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Ed ito ra C RV - ve rs ão fin al do au to r - A di lso n A qu in o S ilv eir a J ún ior - E- m ail : j _r 19 87 @ ho tm ail .co m Pr oib id a a im pr es sã o e a co m er cia liz aç ão Este livro é resultado dos estudos e debates realizados pelo projeto de extensão História e Memória do Serviço Social em Pernambuco entre as décadas de 1940 e 1970 (MEHSSPE). Vinculado ao Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco, o projeto envolve ações em três planos: organização e socialização do acervo histórico e de documentos do Serviço Social no estado; incentivo a estudos sobre as dimensões e tendências da profissão; e divulgação de conhecimentos sobre essa história e memória. Em 2019, o MEHSSPE engajou parte de sua equipe na realização de estudos exploratórios sobre as particularidades do Serviço Social em Pernambuco, considerando as características de seu desenvolvi- mento entre as décadas de 1930 e 1960. Neste livro, seguem os artigos produzidos nos estudos, abordando determinações da formação profissio- nal, dos espaços sócio-ocupacionais e das respostas do Serviço Social no curso das referidas décadas. Esta publicação pretende fortalecer o trabalho – já desenvolvido pelo MEHSSPE – de ampliação do acesso público à produção científica, à memória e aos documentos da história do Serviço Social e das políticas sociais em Pernambuco. Adilson Aquino Silveira Júnior Professor Adjunto do Depar- tamento de Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco. Doutor e Mestre em Serviço Social da Univer- sidade Federal de Pernam- buco. Coordena o projeto de extensão História e Memória do Serviço Social em Pernam- buco entre as décadas de 1940 e 1970 (MEHSSPE). Realiza pesquisas e publicações com os temas Teoria Social, Política Social, Fundamentos Teórico- Metodológicos e Históricos do Serviço Social. SER V IÇ O SO C IA L EM P ER N A M B U C O prim eiras décadas da form ação e atuação profissional AD ILSO N AQ U IN O SILVEIRA JÚ N IO R O rganizador O livro SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras déca- das da formação e atuação profissional é produto de um trabalho coletivo viabilizado pelo projeto de extensão História e Memória do Serviço Social em Pernambuco entre as décadas de 1940 e 1970 (MEHSSPE). Seus artigos nasceram dos debates e dos estudos explora- tórios em torno das particulari- dades do Serviço Social em Pernambuco. As elaborações privilegiam as determinações da formação profissional, dos espa- ços sócio-ocupacionais e das respostas do Serviço Social no estado entre as décadas de 1930 e 1960. SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO primeiras décadas da formação e atuação profissional ADILSON AQUINO SILVEIRA JÚNIOR Organizador SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO primeiras décadas da formação e atuação profissional 9 786586 087079 ISBN 978-65-86087-07-9 Ed ito ra C RV - ve rs ão fin al do au to r - A di lso n A qu in o S ilv eir a J ún ior - E- m ail : j _r 19 87 @ ho tm ail .co m Pr oib id a a im pr es sã o e a co m er cia liz aç ão Editora CRV Curitiba – Brasil 2020 Adilson Aquino Silveira Júnior (Organizador) SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional Ed ito ra C RV - ve rs ão fi n al do au to r - A di lso n A qu in o S ilv eir a J ún ior - E- m ail : j _r 19 87 @ ho tm ail .co m Pr oib id a a im pr es sã o e a co m er cia liz aç ão Copyright © da Editora CRV Ltda. Editor-chefe: Railson Moura Diagramação e Capa: Diagramadores e Designers CRV Revisão: Analista de Línguas CRV DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) CATALOGAÇÃO NA FONTE Bibliotecária responsável: Luzenira Alves dos Santos CRB9/1506 2020 Foi feito o depósito legal conf. Lei 10.994 de 14/12/2004 Proibida a reprodução parcial ou total desta obra sem autorização da Editora CRV Todos os direitos desta edição reservados pela: Editora CRV Tel.: (41) 3039-6418 – E-mail: sac@editoracrv.com.br Conheça os nossos lançamentos: www.editoracrv.com.br ESTA OBRA TAMBÉM ENCONTRA-SE DISPONÍVEL EM FORMATO DIGITAL. CONHEÇA E BAIXE NOSSO APLICATIVO! Se481 Serviço social em Pernambuco: primeiras décadas da formação e atuação profi ssional / Adilson Aquino Silveira Júnior (organizador) – Curitiba : CRV, 2020. 206 p. Bibliografi a ISBN Digital 978-65-86087-19-2 ISBN Físico 978-65-86087-07-9 DOI 10.24824/978658608707.9 1. Serviço social 2. Serviço social – história e memória 3. Política social 4. Serviço social – Pernambuco I. Silveira Júnior, Adilson Aquino. org. II. Título III. Série. CDU 364 CDD 361.0023 Índice para catálogo sistemático 1. Serviço social 361.0023 Este livro foi avaliado e aprovado por pareceristas ad hoc. Comitê Científico: Alexsandro Eleotério Pereira de Souza (UEL) Luciene Alcinda de Medeiros (PUC-RJ) Maria Regina de Avila Moreira (UFRN) Patrícia Krieger Grossi (PUC-RS) Regina Sueli de Sousa (UFG) Solange Conceição Albuquerque de Cristo (UNIFESSPA) Thaísa Teixeira Closs (PUC-RS) Vinícius Ferreira Baptista (UFRRJ) Conselho Editorial: Aldira Guimarães Duarte Domínguez (UNB) Andréia da Silva Quintanilha Sousa (UNIR/UFRN) Anselmo Alencar Colares (UFOPA) Antônio Pereira Gaio Júnior (UFRRJ) Carlos Alberto Vilar Estêvão (UMINHO – PT) Carlos Federico Dominguez Avila (Unieuro) Carmen Tereza Velanga (UNIR) Celso Conti (UFSCar) Cesar Gerónimo Tello (Univer. Nacional Três de Febrero – Argentina) Eduardo Fernandes Barbosa (UFMG) Elione Maria Nogueira Diogenes (UFAL) Elizeu Clementino de Souza (UNEB) Élsio José Corá (UFFS) Fernando Antônio Gonçalves Alcoforado (IPB) Francisco Carlos Duarte (PUC-PR) Gloria Fariñas León (Universidade de La Havana – Cuba) Guillermo Arias Beatón (Universidade de La Havana – Cuba) Helmuth Krüger (UCP) Jailson Alves dos Santos (UFRJ) João Adalberto Campato Junior (UNESP) Josania Portela (UFPI) Leonel Severo Rocha (UNISINOS) Lídia de Oliveira Xavier (UNIEURO) Lourdes Helena da Silva (UFV) Marcelo Paixão (UFRJ e UTexas – US) Maria Cristina dos Santos Bezerra (UFSCar) Maria de Lourdes Pinto de Almeida (UNOESC) Maria Lília Imbiriba Sousa Colares (UFOPA) Paulo Romualdo Hernandes (UNIFAL-MG) Renato Francisco dos Santos Paula (UFG) Rodrigo Pratte-Santos (UFES) Sérgio Nunes de Jesus (IFRO) Simone Rodrigues Pinto (UNB) Solange Helena Ximenes-Rocha (UFOPA) Sydione Santos (UEPG) Tadeu Oliver Gonçalves (UFPA) Tania Suely Azevedo Brasileiro (UFOPA) SUMÁRIO APRESENTAÇÃO ............................................................................................ 9 Adilson Aquino Silveira Júnior CAPÍTULO 1 “EXISTIRMOS – A QUE SERÁ QUE SE DESTINA?”: a questão regional e o Nordeste na formação social brasileira ..................... 15 Evelyne Medeiros Pereira CAPÍTULO 2 A PARTICULARIDADE DE PERNAMBUCO NO ESTADO NOVO: transformações econômicas, questão social e lutas de classes .................... 33 Zélia de Oliveira Gominho CAPÍTULO 3 CAPITALISMO, ESTADO E POLÍTICA SOCIAL NO BRASIL DOS ANOS 1950 .............................................................................. 51 Adilson Aquino Silveira Júnior CAPÍTULO 4 A EMERGÊNCIA DO SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO NOS ANOS 1940 ............................................................................................ 65 Adilson Aquino Silveira Júnior CAPÍTULO 5 SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO NOS ANOS 1950: racionalização do ensino e diversificação técnico-profissional .................................................................. 93 Adilson Aquino Silveira Júnior Lenita Maria Maciel de Almeida Mariana Macena da Silva CAPÍTULO 6 BASES DA RENOVAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: afirmação da “abordagem comunitária” entre 1940 e 1960 ........................................................................................ 121 Adilson Aquino Silveira Júnior Lenita Maria Maciel de Almeida CAPÍTULO 7 A POLÍTICA “CONTRA O MOCAMBO” E A EMERGÊNCIA DO SERVIÇOSOCIAL EM PERNAMBUCO ...................................................... 147 Bruna Soares Farias Camila Sobral Leite Lyra Montalvão CAPÍTULO 8 O SERVIÇO SOCIAL E A “QUESTÃO DO MENOR” EM PERNAMBUCO (1940-1950): história, memória e perspectivas .................................................................. 167 Andresa Maria da Silva Fernanda Helen de Paula Lira Thalia de Oliveira Barbosa CAPÍTULO 9 AS PRIMEIRAS ASSISTENTES SOCIAIS DE PERNAMBUCO E O INÍCIO DA FORMAÇÃO PROFISSIONAL NO ESTADO (1940-1950) ............................................................................ 185 Maria Angélica Pedrosa de Lima Silva Laura Sophie de Andrade Freire Rennan Araújo de Lima SOBRE OS AUTORES ................................................................................ 203 APRESENTAÇÃO Este livro reúne os textos resultantes, em sua maioria, de estudos desen- volvidos em 2019 através do projeto de extensão História e Memória do Ser- viço Social em Pernambuco entre as décadas de 1940 e 1970 (MEHSSPE). Vinculado ao Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco, o projeto propõe ações em três planos: organização e socializa- ção do acervo histórico e de documentos do Serviço Social no estado; incen- tivo a estudos sobre as dimensões e tendências da profissão; e divulgação de conhecimentos sobre essa história e memória. Mais amplamente, a pretensão é contribuir com o acesso público à produção científica e a documentos vin- culados à história do Serviço Social e das políticas sociais em Pernambuco, articulando, ainda, pesquisa e ensino à extensão universitária. Na sua interface com a dimensão da pesquisa, o MEHSSPE engajou parte de sua equipe, composta de estudantes e docentes do Curso de Serviço Social, na realização de estudos exploratórios sobre as particularidades do Serviço Social em Pernambuco, considerando as características de seu desenvolvi- mento, principalmente, entre as décadas de 1930 e 1960. As determinações enfocadas, considerando sua historicidade e condicionantes sociais, ainda que de modo abrangente e aproximativo, corresponderam às esferas da formação profissional, dos espaços sócio-ocupacionais e das respostas (teórico-metodo- lógicas, político-ideológicas e técnico-operativas) do Serviço Social no curso das referidas décadas. Tratou-se de uma iniciativa cuja pretensão primeira consistia, tão somente, em incentivar estudos exploratórios, cujos resultados se materializariam na construção de hipóteses para pesquisas mais consisten- tes e profundas. Em geral, as sistematizações alcançadas nos surpreenderam pela sua capacidade de (além de propor hipóteses de pesquisa) fornecer um contributo para a reconstrução histórica do Serviço Social em Pernambuco, através do levantamento e análise de fontes até então inexploradas do acervo da profissão nessa realidade. No início de 2019, uma parte da equipe do MEHSSPE se dividiu em torno de alguns eixos temáticos para o encaminhamento desses estudos, guiados por súmulas que registravam as estratégias metodológicas e fontes de dados a serem assumidas em cada caso. Foram projetados cinco eixos: 1) As transfor- mações do Serviço Social em Pernambuco nos anos 1950, 2) Serviço Social e Política Habitacional nos anos 1940 – a “questão dos mocambos”; 3) Atuação do Serviço Social nos anos 1940 e 1950 em torno da “questão do menor” em Pernambuco; 4) As demandas para o Serviço Social em Pernambuco nos anos 1940-1950, 5) As pioneiras do Serviço Social de Pernambuco e a marca 10 do gênero na profissão. Ao propor tais estudos, o projeto de extensão previa suscitar, ainda, o protagonismo dos(as) estudantes envolvidos(as) na equipe de execução, incorporando-os(as) em atividades de análise e sistematização da realidade, despertando-os(as) para o desenvolvimento de uma interpretação própria da história, bem como da elaboração e divulgação do conhecimento adquirido com o acervo documental digitalizado e catalogado. Ao findar o ano, o amadurecimento obtido, em termos de apropriação da fundamentação teórica e histórica, e da análise das evidências documentais, foram registrados nos artigos deste livro. Além das sistematizações provenientes dos estudos exploratórios, incluem-se aqui textos de duas docentes-pesquisadoras que generosamente colaboraram com as atividades do MEHSSPE. O artigo de Evelyne Medei- ros Pereira – “Existirmos – a que será que se destina?”: a questão regional e o Nordeste na formação social brasileira– oferece uma síntese das suas investigações sobre a dialética do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo no Brasil; base que preside a coexistência e persistência do “arcaico” e do “moderno” na exploração e acumulação da riqueza entre nós; solo histórico das contradições do Nordeste do país, sua aridez social, suas formas agrestes de dominação política, a crueza da rebeldia que sempre brota em suas paragens. Evelyne também cooperou em algumas orientações dos estudos exploratórios, além de participar de debates promovidos nas ativi- dades de formação do MEHSSPE, em especial no curso Serviço Social em Pernambuco entre 1940-1970. Já a participação de Zélia de Oliveira Gominho neste livro – através do texto A particularidade de Pernambuco no Estado Novo: transformações econômicas, questão social e lutas de classes – foi provocada após sua intervenção no mesmo curso de extensão, no encontro dedicado à reflexão sobre o Estado Novo em Pernambuco. Desde o início da execução do projeto, eram referências os trabalhos acadêmicos dessa histo- riadora – maturados desde os anos 1990 – sobre a realidade de Pernambuco na primeira metade do século XX, em especial sua premiada dissertação de 1997, Veneza Americana X Mucambópolis: o Estado Novo na cidade do Recife (Décadas de 30 e 40). Os demais textos condensam os esforços de sistematização dos estudos exploratórios pela equipe do projeto de extensão. Alguns deles tiveram suas versões preliminares aproveitadas em encontros do curso, e muitos conteúdos foram divulgados em eventos acadêmicos regionais, nacionais e internacio- nais durante 2019. No seu conjunto, dividem-se em duas abordagens sobre a realidade do Serviço Social no estado, considerando o intervalo histórico entre finais dos anos 1930 e início de 1970: uma parte coloca-se sob um ângulo mais panorâmico e inclusivo do processo de afirmação da profissão, ou de seus condicionantes históricos macroscópicos; outra parte envereda em SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 11 determinados complexos que se mostraram decisivos para conformar algumas particularidades da emergência do Serviço Social no estado. No primeiro grupo, incluem-se os seguintes artigos: Capitalismo, Estado e política social no Brasil dos anos 1950 e A emergência do Serviço Social em Pernambuco nos anos 1940, ambos de Adilson Aquino Silveira Júnior; Serviço Social em Pernambuco nos anos 1950: racionalização do ensino e diversificação téc- nico-profissional, de Adilson Aquino Silveira Júnior, Lenita Maria Maciel de Almeida e Mariana Macena da Silva; Bases da renovação do Serviço Social em Pernambuco: afirmação da “abordagem comunitária” entre 1940 e 1960, de Adilson Aquino Silveira Júnior e Lenita Maria Maciel de Almeida. No segundo grupo de artigos estão: A política “contra o mocambo” e a emer- gência do Serviço Social em Pernambuco, de Bruna Soares Farias e Camila Sobral Leite Lyra Montalvão; O Serviço Social e a “questão do menor” em Pernambuco (1940-1950): história, memória e perspectivas, de Andresa Maria da Silva, Fernanda Helen de Paula Lira e Thalia de Oliveira Barbosa; As primeiras assistentes sociais de Pernambuco e a introdução da formação profissional no estado (1940-1950), de Maria Angélica Pedrosa de Lima Silva, Laura Sophie de Andrade Freire e Rennan Araújo de Lima. Este livro completa o trabalho a que o projeto de extensão se propôs ao arrolar a documentação catalogada, digitalizada e analisada, através da publi-cação Memória do Serviço Social em Pernambuco: inventário do acervo.1 O inventário tratou de apresentar a base de documentos, até então acumula- dos, direta ou indiretamente relacionados à trajetória do Serviço Social no estado entre as décadas de 1940 e 1970. As suas três seções principais foram dedicadas a relacionar os seguintes conjuntos documentais: os Trabalhos de Conclusão de Curso das alunas e alunos da antiga Escola de Serviço Social de Pernambuco (ESSPE) – instituição existente entre 1940 e 1971, depois agregada à UFPE; os documentos da ESSPE, os quais constituem evidências dos processos de funcionamento da instituição; e matérias do Jornal Folha de Manhã – com suas respectivas transcrições – nas quais se encontram notícias e artigos, majoritariamente assinados pelo interventor do Estado Novo em Per- nambuco, Agamenon Magalhães, explicitando as ideologias que informavam a atuação governamental em torno das refrações da “questão social” entre os anos de 1938 e 1944. Agora, os artigos divulgados com este novo livro, ao esboçarem sua contribuição para a sistematização histórica da particularidade da profissão no estado, acabam por proporcionar também uma demonstração de como aquele acervo documental pode ser aproveitado nas pesquisas do Serviço Social. Ao projetarem algumas hipóteses de trabalho sobre esse objeto, se tornam um estímulo para que outros(as) pesquisadores(as) avancem no des- bravamento das fontes empíricas colocadas à disposição através do inventário. 1 Essa publicação pode ser acessada através do site do MEHSSPE: mehsspe.wixsite.com/projeto 12 Ao lançarmos o inventário do acervo, já havíamos atentado para o fato de que, no âmbito da pesquisa e sistematização teórica sobre as dimen- sões e tendências da história do Serviço Social em Pernambuco, depara- mo-nos com um quadro ainda carente de desenvolvimentos. As iniciativas mais substanciais limitavam-se, até pouquíssimo tempo, às investigações de Gomes (1987), Vieira (1992) e Padilha (2008), além das algumas coletâneas (UFPE, 1990, 1985). Malgrado a qualidade e profundidade desses estudos, eles acabaram por privilegiar as dimensões da formação profissional e das suas determinações político-ideológicas, permanecendo à margem reflexões que transladassem para os espaços e demandas ocupacionais, processos de trabalho e respostas interventivas, encarados de modo abrangente e numa perspectiva totalizadora dos ritmos e estágios de desenvolvimento da profissão. Ademais de indicarem que estávamos há mais de uma década sem novos empreendi- mentos de pesquisa em torno da história do Serviço Social no estado. Nosso livro pretende colaborar para a reversão desse quadro, coadunando com tra- balhos recentes como o de Mota (2019) e Silva (2019a, 2019b). Com este livro, o MEHSSPE, concomitantemente, brinda os 40 anos da Pós-Graduação em Serviço Social da UFPE, comemorados em 2019, e pretende nutrir as celebrações dos 80 anos do Serviço Social em Pernambuco, realizadas em 2020. Através dessa contribuição, nosso projeto de extensão quer se somar às iniciativas de entidades e órgãos corporativos da profissão, de docentes e pesquisadores(as), que têm se engajado no fortalecimento e aper- feiçoamento da memória e história do Serviço Social no país como mediação para alicerçar um projeto profissional vinculado aos movimentos e lutas das classes exploradas e oprimidas. Adilson Aquino Silveira Júnior Coordenador do MEHSSPE Recife, fevereiro de 2020 SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 13 REFERÊNCIAS GOMES, Vilma Dourado de Matos Maia. A Escola de Serviço Social de Pernambuco – 1940/1945 Políticas de ação e ações políticas. Recife, 1987. 114 f. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 1987. MOTA, Ana Elizabete Mota. De histórias e da memória: José Paulo Netto e a renovação do Serviço Social. In: RODRIGUES, Mavi; SOUSA, Adrianyce A. Silva de. O marxismo impenitente de José Paulo Netto. São Paulo: Outras Expressões, 2019. p. 185-209. PADILHA, Helena Maria Barros. História da Escola de Serviço Social de Pernambuco: uma análise do projeto ideopolítico em articulação com a realidade pernambucana e brasileira dos anos 30 a 70 do século XX. 2008. 430 f. Tese (Doutorado em Serviço Social) – Universidade Federal de Per- nambuco, Recife, 2008. SILVA, Maria Angélica Pedrosa de Lima. A centralidade da família na for- mação em Serviço Social na década de 1940 em Pernambuco. 2019a, 168 f. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) – Universidade Federal de Per- nambuco, Recife, 2019a. SILVA, Maria Angélica Pedrosa de Lima. As pioneiras do Serviço Social de Pernambuco e a marca do gênero na formação profissional (1940 – 1946). 2019b, 54 f. Monografia (Graduação em Serviço Social) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2019b. UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO. A trajetória do ensino em Serviço Social em Pernambuco – em comemoração aos 50 nos de ensino de Serviço Social. Dissertação (Mestrado em Serviço Social), 1990. UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO. Cadernos de Serviço Social. Dissertação (Mestrado em Serviço Social), n. 3, 1985. VIEIRA, Ana Cristina de Souza. Ensino do Serviço Social no Nordeste: entre a Igreja e o Estado. 1992. 249 f. Tese (Doutorado em Serviço Social) – Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 1992. CAPÍTULO 1 “EXISTIRMOS – A QUE SERÁ QUE SE DESTINA?”2: a questão regional e o Nordeste na formação social brasileira Evelyne Medeiros Pereira 1. Introdução Em certa ocasião, um artista popular brasileiro, jovem que desce do Norte pra cidade grande3, ao ser questionado sobre a qualidade de seu trabalho que, naquela altura, já não trazia mais tanta “marca de nordestinidade”, elegantemente responde: O que acontece é que o Sul do país [...] tem uma expectativa muito carac- terizada a respeito do nordestino [e do Nordeste]. [...] Eu sempre pretendi revelar um outro Nordeste no meu trabalho. Claro que você pretender revelar um outro Nordeste quando a expectativa é dar continuidade a tudo aquilo que tem sido feito nesse sentido, causa um choque enorme que pode muito bem ser identificado com outra qualidade. Ou seja, com uma qualidade menor [...]. Em nenhum momento eu acho que a música dos nordestinos tenha perdido a sua qualidade [...]. Adquiriu uma outra qualidade que eu jugo infinitamente melhor, maior do que aquela do começo. Os nordestinos hoje conhecem muito bem os recursos técnicos da feitura do seu trabalho, perderam completamente qualquer sentimento de atenção a expectativa folclorizante a respeito deles. E pessoalmente eu quero dizer, a respeito do meu trabalho, que eu não tenho sequer vontade artística de dar continuidade aquilo que no Sul se chama “a cultura do Nordeste”, porque eu acho um imenso passivo morto [...]. O meu trabalho pretende descobrir qual é a nova cultura do Nordeste, como é que essa cultura nova pode, sinceramente, par- ticipar do novo mundo, com um sentido de descoberta, de ação nova, mas infinitamente superior ao que estava pensado no começo [...].4 2 Trecho retirado da música Cajuína do compositor e cantor baiano Caetano Veloso, do álbum Cinema Trans- cendental, gravado e lançado em 1979 pela gravadora Verve. 3 Trecho retirado da música Fotografia 3x4 do compositor e cantor cearense Belchior, do álbum Alucinação, gravado e lançado em 1976 pela gravadora PolyGram. 4 Entrevista do cantor Belchior concedida ao Programa Vox Populi, TV Cultura, em 1983. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TO9bMJP8-rw. Acesso em: 28 jan. 2020. 16 A verdade é que as mistificações em torno da imagem do nordeste brasi- leiro, que são alvo da resposta do cantador, há muito já fazem parte da nossa formação social e, especialmente nos momentos de maior acirramento das contradições, vez ou outra, esse tema chega à porta daqueles que sentem a necessidade de entender o Brasil para transformá-lo, sinalizando que essa regiãocumpriu (e continua cumprindo) um importante papel na constituição da questão regional no país. Qualquer pessoa desavisada olharia a capa dos livros antigos de Francisco de Oliveira, Celso Furtado e Tânia Bacelar; assistiria aos filmes com a inter- pretação dos lendários personagens de José Dumont e Marcélia Cartaxo; leria os romances de Guimarães Rosa, Raquel de Queiroz e Graciliano Ramos, tudo isso, como simples artigos de um passado morto e enterrado. Ledo engano! Primeiro, porque, apesar dos cenários de inspiração regionalista, tal como a questão regional é também nacional e mundial, os enredos tratam de temas universais da existência humana, não se limitando aos locais inóspitos de criaturas, ao mundo fabuloso dos “rudes homens do cangaço”, “sertanejos castigados” das “terras tostadas de sol e tintas de sangue”, parafraseando José Lins do Rego. Segundo, porque, ao contrário do que pode se pensar e propa- gandear, a questão regional continua viva e pulsante em nossos dias. Basta observar o papel que o Nordeste e as desigualdades regionais têm cumprido no contexto político, cultural e econômico do último período histórico. Consideramos oportuno lembrar, desde aqui, da iniciativa de um con- junto de estudiosos do antigo Programa Integrado de Mestrado em Economia e Sociologia (PIMES) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em Recife. Referimo-nos a realização do Seminário Nordeste: Estrutura Econô- mica e Social, Desenvolvimento e Processos Políticos, em março de 1982, que deu origem ao livro A Questão Nordeste: estudos sobre formação histórica, desenvolvimento e processos políticos e ideológicos, publicado em 1984. Naquele momento, o organizador, Silvio Maranhão (1984, p. 8-9), nos cha- mava atenção para o seguinte: O Nordeste que se vê nesses textos não é um Nordeste harmonioso, comu- nitário, quase idílico, mistificado e “folclórico”. O Nordeste aqui discutido é um Nordeste fortemente diferenciado, parte integrante e integradora da formação social brasileira, onde as associações e dissociações, alianças e conflitos de classes e grupos sociais marcam, por assim dizer, o ritmo e o compasso dos processos históricos que tem lugar na região. O fato é que a perspectiva priorizada no presente trabalho sobre a questão regional e o Nordeste na formação social brasileira parte do pressuposto de que a realidade que a nós nos parece local “[...] está sempre governada, altamente SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 17 determinada, pela dinâmica da produção predominante na sociedade, no conjunto do subsistema econômico brasileiro” (IANNI, 1981, p. 127-128). Assim, a garantia de hegemonia capitalista por aqui implica em fazer com que o Nordeste continue sendo visto pelo prisma de uma caricatura temperada de exotismo, ressaltando as belezas nativas que se tornam cenário dos cartões postais pra turista ver, conco- mitante ao reforço da ideia do lugar dos esquecidos e dos condenados pela seca, pobreza e pelo “subdesenvolvimento”. E é exatamente movido pela contestação a essa imagem que fundamenta uma lógica de ser “Nordeste”, aparentemente cristalizada pelas circunstâncias da própria natureza da região, que o artista ao qual nos referimos no início deste texto canta: NINGUÉM É GENTE! Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve! Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos! Não sou da nação dos condenados! Não sou do sertão dos ofendidos! Você sabe bem: CONHEÇO O MEU LUGAR!5 E é com as palavras do cantor popular nordestino, porém não “nordes- tinado”6, que adentramos, a partir de então, panoramicamente, aos aspectos que são de fundamental importância para os estudos e as reflexões acerca da questão regional ontem e hoje. 2. A questão regional na dialética universal-particular: o desenvolvimento desigual inter-regional no Brasil A questão regional depara-se hoje com uma realidade que a torna cada vez mais viva e pulsante, demonstrando que o debate crítico em torno desse tema precisa ser reaberto, particularmente no Serviço Social. Desafio este necessário a ser enfrentado por parte daqueles que já estão caducos de entender que as desigualdades regionais não são obra da simples ausência de uma política de desenvolvimento regional ou da má gestão de quem dirige o Estado e o plane- jamento de suas ações para as regiões, mas compõem a dinâmica própria do padrão de reprodução do capital, de forma especial, nos países dependentes. O desenvolvimento capitalista, ao mesmo tempo que demanda o processo de homogeneização para sua reprodução ampliada, cria e aprofunda, pelos mesmos meios, as desigualdades regionais que permitem uma acumulação cada 5 Trecho retirado da música Conheço meu lugar, do compositor e cantor cearense Belchior, do álbum Era uma vez um homem e seu tempo, gravado e lançado em 1979 pela gravadora WEA. 6 Fazemos alusão ao poema de Patativa do Assaré intitulado Nordestino, sim. Nordestinado, não! (CAR- VALHO, 2007). 18 vez mais privada das riquezas socialmente produzidas. Caso contrário, o padrão de reprodução das relações sociais capitalistas estaria fadado ao colapso. Tais desigualdades e contradições universalizaram-se mediante uma combinação entre diversas configurações regionais. Nesse sentido, a região é “[...] produ- to-produtora das dinâmicas concomitantes de globalização e fragmentação [...] dos processos de diferenciação social” (HAESBAERT, 2010, p. 7). No Brasil, alguns pensadores foram (e ainda são) fundamentais para entender a natureza dessas desigualdades nas nuances de uma formação social constituída através de um processo histórico-social que “vinculou o destino da Nação emergente ao neocolonialismo” (FERNANDES, [1968] 2008, p. 24). Dentre outros intérpretes, priorizamos o diálogo com aqueles que nos ajudaram a entender essa realidade e seus desdobramentos sobre o desenvolvi- mento econômico regional fora do circuito de interpretações dualistas rígidas, consonante com a lei do desenvolvimento desigual e combinado (Trotsky, [1930] 1977). Lei esta que, segundo Florestan Fernandes ([1968] 2008, p. 65): [...] punha em questão a relação do desenvolvimento do capitalismo e do regime de classes com a revolução social, enfatizando que, dadas certas premissas, em um país atrasado uma classe social pode desempenhar as tarefas de outra e promover, assim, um salto qualitativo na história. Essa é a forma dialética de resolver o assunto. Não é preciso que o regime de clas- ses esteja “completamente desenvolvido” para que o proletariado realize suas tarefas revolucionárias (as que não foram alcançadas pela burguesia). Essa característica, universal ao capitalismo, aprofundada e particula- rizada em sociedades dependentes, revela o caráter integrador e ao mesmo tempo desintegrador de regiões nesse sistema, que, para Leon Trotsky ([1930] 1977, p. 25), viabiliza uma “[...] aproximação das diversas etapas, combi- nação das fases diferenciadas, amálgama das formas arcaicas com as mais modernas”. Em outras palavras, “[...] estruturas econômicas em diferentes estágios de desenvolvimento não só podem ser combinadas organicamente e articuladas no sistema econômico global”. Especialmente sob o capitalismo dependente, “[...] a persistência de formas arcaicas não é uma função secun- dária e suplementar” (FERNANDES, [1968] 2008, p. 61). E isso ocorre no desenvolvimento do capitalismo brasileiro. É exatamente nessa dialética do desenvolvimento desigual inter-regional que se constituiu historicamente a formação social brasileira numa combinação entre relações sociais capitalistas e aquelas que, mesmo não sendo tipicamente capitalistas, sobrevivem, se configuram e reforçam tal modo de produção. Afinal, “[...] não reconhecer [...] que existem marcadas diferenças entre as várias formas de produção do valor dentro do capitalismo é não reconhecer SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 19 [...] o processo de constituição dopróprio capital enquanto relação social” (OLIVEIRA, 1993, p. 30). O particular dinamismo do desenvolvimento desigual inter-regional na realidade brasileira é, em outras palavras, uma forma particular de configu- ração do complexo arcaico-moderno. Este tem complexificado a articulação daquilo que, para Florestan Fernandes ([1975] 2006), integra o padrão de dominação burguesa na nossa formação social: a relação entre o “desenvol- vimento desigual interno” e a “dominação imperialista externa”, recompondo as desigualdades regionais que, a despeito de serem componentes da própria natureza capitalista, apresentam uma tônica diferenciada nos países depen- dentes, bem como já sinalizamos. O fato é que, mesmo diante de todas as desconformidades, o “agente organizador” da acumulação capitalista não deixou de ser a burguesia asso- ciada ao grande capital (IANNI, 2004) e destituída de um projeto político de orientação democrática e de soberania nacional, mediante arranjos de cúpula com setores oligárquicos, sem por isso realizar uma ruptura através de uma “revolução democrático-burguesa” ou de “libertação nacional” (IAMA- MOTO, 2007, p. 132). Em outras palavras, a dinâmica do capital por aqui foi realizada por meio de mecanismos ainda não essencialmente capitalistas (GORENDER, 1982), não tendo como “meio ambiente original”, de transição, o definhamento do feudalismo, ao contrário de países da Europa. Frente a tais considerações, o núcleo central da dinâmica capitalista no Brasil é exatamente a perpetuação de um enorme contingente de força de trabalho disponível, do monopólio da terra, das formas extraeconômicas de exploração do trabalho (semi ou pré-capitalistas) e de remuneração (monetária e não-monetária) bem abaixo do valor da reprodução da força de trabalho, refletindo num baixíssimo padrão de vida do produtor direto, mesmo com o aumento da produtividade do trabalho. Tudo isso sob a interferência direta do Estado que subsidia toda a infraestrutura de sustentação dessa engenhosa arquitetura, socializando parte dos custos da reprodução da força de trabalho.7 7 Portanto, “[...] os serviços realizados a base de pura força de trabalho, que é remunerada a níveis baixíssimos, transferem, permanentemente, para as atividades econômicas de corte capitalista, uma fração do seu valor, ‘mais-valia’ em síntese. Não é estranha a simbiose entre ‘moderna’ agricultura de frutas, hortaliças e outros produtos de granja com o comércio ambulante? [...] Esses tipos de serviços, longe de serem excrescência e apenas depósito do ‘exército industrial de reserva’, são adequados para o processo da acumulação global e da expansão capitalista e, por seu lado, reforçam a tendência à concentração de renda” (OLIVEIRA, 2013, p. 57-58). O circuito da dependência e o “círculo vicioso do subdesenvolvimento” explicitam que mais vale empregadas domésticas recebendo baixíssimos salários, mulheres e homens realizando constantemente o trabalho não pago necessário a sua reprodução em cidades intrafegáveis que um dispêndio de recursos destinados a estruturas coletivas que não propiciam lucro suficiente com o rebaixamento da força de traba- lho urbana que depende desses mesmos serviços abundantes e degradados, e boa parte dessa força de trabalho não pode ao menos consumir tais serviços demandados. 20 Daí o entendimento de que não há etapas bem definidas de desenvolvi- mento pelas quais cada formação social deva passar, inevitável ou predes- tinadamente. A apreensão dos aspectos que tornaram burguesa a sociedade brasileira sem vivenciar, por exemplo, um processo de ruptura com o latifúndio e seus antigos representantes é, a nosso ver, pressuposto central para o estudo sobre os fundamentos das desigualdades regionais e os descompassos entre as regiões tidas como mais ricas ou “avançadas” e as pobres ou “atrasadas” enquanto fenômeno moderno. Essas desigualdades tomam proporções e características diversas no contexto contemporâneo. O processo de financeirização, e sua incessante busca de valorização do capital tem como necessidade a constante superação de fronteiras de tempo e espaço, o que, por outro lado, acaba por estabelecer outras tantas barreiras territoriais e diferenciações regionais em uma mundiali- zação que também se regionaliza. Fruto desse processo, ocorre o adensamento da questão social na sua dimensão regional, expressa pela intensificação da divisão internacional – e inter-regional – do trabalho8, da exploração por inter- médio da reestruturação produtiva e dos diversos conflitos de base territorial refletidos na violenta onda migratória, (re)compondo a questão regional em termos macrossociais. Em resumo, esse modelo permite a diferenciação produtiva e de produti- vidade através da elevada exploração de trabalhadores com base na “[...] manu- tenção de baixíssimos padrões do custo de reprodução da força de trabalho e, portanto, do nível de vida da massa trabalhadora rural” (OLIVEIRA, 2013, p. 45). Trata-se, assim, de um complexo arcaico-moderno dialeticamente pautado pelo desenvolvimento tardio, pela modernização dependente e acumulação primitiva estrutural. Esse processo pesa distintamente em cada região, espe- cialmente no Nordeste, território que, combinado desigualmente às demais regiões, funciona como uma verdadeira reserva da superpopulação relativa, garantindo o baixo custo da força de trabalho, mesmo com o aumento da produtividade. Já o Sudeste passa a assumir a função de “região-centro”, 8 A menor rotação de capital nos países centrais implica em uma maior rotação nos países dependentes tal como uma menor composição orgânica do capital nos primeiros, demanda uma realização mais rápida da mercadoria nos segundos. Ocorre que tais (des)compassos se reproduzem internamente aos próprios países, integrando os territórios nacionais à divisão internacional (e inter-regional) do trabalho. Assim, “[...] a divisão do trabalho em geral está relacionada diretamente à divisão territorial do trabalho, à especialização de certas regiões na produção de um único artigo, às vezes de uma única variedade de um artigo e até de uma única parte de um artigo. [...] A manufatura não cria apenas regiões completas, mas introduz a especialização no interior mesmo dessas regiões”. Isto, porém, contraditoriamente, nos diz que “[...] a existência de matéria-prima num dado local não é, de modo algum, obrigatória para a manufatura e dificilmente seria comum a ela, já que a manufatura pressupõe relações comerciais já bastante amplas” (LÊNIN, 1982, p. 275-276). SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 21 constituindo sua hegemonia sobre as demais regiões. Peça fundamental na engrenagem da divisão regional do trabalho. Assim, no Brasil, compreendemos a região Nordeste como destaque na questão regional, sofrendo com tônica diferenciada os reflexos da concen- tração de riqueza, renda e poder no país. Os desdobramentos econômicos e políticos desse processo constituíram uma narrativa dominante e elitista de “região-problema”, predominante até hoje, muito embora com aspectos dissonantes em alguns momentos históricos, a exemplo do último ciclo de desenvolvimento no país (2007-2012) que pôs em destaque essa região como promissora e protagonista de uma onda nova de crescimento econômico.9 Numa perspectiva histórica, o Nordeste assume destaque no Brasil, espe- cialmente a partir dos anos de 1950, alvo de inúmeros estudos que nem sempre contribuíram para seu entendimento, de fato. Ao contrário, para Perruci (1984, p. 12), a região foi “[...] vítima de tantas descobertas e teorizações, especial- mente após o verdadeiro trauma técnico-burocratizante que nos foi imposto desde a criação da Sudene e, em especial, com a implantação das políticas pós-1964”. Trauma este que persiste mesmo diante das inflexões nas formas de enfrentamento às desigualdades regionais a partir do Nordeste, implementadas pela frente neodesenvolvimentista10, já tão rapidamentedesestruturadas no 9 Sobre isso, conferir Pereira (2018). 10 “A frente política neodesenvolvimentista começou a se formar no decorrer da década de 1990. Na década anterior, elementos de ordem econômica e política tornavam os principais instrumentos de luta política e social recém-criados pelas classes trabalhadoras – o PT, a CUT e o Movimentos dos Sem Terra (MST) – infensos a qualquer aproximação política com o grande empresariado. [...] No início da década de 1990, contudo, a situação mudou. A parte mais significativa da burguesia unificou-se em torno do programa neoliberal, o desemprego aumentou muito e o movimento sindical e popular, com exceção do MST (COLETTI, 2002), entrou em refluxo (BOITO, 1999). Na segunda metade da década de 1990, começaram a surgir sinais de mudança. Um setor da grande burguesia interna, que também havia apoiado, ainda que de modo seletivo, o programa neoliberal foi acumulando contradições com esse mesmo programa. Foi nesse quadro marcado, de um lado, por dificuldades crescentes para o movimento sindical e popular e, de outro lado, pelo fato de um setor da burguesia começar a rever suas posições frente a algumas das chamadas reformas orienta- das para o mercado que se criaram as condições para a construção de uma frente política que abarcasse setores das classes dominantes e das classes dominadas. Essa frente, organizada, fundamentalmente, pelo PT chegou ao poder governamental em 2003 [...]. Não se tratava, agora, de uma frente que se pudesse denominar populista e, ademais, tampouco o seu programa poderia ser identificado com o programa do velho desenvolvimentismo. [...] Por que recorrer ao termo ‘desenvolvimentista’? De maneira tentativa e inicial, diríamos que é porque esse é um programa de política econômica e social que busca o crescimento econômico do capitalismo brasileiro com alguma transferência de renda, embora o faça sem romper com os limites dados pelo modelo econômico neoliberal ainda vigente no país. Para buscar o crescimento econômico, os governos Lula da Silva e Dilma Rousseff lançaram mão de alguns elementos importantes de política econômica e social que estavam ausentes nas gestões de Fernando Henrique Cardoso. Sem a pretensão de sermos exaustivos, enumeraríamos a título inicial alguns elementos que têm sido destacados por parte da bibliografia: a) políticas de recuperação do salário mínimo e de transferência de renda que aumentaram o poder aquisitivo das camadas mais pobres, isto é, daqueles que apresentam maior propensão ao consumo; b) forte elevação da dotação orçamentária do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES) 22 atual período histórico, pondo novamente no limbo a realidade do Nordeste, tal como a brasileira. 