Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

A construção da modernidade 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
MOACIR JOSÉ DOS SANTOS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A CONSTRUÇÃO DA 
MODERNIDADE 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
1ª Edição 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Taubaté 
Universidade de Taubaté 
2014 
 
Copyright©2014. Universidade de Taubaté. 
Todos os direitos dessa edição reservados à Universidade de Taubaté. Nenhuma parte desta publicação pode ser 
reproduzida por qualquer meio, sem a prévia autorização desta Universidade. 
Administração Superior 
Reitor Prof.Dr. José Rui Camargo 
Vice-reitor Prof.Dr. Marcos Roberto Furlan 
Pró-reitor de Administração Prof.Dr.Francisco José Grandinetti 
Pró-reitor de Economia e Finanças Prof.Dr.Luciano Ricardo Marcondes da Silva 
Pró-reitora Estudantil Profa.Dra.Nara Lúcia Perondi Fortes 
Pró-reitor de Extensão e Relações Comunitárias Prof.Dr. José Felício GoussainMurade 
Pró-reitora de Graduação Profa.Dra.Ana Júlia Urias dos Santos Araújo 
Pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação Prof.Dr.Edson Aparecida de Araújo Querido Oliveira 
Coordenação Geral EaD Profa.Dra.Patrícia Ortiz Monteiro 
Coordenação Acadêmica Profa.Ma.Rosana Giovanni Pires 
Coordenação Pedagógica Profa.Dra.Ana Maria dos Reis Taino 
Coordenação Tecnológica Profa. Ma. Susana Aparecida da Veiga 
Coordenação de Mídias Impressas e Digitais Profa.Ma.Isabel Rosângela dos Santos Ferreira 
Coord. de Área: Ciências da Nat. e Matemática Profa. Ma. Maria Cristina Prado Vasques 
Coord. de Área: Ciências Humanas Profa. Ma. Fabrina Moreira Silva 
Coord. de Área: Linguagens e Códigos Profa. Dra. Juliana Marcondes Bussolotti 
Coord. de Curso de Pedagogia 
Coord. de Cursos de Tecnol. Área de Gestão e Negócios 
Coord. de Cursos de Tecnol. Área de Recursos Naturais 
Revisão ortográfica-textual 
Projeto Gráfico e Diagramação 
Autor 
 Profa. Dra. Ana Maria dos Reis Taino 
Profa. Ma. Márcia Regina de Oliveira 
Profa. Dra. Lídia Maria Ruv Carelli Barreto 
Profa. Ma. Isabel Rosângela dos Santos Ferreira 
Me.Benedito Fulvio Manfredini 
Moacir José dos Santos 
Unitau-Reitoria Rua Quatro de Março,432-Centro 
Taubaté – São Paulo CEP:12.020-270 
Central de Atendimento:0800557255 
Polo Taubaté 
 
 
 
Polo Ubatuba 
 
 
 
Polo São José dos Campos 
 Avenida Marechal Deodoro, 605–Jardim Santa Clara 
Taubaté–São Paulo CEP:12.080-000 
Telefones: Coordenação Geral: (12)3621-1530 
Secretaria: (12)3625-4280 
Av. Castro Alves, 392 – Itaguá – CEP: 11680-000 
Tel.: 0800 883 0697 
e-mail: nead@unitau.br 
Horário de atendimento: 13h às 17h / 18h às 22h 
Av Alfredo Ignácio Nogueira Penido, 678 
Parque Residencial Jardim Aquarius 
Tel.: 0800 883 0697 
e-mail: nead@unitau.br 
Horário de atendimento: 8h às 22h 
 
Ficha catalográfica elaborada pelo SIBi 
Sistema Integrado de Bibliotecas / UNITAU 
 
 
 
S 237c Santos, Moacir José dos 
A construção da modernidade / Moacir José dos Santos. Taubaté: UNITAU, 
2011. 
70p. 
ISBN: 978-85-65687-36-2 
Bibliografia 
 
1. Modernidade. 2. Feudalismo. 3. Capitalismo. I. Universidade de Taubaté. II. Título 
 
 
 
PALAVRA DO REITOR 
Palavra do Reitor 
 
 
Toda forma de estudo, para que possa dar 
certo, carece de relações saudáveis, tanto de 
ordem afetiva quanto produtiva. Também, de 
estímulos e valorização. Por essa razão, 
devemos tirar o máximo proveito das práticas 
educativas, visto se apresentarem como 
máxima referência frente às mais 
diversificadas atividades humanas. Afinal, a 
obtenção de conhecimentos é o nosso 
diferencial de conquista frente a universo tão 
competitivo. 
 
Pensando nisso, idealizamos o presente livro-
texto, que aborda conteúdo significativo e 
coerente à sua formação acadêmica e ao seu 
desenvolvimento social. Cuidadosamente 
redigido e ilustrado, sob a supervisão de 
doutores e mestres, o resultado aqui 
apresentado visa, essencialmente, a 
orientações de ordem prático-formativa. 
 
Cientes de que pretendemos construir 
conhecimentos que se intercalem na tríade 
Graduação, Pesquisa e Extensão, sempre de 
forma responsável, porque planejados com 
seriedade e pautados no respeito, temos a 
certeza de que o presente estudo lhe será de 
grande valia. 
 
Portanto, desejamos a você, aluno, proveitosa 
leitura. 
 
 
Bons estudos! 
 
 
 
Prof. Dr. José Rui Camargo 
Reitor 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Apresentação 
Prezado(a) aluno(a), 
o Livro-texto que lhe chega às mãos, A Construção da Modernidade, busca apresentar 
o processo histórico subjacente à constituição da modernidade, que fundamenta a 
experiência social contemporânea. Sua elaboração obedeceu a uma premissa 
fundamental: demonstrar como a complexidade do processo histórico permeia o 
desenvolvimento da historiografia. O principal desafio do historiador é colaborar para o 
avanço do conhecimento em sua seara, sem sucumbir ao anacronismo. Em Apologia da 
História, Marc Bloch nos alerta que toda a história é história do tempo presente. O 
passado é perscrutado a partir das angústias inerentes à nossa experiência histórica. 
Procuram-se no passado respostas para os desafios do presente, daí a tentação de avaliar 
vivências pretéritas sob os valores do presente. Compreender o passado significa estar 
atento às diferenças, apesar de o impulso advir da inserção na sociedade contemporânea. 
E a modernidade configura a própria noção de atualidade. As Unidades do presente 
livro-texto estão estruturadas para responder a esse desafio. Cada uma delas foi 
elaborada para trazer a lume as contribuições da historiografia ao entendimento de 
processos históricos complexos como a transição do feudalismo para o capitalismo; a 
formação do moderno Estado absolutista e sua correlação com a Reforma Protestante e 
a Contra-Reforma Católica; o impacto dos processos de modernização na cultura 
popular, entendida como espaço de resistência de representações culturais que 
fundamentam a existência social de camponeses e trabalhadores urbanos; a emergência 
do capitalismo e a ascensão política da burguesia. 
O objetivo principal do livro-texto é balizar os principais temas relacionados à 
construção da modernidade, entendida, simultaneamente, como experiência histórica e 
conceito relativo à compreensão da modernidade, atualmente sob o signo do 
capitalismo. Daí a pertinência de compreender processos históricos de longa duração, 
que incidem sobre a sua conjuntura de constituição, no caso entre os séculos XV e 
XVIII, com reflexos na experiência contemporânea. 
 
 
 
 
Sobre o autor 
 
 
MOACIR JOSÉ DOS SANTOS: Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista 
Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Professor assistente doutor do Departamento de 
Comunicação Social na disciplina Estética e História da Arte e do Programa de Mestrado 
em Planejamento e Desenvolvimento Regional da Universidade de Taubaté (UNITAU). 
e-mail: santos.mj@ig.com.br 
 
 
 
 
 
Caros(as) alunos(as), 
Caros( as) alunos( as) 
O Programa de Educação a Distância (EAD) da Universidade de Taubaté apresenta-se 
como espaço acadêmico de encontros virtuais e presenciais direcionados aos mais 
diversos saberes. Além de avançada tecnologia de informação e comunicação, conta 
com profissionais capacitados e se apoia em base sólida, que advém da grande 
experiência adquirida no campo acadêmico, tanto na graduação como na pós-graduação, 
ao longo de mais de 35 anos de História e Tradição. 
Nossa proposta se pauta na fusão do ensino a distância e do contato humano-presencial. 
Para tanto, apresenta-se em três momentos de formação: presenciais, livros-texto e Web 
interativa. Conduzem esta proposta professores/orientadores qualificados em educação a 
distância, apoiados por livros-texto produzidos por uma equipe de profissionais 
preparada especificamente para este fim, e por conteúdo presente em salas virtuais. 
A estrutura interna dos livros-texto é formada por unidades que desenvolvemos temas e 
subtemas definidos nas ementas disciplinares aprovadas para os diversos cursos. Como 
subsídio ao aluno, durante todo o processo ensino-aprendizagem, além de textos e 
atividades aplicadas, cada livro-texto apresenta sínteses das unidades, dicas de leituras e 
indicação de filmes, programas televisivos e sites, todos complementares ao conteúdo 
estudado. 
Os momentos virtuais ocorrem sob a orientação de professores específicos da Web. Para 
a resolução dos exercícios, como para as comunicações diversas, os alunos dispõem de 
blog, fórum, diários e outras ferramentas tecnológicas. Em curso, poderão ser criados 
ainda outros recursos que facilitem a comunicação e a aprendizagem. 
Esperamos, caros alunos, que o presente material e outros recursos colocados à sua 
disposição possam conduzi-los a novos conhecimentos, porque vocês são os principais 
atores desta formação. 
Para todos, os nossos desejos de sucesso! 
Equipe EAD-UNITAU 
 
 
 
 
Sumário 
 
Palavra do Reitor ............................................................................................................. ix 
Apresentação ................................................................................................................... xi 
Sobre o autor .................................................................................................................. xiii 
Caros(as) alunos(as) ....................................................................................................... xv 
Ementa .............................................................................................................................. 1 
Objetivos ........................................................................................................................... 2 
Introdução ......................................................................................................................... 3 
Unidade 1. Do feudalismo para o capitalismo: Transição entre mundos ......................... 7 
1.1 Desafios historiográficos da passagem do feudalismo ao capitalismo ....................... 7 
1.2 Feudalismo: características e contradições ............................................................... 11 
1.3 A crise do feudalismo e a acumulação primitiva do capital ..................................... 15 
1.4 Síntese da Unidade ................................................................................................... 19 
1.5 Atividades ................................................................................................................ 19 
1.6 Para saber mais ......................................................................................................... 20 
Unidade 2. Rumo à modernidade: o renascimento científico e cultural e as reformas 
religiosas ......................................................................................................................... 21 
2.1 O renascimento cultural e científico ......................................................................... 21 
2.2 Reforma-Protestante e Contra-Reforma Católica ..................................................... 26 
2.3 Cultura popular: resistência e adaptação aos desdobramentos da modernidade ...... 31 
2.4 Síntese da Unidade ................................................................................................... 35 
2.5 Atividades ................................................................................................................. 35 
2.6 Para saber mais ......................................................................................................... 35 
Unidade 3. A ascensão econômica da burguesia ............................................................ 37 
 
3.1 O novo mundo e a modernidade: as grandes navegações ........................................ 37 
3.2 Revoluções Inglesas do século XVII: a burguesia no poder .................................... 41 
3.3 A luz da razão: arte, ciência e a secularização ......................................................... 46 
3.4 Síntese da Unidade ................................................................................................... 51 
3.5 Atividades ................................................................................................................. 51 
3.6 Para saber mais ........................................................................................................ 51 
Unidade 4. A ascensão política da burguesia: contestação e legitimação ...................... 53 
4.1 A burguesia e os contratos sociais ............................................................................ 53 
4.2 Rosseau: a crítica à propriedade ............................................................................... 59 
4.3 Modernidade: a consolidação da dinâmica capitalista ............................................. 62 
4.4 Síntese da Unidade ................................................................................................... 65 
4.5 Atividades ................................................................................................................. 66 
4.6 Para saber mais ......................................................................................................... 66 
Referências ..................................................................................................................... 67 
 
 
 
 
 
 
11 
 
 
ORGANIZE-SE!!! 
Você deverá usar de 3 
a 4 horas para realizar 
cada Unidade. 
 
A construção da 
modernidade 
 
 
 
Ementa 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
EMENTA 
 
 
A transição do feudalismo para o capitalismo; reflexões sobre a 
periodização; crise do feudalismo; a acumulação primitiva do capital; a 
gestação e a natureza do Estado Moderno. Renascimento e Reforma. Cultura 
Popular: 1500/1650. A revolução burguesa na Inglaterra e o início do 
capitalismo no campo, o liberalismo econômico conflitando com o 
mercantilismo. As grandes navegações e os contatos com o “Novo Mundo”. 
A ampliação do poder da Inquisição e sua atuação no “Novo Mundo”. 
 
 
 
22 
 
Objetivo Geral 
Discutir no campo historiográfico as principais temáticas referentes à 
construção da modernidade. 
 
Obj eti vos 
Objetivos Específicos 
• Problematizar as construções historiográficas sobre a formação da 
modernidade; 
• Discutir aspectos das diversidades sociais, culturais, econômicas e 
políticas nos séculos XIV-XVIII na Europa; 
• Analisar o contexto de consolidação das estruturas liberal-burguesas no 
século XVIII. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
33 
 
 
Introdução 
O que é a modernidade? O que significa ser moderno? Moderno é o oposto do 
tradicional, conservador? Apesar da popularização do termo, a reflexão sobre a 
modernidade não é corrente entre a população. E esse paradoxo não é casual. No senso 
comum, consolidou-se a acepção rasa do moderno ou da modernidade como equivalente 
à novidade, ao inédito, ao que ainda não foi experimentado. Tal percepção produziu um 
uso mecânico do conceito. Contudo, para os pesquisadores e estudantes dedicados à 
compreensão da história, da geografia, da antropologia, da filosofia e das ciências 
sociais, é imprescindível adquirir um entendimento da própria complexidade que gerou 
e sustenta a modernidade. Sem o seu alcance, a atuação destes profissionais é bastante 
limitada quanto à formação e atuação profissional. A responsabilidade relacionada à 
aquisição do conhecimento equivale à superação do senso comum. 
Para os homens que viveram durante o Renascimento Cultural e Científico dos séculos 
XIV, XV e XVI, ser moderno equivalia a observar e praticar os valores elaborados na 
antiguidade clássica por gregos e romanos. A busca da beleza, da sabedoria e da 
perfeição, praticada pelos antigos, inspirava os homens da Renascença, que 
consideravam a experiência estéticae cognitiva dos gregos e dos romanos mais que um 
modelo. Para os renascentistas, o ápice da experiência humana foi alcançado na 
antiguidade greco-romana. O desejo dos renascentistas equivalia à recuperação dos 
parâmetros cognitivos e artísticos greco-romanos como o caminho para experimentar 
um novo período de gloriosas realizações para a humanidade. Repetir o passado e o 
conhecido, eis o ideal consagrado durante o Renascimento Cultural e Científico. 
O moderno e a modernidade correspondiam ao passado, ao experimentado, e não ao 
inédito – o que é bastante distinto da percepção contemporânea. Então, o que explica 
essa alteração? Quais mudanças históricas possibilitaram uma mudança diametral entre 
o Renascimento Cultural e Científico e o período atual, quanto à definição do que 
significa ser moderno? Apenas o estudo da história relativo à construção da 
modernidade pode revelar com acuidade os fatores sociais, econômicos e políticos 
 
 
 
44 
 
pertinentes à transformação da modernidade, de um ideal conectado aos valores e 
parâmetros da antiguidade greco-romana para a expressão da busca por mudança 
constante, por incessantes artefatos tecnológicos e experiências novas. 
O presente livro-texto busca apresentar e discutir com você, caro leitor, os fundamentos 
históricos da modernidade. Trata-se de uma lide fundamental para a compreensão da 
complexidade da experiência contemporânea, pautada exatamente nos valores 
consolidados com a modernidade ocidental e capitalista que emergiu da superação do 
conceito clássico de modernidade. Os valores da modernidade são vivenciados, 
praticados todos os dias por todos nós. O trabalho, o entretenimento, a política, a 
economia e as expectativas acerca do futuro estão fundamentadas nas percepções e 
valores consagrados e difundidos com a modernidade. 
Essa transição, entretanto, foi absolutamente complexa. As Unidades deste livro-texto 
apresentam essa passagem em suas nuances fundamentais, com o cuidado de identificar 
os fatos históricos, problematizá-los quanto às suas consequências e discutir as 
diferentes abordagens historiográficas que permearam a sua compreensão. A realização 
deste procedimento fundamenta-se na própria necessidade de consolidar uma adequada 
percepção dos fundamentos históricos da modernidade. 
Sob esta perspectiva, a primeira Unidade busca apresentar a diluição do feudalismo e a 
emergência do capitalismo, particularmente quanto aos seus aspectos mais decisivos 
como a acumulação primitiva do capital e a formação e a consolidação do estado 
moderno absolutista. Esse procedimento é realizado em conjunto com a discussão 
acerca da periodização da crise do feudalismo que marca a historiografia dedicada ao 
seu debate. 
A segunda Unidade objetiva explorar dois fenômenos históricos correspondentes à crise 
do feudalismo e a transição para o capitalismo: a recuperação da cultura humanista e da 
própria valorização do conhecimento científico, representada com a constituição do 
Renascimento Cultural e Científico; a Reforma Protestante e a Contra-Reforma Católica 
que, simultaneamente, resultaram na emergência dos modernos estados absolutistas e 
para ela colaboraram, ao acentuarem a ruptura entre o poder temporal e o secular na 
 
 
 
