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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Elaborado por Sônia Magalhães Bibliotecária CRB9/1191 F811 2016 Editora e Livraria Appris Ltda. Rua José Tomasi, 924 - Santa Felicidade Curitiba/PR - CEP: 82015-630 Tel: (41) 3156-4731 | (41) 3030-4570 http://www.editoraappris.com.br/ Editora Appris Ltda. 1ª Edição – Copyright© 2015 dos autores Direitos de Edição Reservados à Editora Appris Ltda. Nenhuma parte desta obra poderá ser utilizada indevidamente, sem estar de acordo com a Lei nº 9.610/98. Se incorreções forem encontradas, serão de exclusiva responsabilidade de seus organizadores. Foi feito o Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional, de acordo com as Leis nºs 10.994, de 14/12/2004 e 12.192, de 14/01/2010. FICHA TÉCNICA EDITORIAL Sara C. de Andrade Coelho Marli Caetano Augusto V. de A. Coelho ASSESSORIA EDITORIAL Bruna Fernanda Martins COMITÊ EDITORIAL Andréa Barbosa Gouveia - Ad hoc. Edmeire C. Pereira – Ad hoc. Iraneide da Silva – Ad hoc. Jacques de Lima Ferreira – Ad hoc. Marli Caetano – Análise Editorial DIREÇÃO – ARTE E PRODUÇÃO Adriana Polyanna V. R. da Cruz DIAGRAMAÇÃO | CAPA Andrezza Libel de Oliveira CAPA Carlos Yanke REVISÃO Fernanda Schimanski Bernardes WEB DESIGNER Carlos Eduardo H. Pereira GERENTE COMERCIAL Eliane de Andrade LIVRARIAS E EVENTOS Estevão Misael | Milene Salles ADMINISTRATIVO Selma Maria Fernandes do Valle CONVERSÃO PARA E-PUB Estevão Misael COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO DIREÇÃO CIENTIFICA Francisco de Assis (Fiam-Faam, SP, Brasil) CONSULTORES Ana Carolina Rocha Pessôa Temer (UFG, GO, Brasil) Antonio Hohlfeldt (PUCRS, RS, Brasil) Carlos Alberto Messeder Pereira (UFRJ, RJ, Brasil) Cicilia M. Krohling Peruzzo (Umesp, SP, Brasil) Janine Marques Passini Lucht (ESPM, RS, Brasil) Jorge A. González (CEIICH-UNAM, México) Jorge Kanehide Ijuim (UFSC, SC, Brasil) José Marques de Melo (Umesp, SP, Brasil) Juçara Brittes (UFOP, MG, Brasil) Isabel Ferin Cunha (UC, Portugal) Márcio Fernandes (Unicentro, PR, Brasil) Maria Aparecida Baccega (ESPM, SP, Brasil) Editora e Livraria Appris Ltda. Rua General Aristides Athayde Junior, 1027 – Bigorrilho | Curitiba/PR – CEP: 80710-520 Tel: (41) 3156-4731 | (41) 3030-4570 | http://www.editoraappris.com.br/ Aos meus pais, Marcos e Cila, pelo amor, confiança e apoio incondicional ao longo desses 26 anos de minha vida. Sem vocês, jamais teria conseguido concluir esta etapa tão desafiadora. Ao meu irmão, Kiko, meu melhor amigo, parceiro e conselheiro. Deus não poderia ter me concedido um irmão melhor. À minha prima, Anna Isabel, uma das pessoas mais incríveis que conheci na minha vida. Anna, você sabe o porque este livro é dedicado a você. Obrigado. Por fim, dedico aos meus avôs. Vô Dito, Vô Jorge, Vó Tarcília e a inesquecível Vó Isabel, que ainda cuida dos seus filhos, netos e bisnetos lá do céu. AGRADECIMENTOS Agradeço ao professor Dimas A. Künsch, meu orientador, pela sua paciência, compreensão, dedicação e conselhos. E, claro, por sempre ter aguentado minhas crises de ansiedade com alegria e bom humor. Muito obrigado, professor. Ao professor Cláudio Novaes Pinto Coelho, fã de Dream Theater e TransAtlantic, pelas aulas inspiradoras e contribuições valiosas para esta pesquisa. Suas ideias foram essenciais para que eu atingisse o objetivo desejado. À professora Patrícia Rangel, por ter colaborado com críticas e apontamentos fundamentais para o desenvolvimento do trabalho. Sou extremamente grato pela valiosa ajuda. Obrigado. Ao professor Celso Unzelte, colega de mestrado, por ter aceitado o convite de escrever o prefácio deste livro e também contribuído para o desenvolvimento da pesquisa. É a realização de um sonho a publicação do livro com o prefácio feito por um dos maiores jornalistas esportivos do Brasil. Meu muito obrigado a todos vocês. Para Mané Garrincha, o espaço de um pequeno guardanapo era um enorme latifúndio. (Armando Nogueira) APRESENTAÇÃO A primeira lembrança de minha vida é relacionada ao esporte. Em 1994, quando tinha apenas 4 anos, lembro-me de um primo falando sobre o pênalti perdido por Palhinha, na época jogador do São Paulo Futebol Clube, na final da Copa Libertadores da América. Quatro anos depois, em 1998, comemorei, de fato, meu primeiro título com a volta de Raí para o Tricolor paulista. Ainda nesse ano, comecei a acompanhar mais de perto um atleta alto e magrelo, com uma camiseta amarela, cabelo encaracolado e que empunhava uma raquete. Atendia pelo nome de Gustavo Kuerten. Guga ajudou a despertar o que seria uma das minhas maiores paixões nesta vida, e influenciou, indiretamente, no meu ingresso profissional ao mundo esportivo. Criei um blog sobre tênis e uma conta no Twitter. Assistia a inúmeras partidas e fazia comentários pontuais na rede social digital. Ali também colocava resultados de jogos e notícias sobre outras modalidades. Pouco tempo depois, graças a uma combinação de fatores, ingressei de vez no mercado esportivo, como estagiário na Confederação Brasileira de Tênis. Claro que, com outras funções e uma responsabilidade inegavelmente maior, aliei a minha paixão com o trabalho. Assistir tênis era trabalho, assim como escrever e divulgar resultados. Com o passar dos anos, fui tendo outras experiências, trabalhei em torneios profissionais de tênis, na Copa do Mundo pela Adidas e também realizei o sonho de trabalhar na ESPN. Apesar ainda da pouca idade, as experiências profissionais juntamente com os estudos realizados me credenciaram para uma pesquisa completa e preocupada com o presente e futuro do jornalismo esportivo, em especial do praticado na internet. Ao longo dos anos, tem sido recorrente ouvir sobre a crise financeira e a má qualidade da produção jornalística, e meu objetivo principal com este livro sempre foi apontar o que está sendo produzido e gerar um debate sobre os caminhos que a profissão está tomando. Não falo sobre modos de escrita, falo sobre os padrões que estão sendo executados, as prioridades – como a agilidade para redigir ao invés de checar os fatos –, a importância dos vídeos e as diversas maneiras que os jornalistas utilizam para alavancar a audiência. Tudo isso influencia no resultado final e, consequentemente, no trabalho do profissional de comunicação. Aliás, é ou não é preocupante o fato de uma agência americana estar criando robôs para redigir notas curtas e enviar para seus clientes? No mercado, muitos reclamavam dos salários baixos, das constantes demissões, da desvalorização do profissional como um todo. Ao ingressar, o jornalista entra em uma espécie de linha de produção e é rapidamente adaptado ao sistema, de certo modo, engessado – e aqui me incluo também. Poucos, porém, procuravam fazer uma autorreflexão do que está sendo produzido, e foi nesse momento que passei a questionar inclusive o meu próprio trabalho. A ideia de pesquisar surgiu em meio a esses pensamentos. Com a ajuda das aulas ministradas durante o mestrado, a leitura de autores clássicos, como Adorno e Horkheimer, Guy Debord, Walter Benjamin, entre outros, contribuiu imensamente para o resultado final, que é a publicação deste livro. Algumas adaptações foram feitas para facilitar a compreensão dos leitores. A intenção com esta obra é gerar uma leitura agradável para todos aqueles que se interessam pelo jornalismo esportivo, seja um profissional da área ou não. Espero que gostem! O autor PREFÁCIO Mais, até, do que outros assuntos, o esporte — no Brasil, em especial o futebol — é capaz de render notícias todo dia, toda hora, todo minuto. Quando não tem competição tem algum atleta contundindo-se, despedindo-se dos campos ou quadras, envolvendo-se em casos de doping ou em transações milionárias, além de qualquer outro personagem (incluindo aí técnicos, dirigentes, até torcedores) ligado aos mais variados tipos de escândalo. Nesse sentido, a tradicionalmente chamada “editoria de esportes” tem dialogado cada vez mais com as de política, economia, polícia, além de artes e espetáculos, uma das molas-mestrasdo presente trabalho, ao relacionar a cobertura esportiva com o entretenimento. Veículos impressos, porém, como os jornais (diários) e as revistas (semanais ou mensais), e mesmo as mídias eletrônicas mais tradicionais, como o rádio e a televisão, apesar de sua maior agilidade, já não dão conta dessa empreitada. Em plena Era do Acesso (na definição de Jeremy Rifkin, um dos autores aqui analisados), as pessoas, com seus aparelhos móveis, estão de certa forma em todos os lugares. Além de falar de tudo e de todos, os tablets e celulares fornecem informação onde e quando seus proprietários quiserem. Uma era, enfim, de onipresença, de ubiquidade, termo que tomo emprestado de outra autora, Lucia Santaella. Nesse novo mundo em termos de comunicação, como é feita a produção do tipo de jornalismo dito esportivo no ambiente aqui chamado de internet? Que recursos os jornalistas utilizam em suas reportagens? Como o processo de mercantilização da notícia e a espetacularização do esporte acabam influenciando essa maneira de fazer jornalismo, cujo desafio de despertar a atenção do leitor cresce na mesma proporção de sua demanda – a cada dia, a cada hora, a cada minuto? São essas as perguntas que Marcelo Bechara se propõe a responder. E o faz muito bem. Mais que isso: a partir do estudo de caso da cobertura de três jogos do Brasil na Copa do Mundo que o País sediou em 2014, feita por três sites diferentes, e com a ajuda dos conceitos de sociedade do espetáculo, de Guy Debord, e indústria cultural, de Adorno e Horkheimer, ele observa as técnicas utilizadas pelos jornalistas para representar o evento esporte como um espetáculo. Entrevista, ainda, três profissionais da área (entre os quais tive a honra de ser incluído), oferecendo um panorama das dificuldades, tanto ideológicas quanto práticas (nesse caso, especificamente financeiras), de se fazer um jornalismo melhor. Aquele jornalismo, enfim, que sonhamos um dia fazer, na internet ou fora dela, no esporte ou em qualquer outra editoria. Celso Unzelte Sumário INTRODUÇÃO CAPÍTULO1 O ESPETÁCULO DO FUTEBOL NO JORNALISMO ESPORTIVO NA INTERNET 1.1. A Produção do Jornalismo Esportivo On-line 1.2. Jornalismo na Sociedade do Espetáculo 1.3. O Espetáculo Futebol 1.4. A Reprodução do Espetáculo no Jornalismo Esportivo na Internet 1.4.1. Estreia na competição: Brasil 3x1 Croácia 1.4.2. Oitavas de final: nos pênaltis, Brasil vence Chile 1.4.3. Semifinal: Brasil é humilhado pela Alemanha 1.5. Da Cultura da Imagem para a Cultura do Visual 1.6. Texto ou vídeo? Quem complementa quem? CAPÍTULO 2 AS TÉCNICAS DE REPRODUÇÃO E O ESPETÁCULO NO JORNALISMO ESPORTIVO NA INTERNET 2.1. O Calendário Esportivo e as Pautas no Jornalismo 2.2. Reprodução de Notícias 2.2.1. Agências de Notícias 2.2.2. Assessorias de Imprensa 2.3. Indústria Cultural 2.4. O Espetáculo, a Indústria e a Reprodução CAPÍTULO 3 A PRODUÇÃO DO JORNALISMO ESPORTIVO DIGITAL NA ATUALIDADE 3.1. O Jornalismo Esportivo On-line na Atualidade 3.1.1. Ritmo Acelerado nas Redações 3.1.2. A Construção do Relato da Partida de Futebol 3.1.3. Caça-Cliques 3.1.4. A Vida Privada dos Atletas Celebridades 3.2. Liquidez das Notícias 3.3. A Pressão Econômica na Produção do Jornalismo Esportivo 3.3.1. Publicidade: Única Fonte de Renda do Jornalismo On-line 3.4. A Era do Acesso 135 CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS INTRODUÇÃO O esporte faz parte da cultura mundial. O futebol, especificamente, está presente no cotidiano dos brasileiros e muito de uma personalidade pode ser descrita por meio desse esporte. A área do jornalismo esportivo é uma das mais desejadas pelos estudantes de Comunicação, pois une a paixão de infância com a profissão escolhida. Em 2014, o Brasil teve o privilégio de sediar novamente uma Copa do Mundo de Futebol após 64 anos, e a produção de informação esportiva nunca esteve em tamanha evidência. O assunto predominou em todas as redações e noticiários do País, inclusive aqueles cujo foco é direcionado para outros temas, como política e cultura. O futebol se tornou o principal tema e ganhou ainda mais destaque no cenário mundial. O progresso tecnológico proporcionou inúmeras formas de criar uma reportagem no ambiente on-line. Vídeos, imagens em movimentos (ou gifs), áudios, hyperlinks; tudo sem restrição na quantidade de palavras e com a possibilidade de edição após a publicação. Essas são algumas características e recursos do jornalismo no ambiente digital. Embora tenha facilitado o trabalho de muitos jornalistas, as mudanças também trouxeram consequências negativas, como a agilidade necessária para redigir a notícia e colocá-la no ar, o que, às vezes, impossibilita o repórter de checar informações e revisar o conteúdo. Isso posto, esta pesquisa propõe estudar, como tema central, a produção do jornalismo na internet. Consiste em observar os meios utilizados pelos jornalistas para elaborar uma matéria no ambiente on-line e torná-la atraente para os leitores, por meio das ferramentas disponibilizadas, tanto para o texto, como para a inserção de vídeos. A questão é compreender como o espetáculo se produz na notícia e quais os recursos e mecanismos são utilizados na espetacularização da informação – o que se tornou uma das características mais marcantes do jornalismo esportivo on-line. Para a análise, escolhi os relatos – texto que descreve como foi a partida, publicado segundos depois do apito final – de três jogos da Copa do Mundo de 2014. Brasil x Croácia, duelo realizado no dia 12 de junho de 2014 em São Paulo/SP, marcou a estreia da equipe nacional na maior competição de futebol entre países e inaugurou o torneio em solo brasileiro, que aqui não era realizado desde 1950. O segundo confronto escolhido foi Brasil x Chile, que aconteceu na cidade de Belo Horizonte/MG, em 28 de junho de 2014, válido pelas oitavas de final da Copa, e que ficou marcado pelo sofrimento da Seleção Brasileira, avançando às quartas de final na disputa de pênaltis. O terceiro e último texto selecionado foi sobre o maior vexame da história do time nacional, a derrota por 7 a 1 para a Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo, realizado no dia 8 de julho de 2014, novamente na cidade de Belo Horizonte, que encerrou o sonho do hexacampeonato. Os relatos escolhidos são de quatro diferentes websites: GloboEsporte.com, por pertencer ao maior grupo de comunicação do País e ser referência para o jornalismo esportivo em todos os aspectos; ESPN.com.br, que carrega uma das marcas esportivas mais famosas do mundo e toda a credibilidade necessária para fazer um jornalismo de qualidade – no entanto, a filiação brasileira sofre com a concorrência financeira da rival e isso a prejudica na produção de conteúdos; e GazetaEsportiva.net, um dos nomes mais tradicionais no jornalismo esportivo no Brasil, que possui uma agência de notícias que colabora para diversos sites, mas deixou de ser referência no cenário, principalmente pela falta de poder financeiro frente aos concorrentes. O outro portal escolhido foi o da Folha de S.Paulo – folha.com.br –, por não ser especializado totalmente em esportes e trazer uma visão distinta e mais séria nos conteúdos. Estas quatro plataformas digitais demonstram diferenças bastante perceptíveis quanto à produção de matérias sobre os jogos, e cada site possui recursos distintos. Nesta busca de estudar os processos da produção do jornalismo esportivo na internet, trago duas hipóteses que procuram colaborar para a compreensão do problema de pesquisa proposto. A primeira é a de que os atuais mecanismos de produção de notícia jornalística esportiva digital colaboram e acentuam a combinação entre informação e entretenimento. Com a ajuda dos conceitos de Debord e Adorno e Horkheimer, observei as técnicas utilizadas pelo jornalista para representar o espetáculo do evento, da partida de futebol, o mais fielmente possível em uma reportagem, também investiguei os recursos que tornam a reportagem mais atraente e desperte a atenção dos consumidores, além de se tornaruma forma de entretenimento para o leitor. A outra hipótese trabalha com a ideia do ritmo acelerado e a pressão para publicar a notícia o mais rápido possível. Em vista da concorrência e a alta demanda dos portais eletrônicos, os editores exigem dos repórteres rapidez para finalizar uma matéria e publicá-la em questão de minutos, o que implica em certa alteração nos modos de fazer jornalismo, já que com a internet, no geral, primeiro publica-se o conteúdo para depois revisá-lo. O primeiro capítulo deste livro aborda, principalmente, a questão do espetáculo no jornalismo esportivo. Com um estudo detalhado das reportagens sobre as partidas, observei os meios de reproduzir o espetáculo do futebol em matérias jornalísticas e como os repórteres fazem isso. Busquei compreender também a relação entre informação e espetáculo, se este suplanta na produção. Os principais referenciais teóricos para esta parte são Guy Debord, com a Sociedade do Espetáculo, o autor Cláudio N. P. Coelho, através das aulas ministradas sobre o tema e as obras Teoria Crítica e Sociedade do Espetáculo (2014) e Comunicação e Sociedade do Espetáculo (2006), Adorno e Horkheimer, no que se trata de indústria cultural, Eduardo Galeano para falar de futebol, e também busquei fundamentos no espanhol Josep Català para debater as questões das mudanças da cultura da imagem para a cultura visual e, consequentemente, discutir sobre a importância do vídeo nas reportagens on-line. O segundo capítulo envolve outra questão frequente no jornalismo esportivo na internet. Muitos portais são abastecidos por agência de notícias – o website assinante recebe o material da agência e tem apenas o trabalho de publicá-la em sua plataforma para suprir a enorme demanda. Os relatos da GazetaEsportiva.net podem ser encontrados em diversos sites, por fazerem parte da agência Gazeta Press, uma das maiores do Brasil. Este ponto pode ser comparado com os press- releases enviados pelas assessorias de clubes e jogadores. A maioria das empresas recebe e reproduz a mesma notícia, tendo apenas que publicar ou editar determinadas informações. Para referencial teórico, a base consiste em Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, com os conceitos sobre a indústria cultural, e Walter Benjamin, com as técnicas de reprodução. Para finalizar, o terceiro e último capítulo aborda questões sobre o momento em que se encontra o jornalismo esportivo na internet, traçando uma espécie de panorama geral. Com base teórica em Zygmunt Baumann, faço o debate sobre a liquidez das notícias que, em poucas horas, já se tornam antigas, a necessidade da atualização quase que em tempo real de todo o portal, a agilidade para redigir uma matéria e publicá-la, com poucos minutos para a essencial checagem. Uso Edgar Morin e Patrícia Rangel para buscar compreender o tratamento dos jogadores que se transformam em celebridades e influenciam inúmeras matérias sobre a vida pessoal. Uso também Jean Baudrillard para tratar a questão da publicidade como única fonte de renda para o jornalismo on-line. Com o uso de Jeremy Rifkin questiono como o leitor já não quer mais pagar pela informação e sim apenas ter o acesso à mesma. Isto se tornou um desafio para rentabilizar os websites e influencia na escolha de pautas cada vez mais apelativas, com o intuito apenas de gerar audiência. A metodologia utilizada para escrever este livro tem como principal estratégia a pesquisa bibliográfica de autores que conversam com o tema proposto e que possibilitam diversas visões e ideias a respeito da produção do jornalismo esportivo. É interessante, e ao mesmo tempo curioso, como outros assuntos podem ser aplicados ao esporte, embora tenham sido escritos em épocas que o jornalismo era bastante diferente do padrão atual. Foi um desafio trabalhar com textos clássicos e aplicar os conceitos nos modos de produção do século XXI. As entrevistas com profissionais da área foram fundamentais para o desenvolvimento de ideias. Jornalistas renomados, professores acadêmicos e editores das plataformas digitais colaboraram para se chegar aos resultados alcançados. Como forma de compreender o funcionamento da produção de informação esportiva, as entrevistas demonstraram preocupação com os métodos de criação de conteúdo, os objetivos desejados pelas empresas de comunicação, e também com a visão de cada profissional sobre o momento do jornalismo de esportes. Para encerrar, o principal objetivo deste livro é gerar uma reflexão sobre a produção do jornalismo esportivo na internet e quais os rumos ela tem seguido para dar o retorno necessário às empresas de comunicação. Se a informação ainda é o principal a ser vendido ou se a notícia tornou-se mais um produto do entretenimento. Desde o início do trabalho, a minha principal ideia foi encontrar uma maneira de colaborar com estudos para a discussão do jornalismo esportivo e agregar conhecimento na área acadêmica. Capítulo1 O ESPETÁCULO DO FUTEBOL NO JORNALISMO ESPORTIVO NA INTERNET 1.1. A Produção do Jornalismo Esportivo On-line O modo de fazer jornalismo, seja na internet, no rádio ou na TV, requer atenção aos princípios básicos da profissão, independentemente da plataforma. A criação de uma matéria esportiva passa pelas mesmas etapas de produção de uma reportagem política ou econômica, por exemplo. No primeiro momento, é preciso definir a pauta. Em seguida, apurar os fatos – é necessário checar a vericidade de qualquer informação obtida – e, para finalizar, a redação e a edição da matéria. No universo digital, a rapidez para publicar interfere nesta última fase, mas nem por isso o texto pode conter erros na elaboração da matéria, como apresentar notícias sem aprofundamentos, sem contextualização, ou ainda, erros gramaticais. Não há fórmula exata para que os erros sejam evitados, assim como todas as partes do processo de criação de reportagens têm a mesma importância. A profissão do jornalista exige estudo, dedicação, atenção e experiência. O jornalismo esportivo digital tem perdido profundidade em sua produção. Jornalistas e leitores têm se contentado com o superficial, de leitura rápida e fácil compreensão. Os recursos literários estão cada vez mais escassos no meio esportivo, aparecendo poucas vezes em algumas colunas e reportagens especiais. Dimas Künsch discute este modelo moderno de produção de informação. Para o autor, a produção se torna uma espécie de videogame. Ele diz: Exemplo clássico de insucesso e reprovação do modelo tido por moderno de informação da atualidade – o jornalismo que se contenta “com o rapidinho, o superficial e o perfunctório” (José Hamilton Ribeiro) –, a cobertura da Guerra do Golfo mostrou até onde pode chegar um jornalismo que “deixa de ser o quarto poder, investigativo, de precisão, literário”, tudo, para se transformar numa espécie de videogame, regido pela lei da eficiência técnica e tecnológica movendo-se no nível das generalidades. Perdem os leitores e perde a sociedade, quando a imprensa despreza o trabalho sério de aprofundamento dos fatos e situações que tecem o “espetáculo dramático do nosso tempo” (KÜNSCH, 2000, p. 102). A imprensa tem desprezado técnicas consideradas essenciais para a produção de um conteúdo de boa qualidade. Ao optar pelo superficial e rápido – e também por conta da demanda que o ambiente on-line exige –, o jornalista pula etapas que agregam valor a reportagem, como é o caso da investigação dos fatos e a ida ao local do evento para compreender o máximo possível as dimensões humanas, os contextos e os personagens dos fatos e situações a serem reportados. No jornalismo esportivo, grande parte dos repórteres escreve sobre as partidas de dentro da redação, bem longe do local de jogo. Alguns veículos de comunicação só enviam seus profissionais aos estádios em jogos especiais, como finais de campeonato ou clássicos regionais. É inegável a importância de estar no local do confronto para se ter a perspectiva do acontecimento e a diferença que estar presente assume na produção do texto. Künsch cita Cremilda Medina para apontarcomo o jornalista está distante da rua – que é uma parte do seu processo de trabalho – e distante de um espaço privilegiado do cotidiano, dos embates ideológicos, da experiência. O autor afirma que: Indo à rua, o repórter “pode flagrar, com perplexidade, que o acontecimento social está correndo à parte das pautas jornalísticas, sua ideologia ou didatismo opinático [...] a autora vê que a rua, “cenário das grandes sacudidas paradigmáticas ou ideológicas”, está ficando “cada vez mais distante da oficina jornalística”. Esta, “claustrofobicamente, se encerra no ágil maquinário contemporâneo e nas mediações tecnológicas da informação pronta para consumir” (KÜNSCH, 2000, p. 109). Ao se distanciar da rua e deixar de lado a experiência de absorver ideologias e sentimentos que agregam ao trabalho, o jornalista segue para o caminho mais racional, com pouca profundidade, mas em matérias baseadas em dados estatísticos, gráficos e infográficos que reforçam as análises da partida ou dos jogadores. O professor Igor Fuser, na obra A Arte da Reportagem (1996), atribui esta tendência ao jornalismo moderno e objetivo. Fuser diz: Em nome de um jornalismo “moderno” e “objetivo”, desprezou-se a reportagem – em especial, a reportagem em profundidade – para dar lugar a um enfoque que privilegia as estatísticas como medida suprema da verdade. Pesquisas de opinião substituem a realidade viva, perturbadora, contraditória. Infográficos ocupam o lugar dos textos. Os problemas urbanos se resumem à quilometragem dos congestionamentos, aos decibéis de barulho e às medições da poluição do ar. Taxas de inflação e de desemprego bastam para retratar a situação do povo, supõe-se. Quando se fala em crimes, a fórmula favorita é: 47 mortos, o fim de semana foi o terceiro mais violento do ano. Mortos sem nome, sem história. A vida, nas páginas dos jornais, é previsível e insossa como um sanduíche fast- food. O ser humano se tornou, quando muito, um detalhe – que na maioria das vezes, só serve para atrapalhar, como na manchete de primeira página que dizia: “Passeata dos sem-terra tumultua o trânsito” (FUSER, 1996, p. 15). Este jornalismo moderno, baseado em números, tem se popularizado também entre os leitores, a ponto de as emissoras investirem em departamentos de estatísticas, como é o caso da ESPN Internacional. A matriz americana possui uma repartição que coleta dados de todos os jogadores e times, em especial dos esportes americanos, mas também dos esportes populares ao redor do mundo. Diversas matérias são originadas a partir dos números reunidos. A ESPN Brasil anunciou, no final de dezembro de 2015, o Data ESPN, um departamento que, baseado em dados, analisa o desempenho tático dos times de futebol e também mapeia a movimentação dos jogadores em campo, sob a forma de um mapa de calor que demonstra as partes do campo em que o atleta mais permaneceu no gramado. Grande parte de matérias publicadas são sustentadas pelos dados estatísticos, com gráficos e imagens que reforçam a importância desses departamentos. A reportagem se torna mais racional com a informação direta, sem profundidade, uma vez que o jornalista recebe o material por e-mail quase pronto para ser publicado, basta distribuir os números em poucos parágrafos e já se tem uma matéria finalizada. Cremilda Medina trabalha a ideia de que investir somente em tecnologia não desenvolverá a capacidade do jornalista de compreender melhor o universo ao seu redor. Para a autora, é preciso qualificar mais a inteligência humana e, com isso, progredir em todas as partes do processo de produção de jornalismo esportivo. Medina diz: Investindo não só em tecnologia, mas sobretudo na inteligência humana, um dia talvez teremos um pouco mais de satisfação, ao compreender melhor o espetáculo dramático do nosso tempo. Nesse dia, saberemos pautar melhor, fundamentar melhor a pauta, observar com mais acuidade o que se passa à nossa volta, dialogar criativamente com o outro, transpor essa vivência para um relato de cena, não um relato burocrático-descritivo, atingir ou simplesmente tocar o triálogo da comunicação, fundir numa polifonia e polissemia a palavra reveladora das fontes de informação, dos interlocutores sociais e do próprio mediador ou regente. Então, dormiremos com a consciência um pouco mais serena: o povo terá, da parte do jornalista, a cosmovisão que ele merece nessa luta para que todos sejamos humanos (MEDINA, 1996, p. 26-27). A dependência da tecnologia para produzir reportagens tornou-se ainda mais evidente com o avanço do digital. Na produção do jornalismo esportivo na internet, a superficialidade nas reportagens faz parte da criação, até como consequência da agilidade necessária para qualquer jornalista que trabalhe em redações de portais eletrônicos. Os números são, em geral, os principais argumentos para qualquer matéria analítica. Por conta também da contenção de custos, as empresas não enviam mais seus repórteres para a rua em busca de novas matérias – ou para aprofundá-las – e se mostram satisfeitas com o superficial ou com a ideia de que somente os números já são em grande parte suficientes para se compor uma reportagem. Como lembra Medina, a polifonia, tão importante na criação de uma matéria, é esquecida. A superficialidade não aparece só no texto, mas no grau de investigação, de apuração, e até nas pautas. Tornou-se comum o relato de uma partida de futebol ser redigido com o uso da televisão, por mais perto que o estádio seja da redação. O relato se transformou em uma fria descrição sobre o jogo. Não importa se o local está a minutos de distância ou em outro continente, a reportagem nos sites esportivos é algo prático, sem detalhes, sem emoção. Esta, aliás, tem aparecido somente nos vídeos inseridos nas matérias. As palavras pouco descrevem o clima, a euforia da torcida, os detalhes da noite de futebol. O relato todo é baseado em imagens de TV, e o jornalista não consegue viver a experiência do evento. Edvaldo Pereira Lima, na obra Páginas Ampliadas (1993), fala sobre como o repórter precisa ir ao encontro da pauta, do que precisa descobrir e se envolver. Este pensamento conversa tanto com a superficialidade apontada por Cremilda, quanto por Künsch e Fuser. Lima aponta como fugir da superficialidade. O tempo de captação livra-se da imposição do cronograma curto e, batendo na mesma tecla do realismo social, o repórter vai ao encontro do universo que tem de cobrir, mistura-se com ele, confunde-se até onde seja possível, para captar pelo cérebro e pelas entranhas, pela emoção e pela razão, as componentes lógicas e subjetivas da vida que o trespassa e pela qual tem de atravessar com presença e envolvimento para retratá-la. O repórter e o fotógrafo, ambos na mesma missão de observação participante por um prazo geralmente dilatado de captação (LIMA, 1993, p. 171). Foi na produção do jornalismo esportivo na internet que este distanciamento, a frieza na redação, se acentuou nas reportagens. Dá-se a impressão de que reportagens com contexto e aprofundamento aparecem somente em ocasiões especiais, ou quando a equipe de reportagem de determinada TV irá cobrir o evento e, com isso, o veículo envia uma equipe para produzir material para o portal eletrônico. Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari apontam a reportagem como o conto jornalístico e para a intensidade que ela pode transmitir, indo além da notícia rasa e curta. Uma coisa, esta última, cada vez mais habitual no jornalismo esportivo na internet. Os autores afirmam: Pode-se dizer que a reportagem é o conto jornalístico - um modo especial de propiciar a personalização da informação ou aquilo que também se indica como “interesse humano”. […] A reportagem amplia a cobertura de um fato, assunto ou personalidade, revestindo-os de intensidade, sem a brevidade da forma- notícia (SODRÉ; FERRARI, 1986, p. 75). Ao mesmo tempo em que a internet propicia inúmeros recursos para enriquecer uma matéria, as atividades importantes e básicas para a prática do bom jornalismo são atropeladas por esta nova tendência do jornalismomoderno, apontada por Fuser, cujo foco é mais objetivo e racional, fundamentado em dados estatísticos, vídeos e imagens de atletas celebridades. No jornalismo escrito, impresso ou on-line, a estrutura narrativa obedece ordinariamente às técnicas de lide e pirâmide invertida, acrescida mais com os diversos recursos que o ambiente digital disponibiliza como vídeos, áudios e imagens. A informação principal precisa estar no primeiro parágrafo, para que o leitor não precise ler todo o conteúdo e procurar o que realmente de fato se noticia. Historicamente, esse esqueleto tornou-se uma regra essencial nos textos jornalísticos. Celso Unzelte trabalha a ideia do lide juntamente com a pirâmide invertida. Para o autor, é a maneira de antecipar a ideia central da reportagem. Unzelte diz: A lógica do lide, de antecipar o que é mais importante, está presente também na pirâmide invertida. Esta se refere não somente às primeiras linhas, mas ao texto como um todo, e nada mais é do que a ordenação dos fatos a partir do mais para o menos importante [...] como se as informações estivessem dispostas em um funil, ou em uma pirâmide invertida (UNZELTE, 2009, p. 31). A lógica da pirâmide invertida constitui praticamente uma obrigação no ambiente on-line. A disputa por audiência, tema que será discutido mais adiante, faz com que o redator coloque os dados mais relevantes logo no início do texto, mesmo que para isso, de certo modo, a continuação da reportagem fique vazia. Heródoto Barbeiro e Patrícia Rangel, no entanto, alertam para que toda a matéria seja criativa, que uma linha “puxe a outra”, que um parágrafo impulsione a curiosidade do leitor para ler o restante do trabalho. Ressaltam, ainda, que a informação no lide direcionará o texto: Um texto atraente contém o máximo de informações relevantes distribuídas de maneira clara e criativa. Cada linha chama a leitura da próxima, cada parágrafo desperta o interesse pelo seguinte. A primeira informação é aquela que vai direcionar o texto e nela o jornalista opta pelo último acontecimento que interferiu diretamente no desenvolvimento do fato (BARBEIRO; RANGEL, 2006, p. 52). Não se pode deixar de lado os padrões técnicos e éticos da produção jornalística. Em qualquer área, o repórter precisa ter compromisso com a verdade, com a apuração dos fatos, com a redação e também com a sociedade. A missão jornalística de informar com autenticidade os acontecimentos deve prevalecer em qualquer segmento e, obviamente, não é diferente com o esporte. Por mais entretenimento que possa ser, o jornalismo esportivo tem seu grau de seriedade. O tema política frequentemente é encontrado nos cadernos esportivos, com eleições de clubes, confederações e, como tem aparecido com mais regularidade, corrupções nas instituições, como a que ocorreu na Federação Internacional de Futebol Associados (FIFA), em 2015, com a renúncia do presidente Joseph Blater, acusado de receber propina para escolher as futuras sedes das competições internacionais, e a da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em que Ricardo Teixeira se retirou do cargo de presidente e seu sucessor, José Maria Marin, também renunciou após diversas acusações de desvio de dinheiro nas negociações para as partidas de futebol da Seleção Brasileira. No ano de 2013, durante a Copa das Confederações, realizada no Brasil um ano antes da Copa do Mundo, as manifestações populares tomaram conta do país inteiro, inclusive durante as partidas de futebol da equipe nacional. Era impossível um portal de conteúdo esportivo não noticiar o que acontecia naquele momento. O viés era muito mais político-econômico do que a atuação em campo ou a convocação da Seleção Brasileira. Porém, a relevância inegável do tema o elevava à condição de destaque de sites especializados em esportes, como ESPN.com.br e Globoesporte.com. Sobre esta conduta, ainda em Barbeiro e Rangel, lemos que: A ética no jornalismo esportivo tem a mesma importância do que qualquer outra área, uma vez que ela baliza as ações humanas, critica a moralidade e se constitui em princípios e disposições. Ela baliza os parâmetros do que é virtuoso, justo, digno, honesto, solidário, enfim, um conjunto de valores que buscam melhorar a sociedade humana. A ética é uma percepção do mundo dinâmico, uma vez que a sociedade se altera constantemente, e é preciso identificar onde estão os atributos virtuosos (2006, p. 113). O repórter precisa ter a clara noção de que é jornalista, antes de definir um tema como sua especialidade. Ele precisa estar apto para cobrir qualquer tipo de situação e saber que a construção básica da notícia é bastante similar. Não é muito ético, embora tenha se tornado prática comum na internet, matérias superficiais, com títulos que servem como “isca” para instigar o leitor a clicar na nota e gerar um ponto de audiência. É preciso ter comprometimento e responsabilidade para com toda a sociedade. O jornalista tem uma função social importante. A notícia necessita, em resumo, de apuração e redação, de maneira que informe, oriente e, na medida do possível, agrade o leitor. É inegável que a internet mudou algumas formas da produção do jornalismo, como, por exemplo, a possibilidade de editar após a publicação do conteúdo, um dos maiores impactos neste novo universo. A imposição da agilidade, a enxurrada de notícias que entram no ar em minutos, tudo isso veio com o progresso da tecnologia. Mostrarei como tudo isso interfere na produção do jornalismo esportivo na internet. Em especial, neste capítulo, como os repórteres reproduzem o espetáculo de uma partida de futebol em uma reportagem, com recursos que a internet disponibiliza para enriquecer a matéria. E, claro, atento aos padrões jornalísticos presentes nos portais que constituem o objeto de estudo deste livro. Espetacularizada ou não, [...] jornalismo é notícia. Ela é a razão de ser do jornalista. E do jornalismo. Construída com inteligência, com conhecimento do assunto, com encadeamento de ideias, coisas que exigem bons profissionais (COELHO, 2003, p. 47). 1.2. Jornalismo na Sociedade do Espetáculo A sociedade do espetáculo, um tema desenvolvido por Debord, cuja obra foi publicada pela primeira vez em 1967, se mostra cada vez mais presente nos padrões de vida das sociedades capitalistas, cujos métodos de produção têm se transformado com os constantes progressos tecnológicos. O crescimento da ciência e de novas técnicas permite novos meios de fabricação de conteúdos, que atingem todo o mundo globalizado e contribuem para o aparecimento de tendências entre a população. Antes de me aprofundar no assunto, é preciso entender o conceito elaborado por Debord, que afirma que toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se afastou em uma representação (1991, p. 9). Ao associar as palavras espetáculo e representação, Debord critica o capitalismo e aponta uma separação entre o existente e o representado. Há um conflito entre a imagem retratada e as experiências vividas. Estas, em muitos casos, são substituídas por imagens que procuram reproduzir a experimentação da prática em si, esvaziando-a. A relação social entre as pessoas acaba por ser medida pelas imagens, possuidoras de significados expressivos nos dias atuais. Debord diz ainda: O espetáculo apresenta-se ao mesmo tempo como a própria sociedade, como uma parte da sociedade e como instrumento de unificação. Enquanto parte da sociedade, ele é expressamente o sector que concentra todo o olhar e toda a consciência. Pelo próprio facto de este sector ser separado, ele é o lugar do olhar iludido e da falsa consciência: e a unificação que realiza não é outra coisa senão linguagem oficial da separação generalizada. (DEBORD, 1991, p. 10). O espetáculo aparece em todas as partes da sociedade. Todo ato quase que necessariamente passa a ser um espetáculo. Todo modo de produção segue esta linha essencial nos padrões da sociedade capitalista, pois a representaçãose torna a imagem da economia. Para sobreviver de acordo com as normas econômicas, o espetáculo precisa estar inserido em uma sociedade, uma vez que esta concentra todo o seu olhar e o consome de forma alienada. A maneira de produção se faz presente em todas as empresas do mundo globalizado. No jornalismo não é diferente. No caso desta obra, em específico para o jornalismo esportivo, os mecanismos de criação de conteúdo se dão de modo semelhante aos de qualquer outra empresa, que tem como objetivo principal atingir o maior número de vendas de seu produto, lógica básica do sistema capitalista. Um veículo de comunicação on-line publica uma enorme quantidade de notícias em poucos minutos. Como não possui a restrição do limite físico, diferentemente do impresso, toda e qualquer novidade pode ser transformada em matéria e publicada. Inclusive, novas pautas surgiram por conta desta possibilidade, que depois se transformou em necessidade, e também por conta da espetacularização dos temas jornalísticos, que contribuíram para mudar os rumos de produção de informação esportiva digital, tema que será abordado mais adiante. Ainda a respeito da fabricação em série, o jornalismo como um todo está inserido no conceito de indústria cultural, estudado na Escola de Frankfurt por Adorno e Horkheimer, que afirmam: [...] a técnica da indústria cultural levou apenas à padronização e à produção em série, sacrificando o que fazia a diferença entre a lógica da obra e a do sistema social. Isso, porém, não deve ser atribuído a nenhuma lei evolutiva da técnica enquanto tal, mas à sua função da economia actual (ADORNO; HORKHEIMER, 1947, p. 57). A padronização, no caso específico do tema investigado, pode ser refletida na quantidade de conteúdos parecidos encontrados nos jornalismo esportivo digital. Tudo é planejado de acordo com o poder financeiro, desde os gastos até o retorno do investimento. O planejamento interfere em todas as etapas da produção e também na definição da pauta. A agenda só será estabelecida em definitivo após a mensuração detalhada dos possíveis resultados que cada matéria pode alcançar. E, pode-se dizer, quanto mais espetacularizada a notícia, maior a probabilidade de o objetivo ser atingido. A relação entre espetáculo e notícia é mais um produto do desenvolvimento histórico do capitalismo. Os trabalhadores, dominados pelo sistema, contribuem para o progresso destes mecanismos, e para acentuar o vínculo entre a vida real e a reprodução do espetáculo. O espetáculo tem o poder de transformar uma simples informação em uma história, uma narrativa, que provoque a curiosidade dos espectadores, seja uma reportagem escrita, com fotografias, ou na televisão, ou ainda no caso do digital, que permite os três tipos de plataformas em uma só matéria. Para ajudar na compreensão do tema da espetacularização, recorro a Cláudio Coelho, que diz: O espetáculo confirma o caráter mercantil das relações sociais capitalistas; a lógica da separação é um componente essencial das relações sociais capitalistas. O capitalismo é fruto de um processo histórico que separou os trabalhadores dos meios de produção e tornou possível a transformação da força de trabalho em mercadoria (COELHO, 2006, p. 16). Hoje, com o avanço tecnológico dos dispositivos móveis, a facilidade de se registrar uma imagem ou um acontecimento, juntamente com as redes sociais digitais para a divulgação, contribui para que qualquer indivíduo possa ser o comunicador, o produtor de conteúdo. Reportar um evento nunca esteve tão fácil, e isso influencia diretamente na atividade jornalística. Uma pessoa comum pode exercer o papel do jornalista mesmo que de forma amadora, ou dar origem a uma pauta com uma foto ou filmagem de tal fato. Ou seja, a força de trabalho, que antes era uma mercadoria, já deixou de ser, em alguns casos. Este é um dos motivos que colaboram para o enfraquecimento da profissão de jornalista, tanto do ponto de vista econômico quanto técnico. Além disso, produzir informação não significa ser jornalista. Os veículos se apropriam de fotos e filmagens amadoras e não pagam nada por isso, o que permite o rebaixamento da força de trabalho, em termos financeiros. Já não é mais raro encontrar reportagens que tiveram origem de vídeos ou fotos registradas por cidadãos comuns, ou uma mensagem numa rede social que se torna motivo para uma pauta e se desdobra em inúmeras matérias, caso tenha a repercussão desejada. Inclusive, em programas tradicionais da televisão brasileira, como o Jornal Nacional da TV Globo, já virou prática habitual reportagens com imagens registradas por cinegrafistas amadores. O jornalismo esportivo no ambiente on-line é como qualquer outro produto. A notícia é a base da sustentação de um veículo de comunicação, e é a partir dela que a empresa tem noção de sua grandeza e potencial. A audiência da notícia reflete diretamente no faturamento. É ela que mede o poder de barganha das companhias no momento de negociar publicidade e patrocínios. O mundo espetacularizado possibilita novos caminhos, que contribuem para prender a atenção do público. 1.3. O Espetáculo Futebol Ninguém conseguiu até hoje explicar de modo convincente como o futebol se tornou o esporte mais popular do planeta, e nenhum torcedor conseguiu explicar sua paixão pelo clube que apoia. O mais impressionante deste esporte é a sua capacidade de atingir todas as classes sociais e se transformar em um dos produtos mais midiáticos da sociedade contemporânea. O esporte da bola redonda sempre atraiu multidões. As primeiras partidas não impunham limites de jogadores por equipes e o tempo não era cronometrado. O futebol chegou a ser condenado pelos reis britânicos no início do século XIV. O jornalista Eduardo Galeano relembra que, “em 1349, Eduardo III incluiu o futebol entre os jogos estúpidos e de nenhuma utilidade, e há éditos contra o futebol assinados por Henrique IV” (2013, p. 30). Entretanto, todas as tentativas de conter a proliferação desse esporte foram em vão. O futebol começou a se profissionalizar em 1904, com a criação da FIFA, a Federação Internacional de Futebol Associado. No Brasil, os clubes começaram a se profissionalizar na década de 1930, mais especificamente a partir de 1933, mas foi com o carioca João Havelange, que assumiu a presidência da FIFA na década de 1970, que o futebol virou alvo favorito de grandes empresas em busca da exposição de marca, empresários de atletas envolvidos em transações milionárias e concorrência acirrada entre os canais de televisão para obter os direitos de transmissão, os clubes dispostos a pagar salários exorbitantes aos jogadores, além de executar planos de “sócio torcedor” com a finalidade de rentabilizar a paixão do fã e não somente com a venda de ingressos. Galeano reforça isso ao afirmar que [...] o jogo se transformou em espetáculo, com poucos protagonistas e muitos espectadores, futebol para olhar, e o espetáculo se transformou num dos negócios mais lucrativos do mundo, que não é organizado para ser jogado, mas para impedir que se jogue (2013, p. 10). Com o passar dos anos e o crescimento exponencial, o futebol deixou de ser apenas um esporte e começou a ser visto como um produto de entretenimento. Os veículos de comunicação veem no futebol uma das principais mercadorias a serem exploradas e vendidas. No papel, na TV ou nos websites, grande parte da audiência deve-se às notícias relacionadas ao futebol. A disputa por direitos de transmissão é uma das brigas mais valorizadas entre os veículos de comunicação. No Brasil, esta briga se acirrou com a criação do Clube dos 13¹, organização que reunia as principais agremiações do País para discutirem os valores a serem recebidos pelas transmissões na TV. Para Celso Unzelte, o fator determinante para a transformação do futebol em espetáculo foi o momento em que o descobriram como fonte de movimentação financeira. Um dos principais responsáveis por esta mudança foi João Havelange, que presidiu a FIFA de 1974 até 1998 e, para se manter no poder por tantos anos, realizouuma política de inserção, que dava vaga na Copa para países que até então ficavam de fora da competição. Em 1982, no Mundial da Espanha, o torneio foi disputado com 20 seleções nacionais, quatro a mais do que as anteriores. Em 1998, na França, 32 equipes participaram da Copa, número que permanece até os dias de hoje. Unzelte, em entrevista ao autor, diz: O que determina a espetacularização do futebol é a entrada do capital [...], faz parte de uma indústria do lazer. Um marco disso é a entrada de João Havelange na Fifa em 1974. O Havelange se baseia na universalização do futebol. [...] Ele briga por mais representatividade desses continentes (África e Ásia) por motivos políticos, já que ele precisa de votos para se manter no poder. Também começam os primeiros acordos com grandes empresas. Em 1974, a Copa da Alemanha é um marco, fecham-se grandes contratos de direitos de transmissão. Ali começa essa espetacularização do futebol, essa mercantilização do futebol, que está atingindo o auge no século XXI, se descobre o futebol como uma fonte de grandes contratos, de movimentação de dinheiro, além do dinheiro de bilheteria. (UNZELTE, 2009) Em 2014, os clubes brasileiros de futebol renegociaram as cotas de transmissão com a emissora oficial das competições, a Rede Globo de Televisão. Os números, aproximadamente, chegam ao valor de R$ 900 milhões², e está entre as cinco maiores receitas de TV do mundo. É um investimento altíssimo, porém com um retorno bem plausível de ser atingido, já que a paixão do telespectador pelo esporte dificilmente cairá. Há questionamentos sobre a qualidade do futebol praticado nos torneios profissionais brasileiros, o que acarretou em uma queda de audiência nos jogos transmitidos no meio da semana. De certo modo é preocupante, mas já existem reuniões entre dirigentes, jogadores e a Rede Globo para procurar alternativas e melhorar o produto. Mesmo quando em baixa, ainda é algo extremamente valorizado em uma grade de televisão, aberta ou fechada, uma vez que garante um bom número de audiência. Eduardo Galeano discute a perda da qualidade do esporte praticado, logo quando se transforma em mercadoria. O uruguaio afirma que [...] ao mesmo tempo em que o esporte se tornou indústria, foi desterrando a beleza que nasce da alegria de jogar só pelo prazer de jogar. Neste mundo do fim do século, o futebol profissional condena o que é inútil, e é inútil o que não é rentável (2013, p. 10). O produto futebol virou refém dos principais investidores. São eles que planejam o calendário de jogos e influenciam diretamente nas finanças dos clubes, em algumas transações de jogadores. O futebol se tornou um espetáculo tão grande que está em evidência todos os dias. Nos jornais digitais, a pauta do caderno de esportes gira em torno da programação dos clubes. Geralmente, os jogos acontecem às quartas-feiras e aos domingos. Nestes dias, as matérias são sobre os jogos. No dia seguinte, a repercussão do resultado da partida, e, posteriormente, sobre o próximo duelo. É uma rotina de pautas muito parecidas ao longo dos torneios. Um ciclo vicioso. Este excesso de midiatização é uma característica da sociedade do espetáculo, como demonstrado por Debord: O espetáculo nada mais seria que o exagero da mídia, cuja natureza, indiscutivelmente boa, visto que serve para comunicar, pode às vezes chegar a excessos. Frequentemente, os donos da sociedade declaram-se mal servidos por seus empregados midiáticos (2003, p. 171). O jornalismo esportivo tem sofrido constantes críticas sobre a maneira com que tem conduzido as coberturas dos eventos. Direcionado pela audiência, a produção de informação esportiva na internet tem tentado de todas as formas reproduzir, na matéria, o espetáculo que se tornaram os jogos de futebol. Quanto mais próximo chegar disto, mais conteúdo disponível o leitor terá para se entreter nas reportagens. O espetáculo naturalmente atrai os olhares de todos e é neste caminho que o jornalismo esportivo na internet procura seguir. Os progressos tecnológicos contribuem para estes métodos de reportagem. O produto precisa ser interessante, de qualidade e atraente para ser vendido, como qualquer outro. A seguir, demonstrarei, detalhadamente, o relato de uma das partidas mais midiáticas da Copa do Mundo de 2014, por três diferentes sites. Analisarei toda a produção, a forma com que a notícia foi elaborada, as imagens, vídeos. Tudo o que foi feito para tentar exibir o espetáculo acontecido. 1.4. A Reprodução do Espetáculo no Jornalismo Esportivo na Internet Ao relacionar futebol e espetáculo, é impossível não recorrer ao maior evento que reúne estes dois elementos: a Copa do Mundo. Realizada no Brasil, após 64 anos, a competição que conta com a participação de 32 países movimenta toda a economia do país-sede. Os números do impacto nas finanças podem chegar próximo aos R$ 30 bilhões³, ou quase 1% do Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com os estudos da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe/USP). A dimensão da Copa do Mundo tomou proporções exorbitantes. A junção da paixão do povo pelo esporte com o espetáculo do evento de futebol se transformou em um dos produtos com mais potencial a ser explorado economicamente, em todas as esferas comerciais. Com o jornalismo esportivo na internet não é diferente – a atividade consiste na tentativa de reproduzir o espetáculo nas páginas virtuais, seja com palavras ou com imagens e vídeos. O importante é atrair o leitor a, pelo menos, clicar na matéria e contabilizar como audiência ao final do dia. [...] os jornais diários e as revistas semanais fazem um jornalismo cada vez mais preocupado com o sucesso de mercado, regulado por parâmetros e metas mercadológicas. Alguns desses veículos sofreram grandes reestruturações e passaram a adotar sistemas de controle de produtividade e produziram manuais de redação para orientar seus profissionais a seguirem um padrão de trabalho (MARQUES, 2006, p. 35). Após a leitura de Marques, mostro como a estrutura da notícia na web precisa ser concisa e não muito longa. Resultado de pesquisa entre os leitores, a informação principal aparece logo no primeiro parágrafo. Para tornar mais agradável a leitura na tela do computador, tablet ou smartphone, há o uso de diversas imagens, vídeos e infográficos, tudo para não deixar a leitura tão carregada e pesada. Se há muita informação, pode-se desdobrar em outras notícias e publicar aos poucos, o que até contribui para a quantidade de matérias que entram no ar, algo muito valorizado no meio on-line e que será aprofundado mais adiante. O que mais valoriza o relato de uma partida de futebol é o vídeo com todos os lances do confronto. Ser detentor dos direitos de transmissão coloca o veículo à frente de quase todos os concorrentes que não podem postar as filmagens. Além de atrair o leitor, o vídeo contribui para o fã de esporte permanecer na notícia por mais tempo. Este artifício também é contabilizado no momento de negociação de publicidade. O repórter, portanto, não faz isso pensando apenas na qualidade jornalística, mas em colaborar financeiramente para o crescimento da empresa. O ato de colocar vídeos, áudios e imagens é uma das funções mais cobradas na redação nos dias atuais, podendo ser considerado uma regra. Alguns editores- chefes chamam isso de “rechear” a nota. Em outras palavras, esta prática consiste em colocar o máximo de conteúdo de entretenimento disponível para prender a atenção do leitor pelo máximo de tempo possível, o que permitirá que este navegue pelo website por longos minutos. Marques ressalta essas características na fusão notícia e mercadoria: A transformação do jornal e da notícia em mercadoria ocorreu paralelamente ao aumento da importância do setor comercial na empresa jornalística. Cada vez mais as diretrizes comerciais da empresa determinam não só o espaço das matérias redacionais, mas diversas estratégias comerciais, ao criar promoções de distribuição de outros produtos, como dicionários, coleções temáticas e outros brindes, com a finalidadede alavancar os índices de tiragem e circulação (MARQUES, 2006, p. 37). Depois de traçada a busca pela compreensão do jornalismo esportivo na internet na atualidade e estudado como a relação entre notícia e mercadoria está cada vez mais intensa, chegou o momento de observar, na prática, como os métodos foram aplicados na construção das matérias sobre os três jogos da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2014 escolhidos para esta pesquisa. 