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ANDREZZA DUARTE FARIAS MEDICAMENTOS POTENCIALMENTE INAPROPRIADOS PARA IDOSOS: DA SELEÇÃO À PRESCRIÇÃO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE NATAL/RN 2021 ANDREZZA DUARTE FARIAS MEDICAMENTOS POTENCIALMENTE INAPROPRIADOS PARA IDOSOS: DA SELEÇÃO À PRESCRIÇÃO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito para a obtenção do título de Doutor em Saúde Coletiva. Orientadora: Profa. Dra. Cláudia Helena Soares de Morais Freitas Coorientador: Prof. Dr. Kenio Costa Lima Natal/RN 2021 ANDREZZA DUARTE FARIAS MEDICAMENTOS POTENCIALMENTE INAPROPRIADOS PARA IDOSOS: DA SELEÇÃO À PRESCRIÇÃO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito para a obtenção do título de Doutor em Saúde Coletiva. Aprovada em ____ de __________ de 2021 BANCA EXAMINADORA ______________________________________________ Prof. Dra. Cláudia Helena Soares de Morais Freitas Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Orientadora) ______________________________________________ Prof. Dra. Ardigleusa Alves Coelho Universidade Estadual da Paraíba (Examinador Externo ao Programa) ______________________________________________ Prof. Dra. Cláudia Santos Martiniano Sousa Universidade Estadual da Paraíba (Examinador Externo ao Programa) ______________________________________________ Prof. Dra. Mônica de Oliveira da Silva Simões Universidade Estadual da Paraíba (Examinador Externo ao Programa) ______________________________________________ Prof. Dra. Isabelle Ribeiro Barbosa Mirabal Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Examinador Interno ao Programa) DEDICATÓRIA Lá no meu pé de serra deixei ficar meu coração... (No meu pé de serra - Luiz Gonzaga) Dedico a meus avós (in memoriam), vovô Hemetério, vovó Nancy e vô Aristides, e à vó Licô, 93 anos de sorriso aberto, vitalidade e histórias para contar. Com eles, tudo começou: meu amor às raízes e respeito aos idosos. Pelo exemplo de dedicação à família, de força e honradez. Dedico a papai e mamãe, S. Zé Kininha e D. Lola, meu porto e aconchego, de onde venho e para onde sempre volto. Dedico a Débora, Tiago e Helena, meus sobrinhos, que me mostram a cada dia que o futuro pode ser melhor (e será). AGRADECIMENTOS E é tão bonito quando a gente entende que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá... (Caminhos do coração – Gonzaguinha) A Deus, porque tudo que é sonhado no nosso coração já foi ‘autorizado’ por Ele. A meus pais, por todo apoio e esforço para eu chegar até aqui. Agradeço a eles por tudo e por tanto de forma imensurável. A meus irmãos, Aluska e Alexsander, e meus cunhados Pedro e Érica, que são presentes da Vida, com quem posso contar sempre. Às minhas primas-irmãs, Mainara, Anizabel e Carol, juntamente com Lu, formam uma comissão de apoio que me escutou, suportou e encorajou nos momentos mais delicados. Ao meu povo das Emas e das Minas, pela energia positiva, por sempre torcer por mim e me apoiar a cada etapa de vida. À Yonara, costumo dizer que amigos são anjos de carne e osso: eu tenho uma ‘anja’ potiguar. Durante praticamente todos os dias do doutorado, me acolheu, acompanhou e apoiou, de tal forma que até ganhei uma família em Natal. Seguimos amigas-irmãs que iniciou na UFCG e o doutorado consolidou. À Sueli, com quem nasceu a ideia da tese, por quem tenho grande admiração pela maneira como expressa as coisas simples e importantes da vida. À Rand, Adriana e Izayana, pela amizade, pelas conversas que enriqueceram minhas reflexões e pelas contribuições nos artigos. À Luciana e Maria Helena, companheiras de caronas, minhas conterrâneas paraibanas da turma. Tantas histórias quantos quilômetros rodados compartilhando os questionamentos da vida acadêmica e do mundo. À turma do doutorado, em especial, às meninas que me acolheram em Natal: Bruna, Ranyelle e Taiana, por quem tenho carinho enorme. À minha orientadora, Cláudia Helena, pela presença humana, acolhedora, rara. Tenho o exemplo de como orientar e de ter paciência com os alunos quando estiverem estressados. Admiração pelo ser humano e gratidão pelo exemplo de orientação. A Kenio, pelas inquietações, por ser um exemplo de pesquisador humano e colocar energia em tudo o que faz. Aos professores do programa, por tudo que acrescentaram na minha formação. À banca examinadora, pela disponibilidade e enriquecimento ao trabalho. À Universidade Federal de Campina Grande, que possibilitou essa capacitação e para onde retornarei mais preparada para formar futuros farmacêuticos mais sensíveis à Saúde Coletiva e à Saúde do Idoso. À Secretaria de Saúde de Campina Grande, pela autorização para a realização da pesquisa. Aos participantes da pesquisa, por terem me ensinado sem perceber: conversar com os idosos e médicos ampliou minha percepção das questões da pesquisa de forma mais humana. A todos os companheiros de jornada, que torceram por mim, que se preocuparam, que estiveram presentes durante todo esse período. Foram anos de um processo de crescimento pessoal e profissional, que sem ter tantas pessoas por perto seria muito mais difícil e complicado. A todos, meu agradecimento de coração! “Não é somente importante acrescentar anos à vida, mas também acrescentar vida aos anos.” Alexandre Kalache RESUMO O envelhecimento populacional é uma realidade crescente e os idosos apresentam a necessidade de utilização de medicamentos, muitas vezes expondo-os a riscos. Os medicamentos potencialmente inapropriados (MPI) para idosos são aqueles em que os riscos superam os benefícios. Os medicamentos essenciais devem atender as necessidades prioritárias de saúde de uma população e a prescrição de medicamentos é considerada um dos aspectos determinantes para o uso. O objetivo do estudo foi analisar os medicamentos potencialmente inapropriados para idosos, desde a seleção de medicamentos essenciais à prescrição na Atenção Primária à Saúde (APS). Foi realizado um estudo descritivo e analítico com abordagem qualitativa e quantitativa, de março a dezembro de 2019, na APS em Campina Grande, PB. A pesquisa foi desenvolvida através da triangulação de métodos: 1) pesquisa documental, que analisou os medicamentos das Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME nas edições 2010 e 2020 de acordo com as listas AGS/Beers e as Listas de Medicamentos Essenciais (LME) da Organização Mundial de Saúde vigentes à época; 2) estudo transversal, realizado através de entrevistas com 458 idosos usuários de 71 unidades básicas de saúde. As variáveis independentes abrangeram características demográficas e socioeconômicas, condição de saúde e utilização de medicamentos e a variável dependente foi o medicamento prescrito ser classificado como inapropriado pelo Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriado. Foi feita análise descritiva dos dados e regressão de Poisson; e, 3) estudo de caso, realizado através de entrevistas com 10 prescritores da APS para conhecer a percepção desses profissionais sobre a prática prescritiva para idosos. Foram prescritos 1449 medicamentos e 244 MPI (16,8%), dos quais 91,6% e 70,5% estavam elencados na RENAME, respectivamente. A maioria dos MPI atuavamno Sistema Nervoso Central (54,4%) e trato alimentar e metabolismo (20,1%). Entre os principais MPI, observou-se ausência de alternativas terapêuticas mais seguras disponíveis na RENAME. No estudo transversal, identificou-se uma prevalência de prescrição de pelo menos um MPI em 44,8% (IC95% 40,2-49,3) dos idosos. No modelo ajustado, depressão (RP=2,01; IC95% 1,59-2,55), utilizar outros medicamentos além dos prescritos (RP=1,36; IC95% 1,08-1,72) e polifarmácia (RP=1,80; IC95% 1,40-2,33) permaneceram como fator associado ao uso de MPI e autorreferir ser portador de hipertensão arterial sistêmica tornou-se fator de proteção (RP=0,65; IC95% 0,49-0,87). Na análise qualitativa, emergiram duas categorias: 1) Abordagem dos prescritores no atendimento aos idosos na APS; e, 2) Uso de medicamentos por idosos: o olhar dos prescritores. Os médicos relataram promover atividades de prevenção, porém enfatizaram o tratamento das doenças crônicas prevalentes entre idosos. Também destacaram a polifarmácia e consideraram inadequada a utilização de benzodiazepínicos. Constatou-se desconhecimento dos médicos sobre as listas de medicamentos inapropriados. A medicalização dos idosos e a disponibilidade de medicamentos essenciais foram descritos como desafios. O estudo identificou uma alta ocorrência de prescrição de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos na Atenção Primária à Saúde em conformidade com a lista nacional de medicamentos essenciais e escassez de alternativas terapêuticas mais seguras para idosos. Evidencia-se necessidade de ações que busquem qualificar o acesso a medicamentos por idosos como a elaboração de uma lista de medicamentos específica ou a inserção de alternativas terapêuticas mais seguras para idosos na RENAME, juntamente com a capacitação dos profissionais prescritores e o acompanhamento dos idosos. Diante do envelhecimento da população brasileira, faz-se pertinente garantir acesso a medicamentos aliado à segurança dos idosos. Palavras-chave: Saúde do Idoso. Medicamentos essenciais. Lista de Medicamentos Potencialmente Inapropriados. Prescrições de Medicamentos. Atenção Primária à Saúde. ABSTRACT Population aging is a growing reality, and the elderly need medications, which often expose them to risks. Potentially inappropriate medications (PIMs) in the elderly are those in which risks outweigh benefits. Essential medications must meet health needs of a population, and medication prescription is one determinant for its use. This study aimed to analyze PIM in the elderly from the selection of essential drugs to prescription in primary health care (PHC). A descriptive and analytical study with quali-quantitative approach was conducted in PHC in Campina Grande (PB) between March and December 2019. The study was developed triangulating methods: 1) documentary research, which analyzed medicines of the National Essential Medicines List (RENAME) in 2010 and 2020 editions according to AGS/Beers criteria and essential medicines lists (EML) of the World Health Organization; 2) cross- sectional study, conducted using interviews with 458 elderly users of 71 basic health units. Independent variables were demographic and socioeconomic characteristics, health condition, and use of medication, whereas the dependent variable was prescribed medication classified as inappropriate by the Brazilian Consensus on Potentially Inappropriate Medications. Descriptive data analysis and Poisson regression were performed; and 3) case study, using interviews conducted with 10 PHC prescribers to observe perception of these professionals regarding prescription for the elderly. One thousand four hundred and forty-nine medications and 244 PIM (16.8%) were prescribed; of these, 91.6% and 70.5% were listed in RENAME, respectively. Most PIM acted in the central nervous system (54.4%) and gastrointestinal tract and metabolism (20.1%). RENAME lacked safer therapeutic alternatives for main PIMs. In the cross-sectional study, at least one PIM was prescribed for 44.8% (95%CI 40.2 ˗ 49.3) of the elderly. In the adjusted model, depression (PR=2.01; 95%CI 1.59 ˗ 2.55), use of medication other than those prescribed (PR=1.36; 95%CI 1.08 ˗ 1.72), and polypharmacy (PR = 1.80; 95%CI 1.40 ˗ 2.33) were associated with PIM, whereas self-reported hypertension was a protective factor (PR=0.65; 95%CI 0.49 ˗ 0.87). Two categories emerged in the qualitative analysis: 1) approach of prescribers to assist the elderly in PHC and 2) use of medication by the elderly: view of prescribers. Doctors reported preventive activities but emphasized treatment of prevalent chronic diseases among the elderly. They also highlighted polypharmacy and considered benzodiazepines to be inappropriate. Doctors lacked knowledge about inappropriate medication lists. Medicalization of the elderly and availability of essential medication were described as challenges. PIMs were highly prescribed for the elderly in PHC according to the RENAME and safer therapeutic alternatives were absent. Actions to qualify access of the elderly to medication are needed, such as elaborating a specific list of medication, inserting safer therapeutic alternatives for the elderly in RENAME, training prescribers, and monitoring the elderly. Access to medication and safety of the elderly must be guaranteed because of aging of the Brazilian population. Keywords: Health of the Elderly. Essential Medicines. Potentially Inappropriate Medications List. Drug Prescriptions. Primary Health Care LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Publicações da RENAME, Critério AGS/ Beers e Lista de Medicamentos Essenciais (EML) utilizados para análise dos medicamentos........................................................................................... 40 Quadro 2 – Categorias e subcategorias identificadas a partir das entrevistas sobre a prescrição para idosos com médicos da Atenção Primária à Saúde. Campina Grande, PB, 2019...................................................................... 46 LISTA DE ABREVIATURAS AF Assistência Farmacêutica ME Medicamentos Essenciais LISTA DE SIGLAS AGS American Geriatrics Society AINES Antiinflamatórios não esteroidais APIT Australian Prescribing Indicators Tool APS Atenção Primária à Saúde ATC Anatomical Therapeutic Chemical Classification System BVS Biblioteca Virtual em Saúde CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CBMPI Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados Ceaf Componente Especializado da Assistência Farmacêutica CEP Comitê de Ética e Pesquisa com seres humanos Cesaf Componente Estratégico da Assistência Farmacêutica Comare Comissão Multidisciplinar de Atualização da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais Conitec Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias Dant Doenças e agravos não transmissíveis DCNT Doenças Crônicas Não Transmissíveis EAM Eventos Adversos a Medicamentos eSF Estratégia Saúde da Família FORTA Fit For The Aged GheOP3S Ghent Olders People’s Prescribing community Pharmacy Screening HAS Hipertensão Arterial Sistêmica ILPI Instituições de Longa Permanência para Idosos iMAP individualized Medication Assessement and Planning LME Lista de Medicamentos Essenciais LOS Lei Orgânica da Saúde MAI Medication Appropriateness Index MPI Medicamento Potencialmente Inapropriado NASF - AB Núcleo Ampliado de Saúde da Família – Atenção Básica NORGEP Norwegian General Practice NRS Núcleo Regional de Saúde OMS Organização Mundial de Saúde PCDT Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas PFP Programa Farmácia Popular PNAB Política Nacional de Atenção Básica PNAF Política Nacional de Assistência Farmacêutica PNAUM Pesquisa Nacional de Acesso e Utilização de Medicamentos PNCI Programa Nacional de Cuidadores de IdososPNI Política Nacional do Idoso PNM Política Nacional de Medicamentos PNS Política Nacional de Saúde PNSI Política Nacional de Saúde do Idoso PNSP Política Nacional de Segurança do Paciente PNSPI Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa PSF Programa Saúde da Família RAM Reações Adversas a Medicamentos RAS Redes de Atenção à Saúde RENAME Relação Nacional de Medicamentos Essenciais RP Razão de Prevalência SNC Sistema Nervoso Central SPSS Statistical Package for Social Science START Screening Tool to Alert doctors to the Right Treatment STOPP Screening Tool of Older Persons’ Potentially Inappropriate Prescriptions STRIP The Systematic Tool to Reduce Inappropriate Prescribing SUS Sistema Único de Saúde TCLE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido UAM Uso Apropriado de Medicamentos UBS Unidades Básicas de Saúde URM Uso Racional de Medicamentos SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................... 17 2 REVISÃO DA LITERATURA ...................................................................................... 21 2.1 Abordagem sobre medicamentos nas políticas de Saúde do Idosos: resgate histórico.................................................................................................................................22 2.2 Medicamentos essenciais: aspectos históricos e sua importância para a utilização de medicamentos ....................................................................................................................... 28 2.3 Envelhecimento populacional e uso de medicamentos potencialmente inapropriados: um problema de saúde pública crescente .............................................................................. 31 3 OBJETIVOS .................................................................................................................... 39 3.1 Objetivo geral............................................................................................................. 39 3.2 Objetivos específicos ................................................................................................. 39 4 MÉTODO ......................................................................................................................... 40 4.1 Características da pesquisa ........................................................................................ 40 4.2 Percurso metodológico............................................................................................... 40 4.2.1 Análise documental .................................................................................................... 40 4.2.2 Estudo transversal ...................................................................................................... 42 4.2.3 Estudo de caso............................................................................................................ 45 4.3 Aspectos éticos........................................................................................................... 48 5 RESULTADOS E DISCUSSÃO. ................................................................................... 49 5.1 Prescrição inapropriada para idosos e a lista de medicamentos essenciais: há alternativas? .......................................................................................................................... 49 5.2 Prescrição de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: um estudo na Atenção Primária à Saúde ..................................................................................................... 65 5.1 A prática prescritiva para idosos: perspectivas de médicos na Atenção Primária à Saúde .............................................................................................................................................. 85 6 CONCLUSÕES ...............................................................................................................103 REFERÊNCIAS.................................................................................................................... 105 ANEXOS................................................................................................................................ 113 Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 17 1 INTRODUÇÃO O processo de envelhecimento populacional é uma realidade no Brasil e vem ocorrendo de forma acelerada, com estimativa de um crescimento médio de 4% ao ano no período entre 2012 e 2022, e estima-se que a população idosa alcance cerca de um terço da população brasileira em 2050 (GIACOMIN e MAIO, 2016; BORGES, CAMPOS e SILVA, 2015). Com a concretização desse processo no país, há uma necessidade de políticas públicas voltadas para as demandas dos idosos, principalmente no que se refere às questões de Saúde e Previdência (GIACOMIN e MAIO, 2016). Por suas características fisiológicas, os idosos desenvolvem multimorbidades e, portanto, fazem uso de vários medicamentos de maneira contínua e demandam atendimentos especializados, realização de exames periódicos, internações hospitalares prolongadas, o que necessita maior organização do sistema de saúde para atender tais demandas, além de evidenciar a importância de práticas de promoção da saúde e prevenção de doenças (VERAS, 2009; VERAS e OLIVEIRA, 2018). Os medicamentos fazem parte do cotidiano dos idosos, porém o próprio processo de senescência do organismo aliado às comorbidades expõem os idosos aos riscos advindos de sua utilização (RAMOS et al, 2016). Em 2017, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estabeleceu o Desafio Global de “Medicação sem dano”, que tem o objetivo de reduzir em 50% os danos evitáveis causados pela insegurança no uso de medicamentos no decorrer de cinco anos, e recomenda ações em áreas prioritárias (situações de alto risco, polifarmácia e transições de cuidado), nas quais os indivíduos idosos encaixam-se e, portanto, configuram um grupo estratégico para a prevenção de danos dentro do Desafio Global (WHO, 2019; MORAES, 2018). A polifarmácia (uso de cinco ou mais medicamentos) é frequente entre idosos, sendo considerada um desafio para a saúde pública, pois está associada a eventos adversos, na maioria das vezes, preveníveis e ao uso de medicamentos considerados potencialmente inapropriados para idosos (MPI) (WHO, 2019; RAMOS et al, 2016). Os MPI abrangem medicamentos que causam mais prejuízos do que benefícios para a saúde dos idosos e que há opções terapêuticas mais seguras (AGS, 2019; OLIVEIRA et al, 2016). Estudos mostram que a prevalência de MPI varia de acordo com a complexidade dos serviços de saúde: até 84,5% em cuidados agudos/ intensivos (acute care), até 70% nos idosos institucionalizados e até 62,4% em idosos com polifarmácia não institucionalizados (FIALOVÁ Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 18 et al., 2019). Na comunidade, estudos realizados em vários países apontam elevada prevalência de MPI: na Argentina, 66,3% dos idosos acima de 75 anos atendidos faziam uso (CHIAPELÁ et al, 2019); no México, 71,0% das prescrições dos idosos acima de 70 anos continham MPI (CORONA-ROJO, 2009); em três países europeus (Irlanda, Suíça e Holanda) encontrou-se que 75,7% dos idosos utilizavam MPI (RIORDAN et al, 2018). Em revisão sistemática, Opondo e colaboradores (2012) identificaram que uma média de 20% dos idosos na APS faziam uso de MPI. Esses medicamentos estão associados a desfechos em saúde desfavoráveis, a aumento da fragilidade, reações adversas a medicamentos (delirium, sedação, hemorragias gastrintestinais, quedas, fraturas), internação hospitalar, maior morbimortalidade entre os idosos e ainda, pior qualidade de vida (NASCIMENTO et al.,2017; LIEW et al., 2019). A identificação de MPI é uma importante estratégia para a prevenção de problemas de saúde adicionais entre idosos, para reduzir reações adversas, problemas relacionados a medicamentos e essencial para a manutenção de sua qualidade de vida (AGS, 2019). No contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), a Atenção Primária à Saúde (APS) é elemento coordenador das redes de atenção e responsável pelo desenvolvimento de ações no âmbito individual e coletivo, que abrangem desde a promoção, proteção, reabilitação e manutenção da saúde, realizado por meio do cuidado integrado, com equipe multiprofissional (BRASIL, 2017; BRASIL, 2006c). A partir de 2006, com o Pacto pela Vida (2006) e a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI), a Saúde do Idoso passou a ser uma das prioridades, sendo a APS definida como porta de entrada para a atenção integral e a Assistência Farmacêutica como uma das ações estratégicas para a qualificação da dispensação e do acesso a medicamentos pela população idosa (BRASIL, 2006a; BRASIL, 2006b). Seguindo os princípios do SUS, a Assistência Farmacêutica é garantida de maneira integral (Lei 8080/90), tendo como principal objetivo garantir o acesso a medicamentos seguros, eficazes e de qualidade e a promoção do seu uso racional (BRASIL, 1998; BRASIL, 2004). Reconhece-se que os benefícios do acesso a medicamentos são concretizados quando ocorre o uso de maneira adequada (BERMUDEZ et al., 2018) e um importante aspecto que orienta a utilização de medicamentos é a lista de medicamentos essenciais. No Brasil, a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) é considerada como um instrumento norteador para a gestão da Assistência Farmacêutica no SUS e, a partir de 2011, passou a ser composta pelos medicamentos e insumos a serem disponibilizados para a população (OSÓRIO-DE-CASTRO, 2014). A utilização de medicamentos abrange a prescrição, a dispensação e o consumo, tendo Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 19 a prescrição médica como um dos seus principais determinantes, resultante de diferentes aspectos econômicos, políticos e socioculturais (EV et al., 2014). O tema da tese, medicamentos potencialmente inapropriados para idosos, é bem vasto na literatura. Em relação aos medicamentos essenciais, tem-se ampliado o debate sobre o já consolidado e crescente problema da judicialização de medicamentos no país, aliada às mudanças ocorridas para a seleção/ incorporação de medicamentos no SUS (YAMAUTI et al, 2017; OSÓRIO-DE-CASTRO, 2017; OSÓRIO-DE-CASTRO et al, 2018), havendo poucos estudos que relacionam a presença de MPI na RENAME e a prescrição para idosos. A receita médica é elemento decisivo para a utilização de medicamentos na sociedade, sendo pertinente conhecer como ocorre a prescrição para idosos a partir da perspectiva dos profissionais médicos. Com o envelhecimento populacional, existe ampla pesquisa sobre os riscos do uso de MPI por idosos e sua importância para a Saúde Pública e Coletiva, principalmente em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) (VARALLO et al, 2012; VIEIRA DE LIMA et al, 2013; NASCIMENTO et al, 2014; MOREIRA et al, 2020) e nos domicílios (OLIVEIRA et al, 2012; NEVES et al, 2013; SILVA et al, 2012; SANTOS et al, 2013; MARTINS et al, 2015; LUTZ et al, 2017), havendo menor quantidade de estudos oriundos da prescrição na APS (ALMEIDA et al, 2018; GOMES et al, 2019). Assim, consideramos interessante abordar os medicamentos potencialmente inapropriados em diferentes etapas: a presença na RENAME, na prescrição médica na APS e a percepção dos médicos sobre a prática prescritiva para idosos. A concepção da tese surgiu a partir dos resultados do estudo longitudinal sobre o uso de MPI nas Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) realizado em Natal (RN) (MOREIRA et al, 2020) e após debate com o grupo de pesquisa do programa de doutorado sobre o que pode contribuir para o uso desses medicamentos por idosos e como esse problema ocorre na Atenção Primária à Saúde (APS), que é o início do cuidado ao idoso. Aliado a isso, minha experiência profissional como farmacêutica foi na gestão da Assistência Farmacêutica, em Campina Grande (PB), quando participei desde o processo de seleção à distribuição de medicamentos para os diversos serviços de saúde do município. Em seguida, já na APS, realizei serviços farmacêuticos de Dispensação de medicamentos e Educação em Saúde nos chamados “grupos de idosos”, experiência em que vivenciei de maneira aproximada a ampla utilização de medicamentos pelos idosos atendidos e sua importância no cotidiano dessa população. Portanto, considerando a importância do processo de envelhecimento populacional, o uso de medicamentos por idosos, sua vulnerabilidade em relação a eventos adversos, Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 20 principalmente a partir de MPI, e o papel da RENAME e da prescrição médica como fundamentais para a utilização de medicamentos, buscamos nesta tese responder às seguintes questões: como importante aspecto para o acesso a medicamentos, a lista de medicamentos essenciais disponibiliza MPI e possíveis alternativas mais seguras para os idosos? Qual a prevalência da prescrição de MPI e seus fatores associados na Atenção Primária à Saúde? Como os profissionais prescritores percebem a prática prescritiva para os idosos? Diante do exposto, o estudo teve como objetivo analisar os medicamentos potencialmente inapropriados para idosos, desde a seleção de medicamentos essenciais à prescrição na Atenção Primária à Saúde. Os resultados da pesquisa estão apresentados em três artigos científicos. O primeiro intitulado ‘Prescrição inapropriada para idosos e a lista de medicamentos essenciais: há alternativas?’, resultante da pesquisa documental aliada à parte dos resultados do estudo transversal, que teve como objetivo identificar a prevalência de MPI prescritos para idosos APS, sua concordância com a RENAME e possíveis opções terapêuticas disponíveis. O segundo artigo, ‘Prescrição de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para idosos: um estudo na Atenção Primária à Saúde’, elaborado a partir dos achados principais do estudo transversal que buscou avaliar os MPI prescritos na APS e seus fatores associados. O terceiro manuscrito intitulado ‘A prática prescritiva para idosos: perspectivas de médicos na Atenção Primária à Saúde’, resultante do estudo de caso que teve como objetivo compreender a prática prescritiva para idosos na APS na perspectiva de médicos. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 21 2 REVISÃO DA LITERATURA Foi realizada uma revisão da literatura nas principais bases de dados: Pubmed/Medline, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Scielo e no portal periódicos e catálogos de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Para a busca do material bibliográfico, utilizamos os seguintes termos: “políticas de saúde”, “medicamentos essenciais”, “prescrição inapropriada” e/ ou “idosos” em português e em inglês. Foi realizada uma revisão narrativa que se constitui na busca na literatura sobre determinada temática, segundo a análise crítica pessoal do autor (ROTHER, 2007). Assim, foram selecionados teses, dissertações e artigos científicos sem recorte delimitado de tempo de publicação que atendessem os objetivos de pesquisa, tendo preferência para bibliografia mais recente. A fundamentação teórica da tese foi organizada em três tópicos: 1) Abordagem sobre medicamentos nas políticas de Saúde do Idoso: resgate histórico, que buscou evidenciar como a questão dos medicamentos para idosos foitratada nas políticas de saúde do idoso, inicialmente com foco apenas no acesso e provimento e, apenas recentemente, tem abordado os riscos advindos da utilização; 2) Medicamentos essenciais: aspectos históricos e sua importância para a utilização de medicamentos, em que foram descritos os principais marcos sobre os medicamentos essenciais e as mudanças na sua conformação, além de embasar sobre sua importância para qualificação do acesso a medicamentos; e, 3) Envelhecimento populacional e o uso de medicamentos potencialmente inapropriados: um problema de saúde pública crescente, em que foram expostos alguns problemas do uso de medicamentos por idosos, com ênfase nos medicamentos potencialmente inapropriados, apresentando critérios para identificação, riscos aos idosos, estudos epidemiológicos e a importância da prescrição médica como ferramenta para minimizar a utilização de MPI por idosos. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 22 2.1 Abordagem sobre medicamentos nas políticas de Saúde do Idoso: resgate histórico A presença crescente de pessoas idosas na sociedade impõe o desafio de inserir o tema do envelhecimento populacional na formulação de políticas públicas e de implementar ações de prevenção e cuidados às suas necessidades (DUARTE et al., 2016). No Brasil, o envelhecimento passou a ser tema de políticas públicas específicas apenas a partir da década de 1990. Porém, ainda nos anos 70, ocorreram iniciativas pontuais em prol das pessoas idosas, de cunho caritativo e de proteção, com destaque para benefícios não contributivos como a aposentadoria de trabalhadores rurais e renda mensal vitalícia para desamparados urbanos acima de 70 anos (FERNANDES e SOARES, 2012). Em 1982, ocorreu a Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento que resulta no Plano de Ação Internacional de Viena, com recomendações sobre saúde, nutrição, proteção ao consumidor idoso, moradia e meio ambiente, bem-estar social, previdência social, trabalho e educação e família. Esse evento constituiu-se como marco mundial e referência para as políticas públicas destinadas aos idosos em vários países e tratou o envelhecimento como tema relevante para a sociedade no século XXI (VERAS e OLIVEIRA, 2018). Apesar de suas recomendações apresentarem como foco o envelhecimento nos países desenvolvidos, o documento influenciou a construção do arcabouço jurídico de países em desenvolvimento, como o Brasil (VIEIRA e VIEIRA, 2016). Assim, em 1988, a Constituição Federal reconheceu o direito ao envelhecimento com dignidade como direito humano fundamental e sua proteção como um direito social (GIACOMIN e MAIO, 2016). Em vários artigos, a CF/88 garante os direitos dos idosos, como irredutibilidade dos salários de aposentadoria e pensões, garantia do amparo pelos filhos, gratuidade nos transportes coletivos e benefício de um salário-mínimo para aqueles sem condições de sustento (VERAS e OLIVEIRA, 2018). Seguindo a Constituição Cidadã, muitas normas infraconstitucionais buscaram implementar políticas destinadas para a pessoa idosa, destacando-se a Política Nacional do Idoso (PNI) (1994), o Estatuto do Idoso (2003) e a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI) (2006) (GIACOMIN e MAIO, 2016). Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 23 Publicada em 1994, a Política Nacional do Idoso (PNI) foi uma das primeiras a dar visibilidade aos idosos no país. Seguindo o preconizado na Lei Orgânica da Saúde (LOS) (lei n° 8.080/90), a PNI, no que concerne à Saúde, afirmou como competências dos entes públicos: “a) garantir a assistência à saúde nos diversos níveis de atendimento do SUS; b) prevenir, promover, proteger e recuperar a saúde da pessoa idosa, mediante programas e medidas profiláticas; c) adotar e aplicar normas de funcionamento às instituições geriátricas e similares, com fiscalização pelos gestores do SUS; d) elaborar normas de serviços geriátricos hospitalares; e) desenvolver formas de cooperação entre as secretarias de saúde dos estados, do Distrito Federal (DF) e dos municípios, e entre os centros de referência em geriatria e gerontologia para treinamento de equipes interprofissionais; f) incluir a geriatria como especialidade clínica, para efeito de concursos; g) realizar estudos para detectar o caráter epidemiológico de determinadas doenças do idoso, com vistas à prevenção, ao tratamento e à reabilitação; e h) criar serviços alternativos de saúde para o idoso” (BRASIL, 1994, p. 11). Ainda nos anos 90, em 1997, foi elaborado o Plano Integrado de Ação Governamental para o Desenvolvimento da Política Nacional do Idoso, e em 1999, o Programa Nacional de Cuidadores de Idosos (PNCI) e a Política Nacional de Saúde do Idoso (PNSI). Resultante de debate intersetorial do Ministério da Saúde, Ministério da Educação, gerontólogos, técnicos e pesquisadores, a PNSI propôs a implementação do disposto na PNI de forma que a atenção à saúde do idoso promova sua capacidade funcional com objetivo de garantir a realização de suas atividades de maneira independente (GIACOMIN e MAIO, 2016; VERAS e OLIVEIRA, 2018). Em 2003, como reflexo da Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento, realizada em Madri (2002), foi publicado o Estatuto do Idoso, um dos mais importantes amparos legais que reafirmou e buscou consolidar direitos dos idosos em diversas áreas. Na Saúde, o Estatuto do Idoso reforçou a atenção integral seguindo os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) e ainda enfatizou a importância da formação profissional voltada para o cuidado ao idoso nas instituições de saúde e a inserção nos currículos da temática do envelhecimento (BRASIL, 2003; FERNANDES e SOARES, 2012). Foi a primeira vez em norma específica para o direito à saúde do idoso que a questão do acesso aos medicamentos foi abordada: “Art. 15, § 2.º Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 24 Incumbe ao Poder Público fornecer aos idosos, gratuitamente, medicamentos, especialmente os de uso continuado, assim como próteses, órteses e outros recursos relativos ao tratamento, habilitação ou reabilitação” (p. 14, BRASIL, 2003). O estatuto do idoso constitui-se como uma relevante conquista para a efetivação, proteção e reivindicação de direitos dos idosos brasileiros. Através da portaria n º 399/GM, em 2006, o Pacto pela Saúde contemplou, no Pacto pela Vida, a Saúde do Idoso como uma das prioridades por apresentar impacto sobre a situação de saúde da população brasileira e entre suas ações estratégicas, a Assistência Farmacêutica para “desenvolver ações que visem qualificar a dispensação e o acesso da população idosa”, corroborando com o estipulado no Estatuto do Idoso (p. 10, BRASIL, 2006b). Atendendo ao Pacto pela Vida e buscando implementar ações e as responsabilidades institucionais, ainda em 2006 foi publicada pela Portaria n° 2.528/GM, a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI) com a finalidade de “recuperar, manter e promover a autonomia e a independência dos indivíduos idosos, direcionando medidas coletivas e individuais de saúde para esse fim, em consonância com os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde” (p. 4, BRASIL, 2006a). Nas diretrizes da PNSPI está a pactuação e definição entre os entes federados de recursos capazes de assegurar qualidade da atenção à saúde da pessoa idosa, sendo um dos itens prioritários “o provimento de insumos, de suporte em todos os níveis de atenção, prioritariamente na atenção domiciliar inclusive medicamentos” (p. 12, BRASIL, 2006b). A PNSPI reitera o entendimento de que a capacidade funcional da pessoa idosa deve ser um balizador das ações dos serviços de saúde e que é essencial o enfrentamentodas fragilidades do SUS e a promoção do envelhecimento ativo (GIACOMIN e MAIO, 2016). Em 2010, objetivando superar a fragmentação do cuidado e qualificar a gestão do SUS foram estabelecidas as Redes de Atenção à Saúde (RAS) através da Portaria nº 4.279/10 que apresentou os fundamentos conceituais e operativos essenciais para a organização, com o intuito de atender ao usuário em suas necessidades, com efetividade e eficiência. Nos elementos constitutivos das RAS, a Assistência Farmacêutica, descrita como sistema de apoio por prestar serviços comuns a todos os pontos da atenção à saúde, abrange a “organização da assistência em todas as suas etapas: seleção, programação, aquisição, armazenamento, distribuição, prescrição, dispensação e promoção do uso racional de medicamentos” (p. 13, BRASIL, 2010). Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 25 Assim, buscando contribuir para a organização da atenção e ampliação do acesso qualificado da população idosa no âmbito do SUS, em 2014, foi proposto um Modelo de Atenção Integral à Saúde da Pessoa Idosa em que foram apresentadas as diretrizes e estratégias para potencializar ações e serviços existentes dirigidos às pessoas idosas, de forma a articular diferentes pontos de atenção e compor a rede de atenção às pessoas idosas (BRASIL, 2014). Conforme estabelecido no Pacto pela Saúde, a Saúde do Idoso no SUS tem a Atenção Primária à Saúde (APS) como porta de entrada e ordenadora do cuidado responsável pelo acompanhamento de forma articulada. Entre o elenco das atividades das equipes nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) está a identificação e o registro das condições de saúde da população idosa, através de uma abordagem multidimensional (BRASIL, 2014). Nas Diretrizes para o cuidado das pessoas idosas (BRASIL, 2014), os medicamentos foram apresentados como um tema importante para a qualificação do cuidado à pessoa idosa: “é importante a inclusão de determinados temas no escopo de atuação das referidas equipes, tais como: prevenção da violência, prevenção de quedas, alimentação e nutrição, saúde bucal, identificação de condições e doenças crônicas, transtornos mentais decorrentes ou não do uso de álcool e outras drogas, questões medicamentosas (como polifarmácia e interações) (grifo nosso). Esses temas são determinantes na definição das condições de saúde da população idosa e na elaboração do planejamento do cuidado” (p. 29). Em 2017, através da Portaria n° 2.436 de 21 de setembro de 2017 que aprova Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), estabelecendo a revisão de diretrizes para a organização da Atenção Básica, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), entre as responsabilidades das três esferas de governo está “desenvolver as ações de assistência farmacêutica e do uso racional de medicamentos, garantindo a disponibilidade e acesso a medicamentos e insumos em conformidade com a RENAME, os protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas, (...) visando a integralidade do cuidado” (p.69, BRASIL, 2017). Seguindo as Diretrizes para o cuidado integral à pessoa idosa, nas Orientações técnicas para a implementação de uma linha de cuidado, publicadas, recentemente, em 2018, os medicamentos foram abordados como sinal de alerta para comprometimento da capacidade funcional (uso de 5 ou mais) e também apontou-se a necessidade de evitar o uso desnecessário e iatrogenias preveníveis (BRASIL, 2018). Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 26 Assim, embora nos documentos mais recentes os riscos do uso de medicamentos tenham sido abordados, no decorrer da construção das políticas de Saúde do Idoso o disposto sobre medicamentos se voltou à garantia do seu acesso/ provimento para a população idosa, o que é consonante com a Política Nacional de Medicamentos (PNM) e a Política Nacional de Assistência Farmacêutica (PNAF), nestas voltada para toda a população brasileira (BRASIL, 1998; BRASIL, 2004). A PNM, publicada em 1998 como parte integrante da Política Nacional de Saúde (PNS), teve como objetivo “garantir a segurança, eficácia e qualidade dos medicamentos no país, a promoção do uso racional de medicamentos e o acesso àqueles considerados essenciais” (p. 9, BRASIL, 1998). Entre as justificativas para a PNM está a preocupação com o envelhecimento populacional e a necessidade de adequação do sistema de saúde para essa demanda, tendo em vista as características brasileiras do processo de transição epidemiológica, de elevada prevalência de doenças crônicas que utilizam medicamentos de uso contínuo, aliada à utilização crescente de serviços de saúde especializados e de alto custo (BRASIL, 1998). Foram estabelecidas diretrizes e prioridades entre as quais estão a revisão permanente da RENAME, a Assistência Farmacêutica, a promoção do uso racional de medicamentos e a organização das atividades de Vigilância Sanitária (BRASIL, 1998). Resultante da ampliação das discussões sobre a Assistência Farmacêutica (AF) no SUS, em 2004, foi publicada a PNAF que definiu a AF como o “conjunto de ações voltadas à promoção, proteção e recuperação da saúde, tanto individual como coletivo, tendo o medicamento como insumo essencial e visando o acesso e ao seu uso racional”. Nos eixos estratégicos, está “I - a garantia do acesso e equidade das ações de saúde, inclui, necessariamente a Assistência Farmacêutica; e (...) XIII - a promoção do uso racional de medicamentos, por intermédio de ações que disciplinem a prescrição, a dispensação e o consumo” (p. 1-2, BRASIL, 2004). A partir de 2006, a fim de buscar a universalidade e a integralidade nas ações e serviços de saúde, a AF passou a ser organizada em três componentes: o Básico, Estratégico e Especializado (BRASIL, 2018). O Componente Básico (Cbaf) refere-se àqueles medicamentos e insumos a serem utilizados nos principais problemas de saúde e nos programas da Atenção Primária à Saúde (APS). O Componente Estratégico (Cesaf) é composto por medicamentos e insumos destinados ao controle de doenças e agravos considerados endêmicas no território Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 27 nacional, como tuberculose, hanseníase, malária, doença de Chagas, DST/Aids, tabagismo e insulinas. O Componente Especializado (Ceaf) contempla os medicamentos utilizados em agravos crônicos, de valor elevado para o indivíduo, devendo-se ser dispensados de acordo com o Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde (BRASIL, 2020). Buscando ampliar o acesso a medicamentos, em 2004, foi criado o Programa Farmácia Popular (PFP) com o objetivo de propiciar a aquisição a um baixo custo para um maior número de pessoas. Originalmente, possuía rede própria do Ministério da Saúde em parceria com os municípios e, a partir de 2006, foi ampliado para o “Aqui tem Farmácia Popular” (ATFP), uma parceria com a rede privada de farmácias. A rede própria de farmácias do Ministério da Saúde em parceria com os municípios foi extinta em 2017. Atualmente, o elenco de medicamentos é composto por itens adquiridos na forma de copagamento, que são indicados para o tratamento de osteoporose, rinite, doença de Parkinson, glaucoma e ainda a fralda geriátrica. Ainda há aqueles totalmente subsidiados pelo governo, distribuídos gratuitamente, que fazem parte da campanha “Saúde não tem preço” que abrange os medicamentos destinados ao tratamento de hipertensão arterial, diabetes e asma, principais doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) (BRASIL, 2018; ALENCAR et al., 2018; BERMUDEZ et al., 2018). Embora destinado à toda população brasileira, os principais beneficiários do PFP tem sido os idosos (BRASIL, 2018; ALENCAR et al., 2018). Contudo, diante de cortesno orçamento a partir de 2016, da extinção da rede própria em 2017 aliado a mudanças no elenco de medicamentos, maior rigor no credenciamento e fiscalização de farmácia privadas do ATFP, pode ocorrer uma repercussão no acesso aos medicamentos, principalmente para a população mais pobre (ALENCAR et al., 2018). Bermudez e colaboradores (2018) ao analisar a AF durante os 30 anos do SUS discute que o PFP tem ênfase no consumo de medicamentos como promotor do acesso, não existindo ações de promoção do uso apropriado de medicamentos, o que compromete a integralidade da AF, tendo seu foco voltado para ações de abastecimento e melhoria do acesso. A Pesquisa Nacional de Acesso e Utilização de Medicamentos (PNAUM), realizada em 2014, em todas as regiões do país investigou o acesso a medicamentos para tratamento de DCNT, que se mostrou amplo entre idosos. O estudo verificou que 96,2% das pessoas acima de 60 anos tiveram acesso total aos medicamentos prescritos, tendo 72,0% buscado nas Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 28 farmácias do SUS. Em relação à aquisição dos medicamentos, 46,2% dos idosos adquiriram gratuitamente nas farmácias das unidades básicas de saúde, 65,5% no PFP e 88,6% nas farmácias privadas. Para os autores “as políticas nacionais de medicamentos e de assistência farmacêutica implementadas após 1999 parece estar atingindo o seu objetivo de garantir o acesso a medicamentos gratuitos ou a preços acessíveis à maioria da população com DCNT”. Pesquisas anteriores relatam percentuais maiores de não aquisição de medicamentos prescritos (TAVARES et al., 2016). Um aspecto fundamental no cuidado ao idoso é o uso de medicamentos para o tratamento e controle das múltiplas enfermidades crônicas que desenvolvem. Por problemas relacionados à sua utilização, como polifarmácia, vulnerabilidade a reações adversas e o uso daqueles considerados potencialmente inapropriados, os medicamentos estão associados ao aumento da fragilidade, morbidade e mortalidade entre idosos (MARTIAL et al., 2004; FIALOVÁ et al., 2019). A partir da Conferência de Nairobi (BERMUDEZ et al., 2018), houve um reconhecimento de que os benefícios do acesso a medicamentos são concretizados quando ocorre o uso de maneira adequada. Observou-se que as políticas de saúde do idoso tem se voltado principalmente para a questão do acesso, ocorrendo de forma incipiente uma visão integral relacionada aos riscos da utilização de medicamentos. Portanto, é interessante ampliar a discussão para além do acesso e abordar aspectos que podem qualificar o cuidado e o uso de medicamentos por idosos, como a seleção e a prescrição apropriada de medicamentos. 2.2 Medicamentos essenciais: aspectos históricos e sua importância para a utilização de medicamentos A Política Nacional de Medicamentos (PNM), publicada em 1998, é resultado das mudanças que ocorreram na saúde brasileira a partir da criação do Sistema Único de Saúde (SUS). Em consonância com os princípios do SUS, estabeleceu diretrizes e prioridades entre as quais está a adoção da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) e sua permanente atualização, enfatizando assim a relevância dos medicamentos essenciais (ME), que conforme definição da Organização Mundial de Saúde (OMS) são aqueles que buscam satisfazer às necessidades prioritárias de saúde da população (BRASIL, 1998; WHO, 2019). Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 29 A seleção de medicamentos essenciais constitui-se como uma etapa fundamental das políticas de medicamentos e da gestão da Assistência Farmacêutica. Diante da quantidade de medicamentos no mercado mundial, a seleção possibilita o acesso, melhoria da qualidade da assistência e na utilização, ao evitar medicamentos de qualidade duvidosa, alto índice de risco/ benefício e de duplicidade de uso. Torna-se, portanto, uma ferramenta que otimiza recursos, eficiência no fornecimento, economia e racionalização (MARIN et al., 2003; PEPE et al., 2008), além de estruturar as ações de desenvolvimento, regulação, produção, financiamento, fornecimento e garantia do Uso Racional de Medicamentos (URM) (OSORIO-DE-CASTRO, 2014; OSÓRIO-DE-CASTRO et al., 2018). Como estratégia para implementar políticas farmacêuticas em todo o mundo, em 1977, a OMS publicou sua primeira lista modelo de medicamentos essenciais (LME), atualmente está na sua 21ª edição, e inclui os medicamentos necessários para a Atenção Primária à Saúde (APS) e uma lista complementar de medicamentos para serem utilizados em centros de saúde especializados (PEPE et al., 2008; BERMUDEZ et al., 2018; WHO, 2019). No Brasil, a elaboração de listas de medicamentos começou antes da OMS e esteve relacionada aos contextos específicos de desenvolvimento do país em que se buscava estimular a produção de medicamentos. A primeira lista nacional foi publicada em 1964, a Relação Básica e Prioritária de Produtos Biológicos e Matérias para Uso Farmacêutico e Veterinário tornava obrigatória para órgãos governamentais a compra exclusiva de seus componentes (PEPE et al., 2008; YAMAUTI, 2015). Durante os anos 70, com a criação da Central de Medicamentos (CEME) (1971) e o Plano Diretor de Medicamentos (1973), a lista de medicamentos essenciais era base para a aquisição e distribuição de medicamentos no país com foco no acesso de medicamentos pela população de baixo poder aquisitivo. Também estava relacionada com a produção e desenvolvimento de medicamentos, instrumento de educação da prescrição e tinha como principal função orientar compras governamentais (PEPE et al., 2008; YAMAUTI et al., 2015; BERMUDEZ et al., 2018). Em 1977, foi nomeada como Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). As décadas de 1980 e 1990 marcaram um período sem revisões importantes na RENAME (PEPE et al., 2008; YAMAUTI, 2015). Então, a partir da PNM (1998), a atualização e adoção da RENAME se fortaleceu tendo como base o conceito de essencialidade da OMS e o paradigma da Saúde baseada em evidência, a fim de garantir transparência e rigor metodológico. Em 2001, foi criada a Comissão Multidisciplinar de Atualização da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Comare) responsável pela condução do processo de Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 30 revisão da lista, com definição de critérios explícitos para a inclusão e exclusão de medicamentos (PEPE et al., 2008; OSÓRIO-DE-CASTRO, 2014; YAMAUTI, 2015; BERMUDEZ et al., 2018). Ainda nos anos 2000, intensificaram-se as pressões por inovação no SUS, possibilitando um descompasso entre o conceito de ME e a construção da lista nacional (BERMUDEZ et al, 2018). Desde a PNM até 2012, a RENAME comungava da definição da OMS, buscando garantir a integralidade da assistência terapêutica atrelado ao conceito de essencialidade, isto é, medicamentos essenciais como aqueles que satisfazem às necessidades prioritárias de saúde de uma população (YAMAUTI et al., 2015; OSÓRIO-DE-CASTRO et al., 2014; BERMUDEZ et al., 2018;). De acordo com Bermudez e colaboradores (2018), esse conceito implica em ações regulatórias como restrições de registro de medicamentos de valor terapêutico duvidoso, capacitação de profissionais prescritores e monitoramento do uso. Porém, diante da flexibilização para o registro de medicamentos, pressões por inovação e do mercado, da dificuldade de acesso na obtenção de medicamentos especializados e da crescente judicialização de medicamentos, ocorreu uma mudança de paradigma no processo de construção da RENAME (OSÓRIO-DE-CASTRO, 2018; BERMUDEZ et al., 2018). A partir da Lei n° 12.041/2011 e do Decreto nº 7.508/ 2011, a RENAME passou a corresponder à lista de medicamentosque devem ser ofertados pelo SUS, contemplando todos os medicamentos integrantes dos Componentes Básico, Especializado e Estratégico da Assistência Farmacêutica (BRASIL, 2011a; BRASIL, 2011b). Em 2012, a revisão da RENAME passou a ser responsabilidade da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec), com fluxo, critérios e prazos definidos, representando um importante passo para a avaliação e incorporação das tecnologias no SUS (CAETANO et al., 2017). Osorio-de-Castro e colaboradores (2017) enfatizam que a RENAME priorizou as demandas do sistema de saúde em detrimento das necessidades sanitárias e que, a partir desse marco regulatório, tornou-se uma lista de medicamentos positiva do sistema, atendendo a questões de gestão, porém dissonante do conceito de essencialidade da OMS. No decorrer do tempo, a RENAME passou por mudanças com o intuito de atender às demandas e as transformações do SUS, adquirindo progressivamente um caráter norteador na seleção, programação de medicamentos, na prescrição médica, além de subsidiar decisões de judicialização (BRASIL, 2018). Yamauti (2015) ao descrever a mudança na maneira de se selecionar os medicamentos para a RENAME, enfatiza seu papel como norteador da política farmacêutica: Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 31 “a Rename representa um elemento estratégico na política de medicamentos, sendo a base para a formulação de listas estaduais e municipais, as quais devem ser organizadas de acordo com as doenças e os agravos mais relevantes e prevalentes de cada região, permitindo a uniformização de condutas terapêuticas, por desenvolver e facilitar o estabelecimento de ações educativas, o abastecimento e a dispensação de medicamentos, no âmbito do SUS.” (p. 26) Reforça-se, assim, seu caráter como instrumento estratégico e imprescindível para o SUS na medida em que contempla os medicamentos necessários para os principais problemas de saúde da população, promove o uso racional e orienta o financiamento da Assistência Farmacêutica (BRASIL, 2018). 2.3 Envelhecimento populacional e uso de medicamentos potencialmente inapropriados: um problema de saúde pública crescente O envelhecimento populacional é uma realidade brasileira, com taxa de crescimento de 4% ao ano entre 2012 e 2022 (ERVATTI et al., 2015) e, de acordo com a projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a proporção de pessoas acima de 60 anos na população brasileira em 2020 será de 14,6%, chegando a quase um terço (32,2%) em 2060 (IBGE, 2020). O envelhecimento traz consigo a preocupação com as condições necessárias da qualidade de vida e a demanda por políticas públicas, ações de proteção e cuidados específicos para idosos. Na assistência à saúde, pelo desenvolvimento de várias doenças crônicas, há uma exigência crescente por mais recursos, ocorrendo uma maior utilização de serviços de saúde, principalmente do atendimento especializado e a realização de exames periódicos e uso de medicamentos de maneira contínua (VERAS, 2009; ERVATTI et al., 2015; DUARTE et al., 2016). Um importante aspecto a ser considerado no cuidado à saúde de idosos é a utilização de medicamentos, pois por suas características específicas necessita de um olhar diferenciado, em virtude das alterações farmacocinéticas (diminuição da água e aumento da gordura corporal, redução das proteínas plasmáticas, diminuição do metabolismo hepático e da excreção renal), farmacodinâmicas do envelhecimento (aumento da sensibilidade de receptores no sistema nervoso central e diminuição da resposta dos receptores beta adrenérgicos), nas interações dos fármacos com patologias existentes e ainda com a não participação de indivíduos idosos em Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 32 ensaios clínicos e no desenvolvimento de medicamentos para o conhecimento de seus efeitos em idosos (WHO, 1997; ANATHHANAM et al., 2012). As mudanças fisiológicas próprias do envelhecimento e o desenvolvimento de doenças crônicas, frequentemente comorbidades, fazem com que os idosos apresentem necessidades diversas de saúde e por isso, utilizem vários medicamentos (MARTIAL et al., 2013), o que desencadeia alguns problemas como a polifarmácia, o desenvolvimento de eventos adversos e o uso daqueles considerados inapropriados. A ocorrência de polifarmácia refere-se ao uso de múltiplos medicamentos, não havendo consenso na literatura acerca da quantidade mínima, porém a maioria dos estudos classifica como sendo a utilização de cinco e/ou mais medicamentos (GOMES et al, 2019). No Brasil, a Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Uso Racional de Medicamentos (PNAUM), realizada em 2013-14, identificou uma prevalência de polifarmácia em 18,1% dos idosos, apresentando como principais causas: tratamento não baseados em evidência científica, prescrição simultânea por vários médicos especialistas sem que seja realizada a conciliação medicamentosa e tratamento de efeitos secundários de medicamentos já utilizados (NASCIMENTO et al., 2017). A polifarmácia está associada ao aumento dos custos com medicamentos, uso inadequado, diminuição da capacidade funcional e o desenvolvimento de síndromes geriátricas (GOMES et al, 2019). Além disso, favorece o surgimento de eventos adversos relacionados aos medicamentos: o risco de ocorrência aumenta em 13% com o uso de dois agentes, elevando-se para 82% nos casos em que são consumidos sete ou mais medicamentos (SECOLI, 2010). Portanto, é importante considerar a vulnerabilidade dos idosos para o desenvolvimento de eventos adversos a medicamentos (EAM) que se constitui como um efeito prejudicial ou indesejável ocorrido após a utilização de medicamentos e engloba reações adversas a medicamentos (RAM), erros de medicação, sobredoses e subdoses, sendo na sua maioria preveníveis (FIALOVÁ et al., 2019). Por sua vez, as RAM apresentam uma problemática adicional entre os idosos, pela dificuldade de diferenciação em relação a um problema de saúde pode acarretar na chamada “cascata medicamentosa” quando se adiciona novos medicamentos para tratar sintomas de RAM e assim, incrementa-se o desenvolvimento de interações medicamentosas e ainda novas RAM (ANATHHANAM et al., 2012). Dessa forma, os idosos são mais expostos a problemas advindos da utilização de medicamentos, como: correlação inapropriada entre diagnóstico e tratamento prescrito, uso inadequado por perda de doses, Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 33 comprometimento da adesão ao tratamento, redução da efetividade terapêutica e risco aumentado de interações medicamentosas (NASCIMENTO et al., 2017). Além da problemática da polifarmácia quantitativa, ainda existem os denominados medicamentos potencialmente inapropriados para idosos (MPI) por apresentarem riscos que superam os benefícios de sua utilização e introduzem maior probabilidade de desenvolver evento adverso. O uso de MPI é considerado um EAM prevenível, pois podem ser utilizadas opções terapêuticas com evidência científica equivalente mais segura (OPONDO et al., 2012). A identificação de MPI é uma importante estratégia para a prevenção de problemas de saúde adicionais entre idosos, para reduzir RAM e problemas relacionados a medicamentos (AGS, 2012). Nesse sentido, foram desenvolvidos critérios implícitos, baseado em julgamento clínico e envolve uma análise minuciosa da farmacoterapia, e critérios explícitos, que são as listas com critérios para identificação de MPI (AGS, 2012). A diferença maior entre os critérios é que os explícitos são mais mensuráveis e podem ser consultados de maneira direta, enquanto os implícitos dependem de fatores relacionados aos medicamentose às condições clínicas do idoso (MORAES et al, 2018; MOTTER et al, 2018). A primeira lista no mundo foi a de Beers, desenvolvida nos Estados Unidos (EUA), em 1991, baseada em um consenso de experts no cuidado geriátrico, farmacologia clínica e psicofarmacologia através da revisão da literatura e utilizando a técnica Delphi, que passou por atualizações em 1997, 2003, 2012, 2015 e recentemente em 2019, sendo as três últimas realizadas pela American Geriatrics Society (AGS) (FICK et al., 2003; ISMP, 2017). Além da lista AGS/ Beers, outras foram desenvolvidas em diversos países para a identificação de MPI: a) critérios explícitos – STOPP (Screening Tool of Older Persons’ Potentially Inappropriate Prescriptions), START (Screening Tool to Alert doctors to the Right Treatment), PRISCUS, NORGEP (Norwegian General Practice), critérios canadenses (McLeod e Ipet (Improving Prescribing in the Elderly Tool), FORTA (Fit For The Aged), EURO-FORTA, EU (7)-PIM List, APIT (Australian Prescribing Indicators Tool), ACOVE, Screening Tool fo Older Persons’ Appropriate Prescriptions for Japanese, GheOP3S (Ghent Olders People’s Prescribing community Pharmacy Screening) e Taiwan-PIM. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 34 b) critérios implícitos – MAI (Medication Appropriateness Index), MAI modificado, iMAP (individualized Medication Assessement and Planning), STRIP (The Systematic Tool to Reduce Inappropriate Prescribing) e ARMOR (VARALLO et al., 2014; MORAES et al, 2018). No Brasil, foi feita a validação do conteúdo dos critérios de Beers (2012) e do STOPP (2006), através do método Delphi, para a construção de critérios nacionais. Publicado em 2016, o Consenso Brasileiro de Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos (CBMPI) é formado por 118 critérios, dos quais 43 são independentes de condição clínica do idoso e 75 dependentes da condição clínica (OLIVEIRA et al, 2016). Os critérios foram desenvolvidos para apoiar, em vez de suplantar, um bom julgamento clínico, servindo como um ‘sinal de alerta’ (MORAES et al, 2018). Estudos tem mostrado que a utilização desses instrumentos tem sido útil na diminuição de eventos adversos, para a educação clínica dos profissionais prescritores, a seleção de medicamentos e como ferramenta para avaliação do cuidado, custo e padrão de uso de medicamentos por idosos (FICK et al., 2003; AGS, 2019). A aplicação de critérios explícitos possibilita identificar o uso de MPI e com isso o planejamento de intervenções para diminuir a exposição dos idosos, os custos e problemas gerais relacionados a medicamentos (FICK et al., 2003; AGS, 2019). São considerados MPI e possui elevada prevalência de uso entre idosos: benzodiazepínicos, anticolinérgicos, anti-histamínicos, antiinflamatórios não esteroidais (AINES), antidepressivos tricíclicos, medicamentos de estreita faixa terapêutica, inibidores de bomba de prótons, entre outros (ISMP, 2017; LUCHETTI e LUCHETTI, 2017). Estudos epidemiológicos confirmam uma elevada prevalência de MPI e grande variedade em diferentes contextos de atenção à saúde: até 84,5% em cuidados agudos/ intensivos (acute care), até 70% nos idosos institucionalizados e até 62,4% em idosos com polifarmácia não institucionalizados (FIALOVÁ et al., 2019). Revisão sistemática com estudos realizados na Atenção Primária identificou uma média de 20,0% no uso de MPI por idosos (OPONDO et al., 2012). No Brasil, a maioria dos estudos é de base populacional, sendo observada uma grande variação nas prevalências, de 9,5% em Quixadá, CE, (SILVA et al., 2012) a 42,4% em Pelotas, RS (LUTZ et al., 2017). Na APS, também ocorre variação entre os resultados. Em Recife, PE, Neves e colaboradores (2013) ao investigar a prevalência de MPI entre idosos, em distrito sanitário, identificou que 21,6% Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 35 tinham pelo menos um prescrito. Almeida e colaboradores (2018) observaram que 53,7% dos idosos atendidos em unidades básicas de saúde em Belo Horizonte/MG, faziam uso de MPI. Os MPI estão fortemente relacionados a desfechos em saúde desfavoráveis, como reações adversas a medicamentos (delirium, sedação, hemorragias gastrintestinais, quedas, fraturas), internação hospitalar e maior morbimortalidade entre os idosos (NASCIMENTO et al., 2017). Meta análise baseada em estudos de coorte realizados na APS identificou que o uso de MPI está associado à admissão em emergências, eventos adversos relacionados a medicamentos, piora da qualidade de vida e hospitalizações (LIEW et al., 2019). Na Coréia, em estudo de coorte restrospectivo, a probabilidade de hospitalização de idosos em uso de pelo menos um MPI foi 2,5 maior do que de idosos que não utilizavam (JEON et al, 2018). Além do prejuízo para a qualidade de vida dos idosos, estudo acerca do impacto econômico de três MPI encontrou que o uso de benzodiazepínicos de longa ação e antiinflamatórios não esteroidais está associado ao aumento de custos e pior qualidade de vida entre usuários idosos (MORIARTY et al., 2019). No entanto, são possíveis intervenções a fim de otimizar a farmacoterapia em idosos. Revisão sistemática Cochrane mostrou que intervenções, como revisão da medicação, educação em saúde para os pacientes e profissionais de saúde, acompanhamento farmacoterapêutico, decisão computadorizada e protocolos de gestão, apresentaram benefícios para a redução do uso inapropriado de medicamentos por idosos polimedicados. Porém, os estudos analisados não avaliaram desfechos clínicos, como adesão ao tratamento, hospitalizações e qualidade de vida, sendo necessário para tanto maior rigor metodológico (COOPER et al., 2015). Evidencia-se, portanto, a relevância da prescrição apropriada entre idosos que caracteriza-se pelo uso de medicamentos com evidências científicas para determinada indicação, boa tolerância e um favorável perfil de custo efetividade (NUNEZ-MONTENEGRO, 2019), consonante, portanto, com o contexto da promoção do Uso Racional de Medicamentos (URM), o qual é definido como: “o processo que compreende a prescrição apropriada; a disponibilidade oportuna e a preços acessíveis; a dispensação em condições adequadas; e o consumo nas doses indicadas, nos intervalos definidos e no período indicado, de medicamentos eficazes, seguros e de qualidade.” (OSÓRIO-DE-CASTRO et al, 2014. p. 59-60) Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 36 Segundo Bermudez e colaboradores (2018), há uma tendência de adotar a designação de ‘uso apropriado de medicamentos” (UAM), uma vez que o uso do termo “racional” pode ser utilizado com interesses deturpados. No Ciclo da Assistência Farmacêutica, o uso de medicamentos envolve a prescrição médica, a dispensação e a utilização propriamente dita. A receita médica é um instrumento legal e um meio de comunicação entre o profissional e o paciente, compreendendo a prescrição escrita de um plano terapêutico, medicamentoso ou não, com o objetivo de orientar o paciente ou seu cuidador (SANTI, 2016). Constitui-se como elemento de suma importância no cuidado ao paciente, devido aos desfechos positivos ou negativos que pode causar. Além de um tratamento ineficaz e não seguro, maus hábitos prescritivos podem exacerbar e prolongar uma enfermidade, causar eventos adversos preveníveis, aumentar os custos com saúde e ainda comprometer a qualidade de vida do indivíduo (EV et al., 2014). Porém, são vários os aspectos que podem influenciar na prática dos prescritores e contribuir para o uso indiscriminado de medicamento, como a variedade de produtos disponíveis no mercado, a propaganda de medicamentos, o marketing da indústria farmacêutica, a formação profissional e,inclusive, fatores socioculturais tanto do profissional quanto dos usuários (EV et al., 2014). Como estratégias para a promoção da prescrição apropriada, destaca-se a adoção do conceito de medicamentos essenciais (ME), pois a lista de itens selecionados deve apresentar a melhor opção terapêutica, baseada em evidências científicas e eficácia. Ademais, tem o potencial de orientar o registro, a produção, a comercialização e, sobremaneira, a prescrição de medicamentos, sendo esta a principal determinante do uso de medicamentos (COELHO et al., 2014; OSÓRIO-DE-CASTRO et al., 2014). Além da definição da lista nacional de medicamentos essenciais, a Organização Mundial da Saúde (OMS) propõe a adoção de diretrizes clínicas, a capacitação em farmacoterapia baseada em problemas, educação dos profissionais de saúde e informação isenta e fidedigna para os usuários de medicamentos (COELHO et al., 2014). No Brasil, foi elaborado o Formulário Terapêutico Nacional (1999 e 2008) e os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT), com critérios de diagnósticos, algoritmos de tratamento com os medicamentos e as doses adequadas, monitoramento de efetividade e supervisão de possíveis efeitos adversos, sendo estes mais voltados para o Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (BRASIL, 2018; BRASIL, 2020). Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 37 Diante dos riscos de eventos adversos, em 2017, a OMS estabeleceu o desafio global de “Medicação sem dano” que tem o objetivo de reduzir em 50% os danos evitáveis causados pela insegurança no uso de medicamentos em cinco anos. Dessa forma, como a polifarmácia é o principal fator associado a eventos adversos e ao uso de medicamentos inadequados para idosos, a OMS e alguns países tem elaborado orientações para a promoção da segurança no uso de medicamentos a partir, principalmente, do processo de prescrição (WHO 2019, GENERAL PRACTIONER GUIDELINE GROUP, 2014). Desde 2013, o Brasil possui o Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP) que tem como objetivo geral contribuir para a qualificação do cuidado em saúde e estabeleceu o Protocolo de Segurança na Prescrição e de Uso e Administração de Medicamentos, com a finalidade de minimizar a ocorrência de erros de medicação em todas as etapas da cadeia terapêutica (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2014). Em relação aos indivíduos idosos, a prescrição médica constitui-se um processo complexo e apresenta importantes desafios, como a não participação dessas pessoas em ensaios clínicos, a heterogeneidade da fase de senescência entre os idosos, a existência de comorbidades e ainda a possível utilização de outros medicamentos, o que incrementa o risco de eventos adversos e a prescrição inapropriada (ANATHHANAM et al., 2012; FIALOVÁ et al., 2019; ABDULAH et al., 2019). Santi (2016) relata que uma em cada cinco prescrições para idosos pode ser considerada inapropriada, evidenciando-se a importância da racionalização da terapêutica para evitar o alto risco de eventos adversos através de interações medicamentosas, confusão nos horários de administração e não adesão ao tratamento. A prescrição apropriada entre idosos deve buscar ser segura, efetiva e centrada no paciente (MAXWELL, 2010). É um processo que requer habilidade diagnóstica, conhecimento sobre medicamentos e compreensão de princípios de farmacologia, habilidade de comunicação, avaliação de riscos e, preferencialmente, experiência (MAXWELL, 2010). Para otimizar e garantir segurança e qualidade no tratamento de medicamentos deve-se considerar importantes etapas para um processo completo de prescrição (WHO, 2019; MULTIMEDICATION GUIDELINES, 2014), sendo eles: 1. Avaliação inicial do paciente: constitui-se como o início do processo prescritivo e requer responsabilidade dos profissionais de saúde após analisar os riscos e benefícios; 2. Revisão da medicação: Atividade multidisciplinar, buscando otimizar o uso de medicamentos e prevenir riscos evitáveis, envolvendo a identificação de problemas Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 38 relacionados a medicamentos e recomendação de intervenções. Alguns autores utilizam o MAI (Medication Apropriateness Index) que é um instrumento composto por questões que identificam a necessidade, segurança e efetividade dos medicamentos utilizados; 3. Comunicação e envolvimento do paciente: enfatiza a importância da comunicação adequada entre os provedores dos cuidados e o paciente com o intuito de prevenção de erros; 4. Decisão de prescrição: aborda a decisão do prescritor em acrescentar novos medicamentos, modificar o esquema terapêutico, por exemplo, com o aumento/ redução de doses, e, continuar ou descontinuar medicamentos em uso; 5. Dispensação e administração de medicamentos: etapas em que é possível identificar falhas no processo de prescrição acerca da adequação da complexidade do regime terapêutico; 6. Monitoramento: processo multidisciplinar realizado por médicos, farmacêuticos, enfermeiros e os cuidadores de idosos. Trata-se da oportunidade de identificação dos efeitos da farmacoterapia em uso, quando é possível observar o surgimento de sintomas inespecíficos como boca seca, confusão, fraqueza, relatos de alterações gastrointestinais, entre outros. No cuidado ao idoso, a prescrição não deve ser considerada como ponto estático e deve estar integrada à avaliação multidimensional da pessoa idosa. Trata-se de um processo dinâmico em que os benefícios e malefícios dos medicamentos devem ser monitorados, gerenciados e reavaliados em um processo longitudinal e abrangente (MARENGONI et al, 2015). Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 39 3 OBJETIVOS 3.1 Objetivo geral Analisar os medicamentos potencialmente inapropriados para idosos, desde a seleção de medicamentos essenciais à prescrição na Atenção Primária à Saúde. 3.2 Objetivos específicos a) Identificar a prevalência de medicamentos potencialmente inapropriados prescritos para idosos na atenção primária presentes na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME); b) Identificar a prevalência e os fatores associados de prescrição de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos na atenção primária; c) Compreender a prática prescritiva para idosos na Atenção Primária à Saúde na perspectiva de médicos. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 40 4 MÉTODO 4.1 Características da pesquisa Estudo descritivo e analítico com abordagem quantitativa e qualitativa, realizada através da triangulação de métodos que consiste na utilização de diferentes métodos, ambientes e perspectivas teóricas distintas para analisar um fenômeno de modo que ocorre uma complementação das diferentes perspectivas para a análise de um tema (FLICK, 2008). Neste caso, o fenômeno é o uso de medicamentos potencialmente inapropriados por idosos (MPI) em diferentes aspectos: das políticas públicas, da efetivação da utilização na atenção primária e a percepção dos médicos prescritores. Assim, foi desenvolvida apoiando-se em três métodos: 1) análise documental; 2) estudo transversal e 3) estudo de caso com abordagem qualitativa. As propostas metodológicas estão descritas a seguir. 4.2. Percurso metodológico 4.2.1. Análise documental: 4.2.1.1. Caracterização da pesquisa: A pesquisa documental propõe-se a compreender um fenômeno e consiste no exame de materiais que não foram utilizados ou que podem ser reexaminados, buscando-se outras interpretações ou informações complementares (FLICK, 2009). Considera-se documentos “quaisquer materiais escritosque possam ser usados como fonte de informação” (KRIPKA, 2015). Foi analisada a presença de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para Idosos (MPI) em diferentes edições da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (2010, 2013, e 2020) que se constitui como importante instrumento para a gestão da Assistência Farmacêutica no SUS (BRASIL, 2018). Observando-se a alteração no marco regulatório para a elaboração da RENAME, que a partir do Decreto n°7508/2011 passou a ser composta por todos os medicamentos e insumos a serem disponibilizados pelo SUS para a população brasileira (BRASIL, 2011a; BRASIL, 2011b), as edições escolhidas foram aquelas imediatamente anterior, posterior e a atual. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 41 Variáveis: Em cada edição da RENAME foi observado: a) a classificação dos medicamentos como potencialmente inapropriados (MPI) independente da condição clínica do idoso, conforme lista de AGS/ Beers vigente; em seguida, foi avaliada para cada MPI: b) sua presença na Lista de Medicamentos Essenciais (LME) da Organização Mundial de Saúde (OMS) (LME/OMS); e, c) Classe farmacológica, segundo a ATC (Anatomical Therapeutic Chemical Classification System). 4.2.1.2. Coleta de dados: Para analisar a presença de MPI e a questão da essencialidade conforme preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) foram utilizadas, respectivamente, as listas AGS/ Beers e as Listas de Medicamentos Essenciais (LME) da OMS vigentes à época das edições da RENAME (quadro 1). Quadro 1. Publicações da RENAME, Critério AGS/ Beers e Lista de Medicamentos Essenciais (LME) utilizados para análise dos medicamentos potencialmente inapropriados para idosos. RENAME Critério de Beers LME 2010 2003 2011 2013 2012 2013 2020 2019 2019 4.2.1.3. Análise dos dados Em cada edição da lista nacional, os princípios ativos foram organizados por ordem alfabética com seus respectivos códigos do Sistema de Classificação Anatômica Terapêutica Química (ATC) (Anatomical Therapeutic Chemical Classification System), recomendado pela OMS. Aqueles encontrados mais de uma vez ou com mais de uma classificação ATC foram contabilizados apenas uma vez. Foram excluídos da análise os insumos, os medicamentos fitoterápicos, homeopáticos e outros itens, conforme Yamauti e colaboradores (2017). A fim de determinar possíveis alternativas terapêuticas para os MPI prescritos, foram pesquisadas recomendações em critérios que descrevem alternativas terapêuticas, como o GheOP3S, Priscus e EU(7)PIM, e que constavam nas LME/OMS – 2019 e RENAME 2020 (MOTTER et al, 2018). Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 42 Os dados obtidos foram submetidos à análise estatística descritiva utilizando o SPSS (Statistical Package for Social Science) versão 22.0 e apresentados através de frequências absolutas e relativas. A análise da RENAME em suas diferentes edições permitiu o aprofundamento sobre o tema, corroborando com a fundamentação teórica, para posterior desenvolvimentos do estudo de campo de abordagem quantitativa e qualitativa. 4.2.2. Estudo transversal 4.2.2.1. Caracterização da pesquisa Os estudos seccionais ou transversais tem como um de seus objetivos descrever de que maneira algumas características estão distribuídas em uma população em determinada época, assim constitui-se como uma importante estratégia para planejamento e organização de ações de saúde (MEDRONHO, 2008). Foi realizada uma pesquisa de corte transversal, analítica, no período de março a dezembro de 2019, na Atenção Primária à Saúde (APS) no município de Campina Grande, na Paraíba, Nordeste brasileiro. Localizada no Agreste Paraibano, a cidade é sede do 3º Núcleo Regional de Saúde (NRS) do estado da Paraíba, considerada uma macrorregional por ser referência de serviços de saúde para outras cidades e ainda para o interior de Pernambuco e Rio Grande do Norte (LEITE e VELOSO, 2009). Campina Grande foi um dos primeiros municípios a adotar a descentralização dos serviços no Sistema Único de Saúde (SUS) e ainda uma das pioneiras a implantar o Programa Saúde da Família (PSF) em 1994 (NOGUEIRA, 2020). Em 2018, o município apresentava uma estimativa populacional de 410.332 habitantes, dos quais 43.390 eram pessoas acima de 60 anos (IBGE, 2020). A cobertura da Atenção Primária era de 87,73% da população estimada, organizada em 10 distritos sanitários, com 85 estabelecimentos de saúde, sendo 76 Unidades Básicas de Saúde, das quais 07 unidades básicas localizadas na Zona Rural e as demais na Zona Urbana. A APS contava ainda com 107 Equipes de Saúde da Família, 52 Equipes de Saúde Bucal e 09 Núcleos Ampliados de Saúde da Família – Atenção Básica (NASF-AB) (DATASUS, 2018). Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 43 4.2.2.2. Plano amostral A população alvo deste estudo foi constituída por idosos, indivíduos com 60 anos ou mais, atendidos nas unidades básicas de saúde (UBS) tanto da zona urbana quanto da zona rural do município e que buscaram a farmácia para aquisição dos seus medicamentos. Para o cálculo do tamanho amostral foi considerada a população como de referência 43.390 idosos, prevalência estimada de 50% para a variável dependente (utilização de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos – MPI), nível de 95% de confiança, erro de 5%, acrescentando uma perda de 20%, totalizando assim 458 idosos. Das 76 UBS do município, cinco não dispunham de serviços de dispensação de medicamentos e foram excluídas. A amostra total foi estratificada entre as UBS restantes de forma proporcional ao quantitativo da população idosa cadastrada por unidade de saúde. Os participantes da pesquisa foram selecionados consecutivamente por conveniência no momento da obtenção dos medicamentos prescritos na farmácia da UBS. 4.2.2.3. Variáveis O instrumento de coleta de dados utilizado foi um questionário semiestruturado (Apêndice A) dividido em três partes: a) características demográficas e socioeconômicas; b) condições de saúde e autopercepção de saúde; c) utilização de medicamentos. As variáveis independentes foram: a) características demográficas e socioeconômicas - sexo (masculino e feminino), faixa etária (60 a 69 anos, 70 a 79anos, acima de 80 anos), cor autorreferida (branca, negra e parda), situação conjugal (com companheiro e sem companheiro), renda mensal (inferior a um salário mínimo, um salário mínimo e acima de um salário mínimo, considerando o valor de R$998 (2019)) e anos de estudo (0 a 4 anos, 5 a 8 anos, 9 a 11 anos e acima de 12 anos); b) condições de saúde - doenças crônicas autorreferidas (Hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, artrite/ artrose, depressão e colesterol alto, conforme a Pesquisa Nacional de Acesso e Utilização de Medicamentos – PNAUM) e autopercepção de saúde (muito boa/boa, regular, ruim/muito ruim); c) utilização de medicamentos - nome e posologia do medicamento prescrito, uso de outros medicamentos além dos prescritos, local de aquisição dos medicamentos quando há desabastecimento na UBS, porcentagem de medicamentos prescritos presentes na RENAME e a ocorrência de polifarmácia (considerada como o uso de 5 ou mais medicamentos) Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 44 A variável dependente foi o medicamento classificado como potencialmente inapropriado para idoso (MPI) independente da condição clínica, conforme Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para idosos (CBMPI), que é formado por 118 critérios, dos quais 43 devem ser evitados independentes de condição clínica do idoso e 75 dependentesde determinadas condições de saúde (OLIVEIRA et al, 2016). 4.2.2.4. Coleta de dados Realizou-se um estudo piloto em 10 UBS, uma por distrito sanitário, a fim de avaliar o instrumento, o tempo de coleta de dados e a viabilidade da pesquisa. Após ajustes, a coleta de dados foi realizada nas 71 UBS onde havia dispensação de medicamentos, inclusive naquelas integrantes do estudo piloto. A fim de evitar viés de seleção, foram sorteados os dias da semana a serem visitados nas unidades e cada uma era visitada pelo entrevistador até alcançar a quantidade de idosos necessária para compor a amostra, evitando-se, dessa forma, perdas. Foram entrevistados idosos (idade igual ou superior a 60 anos) ou seu responsável que buscavam o serviço de saúde e, que no momento da entrevista, portavam documento com registro dos medicamentos utilizados pelo idoso (prescrição médica, cartão do usuário do SUS ou a caderneta de Saúde do Idoso). As perguntas subjetivas não foram aplicadas aos responsáveis pelos idosos entrevistados. 4.2.2.5. Análise dos dados As unidades de análise foram os idosos e os medicamentos. Para análise dos dados foi utilizado o SPSS (Statistical Package for Social Science) versão 22.0. Cada medicamento analisado também foi classificado de acordo com Anatomical Therapeutic Chemical classification system (ATC), recomendada pela OMS, nos níveis 1 (grupo anatômico) e 2 (subgrupo terapêutico); e de acordo com sua presença na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) edição 2018. Os resultados foram analisados, inicialmente, por meio da análise descritiva. A diferença entre os grupos foi avaliada pelo teste qui-quadrado, considerando como nível de significância p <0,05. As variáveis que se associaram ao uso de medicamentos potencialmente inadequados com p < 0,20 foram incluídas no modelo multivariado. No modelo final, foram mantidas as variáveis que se associaram à variável resposta com valor de p < 0,05. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 45 4.2.3. Estudo de caso 4.2.3.1 Caracterização do estudo Trata-se de um estudo de caso de abordagem qualitativa. O estudo de caso, segundo concepções de Yin (2015), é definido como a investigação empírica de um fenômeno que dificilmente será isolado ou dissociado do seu contexto e possibilita de forma aprofundada, capturar e compreender as vivências, percepções e as condições do contexto, considerando as particularidades do universo empírico. Neste estudo o “caso” foi definido como a prescrição de medicamentos para idosos na atenção primária à saúde. Já as unidades de análise são os profissionais prescritores, no caso os profissionais médicos. A pesquisa qualitativa segundo Yin (2016) permite com maior liberdade de escolha explorar o significado, as opiniões e perspectivas que as pessoas atribuem a um problema social ou humano, bem como auxiliar a explicar o comportamento social humano. 4.2.3.2.Cenário e período do estudo A pesquisa foi realizada no período de setembro a dezembro de 2019, tendo como cenário as unidades básicas de saúde da zona urbana e rural da Atenção Primária do município de Campina Grande, PB. Localizada no Agreste Paraibano, a cidade é sede do 3º Núcleo Regional de Saúde (NRS) do estado da Paraíba, considerada uma macrorregional por ser referência de serviços de saúde para outras cidades e ainda para o interior de Pernambuco e Rio Grande do Norte (LEITE e VELOSO, 2009). Campina Grande foi um dos primeiros municípios a adotar a descentralização dos serviços no Sistema Único de Saúde (SUS) e ainda uma das pioneiras a implantar o Programa Saúde da Família (PSF) em 1994 (NOGUEIRA, 2020). Em 2018, o município apresentava uma estimativa populacional de 410.332 habitantes, dos quais 43.390 eram pessoas acima de 60 anos (IBGE, 2018). A cobertura da Atenção Primária era de 87,73% da população estimada, organizada em 10 distritos sanitários, com 85 estabelecimentos de saúde, sendo 76 Unidades Básicas de Saúde, das quais 07 unidades básicas localizadas na Zona Rural e as demais na Zona Urbana. A APS contava ainda com 107 Equipes de Saúde da Família, 52 Equipes de Saúde Bucal e 09 Núcleos Ampliados de Saúde da Família – Atenção Básica (NASF-AB) (DATASUS, 2018). No período da coleta de dados, havia 118 médicos vinculados à Estratégia Saúde da Família (ESF). Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 46 4.2.3.3.Participantes do estudo Em pesquisas qualitativas a escolha dos participantes ou das unidades de análise geralmente ocorre de forma deliberada, ou seja, a amostra do tipo intencional (YIN, 2016). Para escolha dos profissionais médicos da equipe de saúde da família foram considerados os seguintes critérios de inclusão: ser do quadro efetivo do município, atuar na ESF desenvolvendo ações de assistência à saúde, por no mínimo seis meses, demonstrando vivência e experiência na APS. Foram excluídos os profissionais que estavam de férias ou de licença no período da coleta de dados. Foi feito o sorteio de uma UBS por distrito sanitário, totalizando dez participantes. Em cada UBS, o pesquisador se apresentava à(o) recepcionista e este perguntava ao médico acerca da possibilidade da realização da entrevista. Em caso de impossibilidade, o pesquisador retornava outro dia. No momento da entrevista, o pesquisador se apresentava, explicava os objetivos da pesquisa, entregava para cada participante uma cópia do projeto e duas do TCLE para conhecimento e assinatura. Dois prescritores recusaram-se a participar da pesquisa, argumentando falta de tempo, assim, foi realizado o sorteio de outra UBS do mesmo distrito sanitário. Participaram do estudo 10 profissionais médicos. 4.2.3.4.Coleta de dados Para coleta de dados foi utilizado um instrumento dividido em duas partes. A primeira foi um questionário sociodemográfico contendo as seguintes variáveis: idade, sexo, formação, nível de escolaridade e tempo de atuação na APS (Apêndice B). A segunda parte foi um roteiro de entrevista semiestruturado construído a partir dos objetivos da pesquisa que parte da reflexão acerca da prática prescritiva para idosos na APS, contendo três questões norteadoras que abordavam a percepção dos médicos sobre a realização do cuidado ao idoso na Atenção Primária à Saúde, sobre a prática prescritiva e os desafios para a prescrição de medicamentos para esse público (Apêndice B). Foi realizado um estudo piloto para avaliar o instrumento, duração da entrevista, dificuldades e a viabilidade da pesquisa. O roteiro de entrevista sofreu ajustes nas perguntas de forma a minimizar a indução das respostas e responder os objetivos da pesquisa. As entrevistas foram gravadas utilizando gravador digital, em espaço restrito, nos consultórios médicos com presença apenas do pesquisador e do participante da pesquisa, a fim de evitar constrangimento e garantir a confidencialidade. Foram realizadas 10 entrevistas que Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 47 tiveram duração de 10 a 24 minutos. Em cada visita às UBS, o pesquisador também registrou em um diário de campo as impressões e observações sobre as entrevistas. O encerramento da coleta de dados ocorreu quando da saturação dos dados que consiste na suspensão de inclusão de novos participantes quando os dados obtidos passam a apresentar, na avaliação do pesquisador, uma certa redundância ou repetição (FLICK, 2008). 4.2.3.5.Análise dos dados As entrevistas com os profissionais prescritores participantes foram transcritas para o Microsoft Word (versão Windows 10). A fim de garantir o anonimato dos participantes da pesquisa, os médicos entrevistados foram identificados como M1, M2, e assim por diante. Paraanálise dos dados, foi utilizado o método de análise de conteúdo de Bardin (2011). A autora define a análise de conteúdo como um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção dessas mensagens. Foi utilizada a modalidade de análise temática que é realizada em três etapas: a primeira consiste na pré-análise através de leitura flutuante, constituição do corpus, formulação e reformulação de hipóteses e objetivos e a referenciação dos índices e elaboração de indicadores, que envolve a determinação de indicadores por meio de recortes de texto nos documentos de análise; a segunda etapa abrange a exploração do material, com a definição de categorias (sistemas de codificação), a identificação das unidades de registro e das unidades de contexto nos documentos; e a terceira etapa que consiste na interpretação dos resultados quando ocorre a condensação e o destaque das informações para análise, culminando nas interpretações inferenciais; é o momento da intuição, da análise reflexiva e crítica (BARDIN, 2011). As categorias para análise foram definidas, considerando os objetivos da pesquisa, o referencial teórico e as entrevistas com os participantes. A partir da análise das respostas dos prescritores, surgiram duas categorias principais que foram divididas em subcategorias (quadro 2). A interpretação e análise dos dados foram realizadas a partir da literatura pertinente no que concerne à temática. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 48 Quadro 2. Categorias e subcategorias identificadas a partir das entrevistas sobre a prescrição para idosos com médicos da Atenção Primária à Saúde. Campina Grande, PB, 2019. Categorias/ subcategorias 1 - Abordagem dos prescritores no atendimento aos idosos na APS 1.1. Promoção de hábitos saudáveis e enfoque no diagnóstico, controle e tratamento de doenças e agravos não transmissíveis prevalentes em idosos 1.2. Além da consulta médica: a importância do trabalho em equipe e a relevância do suporte familiar 2 - Prescrição de medicamentos para idosos: o olhar dos médicos 2.1. A problemática da polifarmácia e a importância da orientação sobre o uso de medicamentos 2.2. O uso de benzodiazepínicos como principais medicamentos inapropriados para idosos 2.3. Desafios para a prescrição de medicamentos para idosos: da medicalização à lista de medicamentos 4.3. Aspectos éticos A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital Universitário Onofre Lopes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (CEP/HUOL/UFRN) (Parecer 3.130.100/2019) (Anexo A). Os participantes ou responsáveis foram orientados quanto aos objetivos da pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndices C, D e E), tendo sido garantida a confidencialidade. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 49 5 RESULTADOS E DISCUSSÃO Os resultados deste trabalho estão divididos em três artigos: Artigo 1: Prescrição inapropriada para idosos e a lista de medicamentos essenciais: há alternativas? (submetido à Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia – anexo B); as normas para a publicação encontram-se no link https://www.rbgg.com.br/ ; Artigo 2: Prescrição de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para idosos: um estudo na Atenção Primária à Saúde (publicado no número temático “Do Mar ao Sertão: a Estratégia Saúde da Família no Nordeste Brasileiro” da Revista Ciência & Saúde Coletiva – disponível em https://doi.org/10.1590/1413-81232021265.04532021) ; Artigo 3: A prática prescritiva para idosos: perspectivas de médicos na Atenção Primária à Saúde (artigo a ser submetido à Revista Interface – Comunicação, Saúde e Educação), cujas normas para publicação encontram-se no link https://interface.org.br/submissao 5.1 PRESCRIÇÃO INAPROPRIADA PARA IDOSOS E LISTA DE MEDICAMENTOS ESSENCIAIS: HÁ ALTERNATIVAS? Inappropriate prescribing for elderly and essential medicines list: are there alternatives? Prescrição inapropriada para idosos e medicamentos essenciais Inappropriate prescribing for elderly and essential medicines list RESUMO Objetivos: Identificar a presença de Medicamentos Potencialmente Inapropriados (MPI) em edições da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME), comparar com medicamentos prescritos na Atenção Primária à Saúde (APS) e identificar alternativas terapêuticas na lista nacional. Métodos: Foram realizadas duas etapas: 1) analisou-se os medicamentos das RENAME nas edições 2010, 2013 e 2020 de acordo com as listas AGS/Beers e as Listas Modelo de Medicamentos Essenciais (LME) vigentes à época; a RENAME 2020 foi analisada conforme o https://www.rbgg.com.br/ https://doi.org/10.1590/1413-81232021265.04532021 https://interface.org.br/submissao Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 50 Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para Idosos (CBMPI); 2) foi realizado um estudo transversal com 458 idosos atendidos na APS em que identificou-se os MPI prescritos e buscou-se alternativas seguras na RENAME para os medicamentos inapropriados. Resultados: Observou-se aumento da presença de MPI de 4,7% (13/277), em 2010, para 8,5% (35/411) em 2020 e de 30,8% (4), em 2010, para 37,2% (13), em 2020, daqueles que não integravam a EML. A maioria dos MPI faz parte dos Componentes Básico e Especializado da Assistência Farmacêutica. Conforme o CBMPI, 11,9% (49) eram MPI. Dos 1449 medicamentos prescritos, 91,6% compunham a RENAME e 19,3% eram MPI. Destes, 73,5% (205) compunham a lista nacional e a maioria atuavam no Sistema Nervoso Central. Observaram-se poucas alternativas terapêuticas seguras para idosos na RENAME. Conclusões: Evidenciou-se um aumento na presença de MPI nas edições e elevada conformidade entre MPI prescritos na APS e a RENAME. Faz-se pertinente garantir acesso aliado à segurança de medicamentos para os idosos, através da inclusão de opções mais seguras na RENAME e capacitação dos prescritores. Descritores: Medicamentos essenciais. Lista de Medicamentos Potencialmente Inapropriados. Prescrições de Medicamentos. Idoso. Introdução A Organização Mundial de Saúde (OMS) define medicamentos essenciais como aqueles que satisfazem as necessidades prioritárias de saúde de uma população, devendo estar disponíveis no contexto dos sistemas de saúde, em quantidades e qualidade adequadas para a população1. Em 1998, quando a Política Nacional de Medicamentos (PNM) foi publicada, o conceito de essencialidade alinhava-se ao da OMS e entre suas diretrizes estava a adoção da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME), como eixo norteador para os esforços de desenvolvimento, regulação, produção, abastecimento e utilização de medicamentos,2,3. A lista de medicamentos essenciais é considerada fundamental para a prescrição racional e sua disseminação permite a melhoria do acesso e da qualidade no uso de medicamentos3. Em 2011, com a regulamentação da Lei Orgânica da Saúde (LOS) através do Decreto nº 7.508, a Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 51 RENAME passou a ser composta por todos os insumos e medicamentos a serem ofertados pelo Sistema Único de Saúde (SUS)5,6. A PNM ainda enfatizou o processo de envelhecimento populacional como catalisador de novas demandas por maior consumo de medicamentos, além de novos procedimentos terapêuticos com a utilização de medicamentosde alto custo o que gera a necessidade de adequação na organização dos sistemas de saúde2. Diante do envelhecimento demográfico e da transição epidemiológica, deve existir uma preocupação com a manutenção da qualidade de vida e a necessidade de políticas públicas e cuidados específicos para os idosos9. É possível prever um aumento na utilização de medicamentos para tratamento de doenças crônicas, sendo este um importante aspecto a ser considerado na assistência ao idosos9. A Pesquisa Nacional de Acesso e Utilização de Medicamentos (PNAUM)9 identificou que 93% dos idosos brasileiros utilizavam pelo menos um medicamento e que 18% eram polimedicados (uso de 5 medicamentos ou mais), o que acarreta uso inadequado de medicamentos com possível menor adesão ao tratamento e maior incidência de efeitos adversos. Outro estudo do mesmo inquérito observou que 96,2% dos idosos relataram acesso aos medicamentos de uso contínuo, sendo 46% de forma gratuita e a maioria estava incluída na RENAME10. É necessário, portanto, considerar, a segurança na utilização de medicamentos pelos idosos, pois existem aqueles que podem causar mais riscos que benefícios, os denominados Medicamentos Potencialmente Inapropriados para Idosos (MPI)10, cuja utilização está associada com maior fragilidade, aumento do risco de hospitalização e utilização dos serviços de emergência, além do aumento dos custos com medicamentos e mortalidade11. Existem diversas listas que relacionam os MPI com o objetivo de contribuir para o uso de medicamentos seguros por idosos, sendo uma das mais utilizadas o Critério de Beers (EUA)11. No Brasil, devido às diferenças na disponibilidade de medicamentos e nas condutas prescritivas adotadas, em 2016 foi publicado o Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para Idosos (CBMPI), uma adaptação de critérios internacionais12. Nesse sentido, com o intuito de abordar a segurança de medicamentos disponibilizados para os idosos no SUS, esse artigo teve como objetivos analisar a presença de MPI no decorrer de diferentes edições da lista nacional, comparar com MPI prescritos na APS e identificar possíveis alternativas terapêuticas elencadas na RENAME. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 52 Métodos Trata-se de um estudo descritivo, exploratório, de abordagem quantitativa realizado em duas etapas: primeiramente, foi procedida uma análise documental da presença de medicamentos potencialmente inapropriados (MPI) em distintas edições da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) e em seguida, a partir de estudo transversal que identificou MPI prescritos na Atenção Primária à Saúde, foi feita a identificação na lista nacional de possíveis alternativas terapêuticas mais seguras para idosos. Na análise documental foi verificada a presença de MPI em diferentes edições da RENAME (2010, 2013, e 2020)7,13,14. Tais listas foram escolhidas tendo como marco a regulamentação da Lei Orgânica da Saúde (LOS) pelo decreto 7.508/2011: a lista imediatamente anterior (2010)13, a posterior (2013)14 (publicada em junho/2012) e a atual (2020)7. Os instrumentos utilizados para analisar a presença de MPI foram as listas de Beers11,15,16, e as Listas Modelo de Medicamentos Essenciais (LME)17,18,19 da Organização Mundial da Saúde (OMS) vigentes em cada edição da RENAME7,15,16), por ter homogeneidade na sua estruturação e atualizações ao longo do tempo. A lista de Beers foi desenvolvida em 1991 a partir de consenso de experts no cuidado geriátrico, passando por atualizações em 1997 e 2003 e a partir de 2012, American Geriatrics Society (AGS) tornou-se responsável pelas atualizações13,17,18. A lista de medicamentos essenciais da OMS (LME) atualmente está em sua 21ª edição e é composta por uma lista principal que inclui os medicamentos necessários para um sistema básico de assistência médica, listando os medicamentos mais eficazes, seguros e de baixo custo para condições prioritárias, que são selecionadas com base na relevância atual e futura estimada da saúde pública e no potencial de tratamento seguro e econômico. Em cada edição da RENAME analisada, os princípios ativos foram listados por ordem alfabética com seus respectivos códigos do Sistema de Classificação Anatômica Terapêutica Química (ATC) (Anatomical Therapeutic Chemical Classification System), recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Aqueles encontrados mais de uma vez ou com mais de uma classificação ATC foram contabilizados apenas uma vez. Foram excluídos da análise os insumos, os medicamentos fitoterápicos, homeopáticos e outros itens, conforme Yamauti et al.(2017)20. Dessa maneira, para os medicamentos incluídos foi observado: a) sua classificação como MPI independente da condição clínica do idoso, conforme Critérios AGS/ Beers vigente, Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 53 que são aqueles medicamentos e classes farmacológicas que possuem alto risco de toxicidade, eventos adversos em idosos e eficácia limitada e que devem ser evitados em favor de um medicamento alternativo mais seguro ou uma abordagem não medicamentosa16; em seguida, foi avaliado b) sua presença na Lista de Medicamentos Essenciais (LME) da Organização Mundial de Saúde (OMS); c) o Componente do Financiamento da Assistência Farmacêutica ao qual pertencia (RENAME edições 2013 e 2020, pois na publicação de 2010 não havia a classificação dos medicamentos segundo componentes); e, d) Classe farmacológica, segundo a ATC. Os medicamentos da RENAME 2020 ainda foram analisados seguindo o Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para idosos (CBMPI)14. A segunda etapa do trabalho faz parte dos resultados de um estudo transversal, realizado no período de março a dezembro de 2019, na Atenção Primária à Saúde (APS) no município de Campina Grande, PB, que apresentava uma estimativa populacional de 410.332 habitantes, dos quais 43.390 eram pessoas acima de 60 anos. A cobertura da Atenção Primária era de 87,73% da população estimada, dividida em 10 distritos sanitários, com 76 Unidades Básicas de Saúde. A população alvo deste estudo foi constituída por idosos, indivíduos com 60 anos ou mais, atendidos nas unidades básicas de saúde (UBS) tanto da zona urbana quanto da zona rural do município. Para o cálculo do tamanho amostral foi considerada a população como de referência 43.390 idosos, prevalência estimada de 50% para a variável dependente (utilização de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos – MPI), nível de 95% de confiança, poder estatístico de 95%, acrescentando uma perda de 20%, totalizando assim 458 idosos. Foi realizada uma amostragem por conglomerados, nas unidades básicas de saúde, calculando-se proporcionalmente de acordo com a população idosa cadastrada por UBS. Os indivíduos participantes da pesquisa foram selecionados aleatoriamente. Realizou-se um estudo piloto em 10 UBS, uma por distrito sanitário, a fim de avaliar o instrumento, o tempo de coleta de dados e a viabilidade da pesquisa. Após ajustes, a coleta de dados foi realizada nas 71 UBS onde havia dispensação de medicamentos. Foram entrevistados idosos ou seu responsável que buscavam o serviço de saúde e, que no momento da entrevista, portavam documento com registro dos medicamentos utilizados pelo idoso (prescrição médica, cartão do usuário do SUS ou a caderneta de Saúde do Idoso), sendo registrados para cada medicamento o nome e posologia prescritos. Em uniformidade com a análise documental, cada item foi classificado conforme a ATC, classificado se MPI independente de condição clínica, de acordo com o CBMPI, e se integrante da RENAME 2020. A fim de determinar possíveis alternativas terapêuticas para os Medicamentospotencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 54 MPI prescritos, foram pesquisadas recomendações em critérios que descrevem alternativas terapêuticas, como o GheOP3S, Priscus e EU(7)PIM, e que constavam nas LME/OMS – 2019 e RENAME 202021. Os dados obtidos foram submetidos à análise estatística descritiva utilizando o SPSS (Statistical Package for Social Science) versão 22.0 e apresentados através de frequências absolutas e relativas. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital Universitário Onofre Lopes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (CEP/HUOL/UFRN) (Parecer 3.130.100/2019). Resultados A partir das análises das edições da RENAME, foi evidenciado um aumento da presença dos Medicamentos Potencialmente Inapropriados para Idosos (MPI) da edição de 2010 para 2013, mantendo-se estável para a edição de 2020. Considerando os Critérios AGS/Beers, na lista de 2010, havia 4,7% (13/277); em 2013, 8,8% (29/328) e em 2020, 8,5% (35/411) (tabela 1). Ao analisar os medicamentos classificados como MPI na RENAME que não compunham as Listas Modelo de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial de Saúde (LME) verificou-se um incremento de 30,8% (4), em 2010, para 37,2% (13), em 2020 (tabela 1). Na RENAME 201017, os MPI fora da LME eram cloridrato de prometazina, dexclorfeniramina, óleo mineral e tiopental sódico; acrescentando, em 2013, além dos citados acima: clonazepam, estriol, estrogênios conjugados, glibenclamida, mesilato de doxazosina, naproxeno, olanzapina, quetiapina e somatropina; e, incorporando ainda na edição 2020, o cloridrato de nortriptilina, cloridrato de triexifenidil, ziprasidona. A maioria dos MPI identificados tem sido ofertado pelo Componente Básico, seguido do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, respectivamente: 82,7% e 17,3%, em 2013, e 74,3% e 22,9% em 2020. De acordo com o Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados (CBMPI), 11,9% (49) eram MPI e apenas 4,1% (02) não eram dos componentes básico e especializado da Assistência Farmacêutica (tabela 1). Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 55 Tabela 1. Distribuição dos Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos por edição da RENAME (2010, 2013, 2020). Variável Critérios AGS/Beers CBMPI*** 2010 (n) % 2013 (n) % 2020 (n) % 2020 (n) % Presença de MPI Sim 13 4,7 29 8,8 35 8,5 49 11,9 Não 265 95,3 299 91,2 376 91,5 362 88,1 Total 277 100,0 328 100,0 411 100,0 411 100,0 MPI presentes na LME* Sim 09 69,2 17 58,6 22 62,8 33 67,3 Não 04 30,8 12 41,4 13 37,2 16 32,7 Total 13 100,0 29 100,0 35 100,0 49 100,0 Presença de MPI** entre os Componentes da Assistência Farmacêutica Básico - - 24 82,7 26 74,3 34 69,4 Especializado - 05 17,3 08 22,9 13 26,5 Estratégico - - 0 0 01 2,8 02 4,1 Total 29 100,0 35 100,0 49 100,0 * Lista Modelo de Medicamentos Essenciais da OMS ** Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos *** Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para Idosos Fonte: Dados da pesquisa, 2020. Conforme a classificação ATC, os MPI que agem no Sistema Nervoso Central (SNC) foram os mais prevalentes nas edições da RENAME: em 2010, eram 30,7% (04/13); em 2013, 37,9% (11/29) e em 2020, 42,8% (15/35). Segundo o CBMPI, as classes farmacológicas que mais apresentaram MPI foram o Sistema Nervoso Central (38,7%) e os preparados Hormonais sintéticos (18,4%) e cardiovascular (16,3%) (quadro 1). Quadro 1. Distribuição por grupo farmacológico dos medicamentos potencialmente inapropriados para idosos presentes por edição da RENAME. Grupo farmacológico ATC/ medicamentos Critérios AGS/ Beers CBMPI 2010 2013 2020 2020 N – Sistema nervoso 04 Amitriptilina, Diazepam, Fluoxetina, Tiopental sódico 11 Amitriptilina1, Clonazepam1, Clomipramina1, Clorpromazina1, Clozapina2, Diazepam1, Fenobarbital1, Haloperidol1, Olanzapina2, Quetiapina2 Risperidona2 15 Amitriptilina1 Clomipramina1 Clonazepam1, Clorpromazina1, Clozapina2, Diazepam1, Fenobarbital1, Haloperidol1, Midazolan1, Nortriptilina1, Olanzapina2, 19 Amitriptilina1, Biperideno1, Clobazam2, Clomipramina1 Clonazepam1, Diazepam1, Clorpromazina1 Clozapina1, Fenobarbital1, Haloperidol Metadona2 Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 56 Risperidona2, Quetiapina2, Triexifenidil1, Ziprasidona2 Midazolam, Morfina2 Nortripilina1, Olanzapina2, Quetiapina2, Risperidona2, Triexifenidil2, Ziprasidona2 C–Sistema cardiovascular 04 Amiodarona, Digoxina, Metildopa, Nifedipino 05 Amiodarona 1, Digoxina1, Doxazosina1, Metildopa1, Nifedipino2 05 Amiodarona1, Digoxina1, Doxazosina1, Metildopa1 Nifedipino1, 08 Amiodarona1 Doxazosina1, Digoxina1*, Espironolactona1* Furosemida1 Metildopa1 Nifedipino1 Propafenona1 H - Preparados hormonais sintéticos - 01 Somatropina2 02 Somatoprina2, Desmopressina3 09 Betametasona1* Budesonida1*, Dexametasona1*, Fludrocortisona2* Metilprednisolona3*, Prednisolona1*, Dexametasona1*, Prednisona1 Somatropina2 G – Sistema genitourinário - 02 Estriol1, Estrogênios conjugados1 02 Estriol1 Estrogênios conjugados1, 02 Estriol1, Estrogênios conjugados1 R – Sistema respiratório 02 Dexclorfeniramina, Prometazina 02 Dexclorfeniramina1, Prometazina1 02 Dexclorfeniramina1, Prometazina1 03 Dexclorfeniramina1, Prometazina1 Codeína 1 A – Aparelho digestório e metabolismo - 03 Glibenclamida1, Metoclopramida1, Omeprazol1, 04 Atropina1, Glibenclamida1, Metoclopramida1, Omeprazol1 03 Glibenclamida1 Metoclopramida1 Omeprazol1 Demais grupos 03 Sulfato ferroso* Nitrofurantoína, Óleo Mineral 05 Ácido acetilsalicílico1*, Ibuprofeno1, Naproxeno2, Nitrofurantoína1, Óleo mineral1 05 Ácido acetilsalicílico1* Ibuprofeno1, Naproxeno2, Nitrofurantoína1 Óleo mineral1 05 Ácido acetilsalicílico1* Ibuprofeno1, Naproxeno2, Nitrofuranoína1 Óleo mineral1 Total 13 29 35 49 Fonte: Dados da pesquisa, 2020. 1 – medicamento pertencente ao Componente Básico da Assistência Farmacêutica; 2 – medicamento pertencente ao Componente Especializado da Assistência Farmacêutica; 3 – medicamento pertencente aos demais componente da Assistência Farmacêutica (estratégico, hospitalar). * - medicamentos que devem ser evitados acima de determinadas doses ou período de uso. A partir das prescrições dos idosos foram identificados 1449 medicamentos prescritos, dos quais 91,6% estavam elencados na RENAME 2020 e 19,3% (279) foram classificados como MPI. Destes, 73,5% (205) estão presentes na lista nacional e a maioria tem atuação no Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 57 Sistema Nervoso Central e Trato alimentar e metabolismo. As alternativas terapêuticas disponibilizadas na RENAME para esses medicamentos estão apresentadas na tabela 2. Tabela 2. Medicamentos potencialmente inapropriados prescritos para idosos prescritos na Atenção Primária à Saúde presentes na RENAME (2020) e suas possíveis alternativas farmacológicas. ATC/ Medicamento n % Alternativa terapêutica na RENAME e LME N – Sistema Nervoso 83 40,5 N05B – Ansiolíticos (Diazepam, Clobazam) 31 15,1 Não N06A – Psicoanalépticos (Amitriptilina, Nortriptilina) 31 15,1 Fluoxetina* N05A – Psicolépticos (Haloperidol, Clorpromazina,Risperidona, Carbonato de lítio, Quetiapina) 09 4,4 Não N03A – Antiepilépticos (Fenobarbital, Valproato de sódio) 12 5,9 Fenitoína*, Carbamazepina*, Oxcarbamazepina* A – Trato alimentar e metabolismo 52 25,3 A02B – Drogas para úlcera péptica e refluxo gastroesofágico (Omeprazol) 29 14,1 Não A10B – Drogas redutoras de glicose no sangue (Glibenclamida) 23 11,2 Gliclazida, Metformina C – Sistema Cardiovascular 48 23,4 C03C – Diuréticos de alça (Furosemida) 28 13,7 Não C01A – Glicosídios cardíacos (Digoxina) 7 3,4 Não C01B – Antiarrítmicos, classes I e III (Amiodarona) 5 2,4 Não C02A – Agentes antiadrenérgicos de ação central (Metildopa) 4 2,0 Não C08C – Bloqueadores de canal de cálcio com efeito vascular princiapal (Nifedipino) C02C - Doxazosina 3 01 1,5 0,5 Anlodipino Não M – Sistema musculoesquelético M01A – Produtos antiinflamatórios e anti-reumáticos não esteróides (Ibuprofeno) 08 3,9 Paracetamol R – Sistema Respiratório 07 3,4 R06A – Antihistamínicos de uso sistêmico (Prometazina, Dexclorfeniramina) R01A – Descongestionantes e outras preparações nasais de origem tópica (Budesonida) 06 01 2,9 0,5 Loratadina Não H – Preparados hormonais sintéticos H02A – Corticosteróides de uso sistêmico (Prednisolona, Prednisona, Dexametasona, Betametasona) 07 3,4 Não Total 205 100,0 *Medicamentos considerados MPI dependendo de condições clínicas de idosos, como histórico de quedas/ fraturas. Fonte: Dados da pesquisa, 2020. Para os MPI prescritos fora do elenco nacional, buscou-se opções seguras presentes na RENAME: apenas Etossuximida e Levetiracetam (escolhas para o Clonazepam) não estavam relacionados no CBMPI (tabela 3). Tabela 3. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos prescritos na Atenção Primária à Saúde fora da RENAME (2020) e suas possíveis alternativas terapêuticas disponibilizadas na lista nacional. Medicamento n % Alternativas na RENAME N – Sistema Nervoso Central 61 85,0 N03A – Antiepilépticos (Clonazepam*) 49 66,2 Etossuximidaª, Levetiracetamª, Valproato Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 58 de sódio, Carbamazepina, Fenitoína, Fenobarbital, Gabapentina, Lamotrigina, Primidona, Topiramato, Vigabatrina N05A – Psicolépticos (Alprazolam, Bromazepam, Clordiazepóxido, Levomepromazina) 10 15,0 Clorpromazina, Ziprasidona, Haloperidol, Quetiapina, Olanzapina, Risperidona, Carbonato de lítio N06A – Psicoanalépticos (Escitalopram, Venlafaxina) 2 2,8 Fluoxetinab, Amitriptilina, Bupropiona, Clomipramina, Nortriptilina M – Sistema Musculoesquelético 8 10,9 M01A – Produtos antiinflamatórios e anti- reumáticos não esteróides (Indometacina, Piroxicam, Diclofenaco e associações) 5 6,8 Ibuprofeno, Naproxeno M03B – Relaxantes musculares, agentes de ação central (Ciclobenzaprina) 3 4,1 Não A – Trato alimentar e metabolismo A02B - Drogas para úlcera péptica e refluxo gastroesofágico (Pantoprazol) 3 4,1 Omeprazol C – Sistema Cardiovascular C02A – Agentes antiadrenérgicos de ação central (Clonidina) 2 2,8 Metildopa Total 74 100,0 *Medicamento prescrito na forma farmacêutica distinta à presente na RENAME. a – medicamento não classificado como MPI no CBMPI b – medicamento classificado como MPI dependente da condição clínica do idoso Discussão O estudo possibilitou evidenciar que, nas edições analisadas da RENAME, houve um aumento na presença de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos (MPI), especialmente de medicamentos que atuam no Sistema Nervoso Central (SNC) e que compõem o CBAF. Verificou-se uma elevada conformidade entre os medicamentos prescritos na APS e a lista nacional, inclusive dos MPI, e ao analisar alternativas farmacológicas para esses medicamentos, observaram-se poucas opções mais seguras na RENAME para uso por idosos. Diante das inovações tecnológicas e das pressões do mercado farmacêutico, a seleção de medicamentos essenciais tem sofrido mudanças no decorrer do tempo, principalmente no que se refere à custo e prioridade22. No Brasil, desde a PNM até 2012, a RENAME comungava da definição da OMS, buscando garantir a integralidade da assistência terapêutica atrelado ao conceito de essencialidade23. De acordo com Bermudez et al.23, esse conceito implica em ações regulatórias como restrições de registro de medicamentos de valor terapêutico duvidoso, Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 59 capacitação de profissionais prescritores e monitoramento do uso. Porém, diante da flexibilização para o registro de medicamentos, pressões por inovação e do mercado, da dificuldade de acesso na obtenção de medicamentos especializados e da crescente judicialização de medicamentos, houve um deslocamento do conceito de essencialidade para a incorporação de medicamentos em que a RENAME passou a corresponder à lista de medicamentos que devem ser ofertados pelo SUS, atendendo a questões de gestão3,23, resultando em um significativo aumento do número de medicamentos na lista nacional3, o que pode ter contribuído para o incremento de MPI, principalmente no Componente Especializado da Assistência Farmacêutica. Observou-se também um aumento de MPI que não estão incluídos na LME. Refletindo uma tendência mundial, a lista modelo da Organização Mundial de Saúde (OMS) tem apresentado algumas contradições na sua construção no decorrer das edições, aumentando o número de itens selecionados e incluindo medicamentos caros e/ou de menor prevalência22. No entanto, ao considerar a prevalência de doenças, dados sólidos e adequados sobre critérios de seleção, a LME corresponde às melhores opções a seguir na elaboração do elenco de medicamentos essenciais nos países22. Outros estudos que identificaram a presença de MPI em listas de medicamentos essenciais também verificaram significativa prevalência23,24. A RENAME deve ser utilizada como instrumento norteador para a elaboração de listas de medicamentos em âmbitos estadual, municipal e nos serviços de saúde, cabendo aos gestores incluir medicamentos em cada nível de atenção à saúde2, que pode favorecer disponibilização de MPI para a Assistência Farmacêutica no Sistema Único de Saúde (SUS). O Componente Básico da Assistência Farmacêutica (CBAF) abrange os medicamentos destinados a tratamento de agravos prevalentes, principalmente, no âmbito da Atenção Primária à Saúde7, considerada como porta de entrada para a atenção ao idoso26, porém foi o componente que apresentou maior número de MPI. Ao analisar as prescrições para idosos oriundas da APS, evidenciou-se grande conformidade com a RENAME, o que pode decorrer da prescrição dos medicamentos de acordo com a disponibilidade nas farmácias27. É considerado um aspecto positivo pois ao prescrever o que está elencado na RENAME, o profissional de saúde contribui para o acesso a medicamentos pelos idosos usuários do SUS e para o controle e tratamento das doenças, além de evitar processos judiciais27. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 60 Contudo, também verificou-se uma elevada prescrição de MPI na APS consonante com a RENAME, o que deve constituir um alerta, tendo em vista que estudos identificaram que visitas a emergências e admissão hospitalar de idosos com uso de pelo menos um MPI é frequente, favorecendo internação, exposição dos idosos ao uso de mais medicamentos e aumento dos gastos com saúde11,12,13,. A classificação por grupos farmacológicos dos MPI reflete que os mais disponibilizados pela RENAME também são os mais utilizados nos estudos de prevalência28,29 e nos nossos achados na APS. No entanto, forampoucas as opções mais seguras elencados na RENAME para os MPI prescritos. Destacaram-se os MPI que atuam no SNC. Estes medicamentos apresentam moderada a alta qualidade de evidência científica e forte recomendação para serem evitados independente da condição clínica do idoso e são associados a sedação, déficit cognitivo, alto risco de dependência, riscos de quedas e aumento de hospitalizações por idosos10,12,. Nesse grupo, os benzodiazepínicos têm grande relevância em virtude de seu elevado uso por idosos e a ausência de opções não MPI na RENAME. Frequentemente usados para transtornos de ansiedade e insônia, os idosos apresentam uma sensibilidade aumentada e diminuição do metabolismo desses medicamentos12. Assim, recomenda-se a utilização de dose inferior à adulta, higiene do sono11,12 e como alternativa para racionalizar a utilização de benzodiazepínicos e evitar os prejuízos causados, alguns trabalhos tem relatado o sucesso da prática de desprescrição, que consiste no processo sistemático de identificação e descontinuidade de medicamentos com prejuízos existentes ou potenciais superiores aos benefícios30. Entre os antidepressivos, diretrizes clínicas tem apontado os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) como primeira opção terapêutica11,12, sendo disponibilizada na RENAME 2020 apenas a fluoxetina, a qual não é considerada MPI independente da condição clínica, porém deve ser evitada em idosos com histórico de quedas e fraturas12. Seria interessante considerar a inclusão de outras opções de antidepressivos na RENAME de forma a possibilitar abordar as diferenças de respostas terapêuticas nesse grupo etário bastante heterogêneo. A presença de MPI na RENAME pode não ser determinante para sua utilização, caso sejam observadas as opções terapêuticas mais seguras disponíveis. Por exemplo, a Glibenclamida, prevalente na APS e indicada para o tratamento de diabetes mellitus tipo 2, apresenta risco aumentado de hipoglicemia severa, tendo como opções terapêuticas mais seguras a Gliclazida e a Metformina11,12. O Nifedipino de liberação rápida apresenta potencial para hipotensão e isquemia miocárdica, existindo como alternativas mais seguras, o Anlodipino Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 61 ou outras classes de anti-hipertensivos11,12. Os anti-histamínicos prescritos, Prometazina e Dexclorfeniramina, apresentam risco de sedação e efeitos anticolinérgicos e como alternativa a RENAME disponibiliza a Loratadina, que não apresenta efeitos sedativos11,12. Reforça-se que os MPI relacionados devem ter sua prescrição evitada independentemente da condição clínica do idoso ou utilização de alternativas não farmacológicas e, quando da real necessidade, é preciso monitorar e acompanhar o possível surgimento e a gravidade de reações adversas11,12. Embora existam vários aspectos que influenciam na prescrição de MPI, como o marketing da indústria farmacêutica, aspectos culturais do uso de medicamentos pela população4, salienta-se a importância da formação e capacitação dos profissionais de saúde voltada para o conhecimento acerca da utilização de MPI por idosos, desde a existência dos critérios de identificação desses medicamentos para a prescrição adequada e monitoramento de reações adversas até o conhecimento das opções terapêuticas mais seguras disponíveis no SUS. É preciso pontuar também, que a RENAME deveria ser acompanhada pelo Formulário Terapêutico Nacional (FTN)5,6 que é uma extensão da lista de medicamentos essenciais e possui informações científicas baseadas em evidências e poderia incluir informações sobre uso de medicamentos por idosos2. Porém, a última edição do FTN foi em 2010 e ainda não houve publicação resultante da nova forma de elaboração da RENAME, apenas em mídias digitais. As listas com critérios de MPI tem como intenção contribuir para a seleção de medicamentos, educação de clínicos e pacientes, reduzir eventos adversos a medicamentos e servir de ferramenta para avaliar a qualidade do cuidado, custo e padrão de uso de medicamentos por idosos11,12. Trata-se de uma lista de alerta que não julga as decisões clínicas e políticas, porém deve ser utilizada para tomada de decisão do uso e para melhorar o cuidado ao idoso11,12. Apesar da RENAME ser uma lista de medicamentos destinada à toda população brasileira, o envelhecimento é uma realidade crescente no país e os idosos constituem um dos principais grupos usuários de medicamentos do SUS e dos serviços de saúde10,30. Pelo seu papel como eixo estruturante da Política Nacional de Medicamentos (PNM) e instrumento racionalizador da Assistência Farmacêutica, a RENAME torna-se importante elemento para a qualificação dos serviços e ações da Assistência Farmacêutica voltadas para os idosos. Entre as limitações do estudo destaca-se a utilização de um instrumento norte americano (Critérios AGS/Beers) para analisar os elencos nacionais, podendo haver diferença na Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 62 disponibilidade de medicamentos no mercado brasileiro e a não utilização da lista municipal de medicamentos, por dificuldade de acesso à mesma. Conclusões O presente estudo refletiu sobre a mudança na elaboração da RENAME e o aumento do número de MPI disponíveis para idosos e explicitou a carência de alternativas terapêuticas para os MPI prevalentes na APS. Considera-se fundamental a formação profissional sobre o uso de medicamentos por idosos e a capacitação permanente dos profissionais de saúde sobre os instrumentos para identificação, avaliação e redução dos MPI. Diante do envelhecimento populacional, é preciso que os gestores e formuladores das políticas considerem esse processo e elaborem estratégias, como a incorporação de alternativas terapêuticas seguras e publicação de um FTN, a fim de reduzir riscos evitáveis e assim, qualificar a utilização de medicamentos por idosos. Referências 1. World Health Organization. WHO Model List of Essential Medicines – 21th list 2019. Disponível em: https://www.who.int/medicines/publications/essentialmedicines/en/ 2. Brasil, Ministério da Saúde. Portaria MS/GM n° 3.916 de 30 de outubro de 1998. Aprova a Política Nacional de Medicamentos, Brasília, Diário Oficial da União 1998; 31 out. 3. Osorio-De-Castro CGS, Azeredo TB, Pepe, VLE, Lopes LC, Yamauti S, Godman B, Gustafsson LL Policy Change and the National Essential Medicines List Development Process in Brazil between 2000 and 2014: Has the Essential Medicine Concept been Abandoned? Basic & Clin Pharm & Toxic, 2018, 122, 402–412 4. Ev LS, Gonçalves CBC. Utilização de Medicamentos. In: Assistência Farmacêutica: gestão e prática para profissionais da saúde. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 2014. p. 469. 2014. 5. Brasil. Presidência da República. Lei n. 12.401, de 28 de abril de 2011. Altera a Lei no 8.080, de 19 de setembro de 1990, para dispor sobre a assistência terapêutica e a incorporação de tecnologia em saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde - SUS. Diário Oficial da União 2011; 29 abr. https://www.who.int/medicines/publications/essentialmedicines/en/ Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 63 6. Brasil. Presidência da República. Casa Civil. Decreto no 7.508, de 28 de junho de 2011. Regulamenta a Lei no 8.080, de 19 de setembro de 1990, para dispor sobre a organização do Sistema Único de Saúde - SUS, o planejamento da saúde, a assistência à saúde e a articulação interfederativa, e dá outras providências. Diário Oficial da União 2011; 29 jun. 7. Brasil, Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais – RENAME 2020. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. 8. Ramos LR, Tavares NUL, BertoldiAD, Farias MR, Oliveira MA, Luiza VL, et al. Polifarmácia e polimorbidade em idosos no Brasil: um desafio em saúde pública. Rev Saude Publica 2016;50(supl 2):9s. 9. Tavares NUL, Luiza VL, Oliveira MA, Costa KS, Mengue SS, Arrais PSD, et al. Acesso gratuito a medicamentos para tratamento de doenças crônicas no Brasil. Rev Saude Publica 2016;50(supl 2):7s. 10. Instituto para Práticas Seguras no Uso de Medicamentos. Medicamentos Potencialmente Inadequados para Idosos. Boletim ISMP 2017;6(3):1-8. 11. American Geriatrics Society. American Geriatrics Society 2019 Updated AGS Beers Criteria for Potentially Inappropriate Medication Use in Older Adults. J Am Geriatr Soc 2019 Apr; 67(4): 674-694. 12. Oliveira MG, Amorim WW, Oliveira CRB, Coqueiro HL, Gusmão LC, Passos LC. Consenso Brasileiro de Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos. Geriatr Gerontol Aging 2017;10 (4):168-81. 13. Brasil, Ministério da Saúde. Relação nacional de medicamentos essenciais: Rename. 7. ed. – Brasília : Ministério da Saúde, 2010. 250 p. 14. Brasil, Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais : Rename 2013. 8. ed. – Brasília : Ministério da Saúde, 2013. 200 p. 15. 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Scott LA, Hilmer SN, Reeve E, Potter K, Couteur DL, Rigby D, et al. Reducing inappropriate polypharmacy: the process of deprescribing. JAMA Internal Medicine 2015;E1-8. 5.2 PRESCRIÇÃO DE MEDICAMENTOS POTENCIALMENTE INAPROPRIADOS PARA IDOSOS: UM ESTUDO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE Prescription of potentially inappropriate medications for the elderly: a study in Primary Health Care RESUMO Os idosos são vulneráveis aos riscos do uso de medicamentos, principalmente daqueles considerados potencialmente inapropriados (MPI) em que os riscos superam os benefícios. O estudo buscou avaliar os MPI prescritos na Atenção Primária à Saúde (APS) e seus fatores associados. Realizou-se um estudo transversal, analítico, de março a dezembro de 2019, na APS em Campina Grande, PB, através de entrevistas com 458 idosos. As variáveis independentes abrangeram características socioeconômicas, condição de saúde e utilização de medicamentos e o desfecho foi medicamento classificado como MPI pelo Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados. Verificou-se a prescrição de pelo menos um MPI para 44,8% dos idosos e a maioria de atuação no Sistema Nervoso Central (54,4%). No modelo ajustado, depressão (RP=2,01; IC95% 1,59-2,55), utilizar outros medicamentos além dos prescritos (RP=1,36; IC95% 1,08-1,72) e polifarmácia (RP=1,80; IC95% 1,40-2,33) permaneceram como fator associado e autorreferir ser portador de hipertensão arterial sistêmica tornou-se fator de proteção (RP=0,65; IC95% 0,49-0,87). Evidencia-se necessidade de ações que qualifiquem o uso de medicamentos por idosos, de modo a garantir acesso aliado à segurança. Palavras-chave: Saúde do Idoso. Lista de Medicamentos Potencialmente Inapropriados. Prescrições de Medicamentos. Atenção Primária à Saúde. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 66 ABSTRACT Elderly are vulnerable to the risks of using medications, especially those considered potentially inappropriate (PIM) where the risks outweigh the benefits. The study sought to evaluate the MPI prescribed in Primary Health Care (PHC) and its associated factors. A cross-sectional, analytical study was carried out from March to December 2019 at the PHC in Campina Grande, PB, through interviews with 458 elderly. The independent variables covered socioeconomic characteristics, health condition and use of medications and the outcome was a medication classified as PIM by the Brazilian Consensus on Potentially Inappropriate Medicines. There was a prescription of at least one PIM for 44.8% of the elderly and the majority working in the Central Nervous System (54.4%). In the adjusted model, depression (PR = 2.01; 95% CI 1.59- 2.55), using other medications in addition to those prescribed(PR = 1.36; 95% CI 1.08-1.72) and polypharmacy (PR = 1.80; 95% CI 1.40-2.33) remained as an associated factor and self- reporting having systemic arterial hypertension became a protective factor (PR = 0.65; 95% CI 0.49-0.87). There is a need for actions that qualify the use of medicines by the elderly, in order to guarantee access combined with safety. Keywords: Health of the Elderly. Potentially Inappropriate Medications List. Drug Prescriptions. Primary Health Care. Introdução As mudanças demográficas e epidemiológicas do século XX, em que houve diminuição da natalidade e aumento da longevidade devido a transformações sociais e ao desenvolvimento científico, possibilitou o envelhecimento populacional. No Brasil, esse processo tem ocorrido de maneira crescente e acelerada de tal forma que em 2050 os idosos constituirão um terço da população, o que demanda políticas públicas, ações de proteção e cuidados específicos para idosos. Na assistência à saúde, ocorre uma exigência crescente por mais recursos, atendimento especializado, principalmente de média e alta complexidade1. Com as alterações fisiológicas próprias da idade e o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, há uma necessidade de uso contínuo de medicamentos, principal recurso terapêutico para tratamento e controle dessas enfermidades2. O processo de senescência do organismo altera as respostas farmacocinéticas e farmacodinâmicas aos medicamentos, Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 67 podendo ocorrer a potencialização do efeito e de reações adversas, o que faz com que a segurança da utilização de medicamentos ganhe relevância no cuidado à Saúde do Idoso, destacando-se o consumo daqueles considerados inadequados3. Os Medicamentos Potencialmente Inapropriados para Idosos (MPI) são fármacos em que os riscos superam os benefícios de sua utilização quando há opções terapêuticas com evidência científica equivalente mais segura3. Estão fortemente relacionados a desfechos em saúde desfavoráveis, como reações adversas a medicamentos (delirium, sedação, hemorragias gastrintestinais, quedas, fraturas), internação hospitalar e maior morbimortalidade entre os idosos4. A identificação desses medicamentos é uma importante estratégia para a prevenção de problemas de saúde adicionais entre idosos, para reduzir reações adversas, problemas relacionados a medicamentos e essencial para a manutenção de sua qualidade de vida3. Vários países desenvolveram seus critérios baseando-se na sua realidade e mercado farmacêutico. Em 2016, foi publicado o Consenso Brasileiro de Medicamentos potencialmente inapropriados (CBMPI) para idosos, a partir da validação utilizando método Delphi do conteúdo dos Critérios AGS/Beers (2012) e do STOPP (Screening Tool of Older Persons’ Potentially Inappropriate Prescriptions) (2006), as mais utilizadas no mundo6. A partir do uso dos critérios para identificação de MPI, estudos epidemiológicos confirmam uma elevada prevalência de MPI e grande variedade em diferentes contextos de atenção à saúde: até 84,5% em cuidados agudos/ intensivos (acute care), até 70% nos idosos institucionalizados e até 62,4% em idosos com polifarmácia não institucionalizados6. No contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), a Atenção Primária à Saúde (APS) é elemento coordenador das redes de atenção e responsável pelo desenvolvimento de ações no âmbito individual e coletivo, que abrangem desde a promoção e proteção à reabilitação e manutenção da saúde, realizado por meio do cuidado integrado, com equipe multiprofissiona7,8 A partir de 2006 com o Pacto pela Vida (2006)9e a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI)10, a Saúde do Idoso passou a ser uma das prioridades, sendo a APS definida como porta de entrada para a atenção integral e a Assistência Farmacêutica como uma das ações estratégicas para a qualificação da dispensação e do acesso a medicamentos pela população idosa9,10 . Em revisão sistemática de estudos realizados na Atenção Primária à Saúde, Opondo e colaboradores11 encontraram uma média de 20,5% na prevalência de MPI. Em pesquisa de âmbito nacional, Nascimento e colaboradores4 identificaram que 93,0% dos idosos brasileiros Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 68 faziam uso de pelo menos um medicamento e 18,1% consumiam cinco ou mais. Na APS, estudos nacionais apontam uma variação de prevalência de 21,6% a 53,7% na utilização de MPI 1,12,13. No Brasil, os estudos que abordam a utilização de medicamentos por idosos são em sua maioria de base populacional, sendo escassos aqueles realizados a partir do levantamento de prescrições na APS. Assim, diante da importância que o uso de medicamentos possui no cotidiano dos idosos e considerando que a APS tem grande importância no cuidado à saúde dessa população, o presente estudo teve como objetivo avaliar a utilização de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para idosos na Atenção Primária à Saúde e seus fatores associados. Métodos Foi realizada uma pesquisa de corte transversal, analítica, no período de março a dezembro de 2019, na Atenção Primária à Saúde (APS) no município de Campina Grande, na Paraíba, Nordeste brasileiro. Localizada no Agreste Paraibano, a cidade é sede do 3º Núcleo Regional de Saúde (NRS) do estado da Paraíba, considerada uma macrorregional por ser referência de serviços de saúde para outras cidades e ainda para o interior de Pernambuco e Rio Grande do Norte14. Campina Grande foi um dos primeiros municípios a adotar a descentralização dos serviços no Sistema Único de Saúde (SUS) e ainda uma das pioneiras a implantar o Programa Saúde da Família (PSF) em 199415. O município apresentava uma estimativa populacional de 410.332 habitantes, dos quais 43.390 eram pessoas acima de 60 anos16. A cobertura da Atenção Primária era de 87,73% da população estimada, dividida em 10 distritos sanitários, com 85 estabelecimentos de saúde, sendo 76 Unidades Básicas de Saúde (UBS), das quais 07 unidades básicas localizadas na Zona Rural e as demais na Zona Urbana. A APS contava ainda com 107 Equipes de Saúde da Família, 52 Equipes de Saúde Bucal e 09 Núcleos Ampliados de Saúde da Família – Atenção Básica (NASF-AB)17. A população alvo deste estudo foi constituída por idosos, indivíduos com 60 anos ou mais, atendidos nas UBS tanto da zona urbana quanto da zona rural do município. Para o cálculo do tamanho amostral foi considerada a população como de referência 43.390 idosos, prevalência estimada de 50% para a variável dependente (utilização de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos – MPI), nível de 95% de confiança, erro de 5%, Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 69 acrescentando uma perda de 20%, totalizando assim 458 idosos. Das 76 UBS do município, cinco não dispunham de serviços de dispensação de medicamentos e foram excluídas. A amostra total foi estratificada entre as UBS restantes de forma proporcional ao quantitativo da população idosa cadastrada por unidade de saúde. Os participantes da pesquisa foram selecionados consecutivamente por conveniência no momento da obtenção dos medicamentos prescritos na farmácia da UBS. A fim de evitar viés de seleção, foram sorteados os dias da semana a serem visitados nas unidades e cada uma era visitada pelo entrevistador até atingir a quantidade de idosos definida para cada UBS na amostragem, evitando-se dessa forma perdas. Realizou-se um estudo piloto em 10 UBS, uma por distrito sanitário, a fim de avaliar o instrumento e o tempo de coleta de dados e a viabilidade da pesquisa. Foi aplicado um questionário semiestruturado com idosos (idade igual ou superior a 60 anos) ou seuresponsável que buscavam o serviço de saúde e, que no momento da entrevista, portavam documento com registro dos medicamentos utilizados pelo idoso (prescrição médica, cartão do usuário do SUS ou a caderneta de Saúde do Idoso). As variáveis independentes foram: a) características demográficas e socioeconômicas - sexo (masculino e feminino), faixa etária (60 a 69 anos, 70 a 79anos, acima de 80 anos), cor (branca, negra e parda), situação conjugal (com companheiro e sem companheiro), renda mensal (inferior a um salário mínimo, um salário mínimo e acima de um salário mínimo, considerando o valor de R$998 (2019)) e anos de estudo (0 a 4 anos, 5 a 8 anos, 9 a 11 anos e acima de 12 anos); b) condições de saúde - doenças crônicas autorreferidas (Hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, artrite/ artrose, depressão e colesterol alto, conforme a Pesquisa Nacional de Acesso e Utilização de Medicamentos – PNAUM)4 e autopercepção de saúde (muito boa/boa, regular, ruim/muito ruim); c) utilização de medicamentos - nome e posologia do medicamento prescrito, uso de outros medicamentos além dos prescritos, local de aquisição dos medicamentos quando há desabastecimento na UBS e a ocorrência de polifarmácia (considerada como o uso de 5 ou mais medicamentos). A variável dependente foi o medicamento classificado como potencialmente inapropriado para idoso (MPI) independente da condição clínica, conforme Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para idosos (CBMPI), que é formado por 118 Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 70 critérios, dos quais 43 devem ser evitados independentes de condição clínica do idoso e 75 dependentes de determinadas condições de saúde5. Cada medicamento analisado também foi classificado de acordo com Anatomical Therapeutic Chemical classification system (ATC), recomendada pela OMS, nos níveis 1 (grupo anatômico) e 2 (subgrupo terapêutico) e se era selecionado na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) edição 201818. As unidades de análise foram os idosos e os medicamentos. Para análise dos dados foi utilizado o SPSS (Statistical Package for Social Science) versão 22.0. Os resultados foram analisados, inicialmente, por meio da análise descritiva. A diferença entre os grupos foi avaliada pelo teste qui-quadrado, considerando como nível de significância p <0,05. As variáveis que se associaram ao uso de medicamentos potencialmente inadequados com p < 0,20 foram incluídas no modelo multivariado. Foi realizada a Regressão de Poisson e, no modelo final, foram mantidas as variáveis que se associaram à variável resposta com valor de p < 0,05. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital Universitário Onofre Lopes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (CEP/HUOL/UFRN) (Parecer 3.130.100/2019). Os participantes ou responsáveis foram orientados quanto aos objetivos da pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, tendo sido garantida a confidencialidade. Resultados A amostra foi composta por 458 idosos, sendo a maioria do sexo feminino (69,0%), com uma média de idade de 70,3 anos (± 7,96). Houve predomínio da faixa etária entre 60 e 69 anos (48,9%), a situação conjugal com companheiro (50,7%) e a cor parda autodeclarada (62,7%). A maioria dos idosos afirmou possuir uma renda mensal de um salário mínimo (72,1%) e 0 a 4 anos de estudo (75,3%). Em relação às condições de saúde, 42,1% consideraram seu estado de saúde regular e 61,8% relataram nenhuma ou apenas uma morbidade, sendo a mais prevalente Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) (37,1%), seguida de diabetes mellitus (18,7%) e artrite (8,0%) (tabela 1). Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 71 Foram prescritos 1.449 medicamentos, totalizando uma média de 3,18 (± 1,84) medicamento por idoso. Observou-se que 44,8% dos idosos apresentaram pelo menos 01 medicamento potencialmente inapropriado prescrito. A maioria das receitas médicas contava com 2 medicamentos (23,4%) e a polifarmácia ocorreu em 21,4% dos casos. Quando questionados sobre onde adquirem seus medicamentos em caso de desabastecimento na farmácia da UBS, 58,8% dos idosos relataram procurar as farmácias comunitárias privadas e 36,0% o Programa Aqui Tem Farmácia Popular. Sobre a utilização de medicamentos além dos prescritos, 52,2% negaram fazer uso de outros (tabela 1). Dos medicamentos prescritos, 91,6% faziam parte da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). A classe farmacológica mais prescrita foi a dos medicamentos que atuam no Sistema Cardiovascular (55,6%), com destaque para hidroclorotiazida e losartana; Trato Alimentar e Metabolismo (17,4%), com predominância de metformina e insulina NPH; e Sistema Nervoso Central (13,3%), cujo medicamento mais prescrito foi o clonazepam (tabela 2). Dos medicamentos prescritos, 19,3% (279) foram considerados MPI, dos quais 54,4% (152) tem ação no sistema nervoso central (SNC) e 20,1% (62) no trato alimentar e metabolismo, representados pelo Clonazepam (21,9%) e Omeprazol (10,4%), respectivamente (tabela 2). A tabela 3 mostra as prevalências na análise bruta e ajustada dos fatores associados ao uso de MPI. Na análise univariada, sexo, cor e ser portador de hipertensão arterial sistêmica (HAS) não apresentaram significância estatística. No modelo ajustado, depressão (RP=2,06; IC95% 1,62-2,62), utilizar outros medicamentos além dos prescritos (RP=1,38; IC95% 1,08- 1,74) e polifarmácia (RP=1,79; IC95% 1,38-2,32) permaneceram como fator associado ao uso de MPI, entretanto autorreferir ser portador de hipertensão arterial sistêmica tornou-se fator de proteção (RP=0,65; IC95% 0,49-0,87). Discussão No nosso estudo, com o diferencial de analisar a prevalência de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos prescritos na Atenção Primária à Saúde em um município de porte médio no interior do Nordeste, foi observada uma elevada prevalência das prescrições que apresentaram pelo menos um MPI e os fatores associados ao uso foram idoso com diagnóstico autorreferido de depressão, afirmar utilizar outros medicamentos além dos Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 72 prescritos e polifarmácia, enquanto ser portador de hipertensão arterial sistêmica foi fator de proteção. A elevada prevalência do uso de MPI foi próxima à do estudo realizado na Atenção Primária à Saúde (APS) em Belo Horizonte2, o qual também utilizou o Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para idosos (CBMPI). Outros estudos, realizados na APS, identificaram uma prevalência de MPI inferior, porém utilizaram outros instrumentos, como Critério AGS/Beers ou STOPP em diferentes edições12,13. Em revisão sistemática com meta-análise, Santos e colaboradores19 identificaram uma grande heterogeneidade entre os estudos transversais que analisam MPI no que se refere à seleção e estratificação da amostra, aos cenários de prática, à coleta de dados e validação de instrumentos e critérios de MPI, o que dificulta a comparação dos resultados. As características socio demográficas assemelharam-se a da PNAUM20. Diferentemente de alguns estudos,21,22,23 na nossa pesquisa não houve permanência da associação estatística entre sexo feminino e a utilização de MPI, contudo, não há consenso na literatura sobre esse aspecto19 A baixa escolaridade apresentou prevalência superior aos estudos de base populacional e realizados na APS 22,23. O predomínio da renda de um salário mínimo deve-se a direitos assegurados pela Previdência e Assistência Social, como aposentadoria e ao Benefício de Prestação Continuada (BPC). Alerta-se para que cercade 10% dos idosos declararam renda inferior ao salário mínimo, o que vai de encontro ao garantido na legislação e pode comprometer a qualidade de vida dos idosos24,25. A maioria dos idosos referiu buscar as farmácias comunitárias privadas em detrimento do Programa Aqui Tem Farmácia Popular em caso de desabastecimento nas farmácias do SUS. Além de favorecer o abandono do tratamento e comprometer o estado de saúde, este fato pode ter impacto no orçamento familiar, tendo em vista que a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) 2017-18 descreveu que 71,2% dos gastos com saúde das famílias com renda até R$1908,00 foram com medicamentos26, o que inclui a renda da maioria dos participantes da pesquisa e reforça, portanto, a importância da regularidade do abastecimento de medicamentos do componente básico da Assistência Farmacêutica (CBAF) no SUS. Ademais, esse resultado também explicita o papel das farmácias comunitárias privadas como serviço complementar de saúde e da importância da atuação do profissional farmacêutico no cuidado à Saúde do Idoso. A legislação exige a presença do farmacêutico durante todo o horário de funcionamento e a Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 73 prestação de serviços de Assistência Farmacêutica para a promoção, proteção e recuperação da saúde, objetivando o acesso e o uso racional de medicamentos27. Cerca da metade dos participantes informou fazer uso de medicamentos além dos prescritos, o que pode refletir na ocorrência da prática da automedicação e/ou fragmentação do cuidado ao idoso. Quando questionados sobre quais medicamentos eram, a maioria não soube responder e ainda há a possibilidade de viés de memória para as respostas obtidas. Estudos mostram que a automedicação é uma prática frequente entre os idosos. Revisão sistemática identificou prevalência entre 20% e 60%28 e em estudo de âmbito nacional, 14,3%, sendo uma prática associada à frequência de eventos adversos29. Um desafio que se apresenta para a Saúde do Idoso é o cuidado integral, conforme preconizado na Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI)10, pois diante das comorbidades há uma busca por diversas especialidades e, assim, várias prescrições, que podem resultar em duplicidade medicamentosa, quando há prescrição de dois fármacos que possuem ação farmacológica semelhante, interações medicamentosas prejudiciais, além da possibilidade de dificultar a adesão ao tratamento8. Como uma maneira de minimizar a fragmentação do cuidado destaca-se a efetiva utilização da Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa na APS, por possibilitar uma avaliação inicial dos medicamentos inapropriados e das reações adversas desenvolvidas. Trata-se de um documento que permanece com o idoso e uma ferramenta que permite o registro de todas as informações importantes em contextos clínicos, psicossocial e funcional, constituindo-se como elemento fundamental para a comunicação efetiva entre os profissionais de saúde nos diferentes níveis de atenção e, portanto, para a qualificação do cuidado da pessoa idosa8,30. Em nosso estudo, assim como em outros trabalhos realizados na APS2, 13 os idosos polimedicados apresentaram maior uso de MPI. É consenso na literatura que a polifarmácia é um dos principais problemas de utilização de medicamentos entre idosos, sendo considerado um importante fator associado ao uso de MPI, aumento dos custos com medicamentos, diminuição da capacidade funcional, além de desenvolvimento de síndromes geriátricas, maior frequência de eventos adversos e de internações hospitalares13. Em consonância com o perfil epidemiológico nacional e com achados de outros estudos, a hipertensão arterial sistêmica (HAS) e diabetes mellitus foram predominantes, assim como os medicamentos que atuam no tratamento e controle dessas enfermidades,21,22,23 Ser portador de Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 74 HAS mostrou-se como fator de proteção associado ao uso de MPI, o que pode ser explicado pelo fato dos medicamentos mais prescritos que atuam no sistema cardiovascular - hidroclorotiazida, losartana e sinvastatina - não são considerados MPI. São medicamentos prevalentes entre idosos31 e, no tratamento da HAS, devem ser escolhidos em detrimento de outros das mesmas classes farmacológicas em virtude de menores efeitos adversos (hidroclorotiazida), da redução de morbimortalidade cardiovascular (CV) e renal em indivíduos com comorbidades e alto risco CV (losartana)32; e por ser primeira opção no tratamento de dislipidemias (sinvastatina)33. Além disso, são disponibilizados pelo CBAF tanto nas farmácias do SUS quanto na rede de farmácias integrantes do programa Aqui Tem Farmácia Popular31. Autorreferir diagnóstico de depressão se mostrou associado ao uso de MPI, o que pode ocorrer em virtude do controle e tratamento dessas doenças serem realizados através de medicamentos inadequados para idosos. A depressão que necessita de intervenção medicamentosa é encontrada em 10% dos idosos e na maioria apresenta sintomas recorrentes, sendo, portanto, recomendado o tratamento na APS, devendo ser escolhidos aqueles medicamentos com menor potencial de efeitos adversos e interações medicamentosas, devido à fragilidade dos idosos, o uso prolongado, a polifarmácia e as comorbidades34 Em relação aos MPI utilizados para transtornos de ansiedade como a depressão, a amitriptilina, principal medicamento prescrito no nosso estudo, pertence à classe dos antidepressivos tricíclicos e possuem efeito anticolinérgico, sedação e hipotensão ortostática, tendo os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) como primeira escolha e alternativa terapêutica7,35, aliado a medidas não farmacológicas como psicoterapia34. Semelhante a outros trabalhos12,21, os medicamentos de ação no SNC, com destaque para os benzodiazepínicos, foram os principais responsáveis pelas prescrições inadequadas, o que mostra sua relevância no contexto da Saúde do Idoso. Esses medicamentos tem efeito aumentado entre idosos em virtude da redução do metabolismo e incremento da sensibilidade, o que acarreta em riscos elevados de déficit cognitivo, delirium, quedas e fraturas em idosos2. Markota e colaboradores36 descreveram diferentes razões para a elevada prescrição dos benzodiazepínicos na APS: insuficiente reconhecimento dos eventos adversos, convicção de que a relação risco/ benefício favorece esse último, não questionamento da lógica de prescrição dos outros profissionais e renovação contínua da receita, ausência de alternativas terapêuticas, relação médico-paciente fragilizada, dificuldade de acesso a consultas especializadas com psiquiatras e resistência do paciente para uma possível mudança de medicamento. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 75 Tommelein e colaboradores37 desenvolveram o GhePo3S, uma ferramenta com critérios explícitos e alternativas terapêuticas voltadas para o uso em farmácias comunitárias com o objetivo de detecção de MPI e otimização da terapia a fim de reduzir os prejuízos causados pelos MPI. No GhePo3S, em casos de prescrição inicial de benzodiazepínicos (BZD) para desordens do sono recomenda-se, primeiramente, a abordagem não farmacológica, como a higiene do sono. Como segunda escolha, deve-se utilizar benzodiazepínicos de ação intermediária ou drogas Z com metade da dose dos adultos; e em casos de uso de benzodiazepínicos acima de 30 dias, recomenda-se a elaboração de um plano de retirada com apoio do farmacêutico. Para ansiedade, deve-se considerar a abordagem não farmacológica e mudança do benzodiazepínico para inibidor seletivo de recaptação da serotonina (ISRS)37. Na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) (2020)38,para ansiedade, o ISRS selecionado é a fluoxetina e para insônia, não há representantes das denominadas drogas Z, o que pode configurar uma lacuna nas demandas de tratamento dos idosos diante de sua heterogeneidade e variabilidade de resposta terapêutica. A OMS recomenda que 70% dos medicamentos prescritos siga a lista nacional de medicamentos essenciais39. O nosso achado foi superior ao encontrado nas prescrições para idosos na APS em Karawang, Indonésia40. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) constitui-se como um importante instrumento para as ações de Assistência Farmacêutica no país, sendo recomendado que os medicamentos prescritos no SUS estejam presentes na lista nacional a fim de garantir acesso e evitar a judicialização41, . Entre os principais MPI prescritos, a furosemida e a glibenclamida possuem alternativas terapêuticas mais seguras para idosos na RENAME, enquanto o omeprazol e os benzodiazepínicos, já abordados e representados pelo clonazepam e diazepam, não possuem opções. No tratamento da Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) em idosos, deve-se dá preferência aos diuréticos tiazídicos (por exemplo, hidroclorotiazida) que apresentam menores efeitos colaterais em relação aos de alça (furosemida), pois em virtude da diurese excessiva podem ocorrer desidratação e perda eletrolítica em idosos42. A Glibenclamida pode apresentar maior risco de hipoglicemia prolongada e severa em idosos, sendo recomendada dieta e a metformina ou qualquer sulfonilureia de curta ação, como a gliclazida35,37. Como proposta de segurança para o uso de omeprazol, recomenda-se a sua utilização por um período inferior a 8 semanas ou redução da dose, de modo a evitar que ocorra perda muscular, demência e insuficiência renal com o prolongamento da utilização5. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 76 Nesse contexto, é preciso discutir sobre outros aspectos que podem contribuir para a prescrição de MPI para idosos. Há a baixa representatividade de idosos no desenvolvimento de estudos clínicos e assim da avaliação da efetividade e segurança dos medicamentos nessa população6, agravada por um importante fator que é cultural, de que cada consulta médica “deve resultar” na prescrição de medicamentos em detrimento da promoção da saúde e prevenção de doenças, o que favorece o uso de vários medicamentos43. Podemos assinalar também que é comum o início da utilização de fármacos para controle de DCNT na fase adulta e sua continuidade sem a devida avaliação diante das alterações fisiológicas com o processo de envelhecimento28 e ainda, existe a denominada ‘cascata iatrogênica’ em que se utiliza um medicamento para tratar um efeito adverso causado por outro em uso44. Dessa maneira, ressalta-se a importância da formação e a atuação dos profissionais de saúde voltada para o uso de MPI por idosos na APS, pois há uma escassez de equipes multiprofissionais com conhecimento necessário em envelhecimento e saúde da pessoa idosa30. Assim, evidencia-se a necessidade de abordar conteúdos de gerontologia nos currículos dos cursos da área de saúde. Já na atuação profissional, destacam-se os prescritores, médicos e dentistas, que precisam ter conhecimento sobre as opções terapêuticas seguras disponíveis no SUS e dos medicamentos presentes nas listas de identificação de MPI a fim de realizar uma prática prescritiva mais adequada para os idosos. Também ressalta-se o papel do Agente Comunitário de Saúde (ACS), que a partir das visitas domiciliares e do vínculo com as famílias, estejam atentos para relatos sobre quedas, ‘desorientação’ e outras características relacionadas aos riscos de MPI. Ademais, torna-se necessária a realização de serviços clínicos farmacêuticos, como o acompanhamento farmacoterapêutico e a conciliação medicamentosa a fim de qualificar o acesso, prevenir e solucionar possíveis problemas relacionados ao uso de medicamentos. Portanto, é importante que cada profissional envolvido no cuidado ao idoso esteja em alerta para a identificação de possíveis eventos adversos relacionados aos MPI. Assim, o uso de MPI a partir da APS ganha relevância e pode tornar-se um grave problema de saúde pública. Meta análise baseada em estudos de coorte realizados na APS identificou que o uso de MPI está associado à admissão em emergências, eventos adversos relacionados a medicamentos, piora da qualidade de vida e hospitalizações44. Portanto, é imprescindível que sejam realizadas intervenções que contribuam para uma maior racionalidade e segurança na prescrição de medicamentos para idosos, entre as quais podemos citar a capacitação dos profissionais das equipes de saúde, a divulgação das listas de Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 77 identificação de MPI para os prescritores e das opções terapêuticas disponíveis na RENAME, a incorporação de medicamentos mais seguros para idosos na lista nacional de medicamentos essenciais e também a realização de práticas que reduzam os riscos de MPI, como a desprescrição de medicamentos. Como ponte forte, nosso estudo problematiza a prescrição de MPI oriunda da APS e apresentou alguns aspectos relacionados que necessitam ser aprimorados para qualificar o cuidado ao idoso na APS, além disso destaca-se a utilização do CBMPI para identificação dos MPI que baseia-se na realidade nacional, não sofrendo, portanto, o viés da diferença de regulação e do mercado farmacêutico quando são utilizados instrumentos validados de outros países. Entre as limitações, destacamos as que são próprias de estudos transversais como a limitação da relação de causalidade entre os fatores associados e o desfecho, assim como viés de memória pelo fato dos participantes serem os idosos ou seus responsáveis. Outro aspecto limitante do estudo foi uma possível subestimação da prevalência do uso de medicamentos pelos idosos por utilizar apenas os registrados no momento da busca à farmácia da unidade básica de saúde. Considerações finais O nosso estudo observou uma ampla utilização de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos atendidos na Atenção Primária, porta de entrada para o cuidado à Saúde dos Idosos no sistema de saúde, e identificou fatores associados, o que pode contribuir para ações de qualificação da Assistência Farmacêutica prestada aos idosos na Atenção Primária. Evidencia-se necessidade de ações que busquem melhorar aspectos importantes, como a fragmentação do cuidado e o uso dos benzodiazepínicos. Como sugestões propomos a realização de estudos longitudinais que avaliem os riscos de eventos adversos a partir do uso de MPI e de pesquisas que avaliem o impacto de intervenções que buscam reduzir sua utilização, como o processo de desprescrição e implantação de ferramentas que apoiam a prescrição. Nesse sentido, também faz-se apropriada a capacitação dos profissionais prescritores para promoção do uso de medicamentos mais seguros, além do acompanhamento de idosos a fim de identificar e prevenir os problemas causados pela utilização de MPI. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 78 Referências 1. Ervatti LR, Borges GM, Jardim AP (org). Mudança demográfica no Brasil no início do século XXI: subsídios para as projeções da população. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, 2015. 2. Almeida TA, Reis EA; Pinto IVL, Ceccato MGB; Silveira, MR; Lima MG; Reis AMM. Factors associated with the use of potentially inappropriate medications by older adults in primary health care: An analysis comparing AGS Beers, EU (7)-PIM List, and Brazilian Consensus PIM criteria 2018. Res Social Adm Pharm 2019; 15(4):370-377. 3. American Geriatrics Society. 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RES GM/CIT nº29 de 26 de janeiro de 2017, que dispõe sobre a apresentação de justificativa para a prescrição de medicamento(s)não padronizado(s) no Sistema Único de Saúde (SUS) e centralização de dados. Diário Oficial da União. 2017; 01nov. 42. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Atualização das Diretrizes em Cardiogeriatria da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arq Bras Cardiol. 2019; 112(5):649-705. 43. Peres AC. Menos é mais. RADIS 2020; n.209. 44. Liew TM, Lee CS, Shawn KLG, Chang ZY. Potentially Inappropriate Prescribing Among Older Persons: A Meta-Analysis of Observational Studies. The Annals of Family Medicine 2019; 17 (3) 257-266. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 82 Tabela 1. Características demográficas, socioeconômicas, de condições de saúde e da utilização de medicamentos dos idosos atendidos na Atenção Primária. Campina Grande, PB, 2019. Variável n % IC Uso de MPI n % IC Sexo (n = 458)* Masculino 142 31,0 26,76-35,24 55 38,7 34,24-43,16 Feminino 316 69,0 64,76-73,24 156 49,4 44,82-53,98 Faixa Etária (n = 458) Entre 60 a 69 anos 224 48,9 44,32-53,48 100 44,6 40,05-49,15 Entre 70 a 79 anos 179 39,1 34,63-43,57 81 45,3 40,74-49,86 Acima de 80 anos 55 12,0 9,02-14,98 24 43,6 39,06-48,14 Situação conjugal (n = 458)* Com companheiro 232 50,7 46,12-55,28 90 38,8 34,34-43,26 Sem companheiro 226 49,3 44,72-53,88 115 50,9 46,32-55,48 Cor (n = 458)* Preta 31 6,8 4,49-9,11 11 35,5 31,12-39,88 Parda 287 62,7 58,27-67,13 69 49,3 44,72-53,88 Branca 140 30,6 26,38-34,82 125 43,6 39,06-48,14 Renda (n = 437) Inferior a 1SM* 50 10,9 8,05-13,75 21 42,0 37,48-46,52 1SM* 330 72,1 67,99-76,21 152 46,1 41,53-50,67 Acima de 1SM* 57 12,4 9,38-15,42 23 40,4 35,91-44,89 Anos de estudo (n = 442) 0 a 4 anos 345 75,3 71,35-79,25 158 45,8 41,24-50,36 Entre 5 e 8 anos 53 11,6 8,67-14,53 24 45,3 40,74-49,86 Entre 9 e 11 anos 25 5,5 3,41-7,59 07 28,0 23,89-32,11 Acima de 12 anos 19 4,1 2,28-5,92 08 42,1 37,58-46,62 Auto percepção de saúde (n = 356) Muito boa/ boa 117 25,5 21,51-29,49 49 41,9 37,38-46,42 Regular 193 42,1 37,58-46,62 77 39,9 35,42-44,38 Muito ruim/ ruim 46 10,0 7,25-12,75 27 58,7 54,19-63,21 Número de morbidades Nenhuma ou uma 283 61,8 57,35-66,25 115 40,6 36,10-45,10 Duas ou mais 160 34,9 30,53-39,27 88 55,0 50,44-59,56 Doenças autorreferidas Hipertensão 295 37,2 32,77-41,63 126 42,7 38,17-47,23 Diabetes 148 18,7 15,13-22,27 74 48,4 43,82-52,98 Artrite 65 8,0 5,52-10,48 29 46,0 41,44-50,56 Depressão 45 5,7 3,58-7,82 44 88,0 85,02-90,98 Colesterol alto 33 4,1 2,28-5,92 11 35,5 31,12-39,88 Quando há desabastecimento na UBS, onde o idoso adquire os medicamentos? (n=514) Farmácia popular 185 36,0 31,60-40,40 72 38,9 34,44-43,36 Farmácia privada 302 58,8 54,29-63,31 154 51,0 46,42-55,58 Outros (Componente especializado, vizinho) 27 5,3 3,25-7,35 13 48,1 43,52-52,68 O idoso utiliza outros medicamentos além dos registrados na prescrição? (n = 458)* Não 239 52,2 47,63-56,77 84 35,5 31,12-39,88 Sim 219 47,8 43,23-52,37 121 55,3 50,75-59,85 Número de medicamentos/ prescrição (n = 458) 1 89 19,4 15,78-23,02 131 36,7 32,29-41,11 2 107 23,4 19,52-27,28 3 93 20,3 16,62-23,98 4 71 15,5 12,19-18,81 Mais de 5 (polifarmácia)* 98 21,4 17,64-25,16 73 74,5 70,51-78,49 SM = Salário-mínimo; * = p<0,2. Fonte: dados da pesquisa, 2019. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 83 Tabela 2. Distribuição por grupos terapêuticos dos medicamentos mais prescritos na Atenção Primária à Saúde e a prevalência dos medicamentos potencialmente inapropriados para idosos (MPI) e presença na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). Campina Grande, PB, 2019. Grupo terapêutico (ATC)/ medicamento (n = 1449) n % MPI (n=279) RENAME n % C – Sistema Cardiovascular 811 55,9 47 16,8 Hidroclorotiazida 167 11,6 - - Sim Losartana 130 9,0 - - Sim Sinvastatina 123 8,5 - - Sim Enalapril 87 6,0 - - Sim Anlodipino 80 5,5 - - Sim Atenolol 46 3,2 - - Sim Captopril 36 2,5 - - Sim Furosemida 28 1,9 28 10,0 Sim Demais 114 7,8 19 6,8 A – Trato alimentar e metabolismo 252 17,4 62 20,1 Metformina 137 9,5 - - Sim Insulina NPH 34 2,3 - - Sim Omeprazol 29 2,0 29 10,4 Sim Glibenclamida 23 1,6 23 8,2 Sim Demais 29 2,0 10 1,5 N – Sistema Nervoso Central 193 13,3 152 54,4 Clonazepam 49 3,4 49 17,6 Não* Diazepam 30 2,1 30 10,8 Sim Amitriptilina 27 1,8 27 9,7 Sim Fluoxetina 14 1,0 - - Sim Fenobarbital 10 0,7 10 3,6 Sim Carbamazepina 09 0,6 - - Sim Levomepromazina 04 0,3 04 1,4 Não Nortriptilina 04 0,3 04 1,4 Sim Demais 73 5,0 28 10 Demais classes farmacológicas 193 13,3 18 6,4 Total 1449 100,0 279 100,0 Fonte: dados da pesquisa, 2019. - Medicamento não classificado como MPI (CBMPI, 2016); *O clonazepam selecionado na RENAME 2018 é na forma farmacêutica solução. As prescrições continham clonazepam 0,5mg ou 2mg comprimido. Não foi disponibilizada a REMUME. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 84 Tabela 3. Fatores associados ao uso de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos atendidos na Atenção Primária. Campina Grande, PB, 2019. Variável CBMPI, 2016 RP (IC95%) p RP (aj.) (IC95%) p Sexo Masculino 1,00(-) - 1,00 - Feminino 1,26 (0,99-1,60) 0,062 1,17 (0,88-1,55) 0,286 Situação conjugal Com companheiro 1,00 (-) - 1,00 (-) - Sem companheiro 1,57 (1,07 – 1,61) 0,010 1,20 (0,95-1,52) 0,131 Cor Negra 1,00 (-) - 1,00 (-) - Branca 1,23 (0,75 - 2,00) 0,415 1,26 (0,77-2,07) 0,363 Parda 1,18 (0,92 – 1,52) 0,201 1,25 (0,78-1,98) 0,358 Anos Escolaridade 0 a 4 anos 1 1 - Entre 5 e 8 anos 0,99 (0,72-1,36) 0,944 0,87 (0,62-1,22) 0,422 Entre 9 e 11 anos 0,61 (0,32-1,16) 0,131 0,66 (0,38-1,15) 0,141 Acima de 12 0,92 (0,54-1,58) 0,760 0,88 (0,49-1,56) 0,656 Número de morbidades 2 ou mais 1,35 (1,11-1,65) 0,003 1,22 (0,91-1,64) 0,192 Autopercepção de saúde Muito boa/ boa 1,00 - 1,00 - Regular 0,95 (0,72-1,25) 0,729 0,83 (0,65-1,07) 0,147 Muito ruim/ ruim 1,40 (1,01 – 1,94) 0,041 1,08 (0,76-1,54) 0,675 DCNT autorreferidas HAS Sim 1,22 (0,99 – 1,49) 0,057 0,65 (0,49-0,87) 0,004 DepressãoSim 2,17 (1,86 – 2,55) < 0,001 2,06 (1,62-2,62) < 0,001 Utiliza medicamentos além dos prescritos na APS? Sim 1,57 (1,27 – 1,94) < 0,001 1,38 (1,08-1,74) 0,008 Polifarmácia Sim 2,03 (1,70-2,43) < 0,001 1,79 (1,38-2,32) < 0,001 Fonte: dados da pesquisa, 2019. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 85 5.3. A prática prescritiva para idosos: perspectivas de médicos na Atenção Primária à Saúde Prescriptive practice for the elderly: physicians perspectives in Primary Health Care Práctica prescriptiva para ancianos: perspectivas de los médicos en la Atención Primaria de Salud Resumo O estudo objetivou compreender a prática prescritiva para idosos na Atenção Primária à Saúde na perspectiva de médicos. Trata-se de um estudo de caso, realizado de setembro a dezembro de 2019 com 10 profissionais. Para coleta de dados, utilizou-se questionário sociodemográfico e entrevista semiestruturada e, para análise dos dados, Análise de Conteúdo, na modalidade temática. Os médicos enfatizaram o tratamento das doenças prevalentes entre idosos e pouco ressaltaram o trabalho multidisciplinar e a avaliação multidimensional do idoso. Os médicos destacaram a polifarmácia e consideraram inadequada a utilização de benzodiazepínicos. Constatou-se desconhecimento dos médicos sobre as listas de medicamentos inapropriados. Os médicos percebem as demandas dos idosos sobre medicamentos, principalmente em relação à polifarmácia e ao uso de benzodiazepínicos. Há predomínio do modelo biomédico e a fragmentação do cuidado, demonstrando necessidade de educação permanente em gerontologia. Descritores: Prescrições. Idosos. Médicos. Atenção Primária à Saúde. Abstract The study claimed to understand the prescriptive practice for the elderly in Primary Health Care from the physician’s perspective. This is a case study, carried out from September to December 2019 with 10 professionals. For data collection, a sociodemographic questionnaire and semi- structured interview were used, and for data analysis, Content Analysis, in the thematic modality. Physicians emphasized the treatment of diseases prevalent among the elderly and little emphasized the multidisciplinary work and the multidimensional assessment of the Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 86 elderly. Physicians highlighted polypharmacy and considered the use of benzodiazepines inappropriate. It was found that physicians were unaware of the lists of inappropriate medications. Physicians perceive the demands of the elderly regarding medication, especially in relation to polypharmacy and the use of benzodiazepines. There is a predominance of the biomedical model and the fragmentation of care, demonstrating the need for continuing education in gerontology. Key-words: Prescriptions. Aged. Physicians. Primary Health Care. Resumen El estudio tuvo como objetivo comprender la práctica prescriptiva para los ancianos en Atención Primaria de Salud desde la perspectiva de los médicos. Se trata de un caso de estudio, realizado de septiembre a diciembre de 2019 con 10 profesionales. Para la recolección de datos se utilizó un cuestionario sociodemográfico y entrevista semiestructurada, y para el análisis de datos, Análisis de Contenido, en la modalidad temática. Los médicos enfatizaron el tratamiento de enfermedades prevalentes entre los ancianos y poco enfatizaron el trabajo multidisciplinario y la evaluación multidimensional de los ancianos. Los médicos destacaron la polifarmacia y consideraron inapropiado el uso de benzodiazepinas. Se encontró que los médicos desconocían las listas de medicamentos inapropiados. Los médicos perciben las demandas de los ancianos en cuanto a la medicación, especialmente en relación con la polifarmacia y el uso de benzodiazepinas. Predomina el modelo biomédico y la fragmentación de la atención, lo que demuestra la necesidad de una formación continua en gerontología. Descriptores: Prescripciones. Anciano. Médicos. Atención Primaria de Salud. Introdução Em 2017, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou o 3º Desafio Global para a Segurança do Paciente e uma das metas é reduzir em 50% os danos evitáveis relacionados a medicamentos, entre as áreas de atuação está a promoção da segurança na polifarmácia1. Por ser comum a ocorrência de múltiplas doenças e agravos não transmissíveis (DANT) em idosos é frequente o uso de medicamentos e, muitas vezes, a polifarmácia (utilização de cinco ou mais). Contudo, esses indivíduos apresentam alterações fisiológicas que os tornam mais vulneráveis a Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 87 eventos adversos relacionados a medicamentos, os quais são incrementados pela não participação dos idosos em ensaios clínicos, a heterogeneidade da fase de senescência, a existência de comorbidades e a possível utilização de outros medicamentos2. Idosos polimedicados estão mais expostos à fragilidade, síndromes geriátricas, visitas a urgências e emergências, hospitalizações e ao uso de medicamentos considerados inapropriados, em que os riscos de causar prejuízos são superiores aos benefícios2. A prescrição médica é um instrumento legal e um meio de comunicação entre o profissional e o paciente, compreendendo a determinação escrita de um plano terapêutico, com o objetivo de orientar o paciente ou seu cuidador3. É considerada determinante para a utilização de medicamentos e um elemento de fundamental no cuidado ao paciente, devido aos desfechos positivos ou negativos que pode causar4. Vários aspectos podem influenciar a prática dos prescritores e contribuir para o uso indiscriminado de medicamento, como a variedade de produtos disponíveis no mercado, a propaganda de medicamentos, o marketing da indústria farmacêutica, a formação profissional e fatores socioculturais tanto do profissional quanto dos usuários4. A prescrição para idosos caracteriza-se como um processo complexo, pois estudos mostram que uma em cada cinco prescrições para idosos é considerada inapropriada e associada a desfechos negativos, tornando-se um problema de Saúde Pública3,5. A prescrição para idosos constitui-se um importante desafio para os profissionais de saúde, principalmente médicos6. No Sistema Único de Saúde (SUS), a Atenção Primária à Saúde (APS) possui papel fundamental como elemento coordenador das redes de atenção e responsabilidade no desenvolvimento de ações de saúde, realizado por meio do cuidado integrado, com equipe multiprofissional7,8. A APS é apontada como porta de entrada prioritária para os idosos e ordenadora do cuidado responsável pelo acompanhamento de forma articulada e integral8, cabendo às equipes de saúde a identificação, a primeira abordagem e avaliação dos idosos no território7,8. Em virtude do desenvolvimento das DANT e do aumento de expectativa de vida, os idosos tem se constituído como principais usuários8 e o cuidado geriátrico e gerontológico tem-se destacado na rotina das equipes de saúde na APS. São comuns estudos quantitativos sobre prevalência e fatores associados à prescrição inapropriada para idosos, contudo, são escassas pesquisas de abordagem qualitativa, sendo a maioria de origem internacional e voltados para avaliar o conhecimento dos médicos sobre Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 88 medicamentos inapropriados5,9-11. Assim, buscando preencher uma lacuna na literatura brasileira, o estudo teve como objetivo compreender a prática prescritiva para idosos na Atenção Primária à Saúde na perspectiva de médicos. Metodologia Trata-se de umestudo de caso, de abordagem qualitativa. Neste estudo, o “caso” foi definido como a prescrição de medicamentos para idosos na atenção primária à saúde. Já as unidades de análise são os profissionais prescritores, no caso os profissionais médicos. A pesquisa foi realizada de setembro a dezembro de 2019, tendo como cenário as unidades básicas de saúde da zona urbana e rural da Atenção Primária do município de Campina Grande, PB. A cidade é sede do 3º Núcleo Regional de Saúde (NRS), considerada uma macrorregional por ser referência de serviços de saúde para outras cidades e ainda para o interior de Pernambuco e Rio Grande do Norte14. Campina Grande foi pioneira na adoção da descentralização dos serviços no Sistema Único de Saúde (SUS) e a implantar o Programa Saúde da Família, em 199415. Em 2018, o município apresentava uma estimativa populacional de 410.332 habitantes, dos quais 43.390 eram pessoas acima de 60 anos16. A cobertura da APS era de 87,73% da população estimada, organizada em 10 distritos sanitários, com 85 estabelecimentos de saúde, sendo 76 Unidades Básicas de Saúde. A APS contava com 107 Equipes de Saúde da Família (ESF), 52 Equipes de Saúde Bucal e 09 Núcleos de Ampliados de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB)17. No período da coleta de dados, havia 118 médicos vinculados à ESF. Em pesquisas qualitativas a escolha dos participantes ou das unidades de análise geralmente ocorre de forma deliberada, ou seja, a amostra do tipo intencional13. Para escolha dos médicos da equipe de saúde da família foram considerados os seguintes critérios de inclusão: ser do quadro efetivo do município, atuar na ESF desenvolvendo ações de assistência à saúde, por no mínimo seis meses, demonstrando vivência e experiência na APS. Foram excluídos os profissionais que estavam de férias ou de licença no período da coleta de dados. Foi feito o sorteio de uma UBS por distrito sanitário, totalizando dez participantes. Em cada UBS, a pesquisadora se apresentava à(o) recepcionista e este perguntava ao médico acerca da possibilidade de agendar a entrevista. Em caso de impossibilidade, a pesquisadora retornava outro dia. No momento da entrevista com o médico, a pesquisadora se apresentava, explicava Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 89 os objetivos da pesquisa, entregava para cada participante uma cópia do projeto e duas do TCLE para conhecimento e assinatura. Dois prescritores recusaram-se a participar da pesquisa, argumentando falta de tempo, assim, foi realizado o sorteio de outra UBS do mesmo distrito sanitário. Participaram do estudo 10 profissionais médicos. Para coleta de dados foi utilizado um instrumento composto por duas partes: a primeira era um questionário sociodemográfico contendo as seguintes variáveis: idade, sexo, formação, nível de escolaridade e tempo de atuação na APS; a segunda parte era um roteiro de entrevista semiestruturado construído a partir dos objetivos da pesquisa que parte da reflexão acerca do cuidado ao idoso na APS, contendo questões que abordavam a prática prescritiva e os desafios para a prescrição de medicamentos para idosos. Foi realizado um estudo piloto com dois médicos em duas UBS sorteadas para avaliar o instrumento, duração da entrevista, dificuldades e a viabilidade da pesquisa. Os participantes do estudo piloto foram excluídos do estudo final. O roteiro de entrevista sofreu ajustes nas perguntas de forma a minimizar a indução das respostas e responder os objetivos da pesquisa. As entrevistas foram gravadas utilizando gravador digital, em espaço restrito, nos consultórios médicos com presença apenas do pesquisador e do participante da pesquisa, a fim de evitar constrangimento e garantir a confidencialidade. Foram realizadas 10 entrevistas que tiveram duração de 10 a 24 minutos, com média de 14min. Em cada visita às UBS, o pesquisador registrou em um diário de campo as impressões e observações sobre as entrevistas. O encerramento da coleta de dados ocorreu quando da saturação dos dados que consiste na suspensão de inclusão de novos participantes quando os dados obtidos passam a apresentar, na avaliação do pesquisador, certa redundância ou repetição18. As entrevistas com os participantes foram transcritas para o Microsoft Word (versão Windows 10). A análise dos dados utilizou o método de análise de conteúdo de Bardin19, na modalidade temática e foi realizada considerando três etapas: primeiramente foi feita a leitura flutuante, constituição do corpus e elaboração de indicadores; a segunda etapa abrangeu a exploração do material, com a definição de categorias, a identificação das unidades de registro e de contexto nos documentos; e, a terceira consistiu na interpretação dos resultados culminando nas interpretações inferenciais e análise reflexiva e crítica19. As categorias para análise foram definidas, considerando os objetivos da pesquisa, o referencial teórico e as entrevistas com os participantes, que são: a) a abordagem dos prescritores no atendimento aos idosos na APS e b) prescrição de medicamentos para idosos: o Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 90 olhar dos médicos. A interpretação e análise dos dados foram realizadas a partir da literatura pertinente no que concerne à temática. Os participantes foram orientados quanto aos objetivos da pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, tendo sido garantida a confidencialidade. Para garantir o anonimato dos participantes, os médicos entrevistados foram identificados como M1, M2, e assim por diante. A pesquisa foi submetida e aprovada por Comitê de Ética e Pesquisa, conforme legislação, sob Parecer 3.130.100/2019. Resultados Foram entrevistados 10 médicos que estavam realizando atendimento nas UBS, dos quais oito eram mulheres e dois homens, com idades entre 23 e 60 anos (Md 28 anos). A média de tempo de formado foi de 4,6 anos, no entanto, metade dos prescritores tinha menos de um ano de conclusão da graduação e com tempo semelhante de atuação na APS. Quatro médicos tinham especializações concluídas (1 Saúde da Família e Comunidade, 2 Dermatologia e 1 Psiquiatria), três não possuíam pós-graduações e os demais estavam em formação. A análise proveniente das entrevistas com os médicos resultou em duas categorias principais que foram divididas em subcategorias (quadro 1). 1) Abordagem dos prescritores no atendimento aos idosos na APS Essa categoria descreve aspectos que os prescritores relataram abordar na realização de consulta dos idosos na APS. 1.1.Promoção de hábitos saudáveis e enfoque no diagnóstico, controle e tratamento de doenças e agravos não transmissíveis prevalentes em idosos: Os prescritores relataram buscar prevenir doenças através da vacinação, promoção de mudanças de hábitos e realização de exames para diagnóstico e acompanhamento de doenças crônicas (hipertensão arterial, diabetes mellitus, câncer). (...) tem muito cuidado com a vacinação anual, pra gripe, a gente sabe que o idoso é acometido por isso... muito cuidado com a alimentação também (...), ao sal em relação a hipertensão, açúcar em relação a diabetes, e também muito cuidado em relação a gordura, massa, esse Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 91 tipo de coisa pra também por conta das taxas. E a gente tem cuidados de fazer exames anualmente de rotina, principalmente mulheres, é... fazer a mamografia, em homens até fazer também o PSA, alguma coisa, pra fazer o rastreamento de doenças também relacionadas a próstata, a mama, de doenças mais graves como o câncer, ne? (M1). Foi contundente a abordagem dos prescritores em relação aos idosos como portadores de doenças crônicase usuários de vários medicamentos: o idoso basicamente, eles são prevalentes de doenças crônicas, principalmente aqui na minha unidade. Então, a gente tem esse cuidado voltado pra o controle dessas doenças crônicas, diabetes, hipertensão” (M8). Com relação aos protocolos para a atenção à saúde do idosos, os entrevistados relataram em sua maioria os Cadernos de Atenção Básica, sem especificação, e a Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa foi considerada como o principal instrumento norteador para o acompanhamento do idoso na APS. “A gente usa a caderneta do idoso que é disponibilizada... chegou faz pouco tempo na unidade, todo idoso tem sua caderneta onde a gente anota as medicações que eles usam, as doenças crônicas de base, então é um instrumento muito bom que permite a gente acompanhar esse idoso” (M8). As diretrizes das doenças e agravos não transmissíveis também foram apontadas como norteadoras: “existem protocolos pra pressão alta, porque assim, falando mais da população de idoso, é muito pressão alta e diabetes, pressão alta e diabetes...” (M1). 1.2. Além da consulta médica: a importância do trabalho em equipe e a relevância do suporte familiar Essa subcategoria aborda o que os prescritores descreveram sobre o cuidado ao idoso além da consulta médica. Poucos prescritores relataram a importância do trabalho da equipe de Saúde da Família e do NASF-AB (Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica), além do suporte familiar na atenção aos idosos, respectivamente: “a gente tenta fazer com que ele seja inter e multidisciplinar, nós temos como encaminhá-los pra algumas especialidades, (...), mas sempre o cuidado é feito na atenção primária juntamente com a atenção Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 92 especializada”. (...) Esse cuidado é sempre feito, aqui, na equipe, a gente tem enfermeira, eu, o núcleo de saúde da família, que também dá esse suporte” (M4). “o idoso necessita de uma pessoa que o acompanhe, ele necessita de um suporte familiar, essa questão na atenção básica é muito difícil, porque as vezes os filhos trabalham, às vezes, não tem condição de acompanhar o pai, não tem condição de faltar o trabalho, então muitas vezes a gente faz o atendimento domiciliar com os agentes comunitários de saúde.” (M9) Apenas um médico abordou os direitos da pessoa idosa: “a gente explica pra eles a questão dos direitos da pessoa idosa, essa parte fica mais voltada com a assistente social que a gente tem aqui na nossa equipe, (...) mas ela explica os diretos e deveres da pessoa idosa, fala da, da importância dos cuidados, dos direitos que tem assegurados pelo governo, pelas leis, e a gente também utiliza assim” (M7). 2) Uso de medicamentos por idosos: o olhar dos prescritores Essa categoria engloba aspectos que os médicos consideraram como relevantes para a realização da prescrição para os idosos. 2.1. A problemática da polifarmácia e a importância da orientação sobre o uso de medicamentos Os prescritores destacaram a polifarmácia e suas consequências, como o risco de cascata iatrogênica e dificuldade de adesão. Foi relatada a dificuldade de diminuição do uso de medicamentos através do desmame ou retirada de itens. “por exemplo, muitos idosos fazem uso polifarmácia, eles utilizam o remédio da pressão, o remédio da diabetes, o remédio da dislipidemia e aí fica aquela receita grande, tem muita gente que tem assim, tem receita de 5 itens (...) tem aquela dificuldade da depressão, do problema de ansiedade, do problema também da polifarmácia, que ele se medica muito, sem saber o horário, sem saber os remédios, ele não toma o remédio no horário certo, tudo isso é dificuldade pra gente em relação ao tratamento com os idosos.” (M9). Parte dos prescritores apresentaram preocupação sobre a necessidade de realizar orientação aos idosos sobre a forma de uso dos medicamentos prescritos, através de imagens e cores, mas a maioria não identificou isto como problema: Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 93 Muitos não sabem nem ler, aí é difícil você entregar uma receita pra explicar e pra saber, pra eles entenderem direitinho como tomar, tanto é que aqui eu fiz essa tabelinha (mostra a tabela), quando eu vejo que é um idoso que tem dificuldade, aí eu anoto o nome da medicação, se ele não sabe ler, eu peço pra ele trazer a caixa, ai pinto o quadradinho e pinto a caixa também, entendeu? (M1). A baixa escolaridade dos idosos atendidos na APS foi relatada pelos prescritores como uma dificuldade para a prescrição e adesão ao tratamento pelos idosos: Ah, é difícil para eles, eles lerem, entenderem, ou então se lembrarem de tomar o remédio do dia e principalmente eles são muito resistentes. (...) (M5). 2.2.O uso de benzodiazepínicos como principais medicamentos inapropriados utilizados por idosos Os prescritores, em sua maioria, relataram como inapropriado o uso de benzodiazepínicos pelos idosos, porém desconheciam as listas de medicamentos inapropriados. Um médico explicitou o não uso das listas: “A lista em si, eu vou ser sincera a você, eu nunca acessei, o que eu tenho de conhecimento de medicação inapropriada ou apropriada foi o que eu aprendi na geriatria, na prática” (M8). Outro prescritor relatou que se baseia “no Ministério da Saúde e... os laboratórios” (M6) para a prescrição de medicamentos para idosos, observando as indicações e contraindicações. Houve ênfase no uso e abuso de benzodiazepínicos pelos idosos atendidos: Os únicos medicamentos que realmente eu vejo que tem muita adicção e até mesmo abuso aqui na unidade são os ansiolíticos, benzodiazepínicos, porque já acostumou, entendeu? ‘Ah! o meu remédio para dormir!’ (M3) São muitos, são muitos medicamentos que a gente tem que ter cuidado nos idosos, principalmente os benzodiazepínicos, que são aquelas medicações que os idosos gosta de tomar pra dormir, o familiar gosta de dá ao idoso pra dormir, pra ele não dá trabalho, então faz lá um Diazepam, faz um Clonazepam que o idoso dorme a noite toda e não dá trabalho ao familiar. Mas é muito perigosa essas medicações, por conta do risco de queda, o risco de sonolência, o risco de dependência, o risco de apresentar outras doenças como demência, como Alzheimer (M9). Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 94 2.3.Desafios para a prescrição de medicamentos para idosos: da medicalização à lista de medicamentos Um dos grandes desafios para os prescritores se dá devido ao processo de medicalização dos idosos, pois estes consideram o medicamento como centro da terapia, como solução para o problema de saúde. Mas a maioria [ênfase] a gente conversa, a gente dialoga, explica, mas no final “eu quero meu remédio”, então assim realmente é complicado retirar algumas medicações (...). Eu tenho sempre conversado muito, porque hoje em dia a gente ta muito acostumado ‘ah, eu tenho isso’, toma isso’, e ‘isso dá isso de efeito’(...). A população ta muito acostumada a se medicalizar, a achar que a medicação é o melhor remédio, quando na verdade não é, muitas vezes não é, ne? (M4) A gente vê que já tem pacientes que faz o uso muito arrastado que assim começou o uso de benzodiazepínico que eles mesmo perdem as contas de quantos anos já faz, e assim é uma resistência e uma dificuldade pra gente tirar esses medicamentos, às vezes a gente tenta fazer o desmame mas tem pacientes que continua utilizando, por que? Porque eles já entendem que a medicação é o que dá o sono a eles (..), e também é porque uma medicação que é disponibilizada gratuitamente, então às vezes a gente tem muita dificuldade pra retirar esses medicamentos apesarda gente saber e deixar claro para o paciente também que não é o mais adequado para ele. (M7). Quando questionados sobre o elenco de medicamentos disponíveis na APS para uso por idosos, ocorreram divergências. Alguns médicos consideraram o elenco suficiente para o tratamento das principais doenças crônicas, enquanto outros enfatizaram limitações, como a necessidade de antidepressivos mais adequados para idosos: “Os básicos, as medicações básicas o SUS ele disponibiliza, eu acho que nos postos de saúde, eu acho que tem as medicações básicas, que são de um custo baixo, eficazes e que tem condições da gente controlar o diabetes e a hipertensão nos idosos”. (M9) “A dificuldade assim tem medicações que seriam mais adequadas pra eles, mas que o SUS não fornece, então eles não têm condições de comprar, entendeu? Aí isso é o que mais pesa... Eu sinto assim, algum antidepressivo que eu quero passar para o idoso por exemplo, eu sei que o escitalopram é mais seguro para usar em idoso, não tem... as medicações que eu me sinto mais segura em passar para o idoso, a RENAME não me dispõe” (M8) Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 95 Discussão A compreensão da prática prescritiva para idosos na percepção dos médicos mostrou predomínio do tratamento de doenças crônicas e uma preocupação com a prevalência da polifarmácia e, principalmente, com o uso de benzodiazepínicos como medicamentos inapropriados por essa população. Nesse sentido, evidenciam o paradigma biomédico, focado no tratamento de doenças prevalentes em idosos e contribui para a fragmentação e fragilização da integralidade da saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde (APS). Esse aspecto foi observado na não alusão à uma abordagem multidimensional do idoso e nas poucas narrativas sobre a importância do trabalho em equipe e do NASF-AB (Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica) e do suporte familiar, tendo sido relacionado de forma pontual à Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa e de maneira geral sobre ações de prevenção, como vacinação e orientação sobre hábitos saudáveis. As estratégias preventivas e o cuidado integral são consenso no discurso dos profissionais de saúde, porém na prática o que acaba ocorrendo é a ênfase nos serviços assistenciais tradicionais em detrimento da prevenção20,21. É papel da Estratégia Saúde da Família (ESF) juntamente com o NASF-AB realizar o reconhecimento, cadastramento e acolhimento da população idosa adscrita no território a fim de identificar suas necessidades através da avaliação multidimensional e assim estabelecer as possíveis organizações do cuidado na Rede de Atenção à Saúde (RAS) a partir da APS7. Um importante aliado nesse papel é a família, com quem os profissionais de saúde devem aprofundar as relações e compartilhar as demandas, apoiando-a de forma a construir o cuidado integral7,20. É pertinente apontar que a revisão da Política Nacional de Atenção Básica, em 2017, priorizou a relativização da cobertura universal, segmentação do acesso, flexibilidade da composição da equipe e do processo de trabalho, contribuindo para a presença de profissionais com orientação para o modelo biomédico, expandindo a atenção básica tradicional e fortalecendo o binômio-queixa conduta21. A fragmentação do cuidado também pôde ser encontrada nas afirmações da utilização de diferentes protocolos e diretrizes, como hipertensão arterial e diabetes mellitus, expondo assim o gerenciamento com foco nas doenças e de modo segmentado, especializado. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e alguns países europeus, como Alemanha e Escócia, Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 96 desenvolveram guidelines voltados para multimorbidades e gerenciamento da polifarmácia1,22,23, com o intuito de fornecer recomendações para o monitoramento e revisão do uso dos vários medicamentos, sendo essa uma tarefa para profissionais generalistas, como deveria ocorrer na ESF. O modelo assistencial vigente possui foco exclusivo na doença e há uma priorização da fragmentação do cuidado, através do excesso de consultas e exames clínicos realizadas por especialistas, informação não compartilhada e utilização de vários medicamentos, o que sobrecarrega o sistema com gastos sem benefícios significativos para a qualidade de vida dos idosos. Atualmente, é proposto um modelo de atenção à saúde que deve basear-se na identificação precoce dos riscos de fragilização, voltado para ações promoção da saúde, prevenção e postergação de doenças, cuidado precoce e reabilitação, buscando o envelhecimento saudável24. A ESF possui o desafio de romper com a lógica tradicional da assistência, através de uma atenção interdisciplinar e interprofissional, no entanto, a segmentação na formação compromete uma visão ampliada do processo saúde-doença e a capacidade de trabalho em equipe, favorecendo a fragmentação do cuidado. A prática interprofissional possibilitaria o desenvolvimento do trabalho em equipe de saúde, articulando diferentes campos de práticas e fortalecendo a centralidade no usuário25. Assim como outros estudos10,26, um dos principais aspectos levantados pelos médicos sobre o uso de medicamentos foi a polifarmácia e suas consequências, como dificuldade da adesão ao tratamento. A polifarmácia é uma realidade para idosos, associada ao uso de medicamentos considerados inapropriados, busca de urgência e emergência, internação hospitalar, pior funcionalidade e qualidade de vida2. Estudo que buscou compreender a percepção dos idosos sobre a adesão ao tratamento mostrou que o consumo de vários medicamentos de uso contínuo atrapalha a rotina25, o que é consonante com o que os médicos abordaram. Também foi descrito que a baixa escolaridade dos idosos dificulta a compreensão sobre a utilização dos múltiplos medicamentos e demanda a necessidade de orientação. A adesão ao tratamento é determinada por vários aspectos, sendo a baixa escolaridade um dos fatores do idoso que prejudicam o cumprimento do regime terapêutico principalmente nos polimedicados27,28. Ainda sobre o uso de medicamentos, os médicos enfatizaram o problema do uso de benzodiazepínicos, sendo estes os principais medicamentos potencialmente inapropriados Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 97 (MPI) relatados. Esses medicamentos são frequentemente prescritos para idosos para controle da insônia e tratamento da ansiedade e depressão, contudo, são os mais listados como inapropriados29, pois seu uso está associado a eventos adversos (quedas, perda cognitiva, admissão em emergências e maior morbimortalidade), desenvolvimento de tolerância e dependência30. Outros estudos apontaram aspectos que contribuem para a prescrição de benzodiazepínicos por idosos, alguns a) relacionados aos médicos, como desconhecimento dos eventos adversos, falta da habilidade sobre o manejo das mudanças associadas ao envelhecimento, tempo limitado para consultas, receio de comprometer a relação médico- paciente e não utilização de alternativas terapêuticas; b) externos aos médicos, como a própria resistência dos pacientes a mudanças e dificuldade de acesso a especialistas como psiquiatras30,31. Os participantes do estudo descreveram a ampla utilização e o conhecimento dos riscos para os idosos, assim como ressaltaram a dificuldade e resistência para a racionalização do uso. Esta foi descrita como um desafio, pois ocorre a exigência pelos idosos da prescrição principalmente desses medicamentos, mesmo embora o médico fizesse a orientação para a diminuição (o chamado ‘desmame’) ou sobre a necessidade de mudança comportamental. Veras, Caldas e Cordeiro20 expõem a importância da negociação entre osaber científico (no caso, dos médicos sobre os riscos dos benzodiazepínicos) e a história, cultura e valores dos idosos como uma estratégia para alcançar as mudanças necessárias. A exigência pela prescrição de benzodiazepínicos e a resistência a mudanças no tratamento relatadas pelos médicos podem ser uma evidência do processo de medicalização, que é um processo complexo, em que problemas não médicos são definidos e tratados como problemas médicos32, e da medicamentalização, quando ocorre o uso excessivo e inadequado de medicamentos32. Muitas vezes, a medicamentalização, um dos seus principais expoentes da medicalização, é relacionada a distintas situações: uso off label, marketing da indústria farmacêutica, uso prolongado ou desnecessário de medicamentos, a própria simbologia do medicamento como solução mágica para problemas de saúde e a fragilização da relação médico-paciente32. Em relação aos MPI, chama a atenção que não houve menção às listas de critérios, expondo assim a não utilização das mesmas na rotina médica ou, mesmo como evidenciado por um prescritor, o desconhecimento. As listas de MPI tem como objetivo relacionar Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 98 medicamentos que tem o potencial de causar mais prejuízos do que benefícios entre idosos, havendo estratégias terapêuticas mais seguras, farmacológicas ou não33. Embora com distintas metodologias, outros estudos também mostraram o não conhecimento dessas listas pelos médicos10,26,34. Dessa forma, observando tal aspecto aliado ao não relato de avaliação multidimensional, considera-se pertinente refletir se seria um indicativo de falhas na formação em gerontologia. Alguns estudos problematizaram a falta de conteúdo em gerontologia na graduação em saúde, não apenas medicina, evidenciando um descompasso entre formação e o processo de transição demográfica, o que pode contribuir para a visão hegemônica do modelo biomédico, padronizando condutas terapêuticas em um processo tão heterogêneo como o envelhecimento humano, expondo os idosos a iatrogenias evitáveis35. Um aspecto que emergiu como desafio para os médicos foi a suficiência da lista de medicamentos essenciais, no entanto, não houve consenso, pois alguns prescritores consideraram adequadas para o tratamento em idosos, enquanto outros não. As listas de medicamentos essenciais têm como objetivo promover acesso e uso racional de medicamentos para tratar os problemas de saúde prioritários da população36. No nosso estudo, esse discurso de inadequação foi mais apresentado por médicos com atuação recente na APS, enquanto os médicos experientes a consideraram adequada para a demanda dos idosos, o que pode ser resultado da formação hospitalocêntrica em que é mais comum a prescrição de medicamentos específicos ou ainda do não conhecimento dos itens disponíveis. Em estudo nacional que buscou conhecer o papel das listas de medicamentos essenciais na prática clínica de médicos, Magarino-Torres e colaboradores36 apontaram que a maioria dos médicos não conheciam a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais e/ou a consideraram inadequada. Ressalta-se que alguns participantes do nosso estudo declararam prescrever aqueles medicamentos que estavam disponíveis na farmácia no momento da consulta como forma de promover o acesso pelos idosos, em virtude da baixa renda destes. Também é importante comentar que existem MPI elencados na lista de medicamentos essenciais (por exemplo, Diazepam, Clonazepam, Glibenclamida) e escassez de alternativas mais seguras para idosos, o que pode dificultar a restrição do uso de MPI, exigindo dos médicos ainda mais conhecimento e avaliação da utilização desses medicamentos. Essa é uma questão relacionada à articulação entre a política de medicamentos e a de Saúde do Idoso, expondo a necessidade de intersetorialidade a fim de selecionar medicamentos mais adequados para as demandas dos idosos, favorecendo prescrições mais seguras e riscos evitáveis. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 99 Como ponto forte, consideramos que nosso estudo buscou de forma pioneira evidenciar a compreensão dos médicos da APS sobre a prática prescritiva para os idosos e seus desafios, buscando conhecer essa perspectiva como estratégia para gerar soluções viáveis e orientadas para os aspectos que emergiram. Destacamos como limitação a dificuldade de comparação com outros trabalhos, em virtude da utilização de diferentes métodos, pois alguns usaram casos clínicos como estratégia para a avaliação do conhecimento dos prescritores sobre as listas de MPI. Considerações finais O estudo mostrou que os médicos percebem a problemática do uso de medicamentos pelos idosos, principalmente relacionada à polifarmácia e ao uso inapropriado de benzodiazepínicos. Evidenciou-se que o modelo biomédico permeia a conduta prescritiva dos médicos para os idosos. A APS é considerada porta de entrada para o sistema de saúde e deveria pautar-se no princípio da integralidade, ainda mais quando se trata de idosos, um grupo fortemente heterogêneo. Embora os médicos percebam as necessidades das pessoas mais velhas, há um modus operandi relacionado à medicalização e medicamentalização. Portanto, sugere-se a educação permanente em Gerontologia das equipes multidisciplinares da ESF, principalmente dos médicos, sujeitos do nosso estudo, como uma forma de buscar desconstruir o foco no tratamento de doenças e estabelecer uma linha de cuidado que busque promover o envelhecimento saudável, como preconizado pela OMS7. Especificamente em relação à prescrição de medicamentos, considera-se importante a realização de estudos qualitativos específicos e capacitação voltados para o conhecimento e utilização das listas de MPI como estratégia para minimizar a exposição dos idosos a riscos advindos do uso indiscriminado de medicamentos. Referências 1. 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Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 103 6 CONCLUSÕES O estudo identificou uma ampla utilização de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos atendidos na Atenção Primária à Saúde, porta de entrada para o cuidado à Saúde dos Idosos no sistema de saúde, e identificou fatores associados, o que pode contribuir para o desenvolvimento e melhoria de ações da Assistência Farmacêutica prestada a essa população. Também observou uma alta ocorrência de prescrição desses medicamentos em conformidade com as listas de medicamentos essenciais e a escassez de alternativas terapêuticas mais seguras disponíveis. Evidenciou-se que os médicos percebem a problemática do uso de medicamentos pelos idosos, principalmente relacionada à polifarmácia e à utilização inapropriada de benzodiazepínicos, porém há uma predominância do caráter biomédico e medicalizante da prática prescritiva. A tese contribui ao abordar elementos anteriores ao uso propriamente dito de medicamentos potencialmente inapropriados, evidenciando que a seleção de medicamentos essenciais e a prescrição médica apresentam fragilidades, pois além da presença na RENAME, expôs a necessidade de opções terapêuticas seguras e problematizou aspectos presentes na prática prescritiva de médicos que podem afetar a atenção integral à pessoa idosa. Portanto, sugerimos a elaboração de uma lista de medicamentos essenciais específica para essa faixa etária, como já desenvolvida pela Organização Mundial de Saúde para crianças, com inclusões, restrições e/ou recomendações de itens mais seguros que contribuam para o uso racional de medicamentos por idosos. Também propomos a realização de estudos longitudinais que avaliem os riscos de eventos adversos a partir do uso de MPI na APS e de pesquisas nacionais que avaliem o impacto de intervenções que buscam reduzir sua utilização, como o processo de desprescrição e implantação de ferramentas que apoiam a prescrição. Aponta-se a importância de ações que busquem reduzir a fragmentação do cuidado e o uso dos benzodiazepínicos, como a educação permanente dos profissionais médicos em gerontologia e o acompanhamento de idosos a fim de identificar, monitorar e prevenir os problemas causadospela utilização de medicamentos potencialmente inapropriados para os idosos. A partir dos achados do estudo, pretende-se redigir um relatório destinado à Gerência de Saúde do Idoso da Secretaria Municipal de Saúde como uma forma de possibilitar o Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 104 desenvolvimento de estratégias que visem reduzir o uso de medicamentos potencialmente inapropriados, como a capacitação dos médicos da Atenção Primária à Saúde sobre a prescrição para idosos. Outro retorno social da tese apresentada é que por ser docente do ensino superior, será possível contribuir na formação de graduandos sobre as questões de Saúde do Idoso e o uso de medicamentos, capacitando futuros profissionais de saúde para um olhar mais sensível diante do processo de envelhecimento populacional da sociedade. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 105 REFERÊNCIAS ABDULAH R, INSANI NW, PUTRI EN, PURBA PH, DESTIANI PD, BARLIANA IM. 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Qtde Frequência Duração Recebido Toma outros medicamentos além desses? ( )Sim ( )Não Se sim, quais? _________________________________________________________________________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ Quando não recebe na farmácia pública, onde o(a) senhor(a) adquire seus medicamentos? ( ) Farmácia popular ( ) Farmácia privada ( )CMX – CedMex ( ) Outro ___________________ Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 114 APÊNDICE B – ROTEIRO DE ENTREVISTA Idade: ______ Sexo: ( ) Masculino ( ) Feminino Formação/Especialização: ____________________________ Pós-graduação: ____________ Tempo de formado: _______ Tempo de trabalho na APS: ________ Tempo de trabalho no município: ________ 1. Fale sobre os aspectos que orientam o cuidado à Saúde do Idoso na atenção básica. 2. Fale sobre os aspectos que orientam sua prática prescritiva para os idosos. 3. Comente sobre as dificuldades para a prescrição de medicamentos para idosos. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 115 APÊNDICE C – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO – TCLE Esclarecimentos Este é um convite para você participar da pesquisa: Envelhecimento populacional e o uso apropriado de medicamentos: uma análise da incorporação à prescrição na Atenção Básica, que tem como pesquisador responsável Andrezza Duarte Farias. Esta pesquisa pretende analisar a escolha de medicamentos essenciais no SUS e a prescrição de medicamentos para idosos na Atenção Básica. O motivo que nos leva a fazer este estudo é a necessidade de se discutir o uso de medicamentos por idosos desde a escolha e disponibilidade no SUS à prescrição e também pela pequena quantidade de estudos sobre medicamentos potencialmente inapropriados para idosos realizados na atenção básica e no Nordeste. Caso você decida participar, você deverá permitir que o pesquisador analise sua prescrição médica através da transcrição das informações da sua prescrição em um formulário (dados do emissor [nome, assinatura, carimbo], dados dos medicamentos [nome do medicamento, concentração, quantidade, frequência, duração do tratamento, forma de uso] dados do usuário [sigla do nome, presença do endereço], local e data. Durante a transcrição, a previsão de riscos é mínima, ou seja, o risco que você corre é semelhante àquele ao apresentar um documento a alguém. Pode acontecer um desconforto, caso você se sinta constrangido ao disponibilizar a prescrição médica, a qual será minimizado através da utilização de um espaço reservado, deixando a seu critério para em qualquer momento recusar da participação. 1/4 Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 116 Você terá como benefício a análise da prescrição no momento da dispensação e a orientação sobre o uso, além de contribuir para uma possível qualificação do cuidado ao idoso, por proporcionar a discussão acerca da prescrição e utilização de medicamentos por esse grupo populacional. Em caso de algum problema que você possa ter relacionado com a pesquisa, você terá direito a assistência gratuita que será prestada pelo pesquisador responsável, Andrezza Duarte Farias, a qual tomará todas as providências necessárias para minimizar o problema reclamado. Durante todo o período da pesquisa você poderá tirar suas dúvidas ligando para Andrezza Duarte Farias, (83) 9606 9977, andrezzadfarias@gmail.com. Você tem o direito de se recusar a participar ou retirar seu consentimento, em qualquer fase da pesquisa, sem nenhum prejuízo para você. Os dados que você irá nos fornecer serão confidenciais e serão divulgados apenas em congressos ou publicações científicas, não havendo divulgação de nenhum dado que possa lhe identificar. Esses dados serão guardados pelo pesquisador responsável por essa pesquisa em local seguro e por um período de 5 anos. Se você tiver algum gasto pela sua participação nessa pesquisa, ele será assumido pelo pesquisador e reembolsado para você. Se você sofrer algum dano decorrente desta pesquisa, você será indenizado. Qualquer dúvida sobre a ética dessa pesquisa você deverá entrar em contato com o Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Onofre Lopes, telefone: 3342-5003, endereço: Av. Nilo Peçanha, 620 – Petrópolis – Espaço João Machado – 1° Andar – Prédio Administrativo - CEP 59.012-300 - Nata/RN, e-mail: cep_huol@yahoo.com.br. 2/4 Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 117 Este documento foi impresso em duas vias. Uma ficará com você e a outra com o pesquisador responsável Andrezza Duarte Farias. Consentimento Livre e Esclarecido Após ter sido esclarecido sobre os objetivos, importância e o modo como os dados serão coletados nessa pesquisa, além de conhecer os riscos, desconfortos e benefícios que ela trará para mim e ter ficado ciente de todos os meus direitos, concordo em participar da pesquisa Envelhecimento populacional e o uso apropriado de medicamentos: uma análise da incorporação à prescrição na Atenção Básica, e autorizo a divulgação das informações por mim fornecidas em congressos e/ou publicações científicas desde que nenhum dado possa me identificar. Campina Grande, _____/ __________/ ______. __________________________________ Assinatura do participante da pesquisa Declaração do pesquisador responsável Como pesquisador responsável pelo estudo Envelhecimento populacional e o uso apropriado de medicamentos: uma análise da incorporação à prescrição na Atenção Básica, declaro que assumo a inteira responsabilidade de cumprir fielmente os procedimentos metodologicamente e direitos que foram esclarecidos e assegurados ao participante desse estudo, assim como manter sigilo e confidencialidade sobre a identidade do mesmo. Declaro ainda estar ciente que na inobservância do compromisso ora assumido estarei infringindo as normas e diretrizes propostas pela Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde – CNS, que regulamenta as pesquisas envolvendo o ser humano. Impressão datiloscópica do participante 3/4 Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 118 Campina Grande, ______/ _____________/ ______. Assinatura do(a) Pesquisador(a) Responsável _______________________________________________ Andrezza Duarte Farias 4/4 Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 119 Apêndice D - TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO – TCLE Esclarecimentos Este é um convite para você participar da pesquisa: Envelhecimento populacional e o uso apropriado de medicamentos: uma análise da incorporação à prescrição na Atenção Básica, que tem como pesquisador responsável Andrezza Duarte Farias. Esta pesquisa pretende analisar a relação entre a seleção de medicamentos essenciais no SUS e a prescrição de medicamentos para idosos na Atenção Básica. O motivo que nos leva a fazer este estudo é a necessidade de se discutir o uso de medicamentos por idosos desde a seleção no SUS à prescrição e a escassez de estudos sobre medicamentos potencialmente inapropriados para idosos realizados na atenção básica e no Nordeste. Caso você decida participar, você deverá responder à entrevista, a qual terá sua voz gravada, porém sem utilização de imagem, caso você autorize sua participação na pesquisa. Durante a realização das entrevistas a previsão de riscos é mínima,ou seja, o risco que você corre é semelhante àquele sentido num exame físico ou psicológico de rotina. Pode acontecer um desconforto caso você se sinta constrangido ao responder o roteiro de entrevista, porém este será minimizado através da realização em espaço reservado, deixando a seu critério para em qualquer momento da entrevista sua recusa da participação. Você terá como benefício a possibilidade de descrição e reflexão sobre sua prática de prescrição para idosos, assim como a contribuição para o conhecimento científico que pode trazer melhorias para o cuidado à população idosa atendida na Atenção Básica. Em caso de algum problema que você possa ter relacionado com a pesquisa, você terá direito a assistência gratuita que será prestada pelo pesquisador responsável, Andrezza Duarte Farias, a qual tomará todas as providências necessárias para minimizar o problema reclamado. Durante todo o período da pesquisa você poderá tirar suas dúvidas ligando para Andrezza Duarte Farias, (83) 9606 9977, andrezzadfarias@gmail.com. Você tem o direito de se recusar a participar ou retirar seu consentimento, em qualquer fase da pesquisa, sem nenhum prejuízo para você. Os dados que você irá nos fornecer serão confidenciais e serão divulgados apenas em congressos ou publicações científicas, não havendo divulgação de nenhum dado que possa lhe identificar. Esses dados serão guardados pelo pesquisador responsável por essa pesquisa em local seguro e por um período de 5 anos. Se você tiver algum gasto pela sua participação nessa pesquisa, ele será assumido pelo pesquisador e reembolsado para você. Se você sofrer algum dano decorrente desta pesquisa, você será indenizado. 1/3 5 Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 120 Qualquer dúvida sobre a ética dessa pesquisa você deverá entrar em contato com o Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Onofre Lopes, telefone: 3342-5003, endereço: Av. Nilo Peçanha, 620 – Petrópolis – Espaço João Machado – 1° Andar – Prédio Administrativo - CEP 59.012- 300 - Nata/Rn, e-mail: cep_huol@yahoo.com.br. Este documento foi impresso em duas vias. Uma ficará com você e a outra com o pesquisador responsável Andrezza Duarte Farias. Consentimento Livre e Esclarecido Após ter sido esclarecido sobre os objetivos, importância e o modo como os dados serão coletados nessa pesquisa, além de conhecer os riscos, desconfortos e benefícios que ela trará para mim e ter ficado ciente de todos os meus direitos, concordo em participar da pesquisa : Envelhecimento populacional e o uso apropriado de medicamentos: uma análise da incorporação à prescrição na Atenção Básica, e autorizo a divulgação das informações por mim fornecidas em congressos e/ou publicações científicas desde que nenhum dado possa me identificar. Campina Grande, ______/ _____________/ ______. _______________________________________________ Assinatura do participante da pesquisa Declaração do pesquisador responsável Como pesquisador responsável pelo estudo: Envelhecimento populacional e o uso apropriado de medicamentos: uma análise da incorporação à prescrição na Atenção Básica, declaro que assumo a inteira responsabilidade de cumprir fielmente os procedimentos metodologicamente e direitos que foram esclarecidos e assegurados ao participante desse estudo, assim como manter sigilo e confidencialidade sobre a identidade do mesmo. Impressão datiloscópica do participante 2/3 /25 Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 121 Declaro ainda estar ciente que na inobservância do compromisso ora assumido estarei infringindo as normas e diretrizes propostas pela Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde – CNS, que regulamenta as pesquisas envolvendo o ser humano. Campina Grande, ______/ _____________/ ______. Assinatura do(a) Pesquisador(a) Responsável _______________________________________________ Andrezza Duarte Farias Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 122 APÊNDICE E - TERMO DE AUTORIZAÇÃO PARA GRAVAÇÃO DE VOZ UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SAÚDE COLETIVA TERMO DE AUTORIZAÇÃO PARA GRAVAÇÃO DE VOZ Eu, ___________________________, depois de entender os riscos e benefícios que a pesquisa intitulada “Envelhecimento populacional e uso apropriado de medicamentos: uma análise da incorporação à prescrição na Atenção Básica” poderá trazer e, entender especialmente os métodos que serão usados para a coleta de dados, assim como, estar ciente da necessidade da gravação de minha entrevista, AUTORIZO, por meio deste termo, a pesquisadora Andrezza Duarte Farias a realizar a gravação de minha entrevista sem custos financeiros a nenhuma parte. Esta AUTORIZAÇÃO foi concedida mediante o compromisso da pesquisadora acima citada em garantir-me os seguintes direitos: 1. poderei ler a transcrição de minha gravação; 2. os dados coletados serão usados exclusivamente para gerar informações para a pesquisa aqui relatada e outras publicações dela decorrentes, quais sejam: revistas científicas, congressos e jornais; 3. minha identificação não será revelada em nenhuma das vias de publicação das informações geradas; 4. qualquer outra forma de utilização dessas informações somente poderá ser feita mediante minha autorização; 5. os dados coletados serão guardados por 5 anos, sob a responsabilidade da pesquisadora Andrezza Duarte Farias e após esse período, serão destruídos e, 6. serei livre para interromper minha participação na pesquisa a qualquer momento e/ou solicitar a posse da gravação e transcrição de minha entrevista. 1/2 Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 123 Campina Grande, ___ / __________/ ______ ______________________________________ Assinatura do participante da pesquisa ________________________________________ Assinatura e carimbo do pesquisador responsável Este documento deverá ser elaborado em duas vias; uma ficará com o participante e outra com o pesquisador responsável. Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 124 ANEXO A – APROVAÇÃO COMITÉ DE ÉTICA EM PESQUISA Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 125 Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 126 ANEXO B – SUBMISSÃO ARTIGO 1 Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: da seleção à prescrição na Atenção Primária à Saúde 127 ANEXO C – PUBLICAÇÃO DO ARTIGO 2