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Este livro é resultado dos estudos e debates realizados pelo projeto de 
extensão História e Memória do Serviço Social em Pernambuco entre as 
décadas de 1940 e 1970 (MEHSSPE). Vinculado ao Departamento de 
Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco, o projeto envolve
ações em três planos: organização e socialização do acervo histórico e de 
documentos do Serviço Social no estado; incentivo a estudos sobre as 
dimensões e tendências da profissão; e divulgação de conhecimentos sobre 
essa história e memória. Em 2019, o MEHSSPE engajou parte de sua equipe 
na realização de estudos exploratórios sobre as particularidades do Serviço 
Social em Pernambuco, considerando as características de seu desenvolvi-
mento entre as décadas de 1930 e 1960. Neste livro, seguem os artigos 
produzidos nos estudos, abordando determinações da formação profissio-
nal, dos espaços sócio-ocupacionais e das respostas do Serviço Social no 
curso das referidas décadas. Esta publicação pretende fortalecer o trabalho 
– já desenvolvido pelo MEHSSPE – de ampliação do acesso público à 
produção científica, à memória e aos documentos da história do Serviço 
Social e das políticas sociais em Pernambuco.
Adilson Aquino Silveira Júnior
Professor Adjunto do Depar- 
tamento de Serviço Social da 
Universidade Federal de 
Pernambuco. Doutor e Mestre 
em Serviço Social da Univer- 
sidade Federal de Pernam- 
buco. Coordena o projeto de 
extensão História e Memória 
do Serviço Social em Pernam- 
buco entre as décadas de 1940 
e 1970 (MEHSSPE). Realiza 
pesquisas e publicações com 
os temas Teoria Social, Política 
Social, Fundamentos Teórico- 
Metodológicos e Históricos do 
Serviço Social.
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O livro SERVIÇO SOCIAL EM 
PERNAMBUCO: primeiras déca-
das da formação e atuação 
profissional é produto de um 
trabalho coletivo viabilizado pelo 
projeto de extensão História e 
Memória do Serviço Social em 
Pernambuco entre as décadas 
de 1940 e 1970 (MEHSSPE). 
Seus artigos nasceram dos 
debates e dos estudos explora-
tórios em torno das particulari-
dades do Serviço Social em 
Pernambuco. As elaborações 
privilegiam as determinações da 
formação profissional, dos espa-
ços sócio-ocupacionais e das 
respostas do Serviço Social no 
estado entre as décadas de 
1930 e 1960.
SERVIÇO SOCIAL
EM PERNAMBUCO
primeiras décadas da formação
e atuação profissional
ADILSON AQUINO SILVEIRA JÚNIOR
Organizador
SERVIÇO SOCIAL
EM PERNAMBUCO
primeiras décadas da formação
e atuação profissional
9 786586 087079
ISBN 978-65-86087-07-9
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Editora CRV
Curitiba – Brasil
2020
Adilson Aquino Silveira Júnior 
(Organizador)
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação 
e atuação profissional
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Copyright © da Editora CRV Ltda.
Editor-chefe: Railson Moura
Diagramação e Capa: Diagramadores e Designers CRV
Revisão: Analista de Línguas CRV
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)
CATALOGAÇÃO NA FONTE
Bibliotecária responsável: Luzenira Alves dos Santos CRB9/1506
2020
Foi feito o depósito legal conf. Lei 10.994 de 14/12/2004
Proibida a reprodução parcial ou total desta obra sem autorização da Editora CRV
Todos os direitos desta edição reservados pela: Editora CRV
Tel.: (41) 3039-6418 – E-mail: sac@editoracrv.com.br
Conheça os nossos lançamentos: www.editoracrv.com.br
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Se481
Serviço social em Pernambuco: primeiras décadas da formação e atuação profi ssional / 
Adilson Aquino Silveira Júnior (organizador) – Curitiba : CRV, 2020.
206 p. 
Bibliografi a
ISBN Digital 978-65-86087-19-2
ISBN Físico 978-65-86087-07-9
DOI 10.24824/978658608707.9
1. Serviço social 2. Serviço social – história e memória 3. Política social 4. Serviço social
– Pernambuco I. Silveira Júnior, Adilson Aquino. org. II. Título III. Série.
CDU 364 CDD 361.0023
Índice para catálogo sistemático
1. Serviço social 361.0023
Este livro foi avaliado e aprovado por pareceristas ad hoc.
Comitê Científico:
Alexsandro Eleotério Pereira de Souza (UEL)
Luciene Alcinda de Medeiros (PUC-RJ)
Maria Regina de Avila Moreira (UFRN)
Patrícia Krieger Grossi (PUC-RS)
Regina Sueli de Sousa (UFG)
Solange Conceição Albuquerque 
de Cristo (UNIFESSPA)
Thaísa Teixeira Closs (PUC-RS)
Vinícius Ferreira Baptista (UFRRJ)
Conselho Editorial:
Aldira Guimarães Duarte Domínguez (UNB)
Andréia da Silva Quintanilha Sousa (UNIR/UFRN)
Anselmo Alencar Colares (UFOPA)
Antônio Pereira Gaio Júnior (UFRRJ)
Carlos Alberto Vilar Estêvão (UMINHO – PT)
Carlos Federico Dominguez Avila (Unieuro)
Carmen Tereza Velanga (UNIR)
Celso Conti (UFSCar)
Cesar Gerónimo Tello (Univer. Nacional 
Três de Febrero – Argentina)
Eduardo Fernandes Barbosa (UFMG)
Elione Maria Nogueira Diogenes (UFAL)
Elizeu Clementino de Souza (UNEB)
Élsio José Corá (UFFS)
Fernando Antônio Gonçalves Alcoforado (IPB)
Francisco Carlos Duarte (PUC-PR)
Gloria Fariñas León (Universidade 
de La Havana – Cuba)
Guillermo Arias Beatón (Universidade 
de La Havana – Cuba)
Helmuth Krüger (UCP)
Jailson Alves dos Santos (UFRJ)
João Adalberto Campato Junior (UNESP)
Josania Portela (UFPI)
Leonel Severo Rocha (UNISINOS)
Lídia de Oliveira Xavier (UNIEURO)
Lourdes Helena da Silva (UFV)
Marcelo Paixão (UFRJ e UTexas – US)
Maria Cristina dos Santos Bezerra (UFSCar)
Maria de Lourdes Pinto de Almeida (UNOESC)
Maria Lília Imbiriba Sousa Colares (UFOPA)
Paulo Romualdo Hernandes (UNIFAL-MG)
Renato Francisco dos Santos Paula (UFG)
Rodrigo Pratte-Santos (UFES)
Sérgio Nunes de Jesus (IFRO)
Simone Rodrigues Pinto (UNB)
Solange Helena Ximenes-Rocha (UFOPA)
Sydione Santos (UEPG)
Tadeu Oliver Gonçalves (UFPA)
Tania Suely Azevedo Brasileiro (UFOPA)
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO ............................................................................................ 9
Adilson Aquino Silveira Júnior
CAPÍTULO 1 
“EXISTIRMOS – A QUE SERÁ QUE SE DESTINA?”: 
a questão regional e o Nordeste na formação social brasileira ..................... 15
Evelyne Medeiros Pereira
CAPÍTULO 2
A PARTICULARIDADE DE PERNAMBUCO NO ESTADO NOVO: 
transformações econômicas, questão social e lutas de classes .................... 33
Zélia de Oliveira Gominho
CAPÍTULO 3
CAPITALISMO, ESTADO E POLÍTICA SOCIAL NO 
BRASIL DOS ANOS 1950 .............................................................................. 51
Adilson Aquino Silveira Júnior
CAPÍTULO 4
A EMERGÊNCIA DO SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO 
NOS ANOS 1940 ............................................................................................ 65
Adilson Aquino Silveira Júnior
CAPÍTULO 5 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO NOS 
ANOS 1950: racionalização do ensino e 
diversificação técnico-profissional .................................................................. 93
Adilson Aquino Silveira Júnior
Lenita Maria Maciel de Almeida
Mariana Macena da Silva
CAPÍTULO 6 
BASES DA RENOVAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL EM 
PERNAMBUCO: afirmação da “abordagem comunitária” 
entre 1940 e 1960 ........................................................................................ 121
Adilson Aquino Silveira Júnior
Lenita Maria Maciel de Almeida
CAPÍTULO 7
A POLÍTICA “CONTRA O MOCAMBO” E A EMERGÊNCIA DO 
SERVIÇOSOCIAL EM PERNAMBUCO ...................................................... 147
Bruna Soares Farias
Camila Sobral Leite Lyra Montalvão 
CAPÍTULO 8
O SERVIÇO SOCIAL E A “QUESTÃO DO
MENOR” EM PERNAMBUCO (1940-1950):
história, memória e perspectivas .................................................................. 167
Andresa Maria da Silva 
Fernanda Helen de Paula Lira
Thalia de Oliveira Barbosa
CAPÍTULO 9 
AS PRIMEIRAS ASSISTENTES SOCIAIS DE PERNAMBUCO E 
O INÍCIO DA FORMAÇÃO PROFISSIONAL 
NO ESTADO (1940-1950) ............................................................................ 185
Maria Angélica Pedrosa de Lima Silva
Laura Sophie de Andrade Freire
Rennan Araújo de Lima
SOBRE OS AUTORES ................................................................................ 203
APRESENTAÇÃO 
Este livro reúne os textos resultantes, em sua maioria, de estudos desen-
volvidos em 2019 através do projeto de extensão História e Memória do Ser-
viço Social em Pernambuco entre as décadas de 1940 e 1970 (MEHSSPE). 
Vinculado ao Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de 
Pernambuco, o projeto propõe ações em três planos: organização e socializa-
ção do acervo histórico e de documentos do Serviço Social no estado; incen-
tivo a estudos sobre as dimensões e tendências da profissão; e divulgação de 
conhecimentos sobre essa história e memória. Mais amplamente, a pretensão 
é contribuir com o acesso público à produção científica e a documentos vin-
culados à história do Serviço Social e das políticas sociais em Pernambuco, 
articulando, ainda, pesquisa e ensino à extensão universitária.
Na sua interface com a dimensão da pesquisa, o MEHSSPE engajou parte 
de sua equipe, composta de estudantes e docentes do Curso de Serviço Social, 
na realização de estudos exploratórios sobre as particularidades do Serviço 
Social em Pernambuco, considerando as características de seu desenvolvi-
mento, principalmente, entre as décadas de 1930 e 1960. As determinações 
enfocadas, considerando sua historicidade e condicionantes sociais, ainda que 
de modo abrangente e aproximativo, corresponderam às esferas da formação 
profissional, dos espaços sócio-ocupacionais e das respostas (teórico-metodo-
lógicas, político-ideológicas e técnico-operativas) do Serviço Social no curso 
das referidas décadas. Tratou-se de uma iniciativa cuja pretensão primeira 
consistia, tão somente, em incentivar estudos exploratórios, cujos resultados 
se materializariam na construção de hipóteses para pesquisas mais consisten-
tes e profundas. Em geral, as sistematizações alcançadas nos surpreenderam 
pela sua capacidade de (além de propor hipóteses de pesquisa) fornecer um 
contributo para a reconstrução histórica do Serviço Social em Pernambuco, 
através do levantamento e análise de fontes até então inexploradas do acervo 
da profissão nessa realidade. 
No início de 2019, uma parte da equipe do MEHSSPE se dividiu em torno 
de alguns eixos temáticos para o encaminhamento desses estudos, guiados 
por súmulas que registravam as estratégias metodológicas e fontes de dados a 
serem assumidas em cada caso. Foram projetados cinco eixos: 1) As transfor-
mações do Serviço Social em Pernambuco nos anos 1950, 2) Serviço Social e 
Política Habitacional nos anos 1940 – a “questão dos mocambos”; 3) Atuação 
do Serviço Social nos anos 1940 e 1950 em torno da “questão do menor” 
em Pernambuco; 4) As demandas para o Serviço Social em Pernambuco nos 
anos 1940-1950, 5) As pioneiras do Serviço Social de Pernambuco e a marca 
10
do gênero na profissão. Ao propor tais estudos, o projeto de extensão previa 
suscitar, ainda, o protagonismo dos(as) estudantes envolvidos(as) na equipe 
de execução, incorporando-os(as) em atividades de análise e sistematização 
da realidade, despertando-os(as) para o desenvolvimento de uma interpretação
própria da história, bem como da elaboração e divulgação do conhecimento
adquirido com o acervo documental digitalizado e catalogado. Ao findar o
ano, o amadurecimento obtido, em termos de apropriação da fundamentação
teórica e histórica, e da análise das evidências documentais, foram registrados 
nos artigos deste livro. 
Além das sistematizações provenientes dos estudos exploratórios,
incluem-se aqui textos de duas docentes-pesquisadoras que generosamente
colaboraram com as atividades do MEHSSPE. O artigo de Evelyne Medei-
ros Pereira – “Existirmos – a que será que se destina?”: a questão regional
e o Nordeste na formação social brasileira– oferece uma síntese das suas 
investigações sobre a dialética do desenvolvimento desigual e combinado
do capitalismo no Brasil; base que preside a coexistência e persistência do 
“arcaico” e do “moderno” na exploração e acumulação da riqueza entre nós; 
solo histórico das contradições do Nordeste do país, sua aridez social, suas 
formas agrestes de dominação política, a crueza da rebeldia que sempre brota
em suas paragens. Evelyne também cooperou em algumas orientações dos
estudos exploratórios, além de participar de debates promovidos nas ativi-
dades de formação do MEHSSPE, em especial no curso Serviço Social em
Pernambuco entre 1940-1970. Já a participação de Zélia de Oliveira Gominho
neste livro – através do texto A particularidade de Pernambuco no Estado 
Novo: transformações econômicas, questão social e lutas de classes – foi 
provocada após sua intervenção no mesmo curso de extensão, no encontro 
dedicado à reflexão sobre o Estado Novo em Pernambuco. Desde o início da 
execução do projeto, eram referências os trabalhos acadêmicos dessa histo-
riadora – maturados desde os anos 1990 – sobre a realidade de Pernambuco
na primeira metade do século XX, em especial sua premiada dissertação 
de 1997, Veneza Americana X Mucambópolis: o Estado Novo na cidade do 
Recife (Décadas de 30 e 40).
Os demais textos condensam os esforços de sistematização dos estudos
exploratórios pela equipe do projeto de extensão. Alguns deles tiveram suas 
versões preliminares aproveitadas em encontros do curso, e muitos conteúdos
foram divulgados em eventos acadêmicos regionais, nacionais e internacio-
nais durante 2019. No seu conjunto, dividem-se em duas abordagens sobre 
a realidade do Serviço Social no estado, considerando o intervalo histórico 
entre finais dos anos 1930 e início de 1970: uma parte coloca-se sob um 
ângulo mais panorâmico e inclusivo do processo de afirmação da profissão, 
ou de seus condicionantes históricos macroscópicos; outra parte envereda em 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 11
determinados complexos que se mostraram decisivos para conformar algumas 
particularidades da emergência do Serviço Social no estado. No primeiro 
grupo, incluem-se os seguintes artigos: Capitalismo, Estado e política social 
no Brasil dos anos 1950 e A emergência do Serviço Social em Pernambuco 
nos anos 1940, ambos de Adilson Aquino Silveira Júnior; Serviço Social em 
Pernambuco nos anos 1950: racionalização do ensino e diversificação téc-
nico-profissional, de Adilson Aquino Silveira Júnior, Lenita Maria Maciel de 
Almeida e Mariana Macena da Silva; Bases da renovação do Serviço Social 
em Pernambuco: afirmação da “abordagem comunitária” entre 1940 e 1960, 
de Adilson Aquino Silveira Júnior e Lenita Maria Maciel de Almeida. No 
segundo grupo de artigos estão: A política “contra o mocambo” e a emer-
gência do Serviço Social em Pernambuco, de Bruna Soares Farias e Camila 
Sobral Leite Lyra Montalvão; O Serviço Social e a “questão do menor” 
em Pernambuco (1940-1950): história, memória e perspectivas, de Andresa 
Maria da Silva, Fernanda Helen de Paula Lira e Thalia de Oliveira Barbosa; 
As primeiras assistentes sociais de Pernambuco e a introdução da formação 
profissional no estado (1940-1950), de Maria Angélica Pedrosa de Lima Silva, 
Laura Sophie de Andrade Freire e Rennan Araújo de Lima. 
Este livro completa o trabalho a que o projeto de extensão se propôs ao 
arrolar a documentação catalogada, digitalizada e analisada, através da publi-cação Memória do Serviço Social em Pernambuco: inventário do acervo.1 
O inventário tratou de apresentar a base de documentos, até então acumula-
dos, direta ou indiretamente relacionados à trajetória do Serviço Social no 
estado entre as décadas de 1940 e 1970. As suas três seções principais foram 
dedicadas a relacionar os seguintes conjuntos documentais: os Trabalhos de 
Conclusão de Curso das alunas e alunos da antiga Escola de Serviço Social 
de Pernambuco (ESSPE) – instituição existente entre 1940 e 1971, depois 
agregada à UFPE; os documentos da ESSPE, os quais constituem evidências 
dos processos de funcionamento da instituição; e matérias do Jornal Folha de 
Manhã – com suas respectivas transcrições – nas quais se encontram notícias e 
artigos, majoritariamente assinados pelo interventor do Estado Novo em Per-
nambuco, Agamenon Magalhães, explicitando as ideologias que informavam 
a atuação governamental em torno das refrações da “questão social” entre os 
anos de 1938 e 1944. Agora, os artigos divulgados com este novo livro, ao 
esboçarem sua contribuição para a sistematização histórica da particularidade 
da profissão no estado, acabam por proporcionar também uma demonstração 
de como aquele acervo documental pode ser aproveitado nas pesquisas do 
Serviço Social. Ao projetarem algumas hipóteses de trabalho sobre esse objeto, 
se tornam um estímulo para que outros(as) pesquisadores(as) avancem no des-
bravamento das fontes empíricas colocadas à disposição através do inventário. 
1 Essa publicação pode ser acessada através do site do MEHSSPE: mehsspe.wixsite.com/projeto
12
Ao lançarmos o inventário do acervo, já havíamos atentado para o 
fato de que, no âmbito da pesquisa e sistematização teórica sobre as dimen-
sões e tendências da história do Serviço Social em Pernambuco, depara-
mo-nos com um quadro ainda carente de desenvolvimentos. As iniciativas 
mais substanciais limitavam-se, até pouquíssimo tempo, às investigações de 
Gomes (1987), Vieira (1992) e Padilha (2008), além das algumas coletâneas 
(UFPE, 1990, 1985). Malgrado a qualidade e profundidade desses estudos, 
eles acabaram por privilegiar as dimensões da formação profissional e das suas 
determinações político-ideológicas, permanecendo à margem reflexões que 
transladassem para os espaços e demandas ocupacionais, processos de trabalho 
e respostas interventivas, encarados de modo abrangente e numa perspectiva 
totalizadora dos ritmos e estágios de desenvolvimento da profissão. Ademais 
de indicarem que estávamos há mais de uma década sem novos empreendi-
mentos de pesquisa em torno da história do Serviço Social no estado. Nosso 
livro pretende colaborar para a reversão desse quadro, coadunando com tra-
balhos recentes como o de Mota (2019) e Silva (2019a, 2019b). 
Com este livro, o MEHSSPE, concomitantemente, brinda os 40 anos 
da Pós-Graduação em Serviço Social da UFPE, comemorados em 2019, e 
pretende nutrir as celebrações dos 80 anos do Serviço Social em Pernambuco, 
realizadas em 2020. Através dessa contribuição, nosso projeto de extensão 
quer se somar às iniciativas de entidades e órgãos corporativos da profissão, de 
docentes e pesquisadores(as), que têm se engajado no fortalecimento e aper-
feiçoamento da memória e história do Serviço Social no país como mediação 
para alicerçar um projeto profissional vinculado aos movimentos e lutas das 
classes exploradas e oprimidas. 
Adilson Aquino Silveira Júnior
Coordenador do MEHSSPE
Recife, fevereiro de 2020
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 13
REFERÊNCIAS
GOMES, Vilma Dourado de Matos Maia. A Escola de Serviço Social de 
Pernambuco – 1940/1945 Políticas de ação e ações políticas. Recife, 1987. 
114 f. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) – Universidade Federal de 
Pernambuco, Recife, 1987. 
MOTA, Ana Elizabete Mota. De histórias e da memória: José Paulo Netto e a 
renovação do Serviço Social. In: RODRIGUES, Mavi; SOUSA, Adrianyce A. 
Silva de. O marxismo impenitente de José Paulo Netto. São Paulo: Outras 
Expressões, 2019. p. 185-209. 
PADILHA, Helena Maria Barros. História da Escola de Serviço Social 
de Pernambuco: uma análise do projeto ideopolítico em articulação com a 
realidade pernambucana e brasileira dos anos 30 a 70 do século XX. 2008. 
430 f. Tese (Doutorado em Serviço Social) – Universidade Federal de Per-
nambuco, Recife, 2008. 
SILVA, Maria Angélica Pedrosa de Lima. A centralidade da família na for-
mação em Serviço Social na década de 1940 em Pernambuco. 2019a, 168 
f. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) – Universidade Federal de Per-
nambuco, Recife, 2019a. 
SILVA, Maria Angélica Pedrosa de Lima. As pioneiras do Serviço Social 
de Pernambuco e a marca do gênero na formação profissional (1940 – 
1946). 2019b, 54 f. Monografia (Graduação em Serviço Social) – Universidade 
Federal de Pernambuco, Recife, 2019b. 
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO. A trajetória do ensino 
em Serviço Social em Pernambuco – em comemoração aos 50 nos de ensino 
de Serviço Social. Dissertação (Mestrado em Serviço Social), 1990.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO. Cadernos de Serviço 
Social. Dissertação (Mestrado em Serviço Social), n. 3, 1985.
VIEIRA, Ana Cristina de Souza. Ensino do Serviço Social no Nordeste: 
entre a Igreja e o Estado. 1992. 249 f. Tese (Doutorado em Serviço Social) – 
Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 1992.
CAPÍTULO 1 
“EXISTIRMOS – A QUE SERÁ QUE 
SE DESTINA?”2: a questão regional e o 
Nordeste na formação social brasileira
Evelyne Medeiros Pereira
1. Introdução
Em certa ocasião, um artista popular brasileiro, jovem que desce do Norte pra 
cidade grande3, ao ser questionado sobre a qualidade de seu trabalho que, naquela 
altura, já não trazia mais tanta “marca de nordestinidade”, elegantemente responde:
O que acontece é que o Sul do país [...] tem uma expectativa muito carac-
terizada a respeito do nordestino [e do Nordeste]. [...] Eu sempre pretendi 
revelar um outro Nordeste no meu trabalho. Claro que você pretender revelar 
um outro Nordeste quando a expectativa é dar continuidade a tudo aquilo 
que tem sido feito nesse sentido, causa um choque enorme que pode muito 
bem ser identificado com outra qualidade. Ou seja, com uma qualidade 
menor [...]. Em nenhum momento eu acho que a música dos nordestinos 
tenha perdido a sua qualidade [...]. Adquiriu uma outra qualidade que eu 
jugo infinitamente melhor, maior do que aquela do começo. Os nordestinos 
hoje conhecem muito bem os recursos técnicos da feitura do seu trabalho, 
perderam completamente qualquer sentimento de atenção a expectativa 
folclorizante a respeito deles. E pessoalmente eu quero dizer, a respeito do 
meu trabalho, que eu não tenho sequer vontade artística de dar continuidade 
aquilo que no Sul se chama “a cultura do Nordeste”, porque eu acho um 
imenso passivo morto [...]. O meu trabalho pretende descobrir qual é a nova 
cultura do Nordeste, como é que essa cultura nova pode, sinceramente, par-
ticipar do novo mundo, com um sentido de descoberta, de ação nova, mas 
infinitamente superior ao que estava pensado no começo [...].4
2 Trecho retirado da música Cajuína do compositor e cantor baiano Caetano Veloso, do álbum Cinema Trans-
cendental, gravado e lançado em 1979 pela gravadora Verve. 
3 Trecho retirado da música Fotografia 3x4 do compositor e cantor cearense Belchior, do álbum Alucinação, 
gravado e lançado em 1976 pela gravadora PolyGram. 
4 Entrevista do cantor Belchior concedida ao Programa Vox Populi, TV Cultura, em 1983. Disponível em: 
https://www.youtube.com/watch?v=TO9bMJP8-rw. Acesso em: 28 jan. 2020.
16
A verdade é que as mistificações em torno da imagem do nordeste brasi-
leiro, que são alvo da resposta do cantador, há muito já fazem parte da nossa 
formação social e, especialmente nos momentos de maior acirramento das 
contradições, vez ou outra, esse tema chega à porta daqueles que sentem a 
necessidade de entender o Brasil para transformá-lo, sinalizando que essa 
regiãocumpriu (e continua cumprindo) um importante papel na constituição 
da questão regional no país. 
Qualquer pessoa desavisada olharia a capa dos livros antigos de Francisco 
de Oliveira, Celso Furtado e Tânia Bacelar; assistiria aos filmes com a inter-
pretação dos lendários personagens de José Dumont e Marcélia Cartaxo; leria 
os romances de Guimarães Rosa, Raquel de Queiroz e Graciliano Ramos, tudo 
isso, como simples artigos de um passado morto e enterrado. Ledo engano! 
Primeiro, porque, apesar dos cenários de inspiração regionalista, tal como a 
questão regional é também nacional e mundial, os enredos tratam de temas 
universais da existência humana, não se limitando aos locais inóspitos de 
criaturas, ao mundo fabuloso dos “rudes homens do cangaço”, “sertanejos 
castigados” das “terras tostadas de sol e tintas de sangue”, parafraseando José 
Lins do Rego. Segundo, porque, ao contrário do que pode se pensar e propa-
gandear, a questão regional continua viva e pulsante em nossos dias. Basta 
observar o papel que o Nordeste e as desigualdades regionais têm cumprido 
no contexto político, cultural e econômico do último período histórico.
Consideramos oportuno lembrar, desde aqui, da iniciativa de um con-
junto de estudiosos do antigo Programa Integrado de Mestrado em Economia 
e Sociologia (PIMES) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em 
Recife. Referimo-nos a realização do Seminário Nordeste: Estrutura Econô-
mica e Social, Desenvolvimento e Processos Políticos, em março de 1982, que 
deu origem ao livro A Questão Nordeste: estudos sobre formação histórica, 
desenvolvimento e processos políticos e ideológicos, publicado em 1984. 
Naquele momento, o organizador, Silvio Maranhão (1984, p. 8-9), nos cha-
mava atenção para o seguinte:
O Nordeste que se vê nesses textos não é um Nordeste harmonioso, comu-
nitário, quase idílico, mistificado e “folclórico”. O Nordeste aqui discutido 
é um Nordeste fortemente diferenciado, parte integrante e integradora da 
formação social brasileira, onde as associações e dissociações, alianças e 
conflitos de classes e grupos sociais marcam, por assim dizer, o ritmo e o 
compasso dos processos históricos que tem lugar na região.
O fato é que a perspectiva priorizada no presente trabalho sobre a questão 
regional e o Nordeste na formação social brasileira parte do pressuposto de que 
a realidade que a nós nos parece local “[...] está sempre governada, altamente 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 17
determinada, pela dinâmica da produção predominante na sociedade, no conjunto 
do subsistema econômico brasileiro” (IANNI, 1981, p. 127-128). Assim, a garantia 
de hegemonia capitalista por aqui implica em fazer com que o Nordeste continue 
sendo visto pelo prisma de uma caricatura temperada de exotismo, ressaltando as 
belezas nativas que se tornam cenário dos cartões postais pra turista ver, conco-
mitante ao reforço da ideia do lugar dos esquecidos e dos condenados pela seca, 
pobreza e pelo “subdesenvolvimento”. E é exatamente movido pela contestação 
a essa imagem que fundamenta uma lógica de ser “Nordeste”, aparentemente 
cristalizada pelas circunstâncias da própria natureza da região, que o artista ao 
qual nos referimos no início deste texto canta: 
NINGUÉM É GENTE! 
Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve! 
Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos! 
Não sou da nação dos condenados! 
Não sou do sertão dos ofendidos! 
Você sabe bem: 
CONHEÇO O MEU LUGAR!5
E é com as palavras do cantor popular nordestino, porém não “nordes-
tinado”6, que adentramos, a partir de então, panoramicamente, aos aspectos 
que são de fundamental importância para os estudos e as reflexões acerca da 
questão regional ontem e hoje.
2. A questão regional na dialética universal-particular:
o desenvolvimento desigual inter-regional no Brasil
A questão regional depara-se hoje com uma realidade que a torna cada vez 
mais viva e pulsante, demonstrando que o debate crítico em torno desse tema 
precisa ser reaberto, particularmente no Serviço Social. Desafio este necessário 
a ser enfrentado por parte daqueles que já estão caducos de entender que as 
desigualdades regionais não são obra da simples ausência de uma política de 
desenvolvimento regional ou da má gestão de quem dirige o Estado e o plane-
jamento de suas ações para as regiões, mas compõem a dinâmica própria do 
padrão de reprodução do capital, de forma especial, nos países dependentes.
O desenvolvimento capitalista, ao mesmo tempo que demanda o processo 
de homogeneização para sua reprodução ampliada, cria e aprofunda, pelos 
mesmos meios, as desigualdades regionais que permitem uma acumulação cada 
5 Trecho retirado da música Conheço meu lugar, do compositor e cantor cearense Belchior, do álbum Era uma 
vez um homem e seu tempo, gravado e lançado em 1979 pela gravadora WEA. 
6 Fazemos alusão ao poema de Patativa do Assaré intitulado Nordestino, sim. Nordestinado, não! (CAR-
VALHO, 2007).
18
vez mais privada das riquezas socialmente produzidas. Caso contrário, o padrão 
de reprodução das relações sociais capitalistas estaria fadado ao colapso. Tais 
desigualdades e contradições universalizaram-se mediante uma combinação 
entre diversas configurações regionais. Nesse sentido, a região é “[...] produ-
to-produtora das dinâmicas concomitantes de globalização e fragmentação [...] 
dos processos de diferenciação social” (HAESBAERT, 2010, p. 7).
No Brasil, alguns pensadores foram (e ainda são) fundamentais para 
entender a natureza dessas desigualdades nas nuances de uma formação social 
constituída através de um processo histórico-social que “vinculou o destino 
da Nação emergente ao neocolonialismo” (FERNANDES, [1968] 2008, p. 
24). Dentre outros intérpretes, priorizamos o diálogo com aqueles que nos 
ajudaram a entender essa realidade e seus desdobramentos sobre o desenvolvi-
mento econômico regional fora do circuito de interpretações dualistas rígidas, 
consonante com a lei do desenvolvimento desigual e combinado (Trotsky, 
[1930] 1977). Lei esta que, segundo Florestan Fernandes ([1968] 2008, p. 65):
[...] punha em questão a relação do desenvolvimento do capitalismo e do 
regime de classes com a revolução social, enfatizando que, dadas certas 
premissas, em um país atrasado uma classe social pode desempenhar as 
tarefas de outra e promover, assim, um salto qualitativo na história. Essa é 
a forma dialética de resolver o assunto. Não é preciso que o regime de clas-
ses esteja “completamente desenvolvido” para que o proletariado realize 
suas tarefas revolucionárias (as que não foram alcançadas pela burguesia). 
Essa característica, universal ao capitalismo, aprofundada e particula-
rizada em sociedades dependentes, revela o caráter integrador e ao mesmo 
tempo desintegrador de regiões nesse sistema, que, para Leon Trotsky ([1930] 
1977, p. 25), viabiliza uma “[...] aproximação das diversas etapas, combi-
nação das fases diferenciadas, amálgama das formas arcaicas com as mais 
modernas”. Em outras palavras, “[...] estruturas econômicas em diferentes 
estágios de desenvolvimento não só podem ser combinadas organicamente e 
articuladas no sistema econômico global”. Especialmente sob o capitalismo 
dependente, “[...] a persistência de formas arcaicas não é uma função secun-
dária e suplementar” (FERNANDES, [1968] 2008, p. 61). E isso ocorre no 
desenvolvimento do capitalismo brasileiro.
É exatamente nessa dialética do desenvolvimento desigual inter-regional 
que se constituiu historicamente a formação social brasileira numa combinação 
entre relações sociais capitalistas e aquelas que, mesmo não sendo tipicamente 
capitalistas, sobrevivem, se configuram e reforçam tal modo de produção. 
Afinal, “[...] não reconhecer [...] que existem marcadas diferenças entre as 
várias formas de produção do valor dentro do capitalismo é não reconhecer 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 19
[...] o processo de constituição dopróprio capital enquanto relação social” 
(OLIVEIRA, 1993, p. 30).
O particular dinamismo do desenvolvimento desigual inter-regional na 
realidade brasileira é, em outras palavras, uma forma particular de configu-
ração do complexo arcaico-moderno. Este tem complexificado a articulação 
daquilo que, para Florestan Fernandes ([1975] 2006), integra o padrão de 
dominação burguesa na nossa formação social: a relação entre o “desenvol-
vimento desigual interno” e a “dominação imperialista externa”, recompondo 
as desigualdades regionais que, a despeito de serem componentes da própria 
natureza capitalista, apresentam uma tônica diferenciada nos países depen-
dentes, bem como já sinalizamos. 
O fato é que, mesmo diante de todas as desconformidades, o “agente 
organizador” da acumulação capitalista não deixou de ser a burguesia asso-
ciada ao grande capital (IANNI, 2004) e destituída de um projeto político de 
orientação democrática e de soberania nacional, mediante arranjos de cúpula 
com setores oligárquicos, sem por isso realizar uma ruptura através de uma 
“revolução democrático-burguesa” ou de “libertação nacional” (IAMA-
MOTO, 2007, p. 132). Em outras palavras, a dinâmica do capital por aqui 
foi realizada por meio de mecanismos ainda não essencialmente capitalistas 
(GORENDER, 1982), não tendo como “meio ambiente original”, de transição, 
o definhamento do feudalismo, ao contrário de países da Europa.
Frente a tais considerações, o núcleo central da dinâmica capitalista no 
Brasil é exatamente a perpetuação de um enorme contingente de força de 
trabalho disponível, do monopólio da terra, das formas extraeconômicas de 
exploração do trabalho (semi ou pré-capitalistas) e de remuneração (monetária 
e não-monetária) bem abaixo do valor da reprodução da força de trabalho, 
refletindo num baixíssimo padrão de vida do produtor direto, mesmo com o 
aumento da produtividade do trabalho. Tudo isso sob a interferência direta 
do Estado que subsidia toda a infraestrutura de sustentação dessa engenhosa 
arquitetura, socializando parte dos custos da reprodução da força de trabalho.7
7 Portanto, “[...] os serviços realizados a base de pura força de trabalho, que é remunerada a níveis baixíssimos, 
transferem, permanentemente, para as atividades econômicas de corte capitalista, uma fração do seu valor, 
‘mais-valia’ em síntese. Não é estranha a simbiose entre ‘moderna’ agricultura de frutas, hortaliças e outros 
produtos de granja com o comércio ambulante? [...] Esses tipos de serviços, longe de serem excrescência e 
apenas depósito do ‘exército industrial de reserva’, são adequados para o processo da acumulação global e 
da expansão capitalista e, por seu lado, reforçam a tendência à concentração de renda” (OLIVEIRA, 2013, 
p. 57-58). O circuito da dependência e o “círculo vicioso do subdesenvolvimento” explicitam que mais vale 
empregadas domésticas recebendo baixíssimos salários, mulheres e homens realizando constantemente 
o trabalho não pago necessário a sua reprodução em cidades intrafegáveis que um dispêndio de recursos 
destinados a estruturas coletivas que não propiciam lucro suficiente com o rebaixamento da força de traba-
lho urbana que depende desses mesmos serviços abundantes e degradados, e boa parte dessa força de 
trabalho não pode ao menos consumir tais serviços demandados. 
20
Daí o entendimento de que não há etapas bem definidas de desenvolvi-
mento pelas quais cada formação social deva passar, inevitável ou predes-
tinadamente. A apreensão dos aspectos que tornaram burguesa a sociedade 
brasileira sem vivenciar, por exemplo, um processo de ruptura com o latifúndio 
e seus antigos representantes é, a nosso ver, pressuposto central para o estudo 
sobre os fundamentos das desigualdades regionais e os descompassos entre 
as regiões tidas como mais ricas ou “avançadas” e as pobres ou “atrasadas” 
enquanto fenômeno moderno.
Essas desigualdades tomam proporções e características diversas no 
contexto contemporâneo. O processo de financeirização, e sua incessante 
busca de valorização do capital tem como necessidade a constante superação 
de fronteiras de tempo e espaço, o que, por outro lado, acaba por estabelecer 
outras tantas barreiras territoriais e diferenciações regionais em uma mundiali-
zação que também se regionaliza. Fruto desse processo, ocorre o adensamento 
da questão social na sua dimensão regional, expressa pela intensificação da 
divisão internacional – e inter-regional – do trabalho8, da exploração por inter-
médio da reestruturação produtiva e dos diversos conflitos de base territorial 
refletidos na violenta onda migratória, (re)compondo a questão regional em 
termos macrossociais.
Em resumo, esse modelo permite a diferenciação produtiva e de produti-
vidade através da elevada exploração de trabalhadores com base na “[...] manu-
tenção de baixíssimos padrões do custo de reprodução da força de trabalho e, 
portanto, do nível de vida da massa trabalhadora rural” (OLIVEIRA, 2013, p. 
45). Trata-se, assim, de um complexo arcaico-moderno dialeticamente pautado 
pelo desenvolvimento tardio, pela modernização dependente e acumulação 
primitiva estrutural. Esse processo pesa distintamente em cada região, espe-
cialmente no Nordeste, território que, combinado desigualmente às demais 
regiões, funciona como uma verdadeira reserva da superpopulação relativa, 
garantindo o baixo custo da força de trabalho, mesmo com o aumento da 
produtividade. Já o Sudeste passa a assumir a função de “região-centro”, 
8 A menor rotação de capital nos países centrais implica em uma maior rotação nos países dependentes tal 
como uma menor composição orgânica do capital nos primeiros, demanda uma realização mais rápida da 
mercadoria nos segundos. Ocorre que tais (des)compassos se reproduzem internamente aos próprios países, 
integrando os territórios nacionais à divisão internacional (e inter-regional) do trabalho. Assim, “[...] a divisão 
do trabalho em geral está relacionada diretamente à divisão territorial do trabalho, à especialização de certas 
regiões na produção de um único artigo, às vezes de uma única variedade de um artigo e até de uma única 
parte de um artigo. [...] A manufatura não cria apenas regiões completas, mas introduz a especialização no 
interior mesmo dessas regiões”. Isto, porém, contraditoriamente, nos diz que “[...] a existência de matéria-prima 
num dado local não é, de modo algum, obrigatória para a manufatura e dificilmente seria comum a ela, já que 
a manufatura pressupõe relações comerciais já bastante amplas” (LÊNIN, 1982, p. 275-276).
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 21
constituindo sua hegemonia sobre as demais regiões. Peça fundamental na 
engrenagem da divisão regional do trabalho. 
Assim, no Brasil, compreendemos a região Nordeste como destaque na 
questão regional, sofrendo com tônica diferenciada os reflexos da concen-
tração de riqueza, renda e poder no país. Os desdobramentos econômicos 
e políticos desse processo constituíram uma narrativa dominante e elitista 
de “região-problema”, predominante até hoje, muito embora com aspectos 
dissonantes em alguns momentos históricos, a exemplo do último ciclo de 
desenvolvimento no país (2007-2012) que pôs em destaque essa região como 
promissora e protagonista de uma onda nova de crescimento econômico.9
Numa perspectiva histórica, o Nordeste assume destaque no Brasil, espe-
cialmente a partir dos anos de 1950, alvo de inúmeros estudos que nem sempre 
contribuíram para seu entendimento, de fato. Ao contrário, para Perruci (1984, 
p. 12), a região foi “[...] vítima de tantas descobertas e teorizações, especial-
mente após o verdadeiro trauma técnico-burocratizante que nos foi imposto 
desde a criação da Sudene e, em especial, com a implantação das políticas 
pós-1964”. Trauma este que persiste mesmo diante das inflexões nas formas de 
enfrentamento às desigualdades regionais a partir do Nordeste, implementadas 
pela frente neodesenvolvimentista10, já tão rapidamentedesestruturadas no 
9 Sobre isso, conferir Pereira (2018).
10 “A frente política neodesenvolvimentista começou a se formar no decorrer da década de 1990. Na década 
anterior, elementos de ordem econômica e política tornavam os principais instrumentos de luta política e social 
recém-criados pelas classes trabalhadoras – o PT, a CUT e o Movimentos dos Sem Terra (MST) – infensos 
a qualquer aproximação política com o grande empresariado. [...] No início da década de 1990, contudo, 
a situação mudou. A parte mais significativa da burguesia unificou-se em torno do programa neoliberal, o 
desemprego aumentou muito e o movimento sindical e popular, com exceção do MST (COLETTI, 2002), 
entrou em refluxo (BOITO, 1999). Na segunda metade da década de 1990, começaram a surgir sinais de 
mudança. Um setor da grande burguesia interna, que também havia apoiado, ainda que de modo seletivo, 
o programa neoliberal foi acumulando contradições com esse mesmo programa. Foi nesse quadro marcado, 
de um lado, por dificuldades crescentes para o movimento sindical e popular e, de outro lado, pelo fato de 
um setor da burguesia começar a rever suas posições frente a algumas das chamadas reformas orienta-
das para o mercado que se criaram as condições para a construção de uma frente política que abarcasse 
setores das classes dominantes e das classes dominadas. Essa frente, organizada, fundamentalmente, pelo 
PT chegou ao poder governamental em 2003 [...]. Não se tratava, agora, de uma frente que se pudesse 
denominar populista e, ademais, tampouco o seu programa poderia ser identificado com o programa do 
velho desenvolvimentismo. [...] Por que recorrer ao termo ‘desenvolvimentista’? De maneira tentativa e 
inicial, diríamos que é porque esse é um programa de política econômica e social que busca o crescimento 
econômico do capitalismo brasileiro com alguma transferência de renda, embora o faça sem romper com os 
limites dados pelo modelo econômico neoliberal ainda vigente no país. Para buscar o crescimento econômico, 
os governos Lula da Silva e Dilma Rousseff lançaram mão de alguns elementos importantes de política 
econômica e social que estavam ausentes nas gestões de Fernando Henrique Cardoso. Sem a pretensão 
de sermos exaustivos, enumeraríamos a título inicial alguns elementos que têm sido destacados por parte 
da bibliografia: a) políticas de recuperação do salário mínimo e de transferência de renda que aumentaram o 
poder aquisitivo das camadas mais pobres, isto é, daqueles que apresentam maior propensão ao consumo; 
b) forte elevação da dotação orçamentária do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES)
22
atual período histórico, pondo novamente no limbo a realidade do Nordeste, 
tal como a brasileira.
3. O Nordeste desigualmente combinado
ao nosso tempo histórico
Para entender o papel e as condições de inserção da região Nordeste no 
padrão de (re)produção capitalista, é fundamental relacionar os aspectos de 
natureza conjuntural (o valor da força de trabalho, os custos de vida, os incen-
tivos fiscais, a “geografia econômica”, o índice de empregabilidade, o acesso 
aos serviços sociais etc.) com as condições estruturais, as leis e tendências 
gerais do capitalismo (em meio ao complexo sistema de financeirização e 
fetichismo da mercadoria). Essa dinâmica é impulsionada não apenas pelos 
condicionantes e determinantes econômicos, mas também pelas circunstân-
cias e desdobramentos no âmbito político que põem em outro patamar a luta 
de classes.
Basta recordarmos os acontecimentos da primeira década do século 
XXI no Brasil. Naquela ocasião, tomava volume um conjunto de iniciativas 
(socioeconômicas e ideopolíticas), desenvolvidas por parte dos governos, que 
consagrava, através dos diversos meios de divulgação e institutos de pesquisas, 
aquele período como o que teria viabilizado o protagonismo de regiões que 
eram vistas como atrasadas, como é o caso do Nordeste, Norte e Centro-Oeste. 
Contudo, por outro lado, ocorreu, simultaneamente, uma relativa perda de 
base industrial no Sul e Sudeste, fazendo com que estas regiões não tivessem 
um crescimento tão exitoso como observado nas áreas identificadas como 
regiões subdesenvolvidas e mais pobres. Isto além dos dados que revelam 
a persistência das desigualdades regionais que continuavam a conduzir o 
Nordeste ao patamar de região brasileira com maior taxa de analfabetismo, 
elevados indicadores de mortalidade infantil e pobreza, menores índices de 
desenvolvimento humano (IBGE, 2014).
