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A ALTA IDADE MÉDIA – FORMAÇÃO DO FEUDALISMO Desde a crise do Império romano no Ocidente, percebia-se um gradual recuo da vida urbana e simul- tânea ruralização da sociedade, com as atividades eco- nômicas, pouco a pouco, caindo ao nível da subsistên- cia. Com a queda final de Roma, essa situação se ace- lerou, fazendo com que os instáveis reinos germânicos não conseguissem mais sustentar a civilização urbana típica da Antiguidade. Com o colapso do Império Caro- língio e as novas invasões de povos magiares, norman- dos e eslavos, a tendência de fortalecimento do meio rural e de decadência do urbano se acentuou e se ace- lerou. Ao longo de todo esse processo, que durou mais de meio milênio, foi se formando um novo sistema po- lítico e econômico que caracterizaria a Idade Média e recebeu, de historiadores no século XIX, o nome de feudalismo. A vida urbana e comercial teve uma queda brusca (existiam atividades comerciais locais, sobretudo com produtos como sal, ferro) e as ativida- des agropastoris voltadas para a subsistência foram ganhando importância, bem como a posse da terra como fator de riqueza. Ao mesmo tempo, a autori- dade política foi se transferindo para os nobres, os chamados senhores feudais. Iluminura medieval, séc. XV. Fiquem ligados! A chamada “desintegração” do Império Romano re- modelou a Europa. As modificações que ocorreram levaram à formação de uma sociedade com carac- terísticas próprias, conhecida como sociedade me- dieval. Sobre o período da Alta Idade Média (do sé- culo V ao X), é CORRETO afirmar: A) Os povos que ocuparam o Império Romano man- tiveram a estrutura política anterior, com uma divi- são equilibrada e estável das funções públicas. B) Chamados de “bárbaros”, povos como os germa- nos e os hunos foram responsáveis pela retomada da atividade mercantil e pela urbanização da Eu- ropa. C) Com o caráter de migração ou invasão, a chegada dos chamados “bárbaros” esteve relacionada à fa- lência do mundo escravista e à debilidade militar de Roma. D) A população residente no antigo Império Ro- mano integrou-se com as várias tribos germânicas invasoras, formando federações como a Gália e a Hispânia. E) Os conflitos entre romanos e germanos, decor- rentes das invasões, acabaram caracterizando a de- nominada Guerra dos Cem Anos. A FORMAÇÃO DO FEUDALISMO O modo de produção feudal teria iniciado seu processo de formação em meio à crise do Império Ro- mano, a partir da junção de elementos socioeconômi- cos dos invasores germânicos e dos próprios romanos. Essa fusão ocorreu lentamente e, após séculos, origi- naria o que se conhece como feudalismo. Durante a crise do império, os romanos abas- tados passaram a receber plebeus, escravizados e até pequenos proprietários em suas possessões, chama- das de villas, submetendo essas pessoas à sua autori- dade e a uma forma de trabalho conhecida como co- lonato, que daria origem à servidão feudal. Entretanto, os germânicos contribuiriam mais tarde para a estruturação do feudalismo com a adoção de práticas típicas desses povos, entre elas o chamado comitatus, contrato de fidelidade entre guerreiros, e a doação de terras como recompensa para eles, conhe- cida como beneficium. Tais práticas estariam na base dos laços de vassalagem característicos da nobreza feudal. TEXTO 03 – O FEUDALISMO Professor: Walbi Silva Pimentel COMPONENTE CURRICULAR: HISTÓRIA – 1ª série do Ensino Médio Portanto, a nova economia feudal estava em gestação desde o século III d.C., e o fim do Império Ro- mano foi decisivo para que as instituições romanas e germânicas entrassem em fusão. Contudo, tal pro- cesso se completaria apenas após o colapso do Impé- rio Carolíngio, quando a combinação de fragmentação territorial e de avanços dos normandos (vikings), ára- bes e magiares na Europa Ocidental reforçou a rurali- zação da sociedade e o consequente poder dos nobres em suas terras. Os povos germânicos também tiveram influên- cia sobre o processo de formação da servidão feudal, pois reforçaram os laços de parentesco que prendiam o colonus à terra, enfraquecendo os estatutos jurídi- cos latinos que garantiriam a liberdade dos plebeus camponeses. O progressivo crescimento do poder dos senhores feudais locais provocava também decrés- cimo das liberdades camponesas, reduzindo mais e mais os antigos colonos à condição de servos. Os ser- vos, provavelmente, surgiram juridicamente devido às mudanças na situação jurídico-econômica dos antigos escravizados que recebiam lotes de terra e, ao mesmo tempo, dos colonos que iam perdendo suas prerroga- tivas de homens livres, ficando cada vez mais presos à terra onde nasceram e submetidos ao senhor local. Se, durante o Império Carolíngio, os servos não compu- nham mais que 10% do conjunto dos trabalhadores rurais, eles cresceram significativamente em quanti- dade e em importância ao longo da Idade Média. CARACTERÍSTICAS DA SOCIEDADE A vida social era organizada pelo critério de nascimento, e as chances de mobilidade social eram praticamente inexistentes. Os três grupos centrais eram divididos entre nobres e clérigos, que a rigor for- mavam as camadas socialmente dominantes, e os camponeses, artesãos e uns poucos escravizados, que formavam a base da pirâmide social. Iluminura medieval do séc. XIII ilustrando as três or- dens medievais A nobreza era a ordem social que detinha a posse das terras e toda a autoridade sobre leis, moe- das e impostos dentro de suas terras, chamadas de se- nhorios, as quais normalmente eram divididas em três áreas: a reserva senhorial (usufruto exclusivo do se- nhor feudal), o manso servil (terras arrendadas aos camponeses) e as terras comunais (uso coletivo). O feudo e suas áreas centrais. Os nobres não trabalhavam, pois sua função social era a defesa da sociedade e a participação nas guerras. Moravam em castelos fortificados e aos pou- cos foram desenvolvendo um grupo montado em ca- valos voltado para a guerra: os cavaleiros. O título de cavaleiro passou a ser controlado pela nobreza, o qual requeria treinamento especializado e uma boa situa- ção econômica, necessária para sustentar os animais e prover os armamentos. Os nobres desenvolveram um código de ética guerreira que mesclava virilidade e honra com violência e guerra, sendo comuns conflitos por questões de honra, riquezas e terras no seio da nobreza e até ações violentas de saques a pessoas in- defesas. Daí a atuação da Igreja Católica em tentar controlar o ímpeto dos cavaleiros por meio da imposi- ção de um novo código de ética baseado nos valores cristãos. Os guerreiros deveriam canalizar suas forças para combater os inimigos externos (os “infiéis”, so- bretudo os muçulmanos) e ajudar quem precisasse no âmbito interno. Os cavaleiros foram orientados para sempre respeitar os princípios cristãos e temer a au- toridade da Igreja, que, para restringir ainda mais a vi- olência dos guerreiros, introduziu as chamadas Tré- guas de Deus e Paz de Deus, que eram proibições de conflitos em certos períodos do ano e em certos locais. Ainda relacionado à Igreja Católica, seus mem- bros, os clérigos, também possuíam uma posição so- cial destacada, porém havia distinções importantes dentro da hierarquia eclesiástica, reproduzindo as di- visões sociais mais amplas e diferenciando os clérigos entre si. A cúpula da Igreja, papas, patriarcas, cardeais, bispos, abades e demais autoridades, que eram os que realmente administravam as terras e bens da Igreja e decidiam sobre os aspectos religiosos e simbólicos da instituição, era o chamado alto clero e provinha da no- breza feudal. O alto clero desfrutava de todos os privi- légios da nobreza, acrescidos das vantagens materiais e espirituais da Igreja. Os sacerdotes que compunham a base da Igreja, párocos locais, monges que faziam trabalhos braçais nos mosteiros, frades itinerantes, eram de origem plebeia e compunham o chamado baixo clero.Tinham poucos privilégios, mas continua- vam em um degrau acima dos camponeses (livres, ser- vos ou escravizados) normais. Os clérigos se dividiam ainda em regulares, os monges que habitavam os mosteiros e permaneciam reclusos em vidas contem- plativas; e seculares, os sacerdotes que viviam no mundo, no saeculum, em meio ao restante da huma- nidade difundindo a religião e administrando a Igreja. Clero. Iluminura medieval, séc. XII. A ordem mais numerosa (aproximadamente 60% da população) era composta por camponeses, pequenos artesãos e comerciantes. Os camponeses compunham a massa trabalhadora que sustentava os clérigos e a nobreza. A maioria dos camponeses era presa à terra e, portanto, não eram homens livres, sendo submetidos a condições de vida e de trabalho deploráveis, assim como a vários tributos. Contudo, uma pequena parcela de camponeses conseguiu ter suas pequenas propriedades, chamadas de terras alo- diais, que, em períodos de insegurança e de guerras, eram entregues aos nobres em troca de proteção. Tais camponeses perdiam suas terras e tornavam-se vi- lões. No entanto, mesmo pagando impostos aos no- bres, eram homens livres, e não servos, como a maio- ria dos camponeses. É oportuno lembrar que a Igreja Católica legiti- mava tal configuração social como fruto da vontade divina, bem como a divisão de funções entre os três grupos sociais: o clero, responsável pela salvação das almas de toda a sociedade; a nobreza, encarregada da proteção e da defesa; e os camponeses, incumbidos da tarefa de trabalhar e de sustentar toda a sociedade. Saiba mais O domínio da fé é uno, mas há um triplo es- tatuto na ordem. A lei humana impõe duas condi- ções: o nobre e o servo não estão submetidos ao mesmo regime. Os guerreiros são protetores das igrejas. Eles defendem os poderosos e os fracos, protegem todo mundo, inclusive a eles. Os servos, por sua vez, têm outra condição. Esta raça de infeli- zes não tem nada sem sofrimento. Fornecer a todos alimentos e vestimenta – eis a função do servo. A casa de Deus, que parece una, é portanto, tripla - uns rezam, outros combatem e outros trabalham. Todos os três formam um conjunto e não se sepa- ram. A obra de uns permite o trabalho dos outros dois e cada qual por sua vez presta seu apoio aos outros FRANCO JÚNIOR, Hilário. História da Idade Média, o nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasi- liense, 2006, p. 89. Fiquem ligados! Servidão e vassalagem eram duas formas de relação social existentes na Idade Média, através das quais os senhores se impunham. Sobre esses modelos de relação social, é correto afirmar que A) na vassalagem, um nobre submetia sua fideli- dade a outro nobre que, assim, tornava-se seu su- serano. B) a vassalagem constituía-se pelo contrato de con- cessão de terras do senhor feudal a um camponês. C) a servidão era o laço que unia um nobre a outro através do juramento de fidelidade irrestrita a ele e ao seu suserano. D) a servidão e a vassalagem eram relações que se davam somente entre um nobre e um camponês li- gado à terra. AS RELAÇÕES SOCIAIS VERTICAIS As relações sociais verticais eram hierarquiza- das e baseadas na sujeição do campesinato aos nobres e clérigos, que extraíam seu sustento por meio da ex- ploração econômica do trabalho servil. Como foi visto, desde o final do Império Romano, os camponeses pro- curaram trabalho, proteção e sustento nas terras per- tencentes aos nobres, que os acolheram, mas obriga- ram-nos a se tornarem servos presos à terra. No en- tanto, os camponeses receberiam terras arrendadas para que pudessem trabalhar e prover sua subsistên- cia, porém, ainda pagando aos nobres e clérigos nu- merosas taxas e impostos, conhecidos como obriga- ções servis. Os servos trabalhavam gratuitamente para os senhores e ainda lhes entregavam parte de sua própria produção como cumprimento das obrigações servis. Trabalhando exaustivamente desde tenra idade (iniciavam, aproximadamente, aos cinco anos) e fazendo uso de tecnologia precária, os camponeses também pagavam impostos e dízimos para a Igreja. Ainda de acordo com alguns historiadores, eles só fi- cavam com apenas um terço de tudo aquilo que pro- duziam. Não é de se admirar que a miséria, a fome e as doenças fizessem parte do cotidiano desse grupo social. As obrigações servis faziam parte de um amplo conjunto cultural que legitimava a dominação senho- rial. As obrigações feudais • Corveia — Trabalho gratuito (cerca de três vezes por semana) nas terras do senhor feu- dal. • Talha — Imposto sobre a produção servil; geralmente, correspondia à metade da co- lheita. • Banalidades — Impostos sobre o uso de equipamentos senhoriais, como forno, la- gar, moinho etc. • Capitação — Imposto cobrado por indivíduo residente no feudo. • Mão-morta — Imposto pago pelos filhos de um servo falecido a fim de poderem herdar as obrigações do pai. • Albergagem — Dever de fornecer alimenta- ção e abrigo para os nobres. • Formariage — Imposto pago aos nobres por ocasião de seus casamentos ou dos servos em seu feudo. Dízimo ou tostão de São Pedro — Percen- tual de 10% da produção servil pagas para a Igreja. Fiquem ligados! No Ocidente europeu medieval, a palavra latina ser- vus designava a maior parte dos trabalhadores ru- rais, cuja condição se diferenciava da condição dos escravos da Antiguidade Romana. Na época feudal, esses trabalhadores A) gozavam de uma melhor condição jurídica, em razão das “cartas de franquia”, que aboliram as “corveias” a que estavam obrigados. B) estavam sujeitos aos caprichos dos senhores feu- dais, que poderiam vendê-los a outros proprietários agrícolas. C) foram beneficiados com a difusão dos valores cristãos, os quais possibilitaram sua mobilidade so- cial, em toda a Cristandade. D) recebiam dos grandes proprietários faixas de ter- ras para cultivar e, em contrapartida, prestavam serviços gratuitos a esses proprietários, além de fi- car devendo-lhes outras obrigações. HORIZONTAIS Havia relações pautadas em juramentos de honra e de fidelidade entre a nobreza guerreira feu- dal, por meio de um ritual solene conhecido como pacto de suserania e vassalagem. O pacto era selado em cerimônias formais com apoio religioso, chamadas de homenagem e investidura. Nelas, um nobre doava terras a outro nobre, sendo o doador chamado de su- serano e o recebedor de vassalo. Ambos juravam fide- lidade e obrigações mútuas, envolvendo auxílio finan- ceiro e militar, justificando o fato de o poder político na Alta Idade Média ser baseado nas relações pessoais “homem a homem”. O benefício doado era chamado de feudo e geralmente era um lote de terras, mas po- deria ser também uma ponte ou um pedágio. Na me- dida em que os nobres recebiam tais bens, assumiam obrigações militares e laços pessoais com o doador, caracterizando a chamada "enfeudação", processo complexo que fundamentava os laços políticos entre a nobreza feudal em que praticamente todos eram vas- salos e suseranos ao mesmo tempo, existindo até vas- salos que não tinham feudos. Fiquem ligados! (UFG-GO) O que, com efeito, ganha a adesão dos es- píritos da Idade Média é o extraordinário, o sobre- natural ou, pelo menos, o invulgar. A própria ciência toma para seu objeto o excepcional, os prodígios. LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Lisboa: Estampa, 1995. v. 2, p. 91 (Adaptação). A citação destaca uma característica da cultura me- dieval, que pode ser identificada pela A) explicação da natureza mediante a descoberta de leis gerais. B) incorporação dos acontecimentos considerados milagrosos ao cotidiano. C) negação dos prodígios com base na experiência empírica. D) separação entre os princípios da autoridade e da investigação científica. E) rejeição dos símbolos como forma de apreensão do oculto. EXERCÍCIOS 1. As relações de suserania e de vassalagem, típicas da Idade Média, resultaram em A) grandearrecadação de tributos, pois os vassalos deviam a talha e a corveia aos suseranos. B) reforço do poder da Igreja Católica, pois os susera- nos julgavam os hereges. C) fragmentação política, pois suseranos e vassalos exerciam poder em seus feudos. D) fortalecimento da autoridade dos reis, pois os se- nhores deviam-lhes obediência direta. E) diminuição da importância econômica da terra, pois os vassalos perdiam a posse dos feudos. 2. Leia com atenção o trecho a seguir e responda ao que se pede. Naquele período havia reis, mas o verdadeiro poder pertencia aos proprietários locais. Os senhores feu- dais mais poderosos, que tinham recebido as suas propriedades diretamente do rei, consideravam-se a si próprios iguais ao rei, seus pares, embora se apeli- dassem de seus servidores ou vassalos. Os proprietá- rios menos poderosos, que não tinham recebido os seus feudos diretamente do rei, mas de grandes no- bres, eram vassalos desses mesmos senhores e obri- gados ao seu serviço. MANFRED, A. Z. Do feudalismo ao capitalismo. São Paulo: Global, 1982. p. 38. A) A qual período histórico o texto se refere? B) Com base no texto anterior e com o que foi estu- dado até o momento, EXPLIQUE o que ocorreu com o poder do rei. C) DETERMINE a principal característica política do período a que o texto se refere. 3. Jacques Le Goff e George Duby, especialistas em Idade Média, dividiram a sociedade em três grandes ordens. A primeira compreendia os integrantes do clero, a segunda reunia os senhores feudais, e a úl- tima era constituída pelos servos. Sobre a sociedade feudal, é CORRETO afirmar que A) havia uma grande mobilidade social, apesar das rí- gidas tradições e vínculos jurídicos determinando a posição social de cada indivíduo. B) a honra e a palavra tinham importância fundamen- tal, sendo os senhores feudais ligados por um com- plexo sistema de obrigações e tradições. C) os suseranos deviam várias obrigações aos seus vassalos, por exemplo, o serviço militar. D) os servos, como os escravos, não tinham direito à própria vida, viviam presos a terra e dela não podiam sair. E) os vilões constituíam uma parcela de senhores feu- dais que procuravam por outro senhor mais pode- roso, jurando-lhe fidelidade e obediência.