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A construção da modernidade MOACIR JOSÉ DOS SANTOS A CONSTRUÇÃO DA MODERNIDADE 1ª Edição Taubaté Universidade de Taubaté 2014 Copyright©2014. Universidade de Taubaté. Todos os direitos dessa edição reservados à Universidade de Taubaté. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer meio, sem a prévia autorização desta Universidade. Administração Superior Reitor Prof.Dr. José Rui Camargo Vice-reitor Prof.Dr. Marcos Roberto Furlan Pró-reitor de Administração Prof.Dr.Francisco José Grandinetti Pró-reitor de Economia e Finanças Prof.Dr.Luciano Ricardo Marcondes da Silva Pró-reitora Estudantil Profa.Dra.Nara Lúcia Perondi Fortes Pró-reitor de Extensão e Relações Comunitárias Prof.Dr. José Felício GoussainMurade Pró-reitora de Graduação Profa.Dra.Ana Júlia Urias dos Santos Araújo Pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação Prof.Dr.Edson Aparecida de Araújo Querido Oliveira Coordenação Geral EaD Profa.Dra.Patrícia Ortiz Monteiro Coordenação Acadêmica Profa.Ma.Rosana Giovanni Pires Coordenação Pedagógica Profa.Dra.Ana Maria dos Reis Taino Coordenação Tecnológica Profa. Ma. Susana Aparecida da Veiga Coordenação de Mídias Impressas e Digitais Profa.Ma.Isabel Rosângela dos Santos Ferreira Coord. de Área: Ciências da Nat. e Matemática Profa. Ma. Maria Cristina Prado Vasques Coord. de Área: Ciências Humanas Profa. Ma. Fabrina Moreira Silva Coord. de Área: Linguagens e Códigos Profa. Dra. Juliana Marcondes Bussolotti Coord. de Curso de Pedagogia Coord. de Cursos de Tecnol. Área de Gestão e Negócios Coord. de Cursos de Tecnol. Área de Recursos Naturais Revisão ortográfica-textual Projeto Gráfico e Diagramação Autor Profa. Dra. Ana Maria dos Reis Taino Profa. Ma. Márcia Regina de Oliveira Profa. Dra. Lídia Maria Ruv Carelli Barreto Profa. Ma. Isabel Rosângela dos Santos Ferreira Me.Benedito Fulvio Manfredini Moacir José dos Santos Unitau-Reitoria Rua Quatro de Março,432-Centro Taubaté – São Paulo CEP:12.020-270 Central de Atendimento:0800557255 Polo Taubaté Polo Ubatuba Polo São José dos Campos Avenida Marechal Deodoro, 605–Jardim Santa Clara Taubaté–São Paulo CEP:12.080-000 Telefones: Coordenação Geral: (12)3621-1530 Secretaria: (12)3625-4280 Av. 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Afinal, a obtenção de conhecimentos é o nosso diferencial de conquista frente a universo tão competitivo. Pensando nisso, idealizamos o presente livro- texto, que aborda conteúdo significativo e coerente à sua formação acadêmica e ao seu desenvolvimento social. Cuidadosamente redigido e ilustrado, sob a supervisão de doutores e mestres, o resultado aqui apresentado visa, essencialmente, a orientações de ordem prático-formativa. Cientes de que pretendemos construir conhecimentos que se intercalem na tríade Graduação, Pesquisa e Extensão, sempre de forma responsável, porque planejados com seriedade e pautados no respeito, temos a certeza de que o presente estudo lhe será de grande valia. Portanto, desejamos a você, aluno, proveitosa leitura. Bons estudos! Prof. Dr. José Rui Camargo Reitor Apresentação Prezado(a) aluno(a), o Livro-texto que lhe chega às mãos, A Construção da Modernidade, busca apresentar o processo histórico subjacente à constituição da modernidade, que fundamenta a experiência social contemporânea. Sua elaboração obedeceu a uma premissa fundamental: demonstrar como a complexidade do processo histórico permeia o desenvolvimento da historiografia. O principal desafio do historiador é colaborar para o avanço do conhecimento em sua seara, sem sucumbir ao anacronismo. Em Apologia da História, Marc Bloch nos alerta que toda a história é história do tempo presente. O passado é perscrutado a partir das angústias inerentes à nossa experiência histórica. Procuram-se no passado respostas para os desafios do presente, daí a tentação de avaliar vivências pretéritas sob os valores do presente. Compreender o passado significa estar atento às diferenças, apesar de o impulso advir da inserção na sociedade contemporânea. E a modernidade configura a própria noção de atualidade. As Unidades do presente livro-texto estão estruturadas para responder a esse desafio. Cada uma delas foi elaborada para trazer a lume as contribuições da historiografia ao entendimento de processos históricos complexos como a transição do feudalismo para o capitalismo; a formação do moderno Estado absolutista e sua correlação com a Reforma Protestante e a Contra-Reforma Católica; o impacto dos processos de modernização na cultura popular, entendida como espaço de resistência de representações culturais que fundamentam a existência social de camponeses e trabalhadores urbanos; a emergência do capitalismo e a ascensão política da burguesia. O objetivo principal do livro-texto é balizar os principais temas relacionados à construção da modernidade, entendida, simultaneamente, como experiência histórica e conceito relativo à compreensão da modernidade, atualmente sob o signo do capitalismo. Daí a pertinência de compreender processos históricos de longa duração, que incidem sobre a sua conjuntura de constituição, no caso entre os séculos XV e XVIII, com reflexos na experiência contemporânea. Sobre o autor MOACIR JOSÉ DOS SANTOS: Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Professor assistente doutor do Departamento de Comunicação Social na disciplina Estética e História da Arte e do Programa de Mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Regional da Universidade de Taubaté (UNITAU). e-mail: santos.mj@ig.com.br Caros(as) alunos(as), Caros( as) alunos( as) O Programa de Educação a Distância (EAD) da Universidade de Taubaté apresenta-se como espaço acadêmico de encontros virtuais e presenciais direcionados aos mais diversos saberes. Além de avançada tecnologia de informação e comunicação, conta com profissionais capacitados e se apoia em base sólida, que advém da grande experiência adquirida no campo acadêmico, tanto na graduação como na pós-graduação, ao longo de mais de 35 anos de História e Tradição. Nossa proposta se pauta na fusão do ensino a distância e do contato humano-presencial. Para tanto, apresenta-se em três momentos de formação: presenciais, livros-texto e Web interativa. Conduzem esta proposta professores/orientadores qualificados em educação a distância, apoiados por livros-texto produzidos por uma equipe de profissionais preparada especificamente para este fim, e por conteúdo presente em salas virtuais. A estrutura interna dos livros-texto é formada por unidades que desenvolvemos temas e subtemas definidos nas ementas disciplinares aprovadas para os diversos cursos. Como subsídio ao aluno, durante todo o processo ensino-aprendizagem, além de textos e atividades aplicadas, cada livro-texto apresenta sínteses das unidades, dicas de leituras e indicação de filmes, programas televisivos e sites, todos complementares ao conteúdo estudado. Os momentos virtuais ocorrem sob a orientação de professores específicos da Web. Para a resolução dos exercícios, como para as comunicações diversas, os alunos dispõem de blog, fórum, diários e outras ferramentas tecnológicas. Em curso, poderão ser criados ainda outros recursos que facilitem a comunicação e a aprendizagem. Esperamos, caros alunos, que o presente material e outros recursos colocados à sua disposição possam conduzi-los a novos conhecimentos, porque vocês são os principais atores desta formação. Para todos, os nossos desejos de sucesso! Equipe EAD-UNITAU Sumário Palavra do Reitor ............................................................................................................. ix Apresentação ................................................................................................................... xi Sobre o autor .................................................................................................................. xiii Caros(as) alunos(as) ....................................................................................................... xv Ementa .............................................................................................................................. 1 Objetivos ........................................................................................................................... 2 Introdução ......................................................................................................................... 3 Unidade 1. Do feudalismo para o capitalismo: Transição entre mundos ......................... 7 1.1 Desafios historiográficos da passagem do feudalismo ao capitalismo ....................... 7 1.2 Feudalismo: características e contradições ............................................................... 11 1.3 A crise do feudalismo e a acumulação primitiva do capital ..................................... 15 1.4 Síntese da Unidade ................................................................................................... 19 1.5 Atividades ................................................................................................................ 19 1.6 Para saber mais ......................................................................................................... 20 Unidade 2. Rumo à modernidade: o renascimento científico e cultural e as reformas religiosas ......................................................................................................................... 21 2.1 O renascimento cultural e científico ......................................................................... 21 2.2 Reforma-Protestante e Contra-Reforma Católica ..................................................... 26 2.3 Cultura popular: resistência e adaptação aos desdobramentos da modernidade ...... 31 2.4 Síntese da Unidade ................................................................................................... 35 2.5 Atividades ................................................................................................................. 35 2.6 Para saber mais ......................................................................................................... 35 Unidade 3. A ascensão econômica da burguesia ............................................................ 37 3.1 O novo mundo e a modernidade: as grandes navegações ........................................ 37 3.2 Revoluções Inglesas do século XVII: a burguesia no poder .................................... 41 3.3 A luz da razão: arte, ciência e a secularização ......................................................... 46 3.4 Síntese da Unidade ................................................................................................... 51 3.5 Atividades ................................................................................................................. 51 3.6 Para saber mais ........................................................................................................ 51 Unidade 4. A ascensão política da burguesia: contestação e legitimação ...................... 53 4.1 A burguesia e os contratos sociais ............................................................................ 53 4.2 Rosseau: a crítica à propriedade ............................................................................... 59 4.3 Modernidade: a consolidação da dinâmica capitalista ............................................. 62 4.4 Síntese da Unidade ................................................................................................... 65 4.5 Atividades ................................................................................................................. 66 4.6 Para saber mais ......................................................................................................... 66 Referências ..................................................................................................................... 67 11 ORGANIZE-SE!!! Você deverá usar de 3 a 4 horas para realizar cada Unidade. A construção da modernidade Ementa EMENTA A transição do feudalismo para o capitalismo; reflexões sobre a periodização; crise do feudalismo; a acumulação primitiva do capital; a gestação e a natureza do Estado Moderno. Renascimento e Reforma. Cultura Popular: 1500/1650. A revolução burguesa na Inglaterra e o início do capitalismo no campo, o liberalismo econômico conflitando com o mercantilismo. As grandes navegações e os contatos com o “Novo Mundo”. A ampliação do poder da Inquisição e sua atuação no “Novo Mundo”. 22 Objetivo Geral Discutir no campo historiográfico as principais temáticas referentes à construção da modernidade. Obj eti vos Objetivos Específicos • Problematizar as construções historiográficas sobre a formação da modernidade; • Discutir aspectos das diversidades sociais, culturais, econômicas e políticas nos séculos XIV-XVIII na Europa; • Analisar o contexto de consolidação das estruturas liberal-burguesas no século XVIII. 33 Introdução O que é a modernidade? O que significa ser moderno? Moderno é o oposto do tradicional, conservador? Apesar da popularização do termo, a reflexão sobre a modernidade não é corrente entre a população. E esse paradoxo não é casual. No senso comum, consolidou-se a acepção rasa do moderno ou da modernidade como equivalente à novidade, ao inédito, ao que ainda não foi experimentado. Tal percepção produziu um uso mecânico do conceito. Contudo, para os pesquisadores e estudantes dedicados à compreensão da história, da geografia, da antropologia, da filosofia e das ciências sociais, é imprescindível adquirir um entendimento da própria complexidade que gerou e sustenta a modernidade. Sem o seu alcance, a atuação destes profissionais é bastante limitada quanto à formação e atuação profissional. A responsabilidade relacionada à aquisição do conhecimento equivale à superação do senso comum. Para os homens que viveram durante o Renascimento Cultural e Científico dos séculos XIV, XV e XVI, ser moderno equivalia a observar e praticar os valores elaborados na antiguidade clássica por gregos e romanos. A busca da beleza, da sabedoria e da perfeição, praticada pelos antigos, inspirava os homens da Renascença, que consideravam a experiência estéticae cognitiva dos gregos e dos romanos mais que um modelo. Para os renascentistas, o ápice da experiência humana foi alcançado na antiguidade greco-romana. O desejo dos renascentistas equivalia à recuperação dos parâmetros cognitivos e artísticos greco-romanos como o caminho para experimentar um novo período de gloriosas realizações para a humanidade. Repetir o passado e o conhecido, eis o ideal consagrado durante o Renascimento Cultural e Científico. O moderno e a modernidade correspondiam ao passado, ao experimentado, e não ao inédito – o que é bastante distinto da percepção contemporânea. Então, o que explica essa alteração? Quais mudanças históricas possibilitaram uma mudança diametral entre o Renascimento Cultural e Científico e o período atual, quanto à definição do que significa ser moderno? Apenas o estudo da história relativo à construção da modernidade pode revelar com acuidade os fatores sociais, econômicos e políticos 44 pertinentes à transformação da modernidade, de um ideal conectado aos valores e parâmetros da antiguidade greco-romana para a expressão da busca por mudança constante, por incessantes artefatos tecnológicos e experiências novas. O presente livro-texto busca apresentar e discutir com você, caro leitor, os fundamentos históricos da modernidade. Trata-se de uma lide fundamental para a compreensão da complexidade da experiência contemporânea, pautada exatamente nos valores consolidados com a modernidade ocidental e capitalista que emergiu da superação do conceito clássico de modernidade. Os valores da modernidade são vivenciados, praticados todos os dias por todos nós. O trabalho, o entretenimento, a política, a economia e as expectativas acerca do futuro estão fundamentadas nas percepções e valores consagrados e difundidos com a modernidade. Essa transição, entretanto, foi absolutamente complexa. As Unidades deste livro-texto apresentam essa passagem em suas nuances fundamentais, com o cuidado de identificar os fatos históricos, problematizá-los quanto às suas consequências e discutir as diferentes abordagens historiográficas que permearam a sua compreensão. A realização deste procedimento fundamenta-se na própria necessidade de consolidar uma adequada percepção dos fundamentos históricos da modernidade. Sob esta perspectiva, a primeira Unidade busca apresentar a diluição do feudalismo e a emergência do capitalismo, particularmente quanto aos seus aspectos mais decisivos como a acumulação primitiva do capital e a formação e a consolidação do estado moderno absolutista. Esse procedimento é realizado em conjunto com a discussão acerca da periodização da crise do feudalismo que marca a historiografia dedicada ao seu debate. A segunda Unidade objetiva explorar dois fenômenos históricos correspondentes à crise do feudalismo e a transição para o capitalismo: a recuperação da cultura humanista e da própria valorização do conhecimento científico, representada com a constituição do Renascimento Cultural e Científico; a Reforma Protestante e a Contra-Reforma Católica que, simultaneamente, resultaram na emergência dos modernos estados absolutistas e para ela colaboraram, ao acentuarem a ruptura entre o poder temporal e o secular na 55 Europa entre os séculos XVI e XVII. E, como parâmetro a essas intensas mudanças que contaram com a acentuada participação da burguesia e da nobreza do período, ocorrerá a problematização da cultura popular europeia. É importante observar que a renovação da historiografia no século XX equivaleu à incorporação das massas ao estudo da história. Até o início do século passado a maioria silenciosa, cuja experiência não era considerada digna de registro, estava ignorada nos manuais historiográficos. Todavia, a experiência da cultura popular é estratégica para o entendimento das tensões e conflitos que permearam a construção da modernidade. A terceira Unidade apresenta a ascensão da burguesia como um movimento histórico conectado a dois objetivos: a conquista de vantagens econômicas e a aquisição de poder político. Ambos intimamente ligados. A história da burguesia demonstra que o poder econômico somente é pleno com o controle ou ao menos a participação no exercício do poder. As mudanças históricas que acompanharam a transição do feudalismo para o capitalismo e a constituição do estado absolutista provocaram tensões poderosas quanto à organização e ao exercício do poder. Os conflitos relativos ao ciclo da Reforma Protestante e da Contra-Reforma Católica evidenciaram o quanto a efetivação da modernidade conectada à emergência do capitalismo provocava a necessidade de constituição de formas sociais correspondentes à dinâmica do capital. E a revolução burguesa na Inglaterra foi o primeiro passo para a efetivação de Estados burgueses adequados à reprodução e expansão do capital. Neste sentido, as grandes navegações e a conquista do novo mundo, a América, constituem momentos ímpares para a aquisição dos recursos necessários à consolidação de uma modernidade que, embora inspirada na Antiguidade greco-romana, distanciou-se diametralmente do modelo original na medida em que alcançou efetivação. A última Unidade empreende uma reflexão acerca dos desdobramentos históricos e sociais dos fatos e processos apresentados e analisados nas Unidades anteriores. A construção da modernidade é um processo complexo caracterizado por conflitos e tensões. Sua efetivação equivaleu a séculos de transformações que efetivaram atual percepção acerca da modernidade. A busca por novidades e ineditismo acompanha a modernidade contemporânea. Mas antes de experimentar a atual configuração, 66 vinculada ao consumo e à reprodução do capital, a modernidade foi historicamente construída. Primeiro, como uma ruptura em relação ao feudalismo e às formações e valores sociais e ele pertinentes, cujo modelo de oposição foi a antiguidade greco- romana. E, depois, a partir de uma configuração própria, assentada na produção e na circulação do capital que alterou drasticamente a ordenação do poder, da economia e do espaço. A elaboração do livro-texto corresponde a uma necessidade didática e cognitiva. Didática por estar inserida na formação dos leitores que agora o manuseiam em busca da formação que escolheram. E cognitiva por colaborar para a ampliação da percepção sobre a história e a densidade dos processos que permeiam. Afinal, o desconhecimento da história implica na sua repetição, inclusive com todos os conflitos e mazelas anteriormente experimentados. 