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Pr. Nivaldo Pereira
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Uso exclusivo do Canal Gospel book Brasil
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M arcos
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Angélica Ilacqua CRB-8/7057
Osborne, Grant R.
Marcos: / Grant R. Osborne ; [John H. Walton, Mark L. Strauss (orgs.) ;
ilustrações de Kevin e Sherry Harney] ; Don Porter autor colaborador 1 tradução
de Susana Klassen. - São Paulo : Vida Nova, 2019.
352 p. (Série Comentário Expositivo)
ISBN 978-85-275-0824-7
Título original: Mark (Teach the Text Commentary Series)
1. Bíblia - Marcos - Comentários 1. Título II. Walton, John H. III. Strauss,
Mark L. IV. Harney, Kevin V. Harney, Sherry VI. Klassen, Susana.
18-0526 C D D - 226.307
índice para catálogo sistemático
1. Bíblia - Marcos - Comentários
Série
Comentário Expositivo
John H. Walton, organizador do Antigo Testamento
M ark L. Strauss, organizador do Novo Testamento
M arcos
C 1
Grant R. Osborne
T ra d u çã o
Susana Klassen
·ם
VIDA NOVA
®2014, de Grant R. Osborne
de Baker Publishing Group (legendas e seção “Para ilustrar o texto”) ,נ2014'
Título do original: Mark (Teach the Text Commentary Series),
edição publicada por Baker Books,
uma divisão do Baker Publishing Group (Grand Rapids, Michigan, EUA).
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por
Sociedade Religiosa Edições Vida Nova
Rua Antônio Carlos Tacconi, 63, São Paulo, SP, 04810-020
vidanova.com.br | vidanova@vidanova.com.br
1.* edição: 2019
Proibida a reprodução por quaisquer meios,
salvo em citações breves, com indicação da fonte.
Impresso no Brasil / Printed in Brazil
Todas as citações bíblicas sem indicação da versão foram traduzidas diretamente da New
International Version (NIV). As citações com indicação da versão in loco foram traduzidas
diretamente da King James Version (KJV) e da New Revised Standard Version (NRSV).
Desenvolvimento da série
Jack Kuhatschek
Brian Vos
Seção “Para ilustrar o texto”
Kevin e Sherry Harney (coorganização)
“Para ilustrar o texto”
Don Porter (autor colaborador)
Edição do projeto originai.
James Korsmo
D ireção executiva
Kenneth Lee Davis
Gerência editorial
Fabiano Silveira Medeiros
Edição de texto
Arthur Dück
Mareia B. Medeiros
Revisão de provas
Abner Arrais
Gerência de produção
Sérgio Siqueira Moura
Projeto grafico
Brian Brunsting
Conteúdo visual
Kim Walton
D iagramação
Luciana Di lorio
Capa original
Paula Gibson
Michael Cook
Vania Carvalho (adaptação)
mailto:vidanova@vidanova.com.br
Sumário
Considerações adicionais......................72
Satanás / Parábolas
Marcos 4.21-34......................................74
Mais parábolas do reino
Marcos 4.35—5.20................................ 80
A autoridade de Jesus sobre a natureza
e os poderes cósmicos
Marcos 5.21-43......................................86
A autoridade de Jesus sobre a
enfermidade e a morte
Marcos 6.1-6..........................................92
A rejeição de Jesus em sua própria
cidade
Marcos 6.7-30........................................98
Missão e rejeição na Galileia
Marcos 6.31-44....................................104
A provisão miraculosa de Deus:
o cuidado para com os necessitados
Marcos 6.45-56....................................110
Reprovação e fracasso espiritual —
dureza de coração
Marcos 7.1-23...................................... 116
Hipocrisia espiritual: viver por
regras, e não conforme o coração
Marcos 7.24-37....................................122
Os gentios demonstram o
verdadeiro discipulado
Marcos 8.1-13......................................128
A provisão de Deus inclui os gentios
Marcos 8.14-26....................................134
Cegueira espiritual e como superá-la
Marcos 8.27-33....................................140
O reconhecimento da verdadeira
natureza de Jesus, o Cristo
Seja bem-vindo à Série Comentário
Expositivo...........;.............................. vii
Introdução à Série Comentário
Expositivo...........................................ix
Reduções gráficas (abreviações e siglas) xi
Introdução a Marcos...............................1
Marcos 1.1-8.......................................... 12
A identidade de Jesus como Messias
e Filho de Deus é estabelecida
Marcos 1.9-15........................................ 18
As ações do Deus triúno comprovam
o ofício divino de Jesus
Marcos 1.16-28......................................24
Jesus forma o grupo de discípulos
e derrota os espíritos imundos
Marcos 1.29-45......................................30
O ministério e a popularidade
de Jesus continuam crescendo
Marcos 2.1-12........................................36
A autoridade de Jesus para perdoar
e curar pecadores
Marcos 2.13-17......................................42
Jesus chama e aceita os excluídos
Marcos 2.18—3.6.................................. 48
Jesus: Senhor e “pior transgressor”
da l.ei
Marcos 3.7-19........................................54
O cuidado para com os necessitados
e o comissionamento dos apóstolos
Marcos 3.20-35......................................60
Jesus se volta para sua nova família
Marcos 4.1-20........................................66
Parábolas do reino
Marcos 13.14-27................................ 238
Sacrilégio, tributação e parúsia:
o futuro é prenunciado
Marcos 13.28-37................................ 244
,4 necessidade de vigilância ¿1 luz
da parúsia
Marcos 1 4 .1 1 1 250.................................־
A unção messiânica de Jesus
Marcos 14.12-21................................ 256
Jesus reinterpreta a refeição pascal
Marcos 14.22-31................................ 262
A Páscoa como Eucaristia: o corpo
e o sangue de Jesus dados por nós
Marcos 14.32-42.................................268
Jesus é provado no Getsêmani
Marcos 14.43-52.................................274
Jesus é preso
Marcos 14.53-65.................................280
Jesus é julgado perante o Sinedrio
Marcos 14.66-72.................................286
Pedro nega Jesus
Marcos 15.1-20a..................................292
O julgamento romano
Marcos 15.20b-27...............................298
Jesus é crucificado
Marcos 15.29-37.................................304
Na cruz, Jesus é insultado e morre
Marcos 15.38-47.................................310
O testemunho sobrenatural acerca
do sentido da morte de Jesus
Marcos 16.1-8.....................................316
A ressurreição de Jesus e a promessa
de vitória
Considerações adicionais....................322
As narrativas da ressurreição /
A historicidade da ressurreição de Jesus /
A exaltação de Jesus
Considerações adicionais....................324
O final de Marcos
N o ta s .......................................................... 326
Bibliografia ................................................331
Créditos das imagens ............................334
índice de assuntos ....................................336
Marcos 8.34—9.1.................................146
O caminho do discipulado
Marcos 9.2-13......................................152
A majestade e a glória de Jesus são reveladas
Marcos 9.14-29....................................158
O exorcismo de uma criança apresenta
um modelo de fé humilde
Marcos 9.30-50....................................164
O modelo de discipulado de Jesus:
serviço, e não egoísmo
Marcos 10.1-16....................................170
Família na nova comunidade do reino
Marcos 10.17-31..................................176
Bens e escolhas na nova comunidade
do reino
Marcos 10.32-52..................................182
Um chamado ao serviço e ao sofrimento
Marcos 11.1-11....................................188
A entrada de Jesus como o Messias que
triunfa por meio do sofrimento
Marcos 11.12-18..................................194
Atos proféticos: o templo é condenado
e a figueira, amaldiçoada
Marcos 11.19-26................................. 200
Orar com fé
Marcos 11.27—12.12..........................206
Jesus afirma ter autoridade concedida
por Deus para condenar oslíderes
Marcos 12.13-27................................. 212
Governo e casamento
Marcos 12.28-34................................. 218
O shemá cristão: amar a Deus e
amar o próximo
Marcos 12.35-44................................. 224
Jesus se define como Senhor, em contraste
com os líderes de Israel
Marcos 13.1-13....................................230
Jesus proclama juízo sobre o templo
e sobre a nação
Considerações adicionais.................... 236
O Discurso (escatológico) do Monte das
Oliveiras / O Anticristo / O arrebatamento
Sumário
Seja bem-vindo à
Série Comentário Expositivo
que empregue o que há de melhor no que
diz respeito à pesquisa e estudos bíblicos,
mas que também apresente o material de
forma clara, concisa, atraente e fácil de usar.
Este comentário foi desenvolvido para
cumprir esse propósito: disponibilizar uma
obra de referência de fácil manuseio para a
exposição do texto bíblico e oferecer acesso
rápido às informações de que o leitor pre-
cisa para comunicar o texto de modo eficaz.
Para isso, o comentário é dividido em uni-
dades de tamanho adequado à pregação,
cuidadosamente selecionadas, cada qual
desenvolvida em seis páginas (que propi-
ciaram o controle do número de palavras
tanto da passagem inteira quanto de cada
subseção). Desse modo, pastores e profes-
sores que se preparam semanalmente com o
auxílio desta obra vão saber que estão lendo
a cada semana, de modo aproximado, a
mesma quantidade de texto.
Cada passagem começa com um resumo
conciso da mensagem principal, ou a “ldeia
central”, da passagem e uma lista de seus
principais temas. Na sequência, há uma
interpretação mais detalhada do texto que
inclui o contexto literário da passagem,
seus antecedentes históricos e considerações
Por que mais uma série de comentários?
Essa foi a pergunta que fizemos quando
a editora Baker Books nos pediu para
produzir esta série. Temos algo a ofere-
cer aos pastores e professores que não se
encontre em outras séries de comentários,
ou que possa ser apresentado de modo
mais proveitoso? Depois de fazer uma
pesquisa criteriosa sobre as necessidades
de pastores que ensinam o texto bíblico
semanalmente, concluímos que é possível,
sim, oferecer algo mais. Elaboramos este
comentário tendo em mente preencher essa
importante lacuna.
O caráter técnico dos comentários atuais
muitas vezes sobrecarrega os leitores com
detalhes secundários ao propósito central do
texto bíblico. Os tratamentos sobre fontes,
a crítica da redação, bem como os levanta-
mentos detalhados da literatura secundária
parecem distantes da pregação e do ensino
da Palavra. Em vez de se embrenharem em
abordagens técnicas, os pastores frequen-
temente lançam mão de comentários devo-
donáis, os quais podem conter deficiências
exegéticas, usos indevidos do grego e do
hebraico e pouco refinamento hermenêu-
tico. Existe a necessidade de um comentário
o texto” . A seção sobre ensino destaca os
principais temas teológicos da passagem
e maneiras de comunicar esses temas ao
público atual. A seção sobre ilustrações
oferece idéias e exemplos para cativar a
atenção dos ouvintes e associar a mensagem
ao dia a dia das pessoas.
O formato criativo deste comentário
nasceu da convicção de que a Bíblia não é
apenas um registro daquilo que Deus fez
no passado, mas, sim, sua Palavra “viva e
eficaz, mais cortante que qualquer espada
de dois gumes” (Hb 4.12). Nosso desejo
é que este comentário ajude a liberar esse
poder transformador para a glória de Deus.
Os Organizadores
interpretativas. Ao mesmo tempo que o
material lança mão dos mais excelentes
estudos bíblicos acadêmicos, também é
claro, conciso e objetivo. Informações de
caráter técnico são limitadas ao mínimo
possível; as notas ao final do livro indicam
ao leitor onde encontrar tratamentos mais
detalhados e recursos adicionais.
Outro foco importante deste comentário
é o processo de pregação e ensino em si.
Hoje em dia, são poucos os comentários
que ajudam o pastor ou professor a fazer a
transição entre o significado do texto e sua
comunicação eficaz. Nosso objetivo é pre-
encher essa lacuna. Além da interpretação
do texto na seção “Para entender o texto”,
cada unidade de até seis páginas traz as se-
ções “Para ensinar o texto” e “Para ilustrar
viiiSeja bem-vindo à Série Comentário Expositivo
Introdução à
Série Comentário Expositivo
estratégia retórica do livro e à
contribuição da unidade para o
propósito do livro.
b. Esboço/Estrutura. No caso de
alguns gêneros literários (p. ex.,
Cartas), por vezes é oferecido um
breve esboço exegético para guiar
o leitor enquanto este acompanha
a estrutura e o desdobramento da
passagem.
c. Antecedentes históricos e culturais.
Essa subseção trata de informa-
ções relativas aos antecedentes
históricos e culturais, úteis no
esclarecimento de um versículo
ou de uma passagem.
d. Considerações interpretativas. Essa
subseção fornece informações ne-
cessárias à clara compreensão da
passagem. A intenção do autor é
ser extremamente seletivo e con-
ciso, e não exaustivo e extenso.
e. Considerações teológicas. Nessa
subseção bastante sucinta, o co-
mentário identifica algumas con-
siderações de ordem teológica
cuidadosamente selecionadas a
respeito da passagem.
Esta série foi elaborada para disponibili-
zar obras de referência de fácil manuseio
para a exposição do texto bíblico e oferecer
acesso rápido às informações de que o leitor
precisa para comunicar o texto de modo
eficaz. Para isso, o comentário é dividido
de modo criterioso em unidades fiéis às
idéias dos autores bíblicos e de extensão
adequada ao ensino ou à pregação.
As seguintes seções são apresentadas
em cada unidade.
1. Ideia central. Em cada unidade, o
comentário identifica o tema principal,
ou “Ideia central”, que motiva tanto
a passagem quanto o comentário.
2. Principais temas. Em conjunto
com a “Ideia central”, o comentário
apresenta uma lista de ideias-chave
da passagem.
3. Para entender o texto. Esta seção
se concentra na exegese do texto e
inclui várias subseções:
a. Texto em contexto. Aqui o autor
explica de modo sucinto como
a unidade em estudo se encaixa
no desdobramento do texto ao
seu redor, mesmo no tocante à
em áreas como literatura, entreteni-
mento, história e biografia. O pro-
pósito é oferecer idéias gerais para
despertar a criatividade de pregadores
e professores e ajudá-los na prepara-
ção de materiais para uma exposi-
ção mais vivida da mensagem e seus
principais temas.
4. Para ensinar o texto. Nessa seção,
o comentário oferece orientações
voltadas para o ensino do texto. O
autor apresenta os principais temas e
aplicações da passagem e os associa,
cuidadosamente, à “Ideia central” e
aos “Principais temas” .
5. Para ilustrar o texto . Aqui, o
comentário sugere ilustrações úteis
Nota dos editores
aplicação. Cumpre ressaltar, porém ,
que nem sempre concordarem os com
os posicionamentos de cada autor e que
nenhuma ferramenta deve substituir o
estudo do texto bíblico.
Estamos convencidos de que esta obra
será uma ferram enta útil e benéfica a
ministros, professores e leigos cristãos,
uma vez que contribuirá para encurtar
a distância entre o texto bíblico e sua
xIntrodução à Série Com entário Expositivo
Reduções gráficas
(abreviações e siglas)
Mq Miqueias
Na Naum
Hc Habacuque
Sf Sofonias
Ag Agcu
Zc Zacarias
Ml Malaquias
Novo Testamento
Mt Mateus
Mc Marcos
Lc Lucas
Jo João
At Atos
Rm Romanos
ICo 1 Corintios
2Co 2Coríntios
G1 Gaiatas
Ef Efésios
Fp Filipenses
Cl Colossenses
lTs ITessalonicenses
2Ts 2Tessalonicenses
lTm ITimóteo
2Tm 2Timótco
Tt Tito
Fm Filemom
Hb Hebreus
Tg Tiago
lPe 1Pedro
2Pe 2Pedro
IJo ljoão
2Jo 2João
Antigo Testamento
Gn Gênesis
Êx Êxodo
Lv Levítico
Nm Números
Dt Deuteronômio
Js Josué
Jz Juizes
Rt Rute
ISm 1 Samuel
2Sm 2Samuel
lRs IReis
2Rs 2Reis
1 Cr 1 Crônicas
2Cr 2Crônicas
Ed Esdras
Ne Neemias
Et Ester
Jó Jó
SI Salmos
Pv Provérbios
Ec Eclesiastes
Ct Cântico dos Cânticos
Is IsaíasJr Jeremias
Lm Lamentações
Ez F.zequiel
Dn Daniel
Os Oseias
J1 Joel
Am Amós
Ob Obadias
Jn Jonas
Testamento de JóT.JÓ
Manuscritos do Mar Morto
CD-A Documento de Damasco'
1QS 1 QRegra da comunidade
4Q174
(4QFIor) 4QFlorilégio
4Q246 4QApocalipse aramaico
M ishná e Talmude
b. Talmude babilónico
m. Mishná
t. Toseftá
y■ Talmude de Jerusalém
’Abot ’Abot [PaisJ
Ber. Berakot [Bênçãos]
Gil. Gittin [Certidões de divorcio]
Pesah. Pesahim [Festa da Páscoa]
Shabb. Shabbat [Sábado]
Sanh. Sanhedrin [Sinedrio]
Toma Yoma (= Kippurim) [Dia da
Expiação]
Apócrifos e Pseudepígrafos do
Novo Testamento
Ps.-Clem. Pseudo-Clementino
Obras gregas e latinas
Eusébio
Hist. ecl. Historia eclesiástica (Historia
Josefo
ecclesiastica)
Ant. Antiguidades judaicas
(Antiquitates judaicae)
C.Ap. Contra Ápion (Contra
Apionem)
G.J. Guerras judaicas (Bellum
Lívio
judaicum)
Hist. Historia de Roma (Ah urbe
condita libri)
3 Jo
Jd
Ap
Gerais
3 João
Judas
Apocalipse
II texto paralelo
C . cerca de, por volta de
cap(s). capítulo(s)
cf. conferir
cp. comparar com
etc. et cetera, e outras coisas
gr· grego
hcbr. hebraico
i.e. id est, isto é
livrolv.
n. níimero(s)
P- página(s)
paral(s). paralelo(s)
p. ex. por exemplo
s(s). seguinte(s)
V . versículo(s)
Textos antigos e versões
LXX Septuaginta
Versões modernas
ESV English Standard Version
KJV King James Version
NET New English Translation
NIV New International Version
NET New Living Translation
NRSV New Revised Standard
Version
REB Revised English Bible
RSV Revised Standard Version
TNIV Today’s New International
Version
Apócrifos e Septuaginta
1 Me IMacabaeus
Sb Sabedoria de Salomão
Tb Tobias
Pseudepígrafos do Antigo Testamento
lEn 1 Enoque (Apocalipse etíope)
2Br ZBaruque (Apocalipse
siríaco)
4Ed 4Esdras
Apoc. Ab. Apocalipse de Abraão
Jub. Jubileus
Or. Sib. Oráculos sibilinos
SI. Sal. Salmos de Salomão
Reduções gráficas (abreviações e siglas) xii
Introdução a Marcos
narrativa histórica confiável quanto uma
teologia profundamente relevante.
Estudaremos Marcos em dois níveis. No
nível mais amplo, queremos identificar de
que maneira cada episódio se encontra
inserido na história mais abrangente, a
narrativa acerca de Jesus que se desenrola
nesse Evangelho. Um “prefácio”, ou uma
introdução no capítulo dedicado a analisar
a passagem de Marcos 1.1-15, apresenta a
pessoa que estamos estudando aqui: Jesus, o
Messias e Filho de Deus. Tanto Isaías 40.1-3
quanto João Batista dão testemunho a seu
respeito, e sua identidade como Messias é
atestada pelo Pai em seu batismo e pela der-
rota de Satanás em sua tentação. Segue-se,
então, o início de seu ministério na Galileia,
relatado em dois ciclos iniciais (1.16—3.6;
3.7—6.6) nos quais Jesus desafia três gru-
pos de pessoas: os discípulos, as multidões e
os líderes. Acompanharemos os três grupos
ao longo de Marcos para mostrar de que
maneira esse Evangelho é organizado. E de
suma importância observar que várias par-
tes da obra não são organizadas de forma
cronológica. Seguindo técnicas antigas de
redação de relatos históricos, os autores dos
Marcos foi o primeiro a usar o termo “evan-
gelho” (euangelion) para essas poderosas
biografias de Jesus (1.1,15). Os Evangelhos
apresentam as “boas-novas” a respeito de
“Jesus, o Messias, o Filho de Deus” (1.1).
Eles contêm tanto história quanto teologia.
Como história, relatam a vida e o ministério
de Jesus de Nazaré com narrativas absolu-
tamente confiáveis. No entanto, são mais
do que isso; como “Evangelho”, constituem
um drama histórico e teológico, “história
com uma mensagem”. Na forma verbal
euangelizomai, o termo significa “pregar
as boas-novas”, ou seja, os Evangelhos são
constituídos de “sermões” a respeito de
Jesus. Quando estudamos o Evangelho de
Marcos, buscamos não somente compreen-
der o que esse relato “significava” histo-
ricamente, mas também o que “significa”
teologicamente. Ao relatar os acontecimen-
tos os autores sagrados selecionaram os
detalhes (ou seja, fizeram escolhas “reda-
donáis” ou “editoriais”) que ressaltavam
o significado teológico dos acontecimen-
tos. Por trás de cada perícope (isto é, de
cada episódio), encontramos tanto uma
João Marcos, que trabalhou com os apóstolos
Pedro e Paulo, é o autor mais provável do
Evangelho de Marcos. Essa hgura de Marcos faz
parte de uma peça maior chamada Cristo e os
Doze apóstolos de uma igreja ortodoxa do século
19 na região de Antália (Turquia).
críticos duvidam da associação com Pedro
e dizem que Marcos contém diversos erros
de geografia (p. ex., 7.31; 10.46-52) e de
costumes judaicos (p. ex., 7.3,4). Todas
essas questões, porém, são facilmente expli-
cáveis e não envolvem erro. E bem provável,
portanto, que João Marcos, assistente de
Paulo (2Tm 4.11) e de Pedro (lPe 5.13)
seja, de fato, o autor desse Evangelho.1
É difícil determinar quando o Evange-
lho de Marcos foi escrito. Muitos o datam
da década de 70 d.C., partindo do pres-
suposto de que o Discurso do Monte das
Oliveiras (Mc 13) foi escrito com base nos
acontecimentos de 6870־ d.C. No entanto,
Marcos 13 não traz material suficiente que
Evangelhos tinham a liberdade de organizar
os fatos de outras maneiras e, muitas vezes,
de colocá-los em ordem diferente. Não se
trata de erro, pois o arranjo tópico (ou
seja, que não registra os acontecimentos
cronologicamente) era aceitável e o Espírito
inspirou as duas formas de organização.
No nível mais restrito, também ob-
servaremos de que modo cada história é
organizada a fim de identificar a mensa-
gem singular de Marcos. Cada passagem
do comentário começará com uma “Idéia
central”, que terá função semelhante à
da proposição de um sermão e indicará
ao leitor o sentido da ação. Em seguida,
virão os conceitos teológicos principais
da passagem, bem como a “estrutura” e
o “contexto” (ora separados, ora com-
binados) para explicar de que maneira o
Evangelista reuniu os detalhes da história
em cada passagem. No final de cada seção,
analisaremos os principais temas teológi-
cos e práticos que podem ser extraídos do
trecho estudado.
Autoria e data__________________
O Evangelho de Marcos, assim como o
de Mateus, Lucas e João, não cita o nome
de seu autor. E bem provável que os auto-
res não considerassem esses textos como
os seus Evangelhos, mas o Evangelho da
igreja, cujo verdadeiro autor era o Espírito
Santo. A autoria de Marcos foi reconhe-
cida universalmente pelos primeiros pais da
igreja (Justino Mártir, Ireneu, Clemente de
Alexandria, Tertuliano, Orígenes, Jerô-
nimo, Agostinho). Eusébio (Hist. Ecl.
3.39) cita Papias, pai apostólico do início
do segundo século, de acordo com o qual
João, o Presbítero, declarou no final do pri-
meiro século que Marcos era intérprete de
Pedro, que havia lhe fornecido informações
precisas. Ainda assim, muitos estudiosos
Introdução a M arcos 2
dizer que a ênfase sobre o sofrimento de
Jesus indica que Marcos se dirigiu a urna
igreja cujos membros estavam sob forte
perseguição, exortando-os a permanecerem
fiéis nesse período difícil. Há certa verdade
nessas considerações, mas esse não é o pro-
pósito principal. O motivo do livro está
associado a seus principais temas teológi-
eos (veja adiante). Primeiro, sua intenção
é apresentar um relato histórico de Jesus e
provar que ele é o Messias (de modo mais
específico, o Servo Sofredor de Deus) e o
Filho de Deus a fim de instruir os cristãos
e evangelizar os não cristãos. Segundo,
enfatiza o discipulado — o que significa
seguir a Cristo e andar em seus caminhos
neste mundo mau.3
Relação com Mateus e Lucas
O Problema Sinótico surge do reconhecí-
mento de que os três Evangelhos “Sinó-
ticos” (= “de mesma aparência”) — Ma-
teus, Marcos e Lucas — são tão parecidos
uns com os outros que deve haver alguma
pudesse ser relacionado aos detalhes desse
acontecimento; antes, trata-se de uma pro-
feda geral de juízo sobre a nação e sobre
o templo. Outros consideram que o Evan-
gelho foi compilado depois das revoltasjudaicas dos zelotes nas décadas de 50 e
60 do primeiro século e depois da morte
de Pedro, isto é, no final da década de 60.
O forte tema de perseguição também se
encaixa com o final do período neroniano.
Essas propostas, contudo, são inconclusi-
vas, pois a perseguição é geral e o contexto
zelote é dúbio. Dois fatores favorecem uma
data na década de 50: (1) não há motivo
para duvidar de uma ligação com Pedro,
de modo que é mais apropriado situar a
obra na década de 50 ou 60; (2) Mateus e
Lucas usaram o texto de Marcos, indicação
de que esse foi o primeiro Evangelho a ser
escrito (trataremos dessa questão adiante).
Se Lucas foi escrito na época em que Atos
termina (62 d.C., com Paulo aguardando
seu julgamento em Roma), uma proposta
cabível (e, a meu ver, preferível) é de que
Marcos foi redigido entre meados e o final
da década de 50 e, em seguida, reconhecido
pela igreja e usado por Lucas.2
Público-alvo e propósito_________
A maioria dos estudiosos concorda que
Marcos escreveu para leitores gentios, pro-
vavelmente em Roma. O texto traz vários
latinismos (p. ex., termos para “cesto”
[4.21], “ im posto” [12.14], “açoitar”
[15.15]) e há uma tendência de traduzir
palavras em aramaico para leitores de fala
grega (5.41; 7.11,34; 10.46; 15.22,34).
Ademais, os pais da igreja (Clemente de Ale-
xandria, Prólogo Antimarcionista, Eusébio)
associavam Marcos a Roma. Costuma-se
Na op in ião de muitos estudiosos, o Evangelho de
Marcos foi escrito para leitores gentios em Roma. O
centro das atividades políticas e religiosas de Roma
era o Fórum, que aparece nessa fotografia.
editou Marcos (p. ex., Mc 6.5,6 //Mt 13.58);
(4) faz mais sentido Mateus e Lucas terem
acrescentado conteúdo a Marcos, do que
Marcos ter removido tantas histórias e ma-
teriais importantes dos outros dois (p. ex.,
os relatos do nascimento de Jesus e o Sermão
do Monte/da Planície, presentes em Mateus
e em Lucas). É possível que Q fosse uma tra-
dição, e não um documento propriamente
dito, mas ajuda a explicar os 253 versículos
de Mateus e Lucas que trazem ditos de Jesus
e que não fazem parte de Marcos. Parece
mais apropriado pressupor a existência de
algum tipo de fonte comum do que imaginar
que tanto conteúdo apareça em Mateus e
Lucas por acaso. Pode-se concluir, portanto,
que Marcos foi escrito primeiro e usado
pelos outros dois autores para redigir seus
respectivos Evangelhos.4
Temas teológicos_______________
C ris to lo g ia
É necessário que esse estudo seja realizado
em dois planos: o que Jesus fez e quem
Jesus era. Ele realizou milagres, ensinou
verdades maravilho-
sas e preparou pessoas
para o reino de Deus.
Ao mesmo tempo, ele
era o Messias, o Filho
de Deus, o Filho do
Homem, o Profeta e
o Servo Sofredor de
Deus. Convém con-
Um dos temas teológicos
do Evangelho de Marcos
é o discipulado. Vemos
Jesus chamar, instruir e
enviar seus discípulos.
Essa placa de marfim
chamada A missão
dos apóstolos é de
Constantinopla, décim o
século d.C.
relação literária entre eles. A principal dis-
cussão a esse respeito ao longo dos últimos
séculos procura identificar se Mateus ou
Marcos foi escrito primeiro. Pode-se obser-
var, com frequência, expressões semelhan-
tes (p. ex., Mt 19.13-15 // Mc 10.13-16 //
Lc 18.15-17) ou uma sequência parecida
de acontecimentos (Mt 12.46—13.58 // Mc
3.31—6.6 // Lc 8.19-56). Até o século 18,
a ordem proposta por Agostinho (Mateus,
depois Marcos e, por fim, Lucas) predomi-
nava. Em 1783, essa proposta foi alterada
por J. J. Griesbach (Lucas usou Mateus, e
Marcos abreviou ambos), mas no último
século a Hipótese das Quatro Fontes pas-
sou a ser adotada pela maioria: Marcos foi
escrito primeiro; posteriormente, Mateus e
Lucas usaram Marcos, bem como uma co-
letânea de ditos de Jesus chamada “Q ” (do
alemão Quelle, “fonte”) juntamente com
o conteúdo exclusivo de cada Evangelho
chamados: “M ” (conteúdo que só aparece
em Mateus) e “L” (conteúdo presente so-
mente em Lucas).
Em outras palavras, de modo geral,
Marcos é considerado o primeiro Evan-
gelho. Há quatro mo-
tivos básicos para
esse posicionamento:
(1) Marcos emprega
uma linguagem mais
emotiva e explícita,
atenuada em vários
casos por Mateus (p.
ex., Mc 10.18 // M t
19.17); (2) M arcos
traz várias expressões
difíceis, e até negativas
(p. ex., “coração endu-
recido” em 6.52; 8.17,
omitida por Mateus);
(3) a melhor maneira
de explicar as diferen-
ças redacionais é con-
siderar que M ateus
Introdução a M arcos 4
em seus próprios objetivos; (2) destacar a
verdadeira glória de Jesus, pois mostra que
sua grandeza não podia permanecer oculta,
mas tinha de irromper publicamente.5
Quanto mais Jesus dizia às pessoas para
permanecerem caladas, mais elas sentiam
a necessidade de proclamar a todos o que
tinham visto e vivenciado (1.44,45; 7.36).
D isc ip u la d o
Jesus é o “Rabi” (9.5; 10.51; 11.21) que
treina seus discípulos com paciência e amor.
Ele os chama e os envolve de imediato em
sua missão (1.16-20), os comissiona como
apóstolos, lhes confere autoridade (3.14-19)
e os envia à Galileia como missionários (6.7-
13). Eles são chamados a negar a si mesmos
e seguir Jesus sem restrições (8.34—9.1).
Ainda assim, ao longo da narrativa os dis-
cípulos lutam com o fracasso. O coração
deles está endurecido (6.52; 8.17) e depois
de cada uma das predições da Paixão, não
conseguem entender (p. ex., 8.31 -33); antes,
buscam grandeza pessoal (9.34) e poder fu-
turo (10.37). Aqueles que haviam expulsado
demônios (6.13) de repente são incapazes
de fazê-lo (9.18). Eles falham com Jesus
tanto no Getsêmani (14.37,40,41) como
quando ele é preso (14.50-52). Pedro nega
Jesus três vezes (14.66-72). A chave é a fé
que, em Marcos, significa dependência total
de Jesus. Enquanto os discípulos falham, os
“pequeninos” (aqueles que aparecem apenas
uma vez) se voltam inteiramente para Jesus
e mostram que a vitória é resultado da fé
irrestrita nele (5.34,36; 7.27-29; 9.23,24;
10.47,48; 14.3). Na morte e ressurreição de
Jesus, as mulheres são as seguidoras fiéis, mas
até elas falham (16.8). A resposta é fornecida
em 16.7: encontrem o Senhor ressurreto na
Galileia e recebam fé para superar o fracasso.
C o n flito có sm ico
A guerra contra Satanás e os “espíritos
imundos” (uma das expressões usadas por
siderar de modo sucinto cada um desses
aspectos. Seus milagres enfatizam sua au-
toridade absoluta sobre a criação (p. ex.,
4.35—5.41); seu primeiro milagre revelou
sua autoridade em palavras e ações (1.21-
28). Jesus ensinou como a própria voz de
Deus c agiu como o legítimo Filho de Deus.
Embora Mateus apresente mais conteúdo
didático, Marcos se concentra em Jesus
como mestre/rabino mais do que Mateus.
A compaixão de Jesus se destaca quando ele
cura todos que o procuram (1.32-34; 3.7-
12; veja porém, 6.5,6), mesmo quando isso
o leva a afrontar os guardiões da lei (2.5,6;
3.4). As necessidades das pessoas têm pre-
cedência sobre os escrúpulos religiosos.
Como o Messias, Jesus não é somente o
Messias régio, mas também o Servo Sofredor
de Yahweh, que cumpre Isaías 52 e 53. Sua
morte provê resgate pelos pecados e uma
nova aliança com Deus (Mc 10.45; 14.24).
Como o Filho de Deus, ele é o amado e íntimo
Filho do Pai (1.11; 9.7), cuja condição exal-
tada é associada de modo específico à sua res-
surreição (12.10,11) e segunda vinda (8.38
[“... na glória de seu Pai...”]; 13.32). Como
Filho do Homem, Jesus é glorificado por
meio do sofrimento (8.31; 9.31; 10.33,34)
e se assentará à direita de Deus (13.26,27;
14.62) como juiz (8.38).
Ainda assim, a realidade de Jesus é en-
volta em sigilo, pois ele mesmo ordena que
demônios (1.25,34; 3.12), as pessoas que
ele cura (1.44; 5.43; 7.36) e até seus dis-
cípulos (8.30; 9.9) não revelem quem ele
é. Historicamente, sua ordem faz sentido,
pois o povo judeu esperava somente um
rei conquistador, enquanto Jesus veio para
ser o Servo Sofredor. Ele não desejava queconceitos equivocados como esse a respeito
de seu papel de Messias interferissem em
seu ministério. Quanto aos propósitos de
Marcos, Robert Stein observa dois: (1)
provar que Jesus não morreu como re-
volucionário político interessado apenas
5 Introdução a M arcos
da mulher siro-fenícia (7.24-30) e da criança
possuída por um demonio (9.14-29). Jesus
concede sua autoridade a seus discípulos
(3.14,15; 6.7), e eles têm êxito em expulsar
demonios (6.13). Contudo, não conseguem
fazê-lo quando dependem de suas próprias
forças em vez de depender de Jesus (9.18).
A mensagem é clara: Satanás foi derrotado
por Jesus e não exerce mais poder sobre o
povo de Deus. No entanto, ele ainda cria
tentações e engana, e qualquer discípulo que
deixa de olhar para Jesus e passa a confiar
em si mesmo pode ser derrotado e tornar-se
instrumento de Satanás (8.33).
Marcos para demônios) é um tema impor-
tante desse Evangelho. O primeiro milagre
realizado por Jesus está relacionado com
uma batalha contra a possessão demoníaca
(1.23-28) e mostra a autoridade de Jesus
sobre os poderes malignos (1.27). A decía-
ração da tese do conflito cósmico aparece
em 3.27, a parábola sucinta de Jesus sobre
“amarrar Satanás” . Cada exorcismo em
Marcos permite vislumbrar até que ponto
Satanás e seus subordinados foram amar-
rados por Jesus. Esse poder é demonstrado
nos exorcismos na Galileia (3.11,12), do
endemoninhado gadareno (5.1-20), da filha
Estrutura de Marcos_______________________________________________
1. Prólogo (1.1-15)
a. Introdução: o mensageiro messiânico é apresentado (1.1-3)
b. Ministério de João Batista (1.4-8)
c. Batismo de Jesus (1.9-11)
d. Tentação de Jesus (1.12,13)
e. Chegada à Galileia e mensagem — resumo do evangelho (1.14,15)
2. Ministério de Jesus na Galileia (1.16—6.6)
a. Primeiro ciclo: ministério inicial (1.16—3.6)
i. Chamado dos discípulos (1.16-20)
ii. Acontecimentos em um Sabbath (dia típico) — popularidade crescente (1.21-34)
(1) Autoridade na sinagoga em Cafarnaum (1.21-28)
(2) Cura da sogra de Pedro (1.29-31)
(3) Resumo do ministério naquela noite (1.32-34)
iii. Início do ministério itinerante de pregação de Jesus (1.35-39)
iv. Purificação de um leproso (1.40-45)
v. Conflito com líderes religiosos — oposição crescente (2.1—3.6)
(1) Cura de um paralítico (2.1-12)
(2) O chamado de Levi, o coletor de impostos, e comunhão com ele (2.13-17)
(3) O novo versus o antigo — o tema dessa seção (2.18-22)
(4) Conflito no Sabbath sobre colher espigas (2.23-28)
(5) Curas e oposição se intensificam (3.1-6)
b. Segundo ciclo: ministério junto ao mar da Galileia (3.7-35)
i. Resumo: retração, grandes multidões, cura e exorcismo (3.7-12)
ii. A escolha dos Doze (3.13-19)
iii. Rejeição e discipulado — episódio intercalado (3.20-35)
c. Terceiro ciclo: ministério em palavras e ações (4.1—6.6)
i. Parábolas do reino (4.1-34)
(1) A parábola do semeador (4.1-20)
Introdução a M arcos 6
(a) Narração da parábola (4.1-9)
(b) Excurso sobre os de dentro e os de fora (4.10-12)
(c) Explicação da parábola — líderes, multidões, discípulos (4.13-20)
(2) Parábolas sobre receptividade (4.21-25)
(a) A candeia no velador (4.21-23)
(b) A medida (4.24,25)
(3) A parábola da semeadura e da colheita (4.26-29)
(4) A parábola do grão de mostarda (4.30-32)
(5) Resumo referente às parábolas (4.33,34)
ii. Relatos de milagres (4.35—5.43)
(1) A tempestade é acalmada (4 (־3541.
(2) O endemoninhado gadareno (5.1-20)
(3) Dois milagres relacionados: a filha de Jairo e a mulher com hemorragia (5.21-43)
iii. Nova rejeição em Nazaré (6.1-6)
d. Missão e retração (6.7—8.30)
i. A missão dos Doze (6.7-13)
ii. Retrospectiva: a morte de João Batista (6.14-29)
iii. Milagres e incompreensão (6.30-56)
(1) Alimento para cinco mil pessoas (6.30-44)
(2) Segunda tempestade: Jesus caminha sobre as águas (6.45-52)
(3) Resumo: curas gerais (6.53-56)
iv. Controvérsia sobre o que é puro ou impuro (7.1-23)
v. Ministério aos gentios (7.24-37)
(1) A mulher siró-fenicia (7.24-30)
(2) O surdo e mudo (7.31-37)
vi. Alimento para quatro mil pessoas (8.1-10)
vii. Exigência de um sinal (8.11-13)
viii. Compreensão equivocada dos discípulos (8.14-21)
ix. Cura do cego — um milagre em duas etapas (8.22-26)
x. Confissão de Pedro acerca do Cristo (8.27-30)
3. Jornada para Jerusalém (8.31—10.52)
a. Primeira predição da Paixão (8.31-33)
b. Verdadeiro discipulado e sofrimento (8.34—9.1)
c. Transfiguração de Jesus (9.2-13)
d. A cura de uma criança possuída por um demônio (9.14-29)
e. Segunda predição da Paixão (9.30-32)
f. Afirmações sobre recompensas e castigos (9.33-50)
i. Competição por grandeza (9.33-37)
ii. Exorcismo em nome de Jesus (9.38-40)
iii. Ensinos sobre recompensas e castigos (9.41-50)
(1) Recompensa ou juízo (9.41,42)
(2) O membro que faz pecar (9.43-48)
(3) A dinâmica do discipulado — ensinos sobre o sal (9.49,50)
g. Casamento e divórcio (10.1-12)
h. Jesus abençoa as crianças (10.13-16)
7 Introdução a Marcos
i. Riquezas e recompensas associadas ao reino / ao custo do discipulado (10.17-31)
i. O jovem líder rico (10.17-22)
ii. Lição: os ricos e o reino (10.23-27)
iii. Recompensas pelo sacrificio (10.28-31)
j. Terceira predição da Paixão (10.32-34)
k. Posição e primazia (10.35-45)
l. Acontecimento final: a cura do cego Bartimeu (10.46-52)
4. Prelúdio dos acontecimentos da Paixão (11.1— 13.37)
a. A Entrada Triunfal de Jesus (TI .1-11)
b. A figueira e o templo (11.12-26)
i. A figueira é amaldiçoada (11.12-14)
ii. O templo é purificado (11.15-19)
iii. A figueira seca e declarações sobre a fé (11.20-26)
c. Controvérsias no templo (11.27—12.37)
i. A questão da autoridade de Jesus (11.27-33)
ii. A parábola dos arrendatários perversos (12.1-12)
iii. Perguntas acerca do dinheiro do tributo (12.13-17)
iv. Pergunta acerca da ressurreição (12.18-27)
v. Pergunta acerca do primeiro mandamento (12.28-34)
vi. O Messias e o Filho de Davi (12.35-37)
d. Ensino nos arredores do templo (12.3844־)
i. Crítica severa aos escribas (12.38-40)
ii. O sacrifício pleno da viúva (12.41-44)
e. O Discurso do Monte das Oliveiras (13.1-37)
i. Profecia acerca da destruição do templo (13.1,2)
ii. A destruição e a parúsia (13.3-27)
(1) A pergunta dos discípulos (13.3,4)
(2) Advertências acerca de sinais (13.5-13)
(3) O grande sacrilégio e a tribulação (13.14-23)
(4) A parúsia (13.24-27)
iii. A parábola da figueira (13.28-31)
iv. Exortação à vigilância (13.32-37)
5. Paixão e morte de Jesus (14.1—15.47)
a. Acontecimentos preparatórios (14.1-11)
i. A trama é revelada: prender e matar Jesus (14.1,2)
ii. Unção em Betânia (14.3-9)
iii. Judas concorda em trair Jesus (14.10,11)
b. A Última Ceia (14.12-31)
i. Preparativos para a Páscoa (14.12-16)
ii. Profecia da traição (14.17-21)
iii. As palavras de instituição (14.22-25)
iv. Conclusão e partida (14.26)
v. Profecias do fracasso dos discípulos (14.27-31)
c. Getsêmani (14.32-42)
d. Prisão e julgamento de Jesus (14.43— 15.15)
Introdução a M arcos 8
Introdução a Marcos
i. Prisão (14.43-52)
ii. Julgamento perante o Sinédrio (14.53-65)
iii. Negação tripla de Pedro (14.66-72)
iv. Jesus perante Pilatos (15.1-15)
e. Crucificação e morte de Jesus (15.16-41)
i. Zombaria e crucificação (15.16-32)
(1) Humilhado pelos soldados (15.16-20)
(2) Carrega a cruz (15.21)
(3) Recusa o vinho misturado com mirra (15.22,23)
(4) Crucificação: primeiros acontecimentos (15.24-27)
(a) Roupas de Jesus divididas entre os soldados (15.24)
(b) Terceira hora: tabuleta com a acusação (15.25,26)
(c) Dois rebeldes crucificados com Jesus (15.27)
(5) As zombarias — profecias involuntárias (15.29-32)
ii. As agonias da morte (15.33-37)
iii. Os resultados (15.38-41)
(1) O ato sobrenatural: véu rasgado ao meio (15.38)
(2) A exclamação do centuriâo: “Filho de Deus” (15.39)
(3) O remanescente fiel: as mulheres como testemunhas (15.40,41)
f. Sepultamento de Jesus (15.42-47)
6. Ressurreição de Jesus (16.1-8)
a. Visita ao túmulo (16.1-4)
b. Acontecimentos no túmulo (16.5-7)
c. Fracasso — medo e silêncio (16.8)
[d. O problema do final mais longo(16 [(־920.
Julias
ir.da G alileia
Magdala^Jariquela'Q
. , libertades
Séforis O
Cesa reía
Marítima, Citópolls
Gérasa (Jerash)
Sebaste/Samarla O
Filadélfia
'-*Jericó letânla do outro
adò do Jorrfão
Jerusalém
Betânia
> MAR
MORT(
0 5 10 quilómetros
QDamasc
Sidom
Principáis lugares do m inistério de Jesus
Marcos 1 .1 8 ־
A identidade de Jesus como Messias
e Filho de Deus é estabelecida
Ideía central O ponto central das boas-novas é Jesus, 0 M essias, que se revela como
Filho de Deus ao dar Início à era do reino de Deus. Essa identidade é declarada
primeiro pela profecia do Antigo Testamento e depois pelo precursor m essiânico,
João Batista, a voz do deserto.
Estrutura
O prólogo é emoldurado (introdução,
v. 1-3; conclusão, v. 14,15) pelo evange-
lho, a chegada do reino de Deus com Jesus,
o Messias e Filho de Deus. Divide-se em
três partes principais que se intersectam:
João, que por meio do batismo, anuncia a
necessidade de arrependimento e perdão;
o batismo de Jesus que dá início à nova
era do Espírito; e a derrota de Satanás por
meio de Jesus no deserto.
Considerações interpretativas
1.1 O princípio das boas-novas. Essas pa-
lavras podem se referir somente ao início
No prólogo. Marcos se refere a Jesus com o o Messias. Esse
conceito teológico, desenvolvido de m odo mais completo
no cristianismo, também foi encontrado nos escritos da
comunidade de Qumran (segundo século a.C. a primeiro
século d.C.), descobertos quando os Manuscritos do Mar
Morto foram encontrados em cavernas próximas dali.
Estudiosos continuam a analisar o uso que a comunidade
de Qumran fazia do termo"messias" e sua esperança de
uma figura messiânica vindoura, A fotografia mostra a
caverna quatro, em que foi encontrada a maior coleção de
manuscritos da comunidade de Qumran.
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Essa passagem é o “prólogo” de Marcos
(cf. Jo 1.1-18), e seu propósito é infor-
mar o leitor das verdades fundamentais
do livro, especialmente da identidade de
Jesus. No restante do Evangelho, veremos
como os principais grupos (discípulos,
multidões, líderes e demônios) lutam
com as verdades que nós, os leitores, já
sabemos com base no prólogo: Jesus é o
Messias e o Filho de Deus que veio para
que o reino definitivo de Deus se tornasse
real e para cumprir todas as esperanças
do Antigo Testamento. Ao centrar a ação
em João Batista como precursor e em Sa-
tanás como principal oponente, Marcos
também apresenta o conflito e as oposi-
ções diametrais ocasionadas por Jesus. A
passagem é emoldurada pela condição de
Jesus como Filho de Deus, declarada logo
no início (1.1) e confirmada pela própria
voz de Deus (1.11).
12Marcos 1.1-8
Principais temas de Marcos 1.1-8desse prólogo ou ao início do Evangelho
Jesus como Messias e Filho de Deus
■ Jesus é 0 Messias e o Filho de Deus; esse é o
âmago da mensagem do reino.
» Como precursor messiânico, João dá início ao
cumprimento da promessa de Isaías ao preparar
0 caminho para a vinda de Jesus.
• Como profeta do deserto, João mostra a Israel
a necessidade de arrependimento e confissão a
fim de receber perdão.
dc Marcos como um todo. Uma vez que
esse versículo é um título apropriado para o
livro todo, a segunda opção reflete melhor
sua ênfase principal. Marcos nos diz a que
conclusão deseja que cheguemos depois de
ler seu Evangelho. Aliás, como primeiro
evangelista, Marcos, de fato, criou o gênero
“evangelho”, a partir de um termo grego
que, em sua forma verbal (euangelizomai),
significa “proclamar, inform ar” . Como
substantivo (euangelion), costuma ser
usado tanto na tradução grega do Antigo
Testamento como no mundo helenístico
para indicar “uma boa notícia” (p. ex., o
nascimento de um imperador) ou “notícia
de vitória”. No Novo Testamento, também
descreve a “boa notícia” ou a “mensagem
jubilosa” da intervenção de Deus num
mundo pecaminoso ao enviar seu Filho
para oferecer salvação à humanidade.
Messias. 0 conceito de messias (hebr., “ungido") teve início
com a expectativa de uma monarquia davídica restaurada,
cujo personagem central cumpriría a esperança de um rei
davídico eterno (veja SI 110.1; Is 7.14; 9.1-6; 11.1; Jr
33.14-26; Ez 17.22-24; Mq 5.1-4; Zc 9.9,10). Por vezes, o
conceito assumia a forma de dois messias (um “messias
de Israel” , régio, e um "messias de Arão” , sacerdotal, em
Qumran [1QS 9.9-11; CD-A 12.22,23]), mas, em geral, as
expectativas giravam em tomo de um conquistador enviado
por Deus que derrotaria os inimigos de Israel e restauraria
a nação aos dias de glória de Davi (lE n 39.6; 46.1-3; 48.8-
10; 4Ed 7.2644; SI. Sal. 17.21-45). Jesus cumpriu esse
papel de messias régio, mas em seu primeiro advento, veio
como Servo Sofredor (Is 52 e 53; cf. Mc 8.31; 9.30,31;
10.32-34). 0 trono sobre 0 qual Jesus se toma 0 Messias
davídico é a cruz, e ele entra em sua glória (Mc 12.35-37)
não apenas na ressurreição, mas também em sua morte
sacrificial “por muitos” (10.45; 14.24). Em sua segunda
vinda, ele será o rei conquistador (13.24-27; 14.62).
Filho de Deus. Os quatro Evangelhos descrevem Jesus
no que diz respeito a sua filiação divina; esse é um dos
temas principais de Marcos. No Antigo Testamento, a expres-
são/conceito “filho de Deus” é aplicada a anjos (Gn 6.2;
Dn 3.25), a Israel (Êx 4.22,23; Ml 2.10) e ao rei (2Sm 7.14;
SI 2.7) e especifica em todas as passagens um relacio-
namento singular com Deus. No Antigo Testamento e no
judaísmo em geral, o título raramente era usado para 0
Messias vindouro, embora seja fundamentado em 2Samuel
7.14; Salmos 2.7; 89.26,27 e empregado desse modo em
Qumran (4Q1741.10-14; 4Q246). Para Jesus e para a igreja
primitiva, era uma designação fundamental que descrevia a
natureza singular de sua intimidade com o Pai, equivalente,
em vários sentidos, a uma declaração de sua divindade.
Deus declara que Jesus é seu “filho amado" (Mc 1.11; 9.7
[cf. SI 2.7; Is 42.1]). Essa condição é reconhecida pelos
demônios (3.11; 5.7), bem como pelo centuriâo junto à cruz
(15.39), mas em Marcos, os discípulos (ao que parece) se
mostram incapazes de percebê-la (cp. Mc 6.52 com Mt
14.33). Para Marcos, a filiação divina de Jesus é 0 ápice de
seu Evangelho, e a condição exclusiva e exaltada de Jesus
é estreitamente associada à sua ressurreição (12.10,11)
e segunda vinda (8.38 [“ ... na glória de seu Pai...”]; 13.32).
do profeta, que transfere o foco da predição
do Exilio (39.5,6) para a promessa de Deus
de “consolar” seu povo (40.1). O consolo
supremo se dará no regresso definitivo do
Exilio por ocasião da vinda de Jesus Cristo.
mensageiro /.../preparará o teu caminho.
Aqui, essa observação se aplica a João Ba-
tista, o precursor messiânico. Essa é a única
passagem em Marcos que faz referência a
um cumprimento profético (Mateus tem
onze); com isso, mostra, que cada elemento
da inauguração do ministério messiânico de
Jesus se baseia no plano predeterminado de
Deus. João é o “mensageiro” (angelos) de
Êxodo 23.20 enviado por Deus; cumpre o
papel do anjo que, no Êxodo, foi adiante
de Israel no caminho pelo deserto. É bem
possível que essa observação retrate a vinda
de Jesus (“teu caminho” se refere a Israel em
Êx 23.20, mas a Jesus aqui, talvez como o
verdadeiro Israel), de modo que um “novo
êxodo”2 está ocorrendo em sua chegada.
Em Malaquias 3.1, encontramos a profe-
cia de que Deus enviará esse mensageiro
para “preparar o caminho diante de mim”
à medida que ele chegar para trazer juízo
sobre uma nação recalcitrante. Também
nesse caso, o precursor é João, que traz uma
mensagem de libertação por meio do arre-
pendimento e do juízo. A figura principal,
contudo, é Jesus; ele é a presença de Deus
que chega em justiça e juízo e traz consigo
um novo êxodo do pecado.
acerca de Jesus o Messias, o Filho de
Deus. A TNIV coloca “Filho de Deus” em
uma nota de rodapé, pois a expressão não
aparece em alguns manuscritos antigos; no
entanto, ela aparece na grande maioria epode ter sido omitida acidentalmente por
alguns copistas (por isso a nova NIV [2011]
a restaurou ao texto). O grego traz “evan-
gelho de Jesus”, provavelmente um genitivo
objetivo cuja tradução mais precisa aqui é
“acerca de Jesus”. Os dois títulos resumem
a ênfase cristológica central de Marcos:
Jesus (cujo nome hebraico “Yehoshua” sig-
nifica “Yahweh é salvação”) é o Messias
(embora no texto grego ocorra sem o artigo,
certamente é um título)1 e o filho de Deus
(veja quadro lateral na página anterior).
Como Messias, Jesus cumpre a promessa
de um governante davídico definitivo e, ao
mesmo tempo, é o Servo Sofredor descrito
em Isaías que se tornará rei ao entregar-se
na cruz como sacrifício por nós. Em sua
condição de Filho de Deus, ele é definido
por sua filiação singular (oito vezes em
Marcos), tendo Deus como seu Pai (quatro
vezes em Marcos).
1.2 escrito no profeta Isaías. Uma refe-
rência principalmente a Isaías 40.3. O que
se segue também incorpora Exodo 23.20
(com respeito ao “mensageiro da aliança”
que, em Êxodo, é um anjo) e Malaquias 3.1
(com respeito ao “preparador” messiânico).
Em Isaías 40 temos o ponto crítico do livro
"João Batista surgiu no
deserto, pregando batismo de
arrependimento para o perdão
dos pecados" (1.4). A região
em que João Batista ministrou,
provavelmente a oeste do Mar
Morto e perto da foz do rio
Jordão, era erma e árida.
antes de 50 d.C.3 Pode ser mais apropriado
considerar o batismo de João como um
fenômeno singular; à medida que Deus o
orientou a apresentar uma metáfora inédita
de pureza espiritual obtida por meio do
arrependimento (uma mudança interior
que implicava não apenas tristeza pelo
pecado, mas também um novo modo de
vida) representada pelo batismo (como
em 2Rs 5.14, em que Naamã mergulha no
Jordão). Arrependimento e confissão (1.5)
para obter perdão (o resultado judiciário)
são os requisitos de Deus para qualquer
um que deseje acertar as contas com ele
e estão estreitamente ligados a “crer no
evangelho” em 1.15, adiante.
1.5 toda a região da Judeia [...] saía.
A forte atração exercida por João é um
preparativo para a popularidade de Jesus
com as multidões, um dos temas centrais
de Marcos 1. O fato de “saírem” tam-
bém faz parte do tema do “novo êxodo”
(cf. Êx 13.4,8; Dt 23.4).
1.6 pelos de camelo [...] cinto de couro
/.../gafanhotos e mel silvestre. As roupas e a
alimentação ascética de João o apresentam
como profeta semelhante a Elias (2Rs 1.8)
e dão continuidade ao cumprimento, por
João, da profecia registrada em Malaquias
(3.1; 4.5,6) como o precursor do Messias.
A resposta para as necessidades espirituais
de Israel não virá das instituições elegantes
de Jerusalém, mas de um profeta do deserto
que rejeita os luxos deste mundo (cf. Jesus,
que não tinha “onde deitar a cabeça” em
Mt 8.20).
1.7,8 alguém mais poderoso que eu. A
mensagem de João é poderosa, mas ele
prepara o caminho para alguém incom-
paravelmente maior, que tem o “poder”
do próprio Deus. João não é digno sequer
de ser escravo dele e de “desamarrar” as
correias de suas sandálias (o ato de um
escravo). Este que está por vir demonstrará
seu poder ao “batizar com o Espírito”, uma
1.3 voz do que clama no deserto. Três
textos do Antigo Testamento são ligados
pelo tema do mensageiro do deserto que
prepara o caminho para o Messias. A
passagem principal, Isaías 40.3, era um
texto fundamental tanto para Qumran
(1QS 8.13,14) quanto para o cristianismo (a
igreja primitiva chegou a autodenominar-se
“o Caminho” [p. ex., At 9.2; 19.9,23],
provavelmente com base nesse versículo).
Ela declarava a intenção de Deus de tra-
zer os exilados para casa por uma estrada
divinamente preparada da Babilônia até
Sião, da qual ele removería todos os obs-
táculos. Aqui, tanto o regresso do Exílio
quanto o Êxodo se cumprem em Jesus,
e João é a voz do deserto que proclama
o regresso a Deus, por meio da chegada
de Jesus, daqueles que estavam exilados
de Deus em decorrência de seu pecado e de
sua incredulidade. As promessas finais de
Deus agora começam a se cumprir, e temos
acjui uma espécie de “triunfo” romano,
um desfile de vitória na chegada do rei.
O deserto é o lugar de provação e crise
messiânica (os essênios foram ao deserto
para representar a necessidade de purifica-
ção de uma nação impura) e também de
socorro e consolo divinos (lRs 19.4-18;
Ap 12.6,14). As duas idéias fazem parte
do tema do deserto em Marcos.
1.4 batismo de arrependimento para o
perdão dos pecados. Ver João batizar as
pessoas era surpreendente. Os membros
da comunidade de Qumran realizavam
purificações diárias em um tanque ri-
tual (1QS 5.12-14), e os judeus pratica-
vam várias lavagens cerimoniais (p. ex.,
Nm 19). Nenhum dos casos, porém, for-
nece paralelos próximos. Os prosélitos
gentios eram batizados uma vez só, como
rito de iniciação, o que seria um paralelo
interessante (João estaria dizendo que a
nação havia se tornado como os gentios),
mas não há evidência alguma dessa prática
M arcos 1.1-815
referência messiânica ao derramamento
do Espírito profetizado no Antigo Testa-
mento, sinal dos últimos dias (Is 32.15;
Ez 36.25-27; Jl 2.28). Em Isaías 11.2, o
Messias é infundido com “ ... o Espírito
[...] do poder...”, de modo que esse grande
poder é visto não somente em milagres e
em um ministério poderoso, mas também
em seu batismo com o Espírito, indicação
de que ele não apenas tem o Espírito, mas
também submergirá seus seguidores no
Espírito (Ez 36.25-27), um poder exclu-
sivo de Deus. Essa profecia se cumpriu em
Pentecostés, mas também se cumpre na
vinda do Espírito sobre todos os cristãos
na conversão (Rm 8.14-17).
Considerações teológicas
Aqui, Marcos apresenta o propósito central
de seu Evangelho: falar ao mundo de Jesus
Messias, o Filho de Deus. Ele é profeta, mas
é mais que isso. É o Messias prometido por
Deus, o Filho ungido, enviado ao mundo
para sacrificar-se para a salvação da huma-
nidade. Além disso, Marcos se concentra
no cumprimento, na realização completa
das expectativas dos santos e dos profetas
do Antigo Testamento de que Deus intervi-
ria neste mundo. Repetidamente, o Antigo
Testamento aponta adiante para a vinda de
Jesus. Por fim, essa passagem tem o foco
sobre o “evangelho” (1.1,15), as “boas-no-
vas” da obra redentora divina em Jesus,
prenunciada pelo ministério de João Batista
que chamou o povo a “arrepender-se” e
receber “o perdão dos pecados”.
Para ensinar o texto____________
1. Jesus é o Messias e o Filho de Deus. Esse
é o tema central da cristologia de Marcos,
desenvolvido ao longo de toda a sua obra.
Precisamos ajudar as pessoas a reconhe-
cer que Jesus é mais que seu amigo; ele é
seu Senhor. Como Messias, Jesus é nosso
rei “ungido”. Esse fato tem dois aspectos:
ele é o Messias régio ou davídico, aquele
que se assenta à direita de Deus (SI 110.1;
cf. Mc 12.35-37) e é exaltado aos céus.
Ao mesmo tempo, é o Messias sofredor, o
Servo Sofredor de Isaías 52 e 53, que dará
sua vida na cruz como sacrifício expiatório
por nossos pecados, dando a “muitos” a
possibilidade de receber a salvação conce-
dida por Deus (Mc 10.45; 14.25-27). Sua
condição de “Filho de Deus” predomina
nesta passagem (1.1,11) e na cristologia de
Marcos. Ele é o Filho singular e é o próprio
Deus e, como tal, traz salvação definitiva
a este mundo mau.
2. João Batista é o
Marcos designa João Batista como o
mensageiro que preparará o caminho para
Jesus. Essa escultura retrata João Batista vestido
com roupas de pelo de camelo (Jacopo
Sansovino, século lód.C).
M arcos 1.1-8
W0
Preparar 0 caminho para Jesus
Testemunho: O papel de João Batista era
preparar o coração do povo para a vinda do
Messias. Fale (ou convide alguém para falar)
de uma pessoa que Deus usou em sua vida
ou como Deus usou você na vida de outra
pessoa, a fim de preparar o caminho para
Jesus. Desafie seus ouvintes a pensar em uma
ou duas pessoas que Deus colocou na vida
deles e que não conhecemJesus. Incentive-os
a perguntar a Deus: “Como podes me usar
para preparar o caminho para Jesus?”.
Uma mensagem de arrependimento
Esportes: “Arrependim ento” significa
mudar o modo de pensar a fim de mudar
o modo de agir. Em 25 de outubro de 1964,
Jim Marshall, jogador do time de futebol
americano Minnesota Vikings, recuperou
a bola, depois que o jogador adversário
a deixou cair (fumble), e correu mais de
sessenta jardas na direção errada, para
o fundo (end zone) de seu próprio lado
do campo, marcando pontos para o time
adversário. Quando Marshall recuperou
a bola, sua perspectiva estava tão confusa
que ele correu no sentido contrário. Muitas
vezes, também ficamos confusos quanto a
nossa perspectiva de vida, o que nos leva
a tomar decisões desastrosas. Imagina-
mos que estamos enxergando claramente
quando, na verdade, estamos correndo na
direção errada e precisamos nos arrepen-
der. Quando perdemos os referenciais e
rumamos para o lado errado, isso geral-
mente nos custa mais do que alguns pontos
no placar.
definitivo de Deus em Jesus, o Messias.
Seu ministério prefigura Jesus em todos os
aspectos. Ele é o primeiro grande profeta
em quatrocentos anos, aquele que vem “no
espírito e no poder de Elias” (Lc 1.17) e,
no entanto, ele se sujeita a Jesus, o profeta
ainda maior (uma ênfase importante em Lc
1—3), que realizará os milagres de Elias e
trará a salvação divina à humanidade. Ele
prega arrependimento (Mc 1.4) e prepara
o povo para a proclamação de Jesus: “Ar-
rependam-se e creiam” (1.15). Seu trabalho
é preparar o caminho para que Jesus possa
conduzir a humanidade perdida a Sião e
trazer redenção a todos.
Para ilustrar o texto____________
Jesus, 0 Messias, como o Servo Sofredor
Cultura popular: Há um protocolo compli-
cado a ser seguido quando alguém se en-
contra com a rainha da Inglaterra. Uma das
regras, que se aplica a todos os visitantes,
mesmo dignitários, é não tocar na rainha.
Em 1992, o primeiro ministro australiano
Paul Keating foi criticado pela mídia depois
que colocou o braço em volta da rainha.
O cargo ocupado pela rainha exige que o
cerimonial seja seguido à risca. Mas não é
assim com Jesus. Embora ele seja nosso rei
ungido, veio como o Servo Sofredor que
comia com pecadores, tocava em leprosos
e curava os destroçados. Ele veio para nos
servir por meio de seu sofrimento na cruz
para que pudéssemos ter vida.
Marcos 1 .915 ־
As ações do Deus triúno
comprovam o ofício divino de Jesus
Ideia centra l ungido para seu ofício m essiânico e confirmado como Filho de
Deus por declarações de séu próprio Pai; em seguida, ele prova esse ofício ao derrotar
Satanás no deserto.
toda a justiça”, ou seja, seu desejo era
“completar” o plano de Deus ao identifi-
car־se com a necessidade do povo de Deus
de “acertar as contas” com o Pai e obede-
cer à ordem divina assumindo o papel de
Servo Sofredor (cf. Is 53.11). O batismo
no Jordão também cria uma ligação com
Naamã em 2Reis 5.10-14. Todos precisam
ser limpos da impureza do pecado. Jesus se
Para entender o texto
Jesus é batizado por João no rio Jordão. A
parte do rio Jordão que aparece na fotografia
fica próxima de Betânia, a leste do Jordão, local
tradicional do batismo de Jesus.
M arcos 1.9 -15
Texto em contexto
O testemunho profético (1.2,3) e a procla-
mação do profeta do deserto (1.4-8) anun-
ciaram que Jesus é o Messias. Agora, seu
batismo fornece prova inquestionável de
sua unção messiânica. Em um ato trinitario,
o Espírito desce sobre ele, e o Pai anuncia
que ele é seu Filho amado (1.9-11). A prova
inicial do Messias de Deus é sua vitória
sobre Satanás no deserto. A passagem ter-
mina com um resumo da mensagem do
reino proclamada por Jesus (1.14,15). Esse
prólogo apresenta a realidade de Jesus, o
Messias, ao iniciar seu ministério.
Considerações interpretativas
1.9 batizado por joão no ]ordão. O minis-
tério poderoso de Jesus é iniciado com o
batismo e confirmado pelo Espírito Santo
e por Deus, o Pai. Em Mateus 3.15, Jesus
afirma que ele foi batizado para “cumprir
Principais temas de Marcos 1.9-15
■ 0 batismo de Jesus é considerado uma nova criação
que dá início à nova era do Espírito.
» Por meio de seu ministério como Servo Sofredor,
Jesus se torna 0 Messias régio.
■ No início de seu ministério, Jesus é provado no
deserto e derrota Satanás.
[tb. Lc 3.22]), enquanto em Mateus 3.17,
destina-se aos que observam [“este é”]).
Sem dúvida, a mensagem era para ambos,
e Marcos enfatiza sua relevância para o
próprio Jesus. A primeira parte do pronun-
ciamento vem de Salmos 2.7, que se refere
à entronização do rei messiânico. Desse
modo, Jesus é identificado não somente
como o Filho amado de Deus (veja co-
mentário sobre 1.1), mas também como
o Filho de Davi. É provável que haja aqui
nuanças de Gênesis 2.22, em que Deus or-
dena a Abraão que sacrifique Isaque, seu
filho amado (o verdadeiro judaísmo passa
a ser definido como filho amado e sacrifício
voluntário). No grego, a expressão é “meu
filho, o amado”, enfatizando cada um dos
aspectos: sua relevância (filiação singular)
e sua condição (amado = amor eletivo). A
segunda parte vem de Isaías 42.1, o Servo de
Yahweh corno o amado, o “escolhido” no
qual Deus se agrada. Deus está declarando
que Jesus é o Messias régio cuja ascensão
ao trono ocorrerá na cruz e que, ao trazer
a salvação oferecida por Deus, alegrará
seu Pai.
1.12 o Espírito o enviou para o deserto.
Essa passagem costuma ser chamada “a
narrativa da tentação”, mas uma desig-
nação mais apropriada seria “a provação
do Filho de Deus” . Satanás praticamente
serve ao propósito de Deus ao fornecer a
tentação que prova Jesus (emTg 1.2,3,14,
as provações servem de “teste” e “tenta-
ção”; o mesmo termo grego é empregado
identifica com nossa necessidade humana a
fim de “cumprir toda a justiça” (Mt3.15).
1.10 os céus sendo escancarados. Moisés
(Êx 14.21), Josué (Js 3.16) e Elias (2Rs
2.8) abriram as águas, mas Jesus rasga a
própria malha do céu. Isso significa não
apenas que agora as portas do céu estão
abertas (Ez 1.1; Ap 4.1), mas também que
a nova era do reino começou com um ca-
taclismo. Ademais, prepara o caminho
para que o véu do templo seja “rasgado
em dois” (Mc 15.38 [mesmo verbo em
grego]) e, juntos, esses acontecimentos es-
catológicos indicam um ato sobrenatural
em que Deus intervém a fim de produzir
uma nova ordem mundial.
o Espírito descendo como pomba sobre
ele. A descida do Espírito (“como pomba”,
embora devamos observar Lc 3.22, “em
forma corpórea, como pomba”, indicando
que, de fato, uma pomba desceu) simboliza
a unção de Jesus para seu ofício messiânico.
Na criação, “... o Espírito de Deus pairava
sobre as águas” (Gn 1.2), e aqui temos uma
nova criação com a descida do Espírito
para dar início à nova era da salvação. O
Espírito representa novidade e o poder de
Deus agora em atividade à medida que
tem início essa nova realidade divina
neste mundo.
1.11 Tu és meu Filho, a quem eu
amo; estou muito satisfeito con-
tigo. Deus não se pronunciava
de modo direto desde o tempo
dos profetas, e essa é a pri-
meira vez que sua voz é
ouvida em quatrocentos
anos. Somente a vinda
do Messias podería
acabar com esse
longo silêncio. Em
Marcos, a men-
sagem de Deus
volta-se para
Jesus (“tu és”
■M arcos 1.9-1519
seja uma mudança de eras em que João
Batista encerra o período da antiga aliança
e Jesus dá início à era da nova aliança.3
O reino chegou com Jesus e assm começa
o período do “evangelho” da salvação.
João veio como o precursor messiânico
(cf. Ml 3.1), o último dos profetas do An-
tigo Testamento, e agora Jesus, o Mes-
sias, passa a ser o foco das atenções. As
esperanças do Antigo Testamento estão
prestes a se cumprir (veja ÍPe 1.10-12).
1.15 O tempo é chegado [...] o reino
de Deus está próxim o. Essas palavras
encerram o prólogo e resumem a prega-
ção do reino por Jesus. A declaração é
constituída de quatro elementos: os dois
primeirosindicam a parte de Deus e os
dois últimos (“arrependam-se e creiam” ),
a nossa parte. Esse versículo se refere à
“plenitude dos tempos” (cf. Gl 4.4), o
momento decisivo na história da salvação
em que todas as esperanças do Antigo
Testamento se cumpriríam. De acordo
com Lucas 3.1, Jesus iniciou seu ministé-
rio no 15.° ano do imperador Tibério e,
conforme João 2.20, esse foi o 46.״ ano
depois que Herodes começou a reconstruir
o templo. O ano correspondente é 27-28
d.C., quando Jesus tinha 33 ou 34 anos (é
provável que ele tenha nascido em 6 a.C.).
O termo “reino” indica que o “reinado
de Deus” começou, e Jesus afirma que
esse reinado “está próximo”, ou prestes
a chegar. Há tensão entre sua chegada
iminente e sua presença no ministério
de Jesus (cf. Lc 11.20: “o reino de Deus
chegou”). Está no processo de chegar, e
a vitória de Deus está próxima e é visível
e real no ministério de Jesus.
Arrependam-se e creiam nas boas-novas!
Marcos enfatiza com frequência o encontro
com Cristo, diante do qual a única atitude
apropriada é o arrependimento (cf. 1.14,
acima) e uma decisão de fé. Como em 1.1, a
para ambos). É o Espírito que toma a ini-
ciativa e “expulsa” (ekballõ, “lança fora”)
Jesus para o deserto, o lugar de provação.
Os “quarenta dias” remetem a: Moisés
(no monte Sinai), à prova de Israel du-
rante quarenta anos e a Elias (no deserto
e no monte Horebe), todos os episódios
ocorridos no deserto. Portanto, Jesus é
submetido à sua própria prova no de-
serto no início de sua missão messiânica
e, com isso, demonstrará, no restante de
Marcos, que é o Filho de Deus ao entrar
em combate direto com Satanás e derro-
tá -10 (para mais detalhes desse embate
veja Mt 4.1-11 e Lc 4.1-13).
1.13 Estava com os animais selvagens, e
anjos o serviam. O relato de Marcos sobre
tentação é surpreendentemente breve, com
apenas algumas frases curtas. Embora a
tentação por Satanás seja a parte central,
traz o acréscimo interessante da referência
aos animais selvagens. Há controvérsia se
essa menção dá continuidade à ideia da
prova no deserto, na qual os animais são
predadores hostis,1 ou se faz parte de um
tema do “paraíso”, no qual os animais
são reconciliados (Is 11.6-9) e o deserto
é transformado por Jesus, o novo Adão.2
Como parte do tema de uma nova cria-
ção, a segunda interpretação é relevante.
Nesse caso, há dois elementos negativos (o
deserto e Satanás) e dois elementos positi-
vos (os animais e os anjos). Jesus sai desse
embate claramente vitorioso. A imagem
de anjos cuidando daquele que é maior
que Elias mostra sua origem celestial, já
declarada por Deus em 1.11. Isso talvez
indique adoração, contudo é mais provável
que se refira a servir alimento a Jesus; de
acordo com Mateus 4.2, ele jejuou durante
quarenta dias.
1.14 Depois que João foi preso, Jesus
foi para a Galileia. Jesus só começa
seu ministério depois que João termina
o dele. É provável que, para M arcos,
20Mareos 1.9-15
Para ensinar o texto____________
1. O batismo de ]esus é urna nova criação,
que dá início à nova era do Espirito. O
homem-Deus é ligado tanto a sua missão
de trazer redenção à humanidade quanto
a seu propósito divino de iniciar a era do
Espírito. Em certo sentido, seu batismo é
sua “unção” como Messias e, como tal,
inicia seu ministério messiânico junto com
os Doze. No entanto, Jesus era o Messias
desde o momento de sua encarnação. Acima
de tudo, no batismo ele se identifica com
a necessidade de todos de “acertarem as
contas” com Deus e, desse modo, realiza o
plano justo de Deus para a salvação (veja
Mt 3.15). O batismo é um acontecimento
apocalíptico de grande importância, no
qual os próprios céus se abrem e o Espírito
desce de uma nova maneira, não apenas
sobre Jesus, mas também sobre este mundo,
iniciando a nova realidade do reino, a nova
era de salvação dominada pela intervenção
de Deus e do Espírito.
2. Jesus inicia seu ministério ao ser pro-
vado no deserto e derrotar Satanás. Em-
bora a narrativa de Marcos pareça simples,
mensagem do reino é chamada “evangelho”
ou “boas-novas”.
Considerações teológicas
Temos aqui três considerações principais:
(1) Por meio de um ato trinitário, Deus
proclama que Jesus é seu Filho ao ungi-lo
com o Espírito; com isso, diz a todos que
teve início a era do cumprimento messiâ-
nico. (2) Deus prova Jesus ao empregar Sa-
tanás para tentá-lo a usar sua autoridade
messiânica em benefício próprio, mas
Jesus se vale de Deuteronômio (Dt 8.3;
6.13,16) para dizer ao diabo que ele não
repetirá o erro cometido por Israel no
deserto. Desse modo, inicia seu ministério
messiânico com uma vitória cósmica sobre
os poderes do mal (como fica explícito em
Mt 4 e Lc 4). (3) A chegada de Jesus, o
Messias, indica a “plenitude dos tempos”
(cf. G1 4.4), o momento em que o plano
de Deus para a salvação da humanidade
se realiza e assim inaugura o período final
da história.
Jesus é conduzido para o deserto, onde é tentado
pelo Diabo. De acordo com a tradição, a tentação
de Jesus ocorreu no monte Jebel Quarantal, perto
de Jerico.
Construiremos estradas e pontes [...] Res-
tauraremos a ciência a seu devido lugar
[...] Usaremos a energia do sol, dos ventos
e do solo para abastecer nossos carros e
indústrias. Transformaremos nossas esco-
las, faculdades e universidades para que
atendam às exigências de uma nova era.
Podemos fazer tudo isso. Faremos tudo
isso” . O presidente Obama planejava, em
suas palavras, levar a nação a atender às
exigências de uma nova era. A posse de um
presidente é, em sentido restrito, o início de
uma nova página na história e de uma nova
realidade. Quando
Jesus foi batizado e
os céus se abriram,
Jesus deu início a
uma nova era na
qual o reino de Deus
dominaria (1.15) e o
Espírito capacitaria
a igreja.
Deus testifica dos
céus acerca de seu
Filho, Jesus.
Instituição cultural:
O papel principal
de um embaixador
que atua em uma
nação estrangeira
é representar po-
líticas compatíveis
com as do seu go-
verno. O embaixador
não expressa opiniões
No batismo de Jesus, os
céus se abrem, o Espírito
Santo desce e Deus se
pronuncia diretamente.
Nessa cena de um painel
de marfim do sexto século
d.C, João batiza Jesus, e 0
Espírito Santo, que vem da
mão de Deus, desce em
forma de pomba.
retrata esse acontecimento como uma re-
capitulação da prova de Israel (e de Elias)
no deserto. É necessário que o ministério
de Jesus comece com um confronto com
Satanás, pois ao longo de todo o seu relato
Marcos dará destaque à batalha espiritual.
É Deus quem testa seu Filho, e a tentação
de Satanás é um instrumento usado para
esse fim. A batalha com os poderes cós-
micos desempenha um papel crucial, e as
forças das trevas se opõem continuamente
à luz. Caso os “animais selvagens” façam
parte, de fato, de um tema de “paraíso”
descrito em Isaías (veja
acima), a ideia é de que
Jesus, com sua gloriosa
presença, transforma
este mundo. De qual-
quer modo, a vitória
sobre Satanás e seu
exército confere ao
ministério de Jesus um
começo poderoso.
Para ilustrar o
texto___________
O s céus se abrem
com a vinda do
Espírito, e tem
início a nova era.
C itação: Barack
Obama. Em 21 de
janeiro de 2009,
B arack O bam a
tomou posse como
44.° presidente
dos Estados Uni-
dos. Em seu dis-
curso inaugural,
ele afirmou: “O
estado de nossa
economia requer
ação destemida
e imediata [...]
M arcos 1.9-15 22
Quando ainda jovem, foi vendido como
escravo por seus irmãos e levado para o
Egito. Depois de passar por inúmeras tri-
bulações, José foi elevado a um cargo de
poder e proeminência no Egito. Quando
uma fome assolou a terra, os irmãos de
José foram ao Egito à procura de alimento
e, nessa ocasião, José se revelou a eles. O
alto funcionário egípcio que tinha poder
sobre a vida deles era o irmão que haviam
maltratado. Em Gênesis 50.19,20 vemos
a resposta de José a seus irmãos: “ ... Não
tenham medo. Estaria eu no lugar de Deus?Vocês planejaram me prejudicar, mas Deus
planejou isso para o bem, para realizar o
que agora está acontecendo, a salvação de
muitas vidas” . Quando Satanás nos tenta,
sua intenção é destruir nossa fé, nosso teste-
munho e até mesmo nossa vida. Mas o mal
que Satanás planeja para nós, Deus destina
para o bem, para provar e fortalecer nossa
fé ao permanecermos firmes no Senhor.
pessoais, mas representa plenamente as po-
líticas de seu governo. O poder e o cargo do
embaixador são estabelecidos com base na
relação com seu governo. Essa é uma forma
importante de entender o pronunciamento
do Pai quando Jesus foi batizado. Jesus veio
para representar plenamente o Pai: suas pa-
lavras, suas ações e seus propósitos (veja
Hb 1.3). No batismo de Jesus, sua autori-
dade foi estabelecida pelas palavras do Pai:
“Tu és meu filho, a quem amo; estou muito
satisfeito contigo” . Jesus deve ser honrado
como Filho de Deus, cuja autoridade vem
de Deus. Cada discípulo de Jesus deve, por-
tanto, se comprometer à obediência.
Satanás como instrumento para provar.
Bíblia: Uma das grandes verdades da Bíblia
é que Deus pode se utilizar de qualquer si-
tuação e criar algo bom dela. Um excelente
exemplo é a história de José em Gênesis.
M arcos 1.9-1523
Marcos 1 .1628 ־
Jesus forma o grupo de discípulos
e derrota os espíritos imundos
’ ·' ־'· '· · , י' v :י־ v, ;;׳. ,. ־ ' ״ '־' ־ ״ . ־ ' " · ׳ ¿ . ־ ־ ' ' ■
Ideia central Jesus reage a dois tipos de indivíduos: (1) aqueles que estão dispostos a
se comprometer com ele, como seus quatros primeiros discípulos, transformados para
serem “pescadores de homens"; (2) aqueles que permanecem afastados dele e que,
portanto, sentirão sua autoridade para subjugar os poderes das trevas.
depois. Em João 1.19-51, Jesus se encon-
tra com André (discípulo de João Batista),
Simão, Filipe e Natanael, e os chama para
segui-lo. Em uma ocasião posterior, vai ao
encontro deles enquanto estão pescando. O
mar da Galileia ou lago de Genesaré (veja
Mc 6.53; Lc 5.1) tem aproximadamente 16
quilômetros de comprimento e 11 quilô-
metros de largura em seu ponto mais largo
e é bastante conhecido por sua atividade
pesqueira. E provável que os pescadores
usassem uma rede de arrasto com cerca de 6
metros de diâmetro com pedras amarradas
a uma de suas extremidades. Para pegar
os peixes, lançavam a rede e a puxavam
de volta com cordas. Em geral, pescavam
durante a noite, pois a incidência da luz
solar sobre a água fazia os peixes nadarem
em áreas mais profundas (veja Lc 5.1-10).
1.17 eu os enviarei para pescar pes-
soas. Os discípulos são a parte passiva
(“Venham, sigam-me”), enquanto Jesus é
a parte ativa. As palavras “eu farei” (usa-
das com frequência para criação) retratam
Jesus inaugurando uma nova comunidade
de seguidores. Os discípulos são pescadores
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Tem início aqui o ministério de Jesus na Ga-
lileia (1.16—10.52). Marcos começa com
dois ciclos do ministério de Jesus com foco
em três grupos principais de judeus nessa
região: seus discípulos (1.16-20; 3.13-19),
as multidões (1.21-45; 3.7-12) e os líderes
(2.1—3.6; 3.20-35). Uma batalha espiri-
tual permeia os três grupos: Jesus amarrou
Satanás (3.27), demonstrou seu poder ao
expulsar demônios (1.21-28;3.11,12)edeu
essa mesma autoridade a seus discípulos
(3.14,15; cf. 6.7). Nessa série de relatos,
Jesus confronta esses grupos usando sua
própria identidade como profeta poderoso
e Messias e chama cada um a arrepender-se
e a crer (como em 1.15).
Considerações interpretativas
1.16 andava à beira do mar da Galileia. Esse
episódio não ocorre no início do ministério
de Jesus na Galileia; na verdade, é possí-
vel que tenha acontecido várias semanas
24Marcos 1.16-28
Principais temas de Marcos 1.16-28
■ 0 ministério de Jesus inicia com o discipulado,
quando ele chama seus seguidores para “ pescar
pessoas” .
■ A única atitude apropriada é render-se radicalmente
a Jesus; ele tem prioridade sobre todas as coisas.
■ Toda verdade absoluta gira em torno do ensino iné-
dito e imbuído de autoridade transmitido por Jesus.
■ Na batalha espiritual, Jesus exerce pleno controle
sobre todos os poderes das trevas.
acima de todas as coisas, até mesmo da
carreira e da família. Por certo, isso não
significa que devemos abandonar nossa
família; os discípulos não se desfizeram
de seus barcos (Jo 21.3), e é provável que
pescassem quando não estavam com Jesus.
Sua prioridade absoluta, porém, era seguir
Jesus. O fato de haver “empregados” no
barco mostra que esses quatro seguidores
tinham uma situação financeira estável.
Não eram pobres, pois a pesca era um ne-
gócio razoavelmente rentável.
1.21 Eles foram para Cafarnaum. Uma
das principais cidades da região, com cerca
de dez mil habitantes, Cafarnaum ficava na
extremidade noroeste do lago de Genesaré
e em uma rota comercial importante na
entrada da Galileia. Contava, portanto,
com uma grande coletoria de impostos
(Mateus e Zaqueu trabalharam ali). Jesus
mudou-se para Cafarnaum no início de seu
ministério (Mt 4.13), e a cidade se tornou
a sede de suas incursões missionárias na
Galileia (Mc 1.39; 6.7-13).
entrou na sinagoga e começou a ensinar.
A sinagoga, o centro da vida religiosa e
até mesmo cívica/judiciária do povo judeu
Jesus chama seus primeiros d iscípulos e pede
que abandonem o trabalho de pesca. Nessas
Ilustrações, o artista retrata uma tarrafa (figura
superior) e uma rede de arrasto (figura inferior)
em uso no mar da Galileia.
M arcos 1.16-28
profissionais, e Jesus usa uma metáfora
genial para descrever a nova carreira deles.
Em sua profissão, eles matam os peixes,
mas agora trarão vida às pessoas. No An-
tigo Testamento, a metáfora da pesca é
usada para o juízo vindouro (Jr 16.1416־;
Ez 29.4,5), mas Jesus inverte a imagem: pes-
car pessoas a fim de salvá-las. Além disso,
os discípulos de rabinos se assentavam ao
redor dele e aprendiam, mas Jesus vai en-
volver seus discípulos de modo direto em
seu ministério enquanto os ensina.
1.18,20 deixaram suas redes [...] deixa-
ram seu pai. Esse é o primeiro vislumbre
de um tema essencial do discipulado: o
compromisso radical com Jesus. As ações
dos dois pares de irmãos exemplificam a
regra básica para seguir Jesus: ele precisa
ocupar o primeiro lugar em nossa vida,
autoridade...” (1.27), uma palavra in ves-
tida de poder.
não como os mestres da lei. Os mestres
da lei eram os “escribas”, copistas profis-
sionais de textos, considerados especialistas
em questões jurídicas na época de Jesus.
Não constituíam uma seita judaica, mas
quase todos eram fariseus. Embora fizessem
pronunciamentos oficiais acerca da lei, de-
dicavam a maior parte de seu tempo a sim-
plesmente discutir diversas interpretações
conforme os partidos aos quais pertenciam.
Jesus, em contrapartida, falava com a auto-
ridade de Deus e, com frequência, fazia de-
clarações ousadas, e até mesmo chocantes.
Ao longo de todo o Evangelho de Marcos,
os escribas se pronunciam contra Jesus e
representam o sistema antigo, prestes a ser
derrubado pelas novas verdades do reino
de Jesus (como em 2.21,22).
1.23 possesso por um espírito impuro.
Em várias ocasiões, Marcos chama os demô-
nios de “espíritos impuros [imundos]” para
se referir a eles como epítome de tudo o que
é maligno e imundo no mundo, a antítese de
Deus. São anjos caídos, o exército de Sata-
nás e, nos Evangelhos, somente eles sabem
exatamente quem Jesus é. Como lemos em
Tiago 2.19: “ ... os demônios creem e tre-
mem”. Os demônios se apossam de indiví-
duos como parte de sua guerra incessante
contra Deus. Sabem que foram derrotados
(veja Ap 12.12), e seu propósito é ator-
mentar e matar os seres humanos criados
à imagem de Deus. Num culto do Sabbath,
esse ser maligno ouve Jesus, reconhece-o
(At 22.19), surgiu durante o Exílio na Babi-
lônia para representar o templo destruído.
Ainda hoje, pode-se ver os alicerces de um
desses locaisem Cafarnaum. Os elemen-
tos centrais do culto na sinagoga eram a
oração, a leitura e exposição do Antigo
Testamento (veja Lc 4 .1 6 2 7 O ensino e .(־
a adoração eram as principais atividades,
de modo que, quando Jesus “começou a
ensinar”, atuou como rabino/mestre do
primeiro século (ele é chamado “Rabi” em
9.5; 10.51 [rabbouni]; 11.21; 14.45). Os
rabinos, originários do movimento fari-
saico (Hillel, vinte anos antes de Jesus, é um
dos primeiros), desenvolveram as regras de
pureza e de vida conhecidas como tradição
oral. Jesus, em razão de seus ensinamentos,
foi considerado um deles. Embora o Evan-
gelho de Mateus costume ser chamado de
“Evangelho didático”, na verdade Jesus
aparece ensinando com mais frequência
em Marcos do que em Mateus.* 1
1.22 As pessoas estavam maravilhadas
/.../ lhes ensinava como alguém que tem
autoridade. Um dos temas principais do
primeiro capítulo de Marcos é o deslumbra-
mento crescente das multidões, uma vez que
o autor usa seis termos diferentes para des-
crever como ficaram absolutamente admi-
radas. Sua reação se deve à “autoridade” de
Jesus em palavras (1.21,22) e atos (1.23-28).
É fundamental entender que primeiro as
multidões ficam maravilhadas com seu
ensino e, só depois, com seus atos mira-
culosos. Aliás, o exorcismo em si é tido
como “ ... um novo ensino [...] com
No Evangelho de Marcos, Jesus realiza seu ן
primeiro exorcismo enquanto ensina na
I sinagoga em Cafarnaum. Na foto ao lado,
I pedras de basalto negro dessa sinagoga
j do primeiro século d. C. aparecem debaixo
i dos blocos de calcário branco das ruínas
de uma sinagoga do q uarto ou quinto
I século.
M arcos 1.16-28
de poder sobrepuja as forças das trevas,
que são obrigadas a retirar-se inteiramente
derrotadas. A reação é violenta, mas dura
apenas um instante. Em um gesto final de
tormento, o demônio provoca uma última
convulsão (cf. as convulsões epilépticas em
9.14-29) e parte com um grito, talvez de ira
frustrada ou “um bramido de morte não
muito diferente do clamor de Jesus quando
ele expira na cruz (15.37)”.4
1.27 admirados [...] “Um novo ensino,
e com autoridade!” Marcos emprega aqui
outro termo para admiração, que conota o
“deslumbramento” daqueles que testemu-
nham o poder de uma “ nova ” era messiânica,
com uma palavra imbuída de tanta autori-
dade que até mesmo os demônios fogem. Esse
ensino não apenas instrui, mas também age.
1.28 As notícias /.../ se espalharam ra-
pidamente por toda a região. A popular¡-
dade de Jesus com as multidões continua
a crescer, à medida que “todos” estão es-
tupefatos, e as notícias se espalham por
toda a Galileia. Esse tema se intensificará
nos próximos capítulos (1.33,37,39,45;
2.2,12,13; 3.7,8) e forma um contraste
gritante com a rejeição cada vez maior de
Jesus pelos líderes (2.1—3.6).
Para ensinar o texto____________
1. Jesus inicia seu ministério na Galileia
com o discipulado. Jesus não precisa que
apresentemos sua mensagem do “evange-
lho” (1.1,15) de salvação ao mundo per-
dido; antes, ele nos dá o privilégio de parti-
cipar de sua missão ao mundo. Assim como
os primeiros discípulos, somos chamados
a dar em vez de só receber, ser servos que
buscam a Deus em vez de apenas cuidar
de nossos próprios interesses. O discipu-
lado é um aspecto importante da teologia
de Marcos, e trataremos repetidamente
dessa questão. Os discípulos dos rabinos no
(veja também Mc 1.34) e sabe quem é seu
inimigo. Mas, uma vez que não tem como
se esconder, um confronto é necessário.
1.24 O que queres conosco...? Essa ex-
pressão ocorre em outras passagens das
Escrituras (p. ex., Jz 11.12; lR s 17.18;
Jo 2.4) e aqui é, literalmente, “o que é isto
para nós e para ti?”. Significa “não temos
coisa alguma em comum” e “deixe-nos em
paz”, e geralmente é usada por um inferior
ao dirigir-se a um superior.2 O demônio tem
plena consciência de que corre sério perigo
e deseja que Jesus vá embora. Esse é o pri-
meiro exorcismo de Jesus em Marcos, mas
as forças malignas sabem que a presença de
Jesus trará somente destruição para elas.
Sei quem tu és: o Santo de Deus! Talvez se
trate de um reconhecimento da verdadeira
natureza de Jesus, pois o demônio não con-
segue permanecer calado (de modo seme-
lhante à escrava possessa em Atos 16.16-18,
que praticamente se torna a “relações públi-
cas” de Paulo). É mais provável, contudo,
que seja um embate espiritual, parte de
“uma tentativa de obter controle mágico
sobre ele ao revelar sua identidade” .3 Nesse
caso, o demônio procura obter poder sobre
Jesus ao divulgar sua verdadeira essência
(veja também 3.11; 5.7). Jesus é “o Santo”
em contraste com esse “espírito imundo” e
perverso. Os santos de Deus são aqueles que
foram enviados pelo Deus santo, como Arão
(SI 106.16) e Eliseu <2Rs 4.9); como Filho
de Deus, Jesus é o Santo sui generis (Lc 4.34;
Jo 6.69). Assim, inicia-se o processo no qual
Satanás será amarrado (Mc 3.27).
1.25 Cale-se! /.../ Saia dele! No mundo
antigo, os exorcismos eram rituais demo-
rados, nos quais o exorcista entoava uma
sucessão de fórmulas para expulsar o de-
mônio. Aqui temos o oposto; o espírito
imundo fala de modo tolo, enquanto Jesus
profere apenas algumas palavras: “Cale-se e
saia dele!” (cinco palavras em grego). A ba-
talha termina antes de começar. A palavra
27 ' ' M arcos 1.16-28
3 . O ensino de Jesus acerca do reino for-
nece a única base para descobrir a verdade
absoluta. Encontramos muitas idéias úteis
para a vida em diversos lugares, mas so-
mente em Jesus descobrimos o que afeta
a realidade eterna. A verdade do Antigo
Testamento apontava para Jesus (Cristo
como “cumprimento” [Mt 5.17,18] ou
“ápice” [Rm 10.4] da Lei), e a verdade do
Novo Testamento nasce de Cristo. Não
é de admirar que as multidões ficassem
“maravilhadas” com seu ensino. Nunca
tinham ouvido algo parecido. Precisamos
nos afastar dos ensinamentos superficiais,
ensinos baseados em truismos piedosos e
em teorizações que visam apenas nossa
comodidade. Muitos dos conceitos ensi-
nados na igreja são irrefletidos, sem uma
preocupação séria com a verdade bíblica.
Precisamos nos tornar como os cristãos
em Bereia que “examinavam as Escrituras
todos os dias” para ver se o que Paulo es-
tava dizendo era verdade (At 17.11).
4. Batalha espiritual é uma realidade,
mas em Cristo, Deus já derrotou as forças
do mal. O milagre em 1.21-28 demonstra
o que Jesus dirá em 3.27, a saber, que ele
“amarrou” Satanás na própria casa dele.
Satanás é o “deus deste mundo” (2Co 4.4),
mas exerce poder apenas sobre seus segui-
dores. Não tem autoridade alguma sobre os
crentes. Ele não nos domina; ele nos engana
mundo judaico eram aprendizes passivos,
que apenas memorizavam os ensinamen-
tos do mestre. Os discípulos de Jesus são
ativos desde o início, participantes da obra
de Deus. O elemento passivo consiste em
“seguir” Jesus, ao imitá-lo e permitir que
ele molde a vida deles à semelhança da sua.
Jesus é a força criadora que os transforma
em pescadores de pessoas no mar da hu-
manidade - pescadores a serviço de Deus.
2. A única reação apropriada do ver-
dadeiro discípulo é a rendição radical.
A Jesus é dada prioridade em todos os
aspectos da vida, até mesmo a carreira e
a família. Essa é uma dificuldade que os
discípulos enfrentam ao longo de todo o re-
lato de Marcos, pois discutem entre si com
frequência sobre quem é o maior (9.33-37)
ou desejam assentar-se no lugar de autori-
dade no céu (10.35-41). No entanto, Deus
exige que seu povo “negue-se a si mesmo”
(8.34) e tenha uma predisposição voltada
para Deus (8.33). Deus nunca se satisfaz
com apenas o “dízimo” de nossa vida. Ele
exige de nós o sacrifício irrestrito de nosso
ego; que o amemos de todo coração, de
toda alma, de toda mente e de todas as
forças (12.30) e o sirvamos com tudo o
que temos. Por certo, ele suprirá nossas
necessidades, mas temos de “deixar tudo”
para segui-lo (10.28-31).
À medida que começa seu m inistério deproclamação das boas-novas do reino
de Deus, Jesus se volta para a cidade de
Cafarnaum, onde deixa o povo maravilhado
com a autoridade de seu ensino. Cafarnaum
estava localizada na extrem idade noroeste
do mar da Galileia. Essa vista aérea da região
de Cafarnaum mostra 0 mar da Galileia e
algumas escavações, entre as quais a
sinagoga do quarto a quinto século d.C, a
cobertura octogonal sobre a casa de Pedro
e muros que contornam várias insuiae ;tipo
de moradia destinada à população menos
favorecida) e habitações individuais.
M arcos 1 .1 6 2 8 ־
tribo Waodani, que nunca havia interagido
com o mundo exterior. Ele e seus compa-
nheiros conseguiram fazer contato com os
Waodani, mas em 8 de janeiro de 1956, Jim
Elliot e outros quatro missionários foram
brutalmente assassinados por membros da
tribo. Eles se dispuseram a sacrificar tudo
por Jesus, até mesmo a própria vida. Elliot
escreveu: “Não é tolo quem dá o que não
pode guardar a fim de obter o que não
pode perder” .5 Quando verdadeiramente
conhecemos Jesus e o poder do evangelho,
nos dispomos a sacrificar tudo para ser suas
testemunhas fiéis ao mundo. Até que ponto
você está disposto a se sacrificar por Jesus?
Tão empolgado que é impossível
permanecer calado
Situação hipotética: Se você ficasse noivo,
a quem contaria? Se tivesse acabado de
herdar cinco milhões de dólares, a quem
daria a notícia? Se acabasse de descobrir que
foi aceito na universidade de seus sonhos,
para quem telefonaria? Se tivesse recebido
uma promoção, quem seria o primeiro a
saber? Quase todos nós gostamos de dar
boas notícias, especialmente a pessoas mais
chegadas. Mas você tem essa mesma empol-
gação para compartilhar o evangelho com
outros? Se “evangelho” significa, de fato
“boas-novas”, você não deveria ter fervor
para falar dele a outros? Você se sente tão
empolgado com o que Deus fez em sua vida
por meio da fé em Jesus que não há como
permanecer calado? Se sua resposta for ne-
gativa, por que não? Desafie os presentes a
refletir sobre duas pessoas que eles amam,
com as quais se preocupam e que preci-
sam ouvir as “boas-novas” acerca de Jesus.
Incentive-os a orar por uma oportunidade
de compartilhar a notícia maravilhosa de
Jesus com essas pessoas nos próximos dias.
(Ap 12.9; 20.3). Somos derrotados nessa ba-
talha espiritual somente quando deixamos
de confiar em Cristo (Deus “providencia um
modo de escapar” [ICo 10.13J) e confia-
mos em nossas próprias forças. As forças
do mal são obrigadas a recuar sempre que
nos recusamos a lutar com “as armas deste
mundo” e, em vez disso, usamos as armas
do Espírito, que “têm poder divino para
destruir fortalezas” (2Co 10.4).
Para ilustrar o texto____________
Pescar pessoas
Lição prática: Quer em água salgada ou doce,
o segredo de uma boa pescaria é a isca. Mos-
tre iscas naturais (mortas ou vivas) e iscas
artificiais de vários tipos e explique como
cada uma pode ser usada. A escolha da isca
depende de uma série de variáveis, como o
tipo de peixe que se deseja pescar, a água,
a época do ano e até a hora do dia. Deus
nos chama a participar com ele do privilégio
de levar seu evangelho ao mundo. Pescar
pessoas exige disposição de adaptar-se às
necessidades daqueles com os quais com-
partilhamos as boas-novas. Algumas pessoas
precisam ser confrontadas, algumas respon-
dem melhor a uma abordagem relacionai e
para outras, é mais apropriado usar uma
abordagem intelectual. A fim de sermos efica-
zes na “pesca de almas”, precisamos entender
as necessidades, a cultura e a personalidade
daqueles com os quais estamos interagindo
e nos dispor a adaptar nossa abordagem.
Peça aos participantes que pensem em uma
ou duas pessoas que Deus está lhes pedindo
para “pescar”. Qual é a melhor maneira de
alcançá-las com o evangelho?
Abrir mão de tudo por Jesus
Missões: Jim Elliot tinha apenas 25 anos
quando foi ao Equador levar o evangelho à
M arcos 1.16-2829
Marcos 1.29-45
O ministério e a popularidade de
Jesus continuam crescendo
Ideia central 0 ministério de poder e autoridade de Jesus é universal. Ele ajuda
todos que 0 procuram, e sua popularidade com as multidões cresce de maneira
impressionante. Não deseja, porém, receber os aplausos do povo, mas proclam ar as
verdades do reino a todos.
Considerações interpretativas
1.29 eles foram ¡...¡à casa de Simão e André.
Logo depois do culto na sinagoga em 1.21-28,
Jesus vai à “casa” de Simão e André,
onde provavelmente ele se hospedava em
Cafarnaum (Mt 8.20 afirma que Jesus não
tinha “onde repousar a cabeça” ). Como
pescadores bem-sucedidos, eles haviam se
mudado de Betsaida (perto dali, do outro
lado do Jordão) para Cafarnaum, o centro
da atividade de pesca na região norte do
lago. E possível que sua casa, grande o su-
ficiente para abrigar Jesus e duas famílias
incluindo membros além da família nuclear,
seja a residência em Cafarnaum descoberta
por arqueólogos em 1968. Há quem veja um
contraste intencional entre a sinagoga (1.21-
28) e as reuniões nas casas dos convertidos
no início do movimento cristão (At 2.46),
mas não há como corroborar essa ideia aqui.
1.30 A sogra de Simão estava de cama,
com febre. A esposa de Simão não é men-
cionada nessa passagem, mas 1 Corintios
9.5 dá a entender que ela costumava acom-
panhá-lo (“Cefas”) em suas viagens missio-
nárias. E provável que a febre fosse grave,
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Marcos 1.21-38 descreve um período de
24 horas (desde a manhã do Sabbath até
a manhã de domingo). Tudo o que é apre-
sentado nesse trecho (estendido até 1.45)
descreve o ministério de Jesus para com as
multidões, que ficam maravilhadas a cada
nova demonstração do poder que ele exerce
sobre demônios e enfermidades de toda
espécie (1.23-28; 32-34), especialmente a
lepra (1.41-45). Além disso, a cada novo ato
de poder, a popularidade de Jesus dispara.
A notícia se espalha depois do primeiro
milagre (1.28), “toda a cidade se reuniu à
porta” (1.33). Jesus procura se retirar para
um tempo de oração e descobre que “todos
estão procurando” por ele (1.37). Então,
depois do último milagre de cura, ele não
pode mais entrar nas cidades, pois “gente de
todas as partes” vai procurá-lo (1.45). Essa
popularidade extrema com as multidões
será contrastada com seu oposto absoluto
em 2.1—3.6, isto é, a rejeição crescente e
a oposição dos líderes.
30M arcos 1 .29-45
Principais temas de Marcos 1.29-45
.Jesus precisa de tempo a sós com seu Pai י
• Jesus almeja missões, em vez de popularidade, mas
cuida de todos.
■ Quando Jesus toca nossa vida, é impossível perma-
necermos calados.
abordagem tem dois propósitos: amarrar
Satanás em sua casa (3.27) ao silenciar
os demônios e expulsá-los das pessoas, e
ocultar sua natureza messiânica do povo,
pois não entenderíam que Jesus, em sua
primeira vinda, seria um servo sofredor,
não um rei conquistador.
1.35 saiu para um lugar deserto, onde
orou. Talvez seja o mesmo “lugar ermo” ou
“deserto” (eremos) onde Jesus foi provado
por Satanás (1.12,13), no entanto, também
é um lugar de solitude onde Jesus pode
receber consolo divino em oração com seu
Pai. Há um contraste entre Jesus, que deseja
ficar a sós com Deus, e seus discípulos que,
em 1.36, são atraídos a Jesus. Termina aqui
a descrição feita por Marcos das primeiras
24 horas do ministério de Jesus, e é apro-
priado que ela se encerre com uma oração.
1.36,37 Todos estão te procurando. Os
quatro discípulos de 1.1620־ ainda estão
com Jesus e, como traduz a NRSV, eles
“vão em seu encalço” (katadiõkõ), sem
dúvida porque se veem envolvidos em sua
popularidade. Essa situação se torna, com
efeito, uma nova tentação para Jesus, o ca-
minho do oportunismo e do desejo de fama.
Como David Garland destaca, em Marcos
procurar” sempre tem uma
conotação negativa e
descreve uma busca
Em Cafarnaum, Jesus se hospeda na
casa de Simão e André. A fotografia
mostra as ruínas de uma igreja do quinto
século d.C.que muitos estudiosos
acreditam ter sido construída sobre a
casa de Pedro.
M arcos 1 .2 9 -4 5
pois a sogra de Pedro estava de cama (cf. Lc
4.38: “febre alta”). Acreditava-se de modo
geral que a febre era uma maldição divina
resultante de desobediência (Dt 28.22: “O
S e n h o r o s ferirá com [...] febre e inflama-
ções...” ). Portanto, seu problema talvez
fosse considerado não apenas físico, mas
também espiritual.
1.31 tomou-a pela mão e ajudou-a a
levantar-se. Nos exorcismos, Jesus costuma
dar comandos audíveis, enquanto nas curas
ele toca as pessoas.1 A força de quem rea-
liza a cura é transferida para o enfermo. O
poder de Jesus produz resultados imediatos,
comprovados pelo fato de que a mulher
se levanta no mesmo instante e começa
“a servi-los” . Aquí, “servir” representa o
mesmo verbo grego [diakoneõ) usado para
os anjos que “serviam” Jesus em 1.13, e
se tornará um termo característico para o
discipulado e o ministério.2
1.32,33 trouxe [...! todos os doentes e os
endemoninhados. A notícia se espalhou por
toda a Cafarnaum e arredores, de modo
que, no sábado à noite (o Sabbath termi-
nava ao pôr do sol), as multidões cercavam
a casa de Simão, e havia enfermos por toda
parte. No texto grego, o verbo “trazer” se
encontra no tempo imperfeito e mostra o
povo “trazendo” os enfermos durante boa
parte da tarde e da noite, em urna peregrina-
ção contínua até Jesus, aquele que curava.
1.34 ele não permitia que os demonios
falassem. O poder de Jesus sobre os de-
mónios é absoluto. Ele os expulsa com um
mínimo de palavras (cada uma delas repleta
de poder) e faz com que se calem. Essa
por Jesus com um propósito distorcido.3
Aqui, eles desejam milagres notáveis em
vez das verdades do reino e do chamado
ao arrependimento. Jesus, no entanto, pre-
tende mover-se numa direção diferente. O
problema das multidões no primeiro ca-
pítulo de Marcos é que, embora estejam
maravilhadas e sigam Jesus por toda parte,
não se comprometem com ele. Elas desejam
prodígios, não as verdades do evangelho.
Esse problema persistirá durante todo o
ministério de Jesus e, no final, as multidões
se juntarão aos líderes, pedindo que ele seja
morto (15.11-15).
1.38,39 Vamos para outro lugar /.../
para que eu pregue ali também. A missão
de Jesus é “pregar” o evangelho e chamar
pessoas ao arrependimento (1.15), e não
desfrutar a adulação das multidões. Ele já
proclamou a mensagem do reino em Cafar-
naum e agora deseja levar essas verdades
aos povoados no restante da Galileia. Essa,
e não a registrada em Marcos 6.7-13, é a
primeira jornada missionária de Jesus, e ele
certamente fez várias outras (Lucas fala de
duas 19.1-6; 10.1-17]) no período de dois
a três anos de seu ministério messiânico. A
Galileia era uma província pequena (levava
apenas dois dias para atravessá-la), mas
seriam necessárias pelo menos duas ou três
semanas para visitar seus vários povoados e
cidades. Marcos menciona pela terceira vez
neste capítulo que Jesus expulsou demônios
(1.25,26,34,39), enfatizando o ministério
de poder exercido por Jesus sobre as forças
do mal como prova de que o reino chegou.
