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III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) 
DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE 
 
 
 
 
 
 
ANNA SEGHERS E A VATERLAND: PATRIOTISMO E RESISTÊNCIA 
 
Patrícia Helena Baialuna da Andrade1 
 
A LITERATURA DE EXÍLIO 
 
São conhecidas nos estudos da História e da História da Literatura alemãs duas 
grandes ondas migratórias que ocorreram em terras germânicas na primeira metade do 
século XX, após a tomada do poder pelos nazistas. Em tempos anteriores, muitos outros 
registros há de intelectuais que, por razões políticas, tiveram que deixar a pátria. 
Wolfgang Beutin (1992, p.400) aponta para alguns momentos em especial em que o 
território alemão tornou-se hostil àqueles que preconizavam ideias contrárias às 
vigentes. Na República de Mainz (na década de 1790), na terceira década do século XIX 
com o crescente monitoramento da imprensa e das universidades, após a Revolução de 
Julho em Paris (1830), quando a emigração da Alemanha foi massiva para a capital 
francesa, durante a Primeira Guerra Mundial e em outras ocasiões mencionadas pelo 
autor, grande número de escritores, intelectuais e políticos viram na fuga da terra natal a 
única forma de proteger suas próprias vidas. Entretanto, algumas características 
diferenciam o período que ficou nomeado na tradição alemã de Exilliteratur. 
Muitos autores situam o período entre 1933 – ano da ascensão de Hitler ao poder 
e da primeira grande onda migratória mencionada no parágrafo acima – e 1945, 
terminando-o com a derrocada do Nacional-Socialismo. A segunda grande onda 
migratória se deu em 1938, com a anexação da Polônia pelos exércitos nazistas e a 
eclosão da Segunda Guerra Mundial. Contudo, durante todo o período 1933-1945 
observou-se uma fuga em massa, especialmente de alguns grupos da sociedade alemã. 
Os principais ameaçados pelo governo autoritário nazista eram os judeus – 
vítimas da teoria racial que compunha o programa governista – e os intelectuais de 
esquerda, nomeadamente os que se alinhavam ao marxismo, associados à Revolução 
Russa e rotulados como “vermelhos” ou ameaça comunista. Desde já mencionamos que 
Anna Seghers pertencia a ambos os grupos, sendo membro atuante do KPD (Partido 
Comunista Alemão). 
Ainda antes do governo de Hitler ficou evidente para os autores e para a 
sociedade que obras que se posicionassem de forma contrária ao “espírito alemão” 
seriam banidas de circulação. Em 1932 foi publicada no jornal “Völkischen Beobachter” 
 
1
 Doutoranda do Programa de pós-graduação em Estudos Literários da UNESP – Araraquara. 
Bolsista CNPq. 
 
III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) 
DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE 
 
 
 
 
 
 
uma lista de autores tidos como “decadentes” ou contrários à “germanidade” (RIEGEL, 
P., RISUM, W. 2000, p.35), os quais passavam a ser proibidos de publicar na Alemanha. 
Entre estes estavam, apenas à guisa de citação, Lion Feuchtwanger, Frank Wedekind, 
Klaus Mann, Bertold Brecht e Stefan Zweig. No ano seguinte (13 de março de 1933) o 
ministério da propaganda chefiado por Joseph Goebbels promoveu uma grande queima 
de livros dos autores proibidos em praças de várias grandes cidades alemãs. Ao mesmo 
tempo, a caça ao intelectuais esquerdistas acirrava-se. 
Para que pudessem continuar a escrever, os autores perseguidos buscaram 
continuar seu trabalho em terras estrangeiras. Muitos foram para a França, Áustria e 
Suíça (e tiveram que fugir novamente quando esses países foram invadidos, já durante a 
guerra), para a Tchecoslováquia, Rússia, Estados Unidos e América Latina. Até mesmo o 
Brasil ofereceu asilo: foi o destino escolhido por Stefan Zweig, entre outros. Livres da 
ameaça à vida, os exilados depararam-se com outros problemas: as dificuldades de 
adaptação no país de exílio se multiplicavam diante de fatores como a língua, a solidão e 
a dificuldade de conseguirem recursos para se manterem com seu próprio trabalho 
intelectual.2 Não obstante essas e outras adversidades da vida no exílio, muitos 
escritores percebiam a urgência de mobilizarem suas armas – as palavras – para alertar 
o mundo quanto aos horrores da guerra e a tirania imposta pelo nacional-socialismo à 
miserável população alemã. Assim organizaram-se diversos grupos e surgiu uma 
infinidade de publicações, como revistas de literatura, que discutiam, em seus artigos, as 
questões que atingiam os intelectuais da época e deixam testemunho de um momento 
histórico-literário efervescente em que o papel do escritor na sociedade foi largamente 
discutido. 
 
ANNA SEGHERS 
 
Nascida em 1900, Netti Reiling pertencia a uma família judia da alta burguesia de 
Mainz. Embora desfrutando dos privilégios que a posição lhe oferecia, como a instrução 
formal e artística (formou-se em História da Arte, Sinologia e doutorou-se em Filosofia), 
ainda jovem Netti interessou-se e envolveu-se em estudos do marxismo, filiou-se ao 
partido comunista alemão (em 1928) e dedicou sua longa carreira de escritora ao 
engajamento da causa em que acreditava. A subjetividade do homem sob as 
circunstâncias sociais é tematizada das mais profundas e interessantes formas em sua 
extensa obra prosaística. 
 
2 Sobre as dificuldades da vida no exílio, ver o texto de Alfred Polgar em Durzack (1973, p.53). 
 
III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) 
DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE 
 
 
 
 
 
 
O primeiro trabalho que deu notabilidade à autora, que já assinava com o 
pseudônimo de Seghers , foi Aufstand der Fischer von Sta. Barbara (1928), ainda sem 
tradução para o português. Considerado um conto longo e tido pela crítica como de 
autoria masculina pelo estilo áspero e de fria objetividade, narra a revolta de uma 
comunidade de pescadores contra as más condições de trabalho e as dificuldades de 
sustentar suas famílias, e rendeu à autora, juntamente com outra obra (Grubetsch) o 
afamado prêmio Kleist (Kleistpreis). 
Nos anos seguintes, especialmente no exílio – na França e depois no México – 
outras obras da autora lançaram-na ao reconhecimento internacional, como Das Siebte 
Kreuz e Transit, cujos enredos ganharam versões cinematográficas. Sistematicamente a 
autora tematizava em seus contos e romances a opressão e violência impostas pelo 
nacional-socialismo e a guerra; a miséria desta advinda, a desesperança e a força do 
caráter de um protagonista que não se deixaria abater pela força do opressor. 
Além das obras literárias – que Seghers publicou até pouco antes de sua morte, 
em 1983 -, merecem destaque na produção da autora os inúmeros artigos, palestras e 
textos em caráter de manifesto que a autora publicou, principalmente nos anos de exílio, 
nas diversas publicações com que colaborou ou foi editora. Como exemplo, citamos a 
revista Neue Deutsche Blätter, publicada em Praga, de que Seghers foi uma das poucas 
mulheres a tomar parte ativa no processo de idealização e realização; também Das Wort, 
publicada em Moscou, que veiculou o importante debate da época sobre o 
Expressionismo e o Realismo, e as críticas de Lukács ao Expressionismo. Em um texto 
publicado no periódico Maximo Gorki cunhou o termo Realismo Socialista, que veio a ser 
muito utilizado posteriormente. 
A maior parte dos periódicos publicados por escritores exilados alinhava-se à 
ideologia comunista, e muitos propagavam a ideia de uma frente popular 
(Volksfrontsidee) como único instrumento capaz de refrear os desmandos do nacional-
socialismo. 
A breve bibliografia da autora mostra que, em toda sua produção artística, o 
engajamento político se faz presente, norteando os temas de sua escrita, desnudando as 
misérias de um mundo em guerra e a incerta posição do homem em meio a essas 
suscetibilidades. 
Quanto à ideologia a que se alinhava a autora, foi exposta noano de 1934, em 
Paris, quando Anna Seghers apresentou em um congresso para escritores denominado 
“Schriftstellerkongreß zur Verteidigung der Kultur”, um artigo em que tecia algumas 
considerações a respeito do patriotismo e o urgente papel do escritor na sociedade de 
então. 
No referido artigo, de nome Vaterlandsliebe, a autora comenta quanto já fora 
 
III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) 
DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE 
 
 
 
 
 
 
escrito, seja de forma refinada ou trivial, acerca do tema (do patriotismo); que é 
bastante comum que escritores empenhem ao amor à pátria o maior dos valores, em 
especial na época vivida, na qual, segundo a autora, pessoas e ideias se “confrontariam 
até as cinzas”. Apesar de o tema já ter sido tão explorado, o patriotismo se renovaria a 
todo minuto, com a renovação da consciência que se tem da própria pátria. Também 
considera que a pátria não é a mesma para todos os seus filhos, na medida em que seu 
significado difere para cada um deles, e cada um lute pela própria terra de acordo com 
suas condições e interesses. 
A autora critica aqueles que, de acordo com o texto, enaltecem a guerra como 
realização máxima e resultado elementar da existência de uma comunidade. Neste 
ponto, Seghers se opõe diametralmente à concepção de muitos teóricos para os quais a 
guerra é elemento fundamental para a identidade e coesão de uma nação, como Heinrich 
von Treitschke: 
 
A guerra é a ciência política por excelência. Muitas e muitas vezes se tem 
provado que só nela um povo se torna povo de verdade. É apenas na 
realização comum de feitos heroicos pela causa da pátria que uma nação 
se torna verdadeira e espiritualmente unida. (TREITSCHKE apud 
GUIBERNAU, 1997, p.16) 
 
Assim, o conflito assume a perigosa ambiguidade de ameaçar e atrair; afinal, o 
cidadão comum que exerce suas pacatas funções não é digno de notoriedade, porém, ao 
deparar-se com as frentes de batalha, passa do estado de ninguém para uma condição 
muito mais valorizada e desejável – se é que o paradoxo da situação permite tal 
postulação. Aquele que de nada servia passa a ser de valor para a Pátria, e o senso de 
comunidade se regenera: se não havia igualdade entre os livres, diante da morte são 
todos iguais. 
Vaterlandsliebe também menciona alguns escritores alemães, como Hölderlin e 
George Büchner, que tiveram em comum mais que uma trágica morte relacionada à 
“doença do espírito”, já que ambos, entre outros citados, escreveram hinos de 
homenagem a sua pátria, sendo, por isso, para sempre seus representantes. Por fim, a 
autora conclama os escritores para que auxiliem na reconstrução de sua pátria, 
“desinstituindo” seus administradores e revigorando o antigo pathos da escrita pela 
liberdade. 
Esse pathos é indubitavelmente central em sua obra, da qual apresentamos 
adiante em recorte a breve leitura de Transit. 
 
Transit 
 
 
III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) 
DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE 
 
 
 
 
 
 
O romance Em trânsito, de 1944, é um contundente relato do desespero de 
milhares de europeus por deixar o continente. Oriundos de vários países da Europa, 
esses refugiados, fugitivos de campos de concentração, cidadãos notáveis ou comuns, 
partilhavam do mesmo terror diante da expectativa que os exércitos nazistas chegassem 
àquela região ainda não dominada – de Marselha, na França, onde se passa o romance – 
e impedissem a já tão escassa partida de navios para o continente americano. Enquanto 
o tempo parecia se esgotar, os frenéticos desejosos por viajar amontoavam-se às portas 
dos consulados, acotovelando-se em busca dos indispensáveis vistos de entrada, de 
trânsito e de saída, para os quais a burocracia parecia não ter fim. 
O narrador-protagonista da obra, cujo nome não conhecemos, alemão fugitivo de 
um campo de concentração, parece se colocar na contramão desse massivo fluxo de 
pessoas ansiosas por uma passagem de navio. Envolvido por acaso em uma série de 
acontecimentos, passa a ser confundido com um relativamente famoso escritor de nome 
Weidel, cujo suicídio todos os seus contatos desconhecem. Vendo nesse mal-entendido a 
única maneira de ter permissão para permanecer em Marselha, o narrador acaba por se 
deixar tomar pelo morto. Sem grandes ou até mesmo definidos objetivos na vida, ele usa 
a falsa identidade para prorrogar ao máximo sua estadia na cidade, na esperança de que 
logo possa se juntar a um conhecido em uma fazenda de cultivo de pêssegos próxima 
dali. 
Tendo bons contatos e valiosas relações no universo de carimbos e assinaturas 
em que se encontra, o protagonista logra ajudar conhecidos seus a partir; uma dessas 
partidas, contudo, enreda-o no que será sua máxima crise: o desejo de viajar também, 
seguindo Marie, por quem se apaixona, e que, por absurda coincidência, é a viúva de 
Weidel – embora ela própria ignore a morte do marido, e constantemente o procure. 
Nesse conflito, já no final do enredo, prevalece o desejo do personagem de permanecer 
na Europa: 
 
E assim, por ora, essa família e esse povo vai me oferecendo seu abrigo, enquanto 
eu os ajudo a semear e a arar. (...) E minha sorte será a mesma que a deles. Os 
nazistas não me reconheceriam mais como um dos seus. Quero partilhar com meu 
pessoal o bem e o mal que nos tocar, o refúgio e as perseguições. E logo que se 
passe à resistência armada, Marcel e eu vamos pegar no fuzil. Mesmo que me 
fuzilem, acho que nunca vão acabar comigo de vez. Sinto que conheço demais esta 
terra, seu trabalho e sua gente, montanhas, pêssegos e vinhas. Se morremos em 
terra conhecida, nasce algo da gente ali, como das árvores e arbustos que 
tentamos inutilmente derrubar. (SEGHERS, 1987, p.276) 
 
O narrador-protagonista é a primeira e mais forte figuração do espírito de 
resistência e coragem de que vemos a autora se imbuir em outras obras suas. Não 
temendo por sua própria vida, é contundente em seus esforços por permanecer na 
França, e não se reconhece como conterrâneo dos alemães. Se “a nação, como uma 
 
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DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE 
 
 
 
 
 
 
forma de comunidade, implica tanto a semelhança entre seus membros quanto a 
diferença em relação aos estranhos” (GUIBERNAU, 1997, p.91), já não há, à visão do 
protagonista, semelhança entre ele próprio e sua nação – representada pelos líderes do 
nacional-socialismo. 
Mas se para o protagonista mais valia ficar em seu continente e lutar por sua terra 
(embora não fosse sua terra natal, mas aquela que lhe deu abrigo), para tantos outros a 
permanência era insuportável, como em uma das muitas histórias ouvidas pelo 
protagonista entre a multidão de vidas acossadas. Ele comenta, por exemplo, o caso de 
um homem que deu um tiro na própria testa ao ser levado de volta à França, 
aproximando-se da fronteira com a Espanha: 
 
Que imensa expectativa esse homem devia ter depositado no seu destino de 
viagem, a ponto de sua volta lhe ter sido insuportável? Esse país onde andávamos 
todos, e para onde queriam forçá-lo a voltar, devia ser para ele infernal, inabitável. 
Não era a primeira vez que ouvia contar de pessoas que preferiam a morte, à perda 
da liberdade. Mas será que agora ele estava livre? (SEGHERS, 1987, p.192) 
 
Paralelamente – ou até mesmo em oposição – à forma como o enredo se 
desenvolve para o narrador, apresentam-se frequentemente, ao longo da narrativa, 
histórias de personagens secundários ou apenas citados, formando a teia que torna 
indissociável a ficção do real histórico, marco do século XX que, mais que pano de fundo, 
fundamenta toda a composição do romance. 
No conturbado cenário da cidade portuária, os trechos transcritos exprimem 
apenas duas faixas do leque de sentimentos que motivam alguns europeus a fugir e 
outros a ficar enquanto seus países são dominados e suas aldeias destruídas,do desejo 
de lutar à tênue esperança de recomeçar em uma terra estranha. Vemos, em outros 
trechos da narrativa, diferentes posturas e sentimentos relativos à pátria, à relação do 
homem com seu solo e seu sangue, à medida que se apresentam outras histórias. 
O espaço em que se passa a narrativa, como já citado, é a França – 
especialmente a cidade portuária de Marselha, uma das últimas a cair em domínio 
nazista após a tomada do país. O trecho a seguir mostra de que forma os franceses viam 
essa tomada: 
 
De fato, estávamos todos esgotados e, além disso, meus amigos sentiam vergonha 
do seu próprio país. Uma derrota pode ser perfeitamente encarada quando se é 
jovem e saudável, mas a traição é diferente: ela paralisa (SEGHERS, 1987, p.37). 
 
Vê-se, portanto, que os amigos franceses do protagonista viam como traição dos 
governantes de sua nação o fato de terem-se rendido aos alemães. Duro golpe ao 
sentimento patriótico teria sido ver sua terra natal em domínio estrangeiro por um jogo 
 
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de interesses dos que comandavam o país, justamente aqueles que deveriam ser seus 
mais tenazes defensores. Sabemos, contudo, que diante das invasões alemãs em seu 
território, políticos de direita – representados por Henri Phillipe Pétain –, que haviam 
recentemente sido derrotados em eleição pelo partido esquerdista (de cunho comunista), 
aliaram-se aos nazistas através de um acordo de armistício, dividindo a França em zona 
ocupada e não ocupada, sendo esta administrada pelos franceses e com sede de governo 
em Vichy. A revolta do personagem francês dá voz ao sentimento que certamente deve 
ter assolado muitos compatriotas, à visão da subserviência de seu governo manipulado 
pelos alemães. 
O trecho segue com a seguinte narração: 
 
Na noite seguinte, confessamos que sentíamos saudades de Paris. Lá tínhamos a 
nossa frente um inimigo terrivelmente ameaçador, impossível de ser enfrentado, 
como havíamos considerado antes. Mas agora acreditávamos que esse inimigo 
visível era bem melhor do que este mal secreto, esses boatos, esses subornos, essa 
vertigem. Tudo estava em fuga, tudo era provisório (...). (pp.37-38) 
 
A sensação expressa pelo narrador ao discorrer sobre a situação é de que a 
insegurança que tinham dentro do próprio país, a ameaça velada que vinha de seu 
próprio seio era-lhes muito pior que a ostensiva ameaça do exército alemão a invadir 
cidades e vilas. A desconfiança quanto à gestão francesa causava-lhes a impressão de 
que nada mais era seguro, e tudo que conheciam e confiavam estava se esvaindo em 
meio ao caos da Guerra, como mostra o último período do excerto. Perdendo sua terra 
natal, viam-se perdidos. 
A ligação entre as pessoas e sua terra é mostrada novamente algumas páginas 
adiante: “A cidade estava apagada por medo de bombardeios, mas em muitas janelas 
havia luzes fracas. Pensei em quantas pessoas consideravam aquela cidade como sua, 
vivendo aí tranquilamente, como eu já vivera uma vez na minha”(p.43). Neste trecho o 
narrador trata da relação entre indivíduo e cidade, do sentimento de posse ou 
pertencimento à mesma. Edward Said (2003) também tratou do assunto: 
 
Chegamos ao nacionalismo e a sua associação essencial ao exílio. O nacionalismo é 
uma declaração de pertencer a um lugar, a um povo, a uma herança cultural. Ele 
afirma uma pátria criada por uma comunidade de língua, cultura e costumes e, ao 
fazê-lo, rechaça o exílio, luta para evitar seus estragos. Com efeito, a interação 
entre nacionalismo e exílio é como a dialética hegeliana do senhor e do escravo, 
opostos que informam e constituem um ao outro (...). (SAID, 2003, p.49) 
 
Podemos relacionar os trechos de Em trânsito à reflexão de Said, associando o 
nacionalismo ao pertencimento à terra de que desfrutam os marselheses no trecho 
anterior, e o exílio à condição do protagonista, que, ao chegar a Marselha, declara ter 
 
III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) 
DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE 
 
 
 
 
 
 
esperanças de encontrar o que continuamente vinha buscando de cidade em cidade. 
Nascido na Alemanha, confinado em um campo de concentração pelos conterrâneos 
nazistas, o protagonista parece perder o sentimento de identidade e pertencimento à 
Alemanha, algoz dos países europeus vizinhos. Aquilo que ele declara buscar seria, 
portanto, uma nova ligação com o solo – dessa vez por adoção, não por nascimento. 
Outras falas e discursos indiretos ao longo do romance, como nossa primeira citação, 
mostrarão que ele logra encontrar essa terra que, acolhendo-o, deixa-o sentir-se seu. 
Durante sua estadia em Marselha, a história do protagonista cruza com a de 
várias outras pessoas: refugiados buscando partir no próximo navio, marselheses, 
pessoas vindas de diferentes origens, membros da Legião estrangeira. 
Finalmente, vejamos dois trechos da obra e a interessante metáfora que trazem: 
 
Seu coração [de Marselha], contudo, batia sem dúvida alguma no compasso 
europeu. Se um dia deixasse de bater, todos os refugiados espalhados pelo mundo 
também morreriam, como uma espécie determinada de árvores, que não 
importando onde estejam plantadas, morrem a um mesmo tempo, já que 
procedem da mesma semeadura. (SEGHERS, 1987, p.242) 
 
A ligação entre o homem e a pátria aqui é comparada a uma árvore, ser vivo que, 
ao morrer aquele que lhe gerou a semente, morre da mesma forma, onde quer que 
esteja. Comparação semelhante já aparecera em trecho anterior: 
 
Por mais confusas que andassem as coisas, dormiam tranquilamente em sua terra. 
Sentiam tão pouca vergonha da sua podridão e bolor, quanto se fossem árvores. 
Suas barbas estavam brilhantes e a pele cheia de crostas de sujeira. Mas, tanto 
quanto as árvores, nem lhes passava pela cabeça a ideia de abandonar seu país. 
(SEGHERS, 1987, p.84) 
 
Tão ligadas estariam as pessoas à terra, portanto, quanto as próprias árvores; 
fixas por suas raízes – não físicas, mas histórico-culturais, nem sequer cogitavam partir, 
e com a mesma indiferença pareciam ignorar sua dura situação. Sentimento semelhante 
é o que descrevem os estudos sobre o nacionalismo de Joseph Comblin: 
 
O território nacional é um laço afetivo poderoso, criador da comunidade, é o 
fundamento afetivo mais forte da nação. Todas as nações celebram as suas 
maiores glórias nacionais nas lutas pela conquista ou defesa do território nacional, 
veneram como heróis os mortos nos campos de batalha para repelir os invasores. O 
território nacional fica quase sagrado pelo sangue derramado nas guerras 
nacionais. (COMBLIN, 1965, p.53) 
 
Vimos, portanto, a multiplicidade de sentimentos relacionados à pátria que 
encontramos no romance Transit; o desejo de partir – esperança de recomeço em novo 
lugar, ou simplesmente busca desesperada de sobreviver -, o desejo de ficar e impor 
 
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DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE 
 
 
 
 
 
 
resistência aos que vinham dominando a Europa, a terra por adoção em oposição à hostil 
terra natal, a forte ligação do homem com seu solo e a identidade histórico-cultural que 
se forma a partir da noção de pertencimento a um lugar. Vejamos, pois, as faces desta 
relação em outro texto de Seghers. 
 
Das siebte Kreuz 
 
O romance A sétima cruz, de Anna Seghers, publicado pela primeira vez em 1942, 
é um dos que maior sucesso atingiram na vida da autora e ilustra, de forma exemplar, o 
engajamento que norteou a produção literária de Seghers. Em 1944 emprestou seu 
enredo para o filme homônimo dirigido por Fred Zinnemann, e no auge da Segunda 
Guerra fez grande sucesso, especialmente nos Estados Unidos – então oponentes dos 
alemães. 
O livro conta a história de sete homens que fogem do campo de concentração de 
Westhofen – nome fictício, que faz referênciaa Osthofen, este sim um campo de 
concentração real, localizado nas cercanias da cidade de Worms, para onde eram levados 
presos políticos associados a atos em favor do comunismo. A história se passa 
sugestivamente em 1936, e toda a narrativa ocupa o tempo de sete dias, prazo que o 
diretor do campo de concentração, Fahrenberg, havia se dado para recapturar cada um 
dos fugitivos. Emblemática da violência nazista é a atitude de Fahrenberg ao saber da 
fuga dos sete prisioneiros: manda cortar sete plátanos próximos à sua cabine de 
comando e as transforma em sete cruzes, destinadas a Heisler, Wallau, Beutler, Pelzer, 
Belloni, Fuellgrabe e Aldinger, os audaciosos que ousaram escapar-lhe. 
Há na construção da narrativa uma alternância espaço-temporal que oscila entre 
os sete fugitivos; tendo cada um tomado uma direção diferente após o escape, seus 
destinos são relatados em alternância com os passos de Heisler, o protagonista, que 
acompanhamos passo a passo, do início ao fim do romance. Assim, é-nos dado a 
conhecer o fim de cada companheiro. Beutler é recapturado ainda no início da fuga, 
quando rastejavam os sete às margens lodosas do córrego que perpassava Westhofen, 
sob a pesada cerração que lhes dava alguma chance de não ser vistos. Pelzer é 
encontrado por moradores do vilarejo em que fora se esconder no canil de uma casa, tão 
próximo a Heisler que este pôde ouvir as exclamações das crianças ao encontrar o 
exaurido prisioneiro. Belloni morreu no hospital, poucas horas depois de cair de um 
telhado em Frankfurt, cercado pela polícia. Wallau foi encontrado no bangalô de uma 
família amiga. Por ser um dos mais perspicazes, todos os prisioneiros de Westhofen se 
abateram quando Wallau foi levado de volta. Se ele não lograra fugir, nunca o 
conseguiriam os outros. Fuellgrabe entregou-se, e o velho Aldinger, que fugira “porque 
 
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desejava voltar ao Passado” (SEGHERS, p.235), morreu de exaustão no topo da colina de 
onde já observava a aldeia natal. 
A pertinácia de Heisler é destacada nas palavras de um ex-companheiro seu do 
campo de concentração: 
 
Tentaram fazer dele um exemplo, afim de demonstrar que um homem como aquêle 
pode ser humilhado à vontade. O que aconteceu, porém, foi exatamente o 
contrário. Apesar de todos os seus esforços conseguiram apenas demonstrar que 
nada pode humilhar um homem como aquêle. Continuam, no entanto, a tortura-lo 
(...). Como ele sabe arrostá-los! Ficam alucinados quando ele sorri. (SEGHERS, 
p.63) 
 
George Heisler é a corporificação da coragem, de uma impertinência que não se 
deixa abater, que nunca se entrega e, por isso mesmo, exaspera os que procuram dobrá-
lo. Contudo, até mesmo ele, em certos momentos dos sete dias de fuga em que o 
acompanhamos como leitores, passa por momentos de desânimo, duvidando que seria 
capaz de ludibriar a Gestapo; entregar-se, porém, como fez Fuellgrabe, não lhe é 
aceitável. 
Por centrar-se a narrativa na fuga de Heisler, os espaços em que a mesma se 
desenvolve mostram a sequência dos passos tomados por ele desde que conseguiu sair 
do campo de concentração até a chegada ao barco que o levaria à Holanda. Saindo das 
margens lamacentas do córrego de Westhofen, dirigiu-se à vila de mesmo nome, 
esgueirando-se pelos barracões de uma fábrica e pela escola agrícola, de onde se proveu 
de roupas que estavam penduradas em um galpão. Evitando as estradas principais, 
passou pela aldeia de Buchenau e, de carona em um caminhão, até Mainz. Na cidade, 
escondeu-se em uma igreja, onde passou a noite encolhido e se desfez das roupas sujas 
de presidiário. A cada passo que logra dar nas direções em que julga que encontrará 
ajuda, misturam-se ao relato os pensamentos e recordações de Heisler. Assim constrói-
se com maior subjetividade o personagem que, embora exausto, ferido, faminto e 
confuso, não deixa de tentar levar a cabo seu caminho para a liberdade. Cada metro do 
percurso feito por George de Westhofen à embarcação (...) é rodeado pela tensão, pela 
expectativa de que tudo poderia acabar a qualquer instante, que tudo aquilo era inútil, 
mas o protagonista insiste a cada momento, não obstante as dificuldades físicas que seu 
espírito tem de enfrentar, e a desconfiança de que cada pessoa em seu caminho pode 
entregá-lo – ou, por que não, salvá-lo. 
Com nova carona de um turista, chega a Hoechst. Procura a ex-namorada Leni, 
que, casada agora com um militar, nega-lhe qualquer ajuda, tratando-o como a um 
completo estranho. A participação de outras personagens na fuga de Heisler é um 
aspecto a que quero chamar a atenção. São brevemente relatadas as vidas de uma série 
 
III Simpósio Nacional Discurso, Identidade e Sociedade (III SIDIS) 
DILEMAS E DESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE 
 
 
 
 
 
 
de pessoas que, a princípio, parecem não ter conexão com a fuga de Heisler; são, 
contudo, pessoas que de alguma forma estão relacionadas a sua vida, passada ou 
presente, e nessas personagens a autora mostra diferentes atitudes tomadas pelos 
cidadãos alemães diante do regime que se endurecia desde 1933. Comparemos, pois, a 
atitude de duas dessas personagens. 
Heisler já havia sido casado; Elly Mettenheimer vivia agora com sua família e o 
filho, fruto do casamento, mas não tinha contato algum com George. Investigando a vida 
dos sete fugitivos para recapturá-los, a Gestapo inquire todas as pessoas que julga 
poderem ajudar os prisioneiros. O pai de Elly, Herr Mettenheimer, é um desses que passa 
por um tenso interrogatório. Homem simples, dedicado ao trabalho, apavora-se por ser 
sujeito de investigação; desejando proteger sua família e a pacata vida que levam como 
apolíticos, Herr Mettenheimer espera que Heisler jamais procure sua casa em busca de 
abrigo, pois ele não estaria disposto a arriscar-se em socorro do ex-genro, o que de fato 
não acontece. 
Oposta é a atitude de Franz Marnet: amigo de Heisler e companheiro de antigas 
atividades militantes, vive agora na fazenda de produção de maçãs da tia e trabalha em 
uma fábrica em Hoechst. Ao ouvir da fuga ocorrida no campo de concentração, desde o 
primeiro momento interessa-se por saber se o amigo George está entre os procurados. 
Dentro de sua esfera de contatos, faz tudo que pode para procurar George ou, por meio 
de outras pessoas dispostas a ajudar, prover-lhe auxílio para sair do país. Neste círculo 
de contatos que Franz estabelece, mostra-se quantas pessoas havia que, tendo sido 
atuantes politicamente outrora, escondiam-se então sob a máscara de tranquilos 
cidadãos, mas apenas à espera da oportunidade de agir contra os violentos modos da 
polícia e governo, ou simplesmente a favor de um homem acossado. Personagens como 
Hermann, Paul Roeder, o casal Kress, Fiedler e sua esposa Grete. 
Nesta oposição de atitudes, aparece uma sociedade dividida entre o medo que 
supera até mesmo a humanidade que estaria em ajudar um antigo conhecido, levando ao 
conformismo, e a calma espera de quem fica à espreita por chances de atuar – se não é 
possível fazê-lo abertamente, a oposição passa a ser então velada. 
Há ainda na trama alguns personagens que, sem sabê-lo, contribuem para o êxito 
de George: Madame Marelli, que dá-lhe dinheiro conforme instruções do amigo Belloni, o 
Padre Seitz, que queima as roupas sujas de presidiários de que Heisler se desfaz na 
igreja, dois indivíduos que lhe dão carona, Pickerel, com quem Heisler troca o paletó 
roubado por um casaco de lã, e o professor que, levando seus alunos em travessia do 
Reno, leva George sem o perceber. Toda a trama se constrói, todas as peças se 
encaixam – embora não sem certa dificuldade – para que a persistência de Heisler seja 
coroada com a liberdade. Assim, termina sua história ao final do sétimo dia, ao embarcar 
 
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DILEMAS EDESAFIOS NA CONTEMPORANEIDADE 
 
 
 
 
 
 
rumo à Holanda, enquanto o diretor do presídio, Fahrenberg, era substituído e 
desesperava-se, imaginando que teria que vestir um grosseiro uniforme de trabalhador e 
a humildade dos milhões de anônimos, destituído do poder que a farda lhe dava. 
Em alguns pontos da narrativa, notadamente no início e no fim, há uma voz 
narrativa que se incursa na narração principal. Marcadas graficamente, essas 
interposições trazem a voz de um desconhecido prisioneiro de Westhofen, comentando 
os desdobramentos que a fuga dos sete prisioneiros teria no campo de concentração: 
desde as primeiras providências, a recaptura e a substituição da diretoria. O capítulo 1 se 
inicia com essas últimas considerações, comparando a nova à antiga direção e 
perguntando-se, entre os colegas por onde andaria George àquela hora. Embora 
impotentes, a voz dos cativos insiste em se interpor à narrativa, fazendo-se sempre 
lembrar, e retomando, ao fechar a narrativa, a vida que continuaria depois das inúteis 
providências da Gestapo. Essa voz interposta é que fecha a história com as seguintes 
palavras: “Todos sentimos quão impiedosa e poderosamente podiam as forças exteriores 
golpear o próprio âmago do homem, mas sentimos, ao mesmo tempo, que havia, no 
mais profundo dêsse âmago, qualquer coisa de intangível, de inviolável.”(SEGHERS, 
1943, p.335). Sustenta-se, portanto, a força da vontade humana, ainda que contrária às 
mais duras imposições de outras vontades; a sétima cruz permanece vazia, uma 
esperança de liberdade. 
 
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Letras, 2003. 
 
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Martins Editora, 1943. 
 
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Stuttgart: Reclam, 2003.

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