77 Unidade 1 Unidade 1 . Do feudalismo para o capitalismo: Transição entre mundos Nesta Unidade, vamos estudar os desafios para a compreensão da passagem do feudalismo para o capitalismo, particularmente quanto ao impacto deste processo histórico para a efetivação da modernidade. Entende-se, neste livro-texto, a construção da modernidade sob uma dupla condição histórica. Primeiro, como momento da história ocidental, entre os séculos XV e XVIII, que congrega processos históricos densos relativos à constituição do capitalismo; portanto, decisivos para as formas sociais contemporâneas análogas à industrialização e ao predomínio da tecnologia em todos os aspectos da produção da vida social. E, segundo, enquanto fenômeno histórico que produz uma série de valores que consagram o individualismo, o conhecimento e a emancipação das tradições como um modo de vida natural, mas que na verdade revelam a consolidação da perspectiva social que emergiu junto com a burguesia. Daí, a necessidade de refletir sobre a periodização histórica para mensurar a complexidade da transição do feudalismo para o capitalismo. 1.1 Desafios historiográficos da passagem do feudalismo ao capitalismo Entre as principais dificuldades para a compreensão do passado está adistância de valores e comportamentos entre as populações do presente e dos períodos que nos antecederam. Quanto mais elevada a distância temporal, maior a probabilidade de 88 estranhamento – isso, entretanto, não constitui uma regra, afinal há elementos do passado que ainda são vivenciados na atualidade. O fascínio da história está atrelado à essa dupla condição. É uma condição ambígua ao ofício do historiador. Interlocutor privilegiado das relações entre o passado e o presente, o historiador está mais atento às continuidades e rupturas entre o pretérito e o contemporâneo. Por exemplo, os romanos, nos legaram o Direito e a língua portuguesa, derivada do latim. Deste modo, aquele passado ainda subsiste entre nós. Essa constatação, entretanto, não significa que o passado constitui um espaço temporal cujo conhecimento apresenta poucos desafios, ao contrário. É possível afirmar que os tempos idos configuram outros mundos em uma comparação cuidadosa com a ficção científica. E o estranhamento é necessário para evitar o pecado mortal que circunda o estudo da história: o anacronismo. E o que é anacronismo? Sinteticamente é avaliar o passado a partir dos valores e referências do presente. A idade média, período cronológico que circunscreve o feudalismo, encerrou uma dinâmica histórica muito distinta daquela experimentada no período contemporâneo. Sua compreensão exige distanciamento, principalmente para o objetivo da presente Unidade: fundamentar a transição do feudalismo para o capitalismo. Antes de estabelecer as características do feudalismo, é necessário distinguir cronologia, enquanto técnica necessária à organização do tempo, de processo histórico, pois o feudalismo não pode ser confundido com a idade média. A tendência à confusão decorre do recurso à periodização convencional e eurocêntrica para estruturar a divisão do tempo histórico e facilitar o estudo da história. Pré-história, idade antiga, idade média, idade moderna e idade contemporânea correspondem à percepção burguesa da história humana, desenvolvida e consagrada no momento em que ocorria a profissionalização do estudo e do ensino da história no século XIX, em particular nos recentemente estados- nação constituídos após a derrocada das monarquias absolutistas europeias (HOBSBAWM, 2008). O século XIX corresponde ao alcance da maturidade da modernidade, enquanto expressão das características do capitalismo. E a defesa dos pressupostos ideológicos do capitalismo estava sob o encargo de vários grupos que 99 apesar das diferenças compartilhavam da crença no progresso que o capitalismo industrial parecia representar. Entre os defensores daquela nova ordem estavam os positivistas liderados por Comte. Inspirado nas ciências da natureza, o filósofo francês acreditava na premência de organizar as ciências sociais com uma estrutura análoga, fundamentalmente pautada em leis sociais. Para Comte, a Física constituía o modelo a ser seguido por historiadores, geógrafos, sociólogos e antropólogos, principalmente por fundamentar seu legado em leis naturais e universais, a exemplo da gravidade descrita por Newton. Para Comte, as ciências sociais têm como missão descobrir as leis sociais que ordenam o funcionamento da sociedade. A contribuição dos historiadores residiria na descoberta das leis históricas que determinavam o desenvolvimento humano. Para tanto, a organização da história enquanto disciplina cientificamente estruturada tornava-se urgente (NOVAES; FORASTIERI, 2011). Daí a expressão dos valores que permeavam a sociedade europeia naquele momento histórico. Afinal, a objetividade científica, do ponto de vista da história, é uma ilusão. A busca por conhecimento é impulsionada por crenças que justificam como as informações são transformadas em conceitos que orientam a estruturação da sociedade. No século XIX o poder dos principais países europeus atingiu seu ápice, alcançando todo o globo. Essa dominação recorria a dois expedientes. O poder econômico de nações como a Inglaterra, França, Bélgica, Holanda e, mais tardiamente, a Alemanha, impulsionado pela industrialização; e o poder militar, como o domínio de amplos territórios na África e na Ásia. A justificativa ideológica residia na crença do fardo do homem branco. A conquista assentava-se na pretensa superioridade europeia, cujo fardo histórico, levar as luzes da ciência e do progresso aos povos atrasados, legitimava a violência e a usurpação dos recursos de outros povos. Na mentalidade predominante entre os europeus, o preconceito e o exercício arbitrário de poder contra outras populações estava justificado. E a história era instrumentalizada com esse intuito. A organização cronológica da história correspondia, portanto, à consolidação e validação de uma interpretação eurocêntrica do desenvolvimento humano, com a rejeição de todas as experiências distintas da matriz europeia. Clio teceu sua trajetória a favor dos 1100 europeus, na interpretação dos positivistas que a organizaram. Ao buscar a validação das ações dos novos Estados-nação europeus, os historiadores do século XIX reduziram a dinâmica da história a uma mecânica simplista de causa e efeito, centralizada na ação dos grandes líderes que supostamente colaboraram para um avanço linear da história em prol daquele momento. Essa conjuntura explica a confusão que se estabeleceu entre feudalismo e idade média. Apesar de a divisão cronológica entre pré-história, idade antiga, idade média, idade moderna e idade contemporânea ensejar uma percepção limitada dos processos históricos, ela ainda é mantida com o fito de fornecer uma orientação temporal para os estudos da história, desprovida de uma acepção conceitual. Convencionou-se, entre os historiadores, que a estruturação dos períodos históricos para localização cronológica não é análoga à delimitação dos processos históricos. Por exemplo, o início do período medieval é delimitado com a queda do Império Romano do Ocidente em 476 d. C. e seu término corresponde à derrocada da contraparte oriental sob o jugo do Império Otomano, conhecida como Império Romano do Oriente ou Império Bizantino, em 1453 d. C. Não existia uma indicação para os contemporâneos destas datas sobre o início ou o fim de um período denominado idade média. As percepções históricas daqueles homens e mulheres eram outras e estavam fundamentadas em vivências específicas. Esta nomenclatura foi elaborada posteriormente, durante o Renascimento Cultural e Científico. A complexidade do processo histórico reside nas múltiplas temporalidades que permeiam cada período histórico. O fim do Império Romano do Ocidente não iniciou, imediatamente, o feudalismo. A elaboração das suas principais características foi lenta e atingiu o apogeu, na Europa ocidental, aproximadamente, no século X. E, simultaneamente, em outras regiões do planeta, existiram outras formações sociais. A decadência do feudalismo foi lenta e complexa. Sua crise foi entremeada com a ascensão de outro sistema econômico, o capitalismo, que por sua vez experimentou transformações durante vários séculos até atingir sua forma atual, a industrial. Em diversas regiões da Europa, como a França do século XVIII, elementos da estrutura 1111 DICA DE LEITURA BLOCH, M. Apologia da história ou o oficio do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002 Obra fundamental para todos que pretendem compreender as nuances das lides dos historiadores. Demarca o território da história em relação às demais ciências sociais principais e realiza um fecundo debate acerca dos dilemas que permeiam a elaboração do saber historiográfico. econômica e social do feudalismo coexistiram com a transição do capitalismo da forma mercantil para a industrial. 1.2 Feudalismo: características e contradições As características do feudalismo permitem defini-locomo um sistema rígido e voltado para a manutenção de uma estabilidade vegetativa. Sua formação decorreu da decadência do Império Romano, iniciada antes da sua divisão em dois Estados com sedes no Ocidente, Roma, e no Oriente, Constantinopla. O ápice do sistema feudal foi alcançado por volta do século X d. C. e resultou de um processo de longa duração. O conceito consagrado por Braudel permite entender como dificuldades inerentes às estruturas do Império Romano colaboraram significativamente para a gestação do feudalismo. Marx afirma que todos os sistemas produtivos contêm contradições internas pertinentes à sua própria reprodução, cujo acúmulo provoca mudanças que podem ser classificadas como crise do sistema produtivo (MARX, 2001). O conjunto das dificuldades favorece a alteração do sistema produtivo por meio da constituição de novas formas de produção econômica que inevitavelmente alteram, também, as estruturas política e social da sociedade. A decadência do Império Romano e a constituição do feudalismo constituem um exemplo clássico de crise do sistema produtivo que favorece a formação de um novo conjunto de estruturas produtiva, política e social. A ironia percebida por Marx, que não 1122 é exclusiva à história romana, é o esforço dos contemporâneos por deter uma mudança cuja compreensão supera o horizonte histórico de um indivíduo. Provavelmente poucos romanos suporiam que o império poderia sucumbir em razão da própria estrutura produtiva que impulsionou a sua expansão, o escravismo. Entretanto, a partir do século I d. C., a impossibilidade de manter as contínuas conquistas territoriais, em razão dos custos financeiros e militares para o Estado romano, provocou a interrupção do fluxo de escravos resultantes; a principal consequência disso, a longo prazo, foi o enfraquecimento das estruturas econômicas que viabilizavam o poder de Roma. A lenta decadência ensejou a busca de diversas soluções como a adoção da servidão rural, que atrelou os camponeses à terra no século III d. C. E o traço típico do feudalismo presente no próprio Império Romano foi a ruralização. O esvaziamento das cidades foi um sintoma muito forte da crise estrutural que destruiu o maior império da antiguidade. Afinal, em comparação a outras importantes sociedades do período, Roma possuía a vida urbana mais efervescente e complexa. As cidades romanas constituíram polos de cultura, entretenimento, religiosidade e atividade econômica, tanto comercial quanto produtiva. Somente com o Renascimento Cultural e Científico as cidades voltaram a adquirir status comparável ao usufruído durante o Império Romano. Outro fator relativo à formação do feudalismo foram as sucessivas invasões bárbaras. Todos os povos externos aos domínios do Império Romano recebiam essa classificação pejorativa. Para os romanos, somente a sua organização política e econômica constituía de fato uma civilização. Além, existiam povos marcados por superstições e ignorância, não importando seu nível de riqueza material ou estrutura social. A decadência romana tornou ineficiente a organização militar que durante séculos expandiu e depois manteve as fronteiras do Estado romano. Os povos bárbaros foram favorecidos em sua busca por terras e recursos naturais e sua penetração no território romano ocorreu por ao menos dois séculos antes da extinção do Império Romano do Ocidente, em 476 d. C. Os povos bárbaros não podem ser simplificados sob essa alcunha. Além das diferenças étnicas e de organização, esses grupos não estavam unidos contra o Império Romano sob uma única liderança. Inclusive, guerras entre esses grupos eram frequentes. Muitos líderes bárbaros negociaram com as autoridades romanas a ocupação de terras do Estado 1133 com o compromisso de manter a lealdade ao Império Romano, cultivando as terras, obedecendo às leis e lutando contra os demais povos bárbaros que estavam na posição de adversários dos interesses do Estado. Mas todos esses grupos contribuíram antes e depois da extinção do Império Romano do Ocidente com as instituições e práticas que moldaram o feudalismo, particularmente quanto à descentralização política e a fragmentação territorial, uma vez que todas as tribos bárbaras estavam cindidas. Rivalidades e interesses particulares impediam a formação de uma organização estatal remotamente centralizada e sólida como foi o Império Romano. As características do feudalismo conjugam, portanto, elementos da fase final do Império Romano com contribuições dos grupos bárbaros. Descentralização do poder, fragmentação territorial, economia pautada na agricultura de subsistência, trabalho servil, escassa circulação monetária, reduzida atividade comercial com prevalência do escambo conformaram o sistema econômico e político feudal. A única instituição presente em todo continente, com capacidade de articulação, conjugando poder temporal e espiritual foi a Igreja Católica, que desempenhou papel decisivo como força opositora à construção da modernidade. O papel histórico desempenhado pela instituição é abordado nas próximas Unidades para favorecer a melhor compreensão da sua atuação. Le Goff (2007) caracteriza a sociedade feudal como organizada basicamente em três ordens sociais ou estamentos. Os guerreiros (nobres); aqueles que oravam (religiosos cristãos divididos em alto e baixo clero em razão da origem social; os oriundos da nobreza controlavam as principais posições eclesiásticas, enquanto aqueles que procediam das camadas mais baixas ocupavam as posições subalternas) e os trabalhadores (majoritariamente camponeses submetidos ao regime de servidão). As relações de suserania e vassalagem definiam a hierarquia entre os nobres. Os mais poderosos distribuíam terras para outros nobres sob o compromisso de vassalagem que obrigava o vassalo a atender o senhor que o beneficiara com a cessão de terras, o suserano. Não era incomum um vassalo ser também suserano, pois não havia impeditivos para a cessão de parte de seu feudo a outros nobres desde que preservada a lealdade ao seu próprio suserano. A complexidade do feudalismo deriva das sucessivas 1144 fragmentações territoriais e políticas que o sistema de vassalagem produzia. Na prática o sistema era bastante confuso e oportunizava conflitos constantes entre os nobres que trocavam sua lealdade conforme os acordos estabelecidos quanto ao controle da terra. As minúcias do sistema de vassalagem possibilitavam o recurso a diversos subterfúgios para o rompimento de compromissos anteriores e a composição de novas alianças na perene disputa por terras. Neste contexto, os reis ocupavam uma função quase simbólica, com poder reduzido e quase sempre escasso perante os principais senhores feudais. A decadência do sistema feudal é relativa ao rompimento das características acima apresentadas. Após o século X, pequenas mudanças na estrutura produtiva impulsionaram um tímido desenvolvimento econômico, suficiente, entretanto, para romper o ciclo produtivo caracterizado por uma produção econômica essencialmente de subsistência. Nos séculos XI e XII, novas técnicas de cultivo, além de formas inéditas de exploração dos animais e da técnica conhecida, elevaram a produção agrícola, produzindo o excedente necessário ao fortalecimento da reduzida atividade comercial. A retomada da atividade comercial favoreceu a expansão monetária necessária para a busca de novos mercados. Criou-se um ciclo virtuoso. A base metalista da economia estimulava esse novo traço na fechada sociedade feudal europeia. Afinal, as moedas adquiriam valor em função da maior ou menor presença de metal precioso na sua composição, preferencialmente ouro e prata. Buscar fontes de metais preciosos, escassos no continente europeu, constituía procedimento essencial para manter os rendimentos da renascida atividade comercial. Essa tendênciafoi fortalecida por um conjunto de ações patrocinadas pela Igreja, as cruzadas. O intuito de retomar o controle da Terra Santa favoreceu o comércio. O deslocamento de peregrinos, soldados e colonos para Jerusalém e os territórios conquistados pelos cruzados foi crucial por favorecer o impulso decisivo à atividade comercial. Produtos até então restritos aos feudos europeus são enviados ao Oriente em troca de especiarias, tecidos e metais preciosos. O ciclo das cruzadas permitiu a constituição de uma classe social forte e distinta dos estamentos medievais: a burguesia. A busca por lucros e a desvinculação das tradicionais funções das demais ordens como a 1155 agricultura, o pastoreio, a oração e a guerra singularizavam a burguesia. Vistos com desconfiança por nobres e religiosos, os burgueses se tornaram essenciais para a expansão da atividade comercial. Ironicamente, o comércio que também beneficiava o clero e a nobreza provocaria o fim do feudalismo. Mas, assim como ocorreu com os romanos, não havia a possibilidade dos guerreiros e sacerdotes preverem o fim do sistema econômico e social que os favorecia em razão da recuperação do comércio. Foi a longa duração da transição do feudalismo para o capitalismo que obliterou a percepção dos principais estamentos feudais. O marxista Hobsbawm (1998) lembra que o próprio Le Goff, arguto historiador das mentalidades medievais, atribui a instituição do conceito religioso de purgatório à necessidade da Igreja Católica de ampliar a sua arrecadação de impostos. O purgatório propiciava um subterfúgio aos burgueses ávidos por emprestar capital a juros para aumentar seus lucros, o que, em última instância, beneficiava tanto a Igreja Católica por elevar o total arrecadado com os impostos eclesiásticos quanto aliviava a consciência dos burgueses temerosos em relação a uma possível condenação ao inferno. 