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“O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL”, de Cesário Verde
«O sentimento dum ocidental» é um poema longo que se centra na experiência de vida na Lisboa da segunda metade do século XIX, como cidade ocidental moderna, bem como nos sentimentos de melancolia, desânimo e até desespero que tal vivência desencadeia.
Quanto à estrutura externa, o poema encontra-se organizado em quatro partes, cada qual com onze quadras, formadas por um decassílabo e três alexandrinos. As rimas são geralmente interpoladas e emparelhadas (num esquema ABBA).
Em termos de estrutura interna, assistimos ao percurso de um sujeito poético que percorre Lisboa à medida que as horas passam e a noite se vai adentrando. As quatro partes correspondem, pois, a fases do fim do dia: fim da tarde, chegada da noite, noite instalada e iluminada pelos candeeiros a gás e a noite cerrada das «Horas mortas».
Parte I: Ave-Marias;Momentos em que está dividido o poema/ a descrição da “Triste cidade!”
Parte II: Noite fechada; 
Parte III: Ao Gás;
Parte IV: Horas mortas. 
«O sentimento dum ocidental» é predominantemente um poema lírico, na medida em que representa a vivência de um eu (poético) numa cidade moderna do mundo ocidental. 
Contudo, o poema contém marcas que recordam o estilo épico, mas que acabam por o contrariar (Há, contudo, uma dimensão épica no poema). Essas características emergem logo por se tratar de um poema longo com um forte pendor narrativo, como sucede numa epopeia: o eu poético relata o seu percurso pela cidade. Mais ainda, esse sujeito podia estar a celebrar Lisboa e a vida dos seus habitantes; mas, na verdade, está a criticá-la: a cidade é um lugar decadente, sem brilho nem valor.
É um poema com estrutura narrativa, já que encontramos um narrador, que num determinado tempo e espaço, conta uma ação com diversas personagens.
A partir das perceções sensoriais (visuais, auditivas, olfativas, gustativas, táteis), o sujeito poético transfigura a realidade, criando uma nova (transfiguração poética do real).
Linguagem e estilo 
· Linguagem nítida e coloquial;
· Recurso a estrangeirismos;
· Utilização de recursos expressivos: a comparação, a enumeração, a hipérbole, a metáfora, a sinestesia, o uso expressivo do adjetivo e do advérbio;
· Regularidade métrica, rimática e estrófica ao longo de todo o poema.
Ave-Marias 
O poeta descreve o movimento da cidade ao cair da noite, que desencadeia a sua reflexão e introspeção. São vários os contrastes citadinos: a infelicidade dos que ficam opõe-se à felicidade dos que partem; os trabalhadores contrapõem-se aos ociosos; os favorecidos contrastam com os socialmente mais frágeis.
A primeira parte do poema situa-se ao fim da tarde ("ao anoitecer"), à hora em que os sinos das igrejas chamam para a oração vespertina - a ave-maria.
O sujeito poético, à medida que deambula pelas ruas junto ao Tejo, descreve vários espaços citadinos, referindo as "personagens urbanas" que neles se movimentam:
· edifícios em construção, "boqueirões", "becos", "varandas", "arsenais", "oficinas", "hotéis da moda";
· "carpinteiros", "calafates", "dentistas", "obreiras", "varinas", "um trôpego arlequim", "os querubins do lar", "os lojistas".
Em relação ao grupo de personagens descrito, é evidente a simpatia solidária que o sujeito poético revela para com as personagens populares, com destaque especial para as varinas que "... embalam nas canastras / Os filhos que depois naufragam nas tormentas" e que trabalham "(...) Nas descargas do carvão, / Desde manhã à noite, (...) / E apinham-se num bairro aonde miam gatas, / E o peixe podre gera os focos de infeção!"
A impressão geral que decorre desta primeira descrição da cidade é de que se trata de um espaço soturno e melancólico, pouco luminoso, que apresenta uma "cor monótona e londrina", despertando no "eu" sentimentos contraditórios - "E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!”.
Nesta primeira parte do poema, é também nítida a oposição entre o real e a fantasia. Na verdade, face a uma realidade que lhe desperta "um desejo absurdo de sofrer", o sujeito poético anseia partir para outras dimensões, e exprime o seu desejo de evasão:
· para outros espaços reais: "Levando à via-férrea os que se vão. Felizes! / Ocorrem-me em revista exposições, países: /Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!";
· para outros tempos, outras glórias - "Evoco, então, as crónicas navais: / Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado! / Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado! / Singram soberbas naus que eu não verei jamais!".
Noite Fechada
Esta parte constitui o segundo andamento do roteiro citadino. O poeta transeunte percorre a cidade de noite, reparando nos movimentos, na luminosidade (artificial e natural) das ruas. O tempo real opõe-se ao tempo sublime de Camões, representado simbolicamente pela estátua do poeta. intensifica-se a descrição das sensações negativas do sujeito poético: a cidade é comparada a uma prisão, o Aljube, transformada em asilo. Acentua-se a melancolia da primeira parte, que ora degeneram em depressão e morbidez, ora conduzem à imaginação, a evasão e ao sonho.
O sujeito poético continua o seu percurso, observando a realidade que o rodeia, enumerando os novos espaços que observa:
· as cadeias, o Aljube, a "velha Sé", os andares, as tascas, os cafés, as tendas, os estancos, as igrejas, "as íngremes subidas", "o recinto público e vulgar", "um palácio em face de um casebre", os quartéis, as "montras dos ourives", os magasins, a brasserie.
Destes espaços mórbidos, pouco iluminados, desprende-se uma sensação de enclausuramento, de solidão, de pessimismo progressivo.
Surgem, então, novas figuras citadinas, a que o sujeito poético se refere como "uma acumulação de corpos enfezados":
· presos, velhinhas, crianças, soldados, as elegantes, as costureiras, as floristas ("E muitas delas são comparsas ou coristas") e os emigrados que jogam dominó.
O tom melancólico e disfórico presente na descrição da cidade não nasce apenas do relato dos espaços e das personagens que neles evoluem, mas também do tipo de sensações empregues pelo sujeito poético para concretizar essa mesma descrição.
Nesta segunda parte, face à desolação e à soturnidade do presente, o sujeito poético também evoca o passado através do "severo inquisidor", do "épico de outrora" e da Idade Média.
Ao gás
Neste terceiro momento do itinerário, o sujeito deambulante sente-se oprimido perante os cenários de miséria e degradação circundantes, que o deixam num estado de quase alienação. Continua o jogo de contrastes entre a hipocrisia social e religiosa da burguesia citadina e o trabalho honesto dos operários. A literatura surge como fonte de vida. Vislumbra-se uma última imagem de decadência: a do pedinte, antigo professor de latim.
O deambular progressivo do sujeito poético permite-lhe completar o quadro citadino. Novos espaços e personagens são referidos: 
· os "passeios de lajedo", os "moles hospitais", as "lojas tépidas", a "catedral de um comprimento imenso", o "cutileiro", a "padaria", as "casas de confeções e modas", com longos balcões de mogno, as "longas descidas" e as esquinas;
· "as impuras", as "burguesinhas do Catolicismo", "o forjador", um "ratoneiro imberbe", "a lúbrica pessoa", uma "velha, de bandós!", "os caixeiros", "um cauteleiro rouco", o "velho professor (...) de latim"
Esta longa enumeração, para além de pormenorizar o retrato da cidade, reitera alguns dos aspetos característicos da poesia de Cesário Verde, como: 
· a valorização do campo, presente na única nota eufórica desta parte - o "cheiro salutar e honesto a pão no forno" que sai de uma padaria;
· a presença de uma figura feminina que subverte os cânones poéticos da época - "as impuras";
· o anticlericalismo presente na referência ao histerismo das freiras;
a solidariedade social presente na referência ao facto de o seu "velho professor (...) de Latim" estar transformado num pedinte.
Tal como nas duas primeiras partes, o sujeito poético descreve a cidade de modo sensorial, recorrendo a sensações táteis, olfativas, visuais e auditivas.O sujeito poético sublinha que o real é motivo de inspiração poética - "E eu que medito um livro que exacerbe. / Quisera que o real e a análise mo dessem".
Horas Mortas
É o último momento do longo itinerário pelas ruas da cidade. O sujeito lírico deambula por uma cidade às escuras, apenas as estrelas alumiam o seu trajeto. Deseja a perfeição e a eternidade, alenta-se com uma possível aliança ao coletivo e ao sonho de uma raça futura, euforia que pouco dura. Termina num tom disfórico que abarca todo o coletivo.
A quarta parte do poema corresponde ao momento final do percurso do sujeito poético, percurso esse que se vai progressivamente tornando mais angustiante e fechado.  Assim, estamos no domínio total da noite, as estrelas brilham no céu - "Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras" - e "os guardas, que revistam as escadas, / caminham de lanterna (...)". 
Este é também o momento em que as personagens marginais dominam a cidade: as "imorais", os assassinos, os "tristes bebedores", os "dúbios caminhantes" e até os cães, que se transformam em lobos - "E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes, / Amareladamente, os cães parecem lobos". 
É também o momento em que o espaço se torna agressivo para o sujeito poético, essa agressividade está presente: 
· no colocar dos taipais e no ranger das fechaduras;
· na consciência de que a cidade é uma prisão, uma antecâmara da morte - "Mas se vivemos, os emparedados. / Sem árvores, no vale escuro das muralhas!..."; "prédios sepulcrais";
· no sentir de um nojo físico pela cidade - "Nauseiam-me (...) os ventres das tabernas".
Face a esta cidade opressiva, o sujeito poético apenas pode: 
· evocar a beleza e a serenidade do campo - "Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas, / As notas pastoris de uma longínqua flauta";
· expressar desejos impossíveis ou de difícil realização - "Se eu não morresse, nunca! E eternamente / Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!";
· esperar o regresso da grandeza perdida - "Nós vamos explorar todos os continentes / E pelas vastidões aquáticas seguir!"
O poema conclui com uma nota claramente disfórica: a cidade é, inevitavelmente, o espaço onde "A Dor humana busca os amplos horizontes, / E tem marés, de fel, como um sinistro mar!".

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