1.4.1. Estreia na competição: Brasil 3x1 Croácia Assim como em 2006, na Copa do Mundo da Alemanha, o Brasil enfrentou a Croácia na primeira rodada da competição, com 62.103 torcedores presentes nas arquibancadas da Arena Corinthians, em São Paulo/SP. O duelo foi marcado pela emoção dos espectadores e jogadores que cantaram o Hino Nacional a capela, mesmo após o término do trecho executado pelo sistema de som, e do nervosismo da equipe brasileira, principalmente após sair atrás no placar, com gol contra anotado pelo lateral-esquerdo Marcelo. Aos poucos, os comandados do treinador Luís Felipe Scolari se soltaram e viram Neymar empatar o jogo e, na sequência, virar a partida com mais um gol do camisa 10, de pênalti. Aos 45 minutos da etapa final, o meia Oscar fez o terceiro tento e liquidou a partida para a Seleção pentacampeã mundial. Maior referência nacional no jornalismo esportivo na internet, o GloboEsporte.com, pertencente às Organizações Globo, contou com a garantia de ter os direitos econômicos de publicar vídeos com os melhores momentos da partida. O título do relato do jogo é publicado propositalmente com todas as letras maiúsculas, para destacar: “TÁ ESCRITO: NEYMAR DECIDE COM ERRO DE ÁRBITRO, E BRASIL VIRA SOBRE A CROÁCIA”⁴ (sic) . Entre o título e a resenha, com o maior grau de destaque de toda a página, está a seção de vídeos. São 20 filmagens à disposição do leitor, com todos os lances e melhores momentos do confronto. É a parte que mais interessa aos internautas, pois diferente de anos anteriores, ele não precisa esperar o programa televisivo para rever os gols e as jogadas. Está tudo disponível quase simultaneamente ao que acontece no gramado, em tempo real. A imagem em movimento substitui a necessidade de ler todo o texto para se ter noção de como foi a partida. Não à toa, o GloboEsporte.com inseriu o botão “Expandir a crônica completa”, já que percebeu que a matéria não era completamente visualizada, principalmente quando havia a inserção de vídeos. IMAGEM 1 -Bloco de vídeos no topo da página, do GloboEsporte.com O conteúdo escrito do website se difere um pouco dos concorrentes que serão analisados, mais adiante, por demonstrar mais liberdade literária, embora ainda contenha a principal informação no parágrafo inicial, como prega os padrões do jornalismo, da pirâmide invertida. O repórter abre com a letra de uma música – quase como se fosse um linha fina – eleita a preferida dos atletas brasileiros. A seguir, redige os dois leads com o resultado e o autor do gol – a parte essencial. Com a crônica expandida, ele alterna entre texto e imagens. Ao todo, são seis fotos do duelo, o que contribui para deixar a leitura mais agradável, com pausas e menos cansativa. Além disso, há a inserção de outros oito links para redirecionar o leitor a outras matérias dentro do próprio site, na área denominada de “Saiba Mais”. IMAGEM 2 - Botão de “Expandir Crônica” do GloboEsporte.com O ESPN.com.br possui uma particularidade interessante – a TV ESPN transmitia os jogos da Copa do Mundo, mas não era a detentora oficial dos direitos e isso refletia diretamente no site da companhia. A plataforma digital só podia colocar os vídeos com os gols por um período de 24 horas após o encerramento da partida. Logo após, era obrigado a retirá-los do ar. A reportagem da partida foi intitulada “Neymar garante o primeiro passo: 3 a 1 na Croácia”⁵ e, mesmo na obrigação de excluir a filmagem, não foi enriquecida com imagens. Há apenas uma foto no final da matéria, e uma enquete para o internauta votar quem foi o melhor jogador da partida. O texto tem caráter mais sério e informativo, com a descrição completa do embate. Existe também uma seção “Saiba Mais” com cinco reportagens relacionadas ao jogo e à Copa. IMAGEM 3 - Matéria do ESPN.com.br, já sem a foto, após as 24h Dentre os sites escolhidos, o GazetaEsportiva.net é o que possui o menor poder financeiro e isso reflete em sua plataforma digital. Sem ter os direitos de qualquer tipo de filmagem, a reprodução do espetáculo em suas reportagens fica bastante prejudicada. Em um mundo em que a cultura do visual se torna cada vez mais forte, o fato de colocar apenas fotos – três, na ocasião – transmite uma impressão um pouco arcaica. A matéria carrega o título de “Com pênalti polêmico e dois de Neymar, Brasil supera gol contra e vira” e uma de suas características principais é o subtítulo “O Jogo”, em que os autores redigem os acontecimentos da partida dando o minuto em que cada jogada aconteceu, com inúmeros detalhes. Outro fator que chama a atenção no site GazetaEsportiva.net é a quantidade de publicidade ao longo de toda a nota. No parágrafo inicial, onde normalmente há uma imagem ou vídeo, é colocado uma propaganda. Ao final da reportagem novos anúncios aparecem e existe outra propaganda que acompanha a barra de rolagem ao longo de toda a extensão da matéria. Um dos motivos para esse volume de publicidade no texto é justamente por ser a única opção. Ao não ter vídeos, as inserções se resumem a pop-ups e banners ao longo da escrita. IMAGEM 4 - Matéria do GazetaEsportiva.net, sem fotos e com propaganda Como forma de buscar um olhar diferente, não somente de portais que vivem exclusivamente do esporte, optei por observar também os relatos dos jogos produzidos pela Folha de S.Paulo em seu website, um dos maiores veículos de comunicação do País e uma referência quando discutimos a produção do jornalismo. Logo após o título da reportagem, há uma surpresa ao encontrar uma imagem intitulada “A Opinião da Folha e de Dan Stulbach – ator, apresentador e diretor de teatro”, e uma foto do rosto do profissional de artes. Dan é uma celebridade que gosta de futebol. Atualmente, é apresentador dos canais ESPN, mas na época da Copa, Dan era conhecido por atuar em novelas e ter participações especiais esporádicas em alguns programas esportivos. Na reportagem, ele faz comentários pontuais sobre a atuação de alguns jogadores e dá notas para todos os atletas, inclusive da equipe adversária. As notas podem ser comparadas às dadas pelo site Folha de S.Paulo, que aparecem em preto, ao lado das pontuações do ator. O relato é feito de forma mais séria, não há a inserção de vídeos, mas há uma galeria com 44 fotos da partida, com todos os lances e até o aquecimento dos jogadores antes do confronto. A galeria serve como uma divisão na reportagem, que começa com as principais informações do duelo. O resultado, os autores dos gols e os personagens principais já aparecem logo nos dois primeiros parágrafos. Nos seguintes, estão dois dados estatísticos interessantes e relevantes para a situação. Esta primeira parte da matéria é uma espécie de resumo, que contém a programação da Seleção Brasileira para os dias seguintes. Basta ler os sete curtos parágrafos para que o leitor fique informado de tudo que aconteceu no jogo, e o que está por vir. Assim como a GazetaEsportiva.net costuma fazer, o portal Folha de S.Paulo – www.folha.com.br – coloca o subtítulo “O Jogo” para descrever lance a lance da estreia brasileira na competição mundial, com as principais chances, os gols, entre outros acontecimentos. Não chega a ser tão detalhado como a GazetaEsportiva.net, é mais direto, com parágrafos mais curtos, alguns com apenas duas linhas, mas o suficiente para que o leitor consiga saber o que é importante. Há a inclusão de apenas uma matéria relacionada ao longo do texto, ainda na primeira parte, em formato de hyperlink. Ao citar que Neymar marcou dois gols na partida, o leitor pode clicar nesta parte azul do texto, que será redirecionadopara uma reportagem que mostra os maiores artilheiros da Seleção pentacampeã mundial. De modo geral, o relato do site Folha de S.Paulo demonstra um perfil mais pragmático, com caráter informativo e objetivo. O veículo não tem direitos de transmissão em vídeo na internet. O que destoa, até mesmo do perfil da escrita, é a inclusão dos comentários de uma celebridade. O ator pode ter seu repertório e conhecimento esportivo, mas é mais uma maneira de entreter o leitor e “vender a notícia”, do ponto de vista que um ator famoso tem com o público. IMAGEM 5 - A opinião do ator e celebridade Dan Stulbach, no site da Folha de S.Paulo.⁷ 1.4.2. Oitavas de final: Nos pênaltis, Brasil vence Chile O confronto das oitavas de final, entre Brasil e Chile, foi um dos mais dramáticos de toda a competição. Realizado na ensolarada tarde de sábado do dia 28 de junho de 2014, o duelo aconteceu no estádio Mineirão, em Belo Horizonte/MG, com 57.714 presentes nas arquibancadas. Os brasileiros comemoraram o primeiro gol da partida logo aos 18 minutos da etapa inicial, convertido pelo zagueiro David Luiz, após escanteio cobrado por Neymar. O Chile empatou 14 minutos depois, com o atacante Alexis Sanchez, em falha da zaga do time de camisa amarela. O jogo permaneceu com o mesmo placar por todo o tempo regulamentar e prorrogação, o que levou a decisão para os pênaltis. Nas cobranças, o Brasil venceu por 3 x 2, com a consagração do goleiro Júlio César como grande herói da classificação. O que se viu depois do triunfo foram jogadores extremamente emocionados, ajoelhados, com lágrimas nos olhos, e o mesmo é válido para os torcedores, que entraram no estado mais elevado de euforia e alegria até aquele momento da Copa. A tarefa para o jornalista não era das mais fáceis. Na reportagem, não basta apenas informar, o propósito vai muito além disso. É preciso tentar reproduzir com toda a riqueza de detalhes e recursos disponíveis o que foi o espetáculo da partida. Desde a execução dos hinos até a comemoração final dos atletas e torcedores. O repórter tem a missão de transmitir as emoções da partida ao leitor que não pode assisti-la ou para aquele que assistiu e quer reviver e relembrar os momentos mais importantes. No GloboEsporte.com, a estrutura é a mesma que o anterior. Em caixa alta, o texto é intitulado “JÚLIO CÉSAR PEGA DOIS PÊNALTIS, CHILE BATE NA TRAVE, E BRASIL VAI ÀS QUARTAS”⁸ (sic). Logo embaixo, o bloco de vídeos. Desta vez, são 24 vídeos disponíveis para o espectador, inclusive uma filmagem do pré-jogo que resume os principais passos das classificações de ambas as equipes. O relato começa com dois parágrafos, que descrevem o resultado final e os personagens da partida, além de uma simples frase do goleiro Júlio César, considerado o herói do confronto. Percebe-se independentemente do grau de importância da partida, o botão “Expandir a crônica completa” sempre presente, o que reforça como as imagens ganharam uma relevância muito grande. Há a inserção de nove fotografias, todas retratando as diferentes emoções, comemorações e dramas ao longo dos 120 minutos. As imagens intercalam obrigatoriamente com o texto para que haja uma pausa para o leitor e não fique tão massivo. Há, ainda, mais um vídeo com outros lances. Além disso, o jornalista também descreve a partida em forma de tópicos, dividindo os momentos-chave. Isto facilita a busca por algo específico que o fã eventualmente queria procurar. O ESPN.com.br, por conta dos contratos de transmissão, retirou o vídeo com os melhores momentos e colocou uma fotografia da defesa decisiva do goleiro brasileiro Júlio César. Mais três imagens foram inseridas na reportagem. Há um detalhe interessante nesta matéria – como alternativa para agradar o fã do esporte e tentar reproduzir um pouco do espetáculo: foram inseridos três vídeos, sendo um não relacionado diretamente com o confronto, com o título “Angústia, festa e pegação: Vila Madalena lota de belas mulheres, gringos e famosos durante jogo do Brasil”. Este é um bom exemplo de como o jornalismo esportivo na internet utiliza todos os recursos possíveis para prender o leitor na matéria. Os outros são comemorações de torcedores brasileiros fora do estádio após a classificação épica. Mais um momento do espetáculo Copa do Mundo junto com o jornalismo. IMAGEM 6 - Vídeo inserido ao longo da matéria do GloboEsporte.com. A imprensa contemporânea se diferencia bastante da imprensa de algumas décadas atrás, quando os grandes jornais se importavam mais com a “missão” jornalística de formação de uma opinião pública, obviamente com base na perspectiva política de cada jornal, ao contrário do que acontece na atualidade, em que predomina o padrão jornalístico de prestação de serviço. Esse conceito de “missão” foi deixado de lado e substituído pela preocupação da empresa jornalística em atingir melhores resultados econômicos. Houve, dessa maneira, uma significativa transformação da imprensa escrita e da notícia em uma mercadoria específica que deve ser vendida em dois mercados diferentes: dos anunciantes e dos leitores (MARQUES, 2006, p. 33). As diferenças da qualidade da notícia dependem diretamente da situação financeira do veículo de comunicação. É a mesma lógica de uma mercadoria de determinada empresa – se o investimento é alto, as chances de um retorno econômico são bastante prováveis. Ainda no site do ESPN.com.br, há diversos links de outras matérias espalhados ao longo da reportagem, do bloco “Saiba Mais”. Ao todo, são nove links de notícias. IMAGEM 7 - Vídeo com assunto não relacionado ao jogo no ESPN.com.br¹ O GazetaEsportiva.com.br publicou o relato com o título “Brasil sofre e só vence o Chile nos pênaltis para ir às quartas”. De novo, há uma propaganda junto com o parágrafo inicial. Já no primeiro lead, são apresentadas as informações como os autores dos gols e quem converteu e errou as penalidades. Antes mesmo do subtópico “O jogo”, o repórter faz um resumo da dramaticidade da partida. Depois, traça um histórico dos confrontos entre Brasil e Chile em campeonatos mundiais profissionais, além da data do próximo jogo da Seleção de Felipão. O repórter utiliza apenas três imagens para ilustrar os momentos do confronto e descreve detalhadamente o que aconteceu na partida no “O Jogo”. Diferente da ESPN, a matéria da GazetaEsportiva.net não coloca nenhum vídeo de assuntos relacionados à Copa, que poderiam prender o leitor à nota. Desta vez, o portal Folha de S.Paulo não colocou a opinião de nenhuma celebridade ou jornalista em específico. A matéria, assim como a da partida anterior, não foi assinada por nenhum profissional. Intitulada “Júlio César pega dois pênaltis, Brasil supera Chile e vai às quartas na Copa”, a reportagem apresenta, logo após o título, uma alternativa muito interessante para quem não possuiu o direito de publicar os vídeos: uma fotomontagem com a trajetória que a bola percorreu na penalidade que deu a vitória ao Brasil. Com uma linha – ou flecha – amarela, a bola sai da marca de cal, bate na trave esquerda de Júlio César e vai para o lado oposto, longe do gol. Nas reportagens analisadas, é a única vez que uma fotomontagem aparece, e é válido dizer que é uma opção bem pensada e elaborada. O texto segue bem a cartilha do jornal, com caráter informativo e parágrafos não muito longos. Destaque para a inserção de mais hyperlinks do que na anterior, que redirecionam para outras matérias relacionadas e um trecho da coluna do jornalista Clóvis Rossi. Antes da galeria de fotos, que contém dez imagens, há o subtítulo “Freguesia” com dados históricos e até econômicos que envolvem as duas seleções; após a galeria, aparece “O Jogo” e todo o relato com os detalhes da partida, até mais um subtítulo, “Prorrogação”, que serve como uma espécie de pausa para a leitura não ficar muito cansativa e encerrar a notícia. IMAGEM 8 - Fotomontagem a Folha de S.Paulo, com o trajeto da bola 1.4.3. Semifinal: Brasil é humilhado pela Alemanha O dia 8 de julho de 2014 não será esquecido facilmente pelos torcedores brasileiros.A Seleção Brasileira entrou em campo com os jogadores Júlio César e David Luiz segurando uma camiseta de Neymar, que sofrera uma lesão na partida anterior – contra a Colômbia – e ficou sem condições físicas de jogar o restante da competição. O local do embate era novamente a cidade de Belo Horizonte, no estádio Mineirão, completamente lotado. A expectativa de um duelo épico era enorme. O Brasil não disputava uma semifinal de Copa do Mundo desde 2002, e a Alemanha se mostrava favorita pelas belas atuações durante sua campanha. Entretanto, o sonho do hexacampeonato começou a desmoronar já aos onze minutos do apito inicial. Thomas Müller abriu o placar para os europeus na primeira falha – de várias – da zaga formada por David Luiz e Dante. Em seguida, foi um festival de gols alemães e o maior vexame da história do futebol brasileiro, muito maior do que a derrota para o Uruguai, na decisão da Copa do mundo de 1950, quando perdeu apenas por 2 x 1. Mais uma vez, o desafio do repórter em transmitir em palavras e vídeos tudo o que aconteceu é enorme. Se na vitória contra o Chile a felicidade e a sensação de alívio dominavam os corações do torcedor brasileiro, desta vez esses mesmos corações foram tomados pelo sentimento de vergonha. Ou até mesmo o de viver um pesadelo. O sonho de conquistar o hexacampeonato em casa e apagar o fantasma de 1950 foi transformado em uma tragédia. Esta questão foi bastante explorada em todas as reportagens selecionadas sobre o jogo. O GloboEsporte.com tem o seguinte título: “BRASIL SOFRE GOLEADA DA ALEMANHA EM VEXAME HISTÓRICO E DISPUTARÁ 3º LUGAR”¹¹ (sic). Das três reportagens estudadas, esta é a que mais possui vídeos dos momentos do jogo: são 25, com pré-jogo, lances e gols, além de seis fotografias que variam desde o choro do pequeno torcedor, o Hino cantado com a camiseta de Neymar em mãos por Júlio César e David Luiz e a comemoração dos atletas alemães nos sete tentos. Estruturalmente, o padrão é exatamente o mesmo que os anteriores. Temos o bloco “Saiba Mais”, os subtópicos que guiam o que será descrito a seguir, além da opção de expandir a crônica completa ou somente ler os dois parágrafos iniciais que resumem o que representou aquela tarde de terça-feira. De modo geral, os relatos do GloboEsporte.com possuem uma liberdade muito maior no ato de redigir o texto. Sem esquecer o caráter informativo de uma matéria jornalística, os repórteres buscam um estilo diferenciado do que estamos acostumados a ver em reportagens sobre jogos de futebol. Procuram uma maneira um pouco diferente de descrever a partida. Não ficam presos em relatar lance a lance, ou presos ao relógio, minuto a minuto. É mais um formato de crônica, de fato. Em alguns momentos, têm-se até uma dose de opinião. IMAGEM 9 - Fotos inseridas ao longo da matéria Brasil x Alemanha, no GloboEsporte.com O ESPN.com.br buscou alternativas interessantes e bem válidas para suprir a ausência de vídeos com os melhores lances do triunfo alemão. Foram colocadas duas entrevistas, ainda no campo, com o goleiro Júlio César e o zagueiro David Luiz, ambos muito emocionados. A entrevista do jogador de linha teve uma repercussão enorme. Um dos mais idolatrados pela torcida naquela época, David Luiz afirmou que “gostaria de dar um pouco de alegria ao povo brasileiro, que já sofre bastante”. A reportagem tem quatro fotos e dois blocos “Saiba Mais”. Há mais uma curiosidade: um vídeo exclusivo do jogador Neymar ao final da reportagem com a legenda “EXCLUSIVO: Neymar é flagrado caminhando e simulando cabeceio na sua casa no Guarujá”. A duração é de apenas 45 segundos e não tem nada de importante. É apenas mais uma tentativa de prender o leitor na nota. Se nos outros relatos havia apenas um quadro de “Saiba Mais”, neste há dois blocos, com um total de oito links de matérias relacionadas à Copa. IMAGEM 10 - MAIS UM VÍDEO COM ASSUNTO NÃO RELACIONADO AO JOGO, NO ESPN.COM.BR.¹² Diferente do ESPN.com.br que busca todo tipo de novidades para entreter o público, o GazetaEsportiva.net peca no quesito inovação. Mais uma vez, a reportagem é composta somente por palavras e imagens – três no total. Não há qualquer outro link que redirecione para outras matérias pelas quais o leitor possa ter interesse, como repercussão da derrota, entrevista com os jogadores ou apenas a reação dos torcedores. Neste caso, apenas uma das imagens é com um torcedor com os olhos cheios de lágrimas. É interessante observar que a estrutura antes do subtópico “O jogo” é praticamente a mesma nos textos anteriores: de quatro a cinco parágrafos, no máximo, e uma foto para dividir a reportagem. Na parte seguinte, há a descrição minuciosa da partida, com todos os lances, redigidos em detalhes. IMAGEM 11- Imagens na matéria do GazetaEsportiva.net e o subtítulo “o jogo” Na reportagem da pior derrota brasileira de todos os tempos, o site da Folha de S.Paulo não colocou fotomontagem ou qualquer comentário de alguma celebridade, como fez nos relatos anteriores. A matéria é categórica, como manda o jornalismo sério diante de qualquer catástrofe. Intitulada “Brasil é massacrado pela Alemanha e sofre sua pior derrota na história”, a primeira parte da reportagem, antes da galeria de imagens e do subtítulo “O Jogo”, está recheada de dados históricos do desastre acontecido em Belo Horizonte. Há, também, como no texto anterior, uma chamada para um dos colunistas do portal – na ocasião, para a leitura da opinião de Juca Kfouri. Pode-se relacionar que, nas duas partidas mais dramáticas da Seleção até o momento – vitória nos pênaltis contra o Chile e derrota vergonhosa para a Alemanha –, o portal optou por produzir material com um jornalista respeitado, com trabalho de muitos anos no esporte e no ambiente jornalístico, e não um ator “global”, como foi o caso Brasil x Croácia, com Dan Stulbach. A galeria de imagens possui 59 fotos, a maior de todas as três reportagens analisadas, com fotografias do aquecimento pré-jogo, os lances, as comemorações dos jogadores alemães e também das inúmeras expressões de tristeza da torcida brasileira. Novamente, a galeria serve como um divisor, uma passagem do primeiro bloco, o resumo das principais informações com o subtítulo “O Jogo”, com todos os momentos da partida. 1.5. Da Cultura da Imagem para a Cultura do Visual O jornalismo na internet disponibiliza ao redator inúmeros recursos para tornar a notícia mais atraente. Em alguns casos, é possível dizer que o foco já não está mais no texto. Um dos mecanismos mais utilizados, e que já se tornou prática comum, é a possibilidade de colocar vídeos sobre as reportagens, tanto que muitos ocupam a principal posição de destaque, no topo da matéria, que costumava pertencer às fotografias. No relato sobre uma partida de futebol, o vídeo com os melhores momentos do jogo se torna quase tão importante quanto o próprio texto e, consequentemente, interfere na maneira de produção do jornalismo esportivo digital, visto que, em alguns casos, as palavras só servem de apoio para este recurso. É válido lembrar o que foi dito no item anterior, sobre o que o portal GloboEsporte.com fez ao colocar o botão “expandir crônica”. Para aprofundar este estudo, me apoio no professor espanhol Josep Maria Català, que explica este fenômeno como transição da “cultura de imagem” para a “cultura do visual”. Nesse processo, as imagens em movimento, como trabalha o autor europeu, prevalecem em relação àquelas estáticas, ou as fotografias. De modo simplificado e adaptado para o jornalismo esportivo on-line, é a mudança da fotografia para o vídeo. Català diz: La era de la imagen cerrada há concluido, pero no por obra y gracia simplemente de la introducción en las imágenes de un movimiento que les confiere una duración, sino porque ha subido a la superfície la antítesis entre la proverbial fijeza de las representaciones visuales y la nueva dimensión temporal que penetraba en las mismas con el cine y que el proprio paradigma de la imagen cinética se encargo, en su momento, de ocultar (CATALÀ, 2005, p. 45). O autor indicao cinema como um dos motivos para essa transformação. Os costumes têm mudado constantemente, e somente a fotografia não satisfaz toda a curiosidade do espectador. Após o jogo de futebol, o leitor procura vídeos para assistir pela primeira vez ou rever os lances da partida. É comum encontrar comentários insatisfeitos dos usuários quando o vídeo do duelo não está inserido no relato, mesmo que o veículo de comunicação não possua os direitos de transmissão. Os canais ESPN e Globo foram as emissoras oficiais da Copa do Mundo do Brasil, portanto os sites das empresas disponibilizam os vídeos com cada jogada importante da decisão no relato do portal. Além disso, as imagens em movimento, termo utilizado por Català, estão posicionadas antes do texto, como é o caso do GloboEsporte.com, o único que possui os direitos de transmissão por tempo ilimitado e para todos os fins. Diferentemente dos demais, o GazetaEsportiva.net não possui nenhum vídeo em suas reportagens sobre a competição, já que não faz parte de nenhuma emissora detentora dos direitos de imagem, o que, inevitavelmente, prejudica a audiência do site em relação aos concorrentes. O portal Folha de S.Paulo também não tinha os direitos de transmissão ou de colocar vídeos nas reportagens, mas sempre publicava uma galeria de imagens na notícia, ao centro, dividindo a reportagem em duas partes. É importante explicar que, para Català, a sociedade passou por outras duas fases antes de atingir a “cultura do visual”. A primeira foi a “cultura textual”, em que, ao adaptar para a produção de informação esportiva digital, o foco se concentraria totalmente no texto, a fotografia apareceria como mera coadjuvante. Em seguida, a sociedade evoluiu para “cultura da imagem” até se encontrar no estágio atual, a já citada “cultura do visual”. Todo esse pensamento parte da teoria de imagem complexa, elaborada pelo professor espanhol, um conceito difícil de ser dissociado do conceito de “cultura do visual”, já que ambos permitem diversas interpretações e significados. No jornalismo esportivo on-line, não são apenas os vídeos que podemos avaliar como fazendo parte desta cultura. Há uma série de inovações, além dos filmes, que podem ser consideradas imagens em movimentos, como os infográficos. Antes de me aprofundar, recorro a Català, que diz: Nos encontramos, por lo tanto, ante una eclosión del movimiento: movimiento de las imágenes, tanto interna como externamente, movimiento de la mirada dentro de la imagen y entre las imágenes, movimiento de la cognición a través de cadenas de significados (2005, p. 47). O professor espanhol alerta para uma explosão de imagens em movimento que se desdobram em diversos significados. Para exemplificar melhor e não me prender apenas aos vídeos, faço o uso do infográfico, que é um modo de representação gráfica interativa e permite ao jornalista colocar fotos, ilustrações, vídeos, áudios, narrações, além do texto. De maneira resumida, abrange todos os recursos que o meio digital disponibiliza para a produção de informação esportiva na internet. Com base em Català, podemos dizer que são vários significados em uma só reportagem. Antes de estudar as matérias sobre os jogos escolhidas para esta pesquisa, é necessário observar um dos mais belos infográficos produzidos ainda com o tema Copa do Mundo, publicado pelo ESPN.com.br um ano depois da vergonhosa derrota da Seleção Brasileira contra a Alemanha, o famoso 7 a 1. IMAGEM 12 - A imagem inicial do Infográfico sobre a derrota de 7 a 1¹³ O infográfico é intitulado “O Fim do Sonho do Hexa” tendo, ao lado do título, uma ilustração do técnico do Brasil, Felipão, um dos vilões do fracasso na campanha da equipe nacional. Assim que aberto, a música de fundo dá o tom do clima que seguirá por toda a reportagem. Um dos grandes diferenciais é a inserção de áudios com as opiniões de jornalistas da TV ESPN sobre a derrota e a torcida cantando o Hino Nacional, além de trechos de entrevistas do treinador brasileiro e de seu auxiliar, Carlos Alberto Parreira. São comentários que demonstram a gravidade do revés; já os dos comandantes apontam para uma certa arrogância. Em outro momento, eles assumem a culpa pela eliminação. O infográfico mostra os problemas e os principais personagens que colaboraram para o fiasco da Seleção pentacampeã mundial na competição, como a dependência excessiva do atacante Neymar, que se contundiu no duelo contra a Colômbia e não enfrentou a Alemanha. Aborda a questão emocional dos atletas brasileiros e como isso afetou nas partidas decisivas. IMAGEM 13 - Os motivos do vexame brasileiro na Copa¹⁴ Ao final, a reportagem lista todos os possíveis motivos para o insucesso da campanha, sempre acompanhada pelos áudios de fundo, e dá a opção para o leitor votar qual a razão e compartilhar nas redes sociais. A