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SOCIEDADE DE ENSINO UNIVERSITÁRIO DO NORDESTE CURSO DE DIREITO GISLAINE DE LIMA INTERAMINENSE “SEMPRE DESOBEDECER, NUNCA REVERENCIAR”: A DESOBEDIÊNCIA CIVIL NAS LETRAS ARTÍSTICAS, E SUA APLICAÇÃO COMO FORMA DE RESISTÊNCIA. MACEIÓ-AL 2022 GISLAINE DE LIMA INTERAMINENSE “SEMPRE DESOBEDECER, NUNCA REVERENCIAR”: A DESOBEDIÊNCIA CIVIL NAS LETRAS ARTÍSTICAS, E SUA APLICAÇÃO COMO FORMA DE RESISTÊNCIA. MACEIÓ-AL 2022 Monografia apresentada à Sociedade de Ensino Universitário do Nordeste-SEUNE, como parte dos requisitos para obtenção do título de Bacharelado de Direito Orientador: Profa. Willaine Araújo Silva Orientador: Prof.______________________ Co-orientador: Prof.____________________ GISLAINE DE LIMA INTERAMINENSE “SEMPRE DESOBEDECER, NUNCA REVERENCIAR”: A DESOBEDIÊNCIA CIVIL NAS LETRAS ARTÍSTICAS, E SUA APLICAÇÃO COMO FORMA DE RESISTÊNCIA. Monografia apresentada à Sociedade de Ensino Universitário do Nordeste - SEUNE, como parte dos requisitos para obtenção do grau de Bacharelado em Direito. _________________________________________________ Orientador: _________________________________________________ 1º Examinador: _________________________________________________ 2º Examinador: Data da aprovação: ______/______/_____ SUMÁRIO INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 7 1. O LIMITE DO ESTADO, E O PAPEL DA LIBERDADE NA DESOBEDIÊNCIA CIVIL..... .............................................................................. Error! Bookmark not defined. 1.1.Liberdade ..................................................................................................................... 14 1.1.1 Rawls e a ideia de sociedade justa e livre ..................................................................... 13 1.1.2 Caso Rose Parks: a desobediência civil e os direitos da população negra norte- americana……………………………………………………………………………………..14 1.1.3 Martin Luther King Jr. e a luta pela liberdade.................................................................15 1.2 O conceito de Estado.........................................................................................................18 1.3. Resistência durante a revolução francesa..................................................................... 20 2. A DESOBEDIÊNCIA CIVIL E A RESISTÊNCIA NA ÓTICA DA MORAL E DA ÉTICA..................................................................................................................................... 24 2.1. As diversas etimologias de ética........................................................................................24 2.2 As diversas etimologias de moral.......................................................................................28 2.3 Ética e a moral e sua importância neste universo ..............................................................30 3. BELCHIOR E RAUL SEIXAS COMO FIGURAS DA RESISTÊNCIA.....................32 4. CONCLUSÃO ................................................................................................................ 36 5. REFERÊNCIAS ............................................................................................................. 39 ”Se a lei contiver erros de tal ordem que nos obrigue a ser um instrumento de injustiça para alguém, e se somente for este o caso, então eu digo, viole a lei”. (THOREAU, HENRY DAVID) RESUMO A presente monografia pretende demonstrar a desobediência civil como um mecanismo alternativo e eficaz, para o exercício da democracia e em prol da justiça. Para tanto, o estudo deste tema, envolveu diversos conceitos. Primordialmente a etimologia de liberdade, logo a de Estado, assim como da ética e moral que são pressupostos essenciais para a análise do presente tema. Em cada um desses tópicos haverá os pensamentos de grandes nomes da sociologia, e dentre outros estudiosos para que se possa entender a desobediência civil como forma de resistência. Expondo a formação, as características e a teoria geral da visão de cada um desses pensadores. Assim fazendo referência a vários meios de protestos do povo ao redor do mundo, que foram utilizadas contra os modelos de legislação que foram consideradas injustas. Palavras-chave: Desobediência Civil; direito de resistência; liberdade; ética; moral; Estado. ABSTRACT This monograph intends to demonstrate civil disobedience as an alternative and effective mech- anism for the exercise of democracy and in favor of justice. Therefore, the study of this theme involved many concepts. Primarily the etymology of freedom, then that of the State, ethics and morals, which are essential assumptions for the analysis. In each of these topics there will be the thoughts of big names in sociology, and among other scholars to understand civil disobedi- ence as a form of resistance. It exposes his training, characteristics and his general theory of the vision of each of these thinkers. As well as referring to various means of protest by people around the world against models of legislation that were unjust. Keywords: Civil Disobedience; right of resistance; freedom; ethic; moral; State. 7 INTRODUÇÃO Desde o início da humanidade, com as primordiais configurações da sociedade, há indícios de agrupamentos ou certa organização para aqueles que conviviam naquele meio, com isso, por conseqüência foram criadas regras, onde se tende a aceitação ou a desobediência daqueles que estão inseridos nesse ambiente. Conforme o Dicionário de Política de Norberto Bobbio, a desobediência civil pode ser compreendida como “uma forma particular de desobediência, na medida em que é executada com o fim imediato de mostrar publicamente a injustiça da lei, e com o fim mediato de induzir o legislador a mudá-la”. Não se sabe ao certo a origem dessas regras, mas o que sabemos é que nem todas elas devem ser seguidas. Ao longo da história vimos leis que foram contra o que se entendem ser moral e ético, a compra e venda de pessoas para serem escravas, assassinatos em nome de um Estado maior. O holocausto nazista, que segundo o jornalista Guillermo Altares foi o genocídio que perseguiu cerca de 6 milhões de pessoas, dentre eles judeus, ciganos e homossexuais. Os Gulags da União Soviética, onde constantemente nos campos de prisioneiros, os detentos eram castigados com trabalhos forçados, torturas físicas e psicológicas. Ato contínuo, a história é cheia de indícios, que o Estado e seus governos vão longe nos seus abusos de poder, logo, a Desobediência Civil é uma arma que o povo tem para resistir à opressão. Essas opressões podem vir de várias formas e maneiras, sejam as mais violentas como as supracitadas, até mesmo as que são mascaradas, como a proibição da venda de bebidas alcoólicas, como ocorreu nos Estados Unidos da América nos anos 1920, a chamada Lei Seca, uma lei federal proibiu que bebidas fossem produzidas, conduzidas ou mesmo comercializadas em todo o território nacional. Até mesmo a proibição, e a aplicação de multa pela venda de produtos clandestinos que há nas feiras locais, os chamados “Camelôs”, que muitas vezes são realizadas por um cidadão simples, em busca de colocar alimento na mesa da sua família. Thoreau (1849, p. 45) afirma, por exemplo, que é injusto que o Estado confisque os bens daqueles que negam a autoridade estatal e não pagam os impostos, pois com o ato, o Estado pega para si o patrimôniode uma pessoa honesta e dissipa-o, tornando, assim, impossível que uma pessoa íntegra possa viver de maneira confortável. Em tese, habitualmente na esfera constitucional e política, a desobediência civil é uma das ferramentas de extrema relevância que engloba o gênero revolução. A história da raça humana é marcada por rebeliões e revoluções, muitas vezes fundadas no direito de autodeterminação do homem e dos povos. Essas batalhas, armadas ou não, foram de grande importância para a evolução da sociedade. Gandhi, Luther King e Henry Thoreau, homens que, além das obras que construíram, ajudaram com suas experiências práticas, dando a vida pela causa que defendiam. No âmbito artístico, Belchior, foi um dos grandes poetas da Música Popular Brasileira, artista que em cada uma das suas letras fazia alusão à luta, juventude e resistência popular. Tais temáticas se fizerem presentes nas suas obras de protesto à época da ditatura brasileira, momento em que a desobediência civil era uma tática indispensável na luta contra a pressão política. Destarte, foi empreendido no presente trabalho de conclusão, a análise da origem, seus contornos e limites do direito de resistência, liberdade e da desobediência civil na esfera do Estado de Direito, como também o direito de liberdade conforme disposto no artigo 5.º, IX da Constituição Federal. Utilizando formas que não causem danos aos demais utensílios do ordenamento jurídico à disposição da sociedade, combatendo assim as normas tidas como injustas e opressivas, que vão de encontro com o que é ético e moral para grandes nomes, como John Rawls, Locke, Hobbes, Maquiavel, dentre outros. 8 Por fim, a seguir se discutirá como tais medidas foram empregadas frente as normas injustas, e como ela foram espelhadas nas poesias de artistas durante as épocas, principalmente, Belchior, que ao finalizar a música “Como o diabo gosta”, canta que: “O que transforma o velho no novo / Bendito fruto do povo será / E a única forma que pode ser norma / É nenhuma regra ter / É nunca fazer nada que o mestre mandar / Sempre desobedecer / Nunca reverenciar”. 