55 
 
Europa entre os séculos XVI e XVII. E, como parâmetro a essas intensas mudanças que 
contaram com a acentuada participação da burguesia e da nobreza do período, ocorrerá 
a problematização da cultura popular europeia. É importante observar que a renovação 
da historiografia no século XX equivaleu à incorporação das massas ao estudo da 
história. Até o início do século passado a maioria silenciosa, cuja experiência não era 
considerada digna de registro, estava ignorada nos manuais historiográficos. Todavia, a 
experiência da cultura popular é estratégica para o entendimento das tensões e conflitos 
que permearam a construção da modernidade. 
A terceira Unidade apresenta a ascensão da burguesia como um movimento histórico 
conectado a dois objetivos: a conquista de vantagens econômicas e a aquisição de poder 
político. Ambos intimamente ligados. A história da burguesia demonstra que o poder 
econômico somente é pleno com o controle ou ao menos a participação no exercício do 
poder. As mudanças históricas que acompanharam a transição do feudalismo para o 
capitalismo e a constituição do estado absolutista provocaram tensões poderosas quanto 
à organização e ao exercício do poder. Os conflitos relativos ao ciclo da Reforma 
Protestante e da Contra-Reforma Católica evidenciaram o quanto a efetivação da 
modernidade conectada à emergência do capitalismo provocava a necessidade de 
constituição de formas sociais correspondentes à dinâmica do capital. E a revolução 
burguesa na Inglaterra foi o primeiro passo para a efetivação de Estados burgueses 
adequados à reprodução e expansão do capital. Neste sentido, as grandes navegações e 
a conquista do novo mundo, a América, constituem momentos ímpares para a aquisição 
dos recursos necessários à consolidação de uma modernidade que, embora inspirada na 
Antiguidade greco-romana, distanciou-se diametralmente do modelo original na medida 
em que alcançou efetivação. 
A última Unidade empreende uma reflexão acerca dos desdobramentos históricos e 
sociais dos fatos e processos apresentados e analisados nas Unidades anteriores. A 
construção da modernidade é um processo complexo caracterizado por conflitos e 
tensões. Sua efetivação equivaleu a séculos de transformações que efetivaram atual 
percepção acerca da modernidade. A busca por novidades e ineditismo acompanha a 
modernidade contemporânea. Mas antes de experimentar a atual configuração, 
 
 
 
66 
 
vinculada ao consumo e à reprodução do capital, a modernidade foi historicamente 
construída. Primeiro, como uma ruptura em relação ao feudalismo e às formações e 
valores sociais e ele pertinentes, cujo modelo de oposição foi a antiguidade greco-
romana. E, depois, a partir de uma configuração própria, assentada na produção e na 
circulação do capital que alterou drasticamente a ordenação do poder, da economia e do 
espaço. 
A elaboração do livro-texto corresponde a uma necessidade didática e cognitiva. 
Didática por estar inserida na formação dos leitores que agora o manuseiam em busca 
da formação que escolheram. E cognitiva por colaborar para a ampliação da percepção 
sobre a história e a densidade dos processos que permeiam. Afinal, o desconhecimento 
da história implica na sua repetição, inclusive com todos os conflitos e mazelas 
anteriormente experimentados. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
77 
 
 
Unidade 1 
Unidade 1 . Do feudalismo para o capitalismo: 
Transição entre mundos 
 
Nesta Unidade, vamos estudar os desafios para a compreensão da passagem do 
feudalismo para o capitalismo, particularmente quanto ao impacto deste processo 
histórico para a efetivação da modernidade. Entende-se, neste livro-texto, a construção 
da modernidade sob uma dupla condição histórica. Primeiro, como momento da história 
ocidental, entre os séculos XV e XVIII, que congrega processos históricos densos 
relativos à constituição do capitalismo; portanto, decisivos para as formas sociais 
contemporâneas análogas à industrialização e ao predomínio da tecnologia em todos os 
aspectos da produção da vida social. E, segundo, enquanto fenômeno histórico que 
produz uma série de valores que consagram o individualismo, o conhecimento e a 
emancipação das tradições como um modo de vida natural, mas que na verdade revelam 
a consolidação da perspectiva social que emergiu junto com a burguesia. Daí, a 
necessidade de refletir sobre a periodização histórica para mensurar a complexidade da 
transição do feudalismo para o capitalismo. 
 
1.1 Desafios historiográficos da passagem do feudalismo ao 
capitalismo 
Entre as principais dificuldades para a compreensão do passado está adistância de 
valores e comportamentos entre as populações do presente e dos períodos que nos 
antecederam. Quanto mais elevada a distância temporal, maior a probabilidade de 
 
 
 
88 
 
estranhamento – isso, entretanto, não constitui uma regra, afinal há elementos do 
passado que ainda são vivenciados na atualidade. O fascínio da história está atrelado à 
essa dupla condição. É uma condição ambígua ao ofício do historiador. Interlocutor 
privilegiado das relações entre o passado e o presente, o historiador está mais atento às 
continuidades e rupturas entre o pretérito e o contemporâneo. Por exemplo, os romanos, 
nos legaram o Direito e a língua portuguesa, derivada do latim. Deste modo, aquele 
passado ainda subsiste entre nós. Essa constatação, entretanto, não significa que o 
passado constitui um espaço temporal cujo conhecimento apresenta poucos desafios, ao 
contrário. 
É possível afirmar que os tempos idos configuram outros mundos em uma comparação 
cuidadosa com a ficção científica. E o estranhamento é necessário para evitar o pecado 
mortal que circunda o estudo da história: o anacronismo. E o que é anacronismo? 
Sinteticamente é avaliar o passado a partir dos valores e referências do presente. A 
idade média, período cronológico que circunscreve o feudalismo, encerrou uma 
dinâmica histórica muito distinta daquela experimentada no período contemporâneo. 
Sua compreensão exige distanciamento, principalmente para o objetivo da presente 
Unidade: fundamentar a transição do feudalismo para o capitalismo. 
Antes de estabelecer as características do feudalismo, é necessário distinguir cronologia, 
enquanto técnica necessária à organização do tempo, de processo histórico, pois o 
feudalismo não pode ser confundido com a idade média. A tendência à confusão decorre 
do recurso à periodização convencional e eurocêntrica para estruturar a divisão do 
tempo histórico e facilitar o estudo da história. Pré-história, idade antiga, idade média, 
idade moderna e idade contemporânea correspondem à percepção burguesa da história 
humana, desenvolvida e consagrada no momento em que ocorria a profissionalização do 
estudo e do ensino da história no século XIX, em particular nos recentemente estados-
nação constituídos após a derrocada das monarquias absolutistas europeias 
(HOBSBAWM, 2008). O século XIX corresponde ao alcance da maturidade da 
modernidade, enquanto expressão das características do capitalismo. E a defesa dos 
pressupostos ideológicos do capitalismo estava sob o encargo de vários grupos que 
 
 
 
99 
 
apesar das diferenças compartilhavam da crença no progresso que o capitalismo 
industrial parecia representar. 
Entre os defensores daquela nova ordem estavam os positivistas liderados por Comte. 
Inspirado nas ciências da natureza, o filósofo francês acreditava na premência de 
organizar as ciências sociais com uma estrutura análoga, fundamentalmente pautada em 
leis sociais. Para Comte, a Física constituía o modelo a ser seguido por historiadores, 
geógrafos, sociólogos e antropólogos, principalmente por fundamentar seu legado em 
leis naturais e universais, a exemplo da gravidade descrita por Newton. Para Comte, as 
ciências sociais têm como missão descobrir as leis sociais que ordenam o 
funcionamento da sociedade. A contribuição dos historiadores residiria na descoberta 
das leis históricas que determinavam o desenvolvimento humano. Para tanto, a 
organização da história enquanto disciplina cientificamente estruturada tornava-se 
urgente (NOVAES; FORASTIERI, 2011). Daí a expressão dos valores que permeavam 
a sociedade europeia naquele momento histórico. Afinal, a objetividade científica, do 
ponto de vista da história, é uma ilusão. A busca por conhecimento é impulsionada por 
crenças que justificam como as informações são transformadas em conceitos que 
orientam a estruturação da sociedade. 
No século XIX o poder dos principais países europeus atingiu seu ápice, alcançando 
todo o globo. Essa dominação recorria a dois expedientes. O poder econômico de 
nações como a Inglaterra, França, Bélgica, Holanda e, mais tardiamente, a Alemanha, 
impulsionado pela industrialização; e o poder militar, como o domínio de amplos 
territórios na África e na Ásia. A justificativa ideológica residia na crença do fardo do 
homem branco. A conquista assentava-se na pretensa superioridade europeia, cujo fardo 
histórico, levar as luzes da ciência e do progresso aos povos atrasados, legitimava a 
violência e a usurpação dos recursos de outros povos. Na mentalidade predominante 
entre os europeus, o preconceito e o exercício arbitrário de poder contra outras 
populações estava justificado. E a história era instrumentalizada com esse intuito. A 
organização cronológica da história correspondia, portanto, à consolidação e validação 
de uma interpretação eurocêntrica do desenvolvimento humano, com a rejeição de todas 
as experiências distintas da matriz europeia. Clio teceu sua trajetória a favor dos 
 
 
 
1100 
 
europeus, na interpretação dos positivistas que a organizaram. Ao buscar a validação 
das ações dos novos Estados-nação europeus, os historiadores do século XIX reduziram 
a dinâmica da história a uma mecânica simplista de causa e efeito, centralizada na ação 
dos grandes líderes que supostamente colaboraram para um avanço linear da história em 
prol daquele momento. 
Essa conjuntura explica a confusão que se estabeleceu entre feudalismo e idade média. 
Apesar de a divisão cronológica entre pré-história, idade antiga, idade média, idade 
moderna e idade contemporânea ensejar uma percepção limitada dos processos 
históricos, ela ainda é mantida com o fito de fornecer uma orientação temporal para os 
estudos da história, desprovida de uma acepção conceitual. Convencionou-se, entre os 
historiadores, que a estruturação dos períodos históricos para localização cronológica 
não é análoga à delimitação dos processos históricos. Por exemplo, o início do período 
medieval é delimitado com a queda do Império Romano do Ocidente em 476 d. C. e seu 
término corresponde à derrocada da contraparte oriental sob o jugo do Império 
Otomano, conhecida como Império Romano do Oriente ou Império Bizantino, em 1453 
d. C. Não existia uma indicação para os contemporâneos destas datas sobre o início ou o 
fim de um período denominado idade média. As percepções históricas daqueles homens 
e mulheres eram outras e estavam fundamentadas em vivências específicas. Esta 
nomenclatura foi elaborada posteriormente, durante o Renascimento Cultural e 
Científico. 
A complexidade do processo histórico reside nas múltiplas temporalidades que 
permeiam cada período histórico. O fim do Império Romano do Ocidente não iniciou, 
imediatamente, o feudalismo. A elaboração das suas principais características foi lenta e 
atingiu o apogeu, na Europa ocidental, aproximadamente, no século X. E, 
simultaneamente, em outras regiões do planeta, existiram outras formações sociais. A 
decadência do feudalismo foi lenta e complexa. Sua crise foi entremeada com a 
ascensão de outro sistema econômico, o capitalismo, que por sua vez experimentou 
transformações durante vários séculos até atingir sua forma atual, a industrial. Em 
diversas regiões da Europa, como a França do século XVIII, elementos da estrutura 
 
 
 
1111 
 
DICA DE LEITURA 
BLOCH, M. Apologia da história ou o oficio do historiador. Rio de Janeiro: Jorge 
Zahar Ed., 2002 
Obra fundamental para todos que pretendem compreender as nuances das lides dos 
historiadores. Demarca o território da história em relação às demais ciências sociais 
principais e realiza um fecundo debate acerca dos dilemas que permeiam a elaboração 
do saber historiográfico. 
econômica e social do feudalismo coexistiram com a transição do capitalismo da forma 
mercantil para a industrial. 
 
 
1.2 Feudalismo: características e contradições 
As características do feudalismo permitem defini-locomo um sistema rígido e voltado 
para a manutenção de uma estabilidade vegetativa. Sua formação decorreu da 
decadência do Império Romano, iniciada antes da sua divisão em dois Estados com 
sedes no Ocidente, Roma, e no Oriente, Constantinopla. O ápice do sistema feudal foi 
alcançado por volta do século X d. C. e resultou de um processo de longa duração. O 
conceito consagrado por Braudel permite entender como dificuldades inerentes às 
estruturas do Império Romano colaboraram significativamente para a gestação do 
feudalismo. Marx afirma que todos os sistemas produtivos contêm contradições internas 
pertinentes à sua própria reprodução, cujo acúmulo provoca mudanças que podem ser 
classificadas como crise do sistema produtivo (MARX, 2001). O conjunto das 
dificuldades favorece a alteração do sistema produtivo por meio da constituição de 
novas formas de produção econômica que inevitavelmente alteram, também, as 
estruturas política e social da sociedade. 
A decadência do Império Romano e a constituição do feudalismo constituem um 
exemplo clássico de crise do sistema produtivo que favorece a formação de um novo 
conjunto de estruturas produtiva, política e social. A ironia percebida por Marx, que não 
 
 
 
1122 
 
é exclusiva à história romana, é o esforço dos contemporâneos por deter uma mudança 
cuja compreensão supera o horizonte histórico de um indivíduo. Provavelmente poucos 
romanos suporiam que o império poderia sucumbir em razão da própria estrutura 
produtiva que impulsionou a sua expansão, o escravismo. Entretanto, a partir do século 
I d. C., a impossibilidade de manter as contínuas conquistas territoriais, em razão dos 
custos financeiros e militares para o Estado romano, provocou a interrupção do fluxo de 
escravos resultantes; a principal consequência disso, a longo prazo, foi o 
enfraquecimento das estruturas econômicas que viabilizavam o poder de Roma. A lenta 
decadência ensejou a busca de diversas soluções como a adoção da servidão rural, que 
atrelou os camponeses à terra no século III d. C. E o traço típico do feudalismo presente 
no próprio Império Romano foi a ruralização. O esvaziamento das cidades foi um 
sintoma muito forte da crise estrutural que destruiu o maior império da antiguidade. 
Afinal, em comparação a outras importantes sociedades do período, Roma possuía a 
vida urbana mais efervescente e complexa. As cidades romanas constituíram polos de 
cultura, entretenimento, religiosidade e atividade econômica, tanto comercial quanto 
produtiva. Somente com o Renascimento Cultural e Científico as cidades voltaram a 
adquirir status comparável ao usufruído durante o Império Romano. 
Outro fator relativo à formação do feudalismo foram as sucessivas invasões bárbaras. 
Todos os povos externos aos domínios do Império Romano recebiam essa classificação 
pejorativa. Para os romanos, somente a sua organização política e econômica constituía 
de fato uma civilização. Além, existiam povos marcados por superstições e ignorância, 
não importando seu nível de riqueza material ou estrutura social. A decadência romana 
tornou ineficiente a organização militar que durante séculos expandiu e depois manteve 
as fronteiras do Estado romano. Os povos bárbaros foram favorecidos em sua busca por 
terras e recursos naturais e sua penetração no território romano ocorreu por ao menos 
dois séculos antes da extinção do Império Romano do Ocidente, em 476 d. C. 
Os povos bárbaros não podem ser simplificados sob essa alcunha. Além das diferenças 
étnicas e de organização, esses grupos não estavam unidos contra o Império Romano 
sob uma única liderança. Inclusive, guerras entre esses grupos eram frequentes. Muitos 
líderes bárbaros negociaram com as autoridades romanas a ocupação de terras do Estado 
 
 
 
1133 
 
com o compromisso de manter a lealdade ao Império Romano, cultivando as terras, 
obedecendo às leis e lutando contra os demais povos bárbaros que estavam na posição 
de adversários dos interesses do Estado. Mas todos esses grupos contribuíram antes e 
depois da extinção do Império Romano do Ocidente com as instituições e práticas que 
moldaram o feudalismo, particularmente quanto à descentralização política e a 
fragmentação territorial, uma vez que todas as tribos bárbaras estavam cindidas. 
Rivalidades e interesses particulares impediam a formação de uma organização estatal 
remotamente centralizada e sólida como foi o Império Romano. 
As características do feudalismo conjugam, portanto, elementos da fase final do Império 
Romano com contribuições dos grupos bárbaros. Descentralização do poder, 
fragmentação territorial, economia pautada na agricultura de subsistência, trabalho 
servil, escassa circulação monetária, reduzida atividade comercial com prevalência do 
escambo conformaram o sistema econômico e político feudal. A única instituição 
presente em todo continente, com capacidade de articulação, conjugando poder 
temporal e espiritual foi a Igreja Católica, que desempenhou papel decisivo como força 
opositora à construção da modernidade. O papel histórico desempenhado pela 
instituição é abordado nas próximas Unidades para favorecer a melhor compreensão da 
sua atuação. 
Le Goff (2007) caracteriza a sociedade feudal como organizada basicamente em três 
ordens sociais ou estamentos. Os guerreiros (nobres); aqueles que oravam (religiosos 
cristãos divididos em alto e baixo clero em razão da origem social; os oriundos da 
nobreza controlavam as principais posições eclesiásticas, enquanto aqueles que 
procediam das camadas mais baixas ocupavam as posições subalternas) e os 
trabalhadores (majoritariamente camponeses submetidos ao regime de servidão). As 
relações de suserania e vassalagem definiam a hierarquia entre os nobres. Os mais 
poderosos distribuíam terras para outros nobres sob o compromisso de vassalagem que 
obrigava o vassalo a atender o senhor que o beneficiara com a cessão de terras, o 
suserano. Não era incomum um vassalo ser também suserano, pois não havia 
impeditivos para a cessão de parte de seu feudo a outros nobres desde que preservada a 
lealdade ao seu próprio suserano. A complexidade do feudalismo deriva das sucessivas 
 
 
 
1144 
 
fragmentações territoriais e políticas que o sistema de vassalagem produzia. Na prática 
o sistema era bastante confuso e oportunizava conflitos constantes entre os nobres que 
trocavam sua lealdade conforme os acordos estabelecidos quanto ao controle da terra. 
As minúcias do sistema de vassalagem possibilitavam o recurso a diversos subterfúgios 
para o rompimento de compromissos anteriores e a composição de novas alianças na 
perene disputa por terras. Neste contexto, os reis ocupavam uma função quase 
simbólica, com poder reduzido e quase sempre escasso perante os principais senhores 
feudais. 
A decadência do sistema feudal é relativa ao rompimento das características acima 
apresentadas. Após o século X, pequenas mudanças na estrutura produtiva 
impulsionaram um tímido desenvolvimento econômico, suficiente, entretanto, para 
romper o ciclo produtivo caracterizado por uma produção econômica essencialmente de 
subsistência. Nos séculos XI e XII, novas técnicas de cultivo, além de formas inéditas 
de exploração dos animais e da técnica conhecida, elevaram a produção agrícola, 
produzindo o excedente necessário ao fortalecimento da reduzida atividade comercial. 
A retomada da atividade comercial favoreceu a expansão monetária necessária para a 
busca de novos mercados. Criou-se um ciclo virtuoso. A base metalista da economia 
estimulava esse novo traço na fechada sociedade feudal europeia. Afinal, as moedas 
adquiriam valor em função da maior ou menor presença de metal precioso na sua 
composição, preferencialmente ouro e prata. Buscar fontes de metais preciosos, 
escassos no continente europeu, constituía procedimento essencial para manter os 
rendimentos da renascida atividade comercial. 
Essa tendênciafoi fortalecida por um conjunto de ações patrocinadas pela Igreja, as 
cruzadas. O intuito de retomar o controle da Terra Santa favoreceu o comércio. O 
deslocamento de peregrinos, soldados e colonos para Jerusalém e os territórios 
conquistados pelos cruzados foi crucial por favorecer o impulso decisivo à atividade 
comercial. Produtos até então restritos aos feudos europeus são enviados ao Oriente em 
troca de especiarias, tecidos e metais preciosos. O ciclo das cruzadas permitiu a 
constituição de uma classe social forte e distinta dos estamentos medievais: a burguesia. 
A busca por lucros e a desvinculação das tradicionais funções das demais ordens como a 
 
 
 
1155 
 
agricultura, o pastoreio, a oração e a guerra singularizavam a burguesia. Vistos com 
desconfiança por nobres e religiosos, os burgueses se tornaram essenciais para a 
expansão da atividade comercial. Ironicamente, o comércio que também beneficiava o 
clero e a nobreza provocaria o fim do feudalismo. Mas, assim como ocorreu com os 
romanos, não havia a possibilidade dos guerreiros e sacerdotes preverem o fim do 
sistema econômico e social que os favorecia em razão da recuperação do comércio. Foi 
a longa duração da transição do feudalismo para o capitalismo que obliterou a 
percepção dos principais estamentos feudais. O marxista Hobsbawm (1998) lembra que 
o próprio Le Goff, arguto historiador das mentalidades medievais, atribui a instituição 
do conceito religioso de purgatório à necessidade da Igreja Católica de ampliar a sua 
arrecadação de impostos. O purgatório propiciava um subterfúgio aos burgueses ávidos 
por emprestar capital a juros para aumentar seus lucros, o que, em última instância, 
beneficiava tanto a Igreja Católica por elevar o total arrecadado com os impostos 
eclesiásticos quanto aliviava a consciência dos burgueses temerosos em relação a uma 
possível condenação ao inferno. 
 