Portanto, é certo que a expansão capitalista pode (e deve) promover, 
mesmo que temporariamente, inclusão de uma maior parcela da população, 
tanto no consumo quanto no mercado de trabalho, elevando os índices de 
crescimento econômico e o incentivo ao setor produtivo em regiões como 
para financiamento das grandes empresas nacionais a uma taxa de juro favorecida ou subsidiada; c) política 
externa de apoio às grandes empresas brasileiras ou instaladas no Brasil para exportação de mercadorias 
e de capitais (DALLA COSTA, 2012); d) política econômica anticíclica – medidas para manter a demanda 
agregada nos momentos de crise econômica e e) incremento do investimento estatal em infraestrutura. 
[...] E por que empregar o prefixo ‘neo’? Porque as diferenças com o velho desenvolvimentismo do período 
1930-1980 são significativas. O neodesenvolvimentismo é o desenvolvimentismo da época do capitalismo 
neoliberal” (BOITO JR., 2012, s/p).
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 23
o Nordeste brasileiro. Contudo, isso ocorre de forma descompassada entre
os setores da economia capitalista e entre as próprias regiões, acompanhado 
pelo avanço do agronegócio no Brasil cuja capacidade de gerar ocupações 
é incomparável às atividades relativas à agricultura camponesa. Dentre as 
ocupações geradas, o peso da informalidade e da reestruturação produtiva 
ganha cada vez mais notoriedade, o que tende a se agravar diante das recen-
tes modificações na legislação trabalhista e previdenciária, especialmente 
nas condições do trabalhador do campo, beneficiando frações burguesas a se 
apropriarem ainda mais do trabalho necessário via exploração e expropriação 
da força de trabalho. De repente, os ínfimos ganhos da população se esvaem. 
Fica evidente, no caso brasileiro, a impossibilidade de fugir à lei do 
desenvolvimento desigual e combinado nos marcos do capitalismo, cujo peso 
e funcionalidade do atraso adquirem maior centralidade. É o que revela o atual 
contexto que combina de forma peculiar o reacionarismo político-cultural às 
medidas ultraliberais do ponto de vista econômico, atualizando e reforçando o 
conservantismo próprio da burguesia brasileira e o seu padrão autocrático de 
dominação em uma “tendência intensa e permanente de fascistização” (FER-
NANDES, 2015, p. 21). Junto a isto, reforça-se também a questão regional, o 
papel histórico do Nordeste na divisão regional do trabalho, bem como aquela 
velha e renovada imagem dos nordestinados. 
As atuais medidas de austeridade e completa retração nos direitos sociais 
e políticos intensificam com maior violência a precarização, via empreende-
dorismo e terceirização, e, consequentemente, um diferenciado e aprofundado 
desenvolvimento desigual, interna e externamente. O movimento de concen-
tração e centralização do capital toma renovada amplitude e reforça a condição 
do Brasil de país agroexportador e dependente, tendo algumas das seguintes 
expressões: desindustrialização e reprimarização da pauta exportadora, com 
base na alavanca da dívida pública; atrofia do mercado interno, da capacidade 
de consumo das classes subalternas e da formalização do trabalho; peso da 
pauperização absoluta na combinação com formas de pauperização relativa; 
menor composição orgânica do capital na indústria; rebaixamento real do 
salário; formas de elevação de produtividade intermediadas pela recomposição 
de relações de trabalho não-monetarizadas e pela coerção extraeconômica 
sobre o trabalhadoretc.; ou seja, um amplo movimento de “reversão” das 
conquistas históricas da classe trabalhadora cujos efeitos atingem de forma 
particular regiões como o Nordeste.
Referimo-nos ao quadro de queda de 14,3%, em 2016, para 13,7%, 
em 2017, do total de domicílios que recebem Bolsa Família, somada a 
um conjunto de medidas que atinge também outras iniciativas, tal como 
o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e os direitos sociais, traba-
lhistas e previdenciários como um todo. Em 2018, o Nordeste era a região 
24
com 29% dos desocupados do país, bem como a maior na proporção de 
pessoas que procuraram trabalho por mais de 2 anos. Dos 12,8 milhões 
de brasileiros nesta situação, 3,7 milhões eram nordestinos. O Nordeste 
representou 41% dos subocupados por insuficiência de horas trabalhadas 
no país. Dos 6,6 milhões de brasileiros nesta situação, 2,7 milhões eram 
nordestinos (IBGE, 2018).
Diante disso, as migrações tendem a tomar um novo fôlego e, mais uma 
vez, o capital parece “reconquistar o Nordeste” de forma ampla, tal como 
nos sinalizou Octavio Ianni (1981) ao retratar a questão regional no período 
da “ditadura do grande capital” dos anos de chumbo. De lá até cá a questão 
regional não teve resolubilidade. Assim como Corrêa (1988, p. 60-61), consi-
deramos que “[...] o avanço das relações capitalistas provoca transformações 
nas características da questão regional, em suas exterioridades, mas, em vez de 
eliminá-la, ele agrava, aprofunda a questão”. A partir desse entendimento, “[...] 
a questão regional persiste [...] e coexiste com a questão nacional”. Ou, em 
outros termos, a “questão nordestina é regional e nacional”, hoje mais ainda.
Segundo Florestan Fernandes ([1973] 2009), esse quadro tem seus deter-
minantes mais bem estruturados desde a consolidação do “período ditatorial”, 
exigindo mecanismos prioritários por parte do Estado na tentativa de combater 
os efeitos do aprofundamento da questão regional como particularidade da 
questão social no Brasil. Mecanismos estes necessários inclusive para viabili-
zar tal consolidação via integração nacional diante da decadência da burguesia 
industrial, do declínio do pacto populista, da penetração de grupos econômi-
cos e mercadorias produzidas no Centro-Sul e no Nordeste, da destruição da 
economia regional promovendo, contraditoriamente, uma superacumulação 
e adensamento das forças populares na região em questão.
É preciso também lembrar que “[...] foram as lutas sociais que romperam 
o domínio privado nas relações entre capital e trabalho, extrapolando a
questão social para a esfera pública, exigindo a interferência do Estado para 
o reconhecimento e a legalização de direitos e deveres dos sujeitos sociais
envolvidos” (IAMAMOTO, 2001, p. 17). Isto somado ao pauperismo que 
gerou a ameaça social dos “flagelos da seca”, demandou por parte do Estado 
o aprimoramento de mecanismos e formas de manutenção da hegemonia
burguesa nas regiões. Por isso, o reforço ideológico, entranhado no discurso 
oficial sobre o território nordestino estava diretamente associada à “região 
perigosa”, bem como à agudização da repressão aos trabalhadores rurais organi-
zados.11 A ideia difundida era que o país estava na iminência de uma verdadeira 
11 Vale destacar que existe um vasto enredo da vida real centrado em um conjunto de experiências de protestos e 
lutas populares que não foram incorporadas nas “narrativas nacionais” com uma nítida intenção por parte dos 
setores dominantes de isolá-las e pejorativamente associá-las ao fanatismo e banditismo. Isto é demonstrado 
na importante obra de Rui Facó (1963, p. 15-16) ao fazer alusão e desconstruir a concepção hegemônica dos 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 25
revolução no Nordeste, tendo como referência a revolução cubana. Isto em 
virtude da experiência de movimentos de trabalhadores rurais como o das 
Ligas Camponesas. “Foi assim que o imperialismo e a burguesia, no Brasil, 
decidiram transformar o Nordeste numa questão política, militar e policial 
prioritária” (IANNI, 1981, p. 112) com a finalidade de acabar com todas as 
experiências democráticas que emergiam na região. Afinal, até os avanços de 
natureza democrática e popular por aqui ameaçam a estrutura que sustenta 
uma engenharia tão moderna quanto arcaica do latifúndio.
Voltando às principais estratégias de enfrentamento à questão regional, 
podemos situar, mesmo que tardia, uma nova política de desenvolvimento para 
o Nordeste com base na industrialização da região. Para os idealizadores dessa
política, certamente o que estaria em questão seria o enfrentamento às relações 
tidas como atrasadas na agricultura e a produção de uma “[...] larga ‘periferia’ 
onde predominam padrões não-capitalísticos de relações de produção, como 
forma e meio de sustentação e alimentação do crescimento dos setores estra-
tégicos nitidamente capitalistas [...] ” (OLIVEIRA, 2013, p. 69). Contudo, a 
superação desse tipo de relações seria como romper com a dependência da 
dependência, já que “[...] a integração ao mercado interno significa tornar a 
região que se integra ‘dependente’ da economia do Sudeste, isto é, as vantagens 
fenômenos do cangaceirismo e do messianismo vividos especialmente no Nordeste no fim do século XIX e 
na primeira metade do século XX. Outra figura que passa a compor a narrativa nacional sobre o Nordeste 
foi o “flagelo da seca”, expressão do fenômeno social da seca na região. Diante disso, para Nobre (2010, p. 
5-6), foram quatro principais as formas de enfrentamento às consequências das secas por parte do Estado: 
1) “Controlar os flagelos”, mantendo-os “isolados na periferia da cidade, em estruturas precárias de cercados
[...] e sob severa vigilância. [...] tais locais de contenção dos flagelos da seca passaram a ser chamados de 
‘campos de concentração’ [...] depositário de força de trabalho barata que era usada em obras públicas e de 
particulares.”.2) Estímulos a migrações para o trabalho nos cafezais do Centro-Sul, e na extração de látex nos 
seringais da Amazônia, recrutamento por parte de empreiteiras envolvidas na construção da transamazônica; 
3) Medidas de contenção das migrações do sertão para as cidades com a ‘criação de órgãos públicos voltados
para a chamada ‘solução hidráulica’. Esta consistia no direcionamento da força de trabalho dos retirantes da 
seca para a construção de açudes, através das chamadas ‘frentes de serviço’” (NOBRE, 2010, p. 7). Para 
Oliveira (1981, p. 55), esses episódios da história do Nordeste expressam formas típicas da acumulação 
primitiva do capital. Antigas instituições, como a Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS), de 1909, que 
passa a se chamar de Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), em 1945, representaram 
um “esforço racionalizador” por parte do Estado, avançando-se “muito no conhecimento físico do Nordeste 
semi-árido, de suas potencialidades e limites [...]. Não se avançou nada, porém, em termos do entendimento 
e desvendamento de sua estrutura socioeconômica [...]” (OLIVEIRA, 1981, p. 51). Em suma, acabaram por 
beneficiar proprietários rurais e o “controle político na distribuição de alimentos e vagas para o alistamento”, 
conformando a conhecida “indústria da seca”; 4) Criação de instituições voltadas para a assistência aos “flage-
lados” da seca. Estas tinham, no entanto, associação direta com a polícia, referendando a velha e necessária 
combinação entre repressão e assistência na garantia de hegemonia. Nobre (2010) apresenta como exemplo 
o Serviço de Socorro e Assistência às Vítimas da Seca (SSAVS) e o Serviço Social do Estado (SSE), além de
ações de combate a mendicância, de profissionalização e “higienização” da cidade. 
26
da industrialização desequilibram a economia ‘normal’ da região e impõem uma 
nova divisão do trabalho em função do Sudeste” (OLIVEIRA, 1977, p. 52). 
Por outro lado, esse desequilíbrio regional, expressando também con-
flito de classes, “[...] que aparece sob as roupagensde conflitos regionais [...] 
chegará a uma exacerbação cujo resultado mais imediato é a intervenção ‘pla-
nejada’ do Estado no Nordeste, ou a SUDENE” (OLIVEIRA, 1981, p. 113). 
Este órgão estatal foi um dos mais memoráveis desse tipo de intervenção no 
Nordeste e sua história representa exatamente o direcionamento hegemônico 
que as políticas dessa natureza tiveram no período desenvolvimentista.12
A intervenção planejada do Estado dá-se, portanto, através do desloca-
mento de “[...] esquemas de reprodução próprios da economia do Nordeste por 
outros que têm sua matriz noutro contexto de acumulação”. Desse modo, o “pla-
nejamento” age conduzindo a mais-valia captada pelo Estado através de imposto 
em capital a favor da “grande burguesia do Centro-Sul” (OLIVEIRA, 1981, 
p. 113). Ou, em outras palavras: “[...] o Estado descapitaliza a economia do
Nordeste em favor do centro da acumulação. Mesmo em 1953, quando se cria 
o Banco do Nordeste do Brasil [...], a intervenção do Estado fica muito aquém
de sua própria atuação num caso como o do BNDE [...]” (OLIVEIRA, 1981, p. 
94). Daí a importância do Estado na promoção da industrialização do Nordeste 
que, “[...] em si mesmo, é a síntese dialética dos processos de concentração e 
centralização do capital, que o promove” (OLIVEIRA, 1977, p. 3-4).
Isso significa que o custo da reprodução da força de trabalho continuará 
baixa mesmo com o aumento da produtividade; as mercadorias produzidas 
na região continuarão sofrendo a deterioração dos termos de troca, abaste-
cendo a nova classe assalariada urbana em ascensão especialmente no Sudeste 
e garantindo a oferta de recursos naturais à industrialização nacional em 
uma espécie de acumulação primitiva; que o enorme exército industrial de 
reserva continuará vivo legitimando relações de trabalho híbridas, monetárias 
12 É importante ressaltar que, ao contrário de muitas análises críticas à experiência da SUDENE, ela não pode 
ser resumida como uma “farsa”. A história dessa instituição foi marcada por ambiguidades e embates entre as 
forças e aspirações populares e aquelas do grande capital monopolista que procuravam socorrer os interesses 
das elites locais do “[...] velho Nordeste dos ‘coronéis’ e da burguesia açucareira, convocando as forças da 
burguesia internacional-associada e do imperialismo para liquidar as classes populares” (OLIVEIRA, 1981, p. 
15). Caso estas forças não tivessem ganho, certamente teríamos um outro Nordeste e um outro Brasil. De toda 
forma, há que considerar a SUDENE como “um empreendimento de uma audácia inédita na história nacional” 
(OLIVEIRA, 1981, p. 18) que de alguma forma enfrentou resistências, inclusive das “elites nordestinas temerosas 
da perda de privilégios” que atacavam a figura de Celso Furtado e viam sua defesa à reforma agrária como 
ameaçadora, abrindo margem para a subversão associada aos movimentos camponeses da época. (FUR-
TADO, 2009, p. 12).Mesmo com o teor progressista, com o objetivo de combater as desigualdades regionais 
e com a diversidade de opiniões e concepções em disputa em torno da SUDENE, ela acaba tornando-se “[...] 
um mecanismo de destruição acelerada da própria economia ‘regional’ nordestina, promovendo a expansão 
capitalista no Nordeste via hegemonia da burguesia do Centro-Sul expressa na tendência das empresas ou 
grupo de empresas que já são principais no Brasil serem principais no Nordeste” (OLIVEIRA, 1981, p. 113).
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 27
e não-monetárias, recompondo a divisão regional do trabalho e o complexo 
arcaico-moderno com um maior peso no Nordeste.
O empobrecimento da população trabalhadora nessa região, portanto, 
caminhou junto a extração da mais-valia extraordinária na ditadura do grande 
capital, fazendo com que o crescimento da taxa de expropriação tenha viabili-
zado o “milagre brasileiro”. Este quadro pode nos apresentar vários elementos 
consonantes e dissonantes com a particularidade do ciclo econômico e político 
do tempo presente.
A base e as circunstâncias objetivas das expressões da questão social 
no Nordeste, atravessadas pelo monopólio da terra, sinalizam a forma de 
ser capitalista não apenas da região, mas do país, que generalizou o modo 
de produção por meio da industrialização sem, no entanto, destituir-se do 
peso agrário-exportador mediante a superexploração da força de trabalho e a 
associação entre capital nacional e estrangeiro, obstaculizando brutalmente o 
crescimento das forças produtivas e o desenvolvimento com soberania nacio-
nal. Isto, ao contrário do que muitos atestaram (e continuam atestando) sob 
o invólucro da marcha do desenvolvimento e crescimento econômico, não
seria possível nos marcos do pleno desenvolvimento desigual e combinado 
capitalista em que o Brasil e suas regiões são partícipes. 
Não se trata, desse modo, de uma suposta ausência, deformação ou atraso 
desse desenvolvimento, mas de uma forma necessariamente particular de 
inserção. “Daí, por exemplo, o liberalismo das elites nacionais, numa ordem 
social acentuadamente patrimonial; ou o racismo, num país de mestiçagem 
intensa” (IANNI, 1965, p. 65). Em outras palavras, “[...] o Brasil de hoje, 
apesar de tudo de novo e propriamente contemporâneo […] ainda se acha 
intimamente entrelaçado com o seu passado” (PRADO JR., 1972, p. 18).
4. Considerações finais
Procuramos, aqui, dentre as diversas nuances no trato acerca da questão 
regional, delimitar nosso caminho a partir dos aspectos que constituem o 
método no qual nos orientamos:
Primeiro, a concepção de história atrelada substancialmente à perspec-
tiva de totalidade bem como de contradição, o que nos leva a romper com a 
ideia fragmentada de história, entre a vida comum dos indivíduos e os grandes 
acontecimentos da sociedade, bem como unilateral, negando o fazer histórico 
como uma simples sucessão de fatos ou de modos de vida predestinadamente 
estabelecidos. Neste sentido, o desenvolvimento social da humanidade não se 
apresenta, nem poderia, como inexorável. Na verdade, trata-se de entender que 
a ação humana sobre a história permite exatamente a combinação e a abertura de 
múltiplas possibilidades e determinantes sócio-históricos. Isto nos leva a entender 
28
que a questão regional, tal como trabalhamos ao decorrer deste texto, não diz 
respeito, em si, às diferenças naturalmente e geograficamente existentes entre 
as regiões. O mesmo desenvolvimento que integra regiões, as tornam desiguais.
Segundo, a consideração permanente da dialética entre o universal e o 
particular, o que faz com que tendências gerais capitalistas se reproduzam no 
particular como uma “[...] iluminação universal em que atuam todas as cores, e às 
quais modifica em sua particularidade [...] um éter especial, que determina o peso 
específico de todas as coisas às quais põe em relevo” (MARX, 2008, p. 264). Em 
outras palavras, “[...] no lugar da tradicional autossuficiência e do isolamento das 
nações surge uma circulação universal, uma interdependência geral entre os países. 
E isso tanto na produção material quanto na intelectual”. Trata-se da condição de 
existência e desenvolvimento do modo de produção capitalista: a universalização, 
a expansão mundial do capital como tendência, o que torna possível a burguesia 
criar um mundo “à sua imagem e semelhança” (MARX; ENGELS, [1848] 1998, 
p. 11-12). Isto, porém, sob uma combinação dialética de desigualdades de ritmo e
intensidade entre nível das forças produtivas ou formas de reprodução do capital 
e relações de produção presentes nos diferentes territórios e regiões. Assim:
A coexistência das duas regiões numa mesma economia tem consequências 
práticas de grande importância. Assim, o fluxo de mão-de-obra da região 
de mais baixa produtividade para a de mais alta, mesmo que não alcance 
grandes proporções relativas, tenderá a pressionar sobre o nível de salário 
desta última, impedindo que os mesmos acompanhem a elevação da pro-
dutividade. Essa baixa relativa do nível desalários traduz-se em melhora 
relativa da rentabilidade média dos capitais invertidos. Em consequência, 
os próprios capitais que se formam na região mais pobre tendem a emigrar 
para a mais rica (FURTADO, [1959] 2003, p. 248-249).
A concentração de riquezas e sua apropriação privada representam a socia-
lização do trabalho e a concentração, também territorial, da pobreza em regiões 
que vivem o fenômeno do pauperismo de forma mais latente, refletindo alte-
rações na composição interna da superpopulação relativa – sobretudo com o 
adensamento de “segmentos inferiores do proletariado, e deste para o lumpem-
proletariado” – e nas formas de extração de mais-valia (GUIMARÃES, 2008).
Esse modelo permite a diferenciação produtiva e de produtividade através 
da elevada exploração de trabalhadores com base na “[...] manutenção de bai-
xíssimos padrões do custo de reprodução da força de trabalho e, portanto, do 
nível de vida da massa trabalhadora rural” (OLIVEIRA, 2013, p. 45).
Esse complexo arcaico-moderno, dialeticamente pautado pelo desenvol-
vimento tardio e dependente, reflete-se, por exemplo, na prosperidade expressa 
entre os personagens do romance Menino de Engenho, de José Lins do Rego 
([1932] 2012, p. 233), diante da passagem do antigo engenho para a moderna 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 29
usina, onde “seiscentas toneladas de cana entravam nas suas esteiras e oito-
centos sacos de açúcar saíam de suas turbinas”, convivia com a realidade dos 
flagelos da seca. Realidade esta que passava cada vez mais a ter um contorno 
de fenômeno social tão bem retratado no romance O Quinze de Raquel de 
Queiroz, em 1930. O imperativo desse complexo incide sobre a divisão regional 
do trabalho, a configuração do Estado brasileiro e suas formas predominantes 
de enfrentamento a questão social na sua dimensão regional no contexto do 
capitalismo monopolista.
Assim, ao contrário da aparência, as regiões são e estão em movimento. Há, 
pois, por aqui, na história regional e nacional, vários “nordestes”. Nas palavras de 
Manuel Correia de Andrade (1984, p. 53), em meio ao desequilíbrio planejado, o 
Nordeste “[...] é muito mais um amálgama de regiões do que uma região”. Nessa 
perspectiva, se, por um lado, o Nordeste é reserva de acumulação primitiva do 
sistema global, também é, por outro lado, “[...] espaço onde se imbricam dialeti-
camente uma forma especial de reprodução do capital, e, por consequência uma 
forma especial da luta de classes [...]” (OLIVEIRA, 1981, p. 79).
Como podemos perceber, a questão regional, que é nacional, assim como 
a questão social, é insuprimível nos marcos da hegemonia capitalista, pois 
trata-se de uma economia que “[...] articula estruturas arcaicas e modernas, na 
qual essas últimas apresentam intenso crescimento ‘desordenado’ e se impõem 
às primeiras como centros hegemônicos da economia nacional” (FERNANDES, 
[1968] 2008, p. 79).
Não à toa que desde o Golpe de 2016 os vetores e números têm tomado 
outro contorno, especialmente para o Nordeste. Frente a isso, lembramos da 
sinalização feita por Coutinho (2011, p. 141-142) sobre como a crise da socie-
dade brasileira tem no Nordeste “cores mais vivas e intensas” em relação as 
demais regiões do país, condenando os que “lutavam por uma nova comunidade 
à solidão e à incompreensão”. E, ainda, enfatiza: “De certo modo, na medida em 
que aí as contradições eram mais ‘clássicas’ (no sentido de Marx), o Nordeste 
era a região mais típica do Brasil; a sua crise expressava, em toda a sua crueza, 
a crise do conjunto do país”.
O que nos resta, diante dos elementos apresentados até então, é seguirmos 
a nossa saga em recompor os fios que ligam o passado ao presente, consti-
tuindo a dialética arcaico-moderno, entre permanências e mudanças. Isso 
implicará tecermos, ainda, nessa colcha de retalhos, os fios que constituíram (e 
constituem) as “novidades” do nosso tempo. E é exatamente este tempo, desde 
o chão onde pisamos, que nos motiva a retomarmos a pergunta que intitula o
presente artigo: “Existirmos – a que será que se destina?”. E, assim, o ponto 
final encontra-se com o da partida dando mais um passo nesse caminho, cuja 
busca é a medida, tal como cantava Sérgio Ricardo.13
13 Referência à música Ponto de Partida do cantor e compositor brasileiro Sérgio Ricardo, composta em 1974.
30
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CAPÍTULO 2
A PARTICULARIDADE DE 
PERNAMBUCO NO ESTADO 
NOVO: transformações econômicas, 
questão social e lutas de classes
Zélia de Oliveira Gominho
Segundo Aníbal Fernandes, mocambos são “células de descontentamento”14
Toda época é impregnada de anseios e receios, já dizia Eugen Weber 
(1989, p. 10); e, na percepção de uma longa duração, a transição do século 
XIX para o XX não foi diferente, foi de muitas tensões. Desde meados do 
século XIX o capitalismo industrial vinha proporcionando riqueza, progresso, 
mudanças socioculturais e políticas; primeiramente na Europa, depois na 
América do Norte. O imperialismo neocolonial expandiu a exploração do 
capitalismo para o continente africano, América Latina e o Oriente; fez deles 
mercado de matérias-primas, de mão de obra barata e de consumidores.
Não há avanço sem custo. O liberalismo econômico justificou um pro-
cesso de acúmulo de capital, de culto ao progresso e defesa da propriedade 
privada, de estímulo ao individualismo, à competitividade e à meritocracia 
em prol de um desenvolvimento econômico que manteve a Grã-Bretanha por 
muito tempo na supremacia dos mares e das relações de força; entretanto, 
também fez o eixo do poder político-econômico se deslocar para os Esta-
dos Unidos, que se consolidaram como potência mundial. O progresso, no 
entanto, acontece em detrimento das condições de vida e trabalho das massas 
de camponeses, artesãos e proletários do mundo, que perdem referenciais de 
costumes, são desprovidos de seus recursos naturais e tradicionais de sobre-
vivência, restando-lhes apenas a força de trabalho para oferecer, e devendo 
se submeter a novas relações de produção e de convivência social.
A Primeira Grande Guerra (1914-1918) aconteceu motivada por questões 
territoriais, demandas econômicas, disputas imperialistas, que, a pretexto de 
nacionalismos, massacravam minorias étnicas consideradas entraves diante 
de poderosos interesses.
14 Duarte (1939, p. 2). 
34
O período pós Primeira Guerra foi um reerguer difícil para as nações 
europeias, territórios das batalhas homem a homem, e dos bombardeios. Além 
dos efeitos colaterais de um conflito de grandes proporções, ocorreram, no 
decorrer da guerra, mudanças geopolíticas importantes que iriam afetar as 
relações internacionais por muitas décadas: A Revolução Russa de 1917 fez 
surgir, em 1922, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a URSS, ou 
simplesmente União Soviética, um bloco comunista sob a égide ditatorial 
russa, com sede em Moscou. O pavor de que revoluções proletárias pipocas-
sem pelo mundo já era sentido desde que os escravos do Haiti tomaram o 
poder em 1804, inspirados nas bandeiras revolucionárias francesas. O ideário 
anarquista e socialista já vinha há tempos formando a consciência de classe dos 
proletários; e o Manifesto Comunista, panfleto elaborado por Marx e Engels 
direcionado à luta sindical e política, contribuiu para a formação da classe 
operária em oposição à burguesia, consequentemente de crítica e combate 
aos males do capitalismo.
O Brasil viveu essa transição de maneira um pouco diversa; embora 
também enfrentando conflitos político-sociais significativos. Em um pouco 
mais de seis décadas declarou sua independência (1822) – o único Império 
escravista das Américas –, aboliu, após 300 anos, o sistema escravista (1888) 
e, logo em seguida, proclamou-se uma república (1889). Contudo, a “vocação 
agrícola” ainda dominava a mentalidade da elite político-econômica brasileira; 
o processo de industrialização levou tempo para se aprumar e acompanhar
o desenvolvimento tecnológico europeu e norte-americano. O Brasil esteve
limitado, por interesses conservadores locais e estrangeiros, a ser mercado 
fornecedor de matéria-prima e consumidor de produtos importados. Além 
da indústria de beneficiamento de café e de algodão, as poucas fábricas exis-
tentes eram, em sua maioria, de produtos alimentícios e têxteis, localizadas, 
geralmente, nos centros dos espaços urbanos.
Entretanto, a imigração estrangeira, além de braços, capitais, e inves-
timentos, proporcionou também o intercâmbio de culturas, especialmente a 
cultura político-sindical. Desde o final do século XIX que os operários bra-
sileiros já se manifestavam, reivindicavam e faziam greves.
O fim do sistema escravista favoreceu a ocupação de periferias, morros e 
regiões ribeirinhas das cidades; lugares desprezados, ou ainda não valorizados 
pela elite político-econômica, tornavam-se espaço de moradia para ex-es-
cravos, retirantes da seca e expulsos do campo pelo latifúndio monocultor; 
gente trabalhadora que buscava nas capitais e cidades economicamente ativas 
possibilidades de ter uma vida melhor.
Recife, a capital de Pernambuco, foi um desses centros que aco-
lheu migrantes, que vinham de diversos lugares do Nordeste atraídos pela 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 35
oportunidade de trabalho no porto, no comércio, nas fábricas têxteis loca-
lizadas no centro (bairro de São José), nos bairros da Torre e Macaxeira, e 
nos municípios vizinhos de Paulista e Camaragibe; movimento percebido, 
especialmente, nos períodos mais intensos de seca no Sertão. O início da 
década de 1920 foi um dos períodos mais críticos; histórias que foram retra-
tadas pela literatura em obras como: O Quinze, de Raquel de Queiroz; Vidas 
Secas, de Graciliano Ramos; e os relatos poéticos de João Cabral de Melo 
Neto retratando o roteiro dos corumbas – os “flagelados da seca”– rumo à 
capital pernambucana: O Cão Sem Plumas (1949-1950), O Rio ou Relação 
da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife (1953) e 
Morte e Vida Severina: Auto de Natal Pernambucano (1954-55).
A elite brasileira era encantada com a Belle Époque francesa, com a 
arquitetura neoclássica, o urbanismo monumental de amplas avenidas, com 
o toque de modernidade da arte em ferro, com as novidades tecnológicas das
telecomunicações, motores e transportes: o telégrafo, o telefone, o cinema-
tógrafo, os automóveis, as linhas férreas etc. Acalentava-se o desejo de se 
reproduzira arquitetura e o urbanismo europeu, especialmente, nas principais 
capitais do Brasil: modernizar os espaços urbanos. Contudo, esse desejo de 
modernidade, de superar o aspecto provinciano, colonial, das cidades, não 
só em infraestrutura, mas nos serviços, lazer e hábitos sociais, geralmente, 
não se expressava, com o mesmo entusiasmo, em oferecer alternativas de 
moradia adequadas para a população mais humilde – não havia incentivos 
fiscais e políticas públicas efetivas nessa demanda; a motivação se restringia 
a interesses estéticos de europeização, em fazer da cidade um cartão de visitas 
para investidores, como também uma atração turística. É certo que alguns 
investidores particulares e algumas fábricas têxteis tomaram a iniciativa de 
erguer vilas operárias próximas ao local de trabalho, todavia, essas iniciativas 
apenas amenizavam a realidade de alguns, e, na verdade, buscavam se adequar 
ao padrão moderno europeu de indústria, no sentido de alcançar condições 
melhores de produtividade e de controle do operariado; a organização dos 
trabalhadores pelo patrão extrapolava o espaço restrito do interior da fábrica e 
interferia, muitas vezes, em sua vida cotidiana; a administração das empresas 
se posicionava cientificamente, especialmente fundamentada no taylorismo 
(1911) e no fordismo (1914).
O centro do Recife era um enovelado de becos e ruelas, com antigos 
sobrados servindo de moradia para muitas famílias, que viviam, comumente, 
em ambientes promíscuos e insalubres, de espaços restritos, os chamados 
cortiços. Nas primeiras décadas do século XX, iniciou-se um processo de 
demolição e alargamento das ruas e construção das avenidas do centro; par-
ticularmente, onde hoje é o bairro do Recife Antigo, e do outro lado do rio 
36
Capibaribe, os bairros de Santo Antônio e de São José. A abertura e construção 
das edificações da Avenida Guararapes, a ponte Duarte Coelho, e da Avenida 
Conde da Boa Vista foram realizadas na década de 1940. Na verdade, por 
muito tempo, o centro do Recife foi um campo de demolições; as construções 
modernas foram de fato acontecer com o incentivo fiscal e a mobilização 
política do prefeito Novais Filho (1937-1945) junto ao interventor Agamenon 
Magalhães e ao próprio Getúlio Vargas, que deu o aval para a construção do 
prédio dos Correios e dos Institutos de Aposentadorias e Pensões na atual Ave-
nida Guararapes – cujo nome seria 10 de novembro, mas houve um movimento 
pós-ditadura, de vereadores e grupos sociais, que rechaçou essa homenagem 
ao golpe do Estado Novo (GOMINHO, 2011, p. 239-246).
Na falta dos cortiços, a população pobre erguia mucambos à beira dos 
rios Capibaribe, Beberibe e Jiquiá (bairro de Afogados), onde podiam aterrar e 
erguer uma casa de taipa coberta de palha. Alguns sitiantes também construíam 
ou deixavam construir mocambos em suas terras em troca do pagamento do 
foro. Numa pasta de recortes de diversos jornais de 1938-1939, da Secretaria 
do Governo, do acervo do Arquivo Público do Estado Jordão Emerenciano, 
sem data nem identificação, intitulado O Inquérito sobre os mucambos do 
Recife, encontramos a seguinte avaliação:
O fato é que não tendo havido em Pernambuco uma “política de habita-
ção”, porque isso não interessava ao Estado Liberal, formou-se aqui uma 
“indústria do mucambo”, das mais rendosas. Basta dizer que o rendimento 
anual do mucambo de aluguel é de 55,60% do seu valor. Um prédio de 
alvenaria não dá 12%. Por isso é que no Recife há cerca de 20 mil prédios 
a mais do duplo de mucambos.
Se o valor médio de um mucambo é de pouco mais de 400 mil réis, é claro 
que mais vantajoso era construí-lo.
Enquanto isso na Europa, nos anos vinte, no pós-Grande Guerra, desen-
volviam-se intensos debates sobre urbanismo, profilaxia e higiene social. Uma 
dessas reuniões aconteceu em Genebra, em 1924, pela Repartição Interna-
cional do Trabalho sobre o problema da habitação proletária; e como resul-
tado dessa reunião recomendava-se a multiplicação de moradias econômicas, 
salubres e confortáveis aos operários,
[...] lembrava que era útil, tanto aos trabalhadores como à coletividade, 
assegurar o desenvolvimento harmonioso da família dos operários, e que 
o melhor meio de preservá-los contra os perigos, seria facultar-lhes um
lar conveniente (MELO, 1940, p. 33).
Os “perigos” a que se referiam os urbanistas, cientistas sociais e da 
saúde eram as ideologias anarquistas, comunistas, socialistas que, no entender 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 37
desses intelectuais, se alimentavam do descontentamento do povo diante das 
precárias condições de existência.
Médicos, engenheiros e educadores há muito tempo vinham discutindo 
e traçavam planos de estabelecer uma sociedade mais sã, em que a cidade, 
o centro urbano, fosse a expressão física e simbólica de uma modernidade.15
Com o progresso industrial e a migração crescente dos expulsos do campo 
para a cidade, o meio urbano era percebido como um ambiente desordenado, 
promíscuo, foco de doenças e de revoluções, um caos em oposição à vida 
idílica do campo.
Nas primeiras duas décadas do século XX o Brasil percebeu-se em situa-
ção semelhante à Europa; e, também, promoveu alguns congressos e encontros 
científicos em que ocorreram discussões sobre diversos assuntos relacionados 
à saúde, à moradia, à infância e à educação do povo brasileiro. Em alguns 
lugares até começaram a erguer vilas para atender à demanda dos operários, 
assim como se adequar às expectativas de um ideal de modernidade – no 
Recife, no bairro de Afogados, temos, por exemplo, a Vila Paz e Trabalho, 
erguida quando o médico sanitarista Amaury de Medeiros esteve à frente do 
Departamento de Saúde e Assistência de Pernambuco (1922-1926), um dos 
primeiros a enfrentar a problemática dos mocambos da cidade com a criação 
da Fundação Casa Operária. A Fundação também ergueu vilas operárias na 
Estrada do Arraial e no bairro da Torre, onde existia um cotonifício.
Contudo, foi nos anos trinta que políticas públicas mais efetivas come-
çaram a ser providenciadas acompanhadas de fiscalização e criação de órgãos 
administrativos que tratavam dos conflitos entre capital e trabalho, patrões e 
empregados: As Juntas de Conciliação e Julgamento (1932-1999), a Justiça do 
Trabalho (Constituição Federal de 1934 e 1946), e os Conselhos Regionais do 
Trabalho (1939).16 Medidas que tanto atendiam aos anseios dos trabalhadores, 
quanto às expectativas de controle social e produtividade dos industriais. O 
Estado brasileiro pós-1930 paulatinamente assumia a responsabilidade de 
cuidar, proteger e oferecer possibilidades de vida, estudo, trabalho e lazer para 
a família trabalhadora brasileira; no entanto, os limites entre o público e o 
privado podiam ser ignorados a pretexto do que poderia ser ou não nocivo para 
a sociedade, ou determinada comunidade, ou grupo social. Por fim, seguindo 
o projeto político-social de sanear e salvar o Brasil, as liberdades civis foram
sacrificadas em novembro de 1937 a título de proteger os brasileiros de si 
15 Para conhecer a experiência da Escola Nova, conferir Monarcha (1989).
16 As Juntas de Conciliação e Julgamento (JCJ) eram órgãos administrativos formados por juízes classistas 
representantes dos empregados e dos empresários e por um Juiz Presidente indicado pelo governo, em 
1999 foram retiradas do ordenamento jurídico e transformadas em Varas do Trabalho. A Justiça do Trabalho 
e os Conselhos Regionais do Trabalho se mantiveram na esfera administrativa, submetidos ao executivo, 
até a Constituição Federal de 1946, quando passaram a integrar o Poder Judiciário.
38
mesmos – a teoria da incompetência política, do não poder “ainda” viver 
numa democracia –, visto a alegada ameaça de comunistas (e dos integralistas 
também) assaltarem o poder.
Foi uma época em choque com os efeitos da quebra da Bolsa de Nova 
York, em 1929; o liberalismo era criticado, o protecionismo e intervencio-
nismo de Estado eram acionados num movimentode autopreservação do 
capitalismo e, junto com as prevenções econômicas, movimentos conserva-
dores e totalitários de extrema-direita ganharam terreno, correspondendo a 
uma ânsia de progresso material e de controle, perante a sensação de caos 
socioeconômico que assolava a maioria dos países, especialmente aqueles 
ressentidos com a derrota e perdas na Primeira Guerra Mundial: o nazifas-
cismo ameaçava o mundo.
No Brasil, os efeitos da crise de 1929 ainda carecem de estudos mais 
específicos, mas a economia agroexportadora brasileira sofreu seus abalos e 
isso repercutiu no equilíbrio do poder político entre cafeicultores e pecuaristas. 
Particularmente no Nordeste, a agroexportação do açúcar e do algodão foi 
atingida, primeiro, com a perda de espaço no mercado internacional, depois 
voltou-se para o mercado interno, mas enfrentando a concorrência da produção 
de São Paulo, além do desinteresse do Estado com a economia nordestina. 
A política dos Governadores, assim, já não atendia mais às expectativas dos 
coronéis; e novos segmentos sociais, especialmente ligados ao funcionalismo 
do Estado: militares, burocratas e intelectuais, muitos deles filhos de aristo-
cracia falida, começaram a se manifestar por uma nova ordem, por mudanças, 
pelo novo. E daí – não vamos entrar nos detalhes históricos – aconteceram 
o Movimento Tenentista (1922 e 1924), a Coluna Prestes (1925-1927) e o
Movimento político-militar de 1930. Nessa tomada de poder de 24 de outubro 
de 1930 houve a participação popular, as camadas populares acreditaram na 
possibilidade de mudança; a trajetória da Coluna Prestes pelo interior do Brasil 
colaborou para uma receptividade para possíveis alterações no governo e na 
vida das pessoas, estimulou esperanças – Luís Carlos Prestes foi chamado de 
Cavaleiro da Esperança –, de certa maneira criou condições que incentivaram 
o engajamento popular. O centro do Recife seria palco de conflitos, casas de
pessoas ligadas ao governo foram incendiadas, políticos importantes seguiram 
para o exílio. O Sr. José Valdomiro da Silva era criança quando estourou a 
“Revolução de Trinta” e assim se recorda da situação no Recife:
O que se falava naquela época era em política, era a revolução, era a morte 
de João Pessoa, que só depois de uns tempos pra cá é que a gente veio 
saber por que foi, que não era aquilo que contavam [...]
Na Encruzilhada então o gazeteiro do trem perguntou, disse: “Menino, o 
que é que você... De onde você veio?” Eu disse: “De Limoeiro”. Ele disse: 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 39
“Olhe, tá uma briga danada aí, tá ouvindo umas balas?” Eu disse: “Tô”, 
“Mas, vamos ver se o trem chega até o Brum, estação do Brum”. “É pra 
lá que eu vou, que minha mãe deve estar esperando”. Ele disse: “Tá não; 
ela não pode estar esperando com essa revolução toda [...] (MONTENE-
GRO, 1989, p. 58-59).
Em 1930 Vargas criaria o IAA – Instituto do Açúcar e do Álcool – que 
daria uma certa segurança aos usineiros nordestinos diante da concorrência, 
mas que não favoreceu um incremento, e, consequente, crescimento da indus-
trialização do setor açucareiro; e o endividamento dos usineiros na praça do 
Recife era grande. Por outro lado, a mudança do engenho banguê para usina, 
a mecanização e, em decorrência, a proletarização da mão de obra rural surtiu 
um impacto ambiental e social na zona da mata que repercutiram nas condi-
ções de vida e trabalho no Recife.17
Com o sucesso do Movimento de 1930, o primeiro interventor de Per-
nambuco foi o usineiro Carlos de Lima Cavalcanti; mas, além de discordar dos 
rumos que a revolução tomava, teve seu prestígio junto ao presidente Vargas 
minado pela personalidade de Agamenon Magalhães, sempre se colocando 
como o intermediário entre Pernambuco e o governo central. E como Lima 
Cavalcanti não concordou com o Golpe de 1937, foi afastado do poder e 
Agamenon assumiu como o novo interventor.
Não é à toa que 1930 é considerado um marco histórico na História do 
Brasil; como resultado do engajamento de diversos interesses socioeconômicos 
e políticos nas mudanças anunciadas pela dita “Revolução”: experimentou-se 
um breve período de vivência democrática, de 1930 a 1937. Experiência que 
demonstrou a pluralidade de perspectivas sobre como fazer o Brasil progredir; 
os candidatos considerados socialistas/ comunistas foram muito bem votados 
nos pleitos municipais em 1934; mas, devido a essa mesma pluralidade e a 
ausência de um desejado consenso, Getúlio Vargas opta por centralizar o 
poder, fechar o Congresso Nacional, proibir partidarismos, enfim, implantar a 
ditadura do Estado Novo (1937-1945), até que supostamente o povo estivesse 
preparado para um regime democrático.
Entretanto, uma das primeiras providências do governo “revolucioná-
rio” de 1930 foi criar os ministérios da Educação e Saúde e o do Trabalho. 
Já demonstrando a importância conferida a essas duas pastas para o sucesso 
do novo regime. Percebe-se na associação Educação e Saúde a preocupação 
flagrante da época entre higiene do corpo e do espírito; um plano de restabele-
cimento físico e moral do trabalhador brasileiro, no sentido de uma restauração 
nacional. Dizia Agamenon Magalhães, em 1938:
17 Sobre a economia pernambucana nesse período vide: Singer (1974, p. 271-345), Perruci (1978, p. 117-139) 
e Andrade (1986, p. 91-111).
40
[...] o Brasil não é o divórcio, nem as mulheres de pernas cruzadas, 
fumando nos cassinos. O Brasil não é o paganismo das praias. O Brasil é 
a família, o amor paterno, os filhos crescendo nos braços das mães, emba-
lados nos cânticos da religião e da pátria (MAGALHÃES, 1985, p. 175).
O conservadorismo dava o tom da cultura brasileira que devia preva-
lecer, ou, pelo menos, manter nas aparências da sociedade. O ideal burguês 
de família legalmente constituída, num lar mantido pelo homem, e em que a 
mulher vive para o lar e para os filhos, deveria ser também o ideal acalentado 
pelos proletários; e para realizar esse ideal o Estado se colocava à disposição 
para regularizar as uniões e lhe oferecer subsídios. Dizia o artigo 124º da 
Constituição Federal de 1937:
A família, constituída pelo casamento indissolúvel, está sobre a proteção 
especial do Estado. As famílias numerosas serão atribuídas compensações 
na proporção de seus encargos (BRASIL, 1937).
Em 1941 esse artigo seria regulamentado; além de simplificar o regis-
tro do casamento religioso, disponibilizava empréstimos a noivos, abono 
familiar e determinava sobre a instituição dos bens de família (MAGA-
LHÃES, 1985, 177). Tudo para facilitar a constituição legal de famílias.
Estudos e reportagens jornalísticas dos anos vinte e trinta revelavam que 
os trabalhadores urbanos viviam em condições habitacionais prejudiciais a 
sua saúde e a sua índole. As causas da imoralidade, desordem e revolta social 
eram localizadas na habitação insalubre e promíscua. Assim, em São Paulo, 
em 1931, no 1º Congresso Brasileiro de Habitação, engenheiros, arquitetos e 
sociólogos responsabilizaram a casa
[...] pela produção de comportamentos desviantes, como a prostituição e o 
crime, que revelam a baixa moralidade das populações pobres. Por isso, a 
questão da habitação popular constitui um entrave ao progresso econômico 
da nação, que necessita de trabalhadores fortes e sadios (RAGO, 1987, 
p. 193).
Em 1936 a Igreja Católica endossa essa percepção com a realização da I 
Semana de Ação Social no Rio de Janeiro. Um inquérito sobre as condições 
de vida e de trabalho das camadas populares, no sentido de buscar soluções, 
foi apresentado, e, como resultado das discussões, foram criados a Associação 
Lar Proletário e o Instituto de Educação Familiar e Social.
Na II Semana de Ação Social, em 1937, foi criada a Confederação Nacio-
nal dos Círculos Operários Católicos. Já o terceiro evento aconteceu, em 1939, 
no Recife, na Federação das Classes Trabalhadoras de Pernambuco, com 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional41
a participação de Agamenon Magalhães, e do então Ministro do Trabalho, 
Lindolfo Collor.
Inglaterra, Alemanha, Viena (Áustria) e França, que investiram em habi-
tação popular, serviam como modelos inspiradores. A sociologia da época 
acreditava que o meio determinava o indivíduo, sendo assim Estado e Igreja 
uniram suas forças para defender a família e o lar proletário dos “elementos 
de dissolução”: “egoísmo depravado, falso individualismo, divórcio, imora-
lidade, irreligião” (MARSAUD, 1937, p. 142). Acreditava-se que era preciso 
oferecer ambientes sadios, moradias higiênicas, com especial atenção à for-
mação das crianças.
Era preciso valorizar o sentido de “proprietário” para os proletários; 
torná-los “pequenos burgueses”:
Esse desejo de viver esse espírito burguês, esse elan de propriedade, o sen-
tido de uma vida sempre em ascensão, o gosto da casa, o sentimento cada 
vez mais vivo do direito de propriedade, são as forças morais que estão 
renovando a nossa paisagem social e humana (MAGALHÃES, 1985, 228).
A Igreja Católica, por seu lado, colaborava com o projeto de afastar 
os trabalhadores das más influências buscando argumentos nas orientações 
contidas nas encíclicas papais: Rerum Novarum, Divino Redemptoris e Qua-
dragéssimo Anno, entre outras. Dizia Milton de Pontes: “A era do mocambo 
vai terminar e as casas populares darão ao operário uma nova alegria de viver” 
(FOLHA DA MANHÃ, 22 jul. 1939).
O movimento da Ação Social Católica, contudo, não concordava com a 
posição do Estado de substituir a autoridade paterna; desse modo, criticavam, 
particularmente, os países comunistas. Entretanto, identificavam na “insufi-
ciência salarial”, no “salário desproporcional à família”, na “insuficiência de 
trabalho” e na “insuficiência de acomodação” as causas que interferiam na 
constituição do “lar ideal” (MAGALHÃES, 1985, p. 147-148). O Estado, por-
tanto, deveria favorecer a empregabilidade, a implementação de salários dig-
nos e fomentar condições de moradia e subsistência para todos trabalhadores.
Agamenon Magalhães, ao assumir a interventoria de Pernambuco, 
em 1937, prometeu realizar “a emoção do Estado Novo”.18 Foi um fiel repre-
sentante do regime e reproduziu aqui a política varguista. Uma das propostas 
do governo era oferecer habitação de qualidade para a grande massa de traba-
lhadores. Nesse intuito, Agamenon solicitou uma pesquisa sobre as condições 
habitacionais da capital pernambucana, e, em 1939, a Comissão Censitária 
dos Mocambos do Recife constatava a existência de 45.581 mocambos abri-
gando 164.837 pessoas numa população de 500 mil habitantes. Dos 39.953 
18 Folha da Manhã, 5 dez. 1937, p. 1.
42
chefes de família recenseados, cuja média de salário, mais outras rendas, era 
de 154$000, a maioria, 7.778 pessoas, exerciam atividades domésticas, ou 
seja: faxina, lavar, engomar, cozinhar, costurar etc. Na atividade doméstica é 
flagrante o predomínio do gênero feminino.
Da mulher, nessa época, se esperava que ela zelasse pela educação das 
crianças e pela harmonia familiar.19 O censo dos mocambos revelava a exis-
tência de 12.759 mulheres a mais do que homens moradores de mocambos 
no Recife.20 E visando atender às necessidades específicas dessas mulheres, 
a Liga Social Contra o Mocambo empreendeu a construção das vilas com 
equipamentos de uso coletivo de acordo com a atividade profissional que 
realizavam; assim, foram erguidas as vilas: das Lavadeiras, das Costureiras e 
das Cozinheiras – as duas primeiras com financiamento do Governo do Estado 
e a última custeada pelos Plantadores de Cana de Pernambuco.
A Liga Social Contra o Mocambo foi uma sociedade civil fundada, pelo 
próprio Agamenon Magalhães, em 12 de julho de 1939. Ela congregava diver-
sos segmentos socioeconômicos e do governo estadual e municipal, além de 
universitários, imprensa, classe artística e os próprios proletários, que forma-
vam comissões num verdadeiro mutirão para, segundo o artigo primeiro do 
seu estatuto: “[...] promover a extinção desse tipo de moradia e a incentivar 
a construção de casas populares, dotadas de condições higiênicas e de fácil 
aquisição” (FOLHA DA MANHÃ, 21 jul. 1939).
O empresariado local era anualmente cobrado pelo próprio Agamenon 
para contribuir monetariamente com a campanha. Os demais agiam na pro-
paganda, fazendo meetings (comícios), ajudando a captar recursos e terrenos; 
conscientizando, ou melhor, convencendo a população da necessidade de 
livrar o centro da cidade dos mocambos e de irem morar em bairros distantes 
do centro. A maioria das vilas foram construídas com recursos das caixas de 
aposentadorias e pensões de cada categoria profissional. Na verdade, a defasa-
gem habitacional não se limitava aos pobres, mas também era uma realidade 
da classe média. Já as vilas de autônomos, ou seja, de categorias diversas 
sem sindicato, eram bancadas com os recursos arrecadados pela Liga para 
esse fim. O Estado proibiu a construção e reforma de mocambos, e oferecia 
isenção de impostos e incentivos fiscais para o empresariado da construção 
civil no sentido de estimular o retorno de investimentos para Pernambuco 
no ramo das habitações populares; porque era costume desviar capitais do 
estado para investir em regiões consideradas mais nobres do país, como Rio 
de Janeiro e São Paulo. Mais tarde, a Liga Social Contra o Mucambo foi 
19 “É pela mãe particularmente que se operará tal educação, pela mãe, verdadeiro multiplicador que agirá 
sobre o meio familiar e as gerações de amanhã” (MARSAUD, 1937, p. 150).
20 Eram 45.838 homens e 58.597 mulheres maiores de 15 anos; 30.398 homens e 30.004 mulheres menores 
de 15 anos (MELO, 1939, p. 25).
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 43
transformado na autarquia Serviço Social Contra o Mocambo, e sobreviveu 
até a década de 1980.
A derrubada de mocambos nem sempre foi livre de conflitos. Houve 
excessos; por vezes, na emoção de um comício, partiam para derrubar algum 
mocambo na ausência do morador; situações que iam parar na delegacia. 
Assim como muita gente não teve acesso ao benefício de uma casa. Muitos 
receberam a passagem de volta para o interior, ou começaram a ocupar os 
morros de Casa Amarela. Pela iniciativa, Recife tornou-se atrativo para mui-
tos migrantes em busca de um lar; mas, no interior do estado também houve 
construção de vilas para trabalhadores de usinas.
E para morar nas vilas erguidas pela Liga Social Contra o Mocambo era 
preciso atender alguns critérios, a mulher deveria:
a) ser lavadeira/ costureira/ cozinheira profissional;
b) morar em mocambo;
c) possuir família numerosa;
d) esclarecer a situação civil;
e) possuir verificação médica da família.21
Todavia, na atividade “doméstica” estavam, muitas vezes, incluídas as mere-
trizes, que enfrentavam discriminações e repressões. Como já foi observado ante-
riormente, o Recife sofria intervenções urbanas há muito tempo, e nesse processo 
de remodelar a cidade, as meretrizes vinham se deslocando a ponto de provocar 
reclamações de moradores de ruas tradicionalmente familiares, como o bairro 
de São José (REVISTA Mauricéa, 1938, s/p). Considerando a predisposição do 
Estado e da Igreja em regularizar a condição civil dos chefes de família morado-
res de mocambos, é possível que meretrizes tenham conseguido se adequar aos 
critérios exigidos para obter uma casa nas vilas recém construídas, assim como 
podem ter sido orientadas pela “Educadora Familiar”, que recomendava:
[...] à mãe de família a restabelecer o orçamento familiar, recuperar-lhe-á 
coragem e confiança em si mesma, torna-la-á dona de casa à altura de 
sua missão, mãe de família ciosa das responsabilidades que lhe cabem 
(MARSAUD, 1937, p. 150).
A figura da “Educadora Familiar”, ou as “visitadoras de higiene” de 
Amaury de Medeiros, surgiram na década de vinte, de branco com chapéus 
de abas largas presos com laços de cetim preto, na intenção de ajudar as 
21 As condições d e e começaram a ser exigidas com a Vila das Costureiras.Nessa ocasião, duas famílias, 
num total de 35, foram afastadas por estarem tuberculosas. Quanto ao regime civil, foi observado que das 
153 cozinheiras apenas 15 eram casadas no civil e no religioso, 19 no civil, 17 no religioso, 42 viúvas e o 
restante abandonadas vivendo ou não com amante (RELATÓRIO da Liga, 1941, p. 09-10).
44
famílias nos cuidados com as crianças (OLIVEIRA, 1975, p. 46-49), porque 
o índice de mortalidade infantil, nas décadas de 1930 e 1940, era muito alto;
a maioria morria de gastroenterite, devido à má qualidade do leite de vaca, e 
de desnutrição. As mães não faziam pré-natal. Tifo, febre amarela e tubercu-
lose eram doenças muito comuns na época. O médico, sociólogo e geógrafo 
Josué de Castro relatava bem as condições de vida de operários e das camadas 
populares em crônicas que publicou em jornais e ensaios entre 1932 e 1937, 
período que trabalhou como médico em fábricas do Recife (CASTRO, 1965).
Em 1936, durante a I Semana de Ação Social [católica], a Dona Darcy 
Vargas, como presidente da Legião Brasileira de Assistência, LBA, criou 
o Instituto de Educação Familiar e Social, que formava assistentes sociais
técnicas, profissionais que passaram a colaborar no processo de reeducação e 
cuidados da saúde das camadas populares. Em 1938 o Estado Novo instituiu 
o Serviço Social como modalidade de serviço público; assim, ao trabalho da
“Educadora Familiar” e da “Visitadora de Higiene” acrescenta-se a figura da 
Assistente Social22, que, num trabalho conjunto com religiosos e leigos, ofe-
reciam apoio e orientações às mães para que permanecessem no lar cuidando 
dos futuros cidadãos do Brasil; o curioso é que eram mulheres que trabalhavam 
fora que, contraditoriamente, estimulavam o inverso.
O trabalho dessas profissionais e desses grupos de apoio, que se faziam 
presentes nos Centros Educativos Operários e nos Círculos Operários Cató-
licos, era importante para promover e manter a salubridade das novas vilas 
erguidas pela campanha contra os mocambos, e no sentido de se evitar: a 
proliferação de doenças infectocontagiosas, o aumento do número de mulhe-
res chefes de família, e consequentemente, de menores abandonados, pois se 
acreditava que a causa do abandono estava no regime de mancebia. Garan-
tia-se, assim, “[...] a casa própria à família legalmente constituída” (MEDEI-
ROS, 1995, p. 57-58).
A casa devia representar um ambiente seguro e tranquilo para o tra-
balhador, deveria lhe sugerir permanência em troca de frequentar lugares 
viciosos como bares e botequins. As moradias deveriam ter espaço livre para 
um jardim, e quem sabe uma horta para cultivar, e para a construção de um 
anexo, uma ampliação da habitação. A venda era à prestação, valores módicos 
suportáveis para o trabalhador, de doze a quinze cruzeiros, incluindo água e 
luz; e com isenção de impostos por quinze anos.
Além de oferecer a tão sonhada casa própria para o trabalhador bra-
sileiro, o governo se propunha a melhorar suas condições de saúde, de 
22 Em 1938, pelo Decreto-lei nº 525, foi “[...] instituída a organização social do Serviço Social enquanto 
modalidade de serviço público, através do Conselho Nacional de Serviço Social, junto ao ministério da 
Educação e Saúde.” e “Pelo Decreto-lei n. 4830 de 15. 10. 1942, a LBA [Legião Brasileira de Assistência] 
é reconhecida como órgão de colaboração com o Estado no tocante aos serviços de assistência social” 
(MEDEIROS, 1995. p. 57-58).
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 45
educação, formação profissional e de lazer. Nesse sentido, os Centros Edu-
cativos Operários, localizados nas vilas e mais tarde denominados Centros 
Sociais Urbanos (CSU), e os Círculos Operários Católicos, proporciona-
vam atendimento médico-dentário, cursos profissionalizantes e de arte, e 
atividades de lazer dito saudável, como: apresentações de teatro, música, 
jogos e projeção de filmes. A peça Mocambo, Comédia Social em 3 Atos, de 
Valdemar de Oliveira e Filgueira Filho, encenada pelo grupo Gente Nossa, 
por exemplo, foi exibida nos Centros Educativos para operários e no Tea-
tro Santa Isabel para o empresariado local, tanto serviu para conscientizar 
da importância da campanha contra os mocambos e edificação de vilas 
populares, quanto para melhorar as relações capital-trabalho, no sentido de 
respeito e aplicação das leis trabalhistas.
A preocupação com a eugenia do povo brasileiro, ou melhor, com o seu 
estado nutricional, no sentido de melhorar as condições físicas dos trabalhadores 
para alcançar uma melhor produtividade, fez o governo exigir, em 1939, que nas 
fábricas com mais de quinhentos funcionários fosse construído um refeitório. 
E, em 1940, o Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários, a pedido 
do Ministério do Trabalho, ofereceu um plano de ação para melhorar os hábitos 
alimentares dos trabalhadores: o Serviço de Alimentação da Previdência Social, 
SAPS (1940-967); cujo primeiro diretor foi Josué de Castro, devido aos seus 
estudos sobre a relação entre doenças, mortalidade e a fome. O SAPS instalou 
restaurantes e forneceu alimentos a empresas, contudo, apesar de Josué de 
Castro ser pernambucano, esse serviço demorou a acontecer no Recife, algo 
que ficou mais restrito ao eixo Rio de Janeiro-São Paulo.23 Mas, nesse mesmo 
período, a sociedade recifense se mobilizou para ajudar a construir o Refeitório 
das Moças Empregadas no Comércio, que possuía até estatuto.
Mantinha-se uma relação entre habitar bem e educar; estimular a ativi-
dade produtiva, combater o ócio, “até pela violência se for preciso”.24 Porque, 
para Agamenon Magalhães:
Todo cidadão tem o dever de trabalhar. Todo homem deve ser econômico 
e espiritualmente útil. Quem não quiser trabalhar deve ser reeducado pelo 
Estado nos estabelecimentos correcionais (MAGALHÃES, 1940).
E, nesse sentido, além do apoio de entidades civis e religiosas, para 
promover a reeducação do operariado brasileiro existia um departamento 
23 Na época que abordei o SAPS em minha dissertação (GOMINHO, 1998), e até mesmo brevemente na tese 
(GOMINHO, 2011), não havia trabalhos sobre esse órgão. Agora, já é possível encontrar alguns artigos e 
anais da Associação Nacional de História (ANPUH), e até o livro de Evangelista (2014).
24 Em Orientação para as Administrações Municipais (Boletim, 1940), Agamenon esboça a intenção de criar 
colônias ao redor das cidades (de granja, horticultura, criação), que serviriam como áreas de abastecimento 
e ocupariam os “malandros, preguiçosos, inúteis” que perambulavam pelas ruas “sem nada fazer”.
46
policial chamado Ação de Vigilância contra a Falsa Mendicância e Vagabun-
dagem, cujo chefe em 1943 era o Sr. Jorge Guedes. No dia primeiro de julho 
deste mesmo ano de 1943, por exemplo, o jornal Folha da Manhã noticiava a 
apreensão, numa ação de repressão à mendicância, pelo delegado José Fran-
cisco, de diversos indivíduos que fingiam invalidez pelo centro da cidade. E 
além do DOPS, Delegacia de Ordem Política e Social (1924-1983), do DIP, 
Departamento de Imprensa e Propaganda, e do DEIP, Departamento do Estado 
de Imprensa e Propaganda, que exerciam a censura, o controle e a repressão 
de indivíduos e grupos associados, existia também a Diretoria de Reeducação 
e Assistência Social, criada por Milton de Pontes, que deveria “orientar, coor-
denar ou instituir serviços sociais para a população do município do Recife”, 
no sentido de “intensificar o desenvolvimento moral, social e econômico da 
cidade, assegurando-lhes um padrão de vida de nível mais elevado” (FOLHA 
DA MANHÃ, 15 dez. 1937, p. 1); o Estado empreendia, assim, por meio dos 
Centros Educativos Operários, a reeducação anticomunista.
Num contexto de guerra, o apelo patriótico se intensificava, e, se por um 
lado o período da ditadura Vargas foi um período difícil para exercer a liber-
dade, por outro foi também de muita criatividade. A cultura, as artes, embora 
sob severa censura, e sendo muitas vezes obrigada a tratar de determinados 
temas,foi muito produtiva e marcou época. Em junho de 1938, ainda no início 
da ditadura, Agamenon Magalhães, assim definia o Estado Novo:
É uma democracia autoritária corporativa. O indivíduo atua no Estado 
Brasileiro, colaborando com o governo, como cidadão, na Câmara Política, 
e como produtor, no Conselho de Economia Nacional. O governo central é 
forte, dentro da Federação, perdendo os estados em autonomia os poderes 
e franquias, que forem necessários para fortalecer a nação (FOLHA DA 
MANHÃ, 1º jun. 1938).
Parece estranho e contraditório uma ditadura se compreender como uma 
democracia; se entendemos democracia como o “o governo do povo”, ou o 
“poder da maioria”. Contudo, observamos na Era Vargas uma representação 
popular no governo sem precedentes no Brasil. O voto censitário, o voto de 
cabresto e a repressão policial haviam mantido as camadas populares alija-
das da participação política desde a Primeira República. Em São Paulo, nas 
décadas 1920 e 1930 aconteceram movimentos de resistência e de luta dos 
operários buscando se inserir nos embates do espaço político institucional; 
e no Recife a chapa Trabalhador Ocupa o Teu Posto concorreu e venceu ao 
pleito municipal de 1934 pela legenda União Operária e Camponesa do Par-
tido Comunista do Brasil. Mas, o movimento de 1935, que a história oficial 
alcunhou de Intentona Comunista, justificou a não diplomação dos vereadores 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 47
eleitos. Então, tudo mudou; e a liberdade foi substituída pela tutela, devido 
à dificuldade do novo governo em lidar com o dissenso, com os partidaris-
mos. O fascismo estava presente no governo e o endurecimento do regime 
correspondia a essas influências. O Brasil mantinha, na época, boas relações 
comerciais com a Alemanha, e culturalmente se percebia uma admiração 
flagrante nos jornais e na literatura; no entanto, a guerra e os Estados Unidos 
exigiram uma definição de Vargas, contudo, a neutralidade foi protelada ao 
máximo; todavia, sob pressão interna e externa, o Brasil iniciou sua partici-
pação na guerra em 1942.
A guerra também serviu para fortalecer os ideais de patriotismo e fomen-
tar as atividades econômicas a título de “esforço de guerra”, assim como a 
presença norte-americana em território brasileiro favoreceu novos hábitos e 
interesses, particularmente no Recife e em Natal, onde foram instaladas as 
bases militares dos aliados.
A Era Vargas, por sua vez, inaugurou uma relação diferenciada com as 
camadas populares. Ocorreu uma inclusão controlada de setores organizados 
no governo, os sindicatos estavam submetidos ao Estado, mas os veículos de 
comunicação (jornais, rádio e noticiário nos cinemas) e os eventos públicos se 
dirigiam direta e, especialmente, para o povo, que era identificado de maneira 
valorativa como os “Trabalhadores do Brasil”. Essa atenção do Estado com 
as camadas populares visava disciplinar os rumos da revolução; manifestar 
empatia foi estratégia que muitos cientistas sociais avaliariam como uma 
prática populista, todavia, atendia às expectativas imediatas dos proletários 
do Brasil. Quando da redemocratização em 1945, o povo sentiu receio de 
perder os direitos que havia conquistado, temia o retorno dos velhos políticos 
de outrora, que agora se anunciavam como democráticos. O povo brasileiro 
teve que reconquistar, ou melhor, construir sua autonomia política. Vargas 
e Agamenon marcaram a história do Brasil e de Pernambuco, e, apesar das 
prisões e truculências contra os adversários, e do fato que as casas construídas 
foram insuficientes para a demanda, em 1950 voltaram ao poder pelo voto.
48
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tribuição ao Estudo da Questão Agrária no Nordeste. São Paulo: Atlas, 5. 
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50
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CAPÍTULO 3
CAPITALISMO, ESTADO E POLÍTICA 
SOCIAL NO BRASIL DOS ANOS 1950
Adilson Aquino Silveira Júnior
1. Introdução
Esse texto aborda as tendências da formação do capitalismo no Brasil 
dos anos 1950, em suas relações com as mudanças da dominação imperialista. 
Pretende identificar os reflexos de tais tendências no plano da intervenção 
estatal e da política social na década. Assumindo a perspectiva de totalidade 
da concepção teórico-metodológica marxiana, o estudo recorre a fontes biblio-
gráficas para apreender o quadro da particularidade em questão. O período 
abordado é entendido como um intervalo de transição na estrutura econômica 
capitalista no país, que passa, progressivamente, a adensar a intervenção estatal 
voltadapara subsidiar a acumulação de capital. Essa transição, que caminha 
para a dominação da realidade dos monopólios, é condicionada pelo avanço 
da dominação externa, centrada na ascensão do poder norte-americano no 
sistema imperialista, e pelo acirramento das lutas de classes no plano interna-
cional e nacional. Em termos da política social no Brasil, a principal tendência 
manifesta-se nas mudanças estritamente setoriais e isoladas, observadas entre 
o final da Segunda Guerra e a entrada do ciclo ditatorial de 1964.
Buscamos apreender as determinações do desenvolvimento capitalista, do 
Estado e da política social no Brasil dos anos 1950, segundo quatro níveis de 
abstração: o estágio de transição na estrutura econômica capitalista que preside 
esse período; as modalidades de intervenção estatal em correspondência com as 
modificações na estrutura das classes sociais; a dinâmica das relações internacio-
nais que afetam as características da dominação externa e das lutas de classes; 
e as tendências das políticas sociais erigidas sob esses condicionamentos.
2. Época de transição na estrutura econômica capitalista
A década de 1950 abriga a fronteira entre duas fases da evolução interna 
do capitalismo no Brasil. Nela, a época de expansão e formação do capitalismo 
52
competitivo cedia lugar ao momento de irrupção do capitalismo monopolista. 
Em fins dessa década, acentua-se a reorganização do mercado e do sistema de 
produção, através das operações comerciais, financeiras e industriais da grande 
corporação (FERNANDES, 1976). Reorganização que adquire um caráter 
estrutural do decorrer do ciclo ditatorial aberto em 1964, consolidando, entre 
nós, a época do “imperialismo total”25 (FERNANDES, 1975, p. 18). Em fins 
dos anos 1950, essa irrupção da fase dos monopólios se coloca na sequência 
das transformações sociais e políticas já desdobradas pela consolidação da 
economia urbano-comercial e a importante transição industrial do período 
que então se encerrava. Ocorre um surto industrial de grande peso, pois afeta 
a produção de bens de produção, num cenário em que se desencadeia uma 
forma de intervencionismo econômico estatal caracterizado pela saturação de 
certas funções de sustentação ou de reforço do desenvolvimento capitalista, 
mediante empresas públicas (ou semipúblicas); um período do qual, em seu 
início, a Petrobrás (1953) e a Companhia Siderúrgica Nacional (1946) são as 
duas realizações de maior vulto e significação (FERNANDES, 1976). 
Do ponto de vista da afirmação do estágio monopolista na realidade capi-
talista no Brasil, os anos 1950 abrigam – diz Fernandes (1976) – uma segunda 
tendência dessa irrupção, quando a emergência e irradiação dessa realidade 
concorrem a partir de dentro. Antes, o relacionamento da economia brasi-
leira com a expansão monopolista ocorria com uma exploração segmentada 
das grandes corporações, com suas influências se diluindo num capitalismo 
competitivo em expansão e diferenciação, e só excepcionalmente logrando 
um controle econômico como monopólio real. Na fase aberta pela segunda 
tendência, a partir da década de 1950, “[...] a economia brasileira já não 
concorre, apenas, para intensificar o crescimento do capitalismo monopolista 
no exterior: ela se incorpora a esse crescimento, aparecendo daí em diante, 
como um de seus polos dinâmicos na periferia” (FERNANDES, 1976, p. 299). 
Não obstante, diz Fernandes (1976), esses ainda são anos em que as grandes 
corporações apenas contam com o espaço econômico que elas próprias conse-
guiam abrir, numa economia dependente, mas em fase de transição industrial 
relativamente madura. Só com o desenlace do regime de 1964, elas consegui-
ram contar com uma política econômica que convergia ação governamental 
e vontade empresarial. Do ponto de vista da “decisão interna” da iniciativa 
privada e do Estado de permitir, facilitar e acelerar a irrupção monopolista, 
como uma transição estrutural e histórica, os anos 1950 encontram-se também 
25 Para Fernandes (1975, p. 18), o “[...] traço específico do imperialismo total consiste no fato de que ele 
organiza a dominação externa a partir de dentro e em todos os níveis da ordem social, desde o controle da 
natalidade, a comunicação de massa e o consumo de massa, até a educação, a transplantação maciça de 
tecnologia ou de instituições sociais, a modernização da infra e da superestrutura, os expedientes financeiros 
ou do capital, o eixo vital da política nacional etc.” 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 53
num capítulo avançado desse processo, mas não no conclusivo: “A ‘decisão 
interna’ cristaliza-se aos poucos, depois da Revolução de 1930; fixa-se de 
maneira vacilante, a princípio, em favor do ‘impulso externo’ como a ‘única 
solução’ no fim da década de 1950, e, por fim, quando surge a oportunidade 
crucial (o que se dá só de 1964 em diante), ela se converte no principal dínamo 
político do processo” (FERNANDES, 1976, p. 302). 
Do ponto de vista dos padrões de acumulação capitalista internamente 
operantes, Mello (1991) também localiza na década de 1950 um momento 
transitório: a passagem da “industrialização restringida” para a “industria-
lização pesada”. Ele detecta que entre 1933-1955 existiu a regência de um 
processo de “industrialização restringida”. Nela, embora a dinâmica da acumu-
lação se assente na expansão industrial, a mesma encontrava-se constrangida, 
posto que as “[...] bases técnicas e financeiras da acumulação são insuficientes 
para que se implante, num golpe, o núcleo fundamental da indústria de bens de 
produção [...]” (MELLO, 1991, p. 110). Entre 1956-1961, por sua vez, desen-
cadeia-se um processo de “industrialização pesada”, um tipo de desenvolvi-
mento que “[...] implicou um crescimento acelerado da capacidade produtiva 
do setor de bens de produção e do setor de bens duráveis de consumo antes 
de qualquer expansão previsível de seus mercados” (MELLO, 1991, p. 117). 
Uma expansão (cuja fase de depressão ocupou os anos de 1962-1967) apoiada 
no Estado e num novo capital estrangeiro (empresa oligopólica estrangeira), 
que se transfere na forma de capital produtivo. A “industrialização pesada”, 
por outro lado, promoveu uma forte expansão do capital industrial nacional, 
situada no setor produtor de bens de consumo para assalariados. 
3. Intervencionismo estatal, acumulação
de capital e estrutura de classes
A década é marcada – principalmente com Getúlio Vargas (1951-1954) e 
Juscelino Kubitschek (1956-1961) – por uma reorientação das relações entre o 
Estado e a economia, quando o poder político governamental passa a desem-
penhar funções mais ativas e diferentes, no sistema econômico-financeiro do 
país, voltadas a aceleração do desenvolvimento industrial (IANNI, 1977). 
Durante o governo Vargas (1951-1954), não apenas surgiram órgãos destina-
dos a favorecer o desenvolvimento econômico, também se realizaram estudos 
técnico-científicos sobre os problemas econômicos brasileiros, aprofundou-se 
o debate técnico e político sobre as perspectivas abertas à expansão da econo-
mia nacional, ampliou-se a discussão a propósito do planejamento econômico 
e da adoção de políticas econômicas planificadas por parte do governo e 
dos setores governamentais, cujos exemplos são detalhados em Ianni (1977, 
54
p. 116-117, p. 122). Mesmo assim, aí estava em curso a progressiva inter-
nacionalização do processo de reprodução e acumulação de capital, regida 
pela política de alianças e absorções entre investidores estrangeiros, capital 
nacional e aparelho estatal.
No governo seguinte, de Juscelino Kubitschek (1956-1961), o poder 
público passou a atuar no sistema econômico recorrendo a todos os recur-
sos disponíveis, imbuído em acelerar o desenvolvimento, particularmente a 
industrialização, e impulsionar o setor privado nacional e estrangeiro – donde 
a iniciativa, não apenas do Programa de Metas, mas da Superintendência 
do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), da Operação Pan-Americana(OPA) e a construção de Brasília. A política econômica, com esse grau de 
planificação, produziu um amplo surto de internacionalização da economia 
brasileira. Para Ianni (1977), foi principalmente o Programa de Metas que 
implicou numa mudança qualitativa na figura e nos papéis do Estado, através 
da adoção de uma política econômica de associação e interdependência, em 
âmbito internacional. Uma estratégia política de desenvolvimento que tinha 
como componente a reelaboração da dependência estrutural da economia 
brasileira, afastando-se da inspiração na ideia de emancipação e autonomia 
propalada anteriormente. Algo que expressou uma etapa importante de hiper-
trofia do Estado, acrescendo novas dimensões ao Poder Executivo, ilustradas 
por Ianni (1997, p. 178). A intervenção do Estado na industrialização se arti-
culou a tal ponto que “[...] o poder público fora transformado no mais impor-
tante centro de decisões e realizações (econômicas, financeiras, cambiais etc.) 
indispensáveis ao funcionamento e ao desenvolvimento do setor privado.” 
(IANNI, 1977, p. 181). Ou seja: “[...] a privatização, a internacionalização e 
a hipertrofia do Executivo encontravam-se e conjugavam-se numa ditadura 
disfarçada da burguesia industrial” (IANNI, 1977, p. 181). 
A empresa privada passou a exigir um novo padrão de direção e de ges-
tão, mais racionalizado e profissionalizado – donde uma especialização do 
trabalho crescentemente complexa e orgânica ao capital industrial, levando 
a ascensão e valorização de figuras como o engenheiro, o administrador de 
empresas, o economista, o atuário, o profissional da publicidade e propaganda, 
se especializando as funções de gerência, dentre outros. Algo correlato ao 
que acontece no aparelho de regulação e intervenção econômica, no setor 
produtivo estatal, no campo social (em especial na educação, saúde e previ-
dência), constituindo-se espaço para uma alta burocracia de diretores, gerentes, 
chefes, assessores, encarregados da gestão das empresas públicas industriais 
e financeiras. Dizem Mello e Novais (1998, p. 595): “Ao mesmo tempo, na 
administração governamental, a figura do técnico vai ganhando mais vulto. Ao 
lado dos que desempenham funções tradicionais do Estado [...] ganham impor-
tância os especialistas em administração de pessoal, financeira, tributária, de 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 55
comércio exterior, do sistema de saúde, ou de educação etc.” Esses requisitos 
de profissionalização, tecnificação e racionalização das atividades de gestão 
e controle da vida social e produtiva – concomitante ao impacto que a con-
centração e centralização da lógica monopolista implica na sobrevivência de 
amplos setores da pequena burguesia – impeliu essas frações de classe para 
a aparelhagem produtiva e estatal: “As famílias de classe média procuraram, 
assim, utilizar todas estas oportunidades de ascensão social, abertas tanto 
pela expansão da grande empresa privada ou estatal quanto pela ampliação 
da administração pública” (MELLO; NOVAIS, 1998, p. 595). Por isso, o 
incremento na demanda de vagas nos mais altos planos na educação insti-
tucional: “[...] a exigência de qualificação fundada na educação superior – a 
começar pelo concurso público exigido pelos governos – impõe-se de modo 
crescente.” (MELLO; NOVAIS, 1998, p. 596). 
Em suma, a consolidação da sociedade urbano-industrial no Brasil 
galvanizou alterações nas demandas sociais para o ensino superior. E tais 
demandas resultaram de fatores como o crescimento da população urbana, a 
industrialização e a monopolização, a recondução das expectativas de ascen-
são social da pequena burguesia, a redefinição do papel da mulher no âmbito 
extradoméstico, a elevação dos requisitos educacionais para preenchimento 
dos cargos nas burocracias públicas e privadas. Porém, tais demandas cresciam 
sem que operasse uma mudança qualitativa na oferta e estruturação do ensino 
superior, fundada nas tradicionais Escolas Superiores (ou na conglomeração 
delas), restritas no acesso, unifuncionais, rígidas, desvinculadas da produção 
científica criadora e atrelada aos interesses de dinamização capitalista – no 
máximo, observa-se, nos anos 1950, uma atuação do governo federal no 
sentido de reconhecimento das Escolas, a padronização da formação e o reco-
nhecimento legal das profissões. Contradições que se expressaram em finais 
de 1950 com a crise universitária: a falta de realização social dos diplomados 
foi um dos principais motivos que levaram ao acirramento da insatisfação das 
classes médias expresso no movimento pela reforma universitária – o que, 
consequentemente, contribuiu para o incremento do movimento estudantil 
(CUNHA, 1988; ROMANELLI, 1991).
4. Dominação externa e lutas de classes
No plano da dominação externa, portanto, a década apresenta a conso-
lidação das tendências de afirmação do imperialismo norte-americano, que 
impõe econômica e politicamente a internacionalização da economia brasi-
leira. Aí localiza-se o principal do capital estrangeiro que se associa com o 
Estado para levar a efeito a afirmação da realidade dos monopólios no Brasil, 
propalada sob o signo do desenvolvimentismo. Conforme Mandel (1985), o 
56
apelo à ideologia do desenvolvimento na realidade do capitalismo dependente 
é um reflexo de uma alteração na estrutura do capital monopolista nos países 
imperialistas. Após depressão de 1929, e especialmente depois da Segunda 
Guerra Mundial, o padrão das indústrias exportadoras imperialistas deslocou-
-se progressivamente para máquinas, veículos e bens de capital; diferencian-
do-se da tendência de exportações em termos de bens de consumo, carvão 
e aço vigentes no século XIX e início do século XX. Diz Mandel (1985, p. 
43) que “[...] a exportação cada vez maior de capital fixo resulta no interesse
crescente dos maiores grupos monopolistas por uma industrialização incipiente 
do Terceiro Mundo: afinal não é possível vender máquinas aos países semi-
coloniais, se eles não têm permissão para utilizá-las”. Arremata o autor: “Em 
última análise, é esse fato [...] que constitui a raiz básica de toda a ‘ideologia 
do desenvolvimento’ que tem sido promovida no Terceiro Mundo pelas classes 
dominantes dos países metropolitanos” (MANDEL, 1985, p. 43). 
No caso no Brasil, essa modalidade de inserção subordinada na divisão 
internacional do trabalho ocorreu pela reelaboração das suas relações econô-
micas, políticas e militares com os Estados Unidos; ou, mais precisamente, o 
aprofundamento dessas relações (FERNANDES, 1976; IANNI, 1977). Para 
Ianni (1977), essa tendência, em finais de 1940, já se expressava em inúme-
ras iniciativas: a participação, em 1947, do Governo Dutra na Conferência 
Interamericana para a Manutenção da Paz e da Segurança no Continente, 
ocasião em que se elabora o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca 
(TIAR); o envolvimento, do mesmo governo, em 1948, na elaboração da 
Carta da Organização dos Estados Americanos, com o fito de intensificar a 
solidariedade e a cooperação das Américas, segundo as exigências da Guerra 
Fria; o início dos trabalhos, em 1948, da Comissão Mista Brasil-Estados Uni-
dos, com a finalidade de realizar estudos, formular projetos e fomentar sua 
execução, com ajuda financeira das empresas e governo norte-americanos.26 
Dessa sequência de episódios da afirmação de canais da política internacional, 
fazem parte, ainda, o estabelecimento do Acordo Ponto IV, a partir de 1950, 
e a intervenção, de maior consistência, promovida pela Aliança Para o Pro-
gresso na década seguinte (pela mediação da Agência dos Estados Unidos 
para o Desenvolvimento Internacional – USAID). Diz Ianni (1977) que após 
o sucesso do Plano Marshall, dos experimentos com a Doutrina Truman e
do término da Guerra da Coreia, o capitalismo norte-americano demandava 
novas fronteiras de expansão, além do aprofundamento dos seus desenvolvi-
mentos em áreas em que já se encontrava instalado: “Nesse sentido é quese 
26 Mesmo o início dos trabalhos da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), em Santiago, no 
ano de 1948, ocorre sob esse signo: marcada pela indiferença da maioria dos governos dos países latino-
-americanos e a hostilidade dos empresários e do governo dos EUA (IANNI, 1977). 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 57
pode dizer que a Doutrina Truman e o Ponto Quatro fazem parte do mesmo 
movimento histórico que produz a Missão Abbink e o Programa de Metas” 
(IANNI, 1977, p. 143). 
Na medida em que avançava a década, o surto industrializante, apoiado na 
internacionalização da economia e na superexploração do trabalho, acumulou 
dois amplos campos de conflitos políticos entre o proletariado e o campesinato, 
de um lado, e a oligarquia fundiária e a burguesia industrial, de outro. De uma 
parte, a densificação do proletariado industrial, atrelada a corrosão do poder 
de compra do salário e o encarecimento do custo de vida, levou a tensões 
grevistas e sindicais no ambiente urbano. Vieira (1983, p. 26) sinaliza para a 
expressividade que adquirem os movimentos grevistas, inclusive com reper-
cussão nacional, a partir de 1953, em São Paulo e no Rio de Janeiro – donde a 
emblemática greve de 400 mil operários no Estado de São Paulo, em outubro 
de 1957.27 De outra parte, a mecanização do campo, com a perpetuação das 
formas pré-capitalistas de exploração, ocasiona um acúmulo de tensão que 
desponta com a força das Ligas Camponesas no Nordeste. Funcionando na 
forma de associações de camponeses na luta pela terra e a Reforma Agrária, 
as Ligas multiplicaram-se pelo Nordeste após meados de 1950, expandindo-se 
também para Minas Gerais e Rio de Janeiro (PAGE, 1972). 
No cenário latino-americano, principalmente no final da década, perce-
bem-se lutas anti-imperialistas e nacionalistas cuja expressão modelar foi a 
Revolução Cubana. Fernandes (1976, p. 296-297) afirma que, em seguida a 
crise de 1929, antes e depois da Segunda Guerra Mundial, vários fatores con-
tribuíram para modificar substancialmente a relação das grandes corporações 
com as economias periféricas: aquelas passavam a competir fortemente entre 
si pelo controle da expansão induzida destas economias. No plano político, 
surgiu uma impulsão fundamental aos processos de neocolonização típico 
do capitalismo monopolista. O fim do conflito bélico encontrou um cenário 
político numa evolução de tensões em vários continentes, dos quais os mais 
cruciais foram a Revolução Iugoslava, o advento das democracias populares, a 
Revolução Chinesa e a Revolução Cubana. Diz Fernandes (1976, p. 297) que 
nessa situação, o controle da periferia passava a ser vital: “[...] não só porque 
as economias centrais precisam de suas matérias primas e dos seus dinamismos 
27 Braga (2012) indica que as reivindicações dos anos 1950 destacaram-se por suas pautas defensivas, foca-
das em aumentos salariais, pelo congelamento de preços dos meios de subsistência, por medidas contra 
a carestia e o desemprego. Por outro lado, se fez sentir uma marcante presença da ação das bases, tanto 
na organização quanto na sustentação dos movimentos grevistas. Diz Braga (2012, p. 80-81): “Começando 
com a ‘Greve dos 300 mil’, de 26 de março de 1953, passando pela greve geral de 2 de setembro de 1954, 
até chegarmos à ‘Greve dos 400 mil’, entre os dias 15 e 24 de outubro de 1957, uma combinação entre 
luta contra a carestia e flagrante mobilização operária nas bases paralisou as fábricas, levando milhares 
de trabalhadores aos comícios e às passeatas dos ‘direitos democráticos’, aumento geral dos salários, 
aplicação do salário mínimo e congelamento de preços”. 
58
econômicos, para continuarem a crescer, mas também porque nela se achava 
o último espaço histórico disponível para a expansão do capitalismo”.
Em todo esse processo de mudança econômica, política e social dos 
anos 1950, o desenvolvimento capitalista perpetuou os traços típicos que ele 
encarna nas nações tidas como periféricas e heteronômicas, enfrentados como 
uma condição estrutural permanente. Ou seja, nenhuma das mudanças em curso 
chegou a impor: 1º) a ruptura com a associação dependente, em relação aos 
centros hegemônicos da dominação imperialista; 2º) a desagregação completa 
do antigo regime e de suas sequelas, ou seja, das formas pré-capitalistas de 
produção, troca e circulação; 3º) a superação de estados relativos de subde-
senvolvimento, próprios a satelização imperialista da economia interna e à 
extrema concentração social e regional resultante da riqueza. Ou seja, mante-
ve-se nos limites do “circuito fechado” da “dominação imperialista externa” e 
do “desenvolvimento desigual interno” (FERNANDES, 1976). De modo que 
prevaleciam, na entrada dos anos 1960, a dominância da produção agropecuária 
em relação à indústria; a troca internacional baseada no predomínio das impor-
tações de máquinas, equipamentos, veículos e acessórios, contrastando com a 
ampla concentração na exportação de gêneros agrícolas ou correlatos (café, 
cacau, madeira, açúcar e minério de ferro); a maior penetração e controle nas 
relações econômicas pelos monopólios estrangeiros, a ingerência da política 
norte-americana e das organizações internacionais sob sua tutela; a restrição 
da proteção trabalhista e social num estreito circuito de trabalhadores formais 
urbanos, frente às condições sub-humanas de vastas camadas de camponeses, 
trabalhadores informais, e do exército de desempregados ou subocupados. 
5. As mudanças setoriais e isoladas na política social
Em relação às políticas sociais, o lapso temporal que vai do fim do Estado 
Novo ao Golpe de abril de 1964 não informa inovações de relevo. Excetuando-
-se os presidentes da linha sucessória que assumiram entre 1954-1955 após a 
morte de Vargas, entre 1946 e 1961, foram três presidentes diretamente eleitos: 
Dutra (1946-1951), Vargas (1951-1954) do segundo governo e Kubitschek 
(1956-1961). Encerram esse ciclo os governos de Jânio Quadros (jan.-ago. 
1961) e João Goulart (1961-1964). Em todos os casos, as mudanças no plano 
das políticas sociais assumiram um estrito caráter setorial, identificadas em 
aspectos isolados (VIEIRA, 1983). Mesmo no encerramento do governo de 
João Goulart, considerando toda essa quadra iniciada após 1945, a pesquisa de 
Vieira (1983, p. 178) conclui: “Não houve lugar para mudanças amplas, que 
tocassem as bases da política social.” O autor verifica, assim, que as mudan-
ças na política social no Brasil ocorreram apenas com caráter setorial, e em 
aspectos isolados – donde as transformações de maior relevo, centralizadas 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 59
na expansão quantitativa, apresentaram-se como um subproduto do surto de 
industrialização e urbanização.
Com efeito, os raros estudos abrangentes dedicados ao tema – dos quais 
se extrai informações sobre os anos 1950 – sinalizam para um quadro marcado 
por certa paralisia na política social entre o fim do Estado Novo e o início do 
regime de 1964, e no qual a expansão existente ocorreu de forma lenta e sele-
tiva, basicamente reiterando o formato corporativista e fragmentado erigido 
no estágio anterior (BOSCHETTI; BEHRING, 2006). Assim arremata Santos 
(1979, p. 80), por exemplo: “Apesar das objeções às práticas e instituições her-
dadas do Estado Novo, bem pouca coisa, se alguma, será alterada no período 
que vige até 1964”. Afirma o autor que a resposta do poder público às contra-
dições econômicas e políticas acumuladas nos anos 195028, inclusive durante o 
governo João Goulart, foi, na melhor das hipóteses, pobre. Ou seja: “A mesma 
expansão da cidadania, via regulação das ocupações, e, a partir daí, o mesmo 
comportamento ora conciliatório, ora repressivo, em termos salariais” (SAN-
TOS, 1979, p. 81). O estudo de Santos (1979, p. 81) resume em poucas linhas 
as inovações do campo distributivo compensatório, ocorridas nesse intervalo: 
À parte o inegável progressoconsubstanciado na vitória da burocracia 
estatal contra a oligarquia sindical em torno na uniformização dos servi-
ços previdenciários, alcançado através da Lei Orgânica da Previdência 
Social, apenas a instituição do salário-família, em 1963, e que se inscreve 
na linha de expansão do escopo da previdência, característico de todos os 
sistemas, nada mais existe para ser notado. O Estatuto do Trabalhador 
Rural, promulgado em 1963, na realidade evidencia apenas o uso sim-
bólico da política social na exata medida em que, por trás dos objetivos 
solenes do Estatuto, nada se esclarecia quanto às formas de financiamento 
do programa pretendido.
Da mesma forma, o estudo de Draibe (1993, p. 12) traça uma periodiza-
ção da proteção social no Brasil que identifica o estágio 1943-1964 como de 
expansão fragmentada e seletiva. Um interregno entre a fase de introdução 
28 Sobre essas contradições, assim fala Santos (1979, p. 80-81): “As taxas de crescimento 
econômico, de urbanização e de inflação, durante a década de 50, apenas intensificarão 
as disputas cujo desenho já se esboçara após a derrocada do Estado Novo. O crescimento 
industrial introduzirá distorções cada vez maiores entre os benefícios previdenciários des-
tinados às diversas categorias ocupacionais, reforçando o poder burocrático das distintas 
oligarquias sindicais, o que, finalmente, conduzirá, por um lado, a cristalizar suas posições 
de reivindicação crescente, na esfera da acumulação, e de reacionarismo e corrupção, na 
esfera distributiva compensatória. Ao mesmo tempo, os novos grupos sociais urbanos, e 
os velhos grupos sociais rurais, aproveitando o ambiente político semicompetitivo, iniciam 
movimentos reivindicatórios, independentemente de seu reconhecimento cívico-profissional. 
São as ligas camponesas, no Nordeste, e as explosões de violência urbana, no Centro-Sul, 
que sinalizam os limites da democracia regulada então vigente.” 
60
(1930-1943) e de consolidação (1964-1977) da proteção social, no qual sucin-
tamente se localizam as seguintes inovações pontuais, em cada área principal, 
e com menos concentração na década de 1950: na previdência, a unificação das 
Caixas de Pensões dos ferroviários (1953) e a aprovação da Lei Orgânica da 
Previdência Social (1960); na assistência social e programas de alimentação 
e nutrição, o Programa de Alimentação de Gestantes e Programa de Alimen-
tação Escolar (anos 1950) e a criação da Fundação de Bem-Estar do Menor 
– FUNABEM (1964); na saúde, a criação do Ministério da Saúde (1953) e do
Departamento Nacional de Endemias Rurais (1956); na educação, a criação do 
Ministério de Educação (1953) e a aprovação da Lei de Diretrizes de Bases da 
Educação Nacional e do Conselho Federal de Educação (1961); na habitação, 
a criação da Fundação da Casa Popular (1946) e do Sistema Financeiro da 
Habitação – Banco Nacional de Habitação (1964); e no trabalho, a Consoli-
dação das Leis Trabalhistas (1943), o Repouso Semanal Remunerado (1949), 
a Gratificação de Natal (1962) e o Salário-Família (1963). 
Na consideração panorâmica das duas décadas que se seguem após a 
queda do Estado Novo, é nos 1950 onde concentra-se o período mais escasso 
em termos de inovações legais e institucionais da política social – numa 
quadra, acrescente-se, cuja tônica já é de relativa paralisia, ou de expansão 
lenta e seletiva. Mesmo o estudo mais detalhado de Vieira (1983) conclui 
que o segundo governo Vargas (1951-1954) legou apenas medidas puramente 
setoriais para a Previdência e Assistência Social, bem como para a Habitação 
Popular. E acrescenta: “Inexiste na segunda administração de Vargas qualquer 
preocupação com transformações globais, que atinjam a essência da política 
social. Encontram-se, ao contrário, decisões particulares para cada questão 
crucial, acaso surgida nas várias áreas daquela política” (VIEIRA, 1983, p. 
52-53, p. 63). Por sua vez, ao término da administração juscelinista (1956-
1961), Vieira (1983) constata que pouco também havia mudado na organi-
zação responsável pela aplicação política social. Com efeito, tratava-se de 
um campo de intervenção marginal no conjunto daquela gestão, centralizada 
pelas medidas de aceleração da industrialização – até mesmo nos discursos 
de governo tal desatenção ficava patente. O fim da década de 1950 deixou 
evidente que apenas manteve-se, no geral, aquilo herdado dos governos ante-
riores. Prevalecia uma série de decisões setoriais na Educação, na Saúde 
Pública, na Habitação Popular, na Previdência Social e na Assistência Social 
(VIEIRA, 1983, p. 119). Um período no qual apenas se destacam, embora 
já na passagem para a década seguinte, a promulgação da Lei Orgânica de 
Previdência Social e sua regulamentação, e os embates da Campanha em 
Defesa da Escola Pública, nas disputas pela elaboração do projeto da Lei de 
Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 61
Na Educação, a década explicita (I) a ausência de modificações políti-
co-institucionais estruturais; (II) uma oscilação na esfera orçamentária, com 
anêmica ampliação dos gastos públicos na área; (III) um crescimento adjetivo 
das matrículas; e (IV) a perpetuação do caráter profundamente excludente 
do ensino. As modificações nas estruturas político-institucionais apenas apa-
recem como possibilidade, no interior dos embates em torno na fixação das 
Diretrizes e Bases da Educação Nacional, com destaque para a Campanha 
em Defesa da Escola Pública, no final da década e início da seguinte – e no 
qual os setores tradicionais e privatistas conseguem impor seus interesses na 
política educacional (VIEIRA, 1983). 
No âmbito da Saúde Pública operou uma continuidade da intervenção 
de cunho sanitário, alargando-se as medidas de prevenção e assistência, atra-
vés das grandes campanhas, nas quais se destacavam o combate à doença de 
Chagas, malária, febre amarela, peste, verminoses, tracoma e bouba, doenças 
venéreas, tuberculose, lepra e o câncer. Seus resultados implicaram, no caso 
do combate à tuberculose, em aparelhamento de vários sanatórios, construção 
de novas clínicas especializadas e a fundação do Instituto Nacional do Bacil-
lus Calmette-Guérin (BCG). Outras providências que aparecem associadas 
às campanhas são: a educação sanitária, por meio do Serviço Nacional de 
Educação Sanitária; a fiscalização e profilaxia dos portos e dos aeroportos, 
através do Serviço de Saúde dos Portos; e de proteção à maternidade e à 
infância, sob o patrocínio do Fundo Internacional de Socorro à Infância (FISI) 
operacionalizado pelo Departamento Nacional da Criança (DNCr) e suas 
instâncias regionais. Com isso, na primeira metade da década manifestou-se 
um expressivo crescimento das despesas federais com Saúde Pública, e pra-
ticamente a manutenção dessas mesmas despesas nos orçamentos dos estados 
e municípios. Relação que se inverte nos anos seguintes, com redução dos 
gastos federais e aumentos nos estados e municípios. Sem provocar mudanças 
qualitativas no estado bárbaro de indigência social expresso no alto geral de 
mortalidade infantil e baixa expectativa de vida, as ações da Saúde Pública 
levaram a um impacto na redução da mortalidade infantil e no menor peso das 
doenças infecciosas e parasitárias nas causas de mortes. Aos quais se somam 
os êxitos relativos da Campanha Nacional Contra a Tuberculose, da luta contra 
a malária e a doença de Chagas. Todos os impactos positivos concentrados, 
mais amplamente, nas regiões Sul e Sudeste (VIEIRA, 1983). 
A Previdência Social permaneceu centrada no atendimento individual 
do trabalhador urbano formal, e no vínculo corporativo e setorial, através 
dos Institutos de Aposentadorias e Pensões e das Caixas de Aposentadorias 
e Pensões – dos quais permaneciam de fora a massa de trabalhadores rurais, 
os empregados domésticos, os profissionais liberais e os autônomos, além 
62
de, por princípio, afastar igualmente os funcionários públicos e militares, 
possuidores deestatuto próprio. Mesmo com o aumento irrisório das ver-
bas do governo federal com essas organizações, houve um crescimento 
razoável da Previdência Social na década, implicando na elevação no 
número total de contribuintes e no valor médio dos benefícios. O fato 
de que recorrentemente o governo federal não pagasse as quotas devidas 
à Previdência Social (acumulando um grande débito com as Caixas e 
Institutos) e de que existisse a dívida também dos empregadores, signifi-
cava que, em última instância, ela era sustentada pelas contribuições dos 
trabalhadores, que sofriam descontos em seus salários – além dos impos-
tos sobre as mercadorias e serviços consumidos. Esses débitos e dívidas 
colocaram os órgãos da previdência em situação precaríssima ao final da 
década. Das mudanças, destacam-se apenas os crescimentos havidos no 
setor de benefícios, de assistência médica e de arrecadação em cada um 
dos Institutos e Caixas, com realizações em geral vinculadas a ampliação e 
reaparelhamento de ambulatórios e hospitais, ou, mais raramente, abertura 
de novos equipamentos (VIEIRA, 1983). 
Na primeira metade da década, ganham destaques os projetos de elabo-
ração da Lei Orgânica da Previdência Social, a reestruturação do Departa-
mento Nacional da Previdência Social, o aprimoramento dos seus técnicos, 
e a intenção de total integração das Carteiras de Acidentes do Trabalho nas 
instituições da Previdência Social. Uma mudança efetiva se expressou com 
o novo Regulamento Geral dos Institutos de Aposentadorias e Pensões apro-
vado em 1954, através do qual os Institutos passavam a oferecer assistência 
médica aos seus contribuintes (e familiares). Além disso, o Regulamento 
abria a possibilidade das aposentadorias e pensões, em certas circunstâncias, 
chegarem ao valor integral dos salários do empregado. Na passagem para a 
década seguinte, a Lei Orgânica da Previdência Social é sancionada e imedia-
tamente regulamentada, impelida pela pretensão de restringir a participação 
governamental na manutenção das atividades previdenciárias, liquidando os 
débitos e diminuindo os novos investimentos.29 Ela acabou com a diversidade 
de documentos orientadores das instituições previdenciárias, uniformizando 
a legislação da área. Porém sem incorporar ainda os trabalhadores rurais, 
omitindo uma posição clara do seguro por acidentes de trabalho, mantendo 
a contribuição tríplice e igual entre os representantes dos três tipos de con-
tribuintes e postergando parte dos seus antigos objetivos (universalização, 
uniformização e a unificação), apenas determinando a uniformização dos 
benefícios aos segurados (VIEIRA, 1983). 
29 Diz Vieira (19883, p. 125): “O governo federal saiu aliviado com a Lei Orgânica, pois se obrigava apenas 
a arcar com os eventuais desequilíbrios orçamentários no campo da Previdência Social. Imagine só: nem 
isto a União cumpriu, pondo em má situação financeira as instituições previdenciárias.” 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 63
Na Assistência Social, a atuação continuou centrada no Serviço de Ali-
mentação da Previdência Social (SAPS), nas ações da Legião Brasileira da 
Assistência (LBA), do Serviço Social da Indústria (SESI) e do Serviço Social 
do Comércio (SESC), além da expansão do “abono familiar”. E as subven-
ções da administração para essas entidades públicas e semipúblicas, além das 
particulares, obteve um exíguo aumento na década de 1950, refletindo numa 
expansão de suas unidades, serviços e benefícios, mesmo que com impacto 
irrisório e paliativo nas condições de vida dos assistidos. E a Habitação Popu-
lar aparecia como uma linha da Previdência Social, fazendo-se com que os 
Institutos e Caixas construíssem casas para vender aos seus beneficiários, e 
não apenas alugá-las, através das suas carteiras imobiliárias. O alívio da falta 
generalizada de residências era alcançado também através da atuação da Fun-
dação da Casa Popular. Em todos os casos, o impacto das novas moradias não 
subverteu o quadro crescente de degradação urbana expresso, por exemplo, 
no inchaço das favelas, do déficit habitacional, nos contrastes das condições 
de moradia que se avolumavam (VIEIRA, 1983). 
6. Considerações finais
Os anos 1950 abrigam metamorfoses na estrutura econômica no país, 
reflexo das novas modalidades de sua inserção subordinada na divisão inter-
nacional do trabalho e no sistema imperialista. A essas modificações na base 
social, correspondem deslocamentos nos padrões de intervenção estatal no 
desenvolvimento do capitalismo internamente, e a germinação de conflitos 
políticos de grande significado para o desenlace da dominação do grande capital 
soldada pelo ciclo ditatorial de 1964. É sob esta base – configuradora de um 
intervalo histórico marcado por uma relativa paralisia nas políticas sociais – que 
se desencadeiam os processos de busca pela “atualização” por parte do Serviço 
Social, cujo desenlace apenas adquire seus contornos definitivos na resultante 
do processo de renovação dado no ciclo ditatorial. Os deslocamentos do Ser-
viço Social na década em tela também comportam as dissonâncias e os ritmos 
desiguais que marcam as particularidades regionais, fundadas no desenvolvi-
mento desigual interno do capitalismo no Brasil numa época de transição. E 
que revelam os traços singulares do Serviço Social em Pernambuco. 
64
REFERÊNCIAS
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São Paulo: Boitempo, 2012. 
BEHRING, Elaine Rossetti; BOSCHETTI, Ivanete. Política Social: funda-
mentos e história. São Paulo: Cortez, 2006.
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mações recentes. Proyecto Regional de Reformas de Política Pública CEPAL/
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Rio de Janeiro: Editora Record, 1972.
ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da educação no Brasil. 13. ed. 
Petrópolis: Vozes, 1991. 
SANTOS, Wanderley Guilherme. Cidadania e justiça. Rio de Janeiro: 
Campus, 1979.
VIEIRA, Evaldo. Estado e Miséria Social no Brasil: de Getúlio a Geisel. 4. ed. 
São Paulo: Vozes, 1983.
CAPÍTULO 4
 A EMERGÊNCIA DO SERVIÇO SOCIAL 
EM PERNAMBUCO NOS ANOS 1940
Adilson Aquino Silveira Júnior
1. Introdução
Esse texto aborda as características da emergência do Serviço Social em 
Pernambuco. Parte da hipótese de que tal processo consome toda a década 
de 1940. Disso resulta uma de suas particularidades: ele nasce dinamizado já por 
alguns vetores que marcam o estágio de “erosão do Serviço Social ‘tradicional’ 
no Brasil” (NETTO, 2004, p. 136). As notas históricas que seguem enfocam os 
aspectos que definem o caráter embrionário do Serviço Social em Pernambuco 
nos anos 1940, segundo as variáveis relativas à formação e corpo profissional, 
institucionalização e espaços ocupacionais. O material empírico que permitiu 
a referida caracterização, e a formulação da hipótese diretriz aqui sustentada, 
diz respeito aos documentos da antiga Escola de Serviço Social de Pernambuco 
(ESSPE) e as monografias desenvolvidas pelas alunas dessainstituição entre os 
anos 1940-1960, além das evidências informadas em pesquisas e artigos que 
se debruçaram sobre essa realidade (BERNARDES, 2006; GOMES, 1987; 
VIEIRA, 1992; PADILHA, 2008; UFPE, 1985). Apesar de desenvolvermos 
apenas um esforço inicial de reconstrução historiográfica, a concepção de tota-
lidade da perspectiva marxiana preside a apreensão das tendências históricas 
evidenciadas. As quais buscam ser particularizadas sob a luz das indicações 
teórico-metodológicas fornecidas pela literatura do Serviço Social vinculada 
à tradição marxista, em especial Abreu (2008), Iamamoto e Carvalho (2005), 
Iamamoto (2004, 2006, 2010), Netto (2004, 2005, 1996). 
Embora imbuído em fornecer elementos empíricos e hipóteses sobre uma 
realidade regional, esse trabalho pretende ser um contributo na tarefa – ainda 
por fazer – de elaboração de abordagens abrangentes, inclusivas, do Serviço 
Social no Brasil – com suas tendências gerais, mas igualmente dinamizada 
por aspectos de desenvolvimento desigual. Na literatura profissional, ainda 
permanece o quadro sinalizado por Netto (2016, p. 56): “[...] carecemos [...] de 
uma história (de histórias) do Serviço Social no Brasil que nos ofereça(m), com 
rigor e precisão possíveis, o inteiro processo dos seus 80 anos que em 2016 se 
comemoram”. Com efeito, o ponto de partida é o rico trabalho de Iamamoto 
66
e Carvalho (2005), que – ainda na avaliação de Netto (2016, p. 55) – “[...] 
permanece, até hoje, enquanto empreendimento de análise histórica, sem conti-
nuidade entre nós”. Inobstante isso, tal trabalho comporta seus próprios limites 
de reconstrução histórica do Serviço Social no Brasil, dos quais dois são mais 
evidentes. O primeiro, e mais óbvio, diz respeito a suas fronteiras temporais: 
ele acompanha o desenvolvimento da profissão apenas até a década de 1960, 
fornecendo indicações sinóticas sobre as décadas seguintes nas suas conside-
rações finais. Em segundo lugar, o material empírico e os aspectos da realidade 
praticamente estão centrados nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, os 
quais comportam tendências que não podem ser diretamente transplantadas para 
outras realidades regionais. Essa lacuna nos interessa em particular, posto que o 
estudo do Serviço Social em Pernambuco nos anos 1940 pode contribuir para 
explicitar os ritmos desiguais e a diferenciação interna do evolver da profissão, 
efetivamente presentes desde sua gênese no país. Esperamos que o esforço 
de delimitação necessário para a exposição do tema não tenha implicado em 
qualquer nuance de abordagem particularista. O interesse propriamente é de 
colaborar com insumos para apreensão das particularidades do Serviço Social no 
Brasil. De modo que esse texto supõe e demanda uma articulação com aquelas 
pesquisas mais abrangentes já realizadas30, das quais nossas remissões aqui não 
puderam deixar de ser apenas indicativas.
De partida, colocamos como hipótese uma periodização para o desenvol-
vimento do Serviço Social em Pernambuco que, mesmo de modo aproximado, 
localiza no decorrer da década de 1940 o estágio que marca sua emergência, nos 
anos 1950 o período onde se alcançam os principais requisitos da sua profissio-
nalização, e, do próximo decênio em diante, a época de sua consolidação – cuja 
afirmação ganha lastro quanto mais se desdobram as circunstâncias econômicas, 
institucionais e políticas dos anos 1970. A diferenciação entre tais estágios não 
supõe uma leitura esquemática – seja qualquer espécie de “etapismo” evolucio-
nista ou visão teleológica – da história do Serviço Social no estado. Com efeito, 
os processos da sua emergência, profissionalização e consolidação constituem 
uma unidade dinâmica, ricamente forjada por interações recíprocas. Tal diferen-
ciação se justifica porque a própria realidade comporta – no seio mesmo dessa 
dialética unitária e movente – uma combinação de determinações estruturadora 
de momentos predominantes, que se diferenciam no curso de um desenvolvi-
mento cumulativo. Assim, a diferenciação dos referidos estágios, para apreender 
a história do Serviço Social em Pernambuco, apenas pretende reproduzir, com 
máxima aproximação possível, o movimento que preside essa realidade. 
Utilizamos como suposto – dado pela literatura crítica existente – o fato 
de que essa atividade profissional assalariada encontra-se respaldada por sua 
30 Apenas para apontar as mais citadas: Abreu (2008); Carvalho (1980), Iamamoto (2004, 2006, 2010); Iama-
moto e Carvalho (2005); Netto (2004, 2005, 1996). 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 67
funcionalidade no espectro da divisão social (e técnica) do trabalho na socie-
dade burguesa consolidada e madura; diga-se, na ordem monopólica que cria 
e funda sua profissionalidade (NETTO, 2004, 2005; IAMAMOTO; CARVA-
LHO, 2005). O Serviço Social intervém nos mecanismos elementares de pre-
servação e controle da força de trabalho e, concomitantemente, nos “serviços” 
acionados pelo Estado para reduzir o conjunto de óbices nos quais se enreda 
a valorização do capital no ordenamento dos monopólios. Não desempenha, 
preferencialmente, funções produtivas31: se inclui nas atividades “[...] acólitas 
dos processos especificamente monopólicos de reprodução, da acumulação e da 
valorização do capital” (NETTO, 2005, p. 76). Nos países capitalistas centrais, a 
emergência e institucionalização do Serviço Social desdobraram-se nos marcos 
do amadurecimento dos antagonismos típicos da realidade imperialista, conso-
lidando-se quando o estágio dos monopólios se constitui com as determinantes 
do capitalismo tardio (NETTO, 2004, 2005, 2013). 
Embora já inscrita historicamente nos quadros internacionais dados pelo 
imperialismo, a época de emergência do Serviço Social nos países dependen-
tes, em específico no Brasil, desdobra-se quando a dinâmica dos monopólios 
ainda não constituía uma realidade generalizada imperando internamente nas 
dinâmicas produtiva, comercial e financeira– apenas a partir dos anos 1950, 
diz Fernandes (1976), o curso intrínseco da revolução burguesa no Brasil vai 
transitando para a difusão da realidade monopolista. Ou seja, ainda que inscrita 
no plano internacional de afirmação do imperialismo, a emergência do Serviço 
Social – e mesmo a sua institucionalização – ocorre aí numa particularidade do 
desenvolvimento capitalista na qual a dinâmica competitiva apenas começava 
aceder lugar ao domínio dos monopólios. Donde, também, o fato de que apenas 
após os anos 1960, e mais concretamente nas décadas seguintes, num momento 
de efetivo desenlace do estágio monopolista, soldado pelo ciclo ditatorial aberto 
em 1964, o Serviço Social no Brasil alcança sua consolidação propriamente 
dita – com seus reflexos na estruturação nacional de um mercado de trabalho, 
além da difusão e amadurecimento das agências de formação (NETTO, 2004). 
Se tais particularidades implicaram num descompasso entre o desenvolvimento 
do Serviço Social nos países centrais e no Brasil, o “desenvolvimento desigual 
interno” do capitalismo no país (FERNANDES, 1976) igualmente se expressou 
num caráter tendencialmente assimétrico da afirmação profissional, quando 
contrastadas as regiões de maior desenvolvimento industrial (localizadas essen-
cialmente no Sudeste) com aquelas onde prevaleciam formas econômicas pré-ca-
pitalistas (em geral, Norte-Nordeste) funcionais ao metabolismo do capitalismo 
dependente imperante. 
Em suma, somente esses supostos e condicionamentos tornam inteligí-
veis, em última instância, aquilo que as evidências disponíveis informam: o 
31 Avaliação já informada em Iamamoto e Carvalho (2005, p. 85-86). 
68
fato de que Serviço Social em Pernambuco demorou, praticamente, toda a 
década de 1940, e boa parte da seguinte, para consolidar os vetores mínimos 
indispensáveis à sua existência mesma. Ou seja, esse é o lapso de tempo que 
marca sua emergência ou gestação. Tais vetores serão detalhados na próxima 
seção do texto, e se resumem aos seguintes:as condições necessárias para 
uma formação especializada, uma densidade mínima dos quadros discentes e 
profissionais disponíveis, algum lastro de reconhecimento legal do seu caráter 
profissional e a conformação de espaços ocupacionais institucionalizados de 
algum vulto. Tais requisitos foram, em alguma medida, contemplados na década 
de 1950. E é nesta última em que se concentram os determinantes e aconteci-
mentos característicos da profissionalização do Serviço Social – concomitante 
a afirmação e aprofundamento daqueles vetores basilares da sua emergência, 
desencadeados desde antes. 
A profissionalização supõe – além daqueles vetores da emergência já fir-
mados – o reconhecimento abrangente – pelo Estado em suas diversas esferas 
– do Serviço Social enquanto campo profissional, e do portador do diploma de
assistente social como legítimo e exclusivo agente com capacidade e compe-
tência para desenvolver as atribuições relativas à área em questão. Portanto, 
com o direito de reclamar o Serviço Social como sua esfera privativa de inser-
ção no mercado da força de trabalho. Além da conquista de uma legislação 
voltada à regulamentação do Serviço Social de larga abrangência, a existência 
de entidades para fiscalização do exercício e defesa corporativa, a profissio-
nalização envolve processos também amplos de normatização e padronização 
dos critérios de ensino (superior) e das agências de formação (IAMAMOTO; 
CARVALHO, 2005; NETTO, 2013, 2004, 2005, 1996). Nesse aspecto, o Serviço 
Social em Pernambuco não destoa do que ocorria em nível nacional. O caráter 
necessariamente abrangente das regulamentações e normatizações do estágio 
de profissionalização requer uma legislação federal que equaliza esse processo 
entre todos os estados. Mais adiante demonstraremos como isso ocorre no curso 
da década de 1950. 
O alcance do estágio da consolidação do Serviço Social supõe a sua emer-
gência e profissionalização, mas não se resume as mesmas. Sua marca é uma 
certa generalização da profissão, com a consequente multiplicação quantitativa 
dos agentes profissionais (sustentada na existência de um mercado nacional de 
trabalho, macroscópico e consolidado, para as assistentes sociais) e do corpo 
discente; a diferenciação da intervenção profissional, com a complexificação 
do aparato teórico, metodológico e técnico-operativo, dispondo de viabilidade 
institucional para efetivação; o adensamento e diferenciação dos espaços ocupa-
cionais disponíveis, com a conquista de uma variada possibilidade de inserção 
nas hierarquias institucionais e equipes multiprofissionais; o robustecimento 
da elaboração teórica caucionado pela inserção no circuito universitário, do 
qual se desdobra uma produção de conhecimento (ou sistematização teórica) 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 69
desde a própria área do Serviço Social (NETTO, 2013, 2004). Nesse texto, não 
abordaremos a particularidade desses processos no Serviço Social em Pernam-
buco. Pretendemos apenas sinalizar para o fato de que alguns de seus aspectos 
despontam ainda nos anos 1960, mas tão somente ganham consistência no 
decorrer da década seguinte em diante. 
Tal periodização não corresponde sincronicamente, por outro lado, àqueles 
três momentos – que extraímos aqui de Netto (2004, p. 115-151) – do evolver 
do Serviço Social na particularidade brasileira, ou seja: (1ª) o lapso onde pre-
dominam os traços que o enquadram no tradicionalismo (enquanto “Serviço 
Social tradicional”32) – inscrito entre os anos de criação das primeiras Escolas e 
meados da década de 1950; (2ª) o estágio de transição no qual o tradicionalismo 
em erosão vai desabrochando por novas tendências – vigente, aproximadamente, 
durante o segundo lustro dos anos 1950, até os primeiros momentos do ciclo 
ditatorial; e (3ª) o intervalo decisivo da precipitação dessa erosão na forma que 
tomou o “processo de renovação do Serviço Social”33 – cujo desfecho apenas foi 
alcançado efetivamente no decorrer dos anos 1970 e início da década seguinte. 
Dado que o desenlace da emergência do Serviço Social em Pernambuco não 
acontece antes de encerrados os anos 1940, verificamos que este já nasce dina-
mizado por algumas características que marcam o estágio de transição. Ou seja, 
quando o tradicionalismo encontra-se sendo problematizado por algumas variá-
veis e condicionamentos que fornecem suporte para o processo de renovação – 
dentre essas variáveis, destacam-se: a erosão da influência católica, a afirmação 
da hegemonia norte-americana, os traços germinais da profissionalização e um 
esboço de diversificação das modalidades de intervenção. Ou, seguindo outra 
abordagem, isso significa que o Serviço Social em Pernambuco não emerge 
puramente constituído pelo conservadorismo característico do que Abreu (2008) 
denomina de “perfil pedagógico da ‘ajuda’”.34 Ele desponta dinamizado também 
32 Netto (2004, p. 117-118, nota) sugere entender o Serviço Social “tradicional” como “[...] ‘a prática empirista, 
reiterativa, paliativa e burocratizada’ dos profissionais, parametrada ‘por uma ética liberal-burguesa’ e cuja 
teleologia ‘consiste na correção – desde um ponto de vista funcionalista – de resultados psicossociais 
considerados negativos ou indesejáveis, sobre o substrato de uma concepção (aberta ou velada) idealista 
e/ou mecanicista da dinâmica social, sempre pressuposta a ordenação capitalista da vida como um dado 
factual ineliminável’”. 
33 Para Netto (2004, p. 131), se entende por renovação “[...] o conjunto de características novas que, no 
marco das constrições da autocracia burguesa, o Serviço Social articulou, à base do rearranjo de suas 
tradições e da assunção do contributo de tendência do pensamento social contemporâneo, procurando 
investir-se como instituição de natureza profissional dotada de legitimação prática, através de respostas 
a demandas sociais e da sua sistematização, e de validação teórica, mediante a remissão às teorias e 
disciplinas sociais.”
34 Esse perfil pedagógico marca a constituição do Serviço Social, desde a sua institucionalização como profis-
são, nos Estados Unidos, na segunda década do século XX. Surge como o conteúdo do Serviço Social de 
Caso, enquanto “ajuda psicossocial individualizada” que, na formulação de Mary Richmond, refere-se a um 
tratamento prolongado e intensivo, centrado no desenvolvimento da personalidade, com vistas a capacitação 
do indivíduo para o ajustamento ao mundo que o cerca. A “ajuda psicossocial individualizada” vincula-se 
às estratégias de reforma moral e de reintegração social impostas pelas necessidades organizacionais e 
70
por elementos – ainda que inicialmente incipientes – do “perfil pedagógico da 
‘participação’”.35 Nesse texto, não iremos explorar as características e impli-
cações dessa particularidade. Delimitaremos, na sequência, apenas os aspectos 
conformadores do caráter embrionário do Serviço Social em Pernambuco nos 
anos 1940, década dominada pelo estágio da sua emergência.
2. O caráter embrionário do Serviço Social
em Pernambuco nos anos 1940
Sobre as contradições específicas do capitalismo que se acumularam, nas 
primeiras décadas do século XX, na região onde Pernambuco era o epicentro, 
três se destacam: a mecanização da exploração da cana de açúcar, com o sur-
gimento das usinas e o aprofundamento do latifúndio; a germinal afirmação de 
empreendimentos manufatureiros, voltados para o beneficiamento do algodão 
e de produtos derivados dele; e os efeitos das formas típicas de produção e 
exploração do trabalho na economia algodoeira-pecuáriana região do sertão, 
que implica uma crônica situação de pauperismo extremo. 
A primeira contradição conformou a emergência de um proletariado 
agrícola em formação, profundamente explorado e pauperizado, ademais das 
pressões que o latifúndio acumulou com o campesinato. No centro urbano, se 
robustece uma camada do proletariado empregada no capital comercial dedicado 
ao transporte e venda da cana e o algodão,que ganha densidade organizativa e 
política ao longo dos anos. A segunda contradição desdobra-se da conformação 
de uma classe especificamente operária (nas indústrias do algodão e no comér-
cio) que constitui uma força política potencial, embora embrionária, objeto 
da intervenção do governo e dos industriais. A terceira implica uma leva de 
trabalhadores rurais pauperizados, engrossando as fileiras de retirantes da seca 
que escoam para os centros urbanos em busca de sobrevivência, e irão compor, 
junto com uma grande massa das outras camadas anteriores, a população dos 
mocambos do Recife.36
Além disso, desde finais do século XVIII, o desenvolvimento das forças 
produtivas tipicamente capitalistas nos países dominantes progressivamente 
afeta as disputas no mercado mundial e, por consequência, a demanda externa 
tecnológicas, introduzidas com a linha de montagem nos moldes fordista e taylorista, em relação à formação 
de um novo tipo de trabalhador (ABREU, 2008). 
35 Trata-se de um redimensionamento da participação nas práticas pedagógicas controladoras e subalternizado-
ras do Serviço Social, constituindo-se na referência de inovação metodológica numa pretensa “perspectiva de 
globalidade”. Nesses marcos, se afirmam os processos de mobilização e organização como desdobramentos 
das propostas de Desenvolvimento de Comunidade (DC), que reitera as práticas educativas psicologizantes, 
sob a influência da visão desenvolvimentista modernizadora (ABREU, 2008). 
36 Sobre a movimentação operária em Pernambuco na primeira metade do século XX, é importante conferir o conjunto 
das análises históricas apresentadas em Bezerra et al. (2011). Também Page (1972) fornece uma síntese do 
quadro histórico das relações agrárias no Nordeste que condicionaram o surgimento das Ligas Camponesas. 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 71
no país, implicando no descolamento dos produtos da economia agroexportadora 
até então dominantes. Esses deslocamentos apenas cooperaram para acirrar arti-
culadamente, na região onde se insere Pernambuco do início do século XX, os 
três vetores de contradições sociais acima mencionados. Diga-se, inviabilizaram 
a expansão da economia açucareira-têxtil, comprometendo as formas burgue-
sas transitórias de produção e apropriação do valor aí germinando através do 
impulso de industrialização refletido das usinas e na manufatura têxtil37. Isso em 
benefício da produção do café no Centro-Sul (e da subsequente industrialização 
lá deslanchada) e da ascensão do poder econômico e político da produção algo-
doeira-pecuária no próprio Nordeste, junto com o latifúndio e a oligarquia a ela 
ligada, os “coronéis”. Diz Oliveira (1981) que a economia açucareira é premida 
de tal modo pela produção agroexportadora do café (em seguida também pela 
industrialização que se desdobra com ela), e pela produção algodoeira-pecuária, 
que recriou internamente mecanismos de acumulação primitiva com processos 
e relações de produção pré-capitalista (como o “cambão”, mercados “cativos” 
de trabalho nas usinas, o “barracão”), com o que se condenou à estagnação.38 
Donde, durante a expansão do capital industrial concentrada no Centro-Sul, o 
duplo papel – com sequelas sociais de vulto – do Nordeste como: a) uma reserva 
do exército industrial de reserva, cujo efeito foi a migração em massa da força 
de trabalho; b) uma fonte de capital – que ainda ali se formava – drenada para 
aquela industrialização pela política econômica vigente (OLIVEIRA, 1981, p. 
37). Grosso modo, até a década de 1940, esses processos acentuam as contradi-
ções sociais e tensões políticas expressas nas formas particulares de acirramento 
da “questão social” em Pernambuco, em especial em Recife. 
Na capital do estado, a “questão dos mocambos” (incluída nela as exigên-
cias de intervenção no âmbito habitacional, educacional, da atenção à infância 
e maternidade etc.), se torna a manifestação da “questão social” que concentra 
as preocupações do governo e da pequena burguesia inicialmente. Donde a 
convocação pública dos setores governamentais para o projeto do Estado Novo, 
conclamando o envolvimento amplo nas campanhas voltadas para aqueles con-
siderados os principais problemas da capital e do estado – através, por exemplo, 
das colunas diárias no jornal Folha da Manhã do interventor de Vargas em 
Pernambuco, Agamenon Magalhães. Campanhas como a da Liga Contra a 
Mortalidade Infantil e a Liga Social Contra o Mocambo são modelares: “Consi-
derando os problemas sociais perigosos inimigos do desenvolvimento do estado 
37 Sobre as causas e as características do período de expansão e decadência da burguesia agrário-industrial 
no Nordeste, entre o final dos anos setenta do século XIX e as primeiras décadas do século XX, conferir 
Oliveira (1981, p. 61-64). 
38 Oliveira (1981, p. 64) identifica aí a recriação de “[...] formas de defesa anticíclicas não-capitalistas: não ocorria o 
desemprego, nas crises da economia açucareira: ocorria apenas a volta de parte da população trabalhadora às 
“economias de subsistência”, a formas quase-naturais. Essas formas de defesa foram-lhe extremamente eficazes 
para não desaparecer, mas cobraram seus direitos na medida em que a impediam de expandir-se.”
72
e da nação, Agamenon empreende uma verdadeira cruzada e é este empenho 
em solucionar os problemas vividos pelas camadas populares que justifica e 
legitima seu poder” (GOMINHO, 1993, p. 34). 
Os conflitos e lutas de classes existentes são fermentados por essas massas 
exploradas e oprimidas que continuamente se tornam subordinadas à lógica 
mercantil e à dominação política e econômica tipicamente capitalista. Em alguns 
casos, ainda nos anos 1920-1930, protagonizando movimentações e levan-
tes com aberta influência socialista e comunista. Ao mesmo tempo, as forças 
dominantes, das oligarquias, industriais e elites políticas e religiosas, comporão 
uma frente expressa na atuação do Estado Novo e seus porta-vozes locais, arti-
culando a Igreja, o governo, os empresários e setores médios, confluindo para 
a intervenção sobre essas expressões da “questão social”, com o objetivo de 
enquadrá-las ideologicamente e afastar a influência comunista.39
É em Recife onde se aglutinam e acentuam essas contradições. Nela, as 
expressões da “questão social” refletiam-se na degradação humana e na ameaça 
política proliferadas com os mocambos. Partimos da hipótese de que essa foi 
uma forma típica de expressão da “questão social” na cidade, na qual as 
políticas sociais germinadas com o Estado Novo centralizavam as suas moda-
lidades de intervenção e desdobravam, por seu turno, os espaços ocupacionais 
que absorviam as primeiras assistentes sociais. Após finais dos anos 1930, a 
chamada “política de ação social” foi movida e articulada por iniciativas como: 
a Diretoria de Reeducação e Assistência Social (DRAS) – criada em dezembro 
de 1937; a Liga Social Contra o Mocambo, associação civil criada em 1939, 
depois absorvida no Serviço Social Contra o Mocambo (SSCM), autarquia 
estadual criada em 1945, da qual passou a fazer parte a Secção de Assistência 
à Família Operária (SAFO) do Departamento de Reeducação e Assistência 
Social (DRAS); a mobilização da Ação Social Católica, com a realização da III 
Semana de Ação Social, ocorrida no Recife em janeiro de 1939, na qual estava 
envolvido o próprio núcleo que fundou a Escola de Serviço Social em 1940. 
Essas iniciativas impulsionavam a intervenção governamental na reprodução 
e controle da força de trabalho, apareciam galvanizadas pela miséria social e a 
tensão política colocada pelo “problema dos mocambos”, e constituíam os canais 
por onde os movimentos católicos adensados no Estado Novo imiscuíam-se 
no meio sindical e no ambiente operário – em especial através dos Círculos 
Operários e dos Centros Educativos Operários, com suas obras assistenciais e 
educativas balizadas pelo anticomunismo.40
39 Sobre a natureza política geral da modernização conservadoraoperada com o chamado Estado Novo, seus 
fundamentos econômico-sociais e das lutas de classes, e suas estratégias e políticas de controle e reprodução 
da força de trabalho, consultar a síntese de Iamamoto e Carvalho (2005, p. 125-165). Sobre as particularidades 
desses processos em Pernambuco, indicamos especialmente Gominho (1993, 1998, 2011).
40 Sobre esses movimentos católicos, ver Gominho (2011, p. 157-176) e Gomes (1987). 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 73
Tais mediações concretas encarnavam a forma particular de intervenção 
do Estado face às contradições sociais e políticas crescentes nessa realidade. 
Através delas, aquelas formas típicas de expressão da “questão social” se liga-
vam com a emergência do Serviço Social e dos seus primeiros espaços inter-
ventivos em Pernambuco. A campanha da Liga Social Contra o Mocambo41 
serviu, por exemplo: para impulsionar a construção e/ou desenvolvimento de 
vilas para operários ligados a alguns Institutos de Aposentadorias e Pensões 
(IAP’s) e Fábricas, ou para trabalhadores autônomos, que sedimentaram campos 
de atuação de assistentes sociais – seja pela necessidade de agentes voltados 
para a triagem de beneficiários das casas, seja pela demanda de quadros para 
os equipamentos assistenciais criados nos novos territórios ocupados ou para 
atender aos habitantes das vilas. Por outro lado, a restrição de construções de 
mocambos em áreas urbanas, associada à atração que a Campanha provocava 
nas populações do interior do estado, impelia o povoamento dos morros nos 
arredores da cidade através das ocupações – donde a implantação de ações 
e obras sociais nesses territórios ocupados por uma população pauperizada, 
passando a absorver igualmente assistentes sociais. 
Mas a debilidade das forças produtivas tipicamente capitalistas significou 
a incipiência da própria contradição fundamental desse modo de produção na 
região e, como consequência, uma condição ainda embrionária do Serviço Social 
na década de 1940, e mesmo em boa parte da seguinte. Ou seja, nos anos 1940, 
o Serviço Social em Pernambuco era residual, praticamente embrionário. Isso
significa que, a rigor, não se pode falar, durante todo esse período, em termos 
da existência de um corpo profissional propriamente dito. Isso se considerarmos 
como parâmetros os seguintes vetores:
1) Ainda estavam sendo garantidas, do decorrer da primeira metade
da década, as condições satisfatórias para constituir a formação
especializada. Por um lado, pense-se no fato de que até finais
de 1945 a ESSPE42 não possuía sede própria, estando alojada nas
dependências do Juizado de Menores, onde padecia de problemas (de
41 Uma síntese das ações empreendidas pela Liga Social Contra o Mocambo e pelo SSCM pode ser encontrada 
em Gominho (1993, 1998). 
42 A ESSPE foi fundada em 1940, pelo Juiz de Direito Rodolfo Aureliano, sendo extinta e incorporada à Uni-
versidade Federal de Pernambuco (UFPE) em 1971. Consiste no terceiro estado a inaugurar uma Escola 
de Serviço Social no Brasil, precedida pelas de São Paulo (a primeira criada em 1936) e a do Rio de Janeiro 
(criada em 1937). Para a criação, seu fundador (e o grupo de apoiadores) contou com as orientações da 
União Católica Internacional de Serviço Social (UCISS). O grupo de juristas, médicos e padres, ligados 
ao Juizado de Menores e ao Círculo Operário do Recife, fundador da ESSPE, inscrevia-se na ala mais 
progressista da igreja (e mesmo leiga), com cariz humanista. Concomitante ao início do funcionamento, 
ocorreu o intercâmbio de três alunas para o Instituto Social no Rio de Janeiro, a fim de se prepararem para 
a profissão, e assumirem a ESSPE no seu retorno – foram elas Maria de Lourdes Almeida de Moraes, Maria 
Dolores Cruz Coelho e Hebe Gonçalves. 
74
ordem pedagógica e disciplinar) decorrentes das suas dificuldades 
financeiras (todos os colaboradores, naquele momento, trabalhavam 
sem qualquer remuneração) e suas limitadas instalações. Apenas 
em 1946 começou a contar com estrutura adequada e pessoal 
especializado. Do ponto de vista das estruturas de funcionamento, 
ao final de 1945 adquire sede própria (então localizada na Rua 
Conde da Boa Vista, n. 1512), viabilizada através de donativo da 
Legião Brasileira da Assistência (LBA). Por outro lado, associada 
às contingências estruturais, existia uma carência de direção téc-
nica especializada. Por toda a primeira metade dos anos 1940, não 
existiam membros, no quadro de professores, com formação em 
Serviço Social. Ademais, nesse início o currículo apenas contava 
com uma matéria específica (a de Assistência Social), cujos conteú-
dos encontravam-se relacionados ao Serviço Social de Casos, sendo 
ministrada pelo médico René Ribeiro. A primeira Diretora formada 
em Serviço Social, Maria de Lourdes Almeida de Moraes, ocupou o 
cargo apenas em 1944, após concluir o curso, em dezembro de 1943, 
no Instituto Social do Rio de Janeiro. No segundo semestre de 1945, 
integrou também o quadro da ESSPE Maria Dolores Cruz Coelho – 
formada na mesma instituição no Rio de Janeiro – ocupando-se da 
supervisão dos trabalhos práticos e de campo das alunas. Após 1948, 
regressa – igualmente do Instituto Social – Hebe Gonçalves, assu-
mindo o ensino de Organização Social da Comunidade, de Serviço 
Social de Grupo e de Serviço Social Médico, além da supervisão 
de estágio de numerosas alunas. Nesse intervalo, precisamente 
em 1946, Maria da Glória tornou-se a primeira aluna formada pela 
Escola, imediatamente integrando-se no seu corpo docente. Não é 
casual que o Relatório da Comissão Verificadora (ESSPE, 1955, 
p. 7)43 considerasse, referindo-se ao que ocorreu até 1946: “[...] 
contanto com instalações e pessoal especializado, iniciou a Escola 
um período mais condizente com as finalidades previstas. Os anos 
anteriores podem ser considerados de preparação e aparelhamento”. 