1.40 Um homem com lepra se aproximou.
Na Bíblia, o termo “lepra” abrange várias
doenças de pele (veja Lv 13 e 14 fa lepra que
conhecemos, a “hanseníase”, era apenas uma
delas]) que tornavam as pessoas impuras e
as obrigavam a ser banidas de seus lares e
da sociedade. Deviam manter-se afastadas
de outros e gritar “impuro, impuro” quando
alguém se aproximasse (Lv 13.45,46).
O segredo messiânico em Marcos
Em várias ocasiões, Jesus ordena que dem ônios
(1.25,34; 3.12), pessoas curadas (1.44; 5.43; 7.36)
e até mesmo os discípulos (8.30; 9.9) se mantenham
calados a seu respeito. É bem provável que essa
instrução se deva ao fato de os judeus não fazerem
ideia de que 0 Messias seria um servo sofredor; eles
estavam à espera somente de um rei conquistador.
Jesus não desejava que propagassem essa ideia
equivocada, pois criaria problemas de imediato com
as autoridades (judaicas e romanas). Ademais, dese-
java que 0 verdadeiro entendimento surgisse de suas
ações, especialmente do que aconteceria na cruz.
Jesus não queria, de forma alguma, ser designado
como revolucionário que promove uma insurreição;
fica evidente em seu julgamento perante Pilatos que
essa acusação era falsa. Os demônios sabiam que
ele era não apenas 0 M essias, mas também o Filho
de Deus (3.11). Jesus, porém, desejava que naquele
momento isso não fosse declarado. Ele também não
tinha desejo algum de se tornar uma celebridade;
realizava milagres porque tinha compaixão do povo
necessitado, não para provocar admiração e gran-
jear seguidores. Caso ele perm itisse tornar-se "0
profeta popular do momento", seu impacto seria
transitório. Ao mesmo tempo, Marcos deixa claro
que é impossível ocultar seu ministério glorioso. Os
demônios são silenciados (1.24,25; 3.11,12), pois
sabem quem ele é e estão em guerra com ele. Por
vezes, Jesus também ordena aos enfermos curados
que se mantenham calados, mas eles não conse-
guem (1.44,45; 7.35,36). Não se trata realmente
de desobediência, pois é impossível para qualquer
pessoa tocada por Deus deixar de relatar esse fato
a outros.
A expressão “segredo messiânico” se originou com
William Wrede, em um livro publicado em 1901 (cujo
título foi traduzido para 0 inglês como The Messianic
secret [1971]). Nele, segundo Wrede, Marcos criou
esse conceito para explicar por que Jesus nunca agiu
como Messias. E, como ele mostra, os discípulos só
entenderam seus motivos depois da ressurreição. 0
conteúdo dos quatro Evangelhos deixa claro, porém,
que essa imposição posterior de sua identidade
messiânica não podería ter ocorrido. Dentre todos os
aspectos cristológicos dos Evangelhos, a identidade
messiânica de Jesus é a mais evidente.
32M arcos 1 .29 -45
Câmara dos leprosos
Pátio das mulheres
ψ/Μ',■
toque compassivo que traz cura, porém,
provavelmente se refere a uma “advertência
severa”, como indica a N1V. Jesus exigiu
obediência, com uma nuança de forte emo-
ção (“Certifique-se de obedecer!”).
1.44 Olhe, não conte isso a ninguém. A
“forte advertência” de Jesus para não divul-
gar o milagre faz parte do “segredo messiâ-
nico” descrito em 1.34 (veja quadro lateral).
Ele não deseja que o povo se transforme
numa multidão frenética, incitada pela cura
espetacular. Contudo, o homem não conse-
gue permanecer calado. Em última análise,
não se trata, porém, de desobediência. Ele
experimentou a mão de Deus e foi curado. É
impossível ficar em silêncio. Essa é realidade
1.41 Jesus ficou indignado. A maioria
dos manuscritos gregos, bem como várias
versões (NRSV, NIV [1984], ESV, NI.T,
NET), trazem algo como “movido por pena/
compaixão”. No entanto, é mais plausível
que, ao copiar Marcos, escribas posteriores
tenham usado “compaixão” no lugar de “in-
dignação” por ser uma ideia mais condizente
com o contexto. Portanto, é ligeiramente
mais apropriado seguir a variante textual
aqui proposta (veja também REB).4 Por que
Jesus teria se irado? É muito improvável que
tenha se desagradado do fato de o homem
quebrar a tradição ao aproximar-se dele, pois
nunca se preocupou com essas questões em
seu ministério.5 Em Marcos 3.5, Jesus fica
irado com o “coração obstinado” dos lide-
res e, em 10.14, fica indignado porque seus
discípulos rejeitam as crianças. A cura do
leproso é diferente das situações anteriores e,
provavelmente, um caso parecido com João
11.33,38, em que Jesus fica indignado com
o poder do pecado e da morte neste mundo,
mais específicamente, com a angústia física,
emocional e social que a pessoa sofreu.
1.43 uma forte advertência. A “forte
advertência” é expressa pelo verbo grego
cmhrimaomai, que indica emoção intensa
e, com frequência, ira (o termo é usado em
Jo 11.33,38), um significado possível à luz
da indignação em 1.41. No contexto do
Depois de curar o leproso, Jesus o instruiu
a apresentar-se ao sacerdote e passarpelo
com p lexo ritual para se tornar cerimonlalmente
puro. Conform e a descrição em Levítico 13 e 14,
fazia parte desse ritual oferecer um sacrifício,
rapar todo o corpo, lavar o corpo e as roupas
e observar um período de espera, depois do
qual o proced im ento era repetido. No período
do Segundo Templo, parte desse processo era
realizado nas dependências do templo. No canto
superior direito do pátio das mulheres estava
localizada a câmara dos leprosos, onde os que
haviam sido curados iam se lavar no oitavo dia do
processo de purificação e aguardavam a oferta,
realizada pelos sacerdotes, do holocausto e dos
sacrifícios pela culpa e pelos pecados.
rebelião e rejeição, o evangelho não é impo-
tente, e um número considerável de pessoas
responderá e será atraído para o poder de
Deus em seu Filho. Jesus se coloca à dis-
posição das multidões e prioriza o tempo
com elas. Fica evidente aqui a compaixão
de Deus pelos perdidos. Por fim, aqueles
que são tocados por Jesus se unem a ele
para proclamar a graça e a misericórdia de
Deus; não conseguem permanecer calados,
pois sentiram a mão de Deus em Jesus.
Para ensinar o texto____________
1. Jesus precisava de tempo a sós com seu
Pai. Jesus era o homem-Deus, plenamente
divino e plenamente humano. Se alguém
da própria essência de Deus precisava de
tempo de oração e comunhão com seu Pai,
quanto mais nós, crentes finitos, precisamos
desesperadamente de tempo em oração. A
oração é mais que intercessão, mais que uma
atividade na qual pedimos que Deus faça
algo por nós ou por outros. Muitos cristãos
são como crianças que só procuram a mãe
ou o pai quando querem algo. Suas orações
consistem, em grande parte, de apresentar
a Deus uma lista de compras, do que gos-
tariam que Deus lhes desse. Para Jesus (e
deve ser o mesmo para nós), oração era
comunhão, um tempo para estar a sós com
o Pai e desfrutar sua presença e seu amor.
2. Jesus se concentrou em sua missão do
reino e não procurou popularidade entre as
multidões. Jesus nunca procurou multidões
bajuladoras que o considerassem o entre-
tenimento da hora. Ele era completamente
distinto de muitos pregadores famosos de
nossa época que buscam os holofotes. Não
desejava alcançar fama, mas, sim, procla-
mar o evangelho. Desejava conversão mais
que multidões. Ao mesmo tempo, usou sua
popularidade para curar todos que o pro-
curavam, para suprir todas as suas neces-
sidades físicas, bem como espirituais. Sua
compaixão era universal. Os sofrimentos e as
que Marcos deseja destacar. Quando Cristo
transformou sua vida, é preciso anunciar em
público essa alegria incrível.
vá mostrar-se ao sacerdote. Quando
Jesus ordena ao leproso: “Seja purificado!”,
há um duplo sentido, que abrange tanto a
cura física quanto a purificação social/reli-
giosa que permitia ao homem reingressar na
sociedade. A lepra era a única doença que
exigia uma cerimônia ritual testemunhada
pela comunidade antes que a cura pudesse
ser finalizada. Era um ritual complicado
que durava oito dias, incluía a apresenta-
ção de ofertas no templo (Lv 14.1-32) e,
portanto, uma ida a Jerusalém. Consequen-
temente, era realizado como “testemunho”
para o povo de que a pessoa outrora leprosa
podia, de fato, retomar a vida normal. Em
Marcos 6.11 (sacudir a poeira dos pés) e
em 13.9 (responder a acusações de oficiais
hostis) há um tom negativo nesse “teste-
munho”. Aqui, porém, o testemunho não
envolve confrontação; é positivo e obedece
às regulamentações da Torá.
1.45 ficava fora, em lugares solitários.
Isso não significa que Jesus tinha uma vida
“solitária”. Mais uma vez, ele está na região
do “deserto” (cf. 1.3,4,12,13,35), um lugar
não apenas de provação, mas também de
consolo divino e, neste caso, de ministério
no deserto como o de Moisés ou de Elias.
As multidões se aglomeram de tal forma
ao redor de Jesus que ele não pode visitar
cidades, pois não havería espaço para que
a “gente de todas as partes” pudesse vê-lo.
Sua popularidade é tanta que ele precisa mi-
nistrar em espaços abertos. Termina, desse
modo, o primeiro ciclo de seu ministério
às multidões, e o cenário está preparado
para a reação oposta dos líderes.
Considerações teológicas
Aqui, Marcos acompanha a popular¡-
dade crescente de Jesus com as multidões.
Embora o mundo seja caracterizado por
34M arcos 1 .29-45
J
Um leproso se aproxima de Jesus
e pede que seja purificado, e Jesus
o cura. O hom em não consegue
permanecer calado a respeito desse
milagre e conta a boa notícia a todos.
Embora danificada, essa parte de um
grande mosaico de teto bizantino
I do século 14 d.C. mostra o leproso
I fazendo seu ped ido a Jesus.
se recusaram a segui-lo.
Em seu livro Cristia-
nismo puro e simples,
C. S. Lewis argumenta
que, tendo em vista as
asserções que Jesus fez
a respeito de si mesmo, ou ele era um men-
tiroso (“o próprio diabo”; suas declarações
visavam enganar e desencaminhar), ou um
louco (suas asserções eram falsas, mas ele
acreditava nelas) ou Senhor (“esse homem
era, e é, o Filho de Deus” ).6 Se as asserções
de Jesus na Bíblia são verdadeiras, então ele
é Senhor e requer nosso compromisso total.
Suas escolhas de vida refletem a convicção
de que Jesus é Senhor?
Jesus tinha uma profunda vida de oração.
Citação: M artinho Lutero. Uma justifi-
cativa comum que as pessoas apresentam
para não orar com regularidade é a falta
de tempo. A seguinte observação é atri-
buida a Martinho I.utero: “Tenho tanta
coisa para fazer que, se não passasse pelo
menos três horas por dia em oração, ja-
mais seria capaz de terminar tudo”. Pelo
que vemos em Marcos parece que Jesus
demonstra prioridades semelhantes. Depois
de um dia de ministério, ao que tudo indica,
exaustivo, Jesus se levanta cedo na manhã
seguinte para orar. Se a oração era uma
prioridade para Jesus, também deveria ser
para nós. Por meio da oração, voltamos o
foco para a vontade e o propósito de Deus
para nossa vida, o que nos dá clareza para
tomar decisões perspicazes.
enfermidades do povo
tinham prioridade ab-
soluta até mesmo sobre
os rituais e as tradições
de suas raízes judaicas.
Eis a mensagem para a
igreja de hoje: estenda
a mão, com a compai-
xão de Cristo, para as
pessoas em suas carên-
cias espirituais e físicas,
preocupe-se mais com
as pessoas do que com
o “sucesso” e diga às
pessoas o que precisam
ouvir, não é daquilo que desejam ouvir.
3. Quando nossa vida foi tocada por
Jesus, precisamos contar isso a outros.
Como parte de seu desejo de manter sua
natureza messiânica em segredo, Jesus
ordenou que o leproso não contasse a
ninguém o que havia ocorrido. Mas isso
era impossível. Marcos não apresenta o
descumprimento da ordem como um ato
de desobediência; antes, é o resultado natu-
ral da alegria que o homem sentiu quando
Jesus o curou c quando ele pôde voltar
para casa. Não conseguimos permanecer
calados quando estamos empolgados. Fissa
é a base mais apropriada para o trabalho
evangelístico. Fim vez de encher as pessoas
de culpa por não testemunhar acerca de
Cristo, precisamos despertar nelas empol-
gação com o que Cristo (e nossa igreja) está
fazendo na vida delas. Então, o testemunho
fluirá naturalmente em vez de ser forçado.
Para ilustrar o texto____________
Seguir Jesus significa assumir um
compromisso com ele.
Livro: Cristianismo puro e simples, de C. S.
Lewis. Como vemos nos Evangelhos, muitas
pessoas ficaram curiosas a respeito de Jesus
porque ele realizava milagres e ensinava com
autoridade. Infelizmente, porém, muitas
M arcos 1 .29 -4535
Marcos 2.1-12
A autoridade de Jesus para
perdoar e curar pecadores
Ideía central Em contraste com as multidões, os líderes começam a opor-se ao ministério
de Jesus, pois ele desconsidera os requisitos da tradição oral deles. Jesus, no entanto,
não realiza seu ministério para cumprir regras, mas para conduzir pecadores ao perdão.
Sua autoridade para perdoar pecados comprova sua filiação divina.Considerações interpretativas
2.2 Tanta gente se reuniu ali, de forma que
não havia lugar. Depois do ministério na
Galileia (1.38-45), Jesus volta para “casa”
em Cafarnaum (2.1), local que escolheu
como sede (1.21; M t4.13). É provável que
seja a casa de Pedro, onde Jesus se hospeda
quando está em Cafarnaum (veja comen-
tário sobre 1.29). Ao que parece, ele chega
às escondidas, mas sua fama não diminui
depois das curas e expulsões de demônios
(1.33,37,45), uma vez que as multidões
vêm de todas as partes e enchem todos os
cantos da casa e, possivelmente, de seus
arredores também. Assim como em sua
visita à sinagoga (1.21,22), Jesus começa
a “pregar a palavra” do evangelho (1.15)
a elas. A mensagem tem precedência sobre
a ação.
2 . 3 trazendo-lhe um paralítico, car-
regado por quatro deles. O homem se
encontra completamente incapacitado.
“Paralisia” é um termo geral que pode
indicar diversas doenças ou acidentes que
impedem a pessoa de andar. O fato de qua-
tro amigos o carregarem (na maca ou em
Para entender o texto___________
Texto em contexto
A autoridade de Jesus tem continuidade
nessa passagem, mas agora com uma reação
diametralmente oposta: rejeição em vez de
admiração. Começa aqui uma sequência de
cinco episódios ( 2 . 1 2 . 1 8 - 2 2 ;־12; 2.13-17;
2.23-28; 3.1-6) que se concentra nos lide-
res; em cada situação, os adversários de
Jesus fazem comentários depreciativos e
perguntas desafiadoras a respeito de seu
descaso intencional para com a Lei. Jesus
responde com pronunciamentos categóri-
cos e aforismos que ressaltam sua autori-
dade. Fm 1.21-45 a popularidade de Jesus
com as multidões cresceu de forma expo-
nencial; em 2.1—3.6, sua oposição cresce
de modo ainda mais intenso. De acordo
com 1.45, Jesus atraía tantas pessoas que
ele não podia mais entrar publicamente
nas cidades. Fm 3.6, os líderes já tramam
sua morte. Fies não conseguem aceitar o
novo sistema, a nova aliança que ele está
no processo de estabelecer com seu ensino
acerca do reino (2.21,22).
36M arcos 2.1-12
Principais temas de Marcos 2.1-12
■ Como Messias e Filho de Deus, Jesus tem autori-
dade para curar e perdoar pecados.
■ A ligação entre cura física e espiritual significa que
Jesus restaura a criação por intermédio do re ino
de Deus.
2 . 5 Jesus viu sua fé /.../ “Filho, seus pe-
cados estão perdoados". Essa “fé” (veja
também 5.34,36; 9.23,24; 10.52) em Jesus
caracteriza o paralítico e seus amigos. Logo,
é provável que a declaração de Jesus ao
homem inclua todos eles. A “fé” tem um
sentido duplo (embora eles tivessem em
mente apenas o primeiro significado):
primeiro é a crença no poder de Jesus de
curar miraculosamente e, segundo (implí-
cito na declaração de Jesus), é a crença
na capacidade de Deus de conceder cura
espiritual. Em 1.4, João Batista pregava
“um batismo de arrependimento para o
perdão dos pecados”, portanto, a declara-
ção de Jesus dá continuidade a esse tema,
o cerne da mensagem do “evangelho”
(1.15). Ainda assim, sua resposta parece
estranha, já que eles levaram o homem
até Jesus para ser curado. A chave é a
ligação entre pecado e enfermidade no
mundo antigo. A declaração “seus pe-
cados estão perdoados” implica cura
tanto espiritual quanto física. Costu-
ma-se imaginar que “estão perdoados”
é um passivo divino (ou seja, Deus os
perdoou). Nesse contexto, porém, é mais
Os am igos do paralítico fazem uma abertura no terraço da
casa em que Jesus estava ensinando para que o enfermo
possa se aproximar dele e ser curado. O m odo com o a
cobertura típica das casas era construída no antigo Israel
deve ter facilitado esse trabalho. Embora não existam ruínas
arqueológicas de telhados, a cobertura mostrada aqui, do
interior de uma casa de quatro côm odos reconstruída em
Tel Qasile, Israel, mostra a estrutura típica de vigas mestras
sobre as quais eram colocadas varas. É possível que também
fossem usados juncos. Essa camada era revestida com argila
e, por fim. com uma camada de reboco.
uma esteira sobre a qual os pobres dormiam
|cf. Mt 9.21) mostra que eles compartilham
de sua fé no poder de Jesus para curá-lo.
2 . 4 fizeram uma abertura no telhado
acima de Jesus e, por ela, baixaram a
maca. Quando o paralítico e seus amigos
chegam, descobrem que, devido às gran-
des multidões na casa de Simão, não há
como levar o homem até Jesus pelo modo
usual. No entanto, sua solução não é tão
complicada quanto parece em nosso tempo
de telhados inclinados e feitos de várias
camadas. Eles simplesmente dão a volta
pelos fundos, sobem as escadas (o único
acesso ao terraço) carregando o homem e
escavam uma abertura no telhado. As casas
na Galileia eram construções pequenas, de
um cômodo, com telhados planos feitos de
galhos de árvore como base e cobertos com
uma mistura de argila e palha (era comum
receber amigos ou fazer refeições nesse ter-
raço). Não deve ter sido difícil escavar a
argila, remover alguns galhos e baixar o
homem até Jesus.
M a r c o s 2 . 1 - 1 23 7
exemplo, declaravam que uma pessoa es-
tava ritualmente pura. É provável que a
expressão usada pelos escribas, “a não ser
somente Deus” (ei mê heis ho theos, “exceto
um, Deus”) aponte para o Shemá, o cerne
da oração judaica que começa com as pa-
lavras: “Ouça, ó Israel: O S e n h o r , o nosso
Deus, é o único” (Dt 6.4). Para os judeus,
blasfêmia era pronunciar o nome divino
de modo sacrílego (m. Sanh. 7.5). Não
é exatamente isso que Jesus faz, mas ele
expressa, de fato, algo que só Deus tem o
direito de afirmar, o que constitui blasfêmia
no sentido mais amplo.1־ Mais adiante, essa
acusação leva a sua condenação diante do
Sinédrio (14.63,64).
2.8 Jesus sabia em seu espírito que era
isso que estavam pensando em seu coração.
Há ocasiões em que Jesus é usa a onisciência
para saber o que as pessoas estão pensando
ou quem elas são (5.30; 12.15b; 14.18;
Jo 1.42,47; 4.17,18). O conhecimento que
Deus tem do coração e da mente das pessoas
é observado em ISamuel 16.7; !Crônicas
28.9; Jeremias 17.9,10.
2.9 O que é mais fácil dizer ao paralí-
tico: “Seus pecados estão perdoados ” ou:
“pegue sua maca e ande ”? Jesus usa um ar-
gumento a fortiori (argumento judaico qal
wahomer, “do menor para o maior” ). Na
esfera religiosa, é necessário ter muito mais
autoridade para perdoar pecados (um de-
ereto eterno) que para curar alguém (um ato
terreno e temporário). No entanto, Jesus
fala do ponto de vista humano, em que é
mais difícil curar que perdoar. Ademais,
Jesus se concentra naquilo que é mais fácil
dizer do que fazer, e é possível demonstrar
perdão muito mais facilmente que realizar
uma cura.
2.10 saibam que o Filho do Homem tem
na terra autoridade para perdoar pecados.
“Para que saibam” talvez seja uma expres-
são emprestada do confronto entre Moisés,
como representante de Deus, e o faraó
Filho do homem
Esse é 0 título mais frequente para Jesus em Marcos
(é usado catorze vezes) e é o termo comum mais
usado pelo Mestre para referir-se si mesmo (83 vezes
nos Evangelhos), provavelmente por causa de sua am-
biguidade e por estar livre de associações políticas
(diferente de “Messias״ e “Filho de Davi”). Essa expres-
são podería se referir a um humano mortal, como em
Ezequiel, em que ocorre 93 vezes (veja também SI 8.4:
“simples mortais [...] seres humanos [ben-’acfam]”),
assim como podería se basear em Daniel 7.13,14 e
ter uma associação quase divina, com conotações de
majestade e domínio universal (em lE n 46— 53 está
conectado ao Messias). Jesus usa 0 título com os dois
significados, de modo que apresenta tanto o aspecto
divino quanto o humano. Em Marcos, o Filho do Homem
perdoa pecados (2.10) e é Senhor do Sabbath (2.28).
Ele é traído (14.21,41), crucificado e ressuscitado ao
terceiro dia (8.31:9.9,12,31; 10.34) e vem nas nuvens
para reunir os eleitos e sentar-se à direita de Deus
(13.26,27; 14.62) como juiz escatológico (8.38). Em
tudo isso, ele vem para servir e dar sua vida comoresgate (10.45).
apropriado considerar essas palavras um
“pronunciamento de efetivação”, no qual
o próprio Jesus proclama o perdão.1 Sem
dúvida, é desse modo que os escribas en-
tendem o pronunciamento no versículo se-
guinte. A salvação na nova aliança descrita
em Jeremias 31.34, enfim, chegou: "... lhes
perdoarei a maldade e não me lembrarei
mais dos seus pecados”.
2.7 Ele está blasfemando! Quem pode
perdoar pecados, a não ser somente Deus?
Os “mestres da lei” (veja comentário sobre
1.22) ficam escandalizados com a autori-
dade por trás da proclamação de Jesus.
Marcos os descreve “pensando consigo
mesmos”, em deliberação mental a respeito
da questão. A “blasfêmia” (ou “calúnia”)
não significa que Jesus afirma ser Deus,
mas que age de forma que somente Deus
podería agir (veja Ex 34.7; 2Sm 12.13;
Is 6.7; 43.25). Apenas os sacerdotes, por
38M arcos 2.1-12
seus membros voltaram à vida. Marcos
enfatiza a natureza pública do milagre.
A presença e o poder de Deus em Jesus
ficam evidentes para todos os presentes.
Portanto, a cura física é uma demonstração
ativa de sua autoridade espiritual para per-
doar pecados. Ao contrário do que ocorre
em 1.44, Jesus não proíbe o homem de
compartilhar sua experiência com pessoa
alguma; esse milagre é realizado a fim de
que todos o vejam.
Nunca vimos nada igual! Mais uma vez
(veja 1.22,27) todos ficam “admirados” e
“louvam a Deus” (ou “dão glória a Deus”).
É difícil saber ao certo se “todos” inclui
os escribas hostis de 2.6,7. A princípio,
parece que sim, mas no restante da pas-
sagem (2.13—3.6) os líderes continuam
a opor-se a Jesus e, em 3.22, os escribas
o acusam de estar possesso por Belzebu.
Parece mais apropriado considerar que
o pronome “todos”, empregado no con-
texto do versículo 12, se refere a “todas
(Êx 7.17; 8.10,12; 10.2), especialmente
Exodo 9.14, em que o faraó deve saber que
"... em toda a terra não há ninguém como
eu |o Sf.n h o r |” .3 O s mestres da lei, assim
como o faraó, estão em guerra com Deus
e em breve saberão quem ele (e seu Filho)
é de fato, em essência. “Autoridade para
perdoar” não significa somente o direito de
declarar que uma pessoa foi perdoada, pois
os sacerdotes podiam declarar perdão para
aqueles que haviam realizado os sacrifícios;
antes, denota que Jesus tinha a autoridade
de Deus para perdoar.
2.12 Ele se levantou /.../ e saiu à vista de
todos. Em grego, a expressão “se levantou”
é equivalente a “foi ressuscitado”; ou seja,
Quando Jesus retorna a Cafarnaum, uma multidão
(que Inclui líderes religiosos) se reúne para ouvi-lo
pregar. O local é a casa de Pedro, provavelmente
uma insula. Nesse tipo de planta arquitetônica, uma
porta da rua leva diretamente a um pátio interno ao
redor do qual ficam dispostos os cômodos menores.
Esses côm odos têm portas e janelas que se abrem
para o pátio.Talvez as pessoas que foram ouvir
Jesus tenham enchido os côm odos e também o
\ pátio. A atual Igreja da Casa de São Pedro protege as
¡ escavações arqueológicas que revelaram as ruínas
do primeiro século d.C. de uma insula. Podemos
visualizar aqui, o local (insula adjacente preservada ן
ao norte das instalações da igreja moderna) onde as
I multidões ficaram admiradas.
o batismo de Jesus inaugura a nova era do
Espírito, e a vinda do Filho do Homem é o
ingresso do reino definitivo de Deus neste
mundo, constituindo uma nova criação.
Aqui, Marcos mostra as implicações desse
fato, pois a realidade do reino significa que
cura física e espiritual estão disponíveis
para aqueles que se abrem para Jesus. A
chegada da salvação concedida por Deus
significa não apenas a reconciliação de
pessoas com Deus, mas também a res-
tauração da criação caída. Em !Marcos e
Mateus, essa realidade é associada à “fé”
(Mc 2.5; 5.34,36; 10.52; Mt 9.2,22,29;
15.28), pois a fé retrata a participação dos
beneficiados no processo de cura, e é ligada
à experiência de cura não apenas física,
mas também espiritual. Jesus promove a
cura da pessoa como um todo, dos aspectos
físicos, bem como dos espirituais, da hu-
manidade caída.
Para ilustrar o texto_____________
A autoridade de Jesus para curar
Comparação: O guia de estudo da diretoria
do exército dos EUA tem uma seção com
o título “Autoridade”. Define autoridade
como “o direito de ordenar aos soldados
que realizem certas ações. A autoridade é o
poder legítimo concedido aos líderes para
dirigir soldados ou de tomar providências
dentro do âmbito de seu cargo” .4 No exér-
cito, autoridade significa simplesmente que
o comandante pode dar ordens cujo cum-
primento é obrigatório para aqueles que
estão debaixo de seu comando. De modo se-
melhante, Jesus tem autoridade sobre toda
a criação. Quando ele ordenava aos demô-
nios que deixassem o corpo de uma pessoa,
eles tinham de obedecer-lhe. Quando Jesus
ordenava a um corpo que fosse curado, este
também tinha de obedecer-lhe.
as multidões” e contrasta com os líderes
hostis. De qualquer modo, o relato termina
em tom de perplexidade tanto diante dos
milagres quanto da autoridade de Jesus
para perdoar pecados. Nenhum dos pre-
sentes ali jamais havia visto um ato tão
glorioso de poder. Jesus, de fato, é único.
Considerações teológicas
Depois de retratar o êxito do ministério
inicial de Jesus com as multidões, Marcos
agora se volta para a rejeição e a oposição
dos líderes de Israel. As trevas sempre odia-
rão a luz (Jo .3.19,20), e os cristãos nunca
devem se surpreender com a oposição a seu
ministério. Ao mesmo tempo, o poder de
Deus operando em Jesus era tão visível que
até mesmo seus adversários se maravilha-
ram. A misericórdia e o perdão divinos são
evidentes e não há como ignorá-los. Nosso
Deus é um Deus que cura, e a autoridade
de Jesus sobre as enfermidades físicas e es-
pirituais também é visível na igreja.
Para ensinar o texto____________
1. Jesus tem autoridade para curar e para
perdoar pecados. Em todos os relatos de
milagres desse Evangelho, Marcos mostra
a autoridade de Jesus sobre enfermidades
humanas, forças da natureza e poderes
cósmicos. O ponto culminante dessa auto-
ridade é a declaração categórica de que
Jesus é o Filho do Homem, investido de
“autoridade para perdoar pecados”, pois
o poder supremo pertence àquele que pode
oferecer salvação à humanidade. Jesus tem
o poder de conceder cura física e espiritual,
e o título tradicional e consagrado de Jesus
como “Médico dos médicos” é retratado
de modo magnífico nesse relato.
2. Há uma ligação entre cura física e
espiritual. Em Marcos 1, observamos que
40M arcos 2.1-12
tes a seguinte pergunta vital: “Você recebeu
o perdão de Deus que vem por meio da fé
em Jesus Cristo?”.
A compaixão e o poder daquele que cura
Situação hipotética: Imagine que você e um
amigo decidem fazer uma trilha. Uma vez
que vocês pretendem caminhar só algumas
horas, levam apenas algumas garrafas de
água, barrinhas de cereal e um telefone
celular. A paisagem e as condições clima-
ticas são tão agradáveis que vocês perdem
a noção do tempo e, quando se dão conta,
o sol está começando a se pôr. Momentos
depois, acontece um desastre. Seu amigo cai
por uma ribanceira e quebra a perna. Vocês
estão longe do carro, quase sem água, e não
há sinal em seu celular. O que você faria?
É provável que você faria todo o possível
para ajudar e salvar seu amigo. Os amigos
do paralítico fizeram todo o possível para
levá-lo até Jesus, chegando a cavar um
buraco no terraço da casa para baixar o
paralítico diante de Jesus. Eles criam que
Jesus podería curá-lo. Se cremos, de fato,
que Jesus é compassivo e tem poder para
curar (física e espiritualmente), o que nos
impede de levar outros até ele por meio
da oração, da amizade e ao compartilhar
o evangelho?
E assim como um soldado realiza o pro-
pósito definido para ele por seu coman-
dante, Jesus, em seu ministério de cura,
estava realizando o propósito de seu Pai
celeste. O desejo presente em Jesus de curar
refletia o coração compassivode Deus. Em
João 14.11-14 c Mateus 28.18-20 pode-se
ver que Jesus concede autoridade a seus
seguidores para dar continuidade a seu
ministério no mundo.
0 poder transformador do perdão
Experiência cotidiana: Quando Jesus curou
o paralítico e declarou: “Filho, os seus pe-
cados estão perdoados”, mostrou a ligação
entre a doença (necessidade percebida) e a
enfermidade mais profunda (culpa e vergo-
nha que requerem perdão). Se Jesus tivesse
curado o corpo sem tratar da questão es-
piritual subjacente do perdão, o paralítico
ainda teria necessidade de cura. Imagine
que você tem uma filha que está com febre
alta. Quando ela se queixa de calafrios,
você a cobre até que se sinta aquecida. Se
você ignorar a causa da febre terá, de fato,
ajudado sua filha? Jesus entendia que a
necessidade mais profunda do homem era
espiritual e atendeu tanto à necessidade
física quanto à espiritual. Faça a seus ouvin-
Marcos 2.13-17
Jesus chama e
aceita os excluídos
Ideia central 0 propósito de Jesus é conduzir os pecadores ao perdão (2 .1-12 ) e isso inclui
cham ar um coletor de impostos para se tornar parte do grupo dos apóstolos. Levi usa
essa ocasião para convidar outros excluídos da sociedade para conhecer Jesus, 0 que
suscita a oposição dos líderes religiosos.
líderes. Formam-se opostos diametrais, pois
as multidões procuram Jesus enquanto os
líderes começam a opor-se a ele cada vez
mais. Esse contraste chega a seu ápice em
3.6, ponto em que os poderosos de Israel
começam a tramar a morte de Jesus. As
multidões só se voltam contra Jesus durante
o julgamento em 15.1-15.
2 . 1 4 viu Levi, filho de Alfeu. Essa cena
é composta por duas partes: a primeira
(2.13,14) volta ao tema de 1.16-20, em
que Jesus começa a formar seu grupo de
discípulos; a segunda mostra Jesus respon-
dendo às críticas de seus adversários num
debate (2.15-17). Cafarnaum fica na extre-
midade noroeste do lago, de modo que é
natural Jesus ensinar à beira da água. Sua
popularidade continua alta (uma “grande
multidão” está reunida ali) e, no meio do
povo, Jesus vê Levi, um coletor de impostos.
Há certa controvérsia acerca da identidade
de Levi. Somente Marcos informa que ele
era “filho de Alfeu” e, na lista dos Doze,
há um discípulo chamado “Tiago, filho de
Alfeu” (3.18). Ademais, no mesmo relato
em Mateus 9.9, esse indivíduo é chamado
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Essa passagem trata de perdão (2.1-12),
que conduz ao discipulado (2.13-17), em
contraste com a intransigência dos líderes
religiosos. Há uma inversão, pois aqueles
que se consideram sãos na verdade estão
doentes, e aqueles que sabem que estão
doentes encontram saúde.
Considerações interpretativas
2 . 1 3 Jesus saiu outra vez para a beira do
lago. O faro de esse episódio ocorrer à
“beira do lago” liga o relato à primeira
cena de discipulado no lago Genesaré (“mar
da Galileia”), em 1.16. O chamado para
seguir tem continuidade à medida que Jesus
escolhe aqueles que virão a ser os Doze
(3.13-19).
Uma grande multidão foi até ele. O tema
da grande popularidade de Jesus com as
multidões (descrito em 1.33,37,45; 2.1)
prossegue e fornece um contraponto nítido
para a crescente rejeição por parte dos
42Marcos 2.13-17
Principais temas de Marcos 2.13-17
• Cada pessoa precisa escolher entre fé/salvação e
oposição/rejeição. ·
■ A salvação é para todos, e Jesus dá prioridade aos
pecadores e excluídos da sociedade.
■ Jesus vê 0 potencial em cada pessoa e pode chamar
qualquer um para servi-lo.
No entanto, c típico de Jesus (e de Deus)
tornar os fracos fortes e aceitar os excluídos.
Nenhum dos discípulos era um candidato
digno (Tiago e João eram “filhos do tro-
vão”; talvez por seu comportamento, por
vezes, impaciente. Veja comentário sobre
3.16, adiante), mas como Paulo afirmou:
"... me orgulharei das coisas que mostram
minha fraqueza” (2C0 11.30), pois o
poder de Deus “... se aperfeiçoa
na fraqueza...” (2C0 12.9).
2.15 muitos coletores
e pecadores estavam
com endo com ele.
Levi ofereceu um
banquete (provável-
mente não se trata
de um precursor do
“ banquete messiâ-
nico” de Ap 19.6-10,
como alguns propõem)
em sua casa (Lc 5.29)
para apresentar Jesus a
seus amigos. Na Pales-
tina do primeiro século,
era comum os participan-
tes se reclinarem em lei-
tos ao redor de uma mesa
pequena sobre a qual era
colocada a comida, como
faziam os romanos. É possível que Jesus
também seja considerado, implicitamente,
o anfitrião, pois “comiam com ele [Jesus|”.
Nessa prática da “comunhão à mesa”, a
pessoa identificava seus amigos e indicava
“Mateus” e, na lista dos Doze, ele é “Ma-
teus, o coletor de impostos” (Mt 10.3; cf.
Mc 3.18; Lc 6.15). De acordo com a tradi-
ção, esse mesmo indivíduo tinha dois nomes
hebraicos (“Mateus” e “I.evi”), semelhante
a “Paulo/Saulo”, “Simão/Pedro” e “João/
Marcos” . Há quem discorde e proponha
que se trata de outro discípulo, não um
dos Doze, ou que ele é um dos “muitos”
que seguem Jesus em 2.15.' O Evangelho
de Mateus, porém, identifica Mateus com
o Levi mencionado em Marcos, e é mais
apropriado considerá-los a mesma pessoa,
talvez um irmão do Tiago mencionado
em 3.18.
sentado na coletoria. Levi havia con-
corrido ao cargo de coletor e recebido um
lugar na aduana nos arredores de Ca-
farnaum (talvez na Via Maris,
a principal rota comercial
que passava pela cidade).
Ele arrecadava impos-
tos indiretos sobre
produtos de comer-
cialização, tarifas
aduaneiras e outros
encargos para He-
rodes Antipas (não
o imposto direto ou
imperial mencionado
em 12.14). Os coletores
eram desprezados porque
trabalhavam para os ro-
manos e tinham permissão
de cobrar quaisquer so-
bretaxas que desejassem,
geralm ente uma soma
exorbitante e desonesta.
De acordo com a tradição
judaica, a mera presença
de um coletor de impostos em uma casa
a tornava “impura”. Graças à cobiça dos
coletores de impostos e sua cumplicidade
com os inimigos dos judeus, Levi parecería
uma péssima escolha para ser um discípulo.
É provável que Levi fosse coletor
de Impostos de Herodes Antipas,
que governava para Roma
as províncias da Galileia e de
Pereia. Essa é uma das moedas
I autorizadas por ele, cunhada em
! Tiberíades em 29 d.C.
I______________ __________
M arcos 2.13-1743
seguir suas estipulações) e eram bastante
influentes no primeiro século. A fim de
não se contaminar, evitavam todo contato,
principalmente fazer refeições com esses
“pecadores” .
2.17 Os sãos não precisam de médico,
mas sim os doentes. Eu não vim para
chamar os justos, mas os pecadores. Essa
declaração também define o perdão do pa-
ralítico (2.5,10) e mostra que a salvação
é um tema importante nessa passagem. A
primeira metade do pronunciamento de
Jesus era um provérbio comum e declarava
que os médicos existem para aqueles que
precisam deles, ou seja, os doentes. Jesus
aplica essa máxima à esfera da cura espiri-
tual: (aqueles que sabem que são) pecadores
e não (aqueles que se consideram) justos.
O “chamado” é para a salvação oferecida
por Deus e para o discipulado. Os que se
consideram justos não estão abertos para
a realidade do reino, de modo que Jesus
dedica tempo àqueles que estão abertos e
aceitarão sua presença curadora. Como
João Batista (1.4), Jesus veio pregar arre-
pendimento (1.15) e perdão (2.5,10; cf.
1.38), e ele vai onde as pessoas estão abertas
para o evangelho.
Considerações teológicas
Não há lugar para o preconceito humano
no reino de Deus, e Jesus prova isso ao
concentrar-se nos excluídos da sociedade
e ao demonstrar aceitação divina a todos
os que se achegam a ele pela fé. O único
critério para a salvação é a fé, e ela só é
possível quando aqueles que se consideram
justos se humilham diante de Deus e abrem
o coração para Jesus. Não há lugar para
um ministério que favorece um segmento
específico da sociedade em detrimento de
outro, e não há outro caminho que conduza
a Deus a não ser pela fé.
o segmentoda sociedade que aceitava ao
fazer refeições com os membros desse
segmento.2 Jesus, então, se alinha a pe-
cadores desprezados. “Pecadores” pode
ser uma referência geral a pessoas comuns
(‘am-ha'arets, “povo da terra”), que não
seguiam as tradições orais com o mesmo
zelo que os fariseus; é mais provável,
porém, que se refira a “pecadores” notó-
rios, gente de má fama na sociedade, como
contraventores, prostitutas, jogadores, ou
mesmo gentios. A comunhão à mesa com
pessoas rejeitadas pelo restante da socie-
dade é uma das características distintivas
de Jesus (Lc 7.31-35; 10.38-42; 11.37-54;
14.1-24; 19.1-10).
2.16 os mestres da lei, que eram fari-
seus. Os mestres farisaicos da lei (a maioria
dos escribas era do partido dos fariseus
[veja comentário sobre 7.1]) ficam extre-
mamente ofendidos com o fato de Jesus
comer com esses excluídos (na época, esse
gesto representava a aceitação dessas pes-
soas na sociedade). Para eles, tudo estava
errado com essa refeição: o alimento não
havia sido devidamente preparado (não
era kosher, conforme a designação atual),
o ambiente não seguia o protocolo (Jesus
tendo comunhão à mesa com pessoas ina-
ceitáveis) e o local e os participantes eram
impuros e imundos. Jesus não atentava
para essas questões rituais quando con-
flitavam com seu ministério do reino aos
“doentes”. Essa é a primeira menção aos
fariseus em Marcos. Eles se originaram
dos Hassidim (“piedosos”) do período dos
Macabeus e eram judeus extremamente
ortodoxos que desenvolveram a tradição
oral e se tornaram os intérpretes oficiais
da Torá em seus dias. Preocupados espe-
cialmente com a observância rígida das
leis de pureza, da observância do Sahhath
e de prescrições rituais em geral, eles ten-
taram “construir uma cerca ao redor da
lei” (para ajudar as pessoas comuns a
seus amigos escolheram o caminho da fé
e experimentaram o perdão e um corpo
são, ao passo que os escribas escolheram o
caminho da rejeição e deixaram de receber
a salvação em Jesus. Deus espera o tipo
de fé ousada demonstrada pelo primeiro
grupo, e os resultados excedem em muito
o preço a ser pago. É preciso alertar as
pessoas acerca do risco de perder a bênção
e a presença de Deus em decorrência de
um falso posicionamento religioso, que as
afasta de Jesus.
3. Deus vê não apenas o pecado, mas
também o potencial para o bem em cada
um de nós. Era impensável que Jesus esco-
lhesse um discípulo dentre os cobradores de
impostos uma vez que eles estavam entre
os pecadores mais notórios da época. Essa
situação se repetiu inúmeras vezes na histó-
ria da igreja, à medida que grandes líderes
escolhidos por Deus foram convertidos de
uma vida de depravação (p. ex., Agostinho,
Billy Sunday). Precisamos entender que
cada um de nós foi criado à imagem de
Deus e, portanto, que ele colocou dentro
de nós sementes de grandeza que podem
produzir uma colheita de resultados ex-
traordinários se simplesmente nos render-
mos inteiramente a Cristo e permitirmos
que seu Espírito guie nossa vida.
Para ilustrar o texto_____________
0 poder fortalecedor de uma fé ousada.
Bíblia: Um dos temas constantes da Bíblia
é a bênção decorrente de atos de fé. Vemos
essa realidade em Marcos 2, no relato sobre
o paralítico, mas também ao longo de todo
texto bíblico. Abraão, por exemplo, só re-
cebeu a bênção de se tornar pai de uma
grande nação depois que deixou seu lar e
seguiu a Deus. Moisés só viu o poder de
Deus sobre o faraó depois que, em obediên-
cia a Deus, enfrentou o faraó em nome do
Para ensinar o texto____________
I . A salvação é para todos, e Deus tem
um lugar especial em seu coração para
os rejeitados pela sociedade. Deus não
favorece a elite deste mundo. Cristo veio
para todos, não apenas para os ricos e
poderosos. Isso fica evidente na escolha
dos Doze por Jesus: nenhum deles perten-
cia às classes mais altas, e vários (como
Lev!) eram particularmente desprezados
por seus com patriotas judeus. Jesus se
associou a pecadores, fez refeições com
eles (em sinal de aceitação plena) e se re-
cusou a observar os limites que os líderes
judeus impunham para separar-se dos
indivíduos de má fama. Se Jesus estivesse
aqui hoje, seu ministério seria voltado para
os moradores de bairros pobres, para os
necessitados e marginalizados. O ensino
sobre o chamado de Levi precisa incluir
a priorização da benevolência em nossas
igrejas, e os líderes da igreja (presbíteros,
diáconos, administradores) precisam aco-
lher todas as classes sociais, não somente
os abastados. Em Tiago 1.9,10 esse fato é
bem expresso: o pobre deve “orgulhar-se
de sua condição elevada” no Senhor, e o
rico “deve orgulhar-se de sua condição
humilde” no Senhor.
2. É preciso escolher entre fé/salvação e
oposição/rejeição. Essa passagem não en-
sina que problemas de saúde e doenças são
resultado de pecado. O livro dejó comprova
esse fato. Por vezes, o sofrimento pode ser
consequência de pecado, pois a morte (e a
enfermidade) entraram no mundo por meio
do pecado (Rm 5.12). Com frequência,
porém (talvez vez na maior parte das
vezes), há questões mais amplas em jogo.
De acordo com Tiago 1.2-4 e lPedro 1.6,7,
o propósito das provações é aumentar nossa
fé e nos ensinar perseverança. Essa é a ques-
tão central aqui. Cada pessoa deve escolher
entre a fé e o próprio ego. O paralítico e
Marcos 2.13-1745
nossos erros, nossos pecados e reconhecer
que precisamos de Jesus. Precisamos ter
cuidado com o orgulho que nos cega para
nossa própria enfermidade e para a neces-
sidade de um Salvador.
A importância de um ministério a o s
excluídos.
Relato verídico: Certo pastor relata que,
numa manhã de domingo, o tema de seu
sermão foi “O amor e a graça de Deus
para todos”. Naquele dia, estava presente
um casal que parecia morar na rua. Eles
estavam sentados logo à frente de um casal
idoso que sempre vestia suas melhores rou-
pas para ir à igreja. Na parte do culto em
que os presentes se cumprimentam, esse
casal idoso não apenas deu boas-vindas
ao casal jovem, mas também o apresen-
tou a outras pessoas. O afeto e a bondade
da igreja para com os visitantes se esten-
deram para além do culto. Antes de irem
embora, o casal disse ao pastor: “Visitamos
algumas igrejas nas últimas semanas, mas
esta é primeira vez que nos sentimos aco-
Ihidos. Vamos voltar!” . Nesse domingo, a
igreja havia não apenas pregado a graça
de Deus aos excluídos; ela viveu a mensa-
gem. O pastor não viu o casal no domingo
seguinte, mas recebeu um telefonema da
mãe da moça, pedindo que ele visitasse a
filha dela no hospital. Alguns dias depois
daquele culto, a moça foi internada e, dez
dias depois, ela faleceu. Nos últimos dias de
sua vida, ela experimentou a graça de Deus
por meio de uma igreja carinhosa e ouviu a
mensagem da graça. Desafie seus ouvintes
a serem uma igreja que acolhe os que são
diferentes, que estão em dificuldades e os
que são excluídos. É surpreendente o que
Deus pode fazer quando oferecemos sua
graça a outros.
povo escolhido. Os israelitas só vivencia-
ram o milagre da separação das águas do
rio Jordão depois que colocaram o pé no
rio para atravessá-lo. Imagine como essas
experiências fortaleceram a fé do povo.
De modo semelhante, só vemos o poder
de Deus e experimentamos sua graça cura-
dora quando escolhemos dar um passo de
fé. Deus já estendeu a mão para nós. A fé
consiste em segurar sua mão de Deus e
andar com ele em obediência. Pergunte a
seus ouvintes: “Que passo de fé Deus está
chamando você a dar?” .
0 poder destrutivo do orgulho.
Televisão: The Office. Em um episódio da
terceira temporada dessa séria conhecida,
Michael Scott (protagonizado por Steve
Carell) é entrevistado para um emprego
na sede da empresa Dunder Mifflin, na ci-
dade de Nova York. A entrevista retrata, de
modo bem-humorado, o orgulho humano.
Entrevistador: “Vou começar com uma
pergunta direta. A seu ver, quais são suas
maiores virtudes como gerente?
Michael: “Que tal eu lhedizer quais são
meus maiores defeitos? Eu trabalho demais.
Eu me preocupo demais. E, às vezes, eu
me envolvo demais com meus projetos na
empresa”.
Entrevistador: “Certo. E quais são suas
virtudes?” .
Michael: “Bem, na verdade, meus de-
feitos são minhas virtudes” .
Não é preciso dizer que Michael não
foi contratado para o cargo. Infelizmente,
muitos de nós somos como Michael Scott (e
como os fariseus em Marcos 2). Não esta-
mos dispostos a enxergar nossas fraquezas,
46Marcos 2.13-17
Enquanto Jesus cam inha à beira do mar da Galileia,
ensinando as multidões e reunindo seguidores,
encontra Levi, um desprezado cobrador de
impostos e, mais tarde, faz uma refeição na
casa dele. A fotografia mostra a região perto de
Cafarnaum vista do mar da Galileia.
M arcos 2.18— 3.6
Jesus: Senhor e
"pior transgressor״ da Lei
Ideia central Em Jesus teve início a nova era, e essa nova realidade não pode ser
inserida no antigo sistem a. Jesus, 0 Filho do Homem, tem autoridade sobre a Torá e
é Senhor do Sabbath.
jejum era obrigatório somente no Dia da
Expiação (Lv 16.29-34 [a maioria dos es-
tudiosos concorda que Jesus e seus discípu-
los provavelmente observavam esse jejum,
mas não os semanais]), mas havia outros
períodos de jejum, associados a experièn-
cias traumáticas da vida de Israel (Zc 7.5;
8.19, ambos ligados ao Exílio). Os fariseus
jejuavamduas vezes por semana (Lc 18.12),
às segundas e às quintas-feiras, e é provável
que os discípulos de João seguissem essa
prática. Em geral, os jejuns representavam
arrependimento dos pecados ou tristeza por
morte ou enfermidade.
2.19 Como podem os convidados do
noivo jejuar enquanto este está com eles?
Essas pessoas (lit., “filhos do salão de casa-
mento”) talvez fossem os padrinhos ou con-
vidados do noivo. É mais provável, contudo,
que Jesus se refira de maneira mais ampla
a todos os convidados que compareceram
à festa (seus seguidores). A pergunta é for-
mulada para obter uma resposta negativa:
“Os convidados não podem jejuar, não é?”.
A analogia de Jesus é bastante apropriada.
O jejum expressa luto e tristeza, enquanto a
festa de casamento é uma ocasião de alegria
intensa. As festas de casamento duravam
sete dias e havia fartura de boa comida e
Para entender o texto___________
Texto em contexto
A oposição a Jesus se intensifica a cada
episódio dessa seção. O terceiro dos cinco
relatos narrados em 2.1—3.6 (a cura física
c espiritual do paralítico de Cafarnaum; o
chamado de Levi e o jantar com os peca-
dores; a pergunta sobre o jejum; o senhorio
do sábado e a cura no sábado) apresenta
a razão do conflito: em Jesus, teve início
a nova era, na qual é necessário que ele
desafie as antigas tradições. Aqueles que
se apegam às coisas antigas (simbolizadas
pela questão do jejum) foram suplantados,
e a nova realidade do reino não pode ser
incluída no antigo sistema. Essa realidade
então, leva aos dois últimos episódios, isto
é, as controvérsias acerca da observância
do Sahhath (os dois primeiros |2.1-12;
2.13-17] tratam de perdão dos pecados e
de aceitação na nova comunidade).
Considerações interpretativas
2 . 8 ו os discípulos de João e os discípulos
dos fariseus estavam jejuando. Esses dois
grupos representam a antiga ordem, que
ainda observa as práticas tradicionais. O
48M arcos 2 .18— 3.6
Principais temas de Marcos 2.18— 3.6
■ 0 jejum faz parte das disciplinas espirituais saneio-
nadas por Cristo para a era da igreja.
■ O vinho novo do ensino do reino requer uma nova
comunidade e um novo ritual.
• Para Jesus, o Sabbath visa o descanso, cura e ado-
ração, e não regras e prescrições.
■ Jesus é Senhor absoluto de todas as coisas.
flexíveis, mas, com o tempo, se tornavam
ressecados e quebradiços. Vinho novo é
vinho não fermentado e, uma vez que o
vinho se expande à medida que fermenta,
produz Tachaduras no couro velho e vaza,
de modo que o recipiente se torna inútil.
Ambos se perdem. O vinho novo do ensino
do reino apresentado por Jesus precisa
ser acondicionado na realidade da nova
aliança, da nova comunidade e das novas
práticas que ele mesmo está instituindo.
2.24 o que é ilícito no Sabbath. De acordo
com o quarto dos Dez Mandamentos
(Êx 20.8-11; cf. I.v 23.3), o Sabbath (do pôr
do sol de sexta-feira até o pôr do sol de sá-
bado) devia ser um dia de descanso no qual
não se realizava trabalho de espécie alguma.
No entanto, a questão do que constituía tra-
balho era problemática para os fariseus, de
modo que desenvolveram a Torá oral para
fornecer exemplos específicos do que
era proibido; colher espigas de
grãos no Sabbath era um dos
casos.4 Aqui, os discípulos de
Jesus atravessam um campo
e colhem algumas espigas
de trigo para comer
enquanto caminham
vinho.1 Assim como Yahweh é o noivo de
Israel, Jesus é o noivo da nova comunidade
do reino, ou seja, a igreja.2
2.20 naquele dia jejuarão. As duas me-
táforas que se concentram no tempo em
que o noivo “está com eles” e em que ele
“será tirado deles” se referem inequivo-
camente ao período de Jesus na terra e a
sua crucificação, ressurreição e ascensão.
Os seguidores de Jesus vivenciam a alegria
do reino que ele trouxe consigo, portanto
é tempo de celebração. É possível que “ser
tirado” tenha sentido duplo: ser tirado deste
mundo pela morte e ser levado para a glória
por Deus. O primeiro sentido, porém, é o
principal, pois, certamente, Jesus se refere
a sua morte vindoura por meios violentos
(“naquele d ia” = em sua crucificação).
Posteriormente, a igreja interpretou esse
versículo de forma literal e passou a jejuar
às quartas e às sextas-feiras.
