Logo Passei Direto
Buscar

Comentário Expositivo Marcos

Ferramentas de estudo

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

Pr. Nivaldo Pereira
Máquina de escrever
Uso exclusivo do Canal Gospel book Brasil
Probido compartilhar
M arcos
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
Angélica Ilacqua CRB-8/7057
Osborne, Grant R.
Marcos: / Grant R. Osborne ; [John H. Walton, Mark L. Strauss (orgs.) ; 
ilustrações de Kevin e Sherry Harney] ; Don Porter autor colaborador 1 tradução 
de Susana Klassen. - São Paulo : Vida Nova, 2019.
352 p. (Série Comentário Expositivo)
ISBN 978-85-275-0824-7
Título original: Mark (Teach the Text Commentary Series)
1. Bíblia - Marcos - Comentários 1. Título II. Walton, John H. III. Strauss, 
Mark L. IV. Harney, Kevin V. Harney, Sherry VI. Klassen, Susana.
18-0526 C D D - 226.307
índice para catálogo sistemático
1. Bíblia - Marcos - Comentários
Série
Comentário Expositivo
John H. Walton, organizador do Antigo Testamento 
M ark L. Strauss, organizador do Novo Testamento
M arcos
C 1
Grant R. Osborne
T ra d u çã o 
Susana Klassen
·ם
VIDA NOVA
®2014, de Grant R. Osborne
de Baker Publishing Group (legendas e seção “Para ilustrar o texto”) ,נ2014'
Título do original: Mark (Teach the Text Commentary Series), 
edição publicada por Baker Books,
uma divisão do Baker Publishing Group (Grand Rapids, Michigan, EUA).
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por 
Sociedade Religiosa Edições Vida Nova 
Rua Antônio Carlos Tacconi, 63, São Paulo, SP, 04810-020 
vidanova.com.br | vidanova@vidanova.com.br
1.* edição: 2019
Proibida a reprodução por quaisquer meios, 
salvo em citações breves, com indicação da fonte.
Impresso no Brasil / Printed in Brazil
Todas as citações bíblicas sem indicação da versão foram traduzidas diretamente da New 
International Version (NIV). As citações com indicação da versão in loco foram traduzidas 
diretamente da King James Version (KJV) e da New Revised Standard Version (NRSV).
Desenvolvimento da série 
Jack Kuhatschek 
Brian Vos
Seção “Para ilustrar o texto” 
Kevin e Sherry Harney (coorganização)
“Para ilustrar o texto”
Don Porter (autor colaborador)
Edição do projeto originai.
James Korsmo
D ireção executiva 
Kenneth Lee Davis
Gerência editorial 
Fabiano Silveira Medeiros
Edição de texto 
Arthur Dück 
Mareia B. Medeiros
Revisão de provas 
Abner Arrais
Gerência de produção 
Sérgio Siqueira Moura
Projeto grafico 
Brian Brunsting
Conteúdo visual 
Kim Walton
D iagramação 
Luciana Di lorio
Capa original
Paula Gibson
Michael Cook
Vania Carvalho (adaptação)
mailto:vidanova@vidanova.com.br
Sumário
Considerações adicionais......................72
Satanás / Parábolas
Marcos 4.21-34......................................74
Mais parábolas do reino
Marcos 4.35—5.20................................ 80
A autoridade de Jesus sobre a natureza 
e os poderes cósmicos
Marcos 5.21-43......................................86
A autoridade de Jesus sobre a 
enfermidade e a morte
Marcos 6.1-6..........................................92
A rejeição de Jesus em sua própria 
cidade
Marcos 6.7-30........................................98
Missão e rejeição na Galileia
Marcos 6.31-44....................................104
A provisão miraculosa de Deus: 
o cuidado para com os necessitados
Marcos 6.45-56....................................110
Reprovação e fracasso espiritual — 
dureza de coração
Marcos 7.1-23...................................... 116
Hipocrisia espiritual: viver por 
regras, e não conforme o coração
Marcos 7.24-37....................................122
Os gentios demonstram o 
verdadeiro discipulado
Marcos 8.1-13......................................128
A provisão de Deus inclui os gentios
Marcos 8.14-26....................................134
Cegueira espiritual e como superá-la
Marcos 8.27-33....................................140
O reconhecimento da verdadeira 
natureza de Jesus, o Cristo
Seja bem-vindo à Série Comentário
Expositivo...........;.............................. vii
Introdução à Série Comentário
Expositivo...........................................ix
Reduções gráficas (abreviações e siglas) xi
Introdução a Marcos...............................1
Marcos 1.1-8.......................................... 12
A identidade de Jesus como Messias 
e Filho de Deus é estabelecida
Marcos 1.9-15........................................ 18
As ações do Deus triúno comprovam 
o ofício divino de Jesus
Marcos 1.16-28......................................24
Jesus forma o grupo de discípulos 
e derrota os espíritos imundos
Marcos 1.29-45......................................30
O ministério e a popularidade 
de Jesus continuam crescendo
Marcos 2.1-12........................................36
A autoridade de Jesus para perdoar 
e curar pecadores
Marcos 2.13-17......................................42
Jesus chama e aceita os excluídos
Marcos 2.18—3.6.................................. 48
Jesus: Senhor e “pior transgressor” 
da l.ei
Marcos 3.7-19........................................54
O cuidado para com os necessitados 
e o comissionamento dos apóstolos 
Marcos 3.20-35......................................60
Jesus se volta para sua nova família
Marcos 4.1-20........................................66
Parábolas do reino
Marcos 13.14-27................................ 238
Sacrilégio, tributação e parúsia: 
o futuro é prenunciado
Marcos 13.28-37................................ 244
,4 necessidade de vigilância ¿1 luz 
da parúsia
Marcos 1 4 .1 1 1 250.................................־
A unção messiânica de Jesus
Marcos 14.12-21................................ 256
Jesus reinterpreta a refeição pascal
Marcos 14.22-31................................ 262
A Páscoa como Eucaristia: o corpo 
e o sangue de Jesus dados por nós
Marcos 14.32-42.................................268
Jesus é provado no Getsêmani
Marcos 14.43-52.................................274
Jesus é preso
Marcos 14.53-65.................................280
Jesus é julgado perante o Sinedrio
Marcos 14.66-72.................................286
Pedro nega Jesus
Marcos 15.1-20a..................................292
O julgamento romano
Marcos 15.20b-27...............................298
Jesus é crucificado
Marcos 15.29-37.................................304
Na cruz, Jesus é insultado e morre
Marcos 15.38-47.................................310
O testemunho sobrenatural acerca 
do sentido da morte de Jesus
Marcos 16.1-8.....................................316
A ressurreição de Jesus e a promessa 
de vitória
Considerações adicionais....................322
As narrativas da ressurreição /
A historicidade da ressurreição de Jesus /
A exaltação de Jesus
Considerações adicionais....................324
O final de Marcos
N o ta s .......................................................... 326
Bibliografia ................................................331
Créditos das imagens ............................334
índice de assuntos ....................................336
Marcos 8.34—9.1.................................146
O caminho do discipulado 
Marcos 9.2-13......................................152
A majestade e a glória de Jesus são reveladas
Marcos 9.14-29....................................158
O exorcismo de uma criança apresenta 
um modelo de fé humilde
Marcos 9.30-50....................................164
O modelo de discipulado de Jesus: 
serviço, e não egoísmo
Marcos 10.1-16....................................170
Família na nova comunidade do reino
Marcos 10.17-31..................................176
Bens e escolhas na nova comunidade 
do reino
Marcos 10.32-52..................................182
Um chamado ao serviço e ao sofrimento
Marcos 11.1-11....................................188
A entrada de Jesus como o Messias que 
triunfa por meio do sofrimento
Marcos 11.12-18..................................194
Atos proféticos: o templo é condenado 
e a figueira, amaldiçoada
Marcos 11.19-26................................. 200
Orar com fé
Marcos 11.27—12.12..........................206
Jesus afirma ter autoridade concedida 
por Deus para condenar oslíderes
Marcos 12.13-27................................. 212
Governo e casamento
Marcos 12.28-34................................. 218
O shemá cristão: amar a Deus e 
amar o próximo
Marcos 12.35-44................................. 224
Jesus se define como Senhor, em contraste 
com os líderes de Israel
Marcos 13.1-13....................................230
Jesus proclama juízo sobre o templo 
e sobre a nação
Considerações adicionais.................... 236
O Discurso (escatológico) do Monte das 
Oliveiras / O Anticristo / O arrebatamento
Sumário
Seja bem-vindo à
Série Comentário Expositivo
que empregue o que há de melhor no que 
diz respeito à pesquisa e estudos bíblicos, 
mas que também apresente o material de 
forma clara, concisa, atraente e fácil de usar.
Este comentário foi desenvolvido para 
cumprir esse propósito: disponibilizar uma 
obra de referência de fácil manuseio para a 
exposição do texto bíblico e oferecer acesso 
rápido às informações de que o leitor pre- 
cisa para comunicar o texto de modo eficaz. 
Para isso, o comentário é dividido em uni- 
dades de tamanho adequado à pregação, 
cuidadosamente selecionadas, cada qual 
desenvolvida em seis páginas (que propi- 
ciaram o controle do número de palavras 
tanto da passagem inteira quanto de cada 
subseção). Desse modo, pastores e profes- 
sores que se preparam semanalmente com o 
auxílio desta obra vão saber que estão lendo 
a cada semana, de modo aproximado, a 
mesma quantidade de texto.
Cada passagem começa com um resumo 
conciso da mensagem principal, ou a “ldeia 
central”, da passagem e uma lista de seus 
principais temas. Na sequência, há uma 
interpretação mais detalhada do texto que 
inclui o contexto literário da passagem, 
seus antecedentes históricos e considerações
Por que mais uma série de comentários? 
Essa foi a pergunta que fizemos quando 
a editora Baker Books nos pediu para 
produzir esta série. Temos algo a ofere- 
cer aos pastores e professores que não se 
encontre em outras séries de comentários, 
ou que possa ser apresentado de modo 
mais proveitoso? Depois de fazer uma 
pesquisa criteriosa sobre as necessidades 
de pastores que ensinam o texto bíblico 
semanalmente, concluímos que é possível, 
sim, oferecer algo mais. Elaboramos este 
comentário tendo em mente preencher essa 
importante lacuna.
O caráter técnico dos comentários atuais 
muitas vezes sobrecarrega os leitores com 
detalhes secundários ao propósito central do 
texto bíblico. Os tratamentos sobre fontes, 
a crítica da redação, bem como os levanta- 
mentos detalhados da literatura secundária 
parecem distantes da pregação e do ensino 
da Palavra. Em vez de se embrenharem em 
abordagens técnicas, os pastores frequen- 
temente lançam mão de comentários devo- 
donáis, os quais podem conter deficiências 
exegéticas, usos indevidos do grego e do 
hebraico e pouco refinamento hermenêu- 
tico. Existe a necessidade de um comentário
o texto” . A seção sobre ensino destaca os 
principais temas teológicos da passagem 
e maneiras de comunicar esses temas ao 
público atual. A seção sobre ilustrações 
oferece idéias e exemplos para cativar a 
atenção dos ouvintes e associar a mensagem 
ao dia a dia das pessoas.
O formato criativo deste comentário 
nasceu da convicção de que a Bíblia não é 
apenas um registro daquilo que Deus fez 
no passado, mas, sim, sua Palavra “viva e 
eficaz, mais cortante que qualquer espada 
de dois gumes” (Hb 4.12). Nosso desejo 
é que este comentário ajude a liberar esse 
poder transformador para a glória de Deus.
Os Organizadores
interpretativas. Ao mesmo tempo que o 
material lança mão dos mais excelentes 
estudos bíblicos acadêmicos, também é 
claro, conciso e objetivo. Informações de 
caráter técnico são limitadas ao mínimo 
possível; as notas ao final do livro indicam 
ao leitor onde encontrar tratamentos mais 
detalhados e recursos adicionais.
Outro foco importante deste comentário 
é o processo de pregação e ensino em si. 
Hoje em dia, são poucos os comentários 
que ajudam o pastor ou professor a fazer a 
transição entre o significado do texto e sua 
comunicação eficaz. Nosso objetivo é pre- 
encher essa lacuna. Além da interpretação 
do texto na seção “Para entender o texto”, 
cada unidade de até seis páginas traz as se- 
ções “Para ensinar o texto” e “Para ilustrar
viiiSeja bem-vindo à Série Comentário Expositivo
Introdução à
Série Comentário Expositivo
estratégia retórica do livro e à 
contribuição da unidade para o 
propósito do livro.
b. Esboço/Estrutura. No caso de 
alguns gêneros literários (p. ex., 
Cartas), por vezes é oferecido um 
breve esboço exegético para guiar 
o leitor enquanto este acompanha 
a estrutura e o desdobramento da 
passagem.
c. Antecedentes históricos e culturais. 
Essa subseção trata de informa- 
ções relativas aos antecedentes 
históricos e culturais, úteis no 
esclarecimento de um versículo 
ou de uma passagem.
d. Considerações interpretativas. Essa 
subseção fornece informações ne- 
cessárias à clara compreensão da 
passagem. A intenção do autor é 
ser extremamente seletivo e con- 
ciso, e não exaustivo e extenso.
e. Considerações teológicas. Nessa 
subseção bastante sucinta, o co- 
mentário identifica algumas con- 
siderações de ordem teológica 
cuidadosamente selecionadas a 
respeito da passagem.
Esta série foi elaborada para disponibili- 
zar obras de referência de fácil manuseio 
para a exposição do texto bíblico e oferecer 
acesso rápido às informações de que o leitor 
precisa para comunicar o texto de modo 
eficaz. Para isso, o comentário é dividido 
de modo criterioso em unidades fiéis às 
idéias dos autores bíblicos e de extensão 
adequada ao ensino ou à pregação.
As seguintes seções são apresentadas 
em cada unidade.
1. Ideia central. Em cada unidade, o 
comentário identifica o tema principal, 
ou “Ideia central”, que motiva tanto 
a passagem quanto o comentário.
2. Principais temas. Em conjunto 
com a “Ideia central”, o comentário 
apresenta uma lista de ideias-chave 
da passagem.
3. Para entender o texto. Esta seção 
se concentra na exegese do texto e 
inclui várias subseções:
a. Texto em contexto. Aqui o autor 
explica de modo sucinto como 
a unidade em estudo se encaixa 
no desdobramento do texto ao 
seu redor, mesmo no tocante à
em áreas como literatura, entreteni- 
mento, história e biografia. O pro- 
pósito é oferecer idéias gerais para 
despertar a criatividade de pregadores 
e professores e ajudá-los na prepara- 
ção de materiais para uma exposi- 
ção mais vivida da mensagem e seus 
principais temas.
4. Para ensinar o texto. Nessa seção, 
o comentário oferece orientações 
voltadas para o ensino do texto. O 
autor apresenta os principais temas e 
aplicações da passagem e os associa, 
cuidadosamente, à “Ideia central” e 
aos “Principais temas” .
5. Para ilustrar o texto . Aqui, o 
comentário sugere ilustrações úteis
Nota dos editores
aplicação. Cumpre ressaltar, porém , 
que nem sempre concordarem os com 
os posicionamentos de cada autor e que 
nenhuma ferramenta deve substituir o 
estudo do texto bíblico.
Estamos convencidos de que esta obra 
será uma ferram enta útil e benéfica a 
ministros, professores e leigos cristãos, 
uma vez que contribuirá para encurtar 
a distância entre o texto bíblico e sua
xIntrodução à Série Com entário Expositivo
Reduções gráficas 
(abreviações e siglas)
Mq Miqueias
Na Naum
Hc Habacuque
Sf Sofonias
Ag Agcu
Zc Zacarias
Ml Malaquias
Novo Testamento
Mt Mateus
Mc Marcos
Lc Lucas
Jo João
At Atos
Rm Romanos
ICo 1 Corintios
2Co 2Coríntios
G1 Gaiatas
Ef Efésios
Fp Filipenses
Cl Colossenses
lTs ITessalonicenses
2Ts 2Tessalonicenses
lTm ITimóteo
2Tm 2Timótco
Tt Tito
Fm Filemom
Hb Hebreus
Tg Tiago
lPe 1Pedro
2Pe 2Pedro
IJo ljoão
2Jo 2João
Antigo Testamento
Gn Gênesis
Êx Êxodo
Lv Levítico
Nm Números
Dt Deuteronômio
Js Josué
Jz Juizes
Rt Rute
ISm 1 Samuel
2Sm 2Samuel
lRs IReis
2Rs 2Reis
1 Cr 1 Crônicas
2Cr 2Crônicas
Ed Esdras
Ne Neemias
Et Ester
Jó Jó
SI Salmos
Pv Provérbios
Ec Eclesiastes
Ct Cântico dos Cânticos
Is IsaíasJr Jeremias
Lm Lamentações
Ez F.zequiel
Dn Daniel
Os Oseias
J1 Joel
Am Amós
Ob Obadias
Jn Jonas
Testamento de JóT.JÓ
Manuscritos do Mar Morto
CD-A Documento de Damasco'
1QS 1 QRegra da comunidade
4Q174
(4QFIor) 4QFlorilégio
4Q246 4QApocalipse aramaico
M ishná e Talmude
b. Talmude babilónico
m. Mishná
t. Toseftá
y■ Talmude de Jerusalém
’Abot ’Abot [PaisJ
Ber. Berakot [Bênçãos]
Gil. Gittin [Certidões de divorcio]
Pesah. Pesahim [Festa da Páscoa]
Shabb. Shabbat [Sábado]
Sanh. Sanhedrin [Sinedrio]
Toma Yoma (= Kippurim) [Dia da
Expiação]
Apócrifos e Pseudepígrafos do
Novo Testamento
Ps.-Clem. Pseudo-Clementino
Obras gregas e latinas
Eusébio
Hist. ecl. Historia eclesiástica (Historia
Josefo
ecclesiastica)
Ant. Antiguidades judaicas 
(Antiquitates judaicae)
C.Ap. Contra Ápion (Contra
Apionem)
G.J. Guerras judaicas (Bellum
Lívio
judaicum)
Hist. Historia de Roma (Ah urbe
condita libri)
3 Jo
Jd
Ap
Gerais
3 João 
Judas 
Apocalipse
II texto paralelo
C . cerca de, por volta de
cap(s). capítulo(s)
cf. conferir
cp. comparar com
etc. et cetera, e outras coisas
gr· grego
hcbr. hebraico
i.e. id est, isto é 
livrolv.
n. níimero(s)
P- página(s)
paral(s). paralelo(s)
p. ex. por exemplo
s(s). seguinte(s)
V . versículo(s)
Textos antigos e versões
LXX Septuaginta
Versões modernas
ESV English Standard Version
KJV King James Version
NET New English Translation
NIV New International Version
NET New Living Translation
NRSV New Revised Standard
Version
REB Revised English Bible
RSV Revised Standard Version
TNIV Today’s New International
Version
Apócrifos e Septuaginta
1 Me IMacabaeus
Sb Sabedoria de Salomão
Tb Tobias
Pseudepígrafos do Antigo Testamento
lEn 1 Enoque (Apocalipse etíope)
2Br ZBaruque (Apocalipse
siríaco)
4Ed 4Esdras
Apoc. Ab. Apocalipse de Abraão
Jub. Jubileus
Or. Sib. Oráculos sibilinos
SI. Sal. Salmos de Salomão
Reduções gráficas (abreviações e siglas) xii
Introdução a Marcos
narrativa histórica confiável quanto uma 
teologia profundamente relevante.
Estudaremos Marcos em dois níveis. No 
nível mais amplo, queremos identificar de 
que maneira cada episódio se encontra 
inserido na história mais abrangente, a 
narrativa acerca de Jesus que se desenrola 
nesse Evangelho. Um “prefácio”, ou uma 
introdução no capítulo dedicado a analisar 
a passagem de Marcos 1.1-15, apresenta a 
pessoa que estamos estudando aqui: Jesus, o 
Messias e Filho de Deus. Tanto Isaías 40.1-3 
quanto João Batista dão testemunho a seu 
respeito, e sua identidade como Messias é 
atestada pelo Pai em seu batismo e pela der- 
rota de Satanás em sua tentação. Segue-se, 
então, o início de seu ministério na Galileia, 
relatado em dois ciclos iniciais (1.16—3.6; 
3.7—6.6) nos quais Jesus desafia três gru- 
pos de pessoas: os discípulos, as multidões e 
os líderes. Acompanharemos os três grupos 
ao longo de Marcos para mostrar de que 
maneira esse Evangelho é organizado. E de 
suma importância observar que várias par- 
tes da obra não são organizadas de forma 
cronológica. Seguindo técnicas antigas de 
redação de relatos históricos, os autores dos
Marcos foi o primeiro a usar o termo “evan- 
gelho” (euangelion) para essas poderosas 
biografias de Jesus (1.1,15). Os Evangelhos 
apresentam as “boas-novas” a respeito de 
“Jesus, o Messias, o Filho de Deus” (1.1). 
Eles contêm tanto história quanto teologia. 
Como história, relatam a vida e o ministério 
de Jesus de Nazaré com narrativas absolu- 
tamente confiáveis. No entanto, são mais 
do que isso; como “Evangelho”, constituem 
um drama histórico e teológico, “história 
com uma mensagem”. Na forma verbal 
euangelizomai, o termo significa “pregar 
as boas-novas”, ou seja, os Evangelhos são 
constituídos de “sermões” a respeito de 
Jesus. Quando estudamos o Evangelho de 
Marcos, buscamos não somente compreen- 
der o que esse relato “significava” histo- 
ricamente, mas também o que “significa” 
teologicamente. Ao relatar os acontecimen- 
tos os autores sagrados selecionaram os 
detalhes (ou seja, fizeram escolhas “reda- 
donáis” ou “editoriais”) que ressaltavam 
o significado teológico dos acontecimen- 
tos. Por trás de cada perícope (isto é, de 
cada episódio), encontramos tanto uma
João Marcos, que trabalhou com os apóstolos 
Pedro e Paulo, é o autor mais provável do 
Evangelho de Marcos. Essa hgura de Marcos faz 
parte de uma peça maior chamada Cristo e os 
Doze apóstolos de uma igreja ortodoxa do século 
19 na região de Antália (Turquia).
críticos duvidam da associação com Pedro 
e dizem que Marcos contém diversos erros 
de geografia (p. ex., 7.31; 10.46-52) e de 
costumes judaicos (p. ex., 7.3,4). Todas 
essas questões, porém, são facilmente expli- 
cáveis e não envolvem erro. E bem provável, 
portanto, que João Marcos, assistente de 
Paulo (2Tm 4.11) e de Pedro (lPe 5.13) 
seja, de fato, o autor desse Evangelho.1
É difícil determinar quando o Evange- 
lho de Marcos foi escrito. Muitos o datam 
da década de 70 d.C., partindo do pres- 
suposto de que o Discurso do Monte das 
Oliveiras (Mc 13) foi escrito com base nos 
acontecimentos de 6870־ d.C. No entanto, 
Marcos 13 não traz material suficiente que
Evangelhos tinham a liberdade de organizar 
os fatos de outras maneiras e, muitas vezes, 
de colocá-los em ordem diferente. Não se 
trata de erro, pois o arranjo tópico (ou 
seja, que não registra os acontecimentos 
cronologicamente) era aceitável e o Espírito 
inspirou as duas formas de organização.
No nível mais restrito, também ob- 
servaremos de que modo cada história é 
organizada a fim de identificar a mensa- 
gem singular de Marcos. Cada passagem 
do comentário começará com uma “Idéia 
central”, que terá função semelhante à 
da proposição de um sermão e indicará 
ao leitor o sentido da ação. Em seguida, 
virão os conceitos teológicos principais 
da passagem, bem como a “estrutura” e 
o “contexto” (ora separados, ora com- 
binados) para explicar de que maneira o 
Evangelista reuniu os detalhes da história 
em cada passagem. No final de cada seção, 
analisaremos os principais temas teológi- 
cos e práticos que podem ser extraídos do 
trecho estudado.
Autoria e data__________________
O Evangelho de Marcos, assim como o 
de Mateus, Lucas e João, não cita o nome 
de seu autor. E bem provável que os auto- 
res não considerassem esses textos como 
os seus Evangelhos, mas o Evangelho da 
igreja, cujo verdadeiro autor era o Espírito 
Santo. A autoria de Marcos foi reconhe- 
cida universalmente pelos primeiros pais da 
igreja (Justino Mártir, Ireneu, Clemente de 
Alexandria, Tertuliano, Orígenes, Jerô- 
nimo, Agostinho). Eusébio (Hist. Ecl. 
3.39) cita Papias, pai apostólico do início 
do segundo século, de acordo com o qual 
João, o Presbítero, declarou no final do pri- 
meiro século que Marcos era intérprete de 
Pedro, que havia lhe fornecido informações 
precisas. Ainda assim, muitos estudiosos
Introdução a M arcos 2
dizer que a ênfase sobre o sofrimento de 
Jesus indica que Marcos se dirigiu a urna 
igreja cujos membros estavam sob forte 
perseguição, exortando-os a permanecerem 
fiéis nesse período difícil. Há certa verdade 
nessas considerações, mas esse não é o pro- 
pósito principal. O motivo do livro está 
associado a seus principais temas teológi- 
eos (veja adiante). Primeiro, sua intenção 
é apresentar um relato histórico de Jesus e 
provar que ele é o Messias (de modo mais 
específico, o Servo Sofredor de Deus) e o 
Filho de Deus a fim de instruir os cristãos 
e evangelizar os não cristãos. Segundo, 
enfatiza o discipulado — o que significa 
seguir a Cristo e andar em seus caminhos 
neste mundo mau.3
Relação com Mateus e Lucas
O Problema Sinótico surge do reconhecí- 
mento de que os três Evangelhos “Sinó- 
ticos” (= “de mesma aparência”) — Ma- 
teus, Marcos e Lucas — são tão parecidos 
uns com os outros que deve haver alguma
pudesse ser relacionado aos detalhes desse 
acontecimento; antes, trata-se de uma pro- 
feda geral de juízo sobre a nação e sobre 
o templo. Outros consideram que o Evan- 
gelho foi compilado depois das revoltasjudaicas dos zelotes nas décadas de 50 e 
60 do primeiro século e depois da morte 
de Pedro, isto é, no final da década de 60. 
O forte tema de perseguição também se 
encaixa com o final do período neroniano. 
Essas propostas, contudo, são inconclusi- 
vas, pois a perseguição é geral e o contexto 
zelote é dúbio. Dois fatores favorecem uma 
data na década de 50: (1) não há motivo 
para duvidar de uma ligação com Pedro, 
de modo que é mais apropriado situar a 
obra na década de 50 ou 60; (2) Mateus e 
Lucas usaram o texto de Marcos, indicação 
de que esse foi o primeiro Evangelho a ser 
escrito (trataremos dessa questão adiante). 
Se Lucas foi escrito na época em que Atos 
termina (62 d.C., com Paulo aguardando 
seu julgamento em Roma), uma proposta 
cabível (e, a meu ver, preferível) é de que 
Marcos foi redigido entre meados e o final 
da década de 50 e, em seguida, reconhecido 
pela igreja e usado por Lucas.2
Público-alvo e propósito_________
A maioria dos estudiosos concorda que 
Marcos escreveu para leitores gentios, pro- 
vavelmente em Roma. O texto traz vários 
latinismos (p. ex., termos para “cesto” 
[4.21], “ im posto” [12.14], “açoitar” 
[15.15]) e há uma tendência de traduzir 
palavras em aramaico para leitores de fala 
grega (5.41; 7.11,34; 10.46; 15.22,34). 
Ademais, os pais da igreja (Clemente de Ale- 
xandria, Prólogo Antimarcionista, Eusébio) 
associavam Marcos a Roma. Costuma-se
Na op in ião de muitos estudiosos, o Evangelho de 
Marcos foi escrito para leitores gentios em Roma. O 
centro das atividades políticas e religiosas de Roma 
era o Fórum, que aparece nessa fotografia.
editou Marcos (p. ex., Mc 6.5,6 //Mt 13.58); 
(4) faz mais sentido Mateus e Lucas terem 
acrescentado conteúdo a Marcos, do que 
Marcos ter removido tantas histórias e ma- 
teriais importantes dos outros dois (p. ex., 
os relatos do nascimento de Jesus e o Sermão 
do Monte/da Planície, presentes em Mateus 
e em Lucas). É possível que Q fosse uma tra- 
dição, e não um documento propriamente 
dito, mas ajuda a explicar os 253 versículos 
de Mateus e Lucas que trazem ditos de Jesus 
e que não fazem parte de Marcos. Parece 
mais apropriado pressupor a existência de 
algum tipo de fonte comum do que imaginar 
que tanto conteúdo apareça em Mateus e 
Lucas por acaso. Pode-se concluir, portanto, 
que Marcos foi escrito primeiro e usado 
pelos outros dois autores para redigir seus 
respectivos Evangelhos.4
Temas teológicos_______________
C ris to lo g ia
É necessário que esse estudo seja realizado 
em dois planos: o que Jesus fez e quem 
Jesus era. Ele realizou milagres, ensinou 
verdades maravilho- 
sas e preparou pessoas 
para o reino de Deus. 
Ao mesmo tempo, ele 
era o Messias, o Filho 
de Deus, o Filho do 
Homem, o Profeta e 
o Servo Sofredor de 
Deus. Convém con-
Um dos temas teológicos 
do Evangelho de Marcos 
é o discipulado. Vemos 
Jesus chamar, instruir e 
enviar seus discípulos. 
Essa placa de marfim 
chamada A missão 
dos apóstolos é de 
Constantinopla, décim o 
século d.C.
relação literária entre eles. A principal dis- 
cussão a esse respeito ao longo dos últimos 
séculos procura identificar se Mateus ou 
Marcos foi escrito primeiro. Pode-se obser- 
var, com frequência, expressões semelhan- 
tes (p. ex., Mt 19.13-15 // Mc 10.13-16 // 
Lc 18.15-17) ou uma sequência parecida 
de acontecimentos (Mt 12.46—13.58 // Mc 
3.31—6.6 // Lc 8.19-56). Até o século 18, 
a ordem proposta por Agostinho (Mateus, 
depois Marcos e, por fim, Lucas) predomi- 
nava. Em 1783, essa proposta foi alterada 
por J. J. Griesbach (Lucas usou Mateus, e 
Marcos abreviou ambos), mas no último 
século a Hipótese das Quatro Fontes pas- 
sou a ser adotada pela maioria: Marcos foi 
escrito primeiro; posteriormente, Mateus e 
Lucas usaram Marcos, bem como uma co- 
letânea de ditos de Jesus chamada “Q ” (do 
alemão Quelle, “fonte”) juntamente com 
o conteúdo exclusivo de cada Evangelho 
chamados: “M ” (conteúdo que só aparece 
em Mateus) e “L” (conteúdo presente so- 
mente em Lucas).
Em outras palavras, de modo geral, 
Marcos é considerado o primeiro Evan- 
gelho. Há quatro mo- 
tivos básicos para 
esse posicionamento:
(1) Marcos emprega 
uma linguagem mais 
emotiva e explícita, 
atenuada em vários 
casos por Mateus (p. 
ex., Mc 10.18 // M t 
19.17); (2) M arcos 
traz várias expressões 
difíceis, e até negativas 
(p. ex., “coração endu- 
recido” em 6.52; 8.17, 
omitida por Mateus);
(3) a melhor maneira 
de explicar as diferen- 
ças redacionais é con- 
siderar que M ateus
Introdução a M arcos 4
em seus próprios objetivos; (2) destacar a 
verdadeira glória de Jesus, pois mostra que 
sua grandeza não podia permanecer oculta, 
mas tinha de irromper publicamente.5 
Quanto mais Jesus dizia às pessoas para 
permanecerem caladas, mais elas sentiam 
a necessidade de proclamar a todos o que 
tinham visto e vivenciado (1.44,45; 7.36).
D isc ip u la d o
Jesus é o “Rabi” (9.5; 10.51; 11.21) que 
treina seus discípulos com paciência e amor. 
Ele os chama e os envolve de imediato em 
sua missão (1.16-20), os comissiona como 
apóstolos, lhes confere autoridade (3.14-19) 
e os envia à Galileia como missionários (6.7- 
13). Eles são chamados a negar a si mesmos 
e seguir Jesus sem restrições (8.34—9.1). 
Ainda assim, ao longo da narrativa os dis- 
cípulos lutam com o fracasso. O coração 
deles está endurecido (6.52; 8.17) e depois 
de cada uma das predições da Paixão, não 
conseguem entender (p. ex., 8.31 -33); antes, 
buscam grandeza pessoal (9.34) e poder fu- 
turo (10.37). Aqueles que haviam expulsado 
demônios (6.13) de repente são incapazes 
de fazê-lo (9.18). Eles falham com Jesus 
tanto no Getsêmani (14.37,40,41) como 
quando ele é preso (14.50-52). Pedro nega 
Jesus três vezes (14.66-72). A chave é a fé 
que, em Marcos, significa dependência total 
de Jesus. Enquanto os discípulos falham, os 
“pequeninos” (aqueles que aparecem apenas 
uma vez) se voltam inteiramente para Jesus 
e mostram que a vitória é resultado da fé 
irrestrita nele (5.34,36; 7.27-29; 9.23,24; 
10.47,48; 14.3). Na morte e ressurreição de 
Jesus, as mulheres são as seguidoras fiéis, mas 
até elas falham (16.8). A resposta é fornecida 
em 16.7: encontrem o Senhor ressurreto na 
Galileia e recebam fé para superar o fracasso.
C o n flito có sm ico
A guerra contra Satanás e os “espíritos 
imundos” (uma das expressões usadas por
siderar de modo sucinto cada um desses 
aspectos. Seus milagres enfatizam sua au- 
toridade absoluta sobre a criação (p. ex., 
4.35—5.41); seu primeiro milagre revelou 
sua autoridade em palavras e ações (1.21- 
28). Jesus ensinou como a própria voz de 
Deus c agiu como o legítimo Filho de Deus. 
Embora Mateus apresente mais conteúdo 
didático, Marcos se concentra em Jesus 
como mestre/rabino mais do que Mateus. 
A compaixão de Jesus se destaca quando ele 
cura todos que o procuram (1.32-34; 3.7- 
12; veja porém, 6.5,6), mesmo quando isso 
o leva a afrontar os guardiões da lei (2.5,6; 
3.4). As necessidades das pessoas têm pre- 
cedência sobre os escrúpulos religiosos.
Como o Messias, Jesus não é somente o 
Messias régio, mas também o Servo Sofredor 
de Yahweh, que cumpre Isaías 52 e 53. Sua 
morte provê resgate pelos pecados e uma 
nova aliança com Deus (Mc 10.45; 14.24). 
Como o Filho de Deus, ele é o amado e íntimo 
Filho do Pai (1.11; 9.7), cuja condição exal- 
tada é associada de modo específico à sua res- 
surreição (12.10,11) e segunda vinda (8.38 
[“... na glória de seu Pai...”]; 13.32). Como 
Filho do Homem, Jesus é glorificado por 
meio do sofrimento (8.31; 9.31; 10.33,34) 
e se assentará à direita de Deus (13.26,27; 
14.62) como juiz (8.38).
Ainda assim, a realidade de Jesus é en- 
volta em sigilo, pois ele mesmo ordena que 
demônios (1.25,34; 3.12), as pessoas que 
ele cura (1.44; 5.43; 7.36) e até seus dis- 
cípulos (8.30; 9.9) não revelem quem ele 
é. Historicamente, sua ordem faz sentido, 
pois o povo judeu esperava somente um 
rei conquistador, enquanto Jesus veio para 
ser o Servo Sofredor. Ele não desejava queconceitos equivocados como esse a respeito 
de seu papel de Messias interferissem em 
seu ministério. Quanto aos propósitos de 
Marcos, Robert Stein observa dois: (1) 
provar que Jesus não morreu como re- 
volucionário político interessado apenas
5 Introdução a M arcos
da mulher siro-fenícia (7.24-30) e da criança 
possuída por um demonio (9.14-29). Jesus 
concede sua autoridade a seus discípulos 
(3.14,15; 6.7), e eles têm êxito em expulsar 
demonios (6.13). Contudo, não conseguem 
fazê-lo quando dependem de suas próprias 
forças em vez de depender de Jesus (9.18). 
A mensagem é clara: Satanás foi derrotado 
por Jesus e não exerce mais poder sobre o 
povo de Deus. No entanto, ele ainda cria 
tentações e engana, e qualquer discípulo que 
deixa de olhar para Jesus e passa a confiar 
em si mesmo pode ser derrotado e tornar-se 
instrumento de Satanás (8.33).
Marcos para demônios) é um tema impor- 
tante desse Evangelho. O primeiro milagre 
realizado por Jesus está relacionado com 
uma batalha contra a possessão demoníaca 
(1.23-28) e mostra a autoridade de Jesus 
sobre os poderes malignos (1.27). A decía- 
ração da tese do conflito cósmico aparece 
em 3.27, a parábola sucinta de Jesus sobre 
“amarrar Satanás” . Cada exorcismo em 
Marcos permite vislumbrar até que ponto 
Satanás e seus subordinados foram amar- 
rados por Jesus. Esse poder é demonstrado 
nos exorcismos na Galileia (3.11,12), do 
endemoninhado gadareno (5.1-20), da filha
Estrutura de Marcos_______________________________________________
1. Prólogo (1.1-15)
a. Introdução: o mensageiro messiânico é apresentado (1.1-3)
b. Ministério de João Batista (1.4-8)
c. Batismo de Jesus (1.9-11)
d. Tentação de Jesus (1.12,13)
e. Chegada à Galileia e mensagem — resumo do evangelho (1.14,15)
2. Ministério de Jesus na Galileia (1.16—6.6)
a. Primeiro ciclo: ministério inicial (1.16—3.6)
i. Chamado dos discípulos (1.16-20)
ii. Acontecimentos em um Sabbath (dia típico) — popularidade crescente (1.21-34)
(1) Autoridade na sinagoga em Cafarnaum (1.21-28)
(2) Cura da sogra de Pedro (1.29-31)
(3) Resumo do ministério naquela noite (1.32-34)
iii. Início do ministério itinerante de pregação de Jesus (1.35-39)
iv. Purificação de um leproso (1.40-45)
v. Conflito com líderes religiosos — oposição crescente (2.1—3.6)
(1) Cura de um paralítico (2.1-12)
(2) O chamado de Levi, o coletor de impostos, e comunhão com ele (2.13-17)
(3) O novo versus o antigo — o tema dessa seção (2.18-22)
(4) Conflito no Sabbath sobre colher espigas (2.23-28)
(5) Curas e oposição se intensificam (3.1-6)
b. Segundo ciclo: ministério junto ao mar da Galileia (3.7-35)
i. Resumo: retração, grandes multidões, cura e exorcismo (3.7-12)
ii. A escolha dos Doze (3.13-19)
iii. Rejeição e discipulado — episódio intercalado (3.20-35)
c. Terceiro ciclo: ministério em palavras e ações (4.1—6.6)
i. Parábolas do reino (4.1-34)
(1) A parábola do semeador (4.1-20)
Introdução a M arcos 6
(a) Narração da parábola (4.1-9)
(b) Excurso sobre os de dentro e os de fora (4.10-12)
(c) Explicação da parábola — líderes, multidões, discípulos (4.13-20)
(2) Parábolas sobre receptividade (4.21-25)
(a) A candeia no velador (4.21-23)
(b) A medida (4.24,25)
(3) A parábola da semeadura e da colheita (4.26-29)
(4) A parábola do grão de mostarda (4.30-32)
(5) Resumo referente às parábolas (4.33,34)
ii. Relatos de milagres (4.35—5.43)
(1) A tempestade é acalmada (4 (־3541.
(2) O endemoninhado gadareno (5.1-20)
(3) Dois milagres relacionados: a filha de Jairo e a mulher com hemorragia (5.21-43)
iii. Nova rejeição em Nazaré (6.1-6)
d. Missão e retração (6.7—8.30)
i. A missão dos Doze (6.7-13)
ii. Retrospectiva: a morte de João Batista (6.14-29)
iii. Milagres e incompreensão (6.30-56)
(1) Alimento para cinco mil pessoas (6.30-44)
(2) Segunda tempestade: Jesus caminha sobre as águas (6.45-52)
(3) Resumo: curas gerais (6.53-56)
iv. Controvérsia sobre o que é puro ou impuro (7.1-23)
v. Ministério aos gentios (7.24-37)
(1) A mulher siró-fenicia (7.24-30)
(2) O surdo e mudo (7.31-37)
vi. Alimento para quatro mil pessoas (8.1-10)
vii. Exigência de um sinal (8.11-13)
viii. Compreensão equivocada dos discípulos (8.14-21)
ix. Cura do cego — um milagre em duas etapas (8.22-26)
x. Confissão de Pedro acerca do Cristo (8.27-30)
3. Jornada para Jerusalém (8.31—10.52)
a. Primeira predição da Paixão (8.31-33)
b. Verdadeiro discipulado e sofrimento (8.34—9.1)
c. Transfiguração de Jesus (9.2-13)
d. A cura de uma criança possuída por um demônio (9.14-29)
e. Segunda predição da Paixão (9.30-32)
f. Afirmações sobre recompensas e castigos (9.33-50)
i. Competição por grandeza (9.33-37)
ii. Exorcismo em nome de Jesus (9.38-40)
iii. Ensinos sobre recompensas e castigos (9.41-50)
(1) Recompensa ou juízo (9.41,42)
(2) O membro que faz pecar (9.43-48)
(3) A dinâmica do discipulado — ensinos sobre o sal (9.49,50)
g. Casamento e divórcio (10.1-12)
h. Jesus abençoa as crianças (10.13-16)
7 Introdução a Marcos
i. Riquezas e recompensas associadas ao reino / ao custo do discipulado (10.17-31)
i. O jovem líder rico (10.17-22)
ii. Lição: os ricos e o reino (10.23-27)
iii. Recompensas pelo sacrificio (10.28-31)
j. Terceira predição da Paixão (10.32-34)
k. Posição e primazia (10.35-45)
l. Acontecimento final: a cura do cego Bartimeu (10.46-52)
4. Prelúdio dos acontecimentos da Paixão (11.1— 13.37)
a. A Entrada Triunfal de Jesus (TI .1-11)
b. A figueira e o templo (11.12-26)
i. A figueira é amaldiçoada (11.12-14)
ii. O templo é purificado (11.15-19)
iii. A figueira seca e declarações sobre a fé (11.20-26)
c. Controvérsias no templo (11.27—12.37)
i. A questão da autoridade de Jesus (11.27-33)
ii. A parábola dos arrendatários perversos (12.1-12)
iii. Perguntas acerca do dinheiro do tributo (12.13-17)
iv. Pergunta acerca da ressurreição (12.18-27)
v. Pergunta acerca do primeiro mandamento (12.28-34)
vi. O Messias e o Filho de Davi (12.35-37)
d. Ensino nos arredores do templo (12.3844־)
i. Crítica severa aos escribas (12.38-40)
ii. O sacrifício pleno da viúva (12.41-44)
e. O Discurso do Monte das Oliveiras (13.1-37)
i. Profecia acerca da destruição do templo (13.1,2)
ii. A destruição e a parúsia (13.3-27)
(1) A pergunta dos discípulos (13.3,4)
(2) Advertências acerca de sinais (13.5-13)
(3) O grande sacrilégio e a tribulação (13.14-23)
(4) A parúsia (13.24-27)
iii. A parábola da figueira (13.28-31)
iv. Exortação à vigilância (13.32-37)
5. Paixão e morte de Jesus (14.1—15.47)
a. Acontecimentos preparatórios (14.1-11)
i. A trama é revelada: prender e matar Jesus (14.1,2)
ii. Unção em Betânia (14.3-9)
iii. Judas concorda em trair Jesus (14.10,11)
b. A Última Ceia (14.12-31)
i. Preparativos para a Páscoa (14.12-16)
ii. Profecia da traição (14.17-21)
iii. As palavras de instituição (14.22-25)
iv. Conclusão e partida (14.26)
v. Profecias do fracasso dos discípulos (14.27-31)
c. Getsêmani (14.32-42)
d. Prisão e julgamento de Jesus (14.43— 15.15)
Introdução a M arcos 8
Introdução a Marcos
i. Prisão (14.43-52)
ii. Julgamento perante o Sinédrio (14.53-65)
iii. Negação tripla de Pedro (14.66-72)
iv. Jesus perante Pilatos (15.1-15)
e. Crucificação e morte de Jesus (15.16-41)
i. Zombaria e crucificação (15.16-32)
(1) Humilhado pelos soldados (15.16-20)
(2) Carrega a cruz (15.21)
(3) Recusa o vinho misturado com mirra (15.22,23)
(4) Crucificação: primeiros acontecimentos (15.24-27)
(a) Roupas de Jesus divididas entre os soldados (15.24)
(b) Terceira hora: tabuleta com a acusação (15.25,26)
(c) Dois rebeldes crucificados com Jesus (15.27)
(5) As zombarias — profecias involuntárias (15.29-32)
ii. As agonias da morte (15.33-37)
iii. Os resultados (15.38-41)
(1) O ato sobrenatural: véu rasgado ao meio (15.38)
(2) A exclamação do centuriâo: “Filho de Deus” (15.39)
(3) O remanescente fiel: as mulheres como testemunhas (15.40,41)
f. Sepultamento de Jesus (15.42-47)
6. Ressurreição de Jesus (16.1-8)
a. Visita ao túmulo (16.1-4)
b. Acontecimentos no túmulo (16.5-7)
c. Fracasso — medo e silêncio (16.8)
[d. O problema do final mais longo(16 [(־920.
Julias
ir.da G alileia
Magdala^Jariquela'Q 
. , libertades
Séforis O
Cesa reía 
Marítima, Citópolls
Gérasa (Jerash)
Sebaste/Samarla O
Filadélfia
'-*Jericó letânla do outro 
adò do Jorrfão
Jerusalém
Betânia
> MAR 
MORT(
0 5 10 quilómetros
QDamasc
Sidom
Principáis lugares do m inistério de Jesus
Marcos 1 .1 8 ־
A identidade de Jesus como Messias 
e Filho de Deus é estabelecida
Ideía central O ponto central das boas-novas é Jesus, 0 M essias, que se revela como 
Filho de Deus ao dar Início à era do reino de Deus. Essa identidade é declarada 
primeiro pela profecia do Antigo Testamento e depois pelo precursor m essiânico, 
João Batista, a voz do deserto.
Estrutura
O prólogo é emoldurado (introdução,
v. 1-3; conclusão, v. 14,15) pelo evange- 
lho, a chegada do reino de Deus com Jesus, 
o Messias e Filho de Deus. Divide-se em 
três partes principais que se intersectam: 
João, que por meio do batismo, anuncia a 
necessidade de arrependimento e perdão; 
o batismo de Jesus que dá início à nova 
era do Espírito; e a derrota de Satanás por 
meio de Jesus no deserto.
Considerações interpretativas
1.1 O princípio das boas-novas. Essas pa- 
lavras podem se referir somente ao início
No prólogo. Marcos se refere a Jesus com o o Messias. Esse 
conceito teológico, desenvolvido de m odo mais completo 
no cristianismo, também foi encontrado nos escritos da 
comunidade de Qumran (segundo século a.C. a primeiro 
século d.C.), descobertos quando os Manuscritos do Mar 
Morto foram encontrados em cavernas próximas dali. 
Estudiosos continuam a analisar o uso que a comunidade 
de Qumran fazia do termo"messias" e sua esperança de 
uma figura messiânica vindoura, A fotografia mostra a 
caverna quatro, em que foi encontrada a maior coleção de 
manuscritos da comunidade de Qumran.
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Essa passagem é o “prólogo” de Marcos 
(cf. Jo 1.1-18), e seu propósito é infor- 
mar o leitor das verdades fundamentais 
do livro, especialmente da identidade de 
Jesus. No restante do Evangelho, veremos 
como os principais grupos (discípulos, 
multidões, líderes e demônios) lutam 
com as verdades que nós, os leitores, já 
sabemos com base no prólogo: Jesus é o 
Messias e o Filho de Deus que veio para 
que o reino definitivo de Deus se tornasse 
real e para cumprir todas as esperanças 
do Antigo Testamento. Ao centrar a ação 
em João Batista como precursor e em Sa- 
tanás como principal oponente, Marcos 
também apresenta o conflito e as oposi- 
ções diametrais ocasionadas por Jesus. A 
passagem é emoldurada pela condição de 
Jesus como Filho de Deus, declarada logo 
no início (1.1) e confirmada pela própria 
voz de Deus (1.11).
12Marcos 1.1-8
Principais temas de Marcos 1.1-8desse prólogo ou ao início do Evangelho
Jesus como Messias e Filho de Deus
■ Jesus é 0 Messias e o Filho de Deus; esse é o 
âmago da mensagem do reino.
» Como precursor messiânico, João dá início ao 
cumprimento da promessa de Isaías ao preparar 
0 caminho para a vinda de Jesus.
• Como profeta do deserto, João mostra a Israel 
a necessidade de arrependimento e confissão a 
fim de receber perdão.
dc Marcos como um todo. Uma vez que 
esse versículo é um título apropriado para o 
livro todo, a segunda opção reflete melhor 
sua ênfase principal. Marcos nos diz a que 
conclusão deseja que cheguemos depois de 
ler seu Evangelho. Aliás, como primeiro 
evangelista, Marcos, de fato, criou o gênero 
“evangelho”, a partir de um termo grego 
que, em sua forma verbal (euangelizomai), 
significa “proclamar, inform ar” . Como 
substantivo (euangelion), costuma ser 
usado tanto na tradução grega do Antigo 
Testamento como no mundo helenístico 
para indicar “uma boa notícia” (p. ex., o 
nascimento de um imperador) ou “notícia 
de vitória”. No Novo Testamento, também 
descreve a “boa notícia” ou a “mensagem 
jubilosa” da intervenção de Deus num 
mundo pecaminoso ao enviar seu Filho 
para oferecer salvação à humanidade.
Messias. 0 conceito de messias (hebr., “ungido") teve início 
com a expectativa de uma monarquia davídica restaurada, 
cujo personagem central cumpriría a esperança de um rei 
davídico eterno (veja SI 110.1; Is 7.14; 9.1-6; 11.1; Jr 
33.14-26; Ez 17.22-24; Mq 5.1-4; Zc 9.9,10). Por vezes, o 
conceito assumia a forma de dois messias (um “messias 
de Israel” , régio, e um "messias de Arão” , sacerdotal, em 
Qumran [1QS 9.9-11; CD-A 12.22,23]), mas, em geral, as 
expectativas giravam em tomo de um conquistador enviado 
por Deus que derrotaria os inimigos de Israel e restauraria 
a nação aos dias de glória de Davi (lE n 39.6; 46.1-3; 48.8- 
10; 4Ed 7.2644; SI. Sal. 17.21-45). Jesus cumpriu esse 
papel de messias régio, mas em seu primeiro advento, veio 
como Servo Sofredor (Is 52 e 53; cf. Mc 8.31; 9.30,31; 
10.32-34). 0 trono sobre 0 qual Jesus se toma 0 Messias 
davídico é a cruz, e ele entra em sua glória (Mc 12.35-37) 
não apenas na ressurreição, mas também em sua morte 
sacrificial “por muitos” (10.45; 14.24). Em sua segunda 
vinda, ele será o rei conquistador (13.24-27; 14.62).
Filho de Deus. Os quatro Evangelhos descrevem Jesus 
no que diz respeito a sua filiação divina; esse é um dos 
temas principais de Marcos. No Antigo Testamento, a expres- 
são/conceito “filho de Deus” é aplicada a anjos (Gn 6.2; 
Dn 3.25), a Israel (Êx 4.22,23; Ml 2.10) e ao rei (2Sm 7.14; 
SI 2.7) e especifica em todas as passagens um relacio- 
namento singular com Deus. No Antigo Testamento e no 
judaísmo em geral, o título raramente era usado para 0 
Messias vindouro, embora seja fundamentado em 2Samuel 
7.14; Salmos 2.7; 89.26,27 e empregado desse modo em 
Qumran (4Q1741.10-14; 4Q246). Para Jesus e para a igreja 
primitiva, era uma designação fundamental que descrevia a 
natureza singular de sua intimidade com o Pai, equivalente, 
em vários sentidos, a uma declaração de sua divindade. 
Deus declara que Jesus é seu “filho amado" (Mc 1.11; 9.7 
[cf. SI 2.7; Is 42.1]). Essa condição é reconhecida pelos 
demônios (3.11; 5.7), bem como pelo centuriâo junto à cruz 
(15.39), mas em Marcos, os discípulos (ao que parece) se 
mostram incapazes de percebê-la (cp. Mc 6.52 com Mt 
14.33). Para Marcos, a filiação divina de Jesus é 0 ápice de 
seu Evangelho, e a condição exclusiva e exaltada de Jesus 
é estreitamente associada à sua ressurreição (12.10,11) 
e segunda vinda (8.38 [“ ... na glória de seu Pai...”]; 13.32).
do profeta, que transfere o foco da predição 
do Exilio (39.5,6) para a promessa de Deus 
de “consolar” seu povo (40.1). O consolo 
supremo se dará no regresso definitivo do 
Exilio por ocasião da vinda de Jesus Cristo.
mensageiro /.../preparará o teu caminho. 
Aqui, essa observação se aplica a João Ba- 
tista, o precursor messiânico. Essa é a única 
passagem em Marcos que faz referência a 
um cumprimento profético (Mateus tem 
onze); com isso, mostra, que cada elemento 
da inauguração do ministério messiânico de 
Jesus se baseia no plano predeterminado de 
Deus. João é o “mensageiro” (angelos) de 
Êxodo 23.20 enviado por Deus; cumpre o 
papel do anjo que, no Êxodo, foi adiante 
de Israel no caminho pelo deserto. É bem 
possível que essa observação retrate a vinda 
de Jesus (“teu caminho” se refere a Israel em 
Êx 23.20, mas a Jesus aqui, talvez como o 
verdadeiro Israel), de modo que um “novo 
êxodo”2 está ocorrendo em sua chegada. 
Em Malaquias 3.1, encontramos a profe- 
cia de que Deus enviará esse mensageiro 
para “preparar o caminho diante de mim” 
à medida que ele chegar para trazer juízo 
sobre uma nação recalcitrante. Também 
nesse caso, o precursor é João, que traz uma 
mensagem de libertação por meio do arre- 
pendimento e do juízo. A figura principal, 
contudo, é Jesus; ele é a presença de Deus 
que chega em justiça e juízo e traz consigo 
um novo êxodo do pecado.
acerca de Jesus o Messias, o Filho de 
Deus. A TNIV coloca “Filho de Deus” em 
uma nota de rodapé, pois a expressão não 
aparece em alguns manuscritos antigos; no 
entanto, ela aparece na grande maioria epode ter sido omitida acidentalmente por 
alguns copistas (por isso a nova NIV [2011] 
a restaurou ao texto). O grego traz “evan- 
gelho de Jesus”, provavelmente um genitivo 
objetivo cuja tradução mais precisa aqui é 
“acerca de Jesus”. Os dois títulos resumem 
a ênfase cristológica central de Marcos: 
Jesus (cujo nome hebraico “Yehoshua” sig- 
nifica “Yahweh é salvação”) é o Messias 
(embora no texto grego ocorra sem o artigo, 
certamente é um título)1 e o filho de Deus 
(veja quadro lateral na página anterior). 
Como Messias, Jesus cumpre a promessa 
de um governante davídico definitivo e, ao 
mesmo tempo, é o Servo Sofredor descrito 
em Isaías que se tornará rei ao entregar-se 
na cruz como sacrifício por nós. Em sua 
condição de Filho de Deus, ele é definido 
por sua filiação singular (oito vezes em 
Marcos), tendo Deus como seu Pai (quatro 
vezes em Marcos).
1.2 escrito no profeta Isaías. Uma refe- 
rência principalmente a Isaías 40.3. O que 
se segue também incorpora Exodo 23.20 
(com respeito ao “mensageiro da aliança” 
que, em Êxodo, é um anjo) e Malaquias 3.1 
(com respeito ao “preparador” messiânico). 
Em Isaías 40 temos o ponto crítico do livro
"João Batista surgiu no 
deserto, pregando batismo de 
arrependimento para o perdão 
dos pecados" (1.4). A região 
em que João Batista ministrou, 
provavelmente a oeste do Mar 
Morto e perto da foz do rio 
Jordão, era erma e árida.
antes de 50 d.C.3 Pode ser mais apropriado 
considerar o batismo de João como um 
fenômeno singular; à medida que Deus o 
orientou a apresentar uma metáfora inédita 
de pureza espiritual obtida por meio do 
arrependimento (uma mudança interior 
que implicava não apenas tristeza pelo 
pecado, mas também um novo modo de 
vida) representada pelo batismo (como 
em 2Rs 5.14, em que Naamã mergulha no 
Jordão). Arrependimento e confissão (1.5) 
para obter perdão (o resultado judiciário) 
são os requisitos de Deus para qualquer 
um que deseje acertar as contas com ele 
e estão estreitamente ligados a “crer no 
evangelho” em 1.15, adiante.
1.5 toda a região da Judeia [...] saía. 
A forte atração exercida por João é um 
preparativo para a popularidade de Jesus 
com as multidões, um dos temas centrais 
de Marcos 1. O fato de “saírem” tam- 
bém faz parte do tema do “novo êxodo” 
(cf. Êx 13.4,8; Dt 23.4).
1.6 pelos de camelo [...] cinto de couro 
/.../gafanhotos e mel silvestre. As roupas e a 
alimentação ascética de João o apresentam 
como profeta semelhante a Elias (2Rs 1.8) 
e dão continuidade ao cumprimento, por 
João, da profecia registrada em Malaquias 
(3.1; 4.5,6) como o precursor do Messias. 
A resposta para as necessidades espirituais 
de Israel não virá das instituições elegantes 
de Jerusalém, mas de um profeta do deserto 
que rejeita os luxos deste mundo (cf. Jesus, 
que não tinha “onde deitar a cabeça” em 
Mt 8.20).
1.7,8 alguém mais poderoso que eu. A 
mensagem de João é poderosa, mas ele 
prepara o caminho para alguém incom- 
paravelmente maior, que tem o “poder” 
do próprio Deus. João não é digno sequer 
de ser escravo dele e de “desamarrar” as 
correias de suas sandálias (o ato de um 
escravo). Este que está por vir demonstrará 
seu poder ao “batizar com o Espírito”, uma
1.3 voz do que clama no deserto. Três 
textos do Antigo Testamento são ligados 
pelo tema do mensageiro do deserto que 
prepara o caminho para o Messias. A 
passagem principal, Isaías 40.3, era um 
texto fundamental tanto para Qumran 
(1QS 8.13,14) quanto para o cristianismo (a 
igreja primitiva chegou a autodenominar-se 
“o Caminho” [p. ex., At 9.2; 19.9,23], 
provavelmente com base nesse versículo). 
Ela declarava a intenção de Deus de tra- 
zer os exilados para casa por uma estrada 
divinamente preparada da Babilônia até 
Sião, da qual ele removería todos os obs- 
táculos. Aqui, tanto o regresso do Exílio 
quanto o Êxodo se cumprem em Jesus, 
e João é a voz do deserto que proclama 
o regresso a Deus, por meio da chegada 
de Jesus, daqueles que estavam exilados 
de Deus em decorrência de seu pecado e de 
sua incredulidade. As promessas finais de 
Deus agora começam a se cumprir, e temos 
acjui uma espécie de “triunfo” romano, 
um desfile de vitória na chegada do rei. 
O deserto é o lugar de provação e crise 
messiânica (os essênios foram ao deserto 
para representar a necessidade de purifica- 
ção de uma nação impura) e também de 
socorro e consolo divinos (lRs 19.4-18; 
Ap 12.6,14). As duas idéias fazem parte 
do tema do deserto em Marcos.
1.4 batismo de arrependimento para o 
perdão dos pecados. Ver João batizar as 
pessoas era surpreendente. Os membros 
da comunidade de Qumran realizavam 
purificações diárias em um tanque ri- 
tual (1QS 5.12-14), e os judeus pratica- 
vam várias lavagens cerimoniais (p. ex., 
Nm 19). Nenhum dos casos, porém, for- 
nece paralelos próximos. Os prosélitos 
gentios eram batizados uma vez só, como 
rito de iniciação, o que seria um paralelo 
interessante (João estaria dizendo que a 
nação havia se tornado como os gentios), 
mas não há evidência alguma dessa prática
M arcos 1.1-815
referência messiânica ao derramamento 
do Espírito profetizado no Antigo Testa- 
mento, sinal dos últimos dias (Is 32.15; 
Ez 36.25-27; Jl 2.28). Em Isaías 11.2, o 
Messias é infundido com “ ... o Espírito 
[...] do poder...”, de modo que esse grande 
poder é visto não somente em milagres e 
em um ministério poderoso, mas também 
em seu batismo com o Espírito, indicação 
de que ele não apenas tem o Espírito, mas 
também submergirá seus seguidores no 
Espírito (Ez 36.25-27), um poder exclu- 
sivo de Deus. Essa profecia se cumpriu em 
Pentecostés, mas também se cumpre na 
vinda do Espírito sobre todos os cristãos 
na conversão (Rm 8.14-17).
Considerações teológicas
Aqui, Marcos apresenta o propósito central 
de seu Evangelho: falar ao mundo de Jesus 
Messias, o Filho de Deus. Ele é profeta, mas 
é mais que isso. É o Messias prometido por 
Deus, o Filho ungido, enviado ao mundo 
para sacrificar-se para a salvação da huma- 
nidade. Além disso, Marcos se concentra 
no cumprimento, na realização completa 
das expectativas dos santos e dos profetas 
do Antigo Testamento de que Deus intervi- 
ria neste mundo. Repetidamente, o Antigo 
Testamento aponta adiante para a vinda de 
Jesus. Por fim, essa passagem tem o foco 
sobre o “evangelho” (1.1,15), as “boas-no- 
vas” da obra redentora divina em Jesus, 
prenunciada pelo ministério de João Batista 
que chamou o povo a “arrepender-se” e 
receber “o perdão dos pecados”.
Para ensinar o texto____________
1. Jesus é o Messias e o Filho de Deus. Esse 
é o tema central da cristologia de Marcos, 
desenvolvido ao longo de toda a sua obra. 
Precisamos ajudar as pessoas a reconhe- 
cer que Jesus é mais que seu amigo; ele é 
seu Senhor. Como Messias, Jesus é nosso 
rei “ungido”. Esse fato tem dois aspectos: 
ele é o Messias régio ou davídico, aquele 
que se assenta à direita de Deus (SI 110.1; 
cf. Mc 12.35-37) e é exaltado aos céus. 
Ao mesmo tempo, é o Messias sofredor, o 
Servo Sofredor de Isaías 52 e 53, que dará 
sua vida na cruz como sacrifício expiatório 
por nossos pecados, dando a “muitos” a 
possibilidade de receber a salvação conce- 
dida por Deus (Mc 10.45; 14.25-27). Sua 
condição de “Filho de Deus” predomina 
nesta passagem (1.1,11) e na cristologia de 
Marcos. Ele é o Filho singular e é o próprio 
Deus e, como tal, traz salvação definitiva 
a este mundo mau.
2. João Batista é o
Marcos designa João Batista como o 
mensageiro que preparará o caminho para 
Jesus. Essa escultura retrata João Batista vestido 
com roupas de pelo de camelo (Jacopo 
Sansovino, século lód.C).
M arcos 1.1-8
W0
Preparar 0 caminho para Jesus 
Testemunho: O papel de João Batista era 
preparar o coração do povo para a vinda do 
Messias. Fale (ou convide alguém para falar) 
de uma pessoa que Deus usou em sua vida 
ou como Deus usou você na vida de outra 
pessoa, a fim de preparar o caminho para 
Jesus. Desafie seus ouvintes a pensar em uma 
ou duas pessoas que Deus colocou na vida 
deles e que não conhecemJesus. Incentive-os 
a perguntar a Deus: “Como podes me usar 
para preparar o caminho para Jesus?”.
Uma mensagem de arrependimento 
Esportes: “Arrependim ento” significa 
mudar o modo de pensar a fim de mudar 
o modo de agir. Em 25 de outubro de 1964, 
Jim Marshall, jogador do time de futebol 
americano Minnesota Vikings, recuperou 
a bola, depois que o jogador adversário 
a deixou cair (fumble), e correu mais de 
sessenta jardas na direção errada, para 
o fundo (end zone) de seu próprio lado 
do campo, marcando pontos para o time 
adversário. Quando Marshall recuperou 
a bola, sua perspectiva estava tão confusa 
que ele correu no sentido contrário. Muitas 
vezes, também ficamos confusos quanto a 
nossa perspectiva de vida, o que nos leva 
a tomar decisões desastrosas. Imagina- 
mos que estamos enxergando claramente 
quando, na verdade, estamos correndo na 
direção errada e precisamos nos arrepen- 
der. Quando perdemos os referenciais e 
rumamos para o lado errado, isso geral- 
mente nos custa mais do que alguns pontos 
no placar.
definitivo de Deus em Jesus, o Messias. 
Seu ministério prefigura Jesus em todos os 
aspectos. Ele é o primeiro grande profeta 
em quatrocentos anos, aquele que vem “no 
espírito e no poder de Elias” (Lc 1.17) e, 
no entanto, ele se sujeita a Jesus, o profeta 
ainda maior (uma ênfase importante em Lc 
1—3), que realizará os milagres de Elias e 
trará a salvação divina à humanidade. Ele 
prega arrependimento (Mc 1.4) e prepara 
o povo para a proclamação de Jesus: “Ar- 
rependam-se e creiam” (1.15). Seu trabalho 
é preparar o caminho para que Jesus possa 
conduzir a humanidade perdida a Sião e 
trazer redenção a todos.
Para ilustrar o texto____________
Jesus, 0 Messias, como o Servo Sofredor 
Cultura popular: Há um protocolo compli- 
cado a ser seguido quando alguém se en- 
contra com a rainha da Inglaterra. Uma das 
regras, que se aplica a todos os visitantes, 
mesmo dignitários, é não tocar na rainha. 
Em 1992, o primeiro ministro australiano 
Paul Keating foi criticado pela mídia depois 
que colocou o braço em volta da rainha. 
O cargo ocupado pela rainha exige que o 
cerimonial seja seguido à risca. Mas não é 
assim com Jesus. Embora ele seja nosso rei 
ungido, veio como o Servo Sofredor que 
comia com pecadores, tocava em leprosos 
e curava os destroçados. Ele veio para nos 
servir por meio de seu sofrimento na cruz 
para que pudéssemos ter vida.
Marcos 1 .915 ־
As ações do Deus triúno 
comprovam o ofício divino de Jesus
Ideia centra l ungido para seu ofício m essiânico e confirmado como Filho de
Deus por declarações de séu próprio Pai; em seguida, ele prova esse ofício ao derrotar 
Satanás no deserto.
toda a justiça”, ou seja, seu desejo era 
“completar” o plano de Deus ao identifi- 
car־se com a necessidade do povo de Deus 
de “acertar as contas” com o Pai e obede- 
cer à ordem divina assumindo o papel de 
Servo Sofredor (cf. Is 53.11). O batismo 
no Jordão também cria uma ligação com 
Naamã em 2Reis 5.10-14. Todos precisam 
ser limpos da impureza do pecado. Jesus se
Para entender o texto
Jesus é batizado por João no rio Jordão. A 
parte do rio Jordão que aparece na fotografia 
fica próxima de Betânia, a leste do Jordão, local 
tradicional do batismo de Jesus.
M arcos 1.9 -15
Texto em contexto
O testemunho profético (1.2,3) e a procla- 
mação do profeta do deserto (1.4-8) anun- 
ciaram que Jesus é o Messias. Agora, seu 
batismo fornece prova inquestionável de 
sua unção messiânica. Em um ato trinitario, 
o Espírito desce sobre ele, e o Pai anuncia 
que ele é seu Filho amado (1.9-11). A prova 
inicial do Messias de Deus é sua vitória 
sobre Satanás no deserto. A passagem ter- 
mina com um resumo da mensagem do 
reino proclamada por Jesus (1.14,15). Esse 
prólogo apresenta a realidade de Jesus, o 
Messias, ao iniciar seu ministério.
Considerações interpretativas
1.9 batizado por joão no ]ordão. O minis- 
tério poderoso de Jesus é iniciado com o 
batismo e confirmado pelo Espírito Santo 
e por Deus, o Pai. Em Mateus 3.15, Jesus 
afirma que ele foi batizado para “cumprir
Principais temas de Marcos 1.9-15
■ 0 batismo de Jesus é considerado uma nova criação 
que dá início à nova era do Espírito.
» Por meio de seu ministério como Servo Sofredor, 
Jesus se torna 0 Messias régio.
■ No início de seu ministério, Jesus é provado no 
deserto e derrota Satanás.
[tb. Lc 3.22]), enquanto em Mateus 3.17, 
destina-se aos que observam [“este é”]). 
Sem dúvida, a mensagem era para ambos, 
e Marcos enfatiza sua relevância para o 
próprio Jesus. A primeira parte do pronun- 
ciamento vem de Salmos 2.7, que se refere 
à entronização do rei messiânico. Desse 
modo, Jesus é identificado não somente 
como o Filho amado de Deus (veja co- 
mentário sobre 1.1), mas também como 
o Filho de Davi. É provável que haja aqui 
nuanças de Gênesis 2.22, em que Deus or- 
dena a Abraão que sacrifique Isaque, seu 
filho amado (o verdadeiro judaísmo passa 
a ser definido como filho amado e sacrifício 
voluntário). No grego, a expressão é “meu 
filho, o amado”, enfatizando cada um dos 
aspectos: sua relevância (filiação singular) 
e sua condição (amado = amor eletivo). A 
segunda parte vem de Isaías 42.1, o Servo de 
Yahweh corno o amado, o “escolhido” no 
qual Deus se agrada. Deus está declarando 
que Jesus é o Messias régio cuja ascensão 
ao trono ocorrerá na cruz e que, ao trazer 
a salvação oferecida por Deus, alegrará 
seu Pai.
1.12 o Espírito o enviou para o deserto. 
Essa passagem costuma ser chamada “a 
narrativa da tentação”, mas uma desig- 
nação mais apropriada seria “a provação 
do Filho de Deus” . Satanás praticamente 
serve ao propósito de Deus ao fornecer a 
tentação que prova Jesus (emTg 1.2,3,14, 
as provações servem de “teste” e “tenta- 
ção”; o mesmo termo grego é empregado
identifica com nossa necessidade humana a 
fim de “cumprir toda a justiça” (Mt3.15).
1.10 os céus sendo escancarados. Moisés 
(Êx 14.21), Josué (Js 3.16) e Elias (2Rs 
2.8) abriram as águas, mas Jesus rasga a 
própria malha do céu. Isso significa não 
apenas que agora as portas do céu estão 
abertas (Ez 1.1; Ap 4.1), mas também que 
a nova era do reino começou com um ca- 
taclismo. Ademais, prepara o caminho 
para que o véu do templo seja “rasgado 
em dois” (Mc 15.38 [mesmo verbo em 
grego]) e, juntos, esses acontecimentos es- 
catológicos indicam um ato sobrenatural 
em que Deus intervém a fim de produzir 
uma nova ordem mundial.
o Espírito descendo como pomba sobre 
ele. A descida do Espírito (“como pomba”, 
embora devamos observar Lc 3.22, “em 
forma corpórea, como pomba”, indicando 
que, de fato, uma pomba desceu) simboliza 
a unção de Jesus para seu ofício messiânico. 
Na criação, “... o Espírito de Deus pairava 
sobre as águas” (Gn 1.2), e aqui temos uma 
nova criação com a descida do Espírito 
para dar início à nova era da salvação. O 
Espírito representa novidade e o poder de 
Deus agora em atividade à medida que 
tem início essa nova realidade divina 
neste mundo.
1.11 Tu és meu Filho, a quem eu 
amo; estou muito satisfeito con- 
tigo. Deus não se pronunciava 
de modo direto desde o tempo 
dos profetas, e essa é a pri- 
meira vez que sua voz é 
ouvida em quatrocentos 
anos. Somente a vinda 
do Messias podería 
acabar com esse 
longo silêncio. Em 
Marcos, a men- 
sagem de Deus 
volta-se para 
Jesus (“tu és”
■M arcos 1.9-1519
seja uma mudança de eras em que João 
Batista encerra o período da antiga aliança 
e Jesus dá início à era da nova aliança.3 
O reino chegou com Jesus e assm começa 
o período do “evangelho” da salvação. 
João veio como o precursor messiânico 
(cf. Ml 3.1), o último dos profetas do An- 
tigo Testamento, e agora Jesus, o Mes- 
sias, passa a ser o foco das atenções. As 
esperanças do Antigo Testamento estão 
prestes a se cumprir (veja ÍPe 1.10-12).
1.15 O tempo é chegado [...] o reino 
de Deus está próxim o. Essas palavras 
encerram o prólogo e resumem a prega- 
ção do reino por Jesus. A declaração é 
constituída de quatro elementos: os dois 
primeirosindicam a parte de Deus e os 
dois últimos (“arrependam-se e creiam” ), 
a nossa parte. Esse versículo se refere à 
“plenitude dos tempos” (cf. Gl 4.4), o 
momento decisivo na história da salvação 
em que todas as esperanças do Antigo 
Testamento se cumpriríam. De acordo 
com Lucas 3.1, Jesus iniciou seu ministé- 
rio no 15.° ano do imperador Tibério e, 
conforme João 2.20, esse foi o 46.״ ano 
depois que Herodes começou a reconstruir 
o templo. O ano correspondente é 27-28 
d.C., quando Jesus tinha 33 ou 34 anos (é 
provável que ele tenha nascido em 6 a.C.). 
O termo “reino” indica que o “reinado 
de Deus” começou, e Jesus afirma que 
esse reinado “está próximo”, ou prestes 
a chegar. Há tensão entre sua chegada 
iminente e sua presença no ministério 
de Jesus (cf. Lc 11.20: “o reino de Deus 
chegou”). Está no processo de chegar, e 
a vitória de Deus está próxima e é visível 
e real no ministério de Jesus.
Arrependam-se e creiam nas boas-novas! 
Marcos enfatiza com frequência o encontro 
com Cristo, diante do qual a única atitude 
apropriada é o arrependimento (cf. 1.14, 
acima) e uma decisão de fé. Como em 1.1, a
para ambos). É o Espírito que toma a ini- 
ciativa e “expulsa” (ekballõ, “lança fora”) 
Jesus para o deserto, o lugar de provação. 
Os “quarenta dias” remetem a: Moisés 
(no monte Sinai), à prova de Israel du- 
rante quarenta anos e a Elias (no deserto 
e no monte Horebe), todos os episódios 
ocorridos no deserto. Portanto, Jesus é 
submetido à sua própria prova no de- 
serto no início de sua missão messiânica 
e, com isso, demonstrará, no restante de 
Marcos, que é o Filho de Deus ao entrar 
em combate direto com Satanás e derro- 
tá -10 (para mais detalhes desse embate 
veja Mt 4.1-11 e Lc 4.1-13).
1.13 Estava com os animais selvagens, e 
anjos o serviam. O relato de Marcos sobre 
tentação é surpreendentemente breve, com 
apenas algumas frases curtas. Embora a 
tentação por Satanás seja a parte central, 
traz o acréscimo interessante da referência 
aos animais selvagens. Há controvérsia se 
essa menção dá continuidade à ideia da 
prova no deserto, na qual os animais são 
predadores hostis,1 ou se faz parte de um 
tema do “paraíso”, no qual os animais 
são reconciliados (Is 11.6-9) e o deserto 
é transformado por Jesus, o novo Adão.2 
Como parte do tema de uma nova cria- 
ção, a segunda interpretação é relevante. 
Nesse caso, há dois elementos negativos (o 
deserto e Satanás) e dois elementos positi- 
vos (os animais e os anjos). Jesus sai desse 
embate claramente vitorioso. A imagem 
de anjos cuidando daquele que é maior 
que Elias mostra sua origem celestial, já 
declarada por Deus em 1.11. Isso talvez 
indique adoração, contudo é mais provável 
que se refira a servir alimento a Jesus; de 
acordo com Mateus 4.2, ele jejuou durante 
quarenta dias.
1.14 Depois que João foi preso, Jesus 
foi para a Galileia. Jesus só começa 
seu ministério depois que João termina 
o dele. É provável que, para M arcos,
20Mareos 1.9-15
Para ensinar o texto____________
1. O batismo de ]esus é urna nova criação, 
que dá início à nova era do Espirito. O 
homem-Deus é ligado tanto a sua missão 
de trazer redenção à humanidade quanto 
a seu propósito divino de iniciar a era do 
Espírito. Em certo sentido, seu batismo é 
sua “unção” como Messias e, como tal, 
inicia seu ministério messiânico junto com 
os Doze. No entanto, Jesus era o Messias 
desde o momento de sua encarnação. Acima 
de tudo, no batismo ele se identifica com 
a necessidade de todos de “acertarem as 
contas” com Deus e, desse modo, realiza o 
plano justo de Deus para a salvação (veja 
Mt 3.15). O batismo é um acontecimento 
apocalíptico de grande importância, no 
qual os próprios céus se abrem e o Espírito 
desce de uma nova maneira, não apenas 
sobre Jesus, mas também sobre este mundo, 
iniciando a nova realidade do reino, a nova 
era de salvação dominada pela intervenção 
de Deus e do Espírito.
2. Jesus inicia seu ministério ao ser pro- 
vado no deserto e derrotar Satanás. Em- 
bora a narrativa de Marcos pareça simples,
mensagem do reino é chamada “evangelho” 
ou “boas-novas”.
Considerações teológicas
Temos aqui três considerações principais:
(1) Por meio de um ato trinitário, Deus 
proclama que Jesus é seu Filho ao ungi-lo 
com o Espírito; com isso, diz a todos que 
teve início a era do cumprimento messiâ- 
nico. (2) Deus prova Jesus ao empregar Sa- 
tanás para tentá-lo a usar sua autoridade 
messiânica em benefício próprio, mas 
Jesus se vale de Deuteronômio (Dt 8.3;
6.13,16) para dizer ao diabo que ele não 
repetirá o erro cometido por Israel no 
deserto. Desse modo, inicia seu ministério 
messiânico com uma vitória cósmica sobre 
os poderes do mal (como fica explícito em 
Mt 4 e Lc 4). (3) A chegada de Jesus, o 
Messias, indica a “plenitude dos tempos” 
(cf. G1 4.4), o momento em que o plano 
de Deus para a salvação da humanidade 
se realiza e assim inaugura o período final 
da história.
Jesus é conduzido para o deserto, onde é tentado 
pelo Diabo. De acordo com a tradição, a tentação 
de Jesus ocorreu no monte Jebel Quarantal, perto 
de Jerico.
Construiremos estradas e pontes [...] Res- 
tauraremos a ciência a seu devido lugar 
[...] Usaremos a energia do sol, dos ventos 
e do solo para abastecer nossos carros e 
indústrias. Transformaremos nossas esco- 
las, faculdades e universidades para que 
atendam às exigências de uma nova era. 
Podemos fazer tudo isso. Faremos tudo 
isso” . O presidente Obama planejava, em 
suas palavras, levar a nação a atender às 
exigências de uma nova era. A posse de um 
presidente é, em sentido restrito, o início de 
uma nova página na história e de uma nova 
realidade. Quando 
Jesus foi batizado e 
os céus se abriram, 
Jesus deu início a 
uma nova era na 
qual o reino de Deus 
dominaria (1.15) e o 
Espírito capacitaria 
a igreja.
Deus testifica dos 
céus acerca de seu 
Filho, Jesus. 
Instituição cultural: 
O papel principal 
de um embaixador 
que atua em uma 
nação estrangeira 
é representar po- 
líticas compatíveis 
com as do seu go- 
verno. O embaixador 
não expressa opiniões
No batismo de Jesus, os 
céus se abrem, o Espírito 
Santo desce e Deus se 
pronuncia diretamente. 
Nessa cena de um painel 
de marfim do sexto século 
d.C, João batiza Jesus, e 0 
Espírito Santo, que vem da 
mão de Deus, desce em 
forma de pomba.
retrata esse acontecimento como uma re- 
capitulação da prova de Israel (e de Elias) 
no deserto. É necessário que o ministério 
de Jesus comece com um confronto com 
Satanás, pois ao longo de todo o seu relato 
Marcos dará destaque à batalha espiritual. 
É Deus quem testa seu Filho, e a tentação 
de Satanás é um instrumento usado para 
esse fim. A batalha com os poderes cós- 
micos desempenha um papel crucial, e as 
forças das trevas se opõem continuamente 
à luz. Caso os “animais selvagens” façam 
parte, de fato, de um tema de “paraíso” 
descrito em Isaías (veja 
acima), a ideia é de que 
Jesus, com sua gloriosa 
presença, transforma 
este mundo. De qual- 
quer modo, a vitória 
sobre Satanás e seu 
exército confere ao 
ministério de Jesus um 
começo poderoso.
Para ilustrar o 
texto___________
O s céus se abrem 
com a vinda do 
Espírito, e tem 
início a nova era.
C itação: Barack 
Obama. Em 21 de 
janeiro de 2009,
B arack O bam a 
tomou posse como 
44.° presidente 
dos Estados Uni- 
dos. Em seu dis- 
curso inaugural, 
ele afirmou: “O 
estado de nossa 
economia requer 
ação destemida 
e imediata [...]
M arcos 1.9-15 22
Quando ainda jovem, foi vendido como 
escravo por seus irmãos e levado para o 
Egito. Depois de passar por inúmeras tri- 
bulações, José foi elevado a um cargo de 
poder e proeminência no Egito. Quando 
uma fome assolou a terra, os irmãos de 
José foram ao Egito à procura de alimento 
e, nessa ocasião, José se revelou a eles. O 
alto funcionário egípcio que tinha poder 
sobre a vida deles era o irmão que haviam 
maltratado. Em Gênesis 50.19,20 vemos 
a resposta de José a seus irmãos: “ ... Não 
tenham medo. Estaria eu no lugar de Deus?Vocês planejaram me prejudicar, mas Deus 
planejou isso para o bem, para realizar o 
que agora está acontecendo, a salvação de 
muitas vidas” . Quando Satanás nos tenta, 
sua intenção é destruir nossa fé, nosso teste- 
munho e até mesmo nossa vida. Mas o mal 
que Satanás planeja para nós, Deus destina 
para o bem, para provar e fortalecer nossa 
fé ao permanecermos firmes no Senhor.
pessoais, mas representa plenamente as po- 
líticas de seu governo. O poder e o cargo do 
embaixador são estabelecidos com base na 
relação com seu governo. Essa é uma forma 
importante de entender o pronunciamento 
do Pai quando Jesus foi batizado. Jesus veio 
para representar plenamente o Pai: suas pa- 
lavras, suas ações e seus propósitos (veja 
Hb 1.3). No batismo de Jesus, sua autori- 
dade foi estabelecida pelas palavras do Pai: 
“Tu és meu filho, a quem amo; estou muito 
satisfeito contigo” . Jesus deve ser honrado 
como Filho de Deus, cuja autoridade vem 
de Deus. Cada discípulo de Jesus deve, por- 
tanto, se comprometer à obediência.
Satanás como instrumento para provar. 
Bíblia: Uma das grandes verdades da Bíblia 
é que Deus pode se utilizar de qualquer si- 
tuação e criar algo bom dela. Um excelente 
exemplo é a história de José em Gênesis.
M arcos 1.9-1523
Marcos 1 .1628 ־
Jesus forma o grupo de discípulos 
e derrota os espíritos imundos
’ ·' ־'· '· · , י' v :י־ v, ;;׳. ,. ־ ' ״ '־' ־ ״ . ־ ' " · ׳ ¿ . ־ ־ ' ' ■
Ideia central Jesus reage a dois tipos de indivíduos: (1) aqueles que estão dispostos a 
se comprometer com ele, como seus quatros primeiros discípulos, transformados para 
serem “pescadores de homens"; (2) aqueles que permanecem afastados dele e que, 
portanto, sentirão sua autoridade para subjugar os poderes das trevas.
depois. Em João 1.19-51, Jesus se encon- 
tra com André (discípulo de João Batista), 
Simão, Filipe e Natanael, e os chama para 
segui-lo. Em uma ocasião posterior, vai ao 
encontro deles enquanto estão pescando. O 
mar da Galileia ou lago de Genesaré (veja 
Mc 6.53; Lc 5.1) tem aproximadamente 16 
quilômetros de comprimento e 11 quilô- 
metros de largura em seu ponto mais largo 
e é bastante conhecido por sua atividade 
pesqueira. E provável que os pescadores 
usassem uma rede de arrasto com cerca de 6 
metros de diâmetro com pedras amarradas 
a uma de suas extremidades. Para pegar 
os peixes, lançavam a rede e a puxavam 
de volta com cordas. Em geral, pescavam 
durante a noite, pois a incidência da luz 
solar sobre a água fazia os peixes nadarem 
em áreas mais profundas (veja Lc 5.1-10).
1.17 eu os enviarei para pescar pes- 
soas. Os discípulos são a parte passiva 
(“Venham, sigam-me”), enquanto Jesus é 
a parte ativa. As palavras “eu farei” (usa- 
das com frequência para criação) retratam 
Jesus inaugurando uma nova comunidade 
de seguidores. Os discípulos são pescadores
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Tem início aqui o ministério de Jesus na Ga- 
lileia (1.16—10.52). Marcos começa com 
dois ciclos do ministério de Jesus com foco 
em três grupos principais de judeus nessa 
região: seus discípulos (1.16-20; 3.13-19), 
as multidões (1.21-45; 3.7-12) e os líderes 
(2.1—3.6; 3.20-35). Uma batalha espiri- 
tual permeia os três grupos: Jesus amarrou 
Satanás (3.27), demonstrou seu poder ao 
expulsar demônios (1.21-28;3.11,12)edeu 
essa mesma autoridade a seus discípulos 
(3.14,15; cf. 6.7). Nessa série de relatos, 
Jesus confronta esses grupos usando sua 
própria identidade como profeta poderoso 
e Messias e chama cada um a arrepender-se 
e a crer (como em 1.15).
Considerações interpretativas
1.16 andava à beira do mar da Galileia. Esse 
episódio não ocorre no início do ministério 
de Jesus na Galileia; na verdade, é possí- 
vel que tenha acontecido várias semanas
24Marcos 1.16-28
Principais temas de Marcos 1.16-28
■ 0 ministério de Jesus inicia com o discipulado, 
quando ele chama seus seguidores para “ pescar 
pessoas” .
■ A única atitude apropriada é render-se radicalmente 
a Jesus; ele tem prioridade sobre todas as coisas.
■ Toda verdade absoluta gira em torno do ensino iné- 
dito e imbuído de autoridade transmitido por Jesus.
■ Na batalha espiritual, Jesus exerce pleno controle 
sobre todos os poderes das trevas.
acima de todas as coisas, até mesmo da 
carreira e da família. Por certo, isso não 
significa que devemos abandonar nossa 
família; os discípulos não se desfizeram 
de seus barcos (Jo 21.3), e é provável que 
pescassem quando não estavam com Jesus. 
Sua prioridade absoluta, porém, era seguir 
Jesus. O fato de haver “empregados” no 
barco mostra que esses quatro seguidores 
tinham uma situação financeira estável. 
Não eram pobres, pois a pesca era um ne- 
gócio razoavelmente rentável.
1.21 Eles foram para Cafarnaum. Uma 
das principais cidades da região, com cerca 
de dez mil habitantes, Cafarnaum ficava na 
extremidade noroeste do lago de Genesaré 
e em uma rota comercial importante na 
entrada da Galileia. Contava, portanto, 
com uma grande coletoria de impostos 
(Mateus e Zaqueu trabalharam ali). Jesus 
mudou-se para Cafarnaum no início de seu 
ministério (Mt 4.13), e a cidade se tornou 
a sede de suas incursões missionárias na 
Galileia (Mc 1.39; 6.7-13).
entrou na sinagoga e começou a ensinar. 
A sinagoga, o centro da vida religiosa e 
até mesmo cívica/judiciária do povo judeu
Jesus chama seus primeiros d iscípulos e pede 
que abandonem o trabalho de pesca. Nessas 
Ilustrações, o artista retrata uma tarrafa (figura 
superior) e uma rede de arrasto (figura inferior) 
em uso no mar da Galileia.
M arcos 1.16-28
profissionais, e Jesus usa uma metáfora 
genial para descrever a nova carreira deles. 
Em sua profissão, eles matam os peixes, 
mas agora trarão vida às pessoas. No An- 
tigo Testamento, a metáfora da pesca é 
usada para o juízo vindouro (Jr 16.1416־; 
Ez 29.4,5), mas Jesus inverte a imagem: pes- 
car pessoas a fim de salvá-las. Além disso, 
os discípulos de rabinos se assentavam ao 
redor dele e aprendiam, mas Jesus vai en- 
volver seus discípulos de modo direto em 
seu ministério enquanto os ensina.
1.18,20 deixaram suas redes [...] deixa- 
ram seu pai. Esse é o primeiro vislumbre 
de um tema essencial do discipulado: o 
compromisso radical com Jesus. As ações 
dos dois pares de irmãos exemplificam a 
regra básica para seguir Jesus: ele precisa 
ocupar o primeiro lugar em nossa vida,
autoridade...” (1.27), uma palavra in ves- 
tida de poder.
não como os mestres da lei. Os mestres 
da lei eram os “escribas”, copistas profis- 
sionais de textos, considerados especialistas 
em questões jurídicas na época de Jesus. 
Não constituíam uma seita judaica, mas 
quase todos eram fariseus. Embora fizessem 
pronunciamentos oficiais acerca da lei, de- 
dicavam a maior parte de seu tempo a sim- 
plesmente discutir diversas interpretações 
conforme os partidos aos quais pertenciam. 
Jesus, em contrapartida, falava com a auto- 
ridade de Deus e, com frequência, fazia de- 
clarações ousadas, e até mesmo chocantes. 
Ao longo de todo o Evangelho de Marcos, 
os escribas se pronunciam contra Jesus e 
representam o sistema antigo, prestes a ser 
derrubado pelas novas verdades do reino 
de Jesus (como em 2.21,22).
1.23 possesso por um espírito impuro. 
Em várias ocasiões, Marcos chama os demô- 
nios de “espíritos impuros [imundos]” para 
se referir a eles como epítome de tudo o que 
é maligno e imundo no mundo, a antítese de 
Deus. São anjos caídos, o exército de Sata- 
nás e, nos Evangelhos, somente eles sabem 
exatamente quem Jesus é. Como lemos em 
Tiago 2.19: “ ... os demônios creem e tre- 
mem”. Os demônios se apossam de indiví- 
duos como parte de sua guerra incessante 
contra Deus. Sabem que foram derrotados 
(veja Ap 12.12), e seu propósito é ator- 
mentar e matar os seres humanos criados 
à imagem de Deus. Num culto do Sabbath, 
esse ser maligno ouve Jesus, reconhece-o
(At 22.19), surgiu durante o Exílio na Babi- 
lônia para representar o templo destruído. 
Ainda hoje, pode-se ver os alicerces de um 
desses locaisem Cafarnaum. Os elemen- 
tos centrais do culto na sinagoga eram a 
oração, a leitura e exposição do Antigo 
Testamento (veja Lc 4 .1 6 2 7 O ensino e .(־
a adoração eram as principais atividades, 
de modo que, quando Jesus “começou a 
ensinar”, atuou como rabino/mestre do 
primeiro século (ele é chamado “Rabi” em 
9.5; 10.51 [rabbouni]; 11.21; 14.45). Os 
rabinos, originários do movimento fari- 
saico (Hillel, vinte anos antes de Jesus, é um 
dos primeiros), desenvolveram as regras de 
pureza e de vida conhecidas como tradição 
oral. Jesus, em razão de seus ensinamentos, 
foi considerado um deles. Embora o Evan- 
gelho de Mateus costume ser chamado de 
“Evangelho didático”, na verdade Jesus 
aparece ensinando com mais frequência 
em Marcos do que em Mateus.* 1
1.22 As pessoas estavam maravilhadas 
/.../ lhes ensinava como alguém que tem 
autoridade. Um dos temas principais do 
primeiro capítulo de Marcos é o deslumbra- 
mento crescente das multidões, uma vez que 
o autor usa seis termos diferentes para des- 
crever como ficaram absolutamente admi- 
radas. Sua reação se deve à “autoridade” de 
Jesus em palavras (1.21,22) e atos (1.23-28). 
É fundamental entender que primeiro as 
multidões ficam maravilhadas com seu 
ensino e, só depois, com seus atos mira- 
culosos. Aliás, o exorcismo em si é tido 
como “ ... um novo ensino [...] com
 No Evangelho de Marcos, Jesus realiza seu ן
primeiro exorcismo enquanto ensina na 
I sinagoga em Cafarnaum. Na foto ao lado,
I pedras de basalto negro dessa sinagoga 
j do primeiro século d. C. aparecem debaixo 
i dos blocos de calcário branco das ruínas 
de uma sinagoga do q uarto ou quinto 
I século.
M arcos 1.16-28
de poder sobrepuja as forças das trevas, 
que são obrigadas a retirar-se inteiramente 
derrotadas. A reação é violenta, mas dura 
apenas um instante. Em um gesto final de 
tormento, o demônio provoca uma última 
convulsão (cf. as convulsões epilépticas em
9.14-29) e parte com um grito, talvez de ira 
frustrada ou “um bramido de morte não 
muito diferente do clamor de Jesus quando 
ele expira na cruz (15.37)”.4
1.27 admirados [...] “Um novo ensino, 
e com autoridade!” Marcos emprega aqui 
outro termo para admiração, que conota o 
“deslumbramento” daqueles que testemu- 
nham o poder de uma “ nova ” era messiânica, 
com uma palavra imbuída de tanta autori- 
dade que até mesmo os demônios fogem. Esse 
ensino não apenas instrui, mas também age.
1.28 As notícias /.../ se espalharam ra- 
pidamente por toda a região. A popular¡- 
dade de Jesus com as multidões continua 
a crescer, à medida que “todos” estão es- 
tupefatos, e as notícias se espalham por 
toda a Galileia. Esse tema se intensificará 
nos próximos capítulos (1.33,37,39,45; 
2.2,12,13; 3.7,8) e forma um contraste 
gritante com a rejeição cada vez maior de 
Jesus pelos líderes (2.1—3.6).
Para ensinar o texto____________
1. Jesus inicia seu ministério na Galileia 
com o discipulado. Jesus não precisa que 
apresentemos sua mensagem do “evange- 
lho” (1.1,15) de salvação ao mundo per- 
dido; antes, ele nos dá o privilégio de parti- 
cipar de sua missão ao mundo. Assim como 
os primeiros discípulos, somos chamados 
a dar em vez de só receber, ser servos que 
buscam a Deus em vez de apenas cuidar 
de nossos próprios interesses. O discipu- 
lado é um aspecto importante da teologia 
de Marcos, e trataremos repetidamente 
dessa questão. Os discípulos dos rabinos no
(veja também Mc 1.34) e sabe quem é seu 
inimigo. Mas, uma vez que não tem como 
se esconder, um confronto é necessário.
1.24 O que queres conosco...? Essa ex- 
pressão ocorre em outras passagens das 
Escrituras (p. ex., Jz 11.12; lR s 17.18; 
Jo 2.4) e aqui é, literalmente, “o que é isto 
para nós e para ti?”. Significa “não temos 
coisa alguma em comum” e “deixe-nos em 
paz”, e geralmente é usada por um inferior 
ao dirigir-se a um superior.2 O demônio tem 
plena consciência de que corre sério perigo 
e deseja que Jesus vá embora. Esse é o pri- 
meiro exorcismo de Jesus em Marcos, mas 
as forças malignas sabem que a presença de 
Jesus trará somente destruição para elas.
Sei quem tu és: o Santo de Deus! Talvez se 
trate de um reconhecimento da verdadeira 
natureza de Jesus, pois o demônio não con- 
segue permanecer calado (de modo seme- 
lhante à escrava possessa em Atos 16.16-18, 
que praticamente se torna a “relações públi- 
cas” de Paulo). É mais provável, contudo, 
que seja um embate espiritual, parte de 
“uma tentativa de obter controle mágico 
sobre ele ao revelar sua identidade” .3 Nesse 
caso, o demônio procura obter poder sobre 
Jesus ao divulgar sua verdadeira essência 
(veja também 3.11; 5.7). Jesus é “o Santo” 
em contraste com esse “espírito imundo” e 
perverso. Os santos de Deus são aqueles que 
foram enviados pelo Deus santo, como Arão 
(SI 106.16) e Eliseu <2Rs 4.9); como Filho 
de Deus, Jesus é o Santo sui generis (Lc 4.34; 
Jo 6.69). Assim, inicia-se o processo no qual 
Satanás será amarrado (Mc 3.27).
1.25 Cale-se! /.../ Saia dele! No mundo 
antigo, os exorcismos eram rituais demo- 
rados, nos quais o exorcista entoava uma 
sucessão de fórmulas para expulsar o de- 
mônio. Aqui temos o oposto; o espírito 
imundo fala de modo tolo, enquanto Jesus 
profere apenas algumas palavras: “Cale-se e 
saia dele!” (cinco palavras em grego). A ba- 
talha termina antes de começar. A palavra
27 ' ' M arcos 1.16-28
3 . O ensino de Jesus acerca do reino for- 
nece a única base para descobrir a verdade 
absoluta. Encontramos muitas idéias úteis 
para a vida em diversos lugares, mas so- 
mente em Jesus descobrimos o que afeta 
a realidade eterna. A verdade do Antigo 
Testamento apontava para Jesus (Cristo 
como “cumprimento” [Mt 5.17,18] ou 
“ápice” [Rm 10.4] da Lei), e a verdade do 
Novo Testamento nasce de Cristo. Não 
é de admirar que as multidões ficassem 
“maravilhadas” com seu ensino. Nunca 
tinham ouvido algo parecido. Precisamos 
nos afastar dos ensinamentos superficiais, 
ensinos baseados em truismos piedosos e 
em teorizações que visam apenas nossa 
comodidade. Muitos dos conceitos ensi- 
nados na igreja são irrefletidos, sem uma 
preocupação séria com a verdade bíblica. 
Precisamos nos tornar como os cristãos 
em Bereia que “examinavam as Escrituras 
todos os dias” para ver se o que Paulo es- 
tava dizendo era verdade (At 17.11).
4. Batalha espiritual é uma realidade, 
mas em Cristo, Deus já derrotou as forças 
do mal. O milagre em 1.21-28 demonstra 
o que Jesus dirá em 3.27, a saber, que ele 
“amarrou” Satanás na própria casa dele. 
Satanás é o “deus deste mundo” (2Co 4.4), 
mas exerce poder apenas sobre seus segui- 
dores. Não tem autoridade alguma sobre os 
crentes. Ele não nos domina; ele nos engana
mundo judaico eram aprendizes passivos, 
que apenas memorizavam os ensinamen- 
tos do mestre. Os discípulos de Jesus são 
ativos desde o início, participantes da obra 
de Deus. O elemento passivo consiste em 
“seguir” Jesus, ao imitá-lo e permitir que 
ele molde a vida deles à semelhança da sua. 
Jesus é a força criadora que os transforma 
em pescadores de pessoas no mar da hu- 
manidade - pescadores a serviço de Deus.
2. A única reação apropriada do ver- 
dadeiro discípulo é a rendição radical. 
A Jesus é dada prioridade em todos os 
aspectos da vida, até mesmo a carreira e 
a família. Essa é uma dificuldade que os 
discípulos enfrentam ao longo de todo o re- 
lato de Marcos, pois discutem entre si com 
frequência sobre quem é o maior (9.33-37) 
ou desejam assentar-se no lugar de autori- 
dade no céu (10.35-41). No entanto, Deus 
exige que seu povo “negue-se a si mesmo” 
(8.34) e tenha uma predisposição voltada 
para Deus (8.33). Deus nunca se satisfaz 
com apenas o “dízimo” de nossa vida. Ele 
exige de nós o sacrifício irrestrito de nosso 
ego; que o amemos de todo coração, de 
toda alma, de toda mente e de todas as 
forças (12.30) e o sirvamos com tudo o 
que temos. Por certo, ele suprirá nossas 
necessidades, mas temos de “deixar tudo” 
para segui-lo (10.28-31).
À medida que começa seu m inistério deproclamação das boas-novas do reino 
de Deus, Jesus se volta para a cidade de 
Cafarnaum, onde deixa o povo maravilhado 
com a autoridade de seu ensino. Cafarnaum 
estava localizada na extrem idade noroeste 
do mar da Galileia. Essa vista aérea da região 
de Cafarnaum mostra 0 mar da Galileia e 
algumas escavações, entre as quais a 
sinagoga do quarto a quinto século d.C, a 
cobertura octogonal sobre a casa de Pedro 
e muros que contornam várias insuiae ;tipo 
de moradia destinada à população menos 
favorecida) e habitações individuais.
M arcos 1 .1 6 2 8 ־
tribo Waodani, que nunca havia interagido 
com o mundo exterior. Ele e seus compa- 
nheiros conseguiram fazer contato com os 
Waodani, mas em 8 de janeiro de 1956, Jim 
Elliot e outros quatro missionários foram 
brutalmente assassinados por membros da 
tribo. Eles se dispuseram a sacrificar tudo 
por Jesus, até mesmo a própria vida. Elliot 
escreveu: “Não é tolo quem dá o que não 
pode guardar a fim de obter o que não 
pode perder” .5 Quando verdadeiramente 
conhecemos Jesus e o poder do evangelho, 
nos dispomos a sacrificar tudo para ser suas 
testemunhas fiéis ao mundo. Até que ponto 
você está disposto a se sacrificar por Jesus?
Tão empolgado que é impossível 
permanecer calado
Situação hipotética: Se você ficasse noivo, 
a quem contaria? Se tivesse acabado de 
herdar cinco milhões de dólares, a quem 
daria a notícia? Se acabasse de descobrir que 
foi aceito na universidade de seus sonhos, 
para quem telefonaria? Se tivesse recebido 
uma promoção, quem seria o primeiro a 
saber? Quase todos nós gostamos de dar 
boas notícias, especialmente a pessoas mais 
chegadas. Mas você tem essa mesma empol- 
gação para compartilhar o evangelho com 
outros? Se “evangelho” significa, de fato 
“boas-novas”, você não deveria ter fervor 
para falar dele a outros? Você se sente tão 
empolgado com o que Deus fez em sua vida 
por meio da fé em Jesus que não há como 
permanecer calado? Se sua resposta for ne- 
gativa, por que não? Desafie os presentes a 
refletir sobre duas pessoas que eles amam, 
com as quais se preocupam e que preci- 
sam ouvir as “boas-novas” acerca de Jesus. 
Incentive-os a orar por uma oportunidade 
de compartilhar a notícia maravilhosa de 
Jesus com essas pessoas nos próximos dias.
(Ap 12.9; 20.3). Somos derrotados nessa ba- 
talha espiritual somente quando deixamos 
de confiar em Cristo (Deus “providencia um 
modo de escapar” [ICo 10.13J) e confia- 
mos em nossas próprias forças. As forças 
do mal são obrigadas a recuar sempre que 
nos recusamos a lutar com “as armas deste 
mundo” e, em vez disso, usamos as armas 
do Espírito, que “têm poder divino para 
destruir fortalezas” (2Co 10.4).
Para ilustrar o texto____________
Pescar pessoas
Lição prática: Quer em água salgada ou doce, 
o segredo de uma boa pescaria é a isca. Mos- 
tre iscas naturais (mortas ou vivas) e iscas 
artificiais de vários tipos e explique como 
cada uma pode ser usada. A escolha da isca 
depende de uma série de variáveis, como o 
tipo de peixe que se deseja pescar, a água, 
a época do ano e até a hora do dia. Deus 
nos chama a participar com ele do privilégio 
de levar seu evangelho ao mundo. Pescar 
pessoas exige disposição de adaptar-se às 
necessidades daqueles com os quais com- 
partilhamos as boas-novas. Algumas pessoas 
precisam ser confrontadas, algumas respon- 
dem melhor a uma abordagem relacionai e 
para outras, é mais apropriado usar uma 
abordagem intelectual. A fim de sermos efica- 
zes na “pesca de almas”, precisamos entender 
as necessidades, a cultura e a personalidade 
daqueles com os quais estamos interagindo 
e nos dispor a adaptar nossa abordagem. 
Peça aos participantes que pensem em uma 
ou duas pessoas que Deus está lhes pedindo 
para “pescar”. Qual é a melhor maneira de 
alcançá-las com o evangelho?
Abrir mão de tudo por Jesus
Missões: Jim Elliot tinha apenas 25 anos 
quando foi ao Equador levar o evangelho à
M arcos 1.16-2829
Marcos 1.29-45
O ministério e a popularidade de 
Jesus continuam crescendo
Ideia central 0 ministério de poder e autoridade de Jesus é universal. Ele ajuda 
todos que 0 procuram, e sua popularidade com as multidões cresce de maneira 
impressionante. Não deseja, porém, receber os aplausos do povo, mas proclam ar as 
verdades do reino a todos.
Considerações interpretativas
1.29 eles foram ¡...¡à casa de Simão e André. 
Logo depois do culto na sinagoga em 1.21-28, 
Jesus vai à “casa” de Simão e André, 
onde provavelmente ele se hospedava em 
Cafarnaum (Mt 8.20 afirma que Jesus não 
tinha “onde repousar a cabeça” ). Como 
pescadores bem-sucedidos, eles haviam se 
mudado de Betsaida (perto dali, do outro 
lado do Jordão) para Cafarnaum, o centro 
da atividade de pesca na região norte do 
lago. E possível que sua casa, grande o su- 
ficiente para abrigar Jesus e duas famílias 
incluindo membros além da família nuclear, 
seja a residência em Cafarnaum descoberta 
por arqueólogos em 1968. Há quem veja um 
contraste intencional entre a sinagoga (1.21- 
28) e as reuniões nas casas dos convertidos 
no início do movimento cristão (At 2.46), 
mas não há como corroborar essa ideia aqui.
1.30 A sogra de Simão estava de cama, 
com febre. A esposa de Simão não é men- 
cionada nessa passagem, mas 1 Corintios
9.5 dá a entender que ela costumava acom- 
panhá-lo (“Cefas”) em suas viagens missio- 
nárias. E provável que a febre fosse grave,
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Marcos 1.21-38 descreve um período de 
24 horas (desde a manhã do Sabbath até 
a manhã de domingo). Tudo o que é apre- 
sentado nesse trecho (estendido até 1.45) 
descreve o ministério de Jesus para com as 
multidões, que ficam maravilhadas a cada 
nova demonstração do poder que ele exerce 
sobre demônios e enfermidades de toda 
espécie (1.23-28; 32-34), especialmente a 
lepra (1.41-45). Além disso, a cada novo ato 
de poder, a popularidade de Jesus dispara. 
A notícia se espalha depois do primeiro 
milagre (1.28), “toda a cidade se reuniu à 
porta” (1.33). Jesus procura se retirar para 
um tempo de oração e descobre que “todos 
estão procurando” por ele (1.37). Então, 
depois do último milagre de cura, ele não 
pode mais entrar nas cidades, pois “gente de 
todas as partes” vai procurá-lo (1.45). Essa 
popularidade extrema com as multidões 
será contrastada com seu oposto absoluto 
em 2.1—3.6, isto é, a rejeição crescente e 
a oposição dos líderes.
30M arcos 1 .29-45
Principais temas de Marcos 1.29-45
.Jesus precisa de tempo a sós com seu Pai י
• Jesus almeja missões, em vez de popularidade, mas 
cuida de todos.
■ Quando Jesus toca nossa vida, é impossível perma- 
necermos calados.
abordagem tem dois propósitos: amarrar 
Satanás em sua casa (3.27) ao silenciar 
os demônios e expulsá-los das pessoas, e 
ocultar sua natureza messiânica do povo, 
pois não entenderíam que Jesus, em sua 
primeira vinda, seria um servo sofredor, 
não um rei conquistador.
1.35 saiu para um lugar deserto, onde 
orou. Talvez seja o mesmo “lugar ermo” ou 
“deserto” (eremos) onde Jesus foi provado 
por Satanás (1.12,13), no entanto, também 
é um lugar de solitude onde Jesus pode 
receber consolo divino em oração com seu 
Pai. Há um contraste entre Jesus, que deseja 
ficar a sós com Deus, e seus discípulos que, 
em 1.36, são atraídos a Jesus. Termina aqui 
a descrição feita por Marcos das primeiras 
24 horas do ministério de Jesus, e é apro- 
priado que ela se encerre com uma oração.
1.36,37 Todos estão te procurando. Os 
quatro discípulos de 1.1620־ ainda estão 
com Jesus e, como traduz a NRSV, eles 
“vão em seu encalço” (katadiõkõ), sem 
dúvida porque se veem envolvidos em sua 
popularidade. Essa situação se torna, com 
efeito, uma nova tentação para Jesus, o ca- 
minho do oportunismo e do desejo de fama. 
Como David Garland destaca, em Marcos 
procurar” sempre tem uma 
conotação negativa e 
descreve uma busca
Em Cafarnaum, Jesus se hospeda na 
casa de Simão e André. A fotografia 
mostra as ruínas de uma igreja do quinto 
século d.C.que muitos estudiosos 
acreditam ter sido construída sobre a 
casa de Pedro.
M arcos 1 .2 9 -4 5
pois a sogra de Pedro estava de cama (cf. Lc 
4.38: “febre alta”). Acreditava-se de modo 
geral que a febre era uma maldição divina 
resultante de desobediência (Dt 28.22: “O 
S e n h o r o s ferirá com [...] febre e inflama- 
ções...” ). Portanto, seu problema talvez 
fosse considerado não apenas físico, mas 
também espiritual.
1.31 tomou-a pela mão e ajudou-a a 
levantar-se. Nos exorcismos, Jesus costuma 
dar comandos audíveis, enquanto nas curas 
ele toca as pessoas.1 A força de quem rea- 
liza a cura é transferida para o enfermo. O 
poder de Jesus produz resultados imediatos, 
comprovados pelo fato de que a mulher 
se levanta no mesmo instante e começa 
“a servi-los” . Aquí, “servir” representa o 
mesmo verbo grego [diakoneõ) usado para 
os anjos que “serviam” Jesus em 1.13, e 
se tornará um termo característico para o 
discipulado e o ministério.2
1.32,33 trouxe [...! todos os doentes e os 
endemoninhados. A notícia se espalhou por 
toda a Cafarnaum e arredores, de modo 
que, no sábado à noite (o Sabbath termi- 
nava ao pôr do sol), as multidões cercavam 
a casa de Simão, e havia enfermos por toda 
parte. No texto grego, o verbo “trazer” se 
encontra no tempo imperfeito e mostra o 
povo “trazendo” os enfermos durante boa 
parte da tarde e da noite, em urna peregrina- 
ção contínua até Jesus, aquele que curava.
1.34 ele não permitia que os demonios 
falassem. O poder de Jesus sobre os de- 
mónios é absoluto. Ele os expulsa com um 
mínimo de palavras (cada uma delas repleta 
de poder) e faz com que se calem. Essa
por Jesus com um propósito distorcido.3 
Aqui, eles desejam milagres notáveis em 
vez das verdades do reino e do chamado 
ao arrependimento. Jesus, no entanto, pre- 
tende mover-se numa direção diferente. O 
problema das multidões no primeiro ca- 
pítulo de Marcos é que, embora estejam 
maravilhadas e sigam Jesus por toda parte, 
não se comprometem com ele. Elas desejam 
prodígios, não as verdades do evangelho. 
Esse problema persistirá durante todo o 
ministério de Jesus e, no final, as multidões 
se juntarão aos líderes, pedindo que ele seja 
morto (15.11-15).
1.38,39 Vamos para outro lugar /.../ 
para que eu pregue ali também. A missão 
de Jesus é “pregar” o evangelho e chamar 
pessoas ao arrependimento (1.15), e não 
desfrutar a adulação das multidões. Ele já 
proclamou a mensagem do reino em Cafar- 
naum e agora deseja levar essas verdades 
aos povoados no restante da Galileia. Essa, 
e não a registrada em Marcos 6.7-13, é a 
primeira jornada missionária de Jesus, e ele 
certamente fez várias outras (Lucas fala de 
duas 19.1-6; 10.1-17]) no período de dois 
a três anos de seu ministério messiânico. A 
Galileia era uma província pequena (levava 
apenas dois dias para atravessá-la), mas 
seriam necessárias pelo menos duas ou três 
semanas para visitar seus vários povoados e 
cidades. Marcos menciona pela terceira vez 
neste capítulo que Jesus expulsou demônios 
(1.25,26,34,39), enfatizando o ministério 
de poder exercido por Jesus sobre as forças 
do mal como prova de que o reino chegou.
1.40 Um homem com lepra se aproximou. 
Na Bíblia, o termo “lepra” abrange várias 
doenças de pele (veja Lv 13 e 14 fa lepra que 
conhecemos, a “hanseníase”, era apenas uma 
delas]) que tornavam as pessoas impuras e 
as obrigavam a ser banidas de seus lares e 
da sociedade. Deviam manter-se afastadas 
de outros e gritar “impuro, impuro” quando 
alguém se aproximasse (Lv 13.45,46).