produção de um infográfico é bastante trabalhosa, mas é um meio de atrair, e muito, a atenção dos usuários, pois é a junção de informação e entretenimento, com todas as ferramentas acessíveis aos jornalistas. É a perfeita reprodução do espetáculo em forma de matéria. No entanto, por conta da quantidade de demanda e tempo, os infográficos ainda não são frequentes no portais eletrônicos. IMAGEM 14 - Última imagem do infográfico do ESPN.com.br Na produção de jornalismo esportivo na internet, as filmagens atraem grande parte do interesse do leitor. Nos títulos, é comum inserir “Veja o vídeo” para exibir que há imagens gravadas sobre determinado fato. Além da questão de credibilidade, os vídeos são extremamente importantes, não somente quando se referem à quantidade de cliques que podem alavancar, mas ao tempo que cada usuário permanece no site. Tudo isso é devidamente contabilizado pelos responsáveis por gerar lucro para a plataforma. Ao observar como foi feita a disposição dos vídeos nas reportagens escolhidas dos três jogos da Seleção Brasileira, é nítida a importância que estes ganharam no ambiente jornalístico digital. No GloboEsporte.com, detentor dos direitos de transmissão por tempo ilimitado, todas as filmagens são colocadas no topo da página, antes da crônica e das fotos. São todos os lances e jogadas da partida, em que o leitor, principalmente aquele que não pôde assistir ao jogo, tem a possibilidade de rever os melhores momentos. Isto acontece nas três matérias do portal e em todas as outras que possuem as imagens em movimento. IMAGEM 15 - novamente, o bloco de vídeos do GloboEsporte.com no topo da página Já o ESPN.com.br, enquanto tinha os direitos de publicar os vídeos – apenas por 24 horas –, colocava, logo no topo, antes da parte escrita, um compilado com todos os momentos importantes da partida. Assim que o prazo se encerrava, uma imagem estática, ou foto, ocupava o local onde estava a filmagem. Isso pode, sem dúvida, ser considerado um exemplo que exprime muito bem o pensamento de Català, à respeito da mudança da “cultura da imagem” para a “cultura do visual”. É evidente que a imagem estática ocupa, quando muito, um segundo plano, não sendo mais essencial para uma reportagem esportiva eletrônica. IMAGEM 16 - A fotografia substitui o vídeo, no topo da página, após 24 horas Como já mencionado anteriormente, o GazetaEsportiva.net não possui direitos de transmissão dos jogos da Copa do Mundo. Por este motivo, a plataforma não tem nenhum vídeo com os lances dos duelos da competição. É inegável o quanto essa ausência é prejudicial para o veículo de comunicação. Por não ter o recurso disponível, a reprodução do espetáculo do evento em forma de reportagem fica afetada e perde em quantidade de informação para os concorrentes. A produção do jornalismo esportivo na internet evidencia o momento em que a sociedade está inserida. O comportamento do internauta reflete como ele está habituado à cultura visual. O GazetaEsportiva.net, recentemente, reformulou completamente o portal e incluiu uma seção exclusiva para vídeos. Embora ainda continue impossibilitado de publicar lances de jogos, o site traz diversas entrevistas coletivas e exclusivas, algunsgols que pertencem a emissoras estrangeiras, além das matérias que foram ao ar na TV Gazeta. É um meio encontrado pela empresa de entregar conteúdo também neste formato. Como resultado das análises apresentadas no decorrer deste capítulo, podemos afirmar que a reprodução do espetáculo na informação esportiva digital está diretamente relacionada com a “cultura do visual”. A inserção de imagens em movimentos faz parte da espetacularização da notícia. Atualmente, desassociar um vídeo de uma reportagem sobre jogo de futebol é quase impossível. Mais que o relato, o leitor espera assistir aos gols e principais lances do duelo. É missão do jornalista transmitir, na reportagem, toda a emoção do espetáculo que o futebol, e o esporte no geral, proporcionam. É evidente que com o universo digital o jornalismo esportivo ganhou inúmeras formas de reproduzir o espetáculo dos eventos do futebol nas reportagens. Com o progresso da tecnologia, surgem novos métodos que colaboram para o enriquecimento e qualidade das notícias. Em veículos de comunicação com maior poder aquisitivo, as atividades jornalísticas cumprem bem seus objetivos. O imediatismo e a velocidade para se produzirem conteúdos, entretanto, fazem com que o jornalista fique exposto a possíveis informações erradas, textos mal redigidos e inúmeros outros problemas com os quais costuma-se lidar diariamente nas redações, tema que será abordado nos capítulos seguintes. Embora encontre estas dificuldades, o jornalismo digital se mostra profundamente mergulhado na espetacularização da sociedade e nos conceitos de indústria cultural. O mecanismo de produção tem se mostrado, em geral, eficaz em representar o que acontece na sociedade cada vez mais espetacularizada, na linha do pensamento crítico feito por Guy Debord. Outro fator que se mostra mais determinante no jornalismo digital atualmente é a presença maciça de publicidade nas matérias, conforme mostrarei mais adiante. Em forma de banners, pop-ups, entre outros, a publicidade é a principal fonte de renda para os veículos de comunicação e se tornou um fator decisivo na escolha de pautas. Com o reforço das ideais de Baudrillard (1989), é possível dizer que a propaganda procura mostrar as características de seu produto e, em busca deste objetivo, se tornou comum financiar matérias para exibir o item a ser vendido. Ao entrar com o dinheiro, jornalismo e publicidade, trilham o mesmo caminho. A produção de informação esportiva na internet tem se expandido conforme a progressão dos recursos tecnológicos que facilitam o trabalho dos jornalistas no momento de elaborar a matéria. É preciso adiantar, a partir de uma simples observação do fenômeno, que se faz necessário saber dosar a quantidade de imagens e vídeos, sem esquecer que o elemento principal da reportagem continua sendo o texto. Embora o vídeo ocupe a posição de destaque, no topo da reportagem, o repórter não pode deixar de escrever com qualidade e atenção necessária. Por mais que a publicação seja urgente, a prioridade deve ser sempre a informação correta. 1.6. Texto ou vídeo? Quem complementa quem? A escrita sempre serviu de base e referência para o jornalismo. Nos primeiros anos de produção digital, o conteúdo era similar ao do impresso, com a grande diferença da velocidade. Agora, com o progresso das tecnologias e diferentes plataformas disponíveis para produzir material, é possível que a base da produção do jornalismo esteja no início de uma transição. Mostrei que o vídeo ganha cada vez mais destaque. Ele já ocupa o topo da reportagem, que anteriormente pertencia à fotografia, sendo o primeiro alvo a ser atingido pelo olhar do leitor. Em uma notícia sobre uma partida de futebol, é quase inadmissível a ausência do vídeo com os principais lances do jogo. Caso seja impossível por motivos de direitos de transmissão, é inegável que o website perderá audiência para o concorrente. Para suprir esta dificuldade, há cada vez mais a inserção de vídeos com temas relacionados direta ou indiretamente, como demonstrado nas matérias sobre as partidas da Copa do Mundo. É possível também perceber como, vez ou outra, via galerias de imagens (quase) em movimento, infográficos e outros recursos, busca-se, com sofreguidão, substituir a eventual ausência de vídeos. Após detectar este fato, surge o questionamento: o texto complementa o vídeo ou o vídeo complementa o texto? A opção “expandir crônica” do GloboEsporte.com deixa evidente como o texto não é mais a prioridade para o leitor. Assistir aos vídeos e ler os primeiros parágrafos, com as informações principais, já satisfaz grande parte do público. O UOL, maior portal de notícias do Brasil, adicionou, recentemente, o botão “ler matéria completa”, nos moldes do GloboEsporte. Um forte indício de como, cada vez menos, o texto precisa ser extenso e completo, principalmente quando há uma reportagem em vídeo inclusa. Como parte da pesquisa para compreender melhor este acontecimento, observei que o website da ESPN americana adiciona vídeos praticamente em todas as suas reportagens. São os melhores momentos das partidas, entrevistas, comentários, trechos de programas com análises ou, simplesmente, lances do jogo mais recente, com um detalhe importante: o vídeo abre automaticamente, sem a necessidade de apertar o play. Logo que a página abre, o vídeo inicia-se sozinho. Ou seja, o leitor é impactado pelo vídeo assim que abre a matéria. A interpretação possível da empresa é que o usuário clica na matéria para assistir à filmagem. A opção inicial é de parar, dar pause, e não o start, como na maioria dos casos. O portal digital do canal americano Fox Sports também trabalha com a inserção de vídeos em quase todas as suas reportagens. Não é igual ao ESPN.com.br, que coloca em todo o conteúdo produzido, mas a grande maioria conta com as filmagens, com trechos de programa, jogadas e outras imagens para entreter o público. É uma tendência que deve atingir o mercado on-line brasileiro, em que os vídeos ganham cada vez mais importância no cenário atual. Em entrevista para este autor, o editor do ESPN.com.br, Ricardo Zanei, confirma que tem, como referência, o portal da parceira americana e que a direção da produção do jornalismo praticado pelo veículo aponta para o mesmo rumo da emissora dos Estados Unidos. A versão brasileira, que já contém uma seção exclusiva para vídeos, deve ficar ainda maior neste aspecto: É um caminho que tendemos a ir. Em breve, teremos uma área de vídeo muito maior no nosso site, mas ainda não sei se o vídeo é tão importante quanto o texto. A gente vai ter mais esse caminho da ESPN, por ser essa indicação global, mas acho que existem momentos que o vídeo por si só fala muito melhor, conta muito melhor que um texto. Mas o vídeo pode ser um complemento do texto, que, para mim, ainda é o principal. Assim como acho que esses vídeos que contam toda a história, podem ter um ou dois parágrafos como uma espécie de legenda. Mas, respondendo sua pergunta objetivamente, ainda não tenho uma resposta (se o vídeo complementa o texto ou texto complementa o vídeo). Acho que o vídeo tem muitos momentos em que é o mais importante que o texto, e o texto é mais importante que o vídeo. Percebe-se nesta entrevista que se trata ainda de um fenômeno bastante recente, mas podemos ter a certeza de que o vídeo ganha cada vez mais força. Os portais internacionais já dão um foco cada vez maior para os vídeos, enquanto os nacionais pretendem ampliar este setor. É possível encontrar reportagens em que o texto é um mero complemento, com apenas um lide bem informativo e resumido, quase como se fosse uma legenda estendida, um apêndice. A relação entre texto e vídeo é diferente dependendo do tipo de notícia. Não é necessário desenvolver um texto bom, se já existe uma vídeo-reportagem que reúne todas as informações de forma clara, concisa e didática. No entanto, se é um vídeo amador, com uma resolução de baixa qualidade, a explicação textual se mostra necessária. É o caso também se o veículo de comunicação não possui os direitosde transmissão, tendo que usar uma filmagem amadora ou até mesmo estar impossibilitado de publicar qualquer vídeo, dependendo apenas das palavras. É o exemplo de ocasião em que o texto complementa o vídeo e até torna-se mais importante que a própria imagem, uma vez que, sem o texto, o leitor não iria conseguir compreender todo o conteúdo. Portanto, a dependência varia de um caso para o outro. Capítulo 2 AS TÉCNICAS DE REPRODUÇÃO E O ESPETÁCULO NO JORNALISMO ESPORTIVO NA INTERNET 2.1. O Calendário Esportivo e as Pautas no Jornalismo Um dos maiores benefícios que a internet trouxe para o mundo do jornalismo foi a não preocupação com o limite do espaço físico para o registro de matérias. Diferente dos cadernos impressos, o website tem a vantagem de publicar quantas notícias se mostrarem necessárias. São inúmeras seções que facilitam o leitor a procurar aquilo que lhe interessa. Pelo fato de o volume de notícias ser gigantesco, é preciso dividir o portal em temas para torná-lo minimamente organizado. A demanda de conteúdo nos sites especializados em esportes é enorme, e todo veículo de comunicação expressivo procura ao menos registrar tudo que acontece no meio. É uma das obrigações do jornal. Mesmo que o portal não dê muito destaque, é importante ter a matéria, ainda que redigida de maneira simples para atrair os diversos nichos de leitores que o meio esportivo proporciona. O futebol, por motivos óbvios, é o que atrai a maior audiência e corresponde a aproximadamente 80% a 90% do conteúdo produzido pelos sites esportivos. Ou seja, a imensa maioria das reportagens publicadas é sobre futebol. Um número que chega a ser espantoso e que, definitivamente, reflete nas reuniões de pautas. O foco é o futebol e com certa justiça. No entanto, o que esta pesquisa pretende mostrar neste capítulo é como a obsessão pelo esporte mais popular do planeta influencia negativamente nas pautas jornalísticas. O calendário futebolístico brasileiro concentra seus jogos duas vezes por semana, geralmente as quartas e aos domingos. Nos dias que antecedem o duelo, o roteiro de matérias preocupa-se em cobrir os treinos das equipes e especular as escalações. São inúmeras reportagens sobre quem joga ou não, quem treinou e as variações táticas do técnico, entre outras pautas similares. Já não é mais novidade a possibilidade de assistir aos treinos ao vivo tanto pela TV quanto on- line, na tela de computadores, tablets ou celulares. Se não é possível transmitir, há a narração em tempo real por escrito com pequenas informações de minuto a minuto sobre tudo que acontece. No dia da partida, todo o esforço se centra no momento do confronto, quando é feito o relato do jogo, que detalha as ações, como gols, faltas, lances importantes e atuações dos atletas. Logo após o apito final, assim que o texto é publicado, segue-se para a fase seguinte: repercussão. É momento de colher as informações do pós-jogo, a opinião de especialistas, o impacto do resultado nos torcedores, as entrevistas dos jogadores e, assim, já preparar as matérias novamente sobre o próximo duelo. Esta é, de maneira resumida, a rotina do jornalista que cobre o futebol diariamente. O professor e jornalista Celso Unzelte define esta agenda como agenda da mídia. Segundo ele, em entrevista ao autor, a receita ideal é encontrar o equilíbrio entre o hard news e as reportagens investigativas ou memórias do esporte, para também surpreender o leitor. Ele comenta que, para se conseguir fazer isso, é necessário investimento, e muitos veículos, no entanto, não estão dispostos a gastar para isso. É a tal da agenda da mídia. A gente tem que dar para o leitor aquilo que ele espera, mas também surpreendê-lo. O consumidor de notícias do esporte é muito conservador. Mesmo no tempo da Placar, algumas coisas tinham que ter, como tabelas, fichas técnicas, a cobertura dos jogos em si. Isso é parte de uma receita. Há espaço para uma reportagem investigativa, projeto de memória. Há espaço para abordagens diferentes, agora é difícil. Realmente no esporte é difícil fazer algo diferente do que o cara quer saber, quem fez os gols, quem jogou, frase do técnico, provocações. Isso é algo que leitor de esporte já espera. O ideal é equilibrar essa receita. Dar o que o cara quer, mas também surpreendê-lo. Mas dar além do mesmo requer um investimento. Pode-se dizer que há certos vícios no jornalismo esportivo que são prejudiciais para a sua produção. Uma reportagem investigativa, por exemplo, pode acarretar em vários desdobramentos, mas não há interesse em continuar a desvendar o problema se não há o retorno em audiência. Além da sociedade, quem perde é o próprio jornalismo esportivo, que prefere se manter naquilo que já garante um número significativo de retorno, em vez de oferecer novos produtos e conscientizar os leitores sobre a importância da nova pauta. Todos os portais, no geral, trabalham dessa maneira, pois de certo modo são reféns do calendário e não há como fugir do mecanismo. Este é um dos motivos de se encontrar reportagens bastante parecidas em outros websites. Existe também mais uma razão importante que contribui para a similaridade de pautas entre concorrentes: as coletivas de imprensa. Os atletas que atingem o sucesso na profissão, em especial os jogadores de futebol, se tornam e se comportam como celebridades. Conseguir uma entrevista exclusiva é algo para poucos privilegiados jornalistas. Aqui, podemos colocar uma parcela de responsabilidade nos clubes, que protegem seus atletas como se fossem intocáveis e até os proíbem de participar de reportagens para os jornais. Para resolver este problema, a solução encontrada é a coletiva de imprensa, em que se reúne o maior número de repórteres de diferentes veículos de comunicação e coloca-se o jogador disponível para a entrevista. Todos têm o direito de reproduzir as respostas. A pergunta de um repórter vale para todos os outros. A resposta do jogador é transmitida a todos os canais e em todas as plataformas. Não existe exclusividade nas coletivas de imprensa. É para poupar o estresse de expor vários atletas às entrevistas e estes ficarem sujeitos a possíveis polêmicas. Este é um dos grandes – talvez o principal – motivos para se encontrar as mesmas pautas em quase todos os portais de esporte. Com as redes sociais digitais, algumas coletivas são transmitidas on-line e o simples torcedor tem acesso ao mesmo conteúdo dos jornalistas. Em paralelo ao futebol – tanto nacional quanto internacional – outros esportes acontecem simultaneamente e exigem uma cobertura da mídia. Para se ter uma leve percepção da demanda, o site GazetaEsportiva.net possui onze seções destinadas somente as outras modalidades, como, entre outras, basquete, vôlei e atletismo. Para melhor exemplificar a quantidade de conteúdo, utilizo o tênis. A modalidade teve, ao menos, 66 torneios profissionais na categoria masculino no ano de 2015, fora os campeonatos femininos e outros eventos considerados de menor importância pela mídia. A temporada começa já no primeiro dia de janeiro e se estende até o fim de novembro. São competições em que participam nomes como o do suíço Roger Federer, o sérvio Novak Djokovic e o espanhol Rafael Nadal. Não existe a possibilidade de deixar de fora os resultados destes tenistas nos noticiários esportivos. São fenômenos que atraem os olhares dos amantes do esporte e envolvem bastante dinheiro no circuito, mesmo que o tênis tenha um alcance muito menor que o do futebol. O GloboEsporte.com possui 16 subdivisões, além de uma home para cada time de futebol e também de lutas. O portal disponibiliza de setoristas que acompanham diariamente os clubes da primeira e segunda divisão do futebol brasileiro, com informações sobre treinamentos, bastidores e algumas entrevistas exclusivas. Já é prática comum a transmissão dos treinos das principais equipes, com poucos vídeos e pequenos textos, quase que apenas citando o que está acontecendo no campo naquele exato momento. É uma diferença bastante considerável em relação aos concorrentes, já quetransmite confiança aos seguidores pelo fato de estarem presentes nos locais de reportagens todos os dias. Há também uma página específica para os importantes clubes europeus, haja vista a relevância que o futebol europeu tem ganhado a cada dia no Brasil. É válido mencionar, até pelo importante crescimento, que o GloboEsporte.com possui uma homepage apenas para o seu jogo on-line, Cartola FC. O game consiste em escalar hipoteticamente os jogadores que atuarão na próxima rodada do Campeonato Brasileiro, onde cada atleta receberá uma nota dependendo da sua atuação em campo. O usuário precisa estar ciente de tudo o que acontece nos clubes, pois precisa saber qual atleta jogará no final de semana a fim de marcar o máximo de pontos possível, já que disputa um ranking e concorre a prêmios. Por este motivo, o portal tem feito matérias sobre quais são as boas opções a serem escaladas nos duelos futuros, o rendimento de cada um, quem está machucado ou quem retornará. É uma maneira interessante de produzir novos conteúdos e atrair mais leitores para o site. O ESPN.com.br é conhecido por noticiar os esportes americanos, como NBA e NFL, mas tem impressionantes 23 divisões destinadas exclusivamente aos outros esportes. O portal se destaca por contar com famosos colunistas e textos opinativos. A equipe de repórteres do site não é suficiente para abastecer todas as seções da plataforma, por isso o uso de agência de notícias, como a Gazeta Press e outras internacionais, se faz bastante necessário. Além de utilizar matérias da TV ESPN, o portal também tem seus próprios programas produzidos exclusivamente para o site, em vídeos. De acordo com o editor do portal, Ricardo Zanei, cerca de 85% das reportagens produzidas são relacionadas ao futebol. Ele ainda explica que grande parte deste fato deve-se à fama que a TV ESPN tem em transmitir todos os campeonatos internacionais. Zanei ainda aponta para um dado interessante: a quantidade de matérias sobre futebol nacional é inferior ao conteúdo de futebol internacional. Em entrevista ao autor, ele diz: Quando entrei na ESPN, no dia 8 de outubro de 2012, algo entre 92 e 95% do conteúdo do site era relacionado ao futebol, tanto nacional quanto internacional. Destes 95%, uns 60% era futebol internacional e uns 35% de futebol nacional. Nós temos esse compromisso pesado de futebol internacional pela identificação da ESPN como um canal de transmissões de futebol internacional. A ESPN tem os direitos de todas as ligas, menos a Champions League. A gente passa inúmeros jogos de todos os campeonatos na ESPN e isso reflete no conteúdo que nós temos que produzir. Hoje, gira em torno de 85% de conteúdo de futebol. Temos outras frentes como NBA, NFL, a gente ataca de forma tímida os esportes olímpicos, por ter os direitos de transmissão de Olimpíadas. Tem outros nichos que não representamos muito bem. Hoje, eu diria que o futebol corresponde entre 82 e 85% do site, mas também tem um lance sazonal. Agora com a NFL, NBA (em andamento), pode até reduzir aos 80% porque estes esportes ganham bastante espaço. Além de observar a quantidade de matérias com o tema futebol que é produzida, chega a ser curioso que assuntos como o futebol americano (NFL) e o basquete americano (NBA) ganhem tamanha relevância. Ainda mais quando se fala de futebol americano, em que as regras são desconhecidas da maioria dos brasileiros. É surpreendente como isto influencia, mesmo que modestamente, na criação de pautas, ganhando até mais espaço do que os esportes olímpicos, que estão a poucos meses de ser o foco principal, nos Jogos Olímpicos de 2016 do Rio de Janeiro. Claramente, é uma proposta da empresa ESPN que tem dado certo. A página virtual da Folha de S.Paulo possui 15 subdivisões no Caderno de Esportes digital, mas com diferenças significativas em relação aos sites citados anteriormente. Embora publique notícias dos principais jogos internacionais, a página não possui uma seção exclusiva para futebol europeu, como os concorrentes. Além de o foco ser muito maior no esporte nacional, o que mais desperta atenção é a presença de seções intituladas de “Corrupção no Futebol”, “Desemprego no Futebol”, “Rio 2016” e “Tudo Sobre o Rio em Transformação”. Estes temas vão além do esporte como uma simples competição, eles envolvem questões sobre lavagem de dinheiro, comissões irregulares em transações milionárias e, claro, questões sociais que impactam fortemente a sociedade, como o assunto do desemprego e as transformações que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo para receber as Olimpíadas de 2016. A escolha destes tópicos reforça o caráter de ir adiante do esporte praticado, reflete uma postura mais séria e de cunho social do jornalismo praticado por este veículo de comunicação. Após observar a estrutura de cada site, constatei que a todo instante novas matérias são publicadas nos portais eletrônicos. A necessidade de se ter um website completo, com notícias sobre as mais diversas modalidades, é um desafio constante para repórteres e editores. Embora a enorme quantidade de trabalho seja evidente, os veículos possuem equipes relativamente pequenas para abordar todos os assuntos, visto que muitos deles se encontram com dificuldades financeiras e seria necessário montar uma redação gigantesca para conseguir cobrir o cenário esportivo por completo. Com tantas obrigações a serem cumpridas e novidades a serem registradas, a produção do jornalismo esportivo na internet procura apoio na relação com as agências de notícias, que possuem um papel indispensável e praticamente obrigatório para os jornais digitais, como mostrarei no item a seguir. 2.2. Reprodução de Notícias A reprodução de produtos está longe de ser algo inovador ou fora do comum no mundo capitalista. Isto acontece também com serviços. As empresas procuram estar próximas à concorrência com produtos ou serviços similares para não perderem em participação de mercado. Essa lógica cabe perfeitamente ao mundo da comunicação. Um jornal jamais deixará de publicar uma notícia polêmica ou um assunto relevante, mesmo que o furo tenha sido do veículo concorrente. Já Walter Benjamin chamava, em seu tempo, a atenção para a dinâmica desses processos: A obra de arte, por princípio, foi sempre suscetível de reprodução. O que alguns homens fizeram podia ser refeito por outros. Assistiu-se, em todos os tempos, a discípulos copiarem obras de arte, a título de exercício, os mestres reproduzirem- nas a fim de garantir a sua difusão e os falsários imitá-las com o fim de extrair proveito material (BENJAMIN, 1975, p. 11). Ao aplicar seu conceito às obras de arte, o pensador alemão deixa claro que todo produto está sujeito à reprodução. Não importa quem é o idealizador, a peça será refeita por outros profissionais em algum momento. A reprodução está presente em todos os níveis de hierarquia na sociedade capitalista, e é através dessa duplicação que os produtos e serviços, na visão de Benjamin, acabam por atingir todas as camadas sociais. Este é um dos pontos positivos, segundo o autor, uma espécie de democratização dos produtos da indústria cultural, e é inegável que seja. Quanto maior o número de pessoas impactadas por novos conhecimentos e informações, muito melhor será para a sociedade e também para a empresa criadora, que verá um alcance e um campo muito amplo para explorar seu comércio. Já na comunicação, em especial no jornalismo esportivo, a reprodução de conteúdo tornou-se muito comum, e a internet colaborou para a propagação dessa técnica. Se tal website divulga uma reportagem forte e que pode acarretar consequências no meio futebolístico, por exemplo, em poucos minutos os concorrentes também reproduzirão a nota, e nem sempre com os devidos créditos, por mais antiético que isto seja. A tecnologia permite a atualização constante dos fatos e, logo depois desta etapa, começa a corrida pelos furos do desdobramento da manchete principal. É a multiplicação da reprodução. Nessa linha de pensamento, faço o uso novamente de Benjamin, que afirma: Com o advento doséculo XX, as técnicas de reprodução atingiram tal nível que, em decorrência, ficaram em condições não apenas de se dedicar a todas as obras de arte do passado e de modificar de modo bem profundo os seus meios de influência, mas de elas próprias se imporem, como formas originais de arte (BENJAMIN, 1975, p. 12). É um cenário corriqueiro no jornalismo esportivo na internet – a busca pelo furo, pela informação privilegiada, a reportagem mais completa –, é quase uma obsessão e gera inúmeras notícias sobre o mesmo tema. Algumas são superficiais e colocadas no ar somente para gerar volume ou para demonstrar aos leitores que uma determinada informação do concorrente também está presente no site. A enxurrada de conteúdo sobre o assunto gera uma confusão para os consumidores. Em um primeiro momento, o jornalista responsável pela mensagem principal se perde no meio do caos de notícias e, sem os devidos créditos, vê o seu trabalho e esforço serem desvalorizados ou superados por mais de um repórter, que não teve nem a metade do empenho para averiguar novos fatos. Segundos após, algumas matérias se contradizem em relação ao tema, com informações desencontradas. Isto é frequente no esporte, uma vez que as especulações sobre as contratações de jogadores acontecem ao longo de todo o ano. E, ainda sem a devida apuração, há a reprodução de muitas notícias sem fundamento. Benjamin já questionava a desvalorização da obra de arte por parte das técnicas de reprodução e ainda chamava a atenção para a perda de autenticidade da obra, como vemos no trecho a seguir: Pode ser que as novas condições assim criadas pelas técnicas de reprodução, em paralelo, deixem intacto o conteúdo da obra de arte; mas, de qualquer maneira, desvalorizam seu hic et nunc. Acontece o mesmo, sem dúvidas, com outras coisas além da obra de arte, por exemplo, com a paisagem representada na película cinematográfica; porém, quando se trata da obra de arte, tal desvalorização atinge-a no ponto mais sensível, onde ela é vulnerável como não são os objetos naturais: em sua autenticidade (BENJAMIN, 1975, p. 13-14). No caso das obras de arte, de que trata Benjamin, o artista vê seu produto desqualificado por conta da multiplicação de sua reprodução ou propagação. O autor ainda utiliza como exemplo as paisagens do cinema, e neste campo podemos fazer uma menção às imagens no âmbito jornalístico. O fotógrafo registra o momento de uma partida, disponibiliza as imagens nas agências ou site pessoal e, em questão de minutos, a foto está em todos os portais e capas de jornais. Obviamente, este é o trabalho do profissional de fotografia, mas vale a menção às redes sociais digitais como forma de reprodução. A imagem é compartilhada por milhões de usuários, quase sempre sem os créditos e muito menos com o pagamento dos direitos autorais. O mesmo acontece com as notícias. Os próprios veículos de comunicação, entretanto, divulgam esses conteúdos em suas redes oficiais eletrônicas e colaboram para a disseminação da informação. É claro que é mais um meio, corretamente utilizado, para se aproximar do leitor, mas é importante observar que no Facebook, por exemplo, o sucesso de uma publicação é medida pela quantidade de compartilhamentos da matéria, ou seja, mais uma ferramenta de reprodução. Para dar uma breve noção da importância das redes sociais digitais para os websites, basta citar o que acontece com o ESPN.com.br, de acordo com informações prestadas pelo editor Ricardo Zanei, em entrevista a este pesquisador: cerca de 60% da audiência do site tem origem através do Google e Facebook, aproximadamente 30% para cada. Já o Twitter, rede de menor expressão, atrai, em média, 6%, podendo chegar até 10%, dependendo da matéria.