Tudo isso se vinculava, igualmente, ao próprio processo de reconhe-
cimento legal da ESSPE, face às instâncias de governo. Fora fun-
dada em 6 de maio de 1940, pelo Desembargador Rodolfo Aureliano 
da Silva (do Tribunal de Justiça de Pernambuco, e então Juiz de 
Menores do Recife), como consequência dos debates na III Semana 
43 Esse documento consiste numa apreciação detalhada do histórico, da regulamentação, da estrutura e das 
atividades da Escola até 1955. Após a regulamentação do ensino em Serviço Social no Brasil (em 1953) 
e da profissão (em 1954), a ESSPE encaminhou ao Ministro da Educação o pedido de reconhecimento, 
que demandou esse relatório de uma comissão verificadora federal. O reconhecimento foi concedido pelo 
decreto nº 39.009 de 11 de abril de 1956, do Presidente da República. 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 75
de Ação Social (1939) e da motivação direta de aparelhar o Juizado 
de Menores com pessoal técnico especializado. Em 30 de janeiro 
de 1941, com o ato n. 158, foi reconhecida pelo interventor Aga-
menon Magalhães, o que a habilitou a receber subvenções estatais. 
Em 1946, ano inaugural dos trabalhos na sede recém adquirida, tem 
novos estatutos aprovados pelo Secretário da Educação do Estado 
de Pernambuco (Portaria n. 379, de 28 de agosto) – os quais são 
reformados novamente em 23 de setembro de 1954. 
2) Era incipiente o contingente do alunado, associado ao número irri-
sório de assistentes sociais formados(as) no estado – conferir o
gráfico abaixo da Evolução do número de matrículas e diplomações
da Escola de Serviço Social de Pernambuco (1940-1969). Embora
os documentos disponíveis, relativos à movimentação da matrí-
cula, não apresentem números totalmente compatíveis44, é razoável
dizer que, até 1945, as matrículas (somando-se as três séries) não
passaram de uma média de 20 por ano; e que, entre 1946-1950,
essa mesma média subiu para, aproximadamente, 30 matrículas.
Isso significa dizer que, anualmente, encontravam-se matricula-
dos, no máximo, 30 alunas na ESSPE, considerando-se todas as
séries.Ademais, até 1949, apenas havia ocorrido a diplomação de
duas assistentes sociais (em contraste, no ano de 1959, esse número
acumulado chegava a 66). Necessário uma reserva, entretanto. Por
falta de uma regulamentação da profissão (seja em âmbito estadual
ou federal) e de uma normatização nacional do ensino, durante todo
esse período, muitas alunas que iniciavam o curso eram contrata-
das pelas instituições existentes sem a exigência de conclusão da
formação e do diploma – algo que, inclusive, consumia o tempo
necessário para a elaboração do Trabalho de Conclusão do Curso e
a finalização da formação. O que sinaliza para o fato de que, inobs-
tante a quantidade irrisória de diplomadas, o contingente atuando
nas instituições assumindo atribuições reconhecidamente inerentes
ao Serviço Social era maior. De todo modo, porém, isso apenas
corrobora o caráter ainda bastante primitivo do estatuto profissional
do Serviço Social na década.
O quadro de alunas e diplomadas em Pernambuco não é muito
destoante daquele expresso no Rio de Janeiro e em São Paulo na
época. Iamamoto e Carvalho (2005, p. 186) sinalizam para a exis-
tência de 15 escolas de Serviço Social no Brasil em finais de 1940
– findada a década seguinte, esse número chega a quase o dobro,
44 Cotejamos as informações de alguns relatórios anuais da direção da Escola (dos anos 1946, 1947 e 1948), 
comparando-os com o Anexo 1 – Evolução das inscrições ao concurso de habilitação, das mátriculas e da 
diplomação – 1940 – 1969, do documento ESSPE (1969). 
76
alcançando a quantidade de 28 escolas. E acrescentam que sua maio-
ria se formou sob a infl uência das duas primeiras escolas, de origem 
católica, tendo em sua direção ex-alunas, formadas sob o regime 
de bolsas de estudo. A implantação dessas escolas nos anos 1940
obedecendo à semelhante processo das antecessoras de São Paulo 
e Rio de Janeiro, com a novidade de que contaram com o apoio
fi nanceiro da Legião Brasileira de Assistência (LBA) – como são
exemplos as escolas criadas em Pernambuco (1940), Paraná (1944),
Rio Grande do Sul (1945) e Rio Grande do Norte (1945). Advertem
Iamamoto e Carvalho (2005, p. 187): “No entanto, até 1947, os
dados disponíveis mostram que essas escolas ainda estão em estado
embrionário, sendo que apenas a de Pernambuco havia alcançado a
formação de sua primeira turma, com apenas uma diplomada.” Daí 
a existência de assistentes sociais diplomadas por um longo período 
(em média uma década) apenas ao Rio de Janeiro e São Paulo –
mesmo nesses casos, com pouca expressividade. De todo modo, até
o fi nal da década, o número de assistentes sociais diplomadas em
todo o Brasil era pouco superior a 300, com grande concentração na
cidade de São Paulo e no Distrito Federal, com esmagadora maioria 
de mulheres (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005). 
Gráfi co 1 – Evolução do número de matrículas e diplomações 
da Escola de Serviço Social de Pernambuco (1940-1969)
Diplomação Matrículas
120
100
80
60
40
20
0
1940 1945 1950 1955 1960 1965
1 1 1 1 1
6 7 8
16 19 14
24 24
29 27
15
10
3 3
Fonte: Esspe (1969). 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 77
3) Figurava uma franca ausência de bases legais de reconhecimento,
perante o Estado (em qualquer esfera), do Serviço Social como
uma área de intervenção de natureza profissional (com a decorrente
exigência de diplomação, aparelhagem e normatização corporativa
própria). Ao que tudo indica, nessa década verifica-se apenas a
Portaria n. 568, de 5 de julho de 1947, criando a função de “auxiliar
do Serviço Social do Hospital Centenário” (revogada pela Portaria
n. 190, de 31 de março de 1948, que extingue o Serviço Social na
mesma instituição)45 e a Lei Estadual n. 427, de 31 de dezembro 
de 1948, criando cargos isolados de Assistentes Sociais. Apenas na 
entrada da década seguinte outra legislação fornece um reconhe-
cimento mais amplo. Em primeiro lugar, com a criação de outra 
Lei estadual, de n. 965, em 14 de dezembro de 1950, que dispõe 
sobre as nomeações para os cargos de Assistentes Sociais a serem 
criados pelo estado e suas autarquias. Nesse caso, a orientação e 
execução de trabalhos que integravam as atividades específicas de 
Serviço Social passaram a constituir a carreira de Assistente Social 
nas repartições de Pernambuco (ou seja, nas autarquias instituídas 
pelo Estado e as organizações por ele subvencionadas). A partir 
daí, as nomeações para os cargos foram condicionadas ao porte do 
diploma de Assistente Social – ainda podendo ser admitidos como 
contratados alunas da ESSPE, exigindo-se, nesse caso, a conclu-
são do curso no prazo regulamentar. Supomos que essa legislação 
repercutiu na dinâmica da ESSPE, em especial com aumento das 
matrículas, nos anos 1950, e a mobilização para a finalização dos 
cursos e a diplomação – conforme sinaliza o gráfico anterior. Poucos 
anos depois se firmaram marcos legais referentes à constituição de 
normas e agências para uma padronização e racionalização do ensino 
em nível nacional (Lei n. 1.889 de 13 jun. 1953 e o Decreto 35.311, 
de 2 abr. 1954), e ao reconhecimento do exercício profissional (Lei 
n. 3.252, de 27 ago. 1957, que confere monopólio do exercício aos
portadores do diploma; e o Decreto-Lei n. 994, de 15 mai. 1962, que 
regulamenta a referida Lei). Outra iniciativa que supomos ter reper-
cutido na dinâmica de matrículas e diplomações em nível estadual, 
também conforme o gráfico anterior sugere. 
4) Evidenciava-se uma parca quantidade de espaços ocupacionais que
requisitasse o assistente social, reconhecendo-o para, concomitante-
mente, um lugar oficial nas estruturas organizacionais-institucionais.
Nos anos 1940, os espaços onde se nota alguma espécie de atuação no
âmbito do Serviço Social podem ser divididos em duas classificações:
45 Ver Santiago (1954, p. 59-60). 
78
Em primeiro lugar, existiam aqueles onde as alunas da ESSPE pas-
saram a desenvolver experiências, vinculadas à atividade de estágio, 
como requisito da formação, mas de caráter experimental e explo-
ratório, posto a inexistência oficial do Serviço Social nos mesmos. 
E essa inexistência se expressava na ausência de um setor/departa-
mento/equipe na instituição ou organização para a função, na falta 
de um projeto próprio para a atuação do Serviço Social no órgão, e 
mesmo pela ausência de agentes profissionais formados exercendo 
atividades. Nesses casos, as alunas encarregavam-se praticamente 
de desbravar as alternativas de inserção do Serviço Social – como 
uma espécie de “experiência piloto” – orientadas pelas professoras 
da ESSPE encarregadas do Estágio, e basicamente centradas na apli-
cação do Serviço Social de Casos; quando muito, ensaiando algumas 
ações relacionadas ao Serviço Social de Grupos.46 Até o momento da 
pesquisa, identificamos as seguintes instituições que abrigaram essas 
experiências: os Círculos Operários47; a Escola Ulisses Pernambu-
cano48; e o Departamento de Assistência Social – LBA.49
46 O que se observa quanto à aplicação dos métodos é que, quanto menos base institucional disponível, menor 
a viabilidade de aplicação do Serviço Social de Grupos ou de ações de Organização de Comunidade. Desse 
modo, as experiências pioneiras, por não disporem de condições institucionais, estruturais, de pessoal etc., 
satisfatórias, acabaram restringindo-se à aplicação do Serviço Social de Casos, e ainda com uma reduzida 
capacidade de atendimento. 
47 Registros e análises sobre a experiência pioneira do Serviço Social em Pernambuco, junto ao movimento 
circulista, podem ser encontrados em Andrade (1946), Gomes (1987), Ladim e Gomes (1985).
48 A Escola Ulisses Pernambucano (antes Escola Aires Lima, localizada na Av. João de Barros, n. 594, bairro 
de Santo Amaro) foi criada pelo Governo do Estado em 1941. Assim são definidos seus objetivos, por Costa 
(1949, p. 41): “A Escola Ulisses Pernambucano, é um externato misto para crianças, cujo grau de anor-
malidade psicopedagógiconão admite acompanhar o regime de ensino comum, porém que, sob métodos 
especiais podem ser educadas e reeducadas”. Ana Luiza Costa, uma das alunas da ESSPE, estagiou na 
instituição entre 1942-1944, realizando tarefas de assistente social (associadas a função de professora 
especializada) junto aos então chamados “menores anormais” (crianças com deficiência) e suas famílias, 
utilizando técnicas do Serviço Social de Casos, referenciado pela concepção de “desajustamento”, e sub-
sidiado pela psicologia e psiquiatria. Porém, até 1949, inexistia um órgão do Serviço Social na instituição 
(COSTA, 1949). A mesma autora assevera, embora sem informações mais detalhadas, ter sido convidada 
a trabalhar na LBA, em 1942, após sua inserção no curso de Serviço Social (COSTA, 1949, p. 58). 
49 Acerca da atuação nesse Departamento, apenas Oliveira (1950) indica algumas informações. Menciona 
que duas alunas concluintes (é provável que da segunda metade dos anos 1940) ficaram encarregadas 
do então extinto Departamento de Assistência Social da LBA. Recorda Oliveira (1950, p. 34): “Em nosso 
meio tivemos duas alunas concluintes encarregadas do antigo Departamento de Assistência Social, que 
movimentaram o serviço com a colaboração de senhoras e senhoritas de nossa sociedade. Procuravam 
elas através de visitas domiciliares estudar os casos, e apresentavam relatórios às encarregadas do serviço 
para diagnóstico, e indicação de tratamento. Mas, apesar de toda boa vontade daquelas que se dedicaram 
a esses estudos, não se pode dizer que o trabalho foi realizado dentro da técnica. O espírito assistencialista 
dominava dirigentes e dirigidos, e assim começou a Legião a surgir diante do público como uma Instituição 
que distribuía gêneros, enxovais, remédios etc. Com o tempo esta mentalidade foi criando vulto em nosso 
meio ambiente, e até novembro de 1949 todo nosso esforço e toda verba eram empregados na doação de 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 79
Em segundo lugar, se encontram instâncias que começavam a afirmar 
o agente técnico especializado no âmbito do Serviço Social como
parte de seus quadros oficiais, onde se localizava sua contribuição 
como subsidiária (ou acólita) em face das finalidades e resultados 
institucionais estratégicos dos mesmos. A exceção a tal tendência 
(de posição subsidiária) era a própria ESSPE, que começou a absor-
ver assistentes sociais diplomadas, a partir de 1944, para atender 
aos seus requisitos prioritários de formação especializada. Assim 
como nas Agências de Serviço Social Familiar, criadas após 1948, 
as quais, pelas suas próprias finalidades, punham a centralidade 
da atividade do Serviço Social no processamento de suas finalida-
des precípuas. Embora esse tipo de espaço começasse a despontar, 
efetivamente na segunda metade da década, isso não significava: 
(I) nem a existência de uma demanda muito numerosa de agentes 
– possivelmente não chegasse a duas ou três dezenas o número de
cargos ocupados, muitas vezes com as mesmas pessoas empregadas 
em mais de um deles; (II) nem que os mesmos estivessem assumindo 
os cargos com a formação concluída (ou seja, diplomados) – a 
inexistência de regulamentação legal para o exercício da profissão 
possibilitava a ocupação de funções sem o requisito da diploma-
ção, levando a que alunas da ESSPE se incorporassem aos espaços 
inicialmente criados. Esse residual quadro profissional despontado 
era absorvido em espaços ocupacionais específicos, a partir meados 
dos anos 1940, se firmando institucionalmente quanto mais se chega 
ao final da década, como trataremos na próxima seção. 
3. Os espaços ocupacionais na década de
1940 e seu posterior adensamento
No intervalo que se desdobra, desde a criação da ESSPE, até o início dos 
anos 1950, os espaços ocupacionais onde se encontravam assistentes sociais 
formadas, e com colocação profissional reconhecida oficialmente nas estru-
turas institucionais, reduziam-se aos seguintes50: a própria Escola de Serviço 
Social de Pernambuco; o Juizado de Menores; o Conjunto Residencial de 
Casa Amarela; o Hospital Centenário; o Serviço Social da Indústria (SESI); 
recursos para prover necessidades imediatas, dada a impossibilidade de educar e encaminhar famílias para 
uma situação mais estável e menos humilhante”. 
50 É sempre forçoso advertir que tais conclusões correspondem à aproximação a essa realidade permitida 
pelo andamento da pesquisa. Até o momento, além dos espaços ocupacionais listados, alguns registros 
sugerem a existência de assistentes sociais na Divisão de Tuberculose Divisão de Tuberculose, criada em 
1948, integrando o Departamento de Saúde Pública do Estado (GUARANÁ, 1958).
80
a Agência de Serviço Social do Posto de Puericultura Francisco Pignatari; a 
Agência de Serviço Social Familiar – Comissão Estadual de Pernambuco; a 
Agência de Serviço Social do Hospital Osvaldo Cruz; a Agência de Serviço 
Social da Fábrica de Camaragibe; e a Agência de Serviço Social Familiar da 
Escola de Serviço Social de Pernambuco. Com exceção da Escola de Serviço 
Social, em todas as instituições o Serviço Social começou a comparecer a partir 
finais dos anos 1940, e, de modo mais palpável, quando a década já estava se 
encerrando. A documentação disponível forneceu algumas características desses 
primeiros espaços ocupacionais, sinalizando para algumas tendências predo-
minantes nesse estágio de emergência do Serviço Social em Pernambuco: uma 
intervenção profissional balizada pela concepção de “desajustamento social” e 
metodologicamente referenciada no Serviço Social de Casos; um público-alvo 
basicamente constituído por crianças, adolescentes e mulheres de franjas das 
classes trabalhadoras na condição da superpopulação relativa, ou absorvidos, 
especialmente, no setor do comércio (sem extração tipicamente operária). 
O trabalho de Lira (1953) indica que, em 1946, tem início o Serviço Social 
no Juizado Privativo de Menores Abandonados e Delinquentes de Recife, sob 
o comando do Juiz de Direito Rodolfo Aureliano da Silva. O Juizado fora
criado em 1934, para “[...] exercer ação preventiva, repressiva e assistencial 
aos menores delinquentes e abandonados” (LIRA, 1953, p. 7), através de uma 
aparelhagem que incluía: dois Abrigos Provisórios (um masculino e outro 
feminino), antes existentes como Internato Profissional 5 de Julho; o Instituto 
Profissional de Garanhuns, anteriormente funcionando como Patronato Agrí-
cola de Garanhuns; o Instituto Profissional de Igarassu, antes Escola Correcio-
nal de Garanhuns, mantida pelo Asilo Bom Pastor; e o Serviço de Proteção e 
Assistência a Menores Abandonados e Delinquentes, criado em 1938. Junto 
ao Juizado, além dos Abrigos Provisórios e demais equipamentos, existiam 
alguns estabelecimentos subordinados: o Núcleo de Escoteiros de Bongí (para 
menores de 10 anos); o Instituto Profissional de Pacas (para crianças entre 11 
a 14 anos); a Granja Jangadinha (para adolescentes com mais de 15 anos); e o 
Instituto Profissional Feminino de Garanhuns. O Serviço Social surgiu como 
uma das seções do Juizado51, destinado ao “estudo e tratamento de caso” de 
cada criança ou adolescente, subsidiando o Juiz nos elementos necessários 
para sua melhor elucidação. Os registros de Lira (1953), relativos à segunda 
metade dos anos 1940, mostram que o Serviço Social do Juizado contava com 
um Diretor, quatro assistentes sociais plantonistas e mais dez visitadoras, e 
dispunha de uma agência em cada bairro, com sede em salões paroquiais, 
grupos escolares etc. A própria Lira (1953) sinaliza para a interação entre essa 
aparelhagem do Juizado, onde o Serviço Social circulava; em seu Trabalho de 
51 Assim é descrito o conjunto das seções do Juizado, por Lira (1953, p. 8): Juízo, Delegacia de Menores, 
Serviço Social, Serviço Médico e Agência de Colocações. 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 81
Conclusão de Curso, diz que estava atuando no Serviço Social do Juizadode 
Menores em 1946, quando foi convidada para orientar o trabalho das Censoras 
do Abrigo Provisório Feminino (Internato), anexo ao Juizado, e destinado a 
receber meninas que aguardavam estudo e solução dos seus processos. 
Por outro lado, Oliveira (1957) registra que, em janeiro de 1946, surgiu 
o Serviço Social no Conjunto Residencial de Casa Amarela, concomitante à
inauguração dos próprios apartamentos, sendo criada, em abril do mesmo ano, 
uma Agência de Serviço Social de Casos no local. O Conjunto foi subsidiado 
pela carteira imobiliária do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comer-
ciários (IAPC), constituído por 243 casas de 2 pavimentos (totalizando 486 
apartamentos), para atender às necessidades de habitação dos seus associados, 
através de aluguel dos imóveis. Empregando, de princípio, uma assistente 
social e duas agentes (então estagiárias de Serviço Social e alunas da ESSPE), 
o Serviço Social do Conjunto Residencial nasce com intuito de selecionar os
candidatos inscritos à aquisição das casas. Já a Agência de Serviço Social de 
Casos é aberta para atender às famílias – em especial as mulheres e crianças 
– que eram identificadas em condição de “desajustamento social”. Mantida
através de uma porcentagem dos aluguéis, primeiramente esteve instalada 
em uma das casas, conquistando uma sala do prédio da administração do 
Conjunto Residencial anos depois. O Trabalho de Conclusão de Curso de 
Barreto (1955) mostra que as primeiras instalações representavam condições 
bastante limitadas para atuação do Serviço Social. E que circunstâncias mais 
favoráveis foram alcançadas apenas em setembro de 1949, após a inauguração 
da Biblioteca Infantil, a incorporação de estagiárias da ESSPE de Serviço 
Social e a admissão de funcionárias – algo que, inclusive, oportunizou o 
desenvolvimento de experiências do Serviço Social de Grupos com crianças 
e adolescentes do Conjunto Residencial. Já em dezembro de 1952, um Centro 
Social é aberto, aglutinando todas as ações desenvolvidas (corte e costura, 
culinária, biblioteca, jogos, trabalhos manuais, discoteca etc.). Porém, Gitirana 
(1960, p. 11) informa que em 1956 o Serviço Social naquele Conjunto passa 
por uma crise que leva a sua dissolução em 1959. 
Uma experiência pontual também se registra no âmbito do Hospital Cente-
nário52, vinculado à Secretaria de Estado dos Negócios de Saúde e de Educação 
de Pernambuco. Sua existência foi significativa, pois se referiu a uma atuação 
52 Fundado em 7 de setembro de 1922, por uma associação de médicos, situado no bairro dos Alfitos, e 
passando a ser subvencionado pelo governo de Pernambuco alguns anos depois, o primeiro Hospital do 
estado abrigou, ao longo dos anos, algumas clínicas da Faculdade de Medicina, clínicas de pensionistas, 
clínicas de contribuintes e Serviço Social Médico do Instituto Pensões dos Servidores do Estado de Per-
nambuco (IPSEP), sendo também um campo de trabalho prático da Escola de Enfermagem do Estado. 
Mais precisamente, em 1938, com a criação do IPSEP, o Centenário passou a ser chamado de Hospital do 
IPSEP, destinado a prestar assistência aos servidores do Estado. A Lei complementar que criou o Sistema 
de Assistência à Saúde dos Servidores Públicos do Estado de Pernambuco (SASSEPE) oficializou-o como 
Hospital dos Servidores do Estado.
82
reconhecida institucionalmente, através da Portaria n. 568, de 5 jul. 1947, 
criando a função de “auxiliar do Serviço Social” na instituição. Santiago (1954, 
p. 59) sinaliza, no entanto, que a criação do Serviço Social ali não resultara de 
uma necessidade sentida pelo próprio Hospital, mas de uma iniciativa do então 
Secretário de Saúde e Educação, Dr. Antônio Figueira, sensível às contribuições 
que essa atuação poderia oferecer. No entanto, o Serviço Social no Hospital 
durou apenas nove meses, sendo extinto pela Portaria n. 190, de 31 mar. 1948 
– a que Santiago (1954, p. 60) alega que a revogação ocorreu por “aconte-
cimentos políticos” relacionados à substituição de dirigentes da Secretaria e 
do Departamento de Assistência Hospitalar. Durante esses meses, a aluna em 
formação designada para o cargo, Semíramis de Araújo Santiago, e seu grupo 
de estagiárias, aplicaram o Serviço Social de Casos com os pacientes (envol-
vendo plantão, triagem, entrevistas, visitas domiciliares, orientações), além 
das articulações com outros serviços e obras sociais para apoiar as demandas 
dos casos, reuniões internas e entendimentos com a administração do Hospi-
tal – nota-se, nessa experiência, registrada em Santiago (1954), inobstante seu 
enfoque nos casos individuais, centrado nos “desajustamentos”, um discurso 
ideológico pouco permeado pelo trato doutrinário. 
Do trabalho desenvolvido no SESI, ainda nos anos 1940, as fontes docu-
mentais apenas indiretamente fornecem informações. O trabalho de Collier 
(1955, p. 15) informa que as primeiras atividades de Serviço Social no setor 
industrial em Pernambuco datam de 1947, com a criação do SESI no Estado, 
através de um Departamento Regional. Desde essa data, o tal Departamento 
achava-se organizado em quatro grandes Divisões, além do Conselho Regio-
nal: Divisão de Pesquisa, Assistência Jurídica e Divulgação; Divisão Admi-
nistrativa; Divisão de Ação Social; e Divisão de Educação e Cultura. A Ação 
Social compreendendo serviços médicos, dentário, de recreação e assistência 
social propriamente dita. Para efetivar a assistência, Núcleos foram organi-
zados nas zonas de maior densidade operária de Recife (com sub-Núcleos 
também no interior do Estado53), nos bairros de Santo Amaro, Água Fria, Sítio 
Novo, Beberibe, Casa Amarela, Mustardinha, Mangueira, Barro, Cordeiro e 
Torre. Alguns trabalhos iniciais foram de pesquisa sobre as condições econô-
micas e culturais dos trabalhadores e suas famílias, a cargo de funcionários 
do SESI e alunas da ESSPE. O trabalho de Collier (1955) descreve a atuação 
inicial do Serviço Social no sub-Núcleo da Fábrica de Camaragibe, instalado 
a partir de 1949, aplicando Serviço Social de Casos, com uma estratégia de 
plantão social, numa perspectiva de superação dos “desajustamentos” dos 
operários e suas famílias, com uma perspectiva de formação voltada para 
53 Os subnúcleos no interior estavam ligados a indústrias isoladas, predominantemente açucareiras, menos 
aparelhados do que os Núcleos da capital. Nesse caso, o serviço ficava a cargo, mostra Collier (1955, p. 
18), de uma pessoa com curso intensivo de Serviço Social promovido pelo SESI e dirigido pela ESSPE. 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 83
atitudes de conciliação e colaboração com os patrões e as direções de fábrica. 
Isso ocorria através da operacionalização dos serviços, orientações e auxí-
lios assistenciais do SESI, com uma rotina de cadastramentos de famílias, 
entrevistas, visitas, acompanhamento de casos, viabilização de casamentos 
e registros civis. 
Também, dentre as instituições (privadas ou oficiais) que, até 1952, se 
propunham a assistir à maternidade e à infância do Estado, apenas o Posto 
de Puericultura Francisco Pignatari54– conforme Lima (1958) – havia criado 
oficialmente o Serviço Social na sua estrutura organizacional (em outubro 
de 1949), não obstante o carecimento de pessoal técnico nomeado, ainda no 
início dos anos 1950.55 É assim sinalizado, por Lima (1958, p. 77), o caráter 
ainda inconsistente do Serviço Social ali existente em 1952: “É normal que 
não possam ser apresentados grandes resultados, diante da impossibilidade 
material da realização do trabalho. Apesar do Serviço Social ter sido fun-
dado naquele Posto há 3 anos, ainda não logrou merecer pessoal técnico, 
nomeado pelo Estado, para exercer suas funções”. Tratava-se da existência de 
uma Agência de Serviço Social naquele Posto, destinada a prestar assistência 
social e educativa às gestantes matriculadas no Serviço Pré-Natal, através da 
aplicação do Serviço Social de Casos. Em 1951, há uma tentativa também 
de adoção do Serviço Social de Grupos,interrompida, e reiniciada no ano 
seguinte. Com efeito, essa consistia na primeira e única Agência de Serviço 
Social do Departamento Estadual da Criança até 1958, ano de redação do 
trabalho de Lima (1958). 
Por último, encontramos também nas Agências de Serviço Social Fami-
liar alguns espaços de intervenção do Serviço Social em Pernambuco, cujo 
início remonta ao final dos anos 1940. Oliveira (1950) dirigiu o Setor de 
Assistência à Família da LBA56, e sistematizou sua experiência na Agência de 
Serviço Social Familiar – Comissão Estadual de Pernambuco, criada em 1949 
como um setor da Assistência à Família na sede da LBA. Seu trabalho sugere 
uma atuação balizada pela concepção de “reajustamento” e a aplicação do 
Serviço Social de Casos, com forte perspectiva vocacional e apelo doutrinário, 
sendo desenvolvido em regime de plantão. Antes de 1949, apenas algumas 
experiências embrionárias se verificam no então extinto Departamento de 
54 Unidade localizada em Casa Amarela, na Estrada do Arraial, nº 4140. 
55 A assistente social chefe, que assumiu na época, foi a concluinte Semiramis Santiago, ex-aluna da ESSPE. 
56 Ela afirma ter estagiado no Colégio Estadual de Pernambuco, provavelmente durante o primeiro lustro 
dos anos 1940, pois fazia parte da primeira turma, sem, contudo, ter conseguido aproveitar o trabalho 
desenvolvido para a elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso, com a dispersão da turma inicial da 
Escola nesses anos. Afirma ainda que sua intenção primitiva era utilizar a formação de Serviço Social para 
servir à Juventude Operária Católica, da qual fazia parte. Menciona que sua formação também recebeu 
uma contribuição do Instituto Social do Rio de Janeiro e da Escola de Serviço Social de São Paulo, a partir 
de uma bolsa de estudos de aperfeiçoamento de concluintes e terceiranistas concedida pela LBA.
84
Assistência Social da LBA, protagonizadas por alunas concluintes da ESSPE. 
Oliveira (1950, p. 34) assim avalia essas experiências nascentes: “Procuravam 
elas [as concluintes] através de visitas domiciliares estudar os casos, e apre-
sentavam relatórios às encarregadas do serviço para diagnóstico, e indicação 
de tratamento. Mas, apesar de toda boa vontade daquelas que se dedicaram a 
esses estudos, não se pode dizer que o trabalho foi realizado dentro da técnica.”
Ademais, Oliveira (1950) menciona a existência de outras quatro Agên-
cias inauguradas, em geral, após 1948, empregando assistentes sociais: a já 
mencionada Agência de Serviço Social do Posto de Puericultura Francisco 
Pignatari, de Casa Amarela, prestando assistência médica, social e material a 
gestantes do bairro, através do estudo de casos; a Agência de Serviço Social 
do Hospital Osvaldo Cruz, a qual tinha por “[...] finalidade garantir o contato 
entre o doente e sua família, e orientá-lo em relação às prescrições médicas, 
reajustando-o pelo estudo de caso e tratamento conveniente, sob o ponto de 
vista médico, material e moral” (OLIVEIRA, 1950, p. 78); a Agência de 
Serviço Social junto à Fábrica de Camaragibe, do SESI, que se propunha a 
“[...] atuar como agente de ligação entre os operários e a direção da Fábrica, 
exercendo sua ação junto ao patrão e contribuindo para que êste possa com-
preender certos problemas, quer de ordem geral dos seus operários, obtendo 
a sua participação na solução dos mesmos” (OLIVEIRA, 1950, p. 79); e a 
Agência de Serviço Social Familiar da Escola de Serviço Social de Pernam-
buco, que funcionava “[...] como campo de treinamento de alunas, ministran-
do-lhes os conhecimentos práticos do Serviço Social de Casos Individuais, 
com a supervisão da professora da referida cadeira” (OLIVEIRA, 1950, p. 79). 
Esse quadro dos espaços ocupacionais de assistente sociais é dinamizado 
pelas transformações econômicas e políticas deslanchadas no Nordeste nas 
décadas seguintes. Uma expressão do “desenvolvimento desigual interno” 
(FERNANDES, 1976) do capitalismo no Brasil é esse compasso temporal 
peculiar da acumulação de capital na região: somente após os anos 1960 ela 
sofre um impulso industrializante de maior vulto. A erosão da economia 
tradicional e a submissão ao capital monopolista, comandado pelo Centro-
Sul e subsidiado pelo Estado, implicaram num agravamento das sequelas 
sociais da acumulação e num acirramento das lutas de classes em nível 
regional. Concomitantemente, ocorria uma significativa modernização e 
complexificação da aparelhagem governamental necessária à regência dos 
novos processos produtivos e ao deslocamento das contradições sociais 
e políticas crescentes – cujo ponto culminante se encontra nas mudanças 
operadas no bojo do ciclo ditatorial aberto em 1964.57Assim, mesmo antes 
57 Uma síntese da relação entre esse ciclo industrializante no Nordeste, a atuação da SUDENE e as modifi-
cações da formação em Serviço Social na região é oferecida por Vieira (1992). O estudo de Oliveira (1981) 
analisa essa captura do Nordeste pelo grande capital. E o relato de Page (1972) fornece uma interessante 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 85
de encerrada a década de 1960, a composição do mercado de trabalho de 
assistentes sociais estava em expansão, e era francamente mais complexa 
do que aquela despontada dois decênios antes – refletindo no maior número 
das diplomações, conforme o gráfico anterior.58 Um documento da ESSPE, 
destinado ao levantamento dos motivos para a criação do Departamento de 
Serviço Social na Universidade Federal de Pernambuco, fornece o panorama 
dos espaços existentes em finais de 1960, e das perspectivas abertas: 
Vale a pena referir, neste particular, a expansão do Serviço Social que vem 
se efetuando até mesmo nas Universidades, como é o caso da experiên-
cia do CRUTAC (Centro Rural de Treinamento de Ação Comunitária), 
iniciada no Rio Grande do Norte [...]. Também a ampliação do Serviço 
Social ao nível da comunidade, nos hospitais universitários, se constitui 
fonte de demanda profissional. Todavia, fora dos limites da Universidade, 
os planos de desenvolvimento integrado, que os municípios de maior 
relevo do Nordeste se aprestam a realizar, de acordo com programação 
do Ministério do Interior, estão, necessariamente, ampliando a faixa de 
atuação dos Assistentes Sociais, vinculados como são estes, pela sua pro-
fissão, ao desenvolvimento. As reformas administrativas em execução 
contribuem, por sua vez, para alargar os horizontes profissionais, eis que se 
vem revelando os Assistentes Sociais técnicos de grande valor na aplicação 
de políticas e procedimentos da administração de pessoal [...]. Mas, não se 
pode deixar de mencionar a demanda profissional, nos serviços de assis-
tência aos menores, como é o caso da Fundação Estadual de Bem-Estar do 
Menor, que vem contratando os serviços de um bom número de Assistentes 
Sociais; assim, também o INPS cujo órgão de pessoal em Pernambuco 
tem recrutado profissionais até em outros Estados (ESSPE, 1969, p. 2). 
Prossegue o mesmo documento, arrolando as principais instituições 
empregadoras então existentes, e algumas áreas de atuação: o chamado “ser-
viço social penitenciário”; os “serviços sociais” dos órgãos de Previdência 
Social em geral; os programas de desenvolvimento comunitário realizados 
sob os auspícios da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste 
(SUDENE), do Instituto Brasileiro de Reforma Agrária (IBRA) e o Instituto 
Nacional de Desenvolvimento Agrário (INDA); as Secretarias de Estado; o 
Serviço Social Contra o Mocambo; o Departamento de Estradas e Rodagem; a 
Prefeitura Municipal do Recife; a Companhia Hidroelétrica de São Francisco 
(CHESF); a Companhia Hidroelétrica de Boa Esperança (COHEBE); a Rede 
Ferroviária do Nordeste (RFN); a Companhia Pernambucana de Borracha 
mostra da movimentação camponesa, da atuação das esquerdas, da SUDENE e da intervenção norte-a-
mericana nesse período.
58 Pense-se, por exemplo, como, somente no ano de 1957, a ESSPE diplomou o mesmo número de assistentes 
sociais (16)que havia formado, cumulativamente, nos dezesseis anos anteriores de sua existência.
86
Sintética (COPERBO); a Legião Brasileira de Assistência (LBA); as Entida-
des Paraestatais como o Serviço Social do Comércio (SESC), Serviço Social 
da Indústria (SESI) etc.; a Arquidiocese de Olinda e Recife e as Dioceses 
do Interior; a Confederação Evangélica; as Cooperativas; os Hospitais; as 
Empresas Privadas de maior porte etc. (ESSPE, 1969, p. 3). 
Em termos dos campos de trabalho, são assim classificados na Exposi-
ção de Motivos (ESSPE, 1969, p. 2-3), associados às respectivas respostas 
profissionais previstas à época: 
[...] a saúde pública, que pode ser reforçada por esses profissionais com 
vistas à recuperação dos enfermos; a educação, pela integração entre 
escola, família e comunidade; no trabalho, como foi referido, sobretudo 
no âmbito da administração de pessoal, concorrendo para o esclarecimento 
das relações entre patrões e empregados e buscando a sua melhoria, além 
de organizando e coordenando os programas de bem-estar dos emprega-
dos; nos planos de habitação, selecionando e educando os moradores das 
novas residências, auxiliando-os na adaptação ao novo ambiente além 
de colaborarem em outros serviços próprios de comunidade; na justiça 
pesquisando antecedentes sociais, participando das questões envolvidas 
no cumprimento de normas do Direito de Família, assistindo na reabilita-
ção de delinquentes etc.; nos programas de nutrição das escolas, em que 
intervêm fatores sociais auxiliando, também, na disseminação de infor-
mações sobre dietética. Isto, sem falar nos programas de desenvolvimento 
da comunidade, em que o Assistente Social além de exercer funções de 
organização e educação pode realizar numerosos outros trabalhos de con-
teúdo social, variáveis em função dos objetivos fixados e das autoridades 
que superintendem a execução do programa. 
Com isso, buscamos sinalizar o adensamento dos espaços ocupacionais 
e das áreas de atuação, ocorrente, sobretudo, após os anos 1960, para nuançar 
o caráter embrionário das possibilidades de intervenção profissional vigentes
ao final da década de 1940. Embora a consolidação do Serviço Social suponha 
a sua emergência, as alternativas de intervenção presentes nesta última não 
correspondem – nem qualitativa, nem quantitativamente – àquelas alcançadas 
quando da vigência das tendências econômicas, políticas e estatais desabro-
chadas pelo metabolismo capitalista das décadas seguintes. 
4. Considerações finais
Os anos 1940 consistem no período de gestação do Serviço Social em 
Pernambuco. Com efeito, até antes do encerramento da década, os supostos que 
contribuiriam para forjá-lo enquanto área de intervenção sócio-ocupacional 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 87
específica, com inserção minimamente efetiva e reconhecida na aparelhagem 
assistencial, ainda estavam sendo firmados. Essa particularidade temporal do 
evolver da profissão no estado, por sua vez, contribui para a determinação 
dos arranjos teórico-metodológicos, da especificidade e complexidade das 
demandas e respostas profissionais, da autorrepresentação dos agentes, que 
marcam peculiarmente o Serviço Social nessa realidade regional desde sua 
constituição. Ou seja, já a partir da sua efetiva emersão profissional, pratica-
mente dada na entrada dos anos 1950, os vetores próprios da sua constituição 
não se restringem aos que concretizam estritamente o Serviço Social “tradi-
cional” e o “perfil pedagógico da ‘ajuda’”. 
Seja em algumas experiências práticas iniciais mais consistentes, sejam 
nos requisitos da formação especializada firmados após o aparelhamento 
da ESSPE, se inscrevem elementos próprios da erosão do tradicionalismo, 
também associados ao “perfil pedagógico da ‘participação’” (ABREU, 2008) 
– tanto, por exemplo, com a assimilação de disciplinas e instrumentos da
abordagem “comunitária” (após 1948), com o envolvimento da ESSPE nos 
Congressos Pan-americanos de Serviço Social (iniciados a partir de 1945), 
quanto com a evidente presença, no discurso e orientação profissional, de um 
aspecto técnico, balizado pela psiquiatria e/ou por referenciais norte-ameri-
canos (notadamente, na experiência ocorrida em finais de 1940, na Escola 
Ulisses Pernambucano, e na criação do Fichário Central de Obras Sociais, 
também nesse período). Essa particularidade sinaliza para uma tessitura do 
Serviço Social em Pernambuco mais permeável (menos refratária) a tendên-
cias atualizadoras e/ou inovadoras – cujo espectro comporta, desde aquelas 
de cariz modernizador, até as perspectivas abertamente contestadoras. 
88
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CAPÍTULO 5 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO 
NOS ANOS 1950: racionalização do ensino 
e diversificação técnico-profissional
Adilson Aquino Silveira Júnior
Lenita Maria Maciel de Almeida
Mariana Macena da Silva
1. Introdução
Esse estudo exploratório visou apreender as determinações que particu-
larizam o Serviço Social em Pernambuco nos anos 1950. Tal particularidade 
foi abordada, sempre com caráter aproximativo, considerando as seguintes 
dimensões: (I) as expressões da “questão social” em nível regional e seu pro-
cessamento através das políticas sociais pelo Estado; (II) as reconfigurações da 
formação profissional, com vistas à sua racionalização e atualização através da 
influência norte-americana; (III) a constituição dos espaços e demandas sócio-o-
cupacionais, e das respostas profissionais, suas transformações e tendências na 
década. Nos anos 1950, tais dimensões inscrevem-se num estágio do desenvol-
vimento do Serviço Social – em nível regional e nacional – no qual se verifica 
o progressivo processo de laicização, institucionalização e profissionalização,
sob a crescente influência do estrutural-funcionalismo norte-americano. As 
três dimensões foram apropriadas por meio de dados primários e secundários 
oriundos de fontes bibliográficas e documentais.
Do ponto de vista teórico, o estudo pode contribuir no avanço das pesquisas 
sobre a história da profissão no estado. Inobstante a importância das investi-
gações existentes, verificamos ainda um pequeno número de iniciativas isola-
das, e debruçadas sobre dimensões e temporalidades parciais (GOMES, 1987; 
PADILHA, 2008; VIEIRA, 1992). Do ponto de vista profissional, a investigação 
histórica tem o potencial de fundamentar projetos de intervenção que, aproprian-
do-se eficazmente do passado, consigam ambicionar objetivos e alternativas de 
atuação referenciados pela ruptura com o conservadorismo, tradicionalmente 
perpetuado, usualmente sob novas formas e expressões. 
O primeiro eixo, relativo às expressões da “questão social” e às políti-
cas sociais em Pernambuco, foi explorado através do estudo bibliográfico de 
94
monografias, dissertações, teses e livros afetos aos referidos temas; as fontes 
bibliográficas que constituíram o ponto de partida dizem respeito aos trabalhos 
de Gomes (1987), Gominho (2011, 1998, 1993), Padilha (2008), Page (1972), 
UFPE (1985) e Vieira (1992). Os aspectos nacionais foram apropriados princi-
palmente pelos seguintes textos: Ammann (2003), Behring e Boschetti (2006), 
Fernandes (1976), Ianni (1977), Oliveira (1981) e Vieira (1983). As variáveis 
principais capturadas com o estudo bibliográfico correspondem a três comple-
xos de determinações basilares na constituição e desenvolvimento do Serviço 
Social: a especificidade do metabolismo da acumulação capitalista incidente na 
realidade regional nos anos 1950; as principais manifestações da desigualdade 
social desenvolvida sob essa especificidade econômico-social contraditória, e 
as conflitualidades e lutas precipitadas por tal dinâmica; e as respostas mais 
significativas, das instâncias de governo e dos organismos da sociedade, a essas 
desigualdades e conflitos na forma de ações, serviços e políticas sociais, base 
das demandas e dos espaços ocupacionais do Serviço Social.
Os demais eixos, correspondentes à dinâmica da formação profissional, 
aos espaços de trabalho e às respostas profissionais, foram abordados, predomi-
nantemente, através de dados primários (coletados nos documentos da extinta 
Escola de Serviço Social de Pernambuco (ESSPE), em especial as monografias 
defendidas entre os anos 1950-1960) e, subsidiariamente, dados secundários, 
oriundos de estudos que abordaram, direta ou indiretamente, os temas em tela 
– em especial, os trabalhos de Padilha (2008), Vieira (1992) e UFPE (1985). No
tocante à dinâmica da formação profissional nos anos 1950, as principais variá-
veis que a contemplam correspondem às reconfigurações no quadro e conteúdo 
das disciplinas ofertadas, nas definições e processamento das experiências de 
estágio, nas articulaçõesinstitucionais em que a ESSPE se envolve para o aper-
feiçoamento do ensino. Além das sínteses já fornecidas pela pesquisa de Vieira 
(1992) em torno dessas variáveis, utilizamos como fontes de dados, principal-
mente, os relatórios anuais da direção da ESSPE, os regulamentos, estatutos e 
regimentos da ESSPE e o Relatório da Comissão Verificadora (ESSPE, 1955).
