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Henri Poincaré – Ciência e Método
 Tolstoi explica em algum lugar por que, para 
ele, “a ciência pela ciência” é uma 
concepção absurda. Nós não podemos 
conhecer todos os fatos. É preciso escolher. O 
útil é unicamente aquilo que pode tornar o 
homem melhor. 
 
 Enquanto um cientista descobre um fato, 
milhares e milhares de outros fatos se 
produzem num milímetro quadrado de seu 
corpo. Querer fazer com que a Natureza 
caiba na ciência é como querer que o todo 
caiba na parte. 
 
 Os cientistas acreditam que existe uma 
hierarquia nos fatos e que se pode fazer uma 
escolha criteriosa entre eles. Eles têm razão, 
pois sem isso a ciência não existiria, e ela 
existe. Basta abrir os olhos para ver que as 
conquistas da indústria, que enriqueceram 
tantos homens práticos, jamais teriam 
acontecido se tivessem existido apenas estes 
homens práticos, se eles não tivessem sido 
precedidos por loucos desinteressados que 
morreram pobres, que jamais pensavam no 
útil, estes loucos pouparam seus sucessores 
do trabalho de pensar. 
 
 Diante de alguma necessidade nova, tudo 
teria que ser reiniciado. Ora, a maior parte dos 
homens não gosta de pensar e talvez isso seja 
bom, pois o instinto os guia. Mas o instinto é a 
rotina, e se o pensamento não o fecundasse, 
ele não progrediria mais no homem do que 
na abelha ou na formiga. É preciso, pois, 
pensar por aqueles que não gostam de 
pensar e, como eles são muitos, é necessário 
que cada um de nossos pensamentos seja o 
mais útil possível, e é por isso que uma lei será 
tanto mais preciosa quanto mais geral ela for. 
 
 Os fatos mais interessantes são aqueles que 
podem ser úteis muitas vezes, são aqueles que 
têm chance de se renovar. Diante de cada 
objeto novo nós seríamos como a criança 
que acaba de nascer; como esta, nós só 
poderíamos obedecer a nossos caprichos ou 
a nossas necessidades. Em um mundo como 
 
este, não haveria ciência; talvez o 
pensamento e mesmo a vida seriam 
impossíveis, porque a evolução não teria 
conseguido desenvolver [neste mundo] os 
instintos conservadores 
 
 Quais são, portanto os fatos que têm chance 
de se renovar? São primordialmente os fatos 
simples. Todavia, existem fatos simples e, em 
caso afirmativo, como reconhece-los? Quem 
nos garante que aquilo que acreditamos 
simples não recobre uma assustadora 
complexidade? Tudo o que podemos dizer é 
que devemos dar preferência aos fatos que 
parecem simples ao invés daqueles em que 
nosso olho grosseiro discerne elementos 
diferentes. 
 
 Os fatos que parecem simples, mesmo que 
não o sejam de fato, serão, por conseguinte 
mais facilmente reunidos pelo acaso. Os fatos 
frequentes nos parecem simples, 
precisamente por que estamos habituados a 
eles. No entanto, onde está o fato simples? No 
infinitamente grande e no infinitamente 
pequeno. Um ponto é mais simples que um 
corpo que tem uma forma e qualidades. 
 
 O método consiste precisamente na escolha 
dos fatos. A sociologia é a ciência que possui 
o maior número de métodos e o menor 
número de resultados. 
 
 Os fatos que se adequam [a esta regra] 
perdem rapidamente o interesse, pois eles 
não nos ensinam mais nada de novo. É então 
a exceção que se torna importante. 
Cessaremos de buscar as semelhanças para 
buscar, sobretudo às diferenças; e entre as 
diferenças escolheremos incialmente as mais 
acentuadas, não somente por que elas serão 
as mais impactantes, mas também por que 
serão as mais instrutivas. 
 
 Assim sendo, quando uma regra é 
estabelecida, o que devemos procurar 
inicialmente são os casos em que esta regra 
tem maiores chances de não se realizar (être 
en défaut). Porém o que devemos mirar não 
By: Ewylle Farias 
é tanto o constatar semelhanças e 
diferenças, mas sim o encontrar as similitudes 
escondidas sob as divergências aparentes. 
 
 O cientista não escolhe ao acaso os fatos que 
deve observar. Ele não conta joaninhas, 
como o diz Tolstoi, pois a quantidade desses 
animais, por mais interessante que seja, está 
sujeita a caprichosas variações. Ele busca 
condensar muita experiência e muito 
pensamento num volume pequeno. 
 
 O cientista não estuda a natureza por que isso 
é útil. Ele a estuda pois tem prazer nisso, e este 
prazer se deve ao fato de [a natureza] ser 
bela. Se a natureza não fosse bela, não 
valeria a pena conhece-la, a vida não valeria 
a pena de ser vivida. A beleza intelectual se 
basta a si-mesma e é por ela – talvez mais que 
pelo bem futuro da humanidade – que o 
cientista se condena a longos e penosos 
trabalhos. 
 
 E é por que a simplicidade e a grandeza são 
belas que nós buscamos preferencialmente 
os fatos simples e os fatos grandiosos, que nós 
nos satisfazemos tanto ao seguir a corrida 
gigantesca dos astros quanto examinar com 
o microscópio esta prodigiosa pequenez que 
é também uma grandeza, quanto a procurar 
nos tempos geológicos os traços de um 
passado que nos atrai por ser distante. E 
vemos que a atenção ao belo nos conduz às 
mesmas escolhas que a atenção ao útil. 
 
 Mas esta busca desinteressada do verdadeiro 
por sua beleza própria é também sã e pode 
tornar o homem melhor. Eu compreendo que 
haja decepções, que nem sempre o cientista 
seja capaz de encontrar a serenidade que 
deveria, e inclusive que existem cientistas com 
caráter muito ruim.