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caracterizou como de encerra todos os germes que irão desenvolver-se no e pre- cisamente a esse espirito de sincretis Pré-Modernismo: um período de transição mo é que se deve a sua capacidade de gestar final do século XIX e início do XX foram marcados, no Brasil, pela coexistência Introdução à literatura no entre romances realistas-naturalistas, poemas parnasianos e simbolistas, heranças ro- 16. Rio de Janeiro: Bertrand 252.) mânticas e novas posições de nossa "entrada na oficializada pela Semana de Arte Moderna, em 1922, deu-se com a publicação, em 1902, de três obras voltadas à análise crítica do país: a nova edição de História da literatura de Sílvio Romero: de Aranha; e, principalmente, Os de Onacionalismo crítico pro- Euclides da Cunha. movido pelos visava à consciência acerca do Tais obras, bem como outras do período, chamam atenção para os problemas da nação país como forma de que havia pouco se tornara uma Elas criticam a organização social do país, espe- Diferencia-se do nacionalismo cialmente abandono de algumas regiões e de alguns grupos pelo Estado, promovendo utópico dos parnasianos, que uma revisão do nacionalismo. Assim, embora não seja, de fato, uma escola literária, com supervalorizavam algumas propostas estéticas próprias e capazes de criar coesão entre os Pré-Modernismo virtudes do foi importante para a formação do renovador do nosso Modernismo. 111 Recomendamos as seguintes leituras sobre a história da comunidade de Antônio campo em de Marco Antônio império do Belo de Walnice Sugerimos também que os artigos e reportagens escritos por Euclides da Cunha para o jomal Estado de S reunidos em Diário de uma autor de Os sertões defende a intervenção militar como forma de resguardar a da ameaça dos Euclides da Cunha: a investigação do sertão Nos artigos e reportagens que escreveu sobre a Guerra de Canudos, ocorrida no interior do estado da Bahia, como correspondente do jornal OEstado de Paulo, autor fluminense Euclides da seguindo exemplo da maioria dos jornalistas da época, exaltou patrioticamente as ações do Entretanto, em 1902, ele surgiu com uma obra, Os sertões, em que acusava Exército, e Governo de destruir a comunidade organizada pelo líder religioso Antônio Conselheiro e fazia uma severa autocrítica aos textos patrióticos que publicara cinco anos Escrita ao longo de quatro anos, a obra Os sertões analisa a Guerra de Canu- dos aliando ciência e arte. Influenciado pelo determinismo do filósofo francês Hippolyte Taine, segundo qual comportamento humano é determinado pelo meio, pela raça e pelo momento, Euclides dividiu sua obra em três partes: "A terra" (o meio), "O homem" (a raça) e"A luta" (o momento). Dica de professor Os sertões mescla estilos muito diversos, ora retomando discurso Procure estabelecer rela- caracterizado pelo vocabulário técnico, ora apostando no literário, que se revela no ções entre os tratamento artístico da linguagem. Em suas páginas, leitor depara com uma narrativa que você estuda para cons- truir um painel coerente de do massacre marcada por tons trágicos e com lamento e as acusações do escritor. Você já sabe, por exemplo, que pensa- A Guerra de Canudos mento de em que se apoia Euclides da Cunha. é a Os atritos do governo com Canudos iniciaram-se em 1896 e estenderam-se por quase base do romance naturalista um Nesse período, quatro expedições militares foram enviadas à região, saldo do cortiço, de Azevedo. conflito foi a de uma cidade de 5.200 casebres e uma população estimada entre 10 mil e 25 mil habitantes. Oficialmente, governo alegou estar defendendo país de um Antônio Se achar remeta os alunos 77. em que foi discutido o Conselheiro, que liderava um enorme grupo Hoje já se sabe que fatores uso do termo Determinismo políticos, a atuação da Igreja contra determinados pregadores e as pressões dos grandes está explicado na p. 76. proprietários de que sentiam a escassez de mão de obra foram os verdadeiros responsáveis pelo massacre Sabia? homem": os protagonistas da tragédia Na segunda parte de sua obra, Euclides da Cunha, apoiado nas teorias A Guerra de Canudos inaugurou, no Brasil, a cober- da época, aborda a formação racial do sertanejo e suas tura jornalística diretamente Visto como uma vítima do desproporcional das