¹⁵ E é válido lembrar que cada plataforma possui uma ferramenta para compartilhar e reproduzir conteúdo, o que pode elevar ainda mais estes números. O jornalismo na internet apresenta diversas técnicas de multiplicação, como apontado. Algumas são mais efetivas, outras menos, mas todas com a função principal de elevar os números de audiência do veículo. Para se ter um portal eletrônico esportivo completo que cubra hard news, porém, é quase impossível não estabelecer uma relação com as agências de notícias, assunto que aprofundarei no item a seguir. 2.2.1. Agências de Notícias As agências de notícias têm um papel fundamental na produção do jornalismo esportivo na internet. Elas são responsáveis por produzir uma multiplicidade de conteúdos e disponibilizá-los para seus clientes. São notícias, imagens, fotografias do dia e acervos, entre outros serviços. A Gazeta Press, uma das maiores do Estado de São Paulo, voltada para o esporte, além dos produtos já citados, oferece charges, infográficos, tabelas de campeonatos, curiosidades, comentários em tempo real e até entrevistas e reportagens especiais. Uma das empresas pioneiras no ramo da comunicação no Brasil, o Estado de S.Paulo, por meio de sua a Agência Estado, têm em seu leque de serviços, informações e dados não apenas no campo dos esportes, mas em quase todas as áreas sociais, com foco especial no setor econômico. Oferece acervo de fotos, notícias, inclusive um tipo de software com transmissão em tempo real das novidades e matérias do mercado financeiro. No próprio website, a empresa afirma ter mais de 12 mil usuários em base no AE Broadcast, nome do software desenvolvido. Como mais um diferencial: também oferece a criação de eventos para a discussão de temas relevantes para a sociedade. Ou seja, vai além do virtual. Em um período de desconfianças sobre o futuro do jornalismo e de intenso debate sobre como torná-lo mais rentável, Unzelte aponta as agências de notícias como um dos últimos redutos de negócios lucrativos para os veículos de comunicação. Em entrevista ao autor, ele diz que: As agências de notícias são, inclusive, o último reduto de negócios, como, por exemplo, o Estadão. Eu acho que é mais fácil acabar a versão impressa do jornal O Estado de São Paulo do que a agência de notícias. Agência de notícias ainda é um escoadouro de negócios, seja para o impresso ou não. Elas também vendem notícias para os impressos. Mas eu acho que elas ainda terão uma sobrevida que o impresso não terá. As agências de notícias têm buscado novas alternativas para satisfazer seus clientes. O próprio software é um exemplo disso. Já o jornal impresso encontra enormes dificuldades financeiras, tanto que o Caderno de Esportes do jornal o Estado de S.Paulo encerrou as atividades nos dias da semana, aparecendo apenas aos domingos. Na página virtual, entretanto, a seção continua. O papel das empresas que distribuem e vendem informações é imprescindível. Grandes sites, como ESPN.com.br e Terra.com.br, são abastecidos por agências e evidenciam a importância delas na questão de suprir as demandas. Há alguns lados negativos, sob o ponto de vista jornalístico, no entanto. Quanto mais os portais se tornam dependentes dessas empresas, mais matérias similares (ou até iguais) sobre o mesmo assunto aparecem. Ou seja, contribui para a similaridade de pautas, uma espécie de culto à mesmice. Grande parte destas notícias é conhecida como commodities. É uma matéria razoavelmente superficial, que contém uma informação de certo ponto relevante, mas não o suficiente para ser o grande destaque de um portal. A matéria intitulada “Novatos do São Paulo se dizem prontos para enfrentar o Atlético-PR”, por exemplo, pode ser encontrada exatamente igual no ESPN.com.br e no Terra.com.br. Ambas pertencem à Gazeta Press e ocupam um dos destaques na seção dedicada para o São Paulo Futebol Clube. O interessante a ser analisado é a parte do texto. A única intervenção, em termos de edição, ocorre nas imagens e nos vídeos. O portal ESPN, como forma de enriquecer e diferenciar a nota, coloca junto um vídeo com a entrevista coletiva dos dois atletas da equipe. Já o Terra.com.br não faz nenhuma alteração: apenas reproduz a nota tal como a recebeu. IMAGEM 17 - As matérias dos portais ESPN, à esquerda, e do Terra, à direita, sobreo mesmo assunto e mesmo texto. O vídeo as diferencia¹ O episódio comentado anteriormente não deixa de ser algo muito algo trivial atualmente. Todos os dias o leitor se depara com conteúdos semelhantes ou iguais em várias plataformas digitais. Ele já se acostuma com aquilo que é corriqueiro, com o que lhe é oferecido constantemente. Ao experimentar o novo, ou ao se deparar com a tentativa de surpreendê-lo, pode adotar uma postura mais crítica. Benjamin traz esta ideia ao afirmar que o espectador prefere o que é convencional, o que é bastante conhecido e, como consequência, é mais fácil de ser apreciado. O filósofo alemão diz: As técnicas de reprodução aplicadas à obra de arte modificam a atitude da massa com relação à arte. Muito retrógrada face a um Picasso, essa massa torna-se bastante progressista diante de um Chaplin, por exemplo. O caráter de um comportamento progressista cinge-se a que o prazer do espectador e a correspondente experiência vivida ligam-se, de maneira direta e íntima, à atitude do aficionado. Essa ligação tem uma determinada importância social. Na medida em que diminui a significação social de uma arte, assiste-se, no público, a um divórcio crescente entre o espírito crítico e o sentimento de fruição. Desfruta-se do que é convencional, sem criticá-lo; o que é verdadeiramente novo critica-se a contragosto (BENJAMIN, 1975, p. 27). O pensamento de Benjamin ajuda a entender o comportamento ou a agenda da mídia na reprodução. Ao comparar Picasso com Chaplin, o autor reforça como a população reage de forma diferente ao experimentar a novidade. É cômodo continuar a produzir o que já dá certo resultado. O conceito é aplicável ao jornalismo esportivo na internet. O meio ocupa-se em dar o que o leitor já espera receber e encontra rejeição no momento de inovar. Paralelo às sugestões de pautas, levantei mais um quesito na relação entre o jornalismo esportivo e a reprodução de notícias. Conforme visto nas reportagens iguais nos site Terra.com.br e ESPN.com.br, o trabalho do jornalista começa a ser desvalorizado. A partir do momento em que apenas se recebe o conteúdo e o publica, sem ao menos editar ou até revisar, perde-se a essência da profissão. Não à toa, a agência norte-americana Associated Press começou a desenvolver softwares para elaborar textos na sua cobertura esportiva. A matéria é toda construída por uma espécie de tecnologia, um “robô” como definiu a empresa americana, e contém apenas as informações primordiais, pois o computador não tem a capacidade de observar uma partida e narrá-la com palavras. Apenas constrói com base nos números. Para uma partida da NBA, a liga de basquete americana, a matéria traria a equipe vencedora, o placar, quem foi o cestinha e outros destaques do duelo. A AP, como é mundialmente conhecida, afirmou que um dos motivos para esse projeto é o fato de várias notícias serem de interesse de veículos regionais e de menor expressão. Por isso, não seria economicamente viável contratar mais jornalistas para realizar essa função. O redator, portanto, perde espaço no mercado para o computador, mesmo que o texto seja raso. A relação entre agência de notícias, jornalistas e empresas não se restringe ao que será publicado. A agência se mostra necessária para todos os portais que cobrem hard news. Na opinião de Ricardo Zanei, é praticamente impossível ter um jornal que trabalhe com os commodities e que não seja parceiro de um veículo de notícias. Isto ocorre principalmente pelo fato de o mercado demonstrar que é cada vez menos viável manter uma redação grande, com vários profissionais, enquanto o enxugamento nos veículos é o que mais tem acontecido e se tornado comum. Para o editor do site da ESPN, no entanto, a reprodução de conteúdo através das agências não desvaloriza o trabalho do jornalista. Ele enxerga uma possibilidade de entregar uma pauta melhor do que a enviada, principalmente do ponto de vista mais analítico, e também uma forma de tapar os buracos das atividades cotidianas do mundo esportivo. Em entrevista ao autor, ele diz: Acho importante as agências de notícias para a produção. Não vejo como desvalorizar a profissão do jornalista, mas nos ajuda na produção do que chamamos de commodities. Por exemplo, em um treino do São Paulo Futebol Clube. O Osório escala o Ganso de titular. Essa notícia você vai ver no ESPN, no UOL, no GloboEsporte.com, no site do São Paulo, inclusive. Você tendo uma agência de notícias ela te cobre essas notícias mais comuns. Ela consegue te dar um volume de notícias que você precisaria de uma redação muito maior para ter. O ideal, claro, é que a gente produzisse todo esse noticiário, que tivesse essa redação gigantesca, tivesse 10 pessoas responsáveis por clubes A, B e C. Mas o mercado nunca conseguiu absorver dessa forma. Estou no mercado há 16 anos e sempre teve buracos. A agência de notícias ajuda a tampar esses buracos com as notícias do dia a dia. O que eu acho que a gente tem que prestar muita atenção é que se a agência está dizendo que o Ganso foi escalado pelo Osório, o que posso fazer é “O que isso significa”? O que muda? O que que o time ganha? Posso analisar essa notícia, fazer algo muito mais aprofundado, posso pegar essa notícia e fazer algo mais analítico em cima dessa notícia que recebo deles. Acho que isso pode ser um caminho de uso para a agência de notícias, claro com os devidos créditos pela escalação, mas você traz o seu lado de análise, de visão, para compor aquilo e fazer algo mais saboroso para o leitor. Justamente como eu disse, você vai ver a mesma notícia em todos os sites e precisa de um diferencial. Para que eu vou ter uma agência de notícias se todos os sites terão a mesma coisa? Eu acho que você tem que aproveitar a agência de uma maneira inteligente e, claro, eles também fazem matérias muito boas e a gente usa na íntegra. Não desvaloriza a profissão, só que é algo que tem que ser usado com inteligência. É claro que em um cenário ideal, sem a correria do dia a dia, o correto é mesmo pegar uma nota oriunda de uma agência e transformá-la em algo mais interessante para o leitor. Analisá-la, ressaltar a importância daquela informação para determinado time, ilustrar com números, valorizar a reportagem, dar credibilidade. Porém, não é o mais comum. Refém da pressão para publicar o material o mais rápido possível, o que mais acontece é o jornalista subir a nota, alterando pouquíssimas palavras e incluindo uma foto ou, no máximo, um vídeo. A matéria da Gazeta Press/GazetaEsportiva.net, “Mesmo no São Paulo, Pato pode fazer o gol do hexa corintiano”, é rapidamente encontrada em vários outros portais, como Yahoo Esportes, FoxSports e inclusive no ESPN.com.br. Este último é o único que faz uma alteração dentre os citados, tanto no título quanto no primeiro parágrafo, em que corta algumas frases e deixa o texto mais enxuto. Mas não há outras diferenças, a não ser a foto do jogador, em que cada jornal utiliza uma diferente. Passa-se a impressão, mais uma vez, de que vale uma nota publicada, para transmitir a sensação de ter mais volume, do que o conteúdo em si. A mesma lógica da reprodução de notícias vale para os veículos que também necessitam das fotografias enviadas por essas empresas. O processo é muito similar: basta apenas fazer o download da imagem, colocar os créditos – com o nome do fotógrafo ou apenas o da agência – e publicar. Porém, como a quantidade de fotos é muito maior que a de matérias, a repetição de uma mesma imagem por vários sites é menor. O fotógrafo registra um momento diversas vezes, e o repórter ou editor tem a opção de escolher qual se encaixa melhor ao texto e, em outros casos, pela orientação da empresa em que trabalha. Infelizmente, pelos rumos que o mercado jornalístico tem tomado, a dependência de agências de notícias é cada vez maior e mais necessária. Cerca de 50% a 60% do conteúdo do site da ESPN tem origem nas agências. O portal Terra, após demitir 80% de sua equipe, tornou-se basicamente um reprodutor de conteúdo. Um dos únicos que consegue fugir e se diferenciaré o GloboEsporte.com, que não revelou quanto de sua produção tem origem em outras empresas, mas se destaca por ter uma redação maior que a dos outros veículos, o que contribui para se ter uma quantidade expressivamente maior de criação própria. É este um dos pontos em que questiono o quão benéfico é para o jornalismo esportivo a reprodução de informação. Vale a pena ter o máximo de conteúdo possível no website ao mesmo tempo em que, para isso, a profissão se torna tão desprestigiada? É equivocado dizer que é a agência de notícias a única fonte para esse modelo de reprodução da informação esportiva. As assessorias de imprensa também são famosas por contribuir com essa técnica. 2.2.2. Assessorias de Imprensa Atualmente as assessorias de imprensa se tornaram uma parte essencial para o funcionamento do jornalismo esportivo. Essas empresas representam clubes ou atletas para os meios de comunicação. Para um repórter conseguir uma entrevista com tal jogador ou dirigente é preciso, obrigatoriamente, contatar o assessor. Ou seja, nos dias de hoje, vale mais ter o contato do assessor do que o do atleta a ser entrevistado. Mas para esta pesquisa abordarei somente um dos papéis do profissional de assessoria e a relação com a reprodução de notícias. Por diversos motivos, conseguir uma fala de esportistas em geral, principalmente de jogadores de futebol, se tornou algo bastante difícil. Como solução e para manter o cliente na mídia, o assessor escreve um texto – o press-release – com falas do jogador e o envia por e-mail para toda a imprensa especializada. Os jornais só têm o trabalho de “copiar e colar” a matéria e publicá-la. E é nesta fase que comparo o assessor às agências de notícias. Para o jornalista, é a mesma lógica. Quase não há diferenciação entre um e outro, quando se refere ao mecanismo de trabalho. Ele não precisa pesquisar, buscar entrevistas e nem ao menos escrever. No máximo edita poucas palavras ou retira o patrocinador que aparece no texto. É inevitável dizer que isso prejudica e desvaloriza o profissional de jornalismo. Muitos, porém, são reféns desse mecanismo que se instalou tornando-se habitual. Nesta linha de raciocínio, pode-se conectar com o assunto de pautas, pois são raros os veículos que deixam de reproduzir o material. Isto acontece até mesmo por uma necessidade de se ter as frases do atleta. A Triple Comunicação, empresa de assessoria de jogadores de futebol, dispara suas matérias para o e- mail de cerca de 1.500 jornalistas, contabilizando apenas os estados do Rio de Janeiro e São Paulo.¹⁷ É interessante observar que o assessor de imprensa faz o papel do repórter em diversos casos. Ele desenvolve ou sugere a pauta, busca dados históricos, estatísticas, traça curiosidades e redige toda a reportagem. Novamente, o jornalista pouco tem a fazer ou acrescentar, a não ser publicar a nota. Na internet, é algo corriqueiro. Após o término de uma partida, a redação já aguarda o press-release com a opinião do atleta e o publica logo que recebe. Pode-se considerar que isso se tornou um processo automático para os profissionais de comunicação no meio digital. É como define Sergio Luci, proprietário da Triple Comunicação, destacando ainda o fato da reprodução completa do texto. Em entrevista para este pesquisador, ele diz: Nossos materiais têm como objetivo sugerir pautas aos veículos de comunicação. Criamos textos com dados interessantes de nossos clientes para que os jornalistas possam elaborar reportagens sobre os jogadores. Uma das grandes vantagens desses materiais é que inserimos as frases dos atletas, o que acaba dando uma importância maior para os releases. Alguns veículos se baseiam nesses materiais e elaboram reportagens interessantes. Outros, porém, repercutem os textos, praticamente, na íntegra. Entre outros motivos para que isso aconteça é a já comentada enorme demanda que o repórter esportivo do meio digital tem em seu cotidiano. A impressão transmitida às vezes é que qualidade virou sinônimo de quantidade para muitos portais eletrônicos. Por isso, as técnicas de reprodução se mostram tão importantes para o jornalismo esportivo na internet. Benjamin, em seu tempo e com suas preocupações específicas, já nos ajudava a entender o que acontece hoje, no campo do jornalismo esportivo na internet: A massa é matriz de onde emana, no momento atual, todo um conjunto de atitudes novas com relação à arte. A quantidade tornou-se qualidade. O crescimento maciço do número de participantes transformou o seu modo de participação. O observador não deve se iludir com o fato de tal participação surgir, a princípio, sob forma depreciada. Muitos, no entanto, são aqueles que, não havendo ainda ultrapassado esse aspecto superficial das coisas, denunciaram-na vigorosamente (BENJAMIN, 1975, p. 31). A fala de Benjamin se mostra muito atual ao momento em que o jornalismo esportivo na internet se encontra. As plataformas concorrentes não brigam apenas atrás de furos ou novas pautas, elas buscam ter o maior leque possível de notícias sobre todos os esportes, ainda que isso signifique perda da qualidade do conteúdo. O crescimento do jornal influencia diretamente nos modos de produção. Outra empresa de assessoria de imprensa esportiva, a DGW Comunicação possui grande parte do seu foco no tênis, que revela um apelo muito menor do que o futebol na mídia. No entanto, a base de clientes consiste em 850 jornalistas cadastrados para receberem o material. Do total, aproximadamente 60% abrem o press-release e o publicam tal como recebido da empresa. Do ponto de vista do assessor, quanto mais o conteúdo dele for publicado, mesmo que igual, em vários sites, melhor para ele e consequentemente para seu cliente. Já do lado do repórter, voltamos à questão da desvalorização do trabalho, visto que não requer muitas habilidades para “copiar e colar”, em resumo. É preciso mencionar, ainda, que muitos desses e-mails são de jornalistas da mesma empresa, mas que precisam dos informativos para se manter atualizados sobre o que acontece em outros esportes e também como ideias de possíveis pautas. Uma das preocupações das agências de informação esportiva é ter à disposição fotografias com os atletas para serem acrescentadas às reportagens como forma de enriquecê-las, assunto este já debatido neste livro. As assessorias de imprensa também fazem o mesmo, com a intenção de divulgar seu cliente e os patrocinadores, que geralmente possuem as logomarcas em camisetas ou placas expostas claramente nas fotografias. As fotos são a grande oportunidade de utilizar o produto (jogador) para expor os investidores. Esta ação evidencia, inclusive, como mais um modelo de negócio no campo do jornalismo esportivo e na internet ganha força, com a não restrição do espaço físico para a publicação. Alguns clubes de futebol possuem seu próprio canal de divulgação de fotos, como é o caso do Sport Club Corinthians Paulista, que contratou um fotógrafo que fica responsável por registrar as atividades de treino, bastidores e de jogo, certificando-se de que os patrocinadores apareçam em praticamente todas as imagens. Uma das respostas para este fenômeno da reprodução é a imersão completa do jornalismo esportivo na internet nos padrões da indústria cultural, como descrevem Adorno e Horkheimer. Não importa a qualidade, desde que se tenham bons números de vendas. Ou, no caso do digital, de audiência. 2.3. Indústria Cultural Já desde o século XIX e, crescentemente, o jornalismo se tornou um produto da indústria cultural e há alguns anos tem a sua qualidade e intenções questionadas, visto pelo reflexo de constantes demissões no setor. Não é novidade que a notícia é mercadoria, o produto dos veículos de comunicação que precisa ser vendido. E quanto mais produto se oferece, maior a chance de ele ser consumido. Para colaborar com este mecanismo, as agências e assessorias são vitais para manter este leque de opções de informação. Como forma de entender melhor a lógica em que a produção do jornalismo esportivo on-line pode ser encaixada, recorro novamentea Adorno e Horkheimer, que afirmam: O cinema e o rádio não precisam mais se apresentar como arte. A verdade de que não passam de um negócio, eles a utilizam como uma ideologia destinada a legitimar o lixo que propositalmente produzem. Eles se definem a si mesmos como indústrias, e as cifras publicadas dos rendimentos de seus diretores gerais suprimem toda dúvida quanto à necessidade social de seus produtos (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 114). Os dois pensadores alemães questionam o papel do cinema e do rádio. Para ambos, em seu tempo, esses meios deixaram de ser uma arte para se tornarem propriamente um negócio. Como consequência, o valor do conteúdo deixou de ser primordial. A mesma ideologia serve para o jornalismo esportivo na internet. A produção visa à audiência, tem como objetivo primeiro e mais importante obter o maior número possível de leitores em cada matéria. Cada reportagem elaborada tem como objetivo principal atrair o máximo de cliques. Faz-se o necessário para atingir esta meta, e não necessariamente algo para se garantir maior qualidade. As técnicas de reprodução descritas anteriormente ganham ainda maior relevância sob a ótica da indústria cultural. Inserido neste universo, o jornalismo cria notícias como se fosse uma fabricação de mercadorias em série. O processo é mecânico. O jornalista recebe a notícia via agência, faz pouca ou nenhuma alteração e a publica. Este ciclo se estende ao longo de todo o dia, praticamente. Recebem o material e o colocam no ar. É automático, como se fosse uma linha de produção de uma empresa de sapatos, por exemplo. Quase não requer um trabalho intelectual, uma vez que o texto vem pronto, bastando apenas publicá- lo. É um ponto gravíssimo no que diz respeito ao valor do trabalho do profissional de comunicação. Em Adorno e Horkheimer, uso o seguinte trecho: Os interessados inclinam-se a dar uma explicação tecnológica da indústria cultural. O fato de que milhões de pessoas participam dessa indústria imporia métodos de reprodução que, por sua vez, tornam inevitável a disseminação de bens padronizados para a satisfação de necessidades iguais. O contraste técnico entre poucos centros de produção e uma recepção dispersa condicionaria a organização e o planejamento pela direção. Os padrões teriam resultado originariamente das necessidades dos consumidores: eis por que são aceitos sem resistência (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 114). A indústria cultural influencia de tal maneira o jornalismo esportivo ao ponto de os métodos de reprodução ditarem toda a agenda de pautas e reportagens que são criadas ao longo da semana. Os milhões de leitores esperam encontrar quase o mesmo produto em todos os portais. O veículo de comunicação estuda esse comportamento do consumidor e procura satisfazê-lo em suas necessidades semelhantes. Ter um objeto fora do padrão é sair da zona de conforto, tanto do jornal quanto do fã de esporte. Embora uma reportagem com conteúdo diferente seja necessária, as notícias cotidianas são as que seguram a audiência média dos jornais eletrônicos. É mais cômodo entregar aos clientes o que será facilmente digerido, ou, em outros termos, aquilo com que ele já está acostumado. Esta é uma das características da relação entre cultura de massa e indústria cultural. O que é novo na fase da cultura de massas em comparação com a fase do liberalismo avançado é a exclusão do novo. A máquina gira sem sair do lugar. Ao mesmo tempo que já determina o consumo, ela descarta o que ainda não foi experimentado porque é um risco. É com desconfiança que os cineastas consideram todo manuscrito que não se baseie, para tranquilidade sua, em um best-seller (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 126). A exclusão do novo é uma peculiaridade da produção pós-modernista. Pautas são criadas com o objetivo de ser uma novidade, mas não necessariamente é algo novo, que nunca foi feito. Ao invés disso, o conteúdo é quase o mesmo de sempre, mas com a internet, os mecanismos de produção dão o tom e a sensação de inovação. Adorno e Horkheimer comentam o fato de cineastas preferirem trabalhar com best-seller a inovar, pelo claro motivo de ter o retorno financeiro garantido. Enfim, o jornalismo esportivo eletrônico está imerso nos padrões da indústria cultural. Toda a produção é tratada como uma mercadoria que precisa atingir os números de audiência e ser economicamente viável, um dos grandes desafios dos jornais atualmente. 2.4. O Espetáculo, a Indústria e a Reprodução Quando me refiro ao pensamento de Adorno e Horkheimer sobre a indústria cultural é quase impossível não o relacionar ao conceito de sociedade do espetáculo, de Guy Debord. Pode-se afirmar que as duas teorias andam juntas, uma ao lado da outra, e ambas podem ser aplicadas à produção do jornalismo esportivo na internet. Antes de aprofundar e demonstrar de que maneira o espetáculo, a indústria cultural e as técnicas de reprodução afetam, em conjunto, a criação de conteúdo digital, faço o uso de Cláudio Novaes Pinto Coelho que, em seu livro Teoria Crítica e Sociedade do Espetáculo, realça bem a ligação entre Indústria Cultural e Sociedade do Espetáculo: Adorno e Horkheimer desenvolveram o conceito de indústria cultural para a compreensão do processo de mercantilização da sociedade capitalista, que alcançou a produção cultural com o desenvolvimento de técnicas de reprodução em larga escala sob o controle de grandes conglomerados comunicacionais. Debord desenvolveu o conceito de sociedade do espetáculo para a compreensão do processo de articulação entre o acúmulo de capital, por intermédio da produção e do consumo de mercadorias em larga escala, e o acúmulo de espetáculo, por intermédio da produção e do consumo de imagens em larga escala. Os conceitos procuram compreender, portanto, a mesma realidade (COELHO, 2014, p. 58). Coelho reforça como a indústria cultural e a sociedade do espetáculo partem do princípio do acúmulo de capital, seja em forma de mercadorias ou em espetáculo, através de imagens. Conforme argumentei ao longo deste capítulo, uma das principais características do jornalismo esportivo digital atual é a constante publicação de conteúdo, inúmeras notícias postadas em pouco tempo, a alta demanda exigida no dia a dia. Se aplicar este contexto às teorias de Adorno e Horkheimer e Debord, o jornalismo na internet oferece aos leitores um grande acúmulo de informação. Em outras palavras, em um cenário mais comercial, os veículos de comunicação oferecem produtos aos seus clientes a todo o momento, dos mais diversos gostos, tipos e formatos. Para facilitar este mecanismo, a tecnologia da internet possibilita ao leitor salvar as reportagens para serem lidas posteriormente, como forma de guardar o produto para ser consumido assim que possível. O Twitter permite uma opção que, apenas com um clique, o usuário salva todas as matérias que não conseguiu ler em uma aba denominada “favoritos”. As notícias ficam à disposição por tempo ilimitado. A tecnologia se adequa aos métodos de fabricação. A questão das técnicas de reprodução apenas reforça esta acumulação de mercadorias, já que disponibilizam novos caminhos para alcançar o cliente, como divulgar a informação nas redes sociais digitais e, através das ferramentas de compartilhar – do Facebook, por exemplo –, propagar o conteúdo. Inclusive, os desdobramentos de notícias e a divisão de uma informação em várias notas, todas estas práticas colaboram para este acúmulo de capital. Walter Benjamin tinha uma visão de certa forma positiva em relação às técnicas de reprodução. Ele entendia que a reprodução da arte, do cinema e das fotografias poderia ampliar a percepção da realidade. No entanto, o autor alerta para a perda da aura da arte ao sofrer inúmeras mutações para impactar o máximo de público possível. No trecho a seguir, mostro também como Benjamin trabalha a ideia de a imagem fugir da própria realidade, o que lembra os conceitos de Debord: A reprodução do objeto, tal como a fornecem o jornal ilustrado e a revista semanal, é incontestavelmente uma coisa bem diversade uma imagem. A imagem associa de modo bem estreito as duas feições da obra de arte: a sua unidade e a sua duração; ao passo que a foto da atualidade, as duas feições opostas: aquelas de uma realidade fugidia e que se pode reproduzir indefinidamente. Despojar o objeto de seu véu, destruir a sua aura, eis o que assinala de imediato a presença de uma percepção, tão atenta àquilo que “se repete identicamente pelo mundo”, que, graças à reprodução, consegue até estandardizar aquilo que existe só uma vez (BENJAMIN, 1975, p. 15). No universo on-line atual, o jornalismo precisa estar preparado para todas as plataformas, ter o website em versões mobile, para smartphones e tablets. A mesma notícia no portal principal acessada através de um computador precisa estar nestes outros meios. Com a alta demanda exigida para distribuir informações em todas as formas e a pressão pela agilidade, a reprodução pode acarretar em uma queda na qualidade do material produzido. A repetição é incessante. Com os celulares que fotografam e filmam, qualquer indivíduo pode ser um produtor de conteúdo e publicar – além de compartilhar – nas redes sociais e outros meios. Todo este processo pode destruir a aura do objeto original. Essa mesma lógica pode ser aplicada quando me refiro à imagem. Para Debord, a sociedade do espetáculo se preocupa mais com a categoria quantitativa do que com o qualitativo, e a perda de qualidade é evidente, como ele afirma: A tão evidente perda da qualidade, em todos os níveis, dos objetos que a linguagem espetacular utiliza e das atitudes que ela ordena apenas traduz o caráter fundamental da produção real que afasta a realidade: sob todos os pontos de vista, a forma-mercadoria é a igualdade confrontada consigo mesma, a categoria do quantitativo. Ela desenvolve o quantitativo e só pode se desenvolver nele (DEBORD, 1997, p. 28). As visões de Benjamin e Debord se complementam quando relaciono “qualitativo” e “destruir sua aura”. Na produção do jornalismo esportivo na internet a quantidade tem sido o principal ponto de exigência dos veículos de comunicação. Uma rápida observação mostra que é comum o ESPN.com.br publicar em seu perfil oficial no Twitter cerca 14 novas matérias no prazo de 60 minutos. Em tese são as mais importantes, fora as outras que não foram divulgadas nesta mídia. É um verdadeiro acúmulo de notícias. Neste cenário de fabricação em série de mercadorias, há um esvaziamento da conduta do profissional de comunicação, que se preocupa mais com o lado mercadológico, tendo a audiência como meta fundamental. Este “vazio” tem como consequência a entrega de um produto sem muitos aspectos positivos. Não à toa, a peculiaridade em questão refere-se a mais um traço da indústria cultural. Adorno e Horkheimer afirmam que [...] o tipo de experiência que personalizava as palavras ligando-as às pessoas que as pronunciavam foi esvaziado, e a pronta apropriação das palavras faz com que a linguagem assuma aquela frieza que era própria dela apenas nos cartazes e na parte de anúncio dos jornais (1985, p. 155). O pensamento de Debord, Benjamin, Adorno e Horkheimer encontram-se exatamente no ponto de esvaziamento da informação. Ou, em outras palavras, na perda da qualidade do produto. Ao aplicar essas teorias à produção do jornalismo esportivo on-line, confirma-se e evidencia-se a automatização do processo de fabricação de notícias, o que de maneira inevitável desvaloriza o profissional de comunicação. É possível afirmar que este esvaziamento da notícia tornou-se uma característica do jornalismo da indústria cultural. Todo o funcionalismo do jornalismo esportivo digital está diretamente relacionado à quantidade de capital financeiro que cada veículo de comunicação possui. O resultado é a representação que a empresa consegue ter diante de seus consumidores. O capital determina o tipo da imagem que será transmitida aos leitores, e o espetáculo está intrínseco neste sistema da indústria cultural. Como disse Debord, “o espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem” (1997, p. 25). A reprodução é um dos mecanismos mais poderosos dessa acumulação. O francês Pierre Bourdieu estabelece que o campo jornalístico está totalmente dominado pela lógica comercial. Para exemplificar seu pensamento, o autor utiliza a audiência da televisão e como ela exerce sua influência no segmento. Bourdieu diz: O campo jornalístico age, enquanto campo, sobre os outros campos. Em outras palavras, um campo, ele próprio cada vez mais dominado pela lógica comercial, impõe cada vez mais suas limitações aos outros universos. Através da pressão do índice de audiência, o peso da economia se exerce sobre a televisão, e, através do peso da televisão sobre o jornalismo, ele se exerce sobre os outros jornais [...] E, da mesma maneira, através do peso do conjunto do campo jornalístico, ele pesa sobre todos os campos de produção cultural (BOURDIEU, 1997, p. 81). É similar ao que acontece no ambiente eletrônico. Com base nos números de audiência, até mesmo tendo como pauta a TV, as reportagens focam nos assuntos que garantem o máximo retorno, e é por isso que o futebol se torna o principal tema a ser noticiado pelos veículos de comunicação. As agências e os press-releases de assessorias entram neste cenário como uma alternativa de complementar o conteúdo da atividade mais popular do planeta e acrescentar novidades sobre os outros esportes. Se no impresso já se mostravam necessárias, no jornalismo virtual essas empresas ganharam uma importância ainda maior. A constante produção de matérias, a instantaneidade, o volume de matérias, todos esses fatores contribuem para que o vínculo se torne a cada dia ainda mais forte. É uma atividade comum ao jornalismo esportivo na internet. Faz parte da criação de conteúdo e, por ter se tornado uma operação costumeira, poucos questionam a prática de reprodução e o fato da dependência ter se tornado meramente um produto da indústria cultural. A conexão com esses dois mecanismos inevitavelmente se mostra cada vez mais essencial para o processo de elaboração de informação de esporte nos meios digitais. Capítulo 3 A PRODUÇÃO DO JORNALISMO ESPORTIVO DIGITAL NA ATUALIDADE 3.1. O Jornalismo Esportivo On-line na Atualidade Os portais eletrônicos são atualizados com novas notícias praticamente 24 horas por dia. No ESPN.com.br, o primeiro repórter “abre” o site aproximadamente às 6h da manhã, enquanto o último fecha por volta das 2h da madrugada. Percebe- se que são poucas horas em que a plataforma não é atualizada. A obrigação de noticiar inúmeras competições e modalidades esportivas aumentou consideravelmente a demanda do profissional de comunicação, como visto no capítulo anterior. Como consequência, a jornada de trabalho também cresceu aliada à característica da internet de tudo ser publicado em tempo real. O hard news consiste em mais da metade do conteúdo produzido pelos jornais digitais – são matérias que perdem seu valor rapidamente, e isso reforça a necessidade de tudo ser em tempo real, e até o surgimento do minuto a minuto. Para Celso Unzelte, em entrevista concedida ao autor, a função primordial da internet é concentrar o material factual da produção. Ele define a internet como o reduto do hard news. Principalmente o factual, vai migrar tudo para a internet. A grande utilidade da internet é o factual. É claro que você pode fazer coisas mais consolidadas também, mas me parece que elas fazem mais sentido nos impressos. Ou do ponto de vista do impresso, é o último refúgio, é o “para ler e guardar”. Mas a internet é tão ampla que abarca qualquer tipo de coisa. Pressupondo o jornalista que quer trabalhar com o hardnews, com velocidade da informação, a internet é o reduto. Não há como reagir a isso [...] É para onde vamos escoar o “grosso” da nossa produção. Embora o foco da internet esteja realmente nos informativos instantâneos, há, de fato, espaço para reportagens com conteúdos históricos, investigativos e opinativos, mesmo que em escala menor. Em uma redação, a quantidadede repórteres exclusivos para essas pautas também é menor, até mesmo por isso não representar “o grosso” do conteúdo produzido. Em uma rápida pesquisa nos sites esportivos, percebe-se que mais da metade de material produzido é de hard news. No geral, há uma seção destinada às reportagens históricas, como o “Achei!” e o “Baú do Esporte”, do GloboEsporte.com; o primeiro resgata algum atleta que já não está mais no auge da carreira, mas que possuiu uma brilhante ou curiosa história no futebol; o segundo recupera reportagens antigas de qualquer esporte ou atleta, como por exemplo, uma vitória de Ayrton Senna na Fórmula 1 ou o título da Seleção Brasileira de Basquete nos Jogos Pan-Americanos de 1987. O ESPN.com.br possui o quadro “Histórias da Bola”, cujo foco se mantém nas curiosidades de bastidores do mundo do futebol, contadas por jogadores através de entrevistas para os repórteres. Estas seções, no entanto, não aparecem com muita frequência, apenas o quadro do portal da ESPN que tem aparecido constantemente por conta dos ótimos resultados de audiência. Os quadros do GloboEsporte.com ficam meses sem novidades. O site Trivela é um dos poucos que não é predominantemente de hard news e que ainda consegue se manter, financeiramente falando, com este propósito diferente. O portal se vende como “Futebol além do óbvio”. Grande parte das matérias constitui análises profundas de partidas e atuações de jogadores. Em alguns casos, as reportagens podem ser consideradas atemporais, podendo ser lidas não necessariamente antes ou depois do jogo. Outras são mais históricas, como a “Um encontro com os heróis derrotados de 1950”, publicada no dia 8 de julho de 2015, sobre a Copa do Mundo de 1950, a primeira realizada no Brasil. São textos mais longos, diferentes das notas tradicionais, que caberiam muito bem em uma revista, até pelo formato mais literário da escrita, que não precisa ser tão direta e concisa. Requer um tempo maior para elaborar a matéria – o que vai contra uma das principais características do jornalismo esportivo na internet. A velocidade se tornou uma das peculiaridades do ambiente digital. Como afirma Unzelte na entrevista citada, a internet virou reduto para o imediatismo. Uma das características observadas no estagiário ou no jornalista digital é a capacidade de redigir matérias em um curto espaço de tempo. Hoje se faz quase obrigatório ter essa qualidade. Discuto sobre este assunto a seguir. 3.1.1. Ritmo Acelerado nas Redações As tecnologias digitais trouxeram um novo ritmo às redações de jornais ao redor do mundo. A concorrência também aumentou e acirrou a disputa por números de audiência. Uma das formas de estar à frente do concorrente é publicando a notícia antes dele, mesmo que seja em questão de minutos. O grande desafio deste mecanismo é não deixar a pressa atrapalhar a qualidade do conteúdo da reportagem. Isto significa não só erros gramaticais, mas a própria apuração dos fatos. É a lógica inversa que se propagou no jornalismo esportivo na internet: divulga-se antes de conferir. A relação entre a velocidade e o modo de produção tornou-se uma das questões mais discutidas no jornalismo esportivo na internet. Na obra O Manual do Jornalismo Esportivo (2006), Heródoto Barbeiro e Patrícia Rangel debatem justamente a questão: agilidade versus qualidade. Apontam os problemas tradicionais do conteúdo digital, já mencionados no parágrafo anterior, e colocam a velocidade como motivo principal para esta possível perda de valor na matéria e na profissão. Um dos jornalistas esportivos mais respeitados do Brasil, o paulista Paulo Vinícius Coelho, no seu livro Jornalismo Esportivo (2003), critica a nova geração que ingressa no mercado com o pensamento de que vale mais uma nota no ar rapidamente do que uma reportagem bem elaborada, com as informações checadas corretamente antes de a reportagem ser publicada. Já Unzelte, em Jornalismo Esportivo: Relatos de uma Paixão (2009), se expressa sobre o desespero dos jornais em estar à frente dos concorrentes. O autor questiona esse pensamento. “Esse sair na frente torna-se cada vez mais relativo. Sair na frente de quem?”, ele se pergunta (2009, p. 82). A produção do relato de uma partida de futebol, por exemplo, requer a junção de agilidade e muita atenção. Um jogo tem a duração de 90 minutos no total, e muitos lances para serem descritos. O repórter acompanha o duelo e registra cada jogada. Abre-se o parágrafo geralmente com o minuto em que o fato aconteceu. A última informação a ser redigida é o primeiro lide, que contém o principal: o resultado final do confronto. Em várias ocasiões, o parágrafo inicial precisa ser reescrito muito rapidamente, uma vez que um gol nos minutos finais pode alterar o placar e mudar todo o desfecho da partida. A exigência da instantaneidade faz com que o repórter mude todo o texto em pouco tempo, o que, certamente, compromete a qualidade. Este pesquisador acompanhou a produção do relato de uma importante partida da UEFA Champions League, a maior competição internacional de clubes de futebol do mundo. O que será mostrado a seguir é cada instante em que foi escrito um parágrafo até o momento de publicação, de modo que possa ficar demonstrada a agilidade que o jornalista esportivo do meio digital precisa ter. 3.1.2. A Construção do Relato da Partida de Futebol O relato é da partida entre o Arsenal, da Inglaterra, e o Olympiacos, da Grécia, realizada no dia 9 de dezembro de 2015, pelo site ESPN.com.br. Na ocasião, o time de Londres precisava vencer para se classificar para as oitavas de final do torneio e conseguiu este feito ao garantir o triunfo pelo placar de 3 a 0. Além de escrever a matéria deste duelo, o repórter tinha outras duas funções: a primeira era comandar várias interações em tempo-real – não precisava atualizar minuto a minuto cada lance porque um outro jornalista, de outra empresa, era o responsável por realizar esta tarefa – , tendo que incluir imagens, enquetes, comentários e interações via Twitter; a segunda função seria ficar atento a outra partida, entre Bayern de Munique e Dínamo de Zagreb, para incluir no relato, já que ambas as equipes pertenciam ao mesmo grupo e o resultado final influenciava na classificação. A partida tinha início marcado para as 17h45, mas na página do tempo-real nove interações foram feitas antes do apito inicial. Ao longo dos 45 minutos do primeiro tempo do confronto, mais oito publicações foram ao ar. Na etapa final, já com a obrigação de ter boa parte da matéria redigida, o número de inserções caiu para quatro até o fim da partida. O primeiro parágrafo do relato foi escrito às 18h43, quase uma hora após o começo do duelo. Nove minutos depois, às 18h52, mais um parágrafo. Outros dois foram produzidos às 18h58 e 19h13. A partir das 19h14 até 19h36 – horário da publicação – oito parágrafos foram escritos, e a foi matéria publicada quatro minutos depois do término da partida, já que, com os acréscimos dados pelo árbitro, a bola parou de rolar às 19h32. Após a publicação, das 19h36 até 19h45, o jornalista adicionou mais uma foto e seis links que redirecionavam para matérias das outras partidas da Champions League. Somente após ter cumprido todas estas atividades, colocado mais interações na reportagem e divulgado no Twitter da empresa, é que a revisão foi feita. Ainda às 21h06, foi inserido um vídeo com trechos do programa Futebol no Mundo da TV ESPN. IMAGEM 18 - Tabela de construção do relato com o conteúdo. Não há as inserções do tempo real¹⁸ IMAGEM 19 - Tabela de construção do relato com o conteúdo. Não há as inserções do tempo real.¹ É curioso observar a inversão nos estágios de publicação de uma reportagem. O imediatismo do digital exige isso e a ferramenta de edição contribui para que todos os erros sejam apurados após o conteúdo já estar no ar, disponível para os leitores. Inclusive, é possível – e tem sido comum – ler comentários de internautas citando a localização e quais são os erros do texto. O jornalista e pesquisador britânico Paul Bradshaw refletesobre o imediatismo e o aponta como a principal razão para que o número de etapas de criação de notícias diminua. Bradshaw diz que [...] isso cria uma pressão para simplificar o processo editorial e o número de estágios que o repórter precisa passar até a publicação/distribuição. O fato de que o jornalista pode publicar sem o filtro editorial é tão significativo quanto o de que qualquer um possa fazê-lo (2014, p. 116). Trata-se de uma afirmação contundente e forte do autor, em especial quando sublinha que qualquer indivíduo pode exercer a atividade de jornalista. Embora possa parecer improvável no momento em que lemos, é perceptível como os problemas enfrentados a respeito de salários cada vez mais baixos para os profissionais de comunicação refletem diretamente neste novo panorama do jornalismo digital. É a lógica do capital, de produzir mais gastando menos. Não há dúvidas de que a empresa irá pagar menos se pode receber trabalho similar de outro funcionário e, novamente, caímos na questão de entregar basicamente o mesmo conteúdo para os leitores. Há espaço para novos produtos, mas se grande parte da produção do site pode ser feita com pessoas menos qualificadas, isto não é problema para a empresa, pelo contrário: economiza-se. Esse imediatismo vem em conjunto com as redes sociais digitais. Assim que a matéria é finalizada e publicada, uma das obrigações é a divulgação nos outros meios de comunicação, em especial Twitter e Facebook. O primeiro é muito usado por jornalistas, por proporcionar a oportunidade de escrever em tempo real sobre os acontecimentos. O recurso está integrado à produção do jornalismo esportivo na internet, constituindo uma maneira de favorecer o fácil acesso ao leitor e de disseminar conteúdo. O próprio Twitter, por suas características, tornou-se uma fonte de informações, e influencia até em pautas. Unzelte, na entrevista para este pesquisador, relembra que a morte de uma das maiores personalidades do mundo, o cantor Michael Jackson, foi comunicada pela ferramenta, antes mesmo da manifestação dos veículos oficiais. A morte do Michael Jackson, por exemplo, foi anunciada pelo Twitter, antes mesmo dos jornalistas. Em um mundo em que todo mundo tem acesso à informação, o jornalista precisa estar preparado para o eletrônico [...] Ele precisa ter a consciência da importância e do peso que os meios eletrônicos têm hoje para quem consome notícias. No caso do esporte, tem o minuto a minuto, quem fez o gol, tudo é muito rápido. A carga de trabalho exige muito do profissional de comunicação. Ele precisa ser ágil não só para entregar o material ao leitor em tempo real, mas para ter tempo hábil de cobrir todas as outras modalidades esportivas que acontecem simultaneamente. As empresas já não enviam mais seus jornalistas para os locais de reportagens, somente para a produção de conteúdo especial ou para um evento com enorme prestígio. Isto acontece por dois motivos: o principal é a contenção de custos, já que tem gastos com deslocamento, alimentação, hospedagem, entre outros. O segundo é que, de dentro da redação, ele não precisa focar em apenas um esporte e pode escrever sobre todos os outros que estão em andamento, além da possibilidade de pensar em mais pautas. Para isso, no entanto, requer mais uma vez agilidade. É necessário rapidez para registrar todas as informações e colocá-las no ar. O repórter do meio eletrônico precisa estar preparado para a instantaneidade. Há mais uma questão a ser discutida, que passou a ser comum na produção do jornalismo esportivo na internet. A busca incessante por audiência através de reportagens com temas apelativos, ou com títulos que distorcem o conteúdo abordado, sensacionalistas, apenas para atrair a atenção do leitor e, consequentemente, o clique. São as matérias “caça-cliques”, debatidas no item a seguir. 3.1.3. Caça-Cliques Em meio à enxurrada de notícias que o mundo digital proporciona, aparecem aquelas com conteúdo pouco informativo ou até mesmo irrelevante, mas com a única intenção de elevar os números de audiência do veículo de comunicação. Para ilustrar melhor este raciocínio, o jornalista Thiago Amorin Caminada escreveu a coluna “Francisco e o jornalismo caça-cliques”, no portal Observatório da Imprensa, em que afirma: Aproveitando-se do interesse e da curiosidade alheia os grandes veículos, especialmente os brasileiros, adotaram o papa como vítima recorrente dos títulos, chamadas e compartilhamentos em redes sociais conhecidos como caça- cliques. Essas chamadas são compostas para atrair o maior número de pessoas para a notícia, entretanto, muitas vezes o conteúdo explicitado anteriormente não coincide com o acontecimento reportado no corpo do texto. Os casos mais comuns são frases recortadas e retiradas do seu contexto original, dando um sentido polêmico ao conteúdo. Ou, ainda, chamadas nas redes sociais em forma de perguntas, instigando os leitores ao acesso ao conteúdo no site (CAMINADA, 2015). O repórter utiliza a figura midiática do papa Francisco para explicar o pensamento sobre o jornalismo caça-cliques. Para ele, o pontífice foi alvo de inúmeras matérias que, em seu título, distorcem o que é dito na reportagem. Tem se tornado cada vez mais comum encontrar matérias com chamadas alteradas, sensacionalistas, diferentes do corpo do texto, apenas para fisgar a atenção do leitor. Cada clique contabiliza uma visualização. Isso aumenta o número da audiência e esta lógica é a principal estratégia para negociar anúncios publicitários nas plataformas eletrônicas. Na área esportiva, as pautas caça-cliques já são rotineiras. Os jornais se aproveitam da fama dos atletas, que se tornaram celebridades, e exploram o potencial da imagem em matérias fora do desempenho profissional do jogador, com foco nos acontecimentos de sua vida pessoal, ou as já conhecidas galerias de “musas” do mundo feminino com fotos de mulheres com pouca roupa ou somente de biquini. Em uma rápida pesquisa nos principais sites esportivos, encontramos várias matérias com essas características. No GloboEsporte.com, por exemplo, há a notícia “Arthur Nory faz pose de sunga e é zoado por Jade Barbosa na internet”. O título já deixa evidente que não há nada de importante na matéria; no entanto, virou pauta, pois os dois ginastas vestem trajes de banho na foto e exibem o corpo. Quando o jornalista publica este tipo de reportagem não espera que alguém leia o texto. Ele quer o clique no link somente para a visualização da imagem. Em um dos maiores portais digitais do País, o site UOL.com.br, na página de esportes, uma das notícias mais lidas é a “Irmã de Neymar faz sucesso no vestiário, diz Daniel Alves”. Sobre o rendimento dos dois jogadores em campo – Neymar e Daniel Alves – nada tem. O foco é todo na única imagem feminina do texto. E ainda, para prender o leitor na nota, há uma galeria de fotos da irmã de Neymar, Rafaella, com outros famosos. É importante frisar que, além da visualização, o tempo que cada leitor permanece na nota também contabiliza no momento de negociar a venda de espaços publicitários. No caso da matéria citada, ao colocar uma galeria de imagens, a intenção é prender o leitor por mais tempo na página, já que o texto é curto. É por isso que os editores recomendam colocar o maior número de inserções possíveis em uma reportagem na internet. Ao final de todo mês é divulgado para a empresa o tempo médio de permanência dos internautas nas matérias. A facilidade dos mecanismos de edição vai muito além da correção ortográfica, e colabora para este acréscimo de informação e entretenimento. O veículo de comunicação usa a mesma lógica de uma empresa que precisa tornar seu produto atraente e conseguir vendê-lo. Quanto mais qualidades, mais informações positivas, mais investimento em uma embalagem bonita que indique os atributos do produto: tudo isto irá colaborar para atingir o maior número de vendas possível. Com a notícia, o processo é o mesmo. A notícia como mercadoria precisa estimular o leitor ao clique, a consumi-la. Nesta linha de pensamento, façoo uso do que diz Wolfgang Haug, em sua teoria da estética da mercadoria. O autor afirma: Perante o mundo dos trabalhadores, como mundo de compradores e consumidores, o capitalista, portanto, como escreveu Marx nos Compêndios, “procura todos os meios para incitá-los ao consumo, dar novos estímulos às suas mercadorias e inculcar-lhes novas necessidades” – e este trecho é importante exatamente para discutir a questão da criação de novas necessidades (HAUG, 1997, p. 149). O jornalista utiliza todas as possibilidades para incitar o leitor a consumir a matéria, a consumir seu produto. O repórter se preocupa com a aparência, forma estética, conteúdo e mensagem, da mesma maneira que um empresário do ramo de alimentos se preocupa com a embalagem de seu produto. É uma maneira de cercar o internauta e incitá-lo, no mínimo, a clicar na matéria. Outro exemplo clássico são as chamadas matérias “iscas”, técnica muito utilizada para induzir o leitor a, pelo menos, clicar no link. Pode ser uma informação redigida pelo jornalista ou com origem em agências. O repórter omite informações importantes do título, sobre quem é o personagem ou qual o verdadeiro tema a ser discutido, e encerra com uma frase “veja quem é”, por exemplo, ou até “clique e leia”. É como se ele jogasse uma isca para instigar o leitor a clicar na nota e ir para o site. O conteúdo nem sempre é o melhor, com uma boa história. Mas isto não é relevante, o interesse é simplesmente