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PRODUÇÃO DE RECURSOS 
DIDÁTICOS EM HISTÓRIA 
AULA 4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Antonio Fontoura 
 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
O que se pode e o que não se pode dizer ou mostrar em um livro 
didático? Por outro lado, o que se é obrigado a narrar, descrever, apresentar? 
O trabalho de autoria de um livro didático possui regras específicas que 
ultrapassam os limites dos eventos e dos processos históricos. Por se ligar, 
para além da educação, a fatores como mercado e legislação, a escrita de 
materiais didáticos envolve um conjunto de limites, regras e demandas que 
podem ser de caráter mais geral (como a valorização da cidadania e o combate 
ao preconceito) ou específicas (como as peculiaridades técnicas da indústria 
editorial). 
TEMA 1 – RESPONSABILIDADE SOCIAL E POLÍTICA 
Observe a Figura 1. Ela foi inspirada em um livro didático de história 
para o 3º ano do Ensino Fundamental, publicado na primeira década do século 
XXI. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 
Figura 1 – Exemplo de um livro didático de história para o terceiro ano do 
ensino fundamental 
O direito à saúde deve ser 
garantido a todas as crianças 
desde o seu nascimento. 
 
 
 
Porém, ainda nos dias de hoje, existem 
crianças que vivem em condições 
precárias de moradia, o que afeta a sua 
saúde. 
Crédito: JRP Studio/Shutterstock; Anton_Ivanov/Shutterstock. 
 
O livro didático original retratado na Figura 1 acabou sendo reprovado 
pelos avaliadores do Programa Nacional do Livro e Material Didático (PNLD), 
que o qualificaram como indevido para o uso nas salas de aula. Analisando-se 
a página, você consegue descobrir o motivo para a reprovação? E será que 
você concordaria com esse motivo? 
O livro, como outros tantos semelhantes, foi reprovado por reforçar 
ideias consideradas racistas. Em suas páginas, saúde, felicidade, organização 
e equilíbrio apareciam associados a pessoas brancas, enquanto doenças, 
violência, desorganização e desestruturação eram associadas a imagens de 
pessoas negras. 
 
 
4 
É possível que você argumente: “Ora, mas a imagem da criança negra 
morando em um local insalubre retrata uma determinada realidade. Como 
apresentar a realidade pode ser considerado racista?”. Tal argumento tem 
fundamento, mas se esquece de algo: materiais que são reprovados por 
questões ligadas ao racismo não o são por uma única imagem ou um texto 
isolado1. Mas pela constante associação, ao longo de um livro inteiro, ou 
mesmo de uma coleção inteira, de pessoas negras com condições sofríveis de 
existência; ou de mulheres sempre em posição de subordinação; ou de 
indígenas como tecnicamente atrasados; ou de pessoas do campo como de 
higiene problemática. Dentre outras concepções semelhantes. 
É da responsabilidade da autora ou do autor a escolha das imagens que 
ilustram ou servem como documentos de análise no material didático. E jamais 
se pode esquecer que as imagens carregam informações importantes, que elas 
mesmas são mensagens, e que podem produzir as mais diversas 
interpretações. É por isso que a seleção das imagens de um livro didático deve 
respeitar os objetivos educacionais pretendidos. 
Tais representações, de toda forma, têm diminuído sensivelmente, pela 
ação de autores e editores, de grupos sociais e do próprio governo. A Lei n. 
11.645, de 10 de março de 2008, que tornou obrigatório o estudo da história e 
cultura afro-brasileira e indígena, vem mudando parte desse panorama nos 
livros didáticos. Cada vez mais, autoras e autores têm buscado integrar 
elementos da cultura afro-brasileira (e da história da África), bem como da 
história indígena, aos conteúdos dos livros didáticos. Não deixa de ser 
significativo, de toda forma, ter sido necessária a promulgação de uma lei para 
que os currículos e os materiais didáticos passassem a integrar e reconhecer, 
de maneira mais efetiva, a história africana, afro-brasileira e indígena, 
elementos fundamentais da formação nacional. 
Em um debate bastante atual na educação brasileira, discutem-se as 
possibilidades e os limites da apresentação de concepções políticas ou mesmo 
partidárias, tantos por professores, em sala de aula, quanto em livros didáticos. 
É muito difícil estabelecer os limites que seriam éticos em relação à 
educação política. Há, obviamente, os casos exagerados, que são mais fáceis 
de identificar. Na década de 1970, o governo militar fechou duas escolas de 
 