1.3 A crise do feudalismo e a acumulação primitiva do capital A crise do feudalismo decorreu da retomada da atividade comercial a partir do século XI. Entretanto, a retomada das relações comerciais não explica satisfatoriamente a passagem do feudalismo para o capitalismo. A adequada compreensão da crise feudal é alcançada com a aplicação do conceito de acumulação primitiva do capital, elaborado por Karl Marx. O filósofo alemão objetivava explicar a formação histórica do capitalismo. Para alcançar o seu objetivo, Marx organizou várias categorias explicativas concernentes a cada mecanismo necessário à formação do capital. Afinal, o capitalismo é precedido pela formação do capital. E Marx identifica na crise do feudalismo o início da acumulação primitiva do capital que impulsionou, posteriormente, o desenvolvimento e a consolidação do capitalismo industrial (2005). A ação comercial da burguesia foi o primeiro momento deste processo. A acumulação primitiva do capital antecedeu o capitalismo. Para Marx, a produção capitalista tem 1166 como fundamento a concentração dos meios de produção e a transformação da maioria dos indivíduos em trabalhadores assalariados. E a existência simultânea de formas de produção não capitalistas não impede a acumulação de capital. Inclusive, há formas econômicas não capitalistas que podem ser complementares e necessárias à expansão capitalista. Essa condição explica por que a acumulação primitiva de capital ocorreu durante a transição do feudalismo para o capitalismo. A própria desagregação do feudalismo resulta da expansão da acumulação primitiva do capital. Para Marx, a retirada do controle dos meios de produção da parcela dos camponeses e artesãos que os controlavam ensejou a formação de uma força de trabalho livre e pauperizada o suficiente para favorecer a exploração dos trabalhadores por parte do capital. A crise do feudalismo implicou no contínuo aumento do capital sob controle da burguesia, o que correspondeu à perda de poder econômico da nobreza, vinculada à exploração direta da terra. A acumulação primitiva do capital ocorreu mediante um processo de longa duração. O primeiro momento correspondeu às cruzadas que reativaram as relações comerciais entre o Ocidente e o Oriente. Porém, a agonia do sistema feudal foi lenta. As relações feudais de produção e suas formas correspondentes não desapareceram subitamente. Nas franjas das sociedades europeias ou no além mar, subsistiram onde poderiam ensejar relações econômicas e de poder necessárias ao desenvolvimento do capitalismo. Daí, por exemplo, a servidão indígena no Novo Mundo. Nos séculos XVI e XVII, a servidão foi a principal forma de exploração do trabalho indígena na América espanhola. As relações comerciais constituíam uma das formas da acumulação primitiva de capital. A ascensão burguesa também envolveu a atuação financeira e produtiva. Frações burguesas controlaram bancos e estruturas produtivas rurais e manufatureiras. A desvinculação da burguesia dos compromissos estamentais que definiam a nobreza e o clero ensejou a liberdade de movimentação espacial e social adequada à sua ascensão. Nobres e membros do alto clero compartilhavam da mesma origem social e também as barreiras que impediam os respectivos membros de atuarem como agentes comerciais. Para um nobre ou clérigo, o trabalho associado à experiência burguesa constituía uma 1177 desonra. Eleitos por Deus, segundo a doutrina cristã vigente, os nobres e os clérigos possuíam outras responsabilidades. A atividade vil que o trabalho propiciava estava reservada a todos os descendentes de Adão maculados mais intensamente com o pecado original. Esta mentalidade predominou por séculos, mesmo com a erosão do sistema feudal de produção. Por exemplo, no Brasil colônia, a posse de terras equivalia à mais alta distinção social, ecoando a permanência de uma mentalidade histórica que associava a renda advinda da terra a prestígio. Fragoso (1998) relata casos de traficantes de escravos que abandonaram essa atividade para dedicar-se à menos rentável posse de terras. A burguesia não experimentava essas limitações. Sua atuação podia ocorrer em qualquer atividade que propiciasse retorno financeiro. E a relação da nova classe social com a nobreza e o clero implicou, ao mesmo tempo, em competição e no compartilhamento de interesses comuns. O exemplo do purgatório ilustra como a ascensão da burguesia, sob determinadas circunstâncias, interessava ao clero. Enquanto a prática direta da usura estava vedada à nobreza e ao clero, a burguesia poderia recorrer a esse expediente para manter a acumulação e a expansão do capital. A especulação financeira foi uma oportunidade ímpar para a burguesia, cujos efeitos colaterais satisfizeram os nobres e a Igreja, que não se atentaram para a falência, durante esse processo, do sistema social, político e econômico que propiciava o seu poder. Aluguéis, rendimentos diversos, compra de propriedades durante crises financeiras e revenda altamente rentável nos períodos de recuperação foram alguns dos expedientes utilizados pela burguesia durante a transição do feudalismo para o capitalismo. Outras fases sucederam-se e tornaram cada momento da acumulação primitiva mais dinâmico e complexo, permitindo novas fases mais densas quanto aos recursos gerados e à expansão das formas de produção capitalista. No século XIV, ocorre em algumas regiões europeias a contratação de mão de obra para manufaturas, bem como a obtenção dos recursos físicos, técnicos e financeiros para viabilizar o desempenho das forças produtivas, o que correspondeu à superação de uma fase da acumulação primitiva pautada apenas nas trocas comerciais. A produção passa a ser fundamental para a ascensão capitalista. O excedente decorre de várias formas de exploração, desde o 1188 trabalho dos camponeses e dos artesãos urbanos até à extração comercial dos recursos da nobreza e do clero, cujos rendimentosdependiam de fontes não capitalistas. A financeirização da atividade econômica foi uma novidade histórica da crise do feudalismo. A fixação em um regime pautado no escambo favoreceu a subordinação da aristocracia ao predomínio econômico da burguesia. Essa ascensão decorreu da transferência de parte significativa da riqueza dos antigos estamentos superiores para a burguesia e também da hierarquização econômica interna à burguesia, estruturada de forma piramidal. Constituiu-se uma elite burguesa concentradora da renda e dos bens que extraía lucros econômicos derivados da dependência financeira dos demais agentes econômicos do grande capital. Outro aspecto fundamental da acumulação primitiva do capital foi o investimento dos lucros em forma de capital empregado na produção ou na especulação financeira, atitude oposta aos estamentos superiores do feudalismo, que utilizavam o excedente para viabilizar o consumo. A reprodução do capital torna-se ampla, superando a escala vegetativa. O fortalecimento da acumulação primitiva baseava-se na extensão da mais- valia sobre o conjunto das atividades controladas pela burguesia. A consequência principal deste processo foi a consolidação de um processo de longa duração concernente à organização das forças produtivas sob o prisma do capitalismo. Deste modo, a acumulação primitiva do capital ensejou a formação simultânea da mão de obra assalariada, da qual é retirada a mais-valia, e do próprio capital resultante da alienação da produtividade dos trabalhadores. A constituição do moderno estado absolutista contribui para a consolidação da acumulação primitiva do capital e consequente passagem para outra fase da economia capitalista, centrada na produção manufatureira. O papel histórico do estado absolutista será tratado adiante, mas é importante frisar que sua construção demandou a atração de recursos financeiros necessários à manutenção de forças militares, da estrutura administrativa e das funções que o Estado centralizado assumiu para garantir a subordinação política e social de todos os estratos sociais, particularmente da nobreza e do clero habituados à fragmentação do poder que caracterizou o feudalismo. Emissão de títulos de dívida pública e sociedade por ações entre os Estados absolutistas e a 1199 burguesia garantiram o fortalecimento dos controladores do capital. Por sua vez, a expansão dos mercados coloniais e de um sistema de crédito internacional favoreceu a perenidade destes mecanismos, tanto durante a transição do feudalismo para o capitalismo, quanto após a consolidação dos Estados absolutistas, os quais garantiram a estrutura social e política necessária à passagem da acumulação primitiva do capital pautada no comércio e na terceirização realizadas pela burguesia para a fase manufatureira correspondente à fase de acumulação intensiva do capital, própria da introdução de novos meios técnicos no ciclo produtivo. O objetivo inerente ao capitalismo é expandir o lucro; a acumulação de capital em sua fase primitiva ou na fase intensiva é o meio mais eficaz para atingi-lo. A Europa do século apresentou as condições políticas e econômicas necessárias ao predomínio do capitalismo. 1.4 Síntese da Unidade Nesta Unidade, discutimos sobre a transição do feudalismo para o capitalismo. Buscou- se demonstrar que historicamente a delimitação cronológica que caracteriza a idade média não é sinônimo de feudalismo. A permanência do feudalismo decorreu de condições históricas que propiciaram certa estabilidade a esse sistema caracterizado por uma intensa fragmentação política e territorial, com uma economia dedicada à subsistência. As cruzadas, realizadas a partir do século XII, propiciaram o impulso inicial para a transição do feudalismo para o capitalismo. E a acumulação primitiva de capital intensificou a crise do feudalismo, constituindo a primeira fase do capitalismo e da instalação da modernidade. 1.5 Atividades Texto 1: “Nascido da força e das aspirações dos mercadores e dos artesãos pela liberdade econômica e pela liberdade pura e simples, o movimento comunal – que 2200 prenuncia nossas municipalidades – arranca o poder aos senhores e consagra os burgueses (LE GOFF, J. p. 95 )” 1. Elabore um texto sobre o porquê de as cidades representaram, para a burguesia, um espaço de afirmação no conflito por poder contra os senhores feudais. 1.6 Para saber mais Filme O Senhor da Guerra (The War Lord, 1965). Apresenta as relações de poder entre os nobres e camponeses durante a Idade Média. A narrativa do filme descreve as funções dos nobres no sistema de suserania e vassalagem, com ênfase nos abusos que os nobres exerciam sobre os camponeses. Livro HUIZINGA, J. O outono da idade média: estudo sobre as formas de vida e de pensamento dos séculos XIV e do século XV na França e nos Países Baixos. São Paulo: Cosac Naify, 2010. O autor descreve as relações sociais características da crise do feudalismo, abordando diferentes aspectos como a literatura, a religiosidade e a arte. O livro apresenta as tensões entre a sensibilidade medieval e as novas condições que emergem com a modernidade incipiente que acompanhou a formação inicial do capitalismo. 2211 Unidade 2 Unidade 2 . Rumo à modernidade: o renascimento científico e cultural e as reformas religiosas Nesta Unidade, vamos explorar dois fenômenos históricos correspondentes à crise do feudalismo e à transição para o capitalismo: a recuperação da cultura humanista e da própria valorização do conhecimento científico, representada com a constituição do Renascimento Cultural e Científico; a Reforma Protestante e a Contra-Reforma Católica que, simultaneamente, resultaram e colaboraram para a emergência dos modernos estados absolutistas ao acentuar a ruptura entre o poder temporal e o secular na Europa entre os séculos XVI e XVII. E, como parâmetro a essas intensas mudanças que contaram com a acentuada participação da burguesia e da nobreza do período, ocorrerá a problematização da cultura popular europeia. É importante observar que a renovação da historiografia no século XX equivaleu à incorporação das massas ao estudo da história. Até o início do século passado, a maioria silenciosa, cuja experiência não era considerada digna de registro, estava ignorada nos manuais historiográficos. A experiência da cultura popular é estratégica para o entendimento das tensões e conflitos que permearam a construção da modernidade. 2.1 O renascimento cultural e científico O Renascimento Cultural e Científico é um marco da emergência da modernidade. Suas consequências foram fundamentais para a superação dos modelos de comportamento nos campos científico e cultural consolidados durante a idade média. A extensão e a 2222 complexidade do Renascimento o tornam uma referência histórica essencial para a compreensão da construção da modernidade. Suas implicações são estudadas e debatidas em diversos campos do conhecimento e estão longe do esgotamento. No presente livro-texto, o Renascimento é discutido em relação à construção da modernidade, de modo bastante objetivo, para encerrar suas características principais nos limites que delimitam este volume. A primeira interrogação acerca do Renascimento remete à nomenclatura, principalmente sobre quem a escolheu e quais as razões da escolha. E aí há um contraste absoluto em relação aos demais períodos históricos. Afinal, a qualificação de qualquer período histórico é um atributo negado aos seus contemporâneos, exceto para os intelectuais da renascença. Foram os homens que o vivenciaram os responsáveis por selecionar, aplicar e difundir o termo como a definição mais apropriada para a experiência histórica vivenciada entre os séculos XIV e XVI. Bloch (2002) afirmou que toda história é a história do tempo presente.Essa definição encontra seu exemplo mais emblemático entre os renascentistas. A escolha do nome Renascimento para definir aquele período foi realizada para contrapor aquele momento à idade média. Embora o propósito dos renascentistas não incluísse uma teorização acerca da história enquanto procedimento que edifica a memória social, foi exatamente o que realizaram (LE GOFF, 1990). Os artistas e intelectuais que delinearam o Renascimento definiram- no em oposição à idade média. De certo modo, a imagem extremamente negativa sobre a idade média resultou do sucesso dos propósitos dos renascentistas. Para qualificar positivamente a sua própria experiência, os renascentistas atribuíram ao período anterior uma série de adjetivos pejorativos que tornaram a idade média uma caricatura idealizada da sua própria historicidade. Há raros temas consensuais entre as diversas correntes de historiadores que estão envolvidas na construção do saber histórico e uma delas é exatamente o exagero dos renascentistas em tornar a idade média um momento repulsivo, em todos os sentidos possíveis, da história europeia. E essa ação dos homens da renascença foi bem sucedida, afinal a alcunha idade das trevas é bem sucedida o suficiente para reduzir a herança medieval à condição de símbolo da intolerância, ignorância e violência. De fato, a idade média experimentou elevados níveis de 2233 brutalidade. Entretanto, qual período histórico não encerrou níveis desconfortáveis de violência contra os despossuídos ou de repressão da liberdade de expressão? O século XX representa o paradoxo que acompanha as relações humanas ao encerrar, simultaneamente, avanços científicos extraordinários como o domínio da energia nuclear para fins pacíficos e a efetivação de duas guerras mundiais que culminaram em dezenas de milhões de mortos. Os renascentistas desejavam qualificar suas realizações como a retomada do ápice da experiência humana. Miravam a antiguidade clássica para dotar sua vivência de legitimidade ao definir gregos e romanos como modelos opostos à vivência medieval. Entretanto, essa ação produziu algo inédito na relação humana com o tempo. A operação histórica dos renascentistas revela um elemento fundamental que caracteriza a modernidade: a emergência da consciência histórica. Tempo histórico enquanto tempo humano. Parece uma obviedade, mas não é. Na antiguidade greco-romana, o tempo histórico não era percebido como humano e sim como natural, circular. E na idade média predominava a escatologia cristã, que determinava a espera pelo juízo final. O Renascimento representa uma nova forma de percepção do tempo. Apesar de buscarem no passado greco-romano sua inspiração quanto aos modelos para a literatura, a filosofia, a ciência e as artes, os homens da renascença introduziram a ideia de futuro, que nos parece natural. Não é. Futuro, enquanto conceito e percepção, é uma elaboração social e cultural disseminada nas sociedades ocidentais desde o período compreendido entre os séculos XIV e XVI. O tempo cíclico dos gregos e romanos não incluía a ideia de futuro por remeter a experiências temporais determinadas com as sucessivas repetições de fases pré-definidas, análogas às fases da natureza. E a escatologia cristã negava o futuro ao determinar o passado como o tempo do acúmulo da culpa advinda do pecado em face a um presente, cuja função é delimitar a espera da redenção ou da danação. Definir a experiência temporal em passado, presente e futuro é uma operação historicamente elaborada. Diferentes sociedades têm diferentes noções de tempo. E futuro é o conceito histórico mais abstrato. Conforma aquilo que será experimentado e é imprevisível por estar ligado ao passado e ao presente, mas não é possível determiná-lo com concisão. 