado pelos próprios militares em 
razão desses não mais conseguirem solucionar problemas internos, 
a sociedade civil começou a se organizar com mobilizações e 
articulações que permitiram a formação de um controle civil sobre 
as forças militares, exigindo-se, ainda, a elaboração de um código 
que refizesse o paco político-social. Tal processo culminou com a 
promulgação da Constituição de 1988. 
 
A Constituição de 1988 além de instituir um regime político 
democrático no Brasil, introduziu um avanço na consolidação 
legislativa das garantias e direitos fundamentais e nos setores 
vulneráveis da sociedade brasileira, sendo certo que, a partir dela, 
os direitos humanos ganham um grande relevo. A Carta de 1988 é o 
documento mais abrangente e pormenorizado sobre direitos 
humanos já adotado no Brasil. 
 
A consolidação das liberdades fundamentais e das instituições 
democráticas no país muda a política brasileira de direitos 
humanos, possibilitando um progresso significativo no 
reconhecimento dos direitos internacionais neste âmbito. O 
equacionamento dos direitos humanos na ordem jurídica interna 
serviu como medida de reforço para que questões dos direitos 
humanos se impusessem como tema fundamental na agenda 
internacional do país. Por sua vez, as repercussões decorrentes 
dessa nova agenda internacional provocaram mudanças no plano 
interno e no próprio ordenamento jurídico brasileiro. Essas 
transformações geraram um novo constitucionalismo, uma abertura 
à internacionalização da proteção dos direitos humanos. 
 
b) A Constituição brasileira de 1988 e a institucionalização dos 
direitos e garantias fundamentais. 
 
Primeiramente, importante salientar que a Constituição de 1988 
alargou significativamente o campo dos direitos fundamentais, 
colocando-se entre as constituições mais avançadas do mundo em 
relação à matéria. Se, no entender de Joaquim Gomes Canotilho, a 
juridicidade, a constitucionalidade e os direitos fundamentais são as 
três dimensões fundamentais do Estado de Direito, percebe-se que a 
Carta Magna de 1988 consagra amplamente este entendimento. 
 
Em nossa Constituição, dentre os fundamentos que alicerçam o 
EstadoDemocrático de Direito destacam-se a cidadania e a 
dignidade da pessoa humana, fazendo-se claro que os direitos 
fundamentais são elementos básicos para a realização do princípio 
democrático, além do que, pela primeira vez uma constituição 
nacional assinala especificamente objetivos ao Estado brasileiro, 
sendo certo que uns valem como base das prestações positivas que 
venham a concretizar a democracia econômica, social e cultural, a 
fim de efetivar na prática a dignidade da pessoa humana. 
 
Infere-se desses dispositivos a preocupação da Constituição em 
assegurar os valores da dignidade e do bem-estar da pessoa humana 
como imperativo da justiça social. Sendo assim, o valor da 
dignidade da pessoa humana se impõe como núcleo básico e 
informador de todo o ordenamento jurídico, como critério de 
valoração e interpretação e compreensão do sistema constitucional. 
O valor da dignidade da pessoa humana informa a ordem 
constitucional de 1988, imprimindo-lhe um feição particular. 
 
Observando-se o prisma histórico, a primazia do valor da dignidade 
humana é uma resposta à profunda crise sofrida pelo positivismo 
jurídico, associada à derrota do fascismo, na Itália, e do nazismo, na 
Alemanha, movimentos que promoveram a barbárie em nome da 
lei. Neste contexto, ao final da Segunda Guerra Mundial, emerge a 
grande crítica e o repúdio à concepção positivista de um 
ordenamento jurídico indiferente a valores éticos, confirmando à 
ótica meramente formal. 
 
É sob o prisma da reconstrução dos direitos humanos que é possível 
compreender, no Pós-Guerra, de um lado, a emergência do 
chamado “Direito Internacional dos Direitos Humanos”, e, de outro, 
a nova feição do direito constitucional ocidental, em resposta ao 
impacto das atrocidades então cometidas. No âmbito do direito 
constitucional ocidental, são adotados textos constitucionais abertos 
a princípios, dotados de elevada carga axiológica, com destaque 
para o valor da dignidade da pessoa humana. No caso brasileiro, e 
de toda América Latina, a abertura das constituições a princípios e a 
incorporação do valor da dignidade humana demarcarão o início do 
processo de democratização política. 
 
Há uma aproximação da ética com o direito, e, neste esforço, surge 
a força normativa dos princípios, especialmente do princípio da 
dignidade da pessoa humana. Há um reencontro dos pensamentos 
de Kant com a idéia de moralidade, dignidade, direito cosmopolita 
e paz perpétua. Para Kant as pessoas são um fim em si mesmas, não 
podendo ser usadas como meios, devendo tratar-se a humanidade 
na pessoa de cada ser, sendo certo, para Kant, que a autonomia é a 
base da dignidade humana e de qualquer criatura racional. 
 
Ao definir o que seja uma pessoa autônoma, Kant afirma que “uma 
pessoa é autônoma somente se tem uma variedade de escolhas 
aceitáveis disponíveis para serem feitas e sua vida se torna 
resultado das escolhas derivadas destas opções. Uma pessoa que 
nunca teve uma escolha efetiva, ou, tampouco, teve consciência 
dela, ou, ainda, nunca exerceu o direito de escolha de forma 
verdadeira, mas simplesmente se moveu perante a vida, não é uma 
pessoa autônoma”. 
 
O pensamento de Kant teve uma alta ingerência no plano 
internacional, concretizando a emergência do Direito Internacional 
dos Direitos Humanos, fundamentado no valor da dignidade 
humana como valor intrínseco à condição humana. Já no plano do 
constitucionalismo local, a vertente “kantiana” concretizou a 
abertura das constituições à força normativa dos princípios, com 
ênfase para o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. Sendo 
assim, há uma verdadeira interação do Direito Internacional dos 
Direitos Humanos com os direitos locais. 
 
Para Canotilho, enquanto o direito do Estado de Direito do século 
XIX e da primeira metade do século XX é o direito das regras do 
código, o direito do Estado Constitucional e de Direito leva a sério 
os princípios, é um direito de princípios. Consagra-se, assim, a 
dignidade da pessoa humana como verdadeiro superprincípio, a 
orientar tanto o direito internacional como o direito interno. O 
Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, seja no âmbito 
internacional ou interno, unifica e centraliza todo o sistema 
normativo, assumindo especial propriedade. 
 
O sistema jurídico define-se, pois, como uma ordem axiológica ou 
teleológica de princípios jurídicos que apresentam verdadeira 
função ordenadora, na medida em que salvaguardam valores 
fundamentais. A interpretação das normas constitucionais advém, 
desse modo, de critério valorativo extraído do próprio sistema 
constitucional. Os princípios morais, são hoje, integrantes do 
sistema normativo. Sendo assim, o valor da dignidade da pessoa 
humana e dos direitos e garantias fundamentais vêm a constituir 
princípios constitucionais que incorporam as exigências de justiça e 
dos valores éticos, conferindo suporte axiológico a todo o sistema 
jurídico. 
 
A Constituição resguardar a dignidade da pessoa humana ao 
privilegiar os direitos fundamentais. Desse modo o Texto de 1988 
apresenta em seus primeiros capítulos avançada Carta de direitos e 
garantias elevadas a cláusulas pétreas, além de alargar a dimensão 
do que se entende por direitos e garantias fundamentas, incluindo, 
além dos direitos civis e políticos, os direitos sociais. Esta foi a 
primeira constituição brasileira a prevê os direitos sociais na 
declaração dos direitos. 
Nesta ótica, a Carta de 1988 conjuga o direito da liberdade ao da 
igualdade, não havendo como divorciá-los, além de garantir os 
direitos difusos e coletivos – aqueles pertinentes a determinada 
classe ou categoria social e estes pertinentes a todos e a cada um. A 
Constituição de 1988 estende a titularidade de direitos e, ao mesmo 
tempo, consolida o aumento da quantidade de bens merecedores de 
tutela, por meio da ampliação de direitos sociais, econômicos e 
culturais. 
 
Os direitos e garantias fundamentais são, assim, dotados de especial 
força expansiva, projetando-se por todo o universo constitucional e 
servindo como critério interpretativo de todas as normas do 
ordenamento jurídico. A Carta Magna de 1988 reforça, ainda, a 
imperatividade dos direitos e garantias fundamentais ao instituir o 
princípio da aplicabilidade imediata de tais normas, nos termos do 
art. 5º, §1º da CF/88, o que realça a força normativa de todos os 
preceitos constitucionais referentes a direitos, liberdades e 
garantias fundamentais. 
 
Ao tratar do tema J.J. Canotilho afirma que “os direitos, liberdades, 
garantias, são regras e princípios jurídicos imediatamente eficazes e 
actuais, por via direta da Constituição e não através de actoritas 
interpositivo do legislador. Não são simples norma normarum, mas 
norma normata, isto é, não são meras normas para a produção de 
outras normas, mas sim normas diretamente reguladoras de relação 
jurídico-materiais. (...) Aplicação direta não significa apenas que os 
direitos, liberdades e garantias se aplicam independentemente da 
intervenção legislativa. Significa também que eles valem 
directamente contra a lei, quando esta estabelece restrições em 
desconformidade com a Constituição” 
 
É neste contexto que se deve fazer a leitura dos dispositivos 
constitucionais pertinentes à proteção internacional dos direitos 
humanos, e neste tema a Constituição também registra inéditos 
avanços. 
 
c) Os princípios constitucionais a reger o Brasil nas relações 
internacionais. 
 
A Constituição de 1988 é a primeira a constituição nacional a trazer 
a prevalência dos direitos humanos como princípio a reger o Brasil 
na ordem internacional. Na realidade, foia primeira constituição a 
fixar valores a orientar a agenda internacional do Brasil. O art. 4º da 
CF/88 traz vários princípios que devem reger o Brasil nas relações 
internacionais, dentre eles encontra-se a prevalência dos direitos 
humanos (inc.II). 
 
De fato, a Constituição de 1988 introduz inovações extremamente 
significativas no plano das relações internacionais. Se, por um lado, 
esta Constituição reproduz tanto a antiga preocupação vivida no 
Império, que se refere à independência nacional e à não-
intervenção, como reproduz ainda os ideais republicanos voltados à 
defesa da paz, a Carta de 1988 inova ao realçar uma orientação 
nacionalista jamais vista na história constitucional brasileira. A 
orientação internacionalista se traduz nos princípios da prevalência 
dos direitos humanos, da autodeterminação dos povos, do repúdio 
ao terrorismo e ao racismo e da cooperação para o progresso da 
humanidade, nos termos do art. 4º, inc. II, III, VIII e IX. 
 
Ao romper com a sistemática das Cartas anteriores, a Constituição 
de 1988, ineditamente, consagra o primado do respeito aos direitos 
humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. 
Esse princípio invoca a abertura da ordem jurídica interna ao 
sistema internacional de proteção aos direitos humanos. A 
prevalência dos direitos humanos, como princípio a reger o Brasil 
no âmbito internacional, não implica apenas o engajamento do País 
no processo de elaboração de normas vinculadas ao Direito 
Internacional dos Direitos Humanos, mas sim a busca pela plena 
integração de tais regras na ordem jurídica brasileira. Implica, 
ademais, o compromisso de adotar uma posição política contrária 
aos Estados em que os direitos humanos sejam gravemente 
desrespeitados. 
 
Uma outra conseqüência da adoção da prevalência dos direitos 
humanos como fundamento das relações internacionais é uma 
mudança na concepção tradicional de soberania absoluta, haja vista 
que a soberania brasileira fica submetida a regras jurídicas, tendo 
como parâmetro obrigatório a prevalência dos direitos humanos. Há 
uma relativização e uma flexibilização em prol da proteção dos 
direitos humanos. 
Se para o Estado brasileiro a prevalência dos direitos humanos é 
princípio a reger o Brasil no cenário internacional, está-se 
conseqüentemente admitindo a concepção de que os direitos 
humanos constituem tema de legítima preocupação e interesse da 
comunicada internacional. Os direitos humanos, nesta concepção, 
surgem para a Carta Magna de 1988 como tema global. Cabe ainda 
ressaltar que o princípio da prevalência dos direitos humanos 
contribuiu de forma definitiva para o sucesso da ratificação, pelo 
Estado brasileiro, de instrumentos internacionais de proteção dos 
direitos humanos, como foi, por exemplo, com a Convenção 
Americana de Direitos Humanos – o Pacto de San José. 
 
 
CAPÍTULO IV - A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA DE 1988 
E OS TRATADOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO AOS 
DIREITOS HUMANOS 
 
a) Breves Considerações sobre Tratados Internacionais 
 
Os tratados internacionais, enquanto acordos internacionais 
juridicamente obrigatórios e vinculante (pacta sunt servanda), 
constituem hoje a principal fonte de obrigação do direito 
internacional, papel anteriormente ocupado pelo costume 
internacional. Tal como no âmbito interno, em virtude do 
movimento pós positivista, cada vez mais os princípios gerais do 
direito passam a ganhar maior relevância no direito internacional 
contemporâneo. 
 
Os tratados internacionais não necessariamente consagram novas 
regras de direito internacional. Há casos em que eles são criados 
apenas para codificar as regras preexistentes, consolidando os 
costumes internacionais ou, ainda, modificando-os. Diante da 
crescente utilização dos tratados como norma imperativa nas 
relações internacionais surgiu a necessidade de se regular o 
processo de formação dos tratados internacionais, o que aconteceu 
na Convenção de Viena, concluída em 1969. 
 
Pode-se dizer que a Convenção de Viena é a Lei dos Tratados 
Internacionais, contudo ela limitou-se a normatizar os tratados 
internacionais celebrados entre Estados, não incluindo aqueles dos 
quais participam organizações internacionais. Para o estudo do 
trabalho do livro, importa tão-somente os tratados celebrados entre 
Estados. Sendo assim, importa salientar que os tratados 
internacionais só se aplicam aos Estados-partes, ou seja, àqueles 
Estados que expressamente consentiram em sua adoção, não 
podendo criar obrigações para os demais Estados. 
 
Enfatize-se que os tratados são, por sua excelência, expressão de 
consenso. Apenas pela via do consenso podem os tratados criar 
obrigações legais, uma vez que Estados soberanos, ao aceitá-los, 
compromete-se a respeitá-lo, é o que prevê o art. 52 da Convenção 
de Viena. A Convenção de Viena determina, ainda, que “Todo 
tratado em vigor é obrigatório em relação às partes e deve ser 
cumprido por elas de boa-fé” e que “Uma parte não pode invocar 
disposições de seu direito interno como justificativa para o não-
cumprimento do tratado” (art. 27 da Convenção de Viena). 
Importante ressalta que, para contribuir para a adesão do maior 
número de Estados, permite-se que o tratado seja formulado com 
reservas. Nos termos da Convenção de Viena, reservas constituem 
“uma declaração unilateral feita pelo Estado, quando da assinatura, 
ratificação, acessão, adesão ou aprovação de um tratado, com o 
propósito de excluir ou modificar o efeito jurídico de certas 
previsões do tratado, quando se sua aplicação naquele Estado”. 
Entretando, são inadmissíveis reservas que se mostrem 
incompatíveis com o objeto do tratado, nos termos do art. 19 da 
Convenção de Viena. 
 
b) O processo de formação dos tratado internacionais 
 
A sistemática de celebração dos tratados internacionais é deixada a 
critério de cada Estado, o que acarreta uma variação significativa 
em relação às exigências constitucionais para o processo de 
formação dos tratados. Em geral, o processo dar-se da seguinte 
forma: 
 
Primeiramente inicia-se com os atos de negociação, conclusão e 
assinatura, que são de competência do Poder Executivo. A 
assinatura do tratado significa um aceite precário e provisório, não 
implicando efeitos jurídicos vinculantes ao Estado. Via de regra, a 
assinatura do tratado indica apenas que o tratado é autentico e 
definitivo. O segundo passo é a apreciação e aprovação pelo Pode 
Legislativo. Após a apreciação pelos parlamentares vem a 
ratificação, sob a competência do Poder Executivo. A ratificação 
significa a confirmação formal por um Estado de que está obrigado 
ao tratado no plano internacional. É o aceito definitivo. 
 
A ratificação é um ato necessário para que o tratado passe a ter 
obrigatoriedade tanto no plano internacional quanto no plano 
interno. Como etapa formal, o instrumento de ratificação deve ser 
depositado em um órgão que assuma a custódia do instrumento. 
 
No Brasil, a Constituição de 1988 determina que é de competência 
exclusiva do Presidente da República celebrar tratados, convenções 
e acordos internacionais, competindo exclusivamente ao Congresso 
Nacional resolver definitivamente sobre os tratados, acordos e atos 
internacionais. Há uma colaboração entre os Poderes Executivo e 
Legislativo na conclusão dos tratados internacionais. Logo, os 
tratados internacionais demandam, para seu aperfeiçoamento um 
ato complexo no qual se integram a vontade do Presidente da 
República, que os celebra, e a do Congresso Nacional, que os 
aprova por meio de decreto legislativo. A colaboração entre os 
Poderes Executivo e Legislativo é uma tradiçãona história das 
constituições do Brasil. 
 
O método adotado pelo Brasil é uma forma de descentralizar o 
poder de celebrar tratados, prevenindo o abuso desse poder. Para os 
constituintes, o motivo principal da instituição de uma particular 
forma de cheks and balances talvez fosse o de proteger os direitos 
de alguns Estados, mas o resultado foi o de evitar a concentração do 
poder de celebrar tratados no Executivo, como era então a 
experiência européia. 
 
Importante observar que a Constituição só prevê a sistemática da 
formação dos tratados internacionais em duas normas, quais sejam, 
o art. 84, inc. VIII e o art. 49, inc. I). Sendo assim, em relação ao 
tema em apreço a Carta Magna ficou lacunosa, sem haver uma 
normatização, por exemplo, do prazo para que o Congresso 
Nacional aprecie o tratado já assinado pelo Poder Executivo, ou um 
prazo para que o Presidente da República encaminhe ao Congresso 
Nacional o tratado já assinado. Essa falta de normas acaba por 
contribuir para a afronta ao Princípio da boa-fé que norteia o direito 
internacional. 
 
c) Hierarquia dos tratados internacionais de direitos humanos 
Diferentemente do que ocorria no passado, a relação ente Direito 
Internacional e Direito Interno não é mais uma problemática apenas 
acadêmica, mas sim bastante pragmática, haja vista a crescente 
adoção de tratados cujo escopo não é mais a relação entre Estados, 
mas a relação entre Estados e seus próprios cidadãos. A eficácia 
desses tratados depende essencialmente da incorporação de suas 
previsões no ordenamento interno de cada país. 
 
A Carta de 1988, ao fim da Declaração de Direitos, consagra que os 
direitos e garantias nelas previstos não excluem outros decorrentes 
do regime de princípios por ela adotado, ou dos tratados 
internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte, 
conforme art. 5º, §2º da CF/88. A Constituição de 1967, previa 
apenas que os direitos e garantias expressos naquela constituição 
não outros direitos e garantias decorrentes do regime e dos 
princípios que ela adotava. Sendo assim, a Carta Magna de 1988 
inovou ao acrescentar entre os direitos constitucionalmente 
protegidos os direitos enunciados nos tratados internacionais. 
Pois bem, se a Constituição prescreve que os direitos e garantias 
expressos na Constituição não excluem outros direitos decorrentes 
dos tratados internacionais, a contrario sensu, a Carta de 1988 está 
a incluir, no catálogo de direitos constitucionalmente protegidos, os 
direitos enunciados nos tratados internacionais em que o Brasil seja 
parte. Esse processo de inclusão implica a incorporação pelo Texto 
Constitucional de tais direitos. Ela, ao efetuar a incorporação, 
atribui aos direitos internacionais uma natureza diferenciada, qual 
seja, uma natureza de norma constitucional. 
 
Fazendo-se uma interpretação axiológica e sistemática no Texto 
Constitucional, especialmente em face da força expansiva dos 
valores da dignidade da pessoa humana e dos direitos fundamentais, 
chega-se a conclusão de que os direitos enunciados nos tratados de 
direitos humanos de que o Brasil é parte integram, portanto, o 
elenco dos direitos constitucionalmente consagrados. Um outro 
argumento que reforça a idéia de que os direitos enunciados em 
tratados internacionais possuem hierarquia constitucional é o fato 
de que os direitos fundamentais possuem natureza materialmente 
constitucional. 
 
A Constituição assume expressamente no seu art. 5º, §2º o conteúdo 
constitucional dos direitos constantes dos tratados internacionais 
dos quais o Brasil é parte, ainda que não sejam enunciados sob a 
forma de normas constitucionais. Para J.J. Canotilho, “o programa 
normativo-constitucional não pode se reduzir, de forma positivista, 
ao ‘texto’ da Constituição. Há que densificar, em profundidade, as 
normas e princípios da constituição, alargando o ‘bloco de 
constitucionalidade’ a princípio não escritos, mais ainda 
reconduzíveis ao programa normativo-constitucional, como formas 
de densificação ou revelação de princípios ou regras constitucionais 
positivamente plasmadas”. Os direitos internacionais integrariam, 
assim, o chamado “bloco de constitucionalidade”, densificando a 
regra constitucional positivada no §2º do art. 5º da CF, 
caracterizada como cláusula constitucional aberta. 
 
José Afonso da Silva também defende o entendimento de que o art. 
5º, §2º da CF abre espaço para que hajam cláusulas abertas 
constitucionais ao lecionar o seguinte: “a circunstância de a 
Constituição mesma admitir outros direitos e garantias individuais 
não enumerados, quando, no parágrafo 2º do art. 5º, declara que os 
direitos e garantias previstos neste artigo não excluam outros 
decorrentes dos princípios e do regime adotado pela Constituição e 
dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil 
seja parte”. Para o constutucionalista há 3 classes de direitos 
individuais: a) os expressos, explicitamente individuados no art. 5º; 
b) os implícitos, subentendidos nas regras de garantias; c) os 
decorrentes do regime e de tratados internacionais subscritos pelo 
Brasil. 
 
Contudo, a classificação supramencionada peca pelo fato de 
equiparar os direitos decorrentes dos tratados internacionais aos 
decorrentes dos princípios e dos regimes adotados pela 
Constituição. Enquanto estes últimos não são nem implícita nem 
explicitamente enumerados, sendo de difícil caracterização a priori, 
os direitos constantes dos tratados internacionais dos quais o Brasil 
seja parte são expressos, enumerados e claramente elencados, não 
podendo ser considerados de difícil caracterização a priori. 
Observe-se que, diferentemente da Constituição Portuguesa, onde a 
cláusula de abertura faz referência a todo o direito internacional, a 
Constituição brasileira refere-se especificamente aos tratados 
internacionais dos quais o Brasil seja parte. 
 
Há a proposta de uma nova classificação dos direitos previstos pela 
Constituição: a) os direitos expressos na Constituição; b) os direitos 
expressos em tratados internacionais nos quais o Brasil seja parte e 
c) os direitos implícitos, que são os direitos que estão subentendidos 
nas regras de garantias, bem como os decorrentes do regime e dos 
princípios adotados pela Constituição. Logo, os direitos implícitos 
são imprecisos, vagos, elásticos, enquanto os direitos expressos na 
Constituição e nos tratados internacionais de que o Brasil seja parte 
compõem um universo claro e preciso. 
 
A Constituição de 1988 recepciona os direitos enunciados em 
tratados internacionais de que o Brasil seja parte conferido-lhes 
natureza de norma constitucional. Tal interpretação é consoante 
com o princípio da máxima efetividade das normas constitucionais. 
No dizer de Jorge Mirando, “a uma norma fundamental tem de ser 
atribuído o sentido que mais eficácia lhe dê; a cada norma 
constitucional é preciso conferir, ligada a todas as outras normas, o 
máximo de capacidade de regulamentação”. Para Konrad Hesse, 
“(...) A dinâmica existente na interpretação construtiva constitui 
condição fundamental da força normativa da Constituição e, por 
conseguinte, de sua estabilidade. Caso ela venha a faltar, torna-se 
inevitável, cedo ou tarde, a ruptura da situação jurídica vigente”. 
Importante salientar que toda norma constitucional são verdadeiras 
normas jurídicas e desempenham uma força útil no ordenamento. 
Nenhuma norma constitucional se pode dar interpretação que lhe 
retire ou diminua a razão de ser. Considerando os princípios da 
força normativa da Constituição e da ótima concretização da norma, 
à norma constitucional deve ser atribuído o sentido de maioreficácia lhe dê, especialmente tratando-se de norma de direito 
fundamental. Para Canotilho, “(...) no caso de dúvidas deve 
preferir-se a interpretação que reconheça maior eficácia aos direitos 
fundamentais”. Deste modo, ao entender que os direitos constantes 
dos tratados internacionais passam a integrar o catálogo dos direitos 
constitucionalmente previstos, está-se a conferir a máxima eficácia 
aos princípios constitucionais, em especial ao princípio do art. 5º, 
§2º da CF/88. 
É de suma importância enfatizar que, enquanto os demais tratados 
internacionais têm força de norma infraconstitucional, os direitos 
enunciados em tratados internacionais de proteção aos direitos 
humanos apresentam valor de norma constitucional. Observe-se que 
a hierarquia infraconstitucional dos demais tratados internacionais é 
extraída do art. 102, III, b da CF, norma que confere competência 
ao Supremo Tribunal Federal para julgar recurso extraordinário as 
causas decididas em única ou última instância, quando a decisão 
recorrida declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal. 
 
Sustenta-se, assim, que os tratados internacionais que não tratem de 
direitos fundamentais possuem a hierarquia de norma 
infraconstitucional, contudo com força supralegal. Esse 
posicionamento busca sua fundamentação no princípio da boa-fé, 
vigente no direito internacional (o pacta sunt servanda), e que tem 
reflexo no art. 27 da Convenção de Viena, segundo o qual não cabe 
ao Estado invocar disposições de seu direito interno como 
justificativa para o não-cumprimento de tratados. 
 
Contudo, a doutrina brasileira, ao interpretar o mencionado 
dispositivo constitucional, a tendência é acolher a concepção de que 
os tratado internacionais e as leis federais apresentam a mesma 
hierarquia jurídica, aplicando-se o princípio “lei posterior revoga lei 
anterior que seja com ela incompatível”. Essa concepção 
compromete não apenas o princípio da boa-fé do direito 
internacional, mas também afronta a própria Convenção de Viena. 
O STF, com base no raciocínio da maioria dos doutrinadores, vem 
adotando desde 1977 o entendimento de que as Leis Federais e os 
tratados internacionais têm a mesma hierarquia. 
 
Observe-se que, anteriormente a 1977 há diversos acórdãos 
consagrando o primado do Direito Internacional em que o tratado 
internacional não pode ser revogado por lei interna. Contudo, a 
tendência mais recente no Brasil é de que uma lei possa revogar um 
tratado anterior, posicionamento adotado a partir do julgamento do 
recurso extraordinário nº 80.004. Em seu voto, o Ministro Francisco 
Rezek ponderou que a lei interna revoga tratado internacional 
anterior com ele incompatível, sem embargos das conseqüências 
pelo descumprimento do tratado no plano internacional. 
 
