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2 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 3 2 TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA ............................................... 4 2.1 Histórico conceitual do autismo ............................................................ 7 2.2 Diferenças e similaridades entre Kanner e Asperger ......................... 11 3 CARACTERISTICAS DO TEA ................................................................. 13 3.1 Características comportamentais do Transtorno de Espectro Autista 13 3.2 Critérios de identificação e manifestações do TEA ............................ 15 3.2.1 Estabelecimento de vínculos ........................................................ 15 3.2.2 Teoria da mente ........................................................................... 16 3.2.3 Linguagem e comunicação ........................................................... 16 3.2.4 Dificuldade de antecipar eventos.................................................. 17 3.2.5 Inflexibilidade e estereotipias ....................................................... 18 3.2.6 Ausência do jogo simbólico e da capacidade imitativa ................. 18 4 FLOORTIME ............................................................................................. 20 4.1 Modelo D.I.R ...................................................................................... 24 4.1.1 Níveis de desenvolvimento ........................................................... 25 5 MÉTODO MONTESSORIANO ................................................................. 27 5.1 Os educadores ................................................................................... 30 5.2 Educação da criança .......................................................................... 33 5.3 Ambiente educacional ........................................................................ 34 5.4 Pedagogia Montessoriana .................................................................. 35 5.5 Materiais montessoriano .................................................................... 36 6 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ............................................................. 38 3 1 INTRODUÇÃO Prezado aluno! O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta , para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 4 2 TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA Fonte: https://bityli.com/xkHlT As primeiras publicações sobre autismo foram feitas por Leo Kanner (1943) e Hans Asperger (1944), que de forma independente (primeiro em Baltimore e depois em Viena) forneceram relatos sistemáticos de casos associados a escolas e suas hipóteses sobre a teoria correspondente para essa síndrome desconhecida (BAPTISTA; BOSA 2002). Kanner encontrou nas crianças sob seus cuidados uma impotência nas relações interpessoais, o que as distingue de outras patologias como a esquizofrenia: as crianças relacionam-se normalmente com pessoas e situações em seus primeiros dias. Para Kanner, tal comprometimento dificulta a adoção de uma atitude que sinaliza um desejo de ser abraçado ou pego no colo (por exemplo, inclinar o rosto, estender os braços e depois acomodar-se no colo); tratando-se de um “autismo excessivamente autocontido”, fazendo com que a criança, ignore ou rejeite tudo o que vem de fora. Outra característica observada é a demora na aquisição da fala (mas não toda) e no seu uso não comunicativo, ou seja, a linguagem não sendo utilizada como ferramenta de comunicação, receber e transmitir mensagens para outras pessoas, que são significativas, sendo três das crianças permanecendo "mudas" até aquele dia. A fala consiste principalmente em palavras para nomes de objetos, adjetivos para cores, alfabetos, músicas, listas de animais, nomes de pessoas importantes; versos memorizados ou frases discretas, combinações de palavras ouvidas e repetidas". Às vezes as palavras são repetidas assim que são ouvidas 5 (imediatamente), às vezes mais tarde (atraso na fala); os pronomes pessoais são repetidos exatamente como foram ouvidos, falando assim dele mesmo na terceira pessoa (pronome de inversão). A entonação também nem sempre corresponde ao contexto linguístico (por exemplo, uma resposta é dada com entonação questionável). Especialmente notório é o sentido literal dado a palavras que ficam “presas” em determinada situação, tornando-se inflexíveis. Não foram observadas dificuldades quanto ao uso de plurais e conjugados, ou memória. Este último foi considerado excelente, especialmente em sua capacidade de lembrar eventos que aconteceram há muitos anos, de memorizar poemas e nomes complexos, sequências e padrões. Para Kanner, tais habilidades indicam boa inteligência no sentido geralmente aceito do termo e acredita no bom potencial cognitivo dessas crianças, crianças com rostos muito inteligentes. Mais tarde foi determinado que, para Kanner, essas crianças eram extremamente inteligentes, embora não demonstrassem isso. Ele também chamou a atenção para a falta de coesão física na maioria das crianças. Dificuldades na atividade motora grossa, em contraste com uma capacidade surpreendente de habilidades motoras finas (como evidenciado pela capacidade de girar objetos redondos), também foram identificadas por Kanner. Para este autor, no entanto, a insistência obsessiva na manutenção regular, que resulta em uma variedade limitada de atividades espontâneas, é uma das principais características do autismo. Isso se somava à impotência nas relações interpessoais: nelas há uma forte necessidade de não ser perturbado (BAPTISTA; BOSA, 2002). O que quer que seja trazido de fora para a criança, qualquer coisa que altere seu ambiente externo ou interno é uma terrível intrusão. Medo e reações fortes a ruídos e objetos em movimento, objetos quebrados ou incompletos, repetição de atividades, desempenho ritual muito complexo, brinquedos estereotipados ausentes criatividade e espontaneidade, a introdução de novos alimentos, vem desse medo da mudança. Se algo for alterado, mesmo o menor detalhe, a situação não é mais a mesma e é inaceitável. Por outro lado, Kanner aponta que qualquer coisa que não seja alterada em forma e posição, ou seja, preserva sua identidade e não ameace o isolamento da 6 criança, não é apenas bem tolerada pela criança, mas também se torna um objeto de interesse da criança que as crianças podem passar horas brincando porque, de acordo com especialistas, dá às crianças uma sensação gratificante de onipotência e controle. Ele ilustrou o conceito com o exemplo do êxtase das crianças sobre sua capacidade de girar objetos e continuar a vê-los girar - o poder que experimentam em seus próprios corpos, balançando e movendo-se ritmicamente (BAPTISTA; BOSA, 2002). As observações desses autores representam o embrião das noções contemporâneas de que a sensação pode prever e controlar situações que facilitam o enfrentamentoe o aprendizado do autista e tem implicações para as intervenções. Finalmente, uma questão de grande controvérsia nos últimos anos foi a observação de Kanner das famílias das crianças que ele observou. Ele destaca que entre os denominadores comuns entre eles estão os altos níveis de inteligência e socioculturalismo dos pais, e uma certa frieza na relação, não só entre casais, mas também entre pais, mãe e filhos. Também destacou aspectos assustadores do ambiente doméstico, por exemplo, pelo nível de detalhes em relatórios e diários. No entanto, no mesmo artigo, Kanner se questiona sobre a causalidade entre os aspectos familiares e patológicos da criança: A questão é se, ou em que medida, esse fato tem contribuído para a condição da criança. desde os primeiros dias de suas vidas, torna difícil atribuir todo esse quadro ao tipo de relacionamento parental inicial de nossos pacientes. Ele conclui seu trabalho argumentando que o autismo surge de uma incapacidade inata de estabelecer contato emocional habitual e biológico, prever com as pessoas, chamando a atenção para a necessidade de pesquisas que forneçam "critérios específicos" sobre os componentes constituintes das respostas emocionais (BAPTISTA; BOSA, 2002, p. 25). 