2244 Ao consolidar o conceito de futuro como nós o entendemos hoje, os renascentistas atribuíram aos homens a responsabilidade por seu próprio destino. Aos seus herdeiros não era mais possível atribuir seus fracassos a um ciclo eterno de repetições e predeterminações como a tragédia grega determinava ou então a um deus que vigiava os homens para julgá-los no juízo final, condenando a maioria à danação eterna. A mitologia clássica e o teatro grego são duas manifestações da consciência temporal da antiguidade greco-romana e seu enredamento em uma eternidade cíclica, pois neles os homens estão fadados a cumprir seu destino, mesmo quando buscam contorná-lo, a exemplo de Édipo. E na escatologia cristã medieval restava aos homens apenas observar as regras religiosas e cumpri-las adequadamente com a esperança de obter a salvação eterna. A temporalidade da renascença é distinta e contribui para fundar a modernidade ao atribuir aos homens a responsabilidade por suas ações. Rejeita-se a passividade. Daí a singularidade e importância do renascimento. Sem essa consciência histórica, as criações artísticas e científicas não seriam alcançadas. Libertos das amarras e limites que prenderam seus predecessores, os renascentistas ousaram e experimentaram tanto o reconhecimento por suas contribuições quanto à intolerância. Afinal, como discutido na Unidade anterior, as temporalidades históricas se sobrepõem em uma mesma época. E o espírito arbitrário que animava a Igreja Católica e boa parte sociedade na idade média ainda persistia durante o Renascimento. A contradição anima a experiência renascentista. A Igreja Católica contribuiu de maneira excepcional para o legado cultural e artístico do período. Obras como o teto da Capela Sistina, produzida por Michelangelo, demonstram o forte vínculo dos principais artistas e pensadores do período com a Igreja. Papas, cardeais e bispos foram pródigos ao financiar e proteger os artistas e intelectuais. Entretanto, refutaram e perseguiram todos que manifestaram ideias e obras que questionavam abertamente os dogmas religiosos. O conflito entre a mentalidade herdada da idade média, presente entre a nobreza e o clero, e a ciência e a arte, foi provocado em razão do desconforto que a busca de conhecimento evidenciava. Ao atribuir ao homem a elaboração do futuro, os renascentistas contrariavam dogmas que afirmavam o contrário. Exemplo contundente 2255 deste conflito é a obra O Príncipe, de Maquiavel, que é considerada por muitos cientistas políticos o primeiro manual moderno sobre o comportamento político. O pensador florentino a escreveu buscando explicar os mecanismos do poder, expondo as estratégias para o alcançar e manter. Em uma península itálica cindida por guerras em diversas unidades políticas como reinos, principados e cidades autônomas, Maquiavel considerava que sua obra poderia fornecer os subsídios necessários a um líder capaz o suficiente para restaurar a unidade perdida com a queda do Império Romano (LARIVAILLE, 1988). Durante séculos, essa obra de Maquiavel figurou entre os livros do Índex, a lista de livros proibidos pela Igreja. Ao afirmar que os homens elaboram suas relações políticas sem a interferência divina, Maquiavel infligiu um dogma da Igreja que colaborava para legitimar o poder de seus aliados ao difundir a tese de que o exercício do poder é um atributo divino. Maquiavel se contrapôs a essa premissa e passou a figurar entre os criadores de obras censuradas pela Igreja. Muitos outros intelectuais passaram pela mesma experiência, como Galileu e Giordano Bruno. A relação contraditória da Igreja Católica em relação à ciência e à cultura renascentistas tem duas explicações. A primeira advém da própria emergência de uma nova consciência histórica, tipicamente moderna, fundamentada na busca por conhecimento e realização individual, que ensejou conflitos por conta do questionamento dos dogmas religiosos. A segunda advém da ascensão econômica da burguesia, descrita na Unidade anterior. Enquanto grupo social diferenciado da nobreza e do clero, aburguesia não possuía nenhum fator de distinção social. Apoiados na posse da terra, no caso da nobreza, e no monopólio da fé, no caso do clero, esses grupos contavam com o controle dos fatores de distinção social inacessíveis à burguesia, cuja ascensão estava vinculada ao trabalho, que, no entanto, era estigmatizado, como observado na Unidade anterior. Neste cenário, não bastava à burguesia o acesso à riqueza, era necessário buscar um fator de prestígio. E o financiamento das artes, da cultura e mesmo da ciência tornavam- se instrumentos adequados para esse objetivo. Em uma sociedade composta majoritariamente por analfabetos e excluídos do acesso aos instrumentos ligados à erudição, o que não era raro mesmo entre os nobres, a fruição da cultura constituía um 2266 DICA DE LEITURA O Príncipe. Nicolau Maquiavel. Discute os fundamentos da conquista e da manutenção do poder. Sua leitura permite entender como as relações políticas são complexas e estão afastadas de qualquer idealismo que projeta a política como campo demarcado por interesses desvinculado de ambições. Para o leitor do presente livro-texto interessa, sobretudo, a distinção entre virtude competência e virtude sorte por evidenciar como Maquiavel elaborou uma teoria absolutamente secular fator de prestígio social. O crescente prestígio dos burgueses que amealharam recursos suficientes para o exercício do mecenato influenciou nobres e principalmente membros do clero. Os clérigos buscaram na proteção das artes o prestígio individual que a cultura propiciava. Neste processo de aproximação e incentivo da arte que voltava seu olhar para o passado, não havia a preocupação com o uso de elementos vinculados à cultura greco-romana, mas apenas a obsessão por eternizar o próprio nome. Essa postura explica a tensão que envolve a relação da Igreja com o Renascimento, marcada por incentivo e controle simultâneos. Nas próximas páginas, vamos avaliar os desdobramentos da postura ambígua da Igreja Católica com o exame de duas temáticas interligadas: a Reforma Protestante e a Contra- Reforma Católica e a cultura popular. O objetivo é perceber como a efetivação da modernidade correspondeu a conflitos em diversas instâncias sociais, da religião à cultura popular. 2.2 Reforma-Protestante e Contra-Reforma Católica A Reforma Protestante e a Contra-Reforma Católica correspondem no campo religioso à crise da passagem do feudalismo para o capitalismo. O predomínio da Igreja Católica durante a idade média estava relacionado às características do sistema feudal. A extrema fragmentação da terra e do poder tornava as relações políticas bastante caóticas e instáveis. A instabilidade que marcava o período favorecia a única instituição que pode ser considerada sólida durante a idade média, a Igreja Católica. Presente em toda a Europa, a Igreja estava em uma posição privilegiada. Representante espiritual de Cristo 2277 e com participação nas relações temporais, a Igreja Católica retirava vantagens preponderantes das posições que ocupava. O monopólio da fé era preservado a qualquer custo. Quando a sedução ideológica falhava, restava o recurso à violência, a censura. Os questionamentos aos dogmas da Igreja Católica não foram iniciados durante a Renascença. Desde o século I, o cristianismo tem como característica a concorrência interna entre as diversas seitas para determinar os fundamentos da fé e o modo correto de exercê-los. Os cismas com as igrejas do oriente decorrem das sucessivas disputas que encontravam nos concílios seu ponto maior de ebulição. Entretanto, no ocidente, Roma conseguiu evitar a fragmentação institucional. Ao longo da história, os papas utilizaram diversas estratégias para conter as dissensões. Uma estratégia bastante utilizada foi a criação das ordens religiosas. Entre os movimentos internos que mais ameaçaram a unidade do catolicismo está o liderado por Francisco de Assis (LE GOFF, 2007). Inspirando em seus seguidores uma vida de pobreza e doação aos necessitados, Francisco de Assis tornou-se um incômodo; afinal oferecia um contraste flagrante entre o modo de vida contido adotado por aqueles que buscavam viver uma fé considerada autêntica, despojada dos bens materiais, e o fausto que caracteriza a cúpula eclesiástica medieval. A tensão atingiu tal ponto que em um dado momento cogitou-se a segregação dos seguidores de Francisco de Assis da Igreja Católica. Entretanto, optou-se por uma conciliação bem sucedida, preferível ao risco do cisma que rondava a instituição desde a separação entre os cristãos do ocidente e do oriente. A criação da ordem de São Francisco acomodou a vocação daqueles que percebiam uma vida de doação aos pobres como mais legítima com aqueles que defendiam uma Igreja rica, seja por motivos teológicos ou particulares ou ambos, convenientemente. Porém, quando a conciliação não era possível entre os interesses da Igreja Católica e seus adversários, empregava-se a Inquisição, criada para combater as heresias, ideias e conceitos que contradiziam os dogmas católicos (NOVINSKY; CARNEIRO, 1992). Fundada para combater a heresia dos cátaros ou albigenses no século XII, na região do Languedoc, sul da França, a Inquisição foi animada pelo mesmo espírito que impulsionou as cruzadas. Enquanto a Inquisição voltava-se para o combate aos inimigos 2288 no interior da cristandade, adotando procedimentos jurídicos, as cruzadas possuíam um caráter militar, voltado à conquista de territórios para a cristandade. Seu sucesso foi expressivo a ponto de os estados modernos absolutistas que se mantiveram fiéis ao catolicismo implantarem-na sob sua responsabilidade e administração. A Inquisição permitiu à Igreja Católica controlar, reprimir e destruir as manifestações que potencialmente poderiam reduzir seu predomínio no continente europeu. Curiosamente foi uma ação da própria Igreja Católica que precipitou o início do fim do feudalismo e da base sócio-econômica que favorecia a manutenção da sua posição. Embora não houvesse como prever os desdobramentos das cruzadas, foi a sua convocação no século XII, para combater os infiéis e retomar o controle da Terra Santa, que possibilitou a emergência da burguesia e a lenta transição para o capitalismo, o qual prescindia de uma organização religiosa nos moldes da Igreja Católica durante o feudalismo. Ironicamente foi a própria instituição que tentou acomodar a ação burguesa na estrutura social medieval ao criar o conceito de purgatório. E as ações de contenção que permitiram durante séculos o combate efetivo das dissensões não foram mais plenamente efetivas com o amadurecimento de relações econômicas capitalistas, cujas consequências favoreceram a aliança entre os diversos interesses religiosos questionadores do catolicismo e líderes políticos insatisfeitos com as limitações impostas pela estrutura de poder que a Igreja Católica patrocinava. A superação do feudalismo implicava a renovação das instituições que o viabilizavam. A Reforma-Protestante foi favorecida pela ascensão da burguesia. Os ganhos econômicos dos burgueses levaram parte da nobreza europeia a vislumbrar possibilidades de conquistas econômicas e políticas com a reformulação das relações de poder. A centralização de poder na Igreja contrariava as intenções dos nobres que desejavam controlar as atividades comerciais da burguesia em proveito próprio. A emergência da Reforma liderada por Lutero constituiu o momento mais adequado para a convergência entre as pretensões dos insatisfeitos com a Igreja e daqueles que desejavam mais poder. O monge Martinho Lutero não foi o primeiro reformador, mas foi aquele que resistiu com sucesso às estratégias empregadas para controlar os insatisfeitos. Lutero recusou a 2299 acomodação e por divulgar publicamente uma série de críticas contra os dogmas católicos,pregando por um cristianismo supostamente mais autêntico, puro, foi condenado a ser preso e julgado pela Inquisição ou, como na denominação oficial, Tribunal do Santo Oficio. Lutero denunciou a venda de indulgências em troca do perdão dos pecados; repudiou o celibato, a hierarquia da Igreja, o culto aos santos e a veneração de imagens, entre outros dogmas e práticas católicas do período. Apesar das variações em relação aos reformadores anteriores, a mensagem de Lutero estava próxima daqueles que não obtiveram sucesso. A diferença entre Lutero e aqueles que o precederam está no contexto histórico do período. No inicio do século XVI, a Igreja Católica ainda desfrutava de bastante poder e, apesar da relação dual com os artistas e cientistas do período, preservava seu predomínio por todo continente. O principal polo de tensão estava na relação da instituição Igreja com os nobres. A transição do feudalismo para o capitalismo ensejou a reorganização das relações de poder com a progressiva substituição da fragmentação feudal do território e do poder por monarquias centralizadas, cuja força residia no monopólio da força militar, na cobrança de impostos e no controle da justiça. Esse processo produzia conflitos entre a Igreja e os reis que lideravam esses novos estados. Afinal, durante a idade média a igreja cobrava impostos eclesiásticos sobre as propriedades feudais e também possuía diversos feudos por todo continente. A centralização monárquica produzia conflitos entre a Igreja que recusava abandonar a prática de cobrar impostos eclesiásticos e não aceitava perder a autoridade exclusiva sobre suas propriedades, recusando a submissão à autoridade secular. A autoridade espiritual da Igreja Católica impedia contestações mais veementes em virtude do medo de sanções espirituais. As ações de Lutero, e posteriormente de outros reformadores, criaram a possibilidade de ruptura com a Igreja Católica sem o abandono da fé cristã, uma vez que havia a possibilidade de romper com o catolicismo e aderir a uma fé mais renovada. E a ousadia para apoiar Lutero estava plenamente justificada na necessidade de consolidar um espaço político que correspondesse aos interesses da nobreza envolvida com a consolidação do estado nacional. Essa dinâmica possibilitou a Lutero contar com o 3300 apoio de príncipes e nobres alemães interessados em romper com as limitações relacionadas à preservação da fidelidade à Igreja Católica. As implicações históricas da formação dos modernos estados absolutistas serão abordadas com mais particularidade na próxima Unidade. O que importa, neste momento, é salientar que o Renascentismo e as reformas religiosas têm relação direta com a transição do feudalismo para o capitalismo, impactando sobre todas as formas de relações sociais no período. As estruturas feudais não desapareceram de modo abrupto, mas cederam progressivamente espaço para formas modernas na medida em que os desdobramentos do capitalismo exigiam formas históricas mais apropriadas à dinâmica do capital. As reformas representaram a conjunção entre tensões internas à Igreja Católica e conflitos decorrentes do desajustamento entre a instituição e as estruturas políticas que emergiram durante a transição do feudalismo para o capitalismo. Essa mudança, entretanto, não significou uma aliança entre a nobreza e a burguesia, mas sim uma reorganização das relações aristocráticas para ensejar formas políticas mais adequadas, ao mesmo tempo, para a preservação do poder dos nobres e para a extração dos recursos econômicos produzidos com a emergência da burguesia (ANDERSON, 2004). O estado moderno absolutista resulta deste ajustamento histórico, que também receberá a atenção necessária na próxima Unidade. A Contra-reforma católica não foi somente a resistência da Igreja aos desdobramentos das ações de Lutero, Calvino e outros reformadores. Além da revisão de práticas como a comercialização de indulgências e a venda de relíquias de santos, proibidas, a Igreja passou a adotar uma série de postulados necessários à sua sobrevivência no mundo moderno que emergia da transição do feudalismo para o capitalismo. A criação da Companhia de Jesus, a moralização da formação dos sacerdotes, a proibição da venda de cargos eclesiásticos e a centralização da condução da Igreja corresponderam à efetivação de uma postura mais institucional, descolada dos laços íntimos que a uniam à nobreza. Afinal, era bastante comum que os principais postos eclesiásticos fossem comercializados entre os nobres e os líderes religiosos. 3311 A Contra-reforma beneficiou, a longo prazo, a Igreja por possibilitar a eliminação de traços que a tornavam ineficiente na concorrência por fiéis e poder. A Igreja também definiu aliados preferenciais no continente como resposta à formação de monarquias hostis como os principados alemães e a Inglaterra, elegendo Portugal e Espanha como interlocutores. As reformas religiosas contribuíram para uma separação mais clara entre o poder secular e o poder espiritual. A partir do século XVI, a influência religiosa sobre os estados foi bastante reduzida em comparação à idade média, o que constitui um traço inconfundível da modernidade. 