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ISBN 978-65-5821-058-0 9 7 8 6 5 5 8 2 1 0 5 8 0 Código Logístico I000214 Sandro Teixeira Sandro Teixeira Filosofia da Educação Filosofia da Educação Sandro Teixeira IESDE BRASIL 2021 © 2021 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito do autor e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Flaticon Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ T269f Teixeira, Sandro Filosofia da educação / Sandro Teixeira. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE, 2021. 154 p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5821-058-0 1. Educação - Filosofia. I. Título. 21-72062 CDD: 370.1 CDU: 370.1 Sandro Teixeira Doutor e Mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestre em Literatura Brasileira pela mesma instituição. Bacharel em Filosofia e licenciado em Letras – Português pela UFPR. Professor no ensino superior há 16 anos, com atuação nas seguintes áreas: filosofia da ciência, filosofia geral, democracia e ciência. SUMÁRIO Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! 1 Filosofia, Educação e Ciência 9 1.1 O que é filosofia? A definição dos filósofos 9 1.2 Filosofia e filosofia da educação 23 2 Educação e dispositivos de poder 35 2.1 Jean-Jacques Rousseau: o primeiro passo para a educação moderna 36 2.2 Michel Foucault: sobre os dispositivos de poder 47 2.3 Maria Bujes: dispositivos de poder na educação infantil 53 3 Educação e democracia 62 3.1 Uma educação liberal renovada 63 3.2 Jürgen Habermas: esfera pública expandida e educação 77 3.3 Limitações do modelo habermasiano 85 4 Educação e descentramento 90 4.1 Descentramento, reflexividade e educação 91 4.2 Limitações da reflexividade sob a análise da pedagogia histórico-crítica 106 4.3 Martha Nussbaum e as humanidades em risco de extinção 115 5 Educação e currículo 120 5.1 Michael Apple: currículo e demandas educacionais 120 5.2 Currículo e demandas educacionais no Brasil 136 5.3 Reflexão filosófica e o papel do educador na contemporaneidade 142 6 Resolução das atividades 150 Esta obra foi elaborada para iniciar você nas discussões que têm se desenvolvido no campo da educação ao longo da história. A Filosofia é a mais tradicional disciplina em todo o campo do saber. Por essa razão, ela tem a capacidade de nos lançar nos mais importantes caminhos do pensamento em diversas áreas. Sabendo disso, direcionamos a potente lupa filosófica para compreender ideias e teorias que têm orientado a prática de educadores ao redor do mundo. Sendo o filósofo da educação aquele que se interessa pelas teorias, buscando analisá-las com cuidado e pretendendo apontar suas falhas e suas virtudes, esta obra não poderia fazer diferente. Desse modo, apresentamos filósofos de períodos históricos diferentes, para que possamos observar que as teorias sobre o ato de ensinar sempre estiveram presentes na história do desenvolvimento da civilização. O primeiro capítulo busca nos ensinar que a melhor definição para a pergunta “o que é filosofia?” deve ser pesquisada na obra de cada um dos filósofos estudados. Em Platão, por exemplo, a ideia de filosofia está intrinsecamente ligada à ideia de metafísica. Já Nietzsche procura desenvolver uma filosofia antimetafísica (e antiplatônica) – por isso, veremos que sua resposta para a nossa pergunta inicial diverge frontalmente da resposta platônica. Ainda, buscamos construir neste capítulo uma resposta geral, ainda que insuficiente, para estabelecer uma distinção entre filosofia e filosofia da educação. O segundo capítulo nos remete diretamente ao início da modernidade. Rousseau é apresentado como o primeiro grande filósofo da educação do período. Seu livro Emílio, ou Da Educação é até hoje considerado uma das grandes obras sobre educação de todos os tempos. Rousseau foi um dos maiores críticos da sociedade moderna nascente; sua filosofia aponta para uma sociedade futura muito problemática. Nessa mesma postura crítica, lançamo-nos ao século XX com a filosofia de Foucault e da APRESENTAÇÃO Vídeo educadora brasileira Maria Edelweiss Bujes, ambos críticos dos sistemas de controle das sociedades modernas e seus impactos na educação. O terceiro capítulo procura pensar a relação entre educação e política – mais precisamente entre educação e democracia. Para isso, buscamos as ideias de dois filósofos vindos de tradições diferentes, mas ambos preocupados com os desafios que os sistemas democráticos precisam enfrentar para evitar que se tornem injustos e parciais. A educação para esses dois autores, John Dewey e Jürgen Habermas, tem papel preponderante nesse desafio. O quarto capítulo dialoga diretamente com o conceito de pós-modernidade. Para alguns autores, vivemos em sociedades que já não refletem as características da sociedade moderna. As novas formas de socialização refletem um novo tipo de sujeito: o descentrado. Este não pode mais ser definido por características fixas de identidade, o que pode representar a libertação para alguns e o aprisionamento para outros. Ainda, o capítulo procura compreender como a pós-modernidade impacta a sala de aula. Se as teorias que propõem o descentramento pós-moderno estiverem corretas, o que significa ensinar para sujeitos descentrados? Essa é a pergunta que percorre o capítulo todo. O quinto capítulo estabelece um diálogo entre teorias representativas de dois momentos: modernidade e pós-modernidade. A teoria do educador norte-americano Michael Apple aparece como devedora de conceitos e categorias ligados à modernidade, teoria essa que tem sido o flanco para estudiosos pós-modernos e pós-estruturalistas da educação lançarem suas principais críticas a Apple. Entretanto, não se pode deixar de observar que a obra desse pensador tem reconhecidos méritos. São dele, por exemplo, os conceitos de currículo oculto e reprodução contestada – a qual diz respeito à força de resistência que sempre se produz contra toda a educação que procura impor, tacitamente, valores de grupos dominantes em uma sociedade. Pelas contribuições inequívocas de Michael Apple, o capítulo se encerra questionando alguns aspectos do tipo de crítica pós-moderna que se faz ao educador estadunidense. Por fim, esta obra foi elaborada com base em momentos históricos e diferentes filósofos e pensadores da educação. Nela, não se pretende apresentar algum tipo de fórmula para o bem educar; isso pode ser feito por via de outros caminhos pedagógicos. O que queremos é que você possa encontrar ideias importantes de alguns pensadores fundamentais para a educação e, com isso, sentir-se motivado a conhecer mais profundamente as obras desses pensadores, a fim de orientar sua prática pedagógica futura com a ajuda da filosofia da educação. Filosofia, Educação e Ciência 9 1 Filosofia, Educação e Ciência Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • comprender que a definiçãodo que é filosofia depende da definição de cada filósofo e seu tempo; • acompanhar as definições de filosofia de alguns filósofos de épocas históricas distintas: Platão, Kant, Nietzsche, positivis- tas lógicos; • analisar as relações entre filosofia e filosofia da educação. Objetivos de aprendizagem Este capítulo procura inicialmente apresentar dois modos distintos de definir o que é a filosofia. O primeiro deles entende que a resposta mais completa a essa pergunta deve ser encontrada no próprio pensamento dos filósofos mais importantes. A dificuldade aqui se dá em função de que cada um desses filósofos apresenta uma visão diferente sobre o que é a filosofia. O segundo modo oferece uma definição bastante objetiva; ele procura compreender o que é filosofia apontando características que podem estar presentes no pensamento de todos, ou quase todos, os filósofos. Para isso, buscamos analisar alguns aspectos de três filósofos importantes na história da filosofia: Sócrates, Platão e Nietzsche. O capítulo apresenta, ainda, uma segunda seção que explica a relação entre filosofia e educação e o significado da filosofia da educação. Há uma pergunta de fundo que percorre todo o texto: qual é a importância da filo- sofia da educação para a educação? Esperamos que ao fim deste capítulo o interesse pelo processo de educação seja despertado e que também seja possível encontrar uma resposta satisfatória a essa última questão. 10 Filosofia da Educação 1.1 O que é filosofia? A definição dos filósofos Vídeo É comum que diante de perguntas do tipo “o que é...” recorramos a uma busca ao dicionário ou, mais modernamente, a uma “googlada” na internet. De certa forma, ao fazermos isso, esperamos quase sempre respostas sintetizadas e objetivas, capazes de nos oferecer significados satisfatórios para o que procuramos. Mas, no caso da pergunta que nos interessa, “o que é filosofia?”, um verbete no dicionário pode não ser tão satisfatório. Aliás, o filósofo norte-americano Douglas Hofstadter (1945-), procurando entender um pouco melhor a importância que as analogias têm para o pensamento, sem deixar de reconhecer a utilida- de dos dicionários, alerta para a limitação que eles impõem ao signifi- cado das palavras. Segundo Hofstadter e Sander (2013), “embora dicionários deem a impressão de analisar as palavras esmiuçadamente, de fato apenas ar- ranham suas superfícies”. Isso porque, ao organizarem os vocábulos em entradas e subentradas, com definições bem precisas, podem dar a impressão errada de que cada subentrada é estanque, ou seja, cada significado do vocábulo está totalmente delimitado pela definição dada e não se confunde com os outros significados do mesmo vocábulo. Claro que, para os propósitos de um dicionário, essa é a forma mais sensata, organizada e eficiente de captura e definição das palavras que uma língua possui e incorpora ao longo de sua história. Mas claro tam- bém é o fato de que a língua viva – fora dos dicionários, cotidiana – é bem mais fluída e menos delimitada do que isso. Por essa razão, podemos concordar com o filósofo e dizer que dicionários tocam apenas a superfí- cie das palavras e, podemos acrescentar, da própria ideia de língua. Se nos dicionários isso ocorre para significados de substantivos con- cretos como banda, por exemplo, imagine a redução de significado que incide sobre a definição do termo filosofia, que por sua própria nature- za contém significações mais abstratas, além de possuir um histórico muito extenso, remontando há, pelo menos, vinte e quatro séculos! Seria, portanto, bastante redutor inserir aqui uma definição de filo- sofia como a que encontramos nos dicionários. Isso não significa que não podemos ou não devemos consultá-los. Um caminho mais adequado, no entanto, para encontrarmos uma melhor compreensão do que é filosofia, é investigar como os próprios Hofstadter e Sander (2013) apresentam as possibilidades e as vari- ções de sentido que uma palavra pode ter, usando o exemplo do vocábulo banda, que pode aparecer em um bom dicionário com os seguintes signifi- cados: 1. pedaço de pano; 2. pequeno grupo de músicos; 3. faixa de fre- quências de certo alcance; entre outros exemplos que a você mesmo pode ter ocorrido enquanto lia essas definições. Saiba mais Pode nos ser de maior ajuda a consulta a um dicionário temático; eles costumam abordar uma área específica do conhecimento: filosofia, psicanálise, psicologia, filosofia da educação etc. Todos ou os principais temas de cada área são elencados em ordem alfa- bética e com a vantagem de poderem apresentar as definições de cada tema de maneira mais ampla. Em português, o dicionário temático mais completo de filosofia é o Dicionário de Filosofia. ABBAGNANO, N. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012. Livro Filosofia, Educação e Ciência 11 filósofos procuraram defini-la. Vamos, por enquanto, optar por essa última alternativa. 1.1.1 O que é a filosofia na visão de Sócrates e Platão Dois filósofos gregos nos servem bem nesse início de investigação: Sócrates e Platão. O que vamos buscar saber é o que eles nos respon- deriam diante da pergunta: O que é filosofia? Para isso, porém, precisamos conhecer alguns aspectos da filosofia de cada um deles. Sócrates (470-399 a.C.) usou apenas a retórica como ferramenta para a exposição de sua filosofia; já Platão (427-347 a.C.) deixou muitos textos escritos, alguns deles, inclusive, conhecidos como diálogos socrá- ticos. Socráticos porque neles o personagem principal é Sócrates, tal a admiração que Platão 1 nutria por seu mestre filosófico maior. Essa diferença entre a filosofia falada (Sócrates) e a escrita (Platão) já nos ajuda a compreender aspectos importantes da filosofia nesse seu período inicial. Muito provavelmente, Sócrates optou pela retórica porque a palavra oral ganhava especial valor no momento histórico em que o filósofo viveu. A sociedade grega do século IV a.C. passava por uma ruptura no seu modo de compreender a participação de seus cidadãos na pólis (cidade), entendendo que seus membros deveriam ser formados visan- do a uma participação efetiva na vida pública da cidade. A ruptura se deu porque a cultura dos antepassados da sociedade em que Sócrates viveu não pensava assim. Nessa última, que remontava à formação do povo grego, muitos séculos antes, desenvolvera-se uma concepção cul- tural aristocrática distanciada do povo, voltada para os mais nobres. Werner Jaeger (1888-1961), um dos maiores especialistas em Gré- cia antiga, observou que o ideal de educação dessa época era definido pelo conceito de areté, que, não tendo um exato equivalente em língua portuguesa, encontra-se próximo ao sentido do que entendemos por Segundo autores neopla- tônicos do século VI d.C., na entrada da Academia, escola filosófica cujo dono era Platão, havia uma inscrição com os dizeres: Quem não é geômetra não entre! 1 No que diz respeito à re- tórica, Sócrates foi inimigo dos sofistas, pois eles eram céticos quanto à ca- pacidade de a filosofia le- var a algum conhecimento verdadeiro. Enquanto Sócrates usava a retórica como instrumento filosó- fico, acreditando ensinar o autoconhecimento e a verdade, os sofistas a usavam com um sentido bem mais pragmático: ensinar, a quem pagasse bem, a arte do bem falar para vencer adversários nos debates públicos. Saiba mais Figura 1 Escultura de Sócrates Filósofo ateniense do período clássico da Grécia Antiga. St in g/ W ik im ed ia C om m on s 12 Filosofia da Educação virtude, mas em um sentido amplo, nas características que, imagina- -se, possam dotar alguém com qualidades excepcionais, no nível da excelência: “a areté é o atributo próprio de nobreza. Os gregos sem- pre consideraram destreza e força incomuns como base indiscutível de qualquer posição dominante. Senhorio e areté estavam inseparavel- mente unidos” (JAEGER, 2013, p. 24). O melhor exemplo para compreender essa primeira cultura do povo estápresente na literatura, nas histórias contadas por Homero, poeta e rapsodo grego, em A Ilíada. Os personagens mais destacados por Homero são todos pertencen- tes ao grupo de gregos mais poderosos econômica e socialmente. Nas muitas batalhas sangrentas que o texto descreve e no próprio discurso dos personagens, revela-se o ideal do homem virtuoso, o ideal daquele que busca a excelência em suas principais características: há, portanto, o mais sagaz (Ulisses); o guerreiro imbatível (Aquiles); o comandante mais poderoso (Agamenon) etc. É como se a exibição dessas virtudes manifestadas em seu nível ex- tremo franqueasse a seus portadores o direito de liderar e exercer o senhorio das decisões e ações da sociedade que representavam. Das virtudes, talvez a coragem seja a que se exibe mais coletivamente, isso porque o sentido maior da areté grega é o de formar homens capazes de morrer por seus concidadãos. Vemos aí, nessa primeira cultura grega, um objetivo pedagógico claro: formar guerreiros capazes de dar a vida em defesa do território, dos valores e dos tesouros de suas cidades. No entanto, é dessa primeira cultura, que remonta pelo menos ao século X a.C., que a sociedade grega do tempo de Sócrates, Platão (Fi- gura 2) e, mais tarde, Aristóteles vai se distanciando. Esses filósofos pertencem a uma cultura grega mais moderna e integrada comercial- mente a outros povos. O ideal do homem virtuoso não deixa de existir, inclusive é possível o identificarmos nos diálogos escritos por Platão, mas é suplantado por um ideal mais abrangente. Diante da moderni- zação das cidades gregas, cidades-Estado ou pólis, e do comércio que muitas delas estabelecem com outros povos, o povo grego busca dotar seus cidadãos de capacidade de participação na vida política. Quando ficamos sabendo, então, que Sócrates não escreveu um texto sequer e optou pela exposição oral de seus ensinamentos filo- sóficos, precisamos relacionar esse aspecto ao fato de que a palavra rapsodo: na Grécia anti- ga, recitador profissional de poesias épicas. Glossário Figura 2 Escultura de Platão Filósofo do período clássico da Grécia antiga. Ra fa el M ac ha do d a Si lva /W ik im ed ia C om m on s Filosofia, Educação e Ciência 13 oral, naquele momento, era de suma importância; os oradores conse- guiam se destacar socialmente e influenciar as decisões da pólis. Sa- ber expor ideias, argumentar e influenciar tornaram-se as habilidades mais valorizadas. Se Sócrates estivesse comprometido com a antiga cultura, dificil- mente teria sido esse personagem consagrado nos textos de Platão e na cultura filosófica do Ocidente, pois, diferente da areté dos tem- pos homéricos, o filósofo, armado apenas de sua retórica e método, ensinava em praça pública, a quem estivesse disposto a ouvi-lo. Com Sócrates, então, surge um senso de universalidade, que parte do pres- suposto de que todos possuem a faculdade da razão. O papel do filó- sofo é ajudar os dispostos a trilhar o caminho da filosofia, para que cheguem ao conhecimento da verdade por meio do exercício da razão. Temos aqui elementos para a compreensão de uma primeira defini- ção ou entendimento do que é filosofia por parte de um filósofo. Para Sócrates, a filosofia é um contínuo exercício de busca pelo conhecimento de si. Sim, “de si”, pois, para ele, a razão pode se revelar por meio do apro- fundamento no conhecimento que temos de nós mesmos. Esse apro- fundamento é necessário porque os homens, imersos na exterioridade de seus interesses cotidianos, estão afastados do conhecimento que a razão, pulsante, mas resguardada em nosso interior, pode oferecer. O caminho desse aprofundamento pode ser orientado pelo filósofo, por isso é que nos diálogos socráticos, escritos por Platão, Sócrates sur- ge como a figura central, mas sem desconsiderar seus interlocutores, que vão sendo questionados e direcionados a buscar respostas cada vez mais substantivas com relação aos temas abordados. Sócrates acreditava que os conceitos morais em sua integralidade só poderiam ser conhecidos por meio de conceitos e não pela experiência. Por isso, também recaiu a ênfase de seu método no diálogo. Entender o que é o justo, o belo etc. só era acessível pela via conceitual, da definição. A cada novo questionamento, a cada novo olhar para dentro de si, o ho- mem conhece um pouco melhor a definição e, por isso, compreende o significado do que deve reger nossa vida individual e social: o que é o justo, o que é o bom etc. A filosofia, portanto, é esse exercício dialético que orienta o contínuo questionamento acerca do que somos e do que devemos ser e, princi- palmente, a atividade que nos ensina a prudência por meio do raciocínio. No cinema, a utilização de temas filosóficos não fica somente restrita aos filmes intelectualizados. A filosofia platônica e a co- nhecida alegoria do Mito da Caverna – homens vivem presos em uma caverna escura e só veem sombras, formas indefi- nidas e enganosas (que representam o mundo sensível); um dia um de- les se liberta e descobre que fora da caverna há um mundo iluminado, com formas claras e ob- jetivas (que representam o mundo inteligível) – são representadas nos filmes: O show de Truman, Matrix, e, mais recentemente, O quarto de Jack. Saiba mais 14 Filosofia da Educação As paixões, os rompantes de emoção e a intemperança, por exemplo, são produtos do mundo exterior sobre nós que vão sendo neutraliza- dos pelo exercício filosófico da razão. Também por esse motivo, Sócra- tes tornou-se uma figura indigesta para os poderosos de seu tempo. Os comportamentos, valores e opiniões circulantes na sociedade acabavam sendo questionados e, muitas vezes, desmoralizados, pois eram enten- didos como uma falsa verdade – a verdade, como vimos anteriormente, só pode ser acessada pela razão no interior de cada um de nós. Para Sócrates, a aplicação correta da razão resulta na compreensão da maneira mais adequada de se viver. Ao encontro dessa premissa, temos a voz de Vicente (2014, p. 216): o primeiro a fazer uso do método da discussão e da inquirição racional de modo despreconceituoso e não dogmático, Sócrates apresentava-se como um homem cuja vocação era levar seus concidadãos atenienses a pensar em sua própria vida de acordo com procedimentos que eles do contrário não empregariam, a fim de convencê-los de que uma vida não examinada não vale a pena ser vivida. Isso era feito com intensidade quase religiosa, a fim de perturbar a complacência mental das pessoas, fossem quais fossem as consequências, razão pela qual não surpreende que, num período de turbulência política, ele viesse a ser o foco de uma hostilidade que acabou por levá-lo à morte. Não podemos esquecer que nosso objetivo é acompanhar como al- guns filósofos responderam à difícil pergunta “o que é filosofia?”. Vimos, ainda que brevemente, como Sócrates respondia a essa pergunta, mas é muito complicado dissociar o seu modo de pensar do filósofo que mais foi influenciado por ele, Platão, e que de certa forma potencializou o que Sócrates propôs. No caso desses dois filósofos, o pensamento de um é o desdobramento do pensamento do outro. Por isso, vale a pena buscar- mos compreender em que reside esse desdobramento em Platão. Para nós, a importância da filosofia de Platão reside no desenvol- vimento de sua ideia de metafísica. Uma vez que nossa pergunta é “o que é filosofia?”, vamos encontrar na metafísica platônica provavel- mente a ideia mais bem-acabada do que esse filósofo grego entende por filosofia. Platão esteve, como Sócrates, muito preocupado com o problema da justiça, com uma realidade que pudesse comportar so- ciedades capazes de oferecer uma vida justa. Para o filósofo, porém, a justiça estaria distante de poder se manifestar em um mundo como o nosso. No entanto, a educação, se bem conduzida, poderia tornar os Filosofia, Educação e Ciência 15 homens mais propensos à ação justa. O pensamento filosófico preci- saria estar presentesobretudo naqueles que governam a cidade. Em A República, Platão nos apresenta à ideia do Rei-Filósofo: a fi- losofia é entendida como tão fundamental para o funcionamento da pólis que o principal atributo que um rei deve ter é a formação filo- sófica. Só esta poderá dar-lhe a sabedoria necessária para tomar as decisões corretas com relação à vida política e à moral de seu povo. Isso porque, seguindo as trilhas abertas por Sócrates, Platão entende que a filosofia pode levar ao conhecimento das virtudes em si e da justiça como ideia, não apenas a justiça que se manifesta nos vários exemplos de que dispomos em nossa realidade mais perceptível. Todas as manifestações de justiça que conseguimos observar são fragmentos de uma ideia cuja integralidade não pode ser compos- ta por tais fragmentos. É apenas o exercício do raciocínio, orientado pelo filósofo, que pode nos oferecer uma compreensão muito mais satisfatória do que os fragmentos de justiça que nos rodeiam. Confor- me vemos na afirmação de Strauss (2013, p. 52): se a justiça significa menos dar ou conceder a cada um o que a lei atribui a ele do que dar ou conceder a cada um o que é bom para sua alma, mas o que é bom para sua alma são as virtudes, segue-se que não pode ser verdadeiramente justo quem não conhece “as virtudes em si”, ou, em geral, as ideias, ou quem não é filósofo. As leis que os homens criam são também imperfeitas, pois são frutos do conhecimento imperfeito que temos de nossa realidade. Por isso, a filosofia platônica apresenta a dicotomia entre mundo sensível e mundo intelectivo. A nossa realidade sensível, aquela que nos chega por meio dos sentidos (tudo o que podemos tocar, ver etc.), é tomada por Platão como uma realidade imperfeita. Mas, com a sua teoria das ideias, Platão defende a existência de uma realidade diferente da descrita. Em um de seus diálogos, Timeu 52a, ele define essa outra realidade como estável, fixa, diferente da que normalmente temos diante de nós, em que tudo parece estar sob o signo do perecível e do mutável – nós frequentemente nos enganamos, nossas leis precisam ser revisadas, nossos corpos envelhecem etc. Já nessa realidade imutável, permanen- te, as coisas possuem uma natureza estável e imperecível. Dessa for- ma, o que temos é: O livro Édipo Rei – Antígona trata-se de um texto de teatro escrito por um dos três maiores nomes da tragédia grega. A personagem princi- pal é Antígona, filha de Édipo. Na defesa pelo sepultamento de seu irmão, Polinice, Antígona enfrenta Creonte, seu tio. Na peça, vemos as leis divinas sendo defendidas por Antígona, enquanto Creonte defende as leis humanas. Impor- tante perceber que no momento histórico em que a peça foi escrita, na sociedade grega já se en- contrava um certo espaço para a contestação das leis divinas. Creonte é o personagem que encarna esse espírito crítico. SÓFOCLES. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. Livro 16 Filosofia da Educação DS ta rk y/ aS ha til ov /S hu tte rs to ck MUNDO SENSÍVEL MUNDO INTELIGÍVEL • Os nossos sentidos e a nossa sensibilidade. • Perecível e mutável. • Intelecto e a sua capacidade de raciocínio lógico e abstrato. • O conhecimento verdadeiro se contrapõe às impressões sensíveis. A distinção entre realidades vem sendo motivo de intensas discus- sões ao longo da história. Houve uma tradição filosófica que associou a teoria das ideias (ou das essências) de Platão ao pensamento religio- so. Esse tipo de leitura da filosofia grega gerou a interpretação de que Platão estaria se referindo a um mundo do tipo espiritual, no sentido religioso. Mas a leitura mais filosófica e correta entende que o filósofo nos fala do mundo do intelecto e da capacidade de raciocinar e de or- ganizar os conteúdos do nosso mundo de maneira sistemática e mais geral possível. Conforme aponta Nodari (2004, p. 363): as ideias não são simples conceitos ou representações puramen- te mentais. Não são simples pensamentos, mas aquilo que o pensamento pensa quando liberto do sensível. Quando fala das ideias, Platão refere-se aos conteúdos objetivos de nossos con- ceitos universais. São o verdadeiro ser. São as essências objeti- vas. Aquilo que faz com que cada coisa seja aquilo que é. O que pode nos ajudar a compreender a citação de Nodari é pensar- mos sobre a definição de justiça, por exemplo. Se consultarmos cinco pessoas diferentes e pedirmos a cada uma delas a opinião sobre o que é justiça, é bem provável que cada uma dê uma definição diferente. A esse tipo de conhecimento Platão dá o nome de doxa, que se refere à opinião, ao conhecimento individual e parcial de algum conteúdo; con- traposta à doxa, o filósofo apresenta a noção de nous, conhecimento verdadeiro e também a parte racional e imortal do que o filósofo en- tende por alma. Filosofia, Educação e Ciência 17 Com tudo isso, é fundamental que percebamos o centro da argu- mentação platônica: o filósofo está apontando para a necessidade de apreender os limites da abstração e da objetividade, que, se conheci- dos, possibilitariam uma ação muito mais efetiva sobre a nossa realida- de. Um conceito conhecido em sua forma mais geral nos possibilitaria aplicá-lo a qualquer caso particular de nossa realidade contingente. É óbvio que, para conceitos que geram tantas opiniões e inúmeras inter- pretações, como é o caso de justiça, é muito mais complexo imaginar- mos a possibilidade de encontrarmos uma ideia tão ampla capaz de dar conta de todos os casos particulares. Por isso é que os exemplos mais interessantes vêm da matemática, da geometria. De modo muito simples, pensemos na definição de um quadrado ou de um círculo: após serem definidos, percebemos que tais definições podem se referir a quaisquer representações dessas figuras; o que pode diferenciar cada caso particular são apenas as medidas, mas a generalização da definição está lá. Mas Platão sabe que a geometria é insuficiente para todas as necessidades de uma realidade imperfeita como a nossa. Para esse filósofo, a passagem do mundo sensível ao mundo inteligível se dá em saltos de compreensão, saltos que podem ser entendidos como uma ascensão em níveis cada vez mais elevados de compreensão, sendo o último desses níveis o da sabedoria. Em nossa realidade, o filósofo seria aquele que nos apresenta o ca- minho dessa ascensão e nos ajuda em alguns de seus níveis iniciais. Porém, aquele que quer alcançar níveis elevados precisa afastar-se das questões da vida cotidiana. É preciso se sacrificar e renunciar ao que o mundo sensível e perecível oferece. Esse compromisso com a austeri- dade para consigo mesmo, com a renúncia dos desejos e a busca pelo autocontrole cada vez maior do corpo e do espírito ficou conhecido como ascese. A filosofia platônica é uma filosofia ascética, talvez por isso, ao lon- go da história, muitas leituras religiosas tenham tentado se apropriar dela. Por essas leituras, Platão seria mais um ser iluminado com uma mensagem capaz de modificar a história. Mas, ao que parece, Platão nos fala mesmo é da importância do exercício da razão e da busca do conhecimento em sua forma mais abrangente e geral possível, que são os limites de nossa própria racionalidade. Sugerimos àqueles que querem se aprofundar no conhecimento acerca do tema da ascensão e da ascese em Platão lerem o Capítulo VII de A República, além de Teeteto, um dos mais belos e importantes textos do filósofo. Saiba mais 18 Filosofia da Educação Há, no entanto, uma explicação bem menos elevada para entender essa separação em duas realidades muito distintas que Platão propõe em sua filosofia. Vimos, lá no início desta seção, que a primeira cultura grega cultivava a ideia de virtude. Mas no momento histórico em que Platão viveu, essa cultura estava sendo substituída por uma cultura me- nos aristocrática e mais aberta à participação geral dos cidadãos da pólis. Como a época dos grandes e míticos heróis gregos, Aquiles, Ajax, Ulisses etc., já havia acabado,não somente Platão, mas muitos outros artistas e filósofos que viveram na mesma época sentiam que seu tem- po era um tempo decadente, de graves problemas com a corrupção e de descontrole de toda sorte por parte da população. É possível, por isso, imaginar que o pensamento de Platão, legado a nós com os seus diálogos, reflita e potencialize esse sentimento. O mundo inteligível platônico é o mundo das virtudes perdidas e que precisa ser reconquistado. Mas o filósofo sabe que não é possível mais essa recuperação, pois sua sociedade e ele, filósofo, também são muito mais críticos do que eram seus antepassados com relação aos heróis que compõem a mitologia vigorosa que dá identidade ao povo grego em sua primeira cultura. Os heróis que foram cantados na obra de Homero agora não mais servem como modelos, mas como figuras que precisam ser analisadas em suas virtudes e defeitos. Sigamos uma análise da presença da epopeia homérica no interior da estrutura da tragédia grega – fica claro como a presença dos heróis nas tragédias já não desempenha a mesma função que nos clássicos de Homero: A epopeia 2 , que fornece ao drama os seus temas, suas persona- gens, o quadro de suas intrigas, apresentava as grandes figuras dos heróis de outrora como modelos; ela exaltava os valores, as virtudes, os grandes feitos heroicos. Por meio do jogo dos diálo- gos, do confronto dos protagonistas com o coro, das inversões da situação durante o drama, o herói lendário, cuja glória era cantada pela epopeia, torna-se, no palco do teatro, o objeto de um debate. Quando o herói é questionado diante do público, é o homem grego que, nesse século V ateniense, no e por meio do espetáculo trágico, descobre-se ele próprio problemático. (VERNANT; VIDAL-NAQUET, 2008, p. 161) Como não é mais possível recorrer ao exemplo mítico dos heróis do passado (o mito já não tem a mesma força sobre as mentalidades Na Ilíada estão presentes todos os heróis gregos que participaram da guerra contra Tróia. Já na Odisseia a história se concentra em um desses heróis retornando para casa após a guerra contra Tróia: Ulisses (em latim) ou Odisseu (em grego). 2 Filosofia, Educação e Ciência 19 muito mais críticas dos tempos de Sócrates e Platão), o filósofo propõe uma realidade fora ou para além do tempo, que é o mundo inteligível. Ser virtuoso não mais significa combater inimigos sem medo da mor- te, como na primeira cultura grega; é necessário agora, no tempo da democracia ateniense, renunciar cada vez mais ao atual mundo deca- dente, perecível e pouco confiável, parece nos dizer o filósofo. O auto- controle, a renúncia, a ascese e a razão podem nos fazer reencontrar a virtude dos nossos antepassados. A boa vida, que é a vida com justiça, só pode ser alcançada por meio do exercício contínuo de sacrifício e autocontrole. Há muitos outros aspectos da filosofia platônica que são fundamen- tais para a história do pensamento mundial e da cultura, mas o que foi dito até aqui é suficiente para nossos objetivos. A filosofia platônica, é importante observar, é a filosofia socrática adicionada de preocupa- ções acerca da origem do conhecimento. Assim, uma possível resposta de Platão à nossa pergunta inicial, “o que é filosofia?”, poderia ser: é pensar sobre o processo da origem do conhecimento, como ela funda- menta a realidade em duas partes, a sensível e a intelectiva, e, principal- mente, que efeitos morais ela pode ter sobre os homens em sociedade, como esse mundo intelectivo se coloca como uma dimensão para além do mundo sensível, físico – daí o termo metafísica (do grego metaphysis): além da física ou além da natureza. 1.1.2 Nietzsche: a resposta de um rebelde Vamos pensar juntos: se nos guiarmos pela resposta de Sócrates e Platão, é possível dizer que a concepção desses filósofos pode ser to- mada como uma resposta definitiva e única para a nossa pergunta? Ainda que esses filósofos tenham se preocupado com os limites e as possibilidades de generalização do conhecimento humano, a resposta deles à nossa pergunta não nos satisfaz. Isso porque vamos encontrar em outros filósofos outras preocupações e definições – algumas, inclu- sive, opostas ao que disseram nossos dois filósofos gregos. O caso mais emblemático, nesse sentido, é o de Friedrich Nietzsche (1844-1900), cuja filosofia tornou-se célebre por, entre outros importantes motivos, ser antiplatônica. Por meio da ascensão do poderio romano sobre os gregos, a me- tafísica platônica é aproximada da religião cristã, com base no desen- Figura 3 Retrato de Friedrich Nietzsche Filósofo, filólogo, crítico cultural, poeta e compositor prussiano do século XIX. Fr ie dr ic h Ha rtm an n/ W ik im ed ia C om m on s Não vamos nos aprofun- dar neste aspecto, mas re- comendamos fortemente àqueles que se interessam pelo tema a leitura das tra- gédias gregas, compostas para serem encenadas. Ésquilo, Sófocles e Eurí- pedes, que viveram em uma época histórica muito próxima à de Platão, são os três maiores escritores gregos de tragédias. Em praticamente todas elas, os heróis gregos de um passado muito distante são colocados diante de situações dramáticas muito humanas. O aspecto antes mítico desses heróis fica em segundo plano e, diante de situações extremamente complexas, agora nas peças dos três dramaturgos citados pas- sam a mostrar ao público suas ações e decisões de uma forma muito humana, recheadas de boas e más escolhas, bons e péssimos comportamentos. Saiba mais 20 Filosofia da Educação volvimento da própria Igreja Católica. A filosofia desse período ficou conhecida como patrística, em função da ativa participação dos padres da Igreja Católica na vida cultural e educacional das sociedades desse período. Assim, no fim da Idade Média, o platonismo estava já embe- bido da religião cristã. Na verdade, é mais exato dizer que a metafísica do fim desse período histórico era a metafísica cristã, que usara alguns preceitos presentes no platonismo. É possível dizer que na modernidade esse combo de religião e filoso- fia tornou-se incômodo para muitos dos filósofos do período, uma vez que a filosofia precisava compreender os novos tempos, que se organi- zavam em torno da racionalidade que impulsionava a ciência, cada vez mais matemática e empírica: isso quer dizer que era necessário concen- trar-se no que experiências e demonstrações procuravam provar. Propor mundos ideais, como a ideia de paraíso no cristianismo ou de mundo das ideias em Platão, passa a não ser mais o centro das preocupações filosóficas. Immanuel Kant (1724-1804) já havia proposto uma distinção importante, em sua obra maior A Crítica da Razão Pura (1781), entre mundo numênico, o mundo das coisas em si, que, se exis- tisse, estaria desde sempre vedado aos humanos, uma vez que nossa capacidade racional limitada não conseguiria perceber essa realidade, e o mundo fenomênico, o mundo dos fenômenos, que se refere à rea- lidade como ela se apresenta comumente a nós, por meio da nossa razão e dos nossos sentidos. O mundo da ciência e os interesses da filo- sofia se voltam quase que completamente para essa última realidade. Mas foi em Nietzsche que a metafísica cristã-platônica encontrou seu maior crítico. Segundo o filósofo, “a raiz profunda, a base comple- tamente desenvolvida do pensar metafísico, encontra-se sistematizada no idealismo platônico, com a doutrina das ideias e a consequente opo- sição entre os mundos sensível e inteligível” (GIACOIA JÚNIOR, 2007, p. 13). As investidas de Kant, procurando separar a metafísica dos inte- resses da filosofia, não foram suficientes. Nietzsche consegue identifi- car, em seu tempo, o século XIX, a presença de uma metafísica pulsante e vigorosa e ainda muito próxima da filosofia. Nietzsche entende que Platão usou a filosofia para imprimir nela os aspectos da personalidade de um legislador moralista. Platão, por essa interpretação, teria verdadeiro desprezo pelo mundo sensível e, por conseguinte, pelossentidos, nutrindo, principalmente, grande “indis- Filosofia, Educação e Ciência 21 posição contra a realidade mais próxima, que pesa como um fardo so- bre o pensamento: corpo, carne, sangue, paixão, volúpia, ódio” (GIACOIA JÚNIOR, 2007, p. 19). É por isso então que Nietzsche, desde os primei- ros escritos, planejava o chamado platonismo revertido como seu proje- to principal, que, em outras palavras, seria construir uma filosofia que fosse o exato oposto da filosofia platônica. Para Nietzsche, a influência da metafísica platônica, ao longo dos séculos, havia sido devastadora, principalmente quando se uniu ao cristianismo, produzindo uma metafísica ainda mais poderosa, pois formou a ideia de que o mundo sensível e tudo que pertence a ele pre- cisam ser continuamente desprezados. A filosofia nietzschiana preten- de revalorizar todos os aspectos condenados pela metafísica cristã-platônica. Para Nietzsche, nenhum ser humano devia moldar seu caráter com base em promessas de realizações futuras em alguma rea- lidade que não seja a que tem diante de si. Assim, contra o essencialis- mo da filosofia platônica, Nietzsche procura apontar a riqueza e a necessidade de valorizar o mundo que se apresenta para nós em sua aparência atual. A filosofia de Nietzsche não obteve grande êxito enquanto ele esteve vivo, mas não podemos deixar de observar que hoje ela é extremamente influente. Nas discussões sobre a pós-modernidade, é difícil não encontrar referências ao seu pensamento. Mas o que nos importa verdadeiramente é perceber como o seu entendimento acerca da filosofia é profundamente diferente da visão de Platão. Se, para Platão, a filosofia é sobretudo metafísica, como Niet- zsche responderia a essa questão? Nietzsche sempre gostou de usar a imagem do martelo, que pode ser visto como um elemento de desmonte, destruição. Ele dizia que filosofava com o martelo, ou seja, sua filosofia buscava a destrui- ção de outras filosofias, ou das ilusões que elas propunham, prin- cipalmente a cristã-platônica. Assim, se fizéssemos a pergunta que nos interessa desde o início para Nietzsche, “o que é filosofia?”, a resposta provavelmente seria: é uma antimetafísica; é a valoriza- ção, pela via do conhecimento, das aparências, e não das essências. Por essa razão é que não podemos buscar uma definição profun- da do que seja a filosofia com base na definição de dicionários, pois vemos que a resposta a essa pergunta depende mesmo é do que Figura 4 Sculpture agenouillé (escultura ajoelhada), de Charles Henry Niehaus Kilom 691/W ikim edia Com m ons O martelo, para Nietzsche, era um elemento de desmonte, demolição. Filosofar com o martelo é buscar a destruição de outras filosofias, ou das ilusões que elas propunham. O livro Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural apresenta as mudanças sociais, culturais, artísti- cas, filosóficas, científicas e estéticas que surgiram após a Segunda Guerra Mundial, as quais foram responsáveis por grandes transformações nas relações travadas entre as crescentes práticas capitalistas, a arte e a cultura. HARVEY, D. São Paulo: Edições Loyola, 2005. Livro https://commons.wikimedia.org/wiki/User:Kilom691 https://commons.wikimedia.org/wiki/User:Kilom691 https://commons.wikimedia.org/wiki/User:Kilom691 https://commons.wikimedia.org/wiki/User:Kilom691 https://commons.wikimedia.org/wiki/User:Kilom691 https://commons.wikimedia.org/wiki/User:Kilom691 https://commons.wikimedia.org/wiki/User:Kilom691 https://commons.wikimedia.org/wiki/User:Kilom691 22 Filosofia da Educação pensa cada um dos filósofos. Vimos, com Nietzsche e Platão, que essas respostas podem, inclusive, ser diametralmente opostas. Uma das per- guntas mais difíceis de serem respondidas é aquela cuja resposta deva ser capaz de delimitar o(s) campo(s) de investigação da filosofia. Houve, no século XX, por exemplo, o movimento filosófico conhecido como positivismo lógico, cujos principais filósofos, organizados em um grupo chamado de Círculo de Viena, muito atentos ao desenvolvimento da ciência, sobretudo da física, entenderam que caberia à filosofia ape- nas o papel de auxiliar das ciências, buscando interpretar e compreen- der as relações lógicas das proposições científicas. Todas as discussões consideradas filosóficas que não se encaixassem nessa função auxiliar, não servindo para melhorar a compreensão lógica das teorias científicas, foram consideradas por esses filósofos como metafísicas. Então, nesse caso, a metafísica era entendida segundo um sentido bastante pejorativo, como uma espécie de lixo filosófico, frases e con- ceitos que não podem ser provados e, por isso, são inúteis. É claro que essa é uma posição radical, inclusive alguns dos filósofos pertencentes ao Círculo de Viena mais tarde a revisaram, mas vemos aí mais uma definição de filosofia – esta, inclusive, elenca boa parte do que é consi- derado filosofia como inutilidade sem fundamento – bastante diferente daquelas que acompanhamos até aqui. De qualquer forma, nesta seção conseguimos aprender que uma resposta com maior exatidão à pergunta “o que é filosofia?” depende muito da filosofia em questão. Mas não vamos terminar sem uma defi- nição mais objetiva para a nossa pergunta inicial. Sim, a construção de uma resposta com certa objetividade é possível – desde que saibamos que essa resposta é objetiva para satisfazer nossos fins didáticos, afinal o mundo em que vivemos exige de nós uma certa objetividade, não? Quando levamos em consideração não apenas os filósofos, mas também os acadêmicos e estudiosos da filosofia, uma resposta que pa- rece ser razoavelmente satisfatória a todos seria: a filosofia é uma ativi- dade intelectual que procura colocar sob investigação nossas crenças a fim de validá-las ou não, investigação essa que procura se orientar por métodos racionais propostos pelos filósofos. Validar uma crença signi- fica oferecer provas ou argumentos, em seu favor, que sejam capazes de justificar a veracidade dessa crença. A filosofia platônica e a filosofia nietzschiana são antagônicas na maior par- te de seus princípios. No entanto, parece que, no mundo contemporâneo, a filosofia de Nietzsche tem sido mais valorizada. Procure refletir sobre as razões a respeito dessa preferência dos nossos tempos. No link a seguir, você encontra um texto que pode auxiliá-lo nessa reflexão. Disponível em: https://educacao. uol.com.br/disciplinas/filosofia/ filosofia-pos-moderna---nietzsche- a-relativizacao-dos-valores.htm. Acesso em: 16 jul. 2021. Desafio https://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/filosofia-pos-moderna---nietzsche-a-relativizacao-dos-valores.htm https://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/filosofia-pos-moderna---nietzsche-a-relativizacao-dos-valores.htm https://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/filosofia-pos-moderna---nietzsche-a-relativizacao-dos-valores.htm https://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/filosofia-pos-moderna---nietzsche-a-relativizacao-dos-valores.htm Filosofia, Educação e Ciência 23 Conforme mencionado, eis uma boa resposta, mas agora sabemos também que as respostas tendem a se complexificar se resolvermos mergulhar nos conhecimentos de cada um dos grandes filósofos, certo? 1.2 Filosofia e filosofia da educação Vídeo Você já deve ter percebido que a filosofia gosta de discutir com uma certa profundidade cada assunto que lhe cabe. Na verdade, essa é a própria natureza da filosofia: discutir com precisão e profundidade, procurando concentrar-se nos pontos que não são percebidos ou não são valorizados por pessoas, entidades ou instituições que se debru- çam sobre um certo assunto. O filósofo é aquele tipo de pessoa que não pode se contentar com respostas prontas. Você lembra que na definição objetiva para a pergunta “o que é filo- sofia?” falávamos em análise das crenças, para validá-las ou não? Pois então, a filosofia sabe que, quando uma crença funciona plenamente em nós, ela apareceem nosso discurso da maneira mais espontânea possível. Isso ocorre porque nós acreditamos tão profundamente nes- sa crença que dificilmente paramos para analisá-la. 1.2.1 O olhar divergente da filosofia Quando falamos em crença, associamos esse nome imediatamente à religião. Crença, no entanto, é apenas uma maneira de nos referir- mos a alguma coisa ou ideia que acreditamos ser verdadeira. Vejamos um exemplo. Talvez você more em um prédio que utiliza a divisão entre elevadores sociais e elevadores de serviço. De modo geral, a maioria de nós respeita essa divisão sem problema algum. Mas, quando ocorre algum caso que repercute na mídia, por exemplo, a potencial discrimi- nação que existe nessa divisão, alguns começam a pensar melhor nos problemas sociais envoltos nessa prática e possivelmente todos, após algum tempo, voltam ao mesmo hábito antigo sem mais pensar nos aspectos problemáticos existentes ali. Esse é um exemplo simples de crença embutida em nossos hábitos; tendemos a repetir e repetir esses hábitos cotidianamente sem problematizá-los. Em um certo sentido, é importante que seja assim, uma vez que isso facilita a dinâmica social do nosso cotidiano. Já imaginou se passássemos a problematizar cada crença? Certamente nossa dinâmica diária estaria 24 Filosofia da Educação completamente comprometida; ficaríamos apenas pensando e não agi- lizaríamos mais a nossa vida. Por outro lado, teríamos sociedades mais maduras e esclarecidas se nos esforçássemos um pouco mais no ques- tionamento de nossas crenças e das crenças sociais que mantêm certos arranjos da ordem social que incomodam a muitos, mas nunca foram analisados de maneira aguda, profunda e com argumentos fortes. Voltando ao exemplo do elevador e suas divisões sociais, vemos que poucas pessoas interrompem suas preocupações cotidianas para pensar sobre os aspectos problemáticos em torno de coisas e ações tão rotinei- ras em suas vidas: respeitar as divisões sociais estabelecidas enquanto utilizam um aparelho mecânico para subirem ou descerem até os seus destinos de trabalho e lazer. O filósofo não faz isso. Ele vai se preocupar com aquilo que deixamos de perceber. Mas somente o filósofo deve ter essa postura? Não, claro que não! Aliás, ele não age dessa maneira para manter-se fiel à sua tradicional imagem de “avoado”, “excêntrico”. Como já foi dito, ele age dessa maneira porque está treinado para olhar aspectos do real que geralmente ignoramos; mas nós dificilmente adotamos a mesma postura do filósofo. Claro, podemos alegar que não temos treinamento para isso. No entanto, esse não é um argumento tão convincente. Vamos tentar aqui enriquecer esse argumento para melho- rar a defesa de quem acha que não pode tomar uma atitude parecida com a do filósofo. Para isso, será de grande utilidade a excelente explicação de dois sociólogos muito influenciados por uma escola filosófica importante do século XX chamada Fenomenologia, cujos maiores representantes são os filósofos Edmund Husserl (1859-1938) e Martin Heidegger (1889-1986). Os sociólogos em questão, Peter Berger (1929-2007) e Thomas Luckmann (1927-2016), nos ensinam que existem vários níveis de rea- lidade, os quais diferem quanto à nossa capacidade de consciência em relação a cada um deles. A consciência da realidade de estarmos es- crevendo este texto agora ou de você estar lendo este texto agora é muito mais apreensível ao sujeito do que os aspectos dessa mesma realidade quando ela nos aparece nos sonhos, por exemplo. A essa realidade mais apreensível, Berger e Luckmann chamam de realidade da vida cotidiana. É da realidade da vida cotidiana que falamos no caso do exemplo do elevador. Vejamos, em mais detalhes, como Berger e Luckmann (1991, p. 35, grifo do original) a caracterizam: Filosofia, Educação e Ciência 25 Eu apreendo a realidade da vida cotidiana como uma realidade ordenada. Seus fenômenos estão pré-arranjados em padrões que parecem ser independentes da apreensão que tenho deles e que se impõem sobre ela. A realidade da vida cotidiana pare- ce já objetificada, isto é, constituída por uma ordem de objetos que têm sido designados enquanto objetos antes do meu apare- cimento na cena. Em outras palavras, o que os autores estão sugerindo é que a nossa realidade é a maneira como comumente entendemos como os obje- tos estão relacionados entre si, e que eles já estão prontos e definidos antes de nossa presença. Mas não apenas de nossa presença em uma cena qualquer da vida cotidiana, mas nossa presença na própria vida. Quando nascemos, já encontramos um mundo pronto, com objetos nele, cada um tendo uma ou várias funções e significados. Nós não construímos esses significados; nós os aprendemos nos processos de socialização ao longo de nosso crescimento (na escola, na família, com amigos, no trabalho) e, sem ao menos perceber, logo esta- mos com esses significados internalizados, repetindo as mesmas ações e os compreendendo da mesma maneira que as outras pessoas que vi- veram na mesma sociedade antes de nós. Segundo Berger e Luckmann (1991, p. 35-36): A linguagem usada na vida cotidiana continuamente me for- nece as objetificações necessárias e postula a ordem dentro da qual estas fazem sentido e dentro da qual a vida cotidiana tem um significado para mim. Vivo em um lugar que é geo- graficamente designado; emprego ferramentas, de abridores de lata a carros esportivos, que são especificadas pelo voca- bulário técnico da minha sociedade. Vivo dentro de uma rede de relações humanas, do meu clube de xadrez aos Estados Unidos da América, que também são ordenados por meio do vocabulário. Dessa forma, a linguagem marca as coordenadas da minha vida em sociedade e preenche a minha vida de ob- jetos com sentido. Nesse processo, a linguagem não só falada, mas também pensada, produzida socialmente, é internalizada por nós. Por essa razão, tende- mos a pensar e perceber a realidade de maneira muito parecida com as pessoas que pertencem à mesma sociedade. Assim, se essa sociedade não pensa muito sobre a discriminação sobre elevadores, é bem possí- vel que nós também não pensemos. 26 Filosofia da Educação Até porque, além de herdarmos uma linguagem comum, social, que nos faz perceber e pensar o mundo sob uma perspectiva, as pessoas ao nosso redor confirmam a veracidade das nossas ações e pensamen- tos toda vez que essas ações e pensamentos expressam um conteúdo referendado pela sociedade: “eu sei que a minha atitude natural nesse mundo corresponde à atitude natural dos outros, que eles também en- tendem as objetificações por meio das quais esse mundo é organizado” (BERGER; LUCKMANN, 1991, p. 37). Isso quer dizer que o conhecimento do mundo pressupõe, em grande parte, a intersubjetividade do meu conhecimento, ou seja, eu preciso encontrar confirmação do que pen- so, sinto e expresso nas outras pessoas também. Perceba que, se levarmos essas considerações a sério, concluiremos que boa parte de como entendemos o mundo, pensamos e agimos so- bre ele se deve a um grupo maior de pessoas, e não somente a nós. E aí chegamos ao ponto essencial: por todas essas razões, enquanto o mundo estiver funcionando da maneira como o conhecemos, ou seja, enquanto as pessoas ao nosso redor acharem corretas nossas ações e pensamentos, tendemos a não questioná-lo. Se, então, quase ninguém vê o problema discriminatório na divisão de elevadores, dificilmente nós enxergaremos. Se, no Brasil, quase até metade do século XIX, ape- nas uma parcela ínfima da população livre via como errada a explora- ção da escravidão, então a chance desse tipo de exploração existir sem contestação até aquele momento era enorme. Mas temos que tomar cuidado para não confundirmos o que foi dito até aqui com uma visão determinista, ou seja, não devemos ima- ginar que estamos completamente determinados a sermos meros re- produtores de tudo o que nos ensinam. Nós efetivamente tendemos a essa repetição, mas existem idiossincrasias em nós como sujeitos, que nãovão se conformar com o que aprendemos e apreendemos do mundo social. Há pessoas que percebem que há problemas profundos no mundo que herdamos e passam a questionar a realidade. Também há pessoas que se especializam em perceber alguns desses problemas; é o caso do filósofo. Com relação a esse último, Berger e Luckmann chamam sua atitude de atitude teórica. Já que o filósofo está sempre buscando perceber os “furos” da rea- lidade por meio do conhecimento e da teoria, assim ele, muitas vezes, idiossincrasia: constitui- ção individual, em virtude da qual cada indivíduo reage diferentemente à ação de agentes externos. Glossário consegue passar da atitude natural, que é a simples aceitação e a re- produção dos conteúdos sociais, inclusive os discriminatórios, sem questionamento algum, para a atitude teórica, que é conseguir não somente perceber alguns dos problemas mais graves em nossa reali- dade, mas também questioná-los com base no conhecimento bem fun- damentado. De modo geral, as pessoas mais acomodadas em relação ao mundo que herdam dificilmente buscam sair da atitude natural e dar um salto para a teórica. 1.2.2 A filosofia da educação O filósofo, muitas vezes, é visto como alguém excêntrico, distraído ou descuidado. Na verdade, ele não está distraído, mas está pensando sobre aspectos da nossa realidade por ângulos que não são muito cos- tumeiros. Platão nos conta no Teeteto, 174a, que na Grécia antiga Ta- les de Mileto (623-558 a.C.), considerado por muitos o primeiro filósofo, certa vez, observando o céu, caiu em um buraco e, nesse instante, foi zombado por uma moça espirituosa que disse que o filósofo procurava entender o que se passava no céu, mas não via o que estava junto aos próprios pés. Essa imagem sobre os filósofos parece ter ainda muita força em nossos dias, não? De qualquer forma, não podemos ignorar que Tales inventou a matemática dedutiva e é também autor de teoremas que usamos ainda hoje na geometria. Será que alguém tão distraído assim seria capaz de produzir façanhas do intelecto como ele produziu? Até agora, acompanhamos referências à filosofia de maneira geral, mas é preciso saber que a filosofia tem áreas especí- ficas de interesse. Assim como o mundo contemporâneo é altamente especializado, a filosofia, como uma forma importante de conhecimento que busca estar atenta a cada uma dessas especializações, possui também suas divisões. Há, por exemplo, a filosofia da química, a filosofia da física, a filosofia política, a filosofia da mente, a filosofia da ciência, a filosofia da psicologia e, entre muitas outras, a filosofia da educação. Essa última é a que nos interessa nesta obra. Já conhecemos bem o espírito filosófico geral, que está presente em todas as filosofias citadas. Mas, na prática, o Filosofia, Educação e CiênciaFilosofia, Educação e Ciência 27 Triff/Shutterstock 28 Filosofia da Educação que é e como funciona a filosofia em uma de suas especializações, nes- se caso, a educação? O que é, portanto, a filosofia da educação? Podemos dizer que o sistema escolar funciona sobre uma base teó- rica que orienta os professores em todas as disciplinas. Além da ma- téria específica de cada um deles, há sempre um ou alguns métodos adotados pelos professores que são pensados para ajudar a fluência do aprendizado: a comunicação entre professores e alunos, a com- preensão mais fácil dos conteúdos, as questões disciplinares etc. Geralmente quem define os métodos e as linhas teóricas a serem adotadas são os profissionais da área da pedagogia. A pedagogia, por- tanto, está muito preocupada com a definição desses métodos, da apli- cação deles em sala de aula e dos resultados gerais que eles produzem. A aplicação de uma pedagogia, portanto, diz respeito à aplicação de normas bem estabelecidas que buscam reger um sistema de ensino como um todo. Muitas vezes, a filosofia da educação é confundida com a pedago- gia, mas precisamos estabelecer a diferença aqui. Enquanto a pedago- gia está preocupada com as normas e com o bom funcionamento da aplicação de métodos previamente escolhidos, a filosofia da educação está preocupada em analisar todo esse universo de funcionamento re- gido pela pedagogia. Uma boa filosofia da educação se preocupa em analisar tanto os aspectos das teorias pedagógicas vigentes na escola ou no sistema es- colar quanto os aspectos humanos e sociais relacionados a tais teorias. É possível dizer que a pedagogia precisa dar respostas institucionais muito mais objetivamente do que a filosofia da educação. Antes de iniciar o ano letivo, todo um projeto pedagógico precisa estar pronto, bem definido, bem fundamentado e, ao longo do ano, precisa dar resultados. Resultados, inclusive, que podem ser medidos: as notas médias dos alunos de cada série, o grau de alfabetização, a ca- pacidade de resolver problemas matemáticos, o desempenho de cada professor etc. Assim, a medição dos resultados gera números, gráficos e perfis pedagógicos muito claros e precisos, o que, por sua vez, gera muita cobrança e pressão quando os resultados não se mostram os melhores O documentário A Educa- ção Proibida procura fazer uma crítica ao modelo pedagógico atual e sugere um novo modelo edu- cativo. As críticas feitas entendem que o modelo de ensino atual está enrijecido e dirigido mais a uma espécie de condi- cionamento para que o ci- dadão sirva aos interesses do sistema social do que propriamente à educação em sentido lato. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=OTerSwwxR9Y Acesso em: 16 jul. 2021. Documentário Filosofia, Educação e Ciência 29 possíveis. Podemos perceber, então, o papel central que a pedagogia possui nesse cenário. É claro que a pedagogia também está em contato direto com as várias teorias pedagógicas; não se trata de um campo exclusivamente técnico em que somente números, dados e resultados estão presen- tes. Mas mesmo que essas teorias sejam estudadas e exaustivamente discutidas, ao fim do processo, é sempre a aplicação delas que vai ser medida e gerar cobranças. Portanto, a responsabilidade institucional está continuamente presente no horizonte da pedagogia. Já a filosofia da educação não tem sobre ela o peso de precisar ofe- recer respostas institucionais imediatas. Ela, podemos dizer, fica na re- taguarda do processo de ensino, procurando analisar o que tem sido adotado pedagogicamente, os resultados da pedagogia vigente, mas não somente isso: ela procura analisar os aspectos filosóficos, humanos e sociais que também habitam aquele sistema educacional e que não são motivo de reflexão nem da pedagogia nem de outras disciplinas. Você se lembra da atitude filosófica de Tales de Mileto, preocupado com o que ocorria nos céus enquanto todas as outras pessoas estavam preocupadas com os assuntos mais cotidianos, mais, digamos assim, terrenos? De certa forma, o filósofo da educação tem o mesmo papel, mas agora o seu céu é a educação. O filósofo da educação pode permitir-se perguntar sobre a efeti- vidade do que está sendo ensinado, por exemplo. Você se lembra de uma cena clássica do filme Sociedade dos Poetas Mortos (1989) em que o admirado professor de literatura de um colégio de ensino muito rí- gido pede aos alunos que rasguem as folhas do manual de literatura? O manual explicava como é possível medir matematicamente a beleza de um poema. O professor percebe que aquele método não é nenhum pouco efe- tivo e, mais, percebe que ele não contribui para que os alunos se inte- ressem pela poesia. Ou seja, na cabeça do professor está claro que o método adotado que visa ensinar e criar uma certa sensibilidade poéti- ca nos alunos faz justamente o contrário. Os alunos relutam em rasgar as folhas, mas logo que o fazem se sentem felizes e como que se liber- tando de um fardo. A partir daquele momento, os alunos começam a se interessar pelo assunto. 30 Filosofia da Educação Pois bem, o nosso professor em questão teve uma atitude filosófi- ca. Ele conseguiuenxergar vários dos elementos que estavam em jogo naquele contexto: ele percebeu a insatisfação dos alunos, a ineficácia do método, o tipo de aluno que estava sendo formado pela instituição – onde eles aprendiam a anotar tudo e estudar demasiado, mas ne- nhum se mostrava apaixonado pelo estudo e pelo conhecimento – etc. Enxergando aquilo e vendo sua ineficácia, ele propôs e implantou um novo método. No filme, que obviamente romantiza esse processo, o método do professor dá certo em, pelo menos, um aspecto: os alunos passam a gostar daquela matéria e ter um novo olhar sobre o conhecimento, e uma transformação profunda se inicia em cada um deles. Não se pode esperar que o filósofo da educação vá ser tão bem-su- cedido em todas as suas ações e sugestões quanto o professor do fil- me, mas sua tarefa na educação é bem parecida. Claro, ele não precisa pedir para que os alunos rasguem seus livros, mas ele pode analisar a pedagogia que está sendo praticada e propor reformulações. Mas ele não fará isso sem argumentos: vai certamente oferecer inúmeros argu- mentos para mostrar as falhas do sistema atual e alternativas que ele julga serem muito melhores. Ele fará isso não porque é inimigo da pedagogia que está sendo adotada pelo sistema educacional ou porque quer criar uma rixa com a pedagoga responsável. Ele fará isso porque provavelmente toda a pedagogia ali está regendo a vida educacional há tanto tempo que ninguém mais a contesta, já foi incorporada como uma crença. Todos automatizaram o que precisa ser feito e o fazem ano após ano da mes- ma maneira. Mas agora já sabemos como um filósofo trata as crenças; ele está treinado para perceber ao menos algumas delas, operando na educação, e dizer quando elas são boas para o ensino ou quando elas são perniciosas e atrapalham o processo de aprender. O filósofo da educação pode também interessar-se por certos temas que ele considera que precisam ser mais bem discutidos por aqueles profissionais que estão na linha de frente da educação. Um exemplo bem presente em nosso tempo é a disputa entre o ensino mais hu- manístico e o de viés tecnicista. De modo geral, as propostas de ensino tecnicista são bem empolgantes. Pais e alunos ficam satisfeitos quando Um dos temas que tem preocupado filósofos da educação no mundo inteiro é a relação que jovens estudantes esta- belecem com as redes sociais. O livro A Sociedade de Controle – Manipulação e modulação nas redes digitais faz uma reflexão importante dos perigos quanto à captação dos dados que informamos às redes (mesmo que isso pareça inofensivo), e em como os governos não estão estabelecendo restrições suficientes para limitarem essa captação por parte das empresas. O livro é composto de ensaios de pesquisadores que se apoiam em teorias de filósofos contemporâ- neos importantes, como Maurizio Lazzarato, Michel Foucault, entre outros. SOUZA, J.; AVELINO, R.; SILVEIRA, S. A. da. São Paulo: Hedra, 2019. Livro Filosofia, Educação e Ciência 31 ouvem suas ofertas. Em um país, como o nosso, que está na semiperi- feria do capitalismo, parece haver só vantagens quando a proposta é ensinar ao jovem alguma habilidade técnica, seja ela aprender a operar máquinas modernas, consertar aparelhos elétricos ou eletrônicos etc. Os pais imaginam independência financeira para o futuro dos fi- lhos e os filhos ficam empolgados porque, imaginam, vão trocar toda aquela “chatice” de filosofia, história e sociologia por ferramentas e aparelhos eletrônicos. É óbvio que não há mal algum no aprendizado de tais atividades. Porém, se isso resultar na perda do contato dos alunos com disciplinas que os farão pensar em sua própria humanidade e na relação deles com outros seres humanos em sociedade, pode haver aí um prejuízo. Porém, esse é um prejuízo difícil de mensurar. Como eu posso medir o quanto da capacidade de reflexão e humanização um aluno perdeu? É aí que entra o filósofo, que busca compreender o problema e, quando possível, visualizar soluções. Vejamos o que pode ser dito sobre o pro- blema do tecnicismo na educação: Amparado pela capitalização do conhecimento incorporado pelo sujeito, o tecnicismo continua validando suas verdades sobre o mundo vivido no espaço escolar, conduzido pelas esteiras atuais da nova fase de modernização da sociedade informacional e global. Por esses meios, os desdobramentos que assumiu no terreno fecundo da educação brasileira fizeram prosperar, jus- tamente, os germes que se propunha a reforma do ensino: o preparo para a produção industrial. A razão “encantada” pelos artifícios da reprodução do capital e, com ele, da reprodução da cultura é conduzida a uma identidade particularmente fortuita, incisivamente inclinada a imperar somente seu lado desviante, como razão instrumental. (BRENNAND; MEDEIROS, 2018, p. 12) O problema maior apontado pelos autores anteriores é o fato de que a educação tecnicista, do modo como normalmente é proposta, acaba por focar apenas os conteúdos que apenas têm a razão instrumental como base. Esta é um conceito desenvolvido por um filósofo alemão contemporâneo chamado Jürgen Habermas. Em poucas palavras, a ra- zão instrumental estabelece como único critério a utilidade. Historica- mente esse tipo de racionalidade foi utilizada pelo homem para dominar a natureza, conhecendo seu funcionamento por meio da ciência. 32 Filosofia da Educação O problema é que as relações humanas e os problemas sociais não são apenas coisas e precisam de um outro tipo de racionali- dade que não tenha como critério único a utilidade. Relacionar-se com coisas e com artefatos tecnológicos permite relações regidas pela utilidade, mas com pessoas é o contrário. Um dos problemas da educação tecnicista seria não problematizar as consequências no comportamento e na sensibilidade de pessoas formadas apenas para valorizarem o útil. Pensando na relação que os jovens, e boa parte dos adultos também, esta- belecem com as redes sociais, que tipo de considerações você imagina que um filósofo da educação poderia fazer? Elenque algumas dessas considera- ções observando as informações a seguir: • Compreender, com elementos da análise da economia, análise da infor- mação e da sociologia, como empresas lucram com a nossa ignorância acerca dos métodos de coleta de informação nas redes sociais. • Elencar efeitos negativos que a relação exagerada com as redes pode causar: efeitos psicológicos, sociais etc. • Buscar entender como a relação disfuncional com a internet pode com- prometer os relacionamentos afetivos. • Apresentar o perfil do consumista compulsivo, que muitas empresas tentam impor como padrão aos internautas. Desafio Mas o que nos interessa é apenas perceber até onde se estende o olhar filosófico na educação. O filósofo da educação precisa estar aten- to a questões que nem sempre são conhecidas, mas que ele percebe que incidem sobre a educação de maneira fundamental. Como eco- nomistas, sociólogos, administradores e políticos oferecem sua contri- buição tomando decisões com base em índices, gráficos e relatórios, o filósofo da educação é aquele que vai debruçar-se sobre temas como o da razão instrumental, por exemplo, que é mais abstrato e não se mede em números. E por serem temas já mais abstratos por natureza, muito especializados e que despertam pouco interesse na maioria das pessoas, a contribuição da filosofia da educação para o desenvolvimen- to humano acaba, muitas vezes, passando despercebida. O livro A obra em Negro conta a história de um homem da Idade Média que foi médico, filósofo e alquimista. À medida que esse personagem vai se aprofundando no conhe- cimento de si, por meio de suas ricas experiências com o conhecimento, o conflito entre suas ideias e as imposições de uma sociedade marcada pela intolerância religiosa vai aumentando. Um romance de difícil leitura, mas que compensa por ser considerado um dos cem maiores romances do século XX. Zenon, o personagem principal, encarnamuito do que foi discutido neste capítulo em torno da ideia de atitude teórica. YOURCENAR, M. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018. Livro Filosofia, Educação e Ciência 33 CONSIDERAÇÕES FINAIS Se chegamos até aqui com uma compreensão melhor do que é filoso- fia e do que é filosofia da educação, boa parte de nossos objetivos foram atingidos. Precisamos entender que a filosofia é essencialmente uma for- ma de conhecimento muito preocupada com a fundamentação. Ela não pode ter medo de aprofundar-se na análise dos conceitos que embasam a educação. Instrumentalizada como filosofia da educação, sua tarefa é justamente mergulhar no estudo das teorias e dos conceitos que formam a base das pedagogias adotadas e buscar extrair dali razões para dizer que aquela pedagogia é adequada ou para dizer que aquela pedagogia não serve aos propósitos da educação. Nesse sentido, é preciso compreender que a filosofia da educação não é necessariamente um trabalho que visa à legitimação fácil de qualquer pedagogia. Ela pode muito bem encontrar problemas graves na pedago- gia adotada e não a recomendar como adequada para o processo de en- sino. Sendo assim, ainda que preocupada em fundamentar seu objeto de análise, ela pode também rechaçá-lo. A pedagogia sabe disso; a boa pedagogia respeita a natureza filosófica, aliás, o que ela mais deve esperar é que a filosofia da educação se empenhe no rigor de suas análises. Com Sócrates, Platão e Nietzsche, observamos que os filósofos dificil- mente repetem uns aos outros; quase sempre estão nos desvelando as- pectos inéditos da realidade. Depois, vimos o quanto a natureza filosófica é importante para a filosofia da educação: espera-se dela que, se for necessá- rio, se contraponha a crenças e costumes enraizados e valorizados pela co- munidade. O filósofo precisa ter reconhecido o seu direito de se contrapor. Ele, inclusive, pode recomendar aspectos irrealizáveis em uma pedagogia; faz parte da atividade filosófica trabalhar com horizontes utópicos. Por fim, o que se deve esperar da análise filosófica no campo da educação é que ela contribua na fundamentação dos saberes que por ali circulam. ATIVIDADES 1. Como podemos responder à seguinte pergunta: o que é filosofia? 2. O que é filosofia da educação? Qual é a sua importância nas escolas? 3. Por que a areté da cultura primitiva grega não encontrou a mesma aceitação nos tempos de Sócrates e Platão? Vídeo 34 Filosofia da Educação 4. Como Nietzsche entendeu a presença da metafísica na história da civilização ocidental? 5. Por que é possível dizer que percebemos a realidade de uma maneira muito parecida que as outras pessoas pertencentes à mesma sociedade? REFERÊNCIAS BERGER, P.; LUCKMANN, T. The Social Construction of Reality. A treatise in the sociology of knowledge. London: Penguin Books, 1991. BRENNAND, E. G.; MEDEIROS, J. W. M. A razão invertida: o tecnicismo na educação como veículo de colonização do mundo vivido. Revista P2P & Inovação, Rio de Janeiro, v. 4, n. 2, mar./ago. 2018. GIACOIA JÚNIOR, O. Nietzsche: fim da metafísica e os pós-modernos. In: IMAGUIRE G.; ALMEIDA C. L. S.; OLIVEIRA M. A. (orgs.). Metafísica Contemporânea. Rio de Janeiro: Vozes, 2007. HOFSTADTER, D.; SANDER, E. Surfaces and Essences: analogy as the fuel and fire of thinking. New York: Basic Books, 2013. JAEGER, W. Paidéia: a formação do homem grego. 6. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013. NODARI, P. C. A doutrina das ideias em Platão. Revista Síntese, Belo Horizonte, v. 31, n. 101, p. 359-374, 2004. VERNANT, J. P.; VIDAL-NAQUET, P. Mito e Tragédia na Grécia Antiga. São Paulo: Perspectiva, 2008. VICENTE, J. J. N. B. O Papel da Educação na República de Platão. Revista Kínesis, v. VI, n. 11, p. 215-224, jul. 2014. STRAUSS, L. Platão. In: STRAUSS, L.; CROPSEY, J. (orgs.). História da Filosofia Política. Rio de Janeiro: Forense, 2013. Educação e dispositivos de poder 35 2 Educação e dispositivos de poder Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • entender as ideias pedagógicas de Jean-Jacques Rousseau, que não podem ser desvinculadas de seu olhar crítico sobre a sociedade moderna em seus primeiros passos; • compreender que, embora Foucault não tenha sido um filósofo da educação, alguns de seus conceitos são muito usados na pedagogia e na filosofia da educação; • aprender o conceito de dispositivo, o qual permite a Foucault pensar que há uma pedagogia social típica da modernidade que não se resume às escolas, mas está vinculada a todas as instituições modernas; • conhecer uma pensadora brasileira da área da educação com contribuições pedagógicas originais e que dialogam com as ideias de Foucault. Objetivos de aprendizagem Neste capítulo, propomos abordar três momentos históricos distintos, mas relacionados: o início da Idade Moderna, o momen- to em que ela já está bem consolidada e o momento atual, que al- guns autores preferem chamar de pós-modernidade. Veremos que cada momento desses exige um tipo de sujeito. Em seguida, vamos acompanhar a luta humana pela emancipação por meio da edu- cação e observar que o trabalho das instituições modernas quase sempre ocorreu para impedir essa emancipação. Para cada um des- ses momentos, escolhemos o trabalho de um filósofo (Jean-Jacques Rousseau, Michel Foucault e Maria Edelweiss Bujes) para entender melhor como a educação resolve ou procura resolver as tensões en- tre sujeitos e instituições. 36 Filosofia da Educação 2.1 Jean-Jacques Rousseau: o primeiro passo para a educação moderna Vídeo Jean-Jacques Rousseau (1712–1778) é um dos grandes pensadores do período moderno. É inevitável associar seu nome à filosofia políti- ca, em função de sua principal obra, O contrato social. Parte importan- te dos líderes revolucionários envolvidos no evento mais contundente do período, a Revolução Francesa (1789–1799), tinham em Rousseau o seu grande inspirador intelectual. No entanto, o pensamento desse filósofo se espraia para muitas outras áreas, como as artes, a educa- ção e, até mesmo, para o que hoje conhecemos como antropologia. A educação, escopo deste capítulo, apresenta-se de maneira evi- dente em Emílio, ou da Educação, considerado por muitos um livro tão importante quanto O contrato social. E não por coincidência, Rousseau decidiu publicar os dois livros no mesmo ano, 1762. Observamos que a leitura de Emílio nos remete a as- pectos desenvolvidos em O contrato social e a outros tex- tos de sua autoria, que procuram pensar a capacidade de sociabilidade do indivíduo moderno e, por conseguinte, a capacidade de garantir uma vida política saudável para as sociedades modernas. Rousseau foi um pensador inquieto e insubmisso; toda a sua obra revela uma postura bastan- te crítica com relação à sociedade de seu tempo. Por isso, quando o filósofo se põe a pensar a capacidade de socia- bilidade humana, as questões que levanta aparecem como críticas duras. Emílio é uma tentativa de evitar uma análise apoiada na imagem de homens adultos e integrados ao sistema social vigente. Nesse sentido, ele se torna um livro inusitado, mas de importância ímpar no projeto filosófico de Rousseau, uma vez que está centrado na figura de uma criança. Essa criança, Emílio, é acompanhada por seu preceptor desde o nascimento até os 25 anos de idade. espraiar: espalhar(-se) por todas as direções; propagar(-se) (MICHAELIS, 2021). Glossário Figura 1 Primeira edição da obra Emílio, ou da Educação (1762) Je an -J ac qu es R ou ss ea u (1 71 2– 17 78 )/ W ik im ed ia Co m m on s Na obra Emílio, ou da Educação, Rousseau criticou os métodos educativos de seu tempo. Educação e dispositivos de poder 37 Figura 2 Preceptor ensinando crianças. Vo l d e nu it/ W ik im ed ia C om m on s Os preceptores eram encarregados da educação de crianças ou jovens em famílias mais abastadas. Essa função, bastante antiga, era muito comum no século XVIII. O filósofo, na voz do preceptor, nos apresenta – em primeirapessoa – suas observações atentas com relação ao menino e a suas escolhas quanto à educação 1 que vai oferecer a essa criança. Então, é essa criança fictícia que passa a ser o objeto de estudo do filósofo. Claro que, contemporaneamente, talvez exigíssemos um método científico mais bem elaborado por trás desse tipo de abordagem. Para nós pode parecer um método de análise bastante falível, uma vez que temos um narrador e seu relato diante de uma imagem pra- ticamente literária de criança; mas precisamos entender que a ciên- cia experimental naquele momento estava apenas se consolidando e que a psicologia só começa a se organizar no século seguinte. Por isso, não podemos exigir de Rousseau o que, por exemplo, Jean Pia- get ou Lev Vygotsky fizeram acerca da análise do comportamento infantil no século XX. É importante lembrar que nossa referência para educação de crianças e jovens é a escola pública e gratuita, mas a discussão acerca de uma educação universal para crianças e jovens como um direito social é mais recente; foi apenas durante o período da Revolução Francesa que essa ideia ganhou força. 1 38 Filosofia da Educação Além disso, a filosofia não é definida exatamente como uma ciência. Assim, é comum que até mesmo contemporaneamente os filósofos se permitam estabelecer hipóteses ou experiências de pen- samento que fujam dos rigores observacionais estabelecidos pela ciência atual. De qualquer forma, Emílio torna-se um marco do pen- samento sobre a educação. Até hoje debruçam-se sobre esse livro profissionais de áreas como a filosofia da educação, filosofia, peda- gogia, psicologia infantil, historiadores e cientistas sociais. Para nossos propósitos, interessa observar que essa obra – marco da educação moderna – surge com um olhar especial sobre a infância. O primeiro e mais visível mérito do texto de Rousseau foi o de ter mu- dado o estatuto da imagem da infância de como era vista até então. Já no início de seu texto, Rousseau pede para que Emílio seja visto como uma criança. Ele faz esse pedido porque sabe que em sua sociedade a infância se encerrava por volta dos oito anos de idade, pois entendia- -se que a partir dessa idade se tornavam jovens adultos. A obra de Rousseau contribuiu não apenas para que essa per- cepção se modificasse, mas também para que se pensasse em uma educação específica para os mais jovens. Para nós, parece algo banal afirmar que a criança precisa de um tratamento social diferente do adulto e uma educação específica. No entanto, precisamos lembrar que a noção de diferenciação entre as fases da vida não é apenas biológica; é também, em grande parte, social. Ariès (2017) lembra que a criança, até o fim da Idade Média, ti- nha uma carga afetiva inversamente proporcional ao seu tamanho. Nesse período, ela recebia o que o grande historiador da infância chamou de paparicação. Depois era muito comum que a criança pas- sasse a viver na casa de outra família, com o intuito de aprender um ofício. Isso significa que não havia um espaço específico reservado à infância; a criança estava desde muito cedo inserida no espaço dos adultos e aprendia quase todos os aspectos da vida por meio do contato direto com eles. Quando uma criança falecia, algumas pessoas achegadas podiam ficar consternadas, mas, de modo geral, não era o que acontecia, pois imaginava-se que outra criança nasceria e substituiria com cer- ta rapidez a presença da criança que partiu. Educação e dispositivos de poder 39 Obviamente nossa sensibilidade contemporânea se choca ao sa- ber disso, até porque hoje os espaços sociais voltados à infância são inúmeros e nós tendemos a respeitá-los. Atualmente existe, inclu- sive, um problema oposto: há especialistas que se preocupam com o excesso de oferta de produtos, de padrões de alimentação e de consumo voltados à infância. Sh ak ko /W ik im ed ia C om m on s ALMA-TADEMA, L. Educação dos filhos de Clovis. 1861. Óleo sobre tela, color.: 127 x 176.8 cm. Coleção particular. Figura 3 Espaços voltados para a infância em séculos anteriores A pintura retrata que não havia um espaço específico reservado à infância; a criança estava desde muito cedo inserida no espaço dos adultos. Mas, de qualquer forma, a percepção que a sociedade medieval tinha sobre a criança, precisamos reconhecer, é muito diferente da nossa. E é nesse aspecto que temos uma dívida para com Rousseau, pois Emílio foi um dos iniciadores do processo que mudou nosso olhar a respeito da infância. No entanto, a infância na obra não possui ape- nas um significado, digamos assim, mais literal. Precisamos compreen- der o significado mais profundo da presença da infância no texto desse grande filósofo genebrino. Para isso, temos que conhecer também um pouco de suas demais obras. A infância interessa a Rousseau como a possibilidade de estabelecer um paralelo com uma das principais discussões de seu tempo: o ser humano em estado de natureza. Vejamos em que consiste essa ideia. 40 Filosofia da Educação Na obra Discurso sobre as ciências e as artes, observamos que Rou- sseau (1999b) sente uma simpatia especial pelas sociedades mais an- tigas. Esparta é um de seus modelos. Quando conhecemos um pouco melhor a história dessa cidade grega, sabemos que ela se notabilizou por ser, entre as cidades-Estado da Grécia, a mais guerreira. Toda a educação daquela sociedade voltava-se para a proteção de seu território e para o preparo contínuo para a guerra. Era uma sociedade rí- gida, baseada na ordem, no militarismo e na disciplina. Conta-se que seus cidadãos acreditavam que o luxo e o apego demasiado aos bens mate- riais poderiam tornar as pessoas menos dispostas para a batalha. Sendo assim, o estilo de vida adotado acabava sendo propositadamente o mais simples possível. Com base nisso surge a expressão estilo de vida espar- tano, que designa alguém que busca austeridade em seus hábitos, não cultiva luxos e alimenta-se frugalmente. Até por esses aspectos, acredi- tou-se que Esparta fosse uma cidade sem distinções sociais. Mas a verda- de é que essas distinções existiam e muito do modo austero de vida dos espartanos era cultivado e incentivado pelos grupos dominantes para evi- tar qualquer tipo de mobilidade social. Quando o filósofo escreve a obra Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens 2 (ROUSSEAU, 1999a), era provavelmente essa Esparta mítica, austera e igualitária que tinha em mente. Rousseau se volta para o passado, porque em seu presente não consegue enxergar uma sociedade justa. O que ele mais destaca em Esparta, por exemplo, é a capacidade de autogoverno e a boa cidadania de seus habitantes: moderados, corajosos e dispostos a se autossacri- ficar por sua cidade. Em Discurso, Rousseau procura uma resposta à seguinte questão: o que é uma sociedade justa? Mas essa pergunta o leva a uma outra, ainda mais fundamental: o que é natural? – uma vez que ele pretende fundamentar a justiça como algo que está inscrito na natureza e, por isso, precisa ser resgatada pelos indivíduos modernos. Ao tentar responder a essa questão, o recuo histórico de Rousseau torna-se ainda mais radical. Sua viagem no tempo vai para além de Esparta. Ele propõe analisar o ser humano em uma dimensão mais universal, pois crê em poder encontrar os traços mais característicos da humanidade nos seus representantes quando esses ainda não es- tavam agregados em uma sociedade civil, ou seja, uma sociedade em frugalmente: que se alimenta com moderação (HOUAISS, 2009). Glossário A partir deste momento, quando mencionarmos Discurso estaremos nos referindo à obra Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigual- dade entre os homens de Rousseau. 2 Educação e dispositivos de poder 41 que existem leis regendo os comportamentos e um poder centraliza- dor que regula tais leis. Dessa maneira, o filósofo propõe buscar, pela via do pensamen- to e da hipótese, a humanidade em seu estado de natureza, para sa- ber se osseres humanos, em sua forma mais original, são bons ou maus. Dependendo da resposta, seria possível ao filósofo resgatar tais características e propor os caminhos para a construção de uma socie- dade mais justa. Como vimos, esse pensador já havia encontrado na imagem de Esparta – bastante idealizada – alguns sinais positivos para sua espe- culação, mas essa cidade grega já era um local organizado em torno de poderes constituídos. Por isso, Rousseau precisou ir além, ou seja, teve a necessidade de lançar-se mais adiante da história, imaginando, portanto, como os seres humanos seriam em seu estado mais puro. Com base nisso, ele chega à conclusão de que o ser humano é bom por natureza. Outros filósofos da era moderna já haviam feito exercício semelhan- te ao de Rousseau. John Locke, por exemplo, ao buscar compreender o ser humano em seu estado natural, chega à conclusão de que o ser hu- mano é mau por natureza. Para Locke, esse estado é qualquer um em que os homens não tenham um poder centralizador e organizador das sociabilidades. Para esse filósofo, o ser humano deixado sem leis revela sua índole original, que é sempre do egoísmo e da autopreservação. Thomas Hobbes, também a imaginar o ser humano em seu estado de natureza, já havia dito algo semelhante; são dele expressões como: “o homem é o lobo do homem” e “a guerra de todos contra todos”. Para esses dois pensadores ingleses, o estado de natureza precisa ser evitado, pois o ser humano diante de um mundo sem regulações sociais revela-se mau. Vejamos o que John Locke (1998, p. 391-392, gri- fo nosso) relata sobre o estado de natureza e a necessidade de regula- ção para evitá-lo: admito sem hesitar que o governo civil é o remédio adequado para as inconveniências do estado de natureza, que certamente devem ser grandes quando aos homens é facultado serem juízes em suas próprias causas, pois é fácil imaginar que aquele que foi injusto a ponto de causar injúria a um irmão dificilmente será justo o bastante para condenar a si mesmo por tal. 42 Filosofia da Educação Dos filósofos que procuraram apoiar suas teorias em alguma possí- vel essência humana, apenas Rousseau – na Era Moderna – foi capaz de visualizar algo bom no estado de natureza humano. Até o momento, fa- lamos da conclusão de Rousseau acerca de nossa natureza, mas ainda não observamos como ele nos apresenta esse estado em seus textos. Por isso, é importante vermos como ele faz isso. A terra abandonada à fertilidade natural e coberta por flores- tas imensas, que o machado jamais mutilou, oferece, a cada passo, provisões e abrigos aos animais de qualquer espécie. Os homens, dispersos em seu seio, observam, imitam sua in- dústria e, assim, elevam-se até o instinto dos animais, com a vantagem de que, se cada espécie não possui senão o seu próprio instinto, o homem, não tendo talvez nenhum que lhe pertença exclusivamente, apropria-se de todos, igualmente se nutre da maioria dos vários alimentos que os outros animais dividem entre si e, consequentemente, encontra sua subsis- tência mais facilmente do que qualquer deles poderá conse- guir. (ROUSSEAU, 1999a, p. 58) Nessa citação, notamos um dos motivos que levam Rousseau a uma conclusão diferente da de outros filósofos de seu tempo: a idealização. É inegável que o filósofo idealiza tanto a natureza quan- to a presença do ser humano nela. No trecho citado, a natureza surge como algo acolhedor e professoral – ela é capaz de ensinar como viver às espécies que nela habitam. E mesmo quando surge de maneira mais ameaçadora, sua presença parece alimentar apenas aspectos vantajosos para os seres humanos, conforme Rousseau (1999a, p. 58): habituados, desde a infância, às intempéries da atmosfera e ao rigor das estações, experimentados na fadiga e forçados a defender, nus e sem armas, a vida e a prole contra as outras bestas ferozes ou a elas escapar correndo, os homens adqui- rem um temperamento robusto e quase inalterável, os filhos trazendo para o mundo a excelente constituição de seus pais e fortificando-a pelas mesmas atividades que a produziram, adquirem, desse modo, todo o vigor de que a espécie humana é capaz. A natureza faz com eles precisamente como a lei de Esparta com os filhos dos cidadãos; torna fortes e robustos aqueles que são bem constituídos e leva todos os outros a perecerem, sendo quanto a isso diferente de nossas socieda- des, onde o Estado, tornando os filhos onerosos para os pais, mata-os indistintamente antes de seu nascimento. Educação e dispositivos de poder 43 Já em seu tempo, Rousseau foi muito criticado pela força com que idealizava a natureza, como se só coisas boas as pessoas pudessem extrair dela. É verdade que do conhecimento da natureza está toda a origem da ciência e que a exploração de seus recursos garantiu a sobrevivência do ser humano na terra. Até esse ponto é possível concordar plenamente com Rousseau, mas não se pode esquecer do alto nível de exigência que as intempéries naturais impuseram aos seres humanos desde os tempos mais remotos. Outros filósofos entenderão que essas exigências vão levar os seres humanos a buscar desenvolver habilidades para se protege- rem das ameaças naturais. O início da civilização está posto: quanto mais ferramentas e conhecimento para dominar a natureza são de- senvolvidos, mais os indivíduos se sentem seguros. É por essa razão também que a maioria dos filósofos olha para o estado natural e vê algo de que é necessário fugir. Porém, o olhar de Rousseau é distinto. Já nas linhas finais de nos- sa última citação, ele elenca os vilões para o estado de coisas que ele identifica em sua própria sociedade. E nenhum desses vilões é a natureza. Não há outro texto em que isso fica mais claro do que em seu famoso Discurso sobre as ciências e as artes. Nesse discurso, o filósofo identifica nas ciências e nas artes de seu tempo os gran- des inimigos do progresso humano. Parece contraditório identificar a ciência como uma barreira ao progresso, mas Rousseau (1999b, p. 190) fundamenta muito bem o seu ponto de vista: como o corpo, o espírito tem suas necessidades. Estas são o fundamento da sociedade, aquelas constituem o seu delei- te. Enquanto o Governo e suas leis atendem à segurança e ao bem-estar dos homens reunidos, as ciências, as letras e as artes, menos despóticas [que o Estado] e talvez mais po- derosas, estendem guirlandas de flores sobre as cadeias de ferro de que estão eles carregados, afogam-lhes o sentimen- to dessa liberdade original para a qual pareciam ter nascido, fazem com que amem sua escravidão e formam assim o que se chama povos policiados. Ainda que identifiquemos as fragilidades de sua idealização da natureza, é essa que permite ao filósofo construir o aspecto crítico e mais importante de sua filosofia. Vemos no trecho citado que as ciências e as artes já fazem parte de uma sociedade considerada civilizada e cada vez mais distante da natureza. 44 Filosofia da Educação Para Rousseau, tais atividades funcionam quase como o que con- temporaneamente entenderíamos como entretenimento. Figura 4 Ciências, artes e entretenimento In te rn et A rc hi ve B oo k Im ag es / W ik im ed ia C om m on s Se rh ii Bo by k/ Sh ut te rs to ck Para Rousseau, as ciências e as artes poderiam ser entendidas como uma forma de entretenimento. Com o passar do tempo, essa ideia ganhou novos significados. Assim, ao invés de tornarem os seres humanos mais solidários, amáveis e verdadeiros, as ciências e as artes acabam por deixá-los mais egoístas e acostumados ao luxo e às facilidades que se apresentam por meio da ciência. “Outros males, piores ainda, acompanham as letras e as artes. Tal é o luxo, como elas nascido da ociosidade e da vaidade dos homens. O luxo, raramente, apresenta-se sem as ciências e as artes, e estas jamais andam sem ele” (ROUSSEAU, 1999b, p. 208). Mais uma vez, a Grécia surge como modelo para Rousseau, não como modelo de um pleno estado de natureza, masde sociedade com um pouco mais de equilíbrio: a falta de apego ao luxo e poucas facilidades para en- frentar o cotidiano formam pessoas ativas e perceptivas para as reais necessidades que a condição humana estabelece quando diante de um mundo natural, conforme afirma: as antigas repúblicas da Grécia, com aquela sabedoria que brilha- va na maioria de suas instituições, interditavam a seus cidadãos todos os ofícios tranquilos e sedentários que, enfraquecendo e corrompendo o corpo, rapidamente debilitam a alma. Com efei- to, de que maneira poderão enfrentar a fome, a sede, as fadigas, Educação e dispositivos de poder 45 os perigos e a morte, homens que a necessidade abate e que a menor pena desanima? (ROUSSEAU, 1999b, p. 208) Os seres humanos, como se vê na citação, ficam diminuídos em suas potencialidades. Rousseau via nas sociedades de seu tempo so- ciedades degeneradas. Degeneradas no sentido de que os cidadãos modernos tinham facilmente sido seduzidos pelo luxo e não se impor- tavam mais com a extrema desigualdade social que se avolumava. As sociedades estariam cada vez mais orientadas, por via da educação, das ciências e artes, a buscar apenas o excedente, o penduricalho, despre- zando o que fosse simples e essencial, qualquer que fosse a tarefa. De onde nascem todos esses abusos senão da funesta desigual- dade introduzida entre os homens pelo privilégio dos talentos e pelo aviltamento das virtudes? Aí está o efeito mais evidente de todos os nossos estudos, a mais perigos de suas consequências. Não se pergunta mais a um homem se ele tem probidade, mas se tem talento; nem de um livro se é útil, mas se é bem escrito. (ROUSSEAU, 1999b, p. 210) Portanto, virtude para o filósofo distingue-se claramente de talento. Enquanto virtude representa o essencial, aquilo que não podemos abrir mão nas coisas e nas relações pessoais e nas situações de uma forma geral, o talento representa o excessivo, o que ressalta a beleza, mas de certa forma não é necessário para o bem ou utilidade em alguma coisa. A filosofia de Rousseau pretende resgatar a noção de virtude. Uma sociedade virtuosa é aquela que sabe reconhecer o essencial. Por essa razão, o filósofo se lança na aventura para além do tempo, que é a abstração de imaginar o ser humano em seu estado mais natural. Em seu estado de natureza, o indivíduo ainda não conhece o luxo e o su- pérfluo e, por isso mesmo, é um indivíduo virtuoso, bom, que valoriza apenas os aspectos simples e úteis para a existência. Hoje tudo isso nos parece de uma inocência muito grande. Mas não podemos retirar o mérito de Rousseau de ter se adiantado – em pelo menos um século – aos problemas que a nascente sociedade capita- lista ia conhecer. Desigualdade e desumanidade foram aspectos po- derosos no início da exploração dos meios de produção moderno nos séculos XVIII e XIX. Foi em um ritmo muito menos acelerado que essas sociedades nascentes encontraram regulação para o tipo de explora- ção humana que se destacava cada vez mais. O livro Germinal, escrito por Èmile Zola, retrata as relações de trabalho e as lutas das classes operá- rias exploradas. É um mo- mento da história em que as leis trabalhistas ainda não regulavam (ou regula- vam muito timidamente) o mundo do trabalho, o que favorecia níveis extremos de exploração sobre os trabalhadores. O livro se concentra em um grupo de mineiros na França do século XIX. ZOLA, È. São Paulo: Estação Liberdade, 2012. Livro 46 Filosofia da Educação Agora que conhecemos o cerne do pensamento crítico de Rousseau, devemos voltar à obra Emílio. Nesse importante livro, o preceptor pretende educar Emílio para ser um homem virtuoso e não um homem que venha a valorizar o talento. Um dos aspectos da educação natural projetada por Rousseau no livro é a busca por uma educação não intelectualizada, que levaria o aluno a um tipo de ensino calcado nos livros. O filósofo propõe que, para além do intelecto, o ser humano é do- tado de instintos naturais, emoções e sentimentos, sendo que esses últimos aspectos costumam ser mais confiáveis. Pelo uso do intelec- to os seres humanos podem criar disfarces, máscaras para os seus verdadeiros desejos. O intelecto, portanto, pode significar um re- curso poderoso para o encobrimento da autenticidade e da verdade. Ao pensar dessa forma, Rousseau pretende não só possibilitar a Emílio tornar-se alguém mais autêntico e transparente, mas garante que a edu- cação não seja um processo que busque operar na criança a internaliza- ção dos interesses dos adultos ou de interesses que a preparem para a vida adulta. O espaço de liberdade para a criança precisa começar nisso. São os sentidos e instintos da criança que devem reger o apren- dizado. Vejamos o que o preceptor de Emílio diz sobre o que deve reger a educação de seu aluno: na ordem natural, sendo os homens todos iguais, sua vocação comum é o estado do homem; e quem quer que seja educado para esses, não pode desempenhar-se mal dos que com esse se relacionam. Que se destine o meu aluno à carreira militar, à eclesiástica ou à advocacia pouco me importa. Antes da vo- cação dos pais, a natureza chama-o para a vida humana. Viver é o ofício que lhe quero ensinar. Saindo de minhas mãos, ele não será, concordo, nem magistrado, nem soldado, nem padre; será primeiramente um homem. Tudo o que um homem deve ser ele o saberá, se necessário, tão bem quanto quem quer que seja; e por mais que o destino o faça mudar de situação, ele estará sempre em seu lugar. (ROUSSEAU, 1979, p. 15) No método de educação exposto pelo preceptor, fica evidente a sua confiança nas “lições” da natureza. A educação natural deve ga- rantir firmeza de caráter e autoconhecimento suficientes para que o jovem educando saiba quem é e, por isso, mantenha-se firme nessas características, independentemente de serem as situações da vida favoráveis ou não. Henry David Thoreau foi um dos escritores mais in- fluenciados por Rousseau. Walden, ou a Vida nos Bosques é um clássico da literatura, misturando relato autobiográfico e reflexões filosóficas. Nele, Thoreau expõe sua expe- riência quando buscou refúgio na natureza. Em uma pequena cabana, o autor passa a construir seus próprios móveis e caçar sua própria comida; enfim, busca um modo de vida que seja o mais simples possível. Isso lhe possibilita fazer uma das críticas mais contunden- tes da crescente civiliza- ção industrial. THOREAU, H. D. São Paulo: Edipro, 2018. Livro Educação e dispositivos de poder 47 O anti-intelectualismo da doutrina de Rousseau em Emílio ren- deu-lhe inúmeras críticas. E não dá para dizer que o filósofo já não soubesse que esse seria um dos resultados inevitáveis. Afinal, ele escreve no interior de uma sociedade letrada; ele mesmo é um dos expoentes do Iluminismo, um movimento de valorização do conhe- cimento formal e marco inicial das sociedades tecnológicas e cientí- ficas dos séculos seguintes. Portanto, parece contraditório um filósofo iluminista resgatar os aspectos até aqui abordados. Mas não! Rousseau talvez, premonito- riamente, tenha entendido que a ciência e a técnica nos afastariam da natureza e que esse afastamento nos seria prejudicial. Hoje nosso embate com os problemas ecológicos é uma realida- de. Muitos movimentos se inspiraram nesse aspecto do pensamento desse filósofo. Após Rousseau, uma série de livros tematizam o re- torno do ser humano à natureza, alguns como crítica às sociedades tecnológicas e outros como símbolo de resgate de valores que se perderam com a modernização. Encerramos nossa reflexão acerca desse importante filósofo com as palavras de Touraine (2002, p. 28): “mas, se Rousseau é um discípulo dos filósofos e em particular de Diderot […], seu pensa- mento é também a primeira grande crítica interna da modernidade que conclama à harmonia da natureza contra a confusão e desi- gualdade sociais”. O filme Na natureza sel- vagem narra a história de um jovem que parte em uma viagem em busca de maiorproximidade com a natureza. Já no início do filme, o jovem doa seu pa- trimônio antes de viajar. A viagem é transformadora e, ao longo do caminho, esse personagem encon- tra pessoas, das quais fica amigo; essas amizades parecem enriquecer suas experiências humanas. Um belo filme, inspirado em uma história real, mas com muita inspiração nos ideais rousseaunianos de simplicidade, desapego e valorização das relações humanas em detrimento de riquezas materiais. Direção: Sean Penn. Portugal: Paramount Vintage, 2007. Filme 2.2 Michel Foucault: sobre os dispositivos de poder Vídeo Michel Foucault (1926–1984) não foi propriamente um filósofo da educação, mas seus conceitos se tornaram tão importantes que é mui- to difícil deixar de considerar alguns deles aqui. Até porque há uma série de pensadores da educação que fazem largo uso dos conceitos desenvolvidos por esse eminente filósofo francês. Sua obra é muito vasta e grande parte de suas preocupações se dão em torno do que ele denominou de sociedade disciplinar. Para Foucault, todas as sociedades se organizam em torno de relações de poder para poderem existir. De modo geral, quando teorizamos sobre o poder em um nível social, imaginamos que ele 48 Filosofia da Educação emana das instituições para os cidadãos, pois essas seriam, por sua força e respeitabilidade, uma espécie de antena da qual irradiam normas morais e de comportamento que definem o que é aceito e o que não é aceito socialmente. As expectativas que temos do comportamento dos outros e que os outros têm de nós seriam, em grande parte, resultado da presen- ça institucional em nossas vidas. Vamos analisar, por exemplo, em uma instituição como a escola. Nela, desde a infância, recebemos informação a respeito de nossa história comum, dos valores mais prezados, dos conhecimentos que nos renderão mais admiração na família, entre amigos etc. À medida que crescemos, vamos interna- lizando conhecimentos e comportamentos. Assim, é difícil negar a forte presença institucional em nossas vidas e principalmente na re- gulação de nossas vidas. Foucault também se preocupou muito com esse aspecto da vida social. Assim sendo, o papel das instituições age em nós de modo tão furtivo que não percebemos o quanto de nós, de nossos pensamentos, de nossos comportamentos, se deve a esse trabalho institucional. Esse aspecto não é uma característica apenas de nossos tempos; as institui- ções têm essa natureza e esse efeito sobre os indivíduos desde sempre. No entanto, Foucault preocupou-se com a história de muitas das instituições representativas das sociedades e percebeu que, junto dessa natureza geral das instituições, uma abordagem histórica era ca- paz de revelar as especificidades das instituições modernas. O olhar filosófico de Foucault se interessa principalmente pela gênese e desen- volvimento das instituições modernas. Em Vigiar e Punir, o filósofo lança seu olhar histórico na passagem da Idade Média para a modernidade e descobre algo curioso: as punições nessas duas fases da história oci- dental seguem modelos diferentes para cada uma delas. Na Idade Média, a punição exigia que o corpo do punido estives- se em evidência; é o que Foucault chama de ostentação dos suplícios. Embora nos pareça algo absolutamente selvagem, ele observa que o suplício, nesse contexto, “deve ser equiparado aos extremos de uma raiva sem lei” (FOUCAULT, 2004, p. 31). Há no suplício desse momento histórico um método e uma razão de ser, ou melhor, duas razões de ser: (i) visa tornar infame aquele que é punido, sobre o próprio corpo Educação e dispositivos de poderEducação e dispositivos de poder 4949 do condenado ficarão sinais que não devem se apagar; (ii) visa ser uma peça em que todos os que presenciaram a punição pudessem, de algu- ma forma, sentir um pouco a punição como o seu próprio triunfo sobre o punido, como se cada pessoa sentisse que teve parte na punição. Foucault (2004, p. 32) escreve: “nos ‘excessos’ dos suplícios, se inves- te toda a economia do poder”, apontando que, para aquele momento histórico, esse tipo de punição tinha efetividade e conseguia concen- trar a autoridade dos poderes constituídos em toda a significação dos suplícios, o que resultava no reconhecimento dos cidadãos de que uma ordem jurídica e política realmente praticava a justiça. Entretanto, por volta do fim do século XVII, tais punições começa- ram a perder a efetividade: “o protesto contra os suplícios é encon- trado em toda parte na segunda metade do século XVIII […] O suplício tornou-se rapidamente intolerável” (FOUCAULT, 2004, p. 63). O filósofo pergunta-se por quê. E é a sua reposta o que mais nos interessa aqui; ela tem a ver com a mudança técnica radical e profunda pela qual as sociedades do século XVII e XVIII passam. O século XVIII é um século em que as sociedades, ao menos as euro- peias, começam a se transformar no sentido de adotar um saber mais preciso e científico, abandonando saberes mais tradicionais. Harvey (2005) nos ajuda a compreender essa transformação e como a “matematização” dos saberes científicos invadiu todas as áreas do conhecimento, oferecendo precisão e substituindo crenças e costumes que não estivessem de acordo com essa nova ma- neira de conhecer. Privados de todos os elementos de fantasia e de crença religiosa, bem como de todos os vestígios das experiências envolvidas em sua proporção, os mapas tinham se tornado sistemas abstra- tos e estritamente funcionais para a organiza- ção factual de fenômenos no espaço. A ciência da projeção mapográficas e as técnicas de levantamento cadastral os tornaram Figura 5 Criança utilizando conheci- mento matemático. Rido/Shutterstock A “matematização” dos saberes surgiu com a adoção de um saber mais preciso e científico em todas as áreas do conhecimento. 50 Filosofia da Educação descrições matematicamente rigorosas. Eles definiam, com cres- cente grau de precisão, direitos de propriedade de terra, fron- teiras territoriais, domínios de administração e controle social, rotas de comunicação etc. (HARVEY, 2005, p. 227) Isso não aconteceu apenas com o conhecimento territorial e mapo- gráfico, mas se espalhou para toda forma de conhecimento, principal- mente aos que importavam aos interesses dos Estados. Esse movimento gerou uma capacidade muito maior e mais precisa de controle dos Estados sobre seus cidadãos: regras mais rigorosas de identificação, contagem mais precisa das populações, sistemas de se- gurança e agentes públicos mais bem equipados etc. Com todas essas modificações, a sensibilidade moderna já não suporta o espetáculo dos suplícios. O próprio sistema de justiça é invadido pelo apelo da tecnolo- gia moderna, como nos informa Foucault (2004, p. 76): deslocar o objetivo e mudar sua escala. Definir novas táticas para atingir um alvo que agora é mais tênue, mas também mais largamente difuso no corpo social. Encontrar novas técnicas às quais ajustar as punições e cujos efeitos adaptar. Colocar novos princípios para regularizar, afinar, universalizar a arte de casti- gar. Homogeneizar seu exercício. Diminuir seu custo econô- mico e político aumentando sua eficácia e multiplicando seus circuitos. Em resumo, constituir uma nova economia e uma nova tecnologia do poder de punir: tais são sem dúvida as razões de ser essenciais da reforma penal no século XVIII. De modo equivalente a essa mudança técnica, a sensibilidade mo- derna também não suporta mais a exibição dos suplícios como puni- ção aos criminosos. Poderíamos imaginar com isso que essa mudança tenha representado uma sociedade menos punitiva. Mas não é o que Foucault nos informa. Segundo o filósofo, todo o conhecimento técnico é utilizado para aperfeiçoar os modos de punição, que não precisam mais ser explícitos. Na verdade, o que ocorre agora é que os mecanismos disciplina- dores não mais se explicitam, porque a técnica fez com que eles se espalhassem por toda a sociedade. “Muitos processos disciplinaresexistiam há muito tempo: nos conventos, nos exércitos, nas oficinas também. Mas as disciplinas se tornaram no decorrer dos séculos XVII e XVIII fórmulas gerais de dominação” (FOUCAULT, 2004, p. 118). Para o Educação e dispositivos de poder 51 filósofo, as sociedades modernas, ao evitarem a exposição da punição, desenvolvem mecanismos silenciosos e imperceptíveis de dotar todas as suas instituições com alto grau de disciplina e vigilância. Junto disso, esses mecanismos se desinstitucionalizam, ou seja, não estão mais tão ligados direta e unicamente ao poder do Estado. É como se as instituições também partilhassem do poder de dis- ciplinar e vigiar, e fazem isso porque todas elas podem imprimir um controle calculado, possibilitado pelos avanços tecnológicos. Assim, fábricas, prisões, escolas, clubes etc. exercem o controle “de acordo com uma codificação que esquadrinha ao máximo o tempo, o espaço, os movimentos” (FOUCAULT, 2004, p. 118). Aos métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo e realizam a sujeição constante de suas forças, impondo a esses corpos uma aceita- ção sem resistência, Foucault chamará de disciplina. Assim como a aceitação sem resistência a que os corpos de todos os indivíduos submetidos a essa disciplina produzem será chamada pelo filósofo de docilidade. Portanto, a modernidade será, para ele, pródiga em produzir corpos dóceis. É importante se perguntar pela finalidade desse tipo de disciplina- mento e domínio; o princípio que está por trás de tudo isso é o da utili- dade. A modernidade, mais do que qualquer outro período da história, procura moldar os cidadãos com base em seus interesses econômicos e políticos. Foucault (2004, p. 119) sintetiza isso em uma passagem bri- lhante em Vigiar e Punir: o corpo humano entra numa maquinaria de poder que o es- quadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma “anatomia política” que é também igualmente uma “mecânica do poder”, está nas- cendo; ela define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas que operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos “dóceis”. A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e dimi- nui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência). O mais problemático naquilo que Foucault nos apresenta, se ele es- tiver correto, é que o conjunto de técnicas e métodos utilizados para nos convencer silenciosamente – a esse processo silencioso o filósofo 52 Filosofia da Educação chama de dispositivo – a servir a certos interesses é que tais técnicas e métodos não são colocados à disposição para fomentar o exercício de autonomia dos sujeitos. Pelo contrário, os dispositivos têm por sua principal característica a invisibilidade. É muito difícil identificar quando e onde eles agem e sua ação ocorre apenas no sentido de enquadrar o comportamento, os desejos e as aptidões em direção ao favorecimento de interesses políticos e econômicos. Como o próprio filósofo alerta, nossos corpos ficam mais fortes e atuantes quando se trata de produzir, e mais fracos, menos falantes e opinativos quando se trata de decidir politicamente a nosso favor. Um aspecto que tem de ser ressaltado na análise de Foucault é o de que ge- ralmente, quando falamos em interesses políticos e econômicos, pen- samos imediatamente em elites econômicas e políticas engendrando modos de explorar as classes trabalhadoras. No entanto, esse tipo de raciocínio está mais próximo das abordagens marxistas. Porém, para Foucault, ocorre algo diferente desse tipo de interpre- tação: o poder e seus dispositivos não estão sob o controle de forças que os centralizam e o distribuem, mas perpassam toda a sociedade, estão nela dispersos. Assim, não se trata exatamente do controle de uma classe social so- bre as demais, mas de uma sociedade completamente vigiada. Todos sofrem os efeitos dos dispositivos de poder. A dispersão de poder por toda a sociedade faz Foucault nos alertar de que há uma espécie de pedagogia do poder atuando sub-repticiamente sobre todos, tendo como resultado a produção de sujeitos infantis, apartados da possibilidade de construírem sua pró- pria autonomia. Assim, como Weinmann (2006, p. 17) enuncia: de acordo com tal enfoque, pode-se afirmar que o dispositivo educacional moderno consiste em um conjunto heterogêneo de práticas disciplinares, tais como: discursos sobre a impor- tância de educar a infância, instituições educacionais diversas, prédios e regulamentos escolares, leis de ensino, portarias ministeriais, enunciados com pretensão de cientificidade pe- dagógicos, psicológicos, sociológicos etc. Por fim, cabe lembrar que duzentos anos antes, Rousseau pedia que a sociedade atentasse mais ao que fosse útil e menos ao que fosse supérfluo. O pensamento de Foucault parece uma resposta ao apelo de Rousseau. O filme Os Incompreen- didos conta a história de um rapaz de 14 anos de idade, Antoine Doinel, que tem problemas familiares e se rebela contra as imposições e disciplinas escolares. A filosofia de Foucault nos convida a prestar atenção nos indi- víduos mais recalcitrantes da sociedade, pois neles residem as sementes da rebeldia, as quais podem ser úteis para que visuali- zemos os dispositivos que nos tornam corpos dóceis. Direção: François Truffaut. França: Les Films du Carrosse, 1959. Filme sub-repticiamente: por meio de meios ilícitos, ilegais; ilicitamente, ilegal- mente (DICIO, 2021). Glossário Bartlelby, o Escrivão é um conto de Herman Melville, o mesmo autor do clássi- co Moby Dick. O persona- gem do referido conto é um dos mais enigmáticos da literatura, pois, como funcionário público, ele se nega a realizar qualquer tarefa. Toda vez que seus serviços são solicitados, ouve-se dele “melhor não fazer!”. O que teria levado o personagem a esse comportamento é algo que prende o leitor do início ao fim. Precisamos pensar que no seio de uma sociedade que cobra o melhor desempenho, eis que surge alguém que se nega a produzir e atender aos ditames econômicos e sociais de seu tempo. MELVILLE, H. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017. Livro Educação e dispositivos de poder 53 É como se ele estivesse dizendo que as sociedades modernas souberam muito bem identificar os mecanismos de captação da energia produtiva em torno da utilidade e, com base nisso, com a ajuda do desenvolvimento tecnológico, produziram corpos dóceis, que aceitam a sujeição sem nem a perceberem. 2.3 Maria Bujes: dispositivos de poder na educação infantil Vídeo Maria Isabel Edelweiss Bujes, pedagoga, pesquisadora e doutora em Educação no Brasil, é uma das vozes originais e influentes quanto à análise da condição da educação infantil nas sociedades contem- porâneas. Seu pensamento aproveita ideias e conceitos desenvol- vidos por Michel Foucault, mas não apenas. Podemos dizer que, de certa maneira, ela está filiada ao pensamento pós-estruturalista. Dentre algumas das características do pós-estruturalismo está a sua desconfiança com relação às possibilidades emancipadoras pro- metidas no início do projeto moderno. Assim, se em sua nascente a modernidade acreditou ser possível tornar os sujeitos autônomos, racionais e livres, hoje há quem afirme se tratar de um projeto ina- cabado e sem condições de cumprir o que prometeu. Em Foucault isso já estava posto, pois sua obra denuncia o quanto o desenvolvimento técnico e científico acabou por trair os ideais mo- dernos. Se o filósofo francês estiver correto em seus argumentos, esse desenvolvimento serviu para facilitar a docilidade dos corpos em sua aceitação silenciosa, e até inocente, das disciplinas necessárias ao favo- recimento das forças econômicas e políticas atuais. É importante realçar aqui o fato de que quando apontamos o silêncio dos dispositivos de poder operando em todas as direções, a fim de docilizarnossas vontades, não devemos imaginar que essa operação só se põe em funcionamento quando somos adultos. To- dos estão sujeitos a essa interferência, inclusive crianças. Desde o nascimento das sociedades modernas, a escola, por ser uma insti- tuição altamente respeitada, tem sido um dos símbolos em que os dispositivos circulam melhor e têm mais eficiência. Por essa razão, há necessidade de dobrar os cuidados sobre ela. 54 Filosofia da Educação Maria Edelweiss Bujes sabe disso e seus trabalhos procuram de- senvolver uma compreensão mais refinada do ambiente escolar, dos projetos pedagógicos que o permeiam e o efeito deles nas crianças. Em um estudo que procurou analisar o Referencial Curricular para a Educação Infantil (RCN) de 1998, ela já apontava para o perigo dos conteúdos impostos pelas pedagogias vigentes e que procuravam disfarçar a sua arbitrariedade com tons de neutralidade. A perspectiva em que se moveu o estudo, portanto, foi a de enfatizar em suas análises o caráter histórico e político do Re- ferencial. Isso implicou mostrar como as opções nele presentes – que dizem respeito aos saberes que o orientam, aos arranjos que o compõem, aos saberes que põe em marcha, às palavras de ordem que faz ressoar etc. – não passam de escolhas ar- bitrárias de um grupo social e profissional hegemônico, e são nele incorporadas de tal forma que passam a ser vistas como naturais e não passíveis de discussão. (BUJES, 2002, p. 18) Muito importante no trecho citado a referência que a autora faz da necessidade de buscar o caráter histórico do documento ana- lisado. Essa é uma estratégia aprendida com Foucault; para ele a grande arma para identificar os mecanismos silenciosos e as tramas do poder que se inserem nos discursos (sejam esses discursos do- cumentos, livros, palestras, aulas, imagens, imagens fílmicas, enfim, tudo o que envolve linguagem e visa a nosso convencimento) é a busca de sua gênese. Toda ideia, toda proposta de comportamento e de regime moral possui um histórico; para Foucault, é preciso pesquisar esse registro para descobrir intenções não reveladas que se escondem na origem desses discursos. Aqui, Maria Bujes nos mostra que uma série de propostas pedagógicas se inserem nos documentos oficiais e, com um certo verniz de cientificidade, se colocam como naturais, quan- do na verdade são historicamente construídas, com intenções muito bem determinadas. Efetivamente, na trilha aberta por Foucault, Maria Bujes parece valorizar a investigação histórica, com especial atenção às urdidu- ras presentes na linguagem 3 . E devemos estar realmente atentos a esse aspecto, principalmente quando falamos de escola, pois é nela que os discursos circulam mais livremente e se aproveitam da vali- dação que a principal instituição de conhecimento das sociedades urdidura: ato de dispor os fios (de uma teia, de ro- los) para fazer um tecido. Glossário O termo urdidura é aqui empregado no sentido figurado, pois compreen- demos a linguagem como uma teia, na qual as urdiduras seriam a sua trama. A analogia revela a complexidade das estruturas que compõem a linguagem. 3 contemporâneas pode produzir. Ou seja, se os discursos conseguem circular pelo espaço escolar, de alguma forma, independente dos conteúdos que carregam, eles automaticamente nos parecem ver- dadeiros, pois essa instituição respeitável com relação ao conheci- mento abriu-lhes passagem. E isso é perigoso. Vejamos o que Bujes (2002, p. 21) pensa acerca da preocupação com a linguagem: a perspectiva sobre a qual meus estudos se apoiam afirma que os objetos do mundo social são construídos discursivamente, não apenas pela linguagem falada ou escrita, mas também por meio da utilização de sistemas de representação que nos permitem utilizar signos e símbolos para representar o que existe à nossa volta, seja um conceito, uma ideia ou imagem. […] Os significa- dos não estão dados para sempre, eles são sempre transitórios porque são constituídos historicamente […] a essência das coisas nada mais é do que uma invenção humana, instituída nas trocas e negociações de sentido que estabelecemos intersubjetivamente. Atentemos para a força do seguinte aspecto: para Maria Bujes (2002, p. 21) os “objetos do mundo social são construídos discursi- vamente”. Isso significa dizer que para esse tipo de pensamento, as batalhas no mundo se decidem sobretudo por meio do discurso. Nossa atenção sobre ele deve ser redobrada, pois é por meio dele que os dispositivos de poder mais se organizam. Educação e dispositivos de poderEducação e dispositivos de poder 5555 An dr ii Ya la ns ky i/ ph ip at bi g/ Ih or Zi go r/ Sh ut te rs to ck Para Bujes, discurso não é apenas o ato de enunciar; são discursos diferentes: documentos, livros, imagens, palestras etc. Figura 6 Circulação dos discursos nas sociedades 56 Filosofia da Educação Mas a presença do discurso não está somente nas relações exter- nas a nós; é sobretudo no nosso interior, no modo como pensamos em nós mesmos, que os efeitos desse discurso se refletem: “a experiência em que os sujeitos se reconhecem como tal é uma atribuição de senti- do às próprias condutas e alheias” (BUJES, 2002, p. 22). Nesse sentido, o que nos forma enquanto sujeitos, o que nos dá identidade, não são características essenciais, naturais, que estiveram sempre conosco; de- pende muito mais das conexões que estabelecemos ao longo da vida com outros objetos, práticas, discursos, relações e forças. Nossa autoconsciência e autocompreensão são “um efeito de discur- sos que constituem tanto as relações de poder quanto a subjetividade. Discursos que definem o que pode ser dito e pensado; quem pode falar e quando isso deve ocorrer” (BUJES, 2002, p. 22). Desse modo, é possível, de acordo com a pesquisadora, falar de um “eu inventado”, no sentido de que todos nós somos, em muitos aspectos, fruto dessa confluência de discursos que inevitavelmente nos incide. Se é possível falar de um eu inventado, é preciso, portanto, estar atento aos discursos que vão incidir sobre aqueles que ainda estão inventando o seu eu, isto é, as crianças. Bujes (2010) chama a atenção para os riscos de uma certa cum- plicidade que pode ser engendrada entre a pedagogia e os recursos e discursos científicos disponíveis no trato com a educação. Isso não está muito desenvolvido no texto de Bujes, mas vamos nos permitir inserir algumas inferências acerca do que ela nos sugere: a peda- gogia, apenas por dominar tais recursos e discursos esperados em uma sociedade técnica, que gera expectativas de domínio técnico daqueles que ocupam espaços de liderança, como é o caso dos pro- fessores sobre os alunos, garantiria a legitimidade dos projetos pe- dagógicos. Em outras palavras, a qualidade da pedagogia aplicada seria julgada mais por seu domínio técnico, sua expertise, do que propriamente pelos benefícios que pudesse oferecer aos alunos. Conforme a própria Bujes (2010, p. 171): desde o século XIX, o controle sobre as crianças vem se apro- fundando, pois um discurso regulamentador tem possibilitado a efetuação de diagnósticos, a proposição de medidas, a previsão de resultados, colocando em ação um princípio de visibilidade obrigatória dos sujeitos infantis (notas escolares, medidas antro- pométricas, registros de observação, dossiês…). Tudo isso serve para demonstrar as implicações da ciência com o governamento Educação e dispositivos de poder 57 das populações e a inexorável cumplicidade que se estabelece entre pedagogia e expertise, por exemplo. O perigo na referida cumplicidade reside no fato de que a pedagogia, em vez de pensar criticamente a formação dos alunos, compactuada com o estado de coisas concordantes com os recursos de controle da sociedade, não teria capacidade de promover um projeto de autonomi- zação dos sujeitos formados pela escola. Isso confirma que essa pro- moção da autonomia dos sujeitos como promessa acaba sendo sempre frustrada, desde seu início, coma consolidação da modernidade. Entre- tanto, Bujes não nos oferece apenas a impressão de que isso ocorre. Em um texto posterior, ela fará uma análise de caso muito interessante que, de certa forma, materializa suas observações anteriores. Bujes e Rosa (2012) situam historicamente a escola contemporânea como sendo a segunda escola, diferente em alguns aspectos da escola do início da modernidade (a primeira escola). Enquanto a primeira cen- trava-se nos métodos de repetição e memorização, a escola atual defen- de as experiências realizadas pelo próprio aluno. As autoras associam esse aspecto a Rousseau – não podemos esquecer, como vimos na primeira seção deste capítulo, que o ponto essencial do preceptor de Emílio era dotar seu pupilo de autonomia e, para isso, exigia do rapaz pouco contato com os saberes instituídos, criando assim a possibilidade de que o próprio jovem atento aos ensinamentos naturais buscasse ex- periências educativas e as resolvesse por si mesmo. Além disso, a segunda escola tem como característica a mobilidade, diferente da ordenação tipicamente disciplinar da primeira escola. Mo- bilidade aqui se refere às exigências sociais que esperam que os indiví- duos contemporâneos estejam preparados para atuar em um mundo sempre movente e que sejam capazes de responder adequadamente às novas exigências sociais e profissionais que se apresentam a todo momento. Porém, mesmo nesse novo regime, os dispositivos de poder continuam atuando. E a escola nesses novos tempos prepara o indiví- duo para a autonomia ou para, mais uma vez, submeter-se silenciosa- mente aos interesses que não são seus? Em primeiro lugar, é preciso compreender que os interesses econô- micos vigentes na primeira escola eram os de uma sociedade industrial surgente, cujo objetivo mais importante, em termos humanos e eco- nômicos, era construir sujeitos capazes para a atividade da produção; 58 Filosofia da Educação indivíduos que se conformassem com empregos e atividades ligadas ao mundo da indústria, ainda semirreguladas por leis trabalhistas. Já em nossa sociedade, o interesse se organiza em torno do con- sumo e não mais da produção; é preciso formar consumidores 4 , e o mundo do trabalho passa a explorar muito mais as capacidades intelectuais dos trabalhadores, que antes eram explorados apenas em sua força física. Se antes, na primeira escola, sob o liberalismo, o significado de liberdade estava associado a algo natural e espontâneo, agora, sob o neoliberalismo, a liberdade é ressignificada para objeto de consu- mo. Basta checarmos as redes sociais. Hoje a imagem de sujeitos felizes, livres e autônomos é encontrada em muitos perfis do Insta- gram, por exemplo. É claro que na maioria das vezes isso não pas- sa de uma imagem, mas o próprio sujeito virou objeto de consumo (uma foto bem tirada, objetos de valor adquiridos e postados são sempre correspondidos com likes). Portanto, diante dessa nova configuração social, as autoras se põem a analisar propostas pedagógicas que prometem muito e se colocam como inovadoras. As propostas analisadas têm em comum apresentar como inovador o ensino que se centra em projetos de trabalho. Tais projetos são apresentados como estratégias pedagógicas que visam transgredir e explorar novos caminhos, fazendo com que as escolas deixem de “ser formadas por compartimentos fechados”. Então, o que temos aqui é o aluno elaborando um projeto que seja de seu agrado e se engajando na tarefa de resolver os problemas que o pro- jeto exige. Assim, de acordo com Bujes e Rosa (2012, p. 14, grifos nossos), os Projetos de Trabalho elevam à máxima preconizada de levar o sujeito a reaprender a aprender ao longo de sua vida. Cada um descobre que tem responsabilidade na sua própria aprendiza- gem – o sujeito empresário de si –, sendo apto a desenvolver suas capacidades na tentativa de melhor solucionar os desafios e resol- ver os problemas de seu cotidiano. Do mesmo modo, o professor vê-se obrigado a atualizar-se em lei- turas que lhe apresentam um vocabulário novo, como os conceitos de flexibilidade, espírito inovador, aprender a aprender. Como resultado, professores e alunos passam a usar um novo vocabulário; mas desco- bre-se que ele não é tão novo assim, pois é usado há muito pela nova Antunes (2009, p. 126) retrata corretamente o cenário econômico atual, centrado no consumo: “um produto, antes de ser fabricado, deve ser vendido (mesmo numa indústria ‘pesada’, como a automobilística, um automóvel é colocado na produção somente depois que as redes de vendas dão o comando)”. 4 Educação e dispositivos de poder 59 ordem econômica. Desse modo, o grande questionamento que fica é: onde está o impulso dessa suposta nova pedagogia para direcionar o aluno no caminho da autonomia? Especificamente o que essa proposta traz é apenas o apelo empre- sarial que espera ter esse perfil de cidadãos, treinados a responder com desenvoltura às demandas econômicas operantes na sociedade. O que queremos expressar com isso é que a escola, nesse exemplo de análise, não está fornecendo nada inovador; está apenas facilitando o assujeitamento, a aceitação silenciosa que discutimos no início desta seção, dos interesses políticos e econômicos da vez. Os imperativos sociais, econômicos e políticos mudaram da primeira escola para a segunda, mas essa instituição continua com o mesmo papel: não de emancipar o aluno, mas o contrário, de obscurecer, de tornar o mais invisível possível o processo de aceitação dos dispositivos disciplinares. CONSIDERAÇÕES FINAIS Seguindo o tema da educação e sua relação com a infância, procura- mos dar coerência ao fio histórico que acompanha o capítulo. Vimos com Rousseau o início da Idade Moderna e sua crítica ao tipo de sociedade que ele via nascer. A proposta pedagógica do filósofo visa a um modelo de educação que possa se contrapor aos apelos do luxo, que naquele mo- mento apontavam para o aumento da desigualdade social caso o apego ao referido apelo se confirmasse. Foucault nos ajuda a pensar a educação em um outro momento da história da modernidade, em que o desenvolvimento técnico colabora para a massificação dos dispositivos de poder e controle das sociedades de um capitalismo avançado. Com Maria Edelweiss Bujes, um terceiro momento dessa história foi te- matizado, o momento atual, em que os dispositivos continuam atuantes, mas exigem um novo sujeito, que supostamente é livre, embora descu- bramos que essa imagem de liberdade é enganosa; as instituições conti- nuam contribuindo para o assujeitamento pacífico e silencioso dos seres humanos, os conformando não às suas próprias necessidades, mas às necessidades dos interesses econômicos e políticos vigentes. 60 Filosofia da Educação ATIVIDADES 1. Por que Esparta é um modelo inspirador para Rousseau? Comente. 2. Que características permitem dizer que a percepção a respeito da infância na Idade Média e início da Era Moderna era muito diferente da percepção contemporânea? Discorra. 3. O que é o estado de natureza? Defina. 4. Como o estado de natureza está vinculado ao pensamento pedagógico para Rousseau? 5. Por que Foucault não aceitaria a sugestão de Rousseau acerca da importância da utilidade como garantia de sociedades mais justas? REFERÊNCIAS ANTUNES, R. Os Sentidos do Trabalho. São Paulo: Boitempo, 2009. ARIÈS, P. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: LTC, 2017. BUJES, M. I. E. A invenção do eu infantil: dispositivos pedagógicos em ação. Revista Brasileira de Educação, n. 21, p. 17-39, 2002. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1413- 24782002000300003. Aceso em: 16 jul. 2021. BUJES, M. I. E. Infância e Risco. Educação & Realidade, v. 35, n. 3, p. 157-174, set./dez. 2010. 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Vídeo https://doi.org/10.1590/S1413-24782002000300003 https://doi.org/10.1590/S1413-24782002000300003 https://seer.ufrgs.br/educacaoerealidade/article/view/13079 https://revistahorizontes.usf.edu.br/horizontes/article/view/57 https://www.dicio.com.br/ https://michaelis.uol.com.br/ https://michaelis.uol.com.br/ https://doi.org/10.1590/S0102-71822006000300003 Educação e democracia 61 3 Educação e democracia Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • aprender os aspectos do pensamento de Dewey que eviden- ciem seu posicionamento político e como esse, divergente do marxismo e do liberalismo mais tradicional, impactou suas reflexões sobre a democracia e sobre o quanto a edu- cação é fundamental para o projeto de uma democracia libe- ral renovada; • compreender os conceitos de esfera pública, mundo da vida e sistema desenvolvidos por Habermas; • conhecer algumas das críticas endereçadas ao modelo teóri- co de Habermas. Objetivos de aprendizagem Neste capítulo, vamos abordar alguns momentos do surgimento e da consolidação do que atualmente entendemos por democracia liberal. Junto a isso, mas não menos importante, interessa-nos compreender os aspectos que incidem sobre a educação nesse cenário. Dois pensadores importantes que nos servirão de guias para esse trajeto são: John Dewey, o qual exerceu grande influência no campo da educação e da política ao longo de todo o sé- culo XX, situando-se como um pensador liberal; e Jürgen Habermas, filósofo e autor de vasta obra, que procurou oferecer respostas a problemas graves presentes nas democracias liberais. Algumas das respostas de Habermas nos interessam, pois refletem diretamente no campo da educação. Por fim, procuramos apontar a importância e as limitações das propostas de Habermas, com base em alguns dos críticos do pensamento desse eminen- te filósofo. Vivemos um tempo em que disputas ideológicas entre o que classi- ficamos como esquerda e direita se tornaram evidentes, por isso vale lembrar que o contexto histórico que permeia esses dois filósofos nos permitirá com- preender melhor a gênese dessas disputas, uma vez que o pensamento tanto de Dewey quanto de Habermas se espraia para além da educação e reflete, exemplarmente, os embates que ganham contornos definidos no século XVIII. 62 Filosofia da Educação 3.1 Uma educação liberal renovada Vídeo As redes sociais são um termômetro interessante no que diz res- peito a posicionamentos políticos. Se você tem ou já teve um perfil em alguma delas, dificilmente passou incólume em relação ao teor apaixonado com que os usuários defendem suas posições políticas, defesas essas, muitas vezes, sem conhecimento algum, apenas por pai- xão e exaltação. De qualquer forma, não é nossa proposta defender qualquer posição, mas compreender melhor a gênese dessa disputa. É preciso fazer isso por dois motivos: (i) porque a ideia de educação vigente, os projetos pedagógicos que a embasam e aqueles projetos que a criticam, todos estão em constante diálogo com o cenário e as expectativas geradas pelas políticas adotadas pelos Estados modernos; (ii) porque os filósofos que vamos estudar neste capítulo também são políticos; assim, a política está presente mesmo quando o foco de seus argumentos não é, necessariamente, político. John Dewey (1859-1952) pode ter seu pensamento situado no interior do liberalismo, enquanto Jürgen Habermas (1929-), filósofo contempo- râneo, é descende da Escola da Frankfurt – famoso grupo alemão de pensadores de esquerda (embora o seu pensamento tenha, ao longo dos anos, se distanciado de muitas das teses do grupo frankfurtiano). Embasados nesse posicionamento inicial desses filósofos, vamos com- preender, um pouco melhor, do que se trata a distinção entre esquerda e direita por meio da história. Depois, ao estudarmos mais detidamente acerca de cada uma, poderemos identificar o modo como as suas ideias se relacionam aos seus posicionamentos políticos. Para uma melhor delimitação temporal de nossa distinção, pode- mos dizer que o início desse tipo de disputa ideológica ocorre após o evento símbolo que marca o começo de nossa era moderna: a Re- volução Francesa (1789–1799). O monumental trabalho de Wallerstein (2011) nos ajuda nessa breve explicação. Para ele, quando a Revolução Francesa se concretizou, um grupo específico de franceses viu nela um tipo de mudança política planejada e que, por isso, feria o que eles en- tendiam por evolução lenta das forças sociais “naturais”. Na verdade, hoje, mais do que naquele momento, há uma grande desconfiança em torno da defesa de algum tipo de natureza ou essência que determine a velocidade das mudanças sociais. incólume: que permane- ce igual, sem alteração; bem conservado, inaltera- do (HOUASSIS, 2009). Glossário Educação e democracia 63 de uma sociedade para uma direção, um desenlace já predeterminado por uma suposta natureza neles presentes. Mas para aquele grupo de franceses era o que tinha ocorrido; a revolução, por ter sido deliberada, jamais coincidiria com as “verda- deiras” mudanças que somente a natureza das forças sociais poderia determinar. De qualquer forma, precisamos apenas compreender que esse grupo, que carregava consigo uma ideologia conservadora, reagiu contrariamente aos eventos revolucionários e, por esse espírito reativo, ficaram marcados como reacionários. Assim, reacionário, naquele mo- mento histórico, significa não mais do que uma posição reativa diante das mudanças revolucionárias – sendo essa a ideologia conservadora que esteve nesse primeiro momento relacionada ao termo reacionário. Os conservadores (reacionários), em termos objetivos, se dividiam em dois grupos do conservadorismo/reacionarismo: Aqueles que propunham a reversão completa das ideias e ações da revolução. Aqueles que entendiam como melhor solução limitar os “danos” e retardar, tanto quanto possível, as mudanças, inspiradas na revolução, que ainda estariam por vir. Versão sofisticada Versão forte Ta h De si gn /S hu tte rs to ck Contemporaneamente, as ciências sociais e, fundamentalmente, nesse caso, a ciência política estão cada vez mais amparadas por números e esta- tísticas, o que confere uma exatidão maior às suas análises. No entanto, há certo grau imponderável nas relações sociais e na história dos agrupamen- tos humanos que impede os números de estabelecerem cenários futuros com um grau de certeza. Dificilmente, cientistas sociais e historiadores de- sejarão comprometer-se com a ideia de leis naturais que rejam os eventos 64 Filosofia da Educação Organizados dessa forma, os dois grupos uniam-se na ideia de que era necessário retomar o poder político – sendo isso o que ocorre em1815, quando os conservadores retomam o poder em um evento que eles cunharam como Restauração. Entretanto, foi um poder que não du- rou muito, pois logo os ideais revolucionários estariam de volta ao poder. Os liberais surgem, aproximadamente, no mesmo momento que os conservadores, mas com posições contrárias a estes. De maneira ainda turva, eles se organizaram em torno da defesa da revolução e de tudo o que ela prometia para o futuro. Contudo, foi em 1815 que essa posição ficou bem definida, com os liberais se proclamando como ple- na oposição ao conservadorismo. Estava formado, assim, o primeiro cenário das disputas ideológicas e políticas modernas das sociedades ocidentais. À direita, localizavam-se os conservadores, buscando, a todo custo, um retorno às estruturas sociais correspondentes à mo- narquia absolutista. À esquerda, os liberais, que se proclamavam universalistas e defensores de uma nova consciência, a qual abarcava tudo que representava ser moderno. O socialismo foi a última das três ideologias a ser formulada: “antes de 1848 dificilmente ela podia ser pensada como uma ideologia distin- tiva” (WALLERSTEIN, 2011, p. 10). Inicialmente, aqueles que viriam a ser considerados socialistas não se diferenciavam dos liberais, mas, aos poucos, as diferenças foram se delineando; assim, a principal delas se referia à velocidade das mudanças que os dois grupos projetavam aplicar por meio da política em direção ao que entendiam por progres- so. Nos socialistas residia a convicção de que as mudanças precisavam ser aceleradas e não se dariam sem muitos esforços e planejamento, como relata Wallerstein (2011, p. 11, grifos do original): o coração do programa deles, em resumo, consistia em acelerar o curso da história. Aí está a razão pela qual a palavra revolução era mais considerada por eles do que reforma, que parecia implicar em atividade política, se conscienciosa, meramente paciente, pare- cendo encarnar primariamente uma atitude de esperar para ver. É muito comum até os dias de hoje que liberais estejam associados à ideia de reforma, portanto são reformistas, o que implica a cren- ça de que as mudanças políticas e sociais devem ser implementadas, mas de maneira lenta, e à ideia de revolução estejam ligados os so- cialistas, embora essa ideia esteja hoje mais vinculada ao comunismo do que ao socialismo. Educação e democracia 65 De qualquer forma, desde 1848, com os socialistas se opondo niti- damente aos liberais, o quadro de posições políticas se completou. À direita estavam os conservadores monarquistas; ao centro, os liberais, que enquanto só tinham como oposição os conservadores estavam à esquerda, entretanto quando os socialistas se organizaram, passaram a ocupar o centro; e, por fim, à esquerda, os socialistas. O critério aqui é a postura diante dos ideais revolucionários e da velocidade das mu- danças. A seguir, o Quadro 1 nos ajuda no mapeamento de localização dessas posições ideológicas. Quadro 1 Posições ideológicas Revolução Francesa Socialistas (esquerda) Liberais (centro) Conservadores (direita) Revolucionários Reformistas Reacionários Acreditavam nos ideais da Revolução Francesa. Acreditavam nos ideais da Revo- lução Francesa. Não acreditavam nos ideais da Revo- lução Francesa; opunham-se a ela. Desejavam mudanças profundas e velozes. Desejavam mudanças, mas com moderação. Desejavam o retorno da monarquia. Fonte: Elaborado pelo autor. Pelo que conhecemos da história, não é difícil indicar que, das três posições, foi o liberalismo que se espalhou culturalmente por quase todas as instituições modernas. Uma de suas construções ideológicas é a nossa democracia moderna. Geralmente nos referimos à democracia sem atentarmos para a necessidade de qualquer outro qualificativo. No entanto, vamos nos referir a ela como democracia liberal, afinal a maior parte dos regimes democráticos, os quais se consolidaram do século XIX até os dias atuais, são tidos como democracia liberal, cuja es- trutura está embasada nos ideais liberais, tais como a defesa do respei- to à pessoa humana em sua individualidade e da propriedade privada. Contemporaneamente, as três ideologias apresentadas sofreram modificações. O liberalismo, por exemplo, possui muitas vertentes, al- gumas delas estão mais à direita do que ao centro, se confundindo com posições mais conservadoras. O socialismo, nesse sentido, tem um perfil parecido, pois há posições mais à esquerda, mais radicais, como o comunismo, e mais ao centro, como a social-democracia, que é uma tentativa de unir o melhor dos dois mundos, socialismo e liberalismo. Em regimes democráticos, o conservadorismo retrocedeu em al- guns casos, como a dificuldade de encontrar posições que defendam 66 Filosofia da Educação nos dias atuais o retorno às monarquias absolutistas. Posturas como essa – assim como o comunismo, à esquerda – geralmente estão fora do jogo democrático por se tratarem de radicalismos perigosos. Os conservadores que se mantêm no jogo democrático não defen- dem o retorno às monarquias absolutistas, mesmo que, muito comu- mente, se coloquem à defesa de grupos tradicionais, como líderes na condução das decisões políticas e econômicas. Dada a complexidade das distinções, um melhor explicativo deveria usar matizes – uma vez que em alguns pontos as ideologias se misturam –, mas seguindo o mesmo movimento desde que essas ideologias se organizaram após a Revolução Francesa, da esquerda para a direita: comunistas, socialis- tas, social-democratas, liberais e conservadores. Além disso, em cada uma dessas matizes, situam-se ainda inúmeras vertentes. A Revolução de Julho de 1830 – momento em que houve uma série de levantes contra a monarquia francesa – é tema dessa obra de Delacroix. Posteriormente, ela foi transformada em verdadeiro símbolo da representação da luta por liberdade em diversas partes do mundo. Er ic h Le ss in g / A rt Re so ur ce , N Y/ W ik im ed ia C om m on s Figura 1 Ideário de luta pela liberdade DELACROIX, E. A Liberdade guiando o povo. 1830. Óleo sobre tela, color.: 260 x 325 cm. Museu do Louvre, Paris. Conforme abordamos, cada uma das ideologias defendia uma velo- cidade que deveria ser firmada a mudanças sociais – no caso dos con- servadores, o desejo era o retorno ao antigo estado monárquico. Porém, em termos mais práticos, não podemos ignorar que, ao longo dos sécu- los XIX e XX, uma questão foi mais central nas disputas: o próprio Estado. Nas versões da esquerda, defende-se uma maior interferência do Estado na gerência da economia, enquanto nas da direita o Estado Educação e democracia 67 deve buscar a neutralidade, com a regulação da economia sendo feita pelos próprios agentes econômicos. Isso precisa ser dito porque a ideia de neutralidade do Estado é um dos maiores problemas nas demo- cracias liberais; geralmente ela está garantida formalmente (nos dis- cursos, nas leis, “na letra”, como dizemos), porém, materialmente, nas ações econômicas, políticas e sociais, ela nem sempre se concretiza. E isso impacta também as questões educacionais. Voltaremos ao tema quando apresentarmos as críticas ao pensamento de Habermas. Por meio disso, notamos que o cenário atual é muito complexo para ter- mos a pretensão de defini-lo em poucas linhas. De qualquer forma, conse- guimos apresentar as forças políticas que norteiam os embates ideológicos desde a Revolução Francesa. Interessa-nos, principalmente, o liberalismo e sua democracia, uma vez que são seus princípios que coordenam as socie- dades em que nossos dois filósofos, Dewey e Habermas, produziram suas ideias. Inicialmente, vamos nos preocupar com Dewey. Veremos que a nos- sa prévia, delineando posições políticas, também nos ajudará aqui. 3.1.1 John Dewey Comumente, Dewey é classificado como um pensador liberal, mas não podemos imaginá-lo como um pensador liberal programático, sen- do este aquele tipo de filósofo tão comprometido com uma ideologia política que procuraadaptar suas ideias a fim de que não desrespeitem os dogmas dessa ideologia. Ser um pensador liberal nunca privou Dewey de interessar-se por aspectos que muitas vezes eram temas apenas dos pensadores de esquerda, sobretudo os marxistas. Por exemplo, a questão mais premente para o filósofo foi a desi- gualdade social, a qual ele entendia ter sido causada pelo desenvolvi- mento tecnológico mal distribuído. Além disso, o contexto histórico em que Dewey escreve é de grande dificuldade para que leis trabalhistas consigam regular o mundo do trabalho nos Estados Unidos. Isso ocorre nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, quan- do as indústrias, nas mãos de um grupo reduzido de financistas, ditam as regras junto a uma incrível indiferença pelas condições de vida dos trabalhadores. John Dewey pôde presenciar a exploração de crianças como trabalhadoras nas fábricas, as péssimas condições de vida e saú- de dos operários e a falta de indenização de acidentes de trabalho. Un de rw oo d & Un de rw oo d /W ik im ed ia C om m on s John Dewey pode ser considerado um filósofo político com o pensamento alinhado ao liberalismo. Figura 2 John Dewey 68 Filosofia da Educação É então que, tocado por esse cenário, Dewey vai produzir muitos de seus trabalhos, os quais, de alguma maneira, procuram dar respostas a essas difíceis desigualdades. Não por acaso, o seu pensamento foi o grande inspirador de um movimento pedagógico renovador e muito im- portante para a educação brasileira da primeira metade do século XX, conhecido como Escola Nova. Anísio Teixeira, líder desse movimento e um dos maiores nomes de nossa educação, foi aluno de John Dewey. Crianças trabalhando em moinho de algodão. O garoto descalço teve que subir no maquinário para alcançar o local que precisava de conserto. Ev er et t C ol le ct io n/ Sh ut te rs to ck Figura 3 Crianças trabalhando, fotografia de Lewis Hine (1909) Por isso, vale nos debruçarmos um pouco mais sobre o pensamen- to desse importante e engajado filósofo. É no seu posicionamento com relação às desigualdades que Dewey procurará opinar como um liberal de tipo peculiar. Como vimos, o liberalismo foi a ideologia mais bem-su- cedida em termos de influência por todas as instituições sociais e a que melhor representou o espírito burguês característico da modernidade. Como uma ideologia representativa desse espírito, nunca foi incomum que nas disputas entre interesses de diferentes classes sociais o libera- lismo estivesse ao lado dos representantes da burguesia em detrimen- to das classes que dependiam de salário para viver. Para Dewey, esse liberalismo não servia. O filósofo, embora relu- tante, procurou alinhar-se ao liberalismo muito mais em função das promessas de respeito e luta pela liberdade de cada indivíduo. Assim, é possível ver em Dewey um liberal que não se furta a criticar duramente Lewis Hine viajou pelos Estados Unidos entre 1908 e 1924 fotogra- fando crianças de várias idades que exerciam diversas funções, desde catadoras de algodão a operadoras de máquinas nas indústrias. Lewis pro- duziu mais de 5 mil fotos. O trabalho foi encomen- dado pelo National Labor Committee, organização criada para combater o trabalho infantil. Curiosidade Educação e democracia 69 o próprio liberalismo, principalmente porque vê nas desigualdades so- ciais a presença concreta das classes que detêm o poder de exploração da força de trabalho, por meio de toda a maquinaria tecnológica dis- ponível. A passagem seguinte evidencia muito bem isso, ao dizer que a produção tem sido: cuidada de modo grosseiro e intenso. Acelera-se de modo frenéti- co o fazer as coisas; e todos os dispositivos mecânicos são usados para avolumar a massa sem sentido. Como resultado, a maioria dos trabalhadores não encontra satisfação, nem renovação, nem crescimento intelectual, nem realização no trabalho… A estupidez de separar a produção do consumo, do enriquecimento presente da vida, fica evidente nas crises econômicas, nos períodos de de- semprego que se alternam com períodos de exercício, trabalho ou “superprodução”. … O lazer não é o alimento da mente no traba- lho, nem a recreação; é uma avidez febril por diversões, emoções, exibições; caso contrário, não há lazer, exceto como um torpor obtuso. É inevitável a fadiga que se deve, para alguns, à monoto- nia, e, para outros, ao esforço excessivo para manter o ritmo. Na sociedade, a separação da produção e do consumo, dos meios e fins, é a raiz da mais profunda divisão de classes. Estão no controle aqueles que fixam “metas” para a produção, constituem a classe dominante aqueles que se encarregam de atividades produtivas isoladas. Porém, se são oprimidos os últimos, não são verdadeira- mente livres os primeiros. (DEWEY, 1944, p. 271-272) Embora longa, a citação é importante, pois evidencia a sensibilidade de Dewey quanto às contradições do sistema de exploração do traba- lho de seu tempo. São bem pertinentes as observações a respeito da separação produção/consumo, a qual ele entende como injusta, pois os operários só participam da produção ao vender sua mão de obra em troca de salários baixos, impedindo-os de desfrutar de seu consumo. Como mencionamos, críticas contundentes como essas dificilmente eram proferidas por liberais; vinham geralmente de marxistas. Em um pri- meiro olhar, é possível até compreender Dewey como um pensador de esquerda, no entanto ele tinha sérias restrições quanto ao pensamento de Marx. Embora reconhecesse no marxismo como correta a observação dos graves problemas sociais daquele tempo, não concordava com o ca- ráter revolucionário presente nas ideias de Karl Marx e Friedrich Engels. Devemos lembrar o nosso quadro da seção anterior: o pensamento de esquerda, em suas formas mais radicais, entende que a transformação 70 Filosofia da Educação social se dará por meio do enfrentamento entre a classe social explorada pelo trabalho e aquela que se beneficia dessa exploração. Para os pensadores mais radicais, propor que alguma transforma- ção social virá pela bondade dos que detêm os meios de produção, ou com as mudanças lentas da sociedade em direção a um maior ajuste na distribuição de riquezas, é apenas uma estratégia liberal para evitar que o descontentamento dos explorados se manifeste de maneira vio- lenta, pois a revolução era a mais violenta delas. Dessa forma, Dewey mantém-se no espectro do pensamento liberal, uma vez que toda a articulação de sua filosofia procura modos de transformação social por intermédio de reformas e de revoluções. Cunha (2001) entende que Dewey é o defensor de um novo libe- ralismo, o qual precisa se opor às desigualdades e injustiças que a exploração do trabalho produz, postura que, segundo ele, o velho libe- ralismo jamais tomou. É aí que entra também a sua visão de democra- cia. De maneira perspicaz, ele percebe na democracia algo que muitos de seus companheiros de ideologia ainda hoje não reconhecem: quan- do na democracia percebemos um alto grau de desigualdade social é porque suas estruturas estão alicerçadas apenas em um formalismo vazio. Isso significa que a ideia de igualdade que a democracia propõe se estabelece apenas formalmente: as leis são promulgadas, mas, na prática, não conseguem fazer valer a justiça, prevalecendo quase sem- pre o poder da influência, do dinheiro, dos interesses econômicos dos mais fortes. Segundo Cunha (2001, p. 37), Dewey entende que o velho libera- lismo “agrupa aqueles que relutam em aprovar medidas de ação go- vernamental que sinalizem qualquer tipo de política social”. Como resultado, esse velho liberalismo vive uma grave incongruência, uma vez que, desde seu início, o princípio da liberdade o guia, porém, ao defender a manutenção do status quo em um contexto social e econô- mico tão desigual, acaba por promover o aprisionamento das pessoas mais pobres, estagnadas em seus salários baixos, em suas moradias ruins, em situações que dificultamprojetar expectativas positivas com relação a uma qualidade de vida melhor. Em cenários assim, a liberda- de “significa libertar-se da insegurança material e das coerções e re- pressões que vedam as multidões de participar dos vastos recursos materiais disponíveis” (DEWEY, 1970, p. 54). Nesse momento, é neces- sário enfatizar um aspecto fundamental: liberdade para Dewey, então, Educação e democracia 71 não pode estar desacoplada da ideia de busca pela construção de um mundo mais justo. Aqui, a justiça não deve ser entendida apenas como igualdade formal, mas em sua materialidade plena, a qual significa uma melhor distribuição de riquezas. Ao identificar o seu liberalismo com a denúncia do sistema econô- mico e a necessidade de lutar para modificá-lo, isso já coloca o libe- ralismo de Dewey a uma razoável distância do mais tradicional que ele tanto criticou – embora reconheça que o liberalismo, no passado, produziu bons frutos, como a conquista da liberdade de expressão e de pensamento. O melhor caminho visualizado por Dewey para provocar as transfor- mações que as democracias liberais precisam promover nas estruturas econômicas que as sustentam é a educação. É nesse campo que esse filósofo vai exercer uma parte fundamental de sua influência. Para ele, a educação é o mecanismo que as sociedades têm para aprofundar os melhores recursos de uma democracia e revisar aqueles que são pre- judiciais à construção de uma sociedade mais igualitária. Em primeiro lugar, Dewey procura entender a própria inteligência de um ponto de vista diferente. As teorias liberais acertaram na compreen- são de que a inteligência é mais do que um conjunto de “hábitos formados com base no passado e na tradição” (CUNHA, 2001, p. 60). Isso fez com que elas, corretamente, se opusessem à estrutura de um mundo feudal que a própria Revolução Francesa tratou de extinguir. Essas rígidas estru- turas acabavam impedindo que novos comportamentos e ideias flores- cessem. Por isso, até o fim da Idade Média, a ideia de indivíduo (uma das ideias centrais da modernidade) não pôde se desenvolver. Porém, simultaneamente, os liberais não conseguiram elaborar um conceito de inteligência que não fosse marcado pela ideia de individua- lidade, de ser humano encerrado apenas em si mesmo. A inteligência foi entendida como parte da natureza humana, com leis próprias que dotam cada um dos indivíduos e ignora os aspectos e toda a potencialidade que essa mesma inteligência pode ter na relação do indivíduo com outros. Resumidamente, para um conceito mais completo de inteligência, é necessário levar em consideração que ela se manifesta socialmente. A interdependência dos indivíduos em sociedade é mais importante do que qualquer suposta natureza humana que distribui desigualmente a O livro Da divisão do trabalho social, de Émile Durkheim, apresenta as sociedades pré-capita- listas como sociedades mecânicas, em que as pessoas desenvolvem as mesmas tarefas e são regidas pela força das tradições, das crenças e dos hábitos comuns, e sociedades orgânicas, nas quais as funções são mais bem especializadas e a força das tradições, menos influente. DURKHEIM, É. São Paulo: Edipro, 2016. Livro 72 Filosofia da Educação inteligência. Isso serve para que Dewey possa criticar projetos pedagógi- cos que, em síntese, culpabilizam apenas o indivíduo pelo seu fracasso. Quando um aluno, uma criança, por exemplo, tem um mau desem- penho escolar, há vertentes pedagógicas que tendem a medir esse fra- co desempenho com o uso de testes psicológicos e psicopedagógicos. Nesse caso, a inteligência é medida sob o ponto de vista estritamente individual. De acordo com Cunha (2001, p. 61): por essa via, numerosas estratégias de trabalho podem ser colo- cadas em prática para dotar o aluno daquilo que lhe falta, como se houvesse um dom que está ali, escondido em algum lugar, talvez no cérebro, à espera do exercício adequado, para fazê-lo florescer, ou como se houvesse um defeito em alguma engrena- gem mental, à espera de conserto. Mas há uma outra vertente de avaliação, a qual certamente con- cordará que a criança tem algum deficit em seu aprendizado, porém a avaliação desse deficit não deverá levar em consideração um universo tão estrito quanto o anterior. É preciso observar o entorno dessa crian- ça, sua família e demais grupos de seu convívio: “a premissa, agora, é que a inteligência é forjada no convívio da criança no ambiente, em que conta a sua experiência ante a realidade material e social” (CUNHA, 2001, p. 61). A filosofia de Dewey busca fundamentar-se nos princípios de cooperação, o que a torna, novamente, distanciada de boa parte das teorias liberais tradicionais, uma vez que elas assumem o caráter competidor da base econômica que as sustenta, o capitalismo. Portanto, temos no liberalismo tradicional pressupostos de competi- ção e, no liberalismo de Dewey, pressupostos de cooperação. Pensan- do assim, a própria inteligência precisa ser vista sob bases cooperativas. Dessa forma, a segunda vertente, que buscou ampliar o escopo de inves- tigação para compreender o problema do deficit da criança, não buscará soluções a responsabilizando unicamente, mas inserindo o problema no contexto das relações sociais e experiências dessa criança. Um pensamento liberal fundado na cooperação e crítico da competi- ção é realmente uma proposta muito original, mas Dewey consegue evi- denciar que é possível viver em sociedades concorrentes sem deixar de criticá-las no que elas têm de mais problemático. Certamente, a tendência de culpar apenas o indivíduo é ilegítima nos capítulos iniciais do liberalis- mo; uma estratégia bastante conveniente, pois, ao ter a culpa como um Educação e democracia 73 destino certo, o indivíduo não se atenta ao sistema e suas contradições. A contradição maior do liberalismo antigo é, justamente, declarar-se defen- sor universal das liberdades individuais, além de respaldar e encobrir as estruturas econômicas que produzem o aprisionamento das individualida- des, privando-as, muitas vezes, dos aspectos materiais mais elementares. Assim, o pensamento de Dewey tornou-se um alento e um farol para aqueles espíritos reformistas que se sentiam desconfortáveis com as con- tradições liberais e a falta de atenção às desigualdades materiais. Surge, as- sim, não apenas com Dewey, mas muito em função de suas contribuições, um liberalismo inconformado, engajado e crítico do sistema econômico. Há autores contemporâneos que atentam para a importância des- se tipo de postura, observando que o neoliberalismo, construto dos nossos dias, remonta muito mais aos pressupostos do liberalismo tra- dicional. É como se, de alguma maneira, nossas sociedades possibili- tassem uma nova forma de política que se abstém ou que se nega a pensar nas desigualdades sociais como problemas sérios que precisam de solução. Para esses autores, o neoliberalismo teria essa natureza, pois a força econômica das grandes corporações atuais sobrepujaria a força política dos Estados nacionais e colocaria em primeiro plano seus interesses e não mais os interesses das coletividades. Vejamos como Dardot e Laval (2016, p. 62, grifos do original), autores do nosso tempo, posicionam Dewey nesse contexto: no entreguerras, esse novo liberalismo terá desdobramentos importantes nos Estados Unidos. John Dewey, nas conferências que fez em 1935, reunidas em Liberalismo e ação social, mostrou a impotência do liberalismo clássico para realizar seu projeto de liberdade pessoal no século XIX, sendo incapaz de passar da crí- tica das formas antigas de dependência para uma organização social inteiramente fundada sobre os princípios liberais [...] para Dewey, assim como anos antes para Hobhouse, o liberalismo do século XX não poderia mais contentar-se com os dogmas que permitiram a crítica da ordem antiga, mas deve colocar-se im- perativamente o problema da construção da ordem social e da ordem econômica. É exatamente a isso que se dedicarão– em sentido oposto – os neoliberais modernos. Além de sua concepção mais ampla de inteligência, Dewey também propunha uma educação em que os alunos fossem mais ativos na pro- dução do conhecimento. A aprendizagem precisa gerar dúvidas, insti- gar o aluno a resolver problemas. O professor deve saber identificar o Figura 4 Alunos com dúvidas O processo de aprendizado dos alunos deve envolver a dúvida. Assim, o professor compreende que esse momento é o que gera conhecimento. Monkey Business Images/Shutterstcok 7474 Filosofia da EducaçãoFilosofia da Educação momento da dúvida, pois é com base nela que o aluno vai utilizar vários processos mentais, como o levantamento de hipóteses, a análise e a comparação, elementos esses típicos de uma sociedade que escolheu a ciência como base de desenvolvimento. Além disso, o aluno torna-se corresponsável por sua própria formação, mais ciente dos processos que o envolvem. Obviamente, o método proposto pelo filósofo torna o ensino mais desafiador para os educadores, pois exige que o professor esteja pre- parado a se deparar com situações novas, não previstas nos conteúdos predeterminados dos livros didáticos. Isso “coloca o professor diante de situações imprevistas, novas e desconhecidas, exigindo que profes- sores e alunos compartilhem de fato o processo de construção e não apenas o de reconstrução e reelaboração do conhecimento” (PEREIRA et al., 2009, p. 158). É certo que as condições para esse tipo de educação precisam ser as mais adequadas; um professor com turmas de muitos alunos dificilmente terá condições de se comprometer com as desco- bertas de cada um. O método de Dewey, somado a uma maior participação do aluno na produção de seu próprio saber, pressupunha uma carga de expe- riências vivas que a escola não estava habituada a oferecer. Podemos dizer que esse é o importante caráter empírico da filosofia deweyana. Vejamos a crítica que o filósofo fazia à escola tradicional, acusando-a de eliminar a maior riqueza do conhecimento: a experiência. Educação e democracia 75 Quando se diz que aprendemos com a experiência, e com os li- vros e conselhos dos outros somente na medida em que estes se relacionam com a experiência, não se trata de meras frases feitas. Mas a escola alheou-se, isolou-se de tal forma das con- dições e motivações correntes da vida que o lugar para onde enviamos as crianças com o fito de lhes incutir a disciplina é o lugar do mundo onde é mais difícil adquirir experiência – a mão de toda a disciplina digna desse nome. Só as pessoas limitadas por uma imagem limitada e rígida da disciplina escolar correm o risco de menosprezar essa disciplina profunda e infinitamente mais ampla que se adquire ao participar num trabalho construti- vo. (DEWEY, 2002, p. 26, grifo do original) O filósofo não se contenta em fazer essa crítica apenas de modo abs- trato; seus livros estão cheios de exemplos de como um conteúdo esco- lar poderia ser imensamente enriquecido com mais empirismo, o que poderia dotar cada aula de aspectos mais interessantes. Suas sugestões procuram adotar exercícios com base nas atividades cotidianas e rotinei- ras. Ele sugere, por exemplo, que uma aula de ensino básico de costura possa ser o pretexto para algo que vá além do sentido pragmático dessa bela atividade, como uma aula com referências à história dessa prática e de inúmeros conhecimentos relacionados a ela. Ou seja, para Dewey (2002, p. 28), estas atividades são pretextos para recapitular o desenvolvimen- to histórico do homem. Por exemplo, as crianças recebem em primeiro lugar a matéria-prima – as fibras de linho, os frutos do algodoeiro, a lã tal como é extraída do corpo da ovelha (se pu- dermos levá-las ao local onde as ovelhas são tosquiadas, tanto melhor). Em seguida, é feito o estudo destes materiais, do ponto de vista da respectiva adaptação aos usos a que se destinam. Por exemplo, a fibra de algodão é comparada com a fibra de lã. Nesse ponto, o filósofo põe-se no lugar do professor, ao adotar esse método empírico, invertendo, por alguns momentos, o papel de educa- dor: a criança com suas descobertas também é capaz de ensinar. Eu não sabia, até as crianças me terem dito, que o motivo para o desenvolvimento tardio da indústria algodoeira, quando compa- rada com a manufatura de tecidos de lã, era o fato de a fibra do algodão ser tão difícil de separar manualmente das sementes. Um grupo de crianças trabalhando durante trinta minutos a se- parar as fibras de algodão da cápsula e das sementes, conseguiu extrair menos de trinta gramas. Foi-lhes fácil calcular que uma pessoa, usando as mãos, não conseguiria descaroçar mais do No filme Nenhum a menos, uma menina de 13 anos de idade precisa substituir seu professor por alguns dias. Antes de se afastar, o docente pede para que ela não deixe nenhum aluno abandonar a escola durante sua ausência. Um dos alunos, no entanto, deixa de acompanhar as aulas. A garota, momen- taneamente professora, descobre que ele deixou o vilarejo em busca de emprego na cidade. Ela, então, vai atrás desse aluno. Há inúmeras discussões importantes no filme. Vamos nos ater a uma delas: o cotidiano escolar das crianças muda radi- calmente quando a jovem professora decide incre- mentar as aulas por meio de atividades em uma olaria. Os alunos, que inicialmente se preocu- pavam apenas em copiar e decorar conteúdos, se tornam mais ativos e participantes. Uma boa história para relacionar aos aspectos empíricos da teoria de John Dewey. Direção: Yimou Zhang. China: China Film Group Corporation, 1998. Filme 76 Filosofia da Educação que meio quilo por dia, e compreenderam assim por que motivo os seus antepassados preferiam as roupas de lã às de algodão. (DEWEY, 2002, p. 26-27) Dewey toma o cuidado em sugerir que aulas assim não permane- çam apenas no seu propósito utilitário – nesse caso, o de ensinar as crianças a coser. O aspecto utilitário é apenas o primeiro impulso; após isso, a aula deve expandir-se: vimos no exemplo que as crianças bem orientadas foram capazes de compreender aspectos históricos da pro- dução de roupas, fazer cálculos, além de terem chegado a conclusões por conta própria. O filósofo não endereçava esse método apenas às crianças. Seu de- sejo era que todos tivessem acesso a formas mais profundas de co- nhecimento. Observamos que Dewey não concordava com vários dos pressupostos políticos mais revolucionários. Com relação ao conheci- mento, essa postura permaneceu. Esse pensamento divergia-se dos marxistas, os quais viam que so- mente o embate entre a luta de classes (patrões versus empregados) poderia resolver os problemas sociais. Dewey imaginava, por meio dos mesmos métodos empíricos, que uma educação profunda dos operá- rios – esses cientes da vastidão de conhecimentos em torno de cada uma das tarefas que exerciam e historicamente mais conscientes – se- ria capaz de tornar as relações de trabalho mais harmoniosas e justas. Os resultados seriam certamente vantajosos para a ideia de democra- cia que Dewey tinha: pulsante e capaz de promover relações econômi- cas e sociais mais igualitárias. 3.2 Jürgen Habermas: esfera pública expandida e educação Vídeo Agora, vamos conhecer os conceitos de esfera pública, mundo da vida e sistema, estes desenvolvidos pelo filósofo alemão Jürgen Ha- bermas. Com base nesses conceitos, veremos como o filósofo valoriza a capacidade comunicativa, compreendendo-a como a mais legítima ferramenta das sociedades modernas contra os ataques do sistema à democracia. Com base nisso, veremos como a educação é afetada e como reage ao embate mundo da vida versus sistema. Educação e democracia 77 3.2.1 A constituição da esfera pública Jürgen Habermas é, atualmente, um dos filósofos vivos mais res- peitado e estudado. Seu pensamento é influente nos estudos políticos, nas ciências sociais, nos estudos culturais e linguísticos e na educa- ção. Nascido em 1929, em Düsseldorf (Alemanha), tornou-se, nos anos1950, assistente de Theodor Adorno, um dos mais importantes filóso- fos da conhecida Escola de Frankfurt, instituição em torno da qual ou- tros pensadores eminentes como Max Horkheimer e Herbert Marcuse estavam ligados. Je re m y J . S ha pi ro /W ik im ed ia C om m on s À esquerda, Max Horkheimer, pensador da Escola de Frankfurt; à direita, Theodor Adorno, de quem Habermas (em segundo plano, à direita) foi assistente. Figura 5 Theodor Adorno e Max Horkheimer A Escola de Frankfurt se notabilizou por ser uma das mais proe- minentes fontes do pensamento de esquerda no século XX. Assim, as origens do pensamento de Habermas estão entrelaçadas por essa ine- gável influência. Porém, ao longo do desenvolvimento do seu pensa- mento, Habermas buscou uma posição própria, independente, o que lhe possibilitou ser, em muitos momentos, crítico das ideias marxistas, mas também do liberalismo. Trata-se de um pensador complexo, cujas ideias e opiniões não podem ser ignoradas. Sua primeira grande ideia a qual nos interessa aqui é a de expansão da esfera pública, que ele explicitou em Mudança estrutural da esfera pú- blica: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Nesse texto, observou que já no século XIII, com o início do capitalismo mercan- 78 Filosofia da Educação til, a burguesia iniciava o seu próprio processo de construção de espaços representativos, que mais tarde se tornarão independentes do Estado. Com a consolidação da produção capitalista, as atividades públicas rela- tivas à burguesia, as quais até então se delimitavam à economia domés- tica, tornam-se públicas, no sentido de serem executadas em ambientes nos quais circulavam pessoas que iam além dos membros da família. Junto a isso, há o desenvolvimento da imprensa, a qual inicialmente é aliada do comércio, a fim de publicizar os aspectos positivos e práticos que pudessem ser utilizados pela população. Com esse desenvolvimen- to, os intelectuais passam a ser atuantes na imprensa; com isso, o poder de análise desses últimos os torna capazes de serem críticos das ativi- dades públicas, sobretudo das atividades do Estado. Estava formada, assim, o que Habermas chamara de esfera pública burguesa. É por meio dessa que a sociedade liberal organizou forças para pressionar os Esta- dos a adotarem políticas públicas de interesse burguês. Para Habermas, é importante pontuar que junto da esfera pública nasce o conceito de opinião pública, significando o posicionamento de determinado público com a capacidade de reflexão. Contemporanea- mente, nos parece algo trivial pensar na presença da opinião pública, mas Habermas se debruçou sobre a gênese desse modo de expressão social, anterior à Revolução Francesa, em sociedades cujos poderes pú- blicos eram exercidos somente pelos monarcas. O surgimento da es- fera pública é importante porque o poder, diante da opinião balizada, precisa de alguma forma se mostrar, dar respostas e satisfação de suas ações. Nos séculos em que a burguesia vai se descolando do poder monárquico (um processo longo, que vai dos séculos XIII ao XVIII), ela ainda é muito dependente e balizada pelo monarca. É somente ao final desse processo, na Inglaterra do século XVIII, que a opinião pública realmente passa a fazer diferença. Essa diferença ocorre não só porque a imprensa começa a operar junto dos interes- ses de um público maior, mas também por haver uma efervescência de opiniões e de novos comportamentos. Uma nova cultura receptiva ao debate vai se criando; as mulheres começam a se inserir nas discussões políticas, além de haver um clima propício para que as manifestações culturais passem a explorar as possibilidades de lucrar com a cultura – museus, livrarias e teatros são lugares frequentados por essa camada da burguesia que se torna mais culta. O resultado é que, diante dessa W ol fra m H uk e /W ik im ed ia C om m on s Filósofo contemporâneo, integrou a Escola de Frankfurt, na qual recebeu influências dos pensamentos esquerdistas. Figura 6 Jürgen Habermas Educação e democracia 79 efervescência, o conhecimento e a articulação a respeito das ações do Estado vão se tornando assunto comum. Enquanto a burguesia crescente dependia fortemente dos poderes monárquicos, grande parte das ações e decisões do Estado não ganha- va larga publicidade, afinal não havia um vasto público reivindicando informações sobre tais decisões. Contudo, a consolidação da esfera pública muda essa história. O Estado passa a ser solicitado em termos de informação e satisfação de seus atos, não por decisão própria, mas porque a opinião pública, uma das marcas da modernidade, é capaz de pressionar o poder e exigir a publicidade de seus atos. Essa esfera, com razoável independência do Estado e agora informada (seus cidadãos leem mais, se informam e consomem mais cultura), torna-se capaz de pressioná-lo. Essa é, para Habermas, uma das características funda- mentais das sociedades modernas. Além disso, não há como negar que de lá para cá esses canais de expressão se tornaram mais poderosos. Vamos refletir juntos: se pen- sarmos nos meios de comunicação dos nossos dias, é possível enxergar- mos neles bastante poder e capacidade de, muitas vezes, intimidarem os poderes políticos, você não acha? Esse cenário tão típico dos nossos tempos teve a sua gênese e é sobre ela que Habermas (2014) pensa. Mas não devemos imaginar que o filósofo só nos fala sobre o papel da imprensa, pois o que ele entende por esfera pública é maior do que o poder jornalístico, embora esse seja um de seus maiores poderes. Oliveira (2010) lembra que Habermas (2014) encontra aspectos da esfera pública já tematizados por outros filósofos antes dele. Um exem- plo é Immanuel Kant, sobre o qual Oliveira (2010, p. 786) afirma que: a verdadeira política não pode estar desvinculada da moral, a esfera pública deveria mediar as funções políticas entre Estado e sociedade e a publicidade deveria ser o princípio a garantir o acordo da política com a moral. Dentro de uma visão iluminista, Kant concebe o uso público da razão. Isto é, a discussão ocorre no seio do povo, a fim de que este seja induzido a se servir de sua própria razão. O pensamento de Kant, produzido na Alemanha do século XVIII, já indicava a importância dessa capacidade de expressão a que as socie- dades próximas do início da modernidade apontavam. O iluminismo do qual Oliveira (2010) se refere em Kant parece residir na crença do fi- Há filmes que se torna- ram clássicos explorando a tensa relação entre imprensa e poder político. Alguns deles, em ordem cronológica, são: • Cidadão Kane. Direção: Orson Welles. Estados Unidos: Mercury Produc- tions, 1941. • Todos os homens do pre- sidente. Direção: Alan J. Pakula. Estados Unidos: Walter Coblenz, 1976. • O quarto poder. Direção: Costa-Gavras. Estados Unidos: Punch Produc- tions, 1997. • The Post: a guerra secreta. Direção: Steven Spiel- berg. Estados unidos: DreamWorks Pictures, 2017. Filme 80 Filosofia da Educação lósofo a respeito dos poderes da razão como guia do desenvolvimento humano. Por ser uma expressão da razão, no embate entre sociedade e Estado, a esfera pública, em seu funcionamento pleno, teria a capaci- dade de garantir à sociedade respostas mais próximas de seus desejos e suas necessidades por parte do Estado. 3.2.2 Mundo da vida, sistema e educação A mesma crença positiva de Kant nos poderes da razão está pre- sente na obra de Habermas (2012), Teoria do agir comunicativo: sobre a crítica da razão funcionalista, considerada por muitos o livro mais im- portante do filósofo. Inicialmente, queremos destacar dele dois aspec- tos: a racionalidade e a linguagem. Dezenove anos distanciam Mudança estrutural da esfera pública de Teoria do agir comunicativo, mas nesse último estão presentes as principais preocupações, essas já menciona- das no livro de 1961. O projeto de Habermas, desde o início, visava dar destaque à razão, pois, segundo o filósofo,esta é a principal ferramen- ta de que a sociedade dispõe para resolver seus maiores conflitos. Essa é uma característica que precisa ser ressaltada, visto que o século XX é pródigo em desconfiar dos poderes da razão. Os próprios filósofos da Escola de Frankfurt foram críticos severos do que eles chamaram de razão instrumental, cujos resultados nos levaram, por meio do desen- volvimento tecnológico, sem maiores considerações acerca dos limites éticos humanos, a duas catastróficas guerras mundiais. Michel Foucault e toda a filosofia pós-estruturalista também foram bastante céticos quanto ao potencial da racionalidade. Muitos indicam o século XX como o caminho final do arco iluminista que teria sido muito otimista, nos séculos XVIII e XIX, com o potencial da ciência e da razão, imaginando estas como o caminho de redenção da civilização moderna. Já no século XX, inúmeras filosofias passaram a desvelar o lado obscuro desse otimismo e a criticar severamente qualquer crença mais robusta à razão. Porém, Habermas insiste em encontrar na razão o melhor dos nossos caminhos. Para esse filósofo, diferentemente do pessimismo frankfurtiano, a razão não se orienta apenas por interesses técnico-instrumentais, mas também por interesses emancipatórios. A razão teria nos proporciona- do a capacidade de entendimento, por meio do que Habermas chama de ação comunicativa. Como humanos, por intermédio da razão, tería- Educação e democracia 81 mos, ao longo de nosso processo de desenvolvimento, adquirido com- petências que nos permitiriam produzir entendimentos. Esse processo de entendimento seria resultado de nossa linguagem, sempre mediada pela comunicação, cuja natureza é intersubjetiva e interativa. Assim, a maior possibilidade de resolução dos conflitos humanos teria no diálo- go a chance mais robusta de entendimento. Agora entendemos melhor porque Habermas (2014) procura desta- car o surgimento da esfera pública (e seu resultado maior, a opinião pú- blica) como uma marca do desenvolvimento civilizacional: pois aponta justamente para o exercício da opinião e do diálogo bem-informado. Em geral, quando nos referimos à passagem da Idade Média para a moder- nidade, é a ferocidade com que os seres humanos tentam resolver seus conflitos, representada sobretudo na Revolução Francesa, que ganha destaque. Para Habermas, como vemos, a marca distintiva do nascimen- to da sociedade moderna é o aprimoramento da capacidade de diálogo e o desenvolvimento de espaços para que isso ocorra. Para entendermos como tudo isso se relaciona à questão da edu- cação em Habermas, precisamos ainda compreender como ele define o conflito entre o que chama de sistema e mundo da vida, dois de seus conceitos mais importantes e famosos. O texto de Mühl (2011, p. 1.039) nos oferece uma boa ideia desses conceitos e o que eles envolvem: Sistema e mundo são duas esferas que se opõem; mas ao mesmo tempo são interdependentes, constituindo um complexo que determina a forma de ser da sociedade moderna. O mundo sistêmico, apesar de se apresentar como oposto ao mundo vital, tem sua origem vinculada ao mundo da vida e se mantém, ainda que de forma parasitária, dependente do agir comunicativo. O mundo sistêmico é decorrente da racionalização do mundo da vida e surge como um mecanismo redutor de carga que pesa sobre o agir comunicativo diante do esgotamento dos outros mecanismos de controle social. À medida que ele se torna mais complexo, tende a romper seus vínculos com o mundo da vida, a substituir a comunicação pela linguagem por mecanismos de controle técnicos sob os auspícios do dinheiro e do poder, em detrimento dos demais componentes do mundo da vida. Quan- do o sistema se torna independente do mundo da vida e mais complexo, a dinâmica da influência entre ambos se modifica. Da situação inicial, em que o mundo da vida determina a estrutura sistêmica, com a complexificação social, os papéis se invertem e o sistema passa a reger o mundo da vida. Disso decorre o pro- cesso que Habermas chama de “colonização do mundo da vida”, Um exemplo simples, mas importante: Habermas (2014) nos mostra como foi dura a luta dos jornais contra os poderes instituídos. No entanto, a imprensa conseguiu, em 1834, no parlamento in- glês, que tribunas fossem criadas para que os repór- teres pudessem acompa- nhar os debates políticos. Você consegue perceber o quanto isso representa? Até então, dificilmente a imprensa teria acesso a esses espaços, mas quando eles passaram a ser garantidos, a própria população que consumia esses jornais poderia ter acesso aos debates. Saiba mais 82 Filosofia da Educação cujo sintoma mais representativo é a instrumentalização e a res- trição progressiva da comunicação através do domínio técnico e da violência estrutural. Em decorrência, o mundo da vida, de uma instância central, transforma-se em periférica diante da do- minação que o sistema regido pelo dinheiro e pelo poder passa a exercer. A educação, intimamente atrelada ao mundo da vida, não deixa de sofrer as consequências de tal condicionamento. Nesse conflito inerente à condição moderna, vemos que a comunicação e a disposição para o entendimento ficam comprometidas diante do avanço sistêmico sobre o mundo da vida. O sistema tem mecanismos que facilitam o seu desenvolvimento e autorreprodução, são eles: o dinheiro e o poder. O dinheiro tem a capacidade de dominar a economia, o poder e a política. Esses dois mecanismos também são usados pelo sistema para tentar controlar o mundo da vida. Quando o sistema atinge a sua capa- cidade, gera um resultado danoso à sociedade em que os mecanismos do sistema estão voltados para a proteção do próprio sistema, quando poderiam estar voltados para as reivindicações das necessidades de cada sociedade. O domínio sistêmico, além disso, gera consequências mais subje- tivas. Com relação à racionalidade, tão importante para Habermas, é importante lembrar que no mundo da vida a racionalidade comunica- tiva é determinante. Nela é que estão as grandes ferramentas de co- municação que impulsionam os seres humanos ao entendimento. Mas quando o sistema passa a pressionar o mundo da vida, um de seus resultados é substituir a racionalidade comunicativa por sua raciona- lidade sistêmica 1 , a qual influi na produção dos valores culturais e na consciência moral das sociedades. A racionalidade sistêmica, portanto, não é interessante como pro- dutora de valores humanos, até porque sua natureza está voltada aos interesses do dinheiro e do poder. Alguém poderia pensar: mas que mal há em ser orientado por esses dois mecanismos? É preciso lembrar que boa parte do pensamento social do século XX foi teorizada acerca disso. Podemos pensar, por exemplo, na obra de Max Weber e Theo- dor Adorno, duas influências inegáveis de Habermas, que está voltada para o problema da reificação – tipo de racionalidade por trás dos me- canismos que Habermas apresenta, ao se tornar sistêmico, que tende a fomentar relações sociais e humanas reificadas, o que, de maneira simplificada, significaria transformar essas relações, e a própria subje- No texto usamos o termo racionalidade sistêmica, mas, de uma forma mais técnica e precisa, essa ra- cionalidade é chamada de racionalidade instrumental. 1 Lop olo /Sh utte rsto ck Educação e democraciaEducação e democracia 8383 tividade humana, identificadas cada vez mais no caráter inanimado das coisas e dos objetos que nos circundam. Em vez de potenciais relações afetivas e solidárias, tenderíamos a nos relacionar com outros humanos como nos relacionamos com coi- sas e objetos. No trecho a seguir, podemos constatar como a presença da manifestação do mundo da vida sem interferências sistêmicas ca- racteriza as relações mais solidárias e muito menos conflitivas: Na dimensão do espaço social, a integração social do mundo da vida assegura a conexão das novas situações a estados de mundo existentes, ou seja, ela cuida para que haja a coordena- çãode ações por meio de relações interpessoais legitimamente reguladas e pereniza a identidade dos grupos numa medida ade- quada à prática cotidiana. E, nesse processo, a coordenação das ações e a estabilização das identidades grupais são medidas pela solidariedade dos membros. (HABERMAS, 2012, p. 257) Mas nem sempre a escola pode ter ambientes acolhedores. Em muitos casos, a educação não fica de fora do círculo ameaçador que é o avanço sistêmico sobre o mundo da vida. Quanto a esse aspecto, Mühl (2011, p. 1040) nos lembra que “a escola é uma dessas institui- ções que, no entender de Habermas, serve para incorporar a raciona- lidade sistêmica atualmente dominante. Ao fazer isso, ela educa para a subserviência, reforça o controle e produz, em última instância, a própria violência”. O filme Preciosa: uma história de esperança nos permite ver na figura da personagem principal dois ambientes distintos. O primeiro, opressor, em que Claireece “Preciosa” Jones sofre todo tipo de violência: é violentada pelo próprio pai, sofre bullying na escola etc. O segundo refere-se à escola alternativa que ela passa a frequentar. A pro- fessora e os alunos são muito mais receptivos, e isso causa uma mudança profunda em seus desejos e suas expectativas para o futuro. O filme tematiza vários problemas sociais: racismo, homofobia, gordofobia, abuso físico e psicológico. Para nossos propósitos, podemos nos ater ao contraste entre as duas escolas frequenta- das por Preciosa no filme e em como a solidarieda- de pode afetar positiva- mente a vida das pessoas. Direção: Lee Daniels. Estados Unidos: Lee Daniels Entertainment; Smokewood Entertainment, 2009. Filme Figura 7 Criança vítima de bullying 84 Filosofia da Educação Habermas entende que, diante dos entraves proporcionados pela in- vasão sistêmica, a reprodução dos aspectos centrais do mundo da vida tem nas psicopatologias uma das consequências mais graves. A violência é uma das possíveis expressões sociais dessas patologias, que pervade a sociedade de modo geral. Assim, os muros da escola não são capazes em contê-la, uma vez que essa se dá sistemicamente. De todas as violências, a mais ameaçadora à educação parece ser a do interesse econômico sobre ela, pois acaba tornando-a uma merca- doria e, muitas vezes, reproduzindo, sem uma percepção mais profun- da de sua missão social, a competitividade, a lucratividade e o princípio da eficiência. Não queremos dizer aqui que tais elementos, em um mundo como o nosso, não devam estar presentes. No entanto, é muito perigoso quando somente eles encampam os projetos escolares, sem que nenhuma reflexão social e humanística possa dar-lhes algum sen- tido e somente um lugar entre muitos. Conforme Mühl (2011, p. 1.041), “a educação passa a ser valorizada quase tão somente com um recurso de ascensão econômica, ficando para um segundo plano sua validade enquanto recurso de qualificação subjetiva”. Apenas um exemplo: é muito comum em nossas sociedades o pen- samento de que estudamos para “sermos alguém na vida”. Mas o que é exatamente esse “alguém” que imaginamos? Em muitos casos, trata- -se de uma pessoa bem-sucedida. Esse é o tipo de pensamento que exclui todos os outros benefícios humanos, intelectuais e sociais que a escolarização pode fornecer. E o que significa esse pensamento? Que a invasão sistêmica não está distante de nós; devemos nos lembrar de que ela também age em nossa subjetividade, (re)formando desejos e expectativas que temos de nós e dos outros. 3.3 Limitações do modelo habermasiano Vídeo Apesar do cenário difícil que Habermas traça ao evidenciar o avanço sistêmico por todo o mundo da vida, ele não deixa de acreditar na pro- messa de emancipação humana e no desenvolvimento da democracia. O instrumento maior para que isso seja alcançado é a própria razão, mas a que brota diretamente do mundo da vida, seu espírito solidário e sua inerente razão comunicativa. Se a escola renunciar à sua missão humanística e ceder por completo aos interesses do poder e do dinhei- ro, ela não será mais capaz de produzir o saber necessário para po- Educação e democracia 85 tencializar a razão comunicativa. É também dos bancos escolares que uma razão ordenada e direcionada humanisticamente pode formar os futuros cidadãos atuantes como pessoas capazes de exprimir e reivin- dicar as necessidades sociais mais legítimas, de identificar e separar a necessidade solidária do interesse pecuniário. Mas será que a capacidade comunicativa é suficiente para resolver os problemas sociais que a racionalidade sistêmica produz? De certa forma, esse é um dos questionamentos que costumam surgir contra a teoria de Habermas. A respeito disso, vamos considerar a crítica de Luis Felipe Mi- guel, um de nossos mais destacados cientistas políticos. Para ele, o modelo comunicativo proposto por Habermas, fundado na razão comunicativa, tem a crença de que “pode nos orientar em direção à superação dos nossos dilemas morais e à correta fundamentação das normas que regem nossa vida em comum” (MIGUEL, 2014, p. 66). O ponto essencial de Miguel é que essa crença habermasiana precisa ser posta em dúvida, não por aquilo que ela deseja, a possibilidade de entendimento pelo debate, mas porque ela ignora certos aspectos muito presentes na política, idealizando-a. Segundo o cientista político, Habermas apresenta uma visão da “‘boa política’, caracterizada pela discussão livre das questões de in- teresse coletivo” (MIGUEL, 2014, p. 67). Devemos lembrar que Miguel faz referência ao que expusemos na seção anterior a respeito da for- mação da esfera pública, que ocorreu de maneira mais consistente nos séculos XVIII e XIX na França, na Alemanha e, principalmente, na Inglaterra. Para Miguel, Habermas incorpora a imagem na qual eram debatidos os problemas políticos das sociedades anteriores à nossa e a transfere para todo e qualquer debate. O problema é que: os cafés ingleses são o emblema desse mundo; neles, os estra- nhos – homens, uma vez que as mulheres não ingressavam nes- ses espaços – conversavam entre si, em pé de igualdade, sem distinções de status ou de posição, assumindo que os problemas públicos interessavam a todos e podiam ser discutidos, de forma legítima, pelos cidadãos privados. A imprensa funcionava como elo entre os múltiplos debates travados nos diferentes cafés ou salões. Contra o pano de fundo desse ideal normativo, Haber- mas lamenta a decadência atual da esfera pública, manipulada por estratégias publicitárias. (MIGUEL, 2014, p. 67) Porém, para um autor como Miguel, a realidade da política nas de- mocracias liberais em todos os tempos, desde que elas se organizaram, 86 Filosofia da Educação Figura 8 Mulheres na política Pres sma ster /Sh utte rstc ok é formada por muitas assimetrias de poder, o que impede qualquer idealização da democracia em torno da ideia de igualdade. Se isso for levado em consideração, e Miguel estiver correto, as democracias não são um debate entre iguais. Em outras palavras, aqueles que decidem efetivamente no jogo democrático talvez possam ser equiparados pelo poder e pelas capacidades cognitivas, intelectuais e econômicas. Mas muitos daqueles sujeitos que imaginamos estarem representados na democracia na verdade não estão, ou estão sub-representados. Por exemplo, podemos dizer que, atualmente, as mulheres conquis- taram um espaço na política, mas, mesmo inseridas nela, é incorreto imaginar que sua representatividade seja a mesma que a dos homens. Conforme Miguel (2014, p. 204) ressalta: a participação política das mulheres é limitada por fatores mate- riais e simbólicos que prejudicam a sua capacidade de postular candidaturas, reduzem a competitividade daquelas que se can- didatam e atrapalham o avanço na carreira política daquelas que se elegem. Principais responsáveis pela gestão das unidades do- mésticas e pelos cuidados com as crianças, as mulheres dispõem de menos tempo livre, recurso crucial para a ação política.Ainda que possamos dizer “as mulheres em seus papéis políticos usam seu direito de fala, são capacitadas e dialogam em pé de igualda- de com os homens”, isso não é verdade, pois quando consideramos vá- rios outros aspectos, vemos que essa condição continua sendo muito desigual. Isso não ocorre somente com as mulheres, mas com muitos outros grupos. Educação e democracia 87 Com isso, a comunicação é, para Habermas, o ponto central de ca- pacidade de conflitos, porém, para Miguel, há muitos outros aspectos a serem considerados. É esse tipo de consideração que a perspectiva de Habermas não faz e, por isso, o modelo de razão comunicativa con- tinua a trabalhar com uma imagem ideal. Habermas, principalmente, em suas obras posteriores, abandona a tensão entre a colonização do mundo da vida pelo avanço sistêmico e toma a “ação comunicativa como garantidora, em última instância, da integração da sociedade, em um modelo em que as tensões entre os diferentes tipos de racionali- dade e as esferas sistêmica e do mundo da vida tornam-se bem mais brandas (ou mesmo desaparecem)” (MIGUEL, 2014 , p. 68). Uma visão como a de Miguel (2014), portanto, entende que a razão comunicativa não é o instrumento capaz de resolver as graves tensões que habitam nossas democracias; essa é, na verdade, fruto da idealização da capacidade de diálogo entre “iguais” a qual somos levados a imaginar. Assim, encerramos com uma tentativa de fusão entre as duas vi- sões. Se Habermas estiver certo quanto ao avanço sistêmico e Miguel quanto à idealização das capacidades comunicativas humanas e da própria democracia, a escola e os educadores precisam pensar a este respeito: que métodos poderiam ser adotados para que a escola con- seguisse oferecer, em seus conteúdos, um modelo menos idealizado de democracia, a fim de capacitar seus alunos a pensarem em como torná-la mais solidária? CONSIDERAÇÕES FINAIS A educação, como vimos, enfrenta grandes desafios desde que se consolidou como uma necessidade universal. No entanto, quando ela não está ameaçada por concepções que desejam se apossar com o único intuito de absoluta mercantilização, são as instituições que lhe dão respaldo. É preciso lembrar de que nem a escola tampouco a democracia são constituídas definitivamente. Geralmente, tendemos a nos contentar com as promessas formais, das quais as nossas sociedades estão cheias, mas, dificilmente, paramos para analisar se elas estão sendo realizadas de maneira efetiva. Precisa- mos ter isso em mente, pois tanto a escola quanto o sistema democrático estão e estarão continuamente no centro de disputas, interesses e ideo- logias. Nisso eles são muito parecidos. 88 Filosofia da Educação Todos aqueles que se interessam por educação, ou trabalham com ela, têm como obrigação estarem atentos a essas disputas e informados para, se concordarmos com Habermas, saberem identificar que forças e interesses estão em jogo; se são forças que contribuem para a solidarie- dade ou se são mais um movimento do avanço sistêmico sobre nós. ATIVIDADES 1. Discorra sobre como o empirismo do pensamento de John Dewey pode ser compreendido como uma contribuição à democracia. 2. Como o empirismo na obra de Dewey está relacionado à visão pedagógica? 3. Como o avanço da racionalidade sistêmica, tal como definido por Habermas, ameaça a educação? 4. Qual a discordância maior de Luis Felipe Miguel com a teoria de Habermas? 5. O que é reificação? REFERÊNCIAS CUNHA, M. V. da. John Dewey: a utopia democrática. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016. 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Por fim, com a filósofa Martha Nussbaum, vamos ver o quanto essas mudanças contemporâneas ameaçam a educação e, principalmente, as disciplinas ligadas às humanidades. O mundo que se encontra cada vez mais dependente da ciência e da tecnologia não tem buscado, no mesmo ritmo, o embasamento teórico e humano necessário para compreender e educar suas sociedades, diante de tão fortes mudanças. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • entender como a identidade é definida pela perspectiva do pós-modernismo; • acompanhar os questionamentos que a pedagogia histórico-crítica brasileira permite fazer a noções de iden- tidade e sujeito pós-modernos; • compreender as ameaças ao ensino das humanidades, no contexto pós-moderno, segundo Martha Nussbaum. Objetivos de aprendizagem 90 Filosofia da Educação 4.1 Descentramento, reflexividade e educação Vídeo A questão da identidade é um problema complexo e um desafio para as ciências humanas de modo geral. A essência dessa discussão se dá em torno das características que definem um sujeito – as que mencionamos aqui vão para além dos traços físicos. É muito comum que nos definamos baseados em profissões, por exemplo, “ele é um médico” e “ela é uma advogada”. Porém, ainda existem maneiras mais amplas de nos definirmos, como as nacionalidades (brasileiro, egípcio etc.) e etnias (por exemplo, anuak, ianomâmi, entre outras). O que buscamos apontar é que, em várias situações, nós recorre- mos a características que nos definam, nos situem e nos distingam de outras pessoas e grupos. Esses aspectos, como vimos, podem dizer respeito à profissão, nacionalidade, etnia ou, ainda, língua, religião etc. Assim, entendemos que não são apenas as nossas características físi- cas que nos individuam e nos singularizam; socialmente, há inúmeros recursos para que façamos isso. Foi pensando sobre isso que Stuart Hall (1932–2014), um pensador nascido na Jamaica e falecido na Inglaterra, asseverou que nossas identi- dades culturais (aquelas a que nos referimos anteriormente) estão sendo fragmentadas: “as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito uni- ficado” (HALL, 2005, p. 7). Segundo o autor, portanto, o sujeito moderno tinha muito mais facilidade em se identificar para si e para os outros, o que resultava em um indivíduocom menos desafios para se autocom- preender e para ser reconhecido e acolhido no seu grupo social. Em palavras simples, para Hall, a identidade cultural no passado foi mais estável – estabilidade é o termo adequado. Ele define a identidade dos sujeitos no início do processo histórico que resultou no que somos hoje. Para ele, assim como para muitos pensadores de diferentes áreas, a modernidade é um ponto divisor na história humana. E é respeitando esse ponto que Hall nos apresenta três concepções de identidade, que marcaram a história do início da modernidade até hoje; são elas: I. o sujeito do Iluminismo; II. o sujeito sociológico; III. o sujeito pós-moderno. Educação e descentramento 91 Vamos ver em que consiste cada uma dessas definições. O sujeito do Iluminismo, como o próprio nome sugere, foi gestado ao longo desse período histórico que culminou na Revolução Francesa e marcou o início da modernidade (ou Era Moderna, como apresentam os manuais de história). O sujeito desse período estava baseado em uma visão de identidade em que o indivíduo era compreendido como autocentrado, uno, racional e autônomo. Segundo Hall (2005, p. 10), o “centro” desse sujeito “consistia num núcleo interior, que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia, ainda que permanecendo essencialmente o mesmo – contínuo ou ‘idêntico’ a ele – ao longo da existência do indivíduo. O centro essencial do eu era a identidade de uma pessoa”. Hall, ainda, observa que esse sujeito é muito individualista, o que significa que as capacidades e características de definição de uma pessoa não dependiam de nada além do que já estivesse dado desde o nascimento. As mesmas características culturais acompanhariam esse mesmo sujeito, definindo-o sem grandes variações ao longo da vida. Quando afirmamos, também, que esse sujeito era dotado das capa- cidades de consciência, razão e ação, não podemos esquecer que as principais correntes sociais e econômicas da modernidade estão, da mesma forma, surgindo nesse momento. As teorias liberais pressu- põem firmemente esse tipo de sujeito. O fracasso ou o sucesso econômico, por exemplo, é esclarecido assim: se o indivíduo empobreceu, a explicação para tal fato não deve ser encontrada nas estruturas sociais que se modificaram, nos novos ares da história, no regime econômico ou no político; a razão para isso ter acontecido é do próprio sujeito, afinal está pressuposto que ele é dotado plenamente de consciência e razão, logo as suas ações e o re- sultado delas estão sob total responsabilidade do próprio sujeito. Não por acaso, o liberalismo é também uma forma de compreender o mundo com base na valorização do individualismo – a defesa das liberdades individuais nasce com ele, do mesmo modo que ocorre com a culpabilização plena do indivíduo em casos como o exemplificado. O segundo tipo de sujeito que Stuart Hall nos apresenta é o sujeito sociológico, o qual reflete a crescente complexidade das sociedades modernas. Essa concepção de sujeito passa a desconfiar do caráter individualista presente nas sociedades do início da modernidade. Essa O Romantismo na arte é um movimento que se coloca como crítica dos pressupostos liberais, que, na verdade, vão ser os dominantes em praticamente todas as so- ciedades modernas, uma vez que o liberalismo, enquanto visão filosófica, política e econômica, torna-se hegemônico nessas sociedades. Uma obra contundente, que questiona a configuração política da época, é Os Miseráveis. O livro conta a história de Jean Valjean, um homem pobre, que, após roubar um pão, é condenado a cinco anos de prisão. HUGO, V. França: A. Lacroix, Berboeckhoven & Ce., 1862. Livro nova configuração tem, portanto, o entendimento “de que este nú- cleo interior do sujeito não era autônomo e autossuficiente, mas era formado na relação com ‘outras pessoas importantes para ele’, que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos – a cultura – dos mundos que ele/ela habitava” (HALL, 2005, p. 11). Vemos, então, que a identidade que representa o sujeito sociológi- co é mais complexa em relação ao sujeito do Iluminismo – se este se via como uno e estável, agora começa a perceber que parte de seus gostos, percepções e valores é herdeira de sua relação com os grupos sociais próximos dele. Desse modo, já não é possível falar em caráter individualista da identidade, uma vez que se começa a perceber a pre- sença e a influência de um núcleo que vai para além do indivíduo na formação de sua identidade: o sujeito é, também, o que são os grupos de sua convivência. Mas esse processo de identificação do sujeito com outros grupos não para por aí; no desenrolar da história, ele continua se complexifi- cando. Ao estágio mais intricado dessa relação, Hall relaciona o sujeito pós-moderno, de quem ele afirma: “o sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmen- tado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algu- mas vezes contraditórias ou não-resolvidas” (HALL, 2005, p. 12). Se, no início do período moderno, o sujeito era estável e uno, agora, no fim desse arco histórico, para Hall, o sujeito é bastante fragmentado. A fragmentação do sujeito contemporâneo é uma característica apon- tada por inúmeros pensadores; ela tem tanta relevância que muitos acreditam que estamos, baseados na fragmentação do sujeito, em uma nova era, batizada, de modo geral, de pós-modernidade 1 . 9292 Filosofia da EducaçãoFilosofia da Educação Figura 1 Representação do sujeito sociológico An dr ii Ya la ns ky i/ Sh ut te rs to ck O sujeito sociológico é influenciado pelos grupos sociais próximos a ele, herdando opiniões, gostos e valores. Muitos autores, no entanto, discordam que estamos vivendo em uma era que superou a modernidade e, por isso, evitam o termo pós-modernidade, como é o caso de Giddens (1991), que usa a expressão mo- dernidade tardia. Bauman (2001) também evita o termo e prefere se referir a essa etapa como mo- dernidade líquida. Já Hall acaba oscilando entre os termos pós-modernidade e modernidade tardia. Mas, independentemente de se ter ou não superado a modernidade, a descrição de todos os autores citados tem muitos ele- mentos em comum, o que nos permite ver o momento atual como tendo características bem específicas. Ao longo do capítulo, preferiremos, quando possível, o termo pós-modernidade. 1 Educação e descentramento 93 Temos, portanto, até aqui, a caracterização dos três tipos de sujeito a que Hall faz referência. Vamos apresentar, resumidamente, essas ca- racterísticas a seguir, para uma melhor visualização: Ta h De si gn /S hu tte rs to ck Fim da Idade Média/Início da Idade Moderna Metade do século XIX aos anos 1970 Dos anos 1970 aos dias atuais Sujeito do Iluminismo Sujeito sociológico Sujeito pós-moderno Uno, estável, centrado. Autônomo, dotado das capacidades de razão, consciência e ação. Não autônomo, não autossuficiente. Formado na relação com outras pessoas (mediadoras de valores, sentidos e símbolos). Muito fragmentado. Várias identidades (às vezes contraditórias). Há uma especial consideração de Giddens (1991) que nos ajuda a compreender a transição de sujeitos apontada por Hall. Ela se dá, sobre- tudo, em função das mudanças ocorridas nas nossas noções de tempo e espaço. O autor observa que, nas sociedades pré-modernas, espaço e tempo coincidiam amplamente – isso ocorria em função de que as dimensões espaciais da vida social, para a maioria da população, eram sempre governadas por atividades localizadas, o que se refere àquelas que exigiam interação face a face. As atividades cotidianas e relações sociais da maior parte das pessoas, em cada lugar, demandavam a pre- sença física de outros indivíduos desse mesmo local. Mas, na modernidade, a interação face a face vai dando lugar a ou- tro tipo de interação, que não exige que as mesmas atividadese rela- ções sociais se deem com a necessária presença de todos no mesmo tempo e lugar. Segundo Giddens (1991, p. 27), o advento da modernidade arranca crescentemente o espaço do tempo fomentando relações entre outros “ausentes”, localmente distantes de qualquer situação dada ou interação face a face. Em condições de modernidade, o lugar se torna cada vez mais fan- tasmagórico: isto é, os locais são completamente penetrados e moldados em termos de influências sociais bem distantes deles. O que estrutura o local não é simplesmente o que está presente na cena; a “forma visível” do local oculta as relações distanciadas que determinam sua natureza. 94 Filosofia da Educação O que precisamos entender, na citação de Giddens, é a distinção que ele faz entre a pré-modernidade, em que há a cultura da “presença” (a interação face a face é uma marca distintiva desse período), e a moder- nidade, na qual a interação face a face vai, aos poucos, sendo dispen- sada, de modo a gerar a cultura da “ausência”. Talvez essa discussão nos pareça ainda muito abstrata; vamos, então, buscar exemplos mais concretos, até para que possamos perceber o quanto as alterações nas nossas noções de tempo e espaço contribuem para a transformação dos três tipos de sujeitos apontados por Hall. Para Giddens (1991), as mudanças tecnológicas foram fundamentais para a desvinculação entre tempo e espaço. Um bom exemplo é pensarmos no desenvolvimento técnico das comunicações. O século XX, por exemplo, conheceu pelo menos três revoluções nessa área, simbo- lizadas pelo rádio, pela TV e pela internet. John Thompson, um dos mais notáveis teóricos das comunicações no mundo, nos ajuda a apresentar esse cenário. Ele explica que: o advento da telecomunicação trouxe uma disjunção entre o espaço e o tempo, no sentido de que o distanciamento espacial não mais implicava o distanciamento temporal. Informação e conteúdo simbólico podiam ser transmitidos para distân- cias cada vez maiores num tempo cada vez menor; quando a transmissão telegráfica foi instalada, as mensagens eram rece- bidas em menos tempo do que era necessário para codificar e decodificar a informação. O distanciamento espacial foi aumen- tando, enquanto a demora temporal foi sendo virtualmente eli- minada. (THOMPSON, 1998, p. 36, grifos do original) Você percebe a importância do que Thompson está apontando? Aos poucos, com o desenvolvimento de maneiras cada vez mais comple- tas de transmissão de informação e entretenimento, todo o conteú- do informacional que elas nos apresentam foi tendo um alcance cada vez maior, “o distanciamento espacial foi aumentando” e o tempo de transmissão, para os inúmeros lugares onde a informação chegava, foi diminuindo drasticamente. Com a internet, por exemplo, é possível que pessoas de várias partes do mundo assistam a uma transmissão de um evento esportivo ou a uma série da Netflix simultaneamente. A essa possibilidade, Thompson vai, apropriadamente, chamar de simultaneidade não espacial. Ele lembra que, em períodos históricos mais antigos, a simultaneidade pressupunha a localidade: a ideia de Educação e descentramento 95 presenciar, simultaneamente, algum evento exigia que as pessoas esti- vessem no mesmo local. Outro aspecto explorado por Thompson com relação ao desenvol- vimento das comunicações e da mídia contemporânea, em especial, é a modificação na nossa percepção do passado e da história. Antes do desenvolvimento das indústrias de mídia, o que as pessoas tinham como referência ao passado se devia muito à troca de conteúdo sim- bólico por meio de interações face a face. Nesse sentido, para essas culturas, a narração de histórias importava muito, uma vez que ajudava a moldar a imaginação e o conhecimento sobre o passado histórico dos povos que estavam para além das fronteiras locais. Para firmarmos bem a distinção entre a nossa imaginação hoje e a de povos que não conheceram as mídias digitais, poderíamos perguntar “e hoje, como as mídias nos influenciam?”. Segundo o pró- prio Thompson, a compreensão que fazemos do passado é cada vez mais dependente da inevitável e contínua expansão de um reservató- rio de conhecimentos, interpretações e imagens que nos chegam por intermédio das mídias – ele chama esse fenômeno de historicidade me- diada. Segundo o autor, muitos indivíduos nas sociedades ocidentais hoje chegaram ao sentido dos principais acontecimentos do passado, e até dos mais importantes acontecimentos do século XX (as duas guerras mundiais, a revolução russa, o holocausto, etc.), principalmente através de livros, jornais, filmes e programas televisivos. À medi- da que se recua no passado, fica cada vez mais difícil que os indi- víduos tenham chegado ao sentido dos acontecimentos através de experiências pessoais ou de relatos de testemunhas transmi- tidas em interações face a face. A tradição oral e a interação face a face continuam a desempenhar um papel importante na elabo- ração de nossa compreensão do passado, mas elas operam cada vez em conjunto com um processo de compreensão que se serve cada vez mais do conteúdo simbólico presente nos produtos das indústrias da mídia. (THOMPSON, 1998, p. 38) Devemos perceber que a análise de Thompson não descarta a in- teração face a face; esta continua existindo, porém agora há também a ação das mediações por intermédio da mídia. Houve um tempo em que o grande volume de troca de informações, interpretações e senti- dos simbólicos ocorria apenas pela interação face a face. Assim, o autor não propõe uma rivalidade entre essa interação e a interação mediada, 96 Filosofia da Educação mas chama a atenção para o fato de que essa segunda é uma realidade cada vez mais presente e influente sobre nosso conhecimento. É pre- ciso observar que Thompson (1998) não cita a internet, pois, na época de seu texto, a popularização da internet estava apenas engatinhando; entretanto, em seus trabalhos posteriores, ele já a considera, em grande parte, como mais um tipo de interação mediada. Recomendamos o artigo A interação mediada na era digital, de 2018, do pró- prio autor Thompson, em que ele faz uma atualização do tema, incorporan- do a internet à discussão e encontrando, em certas modalidades de uso da rede, um outro tipo de interação: a mediada on-line. Acesso em: 16 jul. 2021. https://www.revistas.usp.br/matrizes/article/view/153199 Artigo Feitas essas observações, vamos seguir um pouco mais na compreen- são de como esses avanços, em termos de interação, incidem sobre a mudança de sujeito que nos informa Hall. Primeiro, é preciso observar que, se a influência da interação mediada se desse apenas sobre nos- sa imaginação e memória histórica, talvez pudéssemos considerá-la de modo mais específico e limitado. No entanto, Thompson (1998) nos alerta sobre como a interação me- diada influencia, em grande parte, a nossa troca simbólica no presente. Segundo ele, nosso conhecimento – a maneira como interpretamos e nos relacionamos com o mundo a nossa volta no tempo presente – é também muito influenciado pelos novos tipos de interação. A esse fenô- meno Thompson dá o nome de mundanidade mediada. Vamos avaliar, por um momento, a contundência dessa ideia. Se Thompson estiver correto, não só nossa memória é perpassada pe- las novas mídias e suas formas de interação, mas também a maneira como nos relacionamos com o mundo presente; possivelmente, as expectativas que lançamos para o futuro estejam, igualmente, sob a mesma influência. Thompson (1998, p. 38-39) define essa situação complexa assim: se a mídia alterou a nossa compreensão do passado, criou também aquilo que poderíamos chamar de “mundanidade me- diada”: nossa compreensão do mundo fora do alcance de nossa experiência pessoal, e de nosso lugar dentro dele, está sendo modelada cada vez mais pela mediação de formas simbólicas. Esta difusão dos produtos da mídia nos permite em certo sen- tido a experiência de eventos, a investigação de outros e, em https://www.revistas.usp.br/matrizes/article/view/153199Educação e descentramento 97 geral, o conhecimento de um mundo que se amplia para muito além de nossos encontros diários. Os horizontes espaciais de nossa compreensão se dilatam grandemente, uma vez que eles não precisam estar fisicamente aos lugares onde os fenômenos ocorrem. Tão profunda é a medida em que nossa compreen- são do mundo foi modelada pelos produtos da mídia hoje que, quando viajamos pelo mundo para lugares mais distantes como visitante ou turista, nossa experiência vivida é muitas vezes pre- cedida por um conjunto de imagens e expectativas adquiridas através de nossa prolongada exposição aos produtos da mídia. Mesmo naqueles casos em que a nossa experiência de lugares distantes não coincide com nossas expectativas, o sentimento de novidade ou surpresa muitas vezes confirma o fato de que nossa experiência vivida foi precedida por uma série de ideias preconcebidas e derivadas, pelo menos em parte, das palavras e imagens transmitidas pela mídia. A citação é longa, mas nos ajuda na interpretação dos fenômenos que estamos buscando compreender. Por isso, vamos explorar mais as ideias expostas pelo autor. Para ele, essa nova configuração tecnológica é muito positiva, pois enriquece as nossas experiências, que, de outra maneira, seriam sem- pre muito localizadas e conduzidas apenas pelas formas de interação presenciais. É importante que Thompson consiga apontar aspectos positivos dessa cultura da ausência que é a interação mediada, uma vez que parte considerável do pensamento do século XX entendeu o desenvolvimento das comunicações com muita desconfiança. Os trabalhos da Escola de Frankfurt (principalmente na figura de Theodor Adorno), por exemplo, apontam para o desenvolvimento da mídia como uma ameaça de dominação cultural, por meio do conteúdo produzido pelos países mais poderosos economicamente, que vendem seu estilo de vida para um mundo que passa a sonhar com esse esti- lo, mas não pode realizá-lo. Porém, o trabalho de Thompson, apesar de não descartar a correção, em alguns aspectos, do tipo de análise frankfurtiana, continua a apostar na ideia de que as vantagens do de- senvolvimento das formas de entretenimento e informação nos dota de benefícios que superam as possíveis consequências negativas. Como citamos, para Thompson (1998, p. 39), “os horizontes espa- ciais de nossa compreensão se dilatam grandemente, uma vez que eles não precisam estar fisicamente aos lugares onde os fenômenos ocor- 98 Filosofia da Educação rem”, o que significa que a nossa capacidade de compreensão, de in- formação e, até mesmo, de comunicação acaba sendo potencializada devido a tudo isso. Quando comparamos os cidadãos de sociedades pré-modernas aos das sociedades atuais, é evidente a vantagem que temos, em função de as nossas potencialidades imaginativas, informa- cionais e compreensivas terem se expandido, enfim, da mundanidade mediada. Tudo isso significa, então, que nossos estilos de vida e nossas expectativas sobre que tipo de vida queremos ter estão sob o espectro abarcado pela mundanidade mediada. Culminamos em um ponto cen- tral: a influência de toda essa abertura informativa, que, em um clique, nos põe em contato com conhecimentos do mundo inteiro em tempo real. Essa influência é marcante para a transformação dos sujeitos, até a chegada do sujeito pós-moderno. Você lembra que de um sujeito unificado, o do Iluminismo, chegamos ao sujeito pós-moderno, cujas principais características são a sua mul- tiplicidade e sua dificuldade de se definir como estável? Embasados no que Thompson diz, podemos inferir que parte da responsabilidade pela instabilidade do sujeito pós-moderno é a suscetibilidade dele aos apelos da mídia. Vamos entender isso com base em um exemplo simples. Se você fizer uma rápida pesquisa na internet, vai descobrir que, entre os anos de 2020 e 2021, houve uma oferta repentina de boinas mascu- linas, que, por muito tempo, estiveram à venda, mas eram consumidas por um público pequeno e bem específico. Por que então, de repente, ocorreu uma explosão na procura desse artigo? O motivo está em uma série da Netflix 2 chamada de Peaky Blinders. A trama conta a história de uma família de gangsters agindo na Inglaterra pós-Primeira Guerra Mundial. Entre as peças de roupa que situam os personagens naquele momento histórico estão as boinas. Pressupõe-se que a admiração do público masculino em torno da história que a série conta tenha produ- zido a grande busca por esse item no mercado de moda atual – alguns sites, inclusive, anunciam o produto como “boinas estilo Peaky Blinders”. Provavelmente, essa não é a primeira vez que um público grande se identifica com alguma série, filme, artista, atleta, enfim, com alguma ce- lebridade, e passa a incluir, em suas referências de moda, objetos que o vinculem à figura admirada. Isso significa que, muitas vezes, pode- mos nos identificar não somente com tipos de roupa, mas com estilos A série começou sendo exibida, primeiro, em 2013 pela BBC, depois pela HBO e, a partir de 2017, pela Netflix. 2 Educação e descentramento 99 de vida que não estão próximos de nós. Isso é um fenômeno mundial, ou seja, a identificação com objetos simbólicos 3 que venham de longe, por meio de eventos (esportivos, políticos, artísticos etc.), filmes, séries, músicas, entre outros, ocorre em qualquer lugar onde haja a possibi- lidade desse intercâmbio de informações, viabilizado pelos meios de comunicação e de transporte atuais. Referimo-nos a um exemplo simples anteriormente, mas podemos mencionar a adoção de algo que esteja para além das boinas, como comportamentos e valores. Nesse sentido, Giddens (1993) trata da adoção de novos comportamentos envolvendo sexo e matrimônio. O autor se refere a um estudo dos anos 1980, em que garotos e garotas foram consultados sobre o início da vida sexual. A pesquisa revelou que os rapazes não sabiam falar de sexo com algum comprometimen- to de futuro; eles falavam sobre episódios sexuais esporádicos, “como desempenho heterossexual precoce ou conquistas sexuais diversas” (GIDDENS, 1993, p. 59). Já as garotas, para as mesmas perguntas, con- tavam histórias de angústia e de entusiasmo pelas relações íntimas. Segundo a pesquisa, essas histórias pareciam, de algum modo, a de novelistas profissionais, dados os detalhes e a complexidade da nar- rativa; portanto, as moças pareciam estar muito mais envolvidas na- queles momentos íntimos relatados do que os garotos. No entanto, parece que, apenas uma década depois, esse comportamento femini- no já mudou 4 , e essa alteração, ainda que lenta, tem relação direta com a influência simbólica que nos chega de outros lugares. Observe- mos aqui como Giddens (1993, p. 63) destaca esse aspecto como um dos fundamentos da mudança: em uma sociedade altamente reflexiva, assistindo televisão e lendo, elas entram em contato e ativamente procuram nume- rosas discussões sobre sexo, relacionamentos e influências que afetam a posição das mulheres. Os elementos fragmentários da ideia do amor romântico a que estas garotas se aferram, buscan- do deter um controle prático de suas vidas, não estão mais intei- ramente ligados ao casamento. Para Giddens (1993), assim como para Thompson (1998), as pessoas de hoje podem pensar melhor sobre a educação que receberam e so- bre as tradições herdadas da família, dos amigos e de indivíduos mais velhos, que as fizeram acreditar que determinados comportamentos e valores são corretos e outros não. Toda a informação e o entreteni- Devemos entender por objetos simbólicos aque- les cujo valor está para além do material, tendo, então, valor naquilo que representam. Eles podem, dessa forma, representar uma mensagem política, de incorporação ou desa- pego de valores morais, de protesto etc. 3 A análise de Giddens não para aqui. No livro A transformação da intimi- dade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas (GIDDENS, 1993), ele mostra estágios mais avançados queenvolvem o processo de emancipação feminina, baseada na capacidade de esse público refletir (com toda a informação que lhe chega: revistas, livros, programas de TV etc.) sobre as diferenças das condições sociais entre os gêneros que conquistou. 4 100 Filosofia da Educação mento a que estamos submetidos diariamente não funcionam apenas como algo para nos distrair, mas sim como uma espécie de palco, em que novos comportamentos, ideias, roupas e modos de pensar e agir vão nos sendo apresentados e, à luz deles, acabamos avaliando e os colocando em comparação com nossas vidas. Nesse trajeto, podemos abrir mão de coisas que fazem parte de nossa bagagem existencial e trocá-las por alguns desses novos elementos que passam diante de nós nesse palco diário de informação e entretenimento. Agora já podemos melhorar a definição do sujeito pós-moderno, re- tratado por Stuart Hall. Lembra-se de que uma de suas características é a instabilidade? De acordo com o que discorremos com Giddens – e antes com Thompson –, se ele estiver correto, realmente se torna mui- to difícil exigir coerência absoluta e estabilidade definitiva de qualquer sujeito mergulhado em um mundo em que até valores e comporta- mentos nos são exibidos todos os dias, quase como mercadorias, os quais acabam, muitas vezes, enriquecendo o que somos e, outras ve- zes, confrontando o que somos – em um momento diferente, ainda, podem acabar modificando o que somos. Em função das novas informações a que vamos tendo acesso constantemente, para autores como Hall, Thompson e Giddens, não é possível defender a ideia de que as nossas identidades sejam tão estáveis quanto as dos sujeitos das sociedades pré-modernas ou, até mesmo, dos sujeitos do Iluminismo. Algum grau de instabilidade permanente é a marca do sujeito pós-moderno. Por isso, também, esses autores não acreditam que o sujeito contemporâneo seja unifica- do, pois ele pode ter várias identidades, inclusive algumas delas contra- ditórias, como expõe Hall (2005). Agora que tecemos um razoável perfil do sujeito pós-moderno, po- demos mencionar um dos aspectos que mais preocupa Stuart Hall. Para ele, as mudanças culturais que a modernidade proporcionou, sendo capaz de estruturar o sujeito fragmentado dos dias atuais, o sujeito pós-moderno, desafiam o tipo de reconhecimento identitário mais importante para a preservação dos territórios nacionais: a iden- tidade nacional. Isso porque, se as teorias que expusemos estiverem corretas, é possível que, cada vez mais, as pessoas possam buscar proximidade e identificação com valores, pessoas, conhecimentos e culturas que venham de outros lugares. Isso que acabamos de definir No filme A vida em preto e branco, a vida de uma pacata e inocente cidade é perturbada com a chegada de um casal de irmãos que trazem consi- go novos comportamen- tos, chamando a atenção de parte dos jovens do local. Aos poucos, esses jovens vão entrando em contato com livros, qua- dros e músicas e acabam mudando radicalmente. O surgimento das cores no filme é uma metáfora muito bem realizada para simbolizar o processo de mudança. No entanto, estas não ocorrem sem conflitos, pois a outra par- te da cidade se organiza para tentar barrá-las. Direção: Gary Ross. Estados Unidos: New Line Cinema, 1998. Filme Educação e descentramento 101 é o que Giddens chama de desencaixe – outro conceito importante para nosso estudo. Segundo Giddens (1991, p. 29), desencaixe refere-se “ao ‘deslocamento’ das relações sociais de contextos locais de interação e sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo-espaço”. O autor coloca o ter- mo deslocamento entre aspas justamente porque não se trata de desloca- mento físico, mas sim de informação até os lares das pessoas em várias partes do mundo (extensões indefinidas de tempo-espaço). Para Hall, o perigo pode estar no fato de que as pessoas, hoje, po- dem se identificar com os aspectos já apresentados anteriormente e “abandonar” sua cultura local, isto é, os valores que circulam em suas cidades e países de origem. De certo modo, se isso ocorre, as culturas locais vão se esvaziando, de modo a enfraquecer as identidades na- cionais. Hall entende, também, que todo o processo cultural que apre- sentamos até aqui é resultado do processo de globalização. Sobre a globalização e o seu aspecto cultural, Hall (2005, p. 69) retrata: que impacto tem a última fase da globalização sobre as iden- tidades nacionais? Uma de suas características principais é a “compressão espaço-tempo, a aceleração dos processos globais, de forma que se sente que o mundo é menor e as distâncias mais curtas, que os eventos em um determinado lugar têm um impacto imediato sobre as pessoas e lugares situados a uma grande distância. Para o autor (HALL, 2005, p. 69, grifos do original), há, nisso tudo, três consequências sociais possíveis: • As identidades nacionais estão se desintegrando, como resultado do crescimento da homogeneização cultural e do “pós-moderno global”. • As identidades nacionais e outras identidades “locais” ou parti- cularistas estão sendo reforçadas pela resistência à globalização. • As identidades nacionais estão em declínio, mas novas identida- des – híbridas – estão tomando seu lugar. Hall procura analisar com cuidado cada uma das possíveis conse- quências desse processo. Mas o que nos interessa é pensar de que modo toda essa mudança cultural, que representa o sujeito pós-moderno, in- cide sobre a educação brasileira. Se considerarmos como corretas as análises dos autores apresentados até aqui, podemos refletir, desde já, sobre quais tipos de desafio são lançados à nossa educação. Faremos Figura 2 Aluna com material digital Syda Productions/Shutterstock Os alunos devem se interessar pela escola do mesmo modo (ou até mais) que são seduzidos por equipamentos eletrônicos. 102102 Filosofia da EducaçãoFilosofia da Educação isso preliminarmente; ainda, nesse sentido, a seção seguinte nos ajudará a aprofundar essa discussão, uma vez que nela encontraremos algumas ressalvas às teses de Hall, Giddens e Thompson, o que ampliará o esco- po dos desafios que a educação brasileira tem pela frente. A primeira grande questão a ser levantada é o desafio que a escola tem para se tornar atraente. Diante da instabilidade do sujeito pós-moderno – a qual resulta, em grande parte, de influências culturais que chegam a todo momento de outras partes do mundo e por vias digitais –, a escola, que nem sempre busca ou tem condições materiais para se renovar, precisa se tornar tão atraente quanto a cultura digital que seduz os alunos. Algumas procuram fazer isso, mas não entenden- do que essa cultura “invasora” seja sua inimiga, e sim buscando, por exemplo, incorporar o uso de celulares e computadores como forma de auxílio às pesquisas dos alunos. Há relatos importantes de ações reali- zadas com sucesso nesse sentido. De qualquer modo, há sempre riscos de insucesso, pois o uso desse material em sala pode ser também motivo para dispersão, afinal estamos falando de sujeitos pós-modernos. Então, como escolher temas que garantam o interesse coletivo, visto que a instabilidade do Educação e descentramento 103 sujeito certamente reflete na dificuldade de garantir a coesão dos inte- resses em sala? O professor precisa estar ciente de que será desafiado a todo instante por múltiplos interesses, sendo que a muitos desses ele não terá como responder, dada a complexidade do mundo atual, as li- mitações de tempo e a incapacidade de individualização de atendimento ao aluno. Apesar de algumas escolas permitirem essa individualização – geralmente, elas são elitizadas do ponto de vista econômico –, para boa parte das escolas brasileiras ela é inviável. Além disso, a individualização do ensino, por mais bem intenciona- da que pareça, nem sempre gera os resultados sociais esperados. Em um mundo cada vez mais fragmentado, pois é constituído de sujeitos também fragmentados,a escola precisa manter uma de suas mais im- portantes missões, que é a socialização. Há métodos que incentivam a individualização do ensino e incitam o aluno por intermédio de pro- jetos que ele vai produzir (baseado em seus interesses e, claro, naquilo que se refira à disciplina e ao tema por ela tratado) e conduzir até o desfecho satisfatório. Bujes e Rosa (2012) nos alertam que, em muitos casos assim, a escola não faz mais do que repetir os interesses empresariais de uma economia cada vez mais neoliberal. Nesse sentido, a escola abdica de seu espírito independente e crítico, formando apenas uma maior quantidade de mão de obra futura. Não significa que esse também não seja um dos objeti- vos da escola – o preparo para o mercado de trabalho –, mas ela pode e deve ir além dele. Muitos outros objetivos, tão importantes quanto esse ou até mais, precisam se concretizar por meio do pilar institucional que a escola tem sido para as sociedades modernas. Outra questão muito relacionada com a anterior é o fato de que a inquietude parece ser um signo de nosso tempo, e não apenas dos alunos. Isso precisa ser dito porque, às vezes, os professores se sentem desmotivados – alguns culpam a si mesmos e às suas aulas. É preciso ponderar essa situação. Giddens tem outro conceito, que talvez nos traga algum alento, o qual ele chama de reflexividade. A reflexividade consiste “no fato de que as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz da informação renovada sobre estas próprias práticas, alterando assim constitutivamente seu caráter” (GIDDENS, 1991, p. 45). Isso sig- nifica que toda a nossa vida social está sob a luz da possibilidade de 104 Filosofia da Educação mudança a qualquer momento, pois hoje temos uma avalanche de in- formação e análise a respeito de nossas práticas sociais, que se renova e tende a nos fazer mudar em muitos aspectos, como comportamen- tos, ideias, modos de nos relacionarmos com o outro etc. Para o autor, essa é a característica mais distintiva da pós-modernidade (lembrando que Giddens prefere o termo modernidade tardia) e tem resultado em um avanço considerável na tolerância a modos de existência que, por séculos, foram impedidos de se manifestar – por exemplo, questões religiosas, sexuais, raciais, étnicas, de gênero, culturais etc. Embora Giddens entenda que a reflexividade gera esses avanços, ele observa que novos problemas podem ser criados. Isso porque, uma vez que a reflexividade nos leva a uma reorientação dos conceitos, ela cria impasses e embates com muitas formas de pensar e existir, fundadas nas tradições, que, muitas vezes, reagem. Além disso, o autor procura ser ponderado na ideia de avanço, pois as modificações que a reflexivi- dade opera nunca nos levam a um lugar seguro, no sentido de que este poderia apontar um conhecimento certo e definitivo: a qualquer mo- mento, novos conhecimentos podem suplantar aquilo que gostaríamos que fosse definitivo e gerar novas mudanças e instabilidade. Diante desse cenário, o qual vale para qualquer sujeito que viva nas sociedades reflexivas (independentemente de idade, sexo ou religião), somos obrigados a aprender a viver sob o signo do errático, isto é, do que não pode garantir certezas. Giddens (1991, p. 46) pode nos escla- recer melhor sobre esse aspecto: a modernidade é constituída por e através de conhecimento reflexivamente aplicado, mas a equação entre conhecimento e certeza revelou-se erroneamente interpretada. Estamos em grande parte num mundo que é inteiramente constituído através de conhecimento reflexivamente aplicado, mas onde, ao mesmo tempo, não podemos nunca estar seguros de que qualquer ele- mento dado deste conhecimento não será revisado. Assim, temos como resultado a instabilidade e a insegurança, além do espírito conflitivo que essas mudanças provocam nos comporta- mentos e modos de vida mais tradicionais que resistem – em alguns casos, até violentamente 5 . O professor precisa entender, portanto, que parte da inquietude em sala é reflexo do nosso tempo, não sendo culpa de aulas, às vezes, carinhosa e exaustivamente elaboradas. É difí- cil para todos nós, porque saímos de um mundo cujos conhecimentos Hall (2005) lembra que algumas das reações se dão em forma de funda- mentalismos (religiosos ou étnicos), em várias partes do mundo, na tentativa de afirmação do tradicional e da anulação dos valo- res pós-modernos. 5 e formas de viver buscavam ser perenes, quase infensos à ideia de mu- dança, para um outro mundo, diferente, em que a mudança é inerente. Mas deixaremos para discutir outros desafios à educação em tempos de sujeitos pós-modernos na próxima seção, quando alguns questionamentos serão adicionados. 4.2 Limitações da reflexividade sob a análise da pedagogia histórico-crítica Vídeo O pensamento de Zygmunt Bauman (1925–2017) também se preo- cupou com questões próximas das que acompanhamos até o momen- to. Ele, igualmente, viu nas sociedades contemporâneas o signo da instabilidade. Para Giddens e Thompson, apesar de todos os contra- tempos que o desencaixe e a reflexividade podem produzir, os benefí- cios superam os prejuízos. Para estes autores, o sujeito pós-moderno precisa ser compreendido sobretudo naquilo de bom que as socieda- des puderam produzir. No entanto, Bauman teve o olhar atento para os aspectos mais disjuntivos das sociedades reflexivas. Bauman (2013) defende que os jovens, hoje, só não são vistos como dispensáveis porque podem ser considerados uma potencial contribui- Educação e descentramentoEducação e descentramento 105105 Figura 3 Mídias digitais em um celular Production Perig/Shutterstock 106 Filosofia da Educação ção ao consumo. Obviamente, ele está nos remetendo a todas as discus- sões importantes, que ocorreram no pensamento social do século XX, acerca do mundo do trabalho. No desdobramento dessa história, muitos grupos se viram dispensados de suas funções profissionais – alguns pela crescente mecanização das indústrias e outros em função da dificuldade de atualização diante de um mundo de mudanças. Bauman, então, observa que hoje os poderes econômicos que di- recionam os olhares nos jovens os pensam como um novo mercado a ser comodificado e explorado. Para o pensador, estamos imersos em uma cultura que comercializa todos os aspectos da vida das crianças e dos jovens. Tudo isso é possibilitado por meio do uso das redes sociais e das novas mídias digitais, sendo o telefone celular a principal delas. Aqui temos em Bauman, portanto, alguém que está atento ao mesmo tipo de apelo que os autores anteriores; porém, tanto Giddens quan- to Thompson fazem uma análise em que os aspectos econômicos não parecem ter um peso capaz de distorcer os benefícios que as novas mídias deveriam nos oferecer. Para esses dois autores, as mídias nos oferecem conteúdos que não só nos tornam diferentes, como também mais capazes de reflexão. Com Bauman, porém, todos esses aspectos precisam ser considera- dos à luz dos interesses financeiros que comandam essas tecnologias. Para um pensador como ele, tecnologias novas, que concentrem nelas a capacidade de poder e de manipulação, estão sempre sob o domínio, ou risco de domínio, de grupos que não têm como interesse principal o desenvolvimento humano 6 . Enquanto Giddens e Thompson veem no fluxo informativo da moder- nidade algo que pode, até determinado ponto, ser libertador, Bauman, podemos afirmar, é mais pessimista. Esse último, inclusive, sugere que o termo globalização é enganador e muito impreciso; sua sugestão é que usemos o vocábulo glocalização. Para Bauman (1999), o termo pre- cisa ser mudado porque a globalização só tem condições, realmente, de se realizar para uma parcela da população mundial; já para a outra parcela resta a localização – que aqui significa incapacidade de desloca- mento. Assim, apesar de todos serem permeados pelos apelos da mídia e pelos discursos que incitam à mudança, que chegam por intermédio de todo tipo deproduto cultural como vimos, apenas uma parcela tem capacidade material para se lançar com liberdade aos apelos. comodificado: de commodities, é um termo da economia; bens de consumo que são comercializados nas bolsas de valores. Glossário Esse tipo de abordagem lembra os trabalhos da Escola de Frankfurt. Bauman recorda muito a discussão de Jürgen Habermas acerca do con- flito entre mundo da vida versus sistema. O sistema são os conglomerados de tecnologia e comunicação, que não poupam esforços para atrair e manipular. 6 Educação e descentramento 107 Os demais, embora também sejam tocados pelos mesmos apelos, acabam se frustrando, porque se enchem de sonhos e esperanças, mas não têm condições financeiras para tornar esses sonhos algo palpá- vel. Nesse sentido, Bauman propõe que é possível entender as divisões sociais por meio da ideia de nômade. Para ele, existem dois tipos de nômades: primeiro, aqueles que realmente podem bancar os seus so- nhos pós-modernos e viajar sem encontrar muitas fronteiras ou barrei- ras; já o segundo tipo é representado pelos que só têm a possibilidade da viagem virtual, que lhes chega pelas imagens e pelos estilos de vida mais variados. Com relação à organização das divisões, Bauman (1999, p. 96, grifo do original), relata o seguinte: aliás, os mundos sedimentados nos dois pólos, no alto e no pé da nova hierarquia da mobilidade, diferem acentuadamente; também se tornam cada vez mais incomunicáveis entre si. Para o Primeiro Mundo, o mundo dos globalmente móveis, o espaço perdeu sua qualidade restritiva e é facilmente transposto tanto na sua versão “real” como na versão “virtual”. Para o segundo mundo, o da “localidade amarrada”, daqueles impedidos de se mover e assim fadados a suportar passivamente qualquer mu- dança que afete a localidade onde estão presos, o espaço real está se fechando rapidamente. É um tipo de provação que se torna ainda mais penosa pela insistente exibição na mídia da conquista do espaço e do “acesso virtual” a distâncias que per- manecem teimosamente inacessíveis na realidade efetiva. Assim, quando abordamos a inquietude, no final da seção anterior, talvez não seja ela, em sua totalidade, uma consequência dos pode- res positivos e da reflexividade, como acreditam Giddens e Thompson. Talvez, se concordarmos com Bauman, parte de toda essa inquietude seja a frustração, a qual tem atingido muitas pessoas por meio de todo esse fluxo informativo que só aumentou desde a modernidade até a pós-modernidade. Mobilizamos, então, o pensamento de Bauman, ain- da que muito sucintamente, para apresentar uma leitura crítica com re- lação aos poderes da reflexividade em um mundo como o que vivemos. Queremos agora mobilizar um pensamento mais próximo de nós, que vem da escola histórico-crítica, capaz de nos auxiliar fortemente. A tradição histórico-crítica na educação brasileira tem reunido, ao longo de décadas, alguns dos melhores pensadores da educação brasileira. O termo pedagogia histórico-crítica foi criado pelo principal pensador dessa corrente: Dermeval Saviani. 108 Filosofia da Educação Para Saviani (1999), a pedagogia histórico-crítica se constrói na tentati- va de superar o que ele classifica como pedagogias crítico-reprodutivistas. Estas têm algum caráter crítico, ou seja, ao menos percebem os condicio- nantes sociais que incidem sobre a educação brasileira como um todo, mas não carregam em seu programa a possibilidade de que a educação possa, de algum modo, transformar a sociedade e, por isso, acabam ape- nas reproduzindo as condicionantes sociais vigentes. Saviani, por sua vez, deixa bem claro, em sua visão de escola, que essa importante instituição moderna tem no seu interior as mesmas oposições presentes na sociedade como um todo. A divisão de classes, marca inconteste 7 das sociedades contemporâneas capitalistas, está também presente na escola. Para Saviani (1999), as classes dominantes não têm interesse algum na mudança da estrutura educacional, uma vez que, do modo como ela se encontra, as estruturas de domínio permane- cem sem ser contestadas – em muitos casos, não são nem identificadas. Sendo assim, a teoria crítica deve se desenvolver com base no inte- resse dos grupos dominados, “assumindo a escola como um instrumen- to de luta contra a marginalidade, o que significa engajar-se no esforço para garantir aos trabalhadores um ensino da melhor qualidade possível nas condições históricas atuais” (SANTOS, 2018, p. 46). Por isso, há o jul- gamento às pedagogias crítico-reprodutivistas referidas – embora elas identifiquem a cisão social, não se organizam programaticamente com a intenção de mudá-la. Além disso, a pedagogia histórico-crítica faz ques- tão de se diferenciar das pedagogias tradicionais e das novas quanto à posição do professor e à do aluno no processo de aprendizado. Nas pedagogias tradicionais, o ensino está todo concentrado no professor, e o aluno tem uma posição passiva diante do conteúdo que lhe é apresentado; já nas novas pedagogias, o aluno passa a ser o cen- tro da atenção. Saviani (1999, p. 77) situa a Escola Nova – movimento de meados do século XX, considerado uma grande renovação e o princípio de democratização da escola no Brasil – como o ponto de transição e aquela que conseguiu apontar os problemas da educação tradicional: “parte-se da crítica à pedagogia tradicional (pedagogia bancária) carac- terizada pela passividade, transmissão de conteúdos, memorização, verbalismo etc. e advoga-se uma pedagogia ativa, centrada na iniciativa dos alunos, no diálogo (relação dialógica), na troca de conhecimentos”. Inconteste porque a visão pedagógica da pedagogia histórico-crítica tem, no marxismo, um de seus principais fundamentos, e no pensamento de Marx a luta de classes é o motor da história. 7 Educação e descentramento 109 No entanto, essa mesma Escola Nova é criticada por Saviani, sob a alegação de que as propostas democráticas dessa pedagogia não se rea- lizaram (com exceção da pedagogia de Paulo Freire, a qual Saviani se re- fere como Escola Nova Popular). A crítica desse autor nos interessa porque aquilo que ele acredita superar, por intermédio da pedagogia histórico-crí- tica, pode nos oferecer algumas respostas para o que discutimos até aqui com relação ao descentramento, uma vez que a essência da pedagogia histórico-crítica é justamente tornar claro o seu eixo conteudístico, que pode ser entendido por nós como uma possibilidade de centramento. A crítica de Saviani à Escola Nova é mais uma direcionada à incapaci- dade desse movimento de se resguardar dos arranjos políticos, comuns à sociedade, que buscam usar os mais refinados meios para a educa- ção dos mais abastados e criam dificuldades para que esses mesmos meios se democratizem e possam ser utilizados em larga escala: se o credo escolanovista se torna predominante e toma conta das cabeças dos professores, é inevitável o surgimento de pressões no sentido de que a Escola Nova se generalize. Se o escolano- vismo pressupõe métodos sofisticados, escolas mais bem equi- padas, menor número de alunos em classe, maior duração da jornada escolar; se se trata de uma escola mais agradável, capaz de despertar o interesse dos alunos, de estimulá-los à iniciativa, de permitir-lhes assumir ativamente o trabalho escolar, por que não implantar esse tipo de escola exatamente para as camadas populares onde supostamente a passividade, o desinteresse, as dificuldades de aprendizagem são maiores? (SAVIANI, 1999, p. 78) Vimos que talvez não se trate de desinteresse, e sim de uma inquie- tude, com base nos conteúdos, nas sugestões, nas expectativas e nos sonhos que vêm de fora da localidade de onde as pessoas residem. Mas, para a pedagogia histórico-crítica, se defrontada pelo cenário que apresentamos até o momento, com o sujeito pós-moderno, assim como para Bauman, haverá a preocupação de distinguir quem são as pessoas mais afetadas negativamente pelo avanço das tecnologias epelos efeitos sociais e psíquicos que elas podem produzir. Logo, ao fazer essa distinção, certamente sua preocupação central é propor maneiras de levar às populações mais afetadas uma educação de qualidade, o que só pode ser feito por meio da consideração do conteúdo como o pilar central do processo educativo. Saviani (1999) defende que isso ocorra em cinco passos. 110 Filosofia da Educação O primeiro é comum a alunos e professores, que é o encontro entre eles. Esse encontro pressupõe que suas posições não sejam as mesmas com relação à compreensão (conhecimento e experiência) da prática social. Assim, a compreensão do docente é uma “síntese precária”, embora ele tenha uma compreensão razoável das práticas sociais quando unidas a uma proposta pedagógica; ademais, essa com- preensão, no momento em que se inicia o encontro do professor com os seus alunos, é sempre precária, pois ele não conhece ainda o nível de compreensão de cada um. Já a compreensão dos alunos é sempre sincrética (confusa e caótica), pois, apesar de suas experiências, “sua própria condição de alunos implica uma impossibilidade, no ponto de partida, de articulação da experiência pedagógica na prática social de que participam” (SAVIANI, 1999, p. 80). O segundo passo, chamado de problematização, não pode se referir à apresentação de novos conhecimentos pelo docente; deve-se detec- tar as questões que precisam ser resolvidas e, em consequência, qual conhecimento é necessário dominar. O terceiro passo, que nos inte- ressa bastante, diz respeito ao que Saviani chama de instrumentalização; trata-se de se apropriar de instrumentos práticos e teóricos, fundamen- tais para o equacionamento dos problemas detectados na prática social: como tais instrumentos são produzidos socialmente e preserva- dos historicamente, a sua apropriação pelos alunos está na de- pendência de sua transmissão direta ou indireta por parte do professor […] Trata-se da apropriação pelas camadas populares das ferramentas culturais necessárias à luta social que travam diuturnamente para se libertar das condições de exploração em que vivem. (SAVIANI, 1999, p. 81) Temos até aqui, então, o encontro entre aluno e professor e o ajuste, baseado na avaliação, que o docente deve fazer para saber o nível de conhecimento de seus alunos. Depois, há o conhecimento do problema e a definição dos saberes necessários para sua resolução 8 . O terceiro passo, por sua vez, é essencial porque Saviani defende que, após ter o conhecimento do problema a ser discutido, o repertório que vai permitir a busca por uma solução é o conjunto de conhecimentos produzidos historicamente e compartilhados. Ou seja, para Saviani (1999), esses alunos precisam ter acesso ao conhecimento formal. Santos (2018, p. 50) reitera essa posição: “a seleção dos conteúdos es- colares deve, portanto, considerar a garantia aos alunos da assimilação O quarto e quinto passos defendidos por Saviani serão explicados posteriormente, após compreendermos o que Bauman evidencia sobre essa ideia. 8 Educação e descentramento 111 da experiência histórico-social de gerações. Não serão quaisquer con- teúdos, mas sim, os conhecimentos historicamente sistematizados em suas formas mais desenvolvidas”. Por isso, o conteúdo é o centro da pedagogia histórico-crítica; ela não faz rodeios quanto a isso. Independentemente das classes sociais de que os alunos são originários, a escola precisa se concentrar em ga- rantir que a eles seja ensinado o que a humanidade assegurou de me- lhor em termos de conhecimentos científicos, éticos, técnicos, artísticos etc. Isso porque, como Saviani compreende, é esse o saber que lhes será exigido fora da escola e garantirá uma socialização mais efetiva. Voltemos ao sujeito pós-moderno. Vimos o quanto a instabilidade pode adentrar a sala de aula e discutimos o quanto ela pode angustiar os professores. Mas temos, na pedagogia histórico-crítica, uma proposta muito bem estruturada, que não nega ter um centro e dele não ceder. Os conteúdos capazes de resolverem os problemas que a escola propõe são os conteúdos formais, e é neles que o professor deve se concen- trar. Dessa forma, o sujeito pós-moderno pode ser um problema, e os aspectos relacionados a isso podem ser discutidos em sala. No entan- to, aquilo que pode dar mais consistência às discussões já está forma- lizado pela escola; logo, é necessário saber canalizar esses conteúdos e levá-los à discussão e ao aprendizado dos alunos. O que não pode ocorrer é a escola se deixar invadir pelas angústias pós-modernas e, de maneira livre, imaginar que alunos conduzam seus próprios projetos. O professor, democraticamente, precisa saber conduzir os alunos diante dos problemas do consumo ou do desejo dele, de personalida- des que se transformam ou de olhares que perderam o interesse nas aulas, enfim, dos problemas que a fragmentação moderna produz ao conhecimento formal e ao contato com o que de melhor a humanida- de produziu no que diz respeito a conhecimentos. Se Bauman estiver certo e os grandes interesses econômicos só se importarem com os jovens com base em sua capacidade de consumo, a escola precisa sa- ber problematizar a origem de tantos desejos fragmentados, para que o aluno possa encontrar respostas para algumas de suas angústias. Podemos comentar uma passagem de Bauman, pois ela ilustra bem o que afirmamos acerca do desejo e como ele nem sempre significa libertação, podendo ser, na verdade, o seu oposto: prisão. 112 Filosofia da Educação Bauman (1999) faz uma comparação entre duas mulheres, ambas vivendo sob os mesmos apelos midiáticos pós-modernos. Uma delas, no entanto, é cosmopolita e bem resolvida financeiramente. O autor observa que ela não tem residência fixa, dada a sua condição de pa- lestrante, pois viaja para todas as partes do mundo e recebe muito bem pelo que faz. Embora sem residência fixa, sente-se à vontade em qual- quer lugar, visto que todos os hotéis em que fica têm o mesmo padrão de luxo. Ela sabe, então, onde fica o interruptor elétrico, já conhece o cardápio etc., tanta a sua familiaridade com aquele tipo de ambiente. A outra mulher, Michele, uma jovem, é descrita assim por Bauman: aos 15 seu cabelo era num dia ruivo, depois preto, em seguida eriçado em estilo afro, logo cortado em caminhos de rato, aí en- trançado, então raspado rente ao crânio, cintilante… A cor de seus lábios era escarlate, depois púrpura, em seguida preta. O rosto ia de uma palidez de fantasma ao tom de pêssego, fican- do depois bronzeado como se tivesse sido banhado em metal. Perseguida por sonhos de fuga, saiu de casa aos 16 para viver com o namorado, que tinha 26… Aos 18 voltou para a casa da mãe, com dois filhos… Sentou-se no quarto de onde fugira três anos antes, agora com as antigas fotos de astros pop já desbota- das na parede. Disse que se sentia como uma velha de cem anos. Experimentou tudo o que aquela vida podia oferecer. Nada mais restava. (SEABROOK, 1985, p. 59 apud BAUMAN, 1999, p. 99-100) Essa passagem ilustra o quanto os apelos midiáticos do mundo pós-moderno podem ser vividos de maneiras distintas, dependendo de vários fatores – aqui cabe ressaltar dois, o aspecto econômico e o psíquico. Esses apelos, da maneira que nos chegam, multifacetados, sem que conheçamos sua origem e tampouco suas intenções 9 , podem exercer efeitos inesperados em nós. De certa forma, é possível afirmar que não temos controle total sobre eles, não sabemos exatamente o que a soma desses apelos vai formar em nós em termos de desejo e frustração. O exemplo de Michele talvez nos revele isso. Essas últimas referências ao trabalho de Bauman foram feitas para que compreen- dêssemos o engajamento explícito de uma proposta como a da peda- gogia histórico-crítica, que certamente sabe que a escola está plena da presença de histórias como a de Michele. Nesse sentido, questões como consumo, mídia, interesses das gran- des corporações em torno do nosso perfil de consumo nas redesso- ciais etc. podem se tornar interessantes aos alunos, do ponto de vista Em uma outra passagem, Bauman (1999, p. 91) expõe: “os consumidores são primeiro e acima de tudo acumuladores de sensações, são coleciona- dores de coisas apenas num sentido secundário e derivativo”. Podemos supor que Bauman está nos afirmando que, em um mundo pós-moderno, como o nosso, o obje- tivo e prazer maior do consumidor é gostar da sensação de estar sempre desejando algo novo, e não aquilo que compra- mos (afinal se já compra- mos, se já é nosso, não pode mais ser desejado, ficamos até frustrados um pouco depois, uma vez que o prazer do consumo não vem da posse do objeto e, assim, precisa- mos desejar algo novo, reiniciando o ciclo do desejo e do consumo in- definidamente). O truque é este: nos manter dese- jando continuamente. 9 Educação e descentramento 113 investigativo, bem como um caminho de acesso fecundo para a busca de respostas a esses problemas no conhecimento formalizado pela escola. Apenas para que fechemos a apresentação dos cinco passos que Saviani propõe, trazemos agora o quarto passo, que se refere ao que ele chama de catarse: após o aluno ter tido acesso, com a condução cuidadosa do professor, aos conhecimentos necessários, chega o mo- mento de expressar de modo elaborado o entendimento da prática social que necessitava de solução: “trata-se de efetiva incorporação dos instrumentos culturais, transformados agora em elementos ati- vos de transformação social” (SAVIANI, 1999, p. 81, grifo nosso). E o quinto passo é a chegada do aluno ao nível sintético: “neste ponto, ao mesmo tempo que os alunos ascendem ao nível sintético em que, por suposto, já se encontrava o professor no ponto de partida, reduz-se a precariedade da síntese do professor, cuja compreensão se torna mais e mais orgânica” (SAVIANI, 1999, p. 81). Por fim, resta observar que, para a pedagogia histórico-crítica, a fragmentação já está pressuposta, ao menos no nível sincrético em que o aluno se encontra quando se inicia na escola; mas, segundo essa mesma pedagogia, a fragmentação pode ser transformada e a escola pode centrar o sujeito, ao menos naqueles conhecimentos que lhes serão importantes como ser humano e cidadão. É óbvio que há inúmeras possibilidades de contra-argumentação para os teóricos da pós-modernidade usarem, mas não é nosso escopo no momento. Para encerrarmos, vale uma reflexão do próprio Saviani (1999, p. 87): entendo, pois, que o processo educativo é passagem da desigual- dade à igualdade. Portanto, só é possível considerar o processo educativo em seu conjunto como democrático sob a condição de se distinguir a democracia como possibilidade no ponto de partida e a democracia como realidade no ponto de chegada. Consequentemente, aqui também vale o aforismo: democracia é uma conquista; não um dado. [...] se para os alunos a percepção dessa possibilidade é sincrética, o professor deve compreendê- -la em termos sintéticos. Isto porque o professor deve antever com uma certa clareza a diferença entre o ponto de partida e o ponto de chegada, sem o que não será possível organizar e implementar os procedimentos necessários para se transformar a possibilidade em realidade. Diga-se de passagem que esta ca- pacidade de antecipar mentalmente os resultados da ação é a nota distintiva da atividade especificamente humana. Não sendo preenchida essa exigência cai-se no espontaneísmo. E a especifi- cidade da ação se esboroa. esboroar: reduzir(-se) a pequenos fragmentos, a pó; desfazer(-se), desmo- ronar(-se), pulverizar(-se) (HOUAISS, 2009). Glossário 114 Filosofia da Educação Do educador, exige-se o preparo, item essencial, pois é deste a an- tevisão que organiza e conduz o aluno até que este se torne também mestre de seu próprio saber. E, mais que tudo, o professor precisa desejar tornar possível a “passagem da desigualdade à igualdade”, vi- ver a democracia em seu sentido mais amplo, na vida e na profissão, porque é esse desejo que, ao fim, iguala aluno e professor. Dos docen- tes do campo das humanidades, exige-se um desejo ainda maior, pois, ao que parece, os desafios são enormes. Veremos na seção seguin- te o quanto todo o descentramento pós-moderno ameaça os saberes da filosofia, das artes e das línguas. Quem nos afirma isso é a filósofa norte-americana Martha Nussbaum. 4.3 Martha Nussbaum e as humanidades em risco de extinção Vídeo A referência a Martha Nussbaum surge, ainda que brevemente, ba- seada na discussão anterior e na preocupação da pedagogia histórico- -crítica de fazer com que a escola consiga educar o aluno com base no conhecimento formal, que vem se acumulando desde que nos torna- mos uma civilização. Embora Nussbaum não esteja ligada à tradição dos filósofos aqui discutidos, ela produziu, em um livro recente, uma reflexão muito oportuna: o risco real de extinção que o ensino das hu- manidades corre. Nesse livro, Sem fins lucrativos, a eminente filósofa norte-americana faz uma defesa da importância das humanidades como um elemento funda- mental para a construção de sociedades democráticas. Já no início de seu texto, ela aponta, de maneira contundente, afirmando se tratar de “uma crise que, como um câncer, passa em grande parte despercebida”, a crise da educação (NUSSBAUM, 2015, p. 3). De acordo com seu diagnóstico, obcecados pelo PNB, os países – e seus sistemas de educação estão descartando, de forma imprudente, competências indispensáveis para manter viva a democracia. Se essa tendência prosseguir, todos os países logo estarão produzindo gerações de máquinas lucrativas, em vez de produzirem cidadãos íntegros que possam pensar por si próprios, criticar a tradição e entender o significado dos sofrimentos e das realizações dos outros. É disso que depen- de o futuro da democracia. (NUSSBAUM, 2015, p. 4) Educação e descentramento 115 Impressiona a proximidade do seu diagnóstico com autores como Bauman e Saviani, por exemplo. É, portanto, uma pensadora da tradi- ção liberal, que costuma fazer mais críticas à cultura do que à economia e, mesmo assim, vemos a autora deixando muito evidente a tensão que existe, em nossas sociedades, entre educação e economia. Ao que parece, uma educação de qualidade pode se refletir também na forma como as pessoas se posicionam no mundo e interagem com seus ape- los econômicos. Para Nussbaum (2015), é necessário compreender a razão pela qual as várias disciplinas estão sendo preteridas para darem mais espaço a outras, cujo principal resultado é possibilitar que os inte- resses financeiros possam lucrar mais. É importante observar como a autora põe em evidência as poten- cialidades das humanidades – potencialidades que raramente são expostas em um quadro maior para a sociedade. Por exemplo, é co- mum que, em telejornais, os quais são ainda, em grande parte, respon- sáveis pela formação da opinião pública, haja divulgação dos índices de crescimento econômico, o que funciona como um indicativo de pro- gresso social. Mas convenhamos: o crescimento econômico é o único responsável por qualquer suposta ideia de progresso? Obviamente que não. Nós poderíamos encontrar muitos outros critérios; porém, é sempre o aspecto econômico que está atrelado à ideia de progresso. Pensando nisso, Nussbaum (2015, p. 14) expressa: de acordo com esse modelo de desenvolvimento, o objetivo da nação deve ser o crescimento econômico. Esqueça a igualdade, distributiva e social, esqueça os pré-requisitos necessários de uma democracia estável, esqueça a qualidade das relações ra- ciais e de gênero, esqueça o aperfeiçoamento de outros aspectos de vida do ser humano que não estejam completamente ligados ao crescimento econômico. Assim, aos poucos, Nussbaum nos demonstra o quanto os critérios e interesses econômicos já se apossaram de boa parte da educação e, nessa lógica, apenas as competências que são capazes de gerar retorno econômico vão sendo assentadas, em um movimento que parece na- tural, mas nãoé, entre aquelas que valem a pena serem estudadas. Entretanto, é preciso compreender que as humanidades são capazes de refletir sobre o significado social, ético e utilitário de cada uma das outras atividades e competências. 116 Filosofia da Educação Se com as humanidades essa tarefa é hercúlea, difícil, imaginemos sem o apoio dessas disciplinas. No entanto, parece que é essa a inten- ção, uma vez que o desaparecimento das humanidades pode significar também o desaparecimento da capacidade analítica e crítica com re- lação às artimanhas que buscam escravizar os indivíduos em torno de tarefas obscuras e mal remuneradas: porém, os educadores que defendem o crescimento econômico não se limitam a ignorar as artes: eles têm medo delas. Pois uma percepção refinada e desenvolvida é um inimigo especialmente perigoso da estupidez, e a estupidez moral é necessária para exe- cutar programas de desenvolvimento econômico que ignoram a desigualdade. É mais fácil tratar as pessoas como objetos manipu- láveis se você nunca aprendeu outro modo de enxergá-las. Como disse Tagore, o nacionalismo agressivo precisa anestesiar a cons- ciência moral; portanto, precisa de pessoas que não reconhecem o indivíduo, que repetem o que o grupo diz, que se comportam e veem o mundo como burocratas dóceis. A arte é uma grande ini- miga dessa estupidez, e os artistas (a não ser que estejam comple- tamente intimidados e corrompidos) não são servos confiáveis de nenhuma ideologia, mesmo que ela seja basicamente boa – eles sempre pedem que a imaginação ultrapasse seus limites habituais e veja o mundo de novas maneiras.(NUSSBAUM, 2015, p. 24) Vale ressaltar, ainda, a atenção que Nussbaum dá à literatura e às artes. Segundo ela, os cidadãos não conseguem se relacionar com a complexidade do mundo apenas por meio do conhecimento factual e da lógica. Uma terceira qualidade que deve ser explorada é a imaginação narrativa; por meio dela, é possível se colocar no lugar de uma pessoa diferente e se tornar um intérprete inteligente da história desse indi- víduo, compreendendo a emoção, os pensamentos e os desejos dela. Nesse sentido, a literatura, o cinema e as artes em geral podem contri- buir para o desenvolvimento de nossa noção de alteridade e de nossa capacidade de respeito ao próximo: é extremamente fácil considerar que o outro não passa de um corpo – o qual, então, pensamos poder usar para os nossos objetivos, sejam eles prejudiciais ou benéficos. Enxergar uma alma naquele corpo representa uma conquista, e essa conquista é sustentada pela poesia e pelas artes, que pedem que nos ma- ravilhemos com o mundo interior daquela forma percebida por nós – e, também, que nos maravilhemos com nós mesmos e com nossas profundezas. (NUSSBAUM, 2015, p. 102) A citação da filósofa Martha Nussbaum lembra algo de O grande ditador, filme clássico de Charlie Chaplin. No filme, o personagem principal faz um discurso que se tornou antológico, pela denúncia social e exis- tencial que faz; sua fala parece se direcionar a uma sociedade em que a educação humanística há muito se perdeu. Assim, o discurso desse filme tem inspirado artistas de todas as esferas. Direção: Charlie Chaplin. Estados Unidos: United Artists, 1940. Filme Vale a pena ouvir a música de Paolo Nutini, chamada Iron Sky, que tem o discur- so completo do filme de Chaplin inserido em uma de suas partes. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=ELKbtFljucQ&ab_ channel=PaoloNutini. Acesso em: 16 jul. 2021. Música https://www.youtube.com/watch?v=ELKbtFljucQ&ab_channel=PaoloNutini https://www.youtube.com/watch?v=ELKbtFljucQ&ab_channel=PaoloNutini https://www.youtube.com/watch?v=ELKbtFljucQ&ab_channel=PaoloNutini https://www.youtube.com/watch?v=ELKbtFljucQ&ab_channel=PaoloNutini Educação e descentramento 117 Finalizamos ressaltando o quanto a autora converge, em suas preo- cupações, com os outros filósofos. Isso pode estar nos afirmando, de modo evidente, que a educação tem responsabilidade fundamental com a formação crítica de seus alunos, bem como que tem os meios capazes de fazê-los compreender melhor a realidade que os circunda, os interesses que desejam cooptá-los e a possibilidade de torná-los mais centrados, humanos e sensíveis às lutas e dificuldades do outro. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, tivemos a oportunidade de ser apresentados aos conceitos de descentramento, desencaixe e reflexividade. Vimos também o quanto os aspectos sociais que envolvem esses conceitos são comple- xos em sua compreensão. A escola pode ter um papel essencial, no sen- tido de evitar que o descentramento se torne motivo de desinteresse e dispersão, e um outro mais importante ainda na introdução desses alu- nos ao conhecimento historicamente produzido e compartilhado. Além disso, com Martha Nussbaum, vimos o enfraquecimento da pre- sença das humanidades nas sociedades pós-modernas – isso é um fenô- meno mundial – e o quanto ele impacta a própria ideia de democracia e socialização saudáveis. Esperamos que essa reflexão sirva para entender- mos que aquilo que se enfraquece é a presença das humanidades nos bancos escolares, devido aos interesses que as querem de fato esqueci- das, mas não a capacidade dessas disciplinas de nos tornarem melhores, mais reflexivos, sensíveis e críticos. ATIVIDADES 1. Sobre a seguinte observação: “o professor precisa entender, portanto, que parte da inquietude em sala é reflexo do nosso tempo, não sendo culpa de aulas, às vezes, carinhosa e exaustivamente elaboradas”. Que atitude(s) o professor pode ter em sala de aula com relação à inquietude? Especifique. 2. Como a escola pode se tornar tão ou mais atrativa do que as mídias digitais? Discorra. 3. Apresente três características que diferenciem a pedagogia tradicional da pedagogia nova. Especifique-as. Vídeo 118 Filosofia da Educação 4. Quando Dermeval Saviani traz os cinco passos na relação aluno-professor em sala de aula, ele diferencia o nível sincrético do sintético. Exemplifique essa diferenciação. 5. Por que o desenvolvimento das mídias é visto por John Thompson como algo muito positivo? Explique. REFERÊNCIAS BAUMAN, Z. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. BAUMAN, Z. Sobre educação e juventude. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. BUJES, M. I. E.; ROSA, J. de M. Discursos curriculares da formação docente, projetos de trabalho e seus elos com a racionalidade neoliberal. Revista Horizontes, v. 30, n. 2, p. 7-18, jul./dez. 2012. GIDDENS, A. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991. GIDDENS, A. A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: Unesp, 1993. HALL, S. A. Identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. HOUAISS, A. (org.). Houaiss eletrônico. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. [CD-ROM]. NUSSBAUM, M. C. Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades. São Paulo: Martins Fontes, 2015. SANTOS, R. E. O. Pedagogia histórico-crítica: que pedagogia é essa? Revista Horizontes, v. 36, n. 2, p. 45-56, maio/ago. 2018. SAVIANI, D. Escola e democracia. Campinas: Autores Associados, 1999. THOMPSON, J. B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis: Vozes, 1998. Educação e currículo 119 5 Educação e currículo O objetivo deste capítulo, em sua primeira seção, é apresentar as ideias fundamentais do que ficou conhecido como pedagogia crítica. O autor escolhido para essa apresentação é o teórico norte-americano Michael Apple. Na seção seguinte, vamos apresentar ideias que se contraponham e discutam as propostas de Apple. Enquanto Apple é um conhecido e res- peitado representante da pedagogia crítica, cujas bases epistemológicas estão centradas em pressupostos modernos, as ideias pedagógicas que fazem crítica a ele são pertencentes a correntes do pós-estruturalismo e do pós-modernismo. Sendo assim,teremos a oportunidade também de conhecer um pouco melhor os conceitos que definem esses movimentos. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • entender a atuação das ideologias na disputa pelo currículo na escola; • compreender que forças ideológicas disputam a educação contemporânea; • acompanhar as importantes discussões no campo das ciências e da filosofia que podem servir como parâmetros de decisão nos impasses criados em função de disputas ideológicas. Objetivos de aprendizagem 5.1 Michael Apple: currículo e demandas educacionais Vídeo Michael Apple é um dos mais respeitados representantes do que podemos classificar como pensamento educacional crítico. Embora ele seja norte-americano, sua vivência educacional extrapola as frontei- ras de seu país. Sempre muito preocupado com a educação e com os fatos que vão além dos muros escolares e ajudam a definir o caráter 120 Filosofia da Educação educacional das nações, ele já percorreu vários países a fim de conhe- cer outras realidades educacionais e compará-las ao que ocorre nos Estados Unidos. Apple já esteve no Brasil, na Argentina e até mesmo em campos de refugiados durante a guerra da antiga Iugoslávia. Ele é o exemplo do que poderíamos chamar de intelectual engajado, e esse engajamento vem de sua constatação das profundas desigualdades existentes nas sociedades contemporâneas, que afetam a educação de várias formas, impedindo que muitas escolas em diversos lugares do mundo possam ambicionar a excelência no ensino. Mas é também desse seu engaja- mento que vem a esperança de que os contextos sociais futuros pos- sam transformar a educação, fazendo com que funcione efetivamente como o pilar principal do desenvolvimento humano. Esse espírito crítico e combativo, também esperançoso, de Apple conseguiu perceber, mesmo na situação limite que é uma guerra, a ri- queza e a importância da educação para certas sociedades. Essa duali- dade de quem não renuncia à análise crítica e faz questão de carregar também o otimismo pode ser expressa em sua experiência na Iugoslá- via, em que ele nos apresenta um exemplo comovente e inspirador ao mesmo tempo. Apple recorda que os refugiados, assim que foram abri- gados (em barracas do exército em péssimas condições), organizaram duas frentes: distribuição de alimentos e escolas, ambas compreendi- das como essenciais para eles. Para nós que pretendemos responder à pergunta-título deste livro, esses refugiados enfatizaram com essa atitude que para eles não pode haver uma sociedade de respeito sem um sistema educacional democratizado. Diante disso, nos resta dizer que ou eles estavam possuídos por uma consciência mítica e não tinham ideia do que estava acontecendo ou temos de admitir que sua identidade e esperança por um futuro melhor estava intima- mente ligada ao respeito profundo pela educação, que lhes dava esperança na tragédia. A educação não se relacionava apenas a emprego, mas à identidade de cada um deles. Independente- mente se esses refugiados eram religiosos ou não, a educação escolar e a educação de forma geral eram parte central de suas identidades. (APPLE, 2018, p. 17) Michael Apple é também professor de Currículo e Instrução e Estu- dos de Política Educacional na Universidade de Wisconsin, EUA. Suas contribuições para o pensamento educacional vêm desde os anos 1970, Educação e currículo 121 chegando até nossos dias. Entre seus trabalhos mais importantes es- tão Ideologia e currículo (1979), Educação e poder (1982) e Educando à direita (2001). Seus textos são lidos por estudantes, pedagogos, soció- logos e filósofos da educação do mundo inteiro e têm sido importantes para o alargamento da compreensão dos interesses que disputam a educação, sobretudo naquilo que pode ser considerado um de seus tesouros: o currículo. Se há embates na educação, e há, podemos dizer que o campo mais disputado tem sido o da composição curricular, em todas as modalida- des e níveis. A batalha travada nesse campo frequentemente tem sido motivada por convicções ideológicas, as quais, imagina-se, conduzem grande parte do conteúdo escolar e são também bastante responsá- veis pelo tipo de caráter civilizatório dos cidadãos que se formam e depois vão atuar como membros política e economicamente ativos na sociedade. O nome de Apple surge aqui então para nos informar me- lhor a respeito dessas disputas, uma vez que ele é um dos grandes especialistas nessa temática. 5.1.1 A reprodução contestada É muito comum a leitura de que a escola serve como uma instituição responsável pela reprodução social e cultural que molda as formas de pensar e agir dos estudantes de acordo com os padrões estabelecidos pelos grupos econômicos e políticos dominantes em cada sociedade. No entanto, para Michael Apple essa é uma forma simplista demais para ser considerada verdadeira. Isso porque o ambiente escolar é bem mais complexo, o que impede que imaginemos essa espécie de circuito que se inicia com o estabelecimento dos padrões vigentes de uma sociedade e termina com todos os alunos pensando e se compor- tando de acordo com esses padrões ao final de seu ciclo escolar. Pensar assim é pensar deterministicamente, ou seja, uma forma pouco sofisticada para dar conta de um sistema complexo de relações. Assim, apesar de admitir que a lógica dos valores das classes domi- nantes procura prevalecer sobre as demais, é preciso entender que “o campo educacional é também social e, portanto, se constitui em territórios contestados, onde grupos dominantes se veem obrigados a não somente difundir e transmitir seus pressupostos ideológicos, como também, a convencer seus dominados da validade e legitimação 122 Filosofia da Educação destes pressupostos” (NOGUEIRA, 2019, p. 121). O que Apple procura, então, é admitir a escola como lugar onde realmente há o embate de valores, mas sabendo que esse embate é mais intrincado do que pres- supõem certas correntes teóricas. Nogueira (2019) nos lembra que os valores defendidos por esses grupos hegemônicos não podem prevalecer de maneira direta, uma vez que a escola é um espaço social e está carregada de vivências que trazem consigo outros valores, o que imediatamente ativa a possibili- dade de questionar e resistir à investida dos valores hegemônicos. Figura 1 Escola como espaço de vivências Ra wp ix el .c om /S hu tte rs to ck Escola vista como um espaço de trocas de experiências e aprendizado que sempre se renova e nunca está presa a um padrão preestabelecido. Para Michael Apple, a atenção ao modo de questionamento dos estu- dantes é fundamental, já que isso distancia sua abordagem de análises funcionalistas, em que “a ordem é assumida e o desvio a esta ordem é considerado problemático” (APPLE, 2012, p. 12). A análise funcionalis- ta oferece uma imagem equivocada do ambiente escolar, uma imagem que mostra a ordem das coisas, no entanto essa ordem vem do fato de que todos os elementos desviantes são desconsiderados do quadro. Apple se afirma, então, em uma análise que não desconsidere os desvios à ordem estabelecida, pois ela pode ser muito mais fiel à real dinâmica social no interior de uma escola. Educação e currículo 123 Mais do que uma coerência funcional, onde todas as coisas fun- cionam agradavelmente para manter uma ordem social basica- mente sem mudanças, esta análise aponta para a reprodução contestada para as relações fundamentais de uma sociedade, que permitem a ela reproduzir-se a si mesma, mas somente na forma de uma ordem social dominante e subordinada (isto é, an- tagonista, não funcional). (APPLE, 2012, p. 12-13) Com esse tipo de análise, Apple procura, assim, desligar-se de uma das maiores críticas feitas aos defensores do pensamento educacional crítico, que contribuíram, à sua maneira, para compreender a escola de maneira mais ampla, mas que, ao final, acabam chegando à conclusão de que o ambiente escolar é tão somente um simples reprodutor da ordem hegemônica. Vimos na última citação queApple pretende que sua análise seja capaz de oferecer, ao final, a forma social dominante, mas também a forma subordinada (ou como nos diz a citação, a “re- produção contestada”, aquela que resiste, no interior da própria escola, à imposição da forma dominante). É preciso, portanto, estar atento à reprodução e à reprodução contestada. Toda escola, em suas tessituras complexas de relações, em maior ou menor grau, acabam nos revelando essas duas dimensões. Temos que evitar cometer o engano de imaginar que a reprodução contestada se manifesta somente por meio da violência. Essa contestação pode se dar em vários níveis, podendo vir por meio de questionamentos, brincadeiras, negação em realizar alguma tarefa – e, algumas vezes, em forma de violência. O importante é que o professor saiba identificar também nos atos de contestação algum tipo de comunicação (de insatisfação, indigna- ção, antagonismo pleno), uma vez que é possível que nesses atos se encontre como razão a resistência à ordem estabelecida, que muitas vezes pode estar violando valores diferentes: “são mais prováveis a reinterpretação do estudante, quando muito somente uma aceitação parcial, e frequentemente uma rejeição total das concepções plane- jadas e não planejadas das escolas. Claramente, as escolas precisam ser vistas de uma forma mais complexa do que a simples reprodução” (APPLE, 2012, p. 13). É importante observar também que, por sua proposta de análise, conforme vista nos parágrafos anteriores, Michael Apple pretende questionar toda uma tradição de teóricos do currículo que o precede- 124 Filosofia da Educação ram na sociedade norte-americana. Segundo o próprio Apple, desde a década de 1920, com Franklin Bobbitt, até os anos 1960, com Ralph Tyler 1 , essa tradição procurou embasar suas propostas de currículo em características essencialmente técnicas, o que facilitava a defesa de que os currículos possuíam neutralidade. Com a concentração apenas nas características técnicas, eram excluídas todas as questões de or- dem social, cultural ou política. Além disso, a conveniência dessa escolha técnica “forçava o dire- cionamento da visão dos educadores para a racionalidade e eficiência” (NOGUEIRA, 2019, p. 122). Apple evidentemente não acredita na ideia de neutralidade com relação aos conteúdos curriculares, sendo esse o prin- cipal motivo de sua crítica à tradição que o antecedeu. Para ele, a supos- ta neutralidade do currículo é apenas uma forma escolhida para garantir a neutralidade dos educandos e, de certa forma, da própria sociedade: o fato de que os métodos que nós empregamos tiveram suas raí- zes na tentativa da indústria de controlar o trabalho e melhorar a produtividade, no movimento eugênico popular, e em particular nos interesses de grupos de status e classe, foi tornado invisí- vel pela incrível falta de visão histórica no campo da educação. (APPLE, 2012, p. 11) A observação de Apple vale para avaliar os mecanismos que con- trolaram a educação antes dele, mas parece servir também a casos re- centes. Segundo ele, os educadores são parte essencial no trabalho de convencimento e de legitimação dos valores hegemônicos na escola; sem eles, esse mecanismo não funcionaria. Cabe uma observação aqui: muitos dos problemas identificados por Apple, como a questão da su- posta neutralidade (que serve apenas para neutralizar as potenciais revoltas e críticas ao status quo) e a falta de visão histórica daqueles que trabalham na educação, foram resultado de um recorte histórico do autor. Nem sempre é fácil reconhecer os grupos, os valores e os interes- ses políticos, culturais e econômicos que estão em jogo quando somos nós os atores da história. Mas é importante, como educadores, alunos ou pessoas interessadas no assunto, buscarmos informação e conhe- cimento a respeito dessas questões e construirmos aquilo que faltou nas gerações que Apple critica: visão histórica. Nogueira (2019, p. 121) parece concordar com a observação de Apple acerca do papel dos edu- cadores nesse processo: A análise desses nomes importantes da educação e suas propostas pedagó- gicas estão expostas de maneira mais aprofun- dada no Capítulo 4 do livro Ideologia e currículo (APPLE, 1982). 1 Educação e currículo 125 no cotidiano escolar pode-se observar, e até mesmo sentir, os efeitos dos mecanismos de convencimento ideológico e dos jogos de poder e resistência que ali se constituem. Numa escola pública, espaço de conflito e contestação, o código educacional oferecido aos alunos é o código pertencente às classes dominan- tes, e podemos enxergar a olhos nus, crianças e jovens tentando, às vezes, sem sucesso, assimilar o código legítimo; e outras tan- tas crianças e jovens se negando e resistindo a assimilação deste código (re)produzido como legítimo e culturalmente valorizado pela sociedade. Mas não devemos nos enganar, pois apesar de tudo isso, para Apple as escolas são lugares não somente de subordinação; elas funcionam também como espaços de resistência, a qual, como vimos, expressa-se, muitas vezes, como contestação. Apple também nos fala da presença de um currículo oculto nas escolas. Por currículo oculto, o autor entende o enfoque das instituições de educação em “normas e valores que são implícita porém efetivamente transmitidos pelas escolas e que habitual- mente não são mencionados na apresentação feita pelos professores dos fins ou objetivos” (APPLE, 1982, p. 127). Vamos, a partir de agora, tentar explorar melhor essa definição importante de Apple. Para o autor, existem em todas as sociedades suposições ideológi- cas tácitas, e são elas as responsáveis por manter a hegemonia de um grupo sobre os demais. Essas suposições funcionam como regras; na maior parte do tempo, elas são inconscientes. Aliás, essa inconsciência é fundamental para que elas organizem e legitimem as atividades de muitos indivíduos como sendo as mais corretas e aquelas que se en- caixam perfeitamente no que diz respeito ao comportamento desses indivíduos no quadro geral de expectativas sociais sobre eles. O respeito a essas regras garante a ordem social. Para Apple, existem dois tipos de regras: as constitutivas (ou básicas) e as de preferência. • As regras básicas são como as regras de um jogo; os parâmetros que elas estabelecem dão forma ao jogo, e a ação desse jogo se dá com base no que definem essas regras. • As regras de preferência representam as opções que o jogo ofe- rece. Apple pede para que pensemos no jogo de xadrez, por exemplo. As regras básicas, que dificilmente se manifestam em nossa consciência, nos permitem diferenciar o xadrez do jogo de damas, por 126 Filosofia da Educação exemplo. Nós não pensamos sobre o que os diferencia, apenas nos posicionamos diante do tabuleiro com as peças dispostas e já sabemos de que jogo se trata. Então, temos diversas possibilidades de lances e escolhas (preferências), de acordo com as regras do jogo em questão. Uma vez tendo iniciado o jogo de xadrez, no nosso exemplo, há uma série de possibilidades de movimentos: o peão pode se mover para a frente e as torres, para o lado ou para a frente. Perceba que a todo momento acionamos essas regras em nossa consciência para executar o próximo lance. Figura 2 Jogo de xadrez to to ja ng 19 77 /S hu tte rs to ck A sociabilidade também pode ser definida pela relação entre essas regras. Apple nos lembra que uma das regras básicas é a confiança. Quando dirigimos, confiamos que o carro que vem no sentido contrá- rio não vá quebrar essa regra. Perceba que não ficamos a todo mo- mento checando se isso ocorreu ou não – a confiança está muito bem assentada e internalizada em nós e funciona praticamente sem que tenhamos consciência de que ela está presente. Se fosse diferente, di- ficilmente dirigiríamos, pois a cada carro que viesse em direção oposta, iríamos precisar parar pela falta de confiança. Então, essa é uma regra básica do trânsito (e da sociabilidade) que permite que atentemospara outras questões enquanto dirigimos. Uma regra semelhante, segundo Apple, é a que estabelece os limites legíti- mos do conflito 2 em uma sociedade: “as regras do jogo implicitamente determinam as fronteiras das atividades em que as pessoas se empe- nham ou não, os tipos de questões a serem formuladas, e a admissão ou rejeição das atividades de outros” (APPLE, 1982, p. 132). Para Apple, a ideia de conflito é importante, uma vez que ele está interessado também nos comportamentos que resistem, que expressam desacordo e questionam a ordem. A essência da palavra conflito no contex- to de Apple parece ser a de questionamento. 2 Educação e currículo 127 Observe que Apple está se referindo às regras constitutivas aqui. Estabelecidas, então, as fronteiras de que nos fala a citação, por via das regras constitutivas, temos agora uma série de possibilidades den- tro de seus limites: podemos recorrer às cortes de justiça, mas não as bombardear; podemos discutir, mas não duelar; e assim por diante (aqui Apple está se referindo às regras de preferência). Assim, chegamos ao centro do raciocínio do autor. Ele entende que para o tipo de sociabilidade que construímos, a regra básica quanto ao conflito parece ser a de que ele é inerente e fundamentalmente mau e que devemos nos esforçar para eliminá-lo de dentro das instituições, sendo que na verdade deveríamos entender o conflito e a contradição como forças que movimentam a sociedade. Mas alguém poderia contestar a afirmação de Apple observando que há muitas escolas que incorporam o debate, a contraposição e o confronto de ideias como algo rotineiro e que está presente com fre- quência nas aulas. Apple concorda com isso, mas pontua que mesmo que essas escolas trabalhem o conflito dentro dos parâmetros implici- tamente estabelecidos, há poucas tentativas de estabelecer os parâme- tros próprios. Segundo Apple (1982, p. 132), o currículo oculto nas escolas serve para reforçar as regras que cercam a natureza e os usos do conflito. Estabelece uma rede de suposições que, quando interiorizadas pelos estudantes, deter- minam os limites da legitimidade. Esse processo é realizado não tanto pelos exemplos explícitos que mostram o valor negativo do conflito, mas pela ausência quase total de exemplos que mos- trem a importância do conflito intelectual e normativo em áreas de conhecimento. O fato é que essas suposições são obrigatórias para os estudantes, desde que em nenhum momento as suposi- ções são expressas ou questionadas. Pelo próprio fato de serem tácitas, de se fundamentarem não no topo, mas na base de nossa mente, aumenta a sua potência como aspectos da hegemonia. Para Apple, então, esse tipo de procedimento, que silencia quanto a dis- cussões acerca do valor do conflito, ajuda a potencializar a crença de que o conflito é sempre ruim e que, por isso, precisamos evitá-lo – inclusive deixan- do de falar e discutir a seu respeito. Como isso se faz sem nenhuma expli- citação, acabamos internalizando esse “cuidado” com o conflito como uma regra básica, que, como já vimos, funciona sem que tenhamos consciência dela, o que a torna extremamente eficiente na limitação que estabelece. 128 Filosofia da Educação Mas qual é o motivo para Apple insistir, então, na ideia de conflito? Há algo de produtivo nisso? Bem, se você conhece quem faria essas perguntas após a exposição das ideias de Apple ou se você mesmo já as fez, isso pode significar o quão introjetada em todos nós está a re- gra que estabelece, tacitamente, o conflito como algo essencialmente mau. Embora na maioria das vezes não percebamos isso, quando al- guma regra social tácita é quebrada pela fala ou pelo comportamento de alguém ou, ainda, por algum fato, é comum que as reações a essa violação sejam enfáticas e indignadas. Nesse caso, não é diferente: por que alguém insistiria na importância de algo que sabemos ser prejudi- cial? Há algo produtivo nisso? Para Michael Apple, há! Vamos procurar entender o porquê? Para Apple, a primeira questão que justifica o conflito é a capacidade de mudança que ele impõe à sociedade. Segundo Apple (1982, p. 147), alguns teóricos sociais tomaram a posição de que “a sociedade não é basicamente uma ordem em funcionamento harmonioso como um organismo social, um sistema social ou uma estrutura social estática”. Pelo contrário, são características dominantes a mudança contínua nos elementos e a forma estrutural básica da sociedade. Os conflitos são os produtos sistemáticos da estrutu- ra em mudança de uma sociedade e pela sua própria natureza tendem a levar ao progresso. A “ordem” da sociedade, portanto, passa a ser a regularidade da mudança. A “realidade” da socie- dade é conflito e fluxo, não um sistema funcional fechado. […] Os conflitos devem ser encarados como uma dimensão básica e em geral benéfica da dialética de atividade a que se denomina sociedade. O conflito aparece para Apple, portanto, como um veículo que induz a mudanças. Além disso, tais mudanças é que possibilitariam o pro- gresso dessa sociedade. Aqui é bem provável que Apple esteja pensan- do em progresso em um sentido bem amplo – não apenas progresso material, mas em várias esferas da vida humana. No entanto, na maio- ria das vezes, quando uma ideia como essa ganha alguma visibilidade social maior, ela está sujeita a receber pressões a fim de calá-la, uma vez que não faz parte, como já vimos, dos pressupostos básicos das regras sociais. Educação e currículo 129 Todas as mudanças estão sujeitas a gerar conflitos, pois colocam em jogo o tradicional e o usual. No entanto, elas são extremamente necessárias para o desenvolvimento dos indivíduos e das sociedades. Figura 3 Conflito e mudança m ax sa tta na /S hu tte rs to ck O próprio Apple faz referência a isso quando lembra que na socie- dade americana, nas últimas décadas, o movimento negro ganhou vi- sibilidade e conquistou espaços sociais até então não imaginados, com base nessa ideia de conflito, utilizando a noção de que era preciso se organizar como movimento e lutar politicamente por mais reconheci- mento. Mas mesmo esse progresso foi mantido sob controle. As figuras mais expostas desse movimento foram aquelas que tiveram destaque mais por suas mensagens de harmonia, ao passo que as figuras mais conflitivas, igualmente importantes, foram obscurecidas pela história ensinada na escola, nas mídias e em outros mecanismos capazes de ativar a memória de uma sociedade. Também se poderia apontar para a expansão agora manifesta do material histórico sobre o negro em que figuram aqueles negros que se mantiveram dentro dos limites considerados legítimos (re- gras constitutivas) de protesto ou que progrediram nos campos aceitos da economia, atletismo, educação ou arte. Em geral, não se encontra referência a Malcom X, a Marcus Garvey ou a outros que formularam uma crítica forte aos modos vigentes de controle e atividade econômicos e culturais. (APPLE, 1982, p. 146-147) O filme Malcolm X é um grande exemplo para pensarmos acerca de nossa discussão sobre as regras constitutivas. Por algum tempo, o discurso de Malcolm X contra o racismo de sua sociedade foi bastante radical. Depois de sua conversão ao islamismo, no entanto, essa radicalidade abran- dou. Muito tem sido dito a respeito do tom radical de seu discurso, considerado um fator preponderante para que outros líderes negros norte-americanos se tornassem ícones dos movimentos sociais que eclodiram principalmente a partir dos anos 1960. A figura de Malcolm X, ao contrário, passou por um processo de obscureci- mento histórico. Direção: Spike Lee. EUA: 40 Acres and a Mule Filmwoks, 1992. Filme 130 Filosofia da Educação Outra questão lembrada por Apple se refere ao fato de que como a lei constitutiva relativa ao conflito está sempre nos fazendo associá-lo, inconscientemente, a aspectos negativos, instituições fundamentais como a escola procuram evidenciar o conflito como uma infração de lei ouregra. Porém, dificilmente são apontados os aspectos conflitivos pelos quais muitas leis foram criadas. Dessa forma, “deveria ficar claro que o conflito conduz não apenas à infração da lei, mas é, com efeito, criação da lei” (APPLE, 1982, p. 149). Se atentarmos para as leis ambien- tais, por exemplo, é preciso frisar que elas não foram criadas antes dos conflitos de interesses que existem em torno de territórios e ecossis- temas existentes. Elas foram criadas em função da existência anterior desses conflitos. Além disso, os conflitos são capazes de expandir nossa consciência com relação aos problemas sociais não resolvidos em nossa sociedade, o que pode nos levar também a ações que colaborem para a superação de certas realidades. Apple (1982, p. 149) observa que esse aspecto torna conscientes as regras mais básicas que governam a ativi- dade sobre a qual há conflito, mas que estavam ocultas. Ou seja, desempenha a função singular de possibilitar aos indivíduos que vejam os imperativos ocultos engastados nas situações que atuam para estruturar suas ações, libertando parcialmente os indivíduos para que criem padrões de ações relevantes a um grau que em geral não é possível. Essas propriedades de cria- ção de leis e ampliação de consciência, mantidas pelas situações de conflito apresentam, conjugadas, um efeito muito positivo. Desde que o conflito acarreta inerentemente novas situações que em alto grau são indefinidas pelas suposições anteriores, atua como um estímulo para o estabelecimento de normas de atividades novas e possivelmente mais flexíveis ou circunstan- cialmente pertinentes. Obrigando literalmente a atenção cons- ciente, as questões são definidas e novas dimensões podem ser exploradas e esclarecidas. Apple, portanto, nos apresenta pelo menos três aspectos positivos do conflito como experiência social. Reafirmamos aqui o que foi obser- vado na nota 2 deste capítulo: o sentido que Apple dá a conflito é bem capturado pelo termo questionamento, uma vez que ele está pensando no contexto escolar. É preciso compreender que nem sempre conflitos se referem a situações de violência física – embora, no âmbito mais am- plo das sociedades contemporâneas, tais conflitos também existam e, enquanto conflitos, também podem nos oferecer as características que Educação e currículo 131 Apple aponta. Apenas para tornar mais pedagógico nosso texto, eis as três características apontadas por Apple: Quadro 1 Avaliação de conflito Conflito Características Veredito Avaliado pelo senso comum 1. Dimensão tácita (regras constitutivas) O conflito é mau Avaliado por Michael Apple 1. Mudanças 2. Criação de leis 3. Ampliação da consciência O conflito é produtivo Fonte: Elaborado pelo autor. Devemos perceber aqui a importância do trabalho teórico. A dimen- são tácita permaneceria tácita se ninguém fosse capaz de identificá-la e falar a seu respeito. Parte desse trabalho é o que Michael Apple está fazendo, mas isso se torna ainda mais potente quando educadores passam a incorporar tais reflexões a suas próprias percepções da rea- lidade. É esse tipo de resultado que justifica a importância do trabalho teórico. Na próxima seção, veremos que Apple aponta os professores como coparticipes na manutenção da dimensão tácita que caracteriza o currí- culo oculto. Mas muitas vezes é o exercício teórico – para um educador, esse exercício é a leitura de bons filósofos da educação – que nos tira dessa posição passiva e conivente com determinadas práticas cotidia- nas e nos lança em um caminho mais ativo e capaz de mudar, para melhor, as estruturas educacionais que nos cercam. 5.1.2 Oposição à ideia de conflito Para finalizar a breve apresentação de algumas das ideias mais im- portantes de Michael Apple, acreditamos ser pertinente comentar al- guns dos obstáculos que o nosso autor identifica como impedidores da mudança das regras constitutivas a respeito do conflito. A primeira de- las se refere ao que vimos como currículo oculto. Para Apple, o currícu- lo oculto é uma realidade nas escolas; além disso, o autor faz questão de lembrar que para o pleno funcionamento do currículo oculto, faz-se necessária a colaboração dos professores. Assim, os professores são fundamentais na consolidação dos te- mas e valores presentes no currículo oculto: “o corpo formal do co- 132 Filosofia da Educação nhecimento escolar e o currículo oculto frequentemente corporificam compromissos ideológicos” (APPLE, 2012, p. 37). As categorias que os educadores empregam para pensar, planejar e avaliar a vida escolar costumam ser parciais, mas não porque isso seja deliberado, mas porque o currículo sempre se põe como neutro, sendo que na verdade ele está apoiado nas assimetrias sociais existentes. O resultado é que as escolas acabam não rompendo com os privilégios sociais; são man- tenedoras deles, tomando “a forma e o conteúdo da cultura e do co- nhecimento de grupos poderosos e os definindo como conhecimento legítimo a ser repassado e preservado” (APPLE, 2012, p. 38). Além desse aspecto para a manutenção das regras constitutivas, Apple também se refere ao que ele chama de modernização conserva- dora. Apple vem identificando, desde o fim dos anos 1970, a ação de grupos organizados que têm procurado influenciar demais as discus- sões sobre currículo nos Estados Unidos (mas também em outras par- tes do mundo), influência essa que tem sido bem-sucedida em muitos dos casos. Segundo o autor, o problema é que as intervenções e reivindicações desses grupos buscam paralisar as potenciais chances de uma educa- ção mais próxima de valores entendidos como contemporâneos. Basi- camente, quatro grandes grupos compõem a revolução conservadora: neoliberais, neoconservadores, populistas autoritários e uma parcela da classe média. Cada um desses grupos tende a reivindicar aspectos específicos, que, no conjunto, perfazem quase a totalidade das pres- sões conservadoras sobre a escola. Apple (2003, p. 13) define assim os grupos e alguns dos seus objetivos: o primeiro grupo é o que eu chamo de neoliberais. Estão pro- fundamente comprometidos com mercados e com a liberdade enquanto “opção individual”. O segundo grupo, os neoconser- vadores, tem a visão de um passado edênico e quer um retorno à disciplina e ao saber tradicional. O terceiro é o que eu chamo de populistas autoritários – fundamentalistas religiosos e evan- gélicos conservadores que querem um retorno a (seu) Deus em todas as nossas instituições. E, por fim, os desenhistas de mapas e especialistas em dizer se chegamos ou não ao nosso destino, são membros de uma fração particular da nova classe média de gerentes e profissionais qualificados. A escola, em vários momentos da história, acaba por ser foco cen- tral de uma série de críticas sociais que, na verdade, referem-se a ou- As assimetrias sociais nem sempre são claras, pois funcionam de modo tácito, não só na escola, mas em quase todas as esferas, inclusive a política. Hollanda (2011, p. 15) resume bem essa ideia: “as justificações das elites para o lugar pri- vilegiado que ocupam são indiferentes aos critérios reais de sua formação e sustentação [...], elas não denunciam a riqueza, o nascimento ou o mérito pessoal como definidores da sua condição de elite: estes marcadores sociais operam de modo tácito e escapam ao discurso po- lítico”. Vale também ler os Capítulos 1 e 2 do trabalho Dominação e resistência: desafios para uma política emancipatória. MIGUEL, L. F. São Paulo: Boitempo, 2018. Saiba mais Preconceito linguístico já teve mais de 50 edições no Brasil, pois se tornou leitura obrigatória para os que querem conhecer as relações de poder que per- meiam nossa linguagem cotidiana, noções linguísti- cas e a forma como o ensi- no da língua portuguesa foi por muito tempo realizado. A obra mostra como a ver- são da língua portuguesa considerada padrão recebe esse reconhecimento mais pelo prestígio das classes sociais que a utilizam do que propriamentepor algum critério que a defina como tendo mais correção, riqueza ou precisão. BAGNO, M. São Paulo: Edições Layola, 1999. Livro Educação e currículo 133 tros setores, como o econômico. Mas esses setores transferem essa culpa ao sistema de ensino, não diretamente, mas por meio de pressões sobre o Estado. A forma mais ou menos organizada que es- ses setores e outros, ligados aos grupos citados anteriormente, colo- cam-se como agentes predominantes da pressão sobre o Estado ocorre sobretudo em momentos de crise econômica ou política: “por trás de todas estas acusações está um ataque às normas e aos valores igualitários. [...] em essência a ‘democracia demais’ – cultural e política – é vista como uma das principais causas de ‘nosso’ declínio econômi- co e cultural” (APPLE, 2003, p. 42). A escola, por ser a instituição-chave no ensino e divulgação das questões culturais, acaba sendo penalizada. Para o grupo dos neo- liberais, a educação é entendida como um produto, e como produto precisa ser organizada para esse fim. Como o próprio Apple diz, para os neoliberais o mundo é, em essência, um enorme supermercado, e a educação é vista apenas como mais um produto, como um pão, uma televisão ou um carro. Por essa lógica, o cidadão passa a ser en- tendido apenas como um consumidor. Apple entende que o risco maior com o funcionamento desse tipo de lógica é o risco à democracia, que deixa de ser entendi- da como um conceito político e passa a ser vista como um conceito econômico: “a melhor forma de batizar a mensagem destas políticas é o que poderia ser chamado de ‘particularismo aritméticoʼ, onde o in- divíduo isolado – enquanto consumidor – é destituí- do de classe, de raça e de gênero” (APPLE, 2003, p. 46). Isso significa que as categorias que funcionam como importantes marcadores de identidade dos grupos que participam das reivindicações e dos embates políticos (classe, gênero etc.) não interessam; são descartadas ou ignoradas. Para as escolas, mais especificamente, o particularismo aritmético resulta em, pelo menos, duas ações de mercado: • A primeira se refere a propostas muito utilizadas de aprendiza- do para trabalho e educação profissionalizante. • A segunda diz respeito a planos de financiamento estudantil e a políticas de vouchers. Figura 4 Educação como mercadoria cig de m /S hu tte rs to c A educação vista como mercadoria é um mal à sociedade, pois essa visão exclui a preocupação com a formação do ser humano como sujeito e a educação passa a ser vista apenas como outra forma de lucro. 134 Filosofia da Educação Para Apple, o que está por trás disso é o plano de submeter as esco- las à disciplina da competição de mercado – de modo geral, essas estra- tégias objetivam transferir dinheiro do Estado para a iniciativa privada. É preciso dizer aqui que não se trata de desqualificar a importância das atividades econômicas em nossas sociedades. No entanto, é pre- ciso pensar muito a respeito de tornar a educação sinônimo de regras para competir no mercado. Não se propõe uma educação generalista por acaso; ela é proposta justamente para que possam ser ensinados valores mais plurais do que aqueles que o mercado exige – valores inclusive que permitam que eles mesmos sejam contestados. Voltemos aqui às regras constitutivas. Valores de mercado não reagem bem a críticas severas dos produtos que estão à venda. Você já imaginou se nossa cultura escolar começasse a estimular regras constitutivas mais voltadas à divergência e à crítica? Somente uma cultura mais democrática e mais amplificada, que contenha valores mais plurais, é capaz de conduzir um novo direcionamento das re- gras constitutivas. Apple (2003, 2012) nos oferece diversos exemplos e análises da presença dos quatro grupos citados por ele; seus livros costumam nos apresentar a uma série de relatos e fatos que ajudam a tornar suas conclusões mais fundamentadas empiricamente. Por ora, vamos nos ater ao que foi exposto até aqui. Agora, muito ao estilo do que o próprio Apple aprovaria, precisamos expor algumas críticas ao seu modelo de educação e, para isso, escolhemos alguns autores que já fazem isso há algum tempo no Brasil. 5.2 Currículo e demandas educacionais no Brasil Vídeo Na seção anterior, vimos, por meio de Michael Apple, como as forças que disputam espaço nos currículos escolares são organizadas. Apple aponta para um fenômeno que tem ocorrido há tempos nos Estados Unidos e tem se espalhado para outros países do mundo, que são as forças conservadoras buscando espaço cada vez maior nos currículos. Para um autor como Apple, tais forças precisam ser vistas como uma ameaça às possibilidades de alargamento do potencial libertador da educação, tal como idealizado no início da modernidade. Educação e currículo 135 Não precisamos necessariamente concordar com o autor, mas pre- cisamos nos conscientizar de que seu pensamento é uma contribui- ção original à educação; filósofos, sociólogos e pedagogos de vertente mais progressista têm se debruçado sobre seus livros e dali extraído enormes lições. Sendo assim, é suficiente que entendamos sua obra como incontornável, como é a obra de qualquer pensador que tenha contribuído para o progresso da educação, e que saibamos de sua existência, para que nos sirva quando nossas necessidades teóricas se fizerem presentes. Um autor como Apple, engajado e de orientação progressista, po- deria nos fazer imaginar que tem nos autores conservadores seus maiores adversários, mas não é o que tem acontecido, pelo menos em terras nacionais. O tipo de literatura que mais tem confrontado as te- ses de Apple vem de parte dos teóricos do pós-estruturalismo. Vamos, a partir de agora, entrar em contato com algumas dessas ideias, para que possam, inclusive, contrabalançar este capítulo. Certamente esse é um procedimento que o próprio Apple aprovaria. Uma vez que seu pensamento (ou aspectos importantes de seu pensamento) foi expos- to, nada mais democrático do que apresentarmos algumas das ideias que questionam, respeitosamente, suas ideias. Um dos nomes importantes no pensamento educacional brasileiro das últimas décadas é o de Tomaz Tadeu da Silva. Em alguns de seus trabalhos, encontramos referências e comentários à obra de Apple. Tomaz Tadeu reconhece o valor do pensamento crítico de Apple e lem- bra que o pensador norte-americano desenvolve o conceito de hege- monia, herdado principalmente do italiano Antonio Gramsci, mas que no caso de Apple surge como um conceito mais dinâmico: os grupos dominantes precisam permanentemente de esforços para a manuten- ção ideológica de sua dominação. Por isso é que para Apple é tão importante a discussão do currículo na escola, uma vez que ele é foco central do interesse de tais grupos, que precisam renovar seus valores de dominação com base no que a escola ensina – na seção anterior, vimos a presença de quatro gran- des grupos que buscam fazer isso em momentos de crises políticas e econômicas. Em autores mais tradicionais, a hegemonia é entendida como um resultado direto das condições econômicas; os grupos mais poderosos economicamente garantem a hegemonia cultural. Apple, 136 Filosofia da Educação portanto, procura fugir nessa relação direta. Na escola, esses grupos batalham pela hegemonia. Quando Apple diz que os professores são também responsáveis pela reprodução da ideologia dominante, não podemos esquecer que o autor também pontua que, para toda condição de dominação, há sempre uma resistência, seja ela por parte de alguns professores que não colaboram para a manutenção dos valores dominantes, seja por parte de alunos que criam saídas originais para evitar esses valores ou, ainda, que resistem diretamente ao conhecimento e aos valores impostos. Mas vimos também na seção anterior que a força das regras constituintes torna muitos desses conhecimentos e valores difíceis de identificar e, por isso, de contestar. 5.2.1 Pós-modernismo e pós-estruturalismo Apesar do reconhecimentoda obra de Apple, Tomaz Tadeu da Sil- va tem feito críticas importantes que merecem ser destacadas. Em primeiro lugar, é importante situarmos a obra desse autor. Ela está predominantemente filiada ao que conhecemos por pós-estruturalis- mo. É importante também que se diga que, muitas vezes, o pós-es- truturalismo e o pós-modernismo têm sido confundidos, pois os dois tipos de discurso abarcam certas áreas comuns. De qualquer forma, vamos apresentar características dos dois movimentos, uma vez que as críticas ao tipo de análise como a de Apple têm vindo dos dois cam- pos próximos. O pós-modernismo estabelece um franco diálogo com o que se costumou entender por modernismo. O modernismo pode ser com- preendido por meio de pelo menos dois matizes: • O primeiro deles refere ao movimento artístico do fim do século XIX, que perdura pelo menos até a década de 1940. • O segundo está estruturado em torno da ideia filosófica e histó- rica de modernidade, que se inicia com a Revolução Francesa e se estende até meados do século XX. É possível dizer que, nas duas acepções, o modernismo tem como característica fundamental a crença nos poderes redentores do co- nhecimento, da ciência e da superação dos valores tradicionais por meio do exercício da crítica. É sobre esse cenário, portanto, que o pós- Educação e currículo 137 -modernismo surge. O prefixo pós já nos indica a ideia de superação. O pós-modernismo então se desenvolve por meio da noção de supera- ção e distanciamento dos valores modernos. Se o modernismo tinha como figura central a certeza – do conheci- mento como instrumento redentor, da superação de crenças incapazes de resistir à crítica e do infalível poder da razão como desdobramento incontornável das promessas iluministas –, o pós-modernismo se in- surge justamente como projeto de questionamento às certezas. O pós- -moderno vem então marcado pela ideia de incerteza. Uma das certezas questionadas pelo pós-modernismo se dá em re- lação a conceitos totalizantes. As grandes narrativas que prometem a emancipação do sujeito moderno por meio da razão, do trabalho ou da ciência acabam sendo postas em dúvida. Em Moreira (1997, p. 10), en- contramos um bom resumo das ideias que dirigem o pós-moderno em seu questionamento às crenças modernas: “a) o abandono das grandes narrativas; b) a descrença em uma consciência unitária, centrada; c) a rejeição da ideia de utopia; d) a preocupação com a linguagem e com a subjetividade; e) a visão de que todo discurso está saturado de poder; f) a celebração da diferença”. Além disso, é possível entender o pós-modernismo como uma ma- neira de olhar para o mundo de modo muito menos otimista, se com- parado ao modernismo. Um dos elementos mais fortes na composição desse pessimismo é a constatação de que a ciência e a tecnologia (que se desenvolvem como os grandes trunfos da modernidade) foram pre- ponderantes nas duas guerras mundiais, uma das quais só foi encerra- da em função da detonação de duas bombas atômicas. Muitos pós-modernos entendem, por exemplo, que a pós-moder- nidade é o desvelamento do lado sombrio das “luminosas certezas” da modernidade. Giddens (1991), por exemplo, até evita o termo pós- -moderno, por achar que esse período é apenas o desdobramento das incertezas modernas que não tinham se desenvolvido ainda. Por essa razão, ele prefere o termo modernidade tardia no lugar de pós-moderno. Já o pós-estruturalismo se opõe, como é possível inferir, ao estru- turalismo, que possui uma origem mais específica: os estudos sobre a linguagem. O ponto inicial pode ser identificado como os estudos de Ferdinand de Saussure no campo da linguística estrutural. Ribeiro, Veloso e Zanardi (2016, p. 261) resumem bem o elemento essencial da 138 Filosofia da Educação abordagem estruturalista; ela corresponde “à ênfase em investigações científicas dos fenômenos, no intuito de revelar leis internas de um sis- tema determinado. Nesse sentido, quaisquer fenômenos devem ser analisados a partir de um todo estrutural”. Embora seja um movimento heterogêneo, em que os pensadores vão buscar objetos específicos de análise, é possível dizer que, como no pós-modernismo, a desconfiança a certas ideias totalizantes dirige o movimento. A ideia de um sujeito pleno, autônomo e puramente racio- nal é descartada. Essa ideia, que tanto influenciou autores e filósofos desde o início da modernidade, acaba se esgotando no pós-estrutura- lismo. E é aqui que pós-modernismo e pós-estruturalismo se encon- tram: na crítica à ideia de sujeito moderna e às certezas desse sujeito. Há dívidas enormes para com dois mestres da dúvida: Sigmund Freud e Friedrich Nietzsche, nomes importantes do pensamento do século XIX, mas que foram ter sua influência reconhecida (principal- mente Nietzsche) a partir desses dois movimentos “pós”. Essa crítica ao sujeito aparece nas leituras do indivíduo moderno como um sujeito descentrado e cada vez mais fragmentado. São pensadores fundamen- tais para o pós-estruturalismo Gilles Deleuze, Jacques Derrida e Michel Foucault, tendo em comum a influência do filósofo Friedrich Nietzsche. Temos configurado, ainda que brevemente, o terreno em que serão feitas as principais críticas às ideias de Michael Apple. Como dissemos, a crítica de Tomaz Tadeu da Silva é uma cujas fontes estão no pensamento pós-estruturalista e pós-modernista (quando esse pensamento coincide com os propósitos pós-estruturais). A primeira e principal discordância de Tomaz Tadeu com a pedagogia crítica de uma forma geral, mas que vê em Apple o principal representante, é a noção de sujeito. A ideia de sujeito centrado e autônomo, capaz de identificar cla- ramente suas próprias decisões, parece não fazer mais sentido para teorias contemporâneas. Além disso, ao compreender o sujeito ainda pelos modelos da modernidade, as categorias formadas por esse su- jeito também acabam sendo distorcidas, não mais correspondendo às realidades contemporâneas. Ribeiro, Veloso e Zanardi (2016, p. 267) fazem um comentário im- portante a esse respeito, observando que, em uma de suas críticas, Tomaz Tadeu faz referência a duas premissas fundamentais às teorias críticas: “a ideia de que existe uma sociedade, no singular, e a visão de Veja o conceito de descentramento em A identidade cultural na pós- -modernidade, de Stuart Hall, completamente devedor da interpretação pós-estruturalista de sujeito. HALL, S. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. Saiba mais O filme Clube da Luta já se tornou um clássico do cinema. Sua importância reside na maneira como o personagem principal, interpretado por Edward Norton, sendo incapaz de tolerar sua própria personalidade, comple- tamente passiva com relação aos papéis sociais que lhe foram dados, cria um alter ego, Tyler Durden (Brad Pitt), dono de uma personalidade impulsiva, mas que parece compreender de maneira mais profunda, irônica e violenta as contradições da vida social. Direção: David Fincher. EUA: 20th Century Fox, 1999. Filme Educação e currículo 139 que a teoria crítica formará a consciência crítica dos sujeitos para mo- dificar essa sociedade, no singular”. Ora, se se admite que os sujeitos contemporâneos são altamente fragmentados, é possível supor também que sua capacidade de agre- gação social seja também fragmentada. Nesse sentido, sendo a capaci- dade de agregação dos sujeitos pós-modernos tão instável quanto eles, seria arriscado dizer que a escola representaria a sociedade, uma vez que estaríamos diante de inúmeras potenciais sociedades, mais frag- mentárias e instáveis. Mas a crítica mais contundente se dirige mes- mo à ideia de sujeito. Teorias críticas como as de Apple ainda estariam presas a uma pretensão que deveria ter sido descartada já há algum tempo – a segunda premissa. A persistente consigna que tem estado no centro de todas as vertentes dessa pedagogia pode ser sintetizada na fórmula “for- mar a consciência crítica”. Pode-se variar a fórmula, substituin- do o verbo por“produzir”, “educar”, “desenvolver”; o substantivo por “cidadão”, “pessoa”, “homem”, “sujeito”, “indivíduo” e o ad- jetivo por “consciente”, “reflexivo”, “participante”, “informado”, “integral”, entre tantas outras possibilidades. O pressuposto é, entretanto, sempre o mesmo: que existe algo como um núcleo essencial de subjetividade que pode ser pedagogicamente mani- pulado para fazer surgir o seu avatar crítico na figura do sujeito que vê a si próprio e à sociedade de forma inquestionavelmente transparente, adquirindo, no processo, a capacidade de contri- buir para transformá-la. (SILVA, 2000, p. 13). Aqui se percebe que a crítica de Tomaz Tadeu à pedagogia crítica de Apple é a crítica que todas as teorias que demonstram algum traço de essencialismo têm recebido nas últimas décadas. Ao suporem que seja possível fazer um cálculo do alcance da própria efetividade, tais teorias, ainda elaboradas com base em concepções modernas de sujeito, incor- reriam em erro gravíssimo, uma vez que os sujeitos modernos e suas subjetividades não são mais alcançados por discursos totalizantes. Sendo assim, tais teorias, para um pensador como Tomaz Tadeu, seriam absolutamente ineficazes e ultrapassadas. Ribeiro, Veloso e Zanardi (2016, p. 268) fazem uma observação importante aqui: o teóri- co crítico, grupo do qual Apple é um exemplo, para Tomaz Tadeu, seria uma espécie de “super-herói crítico”, aquele que de modo imponente, surge para transferir aos pobres mortais, a dita “consciência crítica” que transformará a sociedade, no singular. 140 Filosofia da Educação Ao que parece há nessa ideia um elemento de imposição e au- toritarismo, na medida em que esse sujeito seria o dono de uma verdade redentora e que, portanto, deveria ser transmi- tida aos outros. Outra crítica tem sido recorrente acerca dos autores marxistas e neomarxistas (a teoria crítica de Apple pode ser classificada como neo- marxista); além de ineficazes, uma vez que elas não mais se conectam às identidades contemporâneas (pós-modernas), anunciam-se sempre com uma postura autoritária, imaginando que podem ser modelos teó- ricos para as lutas sociais contemporâneas. Por fim, devemos pontuar um último aspecto, que é o da defesa das pedagogias críticas. Na verdade, o tipo de crítica feita por Tomaz Tadeu não é exclusiva às teses de Apple. Desde pelo menos o fim dos anos 1960, esse tipo de crítica tem se desenvolvido. Os teóricos críticos, embora admitindo a necessidade de atualização com relação às noções de sujeito, não entendem a crítica da mesma forma. Para eles, os mo- vimentos pós-modernos, ao se colocarem dessa forma, podem estar fazendo o papel de movimentos conservadores. É preciso, portanto, compreender melhor no pós-modernismo o que ele traz de novidade e atualização sobre a compreensão dos su- jeitos pós-modernos. E esse movimento oferece ideias realmente ino- vadoras. Mas é também necessário entender que a utopia de produzir sociedades futuras e melhores não pode deixar de existir. As teorias críticas dificilmente abandonariam os ideais utópicos. Ribeiro, Veloso e Zanardi (2016, p. 273) vão nessa direção também; para eles, a teoria crítica ainda tem muito a oferecer, mas pode se beneficiar de algumas críticas lançadas pelo pós-estruturalismo: “necessitamos de teorias que articulem a diferença, o particular, mas também precisamos com- preender como as relações nas quais as diferenças são constituídas operam, como parte de um conjunto mais amplo de práticas sociais, políticas e culturais”. Chegamos ao fim das principais críticas endereçadas à pedagogia crítica de Michael Apple, que na verdade são muito contundentes aos modos de pensar que tomam como base a noção moderna de sujeito. De qualquer modo, a pedagogia crítica tem sido, por décadas, exemplo de uma das formas mais aguerridas do pensamento pedagógico preo- cupado com as desigualdades sociais. Terry Eagleton é um dos autores fundamentais para o tipo de discussão que se estabeleceu neste capítulo, especialmente por meio da leitura do livro Depois da teoria: um olhar sobre os estudos culturais e o pós-moder- nismo. Seu estilo didático e profundo nos faz com- preender muitos aspectos que envolvem as disputas entre as teorias modernas e pós-modernas. EAGLETON, T. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015. Livro Educação e currículo 141 Não se pode imaginar que teóricos como Michael Apple ou Henry Giroux (outro teórico crítico que merece ser estudado) não tenham ao longo de suas carreiras acadêmicas refletido acerca das críticas ende- reçadas a eles. A obra desses pensadores, se lida cronologicamente, vai evidenciar o desenvolvimento de suas ideias já com assimiliação e a resposta às críticas. É importante que você, como estudante, busque essas referências, estude-as e futuramente possa também fazer suas escolhas teóricas. 5.3 Reflexão filosófica e o papel do educador na contemporaneidade Vídeo Nas seções anteriores, vimos o embate ideológico que se realiza em busca de protagonismo nos conteúdos curriculares de uma sociedade. A luta se dá entre os vários grupos que defendem que seus valores e conhecimentos sejam bem representados. Nem sempre esse embate ocorre de maneira explícita. O próprio conceito de Michael Apple de currículo oculto foi desenvolvido para apontar a forte presença tácita de inúmeros saberes relacionados a grupos dominantes nas socieda- des de uma forma geral. Vimos também que nenhuma teoria é capaz de se colocar de maneira hegemônica nas discussões sobre currículo. Embora a obra de Apple seja muito respeitada, há outras vertentes teóricas que dela discordam em muitos aspectos, e é isso que gostaría- mos de considerar nestas últimas páginas do capítulo; queremos refletir um pouco a respeito dos embates entre correntes teóricas que às vezes parecem impossibilitadas de chegar a um consenso. A falta de consenso não é algo incomum nas discussões teóricas. Nossa reflexão pressupõe uma visão filosófica sobre os vários aspectos aqui discutidos; assim, va- mos lançar também algum juízo sobre as próprias teorias discutidas. O trabalho fundamental do filósofo da educação é se informar sobre as teorias que embasam a prática cotidiana dos educadores e, se possí- vel, emitir juízos sobre elas, ainda que esses juízos nem sempre sejam feitos para condená-las ou referendá-las. A realidade pode ser abordada de inúmeras formas. O que as teorias procuram fazer é criar formas de compreender a realidade, explicá-la e propor soluções quando forem necessárias. Assim como há inúmeras teorias, há, por consequência, inúmeras formas de compreender a realidade. 142 Filosofia da Educação Por sua vez, o filósofo, como alguém um pouco mais experiente nesse jogo de variantes da realidade e seus problemas, procura as- pectos dessas teorias que precisam ser destacados a fim de, imagina- -se, orientar aquelas pessoas que se relacionam com a educação de alguma forma. No capítulo em questão, é importante observar como as teorias pós-modernistas e pós-estruturalistas têm ganhado espaço e como as mais tradicionais e que remontam a algum pensamento utópico, como é o caso da obra de Michael Apple, parecem perder sua capacidade de influência. Karl Mannheim (1893-1947), famoso pensador húngaro, em seu tex- to mais importante, Utopia e Ideologia, faz uma consideração que nos ajuda a compreender a mudança no eixo das influências teóricas como a apresentada no fim do parágrafo anterior. Mannheim (1987) faz uma distinção importante entre ideologia e utopia. Pare ele, ambas produ- zem formas de ver e pensar o mundo que não correspondem à reali- dade, mas a ideologia é produzida pelos grupos mais influentes de uma sociedade para tornar turva a compreensão da realidade. É importante observar que geralmente esse sombreamento da reali- dade não é um exercício consciente, o que de certa forma turva a com- preensão da realidade para todos os grupos, inclusive para aquele que é a suposta fonte da ideologia vigente.Ainda que esse processo seja in- consciente, ele é vantajoso para tais grupos dominantes, uma vez que a realidade passa a ser vista e compreendida por meio de sua ideologia, o que garante a manutenção da ordem social que privilegia esses grupos. A ideologia vista desse modo é, portanto, a força inconsciente que tra- balha para evitar mudanças sociais vantajosas para os demais grupos. A utopia, por sua vez, também é uma forma de ver e pensar o mun- do que não corresponde à realidade. Mas, diferentemente da ideologia, essa visão incorpora elementos que propõem a mudança da realidade. O seu fim último, é possível dizer, é a transformação e a superação das injustiças e das desigualdades que caracterizam a ordem vigente. Em geral, as ideologias dominam o presente, afinal elas são instrumentos para a manutenção da ordem atual, e as utopias têm como horizonte o futuro: o rompimento e a transformação das injustiças está sempre por se realizar. Mannheim (1987, p. 169, grifo do original) descreve assim a relação entre esses dois modos de ver o mundo: no curso da história, o homem ocupou-se com mais frequência dos objetos que transcendiam o alcance de sua existência que dos Educação e currículo 143 objetos que eram imanentes a esta, e apesar disto, as formas reais e concretas da vida real se edificaram sobre a base de estados de espírito “ideológicos”, incongruentes com a realidade. Semelhante orientação incongruente se tornou utópica, quando tendeu, por acréscimo, a destruir a ordem vigente. Portanto, os representan- tes de certa ordem não assumiram em todos os casos uma ati- tude hostil para com as orientações que transcendiam a ordem existente. Mas se esforçaram bastante em controlar as ideias e os interesses transcendentais dentro de uma situação dada, interes- ses e ideias que não tinham possibilidade de realização dentro da ordem prevalecente, e em reduzi-los à impotência, de tal modo que se concretizaram num mundo para além da história e da so- ciedade, de onde não podiam afetar o status quo. Mannheim, como se vê, chama a atenção para o “problema” das uto- pias: sempre vigiadas, o futuro para o qual elas apontam precisa ser bem indeterminado; essa é a única forma de se tornarem aceitáveis. É preciso chamar a atenção para isso porque o pensamento de Michael Apple, por estar calcado em projetos teóricos entendidos como utópi- cos, parece sofrer um pouco desse efeito. Propostas teóricas que re- montam a ideias mais comunitárias, unificadoras e igualitárias parecem encontrar dificuldades em sociedades caracterizadas como pós-moder- nas. Afinal, tais sociedades se tornam cada vez mais segmentadas. No século XX, por exemplo, foi possível pensar que as grandes con- tradições e injustiças poderiam ser resolvidas com base na noção de classes, em que trabalhadores precisavam lutar, organizados, contra os interesses de conglomerados econômicos. Mas já no fim do século XX, a fragmentação de gostos, de objetivos e de estilos de vida parece ter trazido dificuldades para esse tipo de discurso, que conseguia imaginar uma classe homogênea e com objetivos comuns. Essa fragmentação tem sido a força dos discursos pós-modernos, que apontam para a dificuldade de encontrar elementos que possam agregar pessoas e sociedades em objetivos comuns. É possível, por- tanto, que a ascensão, e até a hegemonia, das teorias pós-modernas esteja também muito relacionada às mudanças nos padrões culturais e econômicos de nossos tempos. Como nos tornamos uma sociedade de consumidores, a volatilida- de e a tendência à mudança contínua dos produtos, como é comum na economia de mercado, parece emprestar sua forma a nossa ma- 144 Filosofia da Educação neira de viver. Assim, até os relacionamentos, segundo Bauman (2001, p. 171, grifo do original), estão sujeitos a se tornar produtos: a presente versão “liquefeita”, “fluida”, dispersa, espalhada e des- regulada da modernidade pode não implicar o divórcio e ruptura final da comunicação, mas anuncia o advento do capitalismo leve e flutuante, marcado pelo desengajamento e enfraquecimento dos laços que prendem o capital ao trabalho. Pode-se dizer que esse movimento ecoa a passagem do casamento para o “viver junto”, com todas as atitudes disso decorrentes e consequências estratégicas, incluindo a suposição da transitoriedade da coa- bitação e da possibilidade de que a associação seja rompida a qualquer momento e por qualquer razão, uma vez desaparecida a necessidade ou o desejo. Podemos, inclusive, ir mais longe. Não somente os relacionamentos parecem estar sujeitos a determinações do mercado; a própria corpo- ralidade é fonte de tais determinações. Safatle (2015, p. 217), pensando também na tendência à mudança contínua de produtos a que o sujeito (consumidor) pós-moderno está exposto, vê no corpo de cada sujeito os resultados desse apelo incessante à mudança: a segunda modalidade de representação diz respeito ao corpo como interface e superfície de reconfiguração que coloca o su- jeito diante da instabilidade de personalidades múltiplas e da des-identidade subjetiva. É o caso das campanhas da PlayStation, nas quais o corpo deixa de ser concebido com um limite entre o sujeito e o mundo para ser uma interface de conexão. A questão da autoidentidade, tão ligada à noção de integridade do corpo, modifica-se necessariamente. Desse modo, nosso comportamento parece, em alguma medida, repli- car a segmentação do mercado e a grande oferta de produtos. As teorias que procuram evidenciar as dificuldades que as sociedades contemporâ- neas possuem de organização em torno de objetivos comuns e da pró- pria fragmentação do sujeito têm mostrado uma aceitação melhor, que se dá, claro, pelos importantes aspectos que tais teorias discutem. Aqui, lançamos um questionamento: outro motivo para sua boa aceitação não estaria ligado ao que Karl Mannheim aponta como ideologia? Para autores como Eagleton (1997), por exemplo, muitos aspectos das teorias modernas, tão criticadas pelos pós-modernos, continuam existin- do, e nós continuamos precisando de teorias totalizantes, que não se mi- rem apenas na fragmentação do sujeito moderno. Não foram os antigos Educação e currículo 145 problemas, portanto, que desapareceram; foi o nosso discurso que mu- dou. Nossas teorias mudaram. O pensamento de Michael Apple é uma tentativa de apreender a realidade ainda com base em categorias mais totalizantes, por exemplo, as lutas de classes, que têm como sustentáculo teórico o marxismo, que por sua vez aponta para a utopia. O que vemos é que nosso tempo desacreditou das utopias. No en- tanto, esse desacreditar foi muito conveniente para as mesmas injustas estruturas políticas e econômicas que ainda habitam nossas socieda- des, e é daí que vem o nosso questionamento. Talvez a própria mu- dança no interesse teórico (teorias pós-modernas no lugar de teorias modernas) seja um modo de as sociedades manterem uma certa vigi- lância sobre as utopias, como nos alertou Karl Mannheim. Se isso estiver correto, significa que teorias como as de Michael Apple, ainda que não tão prestigiadas como foram outrora, continuam sendo importantes, talvez até fundamentais, pois esse declínio no inte- resse que elas despertam não se deve à incompetência de suas análi- ses, mas à nossa opção por teorias que não proponham a mudança da ordem ou o desafio ao status quo por meio da educação. Por fim, observamos que há contemporaneamente autores que de maneira muito convincente têm questionado a ideia de sujeitos e so- ciedades fragmentadas. Um exemplo muito interessante é o excelente trabalho de Castells (2015), no qual o autor, que é um dos maiores es- pecialistas na relação entre sociedade e meios de comunicação, admite uma certa fragmentação dos sujeitos pós-modernos que compõem o público das propostas de entretenimento midiático atual, mas observa que há também elementos que possuem caráter de agregação comple- to, não fragmentado. Para Castells, há uma relação entre o globale o local e entre o total e o fragmentário, sem excluir qualquer uma dessas categorias. Castells (2015, p. 171, grifos do original) nos mostra como isso ocorre com base em quatro conceitos: A globalização cultural se refere à emergência de um conjunto de valores e crenças específicos que são, em grande medida, com- partilhados por todo o planeta. A identificação cultural se refere à existência de conjuntos especí- ficos de valores e crenças nos quais grupos humanos específicos se reconhecem. A identificação cultural é em grande parte resul- tado da geografia e da história da organização humana, mas ela pode também ser formada com base em projetos específicos de construção de identidade. Falamos muito em utopias, mas, como vimos, nosso tempo desconfia muito delas. Assim, talvez seja possível dizer que uma leitura mais em consonância com a atua- lidade seja a de distopias. Enquanto as utopias apontam para sociedades futuras melhores que as atuais, as distopias apontam para sociedades futuras piores do que as atuais. Fahrenheit 451 é uma das distopias mais famosas já escritas. O livro fala de uma sociedade futura em que os livros são proibidos e todo o pensamento crítico foi banido. BRADBURY, R. São Paulo: Globo, 2007. Livro 146 Filosofia da Educação O individualismo é o conjunto de valores e crenças que dá priori- dade à satisfação das necessidades, desejos e projetos de cada sujeito individual na orientação de seu comportamento. O comunalismo é o conjunto de valores e crenças que coloca o bem coletivo de uma comunidade acima da satisfação individual de seus membros. Nesse contexto, a comunidade é definida como o sistema social organizado em torno do compartilhamento de um subconjunto específico de atributos culturais e/ou materiais. O texto de Castells nos mostra como a identificação cultural e o in- dividualismo estão de acordo com a ideia de fragmentação e individua- lização cada vez maior da cultura e dos sujeitos contemporâneos. Mas a globalização cultural e o comunalismo nos mostram que valores e crenças se sobrepõem a qualquer fragmentação e conseguem reunir/ evidenciar que as pessoas e as sociedades ainda são capazes de se identificar com certos valores comuns. Isso apenas reforça a nossa defesa de que teorias que trabalham com categorias totalizantes, como a obra de Michael Apple, não podem ser descartadas como obsoletas, uma vez que elas ainda discutem de manei- ra correta temas muito caros à educação. Acreditamos que o educador precisa compreender a complexidade das tentativas teóricas de apreen- são da realidade. Cada uma dessas tentativas nos ajuda a entender a ri- queza e as potencialidades de novas compreensões do valor da educação e de todos os seres humanos envolvidos por cada uma delas. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo deste capítulo, tivemos a oportunidade de entrar em conta- to com ideias pedagógicas muito influentes na educação brasileira. Se a pedagogia crítica não é hoje a corrente mais influente, ela conquistou em certo passado recente essa posição. Mas não devemos imaginar que ela esteja esquecida, até porque os eventos políticos, econômicos e culturais da última década parecem apontar para o ressurgimento de pedagogias com propostas mais totalizantes e que se mantenham críticas. O sistema escolar brasileiro, com todas as suas peculiaridades, desi- gualdades, contradições e complexidades, exige um aporte teórico imen- so que nos ajude a compreender essa realidade multifacetada. Por essa razão, procuramos apresentar as ideias seminais de Michael Apple e ou- tras que buscam questioná-lo. Esperamos que essa discussão entre teo- Educação e currículo 147 rias possa resultar em um pequeno painel no qual você possa visualizar possibilidades de aplicação. ATIVIDADES 1. O que é reprodução contestada? 2. O que diferencia a análise de Michael Apple de análises funcionalistas? 3. O que Michael Apple nos fala acerca da ideia da neutralidade dos conteúdos do currículo escolar? 4. Para Apple, quais são os aspectos positivos em torno da ideia de conflito? 5. Cite uma crítica do pensamento pós-moderno e pós-estruturalista às posições de Michael Apple. REFERÊNCIAS APPLE, M. W. A educação pode mudar a sociedade? Petrópolis: Vozes, 2018. APPLE, M. W. Educando à direita: mercados, padrões, Deus e desigualdade. São Paulo: Cortez; Instituto Paulo Freire, 2003. APPLE, M. W. Education and Power. NEW York: Routledge, 2012. APPLE, M. W. Ideologia e currículo. São Paulo: Brasiliense, 1982. BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. CASTELLS, M. O poder da comunicação. São Paulo/Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015. EAGLETON, T. Las ilusiones del posmodernismo. Buenos Aires: Editorial PAIDÓS, 1997. GIDDENS, A. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991. HOLLANDA, C. B. Teoria das elites. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. MANNHEIM, K. Ideología y utopía. Introduccíon a la sociologia del conocimiento. Cidade do México: Fondo de Cultura Economica, 1987. MOREIRA, A. F. B. (org.). Currículo: questões atuais. Campinas: Papirus, 1997. NOGUEIRA, M. O. O currículo no centro da luta: contribuições de Michael Apple para a compreensão da realidade escolar. Revista Espaço do Currículo, João Pessoa, v. 12, n. 1, p. 119-130, jan./abr. 2019. RIBEIRO, M. P.; VELOSO, S. G. A.; ZANARDI, T. A. C. Fim da teoria crítica? Crítica aos extremos pós-modernos e pós-estruturais da teoria curricular. Currículo sem Fronteiras, v. 16, n. 2, p. 255-282, maio/ago., 2016. SAFATLE, V. O Circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. São Paulo: Cosac Naify, 2015. SILVA, T. T. Monstros, ciborgues e clones: os fantasmas da pedagogia crítica. In: SILVA, T. T. Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. Vídeo 148 Filosofia da Educação RESOLUÇÃO DAS ATIVIDADES 1 Filosofia, Educação e Ciência 1. Como podemos responder à seguinte pergunta: o que é filosofia? Isso depende da filosofia em questão, mas podemos dizer que é possível construir uma resposta com certa objetividade, desde que saibamos que ela é assim objetiva para satisfazer nossos fins didáticos. Desse modo, podemos definir a filosofia como sendo uma atividade intelectual, a qual visa colocar sob investigação nossas crenças, de modo a validá-las ou não, por meio de métodos racionais propostos pelos filósofos. 2. O que é filosofia da educação? Qual é a sua importância nas escolas? O sistema escolar funciona sobre uma base teórica, a qual orienta os professores em todas as disciplinas. Além da matéria específica de cada um deles, há sempre um ou alguns métodos adotados pelos docentes para ajudar a fluência do aprendizado, como a comunicação entre professores e alunos, a compreensão mais fácil dos conteúdos, as questões disciplinares etc. Nesse sentido, a filosofia da educação nas escolas serve de base para repensar as metodologias que estão sendo aplicadas, quais são boas e quais devem ser substituídas. 3. Por que a areté da cultura primitiva grega não encontrou a mesma aceitação nos tempos de Sócrates e Platão? Porque as cidades gregas tornaram-se mais abertas ao comércio e à influência de outros povos. Foi naquele mesmo momento histórico que Atenas desenvolveu a sua democracia, que, aliás, tornou-se referência para a história política do ocidente. Sendo assim, a areté aristocrática e guerreira da primeira cultura grega não correspondia mais ao perfil cosmopolita e de maior tolerância que tinha a democracia ateniense. 4. Como Nietzsche entendeu a presença da metafísica na história da civilização ocidental? Nietzsche entendeu que o platonismo foi incorporado pelo nascente cristianismo. A distinção platônica entre a realidade sensível – corruptível, material, instável – e a inteligível – perfeita, imutável e verdadeira –, com a clara preferência pela segunda, foi o elemento de agregação entre a visão de mundo religiosa cristã e a filosofia de Platão.Com isso, criou-se uma metafísica potencializada, que Resolução das atividades 149 condenava tudo que fosse ligado ao corpo, à matéria e à realidade aparente. Nietzsche condenou essa visão metafísica e procurou valorizar tudo o que ela desvalorizou ao longo de sua história. 5. Por que é possível dizer que percebemos a realidade de uma maneira muito parecida que as outras pessoas pertencentes à mesma sociedade? Porque, se pensarmos que uma parte considerável de nossas percepções é formada socialmente, devemos levar em consideração que, desde o nascimento, herdamos uma linguagem comum, social, que nos faz pensar e perceber o mundo sob uma única perspectiva. Esse aspecto reforça o que Berger e Luckmann (1991) chamam de atitude natural. 2 Educação e dispositivos de poder 1. Por que Esparta é um modelo inspirador para Rousseau? Comente. Porque essa cidade conseguiu, segundo Rousseau, consolidar uma sociedade com poucas desigualdades, hábitos de vida muito simples e sem apreço ao luxo. 2. Que características permitem dizer que a percepção a respeito da infância na Idade Média e início da Era Moderna era muito diferente da percepção contemporânea? Discorra. Na Idade Média, a criança após seus 6 ou 7 anos de idade era percebida como um pequeno adulto. Contemporaneamente, a percepção é de que a infância ocupa uma fase especial da vida, que exige cuidados específicos, como educação e projetos pedagógicos específicos para crianças. 3. O que é o estado de natureza? Defina. É uma abstração proposta por alguns filósofos modernos, como Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau, com o intuito de usar a imaginação filosófica para responder a questões sobre a natureza humana, principalmente à questão de se o ser humano em seu estado mais primitivo é essencialmente bom ou ruim. 4. Como o estado de natureza está vinculado ao pensamento pedagógico para Rousseau? Rousseau estabelece um paralelo entre o ser humano em estado de natureza, ainda bom, ingênuo e não influenciado pelas facilidades modernas, com a criança a ser educada. Por isso, a educação que 150 Filosofia da Educação Rousseau propõe, já na primeira infância, é orientar a criança a disciplinar progressivamente os desejos para que, quando chegar à idade adulta, não seja seduzida pelos apelos do luxo e do conforto das sociedades de seu tempo. 5. Por que Foucault não aceitaria a sugestão de Rousseau acerca da importância da utilidade como garantia de sociedades mais justas? Principalmente porque, nas sociedades modernas, o princípio da utilidade é usado para sujeitar silenciosamente os homens em relação aos interesses econômicos e políticos. 3 Educação e democracia 1. Discorra sobre como o empirismo do pensamento de John Dewey pode ser compreendido como uma contribuição à democracia. O empirismo no método educacional leva ao aproveitamento mais intenso da prática escolar e da exploração de objetos e processos em sala. Esse enriquecimento da prática leva à necessidade do desdobramento dos fatos históricos e ao aprofundamento da história das práticas que envolvem nosso cotidiano. Dewey acreditava que assim os trabalhadores, os cidadãos, mediante esse contato mais intenso com a história, estariam também mais aptos a opinar na democracia. 2. Como o empirismo na obra de Dewey está relacionado à visão pedagógica? Para Dewey, a escola tradicional é pouco dinâmica e não explora as possibilidades do enriquecimento educacional que experiências práticas podem oferecer. Por isso, ele recomenda que os conhecimentos que têm apenas um caráter utilitário na escola passem a explorar empiricamente o que está sendo ensinado e coloquem os alunos em contato direto com os elementos materiais que compõem o conhecimento. 3. Como o avanço da racionalidade sistêmica, tal como definido por Habermas, ameaça a educação? A única racionalidade do sistema é instrumental; os seus objetivos e valores são regidos pela ideia de acumulação. Desse modo, ela acaba transformando a educação apenas em uma mercadoria. A falta de solidariedade é uma das características mais comuns quando a racionalidade sistêmica se apossa da educação. Resolução das atividades 151 4. Qual a discordância maior de Luis Felipe Miguel com a teoria de Habermas? Luis Felipe Miguel acredita que Habermas idealiza a democracia e que sua ideia de razão comunicativa talvez não tenha eficácia se considerada a política em sua forma mais pragmática, que impede a percepção das assimetrias de poder existentes na democracia real. 5. O que é reificação? A reificação, no sentido que Habermas e outros nomes importantes do pensamento social dão ao fenômeno, é retirar das relações humanas a afetividade, os valores solidários e os interesses mútuos, restando apenas objetivos imediatos e de caráter exploratório. 4 Educação e descentramento 1. Sobre a seguinte observação: “o professor precisa entender, portanto, que parte da inquietude em sala é reflexo do nosso tempo, não sendo culpa de aulas, às vezes, carinhosa e exaustivamente elaboradas”. Que atitude(s) o professor pode ter em sala de aula com relação à inquietude? Especifique. O professor precisa, em primeiro lugar, estar informado e conectado a seus alunos. Ele necessita extrair as razões dessa inquietude, analisá-las e buscar trazê-las para as atividades como debates, produções de texto, atividades culturais – o teatro, por exemplo. 2. Como a escola pode se tornar tão ou mais atrativa do que as mídias digitais? Discorra. Claro que para essa questão não há resposta fácil. Mas uma possibilidade é trabalhar com características das mídias, por exemplo, desafiar os alunos para elaborar mensagens sintéticas, como no Twitter, e explorar a capacidade de estabelecer relações, por meio da linguagem e escrita, de amizade, como se faz no Facebook. Se a escola tiver recursos audiovisuais, é possível explorar a produção de vídeos nos moldes do Instagram etc. 3. Apresente três características que diferenciem a pedagogia tradicional da pedagogia nova. Especifique-as. A pedagogia tradicional focava a figura do professor, já a nova centra-se no aluno; na tradicional, o aluno tinha papel passivo, já a pedagogia nova exige do aluno mais participação; por fim, enquanto a tradicional era mais focada na memorização de conteúdos, a nova busca a aplicação prática dos conteúdos. 152 Filosofia da Educação 4. Quando Dermeval Saviani traz os cinco passos na relação aluno-professor em sala de aula, ele diferencia o nível sincrético do sintético. Exemplifique essa diferenciação. O nível sincrético é aquele em que os alunos se encontram no processo inicial de aprendizagem; eles trazem consigo uma série de informações, mas ainda sem muita organização e compreensão do sentido delas no mundo do conhecimento. Já o nível sintético determina o ponto final no processo de aprendizagem, quando o aluno já é capaz de organizar e dar sentido a todo o conhecimento aprendido na escola, unido àquele que ele já tinha de sua vivência anterior e ao longo de todo o seu período de escolaridade. 5. Por que o desenvolvimento das mídias é visto por John Thompson como algo muito positivo? Explique. Thompson entende que o desenvolvimento das mídias tornou os indivíduos mais informados e capacitados para exercerem seus papéis sociais, além de expandir nosso conhecimento de mundo, de outros lugares e da nossa imaginação – inclusive, até nossa capacidade de autoconhecimento tornou-se maior. 5 Educação e currículo 1. O que é reprodução contestada? Michael Apple observa que os grupos dominantes em uma sociedade buscam impor seus conhecimentos e valores ensinados em sala de aula por meio do currículo. Embora isso ocorra, sempre há grupos, de professores ou alunos, que resistem a essa imposição. A essa resistência dá-se o nome de reprodução contestada. 2. O que diferencia a análise de Michael Apple de análises funcionalistas? Michael Apple procura atentar não somente para os elementos da educação que reforçama ordem estabelecida, mas também para os códigos, as contestações e as ações desviantes na escola, o que, segundo ele, pode resultar em uma visão mais realista da dinâmica escolar. 3. O que Michael Apple nos fala acerca da ideia da neutralidade dos conteúdos do currículo escolar? O autor discorda frontalmente dessa ideia. Segundo ele, na tradição pedagógica de seu país, essa ideia sempre prevaleceu, mas ela é falaciosa. De acordo com Apple, a questão serve apenas para neutralizar as potenciais revoltas e críticas ao status quo; nenhum conteúdo é neutro e desinteressado. Resolução das atividades 153 4. Para Apple, quais são os aspectos positivos em torno da ideia de conflito? O conflito, entendido como questionamento, é responsável direto por mudanças sociais, pela criação de leis e pela ampliação da consciência. 5. Cite uma crítica do pensamento pós-moderno e pós- estruturalista às posições de Michael Apple. O pós-modernismo e o pós-estruturalismo são movimentos que possuem como marca central a desconfiança sobre ideias totalizantes. Segundo os pós-estruturalistas, o pensamento de Michael Apple preserva ainda categorias totalizantes, como a ideia de sujeitos centrados e autônomos (visão típica da modernidade, e não da pós-modernidade). ISBN 978-65-5821-058-0 9 7 8 6 5 5 8 2 1 0 5 8 0 Código Logístico I000214 Sandro Teixeira Sandro Teixeira Filosofia da Educação Página em branco Página em branco