Sendo assim, esse novo posicionamento adotado pelo STF a partir 
de 1977 desprestigia o princípio da boa-fé vigente no Direito 
Internacional, podendo acarretar sanções pelo descumprimento dos 
tratados. Vale dizer que, para o regime do direito internacional, 
apenas o ato de denúncia implica a retirada do Estado de 
determinado tratado internacional. Sem o mencionado ato de 
denúncia, persiste a responsabilidade do Estado na ordem 
internacional. 
 
O fundamento utilizado para, que na interpretação do art. 102, inc. 
III, alínea b da CF, houvesse uma equiparação hierárquica entre as 
leis e os tratados internacionais foi que inexiste, na perspectiva do 
modelo constitucional vigente no Brasil, qualquer precedência ou 
primazia hierárquico-normtiva dos tratados internacionais sobre o 
direito positivo interno, sobretudo em face das cláusulas inscritas 
no texto Constitucional, eis que a ordem normativa internacional 
não se sobrepõe ao que prescreve a Carta Magna. O livro, contudo, 
defende posicionamento contrário. Acredita-se que, ao conferir aos 
tratados internacionais de direitos humanos a hierarquia 
constitucional, com observância do princípio da prevalência da 
norma mais favorável, é interpretação que se situa em absoluta 
consonância com a ordem constitucional de 1988, bem como com a 
sua racionalidade e principiologia. 
 
Além de não concordar com o posicionamento do STF supra, 
insiste-se que, em relação aos tratados internacionais de direitos 
humanos não há como rechaçar o seu status constitucional. É 
aceitável que um tratado internacional comum tenha força de lei, 
mas em relação aos tratados internacionais de direitos humanos em 
que o Brasil seja parte não há como se rechaçar a sua hierarquia de 
norma constitucional. Este tratamento diferenciado, conferido pelo 
art. 5º, §2º da CF justifica-se na medida em que, enquanto os 
tratados internacionais comuns tratam de relações entre os Estados-
partes, os tratados internacionais de direitos humanos objetivam a 
salvaguarda dos direitos do ser humano, e não das prerrogativas dos 
Estados. O Estado que firma um tratado internacional de direitos 
humanos assume compromissos perante os cidadãos que se 
encontram sob a sua jurisdição e não em relação ao outro Estado. 
 
Ao lado do caráter especial dos tratados internacionais de direitos 
humano, pode-se acrescentar o argumento de que os tratados de 
direitos humanos apresentam caráter mais técnico, formando um 
universo de princípios que apresentam especial força obrigatória, 
denominada jus cogens. Na percepção crítica de Hilary 
Charlesworth e Christine Chinkin, “Jus cogens é definido como um 
conjunto de princípios que resguarda os mais importantes e valiosos 
interesses da sociedade internacional, como expressão de uma 
convicção, aceita em todas as nações, satisfazendo o superior 
interesse da comunidade internacional como um todo, como os 
fundamentos de uma sociedade internacional, sem os quais a inteira 
estrutura se romperia. Os direitos humanos mais essenciais são 
considerados parte do jus congens”. 
 
Em relação ao tema, os autores André Gonçalves e Fausto de 
Quadros que “um dos traços mais marcantes da evolução do Direito 
Internacional contemporâneo foi, sem dúvida, a consagração 
definitiva do jus congens no topo da hierarquia das fontes do 
Direito Internacional, como uma ‘supra-legalidade internacional”’. 
Com base nestes argumentos, pode-se sustentar que o direito 
brasileiro faz a opção por um sistema misto disciplinador dos 
tratados. Um regime aplicado aos tratados internacionais de direitos 
humanos, em que, por força do art. 5º, §2º da CF/88, apresentam 
hierarquia de norma constitucional, e um outro regime para os 
demais tratados internacionais, que apresenta hierarquia de 
infraconstitucional. Em suma, a hierarquia constitucionais das 
normas vinculadas por meio de tratados internacionais de direitos 
humanos emergem de uma interpretação axiológica e sistemática do 
art. 5º, §2º da CF em relação à Carta Magna, particularmente da 
prioridade que atribui aos direitos fundamentais e ao princípio da 
dignidade da pessoa humana. 
 
Importa salientar que, além das duas correntes já mencionadas, uma 
que entende que os tratados internacionais de direitos humanos 
devem ser recepcionados na norma interna com status de norma 
constitucional e a outra que, ao revés, entende que deva ser 
integrado ao sistema normativo interno com força equivalente a 
uma lei - esta última a corrente adotada pelo STF - há duas outras 
correntes. Uma sustenta que os tratados internacionais de direitos 
humanos possuem um status supraconstitucional, sendo certo que a 
outra entende que estas normas possuem força infraconstitucional, 
porém supralegal. 
 
Em relação à corrente que entende que os tratados internacionais de 
direitos humanos, os seus defensores fundamentam assuas teses em 
que os mencionados tratados, em verdade, são normas 
supranacionais, pois, ao observar que à expressão “não excluem” 
constante no art. 5º, §2º não pode ser concebido um alcance 
meramente quantitativo, devendo ser interpretada também em caso 
de conflito entre as normas constitucionais e o Direito Internacional 
em matéria de direitos fundamentais, devendo ser este último que 
deve prevalecer. 
 
Para os defensores da última corrente, qual seja, a que entende que 
os tratados internacionais de direitos humanos devem possuir uma 
hierarquia infraconstitucional, porém supralegal, equiparar os 
tratados internacionais de direitos humanos com as leis seria 
esvaziar em demasia o alcance do art. 5º, §2º da CF. Este grupo 
recusa a supremacia de qualquer convenção internacional sobre a 
constituição, porém não se deve chegar ao ponto de igualar o status 
das leis aos tratados internacionais de direitos humanos, defendendo 
a tese de que o art. 5º, §2º acabou por traduzir uma abertura dos 
direitos significativa ao movimento de internacionalização de 
direitos humanos. 
 
No intuito de dirimir as controvérsias doutrinárias e 
jurisprudenciais, foi criada na Emenda Constitucional nº 45 o §3º 
do art. 5º da CF, por meio do qual ficou determinado que os 
tratados internacionais de direitos humanos que formem aprovados 
em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três 
quintos dos respectivos membros serão equivalentes às emendas 
constitucionais. Contudo, em face das argumentações já expostas, 
conclui-se que a hierarquia constitucional já se extrai de 
interpretação conferida ao próprio art. 5º, §2º da CF/88. Por força 
da indigitada norma, todos os tratados internacionais de direitos 
humanos são materialmente constitucionais compondo o bloco de 
constitucionalidade. O quorum requerido pelo §3º do art. 5º está 
apenas proporcionando a constitucionalização formal dos tratados 
de direitos humanos no âmbito interno. Sendo assim, á hierarquia 
dos valores deve corresponder a hierarquia das normas, e não o 
contrário. 
 
Importa salientar que deve ser rechaçado o entendimento de que os 
tratados que já foram ratificados devem ser recepcionado com força 
de lei em razão de não terem o quorum determinado pelo §3º do art. 
5º da CF. Observe-se que os tratados internacionais de proteção aos 
direitos humanos ratificados anteriormente à EC nº 45 contaram 
com a ampla maioria dos deputados e senadores, sendo certo que 
em muitos casos houve a superação do quorum de 3/5, não havendo 
apenas a votação em dois turnos porque na época não havia esta 
previsão. 
 
Celso Lafer, ao defender o entendimento que os tratados 
internacionais, mesmo os ratificados antes da EC nº 45/2004 já 
possuem status de norma constitucional, argumenta que p novo 
parágrafo 3º do artigo 5º da Constituição pode ser considerado 
como uma lei interpretativa, destinada a encerrar as controvérsias 
doutrinárias e jurisprudenciais suscitadas pelo parágrafo 2º. Para a 
doutrina, lei interpretativa é aquela que tão somente declara uma 
situação pré-existente, ao clarificar a lei existente. 
 
Os argumentos que fundamentam o entendimento de que os 
tratados internacionais de direitos humanos ratificados antes da EC 
nº 45/2004 possuem força constitucional são os seguintes: a) a 
interpretação sistemática da Constituição, de forma a dialogar os §§ 
2º e 3º do art. 5º da CF/88, já que o último não revogou o primeiro, 
mas deve ser interpretado à luz do sistema constitucional; b) a 
lógica e racionalidade material que devem orientar a hermenêutica 
dos direitos humanos; c) a necessidade de evitar interpretações que 
apontem a agudos anacronismos da ordem jurídica; e d) a teoria 
geral da recepção do direito brasileiro. 
 
Sendo assim, com o advento do §3º do art. 5º da CF/88 por meio da 
EC 45/2004, surgem dois tipos de tratados internacionais de direitos 
humanos, quais sejam: a) os materialmente constitucionais, que são 
os que possuem, que por força do § 2º do art. 5º é norma 
materialmente constitucional independentemente do seu quorum de 
ratificação; b) os materialmente e formalmente constitucional, que 
são os tratados internacionais de direitos humanos que tenham sido 
ratificado com o quorum exigido pelo § 3º do art. 5º da CF/88. 
Neste último caso, além de natureza material constitucional, a 
norma será formalmente constitucional. 
 
Resta salientar que entre os tratados internacionais de direitos 
humanos que são meramente materialmente constitucionais e os 
que são materialmente e formalmente constitucionais há uma 
diferença de regimes jurídicos que se aplica aos tratados. Enquanto 
os tratados materialmente constitucionais podem ser suscetíveis de 
denúncia, os tratados materialmente e formalmente constitucionais 
não podem ser objeto de denúncia. Atente-se, ainda, que ao se 
admitir a natureza constitucional de todos os tratados internacionais 
de direitos humanos, estar-se-á a admitir que os direitos neles 
vinculados, assim como os demais direitos e garantias consagrados 
pela Constituição, tornar-se-ão cláusulas pétreas, nos termos do art. 
60, § 4º da CF, não podendo vir a serem modificados por meio de 
Emenda Constitucional. 
 
Cabe apontar, contudo, que, embora os direitos internacionais sejam 
alcançados pelo art. 60, §4º da CF, e não possam ser eliminados por 
Emenda Constitucional, os tratados internacionais de direitos 
humanos materialmente constitucionais são suscetíveis de denúncia 
por parte do Estado signatário. Os direitos internacionais 
apresentam esta peculiaridade. Tendo sido prevista a regra da 
denúncia no tratado, o Estado parte pode denunciá-lo a fim de não 
mais ficar vinculado às obrigações assumidas quando da ratificação 
do tratado internacional de direitos humanos sem o quorum do § 3º. 
 
Devido à peculiaridade mencionada, considera-se mais coerente a 
aplicação ao ato da denúncia o mesmo procedimento aplicável ao 
ato de ratificação, ou seja, se para a ratificação é necessário um ato 
complexo, fruto da conjugação das vontades do Poder Executivo 
com o Legislativo, para o ato de denúncia mister a aplicação do 
mesmo procedimento. Entretanto isso não ocorre no Brasil. No 
direito brasileiro, a denúncia continua a ser ato privativo do 
Executivo, sem qualquer participação do Legislativo. 
 
Importante salientar que aos tratados internacionais de direitos 
humanos materialmente e formalmente constitucionais não podem 
ser objeto de denúncia. Isto se deve ao fato de que os direitos nele 
enunciados receberam assento no Texto da Constituição não apenas 
pela materialidade que o vincula, mas também pelo alto grau de 
legitimidade popular contemplado pelo especial e dificultoso 
processo de sua aprovação. Sendo assim, não há como se admitir 
que, após a passagem por um difícil processo de aprovação, um ato 
isolado do Presidente da República possa subtrair tais direitos do 
patrimônio popular. 
Para finalizar, importa examinar de forma breve o modo pelo qual o 
direito comparado trata da interação dos tratados internacionais de 
direitos humanos e a ordem jurídica nacional. A sistemática 
constitucional introduzida pela Constituição de 1988 se situa num 
contexto em que inúmeras Constituições latino-americanas buscam 
dispensar aos preceitos constantes dos tratados internacionais de 
direitos humanos uma natureza jurídica privilegiada. 
 
Na Constituição da Argentina, após a reforma constitucional de 
1994, enquanto os tratados internacionais em geral possuem uma 
hierarquia infraconstitucional, porém supralegal, os tratados 
internacionais de direitos humanos possuem uma força de normaconstitucional, completando os direitos e garantias 
constitucionalmente reconhecidos. Na Constituição da Venezuela, 
os tratados internacionais de direitos humanos subscritos pela 
Venezuela têm hierarquia constitucional e prevalecem sobre a 
ordem interna, na medida que contenham normas sobre o seu gozo 
e exercício mais favoráveis às estabelecidas pela Constituição e são 
de aplicação imediata e direta pelos tribunais e demais órgãos do 
poder público. 
 
No Peru, a sua atual Constituição de 1993 consagra que os direitos 
internacionalmente reconhecidos devem ser interpretados consoante 
a Declaração Universal de Direitos Humanos e os tratados 
internacionais de direitos humanos ratificados pelo Peru. Na 
Nicarágua, a sua Constituição confere hierarquia constitucional aos 
direitos constantes dos instrumentos internacionais de proteção dos 
direitos humanos. Um outro exemplo é a Constituição da 
Guatemala, na qual se prevê que os direitos e garantias nela 
previstos não excluem outros, adicionando, ainda, que os tratados 
internacionais de direitos humanos têm preeminênica sobre o 
direito interno. Também a Constituição do Chile, reformada em 
1989, consagra o dever dos órgãos do Estado de respeitar e 
promover os direitos garantidos pelos tratados internacionais 
ratificados por aquele país. 
 
É nesse contexto que se insere a inovação do art. 5º, § 2º da CF/88. 
Ao estatuir que os direitos e neles expressos não excluem outros, 
decorrentes de tratados internacionais em que o Brasil seja parte, a 
Constituição de 1988 passa a incorporar os direitos enunciados nos 
tratados de direitos humanos ao universo dos direitos 
constitucionalmente consagrados. 
 
d) A incorporação dos tratados internacionais de direitos 
humanos 
 
O art. 5º, § 1º da CF/88 consagra o princípio da aplicabilidade 
imediata dos direitos e garantias fundamentais. Ora, se as normas 
definidoras dos direitos e garantias fundamentais demandam 
aplicação imediata e se, por sua vez, os tratados internacionais de 
direitos humanos têm por objeto justamente a definição de direitos 
e garantias, conclui-se que tais normas merecem aplicação 
imediata. 
 
Sendo assim, diferentemente do que ocorre com os tratados 
internacionais em geral, para os quais se exige a intermediação pelo 
Poder Legislativo de ato com força de lei para que as suas 
disposições tenham vigência no ordenamento interno, para os 
tratados internacionais de direitos humanos em que o Brasil é parte, 
os direitos fundamentais neles assegurados passam a integrar os 
direitos constitucionalmente consagrados imediatamente. É o que se 
extrai da interpretação do art. 5º, §§ 2º e 3º. Em outras palavras, não 
será mais possível a sustentação da tese a qual, com a ratificação, os 
tratados obrigam diretamente os Estados, mas não geram direitos 
subjetivos. Torna-se possível a invocação imediata dos tratados de 
direitos humanos sem a necessidade de edição de ato com força de 
lei. 
 
A incorporação imediata gera pelo menos 3 conseqüências: a) o 
particular pode invocar diretamente os direitos e liberdades 
internacionalmente assegurados; b) proíbe condutas e atos 
violadores a esses mesmos direitos, sob pena de invalidação e c)a 
partir da entrada em vigor do tratado internacional, toda norma 
preexistente que seja com ele incompatível perde automaticamente 
a sua vigência. Ademais, passa a ser recorrível qualquer decisão 
judicial que violar as prescrições do tratado, haja vista o Recurso 
Especial a ser interposto contra decisão contrariar tratados, nos 
termos do art. 105, III, a da CF. 
 
Importa mencionar a lição de Agustín Gordillo, para quem, “não 
apenas o Tribunal nacional, mas também e especialmente o 
Tribunal internacional competente, estão expressamente facultados 
a declarar a antijuridicidade da conduta e, conseqüentemente, 
invalidá-la, aplicando ainda sanções pecuniárias em favor da pessoa 
físicas que sofreu violação a direito fundamental, por atos, ações ou 
omissões de sua país, no plano interno”. 
 
Mister ressaltar que além da sistemática da incorporação automática 
do direito internacional, há a sistemática da incorporação 
legislativa. Pela primeira, o Estado reconhece a plena vigência do 
direito internacional na ordem interna a partir da ratificação do 
tratado, passando a viger ao mesmo tempo tanto na ordem jurídica 
internacional como na interna. Não há a necessidade de uma norma 
de direito interno. Essa sistemática de incorporação imediata reflete 
a concepção monista, pela qual o direito internacional e o interno 
compõem a mesma unidade, uma única ordem jurídica. Já na 
sistemática da incorporação legislativa, o Estado recusa a vigência 
imediata do direito internacional na ordem interna, necessitando da 
sua reprodução por uma norma interna. Neste sistema a ordem 
internacional e a interna são duas ordens jurídicas distintas, 
refletindo a concepção dualista há duas ordens jurídicas 
independente e autônomas. 
 
Em caso de conflito entre as normas nacionais e as internacionais, 
há de ser perquirir, inicialmente, qual a sistemática adotada pelo 
país, a monista ou a dualista. Caso seja a dualista não há maiores 
esclarecimentos a serem feitos, haja vista que, por este sistema há 
inteira independência entre as ordens jurídicas nacionais e 
internacionais. Vindo a ser adotada pelo Estado a sistemática 
monista, há de se observar se o monismo é com o primado do 
direito nacional ou se é um monismo com primado da norma 
internacional. No primeiro caso, em caso de conflito entre a norma 
internacional e a interna, prevalece a norma interna, já no segundo 
caso, prevalece a norma de direito internacional. 
Diante dessas duas sistemáticas, conclui-se que no Brasil adota-se 
uma sistemática mista, na qual, para os tratados internacionais de 
direitos humanos, por força do art. 5º, § 1º da CF/88, têm vigência 
imediata, enquanto para os demais tratados se aplica a sistemática 
da incorporação legislativa, fazendo-se necessário a intermediação 
de um ato normativo para tornar o tratado obrigatório na ordem 
interna. Diferentemente do que ocorre em relação aos tratados de 
direitos humanos, em que há norma expressa na Constituição que 
determina a sua incorporação imediata ao sistema jurídico interno, 
art. 5º, §§ 1º e 2º da CF, em relação aos demais tratados não há 
qualquer menção sobre a sua vigência no ordenamento interno. Por 
isso a maioria dos doutrinadores entendem que em relação aos 
tratados internacionais em geral aplica-se a sistemática dualista, ou 
seja, há a necessidade de uma norma interna a fim de que o tratado 
passe a ter vigência interna. 
 
Porém para o trabalho, em se tratando de tratados sobre direitos 
humanos, os mesmos têm aplicação imediata, sem a necessidade da 
expedição do Decreto de Execução, conforme determina o art. 5º, § 
1º da CF/88. Já para os demais tratados o Decreto de Execução é 
imprescindível para que as normas internacionais tenham vigência 
no direito interno. No que pese as argumentação explanadas no 
presente trabalho, para a jurisprudência do STF a expedição do 
decreto é essencial para que o tratado internacional seja incorporado 
ao ordenamento interno. 
 
Em síntese, em relação aos tratados internacionais de direitos 
humanos, a Constituição, em seu art. 5º, § 1º, acolhe a sistemática 
da incorporação automática, refletindo a sistemática monista, 
conferindo-lhes, ainda, o status de norma constitucional, por força 
do art. 5º, §§ 2º e 3º. O regime diferenciado, todavia, não se aplica 
aos tratados internacionais tradicionais, havendo a necessidade, 
para a sua vigência no ordenamento jurídico interno,da expedição 
de uma norma interna, além de não possuírem força hierárquica 
constitucional. 
 
Importa salientar que a sistemática de incorporação automática tem 
sido uma tendência de algumas Cartas Contemporâneas, como 
ocorre na Constituição portuguesa, na alemã, na espanhola, na 
francesa, na holandesa. Diante do que foi exposto, cabe ao Poder 
Judiciário e aos demais Poderes Públicos assegurar a implantação 
no âmbito nacional das normas internacionais de direitos humanos 
ratificados pelo Brasil. As normas internacionais que consagram os 
direitos humanos tornam-se passíveis de vindicação e pronta 
aplicação ou execução perante o Poder Judiciário. Os indivíduos 
tornam-se, portanto, beneficiários dos direitos de instrumentos 
internacionais votados à proteção dos direitos humanos. 
 
e) O impacto jurídico dos tratados internacionais de direitos 
humanos no direito interno brasileiro. 
 
Em relação ao impacto jurídico dos tratados internacionais de 
direitos humanos no direito brasileiro, levando-se em conta a 
hierarquia constitucional desses tratados, três são as hipóteses que 
podem ocorrer, quais sejam, o direito enunciado no tratado: a) 
coincidir com o direito assegurado na Constituição; b) integrar, 
complementar e ampliar o universo de direitos constitucionais 
previstos; ou c) contrariar preceitos internos. 
 
No caso de coincidir o direito assegurado pelo tratado internacional 
com o direito assegurado pela Constituição não apenas reflete o fato 
de o legislador nacional buscar inspiração nesse instrumento 
internacional, como também revela a preocupação do legislador em 
equacionar o direito interno, de modo a ajustá-lo, com harmonia e 
consonância, às obrigações internacionalmente assumidas pelo 
Estado brasileiro. Nesse caso, os tratados internacionais de direitos 
humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos 
constitucionalmente assegurados, de forma que eventual violação 
do direito importará em responsabilização não apenas nacional, mas 
também internacional. 
O segundo impacto jurídico decorrente da incorporação do Direito 
Internacional dos Direitos Humanos pelo direito interno resulta do 
alargamento do universo dos direitos nacionalmente garantidos. 
Vários são os casos em que direitos, embora não previstos no 
âmbito nacional, encontram-se enumerados nesses tratados, assim, 
passando a incorporar ao direito brasileiro. Na medida em que os 
direitos assegurados pelos tratados não são previstos no direito 
interno, eles inovam e ampliam o universo de direitos 
nacionalmente assegurados. O Direito Internacional dos Direitos 
Humanos inova, estende e amplia o universo dos direitos 
constitucionalmente assegurados. 
 
O Direito Internacional dos Direitos Humanos ainda permite, em 
determinados casos, o preenchimento de lacunas apresentadas pelo 
direito brasileiro. Um exemplo foi o julgamento pelo Pleno do STF 
do habeas corpus em que o Ministro Sidney Sanches, relator para o 
acórdão. O caso tratava-se da existência jurídica do crime de tortura 
contra criança e adolescente. O Estatuto da Criança e do 
Adolescente prevê em seu art. 233 o crime de prática de tortura 
contra a criança e o adolescente, porém instaurou-se a polêmica 
dado o fato de esta ser um “tipo penal aberto”. Ocorre que o STF 
entendeu que os instrumentos internacionais de direitos humanos 
permitem a integração da norma penal em aberto, a partir do 
reforço do universo conceitual relativo ao termo tortura. Neste caso 
ficou comprovado que os tratados internacionais de direitos 
humanos podem integrar e complementar as normas internas. 
 
Sendo assim, quando as normas dos tratados internacionais de 
direitos humanos coincidam com os preceitos assegurados na 
constituição ou quando integrem, complementem ou ampliem as 
normas constitucionais, elas terão a função de reforçar a 
imperatividade das normas garantidas e de preencher as lacunas do 
direito interno, respectivamente. Contudo ainda se faz possível uma 
terceira hipótese: eventual conflito entre o Direito Internacional de 
Direitos Humanos e o direito interno. 
 
Para solucionar o possível conflito entre as normas do tratado 
internacional de direitos humanos e as normas de direito interno, 
pode-se imaginar, como primeira alternativa, a adoção do critério 
“lei posterior revoga lei anterior com ela incompatível”, 
considerando a natureza constitucional dos tratados internacionais 
de direitos humanos. Porém, um exame mais cauteloso do assunto 
aponta para outro critério de solução. É a escolha da norma mais 
favorável à vítima. Prevalece a norma que mais beneficia o 
indivíduo, titular do direito. O princípio da aplicação dos 
dispositivos mais favorável à vítima é consagrado tanto pelos 
próprios tratados internacionais de proteção aos direitos humanos 
quanto pela jurisprudência dos órgãos de supervisão internacionais. 
 
No plano de proteção dos direitos humanos interagem o direito 
internacional e o direito interno movidos pelas mesmas 
necessidades de proteção, prevalecendo as normas que melhor 
protejam o ser humano, tendo em vista que a primazia é da pessoa 
humana. Os direitos internacionais constantes nos tratados de 
direitos humanos apenas vêm a aprimorar e fortalecer, nunca a 
restringir ou deliberar, o grau de proteção dos direitos consagrados 
no plano normativo constitucional. Logo, em caso de conflito entre 
as normas de direito internacional sobre direito humanos e as 
normas internas, adota-se o critério da prevalência da norma mais 
favorável. 
 
O próprio art. 29 da Convenção Americana de Direitos Humanos 
estabelece que “nenhuma disposição da Convenção pode ser 
interpretada no sentido de limitar o gozo e exercício de qualquer 
direito ou liberdade que possam ser reconhecidos em virtude de leis 
de qualquer Estados-partes ou em virtude de Convenções em que 
seja parte um dos referidos Estados”. A escolha da norma mais 
benéfica ao indivíduo é tarefa que caberá fundamentalmente aos 
Tribunais nacionais e a outros órgãos aplicadores do direito, no 
sentido de assegurar a melhor proteção possível ao ser humano. 
 
Exemplificando os casos de conflitos entre normas internacionais 
de direitos humanos e normas de direito interno, coloca-se o caso 
do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, que estabelece 
o direito de toda pessoa a fundar, com outras, sindicatos e de filiar-
se ao sindicato de sua escolha, sujeitando-se unicamente às 
restrições previstas em lei e que sejam necessárias para assegurar os 
interesses de segurança nacional ou da ordem pública, ou para 
proteger os direitos e liberdades alheias. Já a Constituição Nacional 
consagrou o Princípio da unicidade sindical, que prevê a proibição 
de mais de uma organização sindical, em qualquer grau, 
representativa da categoria profissional ou econômica, na mesma 
base territorial. 
 
