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1 Louyse Jerônimo de Morais Rinites Referência: aula da prof. Maria José Conceito Precisamos saber se é rinite e qual é o tipo. Através dela, fazemos diagnóstico de patologias sistêmicas. A rinite se trata de um processo inflamatório da mucosa nasal. Divisão Sob o ponto de vista clínico, dividem-se em: agudas e crônicas. A rinite aguda, como qualquer processo agudo, vai até 3 semanas. Acima disso, mas até 3 meses, é subaguda [hoje em dia chama tudo de aguda]. Depois disso, diz-se que é crônica. Rinites agudas 1. Rinite catarral aguda • Etiologia: vírus respiratórios de maneira geral. • Sintomatologia: coriza, obstrução nasal, prurido, ligeiro mal-estar, febre, dor no corpo, dor de cabeça. Ao espéculo, mucosa hiperemiada e com secreção mucosa em fios, pegando de um lado para outro. Rinoscopia anterior de fossa nasal esquerda evidenciando edema de mucosa, hipertrofia de concha inferior e secreção em assoalho de fossa nasal. • Diagnóstico: exame clínico é fundamental. Se tiver dúvida se é bacteriano ou viral, a única coisa que pode ajudar é um leucograma. Se leucopenia → vírus, se leucocitose → bactérias. • Tratamento: lavagem nasal, vitamina C [protetora de mucosa, pois restaura a mucosa], antitérmico, soro nasal, descongestionante nasal [cuidado com hipertensos, portadores de hiperplasia prostática benigna e glaucoma], analgésico. Lembre-se que, na obstrução nasal, o indivíduo também perde paladar, porque o ar não chega na membrana de Schneider. Descongestionantes nasais só devem ser usados, no máximo, por 3 ou 4 dias [solução hipertônica pode substituir neosoro]. 2. Rinite aguda do lactente • Etiologia: é a mesma da anterior. A fossa nasal do lactente é muito menor, então a disfunção é severa, prejudica mamada e respiração. Ele começa a perder eletrólitos pelo suor. Muitas vezes, essas crianças desidratam e precisam internar. • Sintomatologia: obstrução nasal severa que complica mais, por conta de uma respiração oral severa. Esta última desequilibra o bebê e leva à necessidade de internação. • Diagnóstico: clínico – hiperemia, hipertrofia e secreção. • Tratamento: lavagem nasal. Se tiver muita secreção, aspira com sonda nasogástrica fina. Na criança, pode usar soro hipertônico. Anti- histamínico via oral é uma outra opção. A nebulização para nariz não serve de nada, porque as gotículas vão para o pulmão. O ideal é lavar com soro. 3. Rinite gonocócica • Etiologia: a criança se contamina no canal do parto, por conta de mães que não fizeram pré- natal bem feito e que estão contaminas com o gonococo. • Sintomatologia: secreção espessa e grande. Pode ferir o vestíbulo nasal e deixar cicatrizes, bem como agredir a mucosa nasal e deixar fibrose. • Diagnóstico: história da mãe; o diagnóstico só é confirmado com cultura, que sai com no mínimo 72h. • Tratamento: trata com ceftriaxona. Depois, repete a cultura para ver se resolveu. 4. Rinite sifilítica • Etiologia: também pode ocorrer na criança, mas hoje em dia é difícil, por conta do pré-natal. A contaminação ocorre no canal do parto. Pode ser aguda ou crônica. • Sintomatologia: nariz em sela e secreção amarelo- esverdeada de odor nauseante. O problema da 2 Louyse Jerônimo de Morais sífilis é que ela pode complicar e fazer muita destruição da mucosa, levando até a sinequias. • Diagnóstico: VDRL e FTA-ABS. O VDRL pode estar presente em outras patologias. O FTA-ABS é específico e sempre vai ser positivo. O controle, portanto, é feito com VDRL, que tem que ser quantitativo. • Tratamento: penicilina G benzatina 50 mil U/kg por 3 a 5 semanas, a cada 7 dias. Rinite por sífilis 5. Rinite fibrinosa • Etiologia: associação bacteriana – pneumococo, Staphylococcus, Streptococcus. • Sintomatologia: febre alta, hipertrofia ganglionar cervical e criança muito abalada fisicamente. No exame físico, vemos uma pseudomembrana, então o paciente vai ter muita obstrução nasal. É semelhante à difteria, mas ao pegar a pseudomembrana e colocar em um copo de água, ela vai desmanchar. • Diagnóstico: hemograma e cultura. Observar cartão vacinal. Três a cinco dias depois do fim do ATB, repete cultura. • Tratamento: amoxicilina + clavulanato 25 a 50 mg/kg/dia 12/12h por 7 a 10 dias. Rinites agudas das doenças infecciosas 1. Rinite diftérica • Sintomatologia: fibrina fechando no nariz, com formação de membranas e mucosa hiperemiada e congesta, como todo processo infeccioso. O que modifica é a secreção, que se apresenta como membranas verdadeiras e faringotonsilite diftérica. O grande risco é quando migram para a laringe, podendo obstruir. • Diagnóstico: observar cartão vacinal; existe teste rápido para difteria [esfregaço para gram] – a rinite diftérica parece aquelas vitórias régias, enquanto os outros são cocos gram positivos. No gram, tem-se uma ideia. Daí, parte-se para a cultura. • Tratamento: internação, porque ele pode precisar intubar ou fazer traqueostomia. Além disso, o bacilo diftérico tem uma exotoxina que dá fenômeno de Marfan, podendo dar morte súbita. No começo, pode fazer penicilina para dar uma segurada. Pseudomembranas em orofaringe características da difteria Esfregaço de gram da Corynebacterium diphtheriae – não sei de onde ela tirou que parece vitória régia KKKKKK 2. Rinite do sarampo • Etiologia: viral. • Sintomatologia: febre, mal-estar, tosse seca. No nariz, manifesta-se com catarro oculonasal [só quem faz isso é adenovírus – que dá gânglio no pescoço – e o sarampo]. Por volta do terceiro dia, aparece exantema, que inicia pelo tórax. Sinal de Koplik [apenas 40% dos casos]. • Diagnóstico: observar calendário vacinal. 3 Louyse Jerônimo de Morais • Tratamento: hidratação, alimentação, sintomáticos – soro nasal, anti-histamínico para prurido [hidroxizina e dexclofeniramina], antitérmico, repouso e observação, porque a otite das doenças infecciosas é necrosante e terrível. Sinal de Koplik 3. Rinite da escarlatina • Etiologia: toxina do Streptococcus. • Sintomatologia: sinal de Filatov [palidez perioral], sinal de Pastia [acentuação do exantema nas dobras], língua em framboesa. A mucosa fica com hiperemia vermelho-escarlato e com secreção. Pode complicar com coreia [quadro neurológico de convulsão]. • Diagnóstico: hemograma apresentando leucocitose e aumento de eosinófilos [também contados na sequência da melhora do tratamento]. Nessas secreções, sempre faz cultura. • Tratamento: penicilina benzatina 50 mil U/kg. Duas a três ampolas já resolve. No adulto, usa 1200. Rinite vestibular • Causas: assadura da pele do vestíbulo nasal por exsudato de qualquer natureza – traumas, eczema. • Complicações: impetigo, furúnculo da asa do nariz, erisipela. O vestíbulo nasal é a entrada do nariz, isto é, o introito narinário. É uma rinite inflamatória no vestíbulo nasal, descamativa e com hiperemia. O grande problema dos abscessos nasais é a artéria angular, que tem conexão com a artéria do seio cavernoso. Nessa rinite, vemos ferimento na parte anterior do nariz, com descamação e hiperemia, que pode complicar com impetigo. O risco do impetigo é a GNDA, especialmente no nariz, por causa de sua rica vascularização – o complexo vascular da terceira camada do nariz, com a zona de Kiesselbach se irradia para todo lugar. Vestibulite nasal Pode tratar com amoxicilina-clavulanato ou cefalexina / cefadroxila. Uma cefalosporina de primeira ou segunda cai muito bem. Qual é a dosagem? 25 a 50 mg/kg/dia por 10 dias. Três dias depois que desaparecer completamente, pode tirar o ATB. Pode acrescentar pomada de neomicina. Lembre-se que a cartilagem nasal [como qualquer outra] não se regenera, pois ela não tem irrigação própria e pega os nutrientes por embebição. A cartilagem alar só é refeita com cirurgiãode nariz. O risco é de infecção, que pode levar à perda de tecido. O tratamento do abscesso é com drenagem e cefalosporina. Celulite – internar, corticoide e ceftriaxona na veia [imagem]. Risco de complicar com tromboflebite do seio cavernoso. Rinites crônicas 1. Rinite mucopurulenta • Etiologia: processo irritativo e diminuição das defesas. • Sintomatologia: rinorreia amarelo esverdeada, secreção nasal. • Rinoscopia: exsudato sobre a mucosa. • Diagnóstico: clínico. • Complicações: laringotraqueobronquites, dispepsias, otites, sinusites. • Tratamento o Local: lavagem com soro, remoção de focos. o Geral: aumento das defesas com produtos iodados, vitamina A e D, 4 Louyse Jerônimo de Morais superalimentação, supressão de álcool e tabaco. Endoscopia de fossa nasal esquerda evidenciando drenagem de secreção purulenta em rinofaringe 2. Rinite hipertrófica • Etiologia: desconhecida. • Sintomatologia: obstrução nasal. • Rinoscopia: mucosa avermelhada túrgida mamelonada. • Complicações: distúrbios respiratórios, otites. • Tratamento o Lavagem com soro e remoção dos focos o Galvanocauterização: vai criar um bocado de crosta da queimadura, é muito chata. o Eletrocoagulação o Crioterapia o Laser o Turbinectomia: tira mucosa e, de preferência, sem mexer no osso; se tirar demais, tem complicação; também dá crosta, por conta do sangramento. O tratamento é, basicamente, cirúrgico. Quando o corneto hipertrofiado é o inferior, pode usar qualquer um dos métodos acima. Sob anestesia local, faz vários cortes da cabeça à cauda do corneto, que vai murchar, fibrosar e diminuir o volume. Hoje em dia, prefere-se muito mais fazer turbinectomia. O corneto médio é bolhoso, porque ele é uma extensão do etmoide, que é um complexo de células etmoidais. Na concha média bolhosa, vai ter que tirar do corneto médio, o que é mais difícil, por conta da artéria etmoidal posterior. Pode tirar uma parte do osso, além do corneto. 3. Rinite atrófica simples • Etiologia: sequela de rinite infecciosa [sífilis, escarlatina, difteria], intervenção cirúrgica, inalação de gases tóxicos. • Rinoscopia: amplitude exagerada das fossas nasais, certo grau de atrofia, não há crostas. Paciente que trabalha com substâncias tóxicas, vai queimando a mucosa, levando a uma aeração excessiva. Paradoxalmente, o indivíduo tem uma sensação de que não está respirando bem – ele acha que está entupido. Isso se deve à perda de inervação da mucosa, em que não se sente a pressão do ar quando respira. 4. Rinite atrófica ozenosa • Etiologia o Teorias: trigêmeo [deixando de irrigar], endócrina [acomete mulheres em idades de variação hormonal], infecciosa [Klebsiella ozene – depois se viu que não tinha sentido], perturbações congênitas do desenvolvimento dos cornetos, tuberculose, sífilis, sinusite crônica. Toda infecção, de regra, acidifica; isso corrói a mucosa e leva a uma fibrose. • Sintomatologia: é uma tríade – atrofia osteomucosa, crosta sem ulceração e fetidez. As crostas se formam pelo excesso de ar em cima do muco. Não esquecer que a atrofia também envolve o osso. Esse paciente vai ter até obstrução nasal enquanto estiver com as crostas. • Rinoscopia: atrofia, crostas [formadas por excesso de ar em cima do muco]. • Diagnóstico: clínico. • Tratamento: remoção das crostas, lavagem, vitamina A, iodados. o Cirurgia: Lautenschlager-Witmack [Lautenschlager desviou o ducto da parótida para o nariz, o paciente se 5 Louyse Jerônimo de Morais suicidou; já Witmack pegou a fossa nasal, quebrou e afilou o nariz, mas também não deu certo], Renato machado e Cyries [vai por baixo do corneto e bota uma bolsinha de acrílico ou silicone, fechando a mucosa nasal], Cirilo gomes [fez um molde removível da fossa nasal com material de prótese dentária; tava tendo resultado na atrófica grau I e II, na IV a atrofia é tão intensa que o nariz vira um binóculo]. Rinite atrófica ozenosa 5. Rinite vasomotora • Etiologia: instabilidade neurovegetativa - balanceamento do parassimpático e simpático deixa de existir. • Sintomatologia: obstrução, rinorreia serosa. • Diagnóstico: clínico – estresse, insônia, sobrecarga. • Tratamento: tranquilizantes, descongestionantes sistêmicos, soro, galvanocauterização, neurectomia do vidiano [dá muito ressecamento nasal], tratamento psiquiátrico e psicológico. Rinites específicas – granulomas nasais 1. Lepra O primeiro local é no muco nasal. Por conta disso, um dos exames que se faz é a pesquisa do bacilo no muco basal. • Etiologia: bacilo de Hansen. • Sintomatologia: lepromas hemorrágicos, pode aparecer com epistaxe. • Diagnóstico: exame bacteriológico do muco, biópsia, reação de Fernandez e Mitsuda. Tudo acaba em biópsia, porque o maior diagnóstico diferencial é o câncer. • Tratamento: rifampicina, sulfonas, clofazimina. Na fase aguda, talidomida. O casamento real é o DDS dapsona. 2. Tuberculose • Etiologia: bacilo de Kock. o Via hematogênica: por conta da vascularização. o Secreção • Sintomatologia: sangramento ou lesão que só faz diagnóstico com biópsia. • Diagnóstico: exame bacterioscópico, biópsia – observa-se folículos de Kuster. • Tratamento o Dois meses: rifampicina 10 mg/kg/dia; isoniazida 10 mg/kg/dia, pirazinamida 35 mg/kg/dia, etambutol. o Quatro meses: rifampicina, isoniazida. 3. Lues / sífilis • Etiologia: Treponema pallidum – na sífilis primária, ocorre por contaminação digito-ungueal, manifestando-se com cancro duro. • Sintomatologia: protosifiloma – goma. São caroços dentro do nariz, no caso da sífilis terciária. • Diagnóstico: Wassermann, Kohn, VDRL, FTA-ABS. • Tratamento: penicilina 1200 IM de 5 em 5 dias durante 30 dias, tetraciclina 1 g dia 16 dias, aureomicina [uso apenas veterinário]. 4. Leishmaniose • Etiologia: leishmania trópica [cachorros e raposas são hospedeiros], brasiliensis. • Sintomatologia: lesão cutaneomucosa, fazendo destruição, mas só destrói mucosa e cartilagem [para a destruição no osso]. Chega em um ponto em que o paciente adquire aspecto de “fucinho de anta”. 6 Louyse Jerônimo de Morais • Diagnóstico: intradermo reação de Montenegro – biópsia. • Tratamento: glucantine, anfotericina. Esse tratamento só é feito internado. Uma das diferenças para a sífilis é que esta última destrói mucosa e osso e se parece muito com carcinoma indiferenciado, além de se apresentar com secreção amarelo-esverdeada de odor nauseante. Leishmaniose acometendo nariz Qualquer granuloma de nariz na rinite crônica exige biópsia, para fazer diagnóstico diferencial com tumores nasais.