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Prévia do material em texto

Marilena de Souza Chaui 
Graduada e licenciada em Filosofia pela Universidade de 
São Paulo (USP). 
Mestra e doutora pela Universidade de São Paulo (USP), 
especialista em História da Filosofia Moderna e Filosofia Política. 
Professora livre-docente de História da Filosofia Moderna no 
Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP). 
Doutora honoris causa pela Universidade de Paris 8 
(França), pela Universidad Nacional de Córdoba (Argentina) e 
Universidade Federal de Sergipe (UFS). 
Membro da comissão editorial das revistas Studia Spinozana 
(Paris-Hannover), Historia Philosophica (Pisa), Estudos 
Espinosanos (USP). 
Membro da direção do Brazilian Studies, King's College, Londres. 
Autora de diversos livros, entre os quais Introdução à história 
da filosofia (2 volumes), O que é ideologia, A nervura do real, 
Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas, 
Da realidade sem mistérios ao mistério do mundo: Espinosa, 
Voltaire, Merleau-Ponty. 
Secretária municipal de Cultura de São Paulo de 1989 a 1992. 
3!EDICÃO 
SÃO PAULO • 2016 
Volume 
Unico 
Filosofia - Ensino Médio 
ea 
editora ática 
Diretoria editorial 
Lidiane Vivaldini Olo 
Gerência editorial 
Luiz Tonolli 
Editoria de Ciências Humanas 
Heloisa Pimentel 
Edição 
André Albert. Eduardo Guimarães 
e Regina Gomes 
Gerência de produção editorial 
Ricardo de Gan Braga 
Arte 
Andréa Dellamagna lcoord. de criação), 
Erik TS !progr. visual de capa e miolo), 
Claudio Faustino lcoord. e edição), Thatiana Kalaes lassist.), 
Luiza Oliveira Massucato e Livia Vitta Ribeiro ldiagram.l 
Revisão 
Hélia de Jesus Gonsaga (ger.). 
Rosilngela Muricy (coord.). 
Ana Paula Chabaribery Malta. 
Célia da Silva Carvalho. Claudia Virgílio. 
Gabriela Macedo de Andrade e Heloisa Schiavo; 
Brenda Morais e Gabriela Miragaia (estagiárias) 
lconog rafia 
Sílvio Kligin lsuperv.), Denise Durand Kremer lcoord.), 
Sara Plaça !pesquisai. Cesar Wolf e 
Fernanda Crevin !tratamento de imagem) 
Ilustrações 
Filipe Rocha 
Cartografia 
Eric Fuzii 
Foto da capa: Grafite do artista brasileiro Tinho. 
em Erriadh. Djerba. Tunísia. 2014. 
Joel Saget/Agência France-Presse 
Protótipos 
Magali Prado 
Direitos desta edição cedidos à Editora Ática S.A. 
Avenida das Nações Unidas. 7221. 3ª andar. Setor A 
Pinheiros - São Paulo - SP - CEP 05425-902 
Tel.: 4003-3061 
www.atica.com.br / editora@atica.com.br 
0 
2016 
ISBN 978 850818055 4 (AL) 
ISBN 978 850818056 1 (PR) 
Cód. da obra CL 713405 
CAE 566707 (AL) / 566708 (PR) 
3• edição 
1• impressão 
Impressão e acabamento 
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EDI'f()"RA il'llJADA 
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
(Cãmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) 
16-02687 
Chaui, Marilena 
Iniciação à filosofia volume único, ensino 
médio/ Marilena Chaui. -- 3. ed. -- São Paulo : 
Ática, 2016. 
Bibliografia. 
1. Filosofia (Ensino médio) I. Título. 
CDD-107 .12 
Índices para catálogo sistemático: 
1. Filosofia : Ensino médio 107.12 
APRESENTACAO 
O
s estudantes de Filosofia sempre escutam uma piada sobre o primeiro 
filósofo, o grego Tales de Mileto. Tales gostava de estudar os astros e 
caminhava olhando para o céu, até que um dia tropeçou numa pedra e 
caiu num buraco. Um brincalhão que estava por perto disse a outros que ali se 
encontravam: "Tales quer saber o que se passa no céu, mas não consegue 
enxergar o que está à sua frente!". Nasceu, assim, a imagem que o senso comum 
tem do filósofo: a de alguém distraído que, sem prestar atenção no que se 
passa à sua volta, dedica a vida a pensar em coisas distantes, complicadas e, 
provavelmente, sem qualquer utilidade. Aliás, os estudantes de Filosofia tam­
bém conhecem a definição da filosofia pelo senso comum: "A filosofia é uma 
ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual". Em outras 
palavras, ela seria perfeitamente inútil. 
Neste livro, procuraremos mostrar que as imagens costumeiras do filóso­
fo e da filosofia não correspondem à realidade. De fato, elas surgiram como 
tentativa para rebaixar a atividade do pensamento porque este questiona as 
crenças e os preconceitos que formam o senso comum da sociedade. 
O melhor exemplo do que define a filosofia pode ser trazido por outro 
grego: Sócrates. Andando pelas ruas e praças da an-
tiga Atenas, Sócrates conversava com seus conter­
râneos a respeito daquilo em que acreditavam e que 
julgavam conhecer, fazendo-os, pouco a pouco, reco­
nhecer com espanto que suas crenças não tinham 
base nenhuma e que não sabiam o que imaginavam 
saber. A atitude filosófica se inicia exatamente quando 
não nos contentamos com as aparências das coisas nem 
com as ideias cristalizadas em nossa sociedade. 
Por isso podemos compreender a resposta que um filó­
sofo deu quando lhe perguntaram: "Para que filosofia?". Res­
pondeu: "Para não darmos nossa aceitação imediata às coi­
sas e às ideias, sem maiores considerações". 
Este livro é um convite ao questionamento, à refle-
xão, ao trabalho do pensamento na busca da verdade, 
na compreensão do sentido de nossas ideias, de 
nossos sentimentos e emoções, dos valores 
de nossa cultura e de nosso desejo de liber­
dade e de felicidade. 
A autora 
Gianni Dagli Orti/Art Archive/Agência France-Presse/Museu do Louvre, Paris, França. 
., 
O livro está dividido em 32 capítulos, organizados em 10 Unidades. A primeira Unidade faz 
uma introdução à disciplina e as demais apresentam e discutem os grandes temas e campos 
de estudo da filosofia. 
Capítulos 
Apresentam diferentes aspectos do 
tema da Unidade, considerando a 
diversidade de abordagens e o 
desenvolvimento da filosofia ao longo 
da história. Uma imagem e um breve 
texto de abertura antecipam o tema a 
ser discutido. 
Léxico 
Ao longo dos capítulos, pequenos 
boxes apresentam a origem de 
termos e expressões relevantes 
no contexto e informações 
adicionais sobre eles. 
Em síntese 
Diferentes questões sobre os 
conceitos e as discussões 
vistos no capítulo ajudam a 
sistematizar e organizar o 
que foi estudado. 
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O humor e as cren?s silenciosas 
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lndicacões 
De olho na 
atualidade 
Livros, filmes e sites que 
abrem novas perspectivas 
para compreender e 
ampliar os temas 
estudados. 
0 
Análises de debates e 
acontecimentos 
contemporâneos pelo 
ponto de vista da filosofia 
seguidas de atividades. 
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Leituras 
filosóficas 
Trechos de textos de 
filósofos e de autores 
das ciências humanas 
e da literatura 
acompanhados de 
questões para reflexão. 
LINHA 
DO'IEMPO 
Ir.:---··­
......... , .. � ...... -.. ... ,_..,_ "'" .... ,..._ 
.... ........ ,,i; .. ,.., 
!..'!�= ::::=..., 
Os autores de maior 
destaque na história da 
filosofia, ordenados pela 
data de suas obras mais 
conhecidas. 
Boxes 
Esquemas, resumos, 
exemplos e complementos 
diversificados que retomam 
e reforçam conceitos 
importantes e aproximam 
o tema explorado do 
cotidiano. 
Conexões 
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loó;o_..,,., .. ,...,.., ...... \_t,.._ ............... .._ • ....,.. 
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Conexões 
Atividades que relacionam a 
filosofia a outras áreas do 
conhecimento e favorecem 
uma reflexão sobre atitudes, 
pontos de vista, 
acontecimentos, 
descobertas científicas e 
obras de arte. 
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Glossário� 
Vocabulário sucinto de 
conceitos filosóficos 
vistos no livro. 
Sumário 
Unidade 1: A filosofia 
CAPÍTULO 1: A atitude filosófica ............... 6 
CAPÍTULO 2: O que é a filosofia? ............. 20 
CAPÍTULO 3: A origem da filosofia .......... 32 
CAPÍTULO 4: Períodos e campos 
de investigação da filosofia grega .............. 46 
CAPÍTULO 5: Principais períodos 
da história da filosofia ................................ 58 
CAPÍTULO 6: A transformação 
da filosofia na contemporaneidade ............ 68 
Unidade 2: A razão 
CAPÍTULO 7: Os vários sentidos 
da palavra razão ........................................ 82 
CAPÍTULO 8: A atividade racional .......... 90 
Unidade 3: A verdade 
CAPÍTULO 9: Ignorância e verdade ........ 102 
CAPÍTULO 10: Buscando a verdade ........ 110 
Unidade 4: A lógica 
CAPÍTULO 11: O nascimento 
da lógica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123 
CAPÍTULO 12: Elementos de lógica ....... 130 
Unidade 5: O conhecimento 
CAPÍTULO 13: A preocupação com o 
conhecimento........................................... 147 
CAPÍTULO 14: Percepção, memória e 
imaginação ................................................ 161 
CAPÍTULO 15: Linguagem e 
pensamento .............................................. 171 
CAPÍTULO 16: A consciência pode 
conhecer tudo? ......................................... 183 
Unidade 6: A metafísica 
CAPÍTULO 17: A origem da metafísica ... 194 
CAPÍTULO 18: A metafísica de 
Aristóteles ................................................ 204 
CAPÍTULO 19: As aventuras da 
metafísica .................................................. 211 
CAPÍTULO 20: De Kant à ontologia 
contemporânea ........................................ 223 
Unidade 7: A ciência 
CAPÍTULO 21: A atitude científica ......... 236 
CAPÍTULO 22: A ciência na história ...... 244 
CAPÍTULO 23: As ciências humanas ..... 256 
Unidade 8: A cultura 
CAPÍTULO 24: A cultura ........................ 268 
CAPÍTULO 25: A religião ........................ 279 
CAPÍTULO 26: O universo das artes ...... 293 
Unidade 9: A ética 
CAPÍTULO 27: A existência ética ............ 312 
CAPÍTULO 28: A ética ............................ 320 
CAPÍTULO 29: A liberdade .................... 334 
Unidade 10: A política 
CAPÍTULO 30: O início da vida política ... 343 
CAPÍTULO 31: As filosofias políticas ........ 361 
CAPÍTULO 32: A questão democrática ... 379 
Linha do tempo............................................ 392 
Glossário.................................................... 396 
Indicações de Leitura.................................... 397 
Bibliografia................................................. 398 
0 
"Conhece-te a ti mesmo" 
Quem assistiu ao primeiro filme da série Matrix, 
de 1999, há de se lembrar da cena em que o herói, Neo, 
é levado pelo guia, Morfeu, para ouvir uma mulher a 
quem chamam Oráculo. Quando ela pergunta a Neo 
se ele leu o que está escrito sobre a porta da cozinha, 
ele diz que não. Então, ela aponta para a inscrição e 
explica que está em uma língua que não é mais falada 
no cotidiano, o latim. 
O que está escrito? Temet nasce. O que isso signi­
fica? "Ousa conhecer." A mensagem para Neo é a de 
que ele - e somente ele - poderá saber se é ou não 
aquele que vai livrar o mundo do poder da Matrix. Por­
tanto, somente ousando conhecer ele terá a resposta. 
O que poucos sabem é que esta cena de Matrix é 
a representação ficcional, no futuro, de um aconteci­
mento ocorrido há 24 séculos. 
Na Grécia antiga, por volta do século IV a.e. , havia 
um santuário na cidade de Delfos dedicado a Apolo, 
deus da luz, da razão e do conhecimento verdadeiro. 
Sobre o portal de entrada desse santuário estava es­
crita a grande mensagem do deus, ou o principal 
oráculo de Apolo: "Conhece-te a ti mesmo" (em gre­
go, gnõthi seauton). 
Um ateniense, chamado Sócrates (e. 469 a.C.-399 
a.e.), foi ao santuário consultar o oráculo, pois em Ate­
nas muitos lhe diziam que ele era um sábio. Sócrates 
desejava saber o que era um sábio e se tal qualidade 
poderia ser atribuída a ele. O oráculo, que era uma mu­
lher (a sibila), perguntou-lhe: "O que você sabe?". Ele 
respondeu: "Só sei que nada sei". Ao que o oráculo dis­
se: "Sócrates é o mais sábio de todos os homens, pois 
é o único que sabe que não sabe". Sócrates é até hoje 
considerado o patrono da filosofia. 
oráculo: esta palavra tem dois significados principais, 
que aparecem nas expressões "receber um oráculo" 
e "consultar um oráculo". No primeiro caso, significa 
'uma mensagem misteriosa' enviada por um deus como 
resposta a uma indagação feita por um humano; essa 
revelação divina precisa ser decifrada e interpretada. No 
segundo, significa 'uma pessoa especial', a qual recebe 
a mensagem divina e a transmite ao interrogante, que, 
por sua vez, precisará decifrá-la e interpretá-la. Entre os 
gregos antigos, essa pessoa especial costumava ser uma 
mulher e era chamada sibila. 
Keanu Reeves, no papel de Neo, e Gloria Foster, como oráculo, em cena do primeiro filme da série Matrix(1999). 
Neo e a Matrix 
Se voltarmos ao filme Matrix, podemos perguntar 
por que foi feito o paralelo entre Neo e Sócrates. Co­
mecemos pelo nome das personagens Neo e Morfeu. 
Esses nomes são gregos. 
Neo significa 'novo' ou 'renovado' e, quando dito de 
alguém, significa 'jovem na força e no ardor da juventude'. 
Morfeu, na mitologia grega, era um espírito, filho 
do Sono e da Noite. Ele possuía asas e era capaz, num 
A atitude filosófica 0 
único instante, de voar em absoluto silêncio de um 
extremo a outro do mundo. Sobrevoando ou pousan­
do sobre uma pessoa e tocando-a com uma papoula 
vermelha, não só a fazia adormecer e sonhar, mas 
também aparecia nesse sonho, tomando a forma 
humana. É dessa maneira que, no filme, Morfeu se 
comunica pela primeira vez com Neo, que desperta 
com o ruído de uma mensagem em seu computador. 
E, no primeiro encontro de ambos, Morfeu surpreen­
de Neo por sua extrema velocidade, por ser capaz de 
voar e por parecer saber tudo a respeito desse jovem 
que não o conhece. 
Várias vezes Morfeu pergunta a Neo se ele cos­
tuma duvidar se está realmente acordado. Essa per­
gunta deixa de ser feita a partir do momentoem 
que Morfeu lhe oferece a escolha entre ingerir uma 
pílula azul ou uma vermelha e Neo escolhe a ver­
melha (como a papoula da mitologia), que o fará ver 
a realidade. É Morfeu quem lhe mostra a Matrix, 
fazendo-o compreender que ele tinha passado a 
vida inteira sem saber se estava acordado ou ador­
mecido e sonhando porque, realmente, esteve sem­
pre dormindo e sonhando. Era isso que Neo preci­
sava ousar conhecer. 
matrix: palavra latina derivada de mater, que quer dizer 
'mãe', matrix designa o útero. Na linguagem técnica, 
matriz é o molde para a fundição de uma peça. É também, 
em monitores e televisores, o circuito de codificadores e 
decodificadores das cores e dos sons e, na informática, 
a rede de guias de entradas e saídas de elementos 
lógicos. No filme, a Matrix tem todos esses sentidos: 
ela é um útero universal onde todos os seres humanos 
têm, ao mesmo tempo, uma vida real "uterina" e uma 
vida imaginária forjada pelos circuitos de codificadores e 
decodificadores de cores e sons e pelas redes de guias de 
entrada e saída de sinais lógicos. 
Ao tomar consciência de que sempre estivera sonhando, 
Neo abre-se para a possibilidade de conhecer a realidade da 
Matrix. Cena do primeiro filme da série, de 1999. 
0 Capítulol 
Mas afinal, o que é a Matrix? É um computador 
gigantesco alimentado pelos cérebros dos seres huma­
nos e que os escraviza, usando suas mentes para con­
trolar seus sentimentos e pensamentos, fazendo-os 
crer que é real o que é aparente. E qual é o seu poder? 
Usar e controlar a inteligência humana para dominar o 
mundo, criando uma realidade virtual na qual todos 
que a ela estão submetidos acreditam. 
computador: palavra originada do latim computator, 
que significa 'máquina de contar, calcular'. Antes de 
o computador se tornar um objeto de uso corrente, 
falava-se em "cérebro eletrônico". Por quê? Porque se 
trata de um objeto técnico muito diferente daqueles 
até então conhecidos, que ampliavam apenas a força 
física dos seres humanos: o microscópio e o telescópio 
aumentam a força dos olhos; o navio, o automóvel e o 
avião aumentam a força dos pés; a alavanca, a polia e o 
martelo aumentam a força das mãos; e assim por diante. 
Já o "cérebro eletrônico" ou computador amplia e até 
substitui as capacidades mentais ou intelectuais dos 
seres humanos. 
Vencer o poder da Matrix é destruir a aparência 
ilusória, restaurar a realidade e assegurar que os seres 
humanos possam perceber e compreender o mundo 
verdadeiro e viver realmente nele. Nos combates tra­
vados por Neo e seus companheiros contra a Matrix, 
as armas e tiroteios são pura ilusão, pois o combate 
real não é físico, e sim mental, e ocorre num mundo 
virtual. 
Cena desenhada em 2015 por uma rede neural artificial 
desenvolvida por uma empresa de informática. 
Com base em todas as referências visuais que o banco de dados 
da empresa tem, essa rede é capaz de inventar sua própria versão 
para a imagem. 
Neo e Sócrates 
Por que as personagens do filme afirmam que Neo 
é "o escolhido" ? Por que estão seguras de que ele será 
capaz de realizar o combate final e vencer a Matrix? 
Porque ele era um hacker, isto é, alguém capaz de 
utilizar seus conhecimentos técnicos em computação 
para invadir sites e programas, decifrar códigos e men­
sagens. E, sobretudo, porque desenvolvia programas de 
realidade virtual, sendo capaz de rivalizar com a própria 
Matrix. Por ter uma capacidade semelhante à da Matrix, 
Neo sempre desconfiou de que a realidade não era tal 
como se apresentava. Essa interrogação o levou a vas­
culhar os circuitos internos da máquina (tanto assim que 
ela começou a persegui-lo como alguém perigoso), e 
foram suas incursões secretas que o fizeram ser desco­
berto por Morfeu, líder dos que lutam contra a Matrix. 
Por que comparar Neo e Sócrates? Por que o "ousa 
conhecer", dirigido a Neo, em Matrix, e o "conhece-te a 
ti mesmo", no templo de Delfos, podem ser comparados? 
Sócrates é considerado o "patrono da filosofia" 
porque jamais se contentou com as opiniões estabe­
lecidas, com os preconceitos de sua sociedade, com as 
crenças inquestionadas de seus conterrâneos. Ele cos­
tumava dizer que um espírito interior o levava (como 
Morfeu instigando Neo) a desconfiar das aparências e 
a procurar a realidade verdadeira das coisas. 
Sócrates andava pelas ruas de Atenas fazendo per­
guntas aos conterrâneos: "O que é isso em que você 
acredita?", "O que é isso que você está dizendo?", "O 
que é isso que você está fazendo?". Os atenienses acha­
vam, por exemplo, que sabiam o que era a justiça. Mas, 
diante das perguntas de Sócrates, ficavam embaraça­
dos e confusos, chegando à conclusão de que não sa-
biam o que era a justiça. Os atenienses acreditavam 
que sabiam o que eram a bondade, a beleza, a verdade, 
a coragem, mas um prolongado diálogo com Sócrates 
os fazia perceber que não sabiam o que era aquilo em 
que acreditavam. 
A pergunta "O que é?" suscitava o questionamento 
sobre a realidade essencial e profunda de uma coisa 
para além das aparências e contra elas. Com essa per­
gunta, Sócrates levava os atenienses a descobrir a di­
ferença entre parecer e ser, e entre mera crença ou opi­
nião e verdade. 
Sócrates era filho de uma parteira. Ele dizia que, 
assim como sua mãe, ele também era um parteiro, mas 
que ajudava não no nascimento de corpos, e sim de 
almas, auxiliando as mentes a libertar-se das aparências 
e a buscar a verdade. 
Como os combates de Neo, os combates socráticos 
eram também mentais ou de pensamento. E enfurece­
ram de tal maneira os poderosos de Atenas que Sócra­
tes foi condenado à morte por ingestão de veneno, 
acusado de espalhar dúvidas sobre as ideias e os valores 
atenienses e, com isso, corromper os jovens. 
Receio muito que, neste momento em que a mor­
te é tudo, não me haja com o filósofo ou amigo da 
sabedoria, como se dá com os indivíduos muito igno­
rantes. Estes tais, quando debatem algum tema, não 
se preocupam absolutamente de saber como são, de 
fato, as coisas a respeito de que tanto discutem, senão 
em deixar convencidos os circunstantes de suas pró­
prias asserções. 
Sócrates, no diá logo Fédon (escrito por P latão), i nsta ntes a ntes de 
c u m p ri r sua pena. O texto comp leto do d iá logo Fédon pode 
ser encontrado em: <www.domin iopu b l ico.gov. b r/ 
down load/texto/cv000031 .pdf>. Acesso em: 29 set. 2015. 
A morte de Sócrates, pintura de 
Jacques-Louis David feita em 1787, 
que se encontra atualmente no 
Museu de Arte Metropolitano de 
Nova York, nos Estados Unidos. Ao 
final de seu ju lgamento, Sócrates é 
condenado à morte pela ingestão 
de um veneno chamado cicuta, 
conforme narra o diálogo Fédon, 
escrito por Platão. 
A atitude fi losófi ca 0 
O Mito da Caverna 
Podemos também fazer um paralelo entre a traje­
tória de Neo no interior da Matrix e um dos mais céle­
bres escritos do filósofo Platão (427 a.C.-347 a.e.), discí­
pulo de Sócrates. Essa passagem encontra-se na obra 
intitulada A república (e. 380 a.e.) e é conhecida como 
o Mito da Caverna. 
Imaginemos uma caverna separada do mundo ex­
terior por um muro baixo. Entre esse muro e o teto da 
caverna há uma fresta por onde passa alguma luz ex­
terna, evitando que o interior fique na obscuridade 
completa. Desde seu nascimento, geração após gera­
ção, seres humanos estão acorrentados ali, sem poder 
mover a cabeça na direção da entrada nem se locomo­
ver até ela, vivendo sem nunca ter visto o mundo exte­
rior nem a luz do Sol. Estão quase no escuro. 
Dentro da caverna, perto do muro, um fogo ilumina 
vagamente o interior sombrio e faz com que as coisas 
que se passam na fresta sejam projetadas como som­
bras nas paredes do fundo da caverna (pensemos na 
caverna como se fosse uma sala de cinema e o fogo, a 
luz de um projetor de filmes). 
Nessa fresta, pessoas passam conversando e car­
regando nos ombros figuras ou imagens de homens, 
mulheres, animais, cujas sombras são projetadas na 
parede da caverna. Nunca tendo visto o mundo exterior, 
os prisioneirosjulgam que as sombras das pessoas, das 
coisas transportadas e os sons das falas das pessoas 
são as próprias coisas externas. Ou seja, não percebem 
que são sombras e julgam que elas são seres vivos que 
se movem e falam. 
Os prisioneiros se comunicam, dando nome às coi­
sas que julgam ver, e imaginam que o que escutam são 
as vozes das próprias sombras e não dos seres humanos 
que se encontram do lado de fora do muro. Qual é, pois, 
a situação dessas pessoas aprisionadas? Tomam som­
bras por realidade. Mas isso não poderia ser diferente 
se elas fossem libertadas dessa situação miserável? 
Um dos prisioneiros, inconformado com essa condi­
ção, fabrica um instrumento para quebrar os grilhões. 
De início, move a cabeça; depois, o corpo todo; a seguir, 
avança em direção à saída da caverna e escala o muro. 
Enfrentando as durezas de um caminho íngreme e difícil, 
sai da caverna. No primeiro instante, enche-se de dor por 
causa dos movimentos que seu corpo realiza pela pri­
meira vez e pelo ofuscamento de seus olhos pela lumi­
nosidade do Sol, com a qual não está acostumado. Sen­
te-se dividido entre a incredulidade e o deslumbramento. 
Incredulidade, porque será obrigado a decidir sobre 
onde se encontra a realidade: no que vê agora ou nas 
sombras em que sempre viveu? Deslumbramento (pa­
lavra que significa: 'ferido pela luz' ), porque seus olhos 
não conseguem ver com nitidez as coisas iluminadas. 
Seu primeiro impulso é retornar à caverna para li­
vrar-se da dor e do espanto, pois a escuridão lhe parece 
mais acolhedora. Como precisa aprender a ver, e esse 
aprendizado é doloroso, desejará a caverna, onde tudo 
lhe é familiar e conhecido. 
Aos poucos, porém, habitua-se à luz e começa a ver 
o mundo. Encanta-se, tem a felicidade de finalmente 
ver as coisas como elas realmente são, descobrindo que 
estivera prisioneiro a vida toda e que em sua prisão 
vira apenas sombras. A partir desse instante, desejará 
ficar longe da caverna para sempre e lutará com todas 
as suas forças para jamais retornar a ela. Porém, toma 
---------� � a difícil decisão de regressar ao subter-
't# ª 
0 Capítulol 
! râneo sombrio para contar aos demais 
.� o que viu e convencê-los a se liberta-
� rem também. 
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O que lhe acontece nesse retorno? 
Os demais prisioneiros riem-se dele, 
não acreditando em suas palavras, e 
seriam capazes de fazer pior caso ele 
insistisse nelas. Mas, quem sabe, al­
guns poderão ouvi-lo e, contra a von­
tade dos demais, também decidir sair 
da caverna rumo à realidade? 
Representação visual do 
Mito da Caverna. 
Um d iá logo fi losófico 
O que são os gr i l hões e as correntes? 
Nossos p reconce itos e op in iões, 
nossa crença de que o que 
percebemos é a rea l i dade . 
Qua l é o instrumento q u e l i berta o 
pri s ione i ro rebe l d e e com o qu a l e l e 
deseja l i berta r os outros? 
A fi losofi a . 
1 1 
- - �--- - -- _,. 
2 
Quem é o pris ioneiro q ue se l i berta 
e sai da caverna? 
O que é o mundo i l um inado pe lo 
sol da ve rdade? 
Quem é o homem que sa i da caverna? 
Voltando ao exemplo do fi lme: a Matrix é a caverna e Neo é o Sócrates moderno. Neo 
e Sócrates são combatentes que apostam na l iberdade e na verdade. 
Quadrinhos da história As sombras de vida, 
de Maurício de Sousa. Tal como o 
protagonista do Mito da Caverna, o 
personagem Piteco busca convencer os 
outros de que aquilo que veem não é a 
realidade em si. 
A atitude filosófica 0 
Felicidade e satisfacão 
Tanto a alegoria d e Platão como [ o f i lme] Matr ix Levantam a questão da 
felicidade, com a estrutura mais ampla da relação entre nossa experiência ou 
estado de espírito subjetivo e a realidade. É uma tese platônica que a verda­
deira Liberdade e a felicidade dependem do conhecimento do que é real; se­
gundo essa visão, uma pessoa pode ter a ilusão de ser Livre e feliz, mas ser 
de fato um escravo e infeliz. Essa mesma pessoa pode estar completamente 
enganada ao atribuir a si p rópria a felicidade, usando a frase: "Sou feliz". 
A felicidade deve ser semelhante ao conceito de saudável; também pode 
estar enganado quem diz "sou saudável", ainda que se sinta, pelo menos 
no momento, extremamente saudável, e não tem consciência [ . . . ] de um 
câncer não detectado. A tese é que a felicidade, a reflexão sobre o "eu " 
p róprio e o mundo objetivo são inseparáveis. De modo semelhante, 
Matrix obviamente tem muito a ver com a questão do relacionamento Platão, cabeça em mármore, 
século I a.e. entre nosso senso subjetivo do "eu " (eu sou Livre, sou feliz) e a "realida-
de" das experiências que estamos vivendo. 
GR I SWOLD J R., Cha rles L. Fel icidade e esco l ha de Cypher : a ignorâ ncia é fe l icidade? ln : I RW IN , Wi l l ia m (O rg.). 
Matrix: bem-vi ndo ao deserto do rea l . São Pau lo: Madras, 2002. p. 1 58-159. 
Após le r o texto com atenção, reúna-se em um grupo peq ueno de colegas e responda : 
1 . O q ue ser ia um "estado de espí rito s ubjetivo"? Em que ele ser ia d ife re nte da rea l idade? 
2. Pa ra Platão, o que ser ia necessá rio pa ra a verdadei ra fe l icidade? Loca l ize essa i nformação no texto. 
Nossas crencas costumeiras 
Em nossa vida cotid i a na, afi rmamos, negamos, de­
sejamos, ace itamos ou recusamos co isas, pessoas, s i ­
tuações. Fazemos pergu ntas, como "Que horas são?", 
ou "Que d i a é hoje?". D izemos frases, como "E le está 
son hando", ou "E l a fi cou ma l uca". Fazemos afi rmações, 
como "Onde há fumaça há fogo", ou "Não sa ia na chu­
va pa ra não se resfr ia r". Ava l i a mos co isas e pessoas, 
d izendo, por exemp lo, "Esta casa é ma is bon ita do que 
a outra" e "Ma r ia está ma i s jovem do que G lor i n ha". 
N uma d isputa, q uando os ân imos estão exa ltados, 
um dos oponentes pode grita r ao outro: "Menti roso! 
Eu estava lá e não foi isso o que aconteceu", e a lguém, 
que rendo aca lmar a br iga, pode d ize r: "Vamos pôr a 
ca beça no l uga r, cada um seja bem objetivo e d iga o 
que viu, porque ass im todos poderão se entender". 
Também é comum ouvi rmos os pa is e am igos d i ­
ze rem que, quando o assunto é o namorado ou a na ­
morada, não somos ca pazes de ve r as co isas como e l a s 
são, que vemos o que n i nguém vê e não vemos o que 
todo mundo está vendo. Dizem q ue somos "mu ito sub ­
jetivos". Ou, como d iz o d itado, que "q uem ama o fe io, 
bon ito l he pa rece". 
0 Capítulol 
Freq uentemente, q uando ap rovamos uma pessoa, 
o que ela d i z, como age, d izemos que ela "é lega l ". 
Vejamos um pouco ma is de pe rto o que d izemos 
em nosso cot id ia no. 
Qua ndo pergu nto "Que horas são?" ou "Que dia é 
hoje?", m inha expectativa é a de que a lguém, tendo um 
re lógio ou um ca lendá r io, me dê a resposta exata. Em 
q ue acred ito quando faço a pergu nta e aceito a respos­
ta? Acred ito q u e o tem po existe, q ue e l e passa, q u e 
pode s e r med ido em horas e d ias, que o que j á passou 
é d ife rente de agora e o q ue vi rá ta mbém há de ser 
d ife rente deste momento, que o passado pode ser l em­
brado ou esquec ido, e o futu ro, desejado ou tem ido. 
Assim, u ma sim ples pergu nta contém, silenciosamente, 
vá r ias crenças. 
Por que crenças? Porq ue são co isas ou ide ias em 
que acred itamos sem quest iona r, que aceitamos por­
que são óbvias, evidentes. Afi na l, quem não sabe que 
ontem é d ife rente de amanhã, que o d i a tem horas e 
que e las passam sem cessa r? 
Quando d igo "e l e está son hando" pa ra me refe r i r 
a a lguém que está a cordado e d i z ou pensa a lguma 
coisa q ue ju lgo im possíve l ou imp rováve l , tenho igua l ­
mente m u itas crenças s i l e nc iosas : ac red ito q u e so­
nhar é d i fe re nte de esta r acordado ; que, no son ho, o 
i mpossíve l e o imp rováve l se ap rese nta m como pos­
síve l e p rováve l ; e ta mbém que o son ho se re l ac iona 
com o i r rea l , enqua nto a vigí l i a se re lac iona com o que 
ex iste rea l mente. Acred ito, porta nto,que a rea l i dade 
ex iste fo ra de m im e que posso percebê- la e co n he­
cê- l a ta l com o é; po r i sso, cre io q u e se i d ife ren c ia r 
rea l i dade de i l usão. 
A frase "E la f icou ma l uca" contém essas mesmas 
crenças e mais uma : a de que sabemos d ife renc ia r a 
saúde menta l da loucu ra ; q u e a sa n i dade menta l se 
chama razão, q u e a razão se refe re a u ma rea l i dade 
comum a todos, e que ma luca é a pessoa que perde a 
razão e i nventa uma rea l idade existente só pa ra e la . 
Quando a lguém d iz "onde há fumaça há fogo" ou 
"não sa ia na ch uva pa ra não se resfr ia r", afi rma s i l en ­
ciosamente mu itas crenças : acred ita q u e existem re la ­
ções de ca usa e efe ito entre as coisas; que, se há uma 
coisa, ce rtamente houve uma ca usa pa ra e la, ou que 
essa co isa é ca usa de a l guma out ra (o fogo é ca usa e a 
fumaça é seu efe ito; a ch uva é ca usa do resfr iado ou o 
resfr iado é efe ito da chuva). Acred itamos, ass im, que 
as co isas, os fatos, as s ituações se encade iam em re la­
ções de ca usa e efeito que podem ser con hecidas e, até 
mesmo, contro ladas por nós . 
Quando d i zemos que uma casa é mais bon ita do 
q u e a o ut ra, ou q u e Mar i a está ma i s jovem do que 
G l or i n ha, ac red ita mos que as co isas, as pessoas, a s 
s i tuações, o s fatos podem se r compa rados e ava l i a ­
dos, j u lgados por sua q ua l i d ade (bon ito, fe io, bom, 
ru im, jovem, ve l ho, engraçado, t r i ste, l i m po, sujo) ou 
por s ua q u a nt i dade (m u ito, pou co, m a is, m e n os, 
ma io r, meno r). C remos, ass im, q ue as q u a l i dades e as 
q ua nt i dades ex istem , q u e pod e m os con hecê- l a s e 
usá- l as em nossa vi da . 
Se d isséssemos, por exemp lo, que "o So l é ma ior 
d o q u e o vemos", m a n ifesta ría m os a cre n ça d e q u e 
nossa percepção a lca nça a s co isas d e modos diferentes: 
às vezes tais como são em s i mesmas (a fo l ha deste 
l ivro, bem à nossa frente, é perceb ida como b ranca e, 
de fato, e la o é), outras vezes ta i s como nos pa recem 
(o So l, d e fato, é ma ior d o q u e o d isco dou rado q u e 
vemos ao longe). Ass im, a percepção depende r ia da 
d istâ ncia, d e n ossas cond ições d e v is i b i l idade ou da 
l oca l ização e do movimento dos objetos. Po r isso acre­
d itamos que podemos ver as coisas d ife rentemente do 
que e las são, mas nem por isso d i remos que estamos 
sonhando ou que ficamos ma l ucos. Acred itamos, tam­
bém, que essas co isas e nós ocupa mos l uga res no es­
paço e, po rta nto, cre m os q u e este existe, pode se r 
d i fe renc iado (pe rto, longe, a lto, ba ixo) e med ido (com­
pr i mento, l a rgu ra, a ltu ra). 
fase (1982}, coreografia de Anne Teresa de Keersmaeker (1960-), apresentada em Londres, Inglaterra, em 2006. Acreditamos que nossa 
percepção é capaz de diferenciar objetos de suas sombras, que sombras são causadas pela incidência de luz sobre algo e que o formato e 
opacidade dessas sombras serão diferentes conforme a intensidade da luz e o ângulo em que esta incide. 
A atitude filosófica 0 
Nossa crenca na liberdade 
Na briga, quando alguém chama o outro de men­
tiroso porque não estaria dizendo os fatos exatamen­
te como eles aconteceram, está presente a nossa 
crença de que há diferença entre verdade e mentira. 
A primeira diz as coisas tais como são, a segunda faz 
o contrário, distorce a realidade. No entanto, consi­
deramos a mentira diferente do sonho, da loucura e 
do erro, porque o sonhador, o louco e o que erra se 
iludem involuntariamente, enquanto o mentiroso 
deforma a realidade voluntariamente. 
Com isso, acreditamos que o erro e a mentira são 
falsidades de ordens diferentes, porque somente na 
mentira há a decisão de falsear. 
Ao diferenciarmos erro de mentira, considerando 
o primeiro uma ilusão ou um engano involuntários e 
a segunda uma decisão voluntária de enganar al­
guém, manifestamos silenciosamente a crença de 
que somos seres dotados de vontade e que dela de­
pende dizermos a verdade ou a mentira. 
Crer e conhecer 
Quando, na briga, uma terceira pessoa pede às outras 
duas que "ponham a cabeça no lugar" e sejam "objeti­
vas", ou quando falamos que os namorados são incapa­
zes de ver as coisas como são, que são "muito subjeti­
vos", também manifestamos várias crenças silenciosas. 
De fato, acreditamos que, quando alguém defende 
muito intensamente um ponto de vista, uma preferên­
cia, uma opinião e é até capaz de brigar por isso, pode 
"perder a objetividade" e se deixar guiar apenas pelos 
seus sentimentos. Da mesma maneira, acreditamos 
que os apaixonados se tornam incapazes de ver as coi­
sas como são, de ter uma "atitude objetiva". 
Em que acreditamos, então? Acreditamos que a 
objetividade se caracteriza por uma atitude imparcial 
na percepção e compreensão das coisas, enquanto a 
subjetividade se caracterizaria por uma atitude parcial, 
pessoal, ditada por sentimentos variados (amor, ódio, 
medo, desejo). 
Assim, não só acreditamos que a objetividade e a 
subjetividade existem, como ainda acreditamos que 
são diferentes: que a primeira percebe perfeitamente 
a realidade, enquanto a segunda, voluntária ou invo­
luntariamente, a deforma. 
Ao dizermos que alguém "é legal" porque tem os 
mesmos gostos, as mesmas ideias, porque respeita ou 
0 Capítulol 
Ao mesmo tempo, porém, nem sempre avaliamos 
a mentira como uma coisa ruim: não gostamos de ler 
romances, ver novelas, assistir a filmes? E não são men­
tira? É que também acreditamos que, quando alguém 
nos avisa que está mentindo, a mentira é aceitável, não 
seria uma mentira "pra valer". Distinguimos, portanto, 
entre a ficção e a mentira deliberada. 
Quando distinguimos verdade de mentira e dis­
tinguimos mentiras inaceitáveis de mentiras aceitá­
veis, não estamos apenas nos referindo ao conheci­
mento ou desconhecimento da realidade, mas 
também ao caráter da pessoa. Acreditamos, portan­
to, que as pessoas, porque possuem vontade, podem 
ser morais ou imorais, pois cremos que a vontade é o 
poder de escolher entre o bem e o mal. E, sobretudo, 
acreditamos que exercer tal poder é exercer a liber­
dade, pois acreditamos que somos livres porque es­
colhemos voluntariamente nossas ações, nossas 
ideias, nossos sentimentos. 
despreza as mesmas coisas que nós e tem atitudes, 
hábitos e costumes muito parecidos com os nossos, 
temos outra crença silenciosa. Estamos acreditando 
que a vida com as outras pessoas nos faz semelhantes 
ou diferentes em decorrência de normas e valores mo­
rais, políticos, religiosos e artísticos, regras de conduta, 
finalidades de vida. 
Acha mos óbvio que todos os seres humanos seguem 
regras e normas de conduta, possuem valores morais, 
religiosos, políticos, artísticos, vivem na companhia de 
seus semelhantes e procuram distanciar-se dos diferen­
tes, ou seja, daqueles com os quais entram em conflito. 
Afinal, em que acreditamos? Acreditamos que so­
mos seres sociais, morais e racionais, pois regras, nor­
mas, valores só podem ser estabelecidos por seres 
conscientes e dotados de raciocínio. 
Como se pode notar, nossa vida cotidiana é toda 
feita de crenças silenciosas, da aceitação de coisas e 
ideias que nunca questionamos porque nos parecem 
naturais, óbvias. Cremos na existência do espaço e do 
tempo, na realidade exterior e na diferença entre rea­
lidade e sonho, assim como na diferença entre saúde 
mental/razão e loucura. Cremos na existência das qua­
lidades e das quantidades. Cremos que somos seres 
racionais capazes de conhecer as coisas e por isso acre-
ditamos na existência da verdade e na diferença entre 
verdade e mentira; cremos também na objetividade e 
na diferença entre ela e a subjetividade. 
Cremos na existência da vontade e da liberdade e 
por isso cremos na existência do bem e do mal, crença 
que nos faz aceitar como perfeitamente natural a exis­
tência da moral e da religião. 
Cremos também que somos seres que naturalmen­te precisam de seus semelhantes e por isso tomamos 
como um fato óbvio e inquestionável a existência da 
sociedade com suas regras, normas, permissões e proi­
bições. Haver sociedade é, para nós, tão natural quan­
to haver Sol, Lua, dia, noite, chuva, rios, marés, céu e 
florestas. 
Placas indicando a separação entre cidadãos da União Europeia e demais viajantes, no controle de imigração do aeroporto de Londres, Reino 
Unido, foto de 2014. As regras e convenções da sociedade baseiam-se em crenças silenciosas. 
E se não for bem assim? 
Quando, em Matrix, Neo pergunta "Onde esta­
mos?", Morfeu lhe diz que a pergunta correta seria 
"Quando estamos?". Ou seja, Neo pergunta pela reali­
dade espacial - onde -, mas teria de perguntar pela 
realidade temporal - quando -, pois acredita estar vi­
vendo em 1999. 
Ao revelar-lhe que estão vivendo no século XXI, 
Morfeu pode mostrar a Neo onde eles realmente vi­
vem: num mundo destruído e arruinado, vazio de coisas 
e de pessoas, pois todos os seres humanos estão apri­
sionados no interior da Matrix. O que Neo julgava ser 
o mundo real é pura ilusão e aparência. 
Para que Neo compreenda o que se passa, Morfeu 
(como na mitologia grega) faz com que, de maneira 
veloz e incessante, tudo mude de forma, cor, tamanho, 
lugar e tempo, de tal modo que Neo tenha de pergun­
tar se o espaço e o tempo de fato existem. 
Quando é levado ao oráculo, Neo presencia fatos 
surpreendentes, como uma criança entortando e de­
sentortando uma colher sem tocar nela. Perante sua 
surpresa, a criança lhe diz simplesmente: "A colher não 
existe". Neo está diante de uma contradição entre visão 
e realidade: o que ele vê não existe e o que existe não 
é visto por ele. 
Diante da perplexidade de Neo, o oráculo lhe mos­
tra a inscrição sobre a porta - "Ousa conhecer". Assim, 
indica-lhe que, antes de tentar resolver os enigmas do 
mundo externo, será mais proveitoso que comece com­
preendendo-se a si mesmo. 
Quantas vezes não passamos por situações desse 
tipo, que nos levam a desconfiar ora das coisas, ora de 
nós mesmos, ora dos outros? 
Cremos que o tempo existe e transcorre sem de­
pender de nós, e cremos que podemos medi-lo com 
instrumentos, como o relógio e o cronômetro. No en­
tanto, quando estamos à espera de alguma coisa mui­
to desejada ou de alguém muito querido, o tempo pa­
rece não passar; olhamos para o relógio e nele o tempo 
está passando, sem corresponder ao nosso sentimento 
de que está quase parado. 
A atitude filosófica 0 
Ao contrário, se estamos num passeio com amigos 
ou em outra situação de muita satisfação, o tempo 
passa velozmente, ainda que o relógio mostre que se 
passaram várias horas. 
Vemos que o Sol nasce a leste e se põe a oeste; que 
sua presença é o dia e sua ausência é a noite. Nossos olhos 
nos fazem acreditar que o Sol se move à volta da Terra e 
que esta permanece imóvel. No entanto, a astronomia 
demonstra que não é isso que acontece. A Terra é um 
planeta num sistema cuja estrela central se chama Sol e, 
juntamente com outros planetas, se move à volta do Sol. 
Além desse movimento de translação, ela ainda 
realiza outro, o de rotação em torno de seu eixo invisí­
vel. O primeiro explica a existência do ano e o segundo, 
a do dia e da noite. Assim, há uma contradição entre 
nossa crença na imobilidade da Terra e a informação 
astronômica sobre os movimentos terrestres. 
Momentos de crise 
Esses conflitos entre nossas crenças e um saber 
estabelecido indicam a principal circunstância em que 
somos levados a mudar de atitude. Quando uma cren­
ça contradiz outra ou parece incompatível com outra, 
ou quando aquilo em que sempre acreditamos ou a que 
sempre obedecemos é contrariado por outra forma de 
conhecimento ou por nosso desejo de liberdade, entra­
mos em crise. 
Algumas pessoas se esforçam para fazer de conta 
que não há nenhum problema. Outras, porém, sentem-se 
0 Capítulol 
Esses exemplos assemelham-se às experiências e 
desconfianças de Neo: por um lado, tudo parece cer­
tinho e como tem de ser; por outro, parece que tudo 
poderia estar errado ou ser ilusão. Temos a crença na 
liberdade, mas somos dominados pelas regras de nos­
sa sociedade. Temos a experiência do tempo parado 
ou do tempo ligeiro, mas o relógio não a comprova. 
Temos a percepção do Sol em movimento à volta da 
Terra, mas a Astronomia nos ensina o contrário. 
Cremos que nossa vontade é livre para escolher entre 
o bem e o mal. Cremos também na necessidade de obe­
decer às normas e às regras de nossa sociedade. Porém, 
o que acontece quando nossa vontade nos indica que é 
bom fazer ou querer algo que nossa sociedade proíbe ou 
condena? Ou, ao contrário, quando nossa vontade julga 
que será um mal e uma injustiça querer ou fazer algo que 
nossa sociedade exige ou obriga? 
impelidas a indagar qual é a origem, o sentido e a rea­
lidade de nossas crenças e de nossos desejos. 
É assim que as experiências do tempo parado e 
do tempo veloz e a do tempo marcado pelo relógio 
nos levam a indagar: "Como é possível que haja du­
as realidades temporais diferentes, a marcada pelo 
relógio e a vivida por nós?", "Qual é o tempo real e 
verdadeiro?". Para responder a essas perguntas, é 
preciso fazer uma pergunta mais profunda: "O que 
é o tempo?". 
Da mesma maneira, a diferença 
entre nossa percepção da imobilidade 
da Terra e mobilidade do Sol e o que 
ensina a Astronomia leva-nos a per­
guntar: "Se não percebemos os mo­
vimentos da Terra e se nossos olhos 
se enganam tão profundamente, será 
que poderemos sempre confiar em 
nossa percepção visual ou deveremos 
sempre desconfiar dela?", "Será que 
percebemos as coisas como realmen­
te são?". 
Planisfério do sistema heliocêntrico elaborado 
pelo astrônomo e matemático polonês N icolau 
Copérnico para seu livro Sobre as revoluções das 
órbitas celestes(1543). Ao defender a tese de 
que era a Terra que girava em torno do Sol, 
e não o contrário, Copérnico desafiou as 
crenças de sua época. 
Para responder a essas perguntas, precisamos fazer 
duas outras, mais profundas: "O que é perceber?" e "O 
que é realidade?". 
É assim também que o conflito entre minha von­
tade e as regras de minha sociedade me levam à se­
guinte questão: "Sou livre quando sigo minha vontade 
ou quando sou capaz de controlá-la e aceitar as regras 
de minha sociedade?". Ora, para responder a essa ques­
tão precisamos fazer outras perguntas, mais profundas. 
Temos de perguntar: "O que é a liberdade?", "O que é a 
vontade?", "O que é a sociedade?", "O que são o bem e 
o mal, o justo e o injusto?". 
O que está por trás de todas essas perguntas? 
Uma mudança de atitude. Quando o que era objeto 
de crença aparece como algo contraditório ou proble­
mático e, por isso, se transforma em indagação ou 
interrogação, passamos da atitude costumeira à ati ­
tude filosófica. 
Essa mudança de atitude indica que quem não se 
contenta com as crenças ou opiniões preestabelecidas, 
quem percebe contradições e incompatibilidades entre 
elas, quem procura compreender o que elas são e por 
que são problemáticas está exprimindo um desejo, o 
desejo de saber. E é exatamente isso o que, na origem, 
a palavra filosofia significa, pois, em grego, phi/osophía 
quer dizer 'amor à sabedoria'. 
Buscando a saída da caverna ou a atitude fi losófica 
Imaginemos, então, alguém que tomasse a decisão 
de não aceitar as opiniões estabelecidas e começasse 
a fazer perguntas que os outros julgam estranhas e 
inesperadas. Em vez de "Que horas são?" ou "Que dia 
é hoje?", perguntasse: "O que é o tempo?". Em vez de 
dizer "Está sonhando" ou "Ficou maluca", quisesse sa­
ber: "O que é o sonho, a loucura, a razão?". 
Suponhamos que essa pessoa fosse substituindo suas 
afirmações por perguntas e, em vez de dizer "Onde há 
fumaça, há fogo" ou "Não saia na chuva para não ficar 
resfriado", perguntasse "O que é causa?", "O que é efeito?". 
Ou se, em lugar de dizer "Seja objetivo" ou "Eles são muito 
subjetivos", perguntasse "O que é a objetividade?", "O que 
é a subjetividade?"; e ainda,se, em vez de afirmar "Esta 
casa é mais bonita do que a outra", perguntasse "O que é 
o mais?", "O que é o menos?", "O que é o belo?". 
Se, em vez de gritar "Mentiroso!", questionasse: "O 
que é a verdade?", "O que é o falso?", "O que é o erro?", 
"Quando existe verdade e por quê?", "Quando existe 
ilusão e por quê?". 
Se, em vez de falar na subjetividade dos namorados, 
indagasse: "O que é o amor?", "O que é o desejo?", "O 
que são os sentimentos?". 
Se, em lugar de discorrer tranquilamente sobre 
"maior" e "menor" ou "claro" e "escuro", resolvesse in­
vestigar: "O que é a quantidade?", "O que é a qualidade?". 
E se, em vez de afirmar que gosta de alguém porque 
compartilha com essa pessoa as mesmas ideias, gostos, 
preferências e valores, preferisse analisar: "O que é um 
valor?", "O que é um valor moral?", "O que é um valor 
artístico?", "O que é a moral?", "O que é a vontade?", "O 
que é a liberdade?". 
Alguém que tomasse essa decisão estaria se dis­
tanciando da vida cotidiana e de si mesmo, pois estaria 
indagando o que são as crenças e os sentimentos que 
alimentam, silenciosamente, nossa existência. 
Ao tomar essa distância, estaria interrogando a si 
mesmo, desejando conhecer por que cremos no que 
cremos, por que sentimos o que sentimos e o que são 
nossas crenças e nossos sentimentos. Esse alguém es­
taria começando a ousar conhecer e a cumprir o que 
dizia o oráculo de Delfos: "Conhece-te a ti mesmo". E 
estaria adotando a atitude filosófica. 
Assim, uma primeira resposta à pergunta "O que 
é filosofia?" poderia ser: "A decisão de não aceitar como 
naturais, óbvias e evidentes as coisas, as ideias, os fatos, 
as situações, os valores, os comportamentos cotidia­
nos; jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado 
e compreendido". 
A atitude fi losófi ca 0 
Conexões 
Esta at iv idade tra ba l ha com conteúdos d e F i losofia , H i stó r ia e Língua Portuguesa . 
As h i stórias em quad ri n hos estão rep l etas d e personagens que podemos chamar d e cabeças filosóficas, porq u e 
n ão aceita m as op i n iões do senso com u m e são "pergu ntade i ras". Veja a segu i r d uas de las : a Mafa l da, de Qu i no, 
e o Arma nd i nho, d e A lexa ndre Beck. 
Mafalda, do cartunista argentino Quino. 
iNSETiCiDA 
POR QUÊ?! 
\ 
\ FiLHO, ESSA 
ARANHA PODE 
SER PER:iGOSA! 
/\ CONHEc;o AS 
SUAS PERGUN­
TAS ! ELAS SE'M· 
PRE ME C� IAM 
PROBLEMAS ! 
QUAL A 
ACUSAÇÃO 
CONTRA ELA? 
\ 
NÓS PODEMOS 
SER P�iGOSOS! 
\ 
ALÉM DiSSO, 
ARANHA NEM É 
iiNSETO ! 
\ 
ESSA LATA OE 
VENENO É MUiTO 
PER iGOSA! 
\ 
Armandinho, do 
cartunista 
brasileiro 
------------�---- Alexandre Beck. 
1 . Com base nos quadrin hos, responda : como Mafa lda e Armand inho questiona m opin iões e atitudes do senso comum? 
2 . Movimentos cu l tu ra i s (como o punk) e soci a i s (como o movi mento negro) q uestiona m ideo logia s e normas de 
com porta mento dom i na ntes. Mu itos de les são fo rmados p ri n ci pa lmente por jovens . Faça uma pesq u isa sob re 
u m desses movi mentos de contestação e sob re o contexto em que e l e se i n se re. Nessa pesq u isa : 
a) identifique os fato res h istó ricos, socioeconôm icos e geopol íticos que motiva ra m a fo rmação desse movimento; 
b) re lac ione os dados de sua pesqu isa com a crença s i l e nciosa de que a vi da com as o utras pessoas nos faz se­
me l ha ntes ou d ife rentes em decorrê n cia de no rmas e va lo res mora is, po l ít i cos, re l i gi osos e a rtísticos, e ntre 
outros fato res. 
3. Escreva um peq ueno texto com os passos da pesquisa fe ita na atividade a nte r ior e suas conc lusões. Depois, leve-o 
pa ra d iscussão em sa la de a u la . 
0 Capítulol 
1 . Você assisti u ao p r ime i ro fi lme da sér ie Matrix? S e 
s im, responda : que pa ra l e los podemos esta be lece r 
e ntre a pe rsonagem Neo e o fi l ósofo Sócrates? 
2. Por q ue Sócrates é co nside rado o "patrono da fi­
losofia"? 
3. O que P latão qu i s representa r no M ito da Cave rna? 
Faça uma re lação e ntre o m ito e o fi lme Matrix. 
l n d i cacões 
Janela da alma 
• Direção de Wa lter Ca rva lho e João Jard im. Brasi l , 2002. 
Ao reun i r depoimentos de pessoas q ue têm a lgu m prob le­
ma ou defic iênc ia v i sua l , o documentár io trata de q uestões 
como a a preensão da rea l i dade e a satu ração de imagens e 
a pa rênc ias no mundo. Entre os entrevista dos, estão o escr i ­
tor português José Saramago (1 922-2010), o mú s ico bras i l e iro 
He rmeto Pascoa l (1 936-) e o fotógrafo franco-es loveno Eu ­
gen Bavcar (1946-), q u e é cego. 
O turista 
• Direção de Florian Hencke l von Donnersmarck. Estados 
Un idos/França/Itá l ia, 2010. 
Viaja ndo sozi n ho, o professor Fra n k Tupe lo se enca nta com 
a bela E l i se Cl ifton -Wa rd . A pr in c íp io, porém, ela se envol ­
ve com Fra n k apenas porque u m ex-amante l h e ped iu pa ra 
desp istar po l i c i a i s que o perseguem : o crim i noso passou por 
c i ru rg ias p lást icas e deseja que creiam que aque l e homem 
é e le . No enta nto, a trama se torna m u ito ma i s comp l exa, e 
todos reve l am não ser o que pa recem . 
Cidade das sombras 
• Direção de Gi l Kenan. Estados Un idos, 2008. 
Neste fi lme i n s p i rado no Mito da Caverna de Platão, a amea ­
ça de u m apoca l i pse leva a popu l ação da Terra a viver em 
uma á rea s ubterrânea . Com o passa r dos sécu l os, a m em ória 
do mundo exter ior perde-se, e a popu lação se res igna com 
um cotid i ano regrado e satisfatório. Quando a capac idade de 
sobrev iver nessas cond i ções se mostra ameaçada , dois ado­
lescentes buscam descobr i r a verdade . 
Felicidade clandestina 
• Escrito por C la rice Lispector. Rocco, 1998. 
4. Exp l i que o que são as nossas crenças costume i ras . 
Dê outros exe m p los de crenças que reprod uz imos 
no cotid i a no. 
5. De aco rdo com o que fo i estudado no ca pítu lo, em 
que momento passa mos da atitude costu me i ra à 
atitude fi losófica? 
O escritor português José Saramago em cena do documentário 
Janela da alma. 
Elise (Angelina Jolie) e Frank (Johnny Depp), em cena de 
O turista (Z0l0). 
Nesta comp i l a ção de 25 textos, as personagens quest ion am rad i ca lmente os sent imentos, percepções e re la ções h u m a nas . Crô­
n icas e contos como "O ovo e a ga l i n h a" pa rtem da observa ção s imp les de um objeto para um fluxo de quest ion amentos sobre 
o que e le pode representa r. Outro texto emb lemático é "Os desa stres de Sofia", em que a n a rradora relata como sua re lação de 
a dm i ração e ód io com um professor de infâ n cia a l evou a busca r sua i dentidade e o conhec imento verdade i ro. 
A atitude filosófica 0 
Filosofia e racionalidade 
Podemos d izer que a fi losofia se constitu i q uando os 
seres humanos começam a exigi r provas e j ust ificações 
racionais que va l idem ou inva l idem as crenças cotidianas. 
Por que rac iona is? Por três motivos: 
• porque raciona l s ign ifica a rgumentado, debatido 
e compreend ido; 
• porq ue rac iona l s ign if ica que, ao a rgumenta r e 
debate r, que remos con hecer as cond ições e os 
A atitude crítica 
A p r ime i ra ca racte ríst i ca da at i tude f i l osóf ica é 
negativa, i sto é, u m d i ze r n ão aos "p ré-conce i tos", 
aos "pré-j u ízos", a os fatos e às i de i a s da expe r i ênc i a 
cot i d i a na , ao q u e "todo mundo d i z e pensa". Em ou ­
t r a s pa l av ras, é toma r d i stâ nc i a d e nossas cre nças 
pa ra pode r i nter roga r q u a i s são suas ca usas e q u a l 
é s e u sent ido . 
A segu nda ca ra cte ríst ica da at itu d e f i l osófica é 
positiva, i sto é, uma i nte rrogação sobre o que são as 
co isas, as ide ias, os fatos, as s ituações, os comporta ­
mentos, os va lores; sobre quem somos. É ta mbém uma 
i nte rrogação sobre o porquê e o como d isso tudo e de 
nós própr ios. 
A face negat iva e a face pos it iva da at itude f i lo ­
sófi ca constitu em o que cha mamos de atitude crítica. 
Por que crít ica? Em gera l, j u lgamos que a pa l avra crí­
tica s ign if ica 'se r do co nt ra', d i ze r que tudo va i ma l ou 
pressu postos de nossos pensamentos e os dos 
outros; 
• porq ue raciona l s ign ifi ca respe ita r certas regras 
de coe rência do pensamento pa ra que um a rgu­
mento ou um debate ten ham sentido. Deste mo­
do, é possíve l chega r a conc lusões que podem ser 
compreend idas, d iscutidas, aceitas e respe itadas 
por outros. 
está errado - enfim , co isa de gente chata ou q u e acha 
que sabe ma i s que os outros. Mas não é i sso q ue essa 
pa lavra que r d izer. 
Crítica p rovém d o grego e tem t rês s e n t i dos 
p r i n c i p a i s : 1 . ca pa c i d ade pa ra j u l ga r, d i sce rn i r e de ­
c i d i r co r reta mente; 2 . exa me rac i o n a l , sem precon­
ce ito e s em p rej u lga m e nto d e todas a s co i sas ; 3 . 
a t iv i d a d e de exa m i n a r e ava l i a r d eta l h a d a m e nte 
uma i d e ia , u m va l o r, u m cost u m e, u m co mpo rta ­
mento, uma ob ra a rtíst i ca o u c i e ntíf i ca . A at it ude 
f i l osóf ica é u m a at i t ude c r ít i ca po rq u e a p rese nta 
esses três s ign if ica dos da noção de c r íti ca . Esta , por 
sua vez, é i nsepa ráve l da noção d e rac i o n a l , que v i ­
mos no i n íc i o deste ca p ít u l o. 
A f i l o sof ia começa d i ze ndo não às c renças e aos 
p reconce itos do d i a a d i a pa ra q u e e l es poss am se r 
ava l i ados r ac i o n a l e c r i t i ca mente. P a ra a f i l osof ia , 
não sabemos o que imag i náva mos sabe r - ou , como 
d i z i a Sócrates (e . 469 a .C . - 399 a .e .), começa mos a 
b usca r o co n he c imento q u a ndo somos ca pazes d e 
d i ze r: " S ó se i q u e n a d a se i ". 
Pa ra P l a tão (427 a . C . -347 a .e .), d i sc íp u l o de Só­
crates, a f i l osof ia começa com a admiração d i a nte 
do m u ndo . J á Ar i stóte l es (384 a .C . -322 a .e . ) , d i scíp u ­
l o d e P l atã o, esc reve q u e a f i l osof ia começa com o 
espanto d i a nte d e t u d o o q u e ex iste e a co ntece . 
Admiração e espanto s ign i fica m q u e recon h ecem os 
nossa igno râ n c i a e, exata mente por i sso, podemos 
s u pe rá - l a . 
A f i l osof i a i n i c i a s ua i nvest igação no i n sta nte 
em q ue a ba ndon amos nossas certezas cot i d i a nas e 
não d i spomos de nada pa ra su bstituí- l as . Ser ia como 
se t i véssemos a c abado de nascer para o m u ndo e 
pa ra nós mesmos e p rec i sássemos pe rgu nta r o que 
é , por que é e como é o m u n d o, e ta m bé m o que 
somos, por que somos e como somos. 
O que é a filosofia? 0 
Em outras palavras, a filosofia se interessa por 
aquele instante em que a realidade natural (o mundo 
das coisas) e a realidade histórico-social (o mundo dos 
seres humanos) tornam-se estranhas, espantosas, in­
compreensíveis e enigmáticas, quando as opiniões es­
tabelecidas já não nos podem satisfazer. 
Ou seja, a filosofia se volta preferencialmente para os 
momentos de crise no pensamento, na linguagem e na 
ação, pois é neles que se torna mais clara a exigência de 
fundamentar ideias, palavras e práticas. Para superar im­
passes gerados por contradições internas ou entre dife­
rentes sistemas religiosos, éticos, políticos, científicos e 
artísticos estabelecidos, a filosofia busca mudanças cujo 
sentido ainda não está claro e precisa ser compreendido. 
Para que filosofia? 
Muitos perguntam: "Afinal, para que filosofia?". É 
uma pergunta interessante. Não vemos nem ouvimos 
ninguém perguntar, por exemplo, "Para que Matemá­
tica ou Física?", " Para que Geografia ou Geologia?", 
"Para que Biologia ou Psicologia?", "Para que pintura, 
literatura, música ou dança?". Mas todo mundo acha 
muito natural perguntar: "Para que filosofia?". 
Essa pergunta costuma receber uma resposta irô­
nica, conhecida dos estudantes de filosofia: "A filoso­
fia é uma ciência com a qual e sem a qual o mundo 
permanece tal e q uai ". Ou seja, a filosofia não serviria 
para nada. 
Essa pergunta, "Para que filosofia?", tem a sua ra­
zão de ser. Em nossa cultura e em nossa sociedade, 
costumamos considerar que alguma coisa só tem o 
direito de existir se tiver alguma finalidade prática mui­
to visível e de utilidade imediata. Quando se pergunta 
"Para quê?", o que se pergunta é: "Que uso proveitoso 
ou vantajoso posso fazer disso?". 
Eis por que ninguém pergunta "Para que as ciên­
cias?", pois todo mundo imagina ver a utilidade das 
ciências nos produtos da técnica. Todo mundo também 
imagina ver a utilidade das artes, tanto por causa da 
compra e venda das obras de arte quanto porque nos­
sa sociedade vê os artistas como gênios que merecem 
ser valorizados (ao mesmo tempo que, paradoxalmen­
te, é capaz de rejeitá-los se suas obras forem verdadei­
ramente revolucionárias e inovadoras, pois, nesses 
casos, eles não são "úteis" para a manutenção do poder 
estabelecido). 
@ Capítulo 2 
EM lEl"'FO.S 
DZ E� 
PRC8LEMA.S 
REAIS VIPA-1 
FA 
I 
Manifestante exibe cartaz em protesto realizado no Rio de Janeiro (RJ), 
em 2013. A atitude crítica envolve abandonar certezas cotidianas. 
Ninguém, todavia, consegue perceber para que ser­
viria a filosofia. Parece que o senso comum não enxerga 
algo que os cientistas sabem. As ciências pretendem ser 
conhecimentos verdadeiros, obtidos graças a procedimen­
tos rigorosos de pensamento; pretendem agir sobre a 
realidade por meio de instrumentos e objetos técnicos; 
pretendem fazer progressos nos conhecimentos, corrigin­
do-os e aumentando-os. Todas essas pretensões das 
ciências pressupõem que elas admitem a existência da 
verdade, a necessidade de procedimentos corretos para 
o pensamento, o estabelecimento da tecnologia como 
aplicação prática de teorias e, sobretudo, que elas confiam 
na racionalidade dos conhecimentos. 
Ora, verdade, pensamento racional, procedimentos 
especiais para conhecerfatos, aplicação prática de conhe­
cimentos teóricos, correção e acúmulo de saberes: esses 
propósitos das ciências não são científicos, são filosóficos 
e dependem de questões filosóficas. O cientista parte 
deles como questões já respondidas, mas é a filosofia que 
as formula e busca respostas para elas. Assim, o trabalho 
das ciências pressupõe o trabalho da filosofia, mesmo 
que o cientista não seja filósofo. 
técnica: palavra derivada do grego, indica o conjunto de 
práticas de uma profissão ou arte para a fabricação de 
instrumentos e utensílios. Portanto, o produto da técnica 
é o resultado material da aplicação de uma série de 
regras, geralmente para transformar um elemento natural 
em outro artificial. Uma roda de madeira e um machado 
de ferro são instrumentos técnicos de trabalho; um prato 
de barro, é um utensílio técnico para uso cotidiano. Um 
computador e um avião são objetos técnicos. Uma vacina 
é um produto da técnica. 
Cientista manipula colônia de bactérias cu ltivada para decidir o 
tratamento mais adequado contra aquela variedade em Londres, 
Inglaterra, 2003. A ciência parte de questões formuladas pela 
filosofia para desenvolver seus produtos técnicos. 
Muitos consideram que é preciso determinar cla­
ramente o uso que se pode fazer da filosofia. Dizem, 
então, que, de fato, a filosofia não serve para nada, se 
"servir" for entendido como fazer usos técnicos dos 
produtos filosóficos ou obter lucros com eles. Conside­
ram também que a parte principal ou mais importante 
da filosofia nada tem a ver com as ciências e as técnicas. 
Para quem pensa dessa forma, o interesse da filo-
Atitude filosófica: indagar 
Em primeiro lugar, veremos que a atitude filosófica 
mantém algumas características independentemente 
do conteúdo investigado. 
Características da atitude fi losófica 
• Perguntar o que é (uma coisa, um valor, uma 
ide ia , um comportamento) 
A fi losofia i n daga qua l é a rea l idade e qua l é a 
s ign ificação de a lgo.• Perguntar como é (uma coisa, uma ideia, um 
valor, um comportamento) 
A fi losofia i n daga co mo é a estrutu ra ou o 
s i stema d e re lações que constitu i a rea l idade 
de a lgo. 
• Perguntar por que é (uma coisa, uma ideia, 
um valor, um comportamento) 
A fi losofia i ndaga por que a lgo existe, qua l é a 
o r ige m ou a causa de u ma co isa , d e u ma i de ia , 
de u m va lo r, de u m co mporta m ento . 
sofia não estaria nos conhecimentos (que ficam por 
conta da ciência) nem nas aplicações práticas das teorias 
(que ficam por conta da tecnologia), mas nos ensina­
mentos morais ou éticos. Estudando as paixões e os 
vícios humanos, a liberdade e a vontade, analisando a 
capacidade de nossa razão para impor limites aos nossos 
desejos e paixões, ensinando-nos a viver de modo ho­
nesto e justo na companhia dos outros seres humanos, 
a filosofia teria como finalidade ensinar-nos a virtude. 
Essa definição da filosofia, porém, não nos ajuda 
muito. De fato, mesmo para ser uma arte do bem viver, 
a filosofia continua fazendo suas perguntas desconcer­
tantes e embaraçosas: "O que é o ser humano?", "O que 
é a vontade?", "O que é a paixão?", "O que é a razão?", 
"O que é o vício?", "O que é a virtude?", "O que é a liber­
dade?", "Como nos tornamos livres, racionais e virtuo­
sos?", "Por que a liberdade e a virtude são valores para 
os seres humanos?", "O que é um valor?", "Por que ava­
liamos os sentimentos e as ações humanas?". 
Assim, mesmo que disséssemos que o objeto da filo­
sofia é apenas a vida moral ou ética, o estilo filosófico e a 
atitude filosófica permaneceriam os mesmos, pois as per­
guntas filosóficas - o quê, por quê, como - permanecem. 
A atitude filosófica inicia-se quando essas indaga­
ções são dirigidas ao mundo que nos rodeia e às relações 
que mantemos com ele. Pouco a pouco, descobre-se que 
essas questões pressupõem a figura daquele que inter­
roga e exigem que seja explicada a tendência do ser hu­
mano de interrogar o mundo e a si mesmo com o dese­
jo de conhecê-lo e conhecer-se. Em outras palavras, a 
filosofia compreende que, para conhecer o mundo, pre­
cisa também conhecer nossa capacidade de conhecer. 
Por isso, as perguntas da filosofia se dirigem ao 
próprio pensamento: "O que é pensar?", "Como é pen­
sar?", "Por que há o pensar?". A filosofia torna-se, então, 
o pensamento interrogando-se a si mesmo. Portanto, 
a filosofia se realiza como reflexão, buscando realizar 
o "Conhece-te a ti mesmo". 
reflexão: pa lavra empregada na Fís ica para descreve r 
o movimento de propagação de uma onda luminosa ou 
so nora quando , na passagem de um me io para o utro, 
encontra um o bstáculo e retorna ao meio de onde partiu . 
É esse reto rno ao ponto de part ida que é conservado 
quando a pa lavra é usada na filosofia, isto é , a volta do 
pensamento sobre s i mesmo para con hecer-se. 
O que é a filosofia? @ 
Quem é o fi lósofo? 
Reconhece-se o filósofo naquele que tem inseparavelmente o gosto pela evi­
dência e o senso da ambiguidade [ . . . ] , naquele que faz um movimento que, sem 
cessar, o reconduz do saber à ignorância, da ignorância ao saber [ . . . ] sua ambigui­
dade é apenas uma maneira de colocar em palavras aquilo que cada pessoa sabe 
muito bem: o valor dos momentos em que sua vida se renova, se retoma, se com­
preende, quando seu mundo privado se ultrapassa e se toma mundo comum. [ . . . ] 
Não há diferença entre o filósofo e os outros humanos senão esta: o filósofo é aque­
le ser humano que desperta e fala, enquanto os demais contêm silenciosamente os 
paradoxos da filosofia, porque, para ser inteiramente humano, é preciso ser um 
pouco mais e um pouco menos humano. 
Merleau-Ponty, em 
foto de 1950. 
MERLEAU-PONTY, Ma u rice. E loge de la ph i losoph ie [E logio da fi losofia]. l n : E/age de la philosophie et autres essais 
[E logio da fi losofia e outros ensa ios]. Pa ris: Ga l l ima rd, 1 960. p. 10-1 1 e p. 73. Texto t rad uzido. 
• Por q ue o senso de a m bigu idade é uma das ca racte rísti cas q ue Me r lea u-Ponty destaca no fi lósofo? Res­
ponda por escrito. 
A reflexão filosófica 
A reflexão filosófica é o movim ento pelo qua l o pen­
sa mento vo lta-se pa ra s i mesmo como fo nte daqu i l o 
q u e fo i pensado. É a concentração menta l em q u e o 
pensa mento busca exa m i n a r, com p reender e ava l i a r 
suas própr ias ide ias, vontades, desejos e sent i mentos. 
O exemp lo ma i s con hecido da reflexão f i losófica 
ou da vo lta do pensa mento sobre s i mesmo é o do fi­
l ósofo fra ncês René Desca rtes (1 596-1 650). E le decla ra 
que só pode haver fi l osofia e c iência se pudermos p ro­
va r que o espírito h u ma n o é ca paz de con hece r a ve r­
dade. Por isso, coloca em dúv ida tudo o q u e recebeu 
das op i n iões de sua soc iedade e de seus professo res, 
bem como tudo o q u e pe rcebe pelos ci nco sent idos (as 
co isas e seu próprio co rpo). Como não pod emos ga ra n ­
t i r a existênc ia daq u i lo q u e pode s e r posto em dúvida , 
Desca rtes identifica duvidoso e falso. Ass im, afi rma te r 
encontrado a pr i me i ra ve rdade sobre a qua l e rguerá a 
fi losofia , pois, ao d uvida r d e tudo, não pode d uvida r de 
que está duv ida ndo. Ora , a dúv ida é uma mane i ra de 
pensa r e , po rta nto, quem pensa não pode d uvida r de 
que pensa . Por isso, fazendo essa volta do pensa mento 
sobre si mesmo ou a refl exão, escreve e le : 
M as, logo em seguida, notei que, enquanto eu 
queria assim pensar que tudo era falso, era necessário 
que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E notando 
que esta verdade, eu penso, logo existo, era tão firme 
e tão certa que todas as mais extravagantes suposições 
e Capítulo 2 
dos céticos não seriam capazes de abalar, julguei que 
podia aceitá-la como o primeiro princípio da filosofia 
que procurava. 
DESCARTES, Re né. Discurso do método. São Pa u lo : 
Ve r ceticismo no G lossár io . 
Difusão E u ropeia do Livro, 1962 . p. 66. 
Reconstituição da face 
de René Descartes por 
Pau l Richer, em 1913. O 
médico francês 
baseou-se em um 
retrato da época do 
filósofo para descobrir 
se poderia ser dele um 
crânio encontrado na 
Suécia. O procedimento, 
de certo modo, remete a 
uma questão cartesiana: 
como distinguir o 
duvidoso do falso? 
A reflexão fi l osófica é radical, pois va i à raiz do pen­
sa mento. Não somos, porém, somente seres pensa ntes. 
Somos ta m bém seres que agem no mundo, que se re­
lac iona m com os outros seres h u ma nos, com os a n i ­
ma is, as p la ntas, as coisas, os fatos e acontec imentos. 
Expr i m i mos essas re lações ta nto por me io da l i ngua­
gem e dos gestos como por me io de ações, com porta ­
mentos e cond utas. 
Pensamos, agimos e falamos. A reflexão filosófica 
se volta para compreender o que se passa em nós nes­
sas relações que mantemos com a realidade circundan­
te. Organiza-se em torno de três grandes conjuntos de 
questões: 
1. Por que pensamos o que pensamos, dizemos o 
que dizemos e fazemos o que fazemos? Isto é, quais os 
motivos, as razões e as causas para pensarmos o que 
pensamos, dizermos o que dizemos, fazermos o que 
fazemos? 
2. O que queremos pensar quando pensamos, o que 
queremos dizer quando falamos, o que queremos fazer 
quando agimos? Isto é, qual é o conteúdo ou o sentido do 
que pensamos, dizemos e fazemos? 
3. Para que pensamos o que pensamos, dizemos o 
que dizemos, fazemos o que fazemos? Isto é, qual é a 
intenção ou a finalidade do que pensamos, dizemos e 
fazemos? 
Essas três questões têm como objetos de indagação 
o pensamento, a linguagem e a ação, e podem ser re­
sumidas em "O que é pensar?", "O que é falar?" e "O que 
é agir?". Elas nos conduzem, necessariamente, à seguin­
te pergunta: o que pensamos, dizemos e fazemos em 
nossas crenças cotidianas constitui ou não um pensa­
mento verdadeiro, uma linguagem coerente e uma ação 
dotada de sentido? 
Como vimos, a atitude filosófica dirige-se ao mun­
do das coisas quenos rodeiam e aos seres humanos 
que nele vivem e com ele se relacionam. É um saber 
sobre a realidade exterior ao pensamento. 
Já a reflexão filosófica se dirige ao pensamento, à 
linguagem e à ação. São perguntas sobre a capacidade 
e a finalidade de conhecer, falar e agir próprias dos se­
res humanos. É um saber sobre a realidade interior aos 
seres humanos. 
Filosofia: um pensamento sistemático 
As indagações fundamentais da atitude filosófica 
e da reflexão filosófica não se realizam segundo as pre­
ferências e opiniões de cada um. A filosofia não é feita 
de "achismos" nem é pesquisa de opinião à maneira 
dos meios de comunicação de massa. As indagações 
filosóficas se realizam de modo sistemático. 
Que significa isso? Significa dizer que a filosofia: 
• trabalha com enunciados precisos e rigorosos; 
• busca encadeamentos lógicos entre os enunciados; 
• utiliza conceitos ou ideias obtidos por procedi­
mentos de demonstração e prova; 
• exige a fundamentação racional do que é enun­
ciado e pensado. 
Somente assim a reflexão filosófica pode fazer com 
que nossas crenças e opiniões alcancem uma visão crí­
tica de si mesmas. Não se trata de dizer "eu acho que", 
mas de poder afirmar "eu penso que". 
sistema: pa lavra de o rige m grega ; s ign ifica ' um todo 
cujas pa rtes estão ligadas por re lações de conco rdã nc ia 
interna'. No caso do pe nsa mento, s ign ifica um conjunto de 
ideias interna mente a rt iculadas e re lac ionadas de fo rma 
coerente, graças a pr incípios comuns ou a ce rtas regras e 
normas de a rgumentação e demonstração. 
O conhecimento filosófico é um trabalho intelec­
tual. É sistemático porque não se contenta em obter 
respostas para as questões que se apresentam, mas 
exige que as próprias questões sejam válidas e que as 
respostas sejam verdadeiras, estejam relacionadas en­
tre si, esclareçam umas às outras, formem conjuntos 
coerentes de ideias e significações, sejam provadas e 
demonstradas racionalmente. 
Quando alguém diz "Esta é a minha filosofia" ou 
" Isso é a filosofia de fulana ou de fulano" ou, ainda, 
"Esta é a filosofia da empresa", engana-se e não se en­
gana ao mesmo tempo. Engana-se, pois imagina que, 
para "ter uma filosofia", basta possuir um conjunto de 
ideias e princípios mais ou menos coerentes sobre todas 
as coisas e pessoas. E não se engana porque, ainda que 
confusamente, percebe nas ideias e nos princípios uma 
característica que o leva a dizer que são "uma filosofia". 
Qual característica? A ligação necessária entre certas 
ideias e entre certos comportamentos, bem como as 
relações necessárias entre essas ideias e esses compor­
tamentos. Ou seja, pressente-se que a filosofia opera 
sistematicamente, com coerência e lógica. 
O que é a filosofia? 0 
Em busca de uma definicão da filosofia 
Quando começamos a estudar filosofia, somos 
logo levados a buscar o que ela é. Temos uma primei­
ra surpresa ao descobrir que não há apenas uma defi­
nição da filosofia. A segunda surpresa ocorre quando 
percebemos que, além de várias, as definições aparen­
temente não podem ser reunidas numa só. Eis por que 
muitos, cheios de perplexidade, indagam: "Afinal, o 
que é a filosofia, que nem sequer consegue dizer o que 
ela é?". 
Uma primeira aproximação nos mostra pelo menos 
quatro definições gerais do que seria a filosofia: 
1. Visão de mundo de um povo, de uma civilização 
ou de uma cultura. Nessa definição, a filosofia corres­
ponderia ao conjunto de ideias, valores e práticas pelo 
qual uma sociedade apreende e compreende o mundo 
e a si mesma. Com base nisso, essa sociedade define 
para si o tempo e o espaço, o sagrado e o profano, o 
bom e o mau, o justo e o injusto, e assim por diante. 
Qual o problema dessa definição? Por um lado, ela 
se parece com a noção de "minha filosofia" ou "a filo­
sofia da empresa"; por outro, ela é tão genérica e ampla 
que não permite, por exemplo, distinguir entre filosofia 
e religião (o sagrado e o profano), filosofia e arte (o 
belo e o feio), filosofia e ciência (o verdadeiro e o falso). 
Na verdade, essa definição identifica filosofia e cultura, 
pois esta última, como veremos na Unidade 8, é uma 
visão de mundo coletiva que se exprime em ideias, va­
lores, regras e práticas de uma sociedade. 
A definição, portanto, não alcança a especificidade 
do trabalho filosófico. Por isso, só podemos aceitá-la 
como uma expressão que contém ou indica alguns as­
pectos que poderão entrar na definição de filosofia. 
2. Sabedoria de vida. A filosofia seria a atividade 
de algumas pessoas que pensam sobre a vida moral, 
dedicando-se à contemplação do mundo e dos outros 
seres humanos para aprender e ensinar os outros a 
controlar seus desejos, sentimentos e impulsos e a di­
rigir sua vida de modo ético e sábio. 
A filosofia seria uma escola de vida ou uma arte do 
bem viver. Essa definição nos diz, de modo vago, o que 
se espera da filosofia (a sabedoria interior), mas não o 
que é e o que faz a filosofia. Por isso, também não po­
demos aceitá-la, mas apenas reconhecer que nela está 
presente um dos aspectos do trabalho filosófico. 
3. Esforço racional para conceber o Un iverso como 
uma totalidade ordenada e dotada de sentido. Nessa 
definição, atribui-se à filosofia a tarefa de conhecer a 
realidade inteira, provando que o Universo é uma to­
talidade ordenada por relações de causa e efeito, e que 
essa totalidade é racional, ou seja, possui sentido e 
finalidade compreensíveis ao pensamento humano. 
Os que adotam essa definição precisam começar 
distinguindo entre filosofia e religião e até mesmo 
opondo uma à outra. Embora ambas possuam o 
mesmo objeto (compreender o Universo), a primeira 
o faz por meio do esforço racional, enquanto a se­
gunda, por meio da confiança (fé) numa revelação 
divina. Ou seja, a filosofia procura discutir o sentido 
e o fundamento da realidade, enquanto a religião se 
baseia em algo inquestionável pela razão humana. 
Ao contrário da religião, o pensamento filosófico 
procura explicar e compreender mesmo o que pare­
ce irracional e inquestionável. 
Essa terceira definição também é problemática 
porque dá à filosofia a tarefa de oferecer uma explica­
ção e uma compreensão totais do Universo. Nos seus 
inícios, a filosofia buscava substituir a explicação reli­
giosa (os mitos) e constituía o conjunto de todas as 
ciências teóricas e práticas, pois não se fazia distinção 
entre filosofia e ciência. 
Mafalda sabe da dificuldade para definir a filosofia e do tempo necessário para isso. 
G Capítulo 2 
Porém, há nos dias de hoje pelo menos duas limi­
tações a essa pretensão totalizadora. 
Em primeiro lugar, a filosofia e as ciências foram se 
separando no decorrer da história ocidental. Aliás, o 
próprio saber científico se dividiu em vários saberes 
particulares, cada qual com seu campo de investigação 
e de explicação de um aspecto da realidade. Em outras 
palavras, como as diferentes ciências e artes definiram 
um aspecto e um campo da realidade para estudo (no 
caso das ciências) e para a expressão criadora (no caso 
das artes), não é mais admissível que uma única disci­
plina teórica abranja a totalidade dos conhecimentos. 
Em segundo lugar, porque a própria filosofia já não 
admite que um único sistema de pensamento ofereça 
uma única explicação para o todo da realidade, pois 
esta permanece aberta e convida a múltiplas perspec­
tivas de conhecimentos e interpretações. Por isso, essa 
definição também não pode ser aceita, embora conte­
nha aspectos importantes da atividade filosófica. 
4. Fundamentação teórica e crítica dos conheci­
mentos e das práticas. Expliquemos o que sejam fun­
damentação e crítica. 
Fundamentar significa 'encontrar, definir e estabe­
lecer racionalmente princípios, causas e condições que 
determinam a existência, a forma e os comportamen­
tos de alguma coisa, bem como as leis ou regras de 
suas mudanças'. 
fundamento: palavra de origem latina; significa 'base 
sólida' ou 'alicerce sobre o qual se pode construir 
com segurança'. Do ponto devista do conhecimento, 
significa 'a base ou o princípio racional que sustenta uma 
demonstração verdadeira'. 
teoria: do grego theória, que significa 'contemplar uma 
verdade com os olhos do espírito', isto é, uma atividade 
puramente intelectual de conhecimento. Desse ponto de 
vista, uma fundamentação teórica significa 'determinar 
pelo pensamento, de maneira lógica, organizada e 
sistemática, o conjunto de princípios, causas e condições 
de alguma coisa'. 
Cooking crystals(ZOOB), 
instalação do artista 
plástico Tunga. As artes 
definem um aspecto e um 
campo da realidade para 
a expressão criadora, o 
que mostra que a 
filosofia não pode 
pretender oferecer uma 
expücação e uma 
compreensão totais do 
Universo. 
Crítica significa 'a capacidade para julgar, discernir 
e decidir corretamente'; 'o exame racional, sem precon­
ceito e sem prejulgamento de todas as coisas'; e 'a ati­
vidade de examinar e avaliar detalhadamente uma 
ideia, um valor, um costume, um comportamento, uma 
obra artística ou científica'. 
Afundamentação crítica significa, portanto, exa­
minar, avaliar e julgar racionalmente os princípios, as 
causas e condições de alguma coisa. A seguinte defini­
ção dá conta da especificidade do trabalho filosófico: 
Ocupações da fi losofia como 
fundamentação teórica e crítica 
• Os pr i n cíp i os , causas e co n d i ções d e u m 
co n h ec imento q u e prete nda s e r rac i ona l e 
verda d e i ro . 
• A o r ige m , a fo rma e o co nteúdo dos va lo res 
éti cos, po lít i cos, re l ig iosos, a rtíst i cos e cu l­
tu ra i s . 
• A co m p ree nsão das cau sas e das fo rmas da 
i lusão e do precon ce ito no p lano i n d iv i dua l e 
co letivo . 
• Os pr incíp ios , causas e co nd ições das trans­
formações h istóri cas dos co nce itos, das ide ias, 
dos va lores e das práticas hu manas. 
A filosofia como fundamentacão teórica e crítica 
Nessa condição, a filosofia se volta para o estudo 
dos vários modos de conhecimento (percepção, imagi­
nação, memória, linguagem, inteligência, experiência, 
reflexão) e dos vários tipos de atividades interiores e 
comportamentos externos dos seres humanos como 
expressões da vontade, do desejo e das paixões. Ela 
procura descrever as formas e os conteúdos desses 
modos de conhecimento e desses tipos de atividade e 
comportamento como relação do ser humano com o 
mundo, consigo mesmo e com os outros. 
O que é a filosofia? 0 
Para rea l izar seu traba l ho, a fi losofia investiga, ana­
l i sa e i nte rpreta o s ign if icado de ide ias gera is, como 
rea l i dade, mundo, natu reza, cu ltu ra, h i stór ia, ve rdade, 
fa ls idade, human idade, tempora l idade, espac i a l idade, 
qua l idade, q ua nt idade, subjet iv idade, objet iv idade, d i ­
fe rença, repet ição, seme lhança, confl ito, contrad ição, 
mudança , n ecess idade, poss ib i l idade, p robab i l ida­
de, etc. 
A at iv ida d e f i l osófica é, porta nto, u m a a n á l is e, 
uma ref lexão e u ma crít i ca . Essas três ativ idades são 
or i entadas pe la e la boração fi losófica de ide ias ge ra is 
sobre a rea l idade e os seres h umanos . Porta nto, para 
que essas t rês at iv i dades se rea l i zem, é prec iso que a 
fi l osof ia se defi na como busca do fu ndamento (pr i n ­
cíp ios, ca usas e cond i ções) e do sent ido (s ign ifi ca ção 
e f i na l i dade) da rea l idade em suas mú lt i p las formas . 
Pa ra ta nto, e l a deve i ndaga r o que essas fo rmas de 
rea l i dade são, como são e por que são, e p rocu ra r as 
ca usas que as fazem exist i r, perma nece r, muda r e de­
sapa rece r. 
A fi l osofia não é c iênc ia : é uma reflexão sobre os 
funda mentos da c iênc ia, i sto é, sobre p roced imentos e 
conceitos c ientíficos. N ão é re l igião : é uma refl exão 
sobre os fu ndamentos da re l ig ião, isto é, sobre as ca u­
sas , o rigens e formas das crenças re l igiosas. Não é a rte : 
é uma reflexão sobre os funda mentos da a rte, isto é, 
sobre os conteúdos, as formas, as s ign ificações das 
, 
Uti l? I núti l? 
Somos agora ca pazes de enfrenta r a pergu nta "pa­
ra que fi losofia?". De fato, agora sabemos que o pr imei­
ro ens inamento f i losóf ico não é d izer se a l go é út i l ou 
i n út i l , e s im pergunta r: "O que é o út i l ? ", "Por que e pa ­
ra q ue m a l go é út i l ? ", "O q u e é o i n út i l ? ", "Por q ue e 
para quem a lgo é i n út i l ?". 
O senso comum de nossa soc iedade cons idera úti l 
o que dá prestíg io, poder, fama e r iq ueza. J u lga o úti l 
pe los resu ltados visíve i s das coisas e das ações, como 
na famosa expressão " l eva r va ntagem em tudo". Não 
poderíamos, porém, defi n i r o út i l de outra ma ne i ra ? 
Vamos ve r o que d i zem sobre isso a lguns fi l ósofos de 
d ife rentes épocas e l uga res. 
P latão defi n i a a f i losofia como um saber ve rdade i ­
ro que deve ser usado em benefício dos seres hu manos 
para que vivam n uma soc iedade justa e fe l iz. 
Desca rtes d iz ia que a f i losofia é o estudo da sabe­
doria, con hecimento pe rfeito de todas as co isas que os 
G Capítulo 2 
obras de a rte e do tra ba l ho a rtíst ico. Não é Soc io logia 
nem Ps ico logia, mas a i nte rpretação e ava l iação crít i ca 
dos conceitos e métodos da Socio logia e da Ps ico log ia . 
Não é po l ít ica, mas i nte rpretação, compreensão e re­
flexão sobre a o rigem, a natu reza e as formas do poder 
e suas mudanças. Não é h i stór ia, mas refl exão sobre o 
sentido dos acontecimentos i nseridos no tempo e com­
preensão do que seja o p rópr io tempo. 
Cerimônia xintoísta de purificação em Tóquio , capital do Japão, na 
véspera do Ano- Novo, em 2012 . A filosofia não é religião, mas 
propõe, entre outras coisas, uma reflexão sobre as causas, origens e 
formas das crenças religiosas. 
humanos podem a l ca nça r pa ra o uso da vida, a conser­
vação da sa úde e a i nvenção das técn icas e das a rtes 
com as qua i s ficam menos submet idos às forças natu­
ra is, às i ntempér ies e aos catac l i smos. 
Ka nt (1724-1 804) afi rmou que a fi l osofia é o con he­
cimento que a razão adqu i re de s i mesma pa ra saber o 
que pode con hece r, o que pode faze r e o que pode es­
pera r, tendo como fi na l i dade a fe l i c idade humana . 
Ma rx (1 818-1 883) dec la rou que a fi losofia havia pas­
sado mu ito tempo a penas contemp la ndo o mundo e 
que se tratava, agora, de conhecê- lo pa ra transformá- lo, 
de modo que se a l ca nçasse just iça, abundância e fe l i ­
c idade pa ra todos. 
Mer leau -Ponty (1 908-1961) esc reveu q u e a fi losofia 
é um desperta r pa ra ver e mudar nosso mundo. 
Esp i nosa (1 632-1677) afi rmou que a fi losofia é um 
caminho á rduo e d ifíci l , mas que pode ser percorrido por 
todos, se desejarem a verdadeira l iberdade e a fe l icidade. 
Qua l ser ia, então, a uti l idade da fi l osofia? 
Se abandonar a i ngenu idade e os preconce itos do 
senso comum for út i l ; se não se submete r às ide ias do­
m ina ntes e aos poderes estabelecidos for úti l ; se busca r 
compreender a s ign ificação do mundo, da cu ltura, da 
h istór ia for út i l ; se conhecer o sent ido das cr iações hu-
manas nas a rtes, nas c iênc ias e na po l ít ica for úti l ; se 
dar a cada um e à sociedade os meios pa ra sermos cons­
cientes de nós mesmos e de nossas ações n uma prática 
que deseja a l i be rdade e a fe l ic idade pa ra todos for úti l, 
então podemos d ize r que a fi l osofia é o ma i s úti l de 
todos os saberes de que os se res h umanos são ca pazes. 
Conexões • 
Esta ativ idade traba l h a com conteúdos d e F i l osofia , 
B io logia e ma i s uma d isci p l i na, à sua esco l ha . 
Em seus p r imórd ios, a fi l osofia se ap resentava como 
uma exp l icação tota l da rea l i dade, po i s vi nha subst itu i r a 
exp l i cação m ít i ca e re l ig iosa . No decorre r da h i stór ia , e la 
passou a comparti l ha r esse pa pel com outras á reas do sa ber. 
1 . Esco lha outra d isci p l i na que você con heça,exponha q ue 
aspectos da rea l idade e la busca exp l i ca r e compa re sua 
uti l idade à da fi losofia . 
2 . Pesq uise um exemp lo da a p l i cação dos p roced imentos 
fu ndamenta is da fi losofia no tra ba l ho de um b ió logo. 
Bióloga pesquisa, em 2010, vestígios deixados por uma 
onça-pintada no Parque Nacional de Guatopo, na Venezuela. 
1 . O q ue q uer d ize r a pa lavra crítica? 
2. O que s ign ifica d ize r que a fi l osofia se vo lta p refe­
rencia lmente pa ra os momentos de cr ise? 
3 . Por q ue se pe rgu nta "Pa ra que fi losofia?", de acor­
do com o ca pítu lo? 
4. O q ue é e como é a reflexão fi losófica ? De q ue mo­
do e la se d ife rencia da atitude fi losófica? 
l n d i cacões 
Ilha das Flores 
• Direção de Jorge Furtado. B rasi l , 1989. 
5. Quais são os três conjuntos de q uestões q ue o rga­
n iza m a refl exão fi losófica ? 
6. Por q ue a fi losofia é um pensamento sistemático? 
7. Exp l ique po r q ue a atividade fi losófica é uma a ná­
l ise, uma refl exão e uma crítica . 
8 . A fi losofia tem uti l idade? Se sim, qua l ? Exp lore o que 
o texto ap resenta e a rt icu le-o com a sua posição. 
N este cu rta -metragem, u m a ação ac i denta l - joga r fora um tomate com p rado - tem conse ­
q uên ci a s não p revistas e reve la -se m u ito ma i s com p lexa do que apa renta . Por me io de u m a 
sequência s i stemát ica d e afi rmações ra ci o n a lmente fu ndamentadas , o fi lme expõe meca­
n i smos e p rob l emas da soc iedade contemporâ ne a . 
A vida passada a limpo 
Detalhe do cartaz do filme 
Ilha das Flores, de Jorge Furtado. 
• Escrito por Ca rlos Drummond de And rade. Companhia das Letras, 2013. 
Este vo l ume reúne poemas pub l icados or igi n a lmente em 1 959 pelo escr itor m i ne i ro. Temas como a memória , a l i nguagem e o 
estra n h amento pera nte o mundo estão presentes em versos como os de "Es pecu lações sobre a pa l avra homem". 
O que é a filosofia? @ 
DE OLHO na atua lidade 
O humor e as crencas s i lenc iosas 
A
lgu ns anos atrás , u ma empresa fabricante de 
u m doce à base de chocolate veicu lou na te le­
visão u ma peça publicitária protagon izada por 
u ma famosa atriz te lev isiva , bra nca, de a lta estatu ra e 
voz grave. Em u m vestiá r io mascu l ino de academia , a 
atriz a pa rece fazendo uma série de recla mações a do is 
jovens rapazes brancos enquanto eles se troca m . Os 
jovens a r id icu la rizam com u ma sér ie de br incade iras, 
até que a câmera corta para um terce i ro jovem branco. 
Ele oferece u ma barra do doce, d izendo à p rotagon ista 
q u e ela "dá m u ito ch i l i que qua n d o está com fom e". 
Quando a câmera volta a foca liza r a personagem pr in­
c ipal , a pós a pr ime ira mordida no doce, e la se transfi­
gu rou em um jovem rapaz bra n co e d iz que está "me­
lhor". Os colegas celebram, pois tudo voltou "ao n ormal" . 
Veremos no Capítu lo 9 como a pub li c i dade mudou 
sua fo rma de o perar ao lo ngo do ú lt imo século , de i ­
xando de promover apenas as q u a li dades do prod u ­
t o para b u scar assoc i á - lo a valores e ide ias q u e pos­
sam s e r a t ra entes ao con s u m i d o r. Por ora , b asta 
percebermos q u e , d entre mu itos sent imentos huma­
nos , essa propaga nda b u sca se valer do h u mor para 
desperta r a s i m pat ia de q u e m a ass iste . 
A at i tude crít i ca , ca racte ríst ica da f i losof i a , nos 
faz sa i r da pos ição de espectadores pass ivos de uma 
peça de pro paganda e de pote n c i a i s con s u m i do res 
de um produto para b u scarmos c o m p re e n d e r o que 
essa peça de p ro paganda faz , por que ela faz i sso 
e como e la o faz . O que é a i nte nção p resente , como 
e la o p e ra e por que s e e s c o lhe u rec o r r e r a esse 
recu rso . 
O olhar crítico de Laerte para a discussão de gênero. 
e Capítulo 2 
I s s o n o s leva à pe rgu n ta : q u a l é a o r i g e m d o 
efe i to de h u m o r nessa peça d e p ropaga n d a? O r a , 
f i ca c la ro q u e o efe i to s u posta m e nte h u m o ríst i co 
é gara n t i d o pe la r i d i c u la r i zação d a ú n i ca f i g u ra fe ­
m i n i na e m ce n a . C o m o i sso é fe i to? Pe lo recurso à 
genera l i zação i n dev ida e ao estereót i p o : p o r esse 
ponto de v i sta , o "c h i l i q u e " ser i a uma ca racteríst i ­
c a fem i n i n a , e s e u m h om e m s e c o m p o rta d essa 
fo r m a , age " co m o u ma m u l h e r " . A b a rra de c h o c o ­
l a t e , su rp re e n d entemente , te r i a o efe i to mág ico d e 
devolve r as c o i s a s " a o s e u l ugar " , l i v ra n d o o j ovem 
ra p a z de s e r i d e nt i f i ca d o como d e t e n t o r de u m a 
ca racter íst i ca " fem i n i na " e leva n d o à s u a read m i s ­
s ã o n o círc u lo mascu l i n o . 
D i ante de ta ntas crenças s i lenc iosas , a f i losof ia 
tem um sem-nú mero de questões a apresentar, v isan­
do "O que é o mascu l i no? " , " O que é o fem i n i no? ", "Qua l 
é a o rigem das característ icas que defi n i r i am o mas­
cul ino e o fem i n i no? ", "O que é o temperamento?" , " Por 
que supomos que alguém , ao ag i r de mane i ra co ns i ­
derada fora de seu hab itual , estar ia se comportando 
como se fosse de outro gênero?" . 
E por q u e isso pode ser co n s i d erado não a penas 
ve rdad e i r o , m a s ta m b é m r i s íve l? O u sej a : n ã o bas ­
ta se q uest i o n a r s e todas a s m u lh e re s , e a pe n as 
e las , " dão ch i l i ques " : é p rec i so tam bém busca r com­
p re e n d e r p o r q u e o fato d e u m homem fazê - lo tor­
n a - o s u j e i to ao r i so . I sso não s i g n i f i ca r i a q u e a m u ­
l h e r, e m n o ss a s o c i e d a d e , é s u j e i ta a o r i d íc u lo 
(pa lavra d e r ivada d e riso) , p o rq u e u m a at i t u d e q u e 
a peça p u b l i c i t á r i a a presenta co m o fe m i n i na s e r i a 
c o n d e n áve l? 
Por fi m , por que a lguém poder ia cons iderar esta 
forma de humor ace itável e desejável? A pergu nta "Por 
que isso me d iverte? " é fu ndamenta l na reflexão crí­
t ica . Ao achar graça nessa peça public itár ia , de a lguma 
mane i ra concorda-se que o "ch i l ique" é uma at itude 
exclus ivamente fem in i na e necessar iamente conde­
nável . Se assoc iar uma at itude su postamente fem in i ­
na a u m homem o tornar ia motivo de chacota , i s so não 
quer d izer que a soc iedade vê aqu i lo que é assoc iado 
ao fem in i no como i nfer ior? Como ser ia a reação se a 
s i tuação fosse i nversa? 
Ass i m , a at i tu d e cr ít ica loca l iza a o r igem d e pre­
conce itos que e m basa m at i tu des d e d o m i nação h i s ­
tó r i ca mesmo onde a gente menos espera . J á a re­
f lexão cr ít i ca leva a q ues t i o n a m entos s o b re n ó s 
m es m o s : "O q u e e s s a p ropaga n da despe rta e m 
m i m? " , " Como i sso oco rre?" e " Po r q u e i sso ocor re?" . 
Pode ría m os nos pergu ntar ta m bé m , por exe m p lo , 
por que só h á atores b rancos p rotagon i z ando a p e ­
ça p u b l i c i tá r i a , q u a ndo v ivemos e m u m país em que 
Atividades 
m a i s da metade da popu lação é parda o u negra , e n ­
tre mu itas outras questões que surgem quando ado ­
tamos a a t i t ude de estra n h a m ento peran te o que é 
cot i d i a no . 
A f i l osof i a b usca con hecer o fu n d a m ento e o 
s e n t i d o d a q u i lo q u e n o s r ode i a e d e com o nossa 
rea l i d ade i n te r i o r se re la c i o n a com i s so . É ta refa 
da f i losof i a i nvest i g a r, a n a l i s a r e i n te rpreta r va lo ­
res ét i cos e cu ltu ra i s e co nhecer as causas e formas 
d o p recon ce i to . A a t i t u d e ref lex iva n ec e s s á r i a à 
f i l osof i a e às c i ê n c i a s hu m a na s e o co n h ec i m e nto 
dela decor rente perm i t i ra m refo rça r a luta d o m o ­
v i m ento fem i n i s ta , b e m como a s dos mov i m entos 
negro , i n d ígen a , L G BT I , d e pessoas com def i c i ê nc i a , 
en t re o utras m i no r i a s h i sto r i ca m e nte d i sc r i m i n a ­
das e o pr i m i d a s . 
Encerramos esta aná l ise com u m questionamen­
to : quando a lguém afi rma que a fi losof ia é i nút i l , que 
crenças s i lenc iosas há por t rás d i sso e po r que elas 
têm tanta força? 
1 . Após a le itu ra do texto, d i scuta com seus co legas : toda forma de h u m o r é vá l i da? Qua l é a atitude da fi losofia 
d ia nte de u ma peça humorística ? Procu re se l em bra r de outros exem plos que poder ia m ser ana l i sados e inte rp re­
tados por uma perspectiva crítica . 
2. Veja o ca rtu m a ba ixo. 
TtlOO COBERTO, 
li NÃO 9ER OS 
OLHOg. 
QUE CRUEL 
E� CUtTURA 
OOMINADA 
PELO� 
HOMEN$f 
2 
Cartum de 2011 do neozelandês Malcolm Evans. 
�OA COBERTO, 
A NÃO SER Oi 
OLHOS. QUE 
CRUEL E�A 
CULTURA 
DOMINADA 
PELO� HOMEN�t 
• As m u l he res rep resentadas chega m à mesma conc l usão com base em situações opostas. Com base no que você 
vi u e d iscuti u até aqu i sobre atitude crítica, reflexão crítica e f i losofia, prob lematize as fa las de cada uma de las . 
O que é a filosofia? 0 
Uma analogia para o filósofo 
A filosofia se constituiu quando alguns gregos, in­
satisfeitos com as explicações sobre a realidade dadas 
pela tradição por meio dos mitos, começaram a fazer 
perguntas e buscar respostas para elas. Admirados e 
espantados com a realidade, demonstraram que os 
seres humanos e as coisas da natureza podem ser co­
nhecidos pela razão humana, e que a própria razão é 
capaz de conhecer a si mesma. 
Em suma, esses pensadores gregos se deram conta 
de que a verdade do mundo e dos humanos não era 
algo secreto e misterioso, revelado por divindades a 
apenas alguns escolhidos. 
Atribui-se ao filósofo grego Pitágoras de Samos 
(e. 570 a.C.-c. 495 a.e.) a invenção da palavra filosofia. 
Pitágoras teria afirmado que a sabedoria plena e com­
pleta pertence aos deuses, mas que os seres humanos 
podem desejá-la ou amá-la, tornando-se filósofos. 
fi losofia: pa lavra composta dos te rmos gregos phiLo e 
sophía. PhiLo quer d ize r 'aquele o u aquela que tem u m 
sent imento am igável', p o i s deriva de phi!ía, ' am izade e 
amor fraterno'. Sophía quer d izer 'sabedoria' e de la vem 
a pa lavra sophós, ' sáb io'. Filosofia s ign ifica, po rta nto, 
' am izade pela sabedoria', e filósofo, 'o que tem am izade 
pelo saber'. 
Nos Jogos Olímpicos da Grécia antiga, realizavam-se 
não apenas competições esportivas, mas também con­
cursos artísticos. Dizia Pitágoras que três tipos de pes­
soas ali compareciam: as que iam para comerciar du­
rante os jogos, sem se interessar pelos torneios; as que 
iam para competir e fazer brilhar suas próprias pessoas, 
ou seja, os atletas e artistas; e as que iam para assistir 
O que perguntavam os primei ros fi lósofos 
aos jogos e torneios, avaliar o desempenho e julgar o 
valor dos que ali se apresentavam. Esse terceiro tipo de 
pessoa, afirmava Pitágoras, é como o filósofo. 
Entalhe na entrada da catedral 
de (hartres (século XI I), na 
França, representa Pitágoras 
tocando um instrumento 
-. musical. Os filósofos 
gregos dedicavam-se 
simultaneamente ao que hoje 
vemos como diferentes áreas 
_....,___. do conhecimento. 
Com isso, ele queria dizer que o filósofo não é mo­
vido por interesses comerciais ou financeiros - não 
coloca o saber como um bem a ser comprado e vendi­
do no mercado. O filósofo também não é movido pelo 
desejo de competir - não é um "atleta intelectual", não 
faz das ideias e dos conhecimentos uma habilidade 
para vencer competidores. O filósofo é, isso sim, movi­
do pelo desejo de observar, contemplar, julgar e avaliar 
as coisas, as ações, as pessoas, os acontecimentos, a 
vida; enfim, pelo desejo de saber. 
A verdade não pertence a ninguém nem é um prê­
mio conquistado por competição. Ela está diante de 
todos nós como algo a ser procurado, e é encontrada 
por quem a desejar e tiver olhos para vê-la e coragem 
para buscá-la. 
Por que os seres nascem e morrem? Por que os semelhantes dão origem aos semelhantes, de uma árvo­
re nasce outra árvore, de um cão nasce outro cão, de um ser humano nasce outro? Por que os diferentes 
também fazem surgir os diferentes: o dia faz nascer a noite, o inverno faz surgir a primavera, um objeto es­
curo clareia com o passar do tempo, enquanto um objeto claro escurece? 
Por que tudo muda? Por que um dia luminoso e ensolarado, de céu azul e brisa suave, repentinamente se 
torna sombrio, coberto de nuvens, varrido por ventos furiosos, tomado pela tempestade, pelos raios e trovões? 
Por que a doença invade os corpos, rouba-lhes a cor, a força? Por que o alimento que sempre me agradou 
agora, que estou doente, me causa repugnância? 
Por que o que parecia uno se multiplica em tantos outros? De uma só árvore, quantas flores e quantos 
frutos nascem! De uma só gata, quantos gatinhos nascem! 
Por que as coisas se tornam opostas ao que eram? A brasa vermelha e quente se torna um carvão negro 
e frio. A água tépida pode tornar-se uma barra dura e gelada, deixando de ser líquida e transparente para 
tornar-se sólida e opaca. 
--------------------------------- A origem da filosofia � ---- � 
Por que nada permanece idêntico a si mesmo? De 
onde vêm os seres? Para onde vão, quando desapare­
cem? Por que se transformam? Por que se diferenciam 
uns dos outros? Mas, também, por que tudo parece 
repetir-se? Depois do dia, a noite; depois da noite, o dia. 
Depois do inverno, a primavera, depois da primavera, 
o verão, depois deste, o outono, e depois deste, nova­
mente o inverno. O calor leva as águas para o céu e as 
traz de volta pelas chuvas. Ninguém nasce adulto ou 
velho, mas sempre criança, que se torna adulto e velho. 
Foram perguntas como essas que os primeiros fi- Chuva avança sobre o Parque Nacional da Chapada dos 
lósofos fizeram e, para elas, buscaram respostas. A Guimarães (MT}, em dezembro de 2010 . Por que as coisas se 
religião, as tradições e os mitos explicavam todas essas transformam repentinamente? 
coisas, mas suas explicações e respostas já não satisfaziam a quem desejava conhecer as causas da mudança, 
da permanência, da repetição, da desaparição e do ressurgimento dos seres. 
O nascimento da filosofia 
Os historiadores da filosofia dizem que ela tem da­
ta e local de nascimento: fim do século VI I a.e. e início 
do século VI a.e., na cidade de Mileto, uma colônia grega 
no território da atual Turquia. E o primeiro filósofo foi 
Tales de Mileto (e. 624 a.C.-c. 546 a.e.), porque foi o pri­
meiro a afirmar que a razão pode conhecer a causa da 
origem, permanência e transformação de todas as coisas. 
Além de ter data e local de nascimento e seu pri­
meiro autor, a filosofia apresenta um conteúdo preciso 
ao nascer: é uma cosmologia. 
cosmologia: pa lavra composta de cosmo (kósmos), 
que s ign ifica 'a o rdem e orga n ização do mundo' ou 'o 
mundo ordenado e o rgan i zado', e Logia, que vem de !ógos, 
'pensamento rac ional, d iscurso rac ional, con hec ime nto'. 
Ass im , a fi losofia nasce como conhec imento rac ional da 
ordem do mu ndo. 
Em suas viagens, os gregos entraram em contato 
com os conhecimentos de povos como os egípcios, per­
sas, babilônios, assírios e caldeus. Os poetas Homero e 
Hesíodo elaboraram a mitologia grega antiga com ele­
mentos dos mitos e religiões desses povos e das cultu­
ras que existiram na Grécia em tempos anteriores. 
Essa mitologia seria, posteriormente, transformada 
pelos filósofos. 
Os gregos imprimiram mudanças profundas ao que 
receberam de outras culturas. Dessas mudanças, vale 
mencionar quatro: 
1 . Com relação aos mitos : os poetas gregos retira­
ram os aspectos apavorantes e monstruosos dos deu-
@ Capítulo 3 
ses e do início do mundo; humanizaramos deuses, 
divinizaram os homens; deram alguma racionalidade a 
narrativas sobre as origens das coisas, das pessoas e 
das instituições humanas (como o trabalho, as leis, a 
moral). 
2. Com relação aos conhecimentos: os gregos 
transformaram em ciência (isto é, em um conjunto de 
conhecimentos racional, abstrato e universal) aquilo 
que eram elementos de uma sabedoria prática. Assim, 
transformaram em matemática o que os egípcios pra­
ticavam como agrimensura para medir, contar e calcu­
lar os terrenos após as cheias do rio Nilo; transforma­
ram em astronomia (em estudo da origem, posição e 
movimento dos astros) a astrologia praticada por cal­
deus e babilônios como adivinhação e previsão do fu­
turo; transformaram em medicina aquilo que, nas cul­
turas precedentes, eram práticas de grupos religiosos 
secretos para a cura misteriosa das doenças. 
Aceivo Museu Arqueológico Nacional. Atenas, Grécia/ 
Foto:Thanassis Stavrakis/AP/Glow lmages 
Fragmento da chamada 
"Máquina de Anticítera", 
mecanismo de bronze 
fabricado na Grécia antiga 
por volta do século li a.C. 
Estima-se que o aparelho era 
capaz de calcu lar a posição 
relativa do Sol, da Lua e de 
alguns planetas, bem como 
prever eclipses e outros 
ciclos temporais. 
3. Com relação à organ ização social e política: os 
gregos inventaram não apenas a ciência ou a filosofia, 
mas também a política. As demais sociedades conhe­
ciam e praticavam a autoridade e o governo, mas não a 
política propriamente dita, porque não separavam o 
poder político de duas outras formas de autoridade: o 
poder privado do chefe de família e o poder religioso do 
sacerdote ou mago. Ou seja, nas sociedades não gregas, 
o poder e o governo eram exercidos como autoridade 
absoluta da vontade pessoal e arbitrária de um só ho­
mem ou de um pequeno grupo de homens, que pos­
suíam o poder militar, religioso e econômico e decidiam 
sobre tudo, sem consultar ou se justificar a ninguém. 
política: palavra originada do grego pó!is, que significa 
'cidade organizada por leis e instituições'. 
Mito e filosofia 
Os historiadores da filosofia indagam se ela trans­
formou gradualmente os mitos gregos ou produziu 
uma ruptura radical com eles. Vejamos como os mitos 
gregos explicavam o Universo e por que se acredita­
va neles. 
A narrat iva mít i ca do mundo 
Quem narra o mito? O poeta-rapsodo. Por que 
ele tem autoridade? Acredita-se que o poeta é um 
escolhido dos deuses, que lhe mostram os aconte­
cimentos passados e permitem que ele veja a ori­
gem de todos os seres e de todas as coisas para que 
possa transmiti-la aos ouvintes. Sua palavra - o 
mito - é sagrada e incontestável porque vem de 
uma revelação. 
Como o mito narra a origem do mundo e de tudo 
o que nele existe? De três maneiras principais: 
1 . Encontrando o pai e a mãe das coisas e dos 
seres. Isto é, tudo o que existe decorre de relações 
sexuais entre forças divinas pessoais. Essas relações 
geram os titãs (filhos da primeira mãe e do primei­
ro pai e seus sucessores como governantes do Uni­
verso), os deuses (filhos de um dos titãs e seus su­
cessores), os heróis (filhos de um deus com uma 
humana ou de uma deusa com um humano), os 
humanos, os metais, as plantas, os animais, as qua­
lidades (como quente e frio, claro e escuro, bom e 
mau, belo e feio, etc.). 
Trata-se de uma genealogia; isto é, narra-se como 
alguns seres geraram outros seres, coisas e qualidades. 
Pode-se dizer que os gregos inventaram a política 
porque: a) tomavam as decisões com base em discus­
sões e debates públicos e as adotavam ou revogavam 
por voto em assembleias públicas; b) estabeleceram 
instituições públicas (tribunais, assembleias, separação 
entre autoridade do chefe de família e autoridade pú­
blica, entre autoridade político-militar e autoridade 
religiosa); c) sobretudo, criaram a ideia da lei e da jus­
tiça como expressões da vontade coletiva pública, e 
não como imposição da vontade de um só ou de um 
grupo, em nome de divindades. 
4. Com relação ao pensamento : diante da herança 
recebida, os gregos inventaram a ideia de razão como 
um pensamento sistemático que segue regras, normas 
e leis universais. 
O julgamento de Páris(1636), do pintor flamengo Peter Pau l Rubens 
(1577-1640). A partir do Renascimento, os temas da mitologia grega 
serviram de inspiração frequente para obras artísticas europeias, 
ao mesmo tempo que a filosofia grega e as ciências dela derivadas 
influenciaram pensadores de diferentes áreas. 
2. Encontrando uma rivalidade ou uma aliança en­
tre os deuses que fazem surgir alguma coisa no mundo. 
Nesse caso, o mito narra ou uma guerra entre as forças 
divinas, ou uma aliança entre elas para provocar alguma 
coisa no mundo dos seres humanos. 
É assim, por exemplo, que o poeta Homero expli­
ca na Ilíada por que a vitória nas batalhas da Guerra 
de Troia ora era dos troianos, ora dos gregos. 
A origem da filosofia 0 
Os deuses estavam divididos. A cada batalha, o rei dos 
deuses, Zeus, aliava-se a um grupo e fazia um dos 
lados vencer. 
A própria causa da guerra teria sido uma rivalida­
de entre as deusas. Elas apareceram em sonho para o 
príncipe troiano Pá ris, oferecendo-lhe seus dons, e ele 
escolheu a deusa do amor, Afrodite. As outras deusas, 
enciumadas, o fizeram raptar Helena, esposa do ge­
neral grego Menelau. Isso deu início à guerra entre 
os humanos. 
3. Encontrando as recompensas ou castigos que 
os deuses dão a quem os obedece ou desobedece. 
Como o mito narra, por exemplo, o uso do fogo pelos 
seres humanos, essencial para diferenciá-los dos ani­
mais? Conta-se que um titã, Prometeu, roubou uma 
centelha de fogo dos deuses e a trouxe de presente 
para os humanos, de quem era amigo. Prometeu foi 
castigado, sendo amarrado num rochedo para que 
uma ave de rapina devorasse seu fígado eternamente. 
E qual foi o castigo dos homens? Os deuses criaram 
a primeira mulher humana, Pandora, uma figura en­
cantadora a quem foi entregue uma caixa que conteria 
coisas maravilhosas, mas que nunca deveria ser aberta. 
Pandora foi enviada aos humanos e, cheia de curiosi­
dade e de vontade de dar-lhes as maravilhas, abriu a 
caixa. Dela saíram todas as desgraças, doenças, pestes, 
guerras e, sobretudo, a morte. Explica-se, assim, a ori­
gem dos males no mundo. 
Cosmogon ia e teogon ia 
Vemos, portanto, que o mito narra a origem das 
coisas por meio de lutas, alianças e relações sexuais 
entre forças sobrenaturais que governam o mundo e o 
destino dos seres humanos. Como os mitos sobre a 
origem do mundo são genealogias, diz-se que são cos­
mogonias e teogonias. 
cosmogonia: gania or ig ina-se do verbo grego gennao 
( 'enge ndra r', 'gerar', 'fazer nasce r e crescer') e do 
su bsta ntivo genos ('gênese', 'desce ndência', 'gênero', 
'espécie') . Gania, portanto, quer d izer 'geração', 
' nasc imento a partir da concepção sexual e do parto'. 
Ass im , a cosmogon ia é a narrativa sobre o nasc imento 
e a orga n ização do mundo (cosmos) a part i r de fo rças 
geradoras (pa i e mãe) d iv inas . 
teogonia: pa lavra com posta de gania e theos, q ue, em 
grego, s ign ifica 'as co isas d iv inas', 'os seres d iv inos', 'os 
deuses '. A teogon ia é, portanto, a na rrativa da or ige m dos 
de uses a part ir de seus antepassados. 
0 Capítulo 3 
A filosofia não é uma cos m ogonia, e sim uma 
cosm ologia, pois é uma explicação racional sobre a 
origem do mundo e sobre as causas das transfor­
mações e repetições das coisas. Mas teria a cosmo­
logia nascido de uma transformação gradual dos 
mitos ou de uma ruptura radical com eles? 
Os estudiosos concluíram que as contradições e 
limitações dos mitos para explicar a realidade natural 
e humana levaram a filosofia a retomá-los, porém os 
reformulando e racionalizando. Ou seja, transforman­
do-os numa explicação inteiramente nova e diferente. 
Quais são as diferenças entre filosofia e mito? Po­
demos apontar três como as mais importantes: 
1. O mito pretendia narrar como as coisas eram no 
passado imemorial, longínquo e fabulosoantes que 
tudo existisse tal como no presente. A filosofia, ao 
contrário, se preocupa em explicar como e por que, 
no passado, no presente e no futuro, as coisas são 
como são. 
2. O mito narrava a origem por meio de genealo­
gias e rivalidades ou alianças entre forças divinas so­
brenaturais e personificadas. A filosofia, ao contrário, 
explica a produção das coisas por causas naturais e 
impessoais, com base em elementos naturais primor­
diais. Assim, por exemplo, o mito falava nos deuses 
Urano (o céu), Ponto (o mar) e Gaia (a terra); a filosofia 
fala diretamente em céu, mar e terra. O mito narrava 
a origem dos seres celestes, terrestres e marinhos pe­
los casamentos de Gaia com Urano e Ponto. A filoso­
fia explica o surgimento do céu, do mar e da terra e 
dos seres que neles vivem pelos movimentos e ações 
de composição, combinação e separação de quatro 
elementos primordiais (úmido, seco, quente e frio). 
3. O mito não se importava com contradições, 
com o fabuloso e o incompreensível. Não só porque 
esses eram traços próprios das narrativas religiosas, 
como também porque a confiança e a crença no 
mito vinham da autoridade religiosa do narrador. 
A filosofia, ao contrário, 
não admite contradições, fa­
bulação e coisas incompreen­
síveis, mas exige que a expli­
cação seja coerente, lógica e 
racional. Além disso, a auto­
ridade da explicação não vem 
da pessoa do filósofo, mas da 
razão, que é a mesma em to­
dos os seres humanos. 
Cosmos 
É em redor d e duas perguntas - qual a formação e a estrutura d o cosmos? qual o processo d o evoluir 
das coisas? - que todo o pensamento dos p rimeiros filósofos se concentra. Procura, para além da plura­
lidade percebida que os dados da experiência cotidiana nos oferecem, fixar uma unidade que constitua 
as conexões internas e invisíveis; procura, para tudo dizer, determinar o princípio material, uno, de que a 
complexidade deriva e a própria razão de ser dessa derivação. Para os primeiros filósofos, é inteligível 
apenas o que pode referir-se a um primeiro princípio de onde tudo provém e pelo qual tudo se ordena. 
V I L H ENA, V. de Maga l hães. Panorama do pensamento filosófico. Lis boa : Cosmos, 1 958. v. 2 . p. 159. 
Filósofo em 
meditação (1632), 
óleo sobre madeira 
atribuído ao pintor 
flamengo 
Rembrandt van 
Rijn (1 606-1669). 
O escopo da filosofia em seus começos é buscar e reconhecer, para lá das aparências múltiplas, a 
unidade que faz da p rópria natureza um cosmos: a única substância que constitui seu ser, a única lei que 
regula seu devir. A substância é, para esses primeiros filósofos, a matéria de que todas as coisas se com­
põem, mas também a força que explica a sua composição, o seu nascimento, a sua morte, e a sua p rópria 
mudança. Ela é princípio, não só no sentido de explicar a origem de todos os seres, mas ainda e sobretu­
do no sentido que toma inteligível a unidade da multiplicidade e a mutabilidade que parece, à primeira 
vista, tão rebelde à consideração un itária. 
A B BAGNA NO, N ico la. História da Filosofia. Lisboa: P resença, 1 969. v. 1 . p. 35-36. 
1 . Loca l ize nos do is textos a q u i l o que o s p r ime i ros f i l ósofos : 
a) cons ide rava m i l usór io ; 
b} cons ide rava m que dever ia ser buscado pe la fi losofia por trás do i l usór io . 
2. Como os p r ime i ros fi lósofos concebem a matéria que com põe todas as co isas? I nd ique qua l texto trata 
d i sso. 
3. Segu ndo Abbagna no, "O escopo da fi losofia em seus começos é busca r e reconhece r, pa ra lá das apa rências 
mú lti p las, a u n idade que faz da p rópr ia natu reza um cosmos". Em que med ida isso mostra um afasta men­
to em re lação à expl icação m ítica ou sagrada? Discuta m em grupo e e l a bo rem uma resposta conjunta. 
A origem da filosofia 0 
Condições históricas para a formação da filosofia 
Podemos apontar como principais condições his­
tóricas para a formação da filosofia na Grécia: 
• as viagens marítimas dos gregos. Graças a elas, 
os gregos não só descobriram que não havia 
monstros e seres fabulosos nos mares, mas tam­
bém que os locais onde habitariam deuses, titãs 
e heróis eram, na realidade, habitados por outros 
seres humanos. As viagens produziram o desen­
cantamento ou a desmitificação do mundo, que 
passou a exigir uma nova explicação sobre sua 
origem; 
• a invenção do calendário, que é uma forma de 
calcular o tempo segundo as estações do ano, as 
horas do dia, os fatos importantes que se repe­
tem. Isso revela uma capacidade de abstração 
nova, ou uma percepção do tempo como algo 
natural, e não como uma força divina (o deus 
Cronos) incompreensível; 
• a invenção da moeda, que permitiu uma forma 
de troca que não se realiza como escambo ou em 
espécie (isto é, coisas trocadas por outras). Esse 
cálculo do valor semelhante de coisas diferentes 
revela uma nova capacidade de abstração e de 
generalização; 
• o desenvolvimento da vida urbana, na qual pre­
dominam o comércio e o artesanato. Isso levou 
ao aprimoramento de técnicas de fabricação e 
de troca e à diminuição do prestígio da aristo­
cracia proprietária de terras, por quem e para 
quem os mitos foram criados. Além disso, como 
a emergente classe de comerciantes ricos pre­
cisava encontrar pontos de poder e de prestígio 
para suplantar o velho poderio da aristocracia 
de terras e de sangue, muitos procuraram o 
prestígio pelo patrocínio e estímulo às artes, às 
técnicas e aos conhecimentos. Consequente­
mente, criou-se um ambiente favorável ao de­
senvolvimento da filosofia; 
• a adoção da escrita alfabética, que, como a do 
calendário e a da moeda, revela o crescimento da 
capacidade de abstracão e de generalização. Isso 
e Capítulo 3 
Detalhe da Pedra de Roseta, datada do 
século li a.C. Descoberta no Egito no final 
do século XVI I I , permitiu a decodificação 
de diversos hieróglifos por meio de sua 
tradução em caracteres gregos. 
porque, em vez de representar cada coisa que 
precise ser dita por meio de uma imagem dife­
rente - como os hieróglifos dos egípcios ou os 
ideogramas dos chineses -, as escritas fonéticas 
oferecem uma pequena gama de sinais ou signos 
abstratos que, combinados, representam os sons 
das palavras; 
escrita fonética alfabética: nas escritas não 
fonéticas, a cada sinal corresponde uma coisa 
ou ideia; na escrita alfabética, que é fonética, as 
letras são independentes e podem ser combinadas 
de formas variadas em palavras. Ou seja, em 
escritas não fonéticas, o signo representa a coisa 
assinalada; na escrita alfabética, a palavra designa 
uma coisa e exprime uma ideia. Nas primeiras, há a 
tendência de sacralizar os sinais ou os signos ou de 
lhes dar um caráter mágico (de maneira que quem 
sabe escrever ou usar os inúmeros sinais tem 
poder sobre as coisas e sobre os outros), enquanto 
a última, de fácil aprendizado, é inteiramente leiga, 
abstrata e racional. 
Ver abstração no Glossário. 
• a i nvenção da política, que introd uz três aspectos 
dec is ivos pa ra o nascimento da f i losofia : 
1. A ideia da lei como expressão da vontade 
de uma coletiv idade humana que decide por si 
mesma o que é melhor para si e como ela defi­
n i rá suas relações internas. Essa ca racterística da 
pó l i s grega - um espaço l egis lado e regu lado -
serv i rá d e mode lo para a f i l osofia propor q u e 
tam bé m o m u ndo é rac iona l mente l eg is l ado, 
regu lado e o rdenado. 
2. A constitu ição de um espaço público, que 
faz aparecer um t ipo de d iscu rso d iferente da­
quele que era p referido pelo m ito. N este, u m 
poeta -vidente receb ia das deusas l igadas à me­
mór ia (a deusa Mnemosyne e suas fi l has, as mu­
sas, ent idades que gu iavam o poeta) uma i l um i­
nação ou uma reve lação sobrenatu ra l e, então, 
d iz ia aos homens as decisões dos deuses que e les 
dever i am obedecer. 
Agora, com a pó l i s, i sto é, a c idade po l ít i ca, a 
pa lavra co nstitu i -se como di reito de cada cidadão 
em it i r em púb l i co sua op in i ão, d iscut i - la com osoutros, persuad i - l os a tomar uma dec isão p ro­
posta por ele. Desse modo, su rge o d iscurso po-
cidadania na Cirécia antiga: o conceito de 
c idada n ia em Ate nas, onde se desenvolve u a 
c idade polít ica , t inha o sent ido de 'cond ição 
med iante a qual um membro da pól i s pode exerce r 
seu d i reito de pa rt ic ipar da v ida polít ica'. No 
entanto, de le estavam excluídos aqueles que eram 
cons iderados dependentes: m u lheres, escravos , 
c r ianças e idosos . Ta mbém estava m excluídos os 
estrange i ros. Po rta nto, é prec iso fazer a ressalva 
de que só a m inoria da população de Atenas de fato 
partic ipava de sua vida polít ica. 
l ít ico como pa lavra humana compa rti l hada, como 
d i á l ogo, d iscussão e de l i be ração h uma na, isto é, 
como dec isão raciona l e expos ição dos mot ivos 
ou das razões pa ra faze r ou não a lguma co isa . 
Com a po l ít i ca, va lo r izou-se o pensamento 
raciona l, cr i ando cond ições pa ra que su rgisse o 
d iscu rso ou a pa lavra f i losófica. 
3. A noção de discussão pública das opiniões 
e ide ias. A po l ít ica est im u l a u m pensamento 
e um d iscu rso púb l icos, q u e sejam ens i nados, 
tra nsm it idos, com u n icados e d iscut idos, e não 
formu lados por seitas de i n i ciados em m istér ios 
sagrados. A ide ia de um pensamento que todos 
podem compreender, d iscut i r e tra nsm it i r é fu n­
damenta l pa ra a f i losofia . 
Concepção artística de como teria sido a cidade de Corinto no século V a.C. A racionalidade na Grécia antiga se manifestava também na 
arquitetura e no planejamento urbano: a linearidade e a simetria são critérios para a organização do espaço urbano. 
A origem da filosofia 0 
A fi losofia como instituição tipicamente grega 
A filosofia pode ser entendida como aspiração ao 
conhecimento racional, lógico, demonstrativo e siste­
mático: 
• da realidade natural e humana; 
• da origem e das causas da ordem do mundo e de 
suas transformações; 
• da origem e das causas das ações humanas e do 
próprio pensamento. 
Por razões históricas e políticas, esta instituição 
cultural grega tornou-se o modo de pensar e de se ex­
primir predominante da chamada cultura europeia 
ocidental. Devido à colonização europeia das Américas, 
também fazemos parte dessa cultura - ainda que de 
modo inferiorizado e colonizado. 
Dizer que a filosofia é tipicamente grega não significa, 
evidentemente, que povos como os chineses, os hindus, 
os japoneses, os árabes, os persas, os hebreus, as socieda­
des africanas ou as indígenas da América não possuam 
sabedoria, pois possuíam e possuem. Também não quer 
dizer que esses povos não tivessem desenvolvido o pen­
samento e formas de conhecimento da natureza e dos 
seres humanos, pois desenvolveram e desenvolvem. 
E
MUST 
A • 
Wll.L 
Debate durante a Conferência do Clima da ONU (COP 21), realizado 
em Le Bourget, França, em 2015. A tendência à racionalidade, 
a recusa de explicações preestabelecidas e a tendência à 
argumentação e ao debate são heranças da filosofia grega. 
Quando se diz que a filosofia é grega, o que se quer 
dizer é que ela apresenta características, concepções e 
formas de pensar e de exprimir os pensamentos com­
pletamente diferentes das formas de pensar de outras 
culturas (tanto anteriores à grega quanto nossas con­
temporâneas). 
Vejamos os principais traços que definem a ativi­
dade filosófica nascente: 
e Capítulo 3 
• Tendência à racionalidade, pois os gregos foram 
os primeiros a definir o ser humano como animal 
racional, ou seja, foram os primeiros a considerar 
que o pensamento e a linguagem definem a razão, 
que o homem é um ser dotado de razão e que a 
racionalidade é seu traço distintivo. Mesmo que 
a razão humana não possa conhecer tudo, tudo 
o que ela pode conhecer conhece plena e verda­
deiramente, e ela é a condição de todo conheci­
mento verdadeiro. Por isso mesmo, a própria razão 
deve conhecer as leis, regras, princípios e normas 
de suas operações e de seu exercício correto. 
• Recusa de explicações preestabelecidas e, por 
isso mesmo, exigência de que se encontre uma 
explicação racional para cada fato e se investi­
guem e encontrem as soluções para cada proble­
ma ou dificuldade. 
• Tendência à a rgumentação e ao debate para 
oferecer respostas conclusivas a questões, difi­
culdades e problemas, de modo que nenhuma 
solução seja aceita se não houver sido demons­
trada conforme os princípios e as regras do pen­
samento verdadeiro. 
• Capacidade de generalização, isto é, de mostrar 
que uma explicação é válida para muitas coisas 
ou fatos diferentes porque, sob a aparência da 
diversidade e da variação, o pensamento desco­
bre semelhanças e identidades. Essa capacidade 
racional é a síntese. 
síntese: palavra de origem grega ; s ign ifica ' reun ião 
ou fusão de vár ias co isas ou de vá r ias pa rtes para 
formar um todo coere nte'. 
Como opera a síntese 
Para meus olhos, meu tato e meu olfato, o ge­
lo é diferente da neblina, que é diferente do vapor 
de uma chaleira, que é diferente da chuva, que é 
diferente da correnteza de um rio. No entanto, o 
pensamento mostra que se trata sempre de um 
mesmo elemento (a água), que passa por diferentes 
estados e formas (líquido, sólido, gasoso) em de­
corrência de causas naturais diferentes (condensa­
ção, liquefação, ebulição). O pensamento generali­
za, isto é, encontra sob as diferenças os traços 
semelhantes e faz uma síntese deles. 
• Capacidade de d iferenciação, isto é, de mostrar 
que fatos ou coisas que aparecem como iguais 
ou semelhantes são, na verdade, diferentes, 
quando examinados pelo pensamento ou pela 
razão. Essa capacidade racional é a análise. 
análise: pa lavra de orige m grega; s ign ifica 'ação de 
des liga r e separa r, separação de um todo em suas 
pa rtes'. 
Um exemplo nos ajudará a compreender como 
procede a análise. Nos anos 1990 e 2000, cada vez mais 
mulheres do movimento negro passam a vestir turban­
tes coloridos, inspirados nos usados na África. Com o 
passar do tempo, mulheres brancas, principalmente 
universitárias, começam a comprar turbantes de inspi­
ração africana em lojas de pequeno porte nas grandes 
cidades. Por fim, uma conhecida fábrica de sapatos 
finos faz uma campanha publicitária estrelada por três 
atrizes brancas usando turbantes. 
Aparentemente, teríamos sempre a mesma coisa: 
mulheres jovens incorporando a seu vestuário uma 
peça de origem africana. No entanto, o pensamento 
pode mostrar que, sob a semelhança percebida, há di­
ferenças: as mulheres do movimento negro viam no 
turbante uma forma de valorizar sua identidade cultu­
ral e a luta pelos direitos da mulher negra no Brasil; já 
as mulheres brancas os utilizam apenas porque consi­
deram que ficam mais bonitas ou diferentes com ele, 
sem que haja ligação com esses movimentos; por fim, 
a grife de sapatos utiliza o turbante como mera peça 
de composição para a venda de seu produto, sem qual­
quer preocupação com sua origem ou com o que ele 
representa - o fato de nenhuma modelo negra apare­
cer na campanha é um indício disso. Separando as apa­
rentes semelhanças, distinguindo-as, o pensamento 
descobriu diferenças e realizou uma análise. 
Participantes da Marcha das Mulheres Negras, em São Pau lo (SP). 
Foto de 2015. 
Em resumo: argumentar e demonstrar por meio de 
princípios e regras necessários e universais, apreender 
pelo pensamento a unidade real sob a multiplicidade 
percebida ou, ao contrário, apreender pelo pensamento 
a multiplicidade e diversidade reais de algo percebido 
como uma unidade ou uma identidade, eis aí algumas 
das características do que os gregos chamaram filosofia. 
O legado da filosofia grega para a atualidade 
Do legado filosófico grego, podemos destacar co­
mo principais contribuições as seguintes ideias: 
• O conhecimento verdadeiro deve encontrar as 
leis e os princípios universais e necessários do 
objeto conhecido e deve demonstrar sua verdade 
por meio de provas ou argumentos racionais.Ou 
seja, em primeiro lugar, um conhecimento não é 
algo que alguém impõe a outros, e sim algo que 
deve ser compreendido por todos, pois a razão 
ou a capacidade de pensar e conhecer é a mesma 
em todos os seres humanos. Em segundo lugar, 
um conhecimento só é verdadeiro quando expli­
ca racionalmente o que é a coisa conhecida, como 
ela é e por que ela é. 
É assim, por exemplo, que a Matemática de­
ve ser considerada um conhecimento racional 
verdadeiro, pois define racionalmente seus ob-
jetos. Ninguém impõe aos outros que o círculo 
é uma figura geométrica em que todos os pon­
tos são equidistantes do centro, pois essa defi­
nição simplesmente ensina que qualquer figura 
desse tipo será necessariamente denominada 
círculo. Além de definir seus objetos, a Matemá­
tica os demonstra por meio de provas (os teore­
mas) fundadas em princípios racionais verdadei­
ros (os axiomas e os postulados). 
• A natureza segue uma ordem necessária, e não 
casual ou acidental. Ou seja, ela obedece a leis e 
princípios necessários (não poderiam ser outros 
ou diferentes do que são) e universais (são os 
mesmos em todos os lugares e em todos os tem­
pos). Em outras palavras, uma lei natural é ne­
cessária porque nenhum ser natural escapa de­
la nem pode operar de outra maneira que não 
A origem da filosofia 0 
desta; e uma lei da natureza é universal porque 
é válida para todos os seres naturais em todos 
os tempos e lugares. 
A ideia de ordem natural necessária e uni­
versal é o fundamento da filosofia em sua pri­
meira expressão conhecida, a cosmologia. É, 
pois, responsável pelo surgimento da chamada 
"filosofia da natureza" ou "ciência da natureza", 
que os gregos chamaram física (palavra deriva­
da do vocábulo grego physis, 'natureza' ). Assim, 
por exemplo, a ideia de que a natureza segue 
leis universais e necessárias levou, no século 
XVI I , Galileu Galilei (1564-1642) a demonstrar as 
leis do movimento e as leis da queda dos corpos. 
Ou, naquele mesmo século, levou Isaac Newton 
(1643-1727) a estabelecer uma lei física válida 
para todos os corpos naturais, a lei da gravitação 
universal. E, no século XX, levou Albert Einstein 
(1 879-1955) a estabelecer uma lei da conservação 
de toda a matéria e energia do Universo, lei que 
se exprime na fórmula E = mc2 (em que E é a 
energia, m é a massa e e é a velocidade da luz), 
segundo a qual toda massa tem uma energia 
associada, cujo valor se descobre multiplicando 
a massa pelo quadrado da velocidade da luz. 
• As leis necessárias e universais da natureza po­
dem ser plenamente conhecidas pelo nosso pen­
samento. Isto é, não são conhecimentos miste­
riosos e secretos, que precisariam ser revelados 
por divindades, mas sim conhecimentos que o 
pensamento humano pode alcançar por sua pró­
pria força e capacidade. 
• A razão humana também obedece a princípios, 
leis, regras e normas universais e necessários, 
com os quais podemos distinguir o verdadeiro do 
falso. Em outras palavras: por sermos racionais, 
nosso pensamento é coerente e capaz de conhe­
cer a realidade porque segue leis lógicas de fun­
cionamento. 
Nosso pensamento diferencia uma afirmação 
de uma negação porque, na afirmação, atribuímos 
alguma coisa a outra coisa (quando afirmamos 
que "Sócrates é um ser humano", atribuímos hu­
manidade a Sócrates); já na negação, retiramos 
alguma coisa de outra (quando dizemos "Este ca­
derno não é verde", estamos retirando do caderno 
a cor verde). Por isso mesmo, nosso pensamento 
percebe o que é a identidade, isto é, que devemos 
sempre e necessariamente afirmar que uma coisa 
é idêntica a si mesma {"Sócrates é Sócrates"), pois, 
se negarmos sua identidade, estaremos retirando 
dela ela própria. Graças à afirmação da identidade, 
o pensamento pode distinguir e diferenciar os se­
res ("Sócrates é diferente de Platão e ambos são 
diferentes de uma pedra"). 
Nosso pensamento também percebe o que 
é uma contradição, ou seja, que é impossível afir­
mar e negar ao mesmo tempo algo de alguma 
coisa ("O infinito é ilimitado e não é ilimitado" ). 
Por isso, nossa razão também percebe a diferen­
ça entre uma contradição e uma alternativa, pois, 
nesta, ou a afirmação será verdadeira e a negação 
será falsa, ou vice-versa ("Ou haverá guerra ou 
não haverá guerra"). 
Imagem que representa a existência 
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.... 
- �,- --
de uma ordem natural necessária e 
un iversal como fundamento do 
conhecimento: caricatura que satiriza o 
acontecimento que levou à descoberta 
da lei da gravitação un iversal por Isaac 
Newton. A Lei da gravidade, litografia 
de Arthur Moreland, cartunista político 
conhecido pela série "Humores da 
H istória", publicada em 1898. c,z,;;; � -
@ Capítulo 3 
Racionalidade e identidade das 
defin ições 
Triângulo: figura geométrica em que a soma 
dos ângulos internos é igual à soma de dois ângulos 
retos. 
• Por que a definição do triângulo é racional? Por­
que não é uma imposição: ela simplesmente es­
tabelece que uma figura com tal propriedade 
será denominada triângulo. 
• Por que afirmamos essa definição? Porque nosso 
pensamento atribui a essa figura as característi­
cas mencionadas e não atribui outras caracterís­
ticas que sejam contraditórias a essas. Ou seja, 
nosso pensamento atribui identidade. 
• Por que negamos que o círculo é um triângulo? 
Porque, afirmando a identidade do triângulo, o 
d iferenciamos daquilo que ele não é. 
o 
Nosso pensamento distingue quando uma 
afirmação é verdadeira ou falsa porque distingue 
o não contraditório do contraditório e porque 
reconhece o verdadeiro como a conclusão de uma 
demonstração, de uma prova ou de um argumen­
to racional. Se alguém apresentar o seguinte ra­
ciocínio: "Todos os homens são mortais. Sócrates 
é homem. Logo, Sócrates é mortal", diremos que 
a afirmação "Sócrates é mortal" é verdadeira por­
que foi concluída de outras afirmações que já 
foram demonstradas verdadeiras ("Todos os se­
res que nascem e perecem existem no tempo. 
Todos os seres que existem no tempo são mor­
tais"; ''Todos os homens existem no tempo. Todos 
os homens são mortais"). 
• As práticas humanas dependem da vontade livre, 
da deliberação e da discussão, de uma escolha 
emocional ou racional, de nossas preferências e 
opiniões. Esses fatores se realizam segundo cer­
tos valores e padrões estabelecidos pela nature­
za ou pelos próprios seres humanos, e não por 
imposições misteriosas e incompreensíveis. 
Essas práticas são a ética (a conduta moral), a 
política (a conduta no espaço público) e as téc­
nicas (os instrumentos que agem sobre a natu­
reza e a sociedade). 
• O fato de os acontecimentos naturais e humanos 
serem necessários porque obedecem a leis (da na­
tureza humana) não exclui a compreensão de que 
eles também podem ser acidentais, seja porque um 
concurso de circunstâncias os faz ocorrer por acaso 
na natureza, seja porque as ações humanas depen­
dem das escolhas e deliberações das pessoas. 
Uma pedra lançada ao ar cai necessariamen­
te porque pela lei natural da gravitação ela ne­
cessariamente deve cair; um ser humano anda 
porque as leis anatômicas e fisiológicas que re­
gem seu corpo fazem com que tenha os meios 
necessários para isso. No entanto, se uma pedra, 
ao cair, atingir a cabeça de um passante, esse 
acontecimento é acidental. Por quê? Porque se o 
passante não estivesse andando por ali naquela 
hora, a pedra não o atingiria. Assim, a queda da 
pedra é necessária e o andar de um ser humano 
é necessário, mas a queda de uma pedra sobre 
minha cabeça quando ando é inteiramente aci­
dental. É o acaso. Contudo, o próprio acaso não 
é desprovido de uma lei natural. Como explica 
Aristóteles, o acaso é o encontro acidental de 
duas séries de acontecimentos necessárias (é por 
necessidade natural que a pedra cai e é por ne­
cessidade natural que a pessoa anda). A lei natu­
ral do acaso é, portanto, o encontro acidental de 
coisas que em si mesmas são necessárias. 
Todavia, a situação das ações humanas é bas­
tante diversa dessa. É verdade que é por uma ne­
cessidadenatural ou por uma lei da natureza que 
eu ando. Mas é por deliberação voluntária que 
ando para ir à escola em vez de andar para ir ao 
cinema, por exemplo. É verdade que é por uma lei 
necessária da natureza que os corpos pesados 
caem, mas é por uma deliberação humana e por 
uma escolha voluntária que, usando a ciência e a 
técnica, fabrico uma bomba, a coloco num avião 
e a faço despencar sobre Hiroxima. Essa escolha, 
própria da ética, da política e das técnicas, faz com 
que a ação humana introduza o possível no mun­
do, pois o possível é o que pode acontecer ou dei­
xar de acontecer, dependendo de uma escolha ou 
de uma decisão voluntária e livre. 
A origem da filosofia e 
Um dos legados ma is importa ntes da fi loso­
fia grega é, porta nto, a d ife rença entre o neces­
sár io (o que não pode ser senão como é) e o con­
t ingente (o que pode ser ou não ser), bem como 
a d iferença entre o a caso (o que pode ou não 
acontece r na natu reza) e o possíve l (o que pode 
ou não acontecer nos acontecimentos humanos). 
• Os se res humanos natu ra lmente asp i ra m ao co­
n hec imento ve rdade i ro (porque são rac iona is), à 
justiça (porq ue são dotados de vontade l ivre) e à 
fe l ic idade (porq ue são dotados de emoções e de­
sejos) . I sto é, os se res h u manos não vivem ou 
agem cegamente nem são comandados por for­
ças extra natura is secretas e m iste r iosas : e les 
i n stituem por si mesmos va lo res pe los q ua is dão 
sent ido à sua v ida e às suas ações. 
Manifestante confronta policiais em Rabat, capital do Marrocos, 
em 2011, durante os protestos por democracia e ampliação da 
cidadania da chamada Primavera Árabe. Nossas ações dependem de 
fatores como nossos sentimentos e opiniões, os quais se orientam 
pelos valores e padrões estabelecidos pela natureza ou pelos 
próprios seres humanos. 
O necessário, o acaso e o possível em nossas ações 
• O necessá rio é o que não está em nosso poder esco lhe r, pois acontece e acontece rá sempre (não depende 
de nós que o So l b r i l he, que haja d i a e no ite). 
• O acaso também não está em nosso poder esco l he r, mas é cont ingente (não esco l ho que aconteça uma 
tempestade justamente qua ndo estou fazendo uma viagem de navio ou de avião, nem esco l ho esta r num 
veícu lo que será at ing ido por out ro, d i r ig ido por um motor ista embr iagado). 
• O possível, ao contrá r io do necessár io e do acaso, é exatamente o que temos poder de esco l he r e fazer. 
Essas d ife renc iações legadas pela f i losofia grega nos perm item evita r ta nto o fata l i smo - "Tudo é neces­
sár io, temos de nos conforma r com o dest i no" - como a i l usão de que podemos tudo quanto q u isermos. 
Conexões 
Esta atividade traba l ha com conteúdos de Fi losofia , B io logia 
e Qu ímica . 
Os gregos transforma ram em ciênc ia (em con hecimento ra­
c iona l, a bstrato e u n ive rsa l) aqu i l o que e ram e lementos de uma 
sabedor ia prática pa ra o uso d i reto na vida . A lém d isso, compre­
enderam que as decisões no uso d i reto desse conhec imento são 
i nsepa ráve is da ética, da pol ít ica e do uso das técn icas. 
Moçambicano trabalha na primeira fábrica de medicamentos 
contra o vírus H IV de seu país, em Matola, 2012. 
• Depois de fazer um ráp ido leva ntamento s imples em l ivros, revistas e sites sobre a i nvenção do pr ime i ro a nt ib ió­
t ico, a penic i l i na , rea l ize a s segui ntes atividades por escrito: 
a) Faça a d ife renciação entre o q ue corresponde ao necessá rio, ao acaso e ao possíve l no processo de descoberta 
da pen ici l i na . 
b} Procu re identifica r nesse a rtefato e no p roced imento que levou à sua descobe rta a presença de e l ementos ou 
pressu postos fi losóficos. Po r exemplo, como a tendência à rac iona l idade ou a ca pac idade de d ife re nciação i n ­
fl uencia ram na prod ução da pen ici l i na ? Ou , a i nda, qua l é a ética por trás da comercia l ização desse t i po de me­
d icamento? Apoie seus a rgumentos no que foi estudado neste ca pítu lo sobre a re lação entre fi losofia e ci ênc ia . 
e Capítulo 3 
1 . Qua l é a o rigem do te rmo phi/osophía e po r que Pitágo ras uti l i zou-o pa ra designa r essa á rea do pensa mento? 
2. O que l evou a lguns gregos a se ap roxi ma rem da fi losofia ? 
3. Um dos pr inc i pa i s traços da fi losofia nascente é a tendência à raciona l idade . O que i s so sign ifi ca? 
4. Expl i que a d ife rença entre s íntese e a ná l ise e dê um exem plo não citado neste ca pítu lo para cada uma . 
5. O que sign ifica afi rma r que a ra zão e o pensa mento opera m obedecendo a le is, pr i ncípios e regras un ive rsa is? 
Expl i que com suas pa lavras. 
6. Para a ação humana, qua l é a d iferença entre o necessá rio, o conti ngente e o possíve l? Exponha dando novos exemplos. 
7. O que é o m ito? Po r que e le me recia confia nça e e ra i nq uestionáve l ? 
8. Qua i s as pr i nci pa i s d ife renças entre fi losofia e m ito? Dê um exemp lo de m ito (de qua l que r o rigem) que não 
tenha s ido citado. 
9. Liste, resu mida mente, a s condições h istó rica s que p rop ici a r am o su rgimento da fi l osofia na G récia e exp l ique 
a impo rtâ ncia da ca pac idade de a bstração nesse p rocesso. 
10. Por que a i nvenção da po l ítica fo i decis iva pa ra o nasci mento da fi losofia? 
1 1 . Mencione e exp l i que a lguns legados da fi losofia pa ra o pensa mento ocidenta l . 
12. Veja ao lado a obra O nascimento 
de Vênus, d e S and ro Bottice l l i, 
u m a d a s versões pa ra o nasci­
mento da deusa romana do amor, 
em que e l a se or ig ina da espuma 
do ma r a pós a ge nitá l ia do deus 
U rano (o céu) se r ne le jogada. Co­
mente os a spectos ti p ica m ente 
m íticos p resentes na ob ra e na 
na r rativa. 
O nascimento de Vênus(1483), têmpera 
sobre tela de Sandro Botticelli. Deusa 
romana do amor e da beleza, Vênus 
corresponde à deusa grega Afrodite. 
l n d i cacões 
Estamira 
• Direção de Marcos Prado. Brasi l , 2006. 
Esta m i ra mora e cata l ixo em um aterro san itá r io na reg ião metropo l i tana do Rio de J an e i ro. 
Con s ide rada louca por u n s, e squ i zofrên ica por outros, m istu ra em seus relatos exp l i cações for­
m u ladas por sua m itologia pa rt icu l a r e contestações às exp l i cações m ít icas ou não ra c ion a i s do 
resta nte da soci edade . 
O mundo de Sofia 
• Escrito por Jostein Gaarder. Com panhia das Letras, 2011. 
Capa do DVD Estamira, 
documentário de 
Marcos Prado. 
Neste romance, Sofia começa a receber cartas com pergunta s m i steriosas e s u rpreendentes. Logo descobre que o remetente é 
um professor de F i losofia , com quem começa a descobr i r os fu ndamentos e a h i stória dessa d i sci p l i n a . No enta nto, a jovem passa 
a receber tam bém m isteriosos cartões-posta i s de outro remetente, A lbert Knag. O que e le deseja com essa correspondênc ia? 
A origem da filosofia e 
Os períodos da fi losofia grega 
Como vimos no capítulo anterior, a filosofia nasce 
quando o mito deixa de ser considerado a explicação 
mais convincente e satisfatória da realidade natural e 
humana. Os primeiros filósofos buscaram realizar uma 
reformulação racional das narrativas míticas na tenta­
tiva de explicar a origem do mundo e das coisas. 
Ao longo dos séculos, as preocupações da filosofia 
grega se ampliam para as questões humanas e, depois, 
para o que está além do mundo físico e humano. Veja­
mos quais são essas preocupações em cada um dos 
quatro grandes períodos da filosofia grega. 
1 . Período pré-socrático ou cosmológico (fim do 
século VI I a.C.-fim do século V a.e.): a filosofia se ocu­
pa fundamentalmente com a origem do mundo e as 
causas das transformações na natureza. 
2. Período socrát ico ou antropológico (fim do sé­
culo V a.C.-fim do século IV a.e.): a filosofia investiga 
as questões humanas - isto é, a ética, a política e as 
técnicas. Além disso, busca compreender qual é olugar 
do ser humano no mundo. 
3. Período sistemático (fim do século IV a.C.-fim 
do século I l i a.C.): a filosofia busca reunir e sistemati-
zar tudo o que foi pensado nos dois períodos anterio­
res. A filosofia se interessa em mostrar que tudo po­
de ser objeto do conhecimento filosófico, desde que 
as leis do pensamento e de suas demonstrações es­
tejam firmemente estabelecidas para oferecer os cri­
térios da verdade e da ciência. Nesse período desen­
volvem-se a teoria do conhecimento, a psicologia e a 
lógica. Além disso, os filósofos procuram encontrar o 
fundamento último de todas as coisas por meio de 
uma investigação que, mais tarde, receberá o nome 
metafísica. 
4. Período heleníst ico ou greco-romano (fim do 
século I l i a.C.-século VI d.e.): esse longo período abran­
ge a época do domínio de Roma sobre as terras ao 
redor do mar Mediterrâneo e o surgimento do cristia­
nismo. Nele, a filosofia se ocupa sobretudo com a 
ética, o conhecimento humano, as relações entre os 
humanos e a natureza, e de ambos com Deus. 
antropológico: a palavra grega ântropos quer d izer 
' homem' ; por isso , o período socrático, centrado nas 
questões humanas , fo i chamado antropológico. 
Período pré-socrático ou cosmológico 
A filosofia pré-socrática ou cosmológica se desenvolve em cidades gregas espalhadas por terras que vão do 
atual sul da Itália até a costa ocidental da atual Turquia. 
F i losofia pré-socrática: principa is escolas e fi lósofos 
@ Centros de desenvolvimento da fi losofia cosmológica 
.. 
4? 
., r 
20º L EUROPA 
TRÁCIA 
M e d i t e r r â n e o 
ÁFRICA 
N 
Adaptado de : WORLD History Atlas - Mapping the Human Jou rney. London: 
Dorl ing Kindersley, ZDDS. 
• Escola Jônica 
Tales de Mileto (e. 624 a.C.- c. 546 a.e.) 
Anaximandro de Mileto (e. 610 a.C. -c. 547 a.e.) 
Anaxímenes de Mileto (e. 588 a.C.-c. 524 a.e.) 
Heráclito de Éfeso (e. 535 a.C. -c. 475 a .e.) 
• Escola Itálica 
Pitágoras de 5amos (e. 570 a.C.- c. 495 a.e.) 
Filolau de (rotona (e. 470 a.C.- c. 385 a.e.) 
Árqu itas de Tarento (428 a .C. -347 a .e.) 
• Escola Eleata 
Parmênides de Eleia (e. 515 a.C.- c. 445 a .e.) 
Zenão de Eleia (e. 490 a.C.- c. 430 a.C.) 
• Escola da Pluralidade 
Anaxágoras de (lazômena (e. 500 a.C.- c. 428 a.C.) 
Empédocles de Agrigento (e. 490 a.C.-c. 430 a.C.) 
Leucipo de Abdera (séc. V a.C.) 
Demócrito de Abdera (e. 460 a.C.-c . 371 a.C.). 
------------------------'\ Períodos e campos de i nvestigação da filosofia grega 0 
Vejamos as pr incipais características da cosmologia : 
• É uma exp l i cação ra c io na l e s i stemát i ca sobre 
a o r igem, a ordem e a tra nsfo rmação da natu­
reza, da q u a l os se res h uma nos fazem pa rte. 
Desse modo, ao exp l ica r a natu reza, a fi l osofi a 
ta mbém exp l i ca a or igem e as m uda n ças dos 
se res h u ma nos . 
• B usca o pr i ncíp io natu ra l, ete rno e imperecíve l, 
gerado r de todos os seres e de suas tra nsforma­
ções . A cosmo l og ia não ad m ite a criação do 
mundo a pa rti r do nada . Pa ra e l a, todas as coisas 
são geradas por um pr i ncíp io natu ra l ete rno de 
onde tudo vem e pa ra onde tudo reto rna . E sse 
pr i n cíp io é a physis. A physis não pode ser co­
n hec ida pe la pe rce pção o r ig i nada dos ó rgãos 
dos sent idos (esses só nos ofe recem as coisas já 
existentes), mas a penas pe lo pe nsa mento. Em 
outras pa lavras, e la é a qu i l o que o pensamento 
descobre ao i n daga r a causa da ex i stênc ia e da 
t ra nsformação de todos os seres perceb idos . A 
physis é a Natu reza em sua tota l i dade, isto é, 
entend ida como pr i ncíp io e ca usa pr i mord i a l da 
existênc ia e das tra nsfo rmações das co isas na­
tu ra i s (os seres h u manos a í i n c l u ídos) e como o 
conj u nto o rga n izado (ou o cosmos) de todos os 
seres natu ra is ou fís i cos. 
Lagarta em estágio final de formação de crisálida. Embora a 
physis seja imutável, os seres físicos ou naturais gerados por 
ela são mutáveis ou estão em contínua transformação. 
• Afi rma q u e a physis, em bora i m perecíve l, dá or i ­
gem a todos os se res i nf i n itamente va r iados e 
d i fe rentes do mundo, que são seres perecíve is . 
• Af i rma q u e, em bora a physis sej a i m utáve l, os 
se res fís icos ou natu r a i s ge ra dos por e l a são 
m utáve i s . Como os se res estão em contín ua 
tra nsfo rmação, o mundo está sem pre em mu­
d an ça, sem e nt reta nto pe rde r sua fo rma, sua 
o rd e m e sua esta b i l i d ade . Qua l q u e r t ipo d e 
m ud a n ça - nasce r; m u d a r d e q u a l ida d e, d e 
q ua nt i dade, de um l uga r pa ra outro, mo rrer -
se d i z em grego kinésis ( 'movi mento' ) . As coisas 
natu ra is se m ovem ou são movidas po r outras, 
e o m u n d o está e m m ov imento, i sto é, e m 
tra nsfo rmação pe rmanente. O movi mento das 
co i s a s e d o m u n d o cha m a-se devir, e o dev i r 
segue l e i s r igorosas que o pe nsamento co nhe ­
ce. Essas l e i s most ra m que toda m udança é a 
passagem de u m esta do ao seu co ntrá r i o : d i a ­
- no ite, c l a ro-escu ro, q u e nte-fr i o, seco - úm ido, 
novo-ve l ho, peq ueno-gra nde, bom-mau, che io­
-vaz io, u m - m u itos, vivo -morto, etc., e ta m bém 
no sent ido i nve rso. Essa passagem obedece a 
l e i s dete rm i nadas pe la physis. 
physis: pa lavra grega que sign ifica 'fazer surgir, faze r 
brotar, faze r nascer, produz i r'. De la vem a pa lavra física. 
No enta nto, os fi l ósofos pré-socrát icos d ive rgi am 
ao dete rm i na r o que e ra a physis. Ta les d iz ia que a phy­
sis era a água; Anaximandro cons iderava que e ra o i l i ­
m itado, sem qua l i dades defi n i das; Anaxímenes, que 
e ra o a r; Pitágoras j u lgava que e ra o número (entend ido 
como estrutu ra e re lação proporciona l entre os e lemen­
tos que com põem as coisas) ; He rácl ito afi rmou que e ra 
o fogo; Empédocles, que eram quatro ra ízes (terra, água, 
a r e fogo); Anaxágoras, que e ram sementes que contêm 
os e lementos de todas as co isas; Leuc ipo e Demócr ito 
d isse ram que e ram os átomos. 
Período socrático ou antropológico 
Com o desenvo lv imento das c idades, do comércio, 
do a rtesa nato e das a rtes m i l ita res, Atenas to rnou-se 
o cent ro da vida soc ia l, po l ít i ca e cu ltu ra l da G réc ia . A 
democracia, que fo i cr iada nessa c idade, ap resentava 
d uas ca racte ríst icas de gra nde importâ nc ia pa ra o fu­
tu ro da fi l osofia . 
e Capítulo 4 
Em p r ime i ro l uga r, afi rmava a igua ldade pera nte 
as le i s a todos os homens adu ltos l ivres nasc idos em 
Atenas (mas a penas a e l es, como vimos no Capít u l o 3). 
Em segu ndo, ga ra nt ia a todos e l es a pa rt i c i pação d i ­
reta no governo da pó l is, com d i re ito de expr i m i r, d is­
cut i r e defende r em púb l i co suas o p i n iões sobre as 
decisões que a cidade deveria tomar. Surgia, assim, a 
figura política do cidadão. 
Ora, para conseguir que sua opinião fosse aceita 
nas assembleias, o cidadão precisava ser capaz de per­
suadir os demais. Com isso, uma mudança profunda 
ocorrerá na educação grega. 
Antes da instituição da democracia, as cidades 
eram dominadas pelas famílias aristocráticas (ou da 
nobreza), senhoras das terras e do poder militar. Essas 
famílias criaram um padrão de educação pelo qual o 
homem ideal ou perfeito era o guerreiro belo e bom. 
Belo: seu corpo era formado pela ginástica, pela dança 
e pelos jogos de guerra. Bom: seu espírito era formado 
aprendendo com poetas como Homero, Píndaro e He­
síodo as virtudes admiradas pelos deuses e praticadas 
pelos heróis; a principal delas era a coragem diante da 
morte, na guerra. A virtude era a aretê, ou excelência 
na prática do bem pelo guerreiro. 
aretê: palavra grega que significa 'excelência e 
superioridade'. 
Quando a economia agrária foi sendo suplantada 
pelo artesanato e pelo comércio, a classe social urbana 
rica que se fortalecia (particularmente em Atenas)de­
sejou exercer o poder político, até então privilégio da 
classe aristocrática. Com a instituição da democracia, 
o poder deixa de ser exclusivo dos aristocratas e passa 
para os cidadãos. Dessa maneira, o antigo ideal educa­
tivo ou pedagógico também foi sendo substituído por 
outro, que privilegia a formação do bom cidadão. Assim, 
a nova educação estabelece como a retê ou padrão ideal 
a formação do bom orador, isto é, aquele que sabe falar 
em público e persuadir os outros na política. 
Para dar aos jovens gregos essa educação, surgiram 
os sofistas, os primeiros filósofos do período denomi­
nado socrático. Os sofistas mais importantes são: Pro­
tágoras de Abdera (e. 490 a.C.-c. 415 a.e.), Górgias de 
Leontini (e. 485 a.C.-c. 380 a.e.) e lsócrates de Atenas 
(436 a.C.-338 a.e.). 
Que diziam e faziam os sofistas? Diziam que os 
ensinamentos dos filósofos cosmologistas estavam 
repletos de erros e contradições e que não tinham 
utilidade para a vida da pólis. Apresentavam-se como 
mestres da arte da oratória ou retórica, e capazes de 
ensinar essa arte aos jovens para que fossem bons 
cidadãos. 
Que arte era essa? A arte da persuasão. Os jovens 
aprendiam com os sofistas a defender tanto a posição 
ou opinião A como a posição ou opinião contrária, 
não A. Desse modo, numa assembleia, poderiam ter 
fortes argumentos a favor ou contra uma opinião e 
ganhar a discussão. 
Reprodução/Museu Público de Berlim, Alemanha 
Mestres e alunos de uma escola de Atenas, retratados em uma vasilha grega de argila do século V a.C. O ideal da educação dessa época já não é 
a formação do jovem guerreiro, belo e bom, e sim a formação do bom cidadão. 
-----------------------'\ Períodos e campos de i nvestigação da filosofia grega e 
Os sofistas criaram os sofismas? 
Atua lmente , usa-se a pa lavra sofisma pa ra d efi n i r o rac iocín i o que prete nde parecer ve rdade i ro , 
mas não o é , po is parte de afi rmações que não co rres po ndem à rea l idade ou estabelece re lações que 
não são vá l idas entre afi rmações . E m gera l, o sofisma decorre da i nten ção de engana r ou i lu d i r. 
Essa defi n i ção de sofisma não co rres ponde exata mente à ativi dade dos sofistas, mas fo i atri bu ída 
a e les por Sócrates e P latão , que não ace itava m a ide ia do c idadão como aque le que sabe persuad i r ou 
co nvencer os outros a ace ita r suas o p i n iões . Os sofistas a cred itava m que o c idadão ma is bem-suced i ­
do e m op inar e d i scut i r nas asse mble ias e ra aqu ele capaz de co n h ece r a p lu ra li dade das op i n i ões e as 
possíve is refutações dos po ntos de v ista co ntrá r ios . 
Como resta ra m apenas fragme ntos de seus textos , co n h ece mos os sofistas p r i nc i pa lme nte pe lo 
re lato de seus adve rsá r ios - P latão , Xen ofo nte, Aristóte les. Ass im , não te mos co mo saber se estes fo­
ra m justos co m aque les . H isto ri adores ma is rece ntes co ns idera m os sofistas verdade i ros rep resenta n ­
tes da p lu ra l idade de op i n i ões e i nte resses ca racterística da democrac ia , enqua nto s e u s adve rsár ios 
defende ri am u ma po líti ca a r istocrát ica , na qual somente a lgu mas op i n i ões e i nteresses preva lecer ia m 
na soc iedade . 
Sócrates contra os sofistas 
Sócrates (e. 469 a.C.-399 a.e.) rebelou-se contra os 
sofistas, dizendo que eles não eram filósofos, pois não 
tinham amor pela sabedoria nem respeito pela verdade 
e defendiam qualquer ideia, se isso fosse vantajoso. 
Corrompiam o espírito dos jovens, pois faziam o erro e 
a mentira valerem tanto quanto a verdade. 
Sócrates concordava com os sofistas em dois pon­
tos: por um lado, a educação antiga do guerreiro belo 
e bom já não atendia às exigências da sociedade grega 
e, por outro, os filósofos cosmologistas defendiam 
ideias tão contrárias entre si que também não eram 
fonte segura para o conhecimento verdadeiro. 
Discordando de seus antecessores e contemporâ­
neos, Sócrates propunha que, antes de querer conhecer 
a natureza ou persuadir os outros nas assembleias, 
cada um deveria conhecer-se a si mesmo. 
O retrato que a história da filosofia possui de Só­
crates foi traçado por seu mais importante aluno e 
discípulo, o filósofo ateniense Platão (427 a.C.-347 a.e.). 
Que retrato Platão nos deixa de seu mestre Sócrates? 
Sócrates ensinando na ágora, gravura do século XIX baseada em um baixo-relevo. As representações artísticas de Sócrates se baseiam nos 
relatos deixados pelos diálogos de Platão. 
G Capítulo 4 
O de um homem q u e a ndava pe l a s ruas e praças 
de Ate nas, pe lo merca do e pe la assemb l e i a i n daga n ­
do a ca da u m : "Você s a be o q u e é i sso q u e você es­
tá d i zendo? ", "Você sa be o q u e é i sso em q u e você 
ac red i ta? ", "Você acha q u e co nh ece rea lmente a q u i ­
l o e m que a c red i ta, a q u i l o em que está pe nsa n do, 
a q u i l o q u e está d i ze n do? ". "Você d i z", fa lava Sócra ­
tes , "q u e a co rage m é i m po rta nte, mas o que é a 
coragem? ", "Você ac red ita q u e a j ust iça é i m porta n ­
te, mas o que é a j u st i ça ?", "Você d i z q ue a ma as 
co i sas e as pessoa s be l a s, mas o que é a be l eza ? ", 
"Você c rê q u e seus a m i gos são a me l h o r co i sa q u e 
você tem, m a s o q u e é a a m i zade? ". 
Sócrates faz ia pe rguntas sobre as i de i as e os va ­
l o res nos q ua i s os gregos acred itavam e q u e j u lgavam 
conhece r. Suas pergu ntas de ixava m os i nter locutores 
emba raçados, i r r itados, cu r i osos, po is, q uando tenta­
vam responder ao cé l eb re "o q u e é?", descobria m, s u r­
p resos, q u e não sab iam responder, pois nu nca ti n ham 
pensado em suas crenças, va lo res e ide ias . 
"Só se i que nada se i " 
Mas o p ior não e ra isso: a s pessoas espe ravam que 
Sócrates respondesse por e las ou pa ra e las, como os 
sofistas buscavam faze r. Mas Sócrates, pa ra descon­
certo ge ra l, d iz i a : " Eu também não se i a resposta, por 
i sso estou pergu nta ndo". Donde a famosa expressão 
atr i bu ída a e l e d i a nte da s ib i l a em Delfos : "Só se i que 
nada se i ". 
A consc iênc ia da própr ia ignorâ ncia é o começo da 
f i losofia, d iz ia e le . O que procu rava Sócrates? A defi n i ­
ção daq u i l o q ue u ma coisa, uma i de ia, u m va lo r são 
verdade i ramente - ou seja, sua essência. 
A essência não é dada por aqu i l o q u e os ó rgãos dos 
sentidos nos trazem, e sim pe lo traba lho do pensamen­
to . Po rta nto, procurá- la é procu ra r o que o pensamen­
to conhece da rea l i dade e da verdade de uma co isa, de 
uma ideia, de um va lor. Isso que o pensamento con he­
ce da essênc ia de a lguma co isa chama-se conceito. 
Sócrates p rocu rava o conce ito, e não a mera op i ­
n i ão que temos de nós mesmos, das co isas, das ide ias 
e dos va lores. Qua l a d ife rença entre uma op in ião e u m 
conce ito? A op i n ião va r ia de pessoa para pessoa, d e 
l uga r para l uga r, de época pa ra época . O conce ito, a o 
cont rá r io, é u m a ve rdade i ntempora l, u n ive rsa l e ne­
cessár ia que o pensamento descobre, po is most ra q ua l 
é a essênc ia i ntempora l, u n ive rsa l e necessá r ia de a l ­
guma co isa . 
Vênus Negra (196S-1967), da 
artista francesa Niki de 
Saint-Phalle (1930-2002). 
Vênus de Milo (c. 130 a.e.}, 
escultura grega que 
representa a deusa do 
amor e da beleza, Afrodite 
(Vênus, na cultura romana). 
Se dissermos que uma das 
esculturas é bela e a outra não, 
ou que as duas são belas, 
estaremos pressupondo que 
sabemos o que é beleza. Para 
Sócrates, temos opiniões sobre o 
belo, mas não sabemos 
verdadeiramente o que é a beleza 
se não procurarmos sua essência 
pelo pensamento. 
Sócrates n ão perguntava se uma coisa era be la, 
po is nossa op in i ão sobre e la pode va r ia r. Em vez d isso, 
perguntava "O que é a be l eza ?", "Qua l é a essência ou 
o conce ito do belo?". Faz ia o mesmo com a just iça, a 
coragem, a am izade. 
Sócrates pe rgu ntava : "Que razões r igo rosas você 
possu i pa ra d izer o q u e d iz e pa ra pensa r o q u e pensa?", 
"Qua l é o fu ndamento raciona l daqu i l o que você fa la e 
pensa? 11• 
Ora, as pergu ntas de Sócrates refer iam-se a ide ias, 
va lores, p ráticas e com portamentos que os aten ienses 
j u lgavam ce rtos e verdade i ros em s i mesmos e por s i 
mesmos. Ao susc ita r d úvidas, Sócrates os faz ia pensa r 
não só sobre si mesmos, mas também sobre a pó l is . 
Aq u i l o que pa rec ia evidente aca bava sendo perceb ido 
como duv idoso e i nce rto. 
------------------------'\ Períodos e campos de i nvestigação da filosofia grega 0 
As i de ias do período socrát i co 
Sa bemos que os pod e rosos tê m medo do pen ­
same nto, po i s o pod e r é ma i s fo rte se n i nguém pen ­
sa r. S e m pensa r, tod os a ce ita m a s co i sas co mo nos 
d i zem e nos fa ze m ac re d ita r que s ã o. Pa ra os pod e­
rosos de Atenas , Sócrates to rna ra -se um per igo, pois 
fa z i a a j uve ntu d e pensa r. Po r i sso, e l e s o acusa ra m 
d e d e s respe i ta r os d e u ses , co r ro m pe r os j ove n s e 
vi o l a r a s l e i s . Sóc rates n ã o se d efe n d e u e fo i co n d e ­
nado a to m a r u m ve n e n o, a c i cuta . 
Por que Sóc rates n ã o se d efendeu ? "Po rq ue", d i ­
z i a e l e, "se eu m e d efe n d e r, esta re i aceita n d o as acu ­
sações, e eu não as ace ito. Se e u m e d efe n d e r, o q u e 
o s j u ízes vã o exigi r de m i m ? Que eu pa re de fi losofa r. 
Mas eu prefi ro a morte a ter de ren unc i a r à fi losofi a". 
Sócrates nu nca escreveu. O que sabemos de seu pen­
samento encontra-se nas obras de seus vá rios d iscípu los, 
entre os qua is Platão. Se reun i rmos o que esse fi lósofo 
escreveu sobre os sofistas e sobre Sócrates, e também a 
expos ição de suas próprias ide ias, poderemos encontra r 
a lgumas ca racteríst icas gera is do período socrático. 
• A f i l osofia pa rte da co nfia nça no se r h u m a n o 
co mo u m s e r rac i ona l , ca paz de co nhece r-se a 
s i mesmo e, po rta nto, ca paz de ref lexão. 
• Co m o se t rata de con hecer a ca pac id a d e d e 
co n h ec i m e nto do ser h u ma no, a f i l osof ia co n ­
s i de ra que o pensa m e nto d eve ofe rece r a s i 
m e s m o ca m i n hos, cr i té r ios e m e ios p ró p r ios 
pa ra sabe r o q u e é o ve rdade i ro e co mo a l ca n ­
çá - l o e m tudo o q u e i nvest iga mos . A f i l osofia 
se a po i a em métodos r igorosos q u e d evem 
o r i enta r o pensa m e nto nas i nvest igações . 
método: pa lavra composta do prefixo grego met 
('em d i reção a') e da pa lavra grega odós ('cam inho'). 
Método s ign ifica 'tomar o bom caminho ou o 
ca minho correto pa ra pensar'. 
• A fi losofia se vo lta pa ra as q uestões h u m a nas no 
p la no da ação, dos com porta mentos, das ide ias, 
das crenças, dos va lores. Ao busca r a defi n i cão 
das vi rtudes mora is (do i nd ivíd uo) e das vi rtudes 
po l ít icas (do c idadão), a f i losofia toma como ob­
jeto centra l a ét ica e a po l ít ica . Cabe a e la encon­
tra r a defi n ição, o conceito ou a essência dessas 
vi rtudes, pa ra a l ém da va r iedade das op i n iões. 
• Sócrates e P latão i ntroduze m a sepa ração rad i ­
ca l entre, de um lado, a op in ião e as imagens das 
coi sas (traz idas pe los ó rgãos d os sent id os, pe los 
há b itos, pe las t rad i ções, pe los i nteresses) e, de 
@ Capítulo 4 
outro l ado, os conce itos ou as ide ias . As i de i as 
se referem à essênc ia i nv is íve l e ve rdade i ra das 
co isas e só pode m ser a l cançadas pe lo pensa­
mento pu ro, q ue afasta os dados sensor ia is , os 
há b itos, os p reconce itos, as op i n i ões . 
D iferentemente dos sofi stas, Sócrates e P l atão 
vee m a s o p i n i ões e a s pe rce pções senso r i a i s 
co m o fo nte de e rro, m e nt i ra e fa l s i d a de . E l a s 
serv i ri a m a penas pa ra p rod uz i r a rgu me ntos de 
persuasão, e não pensa m entos ve rd a d e i ros . 
• A reflexão e o traba l ho do pensa mento são to­
mados com o uma pu r if icação i nte lectua l q u e 
perm ite ao espír ito h u mano conhecer a ve rdade 
i nvisíve l , i mutáve l , u n ive rsa l e necessá r ia . 
São essas id e ias q u e, de mane i ra a l egórica ou si m­
bó l ica, encontra mos no M ito da Caverna, a p resentado 
no Ca pítu lo 1 . Ne l e, P l atão esta be l ece uma d i st i n cão 
decisiva pa ra toda a h istó r ia da fi l osofia e das c iências: 
a d i fe rença entre o sensíve l e o i nte l i gíve l . 
O sens íve l são as i ma ge n s das co i sas que pe rce ­
b e m os p o r m e i o d a ex pe r i ê nc i a s e n s o r i a l o u d o s 
ó rgãos dos s e nt idos e pe l a l i nguage m baseada nes­
ses d a d os . Por se basea r e m co m o as co isas nos a pa ­
recem e nos pa rece m, o sensíve l n ã o a l ca n ca a rea ­
l i d a d e o u a e s sênc i a d e l as . As i m age ns s�n s íve is 
fo r m a m a m e ra o p i n i ã o - a doxa -, va r i áve l de pes­
soa pa ra pessoa e de s i tuação pa ra s i tuação . 
O i nte l i gíve l é o con heci mento verdade i ro que a l ­
ca nça m os exc lus iva m e nte pe lo pensa mento. São as 
id eias imateria i s d e tod os os se res ou as essências rea is 
e ve rdade i ras das co isas. Pa ra P latão, a f i losofia é o es­
fo rço do pensa mento pa ra a ba ndonar o sensíve l e pas­
sa r ao i ntel igíve l . 
Esculturas de Platão e Sócrates ladeiam a entrada da Academia de 
Atenas, que se encontrava em reforma em 2015. 
Sócrates, os jovens e seus adversários 
Vós ten des con h ecim en to de que os jovens que dispõem de m ais tempo 
que os outros, os filh os das fam ílias m ais ricas, seguem -me de livre e es­
p o n tânea von tade, e se alegram em assistir a esta minha a n álise dos h o ­
mens; i númeras vezes procuram imita r- m e e tentam, p o r sua p róp ria conta , 
ana lisar a lg u m a p esso a. Sem dúvida, dep a ram -se com numerosos homens 
que ju lgam saber alguma coisa e sab em p o u co ou nada, e então, aqueles que 
são analisados p o r eles voltam -se contra mim e não co ntra quem os ana­
lisou, declarando que Sócrates é h o m em p o r dem ais infame e corruptor 
dos jovens. E se alguém indaga: "Afinal , o que faz e o que ensina este 
Sócrates p a ra co rromper os jovens? ", nada resp o n dem, p o rque o des­
co nh ecem, e, só p a ra não mostrar que estão confusos, dizem as co isas 
que comumente são ditas contra to dos os filósofos, além de afirmarem 
que ele especula sobre as co isas que se en contram no céu e as que ficam 
emba ixo da terra, e que tam bém ensina a n ã o acreditar nos deuses e 
apresenta como m elhores as p i o res razões. A verdade, p o rém, é que 
esses h o m ens dem onstraram ser p esso as que dão a imp ressão de sa­
Sócrates, cabeça em mármore 
do século 1 1 , cópia de um 
original do século IV a. C. 
ber tudo, p o rém, natu ralm ente, não querem dizer a verdade. [ . . . ] Este é 
o m o tivo p elo qual , fin a lm ente, Meleto , Ân ito e Lícon lançaram -se contra mim: Meleto p rofunda­
mente irado p o r causa dos antigos po etas, Ân ito p o r causa dos artesãos e dos po l íticos, Lícon por 
causa dos o radores. Contudo, como vos disse desde o i n ício , seria de fa to um verdadeiro mi lagre 
se eu tivesse a cap acidade de arran car-vos do coração esta calún ia que p ossu i raízes tão firmes 
e p rofu ndas. Esta é, ó cidadãos, a verdade, e eu a revelo p o r co mp leto, sem ocu ltar- vos nada, nem 
mesmo esquivando - m e dela, e m b o ra sa iba que sou od iado p o r mu itos exatamente p o r isso. 
PLATÃO. Apologia de Sócrates. São Pau lo : Nova Cu lt u ra l , 1999. 
p. 73-74. (Os pensado res.) 
1 . D e aco rdo com o trecho, q uem s ã o o s jovens q ue segu i am Sócrates? Po r q u e isso p rovocar ia i ncômodo em 
outras pessoas? 
2 . Com base no q ue você leu neste ca pítu lo e no ante r ior, exp l ique os motivos de cada um dos grupos defen­
d idos por Meleto, Ân ito e Lícon pa ra se opor a Sócrates. 
Período sistemático 
Esse pe ríodo tem como pr i nc ipa l nome o f i lósofo 
Aristóte les de Estagi ra (384 a .C.-322 a .e .), d iscípu lo de 
P latão. Passados quase quatro sécu los de fi losofia, Aris­
tóte les se p ropôs a reu n i r todo o sabe r p rod uz ido e 
acumu lado pelos gregos em todos os ramos do pensa­
mento e da prática . Essa tota l i dade de saberes e ra con­
s iderada como sendo a fi l osofia . Esta, porta nto, não é 
um sa ber específico sobre a lgum assu nto, mas uma 
forma de conhecer todas as coisas, com proced imentos 
d ife rentes pa ra cada setor de co isas. 
Além de a fi l osofia ser o con hecimento da tota l i ­
dade dos conhec imentos e práticas humanas, e la tam-
bém d iferenc ia esses con hecimentos e os d istr i b u i 
numa esca la que va i dos ma i s s imp les e i nfe r iores aos 
ma is comp lexos e super io res. Essa class if icação e d is­
t r ibu ição dos con hec imentos f ixou, pa ra o pensamen­
to oc identa l, os cam pos de i nvest igação da f i l osofia 
como tota l i dade do saber humano. 
Cada saber é uma d isc i p l i na que possu i um campo 
própr io, u m objeto específico, proced imentos específi ­
cos pa ra sua aqu is ição e exposição, formas própr ias de 
demonstração e p rova . Cada campo do conhecimento 
ou cada d isci p l i na é uma ciência (em grego, epistéme), 
e seu conju nto forma a fi losofia . Antes que se constitua 
------------------------'\ Períodos e campos de i nvestigação da filosofia grega @ 
esse conjunto de fatores para um conhecimento, po­
rém, Aristóteles afirma que é preciso conhecer os prin­
cípios e as leis gerais que governam o próprio pensa­
mento, independentemente do conteúdo que possa vir 
a ser pensado. 
O estudo dos princípios e das formas do pensamen­
to, sem preocupação com seu conteúdo, foi chamado 
por Aristóteles de analítica, mas, desde a Idade Média, 
passou a se chamar lógica. Aristóteles foi o criador da 
lógica como instrumento do conhecimento em qual­
quer campo do saber. A lógica não é uma ciência, mas 
o instrumento para ela. 
f , 1 1 ' "' 
Cópia manuscrita bizantina do Órganon, de Aristóteles, feita no 
século XI I I . O Órganon é a compilação de tratados do filósofo grego 
sobre a analítica, que receberia o nome lógica na Idade Média. 
Os cam pos do conheci mento 
fi losófi co 
Devemos a Aristóteles a primeira grande classifi­
cação dos setores da atividade filosófica ao distinguir 
e classificar todos os saberes humanos {cuja totalidade 
é a filosofia). O critério por ele adotado é a distinção 
entre ação e contemplação. Isto é, Aristóteles diferencia 
os saberes ou ciências que constituem a filosofia con­
forme seus objetos e finalidades: 
G Capítulo 4 
• Ciências produtivas: estudam as práticas produ­
tivas ou as técnicas, isto é, as ações humanas que 
visam à produção de um objeto ou de uma obra 
que se distinguem do próprio produtor. São elas: 
arquitetura, economia, medicina, pintura, escul­
tura, poesia, teatro, oratória, arte da guerra, da 
caça, da navegação, etc. 
• Ciências práticas: estudam as práticas humanas 
que têm seu fim nelas mesmas, nas quais não há 
distinção entre o agente e o ato que ele realiza. São 
elas: ética, em que a vontade guiada pela razão 
leva à ação conforme as virtudes morais (coragem, 
generosidade, fidelidade, lealdade, clemência, pru­
dência, amizade, justiça, modéstia, honradez, etc.), 
tendo como finalidade o bem do indivíduo; e po­
lítica, em que a ação racional voluntária tem como 
fim o bem da comunidade ou o bem comum. 
ética e política: ética (em grego, ethiké) deriva de 
éthos, que significa 'o caráter ou o temperamento 
de alguém'. A ética é a disciplina filosófica que 
estuda as condutas virtuosas ou corretas que 
devem modelar o caráter de uma pessoa. 
Política (em grego, politiké) deriva de pólis; 
portanto, se refere às ações dos cidadãos. A política 
é a disciplina filosófica que estuda as instituições e 
a forma de ação que constituem a pólis. 
Os gregos da época clássica consideram a 
política superior à ética. Para eles, não pode 
haver vida virtuosa sem a verdadeira liberdade, 
e esta só é conseguida na pólis. Por isso, a 
finalidade da política é a vida justa, a vida boa 
e bela, a vida livre. 
• Ciências teoréticas ou contemplativas : estudam 
coisas que existem independentemente dos se­
res humanos e de suas ações e que, por isso, po­
dem apenas ser contempladas por eles. O que 
são essas coisas? São as coisas da natureza e as 
coisas divinas. Aristóteles classifica as ciências 
teoréticas por graus de superioridade, indo da 
mais inferior à superior: 
1. ciência das coisas naturais submetidas 
à mudança ou ao devir: física, biologia, meteorologia, 
psicologia (a alma - em grego, psyché - é um ser 
natural que existe de formas variadas em todos os 
seres vivos, plantas, animais e seres humanos); 
2 . ciência das coisas naturais que não estão 
submetidas à mudança ou ao devir: as matemáticas 
e a astronomia (os gregos julgavam que os astros 
eram eternos e imutáveis); 
3 . ciência da realidade pura: estuda o que 
Aristóteles chama de o Ser ou substância de tudo 
o que existe. Ou seja, t rata-se daq u i l o que deve 
haver e m toda e q ua l q u e r rea l idade - natu ra l , 
matemática, ética, po l ít i ca ou técn ica - pa ra ser 
rea l idade. Esta c iência teorética foi chamada 
Filosofia Primeira por Ar istóte les . A lguns sécu los 
depois, como os l ivros q u e a expu n h a m estava m 
loca l izados nas b i b l iotecas depois dos l i vros que 
exp u n h a m a fís ica, e la passou a ser chamada 
metafísica (em grego, meta s ign ifica 'o que vem 
depo is, o que está a l ém'; no caso, os l ivros que 
A heranca da classificacão aristotélica , , 
v inham d e po is da fís ica e q u e t ratava m da 
rea l i dade pa ra a l ém da fís i ca); 
4. c iênc ia das coisas d iv i nas que são a ca usa 
e a f ina l idade de tudo o que existe na natu reza e 
no ser humano. Deus (em grego, théos) e as coisas 
d ivi nas são chamadas theion; por isso, esta ú lt ima 
ciência se cha ma teo log ia . 
A fi l osofia, pa ra Aristóte l es, encontra seu ponto 
mais a lto na metafísica e na teologia, das qua is deriva m 
todos os outros conhec imentos. 
A class ifi cação a ristoté l ica ser ia desfeita no sécu lo X IX , 
q u a ndo as c i ênc i as pa rt icu la res fo ra m se separa n d o d o tro n co 
ge ra l d a fi losofi a . Cons ide ra ndo-se a c lass ificação a ri stoté li ca , 
p o d e m o s d i ze r q u e atu a lme nte os ca mpos de i nvestigaçã o da 
fi losofia são três : 
1 . O do conhecimento do Ser: isto é , da rea lidade fu ndamenta l e 
pr imord ial de todas as coisas, ou da essênc ia de toda rea li­
dade. Como, em grego, "se r" se diz on e "as coisas", ta anta, 
esse cam po é chamado ontologia. Na concepção de Aristó­
te les , a ontologia e ra formada pelo conju nto da metafís ica 
(Fi losofia Prime i ra) e da teo logia . 
2 . O do conhecimento das ações humanas ou dos valores e das 
finalidades da ação humana : das a ções que tê m em s i mesmas sua 
fi n a li dade , a éti ca e a po lít ica ; e das a ções q u e têm sua fi n a li d a d e 
n u m produto ou n u ma obra , as téc n i cas e as a rtes e s e u s va lo res 
(ut i l i dade , be leza , etc . ) . 
O pensador(190Z), escu ltura do artista 
francês Auguste Rodin (1840-1917). 
3. O do conhecimento da capacidade humana de conhecer: isto é, o co- O campo do conhecimento das ações 
nhec imento do própr io pensamento em exercíc io . Nesse campo estão: humanas ainda hoje faz parte da filosofia. 
a lógica , que oferece as le is gera is do pensa mento; a teoria do con h ec imento, que a p resenta as d ife ren­
tes mane i ras de conhecer e oferece os p rocedimentos pelos qua is co nhecemos; as c iênc ias p ropria men­
te d itas (isto é , o que ho je chamamos ciências) ; e a teor ia das c iências ou epistemologia, que estuda e 
ava l ia os proced imentos empregados pelas d ife rentes c iênc ias para defi n i r e con hecer seus objetos. 
Período helenístico ou greco-romano 
Os gregos chamavam a G récia d e Hé lade e a s i 
mesmos de helenos. O helenismo se refere à G récia i ntei ra, 
e não a u ma cidade em particu la r. No período he lenístico, 
a pó l is grega de ixa de ser o centro polít ico e a referência 
pr inci pa l dos fi lósofos, uma vez que a G récia se encontra 
sob o poder io de outros i mpér ios, pa rticu la rmente o 
Macedôn ico e o Roma no. Os fi lósofos passa m a d izer q u e 
e les s ã o cidadãos do mundo. Como, em grego, m u ndo se 
d iz cosmos, esse período é o da chamada filosofia 
cosmopolita - o cosmos é a pól is do fi lósofo. 
Data m desse pe ríodo t rês gra ndes s i stemas q u e 
ma i s ta rde i n fl u e nc i a ra m o pensa m e nto c r istão : 
estoicismo, epicurismo e neoplatonismo. Contra e l e s e 
toda a fi l osof ia e rgueu -se u m a corrente d e n o m i nada 
ceticismo. Esses s istemas o u d outr inas b usca m 
e nte n d e r a rea l id a d e com o u m tod o a rt icu l a d o e 
entre laçado fo rmado pelas co isas da natu reza, os seres 
h u ma nos e as re l ações e ntre estes, constitu i ndo u m 
s istema composto de fís ica , teor ia do con h eci mento 
e ét ica . 
-----------------------'\ Períodos e campos de i nvestigação da filosofia grega @ 
Sistemas e correntes da fi losofia cosmopolita 
• Estoic ismo: o s istema refe re tudo o que existe a u ma ú n i ca d iv i ndade , que esta­
be lece e co nserva a ordem u n iversal . O esto ic i smo se assenta na i de i a de auto­
co ntrole co mo i dea l d e v i da . 
• Epicur ismo: afasta a i de i a de que d iv i ndades i nterf i ra m na o rdem . O ep i cu r ismo 
se assenta na ide ia de s i m p l i c i dade co mo ideal d e v ida . 
• Ceticismo: d i ante da va ri edade d e fi losofias , os f i lósofos d essa corrente procu ram 
mostra r que os h u m a nos não têm o poder de conhecer a verdade e são capazes 
ape nas de op i n iões p rováve is sobre as co isas e de ações co rretas na v ida prát ica . 
• Neoplatonismo: poster i o r aos outros s iste mas e correntes , busca recu pera r o 
pensame nto d e P latão e de Ar istóte les e terá mu ita i nflu ê nc ia na fo rmação do 
pensame nto f i losóf ico cr istão , como veremos no Capítu lo 5 . 
.. 
O filósofo neoplatônico 
Plotino, mármore 
de e. 350. 
A amplidão do Império Romano e sua posterior 
divisão em Império Romano do Ocidente e Império 
Romano do Oriente, a presença crescente de religiões 
orientais no Império e as relações comerciais e cultu­
rais entre Ocidente e Oriente fizeram aumentar os 
contatos dos filósofos helenistas com a sabedoria 
oriental. Podemos falar que o neoplatonismo pro mo-
veu uma orientalização da filosofia, sobretudo com 
aspectos místicos e religiosos no pensamento e na 
ação. Assim, após se originar de uma profunda modi­
ficação na herança oriental, a filosofia parece retornar 
ao ponto de partida, incorporando aspectos do pen­
samento de outras culturas (Egito, Pérsia, Babilônia, 
Palestina, Índia). 
Conexões 
Esta atividade trabalha com conteúdos de Filosofia e Língua Portuguesa. 
Em nossa sociedade, a palavra filosofia é utilizada com diferentes sentidos no cotidiano. Veja esta tirinha de 
Laerte. 
� UmAoeR.Ã ==c8RE Cõ TSMS 
�e.a; � HUMANII::.\DE: : .. . 
\l tr::A; .-DNHEI�! .. . AMCR.f . . . 
A filosofia barata segundo Fagundes, tirinha de laerte. 
1 . Procu re no d ic ioná r io a s acepções pa ra a pa lavra filosofia. 
a) Com pa re essas defi n ições com o q ue você vi u a respeito da atividade fi losófica na G récia a ntiga. 
b} Pe lo que você estudou no Ca pítu lo 2, mostre qua l defi n i ção da fi losofia exp l i ca o que os fi lósofos gregos enten­
d iam por fi losofia . 
2 . Pa rti ndo da posição socrát ica, como a afi rmaçã o da personage m da ti r i nha so bre os "te mas básicos da h u ma­
n idade", q ue o l ivro a bo rda r ia , poder ia se r q uestionada? 
G Capítulo 4 
1 . Liste o s pr inc ipa is pe ríodos da f i losofia grega, re la­
cionando-os à ide ia ce ntra l de cada u m de les. 
2. O que é kinésis ou o devi r? Po r que essa ideia é cen­
tra l no pensame nto pré-socrático? 
6. Po r que Platão d i sti ngu iu entre o se nsíve l e o i nte­
l igíve l ? Qua l a re lação dessa d isti nção com o Mito 
da Caverna , q ue v imos no Cap ítu lo 1 ? 
3. Que ensi namentos dos sofistas Sócrates combat ia? 
7. Qua l é a c l a ss if icação das c iênc ias fe ita por Ar is ­
tóte les? 
O que e l e propunha em contra pa rtida? 
4. Exp l i que, com suas pa lavra s, o que Sócrates p re­
tend ia ao busca r a essênc ia e o conceito das coisas. 
5. Sócrates incomodou m uitos aten ienses e aca bou 
sendo condenado à morte . 
8. Tom a n d o com o base a c lass if icação a ri stoté l i ca 
dos ca m pos da i nvestigação fi l osófica, como po­
de r ia m se r catego rizadas a Quím ica e a Agrono­
m ia ? J u stifique . 
a ) Po r q ue isso aconteceu? 
9. Qua is são a s p r i nc ipa i s ca racte r íst icas d o pe ríodo 
he l e n ísti co? 
b} Busq ue na h istó r ia um exem plo de outro i nd iví­
duo ou movi me nto persegu ido por ca usas se­
me l hantes. 
l n d i cacões 
Alexandre 
• Direção de O l iver Stone. Estados Unidos, 2004. 
F i lme ép ico q ue se base ia na vida do imperador Alexand re, da Macedôn ia . D isc ípu lo, q uando 
jovem, do fi lósofo Aristóte les , A lexand re expa nd i u até a Ín d ia e o Egito o im pér io que s eu pa i 
hav ia i n i ci ado ao conqu ista r a s c idades gregas . O fi lme retrata sua h i stória como uma trama de 
conqu istas m i l ita res, busca pe la sa bedor ia e re lações pessoa i s de amor e c iú me. 
Como ler os pré-socráticos 
O jovem Alexandre (Connor Paolo) e seu tutor, Aristóteles (Christopher 
Plummer), em cena do filme Alexandre, dirigido por Oliver Stone. 
• Escrito por Cristina de Souza Agostini . Pau lu s, 2012. 
Este l iv ro ap resenta em deta l h es a tra ns ição, na G récia a nt iga , da exp l icação m ítica para a da 
f i losofia cosmológica , i n ic iada por Ta les de M i l eto. Além d isso, reve la a infl u ênc ia do pensa­
mento dos p ré-socráticos no decorrer da h i stória da fi losofia . 
O mundo de Atenas 
• Escrito por Luciano Canfora. Companhia das Letras, 2015. 
O h i storia dor e fi lósofo ita l i a no a n a l i sa o período de formação da democra c ia e da fi losofia 
a ntropo lóg ica em Atenas a part i r dos textos e documentos de então. Ass im, d esve la as crít ica s 
e tensões existentes n a época . 
Ancient Greece (em inglês) 
• Disponíve l em: <www.ancientgreece.co.uk>. Acesso em: 13 dez. 2015. 
Site l i gado ao British Museu m de Lond res, Re i no Un ido, a p resenta os pr inc ipa i s aspectos da 
vida na G récia do tempo dos prime i ros fi lósofos. Há também breves b iografias de fi l ósofos, 
d ramatu rgos, matemáticos e c ienti stas . 
L U C. I A N O 
C A N F O R A 
O M U N D O 
Capa de edição brasileira do 
livro D mundo de Atenas, de 
Luciano Canfora. 
-------------------------'\ Períodos e campos de i nvestigação da filosofia grega @ 
A filosofia na história 
Como todas as criações e instituições humanas, a 
filosofia está na história e tem uma história. 
Está na h istória : a filosofia manifesta e exprime os 
problemas e as questões que, em cada época, os seres 
humanos colocam para si mesmos diante do que é no­
vo e ainda não foi compreendido. A filosofia enfrenta 
essa novidade oferecendo caminhos, respostas e, so­
bretudo, novas perguntas, num diálogo permanente 
com a sociedade e a cultura de seu tempo. 
Tem uma h istória : essas respostas, soluções e no­
vas perguntas ou tornam-se saberes queoutros filóso­
fos prosseguem, ou, frequentemente, tornam-se novos 
problemas que outros filósofos tentam resolver. Nesses 
momentos, as gerações posteriores podem tanto apro­
veitar o passado filosófico como criticá-lo e refutá-lo. 
Além disso, as transformações nos modos de co­
nhecer podem ampliar os campos de investigação da 
filosofia, fazendo surgir novas disciplinas filosóficas. 
Por outro lado, alguns de seus conhecimentos podem 
formar disciplinas separadas. 
campos de investigação da filosofia: a filosofia teve 
seu campo de atividade aumentado, no século XV I I I , 
com a filosofia da arte ou estética; no século XIX, 
a filosofia da história; no século XX, a filosofia da 
linguagem. Por outro lado, seu campo diminuiu quando 
as ciências que dela faziam parte passaram a constituir 
suas próprias esferas de investigação. É o que ocorre 
no século XVI I I , quando se desligam da filosofia a 
biologia, a física e a química; e, nos séculos XIX e XX, 
as chamadas ciências humanas (sociologia, psicologia, 
antropologia, história, etc.) . 
Os principais períodos da filosofia 
Por estar na história e ter uma história, a filosofia 
costuma ser apresentada em grandes períodos. Eles 
acompanham, de modo geral, os períodos em que os 
historiadores dividem a história da sociedade ocidental. 
F i losofia ant iga (do sécu lo 
V I a .e . ao século V I d .C.) 
Compreende os quatro grandes períodos da filoso­
fia greco-romana vistos no capítulo anterior. 
F i losofia patríst i ca 
(do século I ao sécu lo VI I ) 
Inicia-se com as Epístolas do apóstolo Paulo (e. 5 d.C.­
-67 d.e.) e o Evangelho do apóstolo João (c. 15 d.C.-c. 100 d.e.) 
e termina no século VI I I, quando teve início a filosofia 
medieval. 
A filosofia desse período é conhecida pelo nome 
de patrística, pois, além dos apóstolos Paulo e João, 
também foi obra dos chamados Padres da Igreja cató­
lica, isto é, dos dirigentes espirituais e políticos do cris­
tianismo que sucederam os apóstolos. 
A patrística resultou do esforço para conciliar a no­
va religião - o cristianismo - com o pensamento filo­
sófico dos gregos e romanos, a fim de convencer os 
pagãos da nova verdade e convertê-los a ela. A filosofia 
patrística liga-se, portanto, à evangelização e à defesa 
da religião cristã contra os ataques que recebia. Seus 
nomes mais importantes foram Justino (100-165), Cle­
mente (e. 1 50-c. 21 5), Tertuliano ( 155-240), Orígenes 
(e. 184-c. 253), Eusébio (e. 260-c. 339), São Gregório de 
Nazianzo (e. 329-390), Santo Ambrósio (e. 340-397), 
São João Crisóstomo (e. 349-407) e Santo Agostinho 
(354-430). 
São Basílio , São João Crisóstomo e São Gregório de Nazianzo, em 
mosaico do século XIV na antiga Igreja de São Salvador, atual Museu 
Chora (Kariye Muzesi), em Istambul, Turquia. Mu itos dos filósofos da 
patrística eram religiosos que buscavam conciliar as crenças cristãs 
com a herança filosófica greco-romana. 
evangelização: a palavra evangelho vem do grego 
vangelios, que significa 'mensagem'. É composta do 
prefixo e, que (assim como o prefixo eu) significa 'algo 
bom e feliz'. Evangelho significa 'mensagem feliz', 'uma 
boa nova'. Evangelização é a transmissão do Evangelho de 
Jesus Cristo para converter pagãos em cristãos. 
____________________________ '\ Principais períodos da h istória da filosofia G 
A patrística introduziu ideias desconhecidas para 
os filósofos greco-romanos: a de criação do mundo a 
partir do nada, de pecado original do homem, de Deus 
como trindade una (Pai, Filho e Espírito Santo), de en­
carnação e morte de Deus, de juízo final ou de fim dos 
tempos e ressurreição dos mortos, etc. Precisou tam­
bém explicar como o mal pode existir no mundo, uma 
vez que tudo foi criado por Deus, que é pura perfeição 
e bondade. 
Introduziu, sobretudo com Santo Agostinho, a ideia 
de "homem interior", isto é, da consciência moral e do 
livre-arbítrio da vontade. Por meio dela, explicava-se 
que o ser humano, por ser dotado de liberdade para 
escolher entre o bem e o mal, é o responsável pela exis­
tência do mal no mundo. 
Para impor as ideias cristãs, os Padres as transfor­
maram em verdades reveladas por Deus (por meio da 
Bíblia e dos santos). Por serem decretos divinos, elas 
seriam dogmas, isto é, verdades irrefutáveis e inques­
tionáveis. Com isso, criou-se uma distinção entre ver­
dades reveladas ou da fé e verdades da razão ou huma­
nas, ou seja, entre verdades sobrenaturais e verdades 
naturais. As primeiras introduzem a noção de conheci­
mento recebido por uma graça divina, superior ao sim­
ples conhecimento racional. Dessa forma, o grande 
tema da filosofia patrística é o da possibilidade ou im­
possibilidade de conciliar a razão (que lida com demons­
trações) com a fé (que lida com mistérios incompreen­
síveis, como três pessoas formando uma só; a morte 
de Deus por meio de Jesus; a transformação do pão e 
do vinho em corpo e sangue de Cristo, etc.). 
A esse respeito, havia três posições principais: 
1. os que julgavam fé e razão irreconciliáveis e a fé 
superior à razão (diziam eles: "Creio porque absurdo"); 
2. os que julgavam fé e razão conciliáveis, mas subor­
dinavam a razão à fé (diziam: "Creio para compreender"); 
3. os que julgavam razão e fé irreconciliáveis, mas 
afirmavam que cada uma delas tem seu campo próprio 
de conhecimento. Por isso, razão e fé não devem se mis­
turar (a razão se refere a tudo o que concerne à vida 
temporal das pessoas no mundo; a fé, a tudo o que se 
refere à salvação da alma e à vida eterna futura). 
F i losofia med i eva l 
(do século VI l i ao sécu lo X IV) 
Abrange pensadores europeus, muçulmanos e ju­
deus. É o período em que a Igreja romana dominava a 
Europa, ungia e coroava reis, organizava Cruzadas à 
e Capítulo s 
chamada Terra Santa e criava, à volta das catedrais, as 
primeiras universidades ou escolas. A partir do século 
XI I , por ter sido ensinada nas escolas, a filosofia medie­
val também é conhecida com o nome de escolástica. 
Santa Catarina de Siena (1347-1380), filósofa e teóloga escolástica, 
em pintura de Domenico Beccafumi de e. 1515. Pinacoteca Nacional 
de Siena, na Itália. 
A filosofia medieval teve como influências principais 
Platão (427 a.C.-347 a.e.) e Aristóteles (384 a.C.-322 a.e.). 
Porém, os medievais conheciam Platão interpretado 
pelo filósofo Platino (205-270), ou seja, o neoplatonismo, 
e o Aristóteles conservado e traduzido pelos pensado­
res muçulmanos, particularmente Avicena (980-1037) 
e Averróis (11 26-1198). Essas traduções árabes também 
foram muito usadas por filósofos judeus como Maimô­
nides (1138-1204), Gersônides (1 288-1344) e Crescas 
(e. 1340-c. 1411), que pacificamente viveram em terras 
sob domínio muçulmano. 
Conservando e discutindo os mesmos problemas 
que a patrística, a filosofia medieval acrescentou ou­
tros. Assim, deu origem à teologia no pensamento cris­
tão, judaico e muçulmano, isto é, à explicação racional 
das verdades da fé. 
Principa is temas da fi losofia med ieval 
• A cr iação d o m u n d o po r Deus (o ente n d i m e nto de Deus co n cebe as i de ias das co isas e a vo nta d e 
d i v i n a as c r i a , faze ndo-as exist i r) . 
• A d ife ren ça e s e pa ração e ntre i nf i n ito (Deus) e f i n ito (h o m e m , m u n d o) . 
• A d ife ren ça e ntre razã o e fé (a p r i m e i ra d eve subord i na r-se à segu nda) . 
• A d ife ren ça e ntre natu ra l e sobrenatu ra l (as revelações d iv inas e os m i lag res). 
• A separação entre co rpo (maté r ia) e a lma (esp ír ito). 
• O u n iverso co m o u ma h i e rarqu ia de s e res , p e la qua l os su per i o res (Deus , s e raf ins , q u e ru b i n s , a rcan­
jos , a njos , a lmas h u ma nas) d o m i n a m e gove rnam os i nfe r i o res (co rpo humano , a n i ma is , vegeta is , 
m i n e ra is) . 
• A subo rd i na ção d o poder tem pora l dos re is e dos nob res ao poder esp i r itu a l d e papas e b i spos . 
O saber e a i lum inacão d ivina 
Nosso saber consta d e coisas q ue vemos e coisas e m q u e acreditamos; das primei­
ras, somos testemunhas diretas, das segundas, temos o testemunho idôneo de outros 
que nos fazem crer porque, por meio de palavras e escritos, nos oferecem sinais dessas 
coisas que não vemos. Podemos com razão dizer que há saber quando cremos em 
algo com certeza e dizemos que vemos com a mente essas co isas nas quais cre­
mos, ainda que não estejam presentes aos nossos órgãos dos sentidos [ . . . ] . Re­
almente, a fé vê com a mente [ . . . ] . Por isso o apóstolo Pedro diz: "Aquele em quem 
agora crês, não o vês"; e disse o Senhor: "Bem -aventurados os que não viram e 
creram". [ . . . ] Terás, assim, reconhecido a diferença entre ver com os o lhos do 
corpo e com os olhos da mente [ . . . ] . Crer se real iza com a mente e vê com a men­
te e as coisas em que com essa fé cremos distam do olhar de nossos olhos. Por 
isso vejo a minha fé, mas não posso ver a tua, assim como tu vês a tua fé e não 
podes ver a minha, po is ninguém sabe o que se passa no espírito que está em 
cada homem até que venha o Senhor e i lumine os segredos das trevas e mani­
feste os pensamentos do coração para que cada um possa ver não somente os 
seus, mas também os alheios. 
SANTO AGOSTI N HO. Ca rta a Pa u l i na. ln : FERNÁNDEZ, 
C lemente (O rg.). Los filósofos medievales. Selección de textos. 
Madr i : Edito r ia l Catól ica, 1979. p. 493-494. Texto traduzido. 
• Após a l e itura do trecho, responda, por escrito, à s segui ntes q uestões: 
a) Quais são as fontes do saber, de aco rdo com o a uto r? 
Santo Agostinho, em 
representação na fachada da 
catedral de Lichfield, Inglaterra. 
b} Agosti n ho afi rma : " Podemos com razão d izer que há sabe r qua ndo cremos em a lgo com certeza e 
d i zemos q ue ve mos com a me nte essas co isas nas q ua i s cremos, a i nda que não esteja m p resentes aos 
nossos ó rgãos dos sentidos". Em que aspectos esse trecho se ap roxi ma e e m que aspectos se d i sta ncia 
do que vi mos sobre o pensa mento de Sócrates e P latão no Ca pítu lo 4? 
____________________________ '\ Principais períodos da h istória da filosofia 0 
Outra característica marcante da escolástica foi o 
método por ela inventado para expor as ideias filosó­
ficas, conhecido como disputa : apresentava-se uma 
tese, que devia ser refutada ou defendida com argu­
mentos tirados da Bíblia, de Aristóteles, de Platão ou 
de Padres da Igreja. 
Assim, uma ideia era considerada uma tese verda­
deira ou falsa dependendo da força e da qualidade dos 
argumentos encontrados nos vários autores. Por causa 
desse método de disputa, costuma-se dizer que, na 
Idade Média, o pensamento estava subordinado ao 
princípio da autoridade. Isto é, uma ideia era conside­
rada verdadeira se tivesse apoio nos argumentos de 
uma autoridade reconhecida na época. 
F i losofia da Renascenca 
(sécu los X IV e XV) 
É marcada pela descoberta, na Europa ocidental, 
das obras de Platão e de outras obras de Aristóteles, 
desconhecidas na Idade Média. Nessa época, muitos 
também se dedicam a recuperar obras de autores e 
artistas gregos e romanos e a imitá-los. Por isso o nome 
Renascimento, isto é, o retorno do pensamento da An­
tiguidade ocidental. Na filosofia, destacam-se os nomes 
dos florentinos Marsílio Ficino (1433-1499) e Maquiavel 
(1469-1527) e do napolitano Giordano Bruno (1 548-1600), 
do inglês Thomas Morus (1478-1535), dos franceses Mon­
taigne (1 533-1592) e Bodin (1 530-1596), e do holandês 
Erasmo (1466-1536). 
São três as grandes linhas de pensamento que pre­
dominavam na Renascença: 
1 . Aquela proveniente da leitura de três diálogos de 
Platão (Banquete, Fédon, Fedro), das obras dos filósofos 
neoplatônicos e da descoberta dos livros de hermetis­
mo ou de magia natural. Supunha-se que estes últimos 
seriam egípcios e teriam sido ditados por deuses a seus 
filhos humanos séculos antes de Moisés e de Platão. 
Surgida na cidade de Florença (na atual Itália), essa 
linha de pensamento concebia a natureza como um 
grande ser vivo, dotado de uma alma universal (a Alma 
do Mundo) e feito de laços e vínculos secretos de sim­
patia e antipatia entre todas as coisas, tanto terrestres 
quanto celestes. O homem, como parte da natureza, 
poderia agir sobre o mundo por meio de conhecimentos 
e práticas que operam com essas ligações secretas, isto 
é, por meio da magia natural, da alquimia e da astrologia. 
2. Aquela originária dos pensadores florentinos que 
valorizavam a vida ativa (a política) e defendiam a liber-
@ Capítulo s 
dade das cidades italianas contra o poderio dos papas e 
dos imperadores. Esses pensadores recuperavam a ideia 
de república livre presente nas obras dos grandes auto­
res políticos da Roma antiga, como Cícero (e. 106 a.C.­
-43 a.e.), Tito Lívio (59 a.C.-17 d.e.) e Tácito (55-120), bem 
como nos escritos de historiadores e juristas clássicos. 
3. Aquela que propunha o ideal do homem como 
artesão ou arquiteto de seu próprio destino. Isso ocor­
reria tanto por meio dos conhecimentos (astrologia, 
magia, alquimia) como por meio da política (o ideal 
republicano), das técnicas (medicina, arquitetura, en­
genharia, navegação) e das artes (pintura, escultura, 
poesia, teatro). 
Percebe-se, assim, por que se costuma falar no hu­
manismo como traço predominante da Renascença, 
uma vez que nela o ser humano é colocado como cen­
tro do Universo, defendido em sua liberdade e em seu 
poder criador e transformador. Enquanto o pensamen­
to medieval tinha seu centro em Deus - teocentrismo 
- o do Renascimento tinha seu centro no homem -
antropocentrismo. 
Em um de seus mais famosos desenhos (e. 1490), Leonardo da Vinci 
partiu das proporções anatômicas ideais segundo o arqu iteto 
romano Vitrúvio (século I a .C.) para chegar à ideia de que o corpo 
masculino é matematicamente perfeito pelas proporções racionais 
entre suas partes. Galeria da Academia, em Veneza, na Itália . 
A intensa atividade teórica e prática dessa época foi 
a l imentada pelas gra ndes viagens ma rítimas, que l eva­
vam os eu ropeus a conhece r novos mares, novos céus, 
novas terras e novas gentes, permit i ndo- l hes te r uma 
visão crít ica de sua p rópr ia sociedade. Essa efervescên­
c ia cu ltu ra l e po l ít ica l evou a crít icas p rofundas à Igreja 
romana, que cu lm ina ram na Reforma p rotesta nte. 
F i losofia moderna (do sécu lo 
XVI I a meados do sécu lo XVI I I ) 
Nesse período, con hecido como o Grande Raciona­
lismo Clássico, foi preciso enfrenta r o pess im ismo teó­
r ico que re i nava desde o fim do sécu lo XVI . Dom i nava 
o cet ic i smo, a atitude fi l osófica que d uvida da ca pac i­
dade da razão h uma na pa ra con hece r a rea l idade ex­
te r ior e o ser humano. 
Com as gue rras de re l igião decorrentes da Reforma 
protesta nte, os encontros dos eu ropeus com povos que 
descon hec iam e as d i sputas f i losóficas e teológi cas, o 
sáb io já não podia ad m it i r q u e a razão h umana é capaz 
de conhec imento verdade i ro nem que a ve rdade é un i ­
versa l e necessá r ia, i sto é, a mesma em todo tempo e 
l uga r. Ao contrá r io, d iante da mu lti p l ic idade de opin iões 
em l uta, o sá b io to rnou-se cét i co. 
Pa ra resta u ra r o idea l fi losófico da poss ib i l i dade do 
con hecimento rac iona l ve rdade i ro e u n iversa l , a fi loso­
fia moderna p ropõe três mudanças teóricas princ ipa i s : 
1 . O su rgimento do sujeito do conhecimento: em vez 
de começa r pe las co isas a serem conhec idas, sobre as 
qua is só ca bem dúvidas e d esconfia nças, a f i l osofia 
deve começa r pela refl exão. Ou seja, aq ue le que conhe­
ce (o suje ito do con hecimento) vo lta-se pa ra s i mesmo 
pa ra saber se é ca paz de con hec imento ve rdade i ro e, 
se o for, sob q ua i s cond i ções e le é ca paz d i sso. Somen­
te depo is de con hecer-se a s i mesmo como ca paz de 
con hecimento ve rdade i ro é que o suje ito se vo lta pa ra 
as co isas a conhecer (os objetos do conhecimento). 
Ponto de partida da filosofia em 
diferentes épocas 
• F i losofia a nt iga : Natu reza . 
• Patríst ica e escolást ica : Deus . 
• Renasc imento : Homem. 
• F i losof ia moderna : ca pa c idade da razão hu­
mana para co nhe ce r. 
O ponto de pa rti da é, porta nto, o suje ito do con he­
cimento como consc iênc ia de s i refl ex iva . O suje ito do 
con hecimento é o i nte lecto ou a i nte l igênc ia que, j un ­
ta mente com a vontade, existe no interio r de uma subs­
tâ ncia espi ritua l, a a lma . A a lma é u ma su bstâ ncia com­
p l et amente d ife rente d e u ma outra s ubstânc ia , a 
corpó rea, que constitu i a natu reza do nosso corpo e dos 
co rpos exte r iores. 
Por isso, pa ra vencer o ceticismo, a fi l osofia precisa 
responder às perguntas : "Como a razão ou o entend i ­
mento pode con hece r os co rpos ou as co isas, que são 
d ife rentes de le?"; "Como o espírito pode conhece r a 
matéria?"; "Como o sujeito esp i rit ua l pod e con hece r os 
objetos co rpora is, o seu própr io corpo e os dema is cor­
pos da natureza?". 
2. A resposta a essas pergu ntas constitu i u a segun­
da gra nde mudança teór ica, que d i z respeito ao objeto 
do con hecimento. Pa ra os modernos, as coisas exte rio­
res (a natu reza, as i nstitu i ções socia i s e po l ít i cas) são 
con hec idas quando o suje ito do con hec imento as re­
p resenta i nte l ectua lmente. I sso ocorre quando o suje i ­
to as ap reende como ide ias que dependem apenas das 
operações cognitivas que e l e rea l iza . 
cognitivo: palavra originada do latim cognoscere, 
'conhecer'. No caso, trata-se dos processos mentais que 
permitem o conhecimento. 
Isso sign ifica : a) que tudo o q u e pode ser conhecido 
deve poder ser representado por um conce ito ou por 
uma ide ia c l a ra e d isti nta, demonstráve l e necessá ria, 
formu lada pelo pensamento; b) que a natu reza, a so­
ciedade e a pol ítica podem ser i ntei ramente conhecidas 
pe lo sujeito do conhecimento, porque são rac iona is em 
s i mesmas e p ropensas a serem representadas pe las 
ide ias do suje ito do con hec imento. 
3. Essa concepção da rea l idade como raciona l e p le­
namente ca ptáve l pe las ide ias e conce itos p repa rou a 
te rce i ra grande mudança teórica moderna . A natu reza, 
a pa rt i r de Ga l i leu (1 564-1 642), é concebida como um 
s i stema o rdenado de ca usas e efe i tos cuja estrutu ra 
p rofu nda e i nvisíve l é matemática. O " l ivro do mundo", 
d i z Ga l i l eu, "está escrito em ca racte res matemáticos, e 
pa ra lê- lo é p rec iso conhecer matemática". 
Essa ide ia deu or igem à ci ência moderna, para a 
q ua l todos os fatos da rea l i dade podem ser conhecidos 
pe las re lações necessá rias de ca usa e efeito mecâ n icos 
ou de movimento que os produzem, os conse rva m ou 
os destroem. Adota ndo o ponto de vista da mecân ica, 
a ciência moderna acred ita que o movimento segue le is 
--------------------------'\ Principais períodos da h istória da filosofia @ 
Os pensadores modernos consideraram que a natureza possuía uma estrutura matemática e que a matemática é a forma perfeita do 
conhecimento, modelo para a filosofia . Esse lugar dado à matemática pode ser observado nos jardins do Palácio de Versalhes, na França, 
concebidos no século XVI I como perfeição geométrica. Foto de 2013. 
universais necessárias que podem ser explicadas e re­
presentadas matematicamente. 
A realidade é um sistema de causalidades racionais 
que podem ser conhecidas e transformadas pelo homem. 
Nascem, assim, a ideia de experimentação científica (são 
criados os laboratórios) e o ideal tecnológico. Ou seja, cria­
-se a expectativa de que o ser humano, conhecendo os 
movimentos das coisas, poderá dominar tecnicamente a 
natureza, graças à invenção de máquinas. 
Existe também a convicção de que a razão humana 
é capaz de conhecer a origem, as causas e os efeitos 
das paixões e das emoções humanas. A vontade orien­
tada pela razão permite governá-las e dominá-las, de 
sorte que a vida ética pode ser plenamente racional. 
A mesma convicção orienta o racionalismo político, 
isto é, a ideia de que a razão é capaz de definir para 
cada sociedade qual o melhor regime político e como 
mantê-lo racionalmente. 
Os principais filósofos desse período foram: Francis 
Bacon (7 561-1626), Galileu, Hobbes (7 588-1679), Gassendi 
e Capítulo s 
(1 592-1655), Descartes (1 596-1650), Pascal (1623-1679), 
Espinosa (1632-1677), Locke (1632-1704), Malebranche 
(1638-1715), Leibniz (1646-1716), Newton (1643-1727), 
Berkeley (1685-1753). 
F i losofia da l lustracão ou 
I lum i n i smo (meados do século 
XVI I I ao i n íc io do sécu lo X IX) 
Esse período também crê nos poderes da razão, 
chamada de As Luzes (por isso o nome Iluminismo). O 
Iluminismo afirma que: 
• pela razão, o homem pode lutar contra a tirania 
e conquistar a liberdade e a felicidade social e 
política; 
• a razão é capaz de aperfeiçoamento e progresso, 
e o homem é um ser perfectível. A perfectibilidade 
consiste em libertar-se da superstição, do medo e 
dos preconceitos religiosos, sociais e morais, graças 
ao avanço das ciências, das artes e da moral; 
• o aperfeiçoamento da razão se realiza pelo pro­
gresso das civilizações, que vão das mais atrasadas 
(também chamadas "primitivas" ou "selvagens" ) 
às mais adiantadas e perfeitas (na visão da maio­
ria de seus filósofos, as da Europa ocidental); 
• há diferença entre natureza e civilização: a natu­
reza é o reino da necessidade, das leis naturais 
universais e imutáveis, enquanto a civilização é 
o reino da liberdade e da finalidade proposta pe­
la vontade livre dos próprios homens em seu 
aperfeiçoamento moral, técnico e político. 
Na natureza, as coisas e os acontecimentos não 
podem ser diferentes do que são; na civilização, os fatos 
e os acontecimentos podem ser diferentes do que são 
porque a vontade humana pode escolher entre alter­
nativas possíveis. 
Nesse período há grande interesse pelas ciências 
que operam com a ideia de transformação progressiva 
ou de evolução, em especial a biologia. Há igualmente 
grande interesse e preocupação com as artes, na me­
dida em que elas seriam a expressão por excelência do 
grau de progresso de uma civilização. 
ENCYCLOP EDIE, 
I.J I! 
D I T I O N N A l R E R A I, O N E 
D E S C J E N C E , 
D E A R T E I D E ' M !. T I E R , 
l'.!! R UNE ., .o J�Tli. D � C F Jj E; l l r rU .E I 
Tnm-Jim, prtn·,ravw pn!ln-. 
J',au,.m ill m • .l.11 j ... fff,t.J.J &ttJu .lmwà J U'o�A.l', 
T O t.l E P R E..Al L E I 
ll <: f., 1 1, 
t �• C' ( {' J' ,ti 9' Ç ,I T" J O ,\' I f f .) t" I J 1/ , U il r, D 1 
Folha de rosto do primeiro tomo da Enciclopédia, ou Dicionário das 
ciências, das artes e dos ofícios(1751-1772), organizada por Diderot 
e D'Alembert. Os filósofos do I luminismo francês consideraram 
possível escrever uma obra que contivesse todas as grandes 
realizações humanas no pensamento, na moral, na política, nas 
artes e nas técnicas, e as diferenças entre civilizações. 
Data também desse período o interesse pelas bases 
econômicas da vida social e política. Na reflexão sobre 
a origem e a forma das riquezas das nações, cria-se uma 
controvérsia sobre qual é a fonte de maior importância: 
a agricultura (corrente fisiocrata, de physis, a natureza 
cultivada pela agricultura) ou o comércio (corrente mer­
cantilista, de mercado). 
Os principais filósofos do período foram: Voltaire 
(1694-1778), Hume (1711-1776), Rousseau (1712-1778), Di­
derot (1713-1784), D'Alembert (1717-1783), Kant (1724-
-1804), Fichte (1762-1814) e Schelling (1775-1854). 
Consequências do pensamento i lumin ista 
• Co mbate à t i ra n ia e busca pe la i n st itu ição da 
d e m o c rac i a : as i d e ia s do I lu m i n i s m o fora m 
dec i s i vas , p o r exem p lo , pa ra a Revo lução 
Fra n cesa d e 1 789 . 
• Crença na poss ib i l i dade do uso de me ios p ró­
pr i os à c iv i l i zação pa ra contorna r e m es m o 
vencer a s co nd i ções p reviame nte dadas pe la 
natu reza : o progresso tecno lógico ser ia a ce­
lerado com a Revolução I ndustr ia l . 
• D o m i nação de outros povos : se , po r um lado , 
cresceu a busca pela l i berdade no i nteri o r dos 
países eu ropeus , por outro, usou-se a i d e ia de 
" p rogresso das c i v i l i zações" para j ust if ica r a 
d o m i na ção de povos afr i canos e as iát i cos . 
Nesta charge d e 1882, John Bull, personagem-símbolo 
da Inglaterra, é representado como um polvo que 
abraça territórios ao redor do mundo. 
• Crença na evolu ção : os seres se tra nsforma­
r ia m e m me lhores e ma is pe rfe itos . 
• E labora ção de teor ias econôm icas : a econo­
m ia é u ma c iênc ia que expl i ca a or igem e as 
fo rmas da r i qu eza . 
----------------------------'\ Principais períodos d a h istória da filosofia @ 
F i losofia contem porânea 
Abra nge o pensamento q u e va i d e meados d o 
sécu lo XIX aos nossos d ias. Esse pe ríodo, por ser o ma is 
próximo de nós, pa rece o ma is comp lexo de defi n i r: as 
d iferenças e ntre as vá r ias posições fi losóficas nos 
parecem mu ito gra ndes, pois as esta mos vendo su rg i r 
d i a nte de nós. 
Para fac i l ita r u ma visão ma i s gera l d o pe ríodo, 
fa remos, no próximo ca pítu lo, uma contra posição entre 
as pr inc ipa i s i de ias do sécu lo XIX e as do sécu lo XX. 
Conexões 
Esta ativ idade traba lha com conteúdos de F i losofia e Socio logia . 
Uma das l i n has de pensamento da Renascença p ropunha o 
idea l do homem como centro do un iverso. Segu ndo essa l i n ha, por 
meio ta nto dos con hecimentos como da po l ít i ca, das técn i cas e 
das a rtes, e le poder ia ser o a rqu iteto de seu própr io dest ino. Esse 
i dea l, que chegou até nossos d ia s, t i n ha como base a razão e a l i ­
berdade da vontade . 
A roda da fortuna (c. 1460), xilogravura de autor desconhecido. 
I nspiração para Maquiavel, a imagem da roda da fortuna - que, 
ao girar, pode conduzir alguém do alto para baixo - originou-se 
na Antigu idade e tornou-se popular no período medieval. 
Pa ra afi rmar q ue o homem faz seu própr io desti no, Maqu iavel 
propôs a famosa d ist i nção entre a fortuna (a boa e a má sorte, o 
acaso) e a virtu (a l ivre vontade corajosa e prudente). Vejamos o que 
escreve numa passagem de seu l ivro O príncipe: 
Não ignoro que muitos são e foram de opin ião de que as coi­
sas desse mundo são governadas pela sorte {fortuna] e por Deus 
e que os homens prudentes não se lhes podem opor, e até não 
têm remédio algum contra elas. Por isso se poderia julgar que não devemos nos incomodar demais com as coisas 
e deixar-nos governar pela sorte. [ . . . ] entretanto, já que nossa livre vontade não desapareceu, julgo possível ser 
verdade que a fortuna [sorte] seja juiz de metade de nossas ações, mas também deixa em nosso poder a outra 
metade, ou quase. Comparo a fortuna a um desses rios impetuosos que, quando irritados, alagam as planícies, 
arrasam as árvores e as casas: todos fogem deles, mas cedem ao seu poder, sem conseguir detê- los em parte 
alguma. Mesmo assim, nada impede que, voltando a calma, os homens tomem providências, construam barrei­
ras e diques, de modo que quando a cheia se repetir, o rio corra por um canal ou sua força se torne menos livre 
e prejudicial. O mesmo acontece com a sorte, que mostra sua força onde não encontra uma vi rtu bem ordenada, 
pronta a lhe resistir, e volta o seu ímpeto para onde sabe que não foram erguidos diques ou barreiras para do­
miná-la. 
MAQUIAV EL. O príncipe. São Pau lo: Mart ins Fontes, 1999, p. 1 19-120. 
1 . Em grupo ou i nd ividua lmente, esco lha (m) uma ativ idade do mu ndo contemporâneo em que você(s) identifique (m) 
a p resença da razão e da vontade l ivre. Em seguida, e l abo re(m) um b reve comentá r io sobre e l a e sobre como a 
razão e a vontade a i nfl uenc iam . 
2 . As ide ias de razão e de vontade l ivre i nfl uenc ia ra m o pensamento ideo lógico daque les que p ropagam a merito­
cracia, ou seja , que ac red itam que uma vida bem-suced ida depende ún ica e exc l us ivamente do empenho do i nd i ­
víduo. Em que aspectos a ide ia de fortuna e virtu se a proxima e em que aspectos nega a poss ib i l idade da me rito­
cracia ? Busque da r exemplos concretos. 
e Capítulo s 
1 . A fi losofia está à ma rgem da h istó r ia ou i ntima ­
mente l igada a e la? Po r q uê? 
2. A patrística tentou conci l i a r a re l ig ião cr istã com 
ide ias da fi losofia greco-romana , em especi a l nas 
re l ações entre fé e ra zão. Pa ra você, essa proposta 
e ra coerente? Po r quê? 
3. Qua is era m os gra ndes temas da fi l osofia medieva l ? 
4. Resuma as três gra ndes l i n has da fi losofia da Re­
nascença e exp l ique por que expr imem o huma nis­
mo renascentista . 
5. Por que o su rgimento do suje ito do conhecimento 
fo i i m porta nte pa ra que se su perasse o ceticismo 
na f i losofia moderna? 
6. De aco rdo com o texto, como e ra concebida a na­
tureza na fi l osofia moderna? Por que essa concepção 
l n d i cacões 
Alexandria 
• Direção de Alejandro Amenábar. Espanha, 2009. 
O fi lme aborda os confl itos entre fé e ra zão no período em 
que o crist i an i smo começa a se d issem i na r pelo Im pér io Ro­
mano. Além de desafi a r a opressão às mu l h eres, a fi lósofa 
H i pát ia de Alexand ria se vê no me io de uma d i sputa entre 
re l ig i ão e fi l osofia , na q u a l a i ntra ns igên cia re l ig iosa leva a l u ­
t a s entre cr istãos e j u deu s e entre cr istãos e f i lósofos pagãos . 
(ena do filme Alexandria, 
de Alejandro Amenábar, 
l eva à s ide ias de expe rimentação c ientífi ca e d e 
tecno logia? 
7. Consu lte a l i n ha do tem po, no fi na l do l ivro, e iden­
tifique os temas a bo rdados por f i l ósofos do pe río­
do moderno que se re lac ionem com o que você leu 
sobre o rac iona l i smo. 
8. Por que a fi losofia do sécu lo XVI I I foi denominada 
As Luzes ou Iluminismo? 
9. Qua i s os p r i n ci pa i s te mas do pe nsa mento i l u m i ­
n i sta ? 
10. Consu lte a l i n ha do tem po, no fi na l do l ivro, e iden­
tifique os temas a bo rdados por f i l ósofos do pe río­
do i l um i n ista que se re lac ionem especifica mente 
com o que você leu sobre o pe r íodo. 
protagonizado por Rachel Weisz. -,;.-, ___ ......, '--- -- - - --- ' 
A tempestade 
• Escrito por Wi l l iam Shakespeare, i l ustrado e adaptado por Li l lo Pa rra e Jefferson 
Costa. Nemo, 2012. 
Adapta ção em quad rin hos para a peça homôn ima . Após ser deposto por seu próp r io 
i rmão e acabar exi l ado em uma i l h a, o duque d e Mi lão p l aneja sua v ingan ça por me io 
da mag ia . O desen ro l a r da trama mostra os confl itos entre os três aspectos da a lma, 
d iv i são fe ita por P latão e retomada por m u itos pensadores renascent istas, com a rac io­
na l i dade tr iu nfando ao fin a l . 
ABC da Astronomia - Heliocentrismo 
• Disponíve l em: <http://tvescola .mec.gov.br/tve/video/abc-da-astronomia­
hel iocentrismo>. Acesso em: 13 dez. 2015. 
Este vídeo ap resenta um momento dec is ivo da h i stória da ci ênc ia , entre os sécu los XVI 
e XVII , prop ic i ado pelo pensamento fi losófico, e que ne l e teve m u itas repercussões : a 
ide ia de que era a Terra que gi rava em torno do Sol , e não o contrá r io. 
SIC�l e s f �Jtt.t 
,t íe rrif.: ,;; -l 1.1 4 e 
,,111 f,111111 1 Íftr s.,,, t ... i. 
-----------------------------'\ Principais períodos da h istória da filosofia @ 
História e progresso 
Como vimos no capítulo anterior, a filosofia mo­
derna experimentou grande otimismo no uso da razão 
para que o ser humano possa conhecer verdadeiramen­
te a si mesmo e a realidade e garantir para si a liberda­
de, a felicidade e o aperfeiçoamento. 
O século XIX é, na filosofia, o século da descoberta 
da história ou da historicidade do ser humano, da so­
ciedade, das ciências e das artes. Isso não significa que 
anteriormentenão se escrevessem histórias, porém 
estas eram tomadas como um aspecto da vida humana 
entre outros. A mudança de perspectiva ocorre parti­
cularmente quando o filósofo alemão Hegel {1770-1831) 
afirma que a história é a realidade: para ele, a razão, a 
verdade e os seres humanos são essencial e necessa­
riamente históricos. 
Essa concepção levou à ideia de progresso, isto é, de 
que os seres humanos, as sociedades, as ciências, as ar­
tes e as técnicas acumulam conhecimento e práticas, 
aperfeiçoando-se cada vez mais. Com o progresso, surge 
a ideia de que o presente é superior e melhor do que o 
passado, e o futuro será melhor e superior ao presente. 
Essa visão otimista também foi desenvolvida na 
França pelo filósofo Auguste Comte {1798-1857). Funda­
dor da corrente filosófica denominada positivismo, 
Comte atribuía o progresso ao desenvolvimento das 
ciências positivas (isto é, sem relação com mitologias, 
religiões e construções metafísicas). As ciências permi­
tiriam aos seres humanos "saber para prever e prever 
para prover", de modo que o desenvolvimento social se 
faria pelo aumento do conhecimento científico e do 
controle científico da sociedade. É positivista a ideia de 
"ordem e progresso", que viria a fazer parte da bandei­
ra do Brasil republicano. 
No entanto, no século XX, a mesma afirmação de 
que os seres humanos, a razão e a sociedade são his­
tóricos levou à ideia de que a história é descontínua e 
não progressiva. Por essa perspectiva, cada sociedade 
tem sua história própria, em vez de ser apenas uma 
etapa numa história universal das civilizações, como 
julgara a filosofia do século XIX. 
A ideia de progresso passou a ser criticada porque foi 
usada para legitimar colonialismos e imperialismos - os 
mais "adiantados" teriam o direito de dominar os mais 
"atrasados". Passou a ser criticada também a ideia de 
progresso das ciências e das técnicas, por dois motivos: 
1 . Pelo entendimento de que os conhecimentos e 
as práticas têm sentido e valor próprios em cada época 
e para cada sociedade. Como esses sentidos e valores 
desaparecem numa época seguinte ou são diferentes 
numa outra sociedade, não se pode falar em transfor­
mação acumulativa e progressiva da humanidade. 
2 . Pela avaliação do uso da ciência e da técnica pe­
lo nazismo e no episódio do lançamento das bombas 
atômicas sobre o Japão pelas Forças Armadas dos Es­
tados Unidos. Casos como esses levaram ao questio­
namento do otimismo racionalista. Essa crítica prosse­
guiu no final do século passado e continua até hoje com 
os movimentos ecológicos, que apontam os riscos ao 
planeta trazidos pelo uso indiscriminado das ciências e 
das técnicas. 
Cenário da cidade japonesa de 
H iroxima, devastada após a 
bomba lançada pelos Estados 
Unidos, em 1945. No século XX, 
a filosofia passou a 
desconfiar do otimismo 
científico-tecnológico. 
-----------------------'\ A transformação da filosofia na contemporane idade @ 
As c iências e as técn icas 
Tirinha d o personagem Calvin, d o cartunista Bill Watterson. 
No século X IX, a filosofia afirmava a confiança 
plena e total no saber científico e na tecnologia para 
dominar e controlar a natureza em favor da sociedade 
e dos indivíduos: 
• a Física e a Química, por exemplo, dominando e 
controlando os processos naturais, aumenta­
riam a capacidade da agricultura e da indústria, 
o que traria abundância e conforto para todos; 
• uma nova ciência, a Sociologia, ofereceria um 
saber seguro e definitivo sobre o modo de fun­
cionamento das sociedades. Isso permitiria aos 
seres humanos que organizassem racionalmen­
te o social de modo a evitar revoluções, revoltas 
e desigualdades; 
• outra nova ciência, a Psicologia, ensinaria defi­
nitivamente como é e como funciona a psique 
humana, quais as causas das emoções e dos 
comportamentos e os meios de controlá-los, de 
modo que seria possível livrar-nos das angústias, 
do medo, da loucura; 
• seria possível também uma Pedagogia baseada 
nos conhecimentos científicos. Ela permitiria 
não só adaptar perfeitamente as crianças às 
exigências da sociedade, como também educá 
-las segundo suas vocações e potencialidades 
psicológicas. 
No século XX, contudo, a filosofia passou a des­
confiar do otimismo científico-tecnológico do século 
anterior em virtude de vários acontecimentos: as du­
as guerras mundiais, o bombardeio de Hiroxima e 
Nagasaki, o genocídio praticado nos campos de con­
centração nazistas, o totalitarismo stalinista, as guer-
G Capítulo & 
Mi;;: l=ALTAM 
PALAVRAS. 
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NÃO 605TGI, 
MAS LEMBREã-56 
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TRANSMLIT AÇÃO ' 
UMA Ti:CiNOLOGIA 
NOVA. 
ras da Coreia, do Vietnã, do Oriente Médio, do Afega­
nistão, as invasões russas da Hungria, da Polônia e da 
Tchecoslováquia, as ditaduras sangrentas da América 
Latina e da África, a devastação de mares, florestas e 
terras, a poluição do ar, os perigos do consumo de 
alimentos e remédios cancerígenos, o aumento de 
distúrbios e sofrimentos mentais, os problemas éticos 
e políticos surgidos com o desenvolvimento da neu­
rociência e da engenharia genética, etc. 
Além disso, as ciências e as técnicas foram incor­
poradas ao chamado complexo industrial-militar das 
grandes potências econômicas, que financiam as pes­
quisas e definem o que deve ser pesquisado e como 
serão utilizados os resultados. Esse complexo, com 
poder de vida e morte sobre o planeta, não está sub­
metido a governos nem a associações públicas: ele 
opera secretamente, segundo seus próprios interes­
ses, desencadeando guerras, ditaduras e violências em 
toda parte. 
Diante desses fatos, um grupo de filósofos ale­
mães, conhecido como Escola de Frankfurt, elaborou 
a chamada Teoria Crítica. Essa concepção distingue 
duas formas da razão: a razão instrumental e a ra­
zão crítica. 
A razão instrumental é a razão técnico-científica, 
que faz das ciências e das técnicas um meio de intimi­
dação, medo, terror e desespero. A razão crítica, ao 
contrário, analisa e interpreta os limites e os perigos 
do pensamento instrumental. Para a razão crítica, as 
mudanças sociais, políticas e culturais só se realizarão 
se tiverem como finalidade a emancipação dos huma­
nos, e não as ideias de domínio técnico-científico sobre 
a natureza, a sociedade e a cultura. 
Os ideais políticos revolucionários 
No sécu lo XIX, em decorrência do otim ismo trazi do 
pe las ide ias da razão e do progresso, a fi l osofia apostou 
em ideais políticos revol uc ioná rios como o ana rq u ismo, 
o socia l ismo e o comun ismo. Esses idea is cr iar iam, gra­
ças à ação pol ít ica consciente dos exp lo rados e opr im i ­
dos, uma soc iedade nova . 
No enta nto, o sécu lo XX vi u a ascensão dos chama­
dos regimes tota l itá rios (fascismo, naz ismo, sta l i n i smo, 
mao ismo) e o forta lec imento das soc iedades a utoritá­
r ias ou d itator ia i s (como as da América Lat ina, das F i l i ­
p inas e da Áfri ca). E ntão, a f i losofia também passou a 
COLE.IRI\ 
desconfia r do ot im ismo revo l uc ioná r io e da s utop ias e 
a i ndaga r se os se res humanos, os exp lo rados e domi ­
nados se rão ca pazes de cri a r e manter uma soc iedade 
nova, justa e fe l iz. 
O sécu lo XX também vi u o cresc imento das chama­
das bu rocracias, que dominam as o rga nizações estata is, 
em presa r ia is, pol ít ico-pa rtidá r ias, esco la res, hospita la­
res . Isso l evou a fi l osofia a i ndaga r como os se res hu ­
ma nos poder ia m de r ruba r esse imenso poder io que, 
secreta mente, dete rm ina sua v ida cot id i ana desde o 
nasc imento até a morte. 
FOC.INHE.IR-" 
Tirinha d o cartunista 
André Dahmer. A forma 
burocrática dominou 
diferentes tipos de 
organização dentro da •iiliií•--••-•lllllllli•----------.. ---------_. sociedade. 
A cu ltura 
No sécu lo XIX, a fi l osofia descobre a cu ltu ra como 
o modo p rópr io e específico da existência dos seres 
humanos. Os a n ima i s são seres natu ra i s; os h uma nos, 
se res cu ltu ra is. A natureza é governada por l eis neces­
sár ias de ca usa e efe ito; a cu ltu ra é a cr iação h umana, 
o exe rcíc io da l i nguagem e da l i berdade. 
Por meio do tra ba l h o, os h uma nos são ca pazes 
de t ra n sfo rma r a nat u reza e usá - l a pa ra uma v ida 
p rop r i a mente h u mana . Por me io da l i nguagem, são 
ca pazes de com un ica r-se e sobretudo de d a r perma­
nênc i a e co nt i n u i dade às expe r i ê n c i a s h u m a nas . A 
cu lt u ra é a fo rmação co let iva d e i n st it u i ções (como 
a l i ngu agem, o tra ba l h o, a fa m í l ia , a soc i edade, a ét i ­
ca e a po l ít i ca ), i d e ia s, s ím bo l os, n o rma s, regra s e 
va l o res . I sso perm ite a u m a socied ade defi n i r pa ra s i 
mesma o bom e o mau, o be lo e o fe io, o j u sto e o 
i nj u sto, o ve rdade i ro e o fa l so, o certo e o e rra do, o 
p u ro e o i m p u ro, o possíve l e o i m possíve l , o i n ev itá­
ve l e o cas u a l , o s ag ra d o e o p rofa n o, o espaço (o 
próx imo e o d i sta nte) e o tempo (o passa do, o pre­
se nte e o futu ro), i nst it u i r a s crenças e def i n i r a re l a ­
ção com a mo rte. 
A cu ltura se rea l iza porque os hu manos são ca pazes 
de l i nguagem, traba l ho e re lação com o tempo. A cu l ­
tu ra se man ifesta como v ida soc ia l, como cr iação das 
ob ras de pensamento e de a rte, como v ida re l ig iosa, 
v ida ét i ca e v ida po l ít ica . 
Celebração do D ia de Finados em Oaxaca, no México, em 2015. (ada 
cultura cria, a seu modo, sua linguagem, seus mitos e suas crenças, 
suas obras de pensamento e de arte. 
-----------------------'\ A transformação da filosofia na contemporane idade 0 
Para a filosofia do século XIX, de acordo com sua 
ideia de progresso da humanidade, haveria uma única 
grande cultura em desenvolvimento, da qual as dife­
rentes culturas seriam fases ou etapas. 
Para outros, chamados filósofos românticos, as 
culturas não formavam uma sequência universal pro­
gressiva, mas eram culturas particulares, nacionais. 
Assim, cabia à filosofia desvendar o "espírito de um 
povo" conhecendo as origens e as raízes de cada cul­
tura. Para esses filósofos, o mais importante de uma 
cultura não se encontraria em seu futuro (no seu pro­
gresso), mas no seu passado (nas tradições e no folclo­
re nacional). 
No entanto, no século XX, ao afirmar que a história 
é descontínua, a filosofia também afirma que não há 
"a cultura", mas culturas diferentes. A filosofia contem­
porânea também rejeita a ideia romântica de que a 
pluralidade de culturas e as diferenças entre elas se 
devem à existência da nação, pois a própria ideia de 
nação é uma criação cultural (foi uma ideia proposta 
pelas culturas francesa e alemã do século XIX). Cada 
cultura inventa seu modo de relacionar-se com o espa­
ço e o tempo, de criar sua linguagem, de elaborar seus 
mitos e suas crenças, de organizar o trabalho e as rela­
ções sociais e morais, de criar as obras de pensamento 
e de arte. Cada uma, em decorrência das condições 
históricas, geográficas e políticas em que se forma, tem 
seu modo próprio de organizar o poder e a autoridade, 
de produzir seus valores. 
O "fim da filosofia" 
No século XIX, o otimismo científico e técnico le­
vou a filosofia a supor que, no futuro, todos os conhe­
cimentos e todas as explicações seriam dados pelas 
ciências. Assim, a própria filosofia (que nasceu como 
o conjunto de todos os saberes) não teria mais motivo 
para existir. 
Entretanto, no século XX a filosofia passou a mos­
trar que as ciências não têm princípios totalmente cer­
tos, seguros e rigorosos para as investigações, que os 
resultados podem ser duvidosos e precários, e que, 
frequentemente, uma ciência desconhece até onde 
pode ir e quando está entrando no campo de investi­
gação de outra. 
Os princípios, os métodos, os conceitos e os resul­
tados de uma ciência podem estar totalmente equivo­
cados ou desprovidos de fundamento. Com isso, a filo-
@ Capítulo & 
Em resumo, contra a filosofia da cultura universal, 
a filosofia do século XX negou que houvesse uma úni­
ca cultura em progresso e afirmou a existência da plu­
ralidade cultural. Contra a filosofia romântica das cul­
turas nacionais como expressão do "espírito do povo", 
a filosofia do século XX negou que a nacionalidade 
fosse causa das culturas (ao contrário: as nacionalida­
des são efeitos culturais temporários) e afirmou que 
cada cultura se relaciona com outras e encontra dentro 
de si seus modos de transformação. 
Indígena do povo Yawalapiti filma cerimônia do Kuarup no Parque Nacional 
do Xingu, em Gaúcha do Norte (MT}, 2012. Cada cultura se relaciona com 
outras e encontra dentro de si seus modos de transformação. 
sofia voltou a afirmar seu papel na compreensão e 
interpretação crítica das ciências ao discutir a validade 
de seus princípios, métodos ou procedimentos de pes­
quisa, resultados, formas de exposição dos dados e das 
conclusões, etc. 
Foram preocupações com a falta de rigor das ciên­
cias que levaram o filósofo austríaco Edmund Husserl 
(1859-1938) a propor que a filosofia fosse o estudo e o 
conhecimento rigoroso da possibilidade do próprio co­
nhecimento científico, examinando os fundamentos, 
os métodos e os resultados das ciências. Foram tam­
bém preocupações como essas que levaram filósofos 
como Bertrand Russell (1872-1970) e Quine (1908-2000) 
a estudar a linguagem científica, a discutir os proble­
mas lógicos das ciências e a mostrar os paradoxos e os 
limites do conhecimento científico. 
Os limites da razão 
No século XIX, o otimismo filosófico levava a filo­
sofia a afirmar que, enfim, os seres humanos haviam 
superado a superstição, as explicações mágicas e fan­
tásticas da realidade, e alcançado a maioridade racional. 
Acreditava também que a razão se desenvolvia plena­
mente para que o conhecimento completo da realida­
de e das ações humanas fosse atingido. 
No entanto, já no final do século XIX, Marx (1818-
-1883) e Freud (1856-1939) colocaram em questão esse 
otimismo racionalista - Marx no campo da economia 
e da política; Freud, na investigação das perturbações 
e dos sofrimentos psíquicos. Que descobriram eles? 
Marx descobriu que temos a ilusão de estar pen­
sando com nossa própria cabeça e agindo por nossa 
própria vontade de maneira racional porque desconhe­
cemos as condições econômicas e sociais nas quais a 
classe social dominante exerce seu poder sobre a men­
te de todos. Nesse contexto, a classe dominante faz 
com que suas ideias pareçam ser verdades universais, 
válidas para todos os membros da sociedade e para 
todas as classes sociais. Esse poder social invisível que 
nos leva a pensar como pensamos e agir como agimos 
foi chamado por ele de ideologia. Em coautoria com 
Friedrich Engels (1820-1895), Marx escreve: 
Ora, se na concepção do curso da história separar­
mos as ideias da classe dominante da própria classe 
dominante e as tornarmos autônomas, se permane­
cermos no plano da afirmação de que numa época 
dominaram estas ou aquelas ideias, sem nos preocu­
parmos com as condições da produção nem com os 
produtores dessas ideias, [ ... ] então poderemos dizer, 
por exemplo, que durante o tempo em que a aristocra­
cia dominou dominaram os conceitos de honra,Jideli­
dade, etc., enquanto durante o domínio da burguesia 
dominaram os conceitos de liberdade, igualdade, etc. 
A própria classe dominante geralmente imagina isso. 
[ . . . ] Realmente, toda nova classe que toma o lugar de 
outra que dominava anteriormente é obrigada, para 
atingir seus fins, a apresentar seu interesse como o in­
teresse comum de todos os membros da sociedade, [ . . . ] 
a apresentar suas ideias como as únicas racionais, uni­
versalmente válidas. 
MA RX, Ka r l ; E N G ELS , Fr iedric h . A ideologia alemã. 
São Pau lo: Boitempo, 2007. p. 48. 
Freud, por sua vez, mostrou que os seres huma­
nos têm a ilusão de que tudo o que pensam, fazem, 
sentem e desejam estaria sob o pleno controle de 
suas consciências. Para ele, desconhecemos a exis­
tência de um poder -psíquico e social - que atua 
sobre nossa consciência sem que ela o saiba. A esse 
poder que domina e controla invisível e profunda­
mente nossa vida consciente ele deu o nome de 
i n consc i ente. 
Diante dessas duas descobertas, a filosofia se viu 
forçada a reabrir a discussão sobre o que é e o que 
pode a razão, sobre o que é e o que pode a consciên­
cia reflexiva ou o sujeito do conhecimento, sobre o 
que são e o que podem as aparências e as ilusões. 
Muro grafitado na cidade de 
São Paulo, em 2010. Com os 
conceitos de ideologia e 
inconsciente, Marx e Freud 
mostraram que há influências 
invisíveis sobre o 
pensamento e a vontade do 
indivíduo até então 
insuspeitadas pela filosofia. 
---------------------------,,.'\ A transformação da filosofia na contemporane idade 0 
Algumas i lusões da razão 
'Trabalhamos com empenho 
po rq ue i sso nos fa rá progred i r 
profiss ionalmente e , no futuro , te r uma 
vida mais confo rtáve l." 
Segu ndo Marx ► 
Trabalhamos com em penho porque 
a classe dom inante nos fez acred ita r 
que fo i desse modo que ela progred i u 
profiss ionalmente, q uando , na realidade , 
quem mais se benefic ia de nosso 
trabalho é a própria classe dom inante. 
"A razão nos perm ite aval iar as 
poss ib i lidades em uma situação e tomar 
a dec isão ma is coe rente de fo rma 
del iberada." 
Segu ndo Freud ► 
As memórias de exper iênc ias do 
passado (po r exemplo , traumas) ficam 
ret idas no i nconsciente, que i nfluenc ia 
nossas ações sem que percebamos . 
Ao mesmo tempo, a filosofia teve de reabrir as 
discussões éticas e morais: "O ser humano é realmen­
te livre ou é inteiramente condicionado pela sua situa­
ção psíquica e histórica?". "Se for inteiramente condi­
cionado, então a história e a cultura são causalidades 
Infinito e finito 
O século XIX prosseguiu uma tradição filosófica 
para a qual o mais importante era a ideia do infinito, 
isto é, a natureza eterna (dos gregos), o Deus eterno 
(dos cristãos), o desenvolvimento pleno e total do tem­
po infinito (a história universal). 
A filosofia do século XX, contudo, tendeu a dar 
maior importância ao finito, isto é, ao que é limitado 
no espaço e no tempo, que surge e desaparece, que 
tem fronteiras e limites. Esse interesse pelo finito apa­
receu, por exemplo, no exi stencialismo, corrente filo­
sófica que definiu o humano como "um ser para a 
morte". Ou seja, o ser humano sabe que é finito, que 
acaba e que precisa encontrar em si mesmo (e não na 
natureza, em Deus ou na história universal) o sentido 
de sua existência. 
necessárias como as da natureza?". Ou seria mais cor­
reto indagar: "Como os seres humanos conquistam a 
liberdade em meio a todos os condicionamentos psí­
quicos, históricos, econômicos, políticos e culturais em 
que vivem?" ? 
Outro exemplo do interesse pela finitude apareceu 
no que se costuma chamar filosofia da diferença, isto 
é, naquela filosofia que se interessa por delimitar uma 
realidade levando em conta a singularidade e particu­
laridade. Inspirando-se nos trabalhos dos antropólogos, 
essa filosofia buscou a diversidade, pluralidade, singu­
laridade das diferentes culturas, em lugar de voltar-se 
para a ideia de uma cultura universal única. 
Enfim, outro exemplo de interesse pela finitude 
apareceu quando a filosofia se voltou para a multipli­
cidade e a diferença entre as ciências. Em vez de bus­
car uma ciência universal que conteria dentro de si 
todas as ciências particulares, tentou descobrir os li­
mites de cada uma delas e sobretudo seus impasses 
e problemas insolúveis. 
Nossos dias: a pós-modernidade 
No fim dos anos 1970 surgiu a ideia de que a mo­
dernidade terminara e que se iniciava a pós-moderni­
dade. A modernidade corresponderia à época da socie­
dade industrial, aquela em que o poder econômico e 
político pertence às grandes indústrias e em que se 
0 Capítulo & 
explora o trabalho produtivo. Já a pós-modernidade 
corresponderia à sociedade pós-industrial, em que o 
poder econômico e político pertence ao capital finan­
ceiro e ao setor de serviços das redes eletrônicas de 
automação e informação. 
As i de ias e os va lores da 
modern i dade 
A modernidade era o conjunto de ideias e de valo­
res que, com inúmeras variações e transformações, 
haviam norteado a filosofia e as ciências desde o fim 
do século XVI I até os anos 1970. Podemos resumir esse 
conjunto de ideias e valores em alguns aspectos. 
• No campo do conhecimento: 
1 . Racionalismo: confiança no poder da razão (seja 
ela instrumental, seja crítica) para distinguir entre apa­
rência e realidade e para conhecer e transformar esta. 
O racionalismo definira critérios para distinguir entre 
razão e loucura, ser (realidade) e parecer (aparência), 
conhecimento e ilusão, verdade e ideologia. Além disso, 
assegurava a validade do conhecimento filosófico e 
científico. 
2. Distinção entre interior e exterior ou entre sujei­
to e objeto: confiança em critérios e procedimentos que 
permitiam distinguir entre o sujeito do conhecimento 
ou a consciência (o interior) e o objeto ou as coisas (o 
exterior) e garantiam que o primeiro tinha instrumen­
tos teóricos para dominar intelectualmente o segundo. 
Assim, a sub jetividade (o pensamento com seus prin­
cípios e leis universais e com seus procedimentos teó­
ricos) tornava-se condição do conhecimento verdadei­
ro, ou seja, conhecimento objetivo. 
3. Afirmação da capacidade da razão humana para 
conhecer a essência ou a estrutura interna de todos os 
seres: confiança na capacidade da razão para: a) definir 
as causas e as condições que determinam a identidade 
de cada coisa e sua realidade; b) demonstrar as relações 
necessárias que cada coisa mantém com outras de que 
depende ou que dela dependem; c) oferecer as leis ne­
cessárias de mudança ou alteração de todas as coisas. 
• No campo da prática: 
1 . Diferenciação entre a ordem natural regida pela 
necessidade (as ditas leis da natureza) e a ordem hu­
mana da cultura (trabalho, linguagem, ética, política, 
artes, religião), pois nesta as regras e normas dependem 
da ação econômica, social e política dos próprios seres 
humanos. Ainda que a ordem social e política atue so­
bre os indivíduos como se tivesse o mesmo poder de 
imposição da necessidade existente na ordem natural, 
ela pode ser mudada e transformada pelos seres hu­
manos, o que prova que a ordem social e política é uma 
instituição humana e histórica. 
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, elaborada em 1789, 
logo após a Revolução Francesa. Fruto da modernidade, a declaração 
afirmava a possibilidade de transformar a ordem social e política e 
reconhecia o campo da cidadania. 
2. Afirmação de que os seres humanos são indiví­
duos e agentes livres porque são seres racionais dota­
dos de vontade. Portanto, são capazes de controlar e 
moderar suas paixões e seus desejos e de escolher por 
si mesmos as ações que praticam, sendo responsáveis 
por elas. 
3. Distinção entre o público e o privado: estabele­
cimento de critérios que permitam distinguir entre a 
esfera pública ou política (ou o campo das instituições 
sociais e de poder) e a esfera privada da moral indivi­
dual (a ética) e da economia de mercado (a propriedade 
privada dos meios de produção). 
4. Afirmação dos ideais da Revolução Francesa -
igualdade, liberdade e fraternidade -, reconhecimento 
de uma esfera de direitos civis - o campo da cidadania 
- e ampliação desses ideais pela afirmação de direitos 
sociais. Disso originaram-se os movimentos de luta 
pelos direitos sociais, contra o racismo, feminista e de 
liberação sexual. 
5. Afirmação de um sentido progressivo da história ou 
de ideais revolucionários de emancipação do gênero hu­
mano. Isso envolve lutas sociais e políticas contra a opres­
são e a exploração econômica, social, política e cultural. 
-----------------------'\ A transformação da filosofia na contemporane idade 0 
A crít ica pós-moderna 
O pensamento pós-moderno critica essas ideias e 
as recusa: 
1. Considerainfundadas e ilusórias as pretensões 
da razão nos campos do conhecimento e da prática, 
quando não um disfarce para o exercício da dominação 
sobre as pessoas. 
2. Julga que o conhecimento não se define por meio 
da distinção entre a verdade e a falsidade, e sim pelos 
critérios da utilidade e da eficácia: um conhecimento 
(filosófico, científico, artístico) é válido se for útil ou se 
for eficaz para a obtenção de fins desejados, sejam eles 
quais forem. 
3. Considera infundada a distinção entre sujeito e 
objeto, pois tanto as filosofias como as ciências são 
construções subjetivas de seus objetos. Estes só exis­
tem como resultado das operações teóricas e técnicas 
criadas pelos próprios seres humanos. Em outras pala­
vras, o conhecimento não visa a uma realidade existen­
te em si mesma e observável, e sim à invenção ou cons­
trução de objetos teóricos e técnicos nos laboratórios. 
4. Recusa tanto a ideia de história universal contínua 
quanto a de histórias particulares descontínuas porque 
valoriza o tempo como momento presente, sem relação 
com causas passadas ou expectativas futuras. Por isso 
elogia rebeliões rápidas e recusa a ideia de revolução 
como mudança total da sociedade e da política. 
5. Não admite a distinção entre ordem natural ne­
cessária e ordem histórica ou cultural instituída pelos 
0 Capítulo & 
seres humanos: ambas são invenções ou instituições 
humanas, contingentes, passageiras. 
6. Não admite a definição do ser humano como 
animal racional dotado de vontade livre. Em vez disso, 
o concebe como um ser passional, desejante, que age 
movido por impulsos e instintos, embora, ao mesmo 
tempo, institua uma ordem social que reprime seus 
desejos e paixões. 
A ética, portanto, não se define pela ação racional 
voluntária livre que busca a ação boa ou virtuosa, mas 
pela busca da satisfação dos desejos. Essa satisfação 
define a felicidade, que se realiza na esfera da intimi­
dade individual, e não na participação da vida da cole­
tividade. 
7. Desvaloriza e critica a política: considera que a 
democracia gera cidadãos apáticos, que deixam tudo 
por conta de representantes eleitos; considera também 
que o socialismo e o comunismo desembocam em re­
gimes e sociedades totalitários. Por isso, a pós-moder­
nidade dá importância à esfera da intimidade individual 
e às relações pessoais. 
8. Dá importância à ideia de diferença. Ou seja, não 
mais toma a sociedade como uma estrutura que opera 
pela divisão das classes sociais, cada qual com uma 
realidade e uma identidade definidas pela economia e 
pela política e contrárias umas às outras. Em lugar dis­
so, concebe o social como uma teia de grupos que se 
diferenciam por etnia, gênero, religião, costumes, com­
portamentos, gostos e preferências. 
Para o pensamento pós-moderno, 
a ciência não consiste no estudo de 
um objeto existente na realidade, 
e sim na construção desse 
objeto pelo pesqu isador - por 
exemplo, em uma situação em 
laboratório. Na fotografia, 
pesquisadores utilizam acelerador 
de partículas do Laboratório 
Nacional de Luz Síncrotron, em 
Campinas (SP), 2012. 
Para além do pós-modernismo 
As ide ias pós-modernas poder iam leva r a d uas su­
posições: a de que não há motivos pa ra va loriza r a razão 
e a de que a fi l osofia já não tem por que exist i r. 
Essas duas su posições constituem o que o pensador 
Boaventura de Sousa Sa ntos (1940) denom i na razão 
indolente: uma razão p regu i çosa, que se contenta em 
tra nsforma r os im passes da modern idade em descu lpa 
pa ra aceita r o m undo ta l como apa rece, sem pergu nta r 
se essa apa rênc ia é a rea l idade ve rdade i ra . 
Uma fi l osofia que a posta no t ra ba l ho do pensa­
mento rea l i za o mov imento i nverso: d i r ige-se ao mun­
do natu ra l e cu ltura l pa ra , nova mente, indaga r po r que 
e l e a pa rece fragmentado, passagei ro, i n cons i stente. 
Sobretudo, a fi losofia q uest iona se essa apa rênc ia não 
esconde formas de dom i nação e de serv idão que p re­
c isamos comp ree nder, ava l i a r, cr it i ca r e l uta r pa ra u l ­
t ra passa r. 
Três exem p los co ntra a razão i n do l e nte podem 
aj uda r-nos a pe rceber a i mportâ nc ia do t ra ba l ho do 
pe nsa mento. 
1 . Crítica da cultura do narcis ismo. Um m ito grego 
na rra que, ao ve r sua própria imagem pela pr ime i ra vez, 
refl etida nas águas de u m lago, Na rciso j u lgou tratar-se 
de outra pessoa . Perd i damente a pa ixonado por essa 
imagem, o jovem l ança-se no lago atrás dela e morre 
afogado. Algu ns fi lósofos contem porân eos tomam es­
se m ito pa ra exp l ica r como os me ios de comun i cação 
e a propaganda i nventam imagens de se res h umanos 
be los, jovens, sa udáve is, bem-suced idos com as qua is 
devemos nos identificar se q u isermos aprovação socia l . 
Dessa mane i ra, aqu i l o que a lguns pós-modern istas en-
tend i am como e log io do desejo contra as l im itações 
trazidas pe la razão sign ifica que, na verdade, de ixamos 
de con hecer a nós mesmos e ao mundo q ue nos rodeia; 
como novos Na rc isas, desejamos imagens i nventadas, 
que passam a dom i na r nossa v ida . 
2. Crítica da sociedade da vigilância e do controle. 
Algu ns fi l ósofos conte m po râ neos têm estudado as 
mane i ras i nvisíve is pe l a s qua is as soci edades contem­
porâ neas vigiam e contro l am seus c idadãos. Os me ios 
pa ra isso vão desde a ca rte i ra de ident idade até as for­
mas de contro le popu lac iona l po r me io de vírus e bac­
té r ias mortífe ros; desde as câmeras que vigi am ruas e 
ed ifíc ios até saté l ites q ue v ig iam o q ue se passa em 
todo o p la neta; desde a i nvenção de doenças pe la i n ­
d ústr ia fa rmacêut ica até a tra nsformação genética de 
se res humanos. O e log io pós-moderno das rebe l iões 
passage i ras não l eva em conta que, por me io de las, os 
dom i na ntes contro l am até que ponto os c idadãos po­
dem man ifestar descontentamentos, imped indo-os de 
ati ngi r o n úc leo do poder que os contro la . 
3. Crít ica das novas d ivisões sociais. Ao ana l i sa r a 
chamada g loba l ização, a lguns f i lósofos contemporâ­
neos mostram q ue, sob a apa rênc ia de uma u n ificação 
econôm ica do p l aneta i nte i ro, ocor re rea lmente uma 
fragmentação das soc iedades. Esta d iv isão em socie­
dades de máxima r iq ueza e de máxima pobreza se re­
pete no i nte rior de cada u ma de las, na forma de d ivisão 
entre bo lsões de ri queza e bolsões de m isér ia . Assim, o 
e log io das d ife renças fe ito pe los pós-modernos ignora 
ou masca ra, na rea l idade, a presença de imensas des i ­
gua ldades, exploração e dom inação. 
Funcionários monitoram 
imagens do fluxo de veículos 
em centro de operações de 
uma empresa concessionária 
de rodovias, localizado em 
Jundiaí (SP). Foto de 2015. A 
filosofia atual estuda as 
formas de controle das 
sociedades contemporâneas. 
-----------------------'\ A transformação da filosofia na contemporane idade 0 
Por que pensa r? 
A p rimeira coisa que me intriga nessa pergunta é que ela parece estranha. Por que pensar? Afinal os 
cientistas sociais dos últimos dez anos têm vindo a dizer que nós estamos num período de autorreflexi­
vidade, em que indivíduos autônomos refletem sobre os processos de transformação em que participam 
e usam essa reflexão para intervir nesses processos. O indivíduo autorreflexivo é um indivíduo que não 
se mobiliza sem razões, a sua p rópria vida é um objeto de meditação, de reflexão, de autoanálise, de 
reversão de percursos, etc. 
Se nós estamos numa fase da autorreflexividade, todos pensamos, e, se todos pensamos, por que 
fazer essa pergunta? A verdade é que, em minha opinião, nós não estamos numa fase da autorreflexivi­
dade. [ . . . ] penso sim que estamos numa época em que a autorreflexividade é p rópria daqueles que têm o 
privilégio de a atribuir aos outros. Ela não é, de modo nenhum, generalizada, e não é generalizada exa­
tamente porque estamos num processo de transição, um p rocessode grande criação e de grande des­
truição. [ . . . ] E nesse p rocesso, penso eu, a vertigem das transformações faz com que a sociedade se divi­
da em dois grupos que vivem em condições nada propícias a pensar. Por um lado, aqueles que comandam 
esse processo de criação e de destruição, aqueles que estão por detrás da globalização hegemônica de 
que hoje tanto se fala, aqueles que comandam todo esse p rocesso, não têm tempo para pensar. [ . . . ]fazer­
-lhe[s] uma pergunta desse tipo é extremamente perturbador, porque obviamente o automatismo da sua 
ação não exige, não permite de maneira nenhuma esse pensamento. [ . . . ] Por outro lado, aqueles que 
sofrem este p rocesso de criação, a esmagadora maioria da população mundial, que neste momento 
sofre a exclusão, a desigualdade, a polarização entre ricos e pobres, tampouco pode pensar, porque está 
tão ocupada em sobreviver que não tem, realmente, capacidade, nem tem disposição para pensar. [ . . . ] 
SANTOS, Boaventu ra de Sousa. Seis razões para pensar. Lua Nova, n. 54, 2001. D isponível em: <www.scielo. b r/ 
scie lo. p h p?scr ipt=sci_a rttext&pid=S0102-64452001000300003&Ing=en&nrm = iso>. Acesso em: 30 maio 2016. 
• Re lacione trechos do texto ac ima com a rgume ntos contra a ra zão i ndo lente. 
Temas, disciplinas e campos fi losóficos 
D u ra nte os 26 sécu los de existênc ia da fi l osofia , 
temas, d isci p l i nas e ca m pos de investigação fi losóficos 
su rg i ram, enquanto outros desapa rece ra m. Desa pare­
ceu ta mbém a ide ia de que a fi losofia ser ia a tota l i dade 
dos conheci mentos teóricos e práticos da huma n idade. 
Ta m bém desapa receu a i m agem da fi losofia com o 
u ma gra n d e á rvore frondosa : suas raízes era m a meta ­
fís i ca e a teo log ia ; o tronco e ra a l ógica; os ra mos pr in ­
c ipa is e ram a fi l osofia d a n atu reza (fís ica, q u ím ica, 
b io logia), a ética e a pol ít ica; e os ga lhos extremos eram 
as técn i cas, as a rtes e as i nvenções. A fi l osofia , v ista 
como uma tota l i dade orgâ n ica ou v iva , e ra cha mada 
"ra i n ha das c iências". 
Pouco a pouco, as várias c iências particu la res foram 
defi n i ndo seus objet ivos, seus métodos e seus resu lta­
dos próprios. Defi n i n d o-se como teoria de um setor da 
rea l idade, cada c iência se des l igou da grande á rvore, 
l evando cons igo os con hec imentos práticos ou ap l i ca­
dos ( isto é, as técn i cas) de seu ca m po de i nvest igação. 
G Capítulo & 
As ú lt i mas c i ênc i a s a se des l i ga rem da á rvore da 
fi l osof ia fo ra m as c i ênc i as h u manas (Ps i co log ia , So­
c io log ia , Antropo log ia , H i stó r i a , L i ngu íst i ca , G e ogra­
f ia , etc.) . 
Outros ca m pos de con heci mento e de ação a b r i ­
ra m-se pa ra a f i l osof ia , m a s a i d e i a d e uma tota l i ­
d a d e q u e co nte r i a e m s i todos o s co n h e c i m e ntos 
n u nca m a i s rea pa rece u . 
Desde o séc u l o XX, a f i l osof ia passou por uma 
g ra n d e l i m itação q u a nto à esfe ra de seus con h ec i ­
m e ntos. I s so pod e s e r atr i bu ído a do i s m ot ivos pr i n ­
c i p a i s . 
1 . Desde o f i m d o sécu l o XVI I I , co m o f i l ósofo 
l m ma n u e l Ka nt (1 724-1 804), passou-se a co n s i d e ra r 
q u e a fi losof ia até então t ivera u m a p retensão i r rea ­
l i záve l . Q u e p rete nsão fo ra ess a ? A d e q u e n ossa 
ra zão pode co n h ece r a s co i sas ta i s com o são em s i 
m es m as . Esse con h ec i m e nto da rea l i d ade em s i cha­
ma -se m etafís i ca . 
Kant negou que a razão humana tivesse tal capa­
cidade. Para ele, conhecemos as coisas tais como são 
organizadas pela estrutura interna e universal de nos­
sa razão, mas nunca saberemos se isso corresponde ou 
não à organização da própria realidade. Ou seja, nosso 
entendimento organiza as coisas considerando-as es­
paciais e temporais, mas não sabemos se elas de fato 
o são; também as organiza por relações de causalidade, 
mas nunca saberemos se em si mesmas elas obedecem 
à relação de causa e efeito, etc. A metafísica como co­
nhecimento da realidade em si é impossível. Portanto, 
ela deve tornar-se, modestamente, o conhecimento das 
condições humanas de uso da inteligência e da razão. 
Deixando de ser metafísica, a filosofia tornou-se: 
a) uma teoria do conhecimento, ou uma teoria sobre a 
capacidade e a possibilidade humana de conhecer; 
b) uma ética, ou estudo das condições de possibilidade 
da ação moral, realizada por liberdade e por dever. Com 
isso, a filosofia deixava de ser conhecimento do mundo 
em si e tornava-se apenas conhecimento das condições 
em que o ser humano conhece e age. 
2. Desde meados do século XIX, como consequên­
cia do positivismo de Augusto Comte, a filosofia foi 
separada das ciências chamadas positivas, consideradas 
portadoras de verdadeiro conhecimento (Matemática, 
Física, Química, Biologia, Astronomia, Sociologia, Psico­
logia). As ciências, diziam os positivistas, estudam a 
realidade natural, social, psicológica e moral, e são pro­
priamente o conhecimento. Para eles, a filosofia seria 
apenas uma reflexão sobre o significado do trabalho 
científico. A filosofia tornou-se, assim, uma teoria das 
ciências ou epistemologia, pois, como vimos, a palavra 
grega episteme significa 'ciência'. 
Em decorrência da filosofia de Kant e do positi­
vismo, os filósofos do início do século XX se voltaram 
primordialmente para a figura do sujeito do conhe­
cimento e se interessaram principalmente pelo co­
nhecimento das estruturas e formas da consciência 
e também pelo seu modo de expressão, isto é, a lin­
guagem. O interesse pela consciência reflexiva ou 
pelo sujeito do conhecimento originou uma corrente 
filosófica conhecida como fenomenologia, iniciada 
por Edmund Husserl. Já o interesse pelas formas e 
modos de funcionamento da linguagem corresponde 
a uma corrente filosófica conhecida como filosofia 
analíti ca, cujo início é atribuído ao austríaco Ludwig 
Wittgenstein (1889-1951) e a um grupo de lógi­
cos denominado Círculo de Viena. 
A atividade filosófica, porém, não se restrin­
giu à teoria do conhecimento, à lógica, à episte­
mologia, à ética e à política. Desde o início do 
século XX, a história da filosofia tornou-se uma 
disciplina de grande prestígio e, com ela, a histó­
ria das ideias e a história das ciências. 
Diversos acontecimentos ocorridos desde a 
Segunda Guerra Mundial fizeram ressurgir o in­
teresse pela filosofia política: o fenômeno do 
totalitarismo, as guerras de libertação de povos 
contra os impérios coloniais, as revoluções socia­
listas em vários países e as lutas, desde os anos 
1960, contra ditaduras e pelos direitos de negros, 
indígenas, mulheres, idosos, homossexuais, tran­
sexuais, crianças e outros excluídos econômica 
e politicamente. Com isso, ressurgiram também 
as críticas de ideologias e as discussões sobre as 
relações entre a ética e a política. 
Musas inquietantes(1924), óleo sobre tela do 
pintor italiano Giorgio de Chir ico (1888-1978). 
A pintura metafísica de De Chirico realça a 
nostalgia do antigo e o enigma dos sonhos. 
-----------------------'\ A transformação da f i losofia na contemporane idade 0 
F i na lmente, desde o fim do sécu lo XX, o pós-mo­
de rn ismo vem ganhando p reponderâ nc ia . Seu a lvo 
pr i nc ipa l, como vimos, é a crít i ca de todos os conce itos 
e va lores q u e, até hoje, sustenta ram a fi losofia e o pen­
samento d ito ocidenta l : razão, saber, suje i to, objeto, 
h i stó r ia, espaço, tempo, l i be rdade, necess idade, acaso, 
natu reza, homem, entre outros. 
Conexões 
Em reação a isso, f i lósofos contemporâ neos cr it i ­
cam a indo lênc ia p resente em aspectos do pensamen­
to pós-moderno, reco loca ndo a capac idade crít i ca da 
razão ta nto pa ra ava l i a r as c iênc ias e as técn i cas quan ­
to pa ra com preender a rea l idade soci a l , po l ít ica e a rtís­
t i ca em que vivemos. 
Estaat iv idade tra ba l ha com conteúdos de F i l osofia, H istó r ia, Geografia e Socio log ia . 
Mu itas pessoas da sua ge ração ta lvez não tenham ide ia d isso, mas a existênc ia vi rtua l que hoje faz pa rte do 
d i a a d i a de grande pa rte dos jovens (e-mails, redes soc ia is, blogs,Jotoblogs, a p l i cat ivos de te l efones ce l u l a res) é 
recente na soc iedade. 
O f i l ósofo Ada m Schaff (1 91 3 -2006) se refe re à "revo l ução da m i croe l et rôn i ca ", nota ndo q u e já não nos 
da mos conta de que esta mos rodeados por e l a, desde os pequenos objetos de uso cot i d i a no, como o re l óg io 
de qua rtzo, a ca l cu l a dora de bo l so, o te l efone ce l u l a r, o tablet, etc. Schaff ass i n a l a a d ife re nça e ntre os a nt i ­
gos objetos técn i cos - q ue am p l i avam a fo rça fís ica h u mana -e os novos objetos tecno l ógicos - q ue a m p l i am 
as fo rças i nte l ectua i s h u m a na s, isto é , as ca pac idades do pensa mento, po i s dependem de i nfo rmações e 
ope ra m ou fo rnecem i nfo rmações (os p r ime i ros com putado res fo ra m cha mados de "cé re b ros e l etrôn i cos") . 
De fato, com os saté l ites e a i nfo rmát i ca, é nosso cé reb ro ou o nosso s i stema ne rvoso cent ra l q u e se expa n­
de sem l i m ites, d i m i n u i ndo d i stâ nc i a s espac i a i s e i nte rva los tem pora i s até a bo l i r o espaço e o tem po. O 
m undo está on-line d u ra nte 24 ho ras, sem obstá cu los de d i stâ nc i as e d ife renças geográf icas, soc i a i s e po l í­
t i cas, nem de d i st i nção e ntre o d i a e a no ite, ontem, hoje e a ma nhã . 
Ana l i s ando o m u ndo v i rtua l , o geógra­
fo David Ha rvey (1 935) a ponta uma tra ns­
formação sem precedentes em nossa ex­
per iência do espaço e do tempo, designada 
por e le como "compressão espaçotempo­
ra l ", ca usada pelas novas tecnologias. Com­
pressão do espaço: tudo se passa aqui, sem 
distâ ncias, d iferenças nem fro nte i ras. Com­
pressão do tem po : tu do se passa agora, 
sem passado e sem futu ro, sem conti n u i ­
dade nem histór ia . D isso o me lhor exemplo 
são as redes soc ia is . 
• O que essa existê ncia vi rtua l tem a ve r 
com o pensamento pós-moderno? Re le ia 
a s c ríticas da fi losofia pós-mode rna às 
ide ias da modernidade e ela bo re um tex-
to com aspectos q u e demonstrem ou 
rejeitem essa re lação. Procu re comp re­
ender como fu ncionavam, em outras épo­
cas, os processos de soci ab i l idade, de tra ba­
l ho, os estudos e pesq uisas esco la res, entre 
outras atividades. 
e Capítulo & 
Videoconferência realizada pelo Departamento de Recuperação de Ativos e 
Cooperação Jur ídica Internacional do Ministério da Justiça, em Brasília, na 
qual um piloto estadunidense depôs sobre um acidente aéreo ocorrido no 
Brasil, em 2006. A tecnologia permite a compressão do espaço e 
do tempo. Foto de 2011. 
1 . O pensa mento de fi lósofos como Hege l e Comte 
o rigi nou uma concepção otim ista da h istór ia . 
a ) Qua l é a principa l ideia re lacionada a essa concepção? 
b} Por que e la foi refutada por fi lósofos do século XX? 
2. O desenvo lvi mento das c iênc ias e das técn ica s no 
sécu lo XIX ca usou oti m ismo na ma ior ia dos fi lóso­
fos da época. Esse oti mismo se ma nteve ou não nos 
sécu los XX e XXI ? Por q uê? 
3. Exp l i que a d i sti nção fe ita pe la Teor ia Crítica e ntre 
ra zão i nstrumenta l e razão crítica . 
4. Por que os fi lósofos contemporâneos se tornaram des­
crentes com re lação a revo luções socia is e políticas? 
5. Os fi lósofos do sécu lo XIX se d ivid i ram em d uas cor­
rentes ao defi n i r a cu ltura. Como a fi losofia do sé­
culo XX se contrapôs a cada uma dessas concepções? 
6. De acordo co m o texto, por q ue as descobe rtas 
d a i d eo l og ia , po r Ma rx, e d o i n consc ie nte, po r 
F reud , q uestiona ra m o oti m i smo rac iona l i sta ? 
l n d i cacões 
Nós que aqui estamos por vós esperamos 
• Direção de Marce lo Masagão. Brasi l , 1998. 
Documentár io sobre o século XX fe ito de fragmentos bio­
gráficos de personagens que viveram nesse período. O fi lme 
põe em d i scussão o caráter ba n a l que a v i d a e a morte a dqu i ­
r i ram no sécu lo passado. 
Admirável mundo novo 
Cena do filme Nós que aqui 
estamos por vós esperamos, 
de Marcelo Masagão. 
• Escrito por Aldous Huxley. Bibl ioteca Azu l , 2014. 
7. Após a crítica de Kant à metafísica, a que se ded icou 
a fi losofia ? 
8. Qua i s fo ra m a s duas p r i n ci pa is cor re ntes fi losó­
fi cas c r i adas no sécu l o XX a pós a c r i se da m eta ­
fís i ca ? O q u e p ropuse ra m co mo te mas da fi l o ­
sofi a ? 
9. Qua i s são a s p r i nc ipa i s i de i as do s fi lósofos pós­
-mode rnos? 
10. Como a fi losofia contem porâ nea reage à pos ição 
do pós-mode rn ismo? O q u e é a c ríti ca da razão 
i ndo l ente? 
11 . I dentifiq ue, na l i n ha do tem po, os pr inc ipa is temas 
a bo rdados pe los fi l ósofos dos ú lt imos sessenta 
a nos e re lac ione dois de les a eventos ou com por­
ta mentos da atua l idade. 
12. I nte rprete as duas ti r i nhas re prod uz idas neste ca ­
pítu lo, re lac iona ndo-as a ide ias e crít icas expostas 
no texto. 
Este romance, escr ito em 1932, se passa em uma soc iedade tota lmente organ i zada com base em proced imentos c ientífi cos e em 
um p l anej amento rac ion a l . Sob o p retexto de garant i r a fe l i c idade, o q ue na rea l i dade ocorre é a formação de uma sociedade de 
pessoas q ue não questionam, na qua l não há espaço pa ra a l i berdade . 
Arte e matemática - Do zero ao infinito 
• Disponível em: <http://tvescola.mec.gov.br/tve/video/arte­
e-matematica-do-zero-ao-infinito>. Acesso em: 13 dez. 2015. 
Este ep i sód io introdutór io do progra ma Arte e matemática 
mostra não só as re l a ções entre essas dua s d i sci p l i n a s, mas 
também como a busca pe lo conhec imento rac ion a l colocada 
pe la f i losofia está int ima mente l igada a e las . 
A obra De onde viemos? Que somos? Para 
onde vamos?, pintada por Pau l Gaugu in 
em 1897, representa o ciclo da vida . 
Aceivo Museu de Belas Artes, Boston, MA. EUA/Reprodução 
--------------------------'\ A transformação da filosofia na contemporane idade 0 
Falando da razão 
No coti d iano, d izemos, po r exemp lo, "Eu estou com 
a razão" pa ra s ign ifica r que sabemos com ce rteza a l ­
guma co isa . Também d izemos que, num momento de 
fú r ia ou de desespero, "A lguém perde a razão", como 
se a razão ou a l uc idez fossem a lgo que se pode te r ou 
não ter, possu i r e perder, ou mesmo recupera r. 
Fa lamos também frases como: "Se você me d isser 
suas razões, sou ca paz de faze r o que você me pede", 
p retendendo d izer com isso q u e que remos ouv i r os 
motivos que a lguém tem pa ra querer ou fazer a lguma 
co isa . Fazemos pe rguntas como "Qua l é a razão dessa 
enchente?", que rendo saber a causa de a l guma co isa . 
Nesse caso, a razão, por ser uma ca usa, ser ia uma pro­
pr iedade dos fatos da natu reza. Desse modo, ta nto nós 
quanto as coisas da natureza pa recemos ser dotados 
de razão, mas em sent idos d iferentes. 
Quando a fi losofia fala sobre razão, ela fala de todos 
esses sentidos: ter certeza, ter lucidez, ter motivo, ter causa. 
Esses vá rios sentidos ficam cla ros q uando usamos 
o adjetivo racional: a lguém é raciona l q uando tem ce r­
teza e l uc idez sobre o que pensa e d i z e quando sabe 
os m ot ivos pa ra fazer ou não fazer u m a ação; uma 
coi sa, u m fato, um acontec imento s ão raciona is quan ­
d o podemos d ete rm i n a r a ca usa que rea l mente os 
p roduz ou p roduz iu . 
Em contra pos ição a rac iona l, usa mos o adjet ivo 
irracional. Por exemp l o, q uando u m professo r d i z a 
outro : " Fu l ano trouxe um t ra ba l h o i r rac iona l ; e ra um 
caos, i ncompreensíve l . Já o tra ba l ho de be lt rana era 
uma be l eza,c l a ro, compreens íve l, rac iona l ". Aq u i, ra­
cional s ign if ica c l a reza das i de i a s, o rdem, resu ltado 
de esforço i nte l ectua l ou da i nte l igênc ia segu ndo nor­
mas e regras de pensa mento e de l i nguagem . Ao con­
t rá r io, irracional s ign if ica confuso, desordenado, q ue 
não segue as regras e normas adequadas do pensa­
mento e da l i n guagem. 
Razão e razões: os seres humanos como seres racionais 
É mu ito cé lebre uma frase do f i l ósofo Pasca l (1623-
-1 662) : "O co ração tem razões q u e a razão desconhece". 
Nessa frase, as pa lavras razões e razão não têm o mes­
mo s ign ificado. Razões são os mot ivos do coração, en­
quanto razão é a lgo d ife rente de co ração. Coração é o 
nome que da mos às emoções e pa ixões, enquanto ra­
zão é o nome que damos ao pensamento ou à i nte l i ­
gênc ia como at iv idades de conhec imento. 
As razões do coracão 
Ao d ize r que o co ração tem suas p rópr ias razões, 
Pasca l afi rma que as emoções, os sent imentos ou as 
paixões possuem ca usas ou motivos e são o motivo ou 
a ca usa de mu ito do que fazemos, d i zemos, que remos 
e sentimos. Ao d izer que a razão desconhece "as razões 
do co ração", Pasca l afi rma que o pensamento, ou co­
n hec imento i nte l ectua l, é d ife rente das pa ixões e dos 
sent imentos e que e la nem sempre pode exp l i cá- l os. 
"E quem um dia i rá d i zer que existe razão nas 
coisas fe itas pe lo co ra ção / E quem i rá d i zer que não 
existe razão." 
É ass im qu e se i n ic ia a ca nção " Edua rdo e Mô­
n i ca " (1 986) , u m dos ma io res su cessos do grupo de 
rock Legião U rbana . Os ve rsos se i n sp i ram na frase 
de Pasca l pa ra i ntroduz i r a h istó r ia de amor e ntre do is 
jovens mu ito d ifere ntes e ntre s i . 
Ta l como Pasca l, a letra da ca n ção , de Renato 
Russo , explora d ife re ntes se nt idos da pa lavra razão . O grupo legião Urbana, em foto de 1986 . 
O p rime i ro verso, ta l como o fi lósofo fra ncês , d ife renc ia as emoções (o "co ração") da razão como co­
n hec imento i nte lectua l. J á o segu ndo verso pode ser i nterpretado de duas mane i ras : razão pode ser 
compreend ida como motivo , ass im como nas " razões do co ração" da frase de Pasca l; porém , n esse tre­
cho da canção, de ixa-se aberta a poss i b i l i dade de que , naque la s ituação, as coisas "fe itas pe lo co ração" 
também tenham s ido i nflu en c iadas pela razão , a i nda que não pareça . 
----------------------------
'\ 
Os vários senti dos da pa lavra razão @ 
Agora podemos entender a pergunta "Você perdeu 
a razão?". De fato, se alguém "perde a razão", é porque 
está sendo arrastado pelas "razões do coração". E, ao 
contrário, se alguém "recupera a razão", é porque o 
pensamento ou o conhecimento intelectual se torna­
ram mais fortes do que as emoções. 
Muitas vezes também ouvimos afirmações de que 
as ciências são a manifestação do "progresso da ra­
zão". Aqui, a razão é colocada como capacidade inte­
lectual para se obter o conhecimento verdadeiro da 
natureza, da sociedade, da história, e isso é conside­
rado algo positivo. Por ser considerado um "progresso", 
o conhecimento científico é visto como algo que se 
realiza no tempo e é dotado de continuidade. Desse 
modo, a razão também é concebida como capaz de 
A razão na própria realidade 
Para muitos filósofos, a razão não é apenas a capaci­
dade intelectual e ética dos seres humanos, mas também 
uma propriedade ou qualidade primordial das coisas. Pa­
ra esses filósofos, nossa razão pode conhecer a realidade 
porque esta é racional em si mesma. Razão significa, ago­
ra, a ordenação regulada e necessária das próprias coisas. 
Fala-se, portanto, em razão objetiva (a realidade é 
racional em si mesma) e em razão subjetiva (a razão é 
uma capacidade intelectual e ética dos seres humanos). 
A razão objetiva é a afirmação de que o objeto do co­
nhecimento ou a realidade é racional; a razão subjetiva 
é a afirmação de que o sujeito do conhecimento e da 
ação é racional. Para muitos filósofos, a filosofia é o 
momento do encontro, do acordo e da harmonia entre 
as duas razões ou racionalidades. 
Pesqu isadora observa reações em microscópio eletrônico, no Reino 
Unido, em 2013. A interação entre os elementos químicos é organ izada 
de acordo com a razão objetiva, ou seja, é racional em si mesma. Já a 
forma como a conhecemos se organiza de acordo com a razão 
subjetiva, pois nossa razão tem a capacidade intelectual de apreender 
as leis e as causas delas. 
Origem da palavra razão 
Na cultura da chamada sociedade ocidental, a palavra 
razão origina-se de duas fontes: a palavra latina ratio e a 
palavra grega lógos. Ambas são substantivos derivados 
de dois verbos que têm um sentido muito parecido. 
Que fazemos quando medimos, juntamos, separa­
mos, contamos e calculamos? Pensamos de modo or­
denado. E que meios usamos para falar sobre essas 
e Capítulo 7 
aumentar seus conteúdos e suas capacidades ao lon­
go do tempo. 
Todos esses sentidos constituem a nossa ideia de 
razão. Ela é o pensamento como atividade intelectual 
de conhecimento da realidade natural, social, psicoló­
gica, histórica, e nós a concebemos segundo o ideal da 
clareza, da ordenação e do rigor dos pensamentos e 
das palavras. Ela é também a capacidade de nossa in­
teligência e de nossa consciência para compreender as 
emoções e os sentimentos, moderá-los, orientá-los 
para que não prejudiquem aos outros nem a nós mes­
mos. Nesse caso, ela é a consciência ética que guia 
nossos sentimentos e nossa vontade para o bem. Ra­
zão designa, portanto, as leis do pensamento (intelec­
tual) e as regras da ação refletida (ética). 
ações? Usamos palavras. Por isso, lógos, ratio ou razão 
significam pensar e falar ordenadamente, com medida 
e proporção, de modo compreensível para outros. 
Lógos e ratio: lógos ve m do verbo grego legein , que quer 
d izer 'conta r, reu n i r, j u nta r, calcu la r'. Ratio vem do verbo 
lat ino reor, que quer d ize r 'contar, reu n i r, med i r, j u nta r, 
separa r, calcu la r'. 
A razão e seu uso na matemática 
Como v i mos, por mu ito tempo fi losofia e matemática estive ra m i nt i mamente l igadas . D ive rsos fi ló­
sofos fo ra m ta mbém matemáticos e uti l iza ra m co nce itos d essa á rea na fi losofia. 
Na mate mática , razão s ign ifi ca u ma co m pa ração entre duas med idas por meio de u ma d iv isão . 
Se use i 200 g de cebola 
pa ra tem perar 1 600 g 
de ca rne moída . . . 
➔ . . . a razão estabelecida 
, d 1 e e s. 
➔ 
Portanto , prec iso de 300 g 
de cebola pa ra tem perar 
2 400 g de ca rne moída. 
Ass im , a razão mate máti ca estabe lece u ma proporção co nsta nte e ntre med idas , o rdenan do-as . 
Sabendo a razão e ntre do is termos , podere i a u m e ntá- los ou d i m i n u í- los ma ntendo a proporçã o que 
ga ra nti rá o resu ltado desejado , por me io da opera ção co n h ec ida po pu la rmente co mo regra de três. 
É esse t ipo de proced imento s istemático e o rdenado que a fi losofia i de ntifi ca na rac io na lidade . 
Desde o começo da filosofia, a origem da palavra 
razão fez com que ela fosse considerada oposta a qua­
tro outras atitudes mentais: 
1 . ao conhecimento ilusório, isto é, ao conhecimen­
to da mera aparência das coisas, que não alcança a 
realidade ou a verdade delas. Para a razão, a ilusão 
provém de nossos costumes, de nossos preconceitos, 
da aceitação imediata das coisas tal como aparecem 
e tal como parecem ser. As ilusões criam as opiniões 
que variam de pessoa para pessoa e de sociedade pa­
ra sociedade, formando o senso comum e os precon­
ceitos; 
2 . à s emoções, a os sentimentos, à s paixões, 
que são cegos, caóticos, contrários uns aos outros, 
ora dizendo "sim", ora dizendo "não" a uma mesma 
coisa; 
3. à crença religiosa, para a qual a verdade nos é 
dada pela fé numa revelação divina, não dependendo 
do trabalho de conhecimento realizado pelo nosso in­
telecto. A razãoé oposta à revelação, e por isso os filó­
sofos cristãos distinguem entre a luz natural - a razão 
- e a luz sobrenatural - a revelação; 
4. ao êxtase místico (dos santos, dos profetas), no 
qual o espírito acredita entrar em relação direta com o 
ser divino e participar dele, sem nenhuma intervenção 
nem do intelecto, nem da vontade. Pelo contrário, o 
êxtase místico exige um estado de rompimento com a 
atividade intelectual e com a vontade; ou seja, exige a 
perda da consciência da própria individualidade para 
entregar-se ao gozo ou ao prazer de participar do ser 
infinito, num conhecimento que só pode ser sentido e 
não pode ser expresso em pensamentos ou palavras. 
A atriz Denise Fraga no 
papel-título da peça Galileu 
Galilei, adaptação de Cibele 
Forjaz para o texto A vida de 
Galileu, de Bertolt Brecht. 
Foto de 2015. 
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Os vários senti dos da pa lavra razão @ 
O triunfo da razão 
[ . . . ] para forjar o ferro é necessário um martelo e, para ter um mar­
telo, é necessário fabricá- lo, para o que são necessários outro martelo 
e outros instrumentos, os quais, por sua vez, para que os possuíssemos, 
exigiriam ainda outros instrumentos, e assim ao infin ito [ . . . ] do mesmo 
modo que os homens, de início, conseguiram, ainda que dificultosa e 
imperfeitamente, fabricar, com instrumentos naturais, certas co isas 
m uito fáceis e, feitas estas, fabricaram outras coisas mais difíceis já 
com menos trabalho e maior perfeição e assim, p rogressivamente, das 
obras mais simples aos instrumentos, e dos instrumentos a outras obras 
e outros instrumentos, chegaram a fabricar com pouco trabalho coisas 
tão difíceis; assim também a razão pela sua força natura/fabrica para 
si instrumentos intelectuais com os quais ganha outras forças para 
outras obras intelectuais e com estas cria outros instrumentos ou ca­
pacidades para continuar investigando; e assim, p rogressivamente, 
avança até atingir o cume da sabedoria. 
ESP I NOSA. Tratado da reforma da inteligência. § 31. São Pa u lo : Retrato (c. 1665) de Baruch Espinosa. 
Óleo sobre tela de autor desconhecido. Compa n h ia Editora Naciona l, 1966. p. 98-99. 
• No texto, pa ra constru i r a ana logia entre o desenvo lvimento da técn ica e o desenvolvimento da razão, o 
a uto r esta belece uma re lação i nve rsa mente proporciona l entre do is te rmos em cada um dos exemp los. 
Identifi que esses te rmos e exp l ique por q ue essa re l ação é i nversa mente proporciona l . 
Os princípios racionais 
Desde seus pr imórd ios, a fi l osofia cons iderou que 
a razão opera segundo pr i ncíp ios que e la própr ia esta­
be lece e que estão em concordância com a rea l idade, 
mesmo qua ndo não os conhecemos ou form u lamos 
exp l i c itamente. Nós respe itamos esses pr i ncíp ios por­
q u e somos se res raciona is e porq u e e l es ga rantem q ue 
a rea l i dade possa s e r con hecida pe la nossa razão. 
Que pr i ncíp ios são esses? 
1 . Princípio da identidade, cujo enu nc iado pode 
parece r su rpreendente : ''.A é A" ou "O que é é ". E le afi r­
ma que uma co isa só pode ser conhec ida e pensada se 
for perceb ida e conservada com sua identida d e. Ou 
seja, sem o p ri n cíp io da ident idade, seq ue r podemos 
pensa r. Embora seu enu nc iado pa reça a bsu rdo (acha­
mos óbv io que uma co isa seja i dênt ica a s i mesma), 
esse pr i n cíp io é usado por nossa soci edade sem q ue 
percebamos. Onde é usado? Na chamada "ca rte i ra de 
ident idade" (o nosso RG), por exemp lo, com a qua l se 
afi rma e se ga ra nte que ''.A é A". 
O pr i ncíp io da ident idade é a cond i ção pa ra defi­
n i rmos as coisas e podermos con hecê- las com base em 
e Capítulo 7 
suas defin ições. Po r exemp lo, depois que a matemática 
determ inou a ident idade do tr iâ ngu lo como figu ra de 
três lados e de t rês â ngulos i nternos cuja soma é igua l 
à soma de do is â ngu los retos, nenhuma out ra figu ra a 
não ser essa poderá ser denomi nada tr iâ ngu lo. 
2. Princípio da não contrad ição (também conheci­
do como princípio da contrad ição), cujo en u nciado é ''.A 
é A e é impossíve l q u e seja, ao mesmo tempo e na mes­
ma re lação, não A". Ass im, é impossíve l que a á rvore 
q u e está d ia nte de m im seja e não seja, ao mesmo tem­
po, uma á rvore; que o homem seja e não seja, ao mes­
mo tempo, morta l ; que o ve rme lho seja e não seja, ao 
mesmo tempo, ve rme lho, etc. 
Sem o pr i ncíp io da não contrad ição, o p ri n cíp io da 
identidade não poderia fu nciona r. Se uma coisa ou uma 
ide ia se nega rem a s i mesmas, e las se a utodestroem. 
E i s por que o p ri n cíp io enu ncia que as co isas e as ide ias 
contrad itó r ias são impensáve is e impossíve is . 
Notemos, po rém, que o pr i nc íp io e n u nc ia a im ­
poss i b i l id a d e d e afi rma r e n ega r a mesma co isa a 
res peito de a lgo ao mesmo tempo e na mesma relação. 
Por que essas duas condições? Porque há coisas que 
podem mudar no correr do tempo, de tal maneira que 
poderão tornar-se diferentes e até mesmo opostas ao 
que eram sem que isso signifique contradição. Por 
exemplo, é contraditório que, aqui e agora (nesta re­
lação e neste tempo), uma criança seja e não seja 
criança; porém, não será contraditório dizer que essa 
criança é, agora, uma criança e não será uma criança, 
quando crescer. Ou seja, num outro tempo e sob outra 
relação, a mudança de alguém ou de alguma coisa não 
é contraditória. 
As duas condições para que haja contradição in­
dicam também que esse princípio opera sempre da 
mesma maneira para as coisas que não estão sub­
metidas ao tempo, justamente porque não se trans­
formam. É o caso, por exemplo, das ideias matemá­
ticas. Assim, será sempre contraditório dizer "círculo 
quadrado" ou dizer que a figura geométrica cubo é, 
ao mesmo tempo e na mesma relação, cubo e não 
cubo, embora uma caixa de papelão cúbica possa 
perder essa forma com o correr do tempo ou com 
uma intervenção humana. O cubo geométrico não 
muda; uma caixa cúbica de papelão pode mudar de 
forma (por exemplo, se ficar sob a água, vira uma 
pasta). 
3. Pr incípio do terceiro exclu ído, cujo enunciado é: 
"Ou A é x ou não é x, e não há terceira possibilidade". 
Por exemplo: "Ou este homem é Sócrates ou não é 
Sócrates"; "Ou faremos a guerra ou faremos a paz". 
Esse princípio define a decisão de um dilema - "ou 
isto, ou aquilo" -, no qual as duas alternativas são pos­
síveis, e a solução exige que apenas uma delas seja 
verdadeira. Mesmo quando temos um teste de múlti­
pla escolha, escolhemos na verdade apenas entre duas 
opções - "ou está certo, ou está errado" -, e não há 
terceira possibilidade. 
Detalhe da obra Performance de um ano, do artista taiwanês Tehching Hsieh, apresentada na 30• Bienal de São Paulo, em 2012. Segundo o 
princípio da não contradição, não é possível afirmar e negar algo ao mesmo tempo e na mesma relação. Essas duas condições fundamentais 
do princípio dizem respeito tanto a coisas submetidas ao tempo (como o ser humano) quanto a algo não submetido ao tempo (uma figura 
geométrica, por exemplo). 
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Os vários senti dos da pa lavra razão @ 
4. Pr incípio da razão suficiente, que afirma que 
tudo o que existe e tudo o que acontece tem uma razão 
(causa ou motivo) para existir ou para acontecer, e que 
tal razão pode ser conhecida pela nossa razão. Esse 
princípio também costuma ser formulado da seguinte 
maneira: "Nada é sem causa" ou "Tudo tem causa". 
Por isso, o princípio da razão suficiente costuma ser 
chamado de princípio de causalidade. Esse princípio afir­
ma a existência de relações ou conexões internas entre 
as coisas, entre fatos e entre ações e acontecimentos. 
Pode ser enunciado da seguinte maneira: "Dado A, ne­
cessariamente se dará B". E também: "Dado B, neces­
sariamente houve A". 
Isso não significa que a razão não admita o acaso 
ou ações e fatos acidentais, mas sim que ela procura 
uma causa mesmo para o acaso e para o acidente. Vi­
mosisso ao explicar que o acaso ou o acidente são 
duas séries de acontecimentos dotados de causas cujo 
encontro é acidental (o caso da pedra que caiu sobre a 
cabeça do passante). A diferença entre a causa neces­
sária e a causa acidental está em que a primeira se 
realiza sempre, é universal e válida para todos os casos, 
enquanto a causa acidental só vale para aquele caso 
particular. 
Por exemplo, a morte é um efeito necessário e uni­
versal (válido para todos os tempos e lugares) da guer­
ra. A guerra é uma causa necessária e universal da mor­
te de pessoas. Mas é imprevisível ou acidental que esta 
ou aquela guerra aconteçam. Guerras podem acontecer 
ou não. Se acontecerem, suas causas são particulares, 
isto é, explicam por que há esta guerra, e não por que 
existem todas as guerras; não há uma causa universal 
ú nica para explicar toda e qualquer guerra. Se uma 
e Capítulo 7 
guerra acontecer, ela terá necessariamente causas 
(mesmo as mais absurdas e inaceitáveis) e terá neces­
sariamente, como efeito, mortes. Mas as causas dessa 
guerra são somente as dessa guerra e de nenhuma 
outra. Assim, é possível que não haja uma guerra porque 
não há causas para que ela aconteça; porém, se uma 
guerra acontecer, o princípio de razão suficiente asse­
gura que: 1) houve causa para ela; 2) haverá mortes. 
Diferentemente do caso dos acontecimentos aci­
dentais ou particulares, o princípio da razão suficiente 
vigorou plenamente, por exemplo, na demonstração 
que Galileu (1564-1642) fez das leis universais do movi­
mento dos corpos no vácuo. Ao fazê-lo, o físico desco­
briu e demonstrou as causas naturais universais neces­
sárias e os efeitos naturais universais necessários do 
movimento dos corpos em queda livre. 
Pelo que foi exposto, podemos observar algumas 
características importantes dos quatro grandes princí­
pios da razão: 
• não têm um conteúdo determinado, isto é, indi­
cam como as coisas devem ser pensadas, mas não 
quais coisas ou quais conteúdos devemos ou va­
mos pensar; 
• têm validade universal, isto é, onde houver razão 
(nos seres humanos e nas coisas, nos fatos e nos 
acontecimentos), em todo tempo e em todo lu­
gar, tais princípios são verdadeiros e empregados 
por todos (os humanos) e obedecidos por todos 
(humanos, coisas, fatos, acontecimentos); 
• são necessários, isto é, indispensáveis para o pen­
samento, as coisas, os fatos e os acontecimentos, 
de maneira que não podemos pensar racional­
mente sem segui-los. 
O princípio da razão suficiente 
afirma relações ou conexões 
internas entre as coisas, entre 
fatos ou entre ações e 
acontecimentos. Assim, o pescador 
pesca por uma causa (alimentar-se, 
vender o peixe, divertir-se), e o 
peixe come a isca por outra causa 
(alimentar-se). O fato de este peixe 
ter sido pescado por estes 
pescadores, em lagoa de Belo 
Horizonte (MG), em 2009, se deve 
ao encontro acidental de duas 
séries causais necessárias. 
Conexões 
Esta atividade traba lha com conteúdos de Fi l osofia 
e Qu ímica . 
V imos como as c iênc ias já i ntegra ram o campo de 
estudos da fi l osofia, mas, nos ú l t imos sécu los, ga n ha­
ram a utonomía em re lação a e la . V imos também que 
a razão costuma ser ap resentada como oposta a a lgu­
mas outras at itudes menta is . 
Até o sécu lo XVI I I , a cred itava-se ou que cada subs­
tânc ia que percebemos na a pa rênc ia e ra ú n ica e d ife­
rente das outras, ou que todas essas su bstâ nc ias a pa­
Nesta gravura de Louis Figuier, de 1874, Lavoisier demonstra a 
descoberta do oxigênio. 
rentes der ivavam de a lguns poucos e lementos fu ndamenta is (água, terra, fogo, a r, espír ito, entre outros). Porém, 
o qu ím ico fra ncês Anto ine Lavo is ie r (1743-1794) descobr iu que as substâ nc ias que pe rcebemos são formadas pe la 
j u nção de outras, menores, i nvisíve is . E ra isso que permit ia a tra nsformação daqu i lo que percebemos em outras 
coisas, por meio da recomb i nação desses pequenos e lementos d ife rentes (ma is ta rde denom i nados átomos). 
1 . Pesq uise, em l ivros e sites, um pouco sobre as descobe rtas d e Lavoisier. Então, exp l ique como a razão l he pe rmiti u 
adota r proced imentos exp l icativos que afasta ram atitudes menta is como o conhecimento i l usório e a crença rel igiosa. 
2. De q ue modo os q uatro pr i ncípios da razão - pr incíp io da ide ntidade, da contrad ição, do terce i ro excl u ído e da 
razão suficiente - apa recem na descobe rta de q ue a água não é uma su bstâ ncia s imples, e sim composta de dois 
e lementos d ife rentes (oxigên io e h id rogên io)? 
1 . Cite a lguns sentidos que a pa lavra razão pode te r 
no uso cotid ia no. Exp l i que a d ife rença entre cada 
um de les de acordo com o uso. 
2 . Qua l é o pa pe l q ue a razão exe rce na esco lha e na 
decisão das nossas ações? 
3 . Quais são a s atitudes menta is opostas à razão? Por 
q ue elas se opõem à razão? 
l n d i cacões 
O vingador do futuro 
• Direção de Pau l Verhoeven. Estados Unidos, 1990. 
4. Ca racter ize os pr i ncípios da identidade, da contra­
d ição, do te rce i ro exc lu ído e da razão suficiente. Dê 
exemplos novos, mostra ndo como cada um deles 
pode ser ap l icado a um determinado fato ou objeto. 
5. De acordo com o texto, q ua is são as pr inc ipa is ca­
racterísticas da razão? Em sua resposta, exp l ique 
cada uma delas . 
No fi n a l do sécu lo XXI , um tra ba l h a dor que deseja con hecer Marte rea l i za um imp l a nte de memór ia que s imu l a rá essa expe­
r iênc ia , coloca ndo-o na pe le de um agente secreto. Porém, a l go dá erra do no proced imento, l eva ndo Qua i d a desconfia r de sua 
própr ia i dent idade e de todos que o cercam . 
Barroco tropical 
• Escrito por José Eduardo Agua i usa. Companhia das Letras, 2009. 
Dura nte uma tempestade, um escritor e uma cantora presenc i am um a contecimento i n u sita do : a q ueda, do 
céu, de uma ex-miss a ngo l ana . Alternando-se entre os dois personagens- na rradores, a trama faz idas e v in ­
das no tempo, numa busca pe la com preensão de a contec imentos apa rentemente i rrea i s e de um contexto 
socia l ma rcado por profundas des igua ldades . 
Capa da edição brasileira do livro Barroco 
tropica� de José Eduardo Agualusa. 
_____________________________ '\ 
Os vários senti dos da pa lavra razão e 
As modalidades da atividade racional 
A filosofia distingue duas grandes modalidades da 
atividade racional, realizadas pelo sujeito do conheci­
mento: a i ntuição (ou razão intuitiva) e o raciocín io (ou 
razão discursiva). 
A atividade racional discursiva passa por etapas 
sucessivas de aproximação para chegar ao conceito 
A intuicão 
A intuição é uma compreensão completa e imedia­
ta de um objeto ou de um fato. Nela, de uma só vez, a 
razão capta todas as relações que constituem a reali­
dade e a verdade da coisa intuída. É um ato intelectual 
de discernimento e compreensão, sem necessidade de 
provas ou demonstrações para saber o que conhece. 
Um exemplo seria um médico que, graças ao conjun­
to de conhecimentos que possui, vê de uma só vez a 
doença, sua causa e o modo de tratá-la. Os psicólogos 
se referem à intuição usando o termo inglês insight, 
que corresponde em português ao momento em que 
dizemos: "Entendi! " ou "É isso!". 
intuição: palavra derivada do verbo latino intuere, que 
significa 'olhar atentamente, contemplar, ver claramente'. 
Um exemplo de intuição pode ser encontrado no 
romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. 
Riobaldo e Diadorim são dois jagunços ligados pela mais 
profunda amizade e lealdade, companheiros de lutas e 
cumpridores de uma vingança de sangue contra os as­
sassinos da família de Diadorim. Riobaldo, porém, sen­
te-se cheio de angústia e tormento, pois seus sentimen­
tos por Diadorim são confusos. É como se entre eles 
houvesse muito mais do que amizade. 
Quando Diadorim é assassinado e o corpo é trazido 
para ser preparado para o funeral, Riobaldo descobre 
que o amigo era uma mulher. De uma sóvez, Riobaldo 
compreende tudo o que havia sentido, todos os fatos 
acontecidos entre eles e que lhe pareciam inexplicáveis, 
todas as conversas que haviam tido, todos os gestos 
estranhos de Diadorim (como o de jamais banhar-se 
nos rios na companhia dos demais jagunços). Então, 
compreende, instantaneamente, a verdade: estivera 
apaixonado por Diadorim. 
Esse exemplo indica que a intuição pode depen­
der de conhecimentos anteriores e que ela ocorre 
quando esses conhecimentos são percebidos de 
uma só vez, numa síntese em que aparecem articu-
ou à definição do objeto. Já a razão intuitiva ou intui­
ção, ao contrário, consiste num único ato do espírito 
que capta por inteiro e completamente o objeto do 
conhecimento. 
Vejamos a seguir como opera cada uma dessas 
modalidades de atividade racional. 
lados e organizados num todo. Isso significa que a 
intuição pode ser o momento final de um processo 
de conhecimento. 
Muitos filósofos consideram também que uma in­
tuição, depois de concluir um percurso, pode ser o pon­
to inicial de um novo percurso de conhecimento até 
uma nova intuição. 
Visitante observa exemplar ampliado dos originais de Grande sertão: 
veredas em exposição no Museu da Língua Portuguesa, em São 
Pau lo (SP), que comemorou, em 2006, os 50 anos de lançamento da 
obra. O livro conta a saga do jagunço Riobaldo pelo sertão ao lado de 
Diadorim. 
--------------------------------- A ativ idade rac ional 0 
Os t ipos de i ntu i ção 
A intuição racional pode ser de dois tipos: intuição 
sensível ou empírica e intuição intelectual. 
A intuição sensível ou empírica é o conhecimento 
que temos a todo momento de nossa vida. Assim, com 
um só olhar percebemos uma casa, um homem, uma 
mulher, uma flor, uma mesa. Num só ato, por exemplo, 
capto que isto é uma flor: vejo sua cor e suas pétalas, 
sinto a maciez de sua textura, aspiro seu perfume, te­
nho-a por inteiro e de uma só vez diante de mim. 
empírica: palavra originada do grego empeiría, que 
sign ifica 'exper iênc ia', em do is se ntidos: 1 . como 
co nhec imento o bt ido por meio dos ó rgãos dos sent idos 
(co nhec imento sensor ial} ; e 2. ter boa prát ica e m a lguma 
coisa , como q uando d ize mos que a lguém 
"te m experiênc ia". 
Quando um gato se aproxima de nós, num só ato, captamos que ele é 
um gato: vemos seu formato, percebemos sua posição no espaço, 
reconhecemos a textura de seu pelo, aspiramos seu cheiro, o 
ouvimos arfar, ronronar; temos o gato por inteiro e de uma só vez na 
intuição empírica. Foto de 2014, em Salto do Jacuí (RS). 
A intuição sensível ou empírica é o conhecimento 
direto e imediato das chamadas qualidades sensíveis do 
objeto externo: cor, sabor, odor, paladar, som, textura, 
bem como a percepção direta de formas, dimensões, 
distâncias das coisas percebidas. Ou seja, é tudo o que 
nos é trazido por nossos órgãos dos sentidos. É também 
o conhecimento direto e imediato de nossos estados 
internos ou mentais que dependem ou dependeram 
de nosso contato sensorial com as coisas: lembranças, 
desejos, sentimentos, imagens. 
A intuição sensível ou empírica é psicológica, isto 
é, refere-se aos estados do sujeito do conhecimento 
@ Capítulo B 
como um ser corporal e psíquico individual. Sensações, 
lembranças, imagens, sentimentos, desejos e percep­
ções variam de pessoa para pessoa e numa mesma 
pessoa em decorrência de mudanças em seu corpo, 
em sua mente ou nas circunstâncias em que o conhe­
cimento ocorre. 
Assim, a marca da intuição empírica é sua singu­
laridade: por um lado, está ligada à singularidade do 
objeto intuído (ao "isto" oferecido à sensação e à 
percepção) e, por outro, à singularidade do sujeito 
que intui (aos meus estados psíquicos, às minhas ex­
periências). A intuição empírica não capta o objeto 
em sua universalidade, e a experiência intuitiva não 
é transferível para outro objeto. Tenho intuição des­
ta maçã, deste livro, desta mesa como coisas singu­
lares e não da maçã em geral, do livro em geral, da 
mesa em geral. 
A intuição intelectual difere da sensível justamen­
te por sua universalidade e necessidade. Quando penso: 
"Uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo", 
sei, sem necessidade de demonstrações, que isto é ver­
dade e que é necessário que seja sempre assim, ou que 
é impossível que não seja sempre assim. Em outras 
palavras, tenho conhecimento intuitivo do princípio da 
contradição como algo válido em todos os tempos e 
lugares (é universal) e que não pode ser suprimido ou 
ser de outra maneira (é necessário). 
Quando afirmo: "O todo é maior do que as partes", 
sei, sem necessidade de provas e demonstrações, que 
isto é verdade porque intuo intelectualmente uma for­
ma necessária de relação entre as coisas. 
I ntuição sensível e intuição intelectual 
A intuição sensível percebe a cor azul e percebe a cor amarela. 
A intuição intelectual percebe a diferença entre cores. 
A intuição intelectual é o conhecimento direto e 
imediato dos princípios da razão {identidade, contradi­
ção, terceiro excluído, razão suficiente), os quais, por 
serem princípios, não podem ser demonstrados (para 
demonstrá-los, precisaríamos de outros princípios e, 
para demonstrar estes outros princípios, precisaríamos 
de outros, num processo interminável). 
Alguns filósofos afirmam também que conhece­
mos por intuição as ideias simples, isto é, aquelas que 
não são compostas de outras e não precisam de outras 
para ser conhecidas. Justamente por isso, as ideias sim­
ples são apreendidas num ato intuitivo. Por outro lado, 
como a intuição pode ser o ponto final de um processo 
de conhecimento, ela é também a apreensão intelec­
tual de ideias complexas a que chegamos por meio das 
demonstrações. 
Mito da Caverna 
Na história da filosofia, os dois exemplos mais cé­
lebres de intuição intelectual encontram-se em Platão 
(século IV a.e.) e em Descartes (século XVI I). 
Na narrativa do Mito da Caverna, que estudamos 
no Capítulo 1, Platão (e. 427 a.C.-347 a.e.) conta o que se 
passa com o prisioneiro que, ao sair da escuridão da 
caverna, vê a luz do Sol e, em lugar de sombras, vê as 
próprias coisas. Nessa alegoria, Platão compara o pri­
sioneiro ao filósofo que, ao fazer o percurso do conhe­
cimento verdadeiro, vê a luz do Bem e contempla as 
ideias verdadeiras. O prisioneiro tem uma intuição em­
pírica (tudo o que conhece, conhece por sensação ou 
por percepção sensorial) e o filósofo 
tem uma intuição intelectual (é seu 
intelecto ou sua inteligência que co-
nhece as ideias verdadeiras). No en-
tanto, o conhecimento de ambos é 
intuitivo porque é direto, imediato, 
sem necessidade de demonstrações, 
argumentos e provas. 
Caricatura do cartunista Liberati que retrata o 
filósofo e matemático francês René Descartes, 
tendo ao fundo uma de suas contribu ições à 
Matemática, o plano cartesiano. A filosofia do 
cogito baseia-se na dúvida metódica, 
instrumento que visa alcançar princípios 
X 
indubitáveis, tais como "Penso, logo existo". .__ ____ _ 
O cogito cartes iano 
Quando estudamos a reflexão, no Capítulo 2, men­
cionamos um trecho de uma obra do filósofo francês 
Descartes (1596-1650), intitulada Discurso do método. 
Releia esse trecho, na página 24. Nele se encontra a 
intuição intelectual que ficou conhecida como cogito 
cartesiano ou, simplesmente, o cogito. Descartes escre­
ve, em latim: "Cogito, ergo sum", isto é, " Penso, logo 
existo". 
cogito: em latim, o verbo cogitare significa 'pensar'. Cogito 
é a primeira pessoa do singular do presente do indicativo: 
'eu penso'. 
Por que essa afirmação é um conhecimento intui­
tivo? Porque, quando penso, sei que estou pensando e 
não preciso provar ou demonstrar isso, mesmo porque 
provar e demonstrar é pensar. Ora, para pensar é pre­
ciso que alguém realize o ato de pensamento; portan­
to, aquele que pensa existe necessariamente como um 
ser pensante, pois, sem ele, não haveria o próprio ato 
de pensar. 
Por que essa intuição é intelectual? Porque é rea­
lizada exclusivamente pelo intelecto ou pelainteli­
gência, sem recorrer a nenhum conhecimento sensí­
vel ou sensorial. Quando digo "Penso, logo existo", 
afirmo racionalmente que sei que sou um ser pen­
sante ou que existo pensando, sem necessidade de 
provas e demonstrações. A intuição capta, num único 
ato intelectual, a verdade do pensamento pensando 
em si mesmo. 
l y 
-----------------------------------... A ativ idade rac ional @ 
A razão discursiva: deducão, inducão e abducão 
;;, ;;, ;;, 
A intuição pode ser o ponto de chegada de um pro­
cesso de conhecimento, mas também pode ser o pon­
to de partida desse mesmo processo. Nos dois casos, o 
processo cognitivo constitui a razão d iscursiva ou o 
raciocín io. 
Ao contrário da intuição, o raciocínio é o conheci­
mento que exige provas e demonstrações e se realiza 
igualmente por meio de provas e demonstrações das 
verdades que estão sendo conhecidas ou investigadas. 
Não é só um ato intelectual, mas são vários atos inte­
lectuais ligados ou conectados, formando um processo 
de conhecimento. 
Um caçador sai pela manhã em busca da caça. Entra 
no mato e vê rastros: choveu na véspera e há pegadas 
no chão; pequenos galhos rasteiros estão quebrados; o 
capim está amassado em vários pontos; a carcaça de 
um bicho está à mostra, indicando que foi devorado faz 
poucas horas; há um grande silêncio no ar, não há can­
to de pássaros, não há ruídos de pequenos animais. 
O caçador supõe que haja uma onça por perto. 
Se, por todas as suas experiências anteriores, tiver 
certeza de que a onça está nas imediações, pode pre­
parar-se para enfrentá-la: sabe que caminhos evitar, 
se não estiver em condições de caçá-la; sabe que ar­
madilhas armar, se estiver pronto para capturá-la ; 
sabe como atraí-la, se quiser conservá-la viva e pre­
servar a espécie. 
O caçador pode ainda estar sem muita certeza se 
há ou não uma onça nos arredores. Nesse caso, pode 
tomar uma série de atitudes para verificar a presença 
ou ausência do felino: percorrer trilhas que sabe serem 
próprias de onças; examinar melhor as pegadas e o tipo 
de animal que foi devorado; comparar, em sua memó­
ria, outras situações nas quais havia uma onça, etc. 
Assim, partindo de indícios, o caçador raciocina 
para chegar a uma conclusão e tomar uma decisão. 
Temos aí um exercício de raciocínio empírico (pois se 
baseia nos dados sensoriais ou na experiência sensível) 
e prático (pois visa a uma ação). Trata-se de um exame 
de vários sinais que permitem a alguém fazer uma 
inferência, isto é, tirar uma conclusão com base nos 
dados conhecidos. 
Esse raciocínio, por ser empírico, caracteriza-se pe­
la singularidade do sujeito do conhecimento (no caso, 
um caçador) e do objeto do conhecimento (no caso, uma 
situação em que há sinais ou indícios de uma onça). 
Quando, porém, um raciocínio se realiza em condi­
ções tais que a individualidade psicológica do sujeito e 
a singularidade do objeto são substituídas por critérios 
de generalidade e universalidade, temos a dedução, a 
indução e a abdução. 
Dedução e indução são procedimentos racionais 
que nos levam de algo já conhecido a algo que ainda 
não é conhecido, isto é, permitem que adquiramos co­
nhecimentos novos graças a conhecimentos já adqui­
ridos. Por isso, costuma-se dizer que, no raciocínio, o 
pensamento segue cadeias de razões ou os nexos e 
conexões necessárias entre as ideias ou entre os fatos. 
Pedra do lngá, em lngá (PB), com inscrições rupestres (as itacoatiaras). Foto de 2014. O arqueólogo parte de indícios para depois chegar a uma 
conclusão sobre fatos e hábitos de outras épocas históricas. 
e Capítulo B 
Eureka ! 
Vejamos u m cé lebre ep i só d i o de descoberta c i entífi ca ocorr ido na G réc ia a nt iga para com pree nde r 
o ca m i n h o da i ntu i ção pa ra a razão d iscu rsiva . 
H i e rão , re i da c idade de S i racusa, mandou fazer u ma coroa de ouro para levá- la ao templo e oferecê- la 
ao deus Zeus . O ou rives pegou pa ra s i u m a pa rte do o u ro e a su bstitu i u p o r u ma parte de prata . Na 
a pa rênc ia , a co roa e ra perfe ita , mas havia a suspe ita d e fraude . H i e rão ped iu ao mate mático e fís i co 
Arq u i medes (e . 287 a . C . -21 2 a .C . ) que reso lvesse o caso sem desma nchar a coroa . 
Arq u i medes se pôs a pensar i ntensa m e nte no caso e n q u a nto se prepa rava para to m a r seu ba n h o . 
A o entra r na ba n h e i ra , observou q u e caía pa ra fo ra u m a q u a nt idade de á g u a proporc i ona l ao vo lu me 
de seu corpo e , com i sso , descobr iu imed iata me nte co mo poder i a reso lver o caso . Teve a i ntu i ção da 
so lução . 
E ntus ias mado , Arq u i medes excla m o u : "Eureka ! " - ou seja , "Descobr i ! ". 
AR G H [ M E D E_S u�cr crfinDcr fd)nr�•ff(innWr \lcrg lo· (�Unlll 
'Umg lll l'll �c1� i c�t1t111rc� nu�flufj �Cll l'.lnlfcr6 , 
� 
Gravura de 1547, colorizada a mão, representa a descoberta de Arquimedes. 
Restava , agora , p rova r o q u e acabara de i n tu i r - constitu i r u ma teo ria ao passar da i ntu ição pa ra o 
rac ioc ín i o . Arqu i medes preparou u m b loco de o u ro e outro de prata , cada u m d e les d e peso igu a l ao da 
coroa ; m e rgu lho u - os separadamente na água , m e d i n d o o volu me que cada um deslocara ; em segu ida , 
m e rgu lhou a co roa e ve rifi cou q u e e la não d eslocava o mesmo volu me d e água q u e o bloco de o u ro -
po rta nto, seu meta l havia s i do a d u lte rado . 
A i ntu ição de Arq u i medes deu nasc imento à c i ênc ia dos líqu idos ou h i d rostát ica , exposta p o r e le no 
l ivro Sobre os corpos flutuantes. 
A deducão 
A dedução cons iste em pa rt i r de u ma ve rdade já 
con h ec ida e q u e fu nc iona com o um pr i nc íp io ge ra l ao 
qua l se su bord i nam todos os casos que serão demons­
t rados a pa rt i r de l a . N a ded uçã o demo nstra-se q u e 
u ma ve rdade já con h ec ida se a p l i ca a todos o s casos 
pa rt i cu l a res igua is . Por isso ta m bém se d i z q u e a de­
d u çã o va i d o ge ra l ao pa rt i cu la r ou do u n iversa l ao 
i n d iv i dua l . 
O ponto d e pa rt ida d e u ma deduçã o é o u u ma 
ide i a ve rdade i ra (ou defi n i ção) ou u ma teor ia ve rda ­
de i ra (u m todo s istemát ico de defi n i ções e demons­
t rações ve rdade i ros). A fi na l i dade do p rocesso ded u ­
t ivo é assegurar a inferência de conclusões novas e 
verdadeiras co m base na defi n i çã o do objeto o u na 
teo r ia já exi ste nte. 
Por exemp lo, se defi n i rmos o tri ângu l o com o uma 
figu ra geométr i ca cujos â ngu l os i nte rnos somados 
--------------------------------- A ativ idade rac ional @ 
são iguais à soma de dois ângulos retos, dessa defi­
nição deduziremos todos os diferentes tipos de triân­
gulos possíveis (equilátero, isósceles, escaleno, retân­
gulo), todas as propriedades de todos os triângulos 
possíveis e todas as propriedades de cada um dos 
tipos possíveis de triângulos. Da mesma maneira, se 
tomarmos como ponto de partida as definições geo­
métricas do ponto, da linha, da superfície e da figura, 
deduziremos todas as figuras geométricas possíveis 
e suas propriedades. 
No caso de uma teoria, a dedução permitirá que 
cada novo caso particular encontrado seja conhecido, 
por meio da demonstração de que a ele se aplicam 
todas as leis, regras e verdades da teoria. Ou seja, a 
dedução é um procedimento pelo qual um fato ou 
objeto particular são conhecidos por inclusão numa 
teoria geral. 
Cena de A teoria de tudo (2015), cinebiografia da trajetória do físico 
Stephen Hawking (1942) e de sua esposa, Jane. Ainda jovem, Hawking 
apresentou uma teoria inteiramente dedutiva sobre o tempo e a 
origem do Universo. 
Por exemplo, estabelecida a verdade da teoria físi­
ca de Newton (7643-1727) - a chamada teoria clássica 
da gravitação universal -, sabemos que: 7) as leis da 
física são relações dinâmicas de tipo mecânico, isto é, 
referem-se a relações de força(ação e reação) entre 
corpos dotados de figura, massa e grandeza; 2) os fe-
@ Capítulo B 
nômenos físicos ocorrem no espaço e no tempo; 3) 
conhecidas as leis iniciais de um conjunto ou de um 
sistema de fenômenos, poderemos prever os atos que 
ocorrerão nesse conjunto ou nesse sistema. 
Assim, se eu quiser conhecer um caso físico parti­
cular, aplicarei a ele as leis gerais da física newtoniana 
e saberei com certeza a resposta verdadeira. 
Fórmula da dedução 
• To dos os y sã o x (d efi n i ção ou teo ria ge ra l 
sobre u m conju nto de objetos); 
• A é y (caso part i cu la r) ; 
• Po rta nto, A é x (dedu ção). 
todos os x 
todos os y 
A razão oferece regras especiais para realizar uma 
dedução. Se tais regras não forem respeitadas, a dedu­
ção será considerada falsa. 
A inducão 
A indução realiza um caminho exatamente inverso 
ao da dedução. Com a indução, partimos de casos par­
ticulares iguais ou semelhantes e procuramos a lei, 
definição ou teoria geral que explica e subordina todos 
esses casos particulares. A definição ou a teoria são 
obtidas no ponto final do percurso. A razão também 
oferece um conjunto de regras precisas para guiar a 
indução. Se tais regras não forem respeitadas, a indução 
será considerada falsa. 
Por exemplo, colocamos água no fogo e observa­
mos que ela ferve e se transforma em vapor; coloca­
mos leite no fogo e vemos que parte dele também se 
transforma em vapor; colocamos vários tipos de lí­
quidos no fogo e observamos sempre sua transfor­
mação total ou parcial em vapor. Induzimos desses 
casos particulares que o fogo possui uma proprieda­
de que leva à evaporação e à ebulição dos líquidos. 
Essa propriedade é o calor. 
Jarra de água recém-posta na boca acesa de um fogão. Quando 
observamos que , após algum tempo, não apenas a água, mas 
também outros líqu idos fervem e se transformam em vapor, 
induzimos que essa transformação é causada por uma propriedade 
do fogo: o calor. 
Verificamos, no entanto, que os diferentes líqui­
dos não levam sempre o mesmo tempo para evaporar; 
cada um deles, portanto, deve ter propriedades espe­
cíficas que os fazem evaporar e entrar em ebulição 
em tempos diferentes. Descobrimos, assim, que não 
é o tempo que precisa ser observado, e sim a quanti­
dade de calor que cada líquido precisa para entrar em 
ebulição e começar a evaporar de forma mais acele­
rada. Se considerarmos a água o nosso padrão de me­
dida, diremos que ela ferve ao receber certa quanti­
dade de calor e que é essa quantidade de calor que 
precisa ser conhecida. Como a água foi escolhida para 
servir de padrão, dizemos que a quantidade de calor 
é de 100 graus Celsius. 
Podemos, a seguir, verificar um fenômeno dife­
rente. Vemos que a água e outros líquidos, colocados 
num refrigerador, congelam e endurecem, mas tam­
bém que, como no caso do vapor, cada líquido con­
gela ou se solidifica em tempos diferentes. Procura­
mos, novamente, a causa dessa diferença e 
descobrimos que ela depende tanto de certas pro­
priedades de cada líquido como da "quantidade de 
frio" que há no refrigerador. Percebemos, finalmen­
te, que é essa quantidade que devemos procurar e, 
se tomarmos a água como padrão, diremos que ela 
congela a zero grau Celsius. 
Com essas duas séries de fatos (vapor e congela­
mento), descobrimos que os estados dos líquidos va­
riam (por evaporação ou por solidificação) em decor­
rência da temperatura ambiente (calor ou frio) e que 
cada líquido atinge o ponto de evaporação ou de soli­
dificação em temperaturas diferentes. 
Com esses dados podemos formular uma teoria da 
relação entre os estados da matéria - sólido, líquido e 
gasoso -e as variações de temperatura, estabelecendo 
uma relação necessária entre o estado de um corpo e 
a temperatura ambiente. Chegamos, por indução, a 
uma teoria. 
A abducão 
O filósofo estadunidense Peirce (1839-1914) consi­
dera que a razão discursiva ou raciocínio também se 
realiza numa terceira modalidade de inferência, embo­
ra esta não seja propriamente demonstrativa. Essa 
terceira modalidade é a abdução. 
inferência: é uma conclusão que se base ia em outra já 
co nhec ida . Na ded ução, dado X (defin ição o u teoria), inf iro 
(conc luo) a, b, c, d (os casos part icula res). Na ind ução, 
dados a, b , c, d, i nfi ro (conc luo) X. 
A abdução é uma espécie de intuição, mas que 
não se dá de uma só vez, indo passo a passo para che­
gar a uma conclusão. A abdução é a busca de uma 
conclusão pela interpretação racional de sinais, de 
indícios, de signos. O exemplo mais simples oferecido 
por Peirce para explicar o que é a abdução é o modo 
como os detetives, nos contos policiais, vão coletando 
indícios e sinais e formando uma teoria para o caso 
que investigam. 
Segundo Peirce, a abdução é a forma que a razão 
possui quando inicia o estudo de um novo campo 
científico que ainda não havia sido abordado. Ela se 
assemelha à intuição do artista e à adivinhação do 
detetive, que, antes de iniciarem seus trabalhos, só 
contam com pistas a seguir. Os historiadores costu­
mam usar a abdução. 
De modo geral, a indução e a abdução são pro­
cedimentos racionais que empregamos para a aqui­
sição de conhecimentos, enquanto a dedução é o 
procedimento racional que empregamos para veri­
ficar ou comprovar a verdade de um conhecimento 
já adquirido. 
--------------------------------- A ativ idade rac ional @ 
Pei rce e os procedimentos racionais 
U m exe mp lo dado por Pe i rce to rna mais cla ra a d ife ren ça e ntre dedução , i n d u ção e abdução : 
• Dedução: To dos os fe i jões desta saca são bra n cos . Estes fe ij ões e ra m desta saca . Logo , estes 
fe ij ões são b ra n cos . 
• Indução: Estes fe ij ões e ra m desta saca . Estes 
fe i jões são bra n cos . Logo, tod os os fe i jões des­
ta saca são bra n cos . 
• Abdução: Todos os fe i jões desta saca são bran ­
cos . Estes fe ij ões são bra ncos . Logo, estes fe i­
jões eram desta saca . 
Charles Sanders Peirce também exemplifi cou sua teoria da 
abdução com o cálculo da órbita de Marte pelo astrônomo 
alemão Johannes Kepler (1571 -1630). Ao notar que as posições de 
Marte não coincidiam com uma órbita circu lar, Kepler supôs que 
essa órbita era elíptica, o que posteriormente comprovou em 
cálculos mais precisos. 
Realismo e idealismo 
Vimos anteriormente que muitos filósofos distin­
guem entre a razão objetiva e a razão subjetiva. 
Falar numa razão objetiva significa afirmar que a 
realidade externa ao nosso pensamento obedece aos 
princípios racionais (identidade, não contradição, tercei­
ro excluído, razão suficiente). Por isso, a realidade obje­
tiva é racional em si mesma e torna possível que a co­
nheçamos tal como ela é. Significa dizer, por exemplo, 
que o espaço e o tempo existem em si mesmos, que as 
relações matemáticas e as de causa e efeito existem nos 
próprios objetos, etc. 
Chama-se realismo a posição filosófica que afirma 
a existência da razão objetiva. 
Há filósofos, porém, que estabelecem uma diferen­
ça entre a realidade e o conhecimento racional que de­
la temos. Dizem eles que, embora a realidade externa 
exista em si e por si mesma, só podemos conhecê-la tal 
como nossas ideias a formulam e a organizam. Ou seja, 
não podemos afirmar que nosso conhecimento a alcan­
ça e a explica tal como ela é em si mesma. Portanto, não 
podemos saber nem dizer se a realidade exterior é ra­
cional em si, pois só podemos saber e dizer que ela é 
racional para nós, ou seja, por meio de nossas ideias. 
Essa posição filosófica é conhecida com o nome de 
idealismo e afirma apenas a existência da razão subje­
tiva. A razão subjetiva possui princípios e modalidades 
de conhecimento que são universais e necessários, isto 
é, válidos para todos os seres humanos em todos os 
tempos e lugares. O que chamamos realidade, portanto, 
e Capítulo B 
é apenas o que podemos conhecer por meio das ideias 
de nossa razão. 
A ciência contemporânea tende a combinar a posi­
ção realista e a idealista. Essas duas concepçõesestão 
presentes na Química orgânica, por exemplo. Por um 
lado, essa ciência realiza experimentos e medições da 
massa das substâncias, procedimentos que pressupõem 
a existência de coisas em si passíveis de conhecimento 
por meio da experiência ou observação direta dos fenô­
menos. Por outro, a Química orgânica desenvolve suas 
teorias por meio de hipóteses que lhe permitem cons­
truir modelos puramente teóricos dos objetos, dado que 
as leis que regem um fenômeno às vezes não podem 
ser diretamente observadas na própria realidade. 
O mesmo pode ser dito 
da Física, que admite a 
existência em si dos áto­
mos, porém só recente­
mente pôde ter experi­
ência direta deles, por 
meio do microscópio 
eletrônico - e, ainda as­
sim, em escala limitada. 
Antes disso, para explicar 
os átomos, a Física cons­
truiu modelos inteira­
mente teóricos ou ideias 
produzidas pelo sujeito 
do conhecimento. 
Representação do modelo 
molecular da melamina. Os 
procedimentos da Química orgânica 
combinam aspectos relacionados 
ao realismo (por exemplo, a 
suposição da existência de massa e 
quantidade das substâncias) e ao 
idealismo (formulando hipóteses 
para aquilo que não pode ser 
diretamente observado). 
A razão na fi losofia contemporânea: 
continuidade ou descontinuidade? 
Conti nu idade 
Nos a nos 1950 e 1 960, o s f i l ósofos d a Esco la de 
F ran kfu rt ou Teoria Crít ica co ns ide ra ra m que existem 
du a s m o da l i da d es da ra zão. P a ra Theodo r Ado rno 
(1 903-1969), Max Ho rkh e i m e r (1 895-1 973) e He rbe rt 
Ma rcuse (1 898-1 979), os usos da técn i ca pe lo regi m e 
naz ista a l emão e pe las Forças Armadas esta d u n iden ­
ses no la nça mento de bom bas atôm i cas sobre o Ja ­
pão ser i a m conseq uênc ias da razão instrumental ou 
razão técnico-científica, que está a serv iço da exp lo ­
ração e da dom i nação, da op ressão e da v io l ê n c i a . J á 
a razão crítica ou filosófica refl ete sobre as co ntrad i ­
ções e os confl itos soc i a i s e po l ít i cos e se a p rese nta 
com o u m a força l i beradora . 
A Teor ia Crít i ca afi rma que existe a cont i nu idade 
tem pora l ou h istórica entre as formas da raciona l idade: 
cada expressão h i stó r ica da razão não su rge de repen­
te e do nada, mas resu lta de contrad i ções teór i cas e 
confl itos sociopo l íticos ante r iores que pedem u ma no­
va so l ução. 
Cada nova fo rma da ra c iona l i dade é a vitó r ia so­
bre os co nfl itos das fo rmas a nte r i o res, sem que haja 
r uptu ra h i stó r i ca entre e las . Muda nças soc i a i s, po l í­
t i cas e cu l tu ra i s dete r m i na m m uda nças teó r i cas no 
pens a m e nto, e ta is m u d a nças s ão a s o l u ç ão rea ­
l izada pe lo tem po p resente pa ra seus confl itos e con­
t ra d i ções . 
Sobre a d iferenca entre teorias 
A teoria em sentido tradicional, cartesiano, como a q u e se en­
contra em vigor em todas as ciências especializadas, organiza a 
experiência à base da formulação de questões que surgem em 
conexão com a reprodução da vida dentro da sociedade atual. Os 
sistemas das disciplinas contêm os conhecimentos de tal forma 
que, sob circunstâncias dadas, são aplicáveis ao maior número 
possível de ocasiões. A gênese social dos prob lemas, as situações 
reais, nas quais a ciência é empregada e os fins perseguidos em 
sua aplicação, são por ela mesma consideradas exteriores. 
A teoria crítica da sociedade, ao contrário, tem como objeto os 
homens como produtores de todas as suas formas h istóricas de 
vida. As situações efetivas, nas quais a ciência se baseia, não é 
para ela uma coisa dada, cujo único p roblema estaria na mera 
constatação e previsão segundo as Leis da probab ilidade. O que é 
dado não depende apenas da natureza, mas também do poder do 
homem sobre ela. Os objetos e a espécie de percepção, a formu­
lação de questões e o sentido da resposta dão p rovas da ativida­
de humana e do grau de seu poder. 
HORKH E IMER, Max. F i losofia e Teoria Crítica. ln : Benjamin, Habermas, Horkheimer, Adorno: 
textos esco l h idos. São Pa u lo : 
Abr i l Cu l t u ra l , 1980. p. 1 63. (Os Pensado res). 
Max Horkheimer, em fotografia da década 
de 1960. 
1 . Como é a re l ação que se constitui entre s e r humano e c iência segu ndo cada uma d a s d uas teor ias mencio­
nadas po r Horkhe imer? 
2 . Cons idere a d ife renciação e ntre razão i nstrumenta l (técn ico-científica) e razão crítica . Segu ndo o pensa­
mento do a uto r, de qua l de las a teo r ia de o rigem ca rtes i ana esta r ia ma is próxima? Por quê? 
--------------------------------- A ativ idade rac ional e 
Descont i n u idade 
A partir dos anos 1960, desenvolveu-se, sobretudo 
na França, uma corrente científica chamada estrutu­
ralismo. Para os estruturalistas, o mais importante 
não é a mudança ou a transformação de uma realida­
de (de uma língua, de uma sociedade, de uma teoria 
científica), mas a estrutura ou a forma que ela tem no 
presente. 
A estrutura passada e a estrutura futura são con­
sideradas diferentes entre si e diferentes da estrutura 
presente, sem que se possa dizer que são a continua­
ção modificada do passado. Como as outras manifes­
tações humanas, também a razão se realiza em formas 
diferentes e descontínuas. 
Metalúrgicas em Sheffield, I nglaterra, no início do século XX. De 
acordo com os filósofos influenciados pelo estruturalismo, não é 
possível falar em progresso ou retrocesso da razão, pois a história é 
descontínua. 
Ao estudarem a história da filosofia, das ciê ncias, 
da sociedade, das artes e das técnicas, filósofos fran­
ceses influenciados pelo estruturalismo, como Mi­
chel Foucault (1926-1984), Jacques Derrida (1930-
-2004) e Gilles Deleuze (1925-1995), afirmaram que 
S Capítulo B 
sim, a razão é histórica. No entanto, essa história 
não é progressiva e contínua. Pelo contrário, é des­
contínua, realiza-se por saltos, e cada estrutura no­
va da razão possui um sentido próprio, válido apenas 
para ela. 
Não se pode falar num processo, numa evolução 
ou num avanço da razão a cada nova teoria, pois a 
novidade significa justamente que se trata de algo 
tão novo, tão diferente e tão outro que seria absur­
do falar em continuidade e avanço. Não há como 
dizer que as ideias e as teorias passadas são falsas, 
erradas ou atrasadas: elas simplesmente são dife­
rentes das atuais porque se baseiam em princípios, 
interpretações e conceitos novos. 
O va lor da razão 
Apesar da oposição entre continuístas e descon­
ti nuístas, todos mantêm uma ideia que é essencial 
à noção ocidental de razão. Que ideia é essa? A de 
que a realidade, o mundo natural e cultural, os seres 
humanos, suas ações e obras têm sentido e esse 
sentido pode ser conhecido. A atitude racional não 
é senão o trabalho do pensamento para apreender, 
compreender e interpretar o sentido das coisas, dos 
fatos, das ideias, ações e valores humanos. 
O primeiro critério de avaliação da capacidade 
racional é o da coerência interna de um pensamento 
ou de uma teoria. Ou seja, quando um pensamen­
to ou uma teoria se propõem a oferecer um conhe­
cimento, simultaneamente oferecem os princípios, 
os conceitos e os procedimentos que sustentam a 
explicação apresentada. 
A razão é, assim, o critério de que dispomos pa­
ra a avaliação ou o julgamento da validade de um 
pensamento ou de uma teoria. 
Além disso, a razão nos permite saber se um 
pensamento ou uma teoria contribuem ou não pa­
ra que os seres humanos conheçam e compreendam 
as circunstâ ncias em que vivem; se contribuem ou 
não para alterar situações i naceitáveis ou intolerá­
veis; se contribuem ou não para melhorar as condi­
ções em que os seres humanos vivem. 
Assim, a razão, além de ser o critério para avaliar 
os conhecimentos, é também um instrumento crí­
tico para compreendermos as circunstâ ncias em que 
vivemos, para mudá-las ou melhorá-las. A razão tem 
um potencial ativo ou transformador e, por isso, 
continuamos a falar nela e a desejá-la.Esta at ividade tra ba l ha com conteúdos d e F i l osofia e de d ive rsas d isci p l i nas . 
As formas da razão d iscu rs iva - ded ução, i nd ução e a bd ução - estão p resentes nas mais d ive rsas c iênc ias, 
va r iando a i m portâ nc ia d e u ma ou out ra forma d e acordo com a d isci p l i na . Va mos ve r isso na prática? 
• O professor va i divi d i r a turma em gru pos. Cada grupo fi ca rá responsáve l por pesq u isa r exem plos desses p roce­
d imentos raciona i s em uma d isci p l i na pa ra a presenta r à c lasse. Após rea l i za r a pesq uisa , você e seus co l egas 
deverão orga n iza r uma ap resentação ora l , que poderá conta r com o a poio de i magens e ca rtazes. Vocês deverão 
d izer qua l dos p roced imentos fo i emp regado e exp l i ca r como e le foi uti l i zado. Um dos grupos poderá pesq uisa r 
exem plos na l ite ratu ra . 
1 . Qua l a diferença entre a razão i ntu itiva e a ra zão 7. O que é abdução? Exemp l ifiq ue com uma h istória 
d iscu rsiva ? de detetive que você con hece. 
2. O q ue é a i ntu ição? Ca racterize cada ti po de i ntu ição 8. Qua l é a re lação entre o rea l ismo e a ide ia de razão 
e dê um novo exem plo pa ra cada um de les. objetiva? 
3. Qua l é a re lação entre i ntu ição i nte lectua l e o pen- 9. Qua l é a re lação entre o i dea l i smo e a ide ia de 
sa r segu ndo a concepção de Desca rtes? O que é o ra zão subjetiva ? 
cogito ca rtesia no? 10. Dê um exemp lo de uma ciênc ia que opere com-
4. Dê um exem p lo novo de rac iocín io em pír ico e o bi nando o rea l i smo e o idea l i smo. Justifiq ue. 
d i st inga da i ntu ição. 11 . Qua l é a dife rença entre as concepções conti nu ís-
5. Como se rea l iza a i nd ução? Dê um exem plo novo. ta e desconti nu ísta da razão? Encontre um exem-
6. O que é i nferênc ia? Qua l a d ife rença entre a infe- p io que confi rme cada uma de las. 
rência ded utiva e a i nfe rência i nd utiva ? 12. Si ntetize, em suas pa lavras, qua l é o va lor da razão. 
l n d i cacões 
Capote 
• Direção de Bennett Mi l ler. Estados Un idos, 2005. 
O jorna l ista estadun idense Truman Capote viaja até uma c idade no i nterior dos Estados 
Un idos para investiga r os deta l hes de um caso de assass i nato. Lá, desenvolve uma re lação 
estreita com um dos a cusados pelo cr ime, Perry Sm ith . O fi lme é uma adaptação c inema­
tográfica do l ivro A sangue frio, de Capote, pub l i cado em 1 966. 
O lobo atrás da porta 
• Direção de Fernando Coimbra . Brasi l , 2013. 
Um de l egado i n terroga um homem, sua ex-a mante e sua esposa pa ra tenta r e l u ci d a r o 
desa pa rec im ento da fi l h a do casa l . Pou co a pouco, e l e recon strói uma comp l exa tra ma 
de m ent i ras , vi nga n ças e atos entre a pa ixão e o cá lcu lo . 
Poirot sempre espera e outras histórias 
• Escrito por Agatha Christie. L&PM Pocket, 2008. 
Co letâ ne a de contos po l i c i a i s da br i tâ n i ca Agatha Ch r i s t i e, i n c l u i n d o vá r ios pro­
tagon i z ados po r s e u m a i s fa moso pe rs o n agem , o detetive be lga H e rcu l e Po i rot. 
(20 13 )Por me i o d e d ife rentes p roced i m entos de i nfe rê n c i a , Po i rot d esve n d a casos 
d e a s s a ss i n ato e rou bo . 
O ator Philip Seymour Hoffman interpreta o 
personagem-título do filme Capote(Z00S). 
Leandra Leal, em cena de O Lobo atrás 
da porta (2013). 
----------------------------------- A ativ idade rac ional S 
Ignorância, incerteza e insegurança 
Ignorar é não saber alguma coisa. A ignorância po­
de sertão profunda que nem sequer a percebemos. Em 
geral, o estado de ignorância se mantém em nós en­
quanto as crenças e opiniões que possuímos se conser­
varem eficazes e úteis, de modo que não temos ne­
nhum motivo para duvidar delas. 
Já a incerteza é o momento em que descobrimos 
que somos ignorantes, que há falhas naquilo que nos 
servia de referência para pensar e agir. Temos dúvidas, 
somos tomados pela perplexidade e pela insegurança. 
Desejo da verdade 
O desejo da verdade aparece muito cedo nos seres 
humanos e se manifesta como desejo de confiar nas 
coisas e nas pessoas. 
Quando uma criança ouve uma história, inventa uma 
brincadeira, joga ou vê um filme ou uma peça teatral, 
está sempre atenta para saber se "é de verdade ou de 
mentira". Quando uma criança brinca, joga e finge, está 
criando outro mundo, mais cheio de possibilidades e 
invenções do que o mundo onde vive. Mas sabe, mesmo 
que não o diga, a diferença entre imaginação e percep­
ção, pois sabe que o mundo inventado "é de mentira". 
Por isso mesmo, a criança é muito sensível à men­
tira dos adultos, pois a mentira é diferente do "de men­
tira", isto é, a mentira é diferente da imaginação. A 
criança se sente magoada quando o adulto lhe diz uma 
mentira porque, ao fazê-lo, ele quebra a relação de con­
fiança e a segurança infantil. 
Outras vezes, estamos confiantes e seguros, mas, 
de repente, vemos ou ouvimos alguma coisa que nos 
enche de espanto e de admiração. O espanto e a admi­
ração, assim como a dúvida e a perplexidade, nos fazem 
querer sair do estado de insegurança, nos fazem per­
ceber nossa ignorância e criam o desejo de superar a 
incerteza. 
Quando isso acontece, estamos na disposição de 
espírito chamada busca da verdade. 
Quando crianças, estamos sujeitos a duas decep­
ções: a de que os seres, as coisas, os mundos maravi­
lhosos não existem "de verdade" e a de que os adultos 
podem nos enganar. Essa dupla decepção pode acarre­
tar dois resultados opostos: ou a criança se recusa a 
sair do mundo imaginário e sofre com a realidade como 
algo ruim e hostil a ela, ou, dolorosamente, aceita a 
distinção, mas também se torna atenta e desconfiada 
diante da palavra dos adultos. Nesse segundo caso, ela 
também se coloca na disposição da busca da verdade. 
Nessa busca, a criança pode desejar um mundo 
melhor e mais belo do que aquele em que vive e encon­
trar a verdade nas obras de arte, desejando ser artista 
também. Ou pode desejar saber como e por que o mun­
do em que vive é tal como é e se ele poderia ser dife­
rente do que é. Nesse caso, é despertado nela o desejo 
de conhecimento e da ação transformadora. 
Os jovens, por sua vez, se decepcionam 
e se desiludem quando descobrem que o que 
lhes foi ensinado ou exigido oculta a reali­
dade, reprime sua liberdade, diminui sua 
capacidade de compreensão e de ação. Já os 
adultos se desiludem ou se decepcionam 
quando o saber adquirido, as opiniões esta­
belecidas e as crenças enraizadas não são 
suficientes nem para que possam compreen­
der o que se passa no mundo e com eles 
próprios, nem para que possam agir ou fazer 
alguma coisa. 
Quando a criança brinca de palhaço ou outra 
brincadeira imaginativa, ela sabe distinguir 
o mundo que inventa do mundo em que vive. 
Foto de 2012, Rio de Janeiro (RJ). 
--------------------------------- Ignorância e verdade S 
Dificu ldades para a busca da verdade 
Em nossa sociedade é muito difícil despertar nas 
pessoas o desejo de buscar a verdade. Isso pode pare­
cer estranho, pois aparentemente vivemos numa so­
ciedade que acredita nas ciências, que recebe diaria­
mente informações vindas da mídia impressa e 
eletrônica, que possui editoras, livrarias, bibliotecas, 
museus, salas de cinema e de teatro, vídeos, fotografias 
e computadores. 
Ora, é exatamente essa enorme quantidade de veí­
culos e formas de informação que torna tão difícil a 
busca da verdade, pois acreditamos que essas informa­
ções são verdadeiras. Como tal quantidade de informa­
ção ultrapassa a experiência vivida pelas pessoas, estas 
se veem sem meios para avaliar o que recebem. 
No entanto, se uma mesma pessoa, durante uma 
semana, lesse de manhã quatro jornais diferentes, ou­
visse três noticiários de rádio diferentes e recebesse 
notícias de três sites; à tarde, frequentasse duas escolas 
diferentes em que fossem ministrados os mesmos cur­
sos; e, à noite, visse os noticiários de quatro canais di­
ferentes de televisão e lessequatro b!ogs diferentes que 
tratassem dos mesmos temas, descobriria que as in­
formações recebidas "não batem" umas com as outras. 
Ela perceberia que há vários "mundos" e várias "socie­
dades" diferentes, dependendo da fonte de informação. 
Uma experiência como essa criaria perplexidade, 
dúvida e incerteza. Mas as pessoas não fazem ou não 
podem fazer tal experiência, e por isso não percebem 
que, em lugar de receber informações, estão, muitas 
vezes, se desinformando. E, sobretudo, como há outras 
pessoas (o jornalista, o professor, o policial, etc.) dizen­
do a elas o que podem ou devem saber, fazer ou sentir, 
as pessoas se sentem seguras e confiantes. Ou seja, não 
há incerteza porque há ignorância. 
Criei uma ma la direta 
9ue parece umQ carta 
pe.ssool . . . J 
1 
r----11 �--
J 
--'-------...li,� 
Tirinha de (ullum e Marshall. 
8 Capítulo 9 
i 
ó 
A ide ta é 
Ça-zer- as 
pessoas 
lerem o 
onúnc'to � 
9uuer ! 
Outra dificuldade para fazer surgir o desejo da 
busca da verdade vem da propaganda. A propagan­
da trata todas as pessoas como crianças ingênuas 
e crédulas. O mundo é sempre um mundo "de faz 
de conta". Nele o banco faz a família alegre, segura, 
unida e sem preocupações; o automóvel faz o ho­
mem confiante, inteligente, belo, sedutor, bem-su­
cedido nos negócios, com uma namorada linda; o 
desodorante faz a moça atraente, bem empregada, 
bem-vestida, com um belo apartamento e um lindo 
namorado. 
A propaganda não vende um produto dizendo o 
que ele é e para que serve. Ela vende uma imagem que 
é transmitida por meio do produto, rodeando-o de 
magia e belezas, dando-lhe qualidades que são de ou­
tras coisas. 
Outro obstáculo para o desejo da busca da verda­
de vem da atitude dos políticos nos quais as pessoas 
confiam. Ao se verem ludibriadas depois de terem-lhes 
dado o voto, as pessoas tendem a julgar que é impos­
sível haver verdade na política. Muitas passam a des­
confiar do valor e da necessidade da democracia e 
caem na descrença e no ceticismo. 
Essas dificuldades, no entanto, podem ter o efeito 
oposto: suscitar, em muitas pessoas, dúvidas, incer­
tezas, desconfianças e desilusões que as façam dese­
jar conhecer a realidade. E, como Sócrates (469 a.C.­
-399 a.e.) em Atenas, elas começam a fazer perguntas, 
a indagar sobre fatos e pessoas, coisas e situações, a 
exigir explicações, a reivindicar liberdade de pensa­
mento e de conhecimento. 
Para essas pessoas surgem o desejo e a necessida­
de da busca da verdade. Essa busca nasce não só da 
dúvida e da incerteza, mas também da ação deliberada 
as pes 
o fican5o lrrit 
r si 
contra os preconceitos, contra as ideias e opiniões es­
tabelecidas, contra crenças que paralisam a capacida­
de de pensar e de agir livremente. Trata-se da busca 
da verdade na atitude filosófica. 
Tipos de busca da verdade 
Decepção , 
i ncerteza e 
i n segu ra nça com 
a rea li dade . f "�sidad• 
Readqu i r i r 
certezas 
Afasta r ce rtezas e 
c renças e busca r 
expl icações e 
i nterpretações pa ra a 
rea li dade . 1Acão 
deliberada 
Atitu de 
fi losófi ca 
Em junho de 2013, o pedreiro Amarildo Dias de Souza desapareceu 
após ser detido sem justificativa por policiais militares, no Rio de 
Janeiro (RJ). O fato desencadeou diversos protestos contra o abuso e 
a violência policiais, como esta performance em frente à Assembleia 
Legislativa fluminense. 
Descartes e a busca filosófica da verdade 
Assim como Sócrates dialogava com os jovens ate­
nienses em busca da verdade, o filósofo René Descartes 
(1596-1650) dialoga consigo mesmo. Em sua busca filo­
sófica, ele indaga se conhece verdadeiramente aquilo 
que imagina saber, pois, como escreve na obra Discurso 
do método : 
Eu sempre tive um imenso desejo de aprender a 
distinguir o verdadeiro do falso, para ver claro nas mi­
nhas ações e caminhar com segurança nesta vida. 
DESCARTES, René. Discu rso do método. l n : _. Obra escolhida. 
Tradução de Bento Prado J r. São Pau lo: D ife l, 1962. p. 47. 
Descartes começa o Discurso do método e também 
sua principal obra filosófica, Meditações metafísicas, 
fazendo um balanço de tudo o que sabia e conhecera 
pela experiência: o que lhe fora ensinado pelos pais, 
preceptores e professores, pelos livros, pelas viagens, 
pelo convívio com outras pessoas. Ao final, conclui que 
tudo que recebera dessa maneira era duvidoso e in­
certo. Decide, então, não aceitar nenhum desses co­
nhecimentos, a menos que pudesse provar racional­
mente que eram certos e dignos de confiança. Para 
isso, submete-os a um exame crítico conhecido como 
dúvida metódica, declarando que só aceitaria um co­
nhecimento, uma ideia, um fato ou uma opinião caso 
se revelassem indubitáveis para o pensamento pura­
mente racional. 
Por que a dúvida cartesiana é metódica? Porque 
segue certas regras por meio das quais é possível dis­
tinguir ideias falsas e ideias verdadeiras; é um instru­
mento intelectual para avaliar e controlar nossas pró-
prias ideias, aceitando como válidas ou verdadeiras 
somente as que resistirem à dúvida. 
Descartes demonstra que possuímos razões fortes 
para duvidar da existência de nosso corpo e do mundo. 
Por exemplo, sabe-se que as pessoas que sofreram 
amputação de algum membro continuam sentindo frio, 
calor e dor nesse membro inexistente. Descartes per­
gunta: que motivo racionalmente válido eu teria para 
não supor que todo o meu corpo, que sinto perfeita­
mente, não é uma ilusão, como a do membro amputa­
do (conhecido como "membro fantasma" )? 
Se a existência de meu corpo pode ser motivo de 
dúvida, o mesmo pode ser dito sobre a existência do 
próprio mundo - afinal, meus sentidos podem me en­
ganar. Por exemplo, uma torre vista de longe parece 
quadrada; porém, vista de perto, parece redonda. Vejo 
o Sol se movendo ao redor da Terra; porém, os astrô­
nomos dizem que ocorre o contrário. 
À primeira vista, o lápis 
parcialmente imerso na água 
parece quebrado - porém, o vemos 
novamente íntegro quando o 
retiramos da água. Isso decorre de 
características próprias do meio 
líquido, em um fenômeno óptico 
conhecido como refração. 
Experiências como essa nos levam 
a duvidar da precisão dos nossos 
sentidos para a obtenção de 
conhecimento verdadeiro. 
---------------------------------- Ignorância e verdade S 
O valor da verdade 
H á j á algum tempo eu me apercebi d e que, desde meus p rimeiros anos, 
recebera muitas falsas opiniões com o verdadeiras e de que aqu ilo que 
depois eu fundei em princíp ios tão mal assegurados não podia ser senão 
muito duvidoso e incerto; de modo que me era necessário tentar seriamente, 
uma vez em minha vida, desfazer-me de todas as opin iões a que até então 
dera crédito, e começar tudo novamente desde os fundamentos, se quisesse 
estabelecer algo de firme e constante nas ciências [ . . . ]. Aplicar-me-ei seria­
mente e com Liberdade em destruir em geral todas as minhas antigas opi­
niões. O ra , não será necessário, p a ra alcança r esse intento, p rovar que 
todas elas são falsas, o que talvez nunca pudesse Levar a cabo; mas, uma 
vez que a razão me persuade de que não devo menos cuidadosamente 
impedir-me de dar crédito às coisas que não são inteiramente certas e in­
Retrato de René Descartes, 
óleo sobre tela (e. 1649) de 
Frans Hals. 
dubitáveis do que às que nos parecem manifestamente ser falsas, o menor motivo de dúvida que eu 
nelas encontrar bastará para me Levar a rejeitar todas. [ . . . ] Esforçar-me-ei afastando-me de tudo em 
que poderia imaginar a menor dúvida, da mesma maneira como eu faria se soubesse que isto fosse 
absolutamente falso; e continuarei sempre nesse caminho até que tenha encontrado algo de certo. [ . . . ] 
Assim, terei o direito de conceber altas esperanças, se for bastante feliz para encontrar uma coisa que 
seja certa e indub itável. 
DESCARTES, René. Meditações metafísicas. l n : _. Obra escolhida. Tradução de Bento Prado J r. 
1 . O que leva Desca rtes a afi rma r a necessidade de 
rejeita r todas as opin iões que recebera emsua vida? 
2 . Ao cons idera r q ue o d uvidoso deve ser rejeitado 
exatamente como rejeitamos o fa lso, Desca rtes 
assume uma atitude rad ica l . Po r q uê? 
Desca rtes rad ica l iza a dúvida sobre a existência do 
mundo com o chamado "argumento do sonho". Quando 
sonhamos, estamos convencidos de que a rea l idade sonha­
da existe e que a conhecemos ta l como é. Se parece não 
haver d iferença entre a percepção da rea l idade pelo sonha­
dor e a percepção do mundo por aquele que está acordado, 
então não teríamos nenhum critério racional para afi rmar 
que o mundo existe ou que ele não é um sonho. 
No entanto, mostra Desca rtes, há um momento em 
que a dúvida se i nterrompe necessar iamente porque o 
pensamento encontra, enfim, uma p r ime i ra verdade 
i ndubitáve l : " E u penso! ". Essa prime i ra ve rdade pode ser 
trad uzida pe lo segu i nte raciocín io : eu penso, pois, se eu 
duvida r de que estou pensa ndo, a i nda estou pensando, 
visto q ue duvida r é uma mane i ra de pensa r. A consciên­
cia do pensamento é a primei ra verdade i ndu bitáve l, q ue 
será o a l icerce para todos os con hecimentos futu ros. 
Ora, se penso, o pensa r existe, e aq ue le que pensa 
existe, donde a cé lebre afi rmação de Desca rtes: "Penso, 
l ogo existo". Escreve o fi l ósofo: 
S Capítulo 9 
São Pa u lo : D ife l, 1962 . p. 117-1 18 , 124. 
3. Desca rtes diz ser necessá rio faze r isso pe lo menos 
uma vez na vida . Você já teve a lguma experiênc ia 
em q ue senti u a mesma necess idade? Escreva 
sobre isso. 
Mas, logo em seguida, adverti que, enquanto eu 
queria assim pensar que tudo era falso, cumpria neces­
sariamente que eu, que pensava,Josse alguma coisa. E 
notando que esta verdade, eu penso, logo existo, era 
tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes 
suposições dos céticos não seriam capazes de abalá-la, 
julguei que podia aceitá-la, sem escrúpulo, como o pri­
meiro princípio da Filosofia que eu procurava. 
DESCARTES, Re né. Discu rso do método. l n : _. Obra escolhida. 
Tradução de Bento Prado J r. São Pau lo: Dife l, 1962. p. 66-67. 
A existênc ia do pensamento e do suje ito pensa nte 
se rá, então, o ponto de part ida pa ra as outras ve rdades 
ou o a l ice rce pa ra a reconstrução do ed ifício do saber: 
o mundo existe porque posso prová - lo por raciocín ios 
verdadeiros; da mesma forma, meu co rpo existe porque 
posso prová - lo por rac iocín ios ve rdade i ros. 
Em resumo, na busca da verdade, a ta refa da dúvida 
metód ica é demonstra r que só podemos aceita r como 
verdade i ro aqu i lo q u e for provado pela razão como indu­
bitável, e não o que é meramente aceito como uma opi nião. 
Conexões 
Esta at iv idade tra ba l h a com conteúdos de F i l osofia e Lite ratura . 
O "a rgumento do sonho" fo i empregado pe lo escritor a rgent i no Jo rge 
Lu is Borges (1 899-1 986) num conto i ntitu lado "As ruínas ci rcu la res". Du ra nte 
sécu los, um mago vivia so l itá rio num temp lo em ruínas, q u eimado pelo deus 
Fogo. O mago sa b ia q ue t inha a ob r igação de sonha r e q ue seus son hos 
devi am produzi r um homem perfe ito. Ao longo dos anos, suas tentat ivas 
fracassa ram, até que o deus Fogo veio às ruínas e o auxi l iou a cria r um homem 
perfeito. Um pacto foi feito entre o mago e o Fogo: o homem sonhado jamais 
saber ia ser a penas um sonho, sob a cond i ção de jama is ap rox imar-se do 
fogo, pois, sendo i r rea l, não se que imaria . Terminada a ta refa, o mago enviou 
sua cr iação pa ra pe rco rrer o mundo e nunca mais a son hou. Porém, o conto 
se encer ra com um acontec imento i n esperado : 
O escritor argentino Jorge Luis Borges, em 
foto de 1981. 
As ruínas do santuário do deus do Fogo foram destruídas pelo fogo. Numa alvorada sem pássaros, o mago viu 
cingir-se contra os muros o incêndio concêntrico. Por um instante, pensou refugiar-se nas águas, mas em seguida 
compreendeu que a morte vinha coroar sua velhice e absolvê-Lo dos trabalhos. Caminhou contra as Línguas de 
fogo. Estas não morderam sua carne, estas o acariciaram e o inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio, 
com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que um outro o estava sonhando. 
BORG ES, Jo rge Lu is. As ru ínas c i rcu lares. l n : _ Obras completas. v. 1 . Tradução de Car los Nejar. São Pau lo: G lobo, 1999. p. 504. 
1 . Exp l ique, em suas pa lavras, q u a l é o aspecto d e i l usão 
reve lado ao fi na l da h istó r ia . 
1 . O q u e é a igno râ nc ia? Po r que e l a é d ifíci l de ser 
perceb ida por nós? 
2. Qua l é a d iferença entre ignorâ ncia, i nce rteza e i nse­
gurança? Que re lação elas têm com a dúvida? 
3. Por que a dúvida, a decepção e o espanto podem des­
pertar o desejo da verdade em cria nças,jovens e adu ltos? 
4. Qua is são as d ificu ldades que enfrentamos quando 
buscamos a ve rdade? Dê exemplos que as i l u strem. 
l n d i cacões 
O show de Truman 
• Direção de Peter Weir. Estados Un idos, 1998. 
2. Expl i que a d ife rença entre o q ue ocorre nesse conto 
e a dúvida metódica de Desca rtes. 
5. Quais são os dois ti pos de busca da ve rdade? Com 
qua l de les você ma is se identifica? J ustifique sua 
resposta. 
6. O q u e é a "dúvida m etód ica" de Desca rtes? Cite 
uma experiênc ia em que os sentidos se mostra ram 
duvidosos a você. 
7. Qua l é a pr imei ra ve rdade i ndub itáve l encontrada 
por Desca rtes? Exp l ique como ele chegou a e la . 
Tru man Burba n k (J im Carrey) descobre que sua v ida cot id i ana é na verdade um pro­
grama de te lev isão vi sto por m i l h a res de espectadores . Todas as pessoas que o cercam 
são de fato atores contratados . Truman , então, passa a lutar pa ra l i be rtar-se da i l u são, 
encontra r a verdade e viver uma v ida rea l . 
Persépolis 
• Escrito e desenhado por Marjane Satrapi. Companhia das Letras, 2007. 
Esta a utobiografia em quadr in hos acompanha as descobertas e frustrações da infância 
e pré-adolescên cia da escritora em um contexto de mudanças a pós a Revo lução I ra n iana 
de 1979. Quadrinho de Persépolis. 
---------------------------------- Ignorância e verdade S 
DE OLHO na atua lidade 
As transformacões no consumo 
A
s muda nças nos padrões de consumo de mer­
ca d or ias e serv iços são determ i n a d a s po r 
mod ifi cações na s opera ções e no fu nc iona ­
mento d o ca p ita l , como veremos a o exa mi n a r a s 
mudança s na propaga nda co merc ia l . 
Na fase in i c ia l do capital ismo industria l (na Europa 
oc idental , no sécu lo X IX) , o consumo se d iv id ia cla ra ­
mente entre as duas pr inc ipa is classes da soc iedade: a 
b u rgues ia e o p ro leta r ia do . Enquanto a pr i me i ra é a 
desti natár ia dos produtos essenc ia is de a lta qua lidade 
e de luxo, a segunda consome produtos de ba ixa qua­
l idade , e apenas o mín imo necessá ri o para a reprodução 
de sua força de traba lho (morad ia , vestuár io , al i men­
tação) . A te rce i ra classe soc ia l , a pequena burgues ia ou 
classe méd ia , asp i ra consu m i r como a burgues ia e re­
pele os produtos desti nados aos proletá r ios . 
N a fase i ndustri a l ford ista (século XX), o cap ital 
i nduz i u o aparec imento da l i nha de montagem e a fa ­
br i cação de p rod utos e m sér ie , ba ratea ndo o custo 
destes. O baratea mento possi b i l ita o consumo de mas­
sa de produtos defi n idos pe la qual idade e durab i l idade . 
Na fase pós- industr ial ou neol iberal (fi nal do sécu­
lo XX e in íc io do século XX I ) , su rgem os produtos des­
cartáve is , que põem um f im às ide ias de durab i l idade , 
qua l idade e estocagem . A soc iedade pós- i ndustria l é a 
sociedade do descarte e do consumo i nstantâneo (co­
mo se vê, por exemplo , com os al imentos e refe ições 
fast-food) . A moda se torna o critér io do consumo. 
Imped indo a verdade: o mundo de i lusão 
da propaganda comercial 
• A i lusão de igualdade dos consumidoresAinda que, de fato, nem todos possam consu mir as 
mesmas co isas , na soc iedade de consumo de massa 
todos têm a i lusão do acesso a e las . Por que i lusã o? 
Porque o mercado do consumo pretende oculta r ou d is­
s imula r as divisões socia is de classe, isto é , as d iferen­
ças econôm icas rea is . I lusão , por u m la do , porque o 
acesso às mercador ias , aos bens e aos servi ços pres­
supõe poder aqu i sit ivo pa ra comprá- los; por outro lado , 
porque mercador ias , bens e serviços têm sua qualidade 
d iferenciada conforme sejam desti nados às d iferentes 
classes socia is , às populações de países e reg iões cen­
tra is ou de países e regiões perifé ricos , etc. Ass im , só 
em aparência a "mesma co isa" é a mesma para todos . 
As d iferenças socioeconôm icas dos consumidores não 
são apagadas pelo consumo, e s im reforçadas pela d i ­
ferença real da qualidade dos produtos e dos servi ços , 
que aparece no seu preço, no seu aspecto, nos locais de 
sua aqu is ição , na forma do atend imento, etc. 
S Capítulo 9 
Cabe à p ropaganda rea li z a r essa o p e ração d e 
af i rmação i lu só r i a da i gua lda de q u a n d o, de fato e 
verdade i ramente , está refo rça ndo as d es igua ldades . 
A ta refa da pro paganda é cr i a r a i lusão de que , por 
me io do consumo , m u damos de classe soc ia l o u s u ­
b imos na esca la soc ia l . 
Podemos observa r essa operação exa m i n a ndo , 
po r exem plo, a d iferença entre a propaga nda nos ca­
na is abertos da telev isão b ras i le i ra e nos ca na i s de 
telev isão por ass inatu ra (a cabo ou satél i te) . Nos pr i ­
me i ros , a propaganda se refere a todo e qua lquer pro­
duto ou serviço , e a qua lidade da imagem e do texto 
var ia conforme a classe soc i a l ou a fa ixa etá r ia a que 
se dest i nam os produtos e serviços . Nos cana is por 
ass inatura , porém , com raras exceções , o co nsu mo é 
d i r ig ido pr i nc ipa lmente a quatro produtos e a quatro 
serv iços . Produtos : carros , vestuár io de marca , cos­
méticos de ma rca e objetos de h ig iene pessoa l e do­
m ésti ca . Serv iços : ens ino u n ivers itá r io , segu ros , car­
tões de créd i to e t u r i smo . O s p rota gon i stas q u e 
oferecem os produtos s ã o "celebr idades " e execut i ­
vos . As i m a gens e os textos p ro m etem j uventude , 
sucesso , poder e fe l i c i dade . 
• Os modos de operação da p ropaganda 
A propaganda comercia l emprega as artes gráficas , 
a fotografia , a m ús ica , a da nça e a poesia , e d i fu nde-se 
po r me io de jorna is , revistas , cartazes , rád io , c i nema , 
telev isão e i nte rnet . Ela opera por me io de : 1) expl ica­
ções s impl if icadas e elogios exagerados dos produtos; 
Z) slogans cu rtos que possam ser facilmente memor i ­
zados ; 3 ) aparente i nformação e prestação de serviço 
ao consum idor; 4) garant ia de que o consum idor será , 
ao mesmo tem po , i gua l a todo m undo - e n ã o u m des­
locado (po is consum i rá o que outros consomem) - e 
d ife rente de todo m u n do , ú n i co (po i s o prod uto va i 
to rná - lo especi a l) . 
Para ser ef icaz , a propaganda deve: 1) afi rmar que 
o produto possu i os valores estabelec idos pela soc ie­
dade em que se encontra o consum idor (por exemplo , 
se a v ida em famíl ia é qua l if i cada pos it ivamente, os 
produtos devem aparecer a serv iço da mãe , do pa i , dos 
f i lhos , do lar, etc.) ; e Z) desperta r dese jos que o con ­
sum idor n ã o possuía e que o produto n ã o só desperta 
como, sobretudo , gara nte que sat isfaz . 
• Muda nças na operação da p ropaganda comercial 
Em seus começos, em f ins do sécu lo X IX , a pro ­
paga nda comerc ia l sub li n hava e elogiava as q ua l i da­
des d o produto : apresentava , por exem plo, os efe itos 
cu rat ivos dos reméd ios , o confo rto de u m a mobíl i a , 
o b o m gosto d e uma peça de roupa em moda . Co mo 
na era da soc i edade i nd ustr i a l os prod utos e ra m va ­
lor izados por sua d u rab i l i dade , a p ro paganda tend i a 
a i nventa r u m a i magem d u radou ra q u e garant i sse 
sempre o reconhecimento imed iato do produto e fosse 
fac i lmente repet i da . Essa "marca " pod ia ser um de­
senho , u m slogan , uma pequena me lod i a , uma r ima . 
A propaga nda ta m b é m buscava af i rmar o p roduto 
trazendo o nome do fa br icante como garant ia da qua­
l idade o u da exclus iv idade . 
Para entendermos a mudança ocorr ida em nossos 
dias na forma da propaganda , precisamos levar em con­
ta a lgumas características da passagem da sociedade 
industr ial à pós- industr ial : o aumento da competição 
entre produtores e d i str i b u i dores ; o cresc i mento do 
mercado da moda (q ue não se restr inge ma i s ao ves­
tuár io) ; e , sobretudo , a constatação , pelas pesq u i sas 
de mercado , de que as vendas depend iam da man i ­
pu lacão dos dese jos do consum ido r e a té mesmo de 
cr iar 'dese jos nele . Ass i m , a propaga nda comerc ia l fo i 
d e ixando de apresenta r o p rodu to propr i amente d ito 
(co m suas propr i edades) para afi rmar os desejos q u e 
e l e rea li za r i a : sucesso , prosper idade , segu rança , j u ­
ventude eterna , b eleza , atração sexua l , fel i c i dade . 
Em out ras pa lavra s , a p ropaga n d a o u p u b l i c i dade 
co merc i a l passou a vender i magens e s i gnos , e não 
as pró pr ias mercador i as . 
Por exemplo, em lugar do sabonete e do desodo­
rante, su rge a imagem da sensualidade da mu lher ou do 
homem que os usam. O automóvel é apresentado como 
prova de sucesso, charme e i ntel igênc ia do consu m idor. 
A propaganda com erc ia l tam bé m se a propr ia de 
atitudes , op in iões e posições crít icas ou rad ica is exis­
tentes na sociedade, esvaz iando seu conteúdo soc ial 
ou po lítico pa ra i nvesti - las num produto , tra nsforman­
do-as em moda consumível e passage ira . Fem in ismo , 
guerr i lha revoluc ionár ia , movimentos de perifer ia são 
transformados em qua l idades que vendem produtos. 
Mas a pu bl i c idade não se contenta em inventar 
i magens com as qua is o consu m ido r é i nduz i do a i den­
t if icar-se . Ela as apresenta como real ização de dese­
jos que e le nem sab ia que t inha e que passa a ter - uma 
roupa ou um perfume são associados a viagens a países 
d i stantes e exóti cos ou a uma relação sexua l fantás­
t ica ; um utensíl io domést ico ou um sabão em pó são 
apresentados como a suprema defesa do fem in i smo , 
l iberando a mu lher das penas case iras ; etc. 
Atividades 
♦ Do trabalho à fru ição do desejo 
No livro clássico A ética protestante e o espírito do 
capitalismo, o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) 
ass ina lou a relacão entre a forma da economia capita­
l ista e a moral pr�testante. Uma ética burguesa fundou­
-se no elogio d o traba lho como v i rtude e dever e na 
condenação da pregu iça como o p ior víc io . O homem 
vi rtuoso é aquele que i nveste em ma is trabalho o d i ­
nhe i ro ganho com o trabalho , para gerar ma is d inhe i ro 
e mais lucro; sua v ida deve ser s imples e honesta . Como 
consequênc ia , desejos , fru ição , gozo e sati sfação são 
reprim idos . O consumo é d i reci onado ao que é essencial 
para viver, e a moral condena o luxo e o supérfluo . 
Essa ética burguesa do trabalho perde força à me­
dida que o capital necessita do consumo de massa. Ela 
se enfraquece, sobretudo, quando o capital ismo passa à 
forma pós- industria l, em que a acumulação do capital 
não necessita mais da inclusão do maior número de in­
d ivíduos no mercado de trabalho, devido à automação da 
produção. Como resu ltado, a ideologia in ic ial do capita­
l ismo se i nverte : em lugar do elogio do trabalho e da vida 
s imples, passa-se a valorizar a satisfação imediata dos 
desejos comouma obrigação. É essa mudança que ga­
rante eficácia à propaganda com o invenção de novos 
desejos, apresentados por imagens que trazem a i lusão 
de fel ic idade, beleza, sucesso, juventude, etc . 
Grafite do artista de rua Banksy, em Londres, 2007. 
1 . Você j á d eve ter visto n a te l ev isão, no rád io, na i nte rnet ou n a míd! a i m p res�a (jo rna is , rev is�as , e_tc.) _ a �g_u m 
a n ú ncio q ue a ssocia a com pra de u m p rod uto à promessa de uma v ida ma ravi l hosa, na q u a l na� ha m 1se r i a e 
confl ito de ne n h u ma espécie e a s pessoas são l ivres, s audáve i s, l i ndas e bondosas . Ao se r persuad ida a com pra r 
o p rod uto, a pessoa acred ita esta r agi ndo l ivreme nte, qua ndo, de fato, e l a está ag indo de aco rdo com a l ógica 
do pensa mento dom inante. 
• I dentifi que a n ú ncios e letrôn icos ou imp ressos que te nha m essas características, esco lha um e escreva uma 
peq uena a ná l i se cr íti ca . 
2 . Re lac ione a atitude das figu ras representadas na i mage m desta página com o que você leu a respeito da propa­
ga nda e das míd ias e letrôn icas. 
Ignorância e verdade S 
A TRANSFORMACÃO DAS CRENCAS . - . 
Em 2013, foram encontrados em uma caverna na África d o Sul fósseis do que P.Oderia se� uma esP.écie 
extinta de hominídeo (Homo naledi) até então desconhecida. N ovas ossadas d escobertas na mesma 
região em 2014 traziam indícios a inda mais surpreendentes: de que essa esP.écie enterrava seus mortos. 
Até então, a cred itava-se que ªP.enas o Homo sapiens e o Homo neanderthalensis (Homem de Neandertal) 
realizassem esse tipo de comP.ortamento ritualístico. Os resultad os das pesqu isas científicas, como os da 
arHueologia, nos levam a mod ificar nossas crenças sobre o m undo. Se nossas crenças se modificam, o HUe 
a ssegura HUe são verdadeiros os conhecimentos sobre os qua is elas se apoiam? O que garante HUe nosso 
conhecimento não incorre em erro e HUe nossas OP.in iões corresP.ondem à realidade? 
Dogmatismo, estranhamento e busca da verdade 
Nos diferentes caminhos que Sócrates (469 a.C.­
-399 a.e.) e Descartes (1596-1650) trilham em busca do 
conhecimento verdadeiro sobre a realidade, notamos 
um procedimento comum: ambos desconfiam não só 
das opiniões e crenças de seu tempo, mas também das 
suas próprias ideias e opiniões. Desconfiam, enfim, do 
dogmatismo. O que é dogmatismo? 
Dogmatismo é uma atitude natural e espontânea 
que temos desde crianças. É nossa crença de que o 
mundo existe e que é exatamente tal qual o percebe­
mos. A realidade natural, social, política e cultural forma 
uma espécie de moldura de um quadro: é no interior 
dela que nos instalamos e existimos. Temos essa cren­
ça porque nos relacionamos com a realidade como se 
ela fosse um conjunto de coisas, fatos e pessoas úteis 
ou inúteis para nossa sobrevivência. 
Rompemos com o dogmatismo quando adotamos 
uma atitude de estranhamento diante das coisas que 
nos pareciam familiares. Para ilustrar essa experiência, 
vejamos um trecho da crônica "Nada mais que um in­
seto", da escritora Clarice Lispector (1920-1977): 
Custei um pouco a compreender o que estava ven­
do, de tão inesperado e sutil que era: estava vendo um 
inseto pousado, verde-claro, de pernas altas. Era uma 
esperança, o que sempre me disseram que é de bom 
augúrio. Depois a esperança começou a andar bem de 
leve sobre o colchão. Era verde transparente, com per­
nas que mantinham seu corpo, plano alto e por assim 
dizer solto, um plano tão frágil quanto as próprias per­
nas que eram feitas apenas da cor da casca. Dentro do 
fiapo das pernas não havia nada dentro: o lado de 
dentro de uma superfície tão rasa já é a própria super­
fície. Parecia um raso desenho que tivesse saído do 
papel, verde, e andasse . . . E andava com uma determi­
nação de quem copiasse um traço que era invisível 
para mim. .. Mas onde estariam nele as glândulas de 
seu destino e as adrenalinas de seu seco verde interior? 
Pois era um ser oco, um enxerto de gravetos, simples 
atração eletiva de linhas verdes. 
L I SPECTOR, Cla rice. Nada mais que u m inseto. l n : _. A descoberta do mundo. 
Rio de Jane i ro : Rocco, 2008. 
À primeira vista, o que há de mais banal ou familiar 
do que um inseto? No entanto, Clarice Lispector nos faz 
sentir admiração e estranhamento, como se jamais ti­
véssemos visto um. Na descrição maravilhada, a espe­
rança (inseto aparentado aos grilos e gafanhotos) tem 
a peculiaridade de ser uma superfície da qual não con­
seguimos distinguir ou separar o exterior e o interior. 
No entanto, nesse ser sem profundidade, há um 
abismo misterioso: o inseto esperança é um oco (como 
alguma coisa pode ser apenas um oco?), um vazio colo­
rido (como um vazio pode ter cor?) ou uma cor sem cor­
po (como uma cor pode existir sem um corpo colorido?). 
A perspicácia(1936), pintura de René Magritte (1898-1967). A atitude 
de estranhamento nos permite conqu istar um novo saber sobre os 
objetos. Observe o objeto que serve de modelo ao pintor e a figura 
na tela pintada por ele. O que Magritte quer dizer com isso? 
Verdades reveladas e verdades alcancadas 
A atitude dogmática é conservadora, isto é, se pro­
tege contra novidades, o inesperado, o desconhecido e 
tudo o que possa desequilibrar as crenças e opiniões já 
constituídas. Esse conservadorismo se transforma em 
preconceito, em ideias preconcebidas que impedem o 
contato com tudo o que possa pôr em perigo o já sabi­
do, o já dito e o já feito. 
O conservadorismo pode aumentar quando o dog­
matismo estiver convencido de que várias de suas opi­
niões e crenças vieram de uma fonte sagrada, de uma 
revelação divina (ver destaque na p. 11 2). Quem ousa 
enfrentar essas crenças e opiniões com argumentos ra­
cionais é tido como criminoso, blasfemador e herético. 
Esse conflito entre verdades reveladas e verdades 
alcançadas pela própria razão preocupa a filosofia des­
de a consolidação do cristianismo. Podemos conhecer 
as verdades divinas? Se não pudermos conhecê-las, 
seremos culpados? Mas como seríamos culpados por 
não conhecer aquilo que nosso entendimento, por ser 
menor do que o de Deus, não teria forças para alcançar? 
Buscando a verdade @ 
verdade revelada, verdade alcançada: no 
romance O nome da rosa, escrito pelo filósofo 
italiano Umberto Eco (1932-2016), o monge 
Guilherme de Baskerville busca o responsável 
por uma série de assassinatos de frades copistas 
que trabalhavam na biblioteca de um convento na 
Europa medieval Ele descobre que todos haviam 
sido envenenados ao manusear um livro de 
Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) sobre a importância 
do riso. Jorge de Burgos, monge guardiâo da 
biblioteca, era o autor do envenenamento, pois 
pretendia impedir que o livro fosse copiado e 
enviado a outras bibliotecas. Por quê? Porque 
julgava que o riso é contrário à vontade de Deus, 
pois viemos ao mundo para sofrer a culpa pelo 
pecado original de Adâo. 
Tribunal da Inquisição (1819), óleo sobre tela do pintor espanhol Francisco de 
Goya (1746-1828). Enquanto aqueles que contestaram a revelação divina 
aparecem em primeiro plano, os que desejam a condenação deles por heresia 
formam uma massa anônima ao fundo da tela. 
Nesse romance, há duas ideias em conflito: a 
verdade alcançada ou humana, que estaria contida 
no livro de Aristóteles, e a verdade revelada ou 
divina, que o bibliotecário julga estar na proibiçâo 
do riso. Jorge de Burgos mata pessoas e queima 
livros originados da racionalidade humana, pois, 
para ele, uma verdade revelada por Deus é única e 
incontestável. 
As concepções da verdade 
Nossa ideia da verdade foi construída ao longo dos 
séculos com base em três concepções diferentes. 
Em grego, verdade se diz a/étheia, palavra composta 
do prefixo a ('negação' ) e de /éthe ('esquecimento' ). Alé­
theia significa 'o não esquecido'. Platão (427 a.C.-347 a.e.) 
fala da verdade como "o que é lembrado ou não esque­
cido". Por extensão do sentido, a/étheia também signifi­
ca 'onão escondido', aquilo que se manifesta ou se mos­
tra aos olhos do corpo e do espírito. 
O verdadeiro se opõe ao falso, pseudos, que é o en­
coberto, o dissimulado, o que não é como parece. O ver­
dadeiro é o plenamente visível para a razão ou o eviden­
te (pois a palavra evidência significa 'visão completa e 
total de alguma coisa' ). 
Assim, a verdade é uma automanifestação da realida­
de. O verdadeiro está nas próprias coisas quando o que elas 
manifestam é sua realidade própria, sua essência, conheci­
da pelos olhos do espírito ou pelo pensamento. Por isso, na 
concepção grega, o verdadeiro é o ser (o que algo realmen­
te é) e o falso é o parecer (o que algo aparenta ser e não é). 
Em latim, verdade se diz veritas e se refere à precisão 
e ao rigor de um relato. Verdadeiro se refere, portanto, à 
linguagem como narrativa de fatos reais. A verdade de­
pende, de um lado, da memória e da capacidade mental 
de quem fala e, de outro, de que o enunciado correspon­
da aos fatos. A verdade não se refere às próprias coisas 
(como na alétheia), mas à veracidade de um relato e ao 
enunciado de um fato, referindo-se à linguagem. Seu 
@ Capítulo 10 
oposto, portanto, não é a aparência, e sim a mentira ou 
a falsificação. As coisas e os fatos são reais ou imaginá­
rios; já os relatos e enunciados sobre eles são verdadeiros 
ou falsos (mentirosos). 
Em hebraico, verdade se diz emunah, que significa 
'assim seja' ou 'confiança'. Agora são as pessoas e Deus 
quem são verdadeiros e, para isso, devem ser fiéis à pa­
lavra dada. A verdade se refere às relações entre as pes­
soas e entre elas e Deus quando firmam um pacto ou 
fazem uma promessa que devem ser cumpridos. Por 
isso, a verdade refere-se ao futuro - à promessa que se 
cumprirá. Sua forma mais elevada é a revelação divina 
-que promete felicidade ao seu povo-, e sua expressão 
mais perfeita é a profecia - na qual Deus diz aos huma­
nos qual será a sua vontade ou a sua decisão sobre al­
guma coisa que acontecerá. Essas ideias estão presentes 
na palavra amém, com a qual um fiel aceita a vontade 
divina, dizendo "assim seja". 
A nossa concepção de verdade é uma síntese dessas 
três concepções, e por isso se refere à percepção das 
coisas reais (como na a/étheia), à linguagem que relata 
fatos passados (como na veritas) e à expectativa de coi­
sas futuras (como na emunah). Ou seja, nossa concepção 
de verdade abrange o que é (a realidade), o que foi (os 
acontecimentos passados) e o que será (previsões corre­
tas sobre ações futuras). De maneira geral, esses três 
aspectos também estão presentes naquilo que a filoso­
fia define como uma ideia verdadeira. 
Teorias sobre a verdade 
Algumas teorias filosóficas concebem o conheci­
mento verdadeiro com base nas ideias de verdade que 
acabamos de examinar. Vejamos. 
Quando prevalece a alétheia, a teoria considera 
que o conhecimento verdadeiro é a apreensão inte­
lectual e racional da verdade que está nas próprias 
coisas. Sua marca é a evidência. Essa concepção re­
cebe o nome de teoria da correspondência, isto é, as 
ideias correspondem à realidade tal como esta é em 
si mesma. 
Quando predomina a veritas, a teoria considera 
que nossas ideias relatam em nossa mente os fatos 
ou acontecimentos. Elas serão verdadeiras quando 
obedecerem a princípios e normas de uma linguagem 
rigorosa. Agora não se diz que algo é verdadeiro por­
que corresponde a uma realidade externa, mas se diz 
que algo corresponde à realidade externa porque é 
verdadeiro. Sua marca é a validade lógica. Essa con­
cepção recebe o nome de teoria da coerência, isto é, 
as ideias verdadeiras são aquelas reguladas por regras 
e princípios lógicos que lhes permitem formar um 
todo coerente. 
Quando predomina a emunah, a teoria considera 
que a verdade depende de um acordo ou de um pacto 
entre os pesquisadores, que definem um conjunto de 
convenções universais sobre o conhecimento verdadei­
ro. A marca da verdade é o consenso e a confiança. Essa 
concepção recebe o nome de teoria do consenso, isto 
é, a verdade decorre de um acordo racional entre os 
membros de uma comunidade de estudiosos para a 
aceitação de certas ideias. 
Há, porém, outra teoria, a qual define o conhe­
cimento verdadeiro por um critério que não é teóri­
co, e sim prático. Trata-se de uma teoria pragmática. 
Para ela, um conhecimento é verdadeiro por seus 
resultados e suas aplicações práticas, e se verifica 
pela experimentação e pela experiência. A marca do 
verdadeiro é a verificabilidade dos resultados e a efi­
cácia de sua aplicação. Essa concepção da verdade 
está muito próxima da teoria da correspondência 
entre coisa e ideia, para a qual o resultado prático, 
na maioria das vezes, é conseguido porque o conhe­
cimento alcançou as próprias coisas e pode agir so­
bre elas. 
pragmática: palavra derivada do grego pragmatikós, que 
s ign ifica 'o que é próprio da ação, o que é eficaz', q ue, por 
sua vez, o rig ina-se de pragma, que quer d izer 'a ação que 
se faz, o que se faz, o que se deve fazer'. 
O tempo desveliJ a 
verdade, obra do pintor 
G iovanni Domenico (errini 
(1609-1681). O tempo 
permite que a verdade se 
desenvolva no espírito 
humano, ou, como na 
frase célebre: "a verdade é 
filha do tempo". A 
manifestação da verdade 
está simbolizada não 
apenas pelo 
desvelamento da mulher 
luminosa - a verdade 
como o que se revela, 
alétheia -, mas também 
pelo livro - a verdade 
como veritas ou 
linguagem que narra fatos 
- próximo à mão direita 
dela. As pessoas na parte 
inferior da tela a 
observam com espanto e 
admiração. 
Buscando a verdade @ 
A hipótese que eu gostaria de propor é que, no fundo, há duas histórias 
da verdade. A primeira é uma espécie de história interna da verdade, a 
história de uma verdade que se corrige a partir de seus próprios processos 
de regulação: é a história da verdade tal como esta se faz, ou a partir da 
história das ciências. Por outro Lado, parece-me que existem na sociedade, 
ou pelo menos nas nossas sociedades, vários outros Lugares onde a ver­
dade se forma, onde um certo número de regras do jogo são defin idas [ . . . ] 
e, por conseguinte, a partir daí podemos fazer uma história externa da 
verdade. As p ráticas judiciárias, a maneira pela qual entre os homens se 
arbitram os danos e as responsabilidades, o modo pelo qual, na história do 
Ocidente, se concebeu e se definiu a maneira como os homens podiam ser 
julgados em função dos erros que haviam cometido, a maneira como se 
impôs a determinados indivíduos a reparação de algumas de suas ações e Michel foucault, em foto de 1967. 
a punição de outras, todas essas regras ou, se quiserem, todas essas práticas regulares, mas também 
modificadas sem cessar através da h istória [ . . . ] e , por conseguinte, as relações entre os homens e a ver­
dade merecem ser estudadas. 
FOUCAULT, Michel . A verdade e as formas jurídicas. Rio de Jane i ro: Nau , 2002, p. 11. 
1 . No texto acima, o fi lósofo francês Michel Foucau lt 
(1926-1984) a p rese nta a h i pótese de que há d uas 
h istó rias da verdade: uma i nterna e outra externa . 
Qua l é a d i st inção entre e las? 
Verdade e fals idade 
Segu ndo a concepção grega da verdade, aqu i l o q u e 
man ifesta s u a existência pa ra nossa pe rcepção (ou se­
ja, a rea l i dade) é o ve rdade i ro ou a ve rdade . Por esse 
motivo, os fi l ósofos gregos perguntam : como o er ro, o 
fa lso e a ment i ra sã o possíve is? Em outras pa lavras, 
como podemos pensa r naqu i l o que não é, no não ser? 
A resposta dos fi lósofos chamados rac iona l istas 
(ta nto gregos como modernos) é dup l a : 
1 . O erro, o fa lso e a menti ra se referem à aparência 
su perfi c ia l e i l usór ia das co isas e surgem qua ndo não 
conseguimos a lcança r a essência das rea l idades; são um 
defe ito ou uma fa l ha de nossa percepção sensoria l ou 
i nte lectua l . 
Quando os f i l ósofos afi rma m que a ve rdade é a 
conformidade ou a co rrespondênc ia entre uma ide ia e 
a coisa ideada, não estão d izendoq u e u ma ide ia verda­
de i ra é uma "cóp ia" da co isa ve rdade i ra . Como d isse 
Esp i nosa (7632-1 677), a ide ia de cão não late e a de açú­
ca r não é doce. O que afi rmam é que a ide ia correspon­
de à coisa conh ecida porq u e é o con hecimento daq u i l o 
que a co isa é . Ou seja, a i de i a é o conhecimento dos 
componentes necessá r ios da co isa, ou das re l ações 
8 Capítulo 10 
2. Nos tri buna is, as testemunhas ju ram dizer a ve r­
dade, toda a ve rdade e somente a ve rdade. Procu­
re no texto de Fouca u lt a re lação entre as práticas 
jud ic iár ias e esse j u ramento. 
i nte rnas necessár ias que const ituem a essência da co i ­
sa , bem como das re lações e nexos necessá r ios que e la 
mantém com outras. Da mesma mane i ra, uma ide ia 
não é a "cóp ia" de um fato, e s im a expl icação rac iona l 
das ca usas, consequênc ias e s ign if icação de le. 
2. O erro, o fa lso e a ment i ra surgem qua ndo d ize­
mos de a lgum ser a q u i l o q u e e l e não é, q u a ndo l h e 
atr i b u ím os q ua l id ades ou propr iedades q u e e l e não 
possu i ou qua ndo l he negamos qua l idades ou p ropr ie­
dades q u e e le possu i. N esse caso, o e rro, o fa lso e a 
ment i ra se a l ojam na l i nguagem e acontecem no mo­
mento em que fazemos afi rmações ou negações que 
não co rrespondem à essência de a lguma coisa . E les são 
um aconteci mento do ju ízo ou do enu nc iado. 
O que é um juízo? É um ato menta l pe lo qua l atr i ­
bu ímos a a lguma co isa ce rtas propr iedades e lhe recu­
samos outras. O juízo esta bel ece uma re lação entre dois 
te rmos (um suje ito e um pred icado) por me io de uma 
propos ição, cuja forma ma is s imp les é "5 é P" ou "S não 
é P". Um ju ízo é ve rdade i ro qua ndo aqu i l o que o pred i ­
cado afi rma ou nega do suje ito co rresponde ao que a 
co isa é; caso contrá r io, é fa lso. 
Há, porém, uma diferença entre o erro e a men­
tira. O erro é um engano do juízo e ocorre quando 
desconhecemos a essência de um ser. A mentira, po­
rém, é um juízo deliberadamente errado: ocorre 
quando emitimos propositalmente um juízo errado 
sobre uma coisa, embora conheçamos sua essência. 
O que é a verdade? É a conformidade 
entre nosso pensamento e nosso juízo e 
as coisas pensadas ou formuladas. Qual 
é a condição para o conhecimento ver­
dadeiro? A evidência, isto é, a visão inte­
lectual da essência de um ser. Para for­
mular um juízo verdadeiro precisamos, 
portanto, primeiro conhecer a essência, 
e a conhecemos ou por intuição, ou por 
dedução, ou por indução. 
A verdade exige que nos libertemos 
das aparências das coisas para ver intelec­
tualmente a essência delas; exige, portan­
to, que nos libertemos das opiniões esta­
belecidas e das ilusões de nossos órgãos 
dos sentidos. Em outras palavras, a verda­
de é sempre universal e necessária, en­
quanto as opiniões variam de lugar para 
lugar, de época para época, de sociedade 
para sociedade, de pessoa para pessoa. 
sensorial que são necessários e universais e, por isso, 
capazes de perceber em parte algo da essência das 
coisas (como diz, por exemplo, Aristóteles). 
No primeiro caso, somente o intelecto (espírito) vê 
o ser verdadeiro. No segundo caso, o intelecto purifica 
o testemunho sensorial. 
Do mesmo modo, nossas sensações 
ou impressões sensoriais variam confor­
me o estado do nosso corpo, as disposi­
ções de nosso espírito e as condições em 
que as coisas nos aparecem. Por isso, 
devemos ou abandonar as ideias basea­
das nas nossas sensações (como dizem 
Sócrates, Platão, Descartes), ou encon­
trar aqueles aspectos da experiência 
A mentira (1650), pintura de Salvator Rosa (1615-1673). Quando conhecemos realmente 
alguma coisa, mas intencionalmente fazemos um juízo errado sobre ela , estamos 
mentindo ou dizendo o falso. 
Como a verdade é possível? 
O que é aceitar parcialmente os dados da expe­
riência sensorial? Por exemplo, quando estou doente, 
cheiro a flor e não sinto seu perfume, muito embora 
ela o tenha em abundância; vejo algo embaçado e 
sem forma, quando, na verdade, trata-se de um ob­
jeto com cor e forma bem definidas. Apesar desses 
enganos dos sentidos, observo que toda percepção 
capta qualidades nas coisas; portanto, as qualidades 
pertencem à essência das próprias coisas e fazem 
parte da verdade delas. 
Quando se examina a ideia latina da verdade como 
veracidade de um relato, pode-se observar que o pro­
blema da verdade e da falsidade deslocou-se para o 
campo da linguagem. O verdadeiro e o falso estão 
menos no ato de ver (com os olhos do corpo ou com 
os olhos do espírito) e mais no ato de dizer. Por isso, 
a pergunta dos filósofos, agora, é exatamente con­
trária à anterior: em vez de perguntar "como o erro 
e a falsidade são possíveis?", pergunta-se "como a 
verdade é possível?". 
Buscando a verdade @ 
... • 0€V€MOS PROTEGER A 
/NFÂNC/A , PóRQU!: AS 
CRIANÇA'S SÃO O FU7ll· 
RO .OA f'A7RIA. " 
PO!S A PÁTRIA ESTA' 
FRITA, COM UM FU'TUR'O 
TÃO PEQU ENO ! . . . 
Tirinha da personagem Mafalda, do cartunista argentino Quino. Na ideia latina da verdade, o problema se localiza no campo da linguagem. 
Por que essa pergunta? Porque, se a verdade está no 
discurso ou na linguagem, não depende só do pensamen­
to e das próprias coisas, mas também de nossa vontade 
para dizê-la, silenciá-la ou deformá-la. O verdadeiro con­
tinua sendo tomado como conformidade entre a ideia e 
as coisas, mas depende também de nosso querer. 
Essas questões foram examinadas pelos filósofos 
racionalistas com a introdução da exigência de estabe­
lecer auxílios à nossa razão para que controle e domine 
nossa vontade e a submeta ao verdadeiro. 
verdade voluntária: a filosofia cristã introduziu 
a ideia de vontade L i vre ou de L ivre-arbítrio 
da vontade, pela qual a verdade depende não 
só da conformidade entre relato e fato, mas 
também da vontade que deseja o verdadeiro. 
O cristianismo afirma que a vontade livre 
foi responsável pelo pecado original e que a 
vontade, criada boa por Deus, foi pervertida 
pelo primeiro homem. Assim sendo, a mentira, 
o erro e o falso tenderiam a prevalecer sobre a 
verdade porque nosso intelecto seria mais fraco 
do que nossa vontade. 
Verdades de razão e verdades de fato 
Vimos que a verdade pode ser entendida como o 
conhecimento racional evidente de alguma realidade 
(a a/étheia como evidência intelectual). Vimos também 
que a verdade pode ser entendida como o relato veraz 
ou verídico de fatos acontecidos (a veritas). 
Em lugar de considerar que essas concepções são 
excludentes, o filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz 
(1646-1716) estabeleceu a existência de dois tipos de 
verdades: verdades de razão e verdades de fato. 
As verdades de razão enunciam que uma coisa é 
o que ela é, necessária e universalmente, não poden­
do de modo algum ser diferente do que é e de como 
é. O exemplo mais evidente são as ideias matemáticas. 
É impossível que o triângulo não tenha três lados e 
que a soma de seus ângulos internos não seja igual à 
soma de dois ângulos retos, ou que a circunferência 
não seja a figura na qual todos os pontos são equidis­
tantes do centro. 
Já as verdades de fato dependem dos aconteci­
mentos que serão relatados ou também da experiên­
cia sensorial, isto é, ideias que são obtidas por meio 
da sensação, da percepção e da memória. Elas se re­
ferem a fatos que poderiam não ter acontecido, mas 
S Capítulo 10 
aconteceram e devem ter tido uma causa necessária 
para isso; e também a coisas que poderiam ser dife­
rentes do que são, mas que são como são porque há 
uma causa para isso. Quando um historiador narra a 
Segunda Guerra Mundial, narra fatos que poderiam 
não ter acontecido, mas aconteceram, e busca as cau­
sas necessárias desses acontecimentos para que seu 
relato seja verdadeiro. 
Da mesma maneira, quando digo " Esta rosa é 
vermelha", isso é uma verdade de fato, pois nada im­
pede que ela pudesse ser branca ou amarela. Se ela 
é vermelha, é porque alguma causa a fez serassim e 
outra causa poderia tê-la feito amarela. Não é aci­
dental que ela tenha cor, e é a cor que possui uma 
causa necessária. Ou seja, uma rosa pode ter esta ou 
aquela cor, mas não pode deixar de ter cor, cabendo 
à razão buscar a causa da cor, estudando a natureza 
da luz. 
As verdades de fato são verdades porque para elas 
funciona o princípio de razão suficiente, segundo o qual 
tudo o que acontece na história e tudo o que percebe­
mos na experiência sensorial possui uma causa deter­
minada que pode ser conhecida. 
Verdade ou hábito? 
No século XV I I I , o filósofo escocês David Hume 
{1711 -1 776) criticou a pretensão de filósofos e cientistas 
de conhecer a verdade da própria realidade. Para ele, 
o que chamamos de razão é simplesmente o hábito 
que adquirimos de associar sensações, percepções e 
lembranças. As ideias são essas associações, e não a 
explicação de como as coisas são em si mesmas. Por 
acreditar que adquirimos todas as ideias pela expe­
riência (em grego, empiria), Hume é considerado um 
filósofo empirista. 
O exemplo mais importante oferecido por Hum e é 
o da origem do princípio da causalidade, tido como fun­
damento das verdades científicas. 
Nesta experiência de dilatação térmica, vejo que a esfera fria 
atravessa o aro, mas depois constato que a mesma esfera, após ser 
aquecida, não mais o atravessa por causa da expansão de seu 
volume. Para Hume, à medida que repetimos uma experiência e 
observamos o mesmo resultado, criamos o hábito de associar os 
fatos em relações de causa e efeito. 
A solucão kantiana 
Para responder às críticas de Hum e e buscar mos­
trar que a verdade não é um mero hábito, o filósofo 
alemão lmmanuel Kant {1724-1 804) afirmou que é 
preciso distinguir entre conhecimentos que dependem 
da experiência sensorial e aqueles que não dependem 
dela, e sim de nossa razão. Aos conhecimentos que 
dependem da experiência, deu o nome de conheci­
mentos a posteriori; aos que dependem apenas de 
nossa razão, deu o nome de conhecimentos a priori. 
A experiência me mostra, o tempotodo, que, se eu 
puser um objeto sólido (um pedaço de vela, um pedaço 
de ferro) no calor do fogo, não só ele derreterá como 
também passará a ocupar um espaço muito maior no 
interior do recipiente. 
Séries de experiências desse tipo vão criando em 
mim o hábito de associar o calor a fatos iguais ou se­
melhantes que já percebi inúmeras vezes. E isso me 
leva a dizer que o calor é a causa desses fatos. Como os 
fatos são de aumento do volume ou da dimensão dos 
corpos submetidos ao calor, concluo que "o calor é a 
causa da dilatação dos corpos" e também que "a dila­
tação dos corpos é o efeito do calor". É assim, diz Hume, 
que surge a ideia de causalidade e nascem as ciências. 
Ora, ao mostrar como se forma o princípio da causa­
lidade, Hume afirma que não apenas as ideias se originam 
da experiência, mas também os próprios princípios da 
racionalidade são empíricos. Mais do que isso: vimos que, 
na busca da verdade, a razão pretende conhecer a reali­
dade tal como ela é em si mesma, considerando que o 
que conhece é verdadeiro para todos os tempos e lugares 
(universalidade) e indica como as coisas são e como não 
poderiam ser de uma outra maneira (necessidade). 
Ora, com Hume já não se pode admitir que o co­
nhecimento racional seja dotado de universalidade e 
necessidade, pois estas não são propriedades inerentes 
às próprias coisas e às ideias com que as conhecemos. 
O universal é apenas uma palavra geral que usamos 
para nos referir à repetição de semelhanças percebidas 
e associadas. O necessário é apenas uma palavra geral 
que usamos para nos referir à repetição das percepções 
sucessivas no tempo. O universal, o necessário e a cau­
salidade são meros hábitos psíquicos. E o mesmo de­
vemos dizer da verdade. 
a priori, a posteriori: a priori é uma expressão de origem 
latina, que significa 'ter prioridade com relação a alguma 
coisa' ou 'o que antecede alguma coisa'. Kant usará a priori 
para significar aquilo que vem antes da experiência e é 
condição para que ela se realize. 
A posteriori também é de origem latina e significa 'o que 
vem depois de algo', ou 'o que sucede algo'. Kant emprega 
a posteriori para significar aquilo que vem da experiência 
e depende dela. 
Buscando a verdade @ 
Kant exigi u que, antes de qua lq uer afi rmação sobre 
as ide ias, houvesse o estudo da própr ia ca pac idade de 
con hece r (ou seja, da razão), de modo que se mostras­
se que a razão não depende das co isas nem é regu lada 
po r e l as, e s im o contrá r io . Fo i o que e le chamou de 
"revo l ução copern i ca na" em fi l osof ia . 
De fato, até então os fi lósofos co locavam a rea l i ­
dade ou os objetos do conhecimento no centro e fazia m 
a razão, ou o suje ito do conhecimento, g i ra r em to rno 
de la . Faz i am como a lguém que, pa ra assa r um fra ngo, 
gi rasse a chu rrasq ue i ra em vo lta de le, em vez de girá- lo 
em re lação às brasas . 
Sujeito ao centro, objetos em órbita 
Qual é a re lação entre o qu e propõe Kant para a fi losofia e o que fizera N i co lau Copérn i co (1 473-
-1 543) pa ra a astronom ia? Os fi lósofos , d i z Kant, pa recem os astrônomos a nter iores à revo lu ção coper­
n i ca na , busca ndo u m centro que não é ve rdade i ro . 
Estátua de Nicolau Copérnico em Varsóvia, Polônia, 
em 2007. 
Revolução copernicana na astronomia 
(séc. XVI) 
Explicação A Te rra estava imóve l ao centro do Un iverso. 
predominante até Os demais astros se des l oca riam ao redor 
então dela em órb itas concêntricas . 
O problema O s istema geocêntrico não dava conta de 
exp l i ca r os movimentos ce lestes e mu itos 
outros fenômenos astronômicos. 
A solução proposta Não haveria motivo rac iona l pa ra que os 
astros se movessem e a Te rra não, pois 
poderia ser o contrá rio ou, até mesmo, 
ambos poderiam esta r em movimento. 
Cons iderar que a Terra se move, em bora não 
o perceba mos, pe rm ite com preender os 
movimentos dos demais astros. 
S Capítulo 10 
Estátua de lmmanuel Kant em Kaliningrado, 
Rússia, em 2014. 
Revolução "copernicana" (kantiana) 
na fi losofia (séc. XVI I I ) 
A rea l idade em s i é o ponto de partida pa ra o 
conhecimento. Pa ra a lguns, e la e ra exterior 
(a natu reza) ; pa ra outros, i nterior (a a lma 
huma na). 
A ideia de ve rdade u n iversa l e necessá ria das 
coisas d ificu lta a exp l i cação da muda nça 
das co isas e ide ias . Por outro lado, d izer que 
o conhecimento se deve a meras associações 
de repetições percebidas no tempo d ificu lta 
a própria ideia de verdade. 
O ponto de pa rtida da fi l osofia não deve ser a 
rea l idade, e s im o estudo da própria facu ldade 
de conhecer (o estudo da ra zão). Ao col oca r o 
suje ito do conhecimento no centro, é possíve l 
verifica r, de mane i ra un iversa l e necessá ria, 
que os objetos se adapta m a e le . 
Moda lidades de conhec imento 
Pa ra rea l iza r a "revo l u ção copern icana" em fi loso­
f ia, Ka nt d ist i ngue duas gra ndes moda l i dades de co­
nhec imento : 
1. os conhecimentos a posteriori ou empír icos, que 
se base ia m nos dados da exper iênc ia sensor i a l e ps ico­
lógica de cada um, va ria ndo de ind ivíd uo pa ra ind ivíd uo; 
2. os conhec imentos a priori, que se base iam exc lu ­
s ivamente na estrutu ra i nterna da própr ia razão, i nde­
pendentemente da exper iência de cada um, e possuem 
va l i dade u n ive rsa l . 
Nosso conheci mento depende de t rês i n stânc ias 
a priori: 
1. as formas a priori da sens i b i l i dade, isto é, o espa­
ço e o tempo como cond i ções da pe rcepção (só perce­
bemos co isas espac ia i s e tempora i s, mas não percebe­
mos o p rópr io espaço nem o própr io tempo e por isso 
não podemos d ize r que estes ex istem em s i mesmos); 
2 . as categor ias a priori do entend imento, que or­
ga n izam os dados enviados pela sens i b i l idade (as pe r­
cepções espac ia i s e tempora i s), tra nsformando-os em 
con hec imentos i nte lectua i s ou emconce itos. Sem as 
categor ias, não pode haver conhecimento i nte lectua l . 
S ão e las : q ua l idade, q uantidade, tota l idade, p l u ra l idade, 
u n idade, necess idade, poss i b i l idade, ca usa l i dade, f ina­
l idade, su bsta nc ia l idade. Não sabemos se essas cate­
gor ias existem em s i mesmas n uma rea l idade em si , 
mas só podemos conhece r a lgo ao empregá- las . 
3. a s i de i a s da razão que não são p ropr i a mente 
con hec i m e ntos. E m bo ra o con hec imento d ependa 
dos dados em pír icos q u e a sens i b i l idade ofe rece e das 
catego r i a s i nte l ectua i s que o e ntend i m e nto ut i l i za 
pa ra o rga n i zá- l os, a razão não se re l ac iona nem com 
os pr i me i ros, nem com as ú lt i mas . Sua fu nção não é 
con hece r, e s im regular e controlar a sens i b i l i dade e 
o e ntend imento. 
Dessa mane i ra, Ka nt pôde loca l iza r onde estava o 
eq u ívoco de Hume : este red uz i ra todo conhecimento 
ao con hecimento empír ico ou a posteriori, que va r ia de 
pessoa para pessoa, d esco n h ecendo os p r i ncíp ios a 
priori que perm item conhec imentos u n ive rsa is e ver­
dadei ros. Os fi lósofos raciona l i stas, por sua vez, se equ i ­
voca ram por su por que espaço, tempo e as categor ias 
estão nas própr ias co isas. Se engana ram também por 
supor que podemos con hece r o nômeno, i sto é, as co i ­
sas em si , qua ndo só podemos conhece r o fenômeno, 
i sto é, o que é dado e o rga n izado por nossa razão. A 
d ist i nção entre nômeno e fenômeno é dec is iva pa ra 
supe ra r os prob lemas do raciona l i smo e do emp i r ismo. 
nômeno, fenômeno: 
nômeno se origina 
da palavra grega 
noumenon, derivada 
de naus, que significa 
'a inteligência suprema 
ou divina que conhece 
a realidade tal como 
é em si mesma'. O 
nômeno é "a coisa 
em si". Fenômeno se 
origina da palavra grega 
phainomenon, que 
significa 'o que aparece 
diante de nossos 
olhos', aquilo que 
vemos e percebemos. 
O fenômeno é "a coisa 
para nós". 
Campo de papoulas próximo a Argenteuif (1873), óleo sobre tela de Claude Monet (1840-1926). Kant 
distingue a "realidade em si" (nômeno) da "realidade conhecida por nós" (fenômeno); esta, como na 
pintura de Monet, é a realidade tal como se apresenta à nossa razão. 
Buscando a verdade S 
J u ízos ana lít i cos e j u ízos 
s i ntét i cos 
Por fim, Kant mostrou que o conhecimento verda­
deiro depende de distinguirmos entre dois tipos de 
juízos: os analíticos e os sintéticos. 
Um juízo é analít ico quando o predicado ou os pre­
dicados do enunciado nada mais são do que a explici­
tação do que está contido no sujeito do enunciado. Por 
exemplo: quando digo que o triângulo é uma figura de 
três lados, o predicado "figura de três lados" nada mais 
é do que a explicitação do sujeito "triângulo". Ou, quan­
do digo que "todos os corpos são dotados de massa", 
o predicado "dotados de massa" não acrescenta ne­
nhum conhecimento novo sobre o sujeito "corpos", 
mas apenas explica o que queremos dizer quando fa­
lamos num corpo. No juízo analítico, podemos dizer 
que o predicado é um sinônimo do sujeito ou que ele 
analisa o conteúdo do sujeito. Portanto, o juízo analí­
tico é explicativo. 
Quando, porém, o predicado de um enunciado ofe­
rece informações novas sobre o sujeito, o juízo é s inté­
tico, isto é, formula uma síntese entre um predicado e 
um sujeito. Assim, se, em vez de dizer que os corpos são 
dotados de massa, dissermos que "alguns corpos são 
leves", o predicado "são leves" nos diz algo novo sobre 
o sujeito. O juízo sintético, diz Kant, é ampliativo, ou 
seja, ele aumenta nosso conhecimento. 
Para Kant, os juízos analíticos correspondem às ver­
dades de razão de Leibniz. Neste caso, os juízos sintéticos 
teriam de ser considerados verdades de fato, isto é, uma 
Segundo Kant, se dissermos que "o calor é uma medida de 
temperatura dos corpos", o predicado "medida de temperatura dos 
corpos" simplesmente explicita o conteúdo do sujeito "calor", não 
acrescentando nada a ele. Trata-se, portanto, de um juízo analítico. 
Porém, se dissermos que "o calor é capaz de alterar a forma do ferro", 
não estamos definindo o que é calor, mas sim oferecendo uma 
informação nova sobre ele. Neste caso, temos um juízo sintético. 
S Capítulo 10 
relação entre termos que depende dos acontecimentos 
ou dos fatos e que requer a experiência para ser conheci­
da. Mas, assim sendo, a verdade ficaria reduzida aos juízos 
analíticos, que nada novo nos ensinam. Em contrapartida, 
como os juízos sintéticos dependem da experiência de 
cada um de nós, não são verdadeiros no sentido preciso 
da palavra, isto é, não são necessários nem universais. 
Que faz Kant? Começa dizendo que a experiência 
sensorial é a ocasião para o conhecimento, mas não é 
a causa dele, pois este depende da estrutura universal 
e necessária de nossa razão, que organiza os dados da 
experiência. Em outras palavras, a experiência fornece 
os dados que queremos conhecer e a razão é que lhes 
dá sentido e os relaciona de maneira necessária e uni­
versal. Kant distingue, assim, entre o que depende da 
experiência (aquilo que é a posteriori) e aquilo que não 
depende dela e que a organiza, controla e lhe dá senti­
do (aquilo que é a priori). Partindo dessa formulação, 
Kant introduz a ideia de juízos sintéticos a priori, isto é, 
juízos sintéticos nos quais a síntese do sujeito e do pre­
dicado, que amplia nosso conhecimento, depende da 
estrutura universal e necessária de nossa razão, e não 
da variabilidade individual de nossas experiências. 
Os juízos sintéticos a priori exprimem o modo como 
nosso pensamento relaciona e conhece os dados trazi­
dos pela experiência; são os juízos empregados pela 
filosofia e pelas ciências. A causalidade, por exemplo, 
é uma síntese a priori que nosso entendimento formu­
la para as ligações universais e necessárias entre causas 
e efeitos, independentemente dos hábitos nascidos de 
nossa experiência sensorial individual. 
Se digo "Esta área foi desmatada", sei que alguém ou algo a 
desmatou, mesmo que não veja este alguém ou algo no ato de cortar 
as árvores. Essa relação de causalidade que nossa consciência faz 
constitui um juízo sintético a priori. Foto de 2013, Santarém (PA). 
Esta at ividade tra ba l ha com conteúdos d e F i l osofia e H istó r ia . 
Tiradentes esquartejado (1 893), óleo sobre tela, de Pedro Américo, que representa o 
mártir da Inconfidência Mineira, e uma paródia feita por João Teófi lo, em 2015, para 
ironizar o pouco reconhecimento dado aos líderes assassinados da Conjuração Baiana. 
No in ício do período republicano, o movimento mineiro foi escolhido como s ímbolo do 
desejo de emancipação brasileira e instituição da República. Porém, foi apenas com a 
rebelião baiana que ideias como a emancipação de toda a colônia portuguesa na 
América, a igualdade entre todos e o fim da escravidão passaram a ser defendidas. 
Le ia um t recho de u ma obra da f i lósofa a l emã Hanna h Are ndt (1906-1975) : 
O contrário de uma asserção racionalmente verdadeira é ou erro e ignorância, como nas ciências, ou ilusão 
e opinião, como na filosofia. A falsidade deliberada, a mentira cabal, somente entra em cena no domínio das 
afirmações factuais; e parece significativo, e um tanto estranho, que no Longo debate acerca do antagonismo 
entre verdade e política ninguém, aparentemente, tenha jamais acreditado que a mentira organizada, tal como 
a conhecemos hoje, pudesse ser uma arma adequada contra a verdade [ . . . ] . Decerto a mentira organizada, no 
que respeita à ação, não é um fenômeno marginal: o problema é que seu oposto, o simples enunciado de fatos, 
não conduz a nenhuma espécie de ação e tende até, em condições normais, à aceitação das coisas como elas são 
[ . . . ] . No entanto, onde todos mentem acerca de tudo que é importante, aquele que conta a verdade começou a 
agir. Quer o saiba ou não, ele se comprometeu também com as coisas da política, pois, na improvável eventua­
lidade de queo deixem sobreviver, terá dado um p rimeiro passo para a transformação do mundo. 
AREN DT, Ha n nah . Entre o passado e o futuro. Tradução de Mau ro W. Ba rbosa de Al meida. São Pau lo: Pers pectiva, 1979. p. 282 e 324. 
1 . Arendt pa rte da afi rmação de que a oposição a ser 
fe ita não é e ntre verdade, e r ro ou ignorâ ncia , mas 
entre ve rdade e mentira , q uestiona ndo como faze r 
q ua ndo a menti ra não é por acaso, mas é uma men­
t i ra o rga n izada . 
• Ass i m, co mo um h isto r i ado r, que tra ba l ha com 
ve rd a d e s de fato, pod e r i a ch ega r a a s se rções 
fa l sas? 
2. No passado, as e l ites pol íticas e econômicas brasi le i ras 
e os gru pos no contro le do Estado transforma ra m per­
sona l idades pú b l icas em heróis e construíra m m itos 
pa ra legitima r suas posições. Assi m, po r exemp lo, os 
ba ndei ra ntes pa u l i stas fora m por muito tem po repre­
sentados como promotores do progresso e responsá­
veis po r a m pl ia r o territór io e as r iquezas brasi le i ros. Já 
a pr incesa Isabe l costumava ser considerada a bene­
vo l ente l i bertadora d os negros escravizados, tendo 
assi nado a penas po r sua própria vontade a Lei Áu rea . 
• De que modo o tra ba l ho dos h istor iadores, ao se 
contra por a esses m itos, fu nciona como um "pri­
m ei ro passo pa ra a tra n sformação do m u nd o", 
como d i z Arendt? 
Buscando a verdade @ 
1 . O que é dogmatismo? Como e por q u e o estra n ha­
mento pode rom pe r com o dogmatismo? 
2. Dê um exemp lo (ti rado de sua vida pessoa l, da l i ­
teratura ou do ci ne ma) de uma atitude de estra­
n h a m e nto d ia nte de a lgu m a coisa ou de a lgu m 
fato que até então pa recia natura l . 
3. Exp l iq u e nossa concepção de ve rdade com base 
nas ide ias de alétheia, veritas e emunah, expondo 
como cada uma de las contri bu iu pa ra forma r essa 
concepção conte m porâ nea. 
4. Exp l i que o que são as teo r ias da ve rdade como co r­
respondência, coe rência e consenso. 
l n d i cacões 
A invenção de Hugo Cabret 
• Direção de Martin Scorsese. Estados Un idos, 2011. 
5. O que s ignifica p ragmatismo? Como a teor ia prag­
mática concebe a ve rdade? 
6. Qua l é a d ife rença entre ve rdade de razão e ve rdade 
de fato? Dê u m exem plo de cada uma de las. 
7. Como Ka nt propõe reso lve r o i m passe entre racio­
na l ismo e e m pi r ismo? 
8. Qua l é a d iferença entre j u ízo ana l ítico e j u ízo s in­
tético? Dê exe m p los. 
9. O que d ife rencia um ju ízo s i ntético a priori dos de­
mais j u ízos si ntéticos? 
Hugo Cabret (Asa Butterfie ld ) é um órfão que tra ba lha e mora no re lóg io da 
esta ção de trem de Pa ris , n o in íc io do sécu lo XX . Hugo busca desvenda r o se­
gredo que a cred ita esta r dentro do robô m ecân ico que ga nhou de seu fa lec ido 
pa i . Em uma de suas fugas do guarda da esta ção (Sacha Ba ron Cohen), encontra 
l sabe l l e (Ch loe Moretz) e, com ela, uma ch ave que se enca ixa n a fechadu ra no 
peito do autômato. Admirada com os belos desenhos feitos pelo m i ster ioso 
a utômato, a d up la decide d escobr i r quem o i nventou . 
Os personagens Hugo e lsabelle observam o autômato em cena do filme 
A invenção de Hugo Cabret, do diretor Martin Scorsese. 
O homem que copiava 
• Direção de Jorge Furtado. Brasi l , 2003. 
Um jovem porto-a legrense vive uma rot ina monótona fa zendo fotocóp ias em uma pape la r ia 
e mora ndo com sua mãe. Quando se a pa ixon a por uma v i z i nha , e le procu ra uma mane i ra de 
a rra nja r d i n he i ro extra para im press ioná - l a . Seus p l anos dão certo, mas t rarão consequênc ias 
i n esperadas qua ndo verdades começarem a v i r à ton a . 
Barba ensopada de sangue 
André (Lázaro Ramos) é o protagonista da comédia 
O homem que copiava, dirigida por Jorge Furtado. 
• Escrito por Daniel Ga lera. Companhia das Letras, 2012. 
Após a morte de seu pa i , um p rofessor de edu ca ção fís i ca se i so l a em u m a c i d ade p ra i a n a 
n a q u a l s e u avô ter i a s i d o a s sa ss i n a do década s a ntes . A o m e s m o tem p o q u e e nfre nta a 
res i stê nc i a dos m ora dores p a ra desve nd a r o q u e de fato ocorre ra , o p rotagon i sta revê sua s 
e sco l h a s de v i da . 
O mundo assombrado pelos demônios 
• Escrito por Car l Sagan. Companh ia de Bolso, 2006. 
Em contra pos ição às exp l i cações m íst icas para o m u n d o, o a utor p rocu ra mostra r a ra c iona ­
l i d ade como fu ndam ento do con hecimento c ientífi co e a s atitu des q ue im pu l s ion a m pa ra a 
busca d a verdade pe l a ra zão . 
@ Capítulo 10 
Capa de edição do livro 
Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera. 
w 
e 
<C 
e -
z 
:::J 
Os usos cotidianos de "lógica" 
"É lógico que eu vou!" Quando dizemos frases como 
essa, a expressão "é lógico que" aparece como se fosse 
a conclusão de um raciocínio que os interlocutores co­
nhecem mesmo que não o percebam. Ao dizer "É lógi­
co que eu vou! ", estou supondo que quem me ouve 
sabe que também estou afirmando, sem que eu o diga 
explicitamente: "Você me conhece, sabe o que penso, 
quero ou do que gosto, sabe o que vai acontecer no 
lugar x e na hora y e, portanto, não há dúvida de que 
vou até lá". Nesse caso, tiramos uma conclusão que nos 
parece óbvia, e dizer "é lógico que" seria o mesmo que 
dizer "é claro que" ou "não há dúvida de que". 
Em certas ocasiões, ouvimos, lemos ou vemos al­
guma coisa e reagimos dizendo: "Não. Não pode ser 
assim. Isso não tem lógica!". Essa expressão indica uma 
situação oposta à anterior. Agora, aquilo que já sabe­
mos (de uma pessoa, de um fato, de uma ideia, de um 
objeto) nos faz julgar que a conclusão a que alguém 
chegou é indevida, deveria ser outra. É possível, tam­
bém, que a expressão aponte que nosso conhecimento 
sobre algo ou alguém não é suficiente para compreen­
dermos o que estamos ouvindo, vendo, lendo, e por 
isso nos parece "não ter lógica". 
Nos exemplos que vimos, podemos perceber que as 
palavras lógica e lógico são usadas por nós para significar: 
1 . uma inferência: visto que conheço x, posso con­
cluir y como consequência; 
2. a exigência de coerência: visto que x é assim, é 
preciso que y seja assim; 
3. a exigência de que não haja contradição entre o 
que sabemos de x e a conclusão y a que chegamos; 
Heráclito e Parmênides 
Quando estudamos o nascimento da filosofia, vi­
mos que os primeiros filósofos se preocupavam com a 
origem, a transformação e o desaparecimento de todos 
os seres. Preocupavam-se com o devi r. Heráclito de 
Éfeso (e. 535 a.C.-475 a.e.) e Parmênides de Eleia (e. 515 
a.C.-445 a.e.), filósofos do período pré-socrático, ado­
taram posições opostas a esse respeito, cada um deles 
concebendo o lógos (pensamento e linguagem verda­
deiros) de maneira oposta. 
O mundo, dizia Heráclito, é um fluxo perpétuo on­
de nada permanece idêntico a si mesmo, mas tudo se 
transforma no seu contrário. A luta dos contrários é a 
8 Capítulo 11 
4. a exigência de que saibamos o suficiente sobre 
x para entender y e conhecer por que se chegou a y. 
Inferência, coerência, conclusão sem contradições, 
conclusão com base em conhecimentos suficientes são 
alguns de nossos pressupostos quando afirmamos que 
algo é lógico ou ilógico. 
Ao usarmos as palavras lógica e lógico, estamos 
participando de uma tradição de pensamento que se 
origina na filosofia grega. Os filósofos de então se in­
dagavam se o lógos (significando 'linguagem-discurso 
e pensamento-conhecimento' ) possuía ou não normas, 
princípios e critérios para seu uso e funcionamento. 
Passatempos como o sudoku costumam ser chamados de jogos de 
lógica, por necessitarem, entre outras habilidades, do uso de 
inferência e da conclusão com base em conhecimentos suficientes 
para serem finalizados com sucesso. 
harmonia, responsável pela ordem racional do Univer­
so. Nossa experiência sensorial percebe o mundo como 
se tudo fosse estável e permanente,

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