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AULA 1 
NEUROCIÊNCIA E 
COMPORTAMENTO 
HUMANO 
Prof. Reginaldo Daniel da Silveira 
 
 
2 
INTRODUÇÃO 
Em nossas existências, ao perguntamos o que nos torna humanos, 
respostas apontam o cérebro como o que nos diferencia de outros animais. Ao 
atentarmos para esta complexa máquina eletroquímica, nos deparamos com 
estruturas cerebrais, líquidos, ventrículos, funções, relações que determinam 
ações e reações na interligação entre memória, cognição, emoção e 
comportamento. Emocionar, raciocinar, agir e perceber são termos explicativos 
para “comportar-se” e estudá-los é pôr em evidência elementos que nos permitem: 
a) definir o que é neurociência; b) delinear uma origem histórica; c) avaliar como 
ela se desenvolveu; e d) conhecer seus principais avanços. 
TEMA 1 – O QUE É NEUROCIÊNCIA E POR QUE ESTUDÁ-LA 
Duas estudantes, uma ruiva e uma morena, se encontram e se tocam por 
meio de beijinhos laterais no restaurante preferido, um ambiente com cheiro bom 
de mar, música boa de ouvir, vinho bom de tomar e um cantinho bom de 
conversar. Depois de ouvir três músicas, tomar um copo de vinho e aguardar o 
garçom trazer a sopa começaram a conversar sobre o assunto que queriam. A 
ruiva pergunta à morena o que ela entende de Neurociência depois de terem 
assistido às primeiras aulas de psicologia: 
– Me vem à cabeça o estudo de tecnologias de neuroimagem, a 
ressonância magnética, a eletroencefalografia, a... eletromiografia facial. 
A morena, com ar de “não é só isso”, coloca sua posição: 
– Também, mas eu penso num outro sentido. Vejo a Neurociência como 
uma ciência do cérebro que estuda as células nervosas, os tais neurônios que se 
encontram em pontos da parte cinzenta da cabeça para trocar informações e 
interagir. 
Nesse instante, o garçom – usando luvas – coloca os pratos e colheres e 
posiciona a sopeira no centro da mesa. A morena completa seu raciocínio dizendo 
que nos lugares onde os neurônios se encontram, formam-se as sinapses ligadas 
às tomadas de decisão. A ruiva pede que ela dê um exemplo, ao mesmo tempo 
que ao tocar a sopeira, dá um grito e retira a mão antes mesmo de sentir a dor. 
– Você é o exemplo – diz a morena, rindo, diante do olhar espantado da 
outra. 
– Como? 
 
 
3 
– Aí na sua parte cinzenta, um neurônio sensitivo se encontrou com um 
neurônio motor e gerou uma sinapse do arco reflexo. 
– Tá, mas não é só isso – alerta a ruiva – temos mais de 80 bilhões de 
neurônios, o que implica em um número muito grande de sinapses. 
– Sim, além do elevado número, muitas destas sinapses são bem mais 
complexas. Estes neurônios, na minha opinião, são como operários de uma 
fábrica, em que uma parte deles produz impulsos elétricos e a outra produz 
substâncias químicas. O que você acha? 
– Concordo. O sistema nervoso, no cérebro, e a medula espinhal percebem 
o corpo e o ambiente e respondem, como o grito que você deu. Estes mesmos 
sistemas utilizam substâncias químicas que influenciam nossas tomadas de 
decisão. Neurônios sensitivos e motores movimentam-se em situações como a 
sua, ao tocar a sopeira quente. No final do nosso jantar e de nossa conversa 
teremos movimentado nossos neurônios-espelhos, pois o que você e eu falarmos 
sobre neurociência estará carregado de expressões faciais, gestos, tom de voz e 
posturas, além dos sentidos linguísticos. 
A sopa agradável de frutos do mar estava sobre a mesa e as duas se 
desafiaram a pensar em coisar surpreendentes que tinha visto recentemente nas 
aulas de neurociência. 
– Podem ser coisas que eu acho meio malucas? – perguntou a morena. 
 A ruiva concordou. As duas decidiram que depois do primeiro prato, cada 
uma exporia à outra seus registros. Enquanto mexia suavemente a sopa quente 
com a colher, a morena foi pensando no que lembrava: Como era possível, uma 
massa de 1,5 kg, menos de 3% da massa do corpo, composto com 75% de água, 
ter mais conexões que o número de estrelas na galáxia? A ruiva lembrou que a 
massa cinzenta era macia que nem manteiga, que o cérebro de Einstein era 
menor do que os outros e que era mito aquela ideia de usarmos só 10% do 
cérebro. Por fim, ela destacou que embora parecesse inacreditável dava pra viver 
só com a metade dele. 
Aproveitando o bate papo das duas estudantes, iniciamos nossa breve 
introdução à Neurociência refletindo sobre o que ela é e por que devemos estudá-
la. A primeira pergunta que surge é: “isso de que estamos falando se refere a um 
conhecimento novo”? 
A Society for Neuroscience, uma sociedade profissional sediada em 
Washington nos EUA para cientistas e médicos do mundo inteiro, com foco no 
 