3. O Nordeste desigualmente combinado ao nosso tempo histórico Para entender o papel e as condições de inserção da região Nordeste no padrão de (re)produção capitalista, é fundamental relacionar os aspectos de natureza conjuntural (o valor da força de trabalho, os custos de vida, os incen- tivos fiscais, a “geografia econômica”, o índice de empregabilidade, o acesso aos serviços sociais etc.) com as condições estruturais, as leis e tendências gerais do capitalismo (em meio ao complexo sistema de financeirização e fetichismo da mercadoria). Essa dinâmica é impulsionada não apenas pelos condicionantes e determinantes econômicos, mas também pelas circunstân- cias e desdobramentos no âmbito político que põem em outro patamar a luta de classes. Basta recordarmos os acontecimentos da primeira década do século XXI no Brasil. Naquela ocasião, tomava volume um conjunto de iniciativas (socioeconômicas e ideopolíticas), desenvolvidas por parte dos governos, que consagrava, através dos diversos meios de divulgação e institutos de pesquisas, aquele período como o que teria viabilizado o protagonismo de regiões que eram vistas como atrasadas, como é o caso do Nordeste, Norte e Centro-Oeste. Contudo, por outro lado, ocorreu, simultaneamente, uma relativa perda de base industrial no Sul e Sudeste, fazendo com que estas regiões não tivessem um crescimento tão exitoso como observado nas áreas identificadas como regiões subdesenvolvidas e mais pobres. Isto além dos dados que revelam a persistência das desigualdades regionais que continuavam a conduzir o Nordeste ao patamar de região brasileira com maior taxa de analfabetismo, elevados indicadores de mortalidade infantil e pobreza, menores índices de desenvolvimento humano (IBGE, 2014). Portanto, é certo que a expansão capitalista pode (e deve) promover, mesmo que temporariamente, inclusão de uma maior parcela da população, tanto no consumo quanto no mercado de trabalho, elevando os índices de crescimento econômico e o incentivo ao setor produtivo em regiões como para financiamento das grandes empresas nacionais a uma taxa de juro favorecida ou subsidiada; c) política externa de apoio às grandes empresas brasileiras ou instaladas no Brasil para exportação de mercadorias e de capitais (DALLA COSTA, 2012); d) política econômica anticíclica – medidas para manter a demanda agregada nos momentos de crise econômica e e) incremento do investimento estatal em infraestrutura. [...] E por que empregar o prefixo ‘neo’? Porque as diferenças com o velho desenvolvimentismo do período 1930-1980 são significativas. O neodesenvolvimentismo é o desenvolvimentismo da época do capitalismo neoliberal” (BOITO JR., 2012, s/p). SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 23 o Nordeste brasileiro. Contudo, isso ocorre de forma descompassada entre os setores da economia capitalista e entre as próprias regiões, acompanhado pelo avanço do agronegócio no Brasil cuja capacidade de gerar ocupações é incomparável às atividades relativas à agricultura camponesa. Dentre as ocupações geradas, o peso da informalidade e da reestruturação produtiva ganha cada vez mais notoriedade, o que tende a se agravar diante das recen- tes modificações na legislação trabalhista e previdenciária, especialmente nas condições do trabalhador do campo, beneficiando frações burguesas a se apropriarem ainda mais do trabalho necessário via exploração e expropriação da força de trabalho. De repente, os ínfimos ganhos da população se esvaem. Fica evidente, no caso brasileiro, a impossibilidade de fugir à lei do desenvolvimento desigual e combinado nos marcos do capitalismo, cujo peso e funcionalidade do atraso adquirem maior centralidade. É o que revela o atual contexto que combina de forma peculiar o reacionarismo político-cultural às medidas ultraliberais do ponto de vista econômico, atualizando e reforçando o conservantismo próprio da burguesia brasileira e o seu padrão autocrático de dominação em uma “tendência intensa e permanente de fascistização” (FER- NANDES, 2015, p. 21). Junto a isto, reforça-se também a questão regional, o papel histórico do Nordeste na divisão regional do trabalho, bem como aquela velha e renovada imagem dos nordestinados. As atuais medidas de austeridade e completa retração nos direitos sociais e políticos intensificam com maior violência a precarização, via empreende- dorismo e terceirização, e, consequentemente, um diferenciado e aprofundado desenvolvimento desigual, interna e externamente. O movimento de concen- tração e centralização do capital toma renovada amplitude e reforça a condição do Brasil de país agroexportador e dependente, tendo algumas das seguintes expressões: desindustrialização e reprimarização da pauta exportadora, com base na alavanca da dívida pública; atrofia do mercado interno, da capacidade de consumo das classes subalternas e da formalização do trabalho; peso da pauperização absoluta na combinação com formas de pauperização relativa; menor composição orgânica do capital na indústria; rebaixamento real do salário; formas de elevação de produtividade intermediadas pela recomposição de relações de trabalho não-monetarizadas e pela coerção extraeconômica sobre o trabalhadoretc.; ou seja, um amplo movimento de “reversão” das conquistas históricas da classe trabalhadora cujos efeitos atingem de forma particular regiões como o Nordeste. Referimo-nos ao quadro de queda de 14,3%, em 2016, para 13,7%, em 2017, do total de domicílios que recebem Bolsa Família, somada a um conjunto de medidas que atinge também outras iniciativas, tal como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e os direitos sociais, traba- lhistas e previdenciários como um todo. Em 2018, o Nordeste era a região 24 com 29% dos desocupados do país, bem como a maior na proporção de pessoas que procuraram trabalho por mais de 2 anos. Dos 12,8 milhões de brasileiros nesta situação, 3,7 milhões eram nordestinos. O Nordeste representou 41% dos subocupados por insuficiência de horas trabalhadas no país. Dos 6,6 milhões de brasileiros nesta situação, 2,7 milhões eram nordestinos (IBGE, 2018). Diante disso, as migrações tendem a tomar um novo fôlego e, mais uma vez, o capital parece “reconquistar o Nordeste” de forma ampla, tal como nos sinalizou Octavio Ianni (1981) ao retratar a questão regional no período da “ditadura do grande capital” dos anos de chumbo. De lá até cá a questão regional não teve resolubilidade. Assim como Corrêa (1988, p. 60-61), consi- deramos que “[...] o avanço das relações capitalistas provoca transformações nas características da questão regional, em suas exterioridades, mas, em vez de eliminá-la, ele agrava, aprofunda a questão”. A partir desse entendimento, “[...] a questão regional persiste [...] e coexiste com a questão nacional”. Ou, em outros termos, a “questão nordestina é regional e nacional”, hoje mais ainda. Segundo Florestan Fernandes ([1973] 2009), esse quadro tem seus deter- minantes mais bem estruturados desde a consolidação do “período ditatorial”, exigindo mecanismos prioritários por parte do Estado na tentativa de combater os efeitos do aprofundamento da questão regional como particularidade da questão social no Brasil. Mecanismos estes necessários inclusive para viabili- zar tal consolidação via integração nacional diante da decadência da burguesia industrial, do declínio do pacto populista, da penetração de grupos econômi- cos e mercadorias produzidas no Centro-Sul e no Nordeste, da destruição da economia regional promovendo, contraditoriamente, uma superacumulação e adensamento das forças populares na região em questão. É preciso também lembrar que “[...] foram as lutas sociais que romperam o domínio privado nas relações entre capital e trabalho, extrapolando a questão social para a esfera pública, exigindo a interferência do Estado para o reconhecimento e a legalização de direitos e deveres dos sujeitos sociais envolvidos” (IAMAMOTO, 2001, p. 17). Isto somado ao pauperismo que gerou a ameaça social dos “flagelos da seca”, demandou por parte do Estado o aprimoramento de mecanismos e formas de manutenção da hegemonia burguesa nas regiões. Por isso, o reforço ideológico, entranhado no discurso oficial sobre o território nordestino estava diretamente associada à “região perigosa”, bem como à agudização da repressão aos trabalhadores rurais organi- zados.11 A ideia difundida era que o país estava na iminência de uma verdadeira 11 Vale destacar que existe um vasto enredo da vida real centrado em um conjunto de experiências de protestos e lutas populares que não foram incorporadas nas “narrativas nacionais” com uma nítida intenção por parte dos setores dominantes de isolá-las e pejorativamente associá-las ao fanatismo e banditismo. Isto é demonstrado na importante obra de Rui Facó (1963, p. 15-16) ao fazer alusão e desconstruir a concepção hegemônica dos SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 25 revolução no Nordeste, tendo como referência a revolução cubana. Isto em virtude da experiência de movimentos de trabalhadores rurais como o das Ligas Camponesas. “Foi assim que o imperialismo e a burguesia, no Brasil, decidiram transformar o Nordeste numa questão política, militar e policial prioritária” (IANNI, 1981, p. 112) com a finalidade de acabar com todas as experiências democráticas que emergiam na região. Afinal, até os avanços de natureza democrática e popular por aqui ameaçam a estrutura que sustenta uma engenharia tão moderna quanto arcaica do latifúndio. Voltando às principais estratégias de enfrentamento à questão regional, podemos situar, mesmo que tardia, uma nova política de desenvolvimento para o Nordeste com base na industrialização da região. Para os idealizadores dessa política, certamente o que estaria em questão seria o enfrentamento às relações tidas como atrasadas na agricultura e a produção de uma “[...] larga ‘periferia’ onde predominam padrões não-capitalísticos de relações de produção, como forma e meio de sustentação e alimentação do crescimento dos setores estra- tégicos nitidamente capitalistas [...] ” (OLIVEIRA, 2013, p. 69). Contudo, a superação desse tipo de relações seria como romper com a dependência da dependência, já que “[...] a integração ao mercado interno significa tornar a região que se integra ‘dependente’ da economia do Sudeste, isto é, as vantagens fenômenos do cangaceirismo e do messianismo vividos especialmente no Nordeste no fim do século XIX e na primeira metade do século XX. Outra figura que passa a compor a narrativa nacional sobre o Nordeste foi o “flagelo da seca”, expressão do fenômeno social da seca na região. Diante disso, para Nobre (2010, p. 5-6), foram quatro principais as formas de enfrentamento às consequências das secas por parte do Estado: 1) “Controlar os flagelos”, mantendo-os “isolados na periferia da cidade, em estruturas precárias de cercados [...] e sob severa vigilância. [...] tais locais de contenção dos flagelos da seca passaram a ser chamados de ‘campos de concentração’ [...] depositário de força de trabalho barata que era usada em obras públicas e de particulares.”.2) Estímulos a migrações para o trabalho nos cafezais do Centro-Sul, e na extração de látex nos seringais da Amazônia, recrutamento por parte de empreiteiras envolvidas na construção da transamazônica; 3) Medidas de contenção das migrações do sertão para as cidades com a ‘criação de órgãos públicos voltados para a chamada ‘solução hidráulica’. Esta consistia no direcionamento da força de trabalho dos retirantes da seca para a construção de açudes, através das chamadas ‘frentes de serviço’” (NOBRE, 2010, p. 7). Para Oliveira (1981, p. 55), esses episódios da história do Nordeste expressam formas típicas da acumulação primitiva do capital. Antigas instituições, como a Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS), de 1909, que passa a se chamar de Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), em 1945, representaram um “esforço racionalizador” por parte do Estado, avançando-se “muito no conhecimento físico do Nordeste semi-árido, de suas potencialidades e limites [...]. Não se avançou nada, porém, em termos do entendimento e desvendamento de sua estrutura socioeconômica [...]” (OLIVEIRA, 1981, p. 51). Em suma, acabaram por beneficiar proprietários rurais e o “controle político na distribuição de alimentos e vagas para o alistamento”, conformando a conhecida “indústria da seca”; 4) Criação de instituições voltadas para a assistência aos “flage- lados” da seca. Estas tinham, no entanto, associação direta com a polícia, referendando a velha e necessária combinação entre repressão e assistência na garantia de hegemonia. Nobre (2010) apresenta como exemplo o Serviço de Socorro e Assistência às Vítimas da Seca (SSAVS) e o Serviço Social do Estado (SSE), além de ações de combate a mendicância, de profissionalização e “higienização” da cidade. 26 da industrialização desequilibram a economia ‘normal’ da região e impõem uma nova divisão do trabalho em função do Sudeste” (OLIVEIRA, 1977, p. 52). Por outro lado, esse desequilíbrio regional, expressando também con- flito de classes, “[...] que aparece sob as roupagensde conflitos regionais [...] chegará a uma exacerbação cujo resultado mais imediato é a intervenção ‘pla- nejada’ do Estado no Nordeste, ou a SUDENE” (OLIVEIRA, 1981, p. 113). Este órgão estatal foi um dos mais memoráveis desse tipo de intervenção no Nordeste e sua história representa exatamente o direcionamento hegemônico que as políticas dessa natureza tiveram no período desenvolvimentista.12 A intervenção planejada do Estado dá-se, portanto, através do desloca- mento de “[...] esquemas de reprodução próprios da economia do Nordeste por outros que têm sua matriz noutro contexto de acumulação”. Desse modo, o “pla- nejamento” age conduzindo a mais-valia captada pelo Estado através de imposto em capital a favor da “grande burguesia do Centro-Sul” (OLIVEIRA, 1981, p. 113). Ou, em outras palavras: “[...] o Estado descapitaliza a economia do Nordeste em favor do centro da acumulação. Mesmo em 1953, quando se cria o Banco do Nordeste do Brasil [...], a intervenção do Estado fica muito aquém de sua própria atuação num caso como o do BNDE [...]” (OLIVEIRA, 1981, p. 94). Daí a importância do Estado na promoção da industrialização do Nordeste que, “[...] em si mesmo, é a síntese dialética dos processos de concentração e centralização do capital, que o promove” (OLIVEIRA, 1977, p. 3-4). Isso significa que o custo da reprodução da força de trabalho continuará baixa mesmo com o aumento da produtividade; as mercadorias produzidas na região continuarão sofrendo a deterioração dos termos de troca, abaste- cendo a nova classe assalariada urbana em ascensão especialmente no Sudeste e garantindo a oferta de recursos naturais à industrialização nacional em uma espécie de acumulação primitiva; que o enorme exército industrial de reserva continuará vivo legitimando relações de trabalho híbridas, monetárias 12 É importante ressaltar que, ao contrário de muitas análises críticas à experiência da SUDENE, ela não pode ser resumida como uma “farsa”. A história dessa instituição foi marcada por ambiguidades e embates entre as forças e aspirações populares e aquelas do grande capital monopolista que procuravam socorrer os interesses das elites locais do “[...] velho Nordeste dos ‘coronéis’ e da burguesia açucareira, convocando as forças da burguesia internacional-associada e do imperialismo para liquidar as classes populares” (OLIVEIRA, 1981, p. 15). Caso estas forças não tivessem ganho, certamente teríamos um outro Nordeste e um outro Brasil. De toda forma, há que considerar a SUDENE como “um empreendimento de uma audácia inédita na história nacional” (OLIVEIRA, 1981, p. 18) que de alguma forma enfrentou resistências, inclusive das “elites nordestinas temerosas da perda de privilégios” que atacavam a figura de Celso Furtado e viam sua defesa à reforma agrária como ameaçadora, abrindo margem para a subversão associada aos movimentos camponeses da época. (FUR- TADO, 2009, p. 12).Mesmo com o teor progressista, com o objetivo de combater as desigualdades regionais e com a diversidade de opiniões e concepções em disputa em torno da SUDENE, ela acaba tornando-se “[...] um mecanismo de destruição acelerada da própria economia ‘regional’ nordestina, promovendo a expansão capitalista no Nordeste via hegemonia da burguesia do Centro-Sul expressa na tendência das empresas ou grupo de empresas que já são principais no Brasil serem principais no Nordeste” (OLIVEIRA, 1981, p. 113). SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 27 e não-monetárias, recompondo a divisão regional do trabalho e o complexo arcaico-moderno com um maior peso no Nordeste. O empobrecimento da população trabalhadora nessa região, portanto, caminhou junto a extração da mais-valia extraordinária na ditadura do grande capital, fazendo com que o crescimento da taxa de expropriação tenha viabili- zado o “milagre brasileiro”. Este quadro pode nos apresentar vários elementos consonantes e dissonantes com a particularidade do ciclo econômico e político do tempo presente. A base e as circunstâncias objetivas das expressões da questão social no Nordeste, atravessadas pelo monopólio da terra, sinalizam a forma de ser capitalista não apenas da região, mas do país, que generalizou o modo de produção por meio da industrialização sem, no entanto, destituir-se do peso agrário-exportador mediante a superexploração da força de trabalho e a associação entre capital nacional e estrangeiro, obstaculizando brutalmente o crescimento das forças produtivas e o desenvolvimento com soberania nacio- nal. Isto, ao contrário do que muitos atestaram (e continuam atestando) sob o invólucro da marcha do desenvolvimento e crescimento econômico, não seria possível nos marcos do pleno desenvolvimento desigual e combinado capitalista em que o Brasil e suas regiões são partícipes. Não se trata, desse modo, de uma suposta ausência, deformação ou atraso desse desenvolvimento, mas de uma forma necessariamente particular de inserção. “Daí, por exemplo, o liberalismo das elites nacionais, numa ordem social acentuadamente patrimonial; ou o racismo, num país de mestiçagem intensa” (IANNI, 1965, p. 65). Em outras palavras, “[...] o Brasil de hoje, apesar de tudo de novo e propriamente contemporâneo […] ainda se acha intimamente entrelaçado com o seu passado” (PRADO JR., 1972, p. 18). 4. Considerações finais Procuramos, aqui, dentre as diversas nuances no trato acerca da questão regional, delimitar nosso caminho a partir dos aspectos que constituem o método no qual nos orientamos: Primeiro, a concepção de história atrelada substancialmente à perspec- tiva de totalidade bem como de contradição, o que nos leva a romper com a ideia fragmentada de história, entre a vida comum dos indivíduos e os grandes acontecimentos da sociedade, bem como unilateral, negando o fazer histórico como uma simples sucessão de fatos ou de modos de vida predestinadamente estabelecidos. Neste sentido, o desenvolvimento social da humanidade não se apresenta, nem poderia, como inexorável. Na verdade, trata-se de entender que a ação humana sobre a história permite exatamente a combinação e a abertura de múltiplas possibilidades e determinantes sócio-históricos. Isto nos leva a entender 28 que a questão regional, tal como trabalhamos ao decorrer deste texto, não diz respeito, em si, às diferenças naturalmente e geograficamente existentes entre as regiões. O mesmo desenvolvimento que integra regiões, as tornam desiguais. Segundo, a consideração permanente da dialética entre o universal e o particular, o que faz com que tendências gerais capitalistas se reproduzam no particular como uma “[...] iluminação universal em que atuam todas as cores, e às quais modifica em sua particularidade [...] um éter especial, que determina o peso específico de todas as coisas às quais põe em relevo” (MARX, 2008, p. 264). Em outras palavras, “[...] no lugar da tradicional autossuficiência e do isolamento das nações surge uma circulação universal, uma interdependência geral entre os países. E isso tanto na produção material quanto na intelectual”. Trata-se da condição de existência e desenvolvimento do modo de produção capitalista: a universalização, a expansão mundial do capital como tendência, o que torna possível a burguesia criar um mundo “à sua imagem e semelhança” (MARX; ENGELS, [1848] 1998, p. 11-12). Isto, porém, sob uma combinação dialética de desigualdades de ritmo e intensidade entre nível das forças produtivas ou formas de reprodução do capital e relações de produção presentes nos diferentes territórios e regiões. Assim: A coexistência das duas regiões numa mesma economia tem consequências práticas de grande importância. Assim, o fluxo de mão-de-obra da região de mais baixa produtividade para a de mais alta, mesmo que não alcance grandes proporções relativas, tenderá a pressionar sobre o nível de salário desta última, impedindo que os mesmos acompanhem a elevação da pro- dutividade. Essa baixa relativa do nível desalários traduz-se em melhora relativa da rentabilidade média dos capitais invertidos. Em consequência, os próprios capitais que se formam na região mais pobre tendem a emigrar para a mais rica (FURTADO, [1959] 2003, p. 248-249). A concentração de riquezas e sua apropriação privada representam a socia- lização do trabalho e a concentração, também territorial, da pobreza em regiões que vivem o fenômeno do pauperismo de forma mais latente, refletindo alte- rações na composição interna da superpopulação relativa – sobretudo com o adensamento de “segmentos inferiores do proletariado, e deste para o lumpem- proletariado” – e nas formas de extração de mais-valia (GUIMARÃES, 2008). Esse modelo permite a diferenciação produtiva e de produtividade através da elevada exploração de trabalhadores com base na “[...] manutenção de bai- xíssimos padrões do custo de reprodução da força de trabalho e, portanto, do nível de vida da massa trabalhadora rural” (OLIVEIRA, 2013, p. 45). Esse complexo arcaico-moderno, dialeticamente pautado pelo desenvol- vimento tardio e dependente, reflete-se, por exemplo, na prosperidade expressa entre os personagens do romance Menino de Engenho, de José Lins do Rego ([1932] 2012, p. 233), diante da passagem do antigo engenho para a moderna SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 29 usina, onde “seiscentas toneladas de cana entravam nas suas esteiras e oito- centos sacos de açúcar saíam de suas turbinas”, convivia com a realidade dos flagelos da seca. Realidade esta que passava cada vez mais a ter um contorno de fenômeno social tão bem retratado no romance O Quinze de Raquel de Queiroz, em 1930. O imperativo desse complexo incide sobre a divisão regional do trabalho, a configuração do Estado brasileiro e suas formas predominantes de enfrentamento a questão social na sua dimensão regional no contexto do capitalismo monopolista. Assim, ao contrário da aparência, as regiões são e estão em movimento. Há, pois, por aqui, na história regional e nacional, vários “nordestes”. Nas palavras de Manuel Correia de Andrade (1984, p. 53), em meio ao desequilíbrio planejado, o Nordeste “[...] é muito mais um amálgama de regiões do que uma região”. Nessa perspectiva, se, por um lado, o Nordeste é reserva de acumulação primitiva do sistema global, também é, por outro lado, “[...] espaço onde se imbricam dialeti- camente uma forma especial de reprodução do capital, e, por consequência uma forma especial da luta de classes [...]” (OLIVEIRA, 1981, p. 79). Como podemos perceber, a questão regional, que é nacional, assim como a questão social, é insuprimível nos marcos da hegemonia capitalista, pois trata-se de uma economia que “[...] articula estruturas arcaicas e modernas, na qual essas últimas apresentam intenso crescimento ‘desordenado’ e se impõem às primeiras como centros hegemônicos da economia nacional” (FERNANDES, [1968] 2008, p. 79). Não à toa que desde o Golpe de 2016 os vetores e números têm tomado outro contorno, especialmente para o Nordeste. Frente a isso, lembramos da sinalização feita por Coutinho (2011, p. 141-142) sobre como a crise da socie- dade brasileira tem no Nordeste “cores mais vivas e intensas” em relação as demais regiões do país, condenando os que “lutavam por uma nova comunidade à solidão e à incompreensão”. E, ainda, enfatiza: “De certo modo, na medida em que aí as contradições eram mais ‘clássicas’ (no sentido de Marx), o Nordeste era a região mais típica do Brasil; a sua crise expressava, em toda a sua crueza, a crise do conjunto do país”. O que nos resta, diante dos elementos apresentados até então, é seguirmos a nossa saga em recompor os fios que ligam o passado ao presente, consti- tuindo a dialética arcaico-moderno, entre permanências e mudanças. Isso implicará tecermos, ainda, nessa colcha de retalhos, os fios que constituíram (e constituem) as “novidades” do nosso tempo. E é exatamente este tempo, desde o chão onde pisamos, que nos motiva a retomarmos a pergunta que intitula o presente artigo: “Existirmos – a que será que se destina?”. E, assim, o ponto final encontra-se com o da partida dando mais um passo nesse caminho, cuja busca é a medida, tal como cantava Sérgio Ricardo.13 13 Referência à música Ponto de Partida do cantor e compositor brasileiro Sérgio Ricardo, composta em 1974. 30 REFERÊNCIAS ANDRADE, Manuel Correia de. A questão regional: o caso do Nordeste bra- sileiro. In: MARANHÃO, Silvio (org.). A questão Nordeste: estudos sobre formação histórica, desenvolvimento e processos políticos e ideológicos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984. p. 41-54. BOITO JR., Armando. As bases políticas do neodesenvolvimentismo. 2012. Disponível em: http://eesp.fgv.br/sites/eesp.fgv.br/files/file/Painel%203%20 -%20Novo%20Desenv%20 BR%20-%20Boito%20-%20Bases%20Pol%20 Neodesenv%20-%20PAPER.pdf. Acesso em: 20 maio 2013. CARVALHO, Gilmar (org.) Patativa do Assaré, Antologia poética. Forta- leza: Demócrito Rocha, 2007. CORRÊA, Roberto Lobato. Região e organização espacial. São Paulo: Ática, 1988. COUTINHO, Carlos Nelson Coutinho. 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CAPÍTULO 2 A PARTICULARIDADE DE PERNAMBUCO NO ESTADO NOVO: transformações econômicas, questão social e lutas de classes Zélia de Oliveira Gominho Segundo Aníbal Fernandes, mocambos são “células de descontentamento”14 Toda época é impregnada de anseios e receios, já dizia Eugen Weber (1989, p. 10); e, na percepção de uma longa duração, a transição do século XIX para o XX não foi diferente, foi de muitas tensões. Desde meados do século XIX o capitalismo industrial vinha proporcionando riqueza, progresso, mudanças socioculturais e políticas; primeiramente na Europa, depois na América do Norte. O imperialismo neocolonial expandiu a exploração do capitalismo para o continente africano, América Latina e o Oriente; fez deles mercado de matérias-primas, de mão de obra barata e de consumidores. Não há avanço sem custo. O liberalismo econômico justificou um pro- cesso de acúmulo de capital, de culto ao progresso e defesa da propriedade privada, de estímulo ao individualismo, à competitividade e à meritocracia em prol de um desenvolvimento econômico que manteve a Grã-Bretanha por muito tempo na supremacia dos mares e das relações de força; entretanto, também fez o eixo do poder político-econômico se deslocar para os Esta- dos Unidos, que se consolidaram como potência mundial. O progresso, no entanto, acontece em detrimento das condições de vida e trabalho das massas de camponeses, artesãos e proletários do mundo, que perdem referenciais de costumes, são desprovidos de seus recursos naturais e tradicionais de sobre- vivência, restando-lhes apenas a força de trabalho para oferecer, e devendo se submeter a novas relações de produção e de convivência social. A Primeira Grande Guerra (1914-1918) aconteceu motivada por questões territoriais, demandas econômicas, disputas imperialistas, que, a pretexto de nacionalismos, massacravam minorias étnicas consideradas entraves diante de poderosos interesses. 14 Duarte (1939, p. 2). 34 O período pós Primeira Guerra foi um reerguer difícil para as nações europeias, territórios das batalhas homem a homem, e dos bombardeios. Além dos efeitos colaterais de um conflito de grandes proporções, ocorreram, no decorrer da guerra, mudanças geopolíticas importantes que iriam afetar as relações internacionais por muitas décadas: A Revolução Russa de 1917 fez surgir, em 1922, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a URSS, ou simplesmente União Soviética, um bloco comunista sob a égide ditatorial russa, com sede em Moscou. O pavor de que revoluções proletárias pipocas- sem pelo mundo já era sentido desde que os escravos do Haiti tomaram o poder em 1804, inspirados nas bandeiras revolucionárias francesas. O ideário anarquista e socialista já vinha há tempos formando a consciência de classe dos proletários; e o Manifesto Comunista, panfleto elaborado por Marx e Engels direcionado à luta sindical e política, contribuiu para a formação da classe operária em oposição à burguesia, consequentemente de crítica e combate aos males do capitalismo. O Brasil viveu essa transição de maneira um pouco diversa; embora também enfrentando conflitos político-sociais significativos. Em um pouco mais de seis décadas declarou sua independência (1822) – o único Império escravista das Américas –, aboliu, após 300 anos, o sistema escravista (1888) e, logo em seguida, proclamou-se uma república (1889). Contudo, a “vocação agrícola” ainda dominava a mentalidade da elite político-econômica brasileira; o processo de industrialização levou tempo para se aprumar e acompanhar o desenvolvimento tecnológico europeu e norte-americano. O Brasil esteve limitado, por interesses conservadores locais e estrangeiros, a ser mercado fornecedor de matéria-prima e consumidor de produtos importados. Além da indústria de beneficiamento de café e de algodão, as poucas fábricas exis- tentes eram, em sua maioria, de produtos alimentícios e têxteis, localizadas, geralmente, nos centros dos espaços urbanos. Entretanto, a imigração estrangeira, além de braços, capitais, e inves- timentos, proporcionou também o intercâmbio de culturas, especialmente a cultura político-sindical. Desde o final do século XIX que os operários bra- sileiros já se manifestavam, reivindicavam e faziam greves. O fim do sistema escravista favoreceu a ocupação de periferias, morros e regiões ribeirinhas das cidades; lugares desprezados, ou ainda não valorizados pela elite político-econômica, tornavam-se espaço de moradia para ex-es- cravos, retirantes da seca e expulsos do campo pelo latifúndio monocultor; gente trabalhadora que buscava nas capitais e cidades economicamente ativas possibilidades de ter uma vida melhor. Recife, a capital de Pernambuco, foi um desses centros que aco- lheu migrantes, que vinham de diversos lugares do Nordeste atraídos pela SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 35 oportunidade de trabalho no porto, no comércio, nas fábricas têxteis loca- lizadas no centro (bairro de São José), nos bairros da Torre e Macaxeira, e nos municípios vizinhos de Paulista e Camaragibe; movimento percebido, especialmente, nos períodos mais intensos de seca no Sertão. O início da década de 1920 foi um dos períodos mais críticos; histórias que foram retra- tadas pela literatura em obras como: O Quinze, de Raquel de Queiroz; Vidas Secas, de Graciliano Ramos; e os relatos poéticos de João Cabral de Melo Neto retratando o roteiro dos corumbas – os “flagelados da seca”– rumo à capital pernambucana: O Cão Sem Plumas (1949-1950), O Rio ou Relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife (1953) e Morte e Vida Severina: Auto de Natal Pernambucano (1954-55). A elite brasileira era encantada com a Belle Époque francesa, com a arquitetura neoclássica, o urbanismo monumental de amplas avenidas, com o toque de modernidade da arte em ferro, com as novidades tecnológicas das telecomunicações, motores e transportes: o telégrafo, o telefone, o cinema- tógrafo, os automóveis, as linhas férreas etc. Acalentava-se o desejo de se reproduzira arquitetura e o urbanismo europeu, especialmente, nas principais capitais do Brasil: modernizar os espaços urbanos. Contudo, esse desejo de modernidade, de superar o aspecto provinciano, colonial, das cidades, não só em infraestrutura, mas nos serviços, lazer e hábitos sociais, geralmente, não se expressava, com o mesmo entusiasmo, em oferecer alternativas de moradia adequadas para a população mais humilde – não havia incentivos fiscais e políticas públicas efetivas nessa demanda; a motivação se restringia a interesses estéticos de europeização, em fazer da cidade um cartão de visitas para investidores, como também uma atração turística. É certo que alguns investidores particulares e algumas fábricas têxteis tomaram a iniciativa de erguer vilas operárias próximas ao local de trabalho, todavia, essas iniciativas apenas amenizavam a realidade de alguns, e, na verdade, buscavam se adequar ao padrão moderno europeu de indústria, no sentido de alcançar condições melhores de produtividade e de controle do operariado; a organização dos trabalhadores pelo patrão extrapolava o espaço restrito do interior da fábrica e interferia, muitas vezes, em sua vida cotidiana; a administração das empresas se posicionava cientificamente, especialmente fundamentada no taylorismo (1911) e no fordismo (1914). O centro do Recife era um enovelado de becos e ruelas, com antigos sobrados servindo de moradia para muitas famílias, que viviam, comumente, em ambientes promíscuos e insalubres, de espaços restritos, os chamados cortiços. Nas primeiras décadas do século XX, iniciou-se um processo de demolição e alargamento das ruas e construção das avenidas do centro; par- ticularmente, onde hoje é o bairro do Recife Antigo, e do outro lado do rio 36 Capibaribe, os bairros de Santo Antônio e de São José. A abertura e construção das edificações da Avenida Guararapes, a ponte Duarte Coelho, e da Avenida Conde da Boa Vista foram realizadas na década de 1940. Na verdade, por muito tempo, o centro do Recife foi um campo de demolições; as construções modernas foram de fato acontecer com o incentivo fiscal e a mobilização política do prefeito Novais Filho (1937-1945) junto ao interventor Agamenon Magalhães e ao próprio Getúlio Vargas, que deu o aval para a construção do prédio dos Correios e dos Institutos de Aposentadorias e Pensões na atual Ave- nida Guararapes – cujo nome seria 10 de novembro, mas houve um movimento pós-ditadura, de vereadores e grupos sociais, que rechaçou essa homenagem ao golpe do Estado Novo (GOMINHO, 2011, p. 239-246). Na falta dos cortiços, a população pobre erguia mucambos à beira dos rios Capibaribe, Beberibe e Jiquiá (bairro de Afogados), onde podiam aterrar e erguer uma casa de taipa coberta de palha. Alguns sitiantes também construíam ou deixavam construir mocambos em suas terras em troca do pagamento do foro. Numa pasta de recortes de diversos jornais de 1938-1939, da Secretaria do Governo, do acervo do Arquivo Público do Estado Jordão Emerenciano, sem data nem identificação, intitulado O Inquérito sobre os mucambos do Recife, encontramos a seguinte avaliação: O fato é que não tendo havido em Pernambuco uma “política de habita- ção”, porque isso não interessava ao Estado Liberal, formou-se aqui uma “indústria do mucambo”, das mais rendosas. Basta dizer que o rendimento anual do mucambo de aluguel é de 55,60% do seu valor. Um prédio de alvenaria não dá 12%. Por isso é que no Recife há cerca de 20 mil prédios a mais do duplo de mucambos. Se o valor médio de um mucambo é de pouco mais de 400 mil réis, é claro que mais vantajoso era construí-lo. Enquanto isso na Europa, nos anos vinte, no pós-Grande Guerra, desen- volviam-se intensos debates sobre urbanismo, profilaxia e higiene social. Uma dessas reuniões aconteceu em Genebra, em 1924, pela Repartição Interna- cional do Trabalho sobre o problema da habitação proletária; e como resul- tado dessa reunião recomendava-se a multiplicação de moradias econômicas, salubres e confortáveis aos operários, [...] lembrava que era útil, tanto aos trabalhadores como à coletividade, assegurar o desenvolvimento harmonioso da família dos operários, e que o melhor meio de preservá-los contra os perigos, seria facultar-lhes um lar conveniente (MELO, 1940, p. 33). Os “perigos” a que se referiam os urbanistas, cientistas sociais e da saúde eram as ideologias anarquistas, comunistas, socialistas que, no entender SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 37 desses intelectuais, se alimentavam do descontentamento do povo diante das precárias condições de existência. Médicos, engenheiros e educadores há muito tempo vinham discutindo e traçavam planos de estabelecer uma sociedade mais sã, em que a cidade, o centro urbano, fosse a expressão física e simbólica de uma modernidade.15 Com o progresso industrial e a migração crescente dos expulsos do campo para a cidade, o meio urbano era percebido como um ambiente desordenado, promíscuo, foco de doenças e de revoluções, um caos em oposição à vida idílica do campo. Nas primeiras duas décadas do século XX o Brasil percebeu-se em situa- ção semelhante à Europa; e, também, promoveu alguns congressos e encontros científicos em que ocorreram discussões sobre diversos assuntos relacionados à saúde, à moradia, à infância e à educação do povo brasileiro. Em alguns lugares até começaram a erguer vilas para atender à demanda dos operários, assim como se adequar às expectativas de um ideal de modernidade – no Recife, no bairro de Afogados, temos, por exemplo, a Vila Paz e Trabalho, erguida quando o médico sanitarista Amaury de Medeiros esteve à frente do Departamento de Saúde e Assistência de Pernambuco (1922-1926), um dos primeiros a enfrentar a problemática dos mocambos da cidade com a criação da Fundação Casa Operária. A Fundação também ergueu vilas operárias na Estrada do Arraial e no bairro da Torre, onde existia um cotonifício. Contudo, foi nos anos trinta que políticas públicas mais efetivas come- çaram a ser providenciadas acompanhadas de fiscalização e criação de órgãos administrativos que tratavam dos conflitos entre capital e trabalho, patrões e empregados: As Juntas de Conciliação e Julgamento (1932-1999), a Justiça do Trabalho (Constituição Federal de 1934 e 1946), e os Conselhos Regionais do Trabalho (1939).16 Medidas que tanto atendiam aos anseios dos trabalhadores, quanto às expectativas de controle social e produtividade dos industriais. O Estado brasileiro pós-1930 paulatinamente assumia a responsabilidade de cuidar, proteger e oferecer possibilidades de vida, estudo, trabalho e lazer para a família trabalhadora brasileira; no entanto, os limites entre o público e o privado podiam ser ignorados a pretexto do que poderia ser ou não nocivo para a sociedade, ou determinada comunidade, ou grupo social. Por fim, seguindo o projeto político-social de sanear e salvar o Brasil, as liberdades civis foram sacrificadas em novembro de 1937 a título de proteger os brasileiros de si 15 Para conhecer a experiência da Escola Nova, conferir Monarcha (1989). 16 As Juntas de Conciliação e Julgamento (JCJ) eram órgãos administrativos formados por juízes classistas representantes dos empregados e dos empresários e por um Juiz Presidente indicado pelo governo, em 1999 foram retiradas do ordenamento jurídico e transformadas em Varas do Trabalho. A Justiça do Trabalho e os Conselhos Regionais do Trabalho se mantiveram na esfera administrativa, submetidos ao executivo, até a Constituição Federal de 1946, quando passaram a integrar o Poder Judiciário. 38 mesmos – a teoria da incompetência política, do não poder “ainda” viver numa democracia –, visto a alegada ameaça de comunistas (e dos integralistas também) assaltarem o poder. Foi uma época em choque com os efeitos da quebra da Bolsa de Nova York, em 1929; o liberalismo era criticado, o protecionismo e intervencio- nismo de Estado eram acionados num movimentode autopreservação do capitalismo e, junto com as prevenções econômicas, movimentos conserva- dores e totalitários de extrema-direita ganharam terreno, correspondendo a uma ânsia de progresso material e de controle, perante a sensação de caos socioeconômico que assolava a maioria dos países, especialmente aqueles ressentidos com a derrota e perdas na Primeira Guerra Mundial: o nazifas- cismo ameaçava o mundo. No Brasil, os efeitos da crise de 1929 ainda carecem de estudos mais específicos, mas a economia agroexportadora brasileira sofreu seus abalos e isso repercutiu no equilíbrio do poder político entre cafeicultores e pecuaristas. Particularmente no Nordeste, a agroexportação do açúcar e do algodão foi atingida, primeiro, com a perda de espaço no mercado internacional, depois voltou-se para o mercado interno, mas enfrentando a concorrência da produção de São Paulo, além do desinteresse do Estado com a economia nordestina. A política dos Governadores, assim, já não atendia mais às expectativas dos coronéis; e novos segmentos sociais, especialmente ligados ao funcionalismo do Estado: militares, burocratas e intelectuais, muitos deles filhos de aristo- cracia falida, começaram a se manifestar por uma nova ordem, por mudanças, pelo novo. E daí – não vamos entrar nos detalhes históricos – aconteceram o Movimento Tenentista (1922 e 1924), a Coluna Prestes (1925-1927) e o Movimento político-militar de 1930. Nessa tomada de poder de 24 de outubro de 1930 houve a participação popular, as camadas populares acreditaram na possibilidade de mudança; a trajetória da Coluna Prestes pelo interior do Brasil colaborou para uma receptividade para possíveis alterações no governo e na vida das pessoas, estimulou esperanças – Luís Carlos Prestes foi chamado de Cavaleiro da Esperança –, de certa maneira criou condições que incentivaram o engajamento popular. O centro do Recife seria palco de conflitos, casas de pessoas ligadas ao governo foram incendiadas, políticos importantes seguiram para o exílio. O Sr. José Valdomiro da Silva era criança quando estourou a “Revolução de Trinta” e assim se recorda da situação no Recife: O que se falava naquela época era em política, era a revolução, era a morte de João Pessoa, que só depois de uns tempos pra cá é que a gente veio saber por que foi, que não era aquilo que contavam [...] Na Encruzilhada então o gazeteiro do trem perguntou, disse: “Menino, o que é que você... De onde você veio?” Eu disse: “De Limoeiro”. Ele disse: SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 39 “Olhe, tá uma briga danada aí, tá ouvindo umas balas?” Eu disse: “Tô”, “Mas, vamos ver se o trem chega até o Brum, estação do Brum”. “É pra lá que eu vou, que minha mãe deve estar esperando”. Ele disse: “Tá não; ela não pode estar esperando com essa revolução toda [...] (MONTENE- GRO, 1989, p. 58-59). Em 1930 Vargas criaria o IAA – Instituto do Açúcar e do Álcool – que daria uma certa segurança aos usineiros nordestinos diante da concorrência, mas que não favoreceu um incremento, e, consequente, crescimento da indus- trialização do setor açucareiro; e o endividamento dos usineiros na praça do Recife era grande. Por outro lado, a mudança do engenho banguê para usina, a mecanização e, em decorrência, a proletarização da mão de obra rural surtiu um impacto ambiental e social na zona da mata que repercutiram nas condi- ções de vida e trabalho no Recife.17 Com o sucesso do Movimento de 1930, o primeiro interventor de Per- nambuco foi o usineiro Carlos de Lima Cavalcanti; mas, além de discordar dos rumos que a revolução tomava, teve seu prestígio junto ao presidente Vargas minado pela personalidade de Agamenon Magalhães, sempre se colocando como o intermediário entre Pernambuco e o governo central. E como Lima Cavalcanti não concordou com o Golpe de 1937, foi afastado do poder e Agamenon assumiu como o novo interventor. Não é à toa que 1930 é considerado um marco histórico na História do Brasil; como resultado do engajamento de diversos interesses socioeconômicos e políticos nas mudanças anunciadas pela dita “Revolução”: experimentou-se um breve período de vivência democrática, de 1930 a 1937. Experiência que demonstrou a pluralidade de perspectivas sobre como fazer o Brasil progredir; os candidatos considerados socialistas/ comunistas foram muito bem votados nos pleitos municipais em 1934; mas, devido a essa mesma pluralidade e a ausência de um desejado consenso, Getúlio Vargas opta por centralizar o poder, fechar o Congresso Nacional, proibir partidarismos, enfim, implantar a ditadura do Estado Novo (1937-1945), até que supostamente o povo estivesse preparado para um regime democrático. Entretanto, uma das primeiras providências do governo “revolucioná- rio” de 1930 foi criar os ministérios da Educação e Saúde e o do Trabalho. Já demonstrando a importância conferida a essas duas pastas para o sucesso do novo regime. Percebe-se na associação Educação e Saúde a preocupação flagrante da época entre higiene do corpo e do espírito; um plano de restabele- cimento físico e moral do trabalhador brasileiro, no sentido de uma restauração nacional. Dizia Agamenon Magalhães, em 1938: 17 Sobre a economia pernambucana nesse período vide: Singer (1974, p. 271-345), Perruci (1978, p. 117-139) e Andrade (1986, p. 91-111). 40 [...] o Brasil não é o divórcio, nem as mulheres de pernas cruzadas, fumando nos cassinos. O Brasil não é o paganismo das praias. O Brasil é a família, o amor paterno, os filhos crescendo nos braços das mães, emba- lados nos cânticos da religião e da pátria (MAGALHÃES, 1985, p. 175). O conservadorismo dava o tom da cultura brasileira que devia preva- lecer, ou, pelo menos, manter nas aparências da sociedade. O ideal burguês de família legalmente constituída, num lar mantido pelo homem, e em que a mulher vive para o lar e para os filhos, deveria ser também o ideal acalentado pelos proletários; e para realizar esse ideal o Estado se colocava à disposição para regularizar as uniões e lhe oferecer subsídios. Dizia o artigo 124º da Constituição Federal de 1937: A família, constituída pelo casamento indissolúvel, está sobre a proteção especial do Estado. As famílias numerosas serão atribuídas compensações na proporção de seus encargos (BRASIL, 1937). Em 1941 esse artigo seria regulamentado; além de simplificar o regis- tro do casamento religioso, disponibilizava empréstimos a noivos, abono familiar e determinava sobre a instituição dos bens de família (MAGA- LHÃES, 1985, 177). Tudo para facilitar a constituição legal de famílias. Estudos e reportagens jornalísticas dos anos vinte e trinta revelavam que os trabalhadores urbanos viviam em condições habitacionais prejudiciais a sua saúde e a sua índole. As causas da imoralidade, desordem e revolta social eram localizadas na habitação insalubre e promíscua. Assim, em São Paulo, em 1931, no 1º Congresso Brasileiro de Habitação, engenheiros, arquitetos e sociólogos responsabilizaram a casa [...] pela produção de comportamentos desviantes, como a prostituição e o crime, que revelam a baixa moralidade das populações pobres. Por isso, a questão da habitação popular constitui um entrave ao progresso econômico da nação, que necessita de trabalhadores fortes e sadios (RAGO, 1987, p. 193). Em 1936 a Igreja Católica endossa essa percepção com a realização da I Semana de Ação Social no Rio de Janeiro. Um inquérito sobre as condições de vida e de trabalho das camadas populares, no sentido de buscar soluções, foi apresentado, e, como resultado das discussões, foram criados a Associação Lar Proletário e o Instituto de Educação Familiar e Social. Na II Semana de Ação Social, em 1937, foi criada a Confederação Nacio- nal dos Círculos Operários Católicos. Já o terceiro evento aconteceu, em 1939, no Recife, na Federação das Classes Trabalhadoras de Pernambuco, com SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional41 a participação de Agamenon Magalhães, e do então Ministro do Trabalho, Lindolfo Collor. Inglaterra, Alemanha, Viena (Áustria) e França, que investiram em habi- tação popular, serviam como modelos inspiradores. A sociologia da época acreditava que o meio determinava o indivíduo, sendo assim Estado e Igreja uniram suas forças para defender a família e o lar proletário dos “elementos de dissolução”: “egoísmo depravado, falso individualismo, divórcio, imora- lidade, irreligião” (MARSAUD, 1937, p. 142). Acreditava-se que era preciso oferecer ambientes sadios, moradias higiênicas, com especial atenção à for- mação das crianças. Era preciso valorizar o sentido de “proprietário” para os proletários; torná-los “pequenos burgueses”: Esse desejo de viver esse espírito burguês, esse elan de propriedade, o sen- tido de uma vida sempre em ascensão, o gosto da casa, o sentimento cada vez mais vivo do direito de propriedade, são as forças morais que estão renovando a nossa paisagem social e humana (MAGALHÃES, 1985, 228). A Igreja Católica, por seu lado, colaborava com o projeto de afastar os trabalhadores das más influências buscando argumentos nas orientações contidas nas encíclicas papais: Rerum Novarum, Divino Redemptoris e Qua- dragéssimo Anno, entre outras. Dizia Milton de Pontes: “A era do mocambo vai terminar e as casas populares darão ao operário uma nova alegria de viver” (FOLHA DA MANHÃ, 22 jul. 1939). O movimento da Ação Social Católica, contudo, não concordava com a posição do Estado de substituir a autoridade paterna; desse modo, criticavam, particularmente, os países comunistas. Entretanto, identificavam na “insufi- ciência salarial”, no “salário desproporcional à família”, na “insuficiência de trabalho” e na “insuficiência de acomodação” as causas que interferiam na constituição do “lar ideal” (MAGALHÃES, 1985, p. 147-148). O Estado, por- tanto, deveria favorecer a empregabilidade, a implementação de salários dig- nos e fomentar condições de moradia e subsistência para todos trabalhadores. Agamenon Magalhães, ao assumir a interventoria de Pernambuco, em 1937, prometeu realizar “a emoção do Estado Novo”.18 Foi um fiel repre- sentante do regime e reproduziu aqui a política varguista. Uma das propostas do governo era oferecer habitação de qualidade para a grande massa de traba- lhadores. Nesse intuito, Agamenon solicitou uma pesquisa sobre as condições habitacionais da capital pernambucana, e, em 1939, a Comissão Censitária dos Mocambos do Recife constatava a existência de 45.581 mocambos abri- gando 164.837 pessoas numa população de 500 mil habitantes. Dos 39.953 18 Folha da Manhã, 5 dez. 1937, p. 1. 42 chefes de família recenseados, cuja média de salário, mais outras rendas, era de 154$000, a maioria, 7.778 pessoas, exerciam atividades domésticas, ou seja: faxina, lavar, engomar, cozinhar, costurar etc. Na atividade doméstica é flagrante o predomínio do gênero feminino. Da mulher, nessa época, se esperava que ela zelasse pela educação das crianças e pela harmonia familiar.19 O censo dos mocambos revelava a exis- tência de 12.759 mulheres a mais do que homens moradores de mocambos no Recife.20 E visando atender às necessidades específicas dessas mulheres, a Liga Social Contra o Mocambo empreendeu a construção das vilas com equipamentos de uso coletivo de acordo com a atividade profissional que realizavam; assim, foram erguidas as vilas: das Lavadeiras, das Costureiras e das Cozinheiras – as duas primeiras com financiamento do Governo do Estado e a última custeada pelos Plantadores de Cana de Pernambuco. A Liga Social Contra o Mocambo foi uma sociedade civil fundada, pelo próprio Agamenon Magalhães, em 12 de julho de 1939. Ela congregava diver- sos segmentos socioeconômicos e do governo estadual e municipal, além de universitários, imprensa, classe artística e os próprios proletários, que forma- vam comissões num verdadeiro mutirão para, segundo o artigo primeiro do seu estatuto: “[...] promover a extinção desse tipo de moradia e a incentivar a construção de casas populares, dotadas de condições higiênicas e de fácil aquisição” (FOLHA DA MANHÃ, 21 jul. 1939). O empresariado local era anualmente cobrado pelo próprio Agamenon para contribuir monetariamente com a campanha. Os demais agiam na pro- paganda, fazendo meetings (comícios), ajudando a captar recursos e terrenos; conscientizando, ou melhor, convencendo a população da necessidade de livrar o centro da cidade dos mocambos e de irem morar em bairros distantes do centro. A maioria das vilas foram construídas com recursos das caixas de aposentadorias e pensões de cada categoria profissional. Na verdade, a defasa- gem habitacional não se limitava aos pobres, mas também era uma realidade da classe média. Já as vilas de autônomos, ou seja, de categorias diversas sem sindicato, eram bancadas com os recursos arrecadados pela Liga para esse fim. O Estado proibiu a construção e reforma de mocambos, e oferecia isenção de impostos e incentivos fiscais para o empresariado da construção civil no sentido de estimular o retorno de investimentos para Pernambuco no ramo das habitações populares; porque era costume desviar capitais do estado para investir em regiões consideradas mais nobres do país, como Rio de Janeiro e São Paulo. Mais tarde, a Liga Social Contra o Mucambo foi 19 “É pela mãe particularmente que se operará tal educação, pela mãe, verdadeiro multiplicador que agirá sobre o meio familiar e as gerações de amanhã” (MARSAUD, 1937, p. 150). 20 Eram 45.838 homens e 58.597 mulheres maiores de 15 anos; 30.398 homens e 30.004 mulheres menores de 15 anos (MELO, 1939, p. 25). SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 43 transformado na autarquia Serviço Social Contra o Mocambo, e sobreviveu até a década de 1980. A derrubada de mocambos nem sempre foi livre de conflitos. Houve excessos; por vezes, na emoção de um comício, partiam para derrubar algum mocambo na ausência do morador; situações que iam parar na delegacia. Assim como muita gente não teve acesso ao benefício de uma casa. Muitos receberam a passagem de volta para o interior, ou começaram a ocupar os morros de Casa Amarela. Pela iniciativa, Recife tornou-se atrativo para mui- tos migrantes em busca de um lar; mas, no interior do estado também houve construção de vilas para trabalhadores de usinas. E para morar nas vilas erguidas pela Liga Social Contra o Mocambo era preciso atender alguns critérios, a mulher deveria: a) ser lavadeira/ costureira/ cozinheira profissional; b) morar em mocambo; c) possuir família numerosa; d) esclarecer a situação civil; e) possuir verificação médica da família.21 Todavia, na atividade “doméstica” estavam, muitas vezes, incluídas as mere- trizes, que enfrentavam discriminações e repressões. Como já foi observado ante- riormente, o Recife sofria intervenções urbanas há muito tempo, e nesse processo de remodelar a cidade, as meretrizes vinham se deslocando a ponto de provocar reclamações de moradores de ruas tradicionalmente familiares, como o bairro de São José (REVISTA Mauricéa, 1938, s/p). Considerando a predisposição do Estado e da Igreja em regularizar a condição civil dos chefes de família morado- res de mocambos, é possível que meretrizes tenham conseguido se adequar aos critérios exigidos para obter uma casa nas vilas recém construídas, assim como podem ter sido orientadas pela “Educadora Familiar”, que recomendava: [...] à mãe de família a restabelecer o orçamento familiar, recuperar-lhe-á coragem e confiança em si mesma, torna-la-á dona de casa à altura de sua missão, mãe de família ciosa das responsabilidades que lhe cabem (MARSAUD, 1937, p. 150). A figura da “Educadora Familiar”, ou as “visitadoras de higiene” de Amaury de Medeiros, surgiram na década de vinte, de branco com chapéus de abas largas presos com laços de cetim preto, na intenção de ajudar as 21 As condições d e e começaram a ser exigidas com a Vila das Costureiras.Nessa ocasião, duas famílias, num total de 35, foram afastadas por estarem tuberculosas. Quanto ao regime civil, foi observado que das 153 cozinheiras apenas 15 eram casadas no civil e no religioso, 19 no civil, 17 no religioso, 42 viúvas e o restante abandonadas vivendo ou não com amante (RELATÓRIO da Liga, 1941, p. 09-10). 44 famílias nos cuidados com as crianças (OLIVEIRA, 1975, p. 46-49), porque o índice de mortalidade infantil, nas décadas de 1930 e 1940, era muito alto; a maioria morria de gastroenterite, devido à má qualidade do leite de vaca, e de desnutrição. As mães não faziam pré-natal. Tifo, febre amarela e tubercu- lose eram doenças muito comuns na época. O médico, sociólogo e geógrafo Josué de Castro relatava bem as condições de vida de operários e das camadas populares em crônicas que publicou em jornais e ensaios entre 1932 e 1937, período que trabalhou como médico em fábricas do Recife (CASTRO, 1965). Em 1936, durante a I Semana de Ação Social [católica], a Dona Darcy Vargas, como presidente da Legião Brasileira de Assistência, LBA, criou o Instituto de Educação Familiar e Social, que formava assistentes sociais técnicas, profissionais que passaram a colaborar no processo de reeducação e cuidados da saúde das camadas populares. Em 1938 o Estado Novo instituiu o Serviço Social como modalidade de serviço público; assim, ao trabalho da “Educadora Familiar” e da “Visitadora de Higiene” acrescenta-se a figura da Assistente Social22, que, num trabalho conjunto com religiosos e leigos, ofe- reciam apoio e orientações às mães para que permanecessem no lar cuidando dos futuros cidadãos do Brasil; o curioso é que eram mulheres que trabalhavam fora que, contraditoriamente, estimulavam o inverso. O trabalho dessas profissionais e desses grupos de apoio, que se faziam presentes nos Centros Educativos Operários e nos Círculos Operários Cató- licos, era importante para promover e manter a salubridade das novas vilas erguidas pela campanha contra os mocambos, e no sentido de se evitar: a proliferação de doenças infectocontagiosas, o aumento do número de mulhe- res chefes de família, e consequentemente, de menores abandonados, pois se acreditava que a causa do abandono estava no regime de mancebia. Garan- tia-se, assim, “[...] a casa própria à família legalmente constituída” (MEDEI- ROS, 1995, p. 57-58). A casa devia representar um ambiente seguro e tranquilo para o tra- balhador, deveria lhe sugerir permanência em troca de frequentar lugares viciosos como bares e botequins. As moradias deveriam ter espaço livre para um jardim, e quem sabe uma horta para cultivar, e para a construção de um anexo, uma ampliação da habitação. A venda era à prestação, valores módicos suportáveis para o trabalhador, de doze a quinze cruzeiros, incluindo água e luz; e com isenção de impostos por quinze anos. Além de oferecer a tão sonhada casa própria para o trabalhador bra- sileiro, o governo se propunha a melhorar suas condições de saúde, de 22 Em 1938, pelo Decreto-lei nº 525, foi “[...] instituída a organização social do Serviço Social enquanto modalidade de serviço público, através do Conselho Nacional de Serviço Social, junto ao ministério da Educação e Saúde.” e “Pelo Decreto-lei n. 4830 de 15. 10. 1942, a LBA [Legião Brasileira de Assistência] é reconhecida como órgão de colaboração com o Estado no tocante aos serviços de assistência social” (MEDEIROS, 1995. p. 57-58). SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 45 educação, formação profissional e de lazer. Nesse sentido, os Centros Edu- cativos Operários, localizados nas vilas e mais tarde denominados Centros Sociais Urbanos (CSU), e os Círculos Operários Católicos, proporciona- vam atendimento médico-dentário, cursos profissionalizantes e de arte, e atividades de lazer dito saudável, como: apresentações de teatro, música, jogos e projeção de filmes. A peça Mocambo, Comédia Social em 3 Atos, de Valdemar de Oliveira e Filgueira Filho, encenada pelo grupo Gente Nossa, por exemplo, foi exibida nos Centros Educativos para operários e no Tea- tro Santa Isabel para o empresariado local, tanto serviu para conscientizar da importância da campanha contra os mocambos e edificação de vilas populares, quanto para melhorar as relações capital-trabalho, no sentido de respeito e aplicação das leis trabalhistas. A preocupação com a eugenia do povo brasileiro, ou melhor, com o seu estado nutricional, no sentido de melhorar as condições físicas dos trabalhadores para alcançar uma melhor produtividade, fez o governo exigir, em 1939, que nas fábricas com mais de quinhentos funcionários fosse construído um refeitório. E, em 1940, o Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários, a pedido do Ministério do Trabalho, ofereceu um plano de ação para melhorar os hábitos alimentares dos trabalhadores: o Serviço de Alimentação da Previdência Social, SAPS (1940-967); cujo primeiro diretor foi Josué de Castro, devido aos seus estudos sobre a relação entre doenças, mortalidade e a fome. O SAPS instalou restaurantes e forneceu alimentos a empresas, contudo, apesar de Josué de Castro ser pernambucano, esse serviço demorou a acontecer no Recife, algo que ficou mais restrito ao eixo Rio de Janeiro-São Paulo.23 Mas, nesse mesmo período, a sociedade recifense se mobilizou para ajudar a construir o Refeitório das Moças Empregadas no Comércio, que possuía até estatuto. Mantinha-se uma relação entre habitar bem e educar; estimular a ativi- dade produtiva, combater o ócio, “até pela violência se for preciso”.24 Porque, para Agamenon Magalhães: Todo cidadão tem o dever de trabalhar. Todo homem deve ser econômico e espiritualmente útil. Quem não quiser trabalhar deve ser reeducado pelo Estado nos estabelecimentos correcionais (MAGALHÃES, 1940). E, nesse sentido, além do apoio de entidades civis e religiosas, para promover a reeducação do operariado brasileiro existia um departamento 23 Na época que abordei o SAPS em minha dissertação (GOMINHO, 1998), e até mesmo brevemente na tese (GOMINHO, 2011), não havia trabalhos sobre esse órgão. Agora, já é possível encontrar alguns artigos e anais da Associação Nacional de História (ANPUH), e até o livro de Evangelista (2014). 24 Em Orientação para as Administrações Municipais (Boletim, 1940), Agamenon esboça a intenção de criar colônias ao redor das cidades (de granja, horticultura, criação), que serviriam como áreas de abastecimento e ocupariam os “malandros, preguiçosos, inúteis” que perambulavam pelas ruas “sem nada fazer”. 46 policial chamado Ação de Vigilância contra a Falsa Mendicância e Vagabun- dagem, cujo chefe em 1943 era o Sr. Jorge Guedes. No dia primeiro de julho deste mesmo ano de 1943, por exemplo, o jornal Folha da Manhã noticiava a apreensão, numa ação de repressão à mendicância, pelo delegado José Fran- cisco, de diversos indivíduos que fingiam invalidez pelo centro da cidade. E além do DOPS, Delegacia de Ordem Política e Social (1924-1983), do DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda, e do DEIP, Departamento do Estado de Imprensa e Propaganda, que exerciam a censura, o controle e a repressão de indivíduos e grupos associados, existia também a Diretoria de Reeducação e Assistência Social, criada por Milton de Pontes, que deveria “orientar, coor- denar ou instituir serviços sociais para a população do município do Recife”, no sentido de “intensificar o desenvolvimento moral, social e econômico da cidade, assegurando-lhes um padrão de vida de nível mais elevado” (FOLHA DA MANHÃ, 15 dez. 1937, p. 1); o Estado empreendia, assim, por meio dos Centros Educativos Operários, a reeducação anticomunista. Num contexto de guerra, o apelo patriótico se intensificava, e, se por um lado o período da ditadura Vargas foi um período difícil para exercer a liber- dade, por outro foi também de muita criatividade. A cultura, as artes, embora sob severa censura, e sendo muitas vezes obrigada a tratar de determinados temas,foi muito produtiva e marcou época. Em junho de 1938, ainda no início da ditadura, Agamenon Magalhães, assim definia o Estado Novo: É uma democracia autoritária corporativa. O indivíduo atua no Estado Brasileiro, colaborando com o governo, como cidadão, na Câmara Política, e como produtor, no Conselho de Economia Nacional. O governo central é forte, dentro da Federação, perdendo os estados em autonomia os poderes e franquias, que forem necessários para fortalecer a nação (FOLHA DA MANHÃ, 1º jun. 1938). Parece estranho e contraditório uma ditadura se compreender como uma democracia; se entendemos democracia como o “o governo do povo”, ou o “poder da maioria”. Contudo, observamos na Era Vargas uma representação popular no governo sem precedentes no Brasil. O voto censitário, o voto de cabresto e a repressão policial haviam mantido as camadas populares alija- das da participação política desde a Primeira República. Em São Paulo, nas décadas 1920 e 1930 aconteceram movimentos de resistência e de luta dos operários buscando se inserir nos embates do espaço político institucional; e no Recife a chapa Trabalhador Ocupa o Teu Posto concorreu e venceu ao pleito municipal de 1934 pela legenda União Operária e Camponesa do Par- tido Comunista do Brasil. Mas, o movimento de 1935, que a história oficial alcunhou de Intentona Comunista, justificou a não diplomação dos vereadores SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 47 eleitos. Então, tudo mudou; e a liberdade foi substituída pela tutela, devido à dificuldade do novo governo em lidar com o dissenso, com os partidaris- mos. O fascismo estava presente no governo e o endurecimento do regime correspondia a essas influências. O Brasil mantinha, na época, boas relações comerciais com a Alemanha, e culturalmente se percebia uma admiração flagrante nos jornais e na literatura; no entanto, a guerra e os Estados Unidos exigiram uma definição de Vargas, contudo, a neutralidade foi protelada ao máximo; todavia, sob pressão interna e externa, o Brasil iniciou sua partici- pação na guerra em 1942. A guerra também serviu para fortalecer os ideais de patriotismo e fomen- tar as atividades econômicas a título de “esforço de guerra”, assim como a presença norte-americana em território brasileiro favoreceu novos hábitos e interesses, particularmente no Recife e em Natal, onde foram instaladas as bases militares dos aliados. A Era Vargas, por sua vez, inaugurou uma relação diferenciada com as camadas populares. Ocorreu uma inclusão controlada de setores organizados no governo, os sindicatos estavam submetidos ao Estado, mas os veículos de comunicação (jornais, rádio e noticiário nos cinemas) e os eventos públicos se dirigiam direta e, especialmente, para o povo, que era identificado de maneira valorativa como os “Trabalhadores do Brasil”. Essa atenção do Estado com as camadas populares visava disciplinar os rumos da revolução; manifestar empatia foi estratégia que muitos cientistas sociais avaliariam como uma prática populista, todavia, atendia às expectativas imediatas dos proletários do Brasil. Quando da redemocratização em 1945, o povo sentiu receio de perder os direitos que havia conquistado, temia o retorno dos velhos políticos de outrora, que agora se anunciavam como democráticos. O povo brasileiro teve que reconquistar, ou melhor, construir sua autonomia política. Vargas e Agamenon marcaram a história do Brasil e de Pernambuco, e, apesar das prisões e truculências contra os adversários, e do fato que as casas construídas foram insuficientes para a demanda, em 1950 voltaram ao poder pelo voto. 48 REFERÊNCIAS ANDRADE, Manuel Correia de. A Terra e o Homem no Nordeste. Con- tribuição ao Estudo da Questão Agrária no Nordeste. São Paulo: Atlas, 5. ed., 1986. BRASIL. Constituição dos Estados Unidos do Brasil. Rio de Janeiro, 10 nov. 1937, Imprensa Nacional-Indústria e Jornal. CASTRO, Josué. Documentário do Nordeste. 3. ed. São Paulo: Brasi- liense, 1965. COMISSÃO CENSITÁRIA DOS MOCAMBOS DO RECIFE. Observações Estatísticas sobre os Mocambos do Recife. Recife: Imprensa Oficial, 1939. DUARTE, João. Mocambo. Sepultura onde se enterrou uma população que ainda não morreu. Conferência realizada no Instituto Brasileiro de Cultura. Folha da Manhã (matutino), Recife, 20 ago. 1939. p. 2. EVANGELISTA, Ana Maria da Costa. Arroz e Feijão, Discos e Livros. 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Bairro do Recife: Porto de Muitas Histórias. Memória em Movimento. Recife: Gráfica, 1989. OLIVEIRA, Valdemar de. No Tempo de Amaury. Recife: Secretaria de Saúde de Pernambuco, Fundação Amaury de Medeiros, 1975. PERRUCI, Gadiel. A República das Usinas. Um Estudo de História Social e Econômica do Nordeste. 1889-1930. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. RAGO, Margareth. Do Cabaré ao Lar: A Utopia da Cidade Disciplinar. Brasil 1890-1930. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1987. 50 REVISTA MAURICÉA. “Os fatores imediatos da criminalidade no centro urbano da cidade” [transcrição de declarações do delegado Genésio Villela publicadas no jornal Folha da Manhã]. Recife, Ano III, n. 10, mar., 1938. SINGER, Paul. Desenvolvimento econômico e evolução urbana. São Paulo: Ed. Nacional, 1974. WEBER. Eugen. França Fin-de-Siècle. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. CAPÍTULO 3 CAPITALISMO, ESTADO E POLÍTICA SOCIAL NO BRASIL DOS ANOS 1950 Adilson Aquino Silveira Júnior 1. Introdução Esse texto aborda as tendências da formação do capitalismo no Brasil dos anos 1950, em suas relações com as mudanças da dominação imperialista. Pretende identificar os reflexos de tais tendências no plano da intervenção estatal e da política social na década. Assumindo a perspectiva de totalidade da concepção teórico-metodológica marxiana, o estudo recorre a fontes biblio- gráficas para apreender o quadro da particularidade em questão. O período abordado é entendido como um intervalo de transição na estrutura econômica capitalista no país, que passa, progressivamente, a adensar a intervenção estatal voltadapara subsidiar a acumulação de capital. Essa transição, que caminha para a dominação da realidade dos monopólios, é condicionada pelo avanço da dominação externa, centrada na ascensão do poder norte-americano no sistema imperialista, e pelo acirramento das lutas de classes no plano interna- cional e nacional. Em termos da política social no Brasil, a principal tendência manifesta-se nas mudanças estritamente setoriais e isoladas, observadas entre o final da Segunda Guerra e a entrada do ciclo ditatorial de 1964. Buscamos apreender as determinações do desenvolvimento capitalista, do Estado e da política social no Brasil dos anos 1950, segundo quatro níveis de abstração: o estágio de transição na estrutura econômica capitalista que preside esse período; as modalidades de intervenção estatal em correspondência com as modificações na estrutura das classes sociais; a dinâmica das relações internacio- nais que afetam as características da dominação externa e das lutas de classes; e as tendências das políticas sociais erigidas sob esses condicionamentos. 2. Época de transição na estrutura econômica capitalista A década de 1950 abriga a fronteira entre duas fases da evolução interna do capitalismo no Brasil. Nela, a época de expansão e formação do capitalismo 52 competitivo cedia lugar ao momento de irrupção do capitalismo monopolista. Em fins dessa década, acentua-se a reorganização do mercado e do sistema de produção, através das operações comerciais, financeiras e industriais da grande corporação (FERNANDES, 1976). Reorganização que adquire um caráter estrutural do decorrer do ciclo ditatorial aberto em 1964, consolidando, entre nós, a época do “imperialismo total”25 (FERNANDES, 1975, p. 18). Em fins dos anos 1950, essa irrupção da fase dos monopólios se coloca na sequência das transformações sociais e políticas já desdobradas pela consolidação da economia urbano-comercial e a importante transição industrial do período que então se encerrava. Ocorre um surto industrial de grande peso, pois afeta a produção de bens de produção, num cenário em que se desencadeia uma forma de intervencionismo econômico estatal caracterizado pela saturação de certas funções de sustentação ou de reforço do desenvolvimento capitalista, mediante empresas públicas (ou semipúblicas); um período do qual, em seu início, a Petrobrás (1953) e a Companhia Siderúrgica Nacional (1946) são as duas realizações de maior vulto e significação (FERNANDES, 1976). Do ponto de vista da afirmação do estágio monopolista na realidade capi- talista no Brasil, os anos 1950 abrigam – diz Fernandes (1976) – uma segunda tendência dessa irrupção, quando a emergência e irradiação dessa realidade concorrem a partir de dentro. Antes, o relacionamento da economia brasi- leira com a expansão monopolista ocorria com uma exploração segmentada das grandes corporações, com suas influências se diluindo num capitalismo competitivo em expansão e diferenciação, e só excepcionalmente logrando um controle econômico como monopólio real. Na fase aberta pela segunda tendência, a partir da década de 1950, “[...] a economia brasileira já não concorre, apenas, para intensificar o crescimento do capitalismo monopolista no exterior: ela se incorpora a esse crescimento, aparecendo daí em diante, como um de seus polos dinâmicos na periferia” (FERNANDES, 1976, p. 299). Não obstante, diz Fernandes (1976), esses ainda são anos em que as grandes corporações apenas contam com o espaço econômico que elas próprias conse- guiam abrir, numa economia dependente, mas em fase de transição industrial relativamente madura. Só com o desenlace do regime de 1964, elas consegui- ram contar com uma política econômica que convergia ação governamental e vontade empresarial. Do ponto de vista da “decisão interna” da iniciativa privada e do Estado de permitir, facilitar e acelerar a irrupção monopolista, como uma transição estrutural e histórica, os anos 1950 encontram-se também 25 Para Fernandes (1975, p. 18), o “[...] traço específico do imperialismo total consiste no fato de que ele organiza a dominação externa a partir de dentro e em todos os níveis da ordem social, desde o controle da natalidade, a comunicação de massa e o consumo de massa, até a educação, a transplantação maciça de tecnologia ou de instituições sociais, a modernização da infra e da superestrutura, os expedientes financeiros ou do capital, o eixo vital da política nacional etc.” SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 53 num capítulo avançado desse processo, mas não no conclusivo: “A ‘decisão interna’ cristaliza-se aos poucos, depois da Revolução de 1930; fixa-se de maneira vacilante, a princípio, em favor do ‘impulso externo’ como a ‘única solução’ no fim da década de 1950, e, por fim, quando surge a oportunidade crucial (o que se dá só de 1964 em diante), ela se converte no principal dínamo político do processo” (FERNANDES, 1976, p. 302). Do ponto de vista dos padrões de acumulação capitalista internamente operantes, Mello (1991) também localiza na década de 1950 um momento transitório: a passagem da “industrialização restringida” para a “industria- lização pesada”. Ele detecta que entre 1933-1955 existiu a regência de um processo de “industrialização restringida”. Nela, embora a dinâmica da acumu- lação se assente na expansão industrial, a mesma encontrava-se constrangida, posto que as “[...] bases técnicas e financeiras da acumulação são insuficientes para que se implante, num golpe, o núcleo fundamental da indústria de bens de produção [...]” (MELLO, 1991, p. 110). Entre 1956-1961, por sua vez, desen- cadeia-se um processo de “industrialização pesada”, um tipo de desenvolvi- mento que “[...] implicou um crescimento acelerado da capacidade produtiva do setor de bens de produção e do setor de bens duráveis de consumo antes de qualquer expansão previsível de seus mercados” (MELLO, 1991, p. 117). Uma expansão (cuja fase de depressão ocupou os anos de 1962-1967) apoiada no Estado e num novo capital estrangeiro (empresa oligopólica estrangeira), que se transfere na forma de capital produtivo. A “industrialização pesada”, por outro lado, promoveu uma forte expansão do capital industrial nacional, situada no setor produtor de bens de consumo para assalariados. 3. Intervencionismo estatal, acumulação de capital e estrutura de classes A década é marcada – principalmente com Getúlio Vargas (1951-1954) e Juscelino Kubitschek (1956-1961) – por uma reorientação das relações entre o Estado e a economia, quando o poder político governamental passa a desem- penhar funções mais ativas e diferentes, no sistema econômico-financeiro do país, voltadas a aceleração do desenvolvimento industrial (IANNI, 1977). Durante o governo Vargas (1951-1954), não apenas surgiram órgãos destina- dos a favorecer o desenvolvimento econômico, também se realizaram estudos técnico-científicos sobre os problemas econômicos brasileiros, aprofundou-se o debate técnico e político sobre as perspectivas abertas à expansão da econo- mia nacional, ampliou-se a discussão a propósito do planejamento econômico e da adoção de políticas econômicas planificadas por parte do governo e dos setores governamentais, cujos exemplos são detalhados em Ianni (1977, 54 p. 116-117, p. 122). Mesmo assim, aí estava em curso a progressiva inter- nacionalização do processo de reprodução e acumulação de capital, regida pela política de alianças e absorções entre investidores estrangeiros, capital nacional e aparelho estatal. No governo seguinte, de Juscelino Kubitschek (1956-1961), o poder público passou a atuar no sistema econômico recorrendo a todos os recur- sos disponíveis, imbuído em acelerar o desenvolvimento, particularmente a industrialização, e impulsionar o setor privado nacional e estrangeiro – donde a iniciativa, não apenas do Programa de Metas, mas da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), da Operação Pan-Americana(OPA) e a construção de Brasília. A política econômica, com esse grau de planificação, produziu um amplo surto de internacionalização da economia brasileira. Para Ianni (1977), foi principalmente o Programa de Metas que implicou numa mudança qualitativa na figura e nos papéis do Estado, através da adoção de uma política econômica de associação e interdependência, em âmbito internacional. Uma estratégia política de desenvolvimento que tinha como componente a reelaboração da dependência estrutural da economia brasileira, afastando-se da inspiração na ideia de emancipação e autonomia propalada anteriormente. Algo que expressou uma etapa importante de hiper- trofia do Estado, acrescendo novas dimensões ao Poder Executivo, ilustradas por Ianni (1997, p. 178). A intervenção do Estado na industrialização se arti- culou a tal ponto que “[...] o poder público fora transformado no mais impor- tante centro de decisões e realizações (econômicas, financeiras, cambiais etc.) indispensáveis ao funcionamento e ao desenvolvimento do setor privado.” (IANNI, 1977, p. 181). Ou seja: “[...] a privatização, a internacionalização e a hipertrofia do Executivo encontravam-se e conjugavam-se numa ditadura disfarçada da burguesia industrial” (IANNI, 1977, p. 181). A empresa privada passou a exigir um novo padrão de direção e de ges- tão, mais racionalizado e profissionalizado – donde uma especialização do trabalho crescentemente complexa e orgânica ao capital industrial, levando a ascensão e valorização de figuras como o engenheiro, o administrador de empresas, o economista, o atuário, o profissional da publicidade e propaganda, se especializando as funções de gerência, dentre outros. Algo correlato ao que acontece no aparelho de regulação e intervenção econômica, no setor produtivo estatal, no campo social (em especial na educação, saúde e previ- dência), constituindo-se espaço para uma alta burocracia de diretores, gerentes, chefes, assessores, encarregados da gestão das empresas públicas industriais e financeiras. Dizem Mello e Novais (1998, p. 595): “Ao mesmo tempo, na administração governamental, a figura do técnico vai ganhando mais vulto. Ao lado dos que desempenham funções tradicionais do Estado [...] ganham impor- tância os especialistas em administração de pessoal, financeira, tributária, de SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 55 comércio exterior, do sistema de saúde, ou de educação etc.” Esses requisitos de profissionalização, tecnificação e racionalização das atividades de gestão e controle da vida social e produtiva – concomitante ao impacto que a con- centração e centralização da lógica monopolista implica na sobrevivência de amplos setores da pequena burguesia – impeliu essas frações de classe para a aparelhagem produtiva e estatal: “As famílias de classe média procuraram, assim, utilizar todas estas oportunidades de ascensão social, abertas tanto pela expansão da grande empresa privada ou estatal quanto pela ampliação da administração pública” (MELLO; NOVAIS, 1998, p. 595). Por isso, o incremento na demanda de vagas nos mais altos planos na educação insti- tucional: “[...] a exigência de qualificação fundada na educação superior – a começar pelo concurso público exigido pelos governos – impõe-se de modo crescente.” (MELLO; NOVAIS, 1998, p. 596). Em suma, a consolidação da sociedade urbano-industrial no Brasil galvanizou alterações nas demandas sociais para o ensino superior. E tais demandas resultaram de fatores como o crescimento da população urbana, a industrialização e a monopolização, a recondução das expectativas de ascen- são social da pequena burguesia, a redefinição do papel da mulher no âmbito extradoméstico, a elevação dos requisitos educacionais para preenchimento dos cargos nas burocracias públicas e privadas. Porém, tais demandas cresciam sem que operasse uma mudança qualitativa na oferta e estruturação do ensino superior, fundada nas tradicionais Escolas Superiores (ou na conglomeração delas), restritas no acesso, unifuncionais, rígidas, desvinculadas da produção científica criadora e atrelada aos interesses de dinamização capitalista – no máximo, observa-se, nos anos 1950, uma atuação do governo federal no sentido de reconhecimento das Escolas, a padronização da formação e o reco- nhecimento legal das profissões. Contradições que se expressaram em finais de 1950 com a crise universitária: a falta de realização social dos diplomados foi um dos principais motivos que levaram ao acirramento da insatisfação das classes médias expresso no movimento pela reforma universitária – o que, consequentemente, contribuiu para o incremento do movimento estudantil (CUNHA, 1988; ROMANELLI, 1991). 4. Dominação externa e lutas de classes No plano da dominação externa, portanto, a década apresenta a conso- lidação das tendências de afirmação do imperialismo norte-americano, que impõe econômica e politicamente a internacionalização da economia brasi- leira. Aí localiza-se o principal do capital estrangeiro que se associa com o Estado para levar a efeito a afirmação da realidade dos monopólios no Brasil, propalada sob o signo do desenvolvimentismo. Conforme Mandel (1985), o 56 apelo à ideologia do desenvolvimento na realidade do capitalismo dependente é um reflexo de uma alteração na estrutura do capital monopolista nos países imperialistas. Após depressão de 1929, e especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, o padrão das indústrias exportadoras imperialistas deslocou- -se progressivamente para máquinas, veículos e bens de capital; diferencian- do-se da tendência de exportações em termos de bens de consumo, carvão e aço vigentes no século XIX e início do século XX. Diz Mandel (1985, p. 43) que “[...] a exportação cada vez maior de capital fixo resulta no interesse crescente dos maiores grupos monopolistas por uma industrialização incipiente do Terceiro Mundo: afinal não é possível vender máquinas aos países semi- coloniais, se eles não têm permissão para utilizá-las”. Arremata o autor: “Em última análise, é esse fato [...] que constitui a raiz básica de toda a ‘ideologia do desenvolvimento’ que tem sido promovida no Terceiro Mundo pelas classes dominantes dos países metropolitanos” (MANDEL, 1985, p. 43). No caso no Brasil, essa modalidade de inserção subordinada na divisão internacional do trabalho ocorreu pela reelaboração das suas relações econô- micas, políticas e militares com os Estados Unidos; ou, mais precisamente, o aprofundamento dessas relações (FERNANDES, 1976; IANNI, 1977). Para Ianni (1977), essa tendência, em finais de 1940, já se expressava em inúme- ras iniciativas: a participação, em 1947, do Governo Dutra na Conferência Interamericana para a Manutenção da Paz e da Segurança no Continente, ocasião em que se elabora o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR); o envolvimento, do mesmo governo, em 1948, na elaboração da Carta da Organização dos Estados Americanos, com o fito de intensificar a solidariedade e a cooperação das Américas, segundo as exigências da Guerra Fria; o início dos trabalhos, em 1948, da Comissão Mista Brasil-Estados Uni- dos, com a finalidade de realizar estudos, formular projetos e fomentar sua execução, com ajuda financeira das empresas e governo norte-americanos.26 Dessa sequência de episódios da afirmação de canais da política internacional, fazem parte, ainda, o estabelecimento do Acordo Ponto IV, a partir de 1950, e a intervenção, de maior consistência, promovida pela Aliança Para o Pro- gresso na década seguinte (pela mediação da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional – USAID). Diz Ianni (1977) que após o sucesso do Plano Marshall, dos experimentos com a Doutrina Truman e do término da Guerra da Coreia, o capitalismo norte-americano demandava novas fronteiras de expansão, além do aprofundamento dos seus desenvolvi- mentos em áreas em que já se encontrava instalado: “Nesse sentido é quese 26 Mesmo o início dos trabalhos da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), em Santiago, no ano de 1948, ocorre sob esse signo: marcada pela indiferença da maioria dos governos dos países latino- -americanos e a hostilidade dos empresários e do governo dos EUA (IANNI, 1977). SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 57 pode dizer que a Doutrina Truman e o Ponto Quatro fazem parte do mesmo movimento histórico que produz a Missão Abbink e o Programa de Metas” (IANNI, 1977, p. 143). Na medida em que avançava a década, o surto industrializante, apoiado na internacionalização da economia e na superexploração do trabalho, acumulou dois amplos campos de conflitos políticos entre o proletariado e o campesinato, de um lado, e a oligarquia fundiária e a burguesia industrial, de outro. De uma parte, a densificação do proletariado industrial, atrelada a corrosão do poder de compra do salário e o encarecimento do custo de vida, levou a tensões grevistas e sindicais no ambiente urbano. Vieira (1983, p. 26) sinaliza para a expressividade que adquirem os movimentos grevistas, inclusive com reper- cussão nacional, a partir de 1953, em São Paulo e no Rio de Janeiro – donde a emblemática greve de 400 mil operários no Estado de São Paulo, em outubro de 1957.27 De outra parte, a mecanização do campo, com a perpetuação das formas pré-capitalistas de exploração, ocasiona um acúmulo de tensão que desponta com a força das Ligas Camponesas no Nordeste. Funcionando na forma de associações de camponeses na luta pela terra e a Reforma Agrária, as Ligas multiplicaram-se pelo Nordeste após meados de 1950, expandindo-se também para Minas Gerais e Rio de Janeiro (PAGE, 1972). No cenário latino-americano, principalmente no final da década, perce- bem-se lutas anti-imperialistas e nacionalistas cuja expressão modelar foi a Revolução Cubana. Fernandes (1976, p. 296-297) afirma que, em seguida a crise de 1929, antes e depois da Segunda Guerra Mundial, vários fatores con- tribuíram para modificar substancialmente a relação das grandes corporações com as economias periféricas: aquelas passavam a competir fortemente entre si pelo controle da expansão induzida destas economias. No plano político, surgiu uma impulsão fundamental aos processos de neocolonização típico do capitalismo monopolista. O fim do conflito bélico encontrou um cenário político numa evolução de tensões em vários continentes, dos quais os mais cruciais foram a Revolução Iugoslava, o advento das democracias populares, a Revolução Chinesa e a Revolução Cubana. Diz Fernandes (1976, p. 297) que nessa situação, o controle da periferia passava a ser vital: “[...] não só porque as economias centrais precisam de suas matérias primas e dos seus dinamismos 27 Braga (2012) indica que as reivindicações dos anos 1950 destacaram-se por suas pautas defensivas, foca- das em aumentos salariais, pelo congelamento de preços dos meios de subsistência, por medidas contra a carestia e o desemprego. Por outro lado, se fez sentir uma marcante presença da ação das bases, tanto na organização quanto na sustentação dos movimentos grevistas. Diz Braga (2012, p. 80-81): “Começando com a ‘Greve dos 300 mil’, de 26 de março de 1953, passando pela greve geral de 2 de setembro de 1954, até chegarmos à ‘Greve dos 400 mil’, entre os dias 15 e 24 de outubro de 1957, uma combinação entre luta contra a carestia e flagrante mobilização operária nas bases paralisou as fábricas, levando milhares de trabalhadores aos comícios e às passeatas dos ‘direitos democráticos’, aumento geral dos salários, aplicação do salário mínimo e congelamento de preços”. 58 econômicos, para continuarem a crescer, mas também porque nela se achava o último espaço histórico disponível para a expansão do capitalismo”. Em todo esse processo de mudança econômica, política e social dos anos 1950, o desenvolvimento capitalista perpetuou os traços típicos que ele encarna nas nações tidas como periféricas e heteronômicas, enfrentados como uma condição estrutural permanente. Ou seja, nenhuma das mudanças em curso chegou a impor: 1º) a ruptura com a associação dependente, em relação aos centros hegemônicos da dominação imperialista; 2º) a desagregação completa do antigo regime e de suas sequelas, ou seja, das formas pré-capitalistas de produção, troca e circulação; 3º) a superação de estados relativos de subde- senvolvimento, próprios a satelização imperialista da economia interna e à extrema concentração social e regional resultante da riqueza. Ou seja, mante- ve-se nos limites do “circuito fechado” da “dominação imperialista externa” e do “desenvolvimento desigual interno” (FERNANDES, 1976). De modo que prevaleciam, na entrada dos anos 1960, a dominância da produção agropecuária em relação à indústria; a troca internacional baseada no predomínio das impor- tações de máquinas, equipamentos, veículos e acessórios, contrastando com a ampla concentração na exportação de gêneros agrícolas ou correlatos (café, cacau, madeira, açúcar e minério de ferro); a maior penetração e controle nas relações econômicas pelos monopólios estrangeiros, a ingerência da política norte-americana e das organizações internacionais sob sua tutela; a restrição da proteção trabalhista e social num estreito circuito de trabalhadores formais urbanos, frente às condições sub-humanas de vastas camadas de camponeses, trabalhadores informais, e do exército de desempregados ou subocupados. 5. As mudanças setoriais e isoladas na política social Em relação às políticas sociais, o lapso temporal que vai do fim do Estado Novo ao Golpe de abril de 1964 não informa inovações de relevo. Excetuando- -se os presidentes da linha sucessória que assumiram entre 1954-1955 após a morte de Vargas, entre 1946 e 1961, foram três presidentes diretamente eleitos: Dutra (1946-1951), Vargas (1951-1954) do segundo governo e Kubitschek (1956-1961). Encerram esse ciclo os governos de Jânio Quadros (jan.-ago. 1961) e João Goulart (1961-1964). Em todos os casos, as mudanças no plano das políticas sociais assumiram um estrito caráter setorial, identificadas em aspectos isolados (VIEIRA, 1983). Mesmo no encerramento do governo de João Goulart, considerando toda essa quadra iniciada após 1945, a pesquisa de Vieira (1983, p. 178) conclui: “Não houve lugar para mudanças amplas, que tocassem as bases da política social.” O autor verifica, assim, que as mudan- ças na política social no Brasil ocorreram apenas com caráter setorial, e em aspectos isolados – donde as transformações de maior relevo, centralizadas SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 59 na expansão quantitativa, apresentaram-se como um subproduto do surto de industrialização e urbanização. Com efeito, os raros estudos abrangentes dedicados ao tema – dos quais se extrai informações sobre os anos 1950 – sinalizam para um quadro marcado por certa paralisia na política social entre o fim do Estado Novo e o início do regime de 1964, e no qual a expansão existente ocorreu de forma lenta e sele- tiva, basicamente reiterando o formato corporativista e fragmentado erigido no estágio anterior (BOSCHETTI; BEHRING, 2006). Assim arremata Santos (1979, p. 80), por exemplo: “Apesar das objeções às práticas e instituições her- dadas do Estado Novo, bem pouca coisa, se alguma, será alterada no período que vige até 1964”. Afirma o autor que a resposta do poder público às contra- dições econômicas e políticas acumuladas nos anos 195028, inclusive durante o governo João Goulart, foi, na melhor das hipóteses, pobre. Ou seja: “A mesma expansão da cidadania, via regulação das ocupações, e, a partir daí, o mesmo comportamento ora conciliatório, ora repressivo, em termos salariais” (SAN- TOS, 1979, p. 81). O estudo de Santos (1979, p. 81) resume em poucas linhas as inovações do campo distributivo compensatório, ocorridas nesse intervalo: À parte o inegável progressoconsubstanciado na vitória da burocracia estatal contra a oligarquia sindical em torno na uniformização dos servi- ços previdenciários, alcançado através da Lei Orgânica da Previdência Social, apenas a instituição do salário-família, em 1963, e que se inscreve na linha de expansão do escopo da previdência, característico de todos os sistemas, nada mais existe para ser notado. O Estatuto do Trabalhador Rural, promulgado em 1963, na realidade evidencia apenas o uso sim- bólico da política social na exata medida em que, por trás dos objetivos solenes do Estatuto, nada se esclarecia quanto às formas de financiamento do programa pretendido. Da mesma forma, o estudo de Draibe (1993, p. 12) traça uma periodiza- ção da proteção social no Brasil que identifica o estágio 1943-1964 como de expansão fragmentada e seletiva. Um interregno entre a fase de introdução 28 Sobre essas contradições, assim fala Santos (1979, p. 80-81): “As taxas de crescimento econômico, de urbanização e de inflação, durante a década de 50, apenas intensificarão as disputas cujo desenho já se esboçara após a derrocada do Estado Novo. O crescimento industrial introduzirá distorções cada vez maiores entre os benefícios previdenciários des- tinados às diversas categorias ocupacionais, reforçando o poder burocrático das distintas oligarquias sindicais, o que, finalmente, conduzirá, por um lado, a cristalizar suas posições de reivindicação crescente, na esfera da acumulação, e de reacionarismo e corrupção, na esfera distributiva compensatória. Ao mesmo tempo, os novos grupos sociais urbanos, e os velhos grupos sociais rurais, aproveitando o ambiente político semicompetitivo, iniciam movimentos reivindicatórios, independentemente de seu reconhecimento cívico-profissional. São as ligas camponesas, no Nordeste, e as explosões de violência urbana, no Centro-Sul, que sinalizam os limites da democracia regulada então vigente.” 60 (1930-1943) e de consolidação (1964-1977) da proteção social, no qual sucin- tamente se localizam as seguintes inovações pontuais, em cada área principal, e com menos concentração na década de 1950: na previdência, a unificação das Caixas de Pensões dos ferroviários (1953) e a aprovação da Lei Orgânica da Previdência Social (1960); na assistência social e programas de alimentação e nutrição, o Programa de Alimentação de Gestantes e Programa de Alimen- tação Escolar (anos 1950) e a criação da Fundação de Bem-Estar do Menor – FUNABEM (1964); na saúde, a criação do Ministério da Saúde (1953) e do Departamento Nacional de Endemias Rurais (1956); na educação, a criação do Ministério de Educação (1953) e a aprovação da Lei de Diretrizes de Bases da Educação Nacional e do Conselho Federal de Educação (1961); na habitação, a criação da Fundação da Casa Popular (1946) e do Sistema Financeiro da Habitação – Banco Nacional de Habitação (1964); e no trabalho, a Consoli- dação das Leis Trabalhistas (1943), o Repouso Semanal Remunerado (1949), a Gratificação de Natal (1962) e o Salário-Família (1963). Na consideração panorâmica das duas décadas que se seguem após a queda do Estado Novo, é nos 1950 onde concentra-se o período mais escasso em termos de inovações legais e institucionais da política social – numa quadra, acrescente-se, cuja tônica já é de relativa paralisia, ou de expansão lenta e seletiva. Mesmo o estudo mais detalhado de Vieira (1983) conclui que o segundo governo Vargas (1951-1954) legou apenas medidas puramente setoriais para a Previdência e Assistência Social, bem como para a Habitação Popular. E acrescenta: “Inexiste na segunda administração de Vargas qualquer preocupação com transformações globais, que atinjam a essência da política social. Encontram-se, ao contrário, decisões particulares para cada questão crucial, acaso surgida nas várias áreas daquela política” (VIEIRA, 1983, p. 52-53, p. 63). Por sua vez, ao término da administração juscelinista (1956- 1961), Vieira (1983) constata que pouco também havia mudado na organi- zação responsável pela aplicação política social. Com efeito, tratava-se de um campo de intervenção marginal no conjunto daquela gestão, centralizada pelas medidas de aceleração da industrialização – até mesmo nos discursos de governo tal desatenção ficava patente. O fim da década de 1950 deixou evidente que apenas manteve-se, no geral, aquilo herdado dos governos ante- riores. Prevalecia uma série de decisões setoriais na Educação, na Saúde Pública, na Habitação Popular, na Previdência Social e na Assistência Social (VIEIRA, 1983, p. 119). Um período no qual apenas se destacam, embora já na passagem para a década seguinte, a promulgação da Lei Orgânica de Previdência Social e sua regulamentação, e os embates da Campanha em Defesa da Escola Pública, nas disputas pela elaboração do projeto da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 61 Na Educação, a década explicita (I) a ausência de modificações políti- co-institucionais estruturais; (II) uma oscilação na esfera orçamentária, com anêmica ampliação dos gastos públicos na área; (III) um crescimento adjetivo das matrículas; e (IV) a perpetuação do caráter profundamente excludente do ensino. As modificações nas estruturas político-institucionais apenas apa- recem como possibilidade, no interior dos embates em torno na fixação das Diretrizes e Bases da Educação Nacional, com destaque para a Campanha em Defesa da Escola Pública, no final da década e início da seguinte – e no qual os setores tradicionais e privatistas conseguem impor seus interesses na política educacional (VIEIRA, 1983). No âmbito da Saúde Pública operou uma continuidade da intervenção de cunho sanitário, alargando-se as medidas de prevenção e assistência, atra- vés das grandes campanhas, nas quais se destacavam o combate à doença de Chagas, malária, febre amarela, peste, verminoses, tracoma e bouba, doenças venéreas, tuberculose, lepra e o câncer. Seus resultados implicaram, no caso do combate à tuberculose, em aparelhamento de vários sanatórios, construção de novas clínicas especializadas e a fundação do Instituto Nacional do Bacil- lus Calmette-Guérin (BCG). Outras providências que aparecem associadas às campanhas são: a educação sanitária, por meio do Serviço Nacional de Educação Sanitária; a fiscalização e profilaxia dos portos e dos aeroportos, através do Serviço de Saúde dos Portos; e de proteção à maternidade e à infância, sob o patrocínio do Fundo Internacional de Socorro à Infância (FISI) operacionalizado pelo Departamento Nacional da Criança (DNCr) e suas instâncias regionais. Com isso, na primeira metade da década manifestou-se um expressivo crescimento das despesas federais com Saúde Pública, e pra- ticamente a manutenção dessas mesmas despesas nos orçamentos dos estados e municípios. Relação que se inverte nos anos seguintes, com redução dos gastos federais e aumentos nos estados e municípios. Sem provocar mudanças qualitativas no estado bárbaro de indigência social expresso no alto geral de mortalidade infantil e baixa expectativa de vida, as ações da Saúde Pública levaram a um impacto na redução da mortalidade infantil e no menor peso das doenças infecciosas e parasitárias nas causas de mortes. Aos quais se somam os êxitos relativos da Campanha Nacional Contra a Tuberculose, da luta contra a malária e a doença de Chagas. Todos os impactos positivos concentrados, mais amplamente, nas regiões Sul e Sudeste (VIEIRA, 1983). A Previdência Social permaneceu centrada no atendimento individual do trabalhador urbano formal, e no vínculo corporativo e setorial, através dos Institutos de Aposentadorias e Pensões e das Caixas de Aposentadorias e Pensões – dos quais permaneciam de fora a massa de trabalhadores rurais, os empregados domésticos, os profissionais liberais e os autônomos, além 62 de, por princípio, afastar igualmente os funcionários públicos e militares, possuidores deestatuto próprio. Mesmo com o aumento irrisório das ver- bas do governo federal com essas organizações, houve um crescimento razoável da Previdência Social na década, implicando na elevação no número total de contribuintes e no valor médio dos benefícios. O fato de que recorrentemente o governo federal não pagasse as quotas devidas à Previdência Social (acumulando um grande débito com as Caixas e Institutos) e de que existisse a dívida também dos empregadores, signifi- cava que, em última instância, ela era sustentada pelas contribuições dos trabalhadores, que sofriam descontos em seus salários – além dos impos- tos sobre as mercadorias e serviços consumidos. Esses débitos e dívidas colocaram os órgãos da previdência em situação precaríssima ao final da década. Das mudanças, destacam-se apenas os crescimentos havidos no setor de benefícios, de assistência médica e de arrecadação em cada um dos Institutos e Caixas, com realizações em geral vinculadas a ampliação e reaparelhamento de ambulatórios e hospitais, ou, mais raramente, abertura de novos equipamentos (VIEIRA, 1983). Na primeira metade da década, ganham destaques os projetos de elabo- ração da Lei Orgânica da Previdência Social, a reestruturação do Departa- mento Nacional da Previdência Social, o aprimoramento dos seus técnicos, e a intenção de total integração das Carteiras de Acidentes do Trabalho nas instituições da Previdência Social. Uma mudança efetiva se expressou com o novo Regulamento Geral dos Institutos de Aposentadorias e Pensões apro- vado em 1954, através do qual os Institutos passavam a oferecer assistência médica aos seus contribuintes (e familiares). Além disso, o Regulamento abria a possibilidade das aposentadorias e pensões, em certas circunstâncias, chegarem ao valor integral dos salários do empregado. Na passagem para a década seguinte, a Lei Orgânica da Previdência Social é sancionada e imedia- tamente regulamentada, impelida pela pretensão de restringir a participação governamental na manutenção das atividades previdenciárias, liquidando os débitos e diminuindo os novos investimentos.29 Ela acabou com a diversidade de documentos orientadores das instituições previdenciárias, uniformizando a legislação da área. Porém sem incorporar ainda os trabalhadores rurais, omitindo uma posição clara do seguro por acidentes de trabalho, mantendo a contribuição tríplice e igual entre os representantes dos três tipos de con- tribuintes e postergando parte dos seus antigos objetivos (universalização, uniformização e a unificação), apenas determinando a uniformização dos benefícios aos segurados (VIEIRA, 1983). 29 Diz Vieira (19883, p. 125): “O governo federal saiu aliviado com a Lei Orgânica, pois se obrigava apenas a arcar com os eventuais desequilíbrios orçamentários no campo da Previdência Social. Imagine só: nem isto a União cumpriu, pondo em má situação financeira as instituições previdenciárias.” SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 63 Na Assistência Social, a atuação continuou centrada no Serviço de Ali- mentação da Previdência Social (SAPS), nas ações da Legião Brasileira da Assistência (LBA), do Serviço Social da Indústria (SESI) e do Serviço Social do Comércio (SESC), além da expansão do “abono familiar”. E as subven- ções da administração para essas entidades públicas e semipúblicas, além das particulares, obteve um exíguo aumento na década de 1950, refletindo numa expansão de suas unidades, serviços e benefícios, mesmo que com impacto irrisório e paliativo nas condições de vida dos assistidos. E a Habitação Popu- lar aparecia como uma linha da Previdência Social, fazendo-se com que os Institutos e Caixas construíssem casas para vender aos seus beneficiários, e não apenas alugá-las, através das suas carteiras imobiliárias. O alívio da falta generalizada de residências era alcançado também através da atuação da Fun- dação da Casa Popular. Em todos os casos, o impacto das novas moradias não subverteu o quadro crescente de degradação urbana expresso, por exemplo, no inchaço das favelas, do déficit habitacional, nos contrastes das condições de moradia que se avolumavam (VIEIRA, 1983). 6. Considerações finais Os anos 1950 abrigam metamorfoses na estrutura econômica no país, reflexo das novas modalidades de sua inserção subordinada na divisão inter- nacional do trabalho e no sistema imperialista. A essas modificações na base social, correspondem deslocamentos nos padrões de intervenção estatal no desenvolvimento do capitalismo internamente, e a germinação de conflitos políticos de grande significado para o desenlace da dominação do grande capital soldada pelo ciclo ditatorial de 1964. É sob esta base – configuradora de um intervalo histórico marcado por uma relativa paralisia nas políticas sociais – que se desencadeiam os processos de busca pela “atualização” por parte do Serviço Social, cujo desenlace apenas adquire seus contornos definitivos na resultante do processo de renovação dado no ciclo ditatorial. Os deslocamentos do Ser- viço Social na década em tela também comportam as dissonâncias e os ritmos desiguais que marcam as particularidades regionais, fundadas no desenvolvi- mento desigual interno do capitalismo no Brasil numa época de transição. E que revelam os traços singulares do Serviço Social em Pernambuco. 64 REFERÊNCIAS BRAGA, Ruy. A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. São Paulo: Boitempo, 2012. BEHRING, Elaine Rossetti; BOSCHETTI, Ivanete. Política Social: funda- mentos e história. São Paulo: Cortez, 2006. CUNHA, Luiz Antônio. A universidade reformanda: o golpe de 1964 e a moder- nização do ensino superior. Rio de Janeiro: Ed. Francisco Alves, 1988. DRAIBE, Sônia Miriam. Brasil: o sistema de proteção social e suas transfor- mações recentes. Proyecto Regional de Reformas de Política Pública CEPAL/ Gobierno de los Países Bajos. Santiago, setembro de 1993. FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1976. FERNANDES, Florestan. Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975. IANNI, Octavio. Estado e Planejamento no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977. MANDEL, Ernest. O capitalismo tardio. São Paulo: Nova Cultural, 1985. MELLO, João Manuel Cardoso de. O capitalismo tardio. São Paulo: Brasi- liense, 1991. MELLO, João Manuel Cardoso de; NOVAIS, Fernando. Capitalismo tardio e sociabilidade moderna. In: NOVAIS, Fernando (org.). História da Vida Privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. v. 4. p. 560-658. PAGE, Joseph. A revolução que nunca houve: o nordeste do Brasil 1955-1964. Rio de Janeiro: Editora Record, 1972. ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da educação no Brasil. 13. ed. Petrópolis: Vozes, 1991. SANTOS, Wanderley Guilherme. Cidadania e justiça. Rio de Janeiro: Campus, 1979. VIEIRA, Evaldo. Estado e Miséria Social no Brasil: de Getúlio a Geisel. 4. ed. São Paulo: Vozes, 1983. CAPÍTULO 4 A EMERGÊNCIA DO SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO NOS ANOS 1940 Adilson Aquino Silveira Júnior 1. Introdução Esse texto aborda as características da emergência do Serviço Social em Pernambuco. Parte da hipótese de que tal processo consome toda a década de 1940. Disso resulta uma de suas particularidades: ele nasce dinamizado já por alguns vetores que marcam o estágio de “erosão do Serviço Social ‘tradicional’ no Brasil” (NETTO, 2004, p. 136). As notas históricas que seguem enfocam os aspectos que definem o caráter embrionário do Serviço Social em Pernambuco nos anos 1940, segundo as variáveis relativas à formação e corpo profissional, institucionalização e espaços ocupacionais. O material empírico que permitiu a referida caracterização, e a formulação da hipótese diretriz aqui sustentada, diz respeito aos documentos da antiga Escola de Serviço Social de Pernambuco (ESSPE) e as monografias desenvolvidas pelas alunas dessainstituição entre os anos 1940-1960, além das evidências informadas em pesquisas e artigos que se debruçaram sobre essa realidade (BERNARDES, 2006; GOMES, 1987; VIEIRA, 1992; PADILHA, 2008; UFPE, 1985). Apesar de desenvolvermos apenas um esforço inicial de reconstrução historiográfica, a concepção de tota- lidade da perspectiva marxiana preside a apreensão das tendências históricas evidenciadas. As quais buscam ser particularizadas sob a luz das indicações teórico-metodológicas fornecidas pela literatura do Serviço Social vinculada à tradição marxista, em especial Abreu (2008), Iamamoto e Carvalho (2005), Iamamoto (2004, 2006, 2010), Netto (2004, 2005, 1996). Embora imbuído em fornecer elementos empíricos e hipóteses sobre uma realidade regional, esse trabalho pretende ser um contributo na tarefa – ainda por fazer – de elaboração de abordagens abrangentes, inclusivas, do Serviço Social no Brasil – com suas tendências gerais, mas igualmente dinamizada por aspectos de desenvolvimento desigual. Na literatura profissional, ainda permanece o quadro sinalizado por Netto (2016, p. 56): “[...] carecemos [...] de uma história (de histórias) do Serviço Social no Brasil que nos ofereça(m), com rigor e precisão possíveis, o inteiro processo dos seus 80 anos que em 2016 se comemoram”. Com efeito, o ponto de partida é o rico trabalho de Iamamoto 66 e Carvalho (2005), que – ainda na avaliação de Netto (2016, p. 55) – “[...] permanece, até hoje, enquanto empreendimento de análise histórica, sem conti- nuidade entre nós”. Inobstante isso, tal trabalho comporta seus próprios limites de reconstrução histórica do Serviço Social no Brasil, dos quais dois são mais evidentes. O primeiro, e mais óbvio, diz respeito a suas fronteiras temporais: ele acompanha o desenvolvimento da profissão apenas até a década de 1960, fornecendo indicações sinóticas sobre as décadas seguintes nas suas conside- rações finais. Em segundo lugar, o material empírico e os aspectos da realidade praticamente estão centrados nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, os quais comportam tendências que não podem ser diretamente transplantadas para outras realidades regionais. Essa lacuna nos interessa em particular, posto que o estudo do Serviço Social em Pernambuco nos anos 1940 pode contribuir para explicitar os ritmos desiguais e a diferenciação interna do evolver da profissão, efetivamente presentes desde sua gênese no país. Esperamos que o esforço de delimitação necessário para a exposição do tema não tenha implicado em qualquer nuance de abordagem particularista. O interesse propriamente é de colaborar com insumos para apreensão das particularidades do Serviço Social no Brasil. De modo que esse texto supõe e demanda uma articulação com aquelas pesquisas mais abrangentes já realizadas30, das quais nossas remissões aqui não puderam deixar de ser apenas indicativas. De partida, colocamos como hipótese uma periodização para o desenvol- vimento do Serviço Social em Pernambuco que, mesmo de modo aproximado, localiza no decorrer da década de 1940 o estágio que marca sua emergência, nos anos 1950 o período onde se alcançam os principais requisitos da sua profissio- nalização, e, do próximo decênio em diante, a época de sua consolidação – cuja afirmação ganha lastro quanto mais se desdobram as circunstâncias econômicas, institucionais e políticas dos anos 1970. A diferenciação entre tais estágios não supõe uma leitura esquemática – seja qualquer espécie de “etapismo” evolucio- nista ou visão teleológica – da história do Serviço Social no estado. Com efeito, os processos da sua emergência, profissionalização e consolidação constituem uma unidade dinâmica, ricamente forjada por interações recíprocas. Tal diferen- ciação se justifica porque a própria realidade comporta – no seio mesmo dessa dialética unitária e movente – uma combinação de determinações estruturadora de momentos predominantes, que se diferenciam no curso de um desenvolvi- mento cumulativo. Assim, a diferenciação dos referidos estágios, para apreender a história do Serviço Social em Pernambuco, apenas pretende reproduzir, com máxima aproximação possível, o movimento que preside essa realidade. Utilizamos como suposto – dado pela literatura crítica existente – o fato de que essa atividade profissional assalariada encontra-se respaldada por sua 30 Apenas para apontar as mais citadas: Abreu (2008); Carvalho (1980), Iamamoto (2004, 2006, 2010); Iama- moto e Carvalho (2005); Netto (2004, 2005, 1996). SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 67 funcionalidade no espectro da divisão social (e técnica) do trabalho na socie- dade burguesa consolidada e madura; diga-se, na ordem monopólica que cria e funda sua profissionalidade (NETTO, 2004, 2005; IAMAMOTO; CARVA- LHO, 2005). O Serviço Social intervém nos mecanismos elementares de pre- servação e controle da força de trabalho e, concomitantemente, nos “serviços” acionados pelo Estado para reduzir o conjunto de óbices nos quais se enreda a valorização do capital no ordenamento dos monopólios. Não desempenha, preferencialmente, funções produtivas31: se inclui nas atividades “[...] acólitas dos processos especificamente monopólicos de reprodução, da acumulação e da valorização do capital” (NETTO, 2005, p. 76). Nos países capitalistas centrais, a emergência e institucionalização do Serviço Social desdobraram-se nos marcos do amadurecimento dos antagonismos típicos da realidade imperialista, conso- lidando-se quando o estágio dos monopólios se constitui com as determinantes do capitalismo tardio (NETTO, 2004, 2005, 2013). Embora já inscrita historicamente nos quadros internacionais dados pelo imperialismo, a época de emergência do Serviço Social nos países dependen- tes, em específico no Brasil, desdobra-se quando a dinâmica dos monopólios ainda não constituía uma realidade generalizada imperando internamente nas dinâmicas produtiva, comercial e financeira– apenas a partir dos anos 1950, diz Fernandes (1976), o curso intrínseco da revolução burguesa no Brasil vai transitando para a difusão da realidade monopolista. Ou seja, ainda que inscrita no plano internacional de afirmação do imperialismo, a emergência do Serviço Social – e mesmo a sua institucionalização – ocorre aí numa particularidade do desenvolvimento capitalista na qual a dinâmica competitiva apenas começava aceder lugar ao domínio dos monopólios. Donde, também, o fato de que apenas após os anos 1960, e mais concretamente nas décadas seguintes, num momento de efetivo desenlace do estágio monopolista, soldado pelo ciclo ditatorial aberto em 1964, o Serviço Social no Brasil alcança sua consolidação propriamente dita – com seus reflexos na estruturação nacional de um mercado de trabalho, além da difusão e amadurecimento das agências de formação (NETTO, 2004). Se tais particularidades implicaram num descompasso entre o desenvolvimento do Serviço Social nos países centrais e no Brasil, o “desenvolvimento desigual interno” do capitalismo no país (FERNANDES, 1976) igualmente se expressou num caráter tendencialmente assimétrico da afirmação profissional, quando contrastadas as regiões de maior desenvolvimento industrial (localizadas essen- cialmente no Sudeste) com aquelas onde prevaleciam formas econômicas pré-ca- pitalistas (em geral, Norte-Nordeste) funcionais ao metabolismo do capitalismo dependente imperante. Em suma, somente esses supostos e condicionamentos tornam inteligí- veis, em última instância, aquilo que as evidências disponíveis informam: o 31 Avaliação já informada em Iamamoto e Carvalho (2005, p. 85-86). 68 fato de que Serviço Social em Pernambuco demorou, praticamente, toda a década de 1940, e boa parte da seguinte, para consolidar os vetores mínimos indispensáveis à sua existência mesma. Ou seja, esse é o lapso de tempo que marca sua emergência ou gestação. Tais vetores serão detalhados na próxima seção do texto, e se resumem aos seguintes:as condições necessárias para uma formação especializada, uma densidade mínima dos quadros discentes e profissionais disponíveis, algum lastro de reconhecimento legal do seu caráter profissional e a conformação de espaços ocupacionais institucionalizados de algum vulto. Tais requisitos foram, em alguma medida, contemplados na década de 1950. E é nesta última em que se concentram os determinantes e aconteci- mentos característicos da profissionalização do Serviço Social – concomitante a afirmação e aprofundamento daqueles vetores basilares da sua emergência, desencadeados desde antes. A profissionalização supõe – além daqueles vetores da emergência já fir- mados – o reconhecimento abrangente – pelo Estado em suas diversas esferas – do Serviço Social enquanto campo profissional, e do portador do diploma de assistente social como legítimo e exclusivo agente com capacidade e compe- tência para desenvolver as atribuições relativas à área em questão. Portanto, com o direito de reclamar o Serviço Social como sua esfera privativa de inser- ção no mercado da força de trabalho. Além da conquista de uma legislação voltada à regulamentação do Serviço Social de larga abrangência, a existência de entidades para fiscalização do exercício e defesa corporativa, a profissio- nalização envolve processos também amplos de normatização e padronização dos critérios de ensino (superior) e das agências de formação (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005; NETTO, 2013, 2004, 2005, 1996). Nesse aspecto, o Serviço Social em Pernambuco não destoa do que ocorria em nível nacional. O caráter necessariamente abrangente das regulamentações e normatizações do estágio de profissionalização requer uma legislação federal que equaliza esse processo entre todos os estados. Mais adiante demonstraremos como isso ocorre no curso da década de 1950. O alcance do estágio da consolidação do Serviço Social supõe a sua emer- gência e profissionalização, mas não se resume as mesmas. Sua marca é uma certa generalização da profissão, com a consequente multiplicação quantitativa dos agentes profissionais (sustentada na existência de um mercado nacional de trabalho, macroscópico e consolidado, para as assistentes sociais) e do corpo discente; a diferenciação da intervenção profissional, com a complexificação do aparato teórico, metodológico e técnico-operativo, dispondo de viabilidade institucional para efetivação; o adensamento e diferenciação dos espaços ocupa- cionais disponíveis, com a conquista de uma variada possibilidade de inserção nas hierarquias institucionais e equipes multiprofissionais; o robustecimento da elaboração teórica caucionado pela inserção no circuito universitário, do qual se desdobra uma produção de conhecimento (ou sistematização teórica) SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 69 desde a própria área do Serviço Social (NETTO, 2013, 2004). Nesse texto, não abordaremos a particularidade desses processos no Serviço Social em Pernam- buco. Pretendemos apenas sinalizar para o fato de que alguns de seus aspectos despontam ainda nos anos 1960, mas tão somente ganham consistência no decorrer da década seguinte em diante. Tal periodização não corresponde sincronicamente, por outro lado, àqueles três momentos – que extraímos aqui de Netto (2004, p. 115-151) – do evolver do Serviço Social na particularidade brasileira, ou seja: (1ª) o lapso onde pre- dominam os traços que o enquadram no tradicionalismo (enquanto “Serviço Social tradicional”32) – inscrito entre os anos de criação das primeiras Escolas e meados da década de 1950; (2ª) o estágio de transição no qual o tradicionalismo em erosão vai desabrochando por novas tendências – vigente, aproximadamente, durante o segundo lustro dos anos 1950, até os primeiros momentos do ciclo ditatorial; e (3ª) o intervalo decisivo da precipitação dessa erosão na forma que tomou o “processo de renovação do Serviço Social”33 – cujo desfecho apenas foi alcançado efetivamente no decorrer dos anos 1970 e início da década seguinte. Dado que o desenlace da emergência do Serviço Social em Pernambuco não acontece antes de encerrados os anos 1940, verificamos que este já nasce dina- mizado por algumas características que marcam o estágio de transição. Ou seja, quando o tradicionalismo encontra-se sendo problematizado por algumas variá- veis e condicionamentos que fornecem suporte para o processo de renovação – dentre essas variáveis, destacam-se: a erosão da influência católica, a afirmação da hegemonia norte-americana, os traços germinais da profissionalização e um esboço de diversificação das modalidades de intervenção. Ou, seguindo outra abordagem, isso significa que o Serviço Social em Pernambuco não emerge puramente constituído pelo conservadorismo característico do que Abreu (2008) denomina de “perfil pedagógico da ‘ajuda’”.34 Ele desponta dinamizado também 32 Netto (2004, p. 117-118, nota) sugere entender o Serviço Social “tradicional” como “[...] ‘a prática empirista, reiterativa, paliativa e burocratizada’ dos profissionais, parametrada ‘por uma ética liberal-burguesa’ e cuja teleologia ‘consiste na correção – desde um ponto de vista funcionalista – de resultados psicossociais considerados negativos ou indesejáveis, sobre o substrato de uma concepção (aberta ou velada) idealista e/ou mecanicista da dinâmica social, sempre pressuposta a ordenação capitalista da vida como um dado factual ineliminável’”. 33 Para Netto (2004, p. 131), se entende por renovação “[...] o conjunto de características novas que, no marco das constrições da autocracia burguesa, o Serviço Social articulou, à base do rearranjo de suas tradições e da assunção do contributo de tendência do pensamento social contemporâneo, procurando investir-se como instituição de natureza profissional dotada de legitimação prática, através de respostas a demandas sociais e da sua sistematização, e de validação teórica, mediante a remissão às teorias e disciplinas sociais.” 34 Esse perfil pedagógico marca a constituição do Serviço Social, desde a sua institucionalização como profis- são, nos Estados Unidos, na segunda década do século XX. Surge como o conteúdo do Serviço Social de Caso, enquanto “ajuda psicossocial individualizada” que, na formulação de Mary Richmond, refere-se a um tratamento prolongado e intensivo, centrado no desenvolvimento da personalidade, com vistas a capacitação do indivíduo para o ajustamento ao mundo que o cerca. A “ajuda psicossocial individualizada” vincula-se às estratégias de reforma moral e de reintegração social impostas pelas necessidades organizacionais e 70 por elementos – ainda que inicialmente incipientes – do “perfil pedagógico da ‘participação’”.35 Nesse texto, não iremos explorar as características e impli- cações dessa particularidade. Delimitaremos, na sequência, apenas os aspectos conformadores do caráter embrionário do Serviço Social em Pernambuco nos anos 1940, década dominada pelo estágio da sua emergência. 2. O caráter embrionário do Serviço Social em Pernambuco nos anos 1940 Sobre as contradições específicas do capitalismo que se acumularam, nas primeiras décadas do século XX, na região onde Pernambuco era o epicentro, três se destacam: a mecanização da exploração da cana de açúcar, com o sur- gimento das usinas e o aprofundamento do latifúndio; a germinal afirmação de empreendimentos manufatureiros, voltados para o beneficiamento do algodão e de produtos derivados dele; e os efeitos das formas típicas de produção e exploração do trabalho na economia algodoeira-pecuáriana região do sertão, que implica uma crônica situação de pauperismo extremo. A primeira contradição conformou a emergência de um proletariado agrícola em formação, profundamente explorado e pauperizado, ademais das pressões que o latifúndio acumulou com o campesinato. No centro urbano, se robustece uma camada do proletariado empregada no capital comercial dedicado ao transporte e venda da cana e o algodão,que ganha densidade organizativa e política ao longo dos anos. A segunda contradição desdobra-se da conformação de uma classe especificamente operária (nas indústrias do algodão e no comér- cio) que constitui uma força política potencial, embora embrionária, objeto da intervenção do governo e dos industriais. A terceira implica uma leva de trabalhadores rurais pauperizados, engrossando as fileiras de retirantes da seca que escoam para os centros urbanos em busca de sobrevivência, e irão compor, junto com uma grande massa das outras camadas anteriores, a população dos mocambos do Recife.36 Além disso, desde finais do século XVIII, o desenvolvimento das forças produtivas tipicamente capitalistas nos países dominantes progressivamente afeta as disputas no mercado mundial e, por consequência, a demanda externa tecnológicas, introduzidas com a linha de montagem nos moldes fordista e taylorista, em relação à formação de um novo tipo de trabalhador (ABREU, 2008). 35 Trata-se de um redimensionamento da participação nas práticas pedagógicas controladoras e subalternizado- ras do Serviço Social, constituindo-se na referência de inovação metodológica numa pretensa “perspectiva de globalidade”. Nesses marcos, se afirmam os processos de mobilização e organização como desdobramentos das propostas de Desenvolvimento de Comunidade (DC), que reitera as práticas educativas psicologizantes, sob a influência da visão desenvolvimentista modernizadora (ABREU, 2008). 36 Sobre a movimentação operária em Pernambuco na primeira metade do século XX, é importante conferir o conjunto das análises históricas apresentadas em Bezerra et al. (2011). Também Page (1972) fornece uma síntese do quadro histórico das relações agrárias no Nordeste que condicionaram o surgimento das Ligas Camponesas. SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 71 no país, implicando no descolamento dos produtos da economia agroexportadora até então dominantes. Esses deslocamentos apenas cooperaram para acirrar arti- culadamente, na região onde se insere Pernambuco do início do século XX, os três vetores de contradições sociais acima mencionados. Diga-se, inviabilizaram a expansão da economia açucareira-têxtil, comprometendo as formas burgue- sas transitórias de produção e apropriação do valor aí germinando através do impulso de industrialização refletido das usinas e na manufatura têxtil37. Isso em benefício da produção do café no Centro-Sul (e da subsequente industrialização lá deslanchada) e da ascensão do poder econômico e político da produção algo- doeira-pecuária no próprio Nordeste, junto com o latifúndio e a oligarquia a ela ligada, os “coronéis”. Diz Oliveira (1981) que a economia açucareira é premida de tal modo pela produção agroexportadora do café (em seguida também pela industrialização que se desdobra com ela), e pela produção algodoeira-pecuária, que recriou internamente mecanismos de acumulação primitiva com processos e relações de produção pré-capitalista (como o “cambão”, mercados “cativos” de trabalho nas usinas, o “barracão”), com o que se condenou à estagnação.38 Donde, durante a expansão do capital industrial concentrada no Centro-Sul, o duplo papel – com sequelas sociais de vulto – do Nordeste como: a) uma reserva do exército industrial de reserva, cujo efeito foi a migração em massa da força de trabalho; b) uma fonte de capital – que ainda ali se formava – drenada para aquela industrialização pela política econômica vigente (OLIVEIRA, 1981, p. 37). Grosso modo, até a década de 1940, esses processos acentuam as contradi- ções sociais e tensões políticas expressas nas formas particulares de acirramento da “questão social” em Pernambuco, em especial em Recife. Na capital do estado, a “questão dos mocambos” (incluída nela as exigên- cias de intervenção no âmbito habitacional, educacional, da atenção à infância e maternidade etc.), se torna a manifestação da “questão social” que concentra as preocupações do governo e da pequena burguesia inicialmente. Donde a convocação pública dos setores governamentais para o projeto do Estado Novo, conclamando o envolvimento amplo nas campanhas voltadas para aqueles con- siderados os principais problemas da capital e do estado – através, por exemplo, das colunas diárias no jornal Folha da Manhã do interventor de Vargas em Pernambuco, Agamenon Magalhães. Campanhas como a da Liga Contra a Mortalidade Infantil e a Liga Social Contra o Mocambo são modelares: “Consi- derando os problemas sociais perigosos inimigos do desenvolvimento do estado 37 Sobre as causas e as características do período de expansão e decadência da burguesia agrário-industrial no Nordeste, entre o final dos anos setenta do século XIX e as primeiras décadas do século XX, conferir Oliveira (1981, p. 61-64). 38 Oliveira (1981, p. 64) identifica aí a recriação de “[...] formas de defesa anticíclicas não-capitalistas: não ocorria o desemprego, nas crises da economia açucareira: ocorria apenas a volta de parte da população trabalhadora às “economias de subsistência”, a formas quase-naturais. Essas formas de defesa foram-lhe extremamente eficazes para não desaparecer, mas cobraram seus direitos na medida em que a impediam de expandir-se.” 72 e da nação, Agamenon empreende uma verdadeira cruzada e é este empenho em solucionar os problemas vividos pelas camadas populares que justifica e legitima seu poder” (GOMINHO, 1993, p. 34). Os conflitos e lutas de classes existentes são fermentados por essas massas exploradas e oprimidas que continuamente se tornam subordinadas à lógica mercantil e à dominação política e econômica tipicamente capitalista. Em alguns casos, ainda nos anos 1920-1930, protagonizando movimentações e levan- tes com aberta influência socialista e comunista. Ao mesmo tempo, as forças dominantes, das oligarquias, industriais e elites políticas e religiosas, comporão uma frente expressa na atuação do Estado Novo e seus porta-vozes locais, arti- culando a Igreja, o governo, os empresários e setores médios, confluindo para a intervenção sobre essas expressões da “questão social”, com o objetivo de enquadrá-las ideologicamente e afastar a influência comunista.39 É em Recife onde se aglutinam e acentuam essas contradições. Nela, as expressões da “questão social” refletiam-se na degradação humana e na ameaça política proliferadas com os mocambos. Partimos da hipótese de que essa foi uma forma típica de expressão da “questão social” na cidade, na qual as políticas sociais germinadas com o Estado Novo centralizavam as suas moda- lidades de intervenção e desdobravam, por seu turno, os espaços ocupacionais que absorviam as primeiras assistentes sociais. Após finais dos anos 1930, a chamada “política de ação social” foi movida e articulada por iniciativas como: a Diretoria de Reeducação e Assistência Social (DRAS) – criada em dezembro de 1937; a Liga Social Contra o Mocambo, associação civil criada em 1939, depois absorvida no Serviço Social Contra o Mocambo (SSCM), autarquia estadual criada em 1945, da qual passou a fazer parte a Secção de Assistência à Família Operária (SAFO) do Departamento de Reeducação e Assistência Social (DRAS); a mobilização da Ação Social Católica, com a realização da III Semana de Ação Social, ocorrida no Recife em janeiro de 1939, na qual estava envolvido o próprio núcleo que fundou a Escola de Serviço Social em 1940. Essas iniciativas impulsionavam a intervenção governamental na reprodução e controle da força de trabalho, apareciam galvanizadas pela miséria social e a tensão política colocada pelo “problema dos mocambos”, e constituíam os canais por onde os movimentos católicos adensados no Estado Novo imiscuíam-se no meio sindical e no ambiente operário – em especial através dos Círculos Operários e dos Centros Educativos Operários, com suas obras assistenciais e educativas balizadas pelo anticomunismo.40 39 Sobre a natureza política geral da modernização conservadoraoperada com o chamado Estado Novo, seus fundamentos econômico-sociais e das lutas de classes, e suas estratégias e políticas de controle e reprodução da força de trabalho, consultar a síntese de Iamamoto e Carvalho (2005, p. 125-165). Sobre as particularidades desses processos em Pernambuco, indicamos especialmente Gominho (1993, 1998, 2011). 40 Sobre esses movimentos católicos, ver Gominho (2011, p. 157-176) e Gomes (1987). SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 73 Tais mediações concretas encarnavam a forma particular de intervenção do Estado face às contradições sociais e políticas crescentes nessa realidade. Através delas, aquelas formas típicas de expressão da “questão social” se liga- vam com a emergência do Serviço Social e dos seus primeiros espaços inter- ventivos em Pernambuco. A campanha da Liga Social Contra o Mocambo41 serviu, por exemplo: para impulsionar a construção e/ou desenvolvimento de vilas para operários ligados a alguns Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAP’s) e Fábricas, ou para trabalhadores autônomos, que sedimentaram campos de atuação de assistentes sociais – seja pela necessidade de agentes voltados para a triagem de beneficiários das casas, seja pela demanda de quadros para os equipamentos assistenciais criados nos novos territórios ocupados ou para atender aos habitantes das vilas. Por outro lado, a restrição de construções de mocambos em áreas urbanas, associada à atração que a Campanha provocava nas populações do interior do estado, impelia o povoamento dos morros nos arredores da cidade através das ocupações – donde a implantação de ações e obras sociais nesses territórios ocupados por uma população pauperizada, passando a absorver igualmente assistentes sociais. Mas a debilidade das forças produtivas tipicamente capitalistas significou a incipiência da própria contradição fundamental desse modo de produção na região e, como consequência, uma condição ainda embrionária do Serviço Social na década de 1940, e mesmo em boa parte da seguinte. Ou seja, nos anos 1940, o Serviço Social em Pernambuco era residual, praticamente embrionário. Isso significa que, a rigor, não se pode falar, durante todo esse período, em termos da existência de um corpo profissional propriamente dito. Isso se considerarmos como parâmetros os seguintes vetores: 1) Ainda estavam sendo garantidas, do decorrer da primeira metade da década, as condições satisfatórias para constituir a formação especializada. Por um lado, pense-se no fato de que até finais de 1945 a ESSPE42 não possuía sede própria, estando alojada nas dependências do Juizado de Menores, onde padecia de problemas (de 41 Uma síntese das ações empreendidas pela Liga Social Contra o Mocambo e pelo SSCM pode ser encontrada em Gominho (1993, 1998). 42 A ESSPE foi fundada em 1940, pelo Juiz de Direito Rodolfo Aureliano, sendo extinta e incorporada à Uni- versidade Federal de Pernambuco (UFPE) em 1971. Consiste no terceiro estado a inaugurar uma Escola de Serviço Social no Brasil, precedida pelas de São Paulo (a primeira criada em 1936) e a do Rio de Janeiro (criada em 1937). Para a criação, seu fundador (e o grupo de apoiadores) contou com as orientações da União Católica Internacional de Serviço Social (UCISS). O grupo de juristas, médicos e padres, ligados ao Juizado de Menores e ao Círculo Operário do Recife, fundador da ESSPE, inscrevia-se na ala mais progressista da igreja (e mesmo leiga), com cariz humanista. Concomitante ao início do funcionamento, ocorreu o intercâmbio de três alunas para o Instituto Social no Rio de Janeiro, a fim de se prepararem para a profissão, e assumirem a ESSPE no seu retorno – foram elas Maria de Lourdes Almeida de Moraes, Maria Dolores Cruz Coelho e Hebe Gonçalves. 