em aumentar o número de visualizações. Podemos considerar este estilo como o mais marcante na produção do jornalismo esportivo na internet, e isso exemplifica perfeitamente a busca por cliques. No mundo do futebol, em especial no período que denominamos de “Janela de Transferência”, quando está aberta a temporada de negociação de jogadores pelos clubes, aparecem várias notícias sem fundamento objetivo, com especulações sobre vendas de atletas para outros times. O interesse de determinado clube, porém, nunca existiu. Grande parte do que é publicado não passa de boato, informação sem fonte ou fundamento. Já existe, inclusive, um tempo real sobre a troca de jogadores, com pequenas notícias. A finalidade é manter o site alimentado com novidades e prender a atenção do usuário, tendo em vista que a demanda é menor nesse período, já que todos os campeonatos estão encerrados e o que resta para o repórter é especular as possíveis transferências entre jogadores. Pautas caça-cliques desvalorizam o trabalho do profissional de comunicação. Uma matéria desse nível não exige conhecimento ou alguma reflexão por parte do jornalista. É um texto raso, sem profundidade, com um título chamativo ou fotos apelativas, com o objetivo de trazer retorno financeiro para a empresa, o que encontra fundamento no pensamento do britânico Paul Bradshaw de que qualquer um pode fazê-lo. 3.1.4. A Vida Privada dos Atletas Celebridades O jornalismo esportivo cria personagens a todo o momento. Heróis, vilões e guerreiros estão presentes em toda competição. Dependendo do resultado ou do desfecho da partida, certo personagem se torna um mito, consagrado pela imprensa e pela torcida. A partir deste ponto, todos querem seguir os passos do atleta. Procuram a história de sua infância, o local de nascimento, os primeiros conselhos, os dramas, os familiares e as namoradas. A intenção é quase a de se construir um exemplo para a sociedade, uma pessoa com a qual a população se identifique e se inspire, e, principalmente, compre a ideia de ídolo. A fama faz dele uma celebridade e toda sua vida privada torna-se alvo de atenção da imprensa. Para Edgar Morin, na obra Cultura de Massas do Século XX, este endeusamento das personalidades acontece por interesse da própria cultura de massa. O autor afirma que as celebridades dos dias atuais são os novos deuses do Olimpo, inclusive por todo o tratamento recebido tanto por parte da imprensa quanto dos fãs. Morin diz: Esse novo Olimpo é, de fato, o produto mais original do novo curso da cultura de massa. As estrelas de cinema já haviam sido anteriormente promovidas a divindades. O novo curso as humanizou. Multiplicou as relações humanas com o público. Elevou ao estrelato as cortes reais, os playboys, e até certos homens políticos (MORIN, 2002, p. 106). A partir do interesse da cultura de massa, o produto começou a ser explorado de maneira muito intensa. O jornalismo esportivo na internet passou a produzir conteúdos exclusivos sobre a vida dos jogadores celebridades. Aquele material que era publicado somente por portais de fofocas ou sobre famosos, também começou a ser produzido pelos periódicos de esporte, e cada vez com mais frequência. O motivo desta nova pauta, que vai além do desempenho profissional do atleta, se deve ao enorme potencial de audiência. A vida pessoal dos novos deuses do Olimpo atrai grandes quantidades de cliques, a ponto de alguns portais focarem todos os dias em matérias deste nível. Os jornalistas esportivos procuram informações sobre a vida privada, sobre qual restaurante ou balada o atleta frequenta, suas companhias, o tipo de roupas, o corte de cabelo, tudo que possa ser explorado em outras reportagens e servir de inspiração, exemplos – negativos ou positivos – para outros aspirantes a jogadores profissionais. Patrícia Rangel aponta para o jogador Neymar, em como sua personalidade encaixa-se perfeitamente nesta condição de novo deus do Olimpo e destaca o potencial comercial do movimento neymarmania. Rangel diz: Desta forma, o jovem jogador Neymar encaixa-se perfeitamente na contextualização acima, é um ídolo pós-moderno, um jogador celebridade, é vendável, está no imaginário de consumo, movimenta milhões com o movimento da neymarmania, é imitado, idolatrado, provoca histeria das tietes, acima de tudo é um herói olimpiano. Na condição de ídolo/herói é geralmente protagonista do espetáculo esportivo, sua presença torna-se imprescindível, afinal, sem ele o jogo “perde a graça”, deixa de ser atrativo e por consequência, provoca menos rentabilidade. A imprensa sabe disso e constrói discursos que colaboram com a condição de ídolo/herói (RANGEL, 2013, p. 3-4)² . Ao identificar um produto vendável, o jornalismo esportivo on-line trabalha nas mais variadas pautas sobre a celebridade. Qualquer atitude do jogador, dentro ou fora de campo, resulta em reportagem e, na maioria dos casos, explicita o sensacionalismo que domina as páginas esportivas das plataformas. É o caso da home de esportes do portal UOL, com destaque para a notícia “Festa de Medina tem surfista ciumento, Neymar até o chão e belas mulheres”, que procura contar tudo o que aconteceu na festa de aniversário do surfista Gabriel Medina, mas com o foco no comportamento de Neymar, o principal jogador de futebol do Brasil. Há vídeos do atacante do Barcelona dançando e cantando, e ainda há uma galeria com algumas das belas mulheres que compareceram à celebração em uma casa noturna na cidade de Maresias, litoral de São Paulo. No GloboEsporte.com, a festa também foi digna de matéria e destaque na página principal, com o título: “Aniversário de Medina reúne Neymar, Douglas Costa e beldades”, trazendo vídeos com entrevista do astro do surfe e, claro, uma galeria de fotos com as mulheres e celebridades presentes. Estas matérias têm um potencial de audiência muito grande. Elas atraem uma enorme quantidade de cliques e, por este motivo, permanecem nas posições de maior destaque dos websites durante todo o dia. Alguns portais já possuem a característica de serem majoritariamente sensacionalistas, com o foco nas pautas de bastidores e fofocas do mundo dos famosos, como é o caso do UOL.com.br. Por ser um dos principais sites do País, o portal UOL exerce uma influência nos seus parceiros, que acabam optando também por matérias caça-cliques. É o que acontece na parceria entre UOL.com.br e ESPN.com.br. A marca ESPN, em especial a brasileira, é reconhecida pelo jornalismo competente e correto. Nos últimos meses, no entanto, após a parceria com o UOL, a página virtual da ESPN tem aumentado a quantidadede reportagens caça-cliques e sensacionalistas, em razão de o site UOL reproduzir a notícia na sua página principal, o que alavanca a audiência. Portanto, uma matéria do ESPN.com.br passa a ser considerada boa se ela recebe destaque também no UOL.com.br, e não necessariamente apenas pelo seu conteúdo e produção jornalística. É um novo conceito de boas reportagens e que ganha importância nas reuniões de pauta, principalmente por questões econômicas. A exploração da imagem do atleta é feita de acordo com os acontecimentos de sua vida profissional. Para um jogador de futebol, sua imagem está diretamente relacionada com a sua perfomance nas partidas. E a identidade começa a ser criada pela imprensa já no texto sobre o jogo. É o caso do goleiro Júlio César no duelo das oitavas de final da Copa do Mundo de 2014. Na ocasião, o Brasil venceu o Chile nos pênaltis, com duas defesas decisivas do camisa 1 da Seleção Brasileira. Nos relatos da GazetaEsportiva.net, GloboEsporte.com, ESPN.com.br e do portal Folha de S.Paulo, Júlio César é definido como o herói da classificação pelos repórteres. Os quatro repórteres o classificam como o salvador do Brasil, que superou o trauma da falha cometida no Mundial da África do Sul – quando o Brasil foi eliminado para a Holanda e Júlio César errou a bola no gol da vitória da equipe europeia –, e teve sua redenção perante o povo brasileiro no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte. A partir do apito final do árbitro, principalmente no dia seguinte, surgiram matérias de bastidores sobre o “novo herói brasileiro” que mais abordaram sua vida particular do que a atuação nos gramados. Uma, em especial, foi destaque de portais como ESPN e Folha de S.Paulo. No site ESPN.com.br, a notícia foi publicada com o título “Herói da classificação, Júlio César curte folga comendo pastel na feira”, enquanto na Folha de S.Paulo foi ao ar como “Herói das oitavas, Júlio César curte folga em feira carioca”. Ambas as reportagens são curtas, com parágrafos curtos e a foto do jogador, postada em uma rede social de sua esposa. A publicação do site ESPN possui apenas dois parágrafos, já a da Folha de S.Paulo se prolonga um pouco mais e descreve também as homenagens que o goleiro recebeu dos outros companheiros de equipe. A reportagem de Júlio César comendo pastel na feira se originou da rede social digital de sua esposa, a modelo e atriz Susana Werner. Ela postou uma foto do atleta comprando pastel, que repercutiu em toda a imprensa brasileira. Matérias com origens em redes sociais digitais já viraram lugar comum no meio jornalístico. Inicialmente, o Twitter era a principal fonte de informações, até pelo fato de ser bastante dinâmico e do conteúdo ter que ser redigido, obrigatoriamente, em até 140 caracteres. Com o tempo, o Facebook e o Instagram viraram as grandes referências. Os dois últimos são as redes que mais crescem na internet e também as mais utilizadas pelos jogadores celebridades. Para se realizar uma postagem no Instagram é obrigatória a publicação de uma foto, e este é o ponto principal que ganha destaque nos portais esportivos e sites de fofocas. Os jogadores compartilham imagens de sua vida privada, os jantares, os carros de luxo, as amizades, e tudo isto é reproduzido pelos sites esportivos em formato de matéria jornalística. É o lado ostentação da vida do atleta, e os veículos de comunicação já noticiam as publicações e criam mais pautas relacionadas às redes sociais, como a “Cinco boleiros mais seguidos somam 110 mi de fãs em rede social; Neymar lidera”, do site GloboEsporte.com, cujo conteúdo se resume a quantidade de seguidores de cada jogador. Nada tem sobre o desempenho profissional nos gramados. Menos de um mês depois desta matéria, o portal do Globo Esporte publicou mais uma reportagem grande oriunda do Instagram, intitulada “Cristiano Ronaldo vira fã de selfies e desbanca Neymar na rede social”. A matéria contém diversas fotos publicadas pelo astro do Real Madrid, incluindo selfies, carros de luxo e celebridades. As notícias caça-cliques ganham cada vez mais espaço em todo o cenário jornalístico na internet, e é bastante perceptível o crescimento deste tipo de reportagem nos sites esportivos. O que era informação somente para portais sobre famosos, como o Ego, já se tornou relevante para as redações de esporte. A produção do jornalismo esportivo eletrônico se adapta às constantes mudanças que o ambiente digital traz. Não bastam mais análises e opiniões táticas do desempenho dos jogadores em campo, é preciso levar ao consumidor a vida privada dos atletas, já que a audiência é o principal objetivo a ser atingido. Para isso, a técnica de caça-clique tem se mostrado eficaz na internet, já que requer pouco texto – colaborando para agilidade – e pouco conteúdo a ser apurado e atrai muitas visualizações. A volatilidade das notícias faz parte deste universo, e as redes sociais colaboram muito para isto, já que há novas publicações em um curto espaço de tempo. A todo o momento é preciso abastecer o website e dar ao leitor o maior número de opções possíveis para clicar em uma nota. O meio on-line transformou bastante a produção do jornalismo esportivo na internet e trouxe a necessidade de publicar notícias praticamente 24 horas por dia. 3.2. Liquidez das Notícias Nas últimas linhas, discuti a demanda que o ambiente digital trouxe ao jornalismo esportivo. Diferente do papel, na internet não há limitação do espaço físico e, obviamente, não precisa ser impresso. Como consequência, o trabalho dobrou e a atualização constante tornou-se obrigação. Se antes uma notícia durava por todo o dia, com a tecnologia ela dura poucas horas, quando não por minutos. O usuário se acostumou a consumir informações a todo o momento. As redes sociais digitais confirmaram esta nova tendência, os portais publicam inúmeras notícias a cada hora. Várias delas são desdobramentos de assuntos que rendem audiência. Podemos entender esta mudança na linha de pensamento do sociólogo Zygmunt Bauman. O polonês aborda a questão da liquidez na sociedade moderna. Ele diz: A vida líquida e a modernidade líquida estão intimamente ligadas. A vida líquida é uma forma de vida que tende a ser levada à frente numa sociedade líquido- moderna. “Líquido-moderna” é uma sociedade em que as condições sob as quais agem seus membros mudam num tempo mais curto do que aquele necessário para a consolidação, em hábitos e rotinas, das formas de agir. A liquidez da vida e a da sociedade se alimentam e se revigoram mutuamente. A vida líquida, assim como a sociedade líquido-moderna, não pode manter a forma ou permanecer em seu curso por muito tempo. (BAUMAN, 2005, p. 7). A vida na sociedade, de acordo com a metáfora utilizada por Bauman, tornou-se líquida, e o jornalismo, especificamente o esportivo, acompanhou este caminho. Os smartphones, tablets e a disponibilidade de internet banda larga em vários lugares, tudo isto colaborou para o imediatismo. Uma informação já não tem mais a consolidação que tinha anteriormente, e a concorrência colabora para acentuar a situação. Se uma novidade é publicada por um site, em questão de segundos o concorrente a reproduz e, com certeza, irá em busca de novas informações para dar continuidade à história. A área esportiva é recheada de possibilidades para novas matérias. A imprensa acompanha o cotidiano dos clubes de futebol e todos os dias colocam reportagens no ar sobre o que aconteceu com um determinado time, ou com vários deles. Mesmo que não se trate de algo relevante, o importante é a atualização. Para exemplificar a liquidez no esporte, o repórter faz uma nota sobre o treino da manhã de segunda-feira. Caso o da parte da tarde seja praticamente igual, ele redige novamente uma notícia. Isso quando não o faz em tempo real e escreve ao vivo. Para concretizar este pensamento, observei com a devida atenção o período de transferências de jogadores do mercado brasileiro ao longo de janeiro de 2016, e é surpreendente como uma notícia importante não se sustenta por pouco mais que algumas horas.Neste caso, para desenvolver a matéria, o repórter precisa apurar se houve ou não interesse por parte do clube comprador e o interesse do atleta em mudar de equipe, além do acordo sobre valores entre as partes. A reportagem “Schalke 04 prepara proposta para tirar Renato Augusto do Corinthians” foi publicada no portal GloboEsporte.com às 12h40 e atualizada às 13h33. Eleito melhor jogador do Campeonato Brasileiro de 2015, uma possível transferência de Renato Augusto desperta interesse de todo o País, portanto, é uma das informações mais relevantes do noticiário esportivo da semana. Menos de duas horas depois, entretanto, às 15h14 e com atualização às 15h20, surge a notícia “Interesse do Schalke 04 não seduz Renato Augusto; meia deve renovar”²¹ também no GloboEsporte.com. A informação de uma possível venda do atleta durou menos de duas horas, o que poderia ter sido a notícia mais relevante do mercado nacional do futebol não durou nem um dia completo. As notícias perdem o valor muito rápido no mundo líquido da internet. O jornalista esportivo busca informações a todo instante. Logo que publica sobre uma negociação envolvendo dois clubes, ele já procura novidades para um possível desfecho e para se prevenir contra os veículos concorrentes na briga pelo furo. Quanto mais rápido a nota for para o ar, maior a chance de estar à frente do concorrente. O relato da partida de futebol de domingo à tarde, geralmente às 16h, já não é o suficiente poucas horas depois do término do jogo. O leitor espera as repercussões sobre o confronto. Entrevistas dos jogadores e treinadores, a avaliação de especialistas com relação ao desempenho da equipe, além da expectativa para o próximo embate, tudo isso deve ser publicado pouco tempo após o apito final do árbitro. Da redação, um jornalista se concentra nas entrevistas da TV, enquanto outro tem o foco direcionado para o rádio. É um esforço enorme e que perde o valor rapidamente. Bauman trabalha a ideia de que em milésimos tudo se transforma e, desta forma, perde a essência. Assim como apontei, uma reportagem bem elaborada, que levou dias para ficar pronta, pode perder relevância em questão de minutos se não der audiência, se for publicada uma matéria do concorrente contradizendo o tema principal, ou até uma matéria de outro portal mais completa, mesmo que seja aproveitando o gancho da primeira. O polonês ainda afirma que: Numa sociedade líquido-moderna, as realizações individuais não podem solidificar-se em posses permanentes porque, em um piscar de olhos, os ativos se transformam em passivos, e as capacidades, em incapacidades. As condições de ação e as estratégias de reação envelhecem rapidamente e se tornam obsoletas antes de os atores terem uma chance de aprendê-las efetivamente. (BAUMAN, 2005, p. 7). Na produção do jornalismo esportivo na internet, a notícia envelhece rapidamente. Aliadas à agenda da mídia, novas matérias vão ao ar a todo instante, redigidas pelo repórter ou originadas nas agências de notícias, que enviam o material pronto para ser publicado. É neste cenário também que as pautas caça-cliques fazem certo sentido, já que as informações relacionadas às competições nem sempre sustentam a maior parte da audiência. Para reforçar o pensamento de liquidez no jornalismo esportivo, uma prática se tornou comum entre os veículos de comunicação – ao obter um dado relevante, geralmente, divide-se a matéria em várias notas. A principal intenção é não gastar todo o conteúdo em uma única matéria e ter assunto para despertar a curiosidade do leitor até o desfecho. Outro motivo provável, que Paulo Vinícius Coelho já aborda em sua obra Jornalismo Esportivo (2003), é a divisão da notícia em várias notas ou pequenas matérias para aumentar o volume de informação entrando no ar, e transmitir a sensação de que se está à frente do concorrente. A notícia não precisa ser muito longa. Como característica do ambiente eletrônico, ela ficou mais curta, leve e de leitura rápida. Bauman, mais uma vez, sinaliza a leveza como uma peculiaridade do mundo líquido: Os fluídos se movem facilmente. Eles “fluem”, “escorrem”, “esvaem-se”, “respingam”, “transbordam”, “vazam”, “inundam”, “borrifam”, “pingam”, são “filtrados”, “destilados”; diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos - contornam certos obstáculos, dissolvem outros e invadem ou inundam seu caminho [...] A extraordinária mobilidade dos fluídos é o que os associa à ideia de “leveza” (BAUMAN, 2001, p. 8). A produção do jornalismo esportivo na internet apresenta este dinamismo da modernidade líquida. O imediatismo, a constante atualização das páginas, o ritmo acelerado da redação, tudo contribui para a liquidez das notícias. Elas se perdem nessa enxurrada de informação. O trabalho do jornalista sofre para se fortalecer, já que o mundo líquido aumenta a dificuldade para se consolidar. IMAGEM 20 - observe os horários das postagens de cada notícia: à esquerda, no ESPN.com.br; à direita, Gazetaesportiva.net²² A imagem acima reflete esta fluidez, proposta por Bauman, no jornalismo esportivo na internet. A notícia seria uma espécie de líquido que escorre sem parar. São diversas matérias publicadas em um curto espaço de tempo, algumas veiculadas ao mesmo tempo, com o mesmo horário de publicação, inclusive. O imediatismo do ambiente digital provoca esta fluidez em níveis cada vez maiores. Bauman ainda aponta que uma das características da vida líquida é que o consumidor está a todo o momento sendo impactado por novos produtos e também à procura de novas mercadorias: Não importa a intensidade com que se concentre no objeto do desejo, o olho do consumidor não pode deixar de dar uma espiada no valor de mercadoria do sujeito que deseja. Vida líquida significa constante auto-exame, autocrítica e autocensura. A vida líquida alimenta a insatisfação do eu consigo mesmo (2005, p. 19). Ao estabelecermos um parâmetro com a produção do jornalismo esportivo digital, essa constante liquidez das notícias também pode ser considerada uma estratégia do veículo de comunicação, no seguinte sentido: ele procura atingir o internauta a todo o momento, entregando os mais diversos tipos de mercadoria para ser consumida. A insatisfação atinge em ambos os lados, do produtor ao consumidor. Isso estimula o aumento de produção de conteúdo. O leitor mostra sinais de estar adaptado à mecânica do ambiente digital. São tantas matérias disponíveis para a leitura, muitas de temas similares, que ele não se sente obrigado a pagar por informação. Com a liquidez da internet, o usuário mudou seu comportamento como consumidor. Ter acesso ao objeto é o que mais importa em diversos casos, muito mais que ter realmente a posse do mesmo. O jornalismo esportivo na internet enfrenta problemas financeiros para lidar com esta situação. Escrevo sobre este tema no próximo item. 3.3. A Pressão Econômica na Produção do Jornalismo Esportivo Está claro que um dos principais motivos para a definição de pautas é a audiência, por mais que os veículos de comunicação procurem não deixar isto evidente. Há matérias com cunho social, que refletem nas estruturas de uma sociedade, mas existem também as inúmeras reportagens sensacionalistas, com o único objetivo de gerar audiência, em especial no jornalismo esportivo na internet, como demonstrei ao longo de toda a pesquisa. O jornal é gerido como se fosse uma empresa de qualquer outro segmento. Não importa se a plataforma é a TV, a internet ou a versão física, para um empreendimento sobreviver é preciso ter lucro. Pierre Bourdieu já trabalhava essa ideia do jornalismo estar sob a pressão constante do cenário econômico. O autor francês argumenta: O universo do jornalismo é um campo, mas que está sob a pressão do campo econômico por intermédio do índice de audiência. E esse campo muito heterônomo, muito fortemente sujeito às pressões comerciais, exerce, ele próprio, uma pressão sobre todos os outros campos, enquanto estrutura (BOURDIEU, 1997, p. 77). A internet trouxe ao jornalismo o método de alcançar altos índicesde audiência através das matérias caça-cliques. Este mecanismo, porém, já não tem sustentado mais os planos financeiros dos jornais, e as notícias de fechamento de redações e demissões em massa têm aparecido com certa frequência, o que evidencia as dificuldades econômicas pelas quais os veículos de comunicação estão passando. O funcionário subordinado é submetido cada vez mais a longas jornadas de trabalho, enquanto o salário não reflete todo o esforço da demanda. Ainda como uma forma até desesperada e em busca de alternativas para lucrar, notícias sensacionalistas são publicadas diariamente no sites esportivos de todo o País. A relação entre sensacionalismo e jornalismo sempre existiu e, como interpreta Bordieu, esta conexão acontece por se tratar de uma parceria comercial, além de ganhar fatias de mercado da concorrência: E a mesma busca do sensacional, portanto do sucesso comercial, pode também levar a selecionar variedades que, abandonadas às construções selvagens da demagogia (espontânea ou calculada), podem despertar um imenso interesse ao adular as pulsões e as paixões mais elementares (com casos como os raptos de crianças e os escândalos capazes de suscitar a indignação popular), ou mesmo formas de mobilização puramente sentimentais e caritativas ou, igualmente passionais, porém agressivas e próximas do linchamento simbólico [...] (BOURDIEU, 1997, p. 73). No jornalismo esportivo on-line há uma infinidade de temas que podem ser explorados de maneira sensacionalista e causar enorme interesse por parte dos leitores, mesmo que por pouco. Por envolver paixão e fanatismo, é comum tentar atrair o consumidor com reportagens especulativas sobre transferências de jogadores e treinadores, informações sobre a vida pessoal, entre outros assuntos que podem gerar interesse não somente nos torcedores, mas também nos leitores comuns que gostam de fofocas do mundo das celebridades. Por exemplo, uma nota sobre uma possível namorada do jogador Neymar tem potencial para atrair cliques de milhares de leitores que mal acompanham esportes ou simplesmente o futebol. É claro que a notícia foge da produção do jornalismo esportivo, como manda a cartilha, no entanto o que se procura com isso é alavancar os números de visualizações e valorizar a matéria com forte poder econômico. O mesmo raciocínio vale para as notícias “iscas”, em que se omite a informação principal do conteúdo e colocam-se apenas detalhes para instigar o usuário a clicar e abrir a reportagem, como vimos anteriormente. Muitas dessas notícias são sobre histórias pessoais de algum atleta que envolve outras celebridades. Deixa-se o lado esportivo e foca-se no lado privado, como mostrei em vários destaques dos portais, chamadas como “amigos de Neymar” ou “ele já foi amigo de Neymar, hoje vende roupas. Veja quem é”. O conteúdo não possui grande relevância, desde que o objetivo de gerar visualizações seja alcançado. Os editores precisam de discernimento no momento de escolha de quais matérias terão destaque na página principal do site. Alguns portais sobrevivem somente do sensacionalismo em quase todos os blocos de notícia. Nos três sites específicos em esportes escolhidos para esta obra – GloboEsporte.com, ESPN.com.br e GazetaEsportiva.net –, percebe-se que na home ainda há a preocupação com reportagens de cunho somente esportivo no geral, mas sempre há espaço para uma nota sensacionalista. O editor precisa entender que o seu papel deve ir além da busca pela audiência. Ele precisa ter a noção de sua importância frente à sociedade e frente aos leitores. Uma reportagem investigativa sobre a corrupção na Confederação Brasileira de Basquete pode não render tantas visualizações, mas é necessário compreender a importância dela para o esporte, e por isso ela não deve perder espaço na página principal para matérias mais fúteis. Estes são exemplos de como a produção do jornalismo esportivo na internet deixa às vezes muito a desejar em relação um jornalismo de tipo sério e ético. A partir do momento em que o conteúdo não é o foco principal de uma reportagem, é possível afirmar que os valores estão invertidos, uma vez que o jornalista está trabalhando totalmente sob a pressão do viés econômico. O editor, na maioria dos casos, também cede a essa pressão e acata as decisões comerciais tomadas pela empresa. O departamento comercial, no geral, não está interessado de fato no tema da matéria, o objetivo é que a audiência seja a maior possível, pois é fator determinante no poder de barganha para se conseguir boas vendas de publicidade. 