7 2.1 Histórico conceitual do autismo Segundo a análise de Assumpção Júnior (1997), historicamente, a inclusão do autismo na categoria de transtornos mentais ou esquizofrenia tem variado. Sobre “Transtorno mental", geralmente queremos dizer uma grande perturbação da realidade, resultando em desorganização da personalidade (BOSA, 2005). As primeiras definições do termo esquizofrenia (originalmente referido por Kraepelin como amnésia precoce) referiam-se a mudanças específicas no pensamento, sentimento e relacionamento com o mundo exterior, processos que às vezes são crônicos ou marcados por ataques intermitentes. Pode parar ou regredir a qualquer momento da vida do paciente (BAPTISTA; BOSA, 2002). Considerando que tanto o autismo quanto a esquizofrenia estão associados a relacionamentos interpessoais prejudicados e preconceitos, não é surpreendente que a síndrome de Kanner tenha sido historicamente agrupada nesta categoria. Ao discutir seu conceito de autismo, Kanner reconhece semelhanças entre sua síndrome e a esquizofrenia infantil, mas defende que ela deve ser separada da doença semelhante e bem definida como psicose em diferentes trabalhos, ao longo dos anos. Kanner (1968) enfatiza o diagnóstico diferencial entre retardo mental e distúrbios de linguagem do tipo afasia e aponta falhas na geração de evidências neurológicas, metabólicas ou cromossômicas no autismo. Deve-se notar aqui que a admissão de Kanner da ausência de biomarcadores no autismo não o levou a atribuir a causa da síndrome à doença mental dos pais, como ele mesmo apontou posteriormente, denunciando a má interpretação de suas ideias. Kanner ficou tão indignado que se sentiu compelido a escrever um livro sobre o assunto. Deve-se enfatizar, porém, que ao adotar essa atitude, a questão da relação entre as dimensões familiares e o autismo torna-se polarizada e não compreendida como um todo complexo e influente um ao outro. O conceito de autismo, carregou por algum tempo grande controvérsia na história sobre a distinção entre autismo, psicose e esquizofrenia. A hipótese da incapacidade inata deu lugar a uma concepção orgânica, na qual a origem da doença está relacionada a disfunções de natureza bioquímica, genética 8 ou neuropsicológica. Os critérios que suportam o diagnóstico de autismo sofreram várias alterações ao longo dos anos e foram descritos no manual de patologia (BAPTISTA; BOSA, 2002). Os mais conhecidos e mais utilizados são o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) e a Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), especialmente a partir de 1980. Esses manuais diferem na nomenclatura, características e códigos utilizados para fins de diagnóstico, mas convergindo em pressupostos conceituais que sustentavam classificações não-teológicas, hegemônicas na época em que foram publicadas. A principal mudança, porém, é a substituição da visão psicanalítica da doença mental, cujas origens serão provocadas por eventos traumáticos e se baseia em conceitos de personalidade, estrutura e psicodinâmica, utilizando um modelo biomédico com diagnóstico classificatório (grupo de sintomas) e uma abordagem multieixo, que também considera o aspecto orgânico e a influência de fatores externos no comportamento. Esse processo foi acompanhado pelo surgimento e desenvolvimento da indústria farmacêutica, principalmente dos psicotrópicos, o que levou a um aumento no diagnóstico de doenças mentais (DIOGO; SILVA, 2021). As primeiras versões da CID não mencionavam o autismo. A oitava edição lista como uma forma de esquizofrenia e a nona edição a classifica como um transtorno psicótico infantil. Desde a década de 1980, vimos uma verdadeira revolução de paradigma no conceito, com o autismo sendo retirado da categoria de doença mental no DSM-III, assim como na CID-10, passando para transtornos do desenvolvimento. O DSM-IV traz o Transtorno do Espectro Autista como parte do Transtorno Invasivo do Desenvolvimento (Pervasive Developmental Disorder). A CID-10 e o DSM-IV estabelecem critérios para um declínio nos Transtornos do Espectro do Autismo em três áreas principais: mudanças qualitativas nas interações sociais recíprocas; métodos de comunicação; Atividades e interesses restritos, estereotipados e repetitivos (BOSA, 2005). Essa mudança reflete os seguintes aspectos: Acumulação de conhecimento adquirido por meio de investigações em diferentes partes do mundo, incluindo investigações epidemiológicas, visando identificar características clínicas comuns e 9 suas peculiaridades e diferentes aspectos de outras doenças (por exemplo, retardo mental, distúrbios da fala e esquizofrenia) (BOSA, 2005). Durante a primeira década do século XXI, várias conferências foram realizadas para coletar a literatura sobre transtornos mentais produzida até o momento. Vários grupos de trabalho contribuíram para o desenvolvimento da quinta edição do DSM. O DSM-V rompe com o modelo multieixo, embora mantenha sua recomendação para avaliação de fatores psicossociais e ambientais; A Escala Funcional Global também foi retirada, mas não há contraindicações ao uso de escalas diferentes para auxiliar no diagnóstico. Dentro dessa classificação nosológica, o autismo passa a ser considerado um transtorno do neurodesenvolvimento e é referido como um Transtorno do Espectro Autista (TEA). Esta categoria absorve outros transtornos especificados em Transtornos Invasivos do Desenvolvimento (TID) em um único diagnóstico, distinguindo apenas na gravidade relacionada à interação e comunicação (FERNANDES; TOMAZELLI; GIRIANELLI, 2020). A CID-11, publicada em 2018, mantém a mesma terminologia (TEA) e alterações feitas no DSM-V, mas com a redução dos subdomínios de auxílio diagnóstico. O objetivo deste estudo foi analisar a evolução do diagnóstico de autismo no século XXI, a partir dos domínios e subcampos sobre os quais as classificações não acadêmicas estavam disponíveis na época (FERNANDES; TOMAZELLI; GIRIANELLI, 2020). A psiquiatra inglesa Lorna Wing critica o subgrupo proposto por esses sistemas (autismo típico, atípico, não especificado etc.) e chama a atenção para as diferenças entre requisitos clínicos e de pesquisa. Do ponto de vista da pesquisa científica, é importante identificar os subgrupos e seus possíveis perfis sociais, cognitivos, etc. No entanto, em termos de intervenção, receber um diagnóstico de por exemplo, autismo não especificado faz pouco sentido para os pais quando é importante entender como o indivíduo funciona em vários domínios do desenvolvimento. Assim, no final da décadade 1970, se propôs que o termo Espectro Autista fosse adotado pela British National Autistic Society para denotar déficits qualitativos na chamada tríade de déficits (linguagem/comunicação, imaginação social) (BOSA, 2005). 10 A classificação francesa define o autismo como uma psicose e distingue o autismo infantil referido como o tipo Kanner (com o aparecimento dos primeiros sintomas no primeiro ano de vida e um quadro completo através da idade de três anos) de "outras formas de autismo infantil" (com início tardio dos sintomas aos três anos, incluindo algumas formas de psicose simbiótica), retardo mental, demência e distúrbios complexos da linguagem oral. Da mesma forma, o Grupo para o Avanço da Psiquiatria (GAP, 1990) classifica o autismo como um transtorno psicótico e o chama de autismo infantil (BOSA, 2005). Com isso queremos mostrar que a concepção do autismo como uma psicose ou como um transtorno do desenvolvimento depende do sistema de classificação utilizado, que por sua vez implica em diferentes concepções teóricas do desenvolvimento infantil. Embora a preocupação em estabelecer critérios rígidos e padronizados na CID e no DSM para possibilitar uma “linguagem comum” na comunidade científica seja fundamentalmente “teórica”, há posições contrárias a ela. Os sistemas classificatórios enfatizam os déficits cognitivos no desenvolvimento, enquanto a classificação francesa e o GAP baseiam seus critérios nos déficits afetivos e adotam uma abordagem mais ampla do que descritiva. A base dos critérios, pelo menos do GAP, é a abordagem psicanalítica, que atribui a falta de autismo a um distúrbio básico da função do ego, afetando o desenvolvimento das funções básicas da personalidade com referência no processo de individuação e as relações interpessoais (DIOGO; SILVA, 2021). A literatura psicanalítica enfatiza o papel materno e paterno na ocorrência e expressão da psicose, embora historicamente tenha havido discordância quanto à afirmação de que a psicose (e, portanto, o autismo de acordo com essa abordagem) resulta de problemas nessa relação. Por outro lado, embora o termo "cognitivo" nos direcione para ideias sobre o desenvolvimento dos processos comportamentais básicos (percepção, memória, linguagem etc.) processos cognitivos envolvidos em um contexto social e afetivo. No campo do desenvolvimento sociocognitivo, como postulado por teóricos como Vygotsky, Bruner e Trevarthen, não há como separar o desenvolvimento cognitivo do afetivo e seu substrato biológico, com ênfase particular no papel da cultura nesse processo (BOSA, 2005). 11 A conclusão a tirar desta reflexão é que o envolvimento precoce influencia o desenvolvimento como processo e, portanto, a personalidade (através da interação do self e da experiência com o ambiente, o que ajuda o desenvolvimento da noção de si, dos outros e do mundo possível ao seu redor), seja o autismo classificado como um transtorno mental ou de desenvolvimento. De fato, falta um modelo teórico completo para explicar a diferença entre as duas formas de classificação. Conclui-se a partir dessa discussão que a diferença está na ênfase nos aspectos neurobiológicos das origens do Transtorno do Espectro Autista (e sua relação com aspectos cognitivos sociais e emocionais), emocional - ponto de vista "orgânico", ou em processos emocionais (DIOGO; SILVA, 2021). 2.2 Diferenças e similaridades entre Kanner e Asperger As descrições de Asperger são realmente mais amplas que as de Kanner, incluindo características não identificadas por Kanner, bem como casos envolvendo disfunção muscular. Enfatizou a dificuldade das crianças observadas em fixar o olhar em situações sociais, mas também expressou reservas quanto à presença de um olhar curto e periférico. Chamou a atenção para as peculiaridades dos gestos - sem sentido e caracterizados por estereótipos - e da fala, que podem ser apresentados sem problemas gramaticais e com um vocabulário diversificado, porém simples. Não enfatiza muito o retraimento social extremo, como Kanner fez uma vez, mas uma abordagem ingênua e inadequada das pessoas. Ele também observa a dificuldade dos pais em encontrar compromisso durante os três primeiros anos de vida de uma criança (BOSA, 2005). O trabalho de Asperger foi publicado em alemão no final da Segunda Guerra Mundial, dificultando a distribuição. Por isso, suas obras só se tornaram conhecidas nos últimos anos, com publicação em inglês. Asperger considera a síndrome que descreve diferente da de Kanner, embora reconheça semelhanças, pois ambos identificam as dificuldades nas relações interpessoais e na comunicação como as características mais marcantes do quadro. 12 Asperger também levantou a hipótese de um profundo distúrbio narcisista conhecido como "instinto". Coincidentemente, ambos usam o termo autismo (inicialmente na forma adjetiva - transtorno de exposição autista para Kanner e psicopatia autista para Asperger, e mais tarde na forma nominal - autismo infantil precoce) para descrever a natureza do comprometimento. Esta foi uma tentativa de destacar aspectos do intenso retraimento social observado em seus pacientes. Tanto Kanner quanto Asperger usam o termo para chamar a atenção para a qualidade do comportamento social que vai além da simples questão de isolamento físico, timidez ou recusa do contato humano, o que caracteriza especialmente a dificuldade em manter contato emocional com os outros, espontaneamente e vice- versa. A nosso ver, a reciprocidade - ou melhor, a privação - continua sendo um dos principais sinais do autismo. Portanto, o conceito de criança incomunicativa, isolada fisicamente e incapaz de expressão emocional, não corresponde às observações atuais de estudos nessa área. De qualquer forma, até Kanner chamou a atenção para as diferenças individuais entre os casos que observou: "11 crianças (8 meninos e 3 meninas), cujas histórias foram apresentadas rapidamente, apresenta, como seria de esperar, diferenças individuais no grau de seus distúrbios, em suas manifestações familiares e em sua evolução ao longo dos anos” (Kanner, 1943, APUD BOSA, 2005, p. 05). No final da década de 1960, a imagem "clássica" descrita por Kanner tornou- se popular entre os profissionais. No entanto, rapidamente ficou claro que havia grupos de crianças que tinham características semelhantes às identificadas por Kanner, mas ainda não correspondiam exatamente à sua descrição. É claro que os tipos de necessidades, em termos de intervenções, são, no entanto, semelhantes. Essa descoberta levou à fundação da primeira associação formada por familiares e especialistas na área do autismo, fundada na Inglaterra em 1962 - a National Autism Society. Os debates se multiplicaram, criando a necessidade de pesquisas sobre a relação entre autismo e outros transtornos do desenvolvimento, particularmente deficiências mentais, e problemas com linguagem e comunicação 13 3 CARACTERISTICAS DO TEA Fonte: encurtador.com.br/acLT6 3.1 Características comportamentais do Transtorno de Espectro Autista Por muito tempo, a ideia predominante de pessoas com autismo era ignorar o mundo ao seu redor, recusar-se a fazer contato físico, não olhar para as pessoas, e se interessar mais por objetos, outros ou até mesmo não diferenciando seus pais com um estranho na rua. A mídia e a literatura têm enfatizado a imagem do "gênio" disfarçado, engajado em movimentos repetitivos do corpo e aceno de mão. Kanner acreditava na inteligência das crianças com autismo, embora não o demostrassem. Tal concepção levou ao mito da criança "secretamente inteligente". A consequência imediata dessa noção é o risco de superestimar o potencial da criança, criando demandas sociais e intelectuais além de sua capacidade, com consequências desastrosas. Os cinemas são responsáveis por promover a ideia de queas pessoas com autismo têm talentos especiais (a capacidade de memorizar listas telefônicas, realizar cálculos complexos, desenhar com perfeição etc.). De fato, tais competências estão presentes em menos de 10% das pessoas diagnosticadas com autismo e são explicadas por uma combinação de comportamentos obsessivos e interesses sociais limitados, ou pela tendência de processar informações do ambiente de forma específica e não global (BOSA, 2005). 14 A troca de conhecimento proporcionada pelo avanço da pesquisa e a facilidade de comunicação entre pesquisadores de todo o mundo ajudaram a transformar essa situação. Embora se refira à "tríade do compromisso" no espectro do autismo (para usar o termo de Lorna Wing para os compromissos existentes nas áreas de comportamento social, linguagem e comunicação, rituais, preferências, estreitos e estereotipados - motivo e linguagem), enfatizamos a observação do autor de que esses aspectos não são "separáveis", como o termo sugere (BOSA, 2005). De fato, a expressão resulta de medidas estatísticas, demonstrando que os compromissos que aparecem nesses campos não ocorrem "aleatoriamente"; eles vêm juntos, embora com diferentes intensidades e qualidades. Ele passa a apontar as grandes diferenças que existem entre os indivíduos. Para o comportamento social, linguagem e comunicação, não é difícil dar significado teórico a este resultado estatístico, pois a linguagem inclui os restantes "dois domínios", portanto, do ponto de vista do futuro. Quando se trata de interação social (participação básica no autismo), pode ser difícil imaginar interações sem falar, tanto pela linguagem quanto pela comunicação (por palavras ou gestos, por contato visual, etc.). A criança com TEA segue rotinas rígidas e muito elaboradas, como seguir sempre o mesmo caminho, sempre colocar o lençol da mesma maneira ou exigir que seja sempre da mesma cor e padrões de locomoção (balançar o corpo, agitação, braço ou movimento repetitivo da mão na frente do rosto), esta é claramente a área de estudo menos investida. Por outro lado, descobrimos que os estereótipos são comportamentos que pouco fazem para distinguir as pessoas autistas de outras pessoas com deficiência, que não possuem características autistas (por exemplo, deficiências mentais ou sensoriais, etc.). Por outro lado, os rituais tendem a ser mais específicos do autismo (se acompanhados de compromissos sociais). É importante notar que algumas peculiaridades não são específicas do autismo, incluindo o clássico e conhecido "equilíbrio corporal". O comportamento tem funções diferentes dependendo da situação. Assim, um mesmo comportamento pode desempenhar diferentes funções: tensão avassaladora, comunicar desejos e necessidades, formas de protesto ou mesmo responder às exigências da sociedade, no caso de nenhum outro comportamento ser mais adequado. Por exemplo, uma 15 criança pode apresentar uma fala repetidamente, mas não entender as palavras que fala, em resposta à “conversa adulta". Pais e profissionais estão cientes do surgimento de estereótipos em situações de medo, cansaço e tédio, com tendência a aumentar em situações em que a pessoa está inativa (por exemplo, assistir TV). Situações inesperadas e, portanto, incontroláveis também podem causar tais comportamentos com grande agitação e angústia: uma pequena chuva; um objeto quebrado; qualquer acidente, como um pneu furado; desalinhamento; uma ponta do tapete que "continua" dobrada (BOSA, 2005). As pessoas com autismo permanecem muito sensíveis às mudanças de humor das pessoas com quem convivem, talvez porque estejam cientes de mudanças sutis, como: tom de voz, expressões faciais ou pressão do toque, mesmo que não saibam como "interpretar" o significado de toda essa gama de comportamento não-verbal. Um professor percebeu a grande agitação de um adolescente no dia em que soube da doença de um de seus parentes. Outro aspecto notável é a suposta desconexão com o mundo circundante (BOSA, 2005). 