O segredo messiânico em Marcos
Em várias ocasiões, Jesus ordena que dem ônios 
(1.25,34; 3.12), pessoas curadas (1.44; 5.43; 7.36) 
e até mesmo os discípulos (8.30; 9.9) se mantenham 
calados a seu respeito. É bem provável que essa 
instrução se deva ao fato de os judeus não fazerem 
ideia de que 0 Messias seria um servo sofredor; eles 
estavam à espera somente de um rei conquistador. 
Jesus não desejava que propagassem essa ideia 
equivocada, pois criaria problemas de imediato com 
as autoridades (judaicas e romanas). Ademais, dese- 
java que 0 verdadeiro entendimento surgisse de suas 
ações, especialmente do que aconteceria na cruz. 
Jesus não queria, de forma alguma, ser designado 
como revolucionário que promove uma insurreição; 
fica evidente em seu julgamento perante Pilatos que 
essa acusação era falsa. Os demônios sabiam que 
ele era não apenas 0 M essias, mas também o Filho 
de Deus (3.11). Jesus, porém, desejava que naquele 
momento isso não fosse declarado. Ele também não 
tinha desejo algum de se tornar uma celebridade; 
realizava milagres porque tinha compaixão do povo 
necessitado, não para provocar admiração e gran- 
jear seguidores. Caso ele perm itisse tornar-se "0 
profeta popular do momento", seu impacto seria 
transitório. Ao mesmo tempo, Marcos deixa claro 
que é impossível ocultar seu ministério glorioso. Os 
demônios são silenciados (1.24,25; 3.11,12), pois 
sabem quem ele é e estão em guerra com ele. Por 
vezes, Jesus também ordena aos enfermos curados 
que se mantenham calados, mas eles não conse- 
guem (1.44,45; 7.35,36). Não se trata realmente 
de desobediência, pois é impossível para qualquer 
pessoa tocada por Deus deixar de relatar esse fato 
a outros.
A expressão “segredo messiânico” se originou com 
William Wrede, em um livro publicado em 1901 (cujo 
título foi traduzido para 0 inglês como The Messianic 
secret [1971]). Nele, segundo Wrede, Marcos criou 
esse conceito para explicar por que Jesus nunca agiu 
como Messias. E, como ele mostra, os discípulos só 
entenderam seus motivos depois da ressurreição. 0 
conteúdo dos quatro Evangelhos deixa claro, porém, 
que essa imposição posterior de sua identidade 
messiânica não podería ter ocorrido. Dentre todos os 
aspectos cristológicos dos Evangelhos, a identidade 
messiânica de Jesus é a mais evidente.
32M arcos 1 .29 -45
Câmara dos leprosos
Pátio das mulheres
ψ/Μ',■
toque compassivo que traz cura, porém, 
provavelmente se refere a uma “advertência 
severa”, como indica a N1V. Jesus exigiu 
obediência, com uma nuança de forte emo- 
ção (“Certifique-se de obedecer!”).
1.44 Olhe, não conte isso a ninguém. A 
“forte advertência” de Jesus para não divul- 
gar o milagre faz parte do “segredo messiâ- 
nico” descrito em 1.34 (veja quadro lateral). 
Ele não deseja que o povo se transforme 
numa multidão frenética, incitada pela cura 
espetacular. Contudo, o homem não conse- 
gue permanecer calado. Em última análise, 
não se trata, porém, de desobediência. Ele 
experimentou a mão de Deus e foi curado. É 
impossível ficar em silêncio. Essa é realidade
1.41 Jesus ficou indignado. A maioria 
dos manuscritos gregos, bem como várias 
versões (NRSV, NIV [1984], ESV, NI.T, 
NET), trazem algo como “movido por pena/ 
compaixão”. No entanto, é mais plausível 
que, ao copiar Marcos, escribas posteriores 
tenham usado “compaixão” no lugar de “in- 
dignação” por ser uma ideia mais condizente 
com o contexto. Portanto, é ligeiramente 
mais apropriado seguir a variante textual 
aqui proposta (veja também REB).4 Por que 
Jesus teria se irado? É muito improvável que 
tenha se desagradado do fato de o homem 
quebrar a tradição ao aproximar-se dele, pois 
nunca se preocupou com essas questões em 
seu ministério.5 Em Marcos 3.5, Jesus fica 
irado com o “coração obstinado” dos lide- 
res e, em 10.14, fica indignado porque seus 
discípulos rejeitam as crianças. A cura do 
leproso é diferente das situações anteriores e, 
provavelmente, um caso parecido com João 
11.33,38, em que Jesus fica indignado com 
o poder do pecado e da morte neste mundo, 
mais específicamente, com a angústia física, 
emocional e social que a pessoa sofreu.
1.43 uma forte advertência. A “forte 
advertência” é expressa pelo verbo grego 
cmhrimaomai, que indica emoção intensa 
e, com frequência, ira (o termo é usado em 
Jo 11.33,38), um significado possível à luz 
da indignação em 1.41. No contexto do
Depois de curar o leproso, Jesus o instruiu 
a apresentar-se ao sacerdote e passarpelo 
com p lexo ritual para se tornar cerimonlalmente 
puro. Conform e a descrição em Levítico 13 e 14, 
fazia parte desse ritual oferecer um sacrifício, 
rapar todo o corpo, lavar o corpo e as roupas 
e observar um período de espera, depois do 
qual o proced im ento era repetido. No período 
do Segundo Templo, parte desse processo era 
realizado nas dependências do templo. No canto 
superior direito do pátio das mulheres estava 
localizada a câmara dos leprosos, onde os que 
haviam sido curados iam se lavar no oitavo dia do 
processo de purificação e aguardavam a oferta, 
realizada pelos sacerdotes, do holocausto e dos 
sacrifícios pela culpa e pelos pecados.
rebelião e rejeição, o evangelho não é impo- 
tente, e um número considerável de pessoas 
responderá e será atraído para o poder de 
Deus em seu Filho. Jesus se coloca à dis- 
posição das multidões e prioriza o tempo 
com elas. Fica evidente aqui a compaixão 
de Deus pelos perdidos. Por fim, aqueles 
que são tocados por Jesus se unem a ele 
para proclamar a graça e a misericórdia de 
Deus; não conseguem permanecer calados, 
pois sentiram a mão de Deus em Jesus.
Para ensinar o texto____________
1. Jesus precisava de tempo a sós com seu 
Pai. Jesus era o homem-Deus, plenamente 
divino e plenamente humano. Se alguém 
da própria essência de Deus precisava de 
tempo de oração e comunhão com seu Pai, 
quanto mais nós, crentes finitos, precisamos 
desesperadamente de tempo em oração. A 
oração é mais que intercessão, mais que uma 
atividade na qual pedimos que Deus faça 
algo por nós ou por outros. Muitos cristãos 
são como crianças que só procuram a mãe 
ou o pai quando querem algo. Suas orações 
consistem, em grande parte, de apresentar 
a Deus uma lista de compras, do que gos- 
tariam que Deus lhes desse. Para Jesus (e 
deve ser o mesmo para nós), oração era 
comunhão, um tempo para estar a sós com 
o Pai e desfrutar sua presença e seu amor.
2. Jesus se concentrou em sua missão do 
reino e não procurou popularidade entre as 
multidões. Jesus nunca procurou multidões 
bajuladoras que o considerassem o entre- 
tenimento da hora. Ele era completamente 
distinto de muitos pregadores famosos de 
nossa época que buscam os holofotes. Não 
desejava alcançar fama, mas, sim, procla- 
mar o evangelho. Desejava conversão mais 
que multidões. Ao mesmo tempo, usou sua 
popularidade para curar todos que o pro- 
curavam, para suprir todas as suas neces- 
sidades físicas, bem como espirituais. Sua 
compaixão era universal. Os sofrimentos e as
que Marcos deseja destacar. Quando Cristo 
transformou sua vida, é preciso anunciar em 
público essa alegria incrível.
vá mostrar-se ao sacerdote. Quando 
Jesus ordena ao leproso: “Seja purificado!”, 
há um duplo sentido, que abrange tanto a 
cura física quanto a purificação social/reli- 
giosa que permitia ao homem reingressar na 
sociedade. A lepra era a única doença que 
exigia uma cerimônia ritual testemunhada 
pela comunidade antes que a cura pudesse 
ser finalizada. Era um ritual complicado 
que durava oito dias, incluía a apresenta- 
ção de ofertas no templo (Lv 14.1-32) e, 
portanto, uma ida a Jerusalém. Consequen- 
temente, era realizado como “testemunho” 
para o povo de que a pessoa outrora leprosa 
podia, de fato, retomar a vida normal. Em 
Marcos 6.11 (sacudir a poeira dos pés) e 
em 13.9 (responder a acusações de oficiais 
hostis) há um tom negativo nesse “teste- 
munho”. Aqui, porém, o testemunho não 
envolve confrontação; é positivo e obedece 
às regulamentações da Torá.
1.45 ficava fora, em lugares solitários. 
Isso não significa que Jesus tinha uma vida 
“solitária”. Mais uma vez, ele está na região 
do “deserto” (cf. 1.3,4,12,13,35), um lugar 
não apenas de provação, mas também de 
consolo divino e, neste caso, de ministério 
no deserto como o de Moisés ou de Elias. 
As multidões se aglomeram de tal forma 
ao redor de Jesus que ele não pode visitar 
cidades, pois não havería espaço para que 
a “gente de todas as partes” pudesse vê-lo. 
Sua popularidade é tanta que ele precisa mi- 
nistrar em espaços abertos. Termina, desse 
modo, o primeiro ciclo de seu ministério 
às multidões, e o cenário está preparado 
para a reação oposta dos líderes.
Considerações teológicas
Aqui, Marcos acompanha a popular¡- 
dade crescente de Jesus com as multidões. 
Embora o mundo seja caracterizado por
34M arcos 1 .29-45
J
Um leproso se aproxima de Jesus 
e pede que seja purificado, e Jesus 
o cura. O hom em não consegue 
permanecer calado a respeito desse 
milagre e conta a boa notícia a todos. 
Embora danificada, essa parte de um 
grande mosaico de teto bizantino 
I do século 14 d.C. mostra o leproso 
I fazendo seu ped ido a Jesus.
se recusaram a segui-lo. 
Em seu livro Cristia- 
nismo puro e simples, 
C. S. Lewis argumenta 
que, tendo em vista as 
asserções que Jesus fez 
a respeito de si mesmo, ou ele era um men- 
tiroso (“o próprio diabo”; suas declarações 
visavam enganar e desencaminhar), ou um 
louco (suas asserções eram falsas, mas ele 
acreditava nelas) ou Senhor (“esse homem 
era, e é, o Filho de Deus” ).6 Se as asserções 
de Jesus na Bíblia são verdadeiras, então ele 
é Senhor e requer nosso compromisso total. 
Suas escolhas de vida refletem a convicção 
de que Jesus é Senhor?
Jesus tinha uma profunda vida de oração. 
Citação: M artinho Lutero. Uma justifi- 
cativa comum que as pessoas apresentam 
para não orar com regularidade é a falta 
de tempo. A seguinte observação é atri- 
buida a Martinho I.utero: “Tenho tanta 
coisa para fazer que, se não passasse pelo 
menos três horas por dia em oração, ja- 
mais seria capaz de terminar tudo”. Pelo 
que vemos em Marcos parece que Jesus 
demonstra prioridades semelhantes. Depois 
de um dia de ministério, ao que tudo indica, 
exaustivo, Jesus se levanta cedo na manhã 
seguinte para orar. Se a oração era uma 
prioridade para Jesus, também deveria ser 
para nós. Por meio da oração, voltamos o 
foco para a vontade e o propósito de Deus 
para nossa vida, o que nos dá clareza para 
tomar decisões perspicazes.
enfermidades do povo 
tinham prioridade ab- 
soluta até mesmo sobre 
os rituais e as tradições 
de suas raízes judaicas.
Eis a mensagem para a 
igreja de hoje: estenda 
a mão, com a compai- 
xão de Cristo, para as 
pessoas em suas carên- 
cias espirituais e físicas, 
preocupe-se mais com 
as pessoas do que com 
o “sucesso” e diga às 
pessoas o que precisam 
ouvir, não é daquilo que desejam ouvir.
3. Quando nossa vida foi tocada por 
Jesus, precisamos contar isso a outros. 
Como parte de seu desejo de manter sua 
natureza messiânica em segredo, Jesus 
ordenou que o leproso não contasse a 
ninguém o que havia ocorrido. Mas isso 
era impossível. Marcos não apresenta o 
descumprimento da ordem como um ato 
de desobediência; antes, é o resultado natu- 
ral da alegria que o homem sentiu quando 
Jesus o curou c quando ele pôde voltar 
para casa. Não conseguimos permanecer 
calados quando estamos empolgados. Fissa 
é a base mais apropriada para o trabalho 
evangelístico. Fim vez de encher as pessoas 
de culpa por não testemunhar acerca de 
Cristo, precisamos despertar nelas empol- 
gação com o que Cristo (e nossa igreja) está 
fazendo na vida delas. Então, o testemunho 
fluirá naturalmente em vez de ser forçado.
Para ilustrar o texto____________
Seguir Jesus significa assumir um 
compromisso com ele.
Livro: Cristianismo puro e simples, de C. S. 
Lewis. Como vemos nos Evangelhos, muitas 
pessoas ficaram curiosas a respeito de Jesus 
porque ele realizava milagres e ensinava com 
autoridade. Infelizmente, porém, muitas
M arcos 1 .29 -4535
Marcos 2.1-12
A autoridade de Jesus para 
perdoar e curar pecadores
Ideía central Em contraste com as multidões, os líderes começam a opor-se ao ministério 
de Jesus, pois ele desconsidera os requisitos da tradição oral deles. Jesus, no entanto, 
não realiza seu ministério para cumprir regras, mas para conduzir pecadores ao perdão. 
Sua autoridade para perdoar pecados comprova sua filiação divina.Considerações interpretativas
2.2 Tanta gente se reuniu ali, de forma que 
não havia lugar. Depois do ministério na 
Galileia (1.38-45), Jesus volta para “casa” 
em Cafarnaum (2.1), local que escolheu 
como sede (1.21; M t4.13). É provável que 
seja a casa de Pedro, onde Jesus se hospeda 
quando está em Cafarnaum (veja comen- 
tário sobre 1.29). Ao que parece, ele chega 
às escondidas, mas sua fama não diminui 
depois das curas e expulsões de demônios
(1.33,37,45), uma vez que as multidões 
vêm de todas as partes e enchem todos os 
cantos da casa e, possivelmente, de seus 
arredores também. Assim como em sua 
visita à sinagoga (1.21,22), Jesus começa 
a “pregar a palavra” do evangelho (1.15) 
a elas. A mensagem tem precedência sobre 
a ação.
2 . 3 trazendo-lhe um paralítico, car- 
regado por quatro deles. O homem se 
encontra completamente incapacitado. 
“Paralisia” é um termo geral que pode 
indicar diversas doenças ou acidentes que 
impedem a pessoa de andar. O fato de qua- 
tro amigos o carregarem (na maca ou em
Para entender o texto___________
Texto em contexto
A autoridade de Jesus tem continuidade 
nessa passagem, mas agora com uma reação 
diametralmente oposta: rejeição em vez de 
admiração. Começa aqui uma sequência de 
cinco episódios ( 2 . 1 2 . 1 8 - 2 2 ;־12; 2.13-17; 
2.23-28; 3.1-6) que se concentra nos lide- 
res; em cada situação, os adversários de 
Jesus fazem comentários depreciativos e 
perguntas desafiadoras a respeito de seu 
descaso intencional para com a Lei. Jesus 
responde com pronunciamentos categóri- 
cos e aforismos que ressaltam sua autori- 
dade. Fm 1.21-45 a popularidade de Jesus 
com as multidões cresceu de forma expo- 
nencial; em 2.1—3.6, sua oposição cresce 
de modo ainda mais intenso. De acordo 
com 1.45, Jesus atraía tantas pessoas que 
ele não podia mais entrar publicamente 
nas cidades. Fm 3.6, os líderes já tramam 
sua morte. Fies não conseguem aceitar o 
novo sistema, a nova aliança que ele está 
no processo de estabelecer com seu ensino 
acerca do reino (2.21,22).
36M arcos 2.1-12
Principais temas de Marcos 2.1-12
■ Como Messias e Filho de Deus, Jesus tem autori- 
dade para curar e perdoar pecados.
■ A ligação entre cura física e espiritual significa que 
Jesus restaura a criação por intermédio do re ino 
de Deus.
2 . 5 Jesus viu sua fé /.../ “Filho, seus pe- 
cados estão perdoados". Essa “fé” (veja 
também 5.34,36; 9.23,24; 10.52) em Jesus 
caracteriza o paralítico e seus amigos. Logo, 
é provável que a declaração de Jesus ao 
homem inclua todos eles. A “fé” tem um 
sentido duplo (embora eles tivessem em 
mente apenas o primeiro significado): 
primeiro é a crença no poder de Jesus de 
curar miraculosamente e, segundo (implí- 
cito na declaração de Jesus), é a crença 
na capacidade de Deus de conceder cura 
espiritual. Em 1.4, João Batista pregava 
“um batismo de arrependimento para o 
perdão dos pecados”, portanto, a declara- 
ção de Jesus dá continuidade a esse tema, 
o cerne da mensagem do “evangelho” 
(1.15). Ainda assim, sua resposta parece 
estranha, já que eles levaram o homem 
até Jesus para ser curado. A chave é a 
ligação entre pecado e enfermidade no 
mundo antigo. A declaração “seus pe- 
cados estão perdoados” implica cura 
tanto espiritual quanto física. Costu- 
ma-se imaginar que “estão perdoados” 
é um passivo divino (ou seja, Deus os 
perdoou). Nesse contexto, porém, é mais
Os am igos do paralítico fazem uma abertura no terraço da 
casa em que Jesus estava ensinando para que o enfermo 
possa se aproximar dele e ser curado. O m odo com o a 
cobertura típica das casas era construída no antigo Israel 
deve ter facilitado esse trabalho. Embora não existam ruínas 
arqueológicas de telhados, a cobertura mostrada aqui, do 
interior de uma casa de quatro côm odos reconstruída em 
Tel Qasile, Israel, mostra a estrutura típica de vigas mestras 
sobre as quais eram colocadas varas. É possível que também 
fossem usados juncos. Essa camada era revestida com argila 
e, por fim. com uma camada de reboco.
uma esteira sobre a qual os pobres dormiam 
|cf. Mt 9.21) mostra que eles compartilham 
de sua fé no poder de Jesus para curá-lo.
2 . 4 fizeram uma abertura no telhado 
acima de Jesus e, por ela, baixaram a 
maca. Quando o paralítico e seus amigos 
chegam, descobrem que, devido às gran- 
des multidões na casa de Simão, não há 
como levar o homem até Jesus pelo modo 
usual. No entanto, sua solução não é tão 
complicada quanto parece em nosso tempo 
de telhados inclinados e feitos de várias 
camadas. Eles simplesmente dão a volta 
pelos fundos, sobem as escadas (o único 
acesso ao terraço) carregando o homem e 
escavam uma abertura no telhado. As casas 
na Galileia eram construções pequenas, de 
um cômodo, com telhados planos feitos de 
galhos de árvore como base e cobertos com 
uma mistura de argila e palha (era comum 
receber amigos ou fazer refeições nesse ter- 
raço). Não deve ter sido difícil escavar a 
argila, remover alguns galhos e baixar o 
homem até Jesus.
M a r c o s 2 . 1 - 1 23 7
exemplo, declaravam que uma pessoa es- 
tava ritualmente pura. É provável que a 
expressão usada pelos escribas, “a não ser 
somente Deus” (ei mê heis ho theos, “exceto 
um, Deus”) aponte para o Shemá, o cerne 
da oração judaica que começa com as pa- 
lavras: “Ouça, ó Israel: O S e n h o r , o nosso 
Deus, é o único” (Dt 6.4). Para os judeus, 
blasfêmia era pronunciar o nome divino 
de modo sacrílego (m. Sanh. 7.5). Não 
é exatamente isso que Jesus faz, mas ele 
expressa, de fato, algo que só Deus tem o 
direito de afirmar, o que constitui blasfêmia 
no sentido mais amplo.1־ Mais adiante, essa 
acusação leva a sua condenação diante do 
Sinédrio (14.63,64).
2.8 Jesus sabia em seu espírito que era 
isso que estavam pensando em seu coração. 
Há ocasiões em que Jesus é usa a onisciência 
para saber o que as pessoas estão pensando 
ou quem elas são (5.30; 12.15b; 14.18; 
Jo 1.42,47; 4.17,18). O conhecimento que 
Deus tem do coração e da mente das pessoas 
é observado em ISamuel 16.7; !Crônicas 
28.9; Jeremias 17.9,10.
2.9 O que é mais fácil dizer ao paralí- 
tico: “Seus pecados estão perdoados ” ou: 
“pegue sua maca e ande ”? Jesus usa um ar- 
gumento a fortiori (argumento judaico qal 
wahomer, “do menor para o maior” ). Na 
esfera religiosa, é necessário ter muito mais 
autoridade para perdoar pecados (um de- 
ereto eterno) que para curar alguém (um ato 
terreno e temporário). No entanto, Jesus 
fala do ponto de vista humano, em que é 
mais difícil curar que perdoar. Ademais, 
Jesus se concentra naquilo que é mais fácil 
dizer do que fazer, e é possível demonstrar 
perdão muito mais facilmente que realizar 
uma cura.
2.10 saibam que o Filho do Homem tem 
na terra autoridade para perdoar pecados. 
“Para que saibam” talvez seja uma expres- 
são emprestada do confronto entre Moisés, 
como representante de Deus, e o faraó
Filho do homem
Esse é 0 título mais frequente para Jesus em Marcos 
(é usado catorze vezes) e é o termo comum mais 
usado pelo Mestre para referir-se si mesmo (83 vezes 
nos Evangelhos), provavelmente por causa de sua am- 
biguidade e por estar livre de associações políticas 
(diferente de “Messias״ e “Filho de Davi”). Essa expres- 
são podería se referir a um humano mortal, como em 
Ezequiel, em que ocorre 93 vezes (veja também SI 8.4: 
“simples mortais [...] seres humanos [ben-’acfam]”), 
assim como podería se basear em Daniel 7.13,14 e 
ter uma associação quase divina, com conotações de 
majestade e domínio universal (em lE n 46— 53 está 
conectado ao Messias). Jesus usa 0 título com os dois 
significados, de modo que apresenta tanto o aspecto 
divino quanto o humano. Em Marcos, o Filho do Homem 
perdoa pecados (2.10) e é Senhor do Sabbath (2.28).
Ele é traído (14.21,41), crucificado e ressuscitado ao 
terceiro dia (8.31:9.9,12,31; 10.34) e vem nas nuvens 
para reunir os eleitos e sentar-se à direita de Deus 
(13.26,27; 14.62) como juiz escatológico (8.38). Em 
tudo isso, ele vem para servir e dar sua vida comoresgate (10.45).
apropriado considerar essas palavras um 
“pronunciamento de efetivação”, no qual 
o próprio Jesus proclama o perdão.1 Sem 
dúvida, é desse modo que os escribas en- 
tendem o pronunciamento no versículo se- 
guinte. A salvação na nova aliança descrita 
em Jeremias 31.34, enfim, chegou: "... lhes 
perdoarei a maldade e não me lembrarei 
mais dos seus pecados”.
2.7 Ele está blasfemando! Quem pode 
perdoar pecados, a não ser somente Deus? 
Os “mestres da lei” (veja comentário sobre 
1.22) ficam escandalizados com a autori- 
dade por trás da proclamação de Jesus. 
Marcos os descreve “pensando consigo 
mesmos”, em deliberação mental a respeito 
da questão. A “blasfêmia” (ou “calúnia”) 
não significa que Jesus afirma ser Deus, 
mas que age de forma que somente Deus 
podería agir (veja Ex 34.7; 2Sm 12.13; 
Is 6.7; 43.25). Apenas os sacerdotes, por
38M arcos 2.1-12
seus membros voltaram à vida. Marcos 
enfatiza a natureza pública do milagre. 
A presença e o poder de Deus em Jesus 
ficam evidentes para todos os presentes. 
Portanto, a cura física é uma demonstração 
ativa de sua autoridade espiritual para per- 
doar pecados. Ao contrário do que ocorre 
em 1.44, Jesus não proíbe o homem de 
compartilhar sua experiência com pessoa 
alguma; esse milagre é realizado a fim de 
que todos o vejam.
Nunca vimos nada igual! Mais uma vez 
(veja 1.22,27) todos ficam “admirados” e 
“louvam a Deus” (ou “dão glória a Deus”). 
É difícil saber ao certo se “todos” inclui 
os escribas hostis de 2.6,7. A princípio, 
parece que sim, mas no restante da pas- 
sagem (2.13—3.6) os líderes continuam 
a opor-se a Jesus e, em 3.22, os escribas 
o acusam de estar possesso por Belzebu. 
Parece mais apropriado considerar que 
o pronome “todos”, empregado no con- 
texto do versículo 12, se refere a “todas
(Êx 7.17; 8.10,12; 10.2), especialmente 
Exodo 9.14, em que o faraó deve saber que 
"... em toda a terra não há ninguém como 
eu |o Sf.n h o r |” .3 O s mestres da lei, assim 
como o faraó, estão em guerra com Deus 
e em breve saberão quem ele (e seu Filho) 
é de fato, em essência. “Autoridade para 
perdoar” não significa somente o direito de 
declarar que uma pessoa foi perdoada, pois 
os sacerdotes podiam declarar perdão para 
aqueles que haviam realizado os sacrifícios; 
antes, denota que Jesus tinha a autoridade 
de Deus para perdoar.
2.12 Ele se levantou /.../ e saiu à vista de 
todos. Em grego, a expressão “se levantou” 
é equivalente a “foi ressuscitado”; ou seja,
Quando Jesus retorna a Cafarnaum, uma multidão 
(que Inclui líderes religiosos) se reúne para ouvi-lo 
pregar. O local é a casa de Pedro, provavelmente 
uma insula. Nesse tipo de planta arquitetônica, uma 
porta da rua leva diretamente a um pátio interno ao 
redor do qual ficam dispostos os cômodos menores. 
Esses côm odos têm portas e janelas que se abrem 
para o pátio.Talvez as pessoas que foram ouvir 
Jesus tenham enchido os côm odos e também o 
\ pátio. A atual Igreja da Casa de São Pedro protege as 
¡ escavações arqueológicas que revelaram as ruínas 
do primeiro século d.C. de uma insula. Podemos 
 visualizar aqui, o local (insula adjacente preservada ן
ao norte das instalações da igreja moderna) onde as 
I multidões ficaram admiradas.
o batismo de Jesus inaugura a nova era do 
Espírito, e a vinda do Filho do Homem é o 
ingresso do reino definitivo de Deus neste 
mundo, constituindo uma nova criação. 
Aqui, Marcos mostra as implicações desse 
fato, pois a realidade do reino significa que 
cura física e espiritual estão disponíveis 
para aqueles que se abrem para Jesus. A 
chegada da salvação concedida por Deus 
significa não apenas a reconciliação de 
pessoas com Deus, mas também a res- 
tauração da criação caída. Em !Marcos e 
Mateus, essa realidade é associada à “fé” 
(Mc 2.5; 5.34,36; 10.52; Mt 9.2,22,29; 
15.28), pois a fé retrata a participação dos 
beneficiados no processo de cura, e é ligada 
à experiência de cura não apenas física, 
mas também espiritual. Jesus promove a 
cura da pessoa como um todo, dos aspectos 
físicos, bem como dos espirituais, da hu- 
manidade caída.
Para ilustrar o texto_____________
A autoridade de Jesus para curar 
Comparação: O guia de estudo da diretoria 
do exército dos EUA tem uma seção com 
o título “Autoridade”. Define autoridade 
como “o direito de ordenar aos soldados 
que realizem certas ações. A autoridade é o 
poder legítimo concedido aos líderes para 
dirigir soldados ou de tomar providências 
dentro do âmbito de seu cargo” .4 No exér- 
cito, autoridade significa simplesmente que 
o comandante pode dar ordens cujo cum- 
primento é obrigatório para aqueles que 
estão debaixo de seu comando. De modo se- 
melhante, Jesus tem autoridade sobre toda 
a criação. Quando ele ordenava aos demô- 
nios que deixassem o corpo de uma pessoa, 
eles tinham de obedecer-lhe. Quando Jesus 
ordenava a um corpo que fosse curado, este 
também tinha de obedecer-lhe.
as multidões” e contrasta com os líderes 
hostis. De qualquer modo, o relato termina 
em tom de perplexidade tanto diante dos 
milagres quanto da autoridade de Jesus 
para perdoar pecados. Nenhum dos pre- 
sentes ali jamais havia visto um ato tão 
glorioso de poder. Jesus, de fato, é único.
Considerações teológicas
Depois de retratar o êxito do ministério 
inicial de Jesus com as multidões, Marcos 
agora se volta para a rejeição e a oposição 
dos líderes de Israel. As trevas sempre odia- 
rão a luz (Jo .3.19,20), e os cristãos nunca 
devem se surpreender com a oposição a seu 
ministério. Ao mesmo tempo, o poder de 
Deus operando em Jesus era tão visível que 
até mesmo seus adversários se maravilha- 
ram. A misericórdia e o perdão divinos são 
evidentes e não há como ignorá-los. Nosso 
Deus é um Deus que cura, e a autoridade 
de Jesus sobre as enfermidades físicas e es- 
pirituais também é visível na igreja.
Para ensinar o texto____________
1. Jesus tem autoridade para curar e para 
perdoar pecados. Em todos os relatos de 
milagres desse Evangelho, Marcos mostra 
a autoridade de Jesus sobre enfermidades 
humanas, forças da natureza e poderes 
cósmicos. O ponto culminante dessa auto- 
ridade é a declaração categórica de que 
Jesus é o Filho do Homem, investido de 
“autoridade para perdoar pecados”, pois 
o poder supremo pertence àquele que pode 
oferecer salvação à humanidade. Jesus tem 
o poder de conceder cura física e espiritual, 
e o título tradicional e consagrado de Jesus 
como “Médico dos médicos” é retratado 
de modo magnífico nesse relato.
2. Há uma ligação entre cura física e 
espiritual. Em Marcos 1, observamos que
40M arcos 2.1-12
tes a seguinte pergunta vital: “Você recebeu 
o perdão de Deus que vem por meio da fé 
em Jesus Cristo?”.
A compaixão e o poder daquele que cura 
Situação hipotética: Imagine que você e um 
amigo decidem fazer uma trilha. Uma vez 
que vocês pretendem caminhar só algumas 
horas, levam apenas algumas garrafas de 
água, barrinhas de cereal e um telefone 
celular. A paisagem e as condições clima- 
ticas são tão agradáveis que vocês perdem 
a noção do tempo e, quando se dão conta, 
o sol está começando a se pôr. Momentos 
depois, acontece um desastre. Seu amigo cai 
por uma ribanceira e quebra a perna. Vocês 
estão longe do carro, quase sem água, e não 
há sinal em seu celular. O que você faria?
É provável que você faria todo o possível 
para ajudar e salvar seu amigo. Os amigos 
do paralítico fizeram todo o possível para 
levá-lo até Jesus, chegando a cavar um 
buraco no terraço da casa para baixar o 
paralítico diante de Jesus. Eles criam que 
Jesus podería curá-lo. Se cremos, de fato, 
que Jesus é compassivo e tem poder para 
curar (física e espiritualmente), o que nos 
impede de levar outros até ele por meio 
da oração, da amizade e ao compartilhar 
o evangelho?
E assim como um soldado realiza o pro- 
pósito definido para ele por seu coman- 
dante, Jesus, em seu ministério de cura, 
estava realizando o propósito de seu Pai 
celeste. O desejo presente em Jesus de curar 
refletia o coração compassivode Deus. Em 
João 14.11-14 c Mateus 28.18-20 pode-se 
ver que Jesus concede autoridade a seus 
seguidores para dar continuidade a seu 
ministério no mundo.
0 poder transformador do perdão 
Experiência cotidiana: Quando Jesus curou 
o paralítico e declarou: “Filho, os seus pe- 
cados estão perdoados”, mostrou a ligação 
entre a doença (necessidade percebida) e a 
enfermidade mais profunda (culpa e vergo- 
nha que requerem perdão). Se Jesus tivesse 
curado o corpo sem tratar da questão es- 
piritual subjacente do perdão, o paralítico 
ainda teria necessidade de cura. Imagine 
que você tem uma filha que está com febre 
alta. Quando ela se queixa de calafrios, 
você a cobre até que se sinta aquecida. Se 
você ignorar a causa da febre terá, de fato, 
ajudado sua filha? Jesus entendia que a 
necessidade mais profunda do homem era 
espiritual e atendeu tanto à necessidade 
física quanto à espiritual. Faça a seus ouvin-
Marcos 2.13-17
Jesus chama e 
aceita os excluídos
Ideia central 0 propósito de Jesus é conduzir os pecadores ao perdão (2 .1-12 ) e isso inclui 
cham ar um coletor de impostos para se tornar parte do grupo dos apóstolos. Levi usa 
essa ocasião para convidar outros excluídos da sociedade para conhecer Jesus, 0 que 
suscita a oposição dos líderes religiosos.
líderes. Formam-se opostos diametrais, pois 
as multidões procuram Jesus enquanto os 
líderes começam a opor-se a ele cada vez 
mais. Esse contraste chega a seu ápice em 
3.6, ponto em que os poderosos de Israel 
começam a tramar a morte de Jesus. As 
multidões só se voltam contra Jesus durante 
o julgamento em 15.1-15.
2 . 1 4 viu Levi, filho de Alfeu. Essa cena 
é composta por duas partes: a primeira 
(2.13,14) volta ao tema de 1.16-20, em 
que Jesus começa a formar seu grupo de 
discípulos; a segunda mostra Jesus respon- 
dendo às críticas de seus adversários num 
debate (2.15-17). Cafarnaum fica na extre- 
midade noroeste do lago, de modo que é 
natural Jesus ensinar à beira da água. Sua 
popularidade continua alta (uma “grande 
multidão” está reunida ali) e, no meio do 
povo, Jesus vê Levi, um coletor de impostos. 
Há certa controvérsia acerca da identidade 
de Levi. Somente Marcos informa que ele 
era “filho de Alfeu” e, na lista dos Doze, 
há um discípulo chamado “Tiago, filho de 
Alfeu” (3.18). Ademais, no mesmo relato 
em Mateus 9.9, esse indivíduo é chamado
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Essa passagem trata de perdão (2.1-12), 
que conduz ao discipulado (2.13-17), em 
contraste com a intransigência dos líderes 
religiosos. Há uma inversão, pois aqueles 
que se consideram sãos na verdade estão 
doentes, e aqueles que sabem que estão 
doentes encontram saúde.
Considerações interpretativas
2 . 1 3 Jesus saiu outra vez para a beira do 
lago. O faro de esse episódio ocorrer à 
“beira do lago” liga o relato à primeira 
cena de discipulado no lago Genesaré (“mar 
da Galileia”), em 1.16. O chamado para 
seguir tem continuidade à medida que Jesus 
escolhe aqueles que virão a ser os Doze 
(3.13-19).
Uma grande multidão foi até ele. O tema 
da grande popularidade de Jesus com as 
multidões (descrito em 1.33,37,45; 2.1) 
prossegue e fornece um contraponto nítido 
para a crescente rejeição por parte dos
42Marcos 2.13-17
Principais temas de Marcos 2.13-17
• Cada pessoa precisa escolher entre fé/salvação e 
oposição/rejeição. ·
■ A salvação é para todos, e Jesus dá prioridade aos 
pecadores e excluídos da sociedade.
■ Jesus vê 0 potencial em cada pessoa e pode chamar 
qualquer um para servi-lo.
No entanto, c típico de Jesus (e de Deus) 
tornar os fracos fortes e aceitar os excluídos. 
Nenhum dos discípulos era um candidato 
digno (Tiago e João eram “filhos do tro- 
vão”; talvez por seu comportamento, por 
vezes, impaciente. Veja comentário sobre 
3.16, adiante), mas como Paulo afirmou: 
"... me orgulharei das coisas que mostram 
minha fraqueza” (2C0 11.30), pois o 
poder de Deus “... se aperfeiçoa 
na fraqueza...” (2C0 12.9).
2.15 muitos coletores 
e pecadores estavam 
com endo com ele. 
Levi ofereceu um 
banquete (provável- 
mente não se trata 
de um precursor do 
“ banquete messiâ- 
nico” de Ap 19.6-10, 
como alguns propõem) 
em sua casa (Lc 5.29) 
para apresentar Jesus a 
seus amigos. Na Pales- 
tina do primeiro século, 
era comum os participan- 
tes se reclinarem em lei- 
tos ao redor de uma mesa 
pequena sobre a qual era 
colocada a comida, como 
faziam os romanos. É possível que Jesus 
também seja considerado, implicitamente, 
o anfitrião, pois “comiam com ele [Jesus|”. 
Nessa prática da “comunhão à mesa”, a 
pessoa identificava seus amigos e indicava
“Mateus” e, na lista dos Doze, ele é “Ma- 
teus, o coletor de impostos” (Mt 10.3; cf. 
Mc 3.18; Lc 6.15). De acordo com a tradi- 
ção, esse mesmo indivíduo tinha dois nomes 
hebraicos (“Mateus” e “I.evi”), semelhante 
a “Paulo/Saulo”, “Simão/Pedro” e “João/ 
Marcos” . Há quem discorde e proponha 
que se trata de outro discípulo, não um 
dos Doze, ou que ele é um dos “muitos” 
que seguem Jesus em 2.15.' O Evangelho 
de Mateus, porém, identifica Mateus com 
o Levi mencionado em Marcos, e é mais 
apropriado considerá-los a mesma pessoa, 
talvez um irmão do Tiago mencionado 
em 3.18.
sentado na coletoria. Levi havia con- 
corrido ao cargo de coletor e recebido um 
lugar na aduana nos arredores de Ca- 
farnaum (talvez na Via Maris, 
a principal rota comercial 
que passava pela cidade).
Ele arrecadava impos- 
tos indiretos sobre 
produtos de comer- 
cialização, tarifas 
aduaneiras e outros 
encargos para He- 
rodes Antipas (não 
o imposto direto ou 
imperial mencionado 
em 12.14). Os coletores 
eram desprezados porque 
trabalhavam para os ro- 
manos e tinham permissão 
de cobrar quaisquer so- 
bretaxas que desejassem, 
geralm ente uma soma 
exorbitante e desonesta.
De acordo com a tradição 
judaica, a mera presença 
de um coletor de impostos em uma casa 
a tornava “impura”. Graças à cobiça dos 
coletores de impostos e sua cumplicidade 
com os inimigos dos judeus, Levi parecería 
uma péssima escolha para ser um discípulo.
É provável que Levi fosse coletor 
de Impostos de Herodes Antipas, 
que governava para Roma 
as províncias da Galileia e de 
Pereia. Essa é uma das moedas
I autorizadas por ele, cunhada em
! Tiberíades em 29 d.C.
I______________ __________
M arcos 2.13-1743
seguir suas estipulações) e eram bastante 
influentes no primeiro século. A fim de 
não se contaminar, evitavam todo contato, 
principalmente fazer refeições com esses 
“pecadores” .
2.17 Os sãos não precisam de médico, 
mas sim os doentes. Eu não vim para 
chamar os justos, mas os pecadores. Essa 
declaração também define o perdão do pa- 
ralítico (2.5,10) e mostra que a salvação 
é um tema importante nessa passagem. A 
primeira metade do pronunciamento de 
Jesus era um provérbio comum e declarava 
que os médicos existem para aqueles que 
precisam deles, ou seja, os doentes. Jesus 
aplica essa máxima à esfera da cura espiri- 
tual: (aqueles que sabem que são) pecadores 
e não (aqueles que se consideram) justos. 
O “chamado” é para a salvação oferecida 
por Deus e para o discipulado. Os que se 
consideram justos não estão abertos para 
a realidade do reino, de modo que Jesus 
dedica tempo àqueles que estão abertos e 
aceitarão sua presença curadora. Como 
João Batista (1.4), Jesus veio pregar arre- 
pendimento (1.15) e perdão (2.5,10; cf. 
1.38), e ele vai onde as pessoas estão abertas 
para o evangelho.
Considerações teológicas
Não há lugar para o preconceito humano 
no reino de Deus, e Jesus prova isso ao 
concentrar-se nos excluídos da sociedade 
e ao demonstrar aceitação divina a todos 
os que se achegam a ele pela fé. O único 
critério para a salvação é a fé, e ela só é 
possível quando aqueles que se consideram 
justos se humilham diante de Deus e abrem 
o coração para Jesus. Não há lugar para 
um ministério que favorece um segmento 
específico da sociedade em detrimento de 
outro, e não há outro caminho que conduza 
a Deus a não ser pela fé.
o segmentoda sociedade que aceitava ao 
fazer refeições com os membros desse 
segmento.2 Jesus, então, se alinha a pe- 
cadores desprezados. “Pecadores” pode 
ser uma referência geral a pessoas comuns 
(‘am-ha'arets, “povo da terra”), que não 
seguiam as tradições orais com o mesmo 
zelo que os fariseus; é mais provável, 
porém, que se refira a “pecadores” notó- 
rios, gente de má fama na sociedade, como 
contraventores, prostitutas, jogadores, ou 
mesmo gentios. A comunhão à mesa com 
pessoas rejeitadas pelo restante da socie- 
dade é uma das características distintivas 
de Jesus (Lc 7.31-35; 10.38-42; 11.37-54; 
14.1-24; 19.1-10).
2.16 os mestres da lei, que eram fari- 
seus. Os mestres farisaicos da lei (a maioria 
dos escribas era do partido dos fariseus 
[veja comentário sobre 7.1]) ficam extre- 
mamente ofendidos com o fato de Jesus 
comer com esses excluídos (na época, esse 
gesto representava a aceitação dessas pes- 
soas na sociedade). Para eles, tudo estava 
errado com essa refeição: o alimento não 
havia sido devidamente preparado (não 
era kosher, conforme a designação atual), 
o ambiente não seguia o protocolo (Jesus 
tendo comunhão à mesa com pessoas ina- 
ceitáveis) e o local e os participantes eram 
impuros e imundos. Jesus não atentava 
para essas questões rituais quando con- 
flitavam com seu ministério do reino aos 
“doentes”. Essa é a primeira menção aos 
fariseus em Marcos. Eles se originaram 
dos Hassidim (“piedosos”) do período dos 
Macabeus e eram judeus extremamente 
ortodoxos que desenvolveram a tradição 
oral e se tornaram os intérpretes oficiais 
da Torá em seus dias. Preocupados espe- 
cialmente com a observância rígida das 
leis de pureza, da observância do Sahhath 
e de prescrições rituais em geral, eles ten- 
taram “construir uma cerca ao redor da 
lei” (para ajudar as pessoas comuns a
seus amigos escolheram o caminho da fé 
e experimentaram o perdão e um corpo 
são, ao passo que os escribas escolheram o 
caminho da rejeição e deixaram de receber 
a salvação em Jesus. Deus espera o tipo 
de fé ousada demonstrada pelo primeiro 
grupo, e os resultados excedem em muito 
o preço a ser pago. É preciso alertar as 
pessoas acerca do risco de perder a bênção 
e a presença de Deus em decorrência de 
um falso posicionamento religioso, que as 
afasta de Jesus.
3. Deus vê não apenas o pecado, mas 
também o potencial para o bem em cada 
um de nós. Era impensável que Jesus esco- 
lhesse um discípulo dentre os cobradores de 
impostos uma vez que eles estavam entre 
os pecadores mais notórios da época. Essa 
situação se repetiu inúmeras vezes na histó- 
ria da igreja, à medida que grandes líderes 
escolhidos por Deus foram convertidos de 
uma vida de depravação (p. ex., Agostinho, 
Billy Sunday). Precisamos entender que 
cada um de nós foi criado à imagem de 
Deus e, portanto, que ele colocou dentro 
de nós sementes de grandeza que podem 
produzir uma colheita de resultados ex- 
traordinários se simplesmente nos render- 
mos inteiramente a Cristo e permitirmos 
que seu Espírito guie nossa vida.
Para ilustrar o texto_____________
0 poder fortalecedor de uma fé ousada. 
Bíblia: Um dos temas constantes da Bíblia 
é a bênção decorrente de atos de fé. Vemos 
essa realidade em Marcos 2, no relato sobre 
o paralítico, mas também ao longo de todo 
texto bíblico. Abraão, por exemplo, só re- 
cebeu a bênção de se tornar pai de uma 
grande nação depois que deixou seu lar e 
seguiu a Deus. Moisés só viu o poder de 
Deus sobre o faraó depois que, em obediên- 
cia a Deus, enfrentou o faraó em nome do
Para ensinar o texto____________
I . A salvação é para todos, e Deus tem 
um lugar especial em seu coração para 
os rejeitados pela sociedade. Deus não 
favorece a elite deste mundo. Cristo veio 
para todos, não apenas para os ricos e 
poderosos. Isso fica evidente na escolha 
dos Doze por Jesus: nenhum deles perten- 
cia às classes mais altas, e vários (como 
Lev!) eram particularmente desprezados 
por seus com patriotas judeus. Jesus se 
associou a pecadores, fez refeições com 
eles (em sinal de aceitação plena) e se re- 
cusou a observar os limites que os líderes 
judeus impunham para separar-se dos 
indivíduos de má fama. Se Jesus estivesse 
aqui hoje, seu ministério seria voltado para 
os moradores de bairros pobres, para os 
necessitados e marginalizados. O ensino 
sobre o chamado de Levi precisa incluir 
a priorização da benevolência em nossas 
igrejas, e os líderes da igreja (presbíteros, 
diáconos, administradores) precisam aco- 
lher todas as classes sociais, não somente 
os abastados. Em Tiago 1.9,10 esse fato é 
bem expresso: o pobre deve “orgulhar-se 
de sua condição elevada” no Senhor, e o 
rico “deve orgulhar-se de sua condição 
humilde” no Senhor.
2. É preciso escolher entre fé/salvação e 
oposição/rejeição. Essa passagem não en- 
sina que problemas de saúde e doenças são 
resultado de pecado. O livro dejó comprova 
esse fato. Por vezes, o sofrimento pode ser 
consequência de pecado, pois a morte (e a 
enfermidade) entraram no mundo por meio 
do pecado (Rm 5.12). Com frequência, 
porém (talvez vez na maior parte das 
vezes), há questões mais amplas em jogo. 
De acordo com Tiago 1.2-4 e lPedro 1.6,7, 
o propósito das provações é aumentar nossa 
fé e nos ensinar perseverança. Essa é a ques- 
tão central aqui. Cada pessoa deve escolher 
entre a fé e o próprio ego. O paralítico e
Marcos 2.13-1745
nossos erros, nossos pecados e reconhecer 
que precisamos de Jesus. Precisamos ter 
cuidado com o orgulho que nos cega para 
nossa própria enfermidade e para a neces- 
sidade de um Salvador.
A importância de um ministério a o s 
excluídos.
Relato verídico: Certo pastor relata que, 
numa manhã de domingo, o tema de seu 
sermão foi “O amor e a graça de Deus 
para todos”. Naquele dia, estava presente 
um casal que parecia morar na rua. Eles 
estavam sentados logo à frente de um casal 
idoso que sempre vestia suas melhores rou- 
pas para ir à igreja. Na parte do culto em 
que os presentes se cumprimentam, esse 
casal idoso não apenas deu boas-vindas 
ao casal jovem, mas também o apresen- 
tou a outras pessoas. O afeto e a bondade 
da igreja para com os visitantes se esten- 
deram para além do culto. Antes de irem 
embora, o casal disse ao pastor: “Visitamos 
algumas igrejas nas últimas semanas, mas 
esta é primeira vez que nos sentimos aco- 
Ihidos. Vamos voltar!” . Nesse domingo, a 
igreja havia não apenas pregado a graça 
de Deus aos excluídos; ela viveu a mensa- 
gem. O pastor não viu o casal no domingo 
seguinte, mas recebeu um telefonema da 
mãe da moça, pedindo que ele visitasse a 
filha dela no hospital. Alguns dias depois 
daquele culto, a moça foi internada e, dez 
dias depois, ela faleceu. Nos últimos dias de 
sua vida, ela experimentou a graça de Deus 
por meio de uma igreja carinhosa e ouviu a 
mensagem da graça. Desafie seus ouvintes 
a serem uma igreja que acolhe os que são 
diferentes, que estão em dificuldades e os 
que são excluídos. É surpreendente o que 
Deus pode fazer quando oferecemos sua 
graça a outros.
povo escolhido. Os israelitas só vivencia- 
ram o milagre da separação das águas do 
rio Jordão depois que colocaram o pé no 
rio para atravessá-lo. Imagine como essas 
experiências fortaleceram a fé do povo. 
De modo semelhante, só vemos o poder 
de Deus e experimentamos sua graça cura- 
dora quando escolhemos dar um passo de 
fé. Deus já estendeu a mão para nós. A fé 
consiste em segurar sua mão de Deus e 
andar com ele em obediência. Pergunte a 
seus ouvintes: “Que passo de fé Deus está 
chamando você a dar?” .
0 poder destrutivo do orgulho.
Televisão: The Office. Em um episódio da 
terceira temporada dessa séria conhecida, 
Michael Scott (protagonizado por Steve 
Carell) é entrevistado para um emprego 
na sede da empresa Dunder Mifflin, na ci- 
dade de Nova York. A entrevista retrata, de 
modo bem-humorado, o orgulho humano.
Entrevistador: “Vou começar com uma 
pergunta direta. A seu ver, quais são suas 
maiores virtudes como gerente?
Michael: “Que tal eu lhedizer quais são 
meus maiores defeitos? Eu trabalho demais. 
Eu me preocupo demais. E, às vezes, eu 
me envolvo demais com meus projetos na 
empresa”.
Entrevistador: “Certo. E quais são suas 
virtudes?” .
Michael: “Bem, na verdade, meus de- 
feitos são minhas virtudes” .
Não é preciso dizer que Michael não 
foi contratado para o cargo. Infelizmente, 
muitos de nós somos como Michael Scott (e 
como os fariseus em Marcos 2). Não esta- 
mos dispostos a enxergar nossas fraquezas,
46Marcos 2.13-17
Enquanto Jesus cam inha à beira do mar da Galileia, 
ensinando as multidões e reunindo seguidores, 
encontra Levi, um desprezado cobrador de 
impostos e, mais tarde, faz uma refeição na 
casa dele. A fotografia mostra a região perto de 
Cafarnaum vista do mar da Galileia.
M arcos 2.18— 3.6
Jesus: Senhor e
"pior transgressor״ da Lei
Ideia central Em Jesus teve início a nova era, e essa nova realidade não pode ser 
inserida no antigo sistem a. Jesus, 0 Filho do Homem, tem autoridade sobre a Torá e 
é Senhor do Sabbath.
jejum era obrigatório somente no Dia da 
Expiação (Lv 16.29-34 [a maioria dos es- 
tudiosos concorda que Jesus e seus discípu- 
los provavelmente observavam esse jejum, 
mas não os semanais]), mas havia outros 
períodos de jejum, associados a experièn- 
cias traumáticas da vida de Israel (Zc 7.5; 
8.19, ambos ligados ao Exílio). Os fariseus 
jejuavamduas vezes por semana (Lc 18.12), 
às segundas e às quintas-feiras, e é provável 
que os discípulos de João seguissem essa 
prática. Em geral, os jejuns representavam 
arrependimento dos pecados ou tristeza por 
morte ou enfermidade.
2.19 Como podem os convidados do 
noivo jejuar enquanto este está com eles? 
Essas pessoas (lit., “filhos do salão de casa- 
mento”) talvez fossem os padrinhos ou con- 
vidados do noivo. É mais provável, contudo, 
que Jesus se refira de maneira mais ampla 
a todos os convidados que compareceram 
à festa (seus seguidores). A pergunta é for- 
mulada para obter uma resposta negativa: 
“Os convidados não podem jejuar, não é?”. 
A analogia de Jesus é bastante apropriada. 
O jejum expressa luto e tristeza, enquanto a 
festa de casamento é uma ocasião de alegria 
intensa. As festas de casamento duravam 
sete dias e havia fartura de boa comida e
Para entender o texto___________
Texto em contexto
A oposição a Jesus se intensifica a cada 
episódio dessa seção. O terceiro dos cinco 
relatos narrados em 2.1—3.6 (a cura física 
c espiritual do paralítico de Cafarnaum; o 
chamado de Levi e o jantar com os peca- 
dores; a pergunta sobre o jejum; o senhorio 
do sábado e a cura no sábado) apresenta 
a razão do conflito: em Jesus, teve início 
a nova era, na qual é necessário que ele 
desafie as antigas tradições. Aqueles que 
se apegam às coisas antigas (simbolizadas 
pela questão do jejum) foram suplantados, 
e a nova realidade do reino não pode ser 
incluída no antigo sistema. Essa realidade 
então, leva aos dois últimos episódios, isto 
é, as controvérsias acerca da observância 
do Sahhath (os dois primeiros |2.1-12; 
2.13-17] tratam de perdão dos pecados e 
de aceitação na nova comunidade).
Considerações interpretativas
2 . 8 ו os discípulos de João e os discípulos 
dos fariseus estavam jejuando. Esses dois 
grupos representam a antiga ordem, que 
ainda observa as práticas tradicionais. O
48M arcos 2 .18— 3.6
Principais temas de Marcos 2.18— 3.6
■ 0 jejum faz parte das disciplinas espirituais saneio- 
nadas por Cristo para a era da igreja.
■ O vinho novo do ensino do reino requer uma nova 
comunidade e um novo ritual.
• Para Jesus, o Sabbath visa o descanso, cura e ado- 
ração, e não regras e prescrições.
■ Jesus é Senhor absoluto de todas as coisas.
flexíveis, mas, com o tempo, se tornavam 
ressecados e quebradiços. Vinho novo é 
vinho não fermentado e, uma vez que o 
vinho se expande à medida que fermenta, 
produz Tachaduras no couro velho e vaza, 
de modo que o recipiente se torna inútil. 
Ambos se perdem. O vinho novo do ensino 
do reino apresentado por Jesus precisa 
ser acondicionado na realidade da nova 
aliança, da nova comunidade e das novas 
práticas que ele mesmo está instituindo.
2.24 o que é ilícito no Sabbath. De acordo 
com o quarto dos Dez Mandamentos 
(Êx 20.8-11; cf. I.v 23.3), o Sabbath (do pôr 
do sol de sexta-feira até o pôr do sol de sá- 
bado) devia ser um dia de descanso no qual 
não se realizava trabalho de espécie alguma. 
No entanto, a questão do que constituía tra- 
balho era problemática para os fariseus, de 
modo que desenvolveram a Torá oral para 
fornecer exemplos específicos do que 
era proibido; colher espigas de 
grãos no Sabbath era um dos 
casos.4 Aqui, os discípulos de 
Jesus atravessam um campo 
e colhem algumas espigas 
de trigo para comer 
enquanto caminham
vinho.1 Assim como Yahweh é o noivo de 
Israel, Jesus é o noivo da nova comunidade 
do reino, ou seja, a igreja.2
2.20 naquele dia jejuarão. As duas me- 
táforas que se concentram no tempo em 
que o noivo “está com eles” e em que ele 
“será tirado deles” se referem inequivo- 
camente ao período de Jesus na terra e a 
sua crucificação, ressurreição e ascensão. 
Os seguidores de Jesus vivenciam a alegria 
do reino que ele trouxe consigo, portanto 
é tempo de celebração. É possível que “ser 
tirado” tenha sentido duplo: ser tirado deste 
mundo pela morte e ser levado para a glória 
por Deus. O primeiro sentido, porém, é o 
principal, pois, certamente, Jesus se refere 
a sua morte vindoura por meios violentos 
(“naquele d ia” = em sua crucificação). 
Posteriormente, a igreja interpretou esse 
versículo de forma literal e passou a jejuar 
às quartas e às sextas-feiras.
2.21 um remendo de pano novo em 
roupa velha. As duas parábolas de 2.21,22 
usam imagens diferentes para dizer a 
mesma coisa: colocar algo novo em algo 
velho. A mensagem é a incompatibilidade 
entre a nova e a antiga aliança. A roupa 
velha já encolheu c não mudará mais de 
tamanho. O retalho de pano novo costu- 
rado a ela encolherá quando for lavado e 
a linha rasgará o manto velho e também 
o retalho novo. Ambos serão destruídos. 
O mesmo se aplica à mensagem de Jesus 
acerca do novo reino.