3.3.1. Publicidade: Única Fonte de Renda do Jornalismo On-line É fato antigo que a maneira mais comum de o jornal obter lucro é através da venda de espaços publicitários. Impresso ou digital, há lugares reservados para o setor comercial realizar a negociação com os anunciantes. Com o natural crescimento do capitalismo, aumentou também a quantidade de produtos, e a concorrência entre eles foi além da gôndola dos mercados. A busca por uma posição dedestaque, mais fácil de ser visualizada pelo cliente, começou a ser mais um motivo de competição, em que a lógica para ser o vencedor é simples: quem oferece mais dinheiro, vence. Os websites têm disponibilizado as mais diversas formas de obter patrocínio em suas notícias. São espaços localizados nas extremidades, pop-ups, banners enquanto a notícia é lida, embaixo, em cima, por todo o espaço disponível em tela. Uma poluição visual que, na maioria dos casos, incomoda a leitura. Para compreender a lógica aplicada ao jornalismo esportivo eletrônico, recorro ao auxílio do filósofo francês Baudrillard, que afirma: A publicidade constitui no todo um mundo inútil, inessencial. Pura conotação. Não tem qualquer responsabilidade na produção e na prática direta das coisas e contudo retorna integralmente ao sistema dos objetos, não somente porque trata do consumo, mas porque se torna objeto de consumo (BAUDRILLARD, 2012, p. 174). Embora Baudrillard afirme que a publicidade não tem responsabilidade na criação do produto, ela interfere de outra maneira no meio jornalístico. Na medida em que uma determinada pauta gera um alto número de visualizações – principal forma de mensuração de audiência na plataforma digital –, mais valorizado se torna o site no momento da negociação dos espaços publicitários. Seguindo este pensamento, algumas matérias são redigidas apenas por significar grande quantidade de cliques. Não importa se o conteúdo é apelativo, antiético ou é relacionado à vida particular de alguma celebridade, a nota é publicada com a intenção simplesmente de obter ganhos de audiência e, consequentemente, colaborar no futuro como poder de barganha. Além do espaço comercial que lhe é reservado, a publicidade conseguiu um novo jeito de expor seu produto no meio jornalístico. A empresa envia os produtos, em forma de press kit gratuito, para os repórteres especializado na área de interesse. O jornalista tem a possibilidade de experimentar a mercadoria, descobrir seus pontos positivos e negativos, e redigir um texto apenas sobre o produto. Se ele gostou, ponto positivo para a atitude da empresa, que obterá mais uma avaliação benéfica para a mercadoria e não terá custos com a compra de mais locais para propagandas. Obviamente, a empresa está sujeita também a uma análise negativa. Embora haja comum interesse em ambas as partes, este comportamento é antiético na produção do jornalismo. Existe ainda mais uma parceria entre estes dois profissionais de comunicação que interfere na criação de pautas. Diferente da anterior, esta é mediada por dinheiro. Antes de me aprofundar no assunto, constato em Baudrillard que “a publicidade tem por tarefa divulgar as características deste ou daquele produto e promover-lhe a venda. Esta função objetiva permanece em princípio sua função primordial” (2012, p. 174). Os publicitários encontraram mais uma maneira de comunicar detalhes sobre seus produtos, de forma indireta. Através de posts patrocinados, o profissional de publicidade oferece dinheiro e seu item aojornalista e, em troca, deseja uma reportagem listando os benefícios e características, despertando o interesse do leitor em adquirir o produto. O objeto lhe é vendido mas a publicidade lhe é “ofertada”. O jogo publicitário reconcilia-se assim habilmente com um ritual arcaico de dom e de presente, ao mesmo tempo que com a situação infantil de gratificação passiva pelos pais. Todos os dois visam transformar em relação pessoal a relação comercial pura (BAUDRILLARD, 2012, p. 181). É sob esta ótica explicada por Baudrillard que posso inserir boa parte da imprensa praticada no ambiente on-line. O jornalismo corre o risco de se tornar refém da publicidade e esta, por sua vez, enxerga nele uma oportunidade maior de negócios para atingir suas metas. No jornalismo esportivo, a propaganda também está presente e faz parte do espetáculo. Assim como ela financia matérias jornalísticas, patrocina igualmente os eventos esportivos. Todos os fatores citados influenciam na produção da informação esportiva na internet. O espetáculo, a publicidade, tudo envolve a maneira como o redator produz a matéria, como tenta transmitir para o público aquilo que acontece por meio de palavras, imagens e vídeos. Assim como o jornalismo vive em constante adaptação para o digital, a publicidade também acompanha e procura novas estratégias de expor o produto e impactar o consumidor. O repórter nada pode fazer se o pop-up ou o vídeo abre em cima da matéria e atrapalha a leitura. Ele sequer participa da decisão sobre onde entrará uma nova propaganda. A publicidade já financia programas esportivos na internet da mesma maneira que faz na televisão. Com o aumento de transmissão por serviços de streaming – transferência de imagem via internet –, cresceu a oportunidade de os veículos de comunicação ganhar em patrocínios. A empresa cria uma nova atração e fecha parcerias com outras companhias para terem seu produto exposto. No mundo digital do jornalismo esportivo, a internet fez da publicidade a principal fonte de renda. Diferentemente dos anos anteriores, em que era possível aumentar a receita através de assinaturas, os jornais se encontram reféns de anúncios publicitários, a ponto de optar pelo extremo sensacionalismo nas reportagens para atingirem as suas metas. A dificuldade financeira acontece pelo novo comportamento do consumidor de notícias. O leitor se acostumou a encontrar todas as informações de forma gratuita na internet e não parece, por enquanto, estar disposto a pagar pelo conteúdo de notícias. Os jornais ainda não descobriram uma maneira de convencê-lo a fazer isto, ou até mesmo oferecer um produto exclusivo que realmente desperte a vontade do leitor de se tornar um assinante. Com exceção da publicidade, um novo modo econômico ainda não se consolidou no jornalismo on-line. Discuto a abordagem do novo comportamento do consumidor a seguir. 3.4. A Era do Acesso No decorrer deste livro, mostrei como o meio digital interferiu na produção do jornalismo esportivo na internet. O ritmo na redação triplicou de velocidade, a criação de pautas sofreu alterações e se adaptou ao ambiente eletrônico, em especial aquelas que garantem elevados números de audiência. A liquidez das notícias modificou a forma de trabalho do profissional de comunicação. São inúmeras notas publicadas a todo instante. Por conta do imediatismo, a qualidade dos textos pode sofrer uma queda. Nesta linha de raciocínio, o veículo já não exige tanta capacidade dos seus redatores e, por isso, não oferece altos salários, o que afasta os bons jornalistas, geralmente. Não é somente por este motivo que as empresas não oferecem melhores pagamentos. Os veículos de jornalismo na internet, em sua maioria, ainda buscam novas soluções para aumentar o retorno financeiro. A técnica de caça- clique não garante todo o retorno econômico necessário para se manter no mercado. E para aumentar ainda mais o desafio, o comportamento do consumidor de informação mudou bastante com o advento da tecnologia. Ele não está mais acostumado a pagar para ler reportagens, diferente do que acontecia quando existiam somente os jornais e revistas impressos. O economista Jeremy Rifkin aborda esta questão em seu livro A Era do Acesso (2001). Para o americano, a propriedade está perdendo lugar para o acesso. Ele afirma: Na nova era, os mercados estão cedendo lugar às redes, e a noção de propriedade está sendo substituída rapidamente pelo acesso. As empresas e os consumidores estão começando a abandonar a realidade central da vida econômica moderna – a troca de bens materiais entre vendedores e compradores de mercado (RIFKIN, 2001, p. 4). O pensamento de Rifkin combina com o momento do jornalismo na internet. Os portais se encontram em dificuldade econômica pelo fato de ainda não terem descoberto outras fórmulas para se manterem rentáveis, ou, como se diz, um novo modelo de negócio. A publicidade – aliada à questão da audiência – é o caminho mais comum para gerar receita. A venda de espaços publicitários garante a maior parte da renda. Entretanto, isto não tem se mostrado suficiente, tendo em vista a quantidade de jornalistas demitidos nos últimos meses, além do fato de grandes jornais estarem encerrando as atividades. O consumidor encontra tudo o que procura em um sem-número de sites. No campo esportivo, por exemplo, a mesma notícia sobre o São Paulo Futebol Clube pode ser lida tanto na GazetaEsportiva.net, quanto no ESPN.com.br ou no GloboEsporte.com, como é o caso da reportagem em que o clube paulista ultrapassou o Santos em números de sócios torcedores. Se um veículo cobra por informação, o leitor tem a possibilidade de recorrer aos sites concorrentes e fazer a leitura do que deseja de forma gratuita. Na Era do Acesso, como designada por Rifkin, para este novo tipo de usuário basta estar conectado para atingir seus objetivos. A propriedade e o vínculo, em parceria com a liquidez da mercadoria, perdem o valor. Rifkin diz exatamente isto em: A Era do Acesso também está trazendo consigo um novo tipo de ser humano. Os jovens da nova geração “mutável” sentem-se muito mais à vontade em dirigir negócios e se engajar em atividade social nos mundos do comércio eletrônico e do ciberespaço, e eles se adaptam facilmente aos vários mundos simulados que compõem a economia cultural [...] Para eles, o acesso já é uma forma de vida, e embora a propriedade seja importante, estar conectado é ainda mais importante (RIFKIN, 2001, p. 10). O economista americano afirma que uma das soluções parciais para este novo tipo de comércio no ambiente digital é novamente a assinatura, a principal receita na época dos impressos. Embora a publicidade seja grande parte da renda, as assinaturas digitais podem ser relevantes na parte econômica. Alguns portais, como Folha de S.Paulo e o Estado de S.Paulo já possuem um limite de matérias lidas gratuitamente por mês. Para se ter acesso a todo conteúdo, é preciso pagar uma mensalidade. No campo esportivo, porém, não há nenhum site específico que cobre por informação. E não há um movimento que aponte para esta tendência, por enquanto. Para otimizar o acesso, os sites especializados em esportes já possuem versões para celulares e tablets que facilitam a navegação e a leitura. O GloboEsporte.com dispõe de um aplicativo que contém todo conteúdo do portal e é gratuito. O ESPN.com.br também tem o suporte de dois aplicativos: um voltado apenas para resultados de jogos, com poucas matérias, e o outro, denominado Watch ESPN, que possibilita assistir à programação dos canais ESPN no smartphone. Ambos podem ser adquiridos de graça. O GazetaEsportiva.net é o único, dos quatro portais estudados, que não possui aplicativo, contando apenas com a versão mobile do site, igual aos concorrentes. As empresas de comunicação se preparam para este novo tipo de relação entre o jornalismo e os leitores. Rifkin fala sobre o novo tipo de negócio que acontece no ciberespaço: O novo comércio ocorre no ciberespaço, um meio eletrônico muito distante do mercado delimitado geograficamente. A mudançano comércio primário do espaço geográfico para o ciberespaço representa uma das maiores mudanças na organização humana e precisa ser entendida adequadamente, na medida em que traz consigo grandes mudanças na própria natureza da percepção humana e da comunicação social (RIFKIN, 2001, p. 13). É preciso adaptar-se aos novos mecanismos que colaboram para a produção do jornalismo esportivo na internet. Os meios de aumentar o acesso são muitos, entretanto, o desafio está em aumentar o retorno financeiro. O GloboEsporte.com, por exemplo, aposta no game Cartola, que, como explicado no capítulo anterior, consiste em escalar hipoteticamente os jogadores que jogarão na próxima rodada e, dependendo da atuação destes, rende pontos e prêmios para os melhores internautas. O ESPN.com.br também tem apostado em jogos do mesmo estilo Cartola, mas sobre futebol internacional, basquete e futebol americano. É um meio inteligente de incentivar o consumidor a ler mais notícias, pois o obriga a estar por dentro de tudo que acontece nos clubes, quem joga, quem está fora, as lesões, tudo para montar a melhor escalação e somar mais pontos. O leitor se vê obrigado a consumir o conteúdo do portal e concorre a diversos prêmios ao longo da temporada. É inevitável afirmar que a internet trouxe inúmeros pontos positivos para o jornalismo esportivo digital, como, entre outras coisas, a possibilidade de conversão de várias mídias, como vídeos e áudios, além do texto. Já a Era do Acesso apresentou um novo modelo de compra, visivelmente consolidado nos dias de hoje. São poucos os leitores dispostos a pagar por informação, e o material fornecido pelas empresas já não costuma possuir um selo de alta qualidade. A dificuldade de conquistar o cliente é evidente, mas esse cliente passou a ser cada vez mais disputado. Alguns portais apostam em colunistas como maneira de fidelizar o leitor, por isso investem em tirar jornalistas renomados de portais concorrentes, pagam bons salários e esperam que o retorno esteja ainda na relação entre publicidade e audiência. Os obstáculos surgidos na Era do Acesso geram para o jornalista uma boa dose de preocupação na hora de definir os tipos de pauta, escrever e publicar. A pressão econômica com o fim das assinaturas aumentou, e o lado da indústria cultural de trabalhar com produtos de sucesso garantido – os best-sellers – ganha um peso extra. Bourdieu segue este raciocínio e afirma que o jornalista tem a tendência de escolher o critério da audiência. O francês diz que [...] o campo jornalístico está permanentemente sujeito à prova dos vereditos do mercado, através da sanção, direta, da clientela ou, indireta, do índice de audiência [...]. E os jornalistas são sem dúvida tanto mais propensos a adotar o ‘critério do índice de audiência’ na produção (1997, p. 106). A mentalidade de audiência é a principal razão que afeta a produção do jornalismo na internet, e a área esportiva tem mostrado claramente essas alterações. CONSIDERAÇÕES FINAIS São muitas as possibilidades para se estudar a produção do jornalismo esportivo na internet. Quando esta pesquisa se iniciou, os portais brasileiros estavam empenhados em utilizar todos os recursos disponíveis de tecnologia para fazer uma cobertura de alto nível durante a Copa do Mundo de 2014, realizada em território brasileiro. Até então, este foi o grande momento da criação de informação esportiva digital, e novas técnicas provavelmente aparecerão nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, neste ano de 2016. Esta obra procurou demonstrar como foram elaborados os relatos das partidas do mundial de futebol, como forma de investigar a produção do jornalismo em quatro portais de perfis completamente diferentes, além de se aprofundar nas questões de reprodução de notícias originadas em agências, sobre a agilidade necessária e também sobre as dificuldades econômicas encontradas por grande parte dos veículos de comunicação. A pesquisa, de modo geral, observou como a profissão do jornalista vem sofrendo alterações, tanto na parte de criação quanto na de reprodução de conteúdos. No primeiro capítulo, ocupei-me com os princípios básicos da reportagem jornalística e mostrei como a reportagem é o conto-jornalístico, além de ressaltar a experiência de se envolver com a pauta, no local onde ela acontece. Em seguida, discuti o tema do espetáculo e dos efeitos da espetacularização sobre a notícia. Ponderei, assumindo posição sobre os mecanismos que a internet disponibiliza para o jornalista reproduzir o espetáculo da partida de futebol em uma matéria – a inserção de vídeos, imagens, infográficos – e todas as técnicas utilizadas para entreter e despertar a atenção do leitor. Mostrei, na sequência, toda a importância que o texto continua a assumir, na chamada Era da Imagem, por mais inusitado que isto possa parecer, afinal, as reportagens que incluem vídeos têm pouco texto ou possuem a opção de expandir a crônica após os primeiros parágrafos. Ao fazer este questionamento, outras dúvidas surgem a respeito do futuro da produção do jornalismo na internet. Com os vídeos ganhando mais destaque – eles ocupam a principal posição no material –, o texto se tornou secundário em algumas reportagens, o que exige muito menos do repórter e, como consequência, pode desvalorizar a profissão no mercado de trabalho, em especial no que tange à baixa remuneração. O segundo capítulo trabalha a relação da alta demanda de atividades no jornalismo esportivo digital com a reprodução de notícias por parte de agências e assessorias de imprensa, além da questão da indústria cultural. O calendário de esportes exige uma cobertura praticamente de 24 horas por parte dos portais eletrônicos, que influenciam diretamente nas pautas – é a agenda da mídia. Como forma de atingir todas as metas, o portal se vê obrigado a fazer parcerias com agências de notícias, que enviam notas prontas para serem publicadas. O jornalista só tem a obrigação de reproduzir o material. Novamente, entro na questão de valorização da profissão. Poucos veículos de comunicação estão dispostos a oferecer bons salários se só exigem do seu funcionário a reprodução de conteúdos prontos, que carecem, quando muito, um trabalho muito pequeno e rápido de edição. Inclusive, como mostrei nesse mesmo capítulo, há robôs sendo desenvolvidos por agências que serão capazes de redigir pequenas notas para serem enviadas aos clientes. Ao relacionar a questão de calendário e reprodução de notícias, encontro pautas semelhantes em vários portais – já que são parceiros das mesmas agências – e identifico algumas características da indústria cultural, seguindo a visão de Adorno e Horkheimer, como a cultura do best-seller. É cômodo manter as pautas no universo dos temas que o leitor já espera. É preferível ter uma audiência garantida a inovar e deixar a zona de conforto. O conceito de espetáculo, de Debord, também se alia à ideia dos autores da Escola de Frankfurt, quando me refiro à acumulação de capital pelo consumo de mercadorias em larga escala e ao acúmulo de espetáculo pelo consumo de imagens. No âmbito do jornalismo esportivo na internet, posso relacionar essa ideia de espetáculo à alta demanda do meio digital, com o elevado acúmulo de notícias que um portal eletrônico possui ao longo de 24 horas. E tendo em conta esse volume enorme de matérias publicadas, é quase impraticável para uma empresa não ter a ajuda de agências, uma vez que seria preciso uma redação de proporção enorme para cobrir todos os esportes, com custos altíssimos. No terceiro capítulo traço um panorama geral sobre a produção do jornalismo esportivo na internet, a começar com o tema do ritmo acelerado nas redações dos periódicos digitais. A agilidade para redigir se tornou umas das principais características dos novos jornalistas. É preciso ser conciso, veloz ao escolher as palavras e publicar o material o quanto antes, já que a edição e correção podem ser feitas após a publicação. Para tanto, acompanho o minuto a minuto da construção do relato de uma partida de futebol e demonstroque o repórter realiza outras funções, além da de analisar e descrever o jogo. Ainda neste capítulo, estudo as notícias caça-cliques e a relação com a vida privada dos atletas celebridades. O interesse pela vida particular e a busca a todo custo pela audiência tornaram este tipo de reportagem cada vez mais frequente nos noticiários esportivos. Assuntos que eram somente para portais de fofocas e famosos aparecem também nos sites de futebol. Apoiado em Bauman, discuto a liquidez das notícias, em como elas perdem o valor rapidamente na internet. Em questão de minutos, as matérias perdem a posição de destaque, sua relevância, e dão lugar a uma nova leva de notícias. Inclusive, uma reportagem, que pode ter levado semanas para ficar pronta perderá o lugar na home se não atingir a audiência esperada em questão de poucas horas. Ainda no capítulo final, debato sobre como a pressão econômica influencia a produção do jornalismo esportivo eletrônico e amplio o assunto para os meios de retorno financeiro que um portal digital pode ter. A publicidade é a principal maneira para tentar se manter viável economicamente. Aliado à audiência, o setor comercial negocia os espaços publicitários para a divulgação de marcas, serviços e produtos em diferentes partes das páginas do website, mesmo que dificulte a leitura – o importante é garantir a margem de lucro ao final de cada mês. As dificuldades econômicas dos sites esportivos podem ser parcialmente compreendidas pelos estudos de Jeremy Rifkin, uma vez que o autor trabalha o conceito de Era do Acesso, em que os consumidores procuram ter acesso, e não a posse do produto. Relaciono esta teoria à visível e inegável mudança de comportamento do consumidor. De modo geral, o leitor não está mais disposto a pagar por informação, pela assinatura de um veículo de comunicação, diferente do que acontecia quando a informação só era disponibilizada por meio de revistas e jornais impressos. Caso algum site limite o número de notícias gratuitas, o consumidor pode encontrar a reportagem sobre o mesmo tema em diversos outros sites, sem que precise pagar para ter o acesso. Não é mais necessário ter a posse do produto, apenas o acesso se faz suficiente. É inegável que talvez o leitor não queira ter uma assinatura pelo pouco diferencial oferecido por parte dos jornais. Nos portais estudados – ESPN.com.br, GazetaEsportiva.net, GloboEsporte.com e Folha.com.br – há muita semelhança no conteúdo entregue por todos os veículos. Ao final desta obra, destaco dois diferenciais entre os websites. Os portais oferecem aos leitores vários colunistas, na tentativa de entregar conteúdo diferenciado, uma visão quase que exclusiva do conteúdo ofertado. Alguns deles exercem a função de comentaristas em canais de TV – de diferentes estilos, alguns desses cronistas com o domínio de análises táticas e dados estatísticos, outros que, à moda antiga, preferem relatar o jogo de uma maneira mais romantizada, com opiniões contundentes sobre o desempenho das equipes; e há também colunistas de política esportiva, focados apenas em comentar sobre confederações e federações. Alguns sites optam por trazer blogueiros torcedores, e nesse caso o torcedor encontra ali somente notícias sobre o time do coração. O leque de colunistas é bastante variado: já que é possível encontrar o hard news em todos os concorrentes, a opção por um diferencial se reflete na capacidade e confiança que o jornalista transmite ao leitor em sua coluna. A inserção de vídeos nas reportagens é o maior diferencial que um site esportivo na internet pode apresentar. Os portais donos de direitos de transmissão possuem o conteúdo mais desejado na internet. A preferência do leitor sempre foi pela opção de assistir ao gol do seu clube em vez de somente ler a descrição do fato. Quando só existia TV, ele precisava esperar horas até a iniciar a programação esportiva, algo que com a internet não é mais necessário. O internauta não lê o texto para saber os melhores momentos, ele prefere clicar no vídeo e assistir quantas vezes quiser, com narração, replay, diferentes ângulos. O vídeo transmite mais emoção do que as palavras, que se tornam cada vez mais rasas e com a missão de informar apenas de modo objetivo, com os lances mais marcantes do confronto. Por isso a procura é sempre maior pelos vídeos. Os sites esportivos que têm a possibilidade de inserir os gols e melhores momentos na reportagem já largam na frente do concorrente. Na verdade, os jornalistas dos portais eletrônicos nunca tiveram tantas facilidades para criar conteúdo de boa qualidade. Conforme demonstrei ao longo do livro, o repórter conta com diversos recursos para enriquecer a matéria, inclusive a opção de editar após a publicação, o que favorece a correção de erros ou ainda permite a inclusão de mais curiosidades. Entretanto, a demanda, a agilidade e a exigência de cobertura do maior número de esportes possível, obriga o jornalista a simplificar o processo de criação de informação. A existência de um vídeo não exclui a obrigação de um texto completo e de qualidade. E nem o contrário. Os dois se complementam e agregam valor ao material a ser divulgado. Este possível descaso com o conteúdo de qualidade pode ser identificado como uma das principais características do jornalismo esportivo on-line, uma espécie de padrão adotado no mercado, do mesmo modo que a espetacularização se tornou uma maneira bastante utilizada para atingir os objetivos de audiência e desbancar a concorrência. Os veículos de comunicação se encontram em uma razoável zona de conforto. De modo geral, é pertinente dizer que o jornalismo praticado está distante do ideal, daquilo que se estuda na faculdade, porém há a dificuldade e o receio de inovar, uma vez que o leitor também está em situação de comodidade e já espera receber de certo modo, e num certo formato, as informações que habitualmente consome. Emissor e receptor trilham o mesmo caminho, de maneira conveniente para ambos, e isto molda os padrões de produção do jornalismo esportivo on- line. Como já citei, a internet disponibiliza muitos recursos para se produzir uma reportagem de qualidade. São várias ferramentas que colaboram para a criação de novos conteúdos. Em uma matéria, podemos inserir imagens, textos, vídeos, narrações, tudo para que o leitor se sinta atraído a consumir a nota, a se informar e também a se entreter. Decerto, o jornalista ainda não domina completamente as possibilidades que a internet nos oferece para a criação e produção de conteúdo. Embora o jornalismo esportivo digital crie conteúdos interessantes, é preciso encontrar maneiras de fazer com que a maior parte da produção seja de alta qualidade e não apenas superficial, que a matéria escrita volte a ser suficiente para o leitor, que as palavras transmitam a emoção de um gol anotado pelo atacante preferido, que não se dependa tanto dos vídeos para se ter um conto jornalístico. O jornalismo esportivo on-line, assim como todo o mercado, enfrenta uma séria crise econômica e, para se recuperar visando um futuro mais promissor, é preciso que o próprio jornalismo recupere os seus valores, retorne aos seus princípios básicos, perdidos nos últimos anos na tentativa de domínio completo dos meios eletrônicos. Não há dúvidas de que a internet é local privilegiado para que o jornalismo esportivo eleve sua produção, basta ver que o acesso ao ambiente on- line é cada vez mais simples e democrático. Porém, com o uso adequado de ferramentas variadas oferecidas pelo digital, é possível que o jornalismo esportivo se adapte ao ambiente on-line sem precisar dispor de alta qualidade na criação, comprometendo desse modo a produção de notícias por conta da agilidade e velocidade exigidas pelo mercado. REFERÊNCIAS ADORNO, T. W.; HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985, p. 113-156. BAUDRILLARD, J. O Sistema dos Objetos. São Paulo: Perspectiva, 1989, p. 173-190. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformaçãodas pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. BAUMAN, Zygmunt. Tempos Líquidos. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. BAUMAN, Zygmunt. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. BARBEIRO, Heródoto; RANGEL, Patrícia. Manual do jornalismo esportivo. São Paulo: Contexto, 2006. BARTHES, Roland. Introdução à análise estrutural da narrativa. In:______. Análise estrutural da narrativa. 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Em 2011, o Corinthians se desfiliou da instituição por discordar de certos ideais, movimento que foi seguido por outras equipes até praticamente extinguir o Clube dos 13. 2 Fonte: Futebol Business 3 Dados do Fipe/USP. 4 LOZETTI, A. Tá Escrito: Neymar decide com erro de árbitro, e Brasil vira sobre a Croácia. GloboEsporte.com. Disponível em: <http://globoesporte.globo.com/jogo/copa-do- mundo-2014/12-06-2014/brasil- croacia.html>. Acesso em 10 de jan. 2015. 5 LINARES, A.; Borges, L.; SANTOS, J.; COBOS, P.; Neymar garante o primeiro passo: 3 a 1 na Croácia. ESPN.com.br. Disponível em: < http://espn.uol.com.br/noticia/417572_neymar-garante-o- primeiro-passo-3-a-1- na-croacia> Acessado em: 10 de jan. 2015. 6 CORREIA, W.; FINI, L.R.; Com pênalti polêmico e dois de Neymar, Brasil supera gol contra e vira. GazetaEsportiva.net. Disponível em: <http://www.gazetaesportiva.net/noticia/2014/06/copa-2014-brasil/com-penalti- polemico-e-dois-de-neymar-brasil-supera-gol-contra-e-vira.html>. 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Acessado em: 16 dez. 2015. 22 Recortes das páginas principais da ESPN.com.br e GazetaEsportiva.net. Acessado em: 18 nov. 2015. Cover Page CAPA SUMÁRIO INTRODUÇÃO CAPÍTULO1 - O ESPETÁCULO DO FUTEBOL NO JORNALISMO ESPORTIVO NA INTERNET CAPÍTULO2 - AS TÉCNICAS DE REPRODUÇÃO E O ESPETÁCULO NO JORNALISMO ESPORTIVO NA INTERNET CAPÍTULO3 - A PRODUÇÃO DO JORNALISMO ESPORTIVO DIGITAL NA ATUALIDADE CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS