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A NATUREZA DO SERVIÇO SOCIAL Um ensaio sobre sua gênese, a “especificidade” e sua reprodução Carlos Montaño Prefácio deste livro, mostra mais uma contribuição da fecunda trajetória intelectual de Carlos Montaño, no âmbito do Serviço Social brasileiro, tem como objeto uma aguda análise dos fundamentos da profissão, a partir de suas origens no continente latino-americano. Sem dúvida, enfrentar a questão da natureza e da gênese do Serviço Social, problematizando sua “especificidade” e seu processo de reprodução no contexto da expansão capitalista na América Latina é um desafio que o autor enfrenta com competência, desvendando para o leitor as principais tendências explicativas acerca desses processos históricos nas últimas três décadas. Como sabemos, as tendências de análise, as explicações e interpretações que o Serviço Social vai construindo acerca de suas origens e desenvolvimento social, não se configuram como homogêneas e são permeadas por diversas clivagens, tensões e confrontos. Isso porque a compreensão teórico metodológica da realidade, fundada no acervo intelectual que se constituiu a partir das principais matrizes do pensamento social e de suas expressões nos diferentes campos do conhecimento humano não é um processo “neutro”. Ao contrário, é processo que vem se construindo na interlocução com o próprio movimento da sociedade, sendo desse modo construído à luz das explicações mais abrangentes e totalizantes acerca da vida social e de seu sentido histórico. Assim sendo, desvendar questões relativas à emergência e desenvolvimento do Serviço Social como profissão, implica em buscar compreender diferentes posicionamentos, lógicas e estratégias que permearam o pensamento e a ação profissional do Serviço Social, nessa trajetória histórica. A análise do autor sobre a gênese e o processo de reprodução do Serviço Social nos últimos trinta anos desenvolve-se em dois capítulos: o primeiro apresenta as duas teses claramente opostas que buscam explicar a natureza e a gênese do Serviço Social do ponto de vista de seus determinantes históricos, sua lógica e seus protagonistas, a partir da interlocução direta com autores responsáveis por essas teses. Estas teses partem de posicionamentos valorativos e teórico metodológicos antagônicos: As duas teses opostas sobre a gênese da profissão ENDOGENISTA De um lado encontramos abordagens tradicionais e conservadoras de distintos matizes que desenvolvem uma análise evolucionista e endogenista acerca da origem da profissão sustentando que o Serviço Social expressa a evolução e a profissionalização de formas “anteriores” da ajuda, da caridade e da filantropia. HISTÓRICO-CRÍTICA De outro lado, o autor explora a tese desenvolvida a partir de uma apreensão totalizante do Serviço Social profissional, apoiada na matriz histórico crítica, que busca explicar a emergência da profissão nos marcos da sociedade capitalista, institucionalizada e legitimada para intervir nas contradições que permeiam as relações entre capital e trabalho. Autores que contribuíram para a compreensão da natureza do Serviço Social Endogenistas Na primeira posição o autor apresenta e problematiza o trabalho de alguns de seus autores mais significativos no Continente, tais como: Ezequiel Ander-Egg, Herman Kruse, Natálio Kisnerman, Boris Aléxis Lima, Ana Augusta de Almeida, Balbina Otoni Vieira e José Lucena Dantas, entre outros. Histórico-crítica Nas teses que situam a emergência da profissão nos marcos do desenvolvimento capitalista, legitimada pelo papel que desempenha na ordem burguesa, Montaño dialoga com os trabalhos de Marilda Iamamoto, José Paulo Netto, Vicente Faleiros e Maria Lúcia Martinelli, entre outros Carlos Montaño buscou, portanto, a interlocução direta com os autores das duas teses, mostrando sua emergência, “internamente heterogênea” e os fundamentos legitimadores da profissão do ponto de vista teórico e interventivo nos dois posicionamentos, com particular ênfase no âmbito das políticas sociais. O segundo capítulo avança no tempo e nos situa no atual contexto, passando pela Reconceituação com suas tendências e distanciamento das questões que marcaram as origens do Serviço Social no Continente. A gênese da Profissão Neste capítulo o autor nos mostra as tensões que permeiam a dinâmica da auto reprodução profissional que repõe e recria o conservadorismo de suas origens, marcadamente a perspectiva positivista, bem como o movimento de busca do rompimento com essa lógica no período em estudo. Elege como aspectos relevantes e indicativos desse processo de auto reprodução quatro pontos: o caráter subordinado da profissão na divisão sócio-técnica do trabalho; a busca de uma especificidade profissional que responderia por sua legitimidade; a posição, derivada da tese anterior, de que a prática imediata é fonte da teoria profissional (praticismo) e a dificuldade da profissão em desvendar temáticas emergentes e novas demandas na atualidade “conservando, pelo contrário, praticamente inalterado o campo da intervenção”. Sem dúvida, quatro teses que permanecem atuais no Serviço Social brasileiro neste início de milênio e às quais poderíamos acrescentar o neoconservadorismo presente nos atuais modelos analíticos, incorporados das ciências sociais, que se expressam no denominado pensamento pós-moderno, que questiona e nivela os paradigmas marxista e positivista. A abordagem pós-moderna dirige sua crítica à razão, recusa a abrangência das teorias sociais e restaura o pensamento conservador e antimoderno trazendo à profissão novas clivagens “teóricas” orientadoras de sua intervenção. Em síntese, estamos diante de um livro de um jovem intelectual do Serviço Social brasileiro e latino-americano: um texto instigante, que enfrenta desafios, polêmicas e nos leva a levantar novas questões, ao mesmo tempo em que nos coloca diante de marcas históricas persistentes na história da profissão. Leitura imprescindível para todos os que buscam superar as perplexidades do presente. Maria Carmelita Yazbek Agosto 2007 A Natureza do Serviço Social na sua Gênese Os assistentes sociais, em diversas oportunidades, se “debatem” em torno de duas concepções, duas teses sobre a natureza e o processo da gênese do Serviço Social. Tais concepções, que podemos com relativa generalização agrupar em duas perspectivas, se comportam como verdadeiras teses. Elas contêm um arsenal heurístico e teórico-metodológico que extrapola a mera consideração sobre a gênese do Serviço Social. Efetivamente, a localização dos teóricos que pensam esta temática vincula-se, lógica e teoricamente, a suas concepções sobre outros tópicos: qual é o fundamento da legitimação desta profissão e como são interpretadas as funções das políticas sociais dentro de determinada ordem socioeconômica e política. Assim, o tripé “políticas sociais/gênese do Serviço Social/legitimação” apresenta uma relação lógico-histórica que nos permite situar cada tópico em uma ou outra posição, em certa harmonia com as respectivas concepções sobre as demais temáticas. O que aqui estamos considerando são duas teses sobre três fenômenos referidos ao período da criação, do surgimento desta profissão. Que eles tenham repercussões na prática e no debate do Serviço Social contemporâneo é uma realidade, mas também é verdade que a evolução da profissão, da sua prática, da sua produção teórica, do seu instrumental técnico-operativo, da sua postura e participação nas instituições úblicas, e o surgimento de novas organizações empregadoras de assistentes sociais, tudo isto permite distinguir e distanciar a profissão na atualidade, demarcada da sua gênese. Neste capítulo nos concentraremos, portanto, nas análises e concepções com que os profissionais têm se “debatido” sobre o momento que marca o surgimento da profissão, sobre o fundamento que explica a emersão do Serviço Social. Os elementos de distanciamento ou continuidade, de ruptura ou reprodução do Serviço Social contemporâneo com respeito à tradição da sua gênese serão tratados no capítulo II. No entanto, falar nesse“debate” ente as duas teses não expressa um processo contundente de discussão aberta em relação às considerações feitas sobre estas temáticas. Poucos espaços relevantes têm sido ocupados por tal confronto, os quais devem ser creditados a Iamamoto e Manrique Castro (1979), Maguiña (1979) e Manrique Castro (1993). As análises que os diferentes autores de cada uma destas perspectivas realizaram sobre a gênese do Serviço Social e suas derivações foram desenvolvidas, em geral, em contextos espaço-temporais diferentes. Efetivamente, se a primeira maneira de pensar a emersão da profissão se vincula ao período que vai até a reconceituação (inclusive) e, neste caso, fundamentalmente ligada ao debate hispano-americano, a segunda surge no debate contemporâneo (segundo lustro dos 1980), particularmente no Brasil. Neste sentido é que afirmamos que não houve um debate que tenha sido apropriado pelo conjunto da categoria. A referência explícita que os autores da segunda tese fazem da primeira é mínima ou nenhuma, o que confirma a quase ausência de debate crítico, explícito e aberto sobre ambas as maneiras de pensar esta questão. Assim, as enormes contribuições, avanços e mudanças de perspectiva — com todos os desdobramentos que eles contêm —, que tem se desenvolvido nas análises dos autores vinculados à segunda tese, não parecem substituir os equívocos da primeira, gerando-se uma convivência pacífica entre elas. Convivência pacífica que, por se tratar de duas perspectivas antagônicas, pode redundar em erros de interpretação do real alcance das últimas contribuições, já que ao leitor e estudioso das obras dos autores da primeira perspectiva, que depois lera a bibliografia vinculada à segunda, pode não lhe aparecer com clareza o antagonismo entre as duas, concluindo numa visão eclética sobre a gênese e natureza do Serviço Social. 1.1. A perspectiva endogenista: a primeira das teses sustenta a origem do Serviço Social na evolução, organização e profissionalização das formas “ante-riores” de ajuda, da caridade e da filantropia, vinculada agora à intervenção na “questão social”. Assim, as bases da profissão datam das primeiras formas de ajuda, encontrando-se geralmente nas obras de Tomas de Aquino e Vicente de Paula, alguns dos primeiros precursores da Assistência Social. Esta tese é sustentada pela maioria dos teóricos que consideraram o tema da história, gênese ou natureza do Serviço Social, o que expressa uma ampla gama de correntes e perspectivas que confluem para a consideração da gênese profissional, na mesma tese. No entanto, não podemos deixar de destacar duas significativas distinções internas nos autores que aqui se condensam; primeiramente, aqui co-participam autores provenientes de um Serviço Social tradicional junto com membros do movimento que marcou a “intenção de ruptura” com aquele, a reconceituação; em segundo lugar, há autores nesta tese que entendem os “antecedentes” do Serviço Social como sendo qualquer forma anterior de ajuda, retroagindo sua análise à Idade Média ou até à origem da história, enquanto outro conjunto de autores pensa os antecedentes apenas ligados às formas de ajuda, organizadas e vinculadas à “questão social”1 (pós-Revolução Industrial). No segundo capítulo voamos no tempo e nos situamos na análise não já da emersão da profissão, mas do Serviço Social no atual contexto e com um estágio de desenvolvimento de mais de 60 anos que, via reconceituação, debates, interlocução com outras disciplinas sociais, nova crise e reestruturação do capital, nos permitem observar um distanciamento relativamente crítico em relação à sua gênese. No entanto, sustentamos a hipótese de que há uma série de aspectos verdadeiramente (auto)reprodutores da lógica (conservadora e nos moldes positivistas) e da razão de ser (tensamente funcional) que cria o Serviço Social como profissão (dentro da divisão sociotécnica do trabalho), que colocam aqueles movimentos críticos como “intenções” ou “buscas” de ruptura com a herança conservadora que, no entanto, não se efetivam numa nova lógica e legitimação para a profissão. Eles contêm elementos de ruptura e continuidade com conservadorismo tradicional. Abordaremos, neste ponto, quatro elementos “(auto)reprodutores” que consideramos substantivos. Eles se referem a algumas das tesesvinculadas à gênese do Serviço Social, à sua legitimidade como profissão e à conceitualização das políticas sociais.