74 ordem pedagógica e disciplinar) decorrentes das suas dificuldades financeiras (todos os colaboradores, naquele momento, trabalhavam sem qualquer remuneração) e suas limitadas instalações. Apenas em 1946 começou a contar com estrutura adequada e pessoal especializado. Do ponto de vista das estruturas de funcionamento, ao final de 1945 adquire sede própria (então localizada na Rua Conde da Boa Vista, n. 1512), viabilizada através de donativo da Legião Brasileira da Assistência (LBA). Por outro lado, associada às contingências estruturais, existia uma carência de direção téc- nica especializada. Por toda a primeira metade dos anos 1940, não existiam membros, no quadro de professores, com formação em Serviço Social. Ademais, nesse início o currículo apenas contava com uma matéria específica (a de Assistência Social), cujos conteú- dos encontravam-se relacionados ao Serviço Social de Casos, sendo ministrada pelo médico René Ribeiro. A primeira Diretora formada em Serviço Social, Maria de Lourdes Almeida de Moraes, ocupou o cargo apenas em 1944, após concluir o curso, em dezembro de 1943, no Instituto Social do Rio de Janeiro. No segundo semestre de 1945, integrou também o quadro da ESSPE Maria Dolores Cruz Coelho – formada na mesma instituição no Rio de Janeiro – ocupando-se da supervisão dos trabalhos práticos e de campo das alunas. Após 1948, regressa – igualmente do Instituto Social – Hebe Gonçalves, assu- mindo o ensino de Organização Social da Comunidade, de Serviço Social de Grupo e de Serviço Social Médico, além da supervisão de estágio de numerosas alunas. Nesse intervalo, precisamente em 1946, Maria da Glória tornou-se a primeira aluna formada pela Escola, imediatamente integrando-se no seu corpo docente. Não é casual que o Relatório da Comissão Verificadora (ESSPE, 1955, p. 7)43 considerasse, referindo-se ao que ocorreu até 1946: “[...] contanto com instalações e pessoal especializado, iniciou a Escola um período mais condizente com as finalidades previstas. Os anos anteriores podem ser considerados de preparação e aparelhamento”. Tudo isso se vinculava, igualmente, ao próprio processo de reconhe- cimento legal da ESSPE, face às instâncias de governo. Fora fun- dada em 6 de maio de 1940, pelo Desembargador Rodolfo Aureliano da Silva (do Tribunal de Justiça de Pernambuco, e então Juiz de Menores do Recife), como consequência dos debates na III Semana 43 Esse documento consiste numa apreciação detalhada do histórico, da regulamentação, da estrutura e das atividades da Escola até 1955. Após a regulamentação do ensino em Serviço Social no Brasil (em 1953) e da profissão (em 1954), a ESSPE encaminhou ao Ministro da Educação o pedido de reconhecimento, que demandou esse relatório de uma comissão verificadora federal. O reconhecimento foi concedido pelo decreto nº 39.009 de 11 de abril de 1956, do Presidente da República. SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 75 de Ação Social (1939) e da motivação direta de aparelhar o Juizado de Menores com pessoal técnico especializado. Em 30 de janeiro de 1941, com o ato n. 158, foi reconhecida pelo interventor Aga- menon Magalhães, o que a habilitou a receber subvenções estatais. Em 1946, ano inaugural dos trabalhos na sede recém adquirida, tem novos estatutos aprovados pelo Secretário da Educação do Estado de Pernambuco (Portaria n. 379, de 28 de agosto) – os quais são reformados novamente em 23 de setembro de 1954. 2) Era incipiente o contingente do alunado, associado ao número irri- sório de assistentes sociais formados(as) no estado – conferir o gráfico abaixo da Evolução do número de matrículas e diplomações da Escola de Serviço Social de Pernambuco (1940-1969). Embora os documentos disponíveis, relativos à movimentação da matrí- cula, não apresentem números totalmente compatíveis44, é razoável dizer que, até 1945, as matrículas (somando-se as três séries) não passaram de uma média de 20 por ano; e que, entre 1946-1950, essa mesma média subiu para, aproximadamente, 30 matrículas. Isso significa dizer que, anualmente, encontravam-se matricula- dos, no máximo, 30 alunas na ESSPE, considerando-se todas as séries.Ademais, até 1949, apenas havia ocorrido a diplomação de duas assistentes sociais (em contraste, no ano de 1959, esse número acumulado chegava a 66). Necessário uma reserva, entretanto. Por falta de uma regulamentação da profissão (seja em âmbito estadual ou federal) e de uma normatização nacional do ensino, durante todo esse período, muitas alunas que iniciavam o curso eram contrata- das pelas instituições existentes sem a exigência de conclusão da formação e do diploma – algo que, inclusive, consumia o tempo necessário para a elaboração do Trabalho de Conclusão do Curso e a finalização da formação. O que sinaliza para o fato de que, inobs- tante a quantidade irrisória de diplomadas, o contingente atuando nas instituições assumindo atribuições reconhecidamente inerentes ao Serviço Social era maior. De todo modo, porém, isso apenas corrobora o caráter ainda bastante primitivo do estatuto profissional do Serviço Social na década. O quadro de alunas e diplomadas em Pernambuco não é muito destoante daquele expresso no Rio de Janeiro e em São Paulo na época. Iamamoto e Carvalho (2005, p. 186) sinalizam para a exis- tência de 15 escolas de Serviço Social no Brasil em finais de 1940 – findada a década seguinte, esse número chega a quase o dobro, 44 Cotejamos as informações de alguns relatórios anuais da direção da Escola (dos anos 1946, 1947 e 1948), comparando-os com o Anexo 1 – Evolução das inscrições ao concurso de habilitação, das mátriculas e da diplomação – 1940 – 1969, do documento ESSPE (1969). 76 alcançando a quantidade de 28 escolas. E acrescentam que sua maio- ria se formou sob a infl uência das duas primeiras escolas, de origem católica, tendo em sua direção ex-alunas, formadas sob o regime de bolsas de estudo. A implantação dessas escolas nos anos 1940 obedecendo à semelhante processo das antecessoras de São Paulo e Rio de Janeiro, com a novidade de que contaram com o apoio fi nanceiro da Legião Brasileira de Assistência (LBA) – como são exemplos as escolas criadas em Pernambuco (1940), Paraná (1944), Rio Grande do Sul (1945) e Rio Grande do Norte (1945). Advertem Iamamoto e Carvalho (2005, p. 187): “No entanto, até 1947, os dados disponíveis mostram que essas escolas ainda estão em estado embrionário, sendo que apenas a de Pernambuco havia alcançado a formação de sua primeira turma, com apenas uma diplomada.” Daí a existência de assistentes sociais diplomadas por um longo período (em média uma década) apenas ao Rio de Janeiro e São Paulo – mesmo nesses casos, com pouca expressividade. De todo modo, até o fi nal da década, o número de assistentes sociais diplomadas em todo o Brasil era pouco superior a 300, com grande concentração na cidade de São Paulo e no Distrito Federal, com esmagadora maioria de mulheres (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005). Gráfi co 1 – Evolução do número de matrículas e diplomações da Escola de Serviço Social de Pernambuco (1940-1969) Diplomação Matrículas 120 100 80 60 40 20 0 1940 1945 1950 1955 1960 1965 1 1 1 1 1 6 7 8 16 19 14 24 24 29 27 15 10 3 3 Fonte: Esspe (1969). SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 77 3) Figurava uma franca ausência de bases legais de reconhecimento, perante o Estado (em qualquer esfera), do Serviço Social como uma área de intervenção de natureza profissional (com a decorrente exigência de diplomação, aparelhagem e normatização corporativa própria). Ao que tudo indica, nessa década verifica-se apenas a Portaria n. 568, de 5 de julho de 1947, criando a função de “auxiliar do Serviço Social do Hospital Centenário” (revogada pela Portaria n. 190, de 31 de março de 1948, que extingue o Serviço Social na mesma instituição)45 e a Lei Estadual n. 427, de 31 de dezembro de 1948, criando cargos isolados de Assistentes Sociais. Apenas na entrada da década seguinte outra legislação fornece um reconhe- cimento mais amplo. Em primeiro lugar, com a criação de outra Lei estadual, de n. 965, em 14 de dezembro de 1950, que dispõe sobre as nomeações para os cargos de Assistentes Sociais a serem criados pelo estado e suas autarquias. Nesse caso, a orientação e execução de trabalhos que integravam as atividades específicas de Serviço Social passaram a constituir a carreira de Assistente Social nas repartições de Pernambuco (ou seja, nas autarquias instituídas pelo Estado e as organizações por ele subvencionadas). A partir daí, as nomeações para os cargos foram condicionadas ao porte do diploma de Assistente Social – ainda podendo ser admitidos como contratados alunas da ESSPE, exigindo-se, nesse caso, a conclu- são do curso no prazo regulamentar. Supomos que essa legislação repercutiu na dinâmica da ESSPE, em especial com aumento das matrículas, nos anos 1950, e a mobilização para a finalização dos cursos e a diplomação – conforme sinaliza o gráfico anterior. Poucos anos depois se firmaram marcos legais referentes à constituição de normas e agências para uma padronização e racionalização do ensino em nível nacional (Lei n. 1.889 de 13 jun. 1953 e o Decreto 35.311, de 2 abr. 1954), e ao reconhecimento do exercício profissional (Lei n. 3.252, de 27 ago. 1957, que confere monopólio do exercício aos portadores do diploma; e o Decreto-Lei n. 994, de 15 mai. 1962, que regulamenta a referida Lei). Outra iniciativa que supomos ter reper- cutido na dinâmica de matrículas e diplomações em nível estadual, também conforme o gráfico anterior sugere. 4) Evidenciava-se uma parca quantidade de espaços ocupacionais que requisitasse o assistente social, reconhecendo-o para, concomitante- mente, um lugar oficial nas estruturas organizacionais-institucionais. Nos anos 1940, os espaços onde se nota alguma espécie de atuação no âmbito do Serviço Social podem ser divididos em duas classificações: 45 Ver Santiago (1954, p. 59-60). 78 Em primeiro lugar, existiam aqueles onde as alunas da ESSPE pas- saram a desenvolver experiências, vinculadas à atividade de estágio, como requisito da formação, mas de caráter experimental e explo- ratório, posto a inexistência oficial do Serviço Social nos mesmos. E essa inexistência se expressava na ausência de um setor/departa- mento/equipe na instituição ou organização para a função, na falta de um projeto próprio para a atuação do Serviço Social no órgão, e mesmo pela ausência de agentes profissionais formados exercendo atividades. Nesses casos, as alunas encarregavam-se praticamente de desbravar as alternativas de inserção do Serviço Social – como uma espécie de “experiência piloto” – orientadas pelas professoras da ESSPE encarregadas do Estágio, e basicamente centradas na apli- cação do Serviço Social de Casos; quando muito, ensaiando algumas ações relacionadas ao Serviço Social de Grupos.46 Até o momento da pesquisa, identificamos as seguintes instituições que abrigaram essas experiências: os Círculos Operários47; a Escola Ulisses Pernambu- cano48; e o Departamento de Assistência Social – LBA.49 46 O que se observa quanto à aplicação dos métodos é que, quanto menos base institucional disponível, menor a viabilidade de aplicação do Serviço Social de Grupos ou de ações de Organização de Comunidade. Desse modo, as experiências pioneiras, por não disporem de condições institucionais, estruturais, de pessoal etc., satisfatórias, acabaram restringindo-se à aplicação do Serviço Social de Casos, e ainda com uma reduzida capacidade de atendimento. 47 Registros e análises sobre a experiência pioneira do Serviço Social em Pernambuco, junto ao movimento circulista, podem ser encontrados em Andrade (1946), Gomes (1987), Ladim e Gomes (1985). 48 A Escola Ulisses Pernambucano (antes Escola Aires Lima, localizada na Av. João de Barros, n. 594, bairro de Santo Amaro) foi criada pelo Governo do Estado em 1941. Assim são definidos seus objetivos, por Costa (1949, p. 41): “A Escola Ulisses Pernambucano, é um externato misto para crianças, cujo grau de anor- malidade psicopedagógiconão admite acompanhar o regime de ensino comum, porém que, sob métodos especiais podem ser educadas e reeducadas”. Ana Luiza Costa, uma das alunas da ESSPE, estagiou na instituição entre 1942-1944, realizando tarefas de assistente social (associadas a função de professora especializada) junto aos então chamados “menores anormais” (crianças com deficiência) e suas famílias, utilizando técnicas do Serviço Social de Casos, referenciado pela concepção de “desajustamento”, e sub- sidiado pela psicologia e psiquiatria. Porém, até 1949, inexistia um órgão do Serviço Social na instituição (COSTA, 1949). A mesma autora assevera, embora sem informações mais detalhadas, ter sido convidada a trabalhar na LBA, em 1942, após sua inserção no curso de Serviço Social (COSTA, 1949, p. 58). 49 Acerca da atuação nesse Departamento, apenas Oliveira (1950) indica algumas informações. Menciona que duas alunas concluintes (é provável que da segunda metade dos anos 1940) ficaram encarregadas do então extinto Departamento de Assistência Social da LBA. Recorda Oliveira (1950, p. 34): “Em nosso meio tivemos duas alunas concluintes encarregadas do antigo Departamento de Assistência Social, que movimentaram o serviço com a colaboração de senhoras e senhoritas de nossa sociedade. Procuravam elas através de visitas domiciliares estudar os casos, e apresentavam relatórios às encarregadas do serviço para diagnóstico, e indicação de tratamento. Mas, apesar de toda boa vontade daquelas que se dedicaram a esses estudos, não se pode dizer que o trabalho foi realizado dentro da técnica. O espírito assistencialista dominava dirigentes e dirigidos, e assim começou a Legião a surgir diante do público como uma Instituição que distribuía gêneros, enxovais, remédios etc. Com o tempo esta mentalidade foi criando vulto em nosso meio ambiente, e até novembro de 1949 todo nosso esforço e toda verba eram empregados na doação de SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 79 Em segundo lugar, se encontram instâncias que começavam a afirmar o agente técnico especializado no âmbito do Serviço Social como parte de seus quadros oficiais, onde se localizava sua contribuição como subsidiária (ou acólita) em face das finalidades e resultados institucionais estratégicos dos mesmos. A exceção a tal tendência (de posição subsidiária) era a própria ESSPE, que começou a absor- ver assistentes sociais diplomadas, a partir de 1944, para atender aos seus requisitos prioritários de formação especializada. Assim como nas Agências de Serviço Social Familiar, criadas após 1948, as quais, pelas suas próprias finalidades, punham a centralidade da atividade do Serviço Social no processamento de suas finalida- des precípuas. Embora esse tipo de espaço começasse a despontar, efetivamente na segunda metade da década, isso não significava: (I) nem a existência de uma demanda muito numerosa de agentes – possivelmente não chegasse a duas ou três dezenas o número de cargos ocupados, muitas vezes com as mesmas pessoas empregadas em mais de um deles; (II) nem que os mesmos estivessem assumindo os cargos com a formação concluída (ou seja, diplomados) – a inexistência de regulamentação legal para o exercício da profissão possibilitava a ocupação de funções sem o requisito da diploma- ção, levando a que alunas da ESSPE se incorporassem aos espaços inicialmente criados. Esse residual quadro profissional despontado era absorvido em espaços ocupacionais específicos, a partir meados dos anos 1940, se firmando institucionalmente quanto mais se chega ao final da década, como trataremos na próxima seção. 3. Os espaços ocupacionais na década de 1940 e seu posterior adensamento No intervalo que se desdobra, desde a criação da ESSPE, até o início dos anos 1950, os espaços ocupacionais onde se encontravam assistentes sociais formadas, e com colocação profissional reconhecida oficialmente nas estru- turas institucionais, reduziam-se aos seguintes50: a própria Escola de Serviço Social de Pernambuco; o Juizado de Menores; o Conjunto Residencial de Casa Amarela; o Hospital Centenário; o Serviço Social da Indústria (SESI); recursos para prover necessidades imediatas, dada a impossibilidade de educar e encaminhar famílias para uma situação mais estável e menos humilhante”. 50 É sempre forçoso advertir que tais conclusões correspondem à aproximação a essa realidade permitida pelo andamento da pesquisa. Até o momento, além dos espaços ocupacionais listados, alguns registros sugerem a existência de assistentes sociais na Divisão de Tuberculose Divisão de Tuberculose, criada em 1948, integrando o Departamento de Saúde Pública do Estado (GUARANÁ, 1958). 80 a Agência de Serviço Social do Posto de Puericultura Francisco Pignatari; a Agência de Serviço Social Familiar – Comissão Estadual de Pernambuco; a Agência de Serviço Social do Hospital Osvaldo Cruz; a Agência de Serviço Social da Fábrica de Camaragibe; e a Agência de Serviço Social Familiar da Escola de Serviço Social de Pernambuco. Com exceção da Escola de Serviço Social, em todas as instituições o Serviço Social começou a comparecer a partir finais dos anos 1940, e, de modo mais palpável, quando a década já estava se encerrando. A documentação disponível forneceu algumas características desses primeiros espaços ocupacionais, sinalizando para algumas tendências predo- minantes nesse estágio de emergência do Serviço Social em Pernambuco: uma intervenção profissional balizada pela concepção de “desajustamento social” e metodologicamente referenciada no Serviço Social de Casos; um público-alvo basicamente constituído por crianças, adolescentes e mulheres de franjas das classes trabalhadoras na condição da superpopulação relativa, ou absorvidos, especialmente, no setor do comércio (sem extração tipicamente operária). O trabalho de Lira (1953) indica que, em 1946, tem início o Serviço Social no Juizado Privativo de Menores Abandonados e Delinquentes de Recife, sob o comando do Juiz de Direito Rodolfo Aureliano da Silva. O Juizado fora criado em 1934, para “[...] exercer ação preventiva, repressiva e assistencial aos menores delinquentes e abandonados” (LIRA, 1953, p. 7), através de uma aparelhagem que incluía: dois Abrigos Provisórios (um masculino e outro feminino), antes existentes como Internato Profissional 5 de Julho; o Instituto Profissional de Garanhuns, anteriormente funcionando como Patronato Agrí- cola de Garanhuns; o Instituto Profissional de Igarassu, antes Escola Correcio- nal de Garanhuns, mantida pelo Asilo Bom Pastor; e o Serviço de Proteção e Assistência a Menores Abandonados e Delinquentes, criado em 1938. Junto ao Juizado, além dos Abrigos Provisórios e demais equipamentos, existiam alguns estabelecimentos subordinados: o Núcleo de Escoteiros de Bongí (para menores de 10 anos); o Instituto Profissional de Pacas (para crianças entre 11 a 14 anos); a Granja Jangadinha (para adolescentes com mais de 15 anos); e o Instituto Profissional Feminino de Garanhuns. O Serviço Social surgiu como uma das seções do Juizado51, destinado ao “estudo e tratamento de caso” de cada criança ou adolescente, subsidiando o Juiz nos elementos necessários para sua melhor elucidação. Os registros de Lira (1953), relativos à segunda metade dos anos 1940, mostram que o Serviço Social do Juizado contava com um Diretor, quatro assistentes sociais plantonistas e mais dez visitadoras, e dispunha de uma agência em cada bairro, com sede em salões paroquiais, grupos escolares etc. A própria Lira (1953) sinaliza para a interação entre essa aparelhagem do Juizado, onde o Serviço Social circulava; em seu Trabalho de 51 Assim é descrito o conjunto das seções do Juizado, por Lira (1953, p. 8): Juízo, Delegacia de Menores, Serviço Social, Serviço Médico e Agência de Colocações. SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 81 Conclusão de Curso, diz que estava atuando no Serviço Social do Juizadode Menores em 1946, quando foi convidada para orientar o trabalho das Censoras do Abrigo Provisório Feminino (Internato), anexo ao Juizado, e destinado a receber meninas que aguardavam estudo e solução dos seus processos. Por outro lado, Oliveira (1957) registra que, em janeiro de 1946, surgiu o Serviço Social no Conjunto Residencial de Casa Amarela, concomitante à inauguração dos próprios apartamentos, sendo criada, em abril do mesmo ano, uma Agência de Serviço Social de Casos no local. O Conjunto foi subsidiado pela carteira imobiliária do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comer- ciários (IAPC), constituído por 243 casas de 2 pavimentos (totalizando 486 apartamentos), para atender às necessidades de habitação dos seus associados, através de aluguel dos imóveis. Empregando, de princípio, uma assistente social e duas agentes (então estagiárias de Serviço Social e alunas da ESSPE), o Serviço Social do Conjunto Residencial nasce com intuito de selecionar os candidatos inscritos à aquisição das casas. Já a Agência de Serviço Social de Casos é aberta para atender às famílias – em especial as mulheres e crianças – que eram identificadas em condição de “desajustamento social”. Mantida através de uma porcentagem dos aluguéis, primeiramente esteve instalada em uma das casas, conquistando uma sala do prédio da administração do Conjunto Residencial anos depois. O Trabalho de Conclusão de Curso de Barreto (1955) mostra que as primeiras instalações representavam condições bastante limitadas para atuação do Serviço Social. E que circunstâncias mais favoráveis foram alcançadas apenas em setembro de 1949, após a inauguração da Biblioteca Infantil, a incorporação de estagiárias da ESSPE de Serviço Social e a admissão de funcionárias – algo que, inclusive, oportunizou o desenvolvimento de experiências do Serviço Social de Grupos com crianças e adolescentes do Conjunto Residencial. Já em dezembro de 1952, um Centro Social é aberto, aglutinando todas as ações desenvolvidas (corte e costura, culinária, biblioteca, jogos, trabalhos manuais, discoteca etc.). Porém, Gitirana (1960, p. 11) informa que em 1956 o Serviço Social naquele Conjunto passa por uma crise que leva a sua dissolução em 1959. Uma experiência pontual também se registra no âmbito do Hospital Cente- nário52, vinculado à Secretaria de Estado dos Negócios de Saúde e de Educação de Pernambuco. Sua existência foi significativa, pois se referiu a uma atuação 52 Fundado em 7 de setembro de 1922, por uma associação de médicos, situado no bairro dos Alfitos, e passando a ser subvencionado pelo governo de Pernambuco alguns anos depois, o primeiro Hospital do estado abrigou, ao longo dos anos, algumas clínicas da Faculdade de Medicina, clínicas de pensionistas, clínicas de contribuintes e Serviço Social Médico do Instituto Pensões dos Servidores do Estado de Per- nambuco (IPSEP), sendo também um campo de trabalho prático da Escola de Enfermagem do Estado. Mais precisamente, em 1938, com a criação do IPSEP, o Centenário passou a ser chamado de Hospital do IPSEP, destinado a prestar assistência aos servidores do Estado. A Lei complementar que criou o Sistema de Assistência à Saúde dos Servidores Públicos do Estado de Pernambuco (SASSEPE) oficializou-o como Hospital dos Servidores do Estado. 82 reconhecida institucionalmente, através da Portaria n. 568, de 5 jul. 1947, criando a função de “auxiliar do Serviço Social” na instituição. Santiago (1954, p. 59) sinaliza, no entanto, que a criação do Serviço Social ali não resultara de uma necessidade sentida pelo próprio Hospital, mas de uma iniciativa do então Secretário de Saúde e Educação, Dr. Antônio Figueira, sensível às contribuições que essa atuação poderia oferecer. No entanto, o Serviço Social no Hospital durou apenas nove meses, sendo extinto pela Portaria n. 190, de 31 mar. 1948 – a que Santiago (1954, p. 60) alega que a revogação ocorreu por “aconte- cimentos políticos” relacionados à substituição de dirigentes da Secretaria e do Departamento de Assistência Hospitalar. Durante esses meses, a aluna em formação designada para o cargo, Semíramis de Araújo Santiago, e seu grupo de estagiárias, aplicaram o Serviço Social de Casos com os pacientes (envol- vendo plantão, triagem, entrevistas, visitas domiciliares, orientações), além das articulações com outros serviços e obras sociais para apoiar as demandas dos casos, reuniões internas e entendimentos com a administração do Hospi- tal – nota-se, nessa experiência, registrada em Santiago (1954), inobstante seu enfoque nos casos individuais, centrado nos “desajustamentos”, um discurso ideológico pouco permeado pelo trato doutrinário. Do trabalho desenvolvido no SESI, ainda nos anos 1940, as fontes docu- mentais apenas indiretamente fornecem informações. O trabalho de Collier (1955, p. 15) informa que as primeiras atividades de Serviço Social no setor industrial em Pernambuco datam de 1947, com a criação do SESI no Estado, através de um Departamento Regional. Desde essa data, o tal Departamento achava-se organizado em quatro grandes Divisões, além do Conselho Regio- nal: Divisão de Pesquisa, Assistência Jurídica e Divulgação; Divisão Admi- nistrativa; Divisão de Ação Social; e Divisão de Educação e Cultura. A Ação Social compreendendo serviços médicos, dentário, de recreação e assistência social propriamente dita. Para efetivar a assistência, Núcleos foram organi- zados nas zonas de maior densidade operária de Recife (com sub-Núcleos também no interior do Estado53), nos bairros de Santo Amaro, Água Fria, Sítio Novo, Beberibe, Casa Amarela, Mustardinha, Mangueira, Barro, Cordeiro e Torre. Alguns trabalhos iniciais foram de pesquisa sobre as condições econô- micas e culturais dos trabalhadores e suas famílias, a cargo de funcionários do SESI e alunas da ESSPE. O trabalho de Collier (1955) descreve a atuação inicial do Serviço Social no sub-Núcleo da Fábrica de Camaragibe, instalado a partir de 1949, aplicando Serviço Social de Casos, com uma estratégia de plantão social, numa perspectiva de superação dos “desajustamentos” dos operários e suas famílias, com uma perspectiva de formação voltada para 53 Os subnúcleos no interior estavam ligados a indústrias isoladas, predominantemente açucareiras, menos aparelhados do que os Núcleos da capital. Nesse caso, o serviço ficava a cargo, mostra Collier (1955, p. 18), de uma pessoa com curso intensivo de Serviço Social promovido pelo SESI e dirigido pela ESSPE. SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 83 atitudes de conciliação e colaboração com os patrões e as direções de fábrica. Isso ocorria através da operacionalização dos serviços, orientações e auxí- lios assistenciais do SESI, com uma rotina de cadastramentos de famílias, entrevistas, visitas, acompanhamento de casos, viabilização de casamentos e registros civis. Também, dentre as instituições (privadas ou oficiais) que, até 1952, se propunham a assistir à maternidade e à infância do Estado, apenas o Posto de Puericultura Francisco Pignatari54– conforme Lima (1958) – havia criado oficialmente o Serviço Social na sua estrutura organizacional (em outubro de 1949), não obstante o carecimento de pessoal técnico nomeado, ainda no início dos anos 1950.55 É assim sinalizado, por Lima (1958, p. 77), o caráter ainda inconsistente do Serviço Social ali existente em 1952: “É normal que não possam ser apresentados grandes resultados, diante da impossibilidade material da realização do trabalho. Apesar do Serviço Social ter sido fun- dado naquele Posto há 3 anos, ainda não logrou merecer pessoal técnico, nomeado pelo Estado, para exercer suas funções”. Tratava-se da existência de uma Agência de Serviço Social naquele Posto, destinada a prestar assistência social e educativa às gestantes matriculadas no Serviço Pré-Natal, através da aplicação do Serviço Social de Casos. Em 1951, há uma tentativa também de adoção do Serviço Social de Grupos,interrompida, e reiniciada no ano seguinte. Com efeito, essa consistia na primeira e única Agência de Serviço Social do Departamento Estadual da Criança até 1958, ano de redação do trabalho de Lima (1958). Por último, encontramos também nas Agências de Serviço Social Fami- liar alguns espaços de intervenção do Serviço Social em Pernambuco, cujo início remonta ao final dos anos 1940. Oliveira (1950) dirigiu o Setor de Assistência à Família da LBA56, e sistematizou sua experiência na Agência de Serviço Social Familiar – Comissão Estadual de Pernambuco, criada em 1949 como um setor da Assistência à Família na sede da LBA. Seu trabalho sugere uma atuação balizada pela concepção de “reajustamento” e a aplicação do Serviço Social de Casos, com forte perspectiva vocacional e apelo doutrinário, sendo desenvolvido em regime de plantão. Antes de 1949, apenas algumas experiências embrionárias se verificam no então extinto Departamento de 54 Unidade localizada em Casa Amarela, na Estrada do Arraial, nº 4140. 55 A assistente social chefe, que assumiu na época, foi a concluinte Semiramis Santiago, ex-aluna da ESSPE. 56 Ela afirma ter estagiado no Colégio Estadual de Pernambuco, provavelmente durante o primeiro lustro dos anos 1940, pois fazia parte da primeira turma, sem, contudo, ter conseguido aproveitar o trabalho desenvolvido para a elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso, com a dispersão da turma inicial da Escola nesses anos. Afirma ainda que sua intenção primitiva era utilizar a formação de Serviço Social para servir à Juventude Operária Católica, da qual fazia parte. Menciona que sua formação também recebeu uma contribuição do Instituto Social do Rio de Janeiro e da Escola de Serviço Social de São Paulo, a partir de uma bolsa de estudos de aperfeiçoamento de concluintes e terceiranistas concedida pela LBA. 84 Assistência Social da LBA, protagonizadas por alunas concluintes da ESSPE. Oliveira (1950, p. 34) assim avalia essas experiências nascentes: “Procuravam elas [as concluintes] através de visitas domiciliares estudar os casos, e apre- sentavam relatórios às encarregadas do serviço para diagnóstico, e indicação de tratamento. Mas, apesar de toda boa vontade daquelas que se dedicaram a esses estudos, não se pode dizer que o trabalho foi realizado dentro da técnica.” Ademais, Oliveira (1950) menciona a existência de outras quatro Agên- cias inauguradas, em geral, após 1948, empregando assistentes sociais: a já mencionada Agência de Serviço Social do Posto de Puericultura Francisco Pignatari, de Casa Amarela, prestando assistência médica, social e material a gestantes do bairro, através do estudo de casos; a Agência de Serviço Social do Hospital Osvaldo Cruz, a qual tinha por “[...] finalidade garantir o contato entre o doente e sua família, e orientá-lo em relação às prescrições médicas, reajustando-o pelo estudo de caso e tratamento conveniente, sob o ponto de vista médico, material e moral” (OLIVEIRA, 1950, p. 78); a Agência de Serviço Social junto à Fábrica de Camaragibe, do SESI, que se propunha a “[...] atuar como agente de ligação entre os operários e a direção da Fábrica, exercendo sua ação junto ao patrão e contribuindo para que êste possa com- preender certos problemas, quer de ordem geral dos seus operários, obtendo a sua participação na solução dos mesmos” (OLIVEIRA, 1950, p. 79); e a Agência de Serviço Social Familiar da Escola de Serviço Social de Pernam- buco, que funcionava “[...] como campo de treinamento de alunas, ministran- do-lhes os conhecimentos práticos do Serviço Social de Casos Individuais, com a supervisão da professora da referida cadeira” (OLIVEIRA, 1950, p. 79). Esse quadro dos espaços ocupacionais de assistente sociais é dinamizado pelas transformações econômicas e políticas deslanchadas no Nordeste nas décadas seguintes. Uma expressão do “desenvolvimento desigual interno” (FERNANDES, 1976) do capitalismo no Brasil é esse compasso temporal peculiar da acumulação de capital na região: somente após os anos 1960 ela sofre um impulso industrializante de maior vulto. A erosão da economia tradicional e a submissão ao capital monopolista, comandado pelo Centro- Sul e subsidiado pelo Estado, implicaram num agravamento das sequelas sociais da acumulação e num acirramento das lutas de classes em nível regional. Concomitantemente, ocorria uma significativa modernização e complexificação da aparelhagem governamental necessária à regência dos novos processos produtivos e ao deslocamento das contradições sociais e políticas crescentes – cujo ponto culminante se encontra nas mudanças operadas no bojo do ciclo ditatorial aberto em 1964.57Assim, mesmo antes 57 Uma síntese da relação entre esse ciclo industrializante no Nordeste, a atuação da SUDENE e as modifi- cações da formação em Serviço Social na região é oferecida por Vieira (1992). O estudo de Oliveira (1981) analisa essa captura do Nordeste pelo grande capital. E o relato de Page (1972) fornece uma interessante SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 85 de encerrada a década de 1960, a composição do mercado de trabalho de assistentes sociais estava em expansão, e era francamente mais complexa do que aquela despontada dois decênios antes – refletindo no maior número das diplomações, conforme o gráfico anterior.58 Um documento da ESSPE, destinado ao levantamento dos motivos para a criação do Departamento de Serviço Social na Universidade Federal de Pernambuco, fornece o panorama dos espaços existentes em finais de 1960, e das perspectivas abertas: Vale a pena referir, neste particular, a expansão do Serviço Social que vem se efetuando até mesmo nas Universidades, como é o caso da experiên- cia do CRUTAC (Centro Rural de Treinamento de Ação Comunitária), iniciada no Rio Grande do Norte [...]. Também a ampliação do Serviço Social ao nível da comunidade, nos hospitais universitários, se constitui fonte de demanda profissional. Todavia, fora dos limites da Universidade, os planos de desenvolvimento integrado, que os municípios de maior relevo do Nordeste se aprestam a realizar, de acordo com programação do Ministério do Interior, estão, necessariamente, ampliando a faixa de atuação dos Assistentes Sociais, vinculados como são estes, pela sua pro- fissão, ao desenvolvimento. As reformas administrativas em execução contribuem, por sua vez, para alargar os horizontes profissionais, eis que se vem revelando os Assistentes Sociais técnicos de grande valor na aplicação de políticas e procedimentos da administração de pessoal [...]. Mas, não se pode deixar de mencionar a demanda profissional, nos serviços de assis- tência aos menores, como é o caso da Fundação Estadual de Bem-Estar do Menor, que vem contratando os serviços de um bom número de Assistentes Sociais; assim, também o INPS cujo órgão de pessoal em Pernambuco tem recrutado profissionais até em outros Estados (ESSPE, 1969, p. 2). Prossegue o mesmo documento, arrolando as principais instituições empregadoras então existentes, e algumas áreas de atuação: o chamado “ser- viço social penitenciário”; os “serviços sociais” dos órgãos de Previdência Social em geral; os programas de desenvolvimento comunitário realizados sob os auspícios da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), do Instituto Brasileiro de Reforma Agrária (IBRA) e o Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário (INDA); as Secretarias de Estado; o Serviço Social Contra o Mocambo; o Departamento de Estradas e Rodagem; a Prefeitura Municipal do Recife; a Companhia Hidroelétrica de São Francisco (CHESF); a Companhia Hidroelétrica de Boa Esperança (COHEBE); a Rede Ferroviária do Nordeste (RFN); a Companhia Pernambucana de Borracha mostra da movimentação camponesa, da atuação das esquerdas, da SUDENE e da intervenção norte-a- mericana nesse período. 58 Pense-se, por exemplo, como, somente no ano de 1957, a ESSPE diplomou o mesmo número de assistentes sociais (16)que havia formado, cumulativamente, nos dezesseis anos anteriores de sua existência. 86 Sintética (COPERBO); a Legião Brasileira de Assistência (LBA); as Entida- des Paraestatais como o Serviço Social do Comércio (SESC), Serviço Social da Indústria (SESI) etc.; a Arquidiocese de Olinda e Recife e as Dioceses do Interior; a Confederação Evangélica; as Cooperativas; os Hospitais; as Empresas Privadas de maior porte etc. (ESSPE, 1969, p. 3). Em termos dos campos de trabalho, são assim classificados na Exposi- ção de Motivos (ESSPE, 1969, p. 2-3), associados às respectivas respostas profissionais previstas à época: [...] a saúde pública, que pode ser reforçada por esses profissionais com vistas à recuperação dos enfermos; a educação, pela integração entre escola, família e comunidade; no trabalho, como foi referido, sobretudo no âmbito da administração de pessoal, concorrendo para o esclarecimento das relações entre patrões e empregados e buscando a sua melhoria, além de organizando e coordenando os programas de bem-estar dos emprega- dos; nos planos de habitação, selecionando e educando os moradores das novas residências, auxiliando-os na adaptação ao novo ambiente além de colaborarem em outros serviços próprios de comunidade; na justiça pesquisando antecedentes sociais, participando das questões envolvidas no cumprimento de normas do Direito de Família, assistindo na reabilita- ção de delinquentes etc.; nos programas de nutrição das escolas, em que intervêm fatores sociais auxiliando, também, na disseminação de infor- mações sobre dietética. Isto, sem falar nos programas de desenvolvimento da comunidade, em que o Assistente Social além de exercer funções de organização e educação pode realizar numerosos outros trabalhos de con- teúdo social, variáveis em função dos objetivos fixados e das autoridades que superintendem a execução do programa. Com isso, buscamos sinalizar o adensamento dos espaços ocupacionais e das áreas de atuação, ocorrente, sobretudo, após os anos 1960, para nuançar o caráter embrionário das possibilidades de intervenção profissional vigentes ao final da década de 1940. Embora a consolidação do Serviço Social suponha a sua emergência, as alternativas de intervenção presentes nesta última não correspondem – nem qualitativa, nem quantitativamente – àquelas alcançadas quando da vigência das tendências econômicas, políticas e estatais desabro- chadas pelo metabolismo capitalista das décadas seguintes. 4. Considerações finais Os anos 1940 consistem no período de gestação do Serviço Social em Pernambuco. Com efeito, até antes do encerramento da década, os supostos que contribuiriam para forjá-lo enquanto área de intervenção sócio-ocupacional SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 87 específica, com inserção minimamente efetiva e reconhecida na aparelhagem assistencial, ainda estavam sendo firmados. Essa particularidade temporal do evolver da profissão no estado, por sua vez, contribui para a determinação dos arranjos teórico-metodológicos, da especificidade e complexidade das demandas e respostas profissionais, da autorrepresentação dos agentes, que marcam peculiarmente o Serviço Social nessa realidade regional desde sua constituição. Ou seja, já a partir da sua efetiva emersão profissional, pratica- mente dada na entrada dos anos 1950, os vetores próprios da sua constituição não se restringem aos que concretizam estritamente o Serviço Social “tradi- cional” e o “perfil pedagógico da ‘ajuda’”. Seja em algumas experiências práticas iniciais mais consistentes, sejam nos requisitos da formação especializada firmados após o aparelhamento da ESSPE, se inscrevem elementos próprios da erosão do tradicionalismo, também associados ao “perfil pedagógico da ‘participação’” (ABREU, 2008) – tanto, por exemplo, com a assimilação de disciplinas e instrumentos da abordagem “comunitária” (após 1948), com o envolvimento da ESSPE nos Congressos Pan-americanos de Serviço Social (iniciados a partir de 1945), quanto com a evidente presença, no discurso e orientação profissional, de um aspecto técnico, balizado pela psiquiatria e/ou por referenciais norte-ameri- canos (notadamente, na experiência ocorrida em finais de 1940, na Escola Ulisses Pernambucano, e na criação do Fichário Central de Obras Sociais, também nesse período). Essa particularidade sinaliza para uma tessitura do Serviço Social em Pernambuco mais permeável (menos refratária) a tendên- cias atualizadoras e/ou inovadoras – cujo espectro comporta, desde aquelas de cariz modernizador, até as perspectivas abertamente contestadoras. 88 REFERÊNCIAS ABREU, Marina Maciel. Serviço Social e a Organização da Cultura: Perfis Pedagógicos da Prática Profissional. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2008. ANDRADE, Maria da Glória de. Uma experiência de Serviço Social junto aos círculos operários. Recife, 1946. Monografia (Graduação em Serviço Social) – Escola de Serviço Social de Pernambuco, Recife, 1946. BARRETO, Maria Soares. Uma experiência de Serviço Social de Grupos junto a adolescente. Recife, 1955. 231 f. Monografia (Graduação em Serviço Social) – Escola de Serviço Social de Pernambuco, Recife, 1955. BERNARDES, Dênis. Relatório Final do Projeto Memória da Escola de Serviço Social de Pernambuco. Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2006. (mimeo). 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Introdução Esse estudo exploratório visou apreender as determinações que particu- larizam o Serviço Social em Pernambuco nos anos 1950. Tal particularidade foi abordada, sempre com caráter aproximativo, considerando as seguintes dimensões: (I) as expressões da “questão social” em nível regional e seu pro- cessamento através das políticas sociais pelo Estado; (II) as reconfigurações da formação profissional, com vistas à sua racionalização e atualização através da influência norte-americana; (III) a constituição dos espaços e demandas sócio-o- cupacionais, e das respostas profissionais, suas transformações e tendências na década. Nos anos 1950, tais dimensões inscrevem-se num estágio do desenvol- vimento do Serviço Social – em nível regional e nacional – no qual se verifica o progressivo processo de laicização, institucionalização e profissionalização, sob a crescente influência do estrutural-funcionalismo norte-americano. As três dimensões foram apropriadas por meio de dados primários e secundários oriundos de fontes bibliográficas e documentais. Do ponto de vista teórico, o estudo pode contribuir no avanço das pesquisas sobre a história da profissão no estado. Inobstante a importância das investi- gações existentes, verificamos ainda um pequeno número de iniciativas isola- das, e debruçadas sobre dimensões e temporalidades parciais (GOMES, 1987; PADILHA, 2008; VIEIRA, 1992). Do ponto de vista profissional, a investigação histórica tem o potencial de fundamentar projetos de intervenção que, aproprian- do-se eficazmente do passado, consigam ambicionar objetivos e alternativas de atuação referenciados pela ruptura com o conservadorismo, tradicionalmente perpetuado, usualmente sob novas formas e expressões. O primeiro eixo, relativo às expressões da “questão social” e às políti- cas sociais em Pernambuco, foi explorado através do estudo bibliográfico de 94 monografias, dissertações, teses e livros afetos aos referidos temas; as fontes bibliográficas que constituíram o ponto de partida dizem respeito aos trabalhos de Gomes (1987), Gominho (2011, 1998, 1993), Padilha (2008), Page (1972), UFPE (1985) e Vieira (1992). Os aspectos nacionais foram apropriados princi- palmente pelos seguintes textos: Ammann (2003), Behring e Boschetti (2006), Fernandes (1976), Ianni (1977), Oliveira (1981) e Vieira (1983). As variáveis principais capturadas com o estudo bibliográfico correspondem a três comple- xos de determinações basilares na constituição e desenvolvimento do Serviço Social: a especificidade do metabolismo da acumulação capitalista incidente na realidade regional nos anos 1950; as principais manifestações da desigualdade social desenvolvida sob essa especificidade econômico-social contraditória, e as conflitualidades e lutas precipitadas por tal dinâmica; e as respostas mais significativas, das instâncias de governo e dos organismos da sociedade, a essas desigualdades e conflitos na forma de ações, serviços e políticas sociais, base das demandas e dos espaços ocupacionais do Serviço Social. Os demais eixos, correspondentes à dinâmica da formação profissional, aos espaços de trabalho e às respostas profissionais, foram abordados, predomi- nantemente, através de dados primários (coletados nos documentos da extinta Escola de Serviço Social de Pernambuco (ESSPE), em especial as monografias defendidas entre os anos 1950-1960) e, subsidiariamente, dados secundários, oriundos de estudos que abordaram, direta ou indiretamente, os temas em tela – em especial, os trabalhos de Padilha (2008), Vieira (1992) e UFPE (1985). No tocante à dinâmica da formação profissional nos anos 1950, as principais variá- veis que a contemplam correspondem às reconfigurações no quadro e conteúdo das disciplinas ofertadas, nas definições e processamento das experiências de estágio, nas articulaçõesinstitucionais em que a ESSPE se envolve para o aper- feiçoamento do ensino. Além das sínteses já fornecidas pela pesquisa de Vieira (1992) em torno dessas variáveis, utilizamos como fontes de dados, principal- mente, os relatórios anuais da direção da ESSPE, os regulamentos, estatutos e regimentos da ESSPE e o Relatório da Comissão Verificadora (ESSPE, 1955). Com respeito ao significado social das respostas profissionais, as principais variáveis consideradas foram: as características das instituições que empregam assistentes sociais no estado durante o período (seus objetivos organizacionais, os “públicos-alvo” atendidos, as ações demandadas para o Serviço Social); os objetivos profissionais estabelecidos para os referidos espaços; a especifi- cidade teórico-metodológica da atuação profissional (racionalidade e matriz teórica mobilizadas, de modo subjacente ou explícito) e sua dinâmica técni- co-operativa. Aqui, contamos especificamente com os dados fornecidos pelas monografias produzidas pelas alunas da ESSPE nos anos 1950, nas quais se encontram registros bastante aproximados das variáveis apontadas, visto que os objetivos centrais dos trabalhos monográficos eram fornecer um registro SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 95 das experiências de estágio nas instituições existentes. O material empírico relativo à década de 1950 correspondeu à, aproximadamente, 52 monografias, redigidas entre 1951 e 1961. De modo secundário, recorremos a alguns docu- mentos da ESSPE que forneciam elementos para um mapeamento dos espaços ocupacionais – com destaque para os Relatórios Anuais da Direção da ESSPE e os relatórios elaborados para a anexação da Escola à UFPE (ESSPE, 1969). A apreensão dessa realidade é proposta com a perspectiva de levantamento e síntese de materiais empíricos, e construção de hipóteses analíticas, referentes à particularidade do Serviço Social em Pernambuco nos anos 1950. Do ponto de vista analítico, o estudo busca reunir matéria-prima documental e hipóteses para decifrar o significado social da profissão na particularidade regional da década, em termos dos seus condicionamentos econômicos e políticos específicos, além dos efeitos de sua intervenção na dinâmica das relações entre as classes sociais e a reprodução das relações sociais e suas contradições. No Serviço Social em Pernambuco germinam, nos anos 1950, duas mudanças que se ligam àquelas detectadas por Iamamoto e Carvalho (2005) nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Uma delas, ocorrente no lócus de reprodução da categoria profissional, consiste no despertar dos processos de racionalização e tecnificação da formação, dos quais as variáveis mais sinto- máticas são a padronização do ensino, a laicização e a afirmação da influência de matrizes teórico-metodológicas norte-americanas. A outra, referente aos aspectos da atuação profissional, envolve a institucionalização da profissão, a relativa expansão e diversificação dos espaços ocupacionais e um esboço de diferenciação técnico-profissional, indicadas no quantitativo crescente de assis- tentes sociais diplomados, no aumento numérico dos postos de trabalho e numa maior diversidade dos métodos e técnicas de que se vale o Serviço Social na intervenção. A seguir, buscamos apreender as características e tendências dessas transformações em Pernambuco, sinalizando para o caráter ainda germinal das mesmas na particularidade dos anos 1950. 