2.22 vinho novo em velhos recipientes de 
couro. Joel Marcus faz uma excelente co- 
locação: “A necessidade de preservar (não 
diluída pelo compromisso com as estruturas 
da antiga era) o poder escatológico que 
irrompeu no mundo com a vinda de Jesus é 
resumida pelo brado
que encerra a pas- 
sagem: ‘Vinho novo 
em odres novos!’” .3 
Quando novos, os 
odres (recipientes de 
couro) eram macios c
Os novos ensinamentos de Jesus 
j transtornam as tradições dos escribas 
e fariseus. Jesus compara suas próprias 
j palavras a vinho novo derramado em 
recipientes de couro velhos. Vemos aqui uma 
 réplica atual de um recipiente de couro. Está ן
à mostra em uma casa do terceiro século d.C. 
restaurada em Qatzrin, nas colinas de Golã.
Marcos 2 .18— 3.649
observarem as normas e os preceitos desse 
dia. Era uma dádiva de Deus e, como tal, 
devia servir à humanidade, e não se tornar 
seu senhor. Para nós, deve ser um dia de des- 
canso e adoração, e não uma fonte de regras.
2.28 o Filho do Homem é Senhor até 
mesmo do Sabbath. Isso encerra a série de 
milagres apresentados até aqui. O resultado 
(“Portanto \hõste] o Filho do Homem...” ) 
das ações de Jesus é prova indiscutível de 
que, como o “Filho do Homem” (veja qua- 
dro lateral no comentário sobre 2.1-12; o 
principal tema de Dn 7.13,14 é o domínio 
universal) glorificado, ele é Senhor universal 
de todas as coisas e, mais específicamente 
aqui, “do Sabbath” e de suas prescrições. 
Fie é o intérprete definitivo da Torá (uma 
das ênfases do Sermão do Monte [Mt 5—7|) 
e oferece descanso sabático para a alma 
(Mt 11.28-30). O que Cristo trouxe con- 
sigo é “maior que o templo” (Mt 12.6 [no 
mesmo relato que esse de Marcos|) e, se 
Cristo sobrepuja o templo, também exerce 
autoridade sobre a observância do Sabbath. 
Esse é o ponto culminante da Cristologia 
de Marcos e mostra que, para ele, Jesus éinvestido de autoridade divina.
3.2 procurando um motivo para 
acusar Jesus. Eles estão de volta à si- 
nagoga em Cafarnaum (como indica 
a expressão “noutra ocasião”), e mais 
uma demonstração inquestionável 
da autoridade de Jesus está prestes a 
ocorrer. O relato é dividido em três 
partes: contexto (v. 1,2), confronto 
(v. 3,4) e milagre (v. 5,6). Cada uma 
começa com um ato de 
Jesus e termina com 
uma reação negativa 
por parte dos líderes. 
F evidente que eles rejeitavam 
Jesus como “Senhor do Sabbath” e, 
portanto, esperavam que ele trouxesse 
descrédito sobre si mesmo ao quebrar 
uma das regras acerca da cura (= tra- 
balho) no Sabbath.
(uma prática permitida desde que não se 
usasse uma foice). Para os fariseus, contudo, 
os discípulos quebraram a lei farisaica, pois 
isso constituía colher no Sabbath.
2.25,26 Davi /.../ comeu os pães consa- 
grados. O episódio em questão se encontra 
em ISamuel 21.1-6, em que Davi, futuro 
rei de Israel e precursor messiânico, fugia 
de Saul.5 Ele e os homens que o acom- 
panhavam comeram os pães consagrados 
reservados para os sacerdotes (Ex 25.30; 
Lv 24.5-9). O sacerdote entregou o pão de 
bom grado, e em momento algum Deus 
julgou Davi, de modo que Jesus usa esse 
episódio como exemplo de uma situação 
em que a Lei foi colocada de lado devido 
à necessidade de Davi que, como futuro rei 
e precursor do Messias, tinha autoridade 
para exigir que lhe dessem o pão consa- 
grado. Portanto, é ainda mais apropriado, 
colocar de lado uma tradição oral em favor 
do próprio Messias, o Filho de Deus.
2.27 O Sabbath foi feito por causa do 
homem. O descanso de Deus, o Sabbath, vi- 
sava a beneficiar e fortalecer o povo de Deus. 
A ordem para guardar o Sabbath nunca 
teve como propósito obrigar as pessoas a
Quando os fariseus criticam as ações dos discípulos no 
Sabbath, Jesus aponta para o exemplo de Davi, que 
pegou e com eu os pães consagrados do tabernáculo.
A necessidade humana suplanta a observância estrita 
das prescrições da Lei. Esse m odelo da mesa dos Pães 
da Presença com os pães consagrados faz parte de uma 
réplica do tabernáculo em Tlmna, Israel.
50M arcos 2 .18— 3.6
Evangelhos) estão convencidos de que Jesus 
se tornou uma ameaça tão séria que é ne- 
cessário matá-lo. Portanto, tramam como 
tirar sua vida. A campanha de oposição a 
Jesus em 2.1—3.6 já chegou a seu ápice.
Considerações teológicas
Duas considerações se destacam. (1) Em 
Jesus, o reino de Deus — o reinado de Deus 
sobre este mundo — chegou de uma nova 
maneira, e o povo de Deus deve acolher 
essa novidade e ter uma atitude apropriada 
diante dela. Uma nova era com novos 
princípios irrompeu no meio do povo de 
Deus, e os cristãos são chamados a imitar 
essa nova realidade do reino em sua vida e 
adoração. Essa ideia é ilustrada pelo prin- 
cípio do novo Sabbath: as regras do ritual 
foram substituídas por seu propósito desde 
o início - descanso e adoração. (2) Jesus é 
Senhor de tudo, e aqueles que rejeitarem sua 
autoridade prestarão contas a Deus. Todos 
que são caracterizados por um “coração 
obstinado” precisam sujeitar-se a Deus em 
Jesus ou arcar com as consequências.
Para ensinar o texto____________
1. O jejum é uma disciplina espiritual para 
a era presente. É fundamental ajudar as pes- 
soas a entender o significado e o propósito 
do jejum. No tempo de Jesus, muitos asso- 
ciavam o jejum à lamentação pelo pecado 
e à tristeza em momentos de tragédia, mas 
também para obter o favor de Deus com a 
intenção de manipulá-lo a fazer coisas. Na 
nova era iniciada por Jesus, o jejum conti- 
nua a ser praticado (At 13.2,3; 14.23), mas 
sempre como parte da adoração e de oração 
profunda. Jamais deve ser uma tentativa de 
manipular Deus. Quando os crentes jejuam, 
nunca devem fazê-lo com a intenção de 
levar Deus a atender a seus pedidos. Antes, 
jejuar significa abrir mão de necessidades 
importantes (em geral alimento, mas tam-
3.4 O que é lícito /.../ salvar a vida ou 
matarf De modo semelhante a 2.9 (cf. Dt 
30.15-19), essa é uma questão associada 
à Halacá, o conjunto de normas rabínicas 
para a vida diária. Suas exigências rígidas 
deixariam a “mão atrofiada” do homem 
incurada em vez de restaurar sua saúde. 
Logo, estariam praticando “o mal”, e não 
“o bem”. Jesus apresenta, desse modo, o 
impasse de um sistema que, de modo irô- 
nico, é um obstáculo para o bem pretendido 
por Deus e impede que seus verdadeiros 
propósitos sejam realizados.
Mas eles permaneceram em silêncio. 
Uma vez que os fariseus tinham uma res- 
posta pronta (“Não é uma questão de 
vida ou morte |sua lei só permitia a cura 
caso a vida corresse perigo], então cure o 
homem amanhã, e não hoje”), seu silêncio 
causa estranheza. Talvez não desejassem se 
envolver em mais uma discussão, e talvez 
soubessem que, a despeito de sua resposta, 
se colocariam em uma situação complicada. 
No entanto, Marcos usa o silêncio cinco 
vezes (nos outros Evangelhos, são quatro 
ocorrências no total); aqui e em 1.25 e4.39 
é uma referência à autoridade e ao poder 
de Jesus. Diante da autoridade dada por 
Deus a Jesus, eles não têm o que responder.
3.5 irado e profundamente entristecido 
por causa de seu coração obstinado. As 
emoções profundas de Jesus afloram e 
refletem a justiça e o amor de Deus de- 
monstrados por ele nessa situação — a ira 
de Deus para com o pecado e, ao mesmo 
tempo, sua tristeza diante do dilema da 
humanidade caída. A expressão usada é, 
literalmente, “dureza de seu coração”, e 
também descreverá os discípulos em 6.52 
e 8.17. A recusa insensível e obstinada em 
sujeitar-se às verdades de Deus tipificava 
os líderes.
3.6 como poderíam matar ] esus. Sem 
dúvida, os líderes religiosos (fariseus) e 
políticos (herodianos, partidários de He- 
rodes que sempre se opõem a Jesus nos
M arcos 2 .18— 3.651
legalista a Deus e à adoração é a propensão 
a imaginar que a obediência às regras é 
suficiente em nosso relacionamento com 
Deus. Esquecemo-nos com muita facilidade 
da compaixão e das boas obras. Esquece- 
mo-nos do princípio fundamental de Oseias 
6.6: “Desejo misericórdia, não sacrifícios” . 
O Sabbath tem somente dois requisitos: 
adoração e descanso. É um dia separado 
para Deus e para a família. Não deve ser 
apenas mais um dia secular, mas também 
não devemos desprezar uns aos outros com 
respeito à observância do Sabbath. Como 
Paulo afirma em Romanos 14.1— 15.13, 
devemos respeitar as convicções religiosas 
uns dos outros a respeito de questões como 
dias santos e leis alimentares.
4 .Jesus é Senhor de tudo. O ponto cen- 
trai de 1.21—3.6 é a autoridade de Jesus 
sobre toda a criação. Esse fato se tornará 
ainda mais evidente nos relatos de milagres 
em 4.54— 5.43, em que Jesus é apresentado 
como Senhor sobre a natureza, sobre a es- 
fera dos demônios e sobre a enfermidade 
e a morte. Diz-se, com frequência, que o 
Evangelho de Marcos tem uma “baixa cris- 
tologia”, pois os discípulos se atêm apenas 
à confissão de que Jesus é o Messias. Na 
realidade, Marcos afirma implicitamente a 
ênfase de João sobre Jesus como Deus. Ele é 
o Filho de Deus e, como Filho do Homem, 
cumpre o domínio universal apresentado 
em Daniel 7.13,14. A adoração requer a
bém relações sexuais no casamento. Veja 
ICo 7.5) a fim de perceber que Deus é nossa 
maior necessidade. Em outras palavras, seu 
objetivo é tornar Deus nossa prioridade 
absoluta, e não obter coisas de Deus. Ainda 
assim, o jejum é um aspecto importante 
da adoração e das disciplinas espirituais.
- 2. Uma nova comunidade e um novo 
ritual caracterizam o vinho novo de 
Cristo. Os “recipientes de couro novos” 
que precisam acondicionar a nova reali- 
dade do reino de Jesus se referem, quase 
certamente, à novidade de ritual e de co- 
munidade que definia a igreja do Novo 
Testamento. Jesus, em sua morte e ressur- 
reição, entrou no “maior e mais perfeito 
tabernáculo” (Hb 9.11) e abriu o templo 
celestial para nós, dando-nos novo acesso 
a Deus e uma “nova aliança” (Jr 31.31-34 
= Hb 8.8-12). A igreja é o novo templode 
Deus (ICo 3.16; lPe 2.4,5) e cada um de 
nós, dentro do qual o Espírito habita, é 
um Lugar Santíssimo móvel. No Evange- 
Iho de João, Jesus fala com frequência de 
nosso novo poder de oração (14.13,14,26; 
15.16; 16.23,24,26). Em Cristo, a igreja 
está imersa em novidade.
3. A adoração e o descanso são os ver- 
dadeiros propósitos das leis do Sabbath. 
Os escribas e fariseus desenvolveram um 
conjunto complicado de regras para a 
observância do Sabbath,6 e essa tendência 
de definir o sétimo dia 
por meio da adesão es- 
trita a normas persiste 
teimosamente na igreja 
desde então. O pro- 
blema da abordagem
Mais uma vez, Jesus desafia as prescrições 
rígidas dos fariseus para 0 Sabbath ao entrar 
na sinagoga e curar um homem com a mão 
atrofiada. A fotografia mostra a parte interna 
de uma sinagoga (quarto a quinto século 
d.C.) restaurada em Cafarnaum. Ruínas de 
uma sinagoga do primeiro século d.C. foram 
encontradas debaixo do calcário branco.
M arcos 2 .1 8 — 3 .6
detalhadas para garantir que o povo obe- 
deceria aos mandamentos de Deus.
A observância do Shabbath.
Experiência cotidiana: O objetivo do Sha- 
bbath é nos proporcionar um tempo de 
descanso e concentrar nosso coração em 
Deus. Pesquisas mostram que precisamos 
encarecidamente de descanso. Veja os se- 
guintes dados fornecidos pela empresa Key 
Organization Systems:7
• Quase um terço dos americanos adul- 
tos que trabalham dorme menos de 
seis horas por noite.
• A privação de sono custa a empresas 
dos EUA 63,2 bilhões de dólares por 
ano em perda de produtividade.
• Um terço dos funcionários de empre- 
sas sofre de estresse crônico.
A ordem para observar o Shabbath 
não visa a ser um peso, mas uma grande 
dádiva. Quando entendemos o propósito 
do Shabbath, priorizamos esse dia para 
o descanso físico, emocional e espiritual, 
um descanso do qual muitos necessitam 
desesperadamente em nossa cultura.
0 lugar do jejum na vida cristã. 
Testemunho: O jejum é uma disciplina cristã 
bíblica e histórica relegada a segundo plano 
por muitos cristãos de hoje. Peça a alguém 
em sua igreja que tenha uma experiência 
positiva de jejuar (não como tentativa de 
manipular Deus, mas como oportunidade 
de render-se a ele mais plenamente) para 
compartilhar algum aspecto dessa expe- 
riência. Desafie os ouvintes a assumir o 
compromisso de jejuar com regularidade; 
esse jejum pode abranger prazeres como 
televisão, computador e telefone celular.
consciência de que Jesus é mais que nosso 
amigo e guia; ele é nosso Salvador e Senhor.
Para ilustrar o texto_____________
A n o va comunidade e 0 novo ritual.
Lição prática: Costure um remendo grande 
de lã não lavada a uma peça de roupa velha 
(a lã encolhe bastante quando é lavada). 
Lave a roupa em água quente e coloque-a 
na secadora. Pode ser que o remendo não 
rasgue, mas certamente nem ele nem a peça 
de roupa serão utilizáveis.
0 problema do iegaiismo.
Negócios: A fim de alertar os consumido- 
res para possíveis riscos, vários produtos 
incluem advertências no rótulo. O esforço 
para evitar qualquer suscetibilidade a san- 
ções civis, contudo, pode resultar em adver- 
tências ridículas. Eis alguns exemplos en- 
contrados em produtos ou em seu manual:
• Limpador de vidros com amônia: 
“Não aplique nos olhos”.
• Furadeira elétrica para marcenaria: “Não 
deve ser usada como broca dental”.
• Tintura para cabelo: “Não use como 
calda para sorvete”.
• Medicamento para dormir: “Pode 
causar sonolência”.
• Ar condicionado: “Não deixe aparelhos 
de ar condicionado caírem da janela”.
Embora vários dos rótulos de advertência 
sejam engraçados, refletem o impulso de ter 
cautela diante de um perigo cm potencial. 
Em um esforço para garantir um compor- 
tamento agradável a Deus e evitar possíveis 
sanções por alguma transgressão, os líderes 
religiosos desenvolveram uma tradição oral 
de leis religiosas por vezes excessivamente
M arcos 2 .18— 3.653
Marcos 3.7-19
O cuidado para com os 
necessitados e o comissionamento 
dos apóstolos
Ideia central Mais uma vez, Jesus sa i do contexto urbano e ministra junto ao mar da
Galileia, onde cura enfermos e demonstra autoridade sobre todos os poderes. Ao mesmo 
tempo, vemos aqui 0 segundo estágio do discipulado, em que Jesus elege e capacita 
doze discípulos/apóstolos e os torna 0 novo Israel restaurado.
(3.7-19). F.m seguida, virá o lado negativo, 
que se concentra na oposição não somente 
dos líderes, mas também da própria família 
de Jesus (3.20-35).
Considerações interpretativas
3.7,8 Jesus retirou-se /.../ para o lago /.../ 
muitas pessoas foram até ele. Isso não 
constitui uma fuga de Jesus por medo do 
perigo da conspiração indicada em 3.6 (a 
distância em questão não seria suficiente 
para protegê-lo). Esse movimento de reti- 
rar-se para o mar/lago é comum em Marcos 
depois que Jesus confronta o mal e, como 
em 2.13, para alguns isso simboliza esse 
confronto (pode ser que o mar represente 
provações e tempestades [cf. 4.35-41]).2 
Em vez disso, ele apenas sai de Cafarnaum 
(possivelmente pelo tamanho das multidões 
que o assediam) e vai ao lago para minis- 
trar. A “grande multidão” dá continuidade 
ao tema das multidões que vão atrás de
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Essa passagem (3.7-12) dá início a uma 
nova seção do ministério junto ao lago 
(3.7—6.6). Ao mesmo tempo, começa outro 
ciclo em Marcos (definido pelo ministério 
de Jesus aos discípulos, às multidões e aos 
líderes). William Lane argumenta de forma 
convincente que as duas primeiras seções 
começam da mesma forma, com um resumo 
(1.14,15 = 3.7-12) seguido da escolha dos 
discípulos (1.16-20 = 3.13-19).' Nesse sen- 
tido, a presente passagem traz dois ciclos 
(3.7—4.34; 4.35—6.6) e em ambos, os 
temas de compromisso e missão (discípu- 
los), popularidade e cura (multidões) e re- 
jeição e oposição (líderes) são desenvolvidos 
em mais detalhes. Esta passagem inicial é o 
lado positivo, que se concentra na autori- 
dade compassiva de Jesus ao curar aqueles 
que o procuram e na sequência a escolha dos 
Doze como núcleo da comunidade do reino
54M arcos 3.7-19
Principais temas da Marcos 3.7-19
• A cura compassiva de Jesus estende-se a todos 
que vêm até ele.
■ Jesus tem o controle da Igreja e elege sua liderança.
■ Discipulado significa, acima de tudo, tornar-se se- 
melhante a Cristo.
• Os líderes da igreja exercem, em sua missão, a 
autoridade de Jesus.
curou “muitos”, uma expressão semítica 
para “todos” (o texto paralelo, Mt 12.15, 
diz que Jesus “curou todos eles”), ou seja, 
curou todos que vieram até ele. Consequen- 
temente, as multidões se comprimem para 
aproximar-se de Jesus, cientes de que seu 
poder é tão grande que podem ser curadas 
só por “tocá-lo” (fato comprovado pela 
mulher com a hemorragia em 5.25-29).
3.11 os espíritos imundos / . . . /gritavam: 
“Tu és o Filho de Deus”. Como em 1.24, 
os demônios pronunciam a verdadeira 
identidade de Jesus. Também nesse caso, 
a intenção deles não é revelar para os pre- 
sentes quem Jesus é, mas, pelo contrário, 
opor-se a ele e, provavelmente, tentar obter 
algum controle sobre ele (veja comentário 
sobre 1.24 ).Jesus os “repreende com se ve- 
ridade” (NIV: “deu ordens rigorosas”), 
uma expressão que usa o verbo forte 
epitimaõ, empregado também na oca- 
sião em que Jesus repreende e silencia o 
vento e o mar (4.39). Trata-se de uma 
batalha cósmica, e a vitória de Jesus é 
devastadora e final. A ordem para não 
falar faz parte do segredo messiânico 
descrito em 1.34. Jesus não queria 
que sua identidade redentora fosse 
atirada por toda parte na situação
É provável que Jesus use um pequeno barco 
de pesca para afastar-se da praia e poder falar 
às multidões mais facilmente. Esse mosaico do 
primeiro século d.C., da antiga cidade de Magdala, 
mostra um barco de pesca.
Jesus (1.28,33,45; 2.2,13). Além do povo 
da região que segue Jesus (neste caso, não 
se trata de um sinal de discipulado, mas 
apenas de gente dos arredores que vai atrás 
de Jesus), também chegampessoas de todas 
as partes da Palestina. A Idumeia é a região 
de Edom próxima ao Mar Morto, ao sul 
da Judeia (atual “Neguebe”). A Pereia é a 
região judaica “do outro lado do Jordão”, 
o lado leste da parte inferior do rio Jor- 
dão, junto ao litoral leste do Mar Morto. 
Tiro e Sidom ficam na Síria, no litoral do 
Mediterrâneo, ao norte de Israel. A região 
indicada é ampla e abrangia praticamente 
toda a Palestina (com exceção de Samaria 
e Decápolis).
3.9,10 um pequeno barco / . . . / para 
evitar que a multidão o comprimisse. As 
multidões que “comprimiam” Jesus (mais 
precisamente “pressionavam, esmagavam” 
\thlibõ, um verbo forte]) o haviam impedido, 
anteriormente, de ministrar nas cidades
(1.45) e, em algumas ocasiões, Jesus usa 
um barco como púlpito flutuante para 
conseguir falar ao povo (também 4.1). É 
provável que esse fosse um dos barcos de 
pesca de 1.16-20. Os poderes extraordi- 
nários de cura de Jesus haviam fascinado 
as multidões. Marcos afirma que Jesus
M arcos 3.7-19
bastante convincentes, de modo que prefiro 
considerá-las parte do texto. Nesse caso, os 
1 )oze foram chamados “apóstolos” desde o 
princípio (veja também Mc 6.30) e receberam 
autoridade como agentes oficiais ou enviados 
de Jesus, designados os “apóstolos". O termo 
se refere àqueles que eram “enviados” oficial- 
mente como representantes em uma missão.
estivessem com ele {...] os enviasse a 
pregar e tivessem autoridade para expul- 
sar demônios. Vemos aqui três aspectos 
do discipulado. Acima de tudo, ontologi- 
camente, os discípulos devem “estar com 
ele”, isto é, devem acompanhar Jesus em 
seu ministério e absorver tudo a seu res- 
peito. A missão deles é a missão de Jesus, 
e o ministério deles é uma extensão do 
ministério dele. Devem também “imitar” 
Jesus em tudo (cf. ICo 11.1; Ef 4.13; 5.1; 
lTs 1.6; 2.14), uma vez que o cerne do 
discipulado é a semelhança a Cristo. Os ou- 
tros dois pontos são derivados do primeiro 
e se tornam os aspectos funcionais, algo 
notável dentro de uma estrutura rabínica 
na qual os discípulos geralmente atinham- 
-se a permanecer assentados aos pés do 
mestre e a memorizar seus ensinamentos. 
Jesus envolve os Doze ativamente desde o 
início. Como apóstolos, eles são “envia- 
dos” (em grego, apostellõ, forma verbal de 
apostólos, “apóstolo” ) com autoridade e, 
como Jesus, eles “pregarão” o evangelho 
(1.14,15,38,39; cf. 13.10; 14.9), ou seja, 
proclamarão a mensagem do reino de Jesus 
e chamarão as pessoas ao arrependimento 
e à fé (1.15). Por fim, eles recebem “autori- 
dade para expulsar demônios” (repetida em 
6.7), algo espantoso quando percebemos 
que, somente depois de o próprio Jesus ex- 
pulsar esses espíritos (1.25,34,39; 3.11), ele 
confere sua autoridade a seus seguidores. 
Eles serão bem-sucedidos nessa missão em 
6.13, mas não em 9.14-29.
3.16 Estes são os doze que ele nomeou. 
A ênfase do Novo Testamento é sobre os
potencial mente sediciosa da Palestina do 
primeiro século. A conotação política era 
perigosa demais, e os judeus tinham a ex- 
pectativa de um tipo errado de Messias, ou 
seja, um rei conquistador. De certo modo, 
Jesus queria viajar incógnito,3 para certifi- 
car-se de que sua natureza messiânica seria 
revelada por seus atos, especialmente pelo 
sofrimento na cruz.
3.13 chamou a si aqueles que ele quis, e 
eles vieram. O fato de Jesus levar seus disci- 
pulos a subir “o ” monte (no grego o artigo 
definido está presente) provavelmente traz à 
memória a convocação de Moisés por Deus 
para subir o Sinai na entrega da Lei (Êx 19; 
24; 34) e enfatiza a soberania de Cristo na 
escolha dos Doze (também 6.45,46; 9.2).4 
Essa é uma narrativa de comissão, que em- 
prega a linguagem da eleição: chamou, quis, 
vieram, nomeou. Apresenta-se como uma 
nomeação divina na história da salvação.
3.14,15 Nomeou doze [designando-os como 
apóstolos], Até agora. Marcos apresentou 
cinco discípulos (1.16-20; 2.13-17) e aqui, 
Jesus expande esse número ao escolher o nú- 
cleo formado por doze de seus seguidores. 
O grupo apostólico ficará conhecido como 
“os Doze” (p. ex., 4.10; 6.7; 9.35), número 
simbólico, pois traz à memória as doze tribos 
de Israel e constitui a restauração do povo 
de Deus em um “novo Israel”, a igreja (parte 
dos “odres novos” de 2.22). Observamos aqui 
dimensões escatológicas (as tribos são reagru- 
padas e reunidas à medida que Jesus traz re- 
denção e reconstitui a nação como um todo) 
e eclesiológicas (simbolizam a nação, e Jesus 
estabelece um novo povo que ficará sob a 
supervisão deles). As palavras entre colchetes 
acerca de sua identidade apostólica não estão 
presentes em alguns manuscritos (A L syr), 
mas aparece em alguns dos principais (א B 
Θ e outros). Embora para muitos estudiosos 
(mesmo os que ajudaram na composição da 
NIV) essas palavras sejam uma assimilação 
de Lucas 6.13, as evidências externas são
56M arcos 3.7-19
escolha dos Doze feita por Jesus é surpreen- 
dente à luz da natureza dos escolhidos; ele 
selecionou indivíduos fracos e politicamente 
marginalizados para transformar o mundo. 
Como Paulo afirma em 2Coríntios 11.30, 
“Se devo me orgulhar, que seja ñas coisas 
que mostram a minha fraqueza”.
Para ensinar o texto____________
1. Jesus oferece cura a todos que vão até ele. 
Até aquí em Marcos (1.32-34,39; 2.11,12; 
3.5,10,11), a grande compaixão de Jesus 
por todos o levou a curar cada um dos 
doentes ou endemoninhados que foi até 
ele. Jesus se preocupa não apenas com o 
lado espiritual da humanidade, mas com a 
pessoa como um todo. Demonstra cuidado 
e ministra ao “corpo” em sua totalidade, 
uma vez que no Novo Testamento, sorna 
se refere não apenas ao corpo físico, mas 
a tudo o que constitui a pessoa: “Repre- 
senta o todo em contraste com as partes 
(Mt 5.29s.; 6.22s.; Tg 3.2s.,6); corpo e alma 
[...] são os dois aspectos inseparáveis do 
ser humano (Mt 6.25)”6 (também em Rm 
12.1). Quando a cura envolve “fé”, seu 
efeito é percehido tanto física quanto espi- 
ritualmente (veja “Para ensinar o texto” em 
2.1-12). Jesus e a igreja de hoje precisam 
ministrar ao individuo como um todo e 
atender às necessidades físicas, mentais e
Doze como grupo, e não como individuos. 
Não sabemos coisa alguma a respeito da 
maioria deles, exceto por sua presença no 
grupo. Ainda assim, eles foram os primeiros 
líderes da igreja e seu alicerce (Ef 2.20; Ap 
21.14). Aqui, veremos apenas alguns deles 
rapidamente.'’ Simão recebeu um novo nome: 
“Pedro” ou “Cefas” (a forma aramaica) em 
João 1.42 como profecia de que ele se tor- 
naria a “rocha” sobre a qual a igreja seria 
edificada (Mt 16.18). O apelido “Boanerges” 
(“filhos do trovão”) dado a Tiago e a João 
talvez indique o temperamento “tempestu- 
oso” deles, demonstrado por sua atitude 
julgadora em Marcos 9.38 e Lucas 9.54. 
Tratamos de Mateus acima, em 2.14. Con- 
vém mencionar outros dois. “Tadeu”, que 
aparece aqui (e em Mt 10.3) é substituído por 
“Judas, filho de Tiago”, em Lucas 6.16. É 
bent provável que os dois nomes se refiram à 
mesma pessoa (como “Simão/Pedro”, “Levi/ 
Mateus”, “Saulo/Paulo”). Em grego, Simão, 
“o zelote” é, na verdade, “um cananeu”, 
termo aramaico que significa “zelote” (como 
em Lc 6.15), nome dado ao movimento de 
insurreição judaico que surgiu no início do 
primeiro século d.C. No entanto, seus par- 
ticipantes só passaram a ser chamados de 
“zelotes” na década de 50. Dessa forma, 
é provável que o termo zelote, usado para 
descrever Simão (v. 18), se trate de uma re- 
ferência geral à associação desse apóstolo 
com aqueles que se opunham a Roma. A
Jesus sobe a encosta de um monte 
para nomear os doze homens que 
serão seus discípulos mais próximos.
A passagem bíblica não especifica o 
monte: o mais importante é que se 
tratava de um lugar ermo, afastado das 
multidões. Essa vista do monte Arbel 
mostra o mar da Galileia e a região 
em que Jesus ministrou ativamente 
nas passagens comentadas até aqui. 
Várias regiões dos montes na Galileia 
poderíam servir de retiro tranquilo para 
que Jesus tivessetem ׳ po a sós com os 
Doze escolhidos.
de Deus, investidos de sua autoridade em 
nossa missão. A base para isso é João 20.22, 
em que Jesus afirma: “Recebam o Espírito 
Santo” (em Jo 20.21,22, o Deus triúno nos 
envia). Não precisamos depender de nossas 
aptidões gerais para ser “bem-sucedidos” 
(diante de Deus, e não conforme o mundo) 
em nosso trabalho para ele. A Trindade em 
sua completude nos concede sua presença e 
seu poder no ministério. Podemos, portanto, 
nos alegrar em nossa fraqueza (2Co 11.30; 
12.5,9,10), pois então toda glória será dada 
a Deus. Parte desse poder é a autoridade 
sobre Satanás e seus espíritos malignos (veja 
“Para ensinar o texto” em 3.20-25).
Para ilustrar o texto_____________
Ministrar à pessoa como um todo.
Missões na igreja: A igreja precisa seguir 
o exemplo de Jesus e mostrar-se disposta 
a ministrar à pessoa como um todo, e não 
limitar a atuação a suas necessidades espi- 
rituais. Muitas organizações missionárias e 
assistenciais aprenderam essa lição valiosa. 
Dr. Wess Stafford, que se tornou presidente 
da organização Compassion International 
em 1993, aprendeu e corporificou a im- 
portância de ministrar à pessoa como um 
todo: “Durante os quatros anos que Wess 
passou no Haiti, vivenciou a mensagem 
mais arrasadora que a pobreza transmite 
a uma criança: ‘Você não tem importância’. 
Wess também descobriu que o modo mais 
estratégico de quebrar o ciclo de pobreza é 
investir de modo holístico na vida das crian- 
ças, atendendo a suas necessidades físicas, 
espirituais, socioeconómicas e vocacionais e 
dando-lhes esperança e um futuro”. A igreja 
precisa fazer como Jesus e ministrar à pessoa 
em sua totalidade. Essa é uma excelente 
oportunidade de falar sobre ministérios de 
sua igreja que adotam essa abordagem ou 
para apresentar um novo plano ministerial 
para a igreja. Também pode ser uma ótima
sociais das pessoas, bem como de sua di- 
mensão espiritual.
2. Líderes escolhidos por Deus são im- 
portantes. Esse fato fica evidente em Efésios 
4.8,11. No versículo 8, Paulo adapta Salmos 
68.18 para afirmar que Deus “concedeu 
dons a seu povo” (o salmo diz “recebeu 
dádivas de seu povo”). Esse fato aponta 
para o versículo 11, em que Paulo escreve: 
“O próprio Cristo designou apóstolos (...) 
pastores e mestres”. Em outras palavras, os 
líderes da igreja são chamados por Deus e 
entregues à igreja como dádivas da graça 
divina. Aqui, Jesus escolhe, comissiona, 
capacita e envia os discípulos/apóstolos 
na missão determinada por Deus para eles. 
Cada líder da igreja é um agente do céu 
divinamente capacitado e enviado para 
glorificar a Deus em todas as coisas.
3. Discipulado é semelhança a Cristo. 
Em Efésios 5.1, o discipulado é caracte- 
rizado na ordem para “seguir o exemplo 
de Deus” (literalmente, “ser imitadores 
de Deus” ), algo definido anteriormente 
em Efésios 4.13 como “atingir a medida 
da plenitude de Cristo” . Deus não aceita 
um compromisso parcial. Muitos tentam 
lhe entregar apenas o dízimo de sua vida, 
“ isto é, um décimo de sua vida” . Isso é 
inaceitável; Deus quer de nós uma entrega 
total (veja comentário sobre Mc 1.18-20). 
Seguir a Cristo significa tentar imitá-lo em 
todas as áreas de nossa vida e praticar de 
modo explícito uma versão cristocêntrica 
do credo de Irmão Lourenço, “A prática 
da presença de [Cristo)”7.
4. Os discípulos de Jesus exercem a au- 
toridade dele. Aqueles que foram chamados 
por Deus para a liderança não atuam por 
sua própria conta. Eles são dotados da au- 
toridade do próprio Deus onde quer que 
vão. Jesus disse: “Assim como o Pai me 
enviou, eu os envio” (Jo 20.21). Jesus era “o 
enviado” oshaliah ou representante/agente 
de Deus. Nos unimos a ele como agentes
58M arcos 3.7-19
menta elétrica. Tente usar 
o equipamento sem co- 
nectá-10 à tomada. É evi- 
dente que ele é inútil sem 
a fonte de energia elétrica. 
Em seguida, o conecte à 
tomada e ligue o apare- 
lho (quanto mais barulho 
fizer, melhor!). Quando 
uma ferramenta ou um 
eletrodoméstico está li- 
gado à fonte de energia, 
cumpre seu propósito. O 
mesmo acontece no mi- 
nistério. Os verdadeiros 
discípulos ministram 
com a autoridade e 
o poder de Jesus. Em 
João 15, Jesus ensinou 
a verdade de que, a fim 
de ter um ministério eficaz e realizar os pro- 
pósitos de Deus, precisamos permanecer 
“ ligados” a ele. Converse com os parti- 
cipantes sobre maneiras de “permanecer 
ligados a Jesus”.
A alegria do ministério.
Testemunho: Encontre alguém em sua igreja 
que tenha um bom testemunho para com- 
partilhar a respeito da alegria do ministério. 
Procure alguém que tenha descoberto que o 
custo do ministério (tempo, energia, finanças 
etc.) fica pequeno em comparação com a 
recompensa de ver Deus fazer aquilo que 
só ele pode fazer na vida de um discípulo 
comprometido e por meio dele. Compartilhe 
esse testemunho (ao vivo, por escrito ou em 
vídeo) à luz de Mateus 13.44-46.
ocasião para apresentar 
à igreja um programa 
de apadrinhamento de 
crianças.
0 chamado para 0 
discipulado.
Poesia: Quando Jesus 
chamou Levi disse, sim- 
plesmente: “Siga-me”.
A reação foi imediata 
e espetacular: “Levi se 
levantou e o seguiu”
(2.14). Ser discípulo 
significa estar disposto 
a seguir Jesus, o que 
requer uma mudança 
radical em nossa vida.
Infelizmente, muitos 
de nós queremos Jesus 
em nossos próprios 
termos. Wilbur Rees escreveu uma poesia 
marcante a respeito dessa questão: “Uma 
porção de Deus equivalente a três dólares”. 
E uma sátira a respeito de noss v ndência 
de querer apenas a porção de Deus sufi- 
ciente para fazer com que nos sintamos bem 
conosco mesmos, mas não o suficiente para 
desafiar nosso coração nem transformar 
nossa vida. Procure a poesia na internet e a 
leia na íntegra ou um trecho dela para seus 
ouvintes. Ao longo de todos os Evangelhos, 
vemos que Jesus não permitiu que as pes- 
soas o seguissem em seus próprios termos, 
mas amou-as o suficiente para desafiá-las a 
render-se inteiramente a seu senhorio.
0 poder do ministério.
Lição prática: Em sua apresentação, mostre 
um eletrodoméstico pequeno ou uma ferra­
Quando Jesus chama Lev¡ (Mateus), ele 
o segue de imediato. Mateus é retratado 
nessa placa de marfim do décim o século.
M arcos 3.7-1959
Marcos 3.20-35
Jesus se volta para sua 
nova família
Idefa central A oposição a Jesus entra numa nova fase quando sua família pensa que ele está 
louco e os líderes religiosos 0 acusam de estar endemoninhado. Jesus responde de duas 
formas: ele não pode estar debaixo do controle de Satanás porque já amarrou Satanás, e 
sua verdadeira família é constituída daqueles que se juntaram a ele na família de Deus.
ou casa isso ocorreu. Como sempre, porém, 
uma grande multidão (veja em 3.9) cerca e 
enche a casa. Vemos aqui mais um retrato 
da intensidade do ministério de Jesus. Ele e 
seus discípulos se ocupam de tal modo com 
0 povo que “não conseguem nem comer”, 
um comentário que mostra a profundidade 
de sua compaixão e de seu compromisso 
com o povo e suas necessidades.
3 . 2 1 seus familiares [...] diziam: “Ele 
perdeu o juízo”. Na tentativa de remover 
o estigma que esse versículo coloca sobre 
a família de Jesus a RSV traduz: “pois as 
pessoas diziam: ‘Ele está fora de si’”. O 
problema é que o grego traz “eles estavam 
dizendo” e, no contexto, “eles” se refere, 
necessariamente, aos familiares de Jesus. 
A situação em 3.20 foi relatada a seus 
familiares, que são descritos aqui como 
pessoas que não seguem Jesus (quanto à 
incredulidade de seus irmãos, veja Jo 7.5). 
Sua família foi, literalmente, “assumir o 
controle dele” | “apoderar-se dele”, NVI] 
tradução de krateõ, verbo usado com fre- 
quência para o ato de prender um crimi- 
noso. Ao que parece, eles queriam obrigar
Para entender o texto___________
Texto em contexto
O ministério de Jesus aos pecadores e seu 
chamado para que vários excluídos se 
tornassem parte dos Doze cria complica- 
ções para ele junto às autoridades. Esse é 
o primeiro episódio cm Marcos com uma 
intercalação (ou “episódio-sanduíche”), 
em que um relato é inserido cm outro para 
que eles interpretem um ao outro. Nesse 
caso, a acusação de que Jesus é associado a 
Belzebu (3.22-30) é inserida em duas partes 
da história em que a família de Jesus vem 
buscá-lo a fim de levá-lo para casa (3.20,21 
e 3.31-35). A mensagem comunicada é que 
a própria família de Jesus se junta aos lí- 
deres tentando desviá-lo de sua missão do 
reino e de seu destino divino. Temos aqui 
o contraponto negativo do ministério posi- 
tivo que Jesus acabou de realizar em 3.7-19.
Considerações interpretativas
3 . 2 0 ele e seus discípulos não conseguiam 
nem comer. Não sabemos em que cidade
60M arcos 3 .2 0 -35
m n S i K o w S w w o S S B i f f l i K ?
Principais temas de Marcos 3.20-35
• Deus estabeleceu uma nova família, a igreja, cons- 
tituída daqueles que fazem sua vontade.
■ Os cristãos precisam estar dispostos a perder a 
família em consequência de seguirem a Jesus.
■ Jesus amarrou Satanás — esse é o cerne da ba- 
talha espiritual.
c o mesmo se aplicaria ao reino de Satanás 
(para uma abordagem mais detalhada sobre 
Satanás, veja “Considerações adicionais” 
depois do comentário sobre Mc 4 .1 2 0 (.־
3 . 2 7 ninguém pode entrar na casa de um 
homem forte sem que antes o amarre. A se- 
gunda parábola serve de base para a ideia de 
“amarrar Satanás” e apresenta a premissa 
de toda batalha espiritual. Cada um dos 
exorcismos exemplifica que Satanás e seu 
exército demoníaco foram “amarrados”, 
com base em Isaías 49.24,25, em que Deus, 
o guerreiro divino, derrota os inimigos de 
Israel e toma “despojos” para seu povo. 
Satanás é o “homem forte” encerrado em 
sua fortaleza, cujos servos (os demônios) 
constituem seu exército, de modo seme- 
lhante a Abraão e seu exército de servos 
em Gênesis 14.8-16. Em um ensaio sobre a 
veracidade histórica dos exorcismos realiza- 
dos por Jesus, Craig Evans conclui que eles 
“fornecem comprovação extraordinária 
da derrota e do retraimento do reino de 
Satanás diante do domínio de Deus que 
avança sobre ele”.3 No texto, Jesus entra na 
“casa” (oikia, uma referência a este mundo) 
de Satanás e saqueia seus “bens” (skenê, 
“vasos”, refere-se às pessoas demoniza- 
das ou possuídas). Jesus mostra, portanto, 
que Satanás não está derrotando seu pró- 
prio exército; antes, Jesus está amarrando 
Satanás e entregando os despojos a seus 
próprios seguidores.
3 . 2 8 as pessoas podem ser perdoadas de 
todos os pecados e de todas as calúnias que
Jesus a voltar para casa com eles e deixar 
de lado esse ministério absurdo. Talvez sua 
mãe imaginasse que ele estava à beira de 
um colapso, mas seus irmãos certamente 
acreditavam que ele havia enlouquecido.
3 . 2 2 “Ele está possuído por Belzebu! ”. 
Diante do fato indubitável de que Jesus 
havia expulsado demônios, os escribas (“de 
Jerusalém” indica uma delegação oficial) 
questionam a origem de seu poder. O verbo 
imperfeito elegon (“ficavam dizendo”) 
descreve uma campanha incessante para 
difamar Jesus.' E provável que o termo 
“Belzebu” venha do nome de um deus ca- 
naneu e signifique “senhor dar alturas”,2 
mas talvez seja mais apropriado interpre- 
tá-10 como “senhor da habitação” (o que 
harmoniza com a ideia da casa de Satanás 
em 3.27). O mais importante é que se trata 
de outro nome para Satanás, “o principe 
dos demônios”, também conhecido na li- 
teratura judaica como Belial/Beliar (2Co
6.15), Azazel (¡En 13.1), Mastema (Jub. 
10.8) e Asmodeus (Tb 3.8). De acordo com 
essa acusação, o poder de Jesus vem do fato 
de ele próprio estar endemoninhado. Para 
eles, o Filho de Deus é o filho de Satanás!
3 . 2 3 Como pode Satanás expulsar Sata- 
nás? Se Jesus está endemoninhado, Satanás 
guerreia contra suas próprias hostes demo- 
níacas, o que é impossível. Jesus emprega 
duas “parábolas” para ilustrar esse fato. 
Na primeira, seria guerra civil o príncipe 
dos demônios expulsar outros demônios. 
A expressão “reino dividido” trabalha com 
a ideia de que os subordinados de Satanás 
são um exército dividido em batalhões ou 
legiões (cf. F.f 6.12-14) que poderíam ir- 
romper em conflito interno por poder. Além 
disso, há confrontos internos políticos em 
uma “casa” ou dinastia, como se podia 
ver, por exemplo, na “casa” de Herodes ou 
em várias outras situações de famílias reais 
nas quais irmãos lutavam pelo trono. Em 
ambos os casos, o reino se autodestruiria,
M arcos 3.20-3561
doará. A indicação, por parte de Jesus, da 
blasfêmia dos escribas é irônica, já que os 
próprios fariseus acusam Jesus desse mesmo 
pecado grave em 2.6-10 e o condenam sob 
a mesma acusação no julgamento perante 
o Sinédrio (14.53-65).
3.31 a mãe e os irmãos de ]esus che- 
garam. Em Marcos 6.3 e Mateus 13.55 
encontramos uma lista dos irmãos de Jesus 
(as duas passagens também mencionam 
“suas irmãs” [Mt 13.56]). Para corroborar 
a virgindade perpétua de Maria, nos círcu- 
los católicos foi desenvolvida a ideia de que 
o termo adelphoi se refere aos primos de 
Jesus (segundo Jerónimo e Agostinho) ou 
aos filhos de José de um casamento anterior 
(de acordo com as teses elaboradas por 
Orígenes e Eusébio). No entanto, o signifi- 
cado mais natural, que harmoniza melhor 
com as ocorrências no Novo Testamento, 
é “irmãos de sangue”. É bem provável que 
José, pai de Jesus, não seja mencionado 
porque já havia falecido. Em 3.20,21, os 
familiares de Jesus saem para “apoderar-se 
dele” e obrigá-lo a voltar para sua casa em 
Nazaré. Além disso, sua convicção de que 
Jesus está “fora de si” está ligada à acusa- 
ção de que ele está endemoninhado. Eles 
chegam assim que termina a discussão com 
os escribas. Marcos afirma que os familiares 
estão “do lado de fora”, uma representação 
de que estão “fora” do círculo de segui- 
dores e discípulos de Jesus e entre aqueles 
que, de acordo com Jesus (4.11), são “os
proferem. Temos aqui o contra-ataque de 
Jesus aos líderes. Eles o acusam de posses- 
são demoníaca, enquanto ele os acusa de 
cometer o pecado imperdoável. A diferença 
é que a acusação de Jesus é verdadeira e ir- 
refutável. Essa é a primeira das declarações 
de am n (“verdadeiramente”) em Marcos 
(p. ex., 8.12; 9.1) e aponta para asserções 
contundentes investidas de autoridade. 
Aqui, sua afirmação se baseia na miseri- 
córdia extraordinária de Deus (veja Is 1.18; 
43.25), que perdoa tanto pecados (trans- 
gressões contra outros) quanto blasfêmias 
(“calúnias”, transgressões contra Deus).
3.29 quem blasfemar contra o Espírito 
Santo nunca será perdoado. Nos círculos 
judaicos, esse pecado imperdoável era o 
pecado cometido conscientemente (Nm 
15.30,31), especialmente a profanação do 
nome de Deus [m. Sanh. 7.5, com base em 
Lv 24.15,16). Aqui, Jesus restringe esse pe- 
cado a atribuir a obra do Espírito a Satanás. 
Quando os escribas disseram a respeito de 
Jesus: “Ele está com um espírito imundo” 
(3.30), na verdade consideraram que o 
poder do Espírito em Jesus fosse obra de 
Satanás. Sem dúvida essa é uma profanação 
do nome de Deus, agora Deus e o Espírito 
Santo. Esses escribas “nunca [poderão] ser 
perdoados” (um passivo divino, perdoados 
por Deus), pois são “culpados” ou “res- 
ponsáveis por haver cometido” um “pecado 
eterno”, isto é, um pecado com consequ- 
ências eternas. A questão envolve dois as- 
pectos: eles rejeitarão Cristo para sempre, 
e Deus, por toda a eternidade, não os per­
Uma vez que Jesus foi criado em 
Nazaré, é provável que sua mãe e 
seus irmãos tenham vindo de sua 
residência nessa região. Nazaré era um 
vilarejo agrícola nos montes da Baixa 
Galileia. Essa vista atual de Nazaré (do 
monte Tabor) mostra com o ela está 
localizada em uma depressão cercada 
pela cadeia de montes com o mesmo 
nome da cidade.
M arcos 3 .2 0 -35
à batalha espiritual. Jesus amarrou Satanás, 
e a única atitude apropriada diante desse 
fato é render-se a Jesus e crer inteiramente 
nele. O perigo extremo de blasfemar con- 
tra Jesus é real, e o resultado é a rejeição 
final por Deus. A última consideração diz 
respeito à eclesiologia e visualiza a igrejacomo a nova família de Deus neste mundo.
Para ensinar o texto____________
1. Deus cria uma nova família, a igreja. 
Observamos anteriormente que a igreja 
é o novo Israel, o povo restaurado de 
Deus (3.14) e uma nova comunidade em 
Cristo (veja 2.18—3.6, em “Para ensinar 
o texto”). Agora, consideramos a igreja 
uma família restaurada, os filhos de Deus 
constituídos como tal em Jesus. Essas são, 
a propósito, as três principais metáforas 
para a igreja. Ela começa como uma as- 
sembleia (o significado de ekklêsia, “igreja”) 
que cumpre a promessa abraâmica e une, 
no verdadeiro Israel, judeus e gentios que 
creem (Fp 3.3). Na sequência, à medida 
que a assembléia amadurece, ela precisa 
tornar-se uma comunidade, um grupo de 
pessoas em concordância, que se preocu- 
pam umas com as outras, compartilham o 
que têm e desejam estar juntas. Por fim, essa 
comunidade precisa se tornar uma família 
com membros que amam e se envolvem 
profundamente uns com os outros.
2. Seguir Jesus implica a possível perda 
dos laços familiares terrenos. Quando Jesus 
afirmou: “Não vim trazer paz, mas espada” 
(Mt 10.34), estava se referindo à intensa 
hostilidade, e até ao martírio que pode- 
riam resultar de segui-lo. Há paz com Deus, 
mas, com frequência, pouca paz no lado 
terreno. Aliás, a pena por ser cristão pode 
consistir cm os instigadores do martírio 
serem membros da própria família, como 
é afirmado em Mateus 10.21,35,36, em
de fora” . Seu pedido é, na realidade, uma 
tentativa de desviar Jesus da missão que 
ele recebeu de Deus.
3.34 Aqui estão minha mãe e meus 
irmãos! Sua declaração não despreza a 
importância da família nuclear, afirmada 
ao longo de todas as Escrituras. Antes, 
aponta para o surgimento de uma nova 
família, a igreja. Ainda assim, Jesus afirma 
que a “irmandade” espiritual ultrapassa 
os relacionamentos consanguíneos; na fa- 
mília de Deus há um relacionamento mais 
profundo do que nos vínculos terrenos. 
Quando seus seguidores são descritos “as- 
sentados ao redor dele”, essa imagem “traz 
à mente um retrato do AT de um patriarca 
cercado de seus filhos” e, portanto, apre- 
senta Jesus como “o centro de um novo 
‘círculo familiar’”.4
3.35 Quem faz a vontade de Deus é meu 
irmão, minha irmã e minha mãe. Há duas 
ênfases aqui. Em primeiro lugar, “a vontade 
de Deus” é um tema central do verdadeiro 
discipulado no Novo Testamento (Rm 12.2; 
Ef 5.17; lTs 4.3; 5.18; lPe 4.2). Isso signi- 
fica que, em todas as áreas da vida, o cristão 
procura viver como Deus quer; os princí- 
pios para essa vida se encontram resumidos 
em sua palavra revelada. Em segundo lugar, 
precisamos “fazer” a vontade de Deus ou, 
como em Tiago 1.22-25, ser “praticantes” 
da palavra, e não apenas “ouvintes”.
Considerações teológicas
A rejeição é outro aspecto fundamental 
do discipulado. Se somos chamados para 
‘ser um’ com Cristo (3.14), enfrentaremos 
oposição como ele enfrentou, até mesmo de 
nossa própria família (Mt 10.21,35,36). A 
questão da rejeição é um tema importante 
de Marcos e, nessa passagem, vemos até 
que ponto ela pode chegar, envolvendo, 
muitas vezes, nossos entes mais queridos. 
Outra consideração desse texto diz respeito
M arcos 3.20-3563
MontçHermon
־'· ־ " ■ «o ra z | n 0 £ J
'־ Cafarnaumjy-OB( 
Magdala/Tariqueii& M ar da 
*■¿0Cmá J ^ X G a lile ia ,
i a G a l i le ia ) ?
Tibería!
N a z a ré
^ Monte Tal - '
O G a d a r a
10 quilômetros
Os mestres da lei observam de perto as atividades 
de Jesus à medida que ele viaja por toda a região 
da Galileia pregando nas sinagogas, expulsando 
demônios e curando os doentes. Esse mapa mostra 
as principais cidades e estradas nos arredores do 
mar da Galileia.
três estágios: ao ser expulso do céu (Lc 
10.18; Ap 12.7-9), durante o ministério de 
Jesus (p. ex., Mc 3.27) e na cruz (Jo 12.31; 
16.11). No eschaton (fim dos tempos), o 
diabo e seus anjos serão lançados no lago 
de fogo (Mt 25.41; Ap 19.20; 20.10,14). 
Ademais, quando os santos dependem in- 
tetramente de Cristo, eles têm poder sobre 
Satanás e seus subordinados (Mc 3.15; 6.7; 
Tg4.7; lPe5.9; l jo 4.4). Somos derrotados 
espiritualmente somente quando cedemos
que os principais ínimi- 
gos” podem vir “de sua 
própria família” . Jesus 
foi rejeitado por seus 
próprios familiares du- 
rante sua vida e, em sua 
morte, foi traído por um 
membro de sua nova fa- 
mília. Ao longo da histó- 
ria, a mesma situação se 
repetiu inúmeras vezes.
Quando eu (Grant) servia 
como aprendiz de missio- 
nário no Paquistão, um 
missionário do norte da 
África passou pela região 
e falou de um recém-con- 
vertido do Islã, morto 
por sua esposa, que co- 
locou vidro triturado na 
comida dele. A esposa se 
tornou uma heroína em 
sua comunidade.
3. A batalha espiritual 
é real, e Satanás, de fato, 
está amarrado. Muitos 
cristãos acreditam inte- 
lectualmente que Satanás existe, contudo, 
vivem como se o Diabo não existisse. Com 
respeito a Satanás, são “ateus” pragmáti- 
cos! Na realidade, porém, estamos envoi- 
vidos em uma guerra cósmica, e as almas 
da humanidade estão em jogo. Satanás 
é absolutamente real, assim como suas 
hostes demoníacas. Eles têm apenas um 
propósito: a guerra espiritual — manter 
as pessoas afastadas de Cristo (2Co 4.4) e 
devorar o povo de Deus (lPe 5.8). Ainda 
assim, não se trata sequer de um dualismo 
modificado. Satanás já foi derrotado e sabe 
disso (em Ap 12.12 fica evidente que agora 
ele é motivado apenas por ira frustrada; 
ele continua buscando um único objetivo: 
causar a Deus e a seu povo o máximo de 
sofrimento possível). Ele foi derrotado em
64M arcos 3 .20 -35
As cobras têm pequenas fossas sensíveis ao 
calor, capazes de detectar uma ameaça até 
mesmo horas depois de sua morte. Embora 
Satanás já tenha sido derrotado, não age 
como se estivesse vencido e destruído. A ca- 
beça do Maligno já foi esmagada (Gn 3.15), 
mas ele ainda pode causar dificuldades e 
perturbações em nossa vida e no mundo. 
Precisamos atentar para as advertências 
das Escrituras acerca da batalha espiritual 
(Ef 6.10-20) e, ao mesmo tempo, lembrar 
de que “aquele que está em vocês é maior do 
que aquele que está no mundo” ( ljo 4.4).
O pecad0 imperdoável.
Parábola: Um homem vai a uma loja com- 
prar o presente perfeito para o aniversário 
de seu filho. Ele encontra algo que com 
certeza seu filho amará, mas não tem di- 
nheiro suficiente para comprar o presente. 
Então, vende alguns de seus pertences e até 
faz horas extras no trabalho até que consiga 
juntar a quantia necessária. Quando chega 
o grande dia, o pai, todo orgulhoso, entrega 
o presente a seu filho. Mas o presente não 
é o que o filho esperava. Ele o rejeita e 
diz que é “uma porcaria” . Não importa 
quantas vezes o pai ofereça o presente, o 
filho simplesmente não o aceita. Essa é uma 
imagem do pecado imperdoável.
às tentações de Satanás e nos permitimos 
ser seduzidos (ICo 10.13; Tg 1.13-15).
Para ¡lustrar o texto_____________
Cristãos rejeitados por suas famílias. 
Biografia: Em toda a história da igreja há 
relatos de cristãos que foram perseguidos 
por suas famílias por causa da fé. O Rev. 
Khalid Mansoor Soomro, ex-muçulmano 
do Paquistão, se comprometeu com o cris- 
tianismo em 1985. Quando relatou sua 
história de conversão a seus pais, foi ex- 
pulso de casa e deixou de ser considerado 
membro da família. Khalid precisou esco- 
lher entre Jesus e sua família. Ele optou 
por Jesus. Khalid reflete: “Embora não 
seja fácil, e enfrentemos muitas provações, 
sentimo-nos como Paulo, que passou por 
dificuldades e por sofrimento para a glória 
de seu Salvador, aquele que também sofreu 
durante sua jornada aqui na terra e seu 
tempo na cruz”.5 Você está disposto a se 
identificar com Jesus mesmo que signifique 
ser rejeitado por sua família? Quem é, de 
fato, seu primeiro amor?
A batalha contra os poderes demoníacos. 
Natureza: Uma cobra ainda pode picar 
mesmo depois de ter a cabeça decepada.
65
Marcos 4 .1 2 0 ־
Parábolas do reino
B S
Ideia central Jesus sémeou as verdades de seu reino entreas multidões, os líderes e 
os discípulos. Eles são o solo em que a semente do evangelho é lançada, e Deus os 
responsabiliza por sua receptividade à mensagem do reino.
(v. 21-23 e v. 24,25) e de duas sobre o 
crescimento garantido do reino (v. 26-29 
e v. 30-32). Ao mesmo tempo, o discurso é 
regido, primeiramente, pela explicação do 
propósito (v. 10-12) e, na sequência, pela in- 
terpretação de Jesus do semeador (v. 13-20). 
Portanto, o tema do capítulo é “ouvir” (v. 
3,9,12,15,16,18,20,23,24,33) — aconfron- 
tação dos ouvintes pelos “mistérios” do reino 
que exigem compromisso e entendimento.
Considerações interpretativas
4.1,2 ele entrou num barco [...] lhes ensinava 
[...]porparábolas. Como em 3.8,9 (cf. 2.13), 
as multidões são tão numerosas que Jesus 
não consegue ficar na praia e precisa usar 
um barco como púlpito. Ele “assentou-se” 
no barco (veja comentário em 4.36), assu- 
mindo a postura dos rabinos ao ensinar (eles 
se colocavam em pé ao pregar). Haverá ainda 
várias outras cenas de barco,1 que se concen- 
tram no ensino e no discipulado. Ao escolher 
“parábolas”, Jesus desafia os ouvintes ao 
esconder deles os “mistérios” do reino (4.11) 
em forma de narrativa. Ele exige abertura 
para a realidade do reino de Deus contida 
em si próprio (para mais informações sobre 
parábolas, veja “Considerações adicionais: 
Satanás/Parábolas”, adiante.)
4.3 Um agricultor saiu a semear. A Galileia 
era conhecida pela produtividade de sua
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Esse discurso em parábolas (cap. 4) é uma 
das duas seções extensas de ensino (junta- 
mente com o cap. 13) em Marcos e inter- 
preta a atuação e a missão de Jesus nos 
capítulos 1—3. Essas são as “parábolas 
do reino” que descrevem as implicações da 
chegada do reino neste mundo. Em dois ci- 
cios, Jesus desafiou três grupos: os discípu- 
los, que assumiram um compromisso com 
ele ( 1 .1 6 3 .1 3 - 1 9 as multidões, que se ,(־20; 
encantaram com ele, mas não se compróme- 
teram (1.21-45; 3.7-12), e os líderes, que o 
rejeitaram e tramaram matá-lo (2.1—3.6; 
3.22-30). Os quatros “solos” descritos 
por Jesus nessa parábola correspondem a 
esses grupos: os líderes (primeiro solo), as 
multidões (segundo e terceiro solos) e os 
discípulos (quarto solo).
Estrutura
Esse discurso constituído de parábolas (4.1- 
34) consiste em uma introdução (v. 1,2) e 
uma conclusão (v. 33,34) que emolduram 
cinco parábolas, a principal delas (v. 1-20) 
apresentando o tema geral: a semeadura 
das verdades do reino neste mundo e a re- 
ceptividade dos ouvintes. F. seguida de duas 
parábolas sobre ouvir verdades “ocultas”
M arcos 4.1-20 66
Or
fí
Principais temas de Marcos 4.1-20
■ Todo cristão precisa participar, com Jesus, do traba- 
Iho de lançar as sementes do reino neste mundo.
■ 0 discipulado não começa com curiosidade, nem 
mesmo admiração, mas com 0 compromisso de 
seguir Jesus,
■ Ter o coração voltado para esse mundo é 0 oposto 
de seguir Jesus.
■ Todos precisam examinar a si mesmos e avaliar 
se são, de fato, receptivos ao reino, pois essa re- 
ceptividade determina se haverá "frutos” do reino 
em sua vida.
um, a planta morre em um estágio mais 
avançado.
4.8 em terra boa. As três colheitas são 
paralelas aos três solos ruins, pois aqui os 
resultados se tornam progressivamente me- 
Ihores. Cada planta produz, então, trinta, 
sessenta ou cem plantas. Há registros de 
colheitas com essa produtividade, embora 
seja incomum. Foi esse solo incrivelmente 
fértil que deu à Galileia a fama de paraíso 
agrícola. O tema é a produção de frutos. 
A produtividade aqui é cada vez maior (os 
solos estéreis e férteis são apresentados em 
duas tríades crescentes).
4.9 Quem tem ou- 
vidos para ouvir, 
ouça. Esse é o 
ponto principal 
do discurso, e 
será repetido
Na parábola registrada em Marcos 4.1 -20, a 
semeadura é manual, e o agricultor lança as 
sementes ao ar com gestos precisos. O agricultor 
palestino na fotograña usa esse método para semear. 
Embora essa técnica de plantio fosse programada 
para um solo já preparado, ou que seria arado logo 
em seguida para cobrir as sementes com terra, estas 
podiam acabar em qualquer lugar.
terra, e boa parte da província havia sido 
comprada por proprietários ricos que a divi- 
diram em inúmeros campos arrendados (cf.
12.1-12). O agricultor carregava um saco de 
sementes e as lançava no solo manualmente, 
depois arava o solo para que as sementes fi- 
cassem debaixo da terra (por vezes, também 
se preparava o solo antes da semeadura). 
Na opinião de alguns, o semeador (= Jesus) 
é a figura central, enquanto para outros a 
ênfase é sobre as sementes (= a mensagem 
do reino). Mas tanto na parábola quanto em 
sua interpretação, os quatro tipos de solo 
ocupam o lugar de destaque. Jesus pergunta: 
“Que tipo de solo você é?’\
4.4 algumas caíram à beira do cami- 
nho. No mundo antigo, as estradas (com 
frequência um caminho para pedestres) 
não contornavam as propriedades, mas 
passavam no meio de campos. Nenhum 
agricultor lançaria sementes propositada- 
mente no caminho de chão batido, mas, 
muitas vezes, a brisa carregava as sementes 
para o caminho.
4.5,6 em lugares pedregosos. Em algumas 
partes da Galileia, havia uma camada de 
calcário e xisto alguns centímetros abaixo 
da superfície, o que resultava em um solo 
raso, que retinha a água das chuvas e a 
impedia de penetrar mais profundamente. 
A estação da colheita era caracterizada por 
chuvas de outono (primeiras) e de prima- 
vera (últimas) (cf. Dt 11.14; Jr 5.24), e as 
plantas brotavam do solo graças à água 
da chuva retida ali. No entanto, o calcário 
impedia as raízes de se aprofundarem, e o 
sol quente entre as duas estações exauria a 
umidade do solo, levando a planta a mur- 
char rapidamente e morrer.
4.7 entre espinhos. Pro- 
vavelmente uma referência 
a um tipo de erva daninha 
com raízes fortes que rou- 
bam a umidade do solo e 
“sufocam” as plantas boas.
Há uma progressão nos três 
solos ruins, pois em cada
wrrrrriiir67־
que é enigmático e só pode ser conhecido 
depois de reflexão meticulosa e com percep- 
ção espiritual. Se o solo do coração não for 
receptivo e fértil, não haverá compreensão 
alguma nem mudança de vida. Os “de fora” 
se encontram nessa situação porque perma- 
necem fechados para as verdades de Deus.
4.12 a fim de que [...j de outro modo. 
Essas palavras são controversas, pois pa- 
recem indicar que o propósito de Jesus 
(him, “a fim de que”) é impedir as pes- 
soas de crer e ser convertidas. Em outras 
palavras, as parábolas são um artifício an- 
ti-evangelismo! Para complicar, a versão 
de Mateus (13.1-23) traz hoti (“ por 
causa”), afirmando que o julgamento de 
Isaías 6.9,10 veio “por causa” do coração 
endurecido dos ouvintes. Diante disso, al- 
guns (1) traduzem esse trecho de forma 
epexegética (“ isto é” ): a incapacidade de 
compreender explica por que ele fala em 
parábolas;3 ou (2) entendem-no como uma 
consequência: “para que” compreendessem 
(e, portanto, semelhante a Mateus);4 ou (3) 
consideram que se trata de um uso semítico 
da expressão de propósito, que passa do 
resultado (a falta de arrependimento) para 
a causa (o plano e o propósito de Deus).5 É 
provável que a terceira opção seja a mais 
apropriada, pois em Marcos bina quase 
sempre indica propósito.
sempre vendo, mas jamais percebendo. 
Agora, Jesus cita Isaías 6.9,10 (trecho reti- 
rado da narrativa de seu comissionamento), 
em que o profeta é instruído a proclamar 
a mensagem à nação empedernida, que a 
rejeitará. Jesus está dizendo que o povo de 
Israel em sua época é tão obstinado quanto 
no tempo de Isaías. Como nos dias do pro- 
feta, as multidões e os líderes estão continua- 
mente (verbos no presente) vendo e ouvindo 
as sementes da verdade em Jesus, mas, por 
causa de seu coração endurecido, nunca con- 
seguem perceber a realidade do reino nele. 
As palavras “de outro modo poderíam [...] 
ser perdoados” parecem desnecessariamente 
severas e talvez sejam uma hipérbole, mas
em 4.23. No Antigo eno Novo Testamento, 
“ouvir” indica tanto a disposição de ouvir 
a verdade quanto a motivação para atender 
e obedecer. Se não aplicamos o ensino à 
nossa vida prática, não “ouvimos” de fato.
4.10-12 Essa seção acerca do propósito 
das parábolas se encontra inserida (como 
“episódio-sanduíche”, veja comentário 
sobre 3.20-35) entre a parábola e sua in- 
terpretação e, portanto, define a parábola 
e a interpreta como uma parábola “do 
reino” . Jesus faz essas observações mais 
tarde, quando está “sozinho” com seus dis- 
cípulos e alguns outros seguidores (“que 
estavam ao seu redor”, como em 3.34,35, 
em que eles “fazem a vontade de Deus”). 
O ensino de 4.11-20 é voltado apenas para 
os “de dentro”, aqueles que têm um com- 
promisso com Jesus.
4.10 lhe fizeram perguntas acerca das 
parábolas. O plural “parábolas” talvez sig- 
nifique que fizeram perguntas a respeito de 
todas as parábolas em 4.3-32. Nesse caso, o 
esclarecimento cm 4.11,12 também se refere 
às outras parábolas, e não apenas à primeira.
4.11 o segredo do reino de Deus. O “se- 
gredo” (mystêrion)2 se refere a verdades até 
então ocultas, mas agora reveladas aos se- 
guidores privilegiados de Jesus. Abrange en- 
tendimento tanto na esfera mental quanto 
na espiritual, pois Jesus proclamou essas 
verdades às multidões e aos líderes, mas 
esses dois grupos não as compreenderam 
nem as aceitaram. O passivo divino “foi 
dado” enfatiza a eleição divina. A responsa- 
bilidade humana foi ressaltada na parábola 
sobre a receptividade em 4.3-8; agora, fica 
em primeiro plano a escolha soberana de 
Deus dos “de dentro” (os discípulos e se- 
guidores) como receptores dos mistérios do 
reino, e não dos “de fora” (as multidões 
e os líderes).
tudo é dito por meio de parábolas. É 
óbvio que Jesus não falava somente por 
meio de parábolas; antes, essa declaração 
significa que o ensino acerca do reino é 
inerentemente parabólico, no sentido de
Satanás virá e a arrebatará de sua mente. 
Sem dúvida Satanás está no controle da 
vida dessas pessoas.
4.16,17 duram pouco tempo. Como no 
solo rochoso, inicialmente as sementes ir- 
rompem, pois são recebidas com grande 
“alegria”. Os primeiros sinais são maravi- 
lhosos, mas efêmeros. A raiz de uma planta 
era um símbolo antigo para compromisso 
estável. “Uma vez que a flora da Palestina é, 
com frequência, ameaçada por seca ou calor, 
dá-se especial atenção à raiz como a parte 
da planta que garante a existência do todo” 
ao prover “apoio e estabilidade”.6 Quando 
precisam suportar “perseguição e oposição” 
semelhantes à que Jesus sofreu com frequên- 
cia, esses quase seguidores superficiais logo 
“apostatam”, um verbo (skandalizõ) que, em 
Marcos, caracteriza alguém que se ofende, 
tropeça e então abandona a fé.’
4.18,19 sufocam a palavra. O solo cheio 
de espinhos, assim como o terreno pedre- 
goso, produz resultados, de fato, pois eles 
“ouvem a palavra” , exatamente aquilo 
que Jesus pede em 4.9,23. Mais uma vez, 
porém, as condições iniciais promissoras 
duram pouco, nesse caso porque a “pa- 
lavra” é sufocada por um modo de vida 
voltado para o mundo presente. Como 
em Lucas 16.13, “Vocês não podem ser- 
vir tanto a Deus quanto ao dinheiro”. A 
lealdade a este mundo destrói a caminhada 
da pessoa com Deus. As “preocupações” 
resultam de uma vida que gira em torno de 
bens materiais (Mt 6.25-34) e só podem ser 
dissipadas pela confiança plena em Deus, 
que leva a pessoa à oração (Fp 4.6,7). As 
riquezas causam “engano” ou seduzem a 
pessoa a pensar que os bens trarão satis- 
fação quando, na verdade, sufocam sua 
vida espiritual. O “desejo” ou a “cobiça” 
por bens ocupa o cerne da “ganância, que 
é idolatria” (Cl 3.5 |cf. Ef 5.5]); em outras 
palavras, as riquezas se tornam o verda- 
deiro “deus” que a pessoa venera.
é importante ter em mente 3.28-30, apenas 
alguns versículos atrás. Os líderes haviam 
cometido um “pecado eterno [imperdoá- 
vel]” e, para eles, esse juízo soberanamente 
declarado é real. Deus não deseja mais que 
se arrependam — são exceções a 2Pedro 3.9 
[“não querendo que ninguém pereça” |, pois 
cometeram a apostasia suprema.
4.14 O agricultor semeia a palavra. A 
semente é a “palavra” do ensino do reino 
transmitido por Jesus (no tempo de Marcos, 
também se referia à proclamação do evan- 
gelho pelos seguidores de Jesus). Para nós, é 
ensinar “a palavra de Deus” em nossas igre- 
jas e no mundo. Os tipos de solo descrevem, 
portanto, as diferentes reações das pessoas a 
essas verdades do evangelho. Os quatro solos 
se referem aos grupos que Jesus desafiou: 
os líderes (o caminho de terra batida), as 
multidões (o solo pedregoso e o solo cheio 
de espinhos) e os discípulos (o solo fértil).
4.15 Satanás vem e retira a palavra. No 
judaísmo, os pássaros (4.4) muitas vezes 
representam forças demoníacas (p. ex., 
Jub. 11.11,12; Apoc. Ab. 13.3-7). Já que, 
no caso dos líderes, a semente caiu em co- 
ração calejado, não o penetra de maneira 
alguma e fica à espera do momento em que
Na parábola do semeador, algumas sementes caem 
no cam inho, onde podem ser facilmente comidas 
pelos pássaros. A fotografia mostra um cam inho 
à beira de alguns campos na Galilela, perto de 
Cafarnaum.
M arcos
nossa era de igrejas nos centrarmos num 
evangelho truncado (que visa unicamente 
promover bem-estar em vez de desafiar) em 
uma região de nível social elevada (em que 
a igreja pode vir a ter muitos membros). 
Essa abordagem é o oposto do ministério 
de Jesus. O uso de parábolas mostra que ele 
tornou sua mensagem difícil de entender, a 
menos que houvesse uma abertura essencial 
para a nova realidade do reino. Deus exige 
rendição completa a todo o evangelho e 
dependência divina que resulta em êxito. 
Permitir que “membros” sem compromisso 
sério permaneçam apenas parcialmente de- 
dicados a Cristo nunca é aceitável.
2. Discipulado e compromisso não são 
opcionais. Vivemos numa época em que o 
compromisso superficial passou, em mui- 
tos casos, a ser considerado a “vida cristã 
normal” . Embora um ministério sensível 
aos que estão em busca de espiritualidade 
tenha muitos aspectos louváveis, um dos 
maiores perigos é a tendência de permitir 
que essas pessoas se contentem com o mero 
interesse por Cristo. No ministério de Jesus, 
as multidões são esse tipo de pessoas, e fica 
evidente que continuam descrentes até o fim. 
Enquanto o interesse não se transforma em 
compromisso, não há vida espiritual nem 
esperança de eternidade. As multidões se 
encantam com Jesus e se maravilham com 
seu poder, mas permanecem espiritualmente 
neutras e, no julgamento de Cristo, essa 
neutralidade se transformará em rejeição. 
São verdadeiramente “os de fora” (4.11c), 
e a tarefa de todo ministério autêntico é 
não deixá-los à vontade, mas continuar a 
desafiá-los, não maravilhá-los com efeitos 
especiais e belas histórias, mas levá-los a 
Cristo como “os de dentro” (4.11b).
3. O mundanismo é um perigo sério. 
Uma parte considerável dos ensinamentos 
de Jesus e do restante do Novo Testamento 
se ocupa com o problema fundamental 
deste mundo versus a realidade celeste.
4.20 aceitam-na e produzem uma co- 
Ibeita. O solo fértil é a antítese do solo endu- 
recido nos versículos 4,15 e, especialmente, 
12. O objetivo do discipulado é sempre o 
ouvir, que conduz a entendimento e obe- 
diência. Os líderes ouviram a palavra e a 
rejeitaram; as multidões ouviram a palavra 
e se recusaram a aceitá-la. O resultado de 
verdadeiramente “ouvir a palavra” é uma 
vida frutífera e cada vez mais produtiva. 
O fruto é tanto qualitativo — o fruto do 
Espírito (G1 5.22,23) —, quanto quantita- 
ti vo, trazer outros para o reino (Mt 28.19).
Considerações teológicas
O reino — o reinado de Deus sobre este 
mundo — já teve início, e nesse ensino 
crucial em forma de parábola, Jesus in- 
terpreta o significado desse fato e fornece 
perspectivas importantes quanto à salva- 
ção e ao discipulado. Primeiro, em Jesus as 
“sementes” ou as verdades do reino foram 
semeadas no coração de todas as pessoas. 
Segundo, elasprecisam “ouvir”, ou res- 
ponder com fé, aceitando essas verdades. 
Terceiro, seu destino é determinado pelo 
tipo de solo que se tornam, ou seja, se estão 
fechadas para as verdades de Deus — apa- 
rentemente abertas, mas sem compromisso; 
superficialmente empolgadas, mas com um 
coração mundano — ou se são, de fato, 
seguidores que darão frutos.
Para ensinar o texto____________
1. Todos os santos são semeadores da 
palavra. Os discípulos deviam participar, 
com Jesus, do trabalho de semear os en- 
sinamentos do reino na Galileia. Para os 
autores dos Evangelhos Sinóticos, isso sig- 
nificava, sem dúvida, que a proclamação 
é uma incumbência de todos os cristãos, e 
não somente dos líderes da igreja. Ademais, 
o campo é o mundo, e o evangelho em 
sua totalidade é o resultado. E comum em
70M arcos 4.1-20
ganhar dinheiro e ter o que há de melhor 
na vida”.8 O solo bom é definido como ter 
“cuidado em como ouvimos” . Representa 
abertura para a palavra e desejo de colo- 
cá-la em prática em nossa vida.
Para ¡lustrar o texto_____________
A produção de frutos é obra de Deus. 
História pessoal: Um professor visitante 
no Fuller Theological Seminary comentou 
sobre um sermão que pregou em um país em 
desenvolvimento. Nessa ocasião, centenas 
de pessoas vieram à frente como expressão 
do desejo de caminhar com Jesus. Poucos 
meses depois, ele pregou o mesmo sermão 
em uma igreja nos Estados Unidos. Além 
de ninguém ir à frente depois de seu apelo, 
a igreja ficou visivelmente entediada com a 
mensagem bíblica. Essa história é um bom 
lembrete do fato de que, embora devamos ser 
semeadores do evangelho, os frutos produzi- 
dos dependem da receptividade dos ouvintes 
e da obra do Senhor no coração de cada um.
0 que atrai seu coração?
Lição prática: Um imã produz um campo 
magnético que atrai alguns materiais, como 
o ferro, ao mesmo tempo em que repele 
outros imãs. Use um imã com objetos que 
contenham ferro (p. ex., clipes de papel) e 
mostre como ele os atrai ou puxa. Assim 
como o ferro é atraído para o imã, nosso 
coração é naturalmente atraído para certos 
pensamentos, sonhos, ambições e assim por 
diante. Ou, então, nosso coração pode ser 
atraído para adorar e glorificar a Deus. O 
que atrai seu coração?
Aliás, na “vida cristã normal”, os verda- 
deiros cristãos buscam e refletem sobre as 
coisas do alto, e não desta terra (Cl 3.1,2) 
e, assim, sua maneira de pensar é renovada 
(Rm 12.2) e pensam nas coisas de Deus, e 
não nas da humanidade (Mc 8.33). Assim o 
crente terá um novo plano de aposentado- 
ria: os tesouros no céu em vez dos tesouros 
na terra (Mt 6.19-21). A amizade com o 
mundo transforma a pessoa em inimiga de 
Deus (Tg 4.4) e trará a ira divina. Como 
em Marcos 4.18, a cobiça por bens engana 
e conduz a uma vida de preocupação, que 
sufoca a vida do Espírito (veja também 
Rm 8.1-13).
4. A receptividade é fundamental para 
dar frutos para o reino. De acordo com a 
parábola do semeador, a receptividade é 
crucial. Já que a semente é lançada para 
todos, a pergunta é se ela está formando 
raízes e crescendo na vida da pessoa. É 
possível aplicar essa lição/sermão a quatro 
grupos presentes na igreja de hoje: aqueles 
que se recusam a crer (o caminho de terra 
batida), aqueles em busca do espiritual (o 
solo pedregoso), os quase cristãos, que vêm 
aos cultos regularmente e pensam que são 
cristãos, mas mostram poucos sinais de 
compromisso (o solo espinhoso) e os cris- 
tãos comprometidos (o solo fértil). Somente 
o último grupo produz frutos do reino que 
terão valor eterno. David Garland resume 
bem essa parábola: “O caminho de terra 
batida representa aqueles que não que- 
rem se arrepender; o solo pedregoso, os 
desistentes que só querem uma vida sem 
tribulação; o solo cheio 
de espinhos, aqueles 
. cuja vida é dedicada a
De acordo com a parábola, algumas das sementes do agricultor caem 
entre espinhos, talvez com o esses na encosta de uma colina perto de 
Cafarnaum. Jesus explica que, assim com o os espinhos sufocam as 
plantas mais valiosas, as preocupações, as riquezas e outros desejos 
im pedem a palavra de Deus de dar frutos em nossa vida.
M arcos 4.1-2071
Considerações ad ic iona is
Satanás I Parábolas
tem poder para subjugar os santos, mas 
opera por meio do engano (Ap 12.9; 
20.3). Ainda assim, deseja nos destruir 
(lPe 5.8, cf. Lc 22.31) e, para esse fim, 
controla as forças das trevas (Ef 6.12), 
“cegando o entendimento dos descrentes” 
(2C0 4.4). Quando confiamos, de fato, no 
Senhor, porém, não cedemos, pois Deus 
provê socorro (1C0 10.13).
Parábolas______________________
Com base no hebraico mashal, uma “pará- 
bola” é uma metáfora estendida em forma 
narrativa que visa a desafiar o ouvinte a 
entender os mistérios (veja comentário 
de 4.11) do reino de Deus. Como tal, as 
parábolas não têm o propósito de serem 
narrativas agradáveis que tornam verdades 
espirituais facilmente compreendidas. Pelo 
contrário, só podem ser compreendidas em 
conjunto com a aceitação da realidade do 
reino. Para aqueles que não estão abertos 
para a vinda do reino de Deus em Jesus, as 
parábolas mascaram ou ocultam seu signi- 
ficado e geram confusão e rejeição. Ao usar 
parábolas, Jesus esconde a verdade, pois elas 
exigem investigação minuciosa e compro- 
misso sério para que haja entendimento. 
Muitas vezes, a narrativa em si é obscura, 
pois traz desdobramentos contrários à expe- 
riência comum. Isso acontece porque o reino 
inverte as tradições terrenas e, portanto, 
a história envolve o leitor nos dois níveis. 
Para entender uma parábola, é preciso de- 
dicar-se à séria reflexão daquilo que está
Satanás_______________________
“Diabo” (diabolos) é a designação grega 
e “Satanás” (safan) é a forma hebraica 
para o “adversário” de Deus, o “difama- 
dor” ou acusador dos santos. O Antigo 
Testamento não diz muita coisa a seu 
respeito. Espíritos malignos ou demônios 
são encontrado nos “ ídolos em forma de 
bode” ou “demônios” em Levítico 17.7; 
2Crônicas 11.15; “criaturas noturnas” 
em Isaías 34.14; “espírito atormentador” 
em ISamuel 16.14-23 e “espírito menti- 
roso” em IReis 22.21-23. No Antigo Tes- 
tamento, todos esses estão sob o controle 
de Deus e são enviados por ele. Satanás é 
visto na “serpente astuta” de Gênesis 3 
(Satanás é chamado “antiga serpente” em 
Ap 12.9; 20.2), no anjo inimigo presente 
na corte celestial em Jó 1.6-12; 2.1-7; 
Zc 3.1,2 e no “Satanás” em 1 Crônicas 
21.1. O interesse em espíritos malignos 
e em Satanás cresceu no período inter- 
testamentário, possivelmente por causa 
de um maior fervor apocalíptico (veja 
lEn 6— 16; 54; Jub. 10; T. Jó 6—8). No 
Novo Testamento, Satanás é o inimigo 
principal de Deus e de seu povo. Ele é o 
“deus deste mundo” (2Co 4.4) e o “go- 
vernante deste mundo” (Jo 12.31; 14.30;
16.11), mas somente deste mundo mau. 
Os cristãos têm poder sobre as forças das 
trevas (Mc 3.15; 6.7). Este mundo é a 
prisão de Satanás (2Pe 2.4; Jd 6); ele foi 
expulso do céu e lançado neste mundo 
(Ap 12.7-9) e sabe que o dia de sua des- 
truição se aproxima (Ap 12.12). Ele não
72Considerações ad icionais
rábola. Várias parábolas trazem elementos 
alegóricos; cabe ao intérprete identificar 
quando um detalhe é uma nuança local (ou 
seja, apenas parte da narrativa) e quando 
tem relevância teológica. Essa identificação 
precisa ser guiada pelo contexto.1
debaixo da superfície narrativa e observar 
como esta opera em seu contexto. Assim, 
é possível compreender como a realidade 
do primeiro século norteia o modo de Jesus 
relatar a história e que aspectos da verdade 
do reino são apresentados por meio da pa­
Considerações ad icionais73
Marcos 4 .2 1 3 4 ־
Mais parábolas do reino
Ideia central Deus garante que o reino crescerá exponencialmente, e suas realidades 
ocultas logo serão reveladas; é chegada a hora, portanto, de abrir 0 coração e a mente
para suas
parábolas: a única reação viável é ouvir e 
obedecer às verdades de Deus em Jesus.
Considerações interpretativas
4.21 você traz uma candeia (...]você a coloca 
em seu velador. Jesus conti- 
nua a se dirigir tanto 
a seus seguidores 
quanto às multidões 
(4.1,2,10) e agora 
fala do reino como 
uma candeia (um 
pequeno recipiente de 
barro para queimar óleo) 
cuja finalidade é iluminar 
um cômodo. Embora a can- 
deia possa se referir apenas 
à parábola anterior e a seu 
significado “oculto”, ou à 
vinda de Jesus, é mais apro- 
priado considerá-la como o 
reino que chegou em Jesus. 
A questão é que ela não 
deve ser escondida debaixo 
de “uma vasilha” (um red- 
píente com capacidade 
para cerca de oito 
litros usado para 
medir cereais), nem 
da cama, de forma
Para entender o texto
Texto em contexto
O tema central das parábolas deste capítulo 
já foi identificado em 4.1-20: ouvir e obe- 
decer à palavra de Deus ao certificar-nos 
que somos receptivos às verdades do 
reino. Nas quatro parábolas sub- 
sequentes em 4.21-34, esse tema é 
explorado em mais detalhes e de 
duas maneiras. A candeia e a me- 
dida (v. 21-25) explicam melhor 
o propósito das parábolas: por 
meio delas, as verdades do reino — 
ocultas até o presente (v. 10-12) — estão 
prestes a ser reveladas (v. 21-25), e todos 
devem ouvi-las atentamente. Em seguida, 
as duas parábolas sobre sementes nos 
versículos 26-32 mostram que Deus é 
responsável pelo crescimento do reino, 
e sua grandeza é garantida. A expressão 
“ouvidos para ouvir” no versículo 23 
repete o versículo 9 e interpreta as quatro
'Você traz uma candeia para colocá-la 
debaixo de uma vasilha ou da cama? Acaso 
não a coloca no velador?’ (4.21). Foram 
encontrados veladores do período romano 
com 60 centímetros a 1,5 metros de altura. 
Esses suportes perm itiam que a luz de uma 
pequena candeia a ó leo iluminasse todo o 
cômodo. A fotografia mostra um velador 
da Itália do primeiro século d.C.
Marcos 4 .21-34
Principais temas de Marcos 4.21-34
■ Jesus define 0 verdadeiro significado do reino, escon- 
dido da concepção humana e revelado somente nele.
■ Cabe ao povo de Deus ouvir atentamente e colocar 
em prática o ensino do reino transmitido por Jesus.
• Deus exerce controle absoluto sobre 0 processo de 
crescimento do reino.
fizermos para Deus, também receberemos 
dele (observe o passivo divino aqui “serão 
medidos”). Aqui, significa que o ato de 
ouvir atentamente o ensino de Cristo será 
recompensado por Deus. Em seguida, Jesus 
acrescenta que, pela graça de Deus, a re- 
compensa será maior que o esforço. Deus 
nos dará ainda mais entendimento. Há uma 
superabundancia de riquezas para aqueles 
que examinam atentamente a Palavra.
4 . 2 5 de quem não tiver, até o que tem lhe 
será tirado. A advertência é bastante clara 
descrevendo os dois lados do princípio da 
reciprocidade em 4.24. Para aqueles que 
“têm ouvidos para ouvir” (4.9,23,24a), as 
parábolas são o solo fértil de 4.8,20; eles 
recebem “ainda mais” ensino e entendí- 
mento (a trinta, a sessenta e a cem por um). 
Aqueles que não abrem o coração para as 
verdades do reino (como os três primei- 
ros solos da primeira parábola) perdem o 
pouco entendimento e as poucas bênçãos 
que tinham inicialmente. Essa ideia é par- 
ticularmente trágica no contexto judaico, 
pois os judeus que rejeitam Jesus perdem o 
lugar que a aliança lhes conferiu na oliveira 
(Rm 11.17).
4 . 2 6 , 2 7 um homem lança sementes [...] 
quer ele durma quer se levante, a semente 
germina e cresce. A segunda parábola da 
agricultura nesse capítulo pode ser cha- 
mada de “parábola da semente que cresce 
por sua própria conta” e ressalta que o 
agricultor não controla a produção; precisa 
esperar a natureza seguir seu curso. Como
que a luz não será vista e poderá se apagar. 
É evidente que deve ser colocada no velador 
para iluminar todo o ambiente.
4 . 2 2 o que está oculto é para ser reve- 
lado. Como em 4.11, os “mistérios” (as 
realidades ocultas do reino) estão no pro- 
cesso de ser revelados aos seguidores de 
Jesus. Há quem diga que esse versículo se 
refere a nossas ações e pensamentos ocultos 
e que serão revelados quando Cristo voltar, 
mas essa interpretação não se encaixa no 
contexto. O tempo das coisas escondidas 
era o presente, o tempo das parábolas e da 
rejeição, em que a verdade acerca de Jesus 
e de seu ensino do reino estavam “ocultas” 
para os de fora (4.1 lb,12); ao longo de toda 
a vida de Jesus, Deus usaria as forças do 
mundo para realizar sua morte expiatória. 
É provável que o tempo da manifestação e 
da luz tenha duas ênfases interdependen- 
tes. Primeira, a ressurreição de Jesus será 
o momento decisivo em que sua candeia 
iluminará o mundo (Jo 8.12) e sua verda- 
deira realidade, como Messias e Filho de 
Deus, se tornará manifesta em sua missão 
universal. Segunda, sua consumação se 
dará somente na parúsia (segunda vinda), 
quando sua glória será universalmente 
revelada e “ todo joelho se dobrará, no 
céu, na terra e debaixo da terra” (Fp 2.10).
4 . 2 4 Com a medida com que medirem, 
vocês serão medidos; e ainda mais. Tem 
início aqui a terceira repetição da ordem 
fundamental do discurso constituído de 
parábolas. “Considerem atentamente o que 
vocês estão ouvindo” (veja também v. 9,23). 
A parábola da medida era um provérbio 
popular judaico (cf. Mt 7.2) derivado do 
comércio. Referia-se a uma espécie de pá 
usada para “medir” cereais ou produtos 
adquiridos e garantir uma transação justa. 
Trata-se aqui do princípio de lex talionis 
(a lei de retribuição ou reciprocidade), ele- 
mento que também é central em Apocalipse 
(acerca da justiça absoluta de Deus). O que
M arcos 4.21-3475
em 4. t - 8, a semente é o ensino acerca do 
reino (é provável que, nesse caso, o semea- 
dor não represente Jesus, mas nós). O ponto 
central gira em torno do fato de que Deus 
é responsável pelo crescimento do reino, 
e não nós. O relato é propositadamente 
artificial; nenhum agricultor deixa de lavrar 
o solo ou de remover as ervas daninhas. 
A questão é que, em última análise, as ati- 
vidades do agricultor não são capazes de 
fazer a planta crescer. Quem determina o 
resultado final é a natureza/Deus. A des- 
crição detalhada da semeadura e de cada 
etapa de desenvolvimento da planta (o talo, 
a espiga [o aparecimento do grão], o grão 
cheio [maduro e pronto para a colheita|) 
significa que cada estágio da proclamação 
do evangelho é soberanamente controlado 
e garantido por Deus. Isso não significa que 
seu povo pode ficar inerte, sem fazer coisa 
alguma. As ações do agricultor mostram 
que os santos fazem parte do processo. No 
entanto, lançamos a semente e esperamos 
Deus — aquele que dirige o processo — 
produzir a colheita. “Eu plantei a semente, 
Apolo a regou, mas Deus c quem a fez 
crescer” ( ICo 3.6).
4.31,32 um grão de mostarda [...] a 
menor de todas as sementes / .../ cresce e 
se torna a maior de todas as hortaliças. A 
parábola do grão de mostarda fornece uma 
conclusão apropriada para essas histórias 
associadas à agricultura. Na verdade, o
grão de mostarda não é a menor de todas as 
sementes (a semente da orquídea é menor), 
mas a hipérbole é intencional, para en- 
fatizar a pequenez da nova comunidade 
messiânica no tempo de Jesus. A menor 
das sementes é que produz um arbusto tão 
grande e, portanto, um modelo perfeito 
para o crescimento da igreja. A semente 
é tão pequena que some na palma da 
mão, mas o arbusto tem de 3 a 4 metros 
de altura.
com ramos tão grandes que as aves do 
céu podem abrigar-se à sua sombra. Esse 
detalhe destaca ainda mais o tamanho do 
arbusto. Além disso, refere-se a Ezequiel 
17.23; 31.6; Daniel 4.21 e à imagem da 
árvore universal de Deus na qual os gentios 
encontrarão descanso.1 Tem continuidade, 
desse modo, a ideia da missão universal, que 
comprova a imensidão da colheita futura.
4.33 muitas parábolas semelhantes [...] 
tanto quanto podiam entender. A expres- 
são “muitas parábolas semelhantes” nesse 
versículo repete 4.2 e cria uma moldura ao 
redor do capítulo (integração), mostrando 
que essas histórias representam as muitas 
narrativas que Jesus usou para ensinar as 
multidõese os discípulos. Nesse contexto, 
“tanto quanto podiam entender” deve se 
referir, então, à diferença entre os discípu- 
los (que receberam os mistérios) e as mui- 
tidões (que receberam apenas parábolas 
que ocultam os mistérios [cf. 4.11]). As 
parábolas exigem uma investigação 
minuciosa e uma resposta, e tanto os 
líderes quanto as multidões respon- 
deram de forma negativa. O entendí- 
mento e o crescimento só são possíveis 
da multidão se abrem
Jesus compara 0 reino de Deus a um grão 
de mostarda que cresce e se transforma 
em uma hortaliça grande, na qual as aves 
podem pousar. A planta à qual Jesus se 
refere é, provavelmente, a mostarda preta 
(Brassico nigra), que aparece aqui.
arrasa tudo em seu caminho [...] Por isso 
tantos não reconhecerão sua presença, su- 
bestimarão seu poder e farão pouco caso 
de sua reivindicação sobre a vida deles”.3 
O reino é o humilde Jesus e só se entra nele 
ouvindo e crendo.
2. Os seguidores de Jesus têm a respon- 
sabilidade de ouvir e agir. A única forma de 
encontrar o caminho para o reino é ouvir 
cuidadosamente e atender às verdades apre- 
sentadas por Jesus em suas parábolas. Esse 
é o tema central do discurso constituído de 
parábolas (4.9,13-20 [nos v. 15,16,18,20 
cada um dos tipos de solo “ouve a pala- 
vra”], 23,24,33,34). Ainda assim, não basta 
apenas ouvir. Tanto no hebraico quanto no 
grego ouvir significa obedecer. Em razão da 
natureza do processo, quando alguém ouve, 
precisa agir conforme o que ouviu. O povo 
de Israel foi advertido em várias ocasiões 
para colocar em prática 0 que tinha ouvido 
(p. ex., Dt 28.58; 29.29; Js 1.8) e, no salmo 
119, o famoso hino de exaltação da palavra 
de Deus, os temas centrais são “obedecer” 
(p. ex., v. 2,8,17,34,40 [dezenove vezes 
ao todo]) e “seguir” (v. 1,59,67,73,173) 
a palavra. Em Tiago 1.22-25, ser ouvinte 
significa ser praticante. Deus exige que seu 
povo ouça e aja.
3. O crescimento do reino está sob o 
controle de Deus. Um dos problemas do 
ministério atual (e um sinal da secularização 
da igreja) é a impressão de que o pastor-ti- 
tular é quase o dono da igreja. As pessoas 
se referem, com frequência, à “igreja do 
pastor Fulano”, e tanto a responsabilidade 
como a glória cabem ao pastor. Um amigo 
meu ouviu de um editor que só conseguiría 
publicar um livro dele se ele fosse pastor 
de uma megaigreja ou uma celebridade da 
televisão. A qualidade foi substituída pela 
fama, e raramente a glória é dada a Deus, 
o único que a merece de fato. Ao longo 
das Escrituras, Deus escolhe manifestar 
sua grandeza por intermédio dos fracos
para “ouvir” as parábolas. Enquanto não 
o fizerem, não “poderão” (dynamai, ser 
capacitado por Deus) entender.
4.34 não lhes dizia coisa alguma sem 
usar alguma parábola. Como em 4.1 lb,12, 
Jesus usa parábolas para ocultar a verdade 
daqueles que não são receptivos ao reino. 
Há uma hipérbole aqui, pois em outras 
passagens de Marcos, Jesus ensina as mui- 
tidões sem usar parábolas (p. ex., 1.15; 
8.34— 9.1). Marcos enfatiza a “natureza 
enigmática [intencional] de boa parte do 
ensino de Jesus” .2 Os discípulos ainda têm 
dificuldade para entender seu sentido, mas 
são receptivos, de modo que Jesus explica 
para eles o significado de suas palavras 
(como é o caso em 4.13-20). Eles são “os 
de dentro” e, portanto, têm o privilégio 
de receber a verdade completa acerca dos 
princípios do reino de Jesus.
Para ensinar o texto____________
1. O verdadeiro significado do reino é 
revelado somente em Jesus. Ele veio não 
apenas para trazer o reino, mas também 
para apresentar uma realidade do reino 
diametralmente oposta às expectativas. O 
povo judeu esperava um rei conquistador 
que destruiría seus inimigos e, com efeito, 
colocaria o mundo nas mãos de Israel. 
Jesus, porém, veio para ser o Servo Sofre- 
dor e trazer um reino espiritual que exigia 
de seus seguidores humildade e uma vida 
de santidade. A única maneira de entrar 
nesse reino é crer em Jesus e tornar-se se- 
melhante a Cristo ao segui-lo. O reinado de 
Deus chegou, mas de modo surpreendente 
e com um início totalmente inesperado. 
Começou com obscuridade e rejeição. As 
hostes celestiais não vieram e as trombetas 
não soaram. O poder que caracteriza seu 
início é o poder do Espírito, não o poderio 
militar. “Não [é] uma força irresistível que
M arcos 4.21-3477
examinam a Palavra atentamente. Você 
está investindo nas Escrituras?
0 ministério é obra de Deus.
Filme: Homens de preto. Essa comédia 
de ação e ficção científica de 1997 tem 
uma cena maravilhosa que pode ser uti- 
lizada para enfatizar a realidade de que 
Deus está no controle e fará o reino 
avançar por meio de gente comum, 
de pecadores como você e eu. 
James Darrell Edwards HI, 
que se torna o agente 
J (protagonizado 
por Will Smith), 
faz parte de um 
grupo seleto de 
fu n c io n á rio s 
do governo es- 
colhidos para 
partic ipar de 
urna prova a 
fim de tornar-se 
membro de urna 
organização secreta 
que policia as ativi- 
dades dos alienígenas 
na Terra. Nessa cena em 
particular, Zed (o líder 
dos Homens de Preto) 
pergunta aos candida- 
tos: “Vocês sabem 
por que foram es- 
colhidos?” . Um 
deles, soldado de 
um grupam ento 
de forças espe- 
ciais, responde: 
“Porque somos 
os melhores dos 
melhores dentre 
os melhores, se- 
nhor” . No entanto, a organização está à 
procura de um recruta bem diferente das 
expectativas dos candidatos, e Edwards, um
e dos excluídos. Quem derrotou Golias e 
os filisteus não foi o grande reí Saul, mas, 
sim, um pequeno menino-pastor Davi. Os 
Doze eram um grupo de individuos que 
não se encaixavam na sociedade. Como 
Paulo afirma: “Eu me gloriarei ainda mais 
alegremente em minhas fraquezas”, pois o 
poder de Deus “se aperfeiçoa na fraqueza” 
(2Co 12.9). Não precisamos nos preocupar 
com nossas inadequações. Simplesmente 
precisamos nos esforçar ao máximo e 
confiar inteiramente em Deus, pois 
ele dirige nosso trabalho e nos 
torna mais capazes do que 
seríamos por nossa própria 
conta. Participamos da 
obra do reino de Deus, e 
o progresso e a grandeza 
de seu reino e de nosso 
ministério estão sob seu 
controle soberano.
Para ilustrar o texto
Um retorno exponencial de 
investimento.
Economia: Consultores financeiros 
costumam enfatizar a importância 
de investir com regularidade e de 
começar cedo. Há grande sabedoria 
nesse conselho. Os investido- 
res devem ser disciplinados, 
os discípulos também. Ler 
a Bíblia com regularidade, 
por exemplo, gera grandes 
benefícios. O que investimos 
de tempo e esforço na leitura 
das Escrituras resulta cm uma 
recompensa muito maior, à 
medida que o Senhor nos dá 
entendimento mais profundo 
e transforma nossa vida por meio disso. 
Como observamos acima, há uma supe- 
rabundância de riquezas para aqueles que
Jesus afirma que a vinda do reino de 
Deus é com o a luz de uma candeia. 
Pequenas candeias de azeite feitas 
de barro, com o essa do período 
romano, eram colocadas em nichos na 
parede ou em suportes para iluminar 
o côm odo todo. Na cavidade central 
colocava-se azeite e, no orifício da 
extremidade, um pavio.
O Espírito Santo e a Palavra.
Hino: O Espírito sopra sobre a Palavra, de 
William Cowper. Esse hiño magnífico da 
igreja lembra que o entendimento e a apli- 
cação da Bíblia são obra do Espirito Santo. 
Reflita sobre estas palavras marcantes da 
primeira estrofe:
O Espírito sopra sobre a Palavra 
e traz a verdade à tona;
Preceitos e promessas propiciam 
uma luz santificadora.
Cada vez que vamos 1er a Biblia devemos 
orar e pedir ao Senhor que nos dé a capaci- 
dade para entender e aplicar suas verdades 
à nossa vida.
policial de Nova York e o candidato menos 
provável, é selecionado. Muitas vezes, pen- 
samos que para ter um ministério eficaz 
precisamos de uma personalidade brilhante, 
grande capacidade intelectual, aptidão ex- 
traordinária de comunicação e assim por 
diante. Na verdade, porém, precisamos de 
pessoas dispostas a entregar-se inteiramente 
a Deus e a sua Palavra e a permitir queele 
opere por seu intermédio. Se você não se 
sente qualificado para ser usado por Deus, 
sinta-se encorajado. Ele é o único que pode 
usá-lo para produzir resultados eternos no 
mundo, e ele só está esperando você per- 
mitir que ele o faça.
M arcos 4 .2 1 3 4 79־
Marcos 4.35— 5.20
A autoridade de Jesus sobre a 
natureza e os poderes cósmicos
Ideia central Jesus revela que é Senhor das tempestades, inteiramente soberano sobre as 
forças da natureza e sobre 0 mundo cósmico das trevas. Os discípulos, em contraste, 
não conseguem pensar em coisa alguma a não ser em sua própria vulnerabilidade.
em 3.1-6,20-30. Uns poucos “ouvirão” 
(4.9,23); a maioria ouvirá, mas ainda assim, 
não perceberá (4.12).
Considerações interpretativas
4 . 3 6 Deixando a multidão para trás. Ao 
que parece, esse acontecimento ocorre no 
mesmo dia (“naquele dia”) em que Jesus 
terminou o discurso constituído de parábo- 
las. Jesus quer dedicar tempo de qualidade 
só com seus discípulos, de modo que “deixa 
as multidões” e, para certificar-se de que 
ninguém os seguirá, pede que se amontoem 
“no barco” para ir à região da Transjor- 
dânia. É provável que o barco nesse relato 
fosse semelhante a uma embarcação des- 
coberta há poucos anos (veja imagem ao 
lado).1 A ênfase é sobre a popularidade 
descomunal de Jesus. Como em 1.35-37;
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Marcos passa de uma série de parábolas de 
Jesus para uma coletânea de seus milagres. 
A ênfase é sobre sua autoridade, e a sequên- 
cia apresenta todos os tipos de milagres que 
Jesus realizou, demonstrando seu poder 
sobre a natureza (4.35-41), sobre as forças 
das trevas (5.1-20), sobre as enfermidades 
(5.24b-34) e, por último, sobre a morte 
(5.21-24a,35-43). A ação se desenrola 
junto ao mar da Galileia e, em certo sen- 
tido, esses são relatos que envolvem barcos. 
Neles, Jesus, o Senhor do Sabbath (2.28), 
é apresentado também como Senhor da 
criação. A pergunta fundamental é “Quem 
é este?” (4.41). Ainda assim, mais uma vez 
o resultado será rejeição (6.1-6), como foi
M arcos 4 .3 5 — 5.20
O barco usado por Jesus e seus discípulos 
para atravessar 0 lago talvez fosse semelhante 
à embarcação do primeiro século d.C. cujos 
restos aparecem aqui. Foi encontrada em 
1986 enterrada na lama exposta pela seca. 
na margem noroeste do mar da Galileia. Tem 
8 metros de comprimento, 2,3 metros de 
e 1,4 metros de profundidade.com 
para doze a quinze pessoas.
largura
espaço
Principais temas de Marcos 4.35— 5.20
■ Em situações desesperadoras, é essencial ter fé 
em vez de medo.
■ Jesus exerce autoridade absoluta sobre toda a cria- 
çâo divina.
• As forças demoníacas existem somente para ten- 
tar derrotar e destruir todos os que são criados à 
imagem de Deus.
consideram que se trata de um “exorcismo” 
de poderes demoníacos na tempestade. 
Embora essa proposta seja possível, tendo 
em vista o relato seguinte (5.1-20), é mais 
provável que Jesus esteja se dirigindo ao 
vento como uma entidade viva a fim de 
demonstrar seu controle absoluto sobre 
todo tipo de forças como essa.
4.40 com medo [...] não têm fé. Para 
muitos, essa é uma história que trata prin- 
cipalmente do discipulado, mas esse tema é 
secundário em relação à cristologia. Ainda 
assim, nos versículos 39 e 40 encontramos 
um precursor dos fracassos que predomina- 
rão nos capítulos 6— 16 (veja Introdução). 
Os discípulos não têm fé porque concen- 
tram toda sua atenção no dilema terreno e 
não creem em Deus/Jesus. O medo revela 
falta de fé (cf. 5.15,36; 6.50; 10.32; 16.8).
4.41 Quem é este? Os apóstolos reagem 
de modo apropriado com “grande temor”, 
uma demonstração de deslumbramento e 
reverência, e não de terror. Suas palavras 
implicam uma cristologia extremamente 
elevada, pois no Antigo Testamento so- 
mente Yahweh dá ordens às tempestades 
(SI 65.7; 89.9; 93.3,4; 107.28,29). “Quem 
é este?” é a pcrgunta-chave de 4.35—5.43.
5.1 Eles atravessaram o lago. Começa- 
ram a jornada em 4.36; agora, depois da 
tempestade, chegam à região gentia dos 
gerasenos. O problema é que Gerasa ficava 
a mais de cinquenta quilômetros no inte- 
rior. Mateus 8.28 traz “gadarenos”, indi- 
cando um local cerca de oito quilômetros
3.7, ele não consegue escapar; as multidões 
0 seguem por toda parte.
4.37 ele quase afundou. Colinas altas 
cercam o lago e, com frequência, afuni- 
lam o vento sobre a água, criando ondas 
de 2,5 a 3 metros de altura (uma vez que 
essa região se encontra cerca de 215 metros 
abaixo do nível do mar, costuma ter ventos 
fortes e, como o lago é profundo, o vento 
agita uma grande quantidade de água). As 
ondas quebram sobre o convés e começam 
a inundar o barco, ameaçando afundá-lo.
4.38 Jesus estava /.../ dormindo. E pro- 
vável que haja uma ligação com a narrativa 
de Jonas, na qual figuram um barco no 
mar, uma grande tempestade, passageiros 
aterrorizados e Jonas adormecido no porão 
(Jn 1.5). Jesus é maior que Jonas (Mt 12.41) 
e inverte os aspectos negativos da história 
do profeta. A “almofada” de marinheiro 
talvez seja uma espécie de travesseiro ou um 
saco usado para lastro. A ênfase provável- 
mente é sobre a imensa confiança de Jesus 
em Deus, que lhe possibilita permanecer 
dormindo apesar das ondas revoltas e do 
vento uivante.
não te importas que nos afoguemos? Os 
discípulos interpretam o sono de Jesus não 
como fé, mas como indiferença à situação 
difícil deles.2 Cada aspecto de sua reação ao 
Jesus adormecido revela sua falta de fé nele 
(em contraste com a fé em Deus que Jesus 
demonstra) e seu desespero diante do perigo 
(por ironia, eles, e não Jesus, eram pescado- 
res que provavelmente haviam enfrentado 
tempestades desse tipo em ocasiões anterio- 
res). Chamam-no “Mestre” (mesmo título 
usado em Lucas; em Mateus, chamam-no 
“Senhor”) e o acusam de não se importar 
com a morte iminente deles. Em Jonas 1.6, 
o capitão desperta o profeta para lhe pedir 
que ore pela situação deles, e é isso que os 
discípulos deveríam ter feito com Jesus.
4.39 Aquiete-se! Acalme-se! Essa é a 
mesma linguagem usada para repreen- 
der e calar o demônio em 1.25, c muitos
M arcos 4 .3 5— 5.2081
arrebentou as correntes, quebrou os ferros 
e subjugou todos que tentaram “domá-lo”
(damazõ, usado com frequência para domar 
animais selvagens).
gritava e se cortava. Sem dúvida os gri- 
tos contínuos são resultado de angústia; 
um comentarista considera essa passagem 
“uma das histórias mais lamentáveis da 
Bíblia sobre a desgraça humana”.5 O ato 
de “cortar-se com pedras” pode ser suicí- 
dio ritual; os demônios procuram matá-lo, 
como fazem também com o menino em 
9.18,22,26.
5.7 Filho do Deus Altíssimo. O ende- 
moninhado reconhece Jesus de imediato, 
mesmo “de longe” e, diante da autoridade 
de Jesus, divinamente concedida, é obri- 
gado a “prostrar-se” (o verbo proskyneõ 
pode significar “adorar”, mas aqui tem 
o sentido básico de submissão a uma 
autoridade superior). Aquele que havia 
subjugado todos os que se opunham a ele 
agora se encontra impotente aos pés de 
Jesus! Ainda assim, ele reage e tenta ga- 
nhar alguma vantagem sobre o Filho do 
Deus Altíssimo. As palavras que profere 
são semelhantes às do endemoninhado em 
1.24; na primeira parte, tenta obrigar Jesus 
a deixá-lo em paz e, na segunda, procura 
atingir a essência interior de Jesus a fim de 
obter algum poder sobre ele. Algumas das 
expressões mais elevadas da cristologia em
a sudeste do lago. Tanto Gerasa quanto 
Gadara faziam parte de Decápolis, as dez 
cidades helenísticas na Síria, de modo que 
só podemos afirmar que essa região ficava 
do lado leste do lago.3
5.2 um homem com um espírito imundo 
veio. Essa é a primeira de várias ocasiões 
em que Jesus vai a uma região gentia (7.24- 
30; 7 . 3 1 8 . 1 - 1 0 -Embora Jesus res .(־37; 
trinja a missão de seus discípulos a Israel 
(Mt 10.5,6; 15.24), leva-os consigo, propo- 
sitadamente, ao ministrar aos gentios, sem 
dúvida a fim de prepará-los para sua missão 
posterior aos não judeus.4 Nesse sentido, 
a missão aos gentioscomeça aqui. Como 
em 1.23, Marcos usa sua expressão básica 
para demônios “espírito impuro [imundo]” 
para mostrar que não há nada de bom nem 
da parte de Deus neles. Não passam de 
“animais” imundos! Os possuídos eram, 
para todos os efeitos, como os leprosos e, 
portanto, obrigados a deixar seus lares e 
povoados. Túmulos (cavernas ou locais de 
sepultamento escavados em rochas para a 
família estendida, com uma parte na frente 
delas reservada para os futuros mortos) 
eram os lugares mais apropriados para 
abrigar-se de tempestades, razão pela qual 
se tornaram a habitação dos possuídos.
5.3-5 arrebentava as correntes e que- 
brava os ferros. Somente Marcos traz essa 
descrição vivida da força sobrenatural e do 
tormento intenso do homem. Sua força é de- 
clarada de três formas:
Um possível local para 
a região dos gerasenos, 
onde Jesus encontra 
um hom em possuído 
por um espírito imundo, 
é a região próxima de 
Gergesa, do lado leste 
do mar da Gallleia. Essa 
encosta íngreme de 
uma colina é um cenário 
apropriado para a fuga 
desenfreada da manada 
de porcos.
M arcos 4 .3 5 — 5.20
5.13 se afogaram. A nova habitação dos 
demônios não dura muito tempo. Assim 
que entram nos porcos, a manada corre 
em desespero para sua destruição. As águas 
que quase mataram os discípulos (4.37,38) 
agora aniquilam os animais.
5.15 assentado ali, vestido e em per- 
feito juízo. Dificilmente essa manada tão 
numerosa pertencia a apenas um dono. É 
provável que fosse constituída dos porcos 
de todo o povoado. Ao ouvir a notícia, 
todos os habitantes correm para o local. 
O foco, porém, não está sobre os porcos 
mortos, mas sobre o homem restaurado. 
Sem dúvida, a maioria das pessoas ali co- 
nhecia o endemoninhado. E provável que 
muitos deles tivessem sido subjugados por 
ele (v. 4) e, portanto, tenham ficado atôni- 
tos ao vê-lo em perfeito juízo, aos pés de 
Jesus (veja v. 6). Seu temor é tão grande 
que pedem a Jesus que saia da região para 
que não haja mais destruição.
5.19 conte-lhes quanto o Senhor fez por 
você. Jesus acata o pedido do povo, mas 
enquanto está entrando no barco para vol- 
tar à Galileia, o homem suplica para que 
lhe permita tornar-se um de seus discípulos 
(gr., m efautou, “estar com ele”, o primeiro 
passo do discipulado em 3.14). Em vez 
disso, Jesus o transforma em missionário, 
aliás, o primeiro “apóstolo [enviado] aos 
gentios”. Jesus inverte a ordem de silêncio 
em 1.44; 3.12 (e 5.43) e instrui o homem 
a proclamar a “misericórdia” de Deus por 
ele. O segredo messiânico foi restrito ao 
contexto judaico, pois somente os judeus ti- 
nham um conceito equivocado da (primeira) 
vinda do Messias como rei conquistador em 
vez de servo sofredor. O homem obedece a 
Jesus, proclama a misericórdia de Deus por 
toda Decápolis (as “Dez Cidades” da Síria) 
e, por consequência, “todos” (linguagem da 
missão universal) ficam “maravilhados”.
Marcos vêm de demônios: “Santo de Deus” 
(1.24), “Filho de Deus” (3.11) e agora, a 
mais exaltada de todas: “Filho do Deus 
Altíssimo” (reconhecendo a superioridade 
absoluta do “Altíssimo”).
Em nome de Deus, não me atormentes! 
Podería se tratar de uma súplica desespe- 
rada por misericórdia, mas à luz de 1.24 
e da linguagem aqui, é mais provável que 
represente uma tentativa de obter algum 
controle sobre Jesus. O “tormento” deve 
ser entendido sob a ótica de 1.24 (“para 
nos destruir”) como uma referência a ser 
expulso de sua habitação atual (o homem), 
prenunciando sua “expulsão” final para o 
lago de fogo (Ap 19.20; 20.10,14).
5.9 Meu nome é Legião. Essa parte cen- 
trai do relato (v. 7 1 3 gira em torno das (־
“negociações” entre os demônios e Jesus. 
Há uma diferença interessante em relação 
a exorcismos anteriores em Marcos: Jesus 
já ordenou que os demônios saíssem (v. 8) 
e, ainda assim, eles continuam a barganhar 
na tentativa de obter liberdade. O propósito 
de Jesus aqui é mostrar a todos a natureza 
das forças reunidas contra eles. A tônica de 
“Legião” não é o número exato de solda- 
dos, mas, sim, o número elevado (“somos 
muitos”) e a imagem de um exército hostil 
decidido a causar destruição.6 Também é 
possível que o nome busque retratar que 
os demônios ocuparam o homem (como 
Roma fez com a Palestina).
5.12 Mande-nos para os porcos. A pre- 
sença de uma grande manada de animais 
impuros fornece a habitação perfeita para 
“espíritos imundos” . Em vez de serem lan- 
çados às “correntes das trevas” (2Pe 2.4), 
os demônios suplicam para ser enviados 
a um lugar alternativo, a manada de por- 
cos. Observe que os demônios se renderam 
inteiramente ao poder superior de Jesus. 
Eles sabem que serão expulsos e procuram 
chegar a um meio-termo para que Jesus lhes 
dê algo ligeiramente melhor que o abismo.
M arcos 4 .35— 5.2083
Depois de ser liberto dos 
espíritos im undos, o homem 
curado anuncia 'em Decápolis" 
(5.20) o quanto Jesus fez por 
ele. A região de Decápolis era 
um distrito adm inistrativo de 
Roma. Abrangia várias cidades 
helenizadas importantes, a 
maioria a leste do mar da 
Galileia e do rio Jordão. Caso 
esse m ilagre de cura tenha 
ocorrido perto de Gergesa, 
a cidade de Decápolis mais 
próxima era Hipos. A fotografía 
mostra as ruínas do fórum 
(primeiro século d.C.) de Hipos.
tornou-se comum duvidar de milagres, 
considerá-los uma violação das leis natu- 
rais e, portanto, ocorrências impossíveis. 
No entanto, devemos perguntar: Quem é 
soberano, Deus ou as leis naturais que ele 
instituiu? Sabemos, agora, que a ciência 
apenas descreve como a natureza funciona; 
ela não dita essas leis. Dentro das leis na- 
turáis, há espaço para um Deus que, ao 
intervir de fora da natureza, prova que ela 
funciona como deve.7
3. O objetivo das forças demoníacas 
é causar destruição. Aqui e em 9.14-20, 
fica evidente qual é o propósito central dos 
demônios neste mundo. A exemplo de Sata- 
nás, o “leão que ruge” e deseja “devorar” 
sua presa (1Pe 5.8), os demônios existem 
para opor-se a Deus e a seu povo. Não se 
apoderam de indivíduos porque desejam 
ter um corpo (como me ensinaram quando 
eu era jovem!). Seu desejo é atormentar e 
matar todos que foram criados à imagem 
de Deus. Quando Satanás foi expulso do 
céu, veio à terra “cheio de fúria, pois sabe 
que lhe resta pouco tempo” (Ap 12.12). 
Como não tem pretensão alguma de con- 
quistar uma vitória definitiva, ele e seus 
subordinados desejam causar o máximo de 
dor no tempo que lhes resta. O poder deles,
Para ensinar o texto____________
1. Situações graves requerem fé, não medo. 
Deus não tenta ninguém (Tg 1.13), mas 
um Pai amoroso precisa disciplinar/pro- 
var seus filhos (Hb 12.5-11). As provações 
são o solo no qual a fé cresce (Tg 1.2-4; 
lPe 1.6,7). Se Deus nos desse tudo 0 que 
desejamos, em pouco tempo confiaríamos 
em nós mesmos em vez de confiar nele. As 
provações nos obrigam a voltar-nos para 
Deus e depender dele. O oposto da con- 
fiança é medo e preocupação, uma reação 
aos problemas que vê apenas a dimensão 
terrena. Quando oramos com fé podemos 
vencer as inquietações de nosso coração 
(Jo 14.1; Fp 4.6,7).
2. Cristo possui autoridade absoluta. 
Essa seção sobre milagres (4.34—5.43) tem 
como tema principal o senhorio de Cristo 
sobre sua criação (quanto a Cristo como 
Criador, veja Jo 1.3,4; ICo 8.6; Cl 1.16,17; 
Hb 1.2; Ap 3.14). Como criador e susten- 
tador desse cosmo, Jesus exerce autoridade 
sobre todas as suas partes. Seus milagres, 
portanto, afetam todos os aspectos da 
criação: as forças da natureza, o mundo 
dos espíritos, as enfermidades humanas e 
até mesmo a morte. Desde o Iluminismo,
M arcps 4 .3 5— 5.20 84
Fé, 0 antídoto para o medo.
Experiencia cotidiana: Você alguma vez ob- 
servou um pai carinhoso ensinar um filho 
pequeno a nadar? Muitas vezes, o pai entra 
na água e convida o filho a saltar e se unir 
a ele. O filho está à beira da piscina e tem 
consciência de que não sabe nadar. Para ele, 
a piscina deve parecer assustadora, mas ele 
aprendeu com o tempo que pode confiar no 
amor dopai. Então, em um momento de fé, 
ele salta para dentro da água, confiante de 
que está seguro por causa do amor do pai. 
Um novo mundo se abre para o filho. Qual 
é o antídoto para o medo? É a fé no amor 
de Deus. No entanto, só aprendemos que o 
amor de Deus é digno de confiança quando, 
em obediência, damos passos de fé. Como 
recurso visual, pode-se mostrar um vídeo de 
uma criança (de preferência alguém que seus 
ouvintes conheçam) aprendendo a nadar.
A verdade acerca dos milagres. 
Testemunho: Embora os cristãos que creem 
na Bíblia tenham convicção de que Jesus 
realizou milagres durante seu ministério e, 
por meio de seus apóstolos na igreja primi- 
tiva, muitos têm dificuldade em acreditar 
que milagres ainda acontecem hoje. Entre- 
tanto, Deus é o mesmo ontem, hoje e para 
sempre, e ainda é Senhor de toda a criação. 
É importante preencher essa lacuna da fé. 
Peça que uma ou duas pessoas deem um tes- 
temunho sucinto de como experimentaram 
o poder miraculoso de Deus em sua vida.
contudo, se restringe a este mundo (Satanás 
só é o deus “deste mundo” |2C0 4.4]) e 
Cristo já os derrotou de uma vez por todas. 
Eles não têm poder efetivo sobre os cristãos; 
pelo contrário, os cristãos têm autoridade 
sobre eles (Mc 3.15; 6.7).
Para ilustrar o texto_____________
0 problema do medo.
Experiência cotidiana: De acordo com 
um estudo publicado na revista científica 
Archives o f General Psychiatry, todos os 
anos, por volta de 18,1 % das pessoas com 
dezoito anos ou mais sofrem de algum 
transtorno de ansiedade.8 
Citação: Sem medo de viver, de M ax 
Lucado. Lucado identifica que uma das 
consequências do medo é a necessidade de 
estar no controle. Ou seja, quando temos 
a impressão de que estamos perdendo o 
controle, o tirano dentro de nós é liber- 
tado à medida que buscamos o controle a 
qualquer preço. Para ilustrar essa realidade, 
Lucado conta uma experiência de Martin 
Niemõller, um pastor alemão que se opôs 
corajosamente a Adolf Hitler. Niemõller 
conheceu Hitler em 1933 e, posteriormente, 
relatou à esposa o que aprendeu com essa 
experiência: “Descobri que Herr Hitler é 
um homem extremamente assustado”. O 
medo e a necessidade relacionada de estar 
no controle (como reação ao medo) “liber- 
tam o tirano dentro de nós”.9
M arcos 4 .3 5— 5.2085
Λ־
·
Marcos 5.21-43
A autoridade de Jesus sobre a 
enfermidade e a morte
Ideia centra l Nesses milagres de cura ocorrem duas transformações: (1) A compaixão de 
Jesus pelos enfermos 0 leva a desconsiderar as leis de pureza e a trazer cura/pureza 
aos que sofrem; (2) ele inverte as regras de prestígio social e apresenta uma mulher 
anônima e impura como modelo de fé.
8HH₪e8**eMS8SWHBeeBHH™HHH8H**S8BBBB88R8S*1$i5®R^v^&^y: 5¿y. HHH N HhS!K'c
amor”,1 em que a compaixão de Jesus pelas 
pessoas que sofrem tem prioridade sobre 
todos os códigos legais, como a proibição 
de tocar pessoas impuras. As narrativas 
são interligadas por três elementos: ambas 
tratam de impureza, as duas pessoas aflitas 
são mulheres e ambas são associadas ao nú- 
mero doze (a idade da menina e o número 
de anos que a mulher tem estado enferma).
Considerações interpretativas
5.22 um dos dirigentes da sinagoga [...] 
prostrou-se a seus pés. Jesus e os discípu- 
los voltaram pelo lago ao que parece para 
Cafamaum, e, como sempre, outra “grande 
multidão” se reúne. Do meio do povo surge
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Vemos aqui mais uma interposição [episó- 
dio sanduíche], semelhante à de 3.20-35, 
em que os dois relatos interpretam um ao 
outro. No contexto dessa seção sobre mila- 
gres (4.35—5.43), essas histórias (a filha de 
Jairo e a cura da mulher com hemorragia) 
representam os dois últimos dos quatro 
tipos de milagres, nesta ordem: poder sobre 
a natureza, sobre os demônios, sobre a en- 
fermidade e sobre a morte. Os dois tipos 
aqui (enfermidade e morte) são semelhan- 
tes ao relato de exorcismo, pois tratam de 
questões das leis de pureza. Temos nessa 
passagem a chamada “hermenêutica do
Jairo era um dos líderes da sinagoga 
em Cafarnaum. Hoje. dessa sinagoga do 
primeiro século restam apenas pedras de 
basalto sobre as quais foi construída uma 
sinagoga do quarto a quinto século d.C.
(a fotografia mostra 3 reconstrução vista 
do lado sul). A construção mais recente 
I consiste em um am biente de oração e 
i ensino, com colunas corintias e bancos. Do 
j lado leste foi acrescentado um pátio com 
I um pórtico voltado para uma rua principal.
M arcos 5.21-43
Principais temas de Marcos 5.21-43
• A fé não é essencial para a cura, mas permite que 
a pessoa participe espiritualmente do processo 
de cura.
■ No ministério aos necessitados, a compaixão tem 
prioridade sobre as regras.
■ Para o cristão, a morte não é o fim, mas 0 começo.
período. De acordo com Levítico 15.19- 
33 (e um tratado completo, Niddah, na 
Mishná), uma mulher com fluxo menstruai 
ficava impura por sete dias e qualquer um 
que a tocasse ficava impuro por um dia 
inteiro. Em Ezequiel 36.17, a conduta ímpia 
de Israel é comparada à “impureza mens- 
trual de uma mulher” , com sua aura de 
contaminação. Essa ideia era exacerbada 
pelo fato de 0 sangue ser considerado a base 
da vida; logo, a menstruação simbolizava 
vida que deixava 0 corpo. A mulher havia 
perdido todos os seus bens em busca de 
uma cura e agora, para todos ao seu redor, 
era uma pária, como se tivesse lepra. Não 
podemos imaginar quão horrível tinha se 
tornado a vida dessa triste mulher.
5.28 Se eu apenas tocar em suas roupas. 
Os médicos não tinham mais o que fazer 
(e, provavelmente, consideravam uma hu- 
milhação tratar uma pessoa tão impura). 
Ela sabe, porém, que Jesus pode fazer o 
que eles não podem e toma uma decisão 
audaciosa. Sua fé é grande, pois enquanto 
outras pessoas enfermas queriam ser “to- 
cadas” por Jesus (veja comentário sobre 
5.23), ela crê que o simples ato de tocar nas 
roupas dele (mesmo que ele não perceba) 
será suficiente (de fato, havia poder de cura 
nas roupas de Jesus [Mc 6.56], assim como 
nas vestes de Paulo [At 19.12]).3 Talvez ela 
temesse que Jesus, como todos os outros, 
se afastaria caso soubesse que uma pes- 
soa tão imunda se aproximava dele. Por 
isso, ela se esgueira no meio da multidão 
(provavelmente escondendo o rosto, pois
mais um suplicante. Trata-se de um membro 
bastante influente da comunidade, um dos 
“dirigentes da sinagoga” . Em Mateus 9.18 
ele é chamado “chefe”, um dos sete líderes 
da comunidade em uma cidade de tamanho 
médio; o dirigente da sinagoga (geralmente 
um dos sete) era um dos três administra- 
dores da sinagoga. Ele costumava ser um 
benfeitor rico da sinagoga, encarregado das 
instalações físicas (incluindo as finanças) 
bem como da ordem no culto (responsável 
por escolher quem faria a leitura das Escri- 
turas e a homília). O fato de esse homem 
tão importante prostrar-se aos pés de Jesus 
revela sua situação extremamente difícil e 
sua consideração por Jesus. Nos milagres 
de cura, não é comum mencionar-se o nome 
da pessoa (veja também 10.46). “Jairo” 
significa “ele desperta” ou “ele vê”; ambos 
os sentidos são apropriados.2 A citação 
do nome indica o grande prestígio desse 
homem (também faz um contraste com a 
mulher anônima em 5.25).
5.23 minha filhinha está morrendo. De 
acordo com 5.42, ela tem doze anos de 
idade. A enfermidade não é especificada, 
mas sem dúvida era muito grave, pois a me- 
nina “está morrendo”. Jairo está exaurido e 
suplica para que Jesus a cure dessa doença 
terrível. Em 1.41, Jesus tocou o leproso e o 
curou e, em 3.10, muitos doentes tentaram 
“tocar” Jesus para ser curados (também 
6.5; 7.32; 8.23), de modo que Jairo pede 
a Jesus que “imponha as mãos” sobre a 
menina, certo de que isso podería “curá-la”.
5.25,26 certa mulher [...] sofrendo de 
uma hemorragia. Na grande multidão que 
comprimia Jesus, havia uma figura trágica, 
uma mulher sem importância na sociedade 
(cujo nome não é citado e nem é rica como 
Jairo). Marcos usa sete participios suces- 
sivos para relatarsua história comovente. 
Durante toda a vida da filha de Jairo (doze 
anos), essa mulher tem sofrido de um mal 
terrível, um transtorno menstrual que 
não cessou, antes piorou ao longo desse
87 M arcos 5.21-43
prestígio social algum. Agora, Jesus a eleva 
inteiramente acima dessa situação aflitiva 
e não apenas lhe confere uma condição 
elevada (ao chamá-la “filha”), mas também 
a apresenta como modelo de fé para Jairo, 
em 5.36 (quanto à “fé” em milagres de cura, 
veja comentário sobre 2.5). Na verdade, a 
fé não produz cura, nem é um pré-requisito 
essencial. Jesus curou muitos que não eram 
seus seguidores. No entanto, a fé permite 
que o indivíduo participe do ato de cura 
realizado por Jesus, que experimente cura 
espiritual, bem como física.
5.36 Não tenha medo; apenas creia. Jairo 
fica completamente arrasado com a notícia 
aterradora de que sua filha havia morrido 
enquanto ele suplicava pela aj uda de Jesus. 
Todos imaginam que é tarde demais e, na- 
turalmente, concluem que não adianta mais 
“incomodar o mestre” . Agora, precisam de 
pranteadores; é tarde demais para cura- 
dores. Jesus é um “mestre” maravilhoso, 
mas seu poder se limita a curas enquanto 
ainda há vida. Jairo havia demonstrado um 
mínimo de fé ao prostrar-se aos pés de Jesus 
momentos antes. Agora, ele precisa de mais 
fé — a mesma que a mulher demonstrou 
e que Jesus elogiou em 5.34. Ele precisa 
“crer” como a mulher creu. Semelhante a 
4.40, o medo é a antítese da fé, uma reação 
centrada nas coisas terrenas e não em Deus, 
diante das tragédias da vida. Como David 
Garland afirma, Jairo precisa entender que 
“fé é a confiança em meio à desesperança”.4
5.37 não deixou ninguém segui-lo, senão 
Pedro, Tiago e João. Jesus se afasta de todos 
os seus seguidores, exceto do círculo mais 
chegado. Há quatro círculos concêntricos 
de seguidores mencionados: os cento e vinte 
(At 1.15), os setenta (ou setenta e dois 
[Lc 10.1]), os Doze (Mc 3.13-19) e esses 
três, provavelmente os mais próximos de 
Jesus (cf. Mc 9.2; 13.3; 14.33).
5.39 A criança não está morta, mas 
adormecida. Como em 5.35, o povo perdeu
muitos na cidade a conheciam) e, com um 
gesto furtivo, estende a mão para tocar o 
manto de Jesus.
5.29,30 !mediatamente cessou sua he- 
morragia /.../ dele havia saído poder. Os 
efeitos poderosos do milagre são sentidos 
“¡mediatamente” tanto pela mulher quanto 
por Jesus. Além de a hemorragia cessar, a 
mulher se sente “livre de seu sofrimento”, 
sem dúvida uma sensação física de bem- 
-estar e de remoção do peso debaixo do 
qual ela havia vivido por tanto tempo. Os 
efeitos em Jesus são igualmente intensos. 
A mulher esperava passar despercebida no 
meio da multidão (afinal, todos que ela 
havia tocado, mesmo Jesus, seriam conside- 
rados impuros), mas não é o que acontece. 
Jesus sente poder divino ser transferido dele 
para a mulher. Nos relatos dos milagres, 
esse fenômeno é explicado somente nesse 
episódio. O poder de cura de Jesus era algo 
físico, e ele sentiu parte desse poder sair dele.
5.33 a mulher [...] tremendo de medo. 
Os discípulos ficam espantados com o 
fato de Jesus conseguir identificar o toque 
de uma pessoa em meio à confusão da 
grande multidão que o empurrava (essa 
percepção é mais uma prova dos poderes 
sobrenaturais de Jesus). Ao que parece, 
a mulher estava saindo sorrateiramente 
e teve de voltar quando Jesus olhou ao 
redor à sua procura. É provável que seu 
“medo” tenha três aspectos: muitos na 
multidão sabiam de seu estado de im- 
pureza; Jesus podería se ofender por ter 
sido tocado por uma mulher impura (que, 
dessa forma, havia lhe transmitido sua 
impureza); mas acima de tudo, ela deve 
ter sentido o “temor reverente” que a fez 
estremecer (cf. 4 .4 1), pois sabia que havia 
sido curada de forma miraculosa.
5.34 sua fé a curou. Um dos principais 
temas dessa passagem, o poder da fé, é apre- 
sentado aqui. Ela havia sido uma mulher 
impura, anônima, sem importância e sem
88M arcos 5.21-43
É possível que os indivíduos que 
choravam e lamentavam diante da casa 
de Jairo fossem pranteadores profissionais, 
convocados com o parte dos ritos 
fúnebres. Nesse relevo na parede de um 
túm ulo em Saqqara, vemos pranteadores 
demonstrando sua tristeza enquanto 
participam de uma procissão fúnebre 
(1550-1292 a.C.).
Jesus usou; não se trata de uma fórmula 
mágica, mas de um toque de impacto. O 
milagre é instantâneo; ela começa a andar 
e está pronta para se alimentar.
5.43 deu ordens expressas para que não 
dissessem nada a ninguém. Sua exigência 
parece quase absurda. Quem pode perma- 
necer calado diante de uma menina que foi 
ressuscitada? Ainda assim, já observamos 
o segredo messiânico em 1.34,44; 3.12 e 
o veremos novamente em 7.36; 8.30; 9.9. 
Aqui, quer dizer que o verdadeiro signi- 
ficado por trás do milagre só poderá ser 
conhecido depois da ressurreição (também
9.9) e que as multidões não são capazes de 
entender a verdadeira natureza de Jesus. 
Consideram-no um milagreiro e futuro 
rei conquistador.
Considerações teológicas
Jesus não apenas controla as forças cós- 
micas, mas também é soberano sobre as 
difíceis questões humanas da enfermidade e 
da morte. Nosso Deus é um Deus que cura, 
cheio de compaixão por seu povo sofredor 
e aflito. Ele nos levanta, e pede apenas que 
confiemos nele. Nossa atitude deve ser de 
fé em sua vontade suprema, pois sabemos 
que, em todas as coisas, nossas provações 
produzirão o bem (Rm 8.28). A cura física 
é precursora de nossa ressurreição futura, 
e precisamos aprender a depender da amo- 
rosa presença divina em nossa vida.
inteiramente a fé na autoridade de Jesus 
de curar, e os pranteadores profissionais 
(comuns em funerais nos tempos antigos) 
assumiram o comando. Essa era uma prá- 
tica comum em funerais judaicos (cf. Ep 
2.27: “tristeza sobre tristeza”), mas, como 
na morte de Lázaro (Jo 11.33), Jesus que- 
ria algo mais que isso. Há quem entenda 
que “não está morta, mas adormecida” 
indica um estado de coma, mas 5.35 dá 
a entender que ela estava morta. Naquela 
época, as pessoas conheciam bem a morte 
e, quando todos “riem” da observação de 
Jesus, fica evidente a realidade da morte da 
menina (mas também a falta de fé deles). 
Jesus quis dizer que, no sentido eterno, 
ela estava apenas adormecida (eufemismo 
comum para morte no primeiro século, mas 
utilizado aqui com sentido irônico) e logo 
voltaria à vida.
5.41 Talita cumi! Uma vez que os 
pranteadores não têm fé, Jesus os deixa 
do lado de fora e traz apenas os pais e os 
discípulos para o lugar em que realiza a 
cura. Em certo sentido, essa cena é pre- 
cursora da ressurreição futura de Jesus 
e de todos os cristãos; em outro sentido, 
porém, todas as ressurreições de mortos 
na Bíblia são apenas ressuscitações/ pois 
todos morreríam novamente. A despeito 
disso, a transliteração que Marcos faz das 
palavras aramaicas pronunciadas por Jesus 
(“Menininha, levante-se!”) visa a tornar 
a cena mais intensa e marcante/’ Marcos 
nos permite ouvir as palavras exatas que
M arcos 5.21-4389
Para ensinar o texto
Uma mulher que sofria de hemorragia é curada 
milagrosamente ao tocar o m anto de Jesus, que 
elogia a fé dela. Esse encontro é retratado nesse 
mosaico do século 14 d.C.
àquela circunstância problemática. Todas 
as coisas são tornadas puras pela presença e 
pelo amor de Jesus. Seu interesse sobrepuja 
todas as condições difíceis.
3. A morte é mais um começo que um 
fim. A ressurreição da menina é precursora 
da ressurreição de Jesus e, portanto, da res- 
surreição futura de todos nós, dos quais a 
ressurreição de Jesus é “as primicias” (ICo 
15.20,23). A morte dela foi temporária, 
pois Jesus a trouxe de volta à vida. Nossa 
morte será ainda mais temporária, pois será 
transformada de imediato em vida eterna.
A morte é “o último inimigo” (1C0 15.26), 
e assola todas as pessoas, mas em Cristo 
já foi derrotada de modo decisivo, de uma 
vez por todas. Morte é tristeza e dor (Jo 
11.35; Fp 2.27), mas também, o fim do 
sofrimento aqui na terra e a transferênciaimediata de cada um de nós para a presença 
do próprio Deus (2Co 5.8; Fp 1.21-23). 
De fato, denota o fim de nossa existência 
terrena, mas muito mais do que isso: é o 
início de nossa alegria eterna.
Para ilustrar o texto_____________
Fé e cura.
Relato: Com raiva da mãe, a garota de 13 
anos diz: “Está na cara que você não me 
ama!” . A mãe avisara à filha que não a
1. A fé nos permite participar do poder 
divino de cura. As pregações recentes de 
cura pela fé (que parece com frequência 
associada à “pregação da prosperidade”) 
de modo perigoso e herege tornam Deus 
subserviente, em vez de reconhecer sua 
soberania sobre o mundo. Há quem creia 
equivocadamente que Deus tem a obriga- 
ção de responder a nossas orações e jamais 
pode dizer não. Esse não é o Deus da Bíblia, 
mas uma criação humana com um cerne 
não cristão. Nossa fé não diz a Deus o que 
fazer. Ele é soberano e tem todo o direito 
de negar nossos pedidos e de nos dar o 
que precisamos em vez do que desejamos. 
Nosso grau de fé também não influencia o 
poder de Deus de curar. Se não somos cura- 
dos, não é por falta de fé, mas porque Deus 
decidiu soberanamente que a cura não é o 
melhor para nós (Rm 8.28) no momento. A 
fé nos permite participar espiritualmente do 
processo de cura, mas não controla Deus. 
De acordo com David Garland, a fé faz 
duas coisas: ela “abre a porta para o poder 
divino”, pois entrega a situação ao Deus 
que opera e “demonstra persistência para 
superar qualquer obstáculo”, pois age com 
destemor diante de situações graves, em 
resposta à presença de Cristo.7
2. A “hermenêutica do amor” prioriza 
a compaixão. Quando Jesus deparava com 
uma necessidade ou com uma enfermidade, 
jamais permitia que os códigos legais judaicos 
o impedissem de ajudar outros. Repetida- 
mente, entrou em conflito com as autori- 
dades por desobedecer à tradição oral (as 
regras acerca do Sabbath, as leis alimentares 
etc.) a fim de curar uma pessoa gravemente 
enferma. Para Jesus, a compaixão era muito 
mais importante que as expectativas religio- 
sas. Nesse processo, Jesus transformou uma 
situação ritualmente impura em algo puro, 
pois trouxe a presença de Deus e o Espírito
M arcos 5 .21 -43 90
B W W W B W H B B W B BWIBB ÍB W íWWWwBBBBWwWm B B B B B B Í
liação estão se desdobrando em nossas 
famílias e entre nossos próximos, em 
nosso país e em nosso mundo o tempo 
todo. Não podemos ser observadores 
passivos e calados dessas coisas. Des- 
cobrimo-nos, de modo bastante mi- 
raculoso, na linha de frente, onde o 
povo de Deus que ora sempre esteve.8
0 ministério compassivo de Jesus.
Filme: Amigos, sempre amigos. Nesse filme 
de 1991, há um diálogo marcante entre 
Curly (caubói protagonizado por Jack 
Palance) e Mitch (rapaz de cidade grande 
protagonizado por Billy Crystal):
Curly: — Você sabe qual é o segredo 
da vida?
M itch: — Não. Qual é?
Curly: — Isso aqui [mostra um dedo]. 
M itch: — Seu dedo?
Curly: — Uma coisa. Uma coisa só. 
Você se apega a ela, e nada mais 
importa.
M itch: — Ótimo. Mas o que é essa 
coisa?
Curly: — É o que você precisa descobrir.
Jesus sabia o que era essa “uma coisa 
só”. Seu alvo era glorificar a Deus ao viver 
em perfeita obediência ao Pai. Desse modo, 
Jesus demonstrou perfeitamente em sua vida 
a natureza e o propósito de Deus, e essa 
obediência incluiu encarnar a compaixão de 
Deus pelo mundo. Na compaixão de Jesus, 
ao curar a mulher e ressuscitar a filha de 
Jairo, vemos a compaixão de Deus. De modo 
semelhante, devemos demonstrar em nossa 
vida a natureza e os propósitos de Deus ao 
procurar glorificá-lo com nossa obediência.
deixaria ir à festa da escola. A filha insistiu; 
todos os seus colegas (do ensino fundamen- 
tal) iriam e todos os outros pais tinham 
autorizado. No entanto, a mãe estava preo- 
cupada com algumas questões. Não tinha 
certeza de que a festa seria devidamente 
supervisionada. Além disso, se a filha não 
dormisse bem naquela noite, véspera da 
viagem de férias, a família inteira sentiría 
os efeitos por alguns dias. A mãe tomou sua 
decisão com base no que sabia ser melhor 
para a menina e para a família. A filha só 
conseguia enxergar, porém, que seu desejo 
não tinha sido atendido.
Essa situação nos dá um vislumbre da 
correlação entre fé e cura. Há ocasiões 
em que com fé apresentamos nossas ne- 
cessidades a Deus e nossas orações não 
são respondidas como gostaríamos. Por 
que isso acontece? E por que não temos fé 
suficiente ou por que Deus tem uma visão 
mais ampla e uma perspectiva diferente 
quando lhe apresentamos nosso pedido? 
Quando Deus responde “não” ou “mais 
tarde”, não é por falta de fé da nossa parte 
ou porque ele não nos ama. Antes, Deus tem 
um plano melhor, para sua própria glória.
A importância de pedidos ousados. 
Citação: Eugene Peterson. Você já pensou 
na oração como um ato de ousadia? Se Deus 
é soberano sobre o universo e, de fato, nos 
ama, então a oração é o modo destemido e 
poderoso de nos engajarmos nesse mundo 
caído. Reflita sobre as seguintes palavras:
A oração não é uma atividade para as 
horas vagas. Questões de vida e morte, 
salvação e juízo, sofrimento e justiça, 
paz e guerra, recriminação e reconci­
M arcos 5.21-4391
Marcos 6.1-6
A rejeição de Jesus em 
sua própria cidade
Ideia centra l Devemos esperar séria oposição no trabalho missionário. Ao participar da 
vida e dá obra de Jesus, os discípulos levam 0 evangelho aos perdidos, mas também são 
perseguidos por eles.
Nazaré, em 6.6. A exortação de Jesus à fé 
em 5.36 é respondida com um sonoro não.
Para entender o texto
Texto em contexto
Considerações interpretativas
6.1,2 Jesus saiu dali e foi para sua cidade 
[...] começou a ensinar na sinagoga. Depois 
de ministrar por um bom tempo em Cafar- 
naum e nos arredores do mar da Galileia, 
Jesus volta a Nazaré, sua casa, sem dúvida 
em outra viagem missionária na Galileia 
(como em 6.7-13, adiante), para retomar 
o trabalho de 1.38,39. Nazaré era um po- 
voado relativamente afastado, cerca de 40 
quilômetros a sudoeste de Cafarnaum, na 
região montanhosa não muito distante do 
monte Tabor. Em 3.21, os familiares de
Em 6.1, o m inistério de Jesus o leva à cidade de 
Nazaré, onde ele cresceu. A fotografia mostra uma 
vista da Nazaré atual, rodeada de colinas, cerca de 
40 quilômetros a sudoeste de Cafarnaum.
Em Marcos 6.1-6, encontramos mais uma 
narrativa de conflito (semelhante a 2.1— 
3.6; 3.20-35) e, como várias passagens de 
transição, essa exerce duas funções: (1) é 
paralela a 3.1-6 e encerra o segundo ciclo 
(1.16—3.6; 3.7—6.6) com uma narrativa 
de conflito; (2) traz um arranjo A-B-A em
6.1-29, passagem em que a missão dos 
Doze (6.7-13) é inserida entre dois relatos 
de rejeição: primeiro a oposição na cidade 
de Jesus (6.1-6) e, em seguida, a prisão 
e a morte de João Batista (6.14-29). De- 
pois dos triunfos da série de milagres e da 
admiração que causaram nas multidões, 
voltamos, de certo modo, ao mundo real de 
reações mistas e rejeição. Convém observar 
o contraste entre a “fé” da mulher em 5.34 
e a absoluta falta de fé dos habitantes de
Principais temas de Marcos 6.1-6
■ 0 trabalho missionário em um mundo perdido resul- 
tará não poucas vezes em resistência e hostilidade.
■ As pessoas mais próximas de um indivíduo muitas 
vezes sâo as últimas a reconhecer os dons e o cha- 
mado dele.
• Aqueles que não estão abertos para Jesus talvez 
descubram que Deus não está mais aberto para eles.
o conheciam apenas como o carpinteiro do 
vilarejo, que havia trabalhado na casa deles, 
em seus móveis e em seus implementos 
agrícolas. Ele havia aprendido esse ofício 
com seu pai (provavelmente aos 13 anos) 
e passado os próximos vinte e poucos anos 
trabalhando com madeira e pedra.
filho de Maria /.../ o irmão de Tiago,
]osé, Judas e Simão [...] suas irmãs. E pro- 
vável que Jesus seja chamado “ filho de 
Maria” porque seu pai, José (possivelmente 
mais velho que Maria), já havia morrido.
Os nazarenos conheciam não apenas a mãe 
de Jesus, mas também seus irmãos e irmãs.
Dois irmãos(os quatro nomes em hebraico 
são de patriarcas do Antigo Testamento,
Jacó e três de seus filhos [Gn 29 e 30]) 
são bem conhecidos: Tiago foi um líder 
importante na igreja em Jerusalém (At 15) 
e autor de uma epístola, e Judas escreveu a 
epístola homônima. Não temos informa- 
ções acerca dos outros dois. Durante a vida 
de Jesus, seus irmãos não creram nele (Jo 
7.5), mas sabemos que Tiago se tornou seu 
seguidor graças a uma aparição depois da 
ressurreição (1C0 15.7) e, conforme Atos 
1.14 (junto com os 120) e ICoríntios 9.5 
(envolvimento com trabalho missionário), 
é provável que os quatro tenham se tor- 
nado seguidores de Jesus. Sabemos pouco 
acerca de suas irmãs. P. R. Kirk sugere que 
elas se casaram com homens de Nazaré e 
permaneceram ali, enquanto o restante da 
família se mudou para Cafarnaum para
Jesus fizeram o mesmo trajeto em sentido 
inverso, mas com a intenção de levá-lo de 
volta para casa, pois pensaram que ele havia 
perdido o juízo. Agora ele faz a viagem, 
mas para ministrar e não para descansar. Já 
que é o Sabbath (chegando o sábado...), o 
rabino Jesus começa a ensinar, como fez em 
1.21,22. É possível que se trate do mesmo 
acontecimento relatado em Lucas 4.14-30 
(seu primeiro sermão em Lucas, em que ele 
usa Is 61.1,2: “O Espírito do Senhor está 
sobre mim”).
Que sabedoria é esta que lhe foi dada? 
Em outras passagens, quando o povo fica 
“admirado” com Jesus, geralmente a co- 
notação é positiva (p. ex., 1.22,27; 2.12; 
5.20); aqui, porém, embora os presentes 
fiquem espantados com sua sabedoria, o 
resultado é rejeição. Uma série de seis per- 
guntas consecutivas feitas pelos conterrâ- 
neos de Jesus os leva a “ofender-se” ou a 
“ficar escandalizados” com ele. Eles não 
têm como negar a “sabedoria” de Jesus 
(“lhe foi dada” deixa implícito que Deus 
é a fonte, mas eles não conseguem aceitar 
esse fato) evidente em seus ensinamentos. 
Questionam, porém, a fonte da sabedoria; 
ele não foi treinado por um rabino e não 
vem de uma linhagem que justifique seu 
ensino imbuído de autoridade. Marcos dá 
a entender que a sabedoria de Jesus vem 
de Deus, a verdadeira fonte de tudo o que 
ele diz e faz. O povo se pergunta, contudo, 
como é possível essa grande sabedoria e 
essas “obras poderosas” serem realizadas 
por um inculto oriundo de uma área re- 
trógrada. Como as multidões em 1.27 e 
2.12, essas pessoas estão admiradas, mas, 
ao contrário das multidões, demonstram 
rejeição, incredulidade e oposição.
6.3 Não é este o carpinteirof Para eles, 
o problema é a fonte dos milagres e da sa- 
bedoria. Jesus não tinha formação; nunca 
estudou com algum dos rabinos famosos. 
Os nazarenos tinham crescido com Jesus e
M arcos 6.1-693
questão crucial é a incredulidade dos na- 
zarenos, e não significa que Jesus perdeu 
seu poder. Afinal, ele cura várias pessoas. 
É mais provável que se trate de um juízo 
divino: eles rejeitam Jesus e, portanto, Deus 
os rejeita. Deus não opera onde não é de- 
sejado. Aliás, Jesus transmitirá o mesmo 
princípio aos discípulos quando lhes diz 
para “sacudir a poeira dos pés” quando as 
pessoas se recusarem a atender ao evange- 
Iho (veja 6.11, abaixo; cf. Mt 7.6). Nesse 
sentido, a incredulidade do povo restringiu 
(“não pôde”) o poder miraculoso de Jesus; 
a despeito disso, pela misericórdia e pela 
graça de Deus, Jesus ainda realizou algumas 
curas em Nazaré.
6.6 Ele ficou admirado com a sua falta 
de fé. Em outras passagens, o povo fica 
admirado com o poder e a autoridade dos 
feitos e das palavras de Jesus (veja comen- 
tário sobre 6.2). Somente aqui Jesus fica 
“admirado” com eles, uma descrição que, 
sem dúvida, transmite a surpresa bastante 
humana de Jesus diante da extensão da 
rejeição e da “incredulidade” de seus anti- 
gos conterrâneos e amigos. Esse episódio é 
emoldurado pela admiração. Como Robert 
Stein observa, ele prenuncia “a nuvem es- 
cura que vai descendo sobre o Filho de Deus 
e que, por fim, levará à cruz”.2
Para ensinar o texto____________
1. Muitas vezes o trabalho missionário gera 
resistência e hostilidade. Repetidamente, 
Jesus e os autores dos Evangelhos lembram 
que o trabalho missionário não é tarefa 
fácil. É inevitável que os seguidores de 
Jesus deparem com as mesmas dificulda- 
des que ele. Como Jesus observa em Ma- 
teus 10.24,25, se o senhor é maltratado, 
seus servos também o serão. O ensino em 
Mateus 10.16-42 é sobre a oposição que 
devemos esperar — desde a realidade do
morar com Jesus.1 Há quem proponha 
que esses irmãos e irmãs de Jesus eram 
filhos de José, de um casamento anterior, 
ou, talvez, seus primos (em muitos casos 
para corroborar a doutrina da virgindade 
perpétua de Maria). Mas os termos usados 
aqui favorecem a conclusão mais natural 
de que todos eram filhos de José e Maria. 
A ênfase, porém, é sobre o fato de que 
Jesus não passava de um rapaz nazareno 
que (tanto quanto sabiam) nunca tinha 
dado sinais de quem ele viria a ser. Para 
os nazarenos, era um homem comum, de 
uma família comum e de uma cidadezinha 
insignificante. Em outras palavras, era um 
ninguém. Por isso eles se “ofendem” (veja 
comentário sobre 4.16,17) e não reconhe- 
cem sua verdadeira identidade.
6.4 Só em sua própria terra é que um 
profeta não tem honra. Esse provérbio (que 
também aparece em Lc 4.24; Jo 4.44) for- 
nece o tema central para o ministério de 
Jesus entre os judeus. Ele é o profeta maior 
que Moisés e Elias, mas as pessoas mais 
próximas dele (seus conterrâneos, a maioria 
dos compatriotas judeus e até mesmo seus 
próprios familiares [3.20,21,31-35]) se re- 
cusam a reconhecer esse fato. O acréscimo 
de “seus parentes” e “sua própria casa” 
traz à memória 3.20,21, em que sua fa- 
mília quer levá-lo de volta para casa, pois 
pensa que ele “perdeu o juízo” (quanto 
a ser rejeitado pela própria família, veja 
também M t 10.21,22). O destino dos 
profetas é descrito de modo detalhado 
em Hebreus 11.32-38, e o fim de João 
Batista, profeta contemporâneo de Jesus, 
é relatado em seguida em Marcos 6.14-29. 
Esse mesmo final, evidentemente, aguarda 
Jesus em Jerusalém.
6.5 ele não pôde fazer ali nenhum mila- 
gre. A declaração é veemente, com uma ne- 
gação dupla em grego (“não [...] nenhum”) 
e com o verbo dynamai (“não pôde” que 
significa quase “não teve poder” ). A
M arcos 6.1-6 94
precisamos estar preparados. Não saímos 
para realizar o trabalho missionário com 
a expectativa de “sucesso” e de resulta- 
dos extraordinários. Envolvemo-nos com 
o ministério porque Deus nos chamou a 
fazê-lo e porque desejamos “arrebatar do 
fogo” o maior número possível de pessoas 
(Jd 23), mesmo que a maioria rejeite a nós 
e à nossa mensagem.
3. Cuidado com o perigo de continuar 
a rejeitar Cristo. Em 6.5, Deus reage com 
juízo; o povo rejeitou seu Filho e, portanto, 
ele remove a plenitude de seu poder do meio 
deles. Dc acordo com Romanos 5.8, Cristo 
morreu pelos pecadores e, sem dúvida, Deus 
ama todos os que ele criou. Ainda assim, 
pode haver um momento em que ocorre 
uma rejeição final, um “pecado eterno” 
(Mc 3.29) ou “pecado que leva à morte” 
(1J0 5.16,17) e, nesse caso, não há mais 
como conduzir a pessoa ao arrependimento 
(Hb 6.4-6); seu futuro reserva apenas um
conflito (v. 16), seguida pela 
promessa da presença do 
Espírito em meio à perse- 
guição (até mesmo da pró- 
pria família |v. 17-23]), que 
leva a ausência de qualquer 
necessidade de amedronta- 
mento (v. 24-31), culmi- 
nando com a necessidade 
de confissão destemida e 
de avaliação do preço a ser 
pago em meio a essa oposição 
(v. 32-42). O motivo para essa 
rejeição pelo mundo é decía- 
rado explícitamente em João 
3.19,20: A presença da luz de 
Deus ilumina a maldade dos que são 
do mundo e revela seus pecados, o que 
os leva a rejeitar tanto a luz quanto seus 
portadores.
2. Os últimos a reconhecer um profeta 
são aqueles mais próximos dele. Marcos 
apresenta esse relato da família e dos con- 
terrâneos de Jesus para destacar o que já 
vimos em 3.1-6,20,21: o furor e a injustiça 
da oposição dos que se encontram ao redordos mensageiros de Deus, até mesmos dos 
que são mais próximos deles. Em 3.20,21, 
os próprios familiares dc Jesus imaginam 
que ele perdeu o juízo e tentam obrigá-lo a 
deixar de lado sua missão divina. Aqui, são 
os conterrâneos com os quais ele cresceu 
desde em torno de dois anos de idade até 
o início de seu ministério por volta dos 34 
anos, aqueles para os quais ele havia sido 
o carpinteiro do vilarejo. O que aconteceu 
com Jesus também aconteceu com todos os 
profetas (veja esp. Isaías e Jeremias): suas 
mensagens foram rejeitadas, eles foram per- 
seguidos e, em muitos casos, capturados 
por seu próprio povo. Isso tem ocorrido 
com frequência ao longo da história (veja O 
livro dos mártires, de John Foxe) e chama 
atenção o fato de que o mesmo pode acon- 
tecer a qualquer um de nós, de modo que
Quando 0 povo de Nazaré ouve Jesus ensinar, 
pergunta admirado: "Não é este o carpinteiro?" 
(6.3). Não conseguem acreditar que Jesus é 
algo mais que o filho do carpinteiro do vilarejo. 
Talvez se lembrem dele aprendendo e realizando 
seu trabalho com ferramentas semelhantes às 
réplicas que aparecem aqui.
M arcos 6.1-695
são condenados ao ostracismo por suas 
comunidades e, em alguns casos, cônjuges 
e filhos são tomados deles. Igrejas foram 
queimadas e cristãos foram espancados 
quando se recusaram a abjurar de sua 
fé. Também enfrentam discriminação no 
mercado de trabalho. Imagine viver em 
um ambiente como esse. A perseguição 
aos cristãos é uma realidade presente 
para muitos e está crescendo no mundo. 
Optar por ser discípulo de Jesus muitas 
vezes significa ter de trilhar um caminho 
de sofrimento e perseguição por causa 
de nossa fé, e precisamos nos lembrar de 
nossos irmãos ao redor do mundo que 
enfrentam essa realidade diariamente. 
Estaríamos dispostos a pagar esse preço 
para ser discípulos de Jesus? O que nos 
ajudaria a permanecer fiéis a Jesus diante 
de perseguições?
Inicialmente, os nazarenos se adm iram com o 
ensino de Jesus enquanto o ouvem assentados 
na sinagoga. Várias sinagogas escavadas têm ao 
redor das paredes internas bancos nos quais as 
pessoas podiam assentar-se. A fotografia mostra 
ruínas de uma sinagoga do primeiro século 
d.C. em Gamla, na qual ainda é possível ver 
os bancos.
“furor de fogo” (Hb 10.27). Ninguém deve 
se atrever a supor que pode rejeitar Cristo 
repetidamente e permanecer impune. Há 
consequências, e elas são eternas.
Para ilustrar o texto_________
A realidade da perseguição. 
Acontecimentos atuais: Jesus alerta seus 
seguidores para o fato de que eles tam- 
bém serão perseguidos, assim como ele foi 
(Jo 15.19-21). Essa realidade persiste hoje 
em dia, e continuará até que Jesus volte. De 
acordo com a Aliança Evangélica Mundial, 
mais de duzentos milhões de cristãos em 
pelo menos sessenta países são destituídos 
de seus direitos humanos fundamentais uni- 
camente em razão de sua fé.
A organização The Voice of Martyrs [A 
Voz dos Mártires]3 informa que cristãos na 
Guiné enfrentam, diariamente, apreensão 
associada a sua fé. Nesse país, em que 
os cristãos constituem apenas 4,5% da 
população, os novos convertidos a Jesus
quem venceu e quem perdeu a competição. 
O final pode ser determinado por um total 
de pontos (no tênis é preciso vencer certo 
número de games), por tempo (como em 
uma partida de futebol) ou por número de 
jogadas (como no beisebol). O mesmo vale 
para jogos de carta, de tabuleiro e outros. 
Uma vez que o jogo termina, são identifica- 
dos os vencedores e os perdedores. Ou seja, 
no fim do jogo, o resultado é definitivo, 
e não há coisa alguma que os jogadores 
possam fazer para alterá-lo. Cada ser hu- 
mano terá um “game over” [fim de jogo], 
isto é, o momento em que nossa vida acaba 
e seremos responsabilizados eternamente 
pela vida que levamos e pelas decisões que 
tomamos. Enquanto o jogo não termina, 
ainda podemos alterar nosso destino eterno 
ao abrir o coração para Deus pela fé em 
Jesus Cristo. A decisão que tomamos acerca 
de Jesus tem consequências eternas. Esse 
pode ser um bom momento para desafiar 
seus ouvintes a compartilhar a fé no evan- 
gelho com os não cristãos que Deus colocou 
na vida deles.
Rejeição por amigos próximos e 
familiares.
Lição prática: Reduza a iluminação do am- 
biente e acenda uma lanterna forte. Mostre 
como a luz penetra a escuridão e ilumina 
aquilo que está escondido. Em João 3.20, 
Jesus afirma: “Todo aquele que pratica o 
mal odeia a luz e não se aproxima da luz, 
pois teme que suas obras sejam reveladas” . 
Quando vivemos conforme o propósito de 
Deus (quando somos luz para o mundo) em 
palavras e ações, o mal escondido nas trevas 
ao nosso redor é iluminado. As pessoas ao 
seu redor se sentem incomodadas e podem 
reagir de duas formas: ou assumem respon- 
sabilidade por suas más ações, ou afastam 
a luz (você) ao rejeitá-la. Você está disposto 
a pagar o preço emocional e relacionai de 
ser fiel a Deus à medida que procura ser 
luz de Deus no mundo?
Fim do jogo.
Cultura popular: Eventos esportivos sem- 
pre têm um “final”, necessário para definir
M arcos 6.1-697
Marcos 6.7-30
Missão e rejeição na Galileia
Ideia central Todos os seguidores de Jesus são chamados à missão. Contudo, quando 0 
evangelho — as boas-novas do reino — é apresentado, há tanto a autoridade de Deus 
quanto a oposição inevitável quando as pessoas rejeitam essa mensagem. Por vezes,
isso leva à morte daqueles enviados para falar em nome de Deus.
.׳· : ' ' ' . ' j . *»X/ / Λ־£-<< β ί Κ ι Λ ν -V.,‘י *a λ . . . A*.- *' t - . ' A . J j t W‘ » · .
para junto de si. Essa é a ultima parte de 
um conjunto de ações em três estágios: o 
chamado (1.16-20), o comissionamento 
(3.13-19) e, aqui, o envio. Eles são envia- 
dos “de dois em dois” como testemunhas 
oficiais (cf. Nm 35.30; Dt 17.6; 19.15); 
prática que se tornaria comum (Jo 1.37; 
At 8.14; 9.38; 13.2,3), pois proporcionava 
companheirismo e proteção. A autoridade 
sobre demônios é uma repetição de 3.15 e 
um tema central em Marcos.
6.8,9 Não levem coisa alguma na jor- 
nada, a não ser um bordão [...] sandálias. 
Jesus permite apenas o mínimo indispen- 
sável necessário para viajar: um bordão e 
um par de sandálias. Até mesmo os itens 
proibidos — pão, saco de viagem, dinheiro 
e uma túnica extra — geralmente eram con- 
siderados necessidades básicas. O saco em 
questão era uma espécie de mochila para 
carregar alimentos e roupas adicionais (que 
também serviam de travesseiro e cobertor 
à noite). Eles devem ir na dependência de 
Deus para suprir suas necessidades e deixar 
que aqueles aos quais Jesus os envia pro- 
visionem para eles. Há uma ênfase dupla 
aqui: o ministério não deve visar ao lucro 
nem ao engrandecimento pessoal; antes, 
deve ter como único objetivo servir e glo- 
rificar a Deus.
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Começa nessa passagem a quarta seção 
de Marcos sobre o ministério de Jesus 
na Galileia (depois de 1.6—3.6; 3.7-35;
4.1—6.30) e o terceiro episódio intercalado 
[“episódio-sanduíche”] até aqui (depois de
3.20-35; 5.21-43). O envio dos Doze (6.7- 
13) só é completado em 6.30, quando os 
discípulos voltam e relatam os resultados 
de sua missão bem-sucedida. O conteúdo 
intermediário se inicia com o posiciona- 
mento de Herodes em relação a Jesus e à 
missão dos discípulos (6.14-16) e continua 
com uma retrospectiva extensa da prisão 
e da morte de João Batista (v. 17-29). Fica 
evidente que missão (seja de João Batista, 
Jesus ou dos discípulos) inclui oposição.
Considerações interpretativas
6.7 começou a enviá-los de dois em dois e 
lhes deu autoridade sobre os espíritos imun- 
dos. Depois de ser rejeitado por seus antigos 
conterrâneos, Jesus percorre a Galileia “de 
povoado a povoado” ensinando (6.6b), 
como havia feito em sua incursão anterior 
em 1.38,39. Ele resolve incluir seus discípu- 
los no trabalho dele e, portanto, chama-os
M arcos 6.7-30 98
P r in c ip a i s t e m a s d e M a rc o s 6 .7 ·3 0
■ Ser discípulo de Jesus significa participar de seumi- 
nistério, assim como aprender seus ensinamentos.
• Os seguidores de Jesus são enviados como aposto- 
los, não por sua própria conta, mas com a autoridade 
de Jesus.
■ Ao proclamar o evangelho, devemos esperar oposi- 
ção e talvez até mesmo a morte.
alguma acerca do nascimento e da morte 
de João em comparação com Jesus. Ainda 
assim, esse é o conceito que Antipas adota. 
De acordo com 1.14 (cf. M t 4.12), João foi 
preso pouco antes de Jesus iniciar seu mi- 
nistério na Galileia; portanto, João havia 
morrido há algum tempo, e essa passagem 
é uma retrospectiva. O ponto de compara- 
ção entre Jesus e João Batista é a mensagem 
profética poderosa de Jesus e, talvez, também 
seus milagres. João não realizou milagres, 
mas caso fosse ressuscitado, parece que era 
esperado que tivesse esse poder.
6.17 Herodes /.../ ordenou que o amarras- 
sem e colocassem na prisão. Começa aqui a 
retrospectiva, que expande o breve comen- 
tário em 1.14 ao informar como e por que 
Herodes mandou prender João. Ele ficou 
encarcerado no palácio e fortaleza de Anti- 
pas em Macaerus, na Pereia. João foi preso 
porque censurou publicamente o romance e 
o subsequente casamento de Herodes com
Herodes mandou prender João Batista e 
encarcerá-lo no palácio e fortaleza de Macaerus, 
situado no alto deste monte a leste do Mar Morto.
6.10 sempre que entrarem numa casa, 
fiquem ali até partirem da cidade. O obje- 
tivo da missão não é encontrar o lugar mais 
agradável para hospedar-se, mas, sim, levar 
pessoas ao reino. Os Doze devem depender 
da hospitalidade de cada povoado que visita- 
rem e contentar-se com as condições de vida 
ali, quaisquer que forem. Deixar uma casa 
para hospedar-se em outra seria um insulto 
aos anfitriões e traria má fama ao evangelho.
6.11 se algum povoado não os receber 
nem os ouvir [...] sacudam a poeira de 
seus pés. Aqueles que rejeitam o evangelho 
devem ser tratados como se fossem impuros 
(cf. M t 7.6; “Não deem o que é sagrado 
aos cães”). Até mesmo a poeira de sua ci- 
dade é indigna. Os judeus que voltavam 
de terras pagãs sacudiam a poeira dos pés; 
essa instrução equivale a dizer aos povoa- 
dos judaicos que eles se tornaram gentios 
pagãos para Deus. Esse gesto feito “como 
testemunho contra eles” também sugere, 
que o juízo divino os espera.
6.14-16 O rei Herodes ouviu falar dessas 
coisas. Os discípulos pregam como João 
Batista, e Jesus ganhou fama considerável, 
o que desperta a curiosidade de Herodes. 
Aqui, trata-se de Herodes Antipas, filho 
de Herodes, o Grande (todos os seus filhos 
tinham seu nome) e tetrarca da Galileia e da 
Pereia (na Transjordânia) de 4 a.C. (quando 
seu pai faleceu) até 39 d.C. (quando ele foi 
exilado), o que significa que ele governou 
durante toda a vida de Jesus. Antipas havia 
desejado ser rei como seu pai, mas o im- 
perador Augusto lhe permitiu ser apenas 
tetrarca, governante secundário de “um 
quarto” de um território romano.
João Batista / .../ que ressuscitou dos 
mortos. [...! Elias [...] um profeta. Esse é 
um resumo de como Jesus era visto pelo 
povo naquela época. Não são opiniões de- 
vidamente refletidas, mas lendas populares. 
Sem dúvida, qualquer ideia de que Jesus era 
João redivivas (revivido dos mortos) só podia 
ser aceita por aqueles que não sabiam coisa
governador Félix que, embora tivesse medo 
de Paulo, falou com ele em várias ocasiões 
ao longo de dois anos. No caso de Félix, 
também havia esperança de receber su- 
borno (At 24.24-26). Herodes não com- 
preendia as verdades “justas” que João lhe 
dizia e ficava profundamente “confuso” ou 
“perplexo” com elas (talvez “extremamente 
perturbado”). E evidente que ele tinha certa 
percepção de sua culpa, mas como Hero- 
des Agripa, em Atos 26.28,29, não estava 
disposto a se posicionar.