1.3 A crise do feudalismo e a acumulação primitiva do capital 
A crise do feudalismo decorreu da retomada da atividade comercial a partir do século 
XI. Entretanto, a retomada das relações comerciais não explica satisfatoriamente a 
passagem do feudalismo para o capitalismo. A adequada compreensão da crise feudal é 
alcançada com a aplicação do conceito de acumulação primitiva do capital, elaborado 
por Karl Marx. O filósofo alemão objetivava explicar a formação histórica do 
capitalismo. Para alcançar o seu objetivo, Marx organizou várias categorias explicativas 
concernentes a cada mecanismo necessário à formação do capital. Afinal, o capitalismo 
é precedido pela formação do capital. E Marx identifica na crise do feudalismo o início 
da acumulação primitiva do capital que impulsionou, posteriormente, o 
desenvolvimento e a consolidação do capitalismo industrial (2005). 
A ação comercial da burguesia foi o primeiro momento deste processo. A acumulação 
primitiva do capital antecedeu o capitalismo. Para Marx, a produção capitalista tem 
 
 
 
1166 
 
como fundamento a concentração dos meios de produção e a transformação da maioria 
dos indivíduos em trabalhadores assalariados. E a existência simultânea de formas de 
produção não capitalistas não impede a acumulação de capital. Inclusive, há formas 
econômicas não capitalistas que podem ser complementares e necessárias à expansão 
capitalista. Essa condição explica por que a acumulação primitiva de capital ocorreu 
durante a transição do feudalismo para o capitalismo. A própria desagregação do 
feudalismo resulta da expansão da acumulação primitiva do capital. 
Para Marx, a retirada do controle dos meios de produção da parcela dos camponeses e 
artesãos que os controlavam ensejou a formação de uma força de trabalho livre e 
pauperizada o suficiente para favorecer a exploração dos trabalhadores por parte do 
capital. A crise do feudalismo implicou no contínuo aumento do capital sob controle da 
burguesia, o que correspondeu à perda de poder econômico da nobreza, vinculada à 
exploração direta da terra. 
A acumulação primitiva do capital ocorreu mediante um processo de longa duração. O 
primeiro momento correspondeu às cruzadas que reativaram as relações comerciais 
entre o Ocidente e o Oriente. Porém, a agonia do sistema feudal foi lenta. As relações 
feudais de produção e suas formas correspondentes não desapareceram subitamente. 
Nas franjas das sociedades europeias ou no além mar, subsistiram onde poderiam 
ensejar relações econômicas e de poder necessárias ao desenvolvimento do capitalismo. 
Daí, por exemplo, a servidão indígena no Novo Mundo. Nos séculos XVI e XVII, a 
servidão foi a principal forma de exploração do trabalho indígena na América 
espanhola. 
As relações comerciais constituíam uma das formas da acumulação primitiva de capital. 
A ascensão burguesa também envolveu a atuação financeira e produtiva. Frações 
burguesas controlaram bancos e estruturas produtivas rurais e manufatureiras. A 
desvinculação da burguesia dos compromissos estamentais que definiam a nobreza e o 
clero ensejou a liberdade de movimentação espacial e social adequada à sua ascensão. 
Nobres e membros do alto clero compartilhavam da mesma origem social e também as 
barreiras que impediam os respectivos membros de atuarem como agentes comerciais. 
Para um nobre ou clérigo, o trabalho associado à experiência burguesa constituía uma 
 
 
 
1177 
 
desonra. Eleitos por Deus, segundo a doutrina cristã vigente, os nobres e os clérigos 
possuíam outras responsabilidades. A atividade vil que o trabalho propiciava estava 
reservada a todos os descendentes de Adão maculados mais intensamente com o pecado 
original. Esta mentalidade predominou por séculos, mesmo com a erosão do sistema 
feudal de produção. Por exemplo, no Brasil colônia, a posse de terras equivalia à mais 
alta distinção social, ecoando a permanência de uma mentalidade histórica que 
associava a renda advinda da terra a prestígio. Fragoso (1998) relata casos de traficantes 
de escravos que abandonaram essa atividade para dedicar-se à menos rentável posse de 
terras. 
A burguesia não experimentava essas limitações. Sua atuação podia ocorrer em 
qualquer atividade que propiciasse retorno financeiro. E a relação da nova classe social 
com a nobreza e o clero implicou, ao mesmo tempo, em competição e no 
compartilhamento de interesses comuns. O exemplo do purgatório ilustra como a 
ascensão da burguesia, sob determinadas circunstâncias, interessava ao clero. Enquanto 
a prática direta da usura estava vedada à nobreza e ao clero, a burguesia poderia recorrer 
a esse expediente para manter a acumulação e a expansão do capital. A especulação 
financeira foi uma oportunidade ímpar para a burguesia, cujos efeitos colaterais 
satisfizeram os nobres e a Igreja, que não se atentaram para a falência, durante esse 
processo, do sistema social, político e econômico que propiciava o seu poder. Aluguéis, 
rendimentos diversos, compra de propriedades durante crises financeiras e revenda 
altamente rentável nos períodos de recuperação foram alguns dos expedientes utilizados 
pela burguesia durante a transição do feudalismo para o capitalismo. 
Outras fases sucederam-se e tornaram cada momento da acumulação primitiva mais 
dinâmico e complexo, permitindo novas fases mais densas quanto aos recursos gerados 
e à expansão das formas de produção capitalista. No século XIV, ocorre em algumas 
regiões europeias a contratação de mão de obra para manufaturas, bem como a obtenção 
dos recursos físicos, técnicos e financeiros para viabilizar o desempenho das forças 
produtivas, o que correspondeu à superação de uma fase da acumulação primitiva 
pautada apenas nas trocas comerciais. A produção passa a ser fundamental para a 
ascensão capitalista. O excedente decorre de várias formas de exploração, desde o 
 
 
 
1188 
 
trabalho dos camponeses e dos artesãos urbanos até à extração comercial dos recursos 
da nobreza e do clero, cujos rendimentosdependiam de fontes não capitalistas. 
A financeirização da atividade econômica foi uma novidade histórica da crise do 
feudalismo. A fixação em um regime pautado no escambo favoreceu a subordinação da 
aristocracia ao predomínio econômico da burguesia. Essa ascensão decorreu da 
transferência de parte significativa da riqueza dos antigos estamentos superiores para a 
burguesia e também da hierarquização econômica interna à burguesia, estruturada de 
forma piramidal. Constituiu-se uma elite burguesa concentradora da renda e dos bens 
que extraía lucros econômicos derivados da dependência financeira dos demais agentes 
econômicos do grande capital. 
Outro aspecto fundamental da acumulação primitiva do capital foi o investimento dos 
lucros em forma de capital empregado na produção ou na especulação financeira, 
atitude oposta aos estamentos superiores do feudalismo, que utilizavam o excedente 
para viabilizar o consumo. A reprodução do capital torna-se ampla, superando a escala 
vegetativa. O fortalecimento da acumulação primitiva baseava-se na extensão da mais-
valia sobre o conjunto das atividades controladas pela burguesia. A consequência 
principal deste processo foi a consolidação de um processo de longa duração 
concernente à organização das forças produtivas sob o prisma do capitalismo. Deste 
modo, a acumulação primitiva do capital ensejou a formação simultânea da mão de obra 
assalariada, da qual é retirada a mais-valia, e do próprio capital resultante da alienação 
da produtividade dos trabalhadores. 
A constituição do moderno estado absolutista contribui para a consolidação da 
acumulação primitiva do capital e consequente passagem para outra fase da economia 
capitalista, centrada na produção manufatureira. O papel histórico do estado absolutista 
será tratado adiante, mas é importante frisar que sua construção demandou a atração de 
recursos financeiros necessários à manutenção de forças militares, da estrutura 
administrativa e das funções que o Estado centralizado assumiu para garantir a 
subordinação política e social de todos os estratos sociais, particularmente da nobreza e 
do clero habituados à fragmentação do poder que caracterizou o feudalismo. Emissão de 
títulos de dívida pública e sociedade por ações entre os Estados absolutistas e a 
 
 
 
1199 
 
burguesia garantiram o fortalecimento dos controladores do capital. Por sua vez, a 
expansão dos mercados coloniais e de um sistema de crédito internacional favoreceu a 
perenidade destes mecanismos, tanto durante a transição do feudalismo para o 
capitalismo, quanto após a consolidação dos Estados absolutistas, os quais garantiram a 
estrutura social e política necessária à passagem da acumulação primitiva do capital 
pautada no comércio e na terceirização realizadas pela burguesia para a fase 
manufatureira correspondente à fase de acumulação intensiva do capital, própria da 
introdução de novos meios técnicos no ciclo produtivo. 
O objetivo inerente ao capitalismo é expandir o lucro; a acumulação de capital em sua 
fase primitiva ou na fase intensiva é o meio mais eficaz para atingi-lo. A Europa do 
século apresentou as condições políticas e econômicas necessárias ao predomínio do 
capitalismo. 
 
1.4 Síntese da Unidade 
Nesta Unidade, discutimos sobre a transição do feudalismo para o capitalismo. Buscou-
se demonstrar que historicamente a delimitação cronológica que caracteriza a idade 
média não é sinônimo de feudalismo. A permanência do feudalismo decorreu de 
condições históricas que propiciaram certa estabilidade a esse sistema caracterizado por 
uma intensa fragmentação política e territorial, com uma economia dedicada à 
subsistência. As cruzadas, realizadas a partir do século XII, propiciaram o impulso 
inicial para a transição do feudalismo para o capitalismo. E a acumulação primitiva de 
capital intensificou a crise do feudalismo, constituindo a primeira fase do capitalismo e 
da instalação da modernidade. 
 
1.5 Atividades 
Texto 1: “Nascido da força e das aspirações dos mercadores e dos artesãos pela 
liberdade econômica e pela liberdade pura e simples, o movimento comunal – que 
 
 
 
2200 
 
prenuncia nossas municipalidades – arranca o poder aos senhores e consagra os 
burgueses (LE GOFF, J. p. 95 )” 
1. Elabore um texto sobre o porquê de as cidades representaram, para a burguesia, 
um espaço de afirmação no conflito por poder contra os senhores feudais. 
 
1.6 Para saber mais 
Filme 
O Senhor da Guerra (The War Lord, 1965). Apresenta as relações de poder entre os 
nobres e camponeses durante a Idade Média. A narrativa do filme descreve as funções 
dos nobres no sistema de suserania e vassalagem, com ênfase nos abusos que os nobres 
exerciam sobre os camponeses. 
Livro 
HUIZINGA, J. O outono da idade média: estudo sobre as formas de vida e de 
pensamento dos séculos XIV e do século XV na França e nos Países Baixos. São Paulo: 
Cosac Naify, 2010. 
O autor descreve as relações sociais características da crise do feudalismo, abordando 
diferentes aspectos como a literatura, a religiosidade e a arte. O livro apresenta as 
tensões entre a sensibilidade medieval e as novas condições que emergem com a 
modernidade incipiente que acompanhou a formação inicial do capitalismo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
2211 
 
Unidade 2 
Unidade 2 . Rumo à modernidade: o renascimento 
científico e cultural e as reformas 
religiosas 
 
Nesta Unidade, vamos explorar dois fenômenos históricos correspondentes à crise do 
feudalismo e à transição para o capitalismo: a recuperação da cultura humanista e da 
própria valorização do conhecimento científico, representada com a constituição do 
Renascimento Cultural e Científico; a Reforma Protestante e a Contra-Reforma Católica 
que, simultaneamente, resultaram e colaboraram para a emergência dos modernos 
estados absolutistas ao acentuar a ruptura entre o poder temporal e o secular na Europa 
entre os séculos XVI e XVII. E, como parâmetro a essas intensas mudanças que 
contaram com a acentuada participação da burguesia e da nobreza do período, ocorrerá 
a problematização da cultura popular europeia. É importante observar que a renovação 
da historiografia no século XX equivaleu à incorporação das massas ao estudo da 
história. Até o início do século passado, a maioria silenciosa, cuja experiência não era 
considerada digna de registro, estava ignorada nos manuais historiográficos. A 
experiência da cultura popular é estratégica para o entendimento das tensões e conflitos 
que permearam a construção da modernidade. 
 
2.1 O renascimento cultural e científico 
O Renascimento Cultural e Científico é um marco da emergência da modernidade. Suas 
consequências foram fundamentais para a superação dos modelos de comportamento 
nos campos científico e cultural consolidados durante a idade média. A extensão e a 
 
 
 
2222 
 
complexidade do Renascimento o tornam uma referência histórica essencial para a 
compreensão da construção da modernidade. Suas implicações são estudadas e 
debatidas em diversos campos do conhecimento e estão longe do esgotamento. No 
presente livro-texto, o Renascimento é discutido em relação à construção da 
modernidade, de modo bastante objetivo, para encerrar suas características principais 
nos limites que delimitam este volume. 
A primeira interrogação acerca do Renascimento remete à nomenclatura, principalmente 
sobre quem a escolheu e quais as razões da escolha. E aí há um contraste absoluto em 
relação aos demais períodos históricos. Afinal, a qualificação de qualquer período 
histórico é um atributo negado aos seus contemporâneos, exceto para os intelectuais da 
renascença. Foram os homens que o vivenciaram os responsáveis por selecionar, aplicar 
e difundir o termo como a definição mais apropriada para a experiência histórica 
vivenciada entre os séculos XIV e XVI. Bloch (2002) afirmou que toda história é a 
história do tempo presente.Essa definição encontra seu exemplo mais emblemático 
entre os renascentistas. A escolha do nome Renascimento para definir aquele período 
foi realizada para contrapor aquele momento à idade média. 
Embora o propósito dos renascentistas não incluísse uma teorização acerca da história 
enquanto procedimento que edifica a memória social, foi exatamente o que realizaram 
(LE GOFF, 1990). Os artistas e intelectuais que delinearam o Renascimento definiram-
no em oposição à idade média. De certo modo, a imagem extremamente negativa sobre 
a idade média resultou do sucesso dos propósitos dos renascentistas. Para qualificar 
positivamente a sua própria experiência, os renascentistas atribuíram ao período anterior 
uma série de adjetivos pejorativos que tornaram a idade média uma caricatura idealizada 
da sua própria historicidade. Há raros temas consensuais entre as diversas correntes de 
historiadores que estão envolvidas na construção do saber histórico e uma delas é 
exatamente o exagero dos renascentistas em tornar a idade média um momento 
repulsivo, em todos os sentidos possíveis, da história europeia. E essa ação dos homens 
da renascença foi bem sucedida, afinal a alcunha idade das trevas é bem sucedida o 
suficiente para reduzir a herança medieval à condição de símbolo da intolerância, 
ignorância e violência. De fato, a idade média experimentou elevados níveis de 
 
 
 
2233 
 
brutalidade. Entretanto, qual período histórico não encerrou níveis desconfortáveis de 
violência contra os despossuídos ou de repressão da liberdade de expressão? O século 
XX representa o paradoxo que acompanha as relações humanas ao encerrar, 
simultaneamente, avanços científicos extraordinários como o domínio da energia 
nuclear para fins pacíficos e a efetivação de duas guerras mundiais que culminaram em 
dezenas de milhões de mortos. 
Os renascentistas desejavam qualificar suas realizações como a retomada do ápice da 
experiência humana. Miravam a antiguidade clássica para dotar sua vivência de 
legitimidade ao definir gregos e romanos como modelos opostos à vivência medieval. 
Entretanto, essa ação produziu algo inédito na relação humana com o tempo. A 
operação histórica dos renascentistas revela um elemento fundamental que caracteriza a 
modernidade: a emergência da consciência histórica. Tempo histórico enquanto tempo 
humano. Parece uma obviedade, mas não é. Na antiguidade greco-romana, o tempo 
histórico não era percebido como humano e sim como natural, circular. E na idade 
média predominava a escatologia cristã, que determinava a espera pelo juízo final. 
O Renascimento representa uma nova forma de percepção do tempo. Apesar de 
buscarem no passado greco-romano sua inspiração quanto aos modelos para a literatura, 
a filosofia, a ciência e as artes, os homens da renascença introduziram a ideia de futuro, 
que nos parece natural. Não é. Futuro, enquanto conceito e percepção, é uma elaboração 
social e cultural disseminada nas sociedades ocidentais desde o período compreendido 
entre os séculos XIV e XVI. O tempo cíclico dos gregos e romanos não incluía a ideia 
de futuro por remeter a experiências temporais determinadas com as sucessivas 
repetições de fases pré-definidas, análogas às fases da natureza. E a escatologia cristã 
negava o futuro ao determinar o passado como o tempo do acúmulo da culpa advinda do 
pecado em face a um presente, cuja função é delimitar a espera da redenção ou da 
danação. Definir a experiência temporal em passado, presente e futuro é uma operação 
historicamente elaborada. Diferentes sociedades têm diferentes noções de tempo. E 
futuro é o conceito histórico mais abstrato. Conforma aquilo que será experimentado e é 
imprevisível por estar ligado ao passado e ao presente, mas não é possível determiná-lo 
com concisão. 
 
