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www.dizerodireito.com.br P ág in a1 INFORMATIVO esquematizado Informativo 531 – STJ Márcio André Lopes Cavalcante Obs: não foram incluídos neste informativo esquematizado os julgados de menor relevância para concursos públicos ou aqueles decididos com base em peculiaridades do caso concreto. Caso seja de seu interesse conferi-los, os acórdãos excluídos foram os seguintes: EREsp 878.579-RS; REsp 1.251.331-RS; REsp 1.255.573-RS; REsp 1.365.433-MG. ÍNDICE Direito Administrativo Candidato aprovado dentro do cadastro de reservas tem direito subjetivo à nomeação se forem criados novos cargos? Em ação de improbidade, o juiz pode conceder liminar inaudita altera parte para que o requerido fique sem receber novas verbas do Poder Público. Direito Civil Condomínio tem legitimidade para ajuizar ação de nunciação de obra nova contra condômino que realiza obra irregular. Local onde será proposta a execução de alimentos. Se a sentença fixa alimentos em valor inferior ao da decisão liminar, o novo parâmetro é que será considerado para fins de prisão civil em caso de inadimplemento. Não cabe prisão civil do inventariante em razão do descumprimento do dever do espólio de prestar alimentos. Direito Empresarial Os créditos de honorários advocatícios estão sujeitos à recuperação judicial. Não é cabível compensar débitos da falida com créditos da massa falida resultantes de ação revocatória julgada procedente. Direito Ambiental Não gera dano moral a conduta do IBAMA de não autorizar a queimada de determinada área mesmo que em anos anteriores isso tenha sido permitido. Estatuto da Criança e do Adolescente As escusas absolutórias (art. 181 do CP) podem ser aplicadas ao adolescente infrator. P ág in a1 Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a2 Direito Processual Civil O simples fato de a demanda principal ter sido julgada antes da oposição não é causa de nulidade. De quem é a responsabilidade pela degravação dos depoimentos colhidos mediante carta precatória? O credor tem o direito de recusar a proposta do executado para que seja invertida a ordem de penhora do art. 655 do CPC, a não ser que haja alguma situação excepcionalíssima. Juiz Federal pode declinar, de ofício, execução fiscal quando tiver sido proposta sem obedecer a regra do art. 15, I, da Lei 5.010/66. Direito Penal O benefício do arrependimento posterior comunica-se aos coautores e partícipes que não tenham participado da restituição da coisa ou da reparação do dano. Em condenação por roubo não se pode fixar regime mais gravoso ao réu pelo simples fato de ele ter apontado a arma para o rosto da vítima. Tráfico de maquinário (art. 34). Direito Processual Penal As referências ou a leitura da decisão de pronúncia durante os debates no Júri somente acarretam nulidade se forem feitas como argumento de autoridade. Direito Tributário Formação de CDA em caso de tributos sujeitos a lançamento de ofício não precisa de processo administrativo prévio. É inexigível a cobrança de FUNDAF (uma espécie de taxa) com base em atos regulamentares da RFB por ofensa ao princípio da legalidade estrita. DIREITO ADMINISTRATIVO Candidato aprovado dentro do cadastro de reservas tem direito subjetivo à nomeação se forem criados novos cargos? Neste julgado, o STJ decidiu que os candidatos aprovados em concurso público no cadastro de reserva não têm direito subjetivo à nomeação, ainda que surjam novas vagas durante o prazo de validade do certame, seja em decorrência de vacância nos quadros funcionais, seja em razão da criação de novas vagas por lei. Isso porque, dentro do parâmetro fixado em repercussão geral pelo STF, os candidatos aprovados em concurso público, mas inseridos em cadastro de reserva, têm apenas expectativa de direito à nomeação. Nesses casos, compete à Administração, no exercício do seu poder discricionário (juízo de conveniência e oportunidade), definir as condições do preenchimento dos seus cargos vagos. Obs: vale ressaltar que existem julgados em sentido contrário, ou seja, afirmando que o candidato aprovado em concurso público dentro do cadastro de reserva, ainda que fora do número de vagas originalmente previstas no edital do certame, terá direito subjetivo à nomeação quando, durante o prazo de validade do concurso, houver o surgimento de novas vagas, seja em razão da criação de novos cargos mediante lei, seja em virtude de vacância decorrente de exoneração, demissão, aposentadoria, posse em outro cargo inacumulável ou falecimento (STJ. 1ª Turma. AgRg no RMS 37.982/RO, Rel. Min. Arnaldo Esteves Lima, julgado em 13/08/2013). Comentários Um dos temas mais polêmicos, atualmente, sobre Direito Administrativo diz respeito à existência ou não de direito subjetivo à nomeação de candidatos aprovados em concurso público fora do número de vagas previsto no edital. Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a3 Vou tentar mostrar aqui a posição majoritária no STJ e no STF, ressaltando, contudo, que o assunto ainda está longe de ser pacífico e pode acontecer de os próprios Tribunais ainda mudarem o entendimento sobre o tema. Caso haja alguma alteração, você será avisado. SITUAÇÃO 1 Candidato aprovado dentro do número de vagas tem direito subjetivo à nomeação? Em regra, SIM. O candidato aprovado dentro do número de vagas previstas no edital do concurso público possui direito subjetivo de ser nomeado e empossado dentro do período de validade do certame. Essa é a posição pacífica do STJ e STF. Exceções: O STF, ao analisar o tema em sede de repercussão geral, identificou hipóteses excepcionais em que a Administração pode deixar de realizar a nomeação de candidato aprovado dentro do número de vagas, desde que se verifique a ocorrência de uma situação com as seguintes características (RE 598.099/MS, Pleno, DJe de 3.10.2011): a) superveniência: os eventuais fatos ensejadores de uma situação excepcional devem ser necessariamente posteriores à publicação do edital do certame público; b) imprevisibilidade: a situação deve ser determinada por circunstâncias extraordinárias, imprevisíveis à época da publicação do edital; c) gravidade: os acontecimentos extraordinários e imprevisíveis devem ser extremamente graves, implicando onerosidade excessiva, dificuldade ou mesmo impossibilidade de cumprimento efetivo das regras do edital; d) necessidade: a solução drástica e excepcional de não cumprimento do dever de nomeação deve ser extremamente necessária, de forma que a Administração somente pode adotar tal medida quando absolutamente não existirem outros meios menos gravosos para lidar com a situação excepcional e imprevisível. SITUAÇÃO 2: Se o candidato foi aprovado fora do número de vagas (o concurso não previa cadastro de reserva), mas durante o prazo de validade do concurso foram criados novos cargos, ele terá direito subjetivo à nomeação? Em regra, NÃO. O candidato aprovado fora do número de vagas não tem direito subjetivo à nomeação, mesmo que surjam ou sejam criadas vagas durante o prazo de validade do concurso. Assim, o fato de terem sido criados novos cargos enquanto ainda vigente o concurso não obriga, por si só, a Administração a nomear o candidato aprovado fora do número de vagas. Somente existe direito subjetivo à nomeação dos candidatos aprovados dentro do número de vagas inicialmente previsto no instrumento convocatório, restando à Administração o exercício do seu poder discricionário para definir pela conveniência de se nomear os candidatos elencados em cadastro de reserva. (...) Os candidatos classificados em concurso público fora do número de vagas previstas no edital possuem mera expectativa de direito à nomeação, nos termos do RE 598.099/MS, julgado pelo Supremo Tribunal Federal. (...) (STJ. 1ª Turma. AgRg no RMS 38.892/AC, Min. Benedito Gonçalves,julgado em 16/04/2013) (...) A mera criação de novos cargos enquanto ainda vigente o concurso não garante, por si só, o direito do candidato aprovado, mas não classificado dentre as vagas ofertadas, à nomeação. Tampouco obriga, a princípio, a administração a prorrogar o prazo de validade do concurso, ato discricionário, submetido ao juízo de oportunidade e conveniência administrativas. (STJ. 2ª Turma. AgRg no REsp 1263916/PR, Rel. Min. Castro Meira, julgado em 14/08/2012) Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a4 Exceção: O candidato aprovado fora do número de vagas do edital adquire direito subjetivo à nomeação caso consiga comprovar que: a) surgiram novas vagas durante o prazo de validade do concurso público; e b) existe interesse da Administração Pública e disponibilidade orçamentária para preencher essas vagas. Exemplo dessa exceção: o concurso previu 10 vagas. Foram nomeados 10 candidatos, mas um desistiu e o outro não conseguiu tomar posse por lhe faltar determinado requisito. Logo, os candidatos classificados em 11º e 12º lugares passaram a ter direito subjetivo de serem nomeados. Nesse sentido: STJ. 6ª Turma. AgRg no RMS 30.776/RO, Rel. Min. Assusete Magalhães, julgado em 17/09/2013. Vale ressaltar que “o Superior Tribunal de Justiça pacificou o entendimento de que a contratação precária de terceiros durante o prazo de validade do certame, por si só, gera direito subjetivo à nomeação para os candidatos aprovados dentro do número de vagas disponibilizadas no concurso.” (STJ. 1ª Turma. AgRg no REsp 1188144/GO, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 08/10/2013). SITUAÇÃO 3: Se o candidato foi para o cadastro de reserva previsto no edital e durante o prazo de validade do concurso surgiram novos cargos, ele terá direito subjetivo à nomeação? Aqui a polêmica está mais acentuada, havendo duas correntes sobre o tema: 1ª corrente: Em regra, SIM. Segundo vem decidindo o STJ, “a aprovação do candidato dentro do cadastro de reserva, ainda que fora do número de vagas inicialmente previstas no edital do concurso público, confere-lhe o direito subjetivo à nomeação para o respectivo cargo se, durante o prazo de validade do concurso, houver o surgimento de novas vagas, seja em razão da criação de novos cargos mediante lei, seja em virtude de vacância decorrente de exoneração, demissão, aposentadoria, posse em outro cargo inacumulável ou falecimento.” (STJ. 1ª Turma. AgRg no RMS 37.982/RO, Rel. Min. Arnaldo Esteves Lima, julgado em 13/08/2013). (STJ. 2ª Turma. RMS 38443/AC, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 02/04/2013). Exceções Existem exceções? Em outras palavras, existem casos em que o candidato foi aprovado fora do número de vagas, mas dentro do cadastro de reserva, e que ele não terá direito subjetivo à nomeação mesmo tendo surgido novas vagas? SIM, são as mesmas exceções previstas na situação 1. Assim, o candidato aprovado dentro do cadastro de reservas poderá deixar de ser nomeado mesmo que tenham surgido novos cargos caso se verifique uma situação superveniente, imprevisível, grave e necessária. Exemplo: não haverá direito subjetivo à nomeação do candidato aprovado dentro do cadastro de reservas mesmo que tenham surgido vagas na hipótese em que não houver dotação orçamentária para a realização de nomeações. O reconhecimento da existência de necessidade de servidores não garante, por si só, a nomeação de candidatos, se o orçamento desse ano não suporta o acréscimo de despesas. Nesse sentido: STJ. 2ª Turma. RMS 37700/RO, Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 04/04/2013. Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a5 2ª corrente: NÃO. A 1ª Seção do STJ entendeu que não. Segundo entendeu a Min. Eliana Calmon, os candidatos aprovados em concurso público no cadastro de reserva não têm direito subjetivo à nomeação, ainda que surjam novas vagas durante o prazo de validade do certame, seja em decorrência de vacância nos quadros funcionais, seja em razão da criação de novas vagas por lei. Isso porque, dentro do parâmetro fixado em repercussão geral pelo STF, os candidatos aprovados em concurso público, mas inseridos em cadastro de reserva, têm apenas expectativa de direito à nomeação. Nesses casos, compete à Administração, no exercício do seu poder discricionário (juízo de conveniência e oportunidade), definir as condições do preenchimento dos seus cargos vagos. (STJ. 1ª Seção. MS 17.886-DF, Rel. Min. Eliana Calmon, julgado em 11/9/2013). Penso que prevalece e seja mais acertada a 1ª corrente. Processo STJ. 1ª Seção. MS 17.886-DF, Rel. Min. Eliana Calmon, julgado em 11/9/2013. Em ação de improbidade, o juiz pode conceder liminar inaudita altera parte para que o requerido fique sem receber novas verbas do Poder Público Em uma ação de improbidade administrativa, é possível a concessão de liminar “inaudita altera parte” determinando que o requerido fique proibido de receber novas verbas do poder público, assim como benefícios fiscais e creditícios. Isso porque, ressalvadas as medidas de natureza exclusivamente sancionatória – por exemplo, a multa civil, a perda da função pública e a suspensão dos direitos políticos –, pode o magistrado, a qualquer tempo, com fundamento no poder geral de cautela, adotar a tutela necessária para fazer cessar ou extirpar a atividade nociva. Comentários Imagine a seguinte situação adaptada: O Ministério Público ajuizou ação de improbidade administrativa contra determinado réu em virtude de ele manter contratos supostamente ilegais com a Administração Pública. A improbidade administrativa é regida pela Lei n. 8.429/92. Segundo a referida Lei, após a ação ser proposta, o juiz analisará a petição inicial e, estando ela em devida forma, mandará autuá-la e ordenará a notificação do requerido para oferecer manifestação por escrito dentro do prazo de 15 dias (§ 7º do art. 17). Isso é chamado de “defesa prévia” ou “defesa preliminar”. Providência requerida pelo MP Ocorre que o Promotor de Justiça, na petição inicial, requereu que, antes de ser ordenada a notificação do requerido, o juiz já determinasse que a Administração Pública não mais repassasse novas verbas e benefícios fiscais e creditícios ao requerido. A Lei n. 8.492/92 não prevê expressamente essa providência requerida pelo Parquet. Mesmo assim, o juiz poderá determiná-la? SIM. O STJ decidiu que, em uma ação de improbidade administrativa, é possível a concessão de liminar “inaudita altera parte” (sem oitiva da parte contrária) determinando que o requerido fique proibido de receber novas verbas do poder público, assim como benefícios fiscais e creditícios. Isso porque, ressalvadas as medidas de natureza exclusivamente sancionatória – por exemplo, a multa civil, a perda da função pública e a suspensão dos direitos políticos –, pode o magistrado, a qualquer tempo, com fundamento no poder geral de cautela, adotar a tutela necessária para fazer cessar ou extirpar a atividade nociva, a teor do que disciplinam os arts. 461, § 5º, e 804 do CPC, 11 da Lei 7.347/1985 e 21 da mesma lei, combinado com os arts. 83 e 84 do CDC. Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a6 Desse modo, embora o art. 17, § 7º, da LIA estabeleça como regra a prévia notificação do acusado para se manifestar sobre a ação de improbidade, pode o magistrado,excepcionalmente, conceder medida liminar sempre que verificar que a observância daquele procedimento legal poderá tornar ineficaz a tutela de urgência pretendida. Processo STJ. 2ª Turma. REsp 1.385.582-RS, Rel. Herman Benjamin, julgado em 1º/10/2013. DIREITO CIVIL Condomínio tem legitimidade para ajuizar ação de nunciação de obra nova contra condômino que realiza obra irregular Admite-se ação de nunciação de obra nova demolitória movida pelo condomínio contra condômino, proprietário de apartamento, que realiza obra pela qual transforma sua unidade em apartamento de cobertura. Comentários Imagine a seguinte situação adaptada: Henrique, morador do último andar de um prédio residencial, iniciou uma obra para transformar seu apartamento em cobertura. Ocorre que a referida obra altera a fachada do edifício, contraria as normas municipais sobre construções e coloca em risco as fundações do imóvel, que são bem antigas. O condomínio pode tomar alguma providência? Qual? Poderá ajuizar uma ação de nunciação de obra nova cumulada com ação demolitória, pedindo a paralisação da obra e a destruição da parte já construída. Ação de nunciação de obra nova A ação de nunciação de obra nova serve para impedir que seja executada ou concluída uma construção que viole: as regras sobre direito de vizinhança (previstas no Código Civil); as normas municipais sobre construções; ou as limitações administrativas impostas sobre a propriedade particular. Tal ação está prevista nos arts. 934 a 940 do CPC. Veja o que diz o art. 934: Art. 934. Compete esta ação: I - ao proprietário ou possuidor, a fim de impedir que a edificação de obra nova em imóvel vizinho lhe prejudique o prédio, suas servidões ou fins a que é destinado; II - ao condômino, para impedir que o co-proprietário execute alguma obra com prejuízo ou alteração da coisa comum; III - ao Município, a fim de impedir que o particular construa em contravenção da lei, do regulamento ou de postura. Em nenhum dos incisos do art. 934 do CPC menciona-se o condomínio como sendo um dos legitimados para essa ação. Mesmo assim isso é possível? SIM. Apesar de o art. 934 não incluir o condomínio entre os legitimados para mover a ação de nunciação de obra nova contra condôminos, o STJ admite essa legitimidade, sob o argumento de que o referido artigo deve ser interpretado de forma teleológica, levando em consideração que o condomínio possui evidente interesse de buscar as medidas necessárias para a defesa dos interesses da coletividade que representa. Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a7 Qual é a diferença entre ação de nunciação de obra nova e a ação demolitória? A ação demolitória tem o mesmo objetivo da ação de nunciação de obra nova. A diferença é que a ação de nunciação é proposta quando a construção ainda está na fase de planejamento ou execução. Já a ação demolitória é manejada quando a obra estiver concluída ou em fase de acabamento. Desse modo, a ação de nunciação de obra nova revela-se como uma tutela preventiva e a demolitória como uma tutela repressiva. Nesse sentido: MARINONI e MITIDIERO, p. 850. Se for proposta uma ação de nunciação de obra nova, mas a edificação já estiver concluída, é possível que o juiz converta a demanda em ação demolitória? SIM. Já houve precedente do STJ nesse sentido: “a diversidade de requisitos entre a ação de nunciação de obra nova e a ação demolitória não impede possa ser feita a conversão de uma em outra, quando erroneamente ajuizada” (REsp 851.013/RS, Rel. Min. Hélio Quaglia Barbosa, Quarta Turma, julgado em 05/12/2006). Processo STJ. 3ª Turma. REsp 1.374.456-MG, Rel. Min. Sidnei Beneti, julgado em 10/9/2013. Local onde será proposta a execução de alimentos Em se tratando de execução de prestação alimentícia, o alimentando (credor) poderá escolher, dentre quatro opções, o local onde irá ajuizar a execução: a) o foro do seu domicílio ou de sua residência; b) o juízo que proferiu a sentença exequenda; c) o juízo do local onde se encontram bens do alimentante sujeitos à expropriação; ou d) o juízo do atual domicílio do alimentante. Comentários Imagine a seguinte situação hipotética: Pedro, menor impúbere, representado por sua mãe, ajuizou ação de alimentos em face de seu genitor (João). A demanda foi proposta na vara de família de Goiânia (GO), local de domicílio do menor (art. 100, II, do CP). O juiz julgou procedente o pedido e condenou João a pagar ao filho, mensalmente, o valor de 2 mil reais a título de pensão alimentícia. A sentença transitou em julgado. Dois anos depois da sentença, Pedro e sua mãe se mudam para Campo Grande (MS). A partir daí, João, que vinha cumprindo regularmente sua obrigação, decide não mais pagar a pensão alimentícia. Vale ressaltar que João também se mudou, estando atualmente, em Palmas (TO). Dizem, contudo, que ele pensa em ir para Cáceres (MT), local onde possui duas fazendas e centenas de cabeças de gado. A mãe de Pedro procura a Defensoria Pública, que informa ser necessário o ajuizamento de uma execução de alimentos contra João. Nesse caso, onde deverá ser proposta a execução dos alimentos? Segundo decidiu o STJ, o alimentando (credor) poderá escolher, dentre quatro opções, o local onde irá ajuizar a execução: Opção Fundamento legal (CPC) a) o foro do seu domicílio ou de sua residência; Art. 100. É competente o foro: II - do domicílio ou da residência do alimentando, para a ação em que se pedem alimentos; b) o juízo que proferiu a sentença Art. 475-P. O cumprimento da sentença efetuar-se-á perante: ATENÇÃO Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a8 exequenda; II – o juízo que processou a causa no primeiro grau de jurisdição; Art. 575. A execução, fundada em título judicial, processar- se-á perante: II - o juízo que decidiu a causa no primeiro grau de jurisdição; c) o juízo do local onde se encontram bens do alimentante sujeitos à expropriação; ou Art. 475-P (...) Parágrafo único. No caso do inciso II do caput deste artigo, o exeqüente poderá optar pelo juízo do local onde se encontram bens sujeitos à expropriação ou pelo do atual domicílio do executado, casos em que a remessa dos autos do processo será solicitada ao juízo de origem. d) o juízo do atual domicílio do alimentante. Art. 475-P (...) Parágrafo único. No caso do inciso II do caput deste artigo, o exeqüente poderá optar pelo juízo do local onde se encontram bens sujeitos à expropriação ou pelo do atual domicílio do executado, casos em que a remessa dos autos do processo será solicitada ao juízo de origem. Logo, em nosso exemplo, Pedro poderia propor a execução em uma das seguintes opções: a) Campo Grande (MS); b) Goiânia (GO); c) Cáceres (MT); d) Palmas (TO). Por que o STJ entendeu que seria possível a existência dessas quatro opções, com base na combinação dos referidos dispositivos? Porque conforme esclareceu a Min. Nancy Andrighi, “o descumprimento de obrigação alimentar, antes de ofender a autoridade de uma decisão judicial, viola o direito à vida digna de quem dela necessita (art. 1º, III, da Constituição Federal). Em face dessa peculiaridade, a interpretação das normas relativas à competência, quando o assunto é alimentos, deve, sempre, ser a mais favorável aos alimentandos, sobretudo em se tratando de menores, como na espécie, por incidência, também, do princípio do melhor interesse e da proteção integral à criança e ao adolescente (art. 3º da Convenção sobre os Direitos da Criança e art. 1º do ECA).” A escolha de onde será proposta a execução é do credor e recairá, ou sobre o foro que lhepermita satisfazer, de forma mais eficiente, sua necessidade, ainda que afastado de seu domicílio, ou sobre o foro onde reside, que lhe exige menos esforço financeiro e, portanto, lhe facilita promover a execução. Processo STJ. 2ª Seção. CC 118.340-MS, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 11/9/2013. Se a sentença fixa alimentos em valor inferior ao da decisão liminar, o novo parâmetro é que será considerado para fins de prisão civil em caso de inadimplemento Na hipótese de superveniência de sentença que fixa alimentos em quantia inferior aos provisórios, a prisão civil do devedor somente pode ser admitida diante do não pagamento do valor resultante do cômputo das prestações vencidas com base no novo valor estabelecido pela sentença. Comentários Imagine a seguinte situação adaptada: Alexandre ajuizou ação de alimentos em face de seu pai, João. O juiz, em decisão liminar, fixou os alimentos provisórios em 5 salários mínimos. Após pagar alguns meses, João ficou inadimplente, razão pela qual Alexandre ingressou com a execução dos alimentos pedindo a prisão civil do devedor. Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a9 Nesse meio tempo foi sentenciada a ação de alimentos, condenando João a pagar 3 salários-mínimos. João pagou, então, o que estava devendo, tendo como parâmetro, no entanto, 3 salários- mínimos (o novo valor fixado na sentença) e não 5 salários-mínimos. O juiz não aceitou e manteve a determinação da prisão de João. A decisão do magistrado foi acertada? NÃO. Na hipótese de superveniência de sentença que fixa alimentos em quantia inferior aos provisórios, a prisão civil do devedor somente pode ser admitida diante do não pagamento do valor resultante do cômputo das prestações vencidas com base no novo valor estabelecido pela sentença. Segundo decidiu o STJ, a prisão civil é medida coercitiva extrema, aplicável apenas em situações de débito de pensão alimentícia, em razão da premissa de que a liberdade do alimentante deve ser constrangida para garantir a sobrevivência do alimentando. Por isso, ao decretar a prisão civil do devedor de alimentos, devem-se considerar as peculiaridades do caso concreto, adequando-o à correta compreensão da norma jurídica. Deve-se considerar, nesse contexto, que, por ocasião do arbitramento dos alimentos provisórios, o binômio necessidade e possibilidade é examinado sumariamente, mediante análise de cognição perfunctória. Já na prolação da sentença, o referido binômio é apreciado sob um juízo cognitivo exauriente. Assim, a medida da prisão civil, por ser extrema, não se revela como a via executiva adequada (razoabilidade/proporcionalidade) para coagir o alimentante ao pagamento de um valor fixado em sede de cognição perfunctória e correspondente a montante superior ao arbitrado definitivamente em sentença, após ampla análise do conjunto probatório. Portanto, a prisão civil de devedor de alimentos, no caso de fixação pela sentença de alimentos definitivos em valor inferior aos provisórios, somente poderá ser admitida diante do não pagamento com base no novo valor estabelecido pela sentença. A diferença de valores deve ser buscada por meio de execução, conforme o rito do art. 732 do CPC (que não gera prisão civil). Processo STJ. 3ª Turma. HC 271.637-RJ, Rel. Min. Sidnei Beneti, julgado em 24/9/2013. Não cabe prisão civil do inventariante em razão do descumprimento da obrigação do espólio de prestar alimentos Não cabe prisão civil do inventariante em razão do descumprimento da obrigação do espólio de prestar alimentos. Comentários O que é a herança? A herança é o conjunto de bens deixado pela pessoa falecida. Caracteriza-se, por força de lei, como sendo bem imóvel, universal e indivisível. A herança é formada automaticamente pela morte e somente será dissolvida quando houver a partilha. O que é o espólio? O espólio é o ente despersonalizado que representa a herança em juízo ou fora dele. Mesmo sem possuir personalidade jurídica, o espólio tem capacidade para praticar atos jurídicos (ex: celebrar contratos, no interesse da herança) e tem legitimidade processual ATENÇÃO Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a1 0 (pode estar no polo ativo ou passivo da relação processual) (FARIAS, Cristiano Chaves. et. al., Código Civil para concursos. Salvador: Juspodivm, 2013, p. 1396). Quem representa o espólio em juízo (quem age em nome do espólio)? Se já houve inventário: o espólio é representado em juízo pelo inventariante. Se ainda não foi aberto inventário: o espólio é representado pelo administrador provisório (art. 985 do CPC). Vale ressaltar que o inventariante é o responsável pela administração da herança, conforme previsto no Código Civil: Art. 1.991. Desde a assinatura do compromisso até a homologação da partilha, a administração da herança será exercida pelo inventariante. Fixados estes conceitos, imagine a seguinte situação hipotética: Luis ajuizou execução de alimentos sob o rito do art. 733 do CPC em face do espólio de Januário (seu falecido pai), representado pela inventariante Madalena (esposa do morto), pleiteando o recebimento de alimentos referentes aos meses de outubro, novembro e dezembro, bem como os vencidos no curso do processo (Súmula 309 do STJ). A inventariante foi citada para, em 3 dias, efetuar o pagamento, provar que o fez ou justificar a impossibilidade de efetuá-lo. Madalena apresentou, então, uma petição ao juiz justificando que o espólio não tem como efetuar o pagamento da pensão alimentícia arbitrada porque os bens que compõem o acervo hereditário não têm gerado renda. O juiz entendeu que as justificativas apresentadas não eram suficientes e, então, decretou a prisão civil de Madalena (§ 1º do art. 733 do CPC). Foi interposto agravo de instrumento, tendo o TJ mantido a decisão do magistrado. Diante disso, o advogado de Madalena impetrou habeas corpus no STJ em seu favor. O que decidiu o STJ em um caso análogo a esse? O inadimplemento de pensão alimentícia transmitida ao espólio pode acarretar a prisão civil de seu inventariante? NÃO. O CC/2002 previu que a “a obrigação de prestar alimentos transmite-se aos herdeiros do devedor” (art. 1.700). O STJ interpreta que, apesar de existir esse dispositivo, o dever de prestar alimentos continua sendo personalíssimo. Assim, os herdeiros irão responder pela obrigação até o limite da herança, tendo em vista que a dívida é oriunda de obrigação pretérita do morto e não originária dos herdeiros (arts. 1.792 e 1.997 e Enunciado 343 do CJF). Além disso, a jurisprudência do STJ admite a transmissão da obrigação alimentar ao espólio apenas nos casos em que, antes de a pessoa morrer, já havia estipulação, por sentença judicial ou acordo prévio da obrigação alimentar, de modo a garantir a manutenção do alimentando durante a tramitação do inventário. (...) A obrigação de prestar alimentos só se transmite ao espólio quando já constituída antes da morte do alimentante. (...) (STJ. 3ª Turma. AgRg no AREsp 271.410/SP, Rel. Min. Sidnei Beneti, julgado em 23/04/2013). (...) Inexistindo condenação prévia do autor da herança, não há por que falar em transmissão do dever jurídico de prestar alimentos, em razão do seu caráter personalíssimo Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a1 1 e, portanto, intransmissível (...) (STJ. 3ª Turma. AgRg no REsp 981.180/RS, Rel. Min. Paulo De Tarso Sanseverino, julgado em 07/12/2010). Assim, não é possível, portanto, o ajuizamento de ação de alimentos em face do espólio, se quando do falecimento do autor da herança (ex: pai do alimentando) não havia alimentos fixados em acordo ou sentença em seu favor. Em suma, o espólio tem a obrigação de pagar pelos alimentos desdeque: eles já estivessem fixados antes da morte; e apenas até os limites das forças da herança. Desse modo, para o STJ, apesar do art. 1.700 do CC, os alimentos continuam ostentando caráter