1 A não ser em óbvios casos em que o texto ou a imagem sejam, efetivamente, de cunho 
racista. 
 
 
5 
educação infantil em Curitiba sob o pretexto de que os professores estavam 
ensinando marxismo para crianças de seis anos. Tratou-se de uma ação 
fundada na ignorância dos agentes dos órgãos repressivos em relação às 
ideias do educador suíço Jean Piaget (1896-1980), que servia de base para 
aquelas escolas. E não se pode esquecer que o regime militar tinha, por assim 
dizer, seus próprios livros didáticos, na disciplina de Educação Moral e Cívica. 
Tratava-se de livros que defendiam a subordinação à autoridade, a aceitação 
irrestrita de regras, o respeito inconteste às figuras de poder, além de 
apresentar como condenáveis modelos desviantes de existência. Nesses livros, 
eram muito raros os negros, as mulheres solteiras, as pessoas do campo, os 
indígenas e os pobres. E não eram incomuns, até poucas décadas, livros de 
história que se calavam, ou minimizavam, as inúmeras lutas sociais do 
passado brasileiro, em uma narrativa que inventava uma pacífica continuidade 
histórica nacional. 
Os livros aprovados pela ditadura militar são exemplos de expressões 
políticas em materiais didáticos que se situam à direita do espectro político. 
Podemos dar exemplos do outro lado. Muitos dos livros didáticos que se 
autodenominavam partidários de “história crítica”, nos anos 1980, de base 
marxista, lançavam mão do choque e do sentimentalismo para convencer os 
alunos dos males do colonialismo e do imperialismo. Uma década mais cedo, 
Ariel Dorfman (1942) e Armand Mattelart (1936) publicaram Para ler o Pato 
Donald. Obra popular entre os educadores, ela denunciava o que seria a 
doutrinação capitalista e colonizadora das histórias em quadrinhos de Walt 
Disney. E, mais recentemente, nos primeiros anos da década de 2000, um livro 
de história para o ensino médio, aprovado pelo PNLD (apesar de não ter sido 
escrito por um historiador), fazia apologia explícita ao socialismo. Ao lado da 
foto de um homem em evidente estado de desnutrição, por exemplo, o autor 
colocou a seguinte frase como se dita pelo próprio homem: “Aí, galera. Viva o 
capitalismo neoliberal! Eu me amarro em consumir”. 
À direita e à esquerda do espectro político, portanto, os livros didáticos 
de história foram utilizados como instrumento de difusão de ideias. Conclui-se 
então que se deve extrair a política dos materiais didáticos? Não. Pois política 
também deve ser objeto de aprendizagem. É na escola, e com apoio dos livros 
didáticos, que se aprende a escutar e respeitar a opinião do próximo, a 
compreender as dificuldades dos outros, a elaborar soluções em conjunto, a 
 
