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Teoria Geral do Direito Professora Me. Letícia Carla Baptista Rosa Diretor Geral Gilmar de Oliveira Diretor de Ensino e Pós-graduação Daniel de Lima Diretor Administrativo Eduardo Santini Coordenador NEAD - Núcleo de Educação a Distância Jorge Van Dal Coordenador do Núcleo de Pesquisa Victor Biazon Secretário Acadêmico Tiago Pereira da Silva Projeto Gráfico e Editoração André Oliveira Vaz Revisão Textual Kauê Berto Web Designer Thiago Azenha UNIFATECIE Unidade 1 Rua Getúlio Vargas, 333, Centro, Paranavaí-PR (44) 3045 9898 UNIFATECIE Unidade 2 Rua Candido Berthier Fortes, 2177, Centro Paranavaí-PR (44) 3045 9898 UNIFATECIE Unidade 3 Rua Pernambuco, 1.169, Centro, Paranavaí-PR (44) 3045 9898 UNIFATECIE Unidade 4 BR-376 , km 102, Saída para Nova Londrina Paranavaí-PR (44) 3045 9898 www.fatecie.edu.br As imagens utilizadas neste livro foram obtidas a partir do site ShutterStock FICHA CATALOGRÁFICA FACULDADE DE TECNOLOGIA E CIÊNCIAS DO NORTE DO PARANÁ. Núcleo de Educação a Distância; ROSA, Letícia Carla Baptista. Teoria Geral do Direito. Letícia. Carla Baptista Rosa. Paranavaí - PR.: Fatecie, 2020. 89 p. Ficha catalográfica elaborada pela bibliotecária Zineide Pereira dos Santos. AUTORA Profa. Me. Letícia Carla Baptista Rosa • Advogada. • Graduada em Direito pelo Centro Universitário Cesumar - UNICESUMAR (2006). • Pós-graduada em Direito e Processo Penal pela Universidade Estadual de Londrina (2009). • Mestre em Ciências Jurídicas pelo Centro Universitário Cesumar - UNICESUMAR (2013). • Doutoranda em Função Social do Direito pela Faculdade Autônoma de Direito de São Paulo. • Professora do curso de graduação em Direito e Coordenadora do Curso de graduação em Direito da UNIFATECIE - Faculdade de Tecnologia e Ciência do Norte do Paraná. • Coordenadora dos Cursos de Pós-graduação em Direito e professora dos cursos em Gestão Financeira e Secretariado Executivo (EAD) do Centro Universitário Cesumar - UNICESUMAR. • Professora do curso de graduação em Direito e Coordenadora do Curso de graduação em Direito da UNIFATECIE - Faculdade de Tecnologia e Ciência do Norte do Paraná. • Professora do curso de graduação em Direito da UNIFCV - Centro Universitário Cidade Verde. • Professora do Curso de Pós-graduação em Direito Civil, Processo Civil e Direito do Trabalho, do Curso de Pós-graduação em Direito Penal e do Curso de Pós-graduação em de Direito Público do Centro Universitário Cesumar – UNICESUMAR. • Professora dos cursos de Pós-graduação do curso de Pós-graduação lato sensu em Direito de Família e de Conciliação, Mediação e Arbitragem e do curso de Pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal da Universidade Paranaense - UNIPAR, Umuarama- Pr. • Vice-presidente do Núcleo regional de Maringá do IBDFAM. • Membro da Comissão de Direito das Famílias da OAB, subseção de Maringá. • Conciliadora e mediadora judicial com formação pelo Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos - NUPEMEC, em parceria com o Conselho Nacional de Justiça - CNJ. http://lattes.cnpq.br/4850355058538339 APRESENTAÇÃO DO MATERIAL Seja muito bem-vindo(a)! Prezado(a) aluno(a), se você se interessou pelos temas que vamos tratar nessa disciplina isso já é o início de uma grande jornada que trilharemos juntos a partir de agora. A partir de agora proponho, junto com você construir nosso conhecimento sobre os conceitos fundamentais do Direito, principalmente no que tange à Teoria Geral do Direito. Nessa disciplina vamos conhecer seus principais institutos e definições, bem como, explorar as mais diversas aplicações do desenvolvimento da teoria na prática jurídica. Na unidade I começaremos a nossa jornada pelos conceitos e definições do Direito, seus campos de estudo e um breve histórico e diferenças do Direito Positivo e do Direito Natural, Direito Subjetivo e do Direito Objetivo, realizando também de uma forma didática a dicotomia do Direito Público e do Direito Privado. Na unidade II passaremos a estudar as Fontes do Direito apresentando seus conceitos, classificações e espécies, abrangendo onde poderão ser aplicadas na prática jurídica. Já na unidade III vamos ampliar nossos estudos, tratando do Direito enquanto sistema jurídico, apresentando a diferença entre as normas jurídicas, as normas éticas e as normas morais. Posteriormente estudaremos especificamente sobre as normas jurídicas, sua classificação, validade, vigência e eficácia. Por fim, na unidade IV continuaremos nossos estudos sobre a norma jurídica, aprendendo como poderemos interpretá-las por meio da hermenêutica jurídica, apresen- tando as espécies de interpretações. Ademais, para finalizar nosso estudo sobre as normas jurídicas, estudaremos suas lacunas e antinomias e as formas de solucioná-las. Aproveito para reforçar o convite a você, para junto conosco percorrer esta jornada de conhecimento e multiplicar os conhecimentos sobre tantos assuntos abordados em nosso material. Esperamos contribuir para seu crescimento pessoal e profissional. Muito obrigado e bom estudo! SUMÁRIO UNIDADE I ...................................................................................................... 6 Conceito de Direito UNIDADE II ................................................................................................... 31 Fontes do Direito UNIDADE III .................................................................................................. 52 Sistema Jurídico UNIDADE IV .................................................................................................. 70 Hermenêutica Jurídica 6 UNIDADE I Conceito de Direito Professora Mestre Letícia Carla Baptista Rosa Plano de Estudo: 1.1 Direito Natural e Direito Positivo; 1.2 Direito Subjetivo e Direito Objetivo; 1.2.1Classificação dos Direitos Subjetivos; 1.2.1.1 Direitos Subjetivos Privado; 1.2.1.2 Direitos Absolutos e Relativos; 1.2.1.3 Direitos Transmissíveis e Não Transmissíveis; 1.2.1.4 Direitos Principais e Acessórios; 1.2.1.5 Direitos Renunciáveis e Não Renunciáveis; 1.2.2 Classificação do Direito Objetivo; 1.3 Dicotomia do Direito Público e Direito Privado; 1.4 Ramos do Direito Público; 1.5 Ramos do Direito Privado; 1.6 Ramos do Direito Difuso e Coletivo Objetivos da Aprendizagem • Conceituar e contextualizar as definições do Direito • Compreender sobre os campos do direito natural; direito positivo e os ramos do direito público e privado • Estabelecer a importância de cada elemento do direito abordado. 7UNIDADE I Conceito de Direito INTRODUÇÃO O mundo do Direito tem tamanha amplitude e tão largos horizontes que infinitas são as suas vias de acesso. Por tal motivo, o estudo da disciplina jurídica que discorre acerca da Teoria Geral do Direito deve ser profundo, requer dedicação e atenção. As disciplinas epistemológicas, que não tratam do teor normativo das leis, mas de suas categorias fundantes, devem ser a prioridade nos primeiros períodos. O acadêmico pode até, paralelamente, acompanhar o andamento de processos, engajando-se em algum escritório de advocacia, mas não deve ignorar os estudos de embasamento. A assimilação de práticas concretas, sem essa preparação, pode gerar vícios insanáveis. A implementação do jurista de amanhã se faz mediante muita dedicação. A leitura em geral, especialmente na área de ciências humanas, se revela da maior importância. É primordial que o espírito se mantenha inquieto, movido pela curiosidade científica, pela vontade de conhecer a organização social e política, na qual se insere o Direito. Quando se questiona “o que é direito?”, espera-se de imediato uma única resposta, no entanto, mesmo depois de séculos de espera, de hipóteses, teses e princípios, não foi possível definir em um mero conceito um significado tão extenso. Melhor seria perguntar “quais os possíveis significados da palavra direito?”, para o que seriam dadas várias respostas que nada mais são que interpretaçõespossíveis sobre o mesmo fenômeno. Dentre essas várias respostas, serão aqui tratadas o conceito do direito natural e do direito positivo. O direito subjetivo e suas várias vertentes, bem como o direito objetivo e suas classificações. A dicotomia entre o direito privado e o direito público, e iremos estudar sobre os ramos do direito difuso e coletivo. Entre os inúmeros conceitos que serão expostos, no final dessa apostila você também poderá conferir o material complementar que abordará temas atuais e relevantes do direito contemporâneo. 8UNIDADE I Conceito de Direito 1. CONCEITO DE DIREITO Não se pode indicar com simplicidade “o que é direito”, mas podemos reunir um valioso material preliminar, distinguindo quatro significados diferentes do termo (NADER, 2014): 1. Direito é o justo, aquilo que cada pessoa deve fazer ou deixar de fazer em uma sociedade bem ordenada e justa. Esse significado está relacionado diretamente com o termo latino directum, que significa reto, ou seja, bem direcionado, correto, como quando usamos a expressão: “fiz tudo direito”. 2. Direito é aquilo que alguém pode fazer exercendo uma faculdade, por exemplo: direito de votar, exigindo com isso uma prestação: o direito do vendedor de receber o preço da mercadoria vendida, ou o direito por uma omissão: exigir que o vizinho deixe de incomodar quando escuta música alta após a meia- noite. Essas podem ser definições do direito subjetivo, que será abordado mais profundamente em seguida. 3. Direito é o estudo das normas jurídicas, o desígnio do conjunto de disciplinas jurídicas denominado pela comunidade acadêmica, como ciências jurídicas. 4. Direito é o conjunto de normas que objetivam regulamentar o comportamento das pessoas na sociedade. São normas editadas pelas autoridades competentes, para prever casos de violação, bem como a imposição de penalidades caso seja descumprida a ordem jurídica. 9UNIDADE I Conceito de Direito O direito pode ser dividido conforme esteja simplesmente prescrito pelo legislador, ou conforme esteja estabelecido nos preceitos da natureza racional humana. Como um ramo da ciência humana, a Ciência do Direito tem como essência de pesquisa o homem em todas as suas particularidades valorativas de personalidade. Do mesmo modo que não se pode compreender uma ciência humana que exclui do seu âmbito de pesquisa o ser humano, é inadmissível pensar o mesmo de uma Ciência do Direito que não tenha o mesmo fundamento e o centro de suas atenções, o próprio homem (NADER, 2014). Segundo Hans Kelsen (1938), o Direito é uma ordem de conduta humana, ou seja, é um conjunto de normas. O filósofo entende que o Direito possui uma espécie de unidade, que forma um sistema. Em suas próprias palavras, Kelsen formula o seu conceito inicial: “O Direito é uma ordem normativa da conduta humana, ou seja, um sistema de normas que regulam o comportamento humano.” Uma ordem advém de um sistema de normas cuja unidade é constituída pelo fato de todas elas terem o mesmo fundamento de validade. Nesse sentido, pode-se afirmar inicialmente que, na visão kelseniana, o Direito, ou a Ordem Jurídica, é um sistema de normas jurídicas positivas o que significa que são normas transcritas, ou seja, um ordenamento jurídico positivo que detém de um único fundamento de validade. A condição existencial do homem é colocada como princípio de investigação. A Ciência do Direito deve, portanto, respeitar o homem na sua plenitude, ou seja, respeitar a sua dignidade e os limites estabelecidos e reconhecidos universalmente como seus: a vida, a saúde, a honra, a intimidade, a educação, a liberdade, são bens essenciais e indisponíveis que, em conjunto com bens sociais como a verdade, o bem comum e a justiça, são norteadores dos estudos da Ciência do Direito (MAZZILLI, 2015). A Ciência do Direito, investiga as condutas que visam os deveres jurídicos, isto é, as normas jurídicas das sociedades. Estas prescrevem aos indivíduos certas regras de conduta que devem ser obedecidas. Contudo, nessas simples observações, oculta-se uma enormidade de questões que precisam ser ponderadas. Podemos tomar como exemplo, um simples e corriqueiro problema, visto a partir de uma lei escrita, como por exemplo, uma norma jurídica que disciplina o trânsito (NADER, 2014). A ordem que corresponde ao motorista o “dever de parar”, é o sinal de luz vermelha. Essa ordem é um “dever-ser” jurídico, pois aponta o que a norma jurídica pretende que seja. Esse comando é direcionado especificamente aos indivíduos que estão conduzindo um veículo automotor, ou seja, os motoristas. Quando diante de um sinal vermelho a ordem é cumprida, ocorre um fato que se ajusta ao conteúdo da norma, a norma jurídica é 10UNIDADE I Conceito de Direito vivenciada como um acontecimento no mundo do “ser”, dos fatos. Já quando o motorista desobedece à norma, não parando seu automóvel e ultrapassando o sinal, há uma violação do comando e ao mesmo tempo outro tipo de “ser”, que é um fato sancionado pela norma jurídica (BOLESINA; REIS, 2015). A violação é consequentemente um fato, e um acontecimento no mundo do ser. O sistema jurídico, em suma são condutas que ditam as regras, mas também, é a conduta negativa ou não querida, isto é, o direito é também ao infrator, a sanção que pune a desobediência da norma. No caso do sinal vermelho, há uma multa imposta ao transgressor. Não que o Direito queira primordialmente aplicar a multa, mas a sanção faz parte da estrutura da norma para que esta seja cumprida, e não para que seja violada (AYRES, 2006). Mas para conceituar o que é o direito não basta apenas sintetizar o seu significado genérico, é preciso compreender as concepções principiológicas, e as diversas categorias que subdividem o entendimento doutrinário, conforme veremos a seguir. 1.1 DIREITO NATURAL E DIREITO POSITIVO Quando ouvimos falar em Direito, podemos associar o termo ao Direito Natural ou ao Direito Positivo, que constituem duas ordens distintas, mas que possuem recíproca concordância. O Direito Natural revela ao legislador os princípios fundamentais de proteção ao homem, que forçosamente deverão ser consagrados pela legislação, a fim de que se obtenha um ordenamento jurídico substancialmente justo (MAZZILLI, 2015). O Direito Natural não é escrito, não é criado pela sociedade, tão pouco formulado pelo Estado. Como o seu próprio adjetivo natural sinaliza, é um Direito espontâneo, que se origina da própria natureza social do homem, revelado pela união da experiência e razão (MAZZILLI, 2015). É formado por conjuntos de princípios de caráter universal, e não de regras, é eterno e imutável. Podemos tomar como exemplos maiores o direito à vida e à liberdade. Em contato com as realidades concretas, esses princípios são desdobrados pelo legislador, mediante normas jurídicas, que devem adaptar-se ao momento histórico de cada sociedade (ANDRADE, 1983). Já o positivismo é o direito institucionalizado pelo Estado, ou seja, uma ordem jurídica obrigatória em determinado lugar e tempo. Apesar de imprópria, a expressão Direito Positivo foi usada para efeito de distinção com o Direito Natural. Logo, se não houvesse este não haveria razão para aquele adjetivo. As normas costumeiras, que se manifestam pela 11UNIDADE I Conceito de Direito oralidade, constituem também Direito Positivo. As diversas formas de expressão jurídica, admitidas pelo sistema adotado pelo Estado, configuram o Direito Positivo (MAZZILLI, 2015). Assim, pode-se afirmar que, na antiga Roma, a doutrina de alguns jurisconsultos, como Ulpiano, Papiniano, Modestino, Gaio e Paulo, constituía parte do Direito Positivo daquele povo, pois condicionava as decisões prolatadas pelos orientadores. Alguns autores entendem que separando a positividade da vigência, admite-se como Direito Positivo não somente as normas em vigor como também as que organizaram a vida no passado ejá se encontram revogadas (MAZZILLI, 2015). No entanto, tais conceitos configuram noções distintas, positividade e vigência são interdependentes. Direito, por definição, é conjunto normativo que ordena o convívio social, portanto o Direito que perdeu a vigência não se impõe mais às relações interindividuais, deixando de ser Direito para ser apenas história do Direito (BOLESINA, 2015). Mesmo quando se opera a ultratividade da lei, que em síntese, é o poder que a lei possui de ser aplicada, após a sua revogação sobre um fato produzido sob a sua vigência, se tratando de determinadas matérias, não se deve entender que o Direito Positivo prescinde da vigência (NADER, 2014). As normas que se aplicam já não estão vigentes, mas estiveram em vigor à época em que o fato jurídico se realizou, nele permanecendo ligadas por todo o tempo sem se destacar. Tais normas, que perdem a generalidade, transformando-se em individualizadas, se assemelham às normas de um contrato (NADER, 2014). O entendimento aqui exposto é confirmado pelo jurista português Antunes Varela (1945, p. 11): “Por direito positivo devemos entender o conjunto de normas jurídicas vigentes em determinada sociedade.” Portanto, entende-se que no positivismo, a lei tem destaque total, e advém da necessidade de afastar a abertura do sistema jurídico aos valores jusnaturais, vez que muitas atrocidades eram legitimadas em nome do Direito Natural. Buscou-se segurança jurídica e objetividade do sistema. 1.2 DIREITO SUBJETIVO E DIREITO OBJETIVO O Direito vigente pode ser analisado sob dois ângulos diferentes: objetivo ou subjetivo que não são duas realidades distintas, mas dois lados de um mesmo objeto. Isso quer dizer que, entre ambos os conceitos, não há uma antítese ou oposição. Do ponto de vista objetivo, o Direito é norma de organização social (NADER, 2014). 12UNIDADE I Conceito de Direito É o chamado Jus norma agendi. Quando se afirma que o Direito do Trabalho não é formalista, emprega-se o vocábulo Direito em sentido objetivo, como referência às normas que organizam as relações de emprego. O direito subjetivo corresponde às possibilidades ou poderes de agir, que a ordem jurídica garante a alguém. Equivale à antiga colocação romana, hoje superada, do Jus facultas agendi (NADER, 2014). O direito subjetivo é um direito personalizado, em que a norma, perdendo o seu caráter teórico, projeta-se na relação jurídica concreta, para permitir uma conduta ou estabelecer consequências jurídicas. Quando dizemos que “fulano tem direito à indenização”, afirmamos que ele possui direito subjetivo. É a partir do conhecimento do Direito objetivo que deduzimos os direitos subjetivos de cada parte dentro de uma relação jurídica (NADER, 2014). Pode-se entender que, o direito subjetivo é a prerrogativa colocada pelo direito objetivo à disposição do sujeito do direito. É a possibilidade de uso e exercício efetivo do direito, posto à disposição do sujeito. Assim, o direito subjetivo é tanto o efetivo exercício do direito objetivo quanto a potencialidade do exercício desse mesmo direito. Por exemplo, a lei do Inquilinato, que regula o despejo do inquilino por falta de pagamento, faz nascer para o proprietário-locador o direito subjetivo de pleitear o despejo do inquilino (NADER, 2014). Esse direito subjetivo, que é o direito de propor ação para despejar o inquilino, é posto à disposição do locador como uma prerrogativa, ou como dito anteriormente, uma faculdade. Em outras palavras, o locador não tem a obrigação de ingressar com ação de despejo contra o inquilino, ele terá a escolha que dependerá somente dele, ou seja, um direito subjetivo seu, e somente a ele cabe decidir se o exercita ou não (NUNES, 2017) Pode-se, assim, ampliar o sentido dado ao conceito de direito subjetivo para dizer que ele é não só a potencialidade e o exercício, como também o uso da ameaça do exercício, e que este tem de ser efetivado de forma não abusiva (NUNES, 2017). É preciso dizer, ainda, que alguns direitos subjetivos não precisam do exercício ou da constatação de sua potencialidade para existirem, embora para se garantirem, por vezes, precisem da utilização de outros direitos subjetivos. É o caso dos direitos subjetivos inerentes à pessoa, tais como o direito à vida, à honra, à imagem etc. São eles subjetivos, independentemente de exercício de prerrogativa. São direitos subjetivos plenos, de fato, bastando para tanto a existência da pessoa de direito (NADER, 2014). 13UNIDADE I Conceito de Direito E é importante ressaltar que, não se deve confundir direito subjetivo com o chamado direito-função, que é o exercido por um sujeito em função de outrem. Quando por exemplo, o pátrio poder é exercido pelos pais, em função do direito subjetivo dos filhos. Esse é um tipo de direito-função que vem antes como um dever obrigação do que uma prerrogativa (NADER, 2014). 1.2.1 Classificação dos direitos subjetivos A primeira classificação que apresentamos sobre o direito subjetivo refere-se ao seu conteúdo, figurando, como divisão maior, a relativa ao Direito Público e Direito Privado (NUNES, 2017). 1.2.1.1. Direitos subjetivos privado Sob o aspecto econômico, os direitos subjetivos privados dividem-se em patrimoniais e não patrimoniais. Os primeiros possuem valor de ordem material, podendo ser apreciados pecuniariamente, o que não sucede com os não patrimoniais, de natureza apenas moral. Os patrimoniais subdividem-se em reais, obrigacionais, sucessórios e intelectuais. Os direitos reais, do latim, jus in re, têm por objeto um bem móvel ou imóvel, como o domínio, usufruto, penhor (SALDANHA, 2005). Os obrigacionais, também chamados de crédito ou pessoais, têm por objeto uma prestação pessoal, como ocorre no mútuo, contrato de trabalho etc. Sucessórios são os direitos surgidos em decorrência do falecimento de seu titular e transmitidos aos herdeiros. Finalmente, os direitos intelectuais dizem respeito aos autores e inventores, que têm o privilégio de explorar a sua obra, com exclusão de outras pessoas. Os direitos subjetivos de caráter não patrimonial desdobram-se em personalíssimos e familiais (MAZZILLI, 2015). Os primeiros são os direitos da pessoa em relação à sua vida, integridade corpórea e moral, nome etc. São também denominados inatos, porque tutelam o ser humano a partir do seu nascimento. Já os direitos familiais decorrem do vínculo familiar, como os existentes entre os cônjuges e seus filhos. A segunda classificação dos direitos subjetivos refere-se à sua eficácia. Dividem-se em absolutos e relativos, transmissíveis e não transmissíveis, principais e acessórios, renunciáveis e não renunciáveis (SARMENTO, 2010). 1.2.1.2. Direitos absolutos e relativos Nos direitos absolutos a coletividade figura como sujeito passivo da relação. São direitos que podem ser exigidos contra todos os membros da coletividade, por isso são chamados erga omnes. O direito de propriedade é um exemplo. Os relativos podem ser 14UNIDADE I Conceito de Direito opostos apenas em relação a determinada pessoa ou pessoas, que participam da relação jurídica, categorizado pela doutrina, como inter partes. Os direitos de crédito, de locação, os familiais são alguns exemplos de direitos que podem ser exigidos apenas contra determinada ou determinadas pessoas, com as quais o sujeito ativo mantém vínculo, seja decorrente de contrato, de ato ilícito ou por imposição legal (NADER, 2014). 1.2.1.3. Direitos transmissíveis e não transmissíveis Como os nomes indicam, os primeiros são os direitos subjetivos que podem passar de um titular para outro, o que não ocorre com os não transmissíveis, seja por absoluta impossibilidade de fato ou por impossibilidade legal. Os direitos personalíssimos são sempre direitos não transmissíveis, enquanto os direitos reais, em princípio, são transmissíveis. A transmissibilidade dos direitos se opera inter vivos ou mortis causa,isto é, entre pessoas vivas, como nos contratos de locação e comodato, ou em razão de morte, como na sucessão legítima e na testamentária. Na sucessão mortis causa, os direitos se transmitem no momento da morte do autor da herança, abertura da sucessão, ainda que os herdeiros sejam desconhecidos. Trata-se de uma ficção jurídica, que visa a evitar a figura de direitos subjetivos sem titularidade. Com a aceitação da herança pelos herdeiros verifica-se a ratificação da aquisição da propriedade e da posse, que se mantêm indivisíveis até o momento da partilha (SARMENTO, 2010). 1.2.1.4. Direitos principais e acessórios Os primeiros são independentes, autônomos, enquanto os direitos acessórios estão na dependência do principal, não possuindo existência autônoma. No contrato de mútuo, o direito ao capital é o principal e o direito aos juros, acessório (SARMENTO, 2010). 1.2.1.5. Direitos renunciáveis e não renunciáveis Os direitos renunciáveis são os que o sujeito ativo, por ato de vontade, pode deixar a condição de titular do direito sem a intenção de transferi-lo a outrem, enquanto nos irrenunciáveis tal fato é impraticável, como se dá com os direitos personalíssimos (NADER, 2014). 1.2.2 Classificação do direito objetivo No que se refere ao direito objetivo, esse é o conjunto em si, das normas jurídicas escritas e não escritas, independentemente do momento do seu exercício e aplicação concreta. É o direito norma de organização social, conjunto de normas jurídicas de 15UNIDADE I Conceito de Direito determinado país. É a partir do conhecimento do direito objetivo que se deduz o direito subjetivo. Constitui-se como o conjunto das normas que integram o ordenamento jurídico das quais se irradiam as relações jurídicas entre sujeitos e objetos, dando proteção aos interesses e à vontade que caracterizam o Direito Subjetivo (SALDANHA, 2005). Por isso, o direito objetivo acaba sendo confundido com o direito positivo. O direito objetivo corresponde à norma jurídica em si, enquanto comando que pretende um comportamento. É aquele objetivado independentemente do momento de uso e exercício (VARELA, 1945). Cada comando, cada determinação de comportamento constitui uma norma geradora de uma faculdade individual, o conjunto das normas, o seu complexo, forma o direito objetivo. O Direito Objetivo tem guarida na lei como sua fonte primária, essa serve para ensejar a possibilidade de que seja capaz de realmente se configurar como um conjunto de normas que asseguram os interesses e vontades que caracterizam o Direito Subjetivo, precisa ser dotada de validade, vigência e eficácia. Contudo, resta o questionamento acerca de como se dá a interpretação do texto legal para dele se extrair o corpo de normas que compõem o Direito Objetivo (NUNES, 2017). Diante disso, a própria Lei de Introdução, se manifesta ao determinar, em seu artigo 5°, que: “Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum”. Ora, o Direito é interpretado para ser aplicado, daí compreender-se que o escopo do referido dispositivo é o de fazer com que o texto legal seja interpretado de forma a permitir a consecução dos objetivos sociais das normas, permitindo que as relações jurídicas que emanam do Direito Objetivo atendam às exigências do bem comum (NUNES, 2017). No entanto, o problema da interpretação, dada sua importância, não se esgota aí. Miguel Reale (2009), para ilustrar, assim escreve: “O problema da Ciência do Direito resolveu-se, de certa maneira, no problema da interpretação melhor da lei. Por fim, resta provado, pela diversidade temática e pelos diversos desdobramentos que, o Direito Objetivo tem importância cabal para a própria compreensão do Direito, sendo melhor conceituado, levando em consideração o ordenamento jurídico pátrio, como o conjunto das normas que possuem, como principal fonte, a lei dotada de validade, eficácia e vigência, passível de diversas interpretações e capaz de determinar a configuração das relações jurídicas, que se estabelecem entre sujeitos e objetos, e resguardar os interesses e vontades componentes do Direito Subjetivo. 16UNIDADE I Conceito de Direito 1.3 DICOTOMIA DO DIREITO PÚBLICO E DIREITO PRIVADO Antes de tudo: o que é uma dicotomia? Bobbio (2010) sustenta que uma dicotomia se constrói sobre dois requisitos fundantes, que é a existência de duas esferas conjuntamente exaustivas e excludentes, e a divisão total de cada uma, de modo que todos os elementos encontrem lugar em uma ou outra esfera e que outras dicotomias sejam secundárias diante da grande dicotomia. Assim, para Bobbio (2010), os ramos do direito público e privado seriam esferas específicas e dignas de estudos próprios, de modo que o privado seria tudo aquilo que não é público ou o público seria tudo aquilo que não é privado (NUNES, 2017). Essa é a ideia da dicotomia que segue o critério de dividir dois universos de uma forma que os respectivos elementos de cada um não pertencessem ao outro e vice-versa, e que nenhum ente fosse excluído. A divisão deveria ser total e, principalmente, deveria agrupar-se em direção de outras dicotomias (AYRES, 2006). Embora não tenha existido um critério satisfatório capaz de denominar claramente a distinção pretendida pela dogmática jurídica, entre Direito Público e Direito Privado, a separação, de cunho eminentemente prático, está estabelecida desde o Direito Romano, nasceu no Ocidente através da história do pensamento político social da época (AYRES, 2006) e tem por função estabelecer taxativamente segurança e certeza para as tomadas de decisões, 17UNIDADE I Conceito de Direito Neste sentido, vale citar o estudo elaborado por Saldanha (2005), no qual demonstra que as ideias de público e de privado, genericamente, variam no espaço e no tempo. Logo, o mesmo pode-se dizer do “direito público” e do “direito privado”, os quais tendem a transformarem-se reflexivamente nas variações dos espaços público-privado (SARMENTO, 2010). Essas representações das classes do Direito Público e do Direito Privado são, em suma, uma das maiores divisões do Direito Positivo, e também a mais antiga, peculiar aos sistemas jurídicos de tradição romano germânica (NADER, 2014). Então quando a norma tutelar o interesse do Estado e de seu funcionamento, esse será o Direito Público. Mas quando a norma regular as relações jurídicas entre particulares, esse será o direito privado. 1.4 RAMOS DO DIREITO PÚBLICO Leis de ordem pública se constituem pela tutela da família, dos direitos personalíssimos, pela capacidade das pessoas, com a prescrição, a nulidade de atos, normas constitucionais, administrativas, penais, processuais, e as pertinentes à segurança e à organização judiciária. Garantem o tratamento digno ao trabalhador e dispõe sobre previdência e acidente do trabalho. A jurisprudência é um instrumento fundamental para o reconhecimento dessas leis, diante da função relevante de prover a segurança da sociedade. Entende a doutrina que tais normas devam ser aplicadas em conjunto, como condição à garantia do equilíbrio social. A interpretação deve ser estrita, condenando-se tanto a amplitude quanto a limitação do alcance de suas normas jurídicas. A interpretação extensiva e a analogia não são admitidas, as únicas normas que podem ser interpretadas extensivamente são as que se destinam apenas à organização, pois não tratam de limitações aos direitos individuais (NUNES, 2017). A lei de ordem pública, ao contrário das que integram a ordem privada, reúne preceitos de importância fundamental ao equilíbrio e à segurança da sociedade, pois disciplina os fatos de maior relevo ao bem-estar da coletividade. Por tutelar os interesses fundamentais da sociedade, prevalece independentemente da vontade das pessoas. É indispensável e se destaca à opinião de todos, inclusive daqueles a quem beneficia. Tal entendimento serefere ao fato de que o Direito Público não pode ser substituído pelas convenções dos particulares (BOLESINA, 2015). 18UNIDADE I Conceito de Direito O ordenamento jurídico é um conjunto harmônico de regras que não impõe, por si, qualquer divisão em seu campo normativo. A setorização em classes e ramos é obra de iniciativa da Ciência do Direito ou Dogmática Jurídica, na deliberação de organizar o Direito Positivo, para fazê-lo prático ao conhecimento, às investigações científicas, à metodologia do ensino e ao aperfeiçoamento das instituições jurídicas. Destacamos, novamente, que é essencial a necessidade de considerar todo ramo do Direito como espécie de um gênero comum. Antes de ser adjetivo, público, privado, penal, civil, o conjunto de normas expressa o “substantivo próprio” Direito. Assim, cada ramo do Direito Positivo, além de possuir caracteres próprios, participa das propriedades inerentes à árvore jurídica, que seriam os processos de adaptação social, às normas coercitivas sob o comando do Estado, a sujeição à variação histórica e submissão aos princípios fundamentais do Direito Natural, a fórmula de realização dos valores segurança e justiça (BOLESINA, 2015). O critério adotado na classificação dos ramos jurídicos é o da antiga divisão do Direito Público e Privado que, apesar de sua reconhecida deficiência, revela duas tendências fundamentais no estudo da Jurisprudência. A seguir, veremos as principais áreas do direito público: 1. O Direito Constitucional é o ramo do Direito Público que dispõe sobre a estrutura do Estado, define a função de seus órgãos e estabelece as garantias fundamentais da pessoa. É um direito que limita a ação do governo, pois estabelece faixas de competência para os poderes. É também um direito de garantia das pessoas, pois as constituições modernas estabelecem um elenco de garantias fundamentais aos seres humanos. Denomina-se parte orgânica da constituição a que dispõe sobre a estrutura do Estado e parte dogmática a que se refere aos direitos e garantias individuais. Em nossa Constituição, esta parte se acha inserida no art. 5º e seus setenta e oito itens. 2. O Direito Administrativo estabelece a fórmula jurídica para a realização do serviço público, cujo conceito pode ser definido como “toda organização de caráter permanente destinada a satisfazer as necessidades públicas de um modo regular e contínuo” (NADER, 2014) Como a execução e o controle dos serviços públicos dependem do trabalho de funcionários qualificados, o Estado admite servidores de acordo com o que estabelecem as normas específicas, que se incluem no objeto do Direito Administrativo. Este ramo, é o conjunto de princípios e normas jurídicas que presidem ao funcionamento das atividades 19UNIDADE I Conceito de Direito do Estado, à organização e ao funcionamento dos serviços públicos, e às relações da administração com os indivíduos (NADER, 2014). Além de se orientar pelos princípios comuns ao Direito Público, como os da legalidade, moralidade, impessoalidade, publicidade, eficiência, o Direito Administrativo consagra os princípios específicos da supremacia do interesse público sobre o privado e o da indisponibilidade dos interesses públicos. 3. O Direito Internacional Público é o ramo jurídico que disciplina as relações entre os Estados soberanos e os organismos análogos. As suas principais fontes formais são os tratados e os costumes internacionais. A sua existência pressupõe as chamadas bases sociológicas: a) pluralidade de Estados soberanos, pois se houvesse apenas um Estado, o Estado Mundial, não haveria dualidade de interesses e, consequentemente, não se justificariam quaisquer normas que não fossem as internas; b) comércio internacional, pois a grande massa de interesses apresenta conteúdo econômico e envolve a troca de riquezas; c) princípios jurídicos coincidentes, de vez que, inexistindo valores comuns, faltariam os critérios de entendimento (NUNES, 2017). 4. O Direito Tributário, disciplina a receita e a despesa pública. Para realizar os serviços públicos, o Estado necessita de recursos financeiros, que são obtidos mediante cobrança de impostos, contribuições, taxas, bem como por sua atividade empresarial. O movimento de arrecadação do dinheiro público e seu emprego em obras e despesas gerais constituem o objeto do Direito Tributário (NUNES, 2017). Considerado como sub-ramo do Direito Financeiro, o Direito Tributário ganhou suma importância, especialmente na segunda metade de nosso século, por força da intervenção cada vez maior do Estado no domínio econômico, com sua necessidade de arrecadação sempre crescente. O Direito Processual, conhecido como direito adjetivo, porque é instrumento do direito material, um tipo direito substantivo, regula o processo judicial, bem como a organização judiciária. Engloba as normas jurídicas que cuidam das regras relativas à ação judicial, isto é, do direito de ver qualquer pretensão sendo analisada e julgada pelo Poder Judiciário. O Direito Processual está dividido por áreas relativas ao direito material, com três subdivisões básicas: a) Direito Processual Civil, que regula as situações relativas à órbita civil, comercial, fiscal, administrativa, do consumidor etc.; seu principal instrumento é o Código de Processo Civil (CPC); 20UNIDADE I Conceito de Direito b) O Direito Processual Penal, que regula as situações relativas à órbita penal; seus principais textos legais são o Código de Processo Penal (CPP), as leis das execuções penais e a Lei dos Juizados Especiais Criminais; c) O Direito Processual do Trabalho, que regula as situações relativas à órbita tra- balhista. Serve-se ele, subsidiariamente, para os casos não previstos, do Direito Processual Civil; sua principal base legal é a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e o Código de Processo Civil (CPC). 5. O Direito Penal é o ramo do Direito Público que define os crimes, estabelece as penalidades correspondentes e dispõe sobre as medidas de segurança. É o conjunto de normas jurídicas que regulam o poder punitivo do Estado, ligando o delito, como pres- suposto, a pena como consequência. A missão deste ramo, consiste na proteção de bens jurídicos fundamentais ao indivíduo e à comunidade”. Além da denominação Direito Penal, a mais divulgada atualmente, esse ramo é também designado por Direito Criminal. Enquanto a primeira denominação faz referência à consequência jurídica a que está sujeito o autor do crime, a segunda se reporta ao conceito nuclear do ramo, que é o crime (NUNES, 2017). 1.5 RAMOS DO DIREITO PRIVADO A seguir veremos quais são os ramos do direito privado: 1. O Direito Civil, pertence ao Direito Privado por excelência, pois visa regular as relações dos indivíduos, estabelecendo direitos e impondo obrigações. O Direito Civil atua em toda a vida do indivíduo, pois disciplina todos os campos de interesses individuais. O Código Civil, ou seja, é estruturado em duas grandes partes: geral, que contém normas de caráter abrangente, que servem a qualquer área do Direito Civil e parte especial, que trata dos assuntos específicos. Na parte Geral encontram-se as normas que contém os temas relativos às pessoas, aos bens e aos fatos jurídicos. Já a parte especial os livros são: obrigações, Direito de Empresa, Direito das Coisas, Direito de Família, Direito das Sucessões e um livro complementar das disposições finais e transitórias. Assim verifica-se que o Direito Civil abrange todas as áreas do relacionamento humano, que serão objeto de estudo durante todo o Curso de Direito (NADER, 2014). 2. Direito comercial ou empresarial, com a unificação das obrigações civis e comer- ciais, promovida pelo Código Civil de 2002, o Direito Comercial, em nosso país, passou por ampla reformulação. Entre as mudanças, verificou-se a substituição da figura do comer- ciante pela do empresário. 21UNIDADE I Conceito de Direito O CódigoCivil inovou ao instituir, na Parte Especial, o Direito de Empresa, onde dispõe sobre a figura do empresário e regula as diferentes espécies de sociedades, sem esgotar a abordagem destas. Assim cabe a legislação especial o regulamento das socie- dades anônimas. Figuram, também, as leis ordinárias nº 9.279/96, que dispõe sobre a propriedade industrial, Lei nº 7.357/85, que disciplina os cheques; Lei nº 6.404/76, que trata das sociedades por ações; Lei nº 5.474/68, que regula a emissão de duplicatas (NADER, 2014). O antigo Código Comercial, de 1850, não se encontra revogado por inteiro. O art. 2.045 do Código Civil extinguiu toda a sua Parte Primeira, correspondente aos arts. 1º ao 456, conservando a vigência da Parte Segunda, que afeta ao comércio marítimo (NADER, 2014). Importante documento legislativo se liga também às empresas: Lei nº 11.101/05, que dispõe sobre recuperação e falência. Não obstante o novo Código tenha regulado o Direito Empresarial e, na parte das Obrigações, disciplinado a matéria de títulos de crédito, tais campos normativos não passaram a integrar o Jus Civile. Somente uma visão codicista, retrógrada, sustentaria tal integração (NADER, 2014). O Direito Empresarial gira em torno da figura do empresário e este pode ser definido como pessoa física ou jurídica que desenvolve atividade de natureza econômica, produzin- do ou promovendo a circulação de bens ou serviços. O comércio, atualmente, é apenas um dos objetos do Direito Comercial ou Empresarial, que dispõe, mais extensamente, sobre as atividades econômicas dedicadas à produção ou circulação de bens ou serviços, tendo o lucro por finalidade (NUNES, 2017). 1.6 RAMOS DO DIREITO DIFUSO E COLETIVO São direitos indivisíveis, que abrange um número indeterminado de pessoas unidas pelo mesmo fato. Pertence a sujeitos indeterminados. Os processos baseados em direitos difusos se tornaram uma solução eficiente para resolver conflitos coletivos de ordem econômica, social ou cultural. Os direitos difusos se preocupam com questões da coletividade, como as ligadas ao meio ambiente, patrimônio público, direitos do consumidor, direitos trabalhistas (NUNES, 2017). Os interesses difusos são “como um feixe ou um conjunto de interesses individuais, de objeto indivisível, compartilhados por pessoas indetermináveis, que se encontram unidas por circunstâncias de fato conexas (MAZZILLI, 2015). 22UNIDADE I Conceito de Direito O primeiro ramo dos direitos difusos é o direito do trabalho, que engloba as normas jurídicas que regulam as relações entre o empregado e o empregador, compreendendo o contrato de trabalho, o registro do empregado, a rescisão, a despedida, as verbas trabalhistas, os salários e seus reajustes, a duração da jornada de trabalho etc. Essas normas regulam, também, o chamado Direito Coletivo do Trabalho, que trata dos acordos coletivos de trabalho, da organização sindical, do direito de greve etc. Seu principal diploma legal é a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), de 1º de maio de 1943, acrescida e alterada por uma série de leis esparsas, leis de acidente do trabalho, do empregado doméstico, do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), etc. O Direito Previdenciário, é outro ramo do direito difuso e cuida da Seguridade Social que diz respeito à Saúde, à Previdência Social e a Assistência Social, atuando por intermédio de seus órgãos (INSS, SUS, etc) estabelecendo os benefícios e as formas de sua obtenção, o auxílio-doença, salário-maternidade, aposentadoria por tempo de contribuição e por invalidez, direito à pensão na viuvez e na orfandade (AYRES, 2006). Seus principais instrumentos legais são a Lei de Organização e Custeio da Seguridade Social (Lei n. 8.212/91), o Plano de Benefícios da Previdência Social (Lei n. 8.213/91), a Lei Orgânica da Saúde (Lei n. 8.080/90), a Lei Orgânica da Assistência Social (Lei n. 8.742/93); e o Programa do Seguro-Desemprego (Lei n. 7.998/90). O Direito do Consumidor, são normas instituídas para a proteção e defesa do consumidor, de ordem pública e interesse social (AYRES, 2006). Consumidor, para esse sistema legal, é “toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final” (art. 2º do CDC), ao qual se equipara “a coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo” (parágrafo único do art. 2º, citado). Equiparam-se também ao consumidor todas as vítimas de evento danoso (art. 17 do CDC), bem como “todas as pessoas determináveis ou não, expostas às práticas” comerciais (art. 29 do CDC). Fornecedor “é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que desenvolvem atividades de produção, montagem, criação, construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços” (art. 3º do CDC). Produto “é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial” (§ 1º do art. 3º, citado), e serviço “é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante 23UNIDADE I Conceito de Direito remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária” (§ 2º do mesmo art. 3º). Está excluída da abrangência do CDC, como se viu, a prestação de serviço oferecida a título gratuito. As de caráter trabalhista também estão excluídas, e continuam regidas pela CLT e demais normas jurídicas trabalhistas. As relações existentes entre os próprios fornecedores, isto é, de fornecedor a fornecedor, continuam regidas pela legislação já existente (civil, comercial, penal etc.) (NUNES, 2017). Por essas singelas considerações relativas ao Direito do Consumidor, pode-se referir que certas operações de compra e venda de produtos e serviços estão submetidas à legislação consumerista, tendo saído da órbita das normas privativas. SAIBA MAIS Que as mulheres sofreram para conquistar um espaço na sociedade, nós já sabemos, porém há mais de 100 anos, precisamente em 1897, o Brasil teve a primeira mulher a ingressar no curso de Direito na Faculdade do Largo de São Francisco. Maria Augusta Saraiva, nascida em 1879 no estado de São Paulo, conseguiu se formar em 1902 no curso de direito, com excelência e muitos méritos, afinal de contas conseguiu um prêmio onde foi consagrada com uma viagem à Europa por se destacar no curso. Além do mais, Maria foi a primeira mulher a atuar no Tribunal do Júri no Brasil. Fonte: As mulheres e o Direito: histórias de pioneirismo. Migalhas do Direito. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/quentes/235253/as- mulheres-e-o-direito-historias-de-pioneirismo. Acesso em: 08 nov. 2019. Figura 1 – Maria Augusta Saraiva. Fonte: As mulheres e o Direito: histórias de pioneirismo. Migalhas do Direito. Disponível em: https://www. migalhas.com.br/quentes/235253/as-mulheres-e-o-direito-historias-de- pioneirismo. Acesso em: 08 nov. 2019. 24UNIDADE I Conceito de Direito REFLITA Nossa capacidade de raciocinar está intimamente ligada à nossa capacidade de sermos livres. Juntas, essas capacidades nos tornam únicas e nos distinguem da existência meramente animal. Ela nos transforma em algo mais do que meras criaturas com apetites.1 ¹ SANDEL, Michael J. Justiça: o que é fazer a coisa certa. 4. ed. Trad. de Heloisa Matias e Maria Alice Máximo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. 25UNIDADE I Conceito de Direito CONSIDERAÇÕES FINAIS Dentre os inúmeros conceitos que foram abordados nesta unidade I, deduz-se que, o direito natural é em suma o direito não escrito, que advém da própria natureza social do homem, revelado por meio da união da experiência e da razão do homem. Já o direito positivo é o conjunto de normas jurídicas vigentes em determinada sociedade, transcritos e regulamentados conformes os devidos trâmites legislativos. Os direitos subjetivos se debruçam sobre os préstimos dos direitos inerentes aoser humano, e tendem a ter relação com a vida, com a integridade corpórea e a moral. Tu- telam o ser humano a partir do seu nascimento. Podem ser direitos substantivos privados, relacionados aos direitos patrimoniais do indivíduo, mas também podem não tem caráter patrimonial, de natureza apenas moral. Já o direito objetivo, possui ramificações correspondente à norma jurídica em si, como um comando que propõe um comportamento. É aquele objetivado independentemen- te do momento de uso e exercício. Cada comando, cada determinação de comportamento constitui uma norma geradora de uma faculdade individual, o conjunto das normas, o seu complexo, forma o direito objetivo. Os direitos públicos são aqueles de ordem pública, e reúne preceitos de importân- cia fundamental ao equilíbrio e à segurança da sociedade, disciplinam os fatos de maior relevância ao bem-estar da coletividade e independem da vontade das pessoas. Os direitos privados regulamentam as relações particulares, os interesses, e obrigações, observando sempre a boa-fé entre as partes. E por fim, os direitos difusos, diz respeito a tutela da coletividade são indivisíveis, que alcançam um número indeterminado de pessoas, unidas pelo mesmo fato. Pertence a sujeitos indeterminados. Os processos baseados em direitos difusos se tornaram uma so- lução eficiente para resolver conflitos coletivos de ordem econômica, social ou cultural. Se preocupam com questões da coletividade, como as ligadas ao meio ambiente, patrimônio público, direitos do consumidor, direitos trabalhistas. 26UNIDADE I Conceito de Direito LEITURA COMPLEMENTAR O PAPEL DO JUIZ CRIMINAL NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO Por Luiz Eduardo Oliveira de Faria, juiz de direito Acredita-se que o autoritarismo não é apenas síndrome do Poder Judiciário, mas, sim, da própria sociedade brasileira. Logo, avizinha-se a percepção popularizada de que o arquétipo ideal de juiz criminal é, no Brasil, aquele de viés autoritário, encarcerador e eminentemente punitivista. O Brasil atravessa uma quadra histórica delicada, iniciada formalmente em 2013, quando se deflagrou um projeto político-jurídico que culminou no esgarçamento do tecido normativo-democrático e que teve como fatos exponenciais o afastamento de uma presidenta da República, eleita democraticamente, e a artificial condenação criminal de um ex-presidente, com seu respectivo encarceramento. Nos momentos críticos desta marcha, que ganhou ares novelizados pela cobertura da mídia de massa, o Judiciário viu-se tensionado a enfrentar questões sensíveis a uma dita opinião pública, fato que acabou por colocar em xeque o papel deste poder da República, no âmbito do Estado Democrático de Direito. Mais recentemente, para tornar dramático este quadro, veio a público, por ação de uma fração da imprensa independente e alternativa, uma série de diálogos, tidos por intermédio de aplicativos digitais, havida entre membros do Ministério Público Federal e um Juiz Federal, no transcurso de procedimentos penais, intensificando-se, pois, a citada reflexão. Então, neste lastro, e para aproveitar o ambiente reflexivo, indagar-se-ia: qual o verdadeiro papel do Juiz Criminal no âmbito do Estado Democrático de Direito? É o que se tenciona fazer doravante. Para a análise proposta, acredita-se que é necessária a fixação de três pontos teóricos de partida, interligados indissociavelmente, e que fornecem o perfeito caráter interdisciplinar de apreciação. O primeiro deles trabalha com a ideia de que a pena criminal, tida como uma resposta formal do Estado à infração punível, reflete a evolução histórica do Processo Penal desse Estado. Assim, um Estado de feição política autoritária, em tese, contemplaria punições virtualmente irracionais, ao passo que um Estado com aspirações democráticas traria em si 27UNIDADE I Conceito de Direito o caráter racional das punições criminais, sempre se tendo em mente o pleno respeito aos direitos e garantias fundamentais. O segundo ponto a ser fixado é a própria aproximação conceitual do que pode ser concebido como Estado Democrático de Direito. Caracterizar-se-ia, ele, como uma organização política, administrativa e de feição burocrática, ditada pela participação popular plural e que aspira à legitimidade social. Rege-se, esta organização, por uma ordem constituinte que, atualmente, está cada vez mais interligada a uma rede jurídico-normativa humanitária internacional. Por fim, acredita-se que não é possível conceber o fenômeno jurídico desgarrado do contexto histórico, visto este como o pano de fundo de toda a axiologia imanente à sociedade humana. Ora, é como sinalizou-se: sendo o Direito o termômetro da orientação política do Estado, da mesma forma é o processo penal. Dito de outra forma. Vislumbra-se uma perfeita aproximação científica entre o processo penal e a política, para comprovar-se que em casos de Estados com índole autoritária surge um processo penal com a mesma feição, ao passo que tendo-se um Estado democrático, certamente, o processo penal igualmente o será. Daí, torna-se possível acabar com mitos processuais penais, tais como a suposta abstração igualitária do sistema penal, desnudando-se o seu verdadeiro caráter repressivo, seletivo, excludente e funcionalmente voltado para a gestão dos indesejáveis. Cai por terra, também, o mito de que a pena criminal é fator de reinserção social. Evidencia-se que ela é, na verdade, a mola propulsora de estigmatização humana, exclusão social e potencialização criminógena. Rui, por fim, o mito da verdade real no processo penal. Demonstra-se que este paradigma nada mais representa do que a consagração da feição inquisitiva e autoritária do processo penal, destacadamente o brasileiro, que contraria de modo violento a sistemática acusatória pura consagrada na Carta Magna de 1988. Logo, da parte daqueles que se prestam a refletir sobre o processo penal, caberia uma indagação: Um processo penal para quê(m)? As respostas a esta questão vão orientar a interpretação e a aplicação das normas processuais penais, sempre tendo-se em vista os paradigmas científicos e políticos sobre os quais se apoia processo penal, quais sejam, paradigmas autoritários ou democráticos. 28UNIDADE I Conceito de Direito Pois bem, A partir deste ponto, necessário se faz evidenciar a realidade histórico- jurídica (processual penal) brasileira, já deixando patente que todas as faces dela se mostram interligadas. A realidade histórica do processo penal pátrio é imersa numa tradição política de matrizes autoritárias. Basta ver que o período pós-Constituição de 1988, na história da República, é o mais extenso e duradouro de democracia político-eleitoral, desconsiderando- se, por certo, as chamadas rupturas institucionais veladas. Este panorama traz reflexos imediatos na sociedade brasileira, fazendo com que se adira, mesmo que de forma inconsciente, a um conjunto de crenças daí advindos. Dissemina-se, por exemplo, a noção de que são mais efetivas as respostas de força para os mais variados problemas sociais, em detrimento do conhecimento e do diálogo. Em paralelo, crê-se na relativização dos direitos e garantias fundamentais, já que estes seriam obstáculos à eficiência do Estado e do mercado. Mas o pior dos reflexos sociais é sinalizado pelo fato de que se aplaude, em grande monta, o arbítrio funcional dos agentes do Estado, o que abre espaço à criação de heróis autoritários, sejam eles políticos do Executivo, Legislativo, do Ministério Público e, o que é pior, Juízes. Portanto, e para o que interessa aos fins deste articulado, acredita-se que o autoritarismo não é apenas síndrome do Poder Judiciário, mas, sim, da própria sociedade brasileira. Logo, avizinha-se a percepção popularizada de que o arquétipo ideal de juiz criminal é, no Brasil, aquele de viés autoritário, encarcerador e eminentemente punitivista. O panorama autoritário descortinadoprojeta-se incisivamente no processamento do sistema de justiça criminal, desembocando na existência acrítica da ideia de processo penal como instrumento de segurança pública, assepsia e defesa social, substrato último da ideia do direito penal do inimigo. Isto leva, entre nós, à noção de sociedade polarizada e dividida, opondo-se, de um lado, pretensos cidadãos que merecem ter seus direitos respeitados, e do outro lado, aqueles cidadãos que não merecem ter seus direitos respeitados. Noutros termos, digladiar-se-iam os “cidadãos de bem” e os cidadãos indesejados. Fica fácil perceber, então, que o autoritarismo no sistema de justiça criminal pátrio ganha corpo prático, fundamentalmente, pela existência de; a) juízes como gestores da produção de provas, atuando de ofício; b) juízes como tomadores de medidas restritivas de direitos também de ofício; c) juízes atuando como genuínos órgãos de acusação valendo- se, por exemplo, do permissivo do Art. 385, do CPP; d) jurisprudência baseada em termos semânticos amplos e vagos, em nítida adesão ao moralismo de ocasião e decisionismo 29UNIDADE I Conceito de Direito estéril; e) percepção normativa que consagra o judiciário como órgão de segurança pública e o processo penal como ferramenta de combate à criminalidade, a despeito do alcance do Art. 144, da CR/88. Mas, então, pergunta-se: qual seria a projeção plena da democracia no sistema de justiça criminal, contrapondo-se à citada ideia do autoritarismo? Em definitivo: qual seria verdadeiro papel do juiz criminal no estado democrático de direito? Parte-se, primeiramente, da necessidade de promover-se a leitura constitucional do sistema de justiça criminal. Assim sendo, o texto constitucional, com toda a sua principiologia garantista, deve ser tido como base das normas jurídicas consequentes, buscando-se aferir a legitimidade valorativa destas, servindo, também, noutra volta, como filtro hermenêutico único de aplicabilidade e legitimidade. Depois, é preciso redimensionar o sistema de justiça criminal, alocando-se o ser humano, e sua dignidade valorativa, como o epicentro hermenêutico. Com isso, é possível reformular o papel do juiz criminal, tornando-o agente garantidor e promotor da axiologia humanista dos réus, evitando-se a perniciosa noção de que juiz criminal deve ser visto como agente de segurança pública. Redefine-se, portanto, o papel do juiz criminal no âmbito do Estado Democrático de Direito, para colocá-lo fielmente preso aos limites do texto constitucional, sendo agente guardião do sistema acusatório puro, com todas as suas implicações formais, tornando-se tomador de posições jurídicas contra-majoritárias aos interesses de ocasião. Ou seja, o juiz criminal deve ater-se apenas à vontade constitucional, e não à das ruas, tudo visando à promoção potencializada da dignidade humana. Em conclusão acachapante. O Juiz criminal, no âmbito do Estado Democrático de Direito, deve ter em mente que punir faz parte do jogo civilizatório. Mas é preciso garantir para punir e punir garantindo. Portanto, sempre atento às balizas constitucionais, o real papel do Juiz Criminal, dentro do já decantado Estado Democrático de Direito, é o de ser o fiel da balança desta garantia para punir, ou desta punição garantida, porque só assim realiza-se autenticamente o projeto humanístico-constitucional de plena e irrestrita salvaguarda da dignidade de todos os seres humanos, evitando-se a propagação do autoritarismo. Luiz Eduardo Oliveira de Faria é juiz de Direito da Vara Criminal, Infância e Juventude e Execuções Penais de Timóteo/MG. Fonte: Justificando, mentes inquietas pensam Direito. Disponível em: http://www. justificando.com/2019/07/24/o-papel-do-juiz-criminal-no-estado-democratico-de-direito/. http://www.justificando.com/2019/07/24/o-papel-do-juiz-criminal-no-estado-democratico-de-direito/ http://www.justificando.com/2019/07/24/o-papel-do-juiz-criminal-no-estado-democratico-de-direito/ 30UNIDADE I Conceito de Direito MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Manual de Introdução ao Estudo do Direito Autor: Rizzato Nunes Editora: Saraiva. Sinopse: Reunindo temas da disciplina introdutória do direito, esta obra apresenta uma visão atual e apurada dos fenômenos jurídi- cos. Em linguagem direta e abordagem didática, o autor examina os elementos que compõem o estudo da matéria, como os princí- pios jurídicos, a interpretação jurídica, a questão da retroatividade da lei e a eficácia das normas jurídicas. Prestando-se ainda como instrumento de trabalho ao docente, traz inúmeras séries de exer- cício, sugestões de temas para seminários e acórdãos sobre as matérias ministradas. Apresenta um completo índice alfabético de assuntos e uma relação dos principais diplomas legais ordenados por seus nomes, facilitando o aprendizado e a consulta. FILME/VÍDEO Título: O Auto da Compadecida Ano: 2000. Sinopse: Após suas Respectivas mortes, os Personagens seguem para o Julgamento Final. Onde terão que escapar das acusações do diabo, para assim chegarem ao Céu. Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=3GAAkhwXzFI https://www.youtube.com/watch?v=3GAAkhwXzFI 31 Plano de Estudo: 1. Fontes Do Direito 1.1 Fontes Estatais e Não Estatais; 1.1.1 Das Fontes Estatais; 1.1.2 Das Fontes não Estatais; 1.2 Fontes Materiais; 1.3 Espécies de Fontes do Direito; 1.3.1 Lei; 1.3.2 Doutrina;1.3.3 Jurisprudência; 1.3.4 Costumes; 1.3.5 Princípios Gerais de Direito; 1.3.6 Analogia. Objetivos da Aprendizagem • Conceituar e contextualizar as fontes do Direito; • Compreender as espécies das fontes do direito; • Estabelecer a importância da lei, da doutrina, da jurisprudência, dos princípios gerais e da analogia como fontes do direito. UNIDADE II Fontes do Direito Professora Mestre Letícia Carla Baptista Rosa 32UNIDADE II Fontes do Direito INTRODUÇÃO Quando nos referimos às fontes do direito, encontramos um assunto com muitas divergências doutrinárias. No entanto, tal divergência é em relação a considerar o que realmente deve ser apontado como fonte do direito e o que não pode, sendo unânimes ao destacar o papel relevante que têm no ordenamento jurídico, sendo elas escritas ou não, materiais ou formais, são necessárias a qualquer sistema democrático de direito. Ao se debruçar sobre qualquer objeto de estudo a pergunta pela fonte é uma das primeiras a ocorrer àqueles que aspiram compreender com maior profundidade o tema estudado. A pergunta sobre o que é a sabedoria, a justiça, o amor, remete sempre ao conhecimento de suas fontes. Em “O Banquete”, por exemplo, Platão, ao propor a discus- são sobre o que é o amor, ilustra como é imprescindível se saber a fonte para, só assim, formular qualquer discurso sobre a questão. Como não poderia deixar de ser, um dos assuntos centrais no âmbito da Ciência do Direito diz respeito às suas fontes, questão de grande relevância tanto para formação quanto para ação prático-profissional dos operadores do Direito, vez que a compreensão do que seja fonte do Direito influi na própria concepção do que seja Direito e, por sua vez, condiciona desde os fundamentos jurídicos que se formula, a pretensão alegada, as possíveis contestações até o próprio provimento jurisdicional. De forma geral, o presente tema das fontes do Direito é permeado por abordagens sobre as suas espécies, as leis, os costumes, a jurisprudência, a doutrina e os princípios gerais. 33UNIDADE II Fontes do Direito 1. FONTES DO DIREITO A doutrina jurídica não se apresenta uniforme quando se trata do estudo das fontes do Direito. Entre os estudiosos da Ciência do Direito, há uma grande diversidade de opiniões quanto ao presente tema, principalmente em relação ao elenco das fontes. Esta palavra provém do latim, fons, fontis e significa nascente de água. No âmbito de nossa Ciência é empregada como metáfora (ANDRADE, 1983). Distinguimos três espécies de fontes do Direito: históricas, materiais e formais, as fontesHistóricas, apesar do Direito ser um produto que altera com o tempo e espaço, contém muitas ideias permanentes. A evolução dos costumes que se conservam presentes na ordem jurídica (ANDRADE, 1983). A evolução dos costumes e o progresso induzem o legislador a criar novas formas de aplicação para esses princípios. As fontes históricas do Direito indicam a gênese das modernas instituições jurídicas: a época, o local, as razões que determinaram a sua formação. Limitando-se aos antecedentes históricos mais recentes ou aprofundando no passado, em busca das concepções originais. Esta ordem de estudo é significativa não apenas para a memorização do Direito, mas também para a melhor compreensão dos quadros normativos atuais. No setor da interpretação do Direito, onde o fundamental é captar-se a finalidade de um instituto jurídico, sua essência e valores capitais, a utilidade dessa espécie de fonte revela-se com toda evidência (KELSEN, 1938). A Dogmática Jurídica, que desenvolve o seu estudo em função do ordenamento vigente, com o objetivo de revelar o conteúdo atual do Direito, proporcionando um 34UNIDADE II Fontes do Direito conhecimento pleno, deve buscar subsídios nas fontes históricas. Aquele que quer realizar o Direito sem a História não seria jurista, nem sequer um utopista, não traria à vida nenhum espírito de ordenamento social consciente, senão mera desordem e destruição. Nessa perspectiva de análise, o retorno aos estudos do Direito Romano, fonte do Direito ocidental, torna-se imperativo (KELSEN, 1938). 1.1 FONTES ESTATAIS E NÃO ESTATAIS Dentre os vários conceitos e classificações possíveis, vamos apresentar aquilo que há de comum e básico na doutrina. O direito positivo as normas jurídicas escritas, fruto de ato do Estado, é um marco divisório importante. É nele que a dogmática jurídica e hermenêutica contemporânea tem sua base de investigação. Decorre uma classificação possível, a que divide as fontes em estatal e não estatal. Como fontes estatais temos: as leis e a jurisprudência, e como fontes não estatais: o costume jurídico e a doutrina (NUNES, 2017). Além disso, hodiernamente, é necessário inserir como fonte, classificadas como estatais os princípios, especialmente aqueles existentes no plano constitucional. 1.1.1 Das fontes estatais Fontes principais são caracterizadas como lei em sentido geral e amplo, ou seja, não deixando espaço para o juiz julgar com base em qualquer outra fonte. A lei é a expressão máxima do direito. Somente em casos de expressa omissão legal é que o juiz poderá decidir com base nas fontes acessórias, quais seja, os bons costumes, as analogias, e os princípios gerais de direito (NUNES, 2017). Fontes do direito são os processos dos quais as regras jurídicas se positivam com legítima força obrigatória, isto é, com vigência e eficácia no contexto de uma estrutura normativa. O direito resulta de um complexo de fatores que a Filosofia e a Sociologia estudam, mas se manifesta, como ordenação vigente e eficaz, por meio de estruturas normativas, que são o processo legislativo, os usos e costumes jurídicos, a atividade jurisdicional e o ato negocial. Para que exista fonte do direito, é preciso que haja um poder capaz de especificar o conteúdo, para exigir o seu cumprimento, não sendo indispensável que ele mesmo aplique a sanção (MAZZILLI, 2015). Toda fonte do direito implica uma estrutura normativa de poder, haja vista que a gênese de qualquer regra de direito, só ocorre em virtude da interferência de um centro de poder, o qual, diante de um complexo de fatos e valores, opta por dada solução normativa com características de objetividade (MAZZILLI, 2015). 35UNIDADE II Fontes do Direito À luz desse conceito, quatro são as fontes de direito, porque quatro são as formas de poder: o processo legislativo, expressão do Poder Legislativo; a jurisdição, que corresponde ao Poder Judiciário; os usos e costumes jurídicos, que exprimem o poder social, ou seja, o poder decisório anônimo do povo; e, finalmente, a fonte negocial, expressão do poder negocial ou da autonomia da vontade. Nota-se que o direito se realiza através de um conjunto sistemático de regras que determinam atos e abstenções, sob pena de se imputar ao transgressor consequências ou sanções punitivas (NADER, 2014). Legislação é um tipo de fonte material, é o conjunto das normas jurídicas emanadas do Estado, através de seus vários órgãos, dentre os quais se realça, com relevo, nesse tema, o Poder Legislativo. Essas normas jurídicas têm uma série de características, sendo algumas próprias. Por ora, é importante destacar que o conjunto da legislação se dá pela junção de todas as normas jurídicas escritas, publicadas oficialmente pelo Estado através de seus órgãos (NADER, 2014). Como “legislação” é um conceito que advém do vocábulo “lei”, muitas vezes tais expressões são tomadas como sinônimas, definindo-se, então, legislação como um conjunto de leis. Na verdade, é preciso que se faça um esclarecimento acerca do uso do termo “lei”. O vocábulo “lei” apresenta uma série de significados diversos. Pode ser utilizado para expressar as leis divinas, os mandamentos de Deus, as leis da natureza ou, a lei firmada pelas ciências, como fruto da descoberta científica. A lei jurídica propriamente, de sua parte, aponta também para alguns sentidos, que são análogos. A lei é tanto a norma constitucional quanto uma lei ordinária, por exemplo, o Código Civil, ou até uma cláusula contratual, que se diz ser “lei entre as partes” (SALDANHA, 2005). De fato, a terminologia adequada a ser utilizada é a que dispõe o gênero como norma jurídica e as espécies como: norma jurídica escrita e norma jurídica não escrita, sendo que a Constituição, a lei complementar, a lei ordinária, a medida provisória, são espécies de norma jurídica escrita, e o costume jurídico é o caso da norma jurídica não escrita. Logo, as normas estatais escritas são: Constituição Federal; Leis complementares; Leis ordinárias; Medidas provisórias; Leis delegadas; Decretos legislativos; Resoluções; Decretos regulamentares; outras normas, tais como portarias, circulares, ordens de serviço etc. As não escritas são: costumes jurídicos (SALDANHA, 2005). 36UNIDADE II Fontes do Direito 1.1.2 Das fontes não estatais As fontes não estatais, por sua vez, abrangem o direito consuetudinário (costume jurídico), o direito científico (doutrina) e as convenções em geral ou negócios jurídicos. Essas normas jurídicas (leis, decretos, costumes, sentenças, contratos) não são, como se vê, produtoras do direito, mas consistem no próprio direito objetivo, que brota de circunstâncias políticas, históricas, geográficas, econômicas, axiológicas e sociais (fontes materiais) que se completam com um ato volitivo do Poder Legislativo, Executivo, Judiciário. (fontes formais) (BOLESINA, 2015). As fontes formais são os canais por onde se manifestam as fontes materiais. As fontes formais não são normas, são formas de expressão do direito positivo. São apenas meios que traduzem as normas (leis, costumes, súmulas etc.) em palavras para facilitar seu conhecimento pelo jurista e sua aplicação pelo órgão competente. As fontes formais seriam então os processos ou meios pelos quais as normas jurídicas se positivam com legítima força obrigatória, ou seja, com vigência e eficácia (NUNES, 2017) 1.2 FONTES MATERIAIS Fontes materiais ou reais são não só fatores sociais, que abrangem os históricos, os religiosos, os naturais (clima, solo, raça, natureza geográfica do território, constituição anatômica e psicológica do homem), os demográficos, os higiênicos, os políticos, os econômicos e os morais (honestidade, decoro, decência, fidelidade, respeito ao próximo), mas também os valores de cada época (ordem, segurança, paz social, justiça), dos quais fluem as normas jurídico-positivas (SALDANHA, 2005). As fontes materiais vão nos dizer deonde o direito surge. Qual a “matéria-prima” do Direito. São as relações sociais, os diferentes conflitos, as diferentes tendências, as diferentes linhas de pensamento. Embora as fontes materiais sejam muito importantes para compreendermos o fenômeno jurídico, elas não são objeto de estudo direto da ciência do Direito: elas são o objeto de estudo de outras ciências, como a história, a sociologia, a antropologia, a economia, a política, e assim por diante. Por isso, o positivismo jurídico clássico, de Kelsen, com sua “Teoria Pura do Direito” defendia que o Direito não deveria se preocupar com suas fontes materiais. Mas, cuidado, hoje não é mais assim: se nós não entendermos o que está por trás do Direito, às suas fontes materiais, nós jamais compreenderemos o Direito em si (SALDANHA, 2005). 37UNIDADE II Fontes do Direito 1.3 ESPÉCIES DE FONTES DO DIREITO 1.3.1 Lei Primeiramente, e já com o intuito de apresentar as normas dentro da estrutura, é preciso entender que a legislação, é o conjunto das normas jurídicas escritas e, também, conhecida como “ordenamento jurídico” (NADER, 2014). Esse ordenamento jurídico, no que tange a sua “realidade”, é um conjunto enorme de normas e princípios jurídicos legislados. São, na verdade, milhares de normas, desde as constitucionais até as portarias. Elas apontam para uma complexidade praticamente inapreensível ao nível de concretude. Isto porque comportam todas as matérias com as quais lida o Direito, todas as esferas de abrangência relativas às esferas do Poder Público de que emanam (Poder Público Federal, Estadual, Municipal, Autarquias, Repartições etc.) e aos destinatários (todos os cidadãos, só os empregados, só os empregados bancários, só os funcionários públicos federais etc.). Em relação ao tempo de vigência, o ordenamento jurídico comporta desde normas editadas no século XIX, como o Código Comercial brasileiro, que é de 1850, até aquelas editadas hoje. Enfim, o conjunto das normas que compõem, de fato, o ordenamento jurídico é de um tamanho e de uma complexidade que dificultam muito sua apreensão in concreto (NADER, 2014). Por isso, o pensamento jurídico dogmático constrói fórmulas e modelos, capazes de lidar com essa complexidade, visando à sua compreensão e, claro, aplicação. Na questão 38UNIDADE II Fontes do Direito do ordenamento jurídico um critério importante para seu entendimento é o relacionado a sua estrutura (NADER, 2014). A estrutura do ordenamento jurídico organizado é hierárquica. Por hierarquia legal, entende-se que algumas normas são superiores a outras, isto é, algumas normas para serem válidas têm de respeitar o conteúdo, formal e material, da norma jurídica superior. Assim, por exemplo, se diz que uma lei ordinária é inconstitucional, quando contrária à Constituição; que um decreto regulamentar é ilegal, quando contraria a lei que lhe é superior, nesse caso o decreto regulamentar é, também, simultaneamente, inconstitucional, porque contrariou, pelo menos, a hierarquia (NUNES, 2017). Essa estrutura hierárquica, através da qual as normas jurídicas legisladas se inter-relacionam, umas se sobrepondo a outras, faz nascer aquilo que se chama “estrutura piramidal” que comporta o “sistema jurídico”. Vê-se, desse modo, que no ápice do sistema “piramidal” está a Constituição Federal. Note-se que as normas e os princípios constitucionais estão no topo do sistema, porém dentro dele e não fora. Dessa maneira, eles constituem o ponto de partida do ordenamento jurídico inteiro, mas são já o primeiro momento efetivo, isto é, as normas e os princípios constitucionais formam um conjunto de regras que estão em plena vigência “dentro” do sistema desde a sua edição, e que no caso da Constituição brasileira atual estão em vigor desde 5-10-1988 (NUNES, 2017). A Constituição espalha no sistema toda sua influência, é o chamado princípio da constitucionalidade, que obriga a que todas as outras normas de hierarquia inferior estejam conforme seus fundamentos, sob pena de se tornarem inconstitucionais e deixarem de pertencer ao ordenamento jurídico (BOLESINA, 2015) A seguir, na hierarquia do sistema jurídico estão as leis complementares, as leis ordinárias, as leis delegadas, os decretos legislativos, resoluções e as medidas provisórias, todos no mesmo patamar hierárquico. Com a edição da Constituição Federal de 1988 inaugurou-se um novo modelo lógico-jurídico, no qual as leis complementares deixaram de ter a sobrevalência hierárquica sobre as leis ordinárias (AYRES, 2006). A questão, inclusive, é bastante simples e implica apenas e tão somente o entendimento de uma questão lógica: a da hierarquia e desenvolvimento da noção de sistema, no caso, sistema jurídico. Até a edição da Carta Magna atual, a lei complementar tinha prevalência hierárquica sobre a lei ordinária. É que no modelo de sistema jurídico anterior, algumas leis ordinárias tinham seu comando hierárquico superior determinado por leis complementares que lhes impunham certas condições de validade (BOLESINA, 2015). 39UNIDADE II Fontes do Direito Era o caso, por exemplo, do Código Tributário Nacional (lei complementar) e sua relação com outras leis ordinárias tributárias. Acontece que, a partir de 5 de outubro de 1988, quando entrou em vigor a nova Carta Constitucional, como dito, isso acabou: não existe mais hierarquia entre lei complementar e lei ordinária, isto é, a lei complementar não determina as condições de validade da lei ordinária. Todavia, conforme demonstraremos, apesar de não ser condicionante em função da forma, ao menos uma Lei Complementar, a Lei n. 95, exerce controle no modo de produção das demais leis, por se tratar de norma geral dirigida ao próprio legislador (NUNES, 2017). Continuando ainda a abordagem da questão da hierarquia, constata-se: é verdade que o legislador constitucional deu mais, podemos dizer, “peso” normativo à lei complementar, reservando para ela temas legislativos de relevo. No entanto, isso não significa que a lei complementar esteja situada em patamar mais elevado no sistema. As leis complementares têm como função tratar de certas matérias que a Constituição entende devam ser reguladas por normas, cuja aprovação exige controle mais rígido dos parlamentares ( NADER, 2014). Por isso, o quórum legislativo exigido para sua aprovação é especial, é o da maioria absoluta (CF, art. 69: “As leis complementares serão aprovadas por maioria absoluta”). E as matérias para as quais é feita essa exigência de votação aparecem taxativamente no texto constitucional. Por exemplo, o art. 93, que trata do Estatuto da Magistratura; o art. 131, que disciplina a Advocacia Geral da União; o art. 192, que cuida do sistema financeiro nacional etc. Portanto, o que diferencia a lei complementar da ordinária é a matéria específica e o quórum qualificado de aprovação para as leis complementares e não a hierarquia, que, repita-se, não existe entre elas (AYRES, 2006). Surge, também, uma dúvida, às vezes apontada pela doutrina, em relação ao tema da hierarquia, por conta da existência de uma específica Lei Complementar, a de n. 95, de 26-2199824, que dispõe sobre a elaboração e consolidação das leis. E, em função do conteúdo dessa norma, argumenta-se que ela teria que ser hierarquicamente superior às leis ordinárias, para que estas a pudessem obedecer (BOBBIO,2010). Esse argumento, no entanto, é inconsistente. Em primeiro lugar, se isso fosse verdade, ao menos um tipo de norma não precisaria obedecê-la: exatamente as demais leis complementares, que estão no mesmo patamar, mas não é isso que se espera, conforme veremos. Em segundo lugar, não é o conteúdo da norma que define sua hierarquia, mas sua posição jurídico-política aceita historicamente pelos operadores do direito e em geral por toda 40UNIDADE II Fontes do Direito a sociedade. A citada Lei Complementar n. 95 é norma de organização. Diz como opróprio legislador deve produzir um texto de lei, separando-o por capítulos, artigos, parágrafos etc. De fato, haverá conflitos, como já há, entre essa norma complementar e outras normas do sistema, na medida em que o legislador não a siga à risca (NADER, 2014). No entanto, a solução do conflito, se puder ser dada, não se fará pela via da hierarquia, mas sim pela da solução interpretativa sistêmica. O intérprete terá de verificar se o sistema, dando qualificação especial de conteúdo à lei complementar, traz solução capaz de adequar os dois tipos de norma. Não se trata de um problema de hierarquia, mas de diálogo. 1.3.2 Doutrina Podemos dizer que doutrina é o resultado do estudo que pensadores, juristas e filósofos do Direito. A doutrina, que já foi até obrigatória em alguns ordenamentos como por exemplo, as Ordenações Afonsinas, na Espanha, no século XIV, tem ainda fundamental importância tanto na elaboração da norma jurídica quanto em sua interpretação e aplicação pelos tribunais. Em nossa época, quando, como vimos, a especialização se torna fundamental e a velocidade das transformações está exacerbada, a doutrina assume papel extremamente relevante para o Direito (NADER, 2014) Já não é possível que o legislador, o administrador, ou o juiz, mesmo especialista, consiga dar conta do universo de situações existentes, tanto no mundo das normas quanto no da realidade social. A doutrina nesse processo torna-se essencial para aclarar pontos, estabelecer novos parâmetros, descobrir caminhos ainda não pesquisados, apresentar soluções justas, enfim interpretar as normas, pesquisar os fatos e propor alternativas, com vistas a auxiliar a construção sempre necessária e constante do Estado de Direito, com o aperfeiçoamento do sistema jurídico (NUNES, 2017). Por fim, a doutrina exerce papel fundamental, como auxiliar para entendimento do sistema jurídico em seus múltiplos e complexos aspectos. A questão da doutrina como fonte do direito não é pacífica. Há aqueles que entendem que ela não pode ser fonte, porque apenas descreve a autêntica fonte do direito, que são as normas jurídicas, ou porque forma esquemas e modelos que explicam o ordenamento jurídico por construções teóricas; ou, ainda, porque, quando muito, ela inspira o legislador para e na produção das normas jurídicas (NADER, 2014). 41UNIDADE II Fontes do Direito Apesar das objeções, e especialmente tendo em vista o que já dissemos a respeito da formação do pensamento jurídico dogmático pela e na escola de Direito, não temos dúvida em afirmar que a doutrina é fonte do direito. Aliás, a fundamentação para a aceitação da doutrina como fonte surge da própria definição que unanimemente se dá para a doutrina: é o conjunto das investigações científicas e dos ensinamentos dos juristas, dos pensadores do Direito. Ora, o pensamento jurídico dogmático nada mais é do que o conjunto de suas doutrinas, e corresponde ao lócus, onde o estudioso e pesquisador do Direito vai aprendê-lo e procurar respostas aos problemas encontrados. O estudioso ou pesquisador aqui é colocado no sentido mais amplo possível: estudantes universitários e profissionais do Direito em geral, tais como advogados, juízes, promotores públicos, procuradores etc. Na verdade, fruto de sua formação na Ciência Dogmática do Direito, o pesquisador utiliza-se da linguagem científica doutrinária o tempo todo, ainda que disso não se aperceba. Por mais que acredite e se esforce por acreditar que está diante de uma norma jurídica “pura”, que tem caracteres e linguagem próprios, independentemente da sua linguagem científica, ele, de fato, nunca tem diante de si uma norma jurídica “pura”: é que sua forma de conhecer a norma jurídica está moldada pelos elementos trazidos da Hermenêutica Jurídica, e daí sua linguagem é instrumento de acesso à norma jurídica, que ele só conhece a partir da linguagem e “na” linguagem da qual se utiliza ( NUNES, 2017). Por conta disso, podemos dizer que a doutrina tem, então, o sentido amplo de “qualquer doutrina”, quer seja dominante, aceita por consenso dos juristas, quer seja alguma particularizada, às vezes criada por conta de um problema específico. Além disso, há outro aspecto relevante que é tratado separadamente da questão de fonte. É o relacionado ao uso da doutrina como argumento para sustentação de opiniões jurídicas, ou para tomada de decisões visando à resolução dos casos práticos, pelos advogados, procuradores de justiça, juízes etc. A jurisprudência é, também, usada nesse sentido de argumento e até a própria norma jurídica vai aparecer aí no e como argumento para a tomada de decisão (BOLESINA, 2015). Na verdade, são argumentos retóricos, que no caso do uso da doutrina repousam sua sustentação no poder de autoridade (prestígio) de que ela goza. É por esse poder de autoridade, inclusive, que alguns juristas tornam-se conhecidos. Quando isso ocorre, a opinião desses doutrinadores torna-se respeitada, de tal forma que passam a ser ouvidos. 42UNIDADE II Fontes do Direito Os pareceres surgem aí, então, como uma modalidade específica de doutrina. Os doutrinadores passam a opinar sobre as questões jurídicas, oferecendo sua opinião, que exerce clara influência no pensamento jurídico. E, ainda que a opinião não seja acatada num caso prático real, por exemplo, numa decisão judicial, não se consegue ignorá-la: ela terá de ser no mínimo negada, como inválida, para o deslinde da questão. Por outro lado, a realidade demonstra que a opinião jurídica exerce de fato influência também nas decisões judiciais. Basta uma leitura de julgados, escolhidos ao acaso, para lá encontrarem em decisões fundamentadas nas opiniões dos doutrinadores. Claro que, em contrapartida, a jurisprudência, utilizada como suporte para a argumentação, aparece com grande poder de autoridade (BOLESINA, 2015). Anote-se, também, que a influência da doutrina, assim como, da mesma forma, a da jurisprudências e faz sentir na elaboração das normas jurídicas. Suas teorias servem, por vezes, de base para a criação de normas, como, por exemplo, a Teoria do Risco do Negócio, adotada pelo Código de Defesa do Consumidor (Lei n. 8.078/90). Essa teoria é a que deu suporte para que a legislação consumerista trouxesse para o sistema jurídico nacional a responsabilidade civil objetiva do fornecedor de produtos e serviços. Em outras oportunidades, os legisladores baseiam-se na doutrina para apresentar projetos, que se transformam em leis (MAZZILLI, 2015). E noutras, ainda, são os próprios doutrinadores que elaboram os projetos a serem apresentados por legisladores para aprovação. Como exemplo, cite-se o próprio Código de Defesa do Consumidor. 1.3.3 Jurisprudência A jurisprudência é a fonte mais geral e extensa, indica soluções adequadas às necessidades sociais, evita que uma questão doutrinária fique eternamente aberta e dê margem a novas demandas, e portanto diminui os litígios, reduz ao mínimo os inconvenientes da incerteza do Direito, por que de antemão faz saber qual será o resultado das controvérsias (MAZZILLI, 2015). A jurisprudência é uma fonte infra-estatal, junto com o contrato coletivo de trabalho e a doutrina. É a maneira mais adequada de caracterizar a jurisprudência dentre as fontes formais e infra-estatais do direito. Em contraposição, tem-se os doutrinadores que entendem que a jurisprudência não pode ser fonte do Direito do Trabalho. Pois entendo que ela não se configura como norma obrigatória, mas apenas indica o caminho predominante em que os tribunais entendem de aplicar a lei, suprindo, inclusive, eventuais lacunas desta última. 43UNIDADE II Fontes do Direito O que diz respeito à justa causa, a interpretação que se dá a cada caso constitui valiosa forma de auxílio na análise do tema, pois a lei não esclarece como é que se verifica a falta grave praticada pelo empregado (MAZZILLI, 2015). Para a teoria Clássica, a jurisdiçãoé ato de mera aplicação do direito, o juiz é escravo da lei, dela não se podendo afastar. Cabe-lhe aplicá-la tal como está redigida; o magistrado é uma “máquina de subsumir”. Dessa teoria resulta que o juiz não pode ser elevado a órgão ordenador da ordem social e a jurisprudência, por sua vez, não pode ser identificada como fonte do direito. O juiz é mero intermediário que faz a passagem do texto legal para o caso concreto, não será considerado como investido de um poder político e, em consequência, seria inadequado falar-se em Poder Judiciário, sendo mais próprio entender a atividade judiciária como função de serviço (NADER, 2014). Para a teoria moderna a jurisdição é valorizada como fonte do direito, o juiz é dotado de um poder criativo, para alguns, fundamentado na lei, sendo exemplo a equidade na qual se encontra, sem dúvida, uma transferência do poder de legislar do Legislativo para o Judiciário. No pensamento jurídico anglo-saxão, da Escola da Jurisprudência Sociológica e do Realismo Jurídico, à função judicial é atribuída a uma dimensão eminentemente prática, participando mais diretamente o juiz da edificação do direito positivo (NADER, 2014). Portanto, o papel da jurisprudência é atualizar o entendimento da lei, abrir horizontes, dando-lhe uma interpretação atual que atenda às necessidades do momento dos fatos. A feição da jurisprudência é dinâmica. Sendo assim, os julgados não exercem força vinculativa, exceto a situação das súmulas vinculantes (NUNES, 2017). Embora não caiba aos tribunais ditar normas, operou-se paulatinamente no país um deslocamento da visão judicial, com a expedição de súmulas de jurisprudência dos tribunais, em especial do precursor que foi o Supremo Tribunal Federal. A súmula, é um enunciado que resume uma tendência de julgamento sobre determinada matéria, decidida contínua e reiteradamente pelo tribunal. Essas súmulas, mormente as dos tribunais federais superiores, convertem-se em verdadeiras fontes formais de Direito. Contudo, não se trata de norma impositiva e não deve o operador do Direito curvar- se à súmula, se entender que é hora de mudar. Nem mesmo os membros do tribunal que expediu a súmula estão a ela vinculados, embora seja ampla a importância desse instituto (NUNES, 2017). 44UNIDADE II Fontes do Direito As súmulas vinculantes têm por principal escopo efetivamente diminuir os acúmulos de processos nos tribunais, permitindo que questões idênticas sigam a mesma orientação judicial, dada por referida vinculação, por todos os juízes e tribunais. Súmula Vinculante, é o enunciado da decisão reiterada do Supremo Tribunal Federal, que possui efeito de vincular todos os órgãos do Poder Judiciário e da Administração Pública direta e indireta federal, estadual e municipal. A súmula vinculante está prevista no artigo 103-A da Constituição Federal deve ser aprovada por 2/3 dos membros do STF (NUNES, 2017). Muito se critica a súmula vinculante, pois é entendida como um engessamento do Judiciário, além do que, nem sempre estarão no mesmo sentido todos os julgados que se entendem idênticos e repetitivos (SALDANHA, 2005). Se, por um lado, a súmula vinculante permite o julgamento rápido e simultâneo de centenas de processos, por outro, corre-se o risco de se petrificar o poder interpretativo da jurisprudência, principalmente dos juízes de primeiro grau, primeiros receptores das modificações sociais. A função do juiz não é dar o Direito, não é criar o Direito, mas sim interpretá- lo. Essas interpretações podem trazer benefícios para a compreensão do ordenamento jurídico, sendo, portanto, fonte do Direito. 1.3.4 Costumes Apesar do costume ser a expressão mais legítima e autêntica do Direito, pois pro- duto voluntário das relações de vida, não atende mais aos anseios de segurança jurídica. O Direito codificado favorece mais a certeza do Direito do que as normas costumeiras. É justamente esta circunstância que dá à lei uma superioridade sobre o costume, notadamen- te nos Estados de grande base territorial, em que há diversidade de usos e costumes. Se os costumes possuem, de um lado, a vantagem de ser um Direito que traduz presumivelmente as aspirações do povo, sem qualquer compromisso de natureza política, de outro lado, além da incerteza jurídica que geram, muitas vezes as suas normas vêm impregnadas de sentido moral e religioso (BOBBIO, 2010). São dotados de uma certa força jurídica, pela qual sempre que uma prática social se repetisse com assiduidade criaria, nos membros da sociedade, a convicção de seu valor jurídico e obrigatoriedade. Fundamentando-se no pensamento Kantiano, é possível afirmar que não basta a repetição de uma prática, para que esta alcance o estado de norma jurídica. 45UNIDADE II Fontes do Direito Às vezes o que é obrigatório não é praticado e o que é praticado não é Direito (BOLESINA, 2015) Para que o costume alcance força jurídica é necessário, em primeiro plano, que esteja previsto no ordenamento jurídico como forma de expressão do Direito. Uma vez incluído no elenco das fontes formais, é indispensável que reúna dois elementos: material e psicológico. O primeiro, também denominado objetivo. Consiste na repetição constante e uniforme de uma prática social (NUNES, 2017). O costume pressupõe, assim, a pluralidade de atos, um longo tempo, uma única fórmula, faltando um destes elementos a norma social não apresentará valor jurídico. Quanto ao tempo necessário de duração da prática social e o número de atos, a generalidade dos sistemas não predetermina. Entende-se que o quantitativo de atos e de tempo deva ser o suficiente para gerar, na consciência popular, a convicção da obrigatoriedade da prática social. Ao aplicador do Direito competirá, fundamentalmente, verificar se a norma seguida chegou a criar raízes no pensamento social. O elemento psicológico, subjetivo ou interno, a opinio iuris seu necessitatis dos romanos, é o pensamento, a convicção de que a prática social reiterada, constante e uniforme, é necessária e obrigatória. É a certeza de que a norma adotada espontaneamente pela sociedade possui valor jurídico (NUNES, 2017). As espécies de costumes se definem pela forma com que o costume se apresenta em relação à lei. A doutrina distingue as seguintes: secundum legem, praeter legem e contra legem. a) Costume “Secundum Legem: Há divergência doutrinária quanto ao significado desta espécie. Para alguns ela se caracteriza quando a prática social corresponde à lei. Não seria uma prática social ganhando efetividade jurídica, mas a lei introduzindo novos padrões de comportamento à vida social e que são acatados efetivamente. É também denominado costume interpretativo, pois, expressando o sentido da lei, a prática social espontaneamente consagra um tipo de aplicação das normas. Há autores que não admitem esta espécie, sob o fundamento de que não se trata de norma gerada voluntariamente pela sociedade, mas uma prática decorrente da lei. Esse costume se caracterizaria, na opinião de outros autores, quando a própria lei remete seus destinatários aos costumes, determinando o seu cumprimento. Sob este entendimento, é inegável que a norma costumeira atua efetivamente como fonte formal, apesar de sua aplicação ser ordenada por lei (NADER, 2014). 46UNIDADE II Fontes do Direito b) Costume “Praeter Legem”: É o que se aplica supletivamente, na hipótese de lacuna da lei. Esta espécie é admitida pela generalidade das legislações. O Código Civil Suíço, de 1912, pelo art. 1º prevê esta espécie: “A lei rege todas as matérias às quais se referem a letra ou o espírito de uma de suas disposições”. Na falta de uma disposição legal aplicável, deverá o juiz decidir de acordo com o Direito costumeiro e, onde também este faltar, como havia ele de estabelecer se fosse legislador. Inspirar-se-á para isso na doutrina e jurisprudência mais autorizadas. Em nosso país, o costume assumeo mesmo caráter, pelo que dispõe o art. 4º da Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro: “Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito.” O Direito argentino, pelo art. 17 do Código Civil, só admite a aplicação da norma costumeira quando as leis a determinarem: “o uso, o costume ou prática não podem criar direitos, senão quando as leis se referirem a eles. (BOBBIO, 2010)” c) Costume “Contra Legem” É a chamada consuetudo abrogatoria, que se caracteriza pelo fato de a prática social contrariar as normas de Direito escrito. Apesar de haver divergência doutrinária quanto à sua validade, é pensamento predominante que a lei só pode ser revogada por outra. O mérito da presente questão se confunde com o problema da validade das leis em desuso. 1.3.5 Princípios gerais de direito Os princípios são, dentre as formulações de todo sistema ético-jurídico, os mais importantes a serem considerados não só pelo aplicador do Direito, mas também por todos aqueles que, de alguma forma, ao sistema jurídico se dirijam. Assim, estudantes, professores, cientistas, operadores do Direito, advogados, juízes, promotores públicos, têm de, em primeiro lugar, levar em consideração os princípios norteadores de todas as demais normas jurídicas existentes (AYRES, 2006). Os princípios situam-se no ponto mais alto de qualquer sistema jurídico, de forma genérica e abstrata, mas essa abstração não significa falta de aplicabilidade no plano da realidade. Como as normas jurídicas incidem no real e como elas devem respeitar os princípios, acabam por levá-los à concretude. E é nesse aspecto que reside a eficácia dos princípios, como toda e qualquer norma jurídica deve a eles respeitar, sua eficácia deve ser plena (SARMENTO, 2010). Na vida do Direito os princípios são importantes em duas fases principais: na elaboração das leis e na aplicação do Direito, pelo preenchimento das lacunas da lei. Os princípios, guiam, fundamentam e limitam as normas positivas já sancionadas. 47UNIDADE II Fontes do Direito Quando se disciplina uma determinada ordem de interesse social, a autoridade competente não caminha sem um roteiro predelineado, sem planejamento, sem definição prévia de propósitos. O ponto de partida para a composição de um ato legislativo deve ser o da seleção dos valores e princípios que se quer consagrar, que se deseja infundir no ordenamento jurídico (VARELA, 1945). São os princípios que dão consistência ao edifício do Direito, enquanto os valores dão-lhe sentido. A qualidade da lei depende, entre outros fatores, dos princípios escolhidos pelo legislador. O fundamental, tanto na vida como no Direito, são os princípios, porque deles tudo decorre. Se os princípios não forem justos, a obra legislativa não poderá ser justa. Ao caminhar dos princípios e valores para a elaboração do texto normativo, o legislador desenvolve o método dedutivo. As regras jurídicas constituem, assim, irradiações de princípios. Na segunda função dos princípios gerais de Direito, que é de preencher as lacunas legais, o aplicador do Direito deverá Perquirir os princípios e valores que nortearam a formação do ato legislativo. A direção metodológica que segue é em sentido inverso: do exame das regras jurídicas, por indução, vai revelar os valores e os princípios que informaram o ato legislativo. O Direito só estabelece um requisito, quanto ao que deve existir entre os princípios gerais e as normas particulares do Direito, que entre uns e outros não haja nenhuma desarmonia ou incoerência. Pelo que se observa, ao escolher uma fórmula tão abstrata e indefinida, o legislador, já ciente das divergências doutrinárias que a expressão apresentava, pretendeu oferecer ao aplicador do Direito um critério bem amplo, para a busca dos princípios aplicáveis aos casos concretos. a) Conceito de princípios: são ideias de fundamento, origem, começo, razão, condição e causa; b) Gerais: a ideia de distinção entre o gênero e a espécie e a oposição entre a pluralidade e a singularidade; c) Direito: caráter de juridicidade; o que está conforme a reta; o que dá a cada um o que lhe pertence. No vasto campo do Direito há uma gradação de amplitude entre os princípios, que varia desde os mais específicos aos absolutamente gerais, inspiradores de toda a árvore jurídica. Entendemos que, embora a fórmula indique princípios gerais, a expressão abrange tanto os efetivamente gerais quanto os específicos, destinados apenas a um ramo do Direito. De acordo com a classificação que a doutrina apresenta quanto às categorias de princípios, os de Direito são monovalentes, porque se aplicam apenas à Ciência do Direito; os princípios plurivalentes aplicam-se a vários campos de conhecimento e os univalentes são válidos em todas as áreas científicas, como o princípio de causa eficiente. 48UNIDADE II Fontes do Direito 1.3.6 Analogia A analogia é um recurso técnico que consiste em se aplicar, a uma hipótese não prevista pelo legislador, a solução por ele apresentada para uma outra hipótese fundamentalmente semelhante à não prevista. Destinada à aplicação do Direito, analogia não é fonte formal, porque não cria normas jurídicas, apenas conduz o intérprete ao seu encontro (NUNES, 2017). O trabalho que desenvolve é todo de investigação, no sentido de criatividade, não elabora, pois o mandamento jurídico preexiste. Estabelecendo esse recurso técnico para a integração do Direito, o legislador simplifica a ordem jurídica, dando-lhe organicidade. A aplicação da analogia legal decorre necessariamente da existência de lacunas da lei. É uma técnica a ser empregada somente quando a ordem jurídica não oferece uma regra específica para determinada matéria de fato (NUNES, 2017). Normalmente essas lacunas surgem em razão do desencontro cronológico entre o avanço social e a correspondente criação de novas regras disciplinadoras. O intervalo de tempo que permanece entre os dois momentos gera espaços vazios na lei. Outras vezes, aparecem em virtude do excesso de abstratividade da norma jurídica que, pretendendo alcançar elevado número de casos, deixa de contemplar diversas situações que, não se acomodando nos esquemas legais, passam a reclamar autonomia e tratamento próprio (NADER, 2014). Uma vez manifesta, a lacuna deverá ser preenchida, utilizando-se, em primeiro lugar, do procedimento analógico. Ainda aqui o juiz, ou o simples intérprete, se mantém cativo ao Direito Positivo, pois não poderá agir com liberdade na escolha da norma jurídica aplicável. A sua função será localizar, no sistema jurídico vigente, a hipótese prevista pelo legislador e que apresente semelhança fundamental, não apenas acidental, com o caso concreto. Na necessidade que o legislador possui de dar harmonia e coerência ao sistema jurídico, a analogia tem o seu fundamento. Com efeito, sem esse fator de integração do Direito, fatalmente as contradições viriam comprometer o sistema normativo. Vinculando o aplicador do Direito ao próprio sistema, fica excluída a possibilidade de tratamento diferente a situações basicamente semelhantes, impedindo-se a prática da injustiça. O Direito Natural, através de seus princípios basilares, também dá fundamento à analogia, pois preconiza igual tratamento para situações em que haja identidade de motivos ou razões. Apesar de procedimentos distintos, a interpretação extensiva e a aplicação analógica da lei muitas vezes são confundidas. Na interpretação extensiva o caso é previsto pela lei diretamente, apenas com insuficiência verbal, já que a mens legis revela um alcance 49UNIDADE II Fontes do Direito maior para o enunciado. A má redação do texto é uma das causas que podem levar à não correspondência entre as palavras da lei e o seu espírito. Nesse caso não se pode falar em lacuna. Existe apenas uma impropriedade de linguagem. Para o procedimento analógico,a lacuna da lei é um pressuposto básico, o caso que se quer enquadrar na ordem jurídica não encontra solução nem na letra, nem no espírito da lei. O aplicador do Direito enceta pesquisa na legislação a fim de focalizar um paradigma, um caso semelhante ao não previsto (VIEGAS, 2019). Uma vez localizado, desde que a semelhança seja no essencial e haja identidade de motivos, a solução do paradigma será aplicada ao caso não previsto em lei. Na interpretação extensiva, amplia-se a significação das palavras até fazê-las coincidir com o espírito da lei; com a analogia não ocorre esse fato, pois o aplicador não luta contra a insuficiência de um dispositivo, mas com a ausência de dispositivo. SAIBA MAIS A primeira Constituição escrita do mundo foi a Americana, em 1787. Até hoje ela prevalece com pouquíssimas alterações. Em mais de 230 anos de existência foram aproximadamente 30 emendas, sendo que as primeiras trataram sobre a liberdade religiosa. A segunda foi a da França, em 1791, cuja causa foi a Revolução francesa de 1789. Já a primeira constituição escrita brasileira foi a de 1824, Imperial. Fonte: 11 Curiosidades do mundo jurídico. Disponível em: https://www.lfg.com.br/conteudos/curiosida- des/geral/11-curiosidades-do-mundo-juridico. Acesso em: 25 nov. 2020. REFLITA “Agora eu afirmo: o homem, em geral todo ser racional, existe como fim em si mesmo, não só como meio para qualquer uso desta ou daquela vontade.” Immanuel Kant. Fundamentos da metafísica dos costumes, 1997, p.78. 50UNIDADE II Fontes do Direito CONSIDERAÇÕES FINAIS A palavra “fonte” possui vários significados. Pode ser entendida como uma nascente de água, como um texto original de uma obra, um princípio, a origem de algo ou causa de onde provêm efeitos físicos ou morais. Assim, pode-se entender que os princípios e valores morais que atingem um dado povo é fonte do direito, partindo da consciência individual de cada pessoa, sendo que cada povo possui a sua cultura e seus costumes. A lei é o preceito jurídico escrito, emanado do legislador e dotado de caráter geral e obrigatório. É, portanto, toda norma geral de conduta, que disciplina as relações de fato incidentes no Direito, cuja observância é imposta pelo poder estatal e é considerada como fonte de direito. A doutrina é o estudo realizado pelos cientistas do direito. Chamada de fonte inte- lectual ou indireta, pois suas orientações hermenêuticas não são obrigatórias. A doutrina jurídica não se apresenta uniforme quanto ao estudo das fontes do Direito. A jurisprudência, são os precedentes judiciais, é o conjunto de decisões proferidas pelo Poder Judiciário sobre determinada matéria jurídica, e também são fontes do direito de natureza informal, pois a sua função não é gerar normas jurídicas, apenas interpretar o Direito à luz dos casos concreto. O costume é o conjunto de normas de conduta social, criadas espontaneamente pelo povo, através do uso reiterado, uniforme e que gera a certeza de obrigatoriedade, reconhecidas e impostas pelo Estado. Para que o costume alcance força jurídica é ne- cessário, em primeiro plano, que esteja previsto no ordenamento jurídico como forma de expressão do Direito, incluindo no elenco das fontes formais. Princípios do direito são postulados que se encontram implícita ou explicitamente no sistema jurídico, contendo um conjunto de regras. Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito. E por fim, a analogia é fonte formal mediata do direito, utilizada com a finalidade de integração da lei, ou seja, a aplicação de dispositivos legais relativos a casos análogos, ante a ausência de normas que regulem o caso concretamente apresentado à apreciação jurisdicional. 51UNIDADE II Fontes do Direito MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Introdução do Estudo do Direito Autor: Alysson Leandro Mascaro Editora: Atlas Sinopse: Introdução ao Estudo do Direito, de Alysson Leandro Mascaro, Professor da USP, apresenta o direito em sua história, explicando suas estruturas, fundamentos, técnicas e determina- ções sociais. Neste livro ao mesmo tempo didático e de aprofun- damento teórico, Mascaro sistematiza a teoria geral das técnicas do direito a partir de uma perspectiva filosófica crítica, abrindo novos ângulos de entendimento para o estudante e o profissional do direito. FILME/VÍDEO Título: FGF TV - AUDITÓRIO LIVRE - PALESTRA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E DIREITOS FUNDAMENTAIS. Ano: 2015. Sinopse: A FGF, Faculdade Integrada da Grande Fortaleza, exibe o programa AUDITÓRIO LIVRE com a cobertura da palestra, Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais, proferida pelo Ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso. Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=W9eK9-1V5Sk https://www.youtube.com/watch?v=W9eK9-1V5Sk 52 UNIDADE III Sistema Jurídico Professora Mestre Letícia Carla Baptista Rosa Plano de Estudo: 1. Sistema Jurídico; 1.1 Conceito; 1.2 Normas Jurídicas; 1.2.1 Normas Éticas e Técnicas; 1.2.2 Normas Morais; 1.3 Classificação das Normas Jurídicas; 1.3.1 Quanto á Hierarquia; 1.3.2 Quanto á Aplicabilidade; 1.3.3 Quanto á Obrigatoriedade; 1.3.4 Quanto á Esfera do Poder Público; 1.4 Validade áa Norma Jurídica; 1.5 A Vigência da Norma Jurídica ; 1.6 A Eficácia das Normas Jurídicas. Objetivos da Aprendizagem • Conceituar e contextualizar o sistema jurídico brasileiro • Compreender os tipos de classificações da norma jurídica • Estabelecer a importância do sistema jurídico 53UNIDADE III Sistema Jurídico INTRODUÇÃO A mais alta das torres começa no solo. Nada melhor que um antigo provérbio chinês para expressar a importância de se entender os conceitos e os institutos básicos de todo o edifício jurídico. Obviamente, cada ramo do Direito, ao trazer suas peculiaridades sempre vai retornar a esses conceitos básicos, quando seu uso lhes for necessário. Assim, iniciar o Curso de Direito com uma cadeira ou disciplina dedicada à Introdução ao Direito ou à Ciência do Direito é importante para que se possa preparar o terreno para que os novos estudantes possam se familiarizar com as discussões, conceitos, institutos e linguagem jurídico. O conceito de sistema jurídico, muito discutido nas cadeiras introdutórias ao Direito, abordado das mais variadas formas pelos juristas de todo o mundo, traz uma complexidade de teorias e esquemas que se torna difícil identificar de alguma que não tenha coerência, mas, também, que não tenha falhas. Tradicionalmente nas cadeiras universitárias que ensinam a teoria geral do Direito, discute-se sobre a características dos diversos tipos de normas que compõem determinado ordenamento jurídico, bem como é discutida e apresentada o direito como um grande conjunto de normas sistematizadas que interagem entre si e com o meio em que habitam, sem muitas vezes investigar se algumas das teorias apresentadas, ainda encontram-se atuais, pertinentes e adequadas, mesmo que em parte, para explicar fenômenos jurídicos também atuai. Essa Unidade III, foi organizada em seis partes, sendo a primeira explicativa acerca do conceito do sistema jurídico, as normas jurídicas apresentadas nas modalidades éticas e morais. A classificação da norma jurídica, quanto a sua hierarquia, aplicabilidade, obrigatoriedade e esferas do poder público. E por fim, a validade da norma jurídica, sua vigência e eficácia. 54UNIDADE III Sistema Jurídico 1. SISTEMA JURÍDICO 1.1 CONCEITO O ordenamento jurídico é estudado como um sistema. Mas o que vem a ser um sistema? Sistema é uma construção científica composta por um conjunto de elementos. Estes se inter-relacionam mediante regras. Tais regras, que determinam as relações entre os elementos do sistema, formam sua estrutura (NUNES, 2017). Os elementos são as normas jurídicas, e a estrutura do sistema jurídico é formada pela hierarquia, pela coesão e pela unidade, semelhante porexemplo, a norma jurídica fundamental, como a Constituição Federal que determina a validade de todas as outras normas jurídicas de hierarquia inferior (NADER, 2014). Pois bem, olhando-se para o ordenamento jurídico como um sistema, temos condições de perceber que ele é sempre normativo, e é invariavelmente um conjunto de normas que prescrevem regras de conduta (MAZZILLI, 2015). Acontece que na construção de um sistema complexo, como é o do ordenamento jurídico, muitas vezes alguns de seus elementos diferem dos demais no ponto de vista da essência, mas são tão necessários quanto os outros. É o caso das normas jurídicas desprovidas de sanção (MAZZILLI, 2015). Elas são diferentes das outras, porém constituem condição necessária para que o sistema todo possa funcionar. Não seria possível construir o sistema jurídico sem a utilização de normas formais que orientassem certos atos, definissem questões e fatos 55UNIDADE III Sistema Jurídico ainda não definidos, dessem nomes aos conceitos jurídicos criados; enfim, que, mesmo sem estabelecerem regra de conduta a ser cumprida pelos destinatários das normas no meio social, não estivessem presentes no sistema. Nem todos os Códigos ou demais normas jurídicas são dispostas como o Código Penal por exemplo, em que a conduta proibida é descrita e logo a seguir aparece a sanção. Na maior parte das vezes encontrar a sanção exige um trabalho de interpretação. Assim, por exemplo, o art. 39, III, do Código de Defesa do Consumidor diz que é “vedado ao fornecedor de produtos ou serviços: (...) enviar ou entregar ao consumidor, sem solicitação prévia, qualquer produto, ou fornecer qualquer serviço” (BOLESINA, 2015). Pergunta-se: e se o fornecedor enviar, qual é a sanção? A resposta está no parágrafo único do mesmo artigo: o produto enviado ou o serviço feito equipara-se à amostra grátis, inexistindo obrigação de pagamento por parte do consumidor. O mesmo ocorre com a proibição da publicidade enganosa ou abusiva do mesmo Código. O art. 37 define o que seja publicidade enganosa ou abusiva e proíbe sua prática. As sanções pelo descumprimento do art. 37 estão nos arts. 67, 68, 60 etc (AYRES, 2006). Enfim, é preciso tomar cuidado antes de afirmar que tal ou qual norma não tem sanção, pois uma investigação bem feita do sistema pode fazê-la aparecer. Por isso, deve-se dizer que o sistema jurídico tem como elementos normas jurídicas providas ou desprovidas de sanção. Ou, em outros termos, os elementos do sistema jurídico são normativos e não normativos e todos se relacionam entre si (NUNES, 2017). Mas falta ainda um complemento, o fato de que uma norma jurídica não seja acompanhada imediatamente da sanção que lhe assegura o cumprimento não significa por si só que ela especificamente seja desprovida de sanção (NADER, 2014). Não é regra necessária que a sanção acompanhe sempre a norma jurídica; a sanção pode, como de fato ocorre, estar em outra norma. Nas codificadas, por exemplo, às vezes existem capítulos próprios que tratam das sanções, ou artigos próprios, dentro dos capítulos, que delas se ocupam. 56UNIDADE III Sistema Jurídico 1.2 NORMAS JURÍDICAS Na Teoria Geral do Direito o estudo da norma jurídica é de fundamental importância, porque se refere a elemento essencial do Direito objetivo. Ao dispor sobre fatos e consagrar valores, as normas jurídicas são o ponto culminante do processo de elaboração do Direito e a estação de partida operacional da Dogmática Jurídica, cuja função é sistematizar e descrever a ordem jurídica vigente (VIEGAS, 2019). Conhecer o Direito é conhecer as normas jurídicas em seu encadeamento lógico e sistemático, as normas ou regras jurídicas estão para o Direito de um povo, assim como as células para um organismo vivo. Para promover a ordem social, o Direito Positivo deve ser prático, ou seja, revelar-se mediante normas orientadoras das condutas interindividuais. Não é suficiente, para se alcançar o equilíbrio na sociedade, que os homens estejam dispostos à prática da justiça; é necessário que se lhes indique a fórmula de justiça que satisfaça a sociedade em determinado momento histórico (VIEGAS,2018). A norma jurídica exerce justamente esse papel de ser o instrumento de definição da conduta exigida pelo Estado. Ela esclarece ao agente como e quando agir. O Direito Positivo, em todos os sistemas, compõe-se de normas jurídicas, que são padrões de conduta ou de organização social impostos pelo Estado, para que seja possível a convivência dos homens em sociedade (NUNES, 2017). São fórmulas de agir, determinações que fixam as pautas do comportamento interindividual. Pelas regras jurídicas o Estado dispõe também quanto à sua própria 57UNIDADE III Sistema Jurídico organização. Em síntese, norma jurídica é a conduta exigida ou o modelo imposto de organização social. As expressões norma e regra jurídicas são sinônimas, apesar de alguns doutrinadores reservarem a denominação regra para o setor da técnica e, outros, para o mundo natural. Distinção há entre norma jurídica e lei. Esta é apenas uma das formas de expressão das normas, que se manifestam também pelo Direito costumeiro e, em alguns países, pela jurisprudência (NUNES, 2017). 