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UFSB • Psicologia na Infância Alice Abdias Novais - 3° quadrimestre INFÂNCIAOU INFÂNCIAS? Segundo Ariès, a infância é historicamente construída, longos processos atribuem um estatuto social que criou as bases ideológicas, normativas e referenciais do seu lugar na sociedade. XII → Não há diferenciação entre crianças e adultos na arte medieval. Crianças eram representadas numa escala mais reduzida que os adultos. - Nesse período assim que a criança adquirisse qualquer grau de independência, já passava a pertencer ao mundo dos adultos; não apresentava diferenças entre os adultos quanto à vestimenta, participação na vida social e lazer. XVI → Surge o hábito de retratar as crianças que morriam. A mortalidade infantil era elevada na fase precoce da vida, logo, não havia sentimentos de apego aos bebês. “As pessoas não se podiam apegar muito a algo que era considerado uma perda eventual” XVII → Crianças começam a ser retratadas sozinhas, se representando em atividades cotidianas ou em família. - Trajes próprios para crianças são adotados, majoritariamente, pelas classes mais abastadas, demonstrando separação da criança no mundo dos adultos. Idade Média→Renascença - Surge a “paparicação”, a criança começa a ser vista como um ser ingênuo, gracioso, distração para os adultos, comparada a um animal de estimação. Junto a isso, nasce o pensamento de ser necessário moldar as crianças, através da disciplina para que se tornasse um adulto honrado. Mary del Priore (2013) retrata diversas infâncias em diferentes momentos da história do Brasil, as concepções de criança variam de acordo com a sua etnia e a sua condição de classe. Brasil Colônia → Adotou o entendimento de infância proposto por Airès, entretanto a concepção era reservada apenas para a criança branca da elite. - As crianças permaneciam sob os cuidados da mãe e amas até os 7 anos de vida. Meninos: iam para as escolas, terminavam os estudos com um diploma de doutor, geralmente de advogado. Outra opção era seguir a carreira militar. Meninas: instrução voltada a transformá-las em donas de casa, incentivando a maternidade. - Já as crianças escravas recebiam outro tratamento. Até os 6 anos podem usufruir de alguma liberdade na casa grande, tendo certa “igualdade familiar”. A partir dos 7 anos, ou até antes, começam a desempenhar atividades leves. Aos 14, já se realizavam as mesmas atividades dos escravos adultos. - Crianças brancas absorviam tendências sádicas por estarem imersas naquele plano onde era normal a violência contra as crianças escravas, reproduzindo o tratamento cruel de seus pais. Não era raro o suicídio de crianças negras. - Crianças indígenas eram vistas com ambiguidade pelos padres jesuítas, ao mesmo tempo que eram filhos de “selvagens” que “viviam no pecado”, elas deviam ser educadas e civilizadas para se tornarem aptas ao trabalho. - Crianças brancas “enjeitadas” (pobres) eram abandonadas, a taxa de mortalidade dessas crianças era muito elevada. Roda de Expostos → local onde pessoas “depositavam” os “enjeitados” para serem “cuidados” pelas Santas Casas de Misericórdia. Ainda assim, a mortalidade era alta. - As crianças do sexo masculino que conseguiam sobreviver, em torno dos 7-12 anos, eram encaminhadas para o trabalho. As do sexo feminino eram encaminhadas para instiruições próprias para órfãs, onde aprendiam prendas domésticas. - As do sexo feminino eram encaminhadas UFSB • Psicologia na Infância Alice Abdias Novais - 3° quadrimestre para instituições próprias para órfãs, onde aprendiam a ser domésticas. Segundo Passetti, com a proclamação da república, surge a preocupação com a criança abandonada ou vinda de “famílias desestruturadas”, logo, surge a ideia de que era preciso educar e “moldar” aquela criança para que não se tornasse um delinquente. Para isso foram criadas políticas públicas sociais designadas para essas crianças. - As políticas de internação eram regidas pelo medo, impessoalidade e rotinas rígidas. Era de se esperar que as crianças se submetessem a esse regime, sendo disciplinadas com sucesso. Entretanto, predominava a corrupção e a ilegalidade. ↝ Na concepção moderna de infância, persiste a ideia de que as crianças são consideradas seres diferenciados, incapacitados, incompletos, que necessitam ser instruídos e socializados pelos adultos - No início do século XX, leis e algumas políticas públicas foram criadas com a finalidade de assistir e educar os chamados menores. Paradoxalmente, as últimas décadas do século XX transformam a concepção de infância em “sujeito de direitos” ↪ Essa mudança se deve ao fruto das lutas de diversos movimentos sociais, ligados às mulheres, crianças e aos trabalhadores em geral. De acordo com Martins (2008), entre os séculos XVIII e XIX surge um novo sentimento pelas crianças. Tal preocupação pode ser constatada em documentos da época, como cartas, pinturas, na literatura e em textos médicos. - Com a consolidação do capitalismo, do Estado Moderno e do espaço privado o olhar da sociedade teve uma evolução, assim contribuindo com o surgimento da Pediatria. Segundo Rivorêdo, esse novo olhar sobre a criança foi constituído de ambiguidade. De um lado um sentimento de preocupação, levando à construção de práticas que asseguram uma maior sobrevivência das crianças. Do outro, a crença de que as crianças deveriam ser “moldadas” para serem aptas futuramente. → A aliança entre Medicina e Estado surgiu quando os altos índices de mortalidade infantil contrastavam com a aspiração de um Estado moderno e civilizado. ↝ A pediatria nasce do pensamento higienista, de que crianças e adultos deveriam receber tratamentos diferentes. - Segundo essa perspectiva a criança era constituída de fragilidade, o organismo funcionava de maneira mais complexa, distinta dos adultos Atualmente, ainda permanece a ideia da criança frágil, revestida de incompletude, sendo comparada a uma semente, logo, germinar dependerá do solo e da maneira como será cultivada, cabendo ao pediatra salvar a criança dos flagelos socioambientais. Rivorêdo (1998) discorda desse modo de se pensar sobre a infância, para ele tanto a Medicina quanto a Pediatria se apoia em um instrumento que desqualifica a criança, a vendo como um sujeito incompleto, perdendo a vista da totalidade e especificidade deste ser. Infância: perspectiva sociológica → No final do século XX, a criança passa de um ser que ocupava um espaço periférico na comunidade para alvo de estudiosos que desejam compreender melhor o seu papel na sociedade. ★ Sociologia da Infância: surge quando as crianças deixam de ser vistas como sujeitos passivos na sociedade e passam a ser concebidas como “atores sociais” (DIAS, 2012). - Tem como objetivo: resgatar a infância da perspectiva psicológica (que tende a uniformizar as crianças e seu desenvolvimento) e estudar sobre a criança, a partir da própria criança, evitando a interferência do olhar adultocêntrico na pesquisa. A criança passou de um lugar passivo para um lugar ativo. UFSB • Psicologia na Infância Alice Abdias Novais - 3° quadrimestre BARBOSA, A. S. S.; SANTOS, J. D. F. dos. Infância ou infâncias?. Revista Linhas, Florianópolis, v. 18, n. 38, p. 245 - 263, 2017. Disponível em: https://www.revistas.udesc.br/index.php/linhas/ar ticle/view/1984723818382017245. Acesso em: 10 abr. 2023.