 
6 
conhecer os direitos e deveres legais, a reconhecer desigualdades, a 
compreender regras. A escola é usualmente o primeiro espaço em que alunas 
e alunos têm para discutir eleições, debater propostas políticas, conhecer a 
realidade de seu próprio município e estado, e do país. Esse aspecto político é 
fundamental à construção da cidadania e, portanto, da própria educação. Além 
disso, é importante ensinar a reconhecer a existência de diferentes 
posicionamentos políticos ao longo da história, seus fundamentos, argumentos 
e objetivos. E, na educação política, os livros de história desempenham papel 
fundamental. Sem esta, por assim dizer, “política”, educação é pastiche. 
Porém, a escola não é lugar para partidos políticos. Também não o são 
oslivros didáticos de história. O objetivo de um texto didático é fornecer os 
instrumentos intelectuais para que alunas e alunos construam o próprio 
repertório de ideias, argumentos, decisões e posicionamentos sobre a 
realidade. Mesmo que acabem se tornando diferentes daquelas dos próprios 
autores dos livros didáticos. É dessa forma que se produz um livro didático e 
uma educação efetivamente democráticos. 
TEMA 2 – ENTRE A OBRIGAÇÃO E A OPÇÃO 
Até as últimas décadas do século XIX, os alunos brasileiros tinham como 
única opção, para a disciplina de história, estudar com livros didáticos 
franceses. Por motivos óbvios, tais livros não traziam qualquer conteúdo sobre 
a história do Brasil, mas principalmente sobre o que hoje chamaríamos de 
história geral – episódios da história católica, além da história francesa. Os 
primeiros livros didáticos específicos para os brasileiros surgiram na década de 
1860 e foram influenciados pela organização escolar já existente que 
privilegiava o modelo e os conteúdos franceses na educação. Determinadas 
características desse processo inicial da produção de livros didáticos sobre a 
história do Brasil influenciaram de forma duradoura não apenas a estrutura dos 
materiais, mas os próprios currículos de história, até os dias de hoje. 
É característico de nosso modelo de ensino, por exemplo, a distinção 
entre história geral e história do Brasil. Hoje, há poucos livros no mercado que 
separam essas duas perspectivas, sendo que a maioria prefere o modelo que 
se denominou de história integrada: a reunião de conteúdos da história 
nacional com a história do mundo. Até poucas décadas atrás, porém, não era 
 
 
7 
difícil encontrar livros didáticos divididos estritamente entre história geral e 
história do Brasil. 
Porém, esse modelo de história integrada, ainda que a princípio possa 
parecer razoável, traz consigo alguns males das origens dos materiais 
didáticos de história brasileiros. Como os conteúdos da história nacional não 
substituíram, mas foram adicionados a uma história geral preexistente, persistiu 
uma tendência de se subestimar os conteúdos da história brasileira nos 
materiais escolares do país – assim como nos currículos e nas próprias aulas. 
Considere os conteúdos definidos pela Base Nacional Comum Curricular 
(BNCC) para o estudo da história nos anos finais do ensino fundamental (Base, 
2019). Para o sexto ano, deve-se estudar das origens da humanidade até o 
mundo medieval europeu; no sétimo ano, do nascimento da modernidade ao 
surgimento do capitalismo; no oitavo ano, da crise do Antigo Regime ao século 
XIX; no nono ano, do século XIX (com o estabelecimento da República no 
Brasil) até a atualidade. Em outras palavras: no sexto ano do ensino 
fundamental, os livros didáticos de história não mencionam o Brasil; um terço 
dos livros do sétimo ano fala do país; número que aumenta um pouco no oitavo 
e no nono ano, quando metade do material trata da história brasileira. 
No total, pouco mais de 30% dos conteúdos do ensino fundamental II 
são sobre a história do Brasil. Na Europa, por exemplo, é muito raro encontrar 
um país no qual o currículo conceda tão pouco espaço à história nacional. A 
Figura 2 compara os currículos de história em Portugal, Reino Unido e França. 
Figura 2 – Uma comparação dos currículos de história em três países europeus 
 
Fonte: Adaptado de Ecker, 2003. 
A estrutura do ensino de história no Brasil provoca significativas 
distorções na formação dos alunos. Os livros didáticos tendem a apresentar um 
conteúdo muito mais aprofundado sobre os Cuchitas, por exemplo, do que 
sobre a revolta dos Malês – episódio fundamental da reação à escravatura no 
 
 
8 
Brasil do século XIX, cuja descrição não raro ocupa apenas dois ou três 
parágrafos nos livros didáticos nacionais. Estudar a sociedade de Cush é 
importante. Porém, como não se pode estudar toda a história, há que se fazer 
opções. E os materiais didáticos no Brasil optaram por reduzir a importância do 
ensino da história nacional em comparação à história geral. 
É possível produzir livros didáticos que fujam desse esquema. Porém, é 
bastante improvável que você encontre uma editora que aceite publicar um 
material que não esteja alinhado com as determinações do BNCC e dos editais 
do governo federal e com as expectativas de professores e professoras. Você, 
responsável pela autoria do material, é livre para definir a linguagem, a 
abordagem, os documentos e textos historiográficos, as atividades e o caráter 
dialógico de seu livro didático. Porém, a liberdade em relação à escolha de 
temas será bem menor: porque eles são definidos por leis, porque os 
professores estão habituados a eles e os consideram essenciais, e porque 
esses temas são cobrados em avaliações do ENEM e em vestibulares. Há uma 
relação imensa de condicionantes que dirigem a escolha dos temas históricos 
que devem estar presentes em livros didáticos. Porém, a mais importante é que 
tais materiais fazem parte de um mercado específico. 
TEMA 3 – A INFLUÊNCIA DO MERCADO 
Isso significa afirmar que os livros didáticos voltados ao mercado 
particular apresentam uma maior liberdade na definição dos temas? Não. 
Talvez com exceção do mercado de materiais apostilados, que segue uma 
lógica algo diferente, mesmo as obras voltadas ao mercado das escolas 
privadas acabam influenciadas pelo mercado dos livros didáticos para as 
escolas públicas. 
O governo brasileiro é o maior comprador individual de livros do país e 
um dos maiores do mundo (Nery, 2004; Vieira, 2015; Silva, 2012). Desde o 
início do século XXI, com a solidificação das compras sistemáticas de livros 
didáticos por meio do Programa Nacional do Livro e do Material Didático 
(PNLD), o mercado de livros didáticos brasileiros se tornou atraente inclusive 
para empresas estrangeiras, que passaram a investir no Brasil. Para a grande 
maioria das editoras de livros educativos, a principal fonte de receita está na 
comercialização dos livros para o governo federal e, em relação aos livros 
didáticos, à participação e aprovação nos programas do PNLD. Grandes 
 
 
9 
concorrências geraram grandes investimentos: com a prioridade mercadológica 
passando aos livros didáticos para as escolas públicas, e considerando-se os 
altos custos envolvidos na produção de uma coleção de livros didáticos, as 
editoras não investiram em coleções específicas para as escolas privadas, que 
passaram a utilizar versões modificadas ou adaptadas dos materiais 
produzidos originalmente para o PNLD. Se, há algumas décadas, os livros 
didáticos das escolas públicas eram inferiores tanto em qualidade como nos 
próprios conteúdos em comparação aos comercializados nas escolas 
particulares, hoje a realidade é outra. 
Por causa dessa pressão mercadológica, a escrita de um livro didático 
no Brasil está intimamente ligada à satisfação de três desejos editoriais: 1) 
desejo de aprovação pelos avaliadores do PNLD; 2) após aprovados, o desejo 
de serem escolhidos pelos professores; 3) depois de escolhidos, o desejo de 
atenderem às expectativas de alunas e alunos. Isso significa que, no momento 
da escrita de um livro didático, os autores e as autoras devem estar cientes de 
terem diante de si três tipos de leitores em potencial que devem ser satisfeitos: 
os avaliadores contratados pelo governo federal2, os professores e os alunos. 
Lançado o edital pelo governo federal, as editoras inscrevem os livros 
didáticos como concorrentes ao PNLD: são retiradas todas as informações 
tanto da editora quanto dos autores (para reduzir riscos de favorecimento) e as 
obras seguem, após uma análise técnica, para uma avaliação educacional. 
Escrever um livro didático que seja aprovado pelos avaliadores do PNLD 
depende muito de seguir objetivamente as exigências de qualidade e conteúdo, 
atualmente fundamentadas nos critérios da BNCC. Como expressa um edital 
do PNLD de 2017:A avaliação das obras didáticas submetidas à inscrição no PNLD 
20193 […] objetiva sobretudo garantir que os materiais contribuam 
para o alcance […] do desenvolvimento das competências e 
habilidades envolvidas no processo de aprendizagem nos anos 
iniciais do ensino fundamental, conforme definidas [na] Base Nacional 
Comum Curricular (BNCC). (Brasil, 2019) 
Usualmente, autores e autoras procuram deixar claro seu alinhamento 
às normas dos editais no manual do professor. Este documento, de caráter 
 
2 Os avaliadores são professores de história de instituições de ensino superior. Essa é apenas 
uma das várias formas pelas quais os professores de instituições de ensino superior exercem a 
função de críticos dos livros didáticos, ao mesmo tempo em que participam de sua produção e 
da perpetuação desse modelo. 
3 O edital é de 2017 para obras a serem utilizadas a partir de 2019. 
 
 
10 
obrigatório (que será discutido a seguir), é por definição um instrumento de 
apoio aos professores na explicitação dos fundamentos teóricos e das ideias 
metodológicas que sustentam um determinado material didático. Quando os 
autores detalham aí as relações que o material estabelece com a BNCC, e 
destacam valores positivos e atuais de sua metodologia, estão também 
discretamente se comunicando com os avaliadores. Aproveitam esse espaço 
para defender suas escolhas perante os critérios dos editais do PNLD. 
Por sua vez, atender às demandas dos professores significa construir 
um material com o qual se sintam confortáveis em trabalhar. Os manuais do 
professor procuram, assim, apresentar também explicações e leituras 
complementares, atividades solucionadas e outras sugeridas, propostas de 
avaliação – enfim, um conjunto de ferramentas que auxilie o trabalho dos 
professores em sala de aula. Os livros didáticos, dessa forma, tendem a 
apresentar um formato – inclusive na lista de conteúdos – com os quais 
professores estejam habituados. Novidades devem ser apresentadas com 
parcimônia: pois os professores têm determinado cotidiano, um conjunto 
preparado de aulas, muito pouco tempo para preparar novas, além de lidar com 
temas obrigatórios. Pois, após recebido o aval dos avaliadores, é fundamental 
para as editoras que os livros sejam adotados (ou seja, escolhidos) pelas 
escolas. As vendas e o sucesso comercial de uma coleção dependerão, 
efetivamente, da escolha por parte desses professores4. 
Por fim, o texto deve ser adequado para os alunos, além de ser 
pedagogicamente relevante. No nosso caso, isso significa que as obras 
precisam participar do processo de ensino de história, seguindo as concepções 
teóricas, metodológicas e – por que não dizer – factuais da atualidade em 
relação à prática histórica. 
TEMA 4 – AS QUESTÕES TÉCNICAS 
Os livros aprovados no PNLD têm um resumo dos conteúdos e da 
avaliação publicados no Guia do Livro Didático, distribuído às escolas em todo 
o Brasil. Esse guia, utilizado por professoras e professores como auxílio à sua 
escolha do livro didático, apresenta também detalhes técnicos das obras como, 
por exemplo, o número de páginas de cada volume. Três coleções aprovadas 
 
4 Participam deste processo, também, as diversas estratégias de marketing utilizadas pelas 
editoras. Não teremos condições, porém, de discutir também essa questão. 
 
 
11 
no PNLD 2014 apresentavam as seguintes quantidades de páginas para cada 
volume. 
Tabela 1 – Coleções aprovadas pelo PNLD 2014 
 Coleção 1 Coleção 2 Coleção 3 
6º ano 192 páginas 144 páginas 216 páginas 
7º ano 240 páginas 168 páginas 232 páginas 
8º ano 208 páginas 176 páginas 296 páginas 
9º ano 256 páginas 160 páginas 344 páginas 
Os editais estabelecem o número de páginas máximo para cada 
coleção. Trata-se de uma primeira característica técnica que restringe a 
extensão de um material e influencia seu conteúdo. Mas esses números 
revelam outra coisa importante – uma limitação técnica que impacta 
diretamente a produção de livros didáticos. Repare: a quantidade das páginas 
dos livros são sempre múltiplos de 8. E essa é uma característica que você, 
quando escrever livros didáticos, poderá ter de adotar5. 
As grandes editoras se utilizam de um sistema que imprime os livros em 
blocos de oito páginas. Um livro que apresente uma quantidade de páginas que 
não seja múltipla de oito acarretará em perda de papel e em aumento de 
custos. Perceba como isso afeta a escrita de um livro didático: os autores 
devem ou produzir conteúdo adicional, ou retirar algo já escrito caso, no 
processo final de diagramação, revele-se que a obra não possui a quantidade 
adequada de páginas. Há, assim, a necessidade de adequar o conteúdo a uma 
exigência específica da área de produção gráfica. 
Exigências como essa demonstram que os livros didáticos não são mera 
expressão das concepções de seus autores sobre a história. Caso você tenha 
encontrado, no fim de um livro, mapas aleatórios, o hino nacional impresso sem 
nenhuma explicação, imagens exageradamente grandes e atividades que não 
parecem ter sentido, é possível que tenha encontrado algumas das estratégias 
utilizadas por autores para respeitar o número de páginas múltiplo de oito. 
Do ponto de vista estético, são várias as exigências que influenciam a 
produção de conteúdo. Entre elas, estão: o tamanho das fontes, o 
espaçamento entre linhas e das margens e a necessidade de se evitar espaços 
 
5 É possível que, com o desenvolvimento das tecnologias digitais de impressão, essa limitação 
deixe de impactar a produção dos livros didáticos. Hoje, ainda não é o caso. 
 
 
12 
em branco no texto. A Figura 3 traz o rascunho da pauta de uma reunião 
editorial. Repare na quantidade de elementos que os autores devem respeitar 
para que o livro seja adequado à impressão. Todas são questões que 
influenciam o resultado final da obra. 
Figura 3 – Rascunho de pauta de uma reunião editorial 
 
Porém, um dos aspectos gráficos que dialoga diretamente com o 
conteúdo é a diagramação. 
Sua importância para a educação histórica foi discutida anteriormente. 
Quer-se destacar aqui, porém, a influência da diagramação enquanto uma 
questão técnica que influencia a produção do conteúdo. Após definidas as 
seções do livro didático, constrói-se um padrão tanto de conteúdo quanto de 
visual que deverá se manter ao longo de uma coleção inteira. Enquanto 
algumas seções deverão estar presentes em todos os capítulos – de 
atividades, por exemplo, ou de sugestão de materiais complementares –, 
outras poderão ser mais esparsas. Ainda assim, deverão se repetir em número 
suficiente tanto para justificar a construção de uma seção específica, quanto 
para serem identificadas visualmente pelos alunos enquanto um elemento 
específico do texto. Com um padrão estabelecido, será necessário segui-lo. O 
respeito à padronização é uma característica de materiais didáticos de 
qualidade. 
 
 
13 
TEMA 5 – O MANUAL DO PROFESSOR 
A partir dos anos 1960, alguns livros didáticos publicados no Brasil 
passaram a apresentar respostas para as atividades sugeridas como apoio aos 
professores. Com o passar dos anos, o aumento da concorrência no mercado 
de livros didáticos, aliado a mudanças no perfil das obras, acabou criando a 
necessidade de produzir um conteúdo voltado aos professores que vai além 
das simples respostas às atividades. O manual do professor, presente em 
praticamente todos os livros didáticos – e obrigatório para as obras que serão 
distribuídas nas escolas públicas brasileiras –, tornou-se um documento 
fundamental de contato e de informação para os professores. 
Hoje, os manuais do professor continuam apresentando as respostas às 
questões sugeridas. Porém, são acompanhados de uma introdução teórica que 
deve explicar os fundamentos que guiaram a escrita da obra,além de 
atividades, textos e outros materiais complementares. 
De um ponto de vista mercadológico, um manual tem dois objetivos 
essenciais: serve para indicar aos avaliadores do PNLD que a coleção 
efetivamente corresponde às exigências da disciplina e, para os professores, 
serve como um guia de utilização do livro. 
A partir de uma perspectiva mais teórica, os manuais do professor 
devem deixar explícito como a escolha dos temas, a forma de abordagem dos 
conteúdos, as atividades criadas e as temporalidades escolhidas são 
decorrência de determinada concepção de história. Até poucos anos atrás, não 
eram incomuns manuais que apresentavam uma dissociação entre o conteúdo 
teórico apresentado e as efetivas atividades do texto principal. Na introdução 
teórica se defendia a construção do conhecimento histórico do aluno, por 
exemplo, enquanto as atividades eram centradas na repetição e na 
memorização de informações. Essa distância entre teoria e prática – não raro 
ocasionada por pessoas diferentes escrevendo cada uma das partes – tem 
levado à exclusão de determinadas coleções do processo de seleção do PNLD. 
Como escrever um manual do professor? Como uma oportunidade de 
discussão com aqueles profissionais que devem trabalhar com os livros em 
sala de aula. E construir argumentos a partir de pesquisas recentes na área de 
história pode gerar um processo de construção de conhecimento por parte do 
aluno. Se esses fundamentos estiverem claros para os autores, isso tende a 
 
 
14 
transparecer no livro, deixando claro também para os professores o porquê das 
escolhas feitas na coleção. Para além da simples apresentação de respostas a 
atividades, os manuais têm condições de estabelecer relações entre o 
conhecimento histórico escolar e os princípios mais amplos da educação – 
apresentando, por exemplo, outras respostas possíveis para as questões; 
destacando que as soluções encontradas pelos alunos que sejam diferentes do 
gabarito não devem ser desconsideradas, mas analisadas em função do 
desenvolvimento do conhecimento pelos estudantes; discutindo que o texto 
principal e as questões ligadas a ele não devem ser tomados como verdades 
absolutas a respeito do passado; promovendo um debate sobre o complexo 
problema da avaliação enquanto um momento de crescimento e de 
aprendizado, e não de mera cobrança e – muito menos – de punição. 
NA PRÁTICA 
O departamento de história da Universidade de São Paulo (USP) 
organizou um espaço de catalogação e discussão de materiais didáticos de 
história (e de outras disciplinas) em seu Laboratório de Ensino e Material 
Didático (Lemad). Uma das atividades do Lemad é a digitalização de livros 
didáticos do século XIX, disponíveis para o público (Lemad, 2019). Você 
poderá navegar por diferentes livros didáticos e aprender mais sobre o 
processo de desenvolvimento desse tipo de material no Brasil. 
FINALIZANDO 
Todos nós, historiadoras e historiadores, produzimos materiais sob 
determinadas condições de tempo, prazo e formatação. No ensino superior, 
somos limitados às condições dadas pelos professores; como professores, 
somos limitados pelas condições impostas pelas revistas acadêmicas, ou pelas 
agências de fomento à pesquisa. Os livros didáticos não são exceção: há uma 
formatação e uma adequação aos princípios teóricos da história e da 
educação. Saber trabalhar com essas condicionantes faz parte da nossa 
atividade profissional. 
 
 
 
15 
REFERÊNCIAS 
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. 
Disponível em: <http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_1
10518_versaofinal_site.pdf>. Acesso em: 7 out. 2019. 
BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996.. Poder Legislativo, Diário 
Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 1996. Disponível em: 
<http://tiny.cc/ryh4dz>. Acesso em: 7 out. 2019. 
_____. Lei n. 22.645, de 10 de março de 2008. Poder Legislativo, Diário 
Oficial da União, Brasília, DF, 11 mar. 2008. Disponível em: 
<http://tiny.cc/ezh4dz>. Acesso em: 7 out. 2019. 
BRASIL. Ministério da Educação. FNDE – Fundo Nacional de Desenvolvimento 
da Educação. Programas do livro: Edital PNLD 2019. Brasília, 2019. 
Disponível em: <http://tiny.cc/kz63dz>. Acesso em: 7 out. 2019. 
ECKER, A. (Ed.). Initial Training for History Teachers. Strasbourg (France): 
Council of Europe Publishing, 2003. 
LIVROS didáticos digitalizados. Lemad – Laboratório de Ensino e Material 
Didático. Disponível em: <http://tiny.cc/zvg4dz>. Acesso em: 7 out. 2019. 
NERY, F. MEC é o maior comprador de livros do mundo. Abrelivros, 5 nov. 
2004. Disponível em: <http://www.abrelivros.org.br/home/index.php/noticias/91
1-mec-e-o-maior-comprador-de-livros-do-mundo>. Acesso em: 7 out. 2019. 
SILVA, M. A. A fetichização do livro didático no Brasil. Educação e Realidade, 
Porto Alegre, v. 37, n. 3, p. 803-821, set./dez. 2012. 
VIEIRA, I. Corte de compras do governo afeta mercado editorial, constata 
pesquisa. Empresa Brasil de Comunicação – EBC, 3 jun. 2015. Disponível 
em: <http://www.ebc.com.br/noticias/economia/2015/06/corte-de-compras-do-
governo-afeta-mercado-editorial-constata-pesquisa>. Acesso em: 7 out. 2019. 
 
http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf
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