personalíssimo, de forma que, no que tange à obrigação alimentar, não há que se falar em transmissão do dever jurídico (em abstrato) de prestá-los (REsp 1130742/DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, julgado em 04/12/2012). Nesse mesmo sentido, afirmou o Min. João Otávio de Noronha: “(...) Não se pode confundir a regra do art. 1.700, segundo o qual a obrigação de prestar alimentos transmite-se aos herdeiros do devedor, com a transmissão do dever jurídico de alimentar, utilizada como argumento para a propositura da presente ação. Trata-se, na verdade, de coisas distintas. O dever jurídico é abstrato e indeterminado e a ele se contrapõe o direito subjetivo, enquanto que a obrigação é concreta e determinada e a ela se contrapõe uma prestação. Havendo condenação prévia do autor da herança, há obrigação de prestar alimentos e esta se transmite aos herdeiros. Inexistente a condenação, não há por que falar em transmissão do dever jurídico de alimentar, em razão do seu caráter personalíssimo e, portanto, intransmissível. (...)” (REsp 775180/MT, Rel. Min. João Otávio de Noronha, Quarta Turma, julgado em 15/12/2009). O que se transmite, portanto, é a obrigação concreta já fixada antes da morte, mas não o dever jurídico (em abstrato). Justamente pelo fato de o dever de alimentar ser personalíssimo e instramissível é que o STJ entende que não é possível a decretação de prisão civil do inventariante do espólio, uma vez que a restrição da liberdade constitui sanção também de natureza personalíssima e que não pode recair sobre terceiro, estranho ao dever de alimentar, como acontece com o inventariante. Processo STJ. 4ª Turma. HC 256.793-RN, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 1º/10/2013. DIREITO EMPRESARIAL Os créditos de honorários advocatícios estão sujeitos à recuperação judicial Os créditos derivados de honorários advocatícios sucumbenciais estão sujeitos aos efeitos da recuperação judicial, mesmo que decorrentes de condenação proferida após o pedido de recuperação. Comentários Imagine a seguinte situação: Em 2010, a empresa “A” ajuizou ação de cobrança contra a empresa “B”. Em 2012, a empresa “B” pediu e lhe foi deferida recuperação judicial. Em 2013, a ação proposta por “A” foi julgada procedente, tendo “B” sido condenada, com Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a1 2 trânsito em julgado. “B” foi condenada também a pagar honorários advocatícios de sucumbência ao advogado de “A”. O advogado ingressou com um pedido cobrando os honorários e afirmando que eles deveriam ser pagos como créditos extraconcursais. O pedido do advogado deve ser aceito e os honorários pagos fora das limitações inerentes à recuperação judicial? NÃO. Para que o advogado cobre esses honorários advocatícios, ele terá que submetê-los às regras da recuperação judicial. Isso porque os créditos derivados de honorários advocatícios sucumbenciais estão sujeitos aos efeitos da recuperação judicial, mesmo que decorrentes de condenação proferida após o pedido de recuperação. Os honorários advocatícios, tanto os contratualmente pactuados como os de sucumbência, possuem natureza alimentar. Justamente por isso, quando são cobrados de empresas que estão em processo de falência ou de recuperação judicial, os honorários advocatícios recebem o mesmo tratamento dispensado aos créditos trabalhistas. Os créditos de natureza trabalhista estão sujeitos aos efeitos da recuperação judicial. Logo, seria injusto e desigual que os créditos resultantes de honorários advocatícios fossem considerados créditos extraconcursais e fossem pagos sem obedecer à ordem de preferências prevista na Lei n. 11.101/2005. Processo STJ. 3ª Turma. REsp 1.377.764-MS, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 20/8/2013. Não é cabível compensar débitos da falida com créditos da massa falida resultantes de ação revocatória julgada procedente Os valores a serem restituídos à massa falida decorrentes da procedência de ação revocatória não podem ser compensados com eventual crédito habilitado no processo de falência pelo réu condenado. Comentários Segundo ressaltou o Min. Luis Felipe Salomão, a compensação de créditos, embora prevista no direito comum e também no direito concursal, há de ser aplicada com redobradas cautelas quando se trata de processo falimentar, uma vez que significa a quebra da par conditio creditorum, que deve sempre reger a satisfação das dívidas contraídas pela falida. Operada a compensação, a Massa deixa de receber determinado valor (o que em si já é prejudicial), ao passo que o credor é liberado de observar a respectiva classificação de seu crédito (o que, por derradeiro, atinge também os interesses dos demais credores). Em suma, a compensação de créditos no processo falimentar coloca sob a mesma dogmática jurídica o pagamento de débitos da falida e o recebimento de créditos pela massa falida, situações que ordinariamente obedecem a sistemas bem distintos. A doutrina defende que as hipóteses legais que impedem a compensação do crédito perante a massa não estão listadas exaustivamente no parágrafo único do art. 122 da Lei n. 11.101/2005: Art. 122. Compensam-se, com preferência sobre todos os demais credores, as dívidas do devedor vencidas até o dia da decretação da falência, provenha o vencimento da sentença de falência ou não, obedecidos os requisitos da legislação civil. Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a1 3 Parágrafo único. Não se compensam: I – os créditos transferidos após a decretação da falência, salvo em caso de sucessão por fusão, incorporação, cisão ou morte; ou II – os créditos, ainda que vencidos anteriormente, transferidos quando já conhecido o estado de crise econômico-financeira do devedor ou cuja transferência se operou com fraude ou dolo. Assim, aplicam-se também ao direito falimentar as hipóteses que vedam a compensação previstas no direito comum, como aquelas previstas nos arts. 368 a 380 do Código Civil. Logo, não pode ser feita a compensação se isso resultar em prejuízo de direitos de terceiros (art. 380). Desse modo, não é cabível compensar débitos da falida com créditos da massa falida resultantes de ação revocatória julgada procedente, porque esta ação envolve o reconhecimento de que houve uma situação de ilegalidade preestabelecida em prejuízo da coletividade de credores, ilegalidade essa que não pode beneficiar quem a praticou, ao se permitir a satisfação mais rápida de seu crédito mediante a compensação. Processo STJ. 4ª Turma. REsp 1.121.199-SP, Rel. originário Min. Raul Araújo, Rel. para acórdão Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 10/9/2013. DIREITO AMBIENTAL Não gera dano moral a conduta do IBAMA de não autorizar a queimada de determinada área, mesmo que em anos anteriores isso tenha sido permitido Não gera dano moral a conduta do IBAMA de, após alguns anos concedendo autorizações para desmatamento e queimada em determinado terreno com a finalidade de preparar o solo para atividade agrícola, deixar de fazê-lo ao constatar que o referido terreno integra área de preservação ambiental. Comentários Imagine a seguinte situação adaptada: João é dono de uma imensa propriedade rural onde lá desenvolve a atividade agrícola. Durante vários anos, João obteve autorização do IBAMA para fazer desmatamento e queimada em sua propriedade a fim de preparar a terra para a agricultura. Ocorre que, no presente ano, o IBAMA recusou-se a concedera referida autorização, afirmando que somente agora constatou que o terreno integra uma área de preservação ambiental. Diante disso, o proprietário, sentindo-se lesado pelo fato de que a autorização já havia sido concedida durante vários anos, ajuizou uma ação de indenização por danos morais contra o IBAMA. Em uma situação análoga a essa, o que decidiu o STJ? Há direito à indenização por dano moral nesse caso? NÃO. O STJ decidiu que não gera dano moral a conduta do IBAMA de, após alguns anos concedendo autorizações para desmatamento e queimada em determinado terreno com a finalidade de preparar o solo para atividade agrícola, deixar de fazê-lo ao constatar que o referido terreno integra área de preservação ambiental. Isso porque a negativa da autarquia em conceder novas autorizações para queimada e desmatamento constitui a harmonização de dois valores constitucionais supremos: de um lado, o desenvolvimento do trabalho rural como fator de dignificação da pessoa humana, de erradicação da pobreza e de valorização do núcleo familiar; de outro, a preservação do meio ambiente ecologicamente equilibrado como condição de continuidade do desenvolvimento da própria atividade rural. Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a1 4 O uso de fogo (queimadas) no meio ambiente traz inúmeras implicações negativas à natureza, de forma que não se pode considerar que tal prática atenda à função social da propriedade, especialmente os incisos I e II do art. 186 da CF/88: Art. 186. A função social é cumprida quando a propriedade rural atende, simultaneamente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes requisitos: I - aproveitamento racional e adequado; II - utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente; O art. 186 está perfeitamente harmonizado com os arts. 5º, XXII, e 225 da CF, não podendo o agricultor deixar de preservar o meio ambiente sob o pretexto de que está exercendo seu direito constitucional de propriedade. Isso porque, ao mesmo tempo em que o art. 225 da CF prevê a titularidade coletiva do direito ao meio ambiente, determina também que é dever de toda a sociedade defendê-lo e preservá-lo, nela incluído, portanto, o próprio agricultor, que está constitucionalmente comprometido com a exploração sustentável da agricultura. O Min. Herman Benjamin explica que o agricultor é simultaneamente agente agressor do meio ambiente e também titular do direito difuso à preservação ambiental contra suas próprias técnicas agropastoris. Em outras palavras, ao mesmo tempo que tem que preservar o meio ambiente, ele também é beneficiário da preservação da natureza. Assim, não se legitima a pretensão indenizatória que busca responsabilizar o Poder Público por proteger o próprio agricultor – na qualidade de titular coletivo do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado – contra os danos provocados pelas suas próprias técnicas de plantio. Além disso, a simples vedação da utilização de técnica degradadora no preparo do solo não impede que se dê continuidade à atividade agrícola com o uso sustentável de técnicas alternativas à queima e ao desmatamento. A excepcionalidade do emprego do fogo leva à inarredável conclusão de que se trata de uma técnica de uso residual, subsidiário, devendo ser preferidas as formas de preparo do solo que privilegiem a exploração agrícola sustentável. O fato de, durante vários anos, ter sido concedida autorização para queimada e desmatamento não gera um direito adquirido para o agricultor de que nos anos seguintes também será deferido seu pedido. A negativa do IBAMA é legítima e está amparara pelo poder de autotutela (Súmula 473 do STF), por meio do qual a Administração Pública busca justamente recompor a legalidade do ato administrativo. Por fim, ganha substancial relevo o princípio da supremacia do interesse público sobre o privado, porque a limitação imposta pelo Poder Público quanto à forma de exploração da propriedade constitui medida restritiva a um direito individual que, todavia, reverte positivamente em favor de um direito de titularidade difusa – o meio ambiente. Posto isso, a eliminação dos fatores de agressão ao meio ambiente, muito antes de obstar a exploração agrícola ou mesmo reduzir sua produtividade, objetiva, justamente, garantir a existência de condições futuras para a continuidade do desenvolvimento da atividade de campo. Processo STJ. 2ª Turma. REsp 1.287.068-RR, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 10/9/2013. Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a1 5 ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE As escusas absolutórias (art. 181 do CP) podem ser aplicadas ao adolescente infrator No caso de ato infracional equiparado a crime contra o patrimônio, é possível que o adolescente seja beneficiado pela escusa absolutória prevista no art. 181, II, do CP. Comentários Veja o que dizem os arts. 181 e 183 do CP: Art. 181. É isento de pena quem comete qualquer dos crimes previstos neste título, em prejuízo: I - do cônjuge, na constância da sociedade conjugal; II - de ascendente ou descendente, seja o parentesco legítimo ou ilegítimo, seja civil ou natural. (...) Art. 183 - Não se aplica o disposto nos dois artigos anteriores: I - se o crime é de roubo ou de extorsão, ou, em geral, quando haja emprego de grave ameaça ou violência à pessoa; II - ao estranho que participa do crime. III – se o crime é praticado contra pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos. As hipóteses previstas no art. 181 do CP são chamadas pela doutrina de “escusas absolutórias”, “imunidades penais absolutas”, “imunidades penais materiais”, “causas de impunibilidade absoluta”, “condições negativas de punibilidade” ou “causas pessoais de exclusão de pena”. O art. 181 se aplica aos crimes previstos no Título II do Código Penal, que trata sobre os “crimes contra o patrimônio” (arts. 155 a 180). Imagine agora a seguinte situação hipotética: Diogo, 16 anos, subtrai o relógio de ouro de seu pai, trocando-o, em seguida, por droga. O adolescente praticou ato equiparado a furto, previsto no art. 155 do Código Penal. Pode ser aplicado o art. 181, II ao presente caso? SIM. Nos casos de ato infracional equiparado a crime contra o patrimônio, é possível que o adolescente seja beneficiado pela escusa absolutória prevista no art. 181, II, do CP. Não há razoabilidade em se prever uma imunidade absoluta ao sujeito maior de 18 anos que cometa crime em detrimento do patrimônio de seu ascendente, e negar essa possibilidade ao menor que, diante da mesma situação fática, pratique igual conduta. Processo STJ. 6ª Turma. HC 251.681-PR, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 3/10/2013. Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a1 6 DIREITO PROCESSUAL CIVIL O simples fato de a demanda principal ter sido julgada antes da oposição não é causa de nulidade Não configura nulidade apreciar, em sentenças distintas, a ação principal antes da oposição, quando ambas forem julgadas na mesma data, com base nos mesmos elementos de prova e nos mesmos fundamentos. Comentários Oposição A oposição, como modalidade de intervenção de terceiros, ocorre quando um terceiro ingressa em um processo afirmando que a ele pertence o direito ou o bem que está sendo disputado pelo autor e pelo réu. Exemplo: João ajuizou ação reivindicatória contra Pedro afirmando que é o proprietário de determinado imóvel. Carlos, por sua vez, tendo notícia da existência dessa demanda, apresenta oposição alegando que, na verdade, ele é quem é dono do bem. Previsão A oposição encontra-se prevista nos arts. 56 a 61 do CPC. Art. 56. Quem pretender, no todo ou em parte, acoisa ou o direito sobre que controvertem autor e réu, poderá, até ser proferida a sentença, oferecer oposição contra ambos. Oposição interventiva Se a oposição for ajuizada até a data de realização da audiência de instrução, ela será chamada de “oposição interventiva” e terá natureza de incidente do processo. Nesse caso, a oposição será distribuída por dependência e autuada em apenso ao processo já existente. A partir daí, a oposição e a ação originária tramitarão conjuntamente e serão decididas em uma mesma sentença. Julgamento da oposição deve ocorrer antes da demanda principal Diz-se que a oposição é prejudicial à ação principal. O que significa isso? Ora, se o pedido do opoente for procedente, a demanda entre autor e réu fica prejudicada, perde interesse, considerando que não adianta discutir a situação do autor e do réu, já que o titular do direito é um terceiro. Em nosso exemplo, se o juiz reconhecer que Carlos é o dono do imóvel, a disputa entre João e Pedro fica prejudicada. Por essa razão, o juiz deve primeiro julgar a oposição e, somente se ela for improcedente, passar ao exame da lide entre autor e réu. Essa regra foi consagrada expressamente pelo CPC: Art. 61. Cabendo ao juiz decidir simultaneamente a ação e a oposição, desta conhecerá em primeiro lugar. Imagine agora a seguinte situação: Em nosso exemplo, o juiz, após toda a instrução, proferiu duas sentenças: Primeiro, julgou a demanda entre autor e réu, considerando procedente o pedido do autor (João). Depois, no mesmo dia, proferiu outra sentença, apreciando a oposição e julgando improcedente o pedido do opoente (Carlos). Perceba que o art. 61 do CPC foi descumprido, tendo havido dois equívocos por parte o magistrado: 1) ele deveria ter julgado tanto a demanda principal como a oposição em uma Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a1 7 única sentença, com capítulos diferentes; 2) a oposição deveria ter sido julgada antes da demanda principal. Houve nulidade pelo fato de o juiz ter descumprido o art. 61 do CPC e ter julgado, em duas sentenças separadas, a demanda principal e, depois, a oposição? NÃO. Não configura nulidade apreciar, em sentenças distintas, a ação principal antes da oposição, quando ambas forem julgadas na mesma data, com base nos mesmos elementos de prova e nos mesmos fundamentos. De fato, houve descumprimento do art. 61 do CPC. No entanto, não houve nulidade por conta desse simples desrespeito à técnica processual. De acordo com a moderna ciência processual, deve-se colocar em evidência os princípios da instrumentalidade e da ausência de nulidade sem prejuízo (“pas de nullité sans grief”). Por conta desses princípios, o ato somente será considerado nulo se, além de formalmente defeituoso, ele tiver deixado de realizar o escopo (finalidade) para o qual se destina e, por esse motivo, causar prejuízo a uma das partes. Ressalte-se que, no caso, tendo havido apenas a inversão da ordem de julgamento, não há que se falar em prejuízo às partes, aplicando-se a regra do § 1º do art. 249 do CPC: Art. 249 (...) § 1º O ato não se repetirá nem se lhe suprirá a falta quando não prejudicar a parte. Por outro lado, anular os julgamentos, determinando o retorno dos autos à origem para prolação de uma única sentença em vez de duas, não traria benefício algum ao opoente porque não seriam produzidas novas provas, realizadas novas audiências, apresentados outros argumentos visando ao convencimento do juiz. Somente haveria uma alteração da forma, sem qualquer modificação no conteúdo. Processo STJ. 3ª Turma. REsp 1.221.369-RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 20/8/2013. De quem é a responsabilidade pela degravação dos depoimentos colhidos mediante carta precatória? De quem é a responsabilidade pela degravação dos depoimentos colhidos mediante carta precatória? 1ª corrente: do juízo DEPRECANTE 2ª corrente: do juízo DEPRECADO Foi o que decidiu a 1ª Seção do STJ no julgamento do CC 126.770-RS, Rel. Min. Sérgio Kukina, em 8/5/2013. Foi o que decidiu a 2ª Seção do STJ no julgamento do CC 126.747-RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, em 25/09/2013. Comentários Imagine a seguinte situação hipotética: Em um processo cível, o juízo da comarca de Ilhéus/BA expediu uma carta precatória para que o juízo da comarca de Niterói/RJ ouvisse uma testemunha que lá reside. O juízo deprecado (juízo da comarca de Niterói/RJ) ouviu a testemunha por meio de gravação audiovisual e devolveu a carta precatória acompanhada de DVD contendo o depoimento. O juízo deprecante (juízo da comarca de Ilhéus/BA), ao receber a carta, proferiu despacho determinando que esta retornasse ao juízo deprecado com o objetivo de que lá (na Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a1 8 comarca de Niterói/RJ) fosse feita a degravação do depoimento prestado pela testemunha e, somente após isso, a carta retornasse. Em outras palavras, o juízo deprecante afirmou que era uma obrigação do juízo deprecado transcrever, para o meio físico (papel), o depoimento colhido por meio audiovisual. O juízo deprecado não concordou. Diante desse impasse quanto ao cumprimento da carta precatória, o que poderá fazer o juízo deprecado? Suscitar conflito negativo de competência. Isso porque a obrigação de ter que degravar ou não os depoimentos colhidos é uma discussão relativa à amplitude da competência do juízo deprecado no cumprimento de cartas precatórias. Logo, trata-se do debate de quem seria competente para tal ato. Quem irá julgar esse conflito? O Superior Tribunal de Justiça, considerando que são juízes vinculados a tribunais diferentes (art. 105, I, “d”, CF/88). E qual é o entendimento do STJ sobre o tema: de quem é a responsabilidade pela degravação dos depoimentos? DE QUEM É A RESPONSABILIDADE PELA DEGRAVAÇÃO DOS DEPOIMENTOS? 1ª corrente: do juízo DEPRECANTE 2ª corrente: do juízo DEPRECADO Foi o que decidiu a 1ª Seção do STJ no julgamento do CC 126.770-RS, Rel. Min. Sérgio Kukina, em 8/5/2013. Foi o que decidiu a 2ª Seção do STJ no julgamento do CC 126.747-RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, em 25/09/2013. A primeira corrente parece ser a mais acertada e consentânea com a ideia de celeridade processual. A regra é a de que os depoimentos colhidos por meio audiovisual nem precisem de transcrição (art. 2º da Resolução 105/2010-CNJ). Isso porque exigir que haja sempre a degravação provocará o fim das vantagens do sistema audiovisual, tendo em conta que, segundo estudos realizados pelo CNJ, “para cada minuto de gravação leva-se, no mínimo, 10 (dez) minutos para a sua degravação” (texto da Resolução). Se o juiz não se acostuma ou não gosta de analisar os depoimentos em meio audiovisual, ele tem todo o direito de fazer a degravação, no entanto, isso deve ocorrer por conta própria, não podendo obrigar o juízo deprecado a fazê-lo. Apenas para complementar a informação, vale ressaltar que, no âmbito do processo penal, existe uma previsão específica no § 2º do art. 405 do CPP dispensando expressamente a transcrição caso o depoimento tenha sido colhido por meio audiovisual. Confira: § 1º Sempre que possível, o registro dos depoimentos do investigado, indiciado, ofendido e testemunhas será feito pelos meios ou recursos de gravação magnética, estenotipia, digital ou técnica similar, inclusive audiovisual, destinada a obter maior fidelidade das informações. (Incluído pela Lei nº 11.719/2008). § 2º No caso de registro por meio audiovisual, será encaminhado às partes cópia do registro original, sem necessidade de transcrição. (Incluído pela Lei nº 11.719/2008). Corte especial do STJ Diante da divergência entre a 1ª e a 2ª Seções, o STJ terá que pacificar o tema por meio de sua Corte Especial. Processo STJ. 2ª Seção. CC 126.747-RS, Rel. Min. LuisFelipe Salomão, julgado em 25/9/2013. INFORMATIVO esquematizado P ág in a1 9 O credor tem o direito de recusar a proposta do executado para que seja invertida a ordem de penhora do art. 655 do CPC, a não ser que haja alguma situação excepcionalíssima É lícito ao credor recusar a substituição de penhora incidente sobre bem imóvel por debêntures, ainda que emitidas por companhia de sólida posição no mercado mobiliário, desde que não exista circunstância excepcionalíssima cuja inobservância acarrete ofensa à dignidade da pessoa humana ou ao paradigma da boa-fé objetiva. Comentários O procedimento para execução de quantia pode ser de duas formas: a) Execução de quantia fundada em título executivo extrajudicial; b) Execução de quantia fundada em título executivo judicial (cumprimento de sentença). Tanto em um caso como no outro, o devedor é chamado em juízo para pagar o débito e, caso não o faça, seus bens são penhorados. O que é a penhora? Penhorar significa apreender judicialmente os bens do devedor para utilizá-los, direta ou indiretamente, na satisfação do crédito executado. Ordem de preferência O CPC prevê uma ordem de preferência para penhora, ou seja, existem bens que devem ser penhorados antes que outros. Essa lista de prioridades está prevista no art. 655 do CPC: Art. 655. A penhora observará, preferencialmente, a seguinte ordem: I - dinheiro, em espécie ou em depósito ou aplicação em instituição financeira; II - veículos de via terrestre; III - bens móveis em geral; IV - bens imóveis; V - navios e aeronaves; VI - ações e quotas de sociedades empresárias; VII - percentual do faturamento de empresa devedora; VIII - pedras e metais preciosos; IX - títulos da dívida pública da União, Estados e Distrito Federal com cotação em mercado; X - títulos e valores mobiliários com cotação em mercado; XI - outros direitos. Em regra, somente poderão ser penhorados os bens do inciso II se não houver do inciso I e assim sucessivamente. Não se pode penhorar um imóvel, por exemplo, se o executado tiver um carro. Imagine agora a seguinte situação adaptada: Alexandre ajuizou ação de execução contra Ricardo, tendo sido penhorado um imóvel rural pertencente ao devedor. O executado peticiona ao juiz pedindo a substituição do imóvel penhorado por debêntures emitidas pela Companhia Vale. O exequente manifestou-se contrariamente à proposta. A despeito disso, o magistrado concedeu a substituição, afirmando que os bens oferecidos (debêntures emitidas por Companhia sólida e de prestigiosa posição no mercado mobiliário) podem ser facilmente liquidados. Logo, aplicando-se o critério da proporcionalidade e o princípio da menor onerosidade ao executado, argumentou que a substituição poderia ser autorizada. Argumentou, por fim, que o art. 655 do CPC fala em “preferencialmente” e não em “obrigatoriamente”, de forma a indicar que a ordem legal pode ser invertida. Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a2 0 A decisão do juízo foi correta? NÃO. Segundo decidiu o STJ, o credor tem o direito de recusar a proposta do executado para que seja substituída a penhora incidente sobre bem imóvel por debêntures, ainda que emitidas por companhia de sólida posição no mercado mobiliário, a não ser que haja alguma situação excepcionalíssima que justifique a substituição pretendida. A Min. Nancy Andrighi explicou que o rol de bens do art. 655 do CPC tem por fundamento teleológico a fixação de uma ordem preferencial de penhora de bens, ordenando-a de acordo com a maior facilidade de se alcançar a legítima satisfação do crédito. Muito embora o art. 655 utilize a expressão “preferencialmente”, o que indica que não se trata de uma ordem legal rígida, é preciso esclarecer que a flexibilização dessa lista, sem a concordância do credor, somente é admitida em situações excepcionalíssimas, nas quais se verifique que a manutenção do critério legal irá gerar uma ofensa à dignidade da pessoa humana ou à boa-fé objetiva. No caso concreto, o STJ considerou que, apesar do inegável valor econômico e da conversibilidade dos títulos ofertados em dinheiro, não havia motivo apto a justificar uma imposição ao credor de satisfação de seu crédito por meio mais arriscado e não exigido em lei. Portanto, ausente qualquer excepcionalidade que fundamente a imposição da inversão da ordem preferencial de penhora, deve-se observar o interesse legítimo do credor na manutenção da penhora do imóvel. Processo STJ. 3ª Turma. REsp 1.186.327-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 10/9/2013. Juiz Federal pode declinar, de ofício, execução fiscal quando tiver sido proposta sem obedecer a regra do art. 15, I, da Lei 5.010/66 A execução fiscal proposta pela União e suas autarquias/fundações deve ser ajuizada perante o Juiz de Direito da comarca do domicílio do devedor, quando esta não for sede de vara da justiça federal (art. 109, § 3º da CF/88 e art. 15, I, da Lei n. 5.010/66). Na hipótese em que, em razão da inexistência de vara da Justiça Federal na localidade do domicílio do devedor, a execução fiscal tenha sido ajuizada pela União ou por suas autarquias/fundações em vara da Justiça Federal sediada em local diverso, o Juiz Federal poderá declinar, de ofício, da competência para processar e julgar a demanda, determinando a remessa dos autos para o juízo de direito da comarca do domicílio do executado. Comentários Execução fiscal Execução fiscal é a ação judicial proposta pela Fazenda Pública (União, Estados, DF, Municípios e suas respectivas autarquias e fundações) para cobrar do devedor créditos (tributários ou não tributários) inscritos em dívida ativa. Regras gerais sobre a competência na execução fiscal Se a execução fiscal for proposta pelo Estado, pelo Município, ou por suas autarquias ou fundações, a competência para julgar será da Justiça estadual. Se a execução fiscal for ajuizada pela União, por autarquia ou fundação federal, a competência para a causa será da Justiça Federal (art. 109, I, da CF/88). O CPC afirma que, em regra, a execução fiscal será proposta no foro do domicílio do réu; se não o tiver, no de sua residência ou no do lugar onde for encontrado (art. 578 do CPC). ATENÇÃO Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a2 1 A Fazenda Pública poderá escolher: • o foro de qualquer um dos devedores, quando houver mais de um; • o foro de qualquer dos domicílios do réu; • o foro do lugar em que se praticou o ato ou ocorreu o fato que deu origem à dívida, embora nele não mais resida o réu; • o foro da situação dos bens, quando a dívida deles se originar. Súmula 58-STJ: Proposta a execução fiscal, a posterior mudança de domicílio do executado não desloca a competência já fixada. Competência no caso de execução fiscal proposta pela União/entidade federal Como vimos acima, se a execução fiscal for manejada pela União ou por autarquia/fundação federal, a competência para julgar a causa será da Justiça Federal. Vimos também que, em regra, a execução fiscal deve ser proposta no local em que o réu tiver domicílio. Ocorre que, em diversas cidades do país não existe Justiça Federal instalada. Onde a União/entidade federal deverá propor a execução fiscal se o devedor for domiciliado em uma cidade que não seja sede de Justiça Federal? Nesse caso, a execução será proposta na Justiça ESTADUAL da comarca do domicílio do devedor. Ex: João mora em Presidente Figueiredo (município do Amazonas onde não há Justiça Federal) e possui um débito tributário com a União inscrito em dívida ativa. Logo, a PFN irá ajuizar a execução fiscal na comarca de Presidente Figueiredo, sendo esta julgada pelo Juiz de Direito de lá. O que autoriza o Juiz de Direito a julgar essas causas, que são de competência da Justiça Federal? A CF/88, que estabelece,em seu art. 109, § 3º, uma regra de delegação de competência: § 3º - Serão processadas e julgadas na justiça estadual, no foro do domicílio dos segurados ou beneficiários, as causas em que forem parte instituição de previdência social e segurado, sempre que a comarca não seja sede de vara do juízo federal, e, se verificada essa condição, a lei poderá permitir que outras causas sejam também processadas e julgadas pela justiça estadual. Assim, em determinados casos, Juízes de Direito (“Juízes Estaduais”) podem julgar causas federais. Requisitos para que uma causa federal seja julgada pelo juízo estadual: a) A comarca não ser sede de vara da Justiça Federal; b) A lei autorizar expressamente esta delegação. A própria CF já deu uma autorização expressa: nas causas envolvendo instituição de previdência social (INSS) e segurado ou beneficiário. Tais demandas tramitarão na justiça estadual, desde que no domicílio do segurado ou beneficiário não exista justiça federal. A Lei n. 5.010/1966 (Lei de organização da Justiça Federal) prevê alguns casos de delegação de competência para a Justiça Estadual. Art. 15. Nas Comarcas do interior onde não funcionar Vara da Justiça Federal (artigo 12), os Juízes Estaduais são competentes para processar e julgar: I - os executivos fiscais da União e de suas autarquias, ajuizados contra devedores domiciliados nas respectivas Comarcas; Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a2 2 Desse modo, no caso de execução fiscal proposta pela União, se no domicílio do devedor não houver vara da Justiça Federal, essa execução fiscal deve ser julgada pelo Juiz Estadual. Quem julga os recursos contra as decisões proferidas pelo Juiz de Direito que estiver julgando uma execução fiscal proposta pela União/entidade federal? O Tribunal Regional Federal. O Juiz Estadual, nesse caso, está investido de competência federal (encontra-se atuando como se fosse um Juiz Federal). Logo, os recursos que forem interpostos deverão ser julgados pelo TRF. A pergunta que surge agora é a seguinte: Se o município do devedor não for sede da Justiça Federal e a União propuser a execução fiscal na Justiça Federal mais próxima em vez de ajuizar a execução na Justiça Estadual da comarca do réu, o juiz federal poderá, de ofício, julgar-se incompetente? Em nosso exemplo, se a União manejar a execução na Justiça Federal de Manaus em vez de propor a ação na Justiça Estadual de Presidente Figueiredo, o Juiz Federal de Manaus poderá, de ofício, declinar a competência para a comarca de Presidente Figueiredo? SIM. Na hipótese em que, em razão da inexistência de vara da Justiça Federal na localidade do domicílio do devedor, execução fiscal tenha sido ajuizada pela União ou por suas autarquias/fundações em vara da Justiça Federal sediada em local diverso, o Juiz Federal poderá declinar, de ofício, da competência para processar e julgar a demanda, determinando a remessa dos autos para o juízo de direito da comarca do domicílio do executado. Isso porque, nas comarcas do interior onde não funcionar vara da Justiça Federal, os juízes estaduais são competentes para processar e julgar os executivos fiscais da União e de suas autarquias ajuizados contra devedores domiciliados nas respectivas comarcas (art. 15, I, da Lei n. 5.010/1966). Desse modo, a decisão do juiz federal que declina da competência quando a norma do art. 15, I, da Lei n. 5.010/1966 deixa de ser observada não está sujeita à Súmula 33 do STJ (“a incompetência relativa não pode ser declarada de ofício”). Deve-se aplicar aqui a conclusão que levou à edição da Súmula 40 do antigo Tribunal Federal de Recursos (que foi substituído pelo STJ): Súmula 40 do TFR: A execução fiscal da Fazenda Pública Federal será proposta perante o Juiz de Direito da comarca do domicílio do devedor, desde que não seja ela sede de vara da Justiça Federal. Vale ressaltar que, em tais casos, a Fazenda Pública Federal não tem a opção de ajuizar a execução fiscal na Justiça Federal. Trata-se de uma imposição legal a propositura na Justiça Estadual do domicílio do réu. Segundo relembrou o Min. Ari Pargendler, essa regra pretende facilitar tanto a defesa do devedor quanto o aparelhamento da execução, que assim não fica, em regra, sujeita a cumprimento de atos por cartas precatórias. Atenção Muita atenção porque havia precedentes do próprio STJ em sentido contrário ao que foi decidido. Contudo, a tendência é que prevaleça a posição acima exposta porque o presente julgamento foi proferido sob a sistemática do recurso repetitivo. Processo STJ. 1ª Seção. REsp 1.146.194-SC, Rel. originário Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Rel. para acórdão Min. Ari Pargendler, julgado em 14/8/2013 (recurso repetitivo). Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a2 3 DIREITO PENAL O benefício do arrependimento posterior comunica-se aos coautores e partícipes que não tenham participado da restituição da coisa ou da reparação do dano Uma vez reparado o dano integralmente por um dos autores do delito, a causa de diminuição de pena do arrependimento posterior, prevista no art. 16 do CP, estende-se aos demais coautores. Comentários ARREPENDIMENTO POSTERIOR O art. 16 do Código Penal prevê o seguinte: Art. 16. Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou restituída a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena será reduzida de 1/3 a 2/3. O arrependimento posterior é um benefício ou prêmio para estimular o agente a restituir a coisa ou reparar os danos causados com sua conduta. Requisitos: 1) O crime deve ter sido praticado sem violência ou grave ameaça à pessoa. Se o agente praticou violência contra a coisa: pode receber o benefício. Se o agente praticou, culposamente, violência contra a pessoa (ex: lesão corporal no trânsito): pode receber o benefício. O art. 16 vale para todos os crimes com que ele seja compatível, sem distinção, inclusive contra a Administração Pública. Assim, é errado pensar que o arrependimento posterior aplica-se apenas para os crimes contra o patrimônio. 2) O agente, voluntariamente, deve ter reparado o dano ou restituído a coisa. A reparação do dano ou restituição deve ser total ou pode ser parcial? A doutrina afirma que o benefício somente deveria ser concedido em caso de reparação integral. Vale ressaltar, no entanto, que a 1ª Turma do STF decidiu que a incidência do arrependimento posterior, contido no art. 16 do CP prescinde da reparação total do dano. Em outras palavras, entendeu-se que a reparação poderia ser parcial (HC 98658/PR, red. p/ o acórdão Min. Marco Aurélio, julgado em 9/11/2010). 3) Essa reparação ou restituição deve ter acontecido antes do recebimento da denúncia ou queixa Se for feita após o recebimento, o agente terá direito apenas à atenuante genérica prevista no art. 65, III, “b”, do CP: Art. 65 - São circunstâncias que sempre atenuam a pena: III - ter o agente: b) procurado, por sua espontânea vontade e com eficiência, logo após o crime, evitar-lhe ou minorar-lhe as consequências, ou ter, antes do julgamento, reparado o dano; Redução: de 1/3 a 2/3 Qual é o parâmetro para a redução? A 1ª Turma do STF já decidiu que o juiz, ao definir o quanto da pena será reduzido, deverá levar em consideração a extensão do ressarcimento (se total ou parcial) e também o momento de sua ocorrência. Assim, se a reparação for total e no mesmo dia dos fatos, a Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a2 4 redução deve ser a máxima de 2/3 (HC 98658/PR, red. p/ o acórdão Min. Marco Aurélio, julgado em 9/112010).Comunicabilidade no concurso de pessoas: Imagine que João e José furtem 2 mil reais de Pedro. João, antes do recebimento da denúncia, restitui o valor à vítima. Nesse caso, tanto João como José serão beneficiados com a redução da pena? SIM. Uma vez reparado o dano integralmente por um dos autores do delito, a causa de diminuição de pena do arrependimento posterior, prevista no art. 16 do CP, estende-se aos demais coautores. Qual é a justificativa? A reparação do dano ou restituição da coisa tem natureza objetiva. Logo, comunica-se aos demais coautores e partícipes, por força do art. 30 do CP: Art. 30. Não se comunicam as circunstâncias e as condições de caráter pessoal, salvo quando elementares do crime. Logo, interpretando o art. 30 a contrario sensu, ele está dizendo que as circunstâncias e condições de caráter objetivo comunicam-se. Para o Min. Relator, o juiz poderá aplicar frações de redução diferentes para cada coautor ou partícipe. Segundo entendeu, a fração de redução será graduada conforme a atuação de cada agente em relação à reparação efetivada. Assim, por exemplo, João (quem efetivamente restituiu) poderia ter uma redução maior de pena do que José. Processo STJ. 6ª Turma. REsp 1.187.976-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 7/11/2013. Em condenação por roubo não se pode fixar regime mais gravoso ao réu pelo simples fato de ele ter apontado a arma para o rosto da vítima Em um crime de roubo, o juiz NÃO pode fixar regime prisional mais severo do que aquele previsto no art. 33, § 2º, do CP utilizando como argumento o fato de a arma de fogo ter sido apontada contra o rosto da vítima. Tal fundamentação não é válida porque essa conduta caracteriza a "grave ameaça", elemento ínsito do crime de roubo. Assim, não se pode fixar regime prisional mais gravoso com base em circunstâncias que são próprias (naturais) do crime. Comentários Existem três regimes penitenciários: FECHADO SEMIABERTO ABERTO Pena cumprida em estabelecimento de segurança máxima ou média. Pena cumprida em colônia agrícola, industrial ou estabelecimento similar. Pena cumprida em casa de albergado ou estabelecimento adequado. Fixação do regime inicial O juiz, ao prolatar a sentença condenatória, deverá fixar o regime no qual o condenado iniciará o cumprimento da pena privativa de liberdade. A isso se dá o nome de fixação do regime inicial. Os critérios para essa fixação estão previstos no art. 33 do Código Penal. Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a2 5 O que o juiz deve observar na fixação do regime inicial? O juiz, quando vai fixar o regime inicial do cumprimento da pena privativa de liberdade, deve observar quatro fatores: 1) O tipo de pena aplicada: se reclusão ou detenção. 2) O quantum da pena definitiva. 3) Se o condenado é reincidente ou não. 4) As circunstâncias judiciais (art. 59 do CP). Vamos esquematizar a aplicação desses quatro fatores: RECLUSÃO O regime inicial pode ser: FECHADO: se a pena é superior a 8 anos. SEMIABERTO: se a pena foi maior que 4 e menor que 8 anos. Se o condenado for reincidente, o regime inicial, para esse quantum de pena, é o fechado. ABERTO: se a pena foi de até 4 anos. Se o condenado for reincidente, o regime inicial, para esse quantum de pena, será o semiaberto ou o fechado. O que irá definir isso vão ser as circunstâncias judiciais: Se desfavoráveis, vai para o fechado. Se favoráveis, vai para o semiaberto. Súmula 269-STJ: É admissível a adoção do regime prisional semiaberto aos reincidentes condenados a pena igual ou inferior a quatro anos se favoráveis as circunstâncias judiciais. DETENÇÃO O regime inicial pode ser: FECHADO: nunca Obs: alguns autores mencionam como exceção o art. 10 da Lei de Crimes Organizados, mas esse dispositivo é inconstitucional. SEMIABERTO: se a pena foi maior que 4 anos. ABERTO: se a pena foi de até 4 anos. Se o condenado for reincidente, o regime inicial é o semiaberto. Vimos acima que o regime inicial da detenção nunca será o fechado. No entanto, o condenado que está cumprindo pena por conta de um crime punido com detenção poderá ir para o regime fechado caso cometa falta grave e seja sancionado com a regressão? SIM, é possível. Nesse caso, no entanto, não estaremos mais falando em regime inicial. Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a2 6 Atenção: o que vimos nesses dois quadros são as regras gerais. Vamos agora fazer uma pergunta que reflete uma exceção a esse quadro: É possível que seja imposto ao condenado primário um regime inicial mais rigoroso do que o previsto para a quantidade de pena aplicada? Ex: se uma pessoa for condenada a 6 anos de reclusão, pode o juiz fixar o regime inicial fechado? SIM, é possível, desde que o juiz apresente motivação idônea na sentença. É o que diz a Súmula 719 do STF: Súmula 719-STF: A imposição do regime de cumprimento mais severo do que a pena aplicada permitir exige motivação idônea. O juiz pode fundamentar a imposição do regime mais severo no fato do crime praticado ser, abstratamente, um delito grave? Ex: o juiz afirma que, em sua opinião, no caso de tráfico de drogas o regime deve ser o fechado em razão da gravidade desse delito. NÃO. Súmula 718-STF: A opinião do julgador sobre a gravidade em abstrato do crime NÃO constitui motivação idônea para a imposição de regime mais severo do que o permitido segundo a pena aplicada. O que é considerado, então, motivação idônea para impor ao condenado regime mais gravoso? As circunstâncias judiciais do art. 59 do CP. Se as circunstâncias judiciais do art. 59 forem desfavoráveis, é possível que o juiz se fundamente nesses dados para impor ao condenado regime inicial mais gravoso que o previsto para a quantidade de pena aplicada. Ex: Paulo, réu primário, foi condenado a uma pena de 6 anos de reclusão. Em regra, o regime inicial seria o semiaberto. Ocorre que as circunstâncias judiciais foram extremamente desfavoráveis a ele. Nesse caso, o juiz, fundamentando sua decisão nesses dados, poderia impor a Paulo o regime inicial fechado. Se a pena privativa de liberdade foi fixada no mínimo legal, é possível a fixação de regime inicial mais severo do que o previsto pela quantidade de pena? Ex: Paulo, réu primário, foi condenado a uma pena de 6 anos de reclusão. As circunstâncias judiciais foram favoráveis. Pode o juiz fixar o regime inicial fechado? NÃO. Somente se consideradas as circunstâncias judiciais de forma desfavoráveis, com fundamentos idôneos, é que se pode fixar regime prisional mais gravoso. Nesse sentido: Súmula 440-STJ: Fixada a pena-base no mínimo legal, é vedado o estabelecimento de regime prisional mais gravoso do que o cabível em razão da sanção imposta, com base apenas na gravidade abstrata do delito. Em um crime de roubo, o juiz pode fixar regime prisional mais severo do que aquele previsto no art. 33, § 2º, do CP utilizando como argumento o fato de a arma de fogo ter sido apontada contra o rosto da vítima? NÃO. Segundo decidiu o STJ, tal fundamentação não pode ser utilizada porque essa circunstância caracteriza "grave ameaça", elemento ínsito do crime de roubo. Assim, não se pode fixar regime prisional mais gravoso com base em circunstâncias que são próprias (naturais) do crime. O art. 2º, § 1º da Lei n. 8.072/90 prevê que a pena por crime hediondo ou equiparado deve ser cumprida inicialmente em regime fechado. Esse dispositivo é constitucional?NÃO. O Plenário do STF julgou essa previsão inconstitucional (HC 111840/ES, rel. Min. Dias Toffoli, 27.6.2012). Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a2 7 O regime inicial nas condenações por crimes hediondos ou equiparados (ex: tráfico de drogas) não tem que ser obrigatoriamente o fechado, podendo ser também o regime semiaberto ou aberto, desde que presentes os requisitos do art. 33, § 2º, alíneas b e c, do Código Penal. Assim, será possível, por exemplo, que o juiz condene o réu por tráfico de drogas a uma pena de 6 anos de reclusão e fixe o regime inicial semiaberto. Processo STJ. 6ª Turma. AgRg no AREsp 349.732-RJ, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 5/11/2013. A extorsão pode ser feita mediante ameaça de causar um prejuízo econômico à vítima Pode configurar o crime de extorsão a exigência de pagamento em troca da devolução do veículo furtado, sob a ameaça de destruição do bem. Comentários O Código Penal prevê o crime de extorsão nos seguintes termos: Art. 158. Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar fazer alguma coisa: Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos, e multa. Em que consiste o crime: O agente, usando de violência ou de grave ameaça, obriga outra pessoa a ter determinado comportamento, com o objetivo de obter uma vantagem econômica indevida. A vítima é coagida pelo autor do crime a fazer, tolerar que se faça ou deixar fazer alguma coisa. Ex: “A” exige que “B” assine um cheque em branco em seu favor, senão contará a todos que “B” possui um caso extraconjugal. Ex2: Golpe do falso sequestro via celular. “A” (de um presídio em SP) liga para “B” (em Brasília) e afirma que sua filha foi sequestrada exigindo, por meio de ameaças, depósito de dinheiro em determinada conta bancária. Obs: o juízo competente é o do local onde estava a pessoa que recebeu os telefonemas (STF ACO 889/RJ). Se o agente ameaça causar um prejuízo econômico à vítima, ainda assim haverá extorsão? A grave ameaça prevista no art. 158 pode ser econômica? SIM. O STJ decidiu que a extorsão pode ser feita mediante ameaça de causar um prejuízo econômico. Assim, não se exige que a ameaça se dirija apenas contra a integridade física ou moral da vítima. No caso concreto julgado, o agente estava com o carro da vítima e exigiu que ela fizesse o pagamento a ele de determinada quantia em dinheiro. Caso o pedido não fosse atendido, ele prometeu destruir o veículo. Dessa forma, o STJ decidiu que pode configurar o crime de extorsão a exigência de pagamento em troca da devolução do veículo furtado, sob a ameaça de destruição do bem. STJ. 5ª Turma. REsp 1.207.155-RS, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 7/11/2013. Diferenças entre extorsão e roubo: Extorsão Roubo O agente faz com que a vítima entregue a coisa (o verbo é constranger). Na extorsão há a tradição da coisa (traditio). O agente subtrai a coisa pretendida (o verbo é subtrair). No roubo há a subtração da coisa (concretatio). A colaboração da vítima é indispensável. Se a vítima não quiser fazer, não tem como o agente fazer sozinho. A colaboração da vítima é dispensável. Se a vítima não quiser fazer, existe como o agente fazer sozinho. Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a2 8 A vantagem buscada pelo agente pode ser contemporânea ao constrangimento ou posterior a ele. A vantagem buscada (coisa alheia móvel) é para agora (imediata). A vantagem econômica indevida pode ser um bem móvel ou imóvel. A vantagem econômica indevida somente pode ser um bem móvel. Para você guardar, no entanto, a principal diferença entre os delitos está na necessidade ou não de que a vítima colabore: “No crime de roubo existe uma total submissão da vítima à vontade do agente. A subtração, independentemente da vontade do ofendido, ocorrerá, haja vista que o agente pode, mediante ato próprio, apoderar-se do objeto desejado. Na extorsão, ao contrário, é evidente a dependência de um ato da vítima para a configuração do delito.” (HC 182.477/DF, Min. Jorge Mussi, julgado em 07/08/2012). É possível reconhecer continuidade delitiva entre roubo e extorsão? NÃO. A jurisprudência do STF e do STJ pacificou-se no sentido de que aos crimes de roubo e de extorsão não se aplica o instituto da continuidade delitiva, considerando que não são delitos da mesma espécie. É possível reconhecer concurso material entre roubo e extorsão quando o agente, por meio de mais de uma ação, pratica os núcleos dos verbos dos dois tipos penais? SIM, segundo entendimento do STF e STJ. Ex: o agente, ameaçando a vítima com uma arma, subtrai seu carro e dinheiro que ela tinha na bolsa. Em seguida, leva a vítima até um caixa eletrônico e exige, mediante grave ameaça, que ela diga a senha de seu cartão, conseguindo, então, efetuar saques em sua conta corrente. Haverá, nesse caso, concurso material entre roubo e extorsão. De acordo com o STJ, vê-se claramente a existência de duas ações praticadas pelo criminoso. A primeira consistiu no ato de tomar para si os pertences encontrados em posse da vítima. Logo em seguida, com desígnio distinto, obrigou-lhe a revelar a senha de sua conta bancária e dirigir-se a um caixa eletrônico para sacar quantia em dinheiro. Muito embora as ações tenham ocorrido em um curto espaço de tempo, não se pode falar em ação única (HC 182.477/DF, Min. Jorge Mussi, julgado em 07/08/2012). Principais pontos cobrados nas provas: Elemento subjetivo: É o dolo acrescido de um especial fim de agir (elemento subjetivo específico). Qual é o especial fim de agir? O intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica. Qual é o momento consumativo da extorsão? Trata-se de crime FORMAL (também chamado de consumação antecipada ou resultado cortado). A extorsão se consuma no momento em que a vítima, depois de sofrer a violência ou grave ameaça, realiza o comportamento desejado pelo criminoso. Consumação = constrangimento + realização do comportamento pela vítima Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a2 9 Atenção: o fato de a vítima ter realizado o comportamento exigido pelo agente não significa que este tenha obtido a vantagem indevida. Ex: “A” exige que “B” assine um cheque em branco em seu favor, senão contará a todos que “B” possui um caso extraconjugal. “B” cede à chantagem e assina o cheque. Ocorre que, depois, arrepende-se e susta o cheque. Nesse caso, houve consumação do delito mesmo sem ter o agente conseguido sacar o dinheiro. Para fins de consumação não importa se o agente consegue ou não obter a vantagem indevida. Essa obtenção da vantagem constitui mero exaurimento, que só interessa para a fixação da pena. Súmula 96-STJ: O crime de extorsão consuma-se independentemente da obtenção da vantagem indevida. Não se consuma o crime de extorsão quando, apesar de ameaçada, a vítima não se submete à vontade do criminoso, ou seja, não assume o comportamento exigido pelo agente. Nesse caso, haverá tentativa de extorsão. STJ. 6ª Turma. REsp 1.094.888-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 21/8/2012. Caso julgado pelo STJ (com nomes fictícios): João exigiu que Maria, sua ex-mulher, entregasse a quantia de 300 reais e, ainda, que retirasse os boletins de ocorrência contra ele registrados, deixando-o ver os filhos nos finais de semana. O agente prometeu matar Maria caso ela não fizesse o que ele ordenou. A vítima não se submeteu à exigência, deixando de realizar a conduta que João procurava lhe impor, tendo então buscado auxíliopolicial. O Ministério Público alegou que o delito estava consumado e a defesa que se tratou de mera tentativa. O que decidiu o STJ? Houve apenas tentativa de extorsão. Não se consuma o crime de extorsão quando, apesar de ameaçada, a vítima não se submete à vontade do criminoso. STJ. 6ª Turma. REsp 1.094.888-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 21/8/2012. Resumindo as etapas do crime: Se o agente constrange a vítima, mas ela não faz o que foi exigido. Tentativa Se o agente constrange a vítima e ela faz o que foi exigido, mas não se consegue a vantagem econômica. Consumado Se o agente constrange a vítima, ela faz o que foi exigido e se consegue a vantagem econômica. Consumado (a obtenção da vantagem é mero exaurimento do delito) Como vimos, essa distinção se o crime é formal ou material não tem importância meramente acadêmica, sendo muito relevante na prática. Veja dois outros aspectos que são diretamente influenciados pelo fato da extorsão ser crime formal: Prescrição Flagrante Se a extorsão fosse crime material, a prescrição somente começaria a correr na data da obtenção da vantagem indevida. No entanto, como a extorsão é crime Se a extorsão fosse crime material, o agente poderia ser preso no momento em que estivesse recebendo a vantagem. No entanto, como a extorsão é crime Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a3 0 formal, o prazo de prescrição tem início no dia em que o agente constrangeu a vítima e esta fez o que foi exigido, não importando a data do recebimento da vantagem. formal, a prisão em flagrante deverá levar em consideração o momento em que o agente constrangeu a vítima. Se o constrangimento for feito em um momento e a obtenção da vantagem em outro, o que importa para o flagrante é o instante do constrangimento. Assim, se o agente constrangeu a vítima a dar o seu cartão bancário e senha em um dia e somente foi sacar a quantia três dias depois, nesse momento do saque não haverá mais flagrante. Processo STJ. 6ª Turma. REsp 1.207.155-RS, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 7/11/2013. Tráfico de maquinário (art. 34) Em dois precedentes, o STJ discutiu se o art. 34 da Lei de Drogas era ou não absorvido pelo art. 33. Foram expostas duas conclusões: I – A prática do crime previsto no art. 33, caput, da Lei de Drogas absorve o delito capitulado no art. 34 da mesma lei, desde que não fique caracterizada a existência de contextos autônomos e coexistentes aptos a vulnerar o bem jurídico tutelado de forma distinta. Assim, responderá apenas pelo crime do art. 33 (sem concurso com o art. 34), o agente que, além de preparar para venda certa quantidade de drogas ilícitas em sua residência, mantiver, no mesmo local, uma balança de precisão e um alicate de unha utilizados na preparação das substâncias. Isso porque, na situação em análise, não há autonomia necessária a embasar a condenação em ambos os tipos penais simultaneamente, sob pena de “bis in idem”. STJ. 5ª Turma. REsp 1.196.334-PR, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 19/9/2013. II – Responderá pelo crime de tráfico de drogas (art. 33) em concurso com o art. 34 o agente que, além de ter em depósito certa quantidade de drogas ilícitas em sua residência para fins de mercancia, possuir, no mesmo local e em grande escala, objetos, maquinário e utensílios que constituam laboratório utilizado para a produção, preparo, fabricação e transformação de drogas ilícitas em grandes quantidades. Não se pode aplicar o princípio da consunção porque nesse caso existe autonomia de condutas e os objetos encontrados não seriam meios necessários nem constituíam fase normal de execução daquele delito de tráfico de drogas, possuindo lesividade autônoma para violar o bem jurídico. STJ. 5ª Turma. AgRg no AREsp 303.213-SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 8/10/2013. Comentários Antes de explicar o que foi decidido pelo STJ, é importante revisar o crime previsto no art. 34 da Lei de Drogas (Lei n. 1.343/2006): TRÁFICO DE MAQUINÁRIO DE DROGA Art. 34. Fabricar, adquirir, utilizar, transportar, oferecer, vender, distribuir, entregar a qualquer título, possuir, guardar ou fornecer, ainda que gratuitamente, maquinário, aparelho, instrumento ou qualquer objeto destinado à fabricação, preparação, produção ou transformação de drogas, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar: Pena - reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos, e pagamento de 1.200 (mil e duzentos) a 2.000 (dois mil) dias-multa. Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a3 1 Em que consiste o crime: A pessoa comete esse crime quando fabrica, adquire, utiliza, transporta, oferece, vende, distribui, entrega, possui, guarda ou fornece qualquer objeto destinado à produção de drogas de forma ilícita. Punição de atos preparatórios ao tráfico de drogas: Em regra, os atos preparatórios de um delito não são punidos. A punição, normalmente, só pode existir se o agente iniciou a prática de atos executórios (art. 14, II, do CP). O legislador, no entanto, decidiu punir os atos preparatórios do delito de tráfico de drogas (art. 33 da Lei n. 11.343/2006). Para isso, ele criou um tipo específico: o presente art. 34. Desse modo, o que o art. 34 pune são os atos preparatórios do crime de tráfico de drogas. Assim, antes que o sujeito inicie a execução do art. 33, ele já pode ser punido pelo art. 34. Ex: João irá encomendar pasta base de cocaína de seu fornecedor para preparar “trouxinhas” de cocaína e vender em seu bairro. Antes mesmo que ele faça a “encomenda”, ele adquire sacos plásticos, barbantes, alicate, talco e uma balança de precisão, instrumentos que ele irá utilizar para confeccionar a droga. Se João for preso com tais objetos, não se poderá acusá-lo de tráfico de drogas, uma vez que não iniciou nenhum ato de execução, ficando apenas na preparação. Contudo, poderá ser punido pelo art. 34, ora em estudo. Em regra, o crime do art. 34 é subsidiário em relação ao tráfico de drogas (art. 33): Veja o que ensina Renato Brasileiro: “(...) ocorrendo o crime principal de tráfico de drogas em um mesmo contexto fático, afasta-se a aplicação do tipo subsidiário do art. 34 (lex primaria derogat lex subsidiariae). A título de exemplo, se a polícia não conseguir localizar nenhuma quantidade de droga em um laboratório clandestino durante a execução de um mandado de busca domiciliar, porém encontrar uma balança de precisão com vestígios de cocaína, o agente deverá ser autuado em flagrante delito pela prática do art. 34, porquanto demonstrado que tal aparelho era utilizado na preparação de droga. No entanto, se a Polícia tiver êxito na apreensão de droga e da balança de precisão, estaria tipificado apenas o crime do art. 33, caput, que teria o condão de afastar a aplicação do soldado de reserva do art. 34.” (LIMA, Renato Brasileiro de. Legislação Criminal Especial Comentada. Niterói: Impetus, 2013, p. 777-778). Exemplo: Carlos foi preso, em sua residência, com certa quantidade de cocaína destinada à venda. Além da droga, o agente mantinha, no mesmo local, uma balança de precisão e um alicate de unha utilizados na preparação das “trouxinhas” de cocaína. O Ministério Público desejava a condenação do réu pelos delitos do art. 33 e 34 da Lei n. 11.343/2006, em concurso. O STJ, contudo, decidiu que o acusado deveria responder apenas pelo crime de tráfico de drogas (art. 33), ficando o delito do art. 34 absorvido. O Min. Marco Aurélio Bellize assentou que “a prática do crime previsto no art. 33, caput, da Lei de Drogas absorve o delito capitulado no art. 34 da mesma lei, desde que não fique caracterizada a existência de contextos autônomos e coexistentes aptos a vulnerar o bem jurídico tutelado de forma distinta.” Na situação em análise, entendeu-se que não há autonomia necessária a embasar a condenação em ambos os tipos penais simultaneamente,sob pena de “bis in idem”. Para o Min. Relator, deve ficar demonstrada a real lesividade dos objetos tidos como instrumentos destinados à fabricação, preparação, produção ou transformação de drogas, sob pena de a posse de uma tampa de caneta (utilizada como medidor), atrair a incidência Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a3 2 do tipo penal em exame. Relevante, assim, analisar se os objetos apreendidos são aptos a vulnerar o tipo penal em tela. Na situação em análise, o STJ entendeu que, além de a conduta não se mostrar autônoma, a posse de uma balança de precisão e de um alicate de unha não poderia ser considerada como posse de maquinário nos termos do que descreve o art. 34, pois os referidos instrumentos integram a prática do delito de tráfico, não se prestando à configuração do crime de posse de maquinário. STJ. 5ª Turma. REsp 1.196.334-PR, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 19/9/2013. Pode haver concurso entre os arts. 33 e 34 se ficar demonstrada a autonomia das condutas Exemplo: Pablo foi preso, em sua residência, com certa quantidade de cocaína destinada à venda. Além da droga, o agente mantinha, no mesmo local e em grande escala, objetos, maquinário e utensílios que constituíam um verdadeiro “laboratório” utilizado para a produção, preparo, fabricação e transformação de drogas ilícitas em grandes quantidades. O Ministério Público pediu a condenação do réu pelos delitos do art. 33 e 34 da Lei n. 11.343/2006, em concurso. O STJ concordou com o MP e decidiu que o acusado deveria responder pelos crimes de tráfico de drogas (art. 33) e tráfico de maquinário (art. 34) em concurso. Nessa situação, as circunstâncias fáticas demonstraram que havia verdadeira autonomia das condutas, o que inviabilizava a incidência do princípio da consunção. O princípio da consunção deve ser aplicado quando um dos crimes for o meio normal para a preparação, execução ou mero exaurimento do delito visado pelo agente, situação que fará com que este absorva aquele outro delito, desde que não ofendam bens jurídicos distintos. Dessa forma, a depender do contexto em que os crimes foram praticados, será possível o reconhecimento da absorção do delito previsto no art. 34 pelo crime previsto no art. 33. Contudo, para tanto, é necessário que não fique caracterizada a existência de contextos autônomos e coexistentes aptos a vulnerar o bem jurídico tutelado de forma distinta. Levando-se em consideração que o crime do art. 34 visa coibir a produção de drogas, enquanto o art. 33 tem por objetivo evitar a sua disseminação, deve-se analisar, para fins de incidência ou não do princípio da consunção, a real lesividade dos objetos tidos como instrumentos destinados à fabricação, preparação, produção ou transformação de drogas. Relevante aferir, portanto, se os objetos apreendidos são aptos a vulnerar o tipo penal em tela quanto à coibição da própria produção de drogas. Logo, se os maquinários e utensílios apreendidos não forem suficientes para a produção ou transformação da droga, será possível a absorção do crime do art. 34 pelo do art. 33, haja vista ser aquele apenas meio para a realização do tráfico de drogas (como a posse de uma balança e de um alicate – objetos que, por si sós, são insuficientes para o fabrico ou transformação de entorpecentes, constituindo apenas um meio para a realização do delito do art. 33). Contudo, a posse ou depósito de maquinário e utensílios que demonstrem a existência de um verdadeiro laboratório voltado à fabricação ou transformação de drogas implica autonomia das condutas, por não serem esses objetos meios necessários ou fase normal de execução do tráfico de drogas. STJ. 5ª Turma. AgRg no AREsp 303.213-SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 8/10/2013. Tipo misto alternativo O delito do art. 34 é classificado com o tipo misto alternativo (também chamado de crime de ação múltipla ou de conteúdo variado). Tipo simples: ocorre quando o legislador descreve apenas um verbo para tipificar a conduta. Ex: art. 121 (matar alguém). Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a3 3 Tipo misto: é aquele no qual o legislador descreve dois ou mais verbos, ou seja, mais de uma forma de se realizar o fato delituoso. Ex: o agente pratica o crime se fabricar, adquirir, utilizar etc. O tipo misto pode ser alternativo ou cumulativo. Tipo misto alternativo: o legislador descreveu duas ou mais condutas (verbos). Se o sujeito praticar mais de um verbo, no mesmo contexto fático e contra o mesmo objeto material, responderá por um único crime, não havendo concurso de crimes nesse caso. Ex: João adquire, na boca-de-fumo, uma máquina para fazer drogas, transporta-a para sua casa e lá a utiliza. Responderá uma única vez pelo art. 34 e não por três crimes em concurso. Tipo misto cumulativo: o legislador descreveu duas ou mais condutas (verbos). Se o sujeito incorrer em mais de um verbo, irá responder por tantos crimes quantos forem os núcleos praticados. Ex: art. 242 do CP. Maquinário, aparelho, instrumento ou qualquer objeto destinado à produção de drogas: É muito difícil que exista uma máquina, aparelho ou instrumento que tenha sido idealizado com a finalidade exclusiva de produzir drogas ilícitas. Desse modo, para que o sujeito seja punido pelo art. 34 é preciso verificar se aquele maquinário encontrado era destinado, no caso concreto, para o tráfico de drogas. Ex: uma balança de cozinha não é um aparelho que tenha sido criado com o objetivo de preparar droga. No entanto, se esta balança de precisão é encontrada, juntamente com sacos plásticos, alicates e resquícios de substância que aparente cocaína, em um local que parece um verdadeiro laboratório de produção de drogas, pode-se concluir que se trata de instrumento destinado à preparação de “trouxinhas” de cocaína. Sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar: Para que configure o delito é necessário que o maquinário seja destinado à produção de drogas sem que o agente tenha autorização para isso ou agindo em desacordo com determinação legal ou regulamentar. Dessa forma, se o agente tiver autorização, não há crime. Ex: em uma farmácia de manipulação, existem diversos objetos destinados à produção de drogas (remédios). No entanto, esse estabelecimento possui autorização e as drogas preparadas estão de acordo com a determinação regulamentar dos órgãos competentes. Sujeito ativo: pode ser praticado por qualquer pessoa (crime comum). Sujeito passivo: coletividade (crime vago). Bem jurídico: saúde pública. Elemento subjetivo: é o dolo (sem qualquer finalidade especial). Consumação Para que o delito se consuma basta que o agente pratique qualquer das condutas narradas. Crime permanente Algumas condutas do art. 34 são permanentes. É o caso, por exemplo, de “possuir” e “guardar”. Isso se mostra importante porque se o agente for encontrado guardando uma máquina de fazer droga, como a conduta é permanente, ele estará, naquele momento, em estado de flagrante delito, podendo ser preso imediatamente, sem ordem judicial. Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a3 4 Crime equiparado a hediondo Não há consenso. No entanto, para a maioria da doutrina e jurisprudência, o delito do art. 34 é crime equiparado a hediondo (art. 5º, XLIII, da CF/88). Competência: em regra, trata-se de crime de competência da Justiça estadual. Processo STJ. 5ª Turma. REsp 1.196.334-PR, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 19/9/2013. DIREITO PROCESSUAL PENAL As referências ou a leitura da decisão de pronúncia durante os debates no Júri somente acarretam nulidade se forem feitas como argumento de autoridade O art. 478, I, do CPP afirma que, durante os debates, as partes não poderão, sob pena de nulidade, fazer referências à decisão de pronúncia ouàs decisões posteriores que julgaram admissível a acusação como argumento de autoridade para beneficiar ou prejudicar o acusado. Isso não significa, contudo, que qualquer referência ou leitura da decisão acarretará, obrigatoriamente, a nulidade do julgamento. Na verdade, somente haverá nulidade se a leitura ou as referências forem feitas como argumento de autoridade para beneficiar ou prejudicar o acusado. Comentários Imagine a seguinte situação hipotética: Daniel estava sendo julgado pelo Tribunal do Júri acusado da prática do delito de homicídio. Durante os debates em Plenário, o Promotor de Justiça leu para os jurados a sentença de pronúncia. Imediatamente, o Defensor Público que fazia a assistência jurídica do réu impugnou essa conduta e pediu que constasse em ata o referido fato. O acusado foi condenado. No recurso, como preliminar, a Defensoria arguiu a nulidade do julgamento, afirmando que houve violação ao art. 478, I, do CPP: Art. 478. Durante os debates as partes não poderão, sob pena de nulidade, fazer referências: I – à decisão de pronúncia, às decisões posteriores que julgaram admissível a acusação ou à determinação do uso de algemas como argumento de autoridade que beneficiem ou prejudiquem o acusado; Se MP ou defesa fizer a leitura ou alguma outra referência à decisão de pronúncia durante os debates em plenário isso significará, obrigatoriamente, a nulidade do julgamento? NÃO. As referências ou a leitura da decisão de pronúncia durante os debates em plenário do Tribunal do Júri não acarretam, necessariamente, a nulidade do julgamento. Somente haverá nulidade se a leitura ou as referências forem feitas como argumento de autoridade para beneficiar ou prejudicar o acusado. O que é argumento de autoridade? “Argumento de autoridade é uma falácia lógica que apela para a palavra de alguma autoridade a fim de validar o argumento. Este raciocínio é absurdo, vista que a conclusão baseia-se exclusivamente na credibilidade do autor da proposição e não nas razões que ele tenha apresentado para sustentá-la. No âmbito do Júri, pode-se dizer que, ao invés de se valer da prova constante dos autos, as partes tentam formar o convencimento dos jurados apelando para uma anterior decisão do juiz-presidente ou do Tribunal acerca do caso Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a3 5 concreto. Como os jurados são pessoas leigas, geralmente desprovidas de conhecimento técnico, podem ser facilmente influenciados no sentido da condenação (ou absolvição) do acusado se lhes for revelado o entendimento do juiz togado acerca do caso concreto. Daí a importância de se vedar a utilização do argumento de autoridade.” (LIMA, Renato Brasileiro de. Manual de Processo Penal. Vol. II. Niterói: Impetus, 2012, p. 487). Exemplos: Durante os debates em plenário, o Promotor de Justiça fala o seguinte para os jurados: Situação 1: Situação 2 “Prezados jurados, hoje os senhores irão julgar Fulano de Tal, que foi pronunciado pelo crime de homicídio qualificado por motivo fútil, conforme podem ver na sentença de pronúncia que foi entregue a cada um de vocês.” “Prezados jurados, na sentença de pronúncia, o Dr. Sicrano, juiz de direito, que estudou muito e passou em concurso extremamente difícil, reconheceu que havia indícios de que o réu aqui presente praticou um homicídio qualificado. Então, o juiz já concordou com o Ministério Público.” Nesta primeira hipótese, não há que se falar em nulidade uma vez que a referência à sentença de pronúncia não foi feita como argumento de autoridade. Em outras palavras, não se utilizou a decisão do Poder Judiciário para impressionar ou influenciar os jurados. Neste segundo exemplo, há nulidade porque a referência à sentença foi feita como argumento de autoridade. Utilizou-se o respeito e o prestígio da autoridade (magistrado) para convencer os jurados. O objetivo é passar aos jurados a mensagem subliminar de que “se até o juiz, que conhece as leis, disse que ele é culpado, eu tenho que condenar”. Processo STJ. 5ª Turma. HC 248.617-MT, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 5/9/2013. STJ. 6ª Turma. AgRg no REsp 1.235.899-MG, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 5/11/2013. DIREITO TRIBUTÁRIO Formação de CDA em caso de tributos sujeitos a lançamento de ofício não precisa de processo administrativo prévio A ausência de prévio processo administrativo não enseja a nulidade da Certidão de Dívida Ativa (CDA) nos casos de tributos sujeitos a lançamento de ofício. Comentários Execução fiscal Execução fiscal é a ação judicial proposta pela Fazenda Pública (União, Estados, DF, Municípios e suas respectivas autarquias e fundações) para cobrar do devedor créditos (tributários ou não tributários) inscritos em dívida ativa. Petição inicial da execução fiscal deve vir acompanhado da CDA Como vimos acima, a execução fiscal é a cobrança de créditos inscritos em dívida ativa. Logo, a petição inicial da execução fiscal deverá vir instruída com a Certidão da Dívida Ativa. Como é o procedimento até que seja feita a CDA? O contribuinte realiza o fato gerador do tributo (exs: adquire renda, faz uma doação, chega no dia 01/01 sendo proprietário de um bem imóvel etc). ATENÇÃO PGE/PGM Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a3 6 Quando o contribuinte realiza o fato gerador, ele se torna sujeito passivo de uma obrigação tributária principal, ou seja, passa a ter a obrigação de pagar o tributo. Diante dessa situação, o Fisco irá praticar um ato chamado de “lançamento tributário”, ou seja, irá calcular o montante do tributo devido e notificar o contribuinte para que ele pague. O lançamento confere exigibilidade à obrigação tributária. Com o lançamento, a obrigação tributária transforma-se em crédito tributário. Se o sujeito passivo não pagar o débito, esse crédito tributário será inscrito na dívida ativa. A inscrição será feita por meio do termo de inscrição na dívida ativa e é realizado no “Livro da Dívida Ativa” (atualmente, por óbvio, trata-se de um sistema informatizado). Dessa inscrição, extrai-se a CDA (Certidão de Dívida Ativa), que é um título executivo extrajudicial (art. 585, VII, do CPC). Com a CDA, a Fazenda Pública pode ajuizar a execução fiscal contra o devedor. Os requisitos da CDA estão previstos no art. 202 do CTN. Procedimento Administrativo Fiscal (PAF) O procedimento acima explicado, por meio do qual ocorre a constituição do crédito tributário e a formação da CDA, é chamado de Procedimento Administrativo Fiscal (PAF). No âmbito federal, o PAF é regulado pelo Decreto n. 70.235/72 (que foi recepcionado pela CF/88 como lei ordinária). No âmbito dos Estados e Municípios, o PAF é regido por leis estaduais ou locais. O PAF é sempre exigível para a inscrição do débito em dívida ativa? NÃO. A jurisprudência entende que, no caso de tributos sujeitos a lançamento de ofício (direto), não é necessária a realização de procedimento administrativo prévio para que o débito seja inscrito em dívida ativa. É o caso, por exemplo, do IPTU e das taxas municipais. O Município envia para o endereço do contribuinte, por via postal ou entrega direta, o carnê de pagamento do tributo e isso já significa a notificação do lançamento. Nesse carnê (que é, tecnicamente, uma guia de recolhimento do tributo), constam as informações sobre o que está sendo cobrado. Se o contribuinte não concordar com a cobrança, poderá impugná-la administrativa ou judicialmente. (...) no lançamento de ofício do IPTU, a Fazenda Pública possui todas as informações para a constituição do crédito, não necessitando de processo administrativo fiscal em autos. Após constituído, a Fazenda envia o carnê do IPTU ao contribuinte, o que equivale à notificação do lançamento, e, recebida esta, abre-se o prazo para a impugnação. (...) (STJ. 1ª Turma. AgRg no REsp 1080522/RJ,Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 14/10/2008). “(...) a remessa, ao endereço do contribuinte, do carnê de pagamento do IPTU é ato suficiente para a notificação do lançamento tributário. (...) (STJ. 1ª Seção. REsp 1111124/PR, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, julgado em 22/04/2009, recurso repetitivo). Súmula 397-STJ: O contribuinte do IPTU é notificado do lançamento pelo envio do carnê ao seu endereço. Assim, para o STJ, nos tributos com lançamento de ofício, a ausência de prévio processo administrativo não enseja a nulidade da CDA, uma vez que só haverá processo administrativo se o contribuinte entender que foi incorreta a cobrança e, assim, impugnar o lançamento. Ana Leticia Stern Realce Ana Leticia Stern Realce INFORMATIVO esquematizado P ág in a3 7 Vale ressaltar, ainda, que há uma presunção, em favor do Fisco, de que a notificação enviada ao endereço do sujeito passivo ou do imóvel (no caso de IPTU), foi entregue ao contribuinte. Se este alegar que não recebeu, terá o ônus de provar isso. Processo STJ. 2ª Turma. AgRg no AREsp 370.295-SC, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 1º/10/2013. É inexigível a cobrança de FUNDAF (uma espécie de taxa) com base em atos regulamentares da RFB por ofensa ao princípio da legalidade estrita (obs: este julgado somente interessa a quem presta concursos federais) São inexigíveis os valores cobrados de concessionária, com fundamento em atos regulamentares da Receita Federal, a título de contribuição para o Fundo Especial de Desenvolvimento e Aperfeiçoamento das Atividades de Fiscalização (FUNDAF). Comentários FUNDAF significa Fundo Especial de Desenvolvimento e Aperfeiçoamento das Atividades de Fiscalização e constitui-se em um tributo destinado a fornecer recursos para financiar o reaparelhamento e reequipamento da Receita Federal e para custear o poder de polícia na fiscalização aduaneira. O STJ entende que os valores cobrados a título de contribuição para o FUNDAF têm natureza jurídica de taxa (e não de preço público), tendo em vista que o seu pagamento é compulsório e decorre do exercício regular de típico poder de polícia, conforme se afere do art. 22 do Decreto-Lei 1.455/1976. Sendo taxa, os valores cobrados para o FUNDAF estão sujeitos às limitações constitucionais ao poder de tributar, entre as quais o princípio da legalidade estrita, previsto no art. 150, I, da CF e no art. 97 do CTN. Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I - exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça; Art. 97. Somente a lei pode estabelecer: I - a instituição de tributos, ou a sua extinção; II - a majoração de tributos, ou sua redução, ressalvado o disposto nos artigos 21, 26, 39, 57 e 65; III - a definição do fato gerador da obrigação tributária principal, ressalvado o disposto no inciso I do § 3º do artigo 52, e do seu sujeito passivo; IV - a fixação de alíquota do tributo e da sua base de cálculo, ressalvado o disposto nos artigos 21, 26, 39, 57 e 65; V - a cominação de penalidades para as ações ou omissões contrárias a seus dispositivos, ou para outras infrações nela definidas; VI - as hipóteses de exclusão, suspensão e extinção de créditos tributários, ou de dispensa ou redução de penalidades. Desse modo, pelo princípio da legalidade estrita, na norma instituidora do tributo (que deve ser uma lei em sentido estrito), devem constar todos os aspectos da tipicidade tributária (aspecto material, aspecto pessoal, aspecto espacial, aspecto temporal e aspecto quantitativo). O FUNDAF encontra-se em desconformidade com o citado princípio, tendo em vista que os seus elementos constitutivos não estão previstos em lei, mas sim em atos regulamentares da Receita INFORMATIVO esquematizado P ág in a3 8 Federal, tendo havido uma indevida delegação de competência prevista no Decreto-Lei 1.455/1978 e no Decreto 91.030/1985, os quais não subsistem, por força do disposto no art. 25 do ADCT, o qual expressamente revogou os dispositivos legais que delegavam a órgão do Poder Executivo competência assinalada pela CF/1988 ao Congresso Nacional. Logo, para que o FUNDAF fosse legítimo, seus elementos constitutivos deveriam estar previstos em lei e não em atos infralegais. Processo STJ. 1ª Turma. REsp 1.275.858-DF, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 19/9/2013. JULGADOS QUE NÃO FORAM COMENTADOS POR SEREM DE MENOR RELEVÂNCIA PARA CONCURSOS PÚBLICOS DIREITO PROCESSUAL CIVIL. EXERCÍCIO DO JUÍZO DE RETRATAÇÃO PREVISTO NO ART. 543-B, § 3º, DO CPC. Concluído no STF o julgamento de caso em que tiver sido reconhecida a repercussão geral, o exercício da faculdade de retratação prevista no art. 543-B, § 3º, do CPC não estará condicionado a prévio juízo de admissibilidade do recurso extraordinário anteriormente sobrestado no STJ. Precedentes citados: AgRg no RE nos EDcl no AgRg no REsp 1.174.808-SC, Corte Especial, DJe 26/6/2013; AgRg no RE nos EDcl no AgRg no REsp 1.145.138-RS, Corte Especial, DJe 28/5/2013; EDcl na QO nos EDcl no AgRg no REsp 972.060-RS, Quinta Turma, DJe 12/4/2013; EDcl nos EDcl nos EDcl no AgRg no REsp 971.644-RS, Quinta Turma, DJe 27/2/2013; e EDcl no Ag 1.069.923-RS, Sexta Turma, DJe 1º/10/2012. EREsp 878.579-RS, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 16/10/2013. DIREITO CIVIL. TARIFAS DE ABERTURA DE CRÉDITO E DE EMISSÃO DE CARNÊ ATÉ 30/4/2008. RECURSO REPETITIVO (ART. 543-C DO CPC E RES. 8/2008-STJ). Nos contratos bancários celebrados até 30/4/2008 (fim da vigência da Resolução 2.303/1996 do CMN), era válida a pactuação de Tarifa de Abertura de Crédito (TAC) e de Tarifa de Emissão de Carnê (TEC), ressalvado o exame de abusividade em cada caso concreto. Nos termos dos arts. 4º e 9º da Lei 4.595/1964, recebida pela CF como lei complementar, compete ao Conselho Monetário Nacional (CMN) dispor sobre taxa de juros e sobre a remuneração dos serviços bancários e ao Bacen fazer cumprir as normas expedidas pelo CMN. Ao tempo da Resolução CMN 2.303/1996, a orientação estatal quanto à cobrança de tarifas pelas instituições financeiras era essencialmente não intervencionista. A regulamentação facultava às instituições financeiras a cobrança pela prestação de quaisquer tipos de serviços, com exceção daqueles que a norma definia como básicos, desde que fossem efetivamente contratados e prestados ao cliente, assim como respeitassem os procedimentos voltados a assegurar a transparência da política de preços adotada pela instituição. A cobrança das tarifas TAC e TEC é, portanto, permitida se baseada em contratos celebrados até o fim da vigência da Resolução 2.303/1996 do CMN, ressalvado abuso devidamente comprovado caso a caso, por meio da invocação de parâmetros objetivos de mercado e circunstâncias do caso concreto, não bastando a mera remissão aos conceitos jurídicos abstratos ou à convicção subjetiva do magistrado. Tese firmada para fins do art. 543-C do CPC: “Nos contratos bancários celebrados até 30.4.2008 (fim da vigência da Resolução CMN 2.303/96) era válida a pactuação das tarifas de abertura de crédito (TAC) e de emissão de carnê (TEC), ou outra denominação para o mesmo fato gerador, ressalvado o exame de abusividade em cada caso concreto”. REsp 1.251.331-RS e REsp 1.255.573-RS, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgados em 28/8/2013. DIREITO CIVIL. TARIFAS DE ABERTURA DE CRÉDITO E DE EMISSÃO DE CARNÊ E TARIFA DE CADASTRO APÓS 30/4/2008. RECURSO REPETITIVO (ART. 543-C DO CPC E RES. 8/2008-STJ). Não é possível a pactuação de Tarifa de Abertura de Crédito (TAC) e de Tarifa de Emissão de Carnê (TEC) após 30/4/2008 (início da vigência da Resolução 3.518/2007 do CMN), permanecendo válida a pactuação de Tarifa de Cadastro expressamente tipificada em ato normativo padronizador da autoridade monetária, a qual somente pode ser cobrada no início do relacionamento entre o consumidor e a instituição financeira.INFORMATIVO esquematizado P ág in a3 9 Com o início da vigência da Resolução 3.518/2007 do CMN, em 30/4/2008, a cobrança por serviços bancários prioritários para pessoas físicas ficou limitada às hipóteses taxativamente previstas em norma padronizadora expedida pelo Bacen. Em cumprimento ao disposto na referida resolução, o Bacen editou a Circular 3.371/2007. A TAC e a TEC não foram previstas na Tabela anexa à referida Circular e nos atos normativos que a sucederam, de forma que não mais é válida sua pactuação em contratos posteriores a 30/4/2008. Permanece legítima, entretanto, a estipulação da Tarifa de Cadastro, a qual remunera o serviço de "realização de pesquisa em serviços de proteção ao crédito, base de dados e informações cadastrais, e tratamento de dados e informações necessários ao inicio de relacionamento decorrente da abertura de conta de depósito à vista ou de poupança ou contratação de operação de crédito ou de arrendamento mercantil, não podendo ser cobrada cumulativamente" (Tabela anexa à vigente Resolução 3.919/2010 do CMN, com a redação dada pela Resolução 4.021/2011). Ademais, cumpre ressaltar que o consumidor não é obrigado a contratar esse serviço de cadastro junto à instituição financeira, pois possui alternativas de providenciar pessoalmente os documentos necessários à comprovação de sua idoneidade financeira ou contratar terceiro (despachante) para fazê-lo. Tese firmada para fins do art. 543-C do CPC: “Com a vigência da Resolução CMN 3.518/2007, em 30.4.2008, a cobrança por serviços bancários prioritários para pessoas físicas ficou limitada às hipóteses taxativamente previstas em norma padronizadora expedida pela autoridade monetária. Desde então, não mais tem respaldo legal a contratação da Tarifa de Emissão de Carnê (TEC) e da Tarifa de Abertura de Crédito (TAC), ou outra denominação para o mesmo fato gerador. Permanece válida a Tarifa de Cadastro expressamente tipificada em ato normativo padronizador da autoridade monetária, a qual somente pode ser cobrada no início do relacionamento entre o consumidor e a instituição financeira.” REsp 1.251.331-RS e REsp 1.255.573-RS, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgados em 28/8/2013. DIREITO CIVIL. POSSIBILIDADE DE FINANCIAMENTO DO IOF. RECURSO REPETITIVO (ART. 543-C DO CPC E RES. 8/2008-STJ). Podem as partes convencionar o pagamento do Imposto sobre Operações Financeiras e de Crédito (IOF) por meio de financiamento acessório ao mútuo principal, sujeitando-o aos mesmos encargos contratuais. Não se discute que a obrigação tributária arrecadatória e o recolhimento do tributo à Fazenda Nacional são cumpridos por inteiro pela instituição financeira, o agente arrecadador, de sorte que a relação existente entre esta e o mutuário é decorrente da transferência ao Fisco do valor integral da exação tributária. Esse é o objeto do financiamento acessório, sujeito às mesmas condições e taxas do mútuo principal destinado ao pagamento do bem de consumo. Nesse contexto, o fato de a instituição financeira arrecadadora financiar o valor devido pelo consumidor à Fazenda não padece de ilegalidade ou abusividade. Ao contrário, atende aos interesses do financiado, que não precisa desembolsar de uma única vez todo o valor, ainda que para isso esteja sujeito aos encargos previstos no contrato. Tese firmada para fins do art. 543-C do CPC: “Podem as partes convencionar o pagamento do Imposto sobre Operações Financeiras e de Crédito (IOF) por meio de financiamento acessório ao mútuo principal, sujeitando-o aos mesmos encargos contratuais.” REsp 1.251.331-RS e REsp 1.255.573-RS, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgados em 28/8/2013. DIREITO PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. LEVANTAMENTO PARCIAL DE DEPÓSITO JUDICIAL PELO MUNICÍPIO. Não caracteriza hipótese de conversão de depósito em renda (art. 156, VI, do CTN) – caso de extinção do crédito tributário – o repasse aos municípios previsto no § 2º do art. 1º da Lei 10.819/2003. A Lei 10.819/2003 concede ao município que instituir fundo de reserva destinado a garantir eventual obrigação de ressarcimento o repasse de parcela correspondente a 70% do valor dos depósitos em instituição financeira referentes a créditos tributários controvertidos de competência municipal efetuados a partir de sua vigência (arts. 1° e 2°). O repasse em questão configura hipótese de levantamento parcial sob a condição resolutiva de que o contribuinte venha a ser vencedor no processo. Com efeito, estabelece o art. 4° da Lei 10.819/2003 que, "encerrado o processo litigioso com ganho de causa para o depositante, mediante ordem judicial, o valor do depósito efetuado nos termos desta Lei, acrescido da remuneração que INFORMATIVO esquematizado P ág in a4 0 lhe foi originalmente atribuída, será colocado à disposição do depositante pela instituição financeira responsável, no prazo de três dias úteis (...)". REsp 1.365.433-MG, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 5/9/2013. DIREITO PROCESSUAL CIVIL. INEXISTÊNCIA DE LITISCONSÓRCIO PASSIVO NECESSÁRIO NO ÂMBITO DE AÇÃO DE NUNCIAÇÃO DE OBRA NOVA. No âmbito de ação de nunciação de obra nova movida por condomínio contra condômino objetivando a paralisação e a demolição de construção irregular erguida pelo condômino em área comum para transformar seu apartamento, localizado no último andar do edifício, em um apartamento com cobertura, não há litisconsórcio passivo necessário com os condôminos proprietários dos demais apartamentos localizados no último andar do edifício.Isso porque a situação em apreço não se enquadra nas hipóteses previstas no art. 47 do CPC, considerando o fato de que o litígio não exige solução uniforme em relação aos demais condôminos ocupantes do último andar do edifício. REsp 1.374.456-MG, Rel. Min. Sidnei Beneti, julgado em 10/9/2013. DIREITO EMPRESARIAL. COMPENSAÇÃO NO PROCESSO FALIMENTAR. Os valores a serem restituídos à massa falida decorrentes da procedência de ação revocatória não podem ser compensados com eventual crédito habilitado no processo de falência pelo réu condenado. Isso porque à ação revocatória subjaz uma situação de ilegalidade preestabelecida em prejuízo da coletividade de credores, ilegalidade que não pode beneficiar quem a praticou, viabilizando satisfação expedita de seus créditos. Nessa ordem de ideias, a ação revocatória, de eficaz instrumento vocacionado à restituição de bens que escoaram fraudulentamente do patrimônio da falida, tornar-se-ia engenhosa ferramenta de lavagem de capitais recebidos em desconformidade com a par conditio creditorum. Ademais, a doutrina vem apregoando que as hipóteses legais que impedem a compensação do crédito perante a massa não estão listadas exaustivamente no art. 46 do Decreto-Lei n. 7.661/1945 (correspondente, em parte, ao art. 122 da Lei n. 11.101/2005). Aplicam-se também ao direito falimentar as hipóteses que vedam a compensação previstas no direito comum, como aquelas previstas nos arts. de 1.015 a 1.024 do CC de 1916, entre as quais se destaca a compensação realizada em prejuízo de direitos de terceiros (art. 1.024). REsp 1.121.199-SP, Rel. originário Min. Raul Araújo, Rel. para acórdão Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 10/9/2013.