 
 
2244 
 
Ao consolidar o conceito de futuro como nós o entendemos hoje, os renascentistas 
atribuíram aos homens a responsabilidade por seu próprio destino. Aos seus herdeiros 
não era mais possível atribuir seus fracassos a um ciclo eterno de repetições e 
predeterminações como a tragédia grega determinava ou então a um deus que vigiava os 
homens para julgá-los no juízo final, condenando a maioria à danação eterna. A 
mitologia clássica e o teatro grego são duas manifestações da consciência temporal da 
antiguidade greco-romana e seu enredamento em uma eternidade cíclica, pois neles os 
homens estão fadados a cumprir seu destino, mesmo quando buscam contorná-lo, a 
exemplo de Édipo. E na escatologia cristã medieval restava aos homens apenas observar 
as regras religiosas e cumpri-las adequadamente com a esperança de obter a salvação 
eterna. 
A temporalidade da renascença é distinta e contribui para fundar a modernidade ao 
atribuir aos homens a responsabilidade por suas ações. Rejeita-se a passividade. Daí a 
singularidade e importância do renascimento. Sem essa consciência histórica, as 
criações artísticas e científicas não seriam alcançadas. Libertos das amarras e limites 
que prenderam seus predecessores, os renascentistas ousaram e experimentaram tanto o 
reconhecimento por suas contribuições quanto à intolerância. Afinal, como discutido na 
Unidade anterior, as temporalidades históricas se sobrepõem em uma mesma época. E o 
espírito arbitrário que animava a Igreja Católica e boa parte sociedade na idade média 
ainda persistia durante o Renascimento. 
A contradição anima a experiência renascentista. A Igreja Católica contribuiu de 
maneira excepcional para o legado cultural e artístico do período. Obras como o teto da 
Capela Sistina, produzida por Michelangelo, demonstram o forte vínculo dos principais 
artistas e pensadores do período com a Igreja. Papas, cardeais e bispos foram pródigos 
ao financiar e proteger os artistas e intelectuais. Entretanto, refutaram e perseguiram 
todos que manifestaram ideias e obras que questionavam abertamente os dogmas 
religiosos. O conflito entre a mentalidade herdada da idade média, presente entre a 
nobreza e o clero, e a ciência e a arte, foi provocado em razão do desconforto que a 
busca de conhecimento evidenciava. Ao atribuir ao homem a elaboração do futuro, os 
renascentistas contrariavam dogmas que afirmavam o contrário. Exemplo contundente 
 
 
 
2255 
 
deste conflito é a obra O Príncipe, de Maquiavel, que é considerada por muitos 
cientistas políticos o primeiro manual moderno sobre o comportamento político. O 
pensador florentino a escreveu buscando explicar os mecanismos do poder, expondo as 
estratégias para o alcançar e manter. Em uma península itálica cindida por guerras em 
diversas unidades políticas como reinos, principados e cidades autônomas, Maquiavel 
considerava que sua obra poderia fornecer os subsídios necessários a um líder capaz o 
suficiente para restaurar a unidade perdida com a queda do Império Romano 
(LARIVAILLE, 1988). 
Durante séculos, essa obra de Maquiavel figurou entre os livros do Índex, a lista de 
livros proibidos pela Igreja. Ao afirmar que os homens elaboram suas relações políticas 
sem a interferência divina, Maquiavel infligiu um dogma da Igreja que colaborava para 
legitimar o poder de seus aliados ao difundir a tese de que o exercício do poder é um 
atributo divino. Maquiavel se contrapôs a essa premissa e passou a figurar entre os 
criadores de obras censuradas pela Igreja. Muitos outros intelectuais passaram pela 
mesma experiência, como Galileu e Giordano Bruno. 
A relação contraditória da Igreja Católica em relação à ciência e à cultura renascentistas 
tem duas explicações. A primeira advém da própria emergência de uma nova 
consciência histórica, tipicamente moderna, fundamentada na busca por conhecimento e 
realização individual, que ensejou conflitos por conta do questionamento dos dogmas 
religiosos. A segunda advém da ascensão econômica da burguesia, descrita na Unidade 
anterior. Enquanto grupo social diferenciado da nobreza e do clero, aburguesia não 
possuía nenhum fator de distinção social. Apoiados na posse da terra, no caso da 
nobreza, e no monopólio da fé, no caso do clero, esses grupos contavam com o controle 
dos fatores de distinção social inacessíveis à burguesia, cuja ascensão estava vinculada 
ao trabalho, que, no entanto, era estigmatizado, como observado na Unidade anterior. 
Neste cenário, não bastava à burguesia o acesso à riqueza, era necessário buscar um 
fator de prestígio. E o financiamento das artes, da cultura e mesmo da ciência tornavam-
se instrumentos adequados para esse objetivo. Em uma sociedade composta 
majoritariamente por analfabetos e excluídos do acesso aos instrumentos ligados à 
erudição, o que não era raro mesmo entre os nobres, a fruição da cultura constituía um 
 
 
 
2266 
 
DICA DE LEITURA 
O Príncipe. Nicolau Maquiavel. Discute os fundamentos da conquista e da manutenção do 
poder. Sua leitura permite entender como as relações políticas são complexas e estão 
afastadas de qualquer idealismo que projeta a política como campo demarcado por 
interesses desvinculado de ambições. Para o leitor do presente livro-texto interessa, 
sobretudo, a distinção entre virtude competência e virtude sorte por evidenciar como 
Maquiavel elaborou uma teoria absolutamente secular 
fator de prestígio social. O crescente prestígio dos burgueses que amealharam recursos 
suficientes para o exercício do mecenato influenciou nobres e principalmente membros 
do clero. Os clérigos buscaram na proteção das artes o prestígio individual que a cultura 
propiciava. Neste processo de aproximação e incentivo da arte que voltava seu olhar 
para o passado, não havia a preocupação com o uso de elementos vinculados à cultura 
greco-romana, mas apenas a obsessão por eternizar o próprio nome. Essa postura 
explica a tensão que envolve a relação da Igreja com o Renascimento, marcada por 
incentivo e controle simultâneos. 
Nas próximas páginas, vamos avaliar os desdobramentos da postura ambígua da Igreja 
Católica com o exame de duas temáticas interligadas: a Reforma Protestante e a Contra-
Reforma Católica e a cultura popular. O objetivo é perceber como a efetivação da 
modernidade correspondeu a conflitos em diversas instâncias sociais, da religião à 
cultura popular. 
 
2.2 Reforma-Protestante e Contra-Reforma Católica 
A Reforma Protestante e a Contra-Reforma Católica correspondem no campo religioso 
à crise da passagem do feudalismo para o capitalismo. O predomínio da Igreja Católica 
durante a idade média estava relacionado às características do sistema feudal. A extrema 
fragmentação da terra e do poder tornava as relações políticas bastante caóticas e 
instáveis. A instabilidade que marcava o período favorecia a única instituição que pode 
ser considerada sólida durante a idade média, a Igreja Católica. Presente em toda a 
Europa, a Igreja estava em uma posição privilegiada. Representante espiritual de Cristo 
 
 
 
2277 
 
e com participação nas relações temporais, a Igreja Católica retirava vantagens 
preponderantes das posições que ocupava. 
O monopólio da fé era preservado a qualquer custo. Quando a sedução ideológica 
falhava, restava o recurso à violência, a censura. Os questionamentos aos dogmas da 
Igreja Católica não foram iniciados durante a Renascença. Desde o século I, o 
cristianismo tem como característica a concorrência interna entre as diversas seitas para 
determinar os fundamentos da fé e o modo correto de exercê-los. Os cismas com as 
igrejas do oriente decorrem das sucessivas disputas que encontravam nos concílios seu 
ponto maior de ebulição. Entretanto, no ocidente, Roma conseguiu evitar a 
fragmentação institucional. Ao longo da história, os papas utilizaram diversas 
estratégias para conter as dissensões. Uma estratégia bastante utilizada foi a criação das 
ordens religiosas. Entre os movimentos internos que mais ameaçaram a unidade do 
catolicismo está o liderado por Francisco de Assis (LE GOFF, 2007). Inspirando em 
seus seguidores uma vida de pobreza e doação aos necessitados, Francisco de Assis 
tornou-se um incômodo; afinal oferecia um contraste flagrante entre o modo de vida 
contido adotado por aqueles que buscavam viver uma fé considerada autêntica, 
despojada dos bens materiais, e o fausto que caracteriza a cúpula eclesiástica medieval. 
A tensão atingiu tal ponto que em um dado momento cogitou-se a segregação dos 
seguidores de Francisco de Assis da Igreja Católica. Entretanto, optou-se por uma 
conciliação bem sucedida, preferível ao risco do cisma que rondava a instituição desde a 
separação entre os cristãos do ocidente e do oriente. A criação da ordem de São 
Francisco acomodou a vocação daqueles que percebiam uma vida de doação aos pobres 
como mais legítima com aqueles que defendiam uma Igreja rica, seja por motivos 
teológicos ou particulares ou ambos, convenientemente. 
Porém, quando a conciliação não era possível entre os interesses da Igreja Católica e 
seus adversários, empregava-se a Inquisição, criada para combater as heresias, ideias e 
conceitos que contradiziam os dogmas católicos (NOVINSKY; CARNEIRO, 1992). 
Fundada para combater a heresia dos cátaros ou albigenses no século XII, na região do 
Languedoc, sul da França, a Inquisição foi animada pelo mesmo espírito que 
impulsionou as cruzadas. Enquanto a Inquisição voltava-se para o combate aos inimigos 
 
 
 
2288 
 
no interior da cristandade, adotando procedimentos jurídicos, as cruzadas possuíam um 
caráter militar, voltado à conquista de territórios para a cristandade. Seu sucesso foi 
expressivo a ponto de os estados modernos absolutistas que se mantiveram fiéis ao 
catolicismo implantarem-na sob sua responsabilidade e administração. A Inquisição 
permitiu à Igreja Católica controlar, reprimir e destruir as manifestações que 
potencialmente poderiam reduzir seu predomínio no continente europeu. 
Curiosamente foi uma ação da própria Igreja Católica que precipitou o início do fim do 
feudalismo e da base sócio-econômica que favorecia a manutenção da sua posição. 
Embora não houvesse como prever os desdobramentos das cruzadas, foi a sua 
convocação no século XII, para combater os infiéis e retomar o controle da Terra Santa, 
que possibilitou a emergência da burguesia e a lenta transição para o capitalismo, o qual 
prescindia de uma organização religiosa nos moldes da Igreja Católica durante o 
feudalismo. Ironicamente foi a própria instituição que tentou acomodar a ação burguesa 
na estrutura social medieval ao criar o conceito de purgatório. E as ações de contenção 
que permitiram durante séculos o combate efetivo das dissensões não foram mais 
plenamente efetivas com o amadurecimento de relações econômicas capitalistas, cujas 
consequências favoreceram a aliança entre os diversos interesses religiosos 
questionadores do catolicismo e líderes políticos insatisfeitos com as limitações 
impostas pela estrutura de poder que a Igreja Católica patrocinava. A superação do 
feudalismo implicava a renovação das instituições que o viabilizavam. 
A Reforma-Protestante foi favorecida pela ascensão da burguesia. Os ganhos 
econômicos dos burgueses levaram parte da nobreza europeia a vislumbrar 
possibilidades de conquistas econômicas e políticas com a reformulação das relações de 
poder. A centralização de poder na Igreja contrariava as intenções dos nobres que 
desejavam controlar as atividades comerciais da burguesia em proveito próprio. A 
emergência da Reforma liderada por Lutero constituiu o momento mais adequado para a 
convergência entre as pretensões dos insatisfeitos com a Igreja e daqueles que 
desejavam mais poder. 
O monge Martinho Lutero não foi o primeiro reformador, mas foi aquele que resistiu 
com sucesso às estratégias empregadas para controlar os insatisfeitos. Lutero recusou a 
 
 
 
2299 
 
acomodação e por divulgar publicamente uma série de críticas contra os dogmas 
católicos,pregando por um cristianismo supostamente mais autêntico, puro, foi 
condenado a ser preso e julgado pela Inquisição ou, como na denominação oficial, 
Tribunal do Santo Oficio. Lutero denunciou a venda de indulgências em troca do perdão 
dos pecados; repudiou o celibato, a hierarquia da Igreja, o culto aos santos e a veneração 
de imagens, entre outros dogmas e práticas católicas do período. Apesar das variações 
em relação aos reformadores anteriores, a mensagem de Lutero estava próxima daqueles 
que não obtiveram sucesso. A diferença entre Lutero e aqueles que o precederam está 
no contexto histórico do período. 
No inicio do século XVI, a Igreja Católica ainda desfrutava de bastante poder e, apesar 
da relação dual com os artistas e cientistas do período, preservava seu predomínio por 
todo continente. O principal polo de tensão estava na relação da instituição Igreja com 
os nobres. A transição do feudalismo para o capitalismo ensejou a reorganização das 
relações de poder com a progressiva substituição da fragmentação feudal do território e 
do poder por monarquias centralizadas, cuja força residia no monopólio da força militar, 
na cobrança de impostos e no controle da justiça. Esse processo produzia conflitos entre 
a Igreja e os reis que lideravam esses novos estados. Afinal, durante a idade média a 
igreja cobrava impostos eclesiásticos sobre as propriedades feudais e também possuía 
diversos feudos por todo continente. A centralização monárquica produzia conflitos 
entre a Igreja que recusava abandonar a prática de cobrar impostos eclesiásticos e não 
aceitava perder a autoridade exclusiva sobre suas propriedades, recusando a submissão à 
autoridade secular. A autoridade espiritual da Igreja Católica impedia contestações mais 
veementes em virtude do medo de sanções espirituais. 
As ações de Lutero, e posteriormente de outros reformadores, criaram a possibilidade 
de ruptura com a Igreja Católica sem o abandono da fé cristã, uma vez que havia a 
possibilidade de romper com o catolicismo e aderir a uma fé mais renovada. E a ousadia 
para apoiar Lutero estava plenamente justificada na necessidade de consolidar um 
espaço político que correspondesse aos interesses da nobreza envolvida com a 
consolidação do estado nacional. Essa dinâmica possibilitou a Lutero contar com o 
 
 
 
3300 
 
apoio de príncipes e nobres alemães interessados em romper com as limitações 
relacionadas à preservação da fidelidade à Igreja Católica. 
As implicações históricas da formação dos modernos estados absolutistas serão 
abordadas com mais particularidade na próxima Unidade. O que importa, neste 
momento, é salientar que o Renascentismo e as reformas religiosas têm relação direta 
com a transição do feudalismo para o capitalismo, impactando sobre todas as formas de 
relações sociais no período. As estruturas feudais não desapareceram de modo abrupto, 
mas cederam progressivamente espaço para formas modernas na medida em que os 
desdobramentos do capitalismo exigiam formas históricas mais apropriadas à dinâmica 
do capital. 
As reformas representaram a conjunção entre tensões internas à Igreja Católica e 
conflitos decorrentes do desajustamento entre a instituição e as estruturas políticas que 
emergiram durante a transição do feudalismo para o capitalismo. Essa mudança, 
entretanto, não significou uma aliança entre a nobreza e a burguesia, mas sim uma 
reorganização das relações aristocráticas para ensejar formas políticas mais adequadas, 
ao mesmo tempo, para a preservação do poder dos nobres e para a extração dos recursos 
econômicos produzidos com a emergência da burguesia (ANDERSON, 2004). O estado 
moderno absolutista resulta deste ajustamento histórico, que também receberá a atenção 
necessária na próxima Unidade. 
A Contra-reforma católica não foi somente a resistência da Igreja aos desdobramentos 
das ações de Lutero, Calvino e outros reformadores. Além da revisão de práticas como a 
comercialização de indulgências e a venda de relíquias de santos, proibidas, a Igreja 
passou a adotar uma série de postulados necessários à sua sobrevivência no mundo 
moderno que emergia da transição do feudalismo para o capitalismo. A criação da 
Companhia de Jesus, a moralização da formação dos sacerdotes, a proibição da venda 
de cargos eclesiásticos e a centralização da condução da Igreja corresponderam à 
efetivação de uma postura mais institucional, descolada dos laços íntimos que a uniam à 
nobreza. Afinal, era bastante comum que os principais postos eclesiásticos fossem 
comercializados entre os nobres e os líderes religiosos. 
 
 
 
3311 
 
A Contra-reforma beneficiou, a longo prazo, a Igreja por possibilitar a eliminação de 
traços que a tornavam ineficiente na concorrência por fiéis e poder. A Igreja também 
definiu aliados preferenciais no continente como resposta à formação de monarquias 
hostis como os principados alemães e a Inglaterra, elegendo Portugal e Espanha como 
interlocutores. As reformas religiosas contribuíram para uma separação mais clara entre 
o poder secular e o poder espiritual. A partir do século XVI, a influência religiosa sobre 
os estados foi bastante reduzida em comparação à idade média, o que constitui um traço 
inconfundível da modernidade. 
 