2. O início da racionalização e tecnificação da formação profissional Os anos 1950 constituem o período em que se desencadeiam os processos de racionalização e tecnificação da formação profissional do Serviço Social em Pernambuco. A normatização nacional do ensino expressa-se numa padronização cuja consequência é a relativa laicização do currículo da ESSPE. O estreitamento das relações do Brasil com os EUA resulta em iniciativas de intercâmbio que adensam a influência norte-americana na formação profissional no Nordeste, em especial em Pernambuco. A regulamentação da profissão, associada às pres- sões crescentes pela abertura e reconhecimento de ocupações na aparelhagem 96 estatal, multiplica o ritmo das diplomações. E as contingências globais das transformações na estrutura socioeconômica e no Estado, em nível nacional e regional, parecem agravar as vicissitudes estruturais e financeiras da ESSPE, despertando a necessidade de sua absorção pela universidade.59 Inobstante esse desencadeamento, nos anos 1950 não são operadas trans- formações profundas naquelas variáveis que definiam o Serviço Social em Pernambuco na década anterior. No plano das condições estruturais e humanas para efetivação da formação especializada, observam-se circunstâncias mais consistentes, progressivamente alcançadas após meados de 1940, como a incor- poração de assistentes sociais formadas no quadro docente e a aquisição de um prédio próprio para sede da Escola. Ademais, orientada pelas resoluções das convenções da Associação Brasileira de Escolas de Serviço Social (ABESS) e, em seguida, pela padronização legal do ensino instituída pela Lei n. 1.889, de 13 jun. 1953, e o Decreto n. 35.311, de 2 abr. 1954, a Escola realizou alte- rações substantivas no currículo durante a primeira metade da década, cuja consequência mais significativa foi o adensamento das disciplinas afetas ao campo profissional e o enxugamento dos componentes doutrinários do currí- culo mínimo – algo que foi revertido com a adoção de disciplinas eletivas, e a realização de seminários de formação, visando o fortalecimento dos valores católicos entre o corpo discente. Assim, após a efetiva regulamentação do ensino em Serviço Social no Brasil, a ESSPE encaminhou ao Ministro da Educação um pedido de reconhecimento, que demandou um relatório de uma comissão verificadora federal. O reconhecimento foi concedido pelo Decreto n. 39.009, de 14 abr. 1956. Associadas a padronização e relativa laicização do currículo, manifes- tam-se as primeiras articulações que incidem no maior peso da influência nor- te-americana na formação do Serviço Social em Pernambuco. Um canal que sedimentou essa hegemonia no Serviço Social brasileiro foi o intercâmbio das Escolas com professores e profissionais estrangeiros (norte-americanos e euro- peus), a partir dos termos do Acordo Ponto IV. Isso resultou em diversas ações, em termos do Nordeste: em 1952, a visita da assistente social norte-americana Miss Katheryn Knapp cumprindo o Acordo Ponto IV, e patrocinada pela União Pan-americana, para subsidiar os trabalhos assistenciais e da ESSPE durante um mês; em 1953, a visita de Rose Alvernaz para discutir Serviço Social de Menores; em 1954, a concessão de bolsa de estudos, pela Organização das Nações Unidas (ONU), para uma professora da Escola (a vice-diretora Maria Dolores Coelho) estudar Cooperativismo na Dinamarca; em 1955, a exposição 59 Caso se queira completar o quadro dessa trajetória da racionalização e tecnificação da formação profissional, aberto nos anos 1950, deve-se acrescentar a experiência (inconclusa) de departamentalização pela qual passa a ESSPE nos anos 1960, apoiada através de um convênio com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF-FISI) (SOUSA; CARMO, 1965), e as transformações levadas a efeito com a incorporação da Escola à Universidade Federal de Pernambuco, a partir de 1971. SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 97 das atividades da Conselheira de Bem Estar do Instituto de Assuntos Intera- mericanos do Ponto IV, Lavínia Keys; ainda em 1954, a visita das diretoras da União Católica Internacional de Serviço Social (UCISS) para discutir a Ação Social na Bélgica e as atividades da entidade; no mesmo ano, a promoção de um curso sobre Serviço Social de Grupo, por parte de Miss Catherine Jennings, este contando com 182 alunos/as, entre professores/as, supervisores, estudan- tes e pessoal de obras sociais de Pernambuco, Paraíba,Rio Grande do Norte e Ceará; no ano seguinte, o retorno de Miss Jennings, com apoio de Lavínia Keys do Ponto IV, para complementação do curso; posteriormente, uma confe- rência sobre Cooperativismo com o Padre Peter Nearing, do Canadá. Durante o período, houve também uma intensa visitação de renomados intelectuais da profissão em nível nacional: Alceu Amoroso Lima (1956), Balbina Ottoni Vieira (1956), Giovana Xavier (1958), Sarah Fiúza (1959), Maria Augusta Albano (1960), dentre outros (VIEIRA, 1992). Por outro lado, são reiteradas algumas vicissitudes funcionais e financeiras que praticamente acompanham todo o período de existência da Escola. Tais vicissitudes se expressavam, por exemplo, na instabilidade e nas defasagens das finanças60, que implicavam: na incapacidade de efetivação de reformas e melhorias necessárias a aparelhagem do prédio para assumir plenamente as funções pedagógicas (como no caso do projeto inconcluso de um auditório); na baixa remuneração (referida como efetivamente simbólica) dos elementos que assumiam encargos docentes, na ocorrência de atrasos dos honorários e em baixos índices de frequência dos/as professores/as na aplicação das dis- ciplinas. Associado a isso, ocorriam limitações pedagógicas implicadas nas dificuldades de garantia de satisfatórias supervisões acadêmicas e de campo do estágio, causadas, seja pelo excesso de trabalho das professoras e assistentes sociais, que acumulavam vínculos, seja pela ausência mesma de profissionais em alguns campos novos procurados pelas alunas (como nos casos de algumas experiências exploratórias no âmbito da Organização e Desenvolvimento de Comunidade). Ademais, o acumulo de tarefas com outras profissões, por parte das alunas, e a falta de tempo para a orientação, por parte das professoras, levava as concluintes a recorrentes atrasos na finalização dos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC’s) e, portanto, no alcance da diplomação – algo que, possivelmente, condicionou a extinção do procedimento de arguição oral desses trabalhos, em 195861, e a abertura para a possibilidade de realização dos mesmos 60 Pelos Relatórios Anuais da Direção da ESSPE, observa-se que menos da metade dos recursos da Escola correspondiam às taxas escolares pagas pelas alunas. A maior parte dos recursos advinha de doações diversas e das subvenções – e destas, as de maior peso eram as do Governo Federal e da LBA, em menor medida do Governo Estadual e Municipal, em algumas ocasiões, do Departamento Nacional da Criança (DNCr), da UNESCO e da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE). 61 Em documento da ESSPE que apresenta a justificativa da supressão da arguição dos TCC’s, assim se coloca o argumento: “[...] a supressão da argüição do trabalho de conclusão de curso corresponde a opinião da 98 em grupo, a partir de 1965.62 Em determinados momentos, o baixo recrutamento também representou uma preocupação da administração da Escola, ao ponto dos seus quadros docentes e discentes envolverem-se em algumas campanhas para a divulgação do Serviço Social nas escolas, com expectativa de ampliação de candidatas ao exame de admissão.63 Em suma, os problemas, sobretudo financeiros, se avolumam a tal ponto que a Escola foi obrigada a tomar uma decisão, em 1958, pelo pedido de sua agregação a então Universidade do Recife. A partir daí se inicia um processo de negociação com a administração universitária que apenas se conclui no início de 1970, e no curso do qual foi suplantada a condução confessional e privada do ensino em Serviço Social no estado. Algo já em vista dos setores que admi- nistravam a Escola, quando, ainda em 1961, precisaram substituir o pedido de agregação, logo recusado pelo então Reitor da Universidade do Recife, pela requisição de incorporação – que significava, segundo um relatório da própria direção da Escola, a “[...] renúncia à sua posição de entidade particular e confes- sional tornando provável o aparecimento de outros problemas mais graves que o financeiro, como sejam a quebra de sua orientação doutrinária e a interferência da política partidária na instituição” (ESSPE, 1961, p. 24). Do ponto de vista do quadro docente e do corpo profissional, a década de 1950 se diferencia da anterior apenas pelo fato de que nela pode-se dizer que a Escola começou de fato a diplomar as alunas que iniciaram suas primeiras turmas (enquanto nos anos 1940 verificam-se duas diplomações, na década seguinte, esse número foi pouco mais de sessenta, com a maior parte das mesmas concentradas entre os anos 1957-1959). Efetivamente, só a partir desses anos finais da década é que se pode constatar o início de um padrão novo no ritmo das diplomações – até 1956 vê-se, na média, menos que uma diplomada por ano e, após esse momento, essa média subiu para aproximadamente 15. Com efeito, tal fenômeno, em parte, se explica pela afirmação dos marcos legais da padronização e racionalização do ensino em nível nacional e pelo reconhe- cimento do exercício profissional. Em parte, também pode estar associado à expansão e diversificação das oportunidades profissionais ocorrentes com a ampliação dos espaços ocupacionais – embora nas proporções e circunstâncias maioria das Escolas de Serviço Social reunidas ultimamente em Salvador, por ocasião da VII Convenção da Associação Brasileira de Escolas de Serviço Social (ABESS). Igualmente, corresponde ao desejo dos alunos manifestado no I Congresso Nacional de Estudantes de Serviço Social, realizado em Recife, em fevereiro do corrente ano. Na realidade, a argüição não acrescenta em nada a experiência do aluno e o valor do trabalho. Por outro lado, levando-se em conta a tensão nervosa muito comum nas pessoas submetidas a provas orais, pode trazer para o aluno resultados pouco satisfatórios que não correspondem à sua própria capacidade” (ESSPE, [1957 ou 1958]). 62 Sobre essa questão, um documento avulso da ESSPE registra que a motivação para a adoção desse procedimento relacionava-se a execução do plano de estágio em equipe e com objetivos comuns e atividades correlatas. 63 Esse quadro geral de dificuldades, acumulado até os anos 1960, e que serviu de justificativa para encampar o projeto de departamentalização, é esboçado em Sousa e Carmo (1965). SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 99 de um mercado da força de trabalho ainda restrito. Ou seja, se nos anos 1940 os espaços ocupacionais onde o Serviço Social em Pernambuco inseria-se com alguma estabilidade e lastro de reconhecimento institucional reduziam-se a, aproximadamente, meia dúzia, na década de 1950 esse número cresce para mais que o dobro.64 3. Expansão restrita e diversificação dos espaços ocupacionais No intervalo que se desdobra, desde a criação da ESSPE, até o início dos anos 1950, os espaços ocupacionais onde se encontravam assistentes sociais formadas, e com colocação profissional reconhecida oficialmente pelas estru- turas institucionais no estado, circunscreviam-se aos seguintes:65 a própria Escola de Serviço Social de Pernambuco; o Juizado de Menores; o Conjunto Residencial de Casa Amarela; o Hospital Centenário; o Serviço Social da Indústria (SESI); a Agência de Serviço Social do Posto de Puericultura Francisco Pignatari; a Agência de Serviço Social Familiar – Comissão Estadual de Pernambuco; a Agência de Serviço Social do Hospital Osvaldo Cruz; a Agência de Serviço Social da Fábrica de Camaragibe; e a Agência de Serviço Social Familiar da Escola de Serviço Social de Pernambuco. Com exceção da Escola de Serviço Social, em todas as instituições o Serviço Social começou a comparecer a partir finais dos anos 1940, e, de modo mais palpável, quando a década já estava se encerrando. A documentação disponível forneceu algumas características desses pri- meiros espaços ocupacionais, sinalizando algumas tendências predominantes nesse estágio de emergência do Serviço Social em Pernambuco: uma intervenção profissional balizada pelaconcepção de “desajustamento social” e metodolo- gicamente referenciada no Serviço Social de Casos; um público-alvo basica- mente constituído por crianças, adolescentes e mulheres de franjas das classes trabalhadoras na condição da superpopulação relativa, ou absorvidas, especial- mente, no setor do comércio (sem extração tipicamente operária). Em muitas circunstâncias, tratava-se mesmo de inserções embrionárias – ou caracterizadas 64 Em notícia publicada em abril de 1956 sobre o reconhecimento da Escola pelo Jornal do Comércio, são elencadas as instituições nas quais, naquela altura, estavam trabalhando as primeiras diplomadas. Assim menciona a notícia: “Com efeito, muitos estão trabalhando nas seguintes instituições: IAPC, IAPB, IAPI, Delegacia Regional do Departamento Nacional da Criança, Departamento Estadual da Criança, Comissão Estadual da LBA, SESI, Fichário Central de Obras Sociais, Obras Sociais da Paróquia de Casa Amarela, Bom Pastor, Divisão de Tuberculose, Diretoria de Educação e Cultura, Instituto Domingos Sávio, Sociedade Pernambucana de Combate à Lepra e a Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural (ANCAR).” (ESSPE, p. 30, [19--?]). 65 É sempre forçoso advertir que tais conclusões correspondem à aproximação a essa realidade permitida pelo andamento da pesquisa. Até o momento, além dos espaços ocupacionais listados, alguns registros sugerem a existência de assistentes sociais na Divisão de Tuberculose, criada em 1948, integrando o Departamento de Saúde Pública do Estado (GUARANÁ, 1958). 100 por experiências exploratórias de alunas concluintes, sem a marca do reconhe- cimento institucional da profissão no órgão, ou de espaços que nos finais da década apenas haviam reconhecido a criação de equipes, mas não usufruíam dos recursos humanos e estruturais para o desenvolvimento pleno dos trabalhos. De modo que, daquele rol de instituições, efetivamente apenas pode-se dizer que a Escola de Serviço Social de Pernambuco, o Juizado de Menores e o Conjunto Residencial de Casa Amarela estavam mais distantes dessas marcas do estatuto embrionário das inserções até finais de 1940. Em termos da estrutura ocupacional, na década de 1950 testemunhamos, ainda que dentro de limites visíveis, a expansão e diversificação do Serviço Social em Pernambuco. Na mesma época, encontramos o seguinte quadro de transformações nos espaços ocupacionais e nas respostas profissionais, resu- mido por Iamamoto e Carvalho (2005, p. 343), numa apreciação com foco nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo: No fim da década de 1940, e especialmente na década seguinte, abre-se um novo e amplo campo para os Assistentes Sociais; as grandes empresas (especialmente as indústrias) passam a constituir um mercado de trabalho crescente. O Serviço Social se interioriza, acompanhando o caminho das grandes instituições, a modernização das administrações municipais, e o surgimento dos novos programas voltados para as populações rurais. Ao mesmo tempo, nas instituições assistenciais – médicas, educacionais etc. – o Serviço Social paulatinamente logra maior sistematização técnica e teórica de suas funções, alcançando definir áreas preferenciais de atuação técnica. Aprofunda-se, no plano do ensino, a influência norte-americana, voltando-se o Serviço Social ainda mais para o tratamento, nas linhas da psicologia e psiquiatria, dos desajustamentos psicossociais. O Serviço Social de Grupo, que há tempo vinha sendo utilizado de forma tradicional (recreação e edu- cação), na década de 1950 começa a fazer parte dos programas nacionais do SESI, LBA, SESC, em hospitais, favelas, escolas etc., iniciando-se uma nova abordagem – que relaciona estudos psicossociais do participante com os problemas da estrutura social e utilização da dinâmica de grupo. Sobre a abordagem comunitária, que passa a constituir uma novidade na intervenção, assim esclarecem Iamamoto e Carvalho (2005, p. 345): As iniciativas vinculadas ao Desenvolvimento de Comunidade apresentam nesse período franco desenvolvimento, com o surgimento de uma série de organismos e a realização de importantes Seminários. Esses organismos desenvolverão programas que buscam sua inspiração na experiência nor- te-americana. Estarão, essencialmente, baseados em técnicas do Desen- volvimento de Comunidade e perseguem a modernização da agricultura brasileira, tendo por estratégia a Educação de Adultos. SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 101 Grosso modo, o Serviço Social em Pernambuco não destoa do que sucedia no Sudeste, apresentando apenas um ritmo de relativo atraso face aos cen- tros industriais e governamentais mais importantes do país. Mesmo antes de encerrada a década de 1960, a composição do mercado de trabalho de assis- tentes sociais estava em expansão, e era francamente mais diversificada do que aquela despontada nos anos 1940. O crescente adensamento dos espaços de trabalho manifesta-se pela diversidade de áreas de atuação já presente na década de 1950 – inobstante se a inserção, em alguns casos, ainda carecia de legitimação institucional ou marcava-se apenas por experiências pontuais. Ou seja, o reduzido quadro dos espaços ocupacionais de assistente sociais, encon- trado nos anos 1940, é relativamente dinamizado na década seguinte. Porém, o caráter restringido dessa dinamização, funda-se no fato de que ela ainda não se apoiava num impulso de industrialização e numa nova qualidade da intervenção estatal – algo que ocorreria com a implantação da SUDENE e a deflagração do ciclo ditatorial. Uma expressão do desenvolvimento desigual interno (FERNANDES, 1976) do capitalismo no Brasil é o compasso temporal peculiar da acumulação capi- talista na região Nordeste: somente no curso da segunda metade do século XX ela sofre um impulso industrializante efetivo. Após a década de 1960, a erosão da economia tradicional e a submissão ao capital monopolista, comandado pelo Centro-Sul, e subsidiado pelo Estado, implicaram num agravamento das sequelas sociais da acumulação e num acirramento das lutas de classes em nível regional. Concomitantemente, ocorria uma significativa modernização e complexificação da aparelhagem governamental necessária à regência dos novos processos produtivos e ao deslocamento das contradições sociais e polí- ticas crescentes – cujo ponto culminante se encontra nas mudanças operadas no bojo do ciclo ditatorial (OLIVEIRA, 1981). Considerando a inserção desigual e retardatária da região Nordeste no circuito industrializante despertado no estágio de transição do capitalismo no Brasil dos anos 1950, podemos supor que essa dinamização do mercado de trabalho do Serviço Social em Pernambuco não germinou das inovações pro- dutivas, comerciais e financeiras que a irrupção da realidade dos monopólios no país começava a inaugurar. Nessa década, a economia do Nordeste não comportava os processos de industrialização conduzidos pelo adensamento da intervenção estatal que iriam marcar sua realidade posteriormente, pela decisiva mediação da SUDENE. Mais que isso, a política econômica de favorecimento da agroexportação do café, e da industrialização no Centro-Sul, produzia um efeito mesmo regressivo na economia açucareira-têxtil, que mais diretamente condicionava a vida produtiva em Pernambuco. Desde finais do século XVIII, o desenvolvimento das forças produti- vas tipicamente capitalistas nos países dominantes progressivamente afeta as 102 disputas no mercado mundial e, por consequência, a demanda externa do Brasil, implicando no descolamento dos produtos da economia agroexportadora até então dominantes. Esses deslocamentos apenas cooperaram para acirrar arti- culadamente, na região onde se insere Pernambuco do início do século XX, as contradições sociais colocadas pela mecanização da agricultura e o surgimento da produção têxtil. Diga-se, inviabilizaram a expansão da economia açuca- reira-têxtil, comprometendo as formas burguesas transitóriasde produção e apropriação do valor aí germinando através do impulso de industrialização refletido das usinas e na manufatura têxtil66. Isso em benefício da produção do café no Centro-Sul (e da subsequente industrialização lá deslanchada) e da ascensão do poder econômico e político da produção algodoeira-pecuária no próprio Nordeste, junto com o latifúndio e a oligarquia a ela ligada, os “coro- néis” (OLIVEIRA, 1981). Diz Oliveira (1981) que a economia açucareira é premida de tal modo pela produção agroexportadora do café (em seguida também pela industrialização que se desdobra com ela), e pela produção algodoeira-pecuária, que recriava internamente mecanismos de acumulação primitiva com processos e relações de produção pré-capitalistas (como o “cambão”, mercados “cativos” de traba- lho nas usinas, o “barracão”), com o que se condenou à estagnação.67 Donde, durante a expansão do capital industrial concentrada no Centro-Sul, o duplo papel – com sequelas sociais de vulto – do Nordeste como: a) uma reserva do exército industrial de reserva, cujo efeito foi a migração em massa da força de trabalho; b) uma fonte de capital – que ainda ali se formava – drenada para aquela industrialização pela política econômica vigente (OLIVEIRA, 1981, p. 37). Em larga medida, esse cenário é relativamente alterado apenas com o surgimento da SUDENE; até a década de 1950 ele constituiu a base do atraso das forças produtivas capitalistas no Nordeste e o insumo para os conflitos políticos mais significativos da década em Pernambuco – expressos, seja na ascensão das Ligas Camponesas, seja na movimentação do proletariado urbano e rural no sentido da coligação de forças populares. Isso significa que as bases das expressões típicas da “questão social” nessa realidade regional encontra- vam-se relacionadas: (1) às consequências sociais e políticas da mecanização da agricultura e da agudização do latifúndio; (2) ao atraso econômico, explo- ração e pauperismo extremo das regiões sertanejas, dominadas pela economia 66 Sobre as causas e as características do período de expansão e decadência da burguesia agrário-industrial no Nordeste, entre o final dos anos setenta do século XIX e as primeiras décadas do século XX, ver Oliveira (1981, p. 61-64). 67 Oliveira (1981, p. 64) identifica aí a recriação de “[...] formas de defesa anticíclicas não-capitalistas: não ocorria o desemprego, nas crises da economia açucareira: ocorria apenas a volta de parte da população trabalhadora às ‘economias de subsistência’, a formas quase-naturais. Essas formas de defesa foram-lhe extremamente eficazes para não desaparecer, mas cobraram seus direitos na medida em que a impediam de expandir-se.” SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 103 algodoeira-pecuária; e (3) pelas colisões políticas e iniquidades sociais geradas pela exploração operária no âmbito tipicamente manufatureiro. Portanto, nos parece que a expansão restrita e diversificação incipiente do Serviço Social no estado guardam mais relação com a estruturação e ampliação das políticas e instituições sociais criadas no Estado Novo, que ocorrem com mais demora nessa realidade. Além disso, deve-se também ao avanço da atuação em organizações, próprias dos governos do estado, criadas nos anos 1940, e que consolidam seus trabalhos na década seguinte (como no Serviço Social Contra o Mocambo, o Serviço Social Escolar, a Colônia Penal Bom Pastor). Em geral, no Recife, as expressões da “questão social” refletiam-se na degradação humana e na ameaça política proliferadas com os mocambos – onde se aglutinavam os dramas sociais de operários, desempregados e retirantes. Essa foi uma forma fenomênica típica da “questão social” na cidade, na qual as políticas sociais germinadas com o Estado Novo centralizavam as suas modalidades de inter- venção e desdobravam, por seu turno, os espaços ocupacionais que absorviam as primeiras assistentes sociais. Considerando o panorama de relativa paralisia da política social no Brasil dos anos 1950, as poucas e limitadas inovações da época se refletem nos campo de trabalho em Pernambuco, como nos casos da ampliação das campanhas de Saúde Pública (principalmente repercutindo na existência de assistentes sociais começando a atuar nos serviços voltados ao combate à tuberculose) e da estru- turação das ações do Departamento Nacional da Criança (com a intervenção verificada na Campanha Educativa do DNCr no estado). Apenas desponta, para o Serviço Social em Pernambuco, uma inserção mais condicionada pela conjun- tura própria dos anos 1950, quando das primeiras intervenções, nos anos finais dessa década, nos projetos de assistência rural (com a inserção na experiência piloto da Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural, no interior do estado, por exemplo), motivados pelo acirramento das lutas camponesas. Com isso, o próprio Serviço Social vai refletindo, na sua dinâmica interna, uma diferenciação técnico-profissional, sobretudo após meados da década de 1950. Isso se manifesta no desenvolvimento de processos próprios do Ser- viço Social de Grupos, em algumas instituições, e na aplicação de métodos vinculados à esfera do Desenvolvimento e Organização de Comunidade, ao lado das práticas tradicionais individualizantes do Serviço Social de Casos, já consolidadas e majoritárias – donde, igualmente, uma diferenciação de funções e instrumentos começa a despontar, com a aplicação de estudos e pesquisas sociais, a atuação com planejamento, coordenação e supervisão de programas e projetos. Ademais da patente presença de tendências teórico-metodológicas tecnicistas modernizadoras, paralelas (ou mesmo imbricadas) com as impos- tações doutrinárias – embora não haja descolamento quanto a equalização das expressões da “questão social” em termos da concepção de “desajustamento”. 104 As tendências com caráter mais inovador (atuação com grupos e organização de comunidade, intervenção em coordenação e supervisão de programas, com viés tecnicista) manifestam-se, embora normalmente de modo híbrido, nas ações patrocinadas por organismos internacionais ou incluídas das grandes instituições sociais (SESI, SESC, Institutos de Aposentadorias e Pensões). O público majoritário, embora não exclusivo, mantém-se constituído de mulheres adultas e jovens, e crianças das famílias trabalhadoras, sejam aquelas inscritas na força de trabalho ativa (em menor número), sejam aquelas incluídas no exército industrial de reserva. Aglutinamos as áreas de atuação existentes em Pernambuco nos anos 1950, considerando a prevalência das necessidades de reprodução social em torno das quais os espaços ocupacionais pareciam centralizar-se. E, apenas em segundo plano, diferenciamos a classificação dessas áreas de acordo com a sua inserção na arquitetura institucional das políticas sociais da época. De modo que se observa, na classificação que projetamos para a distribuição e análise dos espa- ços ocupacionais do Serviço Social no estado, determinadas entidades sociais aparecendo em mais de uma área – como no caso das instituições previdenciá- rias que, por criarem equipamentos especializados na atenção à saúde de seus segurados e, em alguns casos, também dedicarem-se a algumas necessidades habitacionais, inscrevem-se concomitantemente nas áreas da atenção médica e da habitação social. Assim, o leque de espaços ocupacionais onde encontra- mos assistentes sociais (ou alunas concluintes) desenvolvendo algum tipo de intervenção no campo do Serviço Social em Pernambuco nos anos 1950 são assim distribuídos: Assistência Social; Saúde Pública e Atenção médico-previ- denciária; Previdência social; Habitação social; Justiça; Educação; Assistência Rural; Coordenação de organizações assistenciais. A seguir, abordamos tais áreas, buscando fornecer os traços gerais dos espaços ocupacionais onde se incluía o Serviço Social. 3.1 Assistência Social Na área da Assistência Social, o Serviço Social emPernambuco acumula significativa expansão e diversificação nos anos 1950, absorvendo a maior parte da inserção de assistentes sociais na década, seguida da Saúde Pública e Atenção médico-previdenciária. A diversificação dessa área se expressa na miríade de instituições que incorporam serviços e ações assistenciais, além daquelas criadas na década, destinadas a esses objetivos precípuos. Podemos desdobrar, ainda que de modo aproximado, a pluralidade de frentes em três segmentos articula- dos: os empreendimentos voltados à assistência pública propriamente dita; as ações de assistência à maternidade e à infância; e as iniciativas de assistência ao trabalhador empregado nos setores formais do mercado da força de trabalho. SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 105 No segmento da assistência pública, encontra-se o Serviço Social inserido em equipamentos da Legião Brasileira da Assistência (LBA), como o Ambu- latório Jarbas Maranhão da Comissão Estadual da LBA (FEITOSA, 1960), ou subvencionado pela mesma, como a Agência de Serviço Social Familiar da ESSPE (CALÁBRIA, 1960; SILVA, 1958). No âmbito rural, também se apre- senta a inserção do Serviço Social no caso da Agência de Serviço Social Familiar da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição em Nazaré da Mata, no final da década (ANDRADE, 1958). Também está presente em Agências de Serviço Social Familiar no Posto de Puericultura Francisco Pignatari (LIMA, 1958) e no Posto de Puericultura Torrões Galvão (MELLO, 1960), ligados ao Depar- tamento Estadual da Criança. Algumas dessas instâncias, com marcada interseção com a esfera da assistência à maternidade e à infância, também recebiam suporte financeiro e ações patrocinadas por um Programa do Departamento Nacional da Criança (DNCr) em associação com o Fundo Internacional de Socorro a Infância (FISI- -UNESCO), por meio de uma Campanha Educativa – fornecendo, por exemplo, serviços, benefícios, assistência educativa, nucleação de grupos (os “Clubes de Mães”). Nessas ações com envolvimento do DNCr-FISI, verificam-se experiên- cias do Serviço Social com organização social de comunidade – como a ocor- rida em 1953 no território de Fernando de Noronha (ALBUQUERQUE, 1957) e na Paróquia do Senhor Bom Jesus do Bonfim Arraial, em Casa Amarela, entre 1955-1957 (DUARTE, 1957) – e mesmo a inserção de aluna concluinte em trabalhos de Planejamento da Campanha para os municípios do estado (MACIEL, 1959). Naquilo que se refere, em específico, à assistência ao trabalhador, basica- mente o Serviço Social se inscreve nas instâncias ou seções assistenciais das grandes instituições sociais, já criadas na década anterior, com destaque para o Serviço Social da Indústria (SESI) e o Serviço Social do Comércio (SESC). Em especial na atuação num subnúcleo do SESI na Companhia Industrial Pernam- bucana (Fábrica de Camaragibe), com uma Agência de Serviço Social Familiar, desenvolvendo acompanhamentos individualizados com a aplicação do Serviço Social de Casos, utilizando-se de plantões sociais, visitas domiciliares, atividades de lazer dirigidas, concessão de auxílios etc., em torno das necessidades de sub- sistência, de saúde, de trabalho e de habitação de mulheres, homens e crianças das famílias operárias (COLLIER, 1955; COLLIER, 1957; GOMES, 1958; PORTELA, 1960). Nesse subnúcleo, além da abordagem individualizante de casos, esboça-se uma experiência de organização da Juventude Operária Cató- lica (JOC) tendo em vista a condução dos trabalhos para o Serviço Social de Grupo e Comunidade (GOMES, 1958). Explicita-se, nas várias experiências, a complementação do trabalho religioso católico, já presente na Fábrica, com as finalidades educativas do Serviço Social. 106 Outros registros apontam para a presença do Serviço Social no Núcleo Aníbal Cardoso do SESI no Cotonifício da Torre – Escola do Cotonifício da Torre, desenvolvendo trabalhos na mesma perspectiva, inclusive envere- dando para a intervenção com grupos de adolescentes, em meados da década (ARAÚJO, 1959). Por outro lado, o trabalho de Costa (1961) evidencia uma experiência de supervisão (chefia e administração de obras sociais) das ações do SESC na capital e interior. Indica a atuação com os métodos de caso, grupo e comunidade ocorrendo através das ações do SESC, principalmente na Divi- são de Serviços Sociais (com os cursos de educação familiar, por exemplo) da Direção Regional do SESC em Pernambuco – indica a autora que o primeiro Centro de Atividades do SESC em Pernambuco data de 1950. 3.2 Saúde Pública e Atenção médico-previdenciária Na década de 1950, um dos campos de maior peso e de importante expan- são da atuação do Serviço Social em Pernambuco referiu-se à Saúde Pública e à Atenção médico-previdenciária. Na maioria dos casos, atuando através das estratégias do Serviço Social Médico e do método de Serviço Social de Casos nos serviços centrados no problema da tuberculose entre operários, subemprega- dos e desempregados. Além disso, se verifica pioneiramente o desenvolvimento de algumas pesquisas sobre a condição social dos pacientes atendidos, com vistas a aperfeiçoar os atendimentos médicos e acompanhamentos dos casos. Encontra-se um Serviço Social estruturado no âmbito da Divisão de Tuberculose do Departamento de Saúde Pública do Estado, atuando em alguns de seus equi- pamentos: Dispensário Agamenon Magalhães (COSTA, 1959; PONTES, 1954), Dispensário Amaurí de Medeiros (GUARANÁ, 1958), Divisão de Tuberculose no Hospital Oswaldo Cruz (ALMEIDA, 1955; CAVALCANTI, 1959; COUTI- NHO, 1960; MENEZES, 1958; NASCIMENTO, 1959) e Conjunto Sanatorial Otaviano de Freitas (MELO, 1961; MORAIS, 1958). Esse campo se expande no contexto da Campanha Nacional Contra a Tuberculose que ganha fôlego na década. Por outro lado, existe uma presença, embora menos expressiva, em equi- pamentos destinados à atenção médico-previdenciária, em especial do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (IAPI), também com enfoque no problema da tuberculose entre operários vinculados ao Instituto, em específico no seu Posto Central de Assistência, na Clínica Tisiológica (BARBOSA, 1959; CARNEIRO, 1957) – além de uma atuação com a saúde das operárias na Clínica Ginecológica do mesmo Posto (PROENÇA, 1957). Encontramos registros, ainda, da atuação do Serviço Social no Ambulatório do Instituto de Aposentado- rias e Pensões dos Comerciários (IAPC) entre 1951 e 1958 (GITIRANA, 1960), SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 107 com a prática do Serviço Social Médico, realizando inquéritos, e o Serviço Social de Casos com pacientes acometidos pela tuberculose. Majoritariamente, expressava-se a intervenção do Estado no sentido de conter uma condição de agravamento de saúde da massa trabalhadora condicio- nada pela superexploração. Nessa circunstância, os baixos salários, associados às longas e extenuantes jornadas de trabalho, provocava a subnutrição e a baixa da imunidade que, vivenciadas em circunstâncias habitacionais degradantes, favoreciam o desenvolvimento e o contágio da tuberculose. Evidencia-se a presença incipiente do Serviço Social também na Clí- nica do Câncer, um pavilhão construído pela Sociedade de Assistência aos Indigentes Hospitalizados (depois Sociedade Pernambucana de Combate ao Câncer) no Hospital de Santo Amaro (pertencente à Casa de Misericórdia) (SANTOS, 1959). Também como expressão de outra campanha nacional. Aí tem início um setor de Serviço Social em fevereiro de 1956 aplicando Serviço Social de Casos orientado pela concepção de “desajustamento”. Na interface com a política de Educação, existe a presença do Serviço Social no Hospital das Clínicas da Universidade do Recife, conhecido como Hospital Dom Pedro II. Hospital que também estava ligado ao Governo Estadual através da Fundação de Ensino Superior (Faculdade de Medicina), e colaborava com os postos do Departamento Estadual da Criança. Osregistros sinalizam para uma equipe do Hospital atuando na área da puericultura, nucleação de grupos, atendimentos assistenciais, e sensibilizando para os aspectos médico-sociais dos alunos de medicina (CAVALCANTI, 1968; CORDEIRO, 1960). 3.3 Previdência social Durante toda a década, praticamente não se registra a intervenção do Ser- viço Social especificamente nos órgãos centrais de atendimento previdenciário. Basicamente, as práticas existentes inscrevem-se nos ambulatórios e conjuntos residenciais vinculados aos Institutos, em especial o IAPC e o IAPI, desenvol- vendo Serviço Social Médico através da abordagem individualizante de casos. Ou no Conjunto Residencial de Casa Amarela, vinculado ao IAPC, com o Serviço Social realizando acompanhamento de casos e nucleação de grupos, numa agência e num Centro Social. No final dos anos 1950, esboça-se a inser- ção de agentes profissionais nas Delegacias desses Institutos, com a realização de concurso público no IAPI para assistentes sociais que passariam a compor, provavelmente somente na década seguinte, um setor no órgão central do Insti- tuto (PONTES, 1954), e com a instalação, em 1959, do Serviço Social na Dele- gacia do IAPC, preparando-se para os trabalhos com orientação e informação de segurados, habilitação de benefícios, e tratamento de casos sociais (GITI- RANA, 1960). Destacam-se, nesses anos, a atuação no sentido de preparação, 108 com a criação de Planos de Trabalhos e aparelhamento para a intervenção nesses órgãos da Previdência Social (GONÇALVES, 1955). A incipiência do Serviço Social nessa esfera manifesta a defasagem estrutural-funcional de que padeciam ainda os órgãos da Previdência nos anos 1950 – cuja razão de fundo também se relaciona com a expressividade ainda limitada que os processos de industrialização alcançaram em Pernambuco no período. 3.4 Habitação social Em Pernambuco, a emergência no Serviço Social liga-se diretamente com o acirramento das contradições sociais expressas na degradação habitacional, manifesta com o problema dos mocambos. A intervenção social do Estado Novo aglutinou aí seu principal eixo de amortecimento do pauperismo e da insatisfação política. Isso determina o fato de que precocemente encontra-se o Serviço Social atuando das ações voltadas aos problemas habitacionais. Desde meados dos anos 1940, assistentes sociais e alunas desenvolveram intervenção no Conjunto Residencial de Casa Amarela, financiado pelo Instituto de Aposen- tadorias e Pensões dos Comerciários (IAPC). Inicialmente realizando a triagem de beneficiados com as casas, o Serviço Social passou a atuar também com o tratamento de casos sociais numa Agência de Serviço Social de Casos no Con- junto. E logo passou a desenvolver experiências de Serviço Social de Grupos que ganharam suporte com a criação de um Centro Social (BARRETO, 1955; CAVALCANTI, 1955; GITIRANA, 1960; RENDA, 1959; OLIVEIRA, 1957). Porém, Gitirana (1960, p. 11) informa que em 1956 o Serviço Social naquele Conjunto passa por uma crise que leva a sua dissolução em 1959. Em todo o percurso, o público atendido foi, majoritariamente, de esposas e filhos de associados/as do Instituto. De outra parte, Melo (1960) informa que, até 1960, o Serviço Social Contra o Mocambo (SSCM) contava com duas assistentes sociais (uma delas con- cluinte) trabalhando na Secção de Assistência à Família Operária (SAFO) do Departamento de Reeducação e Assistência Social (DRAS) – não se identifica, nos documentos disponíveis, quando o Serviço Social teria iniciado, no órgão criado em 1945, antes existente como associação Liga Social Contra o Mocambo (1939). O organograma do SSCM mostra que a SAFO estava incluída em Cen- tros Operários Católicos de 12 bairros do Recife na época. Apenas no início dos anos 1960, se verifica uma experiência buscando a aplicação dos métodos de Desenvolvimento e Organização de Comunidade (MELO, 1960); antes disso, a atuação do Serviço Social reduzia-se ao trabalho assistencial imediato com as famílias. O trabalho das assistentes sociais aparece ligado aos procedimentos de concessão das casas entre as famílias. No início dos anos 1960, Melo (1960) aponta a necessidade de projetos educativos para o desenvolvimento comunitário SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 109 no SSCM, como a Educação de Adultos, referenciando-se, por outro lado, na perspectiva cristã para o Serviço Social. 3.5 Justiça Na área da Justiça, o Serviço Social em Pernambuco se apresenta em face das expressões da “questão social” vividas por crianças, adolescentes e mulheres em conflito com a lei e/ou submetidas à reclusão. Nessa esfera, se manifestam algumas das contradições mais agudas colocadas pela exploração e opressão de trabalhadores/as empobrecidos/as e suas famílias: aquelas que se estendem ao ponto de levarem crianças e mulheres a colidirem com a lega- lidade, e enfrentarem os aparelhos repressivos do Estado, com suas funções coercitivas, mas igualmente socializadoras. Aí, o Serviço Social está presente, tanto no atendimento ao chamado “problema do menor delinquente”, enfrentado através do Juizado de Menores e seus equipamentos assistenciais e de reclu- são, desde meados de 1940 (SILVEIRA, 1958), quanto, após meados de 1950, desponta com experiências iniciais no âmbito penitenciário, com a realização dos primeiros estágios na Colônia Penal de Mulheres Delinquentes Bom Pastor (OLIVEIRA, 1958). E com os primeiros estágios desenvolvidos no Reforma- tório para meninas do Instituto Bom Pastor (SILVA, 1957). Nesses espaços, desenvolvem-se experiências, ou práticas já consolidadas, de Serviço Social de Casos, com explícito teor doutrinário e confessional. No caso das institui- ções administradas pelo Instituto Bom Pastor, são explícitos os laços entre o Estado e a Igreja criados durante o governo de Agamenon Magalhães, no bojo do Estado Novo, para o exercício da ação doutrinária, educativa e repressora sobre as mulheres apenadas e as crianças e adolescentes infratores. 