Com respeito ao significado social das respostas profissionais, as principais 
variáveis consideradas foram: as características das instituições que empregam 
assistentes sociais no estado durante o período (seus objetivos organizacionais, 
os “públicos-alvo” atendidos, as ações demandadas para o Serviço Social); 
os objetivos profissionais estabelecidos para os referidos espaços; a especifi-
cidade teórico-metodológica da atuação profissional (racionalidade e matriz 
teórica mobilizadas, de modo subjacente ou explícito) e sua dinâmica técni-
co-operativa. Aqui, contamos especificamente com os dados fornecidos pelas 
monografias produzidas pelas alunas da ESSPE nos anos 1950, nas quais se 
encontram registros bastante aproximados das variáveis apontadas, visto que 
os objetivos centrais dos trabalhos monográficos eram fornecer um registro 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 95
das experiências de estágio nas instituições existentes. O material empírico 
relativo à década de 1950 correspondeu à, aproximadamente, 52 monografias, 
redigidas entre 1951 e 1961. De modo secundário, recorremos a alguns docu-
mentos da ESSPE que forneciam elementos para um mapeamento dos espaços 
ocupacionais – com destaque para os Relatórios Anuais da Direção da ESSPE 
e os relatórios elaborados para a anexação da Escola à UFPE (ESSPE, 1969).
A apreensão dessa realidade é proposta com a perspectiva de levantamento 
e síntese de materiais empíricos, e construção de hipóteses analíticas, referentes 
à particularidade do Serviço Social em Pernambuco nos anos 1950. Do ponto de 
vista analítico, o estudo busca reunir matéria-prima documental e hipóteses para 
decifrar o significado social da profissão na particularidade regional da década, 
em termos dos seus condicionamentos econômicos e políticos específicos, além 
dos efeitos de sua intervenção na dinâmica das relações entre as classes sociais 
e a reprodução das relações sociais e suas contradições.
No Serviço Social em Pernambuco germinam, nos anos 1950, duas 
mudanças que se ligam àquelas detectadas por Iamamoto e Carvalho (2005) 
nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Uma delas, ocorrente no lócus de 
reprodução da categoria profissional, consiste no despertar dos processos de 
racionalização e tecnificação da formação, dos quais as variáveis mais sinto-
máticas são a padronização do ensino, a laicização e a afirmação da influência 
de matrizes teórico-metodológicas norte-americanas. A outra, referente aos 
aspectos da atuação profissional, envolve a institucionalização da profissão, a 
relativa expansão e diversificação dos espaços ocupacionais e um esboço de 
diferenciação técnico-profissional, indicadas no quantitativo crescente de assis-
tentes sociais diplomados, no aumento numérico dos postos de trabalho e numa 
maior diversidade dos métodos e técnicas de que se vale o Serviço Social na 
intervenção. A seguir, buscamos apreender as características e tendências dessas 
transformações em Pernambuco, sinalizando para o caráter ainda germinal das 
mesmas na particularidade dos anos 1950. 
2. O início da racionalização e tecnificação
da formação profissional
Os anos 1950 constituem o período em que se desencadeiam os processos 
de racionalização e tecnificação da formação profissional do Serviço Social em 
Pernambuco. A normatização nacional do ensino expressa-se numa padronização 
cuja consequência é a relativa laicização do currículo da ESSPE. O estreitamento 
das relações do Brasil com os EUA resulta em iniciativas de intercâmbio que 
adensam a influência norte-americana na formação profissional no Nordeste, 
em especial em Pernambuco. A regulamentação da profissão, associada às pres-
sões crescentes pela abertura e reconhecimento de ocupações na aparelhagem 
96
estatal, multiplica o ritmo das diplomações. E as contingências globais das 
transformações na estrutura socioeconômica e no Estado, em nível nacional e 
regional, parecem agravar as vicissitudes estruturais e financeiras da ESSPE, 
despertando a necessidade de sua absorção pela universidade.59
Inobstante esse desencadeamento, nos anos 1950 não são operadas trans-
formações profundas naquelas variáveis que definiam o Serviço Social em 
Pernambuco na década anterior. No plano das condições estruturais e humanas 
para efetivação da formação especializada, observam-se circunstâncias mais 
consistentes, progressivamente alcançadas após meados de 1940, como a incor-
poração de assistentes sociais formadas no quadro docente e a aquisição de um 
prédio próprio para sede da Escola. Ademais, orientada pelas resoluções das 
convenções da Associação Brasileira de Escolas de Serviço Social (ABESS) 
e, em seguida, pela padronização legal do ensino instituída pela Lei n. 1.889, 
de 13 jun. 1953, e o Decreto n. 35.311, de 2 abr. 1954, a Escola realizou alte-
rações substantivas no currículo durante a primeira metade da década, cuja 
consequência mais significativa foi o adensamento das disciplinas afetas ao 
campo profissional e o enxugamento dos componentes doutrinários do currí-
culo mínimo – algo que foi revertido com a adoção de disciplinas eletivas, e 
a realização de seminários de formação, visando o fortalecimento dos valores 
católicos entre o corpo discente. Assim, após a efetiva regulamentação do ensino 
em Serviço Social no Brasil, a ESSPE encaminhou ao Ministro da Educação 
um pedido de reconhecimento, que demandou um relatório de uma comissão 
verificadora federal. O reconhecimento foi concedido pelo Decreto n. 39.009, 
de 14 abr. 1956. 
Associadas a padronização e relativa laicização do currículo, manifes-
tam-se as primeiras articulações que incidem no maior peso da influência nor-
te-americana na formação do Serviço Social em Pernambuco. Um canal que 
sedimentou essa hegemonia no Serviço Social brasileiro foi o intercâmbio das 
Escolas com professores e profissionais estrangeiros (norte-americanos e euro-
peus), a partir dos termos do Acordo Ponto IV. Isso resultou em diversas ações, 
em termos do Nordeste: em 1952, a visita da assistente social norte-americana 
Miss Katheryn Knapp cumprindo o Acordo Ponto IV, e patrocinada pela União 
Pan-americana, para subsidiar os trabalhos assistenciais e da ESSPE durante 
um mês; em 1953, a visita de Rose Alvernaz para discutir Serviço Social de 
Menores; em 1954, a concessão de bolsa de estudos, pela Organização das 
Nações Unidas (ONU), para uma professora da Escola (a vice-diretora Maria 
Dolores Coelho) estudar Cooperativismo na Dinamarca; em 1955, a exposição 
59 Caso se queira completar o quadro dessa trajetória da racionalização e tecnificação da formação profissional, 
aberto nos anos 1950, deve-se acrescentar a experiência (inconclusa) de departamentalização pela qual 
passa a ESSPE nos anos 1960, apoiada através de um convênio com o Fundo das Nações Unidas para a 
Infância (UNICEF-FISI) (SOUSA; CARMO, 1965), e as transformações levadas a efeito com a incorporação 
da Escola à Universidade Federal de Pernambuco, a partir de 1971. 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 97
das atividades da Conselheira de Bem Estar do Instituto de Assuntos Intera-
mericanos do Ponto IV, Lavínia Keys; ainda em 1954, a visita das diretoras da 
União Católica Internacional de Serviço Social (UCISS) para discutir a Ação 
Social na Bélgica e as atividades da entidade; no mesmo ano, a promoção de 
um curso sobre Serviço Social de Grupo, por parte de Miss Catherine Jennings, 
este contando com 182 alunos/as, entre professores/as, supervisores, estudan-
tes e pessoal de obras sociais de Pernambuco, Paraíba,Rio Grande do Norte 
e Ceará; no ano seguinte, o retorno de Miss Jennings, com apoio de Lavínia 
Keys do Ponto IV, para complementação do curso; posteriormente, uma confe-
rência sobre Cooperativismo com o Padre Peter Nearing, do Canadá. Durante 
o período, houve também uma intensa visitação de renomados intelectuais da
profissão em nível nacional: Alceu Amoroso Lima (1956), Balbina Ottoni Vieira 
(1956), Giovana Xavier (1958), Sarah Fiúza (1959), Maria Augusta Albano 
(1960), dentre outros (VIEIRA, 1992).
Por outro lado, são reiteradas algumas vicissitudes funcionais e financeiras 
que praticamente acompanham todo o período de existência da Escola. Tais 
vicissitudes se expressavam, por exemplo, na instabilidade e nas defasagens 
das finanças60, que implicavam: na incapacidade de efetivação de reformas e 
melhorias necessárias a aparelhagem do prédio para assumir plenamente as 
funções pedagógicas (como no caso do projeto inconcluso de um auditório); 
na baixa remuneração (referida como efetivamente simbólica) dos elementos 
que assumiam encargos docentes, na ocorrência de atrasos dos honorários e 
em baixos índices de frequência dos/as professores/as na aplicação das dis-
ciplinas. Associado a isso, ocorriam limitações pedagógicas implicadas nas 
dificuldades de garantia de satisfatórias supervisões acadêmicas e de campo do 
estágio, causadas, seja pelo excesso de trabalho das professoras e assistentes 
sociais, que acumulavam vínculos, seja pela ausência mesma de profissionais 
em alguns campos novos procurados pelas alunas (como nos casos de algumas 
experiências exploratórias no âmbito da Organização e Desenvolvimento de 
Comunidade). Ademais, o acumulo de tarefas com outras profissões, por parte 
das alunas, e a falta de tempo para a orientação, por parte das professoras, 
levava as concluintes a recorrentes atrasos na finalização dos Trabalhos de 
Conclusão de Curso (TCC’s) e, portanto, no alcance da diplomação – algo que, 
possivelmente, condicionou a extinção do procedimento de arguição oral desses 
trabalhos, em 195861, e a abertura para a possibilidade de realização dos mesmos 
60 Pelos Relatórios Anuais da Direção da ESSPE, observa-se que menos da metade dos recursos da Escola 
correspondiam às taxas escolares pagas pelas alunas. A maior parte dos recursos advinha de doações 
diversas e das subvenções – e destas, as de maior peso eram as do Governo Federal e da LBA, em menor 
medida do Governo Estadual e Municipal, em algumas ocasiões, do Departamento Nacional da Criança 
(DNCr), da UNESCO e da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE). 
61 Em documento da ESSPE que apresenta a justificativa da supressão da arguição dos TCC’s, assim se coloca 
o argumento: “[...] a supressão da argüição do trabalho de conclusão de curso corresponde a opinião da
98
em grupo, a partir de 1965.62 Em determinados momentos, o baixo recrutamento 
também representou uma preocupação da administração da Escola, ao ponto 
dos seus quadros docentes e discentes envolverem-se em algumas campanhas 
para a divulgação do Serviço Social nas escolas, com expectativa de ampliação 
de candidatas ao exame de admissão.63
Em suma, os problemas, sobretudo financeiros, se avolumam a tal ponto 
que a Escola foi obrigada a tomar uma decisão, em 1958, pelo pedido de sua 
agregação a então Universidade do Recife. A partir daí se inicia um processo de 
negociação com a administração universitária que apenas se conclui no início 
de 1970, e no curso do qual foi suplantada a condução confessional e privada 
do ensino em Serviço Social no estado. Algo já em vista dos setores que admi-
nistravam a Escola, quando, ainda em 1961, precisaram substituir o pedido de 
agregação, logo recusado pelo então Reitor da Universidade do Recife, pela 
requisição de incorporação – que significava, segundo um relatório da própria 
direção da Escola, a “[...] renúncia à sua posição de entidade particular e confes-
sional tornando provável o aparecimento de outros problemas mais graves que o 
financeiro, como sejam a quebra de sua orientação doutrinária e a interferência 
da política partidária na instituição” (ESSPE, 1961, p. 24).
Do ponto de vista do quadro docente e do corpo profissional, a década 
de 1950 se diferencia da anterior apenas pelo fato de que nela pode-se dizer que 
a Escola começou de fato a diplomar as alunas que iniciaram suas primeiras 
turmas (enquanto nos anos 1940 verificam-se duas diplomações, na década 
seguinte, esse número foi pouco mais de sessenta, com a maior parte das mesmas 
concentradas entre os anos 1957-1959). Efetivamente, só a partir desses anos 
finais da década é que se pode constatar o início de um padrão novo no ritmo 
das diplomações – até 1956 vê-se, na média, menos que uma diplomada por 
ano e, após esse momento, essa média subiu para aproximadamente 15. Com 
efeito, tal fenômeno, em parte, se explica pela afirmação dos marcos legais da 
padronização e racionalização do ensino em nível nacional e pelo reconhe-
cimento do exercício profissional. Em parte, também pode estar associado à 
expansão e diversificação das oportunidades profissionais ocorrentes com a 
ampliação dos espaços ocupacionais – embora nas proporções e circunstâncias 
maioria das Escolas de Serviço Social reunidas ultimamente em Salvador, por ocasião da VII Convenção 
da Associação Brasileira de Escolas de Serviço Social (ABESS). Igualmente, corresponde ao desejo dos 
alunos manifestado no I Congresso Nacional de Estudantes de Serviço Social, realizado em Recife, em 
fevereiro do corrente ano. Na realidade, a argüição não acrescenta em nada a experiência do aluno e o valor 
do trabalho. Por outro lado, levando-se em conta a tensão nervosa muito comum nas pessoas submetidas a 
provas orais, pode trazer para o aluno resultados pouco satisfatórios que não correspondem à sua própria 
capacidade” (ESSPE, [1957 ou 1958]).
62 Sobre essa questão, um documento avulso da ESSPE registra que a motivação para a adoção desse procedimento 
relacionava-se a execução do plano de estágio em equipe e com objetivos comuns e atividades correlatas.
63 Esse quadro geral de dificuldades, acumulado até os anos 1960, e que serviu de justificativa para encampar 
o projeto de departamentalização, é esboçado em Sousa e Carmo (1965). 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 99
de um mercado da força de trabalho ainda restrito. Ou seja, se nos anos 1940 
os espaços ocupacionais onde o Serviço Social em Pernambuco inseria-se com 
alguma estabilidade e lastro de reconhecimento institucional reduziam-se a, 
aproximadamente, meia dúzia, na década de 1950 esse número cresce para 
mais que o dobro.64
3. Expansão restrita e diversificação dos espaços ocupacionais
No intervalo que se desdobra, desde a criação da ESSPE, até o início dos 
anos 1950, os espaços ocupacionais onde se encontravam assistentes sociais 
formadas, e com colocação profissional reconhecida oficialmente pelas estru-
turas institucionais no estado, circunscreviam-se aos seguintes:65 a própria 
Escola de Serviço Social de Pernambuco; o Juizado de Menores; o Conjunto 
Residencial de Casa Amarela; o Hospital Centenário; o Serviço Social da 
Indústria (SESI); a Agência de Serviço Social do Posto de Puericultura 
Francisco Pignatari; a Agência de Serviço Social Familiar – Comissão 
Estadual de Pernambuco; a Agência de Serviço Social do Hospital Osvaldo 
Cruz; a Agência de Serviço Social da Fábrica de Camaragibe; e a Agência 
de Serviço Social Familiar da Escola de Serviço Social de Pernambuco. Com 
exceção da Escola de Serviço Social, em todas as instituições o Serviço Social 
começou a comparecer a partir finais dos anos 1940, e, de modo mais palpável, 
quando a década já estava se encerrando. 
A documentação disponível forneceu algumas características desses pri-
meiros espaços ocupacionais, sinalizando algumas tendências predominantes 
nesse estágio de emergência do Serviço Social em Pernambuco: uma intervenção 
profissional balizada pelaconcepção de “desajustamento social” e metodolo-
gicamente referenciada no Serviço Social de Casos; um público-alvo basica-
mente constituído por crianças, adolescentes e mulheres de franjas das classes 
trabalhadoras na condição da superpopulação relativa, ou absorvidas, especial-
mente, no setor do comércio (sem extração tipicamente operária). Em muitas 
circunstâncias, tratava-se mesmo de inserções embrionárias – ou caracterizadas 
64 Em notícia publicada em abril de 1956 sobre o reconhecimento da Escola pelo Jornal do Comércio, são 
elencadas as instituições nas quais, naquela altura, estavam trabalhando as primeiras diplomadas. Assim 
menciona a notícia: “Com efeito, muitos estão trabalhando nas seguintes instituições: IAPC, IAPB, IAPI, 
Delegacia Regional do Departamento Nacional da Criança, Departamento Estadual da Criança, Comissão 
Estadual da LBA, SESI, Fichário Central de Obras Sociais, Obras Sociais da Paróquia de Casa Amarela, 
Bom Pastor, Divisão de Tuberculose, Diretoria de Educação e Cultura, Instituto Domingos Sávio, Sociedade 
Pernambucana de Combate à Lepra e a Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural (ANCAR).” 
(ESSPE, p. 30, [19--?]).
65 É sempre forçoso advertir que tais conclusões correspondem à aproximação a essa realidade permitida pelo 
andamento da pesquisa. Até o momento, além dos espaços ocupacionais listados, alguns registros sugerem 
a existência de assistentes sociais na Divisão de Tuberculose, criada em 1948, integrando o Departamento 
de Saúde Pública do Estado (GUARANÁ, 1958).
100
por experiências exploratórias de alunas concluintes, sem a marca do reconhe-
cimento institucional da profissão no órgão, ou de espaços que nos finais da 
década apenas haviam reconhecido a criação de equipes, mas não usufruíam dos 
recursos humanos e estruturais para o desenvolvimento pleno dos trabalhos. De 
modo que, daquele rol de instituições, efetivamente apenas pode-se dizer que a 
Escola de Serviço Social de Pernambuco, o Juizado de Menores e o Conjunto 
Residencial de Casa Amarela estavam mais distantes dessas marcas do estatuto 
embrionário das inserções até finais de 1940. 
Em termos da estrutura ocupacional, na década de 1950 testemunhamos, 
ainda que dentro de limites visíveis, a expansão e diversificação do Serviço 
Social em Pernambuco. Na mesma época, encontramos o seguinte quadro de 
transformações nos espaços ocupacionais e nas respostas profissionais, resu-
mido por Iamamoto e Carvalho (2005, p. 343), numa apreciação com foco nos 
estados do Rio de Janeiro e São Paulo: 
No fim da década de 1940, e especialmente na década seguinte, abre-se 
um novo e amplo campo para os Assistentes Sociais; as grandes empresas 
(especialmente as indústrias) passam a constituir um mercado de trabalho 
crescente. O Serviço Social se interioriza, acompanhando o caminho das 
grandes instituições, a modernização das administrações municipais, e o 
surgimento dos novos programas voltados para as populações rurais. Ao 
mesmo tempo, nas instituições assistenciais – médicas, educacionais etc. – o 
Serviço Social paulatinamente logra maior sistematização técnica e teórica 
de suas funções, alcançando definir áreas preferenciais de atuação técnica. 
Aprofunda-se, no plano do ensino, a influência norte-americana, voltando-se 
o Serviço Social ainda mais para o tratamento, nas linhas da psicologia e
psiquiatria, dos desajustamentos psicossociais. O Serviço Social de Grupo, 
que há tempo vinha sendo utilizado de forma tradicional (recreação e edu-
cação), na década de 1950 começa a fazer parte dos programas nacionais 
do SESI, LBA, SESC, em hospitais, favelas, escolas etc., iniciando-se uma 
nova abordagem – que relaciona estudos psicossociais do participante com 
os problemas da estrutura social e utilização da dinâmica de grupo. 
Sobre a abordagem comunitária, que passa a constituir uma novidade na 
intervenção, assim esclarecem Iamamoto e Carvalho (2005, p. 345): 
As iniciativas vinculadas ao Desenvolvimento de Comunidade apresentam 
nesse período franco desenvolvimento, com o surgimento de uma série de 
organismos e a realização de importantes Seminários. Esses organismos 
desenvolverão programas que buscam sua inspiração na experiência nor-
te-americana. Estarão, essencialmente, baseados em técnicas do Desen-
volvimento de Comunidade e perseguem a modernização da agricultura 
brasileira, tendo por estratégia a Educação de Adultos. 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 101
Grosso modo, o Serviço Social em Pernambuco não destoa do que sucedia 
no Sudeste, apresentando apenas um ritmo de relativo atraso face aos cen-
tros industriais e governamentais mais importantes do país. Mesmo antes de 
encerrada a década de 1960, a composição do mercado de trabalho de assis-
tentes sociais estava em expansão, e era francamente mais diversificada do 
que aquela despontada nos anos 1940. O crescente adensamento dos espaços 
de trabalho manifesta-se pela diversidade de áreas de atuação já presente na 
década de 1950 – inobstante se a inserção, em alguns casos, ainda carecia de 
legitimação institucional ou marcava-se apenas por experiências pontuais. Ou 
seja, o reduzido quadro dos espaços ocupacionais de assistente sociais, encon-
trado nos anos 1940, é relativamente dinamizado na década seguinte. Porém, o 
caráter restringido dessa dinamização, funda-se no fato de que ela ainda não se 
apoiava num impulso de industrialização e numa nova qualidade da intervenção 
estatal – algo que ocorreria com a implantação da SUDENE e a deflagração 
do ciclo ditatorial. 
Uma expressão do desenvolvimento desigual interno (FERNANDES, 1976) 
do capitalismo no Brasil é o compasso temporal peculiar da acumulação capi-
talista na região Nordeste: somente no curso da segunda metade do século XX 
ela sofre um impulso industrializante efetivo. Após a década de 1960, a erosão 
da economia tradicional e a submissão ao capital monopolista, comandado 
pelo Centro-Sul, e subsidiado pelo Estado, implicaram num agravamento das 
sequelas sociais da acumulação e num acirramento das lutas de classes em 
nível regional. Concomitantemente, ocorria uma significativa modernização 
e complexificação da aparelhagem governamental necessária à regência dos 
novos processos produtivos e ao deslocamento das contradições sociais e polí-
ticas crescentes – cujo ponto culminante se encontra nas mudanças operadas 
no bojo do ciclo ditatorial (OLIVEIRA, 1981). 
Considerando a inserção desigual e retardatária da região Nordeste no 
circuito industrializante despertado no estágio de transição do capitalismo no 
Brasil dos anos 1950, podemos supor que essa dinamização do mercado de 
trabalho do Serviço Social em Pernambuco não germinou das inovações pro-
dutivas, comerciais e financeiras que a irrupção da realidade dos monopólios 
no país começava a inaugurar. Nessa década, a economia do Nordeste não 
comportava os processos de industrialização conduzidos pelo adensamento da 
intervenção estatal que iriam marcar sua realidade posteriormente, pela decisiva 
mediação da SUDENE. Mais que isso, a política econômica de favorecimento 
da agroexportação do café, e da industrialização no Centro-Sul, produzia um 
efeito mesmo regressivo na economia açucareira-têxtil, que mais diretamente 
condicionava a vida produtiva em Pernambuco. 
Desde finais do século XVIII, o desenvolvimento das forças produti-
vas tipicamente capitalistas nos países dominantes progressivamente afeta as 
102
disputas no mercado mundial e, por consequência, a demanda externa do Brasil, 
implicando no descolamento dos produtos da economia agroexportadora até 
então dominantes. Esses deslocamentos apenas cooperaram para acirrar arti-
culadamente, na região onde se insere Pernambuco do início do século XX, as 
contradições sociais colocadas pela mecanização da agricultura e o surgimento 
da produção têxtil. Diga-se, inviabilizaram a expansão da economia açuca-
reira-têxtil, comprometendo as formas burguesas transitóriasde produção e 
apropriação do valor aí germinando através do impulso de industrialização 
refletido das usinas e na manufatura têxtil66. Isso em benefício da produção 
do café no Centro-Sul (e da subsequente industrialização lá deslanchada) e da 
ascensão do poder econômico e político da produção algodoeira-pecuária no 
próprio Nordeste, junto com o latifúndio e a oligarquia a ela ligada, os “coro-
néis” (OLIVEIRA, 1981). 
Diz Oliveira (1981) que a economia açucareira é premida de tal modo pela 
produção agroexportadora do café (em seguida também pela industrialização 
que se desdobra com ela), e pela produção algodoeira-pecuária, que recriava 
internamente mecanismos de acumulação primitiva com processos e relações 
de produção pré-capitalistas (como o “cambão”, mercados “cativos” de traba-
lho nas usinas, o “barracão”), com o que se condenou à estagnação.67 Donde, 
durante a expansão do capital industrial concentrada no Centro-Sul, o duplo 
papel – com sequelas sociais de vulto – do Nordeste como: a) uma reserva do 
exército industrial de reserva, cujo efeito foi a migração em massa da força 
de trabalho; b) uma fonte de capital – que ainda ali se formava – drenada para 
aquela industrialização pela política econômica vigente (OLIVEIRA, 1981, 
p. 37). Em larga medida, esse cenário é relativamente alterado apenas com o
surgimento da SUDENE; até a década de 1950 ele constituiu a base do atraso 
das forças produtivas capitalistas no Nordeste e o insumo para os conflitos 
políticos mais significativos da década em Pernambuco – expressos, seja na 
ascensão das Ligas Camponesas, seja na movimentação do proletariado urbano 
e rural no sentido da coligação de forças populares. Isso significa que as bases 
das expressões típicas da “questão social” nessa realidade regional encontra-
vam-se relacionadas: (1) às consequências sociais e políticas da mecanização 
da agricultura e da agudização do latifúndio; (2) ao atraso econômico, explo-
ração e pauperismo extremo das regiões sertanejas, dominadas pela economia 
66 Sobre as causas e as características do período de expansão e decadência da burguesia agrário-industrial 
no Nordeste, entre o final dos anos setenta do século XIX e as primeiras décadas do século XX, ver Oliveira 
(1981, p. 61-64). 
67 Oliveira (1981, p. 64) identifica aí a recriação de “[...] formas de defesa anticíclicas não-capitalistas: não 
ocorria o desemprego, nas crises da economia açucareira: ocorria apenas a volta de parte da população 
trabalhadora às ‘economias de subsistência’, a formas quase-naturais. Essas formas de defesa foram-lhe 
extremamente eficazes para não desaparecer, mas cobraram seus direitos na medida em que a impediam 
de expandir-se.”
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 103
algodoeira-pecuária; e (3) pelas colisões políticas e iniquidades sociais geradas 
pela exploração operária no âmbito tipicamente manufatureiro. 
Portanto, nos parece que a expansão restrita e diversificação incipiente do 
Serviço Social no estado guardam mais relação com a estruturação e ampliação 
das políticas e instituições sociais criadas no Estado Novo, que ocorrem com 
mais demora nessa realidade. Além disso, deve-se também ao avanço da atuação 
em organizações, próprias dos governos do estado, criadas nos anos 1940, e que 
consolidam seus trabalhos na década seguinte (como no Serviço Social Contra 
o Mocambo, o Serviço Social Escolar, a Colônia Penal Bom Pastor). Em geral,
no Recife, as expressões da “questão social” refletiam-se na degradação humana 
e na ameaça política proliferadas com os mocambos – onde se aglutinavam os 
dramas sociais de operários, desempregados e retirantes. Essa foi uma forma 
fenomênica típica da “questão social” na cidade, na qual as políticas sociais 
germinadas com o Estado Novo centralizavam as suas modalidades de inter-
venção e desdobravam, por seu turno, os espaços ocupacionais que absorviam 
as primeiras assistentes sociais.
Considerando o panorama de relativa paralisia da política social no Brasil 
dos anos 1950, as poucas e limitadas inovações da época se refletem nos campo 
de trabalho em Pernambuco, como nos casos da ampliação das campanhas de 
Saúde Pública (principalmente repercutindo na existência de assistentes sociais 
começando a atuar nos serviços voltados ao combate à tuberculose) e da estru-
turação das ações do Departamento Nacional da Criança (com a intervenção 
verificada na Campanha Educativa do DNCr no estado). Apenas desponta, para 
o Serviço Social em Pernambuco, uma inserção mais condicionada pela conjun-
tura própria dos anos 1950, quando das primeiras intervenções, nos anos finais 
dessa década, nos projetos de assistência rural (com a inserção na experiência 
piloto da Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural, no interior do 
estado, por exemplo), motivados pelo acirramento das lutas camponesas. 
Com isso, o próprio Serviço Social vai refletindo, na sua dinâmica interna, 
uma diferenciação técnico-profissional, sobretudo após meados da década 
de 1950. Isso se manifesta no desenvolvimento de processos próprios do Ser-
viço Social de Grupos, em algumas instituições, e na aplicação de métodos 
vinculados à esfera do Desenvolvimento e Organização de Comunidade, ao 
lado das práticas tradicionais individualizantes do Serviço Social de Casos, já 
consolidadas e majoritárias – donde, igualmente, uma diferenciação de funções 
e instrumentos começa a despontar, com a aplicação de estudos e pesquisas 
sociais, a atuação com planejamento, coordenação e supervisão de programas 
e projetos. Ademais da patente presença de tendências teórico-metodológicas 
tecnicistas modernizadoras, paralelas (ou mesmo imbricadas) com as impos-
tações doutrinárias – embora não haja descolamento quanto a equalização das 
expressões da “questão social” em termos da concepção de “desajustamento”. 
104
As tendências com caráter mais inovador (atuação com grupos e organização 
de comunidade, intervenção em coordenação e supervisão de programas, com 
viés tecnicista) manifestam-se, embora normalmente de modo híbrido, nas 
ações patrocinadas por organismos internacionais ou incluídas das grandes 
instituições sociais (SESI, SESC, Institutos de Aposentadorias e Pensões). O 
público majoritário, embora não exclusivo, mantém-se constituído de mulheres 
adultas e jovens, e crianças das famílias trabalhadoras, sejam aquelas inscritas 
na força de trabalho ativa (em menor número), sejam aquelas incluídas no 
exército industrial de reserva.
Aglutinamos as áreas de atuação existentes em Pernambuco nos anos 1950, 
considerando a prevalência das necessidades de reprodução social em torno das 
quais os espaços ocupacionais pareciam centralizar-se. E, apenas em segundo 
plano, diferenciamos a classificação dessas áreas de acordo com a sua inserção 
na arquitetura institucional das políticas sociais da época. De modo que se 
observa, na classificação que projetamos para a distribuição e análise dos espa-
ços ocupacionais do Serviço Social no estado, determinadas entidades sociais 
aparecendo em mais de uma área – como no caso das instituições previdenciá-
rias que, por criarem equipamentos especializados na atenção à saúde de seus 
segurados e, em alguns casos, também dedicarem-se a algumas necessidades 
habitacionais, inscrevem-se concomitantemente nas áreas da atenção médica 
e da habitação social. Assim, o leque de espaços ocupacionais onde encontra-
mos assistentes sociais (ou alunas concluintes) desenvolvendo algum tipo de 
intervenção no campo do Serviço Social em Pernambuco nos anos 1950 são 
assim distribuídos: Assistência Social; Saúde Pública e Atenção médico-previ-
denciária; Previdência social; Habitação social; Justiça; Educação; Assistência 
Rural; Coordenação de organizações assistenciais. A seguir, abordamos tais 
áreas, buscando fornecer os traços gerais dos espaços ocupacionais onde se 
incluía o Serviço Social. 
3.1 Assistência Social
Na área da Assistência Social, o Serviço Social emPernambuco acumula 
significativa expansão e diversificação nos anos 1950, absorvendo a maior parte 
da inserção de assistentes sociais na década, seguida da Saúde Pública e Atenção 
médico-previdenciária. A diversificação dessa área se expressa na miríade de 
instituições que incorporam serviços e ações assistenciais, além daquelas criadas 
na década, destinadas a esses objetivos precípuos. Podemos desdobrar, ainda 
que de modo aproximado, a pluralidade de frentes em três segmentos articula-
dos: os empreendimentos voltados à assistência pública propriamente dita; as 
ações de assistência à maternidade e à infância; e as iniciativas de assistência 
ao trabalhador empregado nos setores formais do mercado da força de trabalho. 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 105
No segmento da assistência pública, encontra-se o Serviço Social inserido 
em equipamentos da Legião Brasileira da Assistência (LBA), como o Ambu-
latório Jarbas Maranhão da Comissão Estadual da LBA (FEITOSA, 1960), ou 
subvencionado pela mesma, como a Agência de Serviço Social Familiar da 
ESSPE (CALÁBRIA, 1960; SILVA, 1958). No âmbito rural, também se apre-
senta a inserção do Serviço Social no caso da Agência de Serviço Social Familiar 
da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição em Nazaré da Mata, no final da 
década (ANDRADE, 1958). Também está presente em Agências de Serviço 
Social Familiar no Posto de Puericultura Francisco Pignatari (LIMA, 1958) e 
no Posto de Puericultura Torrões Galvão (MELLO, 1960), ligados ao Depar-
tamento Estadual da Criança. 
Algumas dessas instâncias, com marcada interseção com a esfera da 
assistência à maternidade e à infância, também recebiam suporte financeiro e 
ações patrocinadas por um Programa do Departamento Nacional da Criança 
(DNCr) em associação com o Fundo Internacional de Socorro a Infância (FISI-
-UNESCO), por meio de uma Campanha Educativa – fornecendo, por exemplo, 
serviços, benefícios, assistência educativa, nucleação de grupos (os “Clubes de 
Mães”). Nessas ações com envolvimento do DNCr-FISI, verificam-se experiên-
cias do Serviço Social com organização social de comunidade – como a ocor-
rida em 1953 no território de Fernando de Noronha (ALBUQUERQUE, 1957) 
e na Paróquia do Senhor Bom Jesus do Bonfim Arraial, em Casa Amarela, 
entre 1955-1957 (DUARTE, 1957) – e mesmo a inserção de aluna concluinte 
em trabalhos de Planejamento da Campanha para os municípios do estado 
(MACIEL, 1959). 
Naquilo que se refere, em específico, à assistência ao trabalhador, basica-
mente o Serviço Social se inscreve nas instâncias ou seções assistenciais das 
grandes instituições sociais, já criadas na década anterior, com destaque para o 
Serviço Social da Indústria (SESI) e o Serviço Social do Comércio (SESC). Em 
especial na atuação num subnúcleo do SESI na Companhia Industrial Pernam-
bucana (Fábrica de Camaragibe), com uma Agência de Serviço Social Familiar, 
desenvolvendo acompanhamentos individualizados com a aplicação do Serviço 
Social de Casos, utilizando-se de plantões sociais, visitas domiciliares, atividades 
de lazer dirigidas, concessão de auxílios etc., em torno das necessidades de sub-
sistência, de saúde, de trabalho e de habitação de mulheres, homens e crianças 
das famílias operárias (COLLIER, 1955; COLLIER, 1957; GOMES, 1958; 
PORTELA, 1960). Nesse subnúcleo, além da abordagem individualizante de 
casos, esboça-se uma experiência de organização da Juventude Operária Cató-
lica (JOC) tendo em vista a condução dos trabalhos para o Serviço Social de 
Grupo e Comunidade (GOMES, 1958). Explicita-se, nas várias experiências, 
a complementação do trabalho religioso católico, já presente na Fábrica, com 
as finalidades educativas do Serviço Social. 
106
Outros registros apontam para a presença do Serviço Social no Núcleo 
Aníbal Cardoso do SESI no Cotonifício da Torre – Escola do Cotonifício 
da Torre, desenvolvendo trabalhos na mesma perspectiva, inclusive envere-
dando para a intervenção com grupos de adolescentes, em meados da década 
(ARAÚJO, 1959). Por outro lado, o trabalho de Costa (1961) evidencia uma 
experiência de supervisão (chefia e administração de obras sociais) das ações 
do SESC na capital e interior. Indica a atuação com os métodos de caso, grupo 
e comunidade ocorrendo através das ações do SESC, principalmente na Divi-
são de Serviços Sociais (com os cursos de educação familiar, por exemplo) da 
Direção Regional do SESC em Pernambuco – indica a autora que o primeiro 
Centro de Atividades do SESC em Pernambuco data de 1950. 
3.2 Saúde Pública e Atenção médico-previdenciária
Na década de 1950, um dos campos de maior peso e de importante expan-
são da atuação do Serviço Social em Pernambuco referiu-se à Saúde Pública 
e à Atenção médico-previdenciária. Na maioria dos casos, atuando através das 
estratégias do Serviço Social Médico e do método de Serviço Social de Casos 
nos serviços centrados no problema da tuberculose entre operários, subemprega-
dos e desempregados. Além disso, se verifica pioneiramente o desenvolvimento 
de algumas pesquisas sobre a condição social dos pacientes atendidos, com 
vistas a aperfeiçoar os atendimentos médicos e acompanhamentos dos casos. 
Encontra-se um Serviço Social estruturado no âmbito da Divisão de Tuberculose 
do Departamento de Saúde Pública do Estado, atuando em alguns de seus equi-
pamentos: Dispensário Agamenon Magalhães (COSTA, 1959; PONTES, 1954), 
Dispensário Amaurí de Medeiros (GUARANÁ, 1958), Divisão de Tuberculose 
no Hospital Oswaldo Cruz (ALMEIDA, 1955; CAVALCANTI, 1959; COUTI-
NHO, 1960; MENEZES, 1958; NASCIMENTO, 1959) e Conjunto Sanatorial 
Otaviano de Freitas (MELO, 1961; MORAIS, 1958). Esse campo se expande 
no contexto da Campanha Nacional Contra a Tuberculose que ganha fôlego 
na década. 
Por outro lado, existe uma presença, embora menos expressiva, em equi-
pamentos destinados à atenção médico-previdenciária, em especial do Instituto 
de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (IAPI), também com enfoque no 
problema da tuberculose entre operários vinculados ao Instituto, em específico 
no seu Posto Central de Assistência, na Clínica Tisiológica (BARBOSA, 1959; 
CARNEIRO, 1957) – além de uma atuação com a saúde das operárias na Clínica 
Ginecológica do mesmo Posto (PROENÇA, 1957). Encontramos registros, 
ainda, da atuação do Serviço Social no Ambulatório do Instituto de Aposentado-
rias e Pensões dos Comerciários (IAPC) entre 1951 e 1958 (GITIRANA, 1960), 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 107
com a prática do Serviço Social Médico, realizando inquéritos, e o Serviço 
Social de Casos com pacientes acometidos pela tuberculose. 
Majoritariamente, expressava-se a intervenção do Estado no sentido de 
conter uma condição de agravamento de saúde da massa trabalhadora condicio-
nada pela superexploração. Nessa circunstância, os baixos salários, associados 
às longas e extenuantes jornadas de trabalho, provocava a subnutrição e a baixa 
da imunidade que, vivenciadas em circunstâncias habitacionais degradantes, 
favoreciam o desenvolvimento e o contágio da tuberculose. 
Evidencia-se a presença incipiente do Serviço Social também na Clí-
nica do Câncer, um pavilhão construído pela Sociedade de Assistência aos 
Indigentes Hospitalizados (depois Sociedade Pernambucana de Combate ao 
Câncer) no Hospital de Santo Amaro (pertencente à Casa de Misericórdia) 
(SANTOS, 1959). Também como expressão de outra campanha nacional. Aí 
tem início um setor de Serviço Social em fevereiro de 1956 aplicando Serviço 
Social de Casos orientado pela concepção de “desajustamento”. 
Na interface com a política de Educação, existe a presença do Serviço 
Social no Hospital das Clínicas da Universidade do Recife, conhecido como 
Hospital Dom Pedro II. Hospital que também estava ligado ao Governo Estadual 
através da Fundação de Ensino Superior (Faculdade de Medicina), e colaborava 
com os postos do Departamento Estadual da Criança. Osregistros sinalizam para 
uma equipe do Hospital atuando na área da puericultura, nucleação de grupos, 
atendimentos assistenciais, e sensibilizando para os aspectos médico-sociais 
dos alunos de medicina (CAVALCANTI, 1968; CORDEIRO, 1960).
3.3 Previdência social
Durante toda a década, praticamente não se registra a intervenção do Ser-
viço Social especificamente nos órgãos centrais de atendimento previdenciário. 
Basicamente, as práticas existentes inscrevem-se nos ambulatórios e conjuntos 
residenciais vinculados aos Institutos, em especial o IAPC e o IAPI, desenvol-
vendo Serviço Social Médico através da abordagem individualizante de casos. 
Ou no Conjunto Residencial de Casa Amarela, vinculado ao IAPC, com o 
Serviço Social realizando acompanhamento de casos e nucleação de grupos, 
numa agência e num Centro Social. No final dos anos 1950, esboça-se a inser-
ção de agentes profissionais nas Delegacias desses Institutos, com a realização 
de concurso público no IAPI para assistentes sociais que passariam a compor, 
provavelmente somente na década seguinte, um setor no órgão central do Insti-
tuto (PONTES, 1954), e com a instalação, em 1959, do Serviço Social na Dele-
gacia do IAPC, preparando-se para os trabalhos com orientação e informação 
de segurados, habilitação de benefícios, e tratamento de casos sociais (GITI-
RANA, 1960). Destacam-se, nesses anos, a atuação no sentido de preparação, 
108
com a criação de Planos de Trabalhos e aparelhamento para a intervenção 
nesses órgãos da Previdência Social (GONÇALVES, 1955). A incipiência do 
Serviço Social nessa esfera manifesta a defasagem estrutural-funcional de que 
padeciam ainda os órgãos da Previdência nos anos 1950 – cuja razão de fundo 
também se relaciona com a expressividade ainda limitada que os processos de 
industrialização alcançaram em Pernambuco no período. 
3.4 Habitação social
Em Pernambuco, a emergência no Serviço Social liga-se diretamente com 
o acirramento das contradições sociais expressas na degradação habitacional,
manifesta com o problema dos mocambos. A intervenção social do Estado 
Novo aglutinou aí seu principal eixo de amortecimento do pauperismo e da 
insatisfação política. Isso determina o fato de que precocemente encontra-se o 
Serviço Social atuando das ações voltadas aos problemas habitacionais. Desde 
meados dos anos 1940, assistentes sociais e alunas desenvolveram intervenção 
no Conjunto Residencial de Casa Amarela, financiado pelo Instituto de Aposen-
tadorias e Pensões dos Comerciários (IAPC). Inicialmente realizando a triagem 
de beneficiados com as casas, o Serviço Social passou a atuar também com o 
tratamento de casos sociais numa Agência de Serviço Social de Casos no Con-
junto. E logo passou a desenvolver experiências de Serviço Social de Grupos 
que ganharam suporte com a criação de um Centro Social (BARRETO, 1955; 
CAVALCANTI, 1955; GITIRANA, 1960; RENDA, 1959; OLIVEIRA, 1957). 
Porém, Gitirana (1960, p. 11) informa que em 1956 o Serviço Social naquele 
Conjunto passa por uma crise que leva a sua dissolução em 1959. Em todo 
o percurso, o público atendido foi, majoritariamente, de esposas e filhos de
associados/as do Instituto. 
De outra parte, Melo (1960) informa que, até 1960, o Serviço Social Contra 
o Mocambo (SSCM) contava com duas assistentes sociais (uma delas con-
cluinte) trabalhando na Secção de Assistência à Família Operária (SAFO) do 
Departamento de Reeducação e Assistência Social (DRAS) – não se identifica, 
nos documentos disponíveis, quando o Serviço Social teria iniciado, no órgão 
criado em 1945, antes existente como associação Liga Social Contra o Mocambo 
(1939). O organograma do SSCM mostra que a SAFO estava incluída em Cen-
tros Operários Católicos de 12 bairros do Recife na época. Apenas no início dos 
anos 1960, se verifica uma experiência buscando a aplicação dos métodos de 
Desenvolvimento e Organização de Comunidade (MELO, 1960); antes disso, 
a atuação do Serviço Social reduzia-se ao trabalho assistencial imediato com as 
famílias. O trabalho das assistentes sociais aparece ligado aos procedimentos 
de concessão das casas entre as famílias. No início dos anos 1960, Melo (1960) 
aponta a necessidade de projetos educativos para o desenvolvimento comunitário 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 109
no SSCM, como a Educação de Adultos, referenciando-se, por outro lado, na 
perspectiva cristã para o Serviço Social.