forças republicanas, ele acaba do local dos acontecimentos. sendo mostrado pelo autor como um herói singular. Leia como Euclides apresenta em uma das passagens mais conhecidas de Os sertanejo sertanejo antes de tudo, um forte. Não tem O raquitismo exaustivo dos mesticos neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela O contrário Falta-lhe a plástica impecável, desempeno, a estrutura corretissima das or- ganizações É desgracioso, torto. Hércules-Quasímodo reflete no aspecto a fealdade típica dos O andar sem sem aprumo, quase gigante e aparenta a translação de membros Agrava-o a postura Raquitismo: fraqueza de- normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente Neurastênicos: que sofrem de neu- rastenia (fadiga ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia animal para trocar duas palavras com um cai logo sobre um dos estribos, descan- Desempeno: sando sobre a espenda da sela. Caminhando mesmo a passo não traça Translação: trajetória retilínea e firme. Avança celeremente. num bambolear Sofreia: puxa as de que parecem ser os meandros das trilhas sertanejas. E Espenda: parte da sela em que se se na marcha estaca pelo motivo mais vulgar, [...] cai logo cai é termo de encaixa a coxa do cavaleiro. atravessando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em que Celeremente: todo seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos sentado sobre os Meandros: caminhos calcanhares, com uma simplicidade a um tempo e 112 É homem permanentemente fatigado. Reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene, em tudo: na palavra remorada, no gesto contrafeito, no andar desaprumado, na cadência langorosa das modinhas, na tendência constante à imobilidade e à quietude. Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude. Euclides da. Os sertões. ed. esp. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. (Saraiva de Bolso). (Fragmento).Indicamos um ensaio da antropóloga Lilia Lima Barreto: denúncia e desabafo Schwarcz sobre Lima Barreto, publicado em Contos completos de Lima Barreto (São Paulo: Companhia das 2010) Lima Barreto (1881-1922) foi primeiro autor brasileiro a reconhecer-se como um literato negro. Em seus textos, fala com ressentimento da exclusão, das injustiças so- ciais e da eugenia. Viveu sob signo do "não": a Academia Brasileira de Letras nunca reconheceu como membro e suas publicações não eram prestigiadas como mereciam. A trajetória do autor é prova concreta de que, no Brasil, advento da República e da abolição da escravatura não proporcionou aos negros e mestiços (instruídos ou não) reais possibilidades de mobilidade social. Além disso, os discursos cientificos raciais Eugenia: racismo que chegavam ao país tentavam justificar as condições desumanas a que os negros maquiado de ciência eram submetidos, mesmo sendo legalmente livres. termo eugenia, criado Fugindo ao formalismo da academia, Lima Barreto procurou construir pelo antropólogo inglês Francis Galton (1822-1911), uma literatura que privilegiasse registro oral a verdadeira fala do povo proce- refere-se ao estudo de agen- dimento que muitos críticos enxergaram como "descuido da linguagem". A crítica ao tes que poderiam melhorar funcionalismo público e ao brasileiro do protecionismo bem como retrato do ou empobrecer caracteris- ticas De preconceito racial aparecem com frequência na boca de seus personagens. autoritário e racista, mo- carioca é outra referência constante em suas vimento eugênico defendia a proibição dos imigrantes Triste fim de Policarpo Quaresma Se achar remeta os alunos não brancos, controle da ao boxe sobre Dom 25 (cap. 3). miscigenação, a intervenção romance mais importante de Lima Barreto é Triste fim de Policarpo Quaresma na reprodução humana e a (1915). Narrado em terceira pessoa, conta, de maneira irônica e melancólica, a história esterilização de indivíduos de um personagem ingênuo, uma espécie de D. Quixote nacional. Policarpo Quaresma, considerados "inaptos". No major que vive no e exerce a função de subsecretário no Arsenal da Guerra, Brasil, seu principal defensor é um patriota idealista e ridicularizado às escondidas pelos colegas. livro foi o médico paulista Renato Kehl (1889-1974). divide-se em três partes, relacionadas aos projetos do protagonista: 113 1. Projeto nacionalista Quaresma empreende um estudo minucioso das tradições do Brasil, principalmente da cultura Por meio de um solicita às autoridades que introdu- zam tupi-guarani como língua oficial. Essas e outras extravagâncias (por exemplo, a iniciativa de cumprimentar as pessoas chorando, como faziam os indígenas levam-no a ser internado em um hospital 2. Projeto agrícola Policarpo adquire uma propriedade rural (o Sítio do Sossego), fracassa na tentativa de aplicar nas terras as teorias que aprendeu nos livros e, envolve-se nas politicagens do interior. 3. Projeto político Quaresma engaja-se como voluntário nas tropas lideradas pelo "Marechal de Ferro", Floriano Peixoto, para lutar pelos ideais republicanos no episódio da Revolta da Armada. Conflito ocorrido em 1893. Na ilha das Enxadas, assume a função de carcereiro e testemunha a condenação ilegal e quando forças rebeldes da aleatória de presos políticos ao fuzilamento. Indignado, escreve uma carta em protesto Marinha se voltaram contra e tem seu "triste fim", mesmo dos demais presos políticos, injustamente decretado governo do marechal Floriano por seu político". fragmento a seguir pertence ao último capítulo do romance. Consciente do des- tino a que fora condenado por sua própria pátria, Policarpo reflete sobre suas Biblioteca Por que estava preso? Ao certo não oficial que conduzira nada lhe cultural quisera dizer: e, desde que saíra da ilha das Enxadas para a das Cobras, não trocara palavra com não vira nenhum conhecido no nem Veja uma animação que próprio Ricardo que lhe podia, com um olhar, com um gesto, trazer sossego às resume a obra Triste fim de suas dúvidas. Entretanto, ele a prisão à carta que escrevera ao presi- Policarpo Quaresma, reali- protestando contra a cena que presenciara na véspera. zada para projeto Biblio- teca Enraizando, produzido Não se pudera conter. Aquela leva de desgraçados a sair assim, a por Marcelo da Silva, Victor escolhidos a para uma distante. falara fundo a todos os seus Balestrin e Wellington C. sentimentos: pusera diante dos seus olhos todos os seus princípios morais: Disponível em: desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade humana: e ele escrevera a falou claro. franca e (acesso em: 30 mar. 2020.) Devia ser por isso que ele estava ali naquela masmorra, engaiolado, isolado dos seus semelhantes como uma como um criminoso, sepultado na treva, sofrendo umidade, misturado com os seus detritos, quase sem Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta lhe vinha, no meio da revoada A desoras: fora de hora. de pensamentos que aquela angústia provocava pensar. Não havia base para Carnicaria: grande car- nificina. qualquer Era de conduta tão irregular e incerta O Governo que tudo Pandegara: festejara. ele podia esperar: a liberdade ou a morte, mais esta que aquela. O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sede de matar, para afirmar mais a vitória e senti-la bem na consciência cousa sua, própria, e altamente honrosa. Iria quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada. Levara toda ela da miragem de estudar a por amá-la e querê-la no intuito de contribuir para a sua felicidade e prosperidade. Gastara sua mocidade a sua virilidade agora que estava na velhice, como ela recompensava, como ela premiava, como ela condecorava? E que não deixara de ver, de gozar, de fruir, na sua vida? Tudo Não brincara, não pandegara, não amara todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza necessária, ele não vira, ele não provara, ele não [...] A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a política que julgava existir, havia. BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo São Paulo: 2003. (Bom Livro).11:13 Monteiro Lobato: a escrita impiedosa Narizinho, Pedrinho, Emília, Visconde de Sabugosa, Tia Nastácia, Dona Benta são nomes familiares a você? Eles habitam o universo de muitos brasileiros que tiveram contato com a literatura infantil de Monteiro Lobato (1882-1948). Mas, além de escrever para crianças, o autor desenvolveu uma literatura inventiva e polêmica para adultos. de o artigo que o tornou conhecido do grande público, "Uma velha praga", publicado em 1914, já prenunciava o tipo de autor que ele seria. No texto, Lobato criticou a idealização do caboclo, com base em sua experiência como fazendeiro no Vale do de Paraíba (SP), e denunciou o descaso das autoridades com as consequências do hábito de caipira de queimar o mato para plantar. No mesmo ano, publicou outro texto de repercussão nacional, cujo título daria nome à sua obra de estreia: Urupês. Nele, o caboclo aparece representado de forma caricatural na figura de Jeca Tatu. Leia um trecho. indianismo está de novo a deitar copa, de nome mudado. Crismou-se de do "caboclismo". cocar de penas de arara passou a chapéu de palha rebatido à testa; a ocara virou rancho de tacape afilou, criou gatilho, deitou ouvido e é hoje espingarda troxada; boré descaiu lamentavelmente para pio de inambu; a tanga ascendeu a camisa aberta ao peito. Mas substrato psíquico não orgulho indomável, independência, fidalguia, coragem, virilidade heroica, todo o recheio em suma, sem faltar uma azeitona, dos Peris e Este setembrino rebrotar duma arte morta inda se não desbagoou de todos os frutos. Terá o seu "I-Juca Pirama", seu "Canto do Piaga" e talvez dê ópera lírica. Mas, completado ciclo, virão destroçar inverno em flor da ilusão indianista os prosaicos demolidores de ídolos gente má e sem poesia. Irão os malvados esgaravatar ícone com as curetas da ciência. E que feias se hão de entrever as caipirinhas cor de jambo de Fagundes Varela! E que chambões e sornas os Peris de calça, camisa e faca à cinta! Isso, para futuro. Hoje ainda há perigo em bulir no vespeiro: caboclo é "Ai Jesus!" nacional. É de ver orgulhoso entono com que respeitáveis figurões batem no peito exclamando com sou raça de caboclo! Anos atrás orgulho estava numa ascendência de tanga, inçada de penas de tucano, com dramas íntimos e flechaços de curare. Dia virá em que os veremos, murchos de prosápia, confessar verdadeiro avô: um dos quatrocentos de Gedeão trazidos por Tomé de Sousa num barco daqueles tempos, nosso mui nobre e fecundo Mayflower Porque a verdade nua manda dizer que entre as raças de variado matiz, for- madoras da nacionalidade e metidas entre estrangeiro recente e aborígene de tabuinha no beiço, uma existe a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso. Feia e sorna, nada a de pé. LOBATO, Monteiro. Urupês. In: Jorge. Vanguardas latino-americanas polêmicas, manifestos e textos críticos. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Edusp, 2008. (Fragmento).Em Urupês, Lobato emprega o humor ácido e um estilo vigoroso, em que se mis- turam a linguagem sofisticada e as expressões coloquiais, para criticar um grupo que chamou genericamente e"Jeca"e que seria, segundo ele, responsável pelo atraso da nação. Influenciado pelas teorias racistas de seu tempo, o autor atribuiu ao "caboclo" uma preguiça e uma negligência quase inatas, que o tornariam passivo diante dos problemas que o atingem. de Porém, anos mais tarde, após ter acesso a estudos sobre saúde pública, Monteiro Lobato reformulou sua imagem do "Jeca". Passou a defender que a indolência do ho- mem do campo não seria inata, mas advinda da saúde precária, da fome e da exclusão de a que estava submetido havia gerações. Usou então seu personagem Jeca Tatu para cobrar do governo saneamento básico e para esclarecer a população. e Augusto dos Anjos: artista singular Autor de um único livro, Eu (1912), o poeta paraibano Augusto dos Anjos (1884- do -1914) destacou-se pela singularidade de seus versos, que revelam influências românticas, naturalistas, parnasianas e simbolistas. Decomposição do corpo, morte e sofrimento estão presentes na curta produção desse escritor, que, instigado pelas ideias do biólogo alemão Ernst Haeckel (1834-1919), empregou em seus poemas termos científicos e escatológicos (relativos a imundices), motivo pelo qual é conhe- cido como o "poeta do mau gosto". Leia. Versos íntimos Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Quimera: fantasia, Somente a Ingratidão - esta pantera - utopia. Chaga: ferida aberta. Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te Homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera. Toma um fósforo. Acende teu cigarro! beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja. Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija! ANJOS, Augusto dos. Versos íntimos. In: CALIXTO, Fabiano (org.). Eu. São Paulo: Hedra, 2012.

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