3.6 Educação Na Educação propriamente dita, o Serviço Social em Pernambuco parece conservar uma condição menos incipiente do que aquela existente nos anos 1940. A relativa expansão do ensino na década – requisito para o alcance dos padrões mínimos exigidos para a formação da força de trabalho num período de indus- trialização – passa a demandar progressivamente a consideração da instituição escolar pelas variáveis sociais que afetam o aprendizado e a participação regular de alunos. Ademais das necessidades de alfabetização acumuladas com o déficit educacional e da disparidade cultural de uma fração da classe trabalhadora que, expulsa do campo e socializada para a agricultura e a vida rural, passa a com- por as fileiras do proletariado no espaço urbano. Assim, além das modalidades tradicionais de aplicação do Serviço Social de Casos para a solução dos “desa- justamentos econômicos” de crianças e famílias ligadas às escolas, o Serviço 110 Social na Educação se propõe a estender uma ação educativa complementar entre grupos e com abordagem comunitária. Na década, observa-se uma nova experiência de estágio na Escola Ulisses Pernambucano, quando uma concluinte assumiu o posto de assistente social recentemente oficializado, mas que se manteve ocupado apenas no próprio período de estágio, entre 1951-1952, atuando na equipe médico-social com as técnicas do Serviço Social de Casos (CAVALCANTI, 1957). Por outro lado, em 1959 registra-se outra experiência com aluna estagiária, agora no Grupo Escolar Rural Heróis da Restauração (Departamento de Assistência Escolar – Serviço Social Escolar) aplicando um trabalho de Serviço Social de Grupos que, no início da década seguinte, desdobrou-se para uma ação de Alfabeti- zação de Adultos guiada pelos métodos de Desenvolvimento de Comunidade (PINHEIRO, 1961). A então aluna da ESSPE, já funcionária (auxiliar técnica) do Serviço Social Escolar do Grupo Escolar Rural Heróis daRestauração, rea- lizava tais ações, ao que se percebe, sem que se contasse com o Serviço Social oficialmente nos quadros Escola, num caráter experimental. Nesses casos, a perspectiva tecnicista parece dominar (no âmbito da Escola Ulisses Pernambu- cano), apontando, inclusive, uma inspiração no Movimento de Cultura Popular (no caso do Grupo Escolar). A maior consistência na área diz respeito aos registros, também após mea- dos da década, de existência de assistentes sociais atuando no Serviço Social Escolar, mantido pelo Departamento de Assistência Escolar da Secretaria de Educação e Cultura, após 1952, recorrendo aos métodos de casos, grupo e comunidade, como parece ser o exemplo da experiência nas Escolas Reuni- das Mota e Albuquerque em Casa Amarela (MELO, 1957). Mas encontram-se aplicações exploratórias da organização de comunidade (pesquisa, nucleação de grupo, mobilização de recursos) na Escola de Especialização Rural Murilo Braga (distrito de Cavaleiro, município de Jaboatão) (FONSECA, 1958) e no Grupo Escolar Frei Caneca (Santo Amaro) (DOURADO, 1960).68 3.7 Assistência Rural O final dos anos 1950 sinaliza para a abertura de uma área de interven- ção ainda inexplorada, que iria abrigar algumas atuações do Serviço Social no meio rural, com instituições e iniciativas voltadas para a Assistência Rural. O acirramento das tensões políticas no campo, germinado com a degradação social crescente de camponeses e proletários rurais, provocada pela mecani- zação da agricultura e o alastramento do latifúndio, impeliu a intervenção de 68 O Instituto Domingos Sávio aparece também em alguns documentos e notícias como espaço de atuação do Serviço Social nos anos 1950. A ausência de outros documentos com maiores detalhes não nos permitiu, até o momento, identificar as características do Serviço Social nessa instituição. SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 111 instituições nacionais e internacionais voltada para a reversão dos ditos fatores de “subdesenvolvimento” no meio rural. Após finais da década, essa intervenção balizou a abertura de espaços ocupacionais para o Serviço Social em equipes multiprofissionais encarregadas com a pesquisa, planejamento e execução de projetos de desenvolvimento comunitário – onde as assistentes sociais inscre- viam-se na execução de estudos, mobilização de recursos, formação de lide- ranças, desenvolvimento de ações educativas complementares às alterações na infraestrutura, implantação de equipamentos sociais, deslocamento de tensões políticas decorrentes da implantação dos projetos. Assim, observa-se uma atuação experimental, por exemplo, no Escritório Local de Bom Conselho, da Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural (ANCAR). Órgão criado para desenvolver um programa de natureza educativa e financeira para o desenvolvimento socioeconômico das populações rurais do Nordeste, mesmo sem garantir ainda um setor de Serviço Social, con- tou com uma aluna concluinte entre 1954-1955, realizando pesquisa sobre os recursos comunitários, desenvolvendo planejamento de ações, organização de lideranças e execução de programas no campo educacional (RIBEIRO, 1958). Nos últimos anos da década, existe também uma atuação pontual num projeto Piloto de Eletrificação Rural em Itacuruba e Rodelas, no sertão do São Francisco (BEZERRA, 1959). A aluna concluinte integrou, como assistente social, a equipe do Projeto Piloto patrocinado pela Divisão de Assuntos Eco- nômicos e Sociais da Organização dos Estados Americanos, em convênio com a Comissão do Vale do São Francisco. O projeto pretendia implantar energia elétrica numa zona rural, com a perspectiva de desenvolvimento de comuni- dade, associando a instalação desses recursos ao trabalho educativo necessário para capacitar a população ao uso da terra. A atuação do Serviço Social foi de realização de inquérito para conhecimento das comunidades, nucleação e dinamização de grupos sociais e produtivos, trabalho junto a instituições para mobilizar recursos, com um público basicamente de mulheres, jovens e crianças (ainda pouco incidente sobre os agricultores homens), algumas associações e instituições públicas. Nos anos seguintes, a inserção do Serviço Social nesse âmbito se estende para os trabalhos do Conselho Regional de Pernambuco do Serviço Social Rural (CR/PE), no qual se desenvolve uma experiência de Desenvolvimento e Organização de Comunidade no meio rural pernambu- cano, entre março e setembro de 1961, no município de Camocim de São Felix (ANDRADE, 1961). 3.8 Coordenação de organizações assistenciais Necessário registrar a iniciativa do Serviço Social em Pernambuco na cria- ção e funcionamento do primeiro espaço para atuação claramente referenciado 112 pelas problemáticas da organização de comunidade: em finais de 1949, a ESSPE inicia a instalação (e abriga a própria sede) do Fichário Central de Obras Sociais, com apoio de outras organizações, e a participação de suas alunas e professoras. Com efeito, esse fichário era funcional diretamente para o apoio ao atendi- mento de casos individuais (e a sua finalidade de “reajustamento individual”), na medida em que propiciava o conhecimento dos recursos assistenciais locais; porém, também proporcionaria a chance de coordenação de esforços para o planejamento de obras, constituindo instrumento para a coordenação das comu- nidades (NOVA et al., 1985; SOUZA, 1953). No início de 1950, Sabóia (1952) indica a sistematização de um estudo, utilizando os registros do Fichário, em torno das instituições de assistência social e a proteção à maternidade e à infân- cia, que trabalhavam com o público de mulheres (mães) e crianças em Per- nambuco. Nele, a concluinte desenvolveu um mapeamento e avaliação dessas instituições, realizando um resgate das organizações de assistência do passado, uma avaliação dos recursos do Estado e de outras entidades para esse público. Nota-se aí uma abordagem mais técnica e metódica, com a manipulação de bases teóricas norte-americanas, e incipiente incidência do horizonte religioso e doutrinário. 4. Considerações finais O estudo indica duas tendências operantes na realidade do Serviço Social em Pernambuco nos anos 1950: trata-se de um período em que se desencadeiam a racionalização e tecnificação da formação profissional, ao mesmo tempo em que se desenvolve uma expansão restrita e diversificação incipiente da inserção ocupacional. Ambos fornecem o suporte para a germinação do processo de profissionalização. O adensamento dos espaços ocupacionais e das áreas de atuação contrasta com o caráter embrionário das possibilidades de intervenção vigentes ao final da década de 1940. Embora a consolidação do Serviço Social suponha a sua emergência, as alternativas de intervenção presentes nesta última não correspondem – nem qualitativa, nem quantitativamente – àquelas alcançadas quando da vigência das tendências econômicas, políticas e estatais desabrochadas pelo metabolismo capitalista das décadas seguintes. E os anos 1950 se mostram, nesse intervalo, como uma fase de transição onde a profissionalização prepara o terreno para a diversificação mais ampla que ocorre depois. Seu plano de fundo é a progressiva afirmação dos processos de industrialização e intervenção estatal colocados pela realidade dos monopólios crescente, donde se exige, ademais, respostas gover- namentais ao acirramento das lutas de classe pelo proletariado urbano e rural. SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 113 REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, Alma Lins de. 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Consiste num momento no qual germinam alguns condicio- namentos da renovação profissional nessa particularidade. As notas estão direcionadas para o estágio em que ocorre a progressiva assimilação do DC no Serviço Social. Nosso interesse é a caracterização das transformações pelas quais passam o Serviço Social no processo dessa assimilação, considerando suas dimensões interventivas, corporativas, formativas e ideais. Para tanto, foram um guia inicial de apropriação da realidade os documen- tos da antiga Escola de Serviço Social de Pernambuco (ESSPE), as monografias desenvolvidas pelas alunas da ESSPE entre os anos 1940-1970, as pesqui- sas e artigos que se debruçaram sobre essa história (BERNARDES, 2006; GOMES, 1987; VIEIRA, 1992; PADILHA, 2008; UFPE, 1985, 1990), além da bibliografia consolidada sobre o tema do DC e o Serviço Social em nível nacional (ABREU, 2008; AMMANN, 2003; CASTRO, 2000; IAMAMOTO; CARVALHO, 2005; SOUZA, 1999; WANDERLEY, 1998).69 No texto que segue, nos dedicaremos a destrinchar os aspectos mais ou menos intrínsecos à caracterização do Serviço Social em Pernambuco. Tomamos como pressuposto os fundamentos teórico-metodológicos e histó- ricos consolidados na literatura profissional (ABREU, 2008; CASTRO, 2000; IAMAMOTO, 2004, 2006, 2010; IAMAMOTO; CARVALHO, 2005; MOTA, 1985; NETTO, 2004, 2005; YAZBEK, 1993). Também consideramos 69 Embora esse texto não se proponha recuperar e inventariar os argumentos sobre a concepção de DC e seu significado histórico, presentes da literatura crítica do Serviço Social e áreas afins, deve-se reconhecer a contribuição que eles tiveram para subsidiar a exploração da realidade regional que delimitamos. 122 subjacentes as condicionantes macroscópicas das metamorfoses do Serviço Social entre os anos 1940-1970, dentre as quais estão: as novas relações de forças no imperialismo posterior à Segunda Guerra, conformadas pelo capi- talismo tardio, a ascensão da hegemonia norte-americana, a polarização da chamada “Guerra Fria”, as mudanças na divisão internacional do trabalho e das modalidades de intervenção do Estado (BEHRING, 2011; CASTRO, 2000; MANDEL, 1985; NETTO, 2013, 2004, 2005); a transição industrial que marca a entrada do capitalismo no Brasil para o estágio dos monopólios, da indus- trialização restringida para a industrialização pesada, associadas aos câmbios na divisão social do trabalho, internamente operantes, e no aparelho do Estado – trata-se da fase de irrupção do capitalismo monopolista, no qual ocorre a reorganização do mercado e do sistema de produção, através de operações comerciais, financeiras e industriais da grande corporação (predominantemente estrangeira, mas também estatal e mista) (FERNANDES, 1976; IANNI, 1977; MELO; NOVAIS, 1998; MELLO, 1986; NETTO, 2004, 2005, 2014); a inser- ção desigual e combinada do Nordeste no estágio do capitalismo monopolista no Brasil (OLIVEIRA, 2008); e o metabolismo das lutas de classes e as formas concretas da “questão social” em âmbito latino-americano, nacional e regional, nos anos 1950-1970. O DC70surge como mediação de uma ampla estratégia dos países impe- rialistas centrais (capitaneados pelos Estados Unidos) para criar condições políticas, administrativas e culturais favoráveis para integrar e dinamizar o capitalismo e o mercado latino-americanos sob sua supremacia. Prolifera-se após a Segunda Guerra, no bojo da tentativa de integração da América Latina sob a tutela no pan-americanismo monroista, a partir das poderosas organiza- ções internacionais que brotam ao fim do conflito bélico – com destaque para os órgãos da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Organização das Nações Unidas (ONU) (CASTRO, 2000). Com seus antecedentes ligados às experiências das possessões inglesas na Ásia e na África, além das inicia- tivas de abordagem comunitária no interior dos EUA, o DC aparece como um conjunto de técnicas, métodos, como um campo de intervenção da área social e/ou como um processo do Serviço Social, matizado especialmente pelo estrutural-funcionalismo norte-americano e as colocações etapistas do pensamento desenvolvimentista. Encerra a “questão social” em fatores téc- nicos, a serem manipulados pela intervenção governamental e profissional, com vistas a desabrochar os potenciais latentes nas comunidades, pretensa- mente capacitando-as para a resolução das suas próprias iniquidades sociais (AMMANN, 2003; CASTRO, 2000). As contradições do propalado subde- senvolvimento são encaradas como inconsistência dos potenciais latentes nas comunidades – donde a psicologização e despolitização das expressões 70 Frequentemente também identificado por Desenvolvimento e Organização de Comunidade (DOC). SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 123 da “questão social”, cindindo seus vínculos estruturais com as contradições capitalistas na periferia do imperialismo (ABREU, 2008). Com esses pressupostos, a consecução dos resultados dos programas de desenvolvimento comunitário exigia a constituição da ligação entre as comunidades e o governo. Demandava um trabalho técnico que impulsio- nasse a população a agir, direcionado para essas finalidades de “catalização e mudança social”, através de meios como os fichários e levantamentos de obras sociais e potencialidades do meio comunitário, pesquisa e planejamento social, nucleação de grupos, capacitação de lideranças, dentre outros. A vigência do DC condicionou uma etapa de revalorização profissional, conferindo melho- res posições para o Serviço Social nas administrações públicas. Trata-se de um momento em que o/a assistente social alcança possibilidades de êxito e conquista de reconhecimento social, expresso na abertura para concessão de bolsas de estudos e especialização, acesso a cargos hierárquicos, participação em pesquisas e equipes multidisciplinares, ampliando-se e diversificando- -se o mercado de trabalho (CASTRO, 2000).71 Tais modificações começam a penetrar o Serviço Social brasileiro do decorrer dos anos 1940, porém a equalização dos organismos e horizontes corporativos com as finalidades do desenvolvimentismo (expressa no II Congresso Brasileiro de Serviço Social, de 1961) apenas se efetiva com as adaptações na visão desenvolvimentista operadas no início dos anos 1960, condicionadas pelas contradições econô- micas e políticas da acumulação capitalista das décadas anteriores (IAMA- MOTO; CARVALHO, 2005). A assimilação do DC no Serviço Social em Pernambuco, enfocadas par- ticularmente as décadas de 1940-1960, implicou na germinação dos condi- cionamentos da renovação profissional nessa particularidade. Ordenamos o tratamento do tema, aglutinando a exposição segundo os principais vetores de transformações pelas quais passam o Serviço Social na assimilação do DC 71 Assim sintetiza Netto (2013, p. 21) esses impactos do DC para o Serviço Social nos países periféricos: “A proposta reformista-conservadora logo se revelaria (como o atestaria, por exemplo, o fracasso do programa norte-americano da Aliança para o Progresso), mas dinamizou o Serviço Social em algumas áreas periféricas e semiperiféricas, especialmente pela generalização da intervenção de profissionais no então recentemente expandido campo do desenvolvimento de comunidade – sobre o qual passou a exercer-se também a influência das ideias progressistas do Pe. Lebret. Ademais de requisitar novas qualificações, eminentemente técnicas, dos assistentes sociais (p. ex., as relacionadas ao planejamento social), de colocá-los frente a problemáticas macrossociais (forçando a ultrapassagem dos limitados círculos do trabalho centrado em indivíduos e com pequenos grupos, expressos no espaço do “psicossocial”) e de levá-los a novas interações com a sua inserção em equipas multiprofissionais, o desenvolvimentismo, dada a sua vocação promocionalista e a sua genérica proposição da “mudança social”,abriu a via para deslocar a centralidade da ação assistencial. Como observou M. Manrique Castro, atento analista do Serviço Social periférico, foi precisamente na quadra desenvolvimentista que os assistentes sociais pretenderam deixar a condição de “apóstolos” para assumir a de “agentes da mudança” – no curto prazo, muitos desses assistentes sociais compreenderam os limites da “mudança social” reformista conservadora e radicalizaram as suas propostas profissionais, transcendendo o campo do promocionalismo e, inclusive, avançando na crítica do assistencialismo”. 124 no estado: a erosão da influência católica; a afirmação da hegemonia norte- -americana; a profissionalização; e o adensamento dos espaços ocupacionais e diversificação dos processos interventivos. 2. Erosão da influência católica Uma transformação que ocorre na época de assimilação do DC pelo Serviço Social é a gradual erosão da influência católica. Isso se expressou de maneiras diversas, tais como: I. No desgaste da legitimidade do enfoque microscópico do Serviço Social de Casos, e sua progressiva subordinação às abordagens grupais e comunitárias.72 II. Na gradual laicização das construções ideais de que se vale o Serviço Social para sua autojustificação, afirmação de horizontes estratégi- cos da ação, mobilização de valores e normas do comportamento profissional e do público-alvo. III Na recondução que a própria Igreja opera em estratégias de atuação junto às populações, demandando a reconfiguração das ações tradi- cionais, através de sua abertura para a organização e desenvolvimento de comunidades, visando a renovação paroquial, após 1960, e, depois desses anos, numa modernização do próprio discurso nos seus pro- jetos de DC, em parcerias com organizações estatais e americanas. IV. Associada a esse deslocamento da Igreja para as ações comunitárias de base paroquial, presencia-se a crise financeira das Escolas de Serviço Social a ela vinculadas (algo que guarda relação com as dificuldades econômicas da Igreja com a modernização do Estado, mas também com a crescente dificuldade das classes médias na fase de industria- lização pesada), seguida das negociações para as agregações às ins- tituições universitárias estatais, onde se rompe definitivamente com o poder católico na condução da formação. Notemos que isso não operou, necessariamente, no início, um rompimento do Serviço Social com a Igreja, mas um deslocamento para outras áreas de influência. Em Pernambuco, na medida em que a Igreja iniciava a negociação para o repasse da ESSPE para a UFPE, abria um terreno de demanda profissional com seu foco nos movimentos de base, colocando para o Serviço Social um novo campo de atuação (a organização comu- nitária nas áreas das paróquias) a seu serviço (terreno que apenas vai desaparecendo quando se avança na década de 1970). 72 Em termos do debate profissional em nível nacional, a pesquisa de Iamamoto e Carvalho (2005) fornece muitos elementos sobre esse processo. SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 125 No estado, a perda da influência católica pode ser detectada nas meta- morfoses dos requisitos para a formação de assistentes sociais. A ESSPE foi fundada em 1940, pelo Juiz de Direito Rodolfo Aureliano, como consequência da III Semana de Ação Social de 1939, sendo extinta e incorporada à UFPE em 1971 – trata-se, portanto, do terceiro estado a criar uma Escola de Serviço Social no Brasil, após São Paulo (1936) e Rio de Janeiro (1937).73 Para a criação, seu fundador (e o grupo de apoiadores) contou com as orientações da União Católica Internacional de Serviço Social (UCISS), a primeira organiza- ção internacional de Serviço Social, criada em 1922, por iniciativa de escolas católicas europeias (Bélgica, França e Alemanha). Tratava-se de uma entidade com forte cunho católico, que, inclusive, impulsionou um movimento de rea- ção para a criação da Conferência Internacional de Serviço Social (CISS) em Paris (1928) – organismo que passou a acolher assistentes sociais e Escolas, independente do credo religioso. De todo modo, o grupo de juristas, médicos e padres (ligados ao Juizado de Menores e ao Círculo Operário do Recife), fundador da ESSPE, inscrevia-se na ala mais progressista da igreja (e mesmo leiga), com cariz humanista (PADILHA, 2008).74 Com a primeira turma aglutinando em torno de 15 estudantes, a ESSPE apenas teve a primeira aluna formada em 1946, Maria da Glória de Andrade Lima, que seria integrada ao corpo docente. Concomitante a esse início, foi promovido o intercâmbio de três alunas para o Instituto Social, no Rio de Janeiro, a fim de se prepararem para a profissão, e assumirem o ensino no seu retorno.75 Há um fortalecimento das matérias específicas do Serviço Social no curso – inclusive com a adoção do viés comunitário – após o regresso das alunas, entre 1944 e 1948. No início, o currículo apenas contava com uma disciplina específica, a de Assistência Social, cujos conteúdos encontravam-se 73 Antes da criação da Escola, o ensino de Serviço Social já havia iniciado, a partir de um curso oferecido nas dependências do Juizado de Menores de Pernambuco, em setembro de 1938, sob direção do próprio Rodolfo Aureliano. Em 30 de janeiro de 1941, a Escola é reconhecida pelo interventor Agamenon Magalhães, o que a habilitou a receber subvenções do Estado. Após a regulamentação do ensino em Serviço Social, a ESSPE encaminhou ao Ministro da Educação o pedido de reconhecimento, que foi concedido pelo Decreto nº 39.009, de 11 abr. 1956, do Presidente da República. 74 Sobre as Escolas de Serviço Social no Nordeste, seus vínculos com a Igreja, e suas mudanças, entre 1940-1970, consultar quadro de Vieira (1992, p. 200). 75 Em abril de 1942, matricularam-se no Instituto Social do Rio de Janeiro Maria de Lourdes Almeida de Morais e Maria Dolores Cruz Coelho. A primeira, havendo concluído seu curso em dezembro de 1943, com a apresentação de um trabalho sobre Escola de Serviço Social – seus princípios e meios de traçar os seus fins. Retornou a Recife em fevereiro de 1944, tendo sido nomeada, nessa ocasião, diretora da Escola. Em 1945, quando a Escola muda-se para a nova sede, adquirida através de donativo da Legião Brasileira da Assistência (LBA), Maria Dolores conclui seu curso no Instituto Social com a apresentação de um trabalho sobre Métodos de Pesquisa em Serviço Social, regressando à Escola a fim de se ocupar da supervisão dos trabalhos práticos dos alunos. Após 1948, também retorna do Rio de Janeiro Hebe Gonçalves, assumindo o ensino de Organização Social da Comunidade, de Serviço Social de Grupo e de Serviço Social Médico, além da supervisão de estágio de numerosos alunos. 126 relacionados ao Serviço Social de Casos (VIEIRA, 1992, p. 142). Na segunda metade da década – já de volta as assistentes sociais formadas no Rio de Janeiro – ao lado do reforço das matérias de caráter doutrinário, foi aperfeiçoada a parte específica da formação: a anterior Assistência Social sendo substituída por Serviço Social; em 1948, inicia-se a Organização Social de Comunidades, Serviço Social de Casos, Serviço Social de Grupo; e, em 1950, se incorporam as disciplinas Serviço Social do Trabalho e Serviço Social de Menores. A introdução dos problemas afetos à ação comunitária no Serviço Social em Pernambuco ocorre na relação entre uma demanda germinal de coorde- nação das obras sociais (manifesta desde final dos anos 1930, pelo Prof. Luiz Delgado, na III Semana de Ação Social, e pela Comissão de Obras Sociais da Arquidiocese de Olinda e Recife, nos anos 1940) e a iniciativa da ESSPE de absorver os conteúdos no currículo (1948), motivada pelo intercâmbio das alunas com o Rio de Janeiro. Como decorrência da cadeira de Organização Social de Comunidade, cria-se o primeiro espaço para atuação claramente referenciado pelas problemáticas de organização de comunidade: em finais de 1949, a ESSPE inicia a instalação (e abriga a própriasede) do Fichário Central de Obras Sociais, com apoio de outras organizações, e a participação de suas alunas e professoras. Com efeito, esse fichário era funcional direta- mente para o apoio ao atendimento de casos individuais (e a sua finalidade de “reajustamento individual”), na medida em que propiciava o conhecimento dos recursos assistenciais locais; porém, também proporcionaria a chance de coordenação de esforços para o planejamento de obras, constituindo instru- mento para a coordenação das comunidades. Pela fundamentação do trabalho na cadeira de Organização Social de Comunidade, vê-se uma abordagem mais técnica e metódica na implantação do fichário, com a manipulação de bases teóricas norte-americanas, além da incipiente incidência do horizonte religioso e doutrinário (SOUZA, 1953; NOVA et al., 1985). A tendência de fortalecimento dos conteúdos laicos e científicos na formação, ao lado do adensamento de componentes vinculados a aborda- gem comunitária, recebeu grande ímpeto com a aprovação do primeiro cur- rículo mínimo para os cursos de Serviço Social, em 1953-1954. Além de uma esterilização em face das disciplinas religiosas, existe, nesse currículo, a obrigatoriedade das disciplinas de Introdução ao Serviço Social, Serviço Social de Casos e Serviço Social de Grupo, na primeira série; a exigência da disciplina de Organização de Social de Comunidade (nas 2ª e 3ª séries), e de Administração de Obras Sociais (na 3ª série); ademais de um conjunto de outras cadeiras específicas (VIEIRA, 1992, p. 1145-146). Ao institucionali- zar-se, a formação deixou de ter como componente obrigatório, constitutivo da profissão, a orientação católica. Com um currículo mínimo de caráter modernizador, a persistência dos conteúdos de natureza católico-doutrinária SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 127 nas décadas seguintes dar-se-ia pela via do currículo pleno. A ESSPE– que havia antecipado a adoção de alguns componentes – assume, já em 1953, esse novo currículo, embora garantindo a formação doutrinária, através das disciplinas de Religião, Doutrina Social, e de um Seminário de Formação com caráter de monitoramento moral-pedagógico (VIEIRA, 1992, p. 147). Acrescente-se que outras disciplinas, após 1953, complementavam os temas da cadeira de Organização Social de Comunidade, como a de Educação Popular, Cooperativismo, Sindicalismo, as quais guardavam afinidade com outras como Movimento de Educação de Base, Movimento de Cultura Popular e Serviço Social Rural. Essas incorporações acompanham a movimentação política da época. Além das preocupações dominantes ao nível político, as mudanças no plano do curso atendem ao discurso tecnocrático no segundo lustro de 1960; por exemplo, com a inclusão das disciplinas Administração em Serviço Social e Desenvolvimento e Serviço Social, em 1967.76 3. Afirmação da hegemonia norte-americana A erosão da influência católica (laicização) ocorre em paralelo com a ampliação da visão norte-americana. A infiltração dessa nova base de influên- cia foi resultado do pan-americanismo monroísta, como assinalado por Castro (2000). Embora seu marco seja balizado pelo fim da Segunda Guerra, esse movimento hegemônico passou por diversos estágios, muito condicionado pelo ritmo das lutas de classe no continente latino-americano (com destaque para o momento da Revolução Cubana, que sinaliza a entrada de um estágio) e na particularidade no Nordeste brasileiro (em especial após a movimentação camponesa e a ascensão de governos reformistas, desde meados de 1950, e da seguinte reação para inflexão desses movimentos, com as articulações para o Golpe de 1964 e sua sustentação). Em termos do Nordeste brasileiro, podemos verificar pelo menos três estágios do avanço da influência norte-americana, que se acirra na mesma medida em que avança a luta de classes:77 76 Sobre algumas oscilações do currículo, que acompanham o clima político, interessante observar como a disciplina de Economia Social, entre 1966-1967, chegou a abordar a questão do desenvolvimento capitalista, referenciando-se em Marx e Engels, na apostila de Desenvolvimento Econômico Social. Algo que precisou ser alterado no ano seguinte, direcionando-se para o estudo da macro e micro economia (VIERIA, 1992, p. 154). Já durante a década de 1970, a Escola retirou matérias com um cunho mais politizado, como Educação Popular e Sindicalismo, posto o acirramento do controle ideológico ditatorial e a maior inclinação para o funcionalismo norte-americano. Para conhecer todas as transformações nos componentes, a demanda de alunos e as diplomações, ver Vieira (1992, p. 156, p. 163-164). 77 Em Mota (2019) encontramos uma boa síntese da relação entre a movimentação das forças políticas e estatais no Nordeste e algumas transformações no Serviço Social que apontam para seu processo de renovação na particularidade regional. 128 I. Um primeiro estágio segue dos anos finais da Segunda Guerra até a Revolução Cubana. Parece tratar-se de um momento em que o início da influência chega pela via da realização de eventos e a instalação de intercâmbios com os Estados Unidos. Pense-se, por exemplo, no congresso realizado em Atlantic City (1941), que con- tou com a participação de quatro representantes do Brasil, a convite do governo norte-americano. Ou no 1º Congresso Pan-americano de Serviço Social, ocorrido em Santiago no Chile, em 194578, no qual se saiu com a determinação para a instalação de organizações para promover a profissão no Brasil, resultando na criação, em 1946, da Associação Brasileira de Escolas de Serviço Social (ABESS) e da Associação Brasileira de Assistentes Sociais(ABAS).79 Veja-se, ainda, a abertura de um programa norte-americano de bolsas de estudos para assistentes sociais brasileiros, em 1949 (a partir da articulação iniciada no Congresso de Atlantic City), compondo o Programa Ponto IV, firmado pelo Governo Truman, objetivando conceder ajuda técnica e financeira visando o desenvolvimento bra- sileiro. Além de tais meios, foi um canal de chegada da influência norte-americana, nesses anos, a assistência técnica (ainda que parca) fornecida pelas agências das Nações Unidas ao Nordeste. II. Um segundo período se desdobra da Revolução Cubana (e da fase de ascensão das Ligas Camponesas, da afirmação de administrações de esquerda em Pernambuco, e dos anos iniciais da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE) até a deflagração do Golpe de abril. Aqui, acirram-se as preocupações americanas com os desdobramentos das lutas no Nordeste brasileiro, e a atenção mirrada do Acordo Ponto IV é substituída pela intervenção, mais consistente, promovida pela Aliança Para o Progresso (pela mediação da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional – USAID), associada aos trabalhos iniciais promovidos pela SUDENE; essa asso- ciação, como relata Page (1962, p. 83-95; p. 151; p. 195; p. 172; p. 253; p. 262-275), marcada por estágios de apoio mútuo, tensões, coli- sões, e posterior domínio mais forte da Superintendência pela agência 78 Além de ter enviado delegação a esse 1ª Congresso Pan-americano, a ESSPE esteve presente também no 2º Congresso Pan-americano de Serviço Social, ocorrido no Rio de Janeiro, em julho de 1949, assim como em vários outros com clara influência norte-americana. A ESSPE participava sistematicamente dos eventos da UCISS, das Convenções da ABESS, dos Congressos Pan-americanos, além de eventos da Organização das Nações Unidas (ONU) e das Dioceses. 79 Em uma das resoluções do 1° Congresso é decidida a criação da ABESS. Na resolução se dizia que “[...] deveria ser criada uma associação que permitisse a troca de ideias e experiências entre as assistentes sociais e assegurasse o progresso do ensino do Serviço social em cada país... A ABESS organizou seus estatutos com algumas exigências mínimas para a filiação das escolas existentes, e das que viessem a ser criadas” (VIEIRA,1992, p. 179). SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 129 americana, com o Golpe. Do ponto de vista do direcionamento político das ações de organização e desenvolvimento de comunidade, temos aqui uma fase de maior radicalização, com influência de vieses desen- volvimentistas nacionalistas e reformadores. Um exemplo é o vínculo da ESSPE com o Movimento de Cultura Popular de Pernambuco (MCP) no início dos anos 1960. Em específico o trabalho de uma aluna, Zaira Ary, orientada pela professora Dolores Cruz Coelho, na localidade Poço da Panela, durante a fundação do primeiro Centro de Cultura Popular do Recife, em 1962 (Círculo de Cultura Dona Olegarina).80 Nesse momento, não apenas Paulo Freire era professor da ESSPE, mas também outros fundadores do MCP (PADILHA, 2008, p. 230). Padilha (2008) afirma que as práticas dialógicas, inspiradas nas aulas e trabalhos de Paulo Freire, foram aplicadas, ademais, em projetos de desenvolvimento de comunidade nos bairros do Recife, Olinda, Cabo de Santo Agostinho, Jaboatão dos Guararapes e outras cidades interioranas. III. Um terceiro período segue com a consolidação da dominação de classe que se instaura com o Golpe de 1964, acompanhando as transformações modernizadoras que a ditadura deflagra em conco- mitância com o crescimento econômico que está na sua base. Aqui se estreita a participação americana nos projetos de desenvolvi- mento, com a SUDENE tornando-se uma chancela para os projetos da USAID no Nordeste (PAGE, 1972, p. 266-268). Esse terceiro estágio vai se encerrando quando o próprio ciclo ditatorial entra em declínio, com a crise econômica e a movimentação política de meados de 1970 em diante. O momento é marcado, em especial no final dos anos 1960, pela maior adesão da SUDENE, nas suas diretrizes, ao trabalho com comunidades, tentando engajá-las nos projetos de desenvolvimento local. Tal fato aumenta a busca do Ser- viço Social para se habilitar a participar desse espaço. O Golpe não provoca um rompimento do Serviço Social com o desenvolvimen- tismo. Diferente disso, a ditadura aprofunda o relacionamento da ESSPE com a SUDENE – agora expurgada dos seus quadros mais progressistas. Ao mesmo tempo em que se opera uma aproximação da unidade de ensino a Universidade do Recife (depois Universi- dade Federal de Pernambuco), num período de maior repressão e patrulhamento ideológico.81 Portanto, ocorre aqui uma acentuação 80 Um interessante testemunho ficou registrado no Trabalho de Conclusão de Curso de Zaira Ary, intitulado Uma Experiência de Educação Popular: Centro de Cultura Dona Olegarina. O trabalho foi desenvolvido durante um ano (novembro de 1961 a novembro de 1962) e teve a supervisão de Maria Dolores Cruz Coelho. 81 Parece não ter se aplacado de modo intenso as medidas punitivas na ditadura sobre o corpo discente e docente da Escola. Apenas poucos professores tiveram que se afastar do ensino ou sair do país, posto suas 130 do caráter modernizador e funcionalista do DC, com um crescimento dos espaços ocupacionais e um incremento do corpo profissional – pense-se na introdução da política social no Plano Nacional de Desenvolvimento, em 1972. Uma expressão da tentativa estadunidense de ganhar influência no Ser- viço Social, no primeiro período, foi o desenvolvimento de um intercâmbio da ESSPE com professores e profissionais estrangeiros (norte-americanos e euro- peus) na década de 1950, a partir dos termos do Acordo Ponto IV. Isso resultou em diversas ações: em 1952, a visita da assistente social norte-americana Miss Katheryn Knapp cumprindo o Acordo Ponto IV e patrocinada pela União Pan-a- mericana para subsidiar os trabalhos assistenciais e da Escola durante um mês; em 1953, a visita de Rose Alvernaz para discutir Serviço Social de Menores; em 1954, a concessão de bolsa de estudos, pela Organização das Nações Uni- das, para uma professora da Escola (a vice-diretora Maria Dolores Coelho) estudar Cooperativismo na Dinamarca; em 1955, a exposição das atividades da Conselheira de Bem Estar do Instituto de Assuntos Interamericanos do Ponto IV, Lavínia Keys; ainda em 1954, a visita das diretoras da União Católica Internacional de Serviço Social (UCISS) para discutir a Ação Social na Bélgica e as atividades da entidade; no mesmo ano, a promoção de um curso sobre Serviço Social de Grupo, por parte de Miss Catherine Jennings, este contando com 182 alunos/as, entre professores/as, supervisores/as, estudantes e pessoal de obras sociais de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará; no ano seguinte, o retorno de Miss Jennings, com apoio de Lavínia Keys do Ponto IV, para complementação do curso; posteriormente, uma conferência sobre Cooperativismo com o Padre Peter Nearing, do Canadá. Durante o período, houve também uma intensa visitação de renomados intelectuais da profissão em nível nacional: Alceu Amoroso Lima (1956), Balbina Ottoni Vieira (1956), Giovana Xavier (1958), Sarah Fiúza (1959), Maria Augusta Albano (1960), dentre outros (VIEIRA, 1992, p. 152). 4. Profissionalização do Serviço Social É durante os anos de aproximação e consolidação do DC no Serviço Social que ocorre a cumulativa conquista de reconhecimento legal da profissão pelo Estado, expressando o processo de profissionalização – aqui considerados os marcos legais referentes à constituição de normas e agências para uma padronização e racionalização do ensino em nível nacional (Lei n. 1.889 ligações mais estreitas com o movimento estudantil da Juventude Universitária Católica (JUC) e movimentos populares, e sua projeção nacional (VIEIRA, 1992, p. 168). SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 131 de 13 jun. 1953 e o Decreto 35.311, de 2 abr. 1954) e ao reconhecimento do exercício profissional (Lei n. 3.252, de 27 ago. 1957, que confere monopólio do exercício aos portadores do diploma; e o Decreto-Lei 994, de 15 mai. 1962, que regulamenta a Lei). Na especificidade de Pernambuco, há uma antecipação desse reconhecimento, com a decretação da Lei n. 965, de 14 dez. 1950, sancionada pelo Governo do estado, sob influência da ESSPE, dispondo sobre as nomeações para os cargos de assistentes sociais a serem criados pelo estado e pelas autarquias. O reconhecimento legal da profissão, e a normatização da formação (ambos colocando a exigência do diploma para a legitimação do exercício profissional), impulsionaram uma multiplicação dos cursos no Brasil, que avança na mesma medida em que vai se consolidando o DC como espaço e estratégia do Serviço Social. A demanda pela formação superior cresce com o adensamento do capitalismo monopolista vetando a possibilidade das formas tradicionais de reprodução da pequena burguesia (urbana e rural), levando-a a buscar nas inserções no aparelho do Estado a garantia de sua posição eco- nômica privilegiada. Nesse período, a grande maioria das escolas havia sido criada pelas dioceses, grupos religiosos e leigos ligados à Igreja. Há um está- gio de hibridização de conteúdos religiosos e visões modernizadoras, que se infiltram progressivamente nos anos 1950 e 1960, com o currículo mínimo, os intercâmbios, os convênios com órgãos governamentais de desenvolvimento, e, inclusive, com a própria reorientação da Igreja. Tabela 1 – Crescimento das Escolas de Serviço Social no Brasil, entre 1930-196082 DÉCADAS QUANTIDADE DE ESCOLAS 1930 3 1940 9 1950 28 1960 37 Fonte: Vieira (1992) A regulamentação do ensino ocorre na primeira metade da década de 1950, numa fase de abertura, após o fim do Estado Novo. Até essa regu- lamentação, a ABESS congregava apenas escolas católicas consideradas de bom nível cultural. A ABESS, desde sua emergência, se apresenta como um instrumento para o avanço da influência norte-americana no Serviço Social brasileiro. Isso se mostra palpável nos eventos que impulsionaram sua criação 82 Acreditamos que esse quadro, retirado de Vieira (1992), pode conter imprecisões face ao quantitativode escolas existentes na década de 1940. A tese de Machado (2015) sugere um número maior de escolas já existentes no Rio de Janeiro durante esse período. 132 em 1946. Contraditoriamente, era pelas próprias Escolas de caráter religioso que se compunha a ABESS, as mesmas que se empenhavam numa articulação e num movimento cujo resultado seria a perda da própria hegemonia católica ao longo do tempo. Isso explica o caráter ambíguo dos debates presentes nas convenções da ABESS (iniciadas a partir de 1951), onde, por exemplo: defende-se reiteradamente o caráter doutrinário e vocacional, mas, ao mesmo tempo, dedica-se um esforço para a profissionalização, junto com a padroni- zação e racionalização da formação, com a criação do currículo mínimo; se trabalha para a adoção da disciplina de Organização Social de Comunidade no currículo mínimo, ao mesmo tempo em que se avalia a ausência de clima para aplicação desse método no Brasil (IV Convenção, 1954) (VIEIRA, 1992). A tolerância com a abordagem comunitária cresce nas Convenções, na medida mesma do deslocamento da Igreja para esse foco, a partir de 1960 (por exemplo, isso aparece na X Convenção de 1960, em Fortaleza, no discurso de D. Eugênio Sales), juntamente com a inclinação das novas agências de governo para esse fim e a maior pressão americana nesse sentido. Não é casual que seja em finais de 1960, na XV Convenção (1967), que se destaque o tema central sobre a Integração dos processos de Serviço Social visando a inserção do mesmo no processo de desenvolvimento – algo que aparecia naquela conven- ção ao lado dos anseios para que as Escolas se incorporassem à universidade. No ambiente cultural e político da década de 1970, as Convenções (de 1973-1975) voltam-se para o tema da reconceituação do Serviço Social. A vertente defendida dizia respeito, abertamente, àquela vinculada a uma perspectiva modernizadora. A defesa da visão modernizadora é traduzida para os aspectos metodológicos internos do Serviço Social pela associação com o problema do desenvolvimento. De modo que os anseios reconceitualizadores na América Latina são direcionados, na condução dada pela ABESS, para a urgência de formulação de novos modelos de intervenção do Serviço Social para desempenho de um papel significativo no desenvolvimento. Mais ainda, a disputa pelo direcionamento da reconceituação, numa concepção moder- nizadora, se expressou na proposta apresentada, pelas unidades de ensino do Nordeste, apoiada pela SUDENE através de Carlos Alberto Medina, de reconceituação do Serviço Social para a integração do mesmo no desenvol- vimento, com ênfase nas metodologias participacionistas. Nesse episódio, evidencia-se um protagonismo do Nordeste, articulado a SUDENE, na disputa pela hegemonia do desenvolvimentismo e da “pedagogia da ‘participação’” (ABREU, 2008) no debate sobre a reconceituação (VIEIRA, 1992, p. 139). Abreu (2008) já havia atentado para o fato de que, no Brasil, a vin- culação predominante de redimensionamento do projeto profissional no SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 133 bojo da reconceituação estabeleceu-se com a “tendência modernizadora” (NETTO, 2005) – sendo bloqueadas as possibilidades de germinação dos laços com aquela tendência de vinculação profissional à perspectiva histórica das classes trabalhadoras, mormente com a deflagração do Golpe de abril. E os Seminários Nacionais de Teorização do Serviço Social, organizados pelo CBCISS, foram significativas expressões da tendência profissional integrada ao processo de modernização conservadora. Destacam-se os documentos de Araxá (1967) e Teresópolis (1970), ao lado de outros esforços de sistemati- zação desse projeto, com os trabalhos de José Lucena Dantas (1973) e Anna Augusta Almeida (1979).83 Todos esses condensam – defende Abreu (2002, p. 115-127), e mostra Netto (2005, p. 164-246) – indicações substantivas que manifestam os contornos do perfil pedagógico da prática profissional sob a influência ideológica da modernização conservadora, marcada pelas chama- das ideologias desenvolvimentistas e da doutrina da segurança nacional e do desenvolvimento. Inobstante o desdobramento (e diferenciação) das vertentes renovadoras, designadas por Netto (2005) de “modernizadora” e de “reatua- lização do conservadorismo”, ambas almejavam projetar a contribuição do/a assistente social às estratégias participacionistas no processo denominado de “desenvolvimento social”: na primeira, com a defesa do “modelo de Ser- viço Social para o desenvolvimento”; na segunda, com a visão de “modelo profissional para a ‘capacitação social’”. Ou seja, as duas equalizando-se com a estratégia do DC, ressaltando a prática, seja no nível macro, seja das microatuações, para o desenvolvimento social. Mas não é apenas nas iniciativas voltadas para a profissionalização e reconceituação do Serviço Social, a padronização e racionalização da forma- ção, que se expressa o papel da ABESS (ao lado de outros organismos, como o CBCISS) na consolidação da influência americana. Note-se, por outro lado, o trabalho formativo com o pessoal docente das Escolas. Entre 1966-1968, a ABESS realiza três cursos de aperfeiçoamento para professores de Serviço Social, apoiados pelo Ministério da Educação (MEC), com uma participação de representantes de todo o país. Tal iniciativa se justificava pela necessidade de preparação técnica de assistentes sociais para “[...] contribuir no equaciona- mento e na solução dos problemas sociais, nesse momento de desenvolvimento das sociedades industriais” (ABESS, 1969 apud VIEIRA, 1992, p. 138). Além disso, outros cursos regionais de aperfeiçoamento foram promovidos com apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) (para a região 83 Netto (2005) alerta que muitos núcleos temáticos que serão desenvolvidos e aprofundados na vertente modernizadora de renovação do Serviço Social no Brasil já afloram com nitidez no I Seminário Regional Latino-Americano de Serviço Social, realizado em Porto Alegre, em maio de 1965. 