1.2.1 Normas éticas e técnicas A atividade humana, além de subordinar-se às leis da natureza e conduzir-se conforme as normas éticas, ditadas pelo Direito, Moral, Religião e Regras de Trato Social, tem necessidade de orientar-se pelas normas técnicas, ao desenvolver o seu trabalho e construir os objetos culturais (NUNES, 2017). Enquanto as normas éticas determinam o agir social e a sua vivência já constitui um fim, às normas técnicas indicam fórmulas do fazer e são apenas meios que irão capacitar o homem a atingir resultados. Estas normas, que alguns preferem denominá-las apenas por regras técnicas, não constituem deveres, mas possuem o caráter de imposição àqueles que desejarem obter determinados fins. São neutras em relação aos valores, pois tanto podem ser empregadas para o bem quanto para o mal (MAZZILLI, 2015). Foram definidas por São Tomás de Aquino como “certa ordenação da razão acerca de como, por quais meios, os atos humanos chegaram a seu fim devido”. Para que uma nova descoberta científica seja acompanhada por um correspondente avanço tecnológico, o homem tem de estudar as normas técnicas a serem utilizadas. Isto se dá em relação aos vários campos de investigação do conhecimento (MAZZILLI, 2015). O saber teórico da medicina seria ineficaz se, paralelamente, não houvesse um conjunto de normas técnicas assentadas, capazes de, como meios, levarem a resultados práticos. A concepção científica de novos princípios do Direito não produziria resultados sem os contributos da técnica jurídica, que orienta a elaboração dos textos legislativos. A deontologia é uma filosofia que faz parte da filosofia moral contemporânea e sua origem significa, em grego, ciência do dever e da obrigação. É uma teoria sobre as escolhas dos indivíduos, quais são moralmente necessárias e serve para nortear o que realmente deve ser feito. O termo foi criado pelo filósofo inglês Jeremy Bentham, no ano de 1834, para falar sobre o ramo da ética em que o objeto de estudo são os fundamentos do dever e das normas, deontologia é também conhecida como “Teoria do Dever” (BOLESINA, 2015). 58UNIDADE III Sistema Jurídico Immanuel Kant também deu sua contribuição para a deontologia, uma vez que a dividiu em dois conceitos: razão prática e liberdade. Para Kant, agir por dever é a maneira de dar à ação o seu valor moral; e por sua vez, a perfeição moral só pode ser atingida por uma livre vontade. A deontologia também pode ser o conjunto de princípios e regras de conduta ou deveres de uma determinada profissão, ou seja, cada profissional deve ter a sua deontologia própria para regular o exercício da profissão, de acordo com o Código de Ética de sua categoria (MAZZILLI, 2015). Paraos profissionais, são normas estabelecidas não pela moral e sim para a correção de suas intenções, ações, direitos, deveres e princípios. O primeiro Código de Deontologia foi feito na área da medicina, nos Estados Unidos. A deontologia da Policial Militar, por exemplo, é constituída pelos valores e deveres éticos, traduzidos em normas de conduta, que se impõem para que o exercício da profissão policial-militar atinja plenamente os ideais de realização do bem comum, mediante a preservação da ordem pública. 1.2.2 Normas morais A Moral favorece o Direito Positivo, emprestando-lhe valores. O Direito, contudo, não é de todo programado pela Moral. Esta não é, como já se afirmou, onipresente no território jurídico. Há matérias de indagação no Direito estranhas ao setor da Moral. Apesar desse coeficiente de competência própria, o Direito se revela sensível às mutações que ocorrem na Moral social, acompanhando essa evolução, a fim de adaptar-se às novas necessidades sociais (NUNES, 2017). Normas morais sugerem condutas, os princípios morais como a honestidade, a bondade, o respeito, a virtude, fazer o bem, etc, determinam o sentido moral de cada indivíduo. São valores universais que regem a conduta humana e as relações saudáveis e harmoniosas. A moral orienta o comportamento do homem diante das normas instituídas pela sociedade ou por determinado grupo social. Diferencia-se da ética no sentido de que esta tende a julgar o comportamento moral de cada indivíduo no seu meio. No entanto, ambas buscam o bem-estar social (NUNES, 2017). A Moral e o Direito não podem ser distinguidos no que se refere à conduta a que suas normas obrigam os homens. Também é insuficiente a concepção, frequentemente seguida, de que a Moral prescreve uma conduta interna ao passo que o Direito uma conduta externa. Kelsen assim se expressa: A virtude moral da coragem não consiste apenas no estado de alma de ausência de medo, mas também numa conduta exterior condicionada por aquele estado. E, quando uma ordem jurídica proíbe o homicídio, proíbe não apenas a produção da morte de um homem através da conduta exterior de 59UNIDADE III Sistema Jurídico um outro homem, mas também uma conduta interna, ou seja, a intenção de produzir um tal resultado. (KELSEN, 1999, p. 68) Portanto, as normas jurídicas e morais determinam condutas internas e externas, não podendo esse critério ser utilizado como parâmetro para uma distinção rigorosa. Kelsen (1999) afirma que uma conduta apenas pode ter valor moral quando não só o seu motivo determinante como também a própria conduta corresponda a uma norma moral e que a norma de uma Moral que apenas se refere aos motivos da conduta externa é imperfeita ou incompleta. In verbis: “Na apreciação moral o motivo não pode ser separado da conduta motivada (NADER, 2014). Com referência à produção ou à aplicação de suas normas, as regras jurídicas, assim como as morais, são criadas pelo costume ou por meio de uma elaboração consciente (Ex: um profeta ou líder religioso). Assim, a Moral é, como o Direito, positiva, e “só uma Moral positiva tem interesse para uma Ética científica, tal como apenas o Direito positivo interessa a uma teoria científica do Direito”. Mesmo que uma ordem moral não possua órgãos centrais responsáveis pela aplicação de suas normas, esse critério de distinção não satisfaz, visto que uma ordem jurídica primitiva é completamente descentralizada (NADER, 2014). Kelsen (1999) enfatiza o fato de que o Direito internacional geral é, por vezes, confundido com uma Moral internacional justamente por ser completamente descentralizada. A teoria relativista dos valores, adotada por Kelsen, não quer dizer que não haja qualquer valor ou Justiça, e sim que há apenas valor, Moral e Justiça relativos. Desse modo, a exigência de que o Direito deve ser moral, justo, só pode ser entendida no sentido de que o Direito positivo deve corresponder a um determinado sistema de Moral dentre os vários possíveis. Portanto, não fica excluída a possibilidade da pretensão que exija que o Direito positivo se harmonize com um sistema moral diferente (NADER, 2014). 60UNIDADE III Sistema Jurídico 1.3 CLASSIFICAÇÃO DAS NORMAS JURÍDICAS 1.3.1 Quanto à hierarquia Sob este aspecto, dividem-se em: constitucionais, complementares, ordinárias, regulamentares e individualizadas. As normas guardam entre si uma hierarquia, uma ordem de subordinação entre as diversas categorias. No primeiro plano alinham-se às normas constitucionais, que são originais na Carta Magna ou decorrentes de emendas, que condicionam a validade de todas as outras normas e têm o poder de revogá-las. Assim, qualquer norma jurídica de categoria diversa, anterior ou posterior à constitucional, não terá validade caso contrarie as disposições desta. Na ordem jurídica brasileira há normas que se localizam em leis complementares à Constituição e se situam, hierarquicamente, entre as constitucionais e as ordinárias (KELSEN, 1938). A aprovação das normas complementares se dá, conforme o art. 69 da atual Constituição, por maioria absoluta. Em plano inferior estão as normas ordinárias, que se localizam nas leis, medidas provisórias, leis delegadas. Seguem-se as normas regulamentares, contidas nos decretos, e as individualizadas, denominação e espécie para a grande variedade dos negócios jurídicos: testamentos, sentenças judiciais, contratos etc. 1.3.2 Quanto à aplicabilidade A aplicabilidade da norma pode ser dividida nas seguintes categorias: a) Normas jurídicas autoaplicáveis; b) Normas jurídicas dependentes de complementação; c) Normas jurídicas dependentes de regulamentação. Denominam-se autoaplicáveis as normas que entram em vigor independentemente de qualquer outra norma posterior. Apresentam todos os requisitos necessários, entrando em vigor na data de sua publicação ou dentro dos prazos estabelecidos. A maior parte das normas jurídicas brasileira, se enquadra nessa categoria (BOLESINA, 2015) Normas jurídicas dependentes de complementação são as que expressamente declaram sua necessidade de complementação por outra norma, assim se denominam, ainda, aquelas cujo complemento normativo decorra inequivocamente do sentido de suas disposições. Como exemplo, temos várias normas constitucionais que dispõem a regulamentação de uma série de assuntos por leis ordinárias e complementares. Assim, a participação dos trabalhadores nos lucros das empresas (art. 7º, XI: “São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: (...) XI — participação nos lucros, ou resultados, desvinculada da remuneração, e, excepcionalmente, participação na gestão da empresa, conforme definido 61UNIDADE III Sistema Jurídico em lei”), a estruturação do sistema financeiro nacional (art. 192: “O sistema financeiro nacional, estruturado de forma a promover o desenvolvimento equilibrado do País e a servir aos interesses da coletividade, será regulado em lei complementar, que disporá, inclusive, sobre: (...) o financiamento da seguridade social (art. 195: “A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais: (...)”, a defesa do consumidor (art. 5º, XXXII: “Todos são iguais perante a lei (...) garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País (...) XXXII, o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor”; art. 48 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias: “O Congresso Nacional, dentro de cento e vinte dias da promulgação da Constituição, elaborará código de defesa do consumidor”) ( NUNES, 2017) As últimas, as dependentes de regulamentação, designam geralmente que órgãos do Poder Executivo definirão e detalharão sua aplicação e executoriedade.Elas surgem em forma de decreto regulamentar. Por exemplo, o Decreto n. 99.684, de 8-11-1990, que regulamentou a Lei n. 8.036, de 11-51990, explicitando, detalhando, tratando de infrações e da fiscalização etc. do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), ou o Decreto n. 86.649, de 25-11-1981, que, ao regulamentar a Lei n. 6.899, de 8-4-1981, a qual determina a aplicação de correção monetária nos débitos oriundos de decisão judicial, estipulou como o cálculo matemático deveria ser feito (NUNES, 2017). 1.3.3 Quanto à obrigatoriedade A consequência natural da vigência da lei é a sua obrigatoriedade, que emite um caráter imperativo do Direito. Em face do significado da lei para o equilíbrio social, nos diversos sistemas jurídicos vigora o princípio de que nemo jus ignorare censetur, consagrado pelo nosso Direito no art. 3º da Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro, que dispõe: “Ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece.” Tal preceito, na opinião de alguns doutrinadores, firma a presunção de que todos conhecem a lei, enquanto outros se identificam com a ficção jurídica. A doutrina moderna reconhece, esse princípio pela necessidade social, pois visa atender interesses da coletividade. 62UNIDADE III Sistema Jurídico A obrigatoriedade jurídica se faz sentir na vontade dos homens em forma intuitiva, evidente e inata. Em decorrência do aludido princípio, o erro de Direito não é relevante em relação aos atos jurídicos, salvo na hipótese em que for a sua única causa. Em matéria penal, a ignorância da lei é inescusável enquanto o erro inevitável sobre a ilicitude do fato apenas isenta de pena o agente, por força do que dispõe o art. 21 do Código Penal (SALDANHA, 2005). Já a Lei de Contravenções Penais, pelo art. 8º prevê a não aplicação da pena quando a ignorância ou a errada compreensão da lei for escusável. Mas por que a lei obriga? Há várias teorias a respeito, entre as quais se apresentam: a) Teoria da Autoridade, formulada notadamente por Hobbes e Austin, que consideram a obrigatoriedade da lei uma simples decorrência da força. b) Teorias da Valoração, que subordinam a obrigatoriedade da lei ao seu conteúdo ético. c) Teorias Contratualistas, para quem a norma jurídica é obrigatória se e enquanto os que devem obedecê-la concorrerem para a sua formação. d) Teorias Neocontratualistas, que condicionam a obrigatoriedade à adesão ou reconhecimento dos que lhe são subordinados. e) Teoria Positivista, que sustenta a norma jurídica devendo ser considerada como o último elo de uma corrente, cujos precedentes constituem a ordem jurídica já existente em uma certa comunidade (SALDANHA, 2005). 1.3.4 Quanto à esfera do poder público As normas jurídicas podem ser federais, estaduais e municipais na medida em que sejam instituídas pela União, pelos Estados-Membros e pelos Municípios (NUNES, 2017). 1.4 VALIDADE DA NORMA JURÍDICA A questão da validade da norma jurídica tem sido motivo de profundas controvérsias na doutrina. Ela tanto pode referir-se ao aspecto técnico-jurídico ou formal quanto ao aspecto da legitimidade (NUNES, 2017). No primeiro caso, fala-se de a norma jurídica ser válida quando criada segundo os critérios já estabelecidos no sistema jurídico: respeito à hierarquia, que tem como ponto hierárquico superior a Constituição Federal, aprovação e promulgação pela autoridade competente, respeito a prazos e quorum, conteúdo de acordo com as designações de competências para legislar (NUNES, 2017). No outro, fala-se do fundamento axiológico, cuja incidência ética seria a condição que daria legitimidade à norma jurídica, tornando-a válida. Nessa unidade III, iremos abordar a questão da validade, no aspecto formal ou técnico-jurídico, situando-a nos âmbitos da vigência da norma jurídica no tempo e no espaço. 63UNIDADE III Sistema Jurídico A norma válida, isto é, aprovada e promulgada segundo os ditames do sistema jurídico, vige no tempo e em certo território, ou seja, no espaço. (NADER, 2014) A outra questão, a da legitimidade, em parte a abordaremos, na sequência, ao cuidarmos do problema da eficácia. Diz em parte porque entende-se que, em um sistema como o nosso, cujo ponto de partida de sua estrutura piramidal é a Constituição Federal, a questão básica da legitimidade há de ser investigada no aspecto do Poder em geral, no do Poder Constituinte em particular, bem como no aspecto da aplicação e cumprimento das normas constitucionais (VIEGAS, 2018) A Constituição Federal, como marco inicial do sistema, há de ser legítima, instaurando o Estado Democrático de Direito, mas só isso não basta, a aplicação concreta de seus preceitos, o exercício dos poderes por ela outorgados, a plenitude das garantias fundamentais dos cidadãos por ela constituídos são pontos fundamentais, dentre outros, a serem investigados (VIEGAS, 2018). Claro que a questão ética, além da questão do poder, a nós é cara, na medida em que ambos os temas se inter-relacionam com a Ciência do Direito. Contudo, a questão do poder legítimo, das normas constitucionais legítimas, do Estado de Direito Democrático tem de ser abordada em outros espaços, como o do Direito Constitucional e o da Teoria Geral do Estado, de forma que possibilite à Ciência do Direito como um todo, e nesse aspecto auxiliada e iluminada pela Filosofia do Direito, alcançar seu fundamento ético último, propiciado, também, pela ampliação da consciência de seus investigadores. (VIEGAS, 2018) 1.5 A VIGÊNCIA DA NORMA JURÍDICA Para que a norma disciplinadora do convívio social ingresse no mundo jurídico e nele produza efeitos, indispensável é que apresente validade formal, isto é, que possua vigência. Esta significa que a norma social preenche os requisitos técnico-formais e imperativamente se impõe aos destinatários. A sua condição não se resume a vacatio legis, ou seja, ao decurso de tempo após a publicação. Assim, não basta a existência da norma emanada de um poder, pois é necessário que satisfaça a determinados pressupostos extrínsecos de validez. Se o processo de formação da lei foi irregular, não tendo havido, por exemplo, tramitação perante o Senado Federal, as normas reguladoras não obterão vigência. (VIEGAS, 2018) As normas jurídicas têm “vida” própria, nascendo, existindo, alterando-se parcialmente e morrendo. A vigência temporal é uma qualidade da norma, relativa ao tempo 64UNIDADE III Sistema Jurídico de sua atuação, e está ligada à validade, mas com ela não se confunde, porque uma norma válida pode ser promulgada, porém não estar ainda em vigor. A vigência implica que a norma jurídica seja obrigatória, e isso só se dá com a publicação oficial, a promulgação torna a lei existente, mas não ainda obrigatória. Assim, por exemplo, o Presidente da República pode promulgar uma lei no dia 20 de novembro de certo ano, e com isso ela se torna aprovada e existente, mas ainda falta-lhe a condição da publicidade, para que se torne obrigatória aos destinatários. Com a publicação oficial, supre-se a condição da publicidade e conclui-se o ciclo para que a norma jurídica entre em vigor. Uma vez posta em vigor, a norma jurídica passa a vigorar (SARMENTO, 2010). Portanto, ela age do presente em direção ao futuro. Mas não se deve confundir a vigência com a eficácia, pois esta, como se verá no item a seguir, que atua tanto do presente em direção ao futuro como pode atingir o passado. 1.6 A EFICÁCIA DAS NORMAS JURÍDICAS As normas jurídicas não são geradas por acaso, mas visando a alcançar certos resultados sociais. Como processo de adaptação social que é, o Direito se apresenta como fórmula capaz de resolver problemas de convivência e de organização da sociedade. O atributo eficácia significa que a norma jurídica produz, realmente, os efeitos sociais planejados. Para que a eficácia se manifeste, indispensável é que seja observada socialmente. Eficácia pressupõe, destarte,efetividade. A lei que institui um programa nacional de combate a determinado mal e que, posta em execução, não resolve o problema, mostrando-se impotente para o fim a que se destinava, carece de eficácia. A rigor, tal lei não pode ser considerada Direito, pois este é processo de adaptação social; é instrumento que acolhe a pretensão social e a provê de meios adequados (NUNES, 2017). Tradicionalmente, a doutrina jurídica liga a ideia de eficácia à de aplicação concreta da norma jurídica. A eficácia é, pois, a relação entre a ocorrência concreta, real, atual no mundo do ser e o que está prescrito pela norma jurídica, e que está no mundo do “dever-ser” (NUNES, 2017). Entenda-se bem. Ocorrência concreta não significa só obediência à prestação imputada pela norma jurídica (proibição, obrigação ou permissão), mas, também, violação. Havendo cumprimento da prestação, fala-se que a norma é eficaz. Porém, havendo descumprimento, ela também o será, porquanto outro aspecto da norma, outra imputação, entra em funcionamento: a sanção (NADER, 2014) 65UNIDADE III Sistema Jurídico Logo, eficácia tem relação com a ocorrência concreta do prescrito pela norma jurídica no duplo aspecto da prestação e da sanção. Examine-se um exemplo: a lei manda que o comerciante emita nota fiscal e pague o ICMS quando vende seu produto. Feita a venda, emitida a nota e pago o imposto, a norma jurídica foi efetivamente cumprida. É plenamente eficaz. Mas, se o comerciante não emite a nota fiscal ou a emite e não paga o imposto, será autuado e pagará o ICMS acrescido de multa. A norma jurídica foi, então, também nesse caso efetivamente eficaz. E assim o será, que o comerciante pague o imposto com a multa espontaneamente, quer pague porque foi autuado e/ou processado (NADER, 2014). Mas há normas que, mesmo vigentes, acabam não sendo aplicadas concretamente no plano da realidade social ou o são apenas em parte. Por exemplo, as normas que não são autoaplicáveis, porque dependem de complementação. Nesses casos pode-se falar em eficácia? A doutrina costuma tratar a questão ampliando e modificando o conceito de eficácia (NADER, 2014). Para dar conta desse problema, define-se, então, eficácia como a possibilidade de produção de efeitos concretos; e “incidência” como o caso do efeito concreto já produzido. Quanto ao fato de certas normas não terem incidência, isto é, não serem concretamente aplicadas, identificar-se-ão como de eficácia jurídica completável, em especial porque produzem pelo menos o efeito de revogar normas anteriores. É efeito jurídico, que diz, e não social. Essas normas, que têm apenas eficácia jurídica, como as dependentes de complementação, são também classificadas como completáveis. Resumindo, temos: eficácia é a possibilidade de produção de efeitos; incidência é a concreta produção dos efeitos criados na realidade social; norma de eficácia jurídica completável é a que gera apenas efeitos no ordenamento jurídico, como revogar norma anterior, sem incidir sobre a realidade (VIEGAS, 2018). Há, também, uma posição doutrinária que chama de norma jurídica de eficácia limitada aquelas que são identificadas como “normas programáticas” na Constituição Federal. Essas normas programáticas, dizem, têm apenas eficácia jurídica, sendo classificadas como de eficácia limitada, porque estabelecem metas, objetivos ou programas para o Estado alcançar ou cumprir. Essa doutrina cita como exemplos de normas programáticas a que garante assistência social para todos os que necessitarem (art. 203 da CF), as que fixam como dever do Estado o ensino fundamental gratuito para todos (art. 208, I, da CF) etc. Mas essa posição doutrinária é ultrapassada (VIEGAS, 2018). 66UNIDADE III Sistema Jurídico Não há mais que se falar na existência de normas programáticas, todo e qualquer princípio e norma constitucional, excetuando-se as dependentes de complementação, está em vigor, é eficaz e incide na realidade. Se o Estado não as cumpre, trata-se de simples violação do regime constitucional, na realidade, a doutrina das normas programáticas responde por uma posição ideológica de manipulação e ocultação que não pode mais ser aceita pelo pensamento jurídico. Ela se presta a permitir que o Estado sempre adie o cumprimento de seus deveres instituídos na Constituição Federal (MAZZILLI, 2015). Quando a retroatividade das normas jurídicas, dissemos anteriormente que a norma jurídica vige do presente em direção ao futuro, mas que a eficácia e especialmente a incidência concreta podem ir para o passado (MAZZILLI, 2015). Eficácia ou incidência para o passado é o que se chama retroatividade, isto é, a possibilidade de a norma jurídica atingir situação pretérita, ter efeitos sobre o passado. Claro que, se as normas jurídicas pudessem ter eficácia e incidência de forma ilimitada sobre o passado, um dos alicerces básicos do sistema jurídico e do Estado de Direito Democrático, que é a segurança jurídica, ruiria. Por isso, tanto a doutrina quanto a legislação não admitem que as normas jurídicas retroajam ilimitadamente. A norma pode retroagir, mas não atinge certas garantias. As normas jurídicas não podem retroagir atingindo o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada (NUNES, 2017). No Brasil tal garantia é constitucional, conforme previsão expressa do inciso XXXVI do art. 5º da CF, e já estava prevista no art. 6º da Lei de Introdução (LINDB), que em seus três parágrafos define tais institutos jurídicos. Embora, por outro lado, em alguns casos do Direito Penal e Tributário a norma jurídica retroage sempre. 