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AULA 1 NEUROCIÊNCIA E COMPORTAMENTO HUMANO Prof. Reginaldo Daniel da Silveira 2 INTRODUÇÃO Em nossas existências, ao perguntamos o que nos torna humanos, respostas apontam o cérebro como o que nos diferencia de outros animais. Ao atentarmos para esta complexa máquina eletroquímica, nos deparamos com estruturas cerebrais, líquidos, ventrículos, funções, relações que determinam ações e reações na interligação entre memória, cognição, emoção e comportamento. Emocionar, raciocinar, agir e perceber são termos explicativos para “comportar-se” e estudá-los é pôr em evidência elementos que nos permitem: a) definir o que é neurociência; b) delinear uma origem histórica; c) avaliar como ela se desenvolveu; e d) conhecer seus principais avanços. TEMA 1 – O QUE É NEUROCIÊNCIA E POR QUE ESTUDÁ-LA Duas estudantes, uma ruiva e uma morena, se encontram e se tocam por meio de beijinhos laterais no restaurante preferido, um ambiente com cheiro bom de mar, música boa de ouvir, vinho bom de tomar e um cantinho bom de conversar. Depois de ouvir três músicas, tomar um copo de vinho e aguardar o garçom trazer a sopa começaram a conversar sobre o assunto que queriam. A ruiva pergunta à morena o que ela entende de Neurociência depois de terem assistido às primeiras aulas de psicologia: – Me vem à cabeça o estudo de tecnologias de neuroimagem, a ressonância magnética, a eletroencefalografia, a... eletromiografia facial. A morena, com ar de “não é só isso”, coloca sua posição: – Também, mas eu penso num outro sentido. Vejo a Neurociência como uma ciência do cérebro que estuda as células nervosas, os tais neurônios que se encontram em pontos da parte cinzenta da cabeça para trocar informações e interagir. Nesse instante, o garçom – usando luvas – coloca os pratos e colheres e posiciona a sopeira no centro da mesa. A morena completa seu raciocínio dizendo que nos lugares onde os neurônios se encontram, formam-se as sinapses ligadas às tomadas de decisão. A ruiva pede que ela dê um exemplo, ao mesmo tempo que ao tocar a sopeira, dá um grito e retira a mão antes mesmo de sentir a dor. – Você é o exemplo – diz a morena, rindo, diante do olhar espantado da outra. – Como? 3 – Aí na sua parte cinzenta, um neurônio sensitivo se encontrou com um neurônio motor e gerou uma sinapse do arco reflexo. – Tá, mas não é só isso – alerta a ruiva – temos mais de 80 bilhões de neurônios, o que implica em um número muito grande de sinapses. – Sim, além do elevado número, muitas destas sinapses são bem mais complexas. Estes neurônios, na minha opinião, são como operários de uma fábrica, em que uma parte deles produz impulsos elétricos e a outra produz substâncias químicas. O que você acha? – Concordo. O sistema nervoso, no cérebro, e a medula espinhal percebem o corpo e o ambiente e respondem, como o grito que você deu. Estes mesmos sistemas utilizam substâncias químicas que influenciam nossas tomadas de decisão. Neurônios sensitivos e motores movimentam-se em situações como a sua, ao tocar a sopeira quente. No final do nosso jantar e de nossa conversa teremos movimentado nossos neurônios-espelhos, pois o que você e eu falarmos sobre neurociência estará carregado de expressões faciais, gestos, tom de voz e posturas, além dos sentidos linguísticos. A sopa agradável de frutos do mar estava sobre a mesa e as duas se desafiaram a pensar em coisar surpreendentes que tinha visto recentemente nas aulas de neurociência. – Podem ser coisas que eu acho meio malucas? – perguntou a morena. A ruiva concordou. As duas decidiram que depois do primeiro prato, cada uma exporia à outra seus registros. Enquanto mexia suavemente a sopa quente com a colher, a morena foi pensando no que lembrava: Como era possível, uma massa de 1,5 kg, menos de 3% da massa do corpo, composto com 75% de água, ter mais conexões que o número de estrelas na galáxia? A ruiva lembrou