134 Sul e Amazônica), envolvendo assistentes sociais e outros profissionais de nível superior, com o intuito de discutir a participação de assistentes sociais no desenvolvimento nacional. 5. Adensamento dos espaços ocupacionais e diversificação técnico-profissional Durante esse período ocorre o adensamento institucional-governamental dos espaços ocupacionais de assistentes sociais, multiplicando o mercado de trabalho no aparelho estatal (mas não só) e, portanto, a demanda de pro- fissionais – o que, por outra via, expressa a assunção da condição mercan- tilizada dos serviços prestados pelos/as profissionais. Em Pernambuco, ao lado do (ou articulado com o) crescimento e aperfeiçoamento dos espaços tradicionais de inserção do Serviço Social (hospitais, instituições psiquiá- tricas, colônias penais e dispensários, obras assistenciais, escolas, de órgãos como a Legião Brasileira da Assistência, os Institutos de Aposentadorias e Pensões, o Juizado de Menores, o Serviço Social da Indústria, Serviço Social do Comércio, etc.), emerge uma esfera nova de trabalho de intervenção de campo para a organização e o desenvolvimento de comunidades. As inserções e práticas pioneiras do Serviço Social em Pernambuco correspondem à própria transição política em que está ambientada a pri- meira turma da ESSPE: ou seja, aquela caracterizada pela crise do Estado Novo e a emergência de um germe de modernização robustecida com o capitalismo monopolista. Daí a primeira experiência de trabalho ser realizada no bojo de um movimento que já estava nos capítulos finais (o movimento circulista vinculado à Igreja) e o primeiro órgão que previu assistentes sociais em seus quadros ser o Juizado de Menores. O primeiro trabalho sistematizado da prática do Serviço Social em Pernambuco84 corresponde à atuação de uma aluna concluinte da ESSPE no movimento dos Círculos Operários no Recife, entre 1944-1946. O movimentocirculista era vinculado à Ação Católica; atuando em nível nacional, buscava exercer influência e controle no meio operário e suas organizações, em aliança com o Estado Novo, e portando uma ideolo- gia anticomunista e conciliatória. A política de cooptação do operariado era materializada pela prestação de assistência social, pela formação de dirigentes, e por um programa de ação que visava garantir a aplicação da legislação social na relação entre trabalhadores e patrões. Uma parte dos 84 Referimo-nos à monografia da primeira concluinte da ESSPE, Maria da Glória de Andrade Lima, intitulada Uma experiência de Serviço Social junto aos Círculos Operários, datada de 1946. Uma análise desse trabalho pode ser encontrada em Gomes (1987). SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 135 próprios fundadores da ESSPE – Rodolfo Aureliano e Luiz Delgado, por exemplo – fazia parte dos Círculos, inscrevendo-se mesmo nas instân- cias representativas do movimento. O envolvimento do Serviço Social vai ocorrer em 1944, com a escolha, de uma das alunas concluintes, de entrada no campo de estágio nos Círculos Operários do Recife – Núcleo Prado, desenvolvendo a atividade assistencial e doutrinário-moralizadora (remetendo-se, ademais, às práticas do Serviço Social de Grupo) nesse espaço. O influxo dos Círculos acompanha a própria crise do Estado Novo, sendo reduzidos seus núcleos à medida que findava a ditadura varguista. Em 1946, encontrava-se em funcionamento no Recife apenas o núcleo do Prado – fechado completamente dois anos depois (GOMES, 1987). O primeiro espaço ocupacional do Serviço Social no aparelho esta- tal-governamental foi a Divisão de Assistência Social da Vara de Menores Abandonados e Delinquentes. O atendimento era apenas em nível indi- vidual, com o mero levantamento empírico dos casos para solução dos problemas da clientela, e envolvia visitas domiciliares, plantões, entre- vistas, elaboração de relatórios. Apenas em finais de 1940 (com a maior racionalização do ensino, após o retorno das assistentes sociais do Rio de Janeiro), os trabalhos assumem um caráter mais técnico, e a profissão passa a ser incorporada a outras instituições – principalmente entidades de nível nacional que já contavam com a participação do Serviço Social na sua matriz, como a LBA, SESI, SESC, IAP’s (LYRA, 1985). Ainda com uma orientação ideal vinculada ao humanismo integral e a Doutrina Social da Igreja Católica, as modificações no currículo darão ênfase a psicologia e sociologia, donde se começa a preocupação dos aspectos psicossociais, do relacionamento e do comportamento da clientela para o “reajustamento individual”, assim como a valorização das técnicas e instrumentos. Isso tanto mais se intensifica quanto a assistência norte-americana começa a chegar (entre 1950-1960), instalando a prática do Serviço Social de Casos do modelo americano de Mary Richmmond e Gordon Hamilton, além das abordagens grupais e comunitárias (LYRA, 1985). A seguir, apresentamos um quadro geral dos espaços ocupacionais que correspondiam às perspec- tivas de demandas de assistentes sociais até os anos 1960, de acordo com os documentos da ESSPE; após, transcrevemos uma lista das instituições nas quais se inseria o Serviço Social naquela década.85 85 As informações do Quadro nº 1 e da Lista nº 1 foram extraídas de dois documentos da ESSPE, concomi- tantemente: Demandas Profissionais de Serviço Social (ESSPE, 1965), Alguns Informes sobre a Escola de Serviço Social de Pernambuco (ESSPE, 1960). Estão dispostas de acordo com a nomenclatura presente nos documentos. 136 Q ua dr o 1 – pe rs pe ct iv as d e de m an da d e as si st en te so ci ai s p or ti po de e nt id ad es e se rv iç os e m P er na m bu co n a dé ca da d e 19 60 EN TI DA D ES P Ú B LI C A S SO C IE DA D ES D E EC O N O M IA M IS TA EN TI DA D ES P R IV A DA S FE D ER A L ES TA D UA L M U N IC IP A L a) C om pa nh ia s hi dr el ét ric as (C H ES F, C O H E- BE ) b) P et ro br as c) C on se lh o de D es en vo lv im en to do s Es ta do s Em pr es as SE RV . S O C IA IS SA Ú D E EM PR ES A S EN SI N O a) P ro gr am a e Aç ão C om un itá - ria (p la ne ja m en to , a ss es so ria , ex ec uç ão ) – S U D EN E, IB R A, IN DA b) S er vi ço S oc ia l e m ó rg ão d a Pr ev id ên ci a So ci al c) S er vi ço S oc ia l e m h os pi ta is U ni ve rs itá rio s d) S er vi ço S oc ia l j un to a D e- pa rta m en to d e U ni ve rs id ad es a) S ec re tá ria d o Es ta do (In te rio r a J us tiç a, S aú de , As si st ên ci a So ci al , E du ca çã o e C ul tu ra , S er vi ço S oc ia l e Tr ab al ho b) C om pa nh ia s de H ab ita çã o (C O H AB s) e st ad ua is c) F un da çã o de B em E st ar do M en or a) S er vi ço So ci al e m Pr ef ei tu ra s m un ic ip ai s b) C O H AB s m un ic ip ai s Le gi ão B ra si le ira d e As si st ên ci a SE SI SE SC O br as S oc ia is d e Ar qu id io ce se s e D io ce se s Pr og ra m as d e Se rv iç o So ci al d a C ár ita s a) S er vi ço So ci al e m ho sp ita is Se rv iç o b) S oc ia l e m cl ín ic as e sp e- ci al iz ad as a) S er vi ço S o- ci al e m U si na s de A çú ca r, em co la bo ra çã o co m o G ER AN a) E sc ol as de S er vi ço So ci al Li st a 1 – In st itu iç õe s em q ue s e in se re m a ss is te nt es s oc ia is e m P er na m bu co , a té o in íc io d e 19 60 – Se cr et ar ia d e Ed uc aç ão e C ul tu ra – In st itu to d e Ed uc aç ão d e Pe rn am bu co – Es co la U lis se s Pe rn am bu ca no – Se cr et ár ia d e Sa úd e – D iv is ão d e Tu be rc ul os e – C on ju nt o Sa na tó rio O tá vi o de F re ita s – D is pe ns ár io A m au ri de M ed ei ro s – D is pe ns ár io A ga m en on M ag al hã es – Po st o de P ue ric ul tu ra d e C as a Am ar el a – Se rv iç o So ci al C on tra M oc am bo – I.A .P. C. – I.A .P. I. – I.A .P. B. – SE SC – SE SI – Fá br ic a de C am ar ag ib e – Le gi ão B ra si le ira d a As si st ên ci a – Se rv iç o So ci al R ur al – Pr oj et o Pi lo to d e El et rifi ca çã o Ru ra l d e Ita cu ru ba – AN C AR – C am pa nh a Ed uc at iv a do D ep ar ta m en to N ac io na l d a C ria nç a D N C r – F IS I – Fi ch ár io C en tra l d e O br as S oc ia is d e Pe rn am bu co – H os pi ta l U ni ve rs itá rio – Ar qu id io ce se d e O lin da – R ec ife – D io ce se d e N az ar é – Pa ró qu ia d e Va sc o da G am a – Pa ró qu ia d e Sã o Jo sé – So ci ed ad e Pe rn am bu ca na d e C om ba te à L ep ra – C en tro d e Be m E st ar d o C eg e SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 137 O novo terreno ocupacional, dado pelas abordagens de organização e desenvolvimento de comunidade, multiplicado após os anos 1950, é criado: I) Pela própria Igreja, que demanda assistentes sociais para os trabalhos de renovação paroquial, através da mobilização das comunidades – acerca disso, verificam-se frentes de trabalho realizadas por algumas paróquias (Madalena, Casa Amarela e Alto José Bonifácio, Ponte dos Carvalhos, Sítio Bevenuto, Bom Conselho), sob a influência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em especial o Movimento de Educação de Bases (MEB), a Cáritas e a Operação Esperança, em articulação com órgãos nacionaise internacionais, ou por meio de iniciativas próprias, tais como a do Mosteiro São Bento na Vila São Bento. II) Pelos órgãos de governos, companhias ou instituições assistenciais envolvidos nas políticas de desenvolvimento, com destaque para os convênios de projetos comunitários patrocinados pela SUDENE, mas também alguns trabalhos realizados após a unificação dos Institutos de Aposentadorias e Pensões, em finais de 196786, os projetos de eletrificação, em alguns casos com participação de organismos inter- nacionais como a OEA (Companhia Hidroelétrica da Boa Esperança, Companhia Energética de Pernambuco, Projeto Piloto de Eletrificação Rural em Itacuruba e Rodelas), as iniciativas de assistência rural (Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural, Conselho Regional de Pernambuco do Serviço Social Rural, Serviço de Exten- são Rural de Pernambuco), as linhas de trabalho comunitário encam- padas nas grandes entidades nacionais (SUDENE, Fundação Estadual de Bem Estar ao Menor, LBA,SESI, SESC), o Movimento de Cultura Popular, além das ações implantadas em alguns órgãos estaduais, especialmente nas áreas da Habitação e Educação (Serviço Social Contra o Mocambo, Secretaria do Estado dos Negócios de Educação e Cultura – Divisão de Serviço Social do Departamento de Assistência Escolar, Conjunto Sanatorial Otaviano de Freitas, Departamento de 86 Existem alguns germes de trabalhos na esfera comunitária, por exemplo, no bojo do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários (IAPC), quando o Serviço Social desenvolveu ações no Conjunto Residencial de Casa Amarela, de propriedade desse Instituto. Embora basicamente sustentadas no Serviço Social de Grupos, essas ações apontavam para a contribuição para o “desenvolvimento do espírito comunitário” (ANDRADE; ALMEIDA, 1985, p. 30). Após a unificação dos Institutos, em 1967, a linha comunitária era concretizada com a criação de Centros de Orientação e Assistência para a Comunidade. Em Recife, são exemplos desses trabalhos: a reformulação do Centro Social de Casa Amarela (onde foram atingidos também Vasco da Gama e Córrego do Genipapo), a criação dos Núcleos Comunitários do Sítio Bevenuto e Ponte dos Carvalhos (no município de Cabo de Santo Agostinho), e a implantação de um Cadastro de Recursos Comunitários. As ações desenvolvidas pelo Serviço Social do Serviço Social do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) na linha comunitária foram suspensas por determinações da própria instituição em 1970. 138 Estradas e Rodagens de Pernambuco, Hospital das Clínicas da Uni- versidade do Recife, Centro de Treinamento da Escola de Serviço Social de Pernambuco, Fundação de Promoção Social, Clínica do Câncer, Fundação Estadual de Bem-Estar ao Menor). III) Pelos convênios e assistência técnica patrocinados pelas agên- cias internacionais vinculadas a política pan-americanista (como os acordos firmados pela USAID e o UNICEF). Tais organismos não necessariamente operavam de modo autônomo. Existiam, em vários casos, articulações e frentes para trabalhos de organização e desenvolvimento das comunidades, muitas vezes com convênios entre todos esses – como é exemplo a ação ocorrida no início dos anos 1960, no Sítio Bevenuto, apoiada por convênio firmado entre SUDENE, USAID e CNBB-Brasil. As próprias Escolas de Serviço Social do Nordeste tentam se projetar para a conquista dos espaços profissionais nos órgãos de desenvolvimento. No I Encontro das Escolas de Serviço Social do Nordeste (1963), a garantia da presença da SUDENE – na figura do seu Diretor do Departamento de Recursos Humanos, a convite de docentes de Pernambuco – significava a busca pela legitimidade nessa esfera, visando, inclusive, meios de sustentação financeira das unidades de ensino. Nesse aspecto, foi tão frutífero o episódio, que o Diretor, inicialmente desacreditado da possibilidade do Serviço Social contribuir com o desenvolvimento regional, alterou sua visão, e iniciou um processo de inter-relacionamento das Escolas com a SUDENE. Daí a criação de um Departamento de Ação Comunitária no órgão, em 1965, com a parti- cipação de assistentes sociais (essa busca de adesão ao desenvolvimentismo se aprofunda no II Encontro do Nordeste) (VIEIRA, 1992). É nesses anos que vemos intensificar a interação entre a SUDENE e o Serviço Social: no início da década de 1960, estabelece-se um convênio da ESSPE com a UNICEF, através da SUDENE; em 1964, a SUDENE realizou um curso de Desenvolvimento Econômico e Desenvolvimento de Comuni- dade, convidando vários assistentes sociais da região Nordeste – curso que se encerrou abruptamente, em finais de março de 1964, com a deflagração do Golpe; em 1965, a SUDENE incorpora em seu III Plano Diretor o obje- tivo de associar, à ação econômica, um programa específico de ação comu- nitária, donde a criação da Divisão de Ação Comunitária; mesmo ano no qual ocorre o 1º Encontro SUDENE/DRH/AC/Escolas de Serviço Social do Nordeste, comparecendo, além das Escolas da região, o CBCISS, a ABESS, o CRAS 4ª Região e a ABAS/Pernambuco – o encontro é mencionado em Vieira (1992, p. 196) e Ammann (2003, p. 146). Esse intercâmbio entre as Escolas e a SUDENE possibilitou a implantação de convênios que garantiram SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 139 a consolidação do corpo docente de algumas Escolas do Nordeste, assim como equipamentos, livros etc., conforme detalha Vieira (1992, p. 196). Progressi- vamente, aparecem tensões na relação entre as Escolas e a Divisão de Ação Comunitária, como apontam Vieira (1992, p. 197) e Ammann (2003, p. 157). Nesse ínterim, emergem as parcerias envolvendo, especificamente, a ESSPE: a partir de finais de 1950, ela começa a firmar convênios com a LBA e a SUDENE, realizando estágios em comunidades urbanas e rurais – convênios, inclusive, que subsidiavam financeiramente alguns setores da própria ESSPE. Não é ocasional, portanto, o crescimento de monografias – frequentemente escritas a partir das experiências de estágio das alunas – abordando trabalhos em comunidades e conjuntos residenciais nos finais de 1950, conforme mostra Vieira (1992, p. 151), e a predominância do tema nos Trabalhos de Conclusão de Curso nos anos 1960 (VIEIRA, 1992, p. 167). Isso sinaliza a inserção do Serviço Social no âmbito do DC, sobretudo após o segundo lustro dessa década. Os novos espaços e processos de intervenção foram instalando-se pro- gressivamente, implantando-se e difundindo-se por etapas, corresponden- tes, tanto às complexidades do trabalho comunitário, quanto a cumulativa emergência de agências, projetos e apoios financeiros para a manutenção e aprofundamento dos trabalhos. Numa primeira aproximação, esboçam-se, ao menos, dois grandes estágios gerais, que se interpenetram num dado momento: os trabalhos preparativos de organização de comunidade – esses, iniciados em finais de 1940, nascem pelo protagonismo da própria ESSPE, através da criação do Fichário Geral de Obras Sociais, e, depois, desdobram-se na entrada em campo de assistentes sociais e estudantes para o diagnóstico, pesquisa, estudo e mapeamento das características e potenciais de determinadas comu- nidades, visando o posterior encaminhamento de projetos de desenvolvimento e reforço dos vínculos entre estas e o governo; após isso, aproximadamente na passagem para a segunda metade dos anos 1960, articulam-se esses esfor- ços de organização de comunidade com os projetos de desenvolvimento de comunidade – implantação de assistência a grupos produtivos, instalação de equipamentos sociais, formação de lideranças e institucionalização de orga- nizações de moradores, frentes de trabalho comunitário etc.87 Nessas intervenções, a busca de utilização das técnicas e métodos pró- prios do DC encontra-se articulada à recorrência às abordagens do Serviço Social de Casos e de Grupos. Mais precisamente, o Serviço Social de Casos e de Grupos passam a figurar, progressivamente, como estratégias subsidiáriasao trabalho de organização e desenvolvimento de comunidade. O avanço da 87 Essa periodização é ratificada na entrevista concedida por Anita Aline de Albuquerque Costa (ex-aluna da ESSPE e ex-professora da instituição) ao Projeto Memória da Escola de Serviço Social de Pernambuco (PADILHA, 2008, p. 291). 140 intervenção comunitária durante os anos (dos trabalhos de organização para aqueles próprios do desenvolvimento de comunidade) ocorreu na evolução, de meados de 1950 em diante, das ações concentradas em alguns territórios pauperizados do Recife e de municípios próximos: a partir de meados de 1950, até a entrada da década de 1970, o bairro de Casa Amarela e o município de Camaragibe receberam muitas ações; entre finais de 1950 e início de 1960, veem-se intervenções mais pontuais em Fernando de Noronha, nos municípios de Bom Conselho, Camocim de São Félix, Itacuruba, Rodelas e Jaboatão dos Guararapes, e nos bairros de Dois Unidos e Madalena; na primeira metade de 1960, ocorrem ações nas comunidades Coelhos/Coque, Cajueiro Seco e Vila São Bento (Olinda); na segunda metade de 1960, observam-se muitas iniciativas no Sítio Bevenuto e Ponte dos Carvalhos (Cabo de Santo Agosti- nho)88; e em finais de 1960, algo mais pontual se verifica no bairro de Santo Amaro e no município de Caruaru. Notamos, ao longo dos anos, o evolver das intervenções de cunho comu- nitário nessas localidades. Concomitantemente, existe uma maior diversifica- ção de atribuições e modalidades de intervenção do Serviço Social: ao lado das metodologias e instrumentos tradicionais (entrevista individual, diagnóstico e tratamento de “desajustamentos individuais”, atendimentos para repasses de benefícios assistenciais) proliferam-se os trabalhos com pesquisa e estudo das comunidades, coordenação de administração de projetos de desenvolvi- mento, ações de formação de capacitação de lideranças, assistência para insti- tucionalização de associações, fomento de grupos para a realização trabalhos comunitários e a participação.89 6. Considerações finais Essas notas históricas informam os principais condutos e processos pelos quais germinou a renovação do Serviço Social na particularidade de Pernambuco; renovação que teve a assimilação do DC como um dos condicionantes catalizadores. Ou seja, aspectos que remetem à gênese do “processo de renovação” (NETTO, 2004) pelo qual passa a profissão no bojo do ciclo autocrático e sua crise. Tal processo é delimitado por Netto 88 Com relação à experiência em Cabo de Santo Agostinho, um informe de fevereiro de 1965, da ESSPE, intitulado Mercado de Trabalho para Assistentes Sociais (ESSPE, 1965), indica que se tratava de um campo de estágio então recentemente aberto na Paróquia de Ponte dos Carvalhos, certamente condicionada pela instalação do Distrito Industrial. A abertura desse campo de estágio era considerada, por professores e discentes, necessária, para a expansão da Escola para a zona rural do Estado, absorvendo, no início, certo número de alunos/as no treinamento em lidar com comunidades rurais. 89 Sobre isso, é ilustrativo o documento Mercado de Trabalho para Assistentes Sociais (fev. 1965) (ESSPE, 1965), contendo informações sobre a Escola e a profissão; documento preparado por professores da Escola de Serviço Social, com vistas à negociação para a incorporação na UFPE (VIEIRA, 1992). SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 141 (2004) como o conjunto de características novas que a profissão articulou no marco das constrições da autocracia burguesa, a partir do rearranjo de suas tradições teóricas e da assunção do contributo de tendência do pensamento social contemporâneo. A articulação dessas novas características ocorreu na medida em que o Serviço Social procurou investir-se como instituição de natureza profissional dotada de dois vetores: de legitimação prática, através de respostas a demandas sociais e da sua sistematização; e de validação teórica, mediante a remissão às teorias das disciplinas sociais. A pesquisa sobre a particularidade do Serviço Social em Pernambuco entre as décadas de 1940-1960 mostra esses novos vetores de legitimação prática e validação teórica em estado nascente, como um processo em desenvolvimento, com seus respectivos condicionamentos histórico-sociais. Desse modo, a pesquisa nos fornece subsídios para aprofundar a reconstrução teórica da história do Serviço Social no Brasil, considerando suas determinações universais, mas, igualmente, suas particularidades concretas. 142 REFERÊNCIAS ABREU, Marina Maciel. Serviço Social e a Organização da Cultura: Perfis Pedagógicos da Prática Profissional. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2008. 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Sendo a habitação uma esfera central no programa desta interventoria, levantamos a hipótese de que a política habitacional, fundamentalmente contra os mocambos, colaborou diretamente na emergência da profissão e na criação da Escola de Serviço Social de Pernambuco (ESSPE), ao potencializar o espaço ocupacional desse corpo técnico qualificado. Considerando os mocambos como expressão da “questão social” em nível local, nos propomos, inicialmente, a apresentar uma breve caracterização da mesma e de seus reflexos a partir da realidade da cidade do Recife. Posterior- mente, buscamos identificar algumas conexões existentes entre a emergência do Serviço Social em Pernambuco e a problemática dos mocambos, a partir das demandas de ações interventivas por parte do Estado e das instituições vincu- ladas a este. Por fim, tendo em vista o atendimento às necessidades habitacio- nais, desenvolvemos uma caracterização dos diversos espaços que exerciam tal função e da atuação das profissionais do Serviço Social neles inseridos. A pesquisa se deu, principalmente, através da revisão biblio- gráfica, não apenas do material disponível sobre a história da ESSPE (GOMES, 1987; PADILHA, 2008; VIEIRA, 1992), mas também da literatura referente ao período em questão, em especial sobre as políticas voltadas à habi- tação (BEZERRA, 1965; CASTRO, 1957; GOMINHO, 1993, 1998, 2011; 148 MORAIS, 2013; PANDOLFI, 1984). Pesquisas acerca da relação da profissão com essa temática, no entanto, ainda se encontram escassas. Por isso, recorre- mos também à análise documental, contando como fonte de dados monografias de estudantes da ESSPE e matérias de jornal da época, em especial o Folha da Manhã. Neste, Agamenon Magalhães dedicava-se diariamente a exercer o que chamava de “doutrinação política”, justificando as medidas intervencionistas e disseminando sua campanha contra os mocambos (PANDOLFI, 1984). A pesquisa buscou apreender a questão investigada de acordo com os princípios teórico-me- todológicos da tradição marxista presente na literatura do Serviço Social. 2. Os mocambos como refração da “questão social” No cenário mundial, as décadas de 1930 e 1940 foram marcadas por uma crise do liberalismo, pelo questionamento da eficácia dos preceitos libe- rais. A capacidade do mercado de autorregulação, até então defendida pelos economistas liberais, demonstrava-se ineficiente com a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, em 1929, repercutindo na economia mundial. O período entreguerras, principalmente nos centros capitalistas, foi definido por intensa instabilidade política e social, e passou a demandar medidas econô- micas protecionistas e mudanças na intervenção do Estado. O Estado mais intervencionista surgiu como alternativa em meio à crise e apresentou-se, principalmente, com perfil autoritário, de forma a garantir a manutenção do status quo (GOMINHO, 1993). Os anos posteriores à década de 1930 foram caracterizados, por Ianni (1977), pelo desenvolvimento do Estado Burguês brasileiro, a partir da ruptura do antigo regime político, onde as oligarquias latifundiárias, com destaque para a cafeeira, tinham total controle sobre a economia brasileira. A crise de 1929 provocou rebatimentos no Brasil que, até 1930, era pautado economi- camente somente pela atividade de agroexportação sob grande dependência do mercado externo. Com a crise, a fragilidade do desenvolvimento econômico brasileiro foi acentuada e atrelou-se à insatisfação social, causada pela alter- nância política entre as oligarquias da região sudeste, de grupos industriais emergentes, de setores da classe média e militares, particularmente os tenentes. Em 1930, algumas alterações na política brasileira foram operadas, o que viabilizou a chegada de Getúlio Vargas à representação maior do Estado brasileiro, opondo-se ao resultado obtido nas eleições presidenciais. Após a chamada Revolução de 1930, a derrocada, apesar de parcial, do poder das oligarquias, possibilitou as condições para um processo de reconfiguração da esfera estatal no país. Isso significou um funcionamento do poder público de forma mais adequada às exigências e possibilidades estruturais estabelecidas SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 149 pelo capitalismo brasileiro. Entre 1930 e 1937, o Brasil experienciou um breve “intervalo democrático”, marcado pela diversidade de grupos políticos. Contudo, em 1937 foi instaurada a ditadura do Estado Novo, a partir do Golpe de Estado de Getúlio Vargas, com o fechamento do Congresso Nacional e a centralização do poder, sob a justificativa da necessidadede se manter a ordem institucional em meio à conjuntura de grande dissonância política e contra as manifestações das forças de oposição, como a chamada “Intentona Comunista” em 1935. O Estado Novo (1937-1945) caracterizou-se pela mudança no apare- lho estatal, incorporando uma estrutura corporativista (IANNI, 1977). Isto ocorreu pela necessidade de uma maior intervenção do Estado na economia para regular a acumulação capitalista, e devido ao processo de urbanização e expansão do setor industrial, sob forte necessidade de modernização. O setor agroexportador não deixou de ser central para a economia brasileira, mas, devido à crise de 1929, o Brasil viu-se obrigado a encontrar novas saídas, implementando uma indústria de base, com forte investimento estatal, para modernizar economicamente o país. Assim, apesar de ter a economia e política de cunho nacionalista, o eixo econômico realizou certo deslocamento do setor agrário-exportador para o urba- no-industrial, sem romper, no entanto, com as relações de dependência com o capital estrangeiro. Ainda segundo Ianni (1977), os surtos de desenvolvimento econômico estavam sempre atrelados às rupturas provocadas pelo capitalismo mundial. Essas mudanças, no âmbito político e econômico, favoreceram o desenvolvimento de algumas regiões do país, ao acompanharem o processo de industrialização e as consequentes transformações no meio urbano. Essa modernização (conservadora) capitalista no Brasil interferiu na estrutura de classes, ampliando, mesmo que estreitamente, a mobilidade social e a expansão de novas camadas sociais, fazendo surgir uma burguesia indus- trial e financeira – que tem, em parte, laços com a oligarquia do café – bem como a classe operária e as classes médias, devido à ampliação do mercado de trabalho e de consumo. Estas carregando consigo as marcas da questão agrária como componente do capitalismo brasileiro, que não abriu mão do latifúndio e de formas de trabalho análogas ao trabalho escravo para se desenvolver. Em meio a esse cenário, Getúlio Vargas inovou ao integrar diferentes setores da sociedade brasileira no sistema político, oportunizando uma participação controlada e subordinando interesses e conflitos às intenções maiores próprias da condição de dependência do capitalismo no país. A organização capitalista de produção já vinha sendo incorporada na economia brasileira de forma atrasada, deficiente e dependente, com suas contradições, materializadas nas desigualdades econômicas e sociais, tanto 150 pelas desumanas condições de trabalho, quanto pela exploração demasiada e falta de segurança no trabalho. Desde o início do século XX, manifestações da classe trabalhadora foram realizadas, com influência ideológica dos imi- grantes estrangeiros, sobretudo anarquistas (GOMINHO, 1993). Através de greves, passeatas e confrontos, o operariado mobilizou-se em prol de melhores condições de vida e trabalho, regulamentação das relações capital-trabalho, etc. Porém, o crescimento desordenado das cidades, concomitante com o surgimento das indústrias, acarretou, não apenas na maior insatisfação dos trabalhadores com as condições de vida e trabalho, que residiam em favelas, mocambos, cortiços; mas também gerou uma massa de pessoas desocupa- das dos seus ofícios a vagarem pelas ruas. Demandou-se, assim, uma maior atenção e ação dos dirigentes do país, para além da repressão policial, prin- cipalmente por conta das mobilizações populares. A partir da configuração da “questão social”, que assume relevância como consequência do surgimento do proletariado como expressão política própria, Vargas voltou a sua atuação de forma a absorver parcialmente reivindicações dessa classe e, mais do que isso: controlá-la como força política, tornando-a mais eficiente e livre das influências do comunismo, por vê-la como força motriz no desenvolvimento econômico. Como meio de exercer sutilmente seu poder na sociedade, e para responder às sequelas advindas da relação de assalariamento do proletariado, o governo instituiu as legislações trabalhista e previdenciária, a cooptação do movimento operário através dos sindicatos “amarelos” e demais medidas sociais, sob a roupagem de doação e assistência por parte do Estado. Com o movimento de 1930, Pernambuco, como na maioria dos estados brasileiros, encontrou seu governo ocupado por interventores indicados pela esfera federal, tendo como primeiro interventor o tenente Carlos de Lima Cavalcanti, que, em 1937, foi acusado de ser comunista e afastado do poder em favor de Agamenon Magalhães. A Assembleia Legislativa e a Câmara Munici- pal tiveram seus trabalhos encerrados, e os prefeitos passaram a ser nomeados pelos interventores. Além disso, seguindo a cartilha do Estado Novo, foram criados Conselhos com representações de classes, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), e a Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) se tornou mais ativa. Agamenon estabeleceu a “emoção do Estado Novo” em Pernambuco, sendo um dos mais fiéis ao regime de Getúlio Vargas. Gominho (1993) relata que, nesse contexto, Pernambuco encontrava-se em processo de redefinição do seu papel na economia mundial. As crises do açúcar e as experiências com a produção têxtil motivaram mudanças no sistema de produção açucareira, no direcionamento da produção do algodão e na conjuntura socioeconômica e política local. Nesse momento, as usinas foram introduzidas e avançaram na inserção da organização capitalista de SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 151 produção no meio agrário, que acentuaram o caráter monocultor e monoe- xportador da economia pernambucana. Ademais, observou-se a introdução de maquinário junto às atividades antes feitas apenas manualmente nas usinas, a proletarização do trabalhador rural e a alteração da divisão social e técnica do trabalho no campo. Em consequência das mudanças produtivas na agricultura, somadas à permanência do latifúndio e ao fenômeno climático e social da seca90, especialmente no semiárido nordestino, iniciou-se um grande êxodo rural, em que massas de trabalhadores migraram para os centros urbanos em busca de trabalho e sobrevivência. Tal migração compôs a trajetória de centenas de sertanejos e sertanejas rumo às regiões que passaram a ser centrais e polos dinâmicos da economia e política nacional, a exemplo do Sudeste, bem como às cidades que vieram a se configurar como polos dentro das próprias regiões, compondo a nova divisão inter-regional do trabalho no país. Recife vivia um intenso crescimento populacional diretamente ligado a estes fluxos migratórios, intensificados pela elevação da cidade ao sta- tus de capital-regional, pelo seu papel comercial-portuário (LIMA, 2012). Segundo Bezerra (1965), o aumento no número de habitantes foi concomi- tante ao crescimento das problemáticas sociais do município, entre eles os relacionados à habitação. Como forma alternativa de habitação encontrada pelos grandes contin- gentes de migrantes, ocorreu a proliferação dos mocambos sobre a planície recifense. Os mocambos, como eram conhecidos, são descritos pela Comissão Censitária da época como uma moradia de barro batido com telhados e paredes de taipa, flandres e palha, sem saneamento básico (PANDOLFI, 1984). Esses modelos precários de habitação, construídos em mangues e alagados, perpetua- vam-se desde o período Colonial e Holandês, mas se acumularam na Região Metropolitana no Recife a partir do século XIX, obtendo maior espraiamento com a emergência e agravamento da “questão social” (BEZERRA, 1965). O mocambo era considerado como uma “célula de descontentamento” (GOMINHO, 1993, p. 37) e, portanto, deveria ser eliminado, ou melhor, substituído por casas higiênicas, construídas em ambientes salubres, saneados, como forma de modernizar o Recife, demover o aspecto provinciano. Portanto, durante o período do Estado Novo, a interventoria pernambucana, afirmando a sua atenção às pautas sociais,incorporou a preocupação em enfrentar a 90 “Mais importante nisso tudo, [...] era a tomada de consciência por importantes setores das elites [...] de que a questão da miséria era uma questão política. Não era a seca, propriamente, como se dizia desde o século XIX, que respondia pela pobreza dos trabalhadores rurais nordestinos. Era o uso político da seca como pretexto para obtenção de recursos financeiros do governo federal que, no fim, não iam aliviar a miséria dos pobres, mas revigorar a máquina do clientelismo político dos ricos. Uma situação que só poderia ser resolvida com uma revolução, como entendiam e temiam alguns dos próprios setores das elites. Ou então com reformas sociais” (MARTINS, 1994, p. 67). 152 “questão social”, definindo a Habitação Popular como um dos pontos prio- ritários do seu programa de governo, tendo em vista que os mocambos eram estigmatizados como “[...] portadores de todos os males biológicos e morais – especialmente em um período de ainda forte influência das ideias higienistas e eugênicas” (MORAIS, 2013, p. 1). Segundo Lira (1999, p. 63), [...] nos mocambos recifenses, a comparação com os aldeamentos africanos chegaria a propor hipóteses em antropologia física: os pés dos habitan- tes da Ilha do Leite no Recife eram deformados. Não apenas em razão da insalubridade, amontoamento e promiscuidade em que viviam, pela vadiagem e indisciplina, mas também por serem “arraial de pretos” e constantemente evocarem a fisionomia das primitivas cidades negras, deveriam ser sistematicamente erradicadas, construindo-se em seu lugar cidades-jardins, submetidos a um plano higiênico e econômico. Além disso, desde as décadas de 1920 e 1930, eram realizadas movimen- tações populares com influência socialista, fazendo com que essas medidas sociais de Agamenon objetivassem também refrear as mobilizações revolu- cionárias de trabalhadores e conquistar o apoio destes para a manutenção do projeto de dominação em curso naquele período. Algumas ações, programas e entidades tornaram-se prioritários para o enfrentamento das expressões da “questão social”, particularmente a partir dos mocambos. É nesse contexto que também se situa a emergência do Serviço Social em Pernambuco, a partir da criação da sua primeira Escola em Recife no início da década de 1940. 3. Serviço Social e política contra os mocambos Gominho (1993) explica que os mocambos e a urbanização no Recife pas- saram a ser encarados como questão de responsabilidade também do Estado, do governo local, apenas a partir do Estado Novo. A construção de mocam- bos já havia sido proibida por Carlos de Lima Cavalcanti, mas essa restrição tornou-se mais rigorosa, no plano municipal, no governo de Novaes Filho, indicado por Agamenon Magalhães para a Prefeitura da cidade. O interventor promoveu uma campanha assídua, e por vezes cruel, como classifica Padilha (2008), ao mencionar o episódio em que Agamenon ordenou a destruição dos mocambos de moradores vindos da zona rural. Foi implantada uma política governamental que utilizou diversos meios para erradicar a existência desse tipo de habitação no Recife. Ainda segundo Gominho (1993), o discurso do então prefeito era de uma gestão voltada para a ação social, sendo esta contemplada através da Diretoria de Reeducação e Assistência Social. Este órgão, ao qual estavam SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: primeiras décadas da formação e atuação profissional 153 subordinados os Centros Educativos Operários, visava não apenas o controle social via combate ao comunismo, mas também a resolução da questão dos mocambos na capital. Para tal, foi criada a Comissão do Plano da Cidade. A referida Diretoria concedia passagens para os moradores que desejassem retornar à zona rural, construtoras recebiam incentivo fiscal para que pudessem ser construídas casas populares que abrigariam a população dos mocambos, e o Estado doava terrenos e isentava de impostos e taxas as Caixas de Aposen- tadoria e Pensões, cujos fundos de reserva poderiam ter 50% aplicados para a construção de vilas operárias para seus associados. Tudo isso seguindo a tendência nacional de esforços do governo para promover a participação de todos os seguimentos da sociedade civil na luta contra os “problemas sociais” em nível local, mascarando a luta de classes. Surgiu, então, em novembro de 1937, a Cruzada Social Contra o Mocambo em Pernambuco para discutir e estudar projetos e propostas, além de decretar leis contra o avanço dos mocambos. Em outras palavras, tratou-se, de fato, da política contra os mocambos. No final da década de 1930, para colher dados e informações mais pre- cisos que auxiliassem a extinção dos mocambos, foi criada a Comissão dos Mocambos do Recife, ou Comissão Censitária dos Mocambos, na qual há registros da participação de “agentes de Serviço Social de Pernambuco” (PADILHA, 2008, p. 255), como o professor e fundador da ESSPE, René Ribeiro. A realização do censo para os mocambos, em 1939, expôs a situação dos moradores dos alagados recifenses: existiam 45.000 mocambos de 12 tipos, sendo 33,82% alugados e 47,75% próprios – nos quais os moradores tinham que pagar um aluguel aos proprietários do terreno (BEZERRA, 1965). No mesmo ano, segundo Gominho (1993), a Ação Social Católica iniciou o planejamento e organização da III Semana de Ação Social no Recife, que priorizou a questão habitacional e reforçou a intenção do governo de substituir os mocambos por habitações econômicas. Padilha (2008) adiciona que o foco foi debater questões relacionadas à sociedade pernambucana, principalmente a populações de baixa renda, e construir propostas de políticas sociais. A autora também acrescenta que o evento, além de contar com a presença de figuras públicas como Agamenon Magalhães e o diretor do Serviço de Reeducação e Assistência Social da Prefeitura do Recife, Nilo Pereira, teve como secretá- rio Rodolfo Aureliano, sendo expositores René Ribeiro, Souza Barros, Luiz Delgado, José Lucena e José Césio Regueira Costa, os quais também compu- seram o grupo dos fundadores e primeiros professores da ESSPE; outrossim, a proposta de fundação da Escola como curso superior ocorreu no evento. Após a realização da III Semana, criou-se a Liga Social Contra o Mocambo, prosseguindo com o objetivo de extinguir os mocambos, ligar-se às Carteiras Prediais dos diversos Institutos de Aposentadoria e Pensão e incentivar a 154 construção de casas populares em vilas divididas por categorias profissionais, trazendo consigo a ideia de reeducação e integração social por meio da criação de centros educativos nas vilas construídas (PANDOLFI, 1984).91 O combate ao mocambo realizado pela Liga tinha como preceito o direito à propriedade, como afirma o próprio interventor: “[...] todo cidadão deve ser proprietário de seu imóvel, sendo objetivo dessa política de erradicação dos mocambos, trans- formar os 165 mil habitantes dos mocambos em pequenos proprietários, em pequenos burgueses” (MAGALHÃES apud PANDOLFI, 1984, p. 61). A Liga era composta por diversos grupos sociais que compunham comis- sões e movimentos organizados ou iniciativas individuais relacionadas à Cruzada inicial92, partindo para mais ações concretas, tanto administrativas e territoriais quanto educacionais (GOMINHO, 1993). As demolições eram feitas pela Liga de forma brutal em áreas inteiras nas partes mais visíveis da cidade, os mocam- bos “[...] eram amarrados em correntes e arrastados, após o que os moradores recolhiam os destroços e se dirigiam aos arrabaldes” (ORTIZ; HUE, 1987, p. 185). Com as ações do Estado, os moradores dos mocambos começaram a se organizar em sociedades de forma a assegurar a permanência dessas famílias nas áreas por elas ocupadas: Essas sociedades, na sua vida tumultuada, carregando um mundo de sofri- mentos. Despejos noturnos à base de violência, perseguições policiais, incompreensões de autoridades, prisões de seus membros e diretores, demolições de mocambos, indenizações mesquinhas