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Maria Eduarda de Araújo 
 
Narração: 
 
Ah, como odiava aqueles óculos. Eram cinzas, grandes, de acrílico fosco, um horror. Ela queria 
ser como a Tuca e a Lena que jogavam handebol sem medo de levar uma bolada no rosto e ter 
o olho furado com o vidro da lente. Prosseguia no devaneio, pensava que fora o sangue e a 
cegueira, teria que encarar a mãe falando das 10 parcelas que ainda faltavam pra pagar aquela 
armação. Seria 
esforço emocional em demasiado pra um incidente so. Cada perrengue lhe despertava um 
impulso de culpar a miopia. Era a última a ser escolhida na aula de educação física? O Zeca 
nem olhava pra cara dela? A professora só enchia seu saco? Só podia ser por conta daquele 
treco no meio 
da cara. Um dia, começou a imaginar que se conseguisse a proeza de despistar o olhar das 
pessoas pra outro lugar que não fosse a armação cinza, poderia ser que a vida ficasse menos 
insuportável. Pegou o batom da irmã mais velha, pintou a boca e se armou das mais belas 
palavras. A cada chance, declamava poemas, inventava repentes, cantava funks, elogiava 
quem lhe prestava ajuda. Passou a ser chamada pelo time pra inventar um grito de guerra, 
Zeca quis discutir suas letras de músicas, a professora ofereceu um papel na peça de fim de 
ano. Já 
eram tantos afazeres e ideias que não havia mais tempo de pensar nos óculos. Eles foram 
diminuindo, sumindo, apagando. E, a partir daí, ela finalmente 
conseguiu enxergar com perfeição a verdade do mundo.

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