2.21 um remendo de pano novo em
roupa velha. As duas parábolas de 2.21,22
usam imagens diferentes para dizer a
mesma coisa: colocar algo novo em algo
velho. A mensagem é a incompatibilidade
entre a nova e a antiga aliança. A roupa
velha já encolheu c não mudará mais de
tamanho. O retalho de pano novo costu-
rado a ela encolherá quando for lavado e
a linha rasgará o manto velho e também
o retalho novo. Ambos serão destruídos.
O mesmo se aplica à mensagem de Jesus
acerca do novo reino.
2.22 vinho novo em velhos recipientes de
couro. Joel Marcus faz uma excelente co-
locação: “A necessidade de preservar (não
diluída pelo compromisso com as estruturas
da antiga era) o poder escatológico que
irrompeu no mundo com a vinda de Jesus é
resumida pelo brado
que encerra a pas-
sagem: ‘Vinho novo
em odres novos!’” .3
Quando novos, os
odres (recipientes de
couro) eram macios c
Os novos ensinamentos de Jesus
j transtornam as tradições dos escribas
e fariseus. Jesus compara suas próprias
j palavras a vinho novo derramado em
recipientes de couro velhos. Vemos aqui uma
réplica atual de um recipiente de couro. Está ן
à mostra em uma casa do terceiro século d.C.
restaurada em Qatzrin, nas colinas de Golã.
Marcos 2 .18— 3.649
observarem as normas e os preceitos desse
dia. Era uma dádiva de Deus e, como tal,
devia servir à humanidade, e não se tornar
seu senhor. Para nós, deve ser um dia de des-
canso e adoração, e não uma fonte de regras.
2.28 o Filho do Homem é Senhor até
mesmo do Sabbath. Isso encerra a série de
milagres apresentados até aqui. O resultado
(“Portanto \hõste] o Filho do Homem...” )
das ações de Jesus é prova indiscutível de
que, como o “Filho do Homem” (veja qua-
dro lateral no comentário sobre 2.1-12; o
principal tema de Dn 7.13,14 é o domínio
universal) glorificado, ele é Senhor universal
de todas as coisas e, mais específicamente
aqui, “do Sabbath” e de suas prescrições.
Fie é o intérprete definitivo da Torá (uma
das ênfases do Sermão do Monte [Mt 5—7|)
e oferece descanso sabático para a alma
(Mt 11.28-30). O que Cristo trouxe con-
sigo é “maior que o templo” (Mt 12.6 [no
mesmo relato que esse de Marcos|) e, se
Cristo sobrepuja o templo, também exerce
autoridade sobre a observância do Sabbath.
Esse é o ponto culminante da Cristologia
de Marcos e mostra que, para ele, Jesus éinvestido de autoridade divina.
3.2 procurando um motivo para
acusar Jesus. Eles estão de volta à si-
nagoga em Cafarnaum (como indica
a expressão “noutra ocasião”), e mais
uma demonstração inquestionável
da autoridade de Jesus está prestes a
ocorrer. O relato é dividido em três
partes: contexto (v. 1,2), confronto
(v. 3,4) e milagre (v. 5,6). Cada uma
começa com um ato de
Jesus e termina com
uma reação negativa
por parte dos líderes.
F evidente que eles rejeitavam
Jesus como “Senhor do Sabbath” e,
portanto, esperavam que ele trouxesse
descrédito sobre si mesmo ao quebrar
uma das regras acerca da cura (= tra-
balho) no Sabbath.
(uma prática permitida desde que não se
usasse uma foice). Para os fariseus, contudo,
os discípulos quebraram a lei farisaica, pois
isso constituía colher no Sabbath.
2.25,26 Davi /.../ comeu os pães consa-
grados. O episódio em questão se encontra
em ISamuel 21.1-6, em que Davi, futuro
rei de Israel e precursor messiânico, fugia
de Saul.5 Ele e os homens que o acom-
panhavam comeram os pães consagrados
reservados para os sacerdotes (Ex 25.30;
Lv 24.5-9). O sacerdote entregou o pão de
bom grado, e em momento algum Deus
julgou Davi, de modo que Jesus usa esse
episódio como exemplo de uma situação
em que a Lei foi colocada de lado devido
à necessidade de Davi que, como futuro rei
e precursor do Messias, tinha autoridade
para exigir que lhe dessem o pão consa-
grado. Portanto, é ainda mais apropriado,
colocar de lado uma tradição oral em favor
do próprio Messias, o Filho de Deus.
2.27 O Sabbath foi feito por causa do
homem. O descanso de Deus, o Sabbath, vi-
sava a beneficiar e fortalecer o povo de Deus.
A ordem para guardar o Sabbath nunca
teve como propósito obrigar as pessoas a
Quando os fariseus criticam as ações dos discípulos no
Sabbath, Jesus aponta para o exemplo de Davi, que
pegou e com eu os pães consagrados do tabernáculo.
A necessidade humana suplanta a observância estrita
das prescrições da Lei. Esse m odelo da mesa dos Pães
da Presença com os pães consagrados faz parte de uma
réplica do tabernáculo em Tlmna, Israel.
50M arcos 2 .18— 3.6
Evangelhos) estão convencidos de que Jesus
se tornou uma ameaça tão séria que é ne-
cessário matá-lo. Portanto, tramam como
tirar sua vida. A campanha de oposição a
Jesus em 2.1—3.6 já chegou a seu ápice.
Considerações teológicas
Duas considerações se destacam. (1) Em
Jesus, o reino de Deus — o reinado de Deus
sobre este mundo — chegou de uma nova
maneira, e o povo de Deus deve acolher
essa novidade e ter uma atitude apropriada
diante dela. Uma nova era com novos
princípios irrompeu no meio do povo de
Deus, e os cristãos são chamados a imitar
essa nova realidade do reino em sua vida e
adoração. Essa ideia é ilustrada pelo prin-
cípio do novo Sabbath: as regras do ritual
foram substituídas por seu propósito desde
o início - descanso e adoração. (2) Jesus é
Senhor de tudo, e aqueles que rejeitarem sua
autoridade prestarão contas a Deus. Todos
que são caracterizados por um “coração
obstinado” precisam sujeitar-se a Deus em
Jesus ou arcar com as consequências.
Para ensinar o texto____________
1. O jejum é uma disciplina espiritual para
a era presente. É fundamental ajudar as pes-
soas a entender o significado e o propósito
do jejum. No tempo de Jesus, muitos asso-
ciavam o jejum à lamentação pelo pecado
e à tristeza em momentos de tragédia, mas
também para obter o favor de Deus com a
intenção de manipulá-lo a fazer coisas. Na
nova era iniciada por Jesus, o jejum conti-
nua a ser praticado (At 13.2,3; 14.23), mas
sempre como parte da adoração e de oração
profunda. Jamais deve ser uma tentativa de
manipular Deus. Quando os crentes jejuam,
nunca devem fazê-lo com a intenção de
levar Deus a atender a seus pedidos. Antes,
jejuar significa abrir mão de necessidades
importantes (em geral alimento, mas tam-
3.4 O que é lícito /.../ salvar a vida ou
matarf De modo semelhante a 2.9 (cf. Dt
30.15-19), essa é uma questão associada
à Halacá, o conjunto de normas rabínicas
para a vida diária. Suas exigências rígidas
deixariam a “mão atrofiada” do homem
incurada em vez de restaurar sua saúde.
Logo, estariam praticando “o mal”, e não
“o bem”. Jesus apresenta, desse modo, o
impasse de um sistema que, de modo irô-
nico, é um obstáculo para o bem pretendido
por Deus e impede que seus verdadeiros
propósitos sejam realizados.
Mas eles permaneceram em silêncio.
Uma vez que os fariseus tinham uma res-
posta pronta (“Não é uma questão de
vida ou morte |sua lei só permitia a cura
caso a vida corresse perigo], então cure o
homem amanhã, e não hoje”), seu silêncio
causa estranheza. Talvez não desejassem se
envolver em mais uma discussão, e talvez
soubessem que, a despeito de sua resposta,
se colocariam em uma situação complicada.
No entanto, Marcos usa o silêncio cinco
vezes (nos outros Evangelhos, são quatro
ocorrências no total); aqui e em 1.25 e4.39
é uma referência à autoridade e ao poder
de Jesus. Diante da autoridade dada por
Deus a Jesus, eles não têm o que responder.
3.5 irado e profundamente entristecido
por causa de seu coração obstinado. As
emoções profundas de Jesus afloram e
refletem a justiça e o amor de Deus de-
monstrados por ele nessa situação — a ira
de Deus para com o pecado e, ao mesmo
tempo, sua tristeza diante do dilema da
humanidade caída. A expressão usada é,
literalmente, “dureza de seu coração”, e
também descreverá os discípulos em 6.52
e 8.17. A recusa insensível e obstinada em
sujeitar-se às verdades de Deus tipificava
os líderes.
3.6 como poderíam matar ] esus. Sem
dúvida, os líderes religiosos (fariseus) e
políticos (herodianos, partidários de He-
rodes que sempre se opõem a Jesus nos
M arcos 2 .18— 3.651
legalista a Deus e à adoração é a propensão
a imaginar que a obediência às regras é
suficiente em nosso relacionamento com
Deus. Esquecemo-nos com muita facilidade
da compaixão e das boas obras. Esquece-
mo-nos do princípio fundamental de Oseias
6.6: “Desejo misericórdia, não sacrifícios” .
O Sabbath tem somente dois requisitos:
adoração e descanso. É um dia separado
para Deus e para a família. Não deve ser
apenas mais um dia secular, mas também
não devemos desprezar uns aos outros com
respeito à observância do Sabbath. Como
Paulo afirma em Romanos 14.1— 15.13,
devemos respeitar as convicções religiosas
uns dos outros a respeito de questões como
dias santos e leis alimentares.
4 .Jesus é Senhor de tudo. O ponto cen-
trai de 1.21—3.6 é a autoridade de Jesus
sobre toda a criação. Esse fato se tornará
ainda mais evidente nos relatos de milagres
em 4.54— 5.43, em que Jesus é apresentado
como Senhor sobre a natureza, sobre a es-
fera dos demônios e sobre a enfermidade
e a morte. Diz-se, com frequência, que o
Evangelho de Marcos tem uma “baixa cris-
tologia”, pois os discípulos se atêm apenas
à confissão de que Jesus é o Messias. Na
realidade, Marcos afirma implicitamente a
ênfase de João sobre Jesus como Deus. Ele é
o Filho de Deus e, como Filho do Homem,
cumpre o domínio universal apresentado
em Daniel 7.13,14. A adoração requer a
bém relações sexuais no casamento. Veja
ICo 7.5) a fim de perceber que Deus é nossa
maior necessidade. Em outras palavras, seu
objetivo é tornar Deus nossa prioridade
absoluta, e não obter coisas de Deus. Ainda
assim, o jejum é um aspecto importante
da adoração e das disciplinas espirituais.
- 2. Uma nova comunidade e um novo
ritual caracterizam o vinho novo de
Cristo. Os “recipientes de couro novos”
que precisam acondicionar a nova reali-
dade do reino de Jesus se referem, quase
certamente, à novidade de ritual e de co-
munidade que definia a igreja do Novo
Testamento. Jesus, em sua morte e ressur-
reição, entrou no “maior e mais perfeito
tabernáculo” (Hb 9.11) e abriu o templo
celestial para nós, dando-nos novo acesso
a Deus e uma “nova aliança” (Jr 31.31-34
= Hb 8.8-12). A igreja é o novo templode
Deus (ICo 3.16; lPe 2.4,5) e cada um de
nós, dentro do qual o Espírito habita, é
um Lugar Santíssimo móvel. No Evange-
Iho de João, Jesus fala com frequência de
nosso novo poder de oração (14.13,14,26;
15.16; 16.23,24,26). Em Cristo, a igreja
está imersa em novidade.
3. A adoração e o descanso são os ver-
dadeiros propósitos das leis do Sabbath.
Os escribas e fariseus desenvolveram um
conjunto complicado de regras para a
observância do Sabbath,6 e essa tendência
de definir o sétimo dia
por meio da adesão es-
trita a normas persiste
teimosamente na igreja
desde então. O pro-
blema da abordagem
Mais uma vez, Jesus desafia as prescrições
rígidas dos fariseus para 0 Sabbath ao entrar
na sinagoga e curar um homem com a mão
atrofiada. A fotografia mostra a parte interna
de uma sinagoga (quarto a quinto século
d.C.) restaurada em Cafarnaum. Ruínas de
uma sinagoga do primeiro século d.C. foram
encontradas debaixo do calcário branco.
M arcos 2 .1 8 — 3 .6
detalhadas para garantir que o povo obe-
deceria aos mandamentos de Deus.
A observância do Shabbath.
Experiência cotidiana: O objetivo do Sha-
bbath é nos proporcionar um tempo de
descanso e concentrar nosso coração em
Deus. Pesquisas mostram que precisamos
encarecidamente de descanso. Veja os se-
guintes dados fornecidos pela empresa Key
Organization Systems:7
• Quase um terço dos americanos adul-
tos que trabalham dorme menos de
seis horas por noite.
• A privação de sono custa a empresas
dos EUA 63,2 bilhões de dólares por
ano em perda de produtividade.
• Um terço dos funcionários de empre-
sas sofre de estresse crônico.
A ordem para observar o Shabbath
não visa a ser um peso, mas uma grande
dádiva. Quando entendemos o propósito
do Shabbath, priorizamos esse dia para
o descanso físico, emocional e espiritual,
um descanso do qual muitos necessitam
desesperadamente em nossa cultura.
0 lugar do jejum na vida cristã.
Testemunho: O jejum é uma disciplina cristã
bíblica e histórica relegada a segundo plano
por muitos cristãos de hoje. Peça a alguém
em sua igreja que tenha uma experiência
positiva de jejuar (não como tentativa de
manipular Deus, mas como oportunidade
de render-se a ele mais plenamente) para
compartilhar algum aspecto dessa expe-
riência. Desafie os ouvintes a assumir o
compromisso de jejuar com regularidade;
esse jejum pode abranger prazeres como
televisão, computador e telefone celular.
consciência de que Jesus é mais que nosso
amigo e guia; ele é nosso Salvador e Senhor.
Para ilustrar o texto_____________
A n o va comunidade e 0 novo ritual.
Lição prática: Costure um remendo grande
de lã não lavada a uma peça de roupa velha
(a lã encolhe bastante quando é lavada).
Lave a roupa em água quente e coloque-a
na secadora. Pode ser que o remendo não
rasgue, mas certamente nem ele nem a peça
de roupa serão utilizáveis.
0 problema do iegaiismo.
Negócios: A fim de alertar os consumido-
res para possíveis riscos, vários produtos
incluem advertências no rótulo. O esforço
para evitar qualquer suscetibilidade a san-
ções civis, contudo, pode resultar em adver-
tências ridículas. Eis alguns exemplos en-
contrados em produtos ou em seu manual:
• Limpador de vidros com amônia:
“Não aplique nos olhos”.
• Furadeira elétrica para marcenaria: “Não
deve ser usada como broca dental”.
• Tintura para cabelo: “Não use como
calda para sorvete”.
• Medicamento para dormir: “Pode
causar sonolência”.
• Ar condicionado: “Não deixe aparelhos
de ar condicionado caírem da janela”.
Embora vários dos rótulos de advertência
sejam engraçados, refletem o impulso de ter
cautela diante de um perigo cm potencial.
Em um esforço para garantir um compor-
tamento agradável a Deus e evitar possíveis
sanções por alguma transgressão, os líderes
religiosos desenvolveram uma tradição oral
de leis religiosas por vezes excessivamente
M arcos 2 .18— 3.653
Marcos 3.7-19
O cuidado para com os
necessitados e o comissionamento
dos apóstolos
Ideia central Mais uma vez, Jesus sa i do contexto urbano e ministra junto ao mar da
Galileia, onde cura enfermos e demonstra autoridade sobre todos os poderes. Ao mesmo
tempo, vemos aqui 0 segundo estágio do discipulado, em que Jesus elege e capacita
doze discípulos/apóstolos e os torna 0 novo Israel restaurado.
(3.7-19). F.m seguida, virá o lado negativo,
que se concentra na oposição não somente
dos líderes, mas também da própria família
de Jesus (3.20-35).
Considerações interpretativas
3.7,8 Jesus retirou-se /.../ para o lago /.../
muitas pessoas foram até ele. Isso não
constitui uma fuga de Jesus por medo do
perigo da conspiração indicada em 3.6 (a
distância em questão não seria suficiente
para protegê-lo). Esse movimento de reti-
rar-se para o mar/lago é comum em Marcos
depois que Jesus confronta o mal e, como
em 2.13, para alguns isso simboliza esse
confronto (pode ser que o mar represente
provações e tempestades [cf. 4.35-41]).2
Em vez disso, ele apenas sai de Cafarnaum
(possivelmente pelo tamanho das multidões
que o assediam) e vai ao lago para minis-
trar. A “grande multidão” dá continuidade
ao tema das multidões que vão atrás de
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Essa passagem (3.7-12) dá início a uma
nova seção do ministério junto ao lago
(3.7—6.6). Ao mesmo tempo, começa outro
ciclo em Marcos (definido pelo ministério
de Jesus aos discípulos, às multidões e aos
líderes). William Lane argumenta de forma
convincente que as duas primeiras seções
começam da mesma forma, com um resumo
(1.14,15 = 3.7-12) seguido da escolha dos
discípulos (1.16-20 = 3.13-19).' Nesse sen-
tido, a presente passagem traz dois ciclos
(3.7—4.34; 4.35—6.6) e em ambos, os
temas de compromisso e missão (discípu-
los), popularidade e cura (multidões) e re-
jeição e oposição (líderes) são desenvolvidos
em mais detalhes. Esta passagem inicial é o
lado positivo, que se concentra na autori-
dade compassiva de Jesus ao curar aqueles
que o procuram e na sequência a escolha dos
Doze como núcleo da comunidade do reino
54M arcos 3.7-19
Principais temas da Marcos 3.7-19
• A cura compassiva de Jesus estende-se a todos
que vêm até ele.
■ Jesus tem o controle da Igreja e elege sua liderança.
■ Discipulado significa, acima de tudo, tornar-se se-
melhante a Cristo.
• Os líderes da igreja exercem, em sua missão, a
autoridade de Jesus.
curou “muitos”, uma expressão semítica
para “todos” (o texto paralelo, Mt 12.15,
diz que Jesus “curou todos eles”), ou seja,
curou todos que vieram até ele. Consequen-
temente, as multidões se comprimem para
aproximar-se de Jesus, cientes de que seu
poder é tão grande que podem ser curadas
só por “tocá-lo” (fato comprovado pela
mulher com a hemorragia em 5.25-29).
3.11 os espíritos imundos / . . . /gritavam:
“Tu és o Filho de Deus”. Como em 1.24,
os demônios pronunciam a verdadeira
identidade de Jesus. Também nesse caso,
a intenção deles não é revelar para os pre-
sentes quem Jesus é, mas, pelo contrário,
opor-se a ele e, provavelmente, tentar obter
algum controle sobre ele (veja comentário
sobre 1.24 ).Jesus os “repreende com se ve-
ridade” (NIV: “deu ordens rigorosas”),
uma expressão que usa o verbo forte
epitimaõ, empregado também na oca-
sião em que Jesus repreende e silencia o
vento e o mar (4.39). Trata-se de uma
batalha cósmica, e a vitória de Jesus é
devastadora e final. A ordem para não
falar faz parte do segredo messiânico
descrito em 1.34. Jesus não queria
que sua identidade redentora fosse
atirada por toda parte na situação
É provável que Jesus use um pequeno barco
de pesca para afastar-se da praia e poder falar
às multidões mais facilmente. Esse mosaico do
primeiro século d.C., da antiga cidade de Magdala,
mostra um barco de pesca.
Jesus (1.28,33,45; 2.2,13). Além do povo
da região que segue Jesus (neste caso, não
se trata de um sinal de discipulado, mas
apenas de gente dos arredores que vai atrás
de Jesus), também chegampessoas de todas
as partes da Palestina. A Idumeia é a região
de Edom próxima ao Mar Morto, ao sul
da Judeia (atual “Neguebe”). A Pereia é a
região judaica “do outro lado do Jordão”,
o lado leste da parte inferior do rio Jor-
dão, junto ao litoral leste do Mar Morto.
Tiro e Sidom ficam na Síria, no litoral do
Mediterrâneo, ao norte de Israel. A região
indicada é ampla e abrangia praticamente
toda a Palestina (com exceção de Samaria
e Decápolis).
3.9,10 um pequeno barco / . . . / para
evitar que a multidão o comprimisse. As
multidões que “comprimiam” Jesus (mais
precisamente “pressionavam, esmagavam”
\thlibõ, um verbo forte]) o haviam impedido,
anteriormente, de ministrar nas cidades
(1.45) e, em algumas ocasiões, Jesus usa
um barco como púlpito flutuante para
conseguir falar ao povo (também 4.1). É
provável que esse fosse um dos barcos de
pesca de 1.16-20. Os poderes extraordi-
nários de cura de Jesus haviam fascinado
as multidões. Marcos afirma que Jesus
M arcos 3.7-19
bastante convincentes, de modo que prefiro
considerá-las parte do texto. Nesse caso, os
1 )oze foram chamados “apóstolos” desde o
princípio (veja também Mc 6.30) e receberam
autoridade como agentes oficiais ou enviados
de Jesus, designados os “apóstolos". O termo
se refere àqueles que eram “enviados” oficial-
mente como representantes em uma missão.
estivessem com ele {...] os enviasse a
pregar e tivessem autoridade para expul-
sar demônios. Vemos aqui três aspectos
do discipulado. Acima de tudo, ontologi-
camente, os discípulos devem “estar com
ele”, isto é, devem acompanhar Jesus em
seu ministério e absorver tudo a seu res-
peito. A missão deles é a missão de Jesus,
e o ministério deles é uma extensão do
ministério dele. Devem também “imitar”
Jesus em tudo (cf. ICo 11.1; Ef 4.13; 5.1;
lTs 1.6; 2.14), uma vez que o cerne do
discipulado é a semelhança a Cristo. Os ou-
tros dois pontos são derivados do primeiro
e se tornam os aspectos funcionais, algo
notável dentro de uma estrutura rabínica
na qual os discípulos geralmente atinham-
-se a permanecer assentados aos pés do
mestre e a memorizar seus ensinamentos.
Jesus envolve os Doze ativamente desde o
início. Como apóstolos, eles são “envia-
dos” (em grego, apostellõ, forma verbal de
apostólos, “apóstolo” ) com autoridade e,
como Jesus, eles “pregarão” o evangelho
(1.14,15,38,39; cf. 13.10; 14.9), ou seja,
proclamarão a mensagem do reino de Jesus
e chamarão as pessoas ao arrependimento
e à fé (1.15). Por fim, eles recebem “autori-
dade para expulsar demônios” (repetida em
6.7), algo espantoso quando percebemos
que, somente depois de o próprio Jesus ex-
pulsar esses espíritos (1.25,34,39; 3.11), ele
confere sua autoridade a seus seguidores.
Eles serão bem-sucedidos nessa missão em
6.13, mas não em 9.14-29.
3.16 Estes são os doze que ele nomeou.
A ênfase do Novo Testamento é sobre os
potencial mente sediciosa da Palestina do
primeiro século. A conotação política era
perigosa demais, e os judeus tinham a ex-
pectativa de um tipo errado de Messias, ou
seja, um rei conquistador. De certo modo,
Jesus queria viajar incógnito,3 para certifi-
car-se de que sua natureza messiânica seria
revelada por seus atos, especialmente pelo
sofrimento na cruz.
3.13 chamou a si aqueles que ele quis, e
eles vieram. O fato de Jesus levar seus disci-
pulos a subir “o ” monte (no grego o artigo
definido está presente) provavelmente traz à
memória a convocação de Moisés por Deus
para subir o Sinai na entrega da Lei (Êx 19;
24; 34) e enfatiza a soberania de Cristo na
escolha dos Doze (também 6.45,46; 9.2).4
Essa é uma narrativa de comissão, que em-
prega a linguagem da eleição: chamou, quis,
vieram, nomeou. Apresenta-se como uma
nomeação divina na história da salvação.
3.14,15 Nomeou doze [designando-os como
apóstolos], Até agora. Marcos apresentou
cinco discípulos (1.16-20; 2.13-17) e aqui,
Jesus expande esse número ao escolher o nú-
cleo formado por doze de seus seguidores.
O grupo apostólico ficará conhecido como
“os Doze” (p. ex., 4.10; 6.7; 9.35), número
simbólico, pois traz à memória as doze tribos
de Israel e constitui a restauração do povo
de Deus em um “novo Israel”, a igreja (parte
dos “odres novos” de 2.22). Observamos aqui
dimensões escatológicas (as tribos são reagru-
padas e reunidas à medida que Jesus traz re-
denção e reconstitui a nação como um todo)
e eclesiológicas (simbolizam a nação, e Jesus
estabelece um novo povo que ficará sob a
supervisão deles). As palavras entre colchetes
acerca de sua identidade apostólica não estão
presentes em alguns manuscritos (A L syr),
mas aparece em alguns dos principais (א B
Θ e outros). Embora para muitos estudiosos
(mesmo os que ajudaram na composição da
NIV) essas palavras sejam uma assimilação
de Lucas 6.13, as evidências externas são
56M arcos 3.7-19
escolha dos Doze feita por Jesus é surpreen-
dente à luz da natureza dos escolhidos; ele
selecionou indivíduos fracos e politicamente
marginalizados para transformar o mundo.
Como Paulo afirma em 2Coríntios 11.30,
“Se devo me orgulhar, que seja ñas coisas
que mostram a minha fraqueza”.
Para ensinar o texto____________
1. Jesus oferece cura a todos que vão até ele.
Até aquí em Marcos (1.32-34,39; 2.11,12;
3.5,10,11), a grande compaixão de Jesus
por todos o levou a curar cada um dos
doentes ou endemoninhados que foi até
ele. Jesus se preocupa não apenas com o
lado espiritual da humanidade, mas com a
pessoa como um todo. Demonstra cuidado
e ministra ao “corpo” em sua totalidade,
uma vez que no Novo Testamento, sorna
se refere não apenas ao corpo físico, mas
a tudo o que constitui a pessoa: “Repre-
senta o todo em contraste com as partes
(Mt 5.29s.; 6.22s.; Tg 3.2s.,6); corpo e alma
[...] são os dois aspectos inseparáveis do
ser humano (Mt 6.25)”6 (também em Rm
12.1). Quando a cura envolve “fé”, seu
efeito é percehido tanto física quanto espi-
ritualmente (veja “Para ensinar o texto” em
2.1-12). Jesus e a igreja de hoje precisam
ministrar ao individuo como um todo e
atender às necessidades físicas, mentais e
Doze como grupo, e não como individuos.
Não sabemos coisa alguma a respeito da
maioria deles, exceto por sua presença no
grupo. Ainda assim, eles foram os primeiros
líderes da igreja e seu alicerce (Ef 2.20; Ap
21.14). Aqui, veremos apenas alguns deles
rapidamente.'’ Simão recebeu um novo nome:
“Pedro” ou “Cefas” (a forma aramaica) em
João 1.42 como profecia de que ele se tor-
naria a “rocha” sobre a qual a igreja seria
edificada (Mt 16.18). O apelido “Boanerges”
(“filhos do trovão”) dado a Tiago e a João
talvez indique o temperamento “tempestu-
oso” deles, demonstrado por sua atitude
julgadora em Marcos 9.38 e Lucas 9.54.
Tratamos de Mateus acima, em 2.14. Con-
vém mencionar outros dois. “Tadeu”, que
aparece aqui (e em Mt 10.3) é substituído por
“Judas, filho de Tiago”, em Lucas 6.16. É
bent provável que os dois nomes se refiram à
mesma pessoa (como “Simão/Pedro”, “Levi/
Mateus”, “Saulo/Paulo”). Em grego, Simão,
“o zelote” é, na verdade, “um cananeu”,
termo aramaico que significa “zelote” (como
em Lc 6.15), nome dado ao movimento de
insurreição judaico que surgiu no início do
primeiro século d.C. No entanto, seus par-
ticipantes só passaram a ser chamados de
“zelotes” na década de 50. Dessa forma,
é provável que o termo zelote, usado para
descrever Simão (v. 18), se trate de uma re-
ferência geral à associação desse apóstolo
com aqueles que se opunham a Roma. A
Jesus sobe a encosta de um monte
para nomear os doze homens que
serão seus discípulos mais próximos.
A passagem bíblica não especifica o
monte: o mais importante é que se
tratava de um lugar ermo, afastado das
multidões. Essa vista do monte Arbel
mostra o mar da Galileia e a região
em que Jesus ministrou ativamente
nas passagens comentadas até aqui.
Várias regiões dos montes na Galileia
poderíam servir de retiro tranquilo para
que Jesus tivessetem ׳ po a sós com os
Doze escolhidos.
de Deus, investidos de sua autoridade em
nossa missão. A base para isso é João 20.22,
em que Jesus afirma: “Recebam o Espírito
Santo” (em Jo 20.21,22, o Deus triúno nos
envia). Não precisamos depender de nossas
aptidões gerais para ser “bem-sucedidos”
(diante de Deus, e não conforme o mundo)
em nosso trabalho para ele. A Trindade em
sua completude nos concede sua presença e
seu poder no ministério. Podemos, portanto,
nos alegrar em nossa fraqueza (2Co 11.30;
12.5,9,10), pois então toda glória será dada
a Deus. Parte desse poder é a autoridade
sobre Satanás e seus espíritos malignos (veja
“Para ensinar o texto” em 3.20-25).
Para ilustrar o texto_____________
Ministrar à pessoa como um todo.
Missões na igreja: A igreja precisa seguir
o exemplo de Jesus e mostrar-se disposta
a ministrar à pessoa como um todo, e não
limitar a atuação a suas necessidades espi-
rituais. Muitas organizações missionárias e
assistenciais aprenderam essa lição valiosa.
Dr. Wess Stafford, que se tornou presidente
da organização Compassion International
em 1993, aprendeu e corporificou a im-
portância de ministrar à pessoa como um
todo: “Durante os quatros anos que Wess
passou no Haiti, vivenciou a mensagem
mais arrasadora que a pobreza transmite
a uma criança: ‘Você não tem importância’.
Wess também descobriu que o modo mais
estratégico de quebrar o ciclo de pobreza é
investir de modo holístico na vida das crian-
ças, atendendo a suas necessidades físicas,
espirituais, socioeconómicas e vocacionais e
dando-lhes esperança e um futuro”. A igreja
precisa fazer como Jesus e ministrar à pessoa
em sua totalidade. Essa é uma excelente
oportunidade de falar sobre ministérios de
sua igreja que adotam essa abordagem ou
para apresentar um novo plano ministerial
para a igreja. Também pode ser uma ótima
sociais das pessoas, bem como de sua di-
mensão espiritual.
2. Líderes escolhidos por Deus são im-
portantes. Esse fato fica evidente em Efésios
4.8,11. No versículo 8, Paulo adapta Salmos
68.18 para afirmar que Deus “concedeu
dons a seu povo” (o salmo diz “recebeu
dádivas de seu povo”). Esse fato aponta
para o versículo 11, em que Paulo escreve:
“O próprio Cristo designou apóstolos (...)
pastores e mestres”. Em outras palavras, os
líderes da igreja são chamados por Deus e
entregues à igreja como dádivas da graça
divina. Aqui, Jesus escolhe, comissiona,
capacita e envia os discípulos/apóstolos
na missão determinada por Deus para eles.
Cada líder da igreja é um agente do céu
divinamente capacitado e enviado para
glorificar a Deus em todas as coisas.
3. Discipulado é semelhança a Cristo.
Em Efésios 5.1, o discipulado é caracte-
rizado na ordem para “seguir o exemplo
de Deus” (literalmente, “ser imitadores
de Deus” ), algo definido anteriormente
em Efésios 4.13 como “atingir a medida
da plenitude de Cristo” . Deus não aceita
um compromisso parcial. Muitos tentam
lhe entregar apenas o dízimo de sua vida,
“ isto é, um décimo de sua vida” . Isso é
inaceitável; Deus quer de nós uma entrega
total (veja comentário sobre Mc 1.18-20).
Seguir a Cristo significa tentar imitá-lo em
todas as áreas de nossa vida e praticar de
modo explícito uma versão cristocêntrica
do credo de Irmão Lourenço, “A prática
da presença de [Cristo)”7.
4. Os discípulos de Jesus exercem a au-
toridade dele. Aqueles que foram chamados
por Deus para a liderança não atuam por
sua própria conta. Eles são dotados da au-
toridade do próprio Deus onde quer que
vão. Jesus disse: “Assim como o Pai me
enviou, eu os envio” (Jo 20.21). Jesus era “o
enviado” oshaliah ou representante/agente
de Deus. Nos unimos a ele como agentes
58M arcos 3.7-19
menta elétrica. Tente usar
o equipamento sem co-
nectá-10 à tomada. É evi-
dente que ele é inútil sem
a fonte de energia elétrica.
Em seguida, o conecte à
tomada e ligue o apare-
lho (quanto mais barulho
fizer, melhor!). Quando
uma ferramenta ou um
eletrodoméstico está li-
gado à fonte de energia,
cumpre seu propósito. O
mesmo acontece no mi-
nistério. Os verdadeiros
discípulos ministram
com a autoridade e
o poder de Jesus. Em
João 15, Jesus ensinou
a verdade de que, a fim
de ter um ministério eficaz e realizar os pro-
pósitos de Deus, precisamos permanecer
“ ligados” a ele. Converse com os parti-
cipantes sobre maneiras de “permanecer
ligados a Jesus”.
A alegria do ministério.
Testemunho: Encontre alguém em sua igreja
que tenha um bom testemunho para com-
partilhar a respeito da alegria do ministério.
Procure alguém que tenha descoberto que o
custo do ministério (tempo, energia, finanças
etc.) fica pequeno em comparação com a
recompensa de ver Deus fazer aquilo que
só ele pode fazer na vida de um discípulo
comprometido e por meio dele. Compartilhe
esse testemunho (ao vivo, por escrito ou em
vídeo) à luz de Mateus 13.44-46.
ocasião para apresentar
à igreja um programa
de apadrinhamento de
crianças.
0 chamado para 0
discipulado.
Poesia: Quando Jesus
chamou Levi disse, sim-
plesmente: “Siga-me”.
A reação foi imediata
e espetacular: “Levi se
levantou e o seguiu”
(2.14). Ser discípulo
significa estar disposto
a seguir Jesus, o que
requer uma mudança
radical em nossa vida.
Infelizmente, muitos
de nós queremos Jesus
em nossos próprios
termos. Wilbur Rees escreveu uma poesia
marcante a respeito dessa questão: “Uma
porção de Deus equivalente a três dólares”.
E uma sátira a respeito de noss v ndência
de querer apenas a porção de Deus sufi-
ciente para fazer com que nos sintamos bem
conosco mesmos, mas não o suficiente para
desafiar nosso coração nem transformar
nossa vida. Procure a poesia na internet e a
leia na íntegra ou um trecho dela para seus
ouvintes. Ao longo de todos os Evangelhos,
vemos que Jesus não permitiu que as pes-
soas o seguissem em seus próprios termos,
mas amou-as o suficiente para desafiá-las a
render-se inteiramente a seu senhorio.
0 poder do ministério.
Lição prática: Em sua apresentação, mostre
um eletrodoméstico pequeno ou uma ferra
Quando Jesus chama Lev¡ (Mateus), ele
o segue de imediato. Mateus é retratado
nessa placa de marfim do décim o século.
M arcos 3.7-1959
Marcos 3.20-35
Jesus se volta para sua
nova família
Idefa central A oposição a Jesus entra numa nova fase quando sua família pensa que ele está
louco e os líderes religiosos 0 acusam de estar endemoninhado. Jesus responde de duas
formas: ele não pode estar debaixo do controle de Satanás porque já amarrou Satanás, e
sua verdadeira família é constituída daqueles que se juntaram a ele na família de Deus.
ou casa isso ocorreu. Como sempre, porém,
uma grande multidão (veja em 3.9) cerca e
enche a casa. Vemos aqui mais um retrato
da intensidade do ministério de Jesus. Ele e
seus discípulos se ocupam de tal modo com
0 povo que “não conseguem nem comer”,
um comentário que mostra a profundidade
de sua compaixão e de seu compromisso
com o povo e suas necessidades.
3 . 2 1 seus familiares [...] diziam: “Ele
perdeu o juízo”. Na tentativa de remover
o estigma que esse versículo coloca sobre
a família de Jesus a RSV traduz: “pois as
pessoas diziam: ‘Ele está fora de si’”. O
problema é que o grego traz “eles estavam
dizendo” e, no contexto, “eles” se refere,
necessariamente, aos familiares de Jesus.
A situação em 3.20 foi relatada a seus
familiares, que são descritos aqui como
pessoas que não seguem Jesus (quanto à
incredulidade de seus irmãos, veja Jo 7.5).
Sua família foi, literalmente, “assumir o
controle dele” | “apoderar-se dele”, NVI]
tradução de krateõ, verbo usado com fre-
quência para o ato de prender um crimi-
noso. Ao que parece, eles queriam obrigar
Para entender o texto___________
Texto em contexto
O ministério de Jesus aos pecadores e seu
chamado para que vários excluídos se
tornassem parte dos Doze cria complica-
ções para ele junto às autoridades. Esse é
o primeiro episódio cm Marcos com uma
intercalação (ou “episódio-sanduíche”),
em que um relato é inserido cm outro para
que eles interpretem um ao outro. Nesse
caso, a acusação de que Jesus é associado a
Belzebu (3.22-30) é inserida em duas partes
da história em que a família de Jesus vem
buscá-lo a fim de levá-lo para casa (3.20,21
e 3.31-35). A mensagem comunicada é que
a própria família de Jesus se junta aos lí-
deres tentando desviá-lo de sua missão do
reino e de seu destino divino. Temos aqui
o contraponto negativo do ministério posi-
tivo que Jesus acabou de realizar em 3.7-19.
Considerações interpretativas
3 . 2 0 ele e seus discípulos não conseguiam
nem comer. Não sabemos em que cidade
60M arcos 3 .2 0 -35
m n S i K o w S w w o S S B i f f l i K ?
Principais temas de Marcos 3.20-35
• Deus estabeleceu uma nova família, a igreja, cons-
tituída daqueles que fazem sua vontade.
■ Os cristãos precisam estar dispostos a perder a
família em consequência de seguirem a Jesus.
■ Jesus amarrou Satanás — esse é o cerne da ba-
talha espiritual.
c o mesmo se aplicaria ao reino de Satanás
(para uma abordagem mais detalhada sobre
Satanás, veja “Considerações adicionais”
depois do comentário sobre Mc 4 .1 2 0 (.־
3 . 2 7 ninguém pode entrar na casa de um
homem forte sem que antes o amarre. A se-
gunda parábola serve de base para a ideia de
“amarrar Satanás” e apresenta a premissa
de toda batalha espiritual. Cada um dos
exorcismos exemplifica que Satanás e seu
exército demoníaco foram “amarrados”,
com base em Isaías 49.24,25, em que Deus,
o guerreiro divino, derrota os inimigos de
Israel e toma “despojos” para seu povo.
Satanás é o “homem forte” encerrado em
sua fortaleza, cujos servos (os demônios)
constituem seu exército, de modo seme-
lhante a Abraão e seu exército de servos
em Gênesis 14.8-16. Em um ensaio sobre a
veracidade histórica dos exorcismos realiza-
dos por Jesus, Craig Evans conclui que eles
“fornecem comprovação extraordinária
da derrota e do retraimento do reino de
Satanás diante do domínio de Deus que
avança sobre ele”.3 No texto, Jesus entra na
“casa” (oikia, uma referência a este mundo)
de Satanás e saqueia seus “bens” (skenê,
“vasos”, refere-se às pessoas demoniza-
das ou possuídas). Jesus mostra, portanto,
que Satanás não está derrotando seu pró-
prio exército; antes, Jesus está amarrando
Satanás e entregando os despojos a seus
próprios seguidores.
3 . 2 8 as pessoas podem ser perdoadas de
todos os pecados e de todas as calúnias que
Jesus a voltar para casa com eles e deixar
de lado esse ministério absurdo. Talvez sua
mãe imaginasse que ele estava à beira de
um colapso, mas seus irmãos certamente
acreditavam que ele havia enlouquecido.
3 . 2 2 “Ele está possuído por Belzebu! ”.
Diante do fato indubitável de que Jesus
havia expulsado demônios, os escribas (“de
Jerusalém” indica uma delegação oficial)
questionam a origem de seu poder. O verbo
imperfeito elegon (“ficavam dizendo”)
descreve uma campanha incessante para
difamar Jesus.' E provável que o termo
“Belzebu” venha do nome de um deus ca-
naneu e signifique “senhor dar alturas”,2
mas talvez seja mais apropriado interpre-
tá-10 como “senhor da habitação” (o que
harmoniza com a ideia da casa de Satanás
em 3.27). O mais importante é que se trata
de outro nome para Satanás, “o principe
dos demônios”, também conhecido na li-
teratura judaica como Belial/Beliar (2Co
6.15), Azazel (¡En 13.1), Mastema (Jub.
10.8) e Asmodeus (Tb 3.8). De acordo com
essa acusação, o poder de Jesus vem do fato
de ele próprio estar endemoninhado. Para
eles, o Filho de Deus é o filho de Satanás!
3 . 2 3 Como pode Satanás expulsar Sata-
nás? Se Jesus está endemoninhado, Satanás
guerreia contra suas próprias hostes demo-
níacas, o que é impossível. Jesus emprega
duas “parábolas” para ilustrar esse fato.
Na primeira, seria guerra civil o príncipe
dos demônios expulsar outros demônios.
A expressão “reino dividido” trabalha com
a ideia de que os subordinados de Satanás
são um exército dividido em batalhões ou
legiões (cf. F.f 6.12-14) que poderíam ir-
romper em conflito interno por poder. Além
disso, há confrontos internos políticos em
uma “casa” ou dinastia, como se podia
ver, por exemplo, na “casa” de Herodes ou
em várias outras situações de famílias reais
nas quais irmãos lutavam pelo trono. Em
ambos os casos, o reino se autodestruiria,
M arcos 3.20-3561
doará. A indicação, por parte de Jesus, da
blasfêmia dos escribas é irônica, já que os
próprios fariseus acusam Jesus desse mesmo
pecado grave em 2.6-10 e o condenam sob
a mesma acusação no julgamento perante
o Sinédrio (14.53-65).
3.31 a mãe e os irmãos de ]esus che-
garam. Em Marcos 6.3 e Mateus 13.55
encontramos uma lista dos irmãos de Jesus
(as duas passagens também mencionam
“suas irmãs” [Mt 13.56]). Para corroborar
a virgindade perpétua de Maria, nos círcu-
los católicos foi desenvolvida a ideia de que
o termo adelphoi se refere aos primos de
Jesus (segundo Jerónimo e Agostinho) ou
aos filhos de José de um casamento anterior
(de acordo com as teses elaboradas por
Orígenes e Eusébio). No entanto, o signifi-
cado mais natural, que harmoniza melhor
com as ocorrências no Novo Testamento,
é “irmãos de sangue”. É bem provável que
José, pai de Jesus, não seja mencionado
porque já havia falecido. Em 3.20,21, os
familiares de Jesus saem para “apoderar-se
dele” e obrigá-lo a voltar para sua casa em
Nazaré. Além disso, sua convicção de que
Jesus está “fora de si” está ligada à acusa-
ção de que ele está endemoninhado. Eles
chegam assim que termina a discussão com
os escribas. Marcos afirma que os familiares
estão “do lado de fora”, uma representação
de que estão “fora” do círculo de segui-
dores e discípulos de Jesus e entre aqueles
que, de acordo com Jesus (4.11), são “os
proferem. Temos aqui o contra-ataque de
Jesus aos líderes. Eles o acusam de posses-
são demoníaca, enquanto ele os acusa de
cometer o pecado imperdoável. A diferença
é que a acusação de Jesus é verdadeira e ir-
refutável. Essa é a primeira das declarações
de am n (“verdadeiramente”) em Marcos
(p. ex., 8.12; 9.1) e aponta para asserções
contundentes investidas de autoridade.
Aqui, sua afirmação se baseia na miseri-
córdia extraordinária de Deus (veja Is 1.18;
43.25), que perdoa tanto pecados (trans-
gressões contra outros) quanto blasfêmias
(“calúnias”, transgressões contra Deus).
3.29 quem blasfemar contra o Espírito
Santo nunca será perdoado. Nos círculos
judaicos, esse pecado imperdoável era o
pecado cometido conscientemente (Nm
15.30,31), especialmente a profanação do
nome de Deus [m. Sanh. 7.5, com base em
Lv 24.15,16). Aqui, Jesus restringe esse pe-
cado a atribuir a obra do Espírito a Satanás.
Quando os escribas disseram a respeito de
Jesus: “Ele está com um espírito imundo”
(3.30), na verdade consideraram que o
poder do Espírito em Jesus fosse obra de
Satanás. Sem dúvida essa é uma profanação
do nome de Deus, agora Deus e o Espírito
Santo. Esses escribas “nunca [poderão] ser
perdoados” (um passivo divino, perdoados
por Deus), pois são “culpados” ou “res-
ponsáveis por haver cometido” um “pecado
eterno”, isto é, um pecado com consequ-
ências eternas. A questão envolve dois as-
pectos: eles rejeitarão Cristo para sempre,
e Deus, por toda a eternidade, não os per
Uma vez que Jesus foi criado em
Nazaré, é provável que sua mãe e
seus irmãos tenham vindo de sua
residência nessa região. Nazaré era um
vilarejo agrícola nos montes da Baixa
Galileia. Essa vista atual de Nazaré (do
monte Tabor) mostra com o ela está
localizada em uma depressão cercada
pela cadeia de montes com o mesmo
nome da cidade.
M arcos 3 .2 0 -35
à batalha espiritual. Jesus amarrou Satanás,
e a única atitude apropriada diante desse
fato é render-se a Jesus e crer inteiramente
nele. O perigo extremo de blasfemar con-
tra Jesus é real, e o resultado é a rejeição
final por Deus. A última consideração diz
respeito à eclesiologia e visualiza a igrejacomo a nova família de Deus neste mundo.
Para ensinar o texto____________
1. Deus cria uma nova família, a igreja.
Observamos anteriormente que a igreja
é o novo Israel, o povo restaurado de
Deus (3.14) e uma nova comunidade em
Cristo (veja 2.18—3.6, em “Para ensinar
o texto”). Agora, consideramos a igreja
uma família restaurada, os filhos de Deus
constituídos como tal em Jesus. Essas são,
a propósito, as três principais metáforas
para a igreja. Ela começa como uma as-
sembleia (o significado de ekklêsia, “igreja”)
que cumpre a promessa abraâmica e une,
no verdadeiro Israel, judeus e gentios que
creem (Fp 3.3). Na sequência, à medida
que a assembléia amadurece, ela precisa
tornar-se uma comunidade, um grupo de
pessoas em concordância, que se preocu-
pam umas com as outras, compartilham o
que têm e desejam estar juntas. Por fim, essa
comunidade precisa se tornar uma família
com membros que amam e se envolvem
profundamente uns com os outros.
2. Seguir Jesus implica a possível perda
dos laços familiares terrenos. Quando Jesus
afirmou: “Não vim trazer paz, mas espada”
(Mt 10.34), estava se referindo à intensa
hostilidade, e até ao martírio que pode-
riam resultar de segui-lo. Há paz com Deus,
mas, com frequência, pouca paz no lado
terreno. Aliás, a pena por ser cristão pode
consistir cm os instigadores do martírio
serem membros da própria família, como
é afirmado em Mateus 10.21,35,36, em
de fora” . Seu pedido é, na realidade, uma
tentativa de desviar Jesus da missão que
ele recebeu de Deus.
3.34 Aqui estão minha mãe e meus
irmãos! Sua declaração não despreza a
importância da família nuclear, afirmada
ao longo de todas as Escrituras. Antes,
aponta para o surgimento de uma nova
família, a igreja. Ainda assim, Jesus afirma
que a “irmandade” espiritual ultrapassa
os relacionamentos consanguíneos; na fa-
mília de Deus há um relacionamento mais
profundo do que nos vínculos terrenos.
Quando seus seguidores são descritos “as-
sentados ao redor dele”, essa imagem “traz
à mente um retrato do AT de um patriarca
cercado de seus filhos” e, portanto, apre-
senta Jesus como “o centro de um novo
‘círculo familiar’”.4
3.35 Quem faz a vontade de Deus é meu
irmão, minha irmã e minha mãe. Há duas
ênfases aqui. Em primeiro lugar, “a vontade
de Deus” é um tema central do verdadeiro
discipulado no Novo Testamento (Rm 12.2;
Ef 5.17; lTs 4.3; 5.18; lPe 4.2). Isso signi-
fica que, em todas as áreas da vida, o cristão
procura viver como Deus quer; os princí-
pios para essa vida se encontram resumidos
em sua palavra revelada. Em segundo lugar,
precisamos “fazer” a vontade de Deus ou,
como em Tiago 1.22-25, ser “praticantes”
da palavra, e não apenas “ouvintes”.
Considerações teológicas
A rejeição é outro aspecto fundamental
do discipulado. Se somos chamados para
‘ser um’ com Cristo (3.14), enfrentaremos
oposição como ele enfrentou, até mesmo de
nossa própria família (Mt 10.21,35,36). A
questão da rejeição é um tema importante
de Marcos e, nessa passagem, vemos até
que ponto ela pode chegar, envolvendo,
muitas vezes, nossos entes mais queridos.
Outra consideração desse texto diz respeito
M arcos 3.20-3563
MontçHermon
־'· ־ " ■ «o ra z | n 0 £ J
'־ Cafarnaumjy-OB(
Magdala/Tariqueii& M ar da
*■¿0Cmá J ^ X G a lile ia ,
i a G a l i le ia ) ?
Tibería!
N a z a ré
^ Monte Tal - '
O G a d a r a
10 quilômetros
Os mestres da lei observam de perto as atividades
de Jesus à medida que ele viaja por toda a região
da Galileia pregando nas sinagogas, expulsando
demônios e curando os doentes. Esse mapa mostra
as principais cidades e estradas nos arredores do
mar da Galileia.
três estágios: ao ser expulso do céu (Lc
10.18; Ap 12.7-9), durante o ministério de
Jesus (p. ex., Mc 3.27) e na cruz (Jo 12.31;
16.11). No eschaton (fim dos tempos), o
diabo e seus anjos serão lançados no lago
de fogo (Mt 25.41; Ap 19.20; 20.10,14).
Ademais, quando os santos dependem in-
tetramente de Cristo, eles têm poder sobre
Satanás e seus subordinados (Mc 3.15; 6.7;
Tg4.7; lPe5.9; l jo 4.4). Somos derrotados
espiritualmente somente quando cedemos
que os principais ínimi-
gos” podem vir “de sua
própria família” . Jesus
foi rejeitado por seus
próprios familiares du-
rante sua vida e, em sua
morte, foi traído por um
membro de sua nova fa-
mília. Ao longo da histó-
ria, a mesma situação se
repetiu inúmeras vezes.
Quando eu (Grant) servia
como aprendiz de missio-
nário no Paquistão, um
missionário do norte da
África passou pela região
e falou de um recém-con-
vertido do Islã, morto
por sua esposa, que co-
locou vidro triturado na
comida dele. A esposa se
tornou uma heroína em
sua comunidade.
3. A batalha espiritual
é real, e Satanás, de fato,
está amarrado. Muitos
cristãos acreditam inte-
lectualmente que Satanás existe, contudo,
vivem como se o Diabo não existisse. Com
respeito a Satanás, são “ateus” pragmáti-
cos! Na realidade, porém, estamos envoi-
vidos em uma guerra cósmica, e as almas
da humanidade estão em jogo. Satanás
é absolutamente real, assim como suas
hostes demoníacas. Eles têm apenas um
propósito: a guerra espiritual — manter
as pessoas afastadas de Cristo (2Co 4.4) e
devorar o povo de Deus (lPe 5.8). Ainda
assim, não se trata sequer de um dualismo
modificado. Satanás já foi derrotado e sabe
disso (em Ap 12.12 fica evidente que agora
ele é motivado apenas por ira frustrada;
ele continua buscando um único objetivo:
causar a Deus e a seu povo o máximo de
sofrimento possível). Ele foi derrotado em
64M arcos 3 .20 -35
As cobras têm pequenas fossas sensíveis ao
calor, capazes de detectar uma ameaça até
mesmo horas depois de sua morte. Embora
Satanás já tenha sido derrotado, não age
como se estivesse vencido e destruído. A ca-
beça do Maligno já foi esmagada (Gn 3.15),
mas ele ainda pode causar dificuldades e
perturbações em nossa vida e no mundo.
Precisamos atentar para as advertências
das Escrituras acerca da batalha espiritual
(Ef 6.10-20) e, ao mesmo tempo, lembrar
de que “aquele que está em vocês é maior do
que aquele que está no mundo” ( ljo 4.4).
O pecad0 imperdoável.
Parábola: Um homem vai a uma loja com-
prar o presente perfeito para o aniversário
de seu filho. Ele encontra algo que com
certeza seu filho amará, mas não tem di-
nheiro suficiente para comprar o presente.
Então, vende alguns de seus pertences e até
faz horas extras no trabalho até que consiga
juntar a quantia necessária. Quando chega
o grande dia, o pai, todo orgulhoso, entrega
o presente a seu filho. Mas o presente não
é o que o filho esperava. Ele o rejeita e
diz que é “uma porcaria” . Não importa
quantas vezes o pai ofereça o presente, o
filho simplesmente não o aceita. Essa é uma
imagem do pecado imperdoável.
às tentações de Satanás e nos permitimos
ser seduzidos (ICo 10.13; Tg 1.13-15).
Para ¡lustrar o texto_____________
Cristãos rejeitados por suas famílias.
Biografia: Em toda a história da igreja há
relatos de cristãos que foram perseguidos
por suas famílias por causa da fé. O Rev.