67UNIDADE III Sistema Jurídico SAIBA MAIS Atualmente, a Constituição Federal de 1988 expressamente revela a origem romano- germânica do sistema jurídico pátrio, fortemente influenciado pelo positivismo. Em evidente incorporação do preceito básico do modelo civil law, que tem a lei como fonte primária do direito, dispõe o artigo 5º, inciso II, CF, que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. Fonte: MACIEL, Rodrigo Augusto Pinto. O sistema jurídico brasileiro e a influência do common law. Disponível em:https://url.gratis/TB0gr.Acesso em: 20 nov. 2019. REFLITA “Um aluno, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo”. Malala Yousafzai (ONU, 2014) https://url.gratis/TB0gr 68UNIDADE III Sistema Jurídico CONSIDERAÇÕES FINAIS O ordenamento jurídico como um sistema, será sempre normativo, e é invariavelmente um conjunto de normas que prescrevem regras de conduta. O sistema jurídico tem como elementos normas jurídicas providas ou desprovidas de sanção, em outros termos, os elementos do sistema jurídico são normativos e não normativos e todos se relacionam entre si. Não é regra necessária que a sanção acompanhe sempre a norma jurídica, pois a sanção pode como ocorre muitas vezes, estar em outra norma. Nas normas codificadas às vezes existem capítulos próprios que tratam das sanções, ou artigos próprios, dentro dos capítulos, que delas se ocupam. O que é preciso compreender, é que nem sempre a regra geral será de que todo o sistema jurídico é composto por sanção caso haja descumprimento de determinada conduta prevista no ordenamento. Existem normas morais que sugerem condutas, e princípios morais que exigem um comportamento social de cada indivíduo harmônico e respeitoso, ou seja, são valores universais que regem a conduta humana. Qualquer norma jurídica de categoria diversa da Constituição Federal não terá validade se contrariar as suas disposições. Na ordem jurídica brasileira há normas que se localizam em leis complementares à Constituição e se situam, hierarquicamente, entre as constitucionais e as ordinárias, configurando a hierarquia soberana perante todas as outras normas do sistema jurídico. A aplicabilidade da norma se divide nas categorias de normas jurídicas autoaplicáveis; normas jurídicas dependentes decomplementação e normas jurídicas dependentes de regulamentação. A vigência implica que a norma jurídica seja obrigatória, e isso só se dá com a publicação oficial, a promulgação torna a lei existente, mas não ainda obrigatória, logo, eficácia tem relação com a ocorrência concreta do prescrito pela norma jurídica e no duplo aspecto da prestação e da sanção, ou seja, da sua real vigência. 69UNIDADE III Sistema Jurídico MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Introdução ao Estudo do Direito - Teoria Geral do Direito Autor: Gustavo Filipe Barbosa Garcia Ano: 2015 Editora: Método Sinopse: Esta obra tem o objetivo de apresentar, de forma didática e acessível, a matéria relativa à disciplina Introdução ao Estudo do Direito, também denominada Introdução à Ciência do Direito. Procurou-se analisar os temas sob o enfoque da Teoria Geral do Direito, apresentando ao leitor um panorama das diferentes questões relacionadas ao Direito e à Ciência Jurídica. Nesse sentido, o presente livro oferece uma verdadeira introdução àqueles que se iniciam ou se interessam pelo estudo jurídico- científico, apresentando os seus conceitos básicos e essenciais, tão necessários para a sólida formação do profissional do Direito, permitindo-lhe, a partir disso, o devido aprofundamento em seus diversos ramos. FILME/VÍDEO Título: O Controle da Constitucionalidade e o Conceito de Validade. Tércio Sampaio Ferraz Júnior. Ano: 2018. Sinopse: Foi uma palestra em que o professor Tércio de Sampaio Ferraz Júnior ministrou no II Congresso Internacional de Ciência Jurídica. 30 Anos da Constituição Cidadã: avanços, retrocessos e desafios de organização da Escola da Magistratura do Paraná, Núcleo de Londrina, e Faculdades Londrina, com os coordenadores Científicos os professores José Ricardo Alvarez Vianna e Zulmar Fachin. Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=khRDo9YR5J0 https://www.youtube.com/watch?v=khRDo9YR5J0 70 Plano de Estudo: 1. Hermenêutica Jurídica; 1.1 Conceito; 1.2 Espécies de Interpretação; 1.2.1 Interpretação Gramatical; 1.2.2 Interpretação Lógica; 1.2.3 Interpretação Sistemática; 1.2.4 Interpretação Teleológica; 1.2.5 Interpretação Histórica; 1.2.6 Interpretação Declarativa; 1.2.7 Interpretação Restritiva; 1.2.8. Interpretação Extensiva; 1.3 Lacunas Nas Normas Jurídicas; 1.3.1 Formas De Integração Do Direito; 1.4 Antinomia Das Normas Jurídicas; 1.4.1 Critérios de solução da antinomia Objetivos da Aprendizagem • Conceituar e contextualizar a hermenêutica. • Compreender as espécies de interpretação • Estabelecer a importância da hermenêutica jurídica. UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica Professora Mestre Letícia Carla Baptista Rosa 71UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica INTRODUÇÃO Hermenêutica Jurídica é o ramo da Teoria da Geral do Direito, destinado ao estudo e ao desenvolvimento dos métodos e princípios da atividade de interpretação. A finalidade da Hermenêutica, enquanto domínio teórico, é proporcionar bases racionais e seguras para uma interpretação dos enunciados normativos. Para interpretar e aplicar com acerto o Direito, enquadrando adequadamente o fato à uma norma, é indispensável que o intérprete bem compreenda o preceito para determinar com precisão o seu conteúdo e alcance. Essa Unidade IV, tem como pressuposto singelo, contribuir, nutrir e alimentar os conhecimentos de você acadêmico que está iniciando na carreira jurídica, para formularem em uma arena legal, suas argumentações denunciativas, acusativas, defensivas, recursais e sentenciais que futuramente irão utilizar nas práticas jurídicas que certamente irão desenvolver. Como o magistrado deve interpretar as normas que regulam o caso concreto do qual ele está julgando? Quais as técnicas que devem ser utilizadas para configurar a her- menêutica correta e justa? Essas entre outras questões serão respondidas ao longo desta unidade, tendo como tema central o estudo aplicado da hermenêutica jurídica, dos vários tipos de interpretações legais da norma, bem como das lacunas legais, antinomia e seus critérios de solução. O objetivo é demonstrar que mais que uma teoria acabada, é uma atitude intelec- tual de reconhecimento de que a compreensão do Direito é um processo múltiplo e plural, e implica principalmente em nova perspectiva hermenêutica. 72UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica 1. HERMENÊUTICA JURÍDICA 1.1 CONCEITO A palavra hermenêutica provém do grego, Hermeneúein, interpretar, e deriva de Hermes, deus da mitologia grega, filho de Zeus e de Maia, considerado o intérprete da vontade divina. Habitando a Terra, era um deus próximo à Humanidade, o melhor amigo dos homens (ANDRADE, 1983). Todo conhecimento humano, desdobra-se em dois aspectos: os princípios e as aplicações. Os princípios provêm da ciência e as aplicações, da arte. No mundo do Direito, hermenêutica e interpretação constituem um dos muitos exemplos de relacionamento entre princípios e aplicações. Enquanto a hermenêutica é teórica e visa a estabelecer princípios, critérios, métodos, orientação geral, a interpretação é de cunho prático, aplicando tais diretrizes. Não se confundem, pois, os dois conceitos apesar de ser muito frequente o emprego indiscriminado de um e de outro (NADER, 2014). A interpretação aproveita, portanto, os subsídios da hermenêutica. Está, conforme salienta Maximiliano, descobre e fixa os princípios que regem a interpretação. A hermenêutica estuda e sistematiza os critérios aplicáveis na interpretação das regras jurídicas. (ANDRADE, 1983). O magistrado não pode julgar um processo sem antes interpretar as normas reguladoras da questão. Além de conhecer os fatos, precisa conhecer o Direito, ou seja, dominar a arte de revelar o sentido e o alcance das normas aplicáveis. O empresário, 73UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica na gestão de seus negócios, não pode descurar do conhecimento do Direito. Orientado por seus assessores, descobre, em cada nova lei, a verdadeira mensagem do legislador. Também o cidadão necessita conhecer o Direito, para bem cumprir as suas obrigações e reivindicar os seus direitos. Para que o Direito conquiste a sociedade, fazendo desta o seu reino, é mister que apresente expressões claras e inteligíveis, a fim de que os indivíduos tomem conhecimento de suas normas e as acatem, preservando-se, assim, o seu domínio, que importa no triunfo da ordem, segurança e justiça. (NADER, 2014). A efetividade do Direito depende, de um lado, do técnico que formula as leis, decretos e códigos e, de outro lado, da qualidade da interpretação realizada pelo aplicador das normas. Da simplicidade, clareza e concisão do Direito escrito, vai depender a boa interpretação, aquela que oferece uma diretriz segura, que orienta quanto às normas a serem vividas no plexo social, nos pretórios e onde mais é considerado (obras doutrinárias, salas de aula etc.). O êxito da interpretação depende de um bom trabalho de técnica legislativa (NUNES, 2017). O mensageiro-legislador, além de analisar os fatos sociais e equacioná-los mediante modelos de comportamento social, deve exteriorizar as regras mediante uma estrutura que, além de clara e objetiva, seja harmônica e coerente. A tarefa do intérprete é menos complexa quando os textos são bem elaborados. Se considerarmos, ainda, que a hermenêutica fornece princípios para a exegese dos negócios jurídicos (contratos, declarações unilaterais de vontade), vamos ter uma visão maior do significado e importância que representa para o mundo do Direito. (ANDRADE, 1983). Para a formação do intérprete é exigível, além do conhecimento técnico específico, uma gama de condições pessoais, que deve ornar a sua personalidade e cultura. Quanto aos dotes de personalidade, sobressaem-se os de probidade, serenidade, equilíbrio e diligência. A probidade é a honestidade de propósitos, é a fidelidade do intérprete às suas convicções, operando sem deixar-se levar por ondas de interesses (NUNES, 2017).O cérebro do intérprete deve atuar livre, sem condicionamentos extra legem, para atingir o seu objetivo. A serenidade corresponde à tranquilidade espiritual, sem a qual não pode haver produção intelectual, pois o contrário, paixão, obscurece o espírito. O equilíbrio é a qualidade que garante a firmeza e coerência. O intérprete precisa ser diligente, não se acomodando diante das dificuldades de sua tarefa. Deve desenvolver todos os esforços, recorrer a todos os meios disponíveis, no sentido de revelar as expressões do Direito. Deve explorar todos os elementos de que dispõe, para dar cumprimento à sua tarefa. (NADER, 2014). 74UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica Além destas qualidades, o intérprete deve possuir curiosidade científica, interesse sempre renovado em conhecer os problemas jurídicos e os fenômenos sociais. Precisa estar em permanente vigília, atento à evolução do Direito e dos fatos sociais. Deve ser um pesquisador, pois ninguém conhece o suficiente, em termos de ciência. Não se deve prender definitivamente a velhas concepções. O intérprete necessita de um espírito sempre aberto, preparado para ceder diante de novas evidências. O conhecimento do Direito é essencial, bem como o da organização social, com seus problemas e características (NUNES, 2017). 1.2 ESPÉCIES DE INTERPRETAÇÃO 1.2.1 Interpretação gramatical Em se tratando de Direito escrito é pelo elemento gramatical que o intérprete toma o primeiro contato com a proposição normativa. Malgrado a palavra se revele, às vezes, um instrumento rude de manifestação do pensamento, pois nem sempre consegue traduzir as ideias, constitui a forma definitiva de apresentação do Direito, pelas vantagens que oferece do ponto de vista da segurança jurídica. Cumpre ao legislador aperfeiçoar os processos da técnica legislativa, objetivando sempre uma redação simples, clara e concisa. (ANDRADE, 1983). O elemento gramatical compõe-se da análise do valor semântico das palavras empregadas no texto, da sintaxe, da pontuação etc. No Direito antigo, o processo literal era mais importante do que hoje. Ocorria, às vezes, que os códigos eram escritos em línguas mortas, o que exigia esforço concentrado do intérprete, do ponto de vista gramatical. Modernamente, a crítica que se faz a esse elemento não visa, como é natural, à sua eliminação, mas à correção dos excessos que surgem com a sua aplicação (NUNES, 2017). Objetiva-se evitar o abuso daqueles que se apegam à literalidade do texto, com prejuízo à mens legis. O processo meramente literal, no dizer de Max Gmur, é “maliciosa perversão da lei”. Celso, o jurisconsulto romano, afirmou que “saber as leis é conhecer-lhes, não as palavras, mas a força eo poder”. Embora o valor relativo do elemento gramatical, “no foro e nos parlamentos, o gramaticalismo não é um fantasma; é deplorável realidade” (GMUR apud NADER, 2014). Para mostrar a aberração do apego exagerado à literalidade da lei, Carlos Maximi- liano asseverou que qualquer um poderia ser condenado à forca, desde que o julgassem por um trecho isolado de discurso, ou escrito de sua autoria. Ao condenar a interpretação que separa o elemento gramatical do lógico, Stammler sustenta a tese de que a interpretação é um só processo mental, pois o pensamento e o idioma formam uma unidade e quem se 75UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica apoia numa palavra para esclarecer o pensamento que o exprime, se apega, na realidade, ao pensamento por ela expresso. (ANDRADE, 1983). Em síntese feliz, Eduardo Espínola expõe que “a letra em si é inexpressiva; a palavra, como conjunto de letras ou combinações de sons, só tem sentido pela ideia que exprime, pelo pensamento que encerra, pela emoção que desperta” (NUNES, 2017). 1.2.2 Interpretação lógica Por ser estrutura linguística que pressupõe vontade e raciocínio, o texto legislativo exige os subsídios da lógica para a sua interpretação. Existe, portanto, a distinção, na hermenêutica, da lógica interna, que explora os elementos fornecidos pela lógica formal e se limita ao estudo do texto, e a lógica externa, que investiga as razões sociais que ditaram a formação dos comandos jurídicos. Modernamente se fala na lógica do razoável, doutrina desenvolvida por Recaséns Siches, que visa a combater o apego às fórmulas frias e matemáticas da lógica formal, em favor de critérios flexíveis, mais favoráveis à justiça (ANDRADE, 1983). 1.2.3 Interpretação sistemática Não há, na ordem jurídica, nenhum dispositivo autônomo, autoaplicável. A norma jurídica somente pode ser interpretada e ganhar efetividade quando analisada no conjunto de normas pertinentes a determinada matéria. Quando um magistrado profere uma sentença, não aplica regras isoladas, projeta toda uma ordem jurídica ao caso concreto. O ordenamento jurídico compõe-se de todos os atos legislativos vigentes, bem como das normas costumeiras válidas, que mantêm entre si perfeita conexão (NUNES, 2017). Entre as diferentes fontes normativas, não pode haver contradições. De igual modo, deve haver completa harmonia entre os dispositivos de uma lei, a fim de que haja unicidade no sistema jurídico, ou seja, uma única voz de comando. Para que a ordem jurídica seja um todo harmônico, é indispensável que a hierarquia entre as fontes formais seja preservada (NADER, 2014). Se os dispositivos de uma lei se interdependem e se as diferentes fontes formais do Direito possuem conexão entre si, a interpretação não pode ter por objeto dispositivos ou textos isolados. O trabalho de exegese tem de ser feito considerando-se todo o acervo normativo ligado a um assunto (NUNES, 2017). O elemento sistemático, que opera considerando os elementos gramatical e lógico, consiste na pesquisa do sentido e alcance das expressões normativas, considerando-as em relação a outras expressões contidas na ordem jurídica, mediante comparações. O 76UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica intérprete, por este processo, distingue a regra da exceção, o geral do particular. A natureza da norma jurídica revela-se também pelo elemento sistemático. O estudo leva à conclusão se a norma jurídica é cogente ou dispositiva, principal ou acessória, comum ou especial (NUNES, 2017). Pratica uma condenável imprudência o profissional que, sem visão do conjunto da lei e de outros dispositivos concernentes à matéria, interpreta artigos isolados. Tal procedimento é anticientífico, a interpretação pura e simples do art. 121 do Código Penal, por exemplo, conduziria a resultados absurdos, se não acompanhada da análise de outros dispositivos daquele diploma legal, que se correlacionam (NUNES, 2017). Quem desenvolve interpretação isolada de dispositivos corre o risco de alcançar resultados falsos, apegando-se, por exemplo, a uma regra geral, quando existe uma específica. (ANDRADE, 1983). 1.2.4 Interpretação teleológica Na moderna hermenêutica o elemento teleológico assume papel de primeira grandeza. Tudo o que o homem faz e elabora é em função de um fim a ser atingido. A lei é obra humana e assim contém uma ideia de fim a ser alcançado. Na fixação do conceito e alcance da lei, sobreleva de importância o estudo teleológico, isto é, o estudo dos fins colimados pela lei. Enquanto a occasio legis ocupa-se dos fatos históricos que projetaram a lei, o fator teleológico investiga os fins que a lei visa a atingir. Quando o legislador elabora uma lei, parte da ideia do fim a ser alcançado (SALDANHA, 2005). Os interesses sociais que pretende proteger, inspiram a formação dos documentos legislativos. Assim, é natural que no ato da interpretação se procure avivar os fins que motivaram a criação da lei, pois nessa descoberta estará a revelação da mens legis. Como se revela o elemento teleológico? Os fins da lei se revelam através dos diferentes elementos de interpretação. A ideia do fim não é imutável. O fim não é aquele pensado pelo legislador, é o fim que está implícito na mensagem da lei (ROCHA,1998). Como esta deve acompanhar as necessidades sociais, cumpre ao intérprete revelar os novos fins que a lei tem por missão garantir. Esta evolução de finalidade não significa ação discricionária do intérprete. Este, no afã de compatibilizar o texto com as exigências atuais, apenas atualiza o que está implícito nos princípios legais. O intérprete não age contra legem, nem subjetivamente. De um lado tem as coordenadas da lei e, de outro, o 77UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica novo quadro social e o seu trabalho se desenvolve no sentido de harmonizar os velhos princípios aos novos fatos (SALDANHA, 2005). 1.2.5 Interpretação histórica Muitas vezes o conhecimento gramatical e lógico do texto legislativo não é suficiente à compreensão do espírito da lei, sendo necessário o recurso à pesquisa do elemento histórico. Como força viva que acompanha as mudanças sociais, o Direito se renova, ora aperfeiçoando os institutos vigentes, ora criando outros, para atender o desafio dos novos tempos. Em qualquer situação, o Direito se vincula à história e o jurista que almeja um conhecimento profundo da ordem jurídica, forçosamente deverá pesquisar as raízes históricas do Direito Positivo. A Escola Histórica do Direito, concebendo o fenômeno jurídico como um produto da história, enfatizou a importância do elemento histórico para o processo de interpretação (NADER, 2014). O Direito atual, manifesto em leis, códigos e costumes, é um prolongamento do Direito antigo. A evolução da ciência jurídica nunca se fez mediante saltos, mas através de conquistas graduais, que acompanharam a evolução cultural registrada em cada época. Quase todos os institutos jurídicos atuais têm suas raízes no passado, ligando-se às legislações antigas. Entre as disciplinas jurídicas, a História do Direito tem por escopo o estudo do Direito sob a perspectiva histórica; dedica-se à investigação das origens do Direito de uma sociedade específica ou de todos os povos, com a preocupação de estudar o desenvolvimento das instituições e dos sistemas (ROCHA, 1998). Como a finalidade da interpretação moderna não é desvendar a mens legislatoris, deve-se dar apenas relativa importância às discussões das comissões técnicas do Congresso e debates parlamentares. Quanto mais antigo for o trabalho preparatório, menos valor oferecerá, pois terá retratado fatos de uma sociedade mais distante. 1.2.6 Interpretação declarativa Nem sempre o legislador bem se utiliza dos vocábulos, ao compor os atos legislativos. Muitas vezes se expressa mal, utilizando com impropriedade os termos. Quando dosa as palavras com adequação aos significados que deseja imprimir na lei, falamos que a interpretação é declarativa. O intérprete chega à constatação de que as palavras expressam, com medida exata, o espírito da lei (NADER, 2014). 78UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica 1.2.7 Interpretação restritiva Quando ocorre, porém, que o legislador é infeliz ao redigir o ato normativo, dizendo mais do que queria dizer, a interpretação é restritiva, pois o intérprete elimina a amplitude das palavras. Exemplo: a lei diz descendente, quando na realidade queria dizer filho (NADER, 2014). 1.2.8 Interpretação extensiva É a hipótese contrária à anterior. O intérprete constata que o legislador utilizou- se com impropriedade dos termos, dizendo menos do que queria afirmar. Ocorrendo tal hipótese, o intérprete alargará o campo de incidência da norma, em relação aos seus termos. O exemplo anterior é útil ainda: se o legislador, desejando referir-se a descendente, emprega o vocábulo filho. A interpretação sistemática do art. 535 do Código de Processo Civil levou a doutrina e o Superior Tribunal de Justiça à compreensão de que, naquela disposição, onde consta “na sentença ou no acórdão”, devem-se entender todos os tipos de decisões processuais (NUNES, 2017). Quanto à fonte a interpretação do Direito pode ser autêntica, doutrinária e judicial. Também denominada legislativa, a interpretação autêntica é a que emana do próprio órgão competente para a edição do ato interpretado. Assim, se este emanou do Executivo, decreto ou medida provisória, interpretação autêntica será a que for objeto de um novo decreto ou medida provisória com esclarecimentos sobre o conteúdo do ato anterior (SALDANHA, 2005). Em igual sentido se o ato interpretado for uma lei, quando então caberá ao Legislativo a exegese. A interpretação autêntica retroage ao início de vigência do texto interpretado. Especialmente por esse motivo, aplicação retroativa, cuidado especial deverá ter o aplicador da lei, para verificar se o ato de interpretação limitou-se a revelar o sentido do texto anterior (NUNES, 2017). Na hipótese de terem ocorrido inovações estas não poderão ser aplicadas retroativamente a não ser nas condições já previstas em nosso ordenamento.16 A interpretação se diz doutrinária quando localizada em obras científicas, quase sempre tratados especializados, encontrando-se também em pareceres de jurisconsultos e lições de mestres do Direito. Já a interpretação judicial ou jurisprudencial é a de autoria de juízes e tribunais (NADER, 2014). Na exegese da norma o juiz deve apenas traduzir o sentido e o alcance nela contidos, devendo dar aos textos interpretação atualizadora, porém, substituir o critério do legislador pelo seu próprio. Segundo o Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira, do Superior Tribunal de Justiça, “Se o juiz não pode tomar liberdades inadmissíveis com a lei, julgando contra legem, pode e deve, por outro lado, optar pela interpretação que mais atenda às aspirações da Justiça e do bem comum. 79UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica 1.3 LACUNAS NAS NORMAS JURÍDICAS A lacuna se caracteriza não só quando a lei é completamente omissa em relação ao caso, mas igualmente quando o legislador deixa o assunto a critério do julgador. É possível de se manifestar ainda quando a lei, anomalamente, apresente duas disposições contraditórias, uma anulando a outra. De ocorrência mais difícil, esta espécie de lacuna decorre de defeito da lei e não por imprevisão do legislador (NUNES, 2017). Antes de concluir pela existência de antinomia entre duas normas e abandoná-las, o intérprete deve submetê-las a um rigoroso estudo, com base nos subsídios que a her- menêutica jurídica oferece, pois muitas vezes o conflito é mais aparente do que real. Para Enneccerus ocorre ainda a lacuna “quando uma norma é inaplicável por alcançar casos ou acarretar consequências que o legislador não haveria ordenado se conhecesse aqueles ou suspeitasse estas”. Além de não caracterizar uma lacuna, pois a lei oferece à disposição, esta hipótese de não aplicação da regra é problemática, pois a correção do defeito pode ser alcançada, conforme o caso, com a diminuição do campo de incidência da lei, de acordo com os princípios hermenêuticos (NUNES, 2017). A integração da lei não se confunde com as fontes formais, nem com os processos de interpretação do Direito. Os elementos de integração não constituem fontes formais porque não formulam diretamente a norma jurídica, apenas orientam o aplicador para localizá-las. A pesquisa dos meios de integração não é atividade de interpretação, porque não se ocupa em definir o sentido e o alcance das normas jurídicas. Uma vez assentada a disposição aplicável, aí sim se desenvolve o trabalho de exegese (ANDRADE, 1983). 80UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica 1.3.1 Formas de integração do direito A integração é um processo de preenchimento de lacunas, existentes na lei, por elementos que a própria legislação oferece ou por princípios jurídicos, mediante operação lógica e juízos de valor. A doutrina distingue a auto integração, que se opera pelo apro- veitamento de elementos do próprio ordenamento, da heterointegração, que se faz com a aplicação de normas que não participam da legislação, como é a hipótese, por exemplo, do recurso às regras estrangeiras (NADER, 2014). Consideradoo sistema jurídico pátrio, a integração se processa pela analogia e princípios gerais de Direito É um dado fornecido pela experiência que as leis, por mais bem planejadas, não logram disciplinar toda a grande variedade de acontecimentos sociais. A dinâmica da vida cria sempre novas situações, estabelece outros rumos e improvisa circunstâncias (NUNES, 2017). As falhas ou lacunas que os códigos apresentam não revelam, forçosamente, incú- ria ou incompetência do legislador, nem atraso da ciência. Pode-se afirmar que as lacunas são imanentes às codificações. Ainda que se recorra ao processo de interpretação evolutiva do Direito vigente, muitas situações escapam inteiramente aos parâmetros legais. Somente quando os fatos se repetem assiduamente, tornam-se conhecidos e as leis não são modifi- cadas para alcançá-los, é que se poderá inculpar o legislador ou os juristas (NADER, 2014). 1.4 ANTINOMIA DAS NORMAS JURÍDICAS Entendia-se que o direito era um sistema coerente (ou consistente), ou seja, isento de contradições internas. Como parte do postulado de que o legislador é racional e de que o direito é um sistema, a hermenêutica tradicional não pode admitir que o autor da lei tenha vontades contraditórias sobre um mesmo objeto, pois, nesse caso, seria rompida a sistematicidade do direito, na medida em que a existência de comandos contraditórios impede a identificação de uma solução correta. Com isso, as teorias tradicionais são levadas a não admitir a existência de normas contraditórias dentro do ordenamento jurídico. Porém, mesmo as teorias tradicionais não chegam a defender a ficção de que o legislador nunca produz normas que contradizem outras regras do sistema. O que elas afirmam é que o sistema jurídico nunca pode conter duas regras que atribuam conseqüências contraditórias ao mesmo fato, o que é garantido mediante o estabelecimento de três critérios dogmáticos para a resolução das antinomias. Pelo critério hierárquico, as antinomias existentes entre uma norma hierarquicamente 81UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica superior e uma inferior devem ser resolvidas excluindo-se do ordenamento a norma inferior: lex superior derrogat inferior (ANDRADE, 1983). Dessa forma, será inválida uma lei que seja contrária à constituição ou um decreto contrário a uma lei. Pelo critério da especialidade, as disposições especiais têm prevalência sobre as disposições gerais. Embora toda lei deva ter a característica da generalidade (por se aplicar a um conjunto de fatos e não a um fato específico), essa generalidade é uma faca de dois gumes (NADER, 2014). Por um lado, ela garante que os casos idênticos serão tratados da mesma forma, mas, por outro, ela trata igualmente casos que, pelas suas peculiaridades, mereceriam uma solução diversa. Tomemos, por exemplo, a regra geral que atribui uma determinada pena a toda pessoa que cometer homicídio, sendo essa norma aplicável a todos os casos em que uma pessoa mata outra. Todavia, é por todos sabido que há uma regra especial, que permite matar alguém em legítima defesa. Como devemos entender a relação entre essas duas regras? Se Marcos mata Pedro em legítima defesa, as duas regras são prima facie aplicáveis ao caso. Todavia, a permissão especial da legítima defesa tem prioridade sobre a proibição geral do homicídio, pois trata-se de uma exceção feita à regra geral, estabelecida com a finalidade de garantir um tratamento justo a essa hipótese. (ANDRADE, 1983). Assim, toda vez que uma disposição puder ser entendida como uma exceção feita a uma regra geral, com o objetivo de tratar desigualmente as condutas desiguais, na medida da sua desigualdade, deverá ser aplicada ao caso a norma especial e não a geral. No Brasil, essa regra de interpretação não é apenas doutrinária, mas encontra-se positivada no art. 2o, §2o da Lei de Introdução ao Código Civil (LICC), que determina: “a lei nova, que estabeleça disposições gerais ou especiais a par das já existentes, não revoga nem modifica a lei anterior. (ANDRADE, 1983). O terceiro critério é o cronológico, que é aplicável apenas a normas de mesma hierarquia ou grau de especialidade. Nesses casos, considera-se que a norma posterior derroga a norma anterior: lex posterior derrogat priori. Dessa forma, se uma lei tem dispositivos incompatíveis com determinações de uma lei anterior, valerá o conteúdo da regra mais nova. Portanto, mesmo que uma lei não revogue expressamente uma norma anterior, a incompatibilidade entre elas acarretará a 90 invalidade dos dispositivos mais antigos. Também essa regra é prevista na LICC, que determina, no art. 2o, §1o, “a lei posterior revoga a anterior quando expressamente o declare, quando seja com ela incompatível 82UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica ou quando regule inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior”. De acordo com a hermenêutica tradicional, a aplicação dessas regras deve resolver todas as antinomias que porventura surjam no ordenamento, o que significa que toda antinomia é apenas aparente (SALDANHA, 2005). Como, no momento em que surgem as regras contraditórias, já existe um critério preestabelecido para determinar qual das normas deve prevalecer, então nunca chega a haver no sistema uma contradição de regras vigentes. No exato instante em que entra em vigor uma lei nova, a lei anterior com ela incompatível perde vigência e, portanto, elas nunca são válidas ao mesmo tempo (NADER, 2014). As leis que contradizem a Constituição não podem ser válidas e, portanto, quando um tribunal declara a sua inconstitucionalidade, ele afirma que ela nunca foi vigente no ordenamento jurídico. Ao descrever dessa forma o problema das incompatibilidades normativas, a teoria tradicional termina por sustentar que toda antinomia é aparente, pois a coexistência de regras antinômicas não chega a ocorrer realmente. Porém, foi preciso admitir que existem também antinomias reais, ou seja, normas cuja contradição não pode ser resolvida mediante a aplicação das três regras explicitadas. Nesse caso, se não houver nenhum critério hermenêutico relevante que possibilite a escolha de uma das normas, então o intérprete é forçado a admitir que ambas as regras têm igual valor, o que deve conduzi-lo a pronunciar-se como se nenhuma das regras antinômicas tivesse existido (NADER, 2014). Portanto, se os critérios de resolução de antinomias forem insuficientes para a resolução de uma contradição normativa, a garantia da coesão intra-sistemática exigirá do intérprete a exclusão de ambas as normas colidentes, como se uma anulasse a outra. Nesse caso, surgiria uma lacuna (a chamada lacuna de colisão) que precisaria ser preenchida mediante os recursos clássicos de analogia e construção (SALDANHA, 2005). 1.4.1 Critérios de solução da antinomia Os critérios solucionadores das antinomias jurídicas são pressupostos implícitos colocados na legislação pelo legislador para a manutenção da coerência tendencial do sistema, da necessidade social de uniformidade das decisões e também como uma via de saída para o aplicador e intérprete das normas. Os critérios ou também chamados de regras fundamentais para solução de antinomia são de três tipos: o cronológico, o hierárquico e o da especialidade (SALDANHA, 2005). A necessidade social de uniformidade das decisões é tratada por João Baptista Machado (1998): 83UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica Se fôssemos a atender aqui aos critérios de justiça material do sistema, não poderíamos escapar à consideração de que as normas incompatíveis como que mutuamente se anulam, deixando uma lacuna em aberto: uma ‘lacuna de colisão’. Ora, para o preenchimento desta lacuna, teria necessariamente de recorrer-se a valorações altamente subjetivas (a subsistência da antinomia normativa vem afinal a traduzir uma antinomia de valores ou de princípios no sistema positivo), e é precisamente isso que se pretende evitar através dos referidos critériostradicionais de resolução das antinomias. Só pelo recurso a critérios deste tipo se poderá, como diz Bobbio, ‘garantir uma objetividade que baste para satisfazer a necessidade social de uniformidade das decisões. (MACHADO, 1998, p. 238 ). Esta objetividade é mantenedora da segurança jurídica, assim aqueles que buscam a justiça estão, teoricamente, afastados de uma subjetividade extrema capaz de criar soluções para uma mesma antinomia a cada caso concreto (SALDANHA, 2005). O cronológico tem a sua ideia expressa no brocardo jurídico: lex posterior derogat legi priori. Assim sendo a lei posterior derrogará a lei anterior dando ao sistema jurídico a sua característica dinâmica. O preceito do presente critério é, justamente, a possibilidade da transmutação das normas componentes do sistema, passando de velhas e não eficazes, para novas e realmente reguladoras, no sentido da visão social atual ou pelo menos mais contemporânea, quando o processo legislativo não obstaculiza por tempo demais. (ANDRADE, 1983). O segundo dos critérios é o hierárquico, o seu comando é lex superiori derogat legi inferiori. O uso deste critério para solução de antinomia remeterá o aplicador ou intérprete ao uso da norma hierarquicamente superior, quando se tratar de normas de diferentes níveis. Maria Helena (2001) assim exemplifica: “a Constituição prevalece sobre uma lei. Daí falar-se em inconstitucionalidade da lei ou ilegitimidade de atos normativos diversos da lei, por a contrariarem”. A norma é inferior ou superior devido ao seu poder normativo (NADER, 2014). Lex specialis derogat legi generali descreve o critério da especialidade. A norma é considerada especial, em seu sentido de especificidade, quando possuir todos os elementos típicos da norma geral e ainda acrescentar outros, tanto de natureza objetiva ou subjetiva. Estes elementos acrescidos pela norma especial são denominados, pela doutrina, de espe- cializantes. Estes elementos especializantes trazidos pela norma especial aprofundam na situação fática evidenciada pela norma geral. Bobbio (1999) chama este aprofundamento de diferenciação gradual: A passagem da regra geral à regra especial corresponde a um processo na- tural de diferenciação das categorias, e a uma descoberta gradual, por parte do legislador, dessa diferenciação. Verificada ou descoberta a diferenciação, a persistência na regra geral importaria no tratamento igual de pessoas que pertencem a categoria diferentes, e, portanto, numa injustiça. Nesse proces- 84UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica so de gradual especialização, operado através de lei especial, encontramos uma das regras fundamentais da justiça, que é a do suum cuique tribuere (das cada uma o que é seu). Entende-se, portanto, por que a lei especial deva prevalecer sobre a geral: ela representa um momento ineliminável do desenvolvimento de um ordenamento. Bloquear a lei especial frente à geral significaria paralisar esse desenvolvimento. (BOBBIO, 1999, p. 96). Os critérios cronológico e hierárquico são de natureza formal, pois ignoram como método de solução a natureza material das normas antinômicas. Já o critério da especialidade levaria em consideração a natureza material das normas e por isso seria um critério interpretativo e não simplesmente formal (ANDRADE, 1983). SAIBA MAIS A palavra direito se origina do latim directum, que significa o que está conforme à regra. Vem dos romanos antigos e é a soma da palavra DIS (muito) + RECTUM (reto, justo, certo). Trata-se, na verdade, de um conjunto de regras obrigatórias que garante a convi- vência social, que regula a conduta do homem na sociedade, que coloca um mínimo de regra ou de norma a ser seguida pela sociedade. (MADRIGAL, 2016) REFLITA Historicamente, o direito tem sido objeto de estudos de uma série de “escolas de pensamento” que o definem e o desenvolvem, a partir de determinado mirante epistemológico. De um modo geral, o direito formal burguês e o direito materializado do Estado social constituem os dois paradigmas jurídicos mais bem-sucedidos na moderna história do direito. De uma maneira sintética, pode-se dizer que a análise do direito sob as lentes da ciência divide-se em interna, que examina o fenômeno do direito a partir de suas normas jurídicas, e externa, que se ocupa em explicar o direito a partir da sociedade ou do social. (ROCHA,1998) 85UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica CONSIDERAÇÕES FINAIS Mediante explanação desenvolvida ao longo dessa Unidade IV, torna-se plausível a afirmação da inexistência de valores mais desejados que a justiça. Seja está em função da isonomia, seja em função da realidade social inserida em um contexto histórico. Aqui, vale relembrar o conceito de Aristóteles, que considerava a justiça como um hábito. Essa justiça, reconhecida como valor humano, forma a estrutura valorativa do Direito Natural, ao qual curva-se o Direito Positivo, inobstante se reconheça que essa só se satisfaz quando devidamente equacionada com os demais valores jurídicos, principalmente com suas exigências éticas. Significa dizer que a lei somente terá garantia do fiel cumprimento de sua vontade se estiver relacionada a um sistema de valores sendo que, tal percepção é possível em função da aplicação hermenêutica, a qual não se restringe a elementos textuais. O Direito deve acompanhar as transformações e perceber os anseios da sociedade que está em constante desenvolvimento, o próprio ordenamento jurídico reconhece a necessidade da observância dos clamores sociais, como prevê o artigo 5º da Lei de Introdução ao Código Civil: “Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum, concluindo com isso a extrema necessidade de sempre ter a hermenêutica como um instrumento hábil para efetiva concretização da justiça nos casos concretos. 86UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Introdução do Estudo do Direito Autor: Paulo Nader Editora: Forense Sinopse: O marco dos trinta anos de promulgação da Constituição Federal de 1988 traz consigo a oportunidade de fazer um balanço da cultura constitucional que se desenvolveu desde então, bem como de avistar novas perspectivas. Mas é também ensejo para reavivar obras e rememorar pessoas que assinalaram suas contribuições na história do nosso Direito Público. A coleção Constitucionalismo Brasileiro, idealizada pelo IDP e editada pelo GEN | Forense, com o apoio da FGV Projetos, compõe-se de obras de referência, que trazem elementos fundamentais para a compreensão das origens e do processo de desenvolvimento da nossa cultura jurídica. Para além da doutrina, a coleção devolve fôlego ao registro histórico de personagens essenciais na construção do constitucionalismo brasileiro. De início, além desta, cinco obras serão republicadas, acompanhadas de estudos introdutórios de eminentes juristas: Curso de Direito Constitucional Brasileiro, de Afonso Arinos de Melo Franco, apresentado por Sergio Bermudes; Alguns Andaimes da Constituição, de Aliomar Baleeiro, com apresentação de Carlos Mário da Silva Velloso; A Democracia Coroada, de João Camillo de Oliveira Tôrres, apresentada por Manoel Gonçalves Ferreira Filho; Em torno da Constituição, de João Mangabeira, apresentada por Paulo Gustavo Gonet Branco; e História do Constitucionalismo Brasileiro, de Waldemar Martins Ferreira, com apresentação de Michel Temer. Esperamos que o público aprecie o esforço editorial desenvolvido. Gilmar Ferreira Mendes Doutor em Direito pela Universidade de Münster; Ministro do Supremo Tribunal Federal. FILME/VÍDEO Título: Interpretação constitucional Ano: 2016 Sinopse: Aula Magna ministrada pelo Ministro Luís Roberto Barroso. Link do vídeo : https://www.youtube.com/watch?v=sFV574ddeA4 &list=PLHKsAbDmsCFhTlNSGVc6-nW7D2odPpzyx&index=2 https://www.youtube.com/watch?v=sFV574ddeA4&list=PLHKsAbDmsCFhTlNSGVc6-nW7D2odPpzyx&index=2 https://www.youtube.com/watch?v=sFV574ddeA4&list=PLHKsAbDmsCFhTlNSGVc6-nW7D2odPpzyx&index=287UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica REFERÊNCIAS ANDRADE, Agenor Pereira de. Manual de Direito Internacional Privado, 4a ed., São Paulo: Su- gestões Literárias, 1983. AYRES, Deborah Maria. A grande dicotomia: Direito Público e Direito Privado. Direito Administra- tivo, 2006. Disponível em: https://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/2951/A-grande-dicotomia-Di- reito-Publico-e-Direito-Privado. Acesso em: 18 out. 2019. BOBBIO, Norberto. Estado, governo e sociedade: para uma teoria geral da política. Rio de Ja- neiro: Paz e Terra, 2010. BOBBIO, Norberto. Teoria do ordenamento jurídico. Tradução: Maria Celeste C. J. Santos. 10.ed. Brasília: Universidade de Brasília, 1999. 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VIEGAS, Cláudia Mara de Almeida Rabelo. Norma jurídica. 2019. Disponível em: https://claudia- maraviegas.jusbrasil.com.br/artigos/753016808/norma-juridica. Acesso em: 28 nov. 2020. 88UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica CONCLUSÃO Prezado(a) aluno(a), Neste material, busquei trazer para você os principais conceitos a respeito da disciplina de Teoria Geral do Direito. Para tanto abordamos as definições teóricas e, neste aspecto acreditamos que tenha ficado claro para você o quanto é importante para os operadores do Direito terem acesso a esses conceitos teóricos e sobretudo, sobre sua aplicabilidade à prática jurídica fazendo com que se torne um profissional pronto para essa atividade. Destacamos a importância do acadêmico ter a noção das várias acepções do conceito de Direito, bem como, saber diferenciar o que é Direito Positivo de Direito Natural. Além de que os aspectos teóricos que trazem as espécies de Direito Positivo, separando-os em direito subjetivo e direito objetivo e entendo todas as formas de direito subjetivo que se apresenta e o porque é necessário o aplicador do Direito deve entender a divisão e o funcionamento dos ramos de Direito Público e Privado. Tratamos também de um assunto que é imprescindível ao profissional do Direito, são as fontes do direito, na verdade de onde nasce as formações jurídicas que são apresentadas pelo nosso ordenamento e em quais formas elas se apresentam, tal como as leis, jurisprudências, princípios gerais do direito, costumes, doutrinas e analogia. Por fim, apresentamos a vocês um estudo organizado das normas jurídicas, trazendo sua importância perante todo o sistema jurídico. É a partir desse momento que passamos a estudar o objeto do Direito que são as normas jurídicas, podendo saber como elas se apresentam e principalmente suas diferenças e características específicas, bem como, suas formas de obrigatoriedade, prazo em que pode ser considerada existente no nosso ordenamento. É por todo esse conteúdo que acreditamos que você já está preparado para seguir em frente desenvolvendo ainda mais suas habilidades para criar e se desenvolver como um profissional do Direito independente de qual carreira escolher. Até uma próxima oportunidade. Muito Obrigado! _GoBack UNIDADE I Conceito de Direito UNIDADE II Fontes do Direito UNIDADE III Sistema Jurídico UNIDADE IV Hermenêutica Jurídica