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Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 1 SUMÁRIO Sistemas de Informação ........................................................................................................................ 5 Introdução .................................................................................................................................................. 5 1. Conceitos básicos .................................................................................................................... 5 Sistema de informação no mundo real ....................................................................................................... 5 Diamante de Leavitt ............................................................................................................................... 6 A evolução dos sistemas de informação .................................................................................................... 7 A era do mainframe ................................................................................................................................ 7 A revolução do PC ................................................................................................................................. 8 Servidor cliente ....................................................................................................................................... 9 Internet, world wide web e comércio eletrônico ...................................................................................... 9 Da web 2.0 até a web 3.0 ..................................................................................................................... 10 O mundo pós-PC, mais ou menos ....................................................................................................... 11 2. Sistemas de informação e competitividade ........................................................................... 12 Forças competitivas ................................................................................................................................. 12 5 forças de Porter ................................................................................................................................. 12 Sistemas de informação para vantagem competitiva ............................................................................... 14 Sistema de apoio executivo (ESS) ....................................................................................................... 15 Sistemas de apoio à decisão (DSS) ..................................................................................................... 15 Sistemas de informação gerencial (MIS) .............................................................................................. 15 Sistema de processamento de transações (TPS) ................................................................................ 15 Tomada de decisão e sistemas de informação ........................................................................................ 16 3. Infraestrutura para sistemas de informação .......................................................................... 17 Controles de sistemas de informação ...................................................................................................... 17 Tipos de infraestrutura.......................................................................................................................... 18 Componentes de infraestrutura ................................................................................................................ 19 Como as infraestruturas são criadas .................................................................................................... 19 Gerenciamento da infraestrutura .......................................................................................................... 19 Uma infraestrutura para sistemas de informação ................................................................................. 20 4. Principais tipos de sistemas de informação .......................................................................... 20 ERP, planejamento de recursos empresariais ......................................................................................... 20 CRM, gerenciamento de relacionamento com o cliente ........................................................................... 22 SCM, gerenciamento da cadeia de suprimentos ...................................................................................... 23 Gerenciamento da cadeia de suprimentos: do linear para a rede ........................................................ 24 KMS, sistema de gerenciamento do conhecimento ................................................................................. 24 Business Intelligence (BI), inteligência de negócios ................................................................................. 25 Considerações finais ................................................................................................................................ 26 Referências .............................................................................................................................................. 26 Explore + .................................................................................................................................................. 27 O povo brasileiro e a questão do negro e do indígena ....................................................................... 28 Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 2 Introdução ................................................................................................................................................ 28 1. A sociedade brasileira e as influências na sua formação ..................................................... 28 O povo brasileiro ...................................................................................................................................... 28 As matrizes culturais do Brasil ................................................................................................................. 29 Os povos indígenas .............................................................................................................................. 29 Os povos brancos ................................................................................................................................ 30 Os povos negros .................................................................................................................................. 32 Miscigenação e a explicação do Brasil ..................................................................................................... 33 Cultura e cultura nacional ..................................................................................................................... 35 2. A parte indígena no desenvolvimento da sociedade brasileira ............................................. 36 Um novo Mundo ....................................................................................................................................... 36 Antropofagia ......................................................................................................................................... 38 O processo de construção da identidade cultural indígena no Brasil ....................................................... 39 Os povos indígenas no Brasil de hoje .................................................................................................. 41 3. A parte negra no desenvolvimento da sociedade brasileira ................................................. 44 Aspectos históricos da participação dos negros na sociedade brasileira ................................................. 44 Africanos no Brasil ...............................................................................................................................44 A Diáspora ............................................................................................................................................ 45 A resistência quilombola....................................................................................................................... 46 O processo de construção da identidade cultural negra no Brasil............................................................ 48 Capoeira ............................................................................................................................................... 48 Maracatu .............................................................................................................................................. 50 Jongo.................................................................................................................................................... 50 Ações afirmativas no Brasil – as cotas raciais.......................................................................................... 51 4. As relações étnico-raciais no Brasil e suas distinções .......................................................... 53 A educação para as relações étnico-raciais no Brasil - Lei nº 10.639/2003 ............................................. 53 A distinção crítica das relações étnico-raciais no Brasil ....................................................................... 53 O racismo e o antirracismo....................................................................................................................... 54 Considerações finais ................................................................................................................................ 56 Referências .............................................................................................................................................. 57 Explore + .................................................................................................................................................. 57 Meio Ambiente e Sociedade ................................................................................................................ 59 1. As consequências da perda da biodiversidade ..................................................................... 59 Conceito de Biodiversidade ...................................................................................................................... 59 Histórico ............................................................................................................................................... 59 Importância da Biodiversidade ................................................................................................................. 59 Importância ambiental da biodiversidade ............................................................................................. 60 Importância econômica da biodiversidade ........................................................................................... 61 Brasil – Um País Megadiverso ................................................................................................................. 61 A Perda da Biodiversidade ....................................................................................................................... 63 Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 3 2. As formas de prevenção e consequências dos impactos ambientais .................................. 64 Impacto Ambiental .................................................................................................................................... 65 Conceito de impacto ambiental ............................................................................................................ 65 História dos impactos ambientais ......................................................................................................... 66 Fontes de Impacto Ambiental ................................................................................................................... 67 Urbanização e construção de rodovias e ferrovias ............................................................................... 67 Agricultura e pecuária........................................................................................................................... 67 Turismo ................................................................................................................................................ 67 Consumo excessivo, desperdício e geração de lixo ............................................................................. 68 Consequências do Impacto Ambiental ..................................................................................................... 68 Alterações climáticas ............................................................................................................................ 68 Acidificação da água ............................................................................................................................ 68 Perda da biodiversidade ....................................................................................................................... 69 Poluição atmosférica da água e do solo ............................................................................................... 69 Mecanismos de Prevenção de Impacto Ambiental................................................................................... 69 Prevenção dos impactos ambientais em âmbito local .......................................................................... 69 Prevenção dos impactos ambientais em âmbito global ........................................................................ 70 Prevenção dos impactos ambientais em âmbito regional .................................................................... 71 3. Sustentabilidade, agenda 21 e ações no Brasil .................................................................... 71 Sustentabilidade ....................................................................................................................................... 71 Conceito de sustentabilidade ............................................................................................................... 71 Origem do conceito de sustentabilidade............................................................................................... 71 Princípios norteadores da sustentabilidade .......................................................................................... 72 Sustentabilidade na Prática ...................................................................................................................... 72 Agenda 21 ................................................................................................................................................ 73 Agenda 2030 ........................................................................................................................................ 75 Considerações Finais ............................................................................................................................... 75 Referências .............................................................................................................................................. 75 Explore+ ................................................................................................................................................... 75 Fundamentação Histórica Dos Direitos Humanos .............................................................................. 77 Introdução ................................................................................................................................................ 77 1. Características e a evolução dos Direitos Humanos............................................................. 77 Construção Ética e Histórica dos DireitosHumanos ................................................................................ 77 Primeiras Declarações de Direitos ........................................................................................................... 78 Declaração de Independência dos Estados Unidos ............................................................................. 78 Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão ............................................................................... 79 Declaração Universal de Direitos Humanos ......................................................................................... 79 Principais Características dos Direitos Humanos ..................................................................................... 81 Universalidade ...................................................................................................................................... 81 Interdependência .................................................................................................................................. 81 Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 4 Indivisibilidade ...................................................................................................................................... 81 Fases dos Direitos Humanos ................................................................................................................... 81 Primeira geração .................................................................................................................................. 81 Segunda geração ................................................................................................................................. 82 Terceira geração .................................................................................................................................. 82 2. Argumentos teóricos e as críticas aos Direitos Humanos..................................................... 82 Fundamentação e Reconstrução de Direitos Humanos ........................................................................... 82 Jusnaturalismo ..................................................................................................................................... 82 Positivismo ........................................................................................................................................... 83 Moralismo ............................................................................................................................................. 83 Construção Teórica dos Direitos Humanos .............................................................................................. 84 Ruptura e Reconstrução dos Direitos Humanos ...................................................................................... 84 3. Diversidade das culturas aos Direitos Humanos ................................................................... 86 Fundamentos do Universalismo Versus Multiculturalismo ....................................................................... 86 Críticas ao universalismo ..................................................................................................................... 86 Multiculturalismo ................................................................................................................................... 87 Diversidade cultural .............................................................................................................................. 87 Dignidade da Pessoa Humana e a Ordem Jurídica ................................................................................. 88 Transformações no Conceito ................................................................................................................... 89 Estruturação dos Direitos Universais ................................................................................................... 90 4. Estruturação dos Direitos Humanos no Brasil ....................................................................... 90 Brasil e o Contexto da Proteção dos Direitos Humanos ........................................................................... 90 Formação política e social .................................................................................................................... 91 Constituição de 1988 ............................................................................................................................ 91 Brasil na proteção dos Direitos Humanos ............................................................................................ 92 Aplicações e desafios dos Direitos Humanos no Brasil ........................................................................ 93 Considerações Finais ............................................................................................................................... 94 Referências .............................................................................................................................................. 94 Explore+ ................................................................................................................................................... 94 Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 5 Sistemas de Informação e Sociedade Sistemas de Informação Introdução Quase todos os programas de negócios possuem uma disciplina chamada Sistemas de Informação. As empresas dependem de informações baseadas em dados para prosperar e ter sucesso. Os sistemas de informação fornecem os meios e o meio para coletar, armazenar, proteger, recuperar, compartilhar, analisar e apresentar os dados; logo, os sistemas de informação desempenham um papel importante em nosso mundo moderno. Quase todos os serviços, desde serviços bancários a viagens, até aplicações complexas de assistência médica, exploram sistemas de informação para manipulação de dados. Os conceitos centrais de qualquer sistema de informação, ou seja, pessoas, processos e tecnologia, serão discutidos aqui. Apresentaremos uma visão geral dos conceitos fundamentais de sistemas de informação, definição de termos-chave e tendências atuais, o papel e a importância da informação e sistemas de informação para negócios e gestão e suas implicações. 1. Conceitos básicos Sistema de informação no mundo real Um sistema de informação (SI) é um conjunto de componentes inter-relacionados – software, hardware e redes de telecomunicações – que coletam, manipulam e armazenam dados; e disseminam informações úteis, especialmente em uma organização para aumentar receitas, reduzir custos, gerenciar suas operações, interagir com seus consumidores e ficar à frente da concorrência. Na década de 1960, os sistemas de informação nas organizações foram estruturados em torno de quatro elementos essenciais: tarefa, pessoa, estrutura e tecnologia. O padrão é conhecido como Diamante de Leavitt (1965, p. 1145): Diamante de Leavitt. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 6 Diamante de Leavitt Tarefa • Atividades necessárias para a produção de um bem ou serviço. Essas atividades são apoiadas pelo fluxo de material, informação e conhecimento entre os diferentes participantes. Pessoa • O componente pessoa de um sistema de informação engloba todas as pessoas diretamente envolvidas no sistema. Essas pessoas incluem os gerentes que definem os objetivos do sistema, os usuários e os desenvolvedores. Estrutura • O componente de estrutura organizacional e sistemas de informação refere-se ao relacionamento entre componentes de indivíduos e pessoas. Assim, abrange estruturas hierárquicas, relacionamentos e sistemas de avaliação de pessoas. Tecnologia • A TI (Tecnologia da Informação) de um SI compreende o hardware, software e equipamentos de telecomunicações utilizados para capturar, processar, armazenare disseminar informações. Atualmente, a maioria dos SI é baseada em TI porque a TI moderna permite a execução eficiente de operações e o gerenciamento eficaz em todos os tamanhos. Hoje, algumas empresas são totalmente estruturadas a partir de sistemas de informação, como eBay, Amazon, Alibaba e Google, sendo seus quatro componentes principais definidos como: Tecnologia • Pode ser pensada como a aplicação do conhecimento científico para fins práticos. Desde a invenção da roda até o aproveitamento da eletricidade para iluminação artificial, a tecnologia tornou-se onipresente na vida cotidiana, a ponto de estar sempre disponível para uso. O componente tecnologia possui três subcomponentes: 1. Hardware é a parte física tangível de um sistema de informação – a parte que você pode tocar. Computadores, teclados, unidades de disco e unidades flash são exemplos de hardware de sistemas de informação. 2. Software compreende o conjunto de instruções que dizem ao hardware o que fazer. O software não é tangível – não pode ser tocado. Os programadores criam software digitando uma série de instruções dizendo ao hardware o que fazer. Duas categorias principais de software são: sistemas operacionais e software aplicativo. O software de sistemas operacionais fornece a interface entre o hardware e o software aplicativo. Exemplos de sistemas operacionais incluem Microsoft Windows e Ubuntu Linux. O mercado de sistemas operacionais de telefonia móvel é dominado pelo Google Android e Apple iOS. O software aplicativo permite que o usuário execute tarefas como criar documentos, registrar dados em uma planilha ou enviar mensagens. 3. Dados pode ser pensado como uma coleção de fatos. Por exemplo, seu endereço (rua, bairro, cidade), seu número de telefone e sua conta de rede social são dados. Como o software, os dados também são intangíveis, incapazes de serem vistos em seu estado nativo. Pedaços de dados não relacionados não são muito úteis. Mas agregados, indexados e organizados em um banco de dados, os dados podem se tornar uma ferramenta poderosa para as empresas. As organizações coletam todos os tipos de dados e os usam para tomar decisões que podem ser analisadas quanto à sua eficácia. Pessoas • Ao pensar em sistemas de informação, é fácil se concentrar nos componentes de tecnologia e esquecer de olhar além dessas ferramentas para entender completamente sua integração em uma organização. Um foco nas pessoas envolvidas em sistemas de informação é o próximo passo. Da equipe de suporte ao Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 7 usuário da linha de frente, aos analistas de sistemas, aos desenvolvedores, até o diretor de informações (CIO), as pessoas envolvidas com os sistemas de informações são um elemento essencial. Comunicação • Um sistema de informação pode existir sem a capacidade de se comunicar – os primeiros computadores pessoais eram máquinas autônomas que não acessavam a Internet. No entanto, no mundo hiper conectado de hoje, é extremamente raro um computador não se conectar a outro dispositivo ou a uma rede. Tecnicamente, o componente de comunicação é composto de hardware e software, mas é um recurso tão central atualmente que se tornou uma categoria própria dos sistemas de informação. Processos • É uma série de etapas empreendidas para alcançar um resultado ou objetivo desejado. Os sistemas de informação estão cada vez mais integrados aos processos organizacionais, trazendo maior produtividade e melhor controle a esses processos. Mas simplesmente automatizar atividades usando tecnologia não é suficiente – as empresas que procuram utilizar sistemas de informação devem fazer mais. O objetivo final é melhorar os processos internos e externos, aprimorando as interfaces com fornecedores e clientes. O gerenciamento de processos de negócios tem a ver com a melhoria contínua desses procedimentos de negócios e a integração da tecnologia. As empresas que desejam obter uma vantagem competitiva sobre seus concorrentes estão altamente concentradas nesse componente dos sistemas de informação. A evolução dos sistemas de informação Com o desenvolvimento da tecnologia, os sistemas de informação tornaram-se a espinha dorsal da organização. Essa integração progrediu ao longo das décadas. A era do mainframe Do final da década de 1950 até a década de 1960, os computadores eram vistos como uma forma de fazer cálculos com mais eficiência. Esses primeiros computadores comerciais eram monstros do tamanho de uma sala, com várias máquinas interligadas. O trabalho principal era organizar e armazenar grandes volumes de informações que eram tediosos de gerenciar manualmente. Somente grandes empresas, universidades e agências governamentais podiam pagar por eles, com uma equipe especializada e instalações dedicadas para fornecer informações às organizações. O compartilhamento de tempo permitia que dezenas ou mesmo centenas de usuários acessassem simultaneamente computadores mainframe a partir de locais no mesmo prédio ou a quilômetros de distância. As funções típicas incluíam cálculos científicos e contabilidade, tudo sob o guarda-chuva mais amplo de “processamento de dados”. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 8 IBM 704 Mainframe, 1958. No final dos anos 1960, os sistemas de planejamento de recursos de manufatura (MRP) foram introduzidos. Esse software, executado em um computador mainframe, deu às empresas a capacidade de gerenciar o processo de fabricação, tornando-o mais eficiente. Do rastreamento de estoque à criação de listas de materiais e programação da produção, os sistemas MRP deram a mais empresas um motivo para integrar a computação em seus processos. A IBM tornou-se a empresa de mainframe dominante. A melhoria contínua do software e a disponibilidade de hardware mais barato acabaram levando os computadores mainframe (e seu irmão mais novo, o microcomputador) para a maioria das grandes empresas. Comentário Hoje você provavelmente pensa no Vale do Silício, norte da Califórnia, como o centro de computação e tecnologia. Mas na época do domínio do mainframe, as corporações nas cidades de Minneapolis e St. Paul produziam a maioria dos computadores. O advento do computador pessoal resultou na mudança do “centro de tecnologia” para o Vale do Silício. A revolução do PC Em 1975, o primeiro microcomputador foi anunciado na capa da Popular Mechanics: o Altair 8800. Sua popularidade imediata despertou a imaginação de empresários em todos os lugares, e logo havia dezenas de empresas fabricando esses “computadores pessoais”. Embora a princípio apenas um produto de nicho para entusiastas de computador, as melhorias na usabilidade e a disponibilidade de software prático levaram a vendas crescentes. O mais proeminente desses primeiros fabricantes de computadores pessoais era uma pequena empresa conhecida como Apple Computer, dirigida por Steve Jobs e Steve Wozniak, com o enorme sucesso “Apple II”. Não querendo ficar de fora da revolução, em 1981 a IBM se uniu à Microsoft, então apenas uma empresa iniciante, para seu software de sistema operacional e lançou às pressas sua própria versão do computador pessoal simplesmente chamado de “PC”. As pequenas empresas finalmente tinham computação acessível que poderia fornecer a eles os sistemas de informação necessários. O computador pessoal foi escolhido como o “Homem do Ano” pela revista Time, em 1982. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 9 Devido à arquitetura aberta do IBM PC, era fácil para outras empresas copiá-lo ou “cloná-lo”. Durante a década de 1980, muitas novas empresas de computadores surgiram, oferecendo versões mais baratas do PC. Isso reduziu os preços e estimulou a inovação. A Microsoft desenvolveu o sistema operacional Windows, com a versão 3.1 em 1992 tornando-se o primeiro lançamento comercialmente bem-sucedido. Os usos típicos doPC durante esse período incluíam processamento de texto, planilhas e bancos de dados. Esses primeiros PCs eram máquinas autônomas, não conectadas a uma rede. Servidor cliente Em meados da década de 1980, as empresas começaram a ver a necessidade de conectar seus computadores como forma de colaborar e compartilhar recursos. Conhecida como “cliente-servidor”, essa arquitetura de rede permitia aos usuários fazer login na rede local (LAN) a partir de seu PC (o “cliente”) conectando-se a um computador central chamado “servidor”. O servidor procuraria permissões para cada usuário para determinar quem tinha acesso a vários recursos, como impressoras e arquivos. As empresas de software começaram a desenvolver aplicativos que permitiam vários usuários acessarem os mesmos dados ao mesmo tempo. Isso evoluiu para aplicativos de software para comunicação, com o primeiro uso popular de correio eletrônico aparecendo nessa época. Essa rede e compartilhamento de dados ficavam principalmente dentro dos limites de cada empresa. O compartilhamento de dados eletrônicos entre empresas ainda era uma função muito especializada. Os computadores agora eram vistos como ferramentas para colaborar internamente dentro de uma organização. Essas redes de computadores estavam se tornando tão poderosas que estavam substituindo muitas das funções anteriormente desempenhadas pelos computadores mainframe por uma fração do custo. Foi nessa época que os primeiros sistemas Enterprise Resource Planning (ERP) foram desenvolvidos e executados na arquitetura cliente-servidor. Um sistema ERP é um aplicativo com um banco de dados centralizado que pode ser usado para executar todo o negócio de uma empresa. Com módulos separados para contabilidade, finanças, estoque, recursos humanos e muito mais, os sistemas ERP representavam o estado da arte em integração de sistemas de informação. Internet, world wide web e comércio eletrônico A primeira transmissão de longa distância entre dois computadores ocorreu em 29 de outubro de 1969, quando desenvolvedores sob a direção do Dr. Leonard Kleinrock enviaram a palavra “login” do campus da UCLA para o Stanford Research Institute, em Menlo Park, Califórnia, a uma distância de mais de 560 km. O Departamento de Defesa dos Estados Unidos criou e financiou a Arpanet (Advanced Research Projects Administration), uma rede experimental que acabou se tornando conhecida como internet. A Arpanet começou com apenas quatro nós ou sites, um começo muito humilde para a internet de hoje. Arpanet, 1969. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 10 Inicialmente, a internet estava restrita ao uso de universidades, agências governamentais e pesquisadores. Os usuários eram obrigados a digitar comandos para se comunicar e transferir arquivos. As primeiras mensagens de e-mail na internet foram enviadas no início dos anos 1970, quando algumas empresas expandiram suas redes locais para a internet. O computador agora estava evoluindo de um dispositivo puramente organizacional para o mundo das comunicações digitais. Em 1989, Tim Berners-Lee desenvolveu uma maneira mais simples de os pesquisadores compartilharem informações pela internet, um conceito que ele chamou de World Wide Web. Essa invenção se tornou o catalisador para o crescimento da internet como uma forma de as empresas compartilharem informações sobre si mesmas. À medida que os navegadores da web e as conexões com a internet se tornaram a norma, as empresas correram para obter nomes de domínio e criar sites. Em 1991, a National Science Foundation, que definia como a internet era usada, suspendeu as restrições ao seu uso comercial. As corporações logo perceberam o enorme potencial de um mercado digital na internet e, em 1994, o eBay e a Amazon foram fundados. Uma corrida louca de investimentos em negócios baseados na internet levou ao boom das pontocom no final dos anos 1990 e, em seguida, ao estouro das pontocom em 2000. O estouro ocorreu quando os investidores, cansados de ver centenas de empresas relatando perdas, abandonaram seus investimentos. Um resultado importante para as empresas foi que milhares de quilômetros de conexões de internet, na forma de cabo de fibra ótica, foram implantados em todo o mundo durante esse período. O mundo tornou- se verdadeiramente “conectado” rumo ao novo milênio, acelerando a globalização. O mundo digital também se tornou um lugar mais perigoso, pois como praticamente todas as empresas estavam conectadas à internet, vírus e worms de computador, antes propagados lentamente por meio do compartilhamento de discos de computador, agora cresciam com uma velocidade vertiginosa pela internet. Software e sistemas operacionais escritos para um mundo autônomo acharam muito difícil se defender contra esses tipos de ameaças. Surgiu toda uma nova indústria de segurança de computadores e da internet. Da web 2.0 até a web 3.0 À medida que o mundo se recuperava do colapso das pontocom, o uso da tecnologia nos negócios continuou a evoluir em um ritmo frenético. Os sites tornaram-se interativos. Em vez de apenas visitar um site para saber mais sobre uma empresa e depois comprar seus produtos, os clientes queriam poder personalizar sua experiência e interagir on-line com a empresa. Esse novo tipo de site interativo, onde não era preciso saber criar uma página web ou fazer qualquer programação para colocar informações on-line, ficou conhecido como Web 2.0. Esse novo estágio da web foi impelido pelos blogs, redes sociais e comentários interativos disponíveis em muitos sites. O novo mundo da Web 2.0, no qual a interação on-line passou a ser esperada, teve um grande impacto em muitos negócios e até em setores inteiros. Muitas livrarias viram-se relegadas a um status de nicho. As cadeias de aluguel de vídeo e as agências de viagens simplesmente começaram a fechar à medida que foram substituídas por tecnologias on-line. A indústria jornalística teve uma grande queda na circulação, com algumas cidades não sendo mais capazes de manter um jornal diário. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 11 A Blockbuster, que era considerada a maior no seu mercado, foi derrubada principalmente pelas inovações tecnológicas on-line. Desintermediação é o processo de tecnologia substituindo um intermediário em uma transação. A Web 2.0 permitiu aos usuários obter informações e notícias on-line, reduzindo a dependência de livros e jornais físicos. À medida que o mundo se tornava mais conectado, novas questões surgiam. O acesso à internet deve ser considerado um direito? É legal copiar uma música baixada da internet? As informações inseridas em um site podem ser mantidas em sigilo? Que informação é aceitável coletar de crianças? A tecnologia mudou tão rápido que os formuladores de políticas não tiveram tempo suficiente para promulgar leis apropriadas. O mundo pós-PC, mais ou menos Ray Ozzie, um visionário de tecnologia da Microsoft, afirmou em 2012 que a computação estava entrando em uma fase que ele chamou de mundo pós-PC. Mas essa previsão não resistiu muito bem à realidade. As vendas de PCs caíram nos últimos anos. As vendas de smartphones aceleraram, em grande parte devido à sua mobilidade e facilidade de operação. Assim como o mainframe antes dele, o PC continuará a desempenhar um papel fundamental nos negócios, mas seu papel diminuirá um pouco à medida que as pessoas enfatizarem a mobilidade como um recurso central da tecnologia. A computação em nuvem fornece aos usuários acesso móvel a dados e aplicativos, tornando o PC mais uma parte do canal de comunicação do que um repositório de programas e informações. Espera-se que a inovação no desenvolvimento da tecnologia e das comunicações continue impulsionando os negócios. Confira o passo a passo da evolução dos sistemas de informação: Era Mainframe 1. Década de 1970 2. Hardware: Terminais conectados ao computadormainframe. 3. Sistema operacional: Compartilhamento de tempo (TSO) em armazenamento virtual múltiplo (MVS). 4. Formulários: Software de MRP personalizado. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 12 Era PC 1. Meados dos anos 1980 2. Hardware: IBM PC ou compatível. Às vezes, conectado ao computador mainframe via placa de interface de rede. 3. Sistema operacional: MS-DOS. 4. Formulários: WordPerfect, Lotus 1-2-3. Era cliente-servidor 1. Final dos anos 1980 e início dos anos 1990 2. Hardware: PCs em rede (LAN). 3. Sistema operacional: Windows para grupos de trabalho. 4. Formulários: Microsoft Word, Microsoft Excel. Era World Wide Web 1. Meados dos anos 1990 ao início dos anos 2000 2. Hardware: IBM PC conectado à intranet da empresa. 3. Sistema operacional: Windows XP. 4. Formulários: Microsoft Office, Internet Explorer. Era Web 2.0 1. Meados dos anos 2000 – presente 2. Hardware: Laptop conectado ao Wi-Fi da empresa. 3. Sistema operacional: Windows 10. 4. Formulários: Microsoft Office. Pós-PC 1. Hoje 2. Hardware: Smartphones. 3. Sistema operacional: Android, iOS. 4. Formulários: Sites compatíveis com dispositivos móveis, aplicativos móveis. 2. Sistemas de informação e competitividade Forças competitivas 5 forças de Porter O Walmart é o maior varejista do mundo, faturando 572,8 bilhões de dólares em 2021. Atualmente, o Walmart opera aproximadamente 10.500 lojas e clubes sob 46 bandeiras em 24 países e sites de comércio eletrônico. Emprega 2,3 milhões de associados em todo o mundo. Foi considerada, pela revista Fortune, a empresa número um em receita anual por seis anos consecutivos, com mais de $ 500 bilhões em vendas anuais. A ascensão do Walmart se deve em grande parte ao fato de tornar os sistemas de informação uma alta prioridade, especialmente seu sistema de gerenciamento da cadeia de suprimentos (SCM) conhecido como Retail Link. Esse sistema, único quando implementado inicialmente em meados da década de 1980, permitiu que os fornecedores do Walmart acessassem diretamente os níveis de estoque e as informações de vendas de seus produtos em qualquer uma das mais de dez mil lojas do Walmart. Usando o Retail Link, os fornecedores podem analisar como seus produtos estão sendo vendidos em uma ou mais lojas do Walmart com uma variedade de opções de relatórios. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 13 Além disso, o Walmart exige que os fornecedores usem o Retail Link para gerenciar seus próprios níveis de estoque. Se um fornecedor sentir que seus produtos estão se esgotando muito rapidamente, ele pode usar o Retail Link para solicitar ao Walmart que aumente os níveis de estoque de seus produtos. Isso permitiu que o Walmart possuísse a seu dispor milhares de gerentes de produto, todos com interesse nos produtos que estão gerenciando, sem precisar contratá-los. Hoje, o Walmart continua inovando com tecnologia da informação. Usando sua enorme presença no mercado, qualquer tecnologia que o Walmart exija que seus fornecedores implementem torna-se imediatamente um padrão de negócios. Exemplo O Walmart, em 1983, tornou-se o primeiro grande varejista a exigir que os fornecedores usassem rótulos de código de produto uniforme (UPC) em todos os produtos. Claramente, o Walmart aprendeu a usar os sistemas de informação para obter uma vantagem competitiva. Os sistemas de informação mudaram a maneira como as empresas operam, afetando todo o processo pelo qual as empresas criam seus produtos. Além disso, reformulou o próprio produto: todo o pacote de bens físicos, serviços e informações que as empresas fornecem para criar valor para seus compradores. Os sistemas de informação devem ser usados para vantagem competitiva, mas devem ser usados estrategicamente. As organizações devem entender como querem se diferenciar e então usar todos os elementos dos sistemas de informação para realizar essa diferenciação. O uso de sistemas de informação para obter vantagem competitiva pode ser descrito pelo modelo de forças competitivas de Porter. Esse modelo fornece uma visão geral do negócio e pode ser usado para ajudar a entender o grau de competição em uma indústria (setor) e analisar seus pontos fortes e fracos. O modelo consiste em cinco elementos, cada um dos quais desempenha um papel na determinação da lucratividade média de uma indústria. Em 2001, Porter escreveu um artigo intitulado Estratégia e a internet, no qual ele usa esse modelo e analisa como a internet afeta a lucratividade de uma indústria. Veja um rápido resumo de cada uma das cinco forças e o impacto da internet: Ameaça de produtos ou serviços substitutos • A primeira força desafia o usuário a considerar a probabilidade de outro produto ou serviço substituir o produto ou serviço que você oferece. Quanto mais tipos de produtos ou serviços houver que possam atender a uma necessidade específica, menor será a lucratividade de uma indústria. Na indústria de comunicações, o smartphone substituiu amplamente o pager. Em alguns projetos de construção, os pinos de metal substituíram os pinos de madeira para molduras. A internet tornou as pessoas mais conscientes dos produtos substitutos, reduzindo os lucros da indústria nas indústrias onde ocorre a substituição. Observe que a substituição se refere a um produto sendo substituído por um produto similar com a finalidade de realizar a mesma tarefa. Não significa produtos ou serviços diferentes, como voar para um destino em vez de viajar de trem. Poder de negociação dos fornecedores • O poder de barganha de um fornecedor é forte quando há poucos fornecedores dos quais sua empresa pode obter um produto ou serviço necessário. Por outro lado, quando eles são muitos, o poder de barganha deles é menor, pois sua empresa teria muitas fontes para obter um produto. Quando sua empresa tem vários fornecedores para escolher, você pode negociar um preço menor. Quando existe um único fornecedor, sua empresa fica à mercê do fornecedor. Por exemplo, se apenas uma empresa fabrica o chip controlador para um motor de carro, essa empresa pode controlar o preço, pelo menos até certo ponto. A internet deu às empresas acesso a mais fornecedores, reduzindo os preços. Poder de negociação dos clientes Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 14 • O poder de barganha de um cliente é forte quando sua empresa, juntamente com seus concorrentes, está tentando fornecer o mesmo produto a esse cliente. Nesse caso, o cliente tem muitas fontes de onde obter um produto para que possa abordar sua empresa e buscar uma redução de preço. Se houver poucos fornecedores em seu setor, o poder de barganha do cliente é considerado baixo. Barreiras à entrada • Quanto mais fácil for entrar em um setor, mais desafiador será obter lucro nesse setor. Imagine que você está pensando em iniciar um negócio de montar móveis. A barreira de entrada é muito baixa, pois tudo o que você precisa é de uma chave de fenda. Não são necessárias habilidades ou licenças especiais. No entanto, isso significa que seu vizinho ao lado pode decidir começar a montar móveis também, resultando em maior concorrência. Em contraste, uma indústria altamente técnica, como a fabricação de dispositivos médicos, tem inúmeras barreiras à entrada. Você precisaria encontrar vários fornecedores para vários componentes, contratar uma variedade de engenheiros altamente qualificados e trabalhar em estreita colaboração com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para garantir a aprovação para a venda de seus produtos. Nesse exemplo, as barreiras à entrada são muito altas, então você deve esperar poucos concorrentes. Sistemas de informação para vantagem competitiva Uma empresa possui sistemas de informação para dar suporte aos diferentes níveis gerenciais. Esses sistemas de informação incluem sistemas de processamento de transações,sistemas de informações gerenciais, sistemas de suporte à decisão e sistemas dedicados de inteligência de negócios, que são utilizados pelas empresas para que informações precisas e atualizadas estejam disponíveis quando necessário. Dentro da mesma organização, executivos em diferentes níveis hierárquicos têm requisitos de informação muito diferentes, e diferentes tipos de sistemas de informação evoluíram para atender às suas necessidades. Uma abordagem comum para examinar os tipos de sistemas de informação usados dentro das organizações é classificá-los de acordo com suas funções em diferentes níveis da estrutura organizacional. Essa abordagem é chamada de abordagem vertical e considera a organização como uma pirâmide de gestão em quatro níveis: Sistemas de informação de acordo com o nível gerencial. Agora vamos entender melhor como esses diferentes tipos de sistemas de informação são utilizados em diferentes níveis gerenciais. Vamos lá! Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 15 Sistema de apoio executivo (ESS) O ESS ajuda a alta administração a tomar decisões. Eles abordam decisões excepcionais que exigem julgamento, avaliação e visão holística da situação do negócio, porque não há um procedimento a ser seguido para resolver determinado problema nesse nível. O ESS usa gráficos e dados de várias fontes por meio de uma interface que os gerentes seniores entendem facilmente. O ESS foi projetado para integrar dados do ambiente externo, como novos impostos ou dados de concorrentes, e integrar dados agregados dos sistemas de informação gerencial (MIS) e sistemas de apoio à decisão (DSS). Os ESSs filtram, sintetizam e rastreiam dados críticos. Atenção especial é dada à exibição desses dados, pois contribui para a rápida assimilação pela alta administração. Cada vez mais, esses sistemas incluem ferramentas de análise de inteligência de negócios para identificar as principais tendências e previsões. Sistemas de apoio à decisão (DSS) O DSS oferece suporte à tomada de decisões para questões incomuns e de evolução rápida, para as quais não há procedimentos totalmente predefinidos. Esse tipo de sistema tenta responder a perguntas como: • O que afetaria os cronogramas de produção se dobrássemos as vendas de dezembro? • Qual seria o nível de retorno sobre o investimento se o cronograma da fábrica fosse adiado por mais de seis meses? Embora os DSSs usem informações internas dos sistemas de processamento de transações (TPS) e sistemas de informação gerencial (MIS), eles também utilizam fontes externas, como cotações de ações ou preços de produtos concorrentes. Esses sistemas usam uma variedade de modelos para analisar os dados. O sistema pode responder a perguntas como: • Considerando o cronograma de entrega do cliente e a taxa de frete oferecida, qual embarcação e taxa devem ser designadas para maximizar os lucros? • Qual é a velocidade ideal na qual um navio pode maximizar o lucro enquanto cumpre seu cronograma de entrega? Sistemas de informação gerencial (MIS) Os gerentes intermediários precisam de sistemas para ajudar na supervisão, controle, tomada de decisão e atividades administrativas. A principal pergunta que esse tipo de sistema deve responder é: tudo está funcionando corretamente? Sua função é resumir e relatar operações comerciais essenciais usando dados fornecidos por sistemas de processamento de transações. Os dados primários da transação são sintetizados e agregados, e geralmente são apresentados em relatórios produzidos regularmente. Sistema de processamento de transações (TPS) No nível operacional, os gerentes precisam de sistemas que acompanhem a organização para as atividades e operações necessárias, como vendas e fluxo de materiais em uma fábrica. Um sistema de processamento de transações é um sistema de computador que executa e registra as operações de rotina (diárias) necessárias para gerenciar negócios, como manter registros de funcionários, folha de pagamento, remessa de mercadorias, manutenção de registros, contabilidade e tesouraria. Nesse nível, o objetivo principal dos sistemas é responder a perguntas rotineiras e monitorar o fluxo de transações na organização. No nível operacional, tarefas, recursos e objetivos são predefinidos e altamente estruturados. A decisão de conceder crédito a um cliente, por exemplo, é feita por um supervisor principal de acordo com critérios predefinidos. Tudo o que precisa ser determinado é se o cliente atende aos critérios. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 16 Tomada de decisão e sistemas de informação A tomada de decisão nas empresas é frequentemente associada à gestão de topo. Hoje os colaboradores do nível operacional também são responsáveis pelas decisões individuais, pois os sistemas de informação disponibilizam informações em todos os níveis da empresa. Assim, as decisões são tomadas em todos os níveis da empresa. Embora algumas dessas decisões sejam comuns, rotineiras e frequentes, o valor de melhorar qualquer decisão pode ser pequeno, mas melhorar centenas ou mesmo milhares de “pequenas” decisões proporciona maior competitividade. Nem todas as situações que requerem decisões são iguais. Enquanto algumas decisões resultam em ações que impactam significativamente a organização e seu futuro, outras são muito menos importantes e desempenham um papel relativamente menor. O impacto de uma decisão é um critério que pode diferenciar entre situações de decisão e o grau de estruturação da decisão. Muitas situações são bem estruturadas, com entradas e saídas bem definidas. Por exemplo, é relativamente fácil determinar o valor do salário de um funcionário se tivermos os dados de entrada apropriados (por exemplo, o número de horas trabalhadas e seu salário por hora) e todas as regras de decisão relevantes (por exemplo, se as horas trabalhadas durante uma semana são superiores a 40, então as horas extras devem ser calculadas) e assim por diante. Em contraste, algumas situações de decisão são muito complexas e não estruturadas, nas quais nenhuma regra de decisão específica pode ser facilmente identificada. Como exemplo, considere a seguinte tarefa: “Projetar um novo veículo que seja conversível – com capota retrátil –, tenha uma alta classificação de segurança e seja esteticamente agradável para um público razoavelmente amplo.”. Não existe solução predefinida para essa tarefa, consequentemente, esse projeto envolverá reuniões e exigirá conhecimento e experiência consideráveis. Resumindo Decisões estruturadas são mais comuns em níveis mais baixos da organização, enquanto problemas não estruturados são mais comuns em níveis de negócios mais altos. Quanto mais estruturada for a decisão, mais fácil será automatizar. Vamos ver alguns exemplos de decisões por nível gerencial: Gestão de topo • Características das decisões: 1. Dados não estruturados • Exemplos de decisões: 1. Decidir se quer ou não entrar no mercado. 2. Aprovar o orçamento destinado ao capital. 3. Decidir sobre metas de longo prazo. 4. Gestão intermediária 5. Gestão operacional Gestão intermediária • Características das decisões: 1. Dados semiestruturados • Exemplos de decisões: 1. Desenhar um plano de marketing. 2. Desenvolver um orçamento departamental. 3. Criar um site para a empresa. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 17 Gestão operacional • Características das decisões: 1. Dados estruturados • Exemplos de decisões: 1. Determinar as horas extras. 2. Determinar as regras para reposição de estoque. 3. Conceder crédito aos clientes. 4. Oferecer ofertas especiais aos clientes. Os sistemas de informação podem auxiliar no processo de implementação da estratégia, além de acompanhar o progresso em direção a marcos e fatores de sucesso. Ao utilizar sistemas de informação, as empresas podem medir suasatividades com mais precisão e ajudar a motivar os gerentes a implementar estratégias com sucesso. A importância dos sistemas de informação não está em discussão. A questão não é se os sistemas de informação terão impacto significativo na posição competitiva de uma empresa; em vez disso, a questão é quando e como esse impacto ocorrerá. As empresas que antecipam o poder da tecnologia da informação estarão no controle dos eventos. As empresas que não responderem serão forçadas a aceitar as mudanças iniciadas por outros e se encontrarão em desvantagem competitiva. 3. Infraestrutura para sistemas de informação Controles de sistemas de informação Um sistema de informação bem projetado repousa sobre uma base coerente que oferece suporte a mudanças — e, portanto, à agilidade da organização — à medida que surgem novos negócios ou iniciativas administrativas. A infraestrutura do sistema de informação consiste em redes de telecomunicações, bancos de dados e data warehouse, software, hardware e procedimentos gerenciados por vários especialistas. Com a globalização dos negócios, a infraestrutura de uma organização frequentemente cruza muitas fronteiras nacionais. Estabelecer e manter uma infraestrutura tão complexa requer planejamento extensivo e implementação consistente para lidar com iniciativas corporativas estratégicas, transformações, fusões e aquisições. A infraestrutura do sistema de informação deve ser estabelecida para criar oportunidades significativas para o futuro desenvolvimento corporativo. Quando organizados em um todo coerente, os sistemas de informação que suportam operações, gerenciamento e trabalho do conhecimento constituem a arquitetura do sistema de uma organização. Claramente, os planos estratégicos gerais de longo prazo de uma organização devem ser considerados ao projetar uma infraestrutura de sistema de informação. Os serviços de informação de uma organização podem ser fornecidos por uma empresa externa, por uma unidade interna ou por uma combinação dos dois: 1. A terceirização de serviços de informação contribui com economia de custos, acesso a pessoal qualificado e foco em competências essenciais. Uma unidade de serviços de informação normalmente é responsável pelos sistemas de uma organização. Quando os sistemas são em grande parte terceirizados, essa unidade é de tamanho limitado e se concentra no alinhamento dos sistemas com a estratégia competitiva da organização e na supervisão dos serviços da empresa externa. 2. Quando os serviços de informação são prestados internamente e de forma centralizada, essa unidade é responsável pelo planejamento, aquisição, operação e manutenção dos sistemas de informação para toda a organização. Nas estruturas descentralizadas, no entanto, a unidade central é responsável Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 18 apenas pelo planejamento e manutenção da infraestrutura, enquanto especialistas de negócios e administrativos supervisionam os sistemas e serviços de suas próprias unidades. Uma variedade de formas organizacionais intermediárias é possível. Em muitas organizações, os sistemas de informação são dirigidos por um chief information officer (CIO) ou um chief technology officer (CTO). As atividades dos serviços de informação são geralmente supervisionadas por um comitê gestor composto pelos executivos que representam várias unidades funcionais da organização. Os comitês diretores definem as prioridades para o desenvolvimento de sistemas futuros. Nas organizações onde os sistemas de informação desempenham um papel estratégico, os conselhos de administração precisam estar envolvidos em sua governança. Atenção! Uma responsabilidade vital de uma unidade de serviços de informação é garantir o serviço ininterrupto e a integridade dos sistemas e informações diante de muitas ameaças à segurança. Para garantir a operação segura e eficiente dos sistemas de informação, uma organização institui um conjunto de procedimentos e medidas tecnológicas chamados de controles. Os sistemas de informação são protegidos por meio de uma combinação de controles gerais e de aplicativos. Os controles gerais se aplicam às atividades do sistema de informação em toda a organização. Os controles gerais mais importantes são as medidas que controlam o acesso a sistemas de computador e as informações neles armazenadas ou transmitidas por redes de telecomunicações. Os controles gerais incluem medidas administrativas que restringem o acesso dos funcionários apenas aos processos diretamente relevantes para suas funções. Como resultado, esses controles limitam o dano que qualquer funcionário individual ou imitador de funcionário pode causar. Sistemas de computador tolerantes a falhas instalados em ambientes críticos, como em sistemas de informações hospitalares ou mercados de valores mobiliários, são projetados para controlar e isolar problemas para que o sistema possa continuar funcionando. Sistemas de backup, muitas vezes em locais remotos, podem ser acionados em caso de falha do sistema primário de informação. Os controles de aplicativos são específicos para um determinado aplicativo e incluem medidas como validação de dados de entrada, registro de acessos ao sistema, arquivamento regular de cópias de vários bancos de dados e garantia de que as informações sejam divulgadas apenas para usuários autorizados. Tipos de infraestrutura Os dois principais tipos de infraestrutura de sistemas de informação são: Infraestrutura tradicional É composta pelos componentes usuais de hardware e software: instalações, centros de dados, servidores, hardware de rede, computadores desktop e soluções de software de aplicativos corporativos. Normalmente, essa configuração de infraestrutura requer mais energia, espaço físico e dinheiro do que outros tipos de infraestrutura. Uma infraestrutura tradicional é normalmente instalada dentro do espaço físico da empresa. Infraestrutura em nuvem É semelhante à infraestrutura tradicional, no entanto, os usuários finais podem acessar a infraestrutura via internet, podendo usar os recursos de computação sem precisar instalar no local por meio da virtualização. A virtualização conecta servidores físicos mantidos por um provedor de serviços em um ou vários locais geográficos. Em seguida, ele divide e abstrai recursos, como armazenamento, para torná-los acessíveis aos usuários em qualquer lugar onde uma conexão com a internet possa ser feita. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 19 Componentes de infraestrutura A infraestrutura para sistemas de informação geralmente inclui acesso à energia elétrica, refrigeração e construções necessárias para acomodar o hardware. A infraestrutura de hardware para sistemas de informação geralmente envolve um datacenter com servidores; subsistemas de armazenamento; dispositivos de rede, como switches, roteadores e cabeamento físico; e dispositivos de rede dedicados, como firewalls de rede. Fora do datacenter há uma infraestrutura de internet, que inclui meios de transmissão, como cabos de fibra ótica, satélites, antenas, roteadores, agregadores, repetidores, balanceadores de carga e outros componentes de rede que controlam os caminhos de transmissão. As infraestruturas de internet são projetadas, construídas e operadas por provedores de serviços de internet (ISP). Quando uma empresa contrata um ISP para acesso à internet, o ISP normalmente se conecta à infraestrutura do datacenter em um espaço de construção dedicado e seguro. O papel da computação em nuvem está mudando a forma como as infraestruturas são projetadas e implementadas. Os datacenters tradicionais de propriedade da empresa são recursos privados de alto capital, a computação em nuvem permite que as organizações acessem a infraestrutura e os serviços do datacenter de um provedor de nuvem por uma taxa de uso. Esse modelo de infraestrutura como serviço(IaaS) permite computação flexível sob demanda. Os usuários podem acessar a computação, o armazenamento e os serviços de um provedor de nuvem sem a necessidade de implantar esses recursos localmente e ajustar o uso da infraestrutura de nuvem à medida que a carga de trabalho precisa mudar. O modelo de software como serviço (SaaS) oferece benefícios semelhantes para cargas de trabalho específicas. Um provedor terceirizado hospeda hardware, software, servidores, armazenamento e outros componentes de infraestrutura e permite que os usuários acessem as cargas de trabalho hospedadas do provedor em vez de implantar e manter essas cargas de trabalho localmente. Por exemplo, os usuários podem empregar cargas de trabalho SaaS para bancos de dados, aplicativos de RH, aplicativos analíticos, suítes de produtividade de escritório e muitos outros. Como as infraestruturas são criadas Para criar uma infraestrutura tradicional, as organizações geralmente seguem um processo formalizado que começa analisando e acessando as metas de negócios, tomando decisões arquitetônicas e de design, construindo e implementando o projeto de infraestrutura, em seguida, otimizando e mantendo a infraestrutura. O processo geralmente envolve conhecimento detalhado e específico, incluindo projeto de construção de centro de dados, seleção de subsistemas e componentes e técnicas de construção. No entanto, a forma como as infraestruturas para sistemas de informação é criada está mudando continuamente. O desenvolvimento tradicional de infraestrutura é um processo altamente manual que requer enormes esforços de integração, otimização e gerenciamento de sistemas – especialmente ao integrar servidores, armazenamento, rede e outros componentes de diversos fornecedores. Hoje, alguns fornecedores fornecem coleções pré-integradas e pré-otimizadas de equipamentos de computação, armazenamento e rede que otimizam o hardware e a plataforma de virtualização em um único sistema que pode ser implantado, expandido e gerenciado facilmente. Essa abordagem modular é chamada de infraestrutura convergente (CI). Essa abordagem avançou para sistemas que oferecem integração e gerenciamento ainda mais rígidos em computação, armazenamento, rede e virtualização. Essa abordagem avançada é chamada de infraestrutura hiperconvergente (HCI). Gerenciamento da infraestrutura Independentemente de como é criada, uma infraestrutura para sistemas de informação deve fornecer uma plataforma adequada para todos os aplicativos e funções que uma organização ou indivíduo requer. Isso significa que o projeto e a implementação de qualquer infraestrutura para sistemas de informação também devem oferecer suporte ao gerenciamento eficiente da infraestrutura. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 20 As ferramentas de software devem permitir que os administradores de TI visualizem a infraestrutura como uma única entidade, bem como acessem e configurem detalhes operacionais de qualquer dispositivo na infraestrutura, resultando em um gerenciamento de infraestrutura mais efetivo. O gerenciamento permite que os administradores otimizem recursos para diferentes cargas de trabalho e lidem com o impacto de quaisquer alterações na infraestrutura. O gerenciamento de infraestrutura geralmente é dividido em várias categorias. Por exemplo, um sistema de gerenciamento predial (BMS) fornece as ferramentas que relatam os parâmetros das instalações do datacenter, incluindo uso e eficiência de energia, temperatura e operação de resfriamento e atividades de segurança física. O gerenciamento de sistemas inclui uma ampla variedade de conjuntos de ferramentas que uma equipe de TI usa para configurar e gerenciar servidores, armazenamento e dispositivos de rede. Cada vez mais, as ferramentas de gerenciamento de sistemas estão se estendendo para oferecer suporte a datacenters remotos, juntamente com recursos em nuvem. As ferramentas de gerenciamento também estão fazendo uso extensivo de automação e orquestração para melhorar a eficiência, reduzir erros, cumprir as melhores práticas e contribuir no alcance dos objetivos de negócios. Uma infraestrutura para sistemas de informação As configurações de infraestrutura para sistemas de informação variam de acordo com as necessidades e metas de negócios, mas algumas metas são universais para todas as empresas. A infraestrutura ideal fornecerá: 1. Sistemas de armazenamento de alto desempenho Armazenam e fazem backup de dados e incluem um sistema de recuperação de dados em caso de desastres. 2. Redes de baixa latência Usam componentes de infraestrutura de nível empresarial para reduzir o atraso do fluxo de dados. 3. Infraestruturas seguras Incluem sistemas que controlam o acesso à informação e a disponibilidade de dados. Também pode proteger uma empresa contra violações e ataques cibernéticos onde quer que os dados residam, mantendo a confiança dos clientes. 4. Rede de longa distância (WAN) otimizada As WANs gerenciam a rede priorizando o tráfego e fornecendo a determinados aplicativos mais ou menos largura de banda conforme necessário. 5. Virtualização Fornece provisionamento de servidor mais rápido, aumenta o tempo de atividade, melhora a recuperação de desastres e economiza energia. 6. Tempo de inatividade zero Visa reduzir as interrupções nas operações de negócios e eliminar o tempo de inatividade do sistema para manter os custos baixos e os lucros altos. 4. Principais tipos de sistemas de informação ERP, planejamento de recursos empresariais Imagine a infinidade de informações em torno de seu negócio, a maioria das quais se enquadra nas amplas categorias de tecnologia da informação, pessoas e processos de negócios. Para lidar Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 21 adequadamente com essas informações, empresas e organizações precisam de um sistema capaz de armazenar, indexar e processar dados. No campo da computação, esse sistema é chamado de sistema de informação. As organizações requerem vários tipos de sistemas de informação para estabelecer canais de comunicação interna, bem como lidar com clientes e fornecedores. Esses sistemas de informação também ajudam a gerenciar o funcionamento geral de uma organização, auxiliando nas operações comerciais e na elaboração de estratégias de marketing. Além disso, existem diferentes tipos de sistemas de informações de gerenciamento e subconjuntos de sistemas de informações que as empresas empregam visualização de informações, coordenação interna e análise detalhada dos dados de negócios para obter uma tomada de decisão acurada. A formulação de estratégias de mídia social e o planejamento de benefícios aos funcionários também são algumas áreas críticas que os sistemas de informações gerenciais facilitam. As empresas em crescimento eventualmente chegam a um ponto em que as planilhas não funcionam mais. É aí que entra o software de planejamento de recursos empresariais (ERP), que coleta e organiza as principais informações de negócios e ajuda as organizações a executar operações enxutas e eficientes, mesmo quando se expandem. A maneira mais simples de definir o ERP é pensar em todos os principais processos de negócios necessários para administrar uma empresa: finanças, RH, manufatura, cadeia de suprimentos, serviços, compras e outros. Em seu nível mais básico, o ERP ajuda a gerenciar com eficiência todos esses processos em um sistema integrado. Resumindo Os ERPs permitem que os processos de negócios relacionados à produção, finanças e contabilidade, vendas e marketing e recursos humanos sejam integrados em um único sistema de software. As informações que antes eram fragmentadas em vários sistemas diferentes são integradas em um único sistema com um banco de dados único e abrangente que pode ser usado por várias partes interessadas nos negócios. Historicamente, os sistemas ERP eram suítes que funcionavamseparadamente — em módulos — e não se comunicavam com outros sistemas. Cada módulo exigia uma programação cara, complexa e personalizada para atender a requisitos de negócios exclusivos que retardavam — ou até mesmo impediam — a adoção de novas tecnologias ou otimização de processos. No entanto, os sistemas ERP de hoje são tudo menos básicos e têm pouca semelhança com o ERP de décadas atrás. Eles agora são fornecidos por meio da nuvem e usam as tecnologias mais recentes – como Inteligência Artificial (IA) e aprendizado de máquina – para fornecer automação inteligente, maior eficiência e percepção instantânea em toda a empresa. O software moderno de ERP em nuvem também conecta operações internas com parceiros de negócios e redes em todo o mundo, oferecendo às empresas a colaboração, agilidade e velocidade de que precisam para serem competitivas hoje. Com um sistema ERP abrangendo funções essenciais em sua organização e ajudando a quebrar as barreiras entre departamentos, a organização terá capacidade de se adaptar às mudanças e novas prioridades de negócios. Algumas das principais funções de um sistema ERP incluem: A. Comércio: Os varejistas de hoje enfrentam muitos desafios, e um sistema ERP pode oferecer uma solução de comércio omnicanal completa que unifica as experiências digital e na loja. Os clientes obtêm uma experiência de compra mais personalizada e perfeita por meio de recomendações de IA, enquanto os varejistas aumentam a produtividade dos funcionários, ajudam a reduzir fraudes e expandem seus negócios. B. Finanças: O ERP pode aumentar a lucratividade enquanto impulsiona a conformidade. Ele oferece painéis e insights orientados por IA que fornecem uma visão geral de suas finanças para Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 22 ajudá-lo a obter informações em tempo real a qualquer hora e em qualquer lugar. Ele também deve reduzir a inserção manual de informações, automatizando tarefas diárias e incluindo recursos de rastreamento que ajudam na conformidade regulamentar da empresa. C. Manufatura: O ERP melhora a comunicação comercial, automatiza os processos diários por meio da automação robótica de processos e oferece aos fabricantes a capacidade de atender às necessidades dos clientes e gerenciar recursos acessando dados em tempo real. Ele também otimiza o gerenciamento de projetos, o gerenciamento de custos e o planejamento da produção. D. Cadeia de suplementos: Se a sua empresa ainda está inserindo informações manualmente e tentando rastrear o estoque em seu depósito, você pode economizar tempo e dinheiro automatizando esses processos com o ERP. As soluções modernas de cadeia de suprimentos também oferecem painéis, inteligência de negócios e até mesmo tecnologia de Internet das Coisas (IoT) para ajudá-lo a controlar o gerenciamento de estoque. E. Recursos humanos: As soluções modernas oferecem maneiras de gerenciar os dados da empresa e simplificar as tarefas de gerenciamento de funcionários, como folha de pagamento, contratação e outras funções. Você estará em uma posição melhor para ajudar a reter, recrutar e capacitar funcionários, além de acompanhar o desempenho dos funcionários e ajudá-los a identificar problemas de RH antes que eles aconteçam. CRM, gerenciamento de relacionamento com o cliente O gerenciamento de relacionamento com o cliente, ou CRM, é um sistema para gerenciar todos os relacionamentos comerciais e interações com clientes existentes e potenciais dentro de uma empresa. Seu objetivo é simples: melhorar as relações comerciais. Esse sistema ajuda a organização a ficar conectada aos clientes, simplificar os processos de trabalho e aumentar as receitas. Um sistema de CRM pode fornecer uma visão geral clara de seus clientes. Você pode ver tudo em um só lugar ‒ um painel simples e personalizável que pode informar o histórico anterior de um cliente com você, o status de seus pedidos e problemas pendentes de atendimento. Os profissionais de marketing podem usar uma solução de CRM para gerenciar e otimizar campanhas e liderar jornadas com uma abordagem orientada por dados e entender melhor o funil de vendas ou clientes em potencial, tornando a previsão mais simples e precisa. A empresa terá visibilidade clara de cada oportunidade ou lead, mostrando um caminho claro desde as consultas até as vendas. Alguns dos maiores ganhos em produtividade de toda a empresa podem vir da incorporação do CRM (vendas e marketing) ao ERP (finanças, comércio e estoque) da empresa. Isso ajuda a garantir que as necessidades do cliente estejam no foco dos processos de negócios da empresa. Embora os sistemas de CRM tenham sido tradicionalmente usados como ferramentas de vendas e marketing, o atendimento e o suporte ao cliente são um segmento crescente no CRM e uma peça crítica no gerenciamento de um relacionamento com o cliente. O cliente de hoje pode levantar um problema em um canal – no perfil da rede social da empresa, por exemplo – e depois mudar para e-mail ou telefone para resolvê-lo em particular. Uma plataforma de CRM permite que você gerencie a consulta em todos os canais sem perder o controle e oferece às vendas, serviços e marketing uma visão única do cliente para acompanhar suas atividades. A capacidade de conectar essas funções em uma plataforma com uma visão concentrada no cliente é inestimável para fornecer experiências conectadas relevantes. Principais contribuições de um CRM: Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 23 A. Geração de leads: Ele extrai todos os dados disponíveis da web para ajudá-lo a encontrar leads de qualidade, aqueles que provavelmente se transformarão em clientes pagantes. Com um CRM você pode obter informações de contato do cliente em potencial, localização, empresa para a qual trabalha e outros dados importantes que poderá usar para personalizar o atendimento. B. Gerenciamento de leads: O CRM ajuda você a analisar e rastrear informações obtidas sobre seus leads, qualificá-los e engajá-los por meio de vários canais até a compra. C. Gestão de contatos: Permite manter todos os contatos comerciais em um só lugar e ver o histórico de todas as interações. D. Gerenciamento de negócios: Com o CRM, você tem o histórico de todos os seus negócios, o que permite analisar eventuais gargalos e propor as melhorias necessárias. Além disso, esse recurso ajuda a prever o sucesso de negócios futuros. E. Gerenciamento da comunicação: O CRM permite que você crie, agende e acompanhe mecanismos de comunicação consistentes com seus clientes existentes e potenciais. Além disso, ele avisa quando alguém interage com seus e-mails e redes sociais, e fornece análises para melhorar o desempenho de suas campanhas de marketing. F. Automação de vendas e marketing: O CRM com marketing integrado e/ou automação de vendas fornece ferramentas que substituem o trabalho manual por encontrar e atribuir leads aos vendedores certos, entrar em contato com clientes em potencial e muitas outras atividades. G. Análise: O CRM engloba as ferramentas necessárias para analisar os processos de campanha do seu negócio. Ele oferece relatórios multidimensionais regulares que você geralmente pode exportar ou compartilhar com outros membros da equipe. H. Integração: Muitos CRMs oferecem opções de integração que permitem a sincronização com os outros sistemas da empresa. Assim, você tem todas as ferramentas necessárias para agilizar seus processos de negócios. I. Customização: Você pode adaptar seu CRM à forma como sua equipe opera. Ele fornece módulos, campos e botões personalizados que ajudam você a ajustar sua funcionalidade de acordo com suas necessidades. SCM, gerenciamento da cadeia de suprimentos O gerenciamento da cadeia de suprimentos é o gerenciamento de todo o fluxo de produção de um bem ou serviço ‒ desde os componentes brutos, matérias-primas, até a entrega do produto acabado, final,ao consumidor. Uma empresa cria uma rede de fornecedores, “elos” na cadeia, que levam o produto desde os fornecedores de matérias-primas até as organizações que lidam diretamente com os usuários. Ou seja, o SCM inclui todas as atividades que devem ocorrer para colocar o produto certo nas mãos do consumidor certo, na quantidade certa e no momento certo – desde a extração de matérias-primas até a compra do consumidor. O SCM se concentra em planejamento e previsão, compras, montagem de produtos, movimentação, armazenamento, distribuição, vendas e atendimento ao cliente. O SCM está envolvido em todas as facetas do processo de negócios, à medida que se esforçam para alcançar uma vantagem competitiva sustentável, construindo e entregando produtos melhores, mais rápidos e mais baratos. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 24 Gerenciamento da cadeia de suprimentos: do linear para a rede Para entender a importância do gerenciamento da cadeia de suprimentos, vale a pena primeiro pensar na importância de uma cadeia de suprimentos em seu nível mais básico. As cadeias de abastecimento tradicionais seguem uma progressão linear. A saída de uma etapa é tipicamente a entrada da próxima etapa. Exemplo Os fornecedores devem enviar matérias-primas ao fabricante antes que os produtos possam ser fabricados. Se houver um problema em qualquer etapa, toda a cadeia linear é interrompida. As cadeias de suprimentos atuais, no entanto, são mais complexas do que os modelos lineares — são redes de suprimentos sofisticadas, mais flexíveis e eficientes. Não são mais apenas um fabricante eficiente e movimentador de mercadorias; agora é necessário ser o principal impulsionador do crescimento dos negócios. A resiliência também é crítica, pois as atuais cadeias de suprimentos devem gerenciar as interrupções contínuas. A sustentabilidade também é vital, para que as cadeias de suprimentos não apenas atendam às preocupações dos investidores, membros do conselho e governos, mas também façam uma contribuição positiva para a sociedade ao atingir o desperdício zero, construindo processos circulares e construindo confiança. Ser mais eficiente em toda a cadeia de suprimentos e entregar produtos para os clientes não precisa prejudicar o planeta ou atrapalhar a boa governança. Pelo contrário, na verdade. O gerenciamento eficaz da cadeia de suprimentos pode e deve colocar a sustentabilidade em seu centro. Não é apenas a coisa mais responsável a fazer; é o que os clientes querem. As empresas não podem mais recorrer à defesa do "não sabíamos" e, em vez disso, devem concentrar sua atenção na criação de um modelo de negócios que não apenas forneça os produtos de que os clientes precisam, mas os produza da maneira que os clientes esperam. Isso ajuda a atender às expectativas dos clientes por uma ampla seleção de produtos personalizados e sustentáveis e entregas rápidas que atendem às necessidades específicas de cada pessoa. Os sistemas de gerenciamento da cadeia de suprimentos são parcerias integradas entre todos os elos no fluxo de bens e serviços para o cliente. Eles são criados com o objetivo de melhorar a qualidade, reduzir custos e obter vantagem competitiva em um mundo onde a manufatura enxuta e a especialização obrigam as empresas a confiar umas nas outras para atividades produtivas valiosas. KMS, sistema de gerenciamento do conhecimento Um sistema de gerenciamento de conhecimento (KMS) é um repositório centralizado usado para organizar, armazenar e compartilhar conhecimento organizacional com funcionários e clientes. Um KMS possibilita que os funcionários possam acessar facilmente as informações de que precisam em tempo real ‒ mesmo que o detentor do conhecimento tenha mudado de emprego ou tenha deixado a organização completamente. No atendimento ao cliente, um sistema de gerenciamento de conhecimento permite que profissionais de marketing e equipes de suporte ao cliente criem rapidamente conteúdo para canais de autoatendimento do cliente, páginas da web de perguntas frequentes e respostas de chatbot. O software KMS é projetado para alavancar o conhecimento agrupado ‒ base de conhecimento ‒ de uma organização e melhorar a eficiência operacional. Essencialmente, um KMS fornece aos funcionários um repositório organizado que facilita o acesso rápido a informações institucionais. As empresas que incentivam seus funcionários a documentar seu conhecimento em um sistema de gerenciamento de conhecimento podem reduzir as despesas com treinamento de funcionários e reduzir significativamente os custos indiretos associados ao suporte ao cliente em tempo real. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 25 Benefícios de um sistema de gestão do conhecimento: A. Menos tempo gasto na busca de informações: Um sistema de gestão do conhecimento centraliza todo o conhecimento organizacional de uma empresa. Isso permite que os funcionários saibam exatamente onde encontrar informações, em vez de tentar rastrear um especialista no assunto ou pesquisar por e-mail, intranet da empresa ou outros sistemas. Se os funcionários precisam encontrar documentos de treinamento, práticas recomendadas ou informações sobre produtos, eles sabem que podem acessar a fonte central — o KMS — e encontrar rapidamente o que necessitam. E quanto menos tempo os funcionários gastam procurando informações, mais tempo eles podem dedicar às principais responsabilidades do trabalho e outras atividades. B. Treinamento mais eficaz: A integração pode ser um processo avassalador para novos funcionários. Com um sistema de gerenciamento de conhecimento fácil de usar, os funcionários podem encontrar todos os materiais de treinamento em um local central, para que possam se atualizar rapidamente. Mas o treinamento não para quando a integração termina. Um sistema de gerenciamento de conhecimento também permite que os funcionários acessem facilmente os materiais de treinamento sob demanda, dando-lhes oportunidades de aprimorar seus conhecimentos sobre o trabalho, buscar o desenvolvimento profissional e aprimorar suas habilidades. C. Melhor retenção de conhecimento: Hoje, os funcionários costumam trocar de emprego a cada três ou quatro anos, o que significa que é provável que até mesmo os funcionários mais antigos acabem deixando a empresa. E quando eles partirem, eles levarão seu conhecimento com eles ‒ a menos que você tenha uma maneira de documentá-lo e compartilhá-lo com o restante de sua organização. Os sistemas de gestão do conhecimento garantem que o conhecimento organizacional permaneça dentro de sua empresa, mesmo quando os funcionários entram e saem. Isso permite que novos funcionários se beneficiem de seus funcionários mais experientes ‒ mesmo que esses funcionários tenham mudado. D. Experiência elevada do cliente: Com funcionários mais experientes, obtém-se uma melhor experiência do cliente. Como os funcionários têm acesso fácil a uma fonte central e confiável de informações, eles podem responder às perguntas dos clientes com mais rapidez e confiança. Para os clientes, isso pode significar menos tempo gasto ao telefone com suporte ao cliente e menos frustração. Por meio dessas experiências positivas, os clientes também podem ganhar confiança no produto e serviço da sua empresa, gerando confiança e fidelidade. Business Intelligence (BI), inteligência de negócios A inteligência de negócios combina análise de negócios, mineração de dados, visualização de dados, ferramentas e infraestrutura de dados e práticas recomendadas para ajudar as organizações a tomar decisões baseadas em dados. Na prática, você sabe que tem inteligência de negócios moderna quando tem uma visão abrangente dos dados de sua organização e usa esses dados para conduzir mudanças, eliminar ineficiências e se adaptar rapidamente às mudanças de mercado. Embora a inteligência de negócios não diga aos usuários denegócios o que fazer, o BI também não se limita apenas à geração de relatórios. Em vez disso, o BI oferece uma maneira de as pessoas examinarem os dados para entender as tendências e obter insights, simplificando o esforço necessário para pesquisar, mesclar e consultar os dados necessários para tomar decisões de negócios sólidas. Antes de usar o BI, as empresas tinham que fazer grande parte de suas análises manualmente, mas os sistemas de BI automatizam muitos dos processos e economizam tempo e esforço das empresas. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 26 Existem quatro etapas principais que a inteligência de negócios segue para transformar dados brutos em insights fáceis de compreender para todos na organização usarem. As três primeiras ‒ coleta, análise e visualização de dados ‒ preparam o terreno para a etapa final da tomada de decisão. A. Etapa 1 – Coletar e transformar dados de várias fontes Os sistemas de inteligência de negócios normalmente usam o método extrair, transformar e carregar (ETL) para agregar dados estruturados e não estruturados de várias fontes. Esses dados são então transformados e remodelados antes de serem armazenados em um local central, para que os aplicativos possam analisá-los e consultá-los facilmente como um conjunto de dados abrangente. B. Etapa 2 – Descobrir tendências e inconsistências A mineração de dados, ou descoberta de dados, normalmente usa automação para analisar dados rapidamente para encontrar padrões e valores discrepantes que fornecem informações sobre o estado atual dos negócios. Os sistemas de BI geralmente apresentam vários tipos de modelagem e análise de dados que exploram ainda mais os dados, preveem tendências e fazem recomendações. C. Etapa 3 – Visualizar para apresentar descobertas Os relatórios de inteligência de negócios usam visualizações de dados para tornar as descobertas mais fáceis de entender e compartilhar. Os métodos de geração de relatórios incluem painéis de dados interativos, tabelas, gráficos e mapas que ajudam os usuários a verem o que está acontecendo na empresa no momento. D. Etapa 4 – Agir com base nos insights em tempo real A visualização de dados atuais e históricos no contexto das atividades de negócios dá às empresas a capacidade de passar rapidamente de insights para ação. A inteligência de negócios permite ajustes em tempo real e mudanças estratégicas de longo prazo que eliminam ineficiências, adaptam- se às mudanças do mercado, corrigem problemas de abastecimento e resolvem problemas de clientes. Considerações finais Se você leu o conteúdo e achou tudo meio parecido, volte e releia com mais calma! Perceba como a análise de negócios é uma disciplina de identificação de necessidades de negócios e determinação de soluções para problemas de negócios. Como qualquer método, o poder da análise de negócios depende dos métodos usados para executá-la. Relembre que a inteligência empresarial utiliza ferramentas, técnicas e software para transformar dados em insights acionáveis que auxiliam nas tomadas de decisões em uma organização. Que a inteligência competitiva se refere à capacidade de coletar, analisar e usar informações coletadas sobre concorrentes, clientes e outros fatores de mercado que contribuem para a vantagem competitiva de uma empresa. Por fim, compreenda que a Gestão do Conhecimento é uma disciplina que promove uma abordagem integrada para identificar, capturar, avaliar, recuperar e compartilhar todos os ativos de informação de uma empresa. Esses ativos podem incluir bancos de dados, documentos, políticas, procedimentos, conhecimentos e até experiências ainda não capturadas de forma explícita dos funcionários de uma organização. Referências LAUDON, K. C.; LAUDON, J. P. Management Information Systems. 12. ed. Upper Saddle River, New Jersey: Prentice-Hall, 2012. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 27 LAUDON, K. C.; LAUDON, J. P. Management Information Systems. 13. ed. Upper Saddle River, New Jersey: Pearson, 2014. LEAVITT, H. J. Applied Organizational Change in Industry: Structural, Technical and Humanistic Approaches. In: MARCH, J. G. (Org.). Handbook of Organizations. Rand McNally, 1965. p. 1144-1170. STAIR, R. M.; REYNOLDS, G. Fundamentals of business information systems. Thomson Learning, 2008. p. 118-129. VALACICH, J.; SCHNEIDER, C. Information Systems Today – Managing in the Digital World. 4. ed. Upper Saddle River, New Jersey: Prentice-Hall, 2010. Explore + Tem coisa melhor do que aprender se divertindo? Aqui estão algumas sugestões de filmes para ajudar você a compreender como os sistemas de informação moldam o mundo: O jogo da imitação (2014) É baseado na história real de Alan Turing, uma lenda na precursão dos algoritmos. Na trama, o personagem é contratado pelo governo inglês e comanda as mentes mais brilhantes da época. Tem o propósito de desvendar o segredo de uma máquina de codificação, que foi usada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Em síntese, a produção apresenta um pouco mais sobre as origens da Ciência da Computação. Hacker (2015) Com um roteiro instigante, o filme conta a história de um presidiário que é um gênio da computação. Posteriormente ele começa a colaborar com a polícia que investiga uma rede de criminosos. E, com isso, viaja para diversos destinos e usa seus conhecimentos com a Informática para pegar esses criminosos. Um filme com um bom roteiro para compreender o poder dos sistemas de informação. Os estagiários (2013) Muito divertido, o filme conta a história de dois marmanjos que querem se reinventar. Eles vão em busca de novos desafios para suas vidas. Surpreendentemente, decidem entrar em uma espécie de competição do Google. A maioria das cenas do filme é real e, sim, existe na empresa. O filme aborda assuntos como a criação de apps, CSS e HTML. Uma opção para se divertir e ficar por dentro da linguagem da área de Análises e Desenvolvimento de Sistemas. A rede social (2010) Conta a vida e a trajetória de Mark Zuckerberg, nerd introspectivo de Harvard, bem como relata a criação da maior rede social do mundo. Como surgiu a ideia de criar o Facebook e as disputas judiciais são o centro de todo o enredo. O filme, acima de tudo, apresenta também lições de empreendedorismo para o mercado da tecnologia. Essa grande produção possibilita conhecer um pouco mais sobre a área de Análises e Desenvolvimento de Sistemas de Informação. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 28 O povo brasileiro e a questão do negro e do indígena Introdução Este tema propõe apresentar um panorama da formação social brasileira a partir dos estudos históricos e conceituais sobre a participação de brancos, negros e indígenas, assim como a diversidade de culturas e de povos presentes na sociedade brasileira. Um ponto importante: os termos questão indígena e questão do negro são adotados por tradição, mas a diversidade de povos, organizações, heranças e vozes não geram questões. Levam à luta por direitos, a reconhecimento, a respeito e cidadania. O Brasil não é um ícone de paz em sua miscigenação, mas sua composição multiétnica, as disputas, imposições e resistências entre diversas culturas dizem muito sobre nossa sociedade. 1. A sociedade brasileira e as influências na sua formação O povo brasileiro Quantas vezes ouvimos alguém dizer: “O brasileiro é muito simpático, sempre alegre, disposto a ajudar”; “Cordial, festeiro como ninguém, adora praia, futebol e samba”; “No Brasil, preconceito não há, todos os povos convivem muito bem, é uma comunhão de cores e classes sociais”. Ou ainda: “Terra escolhida por Deus, aqui não há desastres naturais e todo mundo convive bem e feliz”. Mas será esta a realidade brasileira? Talvez geograficamente estejamos livres de alguns acidentes naturais comuns em outros países, mas as características citadas acima não retratamnossa identidade nacional. Vale salientar que tais características fazem parte de uma construção social reducionista a respeito da identidade brasileira. É comum percebermos uma convivência harmônica dessa diversidade étnica em confraternizações populares, porém esses momentos não representam a realidade cotidiana, que, verdadeiramente, está repleta de preconceitos e valores que reproduzem as práticas do racismo estrutural. Saiba mais Em 2009, o site da revista Forbes publicou o ranking das cidades mais felizes do mundo, de acordo com estudos elaborados pelo GFK Custom Research North America. Adivinhe quem ocupou o primeiro lugar? O Rio de Janeiro. Esse mesmo resultado se repetiu em 2013. O problema quando os estrangeiros passam a nos qualificar dessa forma e a incluir a festa, a alegria como DNA da nossa identidade é que escondemos o que toda organização social possui, aquilo que é salutar até mesmo para a nossa existência: a noção de conflito. No senso comum, foi normal acompanharmos notícias dizendo que o Brasil é um modelo de democracia racial, onde negros, brancos, indígenas e miscigenados convivem pacificamente. No entanto, basta observarmos as demandas dos mais diversos movimentos sociais, ou os dados sobre o acesso a bens materiais, culturais, à educação e ao emprego por negros e brancos para constatar que tal ideia é um mito. O mito da democracia racial, que é uma ideia recente em nossa história e que ganhou força em nosso meio, esconde conflitos desde a época anterior à abolição dos escravos. Como dizia o sociólogo Florestan Fernandes: [...] o brasileiro tem o preconceito de não ter preconceito. (1972 apud ORTIZ, 2005, p. 35) A afirmação de Florestan ganha ainda mais importância com a resistência em reconhecer a questão do racismo por parte de uma parcela da sociedade, ou que não convive com pessoas em situação de Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 29 violência relacionada ao racismo. Acontece que a condição de um racismo político, estrutural, velado e recorrente nubla os olhos e a capacidade de debater. Há ainda aqueles que não se reconhecem e tampouco se identificam com as lutas históricas e a riqueza cultural desses povos. Além da falta de conhecimento histórico, a percepção de mundo não os permite enxergar a desproporcionalidade que há na diferença entre essas raças, principalmente no que diz respeito às oportunidades profissionais. Vamos estudar sobre este país tão rico, tão cheio de peculiaridades com pessoas tão diferentes. O que faz o Brasil, Brasil? Já se perguntava o antropólogo Roberto DaMatta, ao tentar entender esta confluência de culturas e gentes que povoam nosso território. As primeiras interpretações vão começar lá no século XIX, em um contexto de declínio da velha sociedade monárquica e aristocrática e da ascensão de uma nova sociedade capitalista, aumento da população urbana, das classes médias, dos militares e dos burocratas, além dos cafeicultores que ascendiam no oeste paulista. O século XIX vai ser o início de tudo, pois o positivismo se transformava em uma ideologia a ser seguida e a noção de nação começava a ser importante. Era preciso definir que nação brasileira era essa que estava se formando. As matrizes culturais do Brasil Os povos indígenas Os mitos pululam a narrativa histórica brasileira desde os tempos de Ilha de Vera Cruz. Até Pedro Álvares Cabral pressupunha que carregava consigo as lascas da cruz em que Cristo foi crucificado. É possível, a partir daí, imaginar que os primeiros contatos com os nativos brasileiros serviram para contribuir com a construção do mito da democracia racial. A imagem de um povo – índio – e de uma cultura foi uma forma de reduzir sociedades diversas e complexas, com suas tecnologias e formas próprias de desenvolvimento que aqui viviam. Os grupos locais se estabeleceram em todo o território e o predomínio do tronco tupi-guarani no litoral indica uma forma de expansionismo. Dança dos Tapuias. Albert Eckhout, s.d. Os indígenas foram subjugados desde então e passaram a ser entendidos como incapazes para o trabalho. Mais do que isto, eles ganharam a alcunha de preguiçosos pela forma como se relacionavam com a labuta. Para conhecer melhor como se deu este processo é preciso entendê-lo antes mesmo da chegada dos portugueses ao Brasil: Relação com a natureza Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 30 Os indígenas viviam em tribos, cada uma com sua organização social, crenças, costumes e tradições. Independentemente das diferenças entre eles, os nativos brasileiros mantinham uma relação muito íntima com a natureza. Tudo que lhes serviam para a sobrevivência era extraído dela. Incompreensão do comércio Não havia, portanto, nenhum tipo de comercialização, mais do que isto, todas as atividades desenvolvidas nas aldeias estavam diretamente relacionadas à manutenção da vida. O que explica, inclusive, a falta de compreensão sobre as relações baseadas em produção, comercialização e consumo. A mudança aconteceu com a chegada dos portugueses. Enganam-se aqueles que, ludibriados por contos populares, acreditam em uma relação amistosa entre eles, conduzida pela troca de espelhos por riquezas. Houve luta durante o processo de colonização e muitas comunidades foram extintas tanto pela luta armada quanto pelo contágio de doenças trazidas pelos europeus. Os indígenas foram escravizados e seguiram assim até o decreto de libertação assinado por Marquês de Pombal em 1757. Durante este período, os nativos brasileiros precisaram abandonar muitos de seus hábitos e, por conta dessas mudanças, trouxeram para a própria cultura novos costumes. A religiosidade de acordo com a visão do colonizador, por exemplo, passou a fazer parte da vida indígena. Desde então, consequência de um doloroso processo de colonização, os povos indígenas sofrem com a falta de reconhecimento dos próprios direitos. Atenção! Sempre que houver a tentativa de olhar os grupos locais sobre o olhar dos outros, não seremos capazes de compreender sua diversidade e importância. São grupos diversos, com culturas e formas de interpretar o mundo diferentes, que não pararam no tempo e nem por isso deixam de ser menos importantes ou necessários. Até hoje entendido como primitivo e exótico, o indígena é visto pela sociedade de forma estereotipada, nu, corpo pintado, cocar na cabeça e “não civilizado”. Pior ainda do que esta visão retrógrada é a dificuldade em aceitá-lo como indivíduo social. Grande parte da população não entende que o indígena pode manter viva sua cultura ao mesmo tempo em que vive em sociedade, uma questão não invalida a outra. Cacique Raoni Metuktire, líder do povo indígena Kayapó, Rio de Janeiro, 2012, Brasil. Os povos brancos Os portugueses orientaram parte da nossa sociedade e cultura no início de um tempo em que a denominação brasileiro ainda nem podia ser considerada referência de quem aqui vivia. Muito se discute sobre como os portugueses chegaram ao território que hoje entendemos como Brasil. Alguns ainda tratam como um desvio de rota, outros entendem que Duarte Pacheco, que havia participado de uma expedição secreta a essas terras e era integrante da esquadra de Cabral, tinha levado informações sobre esta porção de mundo aos portugueses que, a partir dali, iniciaram uma empresa de reconhecimento e posse do território que lhe cabia como afirmava o acordo firmado no Tratado de Tordesilhas. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 31 Muito se discute a respeito do termo correto a ser utilizado sobre a chegada dos portugueses às terras brasileiras. Há algum tempo trabalhávamos com a ideia de descobrimento, mas hoje já podemos entender que não é possível descobrir algo que já está habitado, não é mesmo? Centenas de grupos indígenas viviam neste território, com sua organização social, costumes, hierarquias e tradições antesda chegada dos portugueses e, para respeitarmos essa herança que também faz parte da formação cultural brasileira é preciso reconhecer que a chegada portuguesa se tratou de um processo de conquista de território, onde lutas foram travadas e que resultou na dominação do mais fraco pelo mais desenvolvido tecnologicamente. Dessa forma, estamos lidando com uma invasão e conquista portuguesa. Inicialmente, o contato dos portugueses com o Brasil limitava-se a expedições para coletas de pau- brasil, expedição sobre o nosso território, além do tráfico de nativos para a corte portuguesa. Até 1530, foram muitas as tentativas de invasão em nosso território e, por isso, o Rei D. João III designava militares para que vigiassem toda a costa. A colonização propriamente dita começa a partir de 1534, quando o território brasileiro é dividido em capitanias hereditárias doadas a donatários que poderiam explorar e proteger o espaço, além de iniciar o plantio da cana-de- açúcar. Com a descoberta por parte dos bandeirantes, no século XVII, de ouro e diamantes, o Brasil é ampliado e povoado. As primeiras minas de ouro foram descobertas nas regiões dos atuais estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. E haja organização para a extração das nossas riquezas. Todavia, foi muito tempo depois, em 1808, com a chegada da família real, que as nossas cidades ganharam mais desenvolvimento, visto que a Corte Portuguesa escolhe o Rio de Janeiro para morar. Comentário Quem nascia no Brasil nessa época era português. Eles se diferenciavam dos ameríndios e dos negros escravizados que não eram considerados cidadãos. Só depois da Independência do Brasil que foi possível diferenciar brasileiros de portugueses. Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500, Oscar Pereira da Silva, 1900. Com uma cultura riquíssima e fruto da miscigenação de inúmeros grupos étnicos, a cultura brasileira conta com influências de origem indígena, portuguesa e africana, além de outros grupos imigrantes que aqui estiveram. A terra de Camões é, sem dúvida, o país europeu que mais influenciou nossa cultura, tanto nas tradições, como nos costumes e simbolismos. A formalização da língua portuguesa como oficial do território e a tradição do credo católico são heranças dessa cultura portuguesa. Em parte, os portugueses são responsáveis pela miscigenação do povo e também por muitas referências do nosso cotidiano. Muitas de nossas festas populares, parte de nosso folclore e culinária são heranças portuguesas, estamos citando apenas alguns exemplos. O Carnaval, as festas de São João, o bicho-papão, cuca, Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 32 lobisomem, maracatu, fandango e também, muitos pratos típicos da nossa culinária são adaptações de iguarias portuguesas, como: a feijoada, o quindim e, é claro, a bacalhoada. Também não podemos esquecer que os portugueses dominaram, colonizaram e escravizaram os primeiros povos brasileiros — os indígenas — além de se utilizarem da mão de obra de negros escravizados, traficados de diversos pontos do continente africano para sustentar um padrão de vida elevado e a economia brasileira. Outros povos brancos aqui participaram, como franceses e holandeses, em tentativas de invasão, e ingleses e espanhois por convivência com as metrópoles portuguesas. Migrantes vieram mais tarde com alemães, suiços, italianos, poloneses entre outros, já com o objetivo de trabalhar e fugindo das dificuldades e pobreza na Europa no fim do século XIX e início do século XX. Os povos negros A partir da segunda metade do século XVI grupos africanos foram trazidos para trabalhar como escravos no Brasil, com hábitos, costumes, cultura e tradições que fazem parte do nosso cotidiano até os dias de hoje. Música, culinária, artes marciais e religião são apenas alguns exemplos de como a cultura africana enriqueceu a identidade brasileira. Graças a essa infinidade de grupos étnicos que foram trazidos para cá, temos hoje o samba, o atabaque, o azeite de dendê, o acarajé e, no campo da fé, temos o candomblé e a umbanda, duas religiões de matriz africana criadas no Brasil. Salvador, 2015, Brasil. Não podemos romantizar o tráfico negreiro e nem a chegada e escravização dos africanos. É preciso entender como o processo de escravização ajudou na formação do racismo estrutural que está entranhando na sociedade até os dias de hoje. A coisificação de seres humanos foi prática comum em nosso país por três séculos. É necessário que o coletivo busque superar os vícios que esse processo trouxe para a formação da sociedade brasileira. É muito comum ouvirmos o discurso de exaltação a negros bem-sucedidos que se destacam na sociedade. Casos assim são utilizados como referência e apresentados à população como o resultado de uma escolha de cunho pessoal do indivíduo no investimento da própria força de vontade e desejo, como se toda a comunidade pudesse fazer o mesmo se assim o quisesse e se esforçasse para tal. Desconsidera-se, nesse sentido, a estrutura social que não lhes permite competir em condições igualitárias ou mesmo, na contramão destes poucos privilegiados, os casos isolados que provêm da miséria. A diáspora foi cruel e seus descendentes pagam um preço alto e por isso os movimentos de organização e lutam precisam ser reconhecidos e exaltados como parte de nossa cultura, e não reduzidos ou desqualificados como vemos quando tratamos por exemplo das religiões. Atenção! De acordo com matéria publicada pela revista Capital Econômico em 20 de novembro de 2019, o curso de Medicina no Estado do Rio de Janeiro tem a menor proporção de negros no Ensino Superior presencial, com apenas 20,51% dos alunos. As informações são do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 33 Se por um lado a presença do negro no Ensino Superior no Rio de Janeiro aumentou na última década (entre 2010 e 2018), segundo este mesmo estudo — que registrou um salto de 39 mil para 239 mil estudantes em instituições de Ensino Superior do estado —, no país, os negros, maioria da população brasileira, representam apenas 35,8% dos universitários. Os números podem parecer surpreendentemente alarmantes e reveladores, mas de fato, eles apenas atestam a realidade do dia a dia. Basta que, para isto, realize-se, sem muito esforço, um mero exercício de observação e levante-se alguns questionamentos: Por quantos médicos negros você já foi atendido? Quantos dentistas negros você conhece? Engenheiros civis? E de computação? Quantos advogados ou juízes negros circulam pelos tribunais brasileiros? Como o último país a abolir a escravidão no ocidente, tais constatações apenas colocam o Brasil perto das sociedades campeãs em desigualdade social, praticando um racismo nem mais tão silencioso assim, já que agora, com as redes sociais, as pessoas vão ganhando rostos e os resultados tornam-se mais perversos ainda. A naturalização de frases como: “Isso só pode ser coisa de preto”, “preto de alma branca”, “você está denegrindo a minha imagem”, entre outras, corrobora com a perversidade do racismo à moda brasileira, que remete o negro a um espaço de indignidade e subserviência. Há, dessa forma, a manutenção do modelo escravocrata de submissão e subordinação. Se faz necessário que parte da sociedade se torne consciente de seus privilégios e que faça um esforço coletivo para encerrar definitivamente esse capítulo tenebroso da nossa História. Não devemos buscar esquecer ou apagar o passado, mas baseados na experiência pregressa, precisamos trabalhar para um futuro diferente e com condições de garantir as mesmas oportunidades para todos os cidadãos. Miscigenação e a explicação do Brasil E pensar que o território brasileiro de tão rico e diverso deveria passar tão longe de todas essas práticas excludentes que ainda perduram até hoje. Opaís possui regiões que são formadas por grupos sociais bem distintos. Nossa população é formada por diferentes tipos humanos, originários de várias partes do mundo, e organizados em grupos que diferem entre si, sendo esta mistura uma das características mais marcantes do povo brasileiro. Uma rápida observação de uma estação de trem ou metrô de qualquer uma das grandes cidades pode comprovar isso: são crianças, mulheres, homens, idosos, adolescentes, negros, brancos, orientais, outros com aparência indiana; pessoas das mais variadas classes sociais. Uma importante diversidade cultural. A convivência com a diversidade de pessoas, de ideias e de atuar na vida social contribui em grande escala, por exemplo, para a eliminação de preconceitos e perseguições de determinados grupos e categorias de pessoas. Importantes pesquisadoras no contexto da discussão sobre diversidade étnica no Brasil, Schwarcz e Starling (2015) mostram como a mestiçagem se transformou numa questão de representação nacional. É inegável que a miscigenação gerou uma sociedade definida por uniões, ritmos, artes, esportes, escritas, aromas, culinárias e religiosidades mistas. Talvez por isso que a alma do Brasil seja crivada de cores. (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 15) Durante um tempo, a miscigenação se apresentou aos intelectuais da época como um sério dilema: um elemento fundamental da nação brasileira, mas que estava atrelado aos defeitos transmitidos pela herança biológica. Em outras palavras, diante de teorias raciais extremamente preconceituosas, que elevavam o branco em relação às demais raças, “[...] a apatia, a imprevidência, o desequilíbrio moral e intelectual, a inconsistência seria dessa forma qualidades naturais do mestiço, do elemento brasileiro”. (ORTIZ, 2005, p. 21). Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 34 Desde o fim do século XIX e início do século XX existe um movimento por parte dos intelectuais brasileiros para tentar explicar o que afinal de contas é o Brasil e quem é o povo brasileiro. Isto se deu porque era importante que o Brasil tivesse uma identidade e que tivesse a possibilidade de se constituir enquanto um povo, ou seja, uma nação. Neste momento da nossa história era importante consolidar a imagem da nação que emergia diante de uma hegemonia europeia no mundo ocidental. Aos estudiosos brasileiros cabia a tarefa de explicar o porquê do nosso “atraso” em relação a estes países e, para isto, o modelo explicativo também era fornecido pelas teorias que se desenvolviam na Europa. O positivismo de Comte, o darwinismo social e o evolucionismo de Spencer foram as teorias que mais influenciaram o pensamento brasileiro na época. Constatado o atraso social, qual seria a solução para colocar o país na rota da civilização? Positivismo Surge como reação ao idealismo, opondo o primado da experiência sensível (e dos dados positivos) ao primado da razão. Propõe a ideia de uma ciência sem teologia ou metafísica, baseada apenas no mundo físico/material. Darwinismo social Sugere que existiriam comportamentos e características biológicas que determinariam que uma pessoa é superior a outra e aptas ao desenvolvimento social. Geralmente, o padrão determinado como o mais apto seria o de uma pessoa do sexo masculino, pele branca e que vivesse em meios urbanos. Evolucionismo social Tornou-se referência às teorias antropológicas de desenvolvimento social que acreditavam que as sociedades tiveram início em um estado primitivo e gradualmente tornaram-se mais civilizadas com o passar do tempo. Nem é preciso dizer que a civilização mais evoluída estava associada à cultura europeia do século XIX. Foi considerado simples branquear a sociedade brasileira. Mas você deve concordar que embranquecer uma sociedade inteira é provavelmente impossível. Ou seja, para se eliminar todos os estigmas das “raças inferiores”, seguindo a teoria da evolução social, somente em um futuro muito distante, como também somente nesse futuro poderíamos ter um Estado nacional da forma como era imaginado. Diante da demanda pela criação de uma identidade nacional foi adotado o branqueamento. Para que isso fosse possível era necessário implementar um processo em que aos poucos teríamos um amálgama clareado e moderno. A miscigenação, ainda que exaltada, tem por base uma política de apagamento físico do passado brasileiro. O colorismo é um processo que separa indivíduos com base no tom de sua pele, por exemplo: quanto mais clara sua tez, mais aceitação social certo indivíduo tem por ter mais semelhança com a raça branca. Vemos exemplos desse processo quando, numa tentativa de anular identidades, usamos termos como café com leite, marrom bombom, cor de jambo etc. A miscigenação criou uma variedade infinita de tons de pele espalhadas pelo país, muitos indivíduos têm dificuldade em criar identificação com essa ou aquela definição e, por isso, essa discussão ganha cada vez mais espaço. Nos atuais movimentos sociais afrodescendentes, é preciso que cada pessoa tenha seu lugar de fala, com demandas específicas seguindo a afirmação e as demandas de sua identidade para que haja diálogo e melhoria das condições de vida em sociedade. Saiba mais No século XIX até os ventos alísios, aqueles que sopram todo o ano sobre extensas regiões do globo, foram considerados justificativas para o nosso atraso cultural em relação à Europa? O argumento “meio”(ambiente) foi encarado como discurso científico durante um bom tempo. Para saber mais, consulte o livro de Renato Ortiz que está indicado no final da bibliografia. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 35 Cultura e cultura nacional Para começar a discutir sobre esses temas, temos, antes, de dominar o conceito de cultura. Podemos definir cultura como um conjunto de ideias, valores e costumes transmitidos, trocados por essas pessoas tão diferentes que vivem em uma sociedade. E como vivemos em um mundo globalizado, as sociedades diferentes que fazem parte desse mundo trocam cultura entre si. Há algo de comum que nos une. A sociedade brasileira possui uma cultura geral que se relaciona com todos os brasileiros, indistintamente, determinada em grande parte pela unicidade do idioma português. Contudo, mantém estreita relação com outras culturas que se originam de outras regiões. Manifestações culturais como o carnaval ou futebol ainda hoje são expressões imbatíveis da brasilidade reconhecidas internacionalmente. Vale dizer que cultura diz respeito a uma esfera, a um domínio da vida social. Nesse sentido, é preciso estudá-la nas suas mais diversas manifestações. Cultura é a maneira de como a realidade que se conhece é codificada por uma sociedade. São as palavras, ideias, doutrinas, teorias, práticas costumeiras e rituais. O estudo da cultura é importante para compreender o sentido que fazem essas concepções e práticas para a sociedade que as vive. (SANTOS, 2005). Observe as diferenças sobre a ideia de cultura nacional ao longo do tempo: 1822 A partir da Independência, em 1822, e, principalmente, a partir da Proclamação da República, em 1889, a ideia de uma cultura nacional começava a se tornar uma preocupação, uma vez que era preciso criar um Estado nacional legítimo e reconhecido interna e externamente. 1901 Na virada para o século XX, a maioria das pessoas que tinha condições para refletir e para interferir diretamente neste assunto (ou seja, os intelectuais e os homens políticos) ainda mantinham como principal referência o modelo europeu de constituição social. A ideia de uma cultura nacional não era debatida como hoje, ou seja, não se buscava dentro da própria nação o conteúdo de uma cultura nacional, para delinear suas características, para definir os aspectos que a fizessem única. O modelo provinha das sociedades que se consideravam superiores em termos de civilização. Daí a ideia eurocêntrica de “atraso”. 1920 A urgênciaem se desenvolver uma cultura brasileira que nos identificasse, que nos desse uma identidade de fato nacional, inicia-se, de forma organizada e coletiva, apenas nos anos 1920, com o surgimento da geração modernista. Um dos grandes exemplos desse processo durante o modernismo no Brasil é o Movimento Antropofágico, que buscava promover pensamentos para “engolir” uma cultura estrangeira e, a partir dela, promover uma nova cultura com a cara do país, excluindo o eurocentrismo. 1930 Em seguida, nos anos 1930, o nacionalismo vai ganhar força com a emergência, no plano político, de um Estado nacional forte: era o início da era Vargas, que apesar de suas características autoritárias e centralizadores, dá fôlego e subsídios para a primeira grande tentativa de estabelecimento e valoração de uma cultura genuinamente nacional. 1950 A ideia de uma modernização acaba por levar o Brasil a uma intensificação da cultura americana, aproximando nossos ideais de brasilidade aos ideais trabalhados lá. 1964 Diante de um governo militar marcado pelo nacionalismo a valorização e defesa de uma cultura comum que representasse o Brasil ganha força, inclusive nas escolas tornando-se uma imposição ser e identificar um mesmo conjunto nacional como o brasileiro. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 36 2000 Diante dos processos e a consolidação da redemocratização, percebe-se um aumento da pluralidade e na defesa da pluralidade cultural brasileira. Já que falamos em cultura nacional, precisamos situar o debate em torno da questão da identidade cultural. SALVADOR, BAHIA/BRASIL - 15 de janeiro de 2015: Baianas lavam as escadas da Igreja do Bonfim, durante festa tradicional para católicos e candomblecistas. Quando falamos em identidade, queremos saber sobre as características fundamentais que identificam uma pessoa, uma comunidade, um país. A identidade cultural moderna é formada por meio do pertencimento a uma cultura nacional, ela faz alusão à construção identitária de cada indivíduo em seu contexto cultural. Em outras palavras, a identidade cultural está relacionada à forma como vemos o mundo exterior e como nos posicionamos em relação a ele. Muitas são as transformações que acompanham o ritmo do mundo globalizado. A distância entre os países diminuiu, a indústria cultural produz em escala planetária e as culturas locais são submetidas a um intenso bombardeio de outros elementos culturais externos. O indivíduo está sujeito a alterações radicais — fruto do dinamismo da realidade. Modismos, padrões de conduta e comportamentos se sucedem com uma rapidez jamais vista. A identidade em tempos de globalização é maleável, flexível, fluida. Atenção! A grande questão não é mais se há ou não a capacidade de mudança. O desafio agora é garantir que a pessoa possa dar continuidade à sua história individual, compreendendo como se desenvolve o processo de (re)construção constante da sua identidade. A identidade do povo brasileiro é marcada pela questão da diversidade. Nossa brasilidade é sobre como nos relacionamos com outros indivíduos deste mesmo território, é muito mais uma questão de pertencimento, afinidade e afeto do que uma construção social imposta e criada sobre critérios únicos. A identidade nacional brasileira está relacionada à diversidade cultural, étnica e social. 2. A parte indígena no desenvolvimento da sociedade brasileira Um novo Mundo Imagine-se desembarcando de um navio em um mundo relativamente novo. Um lugar conhecido apenas pelos relatos de navegantes que já haviam passado por aqui, com uma floresta tropical exuberante, parcialmente ausente dos mapas e do conhecimento dos europeus, com animais e plantas desconhecidas Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 37 da maioria e povoado por indivíduos de aparência exótica para aqueles olhos, que andavam nus, não conheciam o Deus cristão e falavam uma língua ininteligível. Os antropólogos (pesquisadores que estudam os diferentes povos e as diferentes culturas) sabem que o estranhamento diante de algo que se nunca viu é normal. Afinal de contas, há uma tendência em considerar o que se vive, o que se come, o tipo de roupa que se veste, a sua religião e crenças como corretas e universais. O que escapa disso não seria o certo. Porém para absorver a riqueza dessa diversidade é preciso enxergar as diferenças do ponto de vista da alteridade, entendendo que o diferente pode contribuir com muito conhecimento para nossas vidas. Não foi o que aconteceu na relação entre portugueses e os nativos que viviam aqui no Brasil na época de 1500. A colonização portuguesa levou à exploração do trabalho indígena e foi responsável pela morte de milhares de nativos. A história foi testemunha do massacre dos povos indígenas ocasionado pelos colonizadores através do trabalho compulsório, guerras, doenças e genocídio. Tratou-se de um projeto político e civilizatório de dominação total do povo indígena. Família de chefe camacã se preparando para um festejo. João Batista Debret, s. d. É preciso deixar registrado que houve relações diversas entre os grupos de povos originários e os navegantes. A imagem equivocada de que trocaram a terra não existe, assim como um domínio rápido. Os processos foram regionais e lentos, exploraram as disputas entre os grupos, mas principalmente sua fragilização diante das doenças trazidas. A época das correrias, das movimentações e disputas no século XVI e XVII demonstram esse processo, assim como a construção de um outro grupo, filhos principalmente de brancos e mulheres de diversas tradições indígenas que entre dois mundos, acabam por fazerem essa ponte. A negação ao seu estilo de vida e a pregação missionária foram os principais motivos da dissipação da imagem que poderia haver convivência. Acompanhe: Negação ao seu estilo de vida Os indígenas foram submetidos à negação de todos os seus valores, ao cativeiro, à subtração de suas terras, à violência contra suas mulheres, à destruição e à subserviência. Pregação missionária A pregação missionária que cai como uma bomba e culpa os indígenas de sua vida, antes natural. Agora, tudo passa a ser pecado diante dos olhos de um deus que eles nem sequer tinham ouvido falar, mas precisavam expurgar o pecado de ser quem eles eram. O antropólogo Darcy Ribeiro publicou um livro muito interessante que seria a sua obra capital, a interpretação sobre a nação e a cultura brasileira, intitulada: O Povo Brasileiro. De acordo com esse estudo, os grupos indígenas encontrados no litoral pelos portugueses eram principalmente das tribos tupi e guarani. Esses indígenas, habitantes há séculos antes dos portugueses chegarem, viviam da plantação de mandioca, milho, batata-doce, feijão, amendoim, tabaco, algodão, pimenta, abacaxi, mamão, erva-mate e Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 38 muitas outras coisas. Nesse sentido, Ribeiro (2006) nos conta que os indígenas abriam grandes roçados na mata, derrubando árvores e limpando os terrenos com queimadas. Uma das mais antigas representações europeias dos indígenas brasileiros, incluída no Atlas Miller, de 1519. A agricultura lhes assegurava o sustento. Neste sentido, eles possuíam uma organização social capaz de mantê-los nos aldeamentos e não apenas viver dependentes da natureza, mudando de lugar o tempo todo. Saiba mais Além dos tupi-guarani, muitos outros povos indígenas tiveram papel importante na formação do povo brasileiro. É o caso dos bororo, dos xavante, dos kayapó, dos kaingang, dos tapuia, dos aimoré, carijó, tamoio e muitas outras etnias espalhadas pelo Brasil. O território era deles. Acreditar que os indígenas se renderam facilmente é um grande erro, muitas guerras foram travadas. Por meio da leitura de Ribeiro (2006), ficamos sabendo que os tamoios venceram diversas batalhas contra os europeus, apoderaram-se inclusive da capitaniado Espírito Santo e quase tomaram a de São Paulo. Muitos indígenas morreram, mas outros resistiram até a consolidação da conquista portuguesa. Antropofagia Os portugueses, quando chegaram em terras brasileiras, ouviram muitas histórias sobre os indígenas; a questão da antropofagia era uma delas. Os portugueses se reuniam em tabernas e depois de muito beberem contavam e ouviam histórias sobre os nativos tupinambás que comiam uns aos outros. Mais uma vez, Darcy Ribeiro é quem nos esclarece se isso foi verdade ou um mito que se originou do encontro de culturas: Algumas etnias indígenas praticavam a antropofagia porque os prisioneiros capturados constituíam de mais bocas a serem alimentadas e sem serventia posterior na aldeia, já que eram inimigos e de outras matrizes étnicas. Exemplo disso é o relato de Hans Staden, um aventureiro mercenário alemão, que no Brasil, ao participar de combates entre os europeus e indígenas, foi capturado e levado por três vezes a cerimonias de antropofagia entre os tupinambás para ser devorado, mas os nativos se recusaram a comê-lo, porque chorava e se sujava, pedindo clemência. Os indígenas não comiam covardes. A História vai mostrar que a civilização será implacável com o povo indígena. O europeu trouxe doenças como a varíola, a tuberculose, a coqueluche, o sarampo inicialmente e, logo em seguida, a dizimação pelas guerras de extermínio e escravização. Os povos originários se defenderam da invasão europeia como puderam. Muitos se embrenharam pelas matas que muito bem conheciam para fugir da submissão ao branco. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 39 Santa Cruz Cabrália, Bahia/Brasil - 17 de abril de 2010: indígenas pataxós são vistos durante jogos indígenas na aldeia Coroa Vermelha, no município de Santa Cruz Cabrália. Os portugueses mandaram para a metrópole além de papagaios, macacos, uma madeira usada para extrair um pigmento de tingir, conhecida no Oriente como uma especiaria. Batizada pelos povos tupi como Ibirapitanga, a madeira se transformou em um grande negócio. Assim, renomeada posteriormente pelos portugueses de pau-brasil, a árvore que alcançava 15 metros e possuía um interior de onde se extraia uma resina avermelhada, foi inteiramente dizimada de nossas terras por meio do escambo e a partir do trabalho forçado da população nativa. A Coroa Portuguesa logo declarou exploração de monopólio real e todos tiveram de pagar impostos se quisessem explorá-lo economicamente. Um pouco depois, os indígenas passaram a ser explorados e mandados para várias partes da Europa para serem exibidos em feiras como animais exóticos, muitos ficaram pelo meio do caminho por não suportarem as viagens longas e insalubres. Quem conseguiu chegar, vivia de forma sub-humana, aviltados e humilhados apenas por não atenderem ao padrão etnocêntrico europeu. Com o início do cultivo do açúcar no Brasil, em 1532, e um pouco depois com a implantação das capitanias hereditárias, 1534, por parte de D. João VI, o relacionamento entre europeus e indígenas piorou ainda mais. Muitos ataques indígenas e a imposição ao trabalho forçado dos nativos que já tinham sido colonizados para os engenhos dão a tônica do momento, mas a igreja vai firmar uma briga com os colonos, no sentido de protegê-los do trabalho escravo, já que politicamente, eles eram mais úteis nas igrejas como novos cristãos da fé católica. Apesar disso, a proibição de escravizar os nativos, decretada pelo ato de 1757 (o "Diretório dos Índios") raramente foi respeitada, e, além disso, o tipo de cativeiro imposto nestas terras foi se modificando. Ao destituir povos inteiros de seus valores, de suas línguas, de suas tradições, os missionários haviam gerado outro povo, que ainda dependia dos seus saberes ancestrais para sobreviver na floresta, mas já não sabia mais levar a vida tribal. (RIBEIRO, 1995) O processo de construção da identidade cultural indígena no Brasil Houve um momento da história em que o indígena foi considerado como alguém importante para a construção da identidade no Brasil. Mas isso aconteceu muito tempo depois do início conflituoso entre brancos, indígenas e negros. As primeiras grandes interpretações genuinamente nacionais sobre nosso povo, nossa cultura e nossa realidade vão aparecer somente no século XIX, com o surgimento da chamada geração modernista. Antes, porém, houve uma tentativa por meio da literatura com o Indigenismo, em 1836. O indigenismo pode ser considerado uma adaptação do movimento romântico europeu à ideologia de afirmação nacional que ganhava corpo em nossa sociedade e que precisou buscar nossos próprios personagens e não mais na Europa, os sujeitos da nossa própria história. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 40 Dessa forma, o indígena foi considerado um símbolo, um herói nacional. Mas isso só aconteceu porque, no momento, celebrar o indígena já não era mais perigoso para a ordem vigente. Veja as razões a seguir: • Ele já estava quase totalmente extinto nos espaços dominados do litoral e, por isso não apresentava ameaça. • O sistema produtivo estava calcado no negro, não no indígena. De certo que não se poderia enaltecer o negro. • Além disso, a ideia de que o indígena, por seu espírito livre e por sua coragem, não aceitara a escravidão no passado, deixou o campo livre para o mito da docilidade do negro, visto como conformado e até feliz em sua condição de escravo. (LOPEZ, 1995) Dessa maneira, o indianismo permitiu difundir uma imagem positiva do homem brasileiro – homem que, na origem, fora livre e até lutara pela sua liberdade contra o português. A literatura indianista brasileira teve dois nomes importantes: José de Alencar e Gonçalves Dias. Gonçalves Dias fez do indígena um herói, enquanto José de Alencar preferiu mostrar o mundo natural e rústico do nativo, do bandeirante, do gaúcho, do sertanejo. O indígena passou a ser visto como símbolo da pureza e da inocência. Isso foi usado pelos teóricos que estudavam o Brasil e que buscavam um rosto para ele, uma identidade. O indígena virou herói nacional. Mas os nativos deixaram suas pegadas culturais por onde passaram e hoje muito do que consumimos, vestimos, utilizamos como artesanato amplamente difundido e reconhecido como arte aqui dentro e no exterior, compõe a identidade da nossa sociedade. Mulher indígena da etnia dessana da Amazônia brasileira, em sua comunidade com roupas típicas de sua cultura e rosto pintado. Manaus, Amazonas, Brasil, 23 de julho de 2022. O contato com a natureza, a alimentação baseada no consumo de frutas, legumes, verduras, raízes, caules, peixes são legados dessa população tão importante para o nosso país. Veja três exemplos a seguir: Caju Frutos como o caju e o açaí eram comuns na alimentação de povos do Norte e Nordeste brasileiros. O guaraná é uma bebida tipicamente brasileira, conhecida mundialmente e utilizada comumente para as atividades diárias dos indígenas, além de ser considerado um fortificante para os guerreiros. Mandioca A mandioca era a principal fonte de carboidrato da refeição dos indígenas. Uma forma de estocar a mandioca para uma posterior utilização se transformou na tapioca e na farinha de mandioca, amplamente consumida por todos nós. Trançados de palha Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 41 A cultura do trançamento de fíbras vegetais foi fundamental na organização e na construção de instrumentos que serviam para armazenamento, instrumentos de pesca, e na habitação. A construção de casas com as estruturas de fibras são instrumentos que passam a ser adotados hoje na moda, em áreas de lazer e ainda considerados sustentáveis. Muitos pesquisadores defendem a teoria de que as comunidades indígenas tinham sua organização política, diferentemente dos europeus e, por isso, essa estrutura fora ignorada e esses grupos passaram a ser percebidos comoprimitivos e selvagens. O processo de conquista sofrido pelos indígenas resultou no genocídio de milhares de indivíduos causando, inclusive, o desaparecimento de tribos inteiras. Além disso, houve a violência cultural com as tentativas de apagamento de seus costumes e tradições, violência que perdura até os dias de hoje. Concluímos que o ideal português de civilização retirou do indígena sua identidade, resultado de um processo histórico marcado pela violência física, cultural, religiosa e econômica. Esse novo sujeito, de raízes indígenas, possui um modo de vida híbrido, cujos costumes das sociedades tribais ainda permanecem vigentes, embora adaptados à economia capitalista. De acordo com Azevedo: Desde o início da colonização brasileira até a década de 1970 os povos indígenas eram considerados como uma categoria social transitória, ou seja, todas as políticas públicas direcionadas aos povos indígenas tinham como objetivos sua "integração à comunhão nacional", seja através da catequização, colonização, ou até mesmo da escravização. (AZEVEDO, 2008, p. 19) Números divulgados pela Fundação Nacional do indígena (FUNAI) mostram que a população indígena do Brasil contava com aproximadamente 2 milhões de habitantes à época da conquista. Esse número foi reduzindo vertiginosamente até alcançar a proporção estimada de 70 mil habitantes pelos idos de 1957. Dali em diante houve certo crescimento, mas nada que chegasse próximo aos números do período colonial. A implantação de medidas afirmativas e a luta indígena por reconhecimento de seus direitos sociais foram decisivos para que a população indígena, parte essencial da identidade brasileira, fosse enxergada e percebida como cidadã, fazendo valer suas especificidades, reforçando as diferenças étnicas de cada povo. Foram reconhecidos como povos de Direito adquirido com a Constituição de 1988. Apesar de muito ainda precisar ser feito, um acontecimento legal e histórico marcou a trajetória de luta e reconhecimento do povo indígena. Em dezembro de 2008, cinco povos indígenas (Macuxi, Wapixana, Ingaricó, Patamona e Taurepang), há 30 anos em disputa pela demarcação de suas terras nessa reserva, tiveram seus direitos defendidos pela advogada indígena Joênia Batista de Carvalho. índia Wapixana. Joênia foi a primeira indígena a defender uma causa no Supremo Tribunal Federal. (ALMEIDA, 2010.) Os povos indígenas no Brasil de hoje Atualmente, existem em torno de 896 mil indígenas em todo o território nacional, segundo o Censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). Entre as regiões do Brasil, a maior parte está concentrada na região Norte, com 342,8 mil indígenas, e a menor no Sul, com 78,8 mil. Entre as principais etnias indígenas brasileiras na atualidade estão a ticuna (35.000), guarani (30.000), kaingang (25.000), macuxi (20.000), terena (16.000), guajajara (14.000), xavante (12.000), ianomâmi (12.000), pataxó (9.700) e potiguara (7.700). Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 42 Gráfico: Divisão da população indígena brasileira por etnia. Os indígenas estão mais do que nunca vivos: para não deixar morrer uma memória histórica e para resgatar e dar continuidade aos seus projetos coletivos de vida, orientados pelos conhecimentos e pelos valores herdados dos seus ancestrais, expressos e vividos por meio de rituais e crenças. São projetos de vida de povos que resistiram a toda essa história de opressão e repressão. Viver a memória dos ancestrais significa projetar o futuro a partir das riquezas, dos valores, dos conhecimentos e das experiências do passado e do presente, para garantir uma vida melhor e mais abundante para todos os povos. (LUCIANO, 2006) Cada vez mais presentes em setores importantes da sociedade, o povo indígena entrega advogados, professores, historiadores, médicos e roteiristas capazes de representar seus povos e garantir que seus direitos sejam preservados. Os povos indígenas não são sociedades arcaicas, mas representam uma parcela significativa da população brasileira e que por sua diversidade cultural, territórios e conhecimentos ajudaram a constituir nossa nação. Ao participarem ativamente da vida social e política do Brasil, o indígena conseguiu recuperar a sua autoestima e ter um lugar de fala na sociedade. Dessa forma, foi sendo recobrada a identidade étnica, como uma realização individual e coletiva, mas também como cidadania reconhecida pela sociedade e pelo Estado. A questão indígena passou a ter uma maior visibilidade e relevância na vida nacional e ganhou autonomia e liberdade para que se decida como viver com sua prática cotidiana. Luciano (2006) nos mostra que os indígenas aldeados vivem dos recursos oferecidos pela natureza, enquanto os indígenas que moram em centros urbanos vivem geralmente de prestações de serviços e como mão de obra do mercado de trabalho. Da presença desses dois grupos distintos, podemos concluir que os indígenas que ainda se encontram distantes em suas aldeias reforçam a valorização de seus conhecimentos tradicionais, das religiões ancestrais, do processo de consumo e distribuição de bens, enquanto os indígenas presentes nas grandes cidades já estão imersos nos processos contemporâneos do mundo do trabalho, Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 43 apostando na qualificação profissional e na imersão do mercado. O que seus representantes pleiteiam, no entanto, é o desenvolvimento de projetos sociais que abarquem as duas realidades propostas. Reflexão Muito ainda precisa ser feito para que a identidade indígena seja plenamente reconhecida e com isso ele se torne um sujeito de direito como expresso na Constituição Cidadã. O indígena ainda é visto como um obstáculo ao governo federal, latifundiários, grileiros, fazendeiros e empresários. Esses indivíduos veem no indígena a imagem de um homem sem interesses e sem direitos, como se ele não existisse. A FUNAI foi criada com o objetivo de intensificar a proteção de direitos e respeito aos interesses dos povos indígenas, buscando garantir as especificidades de suas várias etnias presentes no território brasileiro. Garantir o respeito à cultura indígena é uma obrigação, contudo, é preciso mais ainda fazer valer a demarcação das terras indígenas, o usufruto exclusivo dos recursos naturais e a preservação do equilíbrio biológico do indígena no seu contato com a sociedade. Salvador, Bahia, Brasil - 26 de abril de 2022: indígenas de diferentes tribos da Bahia durante protestos na cidade de Salvador. O grupo busca melhorias em suas aldeias. Na pandemia do novo coronavírus (COVID 19) que assolou o mundo nos últimos anos, os indígenas mais distantes acabaram sendo afetados. Houve certa tentativa de mapear a evolução do vírus, porém os números não conseguiram dar conta da totalidade. Os indígenas que vivem fora das terras homologadas não entraram na contagem. De acordo com a Apib (Articulação dos Povos Indígenas no Brasil), em 14/06/2020 eram 20.947 casos confirmados com 283 mortos confirmados e 96 povos afetados. São os brancos que depois de séculos continuam adoecendo os indígenas. Toda essa destruição não é nossa marca, é a pegada dos brancos, o rastro de vocês na terra. (DAVI KOPENAWA YANOMAMI, RICARDO E RICARDO, 2011, p. 22) Um ganho imenso para os direitos dos povos indígenas é o fato de o Estado brasileiro, a partir da Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, também considerada Constituição Cidadã, criar normas, a fim de proteger os direitos e interesses dos povos indígenas. Os Direitos Constitucionais dos indígenas encontram-se definidos mais especificamente no título VII, “Da Ordem Social”, dividido em oito capítulos, sendo um deles o “Dos Índios”, destacando-se os artigos 231 e 232, além de outros dispositivos dispersos ao longo do texto e de um artigo do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. AConstituição foi importante por ter reconhecido a capacidade civil dos indígenas. Vale lembrar que os recursos hídricos e riquezas minerais do solo pertencem à União (Art.176). Mas aos indígenas é assegurada participação na exploração. Especificamente em relação ao garimpo, a Constituição prevê que os dispositivos em seu texto não se aplicam às terras indígenas (Art. 231, § 7°), proibindo, sob qualquer hipótese, que a atividade seja realizada por não indígenas nessas terras. O problema está em fazer valer essa lei. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 44 Uma outra questão que veio somar à inclusão dos Direitos e reconhecimento das terras indígenas foi a Lei n.11.645, de 2008, que tornou obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena nos ensinos fundamental e médio de escolas públicas e privadas, para ressaltar a importância dessas culturas na formação da sociedade brasileira. Atenção! Discutir tais assuntos no espaço escolar é importante pois insere a História e cultura africana, afro-brasileira e indígena na formação de crianças e jovens brasileiros. A lei foi importante por reconhecer negros e indígenas como sujeitos históricos e relevantes na formação da sociedade brasileira. 3. A parte negra no desenvolvimento da sociedade brasileira Aspectos históricos da participação dos negros na sociedade brasileira Africanos no Brasil Lima Barreto, em sua obra O Traidor, cita: Era bom saber que a alegria que trouxe à cidade a Lei da abolição de 1881 foi geral pelo país. Havia de ser, porque já tinha entrado na convivência de todos a sua (da escravidão) injustiça originária. Quando eu fui para o colégio, um colégio público, à rua do Rezende, a alegria entre a criançada era grande. Nós não sabíamos o alcance da lei, mas a alegria ambiente nos tinha tomado. A professora, D. Tereza Pimentel do Amaral, uma senhora muito inteligente, creio que nos explicou a significação da coisa; mas com aquele feitio mental de crianças, só uma coisa me ficou: livre! Livre! Julgava que podíamos fazer tudo o que quiséssemos; que dali em diante não havia mais limitação aos progressistas da nossa fantasia. Mas como estamos ainda longe disso! Como ainda não enleamos nas teias dos preceitos, das regras e das leis! [...] São boas essas recordações; elas têm um perfume de saudade e fazem com que sintamos a eternidade do tempo. O tempo inflexível, o tempo que, como o moço é irmão da Morte, vai matando aspirações, tirando perempções, trazendo desalento, e só nos deixa na alma essa saudade do passado, às vezes composto de fúteis acontecimentos, mas que é bom sempre relembrar. (BARRETO apud SCHWARZ E STARLING, 2015, p.21) As palavras de Lima Barreto soam atuais apesar de terem sido proferidas no século passado. Ele foi um jornalista, ensaísta, cronista da cidade do Rio de Janeiro e um dos poucos escritores brasileiros a se definir como negro. A partir desse relato, que mais se parece com um desabafo, é possível perceber que pouca coisa progrediu nos dias de hoje, que percebemos também que o racismo faz parte da nossa cultura de forma estrutural. Desde a abolição da escravatura, em 1888, a comunidade negra ainda não pode usufruir de uma “liberdade” legítima, pois para que isso aconteça se faz necessário que todas as esferas de poder a enxergue, não apenas como seres humanos com direitos, mas também entendendo toda complexidade de suas demandas. Os africanos e seus descendentes tiveram uma participação essencial no desenvolvimento do país e é imprescindível reconhecer que a trágica história brasileira com a escravidão marcou negativamente toda a sociedade. Os estudos sobre as etnias africanas no Brasil, hoje, reivindicam que ele não foi apenas escravizado, foi também desumanizado. Buscaram de todas as formas retirar do indivíduo escravizado sua condição de ser humano e reduzi-lo à categoria de coisa, bem, posse. É preciso enxergar o negro na história como um agente ativo e não mais um personagem passivo, que aceitou a submissão sem lutar. Muito tempo se passou desde que Lima Barreto fez esse comentário e ainda nos dias atuais a comunidade negra não consegue celebrar sua liberdade, identidade e cultura de forma plena. É certo que vários movimentos afro-brasileiros colocaram suas demandas e outras mais no debate social, mas para que possamos entender o contexto da atual situação dos negros no Brasil, vamos retornar ao passado e perceber como tudo começou. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 45 A Diáspora Quando os portugueses se estabeleceram no Brasil Colonial, eles perceberam a necessidade de pessoas que pudessem trabalhar nas grandes fazendas produtoras de cana-de-açúcar. Tudo girava em torno desta monocultura. A diáspora é um termo que fala de um ou mais grupos retirados de suas terras e se dispersando por outros lugares do mundo. Africanos durante a expansão do mercantilismo, diante de um fortalecimento e enriquecimento que o comércio de pessoas se expandiu e sofisticou nos séculos XVII e XVIII tornando-se um produto tão lucrativo quanto outras mercadorias como o açúcar. A exploração de mão de obra escravizada foi uma das características das grandes plantações das Américas. Empresas como algodão e açúcar, depois mais tarde exploração de metais preciosos fez parte da estrutura colonial brasileira. Para que os engenhos funcionassem a pleno vapor, os portugueses se valeram dos negros africanos, que nesse momento estavam sendo traficados da África para essas novas terras. O comércio de escravizados era altamente lucrativo para a Coroa Portuguesa. Os primeiros grupos chegaram no Brasil por volta de 1554. Tal prática atravessou séculos, interrompeu o desenvolvimento de vários espaços geográficos e causou o esvaziamento de outros. Retirou gerações de seus locais de origem e os transformou em mão de obra escravizada. Se os jesuítas, de certo modo, ajudaram os indígenas a se manterem longe dos trabalhos forçados, eles justificaram, por outro, a experiência escravocrata, por meio de “um castigo divino” capaz de aproximar os negros do cristianismo. Assim, a escravidão africana e a produção do açúcar se tornaram indissociáveis. Os nobres não trabalhavam, apenas viviam de renda, enquanto os escravizados, separados por sua cor, estavam associados aos trabalhos manuais e, por isso, considerados inferiores. Na arquitetura da cana, os engenhos se destacavam. No Brasil, os grupos de africanos mantinham relações diversas, mas o foco de fragilizar e proibir o uso de língua, cultos e outros elementos de suas origens foi um projeto cuidadosamente articulado. Já nas cidades, as possibilidades de trocas e ganhos criaram outros mecanismos, com a recuperação de traços de ancestralidade e geraram mecanismos de resistência, ora vinculados às próprias estruturas coloniais, como nas irmandades religiosas cristãs, ou em associações de grupos e compra de alforrias. A imagem de que os descendentes aceitaram a escravidão até sua liberdade é parte de nossa estrutura de preconceito estrutural. As casas-grandes, onde os senhores de terras donos dos engenhos e de escravizados viviam, eram luxuosas. Saiba mais Algumas novelas de época como Escrava Isaura (1976), Sinhá Moça (1986) e Novo Mundo (2017) mostraram o luxo que era viver nesses solares erguidos em pontos mais altos do engenho para que tudo pudesse ser visto e Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 46 controlado. Continham numerosos quartos que abrigavam a família e os agregados, sala de visitas e de jantar, quarto de oratório, escritório, copa e cozinha. Era muito comum ainda uma capela bem ornamentada, inteiramente branca para serem realizados batizados, casamentos e velórios. Mas não há casa-grande sem senzala. Ter muitos escravizados significava um sinal de status para os senhores de engenho, que não mediam esforços para adquiri-los, assim que osnavios de tráfico negreiro aportavam. Nas senzalas dos engenhos, os indivíduos eram alojados coletivamente. Neles residiam dezenas, centenas de pessoas que se amontoavam exaustos, cansados da lida de muitas horas, mal alimentados, presos a ferros que feriam seus corpos, e sem higiene nenhuma. As senzalas eram trancadas à noite pelos feitores para que não escapassem. O repouso era breve. Historiadores mostram que as senzalas eram construídas com barro e telhado de sapé, sem janelas, escuras e sem ar. Nesse momento da nossa história, a diversidade cultural, composta por indivíduos vindos de diversas partes da África, portugueses, holandeses e indígenas, era considerada não como algo bom, mas entendido como uma ferramenta para exclusão. Assim, as culturas eram reconhecidas e classificadas a partir da cor, o que se transformou em um poderoso marcador social. Por isso, é muito comum encontrarmos nos livros de História as seguintes classificaçôes: Mamelucos Mistura do branco com o indígena. Cafuzos Mistura do negro com o indígena. Mulatos Mistura do branco com o negro. Toda essa nomenclatura foi utilizada por muito tempo para categorizar pessoas com base no tom de sua pele, mas até hoje temos resquícios desse hábito. Quantos de nós não têm na sua certidão de nascimento o termo “pardo” para definir sua cor de pele? À hierarquia das cores se juntava o desprezo pela população escravizada. Vendidos como objetos, maltratados pelos seus senhores, vivendo em condições desumanas, apanhando e morrendo, facilmente substituídos no lucrativo negócio do tráfico humano, aos escravizados não restava nada mais do que sobreviver, sendo esta também a sua resistência. A estimativa de vida útil, em trabalho forçado, de um ser humano escravizado ficava entre 10 e 15 anos. Esses indivíduos, apesar de toda subjugação e violência, não aceitavam a escravidão de forma passiva. Relatos de negros que fugiam, matavam seus donos, refugiavam-se em lugares que os senhores com seus capatazes e capitães do mato não chegavam, nos mostram que os negros resistiram e lutaram muito para reconquistar suas liberdades. A luta da comunidade negra se faz presente e necessária até os dias de hoje. A resistência quilombola O negro foi escravizado, mas não se curvou. As lutas contra a dominação e a resistência geraram muitas vozes que foram se erguendo. A injustiça e a incompreensão formaram homens e guerreiros capazes de lutar contra tudo de indigno que havia na escravidão. De acordo com Furtado, Sucupira e Alves (2014), as manifestações da luta e resistência dos negros foram os quilombos. Vários indivíduos que se insubordinavam e se rebelavam contra a escravidão, organizaram-se em lugares distantes e de difícil acesso, a fim de resistirem contra a opressão dos senhores. Os quilombos eram o refúgio desses indivíduos, que podiam manter viva a sua cultura. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 47 Zumbi, juntamente com outros representantes da coletividade negra, durante o período escravista brasileiro, empenhou-se na luta contra a opressão do sistema que impunha o trabalho compulsório aos africanos e seus descendentes. A Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, conseguiu proibir formalmente a escravidão, mas, “não conseguiu garantir o acesso de negros e negras a direitos ou ao fim da segregação desses sujeitos na sociedade”, como nos mostraram Furtado, Sucupira e Alves (2014). Sem ter para onde ir, onde se fixarem, sem uma renda para se manterem e sem acesso à educação, restava ficar nas periferias urbanas ou refugiar-se nas comunidades quilombolas. A crueldade não se resumia à violência física ou ainda ao linchamento moral a que foram submetidos. A privação de uma identidade, combatida com o derramamento de sangue, foi e continua sendo a maior das agressões. De acordo com um levantamento realizado pela Fundação Cultural Palmares, são 3.524 grupos de quilombolas remanescentes. Veja alguns dados sobre o processo de reconhecimento: Reconhecimento Destes, apenas 154 foram titulados, ou seja, se encontram em fase final de reconhecimento e proteção de quilombolas no Brasil. Laudos Segundo a ÉPOCA, os dados da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), outros 1.700 grupos aguardam a conclusão dos estudos e a emissão de laudos que atestam a conquista do título. As comunidades remanescentes são agrupamentos semelhantes aos espaços formados por netos e bisnetos de escravos. E se na época, os inimigos vinham da casa-grande, eram escravocratas ou caçadores de mão de obra, hoje, a perseguição vem de grandes corporações da construção civil que, interessados nestes espaços, esbarram na proteção legal definida no Decreto 4887/2003. Rio de Janeiro/Rio de Janeiro/Brasil-24 de maio de 2020: Jovens negros fazendo o símbolo da luta antirracista durante a manifestação vidas negras importam. A realidade violenta segue atual e muitos são os casos que descambam para violência em uma escalada de atrocidades marcadas por ameaças, agressões e homicídios. Para se ter ideia do tamanho da disputa, o ano de 2017 foi considerado o período mais violento da última década com 113 ocorrências. Saiba mais De acordo com os índices da Conaq entre o início de 2008 e o fim de 2017 registram-se 32 homens e 6 mulheres quilombolas assassinados. A Bahia e o Pará lideram estes números seguidos por Minas Gerais, Rio de Janeiro e Piauí. As marcas da violência são ainda mais estarrecedoras se observadas as formas usadas para ceifar vidas. Em 68,4% dos casos foram usadas armas de fogo. Em 13,2%, objetos perfurocortantes. 66% das mulheres quilombolas foram assassinadas com o uso de arma branca ou foram torturadas antes de chegar a óbito. Tratores, escavadeiras seguem derrubando árvores e abrindo valas para drenar os córregos. É comum ainda homens armados serem vistos circulando pelos territórios. Um dos casos mais emblemáticos Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 48 destes conflitos e de grande repercussão aconteceu no Quilombo de Santa Justina no dia 21 de julho de 2016. Simone, em trabalho de parto, não recebeu a assistência médica correta por causa dos seguranças que impediram a chegada da ambulância ao local. Ela precisou caminhar até o veículo e seguiu para o hospital onde enfrentou mais dificuldades. Depois de muita luta ela conseguiu dar à luz. A criança nasceu com complicações, mas conseguiu se recuperar. O caso é reincidente. Simone perdeu uma filha porque foi impedida de instalar luz na própria residência. A menina necessitava de um medicamento que precisava ser armazenado na geladeira. Sem autorização, a criança foi impossibilitada de seguir o tratamento. O processo de construção da identidade cultural negra no Brasil Capoeira “Paranauê, paranauê. Paraná. Paranauê, Paranauê, Paraná”. Abre a roda e entra na ginga. A associação é imediata e automaticamente vem a memória o som do berimbau. A musicalidade contagia. Com ela, também imaginamos um grupo de pessoas reunido em um círculo. Capoeira de rua, Rio de Janeiro, Brasil. Mesmo relacionada a um contexto histórico marcado pelo sofrimento durante o período da escravidão, a capoeira sobreviveu às perseguições e transformou-se em um símbolo nacional que representa a luta de resistência. Trazida por africanos no fim do século XVI, a prática da capoeira mantinha viva as tradições daquele povo, entre elas, a preservação do idioma natal. Pouco se sabe, porém, da sua origem. A capoeira é, na verdade, a mistura de passos de dança e movimentos de luta. Foi desenvolvida assim para disfarçar diante de seus senhores uma vez que escravizados eram proibidos de praticar qualquer tipo de luta. As manifestações artísticas promovidas pelos escravos, embora tivessem características relacionadas à socialização, não contavam com a simpatia da elite dominante. Mais do que isso, a intolerânciada casa-grande era traduzida em intensa repressão contra a senzala. Saiba mais Além da capoeira, o lundu também despertava a ira dos senhores e senhoras da alta classe e, apesar de ter sido dançado pela corte portuguesa em Lisboa, era considerada uma dança indecente quando expressada popularmente. O batuque, por sua vez, também não ficava atrás das demais manifestações e sofria perseguição igualmente. Dessa forma, é possível perceber que a musicalidade africana tem grande influência na construção da identidade cultural negra no Brasil. Dos lamentos em forma de canto até os instrumentos musicais usados, tais como tambores, atabaques, chocalhos, pandeiros, entre outros, as contribuições são gigantescas e permanecem vivas até os dias de hoje. Entretanto, a partir do fim do século XIX e início do século XX, a preocupação em definir a identidade do indivíduo e as próprias manifestações culturais e esportivas brasileiras passou a incomodar a elite brasileira. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 49 A imagem do Brasil, aos olhos do mundo, principalmente Europa e Estados Unidos, não desfrutava de boa credibilidade desde o tortuoso caminho até ali marcado pelo período de escravidão. Assim sendo, se por um lado não existia a possibilidade de negar a miscigenação étnica evidente, já que a população era composta por negros, mamelucos, crioulos, cafuzos e indígenas, por outro se fez necessário mascarar o preconceito racial com o discurso evolucionista da mestiçagem. Black is power Pode-se afirmar que o corpo é uma construção social de estrutura biológica e que simbolicamente expressa culturalmente a história na qual o indivíduo está inserido. Muitas são as formas de usá-lo. Entre elas, desde os tempos antigos, estão os cabelos. Eles ganham destaque por ser um elemento representativo da personalidade do indivíduo e, nos dias atuais, tem ainda mais significado. Conserva-se com ele um profundo valor simbólico de resistência e preservação cultural. O corte e o penteado podem expressar diversos sentimentos. As mulheres nos anos 1950, por exemplo, inspiraram-se nos cortes masculinos para aumentar o engajamento social e político feminino. Os homens apresentaram o black power que ganhou o mundo e se tratava de uma referência ao movimento negro americano. O dreadlock também “fez a cabeça” de homens e mulheres por conta do movimento rastafári. No Brasil, o cabelo crespo e a cor da pele são símbolos indissociáveis da construção identitária brasileira. Eles estão diretamente relacionados à consolidação da cultura negra. Entretanto, a sociedade, que normatiza e cria padrões estéticos afinados ao ideal branco europeu, classifica o cabelo do negro como algo inferior. É comum, inclusive, que muitos tentem ressignificar a sua estética por meio de alisamentos a base de produtos químicos. É, na verdade, uma tentativa de sair de um lugar de inferioridade provocado pelo estereótipo pré- determinado e que não representa os traços biológicos da própria raça. Nos anos 1960 e 1970, o corpo, as cores e o ritmo musical negro influenciado pelas lutas pelos direitos civis negros nos Estados Unidos ascenderam os movimentos Black Power, Funk e Soul de tal forma que despertam significativamente as manifestações de orgulho e restauração das heranças africanas. O reflexo de toda esta mobilização faz surgir nas principais capitais do Brasil os Bailes Black. Artistas como Toni Tornado e Wilson Simonal, entre outros, que passam a se destacar como os principais nomes do movimento. Os jovens negros brasileiros apropriaram-se, mesmo com todas as diferenças culturais, das questões políticas e sociais dos negros americanos e criaram uma conexão importante nas narrativas brasileiras de luta contra a desigualdade. Atenção! Para se ter uma ideia da importância desta apropriação, Toni Tornado, em 1965, entrou nos Estados Unidos como imigrante clandestino e lá sentiu na pele o racismo e o menosprezo dos brancos. O artista brasileiro entendeu o sentido da luta dos negros por direitos civis e fez contato com os Panteras Negras, um grupo revolucionário que reivindicava o controle de instituições políticas e econômicas. Por isso é tão importante que se criem ações que facilitem o acesso de pessoas negras a lugares de destaque na sociedade, para incentivar outras a buscarem as mesmas oportunidades. Isso é o que temos chamado de representatividade, quando você vê que pessoas iguais a você começam a ocupar espaços que pareciam inacessíveis. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 50 Novo Partido dos Panteras Negras organizaram uma manifestação em nome de Eric Garner, que morreu após uma briga com oficiais da polícia de Nova York. Maracatu Os africanos escravizados e os seus descendentes brasileiros protagonizavam a dança em configuração de cortejo que representa as antigas coroações de Reis do Congo. O cortejo ao som de batuque, com cânticos e dança também era seguido pela realeza. Jongo O processo de construção da identidade cultural negra no Brasil também passa pela ressignificação do jongo. Destaca-se neste processo o retorno das crianças e dos jovens para as rodas. Isto porque, no passado, elas eram proibidas de participar por conta do caráter mágico vinculado a dança. Esta, inclusive, sempre foi uma das principais razões que justificavam tamanha perseguição. A prática corporal afro-brasileira tem, na sua composição, a percussão de tambores, o exercício da dança coletiva e o canto. É importante dizer que hoje, o jongo, mesmo sendo reconhecido nas comunidades jongueiras, segue sofrendo com a desaprovação da sociedade de maneira geral. Vale ressaltar que o jongo possui o registro como patrimônio cultural material do Brasil constituído pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) desde 2005. Para isto, especialistas e antropólogos do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP) iniciaram um minucioso trabalho de pesquisa em 2001 e graças a ele o jongo tornou-se a primeira manifestação de canto, dança e percussão de comunidades do Sudeste brasileiro de origem afro-brasileira. Encontro de Maracatus de Baque Solto, música e dança típicas de Pernambuco. O jongo ou caxambu, ou ainda tambu, chegou ao Brasil pela costa do Sudeste na primeira metade do século XIX. Destacam-se nesta prática o uso de tambores em acompanhamento ao canto. O estilo vocal tem como principal característica a entoação de frases curtas por uma pessoa e repetida pelo restante do grupo. Os participantes, dançarinos, encostam o ventre um no outro. O passo da dança é popularmente conhecido como umbigada. O jongo foi uma forma de comunicação entre os negros durantes o período da escravidão que traduzia de forma poética as dificuldades pelas quais eram submetidos. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 51 Saiba mais Há estudiosos que descrevem o jongo e o caxambu como práticas diferentes. Os pesquisadores salientaram que o jongo estaria prestes a desaparecer por causa das restrições às participações de crianças e jovens. Tendo em vista que apenas os “cumbas”, (mestres detentores dos poderes mágicos) poderiam participar desta prática cultural, o fim seria uma questão de tempo. Contudo, novas pesquisas realizadas já década de 1980 confirmaram que o jongo estava presente nas favelas do Rio de Janeiro e que ele tinha papel fundamental na origem do samba. O que sugere a capacidade de ressignificação da atividade. Pode- se dizer que as práticas e manifestações culturais, no caso das comunidades quilombolas, continuam sendo ressignificadas para atender ao processo de reafirmação étnica. Ações afirmativas no Brasil – as cotas raciais Os debates sobre cotas raciais desde sempre existiram. Antes mesmo da abolição da escravatura discutiam-se medidas sobre a questão. As atrocidades cometidas pelo Estado suscitaram em vários setoresda sociedade e principalmente no Parlamento, a necessidade de ações reparadoras pelos danos causados aos negros africanos e aos seus descendentes. Em 1823, José Bonifácio tentou, junto à Assembleia Constituinte, uma mudança que buscava amenizar o sofrimento dos indivíduos impostos pelo sistema escravista. A proposta tinha como principal objetivo engendrar condições mais humanas para a transição do antigo regime de escravidão para o sistema de trabalho livre. Bonifácio preocupava-se com a convivência entre as elites escravocratas e a multidão de “negros brutais” recém libertados de um regime extremamente opressor. Enganam-se, porém, os que enxergam a preocupação de José Bonifácio apenas pelo viés humanitário. O peso da culpa por ir de encontro aos princípios ortodoxos cristãos também cabe na interpretação sobre seus atos. As consequências do Brasil escravocrata são percebidas, ainda hoje, dentro da sociedade brasileira e principalmente pelo povo negro. A aceitação da cor de pele, o orgulho da sua identidade e o reconhecimento da própria história são condições valiosas para uma incessante busca pela igualdade de direitos. Diante disso, todas as medidas tomadas para reparação e todas as conquistas até então alcançadas pelo movimento afrodescendente, embora busquem uma redução do abismo que o separa da elite, ainda são insuficientes para conduzi-lo a um espaço de destaque mínimo. Por outro lado, os movimentos sociais são organizados a fim de expressar suas demandas com propostas de transformação, bem como estimular e coordenar ações coletivas pela inclusão. Seja por meio de discursos ou ações práticas, as lutas pedem inclusão social e reconhecimento da diversidade cultural. A complexa formação destes movimentos reúne um conjunto de entidades, organizações e indivíduos que lutam contra o racismo e pleiteiam condições mais dignas de sobrevivência para a população negra. Observam-se para isto os aspectos culturais, políticos e educacionais. Um importante acontecimento na luta pelas ações afirmativas aconteceu em 20 de novembro de 1995. A Marcha Zumbi dos Palmares contra o racismo, pela cidadania e pela vida marcou um momento importante na luta do povo negro contra a discriminação. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 52 Marcha Zumbi dos Palmares contra o Racismo e a Discriminação, Campinas, Brasil, 2017. Durante a Marcha, foi entregue um documento ao então presidente Fernando Henrique Cardoso. Neste registro constava o desenvolvimento de ações afirmativas para acesso dos negros a cursos profissionalizantes, a universidade e as áreas de tecnologia de ponta. Um ano depois, durante a realização do seminário internacional Multiculturalismo e Racismo: o papel da ação afirmativa dos Estados democráticos contemporâneos, Fernando Henrique reconhece a existência do racismo, o que trouxe para o centro da discussão a necessidade de criar políticas de combate às discriminações. Em 9 de janeiro de 2003, foi assinada pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva a lei que obriga os estabelecimentos de ensino fundamental e ensino médio do país a inserir o estudo da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena na grade curricular. O movimento negro passa a intervir na esfera educacional. Os seus representantes iniciam um trabalho de revisão dos conteúdos dos livros didáticos com objetivo de reavaliar o papel do afrodescendente na história do Brasil e retificar o material existente. Essa nova condição e posicionamento na sociedade moderna facilitou sua inserção no mercado e criou novas expectativas. O acesso ao ensino de nível superior foi um passo importante para este cenário diretamente relacionado ao poder de consumo. Com mais participação acadêmica, os negros passam a atuar na produção do conhecimento e o branco, antes à frente da condução dos estudos e propostas na luta antirracista, veem os próprios afrodescendentes pesquisarem sobre a temática racial com um olhar muito mais crítico e analítico. Tais mudanças provocam tensões e descontentamentos. Tanto em relação aos novos elementos para análise, assim como as disputas de poder no espaço acadêmico. Ações afirmativas têm servido a alguns Estados, sobretudo após a Segunda Guerra, para reverter emergencialmente um quadro de desigualdades extremas e duradouras. Alguns países como a Índia, Malásia, entre outros, têm investido em medidas compensatórias. Sejam elas direcionadas às castas, aos grupos de cor, grupos étnicos ou outros menos favorecidos. O fenômeno do multiculturalismo surgiu no fim dos anos 1970 como projeto educacional de Pedagogia tanto para escolas quanto para universidades. Além destes dois setores, a contribuição voltou- se para o emprego público e a vida associativa. Os países com um Estado social desenvolvido e uma escola pública com funcionamento em condição de quase monopólio foram os primeiros a lidar com a diversidade cultural trazida, principalmente, pelos alunos filhos de imigrantes. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 53 4. As relações étnico-raciais no Brasil e suas distinções A educação para as relações étnico-raciais no Brasil - Lei nº 10.639/2003 A distinção crítica das relações étnico-raciais no Brasil Muitas são as discordâncias entre autores, intelectuais e militantes dos movimentos sociais com posicionamentos e perspectivas ideológicas distintas diante desta matéria. A falta de consenso pode, em algumas circunstâncias, provocar desentendimentos. Tendo em vista a diversidade de termos e conceitos dentro da temática étnica-racial, a questão ganha várias interpretações da sociedade brasileira por parte dos seus atores. Destacam-se nesta controvérsia os movimentos sociais. O movimento negro cria relevância no cenário por exercer e cumprir uma tarefa fundamental nesta discussão ao redefinir e redimensionar a questão social e racial na sociedade. Além de denunciar os crimes cometidos e reinterpretar a realidade, o movimento contribui no processo de reeducação do cidadão tanto no aspecto político quanto acadêmico da população brasileira. A identidade negra segue um processo de construção social gradativo, estendido, além do seio familiar e dos seus desdobramentos, como construção histórica, cultural e plural. No entanto, o grande desafio durante este exercício sempre foi e permanece sendo a prática de trabalhar a promoção da identidade negra em um universo social que, ao longo de todos os tempos, foi conduzido para que eles, os negros, deveriam, para alcançar espaços, negar sua identidade assumindo características padrões socialmente aceitas. Desta forma, compreende-se que o período escolar em toda a trajetória percorrida durante a formação do indivíduo tem função essencial na construção da identidade. A escola tem responsabilidade social e educativa não apenas para lidar positivamente com o tema, mas também e principalmente para compreender e respeitar a complexidade do processo. Qual a sua “raça”? A pergunta sugere o debate. O termo “raça” sempre suscitou discussões nos campos das Ciências Sociais. O questionamento carrega um peso que pode soar desconfortável e a reação não costuma ser positiva com a indagação. A razão está na dificuldade de compreensão que existe na problemática relação entre negros e brancos construída ao longo do tempo. O termo, embora remeta ao que há de mais tenebroso na história da humanidade, o nazismo, se colocado fora da temática biológica, pode propor uma interpretação com base na dimensão social e política. No Brasil, a discussão sobre racismo perpassa na maioria dos casos pela cor da pele. A aparência física é a base para uma classificação maniqueísta em que a avaliação passa pela competência e capacidade. Tem-se acesso a este tipo de percepção na família, na escola, no círculo de amizades, relacionamentos afetivos, área profissional, entre outros. Este tipo de comportamento denotaa afirmação do racismo por sua negação. O racismo é negado sistematicamente pela sociedade brasileira, entretanto, com o surgimento das redes sociais e com a equivocada crença de que as telas garantem um anonimato, temos percebido inúmeros casos de racismo e preconceito disfarçados de liberdade de expressão. Os militantes e intelectuais que adotaram o termo “raça”, como dito anteriormente, não o fazem no sentido biológico e, a partir deste contexto, é possível compreender que o termo “raça” também pode ser entendido como uma construção social, política e cultural produzida nas relações sociais e de poder. Culturalmente falando, compreendemos que negros e brancos podem ter percepções de mundo diferentes a partir da forma como foram educados e, também da maneira em que se dá seu exercício de socialização, Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 54 estas diferenças podem nos levar a enxergar o outro conforme as nossas subjetividades, o que sucinta a hierarquização das classificações sociais, raciais, de gênero, entre outras, de forma desigual. Comentário Na contramão desta linha de pensamento, os militantes e intelectuais que fazem uso do termo “etnia” consideram que o seu uso reduza a percepção determinista biológica provocado pela expressão “raça”. Por outro lado, os nazistas consideravam-se diferentes dos demais povos tanto no aspecto cultural quanto nas características físicas e religiosas. Consideravam-se seres superiores por serem brancos e arianos. Com todo o horror provocado pelo nazismo durante a Segunda Guerra, houve uma reorganização das nações do mundo e, nesta nova ordem, o racismo e a ideia de raça no sentido biológico, considerado inaceitável, associou o termo “etnia” as diferenças dos povos judeus, indígenas, negros, entre outros. A escola tem papel importante na transformação do pensamento sobre as relações étnico-raciais no Brasil. Atualmente, além da lei 10.639/03 e das diretrizes estabelecidas para a educação, existe uma produção acadêmica mais consistente com o conteúdo elaborado incorporado como fonte de pesquisa. Veja a seguir como a relação entre os segmentos e a ação dos agentes educadores influencia na transformação: Segmentos O diálogo entre as escolas, as secretarias de educação e os grupos culturais, juvenis, as entidades do Movimento Negro, ONGs e os núcleos de Estudos Afro-Brasileiros facilitam os processos de construção e implementação de práticas pedagógicas voltadas para a diversidade étnico-racial, sobretudo para reforçar a questão da identidade de cada membro da comunidade escolar. Este cenário de entendimento de forma respeitosa e digna entre os segmentos, também é pensado como uma forma de superação do racismo. Educadores Os professores na condição de educadores têm a função de construir práticas e estratégias pedagógicas que estimulem a igualdade racial nas salas de aula. O acesso à cultura indígena, africana e afro-brasileira oferecem a eles o suporte necessário para o combate à discriminação racial e para se colocar em prática as ações afirmativas voltadas para o negro e o indígena com o objetivo de superar e romper com o mito da democracia racial. Ainda que tenhamos trazido como temas: as sociedades indígenas, as relações sociais, a sociedade escravocrata e as religiões africanas, aliás, assuntos relevantes para a fundação das Ciências Sociais, somente nos últimos anos é que a questão ético-política alcançou mais visibilidade para a sociedade e associações científicas. O racismo e o antirracismo No Brasil, jovens negros e pardos são as maiores vítimas de mortes causadas por violência ou enfrentamento policial. A maioria é oriunda de favelas e periferias. As reportagens nos jornais são unânimes em apontar que a falta de políticas públicas com foco nessa geração, somada às operações policiais com base na repressão e não na preservação da vida, acabam sendo as grandes causadoras desse número alto. Estudos apontam que 77% das mortes de jovens na faixa etária de 15 a 29 anos no Brasil sejam de negros. Se você chegou até o fim desse texto, já sabe que é praticamente impossível não associar esses fatos a questão do racismo. Como foi possível observar até aqui, o racismo não é um fato recente. Desde o Brasil Colônia que indígenas e negros foram vistos como seres inferiores. Os negros sequer ganharam o status de humanos. Eles eram coisas, bens de seus senhores que podiam ser negociados. Ambas etnias nunca tiveram suas culturas e identidades reconhecidas, e quando não aniquiladas totalmente, foram obrigados a aceitar um novo deus, uma nova língua e a viverem dominados. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 55 Conquistas importantes dos movimentos afro-brasileiros provocaram mudanças na sociedade. Criminalização A partir da Lei n.7.716/1989, o racismo virou crime. Como explica a lei, racismo implica conduta discriminatória dirigida a determinado grupo ou coletividade. O Ministério Público tem legitimidade para processar o racista. Autonomia A lei tem autonomia para atuar em várias situações, como por exemplo, pessoas negras que eram impedidas de ter acesso a estabelecimento comercial ou residencial pelas entradas sociais. Não se pode mais “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Prevista no artigo 140, Parágrafo 3, do Código Penal, a injúria racial ofende a honra de alguém, valendo-se para isso de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem. São Paulo, SP / Brasil – 07 de junho de 2020. No decorrer da história, negros têm lutado para que sua cultura e sua identidade fossem respeitadas no mundo todo. Nos Estados Unidos, país que também carrega o fardo inglório da escravidão, a prática foi abolida, porém o racismo segue escancarado. A segregação oficial chegou a determinar por lei quais os assentos que brancos e negros deveriam ocupar nos transportes públicos conforme a cor da pele. No Brasil, a questão nunca foi aparente, diferentemente do modelo americano, declarada de forma evidente. Se os negros americanos, mesmo aqueles que fazem parte da classe média, manifestam-se quando a própria representatividade é desqualificada ou questionada, parte dos negros brasileiros, em situação semelhante, dificilmente se pronuncia e, quando isso acontece, aqueles que o fazem são reprimidos. Afinal, não há racismo no Brasil e todos são iguais. Esse, infelizmente, é o pensamento de uma imensa maioria que não reconhece as dificuldades que a comunidade negra enfrenta todos os dias. A Assembleia das Nações Unidas declarou a Década Internacional de Povos Afrodescendentes (2015-2024). Nesta declaração há uma recomendação que os países previnam e punam as violações dos direitos humanos que afetem os negros, incluindo, inclusive, os agentes do Estado. O documento coloca como estratégico o desenvolvimento de ações que reconheçam os povos e facilitem o acesso deles à justiça, intensificando a prática de políticas de proteção social, prevenção, acolhimento e reparação. Saiba mais Em matéria publicada pela revista Exame em 13 de novembro de 2019, a população negra morre 2,7 vezes mais do que a branca, sendo a principal vítima de homicídio no Brasil. O dado é do informativo: Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil e foi divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda de acordo com o Instituto, enquanto a violência contra pessoas brancas se mantém estável, o índice de homicídios de pretos e pardos cresceu em todas as faixas etárias. O período analisado foi de 2012 Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 56 a 2017 e o aumento por 100 mil habitantes da população preta e parda chegou a 43,4 contra 37,2 anteriormente e 16 da população branca. Foram registradas ainda, segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), 255 mil mortesde pessoas negras por assassinato no período analisado. Os números são ainda mais impactantes se considerarmos apenas a população jovem nesta pesquisa. Entre os brancos de 15 a 29 anos, a taxa ficou em 34 para cada 100 mil habitantes em 2017, segundo os dados da DataSus. Já entre pretos e pardos o número chega a 98,5 assassinatos a cada 100 mil habitantes, e na mesma faixa etária a taxa de homicídio sobre para 185. As jovens mulheres negras também acompanham estes índices de mortes. Enquanto a taxa de jovens brancas é de 5,2, as pretas e pardas chegam a 10,1. Nos anos 1970 e 1980, os núcleos jurídicos de atenção a vítimas de preconceito foram criados, instituídos e neste mesmo período se transformaram em mecanismos contundentes no combate ao racismo. Em 2000, o Governo do Estado do Rio de Janeiro, por meio da Secretaria de Estado de Segurança Pública e em parceria com o Ministério da Justiça, inaugurou o Centro de Referência Nazareth Cerqueira contra o Racismo e o Antissemitismo. Entenda: Projeto Consistia na criação de um canal permanente de diálogo entre as polícias, os ativistas e os pesquisadores. Objetivo Visava, dentro da temática racial, a maior conscientização do sistema jurídico-policial no combate ao racismo e à intolerância racial. Resultado Surgiu o Disque-Racismo, estabelecendo a possibilidade da população vítima da discriminação receber permanentemente atendimento jurídico, social e psicológico financiado com recursos públicos. Dessa forma, podemos concluir que as demandas dos movimentos negros passam por questões ligadas à diminuição da violência, ao fim do racismo e à inserção de negros em universidades e mercado de trabalho. Isso acionou uma política de reparação, como foi a política de cotas raciais. Ultimamente, o movimento negro incorporou em sua agenda questões ligadas à intolerância religiosa, ao feminismo e aos direitos LGBT para a população negra. Mais importante do que repudiar o racismo é ser antirracista. Essa é a tônica dos movimentos dos anos 2020. A filósofa e ativista negra Angela Davis é uma encarregada de disseminar esses conceitos nas redes sociais. “Eu não sou racista. Tenho até amigos negros”. Essa é a pior declaração que alguém pode ouvir ou relatar atualmente. Ela demonstra claramente a fala racista e preconceituosa, herança, como vimos até aqui do Período Colonial. O antirracismo vem como uma importante ideologia política de oposição ao racismo, mas que ultrapassa apenas a simples indignação. Ela envolve uma prática. O que você tem feito em torno do debate racial? O que você tem feito para acabar com o racismo no seu microcosmos? Aí sim você estará sendo antirracista. Considerações finais A frase, transformada em meme e compartilhada nas redes sociais, normalmente em tom irônico, “o Brasil não é para amadores” nunca fez tanto sentido como agora. Nesse passeio que fizemos sobre fatos da história do Brasil, fica claro o quanto nosso povo sofreu e continua sofrendo para que suas identidades e diversidades culturais fossem aceitas nesse grande caldeirão de culturas, línguas, estilos e povos, que é o Brasil. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 57 Desde cedo, os dirigentes desse país tentaram, na base do jeitinho, inclui-lo na rota da civilização. No entanto, ao contrário de enaltecer as diferenças e retirar o que há de mais positivo no contato com as diferentes culturas, branquear a sociedade brasileira acabou sendo a pior solução e a que mais problemas trouxe para negros e indígena em nosso território. A sorte é que o Brasil é muito mais do que isso e com jeitinho que aprendeu na cadência do samba, na cordialidade do seu povo que recebe a todos com o coração, que ama festa, praia e futebol, vamos driblando as diversidades, reconhecendo direitos, brigando pela Educação e inclusão para negros e indígena, os quais vão se empoderando e lutando para fazer valer seus direitos e reconhecer suas identidades. Estamos longe da perfeição, mas nesse caminho longo que é a luta pelos direitos fundamentais a todos os brasileiros, de atalho em atalho, e por meio do conhecimento, vamos mudar essas ideias que um dia serão apenas história transformada. Referências ALMEIDA, Regina Celestino de. O lugar dos índios na história: dos bastidores ao palco. In: Os índios na História do Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 2010, p. 13-28. CALDAS, Waldenyr. O que todo cidadão precisa saber sobre cultura. Rio de Janeiro: Global, 1997. DA REDAÇÃO. Veja. Rio de Janeiro, a cidade mais feliz do mundo. In: Revista Veja, 2009. REVISTA CAPITAL ECONÔMICO. RJ: Apenas 1 a cada 5 estudantes de medicina são negros. In: Capital Econômico, 2019. EXAME. IBGE: População negra é principal vítima de homicídio no Brasil. In: Revista Exame, 2019. FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS. Dicionário de Ciências Sociais. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1987. FURTADO, M.B.; SUCUPIRA, R.L.; ALVES, C.B. Cultura, Identidade e Subjetividade quilombola. Uma leitura a partir da psicologia cultural. Psicologia e Sociedade. Universidade de Brasília, 2014. 26(1), p. 106-115. In: Scielo. LOPES, Luiz Roberto. Cultura Brasileira. De 1808 ao pré-modernismo. Porto Alegre: Universidade/RFRGS, 1995. LUCIANO, Gersem dos Santos. O Índio Brasileiro: o que você precisa saber sobre os povos indígenas no Brasil de hoje. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade; LACED/Museu Nacional, 2006. ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 1994. RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo, Cia da Letras, 2006, p 437. RICARDO, C. A. e RICARDO, F. P. (Ed.). Povos indígenas no Brasil. São Paulo, Instituto Socioambiental, 2011. SANTOS, José Luiz dos. O que é cultura. São Paulo. Brasiliense, 2005. SCHWARCZ, Lilia Moritz e STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. WITZEL, Nicollas. Comunidades Quilombola tentam resistir ao avanço de grandes empreiteras. Revista Época, 2019. Explore + Para saber mais sobre os assuntos explorados neste tema, assista a: Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 58 Carlota Joaquina — Princesa do Brasil, direção Carla Camurati, 1994. Fonte: FilmowUm painel da vida de Carlota Joaquina, a infanta espanhola que conheceu o príncipe de Portugal com apenas dez anos e se decepcionou com o futuro marido. Sempre mostrou disposição para seus amantes e pelo poder. Sentiu- se contrariada quando a corte portuguesa veio para o Brasil, tendo uma grande sensação de alívio depois que foi embora. Macunaíma, direção Joaquim Pedro de Andrade, 1969. Fonte: FilmowMacunaíma é um herói preguiçoso, safado e sem nenhum caráter. Ele nasceu na selva e, de preto, virou branco. Depois de adulto, ele deixa o sertão em companhia dos irmãos. Macunaíma vive várias aventuras na cidade, conhecendo e amando guerrilheiras e prostitutas, enfrentando vilões milionários, policiais, personagens de todos os matizes. Depois dessa longa e tumultuada aventura urbana, ele volta à selva, onde desaparecerá como viveu – antropofagicamente. Guerra do Brasil.doc, direção Luiz Bolognesi, 2018. Fonte: Curta!Se você gosta de séries não pode perder os episódios de Guerra do Brasil.doc. Série documental em episódios, disponibilizados no YouTube e Netflix, que aborda em seu primeiro episódio as guerras travadas entre os invasores europeus e a população indígena que habitava nossas terras. São guerras que começaram em 1500 e perduram até os dias de hoje. Desmundo, direção Alan Fresnot, 2003. Fonte: YoutubeO filme é ambientado em 1570, época em que os portugueses enviavam órfãs ao Brasil para que se casassem com os colonizadores. A tentativa era minimizar o nascimento dos filhos com as índias e que os portugueses tivessem casamentos brancos e cristãos. Oribela, uma dessas jovens, é obrigada a casarcom Francisco de Albuquerque. Quilombo, direção Carlos Diegues, 1984. Fonte: YoutubeEm torno de 1650, um grupo de escravos se rebela num engenho de Pernambuco e ruma ao Quilombo dos Palmares, onde uma nação de ex- escravos fugidos resiste ao cerco colonial. Entre eles está Ganga Zumba, príncipe africano e futuro líder de Palmares, durante muitos anos, que contestará as ideias conciliatórias de Ganga Zumba, enfrentando o maior exército jamais visto na história colonial brasileira. O Lado Negro do Chocolate, direção Miki Mistrati, 2010. Fonte: YoutubeVocê acredita que o trabalho escravo existe até hoje? É o que nos mostra esse documentário do jornalista dinamarquês Miki Mistrati, que denuncia o trabalho escravo infantil por trás das plantações de cacau na Costa do Marfim. Com câmera escondidas, ele mostra os pontos de tráfico de crianças na África e as plantações nas quais as crianças são forçadas a trabalhar. Panteras Negras – Todo poder ao povo, direção Lee Lew-Lee, 1996. Fonte: FilmowO documentário foi concebido após as revoltas negras de Los Angeles, ocorridas em 1992, quanto a impunidade da violência policial sobre o povo negro gerou quatro dias de levante massivo, com mais de 7 mil imóveis incendiados e 53 mortos. Enquanto a TV anunciava os estragos de mais de um bilhão de dólares, o documentarista Lee Lew-Lee decidiu se perguntar qual foi o verdadeiro dano histórico que provocou aquela explosão. O resultado é o resgate audiovisual de uma experiência profundamente consistente de organização e luta negra. Sou escrava, direção Gabriel Range, 2010. Fonte: AdorocinemaConta a trajetória de uma criança raptada e feita de escrava, após a invasão de um grupo armado num vilarejo da África. O filme foi feito para a Tv britânica. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 59 Meio Ambiente e Sociedade 1. As consequências da perda da biodiversidade Conceito de Biodiversidade Você provavelmente já ouviu o termo biodiversidade, ou diversidade biológica; porém, você sabe o significado técnico-científico desses termos? Usualmente, a gente pensa em biodiversidade como o número de espécies de seres vivos, todavia o conceito técnico-científico, usado atualmente, é bem mais amplo do que a simples contagem da quantidade de espécies existentes no mundo. O conceito de biodiversidade é, então, um conceito abrangente, que envolve diversos aspectos. De forma simplificada, biodiversidade ou diversidade biológica é a associação da riqueza de espécies de seres vivos viventes no planeta, da diversidade genética desses seres vivos (que é a variação entre as populações) e da diversidade de ecossistemas encontrados ao redor do mundo (que são as variações ecológicas). Na Convenção sobre a Diversidade Biológica, de 1992, biodiversidade é definida como “a variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, entre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e ecossistemas.” Histórico do surgimento do conceito de biodiversidade Você não precisa conhecer o termo biodiversidade para entender que existe ampla variedade de espécies de seres vivos na Terra, que variam entre si e que vivem em distintos ecossistemas, não é mesmo? Então, a percepção de que há uma variedade de seres vivos é tão antiga quanto se possa imaginar. Todavia, o conceito de biodiversidade se popularizou a partir de 1985, tendo sido utilizado por Walter G. Rosen no 1º Fórum Americano sobre Diversidade Biológica, realizado em Washington, nos Estados Unidos. O livro de E. O. Wilson, intitulado Biodiversidade, terminou popularizando o termo, que passou a ser aplicado por ampla parcela da comunidade científica. O termo surgiu num contexto de preocupação com a situação da degradação ambiental do planeta, que levava à extinção de espécies e perda de hábitats ecológicos de forma preocupante. A consolidação da sua utilização ocorreu após a Conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente e o desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, em 1992, conhecida como ECO-92. A popularização do termo biodiversidade, com sua utilização pela população em geral, a partir da década de 1990, trouxe a noção de que a biodiversidade é um patrimônio natural da humanidade e que deve ser conservada, prevalecendo essa ideia não só na comunidade científica, mas também na consciência da população como um todo. Importância da Biodiversidade Já sabendo o que é biodiversidade, precisamos pensar sobre a sua importância. Você sabe qual a relevância de se manter a diversidade de espécies biológicas, sua variabilidade genética e todos os processos ecossistêmicos a elas associados? É sobre isso que vamos conversar agora. A importância da biodiversidade é, muitas vezes, associada aos serviços ambientais que os seres vivos podem nos prestar. Assim, as indústrias alimentícias, farmacêuticas, de cosméticos e diversas outras se beneficiam dos organismos vivos, que são utilizados como matéria-prima de seus produtos. Dessa forma, Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 60 não só as funções conhecidas, atualmente, mas as que ainda serão descobertas no futuro, são importantes para o ser humano, justificando a conservação de toda a biodiversidade existente. Ou seja, o potencial atual e futuro dos seres vivos justificaria a sua conservação. Nesse sentido, para muitas pessoas, o potencial de uso pela espécie humana seria a principal justificativa para a manutenção da biodiversidade. Atenção No entanto, a biodiversidade não é importante só pelos serviços ambientais que ela fornece, sua importância também está relacionada aos seus valores genético, social, científico, educacional, cultural, ético, recreativo e até estético. A seguir, estudaremos a relevância da biodiversidade em dois aspectos que merecem destaque: a importância ambiental e a importância econômica. Importância ambiental da biodiversidade O ser humano vive e transforma o planeta como se fosse a única espécie que ali existisse. Provoca alterações ambientais e a extinção de espécies, degrada ecossistemas, como se nada disso importasse para a sua própria existência. Ocorre que o funcionamento correto dos ecossistemas depende de uma complexa cadeia de interações que envolve as milhões de espécies existentes no planeta. Quando pensamos nos processos ambientais como um todo, é possível observar que eles ocorrem na forma de ciclos ou de cascatas, em que a existência de uma etapa é necessária para a etapa seguinte. Desse modo, a perda de uma única espécie, de um ecossistema ou da variação genética (a perda da biodiversidade) pode levar à degradação de todo um complexo ambiental. Essa interligação entre as espécies, que é necessária para o correto funcionamento dos ecossistemas, impacta, então, os chamados processos ambientais. Assim, no que tange à importância ambiental, a biodiversidade é essencial para a manutenção do correto funcionamento dos processos ambientais. A extinção de uma única espécie que tenha uma função- chave para um ecossistema pode levar à degradação de todo o ambiente. Pode parecer complexo ou abstrato entender isso, mas estamos bem familiarizados com vários processos ambientais. Quer ver? • A extinção de uma espécie de uma cadeia alimentar pode impactar tanto as espécies que fazem parte daquela cadeia quanto de outras cadeias ou processos ambientais que se relacionam com ela. • O primeiro exemplo é bem simples de entender e bem conhecido, que são as cadeias alimentares. Imagine uma cadeia alimentar formada por uma espécie de vegetal, um herbívoro que se alimenta desse vegetal e um carnívoro que se alimenta desse herbívoro. A extinção do animal herbívoro afeta as espécies vegetais, que, sem um controle populacional, podem crescer demais e competir porrecursos com outras espécies vegetais. Além disso, a extinção do herbívoro pode também afetar a população do carnívoro, que, sem seu alimento, pode ter sua população inteira dizimada ou até extinta. As consequências podem ser complexas demais, a ponto de afetar não só essa cadeia alimentar, mas também outras cadeias alimentares ou processos ambientais que se relacionavam com a cadeia alimentar cuja espécie foi extinta. • O desmatamento é um problema ambiental grave que pode ter como uma de suas consequências a alteração da qualidade do ar. • Outro exemplo é a importância das plantas e de outros produtores primários para a produção de oxigênio no planeta. 0 desmatamento, associado a outros processos que impactam os produtores primários, vem sendo relevante para a queda da qualidade do ar em todo o mundo. Nesse sentido, as concentrações de gás carbônico são cada vez maiores quando comparadas às concentrações de oxigênio, causando um problema de dimensão mundial. • As abelhas possuem importante papel ambiental na polinização de plantas. A diminuição de suas populações pode afetar, inclusive, as colheitas humanas. • A diminuição das populações de abelhas e outros insetos responsáveis pela polinização de plantas pode afetar toda a cadeia vegetal, impactando, inclusive, na colheita de alimentos. Essa é uma questão bastante atual e que vem preocupando diversos cientistas. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 61 Com esses poucos exemplos, você é capaz de imaginar a importância ambiental da manutenção da biodiversidade. Na natureza, de alguma forma, tudo está interligado. Os processos ecossistêmicos envolvem uma série de procedimentos conectados, onde a interrupção de uma única etapa-chave pode ocasionar uma verdadeira catástrofe ambiental. Assim, você é capaz de entender, de forma resumida, que a importância ambiental da biodiversidade está relacionada com a manutenção do funcionamento e dos processos dos ecossistemas. Importância econômica da biodiversidade Não podemos deixar de considerar a importância econômica da biodiversidade. Então, vamos conversar um pouco sobre ela. Alimentos, cosméticos, medicamentos, produtos do dia a dia e uma ampla variedade de produtos e serviços que utilizamos em nossa vida são originados de organismos vivos, direta ou indiretamente. A perda da biodiversidade pode levar a consequências graves para a população humana quanto à oferta de produtos e serviços na economia mundial. Assim, o valor econômico da biodiversidade pode ser dividido em: Valor Potencial: Aqui, mesmo as espécies que ainda não possuem uma utilidade atual para o ser humano podem ter sua utilidade descoberta no futuro, o que justifica a sua conservação. Valor Direto: São as espécies utilizadas diretamente pela população humana, como, por exemplo, o açaí, que é usado para a alimentação, indústria cosmética etc. Valor Indireto: São as espécies que, de forma indireta, beneficiam os humanos. Aqui, podem ser enquadradas as abelhas, no que tange à polinização, por exemplo. A existência de abelhas é benéfica para diversas plantações que são utilizadas pela espécie humana para sua alimentação. Dessa forma, resumidamente, a importância econômica da biodiversidade está associada aos produtos e serviços que dela são retirados e utilizados pela espécie humana, de forma direta, indireta ou potencial. Brasil – Um País Megadiverso A biodiversidade não é distribuída de maneira uniforme pelo planeta. Fatores como temperatura, precipitação, altitude, solos, geografia, presença de outras espécies, história evolutiva, disponibilidade de energia solar, entre outros, podem influenciar na diversidade de uma área do globo terrestre. Estima-se que existam atualmente de 10 a 50 milhões de espécies no planeta. De toda a biodiversidade encontrada no mundo, cerca de 20% das espécies existentes podem ser encontradas no Brasil. Além disso, nosso país possui rica diversidade de espécies endêmicas, ou seja, que são oriundas do país e só aqui são encontradas. Por conta disso, o Brasil é considerado um país megadiverso. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 62 Entre as razões que levam o Brasil a ser um país megadiverso, estão: • A existência de distintos biomas e ecossistemas aquáticos. • A existência de diferentes zonas climáticas. • A existência de uma enorme costa marinha (cerca de 3,5 milhões de Km²). • A sua localização numa área prioritariamente tropical. Devemos conhecer, ainda, os chamados hotspots de biodiversidade, que são regiões com alta incidência de espécies endêmicas ameaçadas de extinção. Essas áreas necessitam de atenção especial e medidas efetivas de conservação da biodiversidade. No Brasil, regiões do Cerrado e da Mata Atlântica são consideradas “hotspots”, ou seja, áreas com alta biodiversidade, ricas em espécies endêmicas, ameaçadas de extinção e que merecem especiais medidas de atenção e conservação da biodiversidade. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 63 Mapa ilustrativo dos “hotspots” (em vermelho) encontrados em todo o mundo. Você sabia Dessa forma, o Brasil é um país que atrai a atenção de todo o mundo no que diz respeito à conservação de sua biodiversidade. Tendo em vista que a biodiversidade é considerada um patrimônio natural da humanidade, a conservação da biodiversidade brasileira é uma prioridade mundial. A Perda da Biodiversidade Os índices de extinção de espécies biológicas são tão altos atualmente quanto os da crise global que levou à extinção dos dinossauros no Triássico. Estima-se que cerca de 8700 espécies são extintas anualmente. Todavia, o causador da atual extinção em massa de espécies não é um fator natural, mas, sim, a atuação da espécie humana, com a utilização desenfreada dos recursos naturais. A perda de espécies pode ocorrer de forma natural. Acredita-se que 99% das espécies que já existiram na Terra não existem mais e a vida média de uma espécie seria de cerca de 1 milhão de anos. No entanto, o ser humano vem acelerando esse processo. De acordo com a ONU, cerca de 25% das espécies do planeta estão ameaçadas de extinção. Você sabia Entre os fatores que levam à perda da biodiversidade, as atividades humanas que causam alterações ambientais e o uso excessivo de recursos que levam a impactos ambientais são os que provocam maior perda da biodiversidade na atualidade. Vamos estudar, em seguida, algumas das atividades humanas que mais causam impactos no meio ambiente. Poluição: A contaminação dos ambientes naturais influencia diretamente nos processos de alteração ambiental. A contaminação atmosférica, do solo e da água são responsáveis pela perda da biodiversidade. A poluição do meio ambiente é importante causadora da perda da biodiversidade do planeta. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 64 Expansão Urbana: Para o crescimento das áreas urbanas, é necessário que sejam destruídas áreas naturais inteiras. Dessa forma, hábitats são completamente destruídos, o que leva à eliminação de ecossistemas, populações e das espécies que ali habitavam. A expansão urbana pode levar à perda da biodiversidade. Expansão da Agricultura e da Pecuária: A agricultura e a pecuária são responsáveis por ampla parcela da devastação da biodiversidade do planeta. A degradação de grandes áreas para cultivo ou pasto, utilização de agrotóxicos, contaminação da água e grande contaminação por gás carbônico na criação de gados estão entre alguns exemplos de degradação ambiental que podem levar à perda da biodiversidade. A degradação de ambientes naturais para expansão da agricultura pode ocasionar a perda da biodiversidade. Exploração Insustentável dos Recursos Naturais: A utilização dos recursos naturais deve ser sustentável, ou seja, seu uso atual não deve afetar seu uso futuro. Todavia, muitas vezes, os recursos naturais são exploradosde forma excessiva, de maneira que o meio ambiente não consegue se recuperar. É o caso do desmatamento, por exemplo. Aqui, também pode ser enquadrado o desperdício e o não aproveitamento de materiais úteis que são eliminados como lixo. O desperdício pode levar ao uso insustentável dos recursos naturais, causando perda da biodiversidade. Introdução de Espécies Exóticas e Invasoras: Uma das consequências da globalização é a introdução de espécies típicas de uma área do globo terrestre em outras áreas. Algumas vezes, isso ocorre de forma natural, outras vezes, de forma acidental ou intencional. No entanto, as consequências da introdução de tais espécies são imprevisíveis e podem causar danos irreversíveis nos ecossistemas. A Perca-do-Nilo é um exemplo de espécie invasora que causou terríveis danos ambientais, incluindo a diminuição da biodiversidade nas áreas onde foi introduzida. Mudanças Climáticas: O efeito estufa e as mudanças climáticas levam a alterações ambientais graves, que vêm ocasionando a perda de ecossistemas, populações ou até a extinção de espécies. As mudanças climáticas são uma das maiores responsáveis pela extinção de espécies e perda da biodiversidade no mundo. Poluição Genética: As técnicas de hibridização e o cultivo de transgênicos ameaçam a biodiversidade genética natural das populações e vem sendo um risco que pode levar à perda da biodiversidade. A criação de espécies em laboratório por técnicas de hibridização ou pelo uso de transgênicos é uma ameaça à biodiversidade do planeta. Assim, a conservação da biodiversidade, com diminuição dos impactos ambientais e o uso sustentável dos recursos, deve ser uma prioridade mundial, como estudaremos. 2. As formas de prevenção e consequências dos impactos ambientais Já discutimos o conceito de biodiversidade e as causas de sua perda. Entre os principais fatores que causam a perda da biodiversidade, estão os impactos ambientais. A partir de agora, estudaremos o conceito de impacto ambiental, conheceremos as principais fontes causadoras desse problema e discutiremos sobre as consequências e os mecanismos de prevenção de impactos ambientais. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 65 Impacto Ambiental Conceito de impacto ambiental O Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) define impacto ambiental em sua Resolução nº 001/1986, no seu artigo 1º, como: [...] “Art. 1º Para efeito desta resolução, considera-se impacto ambiental qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam: I - a saúde, a segurança e o bem-estar da população. II - as atividades sociais e econômicas. III - a biota. IV - as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente. V - a qualidade dos recursos ambientais.” Assim, você é capaz de concluir que impacto ambiental é toda alteração causada pela ação humana que provoque alterações nos ambientes naturais. Então, impacto ambiental sempre estará relacionado a uma ação antrópica que modifique o meio ambiente. Nesse sentido, precisamos entender que os impactos ambientais podem ser tanto positivos quanto negativos. 1. Os impactos ambientais positivos são aqueles que buscam corrigir um dano ambiental já existente. Como exemplos, podem ser citados a recuperação e limpeza de rios, o reflorestamento e a recuperação de matas ciliares, as ações de proteção às espécies ameaçadas de extinção, entre outros. 2. Já os impactos ambientais negativos são aqueles que provocam a degradação de um ambiente natural, com piora de uma ou mais características ecológicas naturais. Além disso, os impactos ambientais negativos incluem todas as ações humanas que diminuam o potencial de utilização de uma área pelo ser humano, como é o caso do impacto estético, por exemplo. Ademais, os impactos ambientais podem incluir outras classificações, de acordo com o tempo ou a extensão do impacto. Veja, a seguir, algumas classificações de impacto ambiental: Direto (ou de 1ª ordem): É aquele em que causa e consequência se relacionam de forma direta. Ex: jogar lixo no rio impacta na qualidade da água desse corpo aquático. Indireto (ou de 2ª ordem): É aquele em que causa e consequência não se relacionam de forma direta. Ex: jogar lixo no rio pode provocar, de forma indireta, a diminuição da quantidade de peixes, por conta da piora da qualidade da água. Local: É o impacto localizado numa área específica. Ex: ao queimar o lixo no quintal, o morador causa impacto na qualidade do ar ao redor de sua residência. Regional: É o impacto que afeta toda uma região. Ex: a tragédia de Brumadinho causou impacto em todo a bacia hidrológica, e não somente nos locais por onde a lama passou. Global: É aquele que impacta todo o globo terrestre. Ex: as emissões de gás carbônico, de diversas origens, são responsáveis, em parte, pelo aumento da temperatura em todo o planeta. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 66 Temporário: É o impacto que ocorre de forma temporária, intermitente. Ex: um trator que passe uma única vez sobre um pasto causando compactação do solo, mas que não é mais utilizado. Permanente: É aquele no qual o impacto ocorre de forma contínua. Ex: uma fábrica que, todo dia, deposita seus dejetos no rio. Reversível: É aquele no qual é possível recuperar o meio ambiente a um estado similar ao anterior à intervenção humana. Ex: o desmatamento de somente uma área florestal. Irreversível: É aquele no qual os efeitos do impacto não se encerram após o término da intervenção do homem. Ex: o desmatamento para a construção de uma área urbana. História dos impactos ambientais O ser humano sempre alterou o meio ambiente. Os desenhos nas pedras nas épocas pré-históricas são formas de alterar o meio natural e causar impacto ambiental. Há teorias que associam a extinção de várias espécies de mamíferos gigantes à ação humana. Todavia, foi após a implementação da agricultura, que os impactos causados pela espécie humana aumentaram. O início da agricultura, com a fixação da espécie humana, que antes era nômade, é um dos primeiros marcos do aumento dos impactos. O próximo marco é a Revolução Industrial. Essa foi uma fase de grande crescimento da indústria, porém a produção de energia ainda era muito dependente da queima de carvão. Assim, a Revolução Industrial foi uma fase em que o impacto ambiental causado pelo homem na natureza cresceu de forma exponencial. Além disso, nas regiões industriais, a qualidade do ar da época era bem inferior à que possuímos atualmente. Por fim, o próximo marco do incremento do impacto ambiental está relacionado ao aumento da população que ocorreu nos últimos séculos. Estima-se que, em menos de 200 anos, a população mundial aumentou de 1 bilhão de habitantes para 7 bilhões. O aumento no número de indivíduos se reflete na necessidade de insumos, produtos e serviços, que causam maior exploração do meio natural. Neste sentido, nós estamos vivendo no século em que os maiores impactos ambientais vêm sendo causados, de forma constante, no planeta. O aumento da população humana faz com que aumente os impactos ambientais causados pelos seres humanos. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 67 Fontes de Impacto Ambiental Você já entendeu o que é impacto ambiental. Então, você consegue imaginar quais ações humanas são capazes de impactar o meio ambiente? A partir de agora, vamos explorar algumas fontes de impacto ambiental. Urbanização e construção de rodovias e ferrovias A amplificação de áreas urbanas e construção de rodovias e ferrovias têm em comum o desmatamento e a alteração dos ambientes em que são construídos, incluindo áreas de florestas e corpos aquáticos. Dessa maneira, tanto a fauna quanto a flora local são profundamente afetadas,podendo, inclusive, alterar a qualidade do ar, em virtude da diminuição das áreas verdes, e ocorrer a contaminação da água, em razão da eliminação de dejetos nos processos de construção. A construção de áreas urbanas altera o meio ambiente de forma profunda, pois, normalmente, há degradação de todo o meio natural. Já a construção de rodovias e ferrovias pode ter um impacto mais localizado, na área onde a estrada passa, o que não é menos grave. Efeitos negativos, como o atropelamento de animais e o efeito de borda em florestas, pode causar o empobrecimento de todo o ambiente florestal restante. A energia produzida através de combustíveis fósseis impacta o ambiente de onde eles são retirados, durante seu processo de extração, sua utilização leva à produção de gases causadores de efeito estufa e seus insumos são recursos finitos, não renováveis. A queima de carvão, para a produção de energia, além de levar à liberação de gases causadores de efeito estufa, provoca o desmatamento de grandes áreas, afetando diversos ambientes florestais. As usinas hidrelétricas necessitam do represamento da água do corpo hídrico onde são instaladas, causando profundas alterações nesses ecossistemas. Ademais, a passagem de fios e estações de transmissão, fundamentais para a distribuição da energia elétrica, produz enorme poluição estética. Você sabia Todas as fontes de energia impactam o meio ambiente de alguma maneira, porém diversos outros danos ao meio natural são causados diariamente no processo de produção e distribuição de energia elétrica. Agricultura e pecuária A agricultura e a pecuária sempre foram fontes de impactos ambientais devido à necessidade do desmatamento de grandes áreas para cultivo ou para pasto. O uso de agrotóxicos pode poluir os corpos hídricos, a pastagem causa compactação do solo, inutilizando áreas inteiras, que se tornam praticamente irrecuperáveis, a criação de gado leva à liberação de gases causadores do efeito estufa na atmosfera. Esses são somente alguns exemplos de danos causados pelo agronegócio. Com o crescimento exponencial da população humana, há maior necessidade de alimentos. Essa maior demanda, associada ao desperdício, provoca o crescimento da agricultura e pecuária, que a cada dia realizam mais impactos ambientais no planeta. Turismo Nos últimos anos, cresceu muito o interesse pelo chamado turismo ambiental. Assim, áreas preservadas se tornaram destino de férias de muitas famílias. Só a presença do ser humano, num ambiente onde ele não é encontrado naturalmente, causa impactos. A abertura de trilhas e a caminhada, o barulho causado, que atrapalha os animais em seus hábitats naturais, o lixo deixado e o hábito de alimentar a fauna silvestre são exemplos de impactos ambientais provocados pelos seres humanos durante o ecoturismo. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 68 Consumo excessivo, desperdício e geração de lixo Vivemos em uma sociedade que valoriza o consumo e utiliza os recursos naturais como se fossem infinitos. Tal comportamento, associado ao desperdício e ao excesso da geração de lixo, faz com que o consumo diário de itens básicos seja grande fonte de impacto ambiental. Assim, o descarte inadequado com a superexploração dos recursos naturais são fontes expressivas de impactos ambientais. Consequências do Impacto Ambiental Você já estudou sobre algumas ações humanas que causam impactos ambientais e entendeu alguns desses impactos. No entanto, algumas consequências ao meio ambiente são tão expressivas e afetam o planeta de forma tão generalizada, que serão estudadas de forma destacada a partir de agora. Assim, conheceremos, a seguir, algumas das consequências mais graves dos impactos ambientais. Você consegue pensar em alguma? Alterações climáticas Diversos estudos demonstram que a temperatura do planeta está aumentando. Apesar de o globo terrestres passar, naturalmente, por fases de aquecimento e fases de glaciação, acredita-se que a ação humana está intensificando a fase de aquecimento pela qual a Terra passa atualmente. O efeito estufa é um processo ambiental natural agravado pela ação humana. Uma das causas para o aquecimento global é a intensificação do efeito estufa, um fenômeno natural que é intensificado pela ação antrópica, através da diminuição da produtividade primária (pelo desmatamento, por exemplo) e pela liberação excessiva, na atmosfera terrestre, de alguns gases, como o gás carbônico e o metano. As consequências do aquecimento global são inúmeras: o degelo das massas polares faz com que os níveis dos oceanos aumente; há aquecimento dos oceanos, que tem como consequência a intensificação dos eventos climáticos; toda a biodiversidade é afetada, pois o aquecimento do planeta altera as condições ambientais onde as espécies vivem, entre outras consequências. A preocupação em prevenir e reverter o aquecimento global é uma das prioridades da humanidade para este século. Acidificação da água Os oceanos sofrem não só com os impactos causados pelo aumento de sua temperatura, mas também em razão dos efeitos da acidificação de suas águas. A acidificação dos oceanos ocorre pela absorção de gás carbônico pela água. Esses gases são oriundos da atividade antrópica e causam uma alteração do pH dos mares e oceanos. Entre as consequências da acidificação, estão a extinção de espécies que não conseguem sobreviver nas novas faixas de pH, alterando toda a cadeia trófica do ecossistema. Entre os organismos mais afetados pela acidificação, podem ser citados pequenos invertebrados e os recifes de corais. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 69 A mudança do pH também altera todos os ciclos de nutrientes presentes nesses ambientes, fazendo com que todas as cadeias alimentares e todos os ecossistemas possam sofram os efeitos dessa acidificação. Perda da biodiversidade A perda da biodiversidade é uma consequência comum em quase todas as práticas humanas que causam impactos ambientais. A supressão de ecossistemas naturais inteiros, a extinção de populações, diminuindo a variabilidade genética, e a extinção de espécies estão entre as consequências comuns da atuação do homem na natureza. Esse assunto foi explicado no módulo 1, e você pode revisá-lo, se quiser relembrar as causas antrópicas que provocam a perda da biodiversidade. Poluição atmosférica da água e do solo A poluição é uma das consequências mais graves e mais comuns das ações humanas no meio ambiente. A água, o solo e o ar são afetados pela ação humana. No que tange à poluição atmosférica, a liberação de gases e micropartículas no ar causa a queda da qualidade atmosférica, o que pode provocar problemas respiratórios nos seres humanos e afetar a biota como um todo. Quanto à poluição da água, além da poluição dos oceanos, que causa enorme perda da biodiversidade, pode ser citada a diminuição da quantidade de água doce disponível para o consumo humano. Vale ressaltar que a disponibilidade de água potável é um problema atual, e muitos países já sofrem com a escassez desse produto para consumo. A respeito da poluição do solo, podem ser citadas a sua contaminação por agrotóxicos, fertilizantes e pelo depósito de lixo em lixões inapropriados. Esses são somente alguns exemplos das consequências dos impactos ambientais, havendo muitas outras. Você consegue pensar numa consequência global dos impactos ambientais que não tenha sido abordada até aqui? Esse é um bom exercício para estimular sua criatividade e o raciocínio do tema que estamos estudando. Mecanismos de Prevenção de Impacto Ambiental Você já aprendeu o que são impactos ambientais, as principais fontes de impactos e algumas das suas consequências mais graves. Depois que um impacto ambiental é causado, muitas vezes, busca-se restaurar o ambiente natural para a situação em que se encontrava previamente. Todavia, isso nem sempre é possível. Assim,o objetivo é sempre prevenir impactos ambientais. Consegue pensar em formas de prevenir a ocorrência de impactos ambientais negativos? A prevenção ocorre em diversas esferas de atuação. Desse modo, as pequenas atitudes que tomamos em casa, visando diminuir o desperdício e a geração de lixo, por exemplo, são formas de prevenir ou reduzir os impactos ambientais. Essas ações preventivas podem ter seu efeito, então, em um local, em uma região (por exemplo, um município, um estado e um país) ou em todo o planeta. Prevenção dos impactos ambientais em âmbito local Você já parou para pensar que, enquanto você vive, causa impactos ambientais? Ao dirigir, o seu carro libera gazes causadores do efeito estufa; quando você retira o alimento de um pacote e o joga no lixo, contribui para a poluição; quando você lava as mãos, o esgoto gerado pode estar contaminando um ambiente aquático, além de diversas outras fonte de impacto que geramos diariamente. Já parou para pensar no tamanho do impacto ambiental que você gera no planeta? Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 70 Não há como sobreviver sem causar danos ao meio ambiente. Até os homens pré-históricos, que viviam de forma integrada ao meio natural, causavam impactos quando caçavam, por exemplo. No entanto, o estilo de vida do homem atual é o que mais causa impactos negativos. Dessa forma, devemos sempre buscar reduzir a forma como prejudicamos a natureza. Já pensou que você e sua família podem agir, no dia a dia, de modo a reduzir ou prevenir os impactos ambientais que geram? A seguir, serão citados alguns exemplos de formas de reduzir ou prevenir os impactos ambientais que são gerados no planeta com pequenas ações diárias e em âmbito local: Reduza o consumo de energia, tanto a elétrica quanto a gerada por combustíveis fósseis: que tal usar transportes coletivos e apagar as luzes sempre que sair de um cômodo? Separe os lixos orgânicos e recicláveis: os lixos orgânicos podem ser aproveitados pela própria família, na forma de adubo, por exemplo. Os lixos recicláveis devem ser entregues em postos de coleta apropriados. Utilize produtos ecológicos e biodegradáveis: priorize empresas que tenham uma produção mais limpa e que causem menos impactos ao ambiente natural. Deposite os lixos especiais em locais apropriados: pilhas, baterias e eletrônicos, por exemplo, devem ser descartados em locais apropriados, não podendo ser depositados no lixo comum. Faça doações: aquilo que não serve para você pode servir para outra pessoa. Doe aquilo que você não usa mais, em vez de descartá-lo no lixo. Reduza o seu consumo: avalie as suas compras e só compre o que for realmente utilizar. Prevenção dos impactos ambientais em âmbito global Como você já aprendeu, alguns danos ambientais impactam o planeta como um todo. Assim, medidas que previnam ou reduzam os impactos globalmente se fazem necessárias. A Organização das Nações Unidas (ONU) é uma organização internacional da qual fazem parte mais de 190 países, cuja preocupação, entre outras, é a prevenção de impactos ambientais. Assim, ações globais são planejadas, e tratados internacionais, discutidos e assinados, nos quais os países comprometem-se a reduzir, prevenir ou reparar os impactos ambientais que causarem. Exemplo Um exemplo de ação global para prevenir danos ao meio ambiente é o Dia Internacional da Biodiversidade, comemorado em 22 de maio, que foi instituído pela ONU. Nessa data, uma série de ações de conscientização e preservação são realizadas em todo o mundo, simultaneamente, em prol da conservação da biodiversidade mundial. Outro exemplo é que a ONU declarou o período de 2011 a 2020 como a Década da Biodiversidade. Dessa maneira, nessa década, a conservação da biodiversidade recebe atenção especial e é alvo de diversas ações internacionais. A Década da Biodiversidade: de 2011 a 2020, instituída pela ONU. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 71 Prevenção dos impactos ambientais em âmbito regional Por fim, quando falamos em prevenção dos impactos ambientais em âmbito regional, podemos estar falando em regiões de distintos tamanhos, como municípios, estados ou o país como um todo. O principal mecanismo de prevenção de impactos ambientais no Brasil são os mecanismos de licenciamento ambiental. Eles podem envolver a avaliação de impacto ambiental (LA), os Estudos de Impacto Ambiental (EIA), os Relatórios de Impacto Ambiental (RIMA), gerando uma série de compromissos para as empresas causadoras de grandes danos, de modo a preveni-los, reduzi-los ou mitigá-los. 3. Sustentabilidade, agenda 21 e ações no Brasil Sustentabilidade Você já ouviu o termo sustentabilidade? Imagino que sim. Todavia, você sabe como esse conceito se aplica à conservação da biodiversidade e prevenção dos impactos ambientais? Conceito de sustentabilidade A palavra sustentabilidade já existia e possuía um significado antes mesmo de sua utilização no contexto ambiental. Assim, sustentabilidade relaciona-se a um modelo de sistema que tem condições para se manter ou se conservar através dos anos. No âmbito de preservação ambiental, o conceito de sustentabilidade é um princípio que rege a utilização dos recursos naturais perante o desenvolvimento econômico. Sustentabilidade é, então, a utilização dos recursos naturais pelas gerações atuais, de modo que não comprometa a sua utilização pelas gerações futuras. Dessa forma, o ser humano pode utilizar-se dos recursos naturais sem esgotá-los, impactá-los ou comprometê-los, de maneira que eles se mantenham disponíveis num futuro indeterminado. Você sabia O conceito de sustentabilidade pode envolver aspectos sociais, econômicos e ambientais. Esses aspectos são interdependentes e concomitantes. Precisamos compreender que a utilização de recursos naturais é essencial para o desenvolvimento do ser humano; em vista disso, não há de se falar em interromper ou proibir a utilização dos recursos naturais. Todavia, a exploração excessiva do meio ambiente, provocando seu esgotamento, causa tantos malefícios ao desenvolvimento da sociedade quanto a proibição absoluta à sua utilização. Dessa maneira, é necessário que o uso da natureza seja sustentável, ou seja, que ocorra sem comprometer sua disponibilidade futura. Ressalta-se que a sustentabilidade é um princípio que deve pautar o desenvolvimento econômico, ou seja, deve-se objetivar o crescimento da economia através do uso sustentável dos recursos naturais. Origem do conceito de sustentabilidade Em 1972, em Estolcomo, foi realizada a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, onde, pela primeira vez, foi abordada, pela ONU, a preocupação internacional com a degradação ambiental, na qual ações locais podem impactar o planeta de forma global. Assim, essa foi a primeira conferência na qual ações internacionais de conservação do meio ambiente foram discutidas. O conceito de sustentabilidade, no âmbito ambiental, apareceu pela primeira vez no Relatório de Brundtland, também conhecido como “Nosso Futuro Comum”, de 1987, no qual havia a previsão de que: “O uso sustentável dos recursos naturais deve suprir as necessidades da geração presente sem afetar a possibilidade das gerações futuras de suprir as suas”. Durante a ECO-92, houve a consolidação e a popularização da utilização do termo sustentabilidade num contexto de desenvolvimento econômico e preservação ambiental. Ou seja, a sustentabilidade Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 72 ambiental passou a ser um dos princípios norteadores do desenvolvimento econômico, sendo utilizada pela população em geral, empresas, governantes etc. Princípios norteadores da sustentabilidade A Declaração sobre Desenvolvimento Sustentável, de 2002, da Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável, que ocorreu em Joanesburgo, África do Sul, afirmou que, para que o desenvolvimento seja, defato, sustentável, ele deve se nortear – ou seja, ter como foco – por alguns princípios. Dessa maneira, o desenvolvimento econômico sustentável é aquele que se pauta nos três pilares da sustentabilidade apresentados a seguir: O conceito de sustentabilidade abrange as dimensões ambiental, social e econômica, que se sobrepõem e devem caminhar juntas. Sustentabilidade Social (ou Sociopolítica): Nesse aspecto, busca-se que todas as pessoas tenham recursos para uma vida saudável e de qualidade. Assim, implicitamente, objetiva-se a redução ou erradicação da pobreza. Dentro desse pilar, estão inclusas a garantia de uma vida com saúde, educação, lazer, não violência etc. Aqui, sugere-se a igualdade entre os indivíduos de modo a proporcionar uma boa vida a todos. A sustentabilidade social refere-se, entre outros aspectos, à busca pela igualdade social. Sustentabilidade Econômica (ou Ecoeficiência): O pilar de sustentabilidade econômica diz respeito ao compromisso de se buscar técnicas de exploração, produção e desenvolvimento econômico que causem menos impactos ao meio ambiente. Dessa maneira, espera-se que sejam desenvolvidas tecnologias que substituam a exploração do meio ambiente, ou, pelo menos, minimizem-na. Com isso, objetiva-se uma constante inovação tecnológica a fim de reduzir os danos ambientais, dando especial ênfase à diminuição da utilização de energia de origem fóssil. Entre outros objetivos, a sustentabilidade econômica visa a utilização de meios de produção de energia que causem menos impacto ao meio ambiente. Sustentabilidade Ambiental ou Ecológica: A dimensão ecológica da sustentabilidade diz respeito à manutenção da biodiversidade e dos processos ambientais. A natureza deve ser capaz de se autorregenar. Assim, o ser humano deve utilizar recursos naturais, permitindo ou propiciando a recuperação do meio ambiente após o seu uso. Esse aspecto do conceito é o que garante, na prática, a disponibilidade dos recursos para as futuras gerações. Além disso, a sustentabilidade ambiental abrange a necessidade de prevenir, mitigar ou até compensar os danos ambientais provocados pela exploração do meio ambiente. A sustentabilidade ecológica refere-se à manutenção da biodiversidade e dos processos ambientais. Sustentabilidade na Prática Diversas ações existem, em todo o mundo, visando o desenvolvimento sustentável. Nesse sentido, ações locais, regionais e globais são realizadas por membros da sociedade civil, de entidades não lucrativas, Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 73 governos, empresas, entidades internacionais etc. Dessa maneira, é possível encontrar programas ou medidas que buscam a sustentabilidade em diferentes níveis e setores. Em âmbito internacional, a ONU é a organização internacional que reúne diferentes países para discutir e buscar soluções sustentáveis para o planeta. Uma das ações mais emblemáticas adotadas foi a Agenda 21, que estudaremos em seguida. Agenda 21 A Agenda 21 foi um programa, construído durante a ECO-92, que agregou desenvolvimento econômico e sustentabilidade ambiental. É um tratado internacional, assinado por mais de 170 países, no qual cada nação participante se compromete a refletir, planejar e implementar medidas sustentáveis, que passam a pautar seu desenvolvimento econômico. O principal objetivo da Agenda 21 é a adoção de medidas para reduzir os impactos ambientais nos âmbitos local, regional e global, pelas Nações Unidas, incluindo cada governo e a sociedade civil. A Agenda 21 foi um programa inovador, pois foi a primeira vez em que o crescimento econômico passou a ter de ser pautado em medidas ambientais sustentáveis. Até então, não se ousava reduzir os potenciais da economia e da lucratividade em prol de um meio ambiente equilibrado. A Agenda 21 Global envolve uma série de ações conjuntas a serem realizadas por todos os países participantes. Seu objetivo principal é criar soluções para os problemas socioambientais mundiais, e um dos lemas do documento é a participação de todos, incluindo a sociedade civil: “Pensar globalmente, agir localmente”. Segundo o site do Ministério do Meio Ambiente: [...] “A Agenda 21 pode ser definida como um instrumento de planejamento para a construção de sociedades sustentáveis, em diferentes bases geográficas, que concilia métodos de proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica.” Dentro das diretrizes gerais da Agenda 21 Global, cada país compromete-se a fazer sua própria Agenda 21. No Brasil, temos a Agenda 21 Nacional, que será estudada a seguir. Agenda 21 no Brasil – ações prioritárias A Agenda 21 Nacional começou a ser preparada em 1997, mas só foi concluída em 2002. A Agenda 21 Brasileira possui uma série de objetivos, mas, entre eles, certamente elevar o nível de consciência da sociedade é um dos mais importantes. Uma sociedade consciente, ciente da necessidade de preservação ambiental, não só age localmente, como cobra ações e medidas mais sustentáveis de seus governantes e das empresas com que se relaciona. A Agenda 21 no Brasil tem 21 objetivos principais, que são as ações prioritárias, onde medidas governamentais e programas devem ser criados, garantindo que tais objetivos sejam cumpridos. Essas ações prioritárias são centralizadas principalmente em cinco áreas estratégicas, que envolvem a ecoeficiência, a inclusão social e a igualdade entre os habitantes, a promoção da sustentabilidade em áreas urbanas e rurais, a preservação de recursos naturais estratégicos, como água, biodiversidade e florestas, e a utilização da governança e da ética na promoção das ações com foco na sustentabilidade. A seguir, listaremos todos esses objetivos: A Economia da Poupança na Sociedade do Conhecimento: Objetivo 1. Produção e consumo sustentáveis contra a cultura do desperdício. Objetivo 2. Ecoeficiência e responsabilidade social das empresas. Objetivo 3. Retomada do planejamento estratégico, infraestrutura e integração regional. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 74 Objetivo 4. Energia renovável e a biomassa. Objetivo 5. Informação e conhecimento para o desenvolvimento sustentável. A responsabilidade social das empresas é um dos objetivos da Agenda 21 Brasileira. Inclusão Social para uma Sociedade Solidária: Objetivo 6. Educação permanente para o trabalho e a vida. Objetivo 7. Promover a saúde e evitar a doença, democratizando o SUS. Objetivo 8. Inclusão social e distribuição de renda. Objetivo 9. Universalizar o saneamento ambiental, protegendo o ambiente e a saúde. Saúde para todos é um dos objetivos da Agenda 21 nacional. Estratégia para a Sustentabilidade Urbana e Rural: Objetivo 10. Gestão do espaço urbano e a autoridade metropolitana. Objetivo 11. Desenvolvimento sustentável do Brasil rural. Objetivo 12. Promoção da agricultura sustentável. Objetivo 13. Promover a Agenda 21 Local e o desenvolvimento integrado e sustentável. Objetivo 14. Implantar o transporte de massa e a mobilidade sustentável. A promoção da preservação ambiental nos espaços urbanos é um objetivo da Agenda 21 Nacional. Recursos Naturais Estratégicos: Água, Biodiversidade e Florestas: Objetivo 15. Preservar a quantidade e melhorar a qualidade da água nas bacias hidrográficas. Objetivo 16. Política florestal, controle do desmatamento e corredores de biodiversidade. Medidas voltadas para a conservação dos corpos hídricos estão entre os objetivos da Agenda 21 Nacional. Governança e Ética para a Promoção da Sustentabilidade: Objetivo 17. Descentralização e o pacto federativo: parcerias, consórcios e o poder local. Objetivo 18. Modernização do Estado: gestão ambiental e instrumentos econômicos. Objetivo 19. Relações internacionais e governança global para o desenvolvimento sustentável. Objetivo 20. Cultura cívica e novas identidades na sociedade da comunicação. Objetivo 21. Pedagogia da sustentabilidade: éticae solidariedade. A promoção de uma governança ética é um dos objetivos da Agenda 21 Nacional. O projeto da Agenda 21 Nacional conta ainda com a Agenda 21 Local, que, segundo o Ministério do Meio Ambiente, é o seguinte: [...] “A Agenda 21 Local é o processo de planejamento participativo de determinado território que envolve a implantação, ali, de um Fórum de Agenda 21. Composto por governo e sociedade civil, o Fórum é responsável pela construção de um Plano Local de Desenvolvimento Sustentável, que estrutura as prioridades locais por meio de projetos e ações de curto, médio e longo prazos. No Fórum, são também definidos os meios de implementação e as responsabilidades do governo e dos demais setores da sociedade local na implementação, acompanhamento e revisão desses projetos e ações.” Jaeger, 1995. Acrescento que, além da Agenda 21, o Brasil possui ampla legislação ambiental, além de outros programas que visam o desenvolvimento sustentável. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 75 Agenda 2030 Atualmente, a ONU já trabalha com um novo programa, chamado de Agenda 2030. Esse programa possui 17 objetivos principais relacionados ao desenvolvimento sustentável em âmbito global e substituiu a Agenda 21. Assinada em 2015 por 193 países, incluindo o Brasil, a Agenda 2030 contém os objetivos atualizados visando o crescimento econômico e a sustentabilidade social, econômica e ambiental. Saiba mais Internamente, a Agenda 2030 ainda carece de trâmites legais para ser inserida no ordenamento jurídico nacional; assim, o Brasil ainda não possui uma Agenda 2030 Nacional, não está aplicando os seus objetivos, e ainda utiliza a Agenda 21 Brasileira aprovada. Considerações Finais Acabamos de conhecer o conceito de biodiversidade, abrangendo seu histórico, sua importância e as causas e consequências de sua perda. Aprendemos também sobre o papel do Brasil na manutenção da biodiversidade mundial. Abordamos os impactos ambientais, apresentando seu conceito, sua origem, suas causas, consequências e medidas preventivas. Visitamos ainda o conceito de sustentabilidade e os objetivos prioritários da Agenda 21 no Brasil. Como vimos, a manutenção da biodiversidade, redução dos impactos ambientais e implementação de políticas sustentáveis são medidas essenciais para a manutenção dos processos ecossistêmicos e da vida no planeta. Conhecer e aplicar medidas de conservação da biodiversidade são essenciais para a atuação do profissional da área ambiental. Referências BRASIL. Conselho Nacional de Meio Ambiente. Resolução nº 001 de 1986. Consultado em meio eletrônico em: 21 ago. 2020. BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Agenda 21. Consultado em meio eletrônico em: 25 ago. 2020. ONU. Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Convenção Sobre Biodiversidade Biológica. 1992. Consultado em meio eletrônico em: 25 ago. 2020. ONU. Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento. Relatório de Brundtland. Report of the World Commission on Environment and Development: Our Common Future. 1987. Consultado em meio eletrônico em: 25 ago. 2020. ONU. Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável. Declaração de Joanesburgo sobre Desenvolvimento Sustentável. 2002. Consultado em meio eletrônico em: 25 ago. 2020. Explore+ O interesse pela conservação da biodiversidade é tão pungente na sociedade atual que foi criada uma disciplina, uma ciência, focada exclusivamente na conservação da biodiversidade do planeta. Essa ciência é conhecida como Biologia da Conservação. Para saber um pouco mais sobre o histórico e os objetivos da Biologia da Conservação, leia o artigo: O conceito de biodiversidade e a história da biologia da conservação: da preservação da wilderness à conservação da biodiversidade. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 76 O governo brasileiro mantém um portal para apresentar à população dados sobre a biodiversidade do país: O Portal da Biodiversidade. Para conhecer um pouco mais sobre nossa riqueza de espécies e de ecossistemas, basta acessar o site. Você pode explorar os objetivos da Agenda 21 Brasileira de forma detalhada no documento intitulado Ações prioritárias. A Agenda 2030 é o programa internacional atual com objetivos de desenvolvimento sustentável. Você pode conhecer o projeto completo, de forma interativa, acessando o site da ONU. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 77 Fundamentação Histórica Dos Direitos Humanos Introdução Os Direitos Humanos são um conjunto de direitos considerados essenciais para que qualquer ser humano, independentemente de sua condição, origem, seu credo, sua raça ou orientação política, viva com dignidade. A existência desse conjunto é de conhecimento geral e não é raro vermos referências aos Direitos Humanos em reportagens ou conversas cotidianas. No entanto, ainda não são compreendidos pelas pessoas. Poucos entendem o que eles representam realmente e o que procuram fazer. Diversas informações equivocadas sobre o assunto circulam e, muitas vezes, a mensagem tem distorções propositais para questionar a importância dos Direitos Humanos e fazer que eles sejam negados a um determinado grupo de pessoas. A Ciência prega que um profissional entenda do assunto para além do senso comum e que tenha o conhecimento suficiente para utilizar de forma correta a informação. Este conteúdo tem o objetivo de propor um debate sobre os Direitos Humanos, dividindo o assunto em quatro módulos, que abordarão a construção ética e histórica do conceito, procurando definir quais são esses direitos e como eles foram moldados; as críticas e atualizações sobre seus preceitos básicos; a discussão sobre seu caráter universal e a necessidade de que ele atenda a diferentes grupos; sua formação jurídica e, finalmente, seu desenvolvimento no Brasil. Com esse debate, poderemos compreender seus fundamentos, suas críticas e sua funcionalidade no Brasil e no mundo. 1. Características e a evolução dos Direitos Humanos Construção Ética e Histórica dos Direitos Humanos Direitos Humanos são direitos básicos que devem ser garantidos a todo ser humano independentemente de sua condição. O significado parece simples, mas definir o que são condições mínimas para que qualquer ser humano, em qualquer lugar do planeta, viva de forma digna é uma tarefa complexa, mais ainda se pensarmos que essas condições se modificam ao longo do tempo. Geralmente, quando falamos desse assunto, nos referimos aos Direitos Humanos criados recentemente pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, escrita em 1948, pela Organização das Nações Unidas, popularmente conhecida como ONU. Atenção Não se pode ignorar que, antes dessa declaração ser escrita, existiu um longo caminho de construção de direitos básicos, com interesses que se modificam com o passar do tempo. Para compreendermos o que são os Direitos Humanos, no século XXI, precisamos observar o desenvolvimento das necessidades dos seres humanos ao longo do tempo e as lutas que foram travadas para desenvolver esse conceito. É certo que, se observarmos cada sociedade, desde os primeiros povos, veremos que cada um teve as suas urgências e que, em alguns momentos, foi preciso estabelecer um conjunto de leis, de regras ou de ideias para garantir o mínimo de dignidade e condições de sobrevivência para todos. Ao longo do tempo, as guerras aconteceram e deixaram alguns grupos mais interessados em garantir a sua integridade do que outros, tecnologias foram sendo criadas e vistas como fundamentais para uma condição digna de vida. À medida em que o tempo passa e fatos acontecem, outras dificuldades aparecerão e nos farão repensar o que consideramos essencial para viver. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 78 Exemplo Após a pandemia de coronavírus, é possível que o acesso universal à vacinação sejamuito mais valorizado como um direito básico e reivindicado do que em outros tempos. Cada época tem suas necessidades básicas, que surgem em um determinado contexto. Primeiras Declarações de Direitos As primeiras referências ao termo Direitos Humanos datam dos séculos XVII e XVIII, na Europa Ocidental, quando se vivia a chamada crise do absolutismo, ou seja, no momento em que a ideia de um governante soberano com todos os direitos concentrados em suas mãos perdia força. Saiba mais A historiadora Lynn Hunt afirma que, em um primeiro momento, a expressão não tinha o mesmo conteúdo político e legal que conhecemos atualmente e que, naquele tempo, “direitos humanos” era uma expressão usada apenas como um contraponto aos direitos divinos. (HUNT, 2009) Sobre o assunto, o filósofo Norberto Bobbio afirmou que esse período pode ser conhecido também como “era dos direitos”, pois foi naquele tempo que as ideias dos filósofos do Iluminismo inspiraram os liberais a lutarem contra os absolutistas, criando um “Estado de direito”, ou seja, um Estado que tinha sua organização determinada pelo uso das leis (BOBBIO, 1992). Ainda segundo Hunt, foi o Iluminismo que materializou a noção de direitos básicos para todos, principalmente por meio de dois documentos que vamos analisar a partir de agora: a Declaração de Independência, dos Estados Unidos; e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, escrita durante a Revolução Francesa. Declaração de Independência dos Estados Unidos Esse documento foi resultado da insatisfação dos estadunidenses, naquele momento conhecidos como as Treze Colônias Inglesas da América, com a metrópole Inglaterra. Na época, os colonos viviam com uma relativa independência política e econômica até que foram convocados pela Inglaterra a se envolver numa guerra contra os franceses, a Guerra dos Sete Anos. Mesmo indo à batalha e garantindo a vitória inglesa no conflito, os americanos se viram, ao final da Guerra dos Sete Anos, obrigados a pagar dívidas inglesas e a obedecer a ordens autoritárias da metrópole. Insatisfeitos, os colonos se reuniram e escreveram uma carta ao rei e ao parlamento inglês em que declaravam sua fidelidade à Inglaterra, mas reclamavam das medidas adotadas. A carta não teve a resposta esperada e, em 1776, os colonos americanos voltaram a se reunir no Segundo Congresso da Filadélfia, onde redigiram a Declaração de Independência, na qual informavam à metrópole os motivos pelos quais os colonos estavam rompendo com a Inglaterra e não fariam mais parte do reino inglês. Essa declaração americana anuncia que todos os homens são criados iguais por Deus e que recebem Dele direitos que não lhes deveriam ser retirados: a vida, a liberdade e a busca da felicidade. Esses direitos são vistos pelos autores do documento como verdades “autoevidentes”, ou seja, direitos que são natos a todos os seres humanos e que, caso não sejam respeitados pelo governo, o povo tem o direito e o dever de substituir o governante ou de mudar as regras da política até que possa ser possível desfrutar dos direitos com segurança. O que podemos entender a partir dessa declaração é que a finalidade do documento não era estabelecer direitos básicos, até porque eles são autoevidentes e estariam naturalmente disponíveis em uma nação justa, mas que esses direitos são citados para argumentar a necessidade de rompimento com a metrópole pela falta de respeito a eles, criando as bases da nova nação que iria surgir. Com isso, a declaração demonstrou as intenções daquele momento, mas ainda não estava tornando oficiais esses direitos, isso só iria acontecer posteriormente, em 1787, quando foi assinada a Constituição dos Estados Unidos. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 79 Neste novo documento, nota-se que alguns daqueles direitos autoevidentes não foram respeitados: as leis estadunidenses, por exemplo, permitiam que a escravidão permanecesse legal nos Estados Unidos, recusando-se aos trabalhadores escravizados ao menos dois dos três direitos básicos apresentados na Declaração de Independência, como a liberdade e a busca pela felicidade. Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão Esse documento também foi resultado de um conflito que teve início com a insatisfação do povo com o seu governante. Dessa vez, o descontentamento era dos franceses com o rei absolutista Luís XVI. Após o envolvimento da França para apoiar os americanos na Guerra de Independência dos Estados Unidos, o monarca francês tentou controlar uma crise econômica aumentando os impostos cobrados da população, mas manteve as classes privilegiadas isentas de contribuição. Inspirados também pelos valores iluministas, o povo se rebelou e se proclamou, em Assembleia Nacional, para subordinar o rei a uma constituição. Assistindo as movimentações nas ruas e sem conseguir controlar a situação, o rei reconheceu a legitimidade da Assembleia e orientou que os grupos privilegiados também fossem cobrados. Em 1789, com todas as classes reunidas, a Assembleia francesa aprovou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. O documento francês defendeu que a ignorância, a negligência ou o menosprezo aos direitos dos homens eram a razão da difícil situação em que o povo se encontrava e que, para mudar a situação, era necessário defender de forma solene os direitos considerados naturais, inalienáveis e sagrados do homem. Atenção Aqui, podemos observar que, apesar de acreditar que existem direitos que são naturais aos homens, diferentemente da ideia americana, eles não são evidentes por si só e precisam ser ditos e defendidos. Como confirmação, podemos indicar o primeiro direito da declaração francesa, que afirma que os homens não só nascem, como devem permanecer livres e iguais, ou seja, não é uma condição provisória que pode ser retirada em algum momento, mas inerente ao ser humano. Se compararmos as duas declarações, vamos encontrar outras diferenças importantes. Declaração francesa Foi escrita para listar e defender os direitos considerados essenciais. Documento legal escrito por uma Assembleia reconhecida pelo Estado, base da Constituição que seria aprovada posteriormente e que repercutiu em direitos legais que tiveram atuação real. Declaração americana Apontou para a existência de alguns direitos básicos para defender um outro propósito, a independência. Documento no qual um comitê, representando as Treze Colônias, localizadas na América do Norte, foi nomeado pelo Congresso para redigir a declaração. Essas duas declarações alimentaram o início de um debate sobre os Direitos Humanos e serviram de exemplo durante todo o século XIX para a criação de novos regimes políticos, incentivando os processos de independência das colônias americanas, criando um novo mundo. Declaração Universal de Direitos Humanos No século XX, os valores do mundo se transformaram mais uma vez, agora não por meio de processos revolucionários, mas por duas conhecidas guerras que se iniciaram na Europa, envolveram países de todos os continentes e deixaram um rastro de barbárie e mortes. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 80 Vamos acompanhar como as duas guerras mundiais influenciaram a criação dos direitos humanos como existem atualmente e como essa declaração foi criada. Primeira Guerra Mundial Em janeiro de 1919, pouco depois de acabar a Primeira Guerra Mundial, as nações vitoriosas se reuniram na Conferência de Paz de Paris e assinaram o Tratado de Versalhes que, entre outras decisões, criou a Liga das Nações, um órgão internacional que tinha como objetivo interceder pela paz. Segunda Guerra Mundial Apesar dos esforços dessa organização, poucos anos depois, ou como descreve a Carta das Nações Unidas “no espaço de uma vida humana”, um novo conflito de proporções ainda maiores viria acontecer, a Segunda Guerra Mundial. O mundo se chocou ao viver o horror do uso de novastecnologias de guerra, de campos de concentração e de extermínio em massa, pelos dois lados do conflito. Assim como na Primeira, no final desta Guerra, em 1945, os países vitoriosos se reuniram e assinaram acordos para restabelecer a paz no mundo. Entre as decisões tomadas, criou-se uma organização internacional neutra para substituir a Liga das Nações, a chamada Organização das Nações Unidas (ONU). O objetivo desse novo órgão foi descrito na Carta das Nações Unidas, produzida e assinada na cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, ainda no ano de 1945. Nesse documento, determina-se que a ONU representa um pacto entre as nações que devem se observar e procurar juntas mediar as ações e decisões tomadas por todos, a fim de “preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra” e reafirmar a “fé nos direitos fundamentais do homem e no valor da pessoa humana; na igualdade de direitos dos homens e das mulheres, assim como das nações, grandes e pequenas”. Também eram objetivos desse documento manter a justiça, o respeito, promover o progresso social, melhores condições de vida e a liberdade. Para alcançar esses objetivos, três anos depois, em 1948, a ONU produziu a Declaração Universal dos Direitos Humanos. A Assembleia Geral da ONU desejava que essa Declaração fosse um ideal comum a ser buscado por todos os povos e nações e anunciou trinta artigos que compreendem direitos como a proteção e segurança pessoal, a abominação à escravatura ou servidão, à tortura, ao reconhecimento de todos os indivíduos como seres jurídicos, ao casamento e ao fim dele, ao trabalho e ao repouso, entre outros. Esse documento tornou-se extremamente importante na busca pelos direitos básicos, pois ele não foi um documento regional, como as declarações americana e francesa, mas um tratado internacional, que trabalhou e ainda atua para que esses direitos estejam mais perto de todos os seres humanos. Nela são reconhecidos como direitos inalienáveis a liberdade, a justiça e a paz e é criado um conceito importante para envolver todos os seres humanos em um patamar de igualdade, a ideia de que todos fazemos parte de uma mesma família, a família humana. Essa ideia declara que não há diferença entre os seres humanos, pois todos os indivíduos são parentes e têm a mesma origem, trazendo um sentimento de afeto para reforçar que devemos respeitar o próximo e ter empatia por ele. Saiba mais A Declaração das Nações Unidas de 1948 é o maior documento legal de direitos humanos produzido e, para chegar a todos os seres humanos, essa declaração se tornou o texto mais traduzido no mundo. Com sua grande tradução para vários idiomas e com um grande esforço de circulação, a declaração foi e é analisada e estudada intensivamente por juristas de todas as nacionalidades, que identificam três características que se tornam seus três pilares fundamentais. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 81 Principais Características dos Direitos Humanos Universalidade A primeira característica desses direitos é que eles são universais, como indica o próprio nome. Isso significa dizer que eles devem estar disponíveis ao acesso de todos os membros da família humana igualmente, não podendo ser restringidos a ninguém. Por essa condição, se alguém não puder gozar de algum desses direitos, todos os demais membros da família humana estão ameaçados, pois eles não estão em pleno funcionamento. Assim, não é permitido que algum direito seja aplicado a apenas uma pessoa ou grupo. Exemplo Vamos pensar no direito à liberdade: se em algum lugar do mundo for permitido que algum ser humano seja submetido a condições de trabalho escravo, isso significa que todos os outros seres humanos correm o mesmo risco. Se vale para um, vale para todos. Interdependência Outra característica é que esses direitos são interdependentes, ou seja, um direito complementa o outro, a existência de um está condicionada à existência de todos os demais. Aqui entendemos que nenhum direito é mais importante do que os demais. Eles se apoiam, como em um castelo de cartas. Se um for ameaçado, todo o conjunto pode ruir. Exemplo Se alguém estiver passando fome, ou seja, se tiver o seu direito de ter uma alimentação adequada ameaçado, é possível que essa pessoa não consiga exercer a seu direito à liberdade, pois a essa pessoa nada mais interessará, e todos os seus esforços estarão focados em alimentar-se, e ela pode acabar aceitando qualquer condição imposta. Sua liberdade dependerá do acesso à alimentação. Assim, podemos dizer que um direito só funciona se o outro também funcionar. Indivisibilidade A última característica é a indivisibilidade, que significa que não pode haver uma divisão desses direitos em categorias. É preciso entender e respeitá-los como um todo, enxergando que os direitos individuais, políticos, sociais e econômicos interagem e não podem ser afastados uns dos outros. Exemplo Não é possível que uma nação mova esforços para garantir apenas os direitos políticos da sua população sem garantir os direitos individuais dela, pois esses dois direitos não estão separados. Vamos pensar nos primeiros anos da República no Brasil, no final do século XIX e o início do século XX. Naquele momento, novos direitos políticos foram criados, permitindo que alguns homens votassem e escolhessem seus governantes. No entanto não foram criadas condições para que o direito individual fosse respeitado e, assim, esses eleitores eram ameaçados para que o voto fosse dado a um candidato específico. Fases dos Direitos Humanos Ao acompanhar a trajetória dos Direitos Humanos, entendemos que seus objetivos e suas características foram construídas ao longo do tempo. Primeira geração As declarações americana e francesa integram a primeira geração, que buscou a liberdade ao rejeitar o controle do Estado absolutista e procurar limitar poderes autoritários, já que esses interferiam diretamente no livre arbítrio de decisões individuais. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 82 Segunda geração A segunda geração, no século XX, com as declarações e os tratados internacionais das Nações Unidas, reafirmou a liberdade da primeira geração e buscou a igualdade, criando a ideia de família humana, em que todos os seres humanos foram postos no mesmo patamar. Terceira geração A partir dos anos de 1960, a última geração avançou sobre os direitos coletivos e difusos, ou seja, os direitos que representam os indivíduos, mas que são do interesse de todos e que só podem ser exigidos por todos juntos. Enfatizou-se a defesa de interesses como a preservação do meio ambiente, o direito à paz e o compartilhamento de conhecimento, tecnologia e cultura. Para entendermos melhor, vamos observar o exemplo da preservação da Floresta Amazônica, que é uma preocupação coletiva e só pode ser exigida em nome de todos. Para concluir, podemos entender que a questão dos direitos demanda atualização e esforço por sua manutenção. Apesar da intenção de colaborar com a criação de direitos básicos, nenhuma das três declarações citadas teve valor constitucional, isto é, nenhuma teve valor de lei, foi capaz de garantir os direitos universais ou de impedir regressos. Saiba mais Pouco depois da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a França voltou a ter um rei no poder e depois da produção da Declaração dos Direitos Humanos, o mundo voltou a vivenciar diversas guerras, genocídios e ditaduras. Entendemos que esses direitos não são garantias, e, sim, um trabalho em progresso. Por isso, precisamos estar sempre vigilantes para não retrocedermos em nenhuma conquista. 2. Argumentos teóricos e as críticas aos Direitos Humanos Fundamentação e Reconstrução de Direitos Humanos Ao acompanhar a trajetória dos Direitos Humanos, entendemos que eles são frutos de um processo histórico que combinou ideias, pensamentos e necessidades de muitos momentose grupos. Atualmente, rejeitamos as ideias de um rei com todo o poder concentrado em suas mãos e de uma sociedade que define nosso lugar social desde o nascimento sem chances de definirmos nossas próprias vidas, mas nem sempre foi assim. Para que direitos como a limitação de poder e o princípio de igualdade se efetivassem como tratados ou leis, foi preciso construir uma grande argumentação teórica baseada em tradicionais correntes jurídicas filosóficas. Para entender a sustentação teórica dos Direitos Humanos, vamos analisar essas correntes e entender sua argumentação e suas críticas. Os Direitos Humanos podem ser justificados por, pelo menos, três correntes filosóficas: jusnaturalista, positivista e moral. Jusnaturalismo No jusnaturalismo, o direito é visto como algo intrínseco e natural ao ser humano e às leis, como resultados desse pensamento, funcionando antes mesmo de serem legalizadas pelas constituições ou pelo Estado. Na Antiguidade, os direitos jusnaturalistas foram interpretados como direitos de origem divina e, posteriormente, na Modernidade, foram entendidos pelo uso da razão humana e vistos como direitos naturais. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 83 Segundo essa corrente, eles existem, pois haveria uma demanda natural da sociedade por certos princípios, sendo os direitos uma consequência natural da organização dos homens e mulheres, existindo independentemente de qualquer constituição ou diploma legal. Exemplo Para compreensão do pensamento jusnatural temos o direito à vida. Os jusnaturalistas acreditavam que se as pessoas têm naturalmente a ideia de que tirar a vida de outro ser humano é um ato injusto, seria desnecessário uma lei para impedir que as pessoas se matem. Atenção O uso do argumento jusnatural para defender os Direitos Humanos, no entanto, sofre uma crítica, pois, acompanhando o seu desenvolvimento histórico, entende-se que os Direitos Humanos não são pré-existentes ou uma necessidade natural da vida em sociedade. Como nos mostra a história, os Direitos Humanos seriam fruto da evolução, da necessidade e do entendimento de um grupo. Na crítica ao fundamento jusnaturalista, podemos ressaltar o questionamento feito pela professora Lynn Hunt sobre a natureza “autoevidente”, definida pela Declaração de Independência dos Estados Unidos; se esses são direitos tão óbvios por que eles precisam ser reafirmados de tempos em tempos? Positivismo A corrente jurídica do positivismo entende que os direitos não são elementos naturais numa sociedade. Eles seriam o resultado de discussões e entendimentos do Estado, que decide pela oficialização e pela legalização de uma certa norma. Segundo essa corrente, o direito só existe por determinação legal, ou seja, os Direitos Humanos só passam a existir quando são institucionalizados e recebem o reconhecimento em forma de lei, em constituições ou em tratados internacionais. Para os positivistas não existem direitos como ideias, e os Direitos Humanos são apenas o que a lei determina que são Direitos Humanos. Se estão representados apenas por declarações, eles não existem e ninguém tem a obrigação de segui-los. Atenção A crítica acusa que a interpretação literal do que é um direito enfraquece a proteção dos Direitos Humanos, pois deixa de fora uma série de direitos de grande importância, que são reconhecidos pela comunidade ou que ainda estão sendo discutidos, antes de ser inscritos em alguma legislação. Considerar apenas o que está previsto em lei implica numa redução de direitos. Moralismo A corrente moralista, como a jusnaturalista, defende que os direitos são normas que não precisam da sua oficialização em leis e constituições para ter validade; sua importância está diretamente relacionada às necessidades e aos valores da sociedade em que estão inseridos. Mas, diferentemente do jusnaturalismo, o direito moral não acontece naturalmente na sociedade, ele se baseia nas necessidades e nos valores específicos morais e éticos de um determinado grupo. Exemplo Não há uma lei que obrigue que as pessoas precisam respeitar uma fila que tenha se formado, ninguém será preso por furar uma fila. Em algumas culturas, essa regra é importantíssima, e você pode até mesmo se ausentar da fila por algum motivo que, ao retornar terá seu lugar garantido, enquanto, em outros grupos, passar à frente de uma pessoa que estava desatenta não é um grande problema, e é até normal. Atenção Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 84 A crítica a essa corrente aponta também para uma limitação que põe em risco os direitos, pois, se cada sociedade possui seu próprio conjunto de valores e tem um entendimento moral, vários direitos humanos diferentes seriam reivindicados pelo mundo, e o conjunto se enfraqueceria como um direito universal. Construção Teórica dos Direitos Humanos Apesar das diferenças evidentes, essas três teorias não se contradizem nem disputam entre si, elas se complementam e colaboram para que os direitos humanos tenham sustentação e atuação mais forte na sociedade. É importante lembrar que a Declaração Universal de Direitos Humanos e os demais tratados da ONU são declarações de intenção, ou seja, não são leis válidas por si só. Eles estão baseados nas teorias moral e jusnatural e precisam do esforço e das estruturas legais dos países inscritos nas Nações Unidas para que se positivem, ou seja, que se tornem legais e, de fato, possam ser acessados com mais efetividade por todos. Entretanto, sem o entendimento jusnatural e sem uma base moral e os esforços das Nações Unidas, os defensores desses direitos não têm argumentos no debate, a fim de conseguir valor legal em todos os lugares do mundo e, assim, alcançar toda a família humana. Para refletirmos, se os direitos humanos fossem somente de natureza jusnatural, sem apoio moral, ou seja, se não estivessem de acordo com os valores da sociedade, não haveria um entendimento da sua urgência e eles não teriam aplicação prática na sociedade. Da mesma forma, se os direitos humanos não tivessem uma argumentação baseada nos valores morais da sociedade, dificilmente eles conseguiriam se transformar em discussões e, posteriormente, em leis, e não seriam positivados. Vejamos o direito defendido pelo artigo 5º da declaração de 1945, que diz que “ninguém será submetido à tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes”. Pela doutrina jusnatural, ninguém deveria ser submetido à tortura, pois isso é um direito autoevidente, é um entendimento natural que isso não deve acontecer, mas, se o ato não for ilegal naquela nação, ou se aquele valor não estiver inscrito também na moral daquela sociedade em questão, corre-se o risco de que se ignore o senso comum e a tortura, de fato, aconteça. Para entendermos a complexidade dessas correntes, também podemos pensar nas discussões do Tribunal de Nuremberg, uma corte internacional formada ao final da Segunda Guerra Mundial para julgar os oficiais de alta patente do regime nazista alemão pela acusação dos crimes contra a humanidade. Na ocasião, a defesa dos militares nazistas foi montada sob o argumento de que seus atos eram legais dentro do sistema de leis alemãs vigente no momento das ações, ou seja, quando os crimes foram cometidos, nos locais em que foram cometidos, eles não infringiram nenhuma lei. Nesta argumentação, pela corrente jusnaturalista, deve-se descartar o argumento da legalidade e se condenar os atos como crimes, por se tratar de atitudes que deveriam ser naturalmente rejeitadas por todos. Por outro lado, a ideologia positivista alega legitimidade dos atos dentro do sistema legal da nação onde ocorreram. Essa corrente ficou abalada e foi amplamente questionada por ter dado respaldo legal a ações dessa natureza, legitimando atuações com indiferença aos valores éticos. Ruptura e Reconstrução dos Direitos Humanos Além do debatesobre a legalidade, as políticas dos regimes fascistas foram um marco para as discussões sobre violação de direitos e a responsabilidade da comunidade internacional em situações como essa. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 85 A filósofa alemã Hannah Arendt produziu importantes reflexões sobre o tema já que parecia que, apesar do debate político e teórico que havia sobre direitos universais até a primeira metade do século XX, todo o esforço político e filosófico não produzira efeitos práticos na sociedade. Analisando os acontecimentos daquela época, Arendt, que escreveu seus estudos na metade do século XX, propôs que havia acontecido uma ruptura nos Direitos Humanos, não somente por parte dos regimes totalitários, de direita ou de esquerda – incluindo-se o regime stalinista na União Soviética -, mas também por conta das políticas imperialistas praticadas naquela época, quando alguns países impuseram políticas racistas de exploração e domínio sobre diversos povos africanos e asiáticos. Se, após anos de debate sobre o assunto, o mundo vivenciou tais políticas bárbaras de desrespeito à vida, era necessário refletir e criar novas condições para uma reconstrução dos direitos universais. Segundo a filósofa, uma questão para se reconstruir esses direitos era dar atenção aos homens e mulheres que perderam seu lugar na sociedade e na política, sejam por eles serem minorias ou por terem tido necessidade de sair de seu local de origem, tornando-se apátridas ou refugiados. Esse foi o problema fundamental que se agravou no período entreguerras. Após a dissolução dos impérios ao final da Primeira Guerra Mundial, alguns grupos, como os armênios, os húngaros e os romenos, perderam sua nacionalidade e se tornaram apátridas. Outros grupos tiveram de sair e se refugiar em outros países, como milhares de judeus alemães, que fugiram das políticas antissemitas do regime nazista (neste grupo encontra-se a própria Hannah Arendt e seus familiares). Houve, ainda, aqueles que sofreram perseguições por suas escolhas religiosas, de afetividade ou por convicções políticas, como os anarquistas e os comunistas. Houve, nesse período, um grande deslocamento geográfico de pessoas pela Europa. Ao fugir de suas terras, elas entraram como imigrantes em outros países, perdendo a proteção legal do Estado. Para Arendt, o grupo dos apátridas foi o que teve a situação mais angustiante e o que mais precisava de atenção, pois, além de terem perdido seus direitos, eles não eram reconhecidos como iguais perante a lei, já que a lei nem existia mais para eles. Ao ser expulso da sua comunidade, o apátrida se vê isolado e destituído da sua humanidade. Com tantas pessoas sem proteção de um Estado, surge a necessidade de uma política internacional que garanta o atendimento dos direitos a essas pessoas independentemente da sua situação. A ideia central de Hannah Arendt para a reconstrução dos direitos humanos é a de que o primeiro direito a ser defendido tem de ser o direito a se ter direitos. Se há lugares no mundo onde indivíduos não têm acesso a nenhum direito ou lhes é negado até mesmo o direito a participar dos debates políticos; não tendo acesso a todo esse sistema internacional, ele está excluído. Esta nova situação, na qual a humanidade assumiu antes um papel atribuído à natureza, ou à história, significaria nesse contexto que o direito a ter direito, ou o direito de cada indivíduo a pertencer à humanidade deveria ser garantido pela própria humanidade. (ARENDT, 2004, p. 332) Em outras palavras, seria necessário garantir que todos os homens e mulheres sem condições ou exceções obtenham proteção jurídica na mesma medida que todos os demais. O indivíduo deveria ser reconhecido como cidadão do mundo ou, como foi dito na declaração da ONU, integrante da família humana, sem diferença entre nativo e estrangeiro. Se o indivíduo precisa ter direitos acima do Estado, ele também necessita de um Estado para transformar o princípio dos Direitos Humanos em lei na sociedade onde vive. Os Direitos Humanos são progressivamente conquistados e devem ser continuamente defendidos, baseando-se em argumentos bem construídos, a partir de suporte teórico e ações positivas. Observando as rupturas sofridas, entendemos que seu estabelecimento não é definitivo e precisa ser questionado e redefinido de tempos em tempos. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 86 3. Diversidade das culturas aos Direitos Humanos Fundamentos do Universalismo Versus Multiculturalismo O ano de 1948 se tornou um marco na história dos Direitos Humanos Naquele ano, as Nações Unidas proclamaram sua declaração, propondo que este recurso estivesse à disposição de todas as pessoas da família humana. Esta declaração pretendia servir de base para a garantia de direitos em todos os lugares do mundo. No entanto, não foi denominada como uma declaração internacional, mas autointitulada de declaração universal. A escolha do seu nome atendia à ideia de que esses direitos deviam estar acima de um ou outro país e proclamava que esses direitos pertencem a todo mundo sem nenhuma condição ou exceção. Ao pensar sobre a universalidade, surgiu um novo questionamento: seria possível criar um direito básico que atendesse a todas as demandas, independentemente do gênero, da religião, da nacionalidade ou qualquer outra característica da pessoa? Os Direitos Humanos deviam ou podiam ser universais? A ideia de ser um recurso legal básico disponível para o mundo inteiro parecia ideal e irrecusável. Se direitos são vistos como benefícios, não haveria razão para ser rejeitada por alguém, mas, apesar da boa intenção, a ideia não foi aceita unanimemente. Saiba mais Há anos, a questão vinha sendo discutida e a universalidade desses direitos vinha sendo contestada, principalmente pelos países não europeus, que não concordavam que essa declaração atendesse a todas as culturas. Eles enxergavam que a proposta foi produzida a partir dos princípios ocidentais, com fortes tendências eurocêntricas, e que ela impôs o que devia ser acolhido por todos, sem levar em consideração que, em outras partes do globo, existem culturas diferentes, outras demandas sociais, outras religiões além do cristianismo e de outras formas de organização política. Críticas ao universalismo Para os críticos da universalidade dos Direitos Humanos, a ideia de se criar um conjunto de direitos básicos capazes de atender a todos se mostra até mesmo soberba, se levarmos em consideração que ela foi escrita por um grupo, e não por todas as nações. A partir dessa ideia, poderia ser criada a noção de que existe um grupo que é capaz de entender sozinho as necessidades de todo o mundo e que pode decidir por todos o que é necessário para se ter uma vida digna sem consultar aqueles que irão usufruir desse modo de vida. Dessa maneira, reforça-se a ideia de hierarquia e desigualdade, segundo a qual um grupo ou uma cultura é superior a outro e que pode ter a tutela do mundo. Por esse ponto, surge também uma acusação de que, ao se fazer dessa declaração universal, pode- se chegar ao efeito de uma prática imperialista, pois são impostas políticas de um grupo sobre os demais. Pensar a universalidade dos Direitos Humanos como uma prática imperialista é um ponto especificamente interessante, pois, segundo Hannah Arendt, foram justamente as políticas imperialistas praticadas pela Europa no final do século XIX que romperam os Direitos Humanos no passado e deram origem aos grandes conflitos do século XX. Assim, a universalidade acabou tornando-se um objetivo contraditório, pois, ao mesmo tempo em que procura garantir direitos a todos, acaba ocasionando sua própria ruptura. Respondendo à acusação de ser uma declaração imperialista e imposta ao mundo, os defensores do caráter universal da carta argumentam que, após a elaboração da Declaração, diversos países, de todosos continentes e das mais variadas culturas, aderiram voluntariamente ao documento. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 87 Assim, a legitimidade do caráter universal da Declaração mostrou-se naturalmente, na medida em que os países se preocupam em adaptar suas constituições a esses valores, esquecendo-se de que uma das principais características dessa Declaração é que ela é um objeto histórico, fruto do seu tempo, resultado das necessidades de uma época, que procura atender às demandas de uma parte da sociedade, geralmente a que a produziu, e que está em constante mudança e adaptação e nunca se tornará definitiva, sempre havendo o que melhorar. Multiculturalismo Diante de tantas críticas, surge o multiculturalismo, uma corrente em contestação à visão universalista e que amplia as possibilidades de inclusão desses direitos em todo o mundo. Essa corrente tem como um de seus principais apoiadores o sociólogo Boaventura de Souza Santos que, apesar de ser português, critica a visão eurocêntrica da Declaração e procura discutir as diferenças culturais existentes no mundo para contribuir com uma declaração mais plural. O sociólogo afirma que é natural que todas as culturas enxerguem os seus princípios como os valores mais corretos, que deveriam ser adotados pelos demais — ou não cultivariam aqueles hábitos. A questão é que os ocidentais são os únicos que ultrapassam os limites, buscando se expandir e se impor a todo o restante do mundo. Ele diz que quando se assume a ideia da universalidade dos Direitos Humanos, tenta-se impor as vontades locais ao todo, e que a solução para tal problema seria aceitar as diferenças existentes no mundo e mudar a qualificação desses direitos, de universais para multiculturais. Caso contrário, a Declaração acaba se tornando um instrumento que põe as civilizações em choque umas com as outras. Atenção É importante reconhecer esses problemas para não cairmos na armadilha de relativizar todas as atitudes em nome dos valores locais. Boaventura combate a ideia de relativizar as culturas ao extremo e justificar todas as ações cometidas sem questioná-las. O que dizer de se assistir a uma sociedade que provoca o mutilamento genital de meninas e mulheres sem questionar, permitindo que atrocidades sejam cometidas em nome da cultura? Assumir as imperfeições e os limites da cultura é o melhor caminho para a construção de direitos humanos multiculturais. Para Santos, o multiculturalismo representa o equilíbrio entre a competência global e a legitimidade local, ou seja, entre aquilo que precisa ser um ponto em comum entre todos e o respeito das características de cada comunidade. Antes de tudo, é necessário criar um conjunto de direitos que promova a igualdade ao mesmo tempo que são respeitadas as diferenças culturais das diversas comunidades. [...] temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades. (SANTOS, 2003: 56) Devemos reconhecer as diferenças entre os seres humanos, mas essa diferença não pode provocar nem desigualdade e tampouco uma hierarquia, definindo pessoas em condições superiores ou inferiores umas às outras, ou determinando quem deve mandar e quem deve obedecer, quem deve ser respeitado e quem deve se submeter. Diversidade cultural É preciso procurar, por meio do diálogo intercultural, atitudes que possam ser assumidas em diversos grupos ou que sejam praticadas de formas diferentes, mas que tenham o mesmo objetivo de não inferiorizar o outro. Atenção Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 88 Nunca se deve assumir um valor que classifique uma cultura ou um grupo como mais correto que outro. Sobre essa relação de diferença e igualdade, podemos pensar no seguinte exemplo: homens e mulheres são diferentes, mas isso não é, ou não deveria ser, motivo de tratamento desigual pela sociedade. As doutrinas cristã e judaica oferecem visões religiosas distintas, mas, para a sociedade, essa questão não deveria ser hierarquizante nem gerar disputa entre seus praticantes. Outro ponto que deve ficar claro a respeito das culturas é que elas são dinâmicas e que igualdade não é sinônimo de uniformidade: apesar de serem originários do mesmo continente, norte-americanos, brasileiros e argentino têm características bastante diferentes. As versões de uma mesma cultura precisam ser também avaliadas e entendidas separadamente para não se criar falsas generalizações. Dentro do grupo dos islâmicos, existem os xiitas, os sunitas e outras correntes. As ideias de cada um desses grupos podem ser iguais em certo aspecto e radicalmente contrastantes em outros. Todas as diferenças devem ser aceitas pela sociedade desde que nenhum valor inferiorize ou ameace o outro. A burca utilizada pelas mulheres mulçumanas deve ser compreendida como um hábito cultural, mas debatida quando mulheres que não a desejam, sejam obrigadas a vesti-la. A aceitação das diferenças é importante até mesmo para que se garanta que os Direitos Humanos sejam atendidos. Em cada sociedade, um direito irá repercutir de uma maneira. Um princípio contrário às práticas cotidianas locais pode levar ao descumprimento contínuo de um direito, seja ou não seja lei. Sem aceitação da comunidade, o direito não tem efetividade. É preciso lembrar que os Direitos Humanos estão em constante debate e evolução e que, há anos, as Nações Unidas assumem a missão de mediar os interesses de todos e promover debates acerca do assunto para reorganizar os direitos universais. Mesmo admitindo a existência de críticas, é preciso reconhecer o esforço da Declaração Universal e de tantos outros tratados e documento redigidos pela ONU, ainda que alguns posicionamentos sejam questionáveis é pelo trabalho que se faz uma movimentação global por um debate que visa promover os sistemas jurídicos dos países em busca de uma situação confortável para todos. A sociedade deve seguir aprendendo a tratar todas as pessoas com igualdade e a compreender as diferenças da família humana. Dignidade da Pessoa Humana e a Ordem Jurídica Se em um primeiro momento as declarações de direitos essenciais preocuparam-se com a garantia da liberdade e da igualdade, no século XX, outro conceito passou também a ser considerado fundamental: o respeito à dignidade da pessoa humana. O primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas assinado em 1948 afirma: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. O Brasil, que participa da ONU e que firmou o compromisso de garantir os direitos humanos a seus indivíduos, positivou essa ideia na Constituição de 1988, que está em vigor. Também no primeiro artigo da nossa Carta Magna, registra-se que a “República Federativa do Brasil (...) tem como fundamentos: I – a soberania; II – a cidadania; III – a dignidade da pessoa humana”. A importância da dignidade é tratada em outros momentos, como no Artigo 170, no qual consta que toda ação econômica tem como finalidade garantir uma existência digna. O artigo 230 define que é dever da família, da sociedade e do Estado defender a dignidade das pessoas idosas. A seguir, veremos o conceito de dignidade da pessoa humana. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 89 Dignidade da pessoa humana Dignidade da pessoa humana são as condições mínimas necessárias para que uma pessoa viva uma vida justa, em condições adequadas e sem depreciação. Este é um valor absoluto, regulador de todos os objetivos do ser humano, pois nada é mais importante do que a garantia das condições vitais para a sobrevivência nesse mundo. É uma noção incomensurável, insubstituível e que não permite equivalente, ou seja, é um valorque não tem como ser medido de forma quantitativa ou qualitativa. A dignidade humana não pode ser trocada por nenhuma outra coisa, possui um valor que não é comparável a nenhum outro. Não há uma definição legal única que determine que condições são essas, pois elas variam em cada cultura ou sociedade. Veja os dois exemplos a seguir: 1. Para um homem europeu, ateu e inserido no mundo capitalista, essa noção pode estar completamente baseada nas conquistas financeiras e na possibilidade de desenvolvimento da sua carreira ou do seu negócio. 2. Já uma mulher, árabe e praticante do islamismo pode ter essa noção amparada na possibilidade de constituir uma família e de criar seus filhos dentro dos princípios da sua religião. Seja como for, mesmo variando, é certo que todos os grupos e culturas nutrem valores básicos que formam seu conceito de dignidade humana. Nas sociedades ocidentais, podemos reconhecer as condições da dignidade da pessoa humana como as que foram trazidas na Declaração dos Direitos Humanos da ONU, pois, se a declaração foi escrita por representantes da cultura ocidental como os valores mínimos necessários para todas as pessoas, é lá que estão descritos os seus pilares. Porém, apesar de serem direitos universais, eles não refletem as condições da dignidade humana em todas as culturas do mundo. Comentário Segundo o sociólogo Boaventura de Souza Santos, para que os direitos humanos alcancem o maior número de pessoas da família humana e se tornem multiculturais, é fundamental ter clareza de que todas as culturas possuam sua concepção de dignidade da pessoa humana e que nem todas enxergarão a sua noção de dignidade contemplada nos termos da declaração das Nações Unidas. Para o melhor consenso, já que nem todas as concepções de dignidade humana conseguirão ser contempladas, por serem opostas ou contraditórias, uma solução seria procurar atender ao maior número possível de seres humanos, buscando uma versão mais aberta do conceito, ou seja, a visão da dignidade humana que melhor será aceita dentro das particularidades das outras culturas. Atenção Dentro de uma mesma cultura, pode haver diversas correntes, umas mais conversadoras que outras e nenhuma concepção de direitos humanos seria capaz de agradar a todas elas. Dentro dos regimes políticos ocidentais, por exemplo, há regimes democráticos e autoritários, e mais inflexíveis e o diálogo é sempre bem-vindo. Transformações no Conceito Também é necessário compreendermos que, assim como os direitos humanos são um conceito construído a partir das demandas históricas que se modificam na medida em que novos acontecimentos surgem, a noção de dignidade da pessoa humana de cada grupo e de cada época também é mutável. Uma significativa transformação desse conceito aconteceu no momento após a Segunda Guerra Mundial, quando houve a chamada “virada kantiana”, que rejeitou qualquer espécie de coisificação e instrumentalização dos homens e mulheres. A dignidade da pessoa humana passou a ser considerada um fim para a humanidade e não um meio para a construção do mundo. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 90 Atualmente, não são mais as pessoas que precisam se esforçar para construírem uma sociedade agradável, mas o contrário, o mundo é que precisa ser agradável para que as pessoas possam viver em plenitude, seguras e felizes. Estruturação dos Direitos Universais É quando se inverte a lógica e se assume que a sociedade deve acolher as pessoas, e não o contrário, que a carta de Direitos Humanos universais das Nações Unidas é escrita. A partir daquele momento, segundo o professor Fernando Quintana (1999), podemos separar os esforços da ONU com os Direitos Humanos Universais em três fases de composição: Primeira fase Seria a burocrática, a fase da definição dos Direitos Humanos. Segunda fase Período de promoção e estabelecimento desses direitos pelo mundo, quando foram realizados congressos, publicações e diversos debates e estudos. Terceira fase A atual fase de proteção, em que é necessário observar e controlar o estabelecimento e o cumprimento desses direitos. Foram criados comitês e grupos para fiscalizar e denunciar violações dos Direitos Humanos em todos os países que aceitaram integrar ou não as Nações Unidas. Para garantir o sucesso dessa declaração e o acesso aos direitos fundamentais a toda a “família humana”, também foi necessário comprometer os países, fazendo com que assumissem compromissos e tratados e construíssem um sistema que possibilitasse seu funcionamento. Dessa forma, desde 1966 até os dias atuais, já foram assinados nove tratados que devem ser observados e implementados pelos países membros e que levam em consideração temas específicos como a tortura, os imigrantes, as crianças, as pessoas com deficiências e a discriminação racial e contra a mulher, entre outros. Além disso, constituiu-se uma estrutura chamada Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos, por órgãos como os comitês regionais; o Sistema Interamericano de Direitos Humanos; o Sistema Europeu de Direitos Humanos e o Sistema Africano de Direitos Humanos. Esses sistemas regionais acompanham diretamente os países integrantes e se responsabilizam pelos demais países que não fazem parte de nenhum comitê regional, não ficando estes excluídos de acionar os direitos internacionais. É papel dos comitês regionais se responsabilizar pela proteção de pessoas cujos países não têm um órgão similar. Ou seja, cabe a esses comitês ultrapassarem sua esfera e prestarem auxílio a países e cidadãos de países sem comitê regional que necessitem de acolhimento e de proteção, fazendo valer o princípio de que antes de o indivíduo ser pertencente a um país, ele é integrante da família humana. 4. Estruturação dos Direitos Humanos no Brasil Brasil e o Contexto da Proteção dos Direitos Humanos Se a Segunda Guerra Mundial foi o fator-chave para que, ainda na primeira metade do século XX, a Europa Ocidental e a América do Norte começassem a pensar na atual ideia de direitos humanos, o Brasil, que não teve participação direta no conflito e tem outra história, outra sociedade com outros problemas e outras questões sociais, percorreu um caminho diferente na construção e na garantia desses direitos. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 91 Participamos do esforço inicial das Nações Unidas, mas suspendemos nossos trabalhos por algumas décadas e, só no final dos anos de 1980, conseguimos positivá-los em nossa Constituição de 1988. Consequentemente, se aderimos aos Direitos Humanos mais tarde, isso significa que ainda estamos trabalhando no seu desenvolvimento e, pensando na situação atual do país e da população brasileira, ainda teremos muitos desafios para consolidá-los. Muitos questionamentos podemos fazer: • Como desenvolver leis que tenham por princípio que todas as pessoas são iguais em um país de extrema desigualdade? • Conseguiremos superar nosso passado de atraso? • Em qual estado nos encontramos e quais são nossas perspectivas? Formação política e social O Brasil é um país consideravelmente jovem e em pleno desenvolvimento político. Da nossa trajetória histórica, costumávamos conhecer e contar apenas uma parte, a partir da chegada dos europeus neste território. A seguir, confira o processo de desenvolvimento político e social: O ano de 1500 foi marcante para os povos que aqui habitavam, pois, depois do primeiro contato dos nativos com os portugueses, não demorou muito para que os interesses dos europeus dominassem a dinâmica local e se sobrepusessem às necessidades dos povos indígenas. A partir daquele momento, houve silenciamento e uma brutal transformação cultural, política e social. Por bastante tempo, fomos colônia de Portugal. Inicialmente, houve pouco interesse da metrópole em explorar nosso território. As primeiras políticas implementadas aqui tiveram o objetivode ocupar as terras para que não fossem tomadas por franceses e holandeses. A intensa produção de açúcar tinha como estrutura uma pequena elite administrando os engenhos e bastante uso de mão-de-obra escrava indígena e africana trabalhando arduamente nas engrenagens. Com a descoberta do ouro em Minas Gerais, a população cresceu, mas a sociedade continuou dividida entre uma pequena elite que enriquecia e trabalhadores escravizados que suavam nas minas. Em 1822, o Brasil se torna oficialmente independente de Portugal, mas continua com boa parte da estrutura colonial. Ao contrário de outros países, o presidencialismo não substituiu a monarquia, tampouco o trabalho escravo foi interrompido. O governo imperial retardou a abolição da escravidão até quando não foi mais possível, e o Brasil acabou sendo o último país a assinar a abolição da escravatura. Quando a Lei Áurea libertou os escravizados, nenhuma política foi criada para dar assistência aos libertos, que abandonados pelo poder público, encontraram muitas dificuldades para sobreviver. Um ano depois da abolição, em 1889, foi proclamada a República no Brasil. Nos primeiros anos, a participação política se manteve limitada a uma pequena parcela da sociedade. Somente ao longo do tempo que conseguimos conquistar a ampliação dos direitos políticos para todos. Nas primeiras décadas desse regime, mulheres, indígenas e analfabetos não podiam votar para eleger um representante e tampouco se candidatar para lutar pelos seus direitos. A nossa República é considerada um regime político muito frágil. Ao longo dos anos, passamos por alguns processos de impeachmente por dois longos períodos de ditadura em que o Congresso Nacional foi fechado, a Constituição deixou de ter poder legal e o povo teve uma série de direitos suspensos. Foi somente em 1988, ao final do regime militar, que conquistamos uma nova Constituição, garantindo amplos direitos para o povo, em vigor até os dias atuais. Pela grande quantidade de direitos garantidos ao povo, essa Constituição recebeu o apelido de Constituição Cidadã. Constituição de 1988 A Constituição de 1988 é a oitava Constituição escrita no nosso país, um número considerado muito alto. Alguns países, como os Estados Unidos, usam a mesma Constituição desde o início de sua formação jurídica, ou precisaram passar por poucas renovações. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 92 Atenção A necessidade de reescrever a Constituição várias vezes demonstra nossa instabilidade política e como, no passado, o nosso conjunto de leis não era adequado para garantir direitos a todos nem atendia às demandas da nossa sociedade. A nossa atual Constituição foi escrita para superar a suspensão de direitos que passamos durante o regime militar, para restabelecer a democracia no país e para caminhar para uma redução da desigualdade social e o combate à corrupção. A elaboração dessa Carta foi discutida por mais de um ano e meio por deputados e senadores eleitos democraticamente em 1986. É importante destacar que, dos mais de 500 congressistas participantes, menos de 30 eram mulheres, sendo que nenhuma delas ocupava uma cadeira do Senado Federal, o que mostra ainda a gritante desigualdade de gênero na representação dos brasileiros no setor legislativo. Nessa Carta, foram garantidos os princípios fundamentais do Brasil como a igualdade em direitos e obrigações dos homens e mulheres na sociedade, a liberdade de expressão e a divisão de poderes, que garante que não teremos um poder concentrado nas mãos de uma única pessoa, como nos regimes absolutistas. Também foram assegurados uma série de direitos sociais, como o acesso permanente à educação, à saúde, ao trabalho e ao lazer. Além de ampliar os direitos dos brasileiros, essa Constituição também se compromete com os direitos em nível universal e, logo nos primeiros artigos, determina que o Brasil deve prezar nas relações internacionais pelo predomínio dos direitos humanos. Saiba mais É compromisso da nação fazer parte de tribunais internacionais que discutam tais direitos. Determinou-se, também, que a Defensoria Pública tem a função de promover e defender os direitos humanos em todo o país. É importante destacarmos que apesar de termos uma Constituição escrita de forma democrática e que prevê muitos direitos sociais para o povo, somente ela não é suficiente para garantir uma vida digna aos brasileiros. As determinações nela feitas preveem princípios que devem ser implementados no país, mas, para que isso aconteça, é preciso que uma série de políticas e dispositivos sejam feitas para que funcione. Os poderes Executivo e Legislativo precisam trabalhar juntos. Por exemplo, não basta que a Constituição determine que as pessoas tenham acesso gratuito à saúde, pois, se o poder Executivo não planejar uma estrutura de hospitais e médicos para o atendimento de todos esses direitos, a Constituição passa a ser mero documento de intenção. Brasil na proteção dos Direitos Humanos O Brasil foi um dos países fundadores das Nações Unidas em 1945, mas, apesar da contribuição com a elaboração da Declaração Universal no início da década de 1960, o país interrompeu a consolidação desses direitos quando atravessou duas décadas em um regime militar que suspendeu a Constituição e boa parte de direitos civis e políticos. Atualmente, com os direitos restabelecidos, retomamos o processo de consolidação dos Direitos Humanos e fazemos parte do Sistema Internacional de Proteção aos Direitos Humanos e do Sistema Interamericano de Direitos Humanos, que visa garantir a efetivação desses direitos em nível regional e dar apoio aos cidadãos de país que se encontram desassistidos pelo Estado. Possuímos compromisso ratificado com oito tratados internacionais da ONU: • Convenção sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial; • Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos; • Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais; Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 93 • Convenção sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher; • Convenção contra a Tortura; • Convenção sobre os Direitos da Criança; • Convenção para a Proteção de Todas as Pessoas contra os Desaparecimentos Forçados; • Convenção sobre os Direitos de Pessoas com Deficiência. Nos últimos anos, tornamo-nos bastante ativos na participação das Nações Unidas. Além de retificar tratados, acompanhamos a agenda de debates, integramos, por algumas vezes, o Conselho de Segurança da ONU, e, atualmente, temos participação permanente na Assembleia Geral. Em 2011, nossa então presidenta Dilma Rousseff foi a primeira mulher da história a abrir os debates dessa reunião. Aplicações e desafios dos Direitos Humanos no Brasil A Constituição e as políticas públicas são as principais ferramentas para a aplicação dos Direitos Humanos dentro de uma nação. Se essas estruturas não estiverem sendo suficientes para garantir os direitos básicos e a dignidade da pessoa humana, qualquer pessoa ou organização pode e deve cobrar do governo a fiscalização e a execução deles. Entenda o processo: O Estado não atende Uma vez que o Estado não atenda aos seus cidadãos temos ainda a possibilidade de acionar os sistemas internacionais de proteção dos Direitos Humanos. No caso do Brasil, podemos recorrer ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos. Acionamento dos órgãos competentes No momento em que forem acionados, os órgãos competentes irão investigar e podem condenar o país por violação dos Direitos Humanos. Essas condenações acontecem quando se identifica que os direitos foram fortemente descumpridos e que somente uma decisão judicial ou uma indenização não seria suficiente para reparar aquele problema. Pressão sobre o Estado Quando uma sentença internacional é dada, ela tem como objetivo pressionar o Estado a debater o problema,revisar os sistemas que estejam provocando essas violações e desenvolver leis e políticas públicas que evitem novas violações dos Direitos Humanos. Em nossa história, o Brasil foi condenado por oito vezes pela Corte Interamericana. Uma dessas condenações foi sobre o caso conhecido como Maria da Penha. Em 1983, Maria da Penha sofreu uma tentativa de homicídio pelo seu marido e o processo que deveria condená-lo foi tão extenso e inconclusivo que se passaram 15 anos sem que o culpado fosse preso. O caso foi levado à Comissão Interamericana que, em 2001, quase 20 anos depois, responsabilizou o Estado brasileiro por negligência, omissão e tolerância à violência contra as mulheres. O caso repercutiu na nossa sociedade e, atualmente, temos uma lei com o nome da vítima, cujo objetivo é estipular punição adequada e coibir a violência contra as mulheres. Na nossa sociedade, é comum vermos pessoas relativizando o uso dos Direitos Humanos e desacreditando de sua importância. Isso é prova de que vivemos em um Estado de constante violação dos direitos humanos, onde o desrespeito por direitos básicos é comum e pouco se faz para que seja garantida a dignidade da pessoa humana. No cenário atual do país, ainda é preciso reforçar as instituições democráticas, produzir muito debate, criar políticas públicas e buscar a conscientização popular para que esse conjunto de direitos seja respeitado e a nossa comunidade possa viver com mais dignidade e menos desigualdade. Sistemas de Informação e Sociedade Marcio Quirino - 94 Considerações Finais Concluímos reforçando a ideia de que os Direitos Humanos se constituem em um constante processo de aperfeiçoamento e de descoberta de novas necessidades. Ao longo da história, muitas vezes, os direitos básicos não foram respeitados e o mundo precisou sair em defesa daqueles que não tinham sua dignidade humana considerada. A Declaração Universal de Direitos Humanos da ONU é um dos documentos mais importantes para se garantir o debate e a defesa desses direitos, mas esse documento não é unânime e sofre diversas críticas que reforçam que esse documento nunca estará concluído. No Brasil, tivemos uma história marcada pela escravidão que enraizou uma sociedade extremamente desigual e com diversos problemas sociais. Apesar de fazermos parte das Nações Unidas desde os primórdios e termos colaborado com a constituição da declaração universal, passamos por um bom período de interrupção de garantia desses direitos no país. Foi somente no final da década de 1980 que conseguimos garantir a responsabilidade do Estado no cumprimento desses direitos. E, se a nossa adesão a esses direitos aconteceu tardiamente, isso significa que temos uma estrutura menos firme para sua manutenção, uma adesão menor pela sociedade e maiores desafios para concretizá-los. Nossa organização política ainda é recente e frágil, e o comprometimento da atual Constituição com os Direitos Humanos é uma conquista para a garantia dos direitos dos brasileiros. Referências ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das letras, 2004. BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. 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