3.2 Critérios de identificação e manifestações do TEA O TEA envolve uma série de sintomas que se manifestam em graus variados de comprometimento. Riviere (2004) apresenta 12 dimensões que caracterizam o TEA. Você pode ver essas dimensões reorganizadas e sintetizadas a seguir. 3.2.1 Estabelecimento de vínculos A criança ou o adulto com TEA apresenta dificuldade ou incapacidade de estabelecer vínculos afetivos e de se relacionar com as pessoas. Também tem dificuldade para compartilhar interesses e atividades. A falta do contato visual (olho no olho), a desatenção ao interesse do outro e a ausência do sorriso social são alguns aspectos que afetam a qualidade da relação entre ela e as outras pessoas. Ela também não demonstra reciprocidade nas relações, por isso as tentativas de envolvê- la em brincadeiras que exigem trocas colaborativas costumam fracassar. Em um grau mais leve de comprometimento dessas capacidades, a criança ou o adulto com TEA 16 pode apresentar pouca motivação para se relacionar com iguais devido à falta de empatia e à dificuldade na comunicação. Em um grau mais profundo, se apresenta alheia, em estado de total isolamento, sem motivação para busca espontânea de relacionamento interpessoal. 3.2.2 Teoria da mente Outra característica presente nesse grupo de transtornos é a falta de intersubjetividade, ou seja, a criança ou o adulto com TEA apresenta dificuldade para compreender as pessoas e também para empatizar com elas. Isso ocorre porque ela não desenvolve uma “teoria da mente”, ou seja, é incapaz de se colocar no lugar do outro, de adivinhar suas intenções, interpretar suas expressões faciais e emoções. Como consequência, tende a interpretar as falas e o comportamento das pessoas de forma literal, sem conseguir “ler” o que está por trás de um comportamento ou comunicação (RIVIERE, 2004). O grau de comprometimento da capacidade de “ler a mente do outro” pode variar em indivíduos com TEA. Em grau leve, é possível que tenham certa consciência do que as pessoas têm em mente e alguma capacidade de julgar, ainda que precariamente, suas intenções. 3.2.3 Linguagem e comunicação De acordo com Riviere (2004), a comunicação é uma das áreas mais afetadas no TEA. Fica comprometida a capacidade de usar a linguagem para externar ideias, sentimentos e desejos, seja por meio de palavras ou de expressões gestuais. Além disso, o TEA provoca dificuldades para compreender a linguagem “para além do que é dito”, ou seja, há uma tendência a compreender literalmente o que se diz. Assim, os indivíduos com TEA têm dificuldade para interpretar ironias, frases de duplo sentido e linguagem metafórica. O desenvolvimento da linguagem oral em crianças com TEA pode estar comprometido ou não, variando desde o total bloqueio dessa capacidade até o desenvolvimento sofisticado dela. A ausência da linguagem oral em crianças com TEA 17 não significa que não sejam capazes de falar. Elas não falam por serem incapazes de se comunicar. Quando falam, é uma fala fora de contexto e meramente expressiva, sem a intenção de comunicação. Em um grau leve de comprometimento da linguagem, a criança pode fazer uso da fala para se expressar, porém sua fala é pouco ou nada funcional. Ou seja, ela pode não filtrar o que diz e falar coisas totalmente fora do contexto. Quando existe a fala funcional (voltada para a comunicação), parece estar voltada muito mais para a intenção de comunicar seus interesses restritos do que para compartilhar ideias com seu interlocutor, o que é pouco adequado às situações interativas. Em um grau profundo, a comunicação é totalmente ausente. A pessoa com TEA apresenta mutismo total ou funcional. Pode ser que ela faça pequenas verbalizações não linguísticas, ou seja, sem a intenção de estabelecer comunicação ou diálogo. O mutismo funcional ocorreem forma de ecolalias (repetir palavras e frases aleatoriamente e fora de contexto). As dificuldades de compreensão também são variáveis. Há casos em que a criança compreende o discurso do interlocutor, mas tem dificuldade para diferenciar o significado literal da fala e a sua intencionalidade. Também há situações em que a criança manifesta um tipo de “surdez central”, ou seja, ignora por completo a linguagem, não respondendo a ordens nem a chamados. 3.2.4 Dificuldade de antecipar eventos Outra característica relacionada ao déficit de interação e comunicação social em pessoas com TEA é que elas apresentam dificuldade na formação de esquemas ou no uso de esquemas cognitivos de antecipação, os quais permitem antecipar os eventos (o que vai acontecer numa sequência de eventos). Isso faz com que elas sejam intolerantes a alterações de rotina, preferindo um mundo sem mudanças. O grau de comprometimento nas competências de antecipação pode variar. Há pessoas que, mesmo preferindo ambientes previsíveis, são capazes de regular a estrutura de seu próprio ambiente e manejar as mudanças. Por outro lado, há aquelas extremamente inflexíveis a situações inusitadas. A rigidez comportamental desses indivíduos pode ser exemplificada pelas crises causadas diante da quebra de rotina 18 ou ainda quando se fixam na repetição sistemática de determinado comportamento, como o de assistir a um mesmo filme repetidamente (RIVIERE, 2004). 3.2.5 Inflexibilidade e estereotipias Segundo Riviere (2004), a falta de flexibilidade é também uma característica relacionada ao funcionamento mental e ao comportamento da pessoa com TEA. Tal característica se manifesta na dificuldade de estabelecer estratégias maleáveis na atividade cognitiva e na obsessão por certos conteúdos mentais, ou seja, o pensamento se apega repetidamente a determinados assuntos ou temas. Já no aspecto comportamental, a manifestação de inflexibilidade se apresenta sob a forma de comportamentos repetitivos e estereotipias motoras, como movimentar repetidamente as pontas dos dedos das mãos, balançar o corpo para frente e para trás, entre outros. O grau de comprometimento da capacidade de flexibilizar o pensamento e o comportamento pode variar. Há indivíduos que apresentam algumas estereotipias motoras simples (gestos “esquisitos” e pouca flexibilidade mental), assim como há níveis de comprometimento em que o indivíduo apresenta comportamento excessivamente ritualístico, com pensamentos obsessivos e rígido perfeccionismo. Outra característica presente no TEA é a dificuldade em dar sentido à própria ação. A pessoa com esse transtorno pode ser totalmente incapaz de atribuir sentido à sua forma de se comportar e se expressar. Nos casos mais graves, há vazio de ação funcional, ou seja, uma ausência de finalidade devido à incapacidade de planejamento da ação. 3.2.6 Ausência do jogo simbólico e da capacidade imitativa A ausência do jogo simbólico é uma das características influentes no atraso do desenvolvimento cognitivo e psicossocial das crianças com TEA. O jogo simbólico é uma forma de faz de conta em que a criança recria a realidade por meio de símbolos. A ausência do jogo simbólico reflete o comprometimento da capacidade imaginativa, o que você pode compreender melhor por meio do seguinte exemplo: um 19 grupo de crianças brinca com peças de montar e interage disputando quem consegue montar mais coisas. Aos poucos, as peças unidas vão se transformando em elefantes, carros, girafas, aviões, cachorros, etc. Nesse mesmo grupo, há uma criança com TEA cujas funções simbólicas estão altamente comprometidas. Ela está no grupo, mas não interage com as crianças, prefere brincar sozinha e de maneira diferente. Mostra interesse pelas peças, mas o seu brincar se limita a alinhar e realinhar repetidamente as peças de uma mesma cor. A capacidade imitativa é um elemento importante do desenvolvimento psicossocial, pois é pela imitação que se origina grande parte do aprendizado e da condição de adaptação social. A criança com TEA apresenta defasagem ou ausência dessa capacidade, ou seja, não imita os adultos nem outras crianças. Isso funciona como obstáculo para que ela encontre nas outras pessoas uma referência na qual possa se espelhar e com a qual se identifique. A incapacidade de imitar é, ao mesmo tempo, um reflexo e uma condição das limitações simbólicas e intersubjetivas das crianças com TEA. Dependendo do grau de comprometimento nessa área, a criança pode fazer algumas imitações mecânicas, realizadas somente a partir de modelos externos, ou apresentar ausência completa de condutas imitativas. De acordo com Riviere (2004), no que se refere à forma de agir e se comunicar, a criança ou o adulto com TEA apresenta dificuldade ou incapacidade para criar significantes, ficando presa aos significantes reais. Por exemplo: para uma criança com TEA, uma fileira de cadeiras é apenas uma fileira de cadeiras, não poderá ser outra coisa. Já para uma criança que não possui esse transtorno, uma fileira de cadeiras pode ser simbolizada e transformada, em sua imaginação, em bancos de um ônibus. As crianças sem o transtorno