9 1 O LIMITE DO ESTADO, E O PAPEL DA LIBERDADE NA DESOBEDIÊNCIA CIVIL. A desobediência civil, para o Jornalista Daniel Neves Silva é uma ação popular que consiste na desobediência expressa de uma determinada lei. Ela ocorre quando o cidadão ou um grupo de cidadãos compreende que determinada norma ou mesmo sua ausência, objetiva a injustiça, sendo então, tal ato um método eficaz para intentar e manifestar a justiça social de forma mais célere e correta. Para Nelson Nery Costa, em reflexão a obra Antígona, tragédia Grega de Sófocles produzida por volta de 442 a.c., relata que foi o primeiro local a ser visto os primeiros atos de resistência, segundo o autor “há certas leis não escritas, superiores a todas as outras, pelas quais não é vedado desobedecer às demais, quando com elas colidentes”, se referindo ao direito natural do ser humano. Além do que, no liame da Constituição brasileira, no art. 5º, IX, está expresso o direito de expressão e manifestação por meio dos juízos de valor. Sendo a liberdade de expressão uma manifestação legal que se mostra de diversas formas e oportunidades, seja na opinião do indivíduo, informação, escolha, no trabalho, na conversa entre família, na política, na religião, ou em qualquer âmbito do convívio social, sendo um direito essencial para qualquer tipo de democracia. Nesse diapasão, logo quando se menciona o direito de resistência, não se deve embaralhar este conceito com a ideia de atrito entre indivíduos que se encontram em pensamentos horizontais de direitos, pois, trata-se de algo muito além, da sociedade como um todo, e como ela é em sua essência, que resiste aos atos coercitivos do Estado, que obriga com seu status superior a cumprir meios que podem ser considerados descabidos para o todo. Então para que haja uma análise adequada sobre a desobediência civil, é necessário que se faça um estudo sobre o que é Estado, liberdade, moral e ética. Que são associações essenciais que norteiam a relação humana, assim como o desenvolvimento da resistência como meio de desobediência de frente a normas que vão de encontro com o pensamento ético ou moral daqueles indivíduos que se encontram perante elas. 10 1.1 Liberdade. A atribuição de um significado ao termo “liberdade” gera grandes discussões diante da inexatidão contida no seu teor. Acentua Manuel Atienza que a expressão aludida “es una de lasmás prestigiosas de nuestro arsenal lingüístico, y por lomismo, una de las más imprecisas encuanto a su significado” (ATIENZA, 2000, p. 99). Logo, essa palavra tem amplo significado e conceito, dependendo de quem a vê. Dentro do tema, uma prática efetiva de se viver com mais liberdade, em qualquer momento ou em qualquer lugar, chama-se a desobediência civil. Existem diversos ícones que merecem grande reconhecimento, sendo um deles o americano Henry Thoreau, que fez enormes críticas ao pagamento de impostos, a escravidão e ao imperialismo expansionista do Estado americano ao se recusar a pagar impostos, Thoreau foi preso. Este episódio o inspirou a escrever a obra famosa Desobediência civil, do ano de 1849. Quando foi preso pelo não pagamento devido, não quis resistir à prisão, pelo contrário, orgulhou-se, pois com essa ação, a aceitação da punição foi um meio de mostrar a todos que não era um revoltado, e se por agir conforme seus ideais de justiça, fosse necessário ser preso, ele o faria, pois nada seria pior do que aceitar algo que não acreditava ser o ideal para todos. Quando foi preso pelo não pagamento devido, não quis resistir à prisão, pelo contrário, o mesmo orgulhou-se, pois com essa ação, a aceitação da punição foi um meio de mostrar a todos que não era um revoltado, e se por agir conforme seus ideais de justiça, fosse necessário ser preso, ele seria, pois nada seria pior que aceitar algo que não acreditava ser ideal para todos. Thoreau era um abolicionista em uma época em que a escravidão era lei, conforme o canal do Youtube Visão Libertária, ele estava indignado pelo fato do governo não agir contra a escravidão, se perguntava como um Estado americano que em sua declaração de independência se dizia que todos os homens são criados iguais, explicitamente criava leis tornando a alguns deles escravos. Ele era também um pacifista em uma época em que o governo estava em guerra com o México e que não fazia um menor sentido quando o governo queria empreender guerras em nome dos cidadãos americanos, ele apenas pregava a desobediência civil não apenas nesses casos, mas com relação a qualquer lei vista como antiética. É fato, existem e existiram diversas leis injustas e imorais na história, como o conhecido Holocausto Nazista, e elas contradizem a própria justificativa da existência do Estado, visto que 11 é um ser maior que deveria proteger os cidadãos. Os indivíduos segundo Thoreau devem estar preparadas para a liberdade, precisam acima de tudo desejá-la intensamente, por isso ele disse em Desobediência Civil “O melhor governo é o que não governa. Quando os homens estiverem devidamente preparados, terão esse governo”. Já para Ludwig Von Mises, como exposto no texto Filosofia (2021) de Rodrigo Constantino, a ideia de liberdade é compreendida quando se fala de relações inter-humanas. Ele acreditava que conforme a biologia, quem é o mais forte é o que tinha razão, logo, Mises achava que o homem primitivo não nasceu com liberdade, mas que teve de conquistá-la. Que os homens precisam estar protegidos contra o autoritarismo dos que são superiores, e é preciso ter um responsável por fazer com que se evite ações antissociais de alguns, evitando a violência descabida, neste caso poderia ser o governo. E ele deveriater um método que utilizasse da coerção e punição regulamentada para resolver essas questões, mas que respeitasse os limites e escolha dos indivíduos, desta forma, Ludwig Von Mises no seu livro O que é Liberalismo, de 1927 define que: A liberdade como o estado em que cada indivíduo é livre para escolher, sem a restrição da violência do governo além da margem em que a lei da praxeologia restringiria de qualquer maneira. Os indivíduos são livres quando podem praticar suas trocas voluntárias, contando com o aparato do governo somente para impedir a agressão alheia. (MISES, 1927) Uma forma atual que se parece com o que Mises escrevia, seria o boicote como meio de punição para atos que ferem a liberdade individual. Um dos casos recentes de boicote, foi com a hashtag #VidasPretasImportam, que se iniciou após uma pessoa negra ser espancada até a morte por dois seguranças brancos em um dos mercados da rede Carrefour na cidade de Porto Alegre. Manifestantes foram às ruas em busca de justiça pelo ocorrido. As vendas do Carrefour diminuíram cerca de 5,3%, segundo o site de notícias Seu Dinheiro. Mas não se pode esquecer que a liberdade, que ela é garantida, pois você é dono de tudo que está interligado a você, e assim você escolhe seu caminho. Por meio desses traços de expressar o que sente que o ser humano possui que as civilizações evoluíram, porém esta possui limites, principalmente quando se fala de propriedade privada. Murray Rothbard, na sua obra Man, Economy, and State de 1962, abordou essa questão sobre liberdade de expressão: Peguemos, por exemplo, o "direito humano" à liberdade de expressão. Supõe-se que a liberdade de expressão significa que todos têm o direito de dizer o que bem entenderem. Mas a questão negligenciada é: onde? https://www.mises.org.br/SearchByAuthor.aspx?id=93&type=articles https://www.mises.org.br/SearchByAuthor.aspx?id=93&type=articles https://mises.org/library/man-economy-and-state-power-and-market/html/c/434 12 Onde um indivíduo possui esse direito? Certamente ele não possui esse direito em uma propriedade que esteja invadindo. Ele possui esse direito apenas em sua própria propriedade ou na propriedade de alguém que concordou voluntariamente — seja por meio de um contrato de aluguel ou mesmo por um ato de generosidade — em conceder a ele o espaço determinado. Portanto, na realidade, não existe isso de "direito à liberdade de expressão"; existe apenas o direito de propriedade de um indivíduo: o direito de ele fazer o que quiser com o que é seu ou de fazer acordos voluntários com outros indivíduos que, por possuírem uma propriedade, concedem a este indivíduo o direito de utilizá-la para fazer o seu discurso ou escrever o seu artigo. Por tudo isso, o conceito de "direitos" somente faz sentido se eles são entendidos a partir do conceito de direitos de propriedade. Pois não apenas não existem direitos humanos que não sejam também direitos de propriedade, como todos esses direitos perdem sua incondicionalidade e clareza, e se tornam confusos e vulneráveis, quando os direitos de propriedade não são usados como padrão. (Rothbard, 1962) Ato contínuo à idéia de Rothbard, quando utilizamos de forma sábia nossa liberdade, pode moldar idéias baseadas no que as pessoas já têm em mente, criamos armas contra a tirania. A liberdade de expressão é o que forja idéias, logo, essas são meios de disseminar a verdade e, fortalecer as pessoas contra o autoritarismo. 1.1.1 Rawls e a ideia de sociedade justa e livre. Jonh Rawls foi um filósofo político-liberal norte-americano extremamente influente no século 20. Conhecido por sua obra Uma Teoria da Justiça, ele demonstra nela as questões principais da sua filosofia, que seria a ideia de como construir uma sociedade justa e livre, por meio de um Estado liberal, sendo então uma democracia moderna, que funciona muito mais que um socialismo igualitário. Para o autor, “cada pessoa tem direito igual às mais amplas liberdades compatíveis com liberdades semelhantes para tudo.” (RAWLS, 1993) E em relação ao seu conceito justiça, o mesmo intitulou de “justiça como equidade”, possui dois princípios, um deles que propõe a limitação o governo democrático, e o outro que busca garantir ao indivíduo as liberdades básicas, como “bases sociais do respeito próprio” e outras vantagens sociais. (RAWLS, 1993). No que condiz à desobediência civil, Rawls preceituava que não seria em oposição a uma autoridade democrática ou contra a maioria, ou mesmo contra normas legislativas. Na verdade, achava que esses eram pontos essenciais para a construção dos seus ideais, pois o 13 mesmo acreditava que a desigualdade, desde que controlada, é um ponto essencial para a existência da sociedade, mas que se esta for extrema, o risco é que essa desigualdade possa se tornar uma situação de anomia como a potencialização da violência urbana, causando uma tensão social advinda do cidadão. Ressalta-se que no pensamento de Rawls, há três justificativas para a desobediência civil. A primordial é quando o princípio da igual liberdade estiver sendo desrespeitado; a segunda condição é quando o uso público da razão, a justificação pública e a razoabilidade forem abandonadas, e não há o que se possa fazer nos meios legais e políticos contra uma lei (ou ordenação) injusta; já a terceira maneira de justificar a desobediência civil consiste em delimitar as injustiças que se derem mais ou menos deliberadas durante um largo período de tempo, o que satisfaz as restrições geradas pela questão da equidade. Em suma, a desobediência civil é um método de dissensão; é um mecanismo próprio e concernente apenas aos sistemas democráticos. O autor reconhece a desobediência civil enquanto um mecanismo estabilizador da democracia liberal, um mecanismo de luta contra as opressões, nesse contexto o autor Cezar Augusto Schirmer também preceituava: [...] E isto não é um contrassenso ou a negação do próprio ordenamento jurídico, antes é a demonstração de que o constitucionalismo democrático maduro se mostra preparado para lidar com questões de justiça sem se iludir em um legalismo cego. (SCHIRMER, 2016). Para Rawls, a desobediência civil se dá quando se tem uma sociedade que é quase totalmente justa, mas que, entretanto, há casos sérios de violações de justiça. O autor aduz que a desobediência civil é uma forma política que pode ser entendida como um método de recorrer ao senso de justiça da comunidade, uma invocação dos princípios reconhecidos da cooperação entre iguais, sendo um apelo à base moral da vida cívica e, portanto, um ato político. É um ato político em duplo sentido: no sentido em que se dirige as pessoas que possuem o poder político e porque é uma ação que orienta e justifica-se pelos princípios políticos, assim como pelos princípios da justiça que regulam a constituição e as instituições sociais. 1.1.2 Caso Rose Parks: a desobediência civil e os direitos da população negra norte- americana. Os Estados Unidos, um país que segundo o jornal Gazetado povo (2019) durante muito tempo foi referência sobre liberdade individual, de expressão e econômica, e apesar de sua 14 Constituição proteger essas liberdades ou ao menos alegava proteger, passou por momentos sombrios de repressão, não somente com a escravidão, onde houve um longo período de segregação racial tal qual no território norte-americano. O Estado limitava os direitos dos negros, discriminando-os do resto da sociedade, sendo vistos como cidadãos de segunda classe, e as vezes nem mesmo isso. A segregação institucional, uma realidade da época, só foi rompida por meio de atos de desobediência civil, sendo apenas a partir desse momento que a situação começou a mudar, uma vez que, caso a população negra americana tivesse aceitado passivamente as imposições do governo, e se limitasse a obedecê-las, essa realidade talvez nunca teria mudado.O caso de Rose Parks, uma americana de Montgomery, que teve coragem de tomar a iniciativa de desobedecer às leis discriminatórias dos EUA, foi um das mais importantes e memoráveis da história. Rose também atuou no apoio ao caso dos Scottsboro Boys, onde nove jovens negros foram incriminados erroneamente de terem abusado sexualmente uma mulher quando ela estava em um trem em 1931. Foi então quando, na década de 1940, Rose Parks tornou-se uma militante ativa do NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor), assumindo a posição de secretária do movimento. Ela era costureira, e se tornou uma das líderes do movimento contra a segregação racial, mas sua história não foi fácil, ela foi presa em dezembro de 1955, quando recusou ceder o assento do ônibus para uma pessoa branca. E assim se tornou um dos principais símbolos dos direitos civis nos Estados Unidos, isso tudo porque ela se recusou a trocar de lugar. É difícil imaginar que esse cenário de descriminação está a menos de um século de distância dos dias de hoje. No estado do Alabama, onde o caso supracitado ocorreu, existia uma lei que obrigava os negros a se sentarem no fundo dos ônibus públicos, e se não houvesse mais lugares vagos os indivíduos negros eram obrigados a ceder o lugar para um cidadão branco. Os direitos e as liberdades que foram adquiridos pelas pessoas não se referem a um longínquo passado, são conquistas recentes, a apesar de uma injusta lei americana amparar que os brancos tinham direito aos assentos da frente dos ônibus, a prisão de Rose Parks culminou uma onda de protestos contra a discriminação racial, sendo o estopim de uma revolução de desobediência. 15 O que aconteceu a Rose não havia sido o primeiro ato de discriminação no mundo, e também que não seria o último. A partir desse momento, Rose Parks e o pastor da igreja Batista Martin Luther King Jr, pastor da igreja Batista, estiveram envolvidos na organização um boicote aos ônibus, com protestos que duraram 382 dias seguidos, onde teve a aderência de mais de 30 mil pessoas, assim grande parte da população negra começou a boicotar o transporte coletivo, conforme matéria do site da emissora germânica DW (Deutsche Welle). Com o boicote à empresa de ônibus como forma de protesto, a comunidade negra começou a se direcionar para seus empregos caminhando ou até mesmo organizando caronas entre si, quando algum deles possuía automóvel. Imediatamente as empresas de ônibus começaram a registrar prejuízos por causa do boicote, finalmente em 20 de dezembro de 1956 a Suprema Corte americana declarou que as leis segregacionistas eram inconstitucionais. Dessa forma, podemos ver que a resistência explícita nesse caso, certamente foi uma pacífica e brilhante vitória fruto da desobediência civil, e sua forma legítima de atuar em prol da sociedade. 1.1.3 Martin Luther King Jr. e a luta pela liberdade. Martin Luther King nascido em 1929, vindo a falecer em 1968, conforme o artigo Toda Matéria de Juliana Bezerra (2021), ele foi um ativista norte-americano, lutou contra a discriminação racial e tornou-se um dos mais importantes líderes dos movimentos pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Nasceu em Atlanta, nos Estados Unidos, no dia 15 de janeiro de 1929. Era filho e neto de pastores da Igreja Batista, e resolveu seguir pelo mesmo caminho. Em 1951, formou-se em Teologia na Universidade de Boston. Convertido em pastor, em 1954, Martin Luther King assumiu a função de pastor em uma igreja na cidade de Montgomery, no Alabama, e recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1964. Conforme sua biografia “King: A Biografhy” escrita por L. Lewis, King fez uma reflexão sobre si mesmo e do ato de desobediência civil que estava prestes a acontecer, perguntava-se se estas ações que estavam acontecendo seriam justas, éticas e cristãs, visto que era pastor e de grande importância, prezava primordialmente a religiosidade. (LEWIS, 1970). King guiado pela obra do mencionado autor Thoreau, após um encontro com as autoridades municipais e os administradores das empresas de ônibus, concluiu: 16 Usaríamos esse método para dar à luz a justiça e a liberdade, e também para estimular os homens a cumprir a lei da terra. Nosso interesse não seria falir a empresa de ônibus, mas trazer justiça ao seu negócio (…) vim a perceber que o que realmente estávamos fazendo era deixar de cooperar com um sistema perverso e não meramente retirar nosso apoio à empresa de ônibus. Esta última, sendo uma expressão externa do sistema, naturalmente iria sofrer, mas o objetivo básico era recusar-se a colaborar com o mal. Nesse ponto comecei a pensar em ‘A desobediência civil’ de Thoreau. Fiquei convencido de que o que estávamos nos preparando para fazer em Montgomery tinha relação com o que fora explicitado por Thoreau. Estávamos apenas dizendo à comunidade branca: Não vamos mais dar nossa colaboração a esse sistema perverso. A partir desse momento, passei a conceber nosso movimento como um ato popular de não cooperação (ibid., 1970) Martin Luther King Jr. elaborou o texto “Significado do boicote”, citado no New York Times, em 24.02.1956, e que segundo sua Autobiografia, escrita por Carlos Alberto Medeiros em 2014, mais uma vez adotou paradigmas de justiça para apoiar o movimento, e proclama palavras de amor para unir o movimento sem violência: Há os que tentariam fazer disto uma campanha de ódio. Esta não é uma guerra entre brancos e negros, mas um conflito entre justiça e injustiça. Isto é maior que uma revolta da raça negra contra a branca. Estamos tentando melhorar não o negro de Montgomery, mas Montgomery como um todo. Se formos presos todos os dias, se formos explorados todos os dias, se formos espezinhados todos os dias, nunca deixe ninguém os rebaixar a tal ponto que vocês venham a odiá-lo. (Ibid, 1970) Depois do que ocorreu com Rose Parks, King teve uma sensação de impacto, quando observou que foi de grande importância esse ato de desobediência, pois estimulou com que os negros tivessem uma ação positiva, de ação, que ia de encontro com a legislação segregacionista, de forma que percebeu que só assim poderia dar um basta a esse movimento discriminatório, com suas marchas a favor da população negra, veja: Acreditava que os privilegiados abririam mão de seus privilégios se isso lhes fosse pedido. Essa experiência, contudo, me ensinou uma lição. Passei a perceber que ninguém abandona seus privilégios sem uma forte resistência. Percebi também que o propósito subjacente da segregação era oprimir e explorar os segregados, e não apenas mantê-los separados. Mesmo pedindo por justiça dentro das leis segregacionistas, os ‘poderes constituídos’ não estavam dispostos a nos atender. Justiça e igualdade, percebi, nunca viriam enquanto a segregação permanecesse, pois, o propósito básico desta era perpetuar a injustiça e a desigualdade. ( Ibid, 1970) King se inspirou bastante nas atitudes de Mahatma Gandhi, que era visivelmente influenciado por Thoreau. Onde pôde trazer um pouco dos seus métodos pacíficos, e devido a seu caráter prático e eficiente, introduziu ao seu discurso o meio da não-violência, o que não significava que às vezes não houvesse danos ao patrimônio. Mas de qualquer forma, este não era da base deles, mas sim como princípio base fundamental não agir com violência contra outras pessoas. Foi quando diante de uma grande multidão, Martin Luther King fez um discurso que ficaria marcado na história “I have a dream”: 17 (...) Cem anos atrás, um grande americano, sob cuja sombra simbólica nos encontrou, assinou a Proclamação de Emancipação. Esse importante decreto veio como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham sido queimados nas chamas da injustiça intimidante. (...) Mas cem anos depois o negro ainda não está livre. Cem anos depois, a vida do negro ainda é tristementedeformada pelas algemas da segregação e pelas cadeias da discriminação. (...) Assim, viemos aqui hoje para dramatizar uma condição vergonhosa. De certo modo, viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de Independência, estavam assinando uma nota promissória da qual todo americano seria herdeiro. Essa nota era uma promessa de que todos os homens, sim, os homens negros e os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis à “Vida, à Liberdade e à busca da Felicidade”. Hoje é obvio que a América não resgatou sua promissória no que se refere a seus cidadãos negros. (...) Este é o momento de transformar em realidade as promessas de democracia. Este é o momento de ascender do vale desolado da segregação ao caminho iluminado da justiça racial. (...) Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. (...) Mas há algo que eu tenho a dizer ao meu povo (...) não devemos arcar com a culpa por ações ilegais. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara de amargura e ódio. (...). Não devemos permitir que nosso protesto criativo degenere em violência física. (...) Não nos deixemos cair no vale da desesperança. Eu lhes digo agora, meus amigos, que embora enfrentemos as dificuldades atuais e futuras, eu ainda tenho um sonho. (...) Eu tenho um sonho de que um dia esta nação vai levantar-se e sustentar o verdadeiro significado de sua crença – consideramos como verdades evidentes por si mesmas que todos os homens são criados iguais. (Ibid, 1970) Porém, mesmo com todo esse percurso merecedor de honra, King foi assassinado em 04 de abril de 1968. Tendo deixado seu legado pacifista de desobediência civil na história da humanidade. Diante do que foi explicitado, podemos citar um exemplo não muito distante do que o país tem vivido recentemente, são as formas de resistência que a população tem encontrado, sendo uma delas, a ocupação escolar, onde alunos estão ali presentes contra uma reforma do ensino médio, em defesa da educação pública, como ocorreu em 2016 no Brasil. Quando houve uma série de manifestações que buscavam bloquear a atuação de projetos e medidas dos governos estaduais de Geraldo Alckmin, Marconi Perillo, José Ivo Sartori, Beto Richa, Luiz Fernando Pezão e do governo do Michel Temer. Os alunos lutavam contra a chamada “PEC do teto de gastos”, sendo estes também um ato de desobediência civil pacifica e não-violenta. Outro exemplo recente, é quando jovens utilizam a internet para se expressar, com fotos, memes, páginas no Instagram, grupos no WhatsApp ou Facebook. O alcance das informações é gigantesco, e mesmo não estando presente o indivíduo, as informações podem chegar até mesmo agricultor na zona rural que possui acesso à internet, o que antes não era possível, tornando as manifestações e insatisfações de injustiças mais acessíveis, e compartilháveis em qualquer lugar do planeta. https://pt.wikipedia.org/wiki/Gest%C3%A3o_Geraldo_Alckmin_no_governo_de_S%C3%A3o_Paulo https://pt.wikipedia.org/wiki/Marconi_Perillo https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Ivo_Sartori https://pt.wikipedia.org/wiki/Beto_Richa https://pt.wikipedia.org/wiki/Luiz_Fernando_Pez%C3%A3o https://pt.wikipedia.org/wiki/Luiz_Fernando_Pez%C3%A3o https://pt.wikipedia.org/wiki/Michel_Temer 18 No Facebook, My Space, Orkut, LinkedIn, Xing, Pulse ou nos milhares de comunidades criadas através de softwares livres, nos meios de comunicação social – como NING, indivíduos constroem redes de contatos, de amigos, e de relações, participam de clubes, instauram grupos de trabalho, trocam mensagens, compartilham suas paixões, tagarelam, negociam coletivamente suas reputações, gerenciam conhecimentos, realizam encontros amorosos ou profissionais, desenvolvem operações de marketing e entregam-se a todas as espécies de jogos coletivos (LEMOS, 2010). Logo, estas também são uma ação direta de afronta, resistência, e transgressão ao Estado, e principalmente de forma pacífica. Estando elas ali presentes na defesa das pautas e dos direitos legítimos e justos, estando previstas constitucionalmente, sendo estes métodos um direito de autodeterminação do indivíduo colocado nessa situação. Por isso, a desobediência civil pode ser entendida como um direito individual. Dessa forma, antes de partir do pressuposto que uma autoridade está agindo autoritariamente, deve-se ter cuidado, pois ela pode não estar necessariamente agindo com razão. Conforme se notou no percorrer da história mundial, nenhum regime autoritário se sustentou sem a submissão profunda das pessoas ali inseridas. Muitos dos nomes da humanidade que lutaram por direitos, foram condenados como criminosos, pois estariam à margem da lei, inclusive, pode se citar como exemplo Jesus Cristo, principal símbolo do Cristianismo. Logo, reconhecer que o direito de desobediência civil e de resistência, é diferente de preceituar que o Estado não deve ter suas leis e normas obedecidas, mas sim reconhecer que a injustiça pode acontecer, inclusive pelas mãos do próprio Estado, fato que ocorre com frequência. Por isso é necessário sempre ser um opositor radical, para que quando o Estado não aja de forma democrática, possa respeitar o direito a divergência, inclusive a desobediência civil, que banirá os métodos injustos. 19 1.2 O conceito de Estado. Apresenta-se um nutrido duelo acerca da tese da formação das sociedades, os dois mais relevantes são: idealista e contratualista. Platão na obra “A República” qualifica a sociedade idealista, coloca a sociedade livre de desordem e cheia de homens cultos e temerosos das leis. (PLATÃO, 2000 a.C). Claro que em seu ponto de vista de sociedade exemplar, Platão não entreviu as transmutações humanas, e sua sucessiva troca de escolhas, então seria no ínfimo ingênuo considerar que uma condição como essa não viesse a ceder. O Estado procede de forma inválida por diversas vezes, quando vai contra a temática de uma lei e ilegalmente quando danifica a forma e a letra da lei em si, consequentemente, há maneiras de vislumbrar esta interposição, que se envolve de diversos modos e pode até ser estabelecido em inconstitucionalidade (Ibid, 2000 a.C). Para Hobbes, que vem a defender a tese da formação por ação de preferência individual, vem a percorrer traços de caráter contratual, pois veem a sociedade como um acordo condescende entre os envolvidos que dividem dos mesmos propósitos. Thomas Hobbes demonstra a teoria contratualista aplicada às sociedades, em sua obra, “Leviatã”, afirmando que o homem em seu estado natural é uma criatura abominável, incapaz de produzir algo bom, para ele é necessária a figura de um dominador que utilize mãos de ferro, para despertá-los de seu estado selvagem de natureza. (HOBBES, 2008). O homem por ser dotado de razão, por meio dela, supera a selvageria e supera o estado social. Organiza-se entre a sociedade, e como resultado criam regras para normatizar os costumes. Na visão dele, se fazia imperioso a composição da figura de um regente que executasse o comando de todos os feitos em sociedade e castigasse os desobedientes, e esse personagem que desempenharia poder coercitivo e autoritário lhe foi dado o nome de Leviatã: E quando se faz um pacto em que ninguém cumpre imediatamente sua parte, e uns confiam nos outros, na condição de simples natureza, a menor suspeita razoável torna nulo esse pacto. Mas se houver um poder comum situado acima dos contratantes, com direito e força suficiente para impor seu cumprimento, ele não é nulo. Pois aquele que cumpre primeiro não tem qualquer garantia de que o outro também cumprirá depois, porque os vínculos das palavras são demasiado fracos para refrear a ambição, a 20 avareza, a cólera e outras paixões dos homens, se não houver o medode algum poder coercitivo. (HOBBES, 2008). Nessa obra, Thomas Hobbes apresenta sua aversão ao estado de natureza, que aceitava que se homem comportar-se de maneira irracional e selvagem, não poderia engendrar o surgimento de uma sociedade a partir desse estado, contrariamente, segundo ele a ideia mais coerente era de que a sociedade surgira, através de um ato de escolha, do propósito daqueles homens que puderam superar seu instinto animal e deixou manifestar a razão, temendo punição por decisão diferente. Se o soberano ordenar a alguém (mesmo que justamente condenado) que se mate, se fira ou se mutile a si mesmo, ou que não resista aos que o atacarem, ou que se abstenha de usar os alimentos, o ar, os medicamentos, ou qualquer outra coisa sem a qual não poderá viver, esse alguém tem a liberdade de desobedecer. [...] portanto, quando nossa recusa de obedecer prejudica o fim em vista do qual foi criada a soberania, não há liberdade de recusar; mas caso contrário há essa liberdade (HOBBES, 1974). Mas para ele, direito à vida seria o maior dos direitos, defendendo a deserção e a desobediência do indivíduo em face do soberano quando este já não consegue mais proteger sua vida, garantir a paz dos demais ali que estão impostos ao seu domínio. O autor escreveu que a forma de proteger os homens uns dos outros e das invasões seria por meio de um pacto que concedesse “toda sua força e poder a um homem, ou a uma assembleia de homens, que possam reduzir suas diversas vontades, por pluralidades de votos, a uma só vontade.” (RIBEIRO, 2012). Segundo Carlos Benedito Martins a formação da sociedade como estrutura, procura enaltecer os aspectos de competição, conflito, concorrência e rivalidade entre os atores sociais. Dessa forma, explicitou: “sociedade como estrutura; sociedade como solidariedade e sociedade como processo criativo”. (MARTINS, 2012). Esses conceitos foram criados a muito tempo, e se teve muitas mutações ao passar do tempo. Para Dalmo de Abreu Dallari (2003), para finalizar o conceito de sociedade deve estar presentes três requisitos importantes, finalidade ou valor social, manifestações de conjunto ordenadas e poder social. O valor social compreende como o conjunto de objetivos estabelecidos livremente pelo homem, para chegar a um bem maior, e tal bem maior seria o bem de todos os ali inseridos em sociedade. Claramente, determinar diretrizes que contemplam o interesse geral é uma função árdua e muitas vezes inconsistente, por isso originou-se o 21 conceito do bem comum, um grupo de ações que pudessem trazer benefícios ao maior número de pessoas possível. Pelo panorama da leitura da obra de Nicolau Maquiavel “O príncipe”, condensado por Fernando Henrique Cardoso, no sentido de obediência e servidão ser proveniente do medo mascarado de respeito. (LE LIVROS, 2010). Logo, as pessoas que respeitavam de fato seu líder possuíam grande admiração, contrariamente os que temiam possuíam silenciosamente o ódio por considerar que determinadas ações advindas dos superiores eram em sua concepção, ilegítimas. 22 1.3 Resistência durante a revolução francesa. Um dos marcos que emblema a resistência é a Revolução Francesa, uma estação aflita em relutância na França do século XVIII. A escassez de dignidade estimula a temática estudada desse trabalho, onde normas são constrangidas pelas pessoas dominantes eliminando a discernimento e acuidade da sociedade ali inserida. Dando oportunidade ao nosso tema desobediência civil, e não os imunizando das penalidades, a desigualdade consagrada na França e aos que ponderassem discordar do Estado seriam presos: O processo [...] que não tem crédito nem proteção é levado a cabo sem demora na França. Aqui acredita que a virtude é incompatível com a miséria e, nos nossos tribunais, o infortúnio é uma prova completa contra o acusado. Uma prevenção injusta ali faz crer que aquele que devia cometer o crime, cometeu-o, os sentimentos ali se medem pelo estado em que vos encontrais e assim como os títulos ou a fortuna não provam que deveis ser honestos, a impossibilidade que o sejais torna-se demonstrada imediatamente. Se a sorte diverte-se em desarranjar este primeiro plano das leis gerais, cabe a nós corrigir lhe os caprichos e reparar com a nossa sagacidade as usurpações dos mais fortes. (SADE, 2009) É neste espaço de hostilidade e apreensão que a Revolução Francesa é desenhada, não fazendo igualdade as convicções caracterizadas pela desobediência civil pacífica doutrinada por Thoreau e que lançaram de inspiração para os próximos líderes e doutrinadores, mas sim um ambiente hostil, em que os servos e a burguesia, cada qual com seu interesse, pegaram em armas e partiram para a luta contra o Estado, sua enorme pujança e bagagem de injustiças sociais. (LE LIVROS, 2017). Especialmente, colocações distintas tiveram como resultado brutalidade e um círculo de violência, as classes sociais mais avantajadas não estavam atraídas a aceitar a cooperação comum em meio a administração governamental e coabitação social, quando que em frente dos Jacobinos, estes eram mais revolucionários e queriam dar margem aos direitos das minorias e a uma parcela destes na política. Alcançando, o caimento do vigor e resistência do povo na Revolução: “A população parisiense, após saber dos planos do rei, invadiu o palácio real [...] e prendeu o rei e sua família. O Rei e sua esposa [...], tiveram suas cabeças decepadas [...]