6.21 Herodes ofereceu um banquete a 
seus oficiais de alta patente, aos comandantes 
militares e às autoridades da Galileia. Uma 
oportunidade surgiu para Herodias na sun- 
tuosa comemoração de aniversário de seu 
marido. Como todos os governantes roma- 
nos, Herodes gostava de festas extravagantes. 
É difícil entender a presença de autoridades 
da Galileia em um evento na distante Pereia, 
mas é possível que houvesse interações entre 
os dois territórios e que Marcos se concentre 
nos participantes da Galileia por ser a região 
em que Jesus ministrava.
6.22,23 Quando a filha de Herodias en- 
trou e dançou, agradou a Herodes. Sem dú- 
vida foi uma dança sensual, o que aumentou 
o escândalo, pois geralmente eram cortesãs 
que dançavam desse modo. Provavelmente 
uma menina de doze a catorze anos (cha- 
mada “Salomé” em Josefo, Ant. 18.136- 
7), encantou Herodes de modo inusitado; 
este se sentiu honrado de a princesa dançar 
para ele. Em uma decisão impetuosa (pro- 
vavelmente ocasionada por embriaguez), 
Herodes foi além da prática habitual 
de recompensar artistas que agradavam 
e prometeu com um juramento: “Seja
sua sobrinha, Herodias, que, na época, era 
casada com Filipe, meio-irmão de Antipas. 
Herodias se divorciou de Filipe com base 
na lei romana, e Herodes se divorciou de 
sua esposa, filha de Aretas IV, rei da Pereia. 
Aretas ficou tão enfurecido que declarou 
guerra contra Herodes e o derrotou.1
6.18 Não te é lícito viver com a mulher de 
teu irmão. De acordo com Levítico 18.16;
20.21, era ilícito um homem se casar com 
a esposa de seu irmão. A única exceção 
era o casamento de levirato (Dt 25.5 |veja 
comentário sobre Mc 12.18-27]), mas não 
se aplicava a esse caso, pois Filipe ainda 
estava vivo. Não há dúvida, portanto, de 
que o novo casamento era imoral, e a repre- 
ensão por João Batista mostra que havia se 
tornado um escândalo nacional. Herodes 
considerou a reação um sinal de rebelião, 
pois incitou a nação ainda mais contra ele.
6.19,20 Herodias [...] queria matá-lo. [...] 
Herodes [...] o protegia. Evidentemente, 
Herodias estava furiosa porque João Batista 
tinha voltado o povo contra ela. A seu ver, 
a única solução era matá-lo, mas Herodes 
o protegia. A fraqueza de Antipas fica clara 
no fato de ele perceber que João era “um 
homem santo e justo”, mas não tomar uma 
atitude com base nessa realidade. Ainda 
assim, ele o protegeu por algum tempo, sem 
dúvida, das tramas assassinas de Herodias. 
Há paralelos entre Herodias e Jezabel em 
IReis 21 e entre Herodes e o hesitante Pi- 
latos em Marcos 15.
Quando Herodes ouvia João, ficava 
muito perplexo; mesmo assim, gostava 
de ouvi-lo. Essa situação traz à mente o
Para comemorar seu aniversário. Herodes convida 
muitos membros im portantes de sua corte, 
comandantes militares e membros de destaque 
da sociedade galileia. A fotografia mostra as 
ruínas do palácio de Herodes em Macaerus.
As colunas ao fundo (azem parte de uma 
reconstrução e cercam um dos pátios.
6 . 3 0 os apóstolos reuniram-se a Jesus e 
lhe relataram tudo o que tinham feito e en- 
sinado. A intercalação de episódios (6.14-29 
inserido entre 6.7-13 e 6.30) se completa. 
Os discípulos foram designados apóstolos 
em 3.14 (veja comentários sobre esse versí- 
culo e sobre 6.7), e aqui retornam depois de 
concluir sua primeira missão como “envia- 
dos” ou representantes oficiais de Jesus. Em 
6.6b,7 Jesus tinha dado início ao trabalho 
deles como parte de sua própria missão. À 
medida que se dedicaram ao ministério, re- 
produziram o trabalho de seu Mestre; “tudo 
o que tinham feito” se refere aos milagres 
que haviam realizado de acordo com 6.13, 
enquanto “ensinado” se refere à pregação 
do reino por eles em 6.12.
Considerações teológicas
Em termos simples, essa seção de Marcos en- 
sina que o trabalho missionário inclui opo- 
sição e rejeição. O envio dos Doze (6.7-13) 
é emoldurado pela rejeição de Jesus em 
sua cidade, Nazaré (6.1-6), e pela morte 
de João Batista (6.14-29). Todos que ser- 
vem a Deus devem esperar a oposição do 
mundo. Ao mesmo tempo, missão também 
inclui a autoridade de Deus na proclama- 
ção das verdades do reino. Já que fomos 
formalmente “enviados” (o significado de 
“apóstolo” em 3.14) como representantesoficiais do Deus triúno, saímos para realizar 
a obra com sua autoridade. Por fim, missão 
inclui sacrifício. Precisamos depender intei- 
ramente de Cristo, e não de nós mesmos, 
entregando tudo a ele.
Para ensinar o texto____________
1. O discipulado inclui imersão no ensino 
e no ministério de Jesus. Esse é um dos 
temas principais do livro de Atos, em que 
Lucas enfatiza que fazia parte da história da 
igreja primitiva imitar a vida c o ministério 
de Jesus. A maioria dos milagres em Atos
o que for que me pedir, eu lhe darei, até a 
metade de meu reino” . É bem possível que 
haja aqui uma alusão a Ester 5.2,3, em que 
o rei persa Xerxes promete a Ester “até 
metade do reino” . O contraste, porém, é 
gritante, pois Ester salva seu povo da morte, 
enquanto Salomé, orientada por Herodias 
(6.24), pede a morte de João Batista.
6 . 2 5 Quero que me dês agora mesmo 
a cabeça de João Batista em um prato. 
Embora seja possível que se trate de um 
pedido impulsivo, o enredo da narrativa, 
em que Herodias continuamente trama a 
morte de João Batista, torna mais provável 
que esse fosse o plano desde o início. Do 
contrário, seria de esperar que a filha de 
Herodias fizesse seu próprio pedido em vez 
de consultar a mãe.
6 . 2 7 enviou um executor com ordens 
para trazer a cabeça de João. “Executor” 
(spekoulatõr) é um termo específico para um 
guarda-costas/soldado enviado em missões 
clandestinas, nesse caso, executar um pro- 
feta. A decapitação era o modo de execução 
usado pelos romanos, e que podia ser reali- 
zado de imediato. O único homem justo no 
palácio foi sacrificado por um capricho de 
pagãos! Apresentar a cabeça de João Batista 
em um prato, como se fosse uma iguaria 
deliciosa na festa, demonstra o estado la- 
mentável de depravação da corte de Hero- 
des. Com essa morte, João vence e Herodes 
perde, pois o rei se torna símbolo perpétuo 
de perversidade e descomedimento.
6 . 2 9 os discípulos de João vieram, le- 
varam seu corpo e o colocaram em um 
túmulo. João continuou a ter determinado 
grupo de seguidores depois que morreu, 
pois Atos 18.25; 19.1-7 fala da presença 
de discípulos dele em Éfeso mais de vinte 
anos depois, e seguidores em séculos pos- 
tcriores afirmavam que ele era o Messias 
(Ps.-Clem. 1.60). Os mandeus no Iraque e 
no Irã ainda se identificam como discípulos 
de João Batista.
M arcos 6.7-30101
trechos do restante do Novo Testamento. 
Em Atos, há hostilidade e sofrimento por 
toda parte. Em Atos 4 e 5, os discípulos são 
presos duas vezes e espancados com varas 
da segunda vez, mas respondem com alegria 
“por terem sido considerados dignos de ser 
humilhados por causa do Nome” (5.41). 
Tanto Estêvão quanto Tiago foram marti- 
rizados (At 7; 12), e Paulo foi expulso repe- 
tidamente de cidades devido a perseguições 
(At 14.5,6,19,20; 16.39,40; 17.10,13,14; 
20.1). Além disso, ele precisou lidar com 
hostilidade durante vários anos em Jerusa- 
lém, Cesareia e Roma, ao ser julgado sob 
o risco de ser condenado à morte em Atos 
21—28). Sem dúvida, a maioria das igrejas 
enfrentou grande sofrimento pelo Senhor, 
e Paulo trata dessa realidade como algo 
que você praticamente pode contar. Esse 
era o problema fundamental em Hebreus. 
As igrejas nas casas de segunda geração 
haviam se tornado indolentes (5.11; 6.12) 
e, em meio à perseguição, foram tentadas 
a renunciar Cristo e voltar ao judaísmo. 
Há quem chame lPedro de “epístola do 
sofrimento”, pois é dirigida a cristãos de- 
sanimados que estavam “surpresos” com 
tempos de dificuldade (4.12), mas preci- 
savam entender que essas provações são 
usadas por Deus para fortalecer a sua fé 
(1.6,7; cf.Tg 1.2-4).
Para ¡lustrar o texto_____________
Discipulado: dar continuidade ao 
ministério de Jesus.
Hino: Viver para Jesus, de Thomas O. 
Chisholm. Nesse hino magnífico do século 
20 sobre compromisso, vemos na segunda 
estrofe que, à luz daquilo que Jesus fez,
Esse amor me constrange a atender 
ao seu chamado,
seguir sua direção e entregar a ele todo 
o meu ser.
são réplicas dos milagres de Jesus. O ca- 
minho de Paulo para Roma é semelhante 
ao caminho de Jesus para Jerusalém. Os 
julgamentos de Paulo são paralelos aos 
julgamentos de Jesus. Em outras palavras, 
discipulado (Mc 3.14: “estar com ele”) 
significa unir-nos a Jesus, tornando-nos 
um com ele, e conformar nossa vida ao 
exemplo dele. Em Efésios 4.13 lemos sobre 
atingir “a medida da estatura da pleni- 
tude de Cristo” . Aqui, quer dizer que os 
apóstolos reproduziríam os milagres de 
Jesus e proclamariam seu ensino por toda 
a Galileia, e em 6.13 eles foram bem-suce- 
didos nessa missão. Observe que a ênfase 
aqui não é sobre quantos atenderam ao 
desafio e se tornaram discípulos de Jesus, 
mas sobre a fidelidade dos discípulos a 
seu chamado.
2. A obra missionária é realizada com 
a autoridade de Cristo. Muitos cristãos, 
talvez a maioria, imaginam que têm pouco 
a oferecer ao Senhor e a seu serviço. Na 
verdade, estão certos. Nenhum de nós tem 
muito que oferecer, mas é melhor que seja 
assim. Em nossa fraqueza, o poder de Deus 
se torna ainda mais evidente (2Co 12.9,10). 
O fato é que não há poder algum em nossas 
próprias forças e em nossos próprios talen- 
tos. Deus nos criou de modo individual e 
concedeu a cada pessoa uma combinação 
de dons perfeita para que ele realize seus 
propósitos por nosso intermédio. Saímos 
para realizar a obra com a autoridade dele 
e sob da presença de seu Espírito. Deus está 
presente de modo poderoso, e operamos 
debaixo de sua autoridade e com ela.
3. A proclamação do evangelho muitas 
vezes esbarra em resistência e pode até resul- 
tar em morte. Esse é um tema predominante 
não somente no ensino de Jesus, mas em 
todo o Novo Testamento. Vimos anterior- 
mente alguns ensinamentos de Jesus a esse 
respeito (veja “Para ensinar o texto” em
6.1-6), de modo que consideraremos aqui
102M árcos 6.7-30
houvesse alimento algum na casa. Quando 
terminaram de orar, o padeiro do bairro apa- 
receu com pão fresco suficiente para todos e 
o leiteiro veio com uma grande quantidade 
de leite, pois sua carroça havia quebrado em 
frente ao orfanato. Imagine o impacto que 
essas experiências exerceram sobre a fé das 
pessoas envolvidas. Tome a decisão de de- 
pender de Deus, e não de si mesmo.
E o refrão afirma:
Ó Jesus, Senhor e Salvador, eu me 
entrego a ti,
Pois tu, em tua expiação, te entregaste 
por mim.
Outro Mestre não reconheço; meu 
coração será teu trono,
Minha vida a ti entrego para, dora- 
vante, Ó Cristo,
Viver somente para ti.
Deus deseja que, no Espírito Santo e por meio 
dele, nos dediquemos inteiramente a dar con- 
tinuidade à obra de Jesus neste mundo.
Depender de Deus, e não de nós mesmos. 
Biografia: George Muller. Filantropo inglês 
do século 19, Mueller foi um evangelista 
eficaz. Além de ter fundado vários orfa- 
natos, é conhecido por seu exemplo ma- 
ravilhoso de confiança em Deus. Embora 
jamais pedisse coisa alguma a ninguém, 
exceto a Deus, os orfanatos sempre tinham 
o que precisavam. Mueller disse certa vez: 
“A fé não opera na esfera do possível. Não 
há glória para Deus naquilo que é humana- 
mente possível. A fé começa onde o poder 
humano termina”.2
As histórias da provisão de Deus na vida 
e no ministério de Mueller são extraordiná- 
rias. Várias vezes recebeu doações não soli- 
citadas de comida apenas algumas 
horas antes do horário da refeição 
das crianças, o que fortaleceu 
ainda mais sua fé em Deus.
Em uma ocasião amplamente 
documentada, por exemplo, 
todos agradeceram pelo café 
da manhã enquanto 
todas as crianças 
estavam senta- 
das ao redor da 
mesa, embora não
0 sangue dos mártires é a semente 
da igreja.
História da igreja: Dentre as várias lições 
ensinadas pela história da igreja, uma das 
mais importantes é que a perseguição faz a 
igreja crescer. Vemos esse fato claramente 
em Atos, em que a igreja primitiva cresceu 
rapidamente ao ser perseguida. Por que as 
igrejas crescem em tempos de perseguição? 
E provável que essa pergunta tenha diversas 
respostas,mas é fato que a perseguição se- 
para os verdadeiros seguidores de Jesus da- 
queles cuja fé não é autêntica. Fé e coragem 
diante da morte comunicam a autenticidade 
da fé daqueles que são martirizados. Você 
está preparado para permanecer firme na fé 
em Jesus não importa o preço a ser pago? 
Considere a possibilidade de ler um trecho 
d a obra O livro dos mártires, de John 
Foxe,2 ou de Prayers o f the mar- 
tyrs [Orações dos mártires], 
de Duane Arnold.
M arcos 6.7-30
Na história da igreja, João 
Balista é reverenciado por 
sen papel de mensageiro 
de Deus e por ter sido 
martirizado. Obras de arte 
que retratavam a cabeça 
de João Batista em um 
prato, com o essa escultura 
em carvalho de 1430 d.C. 
se tornaram com uns na 
Idade Média.
Marcos 6.31-44
A provisão miraculosa de Deus: 
o cuidado para 
com os necessitados
Ideia central A mensagem do milagre da alimentação é sim ples: Deus proverá. Esse é 0 
principal milagre em que Jesus envolve seus discípulos, e a questão é se eles confiarão 
no Deus que proverá para eles em todas as circunstâncias.
dois indivíduos da seção central (7.24-37) 
apresentam aos leitores os “pequeninos” 1 
em Marcos, personagens que aparecem 
apenas uma vez no livro e, mesmo assim, 
mostram o verdadeiro caminho para o dis- 
cipulado (também 5.18,19,32-34; 9.14-29; 
10.45-52) em contraste com os fracassos e 
as interpretações equivocadas dos discípu- 
los. Esses aspectos serão predominantes no 
discipulado no restante do livro e ambos 
aparecerão ainda várias vezes.
n0
> * i־
Considerações interpretativas
6.31 tanta gente [...] a ponto de não terem 
tempo para comer. A situação aqui lembra 
a de 3.20 e mostra, mais uma vez, uma 
multidão tão numerosa que Jesus e seus 
discípulos não conseguiam sequer comer. 
Como em 1.45, essa circunstância leva 
o grupo de apóstolos a sair da cidade e 
ir “para um lugar tranquilo/deserto” 
(numa região erma, onde pudessem 
afastar-se das grandes multidões). De 
acordo com Lucas 9.10, o lugar em
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Para muitos, essa passagem é apenas outra 
sequência de milagres à beira do lago. No 
entanto, é bem mais que isso. Aqui, a auto- 
ridade de Jesus é vista em seu efeito sobre 
o discipulado. O principal grupo envolvido 
não é constituído das multidões, nem dos 
líderes, mas dos discípulos. Esse trecho 
faz parte de uma seção mais ampla em 
6.31—8.21 que contrasta o fracasso com 
a fé. Em seu âmago estão: dois milagres de 
cura, a alimentação dos cinco mil (6.31- 
44) e dos quatro mil (8.1-10), seguidos das 
inadequações dos líderes e dos próprios 
discípulos de Jesus. O desenvolvimento 
teológico forma um arranjo A-B-A: fra- 
casso (dos discípulos [6.45-52] associado 
ao dos fariseus [7.1-23]); fé, observada 
na mulher siro-fenícia e no surdo e mudo 
(7.24-37); depois fracasso novamente, com 
uma inversão em forma de quiasmo do 
fracasso dos líderes (8.11-13) associado 
ao fracasso dos discípulos (8.14-21). Os
104M arcos 6 .31-44
Principais temas de Marcos 6.31-44
* Deus e Cristo têm poder de suprir nossas neces- 
sidades e nos fazer atravessar qualquer situação 
em segurança.
■ Jesus envolve seus discípulos em todos os níveis 
de sua obra poderosa e pede apenas que atendam 
a seu chamado.
davídico (Ez 34.23; 37.24) precisa intervir 
e “começar a ensinar” o povo.
6.37 Deem-lhes vocês algo para comer.
Todos os acontecimentos, como o deslo- 
camento de Cafarnaum para as encostas 
acima de Betsaida e o ensino de Jesus, 
haviam tomado a maior parte do dia, e 
certamente era final da tarde, hora do jan- 
tar. Seria um problema sério providenciar 
alimento para bem mais de cinco pessoas ali 
(esse número se refere apenas aos homens 
[6.44]). Provavelmente não estavam muito 
longe de Betsaida, motivo pelo qual era 
plausível os discípulos sugerirem que Jesus 
mandasse as pessoas embora a fim de que 
“elas mesmas” providenciassem algo para 
comer. Jesus, porém, tem algo maior em 
mente; como pastor, vai suprir as necessi- 
dades de seu rebanho. Ele também pretende 
envolver os discípulos em todos os aspee- 
tos de seu ministério (3.14,15; 6.7-13) 
e, portanto, os instrui a providenciar 
alimento para o povo.
Para isso seria preciso mais que o 
salário de meio ano. A quantia exata
questão ficava na região de Betsaida, do 
lado nordeste do lago.
6.34 teve compaixão deles, porque eram 
como ovelhas sem pastor. Jesus e os dis- 
cípulos haviam procurado afastar-se para 
ter um tempo a sós, mas as multidões (“de 
todas as cidades” mostra, mais uma vez, 
a grande popularidade de Jesus) percebe- 
ram para aonde se dirigiam, “correram 
adiante” e chegaram lá antes do barco (uma 
distância de apenas 6,5 a 8 quilômetros). 
Quando Jesus vê todo esse povo, enche-se 
de compaixão. O amor e o cuidado profun- 
dos de Jesus para com o povo da Galileia 
são enfatizados de maneira particular nos 
dois milagres de alimentação (também 8.2). 
Ele se preocupa com essas pessoas porque 
elas não têm pastor, uma imagem frequente 
no Antigo Testamento para o fracasso dos 
líderes de Israel, como aconteceu com a 
geração do deserto (Nm 27.17), com a 
nação sob o governo de Acabe (lRs 22.17; 
2Cr 18.16) e especialmente com a nação sa- 
queada em Ezequiel 34.1-10, texto em que 
os líderes são chamados de “falsos pastores 
de Israel” . Mais uma vez, os pastores que 
deveríam cuidar de Israel fracassaram, de 
modo que Jesus, como “messias pastor”
Marcos não revela o local em que Jesus 
alimentou as cinco mil pessoas; afirma 
apenas que era um lugar deserto e afastado 
(6.32,35). Lucas situa esse acontecimento 
em um lugar afastado depois que Jesus 
e seus discípulos desembarcam em 
Betsaida. A maioria dos comentaristas 
recentes prefere a planicie de Betsaida, mas 
peregrinos ainda visitam o lugar tradicional 
em Tabga, considerado desde 0 quarto 
século d.C. com o o local desse milagre.
M arcos 6 .31-44105
— o alimento dos pobres. Jesus transforma 
a pequena refeição de um pobre em um 
banquete real. Essa circunstância também 
remete à provisão de maná no deserto (Ex 
16) e à multiplicação, por Eliseu, de vinte 
pães de cevada para alimentar cem pessoas 
(2Rs 4.42-44). O milagre de Jesus é duzentas 
vezes maior (Eliseu multiplicou o pão cinco 
vezes e Jesus, mil vezes). Aquele que é maior 
que Moisés e maior que Elias está aqui.
6 . 3 9 , 4 0 assentar-se [...j na grama verde 
[...] em grupos de cem e de cinquenta. 
Embora a grama verde possa representar 
a transformação, por Jesus, do deserto em 
lugar de refrigério,2 é mais provável que seja 
uma alusão ao pastor Yahweh que conduz 
seu rebanho a “verdes pastagens” (SI 23.2).3 
A divisão em grupos traz à memória Êxodo
18.21, em que Moisés divide a nação em 
grupos militares, e introduz na narrativa 
desse milagra a tipologia do Êxodo. Essa 
prática era seguida em Qumran, conferin- 
do-lhe implicações escatológicas para a
são “duzentos denários”, sendo um de- 
nário equivalente ao salário de um dia de 
trabalho. O valor correspondia mais preci- 
sámente, portanto, a sete meses de salário, 
uma pequena fortuna. Ainda assim, não se 
trata de uma hipérbole para a quantidade 
de comida necessária para alimentar uma 
multidão tão numerosa. Era impossível que 
o grupo de apóstolos tivesse tanto dinheiro 
em seu fundo comum. Vemos aqui outro 
tema frequente nas Escrituras, paralelo à 
objeção de Moisés à instrução para que 
alimentasse seiscentos mil soldados (Nm
11.21,22) e do servo de Eliseu quando lhe 
foi pedido que alimentasse cem pessoas 
(2Rs 4.42-44). A tônica em ambos os casos 
(como aqui também) é que Deus proveu 
o alimento.
6 . 3 8 “Quantos pães vocês têm?” [...] 
״ Cinco pães e dois peixes”. De acordo com 
João 6.9, um rapaz trouxe cinco pães de 
cevada e dois peixes, provavelmente secos 
ou em conserva para dar um pouco de sabor
Quando Jesus m ultiplica os pães e os peixes, todos 
comem e ficam satisfeitos. Os discípulos recolhem o 
alimento restante, que enche doze cestos. Esse mosaico 
do século 14 d.C. destaca osdoze cestos de sobras.
fato de que quando Deus supre nossas ne- 
cessidades, ele o faz com fartura e nos dá 
mais do que poderiamos pedir ou imaginar. 
Isso se aplica ao âmbito terreno e ao espiri- 
tual. Não significa que jamais passaremos 
por períodos difíceis, mas quando vierem 
dificuldades, Deus as fará redundar em bem 
e suprirá nossas necessidades de maneiras 
extraordinárias. Cabe a nós apenas depen- 
der dele e confiar em sua provisão.
Para ensinar o texto____________
1. Deus proverá. Essa é a ideia predomi- 
nante de 6.31-56. Aliás, é um conceito 
fundamental em todas as Escrituras. Os 
patriarcas, a geração do deserto, a nação 
sob Moisés, Josué, os juizes, os reis — todos 
foram instruídos a depender de Yahweh, o 
Deus da aliança, que jamais os deixaria nem 
os abandonaria (Gn 28.15; Dt 4.31; Js 1.5). 
Deus pede apenas confiança e obediência e, 
por isso, podemos lançar “sobre ele toda a 
[nossa] ansiedade, porque ele tem cuidado 
de [nós]” (lPe 5.7). Jesus, semelhante a 
Yahweh, é o Bom Pastor que dá a vida 
por seu rehanho e o conduz a pastos mais 
verdes (SI 23; Jo 10.1-18). Além disso, seu 
cuidado e sua provisão dizem respeito não 
apenas a necessidades espirituais, mas tam- 
bém a necessidades materiais. Deus e Jesus 
cuidam de todos os aspectos de nossa vida. 
É claro que isso não significa que jamais 
passaremos por tempos difíceis. Observe, 
por exemplo, as muitas dificuldades que o 
apóstolo Paulo teve de suportar (2Co 6.3- 
10; 11.21-29). Quem já passou por uma 
série mais extensa de experiências catastro- 
ficas (que incluíram quatro naufrágios!)? 
Mas Deus ajudou Paulo a atravessá-las e 
usou-as para fortalecê-lo. A provisão de 
Deus significa que jamais acontecerá coisa 
alguma que Deus não controle ou que não 
use para nosso bem (Rm 8.28), a fim de
comunidade dos últimos dias.4 É possível 
que a ideia de agrupar-se para o banquete 
messiânico também faça parte do cenário 
dessa refeição miraculosa.
6 . 4 1 Tomando os cinco pães [...] deu gr a- 
ças e partiu os pães /.../ entregou-os a seus 
discípulos. Esses quatro verbos costumam 
ser considerados eucarísticos, pois Marcos os 
emprega na mesma ordem em 14.22.0 único 
problema é o peixe, que só se tornou sím- 
bolo da celebração eucarística no segundo 
século. É possível, portanto, que reflitam 
simplesmente a bênção invocada pelo chefe 
da família sobre a refeição. Ainda assim, os 
paralelos com a Ultima Ceia tornam provável 
uma conotação eucarística, na qual a fartura 
da refeição também é um antegosto do ban- 
quete messiânico prefigurado em Marcos 
14.25. Na igreja primitiva, a Eucaristia era 
chamada “partir do pão” (At 2.42).
6 . 4 3 os discípulos recolheram doze 
cestos de pedaços. Há certo debate acerca 
do possível caráter simbólico dos núme- 
ros nesse relato (cinco = Pentateuco; dois 
+ cinco = sete |o número da perfeição]; 
doze = tribos de Israel), mas seria alegórico 
demais, e não há indício algum de alegoria 
em Marcos. Ainda assim, pelo menos o nú- 
mero de cestos restantes (doze no primeiro 
milagre e sete no segundo) talvez tenha al- 
guma relevância, pois, em termos bíblicos, 
esses são os dois números mais importantes. 
É possível que destaquem a obra perfeita 
realizada por Deus nessas ocasiões.
Considerações teológicas
A provisão de Deus para seu povo sem- 
pre foi simbolizada por alimento, desde 
o maná no deserto durante o Êxodo até 
o banquete messiânico de casamento no 
eschaton. A condição humana lastimável 
pode ser vista na ausência de alimento, e 
a alegria da provisão de Deus se revela na 
ideia de um banquete. Ressalta-se aqui o
M arcos 6 .31-44107
Jesus inclui os discípulos em 
seu ministério ao pedir que 
deem de com er ao povo 
reunido. Eies respondem que 
seriam precisos duzentos 
denários para alimentar 
toda a multidão. Essa soma 
equivalia a sete ou oito meses 
de salário, dinheiro que 
eles não tinham. O denário 
dessa fotografia foi cunhado 
para exibir as realizações do 
imperador Augusto.
incurável e de causa desconhecida. Nesse 
livro, Dobson fala de muitas tarefas simples 
que ele não pode mais realizar por causa 
de sua enfermidade. Em seguida, porém, se 
expressa de modo marcante: “Que motivos 
tenho, então, para ser grato? São tantos. 
Senhor, obrigado por me acordar hoje de 
manhã. Senhor, obrigado porque consigo 
me virar em minha cama. Senhor, obri- 
gado porque ainda consigo sair da cama. 
Senhor, obrigado porque posso andar até 
o banheiro [...] Senhor, obrigado porque 
ainda posso escovar os dentes [...] A lista 
é longa. Em minha jornada com a ELA, 
aprendí a concentrar-me naquilo que con- 
sigo fazer, e não naquilo que não consigo. 
Aprendí a ser grato pelas pequenas coisas 
em minha vida e pelas muitas tarefas que 
ainda sou capaz de realizar”.5 Precisamos 
aprender a ver a mão de Deus nos milagres 
diários da vida. Pode ser interessante usar 
um trecho do DVD Ed’s story [A história 
de Ed] do grupo Flannel, uma organização 
sem fins lucrativos.6
produzir uma “colheita de justiça 
e paz” (Hb 12.11).
2. Discipulado significa 
participação na obra po- 
derosa de Cristo. Essa 
questão foi tratada no 
final do comentário sobre 
3.7-19 tratando da seme- 
lhança a Cristo; devemos 
imitar Cristo em tudo o que 
fazemos. Em 3.14,15, Jesus fez 
algo inédito na instrução rabínica: 
não apenas ensinou seus discípulos, mas 
desde o princípio começou a envolvê-los em 
seu ministério. Deu-lhes autoridade tanto 
para pregar quanto para realizar milagres. 
Temos aqui o resultado dessa promessa. 
Em 3.14,15, eles foram comissionados, e 
agora são enviados para realizar a obra 
do reino. Duas verdades fluem dessa rea- 
lidade. Primeira, tudo o que fazemos de 
valor eterno é uma participação na obra 
contínua de Cristo. Somos o povo mes- 
siânico, a comunidade do reino. E nosso 
privilégio dar continuidade ao ministério 
de Cristo até a sua volta. Segunda, tudo o 
que fazemos, na verdade é ele quem realiza 
por nosso intermédio. O Espírito em nós 
(Jo 14.16,17,20) é o Espírito de Cristo, 
portanto, servimos a Cristo debaixo de sua 
autoridade e investidos de seu poder. Logo, 
não precisamos nos preocupar o quão ca- 
pacitados (ou não) somos, pois somos seus 
representantes, com sua autoridade.
Para ilustrar o texto
A provisão de Deus para as 
necessidades.
Relato: Em uma festa de casamento, alguém 
pediu que o pastor orasse antes da refeição. 
Ele agradeceu a Deus por sua provisão, pelo 
alimento que estavam prestes a comer. Em 
uma das mesas, havia um homem que não
A provisão de milagres diários.
Biografia: Seeing through the fog [Vendo 
através da névoa], de Ed Dobson. Perto do 
final de 2000, o pastor Ed Dobson recebeu o 
diagnóstico de ELA (esclerose lateral amio- 
trófica, também conhecida como doença 
de Lou Gherig), uma doença degenerativa
108M arcos 6 .3 1 4 4 ־
significa que os discípulos podiam observar 
como Jesus vivia e, portanto, tinham diante 
de si um exemplo de conduta piedosa. No 
entanto, Jesus não fez tudo por seus disci- 
pulos; em vez disso, os desafiou a exercer o 
ministério enquanto ele estava fisicamente 
presente com eles. Nessa situação, os dis- 
cípulos foram desafiados a alimentar o 
povo. Deve ter sido uma lição importante 
olhar para seus próprios recursos limita- 
dos e não visualizar meios de realizar essa 
tarefa. Jesus lhe mostrou, porém, que com 
Deus todas as coisas são possíveis. Fazer 
discípulos é mais que ensinar ou pregar. É 
convidar outros a participar de nossa vida 
e de nosso ministério. É desafiar outros 
a exercer o ministério enquanto estamos 
próximos o suficiente para incentivá-los 
e ajudá-los. Você está ajudando alguém a 
crescer como discípulo?
acreditava em Deus. O descrente comentou 
em voz alta: “Não acredito que o pastor 
acabou de agradecer a Deus pela refeição. 
Deveria ter agradecido aos pais da noiva!”. 
Perguntamo-nos se esse ponto de vista 
não reflete o coração de muitos cristãos. 
Quando oramos antes de uma refeição, 
será que, lá no fundo, não a consideramos 
resultado de nossoesforço? Você crê, de 
fato, que o Senhor é o doador de todas as 
boas dádivas? Precisamos entender a reali- 
dade bíblica de que todas as boas dádivas 
vêm de Deus.
0 processo de fazer discípulos.
Aplicação do texto: Precisamos seguir o 
exemplo de Jesus no processo de desen- 
volver discípulos maduros. No Evangelho 
de Marcos, vemos que Jesus convidou seus 
discípulos a viver e andar com ele. Isso
109 M arcos 6.31-44
Marcos 6.45-56
Reprovação e fracasso espiritual 
— dureza de coração
Ideia central Esse episódio ilustra 0 principal contraste dessa passagem central de Marcos. 
Jesus tem poder para cuidar de seus seguidores, mas os discípulos não entendem esse 
fato por causa de seu fracasso espiritual e da dureza de seu coração.
que em qualquer outra ocasião. Agora, ele 
os obriga (gr., anankazõ, um verbo incomu- 
mente forte, “obrigar, forçar” ) a levar o 
barco para a outra margem. A meu ver, ele 
sabe o que acontecerá e atua aqui como o 
Espírito que o “enviou” para ser provado 
no deserto (1.12; observe a profusão de 
imagens do deserto em 6.31-44). Essa será 
a prova dos discípulos. É possível, ainda, 
que houvesse alguns desordeiros no meio 
da multidão e que Jesus quisesse evitar que 
seus discípulos se envolvessem em qualquer 
fervor messiânico (em Jo 6.14,15 a multidão 
quer proclamá-lo rei “à força” ), mas não 
há indício algum disso em Marcos.
6.46 subiu a encosta de um monte para 
orar. Nos Evangelhos (veja Mc 3.13; 9.2), 
os montes simbolizam revelação divina, e é 
possível que haja mais associações com o 
Êxodo/Sinai aqui, pois Jesus, semelhante a 
Moisés, sobe 0 monte para ter comunhão 
com o Pai.1
6.48 os discípulos remando com dificul- 
dade, porque o vento soprava contra eles. 
Provavelmente, é a metade ou o final do 
anoitecer depois da arrumação que seguiu 
o banquete pré-messiânico. Eles estão a 
caminho de Betsaida (talvez não a mesma
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Deus provê para os necessitados (6.30-44), 
e Cristo cura todos os que vêm até ele (6.53- 
56). Os verdadeiros discípulos depositam 
sua confiança em Deus e em Cristo, que 
cuidam deles. Como o novo Israel, os se- 
guidores de Jesus precisam ser provados 
em sua própria experiência no “deserto” . 
Em outras palavras, os discípulos precisam 
passar por um teste semelhante ao de Jesus, 
e é possível que Jesus os tenha enviado à 
outra margem do lago de propósito, pois 
sabia o que iria acontecer. A referência a 
“um lugar deserto” (er mos topos) em três 
ocasiões (6.31,32,35) talvez mostre que 
essa é uma “provação no deserto” para os 
discípulos, e eles, assim como Israel, são 
reprovados (6.52: “dureza” = SI 95.8).
Considerações interpretativas
6.45 Jesus fez com que seus discípulos en- 
trassem no barco e fossem adiante dele. 
Jesus havia acabado de ensinar a seus dis- 
cípulos que Deus proveria e os envolveu 
de modo mais profundo nesse milagre do
Marcos 6 .45 -56 110
P r in c ip a i s t e m a s d e M a rc o s 6 .4 5 -5 6
* Em Jesus, fazemos parte de um novo êxodo e cons- 
tituímos um novo Israel caracterizado pela confiança 
na provisão de Deus.
• É fácil darmos lugar à dureza e à cegueira quando 
nos concentramos na situação em vez de olhar para 
Jesus.
O acréscimo feito por Marcos de que ele 
“estava a ponto de passar por eles” (ausente 
nos outros Evangelhos) é motivo de exten- 
sas discussões e de várias teorias: (1) é uma 
linguagem experiencial, do ponto de vista 
dos discípulos, aos quais pareceu que ele 
iria passar por eles;2 (2) é uma observação 
do ponto de vista de Jesus, pois ele esperava 
que confiassem na provisão de Deus e se 
acalmassem; (3) significa que “ele pretendia
Em 6.48 os discípulos estão em um barco no mar 
da Galileia, esforçando-se para remar contra um 
vento forte. Os montes e vales que circundam o 
lago afunilam ventos que podem formar ondas 
perigosas. Essa fotografia ao pôr do sol mostra 
que as ondas podem aumentar de tamanho e 
intensidade no mar da Galileia.
Betsaida mencionada em 6.31), perto 
dali, mas de repente começa um vendava! 
(como em 4.37). Eles são desviados do tra- 
jeto (6.53 diz que eles chegam a Genesaré, 
cerca de cinco quilômetros a sudoeste de 
Cafarnaum) e tudo indica que eles remaram 
por várias horas antes de Jesus aparecer na 
“quarta vigília” da noite (das três às seis da 
manhã), perto do nascer do sol. De acordo 
com João 6.19, eles haviam remado “cinco 
ou seis quilômetros” nesse meio-tempo, o 
que mostra quão intenso era o vento. Vários 
dos discípulos eram pescadores e, portanto, 
remadores experientes, mas depois de tan- 
tas horas remando, “dificuldade”, era o 
mínimo que enfrentavam.
estava a ponto de passar por eles. Há 
quatro milagres aqui: Jesus (1) está no alto 
do monte, vê os discípulos no meio da tem- 
pestade e sabe que estão em dificuldade;
(2) ele caminha sobre a água; (3) vai direto 
ao lugar onde eles estão no meio da tem- 
pestade e de ondas imensas; e (4) acalma 
a tempestade. Jesus parece caminhar em 
direção a eles tranquilamente, de uma onda 
a outra de mais de dois metros de altura.
como Deus garantiu aos patriarcas: “Eu 
sou Yahweh, não tenha medo” (Gn 15.1; 
26.24; 46.3).
6 . 5 2 eles não tinham entendido o milagre 
dos pães; seu coração estava endurecido. 
Seu coração “endurecido” (somente em 
Marcos) aparece novamente em 8.17. Sua 
falta de compreensão permeia o restante de 
Marcos. Primeiro, não entendem o tema 
fundamental do milagre da alimentação: 
“Deus cuidará de vocês” . O fracasso se 
deve a seu enrijecimento espiritual. Nesse 
aspecto, os discípulos não são muito dife- 
rentes dos que os cercam. Ficam “admira- 
dos” como as multidões (1.22,27; 5.20) e se 
mostram “endurecidos” como os fariseus 
(3.5; 10.5). É preciso que o coração seja 
aberto para a presença de Deus em Jesus e 
que os olhos sejam abertos para enxergar 
a verdade (cf. sua cegueira em 8.18). Os 
discípulos fracassam nos dois quesitos.
6 . 5 6 aonde quer que ele fosse / .../ eles 
colocavam os doentes nas praças. Esse é o 
terceiro resumo (1.32-34; 3.7-12) e, como 
os outros, tem como ponto central tanto 
o poder miraculoso de Jesus quanto sua
Quando Jesus se aproxima do barco em que estão 
seus discípulos aterrorizados, diz: "Não tenham 
medo!"(6.50). Então, entra no barco com eles, e o 
vento se acalma. Este fragmento de um sarcófago 
do quarto século d.C. mostra João, Lucas e Marcos 
em uma embarcação conduzida por Jesus no meio 
das águas agitadas pela tempestade.
passar pelo caminho deles” e descreve o 
propósito da vinda de Jesus;3 (4) traz à me- 
mória as ocasiões em que Yahweh “passou” 
por Moisés no monte Sinai (Êx 33.17-23) e 
por Elias no monte Horebe (lRs 19.9-14). 
Como Yahweh, Jesus “anda sobre as ondas 
do mar [...] Quando passa junto de mim, 
não o vejo” (Jó 9.8,11).4 A quarta proposta 
(Marcos afirma que Jesus “pretendia [êthe- 
len\ passar por eles”) harmoniza melhor 
com a cena. Aqui e em 6.50, a divindade 
de Jesus aflora, e o episódio se torna uma 
epifanía (manifestação de Deus em Jesus) 
para os discípulos.
6 . 4 9 pensaram que fosse um fantasma. 
Os discípulos não têm expectativa alguma 
e pensam apenas em sua situação desespe- 
radora, e não em Deus. Por isso, chegam à 
conclusão natural de que a única coisa que 
pode andar sobre a água é um fantasma, 
desprovido do peso de um corpo físico. É 
possível que também estivessem pensando: 
“Em pouco tempo seremos fantasmas como 
ele!” . Seu pavor é natural, mas, ao mesmo 
tempo, reflete uma perspectiva de vida vol- 
tada para si mesmos, e não para Deus.
6 . 5 0 Coragem! Sou eu! Não tenham 
medo! No mínimo, “sou eu” (egõ eími) iden- 
tífica que Jesus veio em pessoa salvá-los, por 
isso não precisam mais ter medo. Em João 
6.20, porém (à luz do uso de egõ eimi como 
título cristológico em João), fica evidente 
que se trata de uma perífrase de “Yahweh” 
(seu significado na 
LXX Êx 3.14; Is 
41.4; 43.10) e, por- 
tanto, quer dizer:
“Eu, Yahweh, estou 
aqui!”. De modo se- 
melhante, é prová- 
vel quea intenção de 
Marcos aqui seja usar 
essas palavras como 
indicação da natureza 
divina de Jesus.5 Assim
M arcos 6 .45-56
são reprovados no teste. Passaremos por 
testes semelhantes e também experimenta- 
remos a presença de Jesus (e do Espírito). 
A questão é se seremos vitoriosos como 
Jesus em 1.13 ou se fracassaremos como 
os discípulos aqui.
Para ensinar o texto____________
1. Os santos iniciam um novo êxodo e são 
o novo Israel. O tema do Êxodo tem grande 
destaque nessa passagem.6 Jesus é a van- 
guarda do novo êxodo há tanto esperado, 
a promessa de Isaías de um novo regresso 
do exílio e de uma nova realidade do reino 
que seria desencadeada pelo Messias. O 
milagre da alimentação reitera o milagre do 
maná no deserto e é precursor do banquete 
messiânico final, em que Deus estabele- 
cerá de uma vez por todas seu lugar de 
habitação eterno. O novo êxodo ocorreu 
em Jesus e, assim, está se formando uma 
nova comunidade messiânica, o novo Israel. 
Aqueles que aceitam Jesus como Messias se 
tornam parte desse povo do reino e recebem 
a promessa de bênçãos vindouras. Jesus 
é o verdadeiro Israel, o Filho derradeiro 
de Deus, e todos que creem, tanto judeus 
como gentios, fazem parte de sua comuni- 
dade messiânica e, portanto, constituem o 
novo Israel, a realidade definitiva do povo 
escolhido de Deus. Como o novo Israel, são 
chamados a reverter a falta de confiança 
do povo da antiga aliança em Deus, e a 
tempestade no lago é enviada para provar 
sua determinação e sua fé em Deus.
2. Dureza espiritual resulta em fracasso 
no discipulado. Em 6.45-52, os discípulos 
se concentram em sua situação difícil cm 
vez de olhar para Cristo, que supre as neces- 
sidades (6.53-56), e vem à tona o problema 
de uma perspectiva centrada no mundo, 
em vez de uma perspectiva centrada em 
Deus (8.33b). Essa dificuldade permeará
incrível popularidade com as multidões. 
Quando Jesus chega a Genesaré, visita 
todas as cidades e todos os povoados da 
região e ministra tanto nas áreas urbanas 
quanto nos campos. Em cada cidade, as 
ruas e a praça central ficam repletas de 
enfermos. Jesus cura todos eles.
que lhes deixasse pelo menos tocar na 
borda de seu manto [...] e todos os que 
nele tocavam eram curados. Talvez o re- 
lato da mulher curada em 5.28-34 tenha se 
espalhado, pois os enfermos acreditavam 
que seriam curados só de tocar em uma 
das quatro borlas na barra de seu manto 
(obrigatórias nas vestimentas de homens 
judeus [Nm 15.38,39; Dt 22.12)). E de fato 
foram curados (cf. At 19.12). O poder de 
cura do Mestre se estendia até às roupas 
que ele vestia.
Considerações teológicas
Na opinião de alguns, Marcos tem uma 
baixa cristologia, que se concentra em Jesus 
como Messias, mas esse conceito é equivo- 
cado. Em Marcos, Jesus é Filho de Deus 
e tem autoridade sobre a criação divina; 
controla a natureza e amarra os poderes 
cósmicos quando assim o deseja. Marcos 
segue a teologia trinitária do restante do 
Novo Testamento, e Jesus é Deus e herdeiro 
do próprio Deus. Como fica evidente cm 
João 1.3,4; Colossenses 1.16 e Hebreus 
1.2, Jesus foi cocriador com Deus, o Pai, 
e é soberano sobre sua criação.
Marcos também apresenta o tema fun- 
damental de fracasso no discipulado. A 
cena como um todo é um teste divinamente 
determinado, assim como as experiências 
de Israel e de Jesus no deserto. Jesus está 
presente com eles de formas miraculosas, 
“passando” por eles, assim como Yahweh 
fez com Moisés. No entanto, os discípulos 
não percebem a presença de Jesus devido 
ao “coração endurecido” deles e, portanto,
Marcos 6.45-56113
onde você buscará ajuda? Quem lhe dará 
respostas, soluções ou uma visão mais 
ampla de seus problemas? Infelizmente, 
muitos, mesmo cristãos, só buscam ajuda 
dentro de si mesmos ou em outros em vez 
de se voltar para Deus. Ou buscam Deus 
apenas como último recurso. Reflita sobre 
como Deus deseja que aprendamos a depen- 
der mais dele ao lhe comunicarmos nossas 
necessidades por meio da oração.
O s resultados terríveis de um 
coração endurecido.
Estatística: A falta de compreensão acerca 
da pessoa e do propósito de Jesus levou 
os discípulos a olharem para si mesmos, e 
não para Deus. O fato é que um coração 
endurecido cega o olhos. Eles viram os mi- 
lagres de Jesus, mas não entenderam, em 
seu coração, suas implicações. Somos, de 
fato, muito diferentes deles? Em se tratando 
de igreja, há vários sinais de corações en- 
durecidos. Em vez de oferecer o evangelho 
ao mundo, por exemplo, a igreja muitas 
vezes se concentra em cuidar apenas de 
seus próprios membros. Com frequência 
essas denominações são caracterizadas por 
lutas de poder e por corações cheios de 
crítica, e não por unidade. Em 2000, por 
exemplo, depois de meio século de pros- 
peridade nunca antes vista, a contribuição 
por membro entre os cristãos nos EUA e no 
Canadá era de apenas 2,6% de sua renda. 
Essa falta de generosidade reflete o estado 
do coração e suas prioridades. Qual é o 
estado de seu coração?
Manter os olhos fixos no Deus que 
está presente.
Biografia: Joni Eareckson Tada. Em 1967, 
aos 17 anos, Joni sofreu um acidente en- 
quanto mergulhava e acabou tetraplégica, 
numa cadeira de rodas. Sua vida extraordi- 
nária tem oferecido esperança e inspiração
as reações dos apóstolos no restante do 
Evangelho de Marcos. Analisamos ante- 
riormente 6.31—8.21 (veja “Texto em 
contexto” em 6.31-44). Na transfigura- 
çâo, o círculo mais chegado deles tem um 
vislumbre da verdadeira realidade da glória 
de Jesus, mas, logo em seguida, vemos os 
outros discípulos confiarem em si mesmos 
e se mostrarem impotentes diante de um 
demônio que atormenta uma criança pe- 
quena (9.14-29). Há um ápice momentâneo 
na confissão de Pedro (8.27-29), mas no 
momento seguinte, ele falha; aliás, depois 
de cada predição da Paixão há um fra- 
casso (8.31-33; 9.30-37; 10.32-45). Na 
Narrativa da Paixão, o capítulo 14 traz 
cinco fracassos: Judas (v. 1-11), os disci- 
pulos (profetizado, v. 18-21; cumprido, v. 
27-31), o Getsêmani (v. 32-42), discípulos 
anônimos (v. 50-52) e Pedro (v. 66-72). 
E Marcos conclui com dois fracassos. As 
mulheres, únicas discípulas fiéis a testemu- 
nharem o acontecimento, vão ao túmulo 
para ungir o corpo e são repreendidas por 
um anjo (16.5,6) e, por medo, desobede- 
cem a comissão do anjo (16.7,8). A vitória 
sobre nossas tendências egocêntricas só é 
alcançada quando encontramos o Senhor 
ressurreto (14.28 = 16.7).
Para ¡lustrar o texto_____________
Onde você procura socorro nas 
tempestades da vida?
Citação: A trilha menos percorrida, de M. 
Scott Peck.7 Peck começa essa obra clás- 
sica com as palavras: “A vida é difícil [...] 
Quando, de fato, nos damos conta de que 
a vida é difícil — quando verdadeira mente 
entendemos e aceitamos esse fato — a vida 
deixa de ser difícil. Porquanto, uma vez 
aceito, o fato de que a vida é difícil não 
importa mais”. Todos nós enfrentaremos 
desafios na vida. Quando isso acontecer,
M arcos 6 .45 -56 114
observa: “Ficaremos admirados quando 
virmos o anverso da tapeçaria e como 
Deus teceu belamente cada circunstância 
no desenho maior, para nosso bem e para 
a glória dele” .9 A eficácia na vida e no 
ministério depende de mantermos os olhos 
fixos no Senhor.
a milhões de pessoas. O segredo de sua 
eficácia na vida e no ministério é seu foco 
em Deus. Ela reflete que a angústia interior 
“nos obriga a apegar-nos a Deus por de- 
sespero, por necessidade urgente [...] Deus 
nunca está mais próximo do que quando o 
seu coração está aflito” .8 Em outro texto,
M arcos 6 .4 5 5 6 115־
Marcos 7.1-23
Hipocrisia espiritual: viver 
por regras, e não conforme 
o coração
Ideia central Nessa passagem a respeito de hipocrisia espiritual, Jesus ensina que 0 povo 
de Deus não deve viver conforme a aparência exterior, mas de acordo com sua realidade 
interior. 0 que importa de fato é a vida interior do coração, e não os códigos exteriores 
de conduta.
como duas contra-acusações de Jesus (v. 
6-8,9-13) e 7.14-23 traz o esclarecimentooferecido por Jesus às multidões (v. 14-16) 
e aos discípulos (v. 17-23).
Considerações interpretativas
7 . 1 , 2 Os fariseus e alguns dos mestres da 
lei. É provável que essa seja uma delegação 
semioficial do Sinédrio, o supremo conselho 
dos judeus em Jerusalém. O Sinédrio era um 
conselho formado por 71 membros, con- 
trolado pelos principais sacerdotes e pelos 
saduceus, mas os escribas (“mestres da lei”) 
e os fariseus também exerciam influência 
considerável. Constituía-se dos anciãos, 
aristocratas e dos líderes de Jerusalém. Eles 
ficam transtornados com Jesus porque ele 
permite que seus discípulos comam sem 
lavar as mãos. Não se tratava de uma ques- 
tão de higiene, mas de pureza ritual.
7 . 3 , 4 uma lavagem cerimonial, apegan- 
do-se à tradição dos anciãos. Marcos ex- 
plica essa prática judaica para seus leitores
Para entender o texto___________
Texto em contexto
O tema do fracasso em 6.45-53 tem con- 
tinuidade aqui, e a dureza do coração dos 
discípulos (6.52) os liga aos fariseus (3.5;
10.5) em sua incapacidade de compreen- 
der a realidade de Jesus e do reino (veja 
“Texto em contexto” em 6.31-44). Agora 
Marcos volta a atenção para os fariseus a 
fim de mostrar em mais detalhes a dureza 
de seu coração. Desse modo, tem conti- 
nuidade também o tema do conflito com 
os líderes (veja 2.1—3.6; 3.22-30). Tam- 
bém estão presentes subtemas da tradição 
judaica (2.18,23-26; 3.2) e questões de 
pureza (5.21-43).
Estrutura
Temos aqui uma narrativa complexa. Con- 
vém dividi-la, portanto, em duas seções 
principais: 7.1-13 apresenta o desafio e a 
explicação de Marcos para ele (v. 1-5), bem
M arcos 7.1-23 116
Principals temas de Marcos 7.123־
■ Todo grupo social e religioso precisa de tradições, 
que devem ser avaliadas não com base em sua 
função, mas conforme a verdade: vêm de Deus ou 
são de origem humana?
■ A hipocrisia é uma postura dúplice em relação à fé: 
a pessoa prioriza as aparências acima da realidade 
e se dispõe a viver uma mentira.
■ Nossa realidade interior deve ter prioridade e deter- 
minar nosso modo exterior de viver.
Fariseus e escribas
Os fariseus (do hebr. perushim, “separatistas”) se origi- 
naram dos Hassidim do período macabeu e defendiam 
uma interpretação rígida da Torá. Eles desenvolveram 
uma tradição oral, isto é, um conjunto de prescrições 
que dizia aos judeus do primeiro século como evitar 
transgredir inadvertidamente a Torá. Também defendiam 
a observância meticulosa da Torá a fim de manter a 
pureza, guardar as leis alimentares e do Sabbath e 
assim por diante. A seu ver, estavam “construindo uma 
cerca ao redor da Lei" (m. 'Abot 1.1) ao capacitaro povo 
em geral a guardá-la. Tornaram-se mais influentes no 
primeiro século, mas nunca chegaram a constituir um 
partido numeroso dentro do judaísmo (de acordo com 
Josefo [Ant. 17.42], tinham seis mil membros). Os es- 
cribas (“mestres da lei") vieram da antiga classe de res- 
ponsáveis oficiais pelos registros de documentos do go- 
verno. Desde o tempo de Esdras(Ed 7.6-26; Ne 8.1-9), 
eram uma classe importante da sociedade judaica, e 
se tornaram ainda mais essenciais durante o período 
macabeu como mestres e especialistas em questões 
jurídicas. Eram os peritos legais do primeiro século, e 
é provável que a maioria fosse do partido dos fariseus 
(embora alguns fossem sacerdotes).
exatamente iguais. Seus lábios 
dão a impressão exterior de 
devoção, mas seu coração e 
vida estão extremamente dis- 
tantes de Deus. Seu culto e seu 
ensino são vazios, infrutífe- 
ros e não passam de esforço
gentios. No Antigo Testamento, esse ritual 
era realizado somente pelos sacerdotes, que 
lavavam as mãos e os pés antes de ofere- 
cer sacrifícios (Êx 3 0 .1 8 4 0 . 3 0 - 3 2 .(־21; 
A aplicação mais ampla fazia parte da 
“tradição oral” desenvolvida no período 
intertestamentário. Os escribas estenderam 
o ritual a todos os judeus antes das orações 
formais e, depois, a todos os alimentos, 
de modo semelhante à comida sacerdo- 
tal. Possivelmente, esses rituais eram pra- 
ticados mais pelos mestres que pelo povo 
em geral.1 Logo, é provável que “ todos 
os judeus” seja uma hipérbole intencional 
para ênfase. Era uma questão de pureza e 
contaminação que envolvia dois aspectos: 
se estavam em casa prestes a comer, apenas 
jogavam um pouco de água sobre as mãos 
(v. 3), mas se estavam fora de casa, em 
um lugar público, talvez tivessem tocado 
algo verdaderamente impuro (p. ex., um 
gentio) e, por isso, mergulhavam os braços, 
e talvez até o corpo todo, em um banho 
ritual (baptizo é usado em 7.4).
7 . 6 o coração deles está longe de mim. 
Marcos traz uma sequência diferente da- 
quela que aparece em Mateus 15.1-20, e 
coloca a citação de Isaías (29.13) no início, 
a fim de apresentar de imediato a tese bá- 
sica e mostrar como Jesus a fundamentou 
na verdade do Antigo Testamento. Isaías 
descreveu a vida religiosa superficial dos 
judeus do século oitavo a.C. Eles falavam 
as palavras corretas, mas não 
praticavam as ações certas. 
Jesus está dizendo que 
os fariseus são
Os fariseus perguntam a Jesus 
por que seus discípulos não 
observavam as práticas de pureza 
ritual antes de comer. É possível 
que canecas de pedra, com o essa 
encontrada em Massada, fossem 
usadas para a lavagem ritual das 
mãos (primeiro século d .Q .
M arcos 7.1-23117
(isto é, dedicado a Deus). “Corbã” signi- 
fica “dádiva” (o termo costuma ser usado 
para ofertas sacrificiais) e se refere a algo 
dedicado a Deus que passa, então, a ser 
sagrado. A pessoa podia declarar que uma 
propriedade ou uma soma em dinheiro era 
Corbã, e esse recurso não podia ser gasto 
em qualquer outra coisa (embora pudesse 
ser usado para as necessidades do próprio 
indivíduo). De acordo com os fariseus, 
essa prática teria prioridade prioridade 
até mesmo sobre o quinto mandamento. 
Jesus não indica se isso é feito de modo 
intencional (para evitar responsabilidade) 
ou acidental; de qualquer forma, é errado. 