Khalid Mansoor Soomro, ex-muçulmano
do Paquistão, se comprometeu com o cris-
tianismo em 1985. Quando relatou sua
história de conversão a seus pais, foi ex-
pulso de casa e deixou de ser considerado
membro da família. Khalid precisou esco-
lher entre Jesus e sua família. Ele optou
por Jesus. Khalid reflete: “Embora não
seja fácil, e enfrentemos muitas provações,
sentimo-nos como Paulo, que passou por
dificuldades e por sofrimento para a glória
de seu Salvador, aquele que também sofreu
durante sua jornada aqui na terra e seu
tempo na cruz”.5 Você está disposto a se
identificar com Jesus mesmo que signifique
ser rejeitado por sua família? Quem é, de
fato, seu primeiro amor?
A batalha contra os poderes demoníacos.
Natureza: Uma cobra ainda pode picar
mesmo depois de ter a cabeça decepada.
65
Marcos 4 .1 2 0 ־
Parábolas do reino
B S
Ideia central Jesus sémeou as verdades de seu reino entreas multidões, os líderes e
os discípulos. Eles são o solo em que a semente do evangelho é lançada, e Deus os
responsabiliza por sua receptividade à mensagem do reino.
(v. 21-23 e v. 24,25) e de duas sobre o
crescimento garantido do reino (v. 26-29
e v. 30-32). Ao mesmo tempo, o discurso é
regido, primeiramente, pela explicação do
propósito (v. 10-12) e, na sequência, pela in-
terpretação de Jesus do semeador (v. 13-20).
Portanto, o tema do capítulo é “ouvir” (v.
3,9,12,15,16,18,20,23,24,33) — aconfron-
tação dos ouvintes pelos “mistérios” do reino
que exigem compromisso e entendimento.
Considerações interpretativas
4.1,2 ele entrou num barco [...] lhes ensinava
[...]porparábolas. Como em 3.8,9 (cf. 2.13),
as multidões são tão numerosas que Jesus
não consegue ficar na praia e precisa usar
um barco como púlpito. Ele “assentou-se”
no barco (veja comentário em 4.36), assu-
mindo a postura dos rabinos ao ensinar (eles
se colocavam em pé ao pregar). Haverá ainda
várias outras cenas de barco,1 que se concen-
tram no ensino e no discipulado. Ao escolher
“parábolas”, Jesus desafia os ouvintes ao
esconder deles os “mistérios” do reino (4.11)
em forma de narrativa. Ele exige abertura
para a realidade do reino de Deus contida
em si próprio (para mais informações sobre
parábolas, veja “Considerações adicionais:
Satanás/Parábolas”, adiante.)
4.3 Um agricultor saiu a semear. A Galileia
era conhecida pela produtividade de sua
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Esse discurso em parábolas (cap. 4) é uma
das duas seções extensas de ensino (junta-
mente com o cap. 13) em Marcos e inter-
preta a atuação e a missão de Jesus nos
capítulos 1—3. Essas são as “parábolas
do reino” que descrevem as implicações da
chegada do reino neste mundo. Em dois ci-
cios, Jesus desafiou três grupos: os discípu-
los, que assumiram um compromisso com
ele ( 1 .1 6 3 .1 3 - 1 9 as multidões, que se ,(־20;
encantaram com ele, mas não se compróme-
teram (1.21-45; 3.7-12), e os líderes, que o
rejeitaram e tramaram matá-lo (2.1—3.6;
3.22-30). Os quatros “solos” descritos
por Jesus nessa parábola correspondem a
esses grupos: os líderes (primeiro solo), as
multidões (segundo e terceiro solos) e os
discípulos (quarto solo).
Estrutura
Esse discurso constituído de parábolas (4.1-
34) consiste em uma introdução (v. 1,2) e
uma conclusão (v. 33,34) que emolduram
cinco parábolas, a principal delas (v. 1-20)
apresentando o tema geral: a semeadura
das verdades do reino neste mundo e a re-
ceptividade dos ouvintes. F. seguida de duas
parábolas sobre ouvir verdades “ocultas”
M arcos 4.1-20 66
Or
fí
Principais temas de Marcos 4.1-20
■ Todo cristão precisa participar, com Jesus, do traba-
Iho de lançar as sementes do reino neste mundo.
■ 0 discipulado não começa com curiosidade, nem
mesmo admiração, mas com 0 compromisso de
seguir Jesus,
■ Ter o coração voltado para esse mundo é 0 oposto
de seguir Jesus.
■ Todos precisam examinar a si mesmos e avaliar
se são, de fato, receptivos ao reino, pois essa re-
ceptividade determina se haverá "frutos” do reino
em sua vida.
um, a planta morre em um estágio mais
avançado.
4.8 em terra boa. As três colheitas são
paralelas aos três solos ruins, pois aqui os
resultados se tornam progressivamente me-
Ihores. Cada planta produz, então, trinta,
sessenta ou cem plantas. Há registros de
colheitas com essa produtividade, embora
seja incomum. Foi esse solo incrivelmente
fértil que deu à Galileia a fama de paraíso
agrícola. O tema é a produção de frutos.
A produtividade aqui é cada vez maior (os
solos estéreis e férteis são apresentados em
duas tríades crescentes).
4.9 Quem tem ou-
vidos para ouvir,
ouça. Esse é o
ponto principal
do discurso, e
será repetido
Na parábola registrada em Marcos 4.1 -20, a
semeadura é manual, e o agricultor lança as
sementes ao ar com gestos precisos. O agricultor
palestino na fotograña usa esse método para semear.
Embora essa técnica de plantio fosse programada
para um solo já preparado, ou que seria arado logo
em seguida para cobrir as sementes com terra, estas
podiam acabar em qualquer lugar.
terra, e boa parte da província havia sido
comprada por proprietários ricos que a divi-
diram em inúmeros campos arrendados (cf.
12.1-12). O agricultor carregava um saco de
sementes e as lançava no solo manualmente,
depois arava o solo para que as sementes fi-
cassem debaixo da terra (por vezes, também
se preparava o solo antes da semeadura).
Na opinião de alguns, o semeador (= Jesus)
é a figura central, enquanto para outros a
ênfase é sobre as sementes (= a mensagem
do reino). Mas tanto na parábola quanto em
sua interpretação, os quatro tipos de solo
ocupam o lugar de destaque. Jesus pergunta:
“Que tipo de solo você é?’\
4.4 algumas caíram à beira do cami-
nho. No mundo antigo, as estradas (com
frequência um caminho para pedestres)
não contornavam as propriedades, mas
passavam no meio de campos. Nenhum
agricultor lançaria sementes propositada-
mente no caminho de chão batido, mas,
muitas vezes, a brisa carregava as sementes
para o caminho.
4.5,6 em lugares pedregosos. Em algumas
partes da Galileia, havia uma camada de
calcário e xisto alguns centímetros abaixo
da superfície, o que resultava em um solo
raso, que retinha a água das chuvas e a
impedia de penetrar mais profundamente.
A estação da colheita era caracterizada por
chuvas de outono (primeiras) e de prima-
vera (últimas) (cf. Dt 11.14; Jr 5.24), e as
plantas brotavam do solo graças à água
da chuva retida ali. No entanto, o calcário
impedia as raízes de se aprofundarem, e o
sol quente entre as duas estações exauria a
umidade do solo, levando a planta a mur-
char rapidamente e morrer.
4.7 entre espinhos. Pro-
vavelmente uma referência
a um tipo de erva daninha
com raízes fortes que rou-
bam a umidade do solo e
“sufocam” as plantas boas.
Há uma progressão nos três
solos ruins, pois em cada
wrrrrriiir67־
que é enigmático e só pode ser conhecido
depois de reflexão meticulosa e com percep-
ção espiritual. Se o solo do coração não for
receptivo e fértil, não haverá compreensão
alguma nem mudança de vida. Os “de fora”
se encontram nessa situação porque perma-
necem fechados para as verdades de Deus.
4.12 a fim de que [...j de outro modo.
Essas palavras são controversas, pois pa-
recem indicar que o propósito de Jesus
(him, “a fim de que”) é impedir as pes-
soas de crer e ser convertidas. Em outras
palavras, as parábolas são um artifício an-
ti-evangelismo! Para complicar, a versão
de Mateus (13.1-23) traz hoti (“ por
causa”), afirmando que o julgamento de
Isaías 6.9,10 veio “por causa” do coração
endurecido dos ouvintes. Diante disso, al-
guns (1) traduzem esse trecho de forma
epexegética (“ isto é” ): a incapacidade de
compreender explica por que ele fala em
parábolas;3 ou (2) entendem-no como uma
consequência: “para que” compreendessem
(e, portanto, semelhante a Mateus);4 ou (3)
consideram que se trata de um uso semítico
da expressão de propósito, que passa do
resultado (a falta de arrependimento) para
a causa (o plano e o propósito de Deus).5 É
provável que a terceira opção seja a mais
apropriada, pois em Marcos bina quase
sempre indica propósito.
sempre vendo, mas jamais percebendo.
Agora, Jesus cita Isaías 6.9,10 (trecho reti-
rado da narrativa de seu comissionamento),
em que o profeta é instruído a proclamar
a mensagem à nação empedernida, que a
rejeitará. Jesus está dizendo que o povo de
Israel em sua época é tão obstinado quanto
no tempo de Isaías. Como nos dias do pro-
feta, as multidões e os líderes estão continua-
mente (verbos no presente) vendo e ouvindo
as sementes da verdade em Jesus, mas, por
causa de seu coração endurecido, nunca con-
seguem perceber a realidade do reino nele.
As palavras “de outro modo poderíam [...]
ser perdoados” parecem desnecessariamente
severas e talvez sejam uma hipérbole, mas
em 4.23. No Antigo eno Novo Testamento,
“ouvir” indica tanto a disposição de ouvir
a verdade quanto a motivação para atender
e obedecer. Se não aplicamos o ensino à
nossa vida prática, não “ouvimos” de fato.
4.10-12 Essa seção acerca do propósito
das parábolas se encontra inserida (como
“episódio-sanduíche”, veja comentário
sobre 3.20-35) entre a parábola e sua in-
terpretação e, portanto, define a parábola
e a interpreta como uma parábola “do
reino” . Jesus faz essas observações mais
tarde, quando está “sozinho” com seus dis-
cípulos e alguns outros seguidores (“que
estavam ao seu redor”, como em 3.34,35,
em que eles “fazem a vontade de Deus”).
O ensino de 4.11-20 é voltado apenas para
os “de dentro”, aqueles que têm um com-
promisso com Jesus.
4.10 lhe fizeram perguntas acerca das
parábolas. O plural “parábolas” talvez sig-
nifique que fizeram perguntas a respeito de
todas as parábolas em 4.3-32. Nesse caso, o
esclarecimento cm 4.11,12 também se refere
às outras parábolas, e não apenas à primeira.
4.11 o segredo do reino de Deus. O “se-
gredo” (mystêrion)2 se refere a verdades até
então ocultas, mas agora reveladas aos se-
guidores privilegiados de Jesus. Abrange en-
tendimento tanto na esfera mental quanto
na espiritual, pois Jesus proclamou essas
verdades às multidões e aos líderes, mas
esses dois grupos não as compreenderam
nem as aceitaram. O passivo divino “foi
dado” enfatiza a eleição divina. A responsa-
bilidade humana foi ressaltada na parábola
sobre a receptividade em 4.3-8; agora, fica
em primeiro plano a escolha soberana de
Deus dos “de dentro” (os discípulos e se-
guidores) como receptores dos mistérios do
reino, e não dos “de fora” (as multidões
e os líderes).
tudo é dito por meio de parábolas. É
óbvio que Jesus não falava somente por
meio de parábolas; antes, essa declaração
significa que o ensino acerca do reino é
inerentemente parabólico, no sentido de
Satanás virá e a arrebatará de sua mente.
Sem dúvida Satanás está no controle da
vida dessas pessoas.
4.16,17 duram pouco tempo. Como no
solo rochoso, inicialmente as sementes ir-
rompem, pois são recebidas com grande
“alegria”. Os primeiros sinais são maravi-
lhosos, mas efêmeros. A raiz de uma planta
era um símbolo antigo para compromisso
estável. “Uma vez que a flora da Palestina é,
com frequência, ameaçada por seca ou calor,
dá-se especial atenção à raiz como a parte
da planta que garante a existência do todo”
ao prover “apoio e estabilidade”.6 Quando
precisam suportar “perseguição e oposição”
semelhantes à que Jesus sofreu com frequên-
cia, esses quase seguidores superficiais logo
“apostatam”, um verbo (skandalizõ) que, em
Marcos, caracteriza alguém que se ofende,
tropeça e então abandona a fé.’
4.18,19 sufocam a palavra. O solo cheio
de espinhos, assim como o terreno pedre-
goso, produz resultados, de fato, pois eles
“ouvem a palavra” , exatamente aquilo
que Jesus pede em 4.9,23. Mais uma vez,
porém, as condições iniciais promissoras
duram pouco, nesse caso porque a “pa-
lavra” é sufocada por um modo de vida
voltado para o mundo presente. Como
em Lucas 16.13, “Vocês não podem ser-
vir tanto a Deus quanto ao dinheiro”. A
lealdade a este mundo destrói a caminhada
da pessoa com Deus. As “preocupações”
resultam de uma vida que gira em torno de
bens materiais (Mt 6.25-34) e só podem ser
dissipadas pela confiança plena em Deus,
que leva a pessoa à oração (Fp 4.6,7). As
riquezas causam “engano” ou seduzem a
pessoa a pensar que os bens trarão satis-
fação quando, na verdade, sufocam sua
vida espiritual. O “desejo” ou a “cobiça”
por bens ocupa o cerne da “ganância, que
é idolatria” (Cl 3.5 |cf. Ef 5.5]); em outras
palavras, as riquezas se tornam o verda-
deiro “deus” que a pessoa venera.
é importante ter em mente 3.28-30, apenas
alguns versículos atrás. Os líderes haviam
cometido um “pecado eterno [imperdoá-
vel]” e, para eles, esse juízo soberanamente
declarado é real. Deus não deseja mais que
se arrependam — são exceções a 2Pedro 3.9
[“não querendo que ninguém pereça” |, pois
cometeram a apostasia suprema.
4.14 O agricultor semeia a palavra. A
semente é a “palavra” do ensino do reino
transmitido por Jesus (no tempo de Marcos,
também se referia à proclamação do evan-
gelho pelos seguidores de Jesus). Para nós, é
ensinar “a palavra de Deus” em nossas igre-
jas e no mundo. Os tipos de solo descrevem,
portanto, as diferentes reações das pessoas a
essas verdades do evangelho. Os quatro solos
se referem aos grupos que Jesus desafiou:
os líderes (o caminho de terra batida), as
multidões (o solo pedregoso e o solo cheio
de espinhos) e os discípulos (o solo fértil).
4.15 Satanás vem e retira a palavra. No
judaísmo, os pássaros (4.4) muitas vezes
representam forças demoníacas (p. ex.,
Jub. 11.11,12; Apoc. Ab. 13.3-7). Já que,
no caso dos líderes, a semente caiu em co-
ração calejado, não o penetra de maneira
alguma e fica à espera do momento em que
Na parábola do semeador, algumas sementes caem
no cam inho, onde podem ser facilmente comidas
pelos pássaros. A fotografia mostra um cam inho
à beira de alguns campos na Galilela, perto de
Cafarnaum.
M arcos
nossa era de igrejas nos centrarmos num
evangelho truncado (que visa unicamente
promover bem-estar em vez de desafiar) em
uma região de nível social elevada (em que
a igreja pode vir a ter muitos membros).
Essa abordagem é o oposto do ministério
de Jesus. O uso de parábolas mostra que ele
tornou sua mensagem difícil de entender, a
menos que houvesse uma abertura essencial
para a nova realidade do reino. Deus exige
rendição completa a todo o evangelho e
dependência divina que resulta em êxito.
Permitir que “membros” sem compromisso
sério permaneçam apenas parcialmente de-
dicados a Cristo nunca é aceitável.
2. Discipulado e compromisso não são
opcionais. Vivemos numa época em que o
compromisso superficial passou, em mui-
tos casos, a ser considerado a “vida cristã
normal” . Embora um ministério sensível
aos que estão em busca de espiritualidade
tenha muitos aspectos louváveis, um dos
maiores perigos é a tendência de permitir
que essas pessoas se contentem com o mero
interesse por Cristo. No ministério de Jesus,
as multidões são esse tipo de pessoas, e fica
evidente que continuam descrentes até o fim.
Enquanto o interesse não se transforma em
compromisso, não há vida espiritual nem
esperança de eternidade. As multidões se
encantam com Jesus e se maravilham com
seu poder, mas permanecem espiritualmente
neutras e, no julgamento de Cristo, essa
neutralidade se transformará em rejeição.
São verdadeiramente “os de fora” (4.11c),
e a tarefa de todo ministério autêntico é
não deixá-los à vontade, mas continuar a
desafiá-los, não maravilhá-los com efeitos
especiais e belas histórias, mas levá-los a
Cristo como “os de dentro” (4.11b).
3. O mundanismo é um perigo sério.
Uma parte considerável dos ensinamentos
de Jesus e do restante do Novo Testamento
se ocupa com o problema fundamental
deste mundo versus a realidade celeste.
4.20 aceitam-na e produzem uma co-
Ibeita. O solo fértil é a antítese do solo endu-
recido nos versículos 4,15 e, especialmente,
12. O objetivo do discipulado é sempre o
ouvir, que conduz a entendimento e obe-
diência. Os líderes ouviram a palavra e a
rejeitaram; as multidões ouviram a palavra
e se recusaram a aceitá-la. O resultado de
verdadeiramente “ouvir a palavra” é uma
vida frutífera e cada vez mais produtiva.
O fruto é tanto qualitativo — o fruto do
Espírito (G1 5.22,23) —, quanto quantita-
ti vo, trazer outros para o reino (Mt 28.19).
Considerações teológicas
O reino — o reinado de Deus sobre este
mundo — já teve início, e nesse ensino
crucial em forma de parábola, Jesus in-
terpreta o significado desse fato e fornece
perspectivas importantes quanto à salva-
ção e ao discipulado. Primeiro, em Jesus as
“sementes” ou as verdades do reino foram
semeadas no coração de todas as pessoas.
Segundo, elasprecisam “ouvir”, ou res-
ponder com fé, aceitando essas verdades.
Terceiro, seu destino é determinado pelo
tipo de solo que se tornam, ou seja, se estão
fechadas para as verdades de Deus — apa-
rentemente abertas, mas sem compromisso;
superficialmente empolgadas, mas com um
coração mundano — ou se são, de fato,
seguidores que darão frutos.
Para ensinar o texto____________
1. Todos os santos são semeadores da
palavra. Os discípulos deviam participar,
com Jesus, do trabalho de semear os en-
sinamentos do reino na Galileia. Para os
autores dos Evangelhos Sinóticos, isso sig-
nificava, sem dúvida, que a proclamação
é uma incumbência de todos os cristãos, e
não somente dos líderes da igreja. Ademais,
o campo é o mundo, e o evangelho em
sua totalidade é o resultado. E comum em
70M arcos 4.1-20
ganhar dinheiro e ter o que há de melhor
na vida”.8 O solo bom é definido como ter
“cuidado em como ouvimos” . Representa
abertura para a palavra e desejo de colo-
cá-la em prática em nossa vida.
Para ¡lustrar o texto_____________
A produção de frutos é obra de Deus.
História pessoal: Um professor visitante
no Fuller Theological Seminary comentou
sobre um sermão que pregou em um país em
desenvolvimento. Nessa ocasião, centenas
de pessoas vieram à frente como expressão
do desejo de caminhar com Jesus. Poucos
meses depois, ele pregou o mesmo sermão
em uma igreja nos Estados Unidos. Além
de ninguém ir à frente depois de seu apelo,
a igreja ficou visivelmente entediada com a
mensagem bíblica. Essa história é um bom
lembrete do fato de que, embora devamos ser
semeadores do evangelho, os frutos produzi-
dos dependem da receptividade dos ouvintes
e da obra do Senhor no coração de cada um.
0 que atrai seu coração?
Lição prática: Um imã produz um campo
magnético que atrai alguns materiais, como
o ferro, ao mesmo tempo em que repele
outros imãs. Use um imã com objetos que
contenham ferro (p. ex., clipes de papel) e
mostre como ele os atrai ou puxa. Assim
como o ferro é atraído para o imã, nosso
coração é naturalmente atraído para certos
pensamentos, sonhos, ambições e assim por
diante. Ou, então, nosso coração pode ser
atraído para adorar e glorificar a Deus. O
que atrai seu coração?
Aliás, na “vida cristã normal”, os verda-
deiros cristãos buscam e refletem sobre as
coisas do alto, e não desta terra (Cl 3.1,2)
e, assim, sua maneira de pensar é renovada
(Rm 12.2) e pensam nas coisas de Deus, e
não nas da humanidade (Mc 8.33). Assim o
crente terá um novo plano de aposentado-
ria: os tesouros no céu em vez dos tesouros
na terra (Mt 6.19-21). A amizade com o
mundo transforma a pessoa em inimiga de
Deus (Tg 4.4) e trará a ira divina. Como
em Marcos 4.18, a cobiça por bens engana
e conduz a uma vida de preocupação, que
sufoca a vida do Espírito (veja também
Rm 8.1-13).
4. A receptividade é fundamental para
dar frutos para o reino. De acordo com a
parábola do semeador, a receptividade é
crucial. Já que a semente é lançada para
todos, a pergunta é se ela está formando
raízes e crescendo na vida da pessoa. É
possível aplicar essa lição/sermão a quatro
grupos presentes na igreja de hoje: aqueles
que se recusam a crer (o caminho de terra
batida), aqueles em busca do espiritual (o
solo pedregoso), os quase cristãos, que vêm
aos cultos regularmente e pensam que são
cristãos, mas mostram poucos sinais de
compromisso (o solo espinhoso) e os cris-
tãos comprometidos (o solo fértil). Somente
o último grupo produz frutos do reino que
terão valor eterno. David Garland resume
bem essa parábola: “O caminho de terra
batida representa aqueles que não que-
rem se arrepender; o solo pedregoso, os
desistentes que só querem uma vida sem
tribulação; o solo cheio
de espinhos, aqueles
. cuja vida é dedicada a
De acordo com a parábola, algumas das sementes do agricultor caem
entre espinhos, talvez com o esses na encosta de uma colina perto de
Cafarnaum. Jesus explica que, assim com o os espinhos sufocam as
plantas mais valiosas, as preocupações, as riquezas e outros desejos
im pedem a palavra de Deus de dar frutos em nossa vida.
M arcos 4.1-2071
Considerações ad ic iona is
Satanás I Parábolas
tem poder para subjugar os santos, mas
opera por meio do engano (Ap 12.9;
20.3). Ainda assim, deseja nos destruir
(lPe 5.8, cf. Lc 22.31) e, para esse fim,
controla as forças das trevas (Ef 6.12),
“cegando o entendimento dos descrentes”
(2C0 4.4). Quando confiamos, de fato, no
Senhor, porém, não cedemos, pois Deus
provê socorro (1C0 10.13).
Parábolas______________________
Com base no hebraico mashal, uma “pará-
bola” é uma metáfora estendida em forma
narrativa que visa a desafiar o ouvinte a
entender os mistérios (veja comentário
de 4.11) do reino de Deus. Como tal, as
parábolas não têm o propósito de serem
narrativas agradáveis que tornam verdades
espirituais facilmente compreendidas. Pelo
contrário, só podem ser compreendidas em
conjunto com a aceitação da realidade do
reino. Para aqueles que não estão abertos
para a vinda do reino de Deus em Jesus, as
parábolas mascaram ou ocultam seu signi-
ficado e geram confusão e rejeição. Ao usar
parábolas, Jesus esconde a verdade, pois elas
exigem investigação minuciosa e compro-
misso sério para que haja entendimento.
Muitas vezes, a narrativa em si é obscura,
pois traz desdobramentos contrários à expe-
riência comum. Isso acontece porque o reino
inverte as tradições terrenas e, portanto,
a história envolve o leitor nos dois níveis.
Para entender uma parábola, é preciso de-
dicar-se à séria reflexão daquilo que está
Satanás_______________________
“Diabo” (diabolos) é a designação grega
e “Satanás” (safan) é a forma hebraica
para o “adversário” de Deus, o “difama-
dor” ou acusador dos santos. O Antigo
Testamento não diz muita coisa a seu
respeito. Espíritos malignos ou demônios
são encontrado nos “ ídolos em forma de
bode” ou “demônios” em Levítico 17.7;
2Crônicas 11.15; “criaturas noturnas”
em Isaías 34.14; “espírito atormentador”
em ISamuel 16.14-23 e “espírito menti-
roso” em IReis 22.21-23. No Antigo Tes-
tamento, todos esses estão sob o controle
de Deus e são enviados por ele. Satanás é
visto na “serpente astuta” de Gênesis 3
(Satanás é chamado “antiga serpente” em
Ap 12.9; 20.2), no anjo inimigo presente
na corte celestial em Jó 1.6-12; 2.1-7;
Zc 3.1,2 e no “Satanás” em 1 Crônicas
21.1. O interesse em espíritos malignos
e em Satanás cresceu no período inter-
testamentário, possivelmente por causa
de um maior fervor apocalíptico (veja
lEn 6— 16; 54; Jub. 10; T. Jó 6—8). No
Novo Testamento, Satanás é o inimigo
principal de Deus e de seu povo. Ele é o
“deus deste mundo” (2Co 4.4) e o “go-
vernante deste mundo” (Jo 12.31; 14.30;
16.11), mas somente deste mundo mau.
Os cristãos têm poder sobre as forças das
trevas (Mc 3.15; 6.7). Este mundo é a
prisão de Satanás (2Pe 2.4; Jd 6); ele foi
expulso do céu e lançado neste mundo
(Ap 12.7-9) e sabe que o dia de sua des-
truição se aproxima (Ap 12.12). Ele não
72Considerações ad icionais
rábola. Várias parábolas trazem elementos
alegóricos; cabe ao intérprete identificar
quando um detalhe é uma nuança local (ou
seja, apenas parte da narrativa) e quando
tem relevância teológica. Essa identificação
precisa ser guiada pelo contexto.1
debaixo da superfície narrativa e observar
como esta opera em seu contexto. Assim,
é possível compreender como a realidade
do primeiro século norteia o modo de Jesus
relatar a história e que aspectos da verdade
do reino são apresentados por meio da pa
Considerações ad icionais73
Marcos 4 .2 1 3 4 ־
Mais parábolas do reino
Ideia central Deus garante que o reino crescerá exponencialmente, e suas realidades
ocultas logo serão reveladas; é chegada a hora, portanto, de abrir 0 coração e a mente
para suas
parábolas: a única reação viável é ouvir e
obedecer às verdades de Deus em Jesus.
Considerações interpretativas
4.21 você traz uma candeia (...]você a coloca
em seu velador. Jesus conti-
nua a se dirigir tanto
a seus seguidores
quanto às multidões
(4.1,2,10) e agora
fala do reino como
uma candeia (um
pequeno recipiente de
barro para queimar óleo)
cuja finalidade é iluminar
um cômodo. Embora a can-
deia possa se referir apenas
à parábola anterior e a seu
significado “oculto”, ou à
vinda de Jesus, é mais apro-
priado considerá-la como o
reino que chegou em Jesus.
A questão é que ela não
deve ser escondida debaixo
de “uma vasilha” (um red-
píente com capacidade
para cerca de oito
litros usado para
medir cereais), nem
da cama, de forma
Para entender o texto
Texto em contexto
O tema central das parábolas deste capítulo
já foi identificado em 4.1-20: ouvir e obe-
decer à palavra de Deus ao certificar-nos
que somos receptivos às verdades do
reino. Nas quatro parábolas sub-
sequentes em 4.21-34, esse tema é
explorado em mais detalhes e de
duas maneiras. A candeia e a me-
dida (v. 21-25) explicam melhor
o propósito das parábolas: por
meio delas, as verdades do reino —
ocultas até o presente (v. 10-12) — estão
prestes a ser reveladas (v. 21-25), e todos
devem ouvi-las atentamente. Em seguida,
as duas parábolas sobre sementes nos
versículos 26-32 mostram que Deus é
responsável pelo crescimento do reino,
e sua grandeza é garantida. A expressão
“ouvidos para ouvir” no versículo 23
repete o versículo 9 e interpreta as quatro
'Você traz uma candeia para colocá-la
debaixo de uma vasilha ou da cama? Acaso
não a coloca no velador?’ (4.21). Foram
encontrados veladores do período romano
com 60 centímetros a 1,5 metros de altura.
Esses suportes perm itiam que a luz de uma
pequena candeia a ó leo iluminasse todo o
cômodo. A fotografia mostra um velador
da Itália do primeiro século d.C.
Marcos 4 .21-34
Principais temas de Marcos 4.21-34
■ Jesus define 0 verdadeiro significado do reino, escon-
dido da concepção humana e revelado somente nele.
■ Cabe ao povo de Deus ouvir atentamente e colocar
em prática o ensino do reino transmitido por Jesus.
• Deus exerce controle absoluto sobre 0 processo de
crescimento do reino.
fizermos para Deus, também receberemos
dele (observe o passivo divino aqui “serão
medidos”). Aqui, significa que o ato de
ouvir atentamente o ensino de Cristo será
recompensado por Deus. Em seguida, Jesus
acrescenta que, pela graça de Deus, a re-
compensa será maior que o esforço. Deus
nos dará ainda mais entendimento. Há uma
superabundancia de riquezas para aqueles
que examinam atentamente a Palavra.
4 . 2 5 de quem não tiver, até o que tem lhe
será tirado. A advertência é bastante clara
descrevendo os dois lados do princípio da
reciprocidade em 4.24. Para aqueles que
“têm ouvidos para ouvir” (4.9,23,24a), as
parábolas são o solo fértil de 4.8,20; eles
recebem “ainda mais” ensino e entendí-
mento (a trinta, a sessenta e a cem por um).
Aqueles que não abrem o coração para as
verdades do reino (como os três primei-
ros solos da primeira parábola) perdem o
pouco entendimento e as poucas bênçãos
que tinham inicialmente. Essa ideia é par-
ticularmente trágica no contexto judaico,
pois os judeus que rejeitam Jesus perdem o
lugar que a aliança lhes conferiu na oliveira
(Rm 11.17).
4 . 2 6 , 2 7 um homem lança sementes [...]
quer ele durma quer se levante, a semente
germina e cresce. A segunda parábola da
agricultura nesse capítulo pode ser cha-
mada de “parábola da semente que cresce
por sua própria conta” e ressalta que o
agricultor não controla a produção; precisa
esperar a natureza seguir seu curso. Como
que a luz não será vista e poderá se apagar.
É evidente que deve ser colocada no velador
para iluminar todo o ambiente.
4 . 2 2 o que está oculto é para ser reve-
lado. Como em 4.11, os “mistérios” (as
realidades ocultas do reino) estão no pro-
cesso de ser revelados aos seguidores de
Jesus. Há quem diga que esse versículo se
refere a nossas ações e pensamentos ocultos
e que serão revelados quando Cristo voltar,
mas essa interpretação não se encaixa no
contexto. O tempo das coisas escondidas
era o presente, o tempo das parábolas e da
rejeição, em que a verdade acerca de Jesus
e de seu ensino do reino estavam “ocultas”
para os de fora (4.1 lb,12); ao longo de toda
a vida de Jesus, Deus usaria as forças do
mundo para realizar sua morte expiatória.
É provável que o tempo da manifestação e
da luz tenha duas ênfases interdependen-
tes. Primeira, a ressurreição de Jesus será
o momento decisivo em que sua candeia
iluminará o mundo (Jo 8.12) e sua verda-
deira realidade, como Messias e Filho de
Deus, se tornará manifesta em sua missão
universal. Segunda, sua consumação se
dará somente na parúsia (segunda vinda),
quando sua glória será universalmente
revelada e “ todo joelho se dobrará, no
céu, na terra e debaixo da terra” (Fp 2.10).
4 . 2 4 Com a medida com que medirem,
vocês serão medidos; e ainda mais. Tem
início aqui a terceira repetição da ordem
fundamental do discurso constituído de
parábolas. “Considerem atentamente o que
vocês estão ouvindo” (veja também v. 9,23).
A parábola da medida era um provérbio
popular judaico (cf. Mt 7.2) derivado do
comércio. Referia-se a uma espécie de pá
usada para “medir” cereais ou produtos
adquiridos e garantir uma transação justa.
Trata-se aqui do princípio de lex talionis
(a lei de retribuição ou reciprocidade), ele-
mento que também é central em Apocalipse
(acerca da justiça absoluta de Deus). O que
M arcos 4.21-3475
em 4. t - 8, a semente é o ensino acerca do
reino (é provável que, nesse caso, o semea-
dor não represente Jesus, mas nós). O ponto
central gira em torno do fato de que Deus
é responsável pelo crescimento do reino,
e não nós. O relato é propositadamente
artificial; nenhum agricultor deixa de lavrar
o solo ou de remover as ervas daninhas.
A questão é que, em última análise, as ati-
vidades do agricultor não são capazes de
fazer a planta crescer. Quem determina o
resultado final é a natureza/Deus. A des-
crição detalhada da semeadura e de cada
etapa de desenvolvimento da planta (o talo,
a espiga [o aparecimento do grão], o grão
cheio [maduro e pronto para a colheita|)
significa que cada estágio da proclamação
do evangelho é soberanamente controlado
e garantido por Deus. Isso não significa que
seu povo pode ficar inerte, sem fazer coisa
alguma. As ações do agricultor mostram
que os santos fazem parte do processo. No
entanto, lançamos a semente e esperamos
Deus — aquele que dirige o processo —
produzir a colheita. “Eu plantei a semente,
Apolo a regou, mas Deus c quem a fez
crescer” ( ICo 3.6).
4.31,32 um grão de mostarda [...] a
menor de todas as sementes / .../ cresce e
se torna a maior de todas as hortaliças. A
parábola do grão de mostarda fornece uma
conclusão apropriada para essas histórias
associadas à agricultura. Na verdade, o
grão de mostarda não é a menor de todas as
sementes (a semente da orquídea é menor),
mas a hipérbole é intencional, para en-
fatizar a pequenez da nova comunidade
messiânica no tempo de Jesus. A menor
das sementes é que produz um arbusto tão
grande e, portanto, um modelo perfeito
para o crescimento da igreja. A semente
é tão pequena que some na palma da
mão, mas o arbusto tem de 3 a 4 metros
de altura.
com ramos tão grandes que as aves do
céu podem abrigar-se à sua sombra. Esse
detalhe destaca ainda mais o tamanho do
arbusto. Além disso, refere-se a Ezequiel
17.23; 31.6; Daniel 4.21 e à imagem da
árvore universal de Deus na qual os gentios
encontrarão descanso.1 Tem continuidade,
desse modo, a ideia da missão universal, que
comprova a imensidão da colheita futura.
4.33 muitas parábolas semelhantes [...]
tanto quanto podiam entender. A expres-
são “muitas parábolas semelhantes” nesse
versículo repete 4.2 e cria uma moldura ao
redor do capítulo (integração), mostrando
que essas histórias representam as muitas
narrativas que Jesus usou para ensinar as
multidõese os discípulos. Nesse contexto,
“tanto quanto podiam entender” deve se
referir, então, à diferença entre os discípu-
los (que receberam os mistérios) e as mui-
tidões (que receberam apenas parábolas
que ocultam os mistérios [cf. 4.11]). As
parábolas exigem uma investigação
minuciosa e uma resposta, e tanto os
líderes quanto as multidões respon-
deram de forma negativa. O entendí-
mento e o crescimento só são possíveis
da multidão se abrem
Jesus compara 0 reino de Deus a um grão
de mostarda que cresce e se transforma
em uma hortaliça grande, na qual as aves
podem pousar. A planta à qual Jesus se
refere é, provavelmente, a mostarda preta
(Brassico nigra), que aparece aqui.
arrasa tudo em seu caminho [...] Por isso
tantos não reconhecerão sua presença, su-
bestimarão seu poder e farão pouco caso
de sua reivindicação sobre a vida deles”.3
O reino é o humilde Jesus e só se entra nele
ouvindo e crendo.
2. Os seguidores de Jesus têm a respon-
sabilidade de ouvir e agir. A única forma de
encontrar o caminho para o reino é ouvir
cuidadosamente e atender às verdades apre-
sentadas por Jesus em suas parábolas. Esse
é o tema central do discurso constituído de
parábolas (4.9,13-20 [nos v. 15,16,18,20
cada um dos tipos de solo “ouve a pala-
vra”], 23,24,33,34). Ainda assim, não basta
apenas ouvir. Tanto no hebraico quanto no
grego ouvir significa obedecer. Em razão da
natureza do processo, quando alguém ouve,
precisa agir conforme o que ouviu. O povo
de Israel foi advertido em várias ocasiões
para colocar em prática 0 que tinha ouvido
(p. ex., Dt 28.58; 29.29; Js 1.8) e, no salmo
119, o famoso hino de exaltação da palavra
de Deus, os temas centrais são “obedecer”
(p. ex., v. 2,8,17,34,40 [dezenove vezes
ao todo]) e “seguir” (v. 1,59,67,73,173)
a palavra. Em Tiago 1.22-25, ser ouvinte
significa ser praticante. Deus exige que seu
povo ouça e aja.
3. O crescimento do reino está sob o
controle de Deus. Um dos problemas do
ministério atual (e um sinal da secularização
da igreja) é a impressão de que o pastor-ti-
tular é quase o dono da igreja. As pessoas
se referem, com frequência, à “igreja do
pastor Fulano”, e tanto a responsabilidade
como a glória cabem ao pastor. Um amigo
meu ouviu de um editor que só conseguiría
publicar um livro dele se ele fosse pastor
de uma megaigreja ou uma celebridade da
televisão. A qualidade foi substituída pela
fama, e raramente a glória é dada a Deus,
o único que a merece de fato. Ao longo
das Escrituras, Deus escolhe manifestar
sua grandeza por intermédio dos fracos
para “ouvir” as parábolas. Enquanto não
o fizerem, não “poderão” (dynamai, ser
capacitado por Deus) entender.
4.34 não lhes dizia coisa alguma sem
usar alguma parábola. Como em 4.1 lb,12,
Jesus usa parábolas para ocultar a verdade
daqueles que não são receptivos ao reino.
Há uma hipérbole aqui, pois em outras
passagens de Marcos, Jesus ensina as mui-
tidões sem usar parábolas (p. ex., 1.15;
8.34— 9.1). Marcos enfatiza a “natureza
enigmática [intencional] de boa parte do
ensino de Jesus” .2 Os discípulos ainda têm
dificuldade para entender seu sentido, mas
são receptivos, de modo que Jesus explica
para eles o significado de suas palavras
(como é o caso em 4.13-20). Eles são “os
de dentro” e, portanto, têm o privilégio
de receber a verdade completa acerca dos
princípios do reino de Jesus.
Para ensinar o texto____________
1. O verdadeiro significado do reino é
revelado somente em Jesus. Ele veio não
apenas para trazer o reino, mas também
para apresentar uma realidade do reino
diametralmente oposta às expectativas. O
povo judeu esperava um rei conquistador
que destruiría seus inimigos e, com efeito,
colocaria o mundo nas mãos de Israel.
Jesus, porém, veio para ser o Servo Sofre-
dor e trazer um reino espiritual que exigia
de seus seguidores humildade e uma vida
de santidade. A única maneira de entrar
nesse reino é crer em Jesus e tornar-se se-
melhante a Cristo ao segui-lo. O reinado de
Deus chegou, mas de modo surpreendente
e com um início totalmente inesperado.
Começou com obscuridade e rejeição. As
hostes celestiais não vieram e as trombetas
não soaram. O poder que caracteriza seu
início é o poder do Espírito, não o poderio
militar. “Não [é] uma força irresistível que
M arcos 4.21-3477
examinam a Palavra atentamente. Você
está investindo nas Escrituras?
0 ministério é obra de Deus.
Filme: Homens de preto. Essa comédia
de ação e ficção científica de 1997 tem
uma cena maravilhosa que pode ser uti-
lizada para enfatizar a realidade de que
Deus está no controle e fará o reino
avançar por meio de gente comum,
de pecadores como você e eu.
James Darrell Edwards HI,
que se torna o agente
J (protagonizado
por Will Smith),
faz parte de um
grupo seleto de
fu n c io n á rio s
do governo es-
colhidos para
partic ipar de
urna prova a
fim de tornar-se
membro de urna
organização secreta
que policia as ativi-
dades dos alienígenas
na Terra. Nessa cena em
particular, Zed (o líder
dos Homens de Preto)
pergunta aos candida-
tos: “Vocês sabem
por que foram es-
colhidos?” . Um
deles, soldado de
um grupam ento
de forças espe-
ciais, responde:
“Porque somos
os melhores dos
melhores dentre
os melhores, se-
nhor” . No entanto, a organização está à
procura de um recruta bem diferente das
expectativas dos candidatos, e Edwards, um
e dos excluídos. Quem derrotou Golias e
os filisteus não foi o grande reí Saul, mas,
sim, um pequeno menino-pastor Davi. Os
Doze eram um grupo de individuos que
não se encaixavam na sociedade. Como
Paulo afirma: “Eu me gloriarei ainda mais
alegremente em minhas fraquezas”, pois o
poder de Deus “se aperfeiçoa na fraqueza”
(2Co 12.9). Não precisamos nos preocupar
com nossas inadequações. Simplesmente
precisamos nos esforçar ao máximo e
confiar inteiramente em Deus, pois
ele dirige nosso trabalho e nos
torna mais capazes do que
seríamos por nossa própria
conta. Participamos da
obra do reino de Deus, e
o progresso e a grandeza
de seu reino e de nosso
ministério estão sob seu
controle soberano.
Para ilustrar o texto
Um retorno exponencial de
investimento.
Economia: Consultores financeiros
costumam enfatizar a importância
de investir com regularidade e de
começar cedo. Há grande sabedoria
nesse conselho. Os investido-
res devem ser disciplinados,
os discípulos também. Ler
a Bíblia com regularidade,
por exemplo, gera grandes
benefícios. O que investimos
de tempo e esforço na leitura
das Escrituras resulta cm uma
recompensa muito maior, à
medida que o Senhor nos dá
entendimento mais profundo
e transforma nossa vida por meio disso.
Como observamos acima, há uma supe-
rabundância de riquezas para aqueles que
Jesus afirma que a vinda do reino de
Deus é com o a luz de uma candeia.
Pequenas candeias de azeite feitas
de barro, com o essa do período
romano, eram colocadas em nichos na
parede ou em suportes para iluminar
o côm odo todo. Na cavidade central
colocava-se azeite e, no orifício da
extremidade, um pavio.
O Espírito Santo e a Palavra.
Hino: O Espírito sopra sobre a Palavra, de
William Cowper. Esse hiño magnífico da
igreja lembra que o entendimento e a apli-
cação da Bíblia são obra do Espirito Santo.
Reflita sobre estas palavras marcantes da
primeira estrofe:
O Espírito sopra sobre a Palavra
e traz a verdade à tona;
Preceitos e promessas propiciam
uma luz santificadora.
Cada vez que vamos 1er a Biblia devemos
orar e pedir ao Senhor que nos dé a capaci-
dade para entender e aplicar suas verdades
à nossa vida.
policial de Nova York e o candidato menos
provável, é selecionado. Muitas vezes, pen-
samos que para ter um ministério eficaz
precisamos de uma personalidade brilhante,
grande capacidade intelectual, aptidão ex-
traordinária de comunicação e assim por
diante. Na verdade, porém, precisamos de
pessoas dispostas a entregar-se inteiramente
a Deus e a sua Palavra e a permitir queele
opere por seu intermédio. Se você não se
sente qualificado para ser usado por Deus,
sinta-se encorajado. Ele é o único que pode
usá-lo para produzir resultados eternos no
mundo, e ele só está esperando você per-
mitir que ele o faça.
M arcos 4 .2 1 3 4 79־
Marcos 4.35— 5.20
A autoridade de Jesus sobre a
natureza e os poderes cósmicos
Ideia central Jesus revela que é Senhor das tempestades, inteiramente soberano sobre as
forças da natureza e sobre 0 mundo cósmico das trevas. Os discípulos, em contraste,
não conseguem pensar em coisa alguma a não ser em sua própria vulnerabilidade.
em 3.1-6,20-30. Uns poucos “ouvirão”
(4.9,23); a maioria ouvirá, mas ainda assim,
não perceberá (4.12).
Considerações interpretativas
4 . 3 6 Deixando a multidão para trás. Ao
que parece, esse acontecimento ocorre no
mesmo dia (“naquele dia”) em que Jesus
terminou o discurso constituído de parábo-
las. Jesus quer dedicar tempo de qualidade
só com seus discípulos, de modo que “deixa
as multidões” e, para certificar-se de que
ninguém os seguirá, pede que se amontoem
“no barco” para ir à região da Transjor-
dânia. É provável que o barco nesse relato
fosse semelhante a uma embarcação des-
coberta há poucos anos (veja imagem ao
lado).1 A ênfase é sobre a popularidade
descomunal de Jesus. Como em 1.35-37;
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Marcos passa de uma série de parábolas de
Jesus para uma coletânea de seus milagres.
A ênfase é sobre sua autoridade, e a sequên-
cia apresenta todos os tipos de milagres que
Jesus realizou, demonstrando seu poder
sobre a natureza (4.35-41), sobre as forças
das trevas (5.1-20), sobre as enfermidades
(5.24b-34) e, por último, sobre a morte
(5.21-24a,35-43). A ação se desenrola
junto ao mar da Galileia e, em certo sen-
tido, esses são relatos que envolvem barcos.
Neles, Jesus, o Senhor do Sabbath (2.28),
é apresentado também como Senhor da
criação. A pergunta fundamental é “Quem
é este?” (4.41). Ainda assim, mais uma vez
o resultado será rejeição (6.1-6), como foi
M arcos 4 .3 5 — 5.20
O barco usado por Jesus e seus discípulos
para atravessar 0 lago talvez fosse semelhante
à embarcação do primeiro século d.C. cujos
restos aparecem aqui. Foi encontrada em
1986 enterrada na lama exposta pela seca.
na margem noroeste do mar da Galileia. Tem
8 metros de comprimento, 2,3 metros de
e 1,4 metros de profundidade.com
para doze a quinze pessoas.
largura
espaço
Principais temas de Marcos 4.35— 5.20
■ Em situações desesperadoras, é essencial ter fé
em vez de medo.
■ Jesus exerce autoridade absoluta sobre toda a cria-
çâo divina.
• As forças demoníacas existem somente para ten-
tar derrotar e destruir todos os que são criados à
imagem de Deus.
consideram que se trata de um “exorcismo”
de poderes demoníacos na tempestade.
Embora essa proposta seja possível, tendo
em vista o relato seguinte (5.1-20), é mais
provável que Jesus esteja se dirigindo ao
vento como uma entidade viva a fim de
demonstrar seu controle absoluto sobre
todo tipo de forças como essa.
4.40 com medo [...] não têm fé. Para
muitos, essa é uma história que trata prin-
cipalmente do discipulado, mas esse tema é
secundário em relação à cristologia. Ainda
assim, nos versículos 39 e 40 encontramos
um precursor dos fracassos que predomina-
rão nos capítulos 6— 16 (veja Introdução).
Os discípulos não têm fé porque concen-
tram toda sua atenção no dilema terreno e
não creem em Deus/Jesus. O medo revela
falta de fé (cf. 5.15,36; 6.50; 10.32; 16.8).
4.41 Quem é este? Os apóstolos reagem
de modo apropriado com “grande temor”,
uma demonstração de deslumbramento e
reverência, e não de terror. Suas palavras
implicam uma cristologia extremamente
elevada, pois no Antigo Testamento so-
mente Yahweh dá ordens às tempestades
(SI 65.7; 89.9; 93.3,4; 107.28,29). “Quem
é este?” é a pcrgunta-chave de 4.35—5.43.
5.1 Eles atravessaram o lago. Começa-
ram a jornada em 4.36; agora, depois da
tempestade, chegam à região gentia dos
gerasenos. O problema é que Gerasa ficava
a mais de cinquenta quilômetros no inte-
rior. Mateus 8.28 traz “gadarenos”, indi-
cando um local cerca de oito quilômetros
3.7, ele não consegue escapar; as multidões
0 seguem por toda parte.
4.37 ele quase afundou. Colinas altas
cercam o lago e, com frequência, afuni-
lam o vento sobre a água, criando ondas
de 2,5 a 3 metros de altura (uma vez que
essa região se encontra cerca de 215 metros
abaixo do nível do mar, costuma ter ventos
fortes e, como o lago é profundo, o vento
agita uma grande quantidade de água). As
ondas quebram sobre o convés e começam
a inundar o barco, ameaçando afundá-lo.
4.38 Jesus estava /.../ dormindo. E pro-
vável que haja uma ligação com a narrativa
de Jonas, na qual figuram um barco no
mar, uma grande tempestade, passageiros
aterrorizados e Jonas adormecido no porão
(Jn 1.5). Jesus é maior que Jonas (Mt 12.41)
e inverte os aspectos negativos da história
do profeta. A “almofada” de marinheiro
talvez seja uma espécie de travesseiro ou um
saco usado para lastro. A ênfase provável-
mente é sobre a imensa confiança de Jesus
em Deus, que lhe possibilita permanecer
dormindo apesar das ondas revoltas e do
vento uivante.
não te importas que nos afoguemos? Os
discípulos interpretam o sono de Jesus não
como fé, mas como indiferença à situação
difícil deles.2 Cada aspecto de sua reação ao
Jesus adormecido revela sua falta de fé nele
(em contraste com a fé em Deus que Jesus
demonstra) e seu desespero diante do perigo
(por ironia, eles, e não Jesus, eram pescado-
res que provavelmente haviam enfrentado
tempestades desse tipo em ocasiões anterio-
res). Chamam-no “Mestre” (mesmo título
usado em Lucas; em Mateus, chamam-no
“Senhor”) e o acusam de não se importar
com a morte iminente deles. Em Jonas 1.6,
o capitão desperta o profeta para lhe pedir
que ore pela situação deles, e é isso que os
discípulos deveríam ter feito com Jesus.
4.39 Aquiete-se! Acalme-se! Essa é a
mesma linguagem usada para repreen-
der e calar o demônio em 1.25, c muitos
M arcos 4 .3 5— 5.2081
arrebentou as correntes, quebrou os ferros
e subjugou todos que tentaram “domá-lo”
(damazõ, usado com frequência para domar
animais selvagens).
gritava e se cortava. Sem dúvida os gri-
tos contínuos são resultado de angústia;
um comentarista considera essa passagem
“uma das histórias mais lamentáveis da
Bíblia sobre a desgraça humana”.5 O ato
de “cortar-se com pedras” pode ser suicí-
dio ritual; os demônios procuram matá-lo,
como fazem também com o menino em
9.18,22,26.
5.7 Filho do Deus Altíssimo. O ende-
moninhado reconhece Jesus de imediato,
mesmo “de longe” e, diante da autoridade
de Jesus, divinamente concedida, é obri-
gado a “prostrar-se” (o verbo proskyneõ
pode significar “adorar”, mas aqui tem
o sentido básico de submissão a uma
autoridade superior). Aquele que havia
subjugado todos os que se opunham a ele
agora se encontra impotente aos pés de
Jesus! Ainda assim, ele reage e tenta ga-
nhar alguma vantagem sobre o Filho do
Deus Altíssimo. As palavras que profere
são semelhantes às do endemoninhado em
1.24; na primeira parte, tenta obrigar Jesus
a deixá-lo em paz e, na segunda, procura
atingir a essência interior de Jesus a fim de
obter algum poder sobre ele. Algumas das
expressões mais elevadas da cristologia em
a sudeste do lago. Tanto Gerasa quanto
Gadara faziam parte de Decápolis, as dez
cidades helenísticas na Síria, de modo que
só podemos afirmar que essa região ficava
do lado leste do lago.3
5.2 um homem com um espírito imundo
veio. Essa é a primeira de várias ocasiões
em que Jesus vai a uma região gentia (7.24-
30; 7 . 3 1 8 . 1 - 1 0 -Embora Jesus res .(־37;
trinja a missão de seus discípulos a Israel
(Mt 10.5,6; 15.24), leva-os consigo, propo-
sitadamente, ao ministrar aos gentios, sem
dúvida a fim de prepará-los para sua missão
posterior aos não judeus.4 Nesse sentido,
a missão aos gentioscomeça aqui. Como
em 1.23, Marcos usa sua expressão básica
para demônios “espírito impuro [imundo]”
para mostrar que não há nada de bom nem
da parte de Deus neles. Não passam de
“animais” imundos! Os possuídos eram,
para todos os efeitos, como os leprosos e,
portanto, obrigados a deixar seus lares e
povoados. Túmulos (cavernas ou locais de
sepultamento escavados em rochas para a
família estendida, com uma parte na frente
delas reservada para os futuros mortos)
eram os lugares mais apropriados para
abrigar-se de tempestades, razão pela qual
se tornaram a habitação dos possuídos.
5.3-5 arrebentava as correntes e que-
brava os ferros. Somente Marcos traz essa
descrição vivida da força sobrenatural e do
tormento intenso do homem. Sua força é de-
clarada de três formas:
Um possível local para
a região dos gerasenos,
onde Jesus encontra
um hom em possuído
por um espírito imundo,
é a região próxima de
Gergesa, do lado leste
do mar da Gallleia. Essa
encosta íngreme de
uma colina é um cenário
apropriado para a fuga
desenfreada da manada
de porcos.
M arcos 4 .3 5 — 5.20
5.13 se afogaram. A nova habitação dos
demônios não dura muito tempo. Assim
que entram nos porcos, a manada corre
em desespero para sua destruição. As águas
que quase mataram os discípulos (4.37,38)
agora aniquilam os animais.
5.15 assentado ali, vestido e em per-
feito juízo. Dificilmente essa manada tão
numerosa pertencia a apenas um dono. É
provável que fosse constituída dos porcos
de todo o povoado. Ao ouvir a notícia,
todos os habitantes correm para o local.
O foco, porém, não está sobre os porcos
mortos, mas sobre o homem restaurado.
Sem dúvida, a maioria das pessoas ali co-
nhecia o endemoninhado. E provável que
muitos deles tivessem sido subjugados por
ele (v. 4) e, portanto, tenham ficado atôni-
tos ao vê-lo em perfeito juízo, aos pés de
Jesus (veja v. 6). Seu temor é tão grande
que pedem a Jesus que saia da região para
que não haja mais destruição.
5.19 conte-lhes quanto o Senhor fez por
você. Jesus acata o pedido do povo, mas
enquanto está entrando no barco para vol-
tar à Galileia, o homem suplica para que
lhe permita tornar-se um de seus discípulos
(gr., m efautou, “estar com ele”, o primeiro
passo do discipulado em 3.14). Em vez
disso, Jesus o transforma em missionário,
aliás, o primeiro “apóstolo [enviado] aos
gentios”. Jesus inverte a ordem de silêncio
em 1.44; 3.12 (e 5.43) e instrui o homem
a proclamar a “misericórdia” de Deus por
ele. O segredo messiânico foi restrito ao
contexto judaico, pois somente os judeus ti-
nham um conceito equivocado da (primeira)
vinda do Messias como rei conquistador em
vez de servo sofredor. O homem obedece a
Jesus, proclama a misericórdia de Deus por
toda Decápolis (as “Dez Cidades” da Síria)
e, por consequência, “todos” (linguagem da
missão universal) ficam “maravilhados”.
Marcos vêm de demônios: “Santo de Deus”
(1.24), “Filho de Deus” (3.11) e agora, a
mais exaltada de todas: “Filho do Deus
Altíssimo” (reconhecendo a superioridade
absoluta do “Altíssimo”).
Em nome de Deus, não me atormentes!
Podería se tratar de uma súplica desespe-
rada por misericórdia, mas à luz de 1.24
e da linguagem aqui, é mais provável que
represente uma tentativa de obter algum
controle sobre Jesus. O “tormento” deve
ser entendido sob a ótica de 1.24 (“para
nos destruir”) como uma referência a ser
expulso de sua habitação atual (o homem),
prenunciando sua “expulsão” final para o
lago de fogo (Ap 19.20; 20.10,14).
5.9 Meu nome é Legião. Essa parte cen-
trai do relato (v. 7 1 3 gira em torno das (־
“negociações” entre os demônios e Jesus.
Há uma diferença interessante em relação
a exorcismos anteriores em Marcos: Jesus
já ordenou que os demônios saíssem (v. 8)
e, ainda assim, eles continuam a barganhar
na tentativa de obter liberdade. O propósito
de Jesus aqui é mostrar a todos a natureza
das forças reunidas contra eles. A tônica de
“Legião” não é o número exato de solda-
dos, mas, sim, o número elevado (“somos
muitos”) e a imagem de um exército hostil
decidido a causar destruição.6 Também é
possível que o nome busque retratar que
os demônios ocuparam o homem (como
Roma fez com a Palestina).
5.12 Mande-nos para os porcos. A pre-
sença de uma grande manada de animais
impuros fornece a habitação perfeita para
“espíritos imundos” . Em vez de serem lan-
çados às “correntes das trevas” (2Pe 2.4),
os demônios suplicam para ser enviados
a um lugar alternativo, a manada de por-
cos. Observe que os demônios se renderam
inteiramente ao poder superior de Jesus.
Eles sabem que serão expulsos e procuram
chegar a um meio-termo para que Jesus lhes
dê algo ligeiramente melhor que o abismo.
M arcos 4 .35— 5.2083
Depois de ser liberto dos
espíritos im undos, o homem
curado anuncia 'em Decápolis"
(5.20) o quanto Jesus fez por
ele. A região de Decápolis era
um distrito adm inistrativo de
Roma. Abrangia várias cidades
helenizadas importantes, a
maioria a leste do mar da
Galileia e do rio Jordão. Caso
esse m ilagre de cura tenha
ocorrido perto de Gergesa,
a cidade de Decápolis mais
próxima era Hipos. A fotografía
mostra as ruínas do fórum
(primeiro século d.C.) de Hipos.
tornou-se comum duvidar de milagres,
considerá-los uma violação das leis natu-
rais e, portanto, ocorrências impossíveis.
No entanto, devemos perguntar: Quem é
soberano, Deus ou as leis naturais que ele
instituiu? Sabemos, agora, que a ciência
apenas descreve como a natureza funciona;
ela não dita essas leis. Dentro das leis na-
turáis, há espaço para um Deus que, ao
intervir de fora da natureza, prova que ela
funciona como deve.7
3. O objetivo das forças demoníacas
é causar destruição. Aqui e em 9.14-20,
fica evidente qual é o propósito central dos
demônios neste mundo. A exemplo de Sata-
nás, o “leão que ruge” e deseja “devorar”
sua presa (1Pe 5.8), os demônios existem
para opor-se a Deus e a seu povo. Não se
apoderam de indivíduos porque desejam
ter um corpo (como me ensinaram quando
eu era jovem!). Seu desejo é atormentar e
matar todos que foram criados à imagem
de Deus. Quando Satanás foi expulso do
céu, veio à terra “cheio de fúria, pois sabe
que lhe resta pouco tempo” (Ap 12.12).
Como não tem pretensão alguma de con-
quistar uma vitória definitiva, ele e seus
subordinados desejam causar o máximo de
dor no tempo que lhes resta. O poder deles,
Para ensinar o texto____________
1. Situações graves requerem fé, não medo.
Deus não tenta ninguém (Tg 1.13), mas
um Pai amoroso precisa disciplinar/pro-
var seus filhos (Hb 12.5-11). As provações
são o solo no qual a fé cresce (Tg 1.2-4;
lPe 1.6,7). Se Deus nos desse tudo 0 que
desejamos, em pouco tempo confiaríamos
em nós mesmos em vez de confiar nele. As
provações nos obrigam a voltar-nos para
Deus e depender dele. O oposto da con-
fiança é medo e preocupação, uma reação
aos problemas que vê apenas a dimensão
terrena. Quando oramos com fé podemos
vencer as inquietações de nosso coração
(Jo 14.1; Fp 4.6,7).
2. Cristo possui autoridade absoluta.
Essa seção sobre milagres (4.34—5.43) tem
como tema principal o senhorio de Cristo
sobre sua criação (quanto a Cristo como
Criador, veja Jo 1.3,4; ICo 8.6; Cl 1.16,17;
Hb 1.2; Ap 3.14). Como criador e susten-
tador desse cosmo, Jesus exerce autoridade
sobre todas as suas partes. Seus milagres,
portanto, afetam todos os aspectos da
criação: as forças da natureza, o mundo
dos espíritos, as enfermidades humanas e
até mesmo a morte. Desde o Iluminismo,
M arcps 4 .3 5— 5.20 84
Fé, 0 antídoto para o medo.
Experiencia cotidiana: Você alguma vez ob-
servou um pai carinhoso ensinar um filho
pequeno a nadar? Muitas vezes, o pai entra
na água e convida o filho a saltar e se unir
a ele. O filho está à beira da piscina e tem
consciência de que não sabe nadar. Para ele,
a piscina deve parecer assustadora, mas ele
aprendeu com o tempo que pode confiar no
amor dopai. Então, em um momento de fé,
ele salta para dentro da água, confiante de
que está seguro por causa do amor do pai.
Um novo mundo se abre para o filho. Qual
é o antídoto para o medo? É a fé no amor
de Deus. No entanto, só aprendemos que o
amor de Deus é digno de confiança quando,
em obediência, damos passos de fé. Como
recurso visual, pode-se mostrar um vídeo de
uma criança (de preferência alguém que seus
ouvintes conheçam) aprendendo a nadar.
A verdade acerca dos milagres.
Testemunho: Embora os cristãos que creem
na Bíblia tenham convicção de que Jesus
realizou milagres durante seu ministério e,
por meio de seus apóstolos na igreja primi-
tiva, muitos têm dificuldade em acreditar
que milagres ainda acontecem hoje. Entre-
tanto, Deus é o mesmo ontem, hoje e para
sempre, e ainda é Senhor de toda a criação.
É importante preencher essa lacuna da fé.
Peça que uma ou duas pessoas deem um tes-
temunho sucinto de como experimentaram
o poder miraculoso de Deus em sua vida.
contudo, se restringe a este mundo (Satanás
só é o deus “deste mundo” |2C0 4.4]) e
Cristo já os derrotou de uma vez por todas.
Eles não têm poder efetivo sobre os cristãos;
pelo contrário, os cristãos têm autoridade
sobre eles (Mc 3.15; 6.7).
Para ilustrar o texto_____________
0 problema do medo.
Experiência cotidiana: De acordo com
um estudo publicado na revista científica
Archives o f General Psychiatry, todos os
anos, por volta de 18,1 % das pessoas com
dezoito anos ou mais sofrem de algum
transtorno de ansiedade.8
Citação: Sem medo de viver, de M ax
Lucado. Lucado identifica que uma das
consequências do medo é a necessidade de
estar no controle. Ou seja, quando temos
a impressão de que estamos perdendo o
controle, o tirano dentro de nós é liber-
tado à medida que buscamos o controle a
qualquer preço. Para ilustrar essa realidade,
Lucado conta uma experiência de Martin
Niemõller, um pastor alemão que se opôs
corajosamente a Adolf Hitler. Niemõller
conheceu Hitler em 1933 e, posteriormente,
relatou à esposa o que aprendeu com essa
experiência: “Descobri que Herr Hitler é
um homem extremamente assustado”. O
medo e a necessidade relacionada de estar
no controle (como reação ao medo) “liber-
tam o tirano dentro de nós”.9
M arcos 4 .3 5— 5.2085
Λ־
·
Marcos 5.21-43
A autoridade de Jesus sobre a
enfermidade e a morte
Ideia centra l Nesses milagres de cura ocorrem duas transformações: (1) A compaixão de
Jesus pelos enfermos 0 leva a desconsiderar as leis de pureza e a trazer cura/pureza
aos que sofrem; (2) ele inverte as regras de prestígio social e apresenta uma mulher
anônima e impura como modelo de fé.
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amor”,1 em que a compaixão de Jesus pelas
pessoas que sofrem tem prioridade sobre
todos os códigos legais, como a proibição
de tocar pessoas impuras. As narrativas
são interligadas por três elementos: ambas
tratam de impureza, as duas pessoas aflitas
são mulheres e ambas são associadas ao nú-
mero doze (a idade da menina e o número
de anos que a mulher tem estado enferma).
Considerações interpretativas
5.22 um dos dirigentes da sinagoga [...]
prostrou-se a seus pés. Jesus e os discípu-
los voltaram pelo lago ao que parece para
Cafamaum, e, como sempre, outra “grande
multidão” se reúne. Do meio do povo surge
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Vemos aqui mais uma interposição [episó-
dio sanduíche], semelhante à de 3.20-35,
em que os dois relatos interpretam um ao
outro. No contexto dessa seção sobre mila-
gres (4.35—5.43), essas histórias (a filha de
Jairo e a cura da mulher com hemorragia)
representam os dois últimos dos quatro
tipos de milagres, nesta ordem: poder sobre
a natureza, sobre os demônios, sobre a en-
fermidade e sobre a morte. Os dois tipos
aqui (enfermidade e morte) são semelhan-
tes ao relato de exorcismo, pois tratam de
questões das leis de pureza. Temos nessa
passagem a chamada “hermenêutica do
Jairo era um dos líderes da sinagoga
em Cafarnaum. Hoje. dessa sinagoga do
primeiro século restam apenas pedras de
basalto sobre as quais foi construída uma
sinagoga do quarto a quinto século d.C.
(a fotografia mostra 3 reconstrução vista
do lado sul). A construção mais recente
I consiste em um am biente de oração e
i ensino, com colunas corintias e bancos. Do
j lado leste foi acrescentado um pátio com
I um pórtico voltado para uma rua principal.
M arcos 5.21-43
Principais temas de Marcos 5.21-43
• A fé não é essencial para a cura, mas permite que
a pessoa participe espiritualmente do processo
de cura.
■ No ministério aos necessitados, a compaixão tem
prioridade sobre as regras.
■ Para o cristão, a morte não é o fim, mas 0 começo.
período. De acordo com Levítico 15.19-
33 (e um tratado completo, Niddah, na
Mishná), uma mulher com fluxo menstruai
ficava impura por sete dias e qualquer um
que a tocasse ficava impuro por um dia
inteiro. Em Ezequiel 36.17, a conduta ímpia
de Israel é comparada à “impureza mens-
trual de uma mulher” , com sua aura de
contaminação. Essa ideia era exacerbada
pelo fato de 0 sangue ser considerado a base
da vida; logo, a menstruação simbolizava
vida que deixava 0 corpo. A mulher havia
perdido todos os seus bens em busca de
uma cura e agora, para todos ao seu redor,
era uma pária, como se tivesse lepra. Não
podemos imaginar quão horrível tinha se
tornado a vida dessa triste mulher.
5.28 Se eu apenas tocar em suas roupas.
Os médicos não tinham mais o que fazer
(e, provavelmente, consideravam uma hu-
milhação tratar uma pessoa tão impura).
Ela sabe, porém, que Jesus pode fazer o
que eles não podem e toma uma decisão
audaciosa. Sua fé é grande, pois enquanto
outras pessoas enfermas queriam ser “to-
cadas” por Jesus (veja comentário sobre
5.23), ela crê que o simples ato de tocar nas
roupas dele (mesmo que ele não perceba)
será suficiente (de fato, havia poder de cura
nas roupas de Jesus [Mc 6.56], assim como
nas vestes de Paulo [At 19.12]).3 Talvez ela
temesse que Jesus, como todos os outros,
se afastaria caso soubesse que uma pes-
soa tão imunda se aproximava dele. Por
isso, ela se esgueira no meio da multidão
(provavelmente escondendo o rosto, pois
mais um suplicante. Trata-se de um membro
bastante influente da comunidade, um dos
“dirigentes da sinagoga” . Em Mateus 9.18
ele é chamado “chefe”, um dos sete líderes
da comunidade em uma cidade de tamanho
médio; o dirigente da sinagoga (geralmente
um dos sete) era um dos três administra-
dores da sinagoga. Ele costumava ser um
benfeitor rico da sinagoga, encarregado das
instalações físicas (incluindo as finanças)
bem como da ordem no culto (responsável
por escolher quem faria a leitura das Escri-
turas e a homília). O fato de esse homem
tão importante prostrar-se aos pés de Jesus
revela sua situação extremamente difícil e
sua consideração por Jesus. Nos milagres
de cura, não é comum mencionar-se o nome
da pessoa (veja também 10.46). “Jairo”
significa “ele desperta” ou “ele vê”; ambos
os sentidos são apropriados.2 A citação
do nome indica o grande prestígio desse
homem (também faz um contraste com a
mulher anônima em 5.25).
5.23 minha filhinha está morrendo. De
acordo com 5.42, ela tem doze anos de
idade. A enfermidade não é especificada,
mas sem dúvida era muito grave, pois a me-
nina “está morrendo”. Jairo está exaurido e
suplica para que Jesus a cure dessa doença
terrível. Em 1.41, Jesus tocou o leproso e o
curou e, em 3.10, muitos doentes tentaram
“tocar” Jesus para ser curados (também
6.5; 7.32; 8.23), de modo que Jairo pede
a Jesus que “imponha as mãos” sobre a
menina, certo de que isso podería “curá-la”.
5.25,26 certa mulher [...] sofrendo de
uma hemorragia. Na grande multidão que
comprimia Jesus, havia uma figura trágica,
uma mulher sem importância na sociedade
(cujo nome não é citado e nem é rica como
Jairo). Marcos usa sete participios suces-
sivos para relatarsua história comovente.
Durante toda a vida da filha de Jairo (doze
anos), essa mulher tem sofrido de um mal
terrível, um transtorno menstrual que
não cessou, antes piorou ao longo desse
87 M arcos 5.21-43
prestígio social algum. Agora, Jesus a eleva
inteiramente acima dessa situação aflitiva
e não apenas lhe confere uma condição
elevada (ao chamá-la “filha”), mas também
a apresenta como modelo de fé para Jairo,
em 5.36 (quanto à “fé” em milagres de cura,
veja comentário sobre 2.5). Na verdade, a
fé não produz cura, nem é um pré-requisito
essencial. Jesus curou muitos que não eram
seus seguidores. No entanto, a fé permite
que o indivíduo participe do ato de cura
realizado por Jesus, que experimente cura
espiritual, bem como física.
5.36 Não tenha medo; apenas creia. Jairo
fica completamente arrasado com a notícia
aterradora de que sua filha havia morrido
enquanto ele suplicava pela aj uda de Jesus.
Todos imaginam que é tarde demais e, na-
turalmente, concluem que não adianta mais
“incomodar o mestre” . Agora, precisam de
pranteadores; é tarde demais para cura-
dores. Jesus é um “mestre” maravilhoso,
mas seu poder se limita a curas enquanto
ainda há vida. Jairo havia demonstrado um
mínimo de fé ao prostrar-se aos pés de Jesus
momentos antes. Agora, ele precisa de mais
fé — a mesma que a mulher demonstrou
e que Jesus elogiou em 5.34. Ele precisa
“crer” como a mulher creu. Semelhante a
4.40, o medo é a antítese da fé, uma reação
centrada nas coisas terrenas e não em Deus,
diante das tragédias da vida. Como David
Garland afirma, Jairo precisa entender que
“fé é a confiança em meio à desesperança”.4
5.37 não deixou ninguém segui-lo, senão
Pedro, Tiago e João. Jesus se afasta de todos
os seus seguidores, exceto do círculo mais
chegado. Há quatro círculos concêntricos
de seguidores mencionados: os cento e vinte
(At 1.15), os setenta (ou setenta e dois
[Lc 10.1]), os Doze (Mc 3.13-19) e esses
três, provavelmente os mais próximos de
Jesus (cf. Mc 9.2; 13.3; 14.33).
5.39 A criança não está morta, mas
adormecida. Como em 5.35, o povo perdeu
muitos na cidade a conheciam) e, com um
gesto furtivo, estende a mão para tocar o
manto de Jesus.
5.29,30 !mediatamente cessou sua he-
morragia /.../ dele havia saído poder. Os
efeitos poderosos do milagre são sentidos
“¡mediatamente” tanto pela mulher quanto
por Jesus. Além de a hemorragia cessar, a
mulher se sente “livre de seu sofrimento”,
sem dúvida uma sensação física de bem-
-estar e de remoção do peso debaixo do
qual ela havia vivido por tanto tempo. Os
efeitos em Jesus são igualmente intensos.
A mulher esperava passar despercebida no
meio da multidão (afinal, todos que ela
havia tocado, mesmo Jesus, seriam conside-
rados impuros), mas não é o que acontece.
Jesus sente poder divino ser transferido dele
para a mulher. Nos relatos dos milagres,
esse fenômeno é explicado somente nesse
episódio. O poder de cura de Jesus era algo
físico, e ele sentiu parte desse poder sair dele.
5.33 a mulher [...] tremendo de medo.
Os discípulos ficam espantados com o
fato de Jesus conseguir identificar o toque
de uma pessoa em meio à confusão da
grande multidão que o empurrava (essa
percepção é mais uma prova dos poderes
sobrenaturais de Jesus). Ao que parece,
a mulher estava saindo sorrateiramente
e teve de voltar quando Jesus olhou ao
redor à sua procura. É provável que seu
“medo” tenha três aspectos: muitos na
multidão sabiam de seu estado de im-
pureza; Jesus podería se ofender por ter
sido tocado por uma mulher impura (que,
dessa forma, havia lhe transmitido sua
impureza); mas acima de tudo, ela deve
ter sentido o “temor reverente” que a fez
estremecer (cf. 4 .4 1), pois sabia que havia
sido curada de forma miraculosa.
5.34 sua fé a curou. Um dos principais
temas dessa passagem, o poder da fé, é apre-
sentado aqui. Ela havia sido uma mulher
impura, anônima, sem importância e sem
88M arcos 5.21-43
É possível que os indivíduos que
choravam e lamentavam diante da casa
de Jairo fossem pranteadores profissionais,
convocados com o parte dos ritos
fúnebres. Nesse relevo na parede de um
túm ulo em Saqqara, vemos pranteadores
demonstrando sua tristeza enquanto
participam de uma procissão fúnebre
(1550-1292 a.C.).
Jesus usou; não se trata de uma fórmula
mágica, mas de um toque de impacto. O
milagre é instantâneo; ela começa a andar
e está pronta para se alimentar.
5.43 deu ordens expressas para que não
dissessem nada a ninguém. Sua exigência
parece quase absurda. Quem pode perma-
necer calado diante de uma menina que foi
ressuscitada? Ainda assim, já observamos
o segredo messiânico em 1.34,44; 3.12 e
o veremos novamente em 7.36; 8.30; 9.9.
Aqui, quer dizer que o verdadeiro signi-
ficado por trás do milagre só poderá ser
conhecido depois da ressurreição (também
9.9) e que as multidões não são capazes de
entender a verdadeira natureza de Jesus.
Consideram-no um milagreiro e futuro
rei conquistador.
Considerações teológicas
Jesus não apenas controla as forças cós-
micas, mas também é soberano sobre as
difíceis questões humanas da enfermidade e
da morte. Nosso Deus é um Deus que cura,
cheio de compaixão por seu povo sofredor
e aflito. Ele nos levanta, e pede apenas que
confiemos nele. Nossa atitude deve ser de
fé em sua vontade suprema, pois sabemos
que, em todas as coisas, nossas provações
produzirão o bem (Rm 8.28). A cura física
é precursora de nossa ressurreição futura,
e precisamos aprender a depender da amo-
rosa presença divina em nossa vida.
inteiramente a fé na autoridade de Jesus
de curar, e os pranteadores profissionais
(comuns em funerais nos tempos antigos)
assumiram o comando. Essa era uma prá-
tica comum em funerais judaicos (cf. Ep
2.27: “tristeza sobre tristeza”), mas, como
na morte de Lázaro (Jo 11.33), Jesus que-
ria algo mais que isso. Há quem entenda
que “não está morta, mas adormecida”
indica um estado de coma, mas 5.35 dá
a entender que ela estava morta. Naquela
época, as pessoas conheciam bem a morte
e, quando todos “riem” da observação de
Jesus, fica evidente a realidade da morte da
menina (mas também a falta de fé deles).
Jesus quis dizer que, no sentido eterno,
ela estava apenas adormecida (eufemismo
comum para morte no primeiro século, mas
utilizado aqui com sentido irônico) e logo
voltaria à vida.
5.41 Talita cumi! Uma vez que os
pranteadores não têm fé, Jesus os deixa
do lado de fora e traz apenas os pais e os
discípulos para o lugar em que realiza a
cura. Em certo sentido, essa cena é pre-
cursora da ressurreição futura de Jesus
e de todos os cristãos; em outro sentido,
porém, todas as ressurreições de mortos
na Bíblia são apenas ressuscitações/ pois
todos morreríam novamente. A despeito
disso, a transliteração que Marcos faz das
palavras aramaicas pronunciadas por Jesus
(“Menininha, levante-se!”) visa a tornar
a cena mais intensa e marcante/’ Marcos
nos permite ouvir as palavras exatas que
M arcos 5.21-4389
Para ensinar o texto
Uma mulher que sofria de hemorragia é curada
milagrosamente ao tocar o m anto de Jesus, que
elogia a fé dela. Esse encontro é retratado nesse
mosaico do século 14 d.C.
àquela circunstância problemática. Todas
as coisas são tornadas puras pela presença e
pelo amor de Jesus. Seu interesse sobrepuja
todas as condições difíceis.
3. A morte é mais um começo que um
fim. A ressurreição da menina é precursora
da ressurreição de Jesus e, portanto, da res-
surreição futura de todos nós, dos quais a
ressurreição de Jesus é “as primicias” (ICo
15.20,23). A morte dela foi temporária,
pois Jesus a trouxe de volta à vida. Nossa
morte será ainda mais temporária, pois será
transformada de imediato em vida eterna.
A morte é “o último inimigo” (1C0 15.26),
e assola todas as pessoas, mas em Cristo
já foi derrotada de modo decisivo, de uma
vez por todas. Morte é tristeza e dor (Jo
11.35; Fp 2.27), mas também, o fim do
sofrimento aqui na terra e a transferênciaimediata de cada um de nós para a presença
do próprio Deus (2Co 5.8; Fp 1.21-23).
De fato, denota o fim de nossa existência
terrena, mas muito mais do que isso: é o
início de nossa alegria eterna.
Para ilustrar o texto_____________
Fé e cura.
Relato: Com raiva da mãe, a garota de 13
anos diz: “Está na cara que você não me
ama!” . A mãe avisara à filha que não a
1. A fé nos permite participar do poder
divino de cura. As pregações recentes de
cura pela fé (que parece com frequência
associada à “pregação da prosperidade”)
de modo perigoso e herege tornam Deus
subserviente, em vez de reconhecer sua
soberania sobre o mundo. Há quem creia
equivocadamente que Deus tem a obriga-
ção de responder a nossas orações e jamais
pode dizer não. Esse não é o Deus da Bíblia,
mas uma criação humana com um cerne
não cristão. Nossa fé não diz a Deus o que
fazer. Ele é soberano e tem todo o direito
de negar nossos pedidos e de nos dar o
que precisamos em vez do que desejamos.
Nosso grau de fé também não influencia o
poder de Deus de curar. Se não somos cura-
dos, não é por falta de fé, mas porque Deus
decidiu soberanamente que a cura não é o
melhor para nós (Rm 8.28) no momento. A
fé nos permite participar espiritualmente do
processo de cura, mas não controla Deus.
De acordo com David Garland, a fé faz
duas coisas: ela “abre a porta para o poder
divino”, pois entrega a situação ao Deus
que opera e “demonstra persistência para
superar qualquer obstáculo”, pois age com
destemor diante de situações graves, em
resposta à presença de Cristo.7
2. A “hermenêutica do amor” prioriza
a compaixão. Quando Jesus deparava com
uma necessidade ou com uma enfermidade,
jamais permitia que os códigos legais judaicos
o impedissem de ajudar outros. Repetida-
mente, entrou em conflito com as autori-
dades por desobedecer à tradição oral (as
regras acerca do Sabbath, as leis alimentares
etc.) a fim de curar uma pessoa gravemente
enferma. Para Jesus, a compaixão era muito
mais importante que as expectativas religio-
sas. Nesse processo, Jesus transformou uma
situação ritualmente impura em algo puro,
pois trouxe a presença de Deus e o Espírito
M arcos 5 .21 -43 90
B W W W B W H B B W B BWIBB ÍB W íWWWwBBBBWwWm B B B B B B Í
liação estão se desdobrando em nossas
famílias e entre nossos próximos, em
nosso país e em nosso mundo o tempo
todo. Não podemos ser observadores
passivos e calados dessas coisas. Des-
cobrimo-nos, de modo bastante mi-
raculoso, na linha de frente, onde o
povo de Deus que ora sempre esteve.8
0 ministério compassivo de Jesus.
Filme: Amigos, sempre amigos. Nesse filme
de 1991, há um diálogo marcante entre
Curly (caubói protagonizado por Jack
Palance) e Mitch (rapaz de cidade grande
protagonizado por Billy Crystal):
Curly: — Você sabe qual é o segredo
da vida?
M itch: — Não. Qual é?
Curly: — Isso aqui [mostra um dedo].
M itch: — Seu dedo?
Curly: — Uma coisa. Uma coisa só.
Você se apega a ela, e nada mais
importa.
M itch: — Ótimo. Mas o que é essa
coisa?
Curly: — É o que você precisa descobrir.
Jesus sabia o que era essa “uma coisa
só”. Seu alvo era glorificar a Deus ao viver
em perfeita obediência ao Pai. Desse modo,
Jesus demonstrou perfeitamente em sua vida
a natureza e o propósito de Deus, e essa
obediência incluiu encarnar a compaixão de
Deus pelo mundo. Na compaixão de Jesus,
ao curar a mulher e ressuscitar a filha de
Jairo, vemos a compaixão de Deus. De modo
semelhante, devemos demonstrar em nossa
vida a natureza e os propósitos de Deus ao
procurar glorificá-lo com nossa obediência.
deixaria ir à festa da escola. A filha insistiu;
todos os seus colegas (do ensino fundamen-
tal) iriam e todos os outros pais tinham
autorizado. No entanto, a mãe estava preo-
cupada com algumas questões. Não tinha
certeza de que a festa seria devidamente
supervisionada. Além disso, se a filha não
dormisse bem naquela noite, véspera da
viagem de férias, a família inteira sentiría
os efeitos por alguns dias. A mãe tomou sua
decisão com base no que sabia ser melhor
para a menina e para a família. A filha só
conseguia enxergar, porém, que seu desejo
não tinha sido atendido.
Essa situação nos dá um vislumbre da
correlação entre fé e cura. Há ocasiões
em que com fé apresentamos nossas ne-
cessidades a Deus e nossas orações não
são respondidas como gostaríamos. Por
que isso acontece? E por que não temos fé
suficiente ou por que Deus tem uma visão
mais ampla e uma perspectiva diferente
quando lhe apresentamos nosso pedido?
Quando Deus responde “não” ou “mais
tarde”, não é por falta de fé da nossa parte
ou porque ele não nos ama. Antes, Deus tem
um plano melhor, para sua própria glória.
A importância de pedidos ousados.
Citação: Eugene Peterson. Você já pensou
na oração como um ato de ousadia? Se Deus
é soberano sobre o universo e, de fato, nos
ama, então a oração é o modo destemido e
poderoso de nos engajarmos nesse mundo
caído. Reflita sobre as seguintes palavras:
A oração não é uma atividade para as
horas vagas. Questões de vida e morte,
salvação e juízo, sofrimento e justiça,
paz e guerra, recriminação e reconci
M arcos 5.21-4391
Marcos 6.1-6
A rejeição de Jesus em
sua própria cidade
Ideia centra l Devemos esperar séria oposição no trabalho missionário. Ao participar da
vida e dá obra de Jesus, os discípulos levam 0 evangelho aos perdidos, mas também são
perseguidos por eles.
Nazaré, em 6.6. A exortação de Jesus à fé
em 5.36 é respondida com um sonoro não.
Para entender o texto
Texto em contexto
Considerações interpretativas
6.1,2 Jesus saiu dali e foi para sua cidade
[...] começou a ensinar na sinagoga. Depois
de ministrar por um bom tempo em Cafar-
naum e nos arredores do mar da Galileia,
Jesus volta a Nazaré, sua casa, sem dúvida
em outra viagem missionária na Galileia
(como em 6.7-13, adiante), para retomar
o trabalho de 1.38,39. Nazaré era um po-
voado relativamente afastado, cerca de 40
quilômetros a sudoeste de Cafarnaum, na
região montanhosa não muito distante do
monte Tabor. Em 3.21, os familiares de
Em 6.1, o m inistério de Jesus o leva à cidade de
Nazaré, onde ele cresceu. A fotografia mostra uma
vista da Nazaré atual, rodeada de colinas, cerca de
40 quilômetros a sudoeste de Cafarnaum.
Em Marcos 6.1-6, encontramos mais uma
narrativa de conflito (semelhante a 2.1—
3.6; 3.20-35) e, como várias passagens de
transição, essa exerce duas funções: (1) é
paralela a 3.1-6 e encerra o segundo ciclo
(1.16—3.6; 3.7—6.6) com uma narrativa
de conflito; (2) traz um arranjo A-B-A em
6.1-29, passagem em que a missão dos
Doze (6.7-13) é inserida entre dois relatos
de rejeição: primeiro a oposição na cidade
de Jesus (6.1-6) e, em seguida, a prisão
e a morte de João Batista (6.14-29). De-
pois dos triunfos da série de milagres e da
admiração que causaram nas multidões,
voltamos, de certo modo, ao mundo real de
reações mistas e rejeição. Convém observar
o contraste entre a “fé” da mulher em 5.34
e a absoluta falta de fé dos habitantes de
Principais temas de Marcos 6.1-6
■ 0 trabalho missionário em um mundo perdido resul-
tará não poucas vezes em resistência e hostilidade.
■ As pessoas mais próximas de um indivíduo muitas
vezes sâo as últimas a reconhecer os dons e o cha-
mado dele.
• Aqueles que não estão abertos para Jesus talvez
descubram que Deus não está mais aberto para eles.
o conheciam apenas como o carpinteiro do
vilarejo, que havia trabalhado na casa deles,
em seus móveis e em seus implementos
agrícolas. Ele havia aprendido esse ofício
com seu pai (provavelmente aos 13 anos)
e passado os próximos vinte e poucos anos
trabalhando com madeira e pedra.
filho de Maria /.../ o irmão de Tiago,
]osé, Judas e Simão [...] suas irmãs. E pro-
vável que Jesus seja chamado “ filho de
Maria” porque seu pai, José (possivelmente
mais velho que Maria), já havia morrido.
Os nazarenos conheciam não apenas a mãe
de Jesus, mas também seus irmãos e irmãs.
Dois irmãos(os quatro nomes em hebraico
são de patriarcas do Antigo Testamento,
Jacó e três de seus filhos [Gn 29 e 30])
são bem conhecidos: Tiago foi um líder
importante na igreja em Jerusalém (At 15)
e autor de uma epístola, e Judas escreveu a
epístola homônima. Não temos informa-
ções acerca dos outros dois. Durante a vida
de Jesus, seus irmãos não creram nele (Jo
7.5), mas sabemos que Tiago se tornou seu
seguidor graças a uma aparição depois da
ressurreição (1C0 15.7) e, conforme Atos
1.14 (junto com os 120) e ICoríntios 9.5
(envolvimento com trabalho missionário),
é provável que os quatro tenham se tor-
nado seguidores de Jesus. Sabemos pouco
acerca de suas irmãs. P. R. Kirk sugere que
elas se casaram com homens de Nazaré e
permaneceram ali, enquanto o restante da
família se mudou para Cafarnaum para
Jesus fizeram o mesmo trajeto em sentido
inverso, mas com a intenção de levá-lo de
volta para casa, pois pensaram que ele havia
perdido o juízo. Agora ele faz a viagem,
mas para ministrar e não para descansar. Já
que é o Sabbath (chegando o sábado...), o
rabino Jesus começa a ensinar, como fez em
1.21,22. É possível que se trate do mesmo
acontecimento relatado em Lucas 4.14-30
(seu primeiro sermão em Lucas, em que ele
usa Is 61.1,2: “O Espírito do Senhor está
sobre mim”).
Que sabedoria é esta que lhe foi dada?
Em outras passagens, quando o povo fica
“admirado” com Jesus, geralmente a co-
notação é positiva (p. ex., 1.22,27; 2.12;
5.20); aqui, porém, embora os presentes
fiquem espantados com sua sabedoria, o
resultado é rejeição. Uma série de seis per-
guntas consecutivas feitas pelos conterrâ-
neos de Jesus os leva a “ofender-se” ou a
“ficar escandalizados” com ele. Eles não
têm como negar a “sabedoria” de Jesus
(“lhe foi dada” deixa implícito que Deus
é a fonte, mas eles não conseguem aceitar
esse fato) evidente em seus ensinamentos.
Questionam, porém, a fonte da sabedoria;
ele não foi treinado por um rabino e não
vem de uma linhagem que justifique seu
ensino imbuído de autoridade. Marcos dá
a entender que a sabedoria de Jesus vem
de Deus, a verdadeira fonte de tudo o que
ele diz e faz. O povo se pergunta, contudo,
como é possível essa grande sabedoria e
essas “obras poderosas” serem realizadas
por um inculto oriundo de uma área re-
trógrada. Como as multidões em 1.27 e
2.12, essas pessoas estão admiradas, mas,
ao contrário das multidões, demonstram
rejeição, incredulidade e oposição.
6.3 Não é este o carpinteirof Para eles,
o problema é a fonte dos milagres e da sa-
bedoria. Jesus não tinha formação; nunca
estudou com algum dos rabinos famosos.
Os nazarenos tinham crescido com Jesus e
M arcos 6.1-693
questão crucial é a incredulidade dos na-
zarenos, e não significa que Jesus perdeu
seu poder. Afinal, ele cura várias pessoas.
É mais provável que se trate de um juízo
divino: eles rejeitam Jesus e, portanto, Deus
os rejeita. Deus não opera onde não é de-
sejado. Aliás, Jesus transmitirá o mesmo
princípio aos discípulos quando lhes diz
para “sacudir a poeira dos pés” quando as
pessoas se recusarem a atender ao evange-
Iho (veja 6.11, abaixo; cf. Mt 7.6). Nesse
sentido, a incredulidade do povo restringiu
(“não pôde”) o poder miraculoso de Jesus;
a despeito disso, pela misericórdia e pela
graça de Deus, Jesus ainda realizou algumas
curas em Nazaré.
6.6 Ele ficou admirado com a sua falta
de fé. Em outras passagens, o povo fica
admirado com o poder e a autoridade dos
feitos e das palavras de Jesus (veja comen-
tário sobre 6.2). Somente aqui Jesus fica
“admirado” com eles, uma descrição que,
sem dúvida, transmite a surpresa bastante
humana de Jesus diante da extensão da
rejeição e da “incredulidade” de seus anti-
gos conterrâneos e amigos. Esse episódio é
emoldurado pela admiração. Como Robert
Stein observa, ele prenuncia “a nuvem es-
cura que vai descendo sobre o Filho de Deus
e que, por fim, levará à cruz”.2
Para ensinar o texto____________
1. Muitas vezes o trabalho missionário gera
resistência e hostilidade. Repetidamente,
Jesus e os autores dos Evangelhos lembram
que o trabalho missionário não é tarefa
fácil. É inevitável que os seguidores de
Jesus deparem com as mesmas dificulda-
des que ele. Como Jesus observa em Ma-
teus 10.24,25, se o senhor é maltratado,
seus servos também o serão. O ensino em
Mateus 10.16-42 é sobre a oposição que
devemos esperar — desde a realidade do
morar com Jesus.1 Há quem proponha
que esses irmãos e irmãs de Jesus eram
filhos de José, de um casamento anterior,
ou, talvez, seus primos (em muitos casos
para corroborar a doutrina da virgindade
perpétua de Maria). Mas os termos usados
aqui favorecem a conclusão mais natural
de que todos eram filhos de José e Maria.
A ênfase, porém, é sobre o fato de que
Jesus não passava de um rapaz nazareno
que (tanto quanto sabiam) nunca tinha
dado sinais de quem ele viria a ser. Para
os nazarenos, era um homem comum, de
uma família comum e de uma cidadezinha
insignificante. Em outras palavras, era um
ninguém. Por isso eles se “ofendem” (veja
comentário sobre 4.16,17) e não reconhe-
cem sua verdadeira identidade.
6.4 Só em sua própria terra é que um
profeta não tem honra. Esse provérbio (que
também aparece em Lc 4.24; Jo 4.44) for-
nece o tema central para o ministério de
Jesus entre os judeus. Ele é o profeta maior
que Moisés e Elias, mas as pessoas mais
próximas dele (seus conterrâneos, a maioria
dos compatriotas judeus e até mesmo seus
próprios familiares [3.20,21,31-35]) se re-
cusam a reconhecer esse fato. O acréscimo
de “seus parentes” e “sua própria casa”
traz à memória 3.20,21, em que sua fa-
mília quer levá-lo de volta para casa, pois
pensa que ele “perdeu o juízo” (quanto
a ser rejeitado pela própria família, veja
também M t 10.21,22). O destino dos
profetas é descrito de modo detalhado
em Hebreus 11.32-38, e o fim de João
Batista, profeta contemporâneo de Jesus,
é relatado em seguida em Marcos 6.14-29.
Esse mesmo final, evidentemente, aguarda
Jesus em Jerusalém.
6.5 ele não pôde fazer ali nenhum mila-
gre. A declaração é veemente, com uma ne-
gação dupla em grego (“não [...] nenhum”)
e com o verbo dynamai (“não pôde” que
significa quase “não teve poder” ). A
M arcos 6.1-6 94
precisamos estar preparados. Não saímos
para realizar o trabalho missionário com
a expectativa de “sucesso” e de resulta-
dos extraordinários. Envolvemo-nos com
o ministério porque Deus nos chamou a
fazê-lo e porque desejamos “arrebatar do
fogo” o maior número possível de pessoas
(Jd 23), mesmo que a maioria rejeite a nós
e à nossa mensagem.
3. Cuidado com o perigo de continuar
a rejeitar Cristo. Em 6.5, Deus reage com
juízo; o povo rejeitou seu Filho e, portanto,
ele remove a plenitude de seu poder do meio
deles. Dc acordo com Romanos 5.8, Cristo
morreu pelos pecadores e, sem dúvida, Deus
ama todos os que ele criou. Ainda assim,
pode haver um momento em que ocorre
uma rejeição final, um “pecado eterno”
(Mc 3.29) ou “pecado que leva à morte”
(1J0 5.16,17) e, nesse caso, não há mais
como conduzir a pessoa ao arrependimento
(Hb 6.4-6); seu futuro reserva apenas um
conflito (v. 16), seguida pela
promessa da presença do
Espírito em meio à perse-
guição (até mesmo da pró-
pria família |v. 17-23]), que
leva a ausência de qualquer
necessidade de amedronta-
mento (v. 24-31), culmi-
nando com a necessidade
de confissão destemida e
de avaliação do preço a ser
pago em meio a essa oposição
(v. 32-42). O motivo para essa
rejeição pelo mundo é decía-
rado explícitamente em João
3.19,20: A presença da luz de
Deus ilumina a maldade dos que são
do mundo e revela seus pecados, o que
os leva a rejeitar tanto a luz quanto seus
portadores.
2. Os últimos a reconhecer um profeta
são aqueles mais próximos dele. Marcos
apresenta esse relato da família e dos con-
terrâneos de Jesus para destacar o que já
vimos em 3.1-6,20,21: o furor e a injustiça
da oposição dos que se encontram ao redordos mensageiros de Deus, até mesmos dos
que são mais próximos deles. Em 3.20,21,
os próprios familiares dc Jesus imaginam
que ele perdeu o juízo e tentam obrigá-lo a
deixar de lado sua missão divina. Aqui, são
os conterrâneos com os quais ele cresceu
desde em torno de dois anos de idade até
o início de seu ministério por volta dos 34
anos, aqueles para os quais ele havia sido
o carpinteiro do vilarejo. O que aconteceu
com Jesus também aconteceu com todos os
profetas (veja esp. Isaías e Jeremias): suas
mensagens foram rejeitadas, eles foram per-
seguidos e, em muitos casos, capturados
por seu próprio povo. Isso tem ocorrido
com frequência ao longo da história (veja O
livro dos mártires, de John Foxe) e chama
atenção o fato de que o mesmo pode acon-
tecer a qualquer um de nós, de modo que
Quando 0 povo de Nazaré ouve Jesus ensinar,
pergunta admirado: "Não é este o carpinteiro?"
(6.3). Não conseguem acreditar que Jesus é
algo mais que o filho do carpinteiro do vilarejo.
Talvez se lembrem dele aprendendo e realizando
seu trabalho com ferramentas semelhantes às
réplicas que aparecem aqui.
M arcos 6.1-695
são condenados ao ostracismo por suas
comunidades e, em alguns casos, cônjuges
e filhos são tomados deles. Igrejas foram
queimadas e cristãos foram espancados
quando se recusaram a abjurar de sua
fé. Também enfrentam discriminação no
mercado de trabalho. Imagine viver em
um ambiente como esse. A perseguição
aos cristãos é uma realidade presente
para muitos e está crescendo no mundo.
Optar por ser discípulo de Jesus muitas
vezes significa ter de trilhar um caminho
de sofrimento e perseguição por causa
de nossa fé, e precisamos nos lembrar de
nossos irmãos ao redor do mundo que
enfrentam essa realidade diariamente.
Estaríamos dispostos a pagar esse preço
para ser discípulos de Jesus? O que nos
ajudaria a permanecer fiéis a Jesus diante
de perseguições?
Inicialmente, os nazarenos se adm iram com o
ensino de Jesus enquanto o ouvem assentados
na sinagoga. Várias sinagogas escavadas têm ao
redor das paredes internas bancos nos quais as
pessoas podiam assentar-se. A fotografia mostra
ruínas de uma sinagoga do primeiro século
d.C. em Gamla, na qual ainda é possível ver
os bancos.
“furor de fogo” (Hb 10.27). Ninguém deve
se atrever a supor que pode rejeitar Cristo
repetidamente e permanecer impune. Há
consequências, e elas são eternas.
Para ilustrar o texto_________
A realidade da perseguição.
Acontecimentos atuais: Jesus alerta seus
seguidores para o fato de que eles tam-
bém serão perseguidos, assim como ele foi
(Jo 15.19-21). Essa realidade persiste hoje
em dia, e continuará até que Jesus volte. De
acordo com a Aliança Evangélica Mundial,
mais de duzentos milhões de cristãos em
pelo menos sessenta países são destituídos
de seus direitos humanos fundamentais uni-
camente em razão de sua fé.
A organização The Voice of Martyrs [A
Voz dos Mártires]3 informa que cristãos na
Guiné enfrentam, diariamente, apreensão
associada a sua fé. Nesse país, em que
os cristãos constituem apenas 4,5% da
população, os novos convertidos a Jesus
quem venceu e quem perdeu a competição.
O final pode ser determinado por um total
de pontos (no tênis é preciso vencer certo
número de games), por tempo (como em
uma partida de futebol) ou por número de
jogadas (como no beisebol). O mesmo vale
para jogos de carta, de tabuleiro e outros.
Uma vez que o jogo termina, são identifica-
dos os vencedores e os perdedores. Ou seja,
no fim do jogo, o resultado é definitivo,
e não há coisa alguma que os jogadores
possam fazer para alterá-lo. Cada ser hu-
mano terá um “game over” [fim de jogo],
isto é, o momento em que nossa vida acaba
e seremos responsabilizados eternamente
pela vida que levamos e pelas decisões que
tomamos. Enquanto o jogo não termina,
ainda podemos alterar nosso destino eterno
ao abrir o coração para Deus pela fé em
Jesus Cristo. A decisão que tomamos acerca
de Jesus tem consequências eternas. Esse
pode ser um bom momento para desafiar
seus ouvintes a compartilhar a fé no evan-
gelho com os não cristãos que Deus colocou
na vida deles.
Rejeição por amigos próximos e
familiares.
Lição prática: Reduza a iluminação do am-
biente e acenda uma lanterna forte. Mostre
como a luz penetra a escuridão e ilumina
aquilo que está escondido. Em João 3.20,
Jesus afirma: “Todo aquele que pratica o
mal odeia a luz e não se aproxima da luz,
pois teme que suas obras sejam reveladas” .
Quando vivemos conforme o propósito de
Deus (quando somos luz para o mundo) em
palavras e ações, o mal escondido nas trevas
ao nosso redor é iluminado. As pessoas ao
seu redor se sentem incomodadas e podem
reagir de duas formas: ou assumem respon-
sabilidade por suas más ações, ou afastam
a luz (você) ao rejeitá-la. Você está disposto
a pagar o preço emocional e relacionai de
ser fiel a Deus à medida que procura ser
luz de Deus no mundo?
Fim do jogo.
Cultura popular: Eventos esportivos sem-
pre têm um “final”, necessário para definir
M arcos 6.1-697
Marcos 6.7-30
Missão e rejeição na Galileia
Ideia central Todos os seguidores de Jesus são chamados à missão. Contudo, quando 0
evangelho — as boas-novas do reino — é apresentado, há tanto a autoridade de Deus
quanto a oposição inevitável quando as pessoas rejeitam essa mensagem. Por vezes,
isso leva à morte daqueles enviados para falar em nome de Deus.
.׳· : ' ' ' . ' j . *»X/ / Λ־£-<< β ί Κ ι Λ ν -V.,‘י *a λ . . . A*.- *' t - . ' A . J j t W‘ » · .
para junto de si. Essa é a ultima parte de
um conjunto de ações em três estágios: o
chamado (1.16-20), o comissionamento
(3.13-19) e, aqui, o envio. Eles são envia-
dos “de dois em dois” como testemunhas
oficiais (cf. Nm 35.30; Dt 17.6; 19.15);
prática que se tornaria comum (Jo 1.37;
At 8.14; 9.38; 13.2,3), pois proporcionava
companheirismo e proteção. A autoridade
sobre demônios é uma repetição de 3.15 e
um tema central em Marcos.
6.8,9 Não levem coisa alguma na jor-
nada, a não ser um bordão [...] sandálias.
Jesus permite apenas o mínimo indispen-
sável necessário para viajar: um bordão e
um par de sandálias. Até mesmo os itens
proibidos — pão, saco de viagem, dinheiro
e uma túnica extra — geralmente eram con-
siderados necessidades básicas. O saco em
questão era uma espécie de mochila para
carregar alimentos e roupas adicionais (que
também serviam de travesseiro e cobertor
à noite). Eles devem ir na dependência de
Deus para suprir suas necessidades e deixar
que aqueles aos quais Jesus os envia pro-
visionem para eles. Há uma ênfase dupla
aqui: o ministério não deve visar ao lucro
nem ao engrandecimento pessoal; antes,
deve ter como único objetivo servir e glo-
rificar a Deus.
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Começa nessa passagem a quarta seção
de Marcos sobre o ministério de Jesus
na Galileia (depois de 1.6—3.6; 3.7-35;
4.1—6.30) e o terceiro episódio intercalado
[“episódio-sanduíche”] até aqui (depois de
3.20-35; 5.21-43). O envio dos Doze (6.7-
13) só é completado em 6.30, quando os
discípulos voltam e relatam os resultados
de sua missão bem-sucedida. O conteúdo
intermediário se inicia com o posiciona-
mento de Herodes em relação a Jesus e à
missão dos discípulos (6.14-16) e continua
com uma retrospectiva extensa da prisão
e da morte de João Batista (v. 17-29). Fica
evidente que missão (seja de João Batista,
Jesus ou dos discípulos) inclui oposição.
Considerações interpretativas
6.7 começou a enviá-los de dois em dois e
lhes deu autoridade sobre os espíritos imun-
dos. Depois de ser rejeitado por seus antigos
conterrâneos, Jesus percorre a Galileia “de
povoado a povoado” ensinando (6.6b),
como havia feito em sua incursão anterior
em 1.38,39. Ele resolve incluir seus discípu-
los no trabalho dele e, portanto, chama-os
M arcos 6.7-30 98
P r in c ip a i s t e m a s d e M a rc o s 6 .7 ·3 0
■ Ser discípulo de Jesus significa participar de seumi-
nistério, assim como aprender seus ensinamentos.
• Os seguidores de Jesus são enviados como aposto-
los, não por sua própria conta, mas com a autoridade
de Jesus.
■ Ao proclamar o evangelho, devemos esperar oposi-
ção e talvez até mesmo a morte.
alguma acerca do nascimento e da morte
de João em comparação com Jesus. Ainda
assim, esse é o conceito que Antipas adota.
De acordo com 1.14 (cf. M t 4.12), João foi
preso pouco antes de Jesus iniciar seu mi-
nistério na Galileia; portanto, João havia
morrido há algum tempo, e essa passagem
é uma retrospectiva. O ponto de compara-
ção entre Jesus e João Batista é a mensagem
profética poderosa de Jesus e, talvez, também
seus milagres. João não realizou milagres,
mas caso fosse ressuscitado, parece que era
esperado que tivesse esse poder.
6.17 Herodes /.../ ordenou que o amarras-
sem e colocassem na prisão. Começa aqui a
retrospectiva, que expande o breve comen-
tário em 1.14 ao informar como e por que
Herodes mandou prender João. Ele ficou
encarcerado no palácio e fortaleza de Anti-
pas em Macaerus, na Pereia. João foi preso
porque censurou publicamente o romance e
o subsequente casamento de Herodes com
Herodes mandou prender João Batista e
encarcerá-lo no palácio e fortaleza de Macaerus,
situado no alto deste monte a leste do Mar Morto.
6.10 sempre que entrarem numa casa,
fiquem ali até partirem da cidade. O obje-
tivo da missão não é encontrar o lugar mais
agradável para hospedar-se, mas, sim, levar
pessoas ao reino. Os Doze devem depender
da hospitalidade de cada povoado que visita-
rem e contentar-se com as condições de vida
ali, quaisquer que forem. Deixar uma casa
para hospedar-se em outra seria um insulto
aos anfitriões e traria má fama ao evangelho.
6.11 se algum povoado não os receber
nem os ouvir [...] sacudam a poeira de
seus pés. Aqueles que rejeitam o evangelho
devem ser tratados como se fossem impuros
(cf. M t 7.6; “Não deem o que é sagrado
aos cães”). Até mesmo a poeira de sua ci-
dade é indigna. Os judeus que voltavam
de terras pagãs sacudiam a poeira dos pés;
essa instrução equivale a dizer aos povoa-
dos judaicos que eles se tornaram gentios
pagãos para Deus. Esse gesto feito “como
testemunho contra eles” também sugere,
que o juízo divino os espera.
6.14-16 O rei Herodes ouviu falar dessas
coisas. Os discípulos pregam como João
Batista, e Jesus ganhou fama considerável,
o que desperta a curiosidade de Herodes.
Aqui, trata-se de Herodes Antipas, filho
de Herodes, o Grande (todos os seus filhos
tinham seu nome) e tetrarca da Galileia e da
Pereia (na Transjordânia) de 4 a.C. (quando
seu pai faleceu) até 39 d.C. (quando ele foi
exilado), o que significa que ele governou
durante toda a vida de Jesus. Antipas havia
desejado ser rei como seu pai, mas o im-
perador Augusto lhe permitiu ser apenas
tetrarca, governante secundário de “um
quarto” de um território romano.
João Batista / .../ que ressuscitou dos
mortos. [...! Elias [...] um profeta. Esse é
um resumo de como Jesus era visto pelo
povo naquela época. Não são opiniões de-
vidamente refletidas, mas lendas populares.
Sem dúvida, qualquer ideia de que Jesus era
João redivivas (revivido dos mortos) só podia
ser aceita por aqueles que não sabiam coisa
governador Félix que, embora tivesse medo
de Paulo, falou com ele em várias ocasiões
ao longo de dois anos. No caso de Félix,
também havia esperança de receber su-
borno (At 24.24-26). Herodes não com-
preendia as verdades “justas” que João lhe
dizia e ficava profundamente “confuso” ou
“perplexo” com elas (talvez “extremamente
perturbado”). E evidente que ele tinha certa
percepção de sua culpa, mas como Hero-
des Agripa, em Atos 26.28,29, não estava
disposto a se posicionar.
6.21 Herodes ofereceu um banquete a
seus oficiais de alta patente, aos comandantes
militares e às autoridades da Galileia. Uma
oportunidade surgiu para Herodias na sun-
tuosa comemoração de aniversário de seu
marido. Como todos os governantes roma-
nos, Herodes gostava de festas extravagantes.
É difícil entender a presença de autoridades
da Galileia em um evento na distante Pereia,
mas é possível que houvesse interações entre
os dois territórios e que Marcos se concentre
nos participantes da Galileia por ser a região
em que Jesus ministrava.
6.22,23 Quando a filha de Herodias en-
trou e dançou, agradou a Herodes. Sem dú-
vida foi uma dança sensual, o que aumentou
o escândalo, pois geralmente eram cortesãs
que dançavam desse modo. Provavelmente
uma menina de doze a catorze anos (cha-
mada “Salomé” em Josefo, Ant. 18.136-
7), encantou Herodes de modo inusitado;
este se sentiu honrado de a princesa dançar
para ele. Em uma decisão impetuosa (pro-
vavelmente ocasionada por embriaguez),
Herodes foi além da prática habitual
de recompensar artistas que agradavam
e prometeu com um juramento: “Seja
sua sobrinha, Herodias, que, na época, era
casada com Filipe, meio-irmão de Antipas.
Herodias se divorciou de Filipe com base
na lei romana, e Herodes se divorciou de
sua esposa, filha de Aretas IV, rei da Pereia.
Aretas ficou tão enfurecido que declarou
guerra contra Herodes e o derrotou.1
6.18 Não te é lícito viver com a mulher de
teu irmão. De acordo com Levítico 18.16;
20.21, era ilícito um homem se casar com
a esposa de seu irmão. A única exceção
era o casamento de levirato (Dt 25.5 |veja
comentário sobre Mc 12.18-27]), mas não
se aplicava a esse caso, pois Filipe ainda
estava vivo. Não há dúvida, portanto, de
que o novo casamento era imoral, e a repre-
ensão por João Batista mostra que havia se
tornado um escândalo nacional. Herodes
considerou a reação um sinal de rebelião,
pois incitou a nação ainda mais contra ele.
6.19,20 Herodias [...] queria matá-lo. [...]
Herodes [...] o protegia. Evidentemente,
Herodias estava furiosa porque João Batista
tinha voltado o povo contra ela. A seu ver,
a única solução era matá-lo, mas Herodes
o protegia. A fraqueza de Antipas fica clara
no fato de ele perceber que João era “um
homem santo e justo”, mas não tomar uma
atitude com base nessa realidade. Ainda
assim, ele o protegeu por algum tempo, sem
dúvida, das tramas assassinas de Herodias.
Há paralelos entre Herodias e Jezabel em
IReis 21 e entre Herodes e o hesitante Pi-
latos em Marcos 15.
Quando Herodes ouvia João, ficava
muito perplexo; mesmo assim, gostava
de ouvi-lo. Essa situação traz à mente o
Para comemorar seu aniversário. Herodes convida
muitos membros im portantes de sua corte,
comandantes militares e membros de destaque
da sociedade galileia. A fotografia mostra as
ruínas do palácio de Herodes em Macaerus.
As colunas ao fundo (azem parte de uma
reconstrução e cercam um dos pátios.
6 . 3 0 os apóstolos reuniram-se a Jesus e
lhe relataram tudo o que tinham feito e en-
sinado. A intercalação de episódios (6.14-29
inserido entre 6.7-13 e 6.30) se completa.
Os discípulos foram designados apóstolos
em 3.14 (veja comentários sobre esse versí-
culo e sobre 6.7), e aqui retornam depois de
concluir sua primeira missão como “envia-
dos” ou representantes oficiais de Jesus. Em
6.6b,7 Jesus tinha dado início ao trabalho
deles como parte de sua própria missão. À
medida que se dedicaram ao ministério, re-
produziram o trabalho de seu Mestre; “tudo
o que tinham feito” se refere aos milagres
que haviam realizado de acordo com 6.13,
enquanto “ensinado” se refere à pregação
do reino por eles em 6.12.
Considerações teológicas
Em termos simples, essa seção de Marcos en-
sina que o trabalho missionário inclui opo-
sição e rejeição. O envio dos Doze (6.7-13)
é emoldurado pela rejeição de Jesus em
sua cidade, Nazaré (6.1-6), e pela morte
de João Batista (6.14-29). Todos que ser-
vem a Deus devem esperar a oposição do
mundo. Ao mesmo tempo, missão também
inclui a autoridade de Deus na proclama-
ção das verdades do reino. Já que fomos
formalmente “enviados” (o significado de
“apóstolo” em 3.14) como representantesoficiais do Deus triúno, saímos para realizar
a obra com sua autoridade. Por fim, missão
inclui sacrifício. Precisamos depender intei-
ramente de Cristo, e não de nós mesmos,
entregando tudo a ele.
Para ensinar o texto____________
1. O discipulado inclui imersão no ensino
e no ministério de Jesus. Esse é um dos
temas principais do livro de Atos, em que
Lucas enfatiza que fazia parte da história da
igreja primitiva imitar a vida c o ministério
de Jesus. A maioria dos milagres em Atos
o que for que me pedir, eu lhe darei, até a
metade de meu reino” . É bem possível que
haja aqui uma alusão a Ester 5.2,3, em que
o rei persa Xerxes promete a Ester “até
metade do reino” . O contraste, porém, é
gritante, pois Ester salva seu povo da morte,
enquanto Salomé, orientada por Herodias
(6.24), pede a morte de João Batista.
6 . 2 5 Quero que me dês agora mesmo
a cabeça de João Batista em um prato.
Embora seja possível que se trate de um
pedido impulsivo, o enredo da narrativa,
em que Herodias continuamente trama a
morte de João Batista, torna mais provável
que esse fosse o plano desde o início. Do
contrário, seria de esperar que a filha de
Herodias fizesse seu próprio pedido em vez
de consultar a mãe.
6 . 2 7 enviou um executor com ordens
para trazer a cabeça de João. “Executor”
(spekoulatõr) é um termo específico para um
guarda-costas/soldado enviado em missões
clandestinas, nesse caso, executar um pro-
feta. A decapitação era o modo de execução
usado pelos romanos, e que podia ser reali-
zado de imediato. O único homem justo no
palácio foi sacrificado por um capricho de
pagãos! Apresentar a cabeça de João Batista
em um prato, como se fosse uma iguaria
deliciosa na festa, demonstra o estado la-
mentável de depravação da corte de Hero-
des. Com essa morte, João vence e Herodes
perde, pois o rei se torna símbolo perpétuo
de perversidade e descomedimento.
6 . 2 9 os discípulos de João vieram, le-
varam seu corpo e o colocaram em um
túmulo. João continuou a ter determinado
grupo de seguidores depois que morreu,
pois Atos 18.25; 19.1-7 fala da presença
de discípulos dele em Éfeso mais de vinte
anos depois, e seguidores em séculos pos-
tcriores afirmavam que ele era o Messias
(Ps.-Clem. 1.60). Os mandeus no Iraque e
no Irã ainda se identificam como discípulos
de João Batista.
M arcos 6.7-30101
trechos do restante do Novo Testamento.
Em Atos, há hostilidade e sofrimento por
toda parte. Em Atos 4 e 5, os discípulos são
presos duas vezes e espancados com varas
da segunda vez, mas respondem com alegria
“por terem sido considerados dignos de ser
humilhados por causa do Nome” (5.41).
Tanto Estêvão quanto Tiago foram marti-
rizados (At 7; 12), e Paulo foi expulso repe-
tidamente de cidades devido a perseguições
(At 14.5,6,19,20; 16.39,40; 17.10,13,14;
20.1). Além disso, ele precisou lidar com
hostilidade durante vários anos em Jerusa-
lém, Cesareia e Roma, ao ser julgado sob
o risco de ser condenado à morte em Atos
21—28). Sem dúvida, a maioria das igrejas
enfrentou grande sofrimento pelo Senhor,
e Paulo trata dessa realidade como algo
que você praticamente pode contar. Esse
era o problema fundamental em Hebreus.
As igrejas nas casas de segunda geração
haviam se tornado indolentes (5.11; 6.12)
e, em meio à perseguição, foram tentadas
a renunciar Cristo e voltar ao judaísmo.
Há quem chame lPedro de “epístola do
sofrimento”, pois é dirigida a cristãos de-
sanimados que estavam “surpresos” com
tempos de dificuldade (4.12), mas preci-
savam entender que essas provações são
usadas por Deus para fortalecer a sua fé
(1.6,7; cf.Tg 1.2-4).
Para ¡lustrar o texto_____________
Discipulado: dar continuidade ao
ministério de Jesus.
Hino: Viver para Jesus, de Thomas O.
Chisholm. Nesse hino magnífico do século
20 sobre compromisso, vemos na segunda
estrofe que, à luz daquilo que Jesus fez,
Esse amor me constrange a atender
ao seu chamado,
seguir sua direção e entregar a ele todo
o meu ser.
são réplicas dos milagres de Jesus. O ca-
minho de Paulo para Roma é semelhante
ao caminho de Jesus para Jerusalém. Os
julgamentos de Paulo são paralelos aos
julgamentos de Jesus. Em outras palavras,
discipulado (Mc 3.14: “estar com ele”)
significa unir-nos a Jesus, tornando-nos
um com ele, e conformar nossa vida ao
exemplo dele. Em Efésios 4.13 lemos sobre
atingir “a medida da estatura da pleni-
tude de Cristo” . Aqui, quer dizer que os
apóstolos reproduziríam os milagres de
Jesus e proclamariam seu ensino por toda
a Galileia, e em 6.13 eles foram bem-suce-
didos nessa missão. Observe que a ênfase
aqui não é sobre quantos atenderam ao
desafio e se tornaram discípulos de Jesus,
mas sobre a fidelidade dos discípulos a
seu chamado.
2. A obra missionária é realizada com
a autoridade de Cristo. Muitos cristãos,
talvez a maioria, imaginam que têm pouco
a oferecer ao Senhor e a seu serviço. Na
verdade, estão certos. Nenhum de nós tem
muito que oferecer, mas é melhor que seja
assim. Em nossa fraqueza, o poder de Deus
se torna ainda mais evidente (2Co 12.9,10).
O fato é que não há poder algum em nossas
próprias forças e em nossos próprios talen-
tos. Deus nos criou de modo individual e
concedeu a cada pessoa uma combinação
de dons perfeita para que ele realize seus
propósitos por nosso intermédio. Saímos
para realizar a obra com a autoridade dele
e sob da presença de seu Espírito. Deus está
presente de modo poderoso, e operamos
debaixo de sua autoridade e com ela.
3. A proclamação do evangelho muitas
vezes esbarra em resistência e pode até resul-
tar em morte. Esse é um tema predominante
não somente no ensino de Jesus, mas em
todo o Novo Testamento. Vimos anterior-
mente alguns ensinamentos de Jesus a esse
respeito (veja “Para ensinar o texto” em
6.1-6), de modo que consideraremos aqui
102M árcos 6.7-30
houvesse alimento algum na casa. Quando
terminaram de orar, o padeiro do bairro apa-
receu com pão fresco suficiente para todos e
o leiteiro veio com uma grande quantidade
de leite, pois sua carroça havia quebrado em
frente ao orfanato. Imagine o impacto que
essas experiências exerceram sobre a fé das
pessoas envolvidas. Tome a decisão de de-
pender de Deus, e não de si mesmo.
E o refrão afirma:
Ó Jesus, Senhor e Salvador, eu me
entrego a ti,
Pois tu, em tua expiação, te entregaste
por mim.
Outro Mestre não reconheço; meu
coração será teu trono,
Minha vida a ti entrego para, dora-
vante, Ó Cristo,
Viver somente para ti.
Deus deseja que, no Espírito Santo e por meio
dele, nos dediquemos inteiramente a dar con-
tinuidade à obra de Jesus neste mundo.
Depender de Deus, e não de nós mesmos.
Biografia: George Muller. Filantropo inglês
do século 19, Mueller foi um evangelista
eficaz. Além de ter fundado vários orfa-
natos, é conhecido por seu exemplo ma-
ravilhoso de confiança em Deus. Embora
jamais pedisse coisa alguma a ninguém,
exceto a Deus, os orfanatos sempre tinham
o que precisavam. Mueller disse certa vez:
“A fé não opera na esfera do possível. Não
há glória para Deus naquilo que é humana-
mente possível. A fé começa onde o poder
humano termina”.2
As histórias da provisão de Deus na vida
e no ministério de Mueller são extraordiná-
rias. Várias vezes recebeu doações não soli-
citadas de comida apenas algumas
horas antes do horário da refeição
das crianças, o que fortaleceu
ainda mais sua fé em Deus.
Em uma ocasião amplamente
documentada, por exemplo,
todos agradeceram pelo café
da manhã enquanto
todas as crianças
estavam senta-
das ao redor da
mesa, embora não
0 sangue dos mártires é a semente
da igreja.
História da igreja: Dentre as várias lições
ensinadas pela história da igreja, uma das
mais importantes é que a perseguição faz a
igreja crescer. Vemos esse fato claramente
em Atos, em que a igreja primitiva cresceu
rapidamente ao ser perseguida. Por que as
igrejas crescem em tempos de perseguição?
E provável que essa pergunta tenha diversas
respostas,mas é fato que a perseguição se-
para os verdadeiros seguidores de Jesus da-
queles cuja fé não é autêntica. Fé e coragem
diante da morte comunicam a autenticidade
da fé daqueles que são martirizados. Você
está preparado para permanecer firme na fé
em Jesus não importa o preço a ser pago?
Considere a possibilidade de ler um trecho
d a obra O livro dos mártires, de John
Foxe,2 ou de Prayers o f the mar-
tyrs [Orações dos mártires],
de Duane Arnold.
M arcos 6.7-30
Na história da igreja, João
Balista é reverenciado por
sen papel de mensageiro
de Deus e por ter sido
martirizado. Obras de arte
que retratavam a cabeça
de João Batista em um
prato, com o essa escultura
em carvalho de 1430 d.C.
se tornaram com uns na
Idade Média.
Marcos 6.31-44
A provisão miraculosa de Deus:
o cuidado para
com os necessitados
Ideia central A mensagem do milagre da alimentação é sim ples: Deus proverá. Esse é 0
principal milagre em que Jesus envolve seus discípulos, e a questão é se eles confiarão
no Deus que proverá para eles em todas as circunstâncias.
dois indivíduos da seção central (7.24-37)
apresentam aos leitores os “pequeninos” 1
em Marcos, personagens que aparecem
apenas uma vez no livro e, mesmo assim,
mostram o verdadeiro caminho para o dis-
cipulado (também 5.18,19,32-34; 9.14-29;
10.45-52) em contraste com os fracassos e
as interpretações equivocadas dos discípu-
los. Esses aspectos serão predominantes no
discipulado no restante do livro e ambos
aparecerão ainda várias vezes.
n0
> * i־
Considerações interpretativas
6.31 tanta gente [...] a ponto de não terem
tempo para comer. A situação aqui lembra
a de 3.20 e mostra, mais uma vez, uma
multidão tão numerosa que Jesus e seus
discípulos não conseguiam sequer comer.
Como em 1.45, essa circunstância leva
o grupo de apóstolos a sair da cidade e
ir “para um lugar tranquilo/deserto”
(numa região erma, onde pudessem
afastar-se das grandes multidões). De
acordo com Lucas 9.10, o lugar em
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Para muitos, essa passagem é apenas outra
sequência de milagres à beira do lago. No
entanto, é bem mais que isso. Aqui, a auto-
ridade de Jesus é vista em seu efeito sobre
o discipulado. O principal grupo envolvido
não é constituído das multidões, nem dos
líderes, mas dos discípulos. Esse trecho
faz parte de uma seção mais ampla em
6.31—8.21 que contrasta o fracasso com
a fé. Em seu âmago estão: dois milagres de
cura, a alimentação dos cinco mil (6.31-
44) e dos quatro mil (8.1-10), seguidos das
inadequações dos líderes e dos próprios
discípulos de Jesus. O desenvolvimento
teológico forma um arranjo A-B-A: fra-
casso (dos discípulos [6.45-52] associado
ao dos fariseus [7.1-23]); fé, observada
na mulher siro-fenícia e no surdo e mudo
(7.24-37); depois fracasso novamente, com
uma inversão em forma de quiasmo do
fracasso dos líderes (8.11-13) associado
ao fracasso dos discípulos (8.14-21). Os
104M arcos 6 .31-44
Principais temas de Marcos 6.31-44
* Deus e Cristo têm poder de suprir nossas neces-
sidades e nos fazer atravessar qualquer situação
em segurança.
■ Jesus envolve seus discípulos em todos os níveis
de sua obra poderosa e pede apenas que atendam
a seu chamado.
davídico (Ez 34.23; 37.24) precisa intervir
e “começar a ensinar” o povo.
6.37 Deem-lhes vocês algo para comer.
Todos os acontecimentos, como o deslo-
camento de Cafarnaum para as encostas
acima de Betsaida e o ensino de Jesus,
haviam tomado a maior parte do dia, e
certamente era final da tarde, hora do jan-
tar. Seria um problema sério providenciar
alimento para bem mais de cinco pessoas ali
(esse número se refere apenas aos homens
[6.44]). Provavelmente não estavam muito
longe de Betsaida, motivo pelo qual era
plausível os discípulos sugerirem que Jesus
mandasse as pessoas embora a fim de que
“elas mesmas” providenciassem algo para
comer. Jesus, porém, tem algo maior em
mente; como pastor, vai suprir as necessi-
dades de seu rebanho. Ele também pretende
envolver os discípulos em todos os aspee-
tos de seu ministério (3.14,15; 6.7-13)
e, portanto, os instrui a providenciar
alimento para o povo.
Para isso seria preciso mais que o
salário de meio ano. A quantia exata
questão ficava na região de Betsaida, do
lado nordeste do lago.
6.34 teve compaixão deles, porque eram
como ovelhas sem pastor. Jesus e os dis-
cípulos haviam procurado afastar-se para
ter um tempo a sós, mas as multidões (“de
todas as cidades” mostra, mais uma vez,
a grande popularidade de Jesus) percebe-
ram para aonde se dirigiam, “correram
adiante” e chegaram lá antes do barco (uma
distância de apenas 6,5 a 8 quilômetros).
Quando Jesus vê todo esse povo, enche-se
de compaixão. O amor e o cuidado profun-
dos de Jesus para com o povo da Galileia
são enfatizados de maneira particular nos
dois milagres de alimentação (também 8.2).
Ele se preocupa com essas pessoas porque
elas não têm pastor, uma imagem frequente
no Antigo Testamento para o fracasso dos
líderes de Israel, como aconteceu com a
geração do deserto (Nm 27.17), com a
nação sob o governo de Acabe (lRs 22.17;
2Cr 18.16) e especialmente com a nação sa-
queada em Ezequiel 34.1-10, texto em que
os líderes são chamados de “falsos pastores
de Israel” . Mais uma vez, os pastores que
deveríam cuidar de Israel fracassaram, de
modo que Jesus, como “messias pastor”
Marcos não revela o local em que Jesus
alimentou as cinco mil pessoas; afirma
apenas que era um lugar deserto e afastado
(6.32,35). Lucas situa esse acontecimento
em um lugar afastado depois que Jesus
e seus discípulos desembarcam em
Betsaida. A maioria dos comentaristas
recentes prefere a planicie de Betsaida, mas
peregrinos ainda visitam o lugar tradicional
em Tabga, considerado desde 0 quarto
século d.C. com o o local desse milagre.
M arcos 6 .31-44105
— o alimento dos pobres. Jesus transforma
a pequena refeição de um pobre em um
banquete real. Essa circunstância também
remete à provisão de maná no deserto (Ex
16) e à multiplicação, por Eliseu, de vinte
pães de cevada para alimentar cem pessoas
(2Rs 4.42-44). O milagre de Jesus é duzentas
vezes maior (Eliseu multiplicou o pão cinco
vezes e Jesus, mil vezes). Aquele que é maior
que Moisés e maior que Elias está aqui.
6 . 3 9 , 4 0 assentar-se [...j na grama verde
[...] em grupos de cem e de cinquenta.
Embora a grama verde possa representar
a transformação, por Jesus, do deserto em
lugar de refrigério,2 é mais provável que seja
uma alusão ao pastor Yahweh que conduz
seu rebanho a “verdes pastagens” (SI 23.2).3
A divisão em grupos traz à memória Êxodo
18.21, em que Moisés divide a nação em
grupos militares, e introduz na narrativa
desse milagra a tipologia do Êxodo. Essa
prática era seguida em Qumran, conferin-
do-lhe implicações escatológicas para a
são “duzentos denários”, sendo um de-
nário equivalente ao salário de um dia de
trabalho. O valor correspondia mais preci-
sámente, portanto, a sete meses de salário,
uma pequena fortuna. Ainda assim, não se
trata de uma hipérbole para a quantidade
de comida necessária para alimentar uma
multidão tão numerosa. Era impossível que
o grupo de apóstolos tivesse tanto dinheiro
em seu fundo comum. Vemos aqui outro
tema frequente nas Escrituras, paralelo à
objeção de Moisés à instrução para que
alimentasse seiscentos mil soldados (Nm
11.21,22) e do servo de Eliseu quando lhe
foi pedido que alimentasse cem pessoas
(2Rs 4.42-44). A tônica em ambos os casos
(como aqui também) é que Deus proveu
o alimento.
6 . 3 8 “Quantos pães vocês têm?” [...]
״ Cinco pães e dois peixes”. De acordo com
João 6.9, um rapaz trouxe cinco pães de
cevada e dois peixes, provavelmente secos
ou em conserva para dar um pouco de sabor
Quando Jesus m ultiplica os pães e os peixes, todos
comem e ficam satisfeitos. Os discípulos recolhem o
alimento restante, que enche doze cestos. Esse mosaico
do século 14 d.C. destaca osdoze cestos de sobras.
fato de que quando Deus supre nossas ne-
cessidades, ele o faz com fartura e nos dá
mais do que poderiamos pedir ou imaginar.
Isso se aplica ao âmbito terreno e ao espiri-
tual. Não significa que jamais passaremos
por períodos difíceis, mas quando vierem
dificuldades, Deus as fará redundar em bem
e suprirá nossas necessidades de maneiras
extraordinárias. Cabe a nós apenas depen-
der dele e confiar em sua provisão.
Para ensinar o texto____________
1. Deus proverá. Essa é a ideia predomi-
nante de 6.31-56. Aliás, é um conceito
fundamental em todas as Escrituras. Os
patriarcas, a geração do deserto, a nação
sob Moisés, Josué, os juizes, os reis — todos
foram instruídos a depender de Yahweh, o
Deus da aliança, que jamais os deixaria nem
os abandonaria (Gn 28.15; Dt 4.31; Js 1.5).
Deus pede apenas confiança e obediência e,
por isso, podemos lançar “sobre ele toda a
[nossa] ansiedade, porque ele tem cuidado
de [nós]” (lPe 5.7). Jesus, semelhante a
Yahweh, é o Bom Pastor que dá a vida
por seu rehanho e o conduz a pastos mais
verdes (SI 23; Jo 10.1-18). Além disso, seu
cuidado e sua provisão dizem respeito não
apenas a necessidades espirituais, mas tam-
bém a necessidades materiais. Deus e Jesus
cuidam de todos os aspectos de nossa vida.
É claro que isso não significa que jamais
passaremos por tempos difíceis. Observe,
por exemplo, as muitas dificuldades que o
apóstolo Paulo teve de suportar (2Co 6.3-
10; 11.21-29). Quem já passou por uma
série mais extensa de experiências catastro-
ficas (que incluíram quatro naufrágios!)?
Mas Deus ajudou Paulo a atravessá-las e
usou-as para fortalecê-lo. A provisão de
Deus significa que jamais acontecerá coisa
alguma que Deus não controle ou que não
use para nosso bem (Rm 8.28), a fim de
comunidade dos últimos dias.4 É possível
que a ideia de agrupar-se para o banquete
messiânico também faça parte do cenário
dessa refeição miraculosa.
6 . 4 1 Tomando os cinco pães [...] deu gr a-
ças e partiu os pães /.../ entregou-os a seus
discípulos. Esses quatro verbos costumam
ser considerados eucarísticos, pois Marcos os
emprega na mesma ordem em 14.22.0 único
problema é o peixe, que só se tornou sím-
bolo da celebração eucarística no segundo
século. É possível, portanto, que reflitam
simplesmente a bênção invocada pelo chefe
da família sobre a refeição. Ainda assim, os
paralelos com a Ultima Ceia tornam provável
uma conotação eucarística, na qual a fartura
da refeição também é um antegosto do ban-
quete messiânico prefigurado em Marcos
14.25. Na igreja primitiva, a Eucaristia era
chamada “partir do pão” (At 2.42).
6 . 4 3 os discípulos recolheram doze
cestos de pedaços. Há certo debate acerca
do possível caráter simbólico dos núme-
ros nesse relato (cinco = Pentateuco; dois
+ cinco = sete |o número da perfeição];
doze = tribos de Israel), mas seria alegórico
demais, e não há indício algum de alegoria
em Marcos. Ainda assim, pelo menos o nú-
mero de cestos restantes (doze no primeiro
milagre e sete no segundo) talvez tenha al-
guma relevância, pois, em termos bíblicos,
esses são os dois números mais importantes.
É possível que destaquem a obra perfeita
realizada por Deus nessas ocasiões.
Considerações teológicas
A provisão de Deus para seu povo sem-
pre foi simbolizada por alimento, desde
o maná no deserto durante o Êxodo até
o banquete messiânico de casamento no
eschaton. A condição humana lastimável
pode ser vista na ausência de alimento, e
a alegria da provisão de Deus se revela na
ideia de um banquete. Ressalta-se aqui o
M arcos 6 .31-44107
Jesus inclui os discípulos em
seu ministério ao pedir que
deem de com er ao povo
reunido. Eies respondem que
seriam precisos duzentos
denários para alimentar
toda a multidão. Essa soma
equivalia a sete ou oito meses
de salário, dinheiro que
eles não tinham. O denário
dessa fotografia foi cunhado
para exibir as realizações do
imperador Augusto.
incurável e de causa desconhecida. Nesse
livro, Dobson fala de muitas tarefas simples
que ele não pode mais realizar por causa
de sua enfermidade. Em seguida, porém, se
expressa de modo marcante: “Que motivos
tenho, então, para ser grato? São tantos.
Senhor, obrigado por me acordar hoje de
manhã. Senhor, obrigado porque consigo
me virar em minha cama. Senhor, obri-
gado porque ainda consigo sair da cama.
Senhor, obrigado porque posso andar até
o banheiro [...] Senhor, obrigado porque
ainda posso escovar os dentes [...] A lista
é longa. Em minha jornada com a ELA,
aprendí a concentrar-me naquilo que con-
sigo fazer, e não naquilo que não consigo.
Aprendí a ser grato pelas pequenas coisas
em minha vida e pelas muitas tarefas que
ainda sou capaz de realizar”.5 Precisamos
aprender a ver a mão de Deus nos milagres
diários da vida. Pode ser interessante usar
um trecho do DVD Ed’s story [A história
de Ed] do grupo Flannel, uma organização
sem fins lucrativos.6
produzir uma “colheita de justiça
e paz” (Hb 12.11).
2. Discipulado significa
participação na obra po-
derosa de Cristo. Essa
questão foi tratada no
final do comentário sobre
3.7-19 tratando da seme-
lhança a Cristo; devemos
imitar Cristo em tudo o que
fazemos. Em 3.14,15, Jesus fez
algo inédito na instrução rabínica:
não apenas ensinou seus discípulos, mas
desde o princípio começou a envolvê-los em
seu ministério. Deu-lhes autoridade tanto
para pregar quanto para realizar milagres.
Temos aqui o resultado dessa promessa.
Em 3.14,15, eles foram comissionados, e
agora são enviados para realizar a obra
do reino. Duas verdades fluem dessa rea-
lidade. Primeira, tudo o que fazemos de
valor eterno é uma participação na obra
contínua de Cristo. Somos o povo mes-
siânico, a comunidade do reino. E nosso
privilégio dar continuidade ao ministério
de Cristo até a sua volta. Segunda, tudo o
que fazemos, na verdade é ele quem realiza
por nosso intermédio. O Espírito em nós
(Jo 14.16,17,20) é o Espírito de Cristo,
portanto, servimos a Cristo debaixo de sua
autoridade e investidos de seu poder. Logo,
não precisamos nos preocupar o quão ca-
pacitados (ou não) somos, pois somos seus
representantes, com sua autoridade.
Para ilustrar o texto
A provisão de Deus para as
necessidades.
Relato: Em uma festa de casamento, alguém
pediu que o pastor orasse antes da refeição.
Ele agradeceu a Deus por sua provisão, pelo
alimento que estavam prestes a comer. Em
uma das mesas, havia um homem que não
A provisão de milagres diários.
Biografia: Seeing through the fog [Vendo
através da névoa], de Ed Dobson. Perto do
final de 2000, o pastor Ed Dobson recebeu o
diagnóstico de ELA (esclerose lateral amio-
trófica, também conhecida como doença
de Lou Gherig), uma doença degenerativa
108M arcos 6 .3 1 4 4 ־
significa que os discípulos podiam observar
como Jesus vivia e, portanto, tinham diante
de si um exemplo de conduta piedosa. No
entanto, Jesus não fez tudo por seus disci-
pulos; em vez disso, os desafiou a exercer o
ministério enquanto ele estava fisicamente
presente com eles. Nessa situação, os dis-
cípulos foram desafiados a alimentar o
povo. Deve ter sido uma lição importante
olhar para seus próprios recursos limita-
dos e não visualizar meios de realizar essa
tarefa. Jesus lhe mostrou, porém, que com
Deus todas as coisas são possíveis. Fazer
discípulos é mais que ensinar ou pregar. É
convidar outros a participar de nossa vida
e de nosso ministério. É desafiar outros
a exercer o ministério enquanto estamos
próximos o suficiente para incentivá-los
e ajudá-los. Você está ajudando alguém a
crescer como discípulo?
acreditava em Deus. O descrente comentou
em voz alta: “Não acredito que o pastor
acabou de agradecer a Deus pela refeição.
Deveria ter agradecido aos pais da noiva!”.
Perguntamo-nos se esse ponto de vista
não reflete o coração de muitos cristãos.
Quando oramos antes de uma refeição,
será que, lá no fundo, não a consideramos
resultado de nossoesforço? Você crê, de
fato, que o Senhor é o doador de todas as
boas dádivas? Precisamos entender a reali-
dade bíblica de que todas as boas dádivas
vêm de Deus.
0 processo de fazer discípulos.
Aplicação do texto: Precisamos seguir o
exemplo de Jesus no processo de desen-
volver discípulos maduros. No Evangelho
de Marcos, vemos que Jesus convidou seus
discípulos a viver e andar com ele. Isso
109 M arcos 6.31-44
Marcos 6.45-56
Reprovação e fracasso espiritual
— dureza de coração
Ideia central Esse episódio ilustra 0 principal contraste dessa passagem central de Marcos.
Jesus tem poder para cuidar de seus seguidores, mas os discípulos não entendem esse
fato por causa de seu fracasso espiritual e da dureza de seu coração.
que em qualquer outra ocasião. Agora, ele
os obriga (gr., anankazõ, um verbo incomu-
mente forte, “obrigar, forçar” ) a levar o
barco para a outra margem. A meu ver, ele
sabe o que acontecerá e atua aqui como o
Espírito que o “enviou” para ser provado
no deserto (1.12; observe a profusão de
imagens do deserto em 6.31-44). Essa será
a prova dos discípulos. É possível, ainda,
que houvesse alguns desordeiros no meio
da multidão e que Jesus quisesse evitar que
seus discípulos se envolvessem em qualquer
fervor messiânico (em Jo 6.14,15 a multidão
quer proclamá-lo rei “à força” ), mas não
há indício algum disso em Marcos.
6.46 subiu a encosta de um monte para
orar. Nos Evangelhos (veja Mc 3.13; 9.2),
os montes simbolizam revelação divina, e é
possível que haja mais associações com o
Êxodo/Sinai aqui, pois Jesus, semelhante a
Moisés, sobe 0 monte para ter comunhão
com o Pai.1
6.48 os discípulos remando com dificul-
dade, porque o vento soprava contra eles.
Provavelmente, é a metade ou o final do
anoitecer depois da arrumação que seguiu
o banquete pré-messiânico. Eles estão a
caminho de Betsaida (talvez não a mesma
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Deus provê para os necessitados (6.30-44),
e Cristo cura todos os que vêm até ele (6.53-
56). Os verdadeiros discípulos depositam
sua confiança em Deus e em Cristo, que
cuidam deles. Como o novo Israel, os se-
guidores de Jesus precisam ser provados
em sua própria experiência no “deserto” .
Em outras palavras, os discípulos precisam
passar por um teste semelhante ao de Jesus,
e é possível que Jesus os tenha enviado à
outra margem do lago de propósito, pois
sabia o que iria acontecer. A referência a
“um lugar deserto” (er mos topos) em três
ocasiões (6.31,32,35) talvez mostre que
essa é uma “provação no deserto” para os
discípulos, e eles, assim como Israel, são
reprovados (6.52: “dureza” = SI 95.8).
Considerações interpretativas
6.45 Jesus fez com que seus discípulos en-
trassem no barco e fossem adiante dele.
Jesus havia acabado de ensinar a seus dis-
cípulos que Deus proveria e os envolveu
de modo mais profundo nesse milagre do
Marcos 6 .45 -56 110
P r in c ip a i s t e m a s d e M a rc o s 6 .4 5 -5 6
* Em Jesus, fazemos parte de um novo êxodo e cons-
tituímos um novo Israel caracterizado pela confiança
na provisão de Deus.
• É fácil darmos lugar à dureza e à cegueira quando
nos concentramos na situação em vez de olhar para
Jesus.
O acréscimo feito por Marcos de que ele
“estava a ponto de passar por eles” (ausente
nos outros Evangelhos) é motivo de exten-
sas discussões e de várias teorias: (1) é uma
linguagem experiencial, do ponto de vista
dos discípulos, aos quais pareceu que ele
iria passar por eles;2 (2) é uma observação
do ponto de vista de Jesus, pois ele esperava
que confiassem na provisão de Deus e se
acalmassem; (3) significa que “ele pretendia
Em 6.48 os discípulos estão em um barco no mar
da Galileia, esforçando-se para remar contra um
vento forte. Os montes e vales que circundam o
lago afunilam ventos que podem formar ondas
perigosas. Essa fotografia ao pôr do sol mostra
que as ondas podem aumentar de tamanho e
intensidade no mar da Galileia.
Betsaida mencionada em 6.31), perto
dali, mas de repente começa um vendava!
(como em 4.37). Eles são desviados do tra-
jeto (6.53 diz que eles chegam a Genesaré,
cerca de cinco quilômetros a sudoeste de
Cafarnaum) e tudo indica que eles remaram
por várias horas antes de Jesus aparecer na
“quarta vigília” da noite (das três às seis da
manhã), perto do nascer do sol. De acordo
com João 6.19, eles haviam remado “cinco
ou seis quilômetros” nesse meio-tempo, o
que mostra quão intenso era o vento. Vários
dos discípulos eram pescadores e, portanto,
remadores experientes, mas depois de tan-
tas horas remando, “dificuldade”, era o
mínimo que enfrentavam.
estava a ponto de passar por eles. Há
quatro milagres aqui: Jesus (1) está no alto
do monte, vê os discípulos no meio da tem-
pestade e sabe que estão em dificuldade;
(2) ele caminha sobre a água; (3) vai direto
ao lugar onde eles estão no meio da tem-
pestade e de ondas imensas; e (4) acalma
a tempestade. Jesus parece caminhar em
direção a eles tranquilamente, de uma onda
a outra de mais de dois metros de altura.
como Deus garantiu aos patriarcas: “Eu
sou Yahweh, não tenha medo” (Gn 15.1;
26.24; 46.3).
6 . 5 2 eles não tinham entendido o milagre
dos pães; seu coração estava endurecido.
Seu coração “endurecido” (somente em
Marcos) aparece novamente em 8.17. Sua
falta de compreensão permeia o restante de
Marcos. Primeiro, não entendem o tema
fundamental do milagre da alimentação:
“Deus cuidará de vocês” . O fracasso se
deve a seu enrijecimento espiritual. Nesse
aspecto, os discípulos não são muito dife-
rentes dos que os cercam. Ficam “admira-
dos” como as multidões (1.22,27; 5.20) e se
mostram “endurecidos” como os fariseus
(3.5; 10.5). É preciso que o coração seja
aberto para a presença de Deus em Jesus e
que os olhos sejam abertos para enxergar
a verdade (cf. sua cegueira em 8.18). Os
discípulos fracassam nos dois quesitos.
6 . 5 6 aonde quer que ele fosse / .../ eles
colocavam os doentes nas praças. Esse é o
terceiro resumo (1.32-34; 3.7-12) e, como
os outros, tem como ponto central tanto
o poder miraculoso de Jesus quanto sua
Quando Jesus se aproxima do barco em que estão
seus discípulos aterrorizados, diz: "Não tenham
medo!"(6.50). Então, entra no barco com eles, e o
vento se acalma. Este fragmento de um sarcófago
do quarto século d.C. mostra João, Lucas e Marcos
em uma embarcação conduzida por Jesus no meio
das águas agitadas pela tempestade.
passar pelo caminho deles” e descreve o
propósito da vinda de Jesus;3 (4) traz à me-
mória as ocasiões em que Yahweh “passou”
por Moisés no monte Sinai (Êx 33.17-23) e
por Elias no monte Horebe (lRs 19.9-14).
Como Yahweh, Jesus “anda sobre as ondas
do mar [...] Quando passa junto de mim,
não o vejo” (Jó 9.8,11).4 A quarta proposta
(Marcos afirma que Jesus “pretendia [êthe-
len\ passar por eles”) harmoniza melhor
com a cena. Aqui e em 6.50, a divindade
de Jesus aflora, e o episódio se torna uma
epifanía (manifestação de Deus em Jesus)
para os discípulos.
6 . 4 9 pensaram que fosse um fantasma.
Os discípulos não têm expectativa alguma
e pensam apenas em sua situação desespe-
radora, e não em Deus. Por isso, chegam à
conclusão natural de que a única coisa que
pode andar sobre a água é um fantasma,
desprovido do peso de um corpo físico. É
possível que também estivessem pensando:
“Em pouco tempo seremos fantasmas como
ele!” . Seu pavor é natural, mas, ao mesmo
tempo, reflete uma perspectiva de vida vol-
tada para si mesmos, e não para Deus.
6 . 5 0 Coragem! Sou eu! Não tenham
medo! No mínimo, “sou eu” (egõ eími) iden-
tífica que Jesus veio em pessoa salvá-los, por
isso não precisam mais ter medo. Em João
6.20, porém (à luz do uso de egõ eimi como
título cristológico em João), fica evidente
que se trata de uma perífrase de “Yahweh”
(seu significado na
LXX Êx 3.14; Is
41.4; 43.10) e, por-
tanto, quer dizer:
“Eu, Yahweh, estou
aqui!”. De modo se-
melhante, é prová-
vel quea intenção de
Marcos aqui seja usar
essas palavras como
indicação da natureza
divina de Jesus.5 Assim
M arcos 6 .45-56
são reprovados no teste. Passaremos por
testes semelhantes e também experimenta-
remos a presença de Jesus (e do Espírito).
A questão é se seremos vitoriosos como
Jesus em 1.13 ou se fracassaremos como
os discípulos aqui.
Para ensinar o texto____________
1. Os santos iniciam um novo êxodo e são
o novo Israel. O tema do Êxodo tem grande
destaque nessa passagem.6 Jesus é a van-
guarda do novo êxodo há tanto esperado,
a promessa de Isaías de um novo regresso
do exílio e de uma nova realidade do reino
que seria desencadeada pelo Messias. O
milagre da alimentação reitera o milagre do
maná no deserto e é precursor do banquete
messiânico final, em que Deus estabele-
cerá de uma vez por todas seu lugar de
habitação eterno. O novo êxodo ocorreu
em Jesus e, assim, está se formando uma
nova comunidade messiânica, o novo Israel.
Aqueles que aceitam Jesus como Messias se
tornam parte desse povo do reino e recebem
a promessa de bênçãos vindouras. Jesus
é o verdadeiro Israel, o Filho derradeiro
de Deus, e todos que creem, tanto judeus
como gentios, fazem parte de sua comuni-
dade messiânica e, portanto, constituem o
novo Israel, a realidade definitiva do povo
escolhido de Deus. Como o novo Israel, são
chamados a reverter a falta de confiança
do povo da antiga aliança em Deus, e a
tempestade no lago é enviada para provar
sua determinação e sua fé em Deus.
2. Dureza espiritual resulta em fracasso
no discipulado. Em 6.45-52, os discípulos
se concentram em sua situação difícil cm
vez de olhar para Cristo, que supre as neces-
sidades (6.53-56), e vem à tona o problema
de uma perspectiva centrada no mundo,
em vez de uma perspectiva centrada em
Deus (8.33b). Essa dificuldade permeará
incrível popularidade com as multidões.
Quando Jesus chega a Genesaré, visita
todas as cidades e todos os povoados da
região e ministra tanto nas áreas urbanas
quanto nos campos. Em cada cidade, as
ruas e a praça central ficam repletas de
enfermos. Jesus cura todos eles.
que lhes deixasse pelo menos tocar na
borda de seu manto [...] e todos os que
nele tocavam eram curados. Talvez o re-
lato da mulher curada em 5.28-34 tenha se
espalhado, pois os enfermos acreditavam
que seriam curados só de tocar em uma
das quatro borlas na barra de seu manto
(obrigatórias nas vestimentas de homens
judeus [Nm 15.38,39; Dt 22.12)). E de fato
foram curados (cf. At 19.12). O poder de
cura do Mestre se estendia até às roupas
que ele vestia.
Considerações teológicas
Na opinião de alguns, Marcos tem uma
baixa cristologia, que se concentra em Jesus
como Messias, mas esse conceito é equivo-
cado. Em Marcos, Jesus é Filho de Deus
e tem autoridade sobre a criação divina;
controla a natureza e amarra os poderes
cósmicos quando assim o deseja. Marcos
segue a teologia trinitária do restante do
Novo Testamento, e Jesus é Deus e herdeiro
do próprio Deus. Como fica evidente cm
João 1.3,4; Colossenses 1.16 e Hebreus
1.2, Jesus foi cocriador com Deus, o Pai,
e é soberano sobre sua criação.
Marcos também apresenta o tema fun-
damental de fracasso no discipulado. A
cena como um todo é um teste divinamente
determinado, assim como as experiências
de Israel e de Jesus no deserto. Jesus está
presente com eles de formas miraculosas,
“passando” por eles, assim como Yahweh
fez com Moisés. No entanto, os discípulos
não percebem a presença de Jesus devido
ao “coração endurecido” deles e, portanto,
Marcos 6.45-56113
onde você buscará ajuda? Quem lhe dará
respostas, soluções ou uma visão mais
ampla de seus problemas? Infelizmente,
muitos, mesmo cristãos, só buscam ajuda
dentro de si mesmos ou em outros em vez
de se voltar para Deus. Ou buscam Deus
apenas como último recurso. Reflita sobre
como Deus deseja que aprendamos a depen-
der mais dele ao lhe comunicarmos nossas
necessidades por meio da oração.
O s resultados terríveis de um
coração endurecido.
Estatística: A falta de compreensão acerca
da pessoa e do propósito de Jesus levou
os discípulos a olharem para si mesmos, e
não para Deus. O fato é que um coração
endurecido cega o olhos. Eles viram os mi-
lagres de Jesus, mas não entenderam, em
seu coração, suas implicações. Somos, de
fato, muito diferentes deles? Em se tratando
de igreja, há vários sinais de corações en-
durecidos. Em vez de oferecer o evangelho
ao mundo, por exemplo, a igreja muitas
vezes se concentra em cuidar apenas de
seus próprios membros. Com frequência
essas denominações são caracterizadas por
lutas de poder e por corações cheios de
crítica, e não por unidade. Em 2000, por
exemplo, depois de meio século de pros-
peridade nunca antes vista, a contribuição
por membro entre os cristãos nos EUA e no
Canadá era de apenas 2,6% de sua renda.
Essa falta de generosidade reflete o estado
do coração e suas prioridades. Qual é o
estado de seu coração?
Manter os olhos fixos no Deus que
está presente.
Biografia: Joni Eareckson Tada. Em 1967,
aos 17 anos, Joni sofreu um acidente en-
quanto mergulhava e acabou tetraplégica,
numa cadeira de rodas. Sua vida extraordi-
nária tem oferecido esperança e inspiração
as reações dos apóstolos no restante do
Evangelho de Marcos. Analisamos ante-
riormente 6.31—8.21 (veja “Texto em
contexto” em 6.31-44). Na transfigura-
çâo, o círculo mais chegado deles tem um
vislumbre da verdadeira realidade da glória
de Jesus, mas, logo em seguida, vemos os
outros discípulos confiarem em si mesmos
e se mostrarem impotentes diante de um
demônio que atormenta uma criança pe-
quena (9.14-29). Há um ápice momentâneo
na confissão de Pedro (8.27-29), mas no
momento seguinte, ele falha; aliás, depois
de cada predição da Paixão há um fra-
casso (8.31-33; 9.30-37; 10.32-45). Na
Narrativa da Paixão, o capítulo 14 traz
cinco fracassos: Judas (v. 1-11), os disci-
pulos (profetizado, v. 18-21; cumprido, v.
27-31), o Getsêmani (v. 32-42), discípulos
anônimos (v. 50-52) e Pedro (v. 66-72).
E Marcos conclui com dois fracassos. As
mulheres, únicas discípulas fiéis a testemu-
nharem o acontecimento, vão ao túmulo
para ungir o corpo e são repreendidas por
um anjo (16.5,6) e, por medo, desobede-
cem a comissão do anjo (16.7,8). A vitória
sobre nossas tendências egocêntricas só é
alcançada quando encontramos o Senhor
ressurreto (14.28 = 16.7).
Para ¡lustrar o texto_____________
Onde você procura socorro nas
tempestades da vida?
Citação: A trilha menos percorrida, de M.
Scott Peck.7 Peck começa essa obra clás-
sica com as palavras: “A vida é difícil [...]
Quando, de fato, nos damos conta de que
a vida é difícil — quando verdadeira mente
entendemos e aceitamos esse fato — a vida
deixa de ser difícil. Porquanto, uma vez
aceito, o fato de que a vida é difícil não
importa mais”. Todos nós enfrentaremos
desafios na vida. Quando isso acontecer,
M arcos 6 .45 -56 114
observa: “Ficaremos admirados quando
virmos o anverso da tapeçaria e como
Deus teceu belamente cada circunstância
no desenho maior, para nosso bem e para
a glória dele” .9 A eficácia na vida e no
ministério depende de mantermos os olhos
fixos no Senhor.
a milhões de pessoas. O segredo de sua
eficácia na vida e no ministério é seu foco
em Deus. Ela reflete que a angústia interior
“nos obriga a apegar-nos a Deus por de-
sespero, por necessidade urgente [...] Deus
nunca está mais próximo do que quando o
seu coração está aflito” .8 Em outro texto,
M arcos 6 .4 5 5 6 115־
Marcos 7.1-23
Hipocrisia espiritual: viver
por regras, e não conforme
o coração
Ideia central Nessa passagem a respeito de hipocrisia espiritual, Jesus ensina que 0 povo
de Deus não deve viver conforme a aparência exterior, mas de acordo com sua realidade
interior. 0 que importa de fato é a vida interior do coração, e não os códigos exteriores
de conduta.
como duas contra-acusações de Jesus (v.
6-8,9-13) e 7.14-23 traz o esclarecimentooferecido por Jesus às multidões (v. 14-16)
e aos discípulos (v. 17-23).
Considerações interpretativas
7 . 1 , 2 Os fariseus e alguns dos mestres da
lei. É provável que essa seja uma delegação
semioficial do Sinédrio, o supremo conselho
dos judeus em Jerusalém. O Sinédrio era um
conselho formado por 71 membros, con-
trolado pelos principais sacerdotes e pelos
saduceus, mas os escribas (“mestres da lei”)
e os fariseus também exerciam influência
considerável. Constituía-se dos anciãos,
aristocratas e dos líderes de Jerusalém. Eles
ficam transtornados com Jesus porque ele
permite que seus discípulos comam sem
lavar as mãos. Não se tratava de uma ques-
tão de higiene, mas de pureza ritual.
7 . 3 , 4 uma lavagem cerimonial, apegan-
do-se à tradição dos anciãos. Marcos ex-
plica essa prática judaica para seus leitores
Para entender o texto___________
Texto em contexto
O tema do fracasso em 6.45-53 tem con-
tinuidade aqui, e a dureza do coração dos
discípulos (6.52) os liga aos fariseus (3.5;
10.5) em sua incapacidade de compreen-
der a realidade de Jesus e do reino (veja
“Texto em contexto” em 6.31-44). Agora
Marcos volta a atenção para os fariseus a
fim de mostrar em mais detalhes a dureza
de seu coração. Desse modo, tem conti-
nuidade também o tema do conflito com
os líderes (veja 2.1—3.6; 3.22-30). Tam-
bém estão presentes subtemas da tradição
judaica (2.18,23-26; 3.2) e questões de
pureza (5.21-43).
Estrutura
Temos aqui uma narrativa complexa. Con-
vém dividi-la, portanto, em duas seções
principais: 7.1-13 apresenta o desafio e a
explicação de Marcos para ele (v. 1-5), bem
M arcos 7.1-23 116
Principals temas de Marcos 7.123־
■ Todo grupo social e religioso precisa de tradições,
que devem ser avaliadas não com base em sua
função, mas conforme a verdade: vêm de Deus ou
são de origem humana?
■ A hipocrisia é uma postura dúplice em relação à fé:
a pessoa prioriza as aparências acima da realidade
e se dispõe a viver uma mentira.
■ Nossa realidade interior deve ter prioridade e deter-
minar nosso modo exterior de viver.
Fariseus e escribas
Os fariseus (do hebr. perushim, “separatistas”) se origi-
naram dos Hassidim do período macabeu e defendiam
uma interpretação rígida da Torá. Eles desenvolveram
uma tradição oral, isto é, um conjunto de prescrições
que dizia aos judeus do primeiro século como evitar
transgredir inadvertidamente a Torá. Também defendiam
a observância meticulosa da Torá a fim de manter a
pureza, guardar as leis alimentares e do Sabbath e
assim por diante. A seu ver, estavam “construindo uma
cerca ao redor da Lei" (m. 'Abot 1.1) ao capacitaro povo
em geral a guardá-la. Tornaram-se mais influentes no
primeiro século, mas nunca chegaram a constituir um
partido numeroso dentro do judaísmo (de acordo com
Josefo [Ant. 17.42], tinham seis mil membros). Os es-
cribas (“mestres da lei") vieram da antiga classe de res-
ponsáveis oficiais pelos registros de documentos do go-
verno. Desde o tempo de Esdras(Ed 7.6-26; Ne 8.1-9),
eram uma classe importante da sociedade judaica, e
se tornaram ainda mais essenciais durante o período
macabeu como mestres e especialistas em questões
jurídicas. Eram os peritos legais do primeiro século, e
é provável que a maioria fosse do partido dos fariseus
(embora alguns fossem sacerdotes).
exatamente iguais. Seus lábios
dão a impressão exterior de
devoção, mas seu coração e
vida estão extremamente dis-
tantes de Deus. Seu culto e seu
ensino são vazios, infrutífe-
ros e não passam de esforço
gentios. No Antigo Testamento, esse ritual
era realizado somente pelos sacerdotes, que
lavavam as mãos e os pés antes de ofere-
cer sacrifícios (Êx 3 0 .1 8 4 0 . 3 0 - 3 2 .(־21;
A aplicação mais ampla fazia parte da
“tradição oral” desenvolvida no período
intertestamentário. Os escribas estenderam
o ritual a todos os judeus antes das orações
formais e, depois, a todos os alimentos,
de modo semelhante à comida sacerdo-
tal. Possivelmente, esses rituais eram pra-
ticados mais pelos mestres que pelo povo
em geral.1 Logo, é provável que “ todos
os judeus” seja uma hipérbole intencional
para ênfase. Era uma questão de pureza e
contaminação que envolvia dois aspectos:
se estavam em casa prestes a comer, apenas
jogavam um pouco de água sobre as mãos
(v. 3), mas se estavam fora de casa, em
um lugar público, talvez tivessem tocado
algo verdaderamente impuro (p. ex., um
gentio) e, por isso, mergulhavam os braços,
e talvez até o corpo todo, em um banho
ritual (baptizo é usado em 7.4).
7 . 6 o coração deles está longe de mim.
Marcos traz uma sequência diferente da-
quela que aparece em Mateus 15.1-20, e
coloca a citação de Isaías (29.13) no início,
a fim de apresentar de imediato a tese bá-
sica e mostrar como Jesus a fundamentou
na verdade do Antigo Testamento. Isaías
descreveu a vida religiosa superficial dos
judeus do século oitavo a.C. Eles falavam
as palavras corretas, mas não
praticavam as ações certas.
Jesus está dizendo que
os fariseus são
Os fariseus perguntam a Jesus
por que seus discípulos não
observavam as práticas de pureza
ritual antes de comer. É possível
que canecas de pedra, com o essa
encontrada em Massada, fossem
usadas para a lavagem ritual das
mãos (primeiro século d .Q .
M arcos 7.1-23117
(isto é, dedicado a Deus). “Corbã” signi-
fica “dádiva” (o termo costuma ser usado
para ofertas sacrificiais) e se refere a algo
dedicado a Deus que passa, então, a ser
sagrado. A pessoa podia declarar que uma
propriedade ou uma soma em dinheiro era
Corbã, e esse recurso não podia ser gasto
em qualquer outra coisa (embora pudesse
ser usado para as necessidades do próprio
indivíduo). De acordo com os fariseus,
essa prática teria prioridade prioridade
até mesmo sobre o quinto mandamento.
Jesus não indica se isso é feito de modo
intencional (para evitar responsabilidade)
ou acidental; de qualquer forma, é errado.
Os mandamentos de Deus têm autoridade
plena sobre a tradição dos escribas. Por-
tanto, a “tradição” humana praticada por
eles “anulou”, os verdadeiros mandamen-
tos divinos (v. 13, que repete o v. 9).
7 . 1 5 o que sai de uma pessoa é que a
contamina. A segunda metade da perícope
traz a explicação de Jesus para as multidões
e para os discípulos. Jesus usa a ilustração
do que “entra no corpo” (cf. Lv 11) e “sai”
dele (cf. Lv 15) para ampliar a ideia para
além do lavar as mãos, abrangendo, assim,
todas as questões de pureza, especialmente
as leis alimentares. Ele pede à multidão (que
mesmo composta por judeus comuns, ou
seja, não peritos na Lei, ainda era capaz de
entendê-lo) que não apenas “escute” (forte
ênfase sobre a prontidão do leitor para
“ouvir” a mensagem de Deus: ocorre oito
vezes no cap. 4), mas também “entenda”,
uma característica do verdadeiro seguidor.
Para isso, exige que percebam que o pecado
não é produzido por forças exteriores, mas
pelas realidades interiores que “saem” e
verdadeiramente “contaminam”. Não é o
alimento em si que contamina, mas o estado
interior da alma que corrompe de fato. Esse
princípio geral requer pureza de coração
para estarmos com a vida em ordem para
com Deus.
humano. O mesmo se aplica a muitos de
nós atualmente; podemos cantar hinos com
entusiasmo, ouvir sermões atentamente,
curvar a cabeça para orar e parecer pro-
fundamente engajados (como os fariseus)
e, ao mesmo tempo, viver em nosso íntimo
para nós mesmos e para nossas prioridades.
7 . 8 , 9 se apegam às tradições humanas
[...] põem de lado os mandamentos de Deus.
Jesus define a tradição oral como meramente
“humana” e mostra que é contrária aos ver-
dadeiros “mandamentos” de Deus, uma
ênfase importante aqui (v. 9,13). Quando
vivemos conforme decretos exteriores e le-
galistas, em vez de apresentar os “sacrifícios
espirituais” do coração (lPe 2.5) que Deus
exige, fracassamos. Há somente um caminho
para o caráter piedoso: obedecer às ordens
de Deus em sua palavra. O ensinamento
básicose encontra no versículo 8, enquanto
o versículo 9 diz como eles têm colocado
esse ensinamento em prática. São especia-
listas em “abandonar” (“negligenciar” [v.
8]) e então “negar” (“pôr de lado” |v. 9|) os
mandamentos de Deus, pois priorizam suas
próprias “tradições”. Voltaram-se contra
Deus a favor de suas próprias idéias.
7 . 1 0 quem amaldiçoar seu pai ou sua
mãe terá de ser executado. Nessa segunda
parte da contra-acusação de Jesus aos es-
cribas, ele cita duas passagens da Torá, o
fundamental quinto mandamento sobre
honrar os pais (Êx 20.12; Dt 5.16) seguido
de uma intensificação dessa ordem para
mostrar sua natureza extremamente séria,
que impõe a pena de morte sobre aqueles
que “maldizem” ou “amaldiçoam” seus
pais (Êx 21.17). Esse mandamento, em seu
contexto original, era interpretado como
se referindo não apenas a insultos, mas
também à insubordinação aos pais. Aqui,
a questão primordial é sobre a responsabi-
lidade de cuidar dos pais (cf. lTm 5.4,8).
7 . 1 1 declara que o que podería ser usado
para ajudar seu pai ou sua mãe é Corbã
118M arcos 7 ־123.
I Ao explicar a parábola para os discípulos, Jesus lhes
! diz que nenhum alimento pode contaminá-los,
porque não entra em seu coração, mas em seu" ן
! estômago, e depois sal do corpo" (Me 7,19). Mais
I literalmente, o grego traz "para o esgoto"ou
i latrina. A fotografia mostra uma latrina pública
I encontrada em Citópolis, cidade romana situada
I na base do sítio arqueológ ico da antiga Bete-Seã.
Os melhores manuscritos, porém, trazem
um participio grego masculino, portanto
Jesus está declarando que “todos” os ali-
mentos são “puros” . Em outras palavras, a
realidade do reino em Jesus gerou uma nova
era em que as leis alimentares de Levítico
11 não se aplicam mais.
7 . 2 1 , 2 2 pois do interior [...] vêm os pen-
sarnentos maus. Jesus apresenta aqui de
modo explícito o que fica implícito nos
versículos 18 e 19. A passagem anterior
diz o que não pode contaminar a pessoa
(os alimentos exteriores), e agora Jesus
especifica o que, na realidade, a torna
impura. O “coração”, a vida interior de
pensamentos da pessoa, é a origem do
pecado. A lista subsequente de práticas
condenáveis3 apresenta tipos diferentes
de “pensamentos maus” e é duas vezes
mais longa que a lista paralela em Mateus
15.19,20 (que acom panha a segunda
tábua dos Dez Mandamentos). Contém
doze itens: os seis primeiros estão no plural
(em grego) e conotam ações individuais, e
os seis últimos estão no singular (também
em grego) e conotam atitudes ou princípios
morais (na NIV todos os itens aparecem
no singular). Os itens no plural podem ser
divididos em três pares: imoralidade-adul-
tério, roubo-cobiça, homicídio-maldade.4
7 . 1 8 Acaso são tão ignorantes? Os disci-
pulos, como as multidões, não compreendem
o ensino de Jesus (como em 6.52; 8.17,21)
e lhe perguntam (em uma “casa”, o lugar
onde as perguntas são feitas em Marcos [cf.
3.20; 9.281) a respeito da “parábola” (veja
4.11) ou da analogia que ele apresentou
no versículo 15. Assim, Jesus esclarece o
ensino e apresenta mais um exemplo. Ele
pediu à multidão que “entendesse” (synete
[v. 14]) e agora acusa os discípulos de serem
“ignorantes” ou de “não conseguir enten-
der” (asynetoi). Em seguida, passa de um
exemplo da tradição oral (v. 10-13) para
um exemplo físico. A contaminação vem
do coração, mas o alimento (até mesmo
o alimento impuro) entra apenas no estô-
mago e passa pelo sistema digestivo. Vai do
prato para o vaso sanitário, passando pelo
indivíduo sem afetar seu aspecto espiritual.
O alimento físico diz respeito à parte da
pessoa relacionada apenas a este mundo,
e é necessário ter maior preocupação com
aquilo que afeta o “coração” (pensamentos,
palavras e ações), pois é ali que ocorre a
verdadeira contaminação.
7 . 1 9 jesús declarou puros todos os ali-
mentos. Temos aqui mais um comentário
editorial de Marcos que mostra as impli-
cações do que Jesus afirmou (cf. 3.30; 5.8;
7.3,4). Literalmente, o texto diz apenas
“purificando todos os alimentos”; para
alguns, isso significa que, de acordo com
o ensino de Jesus, o processo de digestão
remove todas as impurezas dos alimentos.2
119 M arcos 7.1-23
que coloquemos nossas crenças em prática,
que nosso modo de vida reflita as exigências
de Deus e que essa fidelidade a suas injun-
ções éticas seja observável para aqueles ao
nosso redor. Esse é o cerne da diatribe de
Jesus contra os escribas e fariseus em Mateus
23, uma série de sete “ais” que convergem
em torno do fato de que eles “não praticam
o que pregam” (23.3b). Quando a aparência
que projetamos para outros tem prioridade
sobre a realidade de quem somos diante de
Deus, estamos vivendo uma mentira e en-
frentaremos o julgamento divino. A solução
é termos Deus como centro e sermos fiéis
a sua Palavra revelada, praticando a vida
cristã como corpo no qual “admoestamos
uns aos outros diariamente” (a tradução que
prefiro para Hb 3.13) e “restauramos” uns
aos outros quando somos “surpreendidos
em algum pecado” (G1 6.1).
3. O ser interior determina a conduta
exterior. Deus atua de dentro para fora. As
más ações sempre procedem de pensamentos
pecaminosos (v. 20-23), contudo, o mesmo
se aplica a uma vida caracterizada pela reti-
dão. Quando nosso coração está em ordem
com Deus, nossa conduta segue pelo mesmo
caminho. Nossas ações, sejam elas piedosas
ou pagãs, começam na mente. Em Romanos
12.2, os leitores são chamados a uma vida
“transformada”, que nasce da constante
“renovação de nossa mente” pelo Espírito
Santo e por uma mentalidade piedosa. Se
gastarmos tempo em sites pornográficos, o
resultado disso sempre será uma conduta
imoral. Se, em vez disso, meditarmos na Pa-
lavra de Deus e nos pensamentos de grandes
Para ensinar o texto____________
1. É preciso reconhecer o devido valor e
lugar da tradição. O fato de os fariseus vi-
verem mais em torno de suas tradições orais
que do verdadeiro sentido das Escrituras
não deve depreciar as tradições religiosas.
Na verdade, todo grupo tem suas tradições,
e elas são importantes para definir seus con-
tornos religiosos e determinar a doutrina e
o estilo de vida corretos derivados dos tex-
tos sagrados. Tornam-se perigosas, porém,
quando distorcem as verdades sagradas e
passam a ser um fim em si. Nosso sistema
de crenças requer modelos e metáforas que
expliquem as verdades que herdamos e nos
capacitem a ser fiéis a elas. O importante
é que nossas tradições sejam heurísticas,
sujeitas a reavaliação e revisão, conforme
nosso entendimento das Escrituras e nossa
própria herança religiosa. As regras exer-
cem as funções positivas de definir um mo-
vimento, mantê-lo separado dos de fora e
determinar a conduta apropriada. Todas
essas funções são necessárias; o perigo surge
quando as regras passam a ter precedência
sobre as Escrituras e definem a si mesmas.
Precisamos respeitar os princípios religiosos
de outros (Rm 14.1—15.12); ao mesmo
tempo, contudo, devemos nos certificar de
que nossas tradições venham das Escrituras,
e não apenas do raciocínio humano.
2. A hipocrisia é um perigo para a vida
espiritual. Todos nós tentamos manter uma
boa impressão diante de outros e esconder
quem somos no âmago de nosso ser. Na rea-
lidade, cada um de nós precisa, como Paulo,
reconhecer que é “o principal dos pecado-
res” (lTm 1.15). No entanto, a Bíblia exige
i Os fariseus eram m uito rígidos quanto à preservação
da pureza ritual. Além de lavar as mãos, a purificação
: ritual por meio da imersão do corpo todo em um
: mikveh, ou banho ritual, era uma prática comum,
i Nem mesmo isso, contudo, podia purificar o mal que
j nasce do coração da pessoa. A fotografia mostra um
mikveh do ן período do Segundo Templo.
120Marcos 7.1-23
devemos ter integridade em nosso relacio-
namento com Deus e uns com os outros,
sem procurar impressionar Deus e os ou-
tros com nossas práticas religiosas, mas
esforçando-nospara amar Deus e os outros
com autenticidade e integridade. Remova
a máscara e deixe Deus transformar seu
coração para que seu amor seja autêntico.
Anular a Palavra de Deus com tradições
humanas.
Filme: Mudança de hábito. Nesse filme
de 1992, Whoopi Goldberg estrela como
Deloris, cantora de bar em Reno, Nevada.
As autoridades a colocam em um convento,
disfarçada de freira, para protegê-la de um
chefe da máfia que deseja impedi-la de tes-
temunhar contra ele. Quando as freiras
ficam sabendo que Deloris tem experiência
musical, escolhem-na para reger o coral
do convento. Ela faz novos arranjos para
as músicas para torná-las mais contem-
porâneas e leva as freiras a interagir com
a comunidade, gerando desaprovação da
madre superiora. O monsenhor do con-
vento, porém, fica encantado com a música
e com o ministério visto que traz pessoas da
rua para o culto (pode ser interessante mos-
trar um clipe do filme em que gente das ruas
começa a entrar na igreja enquanto o coral
canta). Uma das irmãs comenta: “Foi por
isso que me tornei freira!”. Muitas vezes,
somos motivados por nossas tradições, e
não pela Bíblia. Embora a madre supe-
riora se contentasse em “deixar as coisas
do jeito que estavam”, o monsenhor e as
freiras desejavam alcançar a comunidade
com adoração e ministério autênticos. Que
tradições estão impedindo sua igreja de
exercer um ministério bíblico eficaz?
homens e mulheres de fé, almejaremos ações
que agradem a Deus. O princípio é simples:
somos aquilo que pensamos, e isso deter-
mina o que fazemos.
Para ¡lustrar o texto_____________
Adoração da boca para fora, e não
de coração.
Litcratura/filme: As possuídas, de Ira
Levin.5 Esse romance foi adaptado duas
vezes para filme (1975 e 2004). Na cidade de
Stepford, as esposas são submissas e atentas
para todas as necessidades do marido. Uma
jovem mãe, Joanna Eberhart, seu marido
e seus filhos, se mudam para essa cidade
tranquila e Joanna não demora a perceber
que há algo de errado: as esposas ali pare-
cem “zumbis” . Na realidade, elas foram
transformadas praticamente em robôs. Por
mais que os homens gostassem do poder,
o amor de suas respectivas esposas nunca
seria gratificante, pois não vinha de seu
coração, mas, sim, de sua programação.
De modo semelhante, quando cumprimos
os rituais da adoração ou fé sem envolver
nosso coração, não passamos de autômatos
programados. Acaso essa adoração significa
alguma coisa para o Senhor?
Uma vida de hipocrisia.
Lição prática: O termo “hipócrita” vem de
uma palavra grega que se referia a um ator
que desempenhava um papel no palco e,
com frequência, cobria o rosto com uma
máscara. Cubra seu rosto com uma más-
cara e pergunte: “Estou sorrindo? Estou
irritado? Estou chorando?”. Não há como
saber, pois a máscara esconde as expressões
reais. Jesus deixou claro em seu ensino que
M arcos 7.1-23121
Marcos 7.24-37
Os gentios demonstram o
verdadeiro discipulado
, * 2 ׳ ־ C f r v ז ? ־ ' ׳ " ־:׳ , - / s נ
Ideia central A salvação e as bênçãos do reino, até aqui experimentadas principalmente
pelos judeus, agora são estendidas aos gentios. Uma mulher gentia de Tiro demonstra
fé e humildade extraordinárias, e um surdo e mudo em Decápolis experimenta a
cura m essiânica.
noroeste da Galileia para a Síria, e Jesus
desejava viajar incógnito, ao que parece,
tanto para fugir da oposição que vinha
enfrentando,' quanto para passar algum
tempo a sós com seus discípulos. A prin-
cípio, ele também parece não querer muito
contato com os gentios, mas permanece
em regiões gentílicas durante os próximos
Sldom
S A M A R I
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Marcos se volta agora para exemplos de fé,
tendo em vista que a mulher siro-fenícia é
um dos “pequeninos” de seu Evangelho,
personagens que aparecem só uma vez,
mas que elaboram o tema de como deve
ser o verdadeiro discipulado. Como tal, ela
mostra aos discípulos a humildade e a
vida centrada em Cristo que devem ca-
racterizar o verdadeiro seguidor de Jesus
e ocupa o ponto central da seção sobre
“fracasso-fé-fracasso” em 6.30— 8.21
(veja “Texto em contexto” no comen-
tário sobre 6.31-44), contrastando espe-
cialmente com a dureza de coração dos
discípulos em 6.52; 8.17. A cura do surdo
mudo dá continuidade a essa ênfase.
Considerações interpretativas
7 . 2 4 foi para os arredores de Tiro. Essa
região ficava a dois dias de viagem a
Jesus viaja da Galileia para os arredores de
Tiro. Depois vai a Sidom. antes de voltar para
0 mar da Galileia e para a região de Decápolis.
Esse é um mapa dessas regiões.
M arcos 7.24-37 ^₪₪₪₪ΙΚ₪₪₪₪₪Λ
Principais temas de Marcos 7.24-37
■ As m isericórdias de Deus também alcançam
os gentios.
■ 0 discipulado é inteiramente centrado em Jesus.
A rejeição dos gentios pelos judeus
Na aliança abraâmica, Deus exigiu claramente que seu
povo escolhido fosse "bênção" para “todos os povos da
terra” (Gn 12.2,3), e Isaías 49.6 definiu os judeus como
“luz para os gentios". No entanto, os israelitas, de modo
geral, não atentavam para essas injunções e despreza-
vam os gentios, considerando-os “impuros” . Há diversos
motivos históricos para essa atitude, especialmente 0
conflito incessante com os cananeus e os filisteus e 0
fato de Israel ter sido dominado pelos egípcios, assírios,
babilônios e romanos. Ainda assim, o povo tinha consci-
ência dessa ordem. Scot McKnight resume a situação da
seguinte forma: do lado positivo, os judeus enfatizavam
o monoteísmo (seu Deus é o único Deus), mas tinham
uma relação amigável com os gentios (especialmente
nas regiões da Diáspora) e permitiam que participassem
das atividades na sinagoga (veja os “tementes a Deus”
em At 13.16). Aliás, há vários indícios de que muitos
judeus participavam da educação helenística. Já no lado
negativo, os judeus enfatizavam a separação dos gen-
tios devido a sua pecaminosidade, não permitiam que
participassem do culto no templo (podiam entrar apenas
no pátio dos gentios, mas não nos demais recintos),
não permitiam o casamento com gentios, rebelaram-se
contra as reformas religiosas feitas pelos romanos e
tinham convicção forte de que, no eschaton, Deusjulgaria
e castigaria os não judeus. A maior parte da atividade
missionária se restringia à atuação nas sinagogas da
Diáspora com vistas a persuadir os tementes a Deus a
tornar-se prosélitos por meio da circuncisão.3
*McKnight, “Gentiles” , p. 259.
empecilho para o ministério. A mulher vinha
do território da Fenicia e da província da
Síria e, sem dúvida, era de cultura gentílica.
7.27 tirar o pão dos filhos e jogá-lo para
os cães. Robert Gundry chama a interação
dc Jesus com a mulher apropriadamente de
“duelo de perspicácia”.2 À primeira vista,
episódios e vai de Tiro a Sidom, depois
à Decápolis (7.31) — as dez cidades da
Síria — e, por fim, alimenta quatro mil
pessoas nessa mesma região (8.1-10). Desse
modo, Jesus ministra intencionalmente aos
gentios na presença dos discípulos. Embora
ele só permita aos discípulos anunciar o
evangelho a judeus (Mt 10.5,6), mostra a
eles como será o futuro ministério que vão
exercer. Essa não é a primeira interação
com gentios, pois em 5.1-20, o endemoni-
nhado gadareno não apenas é exorcizado,
mas também se torna discípulo de Jesus
e o primeiro missionário aos não judeus
(veja comentários sobre 4.35—5.20). Ainda
assim, esse é o começo de seu período mais
extenso com os gentios, e essa primeira
história é o divisor de águas que dá início
à era da missão aos gentios.
7.25,26 uma mulher, cuja filha estava
possuída. Jesus “não conseguiu manter
sua presença em segredo” (v. 24), pois sua
fama o precedia mesmo ali. Tiro era um
importante centro comercial e agrícola,
economicamente mais forte que a Galileia,
e Josefo cita seus habitantes entre “nossos
inimigos mais ferrenhos” (Ápion 1.70). Je-
zabel era dessa região (lRs 16.31,32) eTiro
era conhecida por seu paganismo e por sua
riqueza extravagante (Ez 28). É provávelque Jesus se encaminhe para lá proposita-
damente, embora Marcos não apresente
o motivo. Esse episódio dá continuidade
à ênfase sobre as questões de pureza dos
milagres em 5.21-43 e, especialmente, na
seção anterior em 7.1-23, pois Jesus recebe
a visita de uma pessoa gentia (considerada
uma das “criaturas” mais impuras), mulher
e cuja filha está possuída por um demônio
(note o destaque sobre o espírito imundo/
impuro). Observe quantos elementos essa
mulher tem contra si; qualquer judeu do pri-
meiro século ficaria estarrecido ao ver Jesus
interagir com ela. Uma vez mais, Jesus não
permite que as tradições religiosas se tornem
M arcos 7.24-37123
Jesus gostaria de ser incluída na miseri-
córdia de Deus aos gentios. Ela começa
chamando Jesus de “senhor” e, com isso,
reconhece que ele está no controle total
e que ela depende completamente de sua
misericórdia. Também reconhece que os
judeus têm direito de participar primeiro
das bênçãos de Deus e pede apenas para
receber as sobras. Embora controverso,
concordo com a opinião dos estudiosos
que defendem que a resposta da mulher
se deve ao fato de ser comum os gentios
terem cães como animais de estimação.4
Nesse sentido, ela usa um trocadilho em
seu argumento. Os judeus têm prioridade
no tocante às bênçãos do reino (Rm 1.16:
“primeiro ao judeu, depois ao gentio”) e,
como Jesus disse, os gentios eram impuros
e indignos. Diante disso, a mulher pede
apenas que ela (e os gentios), como um
animal de estimação, tenham permissão de
participar daquilo que restar das bênçãos de
Deus. Essa ideia harmoniza com Romanos
11.17, em que os gentios são retratados
como ramos da “oliveira brava” enxertados
na árvore para compartilhar das bênçãos
que haviam pertencido a Israel.
7.29 Por causa dessa resposta, você pode
ir. Na opinião de alguns, Jesus reconhece
que a mulher venceu a discussão, mas isso é
um exagero. Não houve discussão alguma;
a resposta abrupta de Jesus ao pedido da
mulher para que ele exorcize sua filha pa-
rece insultuosa, ríspida e até mesmo racista.
Como muitos comentaristas observam,
porém, essa é mais uma das “parábolas”
de Jesus para “os de fora” (4.11 )3 e, como
tal, é um enigma a ser desvendado. Jesus
fala do ponto de vista judaico e, em uma só
frase, resume o particularismo e o desprezo
dos judeus pelos gentios. Os “filhos” são
o povo judeu como filhos de Deus, e o
alimento para “comer” se refere à provi-
são de Deus (especialmente espiritual) para
seus “filhos”. Em outras palavras, somente
os judeus merecem o cuidado divino. A
conclusão (com a qual os discípulos con-
cordariam) é que o pão à mesa de Deus
é para seu povo e não deve ser “jogado”
ou descartado para os “cães” comerem.
Para os judeus, os cães eram considera-
dos impuros e jamais seriam aceitos como
animais de estimação; andavam em mati-
lhas à procura de alimento; eram expulsos
em Israel. “Cães” era um epíteto comum
para os gentios como indivíduos impuros
(2Sm 16.9; SI 22.16; Mt 7.6; Fp 3.2).
7.28 até mesmo os cachorros, debaixo
da mesa, comem das migalhas das crianças.
Essa resposta é perfeita. Jesus tinha dito:
“Primeiro, deixe as crianças comerem”,
e ela se vale dessa ideia de forma engc-
nhosa. Elias havia
ressuscitado o filho
de uma viúva gentia
(IRs 17.8-24), e a
mulher que fala com
Em 7.28, a mulher siro-fenícia
afirma, em resposta à objeção
de Jesus a curar a fil ha dela: "Até
m esmo os cachorros, debaixo
da mesa, com em das migalhas
das crianças". A fotografia
mostra um relevo funerário
grego em que um cão procura
migalhas no chão debaixo da
mesa, nessa cena de banquete
ou festa (quarto século a.C.).
124M arcos 7.24-37
em cinco estágios: (1) Jesus tira o homem
do meio da multidão. Há aqui um tom sutil
de “segredo messiânico” (cf. v. 36; veja tam-
bém comentário sobre 1.34), pois Jesus não
deseja que o milagre seja um acontecimento
público. Entretanto, quando ele ordena si-
lêncio no versículo 36, o povo não é capaz
de cumprir essa ordem (veja comentário
sobre 1.34). Quem é tocado por Deus e
por seu Filho não consegue permanecer
calado. As duas ações seguintes de Jesus
são simbólicas. (2) Ao colocar seus dedos
nos ouvidos do homem, Jesus age como
profeta e representa a abertura dos ouvidos
(cf. Is 35.5). É interessante que nesse epi-
sódio, como em 8.23,25 (a cura do cego),
Jesus usa tanto o toque quanto a saliva,
criando mais um vínculo entre os dois
milagres. (3) Acreditava-se que a “saliva”
de um homem santo tivesse propriedades
curativas,5 portanto o fato de Jesus cuspir e
depois tocar nele (provavelmente na língua,
mas talvez nos ouvidos) seria bem aceito.
(4) O “suspiro profundo” dc Jesus ao olhar
para o céu indica sua dependência de Deus
(também em 6.41) e sua emoção profunda
ao aplicar poder do céu à situação desa-
fortunada do homem.* (5) Mais uma vez
(como em 5.41), Marcos apresenta a ordem
de Jesus em aramaico para intensificar a
pungência da cena e envolver o leitor no
acontecimento descrito.7 Jesus é a voz in-
vestida de autoridade que libera poder do
céu e ordena que os ouvidos se “abram”.
O efeito é imediato e a cura é realizada.
7.36,37 eles continuavam falavam a
respeito / .../ “Fie faz tudo muito bem .”
Esse é um trecho particularmente forte,
que talvez resuma todas as passagens
anteriores em que Jesus ordena silêncio,
mas o povo não consegue obedecer (1.44;
5.43). Quanto mais silêncio Jesus exige,
“mais fortemente continuavam a pregar”
(tradução literal). O tempo imperfeito no
grego enfatiza que esse testemunho estava
em andamento. Sua admiração é tanta que
na verdade, Jesus formulou a declaração
dele para direcionar a resposta da mulher.
Entre outros motivos, Jesus foi às regiões
gentílicas (cf. também 5.1-20) para mostrar
a seus discípulos que Deus havia incluído
os gentios em seu reino (conforme antevisto
na aliança abraâmica insistindo para que
os judeus fossem “bênção” para os gentios
[Gn 12.2,3]).
7.31,32 a região de Decápolis. Jesus dá
continuidade a seu ministério nas regiões
gentílicas. Sidom ficava mais de 30 quilô-
metros ao norte de Tiro, de modo que Jesus
viaja para o norte e depois para o leste,
pela Síria, à região norte e leste do mar da
Galileia, onde ficavam as “Dez Cidades”
(veja também 5.20). É evidente que Jesus
deseja ministrar em terras gentílicas. Não
fazemos idéia, porém, do que o levou a dar
essa volta. Alguns sugerem que foi sim-
bólica, para mostrar que não havia mais
lugar para Jesus na rebelde Galileia que
tinha rejeitado Deus; no entanto, também
há uma ênfase sobre a inclusão dos gentios
no plano divino de salvação. Este último é
demonstrado na cura do surdo e mudo, que
tem um problema de fala devido à surdez.
um homem que era surdo e mal podia
falar. Assim como os judeus levaram seus
enfermos a Jesus para receber cura como
parte das bênçãos do reino, de igual modo
fazem os gentios. Esse milagre está intima-
mente ligado à cura do cego em 8.22-26.
Ambos ficam implícitos em 8.18 (“Vocês
têm olhos, mas não veem? Têm ouvidos,
mas não ouvem?”), e também há uma alusão
à promessa messiânica de Isaías 35.5,6: “A
língua do mudo cantará de alegria”. Nesse
aspecto, Jesus recapitula a visão de Isaías da
era messiânica de salvação, em que “os olhos
dos cegos se abrirão e os ouvidos dos surdos
se destaparão” e “os coxos saltarão como
o cervo”, e estende essa bênção messiânica
aos gentios, bem como aos judeus.
7.33,34 o levou à parte / .../ lhe disse:
“Abrase!”. Observe a sequência da cura
M arcos 7.24-37125
2. O discipulado está centrado em Jesús.
Os “pequeninos” em Marcos (aqueles que
aparecem apenas urna vez) são fundamen-
tais para o tema do discipulado, pois con-
trastam com os discípulos que fracassam
com tanta frequência (veja “Temas teológi-
eos” na Introdução) e mostram o caminho
para o verdadeiro discipulado. Os disci-
pulos têm mais dificuldades de ouvir e a
língua mais presa (veja comentários sobre
8.18, adiante) que opróprio homem surdo
e mudo! O objetivo principal de Marcos é
mostrar a importância fundamental de
concentrar-se inteiramente em Jesus, de
fazer dele o centro da vida e não o “eu”,
a exemplo da mulher siro-fenícia e do surdo
e mudo nessa passagem. O discipulado é o
processo de tornar-se cada vez mais seme-
lhante a Cristo, como se vê na tradução
literal de Efésios 4.13c: “alcançar a me-
dida da estatura da plenitude de Cristo”.
Em outras palavras, devemos procurar nos
tornar semelhantes a Cristo em todos os
sentidos. A mulher se mostrou disposta a
aceitar quaisquer “migalhas” que Jesus lhe
desse, e o surdo e mudo queria que Jesus
apenas impusesse as mãos sobre ele. Há
uma total negação do próprio ego e uma
dependência absoluta de Jesus, e esse é o
único caminho para tornar-se verdadeiro
discípulo de Jesus.
Para ilustrar o texto_____________
Estender 0 ministério aos “de fora".
B io g ra f ia e sp ir itu a l: Dark journey, deep
grace: Jeffrey Dahmer’s story of faith [Jor-
n a d a so m b ria , g ra ç a p ro fu n d a : a h is tó r ia
de fé de Je ffrey D ah m er] , de R o y R atc liff .
Ratcliff, pastor, escreve sobre seu ministério
a Jeffrey Dahmer, homem condenado pelos
crimes hediondos de assassinato, desmem-
bramento e canibalismo.8 Certo dia, Ratcliff
recebeu um telefonema de uma prisão da re-
gião, pois um dos prisioneiros desejava ser
não conseguem parar de falar a respeito de
Jesus e do milagre. Como Deus no Antigo
Testamento (Gn 1.31; Ec 3.11), Jesus “faz
tudo muito bem”. A última parte (a cura
do surdo e mudo) é uma alusão a Isaías
35.5,6, os milagres enviados por Deus que
prenunciarão o eschaton.
Para ensinar o texto____________
1. As misericórdias de Deus se estendem aos
gentios. Deus nunca se interessou só pelo
povo judeu. Como mostra a aliança abraâ-
mica (Gn 12.3; 15.5; 18.18), ao escolher
Abraão e seus descendentes, Deus planejou
usá-los como fonte de bênção para todas
as nações. Salomão, ao orar na dedicação
do templo, reconheceu que “estrangeiros”
viríam de terras distantes e pediu a Deus que
“todos os povos da terra possam conhecer
o teu nome e te temam” (lRs 8.43). Em
Salmos 96.3, o salmista pede que os ado-
radores “anunciem a sua glória [de Deus]
entre as nações, seus feitos maravilhosos
entre todos os povos” . A procissão das
nações a Sião é uma ênfase frequente nos
profetas (Is 2.2-5; 11.10; 14.1; 26.2; 49.23;
Jr 3.17; Zc 8.20-22). Embora Jesus tenha
restringido sua missão e a dos discípulos
a Israel (Mt 10.5,6; 15.24), sem dúvida
os gentios deviam ser incluídos na missão
(Mc 7.27-29; 13.9,10; 14.9). Aliás, o foco
mudará do Israel descrente para “outros”
que creem (12.9). Na verdade, esse é o pro-
pósito central dessa seção (7.24—8.10), na
qual três milagres ocorrem em território
gentio a fim de mostrar que Deus estende
suas bênçãos salvíficas aos gentios, mas
também aos judeus. A transição para os
gentios não espera por Paulo; começa com
Jesus. O requisito para participar da co-
munidade do reino não é a nacionalidade,
mas unicamente a fé; portanto, os gentios
passam a ser, como os judeus, foco da mi-
sericórdia de Deus.
;י■
Por onde quer que Jesus passe,
os que precisam de cura são
levados até ele. A lguns apenas
desejam tocar suas vestes e, para
outros, apenas ouvir uma palavra
de Jesus lhes restaura a saúde.
Nesse relato do hom em com
problemas de audição e de fala,
Jesus o chama à parte e mostra
seu poder de cura por m eio do
toque, da saliva e de ações para
que o hom em entenda. Esse
mosaico do quarto século d.C.
¡lustra o encontro de Jesus com
o hom em surdo.
ver, há pessoas para além do alcance da
graça e do amor de Jesus? Por que pensamos
dessa maneira? Como Deus deseja que você
ministre a esses “de fora” ?
Quem são meus irmãos?
Bíblia: Na Parábola do Bom Samaritano
(Lc 10.25-37) é o “odiado” samaritano, e
não um dos dois líderes religiosos judeus,
que para e ajuda o homem ferido. Jesus
rompeu as barreiras históricas, nacionais
e raciais para nos desafiar a ver nosso pró-
ximo como alguém que Deus ama. Somos
chamados a ver todos como pessoas criadas
à imagem de Deus e devemos ministrar a
eles. De modo semelhante, somos chama-
dos a ver nossos irmãos em Cristo com
base em nossa fé comum em Jesus Cristo.
batizado. Ele não apenas batizou Dahmer,
como passou a visitá-lo uma vez por se-
mana. Em seu livro, Ratcliff esclarece se
Deus é capaz de salvar, ou mesmo de amar,
um homem como esse. Um dos membros
da igreja de Ratcliff comentou: “Se Jeffrey
Dahmer for para o céu, não quero estar
lá” . Ao que o pastor respondeu: “Como
pode um cristão pensar dessa forma? Não
entendo [...] acaso o perdão é limitado a
quem não é tão ruim assim? Não há alegria
em saber que um pecador se voltou para
Deus?” .9 Na igreja, é comum identificar-
mos aqueles que são “dignos” de nosso
ministério e aqueles que estão do lado “de
fora” . Somos, de fato, diferentes daqueles
que, no tempo de Jesus, se escandalizaram
com seu ministério aos gentios? A nosso
■■i M arcos 7.24-37127
Marcos 8.1-13
A provisão de Deus
inclui os gentios
Ideia central 0 ministério de Jesus em terras gentílicas prossegue com 0 segundo milagre
de alimentação, que mostra a inclusão dos gentios no ministério m essiânico de provisão
exercido por Jesus. De modo contrastante, 0 confronto com os líderes judeus e a rejeição
por eles se intensificam e conduzem ao destino cristológico de Jesus em Jerusalém.
mostram tão incrédulos no versículo 4, con-
siderando-se que já tinham visto Jesus ali-
mentar outra multidão. Ao mesmo tempo,
não há motivos para concluir que essa seja
apenas uma narrativa duplicada. Como in-
dica o critério de plausibilidade, semelhante
aos milagres de cura e exorcismo que Jesus
repetiu em seu ministério, ele também pode
repetir a alimentação do povo. Joel Mar-
cus mostra que o milagre da alimentação
em João 6.1-16 se vale das duas narrativas
de Marcos e, portanto, mostra que ambos
existiam na tradição anterior a Marcos.1
Marcos seria um péssimo editor se simples-
mente tomasse a história anterior, do capí-
tulo 6, mudasse alguns detalhes e tentasse
apresentá-la como uma versão gentílica
do mesmo relato. Faz muito mais sentido
que o segundo milagre tenha, de fato,
ocorrido. Ademais, em 8.19-21, Jesus os
considera acontecimentos separados e faz
distinção entre eles.2 Jesus inclui os gentios
nesse acontecimento precursor do banquete
messiânico (veja comentário sobre 6 .4 1).
8.2,3 Tenho compaixão dessas pessoas.
Aqui, a compaixão de Jesus é física e se
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Essa passagem faz parte da seção mais
longa, 6.31—8.21, descrita anteriormente
(veja “Texto cm contexto” em 6.31-44)
que trata de “fracasso-fé-fracasso”. Aqui,
como em 6.31—7.23, um milagre de ali-
mentação (6.31-44 = 8.1-10) leva ao fra-
casso dos discípulos (6.45-52 = 8.14-21)
associado ao fracasso dos fariseus (7.1-23
= 8.11-13). Agora, Marcos inverte a ordem
de 6.44—7.23, e Jesus emprega a analogia
do pão para advertir acerca do “fermento”
(ou propagação do mal) dos fariseus.
Considerações interpretativas
8.1 outra grande multidão. Há tantos deta-
lhes iguais ao do relato do primeiro milagre
da alimentação (6.31 -44) que, para muitos
estudiosos críticos, trata-se de uma “des-
crição similar com base na mesma fonte”
ou de uma cópia da narrativa anterior. Sem
dúvida, há muitas semelhanças, e nos per-
guntamos por que os discípulos ainda se
128M arcos 8.1-13
Principais temas de Marcos 8.1-13
• Deus toma conta de seus seguidores de modo
maravilhoso.
■ Deus opera em nosso favor mesmo quando não com-
preendemos seus caminhos nem confiamos neles.
■ É preciso ter cuidado para não colocar Deus à prova.
■ Precisamos nos dirigir a Deus à maneira dele, e não
exigir aquilo que ele não dará.
nificado numerológico nesse relato: cinco
= os livros de Moisés, sete = plenitude ou
perfeição, quatro mil = porteirose músicos
do templo (1Cr 23.5). No entanto, não há
necessidade de um simbolismo alegórico
desses do começo ao fim, e é mais provável
que a ênfase geral seja
sobre o acontecimento
em si. Jesus toma uma
quantidade insignifi-
cante de pão e peixe e
a transforma em um
banquete suntuoso.
Ainda assim, é pos-
sível que haja certo
significado numero-
lógico nos doze e nos
sete cestos de sobras
(veja comentário sobre
6.43; 8.19,20), que
aponta para a obra
perfeita ou completa
de Deus no milagre.
Joel Marcus chama
esse sentido de “co-
notação da plenitude
escatológica, derivada
das imagens das doze
tribos de Israel e dos
sete dias da criação”.3
8.6 se assentasse no
chão. Em 6.39 obser-
vamos uma conota-
ção militar (“grupos
refere aos efeitos de sua fome, enquanto em
6.34 é uma preocupação espiritual devido
ao fracasso de seus “pastores” (os líderes).
A disposição do povo de permanecer com
ele durante “três dias” (será essa uma pre-
figuração dos “três dias” antes da ressur-
reição [8.31; 9.31; 10.34]?) sem provisões
suficientes comprova sua fome espiritual
por Jesus. A preocupação de Jesus transpõe
todos os limites e todas as distinções étnicas.
8.4 Onde, neste lugar deserto, podería
alguém conseguir pão suficiente..d O fato
de os discípulos não esperarem coisa al-
guma de Jesus remete a 6.37 e parece es-
tranho, considerando-se que pouco tempo
antes Jesus havia alimentado de modo mi-
raculoso uma “grande multidão” como
essa. Entretanto, todos
nós reagimos a Jesus
de modo semelhante,
com entendimento e
expectativa limitados,
mesmo depois de ele
suprir repetidamente
nossas necessidades.
Essa dificuldade em
assimilar e aprender
caracterizará os disci-
pulos no restante de
Marcos e fará parte
do “coração endu-
recido” em 8.17-19.
Observe, ainda, como
seu dilema é real. Nos
arredores não há local
algum com alimento
suficiente para suprir
as necessidades de
todo esse povo. So-
mente Jesus tem os
recursos para solucio-
nar o problema.
8.5 Sete. Como foi
comentado em 6.43,
muitos veem um sig-
M arcos 8.1-13129
para a margem leste (8.13), chegando, por
fim, a Betsaida (8.22).
8.11 para colocá-lo à prova. Era válido
“testar” um profeta para averiguar se ele
vinha de Deus ou se era um falso profeta.
Os fariseus, contudo, não estão buscando a
verdade; esse “teste” é mais uma “tentação”
(outro significado depeirazõ) para que Jesus
aja em seu próprio interesse. Uma situação
semelhante em que os israelitas colocam
Deus à prova faz sobrevir a ira divina em
Êxodo 17.1-7 e Salmos 95.7-11. Não há
abertura alguma para a possibilidade de que
Deus tivesse enviado Jesus. Pelo contrário,
eles “começaram a discutir” com Jesus com
vistas apenas a condená-lo e a voltar o povo
contra ele. A exigência de um “sinal do céu”
mostra que eles rejeitaram os milagres de
Jesus como prova de sua legitimidade. Eles
não exigem um milagre da natureza nem
um exorcismo (não podiam negar que Jesus
havia realizado milagres, embora imaginas-
sem que Satanás estivesse por trás deles [cf.
Mc 3.22]), mas, sim, um prodígio celestial
do próprio Deus. Talvez desejassem algo
semelhante à escrita na parede que anunciou
a Belsazar a destruição da Babilônia (Dn
5) ou um estremecimento apocalíptico dos
céus. O problema não se encontra em pedir
um “sinal” (concedido, com frequência, aos
profetas do Antigo Testamento [p. ex., Ex
4; lRs 18; Is 7]), mas na intenção negativa
por trás do pedido. Quando os discípulos
pedem um “sinal” em Marcos 13.4, Jesus
atende a seu pedido.
8.12 nenhum sinal lhe será dado. Como
em 7.34, o suspiro de Jesus indica emoção
profunda ao responder, talvez sua completa
dependência de Deus ao confrontar as for-
ças cósmicas do mal nos fariseus.4 “Essa
geração”5 amplia o problema e abrange
assim todo o Israel, comparando-o à “ge-
ração” perversa nos dia de Noé (Gn 7.1)
e na perambulação no deserto (SI 95.10).
O julgamento é pronunciado por meio de
um juramento profético solene (que, no
de cem e de cinquenta”) do exército mes-
siânico que banqueteia com seu Messias.
Aqui, o tom é definido pelo costume gre-
co-romano (seguido pelos judeus em suas
festas) de reclinar-se em um banquete.
Depois de tomar os sete pães e dar
graças, partiu-os e os entregou a seus dis-
cípulos. Como em 6.41, é possível que
haja aqui uma nuança eucarística, já que
a mesma linguagem ocorre na Ultima Ceia
em 14.22,23. Esses dois milagres de alimen-
tação têm uma dimensão teológica mais
rica que qualquer outro prodígio; recriam
o maná no deserto (Êx 16) bem como
a multiplicação de pães por Eliseu (2Rs
4.42-44), também anteveem a Eucaristia
e o banquete messiânico. A promessa é de
que Deus proverá para seu povo e lhe dará
grande fartura de bênçãos.
8.8 ficaram satisfeitos. Nos dois mila-
gres de alimentação, aqueles que receberam
o alimento ficaram “satisfeitos” . Marcos
emprega um verbo grego forte (chortazõ)
que significa “ficaram empanturrados”. A
imagem é de um banquete abundante em
que os participantes devoram a imensa far-
tura de alimentos. A grande quantidade de
sobras é mais uma prova desse fato (em uma
refeição habitual, em família, não havia
sobra alguma). Como foi observado em
6.43, os “doze” e os “sete” cestos de sobras
indicam uma refeição perfeita.
8.10 foi para a região de Dalmanuta.
Não sabemos praticamente nada a respeito
desse local. De acordo com Mateus 15.39,
eles foram a “Magadã”, lugar que costuma
ser associado a Magdala, na margem no-
roeste do lago. É provável, então, que Dal-
manuta fosse um vilarejo de pescadores
não muito distante de Cafarnaum. Isso
significa que eles saem da região de De-
cápolis (7.31), vão para o oeste até o lago
c, de lá, atravessam de barco para a outra
margem (território dos judeus), onde ocorre
um rápido encontro com os fariseus e Jesus
adverte a respeito deles. Em seguida, voltam
Jesus tem viajado de um lado para o outro
do mar da Galileia à medida que realiza seu
m inistério de ensino e de cura. Essa vista
transversal do mar da Galileia olha para a
margem noroeste; a margem leste aparece
do lado direito.
grego, começa com
“se” e significa “Que
Deus me amaldiçoe
se...” ). Deus não lhes
concederá “ s in a l”
algum dessa espécie,
pois eles rejeitaram
Jesus (quanto aos ditos
“em verdade” [amêtt],
veja 3.28; 9.1).
8 . 1 3 Então os
/.../ e atravessou para o
outro lado. Em Marcos, o ato
de Jesus “deixar” um grupo é,
com frequência, um gesto profético
de recusa e rejeição; nesse momento, Jesus
não quer mais saber deles.6 Ele atravessa
o lago outra vez a fim de dedicar atenção
a seus discípulos.
Considerações teológicas
da graça de Deus [... que| ele derramou
sobre nós”. Compartilhamos da glória de
Cristo e recebemos todas as bênçãos do
reino prometidas ao povo de Deus. Em
lPedro 5.7, o apóstolo afirma: “Lancem
sobre ele todas as suas preocupações, pois
ele cuida de vocês”. Isso significa que todas
as ansiedades da vida podem ser lançadas,
uma a uma, sobre os ombros de Deus, e que
ele cuidará de tudo. A base é o “cuidado”
e o amor impressionantes de Deus por nós.
Enquanto “gememos” em meio a nossas
preocupações, precisamos reconhecer que,
ao orarmos, não temos como saber a von-
tade de Deus para cada situação; o Espírito,
contudo, “geme” por nossas dificuldades
mais profundamente que nós e garante que
“todas as coisas cooperem juntas para o
bem” (Rm 8.26-28). Em todas as situações,
podemos ter a certeza de que Deus está
operando para nos guiar e nos fortalecer.
2. Deus está operando em nós, mesmo
quando fracassamos. Repetidamente, os
Os temas são os mesmos do relato da
alimentação dos cinco mil em 6.31-44: a
provisão generosa de Deus a seu povo e
a necessidade de os seguidores de Cristo
confiarem plenamente em seu cuidado para
com eles. O principal acréscimo aqui é a
ampliação dessa bênção para incluir os
gentios, e também os judeus. Um único
novo tema diz respeito ao sério perigo de
colocar Deusà prova. Não exigimos que
Deus opere neste mundo conforme nossos
próprios padrões; antes, sujeitamo-nos a
sua sabedoria e soberania em nossa vida.
Em outras palavras, não lhe dizemos como
agir, pelo contrário, nós agimos de acordo
com suas ordens e conduzimos nossa vida
em conformidade.
Para ensinar o texto____________
1. Deus cuida de nós de modo extraordi-
nário. De acordo com Efésios 1.3,7,8, Deus
nos concede “todas as bênçãos espirituais
em Cristo”, e elas consistem nas “riquezas
M arcos 8.1-13131
4. Dirija-se a Deus à maneira dele, e
não exija o que ele não dará. Em 3.5, os
fariseus são apresentados com um “cora-
ção endurecido”, pois rejeitaram a obra de
Deus em Jesus. Aqui, essa rejeição significa
tanto a recusa em aceitar que o ministério
miraculoso de Jesus é proveniente de Deus
quanto a exigência de que Deus envie um
sinal sobrenatural do céu como única forma
de convencê-los. Eles esperavam que Deus
cumprisse as condições deles e cedesse a suas
exigências. Deveríam ter lido as Escrituras
com um pouco mais de atenção. Deus jamais
cede a nossas exigências; nós cedemos às
exigências dele. Conforme Elebreus 12.1,
devemos correr “a corrida que nos é pro-
posta”. Os seres humanos não podem dizer
a Deus como desejam viver. A sabedoria (em
ambos os Testamentos) consiste em viver no
mundo de Deus conforme as regras de Deus.
Jesus se recusou a atender às estipulações
deles, e Deus não atenderá àqueles que o
abordarem com essa arrogância.
Para ilustrar o texto_____________
0 cuidado extraordinário de Deus por nós.
Experiência cotidiana: Quando os filhos
são disciplinados pelos seus pais, por vezes
reagem com mágoa e raiva e concluem que
os pais não os amam. Na maioria dos casos,
porém, isso não é verdade. O pai disciplina
o filho por amor. Nossa tendência humana
de tirar conclusões a respeito de Deus com
base em nossas experiências de vida é muito
perigosa. É uma abordagem equivocada,
pois parte do pressuposto de que somos
capazes de compreender plenamente nos-
sas circunstâncias e como Deus as usa em
nossa vida. Uma abordagem mais apro-
priada é enxergar nossas circunstâncias à
luz do que sabemos ser verdade acerca de
Deus com base na Bíblia. Como Hebreus
12.5-11 afirma, sabemos que Deus é bom e
discípulos não conseguiram entender o que
estava acontecendo e, ainda assim, Jesus
operou neles e por meio deles. Deus não de-
pende de nós, entretanto, temos o privilégio
de ser agentes das bênçãos do reino. Como
Paulo afirma, exercemos nosso ministério
como “vasos de barro” (2Co 4.7), meros
seres humanos. Somos criaturas finitas com
um corpo finito; ainda assim, Deus colocou
dentro de nós seus “tesouros” e nos permitiu
distribuir a outros essas dádivas maravilho-
sas da graça. Somos fracos e inadequados,
mas podemos nos alegrar em nossas pró-
prias fraquezas, pois nelas o poder de Deus
se torna ainda mais evidente (1Co 2.3,4;
2C0 11.30; 12.9,10). Certamente falhare-
mos, mas Deus jamais falhará.
3. É perigoso colocar Deus à prova. Os
fariseus tentaram impor sua própria defini-
ção de Deus sobre o Deus que se recusa a
ser limitado por definições humanas. Sua
perspectiva falsa acerca da verdade os levou
a fazer exigências a Deus que evocaram a
ira divina sobre eles. Com isso, repetiram
os erros de Israel no deserto. Em Hebreus
3.7—4.19 encontramos uma expansão mi-
dráshica do salmo 95 (sobre a geração do
deserto) em forma de homilía acerca desse
perigo. A advertência básica (3.12-19) diz
respeito à incredulidade pecaminosa que
desconsidera Deus e à desobediência que
resulta disso. Ao agir desse modo, os is-
raelitas de outrora e os fariseus do tempo
de Jesus experimentaram a ira de Deus e
não entraram em seu “descanso” (a Terra
Prometida em Números e a vida eterna em
Hebreus). Há uma advertência em Hebreus
4.1-11 para que os leitores vivam em obe-
diência a Deus, a fim de não perder o “des-
canso sabático” divino, isto é, o descanso
eterno com Deus. A solução consiste em
nos concentrarmos na decisão de “hoje”
(3.7,15; 4.7,8) de “entrar nesse descanso”
(4.11) e nos apegarmos firmemente a nossa
“convicção inicial” (3.14).
Marcos registra uma segunda ocasião em que
Jesus provê alimento às pessoas que se ajuntaram
para ouvir seu ensino. Mais uma vez. há com ida
com fartura para todos e chega a sobrar alimento.
Essa placa de marfim do décim o século d.C.
mostra a m ultiplicação dos pães e dos peixes.
à altura da tarefa. Mesmo depois do mi-
lagre anterior em que Jesus alimentou a
multidão, os discípulos ainda duvidaram
dele. Eles foram reprovados repetidamente.
Ainda assim, Deus usou a vida deles. Que
encorajamento para todos nós que segui-
mos Jesus! Quando você imaginar que Deus
não pode usá-lo, lembre-se da história da
jumenta de Balaão, em Números 22. Se
Deus falou por intermédio de uma jumenta,
pode falar por nosso intermédio também!
que ele nos disciplina “para que
participemos de sua santidade”.
Lição prática: Mostre aos pre-
sentes uma calculadora grande
e diga que a eficiência da cal-
culadora depende dos dados
inseridos pelo usuário. Como
objeto inanimado, a calculadora
simplesmente responde como
foi programada para fazer: bem
ou mal, o que é inserido determi-
nará o resultado. Infelizmente,
muitas pessoas se dirigem a
Deus como se ele fosse um objeto
inanimado, semelhante a uma
calculadora. Imaginam equivo-
cadamente que podem controlar,
por meio dos dados inseridos, o
modo que Deus responderá. Ou
seja, se orarem da forma correta
e tomarem decisões acertadas,
então Deus, como uma calcula-
dora, lhes dará o que desejam.
No entanto, Deus não é um objeto
inanimado que podemos manipular, nem é
limitado por nossos pedidos corrompidos e,
com frequência, medíocres. Pelo contrário,
Deus nos ama e cuida de nós; sabe melhor
que nós quais são nossas necessidades e as
situa no contexto de seus propósitos mais
amplos para nós e para o mundo. Portanto,
ao orarmos, confiamos que o Deus vivo e
amoroso responderá encaixando as coisas
como deveria ser, e não apenas de acordo
com nossas idéias limitadas de como as
coisas são.
Deus pode mesmo me usar?
Bíblia: A atitude dos discípulos no milagre
da alimentação dos quatro mil não estava
M arcos 8.1-13133
Marcos 8.14-26
Cegueira espiritual
e como superá-la
Ideia central A perspectiva materialista dos discípulos gerou cegueira espiritual, e Jesus os
criticou severamente por seu coração endurecido e por sua falta de entendimento. Ainda
assim , há esperança, pois 0 mesmo Jesus que tinha poder para curar os surdos e os
cegos também podia curar sua cegueira espiritual.
a pequena quantidade de pão em 8.5 à ima-
gem do pão e do fermento aqui. Havia cinco
pães em 6.38 e sete em 8.5; aqui, porém,
há apenas um, certamente mais uma vez
insuficiente para suprir as necessidades do
momento. Na opinião de alguns, esse fato
tem significado simbólico, mas é mais pro-
vável que apenas enfatize a situação difícil
dos discípulos.
8.15 tenham cuidado com o fermento.
Jesus percebe a preocupação deles com o
pão e decide usá-la para falar dos líderes
judeus. A distinção entre o pão comum
“levedado” e o pão sem fermento era im-
portante para os judeus, assim foi natural
para Jesus fazer a transição para a imagem
do fermento. Uma vez que o fermento faz a
massa crescer, no mundo antigo tornou-se
uma metáfora comum para crescimento.
Embora possa ter uma função positiva e
retratar a expansão do reino (Mt 13.33),
com mais frequência, tem conotação nega-
ti va, pois a celebração da Páscoa (Êx 12.15)
e a oferta de cereais (Lv 2.11) exigiam pão
sem fermento. Aliás, todo pão levedado
era removido antes da Festa dos Pães sem
Para entender o texto___________
Texto em contexto
Esses dois episódios completam a seção
sobre fracasso e fé em 6.31—8.26. A pri-
meira parte, sobre a falta de entendimento
dos discípulos, lembra sua “dureza” (de-
monstrada em 6.44-52 [6.52 = 8.17]), e a
sua repreensão por Jesus é