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Marilena de Souza Chaui
Graduada e licenciada em Filosofia pela Universidade de
São Paulo (USP).
Mestra e doutora pela Universidade de São Paulo (USP),
especialista em História da Filosofia Moderna e Filosofia Política.
Professora livre-docente de História da Filosofia Moderna no
Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP).
Doutora honoris causa pela Universidade de Paris 8
(França), pela Universidad Nacional de Córdoba (Argentina) e
Universidade Federal de Sergipe (UFS).
Membro da comissão editorial das revistas Studia Spinozana
(Paris-Hannover), Historia Philosophica (Pisa), Estudos
Espinosanos (USP).
Membro da direção do Brazilian Studies, King's College, Londres.
Autora de diversos livros, entre os quais Introdução à história
da filosofia (2 volumes), O que é ideologia, A nervura do real,
Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas,
Da realidade sem mistérios ao mistério do mundo: Espinosa,
Voltaire, Merleau-Ponty.
Secretária municipal de Cultura de São Paulo de 1989 a 1992.
3!EDICÃO
SÃO PAULO • 2016
Volume
Unico
Filosofia - Ensino Médio
ea
editora ática
Diretoria editorial
Lidiane Vivaldini Olo
Gerência editorial
Luiz Tonolli
Editoria de Ciências Humanas
Heloisa Pimentel
Edição
André Albert. Eduardo Guimarães
e Regina Gomes
Gerência de produção editorial
Ricardo de Gan Braga
Arte
Andréa Dellamagna lcoord. de criação),
Erik TS !progr. visual de capa e miolo),
Claudio Faustino lcoord. e edição), Thatiana Kalaes lassist.),
Luiza Oliveira Massucato e Livia Vitta Ribeiro ldiagram.l
Revisão
Hélia de Jesus Gonsaga (ger.).
Rosilngela Muricy (coord.).
Ana Paula Chabaribery Malta.
Célia da Silva Carvalho. Claudia Virgílio.
Gabriela Macedo de Andrade e Heloisa Schiavo;
Brenda Morais e Gabriela Miragaia (estagiárias)
lconog rafia
Sílvio Kligin lsuperv.), Denise Durand Kremer lcoord.),
Sara Plaça !pesquisai. Cesar Wolf e
Fernanda Crevin !tratamento de imagem)
Ilustrações
Filipe Rocha
Cartografia
Eric Fuzii
Foto da capa: Grafite do artista brasileiro Tinho.
em Erriadh. Djerba. Tunísia. 2014.
Joel Saget/Agência France-Presse
Protótipos
Magali Prado
Direitos desta edição cedidos à Editora Ática S.A.
Avenida das Nações Unidas. 7221. 3ª andar. Setor A
Pinheiros - São Paulo - SP - CEP 05425-902
Tel.: 4003-3061
www.atica.com.br / editora@atica.com.br
0
2016
ISBN 978 850818055 4 (AL)
ISBN 978 850818056 1 (PR)
Cód. da obra CL 713405
CAE 566707 (AL) / 566708 (PR)
3• edição
1• impressão
Impressão e acabamento
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Cãmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
16-02687
Chaui, Marilena
Iniciação à filosofia volume único, ensino
médio/ Marilena Chaui. -- 3. ed. -- São Paulo :
Ática, 2016.
Bibliografia.
1. Filosofia (Ensino médio) I. Título.
CDD-107 .12
Índices para catálogo sistemático:
1. Filosofia : Ensino médio 107.12
APRESENTACAO
O
s estudantes de Filosofia sempre escutam uma piada sobre o primeiro
filósofo, o grego Tales de Mileto. Tales gostava de estudar os astros e
caminhava olhando para o céu, até que um dia tropeçou numa pedra e
caiu num buraco. Um brincalhão que estava por perto disse a outros que ali se
encontravam: "Tales quer saber o que se passa no céu, mas não consegue
enxergar o que está à sua frente!". Nasceu, assim, a imagem que o senso comum
tem do filósofo: a de alguém distraído que, sem prestar atenção no que se
passa à sua volta, dedica a vida a pensar em coisas distantes, complicadas e,
provavelmente, sem qualquer utilidade. Aliás, os estudantes de Filosofia tam
bém conhecem a definição da filosofia pelo senso comum: "A filosofia é uma
ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual". Em outras
palavras, ela seria perfeitamente inútil.
Neste livro, procuraremos mostrar que as imagens costumeiras do filóso
fo e da filosofia não correspondem à realidade. De fato, elas surgiram como
tentativa para rebaixar a atividade do pensamento porque este questiona as
crenças e os preconceitos que formam o senso comum da sociedade.
O melhor exemplo do que define a filosofia pode ser trazido por outro
grego: Sócrates. Andando pelas ruas e praças da an-
tiga Atenas, Sócrates conversava com seus conter
râneos a respeito daquilo em que acreditavam e que
julgavam conhecer, fazendo-os, pouco a pouco, reco
nhecer com espanto que suas crenças não tinham
base nenhuma e que não sabiam o que imaginavam
saber. A atitude filosófica se inicia exatamente quando
não nos contentamos com as aparências das coisas nem
com as ideias cristalizadas em nossa sociedade.
Por isso podemos compreender a resposta que um filó
sofo deu quando lhe perguntaram: "Para que filosofia?". Res
pondeu: "Para não darmos nossa aceitação imediata às coi
sas e às ideias, sem maiores considerações".
Este livro é um convite ao questionamento, à refle-
xão, ao trabalho do pensamento na busca da verdade,
na compreensão do sentido de nossas ideias, de
nossos sentimentos e emoções, dos valores
de nossa cultura e de nosso desejo de liber
dade e de felicidade.
A autora
Gianni Dagli Orti/Art Archive/Agência France-Presse/Museu do Louvre, Paris, França.
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O livro está dividido em 32 capítulos, organizados em 10 Unidades. A primeira Unidade faz
uma introdução à disciplina e as demais apresentam e discutem os grandes temas e campos
de estudo da filosofia.
Capítulos
Apresentam diferentes aspectos do
tema da Unidade, considerando a
diversidade de abordagens e o
desenvolvimento da filosofia ao longo
da história. Uma imagem e um breve
texto de abertura antecipam o tema a
ser discutido.
Léxico
Ao longo dos capítulos, pequenos
boxes apresentam a origem de
termos e expressões relevantes
no contexto e informações
adicionais sobre eles.
Em síntese
Diferentes questões sobre os
conceitos e as discussões
vistos no capítulo ajudam a
sistematizar e organizar o
que foi estudado.
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O humor e as cren?s silenciosas
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lndicacões
De olho na
atualidade
Livros, filmes e sites que
abrem novas perspectivas
para compreender e
ampliar os temas
estudados.
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Análises de debates e
acontecimentos
contemporâneos pelo
ponto de vista da filosofia
seguidas de atividades.
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Leituras
filosóficas
Trechos de textos de
filósofos e de autores
das ciências humanas
e da literatura
acompanhados de
questões para reflexão.
LINHA
DO'IEMPO
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Os autores de maior
destaque na história da
filosofia, ordenados pela
data de suas obras mais
conhecidas.
Boxes
Esquemas, resumos,
exemplos e complementos
diversificados que retomam
e reforçam conceitos
importantes e aproximam
o tema explorado do
cotidiano.
Conexões
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Conexões
Atividades que relacionam a
filosofia a outras áreas do
conhecimento e favorecem
uma reflexão sobre atitudes,
pontos de vista,
acontecimentos,
descobertas científicas e
obras de arte.
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Glossário�
Vocabulário sucinto de
conceitos filosóficos
vistos no livro.
Sumário
Unidade 1: A filosofia
CAPÍTULO 1: A atitude filosófica ............... 6
CAPÍTULO 2: O que é a filosofia? ............. 20
CAPÍTULO 3: A origem da filosofia .......... 32
CAPÍTULO 4: Períodos e campos
de investigação da filosofia grega .............. 46
CAPÍTULO 5: Principais períodos
da história da filosofia ................................ 58
CAPÍTULO 6: A transformação
da filosofia na contemporaneidade ............ 68
Unidade 2: A razão
CAPÍTULO 7: Os vários sentidos
da palavra razão ........................................ 82
CAPÍTULO 8: A atividade racional .......... 90
Unidade 3: A verdade
CAPÍTULO 9: Ignorância e verdade ........ 102
CAPÍTULO 10: Buscando a verdade ........ 110
Unidade 4: A lógica
CAPÍTULO 11: O nascimento
da lógica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123
CAPÍTULO 12: Elementos de lógica ....... 130
Unidade 5: O conhecimento
CAPÍTULO 13: A preocupação com o
conhecimento........................................... 147
CAPÍTULO 14: Percepção, memória e
imaginação ................................................ 161
CAPÍTULO 15: Linguagem e
pensamento .............................................. 171
CAPÍTULO 16: A consciência pode
conhecer tudo? ......................................... 183
Unidade 6: A metafísica
CAPÍTULO 17: A origem da metafísica ... 194
CAPÍTULO 18: A metafísica de
Aristóteles ................................................ 204
CAPÍTULO 19: As aventuras da
metafísica .................................................. 211
CAPÍTULO 20: De Kant à ontologia
contemporânea ........................................ 223
Unidade 7: A ciência
CAPÍTULO 21: A atitude científica ......... 236
CAPÍTULO 22: A ciência na história ...... 244
CAPÍTULO 23: As ciências humanas ..... 256
Unidade 8: A cultura
CAPÍTULO 24: A cultura ........................ 268
CAPÍTULO 25: A religião ........................ 279
CAPÍTULO 26: O universo das artes ...... 293
Unidade 9: A ética
CAPÍTULO 27: A existência ética ............ 312
CAPÍTULO 28: A ética ............................ 320
CAPÍTULO 29: A liberdade .................... 334
Unidade 10: A política
CAPÍTULO 30: O início da vida política ... 343
CAPÍTULO 31: As filosofias políticas ........ 361
CAPÍTULO 32: A questão democrática ... 379
Linha do tempo............................................ 392
Glossário.................................................... 396
Indicações de Leitura.................................... 397
Bibliografia................................................. 398
0
"Conhece-te a ti mesmo"
Quem assistiu ao primeiro filme da série Matrix,
de 1999, há de se lembrar da cena em que o herói, Neo,
é levado pelo guia, Morfeu, para ouvir uma mulher a
quem chamam Oráculo. Quando ela pergunta a Neo
se ele leu o que está escrito sobre a porta da cozinha,
ele diz que não. Então, ela aponta para a inscrição e
explica que está em uma língua que não é mais falada
no cotidiano, o latim.
O que está escrito? Temet nasce. O que isso signi
fica? "Ousa conhecer." A mensagem para Neo é a de
que ele - e somente ele - poderá saber se é ou não
aquele que vai livrar o mundo do poder da Matrix. Por
tanto, somente ousando conhecer ele terá a resposta.
O que poucos sabem é que esta cena de Matrix é
a representação ficcional, no futuro, de um aconteci
mento ocorrido há 24 séculos.
Na Grécia antiga, por volta do século IV a.e. , havia
um santuário na cidade de Delfos dedicado a Apolo,
deus da luz, da razão e do conhecimento verdadeiro.
Sobre o portal de entrada desse santuário estava es
crita a grande mensagem do deus, ou o principal
oráculo de Apolo: "Conhece-te a ti mesmo" (em gre
go, gnõthi seauton).
Um ateniense, chamado Sócrates (e. 469 a.C.-399
a.e.), foi ao santuário consultar o oráculo, pois em Ate
nas muitos lhe diziam que ele era um sábio. Sócrates
desejava saber o que era um sábio e se tal qualidade
poderia ser atribuída a ele. O oráculo, que era uma mu
lher (a sibila), perguntou-lhe: "O que você sabe?". Ele
respondeu: "Só sei que nada sei". Ao que o oráculo dis
se: "Sócrates é o mais sábio de todos os homens, pois
é o único que sabe que não sabe". Sócrates é até hoje
considerado o patrono da filosofia.
oráculo: esta palavra tem dois significados principais,
que aparecem nas expressões "receber um oráculo"
e "consultar um oráculo". No primeiro caso, significa
'uma mensagem misteriosa' enviada por um deus como
resposta a uma indagação feita por um humano; essa
revelação divina precisa ser decifrada e interpretada. No
segundo, significa 'uma pessoa especial', a qual recebe
a mensagem divina e a transmite ao interrogante, que,
por sua vez, precisará decifrá-la e interpretá-la. Entre os
gregos antigos, essa pessoa especial costumava ser uma
mulher e era chamada sibila.
Keanu Reeves, no papel de Neo, e Gloria Foster, como oráculo, em cena do primeiro filme da série Matrix(1999).
Neo e a Matrix
Se voltarmos ao filme Matrix, podemos perguntar
por que foi feito o paralelo entre Neo e Sócrates. Co
mecemos pelo nome das personagens Neo e Morfeu.
Esses nomes são gregos.
Neo significa 'novo' ou 'renovado' e, quando dito de
alguém, significa 'jovem na força e no ardor da juventude'.
Morfeu, na mitologia grega, era um espírito, filho
do Sono e da Noite. Ele possuía asas e era capaz, num
A atitude filosófica 0
único instante, de voar em absoluto silêncio de um
extremo a outro do mundo. Sobrevoando ou pousan
do sobre uma pessoa e tocando-a com uma papoula
vermelha, não só a fazia adormecer e sonhar, mas
também aparecia nesse sonho, tomando a forma
humana. É dessa maneira que, no filme, Morfeu se
comunica pela primeira vez com Neo, que desperta
com o ruído de uma mensagem em seu computador.
E, no primeiro encontro de ambos, Morfeu surpreen
de Neo por sua extrema velocidade, por ser capaz de
voar e por parecer saber tudo a respeito desse jovem
que não o conhece.
Várias vezes Morfeu pergunta a Neo se ele cos
tuma duvidar se está realmente acordado. Essa per
gunta deixa de ser feita a partir do momentoem
que Morfeu lhe oferece a escolha entre ingerir uma
pílula azul ou uma vermelha e Neo escolhe a ver
melha (como a papoula da mitologia), que o fará ver
a realidade. É Morfeu quem lhe mostra a Matrix,
fazendo-o compreender que ele tinha passado a
vida inteira sem saber se estava acordado ou ador
mecido e sonhando porque, realmente, esteve sem
pre dormindo e sonhando. Era isso que Neo preci
sava ousar conhecer.
matrix: palavra latina derivada de mater, que quer dizer
'mãe', matrix designa o útero. Na linguagem técnica,
matriz é o molde para a fundição de uma peça. É também,
em monitores e televisores, o circuito de codificadores e
decodificadores das cores e dos sons e, na informática,
a rede de guias de entradas e saídas de elementos
lógicos. No filme, a Matrix tem todos esses sentidos:
ela é um útero universal onde todos os seres humanos
têm, ao mesmo tempo, uma vida real "uterina" e uma
vida imaginária forjada pelos circuitos de codificadores e
decodificadores de cores e sons e pelas redes de guias de
entrada e saída de sinais lógicos.
Ao tomar consciência de que sempre estivera sonhando,
Neo abre-se para a possibilidade de conhecer a realidade da
Matrix. Cena do primeiro filme da série, de 1999.
0 Capítulol
Mas afinal, o que é a Matrix? É um computador
gigantesco alimentado pelos cérebros dos seres huma
nos e que os escraviza, usando suas mentes para con
trolar seus sentimentos e pensamentos, fazendo-os
crer que é real o que é aparente. E qual é o seu poder?
Usar e controlar a inteligência humana para dominar o
mundo, criando uma realidade virtual na qual todos
que a ela estão submetidos acreditam.
computador: palavra originada do latim computator,
que significa 'máquina de contar, calcular'. Antes de
o computador se tornar um objeto de uso corrente,
falava-se em "cérebro eletrônico". Por quê? Porque se
trata de um objeto técnico muito diferente daqueles
até então conhecidos, que ampliavam apenas a força
física dos seres humanos: o microscópio e o telescópio
aumentam a força dos olhos; o navio, o automóvel e o
avião aumentam a força dos pés; a alavanca, a polia e o
martelo aumentam a força das mãos; e assim por diante.
Já o "cérebro eletrônico" ou computador amplia e até
substitui as capacidades mentais ou intelectuais dos
seres humanos.
Vencer o poder da Matrix é destruir a aparência
ilusória, restaurar a realidade e assegurar que os seres
humanos possam perceber e compreender o mundo
verdadeiro e viver realmente nele. Nos combates tra
vados por Neo e seus companheiros contra a Matrix,
as armas e tiroteios são pura ilusão, pois o combate
real não é físico, e sim mental, e ocorre num mundo
virtual.
Cena desenhada em 2015 por uma rede neural artificial
desenvolvida por uma empresa de informática.
Com base em todas as referências visuais que o banco de dados
da empresa tem, essa rede é capaz de inventar sua própria versão
para a imagem.
Neo e Sócrates
Por que as personagens do filme afirmam que Neo
é "o escolhido" ? Por que estão seguras de que ele será
capaz de realizar o combate final e vencer a Matrix?
Porque ele era um hacker, isto é, alguém capaz de
utilizar seus conhecimentos técnicos em computação
para invadir sites e programas, decifrar códigos e men
sagens. E, sobretudo, porque desenvolvia programas de
realidade virtual, sendo capaz de rivalizar com a própria
Matrix. Por ter uma capacidade semelhante à da Matrix,
Neo sempre desconfiou de que a realidade não era tal
como se apresentava. Essa interrogação o levou a vas
culhar os circuitos internos da máquina (tanto assim que
ela começou a persegui-lo como alguém perigoso), e
foram suas incursões secretas que o fizeram ser desco
berto por Morfeu, líder dos que lutam contra a Matrix.
Por que comparar Neo e Sócrates? Por que o "ousa
conhecer", dirigido a Neo, em Matrix, e o "conhece-te a
ti mesmo", no templo de Delfos, podem ser comparados?
Sócrates é considerado o "patrono da filosofia"
porque jamais se contentou com as opiniões estabe
lecidas, com os preconceitos de sua sociedade, com as
crenças inquestionadas de seus conterrâneos. Ele cos
tumava dizer que um espírito interior o levava (como
Morfeu instigando Neo) a desconfiar das aparências e
a procurar a realidade verdadeira das coisas.
Sócrates andava pelas ruas de Atenas fazendo per
guntas aos conterrâneos: "O que é isso em que você
acredita?", "O que é isso que você está dizendo?", "O
que é isso que você está fazendo?". Os atenienses acha
vam, por exemplo, que sabiam o que era a justiça. Mas,
diante das perguntas de Sócrates, ficavam embaraça
dos e confusos, chegando à conclusão de que não sa-
biam o que era a justiça. Os atenienses acreditavam
que sabiam o que eram a bondade, a beleza, a verdade,
a coragem, mas um prolongado diálogo com Sócrates
os fazia perceber que não sabiam o que era aquilo em
que acreditavam.
A pergunta "O que é?" suscitava o questionamento
sobre a realidade essencial e profunda de uma coisa
para além das aparências e contra elas. Com essa per
gunta, Sócrates levava os atenienses a descobrir a di
ferença entre parecer e ser, e entre mera crença ou opi
nião e verdade.
Sócrates era filho de uma parteira. Ele dizia que,
assim como sua mãe, ele também era um parteiro, mas
que ajudava não no nascimento de corpos, e sim de
almas, auxiliando as mentes a libertar-se das aparências
e a buscar a verdade.
Como os combates de Neo, os combates socráticos
eram também mentais ou de pensamento. E enfurece
ram de tal maneira os poderosos de Atenas que Sócra
tes foi condenado à morte por ingestão de veneno,
acusado de espalhar dúvidas sobre as ideias e os valores
atenienses e, com isso, corromper os jovens.
Receio muito que, neste momento em que a mor
te é tudo, não me haja com o filósofo ou amigo da
sabedoria, como se dá com os indivíduos muito igno
rantes. Estes tais, quando debatem algum tema, não
se preocupam absolutamente de saber como são, de
fato, as coisas a respeito de que tanto discutem, senão
em deixar convencidos os circunstantes de suas pró
prias asserções.
Sócrates, no diá logo Fédon (escrito por P latão), i nsta ntes a ntes de
c u m p ri r sua pena. O texto comp leto do d iá logo Fédon pode
ser encontrado em: <www.domin iopu b l ico.gov. b r/
down load/texto/cv000031 .pdf>. Acesso em: 29 set. 2015.
A morte de Sócrates, pintura de
Jacques-Louis David feita em 1787,
que se encontra atualmente no
Museu de Arte Metropolitano de
Nova York, nos Estados Unidos. Ao
final de seu ju lgamento, Sócrates é
condenado à morte pela ingestão
de um veneno chamado cicuta,
conforme narra o diálogo Fédon,
escrito por Platão.
A atitude fi losófi ca 0
O Mito da Caverna
Podemos também fazer um paralelo entre a traje
tória de Neo no interior da Matrix e um dos mais céle
bres escritos do filósofo Platão (427 a.C.-347 a.e.), discí
pulo de Sócrates. Essa passagem encontra-se na obra
intitulada A república (e. 380 a.e.) e é conhecida como
o Mito da Caverna.
Imaginemos uma caverna separada do mundo ex
terior por um muro baixo. Entre esse muro e o teto da
caverna há uma fresta por onde passa alguma luz ex
terna, evitando que o interior fique na obscuridade
completa. Desde seu nascimento, geração após gera
ção, seres humanos estão acorrentados ali, sem poder
mover a cabeça na direção da entrada nem se locomo
ver até ela, vivendo sem nunca ter visto o mundo exte
rior nem a luz do Sol. Estão quase no escuro.
Dentro da caverna, perto do muro, um fogo ilumina
vagamente o interior sombrio e faz com que as coisas
que se passam na fresta sejam projetadas como som
bras nas paredes do fundo da caverna (pensemos na
caverna como se fosse uma sala de cinema e o fogo, a
luz de um projetor de filmes).
Nessa fresta, pessoas passam conversando e car
regando nos ombros figuras ou imagens de homens,
mulheres, animais, cujas sombras são projetadas na
parede da caverna. Nunca tendo visto o mundo exterior,
os prisioneirosjulgam que as sombras das pessoas, das
coisas transportadas e os sons das falas das pessoas
são as próprias coisas externas. Ou seja, não percebem
que são sombras e julgam que elas são seres vivos que
se movem e falam.
Os prisioneiros se comunicam, dando nome às coi
sas que julgam ver, e imaginam que o que escutam são
as vozes das próprias sombras e não dos seres humanos
que se encontram do lado de fora do muro. Qual é, pois,
a situação dessas pessoas aprisionadas? Tomam som
bras por realidade. Mas isso não poderia ser diferente
se elas fossem libertadas dessa situação miserável?
Um dos prisioneiros, inconformado com essa condi
ção, fabrica um instrumento para quebrar os grilhões.
De início, move a cabeça; depois, o corpo todo; a seguir,
avança em direção à saída da caverna e escala o muro.
Enfrentando as durezas de um caminho íngreme e difícil,
sai da caverna. No primeiro instante, enche-se de dor por
causa dos movimentos que seu corpo realiza pela pri
meira vez e pelo ofuscamento de seus olhos pela lumi
nosidade do Sol, com a qual não está acostumado. Sen
te-se dividido entre a incredulidade e o deslumbramento.
Incredulidade, porque será obrigado a decidir sobre
onde se encontra a realidade: no que vê agora ou nas
sombras em que sempre viveu? Deslumbramento (pa
lavra que significa: 'ferido pela luz' ), porque seus olhos
não conseguem ver com nitidez as coisas iluminadas.
Seu primeiro impulso é retornar à caverna para li
vrar-se da dor e do espanto, pois a escuridão lhe parece
mais acolhedora. Como precisa aprender a ver, e esse
aprendizado é doloroso, desejará a caverna, onde tudo
lhe é familiar e conhecido.
Aos poucos, porém, habitua-se à luz e começa a ver
o mundo. Encanta-se, tem a felicidade de finalmente
ver as coisas como elas realmente são, descobrindo que
estivera prisioneiro a vida toda e que em sua prisão
vira apenas sombras. A partir desse instante, desejará
ficar longe da caverna para sempre e lutará com todas
as suas forças para jamais retornar a ela. Porém, toma
---------� � a difícil decisão de regressar ao subter-
't# ª
0 Capítulol
! râneo sombrio para contar aos demais
.� o que viu e convencê-los a se liberta-
� rem também.
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.2
g
O que lhe acontece nesse retorno?
Os demais prisioneiros riem-se dele,
não acreditando em suas palavras, e
seriam capazes de fazer pior caso ele
insistisse nelas. Mas, quem sabe, al
guns poderão ouvi-lo e, contra a von
tade dos demais, também decidir sair
da caverna rumo à realidade?
Representação visual do
Mito da Caverna.
Um d iá logo fi losófico
O que são os gr i l hões e as correntes?
Nossos p reconce itos e op in iões,
nossa crença de que o que
percebemos é a rea l i dade .
Qua l é o instrumento q u e l i berta o
pri s ione i ro rebe l d e e com o qu a l e l e
deseja l i berta r os outros?
A fi losofi a .
1 1
- - �--- - -- _,.
2
Quem é o pris ioneiro q ue se l i berta
e sai da caverna?
O que é o mundo i l um inado pe lo
sol da ve rdade?
Quem é o homem que sa i da caverna?
Voltando ao exemplo do fi lme: a Matrix é a caverna e Neo é o Sócrates moderno. Neo
e Sócrates são combatentes que apostam na l iberdade e na verdade.
Quadrinhos da história As sombras de vida,
de Maurício de Sousa. Tal como o
protagonista do Mito da Caverna, o
personagem Piteco busca convencer os
outros de que aquilo que veem não é a
realidade em si.
A atitude filosófica 0
Felicidade e satisfacão
Tanto a alegoria d e Platão como [ o f i lme] Matr ix Levantam a questão da
felicidade, com a estrutura mais ampla da relação entre nossa experiência ou
estado de espírito subjetivo e a realidade. É uma tese platônica que a verda
deira Liberdade e a felicidade dependem do conhecimento do que é real; se
gundo essa visão, uma pessoa pode ter a ilusão de ser Livre e feliz, mas ser
de fato um escravo e infeliz. Essa mesma pessoa pode estar completamente
enganada ao atribuir a si p rópria a felicidade, usando a frase: "Sou feliz".
A felicidade deve ser semelhante ao conceito de saudável; também pode
estar enganado quem diz "sou saudável", ainda que se sinta, pelo menos
no momento, extremamente saudável, e não tem consciência [ . . . ] de um
câncer não detectado. A tese é que a felicidade, a reflexão sobre o "eu "
p róprio e o mundo objetivo são inseparáveis. De modo semelhante,
Matrix obviamente tem muito a ver com a questão do relacionamento Platão, cabeça em mármore,
século I a.e. entre nosso senso subjetivo do "eu " (eu sou Livre, sou feliz) e a "realida-
de" das experiências que estamos vivendo.
GR I SWOLD J R., Cha rles L. Fel icidade e esco l ha de Cypher : a ignorâ ncia é fe l icidade? ln : I RW IN , Wi l l ia m (O rg.).
Matrix: bem-vi ndo ao deserto do rea l . São Pau lo: Madras, 2002. p. 1 58-159.
Após le r o texto com atenção, reúna-se em um grupo peq ueno de colegas e responda :
1 . O q ue ser ia um "estado de espí rito s ubjetivo"? Em que ele ser ia d ife re nte da rea l idade?
2. Pa ra Platão, o que ser ia necessá rio pa ra a verdadei ra fe l icidade? Loca l ize essa i nformação no texto.
Nossas crencas costumeiras
Em nossa vida cotid i a na, afi rmamos, negamos, de
sejamos, ace itamos ou recusamos co isas, pessoas, s i
tuações. Fazemos pergu ntas, como "Que horas são?",
ou "Que d i a é hoje?". D izemos frases, como "E le está
son hando", ou "E l a fi cou ma l uca". Fazemos afi rmações,
como "Onde há fumaça há fogo", ou "Não sa ia na chu
va pa ra não se resfr ia r". Ava l i a mos co isas e pessoas,
d izendo, por exemp lo, "Esta casa é ma is bon ita do que
a outra" e "Ma r ia está ma i s jovem do que G lor i n ha".
N uma d isputa, q uando os ân imos estão exa ltados,
um dos oponentes pode grita r ao outro: "Menti roso!
Eu estava lá e não foi isso o que aconteceu", e a lguém,
que rendo aca lmar a br iga, pode d ize r: "Vamos pôr a
ca beça no l uga r, cada um seja bem objetivo e d iga o
que viu, porque ass im todos poderão se entender".
Também é comum ouvi rmos os pa is e am igos d i
ze rem que, quando o assunto é o namorado ou a na
morada, não somos ca pazes de ve r as co isas como e l a s
são, que vemos o que n i nguém vê e não vemos o que
todo mundo está vendo. Dizem q ue somos "mu ito sub
jetivos". Ou, como d iz o d itado, que "q uem ama o fe io,
bon ito l he pa rece".
0 Capítulol
Freq uentemente, q uando ap rovamos uma pessoa,
o que ela d i z, como age, d izemos que ela "é lega l ".
Vejamos um pouco ma is de pe rto o que d izemos
em nosso cot id ia no.
Qua ndo pergu nto "Que horas são?" ou "Que dia é
hoje?", m inha expectativa é a de que a lguém, tendo um
re lógio ou um ca lendá r io, me dê a resposta exata. Em
q ue acred ito quando faço a pergu nta e aceito a respos
ta? Acred ito q u e o tem po existe, q ue e l e passa, q u e
pode s e r med ido em horas e d ias, que o que j á passou
é d ife rente de agora e o q ue vi rá ta mbém há de ser
d ife rente deste momento, que o passado pode ser l em
brado ou esquec ido, e o futu ro, desejado ou tem ido.
Assim, u ma sim ples pergu nta contém, silenciosamente,
vá r ias crenças.
Por que crenças? Porq ue são co isas ou ide ias em
que acred itamos sem quest iona r, que aceitamos por
que são óbvias, evidentes. Afi na l, quem não sabe que
ontem é d ife rente de amanhã, que o d i a tem horas e
que e las passam sem cessa r?
Quando d igo "e l e está son hando" pa ra me refe r i r
a a lguém que está a cordado e d i z ou pensa a lguma
coisa q ue ju lgo im possíve l ou imp rováve l , tenho igua l
mente m u itas crenças s i l e nc iosas : ac red ito q u e so
nhar é d i fe re nte de esta r acordado ; que, no son ho, o
i mpossíve l e o imp rováve l se ap rese nta m como pos
síve l e p rováve l ; e ta mbém que o son ho se re l ac iona
com o i r rea l , enqua nto a vigí l i a se re lac iona com o que
ex iste rea l mente. Acred ito, porta nto,que a rea l i dade
ex iste fo ra de m im e que posso percebê- la e co n he
cê- l a ta l com o é; po r i sso, cre io q u e se i d ife ren c ia r
rea l i dade de i l usão.
A frase "E la f icou ma l uca" contém essas mesmas
crenças e mais uma : a de que sabemos d ife renc ia r a
saúde menta l da loucu ra ; q u e a sa n i dade menta l se
chama razão, q u e a razão se refe re a u ma rea l i dade
comum a todos, e que ma luca é a pessoa que perde a
razão e i nventa uma rea l idade existente só pa ra e la .
Quando a lguém d iz "onde há fumaça há fogo" ou
"não sa ia na ch uva pa ra não se resfr ia r", afi rma s i l en
ciosamente mu itas crenças : acred ita q u e existem re la
ções de ca usa e efe ito entre as coisas; que, se há uma
coisa, ce rtamente houve uma ca usa pa ra e la, ou que
essa co isa é ca usa de a l guma out ra (o fogo é ca usa e a
fumaça é seu efe ito; a ch uva é ca usa do resfr iado ou o
resfr iado é efe ito da chuva). Acred itamos, ass im, que
as co isas, os fatos, as s ituações se encade iam em re la
ções de ca usa e efeito que podem ser con hecidas e, até
mesmo, contro ladas por nós .
Quando d i zemos que uma casa é mais bon ita do
q u e a o ut ra, ou q u e Mar i a está ma i s jovem do que
G l or i n ha, ac red ita mos que as co isas, as pessoas, a s
s i tuações, o s fatos podem se r compa rados e ava l i a
dos, j u lgados por sua q ua l i d ade (bon ito, fe io, bom,
ru im, jovem, ve l ho, engraçado, t r i ste, l i m po, sujo) ou
por s ua q u a nt i dade (m u ito, pou co, m a is, m e n os,
ma io r, meno r). C remos, ass im, q ue as q u a l i dades e as
q ua nt i dades ex istem , q u e pod e m os con hecê- l a s e
usá- l as em nossa vi da .
Se d isséssemos, por exemp lo, que "o So l é ma ior
d o q u e o vemos", m a n ifesta ría m os a cre n ça d e q u e
nossa percepção a lca nça a s co isas d e modos diferentes:
às vezes tais como são em s i mesmas (a fo l ha deste
l ivro, bem à nossa frente, é perceb ida como b ranca e,
de fato, e la o é), outras vezes ta i s como nos pa recem
(o So l, d e fato, é ma ior d o q u e o d isco dou rado q u e
vemos ao longe). Ass im, a percepção depende r ia da
d istâ ncia, d e n ossas cond ições d e v is i b i l idade ou da
l oca l ização e do movimento dos objetos. Po r isso acre
d itamos que podemos ver as coisas d ife rentemente do
que e las são, mas nem por isso d i remos que estamos
sonhando ou que ficamos ma l ucos. Acred itamos, tam
bém, que essas co isas e nós ocupa mos l uga res no es
paço e, po rta nto, cre m os q u e este existe, pode se r
d i fe renc iado (pe rto, longe, a lto, ba ixo) e med ido (com
pr i mento, l a rgu ra, a ltu ra).
fase (1982}, coreografia de Anne Teresa de Keersmaeker (1960-), apresentada em Londres, Inglaterra, em 2006. Acreditamos que nossa
percepção é capaz de diferenciar objetos de suas sombras, que sombras são causadas pela incidência de luz sobre algo e que o formato e
opacidade dessas sombras serão diferentes conforme a intensidade da luz e o ângulo em que esta incide.
A atitude filosófica 0
Nossa crenca na liberdade
Na briga, quando alguém chama o outro de men
tiroso porque não estaria dizendo os fatos exatamen
te como eles aconteceram, está presente a nossa
crença de que há diferença entre verdade e mentira.
A primeira diz as coisas tais como são, a segunda faz
o contrário, distorce a realidade. No entanto, consi
deramos a mentira diferente do sonho, da loucura e
do erro, porque o sonhador, o louco e o que erra se
iludem involuntariamente, enquanto o mentiroso
deforma a realidade voluntariamente.
Com isso, acreditamos que o erro e a mentira são
falsidades de ordens diferentes, porque somente na
mentira há a decisão de falsear.
Ao diferenciarmos erro de mentira, considerando
o primeiro uma ilusão ou um engano involuntários e
a segunda uma decisão voluntária de enganar al
guém, manifestamos silenciosamente a crença de
que somos seres dotados de vontade e que dela de
pende dizermos a verdade ou a mentira.
Crer e conhecer
Quando, na briga, uma terceira pessoa pede às outras
duas que "ponham a cabeça no lugar" e sejam "objeti
vas", ou quando falamos que os namorados são incapa
zes de ver as coisas como são, que são "muito subjeti
vos", também manifestamos várias crenças silenciosas.
De fato, acreditamos que, quando alguém defende
muito intensamente um ponto de vista, uma preferên
cia, uma opinião e é até capaz de brigar por isso, pode
"perder a objetividade" e se deixar guiar apenas pelos
seus sentimentos. Da mesma maneira, acreditamos
que os apaixonados se tornam incapazes de ver as coi
sas como são, de ter uma "atitude objetiva".
Em que acreditamos, então? Acreditamos que a
objetividade se caracteriza por uma atitude imparcial
na percepção e compreensão das coisas, enquanto a
subjetividade se caracterizaria por uma atitude parcial,
pessoal, ditada por sentimentos variados (amor, ódio,
medo, desejo).
Assim, não só acreditamos que a objetividade e a
subjetividade existem, como ainda acreditamos que
são diferentes: que a primeira percebe perfeitamente
a realidade, enquanto a segunda, voluntária ou invo
luntariamente, a deforma.
Ao dizermos que alguém "é legal" porque tem os
mesmos gostos, as mesmas ideias, porque respeita ou
0 Capítulol
Ao mesmo tempo, porém, nem sempre avaliamos
a mentira como uma coisa ruim: não gostamos de ler
romances, ver novelas, assistir a filmes? E não são men
tira? É que também acreditamos que, quando alguém
nos avisa que está mentindo, a mentira é aceitável, não
seria uma mentira "pra valer". Distinguimos, portanto,
entre a ficção e a mentira deliberada.
Quando distinguimos verdade de mentira e dis
tinguimos mentiras inaceitáveis de mentiras aceitá
veis, não estamos apenas nos referindo ao conheci
mento ou desconhecimento da realidade, mas
também ao caráter da pessoa. Acreditamos, portan
to, que as pessoas, porque possuem vontade, podem
ser morais ou imorais, pois cremos que a vontade é o
poder de escolher entre o bem e o mal. E, sobretudo,
acreditamos que exercer tal poder é exercer a liber
dade, pois acreditamos que somos livres porque es
colhemos voluntariamente nossas ações, nossas
ideias, nossos sentimentos.
despreza as mesmas coisas que nós e tem atitudes,
hábitos e costumes muito parecidos com os nossos,
temos outra crença silenciosa. Estamos acreditando
que a vida com as outras pessoas nos faz semelhantes
ou diferentes em decorrência de normas e valores mo
rais, políticos, religiosos e artísticos, regras de conduta,
finalidades de vida.
Acha mos óbvio que todos os seres humanos seguem
regras e normas de conduta, possuem valores morais,
religiosos, políticos, artísticos, vivem na companhia de
seus semelhantes e procuram distanciar-se dos diferen
tes, ou seja, daqueles com os quais entram em conflito.
Afinal, em que acreditamos? Acreditamos que so
mos seres sociais, morais e racionais, pois regras, nor
mas, valores só podem ser estabelecidos por seres
conscientes e dotados de raciocínio.
Como se pode notar, nossa vida cotidiana é toda
feita de crenças silenciosas, da aceitação de coisas e
ideias que nunca questionamos porque nos parecem
naturais, óbvias. Cremos na existência do espaço e do
tempo, na realidade exterior e na diferença entre rea
lidade e sonho, assim como na diferença entre saúde
mental/razão e loucura. Cremos na existência das qua
lidades e das quantidades. Cremos que somos seres
racionais capazes de conhecer as coisas e por isso acre-
ditamos na existência da verdade e na diferença entre
verdade e mentira; cremos também na objetividade e
na diferença entre ela e a subjetividade.
Cremos na existência da vontade e da liberdade e
por isso cremos na existência do bem e do mal, crença
que nos faz aceitar como perfeitamente natural a exis
tência da moral e da religião.
Cremos também que somos seres que naturalmente precisam de seus semelhantes e por isso tomamos
como um fato óbvio e inquestionável a existência da
sociedade com suas regras, normas, permissões e proi
bições. Haver sociedade é, para nós, tão natural quan
to haver Sol, Lua, dia, noite, chuva, rios, marés, céu e
florestas.
Placas indicando a separação entre cidadãos da União Europeia e demais viajantes, no controle de imigração do aeroporto de Londres, Reino
Unido, foto de 2014. As regras e convenções da sociedade baseiam-se em crenças silenciosas.
E se não for bem assim?
Quando, em Matrix, Neo pergunta "Onde esta
mos?", Morfeu lhe diz que a pergunta correta seria
"Quando estamos?". Ou seja, Neo pergunta pela reali
dade espacial - onde -, mas teria de perguntar pela
realidade temporal - quando -, pois acredita estar vi
vendo em 1999.
Ao revelar-lhe que estão vivendo no século XXI,
Morfeu pode mostrar a Neo onde eles realmente vi
vem: num mundo destruído e arruinado, vazio de coisas
e de pessoas, pois todos os seres humanos estão apri
sionados no interior da Matrix. O que Neo julgava ser
o mundo real é pura ilusão e aparência.
Para que Neo compreenda o que se passa, Morfeu
(como na mitologia grega) faz com que, de maneira
veloz e incessante, tudo mude de forma, cor, tamanho,
lugar e tempo, de tal modo que Neo tenha de pergun
tar se o espaço e o tempo de fato existem.
Quando é levado ao oráculo, Neo presencia fatos
surpreendentes, como uma criança entortando e de
sentortando uma colher sem tocar nela. Perante sua
surpresa, a criança lhe diz simplesmente: "A colher não
existe". Neo está diante de uma contradição entre visão
e realidade: o que ele vê não existe e o que existe não
é visto por ele.
Diante da perplexidade de Neo, o oráculo lhe mos
tra a inscrição sobre a porta - "Ousa conhecer". Assim,
indica-lhe que, antes de tentar resolver os enigmas do
mundo externo, será mais proveitoso que comece com
preendendo-se a si mesmo.
Quantas vezes não passamos por situações desse
tipo, que nos levam a desconfiar ora das coisas, ora de
nós mesmos, ora dos outros?
Cremos que o tempo existe e transcorre sem de
pender de nós, e cremos que podemos medi-lo com
instrumentos, como o relógio e o cronômetro. No en
tanto, quando estamos à espera de alguma coisa mui
to desejada ou de alguém muito querido, o tempo pa
rece não passar; olhamos para o relógio e nele o tempo
está passando, sem corresponder ao nosso sentimento
de que está quase parado.
A atitude filosófica 0
Ao contrário, se estamos num passeio com amigos
ou em outra situação de muita satisfação, o tempo
passa velozmente, ainda que o relógio mostre que se
passaram várias horas.
Vemos que o Sol nasce a leste e se põe a oeste; que
sua presença é o dia e sua ausência é a noite. Nossos olhos
nos fazem acreditar que o Sol se move à volta da Terra e
que esta permanece imóvel. No entanto, a astronomia
demonstra que não é isso que acontece. A Terra é um
planeta num sistema cuja estrela central se chama Sol e,
juntamente com outros planetas, se move à volta do Sol.
Além desse movimento de translação, ela ainda
realiza outro, o de rotação em torno de seu eixo invisí
vel. O primeiro explica a existência do ano e o segundo,
a do dia e da noite. Assim, há uma contradição entre
nossa crença na imobilidade da Terra e a informação
astronômica sobre os movimentos terrestres.
Momentos de crise
Esses conflitos entre nossas crenças e um saber
estabelecido indicam a principal circunstância em que
somos levados a mudar de atitude. Quando uma cren
ça contradiz outra ou parece incompatível com outra,
ou quando aquilo em que sempre acreditamos ou a que
sempre obedecemos é contrariado por outra forma de
conhecimento ou por nosso desejo de liberdade, entra
mos em crise.
Algumas pessoas se esforçam para fazer de conta
que não há nenhum problema. Outras, porém, sentem-se
0 Capítulol
Esses exemplos assemelham-se às experiências e
desconfianças de Neo: por um lado, tudo parece cer
tinho e como tem de ser; por outro, parece que tudo
poderia estar errado ou ser ilusão. Temos a crença na
liberdade, mas somos dominados pelas regras de nos
sa sociedade. Temos a experiência do tempo parado
ou do tempo ligeiro, mas o relógio não a comprova.
Temos a percepção do Sol em movimento à volta da
Terra, mas a Astronomia nos ensina o contrário.
Cremos que nossa vontade é livre para escolher entre
o bem e o mal. Cremos também na necessidade de obe
decer às normas e às regras de nossa sociedade. Porém,
o que acontece quando nossa vontade nos indica que é
bom fazer ou querer algo que nossa sociedade proíbe ou
condena? Ou, ao contrário, quando nossa vontade julga
que será um mal e uma injustiça querer ou fazer algo que
nossa sociedade exige ou obriga?
impelidas a indagar qual é a origem, o sentido e a rea
lidade de nossas crenças e de nossos desejos.
É assim que as experiências do tempo parado e
do tempo veloz e a do tempo marcado pelo relógio
nos levam a indagar: "Como é possível que haja du
as realidades temporais diferentes, a marcada pelo
relógio e a vivida por nós?", "Qual é o tempo real e
verdadeiro?". Para responder a essas perguntas, é
preciso fazer uma pergunta mais profunda: "O que
é o tempo?".
Da mesma maneira, a diferença
entre nossa percepção da imobilidade
da Terra e mobilidade do Sol e o que
ensina a Astronomia leva-nos a per
guntar: "Se não percebemos os mo
vimentos da Terra e se nossos olhos
se enganam tão profundamente, será
que poderemos sempre confiar em
nossa percepção visual ou deveremos
sempre desconfiar dela?", "Será que
percebemos as coisas como realmen
te são?".
Planisfério do sistema heliocêntrico elaborado
pelo astrônomo e matemático polonês N icolau
Copérnico para seu livro Sobre as revoluções das
órbitas celestes(1543). Ao defender a tese de
que era a Terra que girava em torno do Sol,
e não o contrário, Copérnico desafiou as
crenças de sua época.
Para responder a essas perguntas, precisamos fazer
duas outras, mais profundas: "O que é perceber?" e "O
que é realidade?".
É assim também que o conflito entre minha von
tade e as regras de minha sociedade me levam à se
guinte questão: "Sou livre quando sigo minha vontade
ou quando sou capaz de controlá-la e aceitar as regras
de minha sociedade?". Ora, para responder a essa ques
tão precisamos fazer outras perguntas, mais profundas.
Temos de perguntar: "O que é a liberdade?", "O que é a
vontade?", "O que é a sociedade?", "O que são o bem e
o mal, o justo e o injusto?".
O que está por trás de todas essas perguntas?
Uma mudança de atitude. Quando o que era objeto
de crença aparece como algo contraditório ou proble
mático e, por isso, se transforma em indagação ou
interrogação, passamos da atitude costumeira à ati
tude filosófica.
Essa mudança de atitude indica que quem não se
contenta com as crenças ou opiniões preestabelecidas,
quem percebe contradições e incompatibilidades entre
elas, quem procura compreender o que elas são e por
que são problemáticas está exprimindo um desejo, o
desejo de saber. E é exatamente isso o que, na origem,
a palavra filosofia significa, pois, em grego, phi/osophía
quer dizer 'amor à sabedoria'.
Buscando a saída da caverna ou a atitude fi losófica
Imaginemos, então, alguém que tomasse a decisão
de não aceitar as opiniões estabelecidas e começasse
a fazer perguntas que os outros julgam estranhas e
inesperadas. Em vez de "Que horas são?" ou "Que dia
é hoje?", perguntasse: "O que é o tempo?". Em vez de
dizer "Está sonhando" ou "Ficou maluca", quisesse sa
ber: "O que é o sonho, a loucura, a razão?".
Suponhamos que essa pessoa fosse substituindo suas
afirmações por perguntas e, em vez de dizer "Onde há
fumaça, há fogo" ou "Não saia na chuva para não ficar
resfriado", perguntasse "O que é causa?", "O que é efeito?".
Ou se, em lugar de dizer "Seja objetivo" ou "Eles são muito
subjetivos", perguntasse "O que é a objetividade?", "O que
é a subjetividade?"; e ainda,se, em vez de afirmar "Esta
casa é mais bonita do que a outra", perguntasse "O que é
o mais?", "O que é o menos?", "O que é o belo?".
Se, em vez de gritar "Mentiroso!", questionasse: "O
que é a verdade?", "O que é o falso?", "O que é o erro?",
"Quando existe verdade e por quê?", "Quando existe
ilusão e por quê?".
Se, em vez de falar na subjetividade dos namorados,
indagasse: "O que é o amor?", "O que é o desejo?", "O
que são os sentimentos?".
Se, em lugar de discorrer tranquilamente sobre
"maior" e "menor" ou "claro" e "escuro", resolvesse in
vestigar: "O que é a quantidade?", "O que é a qualidade?".
E se, em vez de afirmar que gosta de alguém porque
compartilha com essa pessoa as mesmas ideias, gostos,
preferências e valores, preferisse analisar: "O que é um
valor?", "O que é um valor moral?", "O que é um valor
artístico?", "O que é a moral?", "O que é a vontade?", "O
que é a liberdade?".
Alguém que tomasse essa decisão estaria se dis
tanciando da vida cotidiana e de si mesmo, pois estaria
indagando o que são as crenças e os sentimentos que
alimentam, silenciosamente, nossa existência.
Ao tomar essa distância, estaria interrogando a si
mesmo, desejando conhecer por que cremos no que
cremos, por que sentimos o que sentimos e o que são
nossas crenças e nossos sentimentos. Esse alguém es
taria começando a ousar conhecer e a cumprir o que
dizia o oráculo de Delfos: "Conhece-te a ti mesmo". E
estaria adotando a atitude filosófica.
Assim, uma primeira resposta à pergunta "O que
é filosofia?" poderia ser: "A decisão de não aceitar como
naturais, óbvias e evidentes as coisas, as ideias, os fatos,
as situações, os valores, os comportamentos cotidia
nos; jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado
e compreendido".
A atitude fi losófi ca 0
Conexões
Esta at iv idade tra ba l ha com conteúdos d e F i losofia , H i stó r ia e Língua Portuguesa .
As h i stórias em quad ri n hos estão rep l etas d e personagens que podemos chamar d e cabeças filosóficas, porq u e
n ão aceita m as op i n iões do senso com u m e são "pergu ntade i ras". Veja a segu i r d uas de las : a Mafa l da, de Qu i no,
e o Arma nd i nho, d e A lexa ndre Beck.
Mafalda, do cartunista argentino Quino.
iNSETiCiDA
POR QUÊ?!
\
\ FiLHO, ESSA
ARANHA PODE
SER PER:iGOSA!
/\ CONHEc;o AS
SUAS PERGUN
TAS ! ELAS SE'M·
PRE ME C� IAM
PROBLEMAS !
QUAL A
ACUSAÇÃO
CONTRA ELA?
\
NÓS PODEMOS
SER P�iGOSOS!
\
ALÉM DiSSO,
ARANHA NEM É
iiNSETO !
\
ESSA LATA OE
VENENO É MUiTO
PER iGOSA!
\
Armandinho, do
cartunista
brasileiro
------------�---- Alexandre Beck.
1 . Com base nos quadrin hos, responda : como Mafa lda e Armand inho questiona m opin iões e atitudes do senso comum?
2 . Movimentos cu l tu ra i s (como o punk) e soci a i s (como o movi mento negro) q uestiona m ideo logia s e normas de
com porta mento dom i na ntes. Mu itos de les são fo rmados p ri n ci pa lmente por jovens . Faça uma pesq u isa sob re
u m desses movi mentos de contestação e sob re o contexto em que e l e se i n se re. Nessa pesq u isa :
a) identifique os fato res h istó ricos, socioeconôm icos e geopol íticos que motiva ra m a fo rmação desse movimento;
b) re lac ione os dados de sua pesqu isa com a crença s i l e nciosa de que a vi da com as o utras pessoas nos faz se
me l ha ntes ou d ife rentes em decorrê n cia de no rmas e va lo res mora is, po l ít i cos, re l i gi osos e a rtísticos, e ntre
outros fato res.
3. Escreva um peq ueno texto com os passos da pesquisa fe ita na atividade a nte r ior e suas conc lusões. Depois, leve-o
pa ra d iscussão em sa la de a u la .
0 Capítulol
1 . Você assisti u ao p r ime i ro fi lme da sér ie Matrix? S e
s im, responda : que pa ra l e los podemos esta be lece r
e ntre a pe rsonagem Neo e o fi l ósofo Sócrates?
2. Por q ue Sócrates é co nside rado o "patrono da fi
losofia"?
3. O que P latão qu i s representa r no M ito da Cave rna?
Faça uma re lação e ntre o m ito e o fi lme Matrix.
l n d i cacões
Janela da alma
• Direção de Wa lter Ca rva lho e João Jard im. Brasi l , 2002.
Ao reun i r depoimentos de pessoas q ue têm a lgu m prob le
ma ou defic iênc ia v i sua l , o documentár io trata de q uestões
como a a preensão da rea l i dade e a satu ração de imagens e
a pa rênc ias no mundo. Entre os entrevista dos, estão o escr i
tor português José Saramago (1 922-2010), o mú s ico bras i l e iro
He rmeto Pascoa l (1 936-) e o fotógrafo franco-es loveno Eu
gen Bavcar (1946-), q u e é cego.
O turista
• Direção de Florian Hencke l von Donnersmarck. Estados
Un idos/França/Itá l ia, 2010.
Viaja ndo sozi n ho, o professor Fra n k Tupe lo se enca nta com
a bela E l i se Cl ifton -Wa rd . A pr in c íp io, porém, ela se envol
ve com Fra n k apenas porque u m ex-amante l h e ped iu pa ra
desp istar po l i c i a i s que o perseguem : o crim i noso passou por
c i ru rg ias p lást icas e deseja que creiam que aque l e homem
é e le . No enta nto, a trama se torna m u ito ma i s comp l exa, e
todos reve l am não ser o que pa recem .
Cidade das sombras
• Direção de Gi l Kenan. Estados Un idos, 2008.
Neste fi lme i n s p i rado no Mito da Caverna de Platão, a amea
ça de u m apoca l i pse leva a popu l ação da Terra a viver em
uma á rea s ubterrânea . Com o passa r dos sécu l os, a m em ória
do mundo exter ior perde-se, e a popu lação se res igna com
um cotid i ano regrado e satisfatório. Quando a capac idade de
sobrev iver nessas cond i ções se mostra ameaçada , dois ado
lescentes buscam descobr i r a verdade .
Felicidade clandestina
• Escrito por C la rice Lispector. Rocco, 1998.
4. Exp l i que o que são as nossas crenças costume i ras .
Dê outros exe m p los de crenças que reprod uz imos
no cotid i a no.
5. De aco rdo com o que fo i estudado no ca pítu lo, em
que momento passa mos da atitude costu me i ra à
atitude fi losófica?
O escritor português José Saramago em cena do documentário
Janela da alma.
Elise (Angelina Jolie) e Frank (Johnny Depp), em cena de
O turista (Z0l0).
Nesta comp i l a ção de 25 textos, as personagens quest ion am rad i ca lmente os sent imentos, percepções e re la ções h u m a nas . Crô
n icas e contos como "O ovo e a ga l i n h a" pa rtem da observa ção s imp les de um objeto para um fluxo de quest ion amentos sobre
o que e le pode representa r. Outro texto emb lemático é "Os desa stres de Sofia", em que a n a rradora relata como sua re lação de
a dm i ração e ód io com um professor de infâ n cia a l evou a busca r sua i dentidade e o conhec imento verdade i ro.
A atitude filosófica 0
Filosofia e racionalidade
Podemos d izer que a fi losofia se constitu i q uando os
seres humanos começam a exigi r provas e j ust ificações
racionais que va l idem ou inva l idem as crenças cotidianas.
Por que rac iona is? Por três motivos:
• porque raciona l s ign ifica a rgumentado, debatido
e compreend ido;
• porq ue rac iona l s ign if ica que, ao a rgumenta r e
debate r, que remos con hecer as cond ições e os
A atitude crítica
A p r ime i ra ca racte ríst i ca da at i tude f i l osóf ica é
negativa, i sto é, u m d i ze r n ão aos "p ré-conce i tos",
aos "pré-j u ízos", a os fatos e às i de i a s da expe r i ênc i a
cot i d i a na , ao q u e "todo mundo d i z e pensa". Em ou
t r a s pa l av ras, é toma r d i stâ nc i a d e nossas cre nças
pa ra pode r i nter roga r q u a i s são suas ca usas e q u a l
é s e u sent ido .
A segu nda ca ra cte ríst ica da at itu d e f i l osófica é
positiva, i sto é, uma i nte rrogação sobre o que são as
co isas, as ide ias, os fatos, as s ituações, os comporta
mentos, os va lores; sobre quem somos. É ta mbém uma
i nte rrogação sobre o porquê e o como d isso tudo e de
nós própr ios.
A face negat iva e a face pos it iva da at itude f i lo
sófi ca constitu em o que cha mamos de atitude crítica.
Por que crít ica? Em gera l, j u lgamos que a pa l avra crí
tica s ign if ica 'se r do co nt ra', d i ze r que tudo va i ma l ou
pressu postos de nossos pensamentos e os dos
outros;
• porq ue raciona l s ign ifi ca respe ita r certas regras
de coe rência do pensamento pa ra que um a rgu
mento ou um debate ten ham sentido. Deste mo
do, é possíve l chega r a conc lusões que podem ser
compreend idas, d iscutidas, aceitas e respe itadas
por outros.
está errado - enfim , co isa de gente chata ou q u e acha
que sabe ma i s que os outros. Mas não é i sso q ue essa
pa lavra que r d izer.
Crítica p rovém d o grego e tem t rês s e n t i dos
p r i n c i p a i s : 1 . ca pa c i d ade pa ra j u l ga r, d i sce rn i r e de
c i d i r co r reta mente; 2 . exa me rac i o n a l , sem precon
ce ito e s em p rej u lga m e nto d e todas a s co i sas ; 3 .
a t iv i d a d e de exa m i n a r e ava l i a r d eta l h a d a m e nte
uma i d e ia , u m va l o r, u m cost u m e, u m co mpo rta
mento, uma ob ra a rtíst i ca o u c i e ntíf i ca . A at it ude
f i l osóf ica é u m a at i t ude c r ít i ca po rq u e a p rese nta
esses três s ign if ica dos da noção de c r íti ca . Esta , por
sua vez, é i nsepa ráve l da noção d e rac i o n a l , que v i
mos no i n íc i o deste ca p ít u l o.
A f i l o sof ia começa d i ze ndo não às c renças e aos
p reconce itos do d i a a d i a pa ra q u e e l es poss am se r
ava l i ados r ac i o n a l e c r i t i ca mente. P a ra a f i l osof ia ,
não sabemos o que imag i náva mos sabe r - ou , como
d i z i a Sócrates (e . 469 a .C . - 399 a .e .), começa mos a
b usca r o co n he c imento q u a ndo somos ca pazes d e
d i ze r: " S ó se i q u e n a d a se i ".
Pa ra P l a tão (427 a . C . -347 a .e .), d i sc íp u l o de Só
crates, a f i l osof ia começa com a admiração d i a nte
do m u ndo . J á Ar i stóte l es (384 a .C . -322 a .e . ) , d i scíp u
l o d e P l atã o, esc reve q u e a f i l osof ia começa com o
espanto d i a nte d e t u d o o q u e ex iste e a co ntece .
Admiração e espanto s ign i fica m q u e recon h ecem os
nossa igno râ n c i a e, exata mente por i sso, podemos
s u pe rá - l a .
A f i l osof i a i n i c i a s ua i nvest igação no i n sta nte
em q ue a ba ndon amos nossas certezas cot i d i a nas e
não d i spomos de nada pa ra su bstituí- l as . Ser ia como
se t i véssemos a c abado de nascer para o m u ndo e
pa ra nós mesmos e p rec i sássemos pe rgu nta r o que
é , por que é e como é o m u n d o, e ta m bé m o que
somos, por que somos e como somos.
O que é a filosofia? 0
Em outras palavras, a filosofia se interessa por
aquele instante em que a realidade natural (o mundo
das coisas) e a realidade histórico-social (o mundo dos
seres humanos) tornam-se estranhas, espantosas, in
compreensíveis e enigmáticas, quando as opiniões es
tabelecidas já não nos podem satisfazer.
Ou seja, a filosofia se volta preferencialmente para os
momentos de crise no pensamento, na linguagem e na
ação, pois é neles que se torna mais clara a exigência de
fundamentar ideias, palavras e práticas. Para superar im
passes gerados por contradições internas ou entre dife
rentes sistemas religiosos, éticos, políticos, científicos e
artísticos estabelecidos, a filosofia busca mudanças cujo
sentido ainda não está claro e precisa ser compreendido.
Para que filosofia?
Muitos perguntam: "Afinal, para que filosofia?". É
uma pergunta interessante. Não vemos nem ouvimos
ninguém perguntar, por exemplo, "Para que Matemá
tica ou Física?", " Para que Geografia ou Geologia?",
"Para que Biologia ou Psicologia?", "Para que pintura,
literatura, música ou dança?". Mas todo mundo acha
muito natural perguntar: "Para que filosofia?".
Essa pergunta costuma receber uma resposta irô
nica, conhecida dos estudantes de filosofia: "A filoso
fia é uma ciência com a qual e sem a qual o mundo
permanece tal e q uai ". Ou seja, a filosofia não serviria
para nada.
Essa pergunta, "Para que filosofia?", tem a sua ra
zão de ser. Em nossa cultura e em nossa sociedade,
costumamos considerar que alguma coisa só tem o
direito de existir se tiver alguma finalidade prática mui
to visível e de utilidade imediata. Quando se pergunta
"Para quê?", o que se pergunta é: "Que uso proveitoso
ou vantajoso posso fazer disso?".
Eis por que ninguém pergunta "Para que as ciên
cias?", pois todo mundo imagina ver a utilidade das
ciências nos produtos da técnica. Todo mundo também
imagina ver a utilidade das artes, tanto por causa da
compra e venda das obras de arte quanto porque nos
sa sociedade vê os artistas como gênios que merecem
ser valorizados (ao mesmo tempo que, paradoxalmen
te, é capaz de rejeitá-los se suas obras forem verdadei
ramente revolucionárias e inovadoras, pois, nesses
casos, eles não são "úteis" para a manutenção do poder
estabelecido).
@ Capítulo 2
EM lEl"'FO.S
DZ E�
PRC8LEMA.S
REAIS VIPA-1
FA
I
Manifestante exibe cartaz em protesto realizado no Rio de Janeiro (RJ),
em 2013. A atitude crítica envolve abandonar certezas cotidianas.
Ninguém, todavia, consegue perceber para que ser
viria a filosofia. Parece que o senso comum não enxerga
algo que os cientistas sabem. As ciências pretendem ser
conhecimentos verdadeiros, obtidos graças a procedimen
tos rigorosos de pensamento; pretendem agir sobre a
realidade por meio de instrumentos e objetos técnicos;
pretendem fazer progressos nos conhecimentos, corrigin
do-os e aumentando-os. Todas essas pretensões das
ciências pressupõem que elas admitem a existência da
verdade, a necessidade de procedimentos corretos para
o pensamento, o estabelecimento da tecnologia como
aplicação prática de teorias e, sobretudo, que elas confiam
na racionalidade dos conhecimentos.
Ora, verdade, pensamento racional, procedimentos
especiais para conhecerfatos, aplicação prática de conhe
cimentos teóricos, correção e acúmulo de saberes: esses
propósitos das ciências não são científicos, são filosóficos
e dependem de questões filosóficas. O cientista parte
deles como questões já respondidas, mas é a filosofia que
as formula e busca respostas para elas. Assim, o trabalho
das ciências pressupõe o trabalho da filosofia, mesmo
que o cientista não seja filósofo.
técnica: palavra derivada do grego, indica o conjunto de
práticas de uma profissão ou arte para a fabricação de
instrumentos e utensílios. Portanto, o produto da técnica
é o resultado material da aplicação de uma série de
regras, geralmente para transformar um elemento natural
em outro artificial. Uma roda de madeira e um machado
de ferro são instrumentos técnicos de trabalho; um prato
de barro, é um utensílio técnico para uso cotidiano. Um
computador e um avião são objetos técnicos. Uma vacina
é um produto da técnica.
Cientista manipula colônia de bactérias cu ltivada para decidir o
tratamento mais adequado contra aquela variedade em Londres,
Inglaterra, 2003. A ciência parte de questões formuladas pela
filosofia para desenvolver seus produtos técnicos.
Muitos consideram que é preciso determinar cla
ramente o uso que se pode fazer da filosofia. Dizem,
então, que, de fato, a filosofia não serve para nada, se
"servir" for entendido como fazer usos técnicos dos
produtos filosóficos ou obter lucros com eles. Conside
ram também que a parte principal ou mais importante
da filosofia nada tem a ver com as ciências e as técnicas.
Para quem pensa dessa forma, o interesse da filo-
Atitude filosófica: indagar
Em primeiro lugar, veremos que a atitude filosófica
mantém algumas características independentemente
do conteúdo investigado.
Características da atitude fi losófica
• Perguntar o que é (uma coisa, um valor, uma
ide ia , um comportamento)
A fi losofia i n daga qua l é a rea l idade e qua l é a
s ign ificação de a lgo.• Perguntar como é (uma coisa, uma ideia, um
valor, um comportamento)
A fi losofia i n daga co mo é a estrutu ra ou o
s i stema d e re lações que constitu i a rea l idade
de a lgo.
• Perguntar por que é (uma coisa, uma ideia,
um valor, um comportamento)
A fi losofia i ndaga por que a lgo existe, qua l é a
o r ige m ou a causa de u ma co isa , d e u ma i de ia ,
de u m va lo r, de u m co mporta m ento .
sofia não estaria nos conhecimentos (que ficam por
conta da ciência) nem nas aplicações práticas das teorias
(que ficam por conta da tecnologia), mas nos ensina
mentos morais ou éticos. Estudando as paixões e os
vícios humanos, a liberdade e a vontade, analisando a
capacidade de nossa razão para impor limites aos nossos
desejos e paixões, ensinando-nos a viver de modo ho
nesto e justo na companhia dos outros seres humanos,
a filosofia teria como finalidade ensinar-nos a virtude.
Essa definição da filosofia, porém, não nos ajuda
muito. De fato, mesmo para ser uma arte do bem viver,
a filosofia continua fazendo suas perguntas desconcer
tantes e embaraçosas: "O que é o ser humano?", "O que
é a vontade?", "O que é a paixão?", "O que é a razão?",
"O que é o vício?", "O que é a virtude?", "O que é a liber
dade?", "Como nos tornamos livres, racionais e virtuo
sos?", "Por que a liberdade e a virtude são valores para
os seres humanos?", "O que é um valor?", "Por que ava
liamos os sentimentos e as ações humanas?".
Assim, mesmo que disséssemos que o objeto da filo
sofia é apenas a vida moral ou ética, o estilo filosófico e a
atitude filosófica permaneceriam os mesmos, pois as per
guntas filosóficas - o quê, por quê, como - permanecem.
A atitude filosófica inicia-se quando essas indaga
ções são dirigidas ao mundo que nos rodeia e às relações
que mantemos com ele. Pouco a pouco, descobre-se que
essas questões pressupõem a figura daquele que inter
roga e exigem que seja explicada a tendência do ser hu
mano de interrogar o mundo e a si mesmo com o dese
jo de conhecê-lo e conhecer-se. Em outras palavras, a
filosofia compreende que, para conhecer o mundo, pre
cisa também conhecer nossa capacidade de conhecer.
Por isso, as perguntas da filosofia se dirigem ao
próprio pensamento: "O que é pensar?", "Como é pen
sar?", "Por que há o pensar?". A filosofia torna-se, então,
o pensamento interrogando-se a si mesmo. Portanto,
a filosofia se realiza como reflexão, buscando realizar
o "Conhece-te a ti mesmo".
reflexão: pa lavra empregada na Fís ica para descreve r
o movimento de propagação de uma onda luminosa ou
so nora quando , na passagem de um me io para o utro,
encontra um o bstáculo e retorna ao meio de onde partiu .
É esse reto rno ao ponto de part ida que é conservado
quando a pa lavra é usada na filosofia, isto é , a volta do
pensamento sobre s i mesmo para con hecer-se.
O que é a filosofia? @
Quem é o fi lósofo?
Reconhece-se o filósofo naquele que tem inseparavelmente o gosto pela evi
dência e o senso da ambiguidade [ . . . ] , naquele que faz um movimento que, sem
cessar, o reconduz do saber à ignorância, da ignorância ao saber [ . . . ] sua ambigui
dade é apenas uma maneira de colocar em palavras aquilo que cada pessoa sabe
muito bem: o valor dos momentos em que sua vida se renova, se retoma, se com
preende, quando seu mundo privado se ultrapassa e se toma mundo comum. [ . . . ]
Não há diferença entre o filósofo e os outros humanos senão esta: o filósofo é aque
le ser humano que desperta e fala, enquanto os demais contêm silenciosamente os
paradoxos da filosofia, porque, para ser inteiramente humano, é preciso ser um
pouco mais e um pouco menos humano.
Merleau-Ponty, em
foto de 1950.
MERLEAU-PONTY, Ma u rice. E loge de la ph i losoph ie [E logio da fi losofia]. l n : E/age de la philosophie et autres essais
[E logio da fi losofia e outros ensa ios]. Pa ris: Ga l l ima rd, 1 960. p. 10-1 1 e p. 73. Texto t rad uzido.
• Por q ue o senso de a m bigu idade é uma das ca racte rísti cas q ue Me r lea u-Ponty destaca no fi lósofo? Res
ponda por escrito.
A reflexão filosófica
A reflexão filosófica é o movim ento pelo qua l o pen
sa mento vo lta-se pa ra s i mesmo como fo nte daqu i l o
q u e fo i pensado. É a concentração menta l em q u e o
pensa mento busca exa m i n a r, com p reender e ava l i a r
suas própr ias ide ias, vontades, desejos e sent i mentos.
O exemp lo ma i s con hecido da reflexão f i losófica
ou da vo lta do pensa mento sobre s i mesmo é o do fi
l ósofo fra ncês René Desca rtes (1 596-1 650). E le decla ra
que só pode haver fi l osofia e c iência se pudermos p ro
va r que o espírito h u ma n o é ca paz de con hece r a ve r
dade. Por isso, coloca em dúv ida tudo o q u e recebeu
das op i n iões de sua soc iedade e de seus professo res,
bem como tudo o q u e pe rcebe pelos ci nco sent idos (as
co isas e seu próprio co rpo). Como não pod emos ga ra n
t i r a existênc ia daq u i lo q u e pode s e r posto em dúvida ,
Desca rtes identifica duvidoso e falso. Ass im, afi rma te r
encontrado a pr i me i ra ve rdade sobre a qua l e rguerá a
fi losofia , pois, ao d uvida r d e tudo, não pode d uvida r de
que está duv ida ndo. Ora , a dúv ida é uma mane i ra de
pensa r e , po rta nto, quem pensa não pode d uvida r de
que pensa . Por isso, fazendo essa volta do pensa mento
sobre si mesmo ou a refl exão, escreve e le :
M as, logo em seguida, notei que, enquanto eu
queria assim pensar que tudo era falso, era necessário
que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E notando
que esta verdade, eu penso, logo existo, era tão firme
e tão certa que todas as mais extravagantes suposições
e Capítulo 2
dos céticos não seriam capazes de abalar, julguei que
podia aceitá-la como o primeiro princípio da filosofia
que procurava.
DESCARTES, Re né. Discurso do método. São Pa u lo :
Ve r ceticismo no G lossár io .
Difusão E u ropeia do Livro, 1962 . p. 66.
Reconstituição da face
de René Descartes por
Pau l Richer, em 1913. O
médico francês
baseou-se em um
retrato da época do
filósofo para descobrir
se poderia ser dele um
crânio encontrado na
Suécia. O procedimento,
de certo modo, remete a
uma questão cartesiana:
como distinguir o
duvidoso do falso?
A reflexão fi l osófica é radical, pois va i à raiz do pen
sa mento. Não somos, porém, somente seres pensa ntes.
Somos ta m bém seres que agem no mundo, que se re
lac iona m com os outros seres h u ma nos, com os a n i
ma is, as p la ntas, as coisas, os fatos e acontec imentos.
Expr i m i mos essas re lações ta nto por me io da l i ngua
gem e dos gestos como por me io de ações, com porta
mentos e cond utas.
Pensamos, agimos e falamos. A reflexão filosófica
se volta para compreender o que se passa em nós nes
sas relações que mantemos com a realidade circundan
te. Organiza-se em torno de três grandes conjuntos de
questões:
1. Por que pensamos o que pensamos, dizemos o
que dizemos e fazemos o que fazemos? Isto é, quais os
motivos, as razões e as causas para pensarmos o que
pensamos, dizermos o que dizemos, fazermos o que
fazemos?
2. O que queremos pensar quando pensamos, o que
queremos dizer quando falamos, o que queremos fazer
quando agimos? Isto é, qual é o conteúdo ou o sentido do
que pensamos, dizemos e fazemos?
3. Para que pensamos o que pensamos, dizemos o
que dizemos, fazemos o que fazemos? Isto é, qual é a
intenção ou a finalidade do que pensamos, dizemos e
fazemos?
Essas três questões têm como objetos de indagação
o pensamento, a linguagem e a ação, e podem ser re
sumidas em "O que é pensar?", "O que é falar?" e "O que
é agir?". Elas nos conduzem, necessariamente, à seguin
te pergunta: o que pensamos, dizemos e fazemos em
nossas crenças cotidianas constitui ou não um pensa
mento verdadeiro, uma linguagem coerente e uma ação
dotada de sentido?
Como vimos, a atitude filosófica dirige-se ao mun
do das coisas quenos rodeiam e aos seres humanos
que nele vivem e com ele se relacionam. É um saber
sobre a realidade exterior ao pensamento.
Já a reflexão filosófica se dirige ao pensamento, à
linguagem e à ação. São perguntas sobre a capacidade
e a finalidade de conhecer, falar e agir próprias dos se
res humanos. É um saber sobre a realidade interior aos
seres humanos.
Filosofia: um pensamento sistemático
As indagações fundamentais da atitude filosófica
e da reflexão filosófica não se realizam segundo as pre
ferências e opiniões de cada um. A filosofia não é feita
de "achismos" nem é pesquisa de opinião à maneira
dos meios de comunicação de massa. As indagações
filosóficas se realizam de modo sistemático.
Que significa isso? Significa dizer que a filosofia:
• trabalha com enunciados precisos e rigorosos;
• busca encadeamentos lógicos entre os enunciados;
• utiliza conceitos ou ideias obtidos por procedi
mentos de demonstração e prova;
• exige a fundamentação racional do que é enun
ciado e pensado.
Somente assim a reflexão filosófica pode fazer com
que nossas crenças e opiniões alcancem uma visão crí
tica de si mesmas. Não se trata de dizer "eu acho que",
mas de poder afirmar "eu penso que".
sistema: pa lavra de o rige m grega ; s ign ifica ' um todo
cujas pa rtes estão ligadas por re lações de conco rdã nc ia
interna'. No caso do pe nsa mento, s ign ifica um conjunto de
ideias interna mente a rt iculadas e re lac ionadas de fo rma
coerente, graças a pr incípios comuns ou a ce rtas regras e
normas de a rgumentação e demonstração.
O conhecimento filosófico é um trabalho intelec
tual. É sistemático porque não se contenta em obter
respostas para as questões que se apresentam, mas
exige que as próprias questões sejam válidas e que as
respostas sejam verdadeiras, estejam relacionadas en
tre si, esclareçam umas às outras, formem conjuntos
coerentes de ideias e significações, sejam provadas e
demonstradas racionalmente.
Quando alguém diz "Esta é a minha filosofia" ou
" Isso é a filosofia de fulana ou de fulano" ou, ainda,
"Esta é a filosofia da empresa", engana-se e não se en
gana ao mesmo tempo. Engana-se, pois imagina que,
para "ter uma filosofia", basta possuir um conjunto de
ideias e princípios mais ou menos coerentes sobre todas
as coisas e pessoas. E não se engana porque, ainda que
confusamente, percebe nas ideias e nos princípios uma
característica que o leva a dizer que são "uma filosofia".
Qual característica? A ligação necessária entre certas
ideias e entre certos comportamentos, bem como as
relações necessárias entre essas ideias e esses compor
tamentos. Ou seja, pressente-se que a filosofia opera
sistematicamente, com coerência e lógica.
O que é a filosofia? 0
Em busca de uma definicão da filosofia
Quando começamos a estudar filosofia, somos
logo levados a buscar o que ela é. Temos uma primei
ra surpresa ao descobrir que não há apenas uma defi
nição da filosofia. A segunda surpresa ocorre quando
percebemos que, além de várias, as definições aparen
temente não podem ser reunidas numa só. Eis por que
muitos, cheios de perplexidade, indagam: "Afinal, o
que é a filosofia, que nem sequer consegue dizer o que
ela é?".
Uma primeira aproximação nos mostra pelo menos
quatro definições gerais do que seria a filosofia:
1. Visão de mundo de um povo, de uma civilização
ou de uma cultura. Nessa definição, a filosofia corres
ponderia ao conjunto de ideias, valores e práticas pelo
qual uma sociedade apreende e compreende o mundo
e a si mesma. Com base nisso, essa sociedade define
para si o tempo e o espaço, o sagrado e o profano, o
bom e o mau, o justo e o injusto, e assim por diante.
Qual o problema dessa definição? Por um lado, ela
se parece com a noção de "minha filosofia" ou "a filo
sofia da empresa"; por outro, ela é tão genérica e ampla
que não permite, por exemplo, distinguir entre filosofia
e religião (o sagrado e o profano), filosofia e arte (o
belo e o feio), filosofia e ciência (o verdadeiro e o falso).
Na verdade, essa definição identifica filosofia e cultura,
pois esta última, como veremos na Unidade 8, é uma
visão de mundo coletiva que se exprime em ideias, va
lores, regras e práticas de uma sociedade.
A definição, portanto, não alcança a especificidade
do trabalho filosófico. Por isso, só podemos aceitá-la
como uma expressão que contém ou indica alguns as
pectos que poderão entrar na definição de filosofia.
2. Sabedoria de vida. A filosofia seria a atividade
de algumas pessoas que pensam sobre a vida moral,
dedicando-se à contemplação do mundo e dos outros
seres humanos para aprender e ensinar os outros a
controlar seus desejos, sentimentos e impulsos e a di
rigir sua vida de modo ético e sábio.
A filosofia seria uma escola de vida ou uma arte do
bem viver. Essa definição nos diz, de modo vago, o que
se espera da filosofia (a sabedoria interior), mas não o
que é e o que faz a filosofia. Por isso, também não po
demos aceitá-la, mas apenas reconhecer que nela está
presente um dos aspectos do trabalho filosófico.
3. Esforço racional para conceber o Un iverso como
uma totalidade ordenada e dotada de sentido. Nessa
definição, atribui-se à filosofia a tarefa de conhecer a
realidade inteira, provando que o Universo é uma to
talidade ordenada por relações de causa e efeito, e que
essa totalidade é racional, ou seja, possui sentido e
finalidade compreensíveis ao pensamento humano.
Os que adotam essa definição precisam começar
distinguindo entre filosofia e religião e até mesmo
opondo uma à outra. Embora ambas possuam o
mesmo objeto (compreender o Universo), a primeira
o faz por meio do esforço racional, enquanto a se
gunda, por meio da confiança (fé) numa revelação
divina. Ou seja, a filosofia procura discutir o sentido
e o fundamento da realidade, enquanto a religião se
baseia em algo inquestionável pela razão humana.
Ao contrário da religião, o pensamento filosófico
procura explicar e compreender mesmo o que pare
ce irracional e inquestionável.
Essa terceira definição também é problemática
porque dá à filosofia a tarefa de oferecer uma explica
ção e uma compreensão totais do Universo. Nos seus
inícios, a filosofia buscava substituir a explicação reli
giosa (os mitos) e constituía o conjunto de todas as
ciências teóricas e práticas, pois não se fazia distinção
entre filosofia e ciência.
Mafalda sabe da dificuldade para definir a filosofia e do tempo necessário para isso.
G Capítulo 2
Porém, há nos dias de hoje pelo menos duas limi
tações a essa pretensão totalizadora.
Em primeiro lugar, a filosofia e as ciências foram se
separando no decorrer da história ocidental. Aliás, o
próprio saber científico se dividiu em vários saberes
particulares, cada qual com seu campo de investigação
e de explicação de um aspecto da realidade. Em outras
palavras, como as diferentes ciências e artes definiram
um aspecto e um campo da realidade para estudo (no
caso das ciências) e para a expressão criadora (no caso
das artes), não é mais admissível que uma única disci
plina teórica abranja a totalidade dos conhecimentos.
Em segundo lugar, porque a própria filosofia já não
admite que um único sistema de pensamento ofereça
uma única explicação para o todo da realidade, pois
esta permanece aberta e convida a múltiplas perspec
tivas de conhecimentos e interpretações. Por isso, essa
definição também não pode ser aceita, embora conte
nha aspectos importantes da atividade filosófica.
4. Fundamentação teórica e crítica dos conheci
mentos e das práticas. Expliquemos o que sejam fun
damentação e crítica.
Fundamentar significa 'encontrar, definir e estabe
lecer racionalmente princípios, causas e condições que
determinam a existência, a forma e os comportamen
tos de alguma coisa, bem como as leis ou regras de
suas mudanças'.
fundamento: palavra de origem latina; significa 'base
sólida' ou 'alicerce sobre o qual se pode construir
com segurança'. Do ponto devista do conhecimento,
significa 'a base ou o princípio racional que sustenta uma
demonstração verdadeira'.
teoria: do grego theória, que significa 'contemplar uma
verdade com os olhos do espírito', isto é, uma atividade
puramente intelectual de conhecimento. Desse ponto de
vista, uma fundamentação teórica significa 'determinar
pelo pensamento, de maneira lógica, organizada e
sistemática, o conjunto de princípios, causas e condições
de alguma coisa'.
Cooking crystals(ZOOB),
instalação do artista
plástico Tunga. As artes
definem um aspecto e um
campo da realidade para
a expressão criadora, o
que mostra que a
filosofia não pode
pretender oferecer uma
expücação e uma
compreensão totais do
Universo.
Crítica significa 'a capacidade para julgar, discernir
e decidir corretamente'; 'o exame racional, sem precon
ceito e sem prejulgamento de todas as coisas'; e 'a ati
vidade de examinar e avaliar detalhadamente uma
ideia, um valor, um costume, um comportamento, uma
obra artística ou científica'.
Afundamentação crítica significa, portanto, exa
minar, avaliar e julgar racionalmente os princípios, as
causas e condições de alguma coisa. A seguinte defini
ção dá conta da especificidade do trabalho filosófico:
Ocupações da fi losofia como
fundamentação teórica e crítica
• Os pr i n cíp i os , causas e co n d i ções d e u m
co n h ec imento q u e prete nda s e r rac i ona l e
verda d e i ro .
• A o r ige m , a fo rma e o co nteúdo dos va lo res
éti cos, po lít i cos, re l ig iosos, a rtíst i cos e cu l
tu ra i s .
• A co m p ree nsão das cau sas e das fo rmas da
i lusão e do precon ce ito no p lano i n d iv i dua l e
co letivo .
• Os pr incíp ios , causas e co nd ições das trans
formações h istóri cas dos co nce itos, das ide ias,
dos va lores e das práticas hu manas.
A filosofia como fundamentacão teórica e crítica
Nessa condição, a filosofia se volta para o estudo
dos vários modos de conhecimento (percepção, imagi
nação, memória, linguagem, inteligência, experiência,
reflexão) e dos vários tipos de atividades interiores e
comportamentos externos dos seres humanos como
expressões da vontade, do desejo e das paixões. Ela
procura descrever as formas e os conteúdos desses
modos de conhecimento e desses tipos de atividade e
comportamento como relação do ser humano com o
mundo, consigo mesmo e com os outros.
O que é a filosofia? 0
Para rea l izar seu traba l ho, a fi losofia investiga, ana
l i sa e i nte rpreta o s ign if icado de ide ias gera is, como
rea l i dade, mundo, natu reza, cu ltu ra, h i stór ia, ve rdade,
fa ls idade, human idade, tempora l idade, espac i a l idade,
qua l idade, q ua nt idade, subjet iv idade, objet iv idade, d i
fe rença, repet ição, seme lhança, confl ito, contrad ição,
mudança , n ecess idade, poss ib i l idade, p robab i l ida
de, etc.
A at iv ida d e f i l osófica é, porta nto, u m a a n á l is e,
uma ref lexão e u ma crít i ca . Essas três ativ idades são
or i entadas pe la e la boração fi losófica de ide ias ge ra is
sobre a rea l idade e os seres h umanos . Porta nto, para
que essas t rês at iv i dades se rea l i zem, é prec iso que a
fi l osof ia se defi na como busca do fu ndamento (pr i n
cíp ios, ca usas e cond i ções) e do sent ido (s ign ifi ca ção
e f i na l i dade) da rea l idade em suas mú lt i p las formas .
Pa ra ta nto, e l a deve i ndaga r o que essas fo rmas de
rea l i dade são, como são e por que são, e p rocu ra r as
ca usas que as fazem exist i r, perma nece r, muda r e de
sapa rece r.
A fi l osofia não é c iênc ia : é uma reflexão sobre os
funda mentos da c iênc ia, i sto é, sobre p roced imentos e
conceitos c ientíficos. N ão é re l igião : é uma refl exão
sobre os fu ndamentos da re l ig ião, isto é, sobre as ca u
sas , o rigens e formas das crenças re l igiosas. Não é a rte :
é uma reflexão sobre os funda mentos da a rte, isto é,
sobre os conteúdos, as formas, as s ign ificações das
,
Uti l? I núti l?
Somos agora ca pazes de enfrenta r a pergu nta "pa
ra que fi losofia?". De fato, agora sabemos que o pr imei
ro ens inamento f i losóf ico não é d izer se a l go é út i l ou
i n út i l , e s im pergunta r: "O que é o út i l ? ", "Por que e pa
ra q ue m a l go é út i l ? ", "O q u e é o i n út i l ? ", "Por q ue e
para quem a lgo é i n út i l ?".
O senso comum de nossa soc iedade cons idera úti l
o que dá prestíg io, poder, fama e r iq ueza. J u lga o úti l
pe los resu ltados visíve i s das coisas e das ações, como
na famosa expressão " l eva r va ntagem em tudo". Não
poderíamos, porém, defi n i r o út i l de outra ma ne i ra ?
Vamos ve r o que d i zem sobre isso a lguns fi l ósofos de
d ife rentes épocas e l uga res.
P latão defi n i a a f i losofia como um saber ve rdade i
ro que deve ser usado em benefício dos seres hu manos
para que vivam n uma soc iedade justa e fe l iz.
Desca rtes d iz ia que a f i losofia é o estudo da sabe
doria, con hecimento pe rfeito de todas as co isas que os
G Capítulo 2
obras de a rte e do tra ba l ho a rtíst ico. Não é Soc io logia
nem Ps ico logia, mas a i nte rpretação e ava l iação crít i ca
dos conceitos e métodos da Socio logia e da Ps ico log ia .
Não é po l ít ica, mas i nte rpretação, compreensão e re
flexão sobre a o rigem, a natu reza e as formas do poder
e suas mudanças. Não é h i stór ia, mas refl exão sobre o
sentido dos acontecimentos i nseridos no tempo e com
preensão do que seja o p rópr io tempo.
Cerimônia xintoísta de purificação em Tóquio , capital do Japão, na
véspera do Ano- Novo, em 2012 . A filosofia não é religião, mas
propõe, entre outras coisas, uma reflexão sobre as causas, origens e
formas das crenças religiosas.
humanos podem a l ca nça r pa ra o uso da vida, a conser
vação da sa úde e a i nvenção das técn icas e das a rtes
com as qua i s ficam menos submet idos às forças natu
ra is, às i ntempér ies e aos catac l i smos.
Ka nt (1724-1 804) afi rmou que a fi l osofia é o con he
cimento que a razão adqu i re de s i mesma pa ra saber o
que pode con hece r, o que pode faze r e o que pode es
pera r, tendo como fi na l i dade a fe l i c idade humana .
Ma rx (1 818-1 883) dec la rou que a fi losofia havia pas
sado mu ito tempo a penas contemp la ndo o mundo e
que se tratava, agora, de conhecê- lo pa ra transformá- lo,
de modo que se a l ca nçasse just iça, abundância e fe l i
c idade pa ra todos.
Mer leau -Ponty (1 908-1961) esc reveu q u e a fi losofia
é um desperta r pa ra ver e mudar nosso mundo.
Esp i nosa (1 632-1677) afi rmou que a fi losofia é um
caminho á rduo e d ifíci l , mas que pode ser percorrido por
todos, se desejarem a verdadeira l iberdade e a fe l icidade.
Qua l ser ia, então, a uti l idade da fi l osofia?
Se abandonar a i ngenu idade e os preconce itos do
senso comum for út i l ; se não se submete r às ide ias do
m ina ntes e aos poderes estabelecidos for úti l ; se busca r
compreender a s ign ificação do mundo, da cu ltura, da
h istór ia for út i l ; se conhecer o sent ido das cr iações hu-
manas nas a rtes, nas c iênc ias e na po l ít ica for úti l ; se
dar a cada um e à sociedade os meios pa ra sermos cons
cientes de nós mesmos e de nossas ações n uma prática
que deseja a l i be rdade e a fe l ic idade pa ra todos for úti l,
então podemos d ize r que a fi l osofia é o ma i s úti l de
todos os saberes de que os se res h umanos são ca pazes.
Conexões •
Esta ativ idade traba l h a com conteúdos d e F i l osofia ,
B io logia e ma i s uma d isci p l i na, à sua esco l ha .
Em seus p r imórd ios, a fi l osofia se ap resentava como
uma exp l icação tota l da rea l i dade, po i s vi nha subst itu i r a
exp l i cação m ít i ca e re l ig iosa . No decorre r da h i stór ia , e la
passou a comparti l ha r esse pa pel com outras á reas do sa ber.
1 . Esco lha outra d isci p l i na que você con heça,exponha q ue
aspectos da rea l idade e la busca exp l i ca r e compa re sua
uti l idade à da fi losofia .
2 . Pesq uise um exemp lo da a p l i cação dos p roced imentos
fu ndamenta is da fi losofia no tra ba l ho de um b ió logo.
Bióloga pesquisa, em 2010, vestígios deixados por uma
onça-pintada no Parque Nacional de Guatopo, na Venezuela.
1 . O q ue q uer d ize r a pa lavra crítica?
2. O que s ign ifica d ize r que a fi l osofia se vo lta p refe
rencia lmente pa ra os momentos de cr ise?
3 . Por q ue se pe rgu nta "Pa ra que fi losofia?", de acor
do com o ca pítu lo?
4. O q ue é e como é a reflexão fi losófica ? De q ue mo
do e la se d ife rencia da atitude fi losófica?
l n d i cacões
Ilha das Flores
• Direção de Jorge Furtado. B rasi l , 1989.
5. Quais são os três conjuntos de q uestões q ue o rga
n iza m a refl exão fi losófica ?
6. Por q ue a fi losofia é um pensamento sistemático?
7. Exp l ique po r q ue a atividade fi losófica é uma a ná
l ise, uma refl exão e uma crítica .
8 . A fi losofia tem uti l idade? Se sim, qua l ? Exp lore o que
o texto ap resenta e a rt icu le-o com a sua posição.
N este cu rta -metragem, u m a ação ac i denta l - joga r fora um tomate com p rado - tem conse
q uên ci a s não p revistas e reve la -se m u ito ma i s com p lexa do que apa renta . Por me io de u m a
sequência s i stemát ica d e afi rmações ra ci o n a lmente fu ndamentadas , o fi lme expõe meca
n i smos e p rob l emas da soc iedade contemporâ ne a .
A vida passada a limpo
Detalhe do cartaz do filme
Ilha das Flores, de Jorge Furtado.
• Escrito por Ca rlos Drummond de And rade. Companhia das Letras, 2013.
Este vo l ume reúne poemas pub l icados or igi n a lmente em 1 959 pelo escr itor m i ne i ro. Temas como a memória , a l i nguagem e o
estra n h amento pera nte o mundo estão presentes em versos como os de "Es pecu lações sobre a pa l avra homem".
O que é a filosofia? @
DE OLHO na atua lidade
O humor e as crencas s i lenc iosas
A
lgu ns anos atrás , u ma empresa fabricante de
u m doce à base de chocolate veicu lou na te le
visão u ma peça publicitária protagon izada por
u ma famosa atriz te lev isiva , bra nca, de a lta estatu ra e
voz grave. Em u m vestiá r io mascu l ino de academia , a
atriz a pa rece fazendo uma série de recla mações a do is
jovens rapazes brancos enquanto eles se troca m . Os
jovens a r id icu la rizam com u ma sér ie de br incade iras,
até que a câmera corta para um terce i ro jovem branco.
Ele oferece u ma barra do doce, d izendo à p rotagon ista
q u e ela "dá m u ito ch i l i que qua n d o está com fom e".
Quando a câmera volta a foca liza r a personagem pr in
c ipal , a pós a pr ime ira mordida no doce, e la se transfi
gu rou em um jovem rapaz bra n co e d iz que está "me
lhor". Os colegas celebram, pois tudo voltou "ao n ormal" .
Veremos no Capítu lo 9 como a pub li c i dade mudou
sua fo rma de o perar ao lo ngo do ú lt imo século , de i
xando de promover apenas as q u a li dades do prod u
t o para b u scar assoc i á - lo a valores e ide ias q u e pos
sam s e r a t ra entes ao con s u m i d o r. Por ora , b asta
percebermos q u e , d entre mu itos sent imentos huma
nos , essa propaga nda b u sca se valer do h u mor para
desperta r a s i m pat ia de q u e m a ass iste .
A at i tude crít i ca , ca racte ríst ica da f i losof i a , nos
faz sa i r da pos ição de espectadores pass ivos de uma
peça de pro paganda e de pote n c i a i s con s u m i do res
de um produto para b u scarmos c o m p re e n d e r o que
essa peça de p ro paganda faz , por que ela faz i sso
e como e la o faz . O que é a i nte nção p resente , como
e la o p e ra e por que s e e s c o lhe u rec o r r e r a esse
recu rso .
O olhar crítico de Laerte para a discussão de gênero.
e Capítulo 2
I s s o n o s leva à pe rgu n ta : q u a l é a o r i g e m d o
efe i to de h u m o r nessa peça d e p ropaga n d a? O r a ,
f i ca c la ro q u e o efe i to s u posta m e nte h u m o ríst i co
é gara n t i d o pe la r i d i c u la r i zação d a ú n i ca f i g u ra fe
m i n i na e m ce n a . C o m o i sso é fe i to? Pe lo recurso à
genera l i zação i n dev ida e ao estereót i p o : p o r esse
ponto de v i sta , o "c h i l i q u e " ser i a uma ca racteríst i
c a fem i n i n a , e s e u m h om e m s e c o m p o rta d essa
fo r m a , age " co m o u ma m u l h e r " . A b a rra de c h o c o
l a t e , su rp re e n d entemente , te r i a o efe i to mág ico d e
devolve r as c o i s a s " a o s e u l ugar " , l i v ra n d o o j ovem
ra p a z de s e r i d e nt i f i ca d o como d e t e n t o r de u m a
ca racter íst i ca " fem i n i na " e leva n d o à s u a read m i s
s ã o n o círc u lo mascu l i n o .
D i ante de ta ntas crenças s i lenc iosas , a f i losof ia
tem um sem-nú mero de questões a apresentar, v isan
do "O que é o mascu l i no? " , " O que é o fem i n i no? ", "Qua l
é a o rigem das característ icas que defi n i r i am o mas
cul ino e o fem i n i no? ", "O que é o temperamento?" , " Por
que supomos que alguém , ao ag i r de mane i ra co ns i
derada fora de seu hab itual , estar ia se comportando
como se fosse de outro gênero?" .
E por q u e isso pode ser co n s i d erado não a penas
ve rdad e i r o , m a s ta m b é m r i s íve l? O u sej a : n ã o bas
ta se q uest i o n a r s e todas a s m u lh e re s , e a pe n as
e las , " dão ch i l i ques " : é p rec i so tam bém busca r com
p re e n d e r p o r q u e o fato d e u m homem fazê - lo tor
n a - o s u j e i to ao r i so . I sso não s i g n i f i ca r i a q u e a m u
l h e r, e m n o ss a s o c i e d a d e , é s u j e i ta a o r i d íc u lo
(pa lavra d e r ivada d e riso) , p o rq u e u m a at i t u d e q u e
a peça p u b l i c i t á r i a a presenta co m o fe m i n i na s e r i a
c o n d e n áve l?
Por fi m , por que a lguém poder ia cons iderar esta
forma de humor ace itável e desejável? A pergu nta "Por
que isso me d iverte? " é fu ndamenta l na reflexão crí
t ica . Ao achar graça nessa peça public itár ia , de a lguma
mane i ra concorda-se que o "ch i l ique" é uma at itude
exclus ivamente fem in i na e necessar iamente conde
nável . Se assoc iar uma at itude su postamente fem in i
na a u m homem o tornar ia motivo de chacota , i s so não
quer d izer que a soc iedade vê aqu i lo que é assoc iado
ao fem in i no como i nfer ior? Como ser ia a reação se a
s i tuação fosse i nversa?
Ass i m , a at i tu d e cr ít ica loca l iza a o r igem d e pre
conce itos que e m basa m at i tu des d e d o m i nação h i s
tó r i ca mesmo onde a gente menos espera . J á a re
f lexão cr ít i ca leva a q ues t i o n a m entos s o b re n ó s
m es m o s : "O q u e e s s a p ropaga n da despe rta e m
m i m? " , " Como i sso oco rre?" e " Po r q u e i sso ocor re?" .
Pode ría m os nos pergu ntar ta m bé m , por exe m p lo ,
por que só h á atores b rancos p rotagon i z ando a p e
ça p u b l i c i tá r i a , q u a ndo v ivemos e m u m país em que
Atividades
m a i s da metade da popu lação é parda o u negra , e n
tre mu itas outras questões que surgem quando ado
tamos a a t i t ude de estra n h a m ento peran te o que é
cot i d i a no .
A f i l osof i a b usca con hecer o fu n d a m ento e o
s e n t i d o d a q u i lo q u e n o s r ode i a e d e com o nossa
rea l i d ade i n te r i o r se re la c i o n a com i s so . É ta refa
da f i losof i a i nvest i g a r, a n a l i s a r e i n te rpreta r va lo
res ét i cos e cu ltu ra i s e co nhecer as causas e formas
d o p recon ce i to . A a t i t u d e ref lex iva n ec e s s á r i a à
f i l osof i a e às c i ê n c i a s hu m a na s e o co n h ec i m e nto
dela decor rente perm i t i ra m refo rça r a luta d o m o
v i m ento fem i n i s ta , b e m como a s dos mov i m entos
negro , i n d ígen a , L G BT I , d e pessoas com def i c i ê nc i a ,
en t re o utras m i no r i a s h i sto r i ca m e nte d i sc r i m i n a
das e o pr i m i d a s .
Encerramos esta aná l ise com u m questionamen
to : quando a lguém afi rma que a fi losof ia é i nút i l , que
crenças s i lenc iosas há por t rás d i sso e po r que elas
têm tanta força?
1 . Após a le itu ra do texto, d i scuta com seus co legas : toda forma de h u m o r é vá l i da? Qua l é a atitude da fi losofia
d ia nte de u ma peça humorística ? Procu re se l em bra r de outros exem plos que poder ia m ser ana l i sados e inte rp re
tados por uma perspectiva crítica .
2. Veja o ca rtu m a ba ixo.
TtlOO COBERTO,
li NÃO 9ER OS
OLHOg.
QUE CRUEL
E� CUtTURA
OOMINADA
PELO�
HOMEN$f
2
Cartum de 2011 do neozelandês Malcolm Evans.
�OA COBERTO,
A NÃO SER Oi
OLHOS. QUE
CRUEL E�A
CULTURA
DOMINADA
PELO� HOMEN�t
• As m u l he res rep resentadas chega m à mesma conc l usão com base em situações opostas. Com base no que você
vi u e d iscuti u até aqu i sobre atitude crítica, reflexão crítica e f i losofia, prob lematize as fa las de cada uma de las .
O que é a filosofia? 0
Uma analogia para o filósofo
A filosofia se constituiu quando alguns gregos, in
satisfeitos com as explicações sobre a realidade dadas
pela tradição por meio dos mitos, começaram a fazer
perguntas e buscar respostas para elas. Admirados e
espantados com a realidade, demonstraram que os
seres humanos e as coisas da natureza podem ser co
nhecidos pela razão humana, e que a própria razão é
capaz de conhecer a si mesma.
Em suma, esses pensadores gregos se deram conta
de que a verdade do mundo e dos humanos não era
algo secreto e misterioso, revelado por divindades a
apenas alguns escolhidos.
Atribui-se ao filósofo grego Pitágoras de Samos
(e. 570 a.C.-c. 495 a.e.) a invenção da palavra filosofia.
Pitágoras teria afirmado que a sabedoria plena e com
pleta pertence aos deuses, mas que os seres humanos
podem desejá-la ou amá-la, tornando-se filósofos.
fi losofia: pa lavra composta dos te rmos gregos phiLo e
sophía. PhiLo quer d ize r 'aquele o u aquela que tem u m
sent imento am igável', p o i s deriva de phi!ía, ' am izade e
amor fraterno'. Sophía quer d izer 'sabedoria' e de la vem
a pa lavra sophós, ' sáb io'. Filosofia s ign ifica, po rta nto,
' am izade pela sabedoria', e filósofo, 'o que tem am izade
pelo saber'.
Nos Jogos Olímpicos da Grécia antiga, realizavam-se
não apenas competições esportivas, mas também con
cursos artísticos. Dizia Pitágoras que três tipos de pes
soas ali compareciam: as que iam para comerciar du
rante os jogos, sem se interessar pelos torneios; as que
iam para competir e fazer brilhar suas próprias pessoas,
ou seja, os atletas e artistas; e as que iam para assistir
O que perguntavam os primei ros fi lósofos
aos jogos e torneios, avaliar o desempenho e julgar o
valor dos que ali se apresentavam. Esse terceiro tipo de
pessoa, afirmava Pitágoras, é como o filósofo.
Entalhe na entrada da catedral
de (hartres (século XI I), na
França, representa Pitágoras
tocando um instrumento
-. musical. Os filósofos
gregos dedicavam-se
simultaneamente ao que hoje
vemos como diferentes áreas
_....,___. do conhecimento.
Com isso, ele queria dizer que o filósofo não é mo
vido por interesses comerciais ou financeiros - não
coloca o saber como um bem a ser comprado e vendi
do no mercado. O filósofo também não é movido pelo
desejo de competir - não é um "atleta intelectual", não
faz das ideias e dos conhecimentos uma habilidade
para vencer competidores. O filósofo é, isso sim, movi
do pelo desejo de observar, contemplar, julgar e avaliar
as coisas, as ações, as pessoas, os acontecimentos, a
vida; enfim, pelo desejo de saber.
A verdade não pertence a ninguém nem é um prê
mio conquistado por competição. Ela está diante de
todos nós como algo a ser procurado, e é encontrada
por quem a desejar e tiver olhos para vê-la e coragem
para buscá-la.
Por que os seres nascem e morrem? Por que os semelhantes dão origem aos semelhantes, de uma árvo
re nasce outra árvore, de um cão nasce outro cão, de um ser humano nasce outro? Por que os diferentes
também fazem surgir os diferentes: o dia faz nascer a noite, o inverno faz surgir a primavera, um objeto es
curo clareia com o passar do tempo, enquanto um objeto claro escurece?
Por que tudo muda? Por que um dia luminoso e ensolarado, de céu azul e brisa suave, repentinamente se
torna sombrio, coberto de nuvens, varrido por ventos furiosos, tomado pela tempestade, pelos raios e trovões?
Por que a doença invade os corpos, rouba-lhes a cor, a força? Por que o alimento que sempre me agradou
agora, que estou doente, me causa repugnância?
Por que o que parecia uno se multiplica em tantos outros? De uma só árvore, quantas flores e quantos
frutos nascem! De uma só gata, quantos gatinhos nascem!
Por que as coisas se tornam opostas ao que eram? A brasa vermelha e quente se torna um carvão negro
e frio. A água tépida pode tornar-se uma barra dura e gelada, deixando de ser líquida e transparente para
tornar-se sólida e opaca.
--------------------------------- A origem da filosofia � ---- �
Por que nada permanece idêntico a si mesmo? De
onde vêm os seres? Para onde vão, quando desapare
cem? Por que se transformam? Por que se diferenciam
uns dos outros? Mas, também, por que tudo parece
repetir-se? Depois do dia, a noite; depois da noite, o dia.
Depois do inverno, a primavera, depois da primavera,
o verão, depois deste, o outono, e depois deste, nova
mente o inverno. O calor leva as águas para o céu e as
traz de volta pelas chuvas. Ninguém nasce adulto ou
velho, mas sempre criança, que se torna adulto e velho.
Foram perguntas como essas que os primeiros fi- Chuva avança sobre o Parque Nacional da Chapada dos
lósofos fizeram e, para elas, buscaram respostas. A Guimarães (MT}, em dezembro de 2010 . Por que as coisas se
religião, as tradições e os mitos explicavam todas essas transformam repentinamente?
coisas, mas suas explicações e respostas já não satisfaziam a quem desejava conhecer as causas da mudança,
da permanência, da repetição, da desaparição e do ressurgimento dos seres.
O nascimento da filosofia
Os historiadores da filosofia dizem que ela tem da
ta e local de nascimento: fim do século VI I a.e. e início
do século VI a.e., na cidade de Mileto, uma colônia grega
no território da atual Turquia. E o primeiro filósofo foi
Tales de Mileto (e. 624 a.C.-c. 546 a.e.), porque foi o pri
meiro a afirmar que a razão pode conhecer a causa da
origem, permanência e transformação de todas as coisas.
Além de ter data e local de nascimento e seu pri
meiro autor, a filosofia apresenta um conteúdo preciso
ao nascer: é uma cosmologia.
cosmologia: pa lavra composta de cosmo (kósmos),
que s ign ifica 'a o rdem e orga n ização do mundo' ou 'o
mundo ordenado e o rgan i zado', e Logia, que vem de !ógos,
'pensamento rac ional, d iscurso rac ional, con hec ime nto'.
Ass im , a fi losofia nasce como conhec imento rac ional da
ordem do mu ndo.
Em suas viagens, os gregos entraram em contato
com os conhecimentos de povos como os egípcios, per
sas, babilônios, assírios e caldeus. Os poetas Homero e
Hesíodo elaboraram a mitologia grega antiga com ele
mentos dos mitos e religiões desses povos e das cultu
ras que existiram na Grécia em tempos anteriores.
Essa mitologia seria, posteriormente, transformada
pelos filósofos.
Os gregos imprimiram mudanças profundas ao que
receberam de outras culturas. Dessas mudanças, vale
mencionar quatro:
1 . Com relação aos mitos : os poetas gregos retira
ram os aspectos apavorantes e monstruosos dos deu-
@ Capítulo 3
ses e do início do mundo; humanizaramos deuses,
divinizaram os homens; deram alguma racionalidade a
narrativas sobre as origens das coisas, das pessoas e
das instituições humanas (como o trabalho, as leis, a
moral).
2. Com relação aos conhecimentos: os gregos
transformaram em ciência (isto é, em um conjunto de
conhecimentos racional, abstrato e universal) aquilo
que eram elementos de uma sabedoria prática. Assim,
transformaram em matemática o que os egípcios pra
ticavam como agrimensura para medir, contar e calcu
lar os terrenos após as cheias do rio Nilo; transforma
ram em astronomia (em estudo da origem, posição e
movimento dos astros) a astrologia praticada por cal
deus e babilônios como adivinhação e previsão do fu
turo; transformaram em medicina aquilo que, nas cul
turas precedentes, eram práticas de grupos religiosos
secretos para a cura misteriosa das doenças.
Aceivo Museu Arqueológico Nacional. Atenas, Grécia/
Foto:Thanassis Stavrakis/AP/Glow lmages
Fragmento da chamada
"Máquina de Anticítera",
mecanismo de bronze
fabricado na Grécia antiga
por volta do século li a.C.
Estima-se que o aparelho era
capaz de calcu lar a posição
relativa do Sol, da Lua e de
alguns planetas, bem como
prever eclipses e outros
ciclos temporais.
3. Com relação à organ ização social e política: os
gregos inventaram não apenas a ciência ou a filosofia,
mas também a política. As demais sociedades conhe
ciam e praticavam a autoridade e o governo, mas não a
política propriamente dita, porque não separavam o
poder político de duas outras formas de autoridade: o
poder privado do chefe de família e o poder religioso do
sacerdote ou mago. Ou seja, nas sociedades não gregas,
o poder e o governo eram exercidos como autoridade
absoluta da vontade pessoal e arbitrária de um só ho
mem ou de um pequeno grupo de homens, que pos
suíam o poder militar, religioso e econômico e decidiam
sobre tudo, sem consultar ou se justificar a ninguém.
política: palavra originada do grego pó!is, que significa
'cidade organizada por leis e instituições'.
Mito e filosofia
Os historiadores da filosofia indagam se ela trans
formou gradualmente os mitos gregos ou produziu
uma ruptura radical com eles. Vejamos como os mitos
gregos explicavam o Universo e por que se acredita
va neles.
A narrat iva mít i ca do mundo
Quem narra o mito? O poeta-rapsodo. Por que
ele tem autoridade? Acredita-se que o poeta é um
escolhido dos deuses, que lhe mostram os aconte
cimentos passados e permitem que ele veja a ori
gem de todos os seres e de todas as coisas para que
possa transmiti-la aos ouvintes. Sua palavra - o
mito - é sagrada e incontestável porque vem de
uma revelação.
Como o mito narra a origem do mundo e de tudo
o que nele existe? De três maneiras principais:
1 . Encontrando o pai e a mãe das coisas e dos
seres. Isto é, tudo o que existe decorre de relações
sexuais entre forças divinas pessoais. Essas relações
geram os titãs (filhos da primeira mãe e do primei
ro pai e seus sucessores como governantes do Uni
verso), os deuses (filhos de um dos titãs e seus su
cessores), os heróis (filhos de um deus com uma
humana ou de uma deusa com um humano), os
humanos, os metais, as plantas, os animais, as qua
lidades (como quente e frio, claro e escuro, bom e
mau, belo e feio, etc.).
Trata-se de uma genealogia; isto é, narra-se como
alguns seres geraram outros seres, coisas e qualidades.
Pode-se dizer que os gregos inventaram a política
porque: a) tomavam as decisões com base em discus
sões e debates públicos e as adotavam ou revogavam
por voto em assembleias públicas; b) estabeleceram
instituições públicas (tribunais, assembleias, separação
entre autoridade do chefe de família e autoridade pú
blica, entre autoridade político-militar e autoridade
religiosa); c) sobretudo, criaram a ideia da lei e da jus
tiça como expressões da vontade coletiva pública, e
não como imposição da vontade de um só ou de um
grupo, em nome de divindades.
4. Com relação ao pensamento : diante da herança
recebida, os gregos inventaram a ideia de razão como
um pensamento sistemático que segue regras, normas
e leis universais.
O julgamento de Páris(1636), do pintor flamengo Peter Pau l Rubens
(1577-1640). A partir do Renascimento, os temas da mitologia grega
serviram de inspiração frequente para obras artísticas europeias,
ao mesmo tempo que a filosofia grega e as ciências dela derivadas
influenciaram pensadores de diferentes áreas.
2. Encontrando uma rivalidade ou uma aliança en
tre os deuses que fazem surgir alguma coisa no mundo.
Nesse caso, o mito narra ou uma guerra entre as forças
divinas, ou uma aliança entre elas para provocar alguma
coisa no mundo dos seres humanos.
É assim, por exemplo, que o poeta Homero expli
ca na Ilíada por que a vitória nas batalhas da Guerra
de Troia ora era dos troianos, ora dos gregos.
A origem da filosofia 0
Os deuses estavam divididos. A cada batalha, o rei dos
deuses, Zeus, aliava-se a um grupo e fazia um dos
lados vencer.
A própria causa da guerra teria sido uma rivalida
de entre as deusas. Elas apareceram em sonho para o
príncipe troiano Pá ris, oferecendo-lhe seus dons, e ele
escolheu a deusa do amor, Afrodite. As outras deusas,
enciumadas, o fizeram raptar Helena, esposa do ge
neral grego Menelau. Isso deu início à guerra entre
os humanos.
3. Encontrando as recompensas ou castigos que
os deuses dão a quem os obedece ou desobedece.
Como o mito narra, por exemplo, o uso do fogo pelos
seres humanos, essencial para diferenciá-los dos ani
mais? Conta-se que um titã, Prometeu, roubou uma
centelha de fogo dos deuses e a trouxe de presente
para os humanos, de quem era amigo. Prometeu foi
castigado, sendo amarrado num rochedo para que
uma ave de rapina devorasse seu fígado eternamente.
E qual foi o castigo dos homens? Os deuses criaram
a primeira mulher humana, Pandora, uma figura en
cantadora a quem foi entregue uma caixa que conteria
coisas maravilhosas, mas que nunca deveria ser aberta.
Pandora foi enviada aos humanos e, cheia de curiosi
dade e de vontade de dar-lhes as maravilhas, abriu a
caixa. Dela saíram todas as desgraças, doenças, pestes,
guerras e, sobretudo, a morte. Explica-se, assim, a ori
gem dos males no mundo.
Cosmogon ia e teogon ia
Vemos, portanto, que o mito narra a origem das
coisas por meio de lutas, alianças e relações sexuais
entre forças sobrenaturais que governam o mundo e o
destino dos seres humanos. Como os mitos sobre a
origem do mundo são genealogias, diz-se que são cos
mogonias e teogonias.
cosmogonia: gania or ig ina-se do verbo grego gennao
( 'enge ndra r', 'gerar', 'fazer nasce r e crescer') e do
su bsta ntivo genos ('gênese', 'desce ndência', 'gênero',
'espécie') . Gania, portanto, quer d izer 'geração',
' nasc imento a partir da concepção sexual e do parto'.
Ass im , a cosmogon ia é a narrativa sobre o nasc imento
e a orga n ização do mundo (cosmos) a part i r de fo rças
geradoras (pa i e mãe) d iv inas .
teogonia: pa lavra com posta de gania e theos, q ue, em
grego, s ign ifica 'as co isas d iv inas', 'os seres d iv inos', 'os
deuses '. A teogon ia é, portanto, a na rrativa da or ige m dos
de uses a part ir de seus antepassados.
0 Capítulo 3
A filosofia não é uma cos m ogonia, e sim uma
cosm ologia, pois é uma explicação racional sobre a
origem do mundo e sobre as causas das transfor
mações e repetições das coisas. Mas teria a cosmo
logia nascido de uma transformação gradual dos
mitos ou de uma ruptura radical com eles?
Os estudiosos concluíram que as contradições e
limitações dos mitos para explicar a realidade natural
e humana levaram a filosofia a retomá-los, porém os
reformulando e racionalizando. Ou seja, transforman
do-os numa explicação inteiramente nova e diferente.
Quais são as diferenças entre filosofia e mito? Po
demos apontar três como as mais importantes:
1. O mito pretendia narrar como as coisas eram no
passado imemorial, longínquo e fabulosoantes que
tudo existisse tal como no presente. A filosofia, ao
contrário, se preocupa em explicar como e por que,
no passado, no presente e no futuro, as coisas são
como são.
2. O mito narrava a origem por meio de genealo
gias e rivalidades ou alianças entre forças divinas so
brenaturais e personificadas. A filosofia, ao contrário,
explica a produção das coisas por causas naturais e
impessoais, com base em elementos naturais primor
diais. Assim, por exemplo, o mito falava nos deuses
Urano (o céu), Ponto (o mar) e Gaia (a terra); a filosofia
fala diretamente em céu, mar e terra. O mito narrava
a origem dos seres celestes, terrestres e marinhos pe
los casamentos de Gaia com Urano e Ponto. A filoso
fia explica o surgimento do céu, do mar e da terra e
dos seres que neles vivem pelos movimentos e ações
de composição, combinação e separação de quatro
elementos primordiais (úmido, seco, quente e frio).
3. O mito não se importava com contradições,
com o fabuloso e o incompreensível. Não só porque
esses eram traços próprios das narrativas religiosas,
como também porque a confiança e a crença no
mito vinham da autoridade religiosa do narrador.
A filosofia, ao contrário,
não admite contradições, fa
bulação e coisas incompreen
síveis, mas exige que a expli
cação seja coerente, lógica e
racional. Além disso, a auto
ridade da explicação não vem
da pessoa do filósofo, mas da
razão, que é a mesma em to
dos os seres humanos.
Cosmos
É em redor d e duas perguntas - qual a formação e a estrutura d o cosmos? qual o processo d o evoluir
das coisas? - que todo o pensamento dos p rimeiros filósofos se concentra. Procura, para além da plura
lidade percebida que os dados da experiência cotidiana nos oferecem, fixar uma unidade que constitua
as conexões internas e invisíveis; procura, para tudo dizer, determinar o princípio material, uno, de que a
complexidade deriva e a própria razão de ser dessa derivação. Para os primeiros filósofos, é inteligível
apenas o que pode referir-se a um primeiro princípio de onde tudo provém e pelo qual tudo se ordena.
V I L H ENA, V. de Maga l hães. Panorama do pensamento filosófico. Lis boa : Cosmos, 1 958. v. 2 . p. 159.
Filósofo em
meditação (1632),
óleo sobre madeira
atribuído ao pintor
flamengo
Rembrandt van
Rijn (1 606-1669).
O escopo da filosofia em seus começos é buscar e reconhecer, para lá das aparências múltiplas, a
unidade que faz da p rópria natureza um cosmos: a única substância que constitui seu ser, a única lei que
regula seu devir. A substância é, para esses primeiros filósofos, a matéria de que todas as coisas se com
põem, mas também a força que explica a sua composição, o seu nascimento, a sua morte, e a sua p rópria
mudança. Ela é princípio, não só no sentido de explicar a origem de todos os seres, mas ainda e sobretu
do no sentido que toma inteligível a unidade da multiplicidade e a mutabilidade que parece, à primeira
vista, tão rebelde à consideração un itária.
A B BAGNA NO, N ico la. História da Filosofia. Lisboa: P resença, 1 969. v. 1 . p. 35-36.
1 . Loca l ize nos do is textos a q u i l o que o s p r ime i ros f i l ósofos :
a) cons ide rava m i l usór io ;
b} cons ide rava m que dever ia ser buscado pe la fi losofia por trás do i l usór io .
2. Como os p r ime i ros fi lósofos concebem a matéria que com põe todas as co isas? I nd ique qua l texto trata
d i sso.
3. Segu ndo Abbagna no, "O escopo da fi losofia em seus começos é busca r e reconhece r, pa ra lá das apa rências
mú lti p las, a u n idade que faz da p rópr ia natu reza um cosmos". Em que med ida isso mostra um afasta men
to em re lação à expl icação m ítica ou sagrada? Discuta m em grupo e e l a bo rem uma resposta conjunta.
A origem da filosofia 0
Condições históricas para a formação da filosofia
Podemos apontar como principais condições his
tóricas para a formação da filosofia na Grécia:
• as viagens marítimas dos gregos. Graças a elas,
os gregos não só descobriram que não havia
monstros e seres fabulosos nos mares, mas tam
bém que os locais onde habitariam deuses, titãs
e heróis eram, na realidade, habitados por outros
seres humanos. As viagens produziram o desen
cantamento ou a desmitificação do mundo, que
passou a exigir uma nova explicação sobre sua
origem;
• a invenção do calendário, que é uma forma de
calcular o tempo segundo as estações do ano, as
horas do dia, os fatos importantes que se repe
tem. Isso revela uma capacidade de abstração
nova, ou uma percepção do tempo como algo
natural, e não como uma força divina (o deus
Cronos) incompreensível;
• a invenção da moeda, que permitiu uma forma
de troca que não se realiza como escambo ou em
espécie (isto é, coisas trocadas por outras). Esse
cálculo do valor semelhante de coisas diferentes
revela uma nova capacidade de abstração e de
generalização;
• o desenvolvimento da vida urbana, na qual pre
dominam o comércio e o artesanato. Isso levou
ao aprimoramento de técnicas de fabricação e
de troca e à diminuição do prestígio da aristo
cracia proprietária de terras, por quem e para
quem os mitos foram criados. Além disso, como
a emergente classe de comerciantes ricos pre
cisava encontrar pontos de poder e de prestígio
para suplantar o velho poderio da aristocracia
de terras e de sangue, muitos procuraram o
prestígio pelo patrocínio e estímulo às artes, às
técnicas e aos conhecimentos. Consequente
mente, criou-se um ambiente favorável ao de
senvolvimento da filosofia;
• a adoção da escrita alfabética, que, como a do
calendário e a da moeda, revela o crescimento da
capacidade de abstracão e de generalização. Isso
e Capítulo 3
Detalhe da Pedra de Roseta, datada do
século li a.C. Descoberta no Egito no final
do século XVI I I , permitiu a decodificação
de diversos hieróglifos por meio de sua
tradução em caracteres gregos.
porque, em vez de representar cada coisa que
precise ser dita por meio de uma imagem dife
rente - como os hieróglifos dos egípcios ou os
ideogramas dos chineses -, as escritas fonéticas
oferecem uma pequena gama de sinais ou signos
abstratos que, combinados, representam os sons
das palavras;
escrita fonética alfabética: nas escritas não
fonéticas, a cada sinal corresponde uma coisa
ou ideia; na escrita alfabética, que é fonética, as
letras são independentes e podem ser combinadas
de formas variadas em palavras. Ou seja, em
escritas não fonéticas, o signo representa a coisa
assinalada; na escrita alfabética, a palavra designa
uma coisa e exprime uma ideia. Nas primeiras, há a
tendência de sacralizar os sinais ou os signos ou de
lhes dar um caráter mágico (de maneira que quem
sabe escrever ou usar os inúmeros sinais tem
poder sobre as coisas e sobre os outros), enquanto
a última, de fácil aprendizado, é inteiramente leiga,
abstrata e racional.
Ver abstração no Glossário.
• a i nvenção da política, que introd uz três aspectos
dec is ivos pa ra o nascimento da f i losofia :
1. A ideia da lei como expressão da vontade
de uma coletiv idade humana que decide por si
mesma o que é melhor para si e como ela defi
n i rá suas relações internas. Essa ca racterística da
pó l i s grega - um espaço l egis lado e regu lado -
serv i rá d e mode lo para a f i l osofia propor q u e
tam bé m o m u ndo é rac iona l mente l eg is l ado,
regu lado e o rdenado.
2. A constitu ição de um espaço público, que
faz aparecer um t ipo de d iscu rso d iferente da
quele que era p referido pelo m ito. N este, u m
poeta -vidente receb ia das deusas l igadas à me
mór ia (a deusa Mnemosyne e suas fi l has, as mu
sas, ent idades que gu iavam o poeta) uma i l um i
nação ou uma reve lação sobrenatu ra l e, então,
d iz ia aos homens as decisões dos deuses que e les
dever i am obedecer.
Agora, com a pó l i s, i sto é, a c idade po l ít i ca, a
pa lavra co nstitu i -se como di reito de cada cidadão
em it i r em púb l i co sua op in i ão, d iscut i - la com osoutros, persuad i - l os a tomar uma dec isão p ro
posta por ele. Desse modo, su rge o d iscurso po-
cidadania na Cirécia antiga: o conceito de
c idada n ia em Ate nas, onde se desenvolve u a
c idade polít ica , t inha o sent ido de 'cond ição
med iante a qual um membro da pól i s pode exerce r
seu d i reito de pa rt ic ipar da v ida polít ica'. No
entanto, de le estavam excluídos aqueles que eram
cons iderados dependentes: m u lheres, escravos ,
c r ianças e idosos . Ta mbém estava m excluídos os
estrange i ros. Po rta nto, é prec iso fazer a ressalva
de que só a m inoria da população de Atenas de fato
partic ipava de sua vida polít ica.
l ít ico como pa lavra humana compa rti l hada, como
d i á l ogo, d iscussão e de l i be ração h uma na, isto é,
como dec isão raciona l e expos ição dos mot ivos
ou das razões pa ra faze r ou não a lguma co isa .
Com a po l ít i ca, va lo r izou-se o pensamento
raciona l, cr i ando cond ições pa ra que su rgisse o
d iscu rso ou a pa lavra f i losófica.
3. A noção de discussão pública das opiniões
e ide ias. A po l ít ica est im u l a u m pensamento
e um d iscu rso púb l icos, q u e sejam ens i nados,
tra nsm it idos, com u n icados e d iscut idos, e não
formu lados por seitas de i n i ciados em m istér ios
sagrados. A ide ia de um pensamento que todos
podem compreender, d iscut i r e tra nsm it i r é fu n
damenta l pa ra a f i losofia .
Concepção artística de como teria sido a cidade de Corinto no século V a.C. A racionalidade na Grécia antiga se manifestava também na
arquitetura e no planejamento urbano: a linearidade e a simetria são critérios para a organização do espaço urbano.
A origem da filosofia 0
A fi losofia como instituição tipicamente grega
A filosofia pode ser entendida como aspiração ao
conhecimento racional, lógico, demonstrativo e siste
mático:
• da realidade natural e humana;
• da origem e das causas da ordem do mundo e de
suas transformações;
• da origem e das causas das ações humanas e do
próprio pensamento.
Por razões históricas e políticas, esta instituição
cultural grega tornou-se o modo de pensar e de se ex
primir predominante da chamada cultura europeia
ocidental. Devido à colonização europeia das Américas,
também fazemos parte dessa cultura - ainda que de
modo inferiorizado e colonizado.
Dizer que a filosofia é tipicamente grega não significa,
evidentemente, que povos como os chineses, os hindus,
os japoneses, os árabes, os persas, os hebreus, as socieda
des africanas ou as indígenas da América não possuam
sabedoria, pois possuíam e possuem. Também não quer
dizer que esses povos não tivessem desenvolvido o pen
samento e formas de conhecimento da natureza e dos
seres humanos, pois desenvolveram e desenvolvem.
E
MUST
A •
Wll.L
Debate durante a Conferência do Clima da ONU (COP 21), realizado
em Le Bourget, França, em 2015. A tendência à racionalidade,
a recusa de explicações preestabelecidas e a tendência à
argumentação e ao debate são heranças da filosofia grega.
Quando se diz que a filosofia é grega, o que se quer
dizer é que ela apresenta características, concepções e
formas de pensar e de exprimir os pensamentos com
pletamente diferentes das formas de pensar de outras
culturas (tanto anteriores à grega quanto nossas con
temporâneas).
Vejamos os principais traços que definem a ativi
dade filosófica nascente:
e Capítulo 3
• Tendência à racionalidade, pois os gregos foram
os primeiros a definir o ser humano como animal
racional, ou seja, foram os primeiros a considerar
que o pensamento e a linguagem definem a razão,
que o homem é um ser dotado de razão e que a
racionalidade é seu traço distintivo. Mesmo que
a razão humana não possa conhecer tudo, tudo
o que ela pode conhecer conhece plena e verda
deiramente, e ela é a condição de todo conheci
mento verdadeiro. Por isso mesmo, a própria razão
deve conhecer as leis, regras, princípios e normas
de suas operações e de seu exercício correto.
• Recusa de explicações preestabelecidas e, por
isso mesmo, exigência de que se encontre uma
explicação racional para cada fato e se investi
guem e encontrem as soluções para cada proble
ma ou dificuldade.
• Tendência à a rgumentação e ao debate para
oferecer respostas conclusivas a questões, difi
culdades e problemas, de modo que nenhuma
solução seja aceita se não houver sido demons
trada conforme os princípios e as regras do pen
samento verdadeiro.
• Capacidade de generalização, isto é, de mostrar
que uma explicação é válida para muitas coisas
ou fatos diferentes porque, sob a aparência da
diversidade e da variação, o pensamento desco
bre semelhanças e identidades. Essa capacidade
racional é a síntese.
síntese: palavra de origem grega ; s ign ifica ' reun ião
ou fusão de vár ias co isas ou de vá r ias pa rtes para
formar um todo coere nte'.
Como opera a síntese
Para meus olhos, meu tato e meu olfato, o ge
lo é diferente da neblina, que é diferente do vapor
de uma chaleira, que é diferente da chuva, que é
diferente da correnteza de um rio. No entanto, o
pensamento mostra que se trata sempre de um
mesmo elemento (a água), que passa por diferentes
estados e formas (líquido, sólido, gasoso) em de
corrência de causas naturais diferentes (condensa
ção, liquefação, ebulição). O pensamento generali
za, isto é, encontra sob as diferenças os traços
semelhantes e faz uma síntese deles.
• Capacidade de d iferenciação, isto é, de mostrar
que fatos ou coisas que aparecem como iguais
ou semelhantes são, na verdade, diferentes,
quando examinados pelo pensamento ou pela
razão. Essa capacidade racional é a análise.
análise: pa lavra de orige m grega; s ign ifica 'ação de
des liga r e separa r, separação de um todo em suas
pa rtes'.
Um exemplo nos ajudará a compreender como
procede a análise. Nos anos 1990 e 2000, cada vez mais
mulheres do movimento negro passam a vestir turban
tes coloridos, inspirados nos usados na África. Com o
passar do tempo, mulheres brancas, principalmente
universitárias, começam a comprar turbantes de inspi
ração africana em lojas de pequeno porte nas grandes
cidades. Por fim, uma conhecida fábrica de sapatos
finos faz uma campanha publicitária estrelada por três
atrizes brancas usando turbantes.
Aparentemente, teríamos sempre a mesma coisa:
mulheres jovens incorporando a seu vestuário uma
peça de origem africana. No entanto, o pensamento
pode mostrar que, sob a semelhança percebida, há di
ferenças: as mulheres do movimento negro viam no
turbante uma forma de valorizar sua identidade cultu
ral e a luta pelos direitos da mulher negra no Brasil; já
as mulheres brancas os utilizam apenas porque consi
deram que ficam mais bonitas ou diferentes com ele,
sem que haja ligação com esses movimentos; por fim,
a grife de sapatos utiliza o turbante como mera peça
de composição para a venda de seu produto, sem qual
quer preocupação com sua origem ou com o que ele
representa - o fato de nenhuma modelo negra apare
cer na campanha é um indício disso. Separando as apa
rentes semelhanças, distinguindo-as, o pensamento
descobriu diferenças e realizou uma análise.
Participantes da Marcha das Mulheres Negras, em São Pau lo (SP).
Foto de 2015.
Em resumo: argumentar e demonstrar por meio de
princípios e regras necessários e universais, apreender
pelo pensamento a unidade real sob a multiplicidade
percebida ou, ao contrário, apreender pelo pensamento
a multiplicidade e diversidade reais de algo percebido
como uma unidade ou uma identidade, eis aí algumas
das características do que os gregos chamaram filosofia.
O legado da filosofia grega para a atualidade
Do legado filosófico grego, podemos destacar co
mo principais contribuições as seguintes ideias:
• O conhecimento verdadeiro deve encontrar as
leis e os princípios universais e necessários do
objeto conhecido e deve demonstrar sua verdade
por meio de provas ou argumentos racionais.Ou
seja, em primeiro lugar, um conhecimento não é
algo que alguém impõe a outros, e sim algo que
deve ser compreendido por todos, pois a razão
ou a capacidade de pensar e conhecer é a mesma
em todos os seres humanos. Em segundo lugar,
um conhecimento só é verdadeiro quando expli
ca racionalmente o que é a coisa conhecida, como
ela é e por que ela é.
É assim, por exemplo, que a Matemática de
ve ser considerada um conhecimento racional
verdadeiro, pois define racionalmente seus ob-
jetos. Ninguém impõe aos outros que o círculo
é uma figura geométrica em que todos os pon
tos são equidistantes do centro, pois essa defi
nição simplesmente ensina que qualquer figura
desse tipo será necessariamente denominada
círculo. Além de definir seus objetos, a Matemá
tica os demonstra por meio de provas (os teore
mas) fundadas em princípios racionais verdadei
ros (os axiomas e os postulados).
• A natureza segue uma ordem necessária, e não
casual ou acidental. Ou seja, ela obedece a leis e
princípios necessários (não poderiam ser outros
ou diferentes do que são) e universais (são os
mesmos em todos os lugares e em todos os tem
pos). Em outras palavras, uma lei natural é ne
cessária porque nenhum ser natural escapa de
la nem pode operar de outra maneira que não
A origem da filosofia 0
desta; e uma lei da natureza é universal porque
é válida para todos os seres naturais em todos
os tempos e lugares.
A ideia de ordem natural necessária e uni
versal é o fundamento da filosofia em sua pri
meira expressão conhecida, a cosmologia. É,
pois, responsável pelo surgimento da chamada
"filosofia da natureza" ou "ciência da natureza",
que os gregos chamaram física (palavra deriva
da do vocábulo grego physis, 'natureza' ). Assim,
por exemplo, a ideia de que a natureza segue
leis universais e necessárias levou, no século
XVI I , Galileu Galilei (1564-1642) a demonstrar as
leis do movimento e as leis da queda dos corpos.
Ou, naquele mesmo século, levou Isaac Newton
(1643-1727) a estabelecer uma lei física válida
para todos os corpos naturais, a lei da gravitação
universal. E, no século XX, levou Albert Einstein
(1 879-1955) a estabelecer uma lei da conservação
de toda a matéria e energia do Universo, lei que
se exprime na fórmula E = mc2 (em que E é a
energia, m é a massa e e é a velocidade da luz),
segundo a qual toda massa tem uma energia
associada, cujo valor se descobre multiplicando
a massa pelo quadrado da velocidade da luz.
• As leis necessárias e universais da natureza po
dem ser plenamente conhecidas pelo nosso pen
samento. Isto é, não são conhecimentos miste
riosos e secretos, que precisariam ser revelados
por divindades, mas sim conhecimentos que o
pensamento humano pode alcançar por sua pró
pria força e capacidade.
• A razão humana também obedece a princípios,
leis, regras e normas universais e necessários,
com os quais podemos distinguir o verdadeiro do
falso. Em outras palavras: por sermos racionais,
nosso pensamento é coerente e capaz de conhe
cer a realidade porque segue leis lógicas de fun
cionamento.
Nosso pensamento diferencia uma afirmação
de uma negação porque, na afirmação, atribuímos
alguma coisa a outra coisa (quando afirmamos
que "Sócrates é um ser humano", atribuímos hu
manidade a Sócrates); já na negação, retiramos
alguma coisa de outra (quando dizemos "Este ca
derno não é verde", estamos retirando do caderno
a cor verde). Por isso mesmo, nosso pensamento
percebe o que é a identidade, isto é, que devemos
sempre e necessariamente afirmar que uma coisa
é idêntica a si mesma {"Sócrates é Sócrates"), pois,
se negarmos sua identidade, estaremos retirando
dela ela própria. Graças à afirmação da identidade,
o pensamento pode distinguir e diferenciar os se
res ("Sócrates é diferente de Platão e ambos são
diferentes de uma pedra").
Nosso pensamento também percebe o que
é uma contradição, ou seja, que é impossível afir
mar e negar ao mesmo tempo algo de alguma
coisa ("O infinito é ilimitado e não é ilimitado" ).
Por isso, nossa razão também percebe a diferen
ça entre uma contradição e uma alternativa, pois,
nesta, ou a afirmação será verdadeira e a negação
será falsa, ou vice-versa ("Ou haverá guerra ou
não haverá guerra").
Imagem que representa a existência
'lt �
....
- �,- --
de uma ordem natural necessária e
un iversal como fundamento do
conhecimento: caricatura que satiriza o
acontecimento que levou à descoberta
da lei da gravitação un iversal por Isaac
Newton. A Lei da gravidade, litografia
de Arthur Moreland, cartunista político
conhecido pela série "Humores da
H istória", publicada em 1898. c,z,;;; � -
@ Capítulo 3
Racionalidade e identidade das
defin ições
Triângulo: figura geométrica em que a soma
dos ângulos internos é igual à soma de dois ângulos
retos.
• Por que a definição do triângulo é racional? Por
que não é uma imposição: ela simplesmente es
tabelece que uma figura com tal propriedade
será denominada triângulo.
• Por que afirmamos essa definição? Porque nosso
pensamento atribui a essa figura as característi
cas mencionadas e não atribui outras caracterís
ticas que sejam contraditórias a essas. Ou seja,
nosso pensamento atribui identidade.
• Por que negamos que o círculo é um triângulo?
Porque, afirmando a identidade do triângulo, o
d iferenciamos daquilo que ele não é.
o
Nosso pensamento distingue quando uma
afirmação é verdadeira ou falsa porque distingue
o não contraditório do contraditório e porque
reconhece o verdadeiro como a conclusão de uma
demonstração, de uma prova ou de um argumen
to racional. Se alguém apresentar o seguinte ra
ciocínio: "Todos os homens são mortais. Sócrates
é homem. Logo, Sócrates é mortal", diremos que
a afirmação "Sócrates é mortal" é verdadeira por
que foi concluída de outras afirmações que já
foram demonstradas verdadeiras ("Todos os se
res que nascem e perecem existem no tempo.
Todos os seres que existem no tempo são mor
tais"; ''Todos os homens existem no tempo. Todos
os homens são mortais").
• As práticas humanas dependem da vontade livre,
da deliberação e da discussão, de uma escolha
emocional ou racional, de nossas preferências e
opiniões. Esses fatores se realizam segundo cer
tos valores e padrões estabelecidos pela nature
za ou pelos próprios seres humanos, e não por
imposições misteriosas e incompreensíveis.
Essas práticas são a ética (a conduta moral), a
política (a conduta no espaço público) e as téc
nicas (os instrumentos que agem sobre a natu
reza e a sociedade).
• O fato de os acontecimentos naturais e humanos
serem necessários porque obedecem a leis (da na
tureza humana) não exclui a compreensão de que
eles também podem ser acidentais, seja porque um
concurso de circunstâncias os faz ocorrer por acaso
na natureza, seja porque as ações humanas depen
dem das escolhas e deliberações das pessoas.
Uma pedra lançada ao ar cai necessariamen
te porque pela lei natural da gravitação ela ne
cessariamente deve cair; um ser humano anda
porque as leis anatômicas e fisiológicas que re
gem seu corpo fazem com que tenha os meios
necessários para isso. No entanto, se uma pedra,
ao cair, atingir a cabeça de um passante, esse
acontecimento é acidental. Por quê? Porque se o
passante não estivesse andando por ali naquela
hora, a pedra não o atingiria. Assim, a queda da
pedra é necessária e o andar de um ser humano
é necessário, mas a queda de uma pedra sobre
minha cabeça quando ando é inteiramente aci
dental. É o acaso. Contudo, o próprio acaso não
é desprovido de uma lei natural. Como explica
Aristóteles, o acaso é o encontro acidental de
duas séries de acontecimentos necessárias (é por
necessidade natural que a pedra cai e é por ne
cessidade natural que a pessoa anda). A lei natu
ral do acaso é, portanto, o encontro acidental de
coisas que em si mesmas são necessárias.
Todavia, a situação das ações humanas é bas
tante diversa dessa. É verdade que é por uma ne
cessidadenatural ou por uma lei da natureza que
eu ando. Mas é por deliberação voluntária que
ando para ir à escola em vez de andar para ir ao
cinema, por exemplo. É verdade que é por uma lei
necessária da natureza que os corpos pesados
caem, mas é por uma deliberação humana e por
uma escolha voluntária que, usando a ciência e a
técnica, fabrico uma bomba, a coloco num avião
e a faço despencar sobre Hiroxima. Essa escolha,
própria da ética, da política e das técnicas, faz com
que a ação humana introduza o possível no mun
do, pois o possível é o que pode acontecer ou dei
xar de acontecer, dependendo de uma escolha ou
de uma decisão voluntária e livre.
A origem da filosofia e
Um dos legados ma is importa ntes da fi loso
fia grega é, porta nto, a d ife rença entre o neces
sár io (o que não pode ser senão como é) e o con
t ingente (o que pode ser ou não ser), bem como
a d iferença entre o a caso (o que pode ou não
acontece r na natu reza) e o possíve l (o que pode
ou não acontecer nos acontecimentos humanos).
• Os se res humanos natu ra lmente asp i ra m ao co
n hec imento ve rdade i ro (porque são rac iona is), à
justiça (porq ue são dotados de vontade l ivre) e à
fe l ic idade (porq ue são dotados de emoções e de
sejos) . I sto é, os se res h u manos não vivem ou
agem cegamente nem são comandados por for
ças extra natura is secretas e m iste r iosas : e les
i n stituem por si mesmos va lo res pe los q ua is dão
sent ido à sua v ida e às suas ações.
Manifestante confronta policiais em Rabat, capital do Marrocos,
em 2011, durante os protestos por democracia e ampliação da
cidadania da chamada Primavera Árabe. Nossas ações dependem de
fatores como nossos sentimentos e opiniões, os quais se orientam
pelos valores e padrões estabelecidos pela natureza ou pelos
próprios seres humanos.
O necessário, o acaso e o possível em nossas ações
• O necessá rio é o que não está em nosso poder esco lhe r, pois acontece e acontece rá sempre (não depende
de nós que o So l b r i l he, que haja d i a e no ite).
• O acaso também não está em nosso poder esco l he r, mas é cont ingente (não esco l ho que aconteça uma
tempestade justamente qua ndo estou fazendo uma viagem de navio ou de avião, nem esco l ho esta r num
veícu lo que será at ing ido por out ro, d i r ig ido por um motor ista embr iagado).
• O possível, ao contrá r io do necessár io e do acaso, é exatamente o que temos poder de esco l he r e fazer.
Essas d ife renc iações legadas pela f i losofia grega nos perm item evita r ta nto o fata l i smo - "Tudo é neces
sár io, temos de nos conforma r com o dest i no" - como a i l usão de que podemos tudo quanto q u isermos.
Conexões
Esta atividade traba l ha com conteúdos de Fi losofia , B io logia
e Qu ímica .
Os gregos transforma ram em ciênc ia (em con hecimento ra
c iona l, a bstrato e u n ive rsa l) aqu i l o que e ram e lementos de uma
sabedor ia prática pa ra o uso d i reto na vida . A lém d isso, compre
enderam que as decisões no uso d i reto desse conhec imento são
i nsepa ráve is da ética, da pol ít ica e do uso das técn icas.
Moçambicano trabalha na primeira fábrica de medicamentos
contra o vírus H IV de seu país, em Matola, 2012.
• Depois de fazer um ráp ido leva ntamento s imples em l ivros, revistas e sites sobre a i nvenção do pr ime i ro a nt ib ió
t ico, a penic i l i na , rea l ize a s segui ntes atividades por escrito:
a) Faça a d ife renciação entre o q ue corresponde ao necessá rio, ao acaso e ao possíve l no processo de descoberta
da pen ici l i na .
b} Procu re identifica r nesse a rtefato e no p roced imento que levou à sua descobe rta a presença de e l ementos ou
pressu postos fi losóficos. Po r exemplo, como a tendência à rac iona l idade ou a ca pac idade de d ife re nciação i n
fl uencia ram na prod ução da pen ici l i na ? Ou , a i nda, qua l é a ética por trás da comercia l ização desse t i po de me
d icamento? Apoie seus a rgumentos no que foi estudado neste ca pítu lo sobre a re lação entre fi losofia e ci ênc ia .
e Capítulo 3
1 . Qua l é a o rigem do te rmo phi/osophía e po r que Pitágo ras uti l i zou-o pa ra designa r essa á rea do pensa mento?
2. O que l evou a lguns gregos a se ap roxi ma rem da fi losofia ?
3. Um dos pr inc i pa i s traços da fi losofia nascente é a tendência à raciona l idade . O que i s so sign ifi ca?
4. Expl i que a d ife rença entre s íntese e a ná l ise e dê um exem plo não citado neste ca pítu lo para cada uma .
5. O que sign ifica afi rma r que a ra zão e o pensa mento opera m obedecendo a le is, pr i ncípios e regras un ive rsa is?
Expl i que com suas pa lavras.
6. Para a ação humana, qua l é a d iferença entre o necessá rio, o conti ngente e o possíve l? Exponha dando novos exemplos.
7. O que é o m ito? Po r que e le me recia confia nça e e ra i nq uestionáve l ?
8. Qua i s as pr i nci pa i s d ife renças entre fi losofia e m ito? Dê um exemp lo de m ito (de qua l que r o rigem) que não
tenha s ido citado.
9. Liste, resu mida mente, a s condições h istó rica s que p rop ici a r am o su rgimento da fi l osofia na G récia e exp l ique
a impo rtâ ncia da ca pac idade de a bstração nesse p rocesso.
10. Por que a i nvenção da po l ítica fo i decis iva pa ra o nasci mento da fi losofia?
1 1 . Mencione e exp l i que a lguns legados da fi losofia pa ra o pensa mento ocidenta l .
12. Veja ao lado a obra O nascimento
de Vênus, d e S and ro Bottice l l i,
u m a d a s versões pa ra o nasci
mento da deusa romana do amor,
em que e l a se or ig ina da espuma
do ma r a pós a ge nitá l ia do deus
U rano (o céu) se r ne le jogada. Co
mente os a spectos ti p ica m ente
m íticos p resentes na ob ra e na
na r rativa.
O nascimento de Vênus(1483), têmpera
sobre tela de Sandro Botticelli. Deusa
romana do amor e da beleza, Vênus
corresponde à deusa grega Afrodite.
l n d i cacões
Estamira
• Direção de Marcos Prado. Brasi l , 2006.
Esta m i ra mora e cata l ixo em um aterro san itá r io na reg ião metropo l i tana do Rio de J an e i ro.
Con s ide rada louca por u n s, e squ i zofrên ica por outros, m istu ra em seus relatos exp l i cações for
m u ladas por sua m itologia pa rt icu l a r e contestações às exp l i cações m ít icas ou não ra c ion a i s do
resta nte da soci edade .
O mundo de Sofia
• Escrito por Jostein Gaarder. Com panhia das Letras, 2011.
Capa do DVD Estamira,
documentário de
Marcos Prado.
Neste romance, Sofia começa a receber cartas com pergunta s m i steriosas e s u rpreendentes. Logo descobre que o remetente é
um professor de F i losofia , com quem começa a descobr i r os fu ndamentos e a h i stória dessa d i sci p l i n a . No enta nto, a jovem passa
a receber tam bém m isteriosos cartões-posta i s de outro remetente, A lbert Knag. O que e le deseja com essa correspondênc ia?
A origem da filosofia e
Os períodos da fi losofia grega
Como vimos no capítulo anterior, a filosofia nasce
quando o mito deixa de ser considerado a explicação
mais convincente e satisfatória da realidade natural e
humana. Os primeiros filósofos buscaram realizar uma
reformulação racional das narrativas míticas na tenta
tiva de explicar a origem do mundo e das coisas.
Ao longo dos séculos, as preocupações da filosofia
grega se ampliam para as questões humanas e, depois,
para o que está além do mundo físico e humano. Veja
mos quais são essas preocupações em cada um dos
quatro grandes períodos da filosofia grega.
1 . Período pré-socrático ou cosmológico (fim do
século VI I a.C.-fim do século V a.e.): a filosofia se ocu
pa fundamentalmente com a origem do mundo e as
causas das transformações na natureza.
2. Período socrát ico ou antropológico (fim do sé
culo V a.C.-fim do século IV a.e.): a filosofia investiga
as questões humanas - isto é, a ética, a política e as
técnicas. Além disso, busca compreender qual é olugar
do ser humano no mundo.
3. Período sistemático (fim do século IV a.C.-fim
do século I l i a.C.): a filosofia busca reunir e sistemati-
zar tudo o que foi pensado nos dois períodos anterio
res. A filosofia se interessa em mostrar que tudo po
de ser objeto do conhecimento filosófico, desde que
as leis do pensamento e de suas demonstrações es
tejam firmemente estabelecidas para oferecer os cri
térios da verdade e da ciência. Nesse período desen
volvem-se a teoria do conhecimento, a psicologia e a
lógica. Além disso, os filósofos procuram encontrar o
fundamento último de todas as coisas por meio de
uma investigação que, mais tarde, receberá o nome
metafísica.
4. Período heleníst ico ou greco-romano (fim do
século I l i a.C.-século VI d.e.): esse longo período abran
ge a época do domínio de Roma sobre as terras ao
redor do mar Mediterrâneo e o surgimento do cristia
nismo. Nele, a filosofia se ocupa sobretudo com a
ética, o conhecimento humano, as relações entre os
humanos e a natureza, e de ambos com Deus.
antropológico: a palavra grega ântropos quer d izer
' homem' ; por isso , o período socrático, centrado nas
questões humanas , fo i chamado antropológico.
Período pré-socrático ou cosmológico
A filosofia pré-socrática ou cosmológica se desenvolve em cidades gregas espalhadas por terras que vão do
atual sul da Itália até a costa ocidental da atual Turquia.
F i losofia pré-socrática: principa is escolas e fi lósofos
@ Centros de desenvolvimento da fi losofia cosmológica
..
4?
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20º L EUROPA
TRÁCIA
M e d i t e r r â n e o
ÁFRICA
N
Adaptado de : WORLD History Atlas - Mapping the Human Jou rney. London:
Dorl ing Kindersley, ZDDS.
• Escola Jônica
Tales de Mileto (e. 624 a.C.- c. 546 a.e.)
Anaximandro de Mileto (e. 610 a.C. -c. 547 a.e.)
Anaxímenes de Mileto (e. 588 a.C.-c. 524 a.e.)
Heráclito de Éfeso (e. 535 a.C. -c. 475 a .e.)
• Escola Itálica
Pitágoras de 5amos (e. 570 a.C.- c. 495 a.e.)
Filolau de (rotona (e. 470 a.C.- c. 385 a.e.)
Árqu itas de Tarento (428 a .C. -347 a .e.)
• Escola Eleata
Parmênides de Eleia (e. 515 a.C.- c. 445 a .e.)
Zenão de Eleia (e. 490 a.C.- c. 430 a.C.)
• Escola da Pluralidade
Anaxágoras de (lazômena (e. 500 a.C.- c. 428 a.C.)
Empédocles de Agrigento (e. 490 a.C.-c. 430 a.C.)
Leucipo de Abdera (séc. V a.C.)
Demócrito de Abdera (e. 460 a.C.-c . 371 a.C.).
------------------------'\ Períodos e campos de i nvestigação da filosofia grega 0
Vejamos as pr incipais características da cosmologia :
• É uma exp l i cação ra c io na l e s i stemát i ca sobre
a o r igem, a ordem e a tra nsfo rmação da natu
reza, da q u a l os se res h uma nos fazem pa rte.
Desse modo, ao exp l ica r a natu reza, a fi l osofi a
ta mbém exp l i ca a or igem e as m uda n ças dos
se res h u ma nos .
• B usca o pr i ncíp io natu ra l, ete rno e imperecíve l,
gerado r de todos os seres e de suas tra nsforma
ções . A cosmo l og ia não ad m ite a criação do
mundo a pa rti r do nada . Pa ra e l a, todas as coisas
são geradas por um pr i ncíp io natu ra l ete rno de
onde tudo vem e pa ra onde tudo reto rna . E sse
pr i n cíp io é a physis. A physis não pode ser co
n hec ida pe la pe rce pção o r ig i nada dos ó rgãos
dos sent idos (esses só nos ofe recem as coisas já
existentes), mas a penas pe lo pe nsa mento. Em
outras pa lavras, e la é a qu i l o que o pensamento
descobre ao i n daga r a causa da ex i stênc ia e da
t ra nsformação de todos os seres perceb idos . A
physis é a Natu reza em sua tota l i dade, isto é,
entend ida como pr i ncíp io e ca usa pr i mord i a l da
existênc ia e das tra nsfo rmações das co isas na
tu ra i s (os seres h u manos a í i n c l u ídos) e como o
conj u nto o rga n izado (ou o cosmos) de todos os
seres natu ra is ou fís i cos.
Lagarta em estágio final de formação de crisálida. Embora a
physis seja imutável, os seres físicos ou naturais gerados por
ela são mutáveis ou estão em contínua transformação.
• Afi rma q u e a physis, em bora i m perecíve l, dá or i
gem a todos os se res i nf i n itamente va r iados e
d i fe rentes do mundo, que são seres perecíve is .
• Af i rma q u e, em bora a physis sej a i m utáve l, os
se res fís icos ou natu r a i s ge ra dos por e l a são
m utáve i s . Como os se res estão em contín ua
tra nsfo rmação, o mundo está sem pre em mu
d an ça, sem e nt reta nto pe rde r sua fo rma, sua
o rd e m e sua esta b i l i d ade . Qua l q u e r t ipo d e
m ud a n ça - nasce r; m u d a r d e q u a l ida d e, d e
q ua nt i dade, de um l uga r pa ra outro, mo rrer -
se d i z em grego kinésis ( 'movi mento' ) . As coisas
natu ra is se m ovem ou são movidas po r outras,
e o m u n d o está e m m ov imento, i sto é, e m
tra nsfo rmação pe rmanente. O movi mento das
co i s a s e d o m u n d o cha m a-se devir, e o dev i r
segue l e i s r igorosas que o pe nsamento co nhe
ce. Essas l e i s most ra m que toda m udança é a
passagem de u m esta do ao seu co ntrá r i o : d i a
- no ite, c l a ro-escu ro, q u e nte-fr i o, seco - úm ido,
novo-ve l ho, peq ueno-gra nde, bom-mau, che io
-vaz io, u m - m u itos, vivo -morto, etc., e ta m bém
no sent ido i nve rso. Essa passagem obedece a
l e i s dete rm i nadas pe la physis.
physis: pa lavra grega que sign ifica 'fazer surgir, faze r
brotar, faze r nascer, produz i r'. De la vem a pa lavra física.
No enta nto, os fi l ósofos pré-socrát icos d ive rgi am
ao dete rm i na r o que e ra a physis. Ta les d iz ia que a phy
sis era a água; Anaximandro cons iderava que e ra o i l i
m itado, sem qua l i dades defi n i das; Anaxímenes, que
e ra o a r; Pitágoras j u lgava que e ra o número (entend ido
como estrutu ra e re lação proporciona l entre os e lemen
tos que com põem as coisas) ; He rácl ito afi rmou que e ra
o fogo; Empédocles, que eram quatro ra ízes (terra, água,
a r e fogo); Anaxágoras, que e ram sementes que contêm
os e lementos de todas as co isas; Leuc ipo e Demócr ito
d isse ram que e ram os átomos.
Período socrático ou antropológico
Com o desenvo lv imento das c idades, do comércio,
do a rtesa nato e das a rtes m i l ita res, Atenas to rnou-se
o cent ro da vida soc ia l, po l ít i ca e cu ltu ra l da G réc ia . A
democracia, que fo i cr iada nessa c idade, ap resentava
d uas ca racte ríst icas de gra nde importâ nc ia pa ra o fu
tu ro da fi l osofia .
e Capítulo 4
Em p r ime i ro l uga r, afi rmava a igua ldade pera nte
as le i s a todos os homens adu ltos l ivres nasc idos em
Atenas (mas a penas a e l es, como vimos no Capít u l o 3).
Em segu ndo, ga ra nt ia a todos e l es a pa rt i c i pação d i
reta no governo da pó l is, com d i re ito de expr i m i r, d is
cut i r e defende r em púb l i co suas o p i n iões sobre as
decisões que a cidade deveria tomar. Surgia, assim, a
figura política do cidadão.
Ora, para conseguir que sua opinião fosse aceita
nas assembleias, o cidadão precisava ser capaz de per
suadir os demais. Com isso, uma mudança profunda
ocorrerá na educação grega.
Antes da instituição da democracia, as cidades
eram dominadas pelas famílias aristocráticas (ou da
nobreza), senhoras das terras e do poder militar. Essas
famílias criaram um padrão de educação pelo qual o
homem ideal ou perfeito era o guerreiro belo e bom.
Belo: seu corpo era formado pela ginástica, pela dança
e pelos jogos de guerra. Bom: seu espírito era formado
aprendendo com poetas como Homero, Píndaro e He
síodo as virtudes admiradas pelos deuses e praticadas
pelos heróis; a principal delas era a coragem diante da
morte, na guerra. A virtude era a aretê, ou excelência
na prática do bem pelo guerreiro.
aretê: palavra grega que significa 'excelência e
superioridade'.
Quando a economia agrária foi sendo suplantada
pelo artesanato e pelo comércio, a classe social urbana
rica que se fortalecia (particularmente em Atenas)de
sejou exercer o poder político, até então privilégio da
classe aristocrática. Com a instituição da democracia,
o poder deixa de ser exclusivo dos aristocratas e passa
para os cidadãos. Dessa maneira, o antigo ideal educa
tivo ou pedagógico também foi sendo substituído por
outro, que privilegia a formação do bom cidadão. Assim,
a nova educação estabelece como a retê ou padrão ideal
a formação do bom orador, isto é, aquele que sabe falar
em público e persuadir os outros na política.
Para dar aos jovens gregos essa educação, surgiram
os sofistas, os primeiros filósofos do período denomi
nado socrático. Os sofistas mais importantes são: Pro
tágoras de Abdera (e. 490 a.C.-c. 415 a.e.), Górgias de
Leontini (e. 485 a.C.-c. 380 a.e.) e lsócrates de Atenas
(436 a.C.-338 a.e.).
Que diziam e faziam os sofistas? Diziam que os
ensinamentos dos filósofos cosmologistas estavam
repletos de erros e contradições e que não tinham
utilidade para a vida da pólis. Apresentavam-se como
mestres da arte da oratória ou retórica, e capazes de
ensinar essa arte aos jovens para que fossem bons
cidadãos.
Que arte era essa? A arte da persuasão. Os jovens
aprendiam com os sofistas a defender tanto a posição
ou opinião A como a posição ou opinião contrária,
não A. Desse modo, numa assembleia, poderiam ter
fortes argumentos a favor ou contra uma opinião e
ganhar a discussão.
Reprodução/Museu Público de Berlim, Alemanha
Mestres e alunos de uma escola de Atenas, retratados em uma vasilha grega de argila do século V a.C. O ideal da educação dessa época já não é
a formação do jovem guerreiro, belo e bom, e sim a formação do bom cidadão.
-----------------------'\ Períodos e campos de i nvestigação da filosofia grega e
Os sofistas criaram os sofismas?
Atua lmente , usa-se a pa lavra sofisma pa ra d efi n i r o rac iocín i o que prete nde parecer ve rdade i ro ,
mas não o é , po is parte de afi rmações que não co rres po ndem à rea l idade ou estabelece re lações que
não são vá l idas entre afi rmações . E m gera l, o sofisma decorre da i nten ção de engana r ou i lu d i r.
Essa defi n i ção de sofisma não co rres ponde exata mente à ativi dade dos sofistas, mas fo i atri bu ída
a e les por Sócrates e P latão , que não ace itava m a ide ia do c idadão como aque le que sabe persuad i r ou
co nvencer os outros a ace ita r suas o p i n iões . Os sofistas a cred itava m que o c idadão ma is bem-suced i
do e m op inar e d i scut i r nas asse mble ias e ra aqu ele capaz de co n h ece r a p lu ra li dade das op i n i ões e as
possíve is refutações dos po ntos de v ista co ntrá r ios .
Como resta ra m apenas fragme ntos de seus textos , co n h ece mos os sofistas p r i nc i pa lme nte pe lo
re lato de seus adve rsá r ios - P latão , Xen ofo nte, Aristóte les. Ass im , não te mos co mo saber se estes fo
ra m justos co m aque les . H isto ri adores ma is rece ntes co ns idera m os sofistas verdade i ros rep resenta n
tes da p lu ra l idade de op i n i ões e i nte resses ca racterística da democrac ia , enqua nto s e u s adve rsár ios
defende ri am u ma po líti ca a r istocrát ica , na qual somente a lgu mas op i n i ões e i nteresses preva lecer ia m
na soc iedade .
Sócrates contra os sofistas
Sócrates (e. 469 a.C.-399 a.e.) rebelou-se contra os
sofistas, dizendo que eles não eram filósofos, pois não
tinham amor pela sabedoria nem respeito pela verdade
e defendiam qualquer ideia, se isso fosse vantajoso.
Corrompiam o espírito dos jovens, pois faziam o erro e
a mentira valerem tanto quanto a verdade.
Sócrates concordava com os sofistas em dois pon
tos: por um lado, a educação antiga do guerreiro belo
e bom já não atendia às exigências da sociedade grega
e, por outro, os filósofos cosmologistas defendiam
ideias tão contrárias entre si que também não eram
fonte segura para o conhecimento verdadeiro.
Discordando de seus antecessores e contemporâ
neos, Sócrates propunha que, antes de querer conhecer
a natureza ou persuadir os outros nas assembleias,
cada um deveria conhecer-se a si mesmo.
O retrato que a história da filosofia possui de Só
crates foi traçado por seu mais importante aluno e
discípulo, o filósofo ateniense Platão (427 a.C.-347 a.e.).
Que retrato Platão nos deixa de seu mestre Sócrates?
Sócrates ensinando na ágora, gravura do século XIX baseada em um baixo-relevo. As representações artísticas de Sócrates se baseiam nos
relatos deixados pelos diálogos de Platão.
G Capítulo 4
O de um homem q u e a ndava pe l a s ruas e praças
de Ate nas, pe lo merca do e pe la assemb l e i a i n daga n
do a ca da u m : "Você s a be o q u e é i sso q u e você es
tá d i zendo? ", "Você sa be o q u e é i sso em q u e você
ac red i ta? ", "Você acha q u e co nh ece rea lmente a q u i
l o e m que a c red i ta, a q u i l o em que está pe nsa n do,
a q u i l o q u e está d i ze n do? ". "Você d i z", fa lava Sócra
tes , "q u e a co rage m é i m po rta nte, mas o que é a
coragem? ", "Você ac red ita q u e a j ust iça é i m porta n
te, mas o que é a j u st i ça ?", "Você d i z q ue a ma as
co i sas e as pessoa s be l a s, mas o que é a be l eza ? ",
"Você c rê q u e seus a m i gos são a me l h o r co i sa q u e
você tem, m a s o q u e é a a m i zade? ".
Sócrates faz ia pe rguntas sobre as i de i as e os va
l o res nos q ua i s os gregos acred itavam e q u e j u lgavam
conhece r. Suas pergu ntas de ixava m os i nter locutores
emba raçados, i r r itados, cu r i osos, po is, q uando tenta
vam responder ao cé l eb re "o q u e é?", descobria m, s u r
p resos, q u e não sab iam responder, pois nu nca ti n ham
pensado em suas crenças, va lo res e ide ias .
"Só se i que nada se i "
Mas o p ior não e ra isso: a s pessoas espe ravam que
Sócrates respondesse por e las ou pa ra e las, como os
sofistas buscavam faze r. Mas Sócrates, pa ra descon
certo ge ra l, d iz i a : " Eu também não se i a resposta, por
i sso estou pergu nta ndo". Donde a famosa expressão
atr i bu ída a e l e d i a nte da s ib i l a em Delfos : "Só se i que
nada se i ".
A consc iênc ia da própr ia ignorâ ncia é o começo da
f i losofia, d iz ia e le . O que procu rava Sócrates? A defi n i
ção daq u i l o q ue u ma coisa, uma i de ia, u m va lo r são
verdade i ramente - ou seja, sua essência.
A essência não é dada por aqu i l o q u e os ó rgãos dos
sentidos nos trazem, e sim pe lo traba lho do pensamen
to . Po rta nto, procurá- la é procu ra r o que o pensamen
to conhece da rea l i dade e da verdade de uma co isa, de
uma ideia, de um va lor. Isso que o pensamento con he
ce da essênc ia de a lguma co isa chama-se conceito.
Sócrates p rocu rava o conce ito, e não a mera op i
n i ão que temos de nós mesmos, das co isas, das ide ias
e dos va lores. Qua l a d ife rença entre uma op in ião e u m
conce ito? A op i n ião va r ia de pessoa para pessoa, d e
l uga r para l uga r, de época pa ra época . O conce ito, a o
cont rá r io, é u m a ve rdade i ntempora l, u n ive rsa l e ne
cessár ia que o pensamento descobre, po is most ra q ua l
é a essênc ia i ntempora l, u n ive rsa l e necessá r ia de a l
guma co isa .
Vênus Negra (196S-1967), da
artista francesa Niki de
Saint-Phalle (1930-2002).
Vênus de Milo (c. 130 a.e.},
escultura grega que
representa a deusa do
amor e da beleza, Afrodite
(Vênus, na cultura romana).
Se dissermos que uma das
esculturas é bela e a outra não,
ou que as duas são belas,
estaremos pressupondo que
sabemos o que é beleza. Para
Sócrates, temos opiniões sobre o
belo, mas não sabemos
verdadeiramente o que é a beleza
se não procurarmos sua essência
pelo pensamento.
Sócrates n ão perguntava se uma coisa era be la,
po is nossa op in i ão sobre e la pode va r ia r. Em vez d isso,
perguntava "O que é a be l eza ?", "Qua l é a essência ou
o conce ito do belo?". Faz ia o mesmo com a just iça, a
coragem, a am izade.
Sócrates pe rgu ntava : "Que razões r igo rosas você
possu i pa ra d izer o q u e d iz e pa ra pensa r o q u e pensa?",
"Qua l é o fu ndamento raciona l daqu i l o que você fa la e
pensa? 11•
Ora, as pergu ntas de Sócrates refer iam-se a ide ias,
va lores, p ráticas e com portamentos que os aten ienses
j u lgavam ce rtos e verdade i ros em s i mesmos e por s i
mesmos. Ao susc ita r d úvidas, Sócrates os faz ia pensa r
não só sobre si mesmos, mas também sobre a pó l is .
Aq u i l o que pa rec ia evidente aca bava sendo perceb ido
como duv idoso e i nce rto.
------------------------'\ Períodos e campos de i nvestigação da filosofia grega 0
As i de ias do período socrát i co
Sa bemos que os pod e rosos tê m medo do pen
same nto, po i s o pod e r é ma i s fo rte se n i nguém pen
sa r. S e m pensa r, tod os a ce ita m a s co i sas co mo nos
d i zem e nos fa ze m ac re d ita r que s ã o. Pa ra os pod e
rosos de Atenas , Sócrates to rna ra -se um per igo, pois
fa z i a a j uve ntu d e pensa r. Po r i sso, e l e s o acusa ra m
d e d e s respe i ta r os d e u ses , co r ro m pe r os j ove n s e
vi o l a r a s l e i s . Sóc rates n ã o se d efe n d e u e fo i co n d e
nado a to m a r u m ve n e n o, a c i cuta .
Por que Sóc rates n ã o se d efendeu ? "Po rq ue", d i
z i a e l e, "se eu m e d efe n d e r, esta re i aceita n d o as acu
sações, e eu não as ace ito. Se e u m e d efe n d e r, o q u e
o s j u ízes vã o exigi r de m i m ? Que eu pa re de fi losofa r.
Mas eu prefi ro a morte a ter de ren unc i a r à fi losofi a".
Sócrates nu nca escreveu. O que sabemos de seu pen
samento encontra-se nas obras de seus vá rios d iscípu los,
entre os qua is Platão. Se reun i rmos o que esse fi lósofo
escreveu sobre os sofistas e sobre Sócrates, e também a
expos ição de suas próprias ide ias, poderemos encontra r
a lgumas ca racteríst icas gera is do período socrático.
• A f i l osofia pa rte da co nfia nça no se r h u m a n o
co mo u m s e r rac i ona l , ca paz de co nhece r-se a
s i mesmo e, po rta nto, ca paz de ref lexão.
• Co m o se t rata de con hecer a ca pac id a d e d e
co n h ec i m e nto do ser h u ma no, a f i l osof ia co n
s i de ra que o pensa m e nto d eve ofe rece r a s i
m e s m o ca m i n hos, cr i té r ios e m e ios p ró p r ios
pa ra sabe r o q u e é o ve rdade i ro e co mo a l ca n
çá - l o e m tudo o q u e i nvest iga mos . A f i l osofia
se a po i a em métodos r igorosos q u e d evem
o r i enta r o pensa m e nto nas i nvest igações .
método: pa lavra composta do prefixo grego met
('em d i reção a') e da pa lavra grega odós ('cam inho').
Método s ign ifica 'tomar o bom caminho ou o
ca minho correto pa ra pensar'.
• A fi losofia se vo lta pa ra as q uestões h u m a nas no
p la no da ação, dos com porta mentos, das ide ias,
das crenças, dos va lores. Ao busca r a defi n i cão
das vi rtudes mora is (do i nd ivíd uo) e das vi rtudes
po l ít icas (do c idadão), a f i losofia toma como ob
jeto centra l a ét ica e a po l ít ica . Cabe a e la encon
tra r a defi n ição, o conceito ou a essência dessas
vi rtudes, pa ra a l ém da va r iedade das op i n iões.
• Sócrates e P latão i ntroduze m a sepa ração rad i
ca l entre, de um lado, a op in ião e as imagens das
coi sas (traz idas pe los ó rgãos d os sent id os, pe los
há b itos, pe las t rad i ções, pe los i nteresses) e, de
@ Capítulo 4
outro l ado, os conce itos ou as ide ias . As i de i as
se referem à essênc ia i nv is íve l e ve rdade i ra das
co isas e só pode m ser a l cançadas pe lo pensa
mento pu ro, q ue afasta os dados sensor ia is , os
há b itos, os p reconce itos, as op i n i ões .
D iferentemente dos sofi stas, Sócrates e P l atão
vee m a s o p i n i ões e a s pe rce pções senso r i a i s
co m o fo nte de e rro, m e nt i ra e fa l s i d a de . E l a s
serv i ri a m a penas pa ra p rod uz i r a rgu me ntos de
persuasão, e não pensa m entos ve rd a d e i ros .
• A reflexão e o traba l ho do pensa mento são to
mados com o uma pu r if icação i nte lectua l q u e
perm ite ao espír ito h u mano conhecer a ve rdade
i nvisíve l , i mutáve l , u n ive rsa l e necessá r ia .
São essas id e ias q u e, de mane i ra a l egórica ou si m
bó l ica, encontra mos no M ito da Caverna, a p resentado
no Ca pítu lo 1 . Ne l e, P l atão esta be l ece uma d i st i n cão
decisiva pa ra toda a h istó r ia da fi l osofia e das c iências:
a d i fe rença entre o sensíve l e o i nte l i gíve l .
O sens íve l são as i ma ge n s das co i sas que pe rce
b e m os p o r m e i o d a ex pe r i ê nc i a s e n s o r i a l o u d o s
ó rgãos dos s e nt idos e pe l a l i nguage m baseada nes
ses d a d os . Por se basea r e m co m o as co isas nos a pa
recem e nos pa rece m, o sensíve l n ã o a l ca n ca a rea
l i d a d e o u a e s sênc i a d e l as . As i m age ns s�n s íve is
fo r m a m a m e ra o p i n i ã o - a doxa -, va r i áve l de pes
soa pa ra pessoa e de s i tuação pa ra s i tuação .
O i nte l i gíve l é o con heci mento verdade i ro que a l
ca nça m os exc lus iva m e nte pe lo pensa mento. São as
id eias imateria i s d e tod os os se res ou as essências rea is
e ve rdade i ras das co isas. Pa ra P latão, a f i losofia é o es
fo rço do pensa mento pa ra a ba ndonar o sensíve l e pas
sa r ao i ntel igíve l .
Esculturas de Platão e Sócrates ladeiam a entrada da Academia de
Atenas, que se encontrava em reforma em 2015.
Sócrates, os jovens e seus adversários
Vós ten des con h ecim en to de que os jovens que dispõem de m ais tempo
que os outros, os filh os das fam ílias m ais ricas, seguem -me de livre e es
p o n tânea von tade, e se alegram em assistir a esta minha a n álise dos h o
mens; i númeras vezes procuram imita r- m e e tentam, p o r sua p róp ria conta ,
ana lisar a lg u m a p esso a. Sem dúvida, dep a ram -se com numerosos homens
que ju lgam saber alguma coisa e sab em p o u co ou nada, e então, aqueles que
são analisados p o r eles voltam -se contra mim e não co ntra quem os ana
lisou, declarando que Sócrates é h o m em p o r dem ais infame e corruptor
dos jovens. E se alguém indaga: "Afinal , o que faz e o que ensina este
Sócrates p a ra co rromper os jovens? ", nada resp o n dem, p o rque o des
co nh ecem, e, só p a ra não mostrar que estão confusos, dizem as co isas
que comumente são ditas contra to dos os filósofos, além de afirmarem
que ele especula sobre as co isas que se en contram no céu e as que ficam
emba ixo da terra, e que tam bém ensina a n ã o acreditar nos deuses e
apresenta como m elhores as p i o res razões. A verdade, p o rém, é que
esses h o m ens dem onstraram ser p esso as que dão a imp ressão de sa
Sócrates, cabeça em mármore
do século 1 1 , cópia de um
original do século IV a. C.
ber tudo, p o rém, natu ralm ente, não querem dizer a verdade. [ . . . ] Este é
o m o tivo p elo qual , fin a lm ente, Meleto , Ân ito e Lícon lançaram -se contra mim: Meleto p rofunda
mente irado p o r causa dos antigos po etas, Ân ito p o r causa dos artesãos e dos po l íticos, Lícon por
causa dos o radores. Contudo, como vos disse desde o i n ício , seria de fa to um verdadeiro mi lagre
se eu tivesse a cap acidade de arran car-vos do coração esta calún ia que p ossu i raízes tão firmes
e p rofu ndas. Esta é, ó cidadãos, a verdade, e eu a revelo p o r co mp leto, sem ocu ltar- vos nada, nem
mesmo esquivando - m e dela, e m b o ra sa iba que sou od iado p o r mu itos exatamente p o r isso.
PLATÃO. Apologia de Sócrates. São Pau lo : Nova Cu lt u ra l , 1999.
p. 73-74. (Os pensado res.)
1 . D e aco rdo com o trecho, q uem s ã o o s jovens q ue segu i am Sócrates? Po r q u e isso p rovocar ia i ncômodo em
outras pessoas?
2 . Com base no q ue você leu neste ca pítu lo e no ante r ior, exp l ique os motivos de cada um dos grupos defen
d idos por Meleto, Ân ito e Lícon pa ra se opor a Sócrates.
Período sistemático
Esse pe ríodo tem como pr i nc ipa l nome o f i lósofo
Aristóte les de Estagi ra (384 a .C.-322 a .e .), d iscípu lo de
P latão. Passados quase quatro sécu los de fi losofia, Aris
tóte les se p ropôs a reu n i r todo o sabe r p rod uz ido e
acumu lado pelos gregos em todos os ramos do pensa
mento e da prática . Essa tota l i dade de saberes e ra con
s iderada como sendo a fi l osofia . Esta, porta nto, não é
um sa ber específico sobre a lgum assu nto, mas uma
forma de conhecer todas as coisas, com proced imentos
d ife rentes pa ra cada setor de co isas.
Além de a fi l osofia ser o con hecimento da tota l i
dade dos conhec imentos e práticas humanas, e la tam-
bém d iferenc ia esses con hecimentos e os d istr i b u i
numa esca la que va i dos ma i s s imp les e i nfe r iores aos
ma is comp lexos e super io res. Essa class if icação e d is
t r ibu ição dos con hec imentos f ixou, pa ra o pensamen
to oc identa l, os cam pos de i nvest igação da f i l osofia
como tota l i dade do saber humano.
Cada saber é uma d isc i p l i na que possu i um campo
própr io, u m objeto específico, proced imentos específi
cos pa ra sua aqu is ição e exposição, formas própr ias de
demonstração e p rova . Cada campo do conhecimento
ou cada d isci p l i na é uma ciência (em grego, epistéme),
e seu conju nto forma a fi losofia . Antes que se constitua
------------------------'\ Períodos e campos de i nvestigação da filosofia grega @
esse conjunto de fatores para um conhecimento, po
rém, Aristóteles afirma que é preciso conhecer os prin
cípios e as leis gerais que governam o próprio pensa
mento, independentemente do conteúdo que possa vir
a ser pensado.
O estudo dos princípios e das formas do pensamen
to, sem preocupação com seu conteúdo, foi chamado
por Aristóteles de analítica, mas, desde a Idade Média,
passou a se chamar lógica. Aristóteles foi o criador da
lógica como instrumento do conhecimento em qual
quer campo do saber. A lógica não é uma ciência, mas
o instrumento para ela.
f , 1 1 ' "'
Cópia manuscrita bizantina do Órganon, de Aristóteles, feita no
século XI I I . O Órganon é a compilação de tratados do filósofo grego
sobre a analítica, que receberia o nome lógica na Idade Média.
Os cam pos do conheci mento
fi losófi co
Devemos a Aristóteles a primeira grande classifi
cação dos setores da atividade filosófica ao distinguir
e classificar todos os saberes humanos {cuja totalidade
é a filosofia). O critério por ele adotado é a distinção
entre ação e contemplação. Isto é, Aristóteles diferencia
os saberes ou ciências que constituem a filosofia con
forme seus objetos e finalidades:
G Capítulo 4
• Ciências produtivas: estudam as práticas produ
tivas ou as técnicas, isto é, as ações humanas que
visam à produção de um objeto ou de uma obra
que se distinguem do próprio produtor. São elas:
arquitetura, economia, medicina, pintura, escul
tura, poesia, teatro, oratória, arte da guerra, da
caça, da navegação, etc.
• Ciências práticas: estudam as práticas humanas
que têm seu fim nelas mesmas, nas quais não há
distinção entre o agente e o ato que ele realiza. São
elas: ética, em que a vontade guiada pela razão
leva à ação conforme as virtudes morais (coragem,
generosidade, fidelidade, lealdade, clemência, pru
dência, amizade, justiça, modéstia, honradez, etc.),
tendo como finalidade o bem do indivíduo; e po
lítica, em que a ação racional voluntária tem como
fim o bem da comunidade ou o bem comum.
ética e política: ética (em grego, ethiké) deriva de
éthos, que significa 'o caráter ou o temperamento
de alguém'. A ética é a disciplina filosófica que
estuda as condutas virtuosas ou corretas que
devem modelar o caráter de uma pessoa.
Política (em grego, politiké) deriva de pólis;
portanto, se refere às ações dos cidadãos. A política
é a disciplina filosófica que estuda as instituições e
a forma de ação que constituem a pólis.
Os gregos da época clássica consideram a
política superior à ética. Para eles, não pode
haver vida virtuosa sem a verdadeira liberdade,
e esta só é conseguida na pólis. Por isso, a
finalidade da política é a vida justa, a vida boa
e bela, a vida livre.
• Ciências teoréticas ou contemplativas : estudam
coisas que existem independentemente dos se
res humanos e de suas ações e que, por isso, po
dem apenas ser contempladas por eles. O que
são essas coisas? São as coisas da natureza e as
coisas divinas. Aristóteles classifica as ciências
teoréticas por graus de superioridade, indo da
mais inferior à superior:
1. ciência das coisas naturais submetidas
à mudança ou ao devir: física, biologia, meteorologia,
psicologia (a alma - em grego, psyché - é um ser
natural que existe de formas variadas em todos os
seres vivos, plantas, animais e seres humanos);
2 . ciência das coisas naturais que não estão
submetidas à mudança ou ao devir: as matemáticas
e a astronomia (os gregos julgavam que os astros
eram eternos e imutáveis);
3 . ciência da realidade pura: estuda o que
Aristóteles chama de o Ser ou substância de tudo
o que existe. Ou seja, t rata-se daq u i l o que deve
haver e m toda e q ua l q u e r rea l idade - natu ra l ,
matemática, ética, po l ít i ca ou técn ica - pa ra ser
rea l idade. Esta c iência teorética foi chamada
Filosofia Primeira por Ar istóte les . A lguns sécu los
depois, como os l ivros q u e a expu n h a m estava m
loca l izados nas b i b l iotecas depois dos l i vros que
exp u n h a m a fís ica, e la passou a ser chamada
metafísica (em grego, meta s ign ifica 'o que vem
depo is, o que está a l ém'; no caso, os l ivros que
A heranca da classificacão aristotélica , ,
v inham d e po is da fís ica e q u e t ratava m da
rea l i dade pa ra a l ém da fís i ca);
4. c iênc ia das coisas d iv i nas que são a ca usa
e a f ina l idade de tudo o que existe na natu reza e
no ser humano. Deus (em grego, théos) e as coisas
d ivi nas são chamadas theion; por isso, esta ú lt ima
ciência se cha ma teo log ia .
A fi l osofia, pa ra Aristóte l es, encontra seu ponto
mais a lto na metafísica e na teologia, das qua is deriva m
todos os outros conhec imentos.
A class ifi cação a ristoté l ica ser ia desfeita no sécu lo X IX ,
q u a ndo as c i ênc i as pa rt icu la res fo ra m se separa n d o d o tro n co
ge ra l d a fi losofi a . Cons ide ra ndo-se a c lass ificação a ri stoté li ca ,
p o d e m o s d i ze r q u e atu a lme nte os ca mpos de i nvestigaçã o da
fi losofia são três :
1 . O do conhecimento do Ser: isto é , da rea lidade fu ndamenta l e
pr imord ial de todas as coisas, ou da essênc ia de toda rea li
dade. Como, em grego, "se r" se diz on e "as coisas", ta anta,
esse cam po é chamado ontologia. Na concepção de Aristó
te les , a ontologia e ra formada pelo conju nto da metafís ica
(Fi losofia Prime i ra) e da teo logia .
2 . O do conhecimento das ações humanas ou dos valores e das
finalidades da ação humana : das a ções que tê m em s i mesmas sua
fi n a li dade , a éti ca e a po lít ica ; e das a ções q u e têm sua fi n a li d a d e
n u m produto ou n u ma obra , as téc n i cas e as a rtes e s e u s va lo res
(ut i l i dade , be leza , etc . ) .
O pensador(190Z), escu ltura do artista
francês Auguste Rodin (1840-1917).
3. O do conhecimento da capacidade humana de conhecer: isto é, o co- O campo do conhecimento das ações
nhec imento do própr io pensamento em exercíc io . Nesse campo estão: humanas ainda hoje faz parte da filosofia.
a lógica , que oferece as le is gera is do pensa mento; a teoria do con h ec imento, que a p resenta as d ife ren
tes mane i ras de conhecer e oferece os p rocedimentos pelos qua is co nhecemos; as c iênc ias p ropria men
te d itas (isto é , o que ho je chamamos ciências) ; e a teor ia das c iências ou epistemologia, que estuda e
ava l ia os proced imentos empregados pelas d ife rentes c iênc ias para defi n i r e con hecer seus objetos.
Período helenístico ou greco-romano
Os gregos chamavam a G récia d e Hé lade e a s i
mesmos de helenos. O helenismo se refere à G récia i ntei ra,
e não a u ma cidade em particu la r. No período he lenístico,
a pó l is grega de ixa de ser o centro polít ico e a referência
pr inci pa l dos fi lósofos, uma vez que a G récia se encontra
sob o poder io de outros i mpér ios, pa rticu la rmente o
Macedôn ico e o Roma no. Os fi lósofos passa m a d izer q u e
e les s ã o cidadãos do mundo. Como, em grego, m u ndo se
d iz cosmos, esse período é o da chamada filosofia
cosmopolita - o cosmos é a pól is do fi lósofo.
Data m desse pe ríodo t rês gra ndes s i stemas q u e
ma i s ta rde i n fl u e nc i a ra m o pensa m e nto c r istão :
estoicismo, epicurismo e neoplatonismo. Contra e l e s e
toda a fi l osof ia e rgueu -se u m a corrente d e n o m i nada
ceticismo. Esses s istemas o u d outr inas b usca m
e nte n d e r a rea l id a d e com o u m tod o a rt icu l a d o e
entre laçado fo rmado pelas co isas da natu reza, os seres
h u ma nos e as re l ações e ntre estes, constitu i ndo u m
s istema composto de fís ica , teor ia do con h eci mento
e ét ica .
-----------------------'\ Períodos e campos de i nvestigação da filosofia grega @
Sistemas e correntes da fi losofia cosmopolita
• Estoic ismo: o s istema refe re tudo o que existe a u ma ú n i ca d iv i ndade , que esta
be lece e co nserva a ordem u n iversal . O esto ic i smo se assenta na i de i a de auto
co ntrole co mo i dea l d e v i da .
• Epicur ismo: afasta a i de i a de que d iv i ndades i nterf i ra m na o rdem . O ep i cu r ismo
se assenta na ide ia de s i m p l i c i dade co mo ideal d e v ida .
• Ceticismo: d i ante da va ri edade d e fi losofias , os f i lósofos d essa corrente procu ram
mostra r que os h u m a nos não têm o poder de conhecer a verdade e são capazes
ape nas de op i n iões p rováve is sobre as co isas e de ações co rretas na v ida prát ica .
• Neoplatonismo: poster i o r aos outros s iste mas e correntes , busca recu pera r o
pensame nto d e P latão e de Ar istóte les e terá mu ita i nflu ê nc ia na fo rmação do
pensame nto f i losóf ico cr istão , como veremos no Capítu lo 5 .
..
O filósofo neoplatônico
Plotino, mármore
de e. 350.
A amplidão do Império Romano e sua posterior
divisão em Império Romano do Ocidente e Império
Romano do Oriente, a presença crescente de religiões
orientais no Império e as relações comerciais e cultu
rais entre Ocidente e Oriente fizeram aumentar os
contatos dos filósofos helenistas com a sabedoria
oriental. Podemos falar que o neoplatonismo pro mo-
veu uma orientalização da filosofia, sobretudo com
aspectos místicos e religiosos no pensamento e na
ação. Assim, após se originar de uma profunda modi
ficação na herança oriental, a filosofia parece retornar
ao ponto de partida, incorporando aspectos do pen
samento de outras culturas (Egito, Pérsia, Babilônia,
Palestina, Índia).
Conexões
Esta atividade trabalha com conteúdos de Filosofia e Língua Portuguesa.
Em nossa sociedade, a palavra filosofia é utilizada com diferentes sentidos no cotidiano. Veja esta tirinha de
Laerte.
� UmAoeR.Ã ==c8RE Cõ TSMS
�e.a; � HUMANII::.\DE: : .. .
\l tr::A; .-DNHEI�! .. . AMCR.f . . .
A filosofia barata segundo Fagundes, tirinha de laerte.
1 . Procu re no d ic ioná r io a s acepções pa ra a pa lavra filosofia.
a) Com pa re essas defi n ições com o q ue você vi u a respeito da atividade fi losófica na G récia a ntiga.
b} Pe lo que você estudou no Ca pítu lo 2, mostre qua l defi n i ção da fi losofia exp l i ca o que os fi lósofos gregos enten
d iam por fi losofia .
2 . Pa rti ndo da posição socrát ica, como a afi rmaçã o da personage m da ti r i nha so bre os "te mas básicos da h u ma
n idade", q ue o l ivro a bo rda r ia , poder ia se r q uestionada?
G Capítulo 4
1 . Liste o s pr inc ipa is pe ríodos da f i losofia grega, re la
cionando-os à ide ia ce ntra l de cada u m de les.
2. O que é kinésis ou o devi r? Po r que essa ideia é cen
tra l no pensame nto pré-socrático?
6. Po r que Platão d i sti ngu iu entre o se nsíve l e o i nte
l igíve l ? Qua l a re lação dessa d isti nção com o Mito
da Caverna , q ue v imos no Cap ítu lo 1 ?
3. Que ensi namentos dos sofistas Sócrates combat ia?
7. Qua l é a c l a ss if icação das c iênc ias fe ita por Ar is
tóte les?
O que e l e propunha em contra pa rtida?
4. Exp l i que, com suas pa lavra s, o que Sócrates p re
tend ia ao busca r a essênc ia e o conceito das coisas.
5. Sócrates incomodou m uitos aten ienses e aca bou
sendo condenado à morte .
8. Tom a n d o com o base a c lass if icação a ri stoté l i ca
dos ca m pos da i nvestigação fi l osófica, como po
de r ia m se r catego rizadas a Quím ica e a Agrono
m ia ? J u stifique .
a ) Po r q ue isso aconteceu?
9. Qua is são a s p r i nc ipa i s ca racte r íst icas d o pe ríodo
he l e n ísti co?
b} Busq ue na h istó r ia um exem plo de outro i nd iví
duo ou movi me nto persegu ido por ca usas se
me l hantes.
l n d i cacões
Alexandre
• Direção de O l iver Stone. Estados Unidos, 2004.
F i lme ép ico q ue se base ia na vida do imperador Alexand re, da Macedôn ia . D isc ípu lo, q uando
jovem, do fi lósofo Aristóte les , A lexand re expa nd i u até a Ín d ia e o Egito o im pér io que s eu pa i
hav ia i n i ci ado ao conqu ista r a s c idades gregas . O fi lme retrata sua h i stória como uma trama de
conqu istas m i l ita res, busca pe la sa bedor ia e re lações pessoa i s de amor e c iú me.
Como ler os pré-socráticos
O jovem Alexandre (Connor Paolo) e seu tutor, Aristóteles (Christopher
Plummer), em cena do filme Alexandre, dirigido por Oliver Stone.
• Escrito por Cristina de Souza Agostini . Pau lu s, 2012.
Este l iv ro ap resenta em deta l h es a tra ns ição, na G récia a nt iga , da exp l icação m ítica para a da
f i losofia cosmológica , i n ic iada por Ta les de M i l eto. Além d isso, reve la a infl u ênc ia do pensa
mento dos p ré-socráticos no decorrer da h i stória da fi losofia .
O mundo de Atenas
• Escrito por Luciano Canfora. Companhia das Letras, 2015.
O h i storia dor e fi lósofo ita l i a no a n a l i sa o período de formação da democra c ia e da fi losofia
a ntropo lóg ica em Atenas a part i r dos textos e documentos de então. Ass im, d esve la as crít ica s
e tensões existentes n a época .
Ancient Greece (em inglês)
• Disponíve l em: <www.ancientgreece.co.uk>. Acesso em: 13 dez. 2015.
Site l i gado ao British Museu m de Lond res, Re i no Un ido, a p resenta os pr inc ipa i s aspectos da
vida na G récia do tempo dos prime i ros fi lósofos. Há também breves b iografias de fi l ósofos,
d ramatu rgos, matemáticos e c ienti stas .
L U C. I A N O
C A N F O R A
O M U N D O
Capa de edição brasileira do
livro D mundo de Atenas, de
Luciano Canfora.
-------------------------'\ Períodos e campos de i nvestigação da filosofia grega @
A filosofia na história
Como todas as criações e instituições humanas, a
filosofia está na história e tem uma história.
Está na h istória : a filosofia manifesta e exprime os
problemas e as questões que, em cada época, os seres
humanos colocam para si mesmos diante do que é no
vo e ainda não foi compreendido. A filosofia enfrenta
essa novidade oferecendo caminhos, respostas e, so
bretudo, novas perguntas, num diálogo permanente
com a sociedade e a cultura de seu tempo.
Tem uma h istória : essas respostas, soluções e no
vas perguntas ou tornam-se saberes queoutros filóso
fos prosseguem, ou, frequentemente, tornam-se novos
problemas que outros filósofos tentam resolver. Nesses
momentos, as gerações posteriores podem tanto apro
veitar o passado filosófico como criticá-lo e refutá-lo.
Além disso, as transformações nos modos de co
nhecer podem ampliar os campos de investigação da
filosofia, fazendo surgir novas disciplinas filosóficas.
Por outro lado, alguns de seus conhecimentos podem
formar disciplinas separadas.
campos de investigação da filosofia: a filosofia teve
seu campo de atividade aumentado, no século XV I I I ,
com a filosofia da arte ou estética; no século XIX,
a filosofia da história; no século XX, a filosofia da
linguagem. Por outro lado, seu campo diminuiu quando
as ciências que dela faziam parte passaram a constituir
suas próprias esferas de investigação. É o que ocorre
no século XVI I I , quando se desligam da filosofia a
biologia, a física e a química; e, nos séculos XIX e XX,
as chamadas ciências humanas (sociologia, psicologia,
antropologia, história, etc.) .
Os principais períodos da filosofia
Por estar na história e ter uma história, a filosofia
costuma ser apresentada em grandes períodos. Eles
acompanham, de modo geral, os períodos em que os
historiadores dividem a história da sociedade ocidental.
F i losofia ant iga (do sécu lo
V I a .e . ao século V I d .C.)
Compreende os quatro grandes períodos da filoso
fia greco-romana vistos no capítulo anterior.
F i losofia patríst i ca
(do século I ao sécu lo VI I )
Inicia-se com as Epístolas do apóstolo Paulo (e. 5 d.C.
-67 d.e.) e o Evangelho do apóstolo João (c. 15 d.C.-c. 100 d.e.)
e termina no século VI I I, quando teve início a filosofia
medieval.
A filosofia desse período é conhecida pelo nome
de patrística, pois, além dos apóstolos Paulo e João,
também foi obra dos chamados Padres da Igreja cató
lica, isto é, dos dirigentes espirituais e políticos do cris
tianismo que sucederam os apóstolos.
A patrística resultou do esforço para conciliar a no
va religião - o cristianismo - com o pensamento filo
sófico dos gregos e romanos, a fim de convencer os
pagãos da nova verdade e convertê-los a ela. A filosofia
patrística liga-se, portanto, à evangelização e à defesa
da religião cristã contra os ataques que recebia. Seus
nomes mais importantes foram Justino (100-165), Cle
mente (e. 1 50-c. 21 5), Tertuliano ( 155-240), Orígenes
(e. 184-c. 253), Eusébio (e. 260-c. 339), São Gregório de
Nazianzo (e. 329-390), Santo Ambrósio (e. 340-397),
São João Crisóstomo (e. 349-407) e Santo Agostinho
(354-430).
São Basílio , São João Crisóstomo e São Gregório de Nazianzo, em
mosaico do século XIV na antiga Igreja de São Salvador, atual Museu
Chora (Kariye Muzesi), em Istambul, Turquia. Mu itos dos filósofos da
patrística eram religiosos que buscavam conciliar as crenças cristãs
com a herança filosófica greco-romana.
evangelização: a palavra evangelho vem do grego
vangelios, que significa 'mensagem'. É composta do
prefixo e, que (assim como o prefixo eu) significa 'algo
bom e feliz'. Evangelho significa 'mensagem feliz', 'uma
boa nova'. Evangelização é a transmissão do Evangelho de
Jesus Cristo para converter pagãos em cristãos.
____________________________ '\ Principais períodos da h istória da filosofia G
A patrística introduziu ideias desconhecidas para
os filósofos greco-romanos: a de criação do mundo a
partir do nada, de pecado original do homem, de Deus
como trindade una (Pai, Filho e Espírito Santo), de en
carnação e morte de Deus, de juízo final ou de fim dos
tempos e ressurreição dos mortos, etc. Precisou tam
bém explicar como o mal pode existir no mundo, uma
vez que tudo foi criado por Deus, que é pura perfeição
e bondade.
Introduziu, sobretudo com Santo Agostinho, a ideia
de "homem interior", isto é, da consciência moral e do
livre-arbítrio da vontade. Por meio dela, explicava-se
que o ser humano, por ser dotado de liberdade para
escolher entre o bem e o mal, é o responsável pela exis
tência do mal no mundo.
Para impor as ideias cristãs, os Padres as transfor
maram em verdades reveladas por Deus (por meio da
Bíblia e dos santos). Por serem decretos divinos, elas
seriam dogmas, isto é, verdades irrefutáveis e inques
tionáveis. Com isso, criou-se uma distinção entre ver
dades reveladas ou da fé e verdades da razão ou huma
nas, ou seja, entre verdades sobrenaturais e verdades
naturais. As primeiras introduzem a noção de conheci
mento recebido por uma graça divina, superior ao sim
ples conhecimento racional. Dessa forma, o grande
tema da filosofia patrística é o da possibilidade ou im
possibilidade de conciliar a razão (que lida com demons
trações) com a fé (que lida com mistérios incompreen
síveis, como três pessoas formando uma só; a morte
de Deus por meio de Jesus; a transformação do pão e
do vinho em corpo e sangue de Cristo, etc.).
A esse respeito, havia três posições principais:
1. os que julgavam fé e razão irreconciliáveis e a fé
superior à razão (diziam eles: "Creio porque absurdo");
2. os que julgavam fé e razão conciliáveis, mas subor
dinavam a razão à fé (diziam: "Creio para compreender");
3. os que julgavam razão e fé irreconciliáveis, mas
afirmavam que cada uma delas tem seu campo próprio
de conhecimento. Por isso, razão e fé não devem se mis
turar (a razão se refere a tudo o que concerne à vida
temporal das pessoas no mundo; a fé, a tudo o que se
refere à salvação da alma e à vida eterna futura).
F i losofia med i eva l
(do século VI l i ao sécu lo X IV)
Abrange pensadores europeus, muçulmanos e ju
deus. É o período em que a Igreja romana dominava a
Europa, ungia e coroava reis, organizava Cruzadas à
e Capítulo s
chamada Terra Santa e criava, à volta das catedrais, as
primeiras universidades ou escolas. A partir do século
XI I , por ter sido ensinada nas escolas, a filosofia medie
val também é conhecida com o nome de escolástica.
Santa Catarina de Siena (1347-1380), filósofa e teóloga escolástica,
em pintura de Domenico Beccafumi de e. 1515. Pinacoteca Nacional
de Siena, na Itália.
A filosofia medieval teve como influências principais
Platão (427 a.C.-347 a.e.) e Aristóteles (384 a.C.-322 a.e.).
Porém, os medievais conheciam Platão interpretado
pelo filósofo Platino (205-270), ou seja, o neoplatonismo,
e o Aristóteles conservado e traduzido pelos pensado
res muçulmanos, particularmente Avicena (980-1037)
e Averróis (11 26-1198). Essas traduções árabes também
foram muito usadas por filósofos judeus como Maimô
nides (1138-1204), Gersônides (1 288-1344) e Crescas
(e. 1340-c. 1411), que pacificamente viveram em terras
sob domínio muçulmano.
Conservando e discutindo os mesmos problemas
que a patrística, a filosofia medieval acrescentou ou
tros. Assim, deu origem à teologia no pensamento cris
tão, judaico e muçulmano, isto é, à explicação racional
das verdades da fé.
Principa is temas da fi losofia med ieval
• A cr iação d o m u n d o po r Deus (o ente n d i m e nto de Deus co n cebe as i de ias das co isas e a vo nta d e
d i v i n a as c r i a , faze ndo-as exist i r) .
• A d ife ren ça e s e pa ração e ntre i nf i n ito (Deus) e f i n ito (h o m e m , m u n d o) .
• A d ife ren ça e ntre razã o e fé (a p r i m e i ra d eve subord i na r-se à segu nda) .
• A d ife ren ça e ntre natu ra l e sobrenatu ra l (as revelações d iv inas e os m i lag res).
• A separação entre co rpo (maté r ia) e a lma (esp ír ito).
• O u n iverso co m o u ma h i e rarqu ia de s e res , p e la qua l os su per i o res (Deus , s e raf ins , q u e ru b i n s , a rcan
jos , a njos , a lmas h u ma nas) d o m i n a m e gove rnam os i nfe r i o res (co rpo humano , a n i ma is , vegeta is ,
m i n e ra is) .
• A subo rd i na ção d o poder tem pora l dos re is e dos nob res ao poder esp i r itu a l d e papas e b i spos .
O saber e a i lum inacão d ivina
Nosso saber consta d e coisas q ue vemos e coisas e m q u e acreditamos; das primei
ras, somos testemunhas diretas, das segundas, temos o testemunho idôneo de outros
que nos fazem crer porque, por meio de palavras e escritos, nos oferecem sinais dessas
coisas que não vemos. Podemos com razão dizer que há saber quando cremos em
algo com certeza e dizemos que vemos com a mente essas co isas nas quais cre
mos, ainda que não estejam presentes aos nossos órgãos dos sentidos [ . . . ] . Re
almente, a fé vê com a mente [ . . . ] . Por isso o apóstolo Pedro diz: "Aquele em quem
agora crês, não o vês"; e disse o Senhor: "Bem -aventurados os que não viram e
creram". [ . . . ] Terás, assim, reconhecido a diferença entre ver com os o lhos do
corpo e com os olhos da mente [ . . . ] . Crer se real iza com a mente e vê com a men
te e as coisas em que com essa fé cremos distam do olhar de nossos olhos. Por
isso vejo a minha fé, mas não posso ver a tua, assim como tu vês a tua fé e não
podes ver a minha, po is ninguém sabe o que se passa no espírito que está em
cada homem até que venha o Senhor e i lumine os segredos das trevas e mani
feste os pensamentos do coração para que cada um possa ver não somente os
seus, mas também os alheios.
SANTO AGOSTI N HO. Ca rta a Pa u l i na. ln : FERNÁNDEZ,
C lemente (O rg.). Los filósofos medievales. Selección de textos.
Madr i : Edito r ia l Catól ica, 1979. p. 493-494. Texto traduzido.
• Após a l e itura do trecho, responda, por escrito, à s segui ntes q uestões:
a) Quais são as fontes do saber, de aco rdo com o a uto r?
Santo Agostinho, em
representação na fachada da
catedral de Lichfield, Inglaterra.
b} Agosti n ho afi rma : " Podemos com razão d izer que há sabe r qua ndo cremos em a lgo com certeza e
d i zemos q ue ve mos com a me nte essas co isas nas q ua i s cremos, a i nda que não esteja m p resentes aos
nossos ó rgãos dos sentidos". Em que aspectos esse trecho se ap roxi ma e e m que aspectos se d i sta ncia
do que vi mos sobre o pensa mento de Sócrates e P latão no Ca pítu lo 4?
____________________________ '\ Principais períodos da h istória da filosofia 0
Outra característica marcante da escolástica foi o
método por ela inventado para expor as ideias filosó
ficas, conhecido como disputa : apresentava-se uma
tese, que devia ser refutada ou defendida com argu
mentos tirados da Bíblia, de Aristóteles, de Platão ou
de Padres da Igreja.
Assim, uma ideia era considerada uma tese verda
deira ou falsa dependendo da força e da qualidade dos
argumentos encontrados nos vários autores. Por causa
desse método de disputa, costuma-se dizer que, na
Idade Média, o pensamento estava subordinado ao
princípio da autoridade. Isto é, uma ideia era conside
rada verdadeira se tivesse apoio nos argumentos de
uma autoridade reconhecida na época.
F i losofia da Renascenca
(sécu los X IV e XV)
É marcada pela descoberta, na Europa ocidental,
das obras de Platão e de outras obras de Aristóteles,
desconhecidas na Idade Média. Nessa época, muitos
também se dedicam a recuperar obras de autores e
artistas gregos e romanos e a imitá-los. Por isso o nome
Renascimento, isto é, o retorno do pensamento da An
tiguidade ocidental. Na filosofia, destacam-se os nomes
dos florentinos Marsílio Ficino (1433-1499) e Maquiavel
(1469-1527) e do napolitano Giordano Bruno (1 548-1600),
do inglês Thomas Morus (1478-1535), dos franceses Mon
taigne (1 533-1592) e Bodin (1 530-1596), e do holandês
Erasmo (1466-1536).
São três as grandes linhas de pensamento que pre
dominavam na Renascença:
1 . Aquela proveniente da leitura de três diálogos de
Platão (Banquete, Fédon, Fedro), das obras dos filósofos
neoplatônicos e da descoberta dos livros de hermetis
mo ou de magia natural. Supunha-se que estes últimos
seriam egípcios e teriam sido ditados por deuses a seus
filhos humanos séculos antes de Moisés e de Platão.
Surgida na cidade de Florença (na atual Itália), essa
linha de pensamento concebia a natureza como um
grande ser vivo, dotado de uma alma universal (a Alma
do Mundo) e feito de laços e vínculos secretos de sim
patia e antipatia entre todas as coisas, tanto terrestres
quanto celestes. O homem, como parte da natureza,
poderia agir sobre o mundo por meio de conhecimentos
e práticas que operam com essas ligações secretas, isto
é, por meio da magia natural, da alquimia e da astrologia.
2. Aquela originária dos pensadores florentinos que
valorizavam a vida ativa (a política) e defendiam a liber-
@ Capítulo s
dade das cidades italianas contra o poderio dos papas e
dos imperadores. Esses pensadores recuperavam a ideia
de república livre presente nas obras dos grandes auto
res políticos da Roma antiga, como Cícero (e. 106 a.C.
-43 a.e.), Tito Lívio (59 a.C.-17 d.e.) e Tácito (55-120), bem
como nos escritos de historiadores e juristas clássicos.
3. Aquela que propunha o ideal do homem como
artesão ou arquiteto de seu próprio destino. Isso ocor
reria tanto por meio dos conhecimentos (astrologia,
magia, alquimia) como por meio da política (o ideal
republicano), das técnicas (medicina, arquitetura, en
genharia, navegação) e das artes (pintura, escultura,
poesia, teatro).
Percebe-se, assim, por que se costuma falar no hu
manismo como traço predominante da Renascença,
uma vez que nela o ser humano é colocado como cen
tro do Universo, defendido em sua liberdade e em seu
poder criador e transformador. Enquanto o pensamen
to medieval tinha seu centro em Deus - teocentrismo
- o do Renascimento tinha seu centro no homem -
antropocentrismo.
Em um de seus mais famosos desenhos (e. 1490), Leonardo da Vinci
partiu das proporções anatômicas ideais segundo o arqu iteto
romano Vitrúvio (século I a .C.) para chegar à ideia de que o corpo
masculino é matematicamente perfeito pelas proporções racionais
entre suas partes. Galeria da Academia, em Veneza, na Itália .
A intensa atividade teórica e prática dessa época foi
a l imentada pelas gra ndes viagens ma rítimas, que l eva
vam os eu ropeus a conhece r novos mares, novos céus,
novas terras e novas gentes, permit i ndo- l hes te r uma
visão crít ica de sua p rópr ia sociedade. Essa efervescên
c ia cu ltu ra l e po l ít ica l evou a crít icas p rofundas à Igreja
romana, que cu lm ina ram na Reforma p rotesta nte.
F i losofia moderna (do sécu lo
XVI I a meados do sécu lo XVI I I )
Nesse período, con hecido como o Grande Raciona
lismo Clássico, foi preciso enfrenta r o pess im ismo teó
r ico que re i nava desde o fim do sécu lo XVI . Dom i nava
o cet ic i smo, a atitude fi l osófica que d uvida da ca pac i
dade da razão h uma na pa ra con hece r a rea l idade ex
te r ior e o ser humano.
Com as gue rras de re l igião decorrentes da Reforma
protesta nte, os encontros dos eu ropeus com povos que
descon hec iam e as d i sputas f i losóficas e teológi cas, o
sáb io já não podia ad m it i r q u e a razão h umana é capaz
de conhec imento verdade i ro nem que a ve rdade é un i
versa l e necessá r ia, i sto é, a mesma em todo tempo e
l uga r. Ao contrá r io, d iante da mu lti p l ic idade de opin iões
em l uta, o sá b io to rnou-se cét i co.
Pa ra resta u ra r o idea l fi losófico da poss ib i l i dade do
con hecimento rac iona l ve rdade i ro e u n iversa l , a fi loso
fia moderna p ropõe três mudanças teóricas princ ipa i s :
1 . O su rgimento do sujeito do conhecimento: em vez
de começa r pe las co isas a serem conhec idas, sobre as
qua is só ca bem dúvidas e d esconfia nças, a f i l osofia
deve começa r pela refl exão. Ou seja, aq ue le que conhe
ce (o suje ito do con hecimento) vo lta-se pa ra s i mesmo
pa ra saber se é ca paz de con hec imento ve rdade i ro e,
se o for, sob q ua i s cond i ções e le é ca paz d i sso. Somen
te depo is de con hecer-se a s i mesmo como ca paz de
con hecimento ve rdade i ro é que o suje ito se vo lta pa ra
as co isas a conhecer (os objetos do conhecimento).
Ponto de partida da filosofia em
diferentes épocas
• F i losofia a nt iga : Natu reza .
• Patríst ica e escolást ica : Deus .
• Renasc imento : Homem.
• F i losof ia moderna : ca pa c idade da razão hu
mana para co nhe ce r.
O ponto de pa rti da é, porta nto, o suje ito do con he
cimento como consc iênc ia de s i refl ex iva . O suje ito do
con hecimento é o i nte lecto ou a i nte l igênc ia que, j un
ta mente com a vontade, existe no interio r de uma subs
tâ ncia espi ritua l, a a lma . A a lma é u ma su bstâ ncia com
p l et amente d ife rente d e u ma outra s ubstânc ia , a
corpó rea, que constitu i a natu reza do nosso corpo e dos
co rpos exte r iores.
Por isso, pa ra vencer o ceticismo, a fi l osofia precisa
responder às perguntas : "Como a razão ou o entend i
mento pode con hece r os co rpos ou as co isas, que são
d ife rentes de le?"; "Como o espírito pode conhece r a
matéria?"; "Como o sujeito esp i rit ua l pod e con hece r os
objetos co rpora is, o seu própr io corpo e os dema is cor
pos da natureza?".
2. A resposta a essas pergu ntas constitu i u a segun
da gra nde mudança teór ica, que d i z respeito ao objeto
do con hecimento. Pa ra os modernos, as coisas exte rio
res (a natu reza, as i nstitu i ções socia i s e po l ít i cas) são
con hec idas quando o suje ito do con hec imento as re
p resenta i nte l ectua lmente. I sso ocorre quando o suje i
to as ap reende como ide ias que dependem apenas das
operações cognitivas que e l e rea l iza .
cognitivo: palavra originada do latim cognoscere,
'conhecer'. No caso, trata-se dos processos mentais que
permitem o conhecimento.
Isso sign ifica : a) que tudo o q u e pode ser conhecido
deve poder ser representado por um conce ito ou por
uma ide ia c l a ra e d isti nta, demonstráve l e necessá ria,
formu lada pelo pensamento; b) que a natu reza, a so
ciedade e a pol ítica podem ser i ntei ramente conhecidas
pe lo sujeito do conhecimento, porque são rac iona is em
s i mesmas e p ropensas a serem representadas pe las
ide ias do suje ito do con hec imento.
3. Essa concepção da rea l idade como raciona l e p le
namente ca ptáve l pe las ide ias e conce itos p repa rou a
te rce i ra grande mudança teórica moderna . A natu reza,
a pa rt i r de Ga l i leu (1 564-1 642), é concebida como um
s i stema o rdenado de ca usas e efe i tos cuja estrutu ra
p rofu nda e i nvisíve l é matemática. O " l ivro do mundo",
d i z Ga l i l eu, "está escrito em ca racte res matemáticos, e
pa ra lê- lo é p rec iso conhecer matemática".
Essa ide ia deu or igem à ci ência moderna, para a
q ua l todos os fatos da rea l i dade podem ser conhecidos
pe las re lações necessá rias de ca usa e efeito mecâ n icos
ou de movimento que os produzem, os conse rva m ou
os destroem. Adota ndo o ponto de vista da mecân ica,
a ciência moderna acred ita que o movimento segue le is
--------------------------'\ Principais períodos da h istória da filosofia @
Os pensadores modernos consideraram que a natureza possuía uma estrutura matemática e que a matemática é a forma perfeita do
conhecimento, modelo para a filosofia . Esse lugar dado à matemática pode ser observado nos jardins do Palácio de Versalhes, na França,
concebidos no século XVI I como perfeição geométrica. Foto de 2013.
universais necessárias que podem ser explicadas e re
presentadas matematicamente.
A realidade é um sistema de causalidades racionais
que podem ser conhecidas e transformadas pelo homem.
Nascem, assim, a ideia de experimentação científica (são
criados os laboratórios) e o ideal tecnológico. Ou seja, cria
-se a expectativa de que o ser humano, conhecendo os
movimentos das coisas, poderá dominar tecnicamente a
natureza, graças à invenção de máquinas.
Existe também a convicção de que a razão humana
é capaz de conhecer a origem, as causas e os efeitos
das paixões e das emoções humanas. A vontade orien
tada pela razão permite governá-las e dominá-las, de
sorte que a vida ética pode ser plenamente racional.
A mesma convicção orienta o racionalismo político,
isto é, a ideia de que a razão é capaz de definir para
cada sociedade qual o melhor regime político e como
mantê-lo racionalmente.
Os principais filósofos desse período foram: Francis
Bacon (7 561-1626), Galileu, Hobbes (7 588-1679), Gassendi
e Capítulo s
(1 592-1655), Descartes (1 596-1650), Pascal (1623-1679),
Espinosa (1632-1677), Locke (1632-1704), Malebranche
(1638-1715), Leibniz (1646-1716), Newton (1643-1727),
Berkeley (1685-1753).
F i losofia da l lustracão ou
I lum i n i smo (meados do século
XVI I I ao i n íc io do sécu lo X IX)
Esse período também crê nos poderes da razão,
chamada de As Luzes (por isso o nome Iluminismo). O
Iluminismo afirma que:
• pela razão, o homem pode lutar contra a tirania
e conquistar a liberdade e a felicidade social e
política;
• a razão é capaz de aperfeiçoamento e progresso,
e o homem é um ser perfectível. A perfectibilidade
consiste em libertar-se da superstição, do medo e
dos preconceitos religiosos, sociais e morais, graças
ao avanço das ciências, das artes e da moral;
• o aperfeiçoamento da razão se realiza pelo pro
gresso das civilizações, que vão das mais atrasadas
(também chamadas "primitivas" ou "selvagens" )
às mais adiantadas e perfeitas (na visão da maio
ria de seus filósofos, as da Europa ocidental);
• há diferença entre natureza e civilização: a natu
reza é o reino da necessidade, das leis naturais
universais e imutáveis, enquanto a civilização é
o reino da liberdade e da finalidade proposta pe
la vontade livre dos próprios homens em seu
aperfeiçoamento moral, técnico e político.
Na natureza, as coisas e os acontecimentos não
podem ser diferentes do que são; na civilização, os fatos
e os acontecimentos podem ser diferentes do que são
porque a vontade humana pode escolher entre alter
nativas possíveis.
Nesse período há grande interesse pelas ciências
que operam com a ideia de transformação progressiva
ou de evolução, em especial a biologia. Há igualmente
grande interesse e preocupação com as artes, na me
dida em que elas seriam a expressão por excelência do
grau de progresso de uma civilização.
ENCYCLOP EDIE,
I.J I!
D I T I O N N A l R E R A I, O N E
D E S C J E N C E ,
D E A R T E I D E ' M !. T I E R ,
l'.!! R UNE ., .o J�Tli. D � C F Jj E; l l r rU .E I
Tnm-Jim, prtn·,ravw pn!ln-.
J',au,.m ill m • .l.11 j ... fff,t.J.J &ttJu .lmwà J U'o�A.l',
T O t.l E P R E..Al L E I
ll <: f., 1 1,
t �• C' ( {' J' ,ti 9' Ç ,I T" J O ,\' I f f .) t" I J 1/ , U il r, D 1
Folha de rosto do primeiro tomo da Enciclopédia, ou Dicionário das
ciências, das artes e dos ofícios(1751-1772), organizada por Diderot
e D'Alembert. Os filósofos do I luminismo francês consideraram
possível escrever uma obra que contivesse todas as grandes
realizações humanas no pensamento, na moral, na política, nas
artes e nas técnicas, e as diferenças entre civilizações.
Data também desse período o interesse pelas bases
econômicas da vida social e política. Na reflexão sobre
a origem e a forma das riquezas das nações, cria-se uma
controvérsia sobre qual é a fonte de maior importância:
a agricultura (corrente fisiocrata, de physis, a natureza
cultivada pela agricultura) ou o comércio (corrente mer
cantilista, de mercado).
Os principais filósofos do período foram: Voltaire
(1694-1778), Hume (1711-1776), Rousseau (1712-1778), Di
derot (1713-1784), D'Alembert (1717-1783), Kant (1724-
-1804), Fichte (1762-1814) e Schelling (1775-1854).
Consequências do pensamento i lumin ista
• Co mbate à t i ra n ia e busca pe la i n st itu ição da
d e m o c rac i a : as i d e ia s do I lu m i n i s m o fora m
dec i s i vas , p o r exem p lo , pa ra a Revo lução
Fra n cesa d e 1 789 .
• Crença na poss ib i l i dade do uso de me ios p ró
pr i os à c iv i l i zação pa ra contorna r e m es m o
vencer a s co nd i ções p reviame nte dadas pe la
natu reza : o progresso tecno lógico ser ia a ce
lerado com a Revolução I ndustr ia l .
• D o m i nação de outros povos : se , po r um lado ,
cresceu a busca pela l i berdade no i nteri o r dos
países eu ropeus , por outro, usou-se a i d e ia de
" p rogresso das c i v i l i zações" para j ust if ica r a
d o m i na ção de povos afr i canos e as iát i cos .
Nesta charge d e 1882, John Bull, personagem-símbolo
da Inglaterra, é representado como um polvo que
abraça territórios ao redor do mundo.
• Crença na evolu ção : os seres se tra nsforma
r ia m e m me lhores e ma is pe rfe itos .
• E labora ção de teor ias econôm icas : a econo
m ia é u ma c iênc ia que expl i ca a or igem e as
fo rmas da r i qu eza .
----------------------------'\ Principais períodos d a h istória da filosofia @
F i losofia contem porânea
Abra nge o pensamento q u e va i d e meados d o
sécu lo XIX aos nossos d ias. Esse pe ríodo, por ser o ma is
próximo de nós, pa rece o ma is comp lexo de defi n i r: as
d iferenças e ntre as vá r ias posições fi losóficas nos
parecem mu ito gra ndes, pois as esta mos vendo su rg i r
d i a nte de nós.
Para fac i l ita r u ma visão ma i s gera l d o pe ríodo,
fa remos, no próximo ca pítu lo, uma contra posição entre
as pr inc ipa i s i de ias do sécu lo XIX e as do sécu lo XX.
Conexões
Esta ativ idade traba lha com conteúdos de F i losofia e Socio logia .
Uma das l i n has de pensamento da Renascença p ropunha o
idea l do homem como centro do un iverso. Segu ndo essa l i n ha, por
meio ta nto dos con hecimentos como da po l ít i ca, das técn i cas e
das a rtes, e le poder ia ser o a rqu iteto de seu própr io dest ino. Esse
i dea l, que chegou até nossos d ia s, t i n ha como base a razão e a l i
berdade da vontade .
A roda da fortuna (c. 1460), xilogravura de autor desconhecido.
I nspiração para Maquiavel, a imagem da roda da fortuna - que,
ao girar, pode conduzir alguém do alto para baixo - originou-se
na Antigu idade e tornou-se popular no período medieval.
Pa ra afi rmar q ue o homem faz seu própr io desti no, Maqu iavel
propôs a famosa d ist i nção entre a fortuna (a boa e a má sorte, o
acaso) e a virtu (a l ivre vontade corajosa e prudente). Vejamos o que
escreve numa passagem de seu l ivro O príncipe:
Não ignoro que muitos são e foram de opin ião de que as coi
sas desse mundo são governadas pela sorte {fortuna] e por Deus
e que os homens prudentes não se lhes podem opor, e até não
têm remédio algum contra elas. Por isso se poderia julgar que não devemos nos incomodar demais com as coisas
e deixar-nos governar pela sorte. [ . . . ] entretanto, já que nossa livre vontade não desapareceu, julgo possível ser
verdade que a fortuna [sorte] seja juiz de metade de nossas ações, mas também deixa em nosso poder a outra
metade, ou quase. Comparo a fortuna a um desses rios impetuosos que, quando irritados, alagam as planícies,
arrasam as árvores e as casas: todos fogem deles, mas cedem ao seu poder, sem conseguir detê- los em parte
alguma. Mesmo assim, nada impede que, voltando a calma, os homens tomem providências, construam barrei
ras e diques, de modo que quando a cheia se repetir, o rio corra por um canal ou sua força se torne menos livre
e prejudicial. O mesmo acontece com a sorte, que mostra sua força onde não encontra uma vi rtu bem ordenada,
pronta a lhe resistir, e volta o seu ímpeto para onde sabe que não foram erguidos diques ou barreiras para do
miná-la.
MAQUIAV EL. O príncipe. São Pau lo: Mart ins Fontes, 1999, p. 1 19-120.
1 . Em grupo ou i nd ividua lmente, esco lha (m) uma ativ idade do mu ndo contemporâneo em que você(s) identifique (m)
a p resença da razão e da vontade l ivre. Em seguida, e l abo re(m) um b reve comentá r io sobre e l a e sobre como a
razão e a vontade a i nfl uenc iam .
2 . As ide ias de razão e de vontade l ivre i nfl uenc ia ra m o pensamento ideo lógico daque les que p ropagam a merito
cracia, ou seja , que ac red itam que uma vida bem-suced ida depende ún ica e exc l us ivamente do empenho do i nd i
víduo. Em que aspectos a ide ia de fortuna e virtu se a proxima e em que aspectos nega a poss ib i l idade da me rito
cracia ? Busque da r exemplos concretos.
e Capítulo s
1 . A fi losofia está à ma rgem da h istó r ia ou i ntima
mente l igada a e la? Po r q uê?
2. A patrística tentou conci l i a r a re l ig ião cr istã com
ide ias da fi losofia greco-romana , em especi a l nas
re l ações entre fé e ra zão. Pa ra você, essa proposta
e ra coerente? Po r quê?
3. Qua is era m os gra ndes temas da fi l osofia medieva l ?
4. Resuma as três gra ndes l i n has da fi losofia da Re
nascença e exp l ique por que expr imem o huma nis
mo renascentista .
5. Por que o su rgimento do suje ito do conhecimento
fo i i m porta nte pa ra que se su perasse o ceticismo
na f i losofia moderna?
6. De aco rdo com o texto, como e ra concebida a na
tureza na fi l osofia moderna? Por que essa concepção
l n d i cacões
Alexandria
• Direção de Alejandro Amenábar. Espanha, 2009.
O fi lme aborda os confl itos entre fé e ra zão no período em
que o crist i an i smo começa a se d issem i na r pelo Im pér io Ro
mano. Além de desafi a r a opressão às mu l h eres, a fi lósofa
H i pát ia de Alexand ria se vê no me io de uma d i sputa entre
re l ig i ão e fi l osofia , na q u a l a i ntra ns igên cia re l ig iosa leva a l u
t a s entre cr istãos e j u deu s e entre cr istãos e f i lósofos pagãos .
(ena do filme Alexandria,
de Alejandro Amenábar,
l eva à s ide ias de expe rimentação c ientífi ca e d e
tecno logia?
7. Consu lte a l i n ha do tem po, no fi na l do l ivro, e iden
tifique os temas a bo rdados por f i l ósofos do pe río
do moderno que se re lac ionem com o que você leu
sobre o rac iona l i smo.
8. Por que a fi losofia do sécu lo XVI I I foi denominada
As Luzes ou Iluminismo?
9. Qua i s os p r i n ci pa i s te mas do pe nsa mento i l u m i
n i sta ?
10. Consu lte a l i n ha do tem po, no fi na l do l ivro, e iden
tifique os temas a bo rdados por f i l ósofos do pe río
do i l um i n ista que se re lac ionem especifica mente
com o que você leu sobre o pe r íodo.
protagonizado por Rachel Weisz. -,;.-, ___ ......, '--- -- - - --- '
A tempestade
• Escrito por Wi l l iam Shakespeare, i l ustrado e adaptado por Li l lo Pa rra e Jefferson
Costa. Nemo, 2012.
Adapta ção em quad rin hos para a peça homôn ima . Após ser deposto por seu próp r io
i rmão e acabar exi l ado em uma i l h a, o duque d e Mi lão p l aneja sua v ingan ça por me io
da mag ia . O desen ro l a r da trama mostra os confl itos entre os três aspectos da a lma,
d iv i são fe ita por P latão e retomada por m u itos pensadores renascent istas, com a rac io
na l i dade tr iu nfando ao fin a l .
ABC da Astronomia - Heliocentrismo
• Disponíve l em: <http://tvescola .mec.gov.br/tve/video/abc-da-astronomia
hel iocentrismo>. Acesso em: 13 dez. 2015.
Este vídeo ap resenta um momento dec is ivo da h i stória da ci ênc ia , entre os sécu los XVI
e XVII , prop ic i ado pelo pensamento fi losófico, e que ne l e teve m u itas repercussões : a
ide ia de que era a Terra que gi rava em torno do Sol , e não o contrá r io.
SIC�l e s f �Jtt.t
,t íe rrif.: ,;; -l 1.1 4 e
,,111 f,111111 1 Íftr s.,,, t ... i.
-----------------------------'\ Principais períodos da h istória da filosofia @
História e progresso
Como vimos no capítulo anterior, a filosofia mo
derna experimentou grande otimismo no uso da razão
para que o ser humano possa conhecer verdadeiramen
te a si mesmo e a realidade e garantir para si a liberda
de, a felicidade e o aperfeiçoamento.
O século XIX é, na filosofia, o século da descoberta
da história ou da historicidade do ser humano, da so
ciedade, das ciências e das artes. Isso não significa que
anteriormentenão se escrevessem histórias, porém
estas eram tomadas como um aspecto da vida humana
entre outros. A mudança de perspectiva ocorre parti
cularmente quando o filósofo alemão Hegel {1770-1831)
afirma que a história é a realidade: para ele, a razão, a
verdade e os seres humanos são essencial e necessa
riamente históricos.
Essa concepção levou à ideia de progresso, isto é, de
que os seres humanos, as sociedades, as ciências, as ar
tes e as técnicas acumulam conhecimento e práticas,
aperfeiçoando-se cada vez mais. Com o progresso, surge
a ideia de que o presente é superior e melhor do que o
passado, e o futuro será melhor e superior ao presente.
Essa visão otimista também foi desenvolvida na
França pelo filósofo Auguste Comte {1798-1857). Funda
dor da corrente filosófica denominada positivismo,
Comte atribuía o progresso ao desenvolvimento das
ciências positivas (isto é, sem relação com mitologias,
religiões e construções metafísicas). As ciências permi
tiriam aos seres humanos "saber para prever e prever
para prover", de modo que o desenvolvimento social se
faria pelo aumento do conhecimento científico e do
controle científico da sociedade. É positivista a ideia de
"ordem e progresso", que viria a fazer parte da bandei
ra do Brasil republicano.
No entanto, no século XX, a mesma afirmação de
que os seres humanos, a razão e a sociedade são his
tóricos levou à ideia de que a história é descontínua e
não progressiva. Por essa perspectiva, cada sociedade
tem sua história própria, em vez de ser apenas uma
etapa numa história universal das civilizações, como
julgara a filosofia do século XIX.
A ideia de progresso passou a ser criticada porque foi
usada para legitimar colonialismos e imperialismos - os
mais "adiantados" teriam o direito de dominar os mais
"atrasados". Passou a ser criticada também a ideia de
progresso das ciências e das técnicas, por dois motivos:
1 . Pelo entendimento de que os conhecimentos e
as práticas têm sentido e valor próprios em cada época
e para cada sociedade. Como esses sentidos e valores
desaparecem numa época seguinte ou são diferentes
numa outra sociedade, não se pode falar em transfor
mação acumulativa e progressiva da humanidade.
2 . Pela avaliação do uso da ciência e da técnica pe
lo nazismo e no episódio do lançamento das bombas
atômicas sobre o Japão pelas Forças Armadas dos Es
tados Unidos. Casos como esses levaram ao questio
namento do otimismo racionalista. Essa crítica prosse
guiu no final do século passado e continua até hoje com
os movimentos ecológicos, que apontam os riscos ao
planeta trazidos pelo uso indiscriminado das ciências e
das técnicas.
Cenário da cidade japonesa de
H iroxima, devastada após a
bomba lançada pelos Estados
Unidos, em 1945. No século XX,
a filosofia passou a
desconfiar do otimismo
científico-tecnológico.
-----------------------'\ A transformação da filosofia na contemporane idade @
As c iências e as técn icas
Tirinha d o personagem Calvin, d o cartunista Bill Watterson.
No século X IX, a filosofia afirmava a confiança
plena e total no saber científico e na tecnologia para
dominar e controlar a natureza em favor da sociedade
e dos indivíduos:
• a Física e a Química, por exemplo, dominando e
controlando os processos naturais, aumenta
riam a capacidade da agricultura e da indústria,
o que traria abundância e conforto para todos;
• uma nova ciência, a Sociologia, ofereceria um
saber seguro e definitivo sobre o modo de fun
cionamento das sociedades. Isso permitiria aos
seres humanos que organizassem racionalmen
te o social de modo a evitar revoluções, revoltas
e desigualdades;
• outra nova ciência, a Psicologia, ensinaria defi
nitivamente como é e como funciona a psique
humana, quais as causas das emoções e dos
comportamentos e os meios de controlá-los, de
modo que seria possível livrar-nos das angústias,
do medo, da loucura;
• seria possível também uma Pedagogia baseada
nos conhecimentos científicos. Ela permitiria
não só adaptar perfeitamente as crianças às
exigências da sociedade, como também educá
-las segundo suas vocações e potencialidades
psicológicas.
No século XX, contudo, a filosofia passou a des
confiar do otimismo científico-tecnológico do século
anterior em virtude de vários acontecimentos: as du
as guerras mundiais, o bombardeio de Hiroxima e
Nagasaki, o genocídio praticado nos campos de con
centração nazistas, o totalitarismo stalinista, as guer-
G Capítulo &
Mi;;: l=ALTAM
PALAVRAS.
r;;u TA /ti BliM
NÃO 605TGI,
MAS LEMBREã-56
or;; �ur;; A
TRANSMLIT AÇÃO '
UMA Ti:CiNOLOGIA
NOVA.
ras da Coreia, do Vietnã, do Oriente Médio, do Afega
nistão, as invasões russas da Hungria, da Polônia e da
Tchecoslováquia, as ditaduras sangrentas da América
Latina e da África, a devastação de mares, florestas e
terras, a poluição do ar, os perigos do consumo de
alimentos e remédios cancerígenos, o aumento de
distúrbios e sofrimentos mentais, os problemas éticos
e políticos surgidos com o desenvolvimento da neu
rociência e da engenharia genética, etc.
Além disso, as ciências e as técnicas foram incor
poradas ao chamado complexo industrial-militar das
grandes potências econômicas, que financiam as pes
quisas e definem o que deve ser pesquisado e como
serão utilizados os resultados. Esse complexo, com
poder de vida e morte sobre o planeta, não está sub
metido a governos nem a associações públicas: ele
opera secretamente, segundo seus próprios interes
ses, desencadeando guerras, ditaduras e violências em
toda parte.
Diante desses fatos, um grupo de filósofos ale
mães, conhecido como Escola de Frankfurt, elaborou
a chamada Teoria Crítica. Essa concepção distingue
duas formas da razão: a razão instrumental e a ra
zão crítica.
A razão instrumental é a razão técnico-científica,
que faz das ciências e das técnicas um meio de intimi
dação, medo, terror e desespero. A razão crítica, ao
contrário, analisa e interpreta os limites e os perigos
do pensamento instrumental. Para a razão crítica, as
mudanças sociais, políticas e culturais só se realizarão
se tiverem como finalidade a emancipação dos huma
nos, e não as ideias de domínio técnico-científico sobre
a natureza, a sociedade e a cultura.
Os ideais políticos revolucionários
No sécu lo XIX, em decorrência do otim ismo trazi do
pe las ide ias da razão e do progresso, a fi l osofia apostou
em ideais políticos revol uc ioná rios como o ana rq u ismo,
o socia l ismo e o comun ismo. Esses idea is cr iar iam, gra
ças à ação pol ít ica consciente dos exp lo rados e opr im i
dos, uma soc iedade nova .
No enta nto, o sécu lo XX vi u a ascensão dos chama
dos regimes tota l itá rios (fascismo, naz ismo, sta l i n i smo,
mao ismo) e o forta lec imento das soc iedades a utoritá
r ias ou d itator ia i s (como as da América Lat ina, das F i l i
p inas e da Áfri ca). E ntão, a f i losofia também passou a
COLE.IRI\
desconfia r do ot im ismo revo l uc ioná r io e da s utop ias e
a i ndaga r se os se res humanos, os exp lo rados e domi
nados se rão ca pazes de cri a r e manter uma soc iedade
nova, justa e fe l iz.
O sécu lo XX também vi u o cresc imento das chama
das bu rocracias, que dominam as o rga nizações estata is,
em presa r ia is, pol ít ico-pa rtidá r ias, esco la res, hospita la
res . Isso l evou a fi l osofia a i ndaga r como os se res hu
ma nos poder ia m de r ruba r esse imenso poder io que,
secreta mente, dete rm ina sua v ida cot id i ana desde o
nasc imento até a morte.
FOC.INHE.IR-"
Tirinha d o cartunista
André Dahmer. A forma
burocrática dominou
diferentes tipos de
organização dentro da •iiliií•--••-•lllllllli•----------.. ---------_. sociedade.
A cu ltura
No sécu lo XIX, a fi l osofia descobre a cu ltu ra como
o modo p rópr io e específico da existência dos seres
humanos. Os a n ima i s são seres natu ra i s; os h uma nos,
se res cu ltu ra is. A natureza é governada por l eis neces
sár ias de ca usa e efe ito; a cu ltu ra é a cr iação h umana,
o exe rcíc io da l i nguagem e da l i berdade.
Por meio do tra ba l h o, os h uma nos são ca pazes
de t ra n sfo rma r a nat u reza e usá - l a pa ra uma v ida
p rop r i a mente h u mana . Por me io da l i nguagem, são
ca pazes de com un ica r-se e sobretudo de d a r perma
nênc i a e co nt i n u i dade às expe r i ê n c i a s h u m a nas . A
cu lt u ra é a fo rmação co let iva d e i n st it u i ções (como
a l i ngu agem, o tra ba l h o, a fa m í l ia , a soc i edade, a ét i
ca e a po l ít i ca ), i d e ia s, s ím bo l os, n o rma s, regra s e
va l o res . I sso perm ite a u m a socied ade defi n i r pa ra s i
mesma o bom e o mau, o be lo e o fe io, o j u sto e o
i nj u sto, o ve rdade i ro e o fa l so, o certo e o e rra do, o
p u ro e o i m p u ro, o possíve l e o i m possíve l , o i n ev itá
ve l e o cas u a l , o s ag ra d o e o p rofa n o, o espaço (o
próx imo e o d i sta nte) e o tempo (o passa do, o pre
se nte e o futu ro), i nst it u i r a s crenças e def i n i r a re l a
ção com a mo rte.
A cu ltura se rea l iza porque os hu manos são ca pazes
de l i nguagem, traba l ho e re lação com o tempo. A cu l
tu ra se man ifesta como v ida soc ia l, como cr iação das
ob ras de pensamento e de a rte, como v ida re l ig iosa,
v ida ét i ca e v ida po l ít ica .
Celebração do D ia de Finados em Oaxaca, no México, em 2015. (ada
cultura cria, a seu modo, sua linguagem, seus mitos e suas crenças,
suas obras de pensamento e de arte.
-----------------------'\ A transformação da filosofia na contemporane idade 0
Para a filosofia do século XIX, de acordo com sua
ideia de progresso da humanidade, haveria uma única
grande cultura em desenvolvimento, da qual as dife
rentes culturas seriam fases ou etapas.
Para outros, chamados filósofos românticos, as
culturas não formavam uma sequência universal pro
gressiva, mas eram culturas particulares, nacionais.
Assim, cabia à filosofia desvendar o "espírito de um
povo" conhecendo as origens e as raízes de cada cul
tura. Para esses filósofos, o mais importante de uma
cultura não se encontraria em seu futuro (no seu pro
gresso), mas no seu passado (nas tradições e no folclo
re nacional).
No entanto, no século XX, ao afirmar que a história
é descontínua, a filosofia também afirma que não há
"a cultura", mas culturas diferentes. A filosofia contem
porânea também rejeita a ideia romântica de que a
pluralidade de culturas e as diferenças entre elas se
devem à existência da nação, pois a própria ideia de
nação é uma criação cultural (foi uma ideia proposta
pelas culturas francesa e alemã do século XIX). Cada
cultura inventa seu modo de relacionar-se com o espa
ço e o tempo, de criar sua linguagem, de elaborar seus
mitos e suas crenças, de organizar o trabalho e as rela
ções sociais e morais, de criar as obras de pensamento
e de arte. Cada uma, em decorrência das condições
históricas, geográficas e políticas em que se forma, tem
seu modo próprio de organizar o poder e a autoridade,
de produzir seus valores.
O "fim da filosofia"
No século XIX, o otimismo científico e técnico le
vou a filosofia a supor que, no futuro, todos os conhe
cimentos e todas as explicações seriam dados pelas
ciências. Assim, a própria filosofia (que nasceu como
o conjunto de todos os saberes) não teria mais motivo
para existir.
Entretanto, no século XX a filosofia passou a mos
trar que as ciências não têm princípios totalmente cer
tos, seguros e rigorosos para as investigações, que os
resultados podem ser duvidosos e precários, e que,
frequentemente, uma ciência desconhece até onde
pode ir e quando está entrando no campo de investi
gação de outra.
Os princípios, os métodos, os conceitos e os resul
tados de uma ciência podem estar totalmente equivo
cados ou desprovidos de fundamento. Com isso, a filo-
@ Capítulo &
Em resumo, contra a filosofia da cultura universal,
a filosofia do século XX negou que houvesse uma úni
ca cultura em progresso e afirmou a existência da plu
ralidade cultural. Contra a filosofia romântica das cul
turas nacionais como expressão do "espírito do povo",
a filosofia do século XX negou que a nacionalidade
fosse causa das culturas (ao contrário: as nacionalida
des são efeitos culturais temporários) e afirmou que
cada cultura se relaciona com outras e encontra dentro
de si seus modos de transformação.
Indígena do povo Yawalapiti filma cerimônia do Kuarup no Parque Nacional
do Xingu, em Gaúcha do Norte (MT}, 2012. Cada cultura se relaciona com
outras e encontra dentro de si seus modos de transformação.
sofia voltou a afirmar seu papel na compreensão e
interpretação crítica das ciências ao discutir a validade
de seus princípios, métodos ou procedimentos de pes
quisa, resultados, formas de exposição dos dados e das
conclusões, etc.
Foram preocupações com a falta de rigor das ciên
cias que levaram o filósofo austríaco Edmund Husserl
(1859-1938) a propor que a filosofia fosse o estudo e o
conhecimento rigoroso da possibilidade do próprio co
nhecimento científico, examinando os fundamentos,
os métodos e os resultados das ciências. Foram tam
bém preocupações como essas que levaram filósofos
como Bertrand Russell (1872-1970) e Quine (1908-2000)
a estudar a linguagem científica, a discutir os proble
mas lógicos das ciências e a mostrar os paradoxos e os
limites do conhecimento científico.
Os limites da razão
No século XIX, o otimismo filosófico levava a filo
sofia a afirmar que, enfim, os seres humanos haviam
superado a superstição, as explicações mágicas e fan
tásticas da realidade, e alcançado a maioridade racional.
Acreditava também que a razão se desenvolvia plena
mente para que o conhecimento completo da realida
de e das ações humanas fosse atingido.
No entanto, já no final do século XIX, Marx (1818-
-1883) e Freud (1856-1939) colocaram em questão esse
otimismo racionalista - Marx no campo da economia
e da política; Freud, na investigação das perturbações
e dos sofrimentos psíquicos. Que descobriram eles?
Marx descobriu que temos a ilusão de estar pen
sando com nossa própria cabeça e agindo por nossa
própria vontade de maneira racional porque desconhe
cemos as condições econômicas e sociais nas quais a
classe social dominante exerce seu poder sobre a men
te de todos. Nesse contexto, a classe dominante faz
com que suas ideias pareçam ser verdades universais,
válidas para todos os membros da sociedade e para
todas as classes sociais. Esse poder social invisível que
nos leva a pensar como pensamos e agir como agimos
foi chamado por ele de ideologia. Em coautoria com
Friedrich Engels (1820-1895), Marx escreve:
Ora, se na concepção do curso da história separar
mos as ideias da classe dominante da própria classe
dominante e as tornarmos autônomas, se permane
cermos no plano da afirmação de que numa época
dominaram estas ou aquelas ideias, sem nos preocu
parmos com as condições da produção nem com os
produtores dessas ideias, [ ... ] então poderemos dizer,
por exemplo, que durante o tempo em que a aristocra
cia dominou dominaram os conceitos de honra,Jideli
dade, etc., enquanto durante o domínio da burguesia
dominaram os conceitos de liberdade, igualdade, etc.
A própria classe dominante geralmente imagina isso.
[ . . . ] Realmente, toda nova classe que toma o lugar de
outra que dominava anteriormente é obrigada, para
atingir seus fins, a apresentar seu interesse como o in
teresse comum de todos os membros da sociedade, [ . . . ]
a apresentar suas ideias como as únicas racionais, uni
versalmente válidas.
MA RX, Ka r l ; E N G ELS , Fr iedric h . A ideologia alemã.
São Pau lo: Boitempo, 2007. p. 48.
Freud, por sua vez, mostrou que os seres huma
nos têm a ilusão de que tudo o que pensam, fazem,
sentem e desejam estaria sob o pleno controle de
suas consciências. Para ele, desconhecemos a exis
tência de um poder -psíquico e social - que atua
sobre nossa consciência sem que ela o saiba. A esse
poder que domina e controla invisível e profunda
mente nossa vida consciente ele deu o nome de
i n consc i ente.
Diante dessas duas descobertas, a filosofia se viu
forçada a reabrir a discussão sobre o que é e o que
pode a razão, sobre o que é e o que pode a consciên
cia reflexiva ou o sujeito do conhecimento, sobre o
que são e o que podem as aparências e as ilusões.
Muro grafitado na cidade de
São Paulo, em 2010. Com os
conceitos de ideologia e
inconsciente, Marx e Freud
mostraram que há influências
invisíveis sobre o
pensamento e a vontade do
indivíduo até então
insuspeitadas pela filosofia.
---------------------------,,.'\ A transformação da filosofia na contemporane idade 0
Algumas i lusões da razão
'Trabalhamos com empenho
po rq ue i sso nos fa rá progred i r
profiss ionalmente e , no futuro , te r uma
vida mais confo rtáve l."
Segu ndo Marx ►
Trabalhamos com em penho porque
a classe dom inante nos fez acred ita r
que fo i desse modo que ela progred i u
profiss ionalmente, q uando , na realidade ,
quem mais se benefic ia de nosso
trabalho é a própria classe dom inante.
"A razão nos perm ite aval iar as
poss ib i lidades em uma situação e tomar
a dec isão ma is coe rente de fo rma
del iberada."
Segu ndo Freud ►
As memórias de exper iênc ias do
passado (po r exemplo , traumas) ficam
ret idas no i nconsciente, que i nfluenc ia
nossas ações sem que percebamos .
Ao mesmo tempo, a filosofia teve de reabrir as
discussões éticas e morais: "O ser humano é realmen
te livre ou é inteiramente condicionado pela sua situa
ção psíquica e histórica?". "Se for inteiramente condi
cionado, então a história e a cultura são causalidades
Infinito e finito
O século XIX prosseguiu uma tradição filosófica
para a qual o mais importante era a ideia do infinito,
isto é, a natureza eterna (dos gregos), o Deus eterno
(dos cristãos), o desenvolvimento pleno e total do tem
po infinito (a história universal).
A filosofia do século XX, contudo, tendeu a dar
maior importância ao finito, isto é, ao que é limitado
no espaço e no tempo, que surge e desaparece, que
tem fronteiras e limites. Esse interesse pelo finito apa
receu, por exemplo, no exi stencialismo, corrente filo
sófica que definiu o humano como "um ser para a
morte". Ou seja, o ser humano sabe que é finito, que
acaba e que precisa encontrar em si mesmo (e não na
natureza, em Deus ou na história universal) o sentido
de sua existência.
necessárias como as da natureza?". Ou seria mais cor
reto indagar: "Como os seres humanos conquistam a
liberdade em meio a todos os condicionamentos psí
quicos, históricos, econômicos, políticos e culturais em
que vivem?" ?
Outro exemplo do interesse pela finitude apareceu
no que se costuma chamar filosofia da diferença, isto
é, naquela filosofia que se interessa por delimitar uma
realidade levando em conta a singularidade e particu
laridade. Inspirando-se nos trabalhos dos antropólogos,
essa filosofia buscou a diversidade, pluralidade, singu
laridade das diferentes culturas, em lugar de voltar-se
para a ideia de uma cultura universal única.
Enfim, outro exemplo de interesse pela finitude
apareceu quando a filosofia se voltou para a multipli
cidade e a diferença entre as ciências. Em vez de bus
car uma ciência universal que conteria dentro de si
todas as ciências particulares, tentou descobrir os li
mites de cada uma delas e sobretudo seus impasses
e problemas insolúveis.
Nossos dias: a pós-modernidade
No fim dos anos 1970 surgiu a ideia de que a mo
dernidade terminara e que se iniciava a pós-moderni
dade. A modernidade corresponderia à época da socie
dade industrial, aquela em que o poder econômico e
político pertence às grandes indústrias e em que se
0 Capítulo &
explora o trabalho produtivo. Já a pós-modernidade
corresponderia à sociedade pós-industrial, em que o
poder econômico e político pertence ao capital finan
ceiro e ao setor de serviços das redes eletrônicas de
automação e informação.
As i de ias e os va lores da
modern i dade
A modernidade era o conjunto de ideias e de valo
res que, com inúmeras variações e transformações,
haviam norteado a filosofia e as ciências desde o fim
do século XVI I até os anos 1970. Podemos resumir esse
conjunto de ideias e valores em alguns aspectos.
• No campo do conhecimento:
1 . Racionalismo: confiança no poder da razão (seja
ela instrumental, seja crítica) para distinguir entre apa
rência e realidade e para conhecer e transformar esta.
O racionalismo definira critérios para distinguir entre
razão e loucura, ser (realidade) e parecer (aparência),
conhecimento e ilusão, verdade e ideologia. Além disso,
assegurava a validade do conhecimento filosófico e
científico.
2. Distinção entre interior e exterior ou entre sujei
to e objeto: confiança em critérios e procedimentos que
permitiam distinguir entre o sujeito do conhecimento
ou a consciência (o interior) e o objeto ou as coisas (o
exterior) e garantiam que o primeiro tinha instrumen
tos teóricos para dominar intelectualmente o segundo.
Assim, a sub jetividade (o pensamento com seus prin
cípios e leis universais e com seus procedimentos teó
ricos) tornava-se condição do conhecimento verdadei
ro, ou seja, conhecimento objetivo.
3. Afirmação da capacidade da razão humana para
conhecer a essência ou a estrutura interna de todos os
seres: confiança na capacidade da razão para: a) definir
as causas e as condições que determinam a identidade
de cada coisa e sua realidade; b) demonstrar as relações
necessárias que cada coisa mantém com outras de que
depende ou que dela dependem; c) oferecer as leis ne
cessárias de mudança ou alteração de todas as coisas.
• No campo da prática:
1 . Diferenciação entre a ordem natural regida pela
necessidade (as ditas leis da natureza) e a ordem hu
mana da cultura (trabalho, linguagem, ética, política,
artes, religião), pois nesta as regras e normas dependem
da ação econômica, social e política dos próprios seres
humanos. Ainda que a ordem social e política atue so
bre os indivíduos como se tivesse o mesmo poder de
imposição da necessidade existente na ordem natural,
ela pode ser mudada e transformada pelos seres hu
manos, o que prova que a ordem social e política é uma
instituição humana e histórica.
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, elaborada em 1789,
logo após a Revolução Francesa. Fruto da modernidade, a declaração
afirmava a possibilidade de transformar a ordem social e política e
reconhecia o campo da cidadania.
2. Afirmação de que os seres humanos são indiví
duos e agentes livres porque são seres racionais dota
dos de vontade. Portanto, são capazes de controlar e
moderar suas paixões e seus desejos e de escolher por
si mesmos as ações que praticam, sendo responsáveis
por elas.
3. Distinção entre o público e o privado: estabele
cimento de critérios que permitam distinguir entre a
esfera pública ou política (ou o campo das instituições
sociais e de poder) e a esfera privada da moral indivi
dual (a ética) e da economia de mercado (a propriedade
privada dos meios de produção).
4. Afirmação dos ideais da Revolução Francesa -
igualdade, liberdade e fraternidade -, reconhecimento
de uma esfera de direitos civis - o campo da cidadania
- e ampliação desses ideais pela afirmação de direitos
sociais. Disso originaram-se os movimentos de luta
pelos direitos sociais, contra o racismo, feminista e de
liberação sexual.
5. Afirmação de um sentido progressivo da história ou
de ideais revolucionários de emancipação do gênero hu
mano. Isso envolve lutas sociais e políticas contra a opres
são e a exploração econômica, social, política e cultural.
-----------------------'\ A transformação da filosofia na contemporane idade 0
A crít ica pós-moderna
O pensamento pós-moderno critica essas ideias e
as recusa:
1. Considerainfundadas e ilusórias as pretensões
da razão nos campos do conhecimento e da prática,
quando não um disfarce para o exercício da dominação
sobre as pessoas.
2. Julga que o conhecimento não se define por meio
da distinção entre a verdade e a falsidade, e sim pelos
critérios da utilidade e da eficácia: um conhecimento
(filosófico, científico, artístico) é válido se for útil ou se
for eficaz para a obtenção de fins desejados, sejam eles
quais forem.
3. Considera infundada a distinção entre sujeito e
objeto, pois tanto as filosofias como as ciências são
construções subjetivas de seus objetos. Estes só exis
tem como resultado das operações teóricas e técnicas
criadas pelos próprios seres humanos. Em outras pala
vras, o conhecimento não visa a uma realidade existen
te em si mesma e observável, e sim à invenção ou cons
trução de objetos teóricos e técnicos nos laboratórios.
4. Recusa tanto a ideia de história universal contínua
quanto a de histórias particulares descontínuas porque
valoriza o tempo como momento presente, sem relação
com causas passadas ou expectativas futuras. Por isso
elogia rebeliões rápidas e recusa a ideia de revolução
como mudança total da sociedade e da política.
5. Não admite a distinção entre ordem natural ne
cessária e ordem histórica ou cultural instituída pelos
0 Capítulo &
seres humanos: ambas são invenções ou instituições
humanas, contingentes, passageiras.
6. Não admite a definição do ser humano como
animal racional dotado de vontade livre. Em vez disso,
o concebe como um ser passional, desejante, que age
movido por impulsos e instintos, embora, ao mesmo
tempo, institua uma ordem social que reprime seus
desejos e paixões.
A ética, portanto, não se define pela ação racional
voluntária livre que busca a ação boa ou virtuosa, mas
pela busca da satisfação dos desejos. Essa satisfação
define a felicidade, que se realiza na esfera da intimi
dade individual, e não na participação da vida da cole
tividade.
7. Desvaloriza e critica a política: considera que a
democracia gera cidadãos apáticos, que deixam tudo
por conta de representantes eleitos; considera também
que o socialismo e o comunismo desembocam em re
gimes e sociedades totalitários. Por isso, a pós-moder
nidade dá importância à esfera da intimidade individual
e às relações pessoais.
8. Dá importância à ideia de diferença. Ou seja, não
mais toma a sociedade como uma estrutura que opera
pela divisão das classes sociais, cada qual com uma
realidade e uma identidade definidas pela economia e
pela política e contrárias umas às outras. Em lugar dis
so, concebe o social como uma teia de grupos que se
diferenciam por etnia, gênero, religião, costumes, com
portamentos, gostos e preferências.
Para o pensamento pós-moderno,
a ciência não consiste no estudo de
um objeto existente na realidade,
e sim na construção desse
objeto pelo pesqu isador - por
exemplo, em uma situação em
laboratório. Na fotografia,
pesquisadores utilizam acelerador
de partículas do Laboratório
Nacional de Luz Síncrotron, em
Campinas (SP), 2012.
Para além do pós-modernismo
As ide ias pós-modernas poder iam leva r a d uas su
posições: a de que não há motivos pa ra va loriza r a razão
e a de que a fi l osofia já não tem por que exist i r.
Essas duas su posições constituem o que o pensador
Boaventura de Sousa Sa ntos (1940) denom i na razão
indolente: uma razão p regu i çosa, que se contenta em
tra nsforma r os im passes da modern idade em descu lpa
pa ra aceita r o m undo ta l como apa rece, sem pergu nta r
se essa apa rênc ia é a rea l idade ve rdade i ra .
Uma fi l osofia que a posta no t ra ba l ho do pensa
mento rea l i za o mov imento i nverso: d i r ige-se ao mun
do natu ra l e cu ltura l pa ra , nova mente, indaga r po r que
e l e a pa rece fragmentado, passagei ro, i n cons i stente.
Sobretudo, a fi losofia q uest iona se essa apa rênc ia não
esconde formas de dom i nação e de serv idão que p re
c isamos comp ree nder, ava l i a r, cr it i ca r e l uta r pa ra u l
t ra passa r.
Três exem p los co ntra a razão i n do l e nte podem
aj uda r-nos a pe rceber a i mportâ nc ia do t ra ba l ho do
pe nsa mento.
1 . Crítica da cultura do narcis ismo. Um m ito grego
na rra que, ao ve r sua própria imagem pela pr ime i ra vez,
refl etida nas águas de u m lago, Na rciso j u lgou tratar-se
de outra pessoa . Perd i damente a pa ixonado por essa
imagem, o jovem l ança-se no lago atrás dela e morre
afogado. Algu ns fi lósofos contem porân eos tomam es
se m ito pa ra exp l ica r como os me ios de comun i cação
e a propaganda i nventam imagens de se res h umanos
be los, jovens, sa udáve is, bem-suced idos com as qua is
devemos nos identificar se q u isermos aprovação socia l .
Dessa mane i ra, aqu i l o que a lguns pós-modern istas en-
tend i am como e log io do desejo contra as l im itações
trazidas pe la razão sign ifica que, na verdade, de ixamos
de con hecer a nós mesmos e ao mundo q ue nos rodeia;
como novos Na rc isas, desejamos imagens i nventadas,
que passam a dom i na r nossa v ida .
2. Crítica da sociedade da vigilância e do controle.
Algu ns fi l ósofos conte m po râ neos têm estudado as
mane i ras i nvisíve is pe l a s qua is as soci edades contem
porâ neas vigiam e contro l am seus c idadãos. Os me ios
pa ra isso vão desde a ca rte i ra de ident idade até as for
mas de contro le popu lac iona l po r me io de vírus e bac
té r ias mortífe ros; desde as câmeras que vigi am ruas e
ed ifíc ios até saté l ites q ue v ig iam o q ue se passa em
todo o p la neta; desde a i nvenção de doenças pe la i n
d ústr ia fa rmacêut ica até a tra nsformação genética de
se res humanos. O e log io pós-moderno das rebe l iões
passage i ras não l eva em conta que, por me io de las, os
dom i na ntes contro l am até que ponto os c idadãos po
dem man ifestar descontentamentos, imped indo-os de
ati ngi r o n úc leo do poder que os contro la .
3. Crít ica das novas d ivisões sociais. Ao ana l i sa r a
chamada g loba l ização, a lguns f i lósofos contemporâ
neos mostram q ue, sob a apa rênc ia de uma u n ificação
econôm ica do p l aneta i nte i ro, ocor re rea lmente uma
fragmentação das soc iedades. Esta d iv isão em socie
dades de máxima r iq ueza e de máxima pobreza se re
pete no i nte rior de cada u ma de las, na forma de d ivisão
entre bo lsões de ri queza e bolsões de m isér ia . Assim, o
e log io das d ife renças fe ito pe los pós-modernos ignora
ou masca ra, na rea l idade, a presença de imensas des i
gua ldades, exploração e dom inação.
Funcionários monitoram
imagens do fluxo de veículos
em centro de operações de
uma empresa concessionária
de rodovias, localizado em
Jundiaí (SP). Foto de 2015. A
filosofia atual estuda as
formas de controle das
sociedades contemporâneas.
-----------------------'\ A transformação da filosofia na contemporane idade 0
Por que pensa r?
A p rimeira coisa que me intriga nessa pergunta é que ela parece estranha. Por que pensar? Afinal os
cientistas sociais dos últimos dez anos têm vindo a dizer que nós estamos num período de autorreflexi
vidade, em que indivíduos autônomos refletem sobre os processos de transformação em que participam
e usam essa reflexão para intervir nesses processos. O indivíduo autorreflexivo é um indivíduo que não
se mobiliza sem razões, a sua p rópria vida é um objeto de meditação, de reflexão, de autoanálise, de
reversão de percursos, etc.
Se nós estamos numa fase da autorreflexividade, todos pensamos, e, se todos pensamos, por que
fazer essa pergunta? A verdade é que, em minha opinião, nós não estamos numa fase da autorreflexivi
dade. [ . . . ] penso sim que estamos numa época em que a autorreflexividade é p rópria daqueles que têm o
privilégio de a atribuir aos outros. Ela não é, de modo nenhum, generalizada, e não é generalizada exa
tamente porque estamos num processo de transição, um p rocessode grande criação e de grande des
truição. [ . . . ] E nesse p rocesso, penso eu, a vertigem das transformações faz com que a sociedade se divi
da em dois grupos que vivem em condições nada propícias a pensar. Por um lado, aqueles que comandam
esse processo de criação e de destruição, aqueles que estão por detrás da globalização hegemônica de
que hoje tanto se fala, aqueles que comandam todo esse p rocesso, não têm tempo para pensar. [ . . . ]fazer
-lhe[s] uma pergunta desse tipo é extremamente perturbador, porque obviamente o automatismo da sua
ação não exige, não permite de maneira nenhuma esse pensamento. [ . . . ] Por outro lado, aqueles que
sofrem este p rocesso de criação, a esmagadora maioria da população mundial, que neste momento
sofre a exclusão, a desigualdade, a polarização entre ricos e pobres, tampouco pode pensar, porque está
tão ocupada em sobreviver que não tem, realmente, capacidade, nem tem disposição para pensar. [ . . . ]
SANTOS, Boaventu ra de Sousa. Seis razões para pensar. Lua Nova, n. 54, 2001. D isponível em: <www.scielo. b r/
scie lo. p h p?scr ipt=sci_a rttext&pid=S0102-64452001000300003&Ing=en&nrm = iso>. Acesso em: 30 maio 2016.
• Re lacione trechos do texto ac ima com a rgume ntos contra a ra zão i ndo lente.
Temas, disciplinas e campos fi losóficos
D u ra nte os 26 sécu los de existênc ia da fi l osofia ,
temas, d isci p l i nas e ca m pos de investigação fi losóficos
su rg i ram, enquanto outros desapa rece ra m. Desa pare
ceu ta mbém a ide ia de que a fi losofia ser ia a tota l i dade
dos conheci mentos teóricos e práticos da huma n idade.
Ta m bém desapa receu a i m agem da fi losofia com o
u ma gra n d e á rvore frondosa : suas raízes era m a meta
fís i ca e a teo log ia ; o tronco e ra a l ógica; os ra mos pr in
c ipa is e ram a fi l osofia d a n atu reza (fís ica, q u ím ica,
b io logia), a ética e a pol ít ica; e os ga lhos extremos eram
as técn i cas, as a rtes e as i nvenções. A fi l osofia , v ista
como uma tota l i dade orgâ n ica ou v iva , e ra cha mada
"ra i n ha das c iências".
Pouco a pouco, as várias c iências particu la res foram
defi n i ndo seus objet ivos, seus métodos e seus resu lta
dos próprios. Defi n i n d o-se como teoria de um setor da
rea l idade, cada c iência se des l igou da grande á rvore,
l evando cons igo os con hec imentos práticos ou ap l i ca
dos ( isto é, as técn i cas) de seu ca m po de i nvest igação.
G Capítulo &
As ú lt i mas c i ênc i a s a se des l i ga rem da á rvore da
fi l osof ia fo ra m as c i ênc i as h u manas (Ps i co log ia , So
c io log ia , Antropo log ia , H i stó r i a , L i ngu íst i ca , G e ogra
f ia , etc.) .
Outros ca m pos de con heci mento e de ação a b r i
ra m-se pa ra a f i l osof ia , m a s a i d e i a d e uma tota l i
d a d e q u e co nte r i a e m s i todos o s co n h e c i m e ntos
n u nca m a i s rea pa rece u .
Desde o séc u l o XX, a f i l osof ia passou por uma
g ra n d e l i m itação q u a nto à esfe ra de seus con h ec i
m e ntos. I s so pod e s e r atr i bu ído a do i s m ot ivos pr i n
c i p a i s .
1 . Desde o f i m d o sécu l o XVI I I , co m o f i l ósofo
l m ma n u e l Ka nt (1 724-1 804), passou-se a co n s i d e ra r
q u e a fi losof ia até então t ivera u m a p retensão i r rea
l i záve l . Q u e p rete nsão fo ra ess a ? A d e q u e n ossa
ra zão pode co n h ece r a s co i sas ta i s com o são em s i
m es m as . Esse con h ec i m e nto da rea l i d ade em s i cha
ma -se m etafís i ca .
Kant negou que a razão humana tivesse tal capa
cidade. Para ele, conhecemos as coisas tais como são
organizadas pela estrutura interna e universal de nos
sa razão, mas nunca saberemos se isso corresponde ou
não à organização da própria realidade. Ou seja, nosso
entendimento organiza as coisas considerando-as es
paciais e temporais, mas não sabemos se elas de fato
o são; também as organiza por relações de causalidade,
mas nunca saberemos se em si mesmas elas obedecem
à relação de causa e efeito, etc. A metafísica como co
nhecimento da realidade em si é impossível. Portanto,
ela deve tornar-se, modestamente, o conhecimento das
condições humanas de uso da inteligência e da razão.
Deixando de ser metafísica, a filosofia tornou-se:
a) uma teoria do conhecimento, ou uma teoria sobre a
capacidade e a possibilidade humana de conhecer;
b) uma ética, ou estudo das condições de possibilidade
da ação moral, realizada por liberdade e por dever. Com
isso, a filosofia deixava de ser conhecimento do mundo
em si e tornava-se apenas conhecimento das condições
em que o ser humano conhece e age.
2. Desde meados do século XIX, como consequên
cia do positivismo de Augusto Comte, a filosofia foi
separada das ciências chamadas positivas, consideradas
portadoras de verdadeiro conhecimento (Matemática,
Física, Química, Biologia, Astronomia, Sociologia, Psico
logia). As ciências, diziam os positivistas, estudam a
realidade natural, social, psicológica e moral, e são pro
priamente o conhecimento. Para eles, a filosofia seria
apenas uma reflexão sobre o significado do trabalho
científico. A filosofia tornou-se, assim, uma teoria das
ciências ou epistemologia, pois, como vimos, a palavra
grega episteme significa 'ciência'.
Em decorrência da filosofia de Kant e do positi
vismo, os filósofos do início do século XX se voltaram
primordialmente para a figura do sujeito do conhe
cimento e se interessaram principalmente pelo co
nhecimento das estruturas e formas da consciência
e também pelo seu modo de expressão, isto é, a lin
guagem. O interesse pela consciência reflexiva ou
pelo sujeito do conhecimento originou uma corrente
filosófica conhecida como fenomenologia, iniciada
por Edmund Husserl. Já o interesse pelas formas e
modos de funcionamento da linguagem corresponde
a uma corrente filosófica conhecida como filosofia
analíti ca, cujo início é atribuído ao austríaco Ludwig
Wittgenstein (1889-1951) e a um grupo de lógi
cos denominado Círculo de Viena.
A atividade filosófica, porém, não se restrin
giu à teoria do conhecimento, à lógica, à episte
mologia, à ética e à política. Desde o início do
século XX, a história da filosofia tornou-se uma
disciplina de grande prestígio e, com ela, a histó
ria das ideias e a história das ciências.
Diversos acontecimentos ocorridos desde a
Segunda Guerra Mundial fizeram ressurgir o in
teresse pela filosofia política: o fenômeno do
totalitarismo, as guerras de libertação de povos
contra os impérios coloniais, as revoluções socia
listas em vários países e as lutas, desde os anos
1960, contra ditaduras e pelos direitos de negros,
indígenas, mulheres, idosos, homossexuais, tran
sexuais, crianças e outros excluídos econômica
e politicamente. Com isso, ressurgiram também
as críticas de ideologias e as discussões sobre as
relações entre a ética e a política.
Musas inquietantes(1924), óleo sobre tela do
pintor italiano Giorgio de Chir ico (1888-1978).
A pintura metafísica de De Chirico realça a
nostalgia do antigo e o enigma dos sonhos.
-----------------------'\ A transformação da f i losofia na contemporane idade 0
F i na lmente, desde o fim do sécu lo XX, o pós-mo
de rn ismo vem ganhando p reponderâ nc ia . Seu a lvo
pr i nc ipa l, como vimos, é a crít i ca de todos os conce itos
e va lores q u e, até hoje, sustenta ram a fi losofia e o pen
samento d ito ocidenta l : razão, saber, suje i to, objeto,
h i stó r ia, espaço, tempo, l i be rdade, necess idade, acaso,
natu reza, homem, entre outros.
Conexões
Em reação a isso, f i lósofos contemporâ neos cr it i
cam a indo lênc ia p resente em aspectos do pensamen
to pós-moderno, reco loca ndo a capac idade crít i ca da
razão ta nto pa ra ava l i a r as c iênc ias e as técn i cas quan
to pa ra com preender a rea l idade soci a l , po l ít ica e a rtís
t i ca em que vivemos.
Estaat iv idade tra ba l ha com conteúdos de F i l osofia, H istó r ia, Geografia e Socio log ia .
Mu itas pessoas da sua ge ração ta lvez não tenham ide ia d isso, mas a existênc ia vi rtua l que hoje faz pa rte do
d i a a d i a de grande pa rte dos jovens (e-mails, redes soc ia is, blogs,Jotoblogs, a p l i cat ivos de te l efones ce l u l a res) é
recente na soc iedade.
O f i l ósofo Ada m Schaff (1 91 3 -2006) se refe re à "revo l ução da m i croe l et rôn i ca ", nota ndo q u e já não nos
da mos conta de que esta mos rodeados por e l a, desde os pequenos objetos de uso cot i d i a no, como o re l óg io
de qua rtzo, a ca l cu l a dora de bo l so, o te l efone ce l u l a r, o tablet, etc. Schaff ass i n a l a a d ife re nça e ntre os a nt i
gos objetos técn i cos - q ue am p l i avam a fo rça fís ica h u mana -e os novos objetos tecno l ógicos - q ue a m p l i am
as fo rças i nte l ectua i s h u m a na s, isto é , as ca pac idades do pensa mento, po i s dependem de i nfo rmações e
ope ra m ou fo rnecem i nfo rmações (os p r ime i ros com putado res fo ra m cha mados de "cé re b ros e l etrôn i cos") .
De fato, com os saté l ites e a i nfo rmát i ca, é nosso cé reb ro ou o nosso s i stema ne rvoso cent ra l q u e se expa n
de sem l i m ites, d i m i n u i ndo d i stâ nc i a s espac i a i s e i nte rva los tem pora i s até a bo l i r o espaço e o tem po. O
m undo está on-line d u ra nte 24 ho ras, sem obstá cu los de d i stâ nc i as e d ife renças geográf icas, soc i a i s e po l í
t i cas, nem de d i st i nção e ntre o d i a e a no ite, ontem, hoje e a ma nhã .
Ana l i s ando o m u ndo v i rtua l , o geógra
fo David Ha rvey (1 935) a ponta uma tra ns
formação sem precedentes em nossa ex
per iência do espaço e do tempo, designada
por e le como "compressão espaçotempo
ra l ", ca usada pelas novas tecnologias. Com
pressão do espaço: tudo se passa aqui, sem
distâ ncias, d iferenças nem fro nte i ras. Com
pressão do tem po : tu do se passa agora,
sem passado e sem futu ro, sem conti n u i
dade nem histór ia . D isso o me lhor exemplo
são as redes soc ia is .
• O que essa existê ncia vi rtua l tem a ve r
com o pensamento pós-moderno? Re le ia
a s c ríticas da fi losofia pós-mode rna às
ide ias da modernidade e ela bo re um tex-
to com aspectos q u e demonstrem ou
rejeitem essa re lação. Procu re comp re
ender como fu ncionavam, em outras épo
cas, os processos de soci ab i l idade, de tra ba
l ho, os estudos e pesq uisas esco la res, entre
outras atividades.
e Capítulo &
Videoconferência realizada pelo Departamento de Recuperação de Ativos e
Cooperação Jur ídica Internacional do Ministério da Justiça, em Brasília, na
qual um piloto estadunidense depôs sobre um acidente aéreo ocorrido no
Brasil, em 2006. A tecnologia permite a compressão do espaço e
do tempo. Foto de 2011.
1 . O pensa mento de fi lósofos como Hege l e Comte
o rigi nou uma concepção otim ista da h istór ia .
a ) Qua l é a principa l ideia re lacionada a essa concepção?
b} Por que e la foi refutada por fi lósofos do século XX?
2. O desenvo lvi mento das c iênc ias e das técn ica s no
sécu lo XIX ca usou oti m ismo na ma ior ia dos fi lóso
fos da época. Esse oti mismo se ma nteve ou não nos
sécu los XX e XXI ? Por q uê?
3. Exp l i que a d i sti nção fe ita pe la Teor ia Crítica e ntre
ra zão i nstrumenta l e razão crítica .
4. Por que os fi lósofos contemporâneos se tornaram des
crentes com re lação a revo luções socia is e políticas?
5. Os fi lósofos do sécu lo XIX se d ivid i ram em d uas cor
rentes ao defi n i r a cu ltura. Como a fi losofia do sé
culo XX se contrapôs a cada uma dessas concepções?
6. De acordo co m o texto, por q ue as descobe rtas
d a i d eo l og ia , po r Ma rx, e d o i n consc ie nte, po r
F reud , q uestiona ra m o oti m i smo rac iona l i sta ?
l n d i cacões
Nós que aqui estamos por vós esperamos
• Direção de Marce lo Masagão. Brasi l , 1998.
Documentár io sobre o século XX fe ito de fragmentos bio
gráficos de personagens que viveram nesse período. O fi lme
põe em d i scussão o caráter ba n a l que a v i d a e a morte a dqu i
r i ram no sécu lo passado.
Admirável mundo novo
Cena do filme Nós que aqui
estamos por vós esperamos,
de Marcelo Masagão.
• Escrito por Aldous Huxley. Bibl ioteca Azu l , 2014.
7. Após a crítica de Kant à metafísica, a que se ded icou
a fi losofia ?
8. Qua i s fo ra m a s duas p r i n ci pa is cor re ntes fi losó
fi cas c r i adas no sécu l o XX a pós a c r i se da m eta
fís i ca ? O q u e p ropuse ra m co mo te mas da fi l o
sofi a ?
9. Qua i s são a s p r i nc ipa i s i de i as do s fi lósofos pós
-mode rnos?
10. Como a fi losofia contem porâ nea reage à pos ição
do pós-mode rn ismo? O q u e é a c ríti ca da razão
i ndo l ente?
11 . I dentifiq ue, na l i n ha do tem po, os pr inc ipa is temas
a bo rdados pe los fi l ósofos dos ú lt imos sessenta
a nos e re lac ione dois de les a eventos ou com por
ta mentos da atua l idade.
12. I nte rprete as duas ti r i nhas re prod uz idas neste ca
pítu lo, re lac iona ndo-as a ide ias e crít icas expostas
no texto.
Este romance, escr ito em 1932, se passa em uma soc iedade tota lmente organ i zada com base em proced imentos c ientífi cos e em
um p l anej amento rac ion a l . Sob o p retexto de garant i r a fe l i c idade, o q ue na rea l i dade ocorre é a formação de uma sociedade de
pessoas q ue não questionam, na qua l não há espaço pa ra a l i berdade .
Arte e matemática - Do zero ao infinito
• Disponível em: <http://tvescola.mec.gov.br/tve/video/arte
e-matematica-do-zero-ao-infinito>. Acesso em: 13 dez. 2015.
Este ep i sód io introdutór io do progra ma Arte e matemática
mostra não só as re l a ções entre essas dua s d i sci p l i n a s, mas
também como a busca pe lo conhec imento rac ion a l colocada
pe la f i losofia está int ima mente l igada a e las .
A obra De onde viemos? Que somos? Para
onde vamos?, pintada por Pau l Gaugu in
em 1897, representa o ciclo da vida .
Aceivo Museu de Belas Artes, Boston, MA. EUA/Reprodução
--------------------------'\ A transformação da filosofia na contemporane idade 0
Falando da razão
No coti d iano, d izemos, po r exemp lo, "Eu estou com
a razão" pa ra s ign ifica r que sabemos com ce rteza a l
guma co isa . Também d izemos que, num momento de
fú r ia ou de desespero, "A lguém perde a razão", como
se a razão ou a l uc idez fossem a lgo que se pode te r ou
não ter, possu i r e perder, ou mesmo recupera r.
Fa lamos também frases como: "Se você me d isser
suas razões, sou ca paz de faze r o que você me pede",
p retendendo d izer com isso q u e que remos ouv i r os
motivos que a lguém tem pa ra querer ou fazer a lguma
co isa . Fazemos pe rguntas como "Qua l é a razão dessa
enchente?", que rendo saber a causa de a l guma co isa .
Nesse caso, a razão, por ser uma ca usa, ser ia uma pro
pr iedade dos fatos da natu reza. Desse modo, ta nto nós
quanto as coisas da natureza pa recemos ser dotados
de razão, mas em sent idos d iferentes.
Quando a fi losofia fala sobre razão, ela fala de todos
esses sentidos: ter certeza, ter lucidez, ter motivo, ter causa.
Esses vá rios sentidos ficam cla ros q uando usamos
o adjetivo racional: a lguém é raciona l q uando tem ce r
teza e l uc idez sobre o que pensa e d i z e quando sabe
os m ot ivos pa ra fazer ou não fazer u m a ação; uma
coi sa, u m fato, um acontec imento s ão raciona is quan
d o podemos d ete rm i n a r a ca usa que rea l mente os
p roduz ou p roduz iu .
Em contra pos ição a rac iona l, usa mos o adjet ivo
irracional. Por exemp l o, q uando u m professo r d i z a
outro : " Fu l ano trouxe um t ra ba l h o i r rac iona l ; e ra um
caos, i ncompreensíve l . Já o tra ba l ho de be lt rana era
uma be l eza,c l a ro, compreens íve l, rac iona l ". Aq u i, ra
cional s ign if ica c l a reza das i de i a s, o rdem, resu ltado
de esforço i nte l ectua l ou da i nte l igênc ia segu ndo nor
mas e regras de pensa mento e de l i nguagem . Ao con
t rá r io, irracional s ign if ica confuso, desordenado, q ue
não segue as regras e normas adequadas do pensa
mento e da l i n guagem.
Razão e razões: os seres humanos como seres racionais
É mu ito cé lebre uma frase do f i l ósofo Pasca l (1623-
-1 662) : "O co ração tem razões q u e a razão desconhece".
Nessa frase, as pa lavras razões e razão não têm o mes
mo s ign ificado. Razões são os mot ivos do coração, en
quanto razão é a lgo d ife rente de co ração. Coração é o
nome que da mos às emoções e pa ixões, enquanto ra
zão é o nome que damos ao pensamento ou à i nte l i
gênc ia como at iv idades de conhec imento.
As razões do coracão
Ao d ize r que o co ração tem suas p rópr ias razões,
Pasca l afi rma que as emoções, os sent imentos ou as
paixões possuem ca usas ou motivos e são o motivo ou
a ca usa de mu ito do que fazemos, d i zemos, que remos
e sentimos. Ao d izer que a razão desconhece "as razões
do co ração", Pasca l afi rma que o pensamento, ou co
n hec imento i nte l ectua l, é d ife rente das pa ixões e dos
sent imentos e que e la nem sempre pode exp l i cá- l os.
"E quem um dia i rá d i zer que existe razão nas
coisas fe itas pe lo co ra ção / E quem i rá d i zer que não
existe razão."
É ass im qu e se i n ic ia a ca nção " Edua rdo e Mô
n i ca " (1 986) , u m dos ma io res su cessos do grupo de
rock Legião U rbana . Os ve rsos se i n sp i ram na frase
de Pasca l pa ra i ntroduz i r a h istó r ia de amor e ntre do is
jovens mu ito d ifere ntes e ntre s i .
Ta l como Pasca l, a letra da ca n ção , de Renato
Russo , explora d ife re ntes se nt idos da pa lavra razão . O grupo legião Urbana, em foto de 1986 .
O p rime i ro verso, ta l como o fi lósofo fra ncês , d ife renc ia as emoções (o "co ração") da razão como co
n hec imento i nte lectua l. J á o segu ndo verso pode ser i nterpretado de duas mane i ras : razão pode ser
compreend ida como motivo , ass im como nas " razões do co ração" da frase de Pasca l; porém , n esse tre
cho da canção, de ixa-se aberta a poss i b i l i dade de que , naque la s ituação, as coisas "fe itas pe lo co ração"
também tenham s ido i nflu en c iadas pela razão , a i nda que não pareça .
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Os vários senti dos da pa lavra razão @
Agora podemos entender a pergunta "Você perdeu
a razão?". De fato, se alguém "perde a razão", é porque
está sendo arrastado pelas "razões do coração". E, ao
contrário, se alguém "recupera a razão", é porque o
pensamento ou o conhecimento intelectual se torna
ram mais fortes do que as emoções.
Muitas vezes também ouvimos afirmações de que
as ciências são a manifestação do "progresso da ra
zão". Aqui, a razão é colocada como capacidade inte
lectual para se obter o conhecimento verdadeiro da
natureza, da sociedade, da história, e isso é conside
rado algo positivo. Por ser considerado um "progresso",
o conhecimento científico é visto como algo que se
realiza no tempo e é dotado de continuidade. Desse
modo, a razão também é concebida como capaz de
A razão na própria realidade
Para muitos filósofos, a razão não é apenas a capaci
dade intelectual e ética dos seres humanos, mas também
uma propriedade ou qualidade primordial das coisas. Pa
ra esses filósofos, nossa razão pode conhecer a realidade
porque esta é racional em si mesma. Razão significa, ago
ra, a ordenação regulada e necessária das próprias coisas.
Fala-se, portanto, em razão objetiva (a realidade é
racional em si mesma) e em razão subjetiva (a razão é
uma capacidade intelectual e ética dos seres humanos).
A razão objetiva é a afirmação de que o objeto do co
nhecimento ou a realidade é racional; a razão subjetiva
é a afirmação de que o sujeito do conhecimento e da
ação é racional. Para muitos filósofos, a filosofia é o
momento do encontro, do acordo e da harmonia entre
as duas razões ou racionalidades.
Pesqu isadora observa reações em microscópio eletrônico, no Reino
Unido, em 2013. A interação entre os elementos químicos é organ izada
de acordo com a razão objetiva, ou seja, é racional em si mesma. Já a
forma como a conhecemos se organiza de acordo com a razão
subjetiva, pois nossa razão tem a capacidade intelectual de apreender
as leis e as causas delas.
Origem da palavra razão
Na cultura da chamada sociedade ocidental, a palavra
razão origina-se de duas fontes: a palavra latina ratio e a
palavra grega lógos. Ambas são substantivos derivados
de dois verbos que têm um sentido muito parecido.
Que fazemos quando medimos, juntamos, separa
mos, contamos e calculamos? Pensamos de modo or
denado. E que meios usamos para falar sobre essas
e Capítulo 7
aumentar seus conteúdos e suas capacidades ao lon
go do tempo.
Todos esses sentidos constituem a nossa ideia de
razão. Ela é o pensamento como atividade intelectual
de conhecimento da realidade natural, social, psicoló
gica, histórica, e nós a concebemos segundo o ideal da
clareza, da ordenação e do rigor dos pensamentos e
das palavras. Ela é também a capacidade de nossa in
teligência e de nossa consciência para compreender as
emoções e os sentimentos, moderá-los, orientá-los
para que não prejudiquem aos outros nem a nós mes
mos. Nesse caso, ela é a consciência ética que guia
nossos sentimentos e nossa vontade para o bem. Ra
zão designa, portanto, as leis do pensamento (intelec
tual) e as regras da ação refletida (ética).
ações? Usamos palavras. Por isso, lógos, ratio ou razão
significam pensar e falar ordenadamente, com medida
e proporção, de modo compreensível para outros.
Lógos e ratio: lógos ve m do verbo grego legein , que quer
d izer 'conta r, reu n i r, j u nta r, calcu la r'. Ratio vem do verbo
lat ino reor, que quer d ize r 'contar, reu n i r, med i r, j u nta r,
separa r, calcu la r'.
A razão e seu uso na matemática
Como v i mos, por mu ito tempo fi losofia e matemática estive ra m i nt i mamente l igadas . D ive rsos fi ló
sofos fo ra m ta mbém matemáticos e uti l iza ra m co nce itos d essa á rea na fi losofia.
Na mate mática , razão s ign ifi ca u ma co m pa ração entre duas med idas por meio de u ma d iv isão .
Se use i 200 g de cebola
pa ra tem perar 1 600 g
de ca rne moída . . .
➔ . . . a razão estabelecida
, d 1 e e s.
➔
Portanto , prec iso de 300 g
de cebola pa ra tem perar
2 400 g de ca rne moída.
Ass im , a razão mate máti ca estabe lece u ma proporção co nsta nte e ntre med idas , o rdenan do-as .
Sabendo a razão e ntre do is termos , podere i a u m e ntá- los ou d i m i n u í- los ma ntendo a proporçã o que
ga ra nti rá o resu ltado desejado , por me io da opera ção co n h ec ida po pu la rmente co mo regra de três.
É esse t ipo de proced imento s istemático e o rdenado que a fi losofia i de ntifi ca na rac io na lidade .
Desde o começo da filosofia, a origem da palavra
razão fez com que ela fosse considerada oposta a qua
tro outras atitudes mentais:
1 . ao conhecimento ilusório, isto é, ao conhecimen
to da mera aparência das coisas, que não alcança a
realidade ou a verdade delas. Para a razão, a ilusão
provém de nossos costumes, de nossos preconceitos,
da aceitação imediata das coisas tal como aparecem
e tal como parecem ser. As ilusões criam as opiniões
que variam de pessoa para pessoa e de sociedade pa
ra sociedade, formando o senso comum e os precon
ceitos;
2 . à s emoções, a os sentimentos, à s paixões,
que são cegos, caóticos, contrários uns aos outros,
ora dizendo "sim", ora dizendo "não" a uma mesma
coisa;
3. à crença religiosa, para a qual a verdade nos é
dada pela fé numa revelação divina, não dependendo
do trabalho de conhecimento realizado pelo nosso in
telecto. A razãoé oposta à revelação, e por isso os filó
sofos cristãos distinguem entre a luz natural - a razão
- e a luz sobrenatural - a revelação;
4. ao êxtase místico (dos santos, dos profetas), no
qual o espírito acredita entrar em relação direta com o
ser divino e participar dele, sem nenhuma intervenção
nem do intelecto, nem da vontade. Pelo contrário, o
êxtase místico exige um estado de rompimento com a
atividade intelectual e com a vontade; ou seja, exige a
perda da consciência da própria individualidade para
entregar-se ao gozo ou ao prazer de participar do ser
infinito, num conhecimento que só pode ser sentido e
não pode ser expresso em pensamentos ou palavras.
A atriz Denise Fraga no
papel-título da peça Galileu
Galilei, adaptação de Cibele
Forjaz para o texto A vida de
Galileu, de Bertolt Brecht.
Foto de 2015.
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Os vários senti dos da pa lavra razão @
O triunfo da razão
[ . . . ] para forjar o ferro é necessário um martelo e, para ter um mar
telo, é necessário fabricá- lo, para o que são necessários outro martelo
e outros instrumentos, os quais, por sua vez, para que os possuíssemos,
exigiriam ainda outros instrumentos, e assim ao infin ito [ . . . ] do mesmo
modo que os homens, de início, conseguiram, ainda que dificultosa e
imperfeitamente, fabricar, com instrumentos naturais, certas co isas
m uito fáceis e, feitas estas, fabricaram outras coisas mais difíceis já
com menos trabalho e maior perfeição e assim, p rogressivamente, das
obras mais simples aos instrumentos, e dos instrumentos a outras obras
e outros instrumentos, chegaram a fabricar com pouco trabalho coisas
tão difíceis; assim também a razão pela sua força natura/fabrica para
si instrumentos intelectuais com os quais ganha outras forças para
outras obras intelectuais e com estas cria outros instrumentos ou ca
pacidades para continuar investigando; e assim, p rogressivamente,
avança até atingir o cume da sabedoria.
ESP I NOSA. Tratado da reforma da inteligência. § 31. São Pa u lo : Retrato (c. 1665) de Baruch Espinosa.
Óleo sobre tela de autor desconhecido. Compa n h ia Editora Naciona l, 1966. p. 98-99.
• No texto, pa ra constru i r a ana logia entre o desenvo lvimento da técn ica e o desenvolvimento da razão, o
a uto r esta belece uma re lação i nve rsa mente proporciona l entre do is te rmos em cada um dos exemp los.
Identifi que esses te rmos e exp l ique por q ue essa re l ação é i nversa mente proporciona l .
Os princípios racionais
Desde seus pr imórd ios, a fi l osofia cons iderou que
a razão opera segundo pr i ncíp ios que e la própr ia esta
be lece e que estão em concordância com a rea l idade,
mesmo qua ndo não os conhecemos ou form u lamos
exp l i c itamente. Nós respe itamos esses pr i ncíp ios por
q u e somos se res raciona is e porq u e e l es ga rantem q ue
a rea l i dade possa s e r con hecida pe la nossa razão.
Que pr i ncíp ios são esses?
1 . Princípio da identidade, cujo enu nc iado pode
parece r su rpreendente : ''.A é A" ou "O que é é ". E le afi r
ma que uma co isa só pode ser conhec ida e pensada se
for perceb ida e conservada com sua identida d e. Ou
seja, sem o p ri n cíp io da ident idade, seq ue r podemos
pensa r. Embora seu enu nc iado pa reça a bsu rdo (acha
mos óbv io que uma co isa seja i dênt ica a s i mesma),
esse pr i n cíp io é usado por nossa soci edade sem q ue
percebamos. Onde é usado? Na chamada "ca rte i ra de
ident idade" (o nosso RG), por exemp lo, com a qua l se
afi rma e se ga ra nte que ''.A é A".
O pr i ncíp io da ident idade é a cond i ção pa ra defi
n i rmos as coisas e podermos con hecê- las com base em
e Capítulo 7
suas defin ições. Po r exemp lo, depois que a matemática
determ inou a ident idade do tr iâ ngu lo como figu ra de
três lados e de t rês â ngulos i nternos cuja soma é igua l
à soma de do is â ngu los retos, nenhuma out ra figu ra a
não ser essa poderá ser denomi nada tr iâ ngu lo.
2. Princípio da não contrad ição (também conheci
do como princípio da contrad ição), cujo en u nciado é ''.A
é A e é impossíve l q u e seja, ao mesmo tempo e na mes
ma re lação, não A". Ass im, é impossíve l que a á rvore
q u e está d ia nte de m im seja e não seja, ao mesmo tem
po, uma á rvore; que o homem seja e não seja, ao mes
mo tempo, morta l ; que o ve rme lho seja e não seja, ao
mesmo tempo, ve rme lho, etc.
Sem o pr i ncíp io da não contrad ição, o p ri n cíp io da
identidade não poderia fu nciona r. Se uma coisa ou uma
ide ia se nega rem a s i mesmas, e las se a utodestroem.
E i s por que o p ri n cíp io enu ncia que as co isas e as ide ias
contrad itó r ias são impensáve is e impossíve is .
Notemos, po rém, que o pr i nc íp io e n u nc ia a im
poss i b i l id a d e d e afi rma r e n ega r a mesma co isa a
res peito de a lgo ao mesmo tempo e na mesma relação.
Por que essas duas condições? Porque há coisas que
podem mudar no correr do tempo, de tal maneira que
poderão tornar-se diferentes e até mesmo opostas ao
que eram sem que isso signifique contradição. Por
exemplo, é contraditório que, aqui e agora (nesta re
lação e neste tempo), uma criança seja e não seja
criança; porém, não será contraditório dizer que essa
criança é, agora, uma criança e não será uma criança,
quando crescer. Ou seja, num outro tempo e sob outra
relação, a mudança de alguém ou de alguma coisa não
é contraditória.
As duas condições para que haja contradição in
dicam também que esse princípio opera sempre da
mesma maneira para as coisas que não estão sub
metidas ao tempo, justamente porque não se trans
formam. É o caso, por exemplo, das ideias matemá
ticas. Assim, será sempre contraditório dizer "círculo
quadrado" ou dizer que a figura geométrica cubo é,
ao mesmo tempo e na mesma relação, cubo e não
cubo, embora uma caixa de papelão cúbica possa
perder essa forma com o correr do tempo ou com
uma intervenção humana. O cubo geométrico não
muda; uma caixa cúbica de papelão pode mudar de
forma (por exemplo, se ficar sob a água, vira uma
pasta).
3. Pr incípio do terceiro exclu ído, cujo enunciado é:
"Ou A é x ou não é x, e não há terceira possibilidade".
Por exemplo: "Ou este homem é Sócrates ou não é
Sócrates"; "Ou faremos a guerra ou faremos a paz".
Esse princípio define a decisão de um dilema - "ou
isto, ou aquilo" -, no qual as duas alternativas são pos
síveis, e a solução exige que apenas uma delas seja
verdadeira. Mesmo quando temos um teste de múlti
pla escolha, escolhemos na verdade apenas entre duas
opções - "ou está certo, ou está errado" -, e não há
terceira possibilidade.
Detalhe da obra Performance de um ano, do artista taiwanês Tehching Hsieh, apresentada na 30• Bienal de São Paulo, em 2012. Segundo o
princípio da não contradição, não é possível afirmar e negar algo ao mesmo tempo e na mesma relação. Essas duas condições fundamentais
do princípio dizem respeito tanto a coisas submetidas ao tempo (como o ser humano) quanto a algo não submetido ao tempo (uma figura
geométrica, por exemplo).
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Os vários senti dos da pa lavra razão @
4. Pr incípio da razão suficiente, que afirma que
tudo o que existe e tudo o que acontece tem uma razão
(causa ou motivo) para existir ou para acontecer, e que
tal razão pode ser conhecida pela nossa razão. Esse
princípio também costuma ser formulado da seguinte
maneira: "Nada é sem causa" ou "Tudo tem causa".
Por isso, o princípio da razão suficiente costuma ser
chamado de princípio de causalidade. Esse princípio afir
ma a existência de relações ou conexões internas entre
as coisas, entre fatos e entre ações e acontecimentos.
Pode ser enunciado da seguinte maneira: "Dado A, ne
cessariamente se dará B". E também: "Dado B, neces
sariamente houve A".
Isso não significa que a razão não admita o acaso
ou ações e fatos acidentais, mas sim que ela procura
uma causa mesmo para o acaso e para o acidente. Vi
mosisso ao explicar que o acaso ou o acidente são
duas séries de acontecimentos dotados de causas cujo
encontro é acidental (o caso da pedra que caiu sobre a
cabeça do passante). A diferença entre a causa neces
sária e a causa acidental está em que a primeira se
realiza sempre, é universal e válida para todos os casos,
enquanto a causa acidental só vale para aquele caso
particular.
Por exemplo, a morte é um efeito necessário e uni
versal (válido para todos os tempos e lugares) da guer
ra. A guerra é uma causa necessária e universal da mor
te de pessoas. Mas é imprevisível ou acidental que esta
ou aquela guerra aconteçam. Guerras podem acontecer
ou não. Se acontecerem, suas causas são particulares,
isto é, explicam por que há esta guerra, e não por que
existem todas as guerras; não há uma causa universal
ú nica para explicar toda e qualquer guerra. Se uma
e Capítulo 7
guerra acontecer, ela terá necessariamente causas
(mesmo as mais absurdas e inaceitáveis) e terá neces
sariamente, como efeito, mortes. Mas as causas dessa
guerra são somente as dessa guerra e de nenhuma
outra. Assim, é possível que não haja uma guerra porque
não há causas para que ela aconteça; porém, se uma
guerra acontecer, o princípio de razão suficiente asse
gura que: 1) houve causa para ela; 2) haverá mortes.
Diferentemente do caso dos acontecimentos aci
dentais ou particulares, o princípio da razão suficiente
vigorou plenamente, por exemplo, na demonstração
que Galileu (1564-1642) fez das leis universais do movi
mento dos corpos no vácuo. Ao fazê-lo, o físico desco
briu e demonstrou as causas naturais universais neces
sárias e os efeitos naturais universais necessários do
movimento dos corpos em queda livre.
Pelo que foi exposto, podemos observar algumas
características importantes dos quatro grandes princí
pios da razão:
• não têm um conteúdo determinado, isto é, indi
cam como as coisas devem ser pensadas, mas não
quais coisas ou quais conteúdos devemos ou va
mos pensar;
• têm validade universal, isto é, onde houver razão
(nos seres humanos e nas coisas, nos fatos e nos
acontecimentos), em todo tempo e em todo lu
gar, tais princípios são verdadeiros e empregados
por todos (os humanos) e obedecidos por todos
(humanos, coisas, fatos, acontecimentos);
• são necessários, isto é, indispensáveis para o pen
samento, as coisas, os fatos e os acontecimentos,
de maneira que não podemos pensar racional
mente sem segui-los.
O princípio da razão suficiente
afirma relações ou conexões
internas entre as coisas, entre
fatos ou entre ações e
acontecimentos. Assim, o pescador
pesca por uma causa (alimentar-se,
vender o peixe, divertir-se), e o
peixe come a isca por outra causa
(alimentar-se). O fato de este peixe
ter sido pescado por estes
pescadores, em lagoa de Belo
Horizonte (MG), em 2009, se deve
ao encontro acidental de duas
séries causais necessárias.
Conexões
Esta atividade traba lha com conteúdos de Fi l osofia
e Qu ímica .
V imos como as c iênc ias já i ntegra ram o campo de
estudos da fi l osofia, mas, nos ú l t imos sécu los, ga n ha
ram a utonomía em re lação a e la . V imos também que
a razão costuma ser ap resentada como oposta a a lgu
mas outras at itudes menta is .
Até o sécu lo XVI I I , a cred itava-se ou que cada subs
tânc ia que percebemos na a pa rênc ia e ra ú n ica e d ife
rente das outras, ou que todas essas su bstâ nc ias a pa
Nesta gravura de Louis Figuier, de 1874, Lavoisier demonstra a
descoberta do oxigênio.
rentes der ivavam de a lguns poucos e lementos fu ndamenta is (água, terra, fogo, a r, espír ito, entre outros). Porém,
o qu ím ico fra ncês Anto ine Lavo is ie r (1743-1794) descobr iu que as substâ nc ias que pe rcebemos são formadas pe la
j u nção de outras, menores, i nvisíve is . E ra isso que permit ia a tra nsformação daqu i lo que percebemos em outras
coisas, por meio da recomb i nação desses pequenos e lementos d ife rentes (ma is ta rde denom i nados átomos).
1 . Pesq uise, em l ivros e sites, um pouco sobre as descobe rtas d e Lavoisier. Então, exp l ique como a razão l he pe rmiti u
adota r proced imentos exp l icativos que afasta ram atitudes menta is como o conhecimento i l usório e a crença rel igiosa.
2. De q ue modo os q uatro pr i ncípios da razão - pr incíp io da ide ntidade, da contrad ição, do terce i ro excl u ído e da
razão suficiente - apa recem na descobe rta de q ue a água não é uma su bstâ ncia s imples, e sim composta de dois
e lementos d ife rentes (oxigên io e h id rogên io)?
1 . Cite a lguns sentidos que a pa lavra razão pode te r
no uso cotid ia no. Exp l i que a d ife rença entre cada
um de les de acordo com o uso.
2 . Qua l é o pa pe l q ue a razão exe rce na esco lha e na
decisão das nossas ações?
3 . Quais são a s atitudes menta is opostas à razão? Por
q ue elas se opõem à razão?
l n d i cacões
O vingador do futuro
• Direção de Pau l Verhoeven. Estados Unidos, 1990.
4. Ca racter ize os pr i ncípios da identidade, da contra
d ição, do te rce i ro exc lu ído e da razão suficiente. Dê
exemplos novos, mostra ndo como cada um deles
pode ser ap l icado a um determinado fato ou objeto.
5. De acordo com o texto, q ua is são as pr inc ipa is ca
racterísticas da razão? Em sua resposta, exp l ique
cada uma delas .
No fi n a l do sécu lo XXI , um tra ba l h a dor que deseja con hecer Marte rea l i za um imp l a nte de memór ia que s imu l a rá essa expe
r iênc ia , coloca ndo-o na pe le de um agente secreto. Porém, a l go dá erra do no proced imento, l eva ndo Qua i d a desconfia r de sua
própr ia i dent idade e de todos que o cercam .
Barroco tropical
• Escrito por José Eduardo Agua i usa. Companhia das Letras, 2009.
Dura nte uma tempestade, um escritor e uma cantora presenc i am um a contecimento i n u sita do : a q ueda, do
céu, de uma ex-miss a ngo l ana . Alternando-se entre os dois personagens- na rradores, a trama faz idas e v in
das no tempo, numa busca pe la com preensão de a contec imentos apa rentemente i rrea i s e de um contexto
socia l ma rcado por profundas des igua ldades .
Capa da edição brasileira do livro Barroco
tropica� de José Eduardo Agualusa.
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Os vários senti dos da pa lavra razão e
As modalidades da atividade racional
A filosofia distingue duas grandes modalidades da
atividade racional, realizadas pelo sujeito do conheci
mento: a i ntuição (ou razão intuitiva) e o raciocín io (ou
razão discursiva).
A atividade racional discursiva passa por etapas
sucessivas de aproximação para chegar ao conceito
A intuicão
A intuição é uma compreensão completa e imedia
ta de um objeto ou de um fato. Nela, de uma só vez, a
razão capta todas as relações que constituem a reali
dade e a verdade da coisa intuída. É um ato intelectual
de discernimento e compreensão, sem necessidade de
provas ou demonstrações para saber o que conhece.
Um exemplo seria um médico que, graças ao conjun
to de conhecimentos que possui, vê de uma só vez a
doença, sua causa e o modo de tratá-la. Os psicólogos
se referem à intuição usando o termo inglês insight,
que corresponde em português ao momento em que
dizemos: "Entendi! " ou "É isso!".
intuição: palavra derivada do verbo latino intuere, que
significa 'olhar atentamente, contemplar, ver claramente'.
Um exemplo de intuição pode ser encontrado no
romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa.
Riobaldo e Diadorim são dois jagunços ligados pela mais
profunda amizade e lealdade, companheiros de lutas e
cumpridores de uma vingança de sangue contra os as
sassinos da família de Diadorim. Riobaldo, porém, sen
te-se cheio de angústia e tormento, pois seus sentimen
tos por Diadorim são confusos. É como se entre eles
houvesse muito mais do que amizade.
Quando Diadorim é assassinado e o corpo é trazido
para ser preparado para o funeral, Riobaldo descobre
que o amigo era uma mulher. De uma sóvez, Riobaldo
compreende tudo o que havia sentido, todos os fatos
acontecidos entre eles e que lhe pareciam inexplicáveis,
todas as conversas que haviam tido, todos os gestos
estranhos de Diadorim (como o de jamais banhar-se
nos rios na companhia dos demais jagunços). Então,
compreende, instantaneamente, a verdade: estivera
apaixonado por Diadorim.
Esse exemplo indica que a intuição pode depen
der de conhecimentos anteriores e que ela ocorre
quando esses conhecimentos são percebidos de
uma só vez, numa síntese em que aparecem articu-
ou à definição do objeto. Já a razão intuitiva ou intui
ção, ao contrário, consiste num único ato do espírito
que capta por inteiro e completamente o objeto do
conhecimento.
Vejamos a seguir como opera cada uma dessas
modalidades de atividade racional.
lados e organizados num todo. Isso significa que a
intuição pode ser o momento final de um processo
de conhecimento.
Muitos filósofos consideram também que uma in
tuição, depois de concluir um percurso, pode ser o pon
to inicial de um novo percurso de conhecimento até
uma nova intuição.
Visitante observa exemplar ampliado dos originais de Grande sertão:
veredas em exposição no Museu da Língua Portuguesa, em São
Pau lo (SP), que comemorou, em 2006, os 50 anos de lançamento da
obra. O livro conta a saga do jagunço Riobaldo pelo sertão ao lado de
Diadorim.
--------------------------------- A ativ idade rac ional 0
Os t ipos de i ntu i ção
A intuição racional pode ser de dois tipos: intuição
sensível ou empírica e intuição intelectual.
A intuição sensível ou empírica é o conhecimento
que temos a todo momento de nossa vida. Assim, com
um só olhar percebemos uma casa, um homem, uma
mulher, uma flor, uma mesa. Num só ato, por exemplo,
capto que isto é uma flor: vejo sua cor e suas pétalas,
sinto a maciez de sua textura, aspiro seu perfume, te
nho-a por inteiro e de uma só vez diante de mim.
empírica: palavra originada do grego empeiría, que
sign ifica 'exper iênc ia', em do is se ntidos: 1 . como
co nhec imento o bt ido por meio dos ó rgãos dos sent idos
(co nhec imento sensor ial} ; e 2. ter boa prát ica e m a lguma
coisa , como q uando d ize mos que a lguém
"te m experiênc ia".
Quando um gato se aproxima de nós, num só ato, captamos que ele é
um gato: vemos seu formato, percebemos sua posição no espaço,
reconhecemos a textura de seu pelo, aspiramos seu cheiro, o
ouvimos arfar, ronronar; temos o gato por inteiro e de uma só vez na
intuição empírica. Foto de 2014, em Salto do Jacuí (RS).
A intuição sensível ou empírica é o conhecimento
direto e imediato das chamadas qualidades sensíveis do
objeto externo: cor, sabor, odor, paladar, som, textura,
bem como a percepção direta de formas, dimensões,
distâncias das coisas percebidas. Ou seja, é tudo o que
nos é trazido por nossos órgãos dos sentidos. É também
o conhecimento direto e imediato de nossos estados
internos ou mentais que dependem ou dependeram
de nosso contato sensorial com as coisas: lembranças,
desejos, sentimentos, imagens.
A intuição sensível ou empírica é psicológica, isto
é, refere-se aos estados do sujeito do conhecimento
@ Capítulo B
como um ser corporal e psíquico individual. Sensações,
lembranças, imagens, sentimentos, desejos e percep
ções variam de pessoa para pessoa e numa mesma
pessoa em decorrência de mudanças em seu corpo,
em sua mente ou nas circunstâncias em que o conhe
cimento ocorre.
Assim, a marca da intuição empírica é sua singu
laridade: por um lado, está ligada à singularidade do
objeto intuído (ao "isto" oferecido à sensação e à
percepção) e, por outro, à singularidade do sujeito
que intui (aos meus estados psíquicos, às minhas ex
periências). A intuição empírica não capta o objeto
em sua universalidade, e a experiência intuitiva não
é transferível para outro objeto. Tenho intuição des
ta maçã, deste livro, desta mesa como coisas singu
lares e não da maçã em geral, do livro em geral, da
mesa em geral.
A intuição intelectual difere da sensível justamen
te por sua universalidade e necessidade. Quando penso:
"Uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo",
sei, sem necessidade de demonstrações, que isto é ver
dade e que é necessário que seja sempre assim, ou que
é impossível que não seja sempre assim. Em outras
palavras, tenho conhecimento intuitivo do princípio da
contradição como algo válido em todos os tempos e
lugares (é universal) e que não pode ser suprimido ou
ser de outra maneira (é necessário).
Quando afirmo: "O todo é maior do que as partes",
sei, sem necessidade de provas e demonstrações, que
isto é verdade porque intuo intelectualmente uma for
ma necessária de relação entre as coisas.
I ntuição sensível e intuição intelectual
A intuição sensível percebe a cor azul e percebe a cor amarela.
A intuição intelectual percebe a diferença entre cores.
A intuição intelectual é o conhecimento direto e
imediato dos princípios da razão {identidade, contradi
ção, terceiro excluído, razão suficiente), os quais, por
serem princípios, não podem ser demonstrados (para
demonstrá-los, precisaríamos de outros princípios e,
para demonstrar estes outros princípios, precisaríamos
de outros, num processo interminável).
Alguns filósofos afirmam também que conhece
mos por intuição as ideias simples, isto é, aquelas que
não são compostas de outras e não precisam de outras
para ser conhecidas. Justamente por isso, as ideias sim
ples são apreendidas num ato intuitivo. Por outro lado,
como a intuição pode ser o ponto final de um processo
de conhecimento, ela é também a apreensão intelec
tual de ideias complexas a que chegamos por meio das
demonstrações.
Mito da Caverna
Na história da filosofia, os dois exemplos mais cé
lebres de intuição intelectual encontram-se em Platão
(século IV a.e.) e em Descartes (século XVI I).
Na narrativa do Mito da Caverna, que estudamos
no Capítulo 1, Platão (e. 427 a.C.-347 a.e.) conta o que se
passa com o prisioneiro que, ao sair da escuridão da
caverna, vê a luz do Sol e, em lugar de sombras, vê as
próprias coisas. Nessa alegoria, Platão compara o pri
sioneiro ao filósofo que, ao fazer o percurso do conhe
cimento verdadeiro, vê a luz do Bem e contempla as
ideias verdadeiras. O prisioneiro tem uma intuição em
pírica (tudo o que conhece, conhece por sensação ou
por percepção sensorial) e o filósofo
tem uma intuição intelectual (é seu
intelecto ou sua inteligência que co-
nhece as ideias verdadeiras). No en-
tanto, o conhecimento de ambos é
intuitivo porque é direto, imediato,
sem necessidade de demonstrações,
argumentos e provas.
Caricatura do cartunista Liberati que retrata o
filósofo e matemático francês René Descartes,
tendo ao fundo uma de suas contribu ições à
Matemática, o plano cartesiano. A filosofia do
cogito baseia-se na dúvida metódica,
instrumento que visa alcançar princípios
X
indubitáveis, tais como "Penso, logo existo". .__ ____ _
O cogito cartes iano
Quando estudamos a reflexão, no Capítulo 2, men
cionamos um trecho de uma obra do filósofo francês
Descartes (1596-1650), intitulada Discurso do método.
Releia esse trecho, na página 24. Nele se encontra a
intuição intelectual que ficou conhecida como cogito
cartesiano ou, simplesmente, o cogito. Descartes escre
ve, em latim: "Cogito, ergo sum", isto é, " Penso, logo
existo".
cogito: em latim, o verbo cogitare significa 'pensar'. Cogito
é a primeira pessoa do singular do presente do indicativo:
'eu penso'.
Por que essa afirmação é um conhecimento intui
tivo? Porque, quando penso, sei que estou pensando e
não preciso provar ou demonstrar isso, mesmo porque
provar e demonstrar é pensar. Ora, para pensar é pre
ciso que alguém realize o ato de pensamento; portan
to, aquele que pensa existe necessariamente como um
ser pensante, pois, sem ele, não haveria o próprio ato
de pensar.
Por que essa intuição é intelectual? Porque é rea
lizada exclusivamente pelo intelecto ou pelainteli
gência, sem recorrer a nenhum conhecimento sensí
vel ou sensorial. Quando digo "Penso, logo existo",
afirmo racionalmente que sei que sou um ser pen
sante ou que existo pensando, sem necessidade de
provas e demonstrações. A intuição capta, num único
ato intelectual, a verdade do pensamento pensando
em si mesmo.
l y
-----------------------------------... A ativ idade rac ional @
A razão discursiva: deducão, inducão e abducão
;;, ;;, ;;,
A intuição pode ser o ponto de chegada de um pro
cesso de conhecimento, mas também pode ser o pon
to de partida desse mesmo processo. Nos dois casos, o
processo cognitivo constitui a razão d iscursiva ou o
raciocín io.
Ao contrário da intuição, o raciocínio é o conheci
mento que exige provas e demonstrações e se realiza
igualmente por meio de provas e demonstrações das
verdades que estão sendo conhecidas ou investigadas.
Não é só um ato intelectual, mas são vários atos inte
lectuais ligados ou conectados, formando um processo
de conhecimento.
Um caçador sai pela manhã em busca da caça. Entra
no mato e vê rastros: choveu na véspera e há pegadas
no chão; pequenos galhos rasteiros estão quebrados; o
capim está amassado em vários pontos; a carcaça de
um bicho está à mostra, indicando que foi devorado faz
poucas horas; há um grande silêncio no ar, não há can
to de pássaros, não há ruídos de pequenos animais.
O caçador supõe que haja uma onça por perto.
Se, por todas as suas experiências anteriores, tiver
certeza de que a onça está nas imediações, pode pre
parar-se para enfrentá-la: sabe que caminhos evitar,
se não estiver em condições de caçá-la; sabe que ar
madilhas armar, se estiver pronto para capturá-la ;
sabe como atraí-la, se quiser conservá-la viva e pre
servar a espécie.
O caçador pode ainda estar sem muita certeza se
há ou não uma onça nos arredores. Nesse caso, pode
tomar uma série de atitudes para verificar a presença
ou ausência do felino: percorrer trilhas que sabe serem
próprias de onças; examinar melhor as pegadas e o tipo
de animal que foi devorado; comparar, em sua memó
ria, outras situações nas quais havia uma onça, etc.
Assim, partindo de indícios, o caçador raciocina
para chegar a uma conclusão e tomar uma decisão.
Temos aí um exercício de raciocínio empírico (pois se
baseia nos dados sensoriais ou na experiência sensível)
e prático (pois visa a uma ação). Trata-se de um exame
de vários sinais que permitem a alguém fazer uma
inferência, isto é, tirar uma conclusão com base nos
dados conhecidos.
Esse raciocínio, por ser empírico, caracteriza-se pe
la singularidade do sujeito do conhecimento (no caso,
um caçador) e do objeto do conhecimento (no caso, uma
situação em que há sinais ou indícios de uma onça).
Quando, porém, um raciocínio se realiza em condi
ções tais que a individualidade psicológica do sujeito e
a singularidade do objeto são substituídas por critérios
de generalidade e universalidade, temos a dedução, a
indução e a abdução.
Dedução e indução são procedimentos racionais
que nos levam de algo já conhecido a algo que ainda
não é conhecido, isto é, permitem que adquiramos co
nhecimentos novos graças a conhecimentos já adqui
ridos. Por isso, costuma-se dizer que, no raciocínio, o
pensamento segue cadeias de razões ou os nexos e
conexões necessárias entre as ideias ou entre os fatos.
Pedra do lngá, em lngá (PB), com inscrições rupestres (as itacoatiaras). Foto de 2014. O arqueólogo parte de indícios para depois chegar a uma
conclusão sobre fatos e hábitos de outras épocas históricas.
e Capítulo B
Eureka !
Vejamos u m cé lebre ep i só d i o de descoberta c i entífi ca ocorr ido na G réc ia a nt iga para com pree nde r
o ca m i n h o da i ntu i ção pa ra a razão d iscu rsiva .
H i e rão , re i da c idade de S i racusa, mandou fazer u ma coroa de ouro para levá- la ao templo e oferecê- la
ao deus Zeus . O ou rives pegou pa ra s i u m a pa rte do o u ro e a su bstitu i u p o r u ma parte de prata . Na
a pa rênc ia , a co roa e ra perfe ita , mas havia a suspe ita d e fraude . H i e rão ped iu ao mate mático e fís i co
Arq u i medes (e . 287 a . C . -21 2 a .C . ) que reso lvesse o caso sem desma nchar a coroa .
Arq u i medes se pôs a pensar i ntensa m e nte no caso e n q u a nto se prepa rava para to m a r seu ba n h o .
A o entra r na ba n h e i ra , observou q u e caía pa ra fo ra u m a q u a nt idade de á g u a proporc i ona l ao vo lu me
de seu corpo e , com i sso , descobr iu imed iata me nte co mo poder i a reso lver o caso . Teve a i ntu i ção da
so lução .
E ntus ias mado , Arq u i medes excla m o u : "Eureka ! " - ou seja , "Descobr i ! ".
AR G H [ M E D E_S u�cr crfinDcr fd)nr�•ff(innWr \lcrg lo· (�Unlll
'Umg lll l'll �c1� i c�t1t111rc� nu�flufj �Cll l'.lnlfcr6 ,
�
Gravura de 1547, colorizada a mão, representa a descoberta de Arquimedes.
Restava , agora , p rova r o q u e acabara de i n tu i r - constitu i r u ma teo ria ao passar da i ntu ição pa ra o
rac ioc ín i o . Arqu i medes preparou u m b loco de o u ro e outro de prata , cada u m d e les d e peso igu a l ao da
coroa ; m e rgu lho u - os separadamente na água , m e d i n d o o volu me que cada um deslocara ; em segu ida ,
m e rgu lhou a co roa e ve rifi cou q u e e la não d eslocava o mesmo volu me d e água q u e o bloco de o u ro -
po rta nto, seu meta l havia s i do a d u lte rado .
A i ntu ição de Arq u i medes deu nasc imento à c i ênc ia dos líqu idos ou h i d rostát ica , exposta p o r e le no
l ivro Sobre os corpos flutuantes.
A deducão
A dedução cons iste em pa rt i r de u ma ve rdade já
con h ec ida e q u e fu nc iona com o um pr i nc íp io ge ra l ao
qua l se su bord i nam todos os casos que serão demons
t rados a pa rt i r de l a . N a ded uçã o demo nstra-se q u e
u ma ve rdade já con h ec ida se a p l i ca a todos o s casos
pa rt i cu l a res igua is . Por isso ta m bém se d i z q u e a de
d u çã o va i d o ge ra l ao pa rt i cu la r ou do u n iversa l ao
i n d iv i dua l .
O ponto d e pa rt ida d e u ma deduçã o é o u u ma
ide i a ve rdade i ra (ou defi n i ção) ou u ma teor ia ve rda
de i ra (u m todo s istemát ico de defi n i ções e demons
t rações ve rdade i ros). A fi na l i dade do p rocesso ded u
t ivo é assegurar a inferência de conclusões novas e
verdadeiras co m base na defi n i çã o do objeto o u na
teo r ia já exi ste nte.
Por exemp lo, se defi n i rmos o tri ângu l o com o uma
figu ra geométr i ca cujos â ngu l os i nte rnos somados
--------------------------------- A ativ idade rac ional @
são iguais à soma de dois ângulos retos, dessa defi
nição deduziremos todos os diferentes tipos de triân
gulos possíveis (equilátero, isósceles, escaleno, retân
gulo), todas as propriedades de todos os triângulos
possíveis e todas as propriedades de cada um dos
tipos possíveis de triângulos. Da mesma maneira, se
tomarmos como ponto de partida as definições geo
métricas do ponto, da linha, da superfície e da figura,
deduziremos todas as figuras geométricas possíveis
e suas propriedades.
No caso de uma teoria, a dedução permitirá que
cada novo caso particular encontrado seja conhecido,
por meio da demonstração de que a ele se aplicam
todas as leis, regras e verdades da teoria. Ou seja, a
dedução é um procedimento pelo qual um fato ou
objeto particular são conhecidos por inclusão numa
teoria geral.
Cena de A teoria de tudo (2015), cinebiografia da trajetória do físico
Stephen Hawking (1942) e de sua esposa, Jane. Ainda jovem, Hawking
apresentou uma teoria inteiramente dedutiva sobre o tempo e a
origem do Universo.
Por exemplo, estabelecida a verdade da teoria físi
ca de Newton (7643-1727) - a chamada teoria clássica
da gravitação universal -, sabemos que: 7) as leis da
física são relações dinâmicas de tipo mecânico, isto é,
referem-se a relações de força(ação e reação) entre
corpos dotados de figura, massa e grandeza; 2) os fe-
@ Capítulo B
nômenos físicos ocorrem no espaço e no tempo; 3)
conhecidas as leis iniciais de um conjunto ou de um
sistema de fenômenos, poderemos prever os atos que
ocorrerão nesse conjunto ou nesse sistema.
Assim, se eu quiser conhecer um caso físico parti
cular, aplicarei a ele as leis gerais da física newtoniana
e saberei com certeza a resposta verdadeira.
Fórmula da dedução
• To dos os y sã o x (d efi n i ção ou teo ria ge ra l
sobre u m conju nto de objetos);
• A é y (caso part i cu la r) ;
• Po rta nto, A é x (dedu ção).
todos os x
todos os y
A razão oferece regras especiais para realizar uma
dedução. Se tais regras não forem respeitadas, a dedu
ção será considerada falsa.
A inducão
A indução realiza um caminho exatamente inverso
ao da dedução. Com a indução, partimos de casos par
ticulares iguais ou semelhantes e procuramos a lei,
definição ou teoria geral que explica e subordina todos
esses casos particulares. A definição ou a teoria são
obtidas no ponto final do percurso. A razão também
oferece um conjunto de regras precisas para guiar a
indução. Se tais regras não forem respeitadas, a indução
será considerada falsa.
Por exemplo, colocamos água no fogo e observa
mos que ela ferve e se transforma em vapor; coloca
mos leite no fogo e vemos que parte dele também se
transforma em vapor; colocamos vários tipos de lí
quidos no fogo e observamos sempre sua transfor
mação total ou parcial em vapor. Induzimos desses
casos particulares que o fogo possui uma proprieda
de que leva à evaporação e à ebulição dos líquidos.
Essa propriedade é o calor.
Jarra de água recém-posta na boca acesa de um fogão. Quando
observamos que , após algum tempo, não apenas a água, mas
também outros líqu idos fervem e se transformam em vapor,
induzimos que essa transformação é causada por uma propriedade
do fogo: o calor.
Verificamos, no entanto, que os diferentes líqui
dos não levam sempre o mesmo tempo para evaporar;
cada um deles, portanto, deve ter propriedades espe
cíficas que os fazem evaporar e entrar em ebulição
em tempos diferentes. Descobrimos, assim, que não
é o tempo que precisa ser observado, e sim a quanti
dade de calor que cada líquido precisa para entrar em
ebulição e começar a evaporar de forma mais acele
rada. Se considerarmos a água o nosso padrão de me
dida, diremos que ela ferve ao receber certa quanti
dade de calor e que é essa quantidade de calor que
precisa ser conhecida. Como a água foi escolhida para
servir de padrão, dizemos que a quantidade de calor
é de 100 graus Celsius.
Podemos, a seguir, verificar um fenômeno dife
rente. Vemos que a água e outros líquidos, colocados
num refrigerador, congelam e endurecem, mas tam
bém que, como no caso do vapor, cada líquido con
gela ou se solidifica em tempos diferentes. Procura
mos, novamente, a causa dessa diferença e
descobrimos que ela depende tanto de certas pro
priedades de cada líquido como da "quantidade de
frio" que há no refrigerador. Percebemos, finalmen
te, que é essa quantidade que devemos procurar e,
se tomarmos a água como padrão, diremos que ela
congela a zero grau Celsius.
Com essas duas séries de fatos (vapor e congela
mento), descobrimos que os estados dos líquidos va
riam (por evaporação ou por solidificação) em decor
rência da temperatura ambiente (calor ou frio) e que
cada líquido atinge o ponto de evaporação ou de soli
dificação em temperaturas diferentes.
Com esses dados podemos formular uma teoria da
relação entre os estados da matéria - sólido, líquido e
gasoso -e as variações de temperatura, estabelecendo
uma relação necessária entre o estado de um corpo e
a temperatura ambiente. Chegamos, por indução, a
uma teoria.
A abducão
O filósofo estadunidense Peirce (1839-1914) consi
dera que a razão discursiva ou raciocínio também se
realiza numa terceira modalidade de inferência, embo
ra esta não seja propriamente demonstrativa. Essa
terceira modalidade é a abdução.
inferência: é uma conclusão que se base ia em outra já
co nhec ida . Na ded ução, dado X (defin ição o u teoria), inf iro
(conc luo) a, b, c, d (os casos part icula res). Na ind ução,
dados a, b , c, d, i nfi ro (conc luo) X.
A abdução é uma espécie de intuição, mas que
não se dá de uma só vez, indo passo a passo para che
gar a uma conclusão. A abdução é a busca de uma
conclusão pela interpretação racional de sinais, de
indícios, de signos. O exemplo mais simples oferecido
por Peirce para explicar o que é a abdução é o modo
como os detetives, nos contos policiais, vão coletando
indícios e sinais e formando uma teoria para o caso
que investigam.
Segundo Peirce, a abdução é a forma que a razão
possui quando inicia o estudo de um novo campo
científico que ainda não havia sido abordado. Ela se
assemelha à intuição do artista e à adivinhação do
detetive, que, antes de iniciarem seus trabalhos, só
contam com pistas a seguir. Os historiadores costu
mam usar a abdução.
De modo geral, a indução e a abdução são pro
cedimentos racionais que empregamos para a aqui
sição de conhecimentos, enquanto a dedução é o
procedimento racional que empregamos para veri
ficar ou comprovar a verdade de um conhecimento
já adquirido.
--------------------------------- A ativ idade rac ional @
Pei rce e os procedimentos racionais
U m exe mp lo dado por Pe i rce to rna mais cla ra a d ife ren ça e ntre dedução , i n d u ção e abdução :
• Dedução: To dos os fe i jões desta saca são bra n cos . Estes fe ij ões e ra m desta saca . Logo , estes
fe ij ões são b ra n cos .
• Indução: Estes fe ij ões e ra m desta saca . Estes
fe i jões são bra n cos . Logo, tod os os fe i jões des
ta saca são bra n cos .
• Abdução: Todos os fe i jões desta saca são bran
cos . Estes fe ij ões são bra ncos . Logo, estes fe i
jões eram desta saca .
Charles Sanders Peirce também exemplifi cou sua teoria da
abdução com o cálculo da órbita de Marte pelo astrônomo
alemão Johannes Kepler (1571 -1630). Ao notar que as posições de
Marte não coincidiam com uma órbita circu lar, Kepler supôs que
essa órbita era elíptica, o que posteriormente comprovou em
cálculos mais precisos.
Realismo e idealismo
Vimos anteriormente que muitos filósofos distin
guem entre a razão objetiva e a razão subjetiva.
Falar numa razão objetiva significa afirmar que a
realidade externa ao nosso pensamento obedece aos
princípios racionais (identidade, não contradição, tercei
ro excluído, razão suficiente). Por isso, a realidade obje
tiva é racional em si mesma e torna possível que a co
nheçamos tal como ela é. Significa dizer, por exemplo,
que o espaço e o tempo existem em si mesmos, que as
relações matemáticas e as de causa e efeito existem nos
próprios objetos, etc.
Chama-se realismo a posição filosófica que afirma
a existência da razão objetiva.
Há filósofos, porém, que estabelecem uma diferen
ça entre a realidade e o conhecimento racional que de
la temos. Dizem eles que, embora a realidade externa
exista em si e por si mesma, só podemos conhecê-la tal
como nossas ideias a formulam e a organizam. Ou seja,
não podemos afirmar que nosso conhecimento a alcan
ça e a explica tal como ela é em si mesma. Portanto, não
podemos saber nem dizer se a realidade exterior é ra
cional em si, pois só podemos saber e dizer que ela é
racional para nós, ou seja, por meio de nossas ideias.
Essa posição filosófica é conhecida com o nome de
idealismo e afirma apenas a existência da razão subje
tiva. A razão subjetiva possui princípios e modalidades
de conhecimento que são universais e necessários, isto
é, válidos para todos os seres humanos em todos os
tempos e lugares. O que chamamos realidade, portanto,
e Capítulo B
é apenas o que podemos conhecer por meio das ideias
de nossa razão.
A ciência contemporânea tende a combinar a posi
ção realista e a idealista. Essas duas concepçõesestão
presentes na Química orgânica, por exemplo. Por um
lado, essa ciência realiza experimentos e medições da
massa das substâncias, procedimentos que pressupõem
a existência de coisas em si passíveis de conhecimento
por meio da experiência ou observação direta dos fenô
menos. Por outro, a Química orgânica desenvolve suas
teorias por meio de hipóteses que lhe permitem cons
truir modelos puramente teóricos dos objetos, dado que
as leis que regem um fenômeno às vezes não podem
ser diretamente observadas na própria realidade.
O mesmo pode ser dito
da Física, que admite a
existência em si dos áto
mos, porém só recente
mente pôde ter experi
ência direta deles, por
meio do microscópio
eletrônico - e, ainda as
sim, em escala limitada.
Antes disso, para explicar
os átomos, a Física cons
truiu modelos inteira
mente teóricos ou ideias
produzidas pelo sujeito
do conhecimento.
Representação do modelo
molecular da melamina. Os
procedimentos da Química orgânica
combinam aspectos relacionados
ao realismo (por exemplo, a
suposição da existência de massa e
quantidade das substâncias) e ao
idealismo (formulando hipóteses
para aquilo que não pode ser
diretamente observado).
A razão na fi losofia contemporânea:
continuidade ou descontinuidade?
Conti nu idade
Nos a nos 1950 e 1 960, o s f i l ósofos d a Esco la de
F ran kfu rt ou Teoria Crít ica co ns ide ra ra m que existem
du a s m o da l i da d es da ra zão. P a ra Theodo r Ado rno
(1 903-1969), Max Ho rkh e i m e r (1 895-1 973) e He rbe rt
Ma rcuse (1 898-1 979), os usos da técn i ca pe lo regi m e
naz ista a l emão e pe las Forças Armadas esta d u n iden
ses no la nça mento de bom bas atôm i cas sobre o Ja
pão ser i a m conseq uênc ias da razão instrumental ou
razão técnico-científica, que está a serv iço da exp lo
ração e da dom i nação, da op ressão e da v io l ê n c i a . J á
a razão crítica ou filosófica refl ete sobre as co ntrad i
ções e os confl itos soc i a i s e po l ít i cos e se a p rese nta
com o u m a força l i beradora .
A Teor ia Crít i ca afi rma que existe a cont i nu idade
tem pora l ou h istórica entre as formas da raciona l idade:
cada expressão h i stó r ica da razão não su rge de repen
te e do nada, mas resu lta de contrad i ções teór i cas e
confl itos sociopo l íticos ante r iores que pedem u ma no
va so l ução.
Cada nova fo rma da ra c iona l i dade é a vitó r ia so
bre os co nfl itos das fo rmas a nte r i o res, sem que haja
r uptu ra h i stó r i ca entre e las . Muda nças soc i a i s, po l í
t i cas e cu l tu ra i s dete r m i na m m uda nças teó r i cas no
pens a m e nto, e ta is m u d a nças s ão a s o l u ç ão rea
l izada pe lo tem po p resente pa ra seus confl itos e con
t ra d i ções .
Sobre a d iferenca entre teorias
A teoria em sentido tradicional, cartesiano, como a q u e se en
contra em vigor em todas as ciências especializadas, organiza a
experiência à base da formulação de questões que surgem em
conexão com a reprodução da vida dentro da sociedade atual. Os
sistemas das disciplinas contêm os conhecimentos de tal forma
que, sob circunstâncias dadas, são aplicáveis ao maior número
possível de ocasiões. A gênese social dos prob lemas, as situações
reais, nas quais a ciência é empregada e os fins perseguidos em
sua aplicação, são por ela mesma consideradas exteriores.
A teoria crítica da sociedade, ao contrário, tem como objeto os
homens como produtores de todas as suas formas h istóricas de
vida. As situações efetivas, nas quais a ciência se baseia, não é
para ela uma coisa dada, cujo único p roblema estaria na mera
constatação e previsão segundo as Leis da probab ilidade. O que é
dado não depende apenas da natureza, mas também do poder do
homem sobre ela. Os objetos e a espécie de percepção, a formu
lação de questões e o sentido da resposta dão p rovas da ativida
de humana e do grau de seu poder.
HORKH E IMER, Max. F i losofia e Teoria Crítica. ln : Benjamin, Habermas, Horkheimer, Adorno:
textos esco l h idos. São Pa u lo :
Abr i l Cu l t u ra l , 1980. p. 1 63. (Os Pensado res).
Max Horkheimer, em fotografia da década
de 1960.
1 . Como é a re l ação que se constitui entre s e r humano e c iência segu ndo cada uma d a s d uas teor ias mencio
nadas po r Horkhe imer?
2 . Cons idere a d ife renciação e ntre razão i nstrumenta l (técn ico-científica) e razão crítica . Segu ndo o pensa
mento do a uto r, de qua l de las a teo r ia de o rigem ca rtes i ana esta r ia ma is próxima? Por quê?
--------------------------------- A ativ idade rac ional e
Descont i n u idade
A partir dos anos 1960, desenvolveu-se, sobretudo
na França, uma corrente científica chamada estrutu
ralismo. Para os estruturalistas, o mais importante
não é a mudança ou a transformação de uma realida
de (de uma língua, de uma sociedade, de uma teoria
científica), mas a estrutura ou a forma que ela tem no
presente.
A estrutura passada e a estrutura futura são con
sideradas diferentes entre si e diferentes da estrutura
presente, sem que se possa dizer que são a continua
ção modificada do passado. Como as outras manifes
tações humanas, também a razão se realiza em formas
diferentes e descontínuas.
Metalúrgicas em Sheffield, I nglaterra, no início do século XX. De
acordo com os filósofos influenciados pelo estruturalismo, não é
possível falar em progresso ou retrocesso da razão, pois a história é
descontínua.
Ao estudarem a história da filosofia, das ciê ncias,
da sociedade, das artes e das técnicas, filósofos fran
ceses influenciados pelo estruturalismo, como Mi
chel Foucault (1926-1984), Jacques Derrida (1930-
-2004) e Gilles Deleuze (1925-1995), afirmaram que
S Capítulo B
sim, a razão é histórica. No entanto, essa história
não é progressiva e contínua. Pelo contrário, é des
contínua, realiza-se por saltos, e cada estrutura no
va da razão possui um sentido próprio, válido apenas
para ela.
Não se pode falar num processo, numa evolução
ou num avanço da razão a cada nova teoria, pois a
novidade significa justamente que se trata de algo
tão novo, tão diferente e tão outro que seria absur
do falar em continuidade e avanço. Não há como
dizer que as ideias e as teorias passadas são falsas,
erradas ou atrasadas: elas simplesmente são dife
rentes das atuais porque se baseiam em princípios,
interpretações e conceitos novos.
O va lor da razão
Apesar da oposição entre continuístas e descon
ti nuístas, todos mantêm uma ideia que é essencial
à noção ocidental de razão. Que ideia é essa? A de
que a realidade, o mundo natural e cultural, os seres
humanos, suas ações e obras têm sentido e esse
sentido pode ser conhecido. A atitude racional não
é senão o trabalho do pensamento para apreender,
compreender e interpretar o sentido das coisas, dos
fatos, das ideias, ações e valores humanos.
O primeiro critério de avaliação da capacidade
racional é o da coerência interna de um pensamento
ou de uma teoria. Ou seja, quando um pensamen
to ou uma teoria se propõem a oferecer um conhe
cimento, simultaneamente oferecem os princípios,
os conceitos e os procedimentos que sustentam a
explicação apresentada.
A razão é, assim, o critério de que dispomos pa
ra a avaliação ou o julgamento da validade de um
pensamento ou de uma teoria.
Além disso, a razão nos permite saber se um
pensamento ou uma teoria contribuem ou não pa
ra que os seres humanos conheçam e compreendam
as circunstâ ncias em que vivem; se contribuem ou
não para alterar situações i naceitáveis ou intolerá
veis; se contribuem ou não para melhorar as condi
ções em que os seres humanos vivem.
Assim, a razão, além de ser o critério para avaliar
os conhecimentos, é também um instrumento crí
tico para compreendermos as circunstâ ncias em que
vivemos, para mudá-las ou melhorá-las. A razão tem
um potencial ativo ou transformador e, por isso,
continuamos a falar nela e a desejá-la.Esta at ividade tra ba l ha com conteúdos d e F i l osofia e de d ive rsas d isci p l i nas .
As formas da razão d iscu rs iva - ded ução, i nd ução e a bd ução - estão p resentes nas mais d ive rsas c iênc ias,
va r iando a i m portâ nc ia d e u ma ou out ra forma d e acordo com a d isci p l i na . Va mos ve r isso na prática?
• O professor va i divi d i r a turma em gru pos. Cada grupo fi ca rá responsáve l por pesq u isa r exem plos desses p roce
d imentos raciona i s em uma d isci p l i na pa ra a presenta r à c lasse. Após rea l i za r a pesq uisa , você e seus co l egas
deverão orga n iza r uma ap resentação ora l , que poderá conta r com o a poio de i magens e ca rtazes. Vocês deverão
d izer qua l dos p roced imentos fo i emp regado e exp l i ca r como e le foi uti l i zado. Um dos grupos poderá pesq uisa r
exem plos na l ite ratu ra .
1 . Qua l a diferença entre a razão i ntu itiva e a ra zão 7. O que é abdução? Exemp l ifiq ue com uma h istória
d iscu rsiva ? de detetive que você con hece.
2. O q ue é a i ntu ição? Ca racterize cada ti po de i ntu ição 8. Qua l é a re lação entre o rea l ismo e a ide ia de razão
e dê um novo exem plo pa ra cada um de les. objetiva?
3. Qua l é a re lação entre i ntu ição i nte lectua l e o pen- 9. Qua l é a re lação entre o i dea l i smo e a ide ia de
sa r segu ndo a concepção de Desca rtes? O que é o ra zão subjetiva ?
cogito ca rtesia no? 10. Dê um exemp lo de uma ciênc ia que opere com-
4. Dê um exem p lo novo de rac iocín io em pír ico e o bi nando o rea l i smo e o idea l i smo. Justifiq ue.
d i st inga da i ntu ição. 11 . Qua l é a dife rença entre as concepções conti nu ís-
5. Como se rea l iza a i nd ução? Dê um exem plo novo. ta e desconti nu ísta da razão? Encontre um exem-
6. O que é i nferênc ia? Qua l a d ife rença entre a infe- p io que confi rme cada uma de las.
rência ded utiva e a i nfe rência i nd utiva ? 12. Si ntetize, em suas pa lavras, qua l é o va lor da razão.
l n d i cacões
Capote
• Direção de Bennett Mi l ler. Estados Un idos, 2005.
O jorna l ista estadun idense Truman Capote viaja até uma c idade no i nterior dos Estados
Un idos para investiga r os deta l hes de um caso de assass i nato. Lá, desenvolve uma re lação
estreita com um dos a cusados pelo cr ime, Perry Sm ith . O fi lme é uma adaptação c inema
tográfica do l ivro A sangue frio, de Capote, pub l i cado em 1 966.
O lobo atrás da porta
• Direção de Fernando Coimbra . Brasi l , 2013.
Um de l egado i n terroga um homem, sua ex-a mante e sua esposa pa ra tenta r e l u ci d a r o
desa pa rec im ento da fi l h a do casa l . Pou co a pouco, e l e recon strói uma comp l exa tra ma
de m ent i ras , vi nga n ças e atos entre a pa ixão e o cá lcu lo .
Poirot sempre espera e outras histórias
• Escrito por Agatha Christie. L&PM Pocket, 2008.
Co letâ ne a de contos po l i c i a i s da br i tâ n i ca Agatha Ch r i s t i e, i n c l u i n d o vá r ios pro
tagon i z ados po r s e u m a i s fa moso pe rs o n agem , o detetive be lga H e rcu l e Po i rot.
(20 13 )Por me i o d e d ife rentes p roced i m entos de i nfe rê n c i a , Po i rot d esve n d a casos
d e a s s a ss i n ato e rou bo .
O ator Philip Seymour Hoffman interpreta o
personagem-título do filme Capote(Z00S).
Leandra Leal, em cena de O Lobo atrás
da porta (2013).
----------------------------------- A ativ idade rac ional S
Ignorância, incerteza e insegurança
Ignorar é não saber alguma coisa. A ignorância po
de sertão profunda que nem sequer a percebemos. Em
geral, o estado de ignorância se mantém em nós en
quanto as crenças e opiniões que possuímos se conser
varem eficazes e úteis, de modo que não temos ne
nhum motivo para duvidar delas.
Já a incerteza é o momento em que descobrimos
que somos ignorantes, que há falhas naquilo que nos
servia de referência para pensar e agir. Temos dúvidas,
somos tomados pela perplexidade e pela insegurança.
Desejo da verdade
O desejo da verdade aparece muito cedo nos seres
humanos e se manifesta como desejo de confiar nas
coisas e nas pessoas.
Quando uma criança ouve uma história, inventa uma
brincadeira, joga ou vê um filme ou uma peça teatral,
está sempre atenta para saber se "é de verdade ou de
mentira". Quando uma criança brinca, joga e finge, está
criando outro mundo, mais cheio de possibilidades e
invenções do que o mundo onde vive. Mas sabe, mesmo
que não o diga, a diferença entre imaginação e percep
ção, pois sabe que o mundo inventado "é de mentira".
Por isso mesmo, a criança é muito sensível à men
tira dos adultos, pois a mentira é diferente do "de men
tira", isto é, a mentira é diferente da imaginação. A
criança se sente magoada quando o adulto lhe diz uma
mentira porque, ao fazê-lo, ele quebra a relação de con
fiança e a segurança infantil.
Outras vezes, estamos confiantes e seguros, mas,
de repente, vemos ou ouvimos alguma coisa que nos
enche de espanto e de admiração. O espanto e a admi
ração, assim como a dúvida e a perplexidade, nos fazem
querer sair do estado de insegurança, nos fazem per
ceber nossa ignorância e criam o desejo de superar a
incerteza.
Quando isso acontece, estamos na disposição de
espírito chamada busca da verdade.
Quando crianças, estamos sujeitos a duas decep
ções: a de que os seres, as coisas, os mundos maravi
lhosos não existem "de verdade" e a de que os adultos
podem nos enganar. Essa dupla decepção pode acarre
tar dois resultados opostos: ou a criança se recusa a
sair do mundo imaginário e sofre com a realidade como
algo ruim e hostil a ela, ou, dolorosamente, aceita a
distinção, mas também se torna atenta e desconfiada
diante da palavra dos adultos. Nesse segundo caso, ela
também se coloca na disposição da busca da verdade.
Nessa busca, a criança pode desejar um mundo
melhor e mais belo do que aquele em que vive e encon
trar a verdade nas obras de arte, desejando ser artista
também. Ou pode desejar saber como e por que o mun
do em que vive é tal como é e se ele poderia ser dife
rente do que é. Nesse caso, é despertado nela o desejo
de conhecimento e da ação transformadora.
Os jovens, por sua vez, se decepcionam
e se desiludem quando descobrem que o que
lhes foi ensinado ou exigido oculta a reali
dade, reprime sua liberdade, diminui sua
capacidade de compreensão e de ação. Já os
adultos se desiludem ou se decepcionam
quando o saber adquirido, as opiniões esta
belecidas e as crenças enraizadas não são
suficientes nem para que possam compreen
der o que se passa no mundo e com eles
próprios, nem para que possam agir ou fazer
alguma coisa.
Quando a criança brinca de palhaço ou outra
brincadeira imaginativa, ela sabe distinguir
o mundo que inventa do mundo em que vive.
Foto de 2012, Rio de Janeiro (RJ).
--------------------------------- Ignorância e verdade S
Dificu ldades para a busca da verdade
Em nossa sociedade é muito difícil despertar nas
pessoas o desejo de buscar a verdade. Isso pode pare
cer estranho, pois aparentemente vivemos numa so
ciedade que acredita nas ciências, que recebe diaria
mente informações vindas da mídia impressa e
eletrônica, que possui editoras, livrarias, bibliotecas,
museus, salas de cinema e de teatro, vídeos, fotografias
e computadores.
Ora, é exatamente essa enorme quantidade de veí
culos e formas de informação que torna tão difícil a
busca da verdade, pois acreditamos que essas informa
ções são verdadeiras. Como tal quantidade de informa
ção ultrapassa a experiência vivida pelas pessoas, estas
se veem sem meios para avaliar o que recebem.
No entanto, se uma mesma pessoa, durante uma
semana, lesse de manhã quatro jornais diferentes, ou
visse três noticiários de rádio diferentes e recebesse
notícias de três sites; à tarde, frequentasse duas escolas
diferentes em que fossem ministrados os mesmos cur
sos; e, à noite, visse os noticiários de quatro canais di
ferentes de televisão e lessequatro b!ogs diferentes que
tratassem dos mesmos temas, descobriria que as in
formações recebidas "não batem" umas com as outras.
Ela perceberia que há vários "mundos" e várias "socie
dades" diferentes, dependendo da fonte de informação.
Uma experiência como essa criaria perplexidade,
dúvida e incerteza. Mas as pessoas não fazem ou não
podem fazer tal experiência, e por isso não percebem
que, em lugar de receber informações, estão, muitas
vezes, se desinformando. E, sobretudo, como há outras
pessoas (o jornalista, o professor, o policial, etc.) dizen
do a elas o que podem ou devem saber, fazer ou sentir,
as pessoas se sentem seguras e confiantes. Ou seja, não
há incerteza porque há ignorância.
Criei uma ma la direta
9ue parece umQ carta
pe.ssool . . . J
1
r----11 �--
J
--'-------...li,�
Tirinha de (ullum e Marshall.
8 Capítulo 9
i
ó
A ide ta é
Ça-zer- as
pessoas
lerem o
onúnc'to �
9uuer !
Outra dificuldade para fazer surgir o desejo da
busca da verdade vem da propaganda. A propagan
da trata todas as pessoas como crianças ingênuas
e crédulas. O mundo é sempre um mundo "de faz
de conta". Nele o banco faz a família alegre, segura,
unida e sem preocupações; o automóvel faz o ho
mem confiante, inteligente, belo, sedutor, bem-su
cedido nos negócios, com uma namorada linda; o
desodorante faz a moça atraente, bem empregada,
bem-vestida, com um belo apartamento e um lindo
namorado.
A propaganda não vende um produto dizendo o
que ele é e para que serve. Ela vende uma imagem que
é transmitida por meio do produto, rodeando-o de
magia e belezas, dando-lhe qualidades que são de ou
tras coisas.
Outro obstáculo para o desejo da busca da verda
de vem da atitude dos políticos nos quais as pessoas
confiam. Ao se verem ludibriadas depois de terem-lhes
dado o voto, as pessoas tendem a julgar que é impos
sível haver verdade na política. Muitas passam a des
confiar do valor e da necessidade da democracia e
caem na descrença e no ceticismo.
Essas dificuldades, no entanto, podem ter o efeito
oposto: suscitar, em muitas pessoas, dúvidas, incer
tezas, desconfianças e desilusões que as façam dese
jar conhecer a realidade. E, como Sócrates (469 a.C.
-399 a.e.) em Atenas, elas começam a fazer perguntas,
a indagar sobre fatos e pessoas, coisas e situações, a
exigir explicações, a reivindicar liberdade de pensa
mento e de conhecimento.
Para essas pessoas surgem o desejo e a necessida
de da busca da verdade. Essa busca nasce não só da
dúvida e da incerteza, mas também da ação deliberada
as pes
o fican5o lrrit
r si
contra os preconceitos, contra as ideias e opiniões es
tabelecidas, contra crenças que paralisam a capacida
de de pensar e de agir livremente. Trata-se da busca
da verdade na atitude filosófica.
Tipos de busca da verdade
Decepção ,
i ncerteza e
i n segu ra nça com
a rea li dade . f "�sidad•
Readqu i r i r
certezas
Afasta r ce rtezas e
c renças e busca r
expl icações e
i nterpretações pa ra a
rea li dade . 1Acão
deliberada
Atitu de
fi losófi ca
Em junho de 2013, o pedreiro Amarildo Dias de Souza desapareceu
após ser detido sem justificativa por policiais militares, no Rio de
Janeiro (RJ). O fato desencadeou diversos protestos contra o abuso e
a violência policiais, como esta performance em frente à Assembleia
Legislativa fluminense.
Descartes e a busca filosófica da verdade
Assim como Sócrates dialogava com os jovens ate
nienses em busca da verdade, o filósofo René Descartes
(1596-1650) dialoga consigo mesmo. Em sua busca filo
sófica, ele indaga se conhece verdadeiramente aquilo
que imagina saber, pois, como escreve na obra Discurso
do método :
Eu sempre tive um imenso desejo de aprender a
distinguir o verdadeiro do falso, para ver claro nas mi
nhas ações e caminhar com segurança nesta vida.
DESCARTES, René. Discu rso do método. l n : _. Obra escolhida.
Tradução de Bento Prado J r. São Pau lo: D ife l, 1962. p. 47.
Descartes começa o Discurso do método e também
sua principal obra filosófica, Meditações metafísicas,
fazendo um balanço de tudo o que sabia e conhecera
pela experiência: o que lhe fora ensinado pelos pais,
preceptores e professores, pelos livros, pelas viagens,
pelo convívio com outras pessoas. Ao final, conclui que
tudo que recebera dessa maneira era duvidoso e in
certo. Decide, então, não aceitar nenhum desses co
nhecimentos, a menos que pudesse provar racional
mente que eram certos e dignos de confiança. Para
isso, submete-os a um exame crítico conhecido como
dúvida metódica, declarando que só aceitaria um co
nhecimento, uma ideia, um fato ou uma opinião caso
se revelassem indubitáveis para o pensamento pura
mente racional.
Por que a dúvida cartesiana é metódica? Porque
segue certas regras por meio das quais é possível dis
tinguir ideias falsas e ideias verdadeiras; é um instru
mento intelectual para avaliar e controlar nossas pró-
prias ideias, aceitando como válidas ou verdadeiras
somente as que resistirem à dúvida.
Descartes demonstra que possuímos razões fortes
para duvidar da existência de nosso corpo e do mundo.
Por exemplo, sabe-se que as pessoas que sofreram
amputação de algum membro continuam sentindo frio,
calor e dor nesse membro inexistente. Descartes per
gunta: que motivo racionalmente válido eu teria para
não supor que todo o meu corpo, que sinto perfeita
mente, não é uma ilusão, como a do membro amputa
do (conhecido como "membro fantasma" )?
Se a existência de meu corpo pode ser motivo de
dúvida, o mesmo pode ser dito sobre a existência do
próprio mundo - afinal, meus sentidos podem me en
ganar. Por exemplo, uma torre vista de longe parece
quadrada; porém, vista de perto, parece redonda. Vejo
o Sol se movendo ao redor da Terra; porém, os astrô
nomos dizem que ocorre o contrário.
À primeira vista, o lápis
parcialmente imerso na água
parece quebrado - porém, o vemos
novamente íntegro quando o
retiramos da água. Isso decorre de
características próprias do meio
líquido, em um fenômeno óptico
conhecido como refração.
Experiências como essa nos levam
a duvidar da precisão dos nossos
sentidos para a obtenção de
conhecimento verdadeiro.
---------------------------------- Ignorância e verdade S
O valor da verdade
H á j á algum tempo eu me apercebi d e que, desde meus p rimeiros anos,
recebera muitas falsas opiniões com o verdadeiras e de que aqu ilo que
depois eu fundei em princíp ios tão mal assegurados não podia ser senão
muito duvidoso e incerto; de modo que me era necessário tentar seriamente,
uma vez em minha vida, desfazer-me de todas as opin iões a que até então
dera crédito, e começar tudo novamente desde os fundamentos, se quisesse
estabelecer algo de firme e constante nas ciências [ . . . ]. Aplicar-me-ei seria
mente e com Liberdade em destruir em geral todas as minhas antigas opi
niões. O ra , não será necessário, p a ra alcança r esse intento, p rovar que
todas elas são falsas, o que talvez nunca pudesse Levar a cabo; mas, uma
vez que a razão me persuade de que não devo menos cuidadosamente
impedir-me de dar crédito às coisas que não são inteiramente certas e in
Retrato de René Descartes,
óleo sobre tela (e. 1649) de
Frans Hals.
dubitáveis do que às que nos parecem manifestamente ser falsas, o menor motivo de dúvida que eu
nelas encontrar bastará para me Levar a rejeitar todas. [ . . . ] Esforçar-me-ei afastando-me de tudo em
que poderia imaginar a menor dúvida, da mesma maneira como eu faria se soubesse que isto fosse
absolutamente falso; e continuarei sempre nesse caminho até que tenha encontrado algo de certo. [ . . . ]
Assim, terei o direito de conceber altas esperanças, se for bastante feliz para encontrar uma coisa que
seja certa e indub itável.
DESCARTES, René. Meditações metafísicas. l n : _. Obra escolhida. Tradução de Bento Prado J r.
1 . O que leva Desca rtes a afi rma r a necessidade de
rejeita r todas as opin iões que recebera emsua vida?
2 . Ao cons idera r q ue o d uvidoso deve ser rejeitado
exatamente como rejeitamos o fa lso, Desca rtes
assume uma atitude rad ica l . Po r q uê?
Desca rtes rad ica l iza a dúvida sobre a existência do
mundo com o chamado "argumento do sonho". Quando
sonhamos, estamos convencidos de que a rea l idade sonha
da existe e que a conhecemos ta l como é. Se parece não
haver d iferença entre a percepção da rea l idade pelo sonha
dor e a percepção do mundo por aquele que está acordado,
então não teríamos nenhum critério racional para afi rmar
que o mundo existe ou que ele não é um sonho.
No entanto, mostra Desca rtes, há um momento em
que a dúvida se i nterrompe necessar iamente porque o
pensamento encontra, enfim, uma p r ime i ra verdade
i ndubitáve l : " E u penso! ". Essa prime i ra ve rdade pode ser
trad uzida pe lo segu i nte raciocín io : eu penso, pois, se eu
duvida r de que estou pensa ndo, a i nda estou pensando,
visto q ue duvida r é uma mane i ra de pensa r. A consciên
cia do pensamento é a primei ra verdade i ndu bitáve l, q ue
será o a l icerce para todos os con hecimentos futu ros.
Ora, se penso, o pensa r existe, e aq ue le que pensa
existe, donde a cé lebre afi rmação de Desca rtes: "Penso,
l ogo existo". Escreve o fi l ósofo:
S Capítulo 9
São Pa u lo : D ife l, 1962 . p. 117-1 18 , 124.
3. Desca rtes diz ser necessá rio faze r isso pe lo menos
uma vez na vida . Você já teve a lguma experiênc ia
em q ue senti u a mesma necess idade? Escreva
sobre isso.
Mas, logo em seguida, adverti que, enquanto eu
queria assim pensar que tudo era falso, cumpria neces
sariamente que eu, que pensava,Josse alguma coisa. E
notando que esta verdade, eu penso, logo existo, era
tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes
suposições dos céticos não seriam capazes de abalá-la,
julguei que podia aceitá-la, sem escrúpulo, como o pri
meiro princípio da Filosofia que eu procurava.
DESCARTES, Re né. Discu rso do método. l n : _. Obra escolhida.
Tradução de Bento Prado J r. São Pau lo: Dife l, 1962. p. 66-67.
A existênc ia do pensamento e do suje ito pensa nte
se rá, então, o ponto de part ida pa ra as outras ve rdades
ou o a l ice rce pa ra a reconstrução do ed ifício do saber:
o mundo existe porque posso prová - lo por raciocín ios
verdadeiros; da mesma forma, meu co rpo existe porque
posso prová - lo por rac iocín ios ve rdade i ros.
Em resumo, na busca da verdade, a ta refa da dúvida
metód ica é demonstra r que só podemos aceita r como
verdade i ro aqu i lo q u e for provado pela razão como indu
bitável, e não o que é meramente aceito como uma opi nião.
Conexões
Esta at iv idade tra ba l h a com conteúdos de F i l osofia e Lite ratura .
O "a rgumento do sonho" fo i empregado pe lo escritor a rgent i no Jo rge
Lu is Borges (1 899-1 986) num conto i ntitu lado "As ruínas ci rcu la res". Du ra nte
sécu los, um mago vivia so l itá rio num temp lo em ruínas, q u eimado pelo deus
Fogo. O mago sa b ia q ue t inha a ob r igação de sonha r e q ue seus son hos
devi am produzi r um homem perfe ito. Ao longo dos anos, suas tentat ivas
fracassa ram, até que o deus Fogo veio às ruínas e o auxi l iou a cria r um homem
perfeito. Um pacto foi feito entre o mago e o Fogo: o homem sonhado jamais
saber ia ser a penas um sonho, sob a cond i ção de jama is ap rox imar-se do
fogo, pois, sendo i r rea l, não se que imaria . Terminada a ta refa, o mago enviou
sua cr iação pa ra pe rco rrer o mundo e nunca mais a son hou. Porém, o conto
se encer ra com um acontec imento i n esperado :
O escritor argentino Jorge Luis Borges, em
foto de 1981.
As ruínas do santuário do deus do Fogo foram destruídas pelo fogo. Numa alvorada sem pássaros, o mago viu
cingir-se contra os muros o incêndio concêntrico. Por um instante, pensou refugiar-se nas águas, mas em seguida
compreendeu que a morte vinha coroar sua velhice e absolvê-Lo dos trabalhos. Caminhou contra as Línguas de
fogo. Estas não morderam sua carne, estas o acariciaram e o inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio,
com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que um outro o estava sonhando.
BORG ES, Jo rge Lu is. As ru ínas c i rcu lares. l n : _ Obras completas. v. 1 . Tradução de Car los Nejar. São Pau lo: G lobo, 1999. p. 504.
1 . Exp l ique, em suas pa lavras, q u a l é o aspecto d e i l usão
reve lado ao fi na l da h istó r ia .
1 . O q u e é a igno râ nc ia? Po r que e l a é d ifíci l de ser
perceb ida por nós?
2. Qua l é a d iferença entre ignorâ ncia, i nce rteza e i nse
gurança? Que re lação elas têm com a dúvida?
3. Por que a dúvida, a decepção e o espanto podem des
pertar o desejo da verdade em cria nças,jovens e adu ltos?
4. Qua is são as d ificu ldades que enfrentamos quando
buscamos a ve rdade? Dê exemplos que as i l u strem.
l n d i cacões
O show de Truman
• Direção de Peter Weir. Estados Un idos, 1998.
2. Expl i que a d ife rença entre o q ue ocorre nesse conto
e a dúvida metódica de Desca rtes.
5. Quais são os dois ti pos de busca da ve rdade? Com
qua l de les você ma is se identifica? J ustifique sua
resposta.
6. O q u e é a "dúvida m etód ica" de Desca rtes? Cite
uma experiênc ia em que os sentidos se mostra ram
duvidosos a você.
7. Qua l é a pr imei ra ve rdade i ndub itáve l encontrada
por Desca rtes? Exp l ique como ele chegou a e la .
Tru man Burba n k (J im Carrey) descobre que sua v ida cot id i ana é na verdade um pro
grama de te lev isão vi sto por m i l h a res de espectadores . Todas as pessoas que o cercam
são de fato atores contratados . Truman , então, passa a lutar pa ra l i be rtar-se da i l u são,
encontra r a verdade e viver uma v ida rea l .
Persépolis
• Escrito e desenhado por Marjane Satrapi. Companhia das Letras, 2007.
Esta a utobiografia em quadr in hos acompanha as descobertas e frustrações da infância
e pré-adolescên cia da escritora em um contexto de mudanças a pós a Revo lução I ra n iana
de 1979. Quadrinho de Persépolis.
---------------------------------- Ignorância e verdade S
DE OLHO na atua lidade
As transformacões no consumo
A
s muda nças nos padrões de consumo de mer
ca d or ias e serv iços são determ i n a d a s po r
mod ifi cações na s opera ções e no fu nc iona
mento d o ca p ita l , como veremos a o exa mi n a r a s
mudança s na propaga nda co merc ia l .
Na fase in i c ia l do capital ismo industria l (na Europa
oc idental , no sécu lo X IX) , o consumo se d iv id ia cla ra
mente entre as duas pr inc ipa is classes da soc iedade: a
b u rgues ia e o p ro leta r ia do . Enquanto a pr i me i ra é a
desti natár ia dos produtos essenc ia is de a lta qua lidade
e de luxo, a segunda consome produtos de ba ixa qua
l idade , e apenas o mín imo necessá ri o para a reprodução
de sua força de traba lho (morad ia , vestuár io , al i men
tação) . A te rce i ra classe soc ia l , a pequena burgues ia ou
classe méd ia , asp i ra consu m i r como a burgues ia e re
pele os produtos desti nados aos proletá r ios .
N a fase i ndustri a l ford ista (século XX), o cap ital
i nduz i u o aparec imento da l i nha de montagem e a fa
br i cação de p rod utos e m sér ie , ba ratea ndo o custo
destes. O baratea mento possi b i l ita o consumo de mas
sa de produtos defi n idos pe la qual idade e durab i l idade .
Na fase pós- industr ial ou neol iberal (fi nal do sécu
lo XX e in íc io do século XX I ) , su rgem os produtos des
cartáve is , que põem um f im às ide ias de durab i l idade ,
qua l idade e estocagem . A soc iedade pós- i ndustria l é a
sociedade do descarte e do consumo i nstantâneo (co
mo se vê, por exemplo , com os al imentos e refe ições
fast-food) . A moda se torna o critér io do consumo.
Imped indo a verdade: o mundo de i lusão
da propaganda comercial
• A i lusão de igualdade dos consumidoresAinda que, de fato, nem todos possam consu mir as
mesmas co isas , na soc iedade de consumo de massa
todos têm a i lusão do acesso a e las . Por que i lusã o?
Porque o mercado do consumo pretende oculta r ou d is
s imula r as divisões socia is de classe, isto é , as d iferen
ças econôm icas rea is . I lusão , por u m la do , porque o
acesso às mercador ias , aos bens e aos servi ços pres
supõe poder aqu i sit ivo pa ra comprá- los; por outro lado ,
porque mercador ias , bens e serviços têm sua qualidade
d iferenciada conforme sejam desti nados às d iferentes
classes socia is , às populações de países e reg iões cen
tra is ou de países e regiões perifé ricos , etc. Ass im , só
em aparência a "mesma co isa" é a mesma para todos .
As d iferenças socioeconôm icas dos consumidores não
são apagadas pelo consumo, e s im reforçadas pela d i
ferença real da qualidade dos produtos e dos servi ços ,
que aparece no seu preço, no seu aspecto, nos locais de
sua aqu is ição , na forma do atend imento, etc.
S Capítulo 9
Cabe à p ropaganda rea li z a r essa o p e ração d e
af i rmação i lu só r i a da i gua lda de q u a n d o, de fato e
verdade i ramente , está refo rça ndo as d es igua ldades .
A ta refa da pro paganda é cr i a r a i lusão de que , por
me io do consumo , m u damos de classe soc ia l o u s u
b imos na esca la soc ia l .
Podemos observa r essa operação exa m i n a ndo ,
po r exem plo, a d iferença entre a propaga nda nos ca
na is abertos da telev isão b ras i le i ra e nos ca na i s de
telev isão por ass inatu ra (a cabo ou satél i te) . Nos pr i
me i ros , a propaganda se refere a todo e qua lquer pro
duto ou serviço , e a qua lidade da imagem e do texto
var ia conforme a classe soc i a l ou a fa ixa etá r ia a que
se dest i nam os produtos e serviços . Nos cana is por
ass inatura , porém , com raras exceções , o co nsu mo é
d i r ig ido pr i nc ipa lmente a quatro produtos e a quatro
serv iços . Produtos : carros , vestuár io de marca , cos
méticos de ma rca e objetos de h ig iene pessoa l e do
m ésti ca . Serv iços : ens ino u n ivers itá r io , segu ros , car
tões de créd i to e t u r i smo . O s p rota gon i stas q u e
oferecem os produtos s ã o "celebr idades " e execut i
vos . As i m a gens e os textos p ro m etem j uventude ,
sucesso , poder e fe l i c i dade .
• Os modos de operação da p ropaganda
A propaganda comercia l emprega as artes gráficas ,
a fotografia , a m ús ica , a da nça e a poesia , e d i fu nde-se
po r me io de jorna is , revistas , cartazes , rád io , c i nema ,
telev isão e i nte rnet . Ela opera por me io de : 1) expl ica
ções s impl if icadas e elogios exagerados dos produtos;
Z) slogans cu rtos que possam ser facilmente memor i
zados ; 3 ) aparente i nformação e prestação de serviço
ao consum idor; 4) garant ia de que o consum idor será ,
ao mesmo tem po , i gua l a todo m undo - e n ã o u m des
locado (po is consum i rá o que outros consomem) - e
d ife rente de todo m u n do , ú n i co (po i s o prod uto va i
to rná - lo especi a l) .
Para ser ef icaz , a propaganda deve: 1) afi rmar que
o produto possu i os valores estabelec idos pela soc ie
dade em que se encontra o consum idor (por exemplo ,
se a v ida em famíl ia é qua l if i cada pos it ivamente, os
produtos devem aparecer a serv iço da mãe , do pa i , dos
f i lhos , do lar, etc.) ; e Z) desperta r dese jos que o con
sum idor n ã o possuía e que o produto n ã o só desperta
como, sobretudo , gara nte que sat isfaz .
• Muda nças na operação da p ropaganda comercial
Em seus começos, em f ins do sécu lo X IX , a pro
paga nda comerc ia l sub li n hava e elogiava as q ua l i da
des d o produto : apresentava , por exem plo, os efe itos
cu rat ivos dos reméd ios , o confo rto de u m a mobíl i a ,
o b o m gosto d e uma peça de roupa em moda . Co mo
na era da soc i edade i nd ustr i a l os prod utos e ra m va
lor izados por sua d u rab i l i dade , a p ro paganda tend i a
a i nventa r u m a i magem d u radou ra q u e garant i sse
sempre o reconhecimento imed iato do produto e fosse
fac i lmente repet i da . Essa "marca " pod ia ser um de
senho , u m slogan , uma pequena me lod i a , uma r ima .
A propaga nda ta m b é m buscava af i rmar o p roduto
trazendo o nome do fa br icante como garant ia da qua
l idade o u da exclus iv idade .
Para entendermos a mudança ocorr ida em nossos
dias na forma da propaganda , precisamos levar em con
ta a lgumas características da passagem da sociedade
industr ial à pós- industr ial : o aumento da competição
entre produtores e d i str i b u i dores ; o cresc i mento do
mercado da moda (q ue não se restr inge ma i s ao ves
tuár io) ; e , sobretudo , a constatação , pelas pesq u i sas
de mercado , de que as vendas depend iam da man i
pu lacão dos dese jos do consum ido r e a té mesmo de
cr iar 'dese jos nele . Ass i m , a propaga nda comerc ia l fo i
d e ixando de apresenta r o p rodu to propr i amente d ito
(co m suas propr i edades) para afi rmar os desejos q u e
e l e rea li za r i a : sucesso , prosper idade , segu rança , j u
ventude eterna , b eleza , atração sexua l , fel i c i dade .
Em out ras pa lavra s , a p ropaga n d a o u p u b l i c i dade
co merc i a l passou a vender i magens e s i gnos , e não
as pró pr ias mercador i as .
Por exemplo, em lugar do sabonete e do desodo
rante, su rge a imagem da sensualidade da mu lher ou do
homem que os usam. O automóvel é apresentado como
prova de sucesso, charme e i ntel igênc ia do consu m idor.
A propaganda com erc ia l tam bé m se a propr ia de
atitudes , op in iões e posições crít icas ou rad ica is exis
tentes na sociedade, esvaz iando seu conteúdo soc ial
ou po lítico pa ra i nvesti - las num produto , tra nsforman
do-as em moda consumível e passage ira . Fem in ismo ,
guerr i lha revoluc ionár ia , movimentos de perifer ia são
transformados em qua l idades que vendem produtos.
Mas a pu bl i c idade não se contenta em inventar
i magens com as qua is o consu m ido r é i nduz i do a i den
t if icar-se . Ela as apresenta como real ização de dese
jos que e le nem sab ia que t inha e que passa a ter - uma
roupa ou um perfume são associados a viagens a países
d i stantes e exóti cos ou a uma relação sexua l fantás
t ica ; um utensíl io domést ico ou um sabão em pó são
apresentados como a suprema defesa do fem in i smo ,
l iberando a mu lher das penas case iras ; etc.
Atividades
♦ Do trabalho à fru ição do desejo
No livro clássico A ética protestante e o espírito do
capitalismo, o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920)
ass ina lou a relacão entre a forma da economia capita
l ista e a moral pr�testante. Uma ética burguesa fundou
-se no elogio d o traba lho como v i rtude e dever e na
condenação da pregu iça como o p ior víc io . O homem
vi rtuoso é aquele que i nveste em ma is trabalho o d i
nhe i ro ganho com o trabalho , para gerar ma is d inhe i ro
e mais lucro; sua v ida deve ser s imples e honesta . Como
consequênc ia , desejos , fru ição , gozo e sati sfação são
reprim idos . O consumo é d i reci onado ao que é essencial
para viver, e a moral condena o luxo e o supérfluo .
Essa ética burguesa do trabalho perde força à me
dida que o capital necessita do consumo de massa. Ela
se enfraquece, sobretudo, quando o capital ismo passa à
forma pós- industria l, em que a acumulação do capital
não necessita mais da inclusão do maior número de in
d ivíduos no mercado de trabalho, devido à automação da
produção. Como resu ltado, a ideologia in ic ial do capita
l ismo se i nverte : em lugar do elogio do trabalho e da vida
s imples, passa-se a valorizar a satisfação imediata dos
desejos comouma obrigação. É essa mudança que ga
rante eficácia à propaganda com o invenção de novos
desejos, apresentados por imagens que trazem a i lusão
de fel ic idade, beleza, sucesso, juventude, etc .
Grafite do artista de rua Banksy, em Londres, 2007.
1 . Você j á d eve ter visto n a te l ev isão, no rád io, na i nte rnet ou n a míd! a i m p res�a (jo rna is , rev is�as , e_tc.) _ a �g_u m
a n ú ncio q ue a ssocia a com pra de u m p rod uto à promessa de uma v ida ma ravi l hosa, na q u a l na� ha m 1se r i a e
confl ito de ne n h u ma espécie e a s pessoas são l ivres, s audáve i s, l i ndas e bondosas . Ao se r persuad ida a com pra r
o p rod uto, a pessoa acred ita esta r agi ndo l ivreme nte, qua ndo, de fato, e l a está ag indo de aco rdo com a l ógica
do pensa mento dom inante.
• I dentifi que a n ú ncios e letrôn icos ou imp ressos que te nha m essas características, esco lha um e escreva uma
peq uena a ná l i se cr íti ca .
2 . Re lac ione a atitude das figu ras representadas na i mage m desta página com o que você leu a respeito da propa
ga nda e das míd ias e letrôn icas.
Ignorância e verdade S
A TRANSFORMACÃO DAS CRENCAS . - .
Em 2013, foram encontrados em uma caverna na África d o Sul fósseis do que P.Oderia se� uma esP.écie
extinta de hominídeo (Homo naledi) até então desconhecida. N ovas ossadas d escobertas na mesma
região em 2014 traziam indícios a inda mais surpreendentes: de que essa esP.écie enterrava seus mortos.
Até então, a cred itava-se que ªP.enas o Homo sapiens e o Homo neanderthalensis (Homem de Neandertal)
realizassem esse tipo de comP.ortamento ritualístico. Os resultad os das pesqu isas científicas, como os da
arHueologia, nos levam a mod ificar nossas crenças sobre o m undo. Se nossas crenças se modificam, o HUe
a ssegura HUe são verdadeiros os conhecimentos sobre os qua is elas se apoiam? O que garante HUe nosso
conhecimento não incorre em erro e HUe nossas OP.in iões corresP.ondem à realidade?
Dogmatismo, estranhamento e busca da verdade
Nos diferentes caminhos que Sócrates (469 a.C.
-399 a.e.) e Descartes (1596-1650) trilham em busca do
conhecimento verdadeiro sobre a realidade, notamos
um procedimento comum: ambos desconfiam não só
das opiniões e crenças de seu tempo, mas também das
suas próprias ideias e opiniões. Desconfiam, enfim, do
dogmatismo. O que é dogmatismo?
Dogmatismo é uma atitude natural e espontânea
que temos desde crianças. É nossa crença de que o
mundo existe e que é exatamente tal qual o percebe
mos. A realidade natural, social, política e cultural forma
uma espécie de moldura de um quadro: é no interior
dela que nos instalamos e existimos. Temos essa cren
ça porque nos relacionamos com a realidade como se
ela fosse um conjunto de coisas, fatos e pessoas úteis
ou inúteis para nossa sobrevivência.
Rompemos com o dogmatismo quando adotamos
uma atitude de estranhamento diante das coisas que
nos pareciam familiares. Para ilustrar essa experiência,
vejamos um trecho da crônica "Nada mais que um in
seto", da escritora Clarice Lispector (1920-1977):
Custei um pouco a compreender o que estava ven
do, de tão inesperado e sutil que era: estava vendo um
inseto pousado, verde-claro, de pernas altas. Era uma
esperança, o que sempre me disseram que é de bom
augúrio. Depois a esperança começou a andar bem de
leve sobre o colchão. Era verde transparente, com per
nas que mantinham seu corpo, plano alto e por assim
dizer solto, um plano tão frágil quanto as próprias per
nas que eram feitas apenas da cor da casca. Dentro do
fiapo das pernas não havia nada dentro: o lado de
dentro de uma superfície tão rasa já é a própria super
fície. Parecia um raso desenho que tivesse saído do
papel, verde, e andasse . . . E andava com uma determi
nação de quem copiasse um traço que era invisível
para mim. .. Mas onde estariam nele as glândulas de
seu destino e as adrenalinas de seu seco verde interior?
Pois era um ser oco, um enxerto de gravetos, simples
atração eletiva de linhas verdes.
L I SPECTOR, Cla rice. Nada mais que u m inseto. l n : _. A descoberta do mundo.
Rio de Jane i ro : Rocco, 2008.
À primeira vista, o que há de mais banal ou familiar
do que um inseto? No entanto, Clarice Lispector nos faz
sentir admiração e estranhamento, como se jamais ti
véssemos visto um. Na descrição maravilhada, a espe
rança (inseto aparentado aos grilos e gafanhotos) tem
a peculiaridade de ser uma superfície da qual não con
seguimos distinguir ou separar o exterior e o interior.
No entanto, nesse ser sem profundidade, há um
abismo misterioso: o inseto esperança é um oco (como
alguma coisa pode ser apenas um oco?), um vazio colo
rido (como um vazio pode ter cor?) ou uma cor sem cor
po (como uma cor pode existir sem um corpo colorido?).
A perspicácia(1936), pintura de René Magritte (1898-1967). A atitude
de estranhamento nos permite conqu istar um novo saber sobre os
objetos. Observe o objeto que serve de modelo ao pintor e a figura
na tela pintada por ele. O que Magritte quer dizer com isso?
Verdades reveladas e verdades alcancadas
A atitude dogmática é conservadora, isto é, se pro
tege contra novidades, o inesperado, o desconhecido e
tudo o que possa desequilibrar as crenças e opiniões já
constituídas. Esse conservadorismo se transforma em
preconceito, em ideias preconcebidas que impedem o
contato com tudo o que possa pôr em perigo o já sabi
do, o já dito e o já feito.
O conservadorismo pode aumentar quando o dog
matismo estiver convencido de que várias de suas opi
niões e crenças vieram de uma fonte sagrada, de uma
revelação divina (ver destaque na p. 11 2). Quem ousa
enfrentar essas crenças e opiniões com argumentos ra
cionais é tido como criminoso, blasfemador e herético.
Esse conflito entre verdades reveladas e verdades
alcançadas pela própria razão preocupa a filosofia des
de a consolidação do cristianismo. Podemos conhecer
as verdades divinas? Se não pudermos conhecê-las,
seremos culpados? Mas como seríamos culpados por
não conhecer aquilo que nosso entendimento, por ser
menor do que o de Deus, não teria forças para alcançar?
Buscando a verdade @
verdade revelada, verdade alcançada: no
romance O nome da rosa, escrito pelo filósofo
italiano Umberto Eco (1932-2016), o monge
Guilherme de Baskerville busca o responsável
por uma série de assassinatos de frades copistas
que trabalhavam na biblioteca de um convento na
Europa medieval Ele descobre que todos haviam
sido envenenados ao manusear um livro de
Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) sobre a importância
do riso. Jorge de Burgos, monge guardiâo da
biblioteca, era o autor do envenenamento, pois
pretendia impedir que o livro fosse copiado e
enviado a outras bibliotecas. Por quê? Porque
julgava que o riso é contrário à vontade de Deus,
pois viemos ao mundo para sofrer a culpa pelo
pecado original de Adâo.
Tribunal da Inquisição (1819), óleo sobre tela do pintor espanhol Francisco de
Goya (1746-1828). Enquanto aqueles que contestaram a revelação divina
aparecem em primeiro plano, os que desejam a condenação deles por heresia
formam uma massa anônima ao fundo da tela.
Nesse romance, há duas ideias em conflito: a
verdade alcançada ou humana, que estaria contida
no livro de Aristóteles, e a verdade revelada ou
divina, que o bibliotecário julga estar na proibiçâo
do riso. Jorge de Burgos mata pessoas e queima
livros originados da racionalidade humana, pois,
para ele, uma verdade revelada por Deus é única e
incontestável.
As concepções da verdade
Nossa ideia da verdade foi construída ao longo dos
séculos com base em três concepções diferentes.
Em grego, verdade se diz a/étheia, palavra composta
do prefixo a ('negação' ) e de /éthe ('esquecimento' ). Alé
theia significa 'o não esquecido'. Platão (427 a.C.-347 a.e.)
fala da verdade como "o que é lembrado ou não esque
cido". Por extensão do sentido, a/étheia também signifi
ca 'onão escondido', aquilo que se manifesta ou se mos
tra aos olhos do corpo e do espírito.
O verdadeiro se opõe ao falso, pseudos, que é o en
coberto, o dissimulado, o que não é como parece. O ver
dadeiro é o plenamente visível para a razão ou o eviden
te (pois a palavra evidência significa 'visão completa e
total de alguma coisa' ).
Assim, a verdade é uma automanifestação da realida
de. O verdadeiro está nas próprias coisas quando o que elas
manifestam é sua realidade própria, sua essência, conheci
da pelos olhos do espírito ou pelo pensamento. Por isso, na
concepção grega, o verdadeiro é o ser (o que algo realmen
te é) e o falso é o parecer (o que algo aparenta ser e não é).
Em latim, verdade se diz veritas e se refere à precisão
e ao rigor de um relato. Verdadeiro se refere, portanto, à
linguagem como narrativa de fatos reais. A verdade de
pende, de um lado, da memória e da capacidade mental
de quem fala e, de outro, de que o enunciado correspon
da aos fatos. A verdade não se refere às próprias coisas
(como na alétheia), mas à veracidade de um relato e ao
enunciado de um fato, referindo-se à linguagem. Seu
@ Capítulo 10
oposto, portanto, não é a aparência, e sim a mentira ou
a falsificação. As coisas e os fatos são reais ou imaginá
rios; já os relatos e enunciados sobre eles são verdadeiros
ou falsos (mentirosos).
Em hebraico, verdade se diz emunah, que significa
'assim seja' ou 'confiança'. Agora são as pessoas e Deus
quem são verdadeiros e, para isso, devem ser fiéis à pa
lavra dada. A verdade se refere às relações entre as pes
soas e entre elas e Deus quando firmam um pacto ou
fazem uma promessa que devem ser cumpridos. Por
isso, a verdade refere-se ao futuro - à promessa que se
cumprirá. Sua forma mais elevada é a revelação divina
-que promete felicidade ao seu povo-, e sua expressão
mais perfeita é a profecia - na qual Deus diz aos huma
nos qual será a sua vontade ou a sua decisão sobre al
guma coisa que acontecerá. Essas ideias estão presentes
na palavra amém, com a qual um fiel aceita a vontade
divina, dizendo "assim seja".
A nossa concepção de verdade é uma síntese dessas
três concepções, e por isso se refere à percepção das
coisas reais (como na a/étheia), à linguagem que relata
fatos passados (como na veritas) e à expectativa de coi
sas futuras (como na emunah). Ou seja, nossa concepção
de verdade abrange o que é (a realidade), o que foi (os
acontecimentos passados) e o que será (previsões corre
tas sobre ações futuras). De maneira geral, esses três
aspectos também estão presentes naquilo que a filoso
fia define como uma ideia verdadeira.
Teorias sobre a verdade
Algumas teorias filosóficas concebem o conheci
mento verdadeiro com base nas ideias de verdade que
acabamos de examinar. Vejamos.
Quando prevalece a alétheia, a teoria considera
que o conhecimento verdadeiro é a apreensão inte
lectual e racional da verdade que está nas próprias
coisas. Sua marca é a evidência. Essa concepção re
cebe o nome de teoria da correspondência, isto é, as
ideias correspondem à realidade tal como esta é em
si mesma.
Quando predomina a veritas, a teoria considera
que nossas ideias relatam em nossa mente os fatos
ou acontecimentos. Elas serão verdadeiras quando
obedecerem a princípios e normas de uma linguagem
rigorosa. Agora não se diz que algo é verdadeiro por
que corresponde a uma realidade externa, mas se diz
que algo corresponde à realidade externa porque é
verdadeiro. Sua marca é a validade lógica. Essa con
cepção recebe o nome de teoria da coerência, isto é,
as ideias verdadeiras são aquelas reguladas por regras
e princípios lógicos que lhes permitem formar um
todo coerente.
Quando predomina a emunah, a teoria considera
que a verdade depende de um acordo ou de um pacto
entre os pesquisadores, que definem um conjunto de
convenções universais sobre o conhecimento verdadei
ro. A marca da verdade é o consenso e a confiança. Essa
concepção recebe o nome de teoria do consenso, isto
é, a verdade decorre de um acordo racional entre os
membros de uma comunidade de estudiosos para a
aceitação de certas ideias.
Há, porém, outra teoria, a qual define o conhe
cimento verdadeiro por um critério que não é teóri
co, e sim prático. Trata-se de uma teoria pragmática.
Para ela, um conhecimento é verdadeiro por seus
resultados e suas aplicações práticas, e se verifica
pela experimentação e pela experiência. A marca do
verdadeiro é a verificabilidade dos resultados e a efi
cácia de sua aplicação. Essa concepção da verdade
está muito próxima da teoria da correspondência
entre coisa e ideia, para a qual o resultado prático,
na maioria das vezes, é conseguido porque o conhe
cimento alcançou as próprias coisas e pode agir so
bre elas.
pragmática: palavra derivada do grego pragmatikós, que
s ign ifica 'o que é próprio da ação, o que é eficaz', q ue, por
sua vez, o rig ina-se de pragma, que quer d izer 'a ação que
se faz, o que se faz, o que se deve fazer'.
O tempo desveliJ a
verdade, obra do pintor
G iovanni Domenico (errini
(1609-1681). O tempo
permite que a verdade se
desenvolva no espírito
humano, ou, como na
frase célebre: "a verdade é
filha do tempo". A
manifestação da verdade
está simbolizada não
apenas pelo
desvelamento da mulher
luminosa - a verdade
como o que se revela,
alétheia -, mas também
pelo livro - a verdade
como veritas ou
linguagem que narra fatos
- próximo à mão direita
dela. As pessoas na parte
inferior da tela a
observam com espanto e
admiração.
Buscando a verdade @
A hipótese que eu gostaria de propor é que, no fundo, há duas histórias
da verdade. A primeira é uma espécie de história interna da verdade, a
história de uma verdade que se corrige a partir de seus próprios processos
de regulação: é a história da verdade tal como esta se faz, ou a partir da
história das ciências. Por outro Lado, parece-me que existem na sociedade,
ou pelo menos nas nossas sociedades, vários outros Lugares onde a ver
dade se forma, onde um certo número de regras do jogo são defin idas [ . . . ]
e, por conseguinte, a partir daí podemos fazer uma história externa da
verdade. As p ráticas judiciárias, a maneira pela qual entre os homens se
arbitram os danos e as responsabilidades, o modo pelo qual, na história do
Ocidente, se concebeu e se definiu a maneira como os homens podiam ser
julgados em função dos erros que haviam cometido, a maneira como se
impôs a determinados indivíduos a reparação de algumas de suas ações e Michel foucault, em foto de 1967.
a punição de outras, todas essas regras ou, se quiserem, todas essas práticas regulares, mas também
modificadas sem cessar através da h istória [ . . . ] e , por conseguinte, as relações entre os homens e a ver
dade merecem ser estudadas.
FOUCAULT, Michel . A verdade e as formas jurídicas. Rio de Jane i ro: Nau , 2002, p. 11.
1 . No texto acima, o fi lósofo francês Michel Foucau lt
(1926-1984) a p rese nta a h i pótese de que há d uas
h istó rias da verdade: uma i nterna e outra externa .
Qua l é a d i st inção entre e las?
Verdade e fals idade
Segu ndo a concepção grega da verdade, aqu i l o q u e
man ifesta s u a existência pa ra nossa pe rcepção (ou se
ja, a rea l i dade) é o ve rdade i ro ou a ve rdade . Por esse
motivo, os fi l ósofos gregos perguntam : como o er ro, o
fa lso e a ment i ra sã o possíve is? Em outras pa lavras,
como podemos pensa r naqu i l o que não é, no não ser?
A resposta dos fi lósofos chamados rac iona l istas
(ta nto gregos como modernos) é dup l a :
1 . O erro, o fa lso e a menti ra se referem à aparência
su perfi c ia l e i l usór ia das co isas e surgem qua ndo não
conseguimos a lcança r a essência das rea l idades; são um
defe ito ou uma fa l ha de nossa percepção sensoria l ou
i nte lectua l .
Quando os f i l ósofos afi rma m que a ve rdade é a
conformidade ou a co rrespondênc ia entre uma ide ia e
a coisa ideada, não estão d izendoq u e u ma ide ia verda
de i ra é uma "cóp ia" da co isa ve rdade i ra . Como d isse
Esp i nosa (7632-1 677), a ide ia de cão não late e a de açú
ca r não é doce. O que afi rmam é que a ide ia correspon
de à coisa conh ecida porq u e é o con hecimento daq u i l o
que a co isa é . Ou seja, a i de i a é o conhecimento dos
componentes necessá r ios da co isa, ou das re l ações
8 Capítulo 10
2. Nos tri buna is, as testemunhas ju ram dizer a ve r
dade, toda a ve rdade e somente a ve rdade. Procu
re no texto de Fouca u lt a re lação entre as práticas
jud ic iár ias e esse j u ramento.
i nte rnas necessár ias que const ituem a essência da co i
sa , bem como das re lações e nexos necessá r ios que e la
mantém com outras. Da mesma mane i ra, uma ide ia
não é a "cóp ia" de um fato, e s im a expl icação rac iona l
das ca usas, consequênc ias e s ign if icação de le.
2. O erro, o fa lso e a ment i ra surgem qua ndo d ize
mos de a lgum ser a q u i l o q u e e l e não é, q u a ndo l h e
atr i b u ím os q ua l id ades ou propr iedades q u e e l e não
possu i ou qua ndo l he negamos qua l idades ou p ropr ie
dades q u e e le possu i. N esse caso, o e rro, o fa lso e a
ment i ra se a l ojam na l i nguagem e acontecem no mo
mento em que fazemos afi rmações ou negações que
não co rrespondem à essência de a lguma coisa . E les são
um aconteci mento do ju ízo ou do enu nc iado.
O que é um juízo? É um ato menta l pe lo qua l atr i
bu ímos a a lguma co isa ce rtas propr iedades e lhe recu
samos outras. O juízo esta bel ece uma re lação entre dois
te rmos (um suje ito e um pred icado) por me io de uma
propos ição, cuja forma ma is s imp les é "5 é P" ou "S não
é P". Um ju ízo é ve rdade i ro qua ndo aqu i l o que o pred i
cado afi rma ou nega do suje ito co rresponde ao que a
co isa é; caso contrá r io, é fa lso.
Há, porém, uma diferença entre o erro e a men
tira. O erro é um engano do juízo e ocorre quando
desconhecemos a essência de um ser. A mentira, po
rém, é um juízo deliberadamente errado: ocorre
quando emitimos propositalmente um juízo errado
sobre uma coisa, embora conheçamos sua essência.
O que é a verdade? É a conformidade
entre nosso pensamento e nosso juízo e
as coisas pensadas ou formuladas. Qual
é a condição para o conhecimento ver
dadeiro? A evidência, isto é, a visão inte
lectual da essência de um ser. Para for
mular um juízo verdadeiro precisamos,
portanto, primeiro conhecer a essência,
e a conhecemos ou por intuição, ou por
dedução, ou por indução.
A verdade exige que nos libertemos
das aparências das coisas para ver intelec
tualmente a essência delas; exige, portan
to, que nos libertemos das opiniões esta
belecidas e das ilusões de nossos órgãos
dos sentidos. Em outras palavras, a verda
de é sempre universal e necessária, en
quanto as opiniões variam de lugar para
lugar, de época para época, de sociedade
para sociedade, de pessoa para pessoa.
sensorial que são necessários e universais e, por isso,
capazes de perceber em parte algo da essência das
coisas (como diz, por exemplo, Aristóteles).
No primeiro caso, somente o intelecto (espírito) vê
o ser verdadeiro. No segundo caso, o intelecto purifica
o testemunho sensorial.
Do mesmo modo, nossas sensações
ou impressões sensoriais variam confor
me o estado do nosso corpo, as disposi
ções de nosso espírito e as condições em
que as coisas nos aparecem. Por isso,
devemos ou abandonar as ideias basea
das nas nossas sensações (como dizem
Sócrates, Platão, Descartes), ou encon
trar aqueles aspectos da experiência
A mentira (1650), pintura de Salvator Rosa (1615-1673). Quando conhecemos realmente
alguma coisa, mas intencionalmente fazemos um juízo errado sobre ela , estamos
mentindo ou dizendo o falso.
Como a verdade é possível?
O que é aceitar parcialmente os dados da expe
riência sensorial? Por exemplo, quando estou doente,
cheiro a flor e não sinto seu perfume, muito embora
ela o tenha em abundância; vejo algo embaçado e
sem forma, quando, na verdade, trata-se de um ob
jeto com cor e forma bem definidas. Apesar desses
enganos dos sentidos, observo que toda percepção
capta qualidades nas coisas; portanto, as qualidades
pertencem à essência das próprias coisas e fazem
parte da verdade delas.
Quando se examina a ideia latina da verdade como
veracidade de um relato, pode-se observar que o pro
blema da verdade e da falsidade deslocou-se para o
campo da linguagem. O verdadeiro e o falso estão
menos no ato de ver (com os olhos do corpo ou com
os olhos do espírito) e mais no ato de dizer. Por isso,
a pergunta dos filósofos, agora, é exatamente con
trária à anterior: em vez de perguntar "como o erro
e a falsidade são possíveis?", pergunta-se "como a
verdade é possível?".
Buscando a verdade @
... • 0€V€MOS PROTEGER A
/NFÂNC/A , PóRQU!: AS
CRIANÇA'S SÃO O FU7ll·
RO .OA f'A7RIA. "
PO!S A PÁTRIA ESTA'
FRITA, COM UM FU'TUR'O
TÃO PEQU ENO ! . . .
Tirinha da personagem Mafalda, do cartunista argentino Quino. Na ideia latina da verdade, o problema se localiza no campo da linguagem.
Por que essa pergunta? Porque, se a verdade está no
discurso ou na linguagem, não depende só do pensamen
to e das próprias coisas, mas também de nossa vontade
para dizê-la, silenciá-la ou deformá-la. O verdadeiro con
tinua sendo tomado como conformidade entre a ideia e
as coisas, mas depende também de nosso querer.
Essas questões foram examinadas pelos filósofos
racionalistas com a introdução da exigência de estabe
lecer auxílios à nossa razão para que controle e domine
nossa vontade e a submeta ao verdadeiro.
verdade voluntária: a filosofia cristã introduziu
a ideia de vontade L i vre ou de L ivre-arbítrio
da vontade, pela qual a verdade depende não
só da conformidade entre relato e fato, mas
também da vontade que deseja o verdadeiro.
O cristianismo afirma que a vontade livre
foi responsável pelo pecado original e que a
vontade, criada boa por Deus, foi pervertida
pelo primeiro homem. Assim sendo, a mentira,
o erro e o falso tenderiam a prevalecer sobre a
verdade porque nosso intelecto seria mais fraco
do que nossa vontade.
Verdades de razão e verdades de fato
Vimos que a verdade pode ser entendida como o
conhecimento racional evidente de alguma realidade
(a a/étheia como evidência intelectual). Vimos também
que a verdade pode ser entendida como o relato veraz
ou verídico de fatos acontecidos (a veritas).
Em lugar de considerar que essas concepções são
excludentes, o filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz
(1646-1716) estabeleceu a existência de dois tipos de
verdades: verdades de razão e verdades de fato.
As verdades de razão enunciam que uma coisa é
o que ela é, necessária e universalmente, não poden
do de modo algum ser diferente do que é e de como
é. O exemplo mais evidente são as ideias matemáticas.
É impossível que o triângulo não tenha três lados e
que a soma de seus ângulos internos não seja igual à
soma de dois ângulos retos, ou que a circunferência
não seja a figura na qual todos os pontos são equidis
tantes do centro.
Já as verdades de fato dependem dos aconteci
mentos que serão relatados ou também da experiên
cia sensorial, isto é, ideias que são obtidas por meio
da sensação, da percepção e da memória. Elas se re
ferem a fatos que poderiam não ter acontecido, mas
S Capítulo 10
aconteceram e devem ter tido uma causa necessária
para isso; e também a coisas que poderiam ser dife
rentes do que são, mas que são como são porque há
uma causa para isso. Quando um historiador narra a
Segunda Guerra Mundial, narra fatos que poderiam
não ter acontecido, mas aconteceram, e busca as cau
sas necessárias desses acontecimentos para que seu
relato seja verdadeiro.
Da mesma maneira, quando digo " Esta rosa é
vermelha", isso é uma verdade de fato, pois nada im
pede que ela pudesse ser branca ou amarela. Se ela
é vermelha, é porque alguma causa a fez serassim e
outra causa poderia tê-la feito amarela. Não é aci
dental que ela tenha cor, e é a cor que possui uma
causa necessária. Ou seja, uma rosa pode ter esta ou
aquela cor, mas não pode deixar de ter cor, cabendo
à razão buscar a causa da cor, estudando a natureza
da luz.
As verdades de fato são verdades porque para elas
funciona o princípio de razão suficiente, segundo o qual
tudo o que acontece na história e tudo o que percebe
mos na experiência sensorial possui uma causa deter
minada que pode ser conhecida.
Verdade ou hábito?
No século XV I I I , o filósofo escocês David Hume
{1711 -1 776) criticou a pretensão de filósofos e cientistas
de conhecer a verdade da própria realidade. Para ele,
o que chamamos de razão é simplesmente o hábito
que adquirimos de associar sensações, percepções e
lembranças. As ideias são essas associações, e não a
explicação de como as coisas são em si mesmas. Por
acreditar que adquirimos todas as ideias pela expe
riência (em grego, empiria), Hume é considerado um
filósofo empirista.
O exemplo mais importante oferecido por Hum e é
o da origem do princípio da causalidade, tido como fun
damento das verdades científicas.
Nesta experiência de dilatação térmica, vejo que a esfera fria
atravessa o aro, mas depois constato que a mesma esfera, após ser
aquecida, não mais o atravessa por causa da expansão de seu
volume. Para Hume, à medida que repetimos uma experiência e
observamos o mesmo resultado, criamos o hábito de associar os
fatos em relações de causa e efeito.
A solucão kantiana
Para responder às críticas de Hum e e buscar mos
trar que a verdade não é um mero hábito, o filósofo
alemão lmmanuel Kant {1724-1 804) afirmou que é
preciso distinguir entre conhecimentos que dependem
da experiência sensorial e aqueles que não dependem
dela, e sim de nossa razão. Aos conhecimentos que
dependem da experiência, deu o nome de conheci
mentos a posteriori; aos que dependem apenas de
nossa razão, deu o nome de conhecimentos a priori.
A experiência me mostra, o tempotodo, que, se eu
puser um objeto sólido (um pedaço de vela, um pedaço
de ferro) no calor do fogo, não só ele derreterá como
também passará a ocupar um espaço muito maior no
interior do recipiente.
Séries de experiências desse tipo vão criando em
mim o hábito de associar o calor a fatos iguais ou se
melhantes que já percebi inúmeras vezes. E isso me
leva a dizer que o calor é a causa desses fatos. Como os
fatos são de aumento do volume ou da dimensão dos
corpos submetidos ao calor, concluo que "o calor é a
causa da dilatação dos corpos" e também que "a dila
tação dos corpos é o efeito do calor". É assim, diz Hume,
que surge a ideia de causalidade e nascem as ciências.
Ora, ao mostrar como se forma o princípio da causa
lidade, Hume afirma que não apenas as ideias se originam
da experiência, mas também os próprios princípios da
racionalidade são empíricos. Mais do que isso: vimos que,
na busca da verdade, a razão pretende conhecer a reali
dade tal como ela é em si mesma, considerando que o
que conhece é verdadeiro para todos os tempos e lugares
(universalidade) e indica como as coisas são e como não
poderiam ser de uma outra maneira (necessidade).
Ora, com Hume já não se pode admitir que o co
nhecimento racional seja dotado de universalidade e
necessidade, pois estas não são propriedades inerentes
às próprias coisas e às ideias com que as conhecemos.
O universal é apenas uma palavra geral que usamos
para nos referir à repetição de semelhanças percebidas
e associadas. O necessário é apenas uma palavra geral
que usamos para nos referir à repetição das percepções
sucessivas no tempo. O universal, o necessário e a cau
salidade são meros hábitos psíquicos. E o mesmo de
vemos dizer da verdade.
a priori, a posteriori: a priori é uma expressão de origem
latina, que significa 'ter prioridade com relação a alguma
coisa' ou 'o que antecede alguma coisa'. Kant usará a priori
para significar aquilo que vem antes da experiência e é
condição para que ela se realize.
A posteriori também é de origem latina e significa 'o que
vem depois de algo', ou 'o que sucede algo'. Kant emprega
a posteriori para significar aquilo que vem da experiência
e depende dela.
Buscando a verdade @
Kant exigi u que, antes de qua lq uer afi rmação sobre
as ide ias, houvesse o estudo da própr ia ca pac idade de
con hece r (ou seja, da razão), de modo que se mostras
se que a razão não depende das co isas nem é regu lada
po r e l as, e s im o contrá r io . Fo i o que e le chamou de
"revo l ução copern i ca na" em fi l osof ia .
De fato, até então os fi lósofos co locavam a rea l i
dade ou os objetos do conhecimento no centro e fazia m
a razão, ou o suje ito do conhecimento, g i ra r em to rno
de la . Faz i am como a lguém que, pa ra assa r um fra ngo,
gi rasse a chu rrasq ue i ra em vo lta de le, em vez de girá- lo
em re lação às brasas .
Sujeito ao centro, objetos em órbita
Qual é a re lação entre o qu e propõe Kant para a fi losofia e o que fizera N i co lau Copérn i co (1 473-
-1 543) pa ra a astronom ia? Os fi lósofos , d i z Kant, pa recem os astrônomos a nter iores à revo lu ção coper
n i ca na , busca ndo u m centro que não é ve rdade i ro .
Estátua de Nicolau Copérnico em Varsóvia, Polônia,
em 2007.
Revolução copernicana na astronomia
(séc. XVI)
Explicação A Te rra estava imóve l ao centro do Un iverso.
predominante até Os demais astros se des l oca riam ao redor
então dela em órb itas concêntricas .
O problema O s istema geocêntrico não dava conta de
exp l i ca r os movimentos ce lestes e mu itos
outros fenômenos astronômicos.
A solução proposta Não haveria motivo rac iona l pa ra que os
astros se movessem e a Te rra não, pois
poderia ser o contrá rio ou, até mesmo,
ambos poderiam esta r em movimento.
Cons iderar que a Terra se move, em bora não
o perceba mos, pe rm ite com preender os
movimentos dos demais astros.
S Capítulo 10
Estátua de lmmanuel Kant em Kaliningrado,
Rússia, em 2014.
Revolução "copernicana" (kantiana)
na fi losofia (séc. XVI I I )
A rea l idade em s i é o ponto de partida pa ra o
conhecimento. Pa ra a lguns, e la e ra exterior
(a natu reza) ; pa ra outros, i nterior (a a lma
huma na).
A ideia de ve rdade u n iversa l e necessá ria das
coisas d ificu lta a exp l i cação da muda nça
das co isas e ide ias . Por outro lado, d izer que
o conhecimento se deve a meras associações
de repetições percebidas no tempo d ificu lta
a própria ideia de verdade.
O ponto de pa rtida da fi l osofia não deve ser a
rea l idade, e s im o estudo da própria facu ldade
de conhecer (o estudo da ra zão). Ao col oca r o
suje ito do conhecimento no centro, é possíve l
verifica r, de mane i ra un iversa l e necessá ria,
que os objetos se adapta m a e le .
Moda lidades de conhec imento
Pa ra rea l iza r a "revo l u ção copern icana" em fi loso
f ia, Ka nt d ist i ngue duas gra ndes moda l i dades de co
nhec imento :
1. os conhecimentos a posteriori ou empír icos, que
se base ia m nos dados da exper iênc ia sensor i a l e ps ico
lógica de cada um, va ria ndo de ind ivíd uo pa ra ind ivíd uo;
2. os conhec imentos a priori, que se base iam exc lu
s ivamente na estrutu ra i nterna da própr ia razão, i nde
pendentemente da exper iência de cada um, e possuem
va l i dade u n ive rsa l .
Nosso conheci mento depende de t rês i n stânc ias
a priori:
1. as formas a priori da sens i b i l i dade, isto é, o espa
ço e o tempo como cond i ções da pe rcepção (só perce
bemos co isas espac ia i s e tempora i s, mas não percebe
mos o p rópr io espaço nem o própr io tempo e por isso
não podemos d ize r que estes ex istem em s i mesmos);
2 . as categor ias a priori do entend imento, que or
ga n izam os dados enviados pela sens i b i l idade (as pe r
cepções espac ia i s e tempora i s), tra nsformando-os em
con hec imentos i nte lectua i s ou emconce itos. Sem as
categor ias, não pode haver conhecimento i nte lectua l .
S ão e las : q ua l idade, q uantidade, tota l idade, p l u ra l idade,
u n idade, necess idade, poss i b i l idade, ca usa l i dade, f ina
l idade, su bsta nc ia l idade. Não sabemos se essas cate
gor ias existem em s i mesmas n uma rea l idade em si ,
mas só podemos conhece r a lgo ao empregá- las .
3. a s i de i a s da razão que não são p ropr i a mente
con hec i m e ntos. E m bo ra o con hec imento d ependa
dos dados em pír icos q u e a sens i b i l idade ofe rece e das
catego r i a s i nte l ectua i s que o e ntend i m e nto ut i l i za
pa ra o rga n i zá- l os, a razão não se re l ac iona nem com
os pr i me i ros, nem com as ú lt i mas . Sua fu nção não é
con hece r, e s im regular e controlar a sens i b i l i dade e
o e ntend imento.
Dessa mane i ra, Ka nt pôde loca l iza r onde estava o
eq u ívoco de Hume : este red uz i ra todo conhecimento
ao con hecimento empír ico ou a posteriori, que va r ia de
pessoa para pessoa, d esco n h ecendo os p r i ncíp ios a
priori que perm item conhec imentos u n ive rsa is e ver
dadei ros. Os fi lósofos raciona l i stas, por sua vez, se equ i
voca ram por su por que espaço, tempo e as categor ias
estão nas própr ias co isas. Se engana ram também por
supor que podemos con hece r o nômeno, i sto é, as co i
sas em si , qua ndo só podemos conhece r o fenômeno,
i sto é, o que é dado e o rga n izado por nossa razão. A
d ist i nção entre nômeno e fenômeno é dec is iva pa ra
supe ra r os prob lemas do raciona l i smo e do emp i r ismo.
nômeno, fenômeno:
nômeno se origina
da palavra grega
noumenon, derivada
de naus, que significa
'a inteligência suprema
ou divina que conhece
a realidade tal como
é em si mesma'. O
nômeno é "a coisa
em si". Fenômeno se
origina da palavra grega
phainomenon, que
significa 'o que aparece
diante de nossos
olhos', aquilo que
vemos e percebemos.
O fenômeno é "a coisa
para nós".
Campo de papoulas próximo a Argenteuif (1873), óleo sobre tela de Claude Monet (1840-1926). Kant
distingue a "realidade em si" (nômeno) da "realidade conhecida por nós" (fenômeno); esta, como na
pintura de Monet, é a realidade tal como se apresenta à nossa razão.
Buscando a verdade S
J u ízos ana lít i cos e j u ízos
s i ntét i cos
Por fim, Kant mostrou que o conhecimento verda
deiro depende de distinguirmos entre dois tipos de
juízos: os analíticos e os sintéticos.
Um juízo é analít ico quando o predicado ou os pre
dicados do enunciado nada mais são do que a explici
tação do que está contido no sujeito do enunciado. Por
exemplo: quando digo que o triângulo é uma figura de
três lados, o predicado "figura de três lados" nada mais
é do que a explicitação do sujeito "triângulo". Ou, quan
do digo que "todos os corpos são dotados de massa",
o predicado "dotados de massa" não acrescenta ne
nhum conhecimento novo sobre o sujeito "corpos",
mas apenas explica o que queremos dizer quando fa
lamos num corpo. No juízo analítico, podemos dizer
que o predicado é um sinônimo do sujeito ou que ele
analisa o conteúdo do sujeito. Portanto, o juízo analí
tico é explicativo.
Quando, porém, o predicado de um enunciado ofe
rece informações novas sobre o sujeito, o juízo é s inté
tico, isto é, formula uma síntese entre um predicado e
um sujeito. Assim, se, em vez de dizer que os corpos são
dotados de massa, dissermos que "alguns corpos são
leves", o predicado "são leves" nos diz algo novo sobre
o sujeito. O juízo sintético, diz Kant, é ampliativo, ou
seja, ele aumenta nosso conhecimento.
Para Kant, os juízos analíticos correspondem às ver
dades de razão de Leibniz. Neste caso, os juízos sintéticos
teriam de ser considerados verdades de fato, isto é, uma
Segundo Kant, se dissermos que "o calor é uma medida de
temperatura dos corpos", o predicado "medida de temperatura dos
corpos" simplesmente explicita o conteúdo do sujeito "calor", não
acrescentando nada a ele. Trata-se, portanto, de um juízo analítico.
Porém, se dissermos que "o calor é capaz de alterar a forma do ferro",
não estamos definindo o que é calor, mas sim oferecendo uma
informação nova sobre ele. Neste caso, temos um juízo sintético.
S Capítulo 10
relação entre termos que depende dos acontecimentos
ou dos fatos e que requer a experiência para ser conheci
da. Mas, assim sendo, a verdade ficaria reduzida aos juízos
analíticos, que nada novo nos ensinam. Em contrapartida,
como os juízos sintéticos dependem da experiência de
cada um de nós, não são verdadeiros no sentido preciso
da palavra, isto é, não são necessários nem universais.
Que faz Kant? Começa dizendo que a experiência
sensorial é a ocasião para o conhecimento, mas não é
a causa dele, pois este depende da estrutura universal
e necessária de nossa razão, que organiza os dados da
experiência. Em outras palavras, a experiência fornece
os dados que queremos conhecer e a razão é que lhes
dá sentido e os relaciona de maneira necessária e uni
versal. Kant distingue, assim, entre o que depende da
experiência (aquilo que é a posteriori) e aquilo que não
depende dela e que a organiza, controla e lhe dá senti
do (aquilo que é a priori). Partindo dessa formulação,
Kant introduz a ideia de juízos sintéticos a priori, isto é,
juízos sintéticos nos quais a síntese do sujeito e do pre
dicado, que amplia nosso conhecimento, depende da
estrutura universal e necessária de nossa razão, e não
da variabilidade individual de nossas experiências.
Os juízos sintéticos a priori exprimem o modo como
nosso pensamento relaciona e conhece os dados trazi
dos pela experiência; são os juízos empregados pela
filosofia e pelas ciências. A causalidade, por exemplo,
é uma síntese a priori que nosso entendimento formu
la para as ligações universais e necessárias entre causas
e efeitos, independentemente dos hábitos nascidos de
nossa experiência sensorial individual.
Se digo "Esta área foi desmatada", sei que alguém ou algo a
desmatou, mesmo que não veja este alguém ou algo no ato de cortar
as árvores. Essa relação de causalidade que nossa consciência faz
constitui um juízo sintético a priori. Foto de 2013, Santarém (PA).
Esta at ividade tra ba l ha com conteúdos d e F i l osofia e H istó r ia .
Tiradentes esquartejado (1 893), óleo sobre tela, de Pedro Américo, que representa o
mártir da Inconfidência Mineira, e uma paródia feita por João Teófi lo, em 2015, para
ironizar o pouco reconhecimento dado aos líderes assassinados da Conjuração Baiana.
No in ício do período republicano, o movimento mineiro foi escolhido como s ímbolo do
desejo de emancipação brasileira e instituição da República. Porém, foi apenas com a
rebelião baiana que ideias como a emancipação de toda a colônia portuguesa na
América, a igualdade entre todos e o fim da escravidão passaram a ser defendidas.
Le ia um t recho de u ma obra da f i lósofa a l emã Hanna h Are ndt (1906-1975) :
O contrário de uma asserção racionalmente verdadeira é ou erro e ignorância, como nas ciências, ou ilusão
e opinião, como na filosofia. A falsidade deliberada, a mentira cabal, somente entra em cena no domínio das
afirmações factuais; e parece significativo, e um tanto estranho, que no Longo debate acerca do antagonismo
entre verdade e política ninguém, aparentemente, tenha jamais acreditado que a mentira organizada, tal como
a conhecemos hoje, pudesse ser uma arma adequada contra a verdade [ . . . ] . Decerto a mentira organizada, no
que respeita à ação, não é um fenômeno marginal: o problema é que seu oposto, o simples enunciado de fatos,
não conduz a nenhuma espécie de ação e tende até, em condições normais, à aceitação das coisas como elas são
[ . . . ] . No entanto, onde todos mentem acerca de tudo que é importante, aquele que conta a verdade começou a
agir. Quer o saiba ou não, ele se comprometeu também com as coisas da política, pois, na improvável eventua
lidade de queo deixem sobreviver, terá dado um p rimeiro passo para a transformação do mundo.
AREN DT, Ha n nah . Entre o passado e o futuro. Tradução de Mau ro W. Ba rbosa de Al meida. São Pau lo: Pers pectiva, 1979. p. 282 e 324.
1 . Arendt pa rte da afi rmação de que a oposição a ser
fe ita não é e ntre verdade, e r ro ou ignorâ ncia , mas
entre ve rdade e mentira , q uestiona ndo como faze r
q ua ndo a menti ra não é por acaso, mas é uma men
t i ra o rga n izada .
• Ass i m, co mo um h isto r i ado r, que tra ba l ha com
ve rd a d e s de fato, pod e r i a ch ega r a a s se rções
fa l sas?
2. No passado, as e l ites pol íticas e econômicas brasi le i ras
e os gru pos no contro le do Estado transforma ra m per
sona l idades pú b l icas em heróis e construíra m m itos
pa ra legitima r suas posições. Assi m, po r exemp lo, os
ba ndei ra ntes pa u l i stas fora m por muito tem po repre
sentados como promotores do progresso e responsá
veis po r a m pl ia r o territór io e as r iquezas brasi le i ros. Já
a pr incesa Isabe l costumava ser considerada a bene
vo l ente l i bertadora d os negros escravizados, tendo
assi nado a penas po r sua própria vontade a Lei Áu rea .
• De que modo o tra ba l ho dos h istor iadores, ao se
contra por a esses m itos, fu nciona como um "pri
m ei ro passo pa ra a tra n sformação do m u nd o",
como d i z Arendt?
Buscando a verdade @
1 . O que é dogmatismo? Como e por q u e o estra n ha
mento pode rom pe r com o dogmatismo?
2. Dê um exemp lo (ti rado de sua vida pessoa l, da l i
teratura ou do ci ne ma) de uma atitude de estra
n h a m e nto d ia nte de a lgu m a coisa ou de a lgu m
fato que até então pa recia natura l .
3. Exp l iq u e nossa concepção de ve rdade com base
nas ide ias de alétheia, veritas e emunah, expondo
como cada uma de las contri bu iu pa ra forma r essa
concepção conte m porâ nea.
4. Exp l i que o que são as teo r ias da ve rdade como co r
respondência, coe rência e consenso.
l n d i cacões
A invenção de Hugo Cabret
• Direção de Martin Scorsese. Estados Un idos, 2011.
5. O que s ignifica p ragmatismo? Como a teor ia prag
mática concebe a ve rdade?
6. Qua l é a d ife rença entre ve rdade de razão e ve rdade
de fato? Dê u m exem plo de cada uma de las.
7. Como Ka nt propõe reso lve r o i m passe entre racio
na l ismo e e m pi r ismo?
8. Qua l é a d iferença entre j u ízo ana l ítico e j u ízo s in
tético? Dê exe m p los.
9. O que d ife rencia um ju ízo s i ntético a priori dos de
mais j u ízos si ntéticos?
Hugo Cabret (Asa Butterfie ld ) é um órfão que tra ba lha e mora no re lóg io da
esta ção de trem de Pa ris , n o in íc io do sécu lo XX . Hugo busca desvenda r o se
gredo que a cred ita esta r dentro do robô m ecân ico que ga nhou de seu fa lec ido
pa i . Em uma de suas fugas do guarda da esta ção (Sacha Ba ron Cohen), encontra
l sabe l l e (Ch loe Moretz) e, com ela, uma ch ave que se enca ixa n a fechadu ra no
peito do autômato. Admirada com os belos desenhos feitos pelo m i ster ioso
a utômato, a d up la decide d escobr i r quem o i nventou .
Os personagens Hugo e lsabelle observam o autômato em cena do filme
A invenção de Hugo Cabret, do diretor Martin Scorsese.
O homem que copiava
• Direção de Jorge Furtado. Brasi l , 2003.
Um jovem porto-a legrense vive uma rot ina monótona fa zendo fotocóp ias em uma pape la r ia
e mora ndo com sua mãe. Quando se a pa ixon a por uma v i z i nha , e le procu ra uma mane i ra de
a rra nja r d i n he i ro extra para im press ioná - l a . Seus p l anos dão certo, mas t rarão consequênc ias
i n esperadas qua ndo verdades começarem a v i r à ton a .
Barba ensopada de sangue
André (Lázaro Ramos) é o protagonista da comédia
O homem que copiava, dirigida por Jorge Furtado.
• Escrito por Daniel Ga lera. Companhia das Letras, 2012.
Após a morte de seu pa i , um p rofessor de edu ca ção fís i ca se i so l a em u m a c i d ade p ra i a n a
n a q u a l s e u avô ter i a s i d o a s sa ss i n a do década s a ntes . A o m e s m o tem p o q u e e nfre nta a
res i stê nc i a dos m ora dores p a ra desve nd a r o q u e de fato ocorre ra , o p rotagon i sta revê sua s
e sco l h a s de v i da .
O mundo assombrado pelos demônios
• Escrito por Car l Sagan. Companh ia de Bolso, 2006.
Em contra pos ição às exp l i cações m íst icas para o m u n d o, o a utor p rocu ra mostra r a ra c iona
l i d ade como fu ndam ento do con hecimento c ientífi co e a s atitu des q ue im pu l s ion a m pa ra a
busca d a verdade pe l a ra zão .
@ Capítulo 10
Capa de edição do livro
Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera.
w
e
<C
e -
z
:::J
Os usos cotidianos de "lógica"
"É lógico que eu vou!" Quando dizemos frases como
essa, a expressão "é lógico que" aparece como se fosse
a conclusão de um raciocínio que os interlocutores co
nhecem mesmo que não o percebam. Ao dizer "É lógi
co que eu vou! ", estou supondo que quem me ouve
sabe que também estou afirmando, sem que eu o diga
explicitamente: "Você me conhece, sabe o que penso,
quero ou do que gosto, sabe o que vai acontecer no
lugar x e na hora y e, portanto, não há dúvida de que
vou até lá". Nesse caso, tiramos uma conclusão que nos
parece óbvia, e dizer "é lógico que" seria o mesmo que
dizer "é claro que" ou "não há dúvida de que".
Em certas ocasiões, ouvimos, lemos ou vemos al
guma coisa e reagimos dizendo: "Não. Não pode ser
assim. Isso não tem lógica!". Essa expressão indica uma
situação oposta à anterior. Agora, aquilo que já sabe
mos (de uma pessoa, de um fato, de uma ideia, de um
objeto) nos faz julgar que a conclusão a que alguém
chegou é indevida, deveria ser outra. É possível, tam
bém, que a expressão aponte que nosso conhecimento
sobre algo ou alguém não é suficiente para compreen
dermos o que estamos ouvindo, vendo, lendo, e por
isso nos parece "não ter lógica".
Nos exemplos que vimos, podemos perceber que as
palavras lógica e lógico são usadas por nós para significar:
1 . uma inferência: visto que conheço x, posso con
cluir y como consequência;
2. a exigência de coerência: visto que x é assim, é
preciso que y seja assim;
3. a exigência de que não haja contradição entre o
que sabemos de x e a conclusão y a que chegamos;
Heráclito e Parmênides
Quando estudamos o nascimento da filosofia, vi
mos que os primeiros filósofos se preocupavam com a
origem, a transformação e o desaparecimento de todos
os seres. Preocupavam-se com o devi r. Heráclito de
Éfeso (e. 535 a.C.-475 a.e.) e Parmênides de Eleia (e. 515
a.C.-445 a.e.), filósofos do período pré-socrático, ado
taram posições opostas a esse respeito, cada um deles
concebendo o lógos (pensamento e linguagem verda
deiros) de maneira oposta.
O mundo, dizia Heráclito, é um fluxo perpétuo on
de nada permanece idêntico a si mesmo, mas tudo se
transforma no seu contrário. A luta dos contrários é a
8 Capítulo 11
4. a exigência de que saibamos o suficiente sobre
x para entender y e conhecer por que se chegou a y.
Inferência, coerência, conclusão sem contradições,
conclusão com base em conhecimentos suficientes são
alguns de nossos pressupostos quando afirmamos que
algo é lógico ou ilógico.
Ao usarmos as palavras lógica e lógico, estamos
participando de uma tradição de pensamento que se
origina na filosofia grega. Os filósofos de então se in
dagavam se o lógos (significando 'linguagem-discurso
e pensamento-conhecimento' ) possuía ou não normas,
princípios e critérios para seu uso e funcionamento.
Passatempos como o sudoku costumam ser chamados de jogos de
lógica, por necessitarem, entre outras habilidades, do uso de
inferência e da conclusão com base em conhecimentos suficientes
para serem finalizados com sucesso.
harmonia, responsável pela ordem racional do Univer
so. Nossa experiência sensorial percebe o mundo como
se tudo fosse estável e permanente,