que a massa cinzenta era macia que nem manteiga, que o cérebro de Einstein era menor do que os outros e que era mito aquela ideia de usarmos só 10% do cérebro. Por fim, ela destacou que embora parecesse inacreditável dava pra viver só com a metade dele. Aproveitando o bate papo das duas estudantes, iniciamos nossa breve introdução à Neurociência refletindo sobre o que ela é e por que devemos estudá- la. A primeira pergunta que surge é: “isso de que estamos falando se refere a um conhecimento novo”? A Society for Neuroscience, uma sociedade profissional sediada em Washington nos EUA para cientistas e médicos do mundo inteiro, com foco no 4 estudo do cérebro e do sistema nervoso, foi fundada em 1969, o que nos leva a pensar em Neurociência como uma ciência “jovem”. Entretanto, se juntarmos ao termo “neurociência” a palavra “cérebro”, veremos que os estudos nesta área são bastante antigos, como veremos mais adiante. No decurso do tempo, palavras como tronco cerebral, cerebelo, neurônios, sinapses, ventrículos, músculos, fibras, foram se incorporando ao que já conhecíamos do cérebro, permitindo-nos discutir, argumentar e ampliar nosso conhecimento. Num simples bate-papo entre duas pessoas, notamos que tudo isso ocorre sem que possamos notar exatamente onde um pensamento foi desencadeado, com quais neurônios estamos falando ou reagindo e que sinapses são estas que estão acontecendo. Depois de algumas aulas, a ruiva e a morena aprenderam que além da transmissão por impulsos elétricos, os neurônios também se comunicam por meio de impulsos químicos, por meio de substâncias conhecidas como neurotransmissores, dos quais mais de 60 deles são conhecidos, e que “diferentes transmissores são responsáveis por influenciar a emoção, o pensamento e o comportamento” (Gazzaniga; Heatherton, 2005, p. 104). Para estes autores, todos os neurotransmissores têm efeitos que intensificam ou inibem potenciais de ação em cada indivíduo. Alguns dos principais neurotransmissores são: gaba, glutamato, acetilcolina, adrenalina, noradrenalina, dopamina e serotonina. O gaba e o glutamato são respectivamente um inibidor e um excitador do Sistema Nervoso Central (SNC). A acetilcolina ajuda a controlar o tônus muscular, sempre que a pessoa aprende algo ou se emociona (Russo, 2015). Da adrenalina, sabe-se que, quando liberada, mantém o corpo em estado de prontidão diante de emoções fortes, como luta ou fuga. É um neurotransmissor mais presente no corpo, diferentemente da noradrenalina, que fica mais no cérebro para inibir o estado de atenção e vigilância. A dopamina controla os movimentos voluntários (Weiten, 2010), e está relacionada a atividades compensatórias (comida, bebida, sexo). Já a serotonina é importante para os estados emocionais, controle dos impulsos e para os sonhos, sendo válida a afirmação de que quando seu nível é baixo, a pessoa está triste ou ansiosa. Ao atentarmos para os neurotransmissores, percebemos o entrelaçamento da neurociência com a cognição e a emoção. Há um número expressivo de experimentos que dizem que expressões faciais-corporais com força emocional ocorrem mais em pessoas que associam determinadas imagens a recordações 5 pessoais do que aquelas que não fazem essa associação. Estudos desta natureza também mostram que regiões cerebrais envolvidas com a emoção (a amígdala, por exemplo) revelam, em tomografia, maior ativação e maior relação com o processo de memorização – ou seja, quanto mais emoção, mais marcação. cérebro. Processos cognitivos e emocionais no sistema nervoso envolvem o cérebro, a medula espinhal, os nervos periféricos e aspectos fisiológicos. Se pudermos estudar estas áreas, avançaremos no entendimento de nossa biologia essencial. Ampliar tal conhecimento oportuniza detectar e compreender problemas. Pesquisadores ativos nestas investigações ajudam na prevenção e no tratamento de disfunções no cérebro, sistema nervoso e corpo.Por outro lado, saber que felicidade ou prazer se produzem no córtex frontal, que raiva, medo e tristeza ocorrem na amigdala ou pelo encontro de neurônios em lacunas denominadas sinapses facilita o entendimento conceitual da Neurociência. Neurociência é o estudo do fundamento neuronal, no nível biomolecular ou microscópico do comportamento, da cognição e da emoção; a investigação do sistema nervoso, sua estrutura, seu desenvolvimento, funcionamento, evolução, e sua relação com o comportamento e a mente, assim como suas alterações (Sena, 2015). O professor ensina, o livro informa, as pessoas conversam. Sem descartar o encontro das estudantes ruiva e morena, tais condições estabelecem um repertório de informações armazenadas na estrutura conhecida como hipocampo. Desta forma, novos neurônios, ao surgir, explicam a evolução do cérebro a partir de experiências. Histórias produzidas externamente convocam os protagonistas do enredo, os neurônios, a elaborar um mapa único na mente de cada indivíduo. Acontece na sua casa, na sua escola, na sua vida, na vida de quem aqui esteve antes de nós. Levando-se em conta as experiências com o cérebro, que idade teria a Neurociência? Costumamos afirmar que a Neurociência é uma ciência do século XX, a considerar que estudantes como as duas moças que abriram este estudo, se deparam hoje com tecnologias inovadoras explicativas do funcionamento cerebral e o que se lê com frequência é o surgimento de novos experimentos e novas formas de pensar o cérebro humano. Mas, como falamos há pouco, aprendemos com experiências armazenadas em nossos hipotálamos e mesmo as teorias que 6 rejeitamos no passado como a frenologia, ofereceram subsídios para novas avaliações. É o que iremos ver. TEMA 2 – ORIGENS DA NEUROCIÊNCIA: POR QUE FURAR O CÉREBRO? Imagine dois cenários. De um lado, estão as duas estudantes (homo sapiens sapiens) que nos acompanham neste estudo, e do outro lado, dois ancestrais pré-históricos, evolutivamente próximos do gênero Homo (australopithecus). O alimento das estudantes é uma sopa de frutos do mar e a dos hominídeos, cascas de árvores. Se compararmos os dois cenários, perceberemos que as criaturas de cada lado, olham (visão), tocam (tato), ouvem o som do ambiente (audição), e também sentem o cheiro (olfato) e o sabor da comida (paladar). Ainda que o alimento não seja semelhante, a diferença mais visível é o tamanho dos cérebros. Como representantes da espécie Homo sapiens, o cérebro das moças deve medir em média 1350 cm3 e o cérebro dos dois exemplares Australopithecus, terá em média 475 cm3 (The Conversation, 2022). Se considerarmos que os cérebros de primatas, como os gorilas, se assemelham ao cérebro dos primeiros hominídeos – a exemplo do australopithecus – é de se ponderar que a diferença entre 30 bilhões de neurônios deste último para os 86 bilhões do Homo sapiens é uma margem significativa. Nosso cérebro se desenvolveu em diferentes estágios, cada um deles deixando os que sobreviveram mais espertos. Deste modo, baseados em Tieppo (2021) podemos dizer que para sobreviver, aumentamos nossa estrutura cerebral e triplicamos o número de neurônios, o que não só nos diferencia dos nossos ancestrais como também das outras espécies animais. As informações externas que nos chegam pelas sensações químicas (gustativas e olfatórias), táteis, auditivas e visuais são produzidas como o movimento de mais de 80 bilhões de neurônios. Estas células nervosas não se limitam ao “quase um quilo e meio de peso” do encéfalo, mas se espalham por todo o corpo em integração com o sistema nervoso, resultando numa quase inimaginável comunicação interneurônios. Por eles, nossos comportamentos se relacionam às batidas do coração, piscar de olhos, movimentos de braços e pernas e sobretudo aos pensamentos, que produzem um vai e vem de emoções em evocações da memória. Como chegamos a este conhecimento que, embora 7 pareça tão avançado, ainda se mostra diminuto, diante da complexidade que é a natureza neural do cérebro? Bear, Connors e Paradiso (2017), falam que nossos ancestrais pré- históricos viam o encéfalo, esta parte de dentro da caixa craniana, como vital, havendo dados arqueológicos de um milhão de anos atrás com sinais de traumatismo craniano causado por outros hominídeos, que, em nossa avaliação, foram relevantes para avanços na Neurociência. Para ficarmos num tempo mais curto, registros de trepanações de 7 mil anos atrás nos fazem suspeitar que parte desta prática ocorria em indivíduos vivos, possivelmente para tratar problemas, ou “afastar maus espíritos”. Foi por volta de 2500 a. C. que se confirmaram as trepanações cerebrais feitas para “expulsar demônios” do corpo. O uso de um trépano (pedaço de pedra) buscava cortar fora a parte do crânio e desse jeito fazer saírem os espíritos malignos do corpo. De qualquer modo, a prática levava em conta que mexer no cérebro era proporcionar melhor bem-estar ao indivíduo. Os autores citados afirmam que nesta época, no Egito, já se sabia dos sintomas de lesões encefálicas, além de que, para os médicos daquele país, havia a concepção de que o coração – e não o encéfalo – era a sede do espírito e repositório de memórias, o que explica a remoção de suas partes e a preservação do corpo. Este entendimento permaneceu até Hipócrates (460-379 a. C.) que defendeu a convicção da ligação do cérebro às sensações e à inteligência. É dele a citação abaixo: Algumas pessoas dizem que o coração é o órgão com o qual nós pensamos, e que ele sente dor e ansiedade. Mas não é assim. Os homens deveriam saber que é o cérebro, e só o cérebro, a origem de nossos prazeres, alegrias, riso e lágrimas. Por meio dele em especial, nós pensamos, enxergamos, ouvimos e distinguimos o feio do belo, o ruim do bom, o agradável do desagradável. (citado por Gazzaniga; Heatherton, 2005, p. 121). O médico grego, considerado o pai da medicina, apontava quatro tipos de humores: o sangue, quente e úmido originado no coração; o fleuma, frio e úmido originado no cérebro; a bílis negra, fria e seca, que vinha do baço e do intestino e a bílis amarela, quente e seca, que era originada no fígado (Aguiar, 2004). Aristóteles (384-322 a. C) não aceitou a visão de Hipócrates e retornou à consideração de que a inteligência estava no coração e o cérebro era uma espécie de radiador responsável pelo esfriamento do sangue. O filósofo grego entendia que ao baixar a temperatura em casos de superaquecimento do coração, o 8 cérebro punha em evidência o temperamento racional humano. Para alguns olhares, este entendimento coloca o cérebro como aquele “servo fiel” que faz vento com o leque no seu “grande senhor”, o coração. De qualquer modo, deve-se atribuir a Aristóteles a concepção do “hábito” como contribuição à neurociência. Bernacer e Murillo (2014), reportam que a visão aristotélica defendia que quando se adquire um (bom) hábito, realiza-se uma ação: (1) mais facilmente; (2) mais eficientemente: e (3) com maior prazer. Esta é uma ideia-chave para entender como os hábitos induzem à plasticidade comportamental e a aprendizagem, por envolver áreas cognitivas. Se os hábitos na teoria aristotélica têm alguma importância na neurociência, a ideia de que o coração é o centro da inteligência foi desconsiderada. Nos dias de hoje a explicação é bem diferente. Tieppo (2021) diz que, em realidade, o coração é “pau mandado do cérebro”. Este órgão, que bombeia mais de 70 mil litros de sangue todos os dias no organismo, não manda dados de volta para o cérebro, apenas recebe a informação. Para boicotá-lo, o coração precisaria deixar de funcionar, mas isso não seria “estar no controle” e sim “não mais existir”. Nesta perspectiva, outros elementos do corpo são também importantes, como é o caso das vísceras, que dão respostas racionais ao cérebro, como acontecena emoção do medo, onde o coração acelera junto com a