2.3 Cultura popular: resistência e adaptação aos 
desdobramentos da modernidade 
O conceito de cultura popular foi elaborado para avaliar os efeitos da modernização 
capitalista, particularmente com a industrialização, sobre as práticas culturais populares 
entre os séculos XVIII e XIX. Inadequadamente os primeiros trabalhos receberam a 
denominação de folclore, cujo objetivo era salvar, por meio da sistematização, as 
tradições, costumes e superstições das classes populares. Porém, a busca da cultura 
popular não significou a superação do estigma de cultura menor, socialmente atribuído. 
Como aponta Burke (2008), a cultura popular estava relegada ao campo do exotismo: 
A idéia de cultura popular ou Volkskultur se originou [...] na 
Alemanha do final do século XVIII. Canções e contos populares, 
danças e rituais, artes e ofícios foram descobertos por intelectuais de 
classe média nessa época. No entanto a história da cultura popular foi 
deixada aos amantes das antiguidades, folcloristas e antropólogos 
(BURKE, 2008, p 29) 
Burke conceitua a cultura popular como a experiência cultural não-oficial, 
historicamente localizada e vivida mediante a vinculação entre pessoas que constituem 
uma comunidade, ao mesmo tempo real e imaginada, tecendo relações culturais 
complexas caracterizadas por valores e práticas. Para Peter Burke (1999), a cultura 
popular é distinta da cultura erudita que as elites valorizam e utilizam como símbolo de 
diferenciação social. Entretanto, isto não significa a separação radical entre a cultura 
erudita e a cultura popular, que em muitos momentos estão vinculadas por meio de 
 
 
 
3322 
 
nexos sociais. Embora Burke utilize o termo subcultura, sua aplicação não é pertinente a 
uma hierarquia entre as diferentes formas de vivência cultural. Mas, remete a espaços 
sociais de elaboração cultural particulares à inserção de cada grupo social. Portanto, a 
construção da cultura popular decorre de diversas variáveis como os locais de 
incidência, os dialetos, as canções, os ofícios e os vestuários. Todos esses elementos 
conformam diversos espaços de vivência, produção e reprodução da cultura popular. 
Quando Burke se refere a sub-culturas alude às diferentes formas de vivência cultural 
no interior da cultura popular, esta que por sua vez se mantém em conexão permanente 
com as demais formas de cultura. Nas palavras do historiador, “a sub-cultura é um 
sistema de significados partilhados, mas as pessoas que participam dela também 
partilham significados da cultura em geral” (BURKE, 1999, p. 69). 
Neste sentido, Thompson (1989) alerta sobre a diversidade dos costumes e práticas 
culturais derivada da dinâmicado processo histórico. Para Thompson, é necessário 
apreender a historicidade da cultura popular por meio da avaliação do processo de 
transmissão cultural de aprendizados e experiências. Thompson busca efetivar essa 
recomendação ao estudar as relações entre as práticas culturais dos operários ingleses e 
os conflitos de classes, afirmando que as afirmações culturais, sociais e políticas dos 
trabalhadores foram elaboradas por meio dos conflitos que caracterizam suas relações 
com os proprietários dos meios de produção. Thompson (1989) afirmou que cultura 
popular, considerada em declínio entre os séculos XVI e XVII por parte dos 
pesquisadores dedicados ao tema, subsidiava a oposição entre a população explorada e a 
elite aristocrática e burguesa inglesa. Para o autor, as representações culturais populares 
constituíam modelos de virtude social que alimentavam a luta contra as injustiças 
sociais. Práticas, leis, usos e costumes de tempos imemoriais constituíam referência 
para luta por direitos relacionados à posse da terra, à subsistência e ao trabalho digno. 
A investigação conduzida por Thompson e Burke acerca das implicações da cultura 
popular evidenciam sua importância para a compreensão da dinâmica histórica no que 
tange às relações culturais. E as relações que ambos os autores evidenciam sobre o 
embricamento entre a cultura popular com a cultura erudita e com as questões políticas 
 
 
 
3333 
 
encontra eco na transição do feudalismo para o capitalismo, particularmente no impacto 
da modernidade sobre costumes, crenças e tradições populares. 
O universo da cultura popular está vinculado a práticas cuja temporalidade é diversa da 
temporalidade do Estado e de outras instituições. Remete à presença de diversas 
temporalidades no mesmo tempo histórico. E, ironicamente, não está limitada apenas 
aos estratos populares. Por vezes permeia a elite econômica por permitir convergências 
e por outras possibilita oposições que definem as relações socais. Essa relação 
contraditória adquire complexidade com o conflito entre a dinâmica econômica e a 
cultural. A construção da modernidade implicou a reorganização das relações de 
produção no campo. É pertinente observar que o sistema feudal pautava-se na intensa 
exploração dos camponeses, subordinados a um sistema econômico que retirava destes 
trabalhadores todo excedente em prol dos nobres. Entretanto, a passagem das relações 
feudais para as relações capitalistas não implicou em uma conquista de melhores 
condições de vida, ao contrário, implicou na organização de novas formas de exploração 
econômica, inclusive com a eliminação da pequena camada, entre os camponeses, que 
possuía a terra. 
A modernização das relações de produção não ocorreu de imediato. Como evidenciado 
anteriormente, em muitas regiões elementos das relações feudais permaneceram até o 
século XVIII ou XIX. Isto porque o sistema capitalista pode produzir lucro conectando 
estruturas capitalistas com estruturas pré-capitalistas. A transição das relações feudais 
para as relações capitalistas no campo fragilizou bastante os camponeses, grupo social 
mais numeroso e principal depositário das tradições populares. Processo análogo 
ocorreu nas cidades, pois os burgueses passaram a montar manufaturas que concorriam 
com as antigas corporações de oficio. Camponeses e artesãos foram submetidos a um 
processo progressivo de perda do controle sobre seu próprio trabalho. Os camponeses, 
proprietários ou não, deixaram de determinar o ritmo do próprio trabalho e o mesmo 
ocorreu com os artesãos, que perderam o controle dos meios de produção, sufocados 
com a concorrência dos burgueses. 
O processo de acumulação primitiva dos burgueses foi ampliado principalmente com as 
grandes navegações, tratadas em sua importância para a construção da modernidade na 
 
 
 
3344 
 
próxima Unidade. A ampliação do capital dos burgueses permitiu a aquisição de 
propriedades rurais, a montagem de manufaturas e a associação com o Estado 
interessado em organizar formas de produção e extração da riqueza adequadas à 
sustentação das responsabilidades estatais. Leis que reorganizaram as atividades 
econômicas retiraram a propriedade ou a possibilidade de seu alcance destes dois 
grupos, que passaram a constituir a força de trabalho de baixa remuneração que 
produzia a riqueza necessária à acumulação de capital em favor da burguesia. 
Neste cenário, a cultura popular constitui um recurso de resistência às mudanças 
provocadas com a emergência da modernidade. Note-se uma modernização ainda 
distante daquela engendrada com a industrialização, mas forte o suficiente para alterar 
profundamente as formas de organização social e produção econômica que marcaram o 
feudalismo. Para as camadas populares a transição do feudalismo para o capitalismo 
significou a passagem de um sistema de exploração pautado na servidão aos estamentos 
superiores para a exploração assalariada por meio da produção de novas riquezas, cuja 
posse ficou concentrada nos burgueses. As festas populares configuravam um espaço de 
resistência às alterações nas formas de trabalho, pois o ritmo do capital gerava atritos 
com a observância dos antigos rituais e formas de produção. Práticas religiosas e 
profanas celebravam uma sociabilidade em dissolução e mesmo quando transmutavam-
se em novas expressões mantinham sua resistência à sociabilidade cada vez mais 
produtivista. 
Portanto, a cultura popular é o espaço de elaboração de uma cidadania de viés cultural. 
Por exemplo, Davis (1975) ao estudar o charivari (carnaval francês) designa-o como o 
momento de inversão da ordem social, quando camponeses e artesãos assumiam o papel 
de reis, nobres e bispos para encenar ironicamente o cotidiano das relações de poder. 
Embora o lúdico e o entretenimento perpassem as celebrações, a riqueza das 
experiências possibilitava também a crítica social em um espaço que nem mesmo a 
Inquisição poderia eliminar, sob o risco de acentuar conflitos potencialmente danosos à 
ordem social. 
 
 
 
 
3355 
 
2.4 Síntese da Unidade 
Nesta Unidade, discutimos sobre as características do Renascimento Cultural e 
Científico. Vimos como esse fenômeno correspondeu à transição do feudalismo para o 
capitalismo nos campos da arte, da cultura e da ciência. As consequências do 
Renascimento estão ligadas à emergência da modernidade enquanto uma postura ligada 
à inovação e à busca de conhecimento que subsidiaram as mudanças em curso. Para 
tanto, foi importante o ciclo de reformas religiosas que permitiu a superação das 
limitações impostas pela Igreja Católica, em particular a ascensão do Estado absolutista. 
Outro aspecto pertinente à construção da modernidade foi a resistência configurada com 
a cultura popular. Sua permanência efetivou a cultura como forma de articulação social 
e preservação das relações sociais que definem os estratos populares em oposição à 
aristocracia e à burguesia no período. 
 
2.5 Atividades 
1. Elabore um pequeno texto relacionando a passagem do feudalismo para o 
capitalismo com o Renascimento Científico e Cultural. 
2. Elabore um pequeno texto relacionando a passagem do feudalismo para o 
capitalismo com o Renascimento Científico e Cultural. 
 
 
2.6 Para saber mais 
Filme 
Michelangelo. (BBC/2007). Documentário sobre o mestre da Renascença. As relações 
entre a ciência e a arte são vinculadas às mudanças sociais que caracterizam o período, 
em particular a valorização da antiguidade clássica e os efeitos das reformas religiosas. 
 
 
 
 
3366 
 
Livro 
A cultura popular na Idade Moderna, de P. BURKE, 2ª ed. São Paulo: Cia das 
Letras, 1999. O autor discute com propriedade a historicidade da cultura popular e seu 
papel durante a construção da modernidade. Burke dá especial atenção especial para as 
relações entre o Renascimento, a Reforma Protestante, a Contra-reforma católica e a 
produção/reprodução da culturapopular no período. 
 
 
 
 
 
 
3377 
 
 
Unidade 3 
Unidade 3 . A ascensão econômica da burguesia 
 
Nesta Unidade vamos discutir a ascensão da burguesia como um movimento histórico 
conectado a dois objetivos: a conquista de vantagens econômicas e a aquisição de poder 
político. Ambos intimamente ligados. A história da burguesia demonstra que o poder 
econômico somente é pleno com o controle ou aos menos a participação no exercício do 
poder. As mudanças históricas que acompanharam a transição do feudalismo para o 
capitalismo e a constituição do estado absolutista provocaram tensões poderosas quanto 
à organização e ao exercício do poder. Os conflitos relativos ao ciclo da Reforma 
Protestante e da Contra-Reforma Católica evidenciaram o quanto a efetivação da 
modernidade conectada à emergência do capitalismo provocava a necessidade de 
constituição de formas sociais correspondentes à dinâmica do capital. E a revolução 
burguesa na Inglaterra foi o primeiro passo para a efetivação de Estados burgueses 
adequados à reprodução e expansão do capital. Neste sentido, as grandes navegações e 
a conquista do novo mundo, a América, constituem momentos ímpares para a aquisição 
dos recursos necessários à consolidação de uma modernidade que, embora inspirada na 
Antiguidade greco-romana, distanciou-se diametralmente do modelo original na medida 
em que alcançou a sua efetivação. 
 
3.1 O novo mundo e a modernidade: as grandes navegações 
O impulso econômico das transformações iniciadas com a passagem do feudalismo para 
o capitalismo ultrapassou o continente europeu. A conquista da América é consequência 
direta da construção da modernidade. A busca por novas oportunidades de elevar os 
lucros moveu a burguesia comercial na direção de outros espaços. E a conquista de 
 
 
 
3388 
 
Constantinopla por parte dos turcos otomanos foi o pretexto que justificou plenamente 
essa busca. Mas o exame atento da dinâmica das grandes navegações evidencia que a 
incorporação do oriente e do novo mundo à dinâmica econômica europeia ocorreria 
inevitavelmente. Na periferia do Mediterrâneo, Portugal procurou desenvolver rotas 
alternativas ao controle que genoveses e venezianos impunham ao comércio das 
especiarias, tecidos e metais preciosos trazidos do oriente, desde o início do século XV. 
A progressiva participação de Portugal no comércio internacional demonstra como a 
atividade comercial da burguesia incorporava novos agentes econômicos. Os lucros 
crescentes obtidos desde as cruzadas implicaram na ampliação constante do mercado e 
dos intermediários. A dimensão do mercado no início do século XV constituía um fator 
de inegável atração para mercadores de outras nacionalidades. O que distinguiu Portugal 
das demais nações naquele momento foi o envolvimento da monarquia. O modelo 
feudal português favoreceu a precoce centralização política do estado. Enquanto 
Espanha, França e Inglaterra ainda experimentavam as dores do parto do estado 
absolutista, Portugal contava com as condições necessárias a uma política expansionista 
pautada na exploração do comércio sob os auspícios de um Estado que unificara e 
comandava a aristocracia. 
As vantagens usufruídas por Portugal somente ocorreram por conta da vinculação das 
terras do reino ao rei. De modo distinto, as demais regiões europeias, em Portugal a 
propriedade feudal não era hereditária, o que aumentava o poder dos reis portugueses 
em relação aos nobres (ALMEIDA; MAGALHÃES; MATTOSO, 1997). A 
permanência do controle da propriedade feudal provocava a dependência dos herdeiros 
em relação à monarquia. A centralização favoreceu a busca por recursos sob uma 
liderança forte e a oposição dos comerciantes de Veneza e a Genova à participação de 
burgueses de outra procedência no controle das relações comerciais com o oriente 
determinou à procura por outros mercados. O desenvolvimento da navegação 
portuguesa ocorreu com progressivos contatos com outros povos e a aquisição de novas 
tecnologias como a bússola e o astrolábio. Embora Portugal não tenha mantido a 
exclusividade das conquistas relativas à expansão marítima europeia, foi pioneiro ao 
 
 
 
3399 
 
evidenciar que o rompimento do monopólio dos concorrentes poderia ocorrer com a 
busca de novos mercados fornecedores de especiarias. 
Espanha, França e Inglaterra passaram a participar da exploração dos mares à medida 
que resolveram conflitos internos e direcionaram suas forças para o exterior. Anderson 
(2004) discute com propriedade como a transição do feudalismo para o capitalismo 
favoreceu a superação da fragmentação feudal para a centralização do moderno estado 
absolutista. O historiador inglês endossa a posição de outros pesquisadores que 
conceituam esse processo histórico como secular e complexo, identificando na mudança 
do modelo econômico o principal fator que efetivou a modernidade e legou o 
feudalismo aos livros de história. Entretanto, o protagonismo da burguesia não implicou 
no controle do poder quando ocorreu a formação do estado absolutista. Para Anderson, 
a formação das monarquias centralizadas foi uma reação aristocrática a ascensão 
burguesa. Segundo Anderson, a burguesia comercial assumiu uma posição subordinada 
ao poder da burguesia. Para fundamentar a sua argumentação, Anderson lembra que a 
burguesia estava apoiada em dois elementos: o controle do capital em contínua 
expansão e a aliança com outros grupos citadinos para a consolidação de espaços 
urbanos independentes dos senhores feudais. O historiador cita as cidades italianas dos 
séculos XV e XVI como exemplo da pujança comunal que contrariava os interesses 
feudais. Genova, Florença, Veneza, entre outras, exemplificam, na ótica do historiador, 
como a burguesia preferia, naquele momento, apoiar o fortalecimento de unidades 
políticas emancipadas das relações feudais. Entre os exemplos utilizados por Anderson 
está a instalação das mais avançadas manufaturas do século XVI nas cidades italianas, 
configurando uma aliança de classes entre a burguesia comercial e financeira, artesãos e 
trabalhadores urbanos. 
Segundo Anderson (2004), a formação dos estados absolutistas objetivava a efetivação 
de mecanismos adequados à preservação do poder da aristocracia feudal no novo 
contexto econômico. Interessada em auferir lucros com o desenvolvimento comercial e 
também no controle da burguesia, os nobres articularam-se em torno dos reis para 
fortalecer a monarquia. Em troca da perda dos privilégios militares, jurídicos e 
econômicos feudais, os nobres adquiriram privilégios vitalícios nos estados 
 
 
 
4400 
 
centralizados. Os principais postos administrativos e militares estavam reservados à 
elite da nobreza. A ocupação do estado refletiu a hierarquia historicamente constituída 
durante a idade média. O exemplo clássico citado por Anderson é o francês. Apesar do 
apogeu do estado francês estar vinculado ao rei Luís XIV, denominado Rei Sol em 
razão da centralização do poder em sua figura, o estado funcionava com participação 
efetiva dos nobres. Anderson lembra, apropriadamente, que o rei é o primeiro entre os 
nobres para questionar outras interpretações acerca da constituição do estado 
absolutista. O historiador afirma que o estado absolutista não pode ser percebido como 
resultado da aliança entre os reis e a burguesia, pois o ciclo de revoluções que derrubou 
o absolutismo entre os séculos XVIII e XIX buscou alçar a burguesia ao poder. 
Portanto, durante a formação e vigência do estado absolutista, a burguesia estava 
submetida ao poder da nobreza, apesar da ascensão econômica experimentada desde as 
cruzadas. 
De fato, a expansão econômica dos estados absolutistas contou com a participação da 
burguesia, que, entretanto, estava subordinada à estrutura de poder que favorecia aos 
nobres. O ciclo das grandes navegações iniciou outro período de expansão do capital, 
que agregou outros sistemassociais e políticos à transição para o capitalismo. Sua 
definição mais aceita remete ao conceito de mercantilismo. De maneira geral, sob o 
prisma econômico, os estados absolutistas compartilhavam uma série de características, 
principalmente aqueles que participaram da expansão marítima européia. 
Monopólio do comércio entre a metrópole e a colônia, exploração de gêneros tropicais 
(cana-de-açúcar e especiarias, por exemplo), de metais e pedras preciosas, controle de 
rotas comerciais importantes, exportar mais que importar para manter a balança 
comercial favorável, são alguns dos elementos do receituário mercantilista. Portugal, 
Espanha, França, Holanda e Inglaterra criaram companhias comerciais que uniam os 
respectivos estados e os interesses privados para financiar a aquisição e a exploração de 
colonias além-mar. No Brasil colônia o exemplo mais efetivo das disputas 
protagonizadas por essas companhias remete à ocupação holandesa de parte do nordeste 
brasileiro por holandeses da Companhia das Índias Ocidentais na primeira metade do 
século XVII (MELLO, 2006). 
 
 
 
4411 
 
Os estados absolutistas centralizados propiciaram a expansão capitalista uma base de 
poder. Aliás, a constituição dos estados centralizados decorreu do impulso da transição 
do feudalismo para o capitalismo. E Anderson demonstra que naquele momento a 
aliança econômica não implicava na participação política da burguesia. A constituição 
do estado absolutista é paralela e convergente a outros processos históricos. Como 
observado na Unidade anterior, a Reforma Protestante liderada por Lutero somente 
adquiriu efetividade em razão do confronto entre as expectativas dos nobres 
interessados em usufruir das vantagens da centralização estatal e a Igreja que resistia às 
mudanças que o estado absolutista representava. As contradições internas que a Igreja 
conteve habilmente durante séculos não mais o foram a partir de 1520, em virtude da 
convergência entre as insatisfações religiosas e as pretensões políticas dos nobres 
contrariados com os privilégios da Igreja. 
A própria aliança do papado com Portugal e Espanha demonstra que a Igreja percebia a 
necessidade de encontrar atores políticos que no novo cenário se associassem aos seus 
interesses. Apesar de apoiarem integralmente a Igreja Católica, Portugal e Espanha 
assumiram a condução jurídica e política das respectivas sociedades. As inquisições 
espanhola e portuguesa, que ferozmente impediram a difusão do protestantismo na 
península ibérica, estavam ligadas aos estados seculares. Defendiam os interesses 
católicos, mas sem estar subordinadas a Roma. Mesmo nos estados católicos, o papado 
ficou subordinado aos interesses seculares, provocando uma inversão de perspectiva em 
comparação à idade média. O predomínio do poder secular sobre o espiritual configura 
outra característica da modernidade. 
 
