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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO CENTRO DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO - PPGED MARIA DA CONCEIÇÃO DANTAS DO NASCIMENTO PRÁTICAS CORPORAIS DE AVENTURA NA NATUREZA: UMA PROPOSTA PEDAGÓGICA JUNTO À EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR INCLUSIVA NATAL / RN 2022 MARIA DA CONCEIÇÃO DANTAS DO NASCIMENTO PRÁTICAS CORPORAIS DE AVENTURA NA NATUREZA: UMA PROPOSTA PEDAGÓGICA JUNTO À EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR INCLUSIVA Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Educação – PPGED, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito final para a obtenção do título de Mestre em Educação. Orientadora: Prof.ª Dra. Maria Aparecida Dias. NATAL / RN 2022 Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial Moacyr de Góes - CE Nascimento, Maria da Conceição Dantas do. Práticas corporais de aventura na natureza : uma proposta pedagógica junto à educação física escolar inclusiva / Maria da Conceição Dantas do Nascimento. - 2022. 90 f.: il. color. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação. Natal, RN, 2022. Orientadora: Profa. Dra. Maria Aparecida Dias. 1. Inclusão escolar - Dissertação. 2. Educação física - Dissertação. 3. Deficiência - Práticas corporais - Dissertação. 4. Inclusão - Aventura na natureza - Dissertação. I. Dias, Maria Aparecida. II. Título. RN/UF/Biblioteca Setorial Moacyr de Góes - CE CDU 376:613.71 Elaborado por Jailma Santos - CRB-15/745 PRÁTICAS CORPORAIS DE AVENTURA NA NATUREZA: UMA PROPOSTA PEDAGÓGICA JUNTO À EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR INCLUSIVA Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, na linha de pesquisa Educação e Inclusão em Contextos Educacionais, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Educação. Data de Aprovação: 26 do mês de agosto de 2022 BANCA EXAMINADORA Profa. Dra. Maria Aparecida Dias – Orientadora Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN Profa. Dra. Michele Pereira de Souza da Fonseca – Titular Externo Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ Prof. Dr. Antônio de Pádua dos Santos – Titular Interno Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN Prof. Dr. José Pereira de Melo – Suplente Interno Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN Profa. Dra. Graciele Massoli Rodrigues – Suplente Externo Universidade São Judas Tadeu AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar meus agradecimentos a Deus, por nunca ter desistido de mim, por eu sempre sentir sua presença nos momentos mais difíceis em que enfrente nesse caminho acadêmico. Obrigada meu Deus! Agradeço aos meus pais Golinha e Luiza, sempre pelo apoio que me deram ao longo da minha vida, aos meus irmãos em especial minha irmã Alexandra Dantas, por ter me dado suporte em vários momentos embaraçados em que me encontrava, ela foi indispensável para que nesses momentos minha fé, meu foco e minha determinação reestabelecesse e que eu continuasse a estudar e escrever. Agradecimentos a minha família, titia Ana por sempre me ouvir quando estava com minha cabeça em turbilhão, a titia Maria sempre pelo apoio e as pelas palavras de Deus presente em nossas conversas, aos meus primos Tácito e Anielle por inúmeras vezes me ajudarem, sempre que precisei e gritei por eles. Enfim, a todos por compreenderem minha ausência em alguns encontros em família. Com carinho gratidão a professora Dra. Cida Dias, minha orientadora, por ter confiado em mim, acreditado no meu trabalho, pela paciência e empatia comigo, nos meus momentos de ansiedade e medo de que passei nesse processo. Esteve me orientando e guiando sempre de forma leve e compreensiva essa pesquisa. Obrigada, por tudo, Cida. As professoras Dra. Luzia Guacira, Dra. Lúcia Martins, Dra. Rita Magalhães pelas sugestões e orientações tecidas nos meus seminários de pesquisa. Ao professor Dr. Pádua dos Santos, pelas contribuições e palavras de carinho no meu Seminário IV, que foram fortes e me fizeram perceber a importância da minha presença em todo esse processo e na construção da minha pesquisa. Você foi luz naquele momento para mim. A professora Dra. Michele Pereira, por ampliar meu olhar no meu Seminário IV, em torno das suas sugestões e contribuição com finalidade de melhorar na pesquisa, reflexões valiosíssimas, que guardei em um lugar especial. Como também suas palavras motivacionais que no momento foram excessivas para o desdobramento desse trabalho. A minha querida e estimada amiga, que a UFRN me presenteou Ana Aparecida, obrigada por abrir para mim sua casa, sua família, por ter se tornando essencial seu carinho, sua paciência e suas contribuições para minha escrita. Quero levar junto comigo sua amizade até os dias finais da minha vida. Obrigada, amiga, por tanto. As minhas colegas de grupo de pesquisa Fabiana Oliveira, Dandara Queiroga que constantemente procurei apoio, sempre postas a me ajudar seja tirando dúvidas, como também me motivando. Vocês são especiais. Sou grata a gestão da Escola Municipal Expedito José da Costa, em nome de Soligia Oliveira e Solange Palhano, pela confiança e acolhimento que tiveram quando planejava minhas aulas, as quais precisava que os alunos saíssem da escola para as práticas. Sempre prontas a ajudar. Aos meus colegas de trabalho em especial as professoras Lízia Fernandes, amiga que me aguentava toda hora falar dessa dissertação, e a professora Cleide Maria, além de colega de trabalho, um ser humano incrível que me ajudou bastante ao