 
4 
estudo do cérebro e do sistema nervoso, foi fundada em 1969, o que nos leva a 
pensar em Neurociência como uma ciência “jovem”. Entretanto, se juntarmos ao 
termo “neurociência” a palavra “cérebro”, veremos que os estudos nesta área são 
bastante antigos, como veremos mais adiante. No decurso do tempo, palavras 
como tronco cerebral, cerebelo, neurônios, sinapses, ventrículos, músculos, 
fibras, foram se incorporando ao que já conhecíamos do cérebro, permitindo-nos 
discutir, argumentar e ampliar nosso conhecimento. Num simples bate-papo entre 
duas pessoas, notamos que tudo isso ocorre sem que possamos notar 
exatamente onde um pensamento foi desencadeado, com quais neurônios 
estamos falando ou reagindo e que sinapses são estas que estão acontecendo. 
Depois de algumas aulas, a ruiva e a morena aprenderam que além da 
transmissão por impulsos elétricos, os neurônios também se comunicam por meio 
de impulsos químicos, por meio de substâncias conhecidas como 
neurotransmissores, dos quais mais de 60 deles são conhecidos, e que 
“diferentes transmissores são responsáveis por influenciar a emoção, o 
pensamento e o comportamento” (Gazzaniga; Heatherton, 2005, p. 104). Para 
estes autores, todos os neurotransmissores têm efeitos que intensificam ou inibem 
potenciais de ação em cada indivíduo. Alguns dos principais neurotransmissores 
são: gaba, glutamato, acetilcolina, adrenalina, noradrenalina, dopamina e 
serotonina. 
O gaba e o glutamato são respectivamente um inibidor e um excitador do 
Sistema Nervoso Central (SNC). A acetilcolina ajuda a controlar o tônus muscular, 
sempre que a pessoa aprende algo ou se emociona (Russo, 2015). Da adrenalina, 
sabe-se que, quando liberada, mantém o corpo em estado de prontidão diante de 
emoções fortes, como luta ou fuga. É um neurotransmissor mais presente no 
corpo, diferentemente da noradrenalina, que fica mais no cérebro para inibir o 
estado de atenção e vigilância. A dopamina controla os movimentos voluntários 
(Weiten, 2010), e está relacionada a atividades compensatórias (comida, bebida, 
sexo). Já a serotonina é importante para os estados emocionais, controle dos 
impulsos e para os sonhos, sendo válida a afirmação de que quando seu nível é 
baixo, a pessoa está triste ou ansiosa. 
Ao atentarmos para os neurotransmissores, percebemos o entrelaçamento 
da neurociência com a cognição e a emoção. Há um número expressivo de 
experimentos que dizem que expressões faciais-corporais com força emocional 
ocorrem mais em pessoas que associam determinadas imagens a recordações 
 
 
5 
pessoais do que aquelas que não fazem essa associação. Estudos desta natureza 
também mostram que regiões cerebrais envolvidas com a emoção (a amígdala, 
por exemplo) revelam, em tomografia, maior ativação e maior relação com o 
processo de memorização – ou seja, quanto mais emoção, mais marcação. 
cérebro. 
Processos cognitivos e emocionais no sistema nervoso envolvem o 
cérebro, a medula espinhal, os nervos periféricos e aspectos fisiológicos. Se 
pudermos estudar estas áreas, avançaremos no entendimento de nossa biologia 
essencial. Ampliar tal conhecimento oportuniza detectar e compreender 
problemas. Pesquisadores ativos nestas investigações ajudam na prevenção e no 
tratamento de disfunções no cérebro, sistema nervoso e corpo.Por outro lado, 
saber que felicidade ou prazer se produzem no córtex frontal, que raiva, medo e 
tristeza ocorrem na amigdala ou pelo encontro de neurônios em lacunas 
denominadas sinapses facilita o entendimento conceitual da Neurociência. 
Neurociência é o estudo do fundamento neuronal, no nível biomolecular 
ou microscópico do comportamento, da cognição e da emoção; a 
investigação do sistema nervoso, sua estrutura, seu desenvolvimento, 
funcionamento, evolução, e sua relação com o comportamento e a 
mente, assim como suas alterações (Sena, 2015). 
O professor ensina, o livro informa, as pessoas conversam. Sem descartar 
o encontro das estudantes ruiva e morena, tais condições estabelecem um 
repertório de informações armazenadas na estrutura conhecida como hipocampo. 
Desta forma, novos neurônios, ao surgir, explicam a evolução do cérebro a partir 
de experiências. Histórias produzidas externamente convocam os protagonistas 
do enredo, os neurônios, a elaborar um mapa único na mente de cada indivíduo. 
Acontece na sua casa, na sua escola, na sua vida, na vida de quem aqui esteve 
antes de nós. 
Levando-se em conta as experiências com o cérebro, que idade teria a 
Neurociência? 
Costumamos afirmar que a Neurociência é uma ciência do século XX, a 
considerar que estudantes como as duas moças que abriram este estudo, se 
deparam hoje com tecnologias inovadoras explicativas do funcionamento cerebral 
e o que se lê com frequência é o surgimento de novos experimentos e novas 
formas de pensar o cérebro humano. Mas, como falamos há pouco, aprendemos 
com experiências armazenadas em nossos hipotálamos e mesmo as teorias que 
 
 
6 
rejeitamos no passado como a frenologia, ofereceram subsídios para novas 
avaliações. É o que iremos ver. 
TEMA 2 – ORIGENS DA NEUROCIÊNCIA: POR QUE FURAR O CÉREBRO? 
Imagine dois cenários. De um lado, estão as duas estudantes (homo 
sapiens sapiens) que nos acompanham neste estudo, e do outro lado, dois 
ancestrais pré-históricos, evolutivamente próximos do gênero Homo 
(australopithecus). O alimento das estudantes é uma sopa de frutos do mar e a 
dos hominídeos, cascas de árvores. Se compararmos os dois cenários, 
perceberemos que as criaturas de cada lado, olham (visão), tocam (tato), ouvem 
o som do ambiente (audição), e também sentem o cheiro (olfato) e o sabor da 
comida (paladar). Ainda que o alimento não seja semelhante, a diferença mais 
visível é o tamanho dos cérebros. Como representantes da espécie Homo 
sapiens, o cérebro das moças deve medir em média 1350 cm3 e o cérebro dos 
dois exemplares Australopithecus, terá em média 475 cm3 (The Conversation, 
2022). 
Se considerarmos que os cérebros de primatas, como os gorilas, se 
assemelham ao cérebro dos primeiros hominídeos – a exemplo do 
australopithecus – é de se ponderar que a diferença entre 30 bilhões de neurônios 
deste último para os 86 bilhões do Homo sapiens é uma margem significativa. 
Nosso cérebro se desenvolveu em diferentes estágios, cada um deles deixando 
os que sobreviveram mais espertos. Deste modo, baseados em Tieppo (2021) 
podemos dizer que para sobreviver, aumentamos nossa estrutura cerebral e 
triplicamos o número de neurônios, o que não só nos diferencia dos nossos 
ancestrais como também das outras espécies animais. 
As informações externas que nos chegam pelas sensações químicas 
(gustativas e olfatórias), táteis, auditivas e visuais são produzidas como o 
movimento de mais de 80 bilhões de neurônios. Estas células nervosas não se 
limitam ao “quase um quilo e meio de peso” do encéfalo, mas se espalham por 
todo o corpo em integração com o sistema nervoso, resultando numa quase 
inimaginável comunicação interneurônios. Por eles, nossos comportamentos se 
relacionam às batidas do coração, piscar de olhos, movimentos de braços e 
pernas e sobretudo aos pensamentos, que produzem um vai e vem de emoções 
em evocações da memória. Como chegamos a este conhecimento que, embora 
 