3.2 Revoluções Inglesas do século XVII: a burguesia no poder 
Primeiro sistema de poder que incluiu a burguesia como ator político. O estado inglês 
que emergiu na passagem do século XVII para o XVIII pode ser qualificado desta 
maneira. Enquanto o continente europeu experimentava uma série de conflitos ainda 
decorrentes das reformas religiosas do século anterior, a Inglaterra experimentava um 
período de forte expansão e consolidação. 
 
 
 
4422 
 
Os rivais diretos, Portugal e Espanha, experimentavam um período de decadência após 
o apogeu do século XVI, depois de assumirem o controle das rotas alternativas para o 
oriente com a viagem de Vasco da Gama (navegador português que circunavegou a 
África e atingiu a Índia), em 1498. Depois de iniciar a colonização do Brasil, Portugal 
passou a ser controlado pela Espanha em 1580 em virtude de uma crise de sucessão 
dinástica. Sem herdeiros diretos, o trono português foi assumido por Felipe II. Por sua 
vez, a descoberta de Colombo, em 1492, foi consolidada por conquistadores que 
submeteram por meio da violência, extermínio e escravização, milhões de nativos e 
derrotaram os outrora poderosos impérios asteca e inca. A extração de milhares de 
toneladas de ouro e prata, além do cultivo de gêneros tropicais, enriqueceu subitamente 
a Espanha, recém consolidada após a união das coroas Aragão e Castela mediante o 
casamento dos respectivos herdeiros, Fernando e Isabel. E, também em 1492, o último 
reino mouro foi derrotado. Aparentemente o mundo era o limite para a Espanha. 
Entretanto, um amálgama de guerras mal-sucedidas e constantes durante todo século 
XVI comprometeu a saúde financeira do império espanhol que lutou durante todo o 
século XVII para não sucumbir ao próprio peso, particularmente com a recuperação da 
emancipação política de Portugal, em 1640. A Franca, por sua vez, apesar das ambições 
expansionistas para o além-mar, estava comprometida com as questões internas e 
continentais. 
O cenário histórico favorecia à Inglaterra, particularmente após o sucesso dos governos 
absolutistas de Henrique VIII e Elizabeth I no século XVI, responsáveis por centralizar 
o poder, controlar a nobreza, emancipar o estado da influência papal com a criação da 
Igreja Anglicana, confiscar as propriedades da Igreja Católica para o estado inglês 
(HILL, 1991). Entretanto, apesar de as ações dos respectivos monarcas estimularem as 
ambições burguesas, com o passar das décadas emergiram insatisfações em relação às 
crescentes expectativas econômicas da burguesia. A burguesia comercial estava 
insatisfeita com os monopólios comerciais que o estado dispensava a um pequeno grupo 
de privilegiados. Todos os produtos importados estavam regulados por monopólios 
controlados pelo estado. Outro fator que desagradava a burguesia remetia aos 
privilégios medievais que favoreciam as corporações de ofício, o que impedia a 
burguesia de concorrer com esse grupo em condições mais adequadas às suas ambições. 
 
 
 
4433 
 
Outro grupo insatisfeito era constituído pela nobreza rural que almejava eliminar as 
limitações que o estado impunha contra a expansão da propriedade rural. Deste modo, o 
estado absolutista inglês favoreceu a aliança entre nobreza rural e a burguesia comercial 
contra o modelo político vigente. 
Outro aspecto que contribui para sublevação contra a monarquia foi a religião. No 
século XVI, os Tudor aderiram ao protestantismo e enriqueceram o Estado ao 
confiscarem os bens da Igreja Católica, o que injetou dinheiro na economia inglesa. 
Entretanto, a rainha Elizabeth faleceu em 1603 e não deixou herdeiros; o trono então 
passou para a família Stuart, sob o mandato de Jaime I, que passou a ressaltar os 
elementos católicos da doutrina anglicana para justificar o absolutismo como a 
expressão da vontade divina. Jaime I perseguiu as seitas protestantes que discordavam 
da mescla de protestantismo e catolicismo que caracteriza o anglicanismo e também os 
católicos. Parte dos protestantes perseguidos por Jaime I rumou para a América do 
Norte e contribuiu para a colonização da América do Norte, ação decisiva para a 
posterior formação dos Estados Unidos e da nação que provavelmente melhor 
representou, até o momento, as características da modernidade capitalista em sua fase 
industrial. 
A oposição a Jaime I organizou-se no Parlamento, que, contudo, estava esvaziado 
politicamente em razão das raras convocações realizadas desde o reinado de Henrique 
VIII. O sucesso dos Tudor obliterou a perda de relevância da representação política 
parlamentar. A impopularidade das medidas de Jaime I entre os burgueses encontrou 
ressonância em parte expressiva dos parlamentares, quando o rei convocou-os para 
aprovar sua proposta de colonização da Irlanda, em 1610. O modelo defendido de 
ocupação feudal desejado por Jaime I retomava elementos feudais que concentravam a 
renda dos impostos sobre o comércio de tecidos na Irlanda no trono, o que o 
enriqueceria consideravelmente em virtude da existência de rendas sobre suas terrase 
outros monopólios na Inglaterra. O objetivo de Jaime I era adquirir independência 
financeira do Parlamento, uma vez que diversas despesas, as militares principalmente, 
somente poderiam ser autorizadas pelo Parlamento. O rei objetivava fortalecer o 
exercício absolutista do poder. Percebendo as intenções do rei, os parlamentares 
 
 
 
4444 
 
recusaram-se a autorizar o modelo real e propuseram benefícios que favoreciam a 
burguesia com a ocupação capitalista da Irlanda. Os interesses do rei não foram 
atendidos e o Parlamento foi dissolvido (HILL, 1991). 
Em 1625, Jaime I falece e seu filho Carlos I o sucede. Três anos depois, Carlos I 
convoca o Parlamento em razão de conflitos externos que o obrigam a solicitar a 
autorização para gastos financeiros com a guerra. Apesar do exercício absolutista do 
poder desde Henrique VIII, as leis legadas da idade média que restringiam o poder real 
à vontade do Parlamento para proteger a aristocracia feudal da centralização estatal não 
foram anuladas. Mas, nas raras convocações realizadas desde Henrique VIII, os 
parlamentares haviam aprovado as reivindicações reais, exceto em 1610. Aproveitando 
o momento, os parlamentares impõem a Carlos I a denominada Petição de Direitos, que 
estabelecia o controle da política financeira real e da convocação do exército por parte 
do Parlamento e também sua convocação regular. As exigências foram respondidas com 
a dissolução do Parlamento. 
Carlos I buscou impor seus objetivos de forma arbitrária, causando forte 
descontentamento popular, cuja principal consequência foi o aumento da imigração para 
a América do Norte. O início da Revolução Puritana em 1640 decorreu de uma das 
medidas mais radicais de Carlos I, a imposição do anglicanismo aos calvinistas ou 
puritanos da Escócia, reino incorporado à Inglaterra quando o seu soberano, Jaime I, 
herdou o trono da prima Elizabeth I. Os escoceses rebelaram-se e invadiram a 
Inglaterra. Para combatê-los, Carlos I voltou a convocar o Parlamento em 1640, 
iniciando o período do Longo Parlamento, que perdurou até 1653. Os parlamentares 
aproveitaram a oportunidade para proibir o rei de manter um exército permanente, 
determinar a obrigatoriedade da reunião trienal do Parlamento e a exclusividade na 
condução das políticas tributária e religiosa. Os parlamentares também 
responsabilizaram publicamente o rei Carlos I por provocar com seu absolutismo a 
revolta escocesa e a revolta irlandesa; esta última como decorrência do exemplo da 
primeira, em 1641. 
As discordâncias entre o Parlamento e o rei Carlos I levaram à guerra civil. Aristocratas 
do oeste e do norte e parte da burguesia descontente com a contestação ao monarca 
 
 
 
4455 
 
apoiaram o rei, enquanto camponeses, burgueses londrinos e o restante da nobreza 
juntaram-se ao exército do Parlamento, cuja característica principal foi a formação de 
comitês que promoveram a ampla participação popular na condução do conflito. Apesar 
da forte participação popular na guerra em razão da necessidade das lideranças 
manterem o apoio da população, a derrota final de Carlos I escancarou as divergências 
entre os burgueses e os nobres e os demais grupos sociais que se uniram contra o rei. 
Após a execução de Carlos I em 1649, foi proclamada a República sob a liderança de 
Oliver Cromwell. 
Ironicamente, Cromwell concentrou poderes tão absolutistas quanto os exercidos por 
Carlos I. Cromwell conteve a reação realista que buscava impor o filho do soberano 
executado, Carlos II, como rei. O líder foi duro com os grupos populares que 
reivindicavam reformas sociais profundas, como por exemplo a reforma agrária, 
prendendo e executando seus líderes. Em 1653, Cromwell foi proclamado Lorde 
Protetor e o Longo Parlamento dissolvido. Cromwell exerceu uma política econômica 
protecionista, favorecendo os interesses da burguesia mercantil inglesa. Faleceu em 
1658 e foi sucedido por seu filho Richard Cromwell, que pouco hábil foi deposto em 
1659. 
A monarquia foi restaurada em 1660 e Carlos II assumiu o trono. O novo soberano 
manteve a política protecionista de Cromwell e a reforçou com os atos de navegação 
que favoreciam os comerciantes ingleses. Carlos II não buscou impor a política 
absolutista que provocou a deposição de seu pai. Entretanto, quando seu irmão, Jaime 
II, subiu ao trono, os conflitos foram retomados. Jaime II buscou restaurar o 
absolutismo e impor a sua fé, o catolicismo. Em 1688, o Parlamento reagiu às ações de 
Jaime II e convocou a sua filha Maria Stuart a ocupar o trono. Foi a denominada 
Revolução Gloriosa. Pacífica, a revolução confirmou a independência do Parlamento e 
o seu controle sobre os atos da monarquia por meio de regras e limitações que 
consagravam o poder compartilhado entre os monarcas e os parlamentares. 
A Revolução Gloriosa confirmou a ascensão da burguesia ao poder na Inglaterra e 
consolidou as condições que favoreceram a efetivação da revolução industrial nas 
décadas seguintes. A expansão marítima e comercial facilitada com os Atos de 
 
 
 
4466 
 
Navegação e a concentração da propriedade rural garantiram a contínua expansão do 
capital necessário à futura industrialização do país. 
As revoluções inglesas do século XVII constituíram a primeira oportunidade de 
exercício do poder por parte da burguesia. Até então, a construção da modernidade por 
meio da transição do feudalismo para o capitalismo provocara uma série de mudanças 
históricas que reorganizaram a sociedade europeia sob as mais diversas instâncias, da 
religião à produção de conhecimento e também a centralização do poder. Contudo, o 
estado absolutista favorecia a burguesia sem estender o exercício do poder a esse grupo 
social. De certo modo, a modernidade estava incompleta, pois o estado absolutista 
representava a extensão do domínio da nobreza feudal em novas bases políticas, 
análogas às transformações econômicas iniciadas com as cruzadas. A ascensão da 
burguesia ao poder político na Inglaterra completava esse processo e consolidava as 
bases sociais e econômicas da modernidade. 
 
3.3 A luz da razão: arte, ciência e a secularização 
A passagem do feudalismo para o capitalismo provocou diversas mudanças como 
realçado anteriormente. As estruturas sociais experimentaram mudanças significativas 
quanto à organização econômica, religiosa e política. A expansão propiciada com as 
grandes navegações representou a ampliação das referências geográficas e culturais do 
velho mundo. E a ciência passou por um processo de valorização extremamente positivo 
para a produção do conhecimento. A modernidade representou a constituição de 
condições sociais bastante distintas das experiências que caracterizaram a idade média. 
A ascensão burguesa, que atingiu no período moderno o seu ápice com as revoluções 
burguesas na Inglaterra, é devedora da secularização do conhecimento que produziu as 
bases necessárias à contestação do poder da Igreja no século XVI, com a Reforma 
Protestante e, depois, com o questionamento do poder dos reis e do absolutismo por 
parte dos filósofos iluministas. Na próxima Unidade, a efetivação da modernidade será 
abordada com a exploração do iluminismo e das novas relações de poder que emergem 
 
 
 
4477 
 
da progressiva secularização do mundo. Mas, antes, conheceremos como foram 
estruturadas as bases necessárias à secularização das relações sociais. 
Marx (2001) afirmou que os homens produzem a história em relação aos limites das 
condições sociais vivenciadas. A idade média representou um período bastante hostil à 
expansão dos horizontes humanos. O debate intelectual estava circunscrito aos temas 
religiosos pertinentes aos debates promovidos no interior da Igreja Católica. Detentora 
do saber acumulado na antiguidade e com o monopólio do ensino, a instituição 
orientava as reflexões filosóficas para o âmbito espiritual, preocupando-se em orientar a 
consolidação dos dogmasque sustentavam a fé cristã. A condução do ensino para bases 
puramente especulativas correspondia à própria estrutura feudal. Caracterizado por 
ensejar a simples reprodução das condições de subsistência, o feudalismo ancorava uma 
sociedade fechada à inovação, à mudança. Sua rigidez assentava-se sobre a 
fragmentação do território e do poder e na precariedade das relações econômicas. As 
ambições medievais estavam bastante limitadas à própria subsistência. 
A busca por outras experiências era desencorajada, tida como perniciosa àquilo que 
definia a existência humana: a busca da salvação da alma. Duby (1999) demonstra como 
o ano 1000 representou o ápice da mentalidade medieval. A expectativa do juízo final 
contaminou profundamente a sociedade a ponto de reduzir a frágil atividade econômica 
e provocar uma crise alimentar. A escatologia cristã, como discutido anteriormente, 
representava o tempo em passado e presente. Não existia a percepção do futuro como 
um tempo aberto às realizações humanas, mas apenas a insistência em cumprir as 
supostas expectativas divinas anunciadas pela Igreja para o alcance da salvação eterna. 
O risco da danação eterna rondava a todos. O menor deslize provocava a perda da alma. 
A chance de perder a chancela divina era ampla e o caminho para o paraíso muito 
estreito. Cada indivíduo era responsável por perceber e obedecer aos desejos de deus. 
Aos camponeses cabia trabalhar e prover os eleitos do senhor; aos nobres cabiam lutar e 
proteger os demais para efetivar a sua missão divina, em particular contra os infiéis; dos 
sacerdotes esperavam-se a oração intercessora e a elaboração de orientações confiáveis 
em um cenário permeado por ameaças à salvação. 
 
 
 
4488 
 
Entretanto, as mudanças efetivadas a partir das cruzadas representaram o início do fim 
das condições que limitaram a produção do conhecimento a uma postura contemplativa. 
O Renascimento Cultural e Científico correspondeu a necessidades sociais e 
econômicas. A burguesia em ascensão buscava um meio para alcançar legitimidade 
social. Essa busca encontrou ressonância no campo da arte, da cultura e da ciência. É 
importante salientar que especialização acentuada da produção do conhecimento é uma 
condição contemporânea. A filosofia incorporava uma série de disciplinas que 
atualmente possuem autonomia e contam com profissionais especializados para seu 
desenvolvimento. Entretanto, fiéis as tradições legadas da antiguidade, os filósofos 
interessavam-se por múltiplos campos, da matemática à medicina, da moral à ética. A 
formação ampla, porém, estava desvinculada da busca por aplicações práticas dos 
conceitos e ideias, que por sua vez não encontravam estímulos diversos das 
preocupações espirituais que predominavam. 
O cenário muda com a transição do feudalismo ao capitalismo. A busca por rotas 
alternativas ao tradicional comércio de especiarias e outros produtos desejados pelos 
europeus entre os séculos XIV e XVI exigia o desenvolvimento de conhecimentos mais 
precisos sobre a natureza e o uso dos recursos naturais. As cruzadas cumpriram uma 
função estratégica para estimular a passagem de uma perspectiva contemplativa para 
uma postura ativa. O contato frequente com os muçulmanos favoreceu a aquisição da 
ciência que fora desenvolvida no oriente. Bússola, astrolábio, álgebra, entre outros 
conhecimentos, renovaram a sociedade europeia ao possibilitar a expansão marítima. 
Enquanto os europeus vivenciaram um longo período de limitações no que tange à 
produção de conhecimentos, os muçulmanos experimentaram o ápice da sua civilização. 
O império árabe constituído por Maomé e seus sucessores caracterizou-se por valorizar 
o conhecimento. Literatura, filosofia, ciências, matemática eram intensamente 
valorizadas. Mesmo após a fragmentação do império em unidades menores como reinos 
e califados, a valorização do saber persistiu. Os seguidores de Maomé contribuíram 
decisivamente para a Renascença ao preservar e desenvolver o conhecimento legado da 
antiguidade clássica. Preservaram textos, reproduziram obras imprescindíveis e 
constituíram canais acadêmicos para a divulgação do saber. Os cruzados, apesar da 
 
 
 
4499 
 
violência imposta aos muçulmanos, estreitaram os contatos que favoreceram a 
transmissão do saber por meio das relações comerciais e mediante as oportunidades de 
convivência pacífica nas regiões que os cristãos impuseram o seu controle. 
A valorização do saber produzia aos contemporâneos um contraste impressionante 
quanto à sofisticação e requinte das ideias que os muçulmanos propagavam. Apesar da 
intolerância em relação aos infiéis, a dinâmica econômica liderada pela burguesia 
produziu uma prosperidade econômica que levava ao desejo de experimentar o 
refinamento e os avanços que a civilização islâmica alcançou. Despertava a atenção das 
mentes esclarecidas do período a existência de dezenas de bibliotecas públicas na 
Córdoba moura da idade média, enquanto a posse de poucos livros no ocidente era 
muito rara fora dos mosteiros (LEWIS, 2010). 
A Espanha islâmica foi particularmente estratégica na transmissão do conhecimento 
acumulado por muçulmanos para a cristandade: 
Os andaluzes assimilaram o novo aprendizado nas ciências e nas 
humanidades com prazer quase inabalável, assim criando uma base de 
conhecimento que forneceria a fundação para o Renascimento na 
cristandade, que certamente um dia viria. No polarizado século XII, o 
fluxo de conhecimento deu lugar a uma quase enchente. Os 
conhecimentos muçulmanos, que tinham penetrado no Ocidente 
cristão durante décadas, a partir da Andaluzia, começaram a jorrar em 
torrente (LEWIS, 2010, p. 389-390). 
A elevação do nível cultural do ocidente dependeu, portanto, dos contatos estabelecidos 
com os muçulmanos, cuja contribuição foi fundamental para o Renascimento Cultural e 
Científico, como aponta Lewis. 
Mais de cem anos de rara colaboração judaico-cristã-muçulmana 
como a que ocorreu em Toledo, produziram todo o corpo do 
conhecimento antigo recuperado que é hoje conhecido (LEWIS, 2010, 
p. 391). 
Entretanto, a expressiva contribuição muçulmana surtiu efeito em razão da necessidade 
de organizar soluções para as exigências do desenvolvimento econômico. As tensões 
que marcaram as relações da Igreja com os artistas e cientistas decorreram da 
progressiva secularização das relações de poder e também da produção da arte e da 
ciência. E favoreceram a constituição de relações institucionais que permitem 
 
 
 
5500 
 
caracterizar a modernidade como um processo de secularização da sociedade. Afinal o 
desenvolvimento passa ser realizado em função das necessidades econômicas, 
reduzindo o controle das instituições religiosas sobre a experiência humana. A 
religiosidade continuou a ser um elemento importante da sociabilidade, mas deixou de 
condicionar as estruturas sociais. 
A associação com o universo das artes em busca de prestígio pessoal por parte dos 
membros mais proeminentes do clero gerou uma contribuição involuntária ao processo 
de secularização. A distinção pessoal consagrou-se no ocidente a partir do século XIV. 
Tornou-se louvável buscar, assumidamente, o reconhecimento social sem depender de 
ações ligadas à experiência religiosa ou aprovadas previamente pela Igreja. E as 
condições de produção do conhecimento, determinadas no âmbito da Filosofia, 
definiram as ciências e as artes como um meio de atingir a deus. 
O Renascimento Cultural e Científico representou a alteração da relação do homem 
ocidental para com deus. Enquanto a Igreja Católica perdia progressivamente seu poder 
em virtude do choque com os reformadores e passava a compor politicamente com os 
estados absolutistas para preservar parte dos seus interesses, ocorreu um deslocamento 
significativo quanto à percepção da função social da arte e da ciência. Embora a 
Inquisição represente a ação da Igreja para combater conceitos e posturas diversasdos 
dogmas católicos entre os séculos XIV e XVIII, ainda assim uma mentalidade secular 
passou a ocupar espaço e a predominar com a efetivação da modernidade. Ciência e arte 
passam a ser considerados meios para acessar a deus. Filósofos como Descartes 
afirmavam que deus é a própria razão, portanto negar os atributos da razão equivale a 
negar deus. Esta assertiva passou a fundamentar a filosofia, a ciência e a arte. A 
ausência de uma distinção forte entre arte e ciência marcava o período e técnicas 
empregadas para o avanço científico eram compartilhadas no processo de criação 
artística. Exemplo pertinente a essa situação é a autopsia, usada tanto para a exumação 
de cadáveres e mensuração de dados relativos à prática da medicina, quanto para o 
estudo necessário da anatomia para viabilizar a representação do corpo humano na 
escultura e na pintura. 
 
 
 
 
5511 
 
3.4 Síntese da Unidade 
Nesta Unidade estudamos como a efetivação da modernidade é um processo complexo 
que entreleçou diversas temporalidades simultaneamente. Essa condição decorre dos 
diversos atores que contribuíram para a construção da modernidade. No aspecto 
econômico, a expansão marítima europeia constituíu o expediente para a conquista de 
espaços que forneceram os recursos necessários à consolidação do capitalismo mercantil 
que antecedeu a industrialização. Entretanto, a modernidade também inclui a dimensão 
política necessária à consolidação das condições institucionais que favorecem a 
dinamização do capitalismo. A ascensão da burguesia ao poder por meio das revoluções 
burguesas na Inglaterra fundamentou a associação entre poder político e econômico que 
caracteriza a modernidade capitalista. No campo da ciência e da arte, desenvolveu-se o 
pensamento secular que justificou a passagem do predomínio do poder espiritual para 
relações de poder fundadas na emancipação da Igreja. 
 
3.5 Atividades 
1. Faça uma pesquisa sobre a cronologia das navegações marítimas e elabore um 
texto sobre a sua relação com a constituição do estado absolutista. 
 
3.6 Para saber mais 
Filme 
1492: A conquista do paraíso (1992). Apresenta as relações de poder que caracterizam 
a conquista do novo mundo por meio da representação da vida de Cristóvão Colombo. 
Insere a biografia de Colombo nos interstícios dos conflitos entre a burguesia, a nobreza 
e a Igreja durante a expansão marítima europeia. 
Livro 
HILL, C. O mundo de ponta cabeça: ideias radicais durante a revolução inglesa de 
1640. São Paulo: Cia das Letras, 1991. O autor discute as relações entre religiosidade e 
 
 
 
5522 
 
cultura popular durante a Revolução Inglesa de 1640, mostrando como a experiência 
radical durante os conflitos da guerra civil fundamentava-se neste entrelaçamento. Hill 
demonstra que durante a revolução havia um forte distanciamento entre as expectativas 
da burguesia e das camadas populares em decorrência das respectivas experiências 
sociais. Como consequência, há um conflito ao conduzir o processo e produzir um novo 
arranjo político. 
 
 
 
 
 
 
5533 
 
 
Unidade 4 
Unidade 4 . A ascensão política da burguesia: 
contestação e legitimação 
 
Nesta Unidade vamos estudar a construção da modernidade em relação ao suporte 
ideológico que sustentou sua efetivação durante a constituição dos estados absolutistas. 
Sua importância decorre da necessidade de verificar como foram elaborados 
historicamente os conceitos que justificaram a ascensão da burguesia ao poder. Esse 
processo complexo é caracterizado por conflitos e tensões, tanto no questionamento do 
predomínio da nobreza, quanto na legitimação da ascensão da burguesia ao poder. A 
consolidação da burguesia ocorreu em duas fases; a primeira, com a ruptura em relação 
ao feudalismo e às formações e valores sociais e ele pertinentes, cujo modelo de 
oposição foi a antiguidade greco-romana; a segunda, a partir de uma configuração 
própria, assentada na produção e na circulação do capital que alterou drasticamente a 
ordenação do poder, da economia e do espaço. 
 
4.1 A burguesia e os contratos sociais 
A ascensão da burguesia ao poder ocorreu paralelamente ao fortalecimento do seu poder 
econômico. Quando a burguesia atingiu o ápice do controle do sistema produtivo 
também atingiu o controle do estado. O exemplo inglês foi o primeiro caso. Outras 
sociedades que realizaram a transição do feudalismo para o capitalismo experimentaram 
processo análogo. E durante a trajetória da burguesia rumo ao poder ocorreram 
alterações nas relações sociais relacionadas à desintegração do feudalismo e à 
estruturação do capitalismo. Estas mudanças derivaram dos abalos produzidos com as 
 
 
 
5544 
 
reformas religiosas, com a nova mentalidade científica e cultural propiciada com o 
Renascimento, e com os efeitos pertinentes à estruturação do estado absolutista. 
O conjunto das transformações históricas provocadas com a transição do feudalismo 
para o capitalismo estimulou a elaboração de teorias e ideias que explicassem a ruína 
das formas típicas da idade média e a consolidação das instituições e valores da 
modernidade. Entre os séculos XVI e XVIII, emergiram teorias que propunham delinear 
os fundamentos das sociedades e apresentar a forma ideal de organizá-las em função das 
características que impeliram a associação entre os homens. 
Hobbes, Locke e Rousseau são os contratualistas mais conhecidos. Suas obras são 
estudas ainda hoje, pois impactaram na constituição dos fundamentos jurídicos das 
sociedades ocidentais contemporâneas, além de inspirar teorias políticas que 
legitimaram modelos políticos e econômicos ao longo da modernidade capitalista. Suas 
obras orientaram a criação de mecanismos adequados às novidades estruturais 
produzidas com a emergência do capitalismo. O estado absolutista emergiu como uma 
solução crise de legitimidade da ordem feudal (ANDERSON, 2004). Sua constituição 
correspondeu à elaboração de uma estrutura centralizada de poder que mantinha a 
emergente burguesia dominada e propiciava a extração dos recursos relativos ao 
crescimento da atividade econômica capitalista. O caráter reacionário do estado 
absolutista é inerente a seu propósito histórico: a preservação do poder da nobreza 
feudal em um novo arranjo institucional que defendia seus interesses. 
A configuração do estado absolutista embutia os elementos que provocaram a sua crise 
e posterior esfacelamento. A segurança necessária à prosperidade capitalista foi 
alcançada nos estados resultantes da transição do feudalismo para o capitalismo. 
Entretanto, politicamente a burguesia estava insatisfeita quanto ao seu afastamento da 
formulação das políticas de estado, uma vez que o atendimento das suas reivindicações 
era secundarizado em beneficio dos objetivos da nobreza. O crescimento econômico 
desejado resultava em benefícios políticos e econômicos orientados para a elite política. 
O questionamento aos desdobramentos deste modelo que fortaleceu os poderes estatais 
com estímulos ao capitalismo, mas abertamente favorável aos objetivos da nobreza em 
detrimento da burguesia, produzia profundas insatisfações. 
 
 
 
5555 
 
As contradições que permeavam o sistema político em decorrência destas ambiguidades 
provocavam inquietações em pesquisadores, cuja ambição era compreender as razões 
dos conflitos entre os diversos grupos sociais e criar um modelo político pertinente à 
uma organização política adequada à superação das contradições do estado absolutista. 
O esforço intelectual dos contratualistas deve ser entendido sob essa perspectiva. 
O primeiro contratualista a adquirir relevo foi o inglês Thomas Hobbes (1588-1679). A 
vida e a obra de Hobbes coincidem com o absolutismo inglês e a crise política que o 
perpassou no século XVII (RIBEIRO, 1999). O filósofo testemunhou a crise política 
que provocou a Revolução Puritana de 1640. Hobbes participou intensamente da vida 
intelectualeuropeia. Foi amigo do filósofo francês Descartes e manteve contato com 
Galileu Galilei. Sua participação na cena intelectual europeia revela a formação de um 
circulo internacional de pensadores que debateram com profundidade questões 
consideradas essenciais para a compreensão da natureza e da sociedade. 
É importante ressaltar, como demonstrado na Unidade 2, que a busca por conhecimento 
se tornou um paradigma fundamental desde o Renascimento Cultural e Cientifico. O 
desenvolvimento intelectual tornou-se um paradigma. A elaboração científica foi 
elevada à condição de elo entre os homens e deus. Afinal, o criador havia propiciado 
aos homens a racionalidade imanente ao divino. A espiritualidade, nesta acepção, é uma 
experiência oposta à irracionalidade. Mensurar a natureza e a sociedade equivaleria a 
aproximar-se de deus. Essa perspectiva fundamentava a busca por conhecimento apesar 
dos possíveis atritos entre os intelectuais e as instituições religiosas. 
O circuito internacional europeu de intelectuais compartilhava, com algumas exceções, 
desta premissa. Entre aqueles que se distanciavam da identificação entre devoção e 
ciência estava Hobbes, o que não o impedia de compartilhar o interesse quanto ao 
estudo da natureza e da sociedade sob uma perspectiva absolutamente racional. Hobbes 
aderiu à teoria mecanicista sobre a natureza propugnada por Descartes e Galileu, 
postulando que a descoberta dos mecanismos inerentes ao funcionamento do universo 
fundamentava a produção da ciência. A adesão ao mecanicismo é um dos fatores que o 
impulsionou a estudar a constituição da sociedade. 
 
 
 
5566 
 
Outro estímulo essencial à investigação da sociedade e das relações de poder que 
delineiam foi o próprio contexto político inglês. Defensor da monarquia, Hobbes atuava 
como preceptor. Durante a guerra civil que se seguiu ao início da Revolução Puritana 
(1640), Hobbes exilou-se em Paris, convivendo entre os intelectuais franceses com os 
quais mantinha contato em decorrência de uma viagem anterior ao continente. Na 
França, Hobbes preservou suas atividades intelectuais e atuou como preceptor do filho 
do rei Carlos I, que assumiu o trono inglês após a deposição do filho de Oliver 
Cromwell, Richard, em 1658. 
Em 1651, Hobbes voltou para a Inglaterra. No mesmo ano publicou sua principal obra 
política, O Leviatã, apresentando reflexões acerca das relações entre política, filosofia e 
direito, por meio de conceitos como contrato social, soberania, estado de sociedade e 
estado de natureza. A guerra civil inglesa exerceu um impacto muito expressivo sobre 
Hobbes. A inquietação quanto às razões dos conflitos por poder o orientaram a produzir 
O Leviatã, obra imprescindível para a compreensão das tensões que permeiam o Estado 
e o exercício do poder (RIBEIRO, 1999). Nela, o filósofo afirma que todos os homens 
são dotados de uma liberdade natural, que os acompanha desde o nascimento. 
Entretanto, o estado de natureza inerente à humanidade provoca a guerra constante entre 
os homens. Afinal, não havia limites à liberdade individual, o que provocava atritos 
constantes entre os homens. Para Hobbes, a sociedade é fundamentada na renúncia à 
liberdade absoluta que caracteriza a liberdade natural. Os homens concordam em perder 
parte da sua liberdade em troca da segurança que regras e leis propiciam, é o contrato 
social. 
Segundo Hobbes, o contrato social estabelece o princípio da hierarquia social pertinente 
ao estabelecimento de relações de poder relacionadas à obediência a um poder 
soberano. Em troca da obediência, o poder soberano deve assegurar a paz e a segurança 
dos súditos que renunciaram à liberdade natural quando da constituição do contrato 
social. Hobbes postulava que somente um poder centralizado e inquestionável 
possibilitaria ao poder soberano exercer adequadamente as funções determinadas no 
contrato social: manter a ordem e a segurança. Para Hobbes, o poder soberano somente 
 
 
 
5577 
 
pode ser questionado quando falha em garantir a preservação da vida dos súditos, o que 
poderia ensejar a substituição do soberano. 
A obra de Hobbes decorre da experiência propiciada com a Revolução Puritana. Os dez 
anos de guerra marcaram o filósofo de modo decisivo. O principal reflexo é a defesa do 
poder centralizado e inquestionável como um único mecanismo capaz de garantir o 
princípio do contrato social. Hobbes defendia a monarquia inglesa centralizada como 
única opção política viável para Inglaterra. O debate capitalizado por Hobbes recebeu a 
contribuição decisiva de John Locke. 
Contemporâneo de Hobbes, Locke é considerado o fundador do liberalismo, doutrina 
política mais identificada com os interesses burgueses e que fundamentou a defesa de 
princípios como o direito à propriedade (AYERS, 2000). O liberalismo coincide com os 
interesses da burguesia a ponto de estruturar a participação política da burguesia. Suas 
ideias inspiraram-se na luta da burguesia inglesa para afirmar seus objetivos durante as 
revoluções inglesas do século XVII; constituíram referência para a emancipação norte-
americana e para a fase inicial da Revolução Francesa. E suas ideias ainda hoje 
fundamentam aquelas que justificam as políticas relacionadas à defesa dos interesses da 
burguesia. 
Locke é provavelmente o filósofo que melhor defende os interesses da burguesia contra 
a organização dos interesses da nobreza em torno do estado absolutista. O pensador 
construiu um edifício teórico que justificava a perda dos privilégios da nobreza. Locke 
permitiu, no plano da formulação do poder, a passagem da burguesia de uma condição 
subalterna à posição de predomínio político. Para tanto, o filósofo publicou, em 1689, a 
obra Dois tratados sobre o governo. Locke retoma a discussão de Hobbes acerca da 
constituição da sociedade e do governo por meio do contrato social, concordando 
quanto à necessidade de renúncia à parcela da liberdade natural em favor de um poder 
soberano para fundamentar a sociedade. Entretanto, para Locke essa passagem tem 
como motivação a preservação da vida, da liberdade e da propriedade. 
Para Locke, o estado de natureza representa a ameaça constante à materialização dos 
talentos naturais que nascem com os homens. Segundo Locke, o que distingue os 
 
 
 
5588 
 
homens dos animais é a razão, fonte principal da liberdade, e que se materializa com a 
propriedade, decorrente da efetivação das habilidades humanas. No estado de natureza, 
a propriedade é constantemente ameaçada em virtude da imposição do poder do mais 
forte sobre os demais homens, o que provocava um estado de guerra constante entre 
todos. A renúncia à liberdade absoluta implica a busca por segurança que garanta a 
manutenção dos demais direitos naturais: a vida, a liberdade e a propriedade. A função 
do poder soberano, na perspectiva de Locke, é garantir o acesso à propriedade, essencial 
para a realização humana. A desigualdade no acesso à propriedade decorre da 
capacidade de cada individuo de materializar seu trabalho em resultados (AYERS, 
2000). 
As ideias de Locke convergiam para as expectativas da burguesia inglesa e dos demais 
estados absolutistas europeus, pois nestas formações políticas o direito à propriedade 
não estava assegurado. Uma série de mecanismos relacionados aos direitos dos nobres 
estava assegurada no estado absolutista, mas sua preservação decorria da vontade dos 
reis e não de leis que respeitassem a inviolabilidade da propriedade. A defesa da 
propriedade, independentemente da vontade do monarca, agradava à burguesia. Locke 
justificava a propriedade como um direito natural e inviolável a própria dignidade 
humana e simultaneamente justificava a desigualdade pertinente à sua concentração. 
Os postulados de Locke convergiram com as ideias econômicas defendidas por Adam 
Smith no século XVIII. Leitor de Locke, Smith pautou-se no conceito de propriedade 
como um direito naturalpara postular pela livre iniciativa. Juntos, Locke e Smith, 
justificaram as expectativas de organização da política e da economia conforme os 
interesses da burguesia. Locke admitia inclusive a legitimidade da revolta contra o 
poder soberano que não garantia a propriedade. O pensador propicia contornos nítidos a 
princípios políticos e ideias aos interesses da burguesia, oferecendo um modelo 
adequado à plena efetivação da modernidade enquanto realização do capitalismo. Locke 
defendia, inclusive, que a participação política deveria ser restrita aos proprietários, 
únicos efetivamente interessados na preservação da ordem social que garantia a 
propriedade. Por esse critério político, a convivência entre a burguesia e nobreza era 
 
 
 
5599 
 
possível, mas com o predomínio da primeira, invertendo a equação política que 
caracterizava o estado absolutista. 
 
4.2 Rosseau: a crítica à propriedade 
As formulações de Locke garantiram a elaboração de conceitos que convergiram para os 
interesses da burguesia. A absoluta defesa da propriedade e das distinções nela 
fundamentadas favoreciam a integração ao estado sob outra perspectiva. A efetivação 
das premissas postuladas por Locke garantiam o acesso ao poder em uma posição de 
comando para a burguesia. Tratava-se da superação das contradições que, apesar da 
importância estratégica da burguesia para a efetivação do capitalismo e da modernidade, 
garantiam o predomínio da nobreza enquanto grupo, cuja legitimidade política 
remontava às relações de poder tipicamente feudais. 
Partindo das observações de Hobbes, Locke forneceu os argumentos decisivos para a 
superação das contradições internas ao estado absolutista, ao estabelecer as bases para 
uma ideologia moderna e tipicamente burguesa, o liberalismo. E as proposições de 
Locke não ficaram restritas à teoria. Os séculos XVIII foram marcados, no campo 
político, pela efetivação de estruturas políticas concernentes aos interesses da burguesia. 
Na Inglaterra, nos Estados Unidos, na França da primeira fase da Revolução Francesa e 
em diversos países europeus, a burguesia ascendeu ao poder e tratou de organizar a 
estrutura política conforme os ideais de Locke, ou seja, com a defesa irrestrita da 
propriedade e dos privilégios políticos dos proprietários. Contribuíram para esse cenário 
diversos fatores: a difusão das ideias políticas de Locke, replicadas por diversos 
pensadores do iluminismo do século XVIII, que tornaram o liberalismo a expressão 
política das aspirações da burguesia; o desenvolvimento econômico inglês que inspirou 
outras burguesias a trilhar trajetória semelhante; a decadência política e econômica do 
estado absolutista, incapaz de resolver as contradições que permeavam sua existência, 
particularmente a incapacidade de manter o poder distante de uma burguesia cada vez 
mais avessa à concentração de poder na nobreza. 
 
 
 
6600 
 
Entretanto, todo sistema político e social engendra suas contradições e crises 
decorrentes das dissensões que opõem interesses conflitantes. A ascensão paulatina da 
burguesia ao poder produziu contradições, que no século XIX passaram a opor os novos 
mandatários, a nova classe social que resultou do sucesso do desenvolvimento 
capitalista que a burguesia liderou, o proletariado. Como observado na primeira 
Unidade, a acumulação primitiva do capital resultou do sucesso comercial da burguesia 
durante a transição do feudalismo para o capitalismo, e permitiu o contínuo acúmulo e 
reinvestimento do capital nas atividades comerciais que pautaram o fortalecimento da 
burguesia. Durante os séculos XVI, XVII e XVIII, ocorreram a organização da 
economia mercantilista e a implantação de manufaturas decorrentes do investimento dos 
lucros aferidos com a expansão marítima europeia. A ampliação sistemática da 
produção favorecia o aumento dos investimentos no setor manufatureiro, o que, 
progressivamente, concentrou a propriedade dos meios de produção nas mãos da 
burguesia. Esse processo provocava a pauperização dos artesãos e camponeses em razão 
dos investimentos contínuos dos burgueses em terras e manufaturas para sustentar a 
elevação dos lucros (MARX, 2005). A conquista do espaço reservado aos artesãos 
durante o feudalismo passava pelo aumento da produção das manufaturas, que 
ofereciam mercadorias a um custo menor que as tradicionais corporações de oficio. 
Durante a vigência do sistema absolutista de poder, as corporações de oficio deixaram 
de usufruir da proteção que a legislação feudal propiciava, afinal o aumento da atividade 
econômica gerava vantagens econômicas apropriadas pela nobreza naquela 
configuração social. 
Esse processo de contínuo crescimento econômico provocou a organização do estado 
absolutista como uma resposta da nobreza ao fortalecimento da burguesia e permitiu aos 
nobres aferirem vantagens do capitalismo foi transitório. O fortalecimento da burguesia 
entre os séculos XVI e XVIII tornou insustentável o arranjo absolutista do poder. 
Contudo, a ascensão da burguesia ao poder produziu novas contradições, latentes à sua 
trajetória de ascensão. A pauperização dos artesãos e camponeses, que antecedeu a 
revolução industrial iniciada no final do século XVIII, resultou da progressiva reversão 
das posições que a burguesia experimentou durante a transição do feudalismo para o 
capitalismo; de classe social questionadora das estruturas de poder para uma posição 
 
 
 
6611 
 
conservadora em função da conquista do poder político. Durante essa trajetória, 
constitui-se a oposição entre a burguesia e aqueles que produziam a riqueza dos 
capitalistas. 
O contraste entre o discurso burguês em defesa da liberdade e da igualdade foi 
detectado e criticado com veemência por Jean-Jacques Rousseau. Partindo da 
comparação entre a realidade social do século XVIII e as teorias que defendiam a 
propriedade como um fator natural de distinção social, particularmente a obra de John 
Locke, Rousseau inverte a premissa básica de Hobbes e Locke em relação ao estado de 
natureza ao considerar liberdade e a justiça forma perdidas com a efetivação do estado 
de sociedade. Para Rousseau, o homem nasce livre, mas perde a liberdade na sociedade. 
O pensador parte da premissa de que a sociedade é composta por convenções, 
distanciando-se da natureza. Infere-se, portanto, que os direitos e deveres são 
socialmente construídos (DENT, 1996). 
Rousseau questiona a ordenação da sociedade em torno da propriedade, afirmando que a 
organização deve repousar sobre o direito e não sobre a força ou vantagens que 
constrangem a obediência aos ditames dos mais fortes, incluindo aqueles que logram 
vantagens em razão de privilégios econômicos. Para o pensador, a liberdade decorre do 
direito fundado na razão e na liberdade. Sob esta ótica, Rousseau afirma que antes da 
existência do poder soberano, sem distinguir em um regime específico como a 
monarquia ou a república, é necessário constituir o povo. Outro aspecto pertinente ao 
contrato social, para Rousseau, é a representação política livre e direta de todos os 
homens, sem critérios de distinção como a propriedade, a origem social ou a religião. 
As ideias do pensador suíço correspondem à incorporação das próprias contradições 
sociais produzidas com a ascensão da burguesia ao poder e a efetivação do capitalismo. 
No período anterior à consolidação do capitalismo industrial, a pauperização da classe 
trabalhadora era visível. Organizar o poder sob qualquer critério de distinção 
representava para Rousseau a preservação das injustiças que provocavam constante 
instabilidade social. 
 
 
 
6622 
 
As recorrentes crises sociais e políticas que marcaram a trajetória de transição do 
feudalismo para o capitalismo não representaram obstáculo à ascensão da burguesia. 
Constituíram oportunidades para o aumento dos lucros por meio da ampliação da 
acumulação primitiva. De modo diverso da inflexibilidadedo sistema feudal, o 
capitalismo ampliava seu alcance mediante a consecução de novas oportunidades de 
investimento que cada crise possibilitava. 
 
4.3 Modernidade: a consolidação da dinâmica capitalista 
Os conteúdos e reflexões expostos nesta Unidade e nas anteriores têm como elemento 
comum a construção da modernidade. Sua elaboração decorre de um processo de longa 
duração que remonta ao século XII e estende-se até o século XVIII, cujos marcos são a 
Revolução Industrial e a Revolução Francesa. O processo histórico que efetivou a 
modernidade durante esse período foi a transição do feudalismo para o capitalismo. Sua 
trajetória é complexa, permeada por contradições e conectada a importantes mudanças 
na sociedade europeia, como as reformas religiosas e a expansão marítima, que 
aumentou o seu alcance para espaços que superam os limites do continente europeu. 
Entre as mudanças decorrentes do desenvolvimento e da consolidação do capitalismo 
está a própria definição do que é ser moderno. Anteriormente, neste livro-texto, 
demonstrou-se que a experiência renascentista pautava-se no modelo legado da 
antiguidade clássica greco-romana. De fato, as realizações de filósofos, artistas e 
cientistas, durante a Renascença, efetivaram-se tendo como referência o passado. 
Naquele momento, ser moderno equivalia a restaurar o passado. Contudo, a inspiração 
que gregos e romanos ofereciam não equivaleu à repetição do passado. O Renascimento 
Cultural e Cientifico efetivou novas experiências, pautadas na historicidade do período. 
Enquanto na antiguidade prevalecia o escravismo, o Renascimento correspondia à 
transição do feudalismo para o capitalismo. Essa diferença implicava na superação das 
limitações relacionadas à crise do sistema feudal, incapaz de resistir às mudanças 
provocadas com a retomada das atividades comerciais. A pujança da burguesia 
comercial e financeira implicava na produção de novas formas de relacionamento e 
 
 
 
6633 
 
produção da vida social. A organização estamental não apresentava a flexibilidade 
necessária para resistir às mudanças. 
É importante observar que as mudanças desencadeadas com a transição do feudalismo 
para o capitalismo ocorreram simultaneamente em diversos campos da experiência 
social. Sua interligação corresponde à extensão da modernidade a todas as dimensões da 
experiência social. Religião, cultural, relações de poder – não houve exceção à 
consolidação da modernidade. 
A reformulação do papel da Igreja Católica, que perdeu o predomínio sobre o poder 
temporal, e também o monopólio da fé cristã no continente resultam da necessidade 
histórica de organizar instituições mais adequadas às peculiaridades da burguesia que 
liderava a efetivação do capitalismo, ainda que limitada por uma reorganização da 
inserção social da nobreza mediante o estado absolutista. Isso, por sua vez, não 
representou um obstáculo definitivo em razão da ascensão da burguesia ao poder, 
primeiro na Inglaterra do século XVII, para depois atingir os demais estados da Europa 
ocidental. 
Durante esse período, consolidaram-se as características da modernidade que superaram 
o modelo inicial pautado na experiência dos gregos e romanos. Nos séculos XIV, XV e 
XVI faltavam referências contemporâneas adequadas à emancipação dos valores 
feudais. Recorrer a uma experiência histórica distinta dos rechaçados valores que 
pautaram o feudalismo foi um procedimento estratégico. Porém, a progressiva 
efetivação dos valores engendrados durante o Renascimento Cultural e Cientifico e as 
mudanças provocadas com as reformas religiosas e a efetivação dos estados absolutistas 
propiciaram a formação de uma nova historicidade, descolada tanto das referências do 
feudalismo quanto da dependência dos parâmetros da antiguidade greco-romana. Neste 
momento, a modernidade consolida-se como contingência. Emerge a modernidade 
como efetivação do futuro. 
O conjunto das mudanças experimentadas durante a transição do feudalismo para o 
capitalismo provocou a construção da modernidade, cuja característica fundamental 
corresponde à formação de uma nova percepção da temporalidade histórica, 
 
 
 
6644 
 
desvinculada do tempo circular dos gregos e da escatologia cristã. O devir do futuro 
como resultado das ações humanas funda a modernidade enquanto temporalidade 
histórica. 
A superação das percepções históricas anteriores está fundada nas condições que 
possibilitaram a efetivação da modernidade. Outro aspecto pertinente à efetivação da 
modernidade é o capitalismo. A flexibilidade do capitalismo resulta da busca constante 
da expansão dos lucros que possibilitam a existência do capital. Crises e conflitos 
representaram na trajetória capitalista a oportunidade de engendrar novas formas de 
produção e obtenção dos lucros. O capitalismo beneficia-se da mudança constante e sua 
expansão decorre da capacidade em torná-la um recurso estratégico. Os principais 
momentos de consolidação do capitalismo resultam da resolução de crises (MARX, 
2001). 
A modernidade consagrou valores comumente atribuídos à experiência contemporânea. 
A expansão industrial tornou a modernidade o parâmetro das relações sociais 
contemporâneas. Entretanto, antes da industrialização, a modernidade consolidou-se 
como o núcleo de práticas e valores que correspondem à dinâmica do capitalismo. O 
individualismo já estava presente na prática do mecenato que buscava propiciar à 
burguesia legitimidade social perante a nobreza e o clero. A veneração da trajetória 
individual dissociada das vantagens relacionadas à ocupação de posições privilegiadas é 
uma conquista burguesa. Desde a transição do feudalismo para o capitalismo, o típico 
burguês vincula sua ascensão aos méritos particulares e não aos atributos de classe. 
Embora questionável em razão das vantagens econômicas, culturais e sociais que ao 
pertencimento à elite propicia, é inquestionável que a ascensão da burguesia 
desvinculou a origem social da conquista de posições socialmente consideradas 
elevadas. Condição oposta ao feudalismo, no qual a origem social determinava a 
trajetória pessoal, conformando um sistema quase que impermeável. 
A valorização da ciência e do conhecimento também é um atributo da modernidade. 
Antes confinada a retórica relacionada a temáticas religiosas, a reflexão intelectual 
passou a ocupar uma posição valorizada no interior do capitalismo. A necessidade de 
elevar sistematicamente a produção de riqueza e também a formulação de conceitos que 
 
 
 
6655 
 
pautassem a luta por poder que a burguesia empreendeu durante a transição do 
feudalismo para o capitalismo ensejaram a valorização da ciência em seus múltiplos 
campos. O intelectual, o artista e o cientista tornaram-se figuras públicas reconhecidas e 
valorizadas, que muitas vezes participavam das disputas políticas com capacidade 
decisória ou influente. 
Por fim, é necessário lembrar a flexibilidade e a abertura às mudanças, desde que 
preservada a produção do lucro necessário à própria sobrevivência do capitalismo. Essa 
maleabilidade permitiu a reinvenção do capitalismo desde a Renascença, inclusive 
integrando formas de produção não capitalistas. A modernidade confunde-se com o 
próprio capitalismo em função da trajetória histórica comum. Mas é necessário realizar 
uma distinção. A produção dos valores da modernidade não torna a modernidade um 
simples reflexo das relações de produção capitalistas. Enquanto o capitalismo assenta-se 
sobre a produção econômica pautada nas relações entre capital, trabalho assalariado e 
inovação tecnológica, a modernidade conjuga valores relativos à autonomia, ao 
individualismo e à liberdade, que ultrapassaram a simples reprodução do sistema 
econômico. Diferentemente de outras experiências históricas, o capitalismo produziu e 
dependeu o desejo de liberdade e realização humana que outros sistemas, como o 
feudalismo, desprezavam. A modernidadecorresponde à consagração da liberdade e da 
autonomia intelectual, cultural e espiritual, apesar das contradições inerentes às 
desigualdades que permeiam o capitalismo. 
 
4.4 Síntese da Unidade 
Nesta Unidade, discutimos como a ascensão da burguesia ao poder correspondeu à 
elaboração de teorias acerca da organização da sociedade. Esta ação de filósofos, como 
Hobbes, Locke e Rousseau, buscou a elaboração de parâmetros adequados à 
compreensão das mudanças relacionadas à transição do feudalismo para o capitalismo. 
Também observamos que, apesar da vinculação entre o capitalismo e a modernidade, 
ocorreu a consagração de valores que hoje sustentam o combate às contradições sociais 
que permeiam as relações entre o capital e as diversas instâncias sociais. Autonomia 
 
 
 
6666 
 
cultural e espiritual, liberdade e individualismo constituem valores contemporâneos 
gestados e disseminados durante a construção da modernidade. 
 
4.5 Atividades 
1. Elabore uma pequena pesquisa sobre Adam Smith e discuta como suas 
ideias convergem para o liberalismo de John Locke e se afastam das proposições de 
Rousseau. 
 
4.6 Para saber mais 
Filme 
O Patriota (2000). Apresenta os conflitos que permeiam a opção entre emancipação 
política e subserviência à tirania durante a Revolução Americana que promoveu a 
emergência da primeira nação livre das Américas. É interessante observar a tensão entre 
o direito à liberdade e os riscos que essa busca apresenta. 
Livro 
BERMAN, M. Tudo o que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São 
Paulo: Companhia das Letras, 2007. O autor discute as relações entre política e cultura, 
a partir dos desdobramentos da industrialização que difunde os valores da modernidade, 
identificada com a própria experiência capitalista. 
 
 
 
 
 
 
 
6677 
 
Referências 
AYERS, M. Locke: ideias e coisas. São Paulo: UNESP, 2000. 
ALMEIDA, A, F.; MAGALHÃES, J. R.; MATTOSO, J. História de Portugal. Vol. I, 
II e III. Lisboa: Estampa, 1997. 
ANDERSON, P. Linhagens do estado absolutista. 3 ed. São Paulo: Brasiliense, 2004. 
BERMAN, M. Tudo o que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São 
Paulo: Companhia das Letras, 2007. 
BLOCH, M. Apologia da história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge 
Zahar Ed., 2002. 
BURKE, P. A cultura popular na Idade Moderna. 2.ed. São Paulo: Cia das Letras, 
1999. 
DAVIS, N. Z. Society and culture in early modern France. Stanford: Stanford 
University Press, 1975. 
DENT, N. J. H. Dicionário Rousseau. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996. 
DUBY, G. Ano 1000 ano 2000: na pista de nossos medos. São Paulo: 
UNESP/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1999. 
FRAGOSO, J. L. R. Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça 
mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 
1998. 
HILL, C. O mundo de ponta cabeça: ideias radicais durante a revolução inglesa de 
1640. São Paulo: Cia das Letras, 1991. 
HOBSBAWM, E.; RANGER, T. A invenção das tradições. 6. ed. Rio de Janeiro: Paz 
e Terra, 2008. 
HOBSBAWM, E. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 
HUIZINGA, J. O outono da idade média: estudo sobre as formas de vida e de 
pensamento dos séculos XIV e do século XV na França e nos Países Baixos. São Paulo: 
Cosac Naify, 2010. 
 
 
 
6688 
 
LARIVAILLE, P. A Itália no tempo de Maquiavel. São Paulo: Companhia das Letras, 
1988. 
LE GOFF, J. São Francisco de Assis. 8. ed. Rio de Janeiro: Record, 2007. 
______. A Idade Média explicada aos meus filhos. Rio de Janeiro: Agir, 2007. 
______. Por amor as cidades: conversações com Jean Lebrun. São Paulo: UNESP, 
1995. 
______. História e memória. Campinas: UNICAMP, 1993. 
LEWIS, D. L. O Islã e a formação da Europa. Barueri: Amarilys, 2010. 
MELLO, E. C. de. Nassau: governador do Brasil holandês. São Paulo: Companhia das 
Letras, 2006. 
NOVAES, F.; FORASTIERI, R. Nova História em perspectiva. São Paulo: Cosaic 
Nayfi, 2011. 
NOVINSKY, A. ; CARNEIRO, M. L. T. Inquisição: ensaios sobre mentalidade, 
heresia e arte. São Paulo: EDUSP, 1992. 
MARX, K. O Capital. São Paulo: Centauro, 2005. 
______. Manifesto comunista. Rio de Janeiro: Garamond, 2001. 
RIBEIRO, R. J. Ao leitor sem medo: Hobbes escrevendo contra o seu tempo. 2. ed. 
Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999. 
THOMPSON, E. P. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. 
São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Mais conteúdos dessa disciplina