. Monarquia Constitucional chegou ao seu fim no mesmo ano” (FERNANDES, 2019). 23 A revolução Francesa teve como principal motivo a crise que a França vivia economicamente, pois se aumentava a pressão para os de classe mais baixa, pois o custo de vida tinha aumentado, e as chances de emprego foram diminuídas, e cada vez se cobravam mais impostos, cobranças essas realizadas pela nobreza, gerando cada vez mais a insatisfação popular. Essa resistência em seu ápice deu início a Queda da Bastilha em 14 de julho, onde a população invadiu e tomou o gerenciamento da prisão que foi símbolo da opressão na França, assim foi se espalhando a revolução em todo o país, conforme Carlos César Higa (2019). Sendo este uma grande conquista do povo frente a resistência contra o Estado, utilizando a desobediência civil, como meio de libertação e extinção da tirania, sendo atualmente, este dia celebrado com fogos de artifício e desfiles pelo país. Podemos notar com esse marco histórico para a resistência, que o mesmo inseriu grandes valores libertários com base em direito e justiça. Pois o direito é realizado com base das ações coletivas, que estimulam as lutas e conquistas populares, estimulando a participação política e mostrando que o povo é mais forte que o Estado. Para LAFER (1998), a teoria Tomista potencializa um direito de resistência quando contempla uma reação, um direito de revolução contra um regime tirano que ultrapasse o terreno da reciprocidade existente entre governantes e governados, isto é, que desequilibre esta relação. Conforme o autor Liszt Vieira (1998), sem sua obra “cidadania e globalização”, a sociedade tem todo o poder de se ter como visão um ser superior, que possui como "meio e fim da democracia", um método para a falta que o Estado faz, podendo buscar meios ao seu redor. Em resumo, os movimentos da sociedade, in versus: de caráter não-governamental, não-mercantil, não-corporativo e não-partidário, podem assumir um papel estratégico quando se transformam em sujeitos políticos autônomos e levantam a bandeira da ética, da cidadania, da democracia e da busca de um novo padrão de desenvolvimento que não produza a exclusão social e a degradação ambiental (Ibid, 1998) Geovanni Tavares (2020), defende o ideal de que a desobediência deva ser aprovada em seu estado em sentido amplo quando cerceia-se o questionamento dos novosdireitos, analisemos: “Esses novos direitos, mesmo sendo criminosos na ótica restrita do direito positivo, tornam-se legitimados e, consequentemente, plenamente aceitos pelo direito aqui entendido em sentido amplo. Quando necessariamente todas as fases possíveis de negociação, através do 24 processo de reivindicação de direitos, esgotam e a interpretação do direito positivo é restrita ao cumprimento da lei, desconsiderando o elemento de adaptação do direito aos princípios, abrem- se espaços para o favorecimento dos atos de Resistência Política e Desobediência Civil. ” No que se refere à desobediência civil, pode-se afirmar que possui como maior expoente o doutrinador Henry David Thoreau (), que defendia a ideia de que a desobediência civil está diretamente ligada à auto aprovação e como alguém pode estar em boas condições morais enquanto “escraviza ou faz sofrer outro homem”. Para Maria Helena Diniz a desobediência civil consiste na: Possibilidade de um grupo social, ou de um cidadão, agindo conforme sua consciência e protegido pela Constituição, opor-se a um princípio constitucional. 2. Exercício de direito de resistência passiva por parte de certo grupo social resultante do descumprimento de lei ou de ato governamental contrário à ordem jurídica ou à moral pública (...). (DINIZ, 2005) Logo, podemos ver que a Revolução Francesa, teve a desobediência civil presente na atitude do povo francês naquele momento, que estavam se opondo aos princípios constitucionais em busca de melhorias. 25 2 A DESOBEDIÊNCIA CIVIL E A RESISTÊNCIA NA ÓTICA DA MORAL E DA ÉTICA. A moral e a ética estão com a sociedade desde a Grécia antiga, sendo essencial para o convívio em sociedade, e também para buscarmos as melhores respostas para os questionamentos mais importantes da humanidade. Para os gregos a ética englobava o homem enquanto cidadão da Polis, por tanto estava ligada diretamente com a política. Diferente de hoje, em que cada vez mais a ética se volta para os direitos individuais. (VIEIRA, 2022) Na desobediência civil, não seria diferente, tendo em todo seu alicerce respostas com base nessas verdades. A seguir serão estudados os conceitos desses dois princípios, que são de suma importância para o tema. 2.1 AS DISTINTAS ETIMOLOGIAS DE ÉTICA. A ética vem estando em alta nas discussões acadêmicas, jovens, políticas e empresariais. O que antes estava em torno de estruturas econômicas, agora pende para a Ética, numa tentativa de conseguir que todos tenham apenas um único interesse, como Roger Pol-Droit (2012) já dizia, “a ética faz com que o homem se pergunte qual a melhor maneira de agir”; e mais: “[...] a ética é, antes de tudo, o conjunto de reflexões ligadas a questões do gênero – O que devo fazer? Como devo me comportar?”. Para entender melhor sobre como isso aconteceu, temos que entender melhor o que é a Ética. Essa veio do grego ethos, que significa o modo de ser e agir, ou seja, o caráter. Tanto ethos (caráter) como mos (costume) indicam um tipo de comportamento propriamente humano que não é natural, o homem não nasce com ele como se fosse um instinto, mas que é "adquirido ou conquistado por hábito" (VÁZQUEZ, 2011). E conforme a convivência humana, essa palavra foi tendo seu significado aperfeiçoado e tendo etimologias diversas. Por este motivo, sempre há debates sobre o tema, visto que o que pode ser ético para uma pessoa, pode não ser ético para outra. 26 Os princípios básicos da ética são o utilitarismo, os direitos individuais e a justiça. O primeiro sendo o pensamento que a ética é mais útil sendo usada quando a maior benfeitoria para o maior número de pessoas ao redor. A segunda quando se utiliza para proteger os direitos a informação, privacidade, e da consciência, dentre outros. E o último, e não menos importante, é quando a ética é usada com equidade, na busca da igualdade para todos os envolvidos, pois esta não existe apenas por causa de pequenas normas, e sim por princípios que apenas os que estão ali vivenciando compreendem, mesmo na complexidade que são as relações humanas. Argumentam Outhwaite e Botomore (1996), “a ética refere-se à avaliação normativa das ações e do caráter de indivíduos e grupos sociais”.“Nenhum homem é uma ilha", esta conhecida frase do filósofo Thomas Morus ajuda a compreender melhor que para o homem viver, é necessário conviver. Para Sigmund Freud (1908), os sentimentos éticos e a consciência moral não são uma disposição inata do homem, estes são formados a partir de uma necessidade de convívio em comunidade para controle das forças da natureza e da agressividade humana, esta tida por pelo autor como uma disposição inata. Freud dizia que os comportamentos éticos e morais se apresentam como uma necessidade da ordem da sobrevivência, como uma necessidade de convivência em comunidade para controle das forças da natureza e da agressividade humana. Diferente de Freud que via no complexo de Édipo o ponto culminante da gênese dos comportamentos éticos a partir do surgimento do superego, para Klein o complexo de Édipo, agora desligado da gênese do superego, será apenas mais um dos elementos de uma rede constituída pela projeção, introjeção, integração, cisão, inveja, gratidão etc, que irá influenciar sobretudo a internalização do objeto bom, fundamental para a crença do indivíduo em suas capacidades de reparação, e portanto, fundamental para que os comportamentos éticos ocorram KLEIN, M. (1926). O ponto culminante da gênese dos comportamentos morais será, para a autora, a passagem para a posição depressiva. Já para Lacan (1917), por sua vez, não nega a existência de algo que pode ser denominado de “consciência moral”; porém, ele a exclui completamente do campo de teorização da psicanálise. Já do campo da clínica psicanalítica, ele não pode excluí-la, uma vez que aparece com frequência no discurso do paciente. Todavia, na clínica psicanalítica proposta por Lacan a consciência moral fica relegada ao plano dos engodos, dos bens – todos falsos – que a sujeita pensa que poderia resolver o problema em relação aos seus desejos, e poderiam harmonizá-lo com a sociedade. A consciência moral fica então relacionada ao ideal do eu que 27 se desenvolve no plano Imaginário, e tem sua importância ligada à constituição do laço social. Contudo, como foi visto a ética da psicanálise para esse autor não faz referência à relação entre os indivíduos, e sim à relação do sujeito com seu próprio desejo e meios de gozo. Moscone (1991) considera a ética proposta por Lacan individualista e anti-social, porém não devemos nos surpreender com esses adjetivos. Lacan procura valorizar a singularidade, apontando para uma ética referida ao desejo e ao gozo, ao que de mais individual há em um sujeito. Ele apresenta-se anti-social ao denunciar a inexistência do Bem Supremo e a falsidade dos “bens” oferecidos pela sociedade, e com isso vai dando provas de que realmente não acredita na harmonia entre o individual e o coletivo. Enquanto do ponto de vista da filosofia, propor uma ética que não conduza a um bem universal, que se apóie na singularidade, possa ser um contra-senso, para Lacan essa não é uma questão relevante, pois ele assume desde o início que sua proposta ética tem pouco a ver com a ética filosófica. Mas para Guyomard (1999), a “ética do desejo” proposta por Lacan não pode ser considerada propriamente uma ética, uma vez que não se refere ao universal. Por outro lado, Teixeira (1999) propõe que o universal da ética proposta por Lacan está em sua essência trágica, ou seja, em sua base na falha universal e estrutural dos sujeitos, em que a essência da trama trágica está no fato de que nosso destino está fixado, a despeito de nossa capacidade de deliberar sobre seu devir. Nossos modos de gozo são fixos e nos determinam. Portanto, é nesse contextoe por meio dessa grade argumentativa, que Lacan procura situar sua concepção ética, e de certa forma afirmar o que considera ser a própria ética psicanalítica. Para Kant, a ética é formalista, mostra um meio de agir moralmente certa. A ética de Kant diz que o que deve ir conforme as ações do homem é a razão, ela deve ser universal mesmo diferente da cultura que o indivíduo está. Antes de realizar qualquer ato, devemos nos perguntar “isso fará o bem do coletivo?”. Se sim, é uma atitude ética, se não, é antiético (KANT, 1980). O filósofo Hegel, criticou o formalismo de Kant e propôs uma ética vinculada à história, ao contrário do que ele entendia ser a ética kantiana, que, por não levar em conta a história e o desenvolvimento da sociedade, não conseguia resolver os problemas do indivíduo concreto. Mas e se essa pessoa for uma ameaça à sua vida ou à vida de outra, matá-la seria um ato moralmente correto? Hegel rejeita o apriorismo kantiano, a ideia de que o homem nasce com a estrutura da razão, e que é ela que fornece ao sujeito os princípios éticos que controlam sua vontade.Para Hegel, a moralidade é a consciência individual, a reflexão sobre nossas ações- 28 esfera moral, esfera individual. Já a eticidade surge das relações interpessoais- esfera ética - esfera de coletividade (HEGEL, 1835), A moralidade Hegeliana é uma forma de incluir a consciência –moral subjetiva, não sendo subjetiva a ela. Uma vez que não há lugar para a consciência moral subjetiva, não há lugar para moralidade. É fácil notar que a teoria ética de Hegel não adere ao apriorismo de Kant como acontece com a moralidade. Da mesma forma, consideremos o roubo e o furto como atos moralmente incorretos. Mas e se essa pessoa for uma mãe desesperada. Para ele, quando um indivíduo encontrar-se diante de um dilema, sem saber o que seguir, ele deve perguntar-se “seria saudável para a sociedade se todos fizessem isso que estou prestes a fazer?”. Se não for, você deve evitar a ação, através do uso da racionalidade. (SILVERIO DA COSTA, 2006) Para Sócrates, reside no conhecimento e em vislumbrar na felicidade o fim da ação. Essa ética tem por objetivo preparar o homem para conhecer-se, tendo em vista que o conhecimento é a base do agir ético. Ao contrário de fomentar a desordem e o caos, a filosofia de Sócrates prima pela submissão, ou seja, pelo primado da ética do coletivo sobre a ética do individual (DONINI, 2012). Neste sentido, para esse socialista, a obediência à lei era o limite entre a civilização e a barbárie. Para ele, onde residem as idéias de ordem e coesão, pode-se dizer garantida a existência e manutenção do corpo social. Trata-se da ética do respeito às leis, e, portanto, à coletividade.Ato contínuo, são muitos os aprendizados da ética socrática: o conhecimento como virtude; a educação como forma de conhecer a si mesmo e, e adiante, conhecer melhor o mundo para ter o sentimento de felicidade; a princípio do coletivo sobre o individual e, a obediência às leis para garantir a ordem e a vida em sociedade. Lembremos o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que mencionamos anteriormente em outro capítulo, o mesmo falou muito na ética da responsabilidade, conceito que Max Weber falou para dar conta do que Maquiavel iniciara. Teríamos por um lado a ética de princípios ou valores, e por outro a que leva em conta os efeitos previsíveis da ação. O homem privado poderia dar-se ao luxo de seguir os princípios, em sua pureza. Já o homem público precisa pautar-se pela ética da responsabilidade, insistia Fernando Henrique Cardoso, falando sobre os princípios de Weber. Esse foi um ponto de debate, com parte da oposição atacando o ex-presidente em nome da moral. Subentendia-se que a ética da responsabilidade fosse uma ética com desconto, uma ética enfraquecida, até mesmo uma não-ética. Mas ela não é isso (RIBEIRO, 2021) 29 Nesse sentido, a desobediência das regras e das instituições de um Estado constituído se exprime no direito à resistência, e busca ainda, por modificações radicais de infraestruturas opressoras. Essa ideia de que, que por muito, é preciso descumprir as normas, baseia-se na convicção da ética. O direito não pode se reprime à regra, pois certo ou incerto, não corresponde, muitas vezes, ao que é legal ou ilegal. Nas palavras de Eduardo Carlos Bianca Bittar (2010): Se o direito for entendido e definido exclusivamente a partir das ideias de normatividade e validade, então seu campo nada tem que ver com a ética. Esta é a proposta de cisão metodológica, que acabou por provocar fissura profunda no entendimento e no raciocínio dos juristas do século XX, de Hans Kelsen. Então, pudesse sintetizar sua proposta: as normas jurídicas são estudadas pela ciência do direito; as normas morais são objeto de estudo da ética como ciência. O raciocínio jurídico, então, não deverá versar sobre o que é certo ou errado, sobre o que é virtuoso ou vicioso, sobre o que é bom ou mau, mas sim sobre o lícito e o ilícito, sobre o legal (constitucional) ou ilegal (inconstitucional), sobre o válido ou inválido (BITTAR, 2010). De fato, muitas normas de justiça, muito diversas e em parte contraditórias entre si, são pressupostas como válidas. Um tratamento científico do problema da justiça deve partir destas normas de justiça e por conseguinte das representações ou conceitos que os homens, no presente e no passado, efetivamente se fazem e fizeram daquilo que eles chamam justo, que eles designam como justiça. A sua tarefa é analisar objetivamente as diversas normas que os homens consideram válidas quando valoram algo como justo” (Kelsen, O problema da justiça, 1998). 30 2.2 AS DIVERSAS ETIMOLOGIAS DE MORAL. A moral é vem do latim Morales, que quer dizer “relativos aos costumes”. São as regras que são feitas pela moral, que determinam o modo de agir da população. Esta é um conjunto de costumes e regras, que são criadas enquanto sociedade, para se viver de forma harmoniosa, pois com isso se define o que é visto como certo, ou como errado, e isso vai de acordo, com a cultura da região, a religião, e demais assuntos do ambiente. Conforme o epicurismo, o benéfico está intricado na utilização racional dos prazeres, e o estoicismo, tem base no exercício das virtudes. Em qualquer dessas doutrinas, a moral quer que se evite o mal, se viva em união. (SANTANA, 2020). Para Bobbio (1992) existem três teorias que justificam a desobediência. A primeira, de vertente religiosa, destaca a existência de uma lei moral que obriga a consciência e que deve imperar sob qualquer outra. Assim, uma norma política somente irá obrigar se estiver em acordo com a lei moral. A Segunda, de origem naturalista onde Locke foi o teórico, com o pensamento que o ser é anterior e superior ao Estado, assim esse somente tem a finalidade de proteger os direitos naturais e que não podem retirados daquele. Então, quando o Estado não puder entregar com esta missão, exercendo atitudes contrárias ao seu fim, começa a existir ao indivíduo o direito de desobedecer e resistir na Ideia libertária da perversidade essencial de toda a forma de poder sobre o homem, especialmente do máximo poder que é o Estado com o corolário de que todo o movimento que tende a impedir a prevaricação do Estado é uma premissa necessária para instaurar o reino da justiça, da liberdade e da paz”. No contexto filosófico, como exposto pela ética e moral tem significados diferentes, a ética está associada ao estudo dos valores morais, que orientam o comportamento humano em sociedade, enquanto a moral são os costumes, e as regras, estabelecidas em cada sociedade. Baseado no texto do ex-professor da Universidade Federal da Paraíba e também ex-deputado federal Joacir de Brito Pereira, a ética é entendida como a ciência da moral, e tem por objetivo os juízos de valor, no que se refere a descrição do bem edo mal nas ações humanas. Diante dessas justificativas, alguns afirmam que a ética e a política são incompatíveis, logo não seria possível um político ser ético? Claro que pode, pois, um político ético é o que pensa na melhoria do coletivo. 31 Já para Clóvis de Barros Filho (2020), moral é o que não faríamos de jeito nenhum, mesmo que não tivesse ninguém olhando, mesmo que fossemos invisíveis. Para Clóvis, sobrou para a filosofia três grandes preocupações, a primeira sendo o questionamento do que seria conhecimento, que é basicamente o que há na cabeça para poder dizer que se conhece algo, ou os limites da razão. O segundo é o que seria belo, quais os atributos para se ver o que é belo. E por último a moral, que é como devemos agir, o que deveríamos fazer e o que não deveríamos fazer, este é um conjunto de princípios que seguimos em nossa vida, que obrigamos seguir, pois livremente decidimos fazer. Luiz Felipe Pondé (2021), afirma que a moral muda principalmente com o avanço da tecnologia, pois ela amplia a vida, o potencial de transformação, mas que mesmo antes disso, existia um contexto histórico para tal. Ele explica que se vermos na antiga Grécia, já se discutia esse assunto entre Platão e os sofistas. Alguns entendiam que a moral é uma estrutura de valores objetivos, com base nos sentidos da fenomenologia, que diz que o bem existe enquanto bem, sendo ele sempre universal e necessário, fazendo com que as pessoas se entendam. Segundo ele, existe também outra tradição que vem dos sofistas, que entende que os valores dependem da estrutura da época em que você vive, alguns dizem que podem depender das estruturas econômicas, da religiosidade, e de um viés marxista. Ainda na visão de Pondé (2019), o mais importante não é nem mesmo fincar o pé na ideia de que a moral é universal, ou que existe marcos relativo da moral. Ele acha interessante perceber que existe sim uma transformação de compreensão do que é certo ou errado, no sentido, por exemplo, de identidade sexual, comportamento sexual, nesses casos você pode dar uma importância mais dramática. As questões como inveja, adultério, não ter filhos, tendo uma percepção e compreensão mais maleável sobre o que leva uma pessoa fazer tais atos. Tendo então uma subjetivação do comportamento, para aqueles que entendem que a moral é objetiva, universal ou variável, ou uma linhagem mais platônica ou mesmo kantiana. 2.3 A importância da ética e a moral neste universo. Dentro da desobediência civil, esses temas são de suma importância, pois com base nelas podem-se enxergar quando a desobediência tem um valor de defesa e liberdade, ou apenas é algo errôneo que se está acontecendo. 32 Por exemplo, a escravatura foi antiética, seguindo os preceitos na época para alguns era vista moralmente aceita, a desobediência ao tentar ajudar pessoas negras a se libertarem, e viver suas vidas, tornava essa luta real e com sentido, pois estava ferindo a liberdade individual daquele grupo. Por outro lado, quando desobedecemos alei, e tiramos a lei de um indivíduo, torna-se um ato antiético. Logo, não se cabe nos princípios da desobediência civil. Por que esse método que Thoreau pregava, e muitos ainda defendem, tem um sentido de se proteger das tiranias, caso contrário, não seria nada mais, nada menos, que terrorismo. Pois a diferença de um homem verdadeiramente livre, e de um terrorista depende do seu intuito e de suas ações. A moral por ser referente a costumes, muito das vezes são atos que não necessariamente são errados, pois não agridem aos indivíduos ali inseridos, que é o que a desobediência civil defende. A desobediência civil, por ser um ato social e político que possui como base a moral do povo, a proteção e defesa das liberdades dos indivíduos, efetivada nos direitos fundamentais, não deve ser agressiva e de forma violenta. Senão, não estaria tendo a sua legitimidade no conflito das leis imorais e que infringem os direitos fundamentais. Pois não se defende direitos, violando-os. Ademais, a desobediência civil deverá ser vista e notada, para que maioria das pessoas possa vê-la como justa. Nesse sentido: [...]a violação da liberdade igual da coletividade e a violação da igualdade equitativa de oportunidades, negando-se a certas minorias o direito ao voto e a ocupar cargos públicos. Da mesma forma, ocorre quando se privilegia determinado interesse, sem atenção aos anseios sociais, como a saúde, segurança, o transporte público ou o próprio direito de ir e vir. (RAWLS, 2008) [...]à luz das três condições, tenha-se o direito de recorrer à desobediência civil. A injustiça que se protesta é uma violação clara das liberdades da cidadania igual, ou da igualdade de oportunidades, violação essa mais ou menos deliberada durante longo período de tempo em face de oposição política normal, e quaisquer complicações geradas pela questão da equidade são resolvidas. (RAWLS, 2008). Nesse sentido, a internet pode ser uma aliada nesse quesito, abrangendo uma maior parte da sociedade, sendo notada, vista e colocada em prática de forma pacifica, como já pregava os nomes já mencionados, como Martin Luther Link, Maratma Gandhi e dentre outros, que tentaram por meio da ética e da moral ali estabelecida à época, resistir aos meios que atingiam diretamente a democracia e liberdade individual. 33 3 BELCHIOR E RAUL SEIXAS COMO FIGURAS DA RESISTÊNCIA. De acordo com a Biografia escrita por Jotabê Medeiros(2017), Antônio Carlos Belchior, mais conhecido como Belchior nasceu em Sobral, em 26 de outubro de 1946, e foi um cantor, compositor, músico, produtor, artista plástico e professor brasileiro. Em 1962, mudou-se para Fortaleza, onde estudou Filosofia e completou seus estudos no colégio de padres. A seguir, Belchior optou por vivenciar um período de disciplina religiosa, vivendo em comunidade com frades italianos no mosteiro Guaramiranga, onde aprimorou seu latim, italiano e canto gregoriano. Após isso, regressou a Fortaleza, onde estudou Medicina, mas abandonou o curso no quarto ano, para dedicar-se à carreira artística. Em seguida, deu-se a participação do artista em festivais de música da região Nordeste, extremamente comuns e populares nas décadas de 1960 e 1970. Porem teve vários obstáculos, um deles sua família, que não concordava com o rumo que se filho estava percorrendo, não possuindo ajuda financeira dos seus pais, tendo que “se virar”. Belchior fez parte de uma equipe chamada Pessoal do Ceará, que era formada por jovens artistas do Ceará, que buscava recriar e debater sobre questões essenciais e preocupava o país. Nesse grupo, fazia-se fazer diversos tipos de pessoas, desde músicos a filósofos, físicos, quimos e poetas. Na década de 70, neste mesmo grupo notou-se, que por meio desse poderiam alcançar um gosto apurado, assim como exemplo compositores e cantores audazes como a Elis Regina, neste caso Belchior, teve maior visibilidade quando ganhou o primeiro lugar do festival com a com a música "Hora do Almoço". Um dos marcos da desobediência civil nas obras desse grande artista, foi no álbum “Alucinação”, do ano de 1976, onde envolvido nesse tema criou um grande movimento significativo ao ativismo político e associativo, bem como demonstrou superioridade a anteriores artistas com este mesmo intuito nas letras. Em uma de suas músicas por exemplo, onde ele canta “um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha”, o autor demonstra sua afeição e discordância com a forma que eles são vistos dentro do seu próprio direito de cidadania. Dessa forma, podemos ver que Belchior, vai à frente do pensamento que é apenas um compositor de letras românticas, mas que militava veementemente através de suas palavras o https://pt.wikipedia.org/wiki/Sobral_(Cear%C3%A1) https://pt.wikipedia.org/wiki/26_de_outubro https://pt.wikipedia.org/wiki/1946 https://pt.wikipedia.org/wiki/Canto_(m%C3%BAsica)https://pt.wikipedia.org/wiki/Compositor https://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%BAsico https://pt.wikipedia.org/wiki/Produtor_musical https://pt.wikipedia.org/wiki/Artes_pl%C3%A1sticas https://pt.wikipedia.org/wiki/Professor https://pt.wikipedia.org/wiki/Brasileiros 34 descontentamento com a situação ali vivida, e a busca de encorajar as pessoas para que buscassem a mudança que era necessária para toda a nação para que houvesse igualdade para todos, independentemente de onde estivessem vindo, sua cor, ou nível social. Na canção “Como o Diabo Gosta”, ele demonstra avidamente a desobediência civil como forma de resolver os problemas existentes naquela época. Belchior mesmo, quando realizou uma entrevista ao Partido da Causa Operária- PCO, no ano de 2001, antes de sumir das mídias, expos que: “Sem dúvida. Eu poderia não só assinar esta música, como refazê-la. Acho que a universalidade da liberdade individual é cabível em qualquer momento, principalmente porque esta questão da desobediência civil, para mim, é uma das noções mais importantes já elaboradas. Nem tudo o que é legal, é legítimo. Eu acho que um dos primeiros momentos para se mudar uma lei é quando algum herói resolve desobedecê-la. Quase sempre há um descompasso entre a formulação da lei e o caminho e a experiência dos homens” Outra música de Belchior que, implicitamente, desaprova a ditadura militar no Brasil (1964-1985), e ao mesmo tempo demonstra que este iria a exilio é a canção “Pequeno mapa do tempo”, de 1977, e que quase passou por baixo dos olhos dos militares, onde se comprova pelos versos: Eu tenho medo e medo está por fora O medo anda por dentro do teu coração Eu tenho medo de que chegue a hora Em que eu precise entrar no avião Eu tenho medo de abrir a porta Que dá pro sertão da minha solidão Apertar o botão: cidade morta Placa torta indicando a contramão Faca de ponta e meu punhal que corta E o fantasma escondido no porão Medo, medo. Medo, medo, medo, medo Eu tenho medo que Belo Horizonte Eu tenho medo que Minas Gerais Eu tenho medo que Natal, Vitória Eu tenho medo Goiânia, Goiás Eu tenho medo Salvador, Bahia Eu tenho medo Belém, Belém do Pará Eu tenho medo pai, filho, Espírito Santo, São Paulo Eu tenho medo eu tenho C eu digo A Eu tenho medo um Rio, um Porto Alegre, um Recife Eu tenho medo Paraíba, medo Paranapá Eu tenho medo Estrela do Norte, paixão, morte é certeza Medo Fortaleza, medo Ceará Medo, medo. medo, medo, medo, medo 35 Eu tenho medo e já aconteceu Eu tenho medo e inda está por vir Morre o meu medo e isto não é segredo Eu mando buscar outro lá no Piauí Medo, o meu boi morreu, o que será de mim? Manda buscar outro, maninha, no Piauí. (BELCHIOR, 1977) Porém, tal obra foi censurada a época, tendo o artista sendo visto como delinquente, numa época em que os estudantes saíram às ruas fazendo passeatas, atos públicos e manifestações buscando o direito à liberdade conforme pregava a democracia. Com relação ao modelo da ditadura presente no Brasil, o historiador Daniel Aarão Reis aponta que: Na historiografia corrente, há um sendo comum: a ditadura no Brasil acabou em 1985, com a posse do primeiro presidente civil, José Sarney. A ideia subjacente é que a ditadura foi apenas militar, o que os fatos, decididamente, não evidenciam. Desde a sua gênese, passando pelos vários governos, pela análise dos seus promotores e beneficiários, a ditadura nunca foi obra apenas das casernas. Assim, o referido senso comum é muito mais obra de memória do que de resultado de pesquisa histórica (REIS, 2014). Nos anos que se seguiram, os álbuns do Belchior tiveram que ser modificados, pois não passou pela aprovação do olhar coercitivo da censura, as letras fortes visavam não apenas atingir os detentores de poder, mas também os responsáveis por deixarem tais coisas acontecerem, tendo como alvo também a imprensa, os grandes empresários e as classes sociais mais avantajadas. Na música “A palo seco” belchior direcionou em sua composição indiretas para estes, conforme percebemos a seguir: Mas ando mesmo descontente Desesperadamente, eu grito em português Tenho vinte e cinco anos De sonho e de sangue E de América do Sul Por força deste destino Ah você sabe e eu também sei Um tango argentino Me vai bem melhor que um blues Sei que assim falando pensas Que esse desespero é moda em '76 E eu quero é que esse canto torto Feito faca, corte a carne de vocês E eu quero é que esse canto torto Feito faca, corte a carne de vocês Sei que assim falando, pensas Que esse desespero é moda em '76 36 E eu quero é que esse canto torto Feito faca, corte a carne de vocês E eu quero é que esse canto torto Feito faca, corte a carne de você. (BELCHIOR, 1974) Belchior teve a censura em várias músicas, onde algumas tiveram que ser retiradas partes de suas letras, e no caso da sua música “Os doze pares de França” que teve como companheiro de parceria o músico Toquinho– que fazia alusão ao imperador da França Carlos Magno, então os censuradores achavam que estes músicos estavam exaltando a França, como se este fosse um lugar melhor para socializar e demonstrar liberdade do que o Brasil, sendo essa totalmente censurada. Diferentemente de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, que foram obrigados a se retirar do Brasil na época, Belchior não chegou a esse ponto. No entanto, como observa Orlandi (2002), por ser a censura uma interdição manifesta da circulação discursiva, ela afeta imediatamente a identidade do sujeito, que por uma regulação autoritária, é proibido de ocupar. Assim como Belchior, Raul Seixas foi um grande nome artístico do rock nacional, cantor, compositor e guitarrista. Raul nasceu em Salvador, Bahia, no dia 28 de junho de 1945. Durante sua adolescência, ficava muito tempo escutando as músicas de Elvis Presley e de Little Richard. Em 1959, junto com um colega fundou o fã clube “Elvis Rock Club”. Algumas de suas canções que se destacam: Maluco Beleza, Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás, Mosca na Sopa e Ouro de Tolo, e por último Cidade Alternativa, que inspirou análise do presente projeto, confira: Viva! Viva! Viva a Sociedade Alternativa! Todo homem e toda mulher é uma estrela! (...) Viva! Viva! Viva a Sociedade Alternativa! O número 666 chama-se Aleister Crowley! Viva! Viva! Viva a Sociedade Alternativa! Fazer o que tu queres: há de ser tudo da Lei. Viva! Viva! Viva a Sociedade Alternativa! A Lei de Thelema! Viva! Viva! Viva a Sociedade Alternativa! A Lei do forte. Essa é a nossa lei e a alegria do mundo. Viva! Viva! Viva! Viva o Novo Aeon! (SEIXAS, 1973) 37 Essa música nunca deixou de ser evocada em momento de protestos, onde a juventude estava ali presente contra as sistemáticas políticas ou contra coisas que iam de encontro com era dever do estado. Em1992, os estudantes iam à rua fazer manifestações em prol do impeachment do Presidente Fernando Collor do seu cargo de presidente, onde o mesmo foi acusado de corrupção e diversos esquemas ilegais no governo na época, a campanha que chamaram de "Fora Collor" tirou vários estudantes de casa e levou-os ás ruas, com rostos pintadas protestando contra o Collor, sendo mais um momento que a juventude rebelde que nunca deixou de sonhar, estava buscando por um país livre. Os versos de Raul traziam em suas letras manifestos contra a opressão, seja ela em qualquer lugar do universo, como podemos ver na canção A lei: O homem tem o direito de amar como ele quiser. De beber o que ele quiser. De viver como quiser. De mover-se pela face do planeta livremente, sem passaporte, porque o planeta é dele. O planeta é nosso. (SEIXAS, 1988) Para Raul, a Sociedade Alternativa, engloba diversas lutas libertárias de toda a geração, era visto por ele como algo maior do que um partido político. Como o mesmodisse no Raul Rock Club, Raul Seixas: “Me confesso seriamente engajado numa cruzada pela implantação da Sociedade Alternativa, uma revolução cultural em andamento. Tenho um compromisso, não posso voltar atrás. Recebo cartas e mais cartas toda semana, gente querendo aderir ao projeto. Mas quero avisar que a Sociedade Alternativa não é um clube ou partido, é uma idéia. A carteirinha do clube é você mesmo. É a sua cabeça”. (SEIXAS, 1996) Liana Trindade, autora do artigo Sons da Contracultura: Raul Seixas entre Cidades e Sociedades Alternativas, trabalhou muito bem esses tipos de questões que dividiram as opiniões entre as diversas frentes da rebelião juvenil, ela dizia que: Raul Seixas procura ser a conexão entre o individual e o social. Ele procura lutar contra a ditadura militar no Brasil mas sem se esquecer de si mesmo. Havia uma forte divergência na década de 60 entre nós, que éramos de esquerda, que estávamos na Rua Maria Antônia na época da briga com a direita alojada no Mackenzie, e aquele pessoal que gostava de Caetano Veloso e do movimento tropicalista porque para nós aquela idéia de “caminhar contra o vento sem lenço sem documento” soava como um desincentivo à militância política. E aquela atitude deles de se usar drogas e discutir sobre rebeldias meramente comportamentais não combinava com a postura que precisava ter o militante de esquerda: nós deveríamos estar sempre alertas, pois a qualquer momento poderíamos sofrer os ataques da repressão, e o uso de drogas implicaria em nos tirar desse estado de alerta. Foi Raul Seixas quem construiu a ponte entre essas duas tendências: a da militância política e a da ênfase na dimensão individual. (TRINDADE, 2003) Conforme Emília Saraiva Nery: 38 “As cidades alternativas representadas na produção lítero-musical de Raul Seixas, especialmente nas letras de músicas aqui selecionadas, revelam experiências sociais, idéias, sentimentos que circulavam na coletividade dos anos 1970. Daí o interesse de revistar essas experiências de cidades, de dar mais uma interpretação às composições. Não foi encontrada uma cidade determinada, mas práticas consumidoras das cidades. Esse tema das cidades ou comunidades alternativas também foi abordado em revistas e jornais do período em estudo. Ao contrário da obra de Raul Seixas sobre a temática em discussão, a imprensa discutia o recuo do caráter libertário das comunidades alternativas e sua deturpação comercial e exótica pela sociedade estabelecida, já no ano de 1973”.(NERY, 2009) Além do que, são métodos que estão constitucionalmente previstos. No texto constitucional em seu artigo 5º parágrafo 2º, da CRFB/88 estabelece que: “Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”. (BRASIL, 1988) As Constituições que reconhecem a proteção jurídica desse direito, os direitos naturais de resistência transformaram-se no direito positivo de promover uma ação judicial contra os próprios órgãos do Estado. Dessa forma, a Constituição do Brasil, se acha implicitamente, no art. 5º, o direito de resistir à opressão que decorre do regime, ou melhor, da maneira como se constitui e se exerce o poder. Assim, devemos lembrar aos políticos que ao povo é facultado resistir quando o direito que é seu por direito, não esta trazendo benefícios verídicos para aqueles que estão ali vivenciando. Assim, a desobediência coloca-se em um local de avaliação da utilização do poder por parte do governo. Por este motivo, estando ou não regulamentado explicitamente esse direito do cidadão, a resistência e a desobediência, poderá sempre estar justificada quando a sociedade se sentir oprimida e vendo a sustentação de uma norma inconstitucional. Logo, esses dois grandes artistas brasileiros dentre tantos outros têm em comum, é a motivação para tentar mudar as situações que estão ali presentes, situações estas que estão longe de ser justas. Por isso, utilizam por meio de suas canções que claramente denotam a desobediência civil, métodos de abrir os olhos dos indivíduos, para irem juntos resistir aquele domínio opressor. 39 CONCLUSÃO Notou-se com o trabalho desenvolvido, a desobediência civil como algo natural e pacífico, pois o ser humano busca a liberdade, e essa liberdade está na natureza humana, no individualismo, e de suma importância para a organização social. Muitas vezes as pessoas não sabem do que se trata a desobediência civil, simplesmente a faz, não sendo algo que precisa ser estudado, parece estar preestabelecido. Ficou claro que é uma ferramenta de grande importância que protege a liberdade individual, assim como uma forma de lutar e resistir a danos maiores que podem vir a ocorrer, ou esteja ocorrendo por causa de atitudes tirânicas, e pode perceber ainda com esse estudo, que este meio de resistência pode ser usado não somente individualmente, mas também a favor de grupos minoritários. Sejam por meio de protestos, músicas, ou até mesmo compras sem a nota fiscal, a desobediência se encontra ali presente, como forma de desviar do controle, que utiliza do próprio interesse ao seu bel prazer, ignorando o real motivo do poder que lhes foi dado, que é representar o povo, de forma democrática, e não os dividindo, como já foi visto. Houve uma reflexão de que o direito de resistência e a desobediência civil estão ali entre os direitos fundamentais no art. 5º, § 2º, da Constituição Federal, e decorrem do regime democrático, da valorização da dignidade da pessoa humana. Além disso, ao analisarmos os feitos de alguns ícones mencionados como Rose Parks, Martin Luther King, podemos notar como a desobediência civil, é um modo de exercemos o direito de resistência de forma eficaz e sem violência, podendo mudar a realidade daquelas leis injustas, que ferem o direito individual ou coletivo da pessoa. Assim, podemos afirmar que: nós temos em mãos uma legítima arma contra a injustiça do que estão no domínio no nosso país que se utiliza de métodos antiéticos. Como está em nossa Constituição “o poder emana do povo”, e dele vem toda a força, a lei máxima, que nasce para todos o direito de fazer manifestação em prol de manter a democracia e o direito individual. 40 Diante do trabalho realizado, a desobediência civil mostrou que ela é a única forma que dá autonomia ao povo a resistir contra o meio injusto. Mas que ainda não conquistou um vasto espaço na sociedade explicitamente, necessitando de maior expansão do tema. 41 REFERÊNCIAS ALTARES, Guillermo. Por que falamos de seis milhões de mortos no Holocausto?. El País, 2017. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil. Acesso em: 26, novembro de 2022. ARAÚJO, Luis Felipe ; GOMES, Lucianne Fabrizia Santana et al. Direito de resistência e desobediência civil a partir das visões de Hobbes e Thoreau. 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A desobediência civil, para o Jornalista Daniel Neves Silva é uma ação popular que consiste na desobediência expressa de uma determinada lei. Ela ocorre quando o cidadão ou um grupo de cidadãos compreende que determinada norma ou mesmo sua ausência, ... Para Nelson Nery Costa, em reflexão a obra Antígona, tragédia Grega de Sófocles produzida por volta de 442 a.c., relata que foi o primeiro local a ser visto os primeiros atos de resistência, segundo o autor “há certas leis não escritas, superiores a t... 1.1.1 Rawls e a ideia de sociedade justa e livre. Segundo Carlos Benedito Martins a formação da sociedade como estrutura, procura enaltecer os aspectos de competição, conflito, concorrência e rivalidade entre os atores sociais. Dessa forma, explicitou: “sociedade como estrutura; sociedade como solida... Para Dalmo de Abreu Dallari (2003), para finalizar o conceito de sociedade deve estar presentes três requisitos importantes, finalidade ou valor social, manifestações de conjunto ordenadas e poder social. O valor social compreende como o conjunto de o... Pelo panorama da leitura da obra de Nicolau Maquiavel “O príncipe”, condensado por Fernando Henrique Cardoso, no sentido de obediência e servidão ser proveniente do medo mascarado de respeito. (LE LIVROS, 2010). Logo, as pessoas que respeitavam de fato seu líder possuíam grande admiração, contrariamente os que temiam possuíam silenciosamente o ódio por considerar que determinadas ações advindas dos superiores eram em sua concepção, ilegítimas. 1.3 Resistência durante a revolução francesa. Um dos marcos que emblema a resistência é a Revolução Francesa, uma estação aflita em relutância na França do século XVIII. A escassez de dignidade estimula a temática estudada desse trabalho, onde normas são constrangidas pelas pessoas dominantes eli... Dando oportunidade ao nosso tema desobediência civil, e não os imunizando das penalidades, a desigualdade consagrada na França e aos que ponderassem discordar do Estado seriam presos: O processo [...] que não tem crédito nem proteção é levado a cabo sem demora na França. Aqui acredita que a virtude é incompatível com a miséria e, nos nossos tribunais, o infortúnio é uma prova completa contra o acusado. Uma prevenção injusta ali faz... É neste espaço de hostilidade e apreensão que a Revolução Francesa é desenhada, não fazendo igualdade as convicções caracterizadas pela desobediência civil pacífica doutrinada por Thoreau e que lançaram de inspiração para os próximos líderes e doutrin... Especialmente, colocações distintas tiveram como resultado brutalidade e um círculo de violência, as classes sociais mais avantajadas não estavam atraídas a aceitar a cooperação comum em meio a administração governamental e coabitação social, quando q... 2 A DESOBEDIÊNCIA CIVIL E A RESISTÊNCIA NA ÓTICA DA MORAL E DA ÉTICA. CONCLUSÃO Além disso, ao analisarmos os feitos de alguns ícones mencionados como Rose Parks, Martin Luther King, podemos notar como a desobediência civil, é um modo de exercemos o direito de resistência de forma eficaz e sem violência, podendo mudar a realidade... Diante do trabalho realizado, a desobediência civil mostrou que ela é a única forma que dá autonomia ao povo a resistir contra o meio injusto. Mas que ainda não conquistou um vasto espaço na sociedade explicitamente, necessitando de maior expansão do ... ALTARES, Guillermo. Por que falamos de seis milhões de mortos no Holocausto?. El País, 2017. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil. 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