conseguem deixar em suspenso as propriedades reais e literais das coisas, pois sabem que, mesmo fingindo que as cadeiras são os assentos de um ônibus, elas não perdem sua propriedade real. O comprometimento da capacidade imaginativa pode ser de grau leve, quando as crianças simplesmente não conseguem suspender um significado para substituí-lo por outro que não corresponde à realidade, ou de grau severo, caso em que há um dano profundo na 20 capacidade de comunicação, impossibilitando qualquer atribuição de novos significantes. Com o diagnóstico conclusivo, é possível exigir o cumprimento dos direitos das crianças e adultos com TEA ou outros transtornos invasivos do desenvolvimento. Com a Lei nº. 12.764/2012, a pessoa com transtorno do espectro do autismo passou a ser considerada pessoa com deficiência para todos os efeitos legais, podendo usufruir de todos os direitos assegurados a esse grupo. A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº. 13.146/2015) foi outro marco legal fundamental à garantia do direito à educação inclusiva, afirmando o direito das crianças com TEA que apresentam grau acentuado de comprometimento de serem acompanhadas em sala de aula por um professor auxiliar. Essa lei garante também o direito de acesso a tecnologias assistivas para a comunicação alternativa e aumentativa. A conscientização acerca desse tema também é de suma importância. Por isso, a ONU definiu o dia 2 de abril como o Dia Mundial da Conscientização do Autismo. 4 FLOORTIME Fonte: https://bityli.com/kWEoBTm Desenvolvido pelo psiquiatra infantil Stanley Greenspan juntamente com a psicóloga clínica especialista em desenvolvimento infantil Serena Wieder, o modelo D. I. R. (Desenvolvimento, Individual-diferenças e Relação), Floortime é uma abordagem de tratamento que leva em conta a filosofia de interagir com crianças com 21 autismo. Baseia-se na premissa de que a criança pode melhorar e construir um amplo círculo de interesses e interações com um adulto que conhece a criança, independentemente do estágio atual de desenvolvimento da criança e da pessoa que a ajuda a explorar e fortalecer a força da criança (RIBEIRO; CARDOSO 2014). As crianças com autismo têm dificuldade em mover-se espontaneamente através desses marcos ou escalar esses estágios devido ao aumento ou diminuição das respostas sensoriais e/ou controle deficiente dos comandos físicos. Em Floortime, os pais entram em um jogo que a criança gosta ou está interessada e seguem os comandos instruídos pela criança. A partir desse engajamento mútuo, o pai ou adulto engajado na terapia é orientado em como conduzir a criança a interações mais complexas, processo conhecido como“abrir e fechar” o círculo de comunicação (RIBEIRO; CARDOSO 2014). O tempo de atividade não isola ou foca em diferentes habilidades como habilidades verbais, motoras ou cognitivas, mas direciona essas habilidades com precisão, com ênfase no desenvolvimento emocional. A intervenção é chamada de Tempo Ativo porque os adultos vão para o chão, para que possam interagir com a criança ao seu nível e olho no olho. Tem como objetivo ajudar as crianças com autismo a se tornarem mais alertas, mais proativas, mais flexíveis, tolerar frustrações, planejar e executar sequências, comunicar-se através do corpo, gestos, linguagem, linguagem de sinais e fala infantil. A abordagem Floortime, “tempo no chão”, é incorporada ao modelo DIR como estratégia fundamental para organizar o brincar com as crianças e possibilitar sua evolução em relação aos níveis de desenvolvimento. Baseia-se na ideia de que emoções e sentimentos são fundamentais para o desenvolvimento mental e intelectual, e esse desenvolvimento é alcançado por meio de jogos interativos de chão, com o objetivo de ampliar a socialização e a linguagem das pessoas autistas, reduzir seus comportamentos atípicos, simplificar a compreensão das crianças e suas famílias, para integrar e organizar as funções necessárias ao seu desenvolvimento. Floortime foi instituído com o propósito de promover a socialização, melhorar a linguagem e reduzir os comportamentos repetitivos das crianças com deficiência, incluindo as crianças com autismo, bem como criar condições para que as crianças e 22 as famílias compreendam, conheçam, definam, sistematizem e integrem as funções necessárias ao desenvolvimento competência. É uma abordagem que pode ser utilizada por profissionais como terapeutas ocupacionais e/ou familiares capacitados - devido ao maior tempo de convivência com as crianças, em que não há certo ou errado no jogo, mas sim uma interação em que ambos os lados estão sempre aprendendo (RIBEIRO; CARDOSO, 2014). É uma abordagem que é considerada uma técnica específica, na qual os adultos interagem com as crianças no chão por meio de brincadeiras, e como filosofia geral que caracteriza todas as interações diárias das crianças. Uma abordagem que envolve a comunicação espontânea entre uma criança e um adulto (profissional ou familiar treinado) que incentiva a iniciativa infantil, o comportamento intencional e melhora o comprometimento, vínculo e interesse mútuo das crianças (RIBEIRO e CARDOSO, 2014). Os principais objetivos do Floortime são: I. Deixar as crianças entrarem no mundo através da brincadeira, da imitação e do estímulo à iniciativa infantil e II. Trazer as crianças para um mundo comum, criando condições para que as crianças sejam fáceis. E, para isso, conta com um processo terapêutico baseado em cinco etapas: Avaliação/Observação, na qual busca conhecer como a criança brinca e o estágio da brincadeira da criança, a fim de desenvolver a melhor forma de abordá-la em seu mundo; Abordagem - Círculo aberto de comunicação, no qual, com auxílio de gestos ou palavras, são estabelecidas as primeiras interações comunicativas com a criança, buscando iniciar um vínculo; Acompanhar a iniciativa das crianças quando elas brincam, entrar no mundo infantil para interagir com a criança e expor o significado da 23 brincadeira escolhida pela criança, pois a vontade da criança é a porta de entrada para a vida emocional e a inteligência infantil; Ampliar e desenvolver gradativamente o brincar, estimular habilidades, das menos complexas às mais complexas, e ajudar as crianças a expressar suas ideias, vendo como entrar em seu próprio mundo pode criar uma gama de oportunidades para ajudar as crianças a se desenvolverem e progredirem em todos os níveis de relacionamento, comunicação e reflexão; e Fechar os ciclos de comunicação, aumentar a comunicação para frente e para trás. (RIBEIRO; CARDOSO, 2014) As intervenções Floortime têm como principal objetivo permitir que a criança se veja como uma linguagem interativa, social e uma capacidade cognitiva desenvolvida a partir de suas próprias intenções, ou seja, fazer com que a criança se veja como um ser proposital. que pode, por vontade própria, estabelecer conexões sociais. O objetivo é então progredir através dos seis estágios funcionais e emocionais. Os recursos utilizados durante as sessões Floortime focam no auto uso pelo terapeuta ou família, onde uma pessoa busca expressar sentimentos e emoções por meio de mudanças na voz, expressões faciais, toque e seu raciocínio clínico, seguindo o exemplo ou iniciativa da criança e dando significado para as brincadeiras escolhidas pela criança, mas ao mesmo tempo para a realidade - que, segundo os pais, é a parte mais difícil do processo - e para os brinquedos ou materiais que estão disponíveis naquele local, no exato momento, com quase todos os objetos que podem ser usados em diferentes locais, como cestas de supermercados por exemplo, são simples mas acabam por afetar a eficácia do Floortime (RIBEIRO ; CARDOSO, 2014). Entre eles está a importância de identificar com antecedência os bons momentos do dia para a criança, em que a sessão pode ser feita, para torná-la algo prazeroso. Além disso, é preciso ficar atento ao local da reunião, escolher um local seguro, para não deixar a operação ser interrompida; e pela duração da sessão, que durará cerca de 20 minutos. Por fim, é importante ressaltar que a aula deve ser sempre 24 divertida para a criança, proporcionando-lhe momentos e experiências emocionantes. (RIBEIRO; CARDOSO, 2014). 4.1 Modelo D.I.R A nomenclatura D.I.R resume o objetivo do modelo e significa Desenvolvimento, Individual-diferenças e Relação. Entretanto, iremos caracterizar cada uma dessas letras. Nesse sentido, a letra "D" significa Desenvolvimento Emocional Funcional, descreveria o desenvolvimento do ponto de vista de um indivíduo, então inclui um processo de desenvolvimento único que será primordial para ajudar cada pessoa a ser respeitada e são guiados em seu próprio passeio, se necessário. Ou seja, o compreende o desenvolvimento da criança por meio de etapas graduais, o que proporciona a capacidade de se envolver e se relacionar com os outros (DIOGO; SILVA, 2021). Isso inclui a promoção do desenvolvimento e potencial de habilidades: 1) Autorregulação e cuidado com o mundo. 2) Engajamento e Atenção Compartilhada. 3) Intenção e comunicação bidirecional. 4) Resolução de problemas, Regulação de humor e a formação de um senso de si mesmo. 5) Jogo criativo e pensamento simbólico. 6) “Construir pontes” entre ideias logicamente. Por sua vez, a letra I fala das diferenças individuais, ou seja, como cada pessoa consegue se autorregular, reagir e compreender o mundo ao seu redor, e até como reage de acordo com as formas biológicas a estímulos como som e toque, estrutura, planejamento e sequenciamento motor e visual, sempre enfatizando a singularidade que existe em cada ser humano. Compreender tal singularidade, fica mais fácil aplicar técnicas de intervenção que ajudarão as crianças a ter um processo de aprendizagem saudável e feliz. Entender que toda criança é criança, e que uma criança no espectro 25 se torna ainda mais única, é fundamental para desenvolver um plano terapêutico individual que compreenda o funcionamento sensorial de cada indivíduo, promovendo assim o desenvolvimento das habilidades explicadas na letra “ D”. (DIOGO; SILVA, 2021). Por fim, a letra “R” representa os relacionamentos, responsáveis por descrever sua influência no desenvolvimento, já que o homem é uma entidade completamente relacionada. Greenspan e Wieder (2000) enfatizam a importância de compreender como essas relações podem acelerar ou retardar o desenvolvimento, visto que as relações dessas crianças com pais,terapeutas, professores, familiares podem determinar suas habilidades de desenvolvimento e não aprendizagem (DIOGO; SILVA, 2021). É essencial que as crianças vivam uma relação de qualidade em que adultos as validem e se envolvam com elas no seu quotidiano, estabelecendo limites e acompanhando-as na sua fé. Para Greenspan e Wieder (2000) assim como para Maia (2009), tais atitudes certamente estimularão o autocontrole da criança, que é a base do desenvolvimento saudável esperado durante o seu crescimento. O principal objetivo do modelo para crianças com TEA é que as crianças se tornem autoconscientes, desenvolvam a cognição e adquiram habilidades sociais e de linguagem básicas, para atingir seis níveis básicos de desenvolvimento, ou seja, o nível mencionado acima. 4.1.1 Níveis de desenvolvimento Greenspan e Wieder (2006) detalham seis níveis básicos de desenvolvimento, o primeiro dos quais, denominado " Autorregulação e cuidado com o mundo", envolve o estabelecimento de contato visual, sorrisos e sons vindos da boca, pesquisas sobre interação social, assim como a capacidade da resolução do problema mantendo a calma e superando as frustrações emocionais nomeando primário. O segundo se referem à "Engajamento e Atenção Compartilhada", que é o momento em que a criança responde melhor aos estímulos apresentados pelo outro, mostra interesse e confiança nessa pessoa, expressa a capacidade de superar problemas emocionais com o apoio de outros. 26 No terceiro nível, a criança apresentava Intenção e comunicação bidirecional, ou seja, a criança respondia a gestos e expressava emoções como alegria, raiva, curiosidade. O quarto nível refere-se à Resolução de problemas, Regulação de humor e a formação de um senso de si mesmo, então a criança é capaz de compreender a intenção da outra pessoa, além de responder a essa intenção por meio da linguagem, usando gestos, palavras, fala ou simplesmente movendo-se. O quinto nível envolve a Jogo criativo e pensamento simbólico, permitindo que a criança brinque com jogos imaginários, simbólicos e outras atividades menos concretas. Finalmente, o nível seis envolve a Construir pontes” entre ideias logicamente, nas quais as crianças podem comunicar seu desejo de resolver problemas sociais em jogos interativos. Breinbauer (2006) compara o DIR a uma estrutura piramidal, na qual cada componente é construído em cima do outro. Na base da pirâmide, espera-se encontrar proteção, estabilidade emocional e apoio para outros relacionamentos com base no padrão ensinado e fornecido pela família. No segundo nível da pirâmide, estão as relações de vínculo necessárias para que a criança adquira as habilidades cognitivas e emocionais, cujo ajuste permite que a criança mantenha o prazer na intimidade e uma segurança e atenção que possibilitam novos aprendizados. Somente no terceiro nível da pirâmide estão as abordagens que devem ser utilizadas pelos terapeutas e principalmente pelos pais, pois passam mais tempo com os filhos em casa, em algumas das abordagens são: (a) Floortime, a qual será amplamente explicadano próximo tópico, é a abordagem que visa encorajar a iniciativa da criança e o comportamento intencional através de atividades que ocorrem no chão com base nos interesses da criança; (b) Peer-Play (jogos de pares), na qual se estimula a integração e comunicação da criança, por meiode jogos e brincadeiras realizados em pares; 27 (c) Problem-Solving Interactions (interações para solução de problemas), a qual abrange interações semiestruturadas de solução de problemas a fim de que se conquiste novas habilidades e conceitos (GREENSPAN; WIEDER, 2006). Para Greenspan e Wieder (2006), essas habilidades são essenciais para o desenvolvimento de relacionamentos afetivos, empatia e espontaneidade, bem como para um melhor desempenho acadêmico. É imperativo que o desenvolvimento dessas habilidades seja feito de forma gradual, sem pressa, e para preencher as lacunas, pois as lacunas nas habilidades elementares tornam o aprendizado de habilidades mais abstratas e as habilidades superiores tornam-se mais difíceis. 5 MÉTODO MONTESSORIANO Fonte: encurtador.com.br/tuHYZ/ A perspectiva educacional é construída por Montessori com base na pedagogia científica, baseada na educação emocional e é realizada de acordo com os princípios do método experimental. A educação, desde o final do século XIX, passou por grandes mudanças devido ao desenvolvimento da pesquisa científica na região. Inegavelmente, parte da contribuição para essa conquista vem da pesquisa e prática conduzidas por Maria Montessori, bem como dos princípios e recomendações desenvolvidos e implementados por ela e seus discípulos. A criança, sua liberdade, 28 seu autocontrole e seu crescimento são questões persistentes em suas preocupações e questões cruciais em sua batalha. A perspectiva educacional aqui se desenvolve no marco de uma pedagogia científica, baseada nas diferentes ciências, com foco na educação, cultura, biologia e fisiologia humana, como condição básica para assegurar o desenvolvimento humano livre e independente, que busca alcançar sua vida plena vivendo. De acordo com Montessori (1957 p. 115): A criança de 3 a 4 anos deve sentir-se capaz de fazer muitas coisas sozinha: vestir-se, despir-se, sem precisar da ajuda do adulto. Saber executar por si mesma as ações práticas da vida sem que outra faça por ela, ou esteja à sua disposição. É então que a criança começa a se interessar por atividades intelectuais, e chega a escrever aos 4 anos e 6 meses. Isso é tanto mais interessante na medida em que a criança tem consciência e consegue verbalizar essa necessidade: “Ajude-me a fazer sozinho” O ideal da escola nesta pedagogia, consiste em assegurar a expressão espontânea e a personalidade da criança, em permitir o livre desenvolvimento da atividade humana na infância. A nova escola Montessori é, portanto, bem diferente da proposta feita na Itália sob o regime fascista. Os princípios de autonomia, liberdade e ativismo são inconsistentes com os ideais de controle e submissão nacionalista desenvolvidos por Mussolini. Para Montessori (1957, p. 105): A escola deve ser um lugar onde a instrução seja facilitada em todos sentidos, e o programa deve ser uma ajuda para orientar-se. O importante é que na instrução ocorra um progresso real sem que a personalidade sofra. E a experiência mostra não apenas que a criança não sofre no estudo, mas também que o exercício mental reforça sua inteligência. Porém, como as crianças não são todas iguais, e suas possibilidades de aprender variam, assim como suas aptidões individuais para as diversas matérias, o agrupamento por series escolares e por disciplinas, como nos programas estabelecidos hoje, torna-se um obstáculo para o desenvolvimento individual. Um aluno deve seguir adiante sempre que tenha atingido o grau de maturidade necessário, e não é indispensável que todas as disciplinas colaterais procedam da mesma maneira, a não ser aquelas entre as quais exista uma verdadeira interdependência. Por esta razão, os programas tem uma importância orientadora. 29 Montessori ofereceu algo novo para sua época, mas inovador até hoje, constituindo um método ativo de preparar racionalmente os indivíduos para sensações e percepções. É uma educação baseada no desenvolvimento dos sentidos, com importante valor pedagógico e científico, pois o desenvolvimento dos sentidos precede o desenvolvimento das atividades intelectuais superiores, segundo seus créditos. De acordo com Montessori (1965, p. 176), “A educação dos sentidos afina a percepção das diferenças dos estímulos, por meio de exercícios repetitivos”. A escola que adota o método montessoriano estabelece suas aulas com base na proposta pedagógica Montessori definida pela convivênciaentre crianças de diferentes idades e a capacidade de trabalhar individualmente é garantida pela liberdade e autonomia de escolha entre as aulas. Os materiais são disponibilizados em um ambiente organizado para o aprendizado contínuo. A primeira infância é caracterizada por um período em que o desenvolvimento natural da criança deve ser apoiado, uma vez que o desenvolvimento físico da criança ocorre de forma rápida e paralela à formação das atividades espirituais e sensoriais. O treinamento, na visão montessoriana, pode possibilitar o desenvolvimento da atenção após a observação do ambiente, essencial para a formação de homens observadores, adaptados ao seu tempo e bem preparados para as atividades cotidianas da vida prática. Portanto, a educação prática coloca as pessoas em contato direto com o lado prático da vida, com o mundo exterior, possibilitando compreendê- lo (OLIVEIRA-FORMOSINHO; KISHIMOTO; PINAZZA, 2007). 30 5.1 Os educadores Fonte: encurtador.com.br/buLZ6 Na visão montessoriana, a criança guarda dentro de si o melhor potencial, que precisa ser despertado para um melhor desenvolvimento humano. Os ideais pedagógicos da pedagogia científica residem na crença de que a educação é permitir a livre expressão do ser, liberar seu potencial para que possa florescer. O princípio básico que sustenta a educação e o cultivo da pessoa baseia-se na estimulação de um ambiente adequado e estimulante, que possa educar os sentidos, despertar a vida intelectual da criança e prepará-la para as atividades práticas e cotidianas da vida, proporcionando-lhes as condições para serem autossuficientes sem isolamento (OLIVEIRA-FORMOSINHO; KISHIMOTO; PINA- ZZA, 2007). Para isso, Montessori definiu claramente seu campo de atuação, definir suas possibilidades de escolha e permitir liberdade de ação em um ambiente preparado com documentos pré-estabelecidos para lidar com seus períodos sensíveis. Para ela: A criança realiza suas atividades durante os períodos sensíveis, que podem ser comparados a um farol luminoso que ilumina de dentro, ou a Um campo elétrico provoca fenômenos ativos. É essa sensibilidade 31 que permite à criança entrar em contato com o mundo exterior com intensidade incomum (MONTESSORI, 2019, p.56). O Período sensível foi estudado e descoberto em animais pelo cientista holandês De Vries. Montessori adaptou e ampliou o escopo desses estudos, reconhecendo a existência semelhante de períodos sensíveis nas crianças, que podem ser explorados por meio do processo educacional. Por meio da observação metódica do desenvolvimento morfológico das crianças, Montessori conseguiu identificar esses estágios e estabelecer necessidades e interesses específicos, além de uma sequência natural de dificuldades. Assim, ela foi capaz de determinar as melhores condições físicas e determinar o melhor ajuste para o ambiente educacional. Ela acredita que essa preparação será a forma adequada de servir a criança ao longo de seu desenvolvimento evolutivo. Portanto, o livre desenvolvimento da atividade por meio do método experimental exige grande atenção à organização e preparação do ambiente para que a criança possa usufruir dos princípios de autonomia e responsabilidade por suas próprias ações, suas escolhas, na exploração e compreensão do mundo ao seu redor, e com ela aprender a crescer. A padronização proposta mostra-se de fundamental importância para o aprimoramento das operações dos sensores, permitindo autocontrole, segurança nas escolhas e na execução das operações. A normalização envolve o encontro da criança consigo mesma, em sua busca por um silêncio interior que lhe permita ouvir a si mesma e até ouvir ruídos que existem no silêncio. É o controle das sensações, coordenação motora e o desenvolvimento da atenção, percepção, observação que permite a execução correta das atividades com materiais educativos. Na situação silenciosa, a criança busca compreender seu papel divino no universo, estabelecendo perfeita harmonia com um projeto divino que lhe foi imposto: o encontro com o sentido de sua existência. Conforme descrito, o ambiente para o alcance dos objetivos educacionais deve ser preparado e construído de acordo com um ambiente de trabalho ideal que privilegia a introspecção e as condições para a realização autônoma e independente do movimento para explorar o mundo da 32 consciência, de acordo com sua inclinação natural (OLIVEIRA- FORMOSINHO; KISHIMOTO; PINAZZA, 2007). É uma recomendação clara de um ambiente ativo, baseado na atividade da criança, não nas regras definidas ou dadas pelo professor. Porque, como observou Montessori, a aprendizagem das crianças não pode ser guiada pelos professores, mas pela natureza humana externa durante os períodos sensíveis. Nesse novo ambiente, os professores saem de seus assentos, saem do púlpito e criam espaço para que as crianças determinem suas próprias abordagens e escolhas de acordo com seus interesses e curiosidades naturais. Professores e materiais são elementos compartilhados que convivem em sala de aula para garantir a educação das crianças. No entanto, a configuração deste ambiente está limitada a materiais padronizados apresentados às crianças pelo professor/instrutor/diretor. Somente após a apresentação do professor o material pode ser fornecido à criança. Observe que os materiais utilizados pelo Montessori não podem ser confundidos com os brinquedos ou jogos fornecidos à criança (OLIVEIRA- FORMOSINHO; KISHIMOTO; PINAZZA, 2007). De fato, ela sugeriu que o material seja utilizado de forma pedagógica para que possa promover o desenvolvimento cognitivo, sensório-motor e outros. Antes disso, os jogos e brinquedos eram vistos como algo inferior na vida da criança, como uma atividade ociosa, usada na falta de algo melhor para fazer. São atividades consideradas pouco benéficas para o desenvolvimento da criança. O uso de casinhas e cantos de bonecas por Montessori nos possibilita perceber que além das atividades da vida prática, há um certo tipo de brincadeira em sua proposta, a brincadeira simbólica. Promove a autocompreensão das crianças, o conhecimento das situações vividas, a construção da visão de mundo, a sensibilidade e a consciência no reconhecimento e no desempenho de papéis na vida, no cotidiano das crianças, construindo-os e expressando-os por meio de representações. Na pedagogia Montessori, o principal esforço do professor é construir e preparar o ambiente, apresentar os materiais e orientar os alunos para que os alunos não percam tempo e energia que podem ser desperdiçados com eles. Portanto, o 33 papel do professor é possibilitar que as crianças sejam mais presentes e atuantes no ambiente educacional (OLIVEIRA-FORMOSINHO; KISHIMOTO; PINAZZA, 2007). A preparação e organização do ambiente é responsabilidade do professor; no entanto, sua abordagem deve ser aquela que profilática, decisivamente, atue por meio da educação indireta e permita que a criança descubra seu potencial latente. 5.2 Educação da criança A criança deve se beneficiar de uma educação voltada para o desenvolvimento da personalidade humana e de suas potencialidades: a educação não é o que o professor dá, é um processo. processo natural que se desenvolve espontaneamente na pessoa individual. A tarefa do professor não é falar, mas preparar e organizar uma variedade de modelos de atividades culturais em um ambiente claramente preparado. Nesse sentido autoeducação das crianças, o educador deve “ajudar o bem para a vida”, começando com a criança e terminando com o adulto (MONTESSORI,1971, p.15) A autoconstrução da criança é a descoberta desse potencial. A lei das sensibilidades nos permite compreender que não é a idade que determina a dificuldade de aprender, mas o potencial do indivíduo que determina a dificuldade de um estudo. Observaras crianças ajudou Montessori a descobrir que as melhores idades para aprender a escrever eram entre 3 anos e 6 meses e 4 anos e 6 meses e ao final desse período a criança parecia desinteressada, concluindo que só deveria aprender a escrever por idades de 6 e 7 anos ignorando o aspecto sensorial da linguagem: perceber os contornos da forma das letras suavemente (com a "escrita do dedo") e fazer com que a forma corresponda a um som. O período de 7 a 9 anos é um período sensível para a gramática: este aspecto do estágio da linguagem, mais intelectual, onde a construção da linguagem fascina a criança e onde se concentra a atenção nas relações entre as palavras. Na escola Montessori, o “jogo educativo” utilizado nessa época envolvia a classificação das palavras por sufixo, prefixo, singular, plural, gênero, etc.; a classificação das palavras de acordo com sua relação ou função e a análise de frases. 34 Segundo Montessori, existem três "circunstâncias favoráveis", "pontos externos necessários" para a criação da criança: o ambiente adequado, o professor humilde e a literatura científica. 5.3 Ambiente educacional O primeiro elemento da educação é o “ambiente agradável e tranquilo” proporcionado à criança, “sem restrições”, e dele fazem parte os adultos. O ambiente “facilita a expansão dos organismos em crescimento, reduzindo os obstáculos ao nível mais baixo possível. O ambiente capta energias, porque fornece os meios necessários para o desenvolvimento da atividade que dele resulta”. Começa com “terreno agrícola, bastante grande, externo, adjacente à escola”, de preferência “comunicando-se diretamente com a escola (MONTESSORI,1936, p.155). A principal mudança ambiental está no interior da escola, eliminando o sofá e adotando a configuração da lareira interna, uma "casa" que se adapta à criança: cadeirinhas, mesinhas (com toalha, jarra de flores e arranjo floral), outras coisas de diferentes formas e tamanhos, várias poltronas pequenas, uma pia muito baixa (com prateleiras laterais brancas e laváveis para saboneteira, escova pequena e toalhas), armário baixo e comprido com várias portas (com chaves e fechaduras para abrir, fechar e colocar objetos) e coberta com toalhas, pequenas lousas nas paredes (entre elas caixas de giz e borracha), nas quais estão alinhadas fotos (de crianças, cenas de família e campo, animais de estimação). Com uma casa feita de réguas, a criança pode escolher a posição que gosta (ao invés de sentar em uma cadeira), com alguns movimentos menos graciosos da mesa e da cadeira, ela viverá seu hábito e saberá se movimentar (OLIVEIRA- FORMOSINHO; KISHIMOTO; PINAZZA, 2007). A sala de aula torna-se um “ambiente preparatório” no qual ocorre a aprendizagem ativa. Suas atividades devem sempre levar à realização do potencial da criança. Quando deixamos de aprender, vem o castigo natural que Montessori definiu, na Descoberta da Criança, como a perda da consciência de nossa própria 35 força e grandeza que constitui o caráter de nossa criança. (OLIVEIRA- FORMOSINHO; KISHIMOTO; PINAZZA, 2007). Os professores devem procurar compreender as complexidades do desenvolvimento das crianças à medida que atingem a idade adulta instável, mas dinâmica. A impaciência da criança para o desenvolvimento faz com que a criança já tenha o desejo de conhecer, comparar, classificar, avaliar, a ânsia da curiosidade sem fim e a busca pela independência. A tarefa pedagógica é estruturar a sala de aula como um ambiente preparatório para organizar e compreender as experiências e impressões existentes na criança (OLIVEIRA- FORMOSINHO; KISHIMOTO; PINAZZA, 2007). O plano de aprendizagem deve sempre antecipar os impulsos inatos da criança, deve ser delineado com antecedência como uma série de tarefas de desenvolvimento para que a criança obtenha o desenvolvimento necessário o mais rápido possível. É porque o desenvolvimento social ocorre quando as crianças interagem em um ambiente de sala de aula preparado que Montessori defende aulas com crianças de diferentes idades para que as crianças mais velhas possam ajudar as crianças mais novas com seus talentos. Para além dessa organização familiar, se o ambiente é acolhedor, o progresso social e moral é destacado, pois as pessoas aprendem a resolver problemas por conta própria ou como membros de um grupo cooperativo (OLIVEIRA-FORMOSINHO; KISHIMOTO; PINAZZA, 2007). 5.4 Pedagogia Montessoriana Montessori desenvolveu um método que pressupunha um ambiente que promovia a realização do potencial da criança. Os adultos também farão parte desse ambiente e, como educador indispensável, ele deve preparar o “ambiente certo para esse momento crítico”. Mas é a criança que se educa, ela escolhe livremente sua profissão e forma de se deslocar, buscando em muitas circunstâncias o ambiente favorável ao seu desenvolvimento e a organização de sua personalidade, sem uma preocupação momentânea com os outros. Assim, a criança surge, como o centro de uma pedagogia que vê “o processo educativo mais como um desenvolvimento 36 incessante da personalidade do que uma disciplina de integração social” (OLIVEIRA- FORMOSINHO; KISHIMOTO; PINAZZA, 2007). A pedagogia montessoriana é baseada em certos princípios relativos à liberdade, atividade e liberdade de escolha; com disciplina positiva, silêncio e movimento, independência e dignidade; com a preparação espiritual do professor e a transformação da escola. 5.5 Materiais montessoriano Fonte: encurtador.com.br/ghKW4 A principal característica do material Montessori na sala de preparação é que ele é sempre usado para manipulação do aluno. Na sala comum, os professores podem usar um globo na frente da turma. No ambiente Montessori, existem globos com diferentes reflexos e utilizados para diferentes finalidades pelos próprios alunos. Outra característica muito relevante dos materiais é que eles contêm o que chamamos de "controle de erros". O aluno deve ser capaz de perceber por si mesmo, em toda a matéria, quando está certo e quando está errado. Por exemplo, temos um cilindro de madeira (SALOMÃO, 2013). Os alunos devem anexar todas as garrafas do bloco. Cada cilindro cabe apenas um furo na madeira. Se um dos cilindros estiver fora do lugar, você não poderá 37 completar o exercício. Portanto, o professor não precisa corrigir a atividade, pois ela se corrige e os alunos percebem seus erros sem nenhuma intervenção externa. O controle de erros no documento também deixa mais liberdade para o professor, para que o professor possa ajudar outras crianças, ensiná-las a usar este ou aquele material, corrigir alguma atividade, quais atividades são prejudiciais ao meio ambiente ou às crianças e a tarefa mais importante. Observe a sala de aula e o desenvolvimento de cada aluno. Porém, não reduzindo a responsabilidade do professor, que perde grande parte das funções de ensino e correção, o currículo Montessori também lhe confere muitas outras responsabilidades, pois o professor só precisa ensinar ativamente, ensinar o tempo todo. Realmente saber se o aluno está aprendendo (SALOMÃO, 2013). A terceira característica importante dos materiais Montessori é a “separação de dificuldade”. Muitas vezes, para ensinar vermelho, por exemplo, os professores falam sobre morangos, cerejas e flores, pedindo aos alunos que associem muitas palavras e muitas coisas antes de entender o vermelho. O material de coloração Montessori é uma caixa de pequenas bolinhas coloridas. Os pellets coloridos são todos iguais em textura, forma, tamanho e peso. A única diferença entre eles é a cor, para que os alunos possam associar diretamente o conceito à realidade que ele representa (SALOMÃO, 2013). 38 6 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ALMEIDA, Manuella Santos Carneiro et al. Classificação Internacional das Doenças– 11ª revisão: da concepção à implementação. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 54, 2020. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM. 1 ed.Washington D/C, 1952. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM. 2 ed. Washington D/C, 1968. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. DSM. 3 ed. Washington D/C, 1980. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-IV-TR: manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais. 4. ed. Lisboa: Climepsi Editores, 2002. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-V-TR: manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. BAPTISTA, Claudio R.; BOSA, Cleonice. Autismo e Educação. São Paulo Grupo A, 2002. BOSA, Cleonice. O papel construtivo da interação social: a criança autista. 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Lar Montessori: A educação como uma ajuda à vida. 2013. 1 INTRODUÇÃO 2 TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA 2.1 Histórico conceitual do autismo 2.2 Diferenças e similaridades entre Kanner e Asperger 3 CARACTERISTICAS DO TEA 3.1 Características comportamentais do Transtorno de Espectro Autista 3.2 Critérios de identificação e manifestações do TEA 3.2.1 Estabelecimento de vínculos 3.2.2 Teoria da mente 3.2.3 Linguagem e comunicação 3.2.4 Dificuldade de antecipar eventos 3.2.5 Inflexibilidade e estereotipias 3.2.6 Ausência do jogo simbólico e da capacidade imitativa 4 FLOORTIME 4.1 Modelo D.I.R 4.1.1 Níveis de desenvolvimento 5 MÉTODO MONTESSORIANO 5.1 Os educadores 5.2 Educação da criança 5.3 Ambiente educacional 5.4 Pedagogia Montessoriana 5.5 Materiais montessoriano 6 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA