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PRODUÇÃO DE RECURSOS DIDÁTICOS EM HISTÓRIA AULA 4 Prof. Antonio Fontoura 2 CONVERSA INICIAL O que se pode e o que não se pode dizer ou mostrar em um livro didático? Por outro lado, o que se é obrigado a narrar, descrever, apresentar? O trabalho de autoria de um livro didático possui regras específicas que ultrapassam os limites dos eventos e dos processos históricos. Por se ligar, para além da educação, a fatores como mercado e legislação, a escrita de materiais didáticos envolve um conjunto de limites, regras e demandas que podem ser de caráter mais geral (como a valorização da cidadania e o combate ao preconceito) ou específicas (como as peculiaridades técnicas da indústria editorial). TEMA 1 – RESPONSABILIDADE SOCIAL E POLÍTICA Observe a Figura 1. Ela foi inspirada em um livro didático de história para o 3º ano do Ensino Fundamental, publicado na primeira década do século XXI. 3 Figura 1 – Exemplo de um livro didático de história para o terceiro ano do ensino fundamental O direito à saúde deve ser garantido a todas as crianças desde o seu nascimento. Porém, ainda nos dias de hoje, existem crianças que vivem em condições precárias de moradia, o que afeta a sua saúde. Crédito: JRP Studio/Shutterstock; Anton_Ivanov/Shutterstock. O livro didático original retratado na Figura 1 acabou sendo reprovado pelos avaliadores do Programa Nacional do Livro e Material Didático (PNLD), que o qualificaram como indevido para o uso nas salas de aula. Analisando-se a página, você consegue descobrir o motivo para a reprovação? E será que você concordaria com esse motivo? O livro, como outros tantos semelhantes, foi reprovado por reforçar ideias consideradas racistas. Em suas páginas, saúde, felicidade, organização e equilíbrio apareciam associados a pessoas brancas, enquanto doenças, violência, desorganização e desestruturação eram associadas a imagens de pessoas negras. 4 É possível que você argumente: “Ora, mas a imagem da criança negra morando em um local insalubre retrata uma determinada realidade. Como apresentar a realidade pode ser considerado racista?”. Tal argumento tem fundamento, mas se esquece de algo: materiais que são reprovados por questões ligadas ao racismo não o são por uma única imagem ou um texto isolado1. Mas pela constante associação, ao longo de um livro inteiro, ou mesmo de uma coleção inteira, de pessoas negras com condições sofríveis de existência; ou de mulheres sempre em posição de subordinação; ou de indígenas como tecnicamente atrasados; ou de pessoas do campo como de higiene problemática. Dentre outras concepções semelhantes. É da responsabilidade da autora ou do autor a escolha das imagens que ilustram ou servem como documentos de análise no material didático. E jamais se pode esquecer que as imagens carregam informações importantes, que elas mesmas são mensagens, e que podem produzir as mais diversas interpretações. É por isso que a seleção das imagens de um livro didático deve respeitar os objetivos educacionais pretendidos. Tais representações, de toda forma, têm diminuído sensivelmente, pela ação de autores e editores, de grupos sociais e do próprio governo. A Lei n. 11.645, de 10 de março de 2008, que tornou obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena, vem mudando parte desse panorama nos livros didáticos. Cada vez mais, autoras e autores têm buscado integrar elementos da cultura afro-brasileira (e da história da África), bem como da história indígena, aos conteúdos dos livros didáticos. Não deixa de ser significativo, de toda forma, ter sido necessária a promulgação de uma lei para que os currículos e os materiais didáticos passassem a integrar e reconhecer, de maneira mais efetiva, a história africana, afro-brasileira e indígena, elementos fundamentais da formação nacional. Em um debate bastante atual na educação brasileira, discutem-se as possibilidades e os limites da apresentação de concepções políticas ou mesmo partidárias, tantos por professores, em sala de aula, quanto em livros didáticos. É muito difícil estabelecer os limites que seriam éticos em relação à educação política. Há, obviamente, os casos exagerados, que são mais fáceis de identificar. Na década de 1970, o governo militar fechou duas escolas de 1 A não ser em óbvios casos em que o texto ou a imagem sejam, efetivamente, de cunho racista. 5 educação infantil em Curitiba sob o pretexto de que os professores estavam ensinando marxismo para crianças de seis anos. Tratou-se de uma ação fundada na ignorância dos agentes dos órgãos repressivos em relação às ideias do educador suíço Jean Piaget (1896-1980), que servia de base para aquelas escolas. E não se pode esquecer que o regime militar tinha, por assim dizer, seus próprios livros didáticos, na disciplina de Educação Moral e Cívica. Tratava-se de livros que defendiam a subordinação à autoridade, a aceitação irrestrita de regras, o respeito inconteste às figuras de poder, além de apresentar como condenáveis modelos desviantes de existência. Nesses livros, eram muito raros os negros, as mulheres solteiras, as pessoas do campo, os indígenas e os pobres. E não eram incomuns, até poucas décadas, livros de história que se calavam, ou minimizavam, as inúmeras lutas sociais do passado brasileiro, em uma narrativa que inventava uma pacífica continuidade histórica nacional. Os livros aprovados pela ditadura militar são exemplos de expressões políticas em materiais didáticos que se situam à direita do espectro político. Podemos dar exemplos do outro lado. Muitos dos livros didáticos que se autodenominavam partidários de “história crítica”, nos anos 1980, de base marxista, lançavam mão do choque e do sentimentalismo para convencer os alunos dos males do colonialismo e do imperialismo. Uma década mais cedo, Ariel Dorfman (1942) e Armand Mattelart (1936) publicaram Para ler o Pato Donald. Obra popular entre os educadores, ela denunciava o que seria a doutrinação capitalista e colonizadora das histórias em quadrinhos de Walt Disney. E, mais recentemente, nos primeiros anos da década de 2000, um livro de história para o ensino médio, aprovado pelo PNLD (apesar de não ter sido escrito por um historiador), fazia apologia explícita ao socialismo. Ao lado da foto de um homem em evidente estado de desnutrição, por exemplo, o autor colocou a seguinte frase como se dita pelo próprio homem: “Aí, galera. Viva o capitalismo neoliberal! Eu me amarro em consumir”. À direita e à esquerda do espectro político, portanto, os livros didáticos de história foram utilizados como instrumento de difusão de ideias. Conclui-se então que se deve extrair a política dos materiais didáticos? Não. Pois política também deve ser objeto de aprendizagem. É na escola, e com apoio dos livros didáticos, que se aprende a escutar e respeitar a opinião do próximo, a compreender as dificuldades dos outros, a elaborar soluções em conjunto, a 6 conhecer os direitos e deveres legais, a reconhecer desigualdades, a compreender regras. A escola é usualmente o primeiro espaço em que alunas e alunos têm para discutir eleições, debater propostas políticas, conhecer a realidade de seu próprio município e estado, e do país. Esse aspecto político é fundamental à construção da cidadania e, portanto, da própria educação. Além disso, é importante ensinar a reconhecer a existência de diferentes posicionamentos políticos ao longo da história, seus fundamentos, argumentos e objetivos. E, na educação política, os livros de história desempenham papel fundamental. Sem esta, por assim dizer, “política”, educação é pastiche. Porém, a escola não é lugar para partidos políticos. Também não o são oslivros didáticos de história. O objetivo de um texto didático é fornecer os instrumentos intelectuais para que alunas e alunos construam o próprio repertório de ideias, argumentos, decisões e posicionamentos sobre a realidade. Mesmo que acabem se tornando diferentes daquelas dos próprios autores dos livros didáticos. É dessa forma que se produz um livro didático e uma educação efetivamente democráticos. TEMA 2 – ENTRE A OBRIGAÇÃO E A OPÇÃO Até as últimas décadas do século XIX, os alunos brasileiros tinham como única opção, para a disciplina de história, estudar com livros didáticos franceses. Por motivos óbvios, tais livros não traziam qualquer conteúdo sobre a história do Brasil, mas principalmente sobre o que hoje chamaríamos de história geral – episódios da história católica, além da história francesa. Os primeiros livros didáticos específicos para os brasileiros surgiram na década de 1860 e foram influenciados pela organização escolar já existente que privilegiava o modelo e os conteúdos franceses na educação. Determinadas características desse processo inicial da produção de livros didáticos sobre a história do Brasil influenciaram de forma duradoura não apenas a estrutura dos materiais, mas os próprios currículos de história, até os dias de hoje. É característico de nosso modelo de ensino, por exemplo, a distinção entre história geral e história do Brasil. Hoje, há poucos livros no mercado que separam essas duas perspectivas, sendo que a maioria prefere o modelo que se denominou de história integrada: a reunião de conteúdos da história nacional com a história do mundo. Até poucas décadas atrás, porém, não era 7 difícil encontrar livros didáticos divididos estritamente entre história geral e história do Brasil. Porém, esse modelo de história integrada, ainda que a princípio possa parecer razoável, traz consigo alguns males das origens dos materiais didáticos de história brasileiros. Como os conteúdos da história nacional não substituíram, mas foram adicionados a uma história geral preexistente, persistiu uma tendência de se subestimar os conteúdos da história brasileira nos materiais escolares do país – assim como nos currículos e nas próprias aulas. Considere os conteúdos definidos pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o estudo da história nos anos finais do ensino fundamental (Base, 2019). Para o sexto ano, deve-se estudar das origens da humanidade até o mundo medieval europeu; no sétimo ano, do nascimento da modernidade ao surgimento do capitalismo; no oitavo ano, da crise do Antigo Regime ao século XIX; no nono ano, do século XIX (com o estabelecimento da República no Brasil) até a atualidade. Em outras palavras: no sexto ano do ensino fundamental, os livros didáticos de história não mencionam o Brasil; um terço dos livros do sétimo ano fala do país; número que aumenta um pouco no oitavo e no nono ano, quando metade do material trata da história brasileira. No total, pouco mais de 30% dos conteúdos do ensino fundamental II são sobre a história do Brasil. Na Europa, por exemplo, é muito raro encontrar um país no qual o currículo conceda tão pouco espaço à história nacional. A Figura 2 compara os currículos de história em Portugal, Reino Unido e França. Figura 2 – Uma comparação dos currículos de história em três países europeus Fonte: Adaptado de Ecker, 2003. A estrutura do ensino de história no Brasil provoca significativas distorções na formação dos alunos. Os livros didáticos tendem a apresentar um conteúdo muito mais aprofundado sobre os Cuchitas, por exemplo, do que sobre a revolta dos Malês – episódio fundamental da reação à escravatura no 8 Brasil do século XIX, cuja descrição não raro ocupa apenas dois ou três parágrafos nos livros didáticos nacionais. Estudar a sociedade de Cush é importante. Porém, como não se pode estudar toda a história, há que se fazer opções. E os materiais didáticos no Brasil optaram por reduzir a importância do ensino da história nacional em comparação à história geral. É possível produzir livros didáticos que fujam desse esquema. Porém, é bastante improvável que você encontre uma editora que aceite publicar um material que não esteja alinhado com as determinações do BNCC e dos editais do governo federal e com as expectativas de professores e professoras. Você, responsável pela autoria do material, é livre para definir a linguagem, a abordagem, os documentos e textos historiográficos, as atividades e o caráter dialógico de seu livro didático. Porém, a liberdade em relação à escolha de temas será bem menor: porque eles são definidos por leis, porque os professores estão habituados a eles e os consideram essenciais, e porque esses temas são cobrados em avaliações do ENEM e em vestibulares. Há uma relação imensa de condicionantes que dirigem a escolha dos temas históricos que devem estar presentes em livros didáticos. Porém, a mais importante é que tais materiais fazem parte de um mercado específico. TEMA 3 – A INFLUÊNCIA DO MERCADO Isso significa afirmar que os livros didáticos voltados ao mercado particular apresentam uma maior liberdade na definição dos temas? Não. Talvez com exceção do mercado de materiais apostilados, que segue uma lógica algo diferente, mesmo as obras voltadas ao mercado das escolas privadas acabam influenciadas pelo mercado dos livros didáticos para as escolas públicas. O governo brasileiro é o maior comprador individual de livros do país e um dos maiores do mundo (Nery, 2004; Vieira, 2015; Silva, 2012). Desde o início do século XXI, com a solidificação das compras sistemáticas de livros didáticos por meio do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), o mercado de livros didáticos brasileiros se tornou atraente inclusive para empresas estrangeiras, que passaram a investir no Brasil. Para a grande maioria das editoras de livros educativos, a principal fonte de receita está na comercialização dos livros para o governo federal e, em relação aos livros didáticos, à participação e aprovação nos programas do PNLD. Grandes 9 concorrências geraram grandes investimentos: com a prioridade mercadológica passando aos livros didáticos para as escolas públicas, e considerando-se os altos custos envolvidos na produção de uma coleção de livros didáticos, as editoras não investiram em coleções específicas para as escolas privadas, que passaram a utilizar versões modificadas ou adaptadas dos materiais produzidos originalmente para o PNLD. Se, há algumas décadas, os livros didáticos das escolas públicas eram inferiores tanto em qualidade como nos próprios conteúdos em comparação aos comercializados nas escolas particulares, hoje a realidade é outra. Por causa dessa pressão mercadológica, a escrita de um livro didático no Brasil está intimamente ligada à satisfação de três desejos editoriais: 1) desejo de aprovação pelos avaliadores do PNLD; 2) após aprovados, o desejo de serem escolhidos pelos professores; 3) depois de escolhidos, o desejo de atenderem às expectativas de alunas e alunos. Isso significa que, no momento da escrita de um livro didático, os autores e as autoras devem estar cientes de terem diante de si três tipos de leitores em potencial que devem ser satisfeitos: os avaliadores contratados pelo governo federal2, os professores e os alunos. Lançado o edital pelo governo federal, as editoras inscrevem os livros didáticos como concorrentes ao PNLD: são retiradas todas as informações tanto da editora quanto dos autores (para reduzir riscos de favorecimento) e as obras seguem, após uma análise técnica, para uma avaliação educacional. Escrever um livro didático que seja aprovado pelos avaliadores do PNLD depende muito de seguir objetivamente as exigências de qualidade e conteúdo, atualmente fundamentadas nos critérios da BNCC. Como expressa um edital do PNLD de 2017:A avaliação das obras didáticas submetidas à inscrição no PNLD 20193 […] objetiva sobretudo garantir que os materiais contribuam para o alcance […] do desenvolvimento das competências e habilidades envolvidas no processo de aprendizagem nos anos iniciais do ensino fundamental, conforme definidas [na] Base Nacional Comum Curricular (BNCC). (Brasil, 2019) Usualmente, autores e autoras procuram deixar claro seu alinhamento às normas dos editais no manual do professor. Este documento, de caráter 2 Os avaliadores são professores de história de instituições de ensino superior. Essa é apenas uma das várias formas pelas quais os professores de instituições de ensino superior exercem a função de críticos dos livros didáticos, ao mesmo tempo em que participam de sua produção e da perpetuação desse modelo. 3 O edital é de 2017 para obras a serem utilizadas a partir de 2019. 10 obrigatório (que será discutido a seguir), é por definição um instrumento de apoio aos professores na explicitação dos fundamentos teóricos e das ideias metodológicas que sustentam um determinado material didático. Quando os autores detalham aí as relações que o material estabelece com a BNCC, e destacam valores positivos e atuais de sua metodologia, estão também discretamente se comunicando com os avaliadores. Aproveitam esse espaço para defender suas escolhas perante os critérios dos editais do PNLD. Por sua vez, atender às demandas dos professores significa construir um material com o qual se sintam confortáveis em trabalhar. Os manuais do professor procuram, assim, apresentar também explicações e leituras complementares, atividades solucionadas e outras sugeridas, propostas de avaliação – enfim, um conjunto de ferramentas que auxilie o trabalho dos professores em sala de aula. Os livros didáticos, dessa forma, tendem a apresentar um formato – inclusive na lista de conteúdos – com os quais professores estejam habituados. Novidades devem ser apresentadas com parcimônia: pois os professores têm determinado cotidiano, um conjunto preparado de aulas, muito pouco tempo para preparar novas, além de lidar com temas obrigatórios. Pois, após recebido o aval dos avaliadores, é fundamental para as editoras que os livros sejam adotados (ou seja, escolhidos) pelas escolas. As vendas e o sucesso comercial de uma coleção dependerão, efetivamente, da escolha por parte desses professores4. Por fim, o texto deve ser adequado para os alunos, além de ser pedagogicamente relevante. No nosso caso, isso significa que as obras precisam participar do processo de ensino de história, seguindo as concepções teóricas, metodológicas e – por que não dizer – factuais da atualidade em relação à prática histórica. TEMA 4 – AS QUESTÕES TÉCNICAS Os livros aprovados no PNLD têm um resumo dos conteúdos e da avaliação publicados no Guia do Livro Didático, distribuído às escolas em todo o Brasil. Esse guia, utilizado por professoras e professores como auxílio à sua escolha do livro didático, apresenta também detalhes técnicos das obras como, por exemplo, o número de páginas de cada volume. Três coleções aprovadas 4 Participam deste processo, também, as diversas estratégias de marketing utilizadas pelas editoras. Não teremos condições, porém, de discutir também essa questão. 11 no PNLD 2014 apresentavam as seguintes quantidades de páginas para cada volume. Tabela 1 – Coleções aprovadas pelo PNLD 2014 Coleção 1 Coleção 2 Coleção 3 6º ano 192 páginas 144 páginas 216 páginas 7º ano 240 páginas 168 páginas 232 páginas 8º ano 208 páginas 176 páginas 296 páginas 9º ano 256 páginas 160 páginas 344 páginas Os editais estabelecem o número de páginas máximo para cada coleção. Trata-se de uma primeira característica técnica que restringe a extensão de um material e influencia seu conteúdo. Mas esses números revelam outra coisa importante – uma limitação técnica que impacta diretamente a produção de livros didáticos. Repare: a quantidade das páginas dos livros são sempre múltiplos de 8. E essa é uma característica que você, quando escrever livros didáticos, poderá ter de adotar5. As grandes editoras se utilizam de um sistema que imprime os livros em blocos de oito páginas. Um livro que apresente uma quantidade de páginas que não seja múltipla de oito acarretará em perda de papel e em aumento de custos. Perceba como isso afeta a escrita de um livro didático: os autores devem ou produzir conteúdo adicional, ou retirar algo já escrito caso, no processo final de diagramação, revele-se que a obra não possui a quantidade adequada de páginas. Há, assim, a necessidade de adequar o conteúdo a uma exigência específica da área de produção gráfica. Exigências como essa demonstram que os livros didáticos não são mera expressão das concepções de seus autores sobre a história. Caso você tenha encontrado, no fim de um livro, mapas aleatórios, o hino nacional impresso sem nenhuma explicação, imagens exageradamente grandes e atividades que não parecem ter sentido, é possível que tenha encontrado algumas das estratégias utilizadas por autores para respeitar o número de páginas múltiplo de oito. Do ponto de vista estético, são várias as exigências que influenciam a produção de conteúdo. Entre elas, estão: o tamanho das fontes, o espaçamento entre linhas e das margens e a necessidade de se evitar espaços 5 É possível que, com o desenvolvimento das tecnologias digitais de impressão, essa limitação deixe de impactar a produção dos livros didáticos. Hoje, ainda não é o caso. 12 em branco no texto. A Figura 3 traz o rascunho da pauta de uma reunião editorial. Repare na quantidade de elementos que os autores devem respeitar para que o livro seja adequado à impressão. Todas são questões que influenciam o resultado final da obra. Figura 3 – Rascunho de pauta de uma reunião editorial Porém, um dos aspectos gráficos que dialoga diretamente com o conteúdo é a diagramação. Sua importância para a educação histórica foi discutida anteriormente. Quer-se destacar aqui, porém, a influência da diagramação enquanto uma questão técnica que influencia a produção do conteúdo. Após definidas as seções do livro didático, constrói-se um padrão tanto de conteúdo quanto de visual que deverá se manter ao longo de uma coleção inteira. Enquanto algumas seções deverão estar presentes em todos os capítulos – de atividades, por exemplo, ou de sugestão de materiais complementares –, outras poderão ser mais esparsas. Ainda assim, deverão se repetir em número suficiente tanto para justificar a construção de uma seção específica, quanto para serem identificadas visualmente pelos alunos enquanto um elemento específico do texto. Com um padrão estabelecido, será necessário segui-lo. O respeito à padronização é uma característica de materiais didáticos de qualidade. 13 TEMA 5 – O MANUAL DO PROFESSOR A partir dos anos 1960, alguns livros didáticos publicados no Brasil passaram a apresentar respostas para as atividades sugeridas como apoio aos professores. Com o passar dos anos, o aumento da concorrência no mercado de livros didáticos, aliado a mudanças no perfil das obras, acabou criando a necessidade de produzir um conteúdo voltado aos professores que vai além das simples respostas às atividades. O manual do professor, presente em praticamente todos os livros didáticos – e obrigatório para as obras que serão distribuídas nas escolas públicas brasileiras –, tornou-se um documento fundamental de contato e de informação para os professores. Hoje, os manuais do professor continuam apresentando as respostas às questões sugeridas. Porém, são acompanhados de uma introdução teórica que deve explicar os fundamentos que guiaram a escrita da obra,além de atividades, textos e outros materiais complementares. De um ponto de vista mercadológico, um manual tem dois objetivos essenciais: serve para indicar aos avaliadores do PNLD que a coleção efetivamente corresponde às exigências da disciplina e, para os professores, serve como um guia de utilização do livro. A partir de uma perspectiva mais teórica, os manuais do professor devem deixar explícito como a escolha dos temas, a forma de abordagem dos conteúdos, as atividades criadas e as temporalidades escolhidas são decorrência de determinada concepção de história. Até poucos anos atrás, não eram incomuns manuais que apresentavam uma dissociação entre o conteúdo teórico apresentado e as efetivas atividades do texto principal. Na introdução teórica se defendia a construção do conhecimento histórico do aluno, por exemplo, enquanto as atividades eram centradas na repetição e na memorização de informações. Essa distância entre teoria e prática – não raro ocasionada por pessoas diferentes escrevendo cada uma das partes – tem levado à exclusão de determinadas coleções do processo de seleção do PNLD. Como escrever um manual do professor? Como uma oportunidade de discussão com aqueles profissionais que devem trabalhar com os livros em sala de aula. E construir argumentos a partir de pesquisas recentes na área de história pode gerar um processo de construção de conhecimento por parte do aluno. Se esses fundamentos estiverem claros para os autores, isso tende a 14 transparecer no livro, deixando claro também para os professores o porquê das escolhas feitas na coleção. Para além da simples apresentação de respostas a atividades, os manuais têm condições de estabelecer relações entre o conhecimento histórico escolar e os princípios mais amplos da educação – apresentando, por exemplo, outras respostas possíveis para as questões; destacando que as soluções encontradas pelos alunos que sejam diferentes do gabarito não devem ser desconsideradas, mas analisadas em função do desenvolvimento do conhecimento pelos estudantes; discutindo que o texto principal e as questões ligadas a ele não devem ser tomados como verdades absolutas a respeito do passado; promovendo um debate sobre o complexo problema da avaliação enquanto um momento de crescimento e de aprendizado, e não de mera cobrança e – muito menos – de punição. NA PRÁTICA O departamento de história da Universidade de São Paulo (USP) organizou um espaço de catalogação e discussão de materiais didáticos de história (e de outras disciplinas) em seu Laboratório de Ensino e Material Didático (Lemad). Uma das atividades do Lemad é a digitalização de livros didáticos do século XIX, disponíveis para o público (Lemad, 2019). Você poderá navegar por diferentes livros didáticos e aprender mais sobre o processo de desenvolvimento desse tipo de material no Brasil. FINALIZANDO Todos nós, historiadoras e historiadores, produzimos materiais sob determinadas condições de tempo, prazo e formatação. No ensino superior, somos limitados às condições dadas pelos professores; como professores, somos limitados pelas condições impostas pelas revistas acadêmicas, ou pelas agências de fomento à pesquisa. Os livros didáticos não são exceção: há uma formatação e uma adequação aos princípios teóricos da história e da educação. Saber trabalhar com essas condicionantes faz parte da nossa atividade profissional. 15 REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Disponível em: <http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_1 10518_versaofinal_site.pdf>. Acesso em: 7 out. 2019. BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996.. Poder Legislativo, Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 1996. Disponível em: <http://tiny.cc/ryh4dz>. Acesso em: 7 out. 2019. _____. Lei n. 22.645, de 10 de março de 2008. Poder Legislativo, Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 mar. 2008. Disponível em: <http://tiny.cc/ezh4dz>. Acesso em: 7 out. 2019. BRASIL. Ministério da Educação. FNDE – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Programas do livro: Edital PNLD 2019. Brasília, 2019. Disponível em: <http://tiny.cc/kz63dz>. Acesso em: 7 out. 2019. ECKER, A. (Ed.). Initial Training for History Teachers. Strasbourg (France): Council of Europe Publishing, 2003. LIVROS didáticos digitalizados. Lemad – Laboratório de Ensino e Material Didático. Disponível em: <http://tiny.cc/zvg4dz>. Acesso em: 7 out. 2019. NERY, F. MEC é o maior comprador de livros do mundo. Abrelivros, 5 nov. 2004. Disponível em: <http://www.abrelivros.org.br/home/index.php/noticias/91 1-mec-e-o-maior-comprador-de-livros-do-mundo>. Acesso em: 7 out. 2019. SILVA, M. A. A fetichização do livro didático no Brasil. Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 37, n. 3, p. 803-821, set./dez. 2012. VIEIRA, I. Corte de compras do governo afeta mercado editorial, constata pesquisa. Empresa Brasil de Comunicação – EBC, 3 jun. 2015. Disponível em: <http://www.ebc.com.br/noticias/economia/2015/06/corte-de-compras-do- governo-afeta-mercado-editorial-constata-pesquisa>. Acesso em: 7 out. 2019. http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf