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SOCIEDADE DE ENSINO UNIVERSITÁRIO DO NORDESTE 
CURSO DE DIREITO 
 
 
GISLAINE DE LIMA INTERAMINENSE 
 
 
 
 
 
“SEMPRE DESOBEDECER, NUNCA REVERENCIAR”: 
A DESOBEDIÊNCIA CIVIL NAS LETRAS ARTÍSTICAS, E SUA APLICAÇÃO 
COMO FORMA DE RESISTÊNCIA. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
MACEIÓ-AL 
2022 
 
 
 
GISLAINE DE LIMA INTERAMINENSE 
 
 
 
 
 
“SEMPRE DESOBEDECER, NUNCA REVERENCIAR”: 
A DESOBEDIÊNCIA CIVIL NAS LETRAS ARTÍSTICAS, E SUA APLICAÇÃO 
COMO FORMA DE RESISTÊNCIA. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
MACEIÓ-AL 
2022 
Monografia apresentada à Sociedade de Ensino 
Universitário do Nordeste-SEUNE, como parte dos 
requisitos para obtenção do título de Bacharelado de 
Direito 
Orientador: Profa. Willaine Araújo Silva 
 
 
 
 
 
 
 
 
Orientador: Prof.______________________ 
Co-orientador: Prof.____________________ 
 
 
 
 
GISLAINE DE LIMA INTERAMINENSE 
 
 
 
 
“SEMPRE DESOBEDECER, NUNCA REVERENCIAR”: 
A DESOBEDIÊNCIA CIVIL NAS LETRAS ARTÍSTICAS, E SUA APLICAÇÃO 
COMO FORMA DE RESISTÊNCIA. 
 
 
 
Monografia apresentada à Sociedade de Ensino Universitário do Nordeste - SEUNE, como 
parte dos requisitos para obtenção do grau de Bacharelado em Direito. 
 
 
_________________________________________________ 
Orientador: 
 
 
_________________________________________________ 
1º Examinador: 
 
 
_________________________________________________ 
2º Examinador: 
 
Data da aprovação: ______/______/_____ 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 7 
1. O LIMITE DO ESTADO, E O PAPEL DA LIBERDADE NA DESOBEDIÊNCIA 
CIVIL..... .............................................................................. Error! Bookmark not defined. 
1.1.Liberdade ..................................................................................................................... 14 
1.1.1 Rawls e a ideia de sociedade justa e livre ..................................................................... 13 
1.1.2 Caso Rose Parks: a desobediência civil e os direitos da população negra norte-
americana……………………………………………………………………………………..14 
1.1.3 Martin Luther King Jr. e a luta pela liberdade.................................................................15 
1.2 O conceito de Estado.........................................................................................................18 
1.3. Resistência durante a revolução francesa..................................................................... 20 
2. A DESOBEDIÊNCIA CIVIL E A RESISTÊNCIA NA ÓTICA DA MORAL E DA 
ÉTICA..................................................................................................................................... 24 
2.1. As diversas etimologias de ética........................................................................................24 
2.2 As diversas etimologias de moral.......................................................................................28 
2.3 Ética e a moral e sua importância neste universo ..............................................................30 
3. BELCHIOR E RAUL SEIXAS COMO FIGURAS DA RESISTÊNCIA.....................32 
4. CONCLUSÃO ................................................................................................................ 36 
5. REFERÊNCIAS ............................................................................................................. 39 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
”Se a lei contiver erros de tal ordem que nos obrigue a 
ser um instrumento de injustiça para alguém, e se 
somente for este o caso, então eu digo, viole a lei”. 
(THOREAU, HENRY DAVID) 
 
 
RESUMO 
 
A presente monografia pretende demonstrar a desobediência civil como um mecanismo 
alternativo e eficaz, para o exercício da democracia e em prol da justiça. Para tanto, o estudo 
deste tema, envolveu diversos conceitos. Primordialmente a etimologia de liberdade, logo a de 
Estado, assim como da ética e moral que são pressupostos essenciais para a análise do presente 
tema. Em cada um desses tópicos haverá os pensamentos de grandes nomes da sociologia, e 
dentre outros estudiosos para que se possa entender a desobediência civil como forma de 
resistência. Expondo a formação, as características e a teoria geral da visão de cada um desses 
pensadores. Assim fazendo referência a vários meios de protestos do povo ao redor do mundo, 
que foram utilizadas contra os modelos de legislação que foram consideradas injustas. 
 
Palavras-chave: Desobediência Civil; direito de resistência; liberdade; ética; moral; Estado. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
ABSTRACT 
 
This monograph intends to demonstrate civil disobedience as an alternative and effective mech-
anism for the exercise of democracy and in favor of justice. Therefore, the study of this theme 
involved many concepts. Primarily the etymology of freedom, then that of the State, ethics and 
morals, which are essential assumptions for the analysis. In each of these topics there will be 
the thoughts of big names in sociology, and among other scholars to understand civil disobedi-
ence as a form of resistance. It exposes his training, characteristics and his general theory of the 
vision of each of these thinkers. As well as referring to various means of protest by people 
around the world against models of legislation that were unjust. 
 
 
 
Keywords: Civil Disobedience; right of resistance; freedom; ethic; moral; State. 
 
7 
 
INTRODUÇÃO 
 Desde o início da humanidade, com as primordiais configurações da sociedade, há 
indícios de agrupamentos ou certa organização para aqueles que conviviam naquele meio, com 
isso, por conseqüência foram criadas regras, onde se tende a aceitação ou a desobediência 
daqueles que estão inseridos nesse ambiente. 
 Conforme o Dicionário de Política de Norberto Bobbio, a desobediência civil pode ser 
compreendida como “uma forma particular de desobediência, na medida em que é executada 
com o fim imediato de mostrar publicamente a injustiça da lei, e com o fim mediato de induzir 
o legislador a mudá-la”. 
Não se sabe ao certo a origem dessas regras, mas o que sabemos é que nem todas elas 
devem ser seguidas. Ao longo da história vimos leis que foram contra o que se entendem ser 
moral e ético, a compra e venda de pessoas para serem escravas, assassinatos em nome de um 
Estado maior. O holocausto nazista, que segundo o jornalista Guillermo Altares foi o genocídio 
que perseguiu cerca de 6 milhões de pessoas, dentre eles judeus, ciganos e homossexuais. Os 
Gulags da União Soviética, onde constantemente nos campos de prisioneiros, os detentos eram 
castigados com trabalhos forçados, torturas físicas e psicológicas. 
 Ato contínuo, a história é cheia de indícios, que o Estado e seus governos vão longe nos 
seus abusos de poder, logo, a Desobediência Civil é uma arma que o povo tem para resistir à 
opressão. 
Essas opressões podem vir de várias formas e maneiras, sejam as mais violentas como 
as supracitadas, até mesmo as que são mascaradas, como a proibição da venda de bebidas 
alcoólicas, como ocorreu nos Estados Unidos da América nos anos 1920, a chamada Lei Seca, 
uma lei federal proibiu que bebidas fossem produzidas, conduzidas ou mesmo comercializadas 
em todo o território nacional. Até mesmo a proibição, e a aplicação de multa pela venda de 
produtos clandestinos que há nas feiras locais, os chamados “Camelôs”, que muitas vezes são 
realizadas por um cidadão simples, em busca de colocar alimento na mesa da sua família. 
Thoreau (1849, p. 45) afirma, por exemplo, que é injusto que o Estado confisque os bens 
daqueles que negam a autoridade estatal e não pagam os impostos, pois com o ato, o Estado 
pega para si o patrimôniode uma pessoa honesta e dissipa-o, tornando, assim, impossível que 
uma pessoa íntegra possa viver de maneira confortável. 
Em tese, habitualmente na esfera constitucional e política, a desobediência civil é uma 
das ferramentas de extrema relevância que engloba o gênero revolução. 
A história da raça humana é marcada por rebeliões e revoluções, muitas vezes fundadas 
no direito de autodeterminação do homem e dos povos. Essas batalhas, armadas ou não, foram 
de grande importância para a evolução da sociedade. 
Gandhi, Luther King e Henry Thoreau, homens que, além das obras que construíram, 
ajudaram com suas experiências práticas, dando a vida pela causa que defendiam. 
No âmbito artístico, Belchior, foi um dos grandes poetas da Música Popular Brasileira, 
artista que em cada uma das suas letras fazia alusão à luta, juventude e resistência popular. Tais 
temáticas se fizerem presentes nas suas obras de protesto à época da ditatura brasileira, 
momento em que a desobediência civil era uma tática indispensável na luta contra a pressão 
política. 
 Destarte, foi empreendido no presente trabalho de conclusão, a análise da origem, seus 
contornos e limites do direito de resistência, liberdade e da desobediência civil na esfera do 
Estado de Direito, como também o direito de liberdade conforme disposto no artigo 5.º, IX da 
Constituição Federal. Utilizando formas que não causem danos aos demais utensílios do 
ordenamento jurídico à disposição da sociedade, combatendo assim as normas tidas como 
injustas e opressivas, que vão de encontro com o que é ético e moral para grandes nomes, como 
John Rawls, Locke, Hobbes, Maquiavel, dentre outros. 
8 
 
Por fim, a seguir se discutirá como tais medidas foram empregadas frente as normas 
injustas, e como ela foram espelhadas nas poesias de artistas durante as épocas, principalmente, 
Belchior, que ao finalizar a música “Como o diabo gosta”, canta que: “O que transforma o velho 
no novo / Bendito fruto do povo será / E a única forma que pode ser norma / É nenhuma regra 
ter / É nunca fazer nada que o mestre mandar / Sempre desobedecer / Nunca reverenciar”. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
9 
 
1 O LIMITE DO ESTADO, E O PAPEL DA LIBERDADE NA DESOBEDIÊNCIA 
CIVIL. 
 
 A desobediência civil, para o Jornalista Daniel Neves Silva é uma ação popular que 
consiste na desobediência expressa de uma determinada lei. Ela ocorre quando o cidadão ou 
um grupo de cidadãos compreende que determinada norma ou mesmo sua ausência, objetiva a 
injustiça, sendo então, tal ato um método eficaz para intentar e manifestar a justiça social de 
forma mais célere e correta. 
Para Nelson Nery Costa, em reflexão a obra Antígona, tragédia Grega de Sófocles 
produzida por volta de 442 a.c., relata que foi o primeiro local a ser visto os primeiros atos de 
resistência, segundo o autor “há certas leis não escritas, superiores a todas as outras, pelas quais 
não é vedado desobedecer às demais, quando com elas colidentes”, se referindo ao direito 
natural do ser humano. 
Além do que, no liame da Constituição brasileira, no art. 5º, IX, está expresso o direito 
de expressão e manifestação por meio dos juízos de valor. Sendo a liberdade de expressão uma 
manifestação legal que se mostra de diversas formas e oportunidades, seja na opinião do 
indivíduo, informação, escolha, no trabalho, na conversa entre família, na política, na religião, 
ou em qualquer âmbito do convívio social, sendo um direito essencial para qualquer tipo de 
democracia. 
 Nesse diapasão, logo quando se menciona o direito de resistência, não se deve 
embaralhar este conceito com a ideia de atrito entre indivíduos que se encontram em 
pensamentos horizontais de direitos, pois, trata-se de algo muito além, da sociedade como um 
todo, e como ela é em sua essência, que resiste aos atos coercitivos do Estado, que obriga com 
seu status superior a cumprir meios que podem ser considerados descabidos para o todo. 
Então para que haja uma análise adequada sobre a desobediência civil, é necessário que 
se faça um estudo sobre o que é Estado, liberdade, moral e ética. Que são associações essenciais 
que norteiam a relação humana, assim como o desenvolvimento da resistência como meio de 
desobediência de frente a normas que vão de encontro com o pensamento ético ou moral 
daqueles indivíduos que se encontram perante elas. 
 
10 
 
1.1 Liberdade. 
 
A atribuição de um significado ao termo “liberdade” gera grandes discussões diante da 
inexatidão contida no seu teor. Acentua Manuel Atienza que a expressão aludida “es una de 
lasmás prestigiosas de nuestro arsenal lingüístico, y por lomismo, una de las más imprecisas 
encuanto a su significado” (ATIENZA, 2000, p. 99). Logo, essa palavra tem amplo significado 
e conceito, dependendo de quem a vê. 
Dentro do tema, uma prática efetiva de se viver com mais liberdade, em qualquer 
momento ou em qualquer lugar, chama-se a desobediência civil. Existem diversos ícones que 
merecem grande reconhecimento, sendo um deles o americano Henry Thoreau, que fez enormes 
críticas ao pagamento de impostos, a escravidão e ao imperialismo expansionista do Estado 
americano ao se recusar a pagar impostos, Thoreau foi preso. Este episódio o inspirou a escrever 
a obra famosa Desobediência civil, do ano de 1849. 
Quando foi preso pelo não pagamento devido, não quis resistir à prisão, pelo contrário, 
orgulhou-se, pois com essa ação, a aceitação da punição foi um meio de mostrar a todos que 
não era um revoltado, e se por agir conforme seus ideais de justiça, fosse necessário ser preso, 
ele o faria, pois nada seria pior do que aceitar algo que não acreditava ser o ideal para todos. 
Quando foi preso pelo não pagamento devido, não quis resistir à prisão, pelo contrário, 
o mesmo orgulhou-se, pois com essa ação, a aceitação da punição foi um meio de mostrar a 
todos que não era um revoltado, e se por agir conforme seus ideais de justiça, fosse necessário 
ser preso, ele seria, pois nada seria pior que aceitar algo que não acreditava ser ideal para todos. 
Thoreau era um abolicionista em uma época em que a escravidão era lei, conforme o 
canal do Youtube Visão Libertária, ele estava indignado pelo fato do governo não agir contra a 
escravidão, se perguntava como um Estado americano que em sua declaração de independência 
se dizia que todos os homens são criados iguais, explicitamente criava leis tornando a alguns 
deles escravos. Ele era também um pacifista em uma época em que o governo estava em guerra 
com o México e que não fazia um menor sentido quando o governo queria empreender guerras 
em nome dos cidadãos americanos, ele apenas pregava a desobediência civil não apenas nesses 
casos, mas com relação a qualquer lei vista como antiética. 
É fato, existem e existiram diversas leis injustas e imorais na história, como o conhecido 
Holocausto Nazista, e elas contradizem a própria justificativa da existência do Estado, visto que 
11 
 
é um ser maior que deveria proteger os cidadãos. Os indivíduos segundo Thoreau devem estar 
preparadas para a liberdade, precisam acima de tudo desejá-la intensamente, por isso ele disse 
em Desobediência Civil “O melhor governo é o que não governa. Quando os homens estiverem 
devidamente preparados, terão esse governo”. 
Já para Ludwig Von Mises, como exposto no texto Filosofia (2021) de Rodrigo 
Constantino, a ideia de liberdade é compreendida quando se fala de relações inter-humanas. Ele 
acreditava que conforme a biologia, quem é o mais forte é o que tinha razão, logo, Mises achava 
que o homem primitivo não nasceu com liberdade, mas que teve de conquistá-la. Que os 
homens precisam estar protegidos contra o autoritarismo dos que são superiores, e é preciso ter 
um responsável por fazer com que se evite ações antissociais de alguns, evitando a violência 
descabida, neste caso poderia ser o governo. E ele deveriater um método que utilizasse da 
coerção e punição regulamentada para resolver essas questões, mas que respeitasse os limites e 
escolha dos indivíduos, desta forma, Ludwig Von Mises no seu livro O que é Liberalismo, de 
1927 define que: 
A liberdade como o estado em que cada indivíduo é livre para escolher, sem a restrição 
da violência do governo além da margem em que a lei da praxeologia restringiria de 
qualquer maneira. Os indivíduos são livres quando podem praticar suas trocas 
voluntárias, contando com o aparato do governo somente para impedir a agressão 
alheia. (MISES, 1927) 
Uma forma atual que se parece com o que Mises escrevia, seria o boicote como meio de 
punição para atos que ferem a liberdade individual. Um dos casos recentes de boicote, foi com 
a hashtag #VidasPretasImportam, que se iniciou após uma pessoa negra ser espancada até a 
morte por dois seguranças brancos em um dos mercados da rede Carrefour na cidade de Porto 
Alegre. Manifestantes foram às ruas em busca de justiça pelo ocorrido. As vendas do Carrefour 
diminuíram cerca de 5,3%, segundo o site de notícias Seu Dinheiro. 
Mas não se pode esquecer que a liberdade, que ela é garantida, pois você é dono de tudo 
que está interligado a você, e assim você escolhe seu caminho. Por meio desses traços de 
expressar o que sente que o ser humano possui que as civilizações evoluíram, porém esta possui 
limites, principalmente quando se fala de propriedade privada. 
Murray Rothbard, na sua obra Man, Economy, and State de 1962, abordou essa questão 
sobre liberdade de expressão: 
Peguemos, por exemplo, o "direito humano" à liberdade de expressão. Supõe-se que 
a liberdade de expressão significa que todos têm o direito de dizer o que bem 
entenderem. Mas a questão negligenciada é: onde? 
https://www.mises.org.br/SearchByAuthor.aspx?id=93&type=articles
https://www.mises.org.br/SearchByAuthor.aspx?id=93&type=articles
https://mises.org/library/man-economy-and-state-power-and-market/html/c/434
12 
 
Onde um indivíduo possui esse direito? Certamente ele não possui esse direito em 
uma propriedade que esteja invadindo. 
Ele possui esse direito apenas em sua própria propriedade ou na propriedade de 
alguém que concordou voluntariamente — seja por meio de um contrato de aluguel 
ou mesmo por um ato de generosidade — em conceder a ele o espaço determinado. 
Portanto, na realidade, não existe isso de "direito à liberdade de expressão"; existe 
apenas o direito de propriedade de um indivíduo: o direito de ele fazer o que quiser 
com o que é seu ou de fazer acordos voluntários com outros indivíduos que, por 
possuírem uma propriedade, concedem a este indivíduo o direito de utilizá-la para 
fazer o seu discurso ou escrever o seu artigo. 
Por tudo isso, o conceito de "direitos" somente faz sentido se eles são entendidos a 
partir do conceito de direitos de propriedade. Pois não apenas não existem direitos 
humanos que não sejam também direitos de propriedade, como todos esses direitos 
perdem sua incondicionalidade e clareza, e se tornam confusos e vulneráveis, quando 
os direitos de propriedade não são usados como padrão. (Rothbard, 1962) 
 
Ato contínuo à idéia de Rothbard, quando utilizamos de forma sábia nossa liberdade, 
pode moldar idéias baseadas no que as pessoas já têm em mente, criamos armas contra a tirania. 
A liberdade de expressão é o que forja idéias, logo, essas são meios de disseminar a verdade e, 
fortalecer as pessoas contra o autoritarismo. 
 
1.1.1 Rawls e a ideia de sociedade justa e livre. 
 
Jonh Rawls foi um filósofo político-liberal norte-americano extremamente influente no 
século 20. Conhecido por sua obra Uma Teoria da Justiça, ele demonstra nela as questões 
principais da sua filosofia, que seria a ideia de como construir uma sociedade justa e livre, por 
meio de um Estado liberal, sendo então uma democracia moderna, que funciona muito mais 
que um socialismo igualitário. 
Para o autor, “cada pessoa tem direito igual às mais amplas liberdades compatíveis com 
liberdades semelhantes para tudo.” (RAWLS, 1993) E em relação ao seu conceito justiça, o 
mesmo intitulou de “justiça como equidade”, possui dois princípios, um deles que propõe a 
limitação o governo democrático, e o outro que busca garantir ao indivíduo as liberdades 
básicas, como “bases sociais do respeito próprio” e outras vantagens sociais. (RAWLS, 1993). 
No que condiz à desobediência civil, Rawls preceituava que não seria em oposição a 
uma autoridade democrática ou contra a maioria, ou mesmo contra normas legislativas. Na 
verdade, achava que esses eram pontos essenciais para a construção dos seus ideais, pois o 
13 
 
mesmo acreditava que a desigualdade, desde que controlada, é um ponto essencial para a 
existência da sociedade, mas que se esta for extrema, o risco é que essa desigualdade possa se 
tornar uma situação de anomia como a potencialização da violência urbana, causando uma 
tensão social advinda do cidadão. 
Ressalta-se que no pensamento de Rawls, há três justificativas para a desobediência 
civil. A primordial é quando o princípio da igual liberdade estiver sendo desrespeitado; a 
segunda condição é quando o uso público da razão, a justificação pública e a razoabilidade 
forem abandonadas, e não há o que se possa fazer nos meios legais e políticos contra uma lei 
(ou ordenação) injusta; já a terceira maneira de justificar a desobediência civil consiste em 
delimitar as injustiças que se derem mais ou menos deliberadas durante um largo período de 
tempo, o que satisfaz as restrições geradas pela questão da equidade. 
Em suma, a desobediência civil é um método de dissensão; é um mecanismo próprio e 
concernente apenas aos sistemas democráticos. O autor reconhece a desobediência civil 
enquanto um mecanismo estabilizador da democracia liberal, um mecanismo de luta contra as 
opressões, nesse contexto o autor Cezar Augusto Schirmer também preceituava: 
[...] E isto não é um contrassenso ou a negação do próprio ordenamento jurídico, antes 
é a demonstração de que o constitucionalismo democrático maduro se mostra 
preparado para lidar com questões de justiça sem se iludir em um legalismo cego. 
(SCHIRMER, 2016). 
Para Rawls, a desobediência civil se dá quando se tem uma sociedade que é quase 
totalmente justa, mas que, entretanto, há casos sérios de violações de justiça. O autor aduz que 
a desobediência civil é uma forma política que pode ser entendida como um método de recorrer 
ao senso de justiça da comunidade, uma invocação dos princípios reconhecidos da cooperação 
entre iguais, sendo um apelo à base moral da vida cívica e, portanto, um ato político. 
É um ato político em duplo sentido: no sentido em que se dirige as pessoas que possuem 
o poder político e porque é uma ação que orienta e justifica-se pelos princípios políticos, assim 
como pelos princípios da justiça que regulam a constituição e as instituições sociais. 
1.1.2 Caso Rose Parks: a desobediência civil e os direitos da população negra norte-
americana. 
 
Os Estados Unidos, um país que segundo o jornal Gazetado povo (2019) durante muito 
tempo foi referência sobre liberdade individual, de expressão e econômica, e apesar de sua 
14 
 
Constituição proteger essas liberdades ou ao menos alegava proteger, passou por momentos 
sombrios de repressão, não somente com a escravidão, onde houve um longo período de 
segregação racial tal qual no território norte-americano. 
O Estado limitava os direitos dos negros, discriminando-os do resto da sociedade, sendo 
vistos como cidadãos de segunda classe, e as vezes nem mesmo isso. A segregação 
institucional, uma realidade da época, só foi rompida por meio de atos de desobediência civil, 
sendo apenas a partir desse momento que a situação começou a mudar, uma vez que, caso a 
população negra americana tivesse aceitado passivamente as imposições do governo, e se 
limitasse a obedecê-las, essa realidade talvez nunca teria mudado.O caso de Rose Parks, uma americana de Montgomery, que teve coragem de tomar a 
iniciativa de desobedecer às leis discriminatórias dos EUA, foi um das mais importantes e 
memoráveis da história. 
Rose também atuou no apoio ao caso dos Scottsboro Boys, onde nove jovens negros 
foram incriminados erroneamente de terem abusado sexualmente uma mulher quando ela estava 
em um trem em 1931. Foi então quando, na década de 1940, Rose Parks tornou-se uma militante 
ativa do NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor), assumindo a 
posição de secretária do movimento. 
Ela era costureira, e se tornou uma das líderes do movimento contra a segregação racial, 
mas sua história não foi fácil, ela foi presa em dezembro de 1955, quando recusou ceder o 
assento do ônibus para uma pessoa branca. E assim se tornou um dos principais símbolos dos 
direitos civis nos Estados Unidos, isso tudo porque ela se recusou a trocar de lugar. É difícil 
imaginar que esse cenário de descriminação está a menos de um século de distância dos dias de 
hoje. 
No estado do Alabama, onde o caso supracitado ocorreu, existia uma lei que obrigava 
os negros a se sentarem no fundo dos ônibus públicos, e se não houvesse mais lugares vagos os 
indivíduos negros eram obrigados a ceder o lugar para um cidadão branco. 
Os direitos e as liberdades que foram adquiridos pelas pessoas não se referem a um 
longínquo passado, são conquistas recentes, a apesar de uma injusta lei americana amparar que 
os brancos tinham direito aos assentos da frente dos ônibus, a prisão de Rose Parks culminou 
uma onda de protestos contra a discriminação racial, sendo o estopim de uma revolução de 
desobediência. 
15 
 
O que aconteceu a Rose não havia sido o primeiro ato de discriminação no mundo, e 
também que não seria o último. A partir desse momento, Rose Parks e o pastor da igreja Batista 
Martin Luther King Jr, pastor da igreja Batista, estiveram envolvidos na organização um boicote 
aos ônibus, com protestos que duraram 382 dias seguidos, onde teve a aderência de mais de 30 
mil pessoas, assim grande parte da população negra começou a boicotar o transporte coletivo, 
conforme matéria do site da emissora germânica DW (Deutsche Welle). 
Com o boicote à empresa de ônibus como forma de protesto, a comunidade negra 
começou a se direcionar para seus empregos caminhando ou até mesmo organizando caronas 
entre si, quando algum deles possuía automóvel. Imediatamente as empresas de ônibus 
começaram a registrar prejuízos por causa do boicote, finalmente em 20 de dezembro de 1956 
a Suprema Corte americana declarou que as leis segregacionistas eram inconstitucionais. 
Dessa forma, podemos ver que a resistência explícita nesse caso, certamente foi uma 
pacífica e brilhante vitória fruto da desobediência civil, e sua forma legítima de atuar em prol 
da sociedade. 
 
1.1.3 Martin Luther King Jr. e a luta pela liberdade. 
 
Martin Luther King nascido em 1929, vindo a falecer em 1968, conforme o artigo Toda 
Matéria de Juliana Bezerra (2021), ele foi um ativista norte-americano, lutou contra a 
discriminação racial e tornou-se um dos mais importantes líderes dos movimentos pelos direitos 
civis dos negros nos Estados Unidos. Nasceu em Atlanta, nos Estados Unidos, no dia 15 de 
janeiro de 1929. Era filho e neto de pastores da Igreja Batista, e resolveu seguir pelo mesmo 
caminho. Em 1951, formou-se em Teologia na Universidade de Boston. Convertido em pastor, 
em 1954, Martin Luther King assumiu a função de pastor em uma igreja na cidade de 
Montgomery, no Alabama, e recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1964. 
Conforme sua biografia “King: A Biografhy” escrita por L. Lewis, King fez uma 
reflexão sobre si mesmo e do ato de desobediência civil que estava prestes a acontecer, 
perguntava-se se estas ações que estavam acontecendo seriam justas, éticas e cristãs, visto que 
era pastor e de grande importância, prezava primordialmente a religiosidade. (LEWIS, 1970). 
King guiado pela obra do mencionado autor Thoreau, após um encontro com as autoridades 
municipais e os administradores das empresas de ônibus, concluiu: 
16 
 
Usaríamos esse método para dar à luz a justiça e a liberdade, e também para estimular 
os homens a cumprir a lei da terra. Nosso interesse não seria falir a empresa de ônibus, 
mas trazer justiça ao seu negócio (…) vim a perceber que o que realmente estávamos 
fazendo era deixar de cooperar com um sistema perverso e não meramente retirar 
nosso apoio à empresa de ônibus. Esta última, sendo uma expressão externa do 
sistema, naturalmente iria sofrer, mas o objetivo básico era recusar-se a colaborar com 
o mal. Nesse ponto comecei a pensar em ‘A desobediência civil’ de Thoreau. Fiquei 
convencido de que o que estávamos nos preparando para fazer em Montgomery tinha 
relação com o que fora explicitado por Thoreau. Estávamos apenas dizendo à 
comunidade branca: Não vamos mais dar nossa colaboração a esse sistema perverso. 
A partir desse momento, passei a conceber nosso movimento como um ato popular de 
não cooperação (ibid., 1970) 
Martin Luther King Jr. elaborou o texto “Significado do boicote”, citado no New York 
Times, em 24.02.1956, e que segundo sua Autobiografia, escrita por Carlos Alberto Medeiros 
em 2014, mais uma vez adotou paradigmas de justiça para apoiar o movimento, e proclama 
palavras de amor para unir o movimento sem violência: 
Há os que tentariam fazer disto uma campanha de ódio. Esta não é uma guerra entre 
brancos e negros, mas um conflito entre justiça e injustiça. Isto é maior que uma revolta 
da raça negra contra a branca. Estamos tentando melhorar não o negro de Montgomery, 
mas Montgomery como um todo. Se formos presos todos os dias, se formos explorados 
todos os dias, se formos espezinhados todos os dias, nunca deixe ninguém os rebaixar 
a tal ponto que vocês venham a odiá-lo. (Ibid, 1970) 
 Depois do que ocorreu com Rose Parks, King teve uma sensação de impacto, quando 
observou que foi de grande importância esse ato de desobediência, pois estimulou com que os 
negros tivessem uma ação positiva, de ação, que ia de encontro com a legislação 
segregacionista, de forma que percebeu que só assim poderia dar um basta a esse movimento 
discriminatório, com suas marchas a favor da população negra, veja: 
Acreditava que os privilegiados abririam mão de seus privilégios se isso lhes fosse 
pedido. Essa experiência, contudo, me ensinou uma lição. Passei a perceber que 
ninguém abandona seus privilégios sem uma forte resistência. Percebi também que o 
propósito subjacente da segregação era oprimir e explorar os segregados, e não apenas 
mantê-los separados. Mesmo pedindo por justiça dentro das leis segregacionistas, os 
‘poderes constituídos’ não estavam dispostos a nos atender. Justiça e igualdade, 
percebi, nunca viriam enquanto a segregação permanecesse, pois, o propósito básico 
desta era perpetuar a injustiça e a desigualdade. ( Ibid, 1970) 
King se inspirou bastante nas atitudes de Mahatma Gandhi, que era visivelmente 
influenciado por Thoreau. Onde pôde trazer um pouco dos seus métodos pacíficos, e devido a 
seu caráter prático e eficiente, introduziu ao seu discurso o meio da não-violência, o que não 
significava que às vezes não houvesse danos ao patrimônio. Mas de qualquer forma, este não 
era da base deles, mas sim como princípio base fundamental não agir com violência contra 
outras pessoas. Foi quando diante de uma grande multidão, Martin Luther King fez um discurso 
que ficaria marcado na história “I have a dream”: 
17 
 
(...) Cem anos atrás, um grande americano, sob cuja sombra simbólica nos encontrou, 
assinou a Proclamação de Emancipação. Esse importante decreto veio como um 
grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham sido queimados 
nas chamas da injustiça intimidante. (...) Mas cem anos depois o negro ainda não está 
livre. Cem anos depois, a vida do negro ainda é tristementedeformada pelas algemas 
da segregação e pelas cadeias da discriminação. (...) Assim, viemos aqui hoje para 
dramatizar uma condição vergonhosa. De certo modo, viemos à capital de nossa nação 
para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as 
magníficas palavras da Constituição e da Declaração de Independência, estavam 
assinando uma nota promissória da qual todo americano seria herdeiro. Essa nota era 
uma promessa de que todos os homens, sim, os homens negros e os homens brancos, 
teriam garantidos os direitos inalienáveis à “Vida, à Liberdade e à busca da 
Felicidade”. Hoje é obvio que a América não resgatou sua promissória no que se refere 
a seus cidadãos negros. (...) Este é o momento de transformar em realidade as 
promessas de democracia. Este é o momento de ascender do vale desolado da 
segregação ao caminho iluminado da justiça racial. (...) Seria fatal para a nação 
negligenciar a urgência desse momento. (...) Mas há algo que eu tenho a dizer ao meu 
povo (...) não devemos arcar com a culpa por ações ilegais. Não vamos satisfazer 
nossa sede de liberdade bebendo da xícara de amargura e ódio. (...). Não devemos 
permitir que nosso protesto criativo degenere em violência física. (...) Não nos 
deixemos cair no vale da desesperança. Eu lhes digo agora, meus amigos, que embora 
enfrentemos as dificuldades atuais e futuras, eu ainda tenho um sonho. (...) Eu tenho 
um sonho de que um dia esta nação vai levantar-se e sustentar o verdadeiro significado 
de sua crença – consideramos como verdades evidentes por si mesmas que todos os 
homens são criados iguais. (Ibid, 1970) 
 Porém, mesmo com todo esse percurso merecedor de honra, King foi assassinado em 
04 de abril de 1968. Tendo deixado seu legado pacifista de desobediência civil na história da 
humanidade. 
Diante do que foi explicitado, podemos citar um exemplo não muito distante do que o 
país tem vivido recentemente, são as formas de resistência que a população tem encontrado, 
sendo uma delas, a ocupação escolar, onde alunos estão ali presentes contra uma reforma do 
ensino médio, em defesa da educação pública, como ocorreu em 2016 no Brasil. Quando houve 
uma série de manifestações que buscavam bloquear a atuação de projetos e medidas dos 
governos estaduais de Geraldo Alckmin, Marconi Perillo, José Ivo Sartori, Beto Richa, Luiz 
Fernando Pezão e do governo do Michel Temer. Os alunos lutavam contra a chamada “PEC do 
teto de gastos”, sendo estes também um ato de desobediência civil pacifica e não-violenta. 
Outro exemplo recente, é quando jovens utilizam a internet para se expressar, com fotos, 
memes, páginas no Instagram, grupos no WhatsApp ou Facebook. O alcance das informações 
é gigantesco, e mesmo não estando presente o indivíduo, as informações podem chegar até 
mesmo agricultor na zona rural que possui acesso à internet, o que antes não era possível, 
tornando as manifestações e insatisfações de injustiças mais acessíveis, e compartilháveis em 
qualquer lugar do planeta. 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Gest%C3%A3o_Geraldo_Alckmin_no_governo_de_S%C3%A3o_Paulo
https://pt.wikipedia.org/wiki/Marconi_Perillo
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Ivo_Sartori
https://pt.wikipedia.org/wiki/Beto_Richa
https://pt.wikipedia.org/wiki/Luiz_Fernando_Pez%C3%A3o
https://pt.wikipedia.org/wiki/Luiz_Fernando_Pez%C3%A3o
https://pt.wikipedia.org/wiki/Michel_Temer
18 
 