Acolhendo o princípio da prevalência da norma mais favorável ao 
indivíduo e considerando que os direitos previstos em tratados 
internacionais incorporam a constituição com aplicação imediata, 
conclui-se que a ampla liberdade de criar sindicatos merece 
prevalecer, até porque as exceções previstas no Pacto Internacional 
dos Direitos Civis e Políticos não são observadas no Brasil, ou seja, 
no Brasil, a restrição à liberdade de sindicalização não se dá em 
razão da necessidade de assegurar os interesses de segurança 
nacional ou da ordem pública, ou para proteger os direitos e 
liberdades alheias. Como não houve qualquer reserva por parte do 
Brasil ao ratificar o mencionado pacto internacional, aceitou-se a 
plena liberdade de criação de sindicatos. 
 
Um outro caso quemerece enfoque refere-se à previsão que consta 
no art. 11 do Pacto Internacional de Direito Humanos. Pela norma, 
“Ninguém poderá ser preso apenas por não poder cumprir com uma 
obrigação contratual”. Enunciado semelhante é o do art. 7º da 
Convenção Americana, que estabelece que ninguém deve ser detido 
por dívida, acrescendo apenas uma exceção, qual seja, a dívida de 
créditos alimentícios. A Constituição Nacional consagra o princípio 
da proibição por dívida, contudo admite não apenas uma exceção, 
como na Convenção Americana, mas sim duas: dívida de crédito 
alimentício e depositário infiel. 
 
Pois bem, se o Brasil ratificou os dois instrumentos internacionais 
sem qualquer reserva no que tange à matéria, é de questionar a 
possibilidade de prisão civil de depositário infiel. Pelo critério da 
prevalência da norma mais favorável ao indivíduo no plano da 
proteção dos direitos humanos, conclui-se que merece ser afasta tal 
possibilidade de prisão. Observe-se que se a situação fosse inversa, 
se as normas constitucionais fosse mais benéfica que a norma 
internacional, aplicar-se-ia Constituição Federal. As próprias regras 
de direito internacional levam a esta interpretação ao afirmarem que 
os tratados internacionais só se aplicam se ampliarem e estenderem 
o alcance da proteção nacional de direitos humanos. 
 
Em resumo do presente tópico pode-se afirmar que, considerando a 
natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados 
internacionais de proteção dos direitos humanos, três hipóteses 
poderão ocorrer. O direito enunciado no tratado internacional 
poderá: a) reproduzir direitos assegurados na Constituição; b) 
inovar o universo dos direitos constitucionalmente previstos e c) 
contrariar preceito constitucional. Na primeira hipótese, os tratados 
de direitos humanos estarão a reforçar o valor jurídico de direitos 
constitucionalmente assegurados. Na segunda, esses tratados 
estarão a ampliar e estender o elenco dos direitos constitucionais, 
complementando e integrando a declaração constitucional de 
direitos. Por fim, quanto à terceira hipótese, prevalecerá a norma 
mais favorável à proteção da vítima. Vale dizer, os tratados 
internacionais de direitos humanos inovam significativamente o 
universo dos direitos constitucionalmente consagrados, ora 
reforçando sua imperatividade, ora adicionando novos direitos, ora 
suspendendo preceitos que sejam menos favoráveis à proteção dos 
direitos humanos. Em todas as três hipóteses, os direitos 
internacionais constantes dos tratados internacionais de direitos 
humanos apenas vêm aprimorar e fortalecer, nunca restringir ou 
debilitar o grau de proteção dos direitos consagrados no plano 
normativo interno. 
 
 
SEGUNDA PARTE 
 
O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO AOS 
DIREITOS HUMANOS 
 
 
CAPÍTULO V - PRECEDENTES HISTÓRICOS DO 
PROCESSO DE INTERNACIONALIZAÇÃO E 
UNIVERSALIZAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS. 
 
Enquanto o objetivo da primeira parte do trabalho foi o modo pelo 
qual a Constituição de 1988 se relaciona com os tratados 
internacionais de direitos humanos, nesta segunda parte o objetivo é 
aprofundar os estudos do sistema internacional de proteção dos 
direitos humanos, tanto do âmbito global quanto no regional. Neste 
primeiro capítulo desta segunda parte, o objetivo é desvendar os 
precedentes históricos que permitiram a deflagração do processo de 
internacionalização e universalização dos direitos humanos. 
 
a) Primeiros Precedentes do processo de internacionalização 
dos direitos humanos – o Direito Humanitário, a Liga das 
Nações e a Organização Internacional do Trabalho. 
 
Sempre se mostrou intensa a polêmica sobre a natureza dos direitos 
humanos, se eles são naturais e inatos, direitos positivos, direitos 
históricos ou direitos que derivam de determinado sistema moral. 
Tal polêmica ainda hoje é bastante intensa. O presente trabalho 
defende a historicidade dos direitos humanitários, na medida em 
que estes não são um dado, mas construído, uma invenção humana, 
em constante processo de construção e reconstrução. Na lição de 
Norberto Bobbio, os direitos humanos nascem como direitos 
naturais universais, desenvolvem-se como direitos positivos 
particulares (quando cada Constituição incorpora Declarações de 
Direitos) para finalmente encontrar a plena realização como direitos 
positivos universais. Preleciona ainda Bobbio que, não obstante a 
importância do debate a respeito do fundamento dos direitos 
humanos, o maior problema hoje “não é mais o de fundamentá-los, 
e sim o de protegê-los”. 
 
Os primeiros marcos do processo de internacionalização dos 
direitos humanos foram o Direito Humanitário, a Liga das Nações e 
a Organização Internacional do Trabalho. Foi necessário uma nova 
definição do âmbito e o alcance do tradicional conceito de 
soberania estatal, a fim de permitir o advento dos direitos humanos 
como questão de legítimo interesse internacional. Foi preciso, 
ainda, a redefinição do status do indivíduo no cenário internacional, 
para que se tornasse o verdadeiro sujeito de direito internacional. 
 
Direito Humanitário é o direito que se aplica na hipótese de guerra, 
a fim de limitar a atuação do Estado e assegurar a observância de 
direitos fundamentais. A proteção humanitária se destina, em casos 
de guerra, a militares postos fora de combate (feridos, doentes, 
náufragos, presioneiros) e à população civil. A Liga das Nações foi 
criada após a Primeira Guerra Mundial, possuindo como finalidade 
promover a cooperação, paz e segurança internacional, condenando 
agressões externas contra a integridade territorial e a independência 
política dos seus membros. Era também um meio de reforçar a idéia 
de relativizar a soberania dos Estados, incorporando em seu 
conceito compromissos e obrigações de alcance internacional no 
que diz respeito aos direitos humanos. Além do Direito 
Humanitário e da Liga das Nações, a Organização Internacional do 
Trabalho também contribuiu para a internacionalização dos direitos 
humanos. Criada após a Primeira Guerra Mundial, tinha por 
finalidade promover padrões internacionais de condições de 
trabalho e bem-estar. 
 
Apresentando o breve perfil da Organização Internacional do 
Trabalho, da Liga das Nações e do Direito Humanitário, pode-se 
concluir que tais institutos, cada qual ao seu modo, contribuíram 
para o processo de internacionalização dos direitos humanos, seja 
ao assegurar parâmetros globais mínimos para as condições de 
trabalho no plano mundial, seja ao fixar como objetivos 
internacionais à manutenção da paz e segurança internacional, seja 
ainda ao proteger direitos fundamentais em situações de conflito 
armados. Tais institutos se assemelham na medida em que protejam 
o tema dos direitos humanos na ordem internacional. 
 
Com o advento dos institutos supramencionados, chega-se ao fim a 
época em que o Direito Internacional era confinado a regular 
meramente relações entre Estados. Passa-se a não mais visar apenas 
arranjos recíprocos, mas sim o alcance de obrigações internacionais 
a serem garantidos coletivamente. Essas obrigações visam a 
salvaguardar direitos do ser humano e não prerrogativas dos 
Estados. Os novos institutos rompem, ainda, com a antiga 
concepção de soberania nacional absoluta, na medida que admitem 
intervenções no plano nacional em prol da proteção dos direitos 
humanos. Aos poucos emerge a idéia de que o indivíduo não é 
apenas objeto, mas também sujeito do Direito Internacional, 
passando-se a se aceitar a capacidade processual internacional dos 
indivíduos, bem como a concepção de que os direitos humanos não 
mais se limitam à exclusivajurisdição doméstica, mas sim 
constituem matéria de legítimo interesse internacional. 
 
b) A internacionalização dos Direitos Humanos – pós-guerra. 
 
A verdadeira consolidação do Direito Internacional dos Direitos 
Humanos surge em decorrência da Segunda Guerra Mundial. É um 
movimento extremamente recente que surgiu como resposta às 
atrocidades e aos horrores durante o nazismo. A barbárie do 
totalitarismo significou a ruptura do paradigma dos direitos 
humanos, por meio da negação do valor da pessoa humana como 
valor fonte do direito. Diante dessa ruptura, emerge a necessidade 
de reconstruir os direitos humanos, como referencial e paradigma 
ético que aproxime da moral. Nesse cenário, o maior direito passa a 
ser o direito a ter direito, ou seja, o direito a ser sujeito de direitos. 
Se a Segunda Guerra significou a ruptura com os direitos humanos, 
o pós-guerra deveria significar sua reconstrução. 
Neste prisma, nasce a idéia de que a proteção aos direitos humanos 
não devem se reduzir ao âmbito reservado de um Estado, porque 
revela tema de legítimo interesse internacional. O processo de 
internacionalização dos direitos humanos – que por sua vez, 
pressupõe a delimitação à soberania estatal – passa, assim, a ser 
uma importante resposta na busca da reconstrução de um povo 
paradigma, diante do repúdio internacional às atrocidades 
cometidas no holocausto. Com a decadência do nazismo, a defesa 
da soberania ilimitada passou a ser duramente atacada, 
especialmente em razão das atrocidades cometidas durante a 
Segunda Guerra. Toda essa barbárie fez com que os doutrinadores 
concluíssem que a soberania estatal não é um princípio absoluto, 
mas deve estar sujeita a certas limitações em prol dos direitos 
humanos. 
 
A crescente preocupação com os direitos humanos no pós-guerra é 
perceptível por meio da criação das Nações Unidas, da adoção da 
Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral 
da ONU e com a ocupação de um espaço central na agenda das 
instituições internacionais. No fim do século XX, não era mais 
possível se afirmar que o Estado pode tratar os seus cidadãos da 
forma que quiser, sem sofrer qualquer responsabilização na arena 
internacional. Nesse contexto, o Tribunal de Nuremberg significou 
um poderoso impulso ao movimento de internacionalização dos 
direitos humanos. Com a competência para julgar os crimes 
cometidos ao longo do nazismo, seja pelos líderes do partido, seja 
pelos oficiais militares, O Tribunal de Nuremberg teve a sua 
composição e seus procedimentos básicos fixados pelo Acordo de 
Londres (Acordo firmado entre os aliados em 1945 para a 
responsabilização dos alemães pela guerra e pela barbárie 
cometidas). 
 
O Tribunal de Nuremberg aplicou fundamentalmente o costume 
internacional para a condenação criminal dos envolvidos na prática 
de crimes de guerra, crimes contra a paz e em crimes contra a 
humanidade, previstos no Acordo de Londres. Note-se que, 
segundo o art. 38 do Estatuto da Corte Internacional, o costume 
internacional é fonte do direito internacional, juntamente com os 
tratados internacionais, com as decisões judiciais, com a doutrina e 
com os princípios gerais do direito reconhecidos pelas nações 
“civilizadas”. 
 
Para a existência do costume internacional, faz-se a necessidade de: 
a) a concordância de um número significativo de Estados em 
relação a determinada prática e do exercício uniforme dessa prática; 
b)a continuidade de tal prática por considerável período de tempo; 
c) a concepção de que tal prática é requerida pela ordem 
internacional e aceita como lei, ou seja, que haja o censo de 
obrigação. Sendo assim, não resta dúvidas de que a prática de 
tortura, de desaparecimento forçado, de detenções arbitrárias, entre 
outras práticas, cometidas pelo nazismo constitui violação aos 
costumes. Atente-se para o fato de que o costume internacional tem 
eficácia erga omnes, enquanto os tratados internacionais só são 
aplicados aos Estados que os tenham ratificados. 
 
As condenações do Tribunal de Nuremberg, que tiveram como 
fundamento os costumes internacionais, sofreram críticas sob o 
argumento de que estariam violando o princípio da irretroatividade 
da lei, pois os atos punidos não eram considerados crimes no 
momento em que foram cometidos. Hans Kelsen, embora crítico em 
relação a vários aspectos do Acordo de Londres e ao próprio 
julgamento, ao tratar da polêmica sobre a possível violação dos 
princípios do Direito Penal, de sobremaneira em relação à 
irretroatividade da lei penal, lecionou o seguinte: “Contudo, este 
princípio da irretroatividade da lei não é válido no plano do direito 
internacional, mas é válido apenas no plano do direito interno, com 
importantes exceções”. 
 
O significado do Tribunal de Nuremberg para o processo de 
internacionalização dos direitos humanos é duplo: não apenas 
consolida a idéia da necessária limitação da soberania nacional 
como reconhece que os indivíduos têm direitos protegidos pelo 
direito internacional. Steiner, ao se pronunciar sobre o significado 
do Tribunal de Nuremberg assevera que “(...). Simultaneamente, 
cada vez mais se reconhece que os indivíduos podem ser 
considerados responsáveis por determinadas condutas. Não mais se 
acredita que os Estados são os exclusivos perpetradores de condutas 
que violam o direito internacional. A ficção legal que os indivíduos 
não participam da arena internacional e, conseqüentemente, não 
podem ser considerados responsáveis pelos seus atos, tem sido 
repensada. (...) Crimes de guerra e genocídios são hoje 
reconhecidos como atos pelos quais os indivíduos são sucessíveis à 
responsabilização como indivíduos. (...)” 
 
c) A Carta das Nações Unidas de 1945 
 
Após a Segunda Guerra Mundial, relevantes fatores contribuíram 
para o fortalecimento da internacionalização do direito 
internacional dos direitos humanos. Dentre eles a maciça expansão 
de organizações internacionais com propósito de cooperação 
internacional. Com a vitória do Aliados, surge uma nova ordem 
com importantes transformações no Direito Internacional, 
simbolizada pela Carta das Nações e palas suas Organizações. A 
criação das Nações Unidas, com suas agências especializadas, 
demarca o surgimento de uma nova ordem internacional, 
instaurando um novo modelo de condutas nas relações 
internacionais, com objetivos como a manutenção da paz e 
segurança internacionais, o desenvolvimento de relações amistosas 
entre os Estados, a adoção da cooperação internacional no plano 
econômico, social e cultural, entre outras. 
 
Para a consecução dos objetivos supramencionados, as Nações 
Unidas foram organizadas em vários órgãos, em que os principais 
são: Assembléia Geral, Conselho de Segurança, Corte Internacional 
de Justiça, Conselho Econômico e Social, Conselho de Tutela e o 
Secretariado. Compete à Assembléia Geral discutir e fazer 
recomendações relativas a qualquer matéria objeto da Carta. Todos 
os membros das Nações Unidas são membros da Assembléia Geral, 
com direito a um voto. O Conselho de Segurança é o órgão da ONU 
com a principal responsabilidade na manutenção da paz e segurança 
internacionais. É composto por cinco membros permanentes e dez 
não permanentes. Os membros permanentes são China, França, 
Reino Unido, Estados Unidos e, desde 1992, Rússia, que substituiu 
a antiga União Soviética. Os não permanentes são escolhidos pela 
Assembléia Geral para mandados de dois anos, considerando a 
colaboração dos membros para os propósitos das Nações Unidas e a 
distribuição geográfica eqüitativa. 
 
A Corte Internacional é o principal órgão judicial das Nações 
Unidas, compostopor quinze juízes. Seu funcionamento é 
disciplinado pelo Estatuto da Corte, que foi anexado à Carta. 
Dispõe de competência contenciosa e consultiva, porém apenas 
Estados são partes em questões pertinentes ela. O Secretariado é 
chefiado pelo Secretário-Geral, que é o principal funcionário 
administrativo da ONU, indicando para mandato de cinco anos pela 
Assembléia Geral, a partir da recomendação do Conselho de 
Segurança. O Conselho Econômico e Social, composto por vinte e 
sete membros, tem competência para promover a cooperação em 
questões econômicas, sociais e culturais, incluindo os direitos 
humanos. Cabe ao Conselho Econômico e Social fazer 
recomendações destinadas a promover o respeito e a observância 
dos direitos humanos, bem como elaborar projetos de convenções 
serem submetidos à Assembléia Geral. O art. 68 permite que o 
Conselho Econômico e Social crie comissões necessárias para o 
desempenho das suas funções. Sendo assim, foi criada a Comissão 
de Direitos Humanos da ONU. Ao tratar da Comissão de Direitos 
Humanos, Thomas Buergenthal afirma que “esta comissão deve 
submeter ao Conselho Econômico e Social proposta, 
recomendações e relatórios relativos aos instrumentos 
internacionais de direitos humanos, à proteção das minorias, à 
prevenção da discriminação e demais questões relativas aos direitos 
humanos. (...)”. 
 
Deste modo, a nova agenda internacional passa a conjugar a 
preocupação na manutenção da paz e de evitar a guerra com 
preocupação em promover e proteger os direitos humanos. A Carta 
das Nações de 1945 consolida assim o movimento de 
internacionalização dos direitos humanos, a partir do consenso de 
Estados que elevam a promoção desses direitos a propósito e 
finalidade das Nações. Em definitivo, a relação entre Estado com 
seus nacionais passa a ser uma problemática internacional, objeto 
de instituições internacionais e do direito internacional. 
 
Importante salientar que, embora a Carta das Nações apresente uma 
enfática preocupação em defender, promover e respeitar os direitos 
humanos e as liberdades fundamentais, ela não define o conteúdo 
dessas expressões. Daí o desafio em desvendar o alcance e 
significado da expressão “direitos humanos e liberdades 
fundamentais”. Três anos após o advento da Carta das Nações, a 
Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, veio a 
definir com precisão o elenco dos “direitos humanos e liberdades 
fundamentais”. 
 
d) A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. 
 
A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi aprovada por 
unanimidade e se qualquer reserva ou questionamento, o que 
confere à Declaração o significado de um código e plataforma 
comum de ação. A Declaração consolida a afirmação de uma ética 
universal ao consagrar um consenso sobre valores de cunho 
universal a serem seguidos pelos Estados. A Declaração Universal 
de 1948 objetiva delinear uma ordem pública mundial fundada no 
respeito à dignidade humana, ao consagrar valores básicos 
universais. Desde seu preâmbulo, é afirmada a dignidade inerente a 
toda pessoa humana, titular de direitos iguais e inalienáveis. A 
dignidade da pessoa humana como fundamento dos direitos 
humanos é concepção que, posteriormente, viria a ser incorporada 
por todos os tratados e declarações de direito, que passam a integrar 
o chamado Direito Internacional de Direitos Humanos. 
 
Além da universalidade dos direitos humanos, a Declaração de 
1948 ainda introduz a indivisibilidade desses direitos ao 
ineditamente conjugar o catálogo dos direitos civis e políticos com 
o dos direitos econômicos, sociais e culturais. Ao definir o 
significado do que significa a expressão “direitos humanos e 
liberdades fundamentais”, a Declaração Universal estabelece duas 
categorias: a) direitos civis e políticos e b) direitos econômicos, 
sociais e culturais, combinando o valor da liberdade com o valor da 
igualdade. 
 
À luz de uma perspectiva histórica, observa-se que até então era 
intensa a dicotomia ente o direito à liberdade e o direito à 
igualdade. No final do Século XVIII, as Declarações de Direitos, 
seja a Declaração Francesa (1789), seja a Declaração Americana 
(1776), consagravam a ótica liberal, em que os direitos humanos se 
reduziam os direitos à liberdade, segurança e propriedade, 
complementados pela resistência à opressão. Neste momento 
histórico, os direitos humanos surgem como reação aos excessos do 
regime absolutista, na tentativa de impor controle e limites à 
abusiva atuação do Estado. A solução era limitar e controlar a 
atuação do Estado, que deveria se pautar na legalidade e respeitar 
os direitos fundamentais. A não-atuação estatal significava 
liberdade. 
 
Caminhando na história, verifica-se que, especialmente após a 
Primeira Guerra, ao lado do discurso liberal da cidadania, cresce o 
movimento social e da cidadania. Sob a concepção marxista e 
lenilista é elaborada a Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador 
e Explorado, na então República Soviética da Rússia, em 1918. Do 
primado da igualdade se transita para o primado da liberdade. O 
Estado passa a ser visto como agente de processos transformadores, 
e o direito à abstenção do Estado, neste sentido, converte-se em 
direito à atuação estatal, com a emergência dos direitos à prestação 
social. 
 
Essa digressão histórica tem como objetivo demonstrar quão 
dicotômica se apresentava a linguagem dos direitos: de um lado, 
direitos civis e políticos, de outro, direitos sociais, econômicos e 
culturais. Considerando neste contexto, a Declaração de 1948 
introduz extraordinária inovação ao combinar o discurso liberal 
com o discurso social, passando a elencar tanto direitos civis e 
políticos quanto direitos sociais, econômicos e culturais. Ao 
conjugar o valor da liberdade com o da igualdade, a Declaração 
demarca a concepção contemporânea de direitos humanos, pela 
qual esses direitos passam a ser concebidos como uma unidade 
interdependente e indivisível. Os direitos da primeira geração não 
substituem os direitos da segunda e nem esses os da terceira, pelo 
contrário. As três gerações se interagem. Não há mais como cogitar 
da liberdade divorciada da justiça social, como também infrutífero 
pensar na justiça social divorciada da liberdade. Todos os direitos 
humanos constituem um complexo integral, único e indivisível. 
Importa agora observar qual o valor jurídico da Declaração 
Universal de 1948. Ela não é um tratado, sendo certo que foi 
adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas sob a forma de 
resolução, que, por sua vez, não apresenta força de lei. O propósito 
da Declaração, como proclama seu preâmbulo, é promover o 
reconhecimento universal dos direitos humanos e das liberdades 
fundamentais, por isso a Declaração Universal tem sido concebida 
como a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos e 
liberdades fundamentais”, constante da Carta das Nações Unidas, 
apresentando, por esse motivo, força jurídica vinculante. Os 
Estados membros das Nações Unidas têm a obrigação de promover 
o respeito e a observância universal dos direitos proclamados pela 
Declaração. A Carta das Nações Unidas nunca definiu os direitos 
humanos e as liberdades fundamentais que os Estados da ONU se 
comprometem a respeitar e observar, mas a Declaração traz a 
definição, com uma clara referência ao compromisso dos Estados 
em seu próprio preâmbulo. 
 
Há, contudo, quem entenda que a Declaração teria força jurídica 
vinculante por integrar o direito costumeiro internacional e/ou os 
princípios gerais de direito, apresentando, assim, força jurídica 
vinculante. Para essa corrente, três são as argumentações centrais:a) a incorporação das previsões da Declaração atinente aos direitos 
humanos pelas Constituições nacionais; b) as freqüentes referências 
feitas por resoluções das Nações Unidas às obrigação legal de todos 
os Estados de observar a Declaração Universal; c) decisões 
proferidas pelas Cortes Nacionais que se referem à Declaração 
Universal como fonte de direito. Exemplo é a proibição à 
escravidão, à tortura, ao tratamento cruel, entre outros dispositivos 
da Declaração que assumem o valor de direito costumeiro 
internacional ou princípio geral do direito internacional, aplicando-
se a todos os Estados e não apenas aos signatários da Declaração. 
 
Para esse trabalho, a Declaração Universal, no que pese não tenha a 
forma de um tratado internacional, apresenta força jurídica 
obrigatória e vinculante, na medida em que constitui a interpretação 
autorizada da expressão “direitos humanos” constante na Carta das 
Nações. Ressalte-se que à luz da Carta das Nações, os Estados 
assumem o compromisso de assegurar o respeito universal e efetivo 
aos direitos humanos. Ademais, a natureza jurídica vinculante da 
Declaração Universal é reforçada pelo fato de – na qualidade de um 
dos mais influentes instrumentos jurídicos e políticos do século XX 
– ter-se transformado, ao longo dos mais de cinqüenta anos de sua 
adoção, em direito costumeiro internacional e princípio geral do 
direito internacional. 
 
e) Universalismo e relativismo cultural 
 
A concepção universal dos direitos humanos pela Declaração sofre 
grandes resistências por parte dos adeptos do movimento do 
relativismo cultural. Podem as normas de direitos humanos ter um 
sentido universal ou são culturalmente relativas? Com a 
internacionalização, e conseqüentemente a relativização do conceito 
de soberania e jurisdição doméstica, o debate ganha força. 
 
Para os relativistas, a noção de direito está estritamente relacionada 
ao sistema político, econômico, cultural, social e moral vigente em 
determinada sociedade, sendo certo que cada sociedade possui seu 
discurso sobre direitos fundamentais, que está relacionado às 
específicas circunstâncias culturais e históricas de cada sociedade. 
Sendo assim, defendem os relativistas que o pluralismo cultural 
impede a formação de um movimento universa, tornando-se 
necessário que respeitem as diferenças culturais apresentadas por 
cada sociedade, bem como seu peculiar sistema moral, como 
ocorre, por exemplo, na diferença cultural entre o mundo ocidental 
e o induísmo ou com o islamismo. No entendimento de Jack 
Donnelly, defensor da corrente relativista, há diversas correntes 
relativistas: “No extremo, há o que nós denominamos de 
relativismo cultural radical, que concebe a cultura como a única 
fonte de validade de um direito ou regra moral. (...) Um forte 
relativismo cultural acredita que a cultura é a principal fonte de 
validade de um direito ou regra moral. (...) Um relativismo cultural 
fraco, por sua vez, sustenta que a cultura pode ser uma importante 
fonte de um direito ou regra geral”. 
 
Para os universalistas o fundamento dos direitos humanos é a 
dignidade humana, como valor intrínseco à própria condição 
humana. Nesse sentido, qualquer afronta ao chamado “mínimo 
ético irredutível” que comprometa a dignidade humana, ainda que 
em nome da cultura, importará em violação a direitos humanos. 
Para se ajustar à classificação das correntes relativistas defendidas 
por Jack Donnelly, poder-se-ia sustentar a existência de diversos 
graus de universalismos, a depender do alcance do “mínimo ético 
irredutível”. No entanto, a defesa, por si só, desse mínimo ético, 
independentemente de seu alcance, apontará para a corrente 
universalista – seja a um universalismo radical, forte ou fraco. 
 
Na análise dos relativistas, a pretensão de universalismo desses 
instrumentos simboliza a arrogância do imperialismo cultural do 
mundo ocidental, que tenta universalizar suas próprias crenças. A 
noção universal de direitos humanos é identificada como uma 
noção construída pelo modelo ocidental. O universalismo induz, 
nessa visão, à destruição da diversidade cultural. A essa crítica 
rebatem os universalistas alegando que a posição relativista revela o 
esforço de justificar graves casos de violação dos direitos humanos 
que, com base no sofisticado argumento do relativismo cultural, 
ficariam imunes ao controle da comunidade internacional. 
Argumentam, ainda, que a existência de normas universais relativas 
ao valor da dignidade humana é exigência do mundo 
contemporâneo, bem como que se diversos Estados optaram por 
ratificar instrumentos internacionais de direitos humanos, é porque 
consentiram em respeitar os direitos neles assegurados, não 
podendo isentar-se do controle internacional em caso de violação 
desses direitos. 
 
A Declaração de Viena, de 1993, buscou acabar com esse debate ao 
estabelecer em seu § 5º: “Todos os direitos humanos são universais, 
indivisíveis, interdependentes e inter-relacionados. A comunidade 
internacional deve tratar os direitos humanos globalmente, de 
maneira justa e equânime, com os mesmo parâmetros e com a 
mesma ênfase. As particularidades nacionais e regionais e bases 
históricas, culturais e religiosas devem ser consideradas, mas é 
obrigação dos Estados, independentemente de seu sistema político, 
econômico, e cultural, promover e proteger todos os direitos 
humanos e liberdades fundamentais”. Para Antônio Augusto 
Cançado Trindade, “Compreendeu-se finalmente que a 
universalidade é enriquecida pela diversidade cultural, a qual jamais 
pode ser invocada para justificar a denegação ou violação dos 
direitos humanos”. Adotando-se a lição de Jack Donnelly, pode-se 
concluir que a Declaração de Direitos Humanos de Viena de 1993 
acolheu a corrente do forte universalismo ou fraco relativismo 
cultural. 
 
Neste debate, destaca-se as ponderação de Boaventura de Souza 
Santos, o qual entende que há a necessidade de se superar o debate 
sobre universalismo e relativismo cultural, a partir da transformação 
cosmopolita dos direitos humanos. Na medida em que todas as 
culturas possuem concepções distintas de dignidade humana, mas 
são incompletas, haver-se-ia que aumentar a consciência dessas 
incompletudes culturais mútuas, como pressuposto para um diálogo 
intercultural. A construção de uma concepção multicultural dos 
direitos humanos decorreria desse diálogo intercultural. Este é o 
mesmo entendimento defendido por Joaquín Herrera Flores, que 
sustenta um universalismo de chegada e não de partida, nas 
palavras do doutrinador, “(...) O que negamos é considerar o 
universal como um ponto de partida ou um campo de desencontros. 
Ao universal há que se chegar – universalismo de chegada ou de 
confluência – depois (não antes de) um processo conflitivo, 
discursivo de diálogo (...).” Acredita-se que sem o diálogo entre 
culturas, respeitando-se a diversidade e com base no 
reconhecimento do outro, como ser pleno de dignidade e com base 
no reconhecimento do outro como ser pleno de dignidade e direitos, 
é condição para a celebração de uma cultura dos direitos humanos, 
inspirada pela observância do “mínimo ético irredutível”, alcançado 
por um universalismo de confluência. 
 
 
CAPÍTULO VI – A ESTRUTURA NORMATIVA DO 
SISTEMA GLOBAL DE PROTEÇÃO INTERNACIONAL 
DOS DIREITOS HUMANOS. 
 
a) Introdução 
 
O processo de universalização, com o reexame do valor da 
soberania absoluta do Estado e com a universalização dos direitos 
humanos, fazendo com que os Estados consentissem em submeter 
ao controle da comunidade internacional o que até então era de seu 
domínio reservado, gerou a necessidade de implementação dessesdireitos mediante a criação de uma sistemática internacional de 
monitoramento – a international accountability. O objetivo desse 
capítulo é enfocar a estrutura normativa do sistema de proteção aos 
direitos humanos. 
 
Para iniciar este estudo, insta relembrar que a Carta da ONU de 
1945 estabelece que os Estados-partes devem promover a proteção 
dos direitos humanos e liberdades fundamentais e que em 1948 a 
Declaração Universal vem a definir e fixar o elenco dos direitos e 
liberdades universais a serem garantidos. Todavia, sob o enfoque 
estritamente legalista, a Declaração Universal não possui força 
jurídica vinculante. Assumindo a forma de declaração e não de 
tratado, a Declaração atesta o reconhecimento universal de direitos 
humanos, consagrando um código comum a ser seguido por todos 
os Estados. À luz desse raciocínio e considerando a ausência de 
força jurídica vinculante da Declaração, discutia-se qual a maneira 
mais eficaz de assegurar o reconhecimento e observância universal 
dos direitos nelas previstos. Prevaleceu o entendimento de que a 
Declaração deveria ser “juridizada” sob a forma de tratado 
internacional, que fosse juridicamente obrigatória e vinculante no 
âmbito do direito internacional. 
 
Esse processo de “juridização” iniciou-se em 1949 e foi concluído 
em 1966 com a elaboração de dois tratados, quais sejam, o Pacto 
Internacional de Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional 
de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, que passaram a 
incorporar os direitos constantes na Declaração Universal. A 
conjugação desses instrumentos internacionais simbolizam a mais 
significativa expressão do movimento internacional dos direitos 
humanos. A partir desses pactos se forma a Carta Internacional dos 
Direitos Humanos, International Bill of Rights, integrada pela 
Declaração Universal de 1948 e pelos dois tratados internacionais 
de 1966. A Carta Internacional dos Direitos Humanos inaugura, 
assim, o sisyema global de proteção desses direitos, ao lado do qual 
já se delineava o sistema regional de proteção, nos âmbitos 
europeu, interamericano e, posteriormente, africano. O sistema 
global, por sua vez, viria a ser ampliado com o advento de diversos 
tratado multilateral de direitos humanos, pertinentes a determinadas 
e específicas violações de direitos, como, por exemplo, sobre o 
genocídio, a tortura e a violação dos direitos das crianças. 
 
 Diversamente dos tratados internacionais comuns, os tratados 
internacionais de direitos humanos não objetivam estabelecer o 
equilíbrio de interesses entre os Estados, mas sim garantir o 
exercício dos direitos e liberdades fundamentais aos indivíduos. 
Cabe atentar que o Direito Internacional dos Direitos Humanos, 
com seus inúmeros instrumentos, não visam substituir o sistema 
nacional. Ao revés, situa-se como direito subsidiário e suplementar 
ao direito nacional, no sentido de permitir que sejam superadas 
omissões e deficiências. Enquanto no sistema internacional de 
proteção dos direitos humanos, o Estado tem a responsabilidade 
primária pela proteção desses direitos, ao passo que a comunidade 
internacional tem a responsabilidade subsidiária, constituindo 
garantia adicional de proteção aos direitos humanos, quando falham 
as instituições nacionais. 
 
b) Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos 
 
Embora aprovados pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 
1966, somente em 1976 o Pacto Internacional dos Direitos Civis e 
Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais 
e Culturais entraram em vigor, quando alcançaram o número de 
ratificações necessário. Primeiramente, faz-se necessário 
compreender que houve uma discursão sobre a conveniência da 
elaboração de dois pactos diversos ou um pacto único, que pudesse 
compreender tanto os direitos civis e políticos quanto os direitos 
econômicos, sociais e culturais. Inicialmente, a Comissão de 
Direitos Humanos da ONU trabalhou em um único projeto de 
pacto, que conjugava as duas categorias de direitos. Posteriormente, 
sob a influência dos países ocidentais, a Assembléia Geral, em 
1951, determinou que fossem elaborados dois pactos em separados. 
 
Não obstante a elaboração de dois pactos em separado, a 
indivisibilidade e unidade dos direitos humanos era reafirmados 
pela ONU, sob a argumentação de que sem os direitos civis e 
políticos, os direitos econômicos, sociais e culturais só poderiam 
existir no plano nominal, bem como que sem os direitos 
econômicos, sociais e culturais, os direitos civis e políticos não 
deixariam o plano formal. 
 
Um dos principais argumentos adotados pelos países ocidentais em 
defesa da elaboração de dois pactos distintos foi a forma de 
implementação das duas categorias de direitos. Enquanto os direitos 
civis e políticos são direitos auto-aplicáveis e passíveis de cobrança 
imediata, os direitos econômicos, sociais e culturais são direitos 
programáticos, que devem ser implementados de forma progressiva. 
Esse argumento ganhou força a partir de que, para os direitos civis e 
políticos, o melhor mecanismo seria a criação de um comitê que 
apreciasse petições contendo denúncia de violações de direitos, 
instrumento este que seria inaplicável para a tutela dos direitos 
econômicos, sociais e culturais. 
 
Contra esse posicionamento os países socialistas responderam que 
não era em todos os países que os direitos civis e políticos seriam 
auto-aplicáveis e os direitos econômicos, sociais e culturais seriam 
programáticos. Neste raciocínio, a formação de dois pactos distintos 
acarretaria a diminuição da importância dos direitos econômicos, 
sociais e culturais. Contudo, ao final prevaleceu o posicionamento 
ocidental, sendo adotados dois pactos internacionais, cada qual 
relativo a uma categoria de direitos. Neste contexto nasceu o Pacto 
Internacional de Direitos Civis e Políticos, com um catálogo de 
direitos civis e políticos mais extensos do que o previsto na própria 
Declaração Universal. 
 
O Pacto de Direitos Civis e Políticos, primeiramente, assegura que 
os Estados-partes possuem o dever de assegurar os direitos nele 
elencados a todos os indivíduos que estejam em sua jurisdição, 
adotando medidas necessárias para esse fim. Cabe ao Estado-parte 
estabelecer um sistema legal capaz de responder com eficácia às 
violações dos direitos civis e políticos, sendo certo que as 
obrigações dos Estados são tanto de natureza negativa quando 
positiva. Ao impor aos Estados a obrigação imediata de respeitar e 
assegurar os direitos nele previstos, diversamente do que ocorre 
com o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e 
Culturais, o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos 
apresenta auto-aplicabilidade. 
 
Quanto ao catálogo de direitos civis e políticos propriamente ditos 
assegurados, o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos não 
somente incorpora inúmeros dispositivos da Declaração Universal, 
com maior detalhamento, como também estende o elenco desses 
direitos. Constata-se que o pacto incorpora novos direitos e 
garantias não incluídos na Declaração. Em relação aos direitos 
econômicos, sociais e culturais assegurados pela Declaração 
Universal, esses não são assegurados pelo Pacto Internacional de 
Direitos Civis e Políticos, haja vista tratar-se do objeto do Pacto 
Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. 
 
O Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos apenas 
excepcionalmente admitem a derrogação temporária dos direitos 
que enuncia. A derrogação temporária fica condicionada aos 
estritos limites impostos pela decretação de estado de emergência, 
ficandoproibida qualquer medida discriminatória fundada em cor, 
raça, sexo, língua, religião ou origem social. O pacto permite, 
ainda, limitações em relação a determinados direitos, quando 
necessárias à segurança nacional ou à ordem pública. 
 
No intuito de assegurar a efetividade das determinações do Pacto 
Internacional de Direitos Civis e Políticos, foi desenvolvido uma 
sistemática peculiar de monitoramento e implementação 
internacional – uma special enforcement machinery. Deste modo o 
pacto oferece suporte institucional aos preceitos que consagra, 
impondo obrigações aos Estados-partes. Ao ratificar o pacto, o 
Estado passa a ter a obrigação de encaminhar relatórios periódicos 
sobre as medidas legislativas, administrativas e judiciárias adotadas, 
a fim de ver implementados os direitos enunciados pelo pacto. Por 
essa sistemática, o Estado-parte esclarece o modo pelo qual está 
conferido cumprimento às obrigações internacionais assumidas. Os 
relatórios são apreciados pelo Comitê de Direitos Humanos, 
instituído pelo pacto, devendo ser encaminhado pelo Estado-parte 
um ano após a ratificação do pacto, bem como toda vez que o 
comitê solicitar. Ao comitê cabe analisar os relatórios, tecendo 
comentários e observações gerais a respeito, vindo posteriormente a 
encaminhá-lo, com os comentários, ao Conselho Econômico Social 
das Nações Unidas. 
 
Além da sistemática dos relatórios, o Pacto prevê a sistemática das 
comunicações interestatais (inter-state communications). Por esse 
mecanismo, um Estado-parte pode alegar haver outro incorrendo 
em violação dos direitos humanos enunciados no Pacto. Contudo, o 
acesso a esse mecanismo é opcional e está condicionado à 
elaboração pelo Estado-parte de uma declaração em separado, 
reconhecendo a competência do Comitê para receber as 
comunicações inter-estatais. Vale dizer, em se tratando de cláusula 
facultativa, as comunicações inter-estatais só podem ser admitidas 
se ambos os Estados envolvidos ( denunciador e denunciado) 
reconhecerem a competência do Comitê para recebê-la e examiná-
las. O procedimento das comunicações inter-estatais pressupõe o 
fracasso das negociações bilaterais e o esgotamento dos recursos 
internos. A função do Comitê é auxiliar na superação da disputa, 
mediante proposta de solução amistosa. 
 
c) Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos 
Civis e Políticos 
 
 Conforme se afirmou no tópico anterior, o Pacto Internacional dos 
Direitos Civis e Políticos apresentou dois mecanismos de 
implementação e monitoramento: a sistemática dos relatórios 
encaminhados pelos Estados-partes e a sistemática, opcional, das 
comunicações interestatais. Segundo Antônio Augusto Cançado, o 
sistema de petições, “mediante o qual veio a cristalizar-se a 
capacidade processual internacional dos indivíduos (direito de 
petição individual), constitui um mecanismo de proteção de 
marcante significado, além de conquista de transcendência 
histórica”. 
 
A importância do Protocolo está em habilitar o Comitê de Direitos 
Humanos a receber e examinar petições encaminhadas por 
indivíduos, que aleguem ser vítimas de violação de direitos 
humanos enunciados pelo Pacto dos Direitos Civis e Políticos. A 
petição individual só poderá ser admitida se o Estado violador tiver 
ratificado tanto o Pacto como o Protocolo facultativo, já que só 
assim o Estado estará reconhecendo a competência do Comitê para 
tanto. Importa salientar que o Comitê possui uma competência 
investigativa, sendo limitado a receber e considerar comunicações 
de indivíduos sujeitos à jurisdição de Estados-partes, no sentido que 
são vítimas de violações por parte do Estado, de qualquer dos 
direitos enunciados no Pacto dos Direitos Civis e Políticos. 
 
Resta salientar que, para o exercício da sistemática das petições, o 
vínculo exigido, ao invés da nacionalidade, é antes o da relação 
entre o reclamante e o dano ou violação dos direitos humanos que 
denuncia, sendo certo que o Comitê já determinou que um 
indivíduo só pode ser considerado “vítima”, com direito para 
protocolar reclamação perante o Comitê, se pessoalmente sofreu a 
violação do direito assegurado. Contudo, embora na linguagem do 
Protocolo Facultativo a comunicação seja individual, recentemente 
concluiu que as comunicações podem ser encaminhadas por 
organizações ou terceiras pessoas que representem o indivíduo que 
sofreu a violação. Importa ter-se em foco que a petição deve 
respeitar alguns requisitos de admissibilidade, como, por exemplo, 
o esgotamento prévio dos recursos internos – salvo quando a 
aplicação desses recursos se mostram injustificadamente 
prolongada, ou ainda se não assegurar à vítima o direito aos 
recursos de jurisdição interna. Outro requisito é a comprovação de 
que a mesma questão não está sendo examinada por outra instância 
internacional. 
 
Ao receber a petição individual, o Comitê, após analisar a sua 
admissibilidade, abre o prazo de seis meses para que o Estado 
apresente esclarecimentos sobre o caso, bem como as medidas que 
eventualmente tenham sido por ele adotadas. Tais esclarecimentos 
serão encaminhados para o reclamante, a fim de que o mesmo possa 
enviar ao Comitê informações adicionais. A partir de então o 
Comitê proferirá uma decisão pelo voto da maioria, apesar de 
sempre buscar uma votação unânime. Essa decisão será publicada 
no relatório anual do Comitê à Assembléia Geral. Ao decidir, por 
vezes, além de declarar a caracterização da violação alegada, o 
Comitê determina a obrigação do Estado em reparar a violação 
cometida e em adotar as medidas necessárias a promover a estrita 
observância do Pacto. 
 
As decisões do Comitê não possuem força vinculante, não sendo 
sequer previsto qualquer sanção ao Estado que não cumprir as suas 
determinações. Embora não exista sanção no sentido estritamente 
jurídico, a condenação do Estado no âmbito internacional enseja 
conseqüências no plano político, mediante o chamado power of 
embarrassment, que pode causar constrangimento político e moral. 
Como resultado de fortes pressões, o Comitê adotou, em 1990, uma 
série de medidas no sentido de monitorar o modo pelo qual o 
Estado confere cumprimento às suas decisões. O Comitê solicita 
informações, no prazo de 180 dias, sobre as medidas adotadas em 
relação ao caso. Assim, o relatório anual do Comitê indicará os 
Estados que se negaram a responder a solicitação, os Estados que 
não satisfizeram a decisão, bem como os que satisfizeram a decisão 
do Comitê. Essas novas medidas foram denominadas de Special 
Rapporteur for the Follow-up of Views. Contudo, ainda é grande a 
resistência dos Estados em consentir que os indivíduos tenham o 
poder de encaminhar petições individuais. 
 
d) Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e 
Culturais 
 
Assim como o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, o 
maior objetivo do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, 
Sociais e Culturais foi incorporar os dispositivos da Declaração 
Universal sob a forma de preceitos juridicamente obrigatórios e 
vinculantes, além do que, da mesma forma que o Pacto de Direitos 
Civis e Políticos, ele expandiu o elenco dos direitos sociais, 
econômicos e culturais elencados pela Declaração Universal. 
Porém, enquanto o Pacto dos Direitos Civis e Políticos estabelece 
direitos endereçados aos indivíduos, o Pacto de Direitos 
Econômicos, Sociais e Culturais estabelece direitos e deveres 
endereçados aos Estados. O primeiro o pacto determina que “todos 
têm direito a...” ou “ninguém poderá...”, já o segundo pacto usa a 
fórmula “os Estados-partes reconhecem o direito de cada um a ....”. 
Se os direitoscivis e políticos devem ser assegurados de plano pelo 
Estado, sem escusa ou demora – têm a chamada auto-aplicabilidade 
– os direitos sociais, econômicos e culturais, por sua vez, nos 
termos em que estão concebidos pelo Pacto, apresentam realização 
progressiva. 
 
Como bem observa Thomas Buergenthal, “Ao ratificar esta Pacto, 
os Estados não se comprometem a atribuir efeitos imediatos aos 
direitos enumerados no Pacto. Ao revés, os Estados se obrigam 
meramente a adotar medidas, até o máximo dos recursos 
disponíveis, a fim de alcançarem progressivamente a plena 
realização desses direitos”. Os direitos assegurados no Pacto de 
Direitos Econômicos, Sociais e Culturais são direitos que exigem, 
para a sua aplicação, um mínimo standart técnico-econômico, não 
podendo ser aplicado sem que apresentem efetivamente uma 
prioridade na agenda nacional. Ressalte-se, todavia, que o Comitê 
Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais tem 
enfatizado o dever dos Estados-partes de assegurar, ao menos, o 
núcleo essencial mínimo relativo a cada direito enunciado no Pacto. 
 
O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais 
também apresentam uma peculiar sistemática de monitoramento e 
implementação dos direitos que contempla, incluindo o mecanismo 
dos relatórios a serem encaminhados pelos Estados-partes. Os 
relatórios exigidos pelo Pacto devem consignar as medidas 
adotadas pelo Estado-parte no sentido de conferir observância aos 
direitos reconhecidos pelo Pacto, devendo, ainda, consignar os 
fatores de dificuldade em implementar as obrigações decorrentes do 
Pacto. Diversamente do Pacto de Direitos Civis e Políticos, o Pacto 
de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais não cria um comitê 
próprio, que foi estabelecido posteriormente pelo Conselho 
Econômico Social. 
 
Uma outra diversidade do Pacto de Direitos Civis e Político, é que 
no Pacto Econômico, Social e Cultural, não há a previsão do 
mecanismo de comunicação inter-estatal, tampouco, mediante 
Protocolo Facultativo, permite a sistemática das comunicações 
individuais. Em suma, o único mecanismo de monitoramento 
continua a se restringir à sistemática dos relatórios, embora a 
Declaração de Viena tenha previsto a incorporação de outros 
métodos, como o direito de petição, por meio de protocolo 
adicional, e a aplicação de um sistema de indicadores para medir o 
progresso alcançado na realização dos direitos previstos no Pacto. 
 
Contudo, importa salientar que o Pacto estabelece a obrigação dos 
Estados de reconhecer e progressivamente implementar os direitos 
nele enunciados. Da obrigação da progressividade na 
implementação dos direitos econômicos, sociais e culturais, decorre 
a chamada cláusula de proibição do retrocesso social, na medida em 
que é vedado aos Estados retroceder no campo da implementação 
desses direitos. Além disso, pela ótica normativa internacional, os 
direitos econômicos, sociais e culturais não são direitos legais, mas 
sim autênticos e verdadeiros direitos fundamentais assegurados 
apenas pela Declaração Universal e pelo Pacto Internacional de 
Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, mas também por diversos 
outros tratados internacionais. 
 
A obrigatoriedade de implementação desses direitos deve partir do 
princípio da indivisibilidade dos direitos humanos, além do que, por 
trás dos direitos específicos consagrados nos documentos 
internacionais acolhidos pela comunidade internacional, repousa 
uma visão social do bem-estar individual. A idéia de proteção a 
estes direitos envolve a crença de que o bem-estar individual 
resulta, em parte, de condições econômicas, sociais e culturais, nas 
quais todos nós vivemos, bem como envolve a visão de que o 
Governo tem a obrigação de garantir adequadamente tais condições 
para todos os indivíduos. Trata-se de uma idéia adotada, pelo 
menos no âmbito global, por todas as nações, ainda que exista uma 
grande discórdia acerca do escopo apropriado da ação e 
responsabilidade governamental e da forma pela qual o social 
welfare pode ser alcançado em sistemas econômicos e políticos 
específicos. 
 
Em relação ao debate sobre a acionabilidade dos direito sociais, 
econômicos e culturais, compartilha-se do entendimento de que a 
insistência de que as Cortes são incompetentes para tratar de 
políticas sociais não deve prevalecer. As Cortes criam políticas 
sociais não apenas quando interpretam a Constituição, mas também 
quando interpretam a legislação de direito econômico, trabalhista, 
ambientalista, entre outros. Nos ensinamentos de Martha Jackman, 
“O Comitê já deixou claro que considera muitas previsões do Pacto 
[sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais] como aptas a 
ensejar a implementação imediata”. Contudo, continua, o Comitê “é 
importante, nesse aspecto, distinguir entre acionabilidade (que se 
refere àquelas questões que são apropriadamente resolvidas pelos 
tribunais) e normas que ao auto-executáveis (capazes de serem 
aplicadas pelo tribunais sem maior elaboração). Embora o perfil 
geral de cada ordenamento jurídico tenha que ser considerado, não 
há nenhum direito do Pacto [sobre direitos econômicos, sociais e 
culturais] que não poderia, na grande maioria dos ordenamentos, ser 
considerado como possuidor de, ao menos, algumas dimensões 
passíveis de acionabilidade”. Compartilha-se, pois, do 
entendimento de que os direitos fundamentais –sejam civis, 
políticos, econômicos, sociais ou culturais – são acionáveis e 
demandam séria e responsável observância. 
 
Sob o ângulo pragmático, independentemente da retórica, as 
violações de direitos civis e políticos têm sido consideradas mais 
sérias e intoleráveis do que a maciça e direta negação aos direitos 
econômicos, sociais e culturais. As violações aos direitos 
econômicos, sociais e culturais têm sido uma conseqüência da 
ausência de um forte suporte e intervenção governamental como da 
ausência de pressão internacional em favor dessa intervenção. É um 
problema de ação e prioridade governamental e implementação de 
políticas públicas, que sejam capazes de responder a graves 
problemas sociais. Acrescente-se que, segundo dados da própria 
Nações Unidas, a globalização econômica tem agravado ainda mais 
as desigualdades sociais, agravando as marcas da pobreza absoluta 
e da exclusão social. Até o próprio BIRD, em recente relatório, 
reconheceu que a pobreza tem crescido em virtude da globalização 
econômica. Fico, porém o alerta do Statement to the World 
Conference on Human Rights on Behalf of the Committee on 
Economic, Social and Cultural Rights, o qual concluiu que “(...) 
Direitos sociais, econômicos e culturais devem ser reivindicados 
como direitos e não como caridade ou generosidade”. 
 
e) Demais convenções de direitos humanos – breves 
considerações sobre o Sistema Especial de Proteção. 
 
Após o advento da International Bill of Rights, inúmeras outras 
Declarações e Convenções foram elaboradas, algumas sobre 
direitos novos, outros sobre determinadas violações e outros ainda 
sobre determinados grupos caracterizados como vulneráveis. A 
elaboração dessas inúmeras Convenções pode ser compreendida à 
luz do processo de “multiplicação de direitos”, para adotar a 
nomenclatura de Norberto Bobbio. Na visão de Bobbio, esse 
processo envolveu não apenas o aumento dos bens tutelados, mas 
também aumentou a titularidade de direitos, alargando o conceito 
de sujeito de direitos, incluindo os indivíduos, as entidades de 
classe, as organizações sindicais, os grupos vulneráveis e a própria 
humanidade. O processo de internacionalização dos direitos 
humanos, conjugado com o processo de multiplicação dessesdireitos, resultou um complexo sistema internacional de proteção, 
marcado pela coexistência de um sistema geral com um sistema 
especial de proteção. 
 
Os sistemas geral e especial são complementares na medida em que 
o sistema especial de proteção é voltado, fundamentalmente, à 
prevenção da discriminação ou proteção de pessoas ou grupos de 
pessoas particularmente vulneráveis, que merecem tutela especial. 
Daí se apontar não mais ao indivíduo genérica e abstratamente 
considerado, mas ao indivíduo “especificado”, considerando 
categorizações relativas ao gênero, idade, etnia, raça, etc. As 
convenções que integram o sistema especial são endereçadas a 
determinado sujeito de direito, ou seja, buscam responder a uma 
específica violação de direito. Enquanto no âmbito do International 
Bill of Rights o endereçamento é a toda e qualquer pessoa, o sujeito 
é visto em sua abstração, no sistema especial o objeto é a proteção 
de um sujeito ou grupo de sujeitos especificadamente reconhecidos. 
 
Na esfera internacional, sua primeira vertente de instrumentos nasce 
como vocação de proporcionar uma proteção geral, refletindo o 
próprio temor da diferença, que na era Hitler foi justificativa para o 
extermínio e a destruição. Percebe-se, posteriormente, a 
necessidade de conferir a determinados grupos uma tutela especial e 
particularizada, em face de sua própria vulnerabilidade. A diferença 
não seria mais utilizada para aniquilamento de direitos, mas sim 
para promoção de direitos. Destaca-se, assim, as três vertentes no 
que tange à concepção da igualdade: a) igualdade formal (“todos 
são iguais perante a lei”), que ao seu tempo foi crucial para o 
abolimento de privilégios; b) a igualdade material, corresponde ao 
ideal de justiça social e distributiva, orientada pelo critério sócio-
econômico; c) igualdade material, correspondente ao ideal de 
justiça enquanto ao reconhecimento de identidades, orientada pelos 
critérios gênero, orientação sexual, idade, raça, etnia e demais 
critérios. 
 
Boaventura de Sousa Santos, ao abordar o tema afirma o seguinte: 
“Temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos 
inferioriza; e temos o direito a ser diferentes quando a nossa 
igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade 
que reconheça as diferenças e de uma diferença não produza, 
alimente ou reproduza as desigualdades”. É nesse cenário que 
surgem as seguintes Convenções Internacionais sobre Direitos 
Humanos: Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as 
Formas de Discriminação Racial; Convenção Internacional sobre 
Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher; 
Convenção sobre os Direitos das Crianças; Convenção contra a 
Tortura; Convenção para a Prevenção e Repressão aos Crimes de 
Genocídio, dente outros. 
 
Essas Convenções mencionadas apresentam, em regra, como 
mecanismos de proteção dos direitos nelas enunciados a sistemática 
de relatórios a serem elaborados pelos Estados-partes. Por vezes 
apresenta o sistema de comunicação interestatais e o sistema de 
comunicação individual. Cada uma delas ainda prevê a instituição 
do órgão “Comitê”, que é responsável pelo monitoramento dos 
direitos constantes na Convenção. 
 
f) Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as 
formas de Discriminação Racial 
 
O ingresso de 19 países africanos nas Nações Unidas em 1960 e a 
preocupação dos países ocidentais com o ressurgimento de 
atividades nazifascistas na Europa, em razão da realização em 1961 
da Primeira Conferência dos Países Não-Aliados foram 
compuseram o panorama de influência para a adoção pela ONU, em 
21 de dezembro de 1965, da Convenção Internacional sobre a 
Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. Desde o 
seu preâmbulo, a Convenção em tela assinala a intolerância sobre 
qualquer doutrina que defenda a superioridade baseada na raça. 
Pala Convenção, a discriminação significa toda distinção, exclusão, 
restrição ou preferência que tenha por objeto ou resultado 
prejudicar ou anular o exercício, em igualdade de condições, dos 
direitos humanos ou liberdades fundamentais. Logo a discriminação 
significa desigualdade. Ao ratificar esta convenção, o Estado 
assume a obrigação internacional de, progressivamente, eliminar a 
discriminação racial, assegurando a efetiva igualdade. 
 
No combate à discriminação, mister, além do combate à própria 
discriminação, que seja implantada uma política de compensação 
que acelerem a igualdade. Não basta a legislação repressiva. São 
essenciais estratégias de inserção de grupos socialmente vulneráveis 
nos espaços sociais. A igualdade, buscada na Convenção, significa 
a inclusão social, enquanto a discriminação implica a violenta 
exclusão e a intolerância à diferença e à diversidade. A proibição 
em si mesmo não resulta automática inclusão. Por essas razões a 
Convenção prevê em seu art. 1º, §4º a possibilidade de 
discriminação positiva, também conhecidas como ações 
afirmativas. As ações afirmativas constituem medidas especiais e 
temporárias que, buscando remediar um passado discriminatório, 
objetivam acelerar o processo de igualdade, com o alcance da 
igualdade substantiva por parte de grupos socialmente vulneráveis. 
 
Em relação ao seu sistema de monitoramento, cabe ressaltar que 
esta convenção foi o primeiro instrumento jurídico internacional 
sobre direitos humanos a introduzir mecanismo próprio de 
supervisão. A Convenção instituiu o Comitê sobre a Eliminação da 
Discriminação Racial, cabendo a este examinar as petições 
individuais, os relatórios encaminhados pelos Estados-partes e as 
comunicações interestatais. Contudo, o sistema de petições 
individuais é cláusula facultativa, fazendo-se necessário que o 
Estado faça uma declaração habilitando o Comitê a recebê-las e 
examiná-las. Para que seja admitida a petição individual, além da 
habilitação do Comitê, a própria petição tem que responder a 
determinados requisitos, dentre eles o esgotamento prévio de 
recursos internos, requisito este que não é necessário quando os 
remédios internos se mostram ineficazes ou injustificadamente 
prolongados. O Comitê se utiliza do mesmo mecanismo do Comitê 
de Direitos Humanos: solicita esclarecimentos ao Estado violador e, 
à luz dessas informações, formula a sua opinião, fazendo 
recomendações às partes. Sua decisão também é destituída de força 
jurídica vinculante, contudo é publicada no relatório anual do 
Comitê, que é, por sua vez, encaminhado à Assembléia Geral das 
Nações Unidas. 
g) Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de 
Discriminação contra a Mulher 
 
Esta Convenção, aprovada pelas Nações Unidas em 1979, teve 
como impulso a proclamação do ano de 1975 como o Ano 
Internacional da Mulher e pela Conferência Mundial sobre a 
Mulher, ambos em 1975. Embora seja uma Convenção com ampla 
adesão dos Estados, a Convenção sobre a Eliminação de todas as 
formas de Discriminação contra a Mulher é o instrumento que 
recebeu o maior número de reservas formuladas pelos Estados 
dentre os tratados internacionais de direitos humanos. Um 
significado número de reservas está concentrado na cláusula 
relativa à igualdade entre homens e mulheres na família. Tais 
reservas foram justificadas com base em argumentos de ordem 
religiosa, cultural ou mesmo legal. Alguns países acusaram o 
Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher de 
praticar o imperialismo cultural e intolerância religiosa ao impor a 
igualdade ente homens e mulheres na família. 
 
A Convenção se fundamenta na dupla obrigação de eliminar a 
discriminação e de assegurar a igualdade. Tal como a Convenção 
sobre a Eliminaçãode todas as formas de Discriminação Racial, 
esta Convenção prevê a possibilidade de adoção das “ações 
afirmativas” como importante medida a ser adotada pelos Estados 
para acelerar o processo de obtenção da igualdade. São medidas 
compensatórias que têm como finalidade remediar as desvantagens 
históricas. Desse modo a Convenção não objetiva apenas erradicar 
todas as formas de discriminação contra a mulher, como também 
estimular a estratégia de promoção da igualdade. Ao ratificar esta 
convenção, o Estado assume o compromisso de, progressivamente, 
eliminar todas as formas de discriminação no que tange ao gênero, 
assegurando a efetiva igualdade. Em suma, a Convenção reflete a 
visão de que as mulheres são titulares de todos os direitos e 
oportunidades que os homens podem exercer; adicionalmente, as 
habilidades e necessidades que decorrem de diferenças biológicas 
entre os gêneros devem ser reconhecidas e ajustadas, mas sem 
eliminar das mulheres a igualdade de direitos e oportunidades. 
 
Importante observar que a Convenção não enfrenta a problemática 
da violência contra a mulher de forma explícita, embora a violência 
seja uma grave discriminação. A violência contra a mulher é 
concebida como um padrão de violência específico, baseado no 
gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico sexual ou 
psicológico à mulher. Tal preceito rompe com a equivocada 
dicotomia entre o espaço público e o privado no tocante à proteção 
dos direitos humanos, reconhecendo que a violação desses direitos 
humanos não se restringem à esfera pública, mas também alcança o 
domínio privado. A Declaração estabelece, ainda, que é obrigação 
do Estado eliminar qualquer violência contra a mulher, não 
invocando qualquer costume, tradição ou consideração religiosa 
para afastar tal responsabilidade. Com a Declaração e Programa de 
Viena (1993) e a Declaração e Plataforma de Pequim (1995), ao 
enfatizarem que os direitos da mulher são parte inalienável, integral 
e indivisível dos direitos humanos universais, concluí-se que não há 
como se conceber os direitos humanos sem a plena observância dos 
direitos das mulheres. 
 
Quanto aos mecanismos de monitoramento, a Convenção 
estabelece um Comitê próprio que tem a sua competência limitada a 
apreciação dos relatórios enviados pelos Estados-partes. O único 
mecanismo de monitoramento previsto pela Convenção reduz-se 
aos relatórios elaborados pelos Estados-partes. Apenas em 1999, 
com a adoção do Protocolo Facultativo à Convenção é que foi 
ampliada para receber e examinar petições individuais, bem como 
para realizar investigações in loco. Há a sugestão de ser adotado o 
mecanismo de comunicação interestal, que permitiria a um Estado-
parte a denunciar outro Estado que viesse a violar dispositivos da 
Convenção. 
h) Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas 
Cruéis Desumanos ou Degradantes. 
 
No art. 1º da Convenção há a definição de tortura, a qual envolve 
três elementos essenciais: a) inflição deliberada de dor ou 
sofrimento físicos ou mentais; b) a finalidade do ato (obtenção de 
informações ou confissões, aplicação de castigo, intimidação ou 
qualquer outro motivo baseado em discriminação de qualquer 
natureza); c)a vinculação do agente ou responsável, direta ou 
indiretamente, com o Estado. Ao longo da Convenção, são 
consagrados, dentre os direitos, a proteção contra atos de tortura e 
outras formas de tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes; o 
direito de não ser extraditado ou expulso para um país em que a 
probabilidade de sofrer tortura seja grande; o direito de que a 
denúncia de tortura seja examinada imparcialmente e o direito a não 
ser torturado para fins de obtenção de prova ilícita. Na Convenção 
há a previsão em seu art. 2ºde que “nenhuma circunstância 
excepcional, seja qual for, pode ser invocada como justificativa 
para a tortura”. 
 
Considerando que a tortura é um crime que viola o direito 
internacional, a Convenção estabelece a jurisdição compulsória e 
universal para os indivíduos suspeitos de sua prática. Compulsória 
porque obriga os Estados-partes a punir os torturadores, 
independente do território onde a violação tenha ocorrido e da 
nacionalidade do violador e da vítima. Universal porque o Estado–
parte onde se encontre o suspeito deverá processá-lo ou extraditá-lo 
para outro Estado-parte que o solicite e tenha o direito de fazê-lo, 
independentemente de acordo prévio bilateral sobre extradição. 
 
Em relação ao sistema de monitoramento, esta Convenção 
estabelece os três mecanismos, quais sejam, as petições individuais, 
os relatórios e as comunicações interestatais. Assim como na 
Convenção sobre a Eliminação da Discriminação Racial, esta exige 
que o Estado-parte faça uma deliberação habilitando o Comitê 
contra a Tortura a receber as comunicações individuais e as 
interestatais. A comunicação individual deve ter como fundamento 
a violação a direito reconhecido pela Convenção contra a Tortura e 
os critérios de admissibilidade da petição são similares aos adotados 
pelos demais Comitês. As suas decisões, igualmente às decisões dos 
demais Comitês, também são pautadas nas informações coletadas, 
sendo certo que, caso conclua pela existência de violação, solicitará 
ao Estado violador informações sobre as medidas adotadas no 
sentido de satisfazer cumprimento à decisão do Comitê. Importa 
observar, ainda, que, no que pese as decisões desses Comitês não 
terem força de decisão jurídica vinculante, têm efetivamente 
auxiliado o exercício dos direitos humanos reconhecidos no plano 
internacional, em face do chamado power of shame ou power os 
embarrassment. 
 
A diferença mais importante do Comitê contra a Tortura dos demais 
Comitês é que este tem ainda o poder de iniciar uma investigação 
própria, na hipótese de recebimento de informações que contenham 
fortes indicadores de que a prática de tortura seja sistemática em 
determinado Estado-parte. Acrescente-se que a Declaração de 
Viena recomenda a adoção de Protocolo Adicional à Convenção 
contra a Tortura, a fim de que se estabeleça um sistema preventivo 
de visitas periódicas a locais de detenção, para erradicar, de forma 
definitiva, a prática da tortura. 
 
i) Convenção sobre os Direitos da Criança 
 
A Convenção sobre os Direitos das Crianças, adotada pela ONU em 
1989 e vigente desde 1990, destaca-se como o tratado internacional 
de proteção aos direitos humanos com maior número de 
ratificações. Nos termos da Convenção, criança é definida como 
“todo ser humano com menos de 18 anos, a não ser que, pela 
legislação aplicável, a maioridade seja atingida mais cedo”. Os 
direitos assegurados pela Convenção contemplam tanto direitos 
civis e políticos, (como o direito de deixar qualquer país e de entrar 
em seu país, o direito de entrar e sair de qualquer Estado-parte para 
fins de reunião familiar) quanto direitos econômicos, sociais e 
culturais (como direito à liberdade de pensamento, consciência e 
religião, o direito a um nível adequado de vida e segurança social). 
Neste sentido lecionou Henry Steiner e Philip Alston, para quem “a 
Convenção é extraordinariamente abrangente em escopo. Ela 
abarca todas as áreas tradicionalmente definidas no campo dos 
direitos humanos – civis, políticos, econômicos, sociais e culturais. 
Ao fazê-lo, contudo, a Convenção evitou a distinção entre as áreas 
e, contrariamente, assumiu a tendência de enfatizar a 
indivisibilidade , implementação recíproca e a igual importância de 
todos os direitos”. 
 
Note-se que a Conferência de Viena, ao insistir no objetivo da 
“ratificação universal” e sem reservas dos tratados e protocolos de 
direitos humanosadotados no âmbito das Nações Unidas, urge a 
ratificação universal da Convenção sobre os Direitos da Criança e 
sua efetiva implementação por todos os Estados-partes, mediante a 
adoção de todas as medidas necessárias à sua efetiva 
implementação, inclusive com a alocação do máximo possível de 
recursos disponíveis. Afirma ainda a Declaração de Viena que a 
não-discriminação e o interesse superior das crianças devem ser 
consideradas fundamentais em todas as atividades dirigidas à 
infância, levando, na devida consideração, a opinião dos 
interessados. 
 
 Vale ressaltar que, no tocante à exploração econômica e sexual de 
crianças e à participação destas em conflitos armados, foram 
adotados, em 15 de maio de 2000, dois Protocolos Facultativos à 
Convenção dos Direitos da Criança: o Protocolo Facultativo sobre a 
Venda de Crianças, Prostituição e Pornografia Infantis e o 
Protocolo Facultativo sobre o Envolvimento de Crianças em 
Conflitos Armados. Esses protocolos visam fortalecer o rol de 
medidas protetivas contra as violações sobre as quais discorrem. 
 
Quanto ao mecanismo de controle e fiscalização dos direitos 
enunciados na Convenção, é instituído o Comitê sobre os Direitos 
da Criança, ao qual cabe monitorar a implementação da Convenção, 
por meio do exame de relatórios periódicos encaminhados pelos 
Estados-partes. Não há a previsão de petições individuais nem de 
comunicações interestatais, sendo certo que o único meio de 
monitoramento é realmente os relatórios periódicos. Os Protocolos 
Facultativos sobre a Prostituição Infantil e sobre o Conflitos 
Armados apresentam a mesma sistemática, exigindo que os 
Estados-partes apresentem relatórios ao Comitê sobre Direitos da 
Criança, fornecendo informações sobre as medidas para a 
implementação desses Protocolos. O Comitê fica autorizado, ainda, 
a requerer, no que concerne à matéria dos Protocolos, maiores 
informações sobre aquelas implementações. 
 
j) O Tribunal Penal Internacional e a Convenção para a 
Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio 
 
Como pôde ser comprovado por meio das Convenções já 
analisadas, no sistema global inexiste qualquer órgão jurisdicional 
com competência específica para julgar casos de violação de 
direitos internacionalmente assegurados. Apenas em 17 de julho de 
1998, em Roma, com a aprovação do Estatuto do Tribunal Penal 
Internacional, o sistema global passou a contemplar um órgão 
internacional penal competente para julgar os crimes mais graves 
que atentem contra a ordem internacional. Porém, para a análise do 
Tribunal do Tribunal Penal Internacional, é necessário uma análise 
anterior da Convenção para a Prevenção e Repressão do Genocídio. 
 
Pode-se afirmar que a Convenção para a Prevenção e Repressão do 
Genocídio foi o primeiro tratado internacional de direitos humanos 
aprovado no âmbito da ONU, datado de 9 de dezembro de 1948. A 
Convenção teve como principal motivador as atrocidades cometidas 
durante a Segunda Guerra Mundial, principalmente os genocídios 
cometidos contra os judeus. O art. 2º da Convenção entende por 
genocídio “qualquer dos seguintes atos, cometidos com a intenção 
de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial 
ou religioso, tal como: a) assassinato de membros do grupo; b) dano 
grave a integridade física ou mental de membros do grupo; c) 
submissão intencional do grupo a condições de existência que lhe 
ocasionem a destruição física total ou parcial; d) medidas 
destinadas a impedir o nascimento no seio do grupo; e) 
transferência forçada de crianças de um grupo para outro grupo. 
 
Acrescenta a Convenção que as pessoas que tiverem cometido 
genocídio serão punidas, sejam governantes, funcionários ou 
particulares. Pelo seu art. 6º, desde 1948 era previsto a competência 
de uma Corte Internacional para o julgamento dos crimes de 
genocídio. O raciocínio era simples: considerando que o genocídio 
era um crime que, por sua gravidade, afronta a ordem internacional, 
e considerando ainda que, em face de seu alcance, as instituições 
nacionais poderiam não ser capazes de processar e julgar seus 
perpetradores, seria razoável atribuir a uma corte internacional a 
competência para fazê-lo. Importante notar que a Convenção para a 
Prevenção e Repressão ao Genocídio, diferentemente dos demais 
tratados internacionais de direitos humanos, não estabeleceu um 
sistema próprio de monitoramento. 
 
Como precedentes históricos da criação da Corte Penal 
Internacional, há que se destacar os Tribunais de Nuremberg e de 
Tóquio, além dos Tribunais as hoc da Bósnia e da Ruanda, 
constituídos por resolução do Conselho de Segurança da ONU, em 
1993 e 1994, respectivamente. A importância de um sistema 
internacional de justiça para o julgamento de graves violações de 
direitos humanos foi também enfatizada pelo Programa de Ação de 
Viena de 1993. Note-se que a importância da criação de uma 
jurisdição internacional para os graves crimes contra os direitos 
humanos foi revigorada na década de 90, em face dos genocídios 
que a marcaram, como por exemplo nos conflitos da Bósnia, Timor 
Leste, Ruanda, Kosovo, dentre outros. 
 
A respeito da criação de uma jurisdição internacional, observa 
Norberto Bobbio que as atividades internacionais de direitos 
humanos podem ser classificadas em três categorias: promoção, 
controle e garantia. As atividades de promoção são as atividades 
correspondentes às ações destinadas ao fomento e ao 
aperfeiçoamento do regime de direitos humanos pelos Estados. Já 
as atividades de controle envolvem as que cobram dos Estados a 
observância das obrigações por eles contraídas internacionalmente. 
Por fim, a atividade garantia só será criada quando uma jurisdição 
internacional se impuser concretamente sobre as jurisdições 
nacionais, deixando de operar dentro dos Estados, mas contra os 
Estados em defesa dos cidadãos. Neste sentido, conclui-se que, até 
a aprovação do Estatuto do tribunal Penal Internacional, o sistema 
global de proteção só compreendia as atividades de promoção e de 
controle dos direitos humanos, não dispondo de um aparato de 
garantias desses direitos. 
 
Após 50 anos da aprovação da Convenção para a Prevenção e 
Repressão ao Genocídio, tratado que já previa a adoção de uma 
Corte Penal Internacional, em 17 de julho de 1998, foi aprovado na 
Conferência de Roma o Estatuto da Corte Penal Internacional, de 
caráter permanente, independente e vinculado ao sistema das 
Nações Unidas. A Corte Penal Internacional surgiu como aparato 
complementar às cortes internacionais. Desse modo, a 
responsabilidade primária, com relação ao julgamento de violação 
de direitos humanos, é do Estado, tendo a comunidade internacional 
a responsabilidade subsidiária, ficando, pois, condicionada a 
incapacidade ou omissão do sistema judicial interno. 
O Tribunal Penal Internacional é integrado por 18 juízes com 
mandatos de 9 anos, sendo composto pelos seguintes órgãos: a) 
Presidência (responsável pela administração); b) Câmaras 
(divididas em Câmara de Questão Preliminar, Câmara de Primeira 
Instância e Câmara de Apelação); c) Promotoria (órgão autônomo 
do Tribunal, competente para receber as denúncias sobre crimes, 
examiná-las, investigá-las e propor ação penal junto ao Tribunal); 
d) Secretaria (encarregada de aspectos não judiciais do Tribunal). 
Conforme o art. 5º do Estatuto de Roma, o Tribunal Penal 
Internacional é competente para julgar os seguintes crime: I) crime 
de genocídio (conforme conceituado no art. 2º da Convenção para a 
Prevenção e Repressão ao Genocídio); II) crimes contra a 
humanidade; III) crimes de guerra (violações ao direito 
internacionalhumanitário, especialmente às Convenções de 
Genebra de 1949) e IV) crimes de agressão (ainda pendente de 
definição). 
 
O exercício da jurisdição internacional pode ser acionado mediante 
a denúncia de um Estado-parte ou do Conselho de Segurança à 
Promotoria, a fim de que esta investigue o crime, propondo a ação 
pena cabível. Pode, ainda, a própria Promotoria agir de ofício. Em 
todas as hipóteses, o exercício da jurisdição é condicionada à 
adesão do Estado ao tratado, ou seja, é necessário que o Estado 
reconheça expressamente a jurisdição internacional. Note-se que a 
ratificação do tratado não comporta reservas, devendo o Estado 
ratificá-la na íntegra. Como a jurisdição internacional é 
complementar à jurisdição nacional, o Estatuto de Roma prevê os 
requisitos de admissibilidade para o exercício de jurisdição 
internacional. Dentre os requisitos de admissibilidade estão a 
indisposição do Estado (ou seja, quando houver demora 
injustificada ou faltar independência ou imparcialidade no 
julgamento interno) ou a incapacidade em proceder a investigação e 
o julgamento do crime. 
 
Em relação às penalidades, o Estatuto prevê como penalidade 
máxima a prisão por 30 anos, admitindo excepcionalmente a prisão 
perpétua. Além da sanção de natureza penal, o Estatuto impõe 
sanções de natureza civil, determinando a reparação às vítimas e 
aos seus familiares. Importante observar que o Estatuto faz 
referência à existência de igualdade entre todas as pessoas, isto é, o 
cargo oficial de uma pessoa, seja ela Chefe de Estado ou Chefe de 
Governo, não o eximirá da responsabilidade penal, tampouco 
importará em redução da pena. 
 
k) Mecanismos globais não convencionais de proteção dos 
direitos humanos 
 
Além dos mecanismos tradicionais de proteção aos direitos 
humanos, já mencionados, são utilizados outros mecanismos não 
convencionais decorrentes de resoluções elaboradas pelos órgãos 
criados pela Carta das Nações Unidas, como a Assembléia Geral, o 
Conselho Econômico, Social e a Comissão de Direitos Humanos, 
entre outros. Neste tópico tratar-se-á especificamente da a 
Comissão de Direitos Humanos, haja vista esta comissão ocupar 
posição central no sistema não convencional de proteção aos 
direitos humanos. Porém, antes de adentrarmos no estudo da 
Comissão de Direitos Humanos, mister fazer-se a diferenciação 
entre os sistemas convencionais e não-convencionais de proteção 
aos direitos humanos, a fim de se elucidar as vantagens e 
desvantagens de cada sistema. 
 
O sistema convencional caracteriza-se por possuir uma clientela 
limitada aos Estados-partes da convenção em questão, um número 
limitado de procedimentos para lidar com as violações; uma 
preocupação particular com o desenvolvimento de um 
entendimento normativo dos direitos relevantes; e um processo 
decisório baseado preferencialmente no consenso. Já o sistema não-
convencional, em contraste, geralmente focalizam-se em uma gama 
diversificadas de temas, insistem que todos os países são clientes 
em potencial e engajam-se, em último caso, em ações conflitantes 
no tocante aos Estados; pautam-se mais fortemente nas informações 
fornecidas pelas ONG’s e na opinião pública para assegurar a 
efetividade de seu trabalho; concedem pouca atenção às questões 
normativas e são reticentes em estabelecer estruturas 
procedimentais específicas, preferindo uma aproximação ad hoc na 
maioria das situações. 
 
Nesta linha, a escolha de mecanismos não convencionais, 
ilustrativamente, poder-se-ia pautar na inexistência de convenções 
específicas sobre direito violado, na ausência de ratificação pelo 
Estado-violador de uma convenção determinada ou na existência de 
forte opinião pública favorável à adoção de medidas de combate à 
violação. Já a escolha de mecanismos convencionais poder-se-ia 
pautar-se na efetiva ratificação de uma convenção específica pelo 
Estado-violador, na ausência de vontade política dos membros da 
Comissão em adotar medidas contra as violações cometidas por 
determinado Estado, na intenção de construir precedentes 
normativos ou na inexistência de opinião pública suficientemente 
forte para legitimar um procedimento de elevada natureza política, 
como são os procedimentos adotados pela Comissão de Direitos 
Humanos. 
 
Adentrando, agora, no tema do tópico, mais precisamente no estudo 
da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, cumpre 
assinalar, primeiramente, a sua composição integrada por 53 
membros que são eleitos para mandados de três anos pelo Conselho 
Econômico Social. O Brasil obteve mandatos sucessivos de 1978 a 
1998, sendo novamente eleito em 2000. A Comissão foi criada com 
a competência genérica de atuar em quaisquer questões afetas a 
direitos humanos. Na consideração dos casos em que a comissão 
possui competência, ela tem seguindo basicamente dois 
procedimentos, o 1235 e o 1503. 
 
O Procedimento 1235 autorizou a Comissão de Direitos Humanos e 
a Subcomissão sobre Prevenção contra a Discriminação e a 
Proteção de Minorias, hoje denominada de Subcomissão para a 
Promoção e para a Proteção de Direitos Humanos, a examinarem 
informações referentes a violações sistemáticas a direitos humanos. 
Atualmente essa autorização serve tanto de base para a realização 
de um debate público anual (em que organizações não 
governamentais e governos têm a oportunidade de indicar situações 
que entendem serem relevantes para a análise da Comissão e da 
Subcomissão), como para a investigação e a análise de casos 
específicos pela Comissão e pela Subcomissão. A análise dos casos 
pode ensejar, entre outras medidas, a indicação de serviços de 
aconselhamento ao Estado, a adoção de uma resolução 
determinando que o Estado apresente informações ou até o 
requerimento ao Conselho de Segurança para que este estude o caso 
e adote eventuais sanções. 
 
Já o Procedimento 1503 foi criado com a finalidade de examinar 
comunicações relacionadas com violações sistemáticas a direitos 
humanos. Foi criado um Grupo de Trabalho sobre Comunicações 
encarregados de selecionar, segundo critérios de admissibilidade, as 
comunicações que seriam encaminhadas para o Grupo de Trabalho 
sobre Situações. É este último grupo o responsável pela análise dos 
casos, pela elaboração de recomendações e pela decisão de 
submeter ou não os casos à Comissão de Direitos Humanos. 
Preenchido os requisitos de admissibilidade e encaminhado o 
relatório pelo Grupo de Trabalho e Situações à Comissão de 
Direitos Humanos, esta pode adotar uma das seguintes medidas: a) 
cancelar o estudo sobre a situação determinada; b) manter a 
situação sob análise, requerendo ao Estado envolvido maiores 
informações; c) apontar um especialista independente; ou e) canelar 
o estudo da situação sob a Resolução n. 1503 e iniciar um 
procedimento sob a Resolução n. 1235. 
Fundamentalmente, há três críticas a serem efetuadas à Resolução 
n. 1503. Primeiramente se atém ao caráter sigiloso do seu 
procedimento, em que a única situação em que é excepcionado é na 
divulgação dos nomes dos Estados que estão sendo investigados e 
dos que deixaram de ser analisados. A segunda crítica é sobre o fato 
de que a Comissão tem-se restringido quase que absolutamente ao 
exame de violações de direitos civis e políticos, embora não haja na 
Resolução 1503 qualquer exceção feita à análise dos direitos sociais 
e econômicos. Por fim a terceira crítica enfatiza que não apenas as 
violações sistemáticas dos direitos humanos devem ser respondidas, 
mas também as violações graves que não sejam sistemáticas. 
 
Tanto o procedimento 1235 quanto o procedimento 1503 podem 
envolver a indicação, pelaComissão de Direitos Humanos, de um 
relator especial com mandato para países específicos, possuindo, 
ainda a Comissão a atribuição de designar relatores temáticos ou 
grupos de trabalho com a missão de examinar determinadas 
violações de direitos humanos.Vários foram os mecanismos 
temáticos criados, contudo, embora essa proliferação de novos 
mecanismos visem facilitar a solução de casos envolvendo 
violações, procurando evitar a intransigência política de órgãos 
eventualmente existentes, a proliferação desses mecanismos tem 
resultado uma série de problemas tangentes a recursos financeiros e 
humanos inadequados à sobreposição de mandados, à insuficiência 
de coordenação e à diluição da pressão sobre os governos. Um bom 
exemplo das falhas desses novos mecanismos foi a situação do 
primeiro mecanismo temático, estabelecido em 1980, a fim de se 
apurar o desaparecimento forçado na Argentina. Houve uma grande 
resistência estabelecida por alguns países para a nomeação de um 
relator, resistência esta que teve como motivo os interesses 
comerciais e o medo de ser o próximo país da lista. 
 
Importante ressaltar que os mecanismos não-convencionais 
envolvem medidas urgentes de proteção de caráter essencialmente 
preventivo. Embora mais comumente utilizadas nos mecanismos 
temáticos, as medidas urgentes são, por vezes, requeridas em 
procedimentos envolvendo a indicação de relatores especiais para 
países determinados. Quando o mecanismo temático refere-se a 
execuções arbitrárias, o relator especial transmite a apelação aos 
governos, mesmo nos casos em que não tenham sido exauridos os 
remédios internos, para que seja efetivada a proteção buscada. 
 
O sistema global de proteção aos direitos humanos consiste, 
portanto, em mecanismos convencionais e não convencionais, que 
apresentam características consideravelmente diversas. Essas 
características podem ser usadas na escolha do melhor instrumento 
internacional para cada caso específico, levando em consideração 
ser ou não o Estado-violador parte de uma convenção determinada, 
haver ou não suficiente pressão política para sensibilizar órgãos de 
proteção essencialmente políticos, existir ou não em construir 
precedentes normativos. O reconhecimento de vantagens a essa 
possibilidade de escolha não retira a identificação falhas em ambos 
casos, como por exemplo a inexistência de comunicação individual 
em alguns sistemas de proteção convencional, além da imposição 
de confidencialidade ao procedimento n. 1503, no sistema não-
convencional. Porém não há como se negar a evolução e eficácia 
dos procedimentos globais de proteção aos direitos humanos. 
 
 
CAPÍTULO VII – ESTRUTURA NORMATIVA DO 
SISTEMA REGIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS 
HUMANOS – O SISTEMA INTERAMERICANO. 
 
a) Introdução 
 
O sistema internacional de proteção dos direitos humanos apresenta 
diferentes âmbitos de aplicação, por isso fala-se em sistema global e 
regional de proteção dos direitos humanos. Todos os instrumentos 
analisados no capítulo anterior fazem parte do sistema global de 
proteção, sendo certo que seu campo de incidência do aparato 
global não se limita a determinada região, podendo, em tese, 
alcançar qualquer Estado na ordem internacional, a depender da 
autorização do Estado no que se atém aos instrumentos 
internacionais de proteção. Ao lado do sistema global, surge o 
sistema regional, particularmente na Europa, América e África. 
 
Ao apontar as vantagens do sistema regional, Rhona K. M. Shimth 
destaca que, “na medida em que um número menor de Estados está 
envolvido, o consenso político se torna mais facilitado, seja com 
relação aos textos convencionais, seja quanto aos mecanismos de 
monitoramento. Muitas regiões são ainda homogêneas, com 
respeito à cultura, à língua, às tradições, o que oferece vantagens”. 
Consolida-se, assim, a conveniência do sistema global com 
instrumentos do sistema regional de proteção, integrado, 
atualmente, pelo sistema interamericano, europeu e africano de 
proteção aos direitos humanos, existindo, ainda, um incipiente 
sistema árabe e a proposta de criação de um sistema regional 
asiático. 
 
Cada sistema regional de proteção apresenta um aparato jurídico 
próprio. O sistema interamericano apresenta como principal 
instrumento a Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969, 
que estabelece a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a 
Corte Interamericana. No sistema europeu, em 1950, foi criada a 
Convenção Européia de Direitos Humanos, que estabeleceu 
originariamente a Comissão e a Corte Européia de Direitos 
Humanos, havendo a fusão dos dois órgãos em 1998 com a 
finalidade de haver uma maior justicialização do sistema europeu. 
Já o sistema africano apresenta como principal instrumento a Carta 
Africana dos Direitos Humanos e dos Povos de 1981, que 
estabelece a Comissão Africana de Direitos Humanos, sendo criada 
posteriormente a Corte Africana de Direitos Humanos. Dos três, o 
sistema europeu é o mais antigo e mais eficiente, vez que estabelece 
um mecanismo judicial compulsório para apreciar as comunicações 
individuais por meio da jurisdição da Corte Européia. O mais 
incipiente é o sistema africano, já que África apresenta uma recente 
história de regimes opressivos e graves violações aos direitos 
humanos. 
 
Quanto à conveniência de se adotar o sistema global e/ou o 
regional, relatório produzido pela Commission to Study the 
Organization of Peace acentua que o sistema global e o regional 
para a promoção e proteção dos direitos humanos não são 
necessariamente incompatíveis, pelo contrário. Ambos são úteis e 
complementares. Ambos podem ser conciliados em uma base 
funcional, haja vista que o conteúdo de ambos deve ser similar em 
princípios e valores, refletindo a Declaração Universal dos Direitos 
Humanos, que é proclamada como um código comum a ser 
alcançado por todos os povos. O instrumento global deve conter um 
parâmetro normativo mínimo, enquanto o instrumento regional 
deve ir além, adicionando novos direitos, aperfeiçoando outros, 
levando em consideração as diferenças peculiares de uma mesma 
região ou entre uma região e outra. Os sistemas globais e regionais 
não são dicotômicos, mas sim complementares. 
 
Ante esse universo de instrumentos internacionais, cabo ao 
indivíduo que sofreu a violação a escolha do instrumento que lhe é 
mais favorável, tendo em vista que, eventualmente, o mesmo direito 
pode ser assegurado por dois ou mais instrumentos de alcance 
regional ou global. Esta é uma conseqüência da primazia da norma 
mais favorável à vítima, que rege o sistema de proteção dos direitos 
humanos. O propósito da existência de distintos instrumentos 
jurídicos garantindo o mesmo direito é ampliar e fortalecer a 
proteção aos direitos humanos. O que importa é o grau de eficácia 
da proteção, por isso deve ser aplicada a norma que no caso 
concreto que melhor proteja a vítima. Na explicação de Henry 
Steiner sobre conflitos entre normas internacionais globais e 
regionais, “hoje não tem havido grandes conflitos de interpretação 
entre os regimes regionais e o regime das Nações Unidas. 
Teoricamente, os conflitos devem ser evitados mediante a aplicação 
das seguintes regras: 1) os parâmetros da Declaração Universal e de 
qualquer outro tratado das Nações Unidas acolhido por um país 
devem ser respeitados; 2) os parâmetros dos direitos humanos que 
integram os princípios gerais de Direito Internacional devem ser 
também observados; 3) quando os parâmetros conflitam, o que for 
mais favorável à vítima deve prevalecer”. 
 
b) Breves considerações sobre a Convenção Americana de 
Direitos HumanosO instrumento mais importante no sistema internacional é a 
Convenção Americana de Direitos Humanos, também conhecida 
como Pacto de San José da Costa Rica, assinado em 1969 e entrou 
em vigor em 1978. Apenas Estados membros da Organização dos 
Estados Americanos têm o direito de aderir à Convenção. 
Substancialmente, ela assegura a um catálogo de direitos civis e 
políticos similar ao previsto no Pacto Internacional de Direitos 
Civis e Políticos. A Convenção Americana não enuncia de forma 
específica qualquer direito social, cultural ou econômico, limitando 
a determinar aos Estados que alcancem, progressivamente, a plena 
realização dos direitos, mediante a adoção de medidas legislativas e 
outras que se mostrem apropriadas. Posteriormente, em 1998, a 
Assembléia da Organização Geral dos Estados Americanos adotou 
um Protocolo Adicional à Convenção, concernente aos direitos 
sociais, econômicos e culturais. 
 
Em face ao catálogo de direitos assegurados pela Convenção 
Americana, cabe ao Estado-parte a obrigação de respeitar e 
assegurar o livre e pleno exercício desses direitos e liberdades, sem 
qualquer discriminação. Cabe ainda ao Estado-parte adotar todas as 
medidas legislativas e de outras naturezas enunciados. Um governo 
possui obrigações positivas e negativas relativas à Convenção 
Americana. De um lado há a obrigação de não violar direitos e 
liberdades dos indivíduos, e de outro, superando essa obrigação 
negativa, a obrigação de adotar medidas necessárias e razoáveis 
para assegurar o pleno exercício dos direitos garantidos pela 
Convenção Americana. A convenção Americana estabelece um 
aparato de monitoramento e implementação dos direitos que 
enuncia, a aparato esse integrado pela Comissão Internacional de 
Direitos Humanos e pela Corte Interamericana. 
 
c) A Comissão Interamericana de Direitos Humanos 
 
A competência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos 
alcança tanto os Estados-partes da Convenção Americana, em 
relação aos direitos nela consagrado, como aos Estados membros da 
Organização dos Estados Americanos, em relação aos direitos 
consagrados na Declaração Americana de 1948. A Comissão é 
composta por sete membros eleitos a título pessoal para um 
mandato de quatro anos, podendo ser reeleito apenas uma vez. 
 
A principal função da Comissão Interamericana é promover a 
proteção dos direitos humanos na América. Para tanto, cabe à 
Comissão fazer recomendações aos governos dos Estados 
membros, prevendo a adoção de medidas adequadas à proteção dos 
desses direitos; preparar estudos e relatórios que se mostrem 
necessários; solicitar aos governos informações relativas às medidas 
por eles adotadas concernentes à efetiva aplicação da Convenção; e 
submeter um relatório anual à Assembléia Geral da Organização 
dos Estados Americanos. 
 
Na lição de Mônica Pinto sobre os relatórios produzidos pela 
Comissão Interamericana de Direitos Humanos, “diversamente do 
que ocorre no âmbito universal, em que o sistema de informes é um 
método de controle regular, que consiste na obrigação dos Estados-
partes em um tratado de direitos humanos de comunicar ao 
competente órgão de controle o estado de seu direito interno em 
relação aos compromissos assumidos em decorrência do tratado e a 
prática que tem se verificado com respeito às situações 
compreendidas no tratado, no sistema interamericano, os informes 
são elaborados pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 
Além de se constituir em um método para determinar atos, precisar 
e difundir a objetividade de uma situação, os informes da Comissão 
servem para modificar a atitude de Governos resistentes à vigência 
de direitos humanos, através do debate interno que eles 
proporcionam ou, a depender do caso, do debate internacional. A 
CIDH elabora dois tipos de informes: um sobre a situação dos 
direitos humanos em determinado país e outro que encaminha 
anualmente à Assembléia da OEA. Os informes sobre a situação 
dos direitos humanos em um Estado membro da OEA são decididos 
pela própria Comissão, ante situações que afetem gravemente a 
vigência dos direitos humanos. (...) Por outro lado, os informes 
anuais para a Assembléia Geral da OEA atualizam a situação dos 
direitos humanos em distintos países, apresentam o trabalho da 
Comissão, elencam as resoluções adotadas com respeito a casos 
particulares e revelam a opinião da Comissão sobre as áreas nas 
quais é necessário redobrar esforços e propor novas normas”. 
 
Conforme Hector Fix-Zamudio, de acordo com César Sepúlveda, 
atual presidente da Comissão Interamericana, a mesma realiza as 
seguintes funções: a) conciliadora, entre um Governo e grupos 
sociais que vejam violados os direitos de seus membros; b) 
assessora, aconselhando os governos a adotar medidas adequadas 
para promover os direitos humanos; c) crítica, ao informar sobre a 
situação dos direitos humanos em um Estado membro da OEA; d) 
legitimadora, quando um Governo, em decorrência do resultado de 
um informe da Comissão acerca de uma visita ou exame, decide 
reparar as falhas de seus processos internos e sanar as violações; e) 
promotora, ao efetuar estudos sobre o tema de direitos humanos, a 
fim de promover seu respeito; f) protetora, quando além das 
atividades anteriores, intervém em casos urgentes para solicitar ao 
Governo, contra o qual se tenha apresentado queixa, que suspenda a 
sua ação e informe sobre os atos praticados. 
 
Além do que foi descrito, é também competência da Comissão 
examinar as comunicações encaminhadas por indivíduos ou grupos 
de indivíduos, ou ainda entidades não governamentais, que 
contenham denúncias de violação a direito consagrado pela 
Convenção. Conforme ensina Thomas Buerguenthal, diversamente 
do que ocorre com outros tratados internacionais de proteção aos 
direitos humanos, na Convenção Interamericana não apenas as 
vítimas das violações são legítimas a apresentar a comunicação, 
podendo ser feita também por qualquer pessoa ou grupo de pessoas 
e certas organizações não governamentais. Observe-se que outra 
diferença dos demais tratados internacionais de proteção aos 
direitos humanos consiste no fato de que a Convenção 
Interamericana estabelece que o Estado ao se tornar parte aceita 
automaticamente e obrigatoriamente a competência da Comissão 
para examinar essas comunicações, não se fazendo necessária a 
elaboração de declaração expressa e específica para tal fim. 
 
A petição, como ocorre nos sistemas globais, deve apresentar 
alguns requisitos de admissibilidade, como, por exemplo, o prévio 
esgotamento dos recursos internos, salvo no caso de injustificada 
demora processual, ou no caso de a legislação doméstica não 
promover o devido processo legal. Sendo caso de injustificada 
demora ou de a legislação interna não promover o devido processo 
legal, é ônus da suposta vítima provar tais pressupostos de 
admissibilidade. Um outro requisito de admissibilidade é a 
inexistência de litispendência internacional, ou seja, a mesma 
questão não pode estar pendente em outra instância internacional. 
 
A tramitação das denúncias podem ser divididas em duas partes: a 
primeira se refere aos requisitos de admissibilidade e a segunda na 
observância do contraditório. Após a análise dos requisitos de 
admissibilidade, a Comissão examinar as alegações do peticionário, 
buscar informações do respectivo governo, investigar o fato e 
assegurar a oitiva tanto do peticionário quanto do governo. Caso, 
após a investigação a Comissão conclua que um dos requisitos de 
admissibilidade não foi observado, ela pode rejeitar o caso que, em 
retrospecto, nunca deveria ter sido recebido. Porém,após a 
investigação, sendo observado todos os casos de admissibilidade, a 
Comissão julgará o mérito. 
 
Feito o exame do caso, a Comissão buscará uma solução amistosa. 
Se alcançado o acordo, será elaborado um informe que será 
transmitido ao peticionário ao Estado-parte, sendo comunicado 
posteriormente à Secretaria da Organização dos Estados 
Americanos para publicação. Não sendo alcançado o acordo, a 
Comissão redigirá um relatório com os fatos e as conclusões 
pertinentes ao caso e, eventualmente, recomendações ao Estado-
parte, sendo certo que este terá o prazo de três meses para cumprir 
as recomendações feitas. Durante esse período, o caso pode ser 
solucionado pelas partes ou encaminhado à Corte Internacional de 
Direitos Humanos. Observe-se que o encaminhamento à Corte só 
pode ser feito pelos Estados-partes ou pela Comissão Interamerica, 
não sendo possível o encaminhamento pelo indivíduo. Se durante 
esse prazo o caso não for solucionado nem remetido à Corte, a 
Comissão, por maioria absoluta de votos, poderá emitir a sua 
própria opinião e conclusão. A Comissão fará as recomendações 
pertinentes e fixará um prazo para que o Estado tome as decidas 
providências. Vencido o prazo, a Comissão decidirá por maioria 
absoluta se as medidas recomendadas foram adotadas pelo Estado e 
se publicará o informe por ela elaborado no relatório anual de suas 
atividades. 
 
Em conformidade com o novo Regulamento da Comissão 
Interamericana, adotada em 1º de maio de 2001, em seu art. 44, se a 
Comissão considerar que o Estado não cumpriu com as 
recomendações do informe aprovado, o caso será submetido à Corte 
Interamericana, salvo decisão da maioria absoluta dos membros da 
Comissão. Se anteriormente, caberia a comissão uma análise 
discricionária sobre a decisão de se remete ou não o caso à Corte 
Interamericana, com o novo regulamento, tal decisão ficou mais 
vinculada, dano uma maior tônica de juridicidade. Cabe ressaltar 
que o caso só poderá ser submetido à Corte se o Estado –parte 
reconhecer, mediante declaração expressa e específica, a 
competência da Corte no tocante a interpretação e aplicação da 
Convenção, embora qualquer Estado-parte possa reconhecer a 
jurisdição da Corte para determinado caso. Também sob a forma de 
cláusula facultativa está previsto o sistema de comunicação 
interestatais. Na lição de Thomas Buergenthal, “(...). A Comissão 
Americana inverte o padrão tradicional, utilizado pela Convenção 
Européia por exemplo, em que o direito de petição individual é 
opcional e o procedimento da comunicação interestatal é 
obrigatório”. 
 
Por fim, em casos de gravidade e urgência, e toda vez que resulte 
necessário, de acordo com as informações disponíveis, a Comissão 
poderá, por iniciativa própria ou mediante petição da parte, solicitar 
ao Estado em questão a adoção de medidas cautelares para evitar 
danos irreparáveis. Pode ainda a Comissão solicitar à Corte 
Interamericana a adoção de medidas provisórias, em caso de 
extrema gravidade e urgência, para evitar dano irreparável à pessoa, 
em matéria ainda não submetida à Corte. 
 
d) A Corte Interamericana de Direitos Humanos 
 
A Corte Interamericana de Direitos Humanos é composta por sete 
juízes nacionais de Estados membros da OEA, eleitos a título 
pessoal, sendo certo que a Corte apresenta competência consultiva e 
contenciosa. No plano consultivo, a qualquer membro da OEA, 
parte ou não da convenção, pode solicitar o parecer da Corte em 
relação à interpretação da Convenção ou de qualquer outro tratado 
relativo à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos, 
podendo ainda a Corte opinar sobre a compatibilidade de preceitos 
da legislação doméstica em face de instrumentos internacionais, 
efetuando, assim, o “controle da convencionalidade das leis”. Na 
sua função consultiva, a Corte tem desenvolvido, ainda, análises 
sobre o alcance e o impacto dos dispositivos da Convenção 
Americana. 
 
Em relação ao plano contencioso, a competência da Corte para o 
julgamento de casos é limitada aos Estados-partes da Convenção 
que reconheçam tal jurisdição expressamente, sendo certo que 
apenas a Comissão Interamericana e os Estados-partes podem 
submeter um caso à Corte Interamericana, não estando prevista a 
legitimação do indivíduo. A Corte, reconhecendo que efetivamente 
ocorreu a violação, determinará a adoção de medidas que se façam 
necessárias para a restauração do direito violado, podendo, ainda, 
condenar o Estado a pagar uma justa compensação à vítima. Note-
se que a decisão da Corte tem força jurídica vinculante e 
obrigatória, cabendo ao Estado seu imediato cumprimento. Se a 
Corte determinar uma compensação à vítima, a decisão valerá como 
título executivo, em conformidade com os procedimentos internos 
relativos à execução de sentença desfavorável ao Estado. 
 
Dentre os casos já decididos pela Corte, destaca-se o caso do 
Presídio Urso Branco, em Porto Velho, Rondônia, promovido em 
face do Brasil. Neste caso, 37 internos haviam sido brutalmente 
assassinados entre 1º de janeiro e 5 de junho de 2002. A Corte 
ordenou medidas provisórias a fim de evitar novas mortes de 
internos. Pelo art. 63 da Convenção, a Corte pode dispor de 
medidas provisórias em acasos de extrema gravidade e quando 
necessários para evitar danos irreparáveis a pessoas. Caso trate-se 
de caso ainda não submetido a seu conhecimento, poderá atuar a 
pedido da Comissão. Note-se que a Convenção Americana de 
Direitos Humanos é o único tratado internacional de direitos 
humanos a dispor sobre medidas provisórias judicialmente 
aplicáveis. Considerando os recentes casos submetidos à Corte e a 
sua atuação, pode-se concluir que, embora recente a sua 
jurisprudência, o sistema interamericano está se consolidando como 
importante e eficaz estratégia de proteção dos direitos humanos, 
quando as instituições nacionais se mostram omissas ou falhas. 
 
Ainda que crescente a justicialização do sistema, faz-se necessárias 
algumas providências para uma maior avanço. As propostas são as 
seguintes: I) Exigibilidade de cumprimento das decisões da 
Comissão e da Corte, com a adoção pelos Estados de legislação 
interna relativa à implementação das decisões internacionais em 
matéria de direitos humanos; II) Previsão de sanções aos Estados 
que de forma reiterada e sistemática, descumprir decisões 
internacionais; III) Uma maior democratização do sistema, 
permitindo o acesso direto do indivíduo à Corte Interamericana, 
hoje restrito apenas à Comissão e aos Estados membros; e IV) 
Instituição de funcionamento permanente da Comissão e da Corte, 
com recursos financeiros, técnicos e administrativos suficientes, 
pois a justicialização do sistema aumentará o universos de casos 
submetidos à Corte Interamericana. 
 
 
TERCEIRA PARTE 
 
O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS 
DIREITOS HUMANOS E A REDEFINIÇÃO DA 
CIDADANIA NO BRASIL 
 
 
CAPÍTULO VIII – O ESTADO BRASILEIRO E O SISTEMA 
INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS 
HUMANOS 
 
Nesta terceira parte do livro, busca-se avaliar o modo como o 
Estado brasileiro se relaciona com o Direito Internacional dos 
Direitos Humanos e como este último pode contribuir para o 
reforço do sistema de proteção de direitos no País. Será analisada a 
forma que o Brasil se abre às normas de Direito Internacional de 
Direitos Humanos e como os instrumentos internacionais de 
proteção aos direitos humanos são incorporados pela ordem interna 
nacional e nela repercutem, sendo utilizados pelos mais diversos 
atores sociais. 
 
a) A agenda internacional do Brasil a partir da democratização 
e a afirmação dos direitoshumanos como tema global. 
 
Para o estudo da posição do Brasil diante dos tratados 
internacionais de proteção aos direitos humanos, haverá uma 
concentração no período de democratização, deflagrado no Brasil 
em 1985 e que teve a Constituição de 1988 como o grande marco 
jurídico. O processo de democratização não implicou apenas 
mudanças no âmbito interno, mas também na agenda internacional 
do Brasil. Essas mudanças contribuíram para a reinserção do país 
no contexto internacional. Esses fatores implicaram um avanço 
significativo no âmbito do reconhecimento das obrigações 
internacionalmente reconhecidas. 
 
Ao longo do processo de democratização o Brasil passou a aderir a 
importantes instrumentos internacionais de direitos humanos, 
aceitando expressamente a legitimidade das preocupações 
internacionais e dispondo-se a um diálogo com as instâncias 
internacionais sobre o cumprimento conferido pelo país às 
obrigações internacionalmente assumidas. Uma outra vertente do 
processo de democratização foi a crescente participação e 
mobilização da sociedade civil e de organizações não 
governamentais no debate sobre a proteção dos direitos humanos. 
 
O fim da Guerra Fria contribuiu para o processo de disseminação 
do tema de proteção aos direitos humanos como tema global. Com 
a Guerra Fria, as denúncias sobre ocorrência de violações de 
direitos humanos eram escondidas sob o argumento de que as 
denúncias tinham por finalidade deteriorar a imagem positiva que 
cada bloco oferecia de si mesmo e, assim, proporcionar vantagens 
políticas ao lado adversário. Com exceção dos casos mais gritantes, 
como o da África do Sul, os problemas de direitos humanos, 
conquanto denunciados, tendiam a ofuscar-se dentro das rivalidades 
estratégicas das duas superpotências. 
 
Pode-se afirmar que o final da polarização significou uma segunda 
revolução no Direito Internacional dos Direitos Humanos. Se a 
Segunda Guerra Mundial significou a primeira revolução no 
processo de internacionalização dos direitos humanos, 
impulsionando a criação de órgãos de monitoramento internacional, 
bem como a elaboração de tratados de proteção aos direitos 
humanos, o fim da Guerra Fria significou a segunda revolução, 
consolidando e reafirmando os direitos humanos como tema global, 
passando assim a ser preocupação legítima da comunidade 
internacional. A afirmação dos direitos humanos como tema global 
vem ainda a acenar para a relação de interdependência existente 
entre a democracia, desenvolvimento e direitos humanos. A própria 
Declaração de Viena recomendou que se dê prioridade à adoção de 
medidas nacionais e internacionais para promover a democracia, o 
desenvolvimento e os direitos humanos. É nesse cenário que o 
processo de democratização do Brasil se conjuga com o processo de 
afirmação dos direitos humanos como tema global, que se desenha 
a reinserção do Brasil no plano do sistema d proteção internacional 
dos direitos humanos. 
 
b) O Brasil e os tratados internacionais de direitos humanos 
 
Desde o processo de democratização do país e, em particular, da 
Constituição de 1988, o Brasil tem adotado importantes medidas 
em prol da incorporação de instrumentos internacionais voltados à 
proteção dos direitos humanos. O marco inicial do processo de 
incorporação do Direitos Internacional dos Direitos Humanos pelo 
direito brasileiro foi a ratificação, em 1º de fevereiro de 1984, da 
Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de 
Discriminação contra a Mulher. Depois desse vários outros se 
seguiram. A partir da Constituição de 1988, que trouxe importantes 
inovações jurídicas, principalmente no que tange ao primado da 
prevalência dos direitos humanos como princípio orientador das 
relações internacionais, a incorporação de tratados internacionais de 
proteção aos direitos humanos no Brasil se intensificou. Em 1992 
foram ratificados o Pacto Internacional de Direitos Civis e 
Políticos, bem como o Pacto Internacional dos Direitos 
Econômicos, Sociais e Culturais, o que realça o caráter indivisível e 
inter-relacionado dos direitos humanos e sua relação com a 
democracia e o desenvolvimento. 
 
Além das inovações constitucionais, a necessidade do Brasil de 
reorganizar a sua agenda internacional de forma mais condizente 
com as transformações internas decorrentes do processo de 
democratização, foram de suma importância para a ratificação pelo 
estado brasileiro dos tratados internacionais de direitos humanos. 
Conjuga-se com esse esforço o objetivo de compor uma imagem 
mais positiva do Estado brasileiro no cenário internacional, como 
país respeitador dos direitos humanos. Adicione-se, ainda, que a 
adesão do Brasil aos tratados internacionais de direitos humanos 
simboliza o seu aceite para com a idéia contemporânea de 
globalização dos direitos humanos, bem como para com a idéia da 
legitimidade das preocupações da comunidade internacional no 
tocante à matéria. Por fim, é de acrescer o elevado grau de 
universalidade desses instrumentos, que contam com significativa 
adesão dos Estados integrantes da ordem internacional. 
 
Enfatize-se que a reinserção do Brasil na sistemática internacional 
de proteção aos direitos humanos vem a redimensionar o próprio 
alcance do termo “cidadania”, haja vista que, além dos direitos e 
garantias assegurados pela Constituição, no âmbito nacional, os 
indivíduos passam a ser titulares de direitos assegurados 
internacionalmente. Assim, o universo de direitos fundamentais se 
expande e se completa, a partir da conjugação dos sistemas nacional 
e internacional de proteção aos direitos humanos. Em razão dessa 
interação, o Brasil assume, perante a comunidade internacional, a 
obrigação de manter o Estado Democrático de Direito e de proteger, 
ainda que em situação de emergência, um núcleo de direitos 
básicos. Aceita, ainda, que essas obrigações sejam fiscalizadas pela 
comunidade internacional mediante o monitoramento efetuado pelo 
órgão de supervisão internacional. 
 
Apesar de ser grande o avanço decorrente das ratificações dos 
tratados internacionais de proteção aos direitos humanos, há a 
necessidade de serem tomadas mais providências a fim de uma 
maior eficácia na proteção dos direitos e liberdades fundamentais 
dos cidadãos. Primeiramente, mister a ratificação de outros tratados 
internacionais que ainda se encontram pendentes, bem como a 
revisão de reservas e declarações formuladas pelo Estado brasileiro 
quando ratificaram determinados tratados internacionais. Uma outra 
providência que deve ser tomada é a reavaliação da posição do 
Brasil quanto às cláusulas e procedimentos facultativos, que 
estabelecem, por exemplo, a sistemática de petição individual e de 
comunicação interestatal no âmbito internacional. De todo modo, 
com a adesão aos três tratados gerais de proteção aos direitos 
humanos, o Brasil passou definitivamente a se inserir no sistema de 
proteção internacional dos direitos humanos. 
c) Pela plena vigência dos tratados internacionais de direitos 
humanos: a revisão de reservas e declarações restritivas, a 
reavaliação da posição do Brasil quanto a cláusulas 
procedimentais e procedimentos facultativos e outras medidas. 
 
A plena vigência dos tratados de direitos humanos requer a adoção 
de providências adicionais pelo Brasil, entre elas uma profunda 
revisão das reservas e declarações restritivas feitas pelo Estado 
brasileiro quando da ratificação de Convenções voltadas à proteção 
dos direitos humanos. A própria Convenção de Viena de 1993 
encoraja aos Estados a evitar ao máximo a formulação de reservas 
e, quando formulá-las, que faça da forma maisrestritiva possível. 
Além da eliminação das reservas, cabe ao Estado brasileiro rever 
determinadas declarações feitas no sentido de restringir o alcance 
de mecanismos previstos nos tratados internacionais de direitos 
humanos. 
 
Um exemplo de uma situação em que Brasil deve rever 
determinada declaração é a declaração que o Estado brasileiro fez 
ao ratificar a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de 
Discriminação contra a Mulher. O Brasil declarou não estar 
submetido à cláusula que estabelece que, em caso de disputa entre 
dois ou mais Estados sobre a interpretação ou aplicação da 
Convenção, se não for solucionado mediante negociação a questão 
será submetida à arbitragem e, se ainda assim, não se encontrar um 
acordo, o caso pode ser levado à Corte Internacional de Justiça por 
qualquer dos Estados. Ao fazer a essa declaração o Brasil está se 
furtando de se submeter à Corte Internacional de Justiça para a 
solução do caso. Sugere-se que o Estado brasileiro modifique essa 
declaração, até porque é uma situação anacrônica, haja vista que a 
Convenção sobre a Eliminação de toda as formas de Discriminação 
Racial possui dispositivo semelhante e que, por sua vez, não foi 
objeto de qualquer declaração. O Brasil aceitou a competência da 
Corte Internacional de Justiça. 
 
Também merece atenção a declaração de interpretação feita pelo 
Estado brasileiro por ocasião da adesão à Convenção Americana de 
Direitos Humanos. Por ela o Brasil entende que o sistema de 
inspeção in loco da Comissão Internacional de Direitos Humanos 
não é automático, mas sim dependente de uma expressa autorização 
do Governo. O Brasil buscou, mediante a declaração feita, evitar 
que a Comissão tenha o direito automático de efetuar visitas ou 
inspeções sem a expressa autorização do Governo brasileiro. 
Acrescente-se que, dos vinte e cinco países que ratificaram esta 
Convenção, o Brasil é o único a fazer tal declaração. 
 
Além da necessária revisão de reservas e declarações restritivas 
efetuadas pelo Estado brasileiro, é preciso reavaliar a posição do 
Brasil diante de cláusulas e procedimentos facultativos constantes 
do sistema internacional de proteção. Lembre-se que o Programa de 
Ação de Viena de 1993 recomenda aos Estados-partes de tratados 
de direitos humanos que considerem a possibilidade de aceitar 
todos os procedimentos facultativos existentes para a apresentação 
e o exame de comunicações. Sendo assim, no âmbito do sistema 
global das Nações Unidas, é importante que o Brasil ratifique o 
Protocolo Facultativo relativo ao Pacto Internacional dos Direitos 
Civis e Políticos, de modo a habilitar o Comitê de Direitos 
Humanos a receber e apreciar comunicações individuais que 
veiculem denúncias de violação de direitos enunciados pelo Pacto. 
É importante, ainda, que o Brasil elabore declaração específica 
aceitando a competência do Comitê de Direitos Humanos para 
receber e considerar o procedimento facultativo das comunicações 
interestatais, previsto pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e 
Políticos. 
 
Outras medidas necessárias são o reconhecimento da competência 
do Comitê contra a Tortura para examinar tanto as petições 
individuais como as comunicações interestatais relativas às 
Convenções contra a Tortura e outros Tratamentos Cruéis, 
Desumanos ou Degradantes, bem como ratificar o seu Protocolo 
Facultativo que institui um sistema preventivo de visitas regulares a 
locais de detenção, com o objetivo de prevenir a prática de tortura. 
O Brasil deve, ainda, enviar aos competentes órgãos internacionais 
os relatórios pertinentes às medidas legislativas, administrativas e 
judiciais adotadas para dar cumprimento às obrigações relativas à 
proteção dos direitos humanos assumidas perante a comunidade 
internacional. 
 
Ressalte-se, porém, que junho em 2002, o Brasil ratificou o 
Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de todas as 
formas de Discriminação contra a Mulher e acolheu a cláusula 
facultativa das petições individuais prevista na Convenção sobre a 
Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. Foram 
dois significativos avanços para o monitoramento internacional dos 
direitos humanos. 
 
No âmbito do sistema regional, cabo ao Estado brasileiro elaborar a 
declaração a fim de habilitar a Comissão Interamericana a examinar 
comunicações interestatais, em que um Estado-parte alegue que 
outro Estado-parte tenha violado um direito assegurado pela 
Convenção. Em relação ao reconhecimento pelo Brasil da 
competência obrigatória da Corte Interamericana de Direitos 
Humanos, que ocorreu em 1998, insta ressaltar que foi exatamente 
a delegação do Brasil que propôs a Criação da Corte na IX 
Convenção Internacional Americana, ocorria em Bogotá no ano de 
1948. Deste modo, o reconhecimento da obrigatoriedade pelo Brasil 
foi uma exigência para que se mantivesse um mínimo de coerência 
no posicionamento do Brasil. Tão relevante quanto o 
reconhecimento da obrigatoriedade da Corte Interamericana, foi a 
aceitação pelo Brasil da competência do Tribunal Internacional 
Criminal Permanente, previsto pelo Estatuto de Roma, em 1998, e 
ratificado pelo Brasil em 2002. 
 
Além das providências supramencionadas, mister que o Estado 
brasileiro elabore todas as disposições de direito interno que sejam 
necessárias para tornar efetivos os direitos e liberdades enunciados 
nos tratados de que o Brasil é parte. A omissão estatal viola 
obrigação jurídica assumida no âmbito internacional, importando 
em responsabilização do Estado. Viola ainda a própria Constituição 
Federal, na medida em que esses direitos e liberdades foram 
incorporados ao Texto Constitucional, por força do art. 5º, §2º da 
CF, devendo ter aplicabilidade imediata. 
 
A título de exemplo, ilustrou grave caso de omissão do Estado 
brasileiro, caracterizadora de violação à Convenção contra a 
Tortura, ratificada pelo Brasil em 1989, a falta, até abril de 1997, de 
tipificação do crime de tortura, exceto quando fosse em relação à 
criança ou adolescente. A inexistência da tipificação autônoma 
importou em descumprimento de obrigação assumida 
internacionalmente, além da omissão importar, ainda, em violação à 
própria Constituição, que no seu art. 5º, XLIII, que prevê que a lei 
considerará a prática de tortura como crime inafiançável e 
insuscetível de graça e anistia. Logo, a omissão do legislador 
constituiu violação tanto ao comando constitucional como à 
Convenção Internacional contra a Tortura. O preenchimento dessa 
lacuna por parte do Brasil só veio a ocorrer com o advento da Lei nº 
9.455/97, que definiu o crime de tortura. 
 
Um outro exemplo de grave omissão estatal concernente à 
obrigação internacional contraída em matéria de direitos humanos, 
atém-se à inexistência de normatividade nacional específica em 
relação à prevenção, combate e erradicação da violência contra a 
mulher. Ao ratificar a Convenção Internacional para Prevenir, Punir 
e Erradicar a Violência contra Mulher, o Brasil assumiu que, sem 
demora, iria incluir em sua legislação normas penais, civis e 
administrativas necessárias para prevenir, punir e erradicar a 
violência contra a mulher. No entanto, até a presente data, não 
houve a elaboração de tal legislação, o que caracteriza violação ao 
dispositivo internacional. 
 
Diante desse quadro, todas as medidas apontadas mostram-se 
essenciais para a institucionalização da proteção internacional dos 
direitos humanos no âmbito interno brasileiro. Como já se ressaltou, 
a democratização implica transformação não apenas no plano 
interno, mas também no internacional, especialmente no momentoem que se intensifica o processo de globalização dos direitos 
humanos. O binômio democracia e direitos humanos se faz 
premente na experiência brasileira, tendo em vista que o projeto 
democrático está absolutamente condicionado à garantia dos 
direitos humanos. 
 
CAPÍTULO IX – A ADVCACIA DO DIREITO 
INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS: CASOS 
CONTRA O ESTADO BRASILEIRO PERANTE A 
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS 
HUMANOS 
 
A) Introdução. 
 
Neste capítulo se buscará investigar o modo que a advocacia do 
Direito Internacional dos Direitos Humanos é exercido no Brasil, 
quais os atores sociais envolvidos e quais os direitos humanos 
violados. Para tanto, serão apresentados os casos submetidos à 
apreciação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Essa 
opção deveu-se ao fato de que, para o Brasil, a Comissão é 
relevante instância internacional competente para examinar petições 
individuais que denunciem violações aos direitos assegurados pela 
Convenção Americana de Direitos Humanos ou outro tratado do 
sistema interamericano. Atente-se que o Brasil, em 1998, 
reconheceu a competência jurisdicional da Corte Interamericana, o 
que ampliou e fortaleceu as instâncias de proteção dos direitos 
humanos internacionalmente assegurados. Tendo em vista que o 
reconhecimento da instância jurisdicional ainda é muito recente, 
bem como que a Corte Interamericana aceita apenas que a 
Comissão Interamericana e os Estados-partes podem submeter 
casos à ela, verifica-se, até o presente momento, um número 
reduzido de casos sob a apreciação da Corte Interamericana. 
 
Como já mencionado anteriormente, o Brasil não reconhece a 
competência do Comitê de Direitos Humanos para receber petições 
individuais, pois não ratificou o Protocolo Facultativo dos Direitos 
Civis e Políticos, nem acolheu os procedimentos facultativos 
constantes da Convenção contra Tortura, de modo a reconhecer a 
competência do respectivo Comitê para examinar petições 
individuais. Embora o Brasil, desde junho de 2002, tenha ratificado 
o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de 
Discriminação contra a Mulher e acolhido o procedimento 
facultativo da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de 
Preconceito Racial, até a presente data não consta qualquer caso 
contra o Brasil pendente de apreciação. Por esses motivos é que o 
estudo se concentrará nas ações internacionais perpetradas contra o 
Brasil perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, até 
porque, como já abordado, o Estado membro ao ratificar a 
Convenção Americana aceita automaticamente a competência da 
Comissão Interamericana para examinar denúncia de violação de 
preceito constante na Convenção, dispensando-se qualquer 
declaração expressa por parte do Estado-parte. 
 
As ações internacionais concretizam e refletem a dinâmicaintegrada 
do sistema de proteção dos direitos humanos, por meio da qual os 
atos internos dos Estados estão sujeitos à supervisão e ao controle 
dos órgãos internacionais de proteção, quando os a atuação do 
Estado se mostra omissa ou falha na tarefa de garantir esse mesmo 
direito. De acordo com o direito internacional, a responsabilidade 
pelas violações são da União, que dispõe de personalidade jurídica 
na ordem internacional. Nesse sentido os princípio federativo e a 
separação dos poderes não podem ser invocados para afastar a 
responsabilidade da União em relação à violação das obrigações 
assumidas no âmbito internacional. Segundo Louis Henkin, 
“exceções a esta regra podem ser feitas pelo próprio tratado em 
determinadas circunstâncias”. 
 
Há 68 casos contra o Brasil pendentes de apreciação, sendo certo 
que desse universo, apenas dois casos apontam responsabilidade 
direita da União, sendo um deles sobre trabalho escravo (que já foi 
objeto de solução amistosa) e o outro refere-se à morte de indígena 
Macuxi em uma delegacia em Roraima, que na época era território 
federal. Nos demais casos a responsabilidade direta são dos 
Estados. Todavia, paradoxamente, em face da sistemática até então 
vigente, a União, ao mesmo tempo que detém a responsabilidade 
internacional, não é responsável em âmbito nacional, já que não 
dispõe da competência de investigar, processa e punir violação pela 
qual estará internacionalmente convocada a responder. Diante desse 
quadro é que se infere a federalização dos crimes de direitos 
humanos. 
 
A federalização dos crimes contra os direitos humanos, introduzida 
pela EC 45/2004, já era vista como meta do Programa Nacional de 
Direitos Humanos desde 1996. O novo mecanismo permite ao 
Procurador-Geral da República, nas hipóteses de grave violação a 
direitos humanos e com a finalidade de assegurar o cumprimento de 
tratados internacionais de direito humanos ratificados pelo Brasil, 
requerer ao Superior Tribunal de Justiça o deslocamento da 
competência do caso para as instâncias federais, em qualquer fase 
do inquérito ou do processo. Com a federalização dos crimes de 
direitos humanos cria-se um sistema mais eficaz de combate à 
impunidade desses crimes. 
 
Primeiramente, a federalização encoraja firme atuação dos Estados, 
sob o risco de deslocamento de competência, além do que, aumenta 
a responsabilidade da União para o efetivo combate à impunidade 
das graves violações aos direitos humanos. A federalização, 
entretanto, exigirá a elucidação de seus próprios requisitos de 
admissibilidade (“grave violação dos direitos humanos”, “assegurar 
o devido cumprimento de obrigações decorrentes dos tratados de 
direitos humanos”, entre outros). A prática permitirá que tais 
lacunas sejam gradativamente preenchidas. Importa salientar, uma 
vez mais, que o sistema de proteção internacional dos direitos 
humanos é adicional e subsidiário e, nesse sentido, pressupõe o 
esgotamento dos recursos internos para o seu acionamento. 
 
b) Casos contra o Estado brasileiro perante a Comissão 
Interamericana de Direitos Humanos 
 
Neste tópico serão analisados 78 casos contra o Estado brasileiro 
que foram admitidos pela Comissão Interamericana no período de 
1970 a 2004. Desse total, há casos que já foram apreciados pela 
Comissão, sendo os respectivos relatórios publicados no relatório 
anual da Comissão, é há aqueles – a maioria – que estão pendentes 
perante a comissão Interamericana. Os 78 casos foram classificados 
de acordo com o direito que foi violado: 1) detenção arbitrária, 
tortura e assassinato cometidos durante o regime autoritário militar; 
2) violação dos direitos indígenas; 3) violência rural; 4) violência 
policial; 5) violação dos direitos da criança e do adolescente; 6) 
violência contra a mulher; 7) discriminação racial; e 8) violência 
contra defensores de direitos humanos. 
 
1) Casos de detenção arbitrária, tortura e assassinato cometidos 
durante o regime autoritário militar 
 
Do total dos 78 casos, 10 envolvem denúncias de detenção 
arbitrária e tortura cometidas durante o regime autoritário militar, 
sendo submetidas à Comissão Interamericana no período de 1970 a 
1974, com exceção do caso “guerrilha do Araguaia”, que foi 
submetido no ano de 1997. Considerando que na época o Brasil 
não era signatário da Convenção Americana, todas essas ações 
foram fundamentadas na Declaração Americana dos Direitos e 
Deveres do Homem. A prática de detenção arbitrária e de tortura foi 
denunciada mediante petições encaminhadas por indivíduo ou 
grupos de indivíduos, não se verificando qualquer caso no qual a 
petição foi submetida por organização não governamental. 
Constata-se que nesses nove casos, as vítimas eram professores 
universitários, lideranças da Igreja Católica, líderesde 
trabalhadores, entre outros, que de alguma forma apresentaram 
resistência ao regime repressivo que perdurou de 1964 a 1985. 
 
Dentre os casos, merece destaque o caso 1684, acerca do qual três 
comunicações foram enviadas à Comissão, em 1970, denunciando a 
prática da detenção ilegal e de tortura nos anos de 1969 e 1970. Os 
fatos denunciados foram três: o primeiro denunciou o assassinato de 
um padre em Recife em 1970; o segundo tratava da detenção 
arbitrária e tortura de sete pessoas em Belo Horizonte; e o terceiro 
comunicava a existência de pelo menos 12.000 presos políticos. A 
comunicação solicitava à Comissão uma investigação cautelosa dos 
fatos por ela denunciados, que apontavam à prática autoritária do 
regime militar. Por maioria de votos a Comissão aprovou a 
Resolução na qual afirmava: “as provas coletadas nestes casos 
levam à forte presunção de que o no Brasil há sérios casos de 
tortura, abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos, que 
foram privadas de sua liberdade”. A Comissão recomendou que o 
Brasil procedesse com uma investigação para que na próxima 
sessão pudessem avaliar se os atos de tortura e abusos foram 
efetivamente cometidos, solicitando ainda informações sobre o 
resultado das investigações. 
 
Em sua resposta o governo brasileiro se limitou a considerar que as 
bases da presunção de violação dos direitos humanos no país eram 
demasiadamente frágeis. A partir dessa resposta a Comissão decidiu 
publicar em seu relatório anual recomendações endereçadas ao 
Governo brasileiro, reiterando que as provas coletadas no Caso 
1684 levam à forte presunção de que no Brasil há sérios casos de 
tortura, abuso e tratamento cruel de pessoas de ambos os sexos, que 
foram privadas de sua liberdade. Adicionou, ainda, que o Brasil se 
recusa a adotar as medidas recomendadas pela Comissão no sentido 
de esclarecer se os atos de tortura e abuso foram perpetrados por 
militares ou autoridades policiais. 
 Além do Caso 1684, os outros oito casos foram submetidos à 
Comissão entre o período de 1973 a 1974. Todos denunciaram a 
prática de detenções arbitrárias e tortura cometidos pelo regime 
militar, sendo os mais contundentes o caso 1788, referente ao 
assassinato de 104 pessoas em 1973, e o caso 1835, que denuncia a 
detenção arbitrária de 53 pessoas pela polícia em 1974. Contudo, 
ainda que a Comissão tenha admitido todos os oito casos, optou por 
não publicar em seu relatório anual as respectivas conclusões e 
recomendações. Adicione-se o caso da guerrilha do Araguaia, 
ocorrida na década de 70 e que desde 1982 familiares tentam, sem 
sucessos, obter informações sobre o desaparecimento de mais 20 
vítimas. 
 
2) Casos de Violação dos direitos dos povos indígenas 
 
Também de grande impacto foi o caso 7615, relativo à violação dos 
direitos dos povos indígenas no Brasil, particularmente, da 
comunidade Yanomami, em 1980. Este caso se distingue dos 
demais por ser o primeiro caso submetido por organizações não 
governamentais de âmbito internacional contra o Brasil. Nesta 
denúncia, afirmaram que os direitos dessas populações à vida, à 
liberdade, à segurança, à saúde e bem-estar, à educação, ao 
reconhecimento da personalidade jurídica e à propriedade havia 
sido afrontados pelo Governo do Brasil. 
O povo Yanomami, com uma população de 10.000 a 12.000, 
viviam em terras que ocupavam o território do Estado do Amazonas 
e de Roraima. Devido ao plano do Governo de explorar 
economicamente a região, os indígenas estavam sendo impelidos a 
abandonarem suas terras. Diante desse quadro, no período entre 
1979 e 1984 esforços foram empenhados para demarcar as terras 
dos Yanomamis. Em 1982, sob pressão internacional, o Governo 
brasileiro declarou interdição de uma área de Roraima e do 
Amazonas para os povos Yanomamis. Em 1984, expediu-se um 
decreto prevendo a definição do chamado “Parque dos Índios 
Yanomais”, que corresponderia ao território desses índios. Esses 
fatos, no entendimento dos peticionários implicaram a violação dos 
direitos fundamentais dos Yanomamis, pois a devastação deixou 
seqüelas físicas e psicológicas, doenças e mortes com a destruição 
de centenas de índios, o que estava a levar a extinção daquela 
comunidade. 
 
A comunicação dos peticionários resultou no pedido de 
informações ao governo brasileiro que respondeu tecendo 
comentários sobre o estatuto legal dos índios no Brasil, seus direitos 
civis e políticos e projetos do Governo para estender a proteção aos 
índios e suas terras. À luz dessas considerações, a Comissão 
Interamericana resolveu declarar que “há provas suficientes para 
declarar que, em face do fracasso do Governo do Brasil em adotar 
medidas tempestivas e efetivas concernentes aos índios 
Yanomamis, caracteriza-se a violação dos seguintes direitos 
reconhecidos pela Declaração Americana dos Direitos e Deveres do 
Homem: o direito à vida, à liberdade, à segurança, do direito à 
residência e ao movimento, e do direito à preservação da saúde e 
bem-estar”. A Comissão resolveu ainda recomendar ao governo 
brasileiro que adotasse medidas de proteção à vida dos Yanomamis, 
procedesse a demarcação do “Parque dos Yanomamis”, conduzisse 
programas de educação, proteção médica e integração social dos 
Yanomamis e informasse a Comissão sobre as medidas adotadas 
em cumprimento às recomendações. Além do caso 7615, foi 
submetido à Comissão Interamericana o caso 11745, que denunciou 
a chacina de dezesseis índios Yanomamis em junho de 1993 em 
razão da negligência e da omissão do governo brasileiro. 
 
3) Casos de violência rural 
 
Dos 78 casos, 13 envolvem situações de violência rural, sendo que 
a maioria se encontra pendente de apreciação perante a Comissão. 
Como os casos pendentes são processados em regime de 
confidência, o estudo se limitará a um breve relato destes casos. 
Primeiramente, cabe observar que os casos foram encaminhados à 
Comissão Interamericana por organizações não governamentais de 
âmbito nacional e internacional. 
 
O primeiro caso foi o do assassinato de João Canuto, presidente dos 
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria, no Estado do 
Pará. Pelos denunciantes, em razão da insuficiência da resposta 
governamental no sentido de punir os culpados – a investigação 
criminal durou oito anos e até o momento não houve culpados – 
caracterizando-se, assim, o esgotamento dos recursos internos, 
cabendo à Comissão a declaração da violação pelo Estado brasileiro 
de suas obrigações internacionais. Em março de 1998 a Comissão 
Interamericana aprovou o relatório final sobre o caso, condenando o 
Brasil pela violação dos direitos à vida, à liberdade, à segurança, à 
integridade e à justiça, com a recomendação de que o Brasil confira 
maior celeridade ao processo criminal relativo ao caso, a fim de que 
os responsáveis sejam devidamente processados. Recomendou, 
ainda, que seja efetuado o pagamento de pensão especial em favor 
dos familiares da vítima, o que foi efetuado pelo Estado do Pará. 
 
Já o caso 11289 denuncia a tentativa de assassinato de um jovem 
trabalhador rural por ocasião de tentativa de fuga o regime de 
trabalho escravo a que estava sendo submetido em uma fazendo no 
Estado do Pará, em 1989. Considerando que até 1994 não houve 
punição dos responsáveis, levaram o caso à Comissão, onde foi 
solucionado o caso de em acordo amistoso. Houve o pagamento de 
indenização à vítima e compromisso de serem adotadas medidas 
para a prevenção e combate do trabalho escravo no Brasil. O caso 
12066 também revela denúncia de trabalho escravo em fazendas no 
Estado do Pará. O caso 11405 envolve situação de conflito no 
campo. Soba acusação de ocupação de terras e defesa dos direitos 
dos demais trabalhadores rurais, cinco trabalhadores foram 
assassinados e dois sofreram lesões corporais, um foi seqüestrado e 
pelo menos quatro famílias foram compelidas a fugir. Com a 
ineficiência do governo em apurar e responsabilizar os violadores, 
foi levado o caso à Comissão interamericana. 
 
4) Casos de violência policial 
 
Do universo de 78 casos, 34 são relativos a violência policial, todos 
ocorridos a partir de 1982. Como os casos ainda encontram-se 
pendentes, e por isso sob o regime de confidencialidade, na há 
como tecer comentários mais aprofundados. Cabe notar que os 
casos foram submetidos á Comissão Interamericana por 
organizações não governamentais de direitos humanos. Todos os 
casos são fundamentados na Convenção Americana de Direitos 
Humanos, ratificanda pelo Brasil em 1992. Em todos os 34 casos, 
os peticionários denunciaram o abuso e a violência policial, que 
implica o assassinato, sem justificativa, de vítimas inocentes. 
Denunciam, ainda, a insuficiência de resposta por parte do governo 
brasileiro, ou mesmo a inexistência de qualquer resposta, em face 
de punição dos responsáveis pelas violações cometidas. Em todos 
os casos que denunciam a violência cometida pela polícia militar o 
pedido é o mesmo: a condenação do Estado brasileiro a processar e 
punir os agentes responsáveis pelas violações cometidas, bem como 
indenizar as vítimas das violações nos casos em que isso ainda não 
tenha ocorrido. 
 
A impunidade viola o dever de garantir, por completo, o livre 
exercício do direito afetado. A respeito, decidiu a Corte 
Interamericana: “se o aparato do Estado atua de modo a que uma 
violação permaneça impune, não restaurando à vítima, a plenitude 
de seus direitos, pode-se afirmar que o Estado está a descumprir o 
dever de garantir o livre e pleno exercício de direito às pessoas 
sujeitas à jurisdição. Com respeito à obrigação de investigar, deve 
ser assumida pelo Estado como um dever jurídico próprio e não 
como uma simples gestão de interesses particulares, que depende da 
iniciativa processual da vítima ou de seus familiares, sem que a 
autoridade pública busque efetivamente a verdade”. 
 
Com relação ao direito à justiça e à sistemática impunidade nos 
casos de violência da polícia militar, assegurada pelo fato de os 
agentes militares serem julgados por seus pares, no âmbito da 
Justiça Militar, cabe ressaltar que as pressões internacionais 
contribuíram para a adoção de Lei 9.299/96 que transferiu para a 
Justiça Comum a competência para julgar os crimes dolosos contra 
a vida cometidos por policiais militares. Enfatize-se que a maioria 
dos casos admitidos pela Comissão Interamericana envolve o 
assassinato de pessoas inocentes, por vezes adolescentes, em 
virtude do abuso e violência da polícia militar. Nessas situações se 
reitera a denúncia de inexistência ou insuficiência de medidas 
adotadas pelo Brasil no sentido de processar e punir as autoridades 
policiais responsáveis. Os peticionários querem a condenação do 
Brasil em razão da afronta ao direito á vida, à integridade pessoal, 
às garantias judiciais, assegurados pela Convenção Americana, com 
o fim da impunidade, para que os responsáveis sejam investigados, 
processados e punidos. 
 
5) Casos de violação dos direitos de crianças e adolescente 
 
No que tange aos casos de violação dos direitos de crianças e 
adolescente, os que merecem relevância cinco casos. O primeiro é o 
da “Candelária”, no qual oito crianças e adolescente foram 
encontrados mortos nos arredores da Igreja em julho de 1993. A 
petição alega que os responsáveis são policiais militares. O segundo 
refere-se a solicitação de medidas de proteção à integridade física e 
à vida de adolescente internados em três estabelecimentos do 
Estado do Rio de Janeiro. Apontam como irregularidades a 
separação dos adolescentes por critério de idade, compleição física 
e gravidade da infração, à superlotação e às condições subumanas a 
que são submetidos, vítimas de espancamentos, maus tratos e 
violência sexual. Na mesma direção aponta o terceiro caso, 
diferindo apenas que o estabelecimento é situado em Taubaté, em 
São Paulo. Nesses casos a Comissão Interamericana solicitou a 
adoção de medidas cautelares para proteger a vida e a integridade 
física dos adolescentes. 
 
Por fim, os dois últimos são referentes ao caso dos “meninos 
emasculados no Marahão”, em que crianças e adolescentes têm sido 
vítimas de asassinato, marcado pela violência e abuso sexual, 
culminando na extração dos órgãos genitais das vítimas, no Estado 
do Maranhão. No período de 1991 a 2001, dezenove meninos, entre 
nove e catorze anos, foram vítimas dessa grave violação. 
 
6) Casos de Violência contra a Mulher 
 
Dos 78 casos, 3 denunciam a violência contra a mulher, 
apresentando como fundamento central a violação à Convenção 
Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a 
Mulher. Desses três casos, dois denunciam a violência por parte de 
companheiros contra a mulher, sendo certo que em um culminou 
com a morte da vítima e o outro teve como conseqüência a 
paraplegia da vítima. Em ambos os casos os autores encontram-se 
em liberdade, sem terem cumprido qualquer pena. Já o terceiro caso 
denuncia o assassinato de uma estudante em que seu algoz, em 
razão de ser deputado estadual e encontrar-se resguardado pela 
imunidade parlamentar, só poderia ser processado com a prévia 
licença da Assembléia Legislativa do Estado. Contudo, por duas 
vezes a licença foi indeferida, o que resultou no envio do caso à 
Comissão. 
 
Esses casos distinguem-se dos demais por denunciarem um padrão 
específico de violência que alcança as mulheres. Trata-se da 
violência baseada no gênero, capaz de causar morte, dano ou 
sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, seja na esfera 
pública seja na esfera privada. Recomenda-se, assim, que o domínio 
do privado não é mais indevassável quando ocorre violação a 
direitos humanos. Embora esse padrão específico de violência seja 
distinto dos demais padrões até o momento estudados (em que os 
agentes estatais atuam como agentes perpetradores na esfera 
pública), os casos se assemelham aos demais casos na medida em 
que, do mesmo modo, requerem o combate à impunidade, 
acentuado o dever do Estado investigar, processar e punir os 
agentes responsáveis. 
 
Além desses três casos, merece menção a denúncia de 
discriminação contra mãe adotiva e seus respectivos filhos, em face 
da decisão definitiva proferida pelo Supremo Tribunal Federal que 
negou direito à licença gestante à mãe adotiva. 
 
7) Casos de Discriminação Racial 
 
Só há um único caso de denúncia de discriminação racial contra o 
Brasil. Refere-se à discriminação racial sofrida por vítima cujo 
ingresso em emprego foi recusado em virtude de ser negra. Os 
peticionários requerem que o Brasil seja responsabilizado pela 
violação do dever de garantir o livre e pleno exercício de direitos 
dispostos na Convenção Americana, sem qualquer discriminação, 
bem como pela afronta aos direitos à igualdade perante a lei. 
Requere, ainda, que seja recomendado ao Brasil que proceda 
investigação na apuração dos fatos, bem como no pagamento de 
indenização à vítima pelos danos sofridos, tornando públicas as 
providências tomadas para prevenir futuras discriminações. 
 
8) Casos de violência contra defensores dos direitos humanos 
 
Para este trabalho, defensores de direitos humanos são todos os 
indivíduos, grupos e órgãos da sociedade que promovem e 
protegem os direitos humanos e as liberdades fundamentaisuniversalmente reconhecidas. Destaca-se o assassinato de Gilson 
Nogueira Carvalho, advogado do Centro de Direitos Humanos e 
Memória Popular de Natal, por grupo de extermínio. Segunda a 
denúncia, o advogado tinha destacada atuação em defesa das 
vítimas de violência policial e atuava como assistente do Ministério 
Público nos processos que examinavam possíveis atuações de 
grupos de extermínio no interior da Secretaria de Segurança Pública 
do Rio Grande do Norte. Atente-se para o fato de que a Comissão 
Interamericana, em janeiro de 2005, entendeu por encaminhar o 
caso à Corte. 
 
c) Análise dos casos – limites e possibilidades da advocacia do 
Direito Internacional dos Direitos Humanos 
 
Para a análise do quadro de ações internacionais, adotar-se-á como 
critério a demarcação de dois períodos na história política 
brasileira: o período concernente ao regime militar vigente no 
período de 1964 a 1985, e o outro concernente ao processo de 
transição democrática, deflagrado a partir de 1985. As mudanças 
ocorridas nesta transição democrática implicaram mudanças na 
própria advocacia do Direito Internacional dos Direitos Humanos, 
tendo em vista que outros passaram a ser os direitos violados e 
outros passaram a ser os atores sociais envolvidos. 
 
Se o objetivo é avaliar o modo como a advocacia do Direito 
Internacional dos Direitos Humanos tem sido exercida no Brasil, 
primeiramente há que se perquirir quais os atores sociais nela 
envolvidos. De pronto, será analisado quem são os proponentes das 
denúncias. Considerando-se a demarcação dos dois distintos 
períodos, observa-se que durante o regime militar, de 1964 a 1985, 
90% das comunicações examinadas foram encaminhadas por 
indivíduos ou grupos de indivíduos. Em um único caso a denúncia 
foi encaminhada por entidades não governamentais. Já no segundo 
período, relativo ao processo de democratização, 100% dos casos 
foram encaminhados por entidades não governamentais de defesa 
dos direitos humanos, de âmbito nacional ou internacional, e, por 
vezes, pela atuação conjunta dessas entidades. 
 
Estes dados, por si sós, ilustram a dinâmica da relação entre o 
processo de democratização do país e a maior articulação e 
organização da sociedade civil. Tanto o processo de liberalização 
do regime autoritário permitiu o fortalecimento da sociedade civil, 
quanto as reinvenção da sociedade civil contribuiu para o processo 
de democratização e para a gradativa formação de um regime civil. 
Também notável é perceber, a partir da democratização, o 
importante papel assumido pelas organizações não governamentais 
no que tange à defesa e proteção dos direitos humanos, mediante a 
advocacia dos instrumentos internacionais de proteção. 
 
Após a análise de quais são os proponentes das denúncias, passa-se 
a analisar, agora, quais os direitos que são violados segundo essas 
denúncias. Considerando o primeiro período, dos dez casos 
apreciados, nove denunciam a detenção arbitrária e tortura 
ocorridas durante o regime autoritário militar, enquanto um caso 
envolve a violação dos direitos dos povos indígenas. Já no segundo 
período, dos 68 casos analisados, 34 envolvem violência policial, 
13 revelam violência rural, 5 referem-se à violação ao direitos da 
criança e adolescente, 3 são denúncia contra a mulher, e um 
menciona violação aos direitos da população indígena, um 
discriminação racial e mais seis violência contra defensores de 
direitos humanos. 
 
Dessa estatística, pode-se extrair que no primeiro período, 90% dos 
casos denunciaram violência policial, já no segundo a violência 
policial foram 50% dos casos. Esses dados comprova que a 
democratização ocorrida no Brasil foi incapaz de romper em 
absoluto com as práticas autoritárias do regime militar, 
apresentando como reminiscência um padrão de violência 
sistemática praticada pela polícia, que não consegue ser controlada 
pelo aparelhamento estatal. A diferença da violência policial do 
primeiro período para a violência policial do segundo, é que no 
regime militar a violência era perpetrada direita e explicitamente 
por ação do regime autoritário. Já no período de democratização, a 
sistemática violência policial apresenta-se não mais como uma ação 
Estatal, mas sim como uma omissão do Estado, por não ser capaz 
de deter os abusos de seus agentes. Tal como no regime militar, não 
se verifica a punição dos responsáveis. A insuficiência ou até 
mesmo a inexistência de respostas por parte do Estado brasileiro é 
fator que, a configurar o requisito do prévio esgotamento dos 
recursos internos, enseja a denúncia dessas violações de direitos 
perante a Comissão Interamericana. 
 
Ao dos 34 casos de violência policial no período de 
democratização, observa-se que os demais 34 casos são violações 
aos direitos e liberdades fundamentais em face de grupos 
socialmente vulneráveis, como os povos indígenas, a população 
negra, as mulheres, as crianças e os adolescentes. 
Importa destacar que todos os casos apresentados à Comissão 
Interamericana, seja no primeiro ou no segundo período, referem-se 
à violação de direitos civis e/ou políticos, sendo ainda incipiente a 
apresentação de denúncias atinentes à violação a direitos 
econômicos, sociais e culturais. 
 
Além de se analisar quem são os proponentes e quais os direitos 
violados, examinar quem são as vítimas dessas violências. No 
período do regime autoritário militar, em 90% dos casos as vítimas 
eram líderes da Igreja Católica, estudantes, líderes de trabalhadores, 
professores universitários, advogados, economistas e outros 
profissionais, todos, em geral, integrantes da classe média 
brasileira. No segundo período, relativo ao processo de 
democratização, 87% dos casos examinados, as vítimas podem ser 
consideradas socialmente pobres, sem qualquer liderança destacada, 
o que inclui tanto aqueles que viviam como pedreiros, vendedores, 
ajudantes de obras ou em outras atividades pouco rentáveis no 
Brasil. Exceção é feita aos casos de violência contra defensores de 
direitos humanos e de contra lideranças rurais. Se no período de 
autoritarismo militar, aqueles que eram acusados de oferecer 
resistência ao regime eram torturados ou arbitrariamente detidos 
por razões de natureza política, no processo de democratização o 
padrão de conflituosidade se orienta por outro critério. Não mais 
pelo critério político, mas sim pelo critério econômico, com o qual 
se conjuga um componente sócio-político. Nesse sentido as vítimas, 
as vítimas, via de regra, não são mais dos setores da classe média, 
mas pessoas pores, por vezes excluídas socialmente e integrantes de 
grupos sociais vulneráveis. 
 
Importante é a observação feita por Álvaro Ribeiro da Costa, para 
quem “A chamada violência específica – cujas formas mais visíveis 
podem aparecer como homicídios, lesões corporais, tortura, 
seqüestros – é a que habitualmente pode chamar mais atenção. No 
entanto, a violência estrutural – a que reside na estrutura 
econômicas, políticas, sociais, culturais, jurídicas – parecer ser a 
mais perversa e a de maiores efeitos em detrimento dos direitos 
humanos e da cidadania, por caracterizar-se pela permanência, pela 
profundidade e extensão de seu alcance”. 
Pela análise das datas das proposituras das denúncias, verifica-se 
que a ratificação da Convenção Americana de Direitos Humanos 
pelo Brasil tenha estimulado a iniciativa de ações judiciais 
internacionais, haja vista que, no período de 1970 a 1992, apenas 11 
casos foram impetrado contra o Brasil. Já no período de 1992 a 
2004, foram 67 as proposituras. Dessa análise, constata-se que a 
ratificação da Convenção Americana foi umfator que, 
definitivamente, estimulou e propiciou a propositura de ações 
internacionais junto à Comissão Interamericana. 
 
Mister analisar, agora, o impacto da litigância internacional na 
mudança no âmbito interno. A título ilustrativo, cabe a 
demonstração de seis mudanças ocorridas por influência direta das 
litigâncias internacionais. I) os casos de violência policial, 
especialmente as que denunciam a impunidade de crimes praticados 
por policiais militares, foram fundamentais para a adoção da Lei 
9.299/96, que determinou a transferência da competência da Justiça 
Militar para Justiça Comum para julgamento de crimes dolosos 
contra vida praticados por policiais militares; II) O caso do 
assassinato da estudante por deputado estadual foi de relevante 
importância para a adoção da Emenda Constitucional 35/2001m 
que restringe a imunidade parlamentar no Brasil; III) o caso 
envolvendo a denúncia de discriminação de mãe adotiva e seus 
respectivos filhos, em face da decisão definitiva do STF que negou 
o direito da mãe adotiva de gozar de licença maternidade, foi 
essencial para a aprovação da Lei 10.421/2002, que estendeu o 
direito á licença maternidade às mães de filhos adotivos; IV) o caso 
Maria Penha de Maia Fernandes, que culminou na condenação do 
Brasil por violência doméstica, motivou o encaminhamento, pelo 
Poder Executivo, ao Congresso Nacional de projeto de lei 
tipificando o crime de violência doméstica e sugerindo meios 
adequados de tramitação nas instâncias judiciais; V) os casos de 
violência contra defensores de direitos humanos contribuíram para 
a adoção do Programa Nacional de Proteção aos Defensores de 
Direitos Humanos; e VI) os casos envolvendo violência rural e 
trabalho escravo, contribuíram para a adoção do Programa Nacional 
para a Erradicação do trabalho Escravo. 
 
Pode-se concluir que o sistema interamericano de proteção dos 
direitos humanos oferece importantes estratégias de ação, 
potencialmente capazes de contribuir para o reforço da promoção 
dos direitos humanos no Brasil. Verificou-se, ainda, que os 
instrumentos internacionais constituem relevante estratégia de 
atuação para as organizações não governamentais, nacionais e 
internacionais, ao adicionar linguagem jurídica ao discurso dos 
direitos humanos. A experiência revela que a ação internacional 
tem também auxiliado a publicidade das violações de direitos 
humanos, o que oferece o risco do constrangimento político e moral 
ao estado violador, e, nesse sentido, surge como significado fator 
para a proteção dos direitos humanos. Ademais, ao enfrentar a 
publicidade e a pressão internacional, o Estado é praticamente 
compelido a apresentar justificativas às suas práticas, vindo a 
contribuir para reformas internas. 
 
Enfim, considerando a experiência brasileira, pode-se afirmar que, 
com o intenso desenvolvimento das organizações não 
governamentais, a partir de articuladas e competentes estratégias de 
litigância, os instrumentos internacionais constituem poderoso 
mecanismos para a promoção do efetivo fortalecimento da proteção 
dos direitos humanos no âmbito nacional. 
 
 
CAPÍTULO X – ENCERRAMENTO: O DIREITO 
INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS E A 
REDIFINIÇÃO DA CIDADANIA NO BRASIL 
 
Neste último capítulo, com base em toda a análise desenvolvida, 
importa examinar a dinâmica da relação entre o processo de 
internacionalização dos direitos humanos e seu impacto e 
repercussão no processo de redefinição e reconstrução da cidadania 
no âmbito brasileiro. 
 
Como foi demonstrado, o direito internacional de direitos humanos 
é um movimento extremamente recente na história, surgindo no 
pós-guerra, como resposta às atrocidades cometidas durante o 
nazismo. Foi um esforço de reconstrução dos direitos humanos. 
Neste sentido, uma das principais preocupações do movimento foi 
converter os direitos humanos em tema de legítimo interesse da 
comunidade internacional, o que implicou os processos de 
universalização e internacionalização desses interesses. Tais 
processos levaram à normatização internacional de proteção aos 
direitos humanos, de âmbito global e regional, como também de 
âmbito geral e específico. Adotando a primazia da pessoa humana, 
esses sistemas se complementam, interagindo como sistema 
nacional, a fim de proporcionar a maior efetividade na tutela e 
promoção de direitos fundamentais. O sistema internacional institui 
mecanismos de responsabilização acionáveis quando o Estado se 
mostra falho ou omisso na tarefa de implementar direitos 
fundamentais. 
 
Ao acolher o aparato internacional de proteção, bem como as 
obrigações internacionais dele decorrentes, o Estado passa a aceitar 
o monitoramento internacional no que se refere ao modo pelo qual 
os direitos fundamentais são respeitados em seu território, sendo 
sempre a ação internacional uma ação suplementar. As 
transformações decorrentes do movimento de internacionalização 
dos direitos humanos contribuíram, ainda, para o processo de 
democratização do próprio cenário internacional, já que, além do 
Estado, novos sujeitos de direito passa a participar da arena 
internacional, como os indivíduos e as organizações não 
governamentais. Na medida em que guardem relação direta com os 
instrumentos internacionais de direitos humanos – que lhe atribuem 
direitos fundamentais imediatamente aplicáveis – os indivíduos 
passam a ser concebidos como sujeitos de direito internacional. 
Nessa condição, cabe ao sujeito o acionamento direto de 
mecanismos internacionais. 
 
Importa salientar que se faz necessário democratizar determinados 
instituições internacionais, de modo que possam prover um espaço 
participativo mais eficaz, que permita maior atuação de indivíduos 
e de entidades não governamentais, mediante a legitimação 
ampliada nos procedimentos e instâncias internacionais. Um 
exemplo é a própria Convenção Americana que não atribui ao 
indivíduo ou a entidades não governamentais a legitimidade para 
encaminhar casos à apreciação da Corte Interamericana de Direitos 
Humanos. 
 
No Brasil, a incorporação do Direitos Internacional dos Direitos 
Humanos e de seus importantes instrumentos é conseqüência do 
processo de democratização, iniciado em 1985. Esse processo 
possibilitou a reinserção do Brasil na arena internacional de 
proteção dos direitos humanos, contudo importantes medidas ainda 
necessitem ser tomadas para o completo alinhamento do país com a 
plena vigência dos direitos humanos. Nesse sentido, constatou-se a 
dinâmica e a dialética da relação entre democracia e direitos 
humanos, tendo em vista que, se o processo de democratização 
permitiu a ratificação de relevantes trtados internacionais de 
direitos humanos, por sua vez, essa ratificação permitiu o 
fortalecimento do processo democrático, por meio da ampliação e 
do reforço do universo de direitos fundamentais por ele 
assegurados. Atentou-se, assim, para o modo pelo qual os direitos 
humanos internacionais inovam a ordem jurídica brasileira, 
complementando e integrando o elenco dos direitos 
internacionalmente consagrados e nele introduzindo novos direitos, 
até então não previstos pelo ordenamento jurídico interno. 
 
Enfatize-se que a Constituição de 1988, marco jurídico da 
institucionalização dos direitos humanos e da transição democrática 
no país, ineditamente consagrou o primado do respeito aos direitos 
humanos como paradigma propugnado para a ordem internacional. 
Esse princípio invoca a abertura da ordem jurídica brasileira aos 
sistema internacional de proteção dos direitos humanos e, ao 
mesmo tempo, exige nova interpretação de princípios tradicionais,como a soberania nacional e a não-intervenção, impondo a 
flexibilização e relativização desses valores. Se a prevalência dos 
direitos humanos é princípio a reger o Brasil no cenário 
internacional, conclui-se que se admite a concepção de que os 
direitos humanos é tema global para a CF/88. É tema de legítima 
preocupação e interesse da comunidade internacional. 
 
O Texto democrático inova em relação às demais constituições 
quando estabelece um regime jurídico diferenciado aplicável aos 
tratados internacionais de direitos humanos. Por força do art. 5º, § 
2º da CF, todos os tratados internacionais de direitos humanos, 
independentemente do quorum de sua aprovação, são 
materialmente constitucionais, compondo o bloco de 
constitucionalidade. O quorum qualificado introduzido pelo § 3º do 
mesmo artigo (fruto da Emenda Constitucional nº 45/2004), ao 
reforçar a natureza constitucional dos tratados de direitos humanos, 
vem a adicionar um lastro formalmente constitucional aos tratados 
ratificados, propiciando a “constitucionalização formal” dos 
tratados de direitos humanos no âmbito jurídico interno. Nesta 
hipótese, os tratados internacionais de direitos humanos 
formalmente constitucionais são equiparados às emendas à 
Constituição, isto é, passam a integrar o Texto Constitucional. 
Conclui-se, que a Constituição de 1988 acolheu um sistema misto, 
que combina regimes jurídicos diferenciados: um aplicável aos 
tratados internacionais de proteção aos direitos humanos e outro 
aplicável aos tratados internacionais tradicionais. 
 
A conclusão da existência desse sistema diferenciado em relação 
aos tratados internacionais de proteção aos direitos humanos é uma 
conseqüência de uma interpretação axiológica e sistemática da 
própria Constituição, especialmente em face da força expansiva dos 
valores da dignidade humana e dos direitos fundamentais, como 
parâmetros axiológicos a orientar a compensação do fenômeno 
constitucional. Com esse raciocínio se conjuga o princípio da 
máxima efetividade das normas constitucionais, particularmente das 
normas concernentes a direitos e garantias fundamentais, que hão 
de alcançar a maior carga de efetividade possível. Já em favor da 
natureza constitucional dos direitos enunciados nos tratados 
internacionais, adicione-se também o fato de o processo de 
globalização ter implicado a abertura da Constituição à 
normatização internacional. Tal abertura acarreta a incorporação de 
preceitos ao bloco de constitucionalidade. Em suma, todos esses 
argumentos se reúnem no sentido de endossar o regime 
constitucional privilegiado, conferido aos tratados de proteção de 
direitos humanos. 
 
Quanto ao impacto jurídico do Direito Internacional dos Direitos 
Humanos no Direito brasileiro, acrescente-se que os direitos 
internacionais, por força do princípio da norma mais favorável à 
vítima, que assegura a prevalência da norma que melhor e mais 
eficazmente proteja os direitos humanos, apenas vêm a aprimorara 
e fortalecer, jamais a restringir ou deliberar, o grau de proteção dos 
direitos consagrados no plano normativo constitucional. A 
sistemática internacional de proteção vem, ainda, a permitir a tutela, 
a supervisão e o monitoramento de direitos por organismos 
internacionais. 
 
Em relação à advocacia dos Direitos Internacional dos Direitos 
Humanos, embora seja incipiente no Brasil, tem sido capaz de 
propor relevantes ações internacionais, invocando a atenção da 
comunidade internacional para a fiscalização e o controle de graves 
casos de violação de direitos humanos. No momento em que tais 
violações são submetidas à arena internacional, elas se tornam mais 
visíveis, salientes e públicas. Diante da publicidade casos de 
violação de direitos humanos e de pressões internacionais, o Estado 
se vê “compelido” a prover justificativas, o que tende a implicar 
alterações na própria prática do Estado em relação aos direitos 
humanos, permitindo, por vezes, um sensível avanço na forma pela 
qual tais direitos são nacionalmente respeitados e implementados. A 
ação internacional constitui, portanto, importante estratégia para o 
fortalecimento da sistemática de implementação dos direitos 
humanos. 
 
Em razão da sistemática de monitoramento internacional e do 
extenso universo de direitos que assegura, o Direito Internacional 
de Direitos Humanos vem a instaurar o processo de redefinição do 
próprio conceito de cidadania no âmbito brasileiro. O conceito de 
cidadania se vê, assim, ampliado, na medida em que passa a incluir 
não apenas direitos previstos no plano nacional, mas também 
direitos internacionalmente anunciados. A sistemática internacional 
de accountability vem ainda a integrar esse conceito renovado de 
cidadania tendo em vista que às garantias nacionais são adicionadas 
garantias de natureza internacional. Hoje se pode afirmar que a 
realização plena e não apenas parcial dos direitos da cidadania 
envolve o exercício efetivo e amplo dos direitos humanos, nacional 
e internacional assegurados.

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