Os mandamentos de Deus têm autoridade 
plena sobre a tradição dos escribas. Por- 
tanto, a “tradição” humana praticada por 
eles “anulou”, os verdadeiros mandamen- 
tos divinos (v. 13, que repete o v. 9).
7 . 1 5 o que sai de uma pessoa é que a 
contamina. A segunda metade da perícope 
traz a explicação de Jesus para as multidões 
e para os discípulos. Jesus usa a ilustração 
do que “entra no corpo” (cf. Lv 11) e “sai” 
dele (cf. Lv 15) para ampliar a ideia para 
além do lavar as mãos, abrangendo, assim, 
todas as questões de pureza, especialmente 
as leis alimentares. Ele pede à multidão (que 
mesmo composta por judeus comuns, ou 
seja, não peritos na Lei, ainda era capaz de 
entendê-lo) que não apenas “escute” (forte 
ênfase sobre a prontidão do leitor para 
“ouvir” a mensagem de Deus: ocorre oito 
vezes no cap. 4), mas também “entenda”, 
uma característica do verdadeiro seguidor. 
Para isso, exige que percebam que o pecado 
não é produzido por forças exteriores, mas 
pelas realidades interiores que “saem” e 
verdadeiramente “contaminam”. Não é o 
alimento em si que contamina, mas o estado 
interior da alma que corrompe de fato. Esse 
princípio geral requer pureza de coração 
para estarmos com a vida em ordem para 
com Deus.
humano. O mesmo se aplica a muitos de 
nós atualmente; podemos cantar hinos com 
entusiasmo, ouvir sermões atentamente, 
curvar a cabeça para orar e parecer pro- 
fundamente engajados (como os fariseus) 
e, ao mesmo tempo, viver em nosso íntimo 
para nós mesmos e para nossas prioridades.
7 . 8 , 9 se apegam às tradições humanas 
[...] põem de lado os mandamentos de Deus. 
Jesus define a tradição oral como meramente 
“humana” e mostra que é contrária aos ver- 
dadeiros “mandamentos” de Deus, uma 
ênfase importante aqui (v. 9,13). Quando 
vivemos conforme decretos exteriores e le- 
galistas, em vez de apresentar os “sacrifícios 
espirituais” do coração (lPe 2.5) que Deus 
exige, fracassamos. Há somente um caminho 
para o caráter piedoso: obedecer às ordens 
de Deus em sua palavra. O ensinamento 
básicose encontra no versículo 8, enquanto 
o versículo 9 diz como eles têm colocado 
esse ensinamento em prática. São especia- 
listas em “abandonar” (“negligenciar” [v. 
8]) e então “negar” (“pôr de lado” |v. 9|) os 
mandamentos de Deus, pois priorizam suas 
próprias “tradições”. Voltaram-se contra 
Deus a favor de suas próprias idéias.
7 . 1 0 quem amaldiçoar seu pai ou sua 
mãe terá de ser executado. Nessa segunda 
parte da contra-acusação de Jesus aos es- 
cribas, ele cita duas passagens da Torá, o 
fundamental quinto mandamento sobre 
honrar os pais (Êx 20.12; Dt 5.16) seguido 
de uma intensificação dessa ordem para 
mostrar sua natureza extremamente séria, 
que impõe a pena de morte sobre aqueles 
que “maldizem” ou “amaldiçoam” seus 
pais (Êx 21.17). Esse mandamento, em seu 
contexto original, era interpretado como 
se referindo não apenas a insultos, mas 
também à insubordinação aos pais. Aqui, 
a questão primordial é sobre a responsabi- 
lidade de cuidar dos pais (cf. lTm 5.4,8).
7 . 1 1 declara que o que podería ser usado 
para ajudar seu pai ou sua mãe é Corbã
118M arcos 7 ־123.
I Ao explicar a parábola para os discípulos, Jesus lhes 
! diz que nenhum alimento pode contaminá-los,
 porque não entra em seu coração, mas em seu" ן
! estômago, e depois sal do corpo" (Me 7,19). Mais 
I literalmente, o grego traz "para o esgoto"ou 
i latrina. A fotografia mostra uma latrina pública 
I encontrada em Citópolis, cidade romana situada 
I na base do sítio arqueológ ico da antiga Bete-Seã.
Os melhores manuscritos, porém, trazem 
um participio grego masculino, portanto 
Jesus está declarando que “todos” os ali- 
mentos são “puros” . Em outras palavras, a 
realidade do reino em Jesus gerou uma nova 
era em que as leis alimentares de Levítico 
11 não se aplicam mais.
7 . 2 1 , 2 2 pois do interior [...] vêm os pen- 
sarnentos maus. Jesus apresenta aqui de 
modo explícito o que fica implícito nos 
versículos 18 e 19. A passagem anterior 
diz o que não pode contaminar a pessoa 
(os alimentos exteriores), e agora Jesus 
especifica o que, na realidade, a torna 
impura. O “coração”, a vida interior de 
pensamentos da pessoa, é a origem do 
pecado. A lista subsequente de práticas 
condenáveis3 apresenta tipos diferentes 
de “pensamentos maus” e é duas vezes 
mais longa que a lista paralela em Mateus
15.19,20 (que acom panha a segunda 
tábua dos Dez Mandamentos). Contém 
doze itens: os seis primeiros estão no plural 
(em grego) e conotam ações individuais, e 
os seis últimos estão no singular (também 
em grego) e conotam atitudes ou princípios 
morais (na NIV todos os itens aparecem 
no singular). Os itens no plural podem ser 
divididos em três pares: imoralidade-adul- 
tério, roubo-cobiça, homicídio-maldade.4
7 . 1 8 Acaso são tão ignorantes? Os disci- 
pulos, como as multidões, não compreendem 
o ensino de Jesus (como em 6.52; 8.17,21) 
e lhe perguntam (em uma “casa”, o lugar 
onde as perguntas são feitas em Marcos [cf. 
3.20; 9.281) a respeito da “parábola” (veja
4.11) ou da analogia que ele apresentou 
no versículo 15. Assim, Jesus esclarece o 
ensino e apresenta mais um exemplo. Ele 
pediu à multidão que “entendesse” (synete 
[v. 14]) e agora acusa os discípulos de serem 
“ignorantes” ou de “não conseguir enten- 
der” (asynetoi). Em seguida, passa de um 
exemplo da tradição oral (v. 10-13) para 
um exemplo físico. A contaminação vem 
do coração, mas o alimento (até mesmo 
o alimento impuro) entra apenas no estô- 
mago e passa pelo sistema digestivo. Vai do 
prato para o vaso sanitário, passando pelo 
indivíduo sem afetar seu aspecto espiritual. 
O alimento físico diz respeito à parte da 
pessoa relacionada apenas a este mundo, 
e é necessário ter maior preocupação com 
aquilo que afeta o “coração” (pensamentos, 
palavras e ações), pois é ali que ocorre a 
verdadeira contaminação.
7 . 1 9 jesús declarou puros todos os ali- 
mentos. Temos aqui mais um comentário 
editorial de Marcos que mostra as impli- 
cações do que Jesus afirmou (cf. 3.30; 5.8; 
7.3,4). Literalmente, o texto diz apenas 
“purificando todos os alimentos”; para 
alguns, isso significa que, de acordo com 
o ensino de Jesus, o processo de digestão 
remove todas as impurezas dos alimentos.2
119 M arcos 7.1-23
que coloquemos nossas crenças em prática, 
que nosso modo de vida reflita as exigências 
de Deus e que essa fidelidade a suas injun- 
ções éticas seja observável para aqueles ao 
nosso redor. Esse é o cerne da diatribe de 
Jesus contra os escribas e fariseus em Mateus 
23, uma série de sete “ais” que convergem 
em torno do fato de que eles “não praticam 
o que pregam” (23.3b). Quando a aparência 
que projetamos para outros tem prioridade 
sobre a realidade de quem somos diante de 
Deus, estamos vivendo uma mentira e en- 
frentaremos o julgamento divino. A solução 
é termos Deus como centro e sermos fiéis 
a sua Palavra revelada, praticando a vida 
cristã como corpo no qual “admoestamos 
uns aos outros diariamente” (a tradução que 
prefiro para Hb 3.13) e “restauramos” uns 
aos outros quando somos “surpreendidos 
em algum pecado” (G1 6.1).
3. O ser interior determina a conduta 
exterior. Deus atua de dentro para fora. As 
más ações sempre procedem de pensamentos 
pecaminosos (v. 20-23), contudo, o mesmo 
se aplica a uma vida caracterizada pela reti- 
dão. Quando nosso coração está em ordem 
com Deus, nossa conduta segue pelo mesmo 
caminho. Nossas ações, sejam elas piedosas 
ou pagãs, começam na mente. Em Romanos 
12.2, os leitores são chamados a uma vida 
“transformada”, que nasce da constante 
“renovação de nossa mente” pelo Espírito 
Santo e por uma mentalidade piedosa. Se 
gastarmos tempo em sites pornográficos, o 
resultado disso sempre será uma conduta 
imoral. Se, em vez disso, meditarmos na Pa- 
lavra de Deus e nos pensamentos de grandes
Para ensinar o texto____________
1. É preciso reconhecer o devido valor e 
lugar da tradição. O fato de os fariseus vi- 
verem mais em torno de suas tradições orais 
que do verdadeiro sentido das Escrituras 
não deve depreciar as tradições religiosas. 
Na verdade, todo grupo tem suas tradições, 
e elas são importantes para definir seus con- 
tornos religiosos e determinar a doutrina e 
o estilo de vida corretos derivados dos tex- 
tos sagrados. Tornam-se perigosas, porém, 
quando distorcem as verdades sagradas e 
passam a ser um fim em si. Nosso sistema 
de crenças requer modelos e metáforas que 
expliquem as verdades que herdamos e nos 
capacitem a ser fiéis a elas. O importante 
é que nossas tradições sejam heurísticas, 
sujeitas a reavaliação e revisão, conforme 
nosso entendimento das Escrituras e nossa 
própria herança religiosa. As regras exer- 
cem as funções positivas de definir um mo- 
vimento, mantê-lo separado dos de fora e 
determinar a conduta apropriada. Todas 
essas funções são necessárias; o perigo surge 
quando as regras passam a ter precedência 
sobre as Escrituras e definem a si mesmas. 
Precisamos respeitar os princípios religiosos 
de outros (Rm 14.1—15.12); ao mesmo 
tempo, contudo, devemos nos certificar de 
que nossas tradições venham das Escrituras, 
e não apenas do raciocínio humano.
2. A hipocrisia é um perigo para a vida 
espiritual. Todos nós tentamos manter uma 
boa impressão diante de outros e esconder 
quem somos no âmago de nosso ser. Na rea- 
lidade, cada um de nós precisa, como Paulo, 
reconhecer que é “o principal dos pecado- 
res” (lTm 1.15). No entanto, a Bíblia exige
i Os fariseus eram m uito rígidos quanto à preservação 
da pureza ritual. Além de lavar as mãos, a purificação 
: ritual por meio da imersão do corpo todo em um 
: mikveh, ou banho ritual, era uma prática comum, 
i Nem mesmo isso, contudo, podia purificar o mal que 
j nasce do coração da pessoa. A fotografia mostra um 
mikveh do ן período do Segundo Templo.
120Marcos 7.1-23
devemos ter integridade em nosso relacio- 
namento com Deus e uns com os outros, 
sem procurar impressionar Deus e os ou- 
tros com nossas práticas religiosas, mas 
esforçando-nospara amar Deus e os outros 
com autenticidade e integridade. Remova 
a máscara e deixe Deus transformar seu 
coração para que seu amor seja autêntico.
Anular a Palavra de Deus com tradições 
humanas.
Filme: Mudança de hábito. Nesse filme 
de 1992, Whoopi Goldberg estrela como 
Deloris, cantora de bar em Reno, Nevada. 
As autoridades a colocam em um convento, 
disfarçada de freira, para protegê-la de um 
chefe da máfia que deseja impedi-la de tes- 
temunhar contra ele. Quando as freiras 
ficam sabendo que Deloris tem experiência 
musical, escolhem-na para reger o coral 
do convento. Ela faz novos arranjos para 
as músicas para torná-las mais contem- 
porâneas e leva as freiras a interagir com 
a comunidade, gerando desaprovação da 
madre superiora. O monsenhor do con- 
vento, porém, fica encantado com a música 
e com o ministério visto que traz pessoas da 
rua para o culto (pode ser interessante mos- 
trar um clipe do filme em que gente das ruas 
começa a entrar na igreja enquanto o coral 
canta). Uma das irmãs comenta: “Foi por 
isso que me tornei freira!”. Muitas vezes, 
somos motivados por nossas tradições, e 
não pela Bíblia. Embora a madre supe- 
riora se contentasse em “deixar as coisas 
do jeito que estavam”, o monsenhor e as 
freiras desejavam alcançar a comunidade 
com adoração e ministério autênticos. Que 
tradições estão impedindo sua igreja de 
exercer um ministério bíblico eficaz?
homens e mulheres de fé, almejaremos ações 
que agradem a Deus. O princípio é simples: 
somos aquilo que pensamos, e isso deter- 
mina o que fazemos.
Para ¡lustrar o texto_____________
Adoração da boca para fora, e não 
de coração.
Litcratura/filme: As possuídas, de Ira 
Levin.5 Esse romance foi adaptado duas 
vezes para filme (1975 e 2004). Na cidade de 
Stepford, as esposas são submissas e atentas 
para todas as necessidades do marido. Uma 
jovem mãe, Joanna Eberhart, seu marido 
e seus filhos, se mudam para essa cidade 
tranquila e Joanna não demora a perceber 
que há algo de errado: as esposas ali pare- 
cem “zumbis” . Na realidade, elas foram 
transformadas praticamente em robôs. Por 
mais que os homens gostassem do poder, 
o amor de suas respectivas esposas nunca 
seria gratificante, pois não vinha de seu 
coração, mas, sim, de sua programação. 
De modo semelhante, quando cumprimos 
os rituais da adoração ou fé sem envolver 
nosso coração, não passamos de autômatos 
programados. Acaso essa adoração significa 
alguma coisa para o Senhor?
Uma vida de hipocrisia.
Lição prática: O termo “hipócrita” vem de 
uma palavra grega que se referia a um ator 
que desempenhava um papel no palco e, 
com frequência, cobria o rosto com uma 
máscara. Cubra seu rosto com uma más- 
cara e pergunte: “Estou sorrindo? Estou 
irritado? Estou chorando?”. Não há como 
saber, pois a máscara esconde as expressões 
reais. Jesus deixou claro em seu ensino que
M arcos 7.1-23121
Marcos 7.24-37
Os gentios demonstram o 
verdadeiro discipulado
, * 2 ׳ ־ C f r v ז ? ־ ' ׳ " ־:׳ , - / s נ 
Ideia central A salvação e as bênçãos do reino, até aqui experimentadas principalmente 
pelos judeus, agora são estendidas aos gentios. Uma mulher gentia de Tiro demonstra 
fé e humildade extraordinárias, e um surdo e mudo em Decápolis experimenta a 
cura m essiânica.
noroeste da Galileia para a Síria, e Jesus 
desejava viajar incógnito, ao que parece, 
tanto para fugir da oposição que vinha 
enfrentando,' quanto para passar algum 
tempo a sós com seus discípulos. A prin- 
cípio, ele também parece não querer muito 
contato com os gentios, mas permanece 
em regiões gentílicas durante os próximos
Sldom
S A M A R I
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Marcos se volta agora para exemplos de fé, 
tendo em vista que a mulher siro-fenícia é 
um dos “pequeninos” de seu Evangelho, 
personagens que aparecem só uma vez, 
mas que elaboram o tema de como deve 
ser o verdadeiro discipulado. Como tal, ela 
mostra aos discípulos a humildade e a 
vida centrada em Cristo que devem ca- 
racterizar o verdadeiro seguidor de Jesus 
e ocupa o ponto central da seção sobre 
“fracasso-fé-fracasso” em 6.30— 8.21 
(veja “Texto em contexto” no comen- 
tário sobre 6.31-44), contrastando espe- 
cialmente com a dureza de coração dos 
discípulos em 6.52; 8.17. A cura do surdo 
mudo dá continuidade a essa ênfase.
Considerações interpretativas
7 . 2 4 foi para os arredores de Tiro. Essa 
região ficava a dois dias de viagem a
Jesus viaja da Galileia para os arredores de 
Tiro. Depois vai a Sidom. antes de voltar para 
0 mar da Galileia e para a região de Decápolis. 
Esse é um mapa dessas regiões.
M arcos 7.24-37 ^₪₪₪₪ΙΚ₪₪₪₪₪Λ
Principais temas de Marcos 7.24-37
■ As m isericórdias de Deus também alcançam 
os gentios.
■ 0 discipulado é inteiramente centrado em Jesus.
A rejeição dos gentios pelos judeus
Na aliança abraâmica, Deus exigiu claramente que seu 
povo escolhido fosse "bênção" para “todos os povos da 
terra” (Gn 12.2,3), e Isaías 49.6 definiu os judeus como 
“luz para os gentios". No entanto, os israelitas, de modo 
geral, não atentavam para essas injunções e despreza- 
vam os gentios, considerando-os “impuros” . Há diversos 
motivos históricos para essa atitude, especialmente 0 
conflito incessante com os cananeus e os filisteus e 0 
fato de Israel ter sido dominado pelos egípcios, assírios, 
babilônios e romanos. Ainda assim, o povo tinha consci- 
ência dessa ordem. Scot McKnight resume a situação da 
seguinte forma: do lado positivo, os judeus enfatizavam 
o monoteísmo (seu Deus é o único Deus), mas tinham 
uma relação amigável com os gentios (especialmente 
nas regiões da Diáspora) e permitiam que participassem 
das atividades na sinagoga (veja os “tementes a Deus” 
em At 13.16). Aliás, há vários indícios de que muitos 
judeus participavam da educação helenística. Já no lado 
negativo, os judeus enfatizavam a separação dos gen- 
tios devido a sua pecaminosidade, não permitiam que 
participassem do culto no templo (podiam entrar apenas 
no pátio dos gentios, mas não nos demais recintos), 
não permitiam o casamento com gentios, rebelaram-se 
contra as reformas religiosas feitas pelos romanos e 
tinham convicção forte de que, no eschaton, Deusjulgaria 
e castigaria os não judeus. A maior parte da atividade 
missionária se restringia à atuação nas sinagogas da 
Diáspora com vistas a persuadir os tementes a Deus a 
tornar-se prosélitos por meio da circuncisão.3
*McKnight, “Gentiles” , p. 259.
empecilho para o ministério. A mulher vinha 
do território da Fenicia e da província da 
Síria e, sem dúvida, era de cultura gentílica.
7.27 tirar o pão dos filhos e jogá-lo para 
os cães. Robert Gundry chama a interação 
dc Jesus com a mulher apropriadamente de 
“duelo de perspicácia”.2 À primeira vista,
episódios e vai de Tiro a Sidom, depois 
à Decápolis (7.31) — as dez cidades da 
Síria — e, por fim, alimenta quatro mil 
pessoas nessa mesma região (8.1-10). Desse 
modo, Jesus ministra intencionalmente aos 
gentios na presença dos discípulos. Embora 
ele só permita aos discípulos anunciar o 
evangelho a judeus (Mt 10.5,6), mostra a 
eles como será o futuro ministério que vão 
exercer. Essa não é a primeira interação 
com gentios, pois em 5.1-20, o endemoni- 
nhado gadareno não apenas é exorcizado, 
mas também se torna discípulo de Jesus 
e o primeiro missionário aos não judeus 
(veja comentários sobre 4.35—5.20). Ainda 
assim, esse é o começo de seu período mais 
extenso com os gentios, e essa primeira 
história é o divisor de águas que dá início 
à era da missão aos gentios.
7.25,26 uma mulher, cuja filha estava 
possuída. Jesus “não conseguiu manter 
sua presença em segredo” (v. 24), pois sua 
fama o precedia mesmo ali. Tiro era um 
importante centro comercial e agrícola, 
economicamente mais forte que a Galileia, 
e Josefo cita seus habitantes entre “nossos 
inimigos mais ferrenhos” (Ápion 1.70). Je- 
zabel era dessa região (lRs 16.31,32) eTiro 
era conhecida por seu paganismo e por sua 
riqueza extravagante (Ez 28). É provávelque Jesus se encaminhe para lá proposita- 
damente, embora Marcos não apresente 
o motivo. Esse episódio dá continuidade 
à ênfase sobre as questões de pureza dos 
milagres em 5.21-43 e, especialmente, na 
seção anterior em 7.1-23, pois Jesus recebe 
a visita de uma pessoa gentia (considerada 
uma das “criaturas” mais impuras), mulher 
e cuja filha está possuída por um demônio 
(note o destaque sobre o espírito imundo/ 
impuro). Observe quantos elementos essa 
mulher tem contra si; qualquer judeu do pri- 
meiro século ficaria estarrecido ao ver Jesus 
interagir com ela. Uma vez mais, Jesus não 
permite que as tradições religiosas se tornem
M arcos 7.24-37123
Jesus gostaria de ser incluída na miseri- 
córdia de Deus aos gentios. Ela começa 
chamando Jesus de “senhor” e, com isso, 
reconhece que ele está no controle total 
e que ela depende completamente de sua 
misericórdia. Também reconhece que os 
judeus têm direito de participar primeiro 
das bênçãos de Deus e pede apenas para 
receber as sobras. Embora controverso, 
concordo com a opinião dos estudiosos 
que defendem que a resposta da mulher 
se deve ao fato de ser comum os gentios 
terem cães como animais de estimação.4 
Nesse sentido, ela usa um trocadilho em 
seu argumento. Os judeus têm prioridade 
no tocante às bênçãos do reino (Rm 1.16: 
“primeiro ao judeu, depois ao gentio”) e, 
como Jesus disse, os gentios eram impuros 
e indignos. Diante disso, a mulher pede 
apenas que ela (e os gentios), como um 
animal de estimação, tenham permissão de 
participar daquilo que restar das bênçãos de 
Deus. Essa ideia harmoniza com Romanos 
11.17, em que os gentios são retratados 
como ramos da “oliveira brava” enxertados 
na árvore para compartilhar das bênçãos 
que haviam pertencido a Israel.
7.29 Por causa dessa resposta, você pode 
ir. Na opinião de alguns, Jesus reconhece 
que a mulher venceu a discussão, mas isso é 
um exagero. Não houve discussão alguma;
a resposta abrupta de Jesus ao pedido da 
mulher para que ele exorcize sua filha pa- 
rece insultuosa, ríspida e até mesmo racista. 
Como muitos comentaristas observam, 
porém, essa é mais uma das “parábolas” 
de Jesus para “os de fora” (4.11 )3 e, como 
tal, é um enigma a ser desvendado. Jesus 
fala do ponto de vista judaico e, em uma só 
frase, resume o particularismo e o desprezo 
dos judeus pelos gentios. Os “filhos” são 
o povo judeu como filhos de Deus, e o 
alimento para “comer” se refere à provi- 
são de Deus (especialmente espiritual) para 
seus “filhos”. Em outras palavras, somente 
os judeus merecem o cuidado divino. A 
conclusão (com a qual os discípulos con- 
cordariam) é que o pão à mesa de Deus 
é para seu povo e não deve ser “jogado” 
ou descartado para os “cães” comerem. 
Para os judeus, os cães eram considera- 
dos impuros e jamais seriam aceitos como 
animais de estimação; andavam em mati- 
lhas à procura de alimento; eram expulsos 
em Israel. “Cães” era um epíteto comum 
para os gentios como indivíduos impuros 
(2Sm 16.9; SI 22.16; Mt 7.6; Fp 3.2).
7.28 até mesmo os cachorros, debaixo 
da mesa, comem das migalhas das crianças. 
Essa resposta é perfeita. Jesus tinha dito: 
“Primeiro, deixe as crianças comerem”, 
e ela se vale dessa ideia de forma engc- 
nhosa. Elias havia 
ressuscitado o filho 
de uma viúva gentia 
(IRs 17.8-24), e a 
mulher que fala com
Em 7.28, a mulher siro-fenícia 
afirma, em resposta à objeção 
de Jesus a curar a fil ha dela: "Até 
m esmo os cachorros, debaixo 
da mesa, com em das migalhas 
das crianças". A fotografia 
mostra um relevo funerário 
grego em que um cão procura 
migalhas no chão debaixo da 
mesa, nessa cena de banquete 
ou festa (quarto século a.C.).
124M arcos 7.24-37
em cinco estágios: (1) Jesus tira o homem 
do meio da multidão. Há aqui um tom sutil 
de “segredo messiânico” (cf. v. 36; veja tam- 
bém comentário sobre 1.34), pois Jesus não 
deseja que o milagre seja um acontecimento 
público. Entretanto, quando ele ordena si- 
lêncio no versículo 36, o povo não é capaz 
de cumprir essa ordem (veja comentário 
sobre 1.34). Quem é tocado por Deus e 
por seu Filho não consegue permanecer 
calado. As duas ações seguintes de Jesus 
são simbólicas. (2) Ao colocar seus dedos 
nos ouvidos do homem, Jesus age como 
profeta e representa a abertura dos ouvidos 
(cf. Is 35.5). É interessante que nesse epi- 
sódio, como em 8.23,25 (a cura do cego), 
Jesus usa tanto o toque quanto a saliva, 
criando mais um vínculo entre os dois 
milagres. (3) Acreditava-se que a “saliva” 
de um homem santo tivesse propriedades 
curativas,5 portanto o fato de Jesus cuspir e 
depois tocar nele (provavelmente na língua, 
mas talvez nos ouvidos) seria bem aceito.
(4) O “suspiro profundo” dc Jesus ao olhar 
para o céu indica sua dependência de Deus 
(também em 6.41) e sua emoção profunda 
ao aplicar poder do céu à situação desa- 
fortunada do homem.* (5) Mais uma vez 
(como em 5.41), Marcos apresenta a ordem 
de Jesus em aramaico para intensificar a 
pungência da cena e envolver o leitor no 
acontecimento descrito.7 Jesus é a voz in- 
vestida de autoridade que libera poder do 
céu e ordena que os ouvidos se “abram”. 
O efeito é imediato e a cura é realizada.
7.36,37 eles continuavam falavam a 
respeito / .../ “Fie faz tudo muito bem .” 
Esse é um trecho particularmente forte, 
que talvez resuma todas as passagens 
anteriores em que Jesus ordena silêncio, 
mas o povo não consegue obedecer (1.44; 
5.43). Quanto mais silêncio Jesus exige, 
“mais fortemente continuavam a pregar” 
(tradução literal). O tempo imperfeito no 
grego enfatiza que esse testemunho estava 
em andamento. Sua admiração é tanta que
na verdade, Jesus formulou a declaração 
dele para direcionar a resposta da mulher. 
Entre outros motivos, Jesus foi às regiões 
gentílicas (cf. também 5.1-20) para mostrar 
a seus discípulos que Deus havia incluído 
os gentios em seu reino (conforme antevisto 
na aliança abraâmica insistindo para que 
os judeus fossem “bênção” para os gentios 
[Gn 12.2,3]).
7.31,32 a região de Decápolis. Jesus dá 
continuidade a seu ministério nas regiões 
gentílicas. Sidom ficava mais de 30 quilô- 
metros ao norte de Tiro, de modo que Jesus 
viaja para o norte e depois para o leste, 
pela Síria, à região norte e leste do mar da 
Galileia, onde ficavam as “Dez Cidades” 
(veja também 5.20). É evidente que Jesus 
deseja ministrar em terras gentílicas. Não 
fazemos idéia, porém, do que o levou a dar 
essa volta. Alguns sugerem que foi sim- 
bólica, para mostrar que não havia mais 
lugar para Jesus na rebelde Galileia que 
tinha rejeitado Deus; no entanto, também 
há uma ênfase sobre a inclusão dos gentios 
no plano divino de salvação. Este último é 
demonstrado na cura do surdo e mudo, que 
tem um problema de fala devido à surdez.
um homem que era surdo e mal podia 
falar. Assim como os judeus levaram seus 
enfermos a Jesus para receber cura como 
parte das bênçãos do reino, de igual modo 
fazem os gentios. Esse milagre está intima- 
mente ligado à cura do cego em 8.22-26. 
Ambos ficam implícitos em 8.18 (“Vocês 
têm olhos, mas não veem? Têm ouvidos, 
mas não ouvem?”), e também há uma alusão 
à promessa messiânica de Isaías 35.5,6: “A 
língua do mudo cantará de alegria”. Nesse 
aspecto, Jesus recapitula a visão de Isaías da 
era messiânica de salvação, em que “os olhos 
dos cegos se abrirão e os ouvidos dos surdos 
se destaparão” e “os coxos saltarão como 
o cervo”, e estende essa bênção messiânica 
aos gentios, bem como aos judeus.
7.33,34 o levou à parte / .../ lhe disse: 
“Abrase!”. Observe a sequência da cura
M arcos 7.24-37125
2. O discipulado está centrado em Jesús. 
Os “pequeninos” em Marcos (aqueles que 
aparecem apenas urna vez) são fundamen- 
tais para o tema do discipulado, pois con- 
trastam com os discípulos que fracassam 
com tanta frequência (veja “Temas teológi- 
eos” na Introdução) e mostram o caminho 
para o verdadeiro discipulado. Os disci- 
pulos têm mais dificuldades de ouvir e a 
língua mais presa (veja comentários sobre 
8.18, adiante) que opróprio homem surdo 
e mudo! O objetivo principal de Marcos é 
mostrar a importância fundamental de 
concentrar-se inteiramente em Jesus, de 
fazer dele o centro da vida e não o “eu”, 
a exemplo da mulher siro-fenícia e do surdo 
e mudo nessa passagem. O discipulado é o 
processo de tornar-se cada vez mais seme- 
lhante a Cristo, como se vê na tradução 
literal de Efésios 4.13c: “alcançar a me- 
dida da estatura da plenitude de Cristo”. 
Em outras palavras, devemos procurar nos 
tornar semelhantes a Cristo em todos os 
sentidos. A mulher se mostrou disposta a 
aceitar quaisquer “migalhas” que Jesus lhe 
desse, e o surdo e mudo queria que Jesus 
apenas impusesse as mãos sobre ele. Há 
uma total negação do próprio ego e uma 
dependência absoluta de Jesus, e esse é o 
único caminho para tornar-se verdadeiro 
discípulo de Jesus.
Para ilustrar o texto_____________
Estender 0 ministério aos “de fora". 
B io g ra f ia e sp ir itu a l: Dark journey, deep 
grace: Jeffrey Dahmer’s story of faith [Jor- 
n a d a so m b ria , g ra ç a p ro fu n d a : a h is tó r ia 
de fé de Je ffrey D ah m er] , de R o y R atc liff . 
Ratcliff, pastor, escreve sobre seu ministério 
a Jeffrey Dahmer, homem condenado pelos 
crimes hediondos de assassinato, desmem- 
bramento e canibalismo.8 Certo dia, Ratcliff 
recebeu um telefonema de uma prisão da re- 
gião, pois um dos prisioneiros desejava ser
não conseguem parar de falar a respeito de 
Jesus e do milagre. Como Deus no Antigo 
Testamento (Gn 1.31; Ec 3.11), Jesus “faz 
tudo muito bem”. A última parte (a cura 
do surdo e mudo) é uma alusão a Isaías
35.5,6, os milagres enviados por Deus que 
prenunciarão o eschaton.
Para ensinar o texto____________
1. As misericórdias de Deus se estendem aos 
gentios. Deus nunca se interessou só pelo 
povo judeu. Como mostra a aliança abraâ- 
mica (Gn 12.3; 15.5; 18.18), ao escolher 
Abraão e seus descendentes, Deus planejou 
usá-los como fonte de bênção para todas 
as nações. Salomão, ao orar na dedicação 
do templo, reconheceu que “estrangeiros” 
viríam de terras distantes e pediu a Deus que 
“todos os povos da terra possam conhecer 
o teu nome e te temam” (lRs 8.43). Em 
Salmos 96.3, o salmista pede que os ado- 
radores “anunciem a sua glória [de Deus] 
entre as nações, seus feitos maravilhosos 
entre todos os povos” . A procissão das 
nações a Sião é uma ênfase frequente nos 
profetas (Is 2.2-5; 11.10; 14.1; 26.2; 49.23; 
Jr 3.17; Zc 8.20-22). Embora Jesus tenha 
restringido sua missão e a dos discípulos 
a Israel (Mt 10.5,6; 15.24), sem dúvida 
os gentios deviam ser incluídos na missão 
(Mc 7.27-29; 13.9,10; 14.9). Aliás, o foco 
mudará do Israel descrente para “outros” 
que creem (12.9). Na verdade, esse é o pro- 
pósito central dessa seção (7.24—8.10), na 
qual três milagres ocorrem em território 
gentio a fim de mostrar que Deus estende 
suas bênçãos salvíficas aos gentios, mas 
também aos judeus. A transição para os 
gentios não espera por Paulo; começa com 
Jesus. O requisito para participar da co- 
munidade do reino não é a nacionalidade, 
mas unicamente a fé; portanto, os gentios 
passam a ser, como os judeus, foco da mi- 
sericórdia de Deus.
;י■
Por onde quer que Jesus passe, 
os que precisam de cura são 
levados até ele. A lguns apenas 
desejam tocar suas vestes e, para 
outros, apenas ouvir uma palavra 
de Jesus lhes restaura a saúde. 
Nesse relato do hom em com 
problemas de audição e de fala, 
Jesus o chama à parte e mostra 
seu poder de cura por m eio do 
toque, da saliva e de ações para 
que o hom em entenda. Esse 
mosaico do quarto século d.C. 
¡lustra o encontro de Jesus com 
o hom em surdo.
ver, há pessoas para além do alcance da 
graça e do amor de Jesus? Por que pensamos 
dessa maneira? Como Deus deseja que você 
ministre a esses “de fora” ?
Quem são meus irmãos?
Bíblia: Na Parábola do Bom Samaritano
(Lc 10.25-37) é o “odiado” samaritano, e 
não um dos dois líderes religiosos judeus, 
que para e ajuda o homem ferido. Jesus 
rompeu as barreiras históricas, nacionais 
e raciais para nos desafiar a ver nosso pró- 
ximo como alguém que Deus ama. Somos 
chamados a ver todos como pessoas criadas 
à imagem de Deus e devemos ministrar a 
eles. De modo semelhante, somos chama- 
dos a ver nossos irmãos em Cristo com 
base em nossa fé comum em Jesus Cristo.
batizado. Ele não apenas batizou Dahmer, 
como passou a visitá-lo uma vez por se- 
mana. Em seu livro, Ratcliff esclarece se 
Deus é capaz de salvar, ou mesmo de amar, 
um homem como esse. Um dos membros 
da igreja de Ratcliff comentou: “Se Jeffrey 
Dahmer for para o céu, não quero estar 
lá” . Ao que o pastor respondeu: “Como 
pode um cristão pensar dessa forma? Não 
entendo [...] acaso o perdão é limitado a 
quem não é tão ruim assim? Não há alegria 
em saber que um pecador se voltou para 
Deus?” .9 Na igreja, é comum identificar- 
mos aqueles que são “dignos” de nosso 
ministério e aqueles que estão do lado “de 
fora” . Somos, de fato, diferentes daqueles 
que, no tempo de Jesus, se escandalizaram 
com seu ministério aos gentios? A nosso
■■i M arcos 7.24-37127
Marcos 8.1-13
A provisão de Deus 
inclui os gentios
Ideia central 0 ministério de Jesus em terras gentílicas prossegue com 0 segundo milagre 
de alimentação, que mostra a inclusão dos gentios no ministério m essiânico de provisão 
exercido por Jesus. De modo contrastante, 0 confronto com os líderes judeus e a rejeição 
por eles se intensificam e conduzem ao destino cristológico de Jesus em Jerusalém.
mostram tão incrédulos no versículo 4, con- 
siderando-se que já tinham visto Jesus ali- 
mentar outra multidão. Ao mesmo tempo, 
não há motivos para concluir que essa seja 
apenas uma narrativa duplicada. Como in- 
dica o critério de plausibilidade, semelhante 
aos milagres de cura e exorcismo que Jesus 
repetiu em seu ministério, ele também pode 
repetir a alimentação do povo. Joel Mar- 
cus mostra que o milagre da alimentação 
em João 6.1-16 se vale das duas narrativas 
de Marcos e, portanto, mostra que ambos 
existiam na tradição anterior a Marcos.1 
Marcos seria um péssimo editor se simples- 
mente tomasse a história anterior, do capí- 
tulo 6, mudasse alguns detalhes e tentasse 
apresentá-la como uma versão gentílica 
do mesmo relato. Faz muito mais sentido 
que o segundo milagre tenha, de fato, 
ocorrido. Ademais, em 8.19-21, Jesus os 
considera acontecimentos separados e faz 
distinção entre eles.2 Jesus inclui os gentios 
nesse acontecimento precursor do banquete 
messiânico (veja comentário sobre 6 .4 1).
8.2,3 Tenho compaixão dessas pessoas. 
Aqui, a compaixão de Jesus é física e se
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Essa passagem faz parte da seção mais 
longa, 6.31—8.21, descrita anteriormente 
(veja “Texto cm contexto” em 6.31-44) 
que trata de “fracasso-fé-fracasso”. Aqui, 
como em 6.31—7.23, um milagre de ali- 
mentação (6.31-44 = 8.1-10) leva ao fra- 
casso dos discípulos (6.45-52 = 8.14-21) 
associado ao fracasso dos fariseus (7.1-23 
= 8.11-13). Agora, Marcos inverte a ordem 
de 6.44—7.23, e Jesus emprega a analogia 
do pão para advertir acerca do “fermento” 
(ou propagação do mal) dos fariseus.
Considerações interpretativas
8.1 outra grande multidão. Há tantos deta- 
lhes iguais ao do relato do primeiro milagre 
da alimentação (6.31 -44) que, para muitos 
estudiosos críticos, trata-se de uma “des- 
crição similar com base na mesma fonte” 
ou de uma cópia da narrativa anterior. Sem 
dúvida, há muitas semelhanças, e nos per- 
guntamos por que os discípulos ainda se
128M arcos 8.1-13
Principais temas de Marcos 8.1-13
• Deus toma conta de seus seguidores de modo 
maravilhoso.
■ Deus opera em nosso favor mesmo quando não com- 
preendemos seus caminhos nem confiamos neles.
■ É preciso ter cuidado para não colocar Deus à prova.
■ Precisamos nos dirigir a Deus à maneira dele, e não 
exigir aquilo que ele não dará.
nificado numerológico nesse relato: cinco 
= os livros de Moisés, sete = plenitude ou 
perfeição, quatro mil = porteirose músicos 
do templo (1Cr 23.5). No entanto, não há 
necessidade de um simbolismo alegórico 
desses do começo ao fim, e é mais provável 
que a ênfase geral seja 
sobre o acontecimento 
em si. Jesus toma uma 
quantidade insignifi- 
cante de pão e peixe e 
a transforma em um 
banquete suntuoso.
Ainda assim, é pos- 
sível que haja certo 
significado numero- 
lógico nos doze e nos 
sete cestos de sobras 
(veja comentário sobre 
6.43; 8.19,20), que 
aponta para a obra 
perfeita ou completa 
de Deus no milagre.
Joel Marcus chama 
esse sentido de “co- 
notação da plenitude 
escatológica, derivada 
das imagens das doze 
tribos de Israel e dos 
sete dias da criação”.3
8.6 se assentasse no 
chão. Em 6.39 obser- 
vamos uma conota- 
ção militar (“grupos
refere aos efeitos de sua fome, enquanto em
6.34 é uma preocupação espiritual devido 
ao fracasso de seus “pastores” (os líderes). 
A disposição do povo de permanecer com 
ele durante “três dias” (será essa uma pre- 
figuração dos “três dias” antes da ressur- 
reição [8.31; 9.31; 10.34]?) sem provisões 
suficientes comprova sua fome espiritual 
por Jesus. A preocupação de Jesus transpõe 
todos os limites e todas as distinções étnicas.
8.4 Onde, neste lugar deserto, podería 
alguém conseguir pão suficiente..d O fato 
de os discípulos não esperarem coisa al- 
guma de Jesus remete a 6.37 e parece es- 
tranho, considerando-se que pouco tempo 
antes Jesus havia alimentado de modo mi- 
raculoso uma “grande multidão” como 
essa. Entretanto, todos
nós reagimos a Jesus 
de modo semelhante, 
com entendimento e 
expectativa limitados, 
mesmo depois de ele 
suprir repetidamente 
nossas necessidades.
Essa dificuldade em 
assimilar e aprender 
caracterizará os disci- 
pulos no restante de 
Marcos e fará parte 
do “coração endu- 
recido” em 8.17-19.
Observe, ainda, como 
seu dilema é real. Nos 
arredores não há local 
algum com alimento 
suficiente para suprir 
as necessidades de 
todo esse povo. So- 
mente Jesus tem os 
recursos para solucio- 
nar o problema.
8.5 Sete. Como foi 
comentado em 6.43, 
muitos veem um sig-
M arcos 8.1-13129
para a margem leste (8.13), chegando, por 
fim, a Betsaida (8.22).
8.11 para colocá-lo à prova. Era válido 
“testar” um profeta para averiguar se ele 
vinha de Deus ou se era um falso profeta. 
Os fariseus, contudo, não estão buscando a 
verdade; esse “teste” é mais uma “tentação” 
(outro significado depeirazõ) para que Jesus 
aja em seu próprio interesse. Uma situação 
semelhante em que os israelitas colocam 
Deus à prova faz sobrevir a ira divina em 
Êxodo 17.1-7 e Salmos 95.7-11. Não há 
abertura alguma para a possibilidade de que 
Deus tivesse enviado Jesus. Pelo contrário, 
eles “começaram a discutir” com Jesus com 
vistas apenas a condená-lo e a voltar o povo 
contra ele. A exigência de um “sinal do céu” 
mostra que eles rejeitaram os milagres de 
Jesus como prova de sua legitimidade. Eles 
não exigem um milagre da natureza nem 
um exorcismo (não podiam negar que Jesus 
havia realizado milagres, embora imaginas- 
sem que Satanás estivesse por trás deles [cf. 
Mc 3.22]), mas, sim, um prodígio celestial 
do próprio Deus. Talvez desejassem algo 
semelhante à escrita na parede que anunciou 
a Belsazar a destruição da Babilônia (Dn 
5) ou um estremecimento apocalíptico dos 
céus. O problema não se encontra em pedir 
um “sinal” (concedido, com frequência, aos 
profetas do Antigo Testamento [p. ex., Ex 
4; lRs 18; Is 7]), mas na intenção negativa 
por trás do pedido. Quando os discípulos 
pedem um “sinal” em Marcos 13.4, Jesus 
atende a seu pedido.
8.12 nenhum sinal lhe será dado. Como 
em 7.34, o suspiro de Jesus indica emoção 
profunda ao responder, talvez sua completa 
dependência de Deus ao confrontar as for- 
ças cósmicas do mal nos fariseus.4 “Essa 
geração”5 amplia o problema e abrange 
assim todo o Israel, comparando-o à “ge- 
ração” perversa nos dia de Noé (Gn 7.1) 
e na perambulação no deserto (SI 95.10). 
O julgamento é pronunciado por meio de 
um juramento profético solene (que, no
de cem e de cinquenta”) do exército mes- 
siânico que banqueteia com seu Messias. 
Aqui, o tom é definido pelo costume gre- 
co-romano (seguido pelos judeus em suas 
festas) de reclinar-se em um banquete.
Depois de tomar os sete pães e dar 
graças, partiu-os e os entregou a seus dis- 
cípulos. Como em 6.41, é possível que 
haja aqui uma nuança eucarística, já que 
a mesma linguagem ocorre na Ultima Ceia 
em 14.22,23. Esses dois milagres de alimen- 
tação têm uma dimensão teológica mais 
rica que qualquer outro prodígio; recriam 
o maná no deserto (Êx 16) bem como 
a multiplicação de pães por Eliseu (2Rs 
4.42-44), também anteveem a Eucaristia 
e o banquete messiânico. A promessa é de 
que Deus proverá para seu povo e lhe dará 
grande fartura de bênçãos.
8.8 ficaram satisfeitos. Nos dois mila- 
gres de alimentação, aqueles que receberam 
o alimento ficaram “satisfeitos” . Marcos 
emprega um verbo grego forte (chortazõ) 
que significa “ficaram empanturrados”. A 
imagem é de um banquete abundante em 
que os participantes devoram a imensa far- 
tura de alimentos. A grande quantidade de 
sobras é mais uma prova desse fato (em uma 
refeição habitual, em família, não havia 
sobra alguma). Como foi observado em 
6.43, os “doze” e os “sete” cestos de sobras 
indicam uma refeição perfeita.
8.10 foi para a região de Dalmanuta. 
Não sabemos praticamente nada a respeito 
desse local. De acordo com Mateus 15.39, 
eles foram a “Magadã”, lugar que costuma 
ser associado a Magdala, na margem no- 
roeste do lago. É provável, então, que Dal- 
manuta fosse um vilarejo de pescadores 
não muito distante de Cafarnaum. Isso 
significa que eles saem da região de De- 
cápolis (7.31), vão para o oeste até o lago 
c, de lá, atravessam de barco para a outra 
margem (território dos judeus), onde ocorre 
um rápido encontro com os fariseus e Jesus 
adverte a respeito deles. Em seguida, voltam
Jesus tem viajado de um lado para o outro 
do mar da Galileia à medida que realiza seu 
m inistério de ensino e de cura. Essa vista 
transversal do mar da Galileia olha para a 
margem noroeste; a margem leste aparece 
do lado direito.
grego, começa com 
“se” e significa “Que 
Deus me amaldiçoe 
se...” ). Deus não lhes 
concederá “ s in a l” 
algum dessa espécie, 
pois eles rejeitaram 
Jesus (quanto aos ditos 
“em verdade” [amêtt], 
veja 3.28; 9.1).
8 . 1 3 Então os 
/.../ e atravessou para o 
outro lado. Em Marcos, o ato 
de Jesus “deixar” um grupo é, 
com frequência, um gesto profético 
de recusa e rejeição; nesse momento, Jesus 
não quer mais saber deles.6 Ele atravessa 
o lago outra vez a fim de dedicar atenção 
a seus discípulos.
Considerações teológicas
da graça de Deus [... que| ele derramou 
sobre nós”. Compartilhamos da glória de 
Cristo e recebemos todas as bênçãos do 
reino prometidas ao povo de Deus. Em 
lPedro 5.7, o apóstolo afirma: “Lancem 
sobre ele todas as suas preocupações, pois 
ele cuida de vocês”. Isso significa que todas 
as ansiedades da vida podem ser lançadas, 
uma a uma, sobre os ombros de Deus, e que 
ele cuidará de tudo. A base é o “cuidado” 
e o amor impressionantes de Deus por nós. 
Enquanto “gememos” em meio a nossas 
preocupações, precisamos reconhecer que, 
ao orarmos, não temos como saber a von- 
tade de Deus para cada situação; o Espírito, 
contudo, “geme” por nossas dificuldades 
mais profundamente que nós e garante que 
“todas as coisas cooperem juntas para o 
bem” (Rm 8.26-28). Em todas as situações, 
podemos ter a certeza de que Deus está 
operando para nos guiar e nos fortalecer.
2. Deus está operando em nós, mesmo 
quando fracassamos. Repetidamente, os
Os temas são os mesmos do relato da 
alimentação dos cinco mil em 6.31-44: a 
provisão generosa de Deus a seu povo e 
a necessidade de os seguidores de Cristo 
confiarem plenamente em seu cuidado para 
com eles. O principal acréscimo aqui é a 
ampliação dessa bênção para incluir os 
gentios, e também os judeus. Um único 
novo tema diz respeito ao sério perigo de 
colocar Deusà prova. Não exigimos que 
Deus opere neste mundo conforme nossos 
próprios padrões; antes, sujeitamo-nos a 
sua sabedoria e soberania em nossa vida. 
Em outras palavras, não lhe dizemos como 
agir, pelo contrário, nós agimos de acordo 
com suas ordens e conduzimos nossa vida 
em conformidade.
Para ensinar o texto____________
1. Deus cuida de nós de modo extraordi- 
nário. De acordo com Efésios 1.3,7,8, Deus 
nos concede “todas as bênçãos espirituais 
em Cristo”, e elas consistem nas “riquezas
M arcos 8.1-13131
4. Dirija-se a Deus à maneira dele, e 
não exija o que ele não dará. Em 3.5, os 
fariseus são apresentados com um “cora- 
ção endurecido”, pois rejeitaram a obra de 
Deus em Jesus. Aqui, essa rejeição significa 
tanto a recusa em aceitar que o ministério 
miraculoso de Jesus é proveniente de Deus 
quanto a exigência de que Deus envie um 
sinal sobrenatural do céu como única forma 
de convencê-los. Eles esperavam que Deus 
cumprisse as condições deles e cedesse a suas 
exigências. Deveríam ter lido as Escrituras 
com um pouco mais de atenção. Deus jamais 
cede a nossas exigências; nós cedemos às 
exigências dele. Conforme Elebreus 12.1, 
devemos correr “a corrida que nos é pro- 
posta”. Os seres humanos não podem dizer 
a Deus como desejam viver. A sabedoria (em 
ambos os Testamentos) consiste em viver no 
mundo de Deus conforme as regras de Deus. 
Jesus se recusou a atender às estipulações 
deles, e Deus não atenderá àqueles que o 
abordarem com essa arrogância.
Para ilustrar o texto_____________
0 cuidado extraordinário de Deus por nós. 
Experiência cotidiana: Quando os filhos 
são disciplinados pelos seus pais, por vezes 
reagem com mágoa e raiva e concluem que 
os pais não os amam. Na maioria dos casos, 
porém, isso não é verdade. O pai disciplina 
o filho por amor. Nossa tendência humana 
de tirar conclusões a respeito de Deus com 
base em nossas experiências de vida é muito 
perigosa. É uma abordagem equivocada, 
pois parte do pressuposto de que somos 
capazes de compreender plenamente nos- 
sas circunstâncias e como Deus as usa em 
nossa vida. Uma abordagem mais apro- 
priada é enxergar nossas circunstâncias à 
luz do que sabemos ser verdade acerca de 
Deus com base na Bíblia. Como Hebreus
12.5-11 afirma, sabemos que Deus é bom e
discípulos não conseguiram entender o que 
estava acontecendo e, ainda assim, Jesus 
operou neles e por meio deles. Deus não de- 
pende de nós, entretanto, temos o privilégio 
de ser agentes das bênçãos do reino. Como 
Paulo afirma, exercemos nosso ministério 
como “vasos de barro” (2Co 4.7), meros 
seres humanos. Somos criaturas finitas com 
um corpo finito; ainda assim, Deus colocou 
dentro de nós seus “tesouros” e nos permitiu 
distribuir a outros essas dádivas maravilho- 
sas da graça. Somos fracos e inadequados, 
mas podemos nos alegrar em nossas pró- 
prias fraquezas, pois nelas o poder de Deus 
se torna ainda mais evidente (1Co 2.3,4; 
2C0 11.30; 12.9,10). Certamente falhare- 
mos, mas Deus jamais falhará.
3. É perigoso colocar Deus à prova. Os 
fariseus tentaram impor sua própria defini- 
ção de Deus sobre o Deus que se recusa a 
ser limitado por definições humanas. Sua 
perspectiva falsa acerca da verdade os levou 
a fazer exigências a Deus que evocaram a 
ira divina sobre eles. Com isso, repetiram 
os erros de Israel no deserto. Em Hebreus 
3.7—4.19 encontramos uma expansão mi- 
dráshica do salmo 95 (sobre a geração do 
deserto) em forma de homilía acerca desse 
perigo. A advertência básica (3.12-19) diz 
respeito à incredulidade pecaminosa que 
desconsidera Deus e à desobediência que 
resulta disso. Ao agir desse modo, os is- 
raelitas de outrora e os fariseus do tempo 
de Jesus experimentaram a ira de Deus e 
não entraram em seu “descanso” (a Terra 
Prometida em Números e a vida eterna em 
Hebreus). Há uma advertência em Hebreus
4.1-11 para que os leitores vivam em obe- 
diência a Deus, a fim de não perder o “des- 
canso sabático” divino, isto é, o descanso 
eterno com Deus. A solução consiste em 
nos concentrarmos na decisão de “hoje” 
(3.7,15; 4.7,8) de “entrar nesse descanso” 
(4.11) e nos apegarmos firmemente a nossa 
“convicção inicial” (3.14).
Marcos registra uma segunda ocasião em que 
Jesus provê alimento às pessoas que se ajuntaram 
para ouvir seu ensino. Mais uma vez. há com ida 
com fartura para todos e chega a sobrar alimento. 
Essa placa de marfim do décim o século d.C. 
mostra a m ultiplicação dos pães e dos peixes.
à altura da tarefa. Mesmo depois do mi- 
lagre anterior em que Jesus alimentou a 
multidão, os discípulos ainda duvidaram 
dele. Eles foram reprovados repetidamente. 
Ainda assim, Deus usou a vida deles. Que 
encorajamento para todos nós que segui- 
mos Jesus! Quando você imaginar que Deus 
não pode usá-lo, lembre-se da história da 
jumenta de Balaão, em Números 22. Se 
Deus falou por intermédio de uma jumenta, 
pode falar por nosso intermédio também!
que ele nos disciplina “para que 
participemos de sua santidade”.
Lição prática: Mostre aos pre- 
sentes uma calculadora grande 
e diga que a eficiência da cal- 
culadora depende dos dados 
inseridos pelo usuário. Como 
objeto inanimado, a calculadora 
simplesmente responde como 
foi programada para fazer: bem 
ou mal, o que é inserido determi- 
nará o resultado. Infelizmente, 
muitas pessoas se dirigem a 
Deus como se ele fosse um objeto 
inanimado, semelhante a uma 
calculadora. Imaginam equivo- 
cadamente que podem controlar, 
por meio dos dados inseridos, o 
modo que Deus responderá. Ou 
seja, se orarem da forma correta 
e tomarem decisões acertadas, 
então Deus, como uma calcula- 
dora, lhes dará o que desejam.
No entanto, Deus não é um objeto 
inanimado que podemos manipular, nem é 
limitado por nossos pedidos corrompidos e, 
com frequência, medíocres. Pelo contrário, 
Deus nos ama e cuida de nós; sabe melhor 
que nós quais são nossas necessidades e as 
situa no contexto de seus propósitos mais 
amplos para nós e para o mundo. Portanto, 
ao orarmos, confiamos que o Deus vivo e 
amoroso responderá encaixando as coisas 
como deveria ser, e não apenas de acordo 
com nossas idéias limitadas de como as 
coisas são.
Deus pode mesmo me usar?
Bíblia: A atitude dos discípulos no milagre 
da alimentação dos quatro mil não estava
M arcos 8.1-13133
Marcos 8.14-26
Cegueira espiritual 
e como superá-la
Ideia central A perspectiva materialista dos discípulos gerou cegueira espiritual, e Jesus os 
criticou severamente por seu coração endurecido e por sua falta de entendimento. Ainda 
assim , há esperança, pois 0 mesmo Jesus que tinha poder para curar os surdos e os 
cegos também podia curar sua cegueira espiritual.
a pequena quantidade de pão em 8.5 à ima- 
gem do pão e do fermento aqui. Havia cinco 
pães em 6.38 e sete em 8.5; aqui, porém, 
há apenas um, certamente mais uma vez 
insuficiente para suprir as necessidades do 
momento. Na opinião de alguns, esse fato 
tem significado simbólico, mas é mais pro- 
vável que apenas enfatize a situação difícil 
dos discípulos.
8.15 tenham cuidado com o fermento. 
Jesus percebe a preocupação deles com o 
pão e decide usá-la para falar dos líderes 
judeus. A distinção entre o pão comum 
“levedado” e o pão sem fermento era im- 
portante para os judeus, assim foi natural 
para Jesus fazer a transição para a imagem 
do fermento. Uma vez que o fermento faz a 
massa crescer, no mundo antigo tornou-se 
uma metáfora comum para crescimento. 
Embora possa ter uma função positiva e 
retratar a expansão do reino (Mt 13.33), 
com mais frequência, tem conotação nega- 
ti va, pois a celebração da Páscoa (Êx 12.15) 
e a oferta de cereais (Lv 2.11) exigiam pão 
sem fermento. Aliás, todo pão levedado 
era removido antes da Festa dos Pães sem
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Esses dois episódios completam a seção 
sobre fracasso e fé em 6.31—8.26. A pri- 
meira parte, sobre a falta de entendimento 
dos discípulos, lembra sua “dureza” (de- 
monstrada em 6.44-52 [6.52 = 8.17]), e a 
sua repreensão por Jesus é

Mais conteúdos dessa disciplina