No Facebook, My Space, Orkut, LinkedIn, Xing, Pulse ou nos milhares de 
comunidades criadas através de softwares livres, nos meios de comunicação social – 
como NING, indivíduos constroem redes de contatos, de amigos, e de relações, 
participam de clubes, instauram grupos de trabalho, trocam mensagens, compartilham 
suas paixões, tagarelam, negociam coletivamente suas reputações, gerenciam 
conhecimentos, realizam encontros amorosos ou profissionais, desenvolvem 
operações de marketing e entregam-se a todas as espécies de jogos coletivos (LEMOS, 
2010). 
Logo, estas também são uma ação direta de afronta, resistência, e transgressão ao 
Estado, e principalmente de forma pacífica. Estando elas ali presentes na defesa das pautas e 
dos direitos legítimos e justos, estando previstas constitucionalmente, sendo estes métodos um 
direito de autodeterminação do indivíduo colocado nessa situação. Por isso, a desobediência 
civil pode ser entendida como um direito individual. 
Dessa forma, antes de partir do pressuposto que uma autoridade está agindo 
autoritariamente, deve-se ter cuidado, pois ela pode não estar necessariamente agindo com 
razão. Conforme se notou no percorrer da história mundial, nenhum regime autoritário se 
sustentou sem a submissão profunda das pessoas ali inseridas. Muitos dos nomes da 
humanidade que lutaram por direitos, foram condenados como criminosos, pois estariam à 
margem da lei, inclusive, pode se citar como exemplo Jesus Cristo, principal símbolo do 
Cristianismo. 
 Logo, reconhecer que o direito de desobediência civil e de resistência, é diferente de 
preceituar que o Estado não deve ter suas leis e normas obedecidas, mas sim reconhecer que a 
injustiça pode acontecer, inclusive pelas mãos do próprio Estado, fato que ocorre com 
frequência. 
Por isso é necessário sempre ser um opositor radical, para que quando o Estado não aja 
de forma democrática, possa respeitar o direito a divergência, inclusive a desobediência civil, 
que banirá os métodos injustos. 
 
 
 
 
 
19 
 
 
 
1.2 O conceito de Estado. 
 
Apresenta-se um nutrido duelo acerca da tese da formação das sociedades, os dois mais 
relevantes são: idealista e contratualista. Platão na obra “A República” qualifica a sociedade 
idealista, coloca a sociedade livre de desordem e cheia de homens cultos e temerosos das leis. 
(PLATÃO, 2000 a.C). Claro que em seu ponto de vista de sociedade exemplar, Platão não 
entreviu as transmutações humanas, e sua sucessiva troca de escolhas, então seria no ínfimo 
ingênuo considerar que uma condição como essa não viesse a ceder. O Estado procede de forma 
inválida por diversas vezes, quando vai contra a temática de uma lei e ilegalmente quando 
danifica a forma e a letra da lei em si, consequentemente, há maneiras de vislumbrar esta 
interposição, que se envolve de diversos modos e pode até ser estabelecido em 
inconstitucionalidade (Ibid, 2000 a.C). 
Para Hobbes, que vem a defender a tese da formação por ação de preferência individual, 
vem a percorrer traços de caráter contratual, pois veem a sociedade como um acordo 
condescende entre os envolvidos que dividem dos mesmos propósitos. 
Thomas Hobbes demonstra a teoria contratualista aplicada às sociedades, em sua obra, 
“Leviatã”, afirmando que o homem em seu estado natural é uma criatura abominável, incapaz 
de produzir algo bom, para ele é necessária a figura de um dominador que utilize mãos de ferro, 
para despertá-los de seu estado selvagem de natureza. (HOBBES, 2008). O homem por ser 
dotado de razão, por meio dela, supera a selvageria e supera o estado social. Organiza-se entre 
a sociedade, e como resultado criam regras para normatizar os costumes. 
Na visão dele, se fazia imperioso a composição da figura de um regente que executasse 
o comando de todos os feitos em sociedade e castigasse os desobedientes, e esse personagem 
que desempenharia poder coercitivo e autoritário lhe foi dado o nome de Leviatã: 
E quando se faz um pacto em que ninguém cumpre imediatamente sua parte, e uns 
confiam nos outros, na condição de simples natureza, a menor suspeita razoável torna 
nulo esse pacto. Mas se houver um poder comum situado acima dos contratantes, com 
direito e força suficiente para impor seu cumprimento, ele não é nulo. Pois aquele que 
cumpre primeiro não tem qualquer garantia de que o outro também cumprirá depois, 
porque os vínculos das palavras são demasiado fracos para refrear a ambição, a 
20 
 
avareza, a cólera e outras paixões dos homens, se não houver o medode algum poder 
coercitivo. (HOBBES, 2008). 
Nessa obra, Thomas Hobbes apresenta sua aversão ao estado de natureza, que aceitava 
que se homem comportar-se de maneira irracional e selvagem, não poderia engendrar o 
surgimento de uma sociedade a partir desse estado, contrariamente, segundo ele a ideia mais 
coerente era de que a sociedade surgira, através de um ato de escolha, do propósito daqueles 
homens que puderam superar seu instinto animal e deixou manifestar a razão, temendo punição 
por decisão diferente. 
Se o soberano ordenar a alguém (mesmo que justamente condenado) que se mate, se 
fira ou se mutile a si mesmo, ou que não resista aos que o atacarem, ou que se abstenha 
de usar os alimentos, o ar, os medicamentos, ou qualquer outra coisa sem a qual não 
poderá viver, esse alguém tem a liberdade de desobedecer. 
[...] portanto, quando nossa recusa de obedecer prejudica o fim em vista do qual foi 
criada a soberania, não há liberdade de recusar; mas caso contrário há essa liberdade 
(HOBBES, 1974). 
Mas para ele, direito à vida seria o maior dos direitos, defendendo a deserção e a 
desobediência do indivíduo em face do soberano quando este já não consegue mais proteger 
sua vida, garantir a paz dos demais ali que estão impostos ao seu domínio. O autor escreveu 
que a forma de proteger os homens uns dos outros e das invasões seria por meio de um pacto 
que concedesse “toda sua força e poder a um homem, ou a uma assembleia de homens, que 
possam reduzir suas diversas vontades, por pluralidades de votos, a uma só vontade.” 
(RIBEIRO, 2012). 
Segundo Carlos Benedito Martins a formação da sociedade como estrutura, procura 
enaltecer os aspectos de competição, conflito, concorrência e rivalidade entre os atores sociais. 
Dessa forma, explicitou: “sociedade como estrutura; sociedade como solidariedade e sociedade 
como processo criativo”. (MARTINS, 2012). Esses conceitos foram criados a muito tempo, e 
se teve muitas mutações ao passar do tempo. 
Para Dalmo de Abreu Dallari (2003), para finalizar o conceito de sociedade deve estar 
presentes três requisitos importantes, finalidade ou valor social, manifestações de conjunto 
ordenadas e poder social. O valor social compreende como o conjunto de objetivos 
estabelecidos livremente pelo homem, para chegar a um bem maior, e tal bem maior seria o 
bem de todos os ali inseridos em sociedade. Claramente, determinar diretrizes que contemplam 
o interesse geral é uma função árdua e muitas vezes inconsistente, por isso originou-se o 
21 
 
conceito do bem comum, um grupo de ações que pudessem trazer benefícios ao maior número 
de pessoas possível. 
Pelo panorama da leitura da obra de Nicolau Maquiavel “O príncipe”, condensado por 
Fernando Henrique Cardoso, no sentido de obediência e servidão ser proveniente do medo 
mascarado de respeito. (LE LIVROS, 2010). 
Logo, as pessoas que respeitavam de fato seu líder possuíam grande admiração, 
contrariamente os que temiam possuíam silenciosamente o ódio por considerar que 
determinadas ações advindas dos superiores eram em sua concepção, ilegítimas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
22 
 
 
 
1.3 Resistência durante a revolução francesa. 
Um dos marcos que emblema a resistência é a Revolução Francesa, uma estação aflita 
em relutância na França do século XVIII. A escassez de dignidade estimula a temática estudada 
desse trabalho, onde normas são constrangidas pelas pessoas dominantes eliminando a 
discernimento e acuidade da sociedade ali inserida. 
Dando oportunidade ao nosso tema desobediência civil, e não os imunizando das 
penalidades, a desigualdade consagrada na França e aos que ponderassem discordar do Estado 
seriam presos: 
O processo [...] que não tem crédito nem proteção é levado a cabo sem demora na 
França. Aqui acredita que a virtude é incompatível com a miséria e, nos nossos 
tribunais, o infortúnio é uma prova completa contra o acusado. Uma prevenção injusta 
ali faz crer que aquele que devia cometer o crime, cometeu-o, os sentimentos ali se 
medem pelo estado em que vos encontrais e assim como os títulos ou a fortuna não 
provam que deveis ser honestos, a impossibilidade que o sejais torna-se demonstrada 
imediatamente. Se a sorte diverte-se em desarranjar este primeiro plano das leis gerais, 
cabe a nós corrigir lhe os caprichos e reparar com a nossa sagacidade as usurpações 
dos mais fortes. (SADE, 2009) 
É neste espaço de hostilidade e apreensão que a Revolução Francesa é desenhada, não 
fazendo igualdade as convicções caracterizadas pela desobediência civil pacífica doutrinada 
por Thoreau e que lançaram de inspiração para os próximos líderes e doutrinadores, mas sim 
um ambiente hostil, em que os servos e a burguesia, cada qual com seu interesse, pegaram em 
armas e partiram para a luta contra o Estado, sua enorme pujança e bagagem de injustiças 
sociais. (LE LIVROS, 2017). 
Especialmente, colocações distintas tiveram como resultado brutalidade e um círculo de 
violência, as classes sociais mais avantajadas não estavam atraídas a aceitar a cooperação 
comum em meio a administração governamental e coabitação social, quando que em frente dos 
Jacobinos, estes eram mais revolucionários e queriam dar margem aos direitos das minorias e 
a uma parcela destes na política. Alcançando, o caimento do vigor e resistência do povo na 
Revolução: “A população parisiense, após saber dos planos do rei, invadiu o palácio real [...] e 
prendeu o rei e sua família. O Rei e sua esposa [...], tiveram suas cabeças decepadas [...]. 
Monarquia Constitucional chegou ao seu fim no mesmo ano” (FERNANDES, 2019). 
23 
 
 A revolução Francesa teve como principal motivo a crise que a França vivia 
economicamente, pois se aumentava a pressão para os de classe mais baixa, pois o custo de 
vida tinha aumentado, e as chances de emprego foram diminuídas, e cada vez se cobravam mais 
impostos, cobranças essas realizadas pela nobreza, gerando cada vez mais a insatisfação 
popular. 
 Essa resistência em seu ápice deu início a Queda da Bastilha em 14 de julho, onde a 
população invadiu e tomou o gerenciamento da prisão que foi símbolo da opressão na França, 
assim foi se espalhando a revolução em todo o país, conforme Carlos César Higa (2019). Sendo 
este uma grande conquista do povo frente a resistência contra o Estado, utilizando a 
desobediência civil, como meio de libertação e extinção da tirania, sendo atualmente, este dia 
celebrado com fogos de artifício e desfiles pelo país. 
 Podemos notar com esse marco histórico para a resistência, que o mesmo inseriu grandes 
valores libertários com base em direito e justiça. Pois o direito é realizado com base das ações 
coletivas, que estimulam as lutas e conquistas populares, estimulando a participação política e 
mostrando que o povo é mais forte que o Estado. 
Para LAFER (1998), a teoria Tomista potencializa um direito de resistência quando 
contempla uma reação, um direito de revolução contra um regime tirano que ultrapasse o 
terreno da reciprocidade existente entre governantes e governados, isto é, que desequilibre esta 
relação. 
Conforme o autor Liszt Vieira (1998), sem sua obra “cidadania e globalização”, a 
sociedade tem todo o poder de se ter como visão um ser superior, que possui como "meio e fim 
da democracia", um método para a falta que o Estado faz, podendo buscar meios ao seu redor. 
Em resumo, os movimentos da sociedade, in versus: 
de caráter não-governamental, não-mercantil, não-corporativo e não-partidário, 
podem assumir um papel estratégico quando se transformam em sujeitos políticos 
autônomos e levantam a bandeira da ética, da cidadania, da democracia e da busca de 
um novo padrão de desenvolvimento que não produza a exclusão social e a 
degradação ambiental (Ibid, 1998) 
Geovanni Tavares (2020), defende o ideal de que a desobediência deva ser aprovada em 
seu estado em sentido amplo quando cerceia-se o questionamento dos novosdireitos, 
analisemos: “Esses novos direitos, mesmo sendo criminosos na ótica restrita do direito positivo, 
tornam-se legitimados e, consequentemente, plenamente aceitos pelo direito aqui entendido em 
sentido amplo. Quando necessariamente todas as fases possíveis de negociação, através do 
24 
 
processo de reivindicação de direitos, esgotam e a interpretação do direito positivo é restrita ao 
cumprimento da lei, desconsiderando o elemento de adaptação do direito aos princípios, abrem-
se espaços para o favorecimento dos atos de Resistência Política e Desobediência Civil. ” 
No que se refere à desobediência civil, pode-se afirmar que possui como maior expoente 
o doutrinador Henry David Thoreau (), que defendia a ideia de que a desobediência civil está 
diretamente ligada à auto aprovação e como alguém pode estar em boas condições morais 
enquanto “escraviza ou faz sofrer outro homem”. 
Para Maria Helena Diniz a desobediência civil consiste na: 
Possibilidade de um grupo social, ou de um cidadão, agindo conforme sua 
consciência e protegido pela Constituição, opor-se a um princípio constitucional. 2. 
Exercício de direito de resistência passiva por parte de certo grupo social resultante 
do descumprimento de lei ou de ato governamental contrário à ordem jurídica ou à 
moral pública (...). (DINIZ, 2005) 
 Logo, podemos ver que a Revolução Francesa, teve a desobediência civil presente na 
atitude do povo francês naquele momento, que estavam se opondo aos princípios 
constitucionais em busca de melhorias. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
25 
 
 
2 A DESOBEDIÊNCIA CIVIL E A RESISTÊNCIA NA ÓTICA DA MORAL E 
DA ÉTICA. 
 
 A moral e a ética estão com a sociedade desde a Grécia antiga, sendo essencial para o 
convívio em sociedade, e também para buscarmos as melhores respostas para os 
questionamentos mais importantes da humanidade. Para os gregos a ética englobava o homem 
enquanto cidadão da Polis, por tanto estava ligada diretamente com a política. Diferente de 
hoje, em que cada vez mais a ética se volta para os direitos individuais. (VIEIRA, 2022) 
Na desobediência civil, não seria diferente, tendo em todo seu alicerce respostas com 
base nessas verdades. A seguir serão estudados os conceitos desses dois princípios, que são de 
suma importância para o tema. 
 
2.1 AS DISTINTAS ETIMOLOGIAS DE ÉTICA. 
 
A ética vem estando em alta nas discussões acadêmicas, jovens, políticas e empresariais. 
O que antes estava em torno de estruturas econômicas, agora pende para a Ética, numa tentativa 
de conseguir que todos tenham apenas um único interesse, como Roger Pol-Droit (2012) já 
dizia, “a ética faz com que o homem se pergunte qual a melhor maneira de agir”; e mais: “[...] 
a ética é, antes de tudo, o conjunto de reflexões ligadas a questões do gênero – O que devo 
fazer? Como devo me comportar?”. 
 Para entender melhor sobre como isso aconteceu, temos que entender melhor o que é a 
Ética. Essa veio do grego ethos, que significa o modo de ser e agir, ou seja, o caráter. Tanto 
ethos (caráter) como mos (costume) indicam um tipo de comportamento propriamente humano 
que não é natural, o homem não nasce com ele como se fosse um instinto, mas que é "adquirido 
ou conquistado por hábito" (VÁZQUEZ, 2011). E conforme a convivência humana, essa 
palavra foi tendo seu significado aperfeiçoado e tendo etimologias diversas. Por este motivo, 
sempre há debates sobre o tema, visto que o que pode ser ético para uma pessoa, pode não ser 
ético para outra. 
26 
 
 Os princípios básicos da ética são o utilitarismo, os direitos individuais e a justiça. O 
primeiro sendo o pensamento que a ética é mais útil sendo usada quando a maior benfeitoria 
para o maior número de pessoas ao redor. A segunda quando se utiliza para proteger os direitos 
a informação, privacidade, e da consciência, dentre outros. E o último, e não menos importante, 
é quando a ética é usada com equidade, na busca da igualdade para todos os envolvidos, pois 
esta não existe apenas por causa de pequenas normas, e sim por princípios que apenas os que 
estão ali vivenciando compreendem, mesmo na complexidade que são as relações humanas. 
Argumentam Outhwaite e Botomore (1996), “a ética refere-se à avaliação normativa das ações 
e do caráter de indivíduos e grupos sociais”.“Nenhum homem é uma ilha", esta conhecida frase 
do filósofo Thomas Morus ajuda a compreender melhor que para o homem viver, é necessário 
conviver. 
 Para Sigmund Freud (1908), os sentimentos éticos e a consciência moral não são uma 
disposição inata do homem, estes são formados a partir de uma necessidade de convívio em 
comunidade para controle das forças da natureza e da agressividade humana, esta tida por pelo 
autor como uma disposição inata. Freud dizia que os comportamentos éticos e morais se 
apresentam como uma necessidade da ordem da sobrevivência, como uma necessidade de 
convivência em comunidade para controle das forças da natureza e da agressividade humana. 
Diferente de Freud que via no complexo de Édipo o ponto culminante da gênese dos 
comportamentos éticos a partir do surgimento do superego, para Klein o complexo de Édipo, 
agora desligado da gênese do superego, será apenas mais um dos elementos de uma rede 
constituída pela projeção, introjeção, integração, cisão, inveja, gratidão etc, que irá influenciar 
sobretudo a internalização do objeto bom, fundamental para a crença do indivíduo em suas 
capacidades de reparação, e portanto, fundamental para que os comportamentos éticos ocorram 
KLEIN, M. (1926). O ponto culminante da gênese dos comportamentos morais será, para a 
autora, a passagem para a posição depressiva. 
Já para Lacan (1917), por sua vez, não nega a existência de algo que pode ser 
denominado de “consciência moral”; porém, ele a exclui completamente do campo de 
teorização da psicanálise. Já do campo da clínica psicanalítica, ele não pode excluí-la, uma vez 
que aparece com frequência no discurso do paciente. Todavia, na clínica psicanalítica proposta 
por Lacan a consciência moral fica relegada ao plano dos engodos, dos bens – todos falsos – 
que a sujeita pensa que poderia resolver o problema em relação aos seus desejos, e poderiam 
harmonizá-lo com a sociedade. A consciência moral fica então relacionada ao ideal do eu que 
27 
 
se desenvolve no plano Imaginário, e tem sua importância ligada à constituição do laço social. 
Contudo, como foi visto a ética da psicanálise para esse autor não faz referência à relação entre 
os indivíduos, e sim à relação do sujeito com seu próprio desejo e meios de gozo. 
 Moscone (1991) considera a ética proposta por Lacan individualista e anti-social, porém 
não devemos nos surpreender com esses adjetivos. Lacan procura valorizar a singularidade, 
apontando para uma ética referida ao desejo e ao gozo, ao que de mais individual há em um 
sujeito. Ele apresenta-se anti-social ao denunciar a inexistência do Bem Supremo e a falsidade 
dos “bens” oferecidos pela sociedade, e com isso vai dando provas de que realmente não 
acredita na harmonia entre o individual e o coletivo. Enquanto do ponto de vista da filosofia, 
propor uma ética que não conduza a um bem universal, que se apóie na singularidade, possa ser 
um contra-senso, para Lacan essa não é uma questão relevante, pois ele assume desde o início 
que sua proposta ética tem pouco a ver com a ética filosófica. Mas para Guyomard (1999), a 
“ética do desejo” proposta por Lacan não pode ser considerada propriamente uma ética, uma 
vez que não se refere ao universal. 
Por outro lado, Teixeira (1999) propõe que o universal da ética proposta por Lacan está 
em sua essência trágica, ou seja, em sua base na falha universal e estrutural dos sujeitos, em 
que a essência da trama trágica está no fato de que nosso destino está fixado, a despeito de nossa 
capacidade de deliberar sobre seu devir. Nossos modos de gozo são fixos e nos determinam. 
Portanto, é nesse contextoe por meio dessa grade argumentativa, que Lacan procura situar sua 
concepção ética, e de certa forma afirmar o que considera ser a própria ética psicanalítica. 
 Para Kant, a ética é formalista, mostra um meio de agir moralmente certa. A ética de 
Kant diz que o que deve ir conforme as ações do homem é a razão, ela deve ser universal mesmo 
diferente da cultura que o indivíduo está. Antes de realizar qualquer ato, devemos nos perguntar 
“isso fará o bem do coletivo?”. Se sim, é uma atitude ética, se não, é antiético (KANT, 1980). 
O filósofo Hegel, criticou o formalismo de Kant e propôs uma ética vinculada à história, 
ao contrário do que ele entendia ser a ética kantiana, que, por não levar em conta a história e o 
desenvolvimento da sociedade, não conseguia resolver os problemas do indivíduo concreto. 
Mas e se essa pessoa for uma ameaça à sua vida ou à vida de outra, matá-la seria um ato 
moralmente correto? Hegel rejeita o apriorismo kantiano, a ideia de que o homem nasce com a 
estrutura da razão, e que é ela que fornece ao sujeito os princípios éticos que controlam sua 
vontade.Para Hegel, a moralidade é a consciência individual, a reflexão sobre nossas ações- 
28 
 
esfera moral, esfera individual. Já a eticidade surge das relações interpessoais- esfera ética -
esfera de coletividade (HEGEL, 1835), 
A moralidade Hegeliana é uma forma de incluir a consciência –moral subjetiva, não 
sendo subjetiva a ela. Uma vez que não há lugar para a consciência moral subjetiva, não há 
lugar para moralidade. É fácil notar que a teoria ética de Hegel não adere ao apriorismo de Kant 
como acontece com a moralidade. Da mesma forma, consideremos o roubo e o furto como atos 
moralmente incorretos. Mas e se essa pessoa for uma mãe desesperada. Para ele, quando um 
indivíduo encontrar-se diante de um dilema, sem saber o que seguir, ele deve perguntar-se “seria 
saudável para a sociedade se todos fizessem isso que estou prestes a fazer?”. Se não for, você 
deve evitar a ação, através do uso da racionalidade. (SILVERIO DA COSTA, 2006) 
 Para Sócrates, reside no conhecimento e em vislumbrar na felicidade o fim da ação. Essa 
ética tem por objetivo preparar o homem para conhecer-se, tendo em vista que o conhecimento 
é a base do agir ético. Ao contrário de fomentar a desordem e o caos, a filosofia de Sócrates 
prima pela submissão, ou seja, pelo primado da ética do coletivo sobre a ética do individual 
(DONINI, 2012). 
Neste sentido, para esse socialista, a obediência à lei era o limite entre a civilização e a 
barbárie. Para ele, onde residem as idéias de ordem e coesão, pode-se dizer garantida a 
existência e manutenção do corpo social. Trata-se da ética do respeito às leis, e, portanto, à 
coletividade.Ato contínuo, são muitos os aprendizados da ética socrática: o conhecimento como 
virtude; a educação como forma de conhecer a si mesmo e, e adiante, conhecer melhor o mundo 
para ter o sentimento de felicidade; a princípio do coletivo sobre o individual e, a obediência às 
leis para garantir a ordem e a vida em sociedade. 
Lembremos o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que mencionamos 
anteriormente em outro capítulo, o mesmo falou muito na ética da responsabilidade, conceito 
que Max Weber falou para dar conta do que Maquiavel iniciara. Teríamos por um lado a ética 
de princípios ou valores, e por outro a que leva em conta os efeitos previsíveis da ação. O 
homem privado poderia dar-se ao luxo de seguir os princípios, em sua pureza. Já o homem 
público precisa pautar-se pela ética da responsabilidade, insistia Fernando Henrique Cardoso, 
falando sobre os princípios de Weber. Esse foi um ponto de debate, com parte da oposição 
atacando o ex-presidente em nome da moral. Subentendia-se que a ética da responsabilidade 
fosse uma ética com desconto, uma ética enfraquecida, até mesmo uma não-ética. Mas ela não 
é isso (RIBEIRO, 2021) 
29 
 
Nesse sentido, a desobediência das regras e das instituições de um Estado constituído se 
exprime no direito à resistência, e busca ainda, por modificações radicais de infraestruturas 
opressoras. Essa ideia de que, que por muito, é preciso descumprir as normas, baseia-se na 
convicção da ética. O direito não pode se reprime à regra, pois certo ou incerto, não 
corresponde, muitas vezes, ao que é legal ou ilegal. 
Nas palavras de Eduardo Carlos Bianca Bittar (2010): 
Se o direito for entendido e definido exclusivamente a partir das ideias de 
normatividade e validade, então seu campo nada tem que ver com a ética. Esta é a 
proposta de cisão metodológica, que acabou por provocar fissura profunda no 
entendimento e no raciocínio dos juristas do século XX, de Hans Kelsen. Então, 
pudesse sintetizar sua proposta: as normas jurídicas são estudadas pela ciência do 
direito; as normas morais são objeto de estudo da ética como ciência. O raciocínio 
jurídico, então, não deverá versar sobre o que é certo ou errado, sobre o que é virtuoso 
ou vicioso, sobre o que é bom ou mau, mas sim sobre o lícito e o ilícito, sobre o legal 
(constitucional) ou ilegal (inconstitucional), sobre o válido ou inválido (BITTAR, 
2010). 
De fato, muitas normas de justiça, muito diversas e em parte contraditórias entre si, são 
pressupostas como válidas. Um tratamento científico do problema da justiça deve partir destas 
normas de justiça e por conseguinte das representações ou conceitos que os homens, no presente 
e no passado, efetivamente se fazem e fizeram daquilo que eles chamam justo, que eles 
designam como justiça. A sua tarefa é analisar objetivamente as diversas normas que os homens 
consideram válidas quando valoram algo como justo” (Kelsen, O problema da justiça, 1998). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
30 
 
 
2.2 AS DIVERSAS ETIMOLOGIAS DE MORAL. 
 
 A moral é vem do latim Morales, que quer dizer “relativos aos costumes”. São as regras 
que são feitas pela moral, que determinam o modo de agir da população. Esta é um conjunto de 
costumes e regras, que são criadas enquanto sociedade, para se viver de forma harmoniosa, pois 
com isso se define o que é visto como certo, ou como errado, e isso vai de acordo, com a cultura 
da região, a religião, e demais assuntos do ambiente. Conforme o epicurismo, o benéfico está 
intricado na utilização racional dos prazeres, e o estoicismo, tem base no exercício das virtudes. 
Em qualquer dessas doutrinas, a moral quer que se evite o mal, se viva em união. (SANTANA, 
2020). 
Para Bobbio (1992) existem três teorias que justificam a desobediência. A primeira, de 
vertente religiosa, destaca a existência de uma lei moral que obriga a consciência e que deve 
imperar sob qualquer outra. Assim, uma norma política somente irá obrigar se estiver em acordo 
com a lei moral. A Segunda, de origem naturalista onde Locke foi o teórico, com o pensamento 
que o ser é anterior e superior ao Estado, assim esse somente tem a finalidade de proteger os 
direitos naturais e que não podem retirados daquele. Então, quando o Estado não puder entregar 
com esta missão, exercendo atitudes contrárias ao seu fim, começa a existir ao indivíduo o 
direito de desobedecer e resistir na Ideia libertária da perversidade essencial de toda a forma de 
poder sobre o homem, especialmente do máximo poder que é o Estado com o corolário de que 
todo o movimento que tende a impedir a prevaricação do Estado é uma premissa necessária 
para instaurar o reino da justiça, da liberdade e da paz”. 
No contexto filosófico, como exposto pela ética e moral tem significados diferentes, a 
ética está associada ao estudo dos valores morais, que orientam o comportamento humano em 
sociedade, enquanto a moral são os costumes, e as regras, estabelecidas em cada sociedade. 
Baseado no texto do ex-professor da Universidade Federal da Paraíba e também ex-deputado 
federal Joacir de Brito Pereira, a ética é entendida como a ciência da moral, e tem por objetivo 
os juízos de valor, no que se refere a descrição do bem edo mal nas ações humanas. Diante 
dessas justificativas, alguns afirmam que a ética e a política são incompatíveis, logo não seria 
possível um político ser ético? Claro que pode, pois, um político ético é o que pensa na melhoria 
do coletivo. 
31 
 
Já para Clóvis de Barros Filho (2020), moral é o que não faríamos de jeito nenhum, 
mesmo que não tivesse ninguém olhando, mesmo que fossemos invisíveis. Para Clóvis, sobrou 
para a filosofia três grandes preocupações, a primeira sendo o questionamento do que seria 
conhecimento, que é basicamente o que há na cabeça para poder dizer que se conhece algo, ou 
os limites da razão. O segundo é o que seria belo, quais os atributos para se ver o que é belo. E 
por último a moral, que é como devemos agir, o que deveríamos fazer e o que não deveríamos 
fazer, este é um conjunto de princípios que seguimos em nossa vida, que obrigamos seguir, pois 
livremente decidimos fazer. 
 Luiz Felipe Pondé (2021), afirma que a moral muda principalmente com o avanço da 
tecnologia, pois ela amplia a vida, o potencial de transformação, mas que mesmo antes disso, 
existia um contexto histórico para tal. Ele explica que se vermos na antiga Grécia, já se discutia 
esse assunto entre Platão e os sofistas. Alguns entendiam que a moral é uma estrutura de valores 
objetivos, com base nos sentidos da fenomenologia, que diz que o bem existe enquanto bem, 
sendo ele sempre universal e necessário, fazendo com que as pessoas se entendam. Segundo 
ele, existe também outra tradição que vem dos sofistas, que entende que os valores dependem 
da estrutura da época em que você vive, alguns dizem que podem depender das estruturas 
econômicas, da religiosidade, e de um viés marxista. 
Ainda na visão de Pondé (2019), o mais importante não é nem mesmo fincar o pé na 
ideia de que a moral é universal, ou que existe marcos relativo da moral. Ele acha interessante 
perceber que existe sim uma transformação de compreensão do que é certo ou errado, no 
sentido, por exemplo, de identidade sexual, comportamento sexual, nesses casos você pode dar 
uma importância mais dramática. As questões como inveja, adultério, não ter filhos, tendo uma 
percepção e compreensão mais maleável sobre o que leva uma pessoa fazer tais atos. Tendo 
então uma subjetivação do comportamento, para aqueles que entendem que a moral é objetiva, 
universal ou variável, ou uma linhagem mais platônica ou mesmo kantiana. 
 
2.3 A importância da ética e a moral neste universo. 
 
 Dentro da desobediência civil, esses temas são de suma importância, pois com base 
nelas podem-se enxergar quando a desobediência tem um valor de defesa e liberdade, ou apenas 
é algo errôneo que se está acontecendo. 
32 
 
Por exemplo, a escravatura foi antiética, seguindo os preceitos na época para alguns era 
vista moralmente aceita, a desobediência ao tentar ajudar pessoas negras a se libertarem, e viver 
suas vidas, tornava essa luta real e com sentido, pois estava ferindo a liberdade individual 
daquele grupo. 
Por outro lado, quando desobedecemos alei, e tiramos a lei de um indivíduo, torna-se 
um ato antiético. Logo, não se cabe nos princípios da desobediência civil. Por que esse método 
que Thoreau pregava, e muitos ainda defendem, tem um sentido de se proteger das tiranias, 
caso contrário, não seria nada mais, nada menos, que terrorismo. 
Pois a diferença de um homem verdadeiramente livre, e de um terrorista depende do seu 
intuito e de suas ações. A moral por ser referente a costumes, muito das vezes são atos que não 
necessariamente são errados, pois não agridem aos indivíduos ali inseridos, que é o que a 
desobediência civil defende. 
A desobediência civil, por ser um ato social e político que possui como base a moral do 
povo, a proteção e defesa das liberdades dos indivíduos, efetivada nos direitos fundamentais, 
não deve ser agressiva e de forma violenta. Senão, não estaria tendo a sua legitimidade no 
conflito das leis imorais e que infringem os direitos fundamentais. Pois não se defende direitos, 
violando-os. 
Ademais, a desobediência civil deverá ser vista e notada, para que maioria das pessoas 
possa vê-la como justa. Nesse sentido: 
 [...]a violação da liberdade igual da coletividade e a violação da igualdade equitativa 
de oportunidades, negando-se a certas minorias o direito ao voto e a ocupar cargos 
públicos. Da mesma forma, ocorre quando se privilegia determinado interesse, sem 
atenção aos anseios sociais, como a saúde, segurança, o transporte público ou o 
próprio direito de ir e vir. (RAWLS, 2008) 
[...]à luz das três condições, tenha-se o direito de recorrer à desobediência civil. A 
injustiça que se protesta é uma violação clara das liberdades da cidadania igual, ou da 
igualdade de oportunidades, violação essa mais ou menos deliberada durante longo 
período de tempo em face de oposição política normal, e quaisquer complicações 
geradas pela questão da equidade são resolvidas. (RAWLS, 2008). 
Nesse sentido, a internet pode ser uma aliada nesse quesito, abrangendo uma maior parte 
da sociedade, sendo notada, vista e colocada em prática de forma pacifica, como já pregava os 
nomes já mencionados, como Martin Luther Link, Maratma Gandhi e dentre outros, que 
tentaram por meio da ética e da moral ali estabelecida à época, resistir aos meios que atingiam 
diretamente a democracia e liberdade individual. 
33 
 
 
3 BELCHIOR E RAUL SEIXAS COMO FIGURAS DA RESISTÊNCIA. 
De acordo com a Biografia escrita por Jotabê Medeiros(2017), Antônio Carlos 
Belchior, mais conhecido como Belchior nasceu em Sobral, em 26 de outubro de 1946, e foi 
um cantor, compositor, músico, produtor, artista plástico e professor brasileiro. 
Em 1962, mudou-se para Fortaleza, onde estudou Filosofia e completou seus estudos no 
colégio de padres. A seguir, Belchior optou por vivenciar um período de disciplina religiosa, 
vivendo em comunidade com frades italianos no mosteiro Guaramiranga, onde aprimorou seu 
latim, italiano e canto gregoriano. 
Após isso, regressou a Fortaleza, onde estudou Medicina, mas abandonou o curso no 
quarto ano, para dedicar-se à carreira artística. Em seguida, deu-se a participação do artista em 
festivais de música da região Nordeste, extremamente comuns e populares nas décadas de 1960 e 
1970. Porem teve vários obstáculos, um deles sua família, que não concordava com o rumo que se 
filho estava percorrendo, não possuindo ajuda financeira dos seus pais, tendo que “se virar”. 
Belchior fez parte de uma equipe chamada Pessoal do Ceará, que era formada por jovens 
artistas do Ceará, que buscava recriar e debater sobre questões essenciais e preocupava o país. 
Nesse grupo, fazia-se fazer diversos tipos de pessoas, desde músicos a filósofos, físicos, quimos 
e poetas. Na década de 70, neste mesmo grupo notou-se, que por meio desse poderiam alcançar 
um gosto apurado, assim como exemplo compositores e cantores audazes como a Elis Regina, 
neste caso Belchior, teve maior visibilidade quando ganhou o primeiro lugar do festival com a 
com a música "Hora do Almoço". 
Um dos marcos da desobediência civil nas obras desse grande artista, foi no álbum 
“Alucinação”, do ano de 1976, onde envolvido nesse tema criou um grande movimento 
significativo ao ativismo político e associativo, bem como demonstrou superioridade a 
anteriores artistas com este mesmo intuito nas letras. Em uma de suas músicas por exemplo, 
onde ele canta “um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha”, o autor demonstra 
sua afeição e discordância com a forma que eles são vistos dentro do seu próprio direito de 
cidadania. 
Dessa forma, podemos ver que Belchior, vai à frente do pensamento que é apenas um 
compositor de letras românticas, mas que militava veementemente através de suas palavras o 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sobral_(Cear%C3%A1)
https://pt.wikipedia.org/wiki/26_de_outubro
https://pt.wikipedia.org/wiki/1946
https://pt.wikipedia.org/wiki/Canto_(m%C3%BAsica)https://pt.wikipedia.org/wiki/Compositor
https://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%BAsico
https://pt.wikipedia.org/wiki/Produtor_musical
https://pt.wikipedia.org/wiki/Artes_pl%C3%A1sticas
https://pt.wikipedia.org/wiki/Professor
https://pt.wikipedia.org/wiki/Brasileiros
34 
 
descontentamento com a situação ali vivida, e a busca de encorajar as pessoas para que 
buscassem a mudança que era necessária para toda a nação para que houvesse igualdade para 
todos, independentemente de onde estivessem vindo, sua cor, ou nível social. 
Na canção “Como o Diabo Gosta”, ele demonstra avidamente a desobediência civil 
como forma de resolver os problemas existentes naquela época. Belchior mesmo, quando 
realizou uma entrevista ao Partido da Causa Operária- PCO, no ano de 2001, antes de sumir das 
mídias, expos que: “Sem dúvida. Eu poderia não só assinar esta música, como refazê-la. Acho 
que a universalidade da liberdade individual é cabível em qualquer momento, principalmente 
porque esta questão da desobediência civil, para mim, é uma das noções mais importantes já 
elaboradas. Nem tudo o que é legal, é legítimo. Eu acho que um dos primeiros momentos para 
se mudar uma lei é quando algum herói resolve desobedecê-la. Quase sempre há um 
descompasso entre a formulação da lei e o caminho e a experiência dos homens” 
Outra música de Belchior que, implicitamente, desaprova a ditadura militar no Brasil 
(1964-1985), e ao mesmo tempo demonstra que este iria a exilio é a canção “Pequeno mapa do 
tempo”, de 1977, e que quase passou por baixo dos olhos dos militares, onde se comprova pelos 
versos: 
Eu tenho medo e medo está por fora 
O medo anda por dentro do teu coração 
Eu tenho medo de que chegue a hora 
Em que eu precise entrar no avião 
Eu tenho medo de abrir a porta 
Que dá pro sertão da minha solidão 
Apertar o botão: cidade morta 
Placa torta indicando a contramão 
Faca de ponta e meu punhal que corta 
 
E o fantasma escondido no porão 
Medo, medo. Medo, medo, medo, medo 
Eu tenho medo que Belo Horizonte 
Eu tenho medo que Minas Gerais 
Eu tenho medo que Natal, Vitória 
Eu tenho medo Goiânia, Goiás 
Eu tenho medo Salvador, Bahia 
Eu tenho medo Belém, Belém do Pará 
Eu tenho medo pai, filho, Espírito Santo, São Paulo 
Eu tenho medo eu tenho C eu digo A 
Eu tenho medo um Rio, um Porto Alegre, um Recife 
Eu tenho medo Paraíba, medo Paranapá 
 
Eu tenho medo Estrela do Norte, paixão, morte é certeza 
Medo Fortaleza, medo Ceará 
Medo, medo. medo, medo, medo, medo 
35 
 
Eu tenho medo e já aconteceu 
Eu tenho medo e inda está por vir 
 
Morre o meu medo e isto não é segredo 
Eu mando buscar outro lá no Piauí 
Medo, o meu boi morreu, o que será de mim? 
Manda buscar outro, maninha, no Piauí. (BELCHIOR, 1977) 
Porém, tal obra foi censurada a época, tendo o artista sendo visto como delinquente, 
numa época em que os estudantes saíram às ruas fazendo passeatas, atos públicos e 
manifestações buscando o direito à liberdade conforme pregava a democracia. 
Com relação ao modelo da ditadura presente no Brasil, o historiador Daniel Aarão Reis 
aponta que: 
Na historiografia corrente, há um sendo comum: a ditadura no Brasil acabou em 1985, 
com a posse do primeiro presidente civil, José Sarney. A ideia subjacente é que a 
ditadura foi apenas militar, o que os fatos, decididamente, não evidenciam. Desde a 
sua gênese, passando pelos vários governos, pela análise dos seus promotores e 
beneficiários, a ditadura nunca foi obra apenas das casernas. Assim, o referido senso 
comum é muito mais obra de memória do que de resultado de pesquisa histórica 
(REIS, 2014). 
Nos anos que se seguiram, os álbuns do Belchior tiveram que ser modificados, pois não 
passou pela aprovação do olhar coercitivo da censura, as letras fortes visavam não apenas 
atingir os detentores de poder, mas também os responsáveis por deixarem tais coisas 
acontecerem, tendo como alvo também a imprensa, os grandes empresários e as classes sociais 
mais avantajadas. Na música “A palo seco” belchior direcionou em sua composição indiretas para 
estes, conforme percebemos a seguir: 
Mas ando mesmo descontente 
Desesperadamente, eu grito em português 
Tenho vinte e cinco anos 
De sonho e de sangue 
E de América do Sul 
Por força deste destino 
 
Ah você sabe e eu também sei 
Um tango argentino 
Me vai bem melhor que um blues 
Sei que assim falando pensas 
Que esse desespero é moda em '76 
E eu quero é que esse canto torto 
Feito faca, corte a carne de vocês 
 
E eu quero é que esse canto torto 
Feito faca, corte a carne de vocês 
Sei que assim falando, pensas 
Que esse desespero é moda em '76 
 
36 
 
E eu quero é que esse canto torto 
Feito faca, corte a carne de vocês 
E eu quero é que esse canto torto 
Feito faca, corte a carne de você. (BELCHIOR, 1974) 
Belchior teve a censura em várias músicas, onde algumas tiveram que ser retiradas 
partes de suas letras, e no caso da sua música “Os doze pares de França” que teve como 
companheiro de parceria o músico Toquinho– que fazia alusão ao imperador da França Carlos 
Magno, então os censuradores achavam que estes músicos estavam exaltando a França, como 
se este fosse um lugar melhor para socializar e demonstrar liberdade do que o Brasil, sendo essa 
totalmente censurada. 
Diferentemente de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, que foram obrigados 
a se retirar do Brasil na época, Belchior não chegou a esse ponto. No entanto, como observa 
Orlandi (2002), por ser a censura uma interdição manifesta da circulação discursiva, ela afeta 
imediatamente a identidade do sujeito, que por uma regulação autoritária, é proibido de ocupar. 
Assim como Belchior, Raul Seixas foi um grande nome artístico do rock nacional, 
cantor, compositor e guitarrista. Raul nasceu em Salvador, Bahia, no dia 28 de junho de 1945. 
Durante sua adolescência, ficava muito tempo escutando as músicas de Elvis Presley e de Little 
Richard. Em 1959, junto com um colega fundou o fã clube “Elvis Rock Club”. 
Algumas de suas canções que se destacam: Maluco Beleza, Eu Nasci Há 10 Mil Anos 
Atrás, Mosca na Sopa e Ouro de Tolo, e por último Cidade Alternativa, que inspirou análise do 
presente projeto, confira: 
Viva! Viva! 
Viva a Sociedade Alternativa! 
Todo homem e toda mulher é uma estrela! 
(...) 
Viva! Viva! 
Viva a Sociedade Alternativa! 
O número 666 chama-se Aleister Crowley! 
Viva! Viva! 
Viva a Sociedade Alternativa! 
Fazer o que tu queres: há de ser tudo da Lei. 
Viva! Viva! 
Viva a Sociedade Alternativa! 
A Lei de Thelema! 
Viva! Viva! 
Viva a Sociedade Alternativa! 
A Lei do forte. 
Essa é a nossa lei e a alegria do mundo. 
Viva! Viva! Viva! 
Viva o Novo Aeon! (SEIXAS, 1973) 
 
37 
 
Essa música nunca deixou de ser evocada em momento de protestos, onde a juventude 
estava ali presente contra as sistemáticas políticas ou contra coisas que iam de encontro com 
era dever do estado. Em1992, os estudantes iam à rua fazer manifestações em prol do 
impeachment do Presidente Fernando Collor do seu cargo de presidente, onde o mesmo foi 
acusado de corrupção e diversos esquemas ilegais no governo na época, a campanha que 
chamaram de "Fora Collor" tirou vários estudantes de casa e levou-os ás ruas, com rostos 
pintadas protestando contra o Collor, sendo mais um momento que a juventude rebelde que 
nunca deixou de sonhar, estava buscando por um país livre. 
Os versos de Raul traziam em suas letras manifestos contra a opressão, seja ela em 
qualquer lugar do universo, como podemos ver na canção A lei: 
O homem tem o direito de amar como ele quiser. 
 De beber o que ele quiser. De viver como quiser. 
De mover-se pela face do planeta livremente, 
 sem passaporte, porque o planeta é dele. 
O planeta é nosso. (SEIXAS, 1988) 
 
Para Raul, a Sociedade Alternativa, engloba diversas lutas libertárias de toda a geração, 
era visto por ele como algo maior do que um partido político. Como o mesmodisse no Raul 
Rock Club, Raul Seixas: 
“Me confesso seriamente engajado numa cruzada pela implantação da Sociedade 
Alternativa, uma revolução cultural em andamento. Tenho um compromisso, não 
posso voltar atrás. Recebo cartas e mais cartas toda semana, gente querendo aderir ao 
projeto. Mas quero avisar que a Sociedade Alternativa não é um clube ou partido, é 
uma idéia. A carteirinha do clube é você mesmo. É a sua cabeça”. (SEIXAS, 1996) 
Liana Trindade, autora do artigo Sons da Contracultura: Raul Seixas entre Cidades e 
Sociedades Alternativas, trabalhou muito bem esses tipos de questões que dividiram as opiniões 
entre as diversas frentes da rebelião juvenil, ela dizia que: 
Raul Seixas procura ser a conexão entre o individual e o social. Ele procura lutar 
contra a ditadura militar no Brasil mas sem se esquecer de si mesmo. Havia uma forte 
divergência na década de 60 entre nós, que éramos de esquerda, que estávamos na 
Rua Maria Antônia na época da briga com a direita alojada no Mackenzie, e aquele 
pessoal que gostava de Caetano Veloso e do movimento tropicalista porque para nós 
aquela idéia de “caminhar contra o vento sem lenço sem documento” soava como um 
desincentivo à militância política. E aquela atitude deles de se usar drogas e discutir 
sobre rebeldias meramente comportamentais não combinava com a postura que 
precisava ter o militante de esquerda: nós deveríamos estar sempre alertas, pois a 
qualquer momento poderíamos sofrer os ataques da repressão, e o uso de drogas 
implicaria em nos tirar desse estado de alerta. Foi Raul Seixas quem construiu a ponte 
entre essas duas tendências: a da militância política e a da ênfase na dimensão 
individual. (TRINDADE, 2003) 
Conforme Emília Saraiva Nery: 
38 
 
“As cidades alternativas representadas na produção lítero-musical de Raul Seixas, 
especialmente nas letras de músicas aqui selecionadas, revelam experiências sociais, 
idéias, sentimentos que circulavam na coletividade dos anos 1970. Daí o interesse de 
revistar essas experiências de cidades, de dar mais uma interpretação às composições. 
Não foi encontrada uma cidade determinada, mas práticas consumidoras das cidades. 
Esse tema das cidades ou comunidades alternativas também foi abordado em revistas 
e jornais do período em estudo. Ao contrário da obra de Raul Seixas sobre a temática 
em discussão, a imprensa discutia o recuo do caráter libertário das comunidades 
alternativas e sua deturpação comercial e exótica pela sociedade estabelecida, já no 
ano de 1973”.(NERY, 2009) 
Além do que, são métodos que estão constitucionalmente previstos. No texto 
constitucional em seu artigo 5º parágrafo 2º, da CRFB/88 estabelece que: 
“Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes 
do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a 
República Federativa do Brasil seja parte”. (BRASIL, 1988) 
As Constituições que reconhecem a proteção jurídica desse direito, os direitos naturais 
de resistência transformaram-se no direito positivo de promover uma ação judicial contra os 
próprios órgãos do Estado. Dessa forma, a Constituição do Brasil, se acha implicitamente, no 
art. 5º, o direito de resistir à opressão que decorre do regime, ou melhor, da maneira como se 
constitui e se exerce o poder. Assim, devemos lembrar aos políticos que ao povo é facultado 
resistir quando o direito que é seu por direito, não esta trazendo benefícios verídicos para 
aqueles que estão ali vivenciando. 
Assim, a desobediência coloca-se em um local de avaliação da utilização do poder por 
parte do governo. Por este motivo, estando ou não regulamentado explicitamente esse direito 
do cidadão, a resistência e a desobediência, poderá sempre estar justificada quando a sociedade 
se sentir oprimida e vendo a sustentação de uma norma inconstitucional. 
Logo, esses dois grandes artistas brasileiros dentre tantos outros têm em comum, é a 
motivação para tentar mudar as situações que estão ali presentes, situações estas que estão longe 
de ser justas. Por isso, utilizam por meio de suas canções que claramente denotam a 
desobediência civil, métodos de abrir os olhos dos indivíduos, para irem juntos resistir aquele 
domínio opressor. 
 
 
 
 
39 
 
 
 
 
 
CONCLUSÃO 
Notou-se com o trabalho desenvolvido, a desobediência civil como algo natural e 
pacífico, pois o ser humano busca a liberdade, e essa liberdade está na natureza humana, no 
individualismo, e de suma importância para a organização social. Muitas vezes as pessoas não 
sabem do que se trata a desobediência civil, simplesmente a faz, não sendo algo que precisa ser 
estudado, parece estar preestabelecido. 
Ficou claro que é uma ferramenta de grande importância que protege a liberdade 
individual, assim como uma forma de lutar e resistir a danos maiores que podem vir a ocorrer, 
ou esteja ocorrendo por causa de atitudes tirânicas, e pode perceber ainda com esse estudo, que 
este meio de resistência pode ser usado não somente individualmente, mas também a favor de 
grupos minoritários. Sejam por meio de protestos, músicas, ou até mesmo compras sem a nota 
fiscal, a desobediência se encontra ali presente, como forma de desviar do controle, que utiliza 
do próprio interesse ao seu bel prazer, ignorando o real motivo do poder que lhes foi dado, que 
é representar o povo, de forma democrática, e não os dividindo, como já foi visto. 
Houve uma reflexão de que o direito de resistência e a desobediência civil estão ali entre 
os direitos fundamentais no art. 5º, § 2º, da Constituição Federal, e decorrem do regime 
democrático, da valorização da dignidade da pessoa humana. 
Além disso, ao analisarmos os feitos de alguns ícones mencionados como Rose Parks, 
Martin Luther King, podemos notar como a desobediência civil, é um modo de exercemos o 
direito de resistência de forma eficaz e sem violência, podendo mudar a realidade daquelas leis 
injustas, que ferem o direito individual ou coletivo da pessoa. 
 Assim, podemos afirmar que: nós temos em mãos uma legítima arma contra a injustiça 
do que estão no domínio no nosso país que se utiliza de métodos antiéticos. Como está em nossa 
Constituição “o poder emana do povo”, e dele vem toda a força, a lei máxima, que nasce para 
todos o direito de fazer manifestação em prol de manter a democracia e o direito individual. 
40 
 
Diante do trabalho realizado, a desobediência civil mostrou que ela é a única forma que 
dá autonomia ao povo a resistir contra o meio injusto. Mas que ainda não conquistou um vasto 
espaço na sociedade explicitamente, necessitando de maior expansão do tema. 
41 
 
REFERÊNCIAS 
 
ALTARES, Guillermo. Por que falamos de seis milhões de mortos no Holocausto?. El 
País, 2017. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil. Acesso em: 26, novembro de 2022. 
 
ARAÚJO, Luis Felipe ; GOMES, Lucianne Fabrizia Santana et al. Direito de resistência e 
desobediência civil a partir das visões de Hobbes e Thoreau. Revista Jus Navigandi, Teresina, 
ano 20, n. 4284, 25 de março 2015. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/32322. Acesso em: 
27 novembro de 2022 
ATIENZA, Manuel. Introducción al derecho. México, DF: Fontamara, 2000 
 BELCHIOR, Antonio Carlos. Alucinação. Polygram/Philips, 1976 
BELCHIOR, Antônio Carlos. Como o diabo gosta. Polygram/Philips, 1976. LP. 
BELCHIOR, Era Uma Vez um Homem e o seu Tempo. Direção artística Marco Mazolla, São 
Paulo: WEA, p1979, 1 disco sonoro, 58 minutos, 33 1/3rpm, 12 polegadas. 
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	INTRODUÇÃO
	1 O LIMITE DO ESTADO, E O PAPEL DA LIBERDADE NA DESOBEDIÊNCIA CIVIL.
	A desobediência civil, para o Jornalista Daniel Neves Silva é uma ação popular que consiste na desobediência expressa de uma determinada lei. Ela ocorre quando o cidadão ou um grupo de cidadãos compreende que determinada norma ou mesmo sua ausência, ...
	Para Nelson Nery Costa, em reflexão a obra Antígona, tragédia Grega de Sófocles produzida por volta de 442 a.c., relata que foi o primeiro local a ser visto os primeiros atos de resistência, segundo o autor “há certas leis não escritas, superiores a t...
	1.1.1 Rawls e a ideia de sociedade justa e livre.
	Segundo Carlos Benedito Martins a formação da sociedade como estrutura, procura enaltecer os aspectos de competição, conflito, concorrência e rivalidade entre os atores sociais. Dessa forma, explicitou: “sociedade como estrutura; sociedade como solida...
	Para Dalmo de Abreu Dallari (2003), para finalizar o conceito de sociedade deve estar presentes três requisitos importantes, finalidade ou valor social, manifestações de conjunto ordenadas e poder social. O valor social compreende como o conjunto de o...
	Pelo panorama da leitura da obra de Nicolau Maquiavel “O príncipe”, condensado por Fernando Henrique Cardoso, no sentido de obediência e servidão ser proveniente do medo mascarado de respeito. (LE LIVROS, 2010).
	Logo, as pessoas que respeitavam de fato seu líder possuíam grande admiração, contrariamente os que temiam possuíam silenciosamente o ódio por considerar que determinadas ações advindas dos superiores eram em sua concepção, ilegítimas.
	1.3 Resistência durante a revolução francesa.
	Um dos marcos que emblema a resistência é a Revolução Francesa, uma estação aflita em relutância na França do século XVIII. A escassez de dignidade estimula a temática estudada desse trabalho, onde normas são constrangidas pelas pessoas dominantes eli...
	Dando oportunidade ao nosso tema desobediência civil, e não os imunizando das penalidades, a desigualdade consagrada na França e aos que ponderassem discordar do Estado seriam presos:
	O processo [...] que não tem crédito nem proteção é levado a cabo sem demora na França. Aqui acredita que a virtude é incompatível com a miséria e, nos nossos tribunais, o infortúnio é uma prova completa contra o acusado. Uma prevenção injusta ali faz...
	É neste espaço de hostilidade e apreensão que a Revolução Francesa é desenhada, não fazendo igualdade as convicções caracterizadas pela desobediência civil pacífica doutrinada por Thoreau e que lançaram de inspiração para os próximos líderes e doutrin...
	Especialmente, colocações distintas tiveram como resultado brutalidade e um círculo de violência, as classes sociais mais avantajadas não estavam atraídas a aceitar a cooperação comum em meio a administração governamental e coabitação social, quando q...
	2 A DESOBEDIÊNCIA CIVIL E A RESISTÊNCIA NA ÓTICA DA MORAL E DA ÉTICA.
	CONCLUSÃO
	Além disso, ao analisarmos os feitos de alguns ícones mencionados como Rose Parks, Martin Luther King, podemos notar como a desobediência civil, é um modo de exercemos o direito de resistência de forma eficaz e sem violência, podendo mudar a realidade...
	Diante do trabalho realizado, a desobediência civil mostrou que ela é a única forma que dá autonomia ao povo a resistir contra o meio injusto. Mas que ainda não conquistou um vasto espaço na sociedade explicitamente, necessitando de maior expansão do ...
	ALTARES, Guillermo. Por que falamos de seis milhões de mortos no Holocausto?. El País, 2017. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil. Acesso em: 26, novembro de 2022.
	CONSTANTINO, Rodrigo. Filosofia. Mises Brasil, 2010. Disponível em: https://www.mises.org.br. Acesso em: 26, novembro de 2022.
	KLEFF, Michael. 1955: Rosa Parks se recusa a ceder lugar a um branco nos EUA. DW, 2022. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/1955-rosa-parks-se-recusa-a-ceder-lugar-a-um-branco-nos-eua/a-340929. Acesso em: 27, novembro de 2022.
	SILVA, Daniel Neves. Desobediência Civil. Uol, 2019. Disponível em: https://mundoeducacao.uol.com.br/politica/desobediencia-civil.html. Acesso em: 26, novembro de 2022.

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