2.3 Cultura popular: resistência e adaptação aos desdobramentos da modernidade O conceito de cultura popular foi elaborado para avaliar os efeitos da modernização capitalista, particularmente com a industrialização, sobre as práticas culturais populares entre os séculos XVIII e XIX. Inadequadamente os primeiros trabalhos receberam a denominação de folclore, cujo objetivo era salvar, por meio da sistematização, as tradições, costumes e superstições das classes populares. Porém, a busca da cultura popular não significou a superação do estigma de cultura menor, socialmente atribuído. Como aponta Burke (2008), a cultura popular estava relegada ao campo do exotismo: A idéia de cultura popular ou Volkskultur se originou [...] na Alemanha do final do século XVIII. Canções e contos populares, danças e rituais, artes e ofícios foram descobertos por intelectuais de classe média nessa época. No entanto a história da cultura popular foi deixada aos amantes das antiguidades, folcloristas e antropólogos (BURKE, 2008, p 29) Burke conceitua a cultura popular como a experiência cultural não-oficial, historicamente localizada e vivida mediante a vinculação entre pessoas que constituem uma comunidade, ao mesmo tempo real e imaginada, tecendo relações culturais complexas caracterizadas por valores e práticas. Para Peter Burke (1999), a cultura popular é distinta da cultura erudita que as elites valorizam e utilizam como símbolo de diferenciação social. Entretanto, isto não significa a separação radical entre a cultura erudita e a cultura popular, que em muitos momentos estão vinculadas por meio de 3322 nexos sociais. Embora Burke utilize o termo subcultura, sua aplicação não é pertinente a uma hierarquia entre as diferentes formas de vivência cultural. Mas, remete a espaços sociais de elaboração cultural particulares à inserção de cada grupo social. Portanto, a construção da cultura popular decorre de diversas variáveis como os locais de incidência, os dialetos, as canções, os ofícios e os vestuários. Todos esses elementos conformam diversos espaços de vivência, produção e reprodução da cultura popular. Quando Burke se refere a sub-culturas alude às diferentes formas de vivência cultural no interior da cultura popular, esta que por sua vez se mantém em conexão permanente com as demais formas de cultura. Nas palavras do historiador, “a sub-cultura é um sistema de significados partilhados, mas as pessoas que participam dela também partilham significados da cultura em geral” (BURKE, 1999, p. 69). Neste sentido, Thompson (1989) alerta sobre a diversidade dos costumes e práticas culturais derivada da dinâmicado processo histórico. Para Thompson, é necessário apreender a historicidade da cultura popular por meio da avaliação do processo de transmissão cultural de aprendizados e experiências. Thompson busca efetivar essa recomendação ao estudar as relações entre as práticas culturais dos operários ingleses e os conflitos de classes, afirmando que as afirmações culturais, sociais e políticas dos trabalhadores foram elaboradas por meio dos conflitos que caracterizam suas relações com os proprietários dos meios de produção. Thompson (1989) afirmou que cultura popular, considerada em declínio entre os séculos XVI e XVII por parte dos pesquisadores dedicados ao tema, subsidiava a oposição entre a população explorada e a elite aristocrática e burguesa inglesa. Para o autor, as representações culturais populares constituíam modelos de virtude social que alimentavam a luta contra as injustiças sociais. Práticas, leis, usos e costumes de tempos imemoriais constituíam referência para luta por direitos relacionados à posse da terra, à subsistência e ao trabalho digno. A investigação conduzida por Thompson e Burke acerca das implicações da cultura popular evidenciam sua importância para a compreensão da dinâmica histórica no que tange às relações culturais. E as relações que ambos os autores evidenciam sobre o embricamento entre a cultura popular com a cultura erudita e com as questões políticas 3333 encontra eco na transição do feudalismo para o capitalismo, particularmente no impacto da modernidade sobre costumes, crenças e tradições populares. O universo da cultura popular está vinculado a práticas cuja temporalidade é diversa da temporalidade do Estado e de outras instituições. Remete à presença de diversas temporalidades no mesmo tempo histórico. E, ironicamente, não está limitada apenas aos estratos populares. Por vezes permeia a elite econômica por permitir convergências e por outras possibilita oposições que definem as relações socais. Essa relação contraditória adquire complexidade com o conflito entre a dinâmica econômica e a cultural. A construção da modernidade implicou a reorganização das relações de produção no campo. É pertinente observar que o sistema feudal pautava-se na intensa exploração dos camponeses, subordinados a um sistema econômico que retirava destes trabalhadores todo excedente em prol dos nobres. Entretanto, a passagem das relações feudais para as relações capitalistas não implicou em uma conquista de melhores condições de vida, ao contrário, implicou na organização de novas formas de exploração econômica, inclusive com a eliminação da pequena camada, entre os camponeses, que possuía a terra. A modernização das relações de produção não ocorreu de imediato. Como evidenciado anteriormente, em muitas regiões elementos das relações feudais permaneceram até o século XVIII ou XIX. Isto porque o sistema capitalista pode produzir lucro conectando estruturas capitalistas com estruturas pré-capitalistas. A transição das relações feudais para as relações capitalistas no campo fragilizou bastante os camponeses, grupo social mais numeroso e principal depositário das tradições populares. Processo análogo ocorreu nas cidades, pois os burgueses passaram a montar manufaturas que concorriam com as antigas corporações de oficio. Camponeses e artesãos foram submetidos a um processo progressivo de perda do controle sobre seu próprio trabalho. Os camponeses, proprietários ou não, deixaram de determinar o ritmo do próprio trabalho e o mesmo ocorreu com os artesãos, que perderam o controle dos meios de produção, sufocados com a concorrência dos burgueses. O processo de acumulação primitiva dos burgueses foi ampliado principalmente com as grandes navegações, tratadas em sua importância para a construção da modernidade na 3344 próxima Unidade. A ampliação do capital dos burgueses permitiu a aquisição de propriedades rurais, a montagem de manufaturas e a associação com o Estado interessado em organizar formas de produção e extração da riqueza adequadas à sustentação das responsabilidades estatais. Leis que reorganizaram as atividades econômicas retiraram a propriedade ou a possibilidade de seu alcance destes dois grupos, que passaram a constituir a força de trabalho de baixa remuneração que produzia a riqueza necessária à acumulação de capital em favor da burguesia. Neste cenário, a cultura popular constitui um recurso de resistência às mudanças provocadas com a emergência da modernidade. Note-se uma modernização ainda distante daquela engendrada com a industrialização, mas forte o suficiente para alterar profundamente as formas de organização social e produção econômica que marcaram o feudalismo. Para as camadas populares a transição do feudalismo para o capitalismo significou a passagem de um sistema de exploração pautado na servidão aos estamentos superiores para a exploração assalariada por meio da produção de novas riquezas, cuja posse ficou concentrada nos burgueses. As festas populares configuravam um espaço de resistência às alterações nas formas de trabalho, pois o ritmo do capital gerava atritos com a observância dos antigos rituais e formas de produção. Práticas religiosas e profanas celebravam uma sociabilidade em dissolução e mesmo quando transmutavam- se em novas expressões mantinham sua resistência à sociabilidade cada vez mais produtivista. Portanto, a cultura popular é o espaço de elaboração de uma cidadania de viés cultural. Por exemplo, Davis (1975) ao estudar o charivari (carnaval francês) designa-o como o momento de inversão da ordem social, quando camponeses e artesãos assumiam o papel de reis, nobres e bispos para encenar ironicamente o cotidiano das relações de poder. Embora o lúdico e o entretenimento perpassem as celebrações, a riqueza das experiências possibilitava também a crítica social em um espaço que nem mesmo a Inquisição poderia eliminar, sob o risco de acentuar conflitos potencialmente danosos à ordem social. 3355 2.4 Síntese da Unidade Nesta Unidade, discutimos sobre as características do Renascimento Cultural e Científico. Vimos como esse fenômeno correspondeu à transição do feudalismo para o capitalismo nos campos da arte, da cultura e da ciência. As consequências do Renascimento estão ligadas à emergência da modernidade enquanto uma postura ligada à inovação e à busca de conhecimento que subsidiaram as mudanças em curso. Para tanto, foi importante o ciclo de reformas religiosas que permitiu a superação das limitações impostas pela Igreja Católica, em particular a ascensão do Estado absolutista. Outro aspecto pertinente à construção da modernidade foi a resistência configurada com a cultura popular. Sua permanência efetivou a cultura como forma de articulação social e preservação das relações sociais que definem os estratos populares em oposição à aristocracia e à burguesia no período. 2.5 Atividades 1. Elabore um pequeno texto relacionando a passagem do feudalismo para o capitalismo com o Renascimento Científico e Cultural. 2. Elabore um pequeno texto relacionando a passagem do feudalismo para o capitalismo com o Renascimento Científico e Cultural. 2.6 Para saber mais Filme Michelangelo. (BBC/2007). Documentário sobre o mestre da Renascença. As relações entre a ciência e a arte são vinculadas às mudanças sociais que caracterizam o período, em particular a valorização da antiguidade clássica e os efeitos das reformas religiosas. 3366 Livro A cultura popular na Idade Moderna, de P. BURKE, 2ª ed. São Paulo: Cia das Letras, 1999. O autor discute com propriedade a historicidade da cultura popular e seu papel durante a construção da modernidade. Burke dá especial atenção especial para as relações entre o Renascimento, a Reforma Protestante, a Contra-reforma católica e a produção/reprodução da culturapopular no período. 3377 Unidade 3 Unidade 3 . A ascensão econômica da burguesia Nesta Unidade vamos discutir a ascensão da burguesia como um movimento histórico conectado a dois objetivos: a conquista de vantagens econômicas e a aquisição de poder político. Ambos intimamente ligados. A história da burguesia demonstra que o poder econômico somente é pleno com o controle ou aos menos a participação no exercício do poder. As mudanças históricas que acompanharam a transição do feudalismo para o capitalismo e a constituição do estado absolutista provocaram tensões poderosas quanto à organização e ao exercício do poder. Os conflitos relativos ao ciclo da Reforma Protestante e da Contra-Reforma Católica evidenciaram o quanto a efetivação da modernidade conectada à emergência do capitalismo provocava a necessidade de constituição de formas sociais correspondentes à dinâmica do capital. E a revolução burguesa na Inglaterra foi o primeiro passo para a efetivação de Estados burgueses adequados à reprodução e expansão do capital. Neste sentido, as grandes navegações e a conquista do novo mundo, a América, constituem momentos ímpares para a aquisição dos recursos necessários à consolidação de uma modernidade que, embora inspirada na Antiguidade greco-romana, distanciou-se diametralmente do modelo original na medida em que alcançou a sua efetivação. 3.1 O novo mundo e a modernidade: as grandes navegações O impulso econômico das transformações iniciadas com a passagem do feudalismo para o capitalismo ultrapassou o continente europeu. A conquista da América é consequência direta da construção da modernidade. A busca por novas oportunidades de elevar os lucros moveu a burguesia comercial na direção de outros espaços. E a conquista de 3388 Constantinopla por parte dos turcos otomanos foi o pretexto que justificou plenamente essa busca. Mas o exame atento da dinâmica das grandes navegações evidencia que a incorporação do oriente e do novo mundo à dinâmica econômica europeia ocorreria inevitavelmente. Na periferia do Mediterrâneo, Portugal procurou desenvolver rotas alternativas ao controle que genoveses e venezianos impunham ao comércio das especiarias, tecidos e metais preciosos trazidos do oriente, desde o início do século XV. A progressiva participação de Portugal no comércio internacional demonstra como a atividade comercial da burguesia incorporava novos agentes econômicos. Os lucros crescentes obtidos desde as cruzadas implicaram na ampliação constante do mercado e dos intermediários. A dimensão do mercado no início do século XV constituía um fator de inegável atração para mercadores de outras nacionalidades. O que distinguiu Portugal das demais nações naquele momento foi o envolvimento da monarquia. O modelo feudal português favoreceu a precoce centralização política do estado. Enquanto Espanha, França e Inglaterra ainda experimentavam as dores do parto do estado absolutista, Portugal contava com as condições necessárias a uma política expansionista pautada na exploração do comércio sob os auspícios de um Estado que unificara e comandava a aristocracia. As vantagens usufruídas por Portugal somente ocorreram por conta da vinculação das terras do reino ao rei. De modo distinto, as demais regiões europeias, em Portugal a propriedade feudal não era hereditária, o que aumentava o poder dos reis portugueses em relação aos nobres (ALMEIDA; MAGALHÃES; MATTOSO, 1997). A permanência do controle da propriedade feudal provocava a dependência dos herdeiros em relação à monarquia. A centralização favoreceu a busca por recursos sob uma liderança forte e a oposição dos comerciantes de Veneza e a Genova à participação de burgueses de outra procedência no controle das relações comerciais com o oriente determinou à procura por outros mercados. O desenvolvimento da navegação portuguesa ocorreu com progressivos contatos com outros povos e a aquisição de novas tecnologias como a bússola e o astrolábio. Embora Portugal não tenha mantido a exclusividade das conquistas relativas à expansão marítima europeia, foi pioneiro ao 3399 evidenciar que o rompimento do monopólio dos concorrentes poderia ocorrer com a busca de novos mercados fornecedores de especiarias. Espanha, França e Inglaterra passaram a participar da exploração dos mares à medida que resolveram conflitos internos e direcionaram suas forças para o exterior. Anderson (2004) discute com propriedade como a transição do feudalismo para o capitalismo favoreceu a superação da fragmentação feudal para a centralização do moderno estado absolutista. O historiador inglês endossa a posição de outros pesquisadores que conceituam esse processo histórico como secular e complexo, identificando na mudança do modelo econômico o principal fator que efetivou a modernidade e legou o feudalismo aos livros de história. Entretanto, o protagonismo da burguesia não implicou no controle do poder quando ocorreu a formação do estado absolutista. Para Anderson, a formação das monarquias centralizadas foi uma reação aristocrática a ascensão burguesa. Segundo Anderson, a burguesia comercial assumiu uma posição subordinada ao poder da burguesia. Para fundamentar a sua argumentação, Anderson lembra que a burguesia estava apoiada em dois elementos: o controle do capital em contínua expansão e a aliança com outros grupos citadinos para a consolidação de espaços urbanos independentes dos senhores feudais. O historiador cita as cidades italianas dos séculos XV e XVI como exemplo da pujança comunal que contrariava os interesses feudais. Genova, Florença, Veneza, entre outras, exemplificam, na ótica do historiador, como a burguesia preferia, naquele momento, apoiar o fortalecimento de unidades políticas emancipadas das relações feudais. Entre os exemplos utilizados por Anderson está a instalação das mais avançadas manufaturas do século XVI nas cidades italianas, configurando uma aliança de classes entre a burguesia comercial e financeira, artesãos e trabalhadores urbanos. Segundo Anderson (2004), a formação dos estados absolutistas objetivava a efetivação de mecanismos adequados à preservação do poder da aristocracia feudal no novo contexto econômico. Interessada em auferir lucros com o desenvolvimento comercial e também no controle da burguesia, os nobres articularam-se em torno dos reis para fortalecer a monarquia. Em troca da perda dos privilégios militares, jurídicos e econômicos feudais, os nobres adquiriram privilégios vitalícios nos estados 4400 centralizados. Os principais postos administrativos e militares estavam reservados à elite da nobreza. A ocupação do estado refletiu a hierarquia historicamente constituída durante a idade média. O exemplo clássico citado por Anderson é o francês. Apesar do apogeu do estado francês estar vinculado ao rei Luís XIV, denominado Rei Sol em razão da centralização do poder em sua figura, o estado funcionava com participação efetiva dos nobres. Anderson lembra, apropriadamente, que o rei é o primeiro entre os nobres para questionar outras interpretações acerca da constituição do estado absolutista. O historiador afirma que o estado absolutista não pode ser percebido como resultado da aliança entre os reis e a burguesia, pois o ciclo de revoluções que derrubou o absolutismo entre os séculos XVIII e XIX buscou alçar a burguesia ao poder. Portanto, durante a formação e vigência do estado absolutista, a burguesia estava submetida ao poder da nobreza, apesar da ascensão econômica experimentada desde as cruzadas. De fato, a expansão econômica dos estados absolutistas contou com a participação da burguesia, que, entretanto, estava subordinada à estrutura de poder que favorecia aos nobres. O ciclo das grandes navegações iniciou outro período de expansão do capital, que agregou outros sistemassociais e políticos à transição para o capitalismo. Sua definição mais aceita remete ao conceito de mercantilismo. De maneira geral, sob o prisma econômico, os estados absolutistas compartilhavam uma série de características, principalmente aqueles que participaram da expansão marítima européia. Monopólio do comércio entre a metrópole e a colônia, exploração de gêneros tropicais (cana-de-açúcar e especiarias, por exemplo), de metais e pedras preciosas, controle de rotas comerciais importantes, exportar mais que importar para manter a balança comercial favorável, são alguns dos elementos do receituário mercantilista. Portugal, Espanha, França, Holanda e Inglaterra criaram companhias comerciais que uniam os respectivos estados e os interesses privados para financiar a aquisição e a exploração de colonias além-mar. No Brasil colônia o exemplo mais efetivo das disputas protagonizadas por essas companhias remete à ocupação holandesa de parte do nordeste brasileiro por holandeses da Companhia das Índias Ocidentais na primeira metade do século XVII (MELLO, 2006). 4411 Os estados absolutistas centralizados propiciaram a expansão capitalista uma base de poder. Aliás, a constituição dos estados centralizados decorreu do impulso da transição do feudalismo para o capitalismo. E Anderson demonstra que naquele momento a aliança econômica não implicava na participação política da burguesia. A constituição do estado absolutista é paralela e convergente a outros processos históricos. Como observado na Unidade anterior, a Reforma Protestante liderada por Lutero somente adquiriu efetividade em razão do confronto entre as expectativas dos nobres interessados em usufruir das vantagens da centralização estatal e a Igreja que resistia às mudanças que o estado absolutista representava. As contradições internas que a Igreja conteve habilmente durante séculos não mais o foram a partir de 1520, em virtude da convergência entre as insatisfações religiosas e as pretensões políticas dos nobres contrariados com os privilégios da Igreja. A própria aliança do papado com Portugal e Espanha demonstra que a Igreja percebia a necessidade de encontrar atores políticos que no novo cenário se associassem aos seus interesses. Apesar de apoiarem integralmente a Igreja Católica, Portugal e Espanha assumiram a condução jurídica e política das respectivas sociedades. As inquisições espanhola e portuguesa, que ferozmente impediram a difusão do protestantismo na península ibérica, estavam ligadas aos estados seculares. Defendiam os interesses católicos, mas sem estar subordinadas a Roma. Mesmo nos estados católicos, o papado ficou subordinado aos interesses seculares, provocando uma inversão de perspectiva em comparação à idade média. O predomínio do poder secular sobre o espiritual configura outra característica da modernidade. 3.2 Revoluções Inglesas do século XVII: a burguesia no poder Primeiro sistema de poder que incluiu a burguesia como ator político. O estado inglês que emergiu na passagem do século XVII para o XVIII pode ser qualificado desta maneira. Enquanto o continente europeu experimentava uma série de conflitos ainda decorrentes das reformas religiosas do século anterior, a Inglaterra experimentava um período de forte expansão e consolidação. 4422 Os rivais diretos, Portugal e Espanha, experimentavam um período de decadência após o apogeu do século XVI, depois de assumirem o controle das rotas alternativas para o oriente com a viagem de Vasco da Gama (navegador português que circunavegou a África e atingiu a Índia), em 1498. Depois de iniciar a colonização do Brasil, Portugal passou a ser controlado pela Espanha em 1580 em virtude de uma crise de sucessão dinástica. Sem herdeiros diretos, o trono português foi assumido por Felipe II. Por sua vez, a descoberta de Colombo, em 1492, foi consolidada por conquistadores que submeteram por meio da violência, extermínio e escravização, milhões de nativos e derrotaram os outrora poderosos impérios asteca e inca. A extração de milhares de toneladas de ouro e prata, além do cultivo de gêneros tropicais, enriqueceu subitamente a Espanha, recém consolidada após a união das coroas Aragão e Castela mediante o casamento dos respectivos herdeiros, Fernando e Isabel. E, também em 1492, o último reino mouro foi derrotado. Aparentemente o mundo era o limite para a Espanha. Entretanto, um amálgama de guerras mal-sucedidas e constantes durante todo século XVI comprometeu a saúde financeira do império espanhol que lutou durante todo o século XVII para não sucumbir ao próprio peso, particularmente com a recuperação da emancipação política de Portugal, em 1640. A Franca, por sua vez, apesar das ambições expansionistas para o além-mar, estava comprometida com as questões internas e continentais. O cenário histórico favorecia à Inglaterra, particularmente após o sucesso dos governos absolutistas de Henrique VIII e Elizabeth I no século XVI, responsáveis por centralizar o poder, controlar a nobreza, emancipar o estado da influência papal com a criação da Igreja Anglicana, confiscar as propriedades da Igreja Católica para o estado inglês (HILL, 1991). Entretanto, apesar de as ações dos respectivos monarcas estimularem as ambições burguesas, com o passar das décadas emergiram insatisfações em relação às crescentes expectativas econômicas da burguesia. A burguesia comercial estava insatisfeita com os monopólios comerciais que o estado dispensava a um pequeno grupo de privilegiados. Todos os produtos importados estavam regulados por monopólios controlados pelo estado. Outro fator que desagradava a burguesia remetia aos privilégios medievais que favoreciam as corporações de ofício, o que impedia a burguesia de concorrer com esse grupo em condições mais adequadas às suas ambições. 4433 Outro grupo insatisfeito era constituído pela nobreza rural que almejava eliminar as limitações que o estado impunha contra a expansão da propriedade rural. Deste modo, o estado absolutista inglês favoreceu a aliança entre nobreza rural e a burguesia comercial contra o modelo político vigente. Outro aspecto que contribui para sublevação contra a monarquia foi a religião. No século XVI, os Tudor aderiram ao protestantismo e enriqueceram o Estado ao confiscarem os bens da Igreja Católica, o que injetou dinheiro na economia inglesa. Entretanto, a rainha Elizabeth faleceu em 1603 e não deixou herdeiros; o trono então passou para a família Stuart, sob o mandato de Jaime I, que passou a ressaltar os elementos católicos da doutrina anglicana para justificar o absolutismo como a expressão da vontade divina. Jaime I perseguiu as seitas protestantes que discordavam da mescla de protestantismo e catolicismo que caracteriza o anglicanismo e também os católicos. Parte dos protestantes perseguidos por Jaime I rumou para a América do Norte e contribuiu para a colonização da América do Norte, ação decisiva para a posterior formação dos Estados Unidos e da nação que provavelmente melhor representou, até o momento, as características da modernidade capitalista em sua fase industrial. A oposição a Jaime I organizou-se no Parlamento, que, contudo, estava esvaziado politicamente em razão das raras convocações realizadas desde o reinado de Henrique VIII. O sucesso dos Tudor obliterou a perda de relevância da representação política parlamentar. A impopularidade das medidas de Jaime I entre os burgueses encontrou ressonância em parte expressiva dos parlamentares, quando o rei convocou-os para aprovar sua proposta de colonização da Irlanda, em 1610. O modelo defendido de ocupação feudal desejado por Jaime I retomava elementos feudais que concentravam a renda dos impostos sobre o comércio de tecidos na Irlanda no trono, o que o enriqueceria consideravelmente em virtude da existência de rendas sobre suas terrase outros monopólios na Inglaterra. O objetivo de Jaime I era adquirir independência financeira do Parlamento, uma vez que diversas despesas, as militares principalmente, somente poderiam ser autorizadas pelo Parlamento. O rei objetivava fortalecer o exercício absolutista do poder. Percebendo as intenções do rei, os parlamentares 4444 recusaram-se a autorizar o modelo real e propuseram benefícios que favoreciam a burguesia com a ocupação capitalista da Irlanda. Os interesses do rei não foram atendidos e o Parlamento foi dissolvido (HILL, 1991). Em 1625, Jaime I falece e seu filho Carlos I o sucede. Três anos depois, Carlos I convoca o Parlamento em razão de conflitos externos que o obrigam a solicitar a autorização para gastos financeiros com a guerra. Apesar do exercício absolutista do poder desde Henrique VIII, as leis legadas da idade média que restringiam o poder real à vontade do Parlamento para proteger a aristocracia feudal da centralização estatal não foram anuladas. Mas, nas raras convocações realizadas desde Henrique VIII, os parlamentares haviam aprovado as reivindicações reais, exceto em 1610. Aproveitando o momento, os parlamentares impõem a Carlos I a denominada Petição de Direitos, que estabelecia o controle da política financeira real e da convocação do exército por parte do Parlamento e também sua convocação regular. As exigências foram respondidas com a dissolução do Parlamento. Carlos I buscou impor seus objetivos de forma arbitrária, causando forte descontentamento popular, cuja principal consequência foi o aumento da imigração para a América do Norte. O início da Revolução Puritana em 1640 decorreu de uma das medidas mais radicais de Carlos I, a imposição do anglicanismo aos calvinistas ou puritanos da Escócia, reino incorporado à Inglaterra quando o seu soberano, Jaime I, herdou o trono da prima Elizabeth I. Os escoceses rebelaram-se e invadiram a Inglaterra. Para combatê-los, Carlos I voltou a convocar o Parlamento em 1640, iniciando o período do Longo Parlamento, que perdurou até 1653. Os parlamentares aproveitaram a oportunidade para proibir o rei de manter um exército permanente, determinar a obrigatoriedade da reunião trienal do Parlamento e a exclusividade na condução das políticas tributária e religiosa. Os parlamentares também responsabilizaram publicamente o rei Carlos I por provocar com seu absolutismo a revolta escocesa e a revolta irlandesa; esta última como decorrência do exemplo da primeira, em 1641. As discordâncias entre o Parlamento e o rei Carlos I levaram à guerra civil. Aristocratas do oeste e do norte e parte da burguesia descontente com a contestação ao monarca 4455 apoiaram o rei, enquanto camponeses, burgueses londrinos e o restante da nobreza juntaram-se ao exército do Parlamento, cuja característica principal foi a formação de comitês que promoveram a ampla participação popular na condução do conflito. Apesar da forte participação popular na guerra em razão da necessidade das lideranças manterem o apoio da população, a derrota final de Carlos I escancarou as divergências entre os burgueses e os nobres e os demais grupos sociais que se uniram contra o rei. Após a execução de Carlos I em 1649, foi proclamada a República sob a liderança de Oliver Cromwell. Ironicamente, Cromwell concentrou poderes tão absolutistas quanto os exercidos por Carlos I. Cromwell conteve a reação realista que buscava impor o filho do soberano executado, Carlos II, como rei. O líder foi duro com os grupos populares que reivindicavam reformas sociais profundas, como por exemplo a reforma agrária, prendendo e executando seus líderes. Em 1653, Cromwell foi proclamado Lorde Protetor e o Longo Parlamento dissolvido. Cromwell exerceu uma política econômica protecionista, favorecendo os interesses da burguesia mercantil inglesa. Faleceu em 1658 e foi sucedido por seu filho Richard Cromwell, que pouco hábil foi deposto em 1659. A monarquia foi restaurada em 1660 e Carlos II assumiu o trono. O novo soberano manteve a política protecionista de Cromwell e a reforçou com os atos de navegação que favoreciam os comerciantes ingleses. Carlos II não buscou impor a política absolutista que provocou a deposição de seu pai. Entretanto, quando seu irmão, Jaime II, subiu ao trono, os conflitos foram retomados. Jaime II buscou restaurar o absolutismo e impor a sua fé, o catolicismo. Em 1688, o Parlamento reagiu às ações de Jaime II e convocou a sua filha Maria Stuart a ocupar o trono. Foi a denominada Revolução Gloriosa. Pacífica, a revolução confirmou a independência do Parlamento e o seu controle sobre os atos da monarquia por meio de regras e limitações que consagravam o poder compartilhado entre os monarcas e os parlamentares. A Revolução Gloriosa confirmou a ascensão da burguesia ao poder na Inglaterra e consolidou as condições que favoreceram a efetivação da revolução industrial nas décadas seguintes. A expansão marítima e comercial facilitada com os Atos de 4466 Navegação e a concentração da propriedade rural garantiram a contínua expansão do capital necessário à futura industrialização do país. As revoluções inglesas do século XVII constituíram a primeira oportunidade de exercício do poder por parte da burguesia. Até então, a construção da modernidade por meio da transição do feudalismo para o capitalismo provocara uma série de mudanças históricas que reorganizaram a sociedade europeia sob as mais diversas instâncias, da religião à produção de conhecimento e também a centralização do poder. Contudo, o estado absolutista favorecia a burguesia sem estender o exercício do poder a esse grupo social. De certo modo, a modernidade estava incompleta, pois o estado absolutista representava a extensão do domínio da nobreza feudal em novas bases políticas, análogas às transformações econômicas iniciadas com as cruzadas. A ascensão da burguesia ao poder político na Inglaterra completava esse processo e consolidava as bases sociais e econômicas da modernidade. 3.3 A luz da razão: arte, ciência e a secularização A passagem do feudalismo para o capitalismo provocou diversas mudanças como realçado anteriormente. As estruturas sociais experimentaram mudanças significativas quanto à organização econômica, religiosa e política. A expansão propiciada com as grandes navegações representou a ampliação das referências geográficas e culturais do velho mundo. E a ciência passou por um processo de valorização extremamente positivo para a produção do conhecimento. A modernidade representou a constituição de condições sociais bastante distintas das experiências que caracterizaram a idade média. A ascensão burguesa, que atingiu no período moderno o seu ápice com as revoluções burguesas na Inglaterra, é devedora da secularização do conhecimento que produziu as bases necessárias à contestação do poder da Igreja no século XVI, com a Reforma Protestante e, depois, com o questionamento do poder dos reis e do absolutismo por parte dos filósofos iluministas. Na próxima Unidade, a efetivação da modernidade será abordada com a exploração do iluminismo e das novas relações de poder que emergem 4477 da progressiva secularização do mundo. Mas, antes, conheceremos como foram estruturadas as bases necessárias à secularização das relações sociais. Marx (2001) afirmou que os homens produzem a história em relação aos limites das condições sociais vivenciadas. A idade média representou um período bastante hostil à expansão dos horizontes humanos. O debate intelectual estava circunscrito aos temas religiosos pertinentes aos debates promovidos no interior da Igreja Católica. Detentora do saber acumulado na antiguidade e com o monopólio do ensino, a instituição orientava as reflexões filosóficas para o âmbito espiritual, preocupando-se em orientar a consolidação dos dogmasque sustentavam a fé cristã. A condução do ensino para bases puramente especulativas correspondia à própria estrutura feudal. Caracterizado por ensejar a simples reprodução das condições de subsistência, o feudalismo ancorava uma sociedade fechada à inovação, à mudança. Sua rigidez assentava-se sobre a fragmentação do território e do poder e na precariedade das relações econômicas. As ambições medievais estavam bastante limitadas à própria subsistência. A busca por outras experiências era desencorajada, tida como perniciosa àquilo que definia a existência humana: a busca da salvação da alma. Duby (1999) demonstra como o ano 1000 representou o ápice da mentalidade medieval. A expectativa do juízo final contaminou profundamente a sociedade a ponto de reduzir a frágil atividade econômica e provocar uma crise alimentar. A escatologia cristã, como discutido anteriormente, representava o tempo em passado e presente. Não existia a percepção do futuro como um tempo aberto às realizações humanas, mas apenas a insistência em cumprir as supostas expectativas divinas anunciadas pela Igreja para o alcance da salvação eterna. O risco da danação eterna rondava a todos. O menor deslize provocava a perda da alma. A chance de perder a chancela divina era ampla e o caminho para o paraíso muito estreito. Cada indivíduo era responsável por perceber e obedecer aos desejos de deus. Aos camponeses cabia trabalhar e prover os eleitos do senhor; aos nobres cabiam lutar e proteger os demais para efetivar a sua missão divina, em particular contra os infiéis; dos sacerdotes esperavam-se a oração intercessora e a elaboração de orientações confiáveis em um cenário permeado por ameaças à salvação. 4488 Entretanto, as mudanças efetivadas a partir das cruzadas representaram o início do fim das condições que limitaram a produção do conhecimento a uma postura contemplativa. O Renascimento Cultural e Científico correspondeu a necessidades sociais e econômicas. A burguesia em ascensão buscava um meio para alcançar legitimidade social. Essa busca encontrou ressonância no campo da arte, da cultura e da ciência. É importante salientar que especialização acentuada da produção do conhecimento é uma condição contemporânea. A filosofia incorporava uma série de disciplinas que atualmente possuem autonomia e contam com profissionais especializados para seu desenvolvimento. Entretanto, fiéis as tradições legadas da antiguidade, os filósofos interessavam-se por múltiplos campos, da matemática à medicina, da moral à ética. A formação ampla, porém, estava desvinculada da busca por aplicações práticas dos conceitos e ideias, que por sua vez não encontravam estímulos diversos das preocupações espirituais que predominavam. O cenário muda com a transição do feudalismo ao capitalismo. A busca por rotas alternativas ao tradicional comércio de especiarias e outros produtos desejados pelos europeus entre os séculos XIV e XVI exigia o desenvolvimento de conhecimentos mais precisos sobre a natureza e o uso dos recursos naturais. As cruzadas cumpriram uma função estratégica para estimular a passagem de uma perspectiva contemplativa para uma postura ativa. O contato frequente com os muçulmanos favoreceu a aquisição da ciência que fora desenvolvida no oriente. Bússola, astrolábio, álgebra, entre outros conhecimentos, renovaram a sociedade europeia ao possibilitar a expansão marítima. Enquanto os europeus vivenciaram um longo período de limitações no que tange à produção de conhecimentos, os muçulmanos experimentaram o ápice da sua civilização. O império árabe constituído por Maomé e seus sucessores caracterizou-se por valorizar o conhecimento. Literatura, filosofia, ciências, matemática eram intensamente valorizadas. Mesmo após a fragmentação do império em unidades menores como reinos e califados, a valorização do saber persistiu. Os seguidores de Maomé contribuíram decisivamente para a Renascença ao preservar e desenvolver o conhecimento legado da antiguidade clássica. Preservaram textos, reproduziram obras imprescindíveis e constituíram canais acadêmicos para a divulgação do saber. Os cruzados, apesar da 4499 violência imposta aos muçulmanos, estreitaram os contatos que favoreceram a transmissão do saber por meio das relações comerciais e mediante as oportunidades de convivência pacífica nas regiões que os cristãos impuseram o seu controle. A valorização do saber produzia aos contemporâneos um contraste impressionante quanto à sofisticação e requinte das ideias que os muçulmanos propagavam. Apesar da intolerância em relação aos infiéis, a dinâmica econômica liderada pela burguesia produziu uma prosperidade econômica que levava ao desejo de experimentar o refinamento e os avanços que a civilização islâmica alcançou. Despertava a atenção das mentes esclarecidas do período a existência de dezenas de bibliotecas públicas na Córdoba moura da idade média, enquanto a posse de poucos livros no ocidente era muito rara fora dos mosteiros (LEWIS, 2010). A Espanha islâmica foi particularmente estratégica na transmissão do conhecimento acumulado por muçulmanos para a cristandade: Os andaluzes assimilaram o novo aprendizado nas ciências e nas humanidades com prazer quase inabalável, assim criando uma base de conhecimento que forneceria a fundação para o Renascimento na cristandade, que certamente um dia viria. No polarizado século XII, o fluxo de conhecimento deu lugar a uma quase enchente. Os conhecimentos muçulmanos, que tinham penetrado no Ocidente cristão durante décadas, a partir da Andaluzia, começaram a jorrar em torrente (LEWIS, 2010, p. 389-390). A elevação do nível cultural do ocidente dependeu, portanto, dos contatos estabelecidos com os muçulmanos, cuja contribuição foi fundamental para o Renascimento Cultural e Científico, como aponta Lewis. Mais de cem anos de rara colaboração judaico-cristã-muçulmana como a que ocorreu em Toledo, produziram todo o corpo do conhecimento antigo recuperado que é hoje conhecido (LEWIS, 2010, p. 391). Entretanto, a expressiva contribuição muçulmana surtiu efeito em razão da necessidade de organizar soluções para as exigências do desenvolvimento econômico. As tensões que marcaram as relações da Igreja com os artistas e cientistas decorreram da progressiva secularização das relações de poder e também da produção da arte e da ciência. E favoreceram a constituição de relações institucionais que permitem 5500 caracterizar a modernidade como um processo de secularização da sociedade. Afinal o desenvolvimento passa ser realizado em função das necessidades econômicas, reduzindo o controle das instituições religiosas sobre a experiência humana. A religiosidade continuou a ser um elemento importante da sociabilidade, mas deixou de condicionar as estruturas sociais. A associação com o universo das artes em busca de prestígio pessoal por parte dos membros mais proeminentes do clero gerou uma contribuição involuntária ao processo de secularização. A distinção pessoal consagrou-se no ocidente a partir do século XIV. Tornou-se louvável buscar, assumidamente, o reconhecimento social sem depender de ações ligadas à experiência religiosa ou aprovadas previamente pela Igreja. E as condições de produção do conhecimento, determinadas no âmbito da Filosofia, definiram as ciências e as artes como um meio de atingir a deus. O Renascimento Cultural e Científico representou a alteração da relação do homem ocidental para com deus. Enquanto a Igreja Católica perdia progressivamente seu poder em virtude do choque com os reformadores e passava a compor politicamente com os estados absolutistas para preservar parte dos seus interesses, ocorreu um deslocamento significativo quanto à percepção da função social da arte e da ciência. Embora a Inquisição represente a ação da Igreja para combater conceitos e posturas diversasdos dogmas católicos entre os séculos XIV e XVIII, ainda assim uma mentalidade secular passou a ocupar espaço e a predominar com a efetivação da modernidade. Ciência e arte passam a ser considerados meios para acessar a deus. Filósofos como Descartes afirmavam que deus é a própria razão, portanto negar os atributos da razão equivale a negar deus. Esta assertiva passou a fundamentar a filosofia, a ciência e a arte. A ausência de uma distinção forte entre arte e ciência marcava o período e técnicas empregadas para o avanço científico eram compartilhadas no processo de criação artística. Exemplo pertinente a essa situação é a autopsia, usada tanto para a exumação de cadáveres e mensuração de dados relativos à prática da medicina, quanto para o estudo necessário da anatomia para viabilizar a representação do corpo humano na escultura e na pintura. 5511 3.4 Síntese da Unidade Nesta Unidade estudamos como a efetivação da modernidade é um processo complexo que entreleçou diversas temporalidades simultaneamente. Essa condição decorre dos diversos atores que contribuíram para a construção da modernidade. No aspecto econômico, a expansão marítima europeia constituíu o expediente para a conquista de espaços que forneceram os recursos necessários à consolidação do capitalismo mercantil que antecedeu a industrialização. Entretanto, a modernidade também inclui a dimensão política necessária à consolidação das condições institucionais que favorecem a dinamização do capitalismo. A ascensão da burguesia ao poder por meio das revoluções burguesas na Inglaterra fundamentou a associação entre poder político e econômico que caracteriza a modernidade capitalista. No campo da ciência e da arte, desenvolveu-se o pensamento secular que justificou a passagem do predomínio do poder espiritual para relações de poder fundadas na emancipação da Igreja. 3.5 Atividades 1. Faça uma pesquisa sobre a cronologia das navegações marítimas e elabore um texto sobre a sua relação com a constituição do estado absolutista. 3.6 Para saber mais Filme 1492: A conquista do paraíso (1992). Apresenta as relações de poder que caracterizam a conquista do novo mundo por meio da representação da vida de Cristóvão Colombo. Insere a biografia de Colombo nos interstícios dos conflitos entre a burguesia, a nobreza e a Igreja durante a expansão marítima europeia. Livro HILL, C. O mundo de ponta cabeça: ideias radicais durante a revolução inglesa de 1640. São Paulo: Cia das Letras, 1991. O autor discute as relações entre religiosidade e 5522 cultura popular durante a Revolução Inglesa de 1640, mostrando como a experiência radical durante os conflitos da guerra civil fundamentava-se neste entrelaçamento. Hill demonstra que durante a revolução havia um forte distanciamento entre as expectativas da burguesia e das camadas populares em decorrência das respectivas experiências sociais. Como consequência, há um conflito ao conduzir o processo e produzir um novo arranjo político. 5533 Unidade 4 Unidade 4 . A ascensão política da burguesia: contestação e legitimação Nesta Unidade vamos estudar a construção da modernidade em relação ao suporte ideológico que sustentou sua efetivação durante a constituição dos estados absolutistas. Sua importância decorre da necessidade de verificar como foram elaborados historicamente os conceitos que justificaram a ascensão da burguesia ao poder. Esse processo complexo é caracterizado por conflitos e tensões, tanto no questionamento do predomínio da nobreza, quanto na legitimação da ascensão da burguesia ao poder. A consolidação da burguesia ocorreu em duas fases; a primeira, com a ruptura em relação ao feudalismo e às formações e valores sociais e ele pertinentes, cujo modelo de oposição foi a antiguidade greco-romana; a segunda, a partir de uma configuração própria, assentada na produção e na circulação do capital que alterou drasticamente a ordenação do poder, da economia e do espaço. 4.1 A burguesia e os contratos sociais A ascensão da burguesia ao poder ocorreu paralelamente ao fortalecimento do seu poder econômico. Quando a burguesia atingiu o ápice do controle do sistema produtivo também atingiu o controle do estado. O exemplo inglês foi o primeiro caso. Outras sociedades que realizaram a transição do feudalismo para o capitalismo experimentaram processo análogo. E durante a trajetória da burguesia rumo ao poder ocorreram alterações nas relações sociais relacionadas à desintegração do feudalismo e à estruturação do capitalismo. Estas mudanças derivaram dos abalos produzidos com as 5544 reformas religiosas, com a nova mentalidade científica e cultural propiciada com o Renascimento, e com os efeitos pertinentes à estruturação do estado absolutista. O conjunto das transformações históricas provocadas com a transição do feudalismo para o capitalismo estimulou a elaboração de teorias e ideias que explicassem a ruína das formas típicas da idade média e a consolidação das instituições e valores da modernidade. Entre os séculos XVI e XVIII, emergiram teorias que propunham delinear os fundamentos das sociedades e apresentar a forma ideal de organizá-las em função das características que impeliram a associação entre os homens. Hobbes, Locke e Rousseau são os contratualistas mais conhecidos. Suas obras são estudas ainda hoje, pois impactaram na constituição dos fundamentos jurídicos das sociedades ocidentais contemporâneas, além de inspirar teorias políticas que legitimaram modelos políticos e econômicos ao longo da modernidade capitalista. Suas obras orientaram a criação de mecanismos adequados às novidades estruturais produzidas com a emergência do capitalismo. O estado absolutista emergiu como uma solução crise de legitimidade da ordem feudal (ANDERSON, 2004). Sua constituição correspondeu à elaboração de uma estrutura centralizada de poder que mantinha a emergente burguesia dominada e propiciava a extração dos recursos relativos ao crescimento da atividade econômica capitalista. O caráter reacionário do estado absolutista é inerente a seu propósito histórico: a preservação do poder da nobreza feudal em um novo arranjo institucional que defendia seus interesses. A configuração do estado absolutista embutia os elementos que provocaram a sua crise e posterior esfacelamento. A segurança necessária à prosperidade capitalista foi alcançada nos estados resultantes da transição do feudalismo para o capitalismo. Entretanto, politicamente a burguesia estava insatisfeita quanto ao seu afastamento da formulação das políticas de estado, uma vez que o atendimento das suas reivindicações era secundarizado em beneficio dos objetivos da nobreza. O crescimento econômico desejado resultava em benefícios políticos e econômicos orientados para a elite política. O questionamento aos desdobramentos deste modelo que fortaleceu os poderes estatais com estímulos ao capitalismo, mas abertamente favorável aos objetivos da nobreza em detrimento da burguesia, produzia profundas insatisfações. 5555 As contradições que permeavam o sistema político em decorrência destas ambiguidades provocavam inquietações em pesquisadores, cuja ambição era compreender as razões dos conflitos entre os diversos grupos sociais e criar um modelo político pertinente à uma organização política adequada à superação das contradições do estado absolutista. O esforço intelectual dos contratualistas deve ser entendido sob essa perspectiva. O primeiro contratualista a adquirir relevo foi o inglês Thomas Hobbes (1588-1679). A vida e a obra de Hobbes coincidem com o absolutismo inglês e a crise política que o perpassou no século XVII (RIBEIRO, 1999). O filósofo testemunhou a crise política que provocou a Revolução Puritana de 1640. Hobbes participou intensamente da vida intelectualeuropeia. Foi amigo do filósofo francês Descartes e manteve contato com Galileu Galilei. Sua participação na cena intelectual europeia revela a formação de um circulo internacional de pensadores que debateram com profundidade questões consideradas essenciais para a compreensão da natureza e da sociedade. É importante ressaltar, como demonstrado na Unidade 2, que a busca por conhecimento se tornou um paradigma fundamental desde o Renascimento Cultural e Cientifico. O desenvolvimento intelectual tornou-se um paradigma. A elaboração científica foi elevada à condição de elo entre os homens e deus. Afinal, o criador havia propiciado aos homens a racionalidade imanente ao divino. A espiritualidade, nesta acepção, é uma experiência oposta à irracionalidade. Mensurar a natureza e a sociedade equivaleria a aproximar-se de deus. Essa perspectiva fundamentava a busca por conhecimento apesar dos possíveis atritos entre os intelectuais e as instituições religiosas. O circuito internacional europeu de intelectuais compartilhava, com algumas exceções, desta premissa. Entre aqueles que se distanciavam da identificação entre devoção e ciência estava Hobbes, o que não o impedia de compartilhar o interesse quanto ao estudo da natureza e da sociedade sob uma perspectiva absolutamente racional. Hobbes aderiu à teoria mecanicista sobre a natureza propugnada por Descartes e Galileu, postulando que a descoberta dos mecanismos inerentes ao funcionamento do universo fundamentava a produção da ciência. A adesão ao mecanicismo é um dos fatores que o impulsionou a estudar a constituição da sociedade. 5566 Outro estímulo essencial à investigação da sociedade e das relações de poder que delineiam foi o próprio contexto político inglês. Defensor da monarquia, Hobbes atuava como preceptor. Durante a guerra civil que se seguiu ao início da Revolução Puritana (1640), Hobbes exilou-se em Paris, convivendo entre os intelectuais franceses com os quais mantinha contato em decorrência de uma viagem anterior ao continente. Na França, Hobbes preservou suas atividades intelectuais e atuou como preceptor do filho do rei Carlos I, que assumiu o trono inglês após a deposição do filho de Oliver Cromwell, Richard, em 1658. Em 1651, Hobbes voltou para a Inglaterra. No mesmo ano publicou sua principal obra política, O Leviatã, apresentando reflexões acerca das relações entre política, filosofia e direito, por meio de conceitos como contrato social, soberania, estado de sociedade e estado de natureza. A guerra civil inglesa exerceu um impacto muito expressivo sobre Hobbes. A inquietação quanto às razões dos conflitos por poder o orientaram a produzir O Leviatã, obra imprescindível para a compreensão das tensões que permeiam o Estado e o exercício do poder (RIBEIRO, 1999). Nela, o filósofo afirma que todos os homens são dotados de uma liberdade natural, que os acompanha desde o nascimento. Entretanto, o estado de natureza inerente à humanidade provoca a guerra constante entre os homens. Afinal, não havia limites à liberdade individual, o que provocava atritos constantes entre os homens. Para Hobbes, a sociedade é fundamentada na renúncia à liberdade absoluta que caracteriza a liberdade natural. Os homens concordam em perder parte da sua liberdade em troca da segurança que regras e leis propiciam, é o contrato social. Segundo Hobbes, o contrato social estabelece o princípio da hierarquia social pertinente ao estabelecimento de relações de poder relacionadas à obediência a um poder soberano. Em troca da obediência, o poder soberano deve assegurar a paz e a segurança dos súditos que renunciaram à liberdade natural quando da constituição do contrato social. Hobbes postulava que somente um poder centralizado e inquestionável possibilitaria ao poder soberano exercer adequadamente as funções determinadas no contrato social: manter a ordem e a segurança. Para Hobbes, o poder soberano somente 5577 pode ser questionado quando falha em garantir a preservação da vida dos súditos, o que poderia ensejar a substituição do soberano. A obra de Hobbes decorre da experiência propiciada com a Revolução Puritana. Os dez anos de guerra marcaram o filósofo de modo decisivo. O principal reflexo é a defesa do poder centralizado e inquestionável como um único mecanismo capaz de garantir o princípio do contrato social. Hobbes defendia a monarquia inglesa centralizada como única opção política viável para Inglaterra. O debate capitalizado por Hobbes recebeu a contribuição decisiva de John Locke. Contemporâneo de Hobbes, Locke é considerado o fundador do liberalismo, doutrina política mais identificada com os interesses burgueses e que fundamentou a defesa de princípios como o direito à propriedade (AYERS, 2000). O liberalismo coincide com os interesses da burguesia a ponto de estruturar a participação política da burguesia. Suas ideias inspiraram-se na luta da burguesia inglesa para afirmar seus objetivos durante as revoluções inglesas do século XVII; constituíram referência para a emancipação norte- americana e para a fase inicial da Revolução Francesa. E suas ideias ainda hoje fundamentam aquelas que justificam as políticas relacionadas à defesa dos interesses da burguesia. Locke é provavelmente o filósofo que melhor defende os interesses da burguesia contra a organização dos interesses da nobreza em torno do estado absolutista. O pensador construiu um edifício teórico que justificava a perda dos privilégios da nobreza. Locke permitiu, no plano da formulação do poder, a passagem da burguesia de uma condição subalterna à posição de predomínio político. Para tanto, o filósofo publicou, em 1689, a obra Dois tratados sobre o governo. Locke retoma a discussão de Hobbes acerca da constituição da sociedade e do governo por meio do contrato social, concordando quanto à necessidade de renúncia à parcela da liberdade natural em favor de um poder soberano para fundamentar a sociedade. Entretanto, para Locke essa passagem tem como motivação a preservação da vida, da liberdade e da propriedade. Para Locke, o estado de natureza representa a ameaça constante à materialização dos talentos naturais que nascem com os homens. Segundo Locke, o que distingue os 5588 homens dos animais é a razão, fonte principal da liberdade, e que se materializa com a propriedade, decorrente da efetivação das habilidades humanas. No estado de natureza, a propriedade é constantemente ameaçada em virtude da imposição do poder do mais forte sobre os demais homens, o que provocava um estado de guerra constante entre todos. A renúncia à liberdade absoluta implica a busca por segurança que garanta a manutenção dos demais direitos naturais: a vida, a liberdade e a propriedade. A função do poder soberano, na perspectiva de Locke, é garantir o acesso à propriedade, essencial para a realização humana. A desigualdade no acesso à propriedade decorre da capacidade de cada individuo de materializar seu trabalho em resultados (AYERS, 2000). As ideias de Locke convergiam para as expectativas da burguesia inglesa e dos demais estados absolutistas europeus, pois nestas formações políticas o direito à propriedade não estava assegurado. Uma série de mecanismos relacionados aos direitos dos nobres estava assegurada no estado absolutista, mas sua preservação decorria da vontade dos reis e não de leis que respeitassem a inviolabilidade da propriedade. A defesa da propriedade, independentemente da vontade do monarca, agradava à burguesia. Locke justificava a propriedade como um direito natural e inviolável a própria dignidade humana e simultaneamente justificava a desigualdade pertinente à sua concentração. Os postulados de Locke convergiram com as ideias econômicas defendidas por Adam Smith no século XVIII. Leitor de Locke, Smith pautou-se no conceito de propriedade como um direito naturalpara postular pela livre iniciativa. Juntos, Locke e Smith, justificaram as expectativas de organização da política e da economia conforme os interesses da burguesia. Locke admitia inclusive a legitimidade da revolta contra o poder soberano que não garantia a propriedade. O pensador propicia contornos nítidos a princípios políticos e ideias aos interesses da burguesia, oferecendo um modelo adequado à plena efetivação da modernidade enquanto realização do capitalismo. Locke defendia, inclusive, que a participação política deveria ser restrita aos proprietários, únicos efetivamente interessados na preservação da ordem social que garantia a propriedade. Por esse critério político, a convivência entre a burguesia e nobreza era 5599 possível, mas com o predomínio da primeira, invertendo a equação política que caracterizava o estado absolutista. 4.2 Rosseau: a crítica à propriedade As formulações de Locke garantiram a elaboração de conceitos que convergiram para os interesses da burguesia. A absoluta defesa da propriedade e das distinções nela fundamentadas favoreciam a integração ao estado sob outra perspectiva. A efetivação das premissas postuladas por Locke garantiam o acesso ao poder em uma posição de comando para a burguesia. Tratava-se da superação das contradições que, apesar da importância estratégica da burguesia para a efetivação do capitalismo e da modernidade, garantiam o predomínio da nobreza enquanto grupo, cuja legitimidade política remontava às relações de poder tipicamente feudais. Partindo das observações de Hobbes, Locke forneceu os argumentos decisivos para a superação das contradições internas ao estado absolutista, ao estabelecer as bases para uma ideologia moderna e tipicamente burguesa, o liberalismo. E as proposições de Locke não ficaram restritas à teoria. Os séculos XVIII foram marcados, no campo político, pela efetivação de estruturas políticas concernentes aos interesses da burguesia. Na Inglaterra, nos Estados Unidos, na França da primeira fase da Revolução Francesa e em diversos países europeus, a burguesia ascendeu ao poder e tratou de organizar a estrutura política conforme os ideais de Locke, ou seja, com a defesa irrestrita da propriedade e dos privilégios políticos dos proprietários. Contribuíram para esse cenário diversos fatores: a difusão das ideias políticas de Locke, replicadas por diversos pensadores do iluminismo do século XVIII, que tornaram o liberalismo a expressão política das aspirações da burguesia; o desenvolvimento econômico inglês que inspirou outras burguesias a trilhar trajetória semelhante; a decadência política e econômica do estado absolutista, incapaz de resolver as contradições que permeavam sua existência, particularmente a incapacidade de manter o poder distante de uma burguesia cada vez mais avessa à concentração de poder na nobreza. 6600 Entretanto, todo sistema político e social engendra suas contradições e crises decorrentes das dissensões que opõem interesses conflitantes. A ascensão paulatina da burguesia ao poder produziu contradições, que no século XIX passaram a opor os novos mandatários, a nova classe social que resultou do sucesso do desenvolvimento capitalista que a burguesia liderou, o proletariado. Como observado na primeira Unidade, a acumulação primitiva do capital resultou do sucesso comercial da burguesia durante a transição do feudalismo para o capitalismo, e permitiu o contínuo acúmulo e reinvestimento do capital nas atividades comerciais que pautaram o fortalecimento da burguesia. Durante os séculos XVI, XVII e XVIII, ocorreram a organização da economia mercantilista e a implantação de manufaturas decorrentes do investimento dos lucros aferidos com a expansão marítima europeia. A ampliação sistemática da produção favorecia o aumento dos investimentos no setor manufatureiro, o que, progressivamente, concentrou a propriedade dos meios de produção nas mãos da burguesia. Esse processo provocava a pauperização dos artesãos e camponeses em razão dos investimentos contínuos dos burgueses em terras e manufaturas para sustentar a elevação dos lucros (MARX, 2005). A conquista do espaço reservado aos artesãos durante o feudalismo passava pelo aumento da produção das manufaturas, que ofereciam mercadorias a um custo menor que as tradicionais corporações de oficio. Durante a vigência do sistema absolutista de poder, as corporações de oficio deixaram de usufruir da proteção que a legislação feudal propiciava, afinal o aumento da atividade econômica gerava vantagens econômicas apropriadas pela nobreza naquela configuração social. Esse processo de contínuo crescimento econômico provocou a organização do estado absolutista como uma resposta da nobreza ao fortalecimento da burguesia e permitiu aos nobres aferirem vantagens do capitalismo foi transitório. O fortalecimento da burguesia entre os séculos XVI e XVIII tornou insustentável o arranjo absolutista do poder. Contudo, a ascensão da burguesia ao poder produziu novas contradições, latentes à sua trajetória de ascensão. A pauperização dos artesãos e camponeses, que antecedeu a revolução industrial iniciada no final do século XVIII, resultou da progressiva reversão das posições que a burguesia experimentou durante a transição do feudalismo para o capitalismo; de classe social questionadora das estruturas de poder para uma posição 6611 conservadora em função da conquista do poder político. Durante essa trajetória, constitui-se a oposição entre a burguesia e aqueles que produziam a riqueza dos capitalistas. O contraste entre o discurso burguês em defesa da liberdade e da igualdade foi detectado e criticado com veemência por Jean-Jacques Rousseau. Partindo da comparação entre a realidade social do século XVIII e as teorias que defendiam a propriedade como um fator natural de distinção social, particularmente a obra de John Locke, Rousseau inverte a premissa básica de Hobbes e Locke em relação ao estado de natureza ao considerar liberdade e a justiça forma perdidas com a efetivação do estado de sociedade. Para Rousseau, o homem nasce livre, mas perde a liberdade na sociedade. O pensador parte da premissa de que a sociedade é composta por convenções, distanciando-se da natureza. Infere-se, portanto, que os direitos e deveres são socialmente construídos (DENT, 1996). Rousseau questiona a ordenação da sociedade em torno da propriedade, afirmando que a organização deve repousar sobre o direito e não sobre a força ou vantagens que constrangem a obediência aos ditames dos mais fortes, incluindo aqueles que logram vantagens em razão de privilégios econômicos. Para o pensador, a liberdade decorre do direito fundado na razão e na liberdade. Sob esta ótica, Rousseau afirma que antes da existência do poder soberano, sem distinguir em um regime específico como a monarquia ou a república, é necessário constituir o povo. Outro aspecto pertinente ao contrato social, para Rousseau, é a representação política livre e direta de todos os homens, sem critérios de distinção como a propriedade, a origem social ou a religião. As ideias do pensador suíço correspondem à incorporação das próprias contradições sociais produzidas com a ascensão da burguesia ao poder e a efetivação do capitalismo. No período anterior à consolidação do capitalismo industrial, a pauperização da classe trabalhadora era visível. Organizar o poder sob qualquer critério de distinção representava para Rousseau a preservação das injustiças que provocavam constante instabilidade social. 6622 As recorrentes crises sociais e políticas que marcaram a trajetória de transição do feudalismo para o capitalismo não representaram obstáculo à ascensão da burguesia. Constituíram oportunidades para o aumento dos lucros por meio da ampliação da acumulação primitiva. De modo diverso da inflexibilidadedo sistema feudal, o capitalismo ampliava seu alcance mediante a consecução de novas oportunidades de investimento que cada crise possibilitava. 4.3 Modernidade: a consolidação da dinâmica capitalista Os conteúdos e reflexões expostos nesta Unidade e nas anteriores têm como elemento comum a construção da modernidade. Sua elaboração decorre de um processo de longa duração que remonta ao século XII e estende-se até o século XVIII, cujos marcos são a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. O processo histórico que efetivou a modernidade durante esse período foi a transição do feudalismo para o capitalismo. Sua trajetória é complexa, permeada por contradições e conectada a importantes mudanças na sociedade europeia, como as reformas religiosas e a expansão marítima, que aumentou o seu alcance para espaços que superam os limites do continente europeu. Entre as mudanças decorrentes do desenvolvimento e da consolidação do capitalismo está a própria definição do que é ser moderno. Anteriormente, neste livro-texto, demonstrou-se que a experiência renascentista pautava-se no modelo legado da antiguidade clássica greco-romana. De fato, as realizações de filósofos, artistas e cientistas, durante a Renascença, efetivaram-se tendo como referência o passado. Naquele momento, ser moderno equivalia a restaurar o passado. Contudo, a inspiração que gregos e romanos ofereciam não equivaleu à repetição do passado. O Renascimento Cultural e Cientifico efetivou novas experiências, pautadas na historicidade do período. Enquanto na antiguidade prevalecia o escravismo, o Renascimento correspondia à transição do feudalismo para o capitalismo. Essa diferença implicava na superação das limitações relacionadas à crise do sistema feudal, incapaz de resistir às mudanças provocadas com a retomada das atividades comerciais. A pujança da burguesia comercial e financeira implicava na produção de novas formas de relacionamento e 6633 produção da vida social. A organização estamental não apresentava a flexibilidade necessária para resistir às mudanças. É importante observar que as mudanças desencadeadas com a transição do feudalismo para o capitalismo ocorreram simultaneamente em diversos campos da experiência social. Sua interligação corresponde à extensão da modernidade a todas as dimensões da experiência social. Religião, cultural, relações de poder – não houve exceção à consolidação da modernidade. A reformulação do papel da Igreja Católica, que perdeu o predomínio sobre o poder temporal, e também o monopólio da fé cristã no continente resultam da necessidade histórica de organizar instituições mais adequadas às peculiaridades da burguesia que liderava a efetivação do capitalismo, ainda que limitada por uma reorganização da inserção social da nobreza mediante o estado absolutista. Isso, por sua vez, não representou um obstáculo definitivo em razão da ascensão da burguesia ao poder, primeiro na Inglaterra do século XVII, para depois atingir os demais estados da Europa ocidental. Durante esse período, consolidaram-se as características da modernidade que superaram o modelo inicial pautado na experiência dos gregos e romanos. Nos séculos XIV, XV e XVI faltavam referências contemporâneas adequadas à emancipação dos valores feudais. Recorrer a uma experiência histórica distinta dos rechaçados valores que pautaram o feudalismo foi um procedimento estratégico. Porém, a progressiva efetivação dos valores engendrados durante o Renascimento Cultural e Cientifico e as mudanças provocadas com as reformas religiosas e a efetivação dos estados absolutistas propiciaram a formação de uma nova historicidade, descolada tanto das referências do feudalismo quanto da dependência dos parâmetros da antiguidade greco-romana. Neste momento, a modernidade consolida-se como contingência. Emerge a modernidade como efetivação do futuro. O conjunto das mudanças experimentadas durante a transição do feudalismo para o capitalismo provocou a construção da modernidade, cuja característica fundamental corresponde à formação de uma nova percepção da temporalidade histórica, 6644 desvinculada do tempo circular dos gregos e da escatologia cristã. O devir do futuro como resultado das ações humanas funda a modernidade enquanto temporalidade histórica. A superação das percepções históricas anteriores está fundada nas condições que possibilitaram a efetivação da modernidade. Outro aspecto pertinente à efetivação da modernidade é o capitalismo. A flexibilidade do capitalismo resulta da busca constante da expansão dos lucros que possibilitam a existência do capital. Crises e conflitos representaram na trajetória capitalista a oportunidade de engendrar novas formas de produção e obtenção dos lucros. O capitalismo beneficia-se da mudança constante e sua expansão decorre da capacidade em torná-la um recurso estratégico. Os principais momentos de consolidação do capitalismo resultam da resolução de crises (MARX, 2001). A modernidade consagrou valores comumente atribuídos à experiência contemporânea. A expansão industrial tornou a modernidade o parâmetro das relações sociais contemporâneas. Entretanto, antes da industrialização, a modernidade consolidou-se como o núcleo de práticas e valores que correspondem à dinâmica do capitalismo. O individualismo já estava presente na prática do mecenato que buscava propiciar à burguesia legitimidade social perante a nobreza e o clero. A veneração da trajetória individual dissociada das vantagens relacionadas à ocupação de posições privilegiadas é uma conquista burguesa. Desde a transição do feudalismo para o capitalismo, o típico burguês vincula sua ascensão aos méritos particulares e não aos atributos de classe. Embora questionável em razão das vantagens econômicas, culturais e sociais que ao pertencimento à elite propicia, é inquestionável que a ascensão da burguesia desvinculou a origem social da conquista de posições socialmente consideradas elevadas. Condição oposta ao feudalismo, no qual a origem social determinava a trajetória pessoal, conformando um sistema quase que impermeável. A valorização da ciência e do conhecimento também é um atributo da modernidade. Antes confinada a retórica relacionada a temáticas religiosas, a reflexão intelectual passou a ocupar uma posição valorizada no interior do capitalismo. A necessidade de elevar sistematicamente a produção de riqueza e também a formulação de conceitos que 6655 pautassem a luta por poder que a burguesia empreendeu durante a transição do feudalismo para o capitalismo ensejaram a valorização da ciência em seus múltiplos campos. O intelectual, o artista e o cientista tornaram-se figuras públicas reconhecidas e valorizadas, que muitas vezes participavam das disputas políticas com capacidade decisória ou influente. Por fim, é necessário lembrar a flexibilidade e a abertura às mudanças, desde que preservada a produção do lucro necessário à própria sobrevivência do capitalismo. Essa maleabilidade permitiu a reinvenção do capitalismo desde a Renascença, inclusive integrando formas de produção não capitalistas. A modernidade confunde-se com o próprio capitalismo em função da trajetória histórica comum. Mas é necessário realizar uma distinção. A produção dos valores da modernidade não torna a modernidade um simples reflexo das relações de produção capitalistas. Enquanto o capitalismo assenta-se sobre a produção econômica pautada nas relações entre capital, trabalho assalariado e inovação tecnológica, a modernidade conjuga valores relativos à autonomia, ao individualismo e à liberdade, que ultrapassaram a simples reprodução do sistema econômico. Diferentemente de outras experiências históricas, o capitalismo produziu e dependeu o desejo de liberdade e realização humana que outros sistemas, como o feudalismo, desprezavam. A modernidadecorresponde à consagração da liberdade e da autonomia intelectual, cultural e espiritual, apesar das contradições inerentes às desigualdades que permeiam o capitalismo. 4.4 Síntese da Unidade Nesta Unidade, discutimos como a ascensão da burguesia ao poder correspondeu à elaboração de teorias acerca da organização da sociedade. Esta ação de filósofos, como Hobbes, Locke e Rousseau, buscou a elaboração de parâmetros adequados à compreensão das mudanças relacionadas à transição do feudalismo para o capitalismo. Também observamos que, apesar da vinculação entre o capitalismo e a modernidade, ocorreu a consagração de valores que hoje sustentam o combate às contradições sociais que permeiam as relações entre o capital e as diversas instâncias sociais. Autonomia 6666 cultural e espiritual, liberdade e individualismo constituem valores contemporâneos gestados e disseminados durante a construção da modernidade. 4.5 Atividades 1. Elabore uma pequena pesquisa sobre Adam Smith e discuta como suas ideias convergem para o liberalismo de John Locke e se afastam das proposições de Rousseau. 4.6 Para saber mais Filme O Patriota (2000). Apresenta os conflitos que permeiam a opção entre emancipação política e subserviência à tirania durante a Revolução Americana que promoveu a emergência da primeira nação livre das Américas. É interessante observar a tensão entre o direito à liberdade e os riscos que essa busca apresenta. Livro BERMAN, M. Tudo o que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. O autor discute as relações entre política e cultura, a partir dos desdobramentos da industrialização que difunde os valores da modernidade, identificada com a própria experiência capitalista. 6677 Referências AYERS, M. Locke: ideias e coisas. São Paulo: UNESP, 2000. ALMEIDA, A, F.; MAGALHÃES, J. R.; MATTOSO, J. História de Portugal. Vol. I, II e III. Lisboa: Estampa, 1997. ANDERSON, P. Linhagens do estado absolutista. 3 ed. São Paulo: Brasiliense, 2004. BERMAN, M. Tudo o que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. BLOCH, M. Apologia da história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002. BURKE, P. A cultura popular na Idade Moderna. 2.ed. São Paulo: Cia das Letras, 1999. DAVIS, N. Z. Society and culture in early modern France. Stanford: Stanford University Press, 1975. DENT, N. J. H. Dicionário Rousseau. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996. DUBY, G. 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