respiração. TEMA 3 – NEUROCIÊNCIA: ENTRE LÍQUIDOS E VENTRÍCULOS A atenção ao corpo com concepções de espírito celestial e a teoria dos quatro humores, passando pelas discussões de haver ou não um corpo físico e um não físico, abriram caminho para maior ênfase ao encéfalo, o que por sua vez daria espaço para estudar suas estruturas e funções. O decurso das análises considerava os líquidos que transitavam pelo corpo humano, chamados de “humores”: a bile negra (terra, secura e frio), a bile amarela (secura e calor), o sangue (ar, umidade e calor e o fleuma (água, umidade e frio) e os ventrículos cerebrais1, que produziam as operações mentais, da sensação à memorização. Foi no Império Romano que o médico Galeno (130-200), depois de ganhar experiência com cirurgias em gladiadores, interessou-se pelo papel mental do cérebro. Para ele, o cérebro era o responsável pelas sensações e o cerebelo pelo 1 Veja no texto da aula 2 mais detalhes sobre como os ventrículos surgiram na história. 9 controle dos músculos. Seguindo a teoria humoral de Hipócrates, ele dedicou-se a estudar os temperamentos. O melancólico, sob o domínio da bile negra, era triste, suscetível e ligado à arte; o colérico, relacionado à bile amarela, era o apaixonado, tendente à raiva; o sanguíneo tinha a ver com segurança própria, alegria, otimismo e sociabilidade e o fleumático caracterizava o fleuma, ou seja reflexão, tranquilidade e ausência de compromisso. Cavada (2017) explica que Galeno relacionava os ventrículos cerebrais com cavidades no coração e acreditava que sensações e movimentos estavam relacionados aos humores de ou para os ventrículos cerebrais pelos nervos. Pela teoria galênica, os nervos equivalem-se a condutos de transporte de fluidos do cérebro e medula espinhal em direção à periferia do corpo. Conforme Cosenza (2002), Nemesio (320), bispo de Emesia – a Síria de hoje – baseado em Galeno, ligou os ventrículos às faculdades intelectuais e colocou-os como responsáveis pelas operações mentais, desde a sensação até a memorização. Segundo o autor, o primeiro par de ventrículos seria sede do “senso comum”. A igreja usou os ventrículos para dizer que por eles circulavam espíritos. Aguiar (2001), destaca que o sistema de Galeno – que integrava a teoria humoral de Hipócrates com a lógica aristotélica – foi incorporado por médicos árabes após a queda do império e reintroduzido na Europa após 1250. As ideias de Galeno influíram no futuro e garantiram ao cérebro a responsabilidade de ser a sede de todas as faculdades mentais. René Descartes (1596-1650) concordou em parte com o médico romano, ao argumentar que todo ser humano tinha um corpo físico e um corpo não-físico. Gazzaniga e Heatherton (2005) acentuam que o “físico” e o “não-físico”, na visão cartesiana, eram interligados (dualismo) e o corpo era considerado uma espécie de máquina comandada por reflexos definidos como unidades de ação mecânica. As funções mentais, que incluíam a imaginação e as lembranças, eram resultado de funções corporais. No futuro, esta visão seria modificada para o entendimento de que a mente tem uma base física – o encéfalo. Já no final do século XVIII, com o sistema nervoso dissecado e sua anatomia detalhada, concluiu-se que ele compreendia uma divisão central, com encéfalo e medula espinhal e uma divisão periférica, que compreendia uma rede de nervos a percorrer o corpo (Bear, Connors e Paradiso, 2017). A questão que atraia o interesse dos cientistas era entender o que a diversificação de estruturas poderia representar para o entendimento do cérebro. 10 Entre os séculos XVII e XVIII, os estudiosos do cérebro passaram a dar importância ao encéfalo em relação à sua “substância cinzenta”, que através de nervos e fibras, levava informações para outra substância, a branca. Rodrigues e Ciasca (2010) reportam que estudos como o de Benjamin Franklin (Experimentos e observações sobre a eletricidade) em 1751, que tratou dos fenômenos elétricos, estimularam investigações sobre o encéfalo. Na virada do século, Luigi Galvani e Bois-Reymond trouxeram evidências de que músculos entravam em movimento diante de estímulos elétricos e neste alinhamento, o encéfalo podia gerar eletricidade. Já não era apenas a diversificação das estruturas que chamava a atenção, mas também a quais funções que corresponderiam cada uma das áreas específicas do cérebro. TEMA 4 – NEUROCIÊNCIA: LOCALIZACIONISTAS X HOLISTAS Ao evidenciar-se a busca por teorias localizacionistas no intuito de se saber onde ficava localizada uma determinada função do cérebro, um jovem austríaco que estudava medicina, Franz Joseph Gall, se destacou a partir de 1809. Em sua concepção, havia pelo menos 35 centros ligados à mente e que cada centro ao se desenvolver aumentaria de tamanho (Cava, 2017). As ideias de Gall foram controversas, chegando, conforme algumas críticas, a representar um ponto de parada no desenvolvimento da neurociência. Seu método de investigar a personalidade e as faculdades mentais de uma pessoa pelo formato de seu crânio foi chamada de frenologia. Bear, Connors e Paradiso (2017) contam que para sustentar sua teoria, Gall e seus seguidores mediram o crânio de centenas de pessoas, desde grandes talentos até psicopatas e, embora as alegações dos frenologistas não tenham sido levadas a sério pela comunidade científica, estas ideias se espalharam no imaginário popular da época, tendo um livro-texto sobre isso vendido mais de 100 mil cópias em 1827. Um impulso histórico na concepção localizacionista do cérebro veio pelo anatomista e antropólogo Paul Broca. Rodrigues e Ciasca (2010) lembram o caso de um paciente de Broca que, após uma lesão na região do giro frontal do córtex pré-frontal não apresentou problemas motores na língua, boca ou cordas vocais, mas mostrou-se incapaz de falar frases completas ou expressar o pensamento por escrito. Broca defendeu que a função da linguagem estaria assim localizada nesta região específica, a área de Broca, referente à afasia motora. Os autores destacam ainda que mais tarde outro anatomista, o psiquiatra Karl Wernicke 11 estudou lesões na parte posterior do lobo temporal em pacientes que falavam, mas não compreendiam o que diziam, apontando-se deste modo que o caráter motor da fala estaria localizado num ponto que ficou conhecido como a área de Wernicke, onde se caracterizava a afasia sensorial. Castro e Landeira-Fernandez (2012) destacam o contraponto à visão localizacionista, que ganhou impulso em Broca, ao se defender que ideias e sentimentos verbalizados ou escritos não estariam circunscritos a pontos específicos localizados no córtex cerebral, mas a uma ação integrada ao cérebro como um todo. Neste mesmo viés se posicionaram o neurologista britânico John Hughlings Jackson (1835-1911), Sigmund Freud (1856-1939), Pierre Marie (1853- 1940) e Karl Spencer Lashley (1890-1958). Outros estudiosos como o psicólogo russo Lev Vygotsky (2004) postularam a atividade integrada em diversos setores do cérebro, diferenciados e relacionados hierarquicamente. Seu parceiro Alexander Luria (1992) citado como pai da Neuropsicologia, propôs que a Neurociência acabou concordando com as postulações de Vygotsky, mas defendeu que nem o localizacionismo e o holismo poderiam explicar de modo convincente a ligação entre o cérebro e os processos psicológicos. Um fato marcante no século XIX, destacado por Hamdan e Pereira, referiu- se as alterações comportamentais num homem chamado Phineas Gage, depois de um acidente que aconteceu quando supervisionava a construção de uma estrada de ferro. Engenheiro ferroviário, ele detonou inadvertidamente um explosivo na colocação de trilhos e uma barra acabou por atravessar seu crânio. Gage perdeu um olho, mas sobreviveu à lesão grave no cérebro. Sua condiçãofísica foi inalterada, bem como a memória e a inteligência, mas ele perdeu o respeito pelas convenções sociais, comportando-se de forma irresponsável e sendo considerado par alguns como sociopata. O acidente com Gage foi em 1848, período em que se buscava argumentos sobre regiões especializadas para linguagem, movimento e percepção. Ao pensar que o caso poderia ser de lesão em uma região voltada para o comportamento racional, o médico de Gage teve seus argumentos rejeitados e como não tinha dados de autópsia para comprovar, a situação ficou como estava. Cinco anos depois, com a morte de Gage, o médico pediu à família que o exumasse fim de que o crânio pudesse ser preservado para futuros estudos. O artefato ficou 12 guardado em uma caixa de vidro no Warren Anatomical Medical Museum da Universidade de Harvard. O casal de neurologistas Hanna Damasio e Antonio Damasio, ao perceberem que podiam usar tecnologias avançadas, fotografaram em 1994, o crânio de todos os ângulos e os resultados mostraram que os lobos frontais continham circuitos separados, que se interligavam na tomada de decisão, um deles no domínio social e o outro, para os objetos, linguagem e aritmética. Desde então, vários casos de pacientes em situações similares apresentavam déficit nas tomadas de decisão racional e no processamento das emoções. Ainda em 1994, Hanna e Antonio Damásio publicaram seus dados, junto com colegas neurologistas do Hospital e Clínica da Universidade de Iowa, Thomas Grabowski, Randall Frank e Albert Galaburda. Logo em seguida, Antonio Damasio publicou O Erro de Descartes, em que contestou o filósofo e matemático francês que via o ato de pensar como atividade separada do corpo. O caso de Phineas Gage como entende Muci-Mendoza (2007) acabou por contradizer o dualismo cartesiano do reducionismo e diagnósticos gerais, abrindo caminho para uma perspectiva de maior complexidade no contexto social, cultural e ecológico da mente humana. TEMA 5 – NEUROCIÊNCIA ENTRE O HOJE E O AMANHÃ Percebe-se, nos dias de hoje, que na busca de maior conhecimento a Neurociência ganhou um sentido multidisciplinar, condição observável na busca de métodos aplicáveis ao tratamento de doenças e no alargamento de sua parceria com outras áreas do saber. Com base nos avanços obtidos e considerando a contribuição de Bear, Connors e Paradiso (2017) é possível estabelecer-se níveis gradativos de investigação: 1. Neurociências moleculares. Este nível, o mais elementar de todos, apresenta a matéria encefálica como uma constituição diversificada de molécula, muitas delas exclusivas do sistema nervoso. 2. Neurociências celulares. Nível que estuda como as moléculas interagem para dar ao neurônio suas propriedades particulares. Busca-se saber quantos diferentes tipos de neurônios existem, como eles diferem em suas funções e como se interconectam. 13 3. Neurociências de sistemas. Estuda-se neste nível como os diferentes circuitos neurais, analisam informações sensoriais, formam percepções, tomam decisões e executam movimentos. 4. Neurociências comportamentais. As respostas procuradas atendem questões como: de que forma os sistemas neurais trabalham para produzir comportamentos integrados, onde agem as substâncias que alteram a mente e como ocorre a regulação do humor e do comportamento. 5. Neurociências cognitivas. O grande desafio é entender o processo pelo qual ocorrem as atividades mentais superiores como a consciência, a imaginação e a linguagem. Do ponto de vista científico, a situação atual das Neurociências dá atenção à observação aplicada a experimentos para testar hipóteses, replicação, que envolve repetições de experimentos em diferentes sujeitos tantas vezes quanto for necessário e a verificação da aplicabilidade dos estudos, passível de ser reproduzida por qualquer cientista competente e que permita estabelecer fatos científicos. Quando os resultados são negativos, deve-se sugerir novas interpretações para a observação original. A Fundação Bankinter (2022), voltada para inovação e empreendedorismo, sediada na Espanha e Portugal, ao falar sobre o futuro da Neurociência, destaca o tratamento de doenças, a melhoria da saúde, o aumento do bem-estar, a análise de informações e a personalização de dispositivos. Mesmo que considera a necessidade de se superar desafios na regulamentação de novas tecnologias para uso em humanos, a fundação aponta perspectivas futuras. 1. Evolução nas técnicas de neuroimagem. A previsão é que esses sistemas continuarão a ser desenvolvidos, apostando-se que até 2030, o desenvolvimento tecnológico permitirá maiores informações sobre diferentes tipos de células cerebrais e suas conexões. Espera-se que estas técnicas forneçam maiores informações sobre os tipos de neurônios e como eles se conectam. Os benefícios se estendem a processos mentais como memória e sono que aparecem em várias patologias. 2. Tratamento diferente para todos. Prevê-se o desenvolvimento de ferramentas tecnológicas para antever possíveis distúrbios e permitir gerenciá-los melhor, considerando-se tratamentos personalizados. A depressão é colocada como exemplo por ser uma doença diferente dependendo do paciente. Um desafio neste procedimento serão as 14 questões éticas na previsão de transtornos e a forma como este novo conhecimento afetará a sociedade. 3. Mais conhecimento, melhoria para todos. Em 2030 haverá mais graduados universitários do que agora no mundo e o trabalho em sala de aula será cada vez mais online. Estima-se que neste ano, 90% da população mundial terá acesso à Internet. 4. Humanos aprimorados. Prevê-se para o futuro, a aquisição de sensores inteligentes e wearables (dispositivos para uso como roupa, relógio ou óculos) baseados em neurotecnologia para aprimorar capacidades humanas. Estima-se que os seres humanos possam enfrentar melhor a solidão e aqueles com deficiências poderão aumentar a autonomia. Avanços para comunicação telepática são aguardados para 2050. 5. Cura de distúrbios incuráveis. Estudiosos anteveem a descoberta das causas primárias do Alzheimer e um tratamento a partir de 2026. Alguns anos à frente prenuncia-se a cura deste mal. Para 2027 acredita-se em tratamentos pré e pós-natais para deficiências intelectuais ou de aprendizado. 6. Novas perspectivas e tratamentos na saúde mental. Uma previsão anunciada são os tratamentos menos invasivos em distúrbios do SNC, como depressão e transtorno bipolar. Em 2026, calcula-se maior compreensão da base neural dos transtornos mentais. Distúrbios psiquiátricos e neurológicos ainda não serão dominados a nível de tratamento, mas avanços serão vistos para derrubar tabus e estigmas em situações sociais ou familiares. Em relação às disciplinas que compõem o caráter multidisciplinar na Neurociência, aguarda-se desdobramentos para o que já existe em campos como neurologia, psiquiatria, neuropsicologia, neurocirurgia e neuropatologia. O avanço deve compreender os ramos de: neurociência afetiva, neurociência comportamental e cognitiva, neurociência computacional, neurociência cultural, neurociência celular e molecular, neurociência do desenvolvimento, neuroengenharia, neuroimagem, neurofisiologia, neuroetologia e neuropedagogia, também se espera a ampliação de especialistas em neurociências, hoje concentrados em neuroanatomistas, neurofisiologistas, neuropsicólogos, neurofisiologistas, neurofarmacologistas e neurobiólogos. 15 REFERÊNCIAS AGUIAR, A. A. A Psiquiatria no Divã. Rio de Janeiro: RELUME DUMARA, 2001. BEAR, M. F., CONNORS, B. W., PARADISO, M. A. Neurociências: Desvendando o Sistema Nervoso. Porto Alegre: Artmed, 2017. BERNACER, J., MURILLO, J. I. The Aristotelian conception of habit and its contribution to human neuroscience. Frontiers in human neuroscience, vol. 8, 883. 3 Nov. 2014, Disponívelem: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4217385/>. Acesso em 10 abr 2022. CASTRO, F. 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