 
7 
pareça tão avançado, ainda se mostra diminuto, diante da complexidade que é a 
natureza neural do cérebro? 
Bear, Connors e Paradiso (2017), falam que nossos ancestrais pré-
históricos viam o encéfalo, esta parte de dentro da caixa craniana, como vital, 
havendo dados arqueológicos de um milhão de anos atrás com sinais de 
traumatismo craniano causado por outros hominídeos, que, em nossa avaliação, 
foram relevantes para avanços na Neurociência. Para ficarmos num tempo mais 
curto, registros de trepanações de 7 mil anos atrás nos fazem suspeitar que parte 
desta prática ocorria em indivíduos vivos, possivelmente para tratar problemas, ou 
“afastar maus espíritos”. 
Foi por volta de 2500 a. C. que se confirmaram as trepanações cerebrais 
feitas para “expulsar demônios” do corpo. O uso de um trépano (pedaço de pedra) 
buscava cortar fora a parte do crânio e desse jeito fazer saírem os espíritos 
malignos do corpo. De qualquer modo, a prática levava em conta que mexer no 
cérebro era proporcionar melhor bem-estar ao indivíduo. 
Os autores citados afirmam que nesta época, no Egito, já se sabia dos 
sintomas de lesões encefálicas, além de que, para os médicos daquele país, havia 
a concepção de que o coração – e não o encéfalo – era a sede do espírito e 
repositório de memórias, o que explica a remoção de suas partes e a preservação 
do corpo. Este entendimento permaneceu até Hipócrates (460-379 a. C.) que 
defendeu a convicção da ligação do cérebro às sensações e à inteligência. É dele 
a citação abaixo: 
Algumas pessoas dizem que o coração é o órgão com o qual nós 
pensamos, e que ele sente dor e ansiedade. Mas não é assim. Os 
homens deveriam saber que é o cérebro, e só o cérebro, a origem de 
nossos prazeres, alegrias, riso e lágrimas. Por meio dele em especial, 
nós pensamos, enxergamos, ouvimos e distinguimos o feio do belo, o 
ruim do bom, o agradável do desagradável. (citado por Gazzaniga; 
Heatherton, 2005, p. 121). 
O médico grego, considerado o pai da medicina, apontava quatro tipos de 
humores: o sangue, quente e úmido originado no coração; o fleuma, frio e úmido 
originado no cérebro; a bílis negra, fria e seca, que vinha do baço e do intestino e 
a bílis amarela, quente e seca, que era originada no fígado (Aguiar, 2004). 
Aristóteles (384-322 a. C) não aceitou a visão de Hipócrates e retornou à 
consideração de que a inteligência estava no coração e o cérebro era uma espécie 
de radiador responsável pelo esfriamento do sangue. O filósofo grego entendia 
que ao baixar a temperatura em casos de superaquecimento do coração, o 
 
 
8 
cérebro punha em evidência o temperamento racional humano. Para alguns 
olhares, este entendimento coloca o cérebro como aquele “servo fiel” que faz 
vento com o leque no seu “grande senhor”, o coração. 
De qualquer modo, deve-se atribuir a Aristóteles a concepção do “hábito” 
como contribuição à neurociência. Bernacer e Murillo (2014), reportam que a visão 
aristotélica defendia que quando se adquire um (bom) hábito, realiza-se uma 
ação: (1) mais facilmente; (2) mais eficientemente: e (3) com maior prazer. Esta é 
uma ideia-chave para entender como os hábitos induzem à plasticidade 
comportamental e a aprendizagem, por envolver áreas cognitivas. 
Se os hábitos na teoria aristotélica têm alguma importância na 
neurociência, a ideia de que o coração é o centro da inteligência foi 
desconsiderada. Nos dias de hoje a explicação é bem diferente. Tieppo (2021) diz 
que, em realidade, o coração é “pau mandado do cérebro”. Este órgão, que 
bombeia mais de 70 mil litros de sangue todos os dias no organismo, não manda 
dados de volta para o cérebro, apenas recebe a informação. Para boicotá-lo, o 
coração precisaria deixar de funcionar, mas isso não seria “estar no controle” e 
sim “não mais existir”. Nesta perspectiva, outros elementos do corpo são também 
importantes, como é o caso das vísceras, que dão respostas racionais ao cérebro, 
como acontecena emoção do medo, onde o coração acelera junto com a 
respiração. 
TEMA 3 – NEUROCIÊNCIA: ENTRE LÍQUIDOS E VENTRÍCULOS 
A atenção ao corpo com concepções de espírito celestial e a teoria dos 
quatro humores, passando pelas discussões de haver ou não um corpo físico e 
um não físico, abriram caminho para maior ênfase ao encéfalo, o que por sua vez 
daria espaço para estudar suas estruturas e funções. O decurso das análises 
considerava os líquidos que transitavam pelo corpo humano, chamados de 
“humores”: a bile negra (terra, secura e frio), a bile amarela (secura e calor), o 
sangue (ar, umidade e calor e o fleuma (água, umidade e frio) e os ventrículos 
cerebrais1, que produziam as operações mentais, da sensação à memorização. 
Foi no Império Romano que o médico Galeno (130-200), depois de ganhar 
experiência com cirurgias em gladiadores, interessou-se pelo papel mental do 
cérebro. Para ele, o cérebro era o responsável pelas sensações e o cerebelo pelo 
 
1 Veja no texto da aula 2 mais detalhes sobre como os ventrículos surgiram na história. 
 
 
9 
controle dos músculos. Seguindo a teoria humoral de Hipócrates, ele dedicou-se 
a estudar os temperamentos. O melancólico, sob o domínio da bile negra, era 
triste, suscetível e ligado à arte; o colérico, relacionado à bile amarela, era o 
apaixonado, tendente à raiva; o sanguíneo tinha a ver com segurança própria, 
alegria, otimismo e sociabilidade e o fleumático caracterizava o fleuma, ou seja 
reflexão, tranquilidade e ausência de compromisso. 
Cavada (2017) explica que Galeno relacionava os ventrículos cerebrais 
com cavidades no coração e acreditava que sensações e movimentos estavam 
relacionados aos humores de ou para os ventrículos cerebrais pelos nervos. Pela 
teoria galênica, os nervos equivalem-se a condutos de transporte de fluidos do 
cérebro e medula espinhal em direção à periferia do corpo. 
Conforme Cosenza (2002), Nemesio (320), bispo de Emesia – a Síria de 
hoje – baseado em Galeno, ligou os ventrículos às faculdades intelectuais e 
colocou-os como responsáveis pelas operações mentais, desde a sensação até a 
memorização. Segundo o autor, o primeiro par de ventrículos seria sede do “senso 
comum”. A igreja usou os ventrículos para dizer que por eles circulavam espíritos. 
Aguiar (2001), destaca que o sistema de Galeno – que integrava a teoria humoral 
de Hipócrates com a lógica aristotélica – foi incorporado por médicos árabes após 
a queda do império e reintroduzido na Europa após 1250. 
As ideias de Galeno influíram no futuro e garantiram ao cérebro a 
responsabilidade de ser a sede de todas as faculdades mentais. René Descartes 
(1596-1650) concordou em parte com o médico romano, ao argumentar que todo 
ser humano tinha um corpo físico e um corpo não-físico. Gazzaniga e Heatherton 
(2005) acentuam que o “físico” e o “não-físico”, na visão cartesiana, eram 
interligados (dualismo) e o corpo era considerado uma espécie de máquina 
comandada por reflexos definidos como unidades de ação mecânica. As funções 
mentais, que incluíam a imaginação e as lembranças, eram resultado de funções 
corporais. 
No futuro, esta visão seria modificada para o entendimento de que a mente 
tem uma base física – o encéfalo. Já no final do século XVIII, com o sistema 
nervoso dissecado e sua anatomia detalhada, concluiu-se que ele compreendia 
uma divisão central, com encéfalo e medula espinhal e uma divisão periférica, que 
compreendia uma rede de nervos a percorrer o corpo (Bear, Connors e Paradiso, 
2017). A questão que atraia o interesse dos cientistas era entender o que a 
diversificação de estruturas poderia representar para o entendimento do cérebro. 
 