3.5 Justiça
Na área da Justiça, o Serviço Social em Pernambuco se apresenta em 
face das expressões da “questão social” vividas por crianças, adolescentes e 
mulheres em conflito com a lei e/ou submetidas à reclusão. Nessa esfera, se 
manifestam algumas das contradições mais agudas colocadas pela exploração 
e opressão de trabalhadores/as empobrecidos/as e suas famílias: aquelas que 
se estendem ao ponto de levarem crianças e mulheres a colidirem com a lega-
lidade, e enfrentarem os aparelhos repressivos do Estado, com suas funções 
coercitivas, mas igualmente socializadoras. Aí, o Serviço Social está presente, 
tanto no atendimento ao chamado “problema do menor delinquente”, enfrentado 
através do Juizado de Menores e seus equipamentos assistenciais e de reclu-
são, desde meados de 1940 (SILVEIRA, 1958), quanto, após meados de 1950, 
desponta com experiências iniciais no âmbito penitenciário, com a realização 
dos primeiros estágios na Colônia Penal de Mulheres Delinquentes Bom Pastor 
(OLIVEIRA, 1958). E com os primeiros estágios desenvolvidos no Reforma-
tório para meninas do Instituto Bom Pastor (SILVA, 1957). Nesses espaços, 
desenvolvem-se experiências, ou práticas já consolidadas, de Serviço Social 
de Casos, com explícito teor doutrinário e confessional. No caso das institui-
ções administradas pelo Instituto Bom Pastor, são explícitos os laços entre o 
Estado e a Igreja criados durante o governo de Agamenon Magalhães, no bojo 
do Estado Novo, para o exercício da ação doutrinária, educativa e repressora 
sobre as mulheres apenadas e as crianças e adolescentes infratores.
3.6 Educação
Na Educação propriamente dita, o Serviço Social em Pernambuco parece 
conservar uma condição menos incipiente do que aquela existente nos anos 1940. 
A relativa expansão do ensino na década – requisito para o alcance dos padrões 
mínimos exigidos para a formação da força de trabalho num período de indus-
trialização – passa a demandar progressivamente a consideração da instituição 
escolar pelas variáveis sociais que afetam o aprendizado e a participação regular 
de alunos. Ademais das necessidades de alfabetização acumuladas com o déficit 
educacional e da disparidade cultural de uma fração da classe trabalhadora que, 
expulsa do campo e socializada para a agricultura e a vida rural, passa a com-
por as fileiras do proletariado no espaço urbano. Assim, além das modalidades 
tradicionais de aplicação do Serviço Social de Casos para a solução dos “desa-
justamentos econômicos” de crianças e famílias ligadas às escolas, o Serviço 
110
Social na Educação se propõe a estender uma ação educativa complementar 
entre grupos e com abordagem comunitária. 
Na década, observa-se uma nova experiência de estágio na Escola Ulisses 
Pernambucano, quando uma concluinte assumiu o posto de assistente social 
recentemente oficializado, mas que se manteve ocupado apenas no próprio 
período de estágio, entre 1951-1952, atuando na equipe médico-social com as 
técnicas do Serviço Social de Casos (CAVALCANTI, 1957). Por outro lado, 
em 1959 registra-se outra experiência com aluna estagiária, agora no Grupo 
Escolar Rural Heróis da Restauração (Departamento de Assistência Escolar – 
Serviço Social Escolar) aplicando um trabalho de Serviço Social de Grupos 
que, no início da década seguinte, desdobrou-se para uma ação de Alfabeti-
zação de Adultos guiada pelos métodos de Desenvolvimento de Comunidade 
(PINHEIRO, 1961). A então aluna da ESSPE, já funcionária (auxiliar técnica) 
do Serviço Social Escolar do Grupo Escolar Rural Heróis daRestauração, rea-
lizava tais ações, ao que se percebe, sem que se contasse com o Serviço Social 
oficialmente nos quadros Escola, num caráter experimental. Nesses casos, a 
perspectiva tecnicista parece dominar (no âmbito da Escola Ulisses Pernambu-
cano), apontando, inclusive, uma inspiração no Movimento de Cultura Popular 
(no caso do Grupo Escolar). 
A maior consistência na área diz respeito aos registros, também após mea-
dos da década, de existência de assistentes sociais atuando no Serviço Social 
Escolar, mantido pelo Departamento de Assistência Escolar da Secretaria de 
Educação e Cultura, após 1952, recorrendo aos métodos de casos, grupo e 
comunidade, como parece ser o exemplo da experiência nas Escolas Reuni-
das Mota e Albuquerque em Casa Amarela (MELO, 1957). Mas encontram-se 
aplicações exploratórias da organização de comunidade (pesquisa, nucleação 
de grupo, mobilização de recursos) na Escola de Especialização Rural Murilo 
Braga (distrito de Cavaleiro, município de Jaboatão) (FONSECA, 1958) e no 
Grupo Escolar Frei Caneca (Santo Amaro) (DOURADO, 1960).68
3.7 Assistência Rural
O final dos anos 1950 sinaliza para a abertura de uma área de interven-
ção ainda inexplorada, que iria abrigar algumas atuações do Serviço Social no 
meio rural, com instituições e iniciativas voltadas para a Assistência Rural. 
O acirramento das tensões políticas no campo, germinado com a degradação 
social crescente de camponeses e proletários rurais, provocada pela mecani-
zação da agricultura e o alastramento do latifúndio, impeliu a intervenção de 
68 O Instituto Domingos Sávio aparece também em alguns documentos e notícias como espaço de atuação do 
Serviço Social nos anos 1950. A ausência de outros documentos com maiores detalhes não nos permitiu, 
até o momento, identificar as características do Serviço Social nessa instituição. 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 111
instituições nacionais e internacionais voltada para a reversão dos ditos fatores 
de “subdesenvolvimento” no meio rural. Após finais da década, essa intervenção 
balizou a abertura de espaços ocupacionais para o Serviço Social em equipes 
multiprofissionais encarregadas com a pesquisa, planejamento e execução de 
projetos de desenvolvimento comunitário – onde as assistentes sociais inscre-
viam-se na execução de estudos, mobilização de recursos, formação de lide-
ranças, desenvolvimento de ações educativas complementares às alterações na 
infraestrutura, implantação de equipamentos sociais, deslocamento de tensões 
políticas decorrentes da implantação dos projetos. 
Assim, observa-se uma atuação experimental, por exemplo, no Escritório 
Local de Bom Conselho, da Associação Nordestina de Crédito e Assistência 
Rural (ANCAR). Órgão criado para desenvolver um programa de natureza 
educativa e financeira para o desenvolvimento socioeconômico das populações 
rurais do Nordeste, mesmo sem garantir ainda um setor de Serviço Social, con-
tou com uma aluna concluinte entre 1954-1955, realizando pesquisa sobre os 
recursos comunitários, desenvolvendo planejamento de ações, organização de 
lideranças e execução de programas no campo educacional (RIBEIRO, 1958). 
Nos últimos anos da década, existe também uma atuação pontual num 
projeto Piloto de Eletrificação Rural em Itacuruba e Rodelas, no sertão do São 
Francisco (BEZERRA, 1959). A aluna concluinte integrou, como assistente 
social, a equipe do Projeto Piloto patrocinado pela Divisão de Assuntos Eco-
nômicos e Sociais da Organização dos Estados Americanos, em convênio com 
a Comissão do Vale do São Francisco. O projeto pretendia implantar energia 
elétrica numa zona rural, com a perspectiva de desenvolvimento de comuni-
dade, associando a instalação desses recursos ao trabalho educativo necessário 
para capacitar a população ao uso da terra. A atuação do Serviço Social foi 
de realização de inquérito para conhecimento das comunidades, nucleação e 
dinamização de grupos sociais e produtivos, trabalho junto a instituições para 
mobilizar recursos, com um público basicamente de mulheres, jovens e crianças 
(ainda pouco incidente sobre os agricultores homens), algumas associações e 
instituições públicas. Nos anos seguintes, a inserção do Serviço Social nesse 
âmbito se estende para os trabalhos do Conselho Regional de Pernambuco 
do Serviço Social Rural (CR/PE), no qual se desenvolve uma experiência de 
Desenvolvimento e Organização de Comunidade no meio rural pernambu-
cano, entre março e setembro de 1961, no município de Camocim de São Felix 
(ANDRADE, 1961).
3.8 Coordenação de organizações assistenciais
Necessário registrar a iniciativa do Serviço Social em Pernambuco na cria-
ção e funcionamento do primeiro espaço para atuação claramente referenciado 
112
pelas problemáticas da organização de comunidade: em finais de 1949, a ESSPE 
inicia a instalação (e abriga a própria sede) do Fichário Central de Obras Sociais, 
com apoio de outras organizações, e a participação de suas alunas e professoras. 
Com efeito, esse fichário era funcional diretamente para o apoio ao atendi-
mento de casos individuais (e a sua finalidade de “reajustamento individual”), 
na medida em que propiciava o conhecimento dos recursos assistenciais locais; 
porém, também proporcionaria a chance de coordenação de esforços para o 
planejamento de obras, constituindo instrumento para a coordenação das comu-
nidades (NOVA et al., 1985; SOUZA, 1953). No início de 1950, Sabóia (1952) 
indica a sistematização de um estudo, utilizando os registros do Fichário, em 
torno das instituições de assistência social e a proteção à maternidade e à infân-
cia, que trabalhavam com o público de mulheres (mães) e crianças em Per-
nambuco. Nele, a concluinte desenvolveu um mapeamento e avaliação dessas 
instituições, realizando um resgate das organizações de assistência do passado, 
uma avaliação dos recursos do Estado e de outras entidades para esse público. 
Nota-se aí uma abordagem mais técnica e metódica, com a manipulação de 
bases teóricas norte-americanas, e incipiente incidência do horizonte religioso 
e doutrinário.
4. Considerações finais
O estudo indica duas tendências operantes na realidade do Serviço Social 
em Pernambuco nos anos 1950: trata-se de um período em que se desencadeiam 
a racionalização e tecnificação da formação profissional, ao mesmo tempo em 
que se desenvolve uma expansão restrita e diversificação incipiente da inserção 
ocupacional. Ambos fornecem o suporte para a germinação do processo de 
profissionalização. O adensamento dos espaços ocupacionais e das áreas de 
atuação contrasta com o caráter embrionário das possibilidades de intervenção 
vigentes ao final da década de 1940. 
Embora a consolidação do Serviço Social suponha a sua emergência, as 
alternativas de intervenção presentes nesta última não correspondem – nem 
qualitativa, nem quantitativamente – àquelas alcançadas quando da vigência 
das tendências econômicas, políticas e estatais desabrochadas pelo metabolismo 
capitalista das décadas seguintes. E os anos 1950 se mostram, nesse intervalo, 
como uma fase de transição onde a profissionalização prepara o terreno para a 
diversificação mais ampla que ocorre depois. Seu plano de fundo é a progressiva 
afirmação dos processos de industrialização e intervenção estatal colocados pela 
realidade dos monopólios crescente, donde se exige, ademais, respostas gover-
namentais ao acirramento das lutas de classe pelo proletariado urbano e rural.
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 113
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CAPÍTULO 6 
BASES DA RENOVAÇÃO DO SERVIÇO 
SOCIAL EM PERNAMBUCO: afirmação da 
“abordagem comunitária” entre 1940 e 1960
Adilson Aquino Silveira Júnior
Lenita Maria Maciel de Almeida
1. Introdução
O artigo apresenta notas históricas sobre a afirmação do Desenvolvimento 
deComunidade (DC) no Serviço Social em Pernambuco durante as décadas 
de 1940-1960. Consiste num momento no qual germinam alguns condicio-
namentos da renovação profissional nessa particularidade. As notas estão 
direcionadas para o estágio em que ocorre a progressiva assimilação do DC 
no Serviço Social. Nosso interesse é a caracterização das transformações pelas 
quais passam o Serviço Social no processo dessa assimilação, considerando 
suas dimensões interventivas, corporativas, formativas e ideais. 
Para tanto, foram um guia inicial de apropriação da realidade os documen-
tos da antiga Escola de Serviço Social de Pernambuco (ESSPE), as monografias 
desenvolvidas pelas alunas da ESSPE entre os anos 1940-1970, as pesqui-
sas e artigos que se debruçaram sobre essa história (BERNARDES, 2006; 
GOMES, 1987; VIEIRA, 1992; PADILHA, 2008; UFPE, 1985, 1990), além 
da bibliografia consolidada sobre o tema do DC e o Serviço Social em nível 
nacional (ABREU, 2008; AMMANN, 2003; CASTRO, 2000; IAMAMOTO; 
CARVALHO, 2005; SOUZA, 1999; WANDERLEY, 1998).69
No texto que segue, nos dedicaremos a destrinchar os aspectos mais 
ou menos intrínsecos à caracterização do Serviço Social em Pernambuco. 
Tomamos como pressuposto os fundamentos teórico-metodológicos e histó-
ricos consolidados na literatura profissional (ABREU, 2008; CASTRO, 2000; 
IAMAMOTO, 2004, 2006, 2010; IAMAMOTO; CARVALHO, 2005; 
MOTA, 1985; NETTO, 2004, 2005; YAZBEK, 1993). Também consideramos 
69 Embora esse texto não se proponha recuperar e inventariar os argumentos sobre a concepção de DC e 
seu significado histórico, presentes da literatura crítica do Serviço Social e áreas afins, deve-se reconhecer 
a contribuição que eles tiveram para subsidiar a exploração da realidade regional que delimitamos. 
122
subjacentes as condicionantes macroscópicas das metamorfoses do Serviço 
Social entre os anos 1940-1970, dentre as quais estão: as novas relações de 
forças no imperialismo posterior à Segunda Guerra, conformadas pelo capi-
talismo tardio, a ascensão da hegemonia norte-americana, a polarização da 
chamada “Guerra Fria”, as mudanças na divisão internacional do trabalho e 
das modalidades de intervenção do Estado (BEHRING, 2011; CASTRO, 2000; 
MANDEL, 1985; NETTO, 2013, 2004, 2005); a transição industrial que marca 
a entrada do capitalismo no Brasil para o estágio dos monopólios, da indus-
trialização restringida para a industrialização pesada, associadas aos câmbios 
na divisão social do trabalho, internamente operantes, e no aparelho do Estado 
– trata-se da fase de irrupção do capitalismo monopolista, no qual ocorre a 
reorganização do mercado e do sistema de produção, através de operações 
comerciais, financeiras e industriais da grande corporação (predominantemente 
estrangeira, mas também estatal e mista) (FERNANDES, 1976; IANNI, 1977; 
MELO; NOVAIS, 1998; MELLO, 1986; NETTO, 2004, 2005, 2014); a inser-
ção desigual e combinada do Nordeste no estágio do capitalismo monopolista 
no Brasil (OLIVEIRA, 2008); e o metabolismo das lutas de classes e as 
formas concretas da “questão social” em âmbito latino-americano, nacional 
e regional, nos anos 1950-1970. 
O DC70surge como mediação de uma ampla estratégia dos países impe-
rialistas centrais (capitaneados pelos Estados Unidos) para criar condições 
políticas, administrativas e culturais favoráveis para integrar e dinamizar o 
capitalismo e o mercado latino-americanos sob sua supremacia. Prolifera-se 
após a Segunda Guerra, no bojo da tentativa de integração da América Latina 
sob a tutela no pan-americanismo monroista, a partir das poderosas organiza-
ções internacionais que brotam ao fim do conflito bélico – com destaque para 
os órgãos da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Organização 
das Nações Unidas (ONU) (CASTRO, 2000). Com seus antecedentes ligados 
às experiências das possessões inglesas na Ásia e na África, além das inicia-
tivas de abordagem comunitária no interior dos EUA, o DC aparece como 
um conjunto de técnicas, métodos, como um campo de intervenção da área 
social e/ou como um processo do Serviço Social, matizado especialmente 
pelo estrutural-funcionalismo norte-americano e as colocações etapistas do 
pensamento desenvolvimentista. Encerra a “questão social” em fatores téc-
nicos, a serem manipulados pela intervenção governamental e profissional, 
com vistas a desabrochar os potenciais latentes nas comunidades, pretensa-
mente capacitando-as para a resolução das suas próprias iniquidades sociais 
(AMMANN, 2003; CASTRO, 2000). As contradições do propalado subde-
senvolvimento são encaradas como inconsistência dos potenciais latentes 
nas comunidades – donde a psicologização e despolitização das expressões 
70 Frequentemente também identificado por Desenvolvimento e Organização de Comunidade (DOC). 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 123
da “questão social”, cindindo seus vínculos estruturais com as contradições 
capitalistas na periferia do imperialismo (ABREU, 2008).
Com esses pressupostos, a consecução dos resultados dos programas 
de desenvolvimento comunitário exigia a constituição da ligação entre as 
comunidades e o governo. Demandava um trabalho técnico que impulsio-
nasse a população a agir, direcionado para essas finalidades de “catalização e 
mudança social”, através de meios como os fichários e levantamentos de obras 
sociais e potencialidades do meio comunitário, pesquisa e planejamento social, 
nucleação de grupos, capacitação de lideranças, dentre outros. A vigência do 
DC condicionou uma etapa de revalorização profissional, conferindo melho-
res posições para o Serviço Social nas administrações públicas. Trata-se de 
um momento em que o/a assistente social alcança possibilidades de êxito e 
conquista de reconhecimento social, expresso na abertura para concessão de 
bolsas de estudos e especialização, acesso a cargos hierárquicos, participação 
em pesquisas e equipes multidisciplinares, ampliando-se e diversificando-
-se o mercado de trabalho (CASTRO, 2000).71 Tais modificações começam 
a penetrar o Serviço Social brasileiro do decorrer dos anos 1940, porém a 
equalização dos organismos e horizontes corporativos com as finalidades do 
desenvolvimentismo (expressa no II Congresso Brasileiro de Serviço Social, 
de 1961) apenas se efetiva com as adaptações na visão desenvolvimentista 
operadas no início dos anos 1960, condicionadas pelas contradições econô-
micas e políticas da acumulação capitalista das décadas anteriores (IAMA-
MOTO; CARVALHO, 2005). 
A assimilação do DC no Serviço Social em Pernambuco, enfocadas par-
ticularmente as décadas de 1940-1960, implicou na germinação dos condi-
cionamentos da renovação profissional nessa particularidade. Ordenamos o 
tratamento do tema, aglutinando a exposição segundo os principais vetores 
de transformações pelas quais passam o Serviço Social na assimilação do DC 
71 Assim sintetiza Netto (2013, p. 21) esses impactos do DC para o Serviço Social nos países periféricos: “A 
proposta reformista-conservadora logo se revelaria (como o atestaria, por exemplo, o fracasso do programa 
norte-americano da Aliança para o Progresso), mas dinamizou o Serviço Social em algumas áreas periféricas 
e semiperiféricas, especialmente pela generalização da intervenção de profissionais no então recentemente 
expandido campo do desenvolvimento de comunidade – sobre o qual passou a exercer-se também a influência 
das ideias progressistas do Pe. Lebret. Ademais de requisitar novas qualificações, eminentemente técnicas, 
dos assistentes sociais (p. ex., as relacionadas ao planejamento social), de colocá-los frente a problemáticas 
macrossociais (forçando a ultrapassagem dos limitados círculos do trabalho centrado em indivíduos e com 
pequenos grupos, expressos no espaço do “psicossocial”) e de levá-los a novas interações com a sua 
inserção em equipas multiprofissionais, o desenvolvimentismo, dada a sua vocação promocionalista e a 
sua genérica proposição da “mudança social”,abriu a via para deslocar a centralidade da ação assistencial. 
Como observou M. Manrique Castro, atento analista do Serviço Social periférico, foi precisamente na quadra 
desenvolvimentista que os assistentes sociais pretenderam deixar a condição de “apóstolos” para assumir a 
de “agentes da mudança” – no curto prazo, muitos desses assistentes sociais compreenderam os limites da 
“mudança social” reformista conservadora e radicalizaram as suas propostas profissionais, transcendendo 
o campo do promocionalismo e, inclusive, avançando na crítica do assistencialismo”.
124
no estado: a erosão da influência católica; a afirmação da hegemonia norte-
-americana; a profissionalização; e o adensamento dos espaços ocupacionais 
e diversificação dos processos interventivos. 
2. Erosão da influência católica
Uma transformação que ocorre na época de assimilação do DC pelo 
Serviço Social é a gradual erosão da influência católica. Isso se expressou de 
maneiras diversas, tais como: 
I. No desgaste da legitimidade do enfoque microscópico do Serviço 
Social de Casos, e sua progressiva subordinação às abordagens 
grupais e comunitárias.72
II. Na gradual laicização das construções ideais de que se vale o Serviço
Social para sua autojustificação, afirmação de horizontes estratégi-
cos da ação, mobilização de valores e normas do comportamento
profissional e do público-alvo.
III Na recondução que a própria Igreja opera em estratégias de atuação 
junto às populações, demandando a reconfiguração das ações tradi-
cionais, através de sua abertura para a organização e desenvolvimento 
de comunidades, visando a renovação paroquial, após 1960, e, depois 
desses anos, numa modernização do próprio discurso nos seus pro-
jetos de DC, em parcerias com organizações estatais e americanas.
IV. Associada a esse deslocamento da Igreja para as ações comunitárias de
base paroquial, presencia-se a crise financeira das Escolas de Serviço
Social a ela vinculadas (algo que guarda relação com as dificuldades
econômicas da Igreja com a modernização do Estado, mas também
com a crescente dificuldade das classes médias na fase de industria-
lização pesada), seguida das negociações para as agregações às ins-
tituições universitárias estatais, onde se rompe definitivamente com
o poder católico na condução da formação. Notemos que isso não
operou, necessariamente, no início, um rompimento do Serviço Social 
com a Igreja, mas um deslocamento para outras áreas de influência. 
Em Pernambuco, na medida em que a Igreja iniciava a negociação 
para o repasse da ESSPE para a UFPE, abria um terreno de demanda 
profissional com seu foco nos movimentos de base, colocando para 
o Serviço Social um novo campo de atuação (a organização comu-
nitária nas áreas das paróquias) a seu serviço (terreno que apenas vai 
desaparecendo quando se avança na década de 1970). 
72 Em termos do debate profissional em nível nacional, a pesquisa de Iamamoto e Carvalho (2005) fornece 
muitos elementos sobre esse processo. 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 125
No estado, a perda da influência católica pode ser detectada nas meta-
morfoses dos requisitos para a formação de assistentes sociais. A ESSPE foi 
fundada em 1940, pelo Juiz de Direito Rodolfo Aureliano, como consequência 
da III Semana de Ação Social de 1939, sendo extinta e incorporada à UFPE 
em 1971 – trata-se, portanto, do terceiro estado a criar uma Escola de Serviço 
Social no Brasil, após São Paulo (1936) e Rio de Janeiro (1937).73 Para a 
criação, seu fundador (e o grupo de apoiadores) contou com as orientações da 
União Católica Internacional de Serviço Social (UCISS), a primeira organiza-
ção internacional de Serviço Social, criada em 1922, por iniciativa de escolas 
católicas europeias (Bélgica, França e Alemanha). Tratava-se de uma entidade 
com forte cunho católico, que, inclusive, impulsionou um movimento de rea-
ção para a criação da Conferência Internacional de Serviço Social (CISS) em 
Paris (1928) – organismo que passou a acolher assistentes sociais e Escolas, 
independente do credo religioso. De todo modo, o grupo de juristas, médicos 
e padres (ligados ao Juizado de Menores e ao Círculo Operário do Recife), 
fundador da ESSPE, inscrevia-se na ala mais progressista da igreja (e mesmo 
leiga), com cariz humanista (PADILHA, 2008).74
Com a primeira turma aglutinando em torno de 15 estudantes, a ESSPE 
apenas teve a primeira aluna formada em 1946, Maria da Glória de Andrade 
Lima, que seria integrada ao corpo docente. Concomitante a esse início, foi 
promovido o intercâmbio de três alunas para o Instituto Social, no Rio de 
Janeiro, a fim de se prepararem para a profissão, e assumirem o ensino no seu 
retorno.75 Há um fortalecimento das matérias específicas do Serviço Social 
no curso – inclusive com a adoção do viés comunitário – após o regresso das 
alunas, entre 1944 e 1948. No início, o currículo apenas contava com uma 
disciplina específica, a de Assistência Social, cujos conteúdos encontravam-se 
73 Antes da criação da Escola, o ensino de Serviço Social já havia iniciado, a partir de um curso oferecido 
nas dependências do Juizado de Menores de Pernambuco, em setembro de 1938, sob direção do próprio 
Rodolfo Aureliano. Em 30 de janeiro de 1941, a Escola é reconhecida pelo interventor Agamenon Magalhães, 
o que a habilitou a receber subvenções do Estado. Após a regulamentação do ensino em Serviço Social, a 
ESSPE encaminhou ao Ministro da Educação o pedido de reconhecimento, que foi concedido pelo Decreto 
nº 39.009, de 11 abr. 1956, do Presidente da República. 
74 Sobre as Escolas de Serviço Social no Nordeste, seus vínculos com a Igreja, e suas mudanças, entre 
1940-1970, consultar quadro de Vieira (1992, p. 200).
75 Em abril de 1942, matricularam-se no Instituto Social do Rio de Janeiro Maria de Lourdes Almeida de 
Morais e Maria Dolores Cruz Coelho. A primeira, havendo concluído seu curso em dezembro de 1943, com 
a apresentação de um trabalho sobre Escola de Serviço Social – seus princípios e meios de traçar os seus 
fins. Retornou a Recife em fevereiro de 1944, tendo sido nomeada, nessa ocasião, diretora da Escola. Em 
1945, quando a Escola muda-se para a nova sede, adquirida através de donativo da Legião Brasileira da 
Assistência (LBA), Maria Dolores conclui seu curso no Instituto Social com a apresentação de um trabalho 
sobre Métodos de Pesquisa em Serviço Social, regressando à Escola a fim de se ocupar da supervisão dos 
trabalhos práticos dos alunos. Após 1948, também retorna do Rio de Janeiro Hebe Gonçalves, assumindo 
o ensino de Organização Social da Comunidade, de Serviço Social de Grupo e de Serviço Social Médico, 
além da supervisão de estágio de numerosos alunos. 
126
relacionados ao Serviço Social de Casos (VIEIRA, 1992, p. 142). Na segunda 
metade da década – já de volta as assistentes sociais formadas no Rio de Janeiro 
– ao lado do reforço das matérias de caráter doutrinário, foi aperfeiçoada a 
parte específica da formação: a anterior Assistência Social sendo substituída 
por Serviço Social; em 1948, inicia-se a Organização Social de Comunidades, 
Serviço Social de Casos, Serviço Social de Grupo; e, em 1950, se incorporam 
as disciplinas Serviço Social do Trabalho e Serviço Social de Menores. 
A introdução dos problemas afetos à ação comunitária no Serviço Social 
em Pernambuco ocorre na relação entre uma demanda germinal de coorde-
nação das obras sociais (manifesta desde final dos anos 1930, pelo Prof. Luiz 
Delgado, na III Semana de Ação Social, e pela Comissão de Obras Sociais 
da Arquidiocese de Olinda e Recife, nos anos 1940) e a iniciativa da ESSPE 
de absorver os conteúdos no currículo (1948), motivada pelo intercâmbio das 
alunas com o Rio de Janeiro. Como decorrência da cadeira de Organização 
Social de Comunidade, cria-se o primeiro espaço para atuação claramente 
referenciado pelas problemáticas de organização de comunidade: em finais 
de 1949, a ESSPE inicia a instalação (e abriga a própriasede) do Fichário 
Central de Obras Sociais, com apoio de outras organizações, e a participação 
de suas alunas e professoras. Com efeito, esse fichário era funcional direta-
mente para o apoio ao atendimento de casos individuais (e a sua finalidade de 
“reajustamento individual”), na medida em que propiciava o conhecimento 
dos recursos assistenciais locais; porém, também proporcionaria a chance de 
coordenação de esforços para o planejamento de obras, constituindo instru-
mento para a coordenação das comunidades. Pela fundamentação do trabalho 
na cadeira de Organização Social de Comunidade, vê-se uma abordagem 
mais técnica e metódica na implantação do fichário, com a manipulação de 
bases teóricas norte-americanas, além da incipiente incidência do horizonte 
religioso e doutrinário (SOUZA, 1953; NOVA et al., 1985). 
A tendência de fortalecimento dos conteúdos laicos e científicos na 
formação, ao lado do adensamento de componentes vinculados a aborda-
gem comunitária, recebeu grande ímpeto com a aprovação do primeiro cur-
rículo mínimo para os cursos de Serviço Social, em 1953-1954. Além de 
uma esterilização em face das disciplinas religiosas, existe, nesse currículo, 
a obrigatoriedade das disciplinas de Introdução ao Serviço Social, Serviço 
Social de Casos e Serviço Social de Grupo, na primeira série; a exigência 
da disciplina de Organização de Social de Comunidade (nas 2ª e 3ª séries), e 
de Administração de Obras Sociais (na 3ª série); ademais de um conjunto de 
outras cadeiras específicas (VIEIRA, 1992, p. 1145-146). Ao institucionali-
zar-se, a formação deixou de ter como componente obrigatório, constitutivo 
da profissão, a orientação católica. Com um currículo mínimo de caráter 
modernizador, a persistência dos conteúdos de natureza católico-doutrinária 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 127
nas décadas seguintes dar-se-ia pela via do currículo pleno. A ESSPE– que 
havia antecipado a adoção de alguns componentes – assume, já em 1953, 
esse novo currículo, embora garantindo a formação doutrinária, através das 
disciplinas de Religião, Doutrina Social, e de um Seminário de Formação 
com caráter de monitoramento moral-pedagógico (VIEIRA, 1992, p. 147). 
Acrescente-se que outras disciplinas, após 1953, complementavam os temas da 
cadeira de Organização Social de Comunidade, como a de Educação Popular, 
Cooperativismo, Sindicalismo, as quais guardavam afinidade com outras como 
Movimento de Educação de Base, Movimento de Cultura Popular e Serviço 
Social Rural. Essas incorporações acompanham a movimentação política da 
época. Além das preocupações dominantes ao nível político, as mudanças no 
plano do curso atendem ao discurso tecnocrático no segundo lustro de 1960; 
por exemplo, com a inclusão das disciplinas Administração em Serviço Social 
e Desenvolvimento e Serviço Social, em 1967.76
3. Afirmação da hegemonia norte-americana
A erosão da influência católica (laicização) ocorre em paralelo com a 
ampliação da visão norte-americana. A infiltração dessa nova base de influên-
cia foi resultado do pan-americanismo monroísta, como assinalado por Castro 
(2000). Embora seu marco seja balizado pelo fim da Segunda Guerra, esse 
movimento hegemônico passou por diversos estágios, muito condicionado 
pelo ritmo das lutas de classe no continente latino-americano (com destaque 
para o momento da Revolução Cubana, que sinaliza a entrada de um estágio) 
e na particularidade no Nordeste brasileiro (em especial após a movimentação 
camponesa e a ascensão de governos reformistas, desde meados de 1950, e da 
seguinte reação para inflexão desses movimentos, com as articulações para o 
Golpe de 1964 e sua sustentação). 
Em termos do Nordeste brasileiro, podemos verificar pelo menos três 
estágios do avanço da influência norte-americana, que se acirra na mesma 
medida em que avança a luta de classes:77
76 Sobre algumas oscilações do currículo, que acompanham o clima político, interessante observar como a 
disciplina de Economia Social, entre 1966-1967, chegou a abordar a questão do desenvolvimento capitalista, 
referenciando-se em Marx e Engels, na apostila de Desenvolvimento Econômico Social. Algo que precisou 
ser alterado no ano seguinte, direcionando-se para o estudo da macro e micro economia (VIERIA, 1992, p. 
154). Já durante a década de 1970, a Escola retirou matérias com um cunho mais politizado, como Educação 
Popular e Sindicalismo, posto o acirramento do controle ideológico ditatorial e a maior inclinação para o 
funcionalismo norte-americano. Para conhecer todas as transformações nos componentes, a demanda de 
alunos e as diplomações, ver Vieira (1992, p. 156, p. 163-164). 
77 Em Mota (2019) encontramos uma boa síntese da relação entre a movimentação das forças políticas e 
estatais no Nordeste e algumas transformações no Serviço Social que apontam para seu processo de 
renovação na particularidade regional. 
128
I. Um primeiro estágio segue dos anos finais da Segunda Guerra até 
a Revolução Cubana. Parece tratar-se de um momento em que o 
início da influência chega pela via da realização de eventos e a 
instalação de intercâmbios com os Estados Unidos. Pense-se, por 
exemplo, no congresso realizado em Atlantic City (1941), que con-
tou com a participação de quatro representantes do Brasil, a convite 
do governo norte-americano. Ou no 1º Congresso Pan-americano de 
Serviço Social, ocorrido em Santiago no Chile, em 194578, no qual 
se saiu com a determinação para a instalação de organizações para 
promover a profissão no Brasil, resultando na criação, em 1946, 
da Associação Brasileira de Escolas de Serviço Social (ABESS) e 
da Associação Brasileira de Assistentes Sociais(ABAS).79 Veja-se, 
ainda, a abertura de um programa norte-americano de bolsas de 
estudos para assistentes sociais brasileiros, em 1949 (a partir da 
articulação iniciada no Congresso de Atlantic City), compondo o 
Programa Ponto IV, firmado pelo Governo Truman, objetivando 
conceder ajuda técnica e financeira visando o desenvolvimento bra-
sileiro. Além de tais meios, foi um canal de chegada da influência 
norte-americana, nesses anos, a assistência técnica (ainda que parca) 
fornecida pelas agências das Nações Unidas ao Nordeste. 
II. Um segundo período se desdobra da Revolução Cubana (e da fase de
ascensão das Ligas Camponesas, da afirmação de administrações de
esquerda em Pernambuco, e dos anos iniciais da Superintendência
do Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE) até a deflagração do
Golpe de abril. Aqui, acirram-se as preocupações americanas com os
desdobramentos das lutas no Nordeste brasileiro, e a atenção mirrada
do Acordo Ponto IV é substituída pela intervenção, mais consistente,
promovida pela Aliança Para o Progresso (pela mediação da Agência
dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional – USAID),
associada aos trabalhos iniciais promovidos pela SUDENE; essa asso-
ciação, como relata Page (1962, p. 83-95; p. 151; p. 195; p. 172; p.
253; p. 262-275), marcada por estágios de apoio mútuo, tensões, coli-
sões, e posterior domínio mais forte da Superintendência pela agência
78 Além de ter enviado delegação a esse 1ª Congresso Pan-americano, a ESSPE esteve presente também no 
2º Congresso Pan-americano de Serviço Social, ocorrido no Rio de Janeiro, em julho de 1949, assim como 
em vários outros com clara influência norte-americana. A ESSPE participava sistematicamente dos eventos 
da UCISS, das Convenções da ABESS, dos Congressos Pan-americanos, além de eventos da Organização 
das Nações Unidas (ONU) e das Dioceses.
79 Em uma das resoluções do 1° Congresso é decidida a criação da ABESS. Na resolução se dizia que “[...] 
deveria ser criada uma associação que permitisse a troca de ideias e experiências entre as assistentes 
sociais e assegurasse o progresso do ensino do Serviço social em cada país... A ABESS organizou seus 
estatutos com algumas exigências mínimas para a filiação das escolas existentes, e das que viessem a ser 
criadas” (VIEIRA,1992, p. 179).
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 129
americana, com o Golpe. Do ponto de vista do direcionamento político 
das ações de organização e desenvolvimento de comunidade, temos 
aqui uma fase de maior radicalização, com influência de vieses desen-
volvimentistas nacionalistas e reformadores. Um exemplo é o vínculo da 
ESSPE com o Movimento de Cultura Popular de Pernambuco (MCP) 
no início dos anos 1960. Em específico o trabalho de uma aluna, Zaira 
Ary, orientada pela professora Dolores Cruz Coelho, na localidade Poço 
da Panela, durante a fundação do primeiro Centro de Cultura Popular do 
Recife, em 1962 (Círculo de Cultura Dona Olegarina).80 Nesse momento, 
não apenas Paulo Freire era professor da ESSPE, mas também outros 
fundadores do MCP (PADILHA, 2008, p. 230). Padilha (2008) afirma 
que as práticas dialógicas, inspiradas nas aulas e trabalhos de Paulo 
Freire, foram aplicadas, ademais, em projetos de desenvolvimento de 
comunidade nos bairros do Recife, Olinda, Cabo de Santo Agostinho, 
Jaboatão dos Guararapes e outras cidades interioranas. 
III. Um terceiro período segue com a consolidação da dominação de
classe que se instaura com o Golpe de 1964, acompanhando as
transformações modernizadoras que a ditadura deflagra em conco-
mitância com o crescimento econômico que está na sua base. Aqui
se estreita a participação americana nos projetos de desenvolvi-
mento, com a SUDENE tornando-se uma chancela para os projetos
da USAID no Nordeste (PAGE, 1972, p. 266-268). Esse terceiro
estágio vai se encerrando quando o próprio ciclo ditatorial entra
em declínio, com a crise econômica e a movimentação política de
meados de 1970 em diante. O momento é marcado, em especial
no final dos anos 1960, pela maior adesão da SUDENE, nas suas
diretrizes, ao trabalho com comunidades, tentando engajá-las nos
projetos de desenvolvimento local. Tal fato aumenta a busca do Ser-
viço Social para se habilitar a participar desse espaço. O Golpe não
provoca um rompimento do Serviço Social com o desenvolvimen-
tismo. Diferente disso, a ditadura aprofunda o relacionamento da
ESSPE com a SUDENE – agora expurgada dos seus quadros mais
progressistas. Ao mesmo tempo em que se opera uma aproximação
da unidade de ensino a Universidade do Recife (depois Universi-
dade Federal de Pernambuco), num período de maior repressão e
patrulhamento ideológico.81 Portanto, ocorre aqui uma acentuação
80 Um interessante testemunho ficou registrado no Trabalho de Conclusão de Curso de Zaira Ary, intitulado Uma 
Experiência de Educação Popular: Centro de Cultura Dona Olegarina. O trabalho foi desenvolvido durante 
um ano (novembro de 1961 a novembro de 1962) e teve a supervisão de Maria Dolores Cruz Coelho.
81 Parece não ter se aplacado de modo intenso as medidas punitivas na ditadura sobre o corpo discente e 
docente da Escola. Apenas poucos professores tiveram que se afastar do ensino ou sair do país, posto suas 
130
do caráter modernizador e funcionalista do DC, com um crescimento 
dos espaços ocupacionais e um incremento do corpo profissional 
– pense-se na introdução da política social no Plano Nacional de
Desenvolvimento, em 1972. 
Uma expressão da tentativa estadunidense de ganhar influência no Ser-
viço Social, no primeiro período, foi o desenvolvimento de um intercâmbio da 
ESSPE com professores e profissionais estrangeiros (norte-americanos e euro-
peus) na década de 1950, a partir dos termos do Acordo Ponto IV. Isso resultou 
em diversas ações: em 1952, a visita da assistente social norte-americana Miss 
Katheryn Knapp cumprindo o Acordo Ponto IV e patrocinada pela União Pan-a-
mericana para subsidiar os trabalhos assistenciais e da Escola durante um mês; 
em 1953, a visita de Rose Alvernaz para discutir Serviço Social de Menores; 
em 1954, a concessão de bolsa de estudos, pela Organização das Nações Uni-
das, para uma professora da Escola (a vice-diretora Maria Dolores Coelho) 
estudar Cooperativismo na Dinamarca; em 1955, a exposição das atividades da 
Conselheira de Bem Estar do Instituto de Assuntos Interamericanos do Ponto 
IV, Lavínia Keys; ainda em 1954, a visita das diretoras da União Católica 
Internacional de Serviço Social (UCISS) para discutir a Ação Social na Bélgica 
e as atividades da entidade; no mesmo ano, a promoção de um curso sobre 
Serviço Social de Grupo, por parte de Miss Catherine Jennings, este contando 
com 182 alunos/as, entre professores/as, supervisores/as, estudantes e pessoal 
de obras sociais de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará; no 
ano seguinte, o retorno de Miss Jennings, com apoio de Lavínia Keys do Ponto 
IV, para complementação do curso; posteriormente, uma conferência sobre 
Cooperativismo com o Padre Peter Nearing, do Canadá. Durante o período, 
houve também uma intensa visitação de renomados intelectuais da profissão 
em nível nacional: Alceu Amoroso Lima (1956), Balbina Ottoni Vieira (1956), 
Giovana Xavier (1958), Sarah Fiúza (1959), Maria Augusta Albano (1960), 
dentre outros (VIEIRA, 1992, p. 152).
4. Profissionalização do Serviço Social
É durante os anos de aproximação e consolidação do DC no Serviço 
Social que ocorre a cumulativa conquista de reconhecimento legal da profissão 
pelo Estado, expressando o processo de profissionalização – aqui considerados 
os marcos legais referentes à constituição de normas e agências para uma 
padronização e racionalização do ensino em nível nacional (Lei n. 1.889 
ligações mais estreitas com o movimento estudantil da Juventude Universitária Católica (JUC) e movimentos 
populares, e sua projeção nacional (VIEIRA, 1992, p. 168). 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 131
de 13 jun. 1953 e o Decreto 35.311, de 2 abr. 1954) e ao reconhecimento do 
exercício profissional (Lei n. 3.252, de 27 ago. 1957, que confere monopólio 
do exercício aos portadores do diploma; e o Decreto-Lei 994, de 15 mai. 
1962, que regulamenta a Lei). Na especificidade de Pernambuco, há uma 
antecipação desse reconhecimento, com a decretação da Lei n. 965, de 14 
dez. 1950, sancionada pelo Governo do estado, sob influência da ESSPE, 
dispondo sobre as nomeações para os cargos de assistentes sociais a serem 
criados pelo estado e pelas autarquias.
O reconhecimento legal da profissão, e a normatização da formação 
(ambos colocando a exigência do diploma para a legitimação do exercício 
profissional), impulsionaram uma multiplicação dos cursos no Brasil, que 
avança na mesma medida em que vai se consolidando o DC como espaço e 
estratégia do Serviço Social. A demanda pela formação superior cresce com o 
adensamento do capitalismo monopolista vetando a possibilidade das formas 
tradicionais de reprodução da pequena burguesia (urbana e rural), levando-a 
a buscar nas inserções no aparelho do Estado a garantia de sua posição eco-
nômica privilegiada. Nesse período, a grande maioria das escolas havia sido 
criada pelas dioceses, grupos religiosos e leigos ligados à Igreja. Há um está-
gio de hibridização de conteúdos religiosos e visões modernizadoras, que se 
infiltram progressivamente nos anos 1950 e 1960, com o currículo mínimo, os 
intercâmbios, os convênios com órgãos governamentais de desenvolvimento, 
e, inclusive, com a própria reorientação da Igreja. 
Tabela 1 – Crescimento das Escolas de Serviço Social no Brasil, entre 1930-196082
DÉCADAS QUANTIDADE DE ESCOLAS
1930 3
1940 9
1950 28
1960 37
Fonte: Vieira (1992)
A regulamentação do ensino ocorre na primeira metade da década 
de 1950, numa fase de abertura, após o fim do Estado Novo. Até essa regu-
lamentação, a ABESS congregava apenas escolas católicas consideradas de 
bom nível cultural. A ABESS, desde sua emergência, se apresenta como um 
instrumento para o avanço da influência norte-americana no Serviço Social 
brasileiro. Isso se mostra palpável nos eventos que impulsionaram sua criação 
82 Acreditamos que esse quadro, retirado de Vieira (1992), pode conter imprecisões face ao quantitativode 
escolas existentes na década de 1940. A tese de Machado (2015) sugere um número maior de escolas já 
existentes no Rio de Janeiro durante esse período. 
132
em 1946. Contraditoriamente, era pelas próprias Escolas de caráter religioso 
que se compunha a ABESS, as mesmas que se empenhavam numa articulação 
e num movimento cujo resultado seria a perda da própria hegemonia católica 
ao longo do tempo. Isso explica o caráter ambíguo dos debates presentes 
nas convenções da ABESS (iniciadas a partir de 1951), onde, por exemplo: 
defende-se reiteradamente o caráter doutrinário e vocacional, mas, ao mesmo 
tempo, dedica-se um esforço para a profissionalização, junto com a padroni-
zação e racionalização da formação, com a criação do currículo mínimo; se 
trabalha para a adoção da disciplina de Organização Social de Comunidade 
no currículo mínimo, ao mesmo tempo em que se avalia a ausência de clima 
para aplicação desse método no Brasil (IV Convenção, 1954) (VIEIRA, 1992). 
A tolerância com a abordagem comunitária cresce nas Convenções, na 
medida mesma do deslocamento da Igreja para esse foco, a partir de 1960 (por 
exemplo, isso aparece na X Convenção de 1960, em Fortaleza, no discurso de 
D. Eugênio Sales), juntamente com a inclinação das novas agências de governo 
para esse fim e a maior pressão americana nesse sentido. Não é casual que seja 
em finais de 1960, na XV Convenção (1967), que se destaque o tema central 
sobre a Integração dos processos de Serviço Social visando a inserção do 
mesmo no processo de desenvolvimento – algo que aparecia naquela conven-
ção ao lado dos anseios para que as Escolas se incorporassem à universidade. 
No ambiente cultural e político da década de 1970, as Convenções 
(de 1973-1975) voltam-se para o tema da reconceituação do Serviço Social. 
A vertente defendida dizia respeito, abertamente, àquela vinculada a uma 
perspectiva modernizadora. A defesa da visão modernizadora é traduzida para 
os aspectos metodológicos internos do Serviço Social pela associação com o 
problema do desenvolvimento. De modo que os anseios reconceitualizadores 
na América Latina são direcionados, na condução dada pela ABESS, para a 
urgência de formulação de novos modelos de intervenção do Serviço Social 
para desempenho de um papel significativo no desenvolvimento. Mais ainda, 
a disputa pelo direcionamento da reconceituação, numa concepção moder-
nizadora, se expressou na proposta apresentada, pelas unidades de ensino 
do Nordeste, apoiada pela SUDENE através de Carlos Alberto Medina, de 
reconceituação do Serviço Social para a integração do mesmo no desenvol-
vimento, com ênfase nas metodologias participacionistas. Nesse episódio, 
evidencia-se um protagonismo do Nordeste, articulado a SUDENE, na disputa 
pela hegemonia do desenvolvimentismo e da “pedagogia da ‘participação’” 
(ABREU, 2008) no debate sobre a reconceituação (VIEIRA, 1992, p. 139). 
Abreu (2008) já havia atentado para o fato de que, no Brasil, a vin-
culação predominante de redimensionamento do projeto profissional no 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 133
bojo da reconceituação estabeleceu-se com a “tendência modernizadora” 
(NETTO, 2005) – sendo bloqueadas as possibilidades de germinação dos 
laços com aquela tendência de vinculação profissional à perspectiva histórica 
das classes trabalhadoras, mormente com a deflagração do Golpe de abril. E 
os Seminários Nacionais de Teorização do Serviço Social, organizados pelo 
CBCISS, foram significativas expressões da tendência profissional integrada 
ao processo de modernização conservadora. Destacam-se os documentos de 
Araxá (1967) e Teresópolis (1970), ao lado de outros esforços de sistemati-
zação desse projeto, com os trabalhos de José Lucena Dantas (1973) e Anna 
Augusta Almeida (1979).83 Todos esses condensam – defende Abreu (2002, 
p. 115-127), e mostra Netto (2005, p. 164-246) – indicações substantivas que
manifestam os contornos do perfil pedagógico da prática profissional sob a 
influência ideológica da modernização conservadora, marcada pelas chama-
das ideologias desenvolvimentistas e da doutrina da segurança nacional e do 
desenvolvimento. Inobstante o desdobramento (e diferenciação) das vertentes 
renovadoras, designadas por Netto (2005) de “modernizadora” e de “reatua-
lização do conservadorismo”, ambas almejavam projetar a contribuição do/a 
assistente social às estratégias participacionistas no processo denominado 
de “desenvolvimento social”: na primeira, com a defesa do “modelo de Ser-
viço Social para o desenvolvimento”; na segunda, com a visão de “modelo 
profissional para a ‘capacitação social’”. Ou seja, as duas equalizando-se 
com a estratégia do DC, ressaltando a prática, seja no nível macro, seja das 
microatuações, para o desenvolvimento social. 
Mas não é apenas nas iniciativas voltadas para a profissionalização e 
reconceituação do Serviço Social, a padronização e racionalização da forma-
ção, que se expressa o papel da ABESS (ao lado de outros organismos, como 
o CBCISS) na consolidação da influência americana. Note-se, por outro lado,
o trabalho formativo com o pessoal docente das Escolas. Entre 1966-1968,
a ABESS realiza três cursos de aperfeiçoamento para professores de Serviço 
Social, apoiados pelo Ministério da Educação (MEC), com uma participação 
de representantes de todo o país. Tal iniciativa se justificava pela necessidade 
de preparação técnica de assistentes sociais para “[...] contribuir no equaciona-
mento e na solução dos problemas sociais, nesse momento de desenvolvimento 
das sociedades industriais” (ABESS, 1969 apud VIEIRA, 1992, p. 138). Além 
disso, outros cursos regionais de aperfeiçoamento foram promovidos com 
apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) (para a região 
83 Netto (2005) alerta que muitos núcleos temáticos que serão desenvolvidos e aprofundados na vertente 
modernizadora de renovação do Serviço Social no Brasil já afloram com nitidez no I Seminário Regional 
Latino-Americano de Serviço Social, realizado em Porto Alegre, em maio de 1965. 
134
Sul e Amazônica), envolvendo assistentes sociais e outros profissionais de 
nível superior, com o intuito de discutir a participação de assistentes sociais 
no desenvolvimento nacional. 
5. Adensamento dos espaços ocupacionais e
diversificação técnico-profissional
Durante esse período ocorre o adensamento institucional-governamental 
dos espaços ocupacionais de assistentes sociais, multiplicando o mercado 
de trabalho no aparelho estatal (mas não só) e, portanto, a demanda de pro-
fissionais – o que, por outra via, expressa a assunção da condição mercan-
tilizada dos serviços prestados pelos/as profissionais. Em Pernambuco, ao 
lado do (ou articulado com o) crescimento e aperfeiçoamento dos espaços 
tradicionais de inserção do Serviço Social (hospitais, instituições psiquiá-
tricas, colônias penais e dispensários, obras assistenciais, escolas, de órgãos 
como a Legião Brasileira da Assistência, os Institutos de Aposentadorias e 
Pensões, o Juizado de Menores, o Serviço Social da Indústria, Serviço Social 
do Comércio, etc.), emerge uma esfera nova de trabalho de intervenção de 
campo para a organização e o desenvolvimento de comunidades. 
As inserções e práticas pioneiras do Serviço Social em Pernambuco 
correspondem à própria transição política em que está ambientada a pri-
meira turma da ESSPE: ou seja, aquela caracterizada pela crise do Estado 
Novo e a emergência de um germe de modernização robustecida com 
o capitalismo monopolista. Daí a primeira experiência de trabalho ser
realizada no bojo de um movimento que já estava nos capítulos finais (o 
movimento circulista vinculado à Igreja) e o primeiro órgão que previu 
assistentes sociais em seus quadros ser o Juizado de Menores. 
O primeiro trabalho sistematizado da prática do Serviço Social em 
Pernambuco84 corresponde à atuação de uma aluna concluinte da ESSPE 
no movimento dos Círculos Operários no Recife, entre 1944-1946. O 
movimentocirculista era vinculado à Ação Católica; atuando em nível 
nacional, buscava exercer influência e controle no meio operário e suas 
organizações, em aliança com o Estado Novo, e portando uma ideolo-
gia anticomunista e conciliatória. A política de cooptação do operariado 
era materializada pela prestação de assistência social, pela formação de 
dirigentes, e por um programa de ação que visava garantir a aplicação da 
legislação social na relação entre trabalhadores e patrões. Uma parte dos 
84 Referimo-nos à monografia da primeira concluinte da ESSPE, Maria da Glória de Andrade Lima, intitulada 
Uma experiência de Serviço Social junto aos Círculos Operários, datada de 1946. Uma análise desse 
trabalho pode ser encontrada em Gomes (1987). 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 135
próprios fundadores da ESSPE – Rodolfo Aureliano e Luiz Delgado, por 
exemplo – fazia parte dos Círculos, inscrevendo-se mesmo nas instân-
cias representativas do movimento. O envolvimento do Serviço Social 
vai ocorrer em 1944, com a escolha, de uma das alunas concluintes, de 
entrada no campo de estágio nos Círculos Operários do Recife – Núcleo 
Prado, desenvolvendo a atividade assistencial e doutrinário-moralizadora 
(remetendo-se, ademais, às práticas do Serviço Social de Grupo) nesse 
espaço. O influxo dos Círculos acompanha a própria crise do Estado Novo, 
sendo reduzidos seus núcleos à medida que findava a ditadura varguista. 
Em 1946, encontrava-se em funcionamento no Recife apenas o núcleo do 
Prado – fechado completamente dois anos depois (GOMES, 1987). 
O primeiro espaço ocupacional do Serviço Social no aparelho esta-
tal-governamental foi a Divisão de Assistência Social da Vara de Menores 
Abandonados e Delinquentes. O atendimento era apenas em nível indi-
vidual, com o mero levantamento empírico dos casos para solução dos 
problemas da clientela, e envolvia visitas domiciliares, plantões, entre-
vistas, elaboração de relatórios. Apenas em finais de 1940 (com a maior 
racionalização do ensino, após o retorno das assistentes sociais do Rio 
de Janeiro), os trabalhos assumem um caráter mais técnico, e a profissão 
passa a ser incorporada a outras instituições – principalmente entidades de 
nível nacional que já contavam com a participação do Serviço Social na 
sua matriz, como a LBA, SESI, SESC, IAP’s (LYRA, 1985). Ainda com 
uma orientação ideal vinculada ao humanismo integral e a Doutrina Social 
da Igreja Católica, as modificações no currículo darão ênfase a psicologia 
e sociologia, donde se começa a preocupação dos aspectos psicossociais, 
do relacionamento e do comportamento da clientela para o “reajustamento 
individual”, assim como a valorização das técnicas e instrumentos. Isso 
tanto mais se intensifica quanto a assistência norte-americana começa a 
chegar (entre 1950-1960), instalando a prática do Serviço Social de Casos 
do modelo americano de Mary Richmmond e Gordon Hamilton, além das 
abordagens grupais e comunitárias (LYRA, 1985). A seguir, apresentamos 
um quadro geral dos espaços ocupacionais que correspondiam às perspec-
tivas de demandas de assistentes sociais até os anos 1960, de acordo com 
os documentos da ESSPE; após, transcrevemos uma lista das instituições 
nas quais se inseria o Serviço Social naquela década.85 
85 As informações do Quadro nº 1 e da Lista nº 1 foram extraídas de dois documentos da ESSPE, concomi-
tantemente: Demandas Profissionais de Serviço Social (ESSPE, 1965), Alguns Informes sobre a Escola de 
Serviço Social de Pernambuco (ESSPE, 1960). Estão dispostas de acordo com a nomenclatura presente 
nos documentos. 
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SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 137
O novo terreno ocupacional, dado pelas abordagens de organização e 
desenvolvimento de comunidade, multiplicado após os anos 1950, é criado: 
I) Pela própria Igreja, que demanda assistentes sociais para os trabalhos
de renovação paroquial, através da mobilização das comunidades –
acerca disso, verificam-se frentes de trabalho realizadas por algumas
paróquias (Madalena, Casa Amarela e Alto José Bonifácio, Ponte
dos Carvalhos, Sítio Bevenuto, Bom Conselho), sob a influência da
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em especial o
Movimento de Educação de Bases (MEB), a Cáritas e a Operação
Esperança, em articulação com órgãos nacionaise internacionais,
ou por meio de iniciativas próprias, tais como a do Mosteiro São
Bento na Vila São Bento.
II) Pelos órgãos de governos, companhias ou instituições assistenciais
envolvidos nas políticas de desenvolvimento, com destaque para os
convênios de projetos comunitários patrocinados pela SUDENE, mas
também alguns trabalhos realizados após a unificação dos Institutos
de Aposentadorias e Pensões, em finais de 196786, os projetos de
eletrificação, em alguns casos com participação de organismos inter-
nacionais como a OEA (Companhia Hidroelétrica da Boa Esperança,
Companhia Energética de Pernambuco, Projeto Piloto de Eletrificação
Rural em Itacuruba e Rodelas), as iniciativas de assistência rural
(Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural, Conselho
Regional de Pernambuco do Serviço Social Rural, Serviço de Exten-
são Rural de Pernambuco), as linhas de trabalho comunitário encam-
padas nas grandes entidades nacionais (SUDENE, Fundação Estadual
de Bem Estar ao Menor, LBA,SESI, SESC), o Movimento de Cultura
Popular, além das ações implantadas em alguns órgãos estaduais,
especialmente nas áreas da Habitação e Educação (Serviço Social
Contra o Mocambo, Secretaria do Estado dos Negócios de Educação
e Cultura – Divisão de Serviço Social do Departamento de Assistência
Escolar, Conjunto Sanatorial Otaviano de Freitas, Departamento de
86 Existem alguns germes de trabalhos na esfera comunitária, por exemplo, no bojo do Instituto de Aposentadorias 
e Pensões dos Comerciários (IAPC), quando o Serviço Social desenvolveu ações no Conjunto Residencial de 
Casa Amarela, de propriedade desse Instituto. Embora basicamente sustentadas no Serviço Social de Grupos, 
essas ações apontavam para a contribuição para o “desenvolvimento do espírito comunitário” (ANDRADE; 
ALMEIDA, 1985, p. 30). Após a unificação dos Institutos, em 1967, a linha comunitária era concretizada com 
a criação de Centros de Orientação e Assistência para a Comunidade. Em Recife, são exemplos desses 
trabalhos: a reformulação do Centro Social de Casa Amarela (onde foram atingidos também Vasco da Gama 
e Córrego do Genipapo), a criação dos Núcleos Comunitários do Sítio Bevenuto e Ponte dos Carvalhos (no 
município de Cabo de Santo Agostinho), e a implantação de um Cadastro de Recursos Comunitários. As ações 
desenvolvidas pelo Serviço Social do Serviço Social do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) na linha 
comunitária foram suspensas por determinações da própria instituição em 1970. 
138
Estradas e Rodagens de Pernambuco, Hospital das Clínicas da Uni-
versidade do Recife, Centro de Treinamento da Escola de Serviço 
Social de Pernambuco, Fundação de Promoção Social, Clínica do 
Câncer, Fundação Estadual de Bem-Estar ao Menor). 
III) Pelos convênios e assistência técnica patrocinados pelas agên-
cias internacionais vinculadas a política pan-americanista (como
os acordos firmados pela USAID e o UNICEF). Tais organismos
não necessariamente operavam de modo autônomo. Existiam, em
vários casos, articulações e frentes para trabalhos de organização
e desenvolvimento das comunidades, muitas vezes com convênios
entre todos esses – como é exemplo a ação ocorrida no início dos
anos 1960, no Sítio Bevenuto, apoiada por convênio firmado entre
SUDENE, USAID e CNBB-Brasil.
As próprias Escolas de Serviço Social do Nordeste tentam se projetar 
para a conquista dos espaços profissionais nos órgãos de desenvolvimento. 
No I Encontro das Escolas de Serviço Social do Nordeste (1963), a garantia 
da presença da SUDENE – na figura do seu Diretor do Departamento de 
Recursos Humanos, a convite de docentes de Pernambuco – significava a 
busca pela legitimidade nessa esfera, visando, inclusive, meios de sustentação 
financeira das unidades de ensino. Nesse aspecto, foi tão frutífero o episódio, 
que o Diretor, inicialmente desacreditado da possibilidade do Serviço Social 
contribuir com o desenvolvimento regional, alterou sua visão, e iniciou um 
processo de inter-relacionamento das Escolas com a SUDENE. Daí a criação 
de um Departamento de Ação Comunitária no órgão, em 1965, com a parti-
cipação de assistentes sociais (essa busca de adesão ao desenvolvimentismo 
se aprofunda no II Encontro do Nordeste) (VIEIRA, 1992). 
É nesses anos que vemos intensificar a interação entre a SUDENE e o 
Serviço Social: no início da década de 1960, estabelece-se um convênio da 
ESSPE com a UNICEF, através da SUDENE; em 1964, a SUDENE realizou 
um curso de Desenvolvimento Econômico e Desenvolvimento de Comuni-
dade, convidando vários assistentes sociais da região Nordeste – curso que 
se encerrou abruptamente, em finais de março de 1964, com a deflagração 
do Golpe; em 1965, a SUDENE incorpora em seu III Plano Diretor o obje-
tivo de associar, à ação econômica, um programa específico de ação comu-
nitária, donde a criação da Divisão de Ação Comunitária; mesmo ano no 
qual ocorre o 1º Encontro SUDENE/DRH/AC/Escolas de Serviço Social do 
Nordeste, comparecendo, além das Escolas da região, o CBCISS, a ABESS, 
o CRAS 4ª Região e a ABAS/Pernambuco – o encontro é mencionado em
Vieira (1992, p. 196) e Ammann (2003, p. 146). Esse intercâmbio entre as 
Escolas e a SUDENE possibilitou a implantação de convênios que garantiram 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 139
a consolidação do corpo docente de algumas Escolas do Nordeste, assim como 
equipamentos, livros etc., conforme detalha Vieira (1992, p. 196). Progressi-
vamente, aparecem tensões na relação entre as Escolas e a Divisão de Ação 
Comunitária, como apontam Vieira (1992, p. 197) e Ammann (2003, p. 157). 
Nesse ínterim, emergem as parcerias envolvendo, especificamente, a 
ESSPE: a partir de finais de 1950, ela começa a firmar convênios com a LBA e 
a SUDENE, realizando estágios em comunidades urbanas e rurais – convênios, 
inclusive, que subsidiavam financeiramente alguns setores da própria ESSPE. 
Não é ocasional, portanto, o crescimento de monografias – frequentemente 
escritas a partir das experiências de estágio das alunas – abordando trabalhos 
em comunidades e conjuntos residenciais nos finais de 1950, conforme mostra 
Vieira (1992, p. 151), e a predominância do tema nos Trabalhos de Conclusão 
de Curso nos anos 1960 (VIEIRA, 1992, p. 167). Isso sinaliza a inserção do 
Serviço Social no âmbito do DC, sobretudo após o segundo lustro dessa década. 
Os novos espaços e processos de intervenção foram instalando-se pro-
gressivamente, implantando-se e difundindo-se por etapas, corresponden-
tes, tanto às complexidades do trabalho comunitário, quanto a cumulativa 
emergência de agências, projetos e apoios financeiros para a manutenção e 
aprofundamento dos trabalhos. Numa primeira aproximação, esboçam-se, ao 
menos, dois grandes estágios gerais, que se interpenetram num dado momento: 
os trabalhos preparativos de organização de comunidade – esses, iniciados 
em finais de 1940, nascem pelo protagonismo da própria ESSPE, através da 
criação do Fichário Geral de Obras Sociais, e, depois, desdobram-se na entrada 
em campo de assistentes sociais e estudantes para o diagnóstico, pesquisa, 
estudo e mapeamento das características e potenciais de determinadas comu-
nidades, visando o posterior encaminhamento de projetos de desenvolvimento 
e reforço dos vínculos entre estas e o governo; após isso, aproximadamente 
na passagem para a segunda metade dos anos 1960, articulam-se esses esfor-
ços de organização de comunidade com os projetos de desenvolvimento de 
comunidade – implantação de assistência a grupos produtivos, instalação de 
equipamentos sociais, formação de lideranças e institucionalização de orga-
nizações de moradores, frentes de trabalho comunitário etc.87
Nessas intervenções, a busca de utilização das técnicas e métodos pró-
prios do DC encontra-se articulada à recorrência às abordagens do Serviço 
Social de Casos e de Grupos. Mais precisamente, o Serviço Social de Casos e 
de Grupos passam a figurar, progressivamente, como estratégias subsidiáriasao trabalho de organização e desenvolvimento de comunidade. O avanço da 
87 Essa periodização é ratificada na entrevista concedida por Anita Aline de Albuquerque Costa (ex-aluna da 
ESSPE e ex-professora da instituição) ao Projeto Memória da Escola de Serviço Social de Pernambuco 
(PADILHA, 2008, p. 291).
140
intervenção comunitária durante os anos (dos trabalhos de organização para 
aqueles próprios do desenvolvimento de comunidade) ocorreu na evolução, 
de meados de 1950 em diante, das ações concentradas em alguns territórios 
pauperizados do Recife e de municípios próximos: a partir de meados de 1950, 
até a entrada da década de 1970, o bairro de Casa Amarela e o município de 
Camaragibe receberam muitas ações; entre finais de 1950 e início de 1960, 
veem-se intervenções mais pontuais em Fernando de Noronha, nos municípios 
de Bom Conselho, Camocim de São Félix, Itacuruba, Rodelas e Jaboatão dos 
Guararapes, e nos bairros de Dois Unidos e Madalena; na primeira metade 
de 1960, ocorrem ações nas comunidades Coelhos/Coque, Cajueiro Seco e 
Vila São Bento (Olinda); na segunda metade de 1960, observam-se muitas 
iniciativas no Sítio Bevenuto e Ponte dos Carvalhos (Cabo de Santo Agosti-
nho)88; e em finais de 1960, algo mais pontual se verifica no bairro de Santo 
Amaro e no município de Caruaru. 
Notamos, ao longo dos anos, o evolver das intervenções de cunho comu-
nitário nessas localidades. Concomitantemente, existe uma maior diversifica-
ção de atribuições e modalidades de intervenção do Serviço Social: ao lado das 
metodologias e instrumentos tradicionais (entrevista individual, diagnóstico 
e tratamento de “desajustamentos individuais”, atendimentos para repasses 
de benefícios assistenciais) proliferam-se os trabalhos com pesquisa e estudo 
das comunidades, coordenação de administração de projetos de desenvolvi-
mento, ações de formação de capacitação de lideranças, assistência para insti-
tucionalização de associações, fomento de grupos para a realização trabalhos 
comunitários e a participação.89
6. Considerações finais
Essas notas históricas informam os principais condutos e processos 
pelos quais germinou a renovação do Serviço Social na particularidade 
de Pernambuco; renovação que teve a assimilação do DC como um dos 
condicionantes catalizadores. Ou seja, aspectos que remetem à gênese do 
“processo de renovação” (NETTO, 2004) pelo qual passa a profissão no 
bojo do ciclo autocrático e sua crise. Tal processo é delimitado por Netto 
88 Com relação à experiência em Cabo de Santo Agostinho, um informe de fevereiro de 1965, da ESSPE, 
intitulado Mercado de Trabalho para Assistentes Sociais (ESSPE, 1965), indica que se tratava de um campo 
de estágio então recentemente aberto na Paróquia de Ponte dos Carvalhos, certamente condicionada pela 
instalação do Distrito Industrial. A abertura desse campo de estágio era considerada, por professores e 
discentes, necessária, para a expansão da Escola para a zona rural do Estado, absorvendo, no início, certo 
número de alunos/as no treinamento em lidar com comunidades rurais.
89 Sobre isso, é ilustrativo o documento Mercado de Trabalho para Assistentes Sociais (fev. 1965) (ESSPE, 
1965), contendo informações sobre a Escola e a profissão; documento preparado por professores da Escola 
de Serviço Social, com vistas à negociação para a incorporação na UFPE (VIEIRA, 1992). 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 141
(2004) como o conjunto de características novas que a profissão articulou no 
marco das constrições da autocracia burguesa, a partir do rearranjo de suas 
tradições teóricas e da assunção do contributo de tendência do pensamento 
social contemporâneo. A articulação dessas novas características ocorreu na 
medida em que o Serviço Social procurou investir-se como instituição de 
natureza profissional dotada de dois vetores: de legitimação prática, através 
de respostas a demandas sociais e da sua sistematização; e de validação 
teórica, mediante a remissão às teorias das disciplinas sociais. A pesquisa 
sobre a particularidade do Serviço Social em Pernambuco entre as décadas 
de 1940-1960 mostra esses novos vetores de legitimação prática e validação 
teórica em estado nascente, como um processo em desenvolvimento, com 
seus respectivos condicionamentos histórico-sociais. Desse modo, a pesquisa 
nos fornece subsídios para aprofundar a reconstrução teórica da história do 
Serviço Social no Brasil, considerando suas determinações universais, mas, 
igualmente, suas particularidades concretas.
142
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CAPÍTULO 7
 A POLÍTICA “CONTRA O MOCAMBO” 
E A EMERGÊNCIA DO SERVIÇO 
SOCIAL EM PERNAMBUCO
Bruna Soares Farias
Camila Sobral Leite Lyra Montalvão 
1. Introdução
O presente artigo é resultado de um estudo exploratório, de base biblio-
gráfica e documental, que objetivou apreender a relação entre a gênese do 
Serviço Social em Pernambuco, nas décadas de 1940 e 1950, e a intervenção 
social do Estado face à questão dos mocambos. As iniciativas governamentais 
no período, voltadas para a questão habitacional, desenvolveram-se pri-
meiramente sob a égide do Estado Novo, capitaneado pelo interventor 
Agamenon Magalhães. Sendo a habitação uma esfera central no programa 
desta interventoria, levantamos a hipótese de que a política habitacional, 
fundamentalmente contra os mocambos, colaborou diretamente na emergência 
da profissão e na criação da Escola de Serviço Social de Pernambuco (ESSPE), 
ao potencializar o espaço ocupacional desse corpo técnico qualificado.
Considerando os mocambos como expressão da “questão social” em nível 
local, nos propomos, inicialmente, a apresentar uma breve caracterização da 
mesma e de seus reflexos a partir da realidade da cidade do Recife. Posterior-
mente, buscamos identificar algumas conexões existentes entre a emergência 
do Serviço Social em Pernambuco e a problemática dos mocambos, a partir das 
demandas de ações interventivas por parte do Estado e das instituições vincu-
ladas a este. Por fim, tendo em vista o atendimento às necessidades habitacio-
nais, desenvolvemos uma caracterização dos diversos espaços que exerciam 
tal função e da atuação das profissionais do Serviço Social neles inseridos.
A pesquisa se deu, principalmente, através da revisão biblio-
gráfica, não apenas do material disponível sobre a história da ESSPE 
(GOMES, 1987; PADILHA, 2008; VIEIRA, 1992), mas também da literatura 
referente ao período em questão, em especial sobre as políticas voltadas à habi-
tação (BEZERRA, 1965; CASTRO, 1957; GOMINHO, 1993, 1998, 2011; 
148
MORAIS, 2013; PANDOLFI, 1984). Pesquisas acerca da relação da profissão 
com essa temática, no entanto, ainda se encontram escassas. Por isso, recorre-
mos também à análise documental, contando como fonte de dados monografias 
de estudantes da ESSPE e matérias de jornal da época, em especial o Folha da 
Manhã. Neste, Agamenon Magalhães dedicava-se diariamente a exercer o que 
chamava de “doutrinação política”, justificando as medidas intervencionistas e 
disseminando sua campanha contra os mocambos (PANDOLFI, 1984). A pesquisa 
buscou apreender a questão investigada de acordo com os princípios teórico-me-
todológicos da tradição marxista presente na literatura do Serviço Social. 
2. Os mocambos como refração da “questão social”
No cenário mundial, as décadas de 1930 e 1940 foram marcadas por 
uma crise do liberalismo, pelo questionamento da eficácia dos preceitos libe-
rais. A capacidade do mercado de autorregulação, até então defendida pelos 
economistas liberais, demonstrava-se ineficiente com a quebra da bolsa de 
valores de Nova Iorque, em 1929, repercutindo na economia mundial. O 
período entreguerras, principalmente nos centros capitalistas, foi definido por 
intensa instabilidade política e social, e passou a demandar medidas econô-
micas protecionistas e mudanças na intervenção do Estado. O Estado mais 
intervencionista surgiu como alternativa em meio à crise e apresentou-se, 
principalmente, com perfil autoritário, de forma a garantir a manutenção do 
status quo (GOMINHO, 1993).
Os anos posteriores à década de 1930 foram caracterizados, por Ianni 
(1977), pelo desenvolvimento do Estado Burguês brasileiro, a partir da ruptura 
do antigo regime político, onde as oligarquias latifundiárias, com destaque 
para a cafeeira, tinham total controle sobre a economia brasileira. A crise 
de 1929 provocou rebatimentos no Brasil que, até 1930, era pautado economi-
camente somente pela atividade de agroexportação sob grande dependência do 
mercado externo. Com a crise, a fragilidade do desenvolvimento econômico 
brasileiro foi acentuada e atrelou-se à insatisfação social, causada pela alter-
nância política entre as oligarquias da região sudeste, de grupos industriais 
emergentes, de setores da classe média e militares, particularmente os tenentes.
Em 1930, algumas alterações na política brasileira foram operadas, o 
que viabilizou a chegada de Getúlio Vargas à representação maior do Estado 
brasileiro, opondo-se ao resultado obtido nas eleições presidenciais. Após a 
chamada Revolução de 1930, a derrocada, apesar de parcial, do poder das 
oligarquias, possibilitou as condições para um processo de reconfiguração da 
esfera estatal no país. Isso significou um funcionamento do poder público de 
forma mais adequada às exigências e possibilidades estruturais estabelecidas 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 149
pelo capitalismo brasileiro. Entre 1930 e 1937, o Brasil experienciou um 
breve “intervalo democrático”, marcado pela diversidade de grupos políticos. 
Contudo, em 1937 foi instaurada a ditadura do Estado Novo, a partir do Golpe 
de Estado de Getúlio Vargas, com o fechamento do Congresso Nacional e 
a centralização do poder, sob a justificativa da necessidadede se manter a 
ordem institucional em meio à conjuntura de grande dissonância política e 
contra as manifestações das forças de oposição, como a chamada “Intentona 
Comunista” em 1935.
O Estado Novo (1937-1945) caracterizou-se pela mudança no apare-
lho estatal, incorporando uma estrutura corporativista (IANNI, 1977). Isto 
ocorreu pela necessidade de uma maior intervenção do Estado na economia 
para regular a acumulação capitalista, e devido ao processo de urbanização e 
expansão do setor industrial, sob forte necessidade de modernização. O setor 
agroexportador não deixou de ser central para a economia brasileira, mas, 
devido à crise de 1929, o Brasil viu-se obrigado a encontrar novas saídas, 
implementando uma indústria de base, com forte investimento estatal, para 
modernizar economicamente o país.
Assim, apesar de ter a economia e política de cunho nacionalista, o eixo 
econômico realizou certo deslocamento do setor agrário-exportador para o urba-
no-industrial, sem romper, no entanto, com as relações de dependência com o 
capital estrangeiro. Ainda segundo Ianni (1977), os surtos de desenvolvimento 
econômico estavam sempre atrelados às rupturas provocadas pelo capitalismo 
mundial. Essas mudanças, no âmbito político e econômico, favoreceram o 
desenvolvimento de algumas regiões do país, ao acompanharem o processo de 
industrialização e as consequentes transformações no meio urbano. 
Essa modernização (conservadora) capitalista no Brasil interferiu na 
estrutura de classes, ampliando, mesmo que estreitamente, a mobilidade social 
e a expansão de novas camadas sociais, fazendo surgir uma burguesia indus-
trial e financeira – que tem, em parte, laços com a oligarquia do café – bem 
como a classe operária e as classes médias, devido à ampliação do mercado de 
trabalho e de consumo. Estas carregando consigo as marcas da questão agrária 
como componente do capitalismo brasileiro, que não abriu mão do latifúndio 
e de formas de trabalho análogas ao trabalho escravo para se desenvolver. 
Em meio a esse cenário, Getúlio Vargas inovou ao integrar diferentes setores 
da sociedade brasileira no sistema político, oportunizando uma participação 
controlada e subordinando interesses e conflitos às intenções maiores próprias 
da condição de dependência do capitalismo no país.
A organização capitalista de produção já vinha sendo incorporada na 
economia brasileira de forma atrasada, deficiente e dependente, com suas 
contradições, materializadas nas desigualdades econômicas e sociais, tanto 
150
pelas desumanas condições de trabalho, quanto pela exploração demasiada e 
falta de segurança no trabalho. Desde o início do século XX, manifestações 
da classe trabalhadora foram realizadas, com influência ideológica dos imi-
grantes estrangeiros, sobretudo anarquistas (GOMINHO, 1993). Através de 
greves, passeatas e confrontos, o operariado mobilizou-se em prol de melhores 
condições de vida e trabalho, regulamentação das relações capital-trabalho, 
etc. Porém, o crescimento desordenado das cidades, concomitante com o 
surgimento das indústrias, acarretou, não apenas na maior insatisfação dos 
trabalhadores com as condições de vida e trabalho, que residiam em favelas, 
mocambos, cortiços; mas também gerou uma massa de pessoas desocupa-
das dos seus ofícios a vagarem pelas ruas. Demandou-se, assim, uma maior 
atenção e ação dos dirigentes do país, para além da repressão policial, prin-
cipalmente por conta das mobilizações populares.
A partir da configuração da “questão social”, que assume relevância como 
consequência do surgimento do proletariado como expressão política própria, 
Vargas voltou a sua atuação de forma a absorver parcialmente reivindicações 
dessa classe e, mais do que isso: controlá-la como força política, tornando-a 
mais eficiente e livre das influências do comunismo, por vê-la como força 
motriz no desenvolvimento econômico. Como meio de exercer sutilmente 
seu poder na sociedade, e para responder às sequelas advindas da relação de 
assalariamento do proletariado, o governo instituiu as legislações trabalhista 
e previdenciária, a cooptação do movimento operário através dos sindicatos 
“amarelos” e demais medidas sociais, sob a roupagem de doação e assistência 
por parte do Estado.
Com o movimento de 1930, Pernambuco, como na maioria dos estados 
brasileiros, encontrou seu governo ocupado por interventores indicados pela 
esfera federal, tendo como primeiro interventor o tenente Carlos de Lima 
Cavalcanti, que, em 1937, foi acusado de ser comunista e afastado do poder em 
favor de Agamenon Magalhães. A Assembleia Legislativa e a Câmara Munici-
pal tiveram seus trabalhos encerrados, e os prefeitos passaram a ser nomeados 
pelos interventores. Além disso, seguindo a cartilha do Estado Novo, foram 
criados Conselhos com representações de classes, o Departamento de Imprensa 
e Propaganda (DIP), e a Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) se 
tornou mais ativa. Agamenon estabeleceu a “emoção do Estado Novo” em 
Pernambuco, sendo um dos mais fiéis ao regime de Getúlio Vargas.
Gominho (1993) relata que, nesse contexto, Pernambuco encontrava-se 
em processo de redefinição do seu papel na economia mundial. As crises 
do açúcar e as experiências com a produção têxtil motivaram mudanças no 
sistema de produção açucareira, no direcionamento da produção do algodão 
e na conjuntura socioeconômica e política local. Nesse momento, as usinas 
foram introduzidas e avançaram na inserção da organização capitalista de 
SERVIÇO SOCIAL EM PERNAMBUCO: 
primeiras décadas da formação e atuação profissional 151
produção no meio agrário, que acentuaram o caráter monocultor e monoe-
xportador da economia pernambucana. Ademais, observou-se a introdução 
de maquinário junto às atividades antes feitas apenas manualmente nas 
usinas, a proletarização do trabalhador rural e a alteração da divisão social 
e técnica do trabalho no campo. 
Em consequência das mudanças produtivas na agricultura, somadas 
à permanência do latifúndio e ao fenômeno climático e social da seca90, 
especialmente no semiárido nordestino, iniciou-se um grande êxodo rural, 
em que massas de trabalhadores migraram para os centros urbanos em busca 
de trabalho e sobrevivência. Tal migração compôs a trajetória de centenas 
de sertanejos e sertanejas rumo às regiões que passaram a ser centrais e 
polos dinâmicos da economia e política nacional, a exemplo do Sudeste, 
bem como às cidades que vieram a se configurar como polos dentro das 
próprias regiões, compondo a nova divisão inter-regional do trabalho no 
país. Recife vivia um intenso crescimento populacional diretamente ligado 
a estes fluxos migratórios, intensificados pela elevação da cidade ao sta-
tus de capital-regional, pelo seu papel comercial-portuário (LIMA, 2012). 
Segundo Bezerra (1965), o aumento no número de habitantes foi concomi-
tante ao crescimento das problemáticas sociais do município, entre eles os 
relacionados à habitação.
Como forma alternativa de habitação encontrada pelos grandes contin-
gentes de migrantes, ocorreu a proliferação dos mocambos sobre a planície 
recifense. Os mocambos, como eram conhecidos, são descritos pela Comissão 
Censitária da época como uma moradia de barro batido com telhados e paredes 
de taipa, flandres e palha, sem saneamento básico (PANDOLFI, 1984). Esses 
modelos precários de habitação, construídos em mangues e alagados, perpetua-
vam-se desde o período Colonial e Holandês, mas se acumularam na Região 
Metropolitana no Recife a partir do século XIX, obtendo maior espraiamento 
com a emergência e agravamento da “questão social” (BEZERRA, 1965).
O mocambo era considerado como uma “célula de descontentamento” 
(GOMINHO, 1993, p. 37) e, portanto, deveria ser eliminado, ou melhor, 
substituído por casas higiênicas, construídas em ambientes salubres, saneados, 
como forma de modernizar o Recife, demover o aspecto provinciano. Portanto, 
durante o período do Estado Novo, a interventoria pernambucana, afirmando 
a sua atenção às pautas sociais,incorporou a preocupação em enfrentar a 
90 “Mais importante nisso tudo, [...] era a tomada de consciência por importantes setores das elites [...] de que 
a questão da miséria era uma questão política. Não era a seca, propriamente, como se dizia desde o século 
XIX, que respondia pela pobreza dos trabalhadores rurais nordestinos. Era o uso político da seca como 
pretexto para obtenção de recursos financeiros do governo federal que, no fim, não iam aliviar a miséria 
dos pobres, mas revigorar a máquina do clientelismo político dos ricos. Uma situação que só poderia ser 
resolvida com uma revolução, como entendiam e temiam alguns dos próprios setores das elites. Ou então 
com reformas sociais” (MARTINS, 1994, p. 67).
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“questão social”, definindo a Habitação Popular como um dos pontos prio-
ritários do seu programa de governo, tendo em vista que os mocambos eram 
estigmatizados como “[...] portadores de todos os males biológicos e morais 
– especialmente em um período de ainda forte influência das ideias higienistas
e eugênicas” (MORAIS, 2013, p. 1). Segundo Lira (1999, p. 63),
[...] nos mocambos recifenses, a comparação com os aldeamentos africanos 
chegaria a propor hipóteses em antropologia física: os pés dos habitan-
tes da Ilha do Leite no Recife eram deformados. Não apenas em razão 
da insalubridade, amontoamento e promiscuidade em que viviam, pela 
vadiagem e indisciplina, mas também por serem “arraial de pretos” e 
constantemente evocarem a fisionomia das primitivas cidades negras, 
deveriam ser sistematicamente erradicadas, construindo-se em seu lugar 
cidades-jardins, submetidos a um plano higiênico e econômico.
Além disso, desde as décadas de 1920 e 1930, eram realizadas movimen-
tações populares com influência socialista, fazendo com que essas medidas 
sociais de Agamenon objetivassem também refrear as mobilizações revolu-
cionárias de trabalhadores e conquistar o apoio destes para a manutenção do 
projeto de dominação em curso naquele período. Algumas ações, programas 
e entidades tornaram-se prioritários para o enfrentamento das expressões da 
“questão social”, particularmente a partir dos mocambos. É nesse contexto 
que também se situa a emergência do Serviço Social em Pernambuco, a partir 
da criação da sua primeira Escola em Recife no início da década de 1940.
3. Serviço Social e política contra os mocambos
Gominho (1993) explica que os mocambos e a urbanização no Recife pas-
saram a ser encarados como questão de responsabilidade também do Estado, 
do governo local, apenas a partir do Estado Novo. A construção de mocam-
bos já havia sido proibida por Carlos de Lima Cavalcanti, mas essa restrição 
tornou-se mais rigorosa, no plano municipal, no governo de Novaes Filho, 
indicado por Agamenon Magalhães para a Prefeitura da cidade. O interventor 
promoveu uma campanha assídua, e por vezes cruel, como classifica Padilha 
(2008), ao mencionar o episódio em que Agamenon ordenou a destruição dos 
mocambos de moradores vindos da zona rural. Foi implantada uma política 
governamental que utilizou diversos meios para erradicar a existência desse 
tipo de habitação no Recife.
Ainda segundo Gominho (1993), o discurso do então prefeito era de 
uma gestão voltada para a ação social, sendo esta contemplada através da 
Diretoria de Reeducação e Assistência Social. Este órgão, ao qual estavam 
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primeiras décadas da formação e atuação profissional 153
subordinados os Centros Educativos Operários, visava não apenas o controle 
social via combate ao comunismo, mas também a resolução da questão dos 
mocambos na capital. Para tal, foi criada a Comissão do Plano da Cidade. 
A referida Diretoria concedia passagens para os moradores que desejassem 
retornar à zona rural, construtoras recebiam incentivo fiscal para que pudessem 
ser construídas casas populares que abrigariam a população dos mocambos, e 
o Estado doava terrenos e isentava de impostos e taxas as Caixas de Aposen-
tadoria e Pensões, cujos fundos de reserva poderiam ter 50% aplicados para 
a construção de vilas operárias para seus associados. 
Tudo isso seguindo a tendência nacional de esforços do governo para 
promover a participação de todos os seguimentos da sociedade civil na luta 
contra os “problemas sociais” em nível local, mascarando a luta de classes. 
Surgiu, então, em novembro de 1937, a Cruzada Social Contra o Mocambo 
em Pernambuco para discutir e estudar projetos e propostas, além de decretar 
leis contra o avanço dos mocambos. Em outras palavras, tratou-se, de fato, 
da política contra os mocambos.
No final da década de 1930, para colher dados e informações mais pre-
cisos que auxiliassem a extinção dos mocambos, foi criada a Comissão dos 
Mocambos do Recife, ou Comissão Censitária dos Mocambos, na qual há 
registros da participação de “agentes de Serviço Social de Pernambuco” 
(PADILHA, 2008, p. 255), como o professor e fundador da ESSPE, René 
Ribeiro. A realização do censo para os mocambos, em 1939, expôs a situação 
dos moradores dos alagados recifenses: existiam 45.000 mocambos de 12 
tipos, sendo 33,82% alugados e 47,75% próprios – nos quais os moradores 
tinham que pagar um aluguel aos proprietários do terreno (BEZERRA, 1965).
No mesmo ano, segundo Gominho (1993), a Ação Social Católica iniciou 
o planejamento e organização da III Semana de Ação Social no Recife, que
priorizou a questão habitacional e reforçou a intenção do governo de substituir 
os mocambos por habitações econômicas. Padilha (2008) adiciona que o foco 
foi debater questões relacionadas à sociedade pernambucana, principalmente a 
populações de baixa renda, e construir propostas de políticas sociais. A autora 
também acrescenta que o evento, além de contar com a presença de figuras 
públicas como Agamenon Magalhães e o diretor do Serviço de Reeducação 
e Assistência Social da Prefeitura do Recife, Nilo Pereira, teve como secretá-
rio Rodolfo Aureliano, sendo expositores René Ribeiro, Souza Barros, Luiz 
Delgado, José Lucena e José Césio Regueira Costa, os quais também compu-
seram o grupo dos fundadores e primeiros professores da ESSPE; outrossim, 
a proposta de fundação da Escola como curso superior ocorreu no evento.
Após a realização da III Semana, criou-se a Liga Social Contra o Mocambo, 
prosseguindo com o objetivo de extinguir os mocambos, ligar-se às Carteiras 
Prediais dos diversos Institutos de Aposentadoria e Pensão e incentivar a 
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construção de casas populares em vilas divididas por categorias profissionais, 
trazendo consigo a ideia de reeducação e integração social por meio da criação 
de centros educativos nas vilas construídas (PANDOLFI, 1984).91 O combate 
ao mocambo realizado pela Liga tinha como preceito o direito à propriedade, 
como afirma o próprio interventor: “[...] todo cidadão deve ser proprietário de 
seu imóvel, sendo objetivo dessa política de erradicação dos mocambos, trans-
formar os 165 mil habitantes dos mocambos em pequenos proprietários, em 
pequenos burgueses” (MAGALHÃES apud PANDOLFI, 1984, p. 61).
A Liga era composta por diversos grupos sociais que compunham comis-
sões e movimentos organizados ou iniciativas individuais relacionadas à Cruzada 
inicial92, partindo para mais ações concretas, tanto administrativas e territoriais 
quanto educacionais (GOMINHO, 1993). As demolições eram feitas pela Liga 
de forma brutal em áreas inteiras nas partes mais visíveis da cidade, os mocam-
bos “[...] eram amarrados em correntes e arrastados, após o que os moradores 
recolhiam os destroços e se dirigiam aos arrabaldes” (ORTIZ; HUE, 1987, p. 
185). Com as ações do Estado, os moradores dos mocambos começaram a se 
organizar em sociedades de forma a assegurar a permanência dessas famílias 
nas áreas por elas ocupadas:
Essas sociedades, na sua vida tumultuada, carregando um mundo de sofri-
mentos. Despejos noturnos à base de violência, perseguições policiais, 
incompreensões de autoridades, prisões de seus membros e diretores, 
demolições de mocambos, indenizações mesquinhas

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