 
10 
Entre os séculos XVII e XVIII, os estudiosos do cérebro passaram a dar 
importância ao encéfalo em relação à sua “substância cinzenta”, que através de 
nervos e fibras, levava informações para outra substância, a branca. Rodrigues e 
Ciasca (2010) reportam que estudos como o de Benjamin Franklin (Experimentos 
e observações sobre a eletricidade) em 1751, que tratou dos fenômenos elétricos, 
estimularam investigações sobre o encéfalo. Na virada do século, Luigi Galvani e 
Bois-Reymond trouxeram evidências de que músculos entravam em movimento 
diante de estímulos elétricos e neste alinhamento, o encéfalo podia gerar 
eletricidade. Já não era apenas a diversificação das estruturas que chamava a 
atenção, mas também a quais funções que corresponderiam cada uma das áreas 
específicas do cérebro. 
TEMA 4 – NEUROCIÊNCIA: LOCALIZACIONISTAS X HOLISTAS 
Ao evidenciar-se a busca por teorias localizacionistas no intuito de se saber 
onde ficava localizada uma determinada função do cérebro, um jovem austríaco 
que estudava medicina, Franz Joseph Gall, se destacou a partir de 1809. Em sua 
concepção, havia pelo menos 35 centros ligados à mente e que cada centro ao 
se desenvolver aumentaria de tamanho (Cava, 2017). As ideias de Gall foram 
controversas, chegando, conforme algumas críticas, a representar um ponto de 
parada no desenvolvimento da neurociência. Seu método de investigar a 
personalidade e as faculdades mentais de uma pessoa pelo formato de seu crânio 
foi chamada de frenologia. Bear, Connors e Paradiso (2017) contam que para 
sustentar sua teoria, Gall e seus seguidores mediram o crânio de centenas de 
pessoas, desde grandes talentos até psicopatas e, embora as alegações dos 
frenologistas não tenham sido levadas a sério pela comunidade científica, estas 
ideias se espalharam no imaginário popular da época, tendo um livro-texto sobre 
isso vendido mais de 100 mil cópias em 1827. 
Um impulso histórico na concepção localizacionista do cérebro veio pelo 
anatomista e antropólogo Paul Broca. Rodrigues e Ciasca (2010) lembram o caso 
de um paciente de Broca que, após uma lesão na região do giro frontal do córtex 
pré-frontal não apresentou problemas motores na língua, boca ou cordas vocais, 
mas mostrou-se incapaz de falar frases completas ou expressar o pensamento 
por escrito. Broca defendeu que a função da linguagem estaria assim localizada 
nesta região específica, a área de Broca, referente à afasia motora. Os autores 
destacam ainda que mais tarde outro anatomista, o psiquiatra Karl Wernicke 
 
 
11 
estudou lesões na parte posterior do lobo temporal em pacientes que falavam, 
mas não compreendiam o que diziam, apontando-se deste modo que o caráter 
motor da fala estaria localizado num ponto que ficou conhecido como a área de 
Wernicke, onde se caracterizava a afasia sensorial. 
Castro e Landeira-Fernandez (2012) destacam o contraponto à visão 
localizacionista, que ganhou impulso em Broca, ao se defender que ideias e 
sentimentos verbalizados ou escritos não estariam circunscritos a pontos 
específicos localizados no córtex cerebral, mas a uma ação integrada ao cérebro 
como um todo. Neste mesmo viés se posicionaram o neurologista britânico John 
Hughlings Jackson (1835-1911), Sigmund Freud (1856-1939), Pierre Marie (1853-
1940) e Karl Spencer Lashley (1890-1958). 
Outros estudiosos como o psicólogo russo Lev Vygotsky (2004) postularam 
a atividade integrada em diversos setores do cérebro, diferenciados e 
relacionados hierarquicamente. Seu parceiro Alexander Luria (1992) citado como 
pai da Neuropsicologia, propôs que a Neurociência acabou concordando com as 
postulações de Vygotsky, mas defendeu que nem o localizacionismo e o holismo 
poderiam explicar de modo convincente a ligação entre o cérebro e os processos 
psicológicos. 
Um fato marcante no século XIX, destacado por Hamdan e Pereira, referiu-
se as alterações comportamentais num homem chamado Phineas Gage, depois 
de um acidente que aconteceu quando supervisionava a construção de uma 
estrada de ferro. Engenheiro ferroviário, ele detonou inadvertidamente um 
explosivo na colocação de trilhos e uma barra acabou por atravessar seu crânio. 
Gage perdeu um olho, mas sobreviveu à lesão grave no cérebro. Sua condiçãofísica foi inalterada, bem como a memória e a inteligência, mas ele perdeu o 
respeito pelas convenções sociais, comportando-se de forma irresponsável e 
sendo considerado par alguns como sociopata. 
O acidente com Gage foi em 1848, período em que se buscava argumentos 
sobre regiões especializadas para linguagem, movimento e percepção. Ao pensar 
que o caso poderia ser de lesão em uma região voltada para o comportamento 
racional, o médico de Gage teve seus argumentos rejeitados e como não tinha 
dados de autópsia para comprovar, a situação ficou como estava. Cinco anos 
depois, com a morte de Gage, o médico pediu à família que o exumasse fim de 
que o crânio pudesse ser preservado para futuros estudos. O artefato ficou 
 
 
12 
guardado em uma caixa de vidro no Warren Anatomical Medical Museum da 
Universidade de Harvard. 
O casal de neurologistas Hanna Damasio e Antonio Damasio, ao 
perceberem que podiam usar tecnologias avançadas, fotografaram em 1994, o 
crânio de todos os ângulos e os resultados mostraram que os lobos frontais 
continham circuitos separados, que se interligavam na tomada de decisão, um 
deles no domínio social e o outro, para os objetos, linguagem e aritmética. Desde 
então, vários casos de pacientes em situações similares apresentavam déficit nas 
tomadas de decisão racional e no processamento das emoções. 
Ainda em 1994, Hanna e Antonio Damásio publicaram seus dados, junto 
com colegas neurologistas do Hospital e Clínica da Universidade de Iowa, Thomas 
Grabowski, Randall Frank e Albert Galaburda. Logo em seguida, Antonio Damasio 
publicou O Erro de Descartes, em que contestou o filósofo e matemático francês 
que via o ato de pensar como atividade separada do corpo. O caso de Phineas 
Gage como entende Muci-Mendoza (2007) acabou por contradizer o dualismo 
cartesiano do reducionismo e diagnósticos gerais, abrindo caminho para uma 
perspectiva de maior complexidade no contexto social, cultural e ecológico da 
mente humana. 
TEMA 5 – NEUROCIÊNCIA ENTRE O HOJE E O AMANHÃ 
Percebe-se, nos dias de hoje, que na busca de maior conhecimento a 
Neurociência ganhou um sentido multidisciplinar, condição observável na busca 
de métodos aplicáveis ao tratamento de doenças e no alargamento de sua 
parceria com outras áreas do saber. Com base nos avanços obtidos e 
considerando a contribuição de Bear, Connors e Paradiso (2017) é possível 
estabelecer-se níveis gradativos de investigação: 
1. Neurociências moleculares. Este nível, o mais elementar de todos, 
apresenta a matéria encefálica como uma constituição diversificada de 
molécula, muitas delas exclusivas do sistema nervoso. 
2. Neurociências celulares. Nível que estuda como as moléculas interagem 
para dar ao neurônio suas propriedades particulares. Busca-se saber 
quantos diferentes tipos de neurônios existem, como eles diferem em suas 
funções e como se interconectam. 
 
 
13 
3. Neurociências de sistemas. Estuda-se neste nível como os diferentes 
circuitos neurais, analisam informações sensoriais, formam percepções, 
tomam decisões e executam movimentos. 
4. Neurociências comportamentais. As respostas procuradas atendem 
questões como: de que forma os sistemas neurais trabalham para produzir 
comportamentos integrados, onde agem as substâncias que alteram a 
mente e como ocorre a regulação do humor e do comportamento. 
5. Neurociências cognitivas. O grande desafio é entender o processo pelo 
qual ocorrem as atividades mentais superiores como a consciência, a 
imaginação e a linguagem. 
Do ponto de vista científico, a situação atual das Neurociências dá atenção 
à observação aplicada a experimentos para testar hipóteses, replicação, que 
envolve repetições de experimentos em diferentes sujeitos tantas vezes quanto 
for necessário e a verificação da aplicabilidade dos estudos, passível de ser 
reproduzida por qualquer cientista competente e que permita estabelecer fatos 
científicos. Quando os resultados são negativos, deve-se sugerir novas 
interpretações para a observação original. 
A Fundação Bankinter (2022), voltada para inovação e empreendedorismo, 
sediada na Espanha e Portugal, ao falar sobre o futuro da Neurociência, destaca 
o tratamento de doenças, a melhoria da saúde, o aumento do bem-estar, a análise 
de informações e a personalização de dispositivos. Mesmo que considera a 
necessidade de se superar desafios na regulamentação de novas tecnologias 
para uso em humanos, a fundação aponta perspectivas futuras. 
1. Evolução nas técnicas de neuroimagem. A previsão é que esses 
sistemas continuarão a ser desenvolvidos, apostando-se que até 2030, o 
desenvolvimento tecnológico permitirá maiores informações sobre 
diferentes tipos de células cerebrais e suas conexões. Espera-se que estas 
técnicas forneçam maiores informações sobre os tipos de neurônios e 
como eles se conectam. Os benefícios se estendem a processos mentais 
como memória e sono que aparecem em várias patologias. 
2. Tratamento diferente para todos. Prevê-se o desenvolvimento de 
ferramentas tecnológicas para antever possíveis distúrbios e permitir 
gerenciá-los melhor, considerando-se tratamentos personalizados. A 
depressão é colocada como exemplo por ser uma doença diferente 
dependendo do paciente. Um desafio neste procedimento serão as 
 
 
14 
questões éticas na previsão de transtornos e a forma como este novo 
conhecimento afetará a sociedade. 
3. Mais conhecimento, melhoria para todos. Em 2030 haverá mais 
graduados universitários do que agora no mundo e o trabalho em sala de 
aula será cada vez mais online. Estima-se que neste ano, 90% da 
população mundial terá acesso à Internet. 
4. Humanos aprimorados. Prevê-se para o futuro, a aquisição de sensores 
inteligentes e wearables (dispositivos para uso como roupa, relógio ou 
óculos) baseados em neurotecnologia para aprimorar capacidades 
humanas. Estima-se que os seres humanos possam enfrentar melhor a 
solidão e aqueles com deficiências poderão aumentar a autonomia. 
Avanços para comunicação telepática são aguardados para 2050. 
5. Cura de distúrbios incuráveis. Estudiosos anteveem a descoberta das 
causas primárias do Alzheimer e um tratamento a partir de 2026. Alguns 
anos à frente prenuncia-se a cura deste mal. Para 2027 acredita-se em 
tratamentos pré e pós-natais para deficiências intelectuais ou de 
aprendizado. 
6. Novas perspectivas e tratamentos na saúde mental. Uma previsão 
anunciada são os tratamentos menos invasivos em distúrbios do SNC, 
como depressão e transtorno bipolar. Em 2026, calcula-se maior 
compreensão da base neural dos transtornos mentais. Distúrbios 
psiquiátricos e neurológicos ainda não serão dominados a nível de 
tratamento, mas avanços serão vistos para derrubar tabus e estigmas em 
situações sociais ou familiares. 
Em relação às disciplinas que compõem o caráter multidisciplinar na 
Neurociência, aguarda-se desdobramentos para o que já existe em campos como 
neurologia, psiquiatria, neuropsicologia, neurocirurgia e neuropatologia. O avanço 
deve compreender os ramos de: neurociência afetiva, neurociência 
comportamental e cognitiva, neurociência computacional, neurociência cultural, 
neurociência celular e molecular, neurociência do desenvolvimento, 
neuroengenharia, neuroimagem, neurofisiologia, neuroetologia e 
neuropedagogia, também se espera a ampliação de especialistas em 
neurociências, hoje concentrados em neuroanatomistas, neurofisiologistas, 
neuropsicólogos, neurofisiologistas, neurofarmacologistas e neurobiólogos. 
 
 
 
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