longo desses anos nas aulas de campo que executava, ela sempre esteve presente e disponível em participar junto comigo. Gratidão a amizade de Francisco e Deyvid (in memoria), pelas palavras de amizade e junto comigo vibrar a cada conquista. Vocês são especiais demais para mim. Por fim, a todos que direto ou indiretamente estiveram presentes comigo trilhando esse caminho, foram dois anos e 5 meses de muita dedicação, e amor por esse trabalho. Finalizo com o coração transbordando de Gratidão e Amor. Obrigada! “Viver é melhor que sonhar Eu sei que o amor é uma coisa boa” Belchior RESUMO As práticas corporais de aventura na natureza, de forma geral em nosso país têm conquistado a cada ano novos adeptos e apresentado diferentes expressões de manifestações corporais. O presente trabalho traz como enfoque uma proposta pedagógica com as práticas corporais de aventura na natureza como unidade temática da Educação Física escolar numa perspectiva inclusiva. O objetivo geral desse estudo é apresentar uma proposta pedagógica para a Educação Física escolar, com o conteúdo práticas corporais de aventura na natureza, numa perspectiva inclusiva. E como objetivos específicos propomos: a) descrever procedimentos pedagógicos com práticas corporais de aventura na natureza aplicadas a pessoas com deficiência; b) promover o ambiente natural na comunidade Pitangui/RN através da proposta pedagógica elaborada de práticas corporais de aventura, como espaço propício para realização de aulas inclusivas. Para isso, adotamos uma abordagem qualitativa e descritiva, a fim de realizar um levantamentode conteúdo do estudo direto com a realidade pesquisada, obtendo grande quantidade de dados em curto espaço de tempo. Entende-se, que esse trabalho ampliou de maneira crítica a diversificação de conteúdos na Educação Física Escolar através da elaboração de uma proposta pedagógica valorizando o contexto escolar inclusivo, dando possibilidades do professor trabalhar com as práticas corporais de aventura na natureza com enfoque no aluno com deficiência. Nesse sentindo, constatamos ser real que pessoas com deficiência possam participar de tais aventuras, nos mostrando maneiras de refletirmos e desenvolvermos ações que fomentem discussões sobre a Educação Física Inclusiva. Palavra-Chave: Educação Física Escolar Inclusiva; Práticas Corporais de Aventura na Natureza; Deficiência; Inclusão. ABSTRACT The corporal practices of adventure in nature, in general in our country, have conquered new followers every year and presented different expressions of body manifestations. The present work focuses on a pedagogical proposal with the corporal practices of adventure in nature as a thematic unit for Physical Education at school in an inclusive perspective. The general objective of this study is to present a pedagogical proposal for Physical Education at school, with the content of corporal practices of adventure in nature, in an inclusive perspective. And as specific objectives we propose: a) to describe pedagogical procedures with corporal practices of adventure in nature applied to people with deficiency; b) to promote the natural environment in the Pitangui/RN community through the pedagogical proposal elaborated of adventure corporal practices, as a propitious space to carry out inclusive classes. For this, we adopted a qualitative and descriptive approach, in order to carry out a survey of the content of the study directly with the researched reality, obtaining a large amount of data in a short space of time. It is understood that this work critically expanded the diversification of contents in Physical Education at School through the elaboration of a pedagogical proposal valuing the inclusive school context, giving the teacher possibilities to work with the corporal practices of adventure in nature with a focus on the student with deficiency. In that sense, we found it real that people with deficiency can participate in such adventures, showing us ways to reflect and develop actions that encorauge discussions about Inclusive Physical Education. Keyword: Inclusive Physical Education at School; Corporal Practices of Adventure in Nature; Deficiency; Inclusion. LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Levantamento pesquisa do estado da arte.................................................. Quadro 2 – Levantamento pesquisa do estado da arte.................................................. Quadro 3 – Práticas Corporais de Aventura.................................................................. Quadro 4 – Estratégias da modalidade surfe................................................................. Quadro 5 – Estratégias da modalidade canoagem......................................................... Quadro 6 – Estratégias da modalidade esquibunda..................................................... 17 18 54 68 73 77 LISTA DE FIGURAS Figura 1- "O que é para você uma Educação Física Inclusiva" - Resposta de grupo de professores da rede de ensino pública do município de Natal/RN ........................................... 36 Figura 2- Descida de dunas localizados na comunidade Pitangui ............................................ 59 Figura 3- Pranchas de surfe feitas de papelão .......................................................................... 66 Figura 4- Pranchas de surfe feitas de garrafa PET ................................................................... 66 Figura 5- Alunos com prancha de surfe antes de entrarem na água ......................................... 67 Figura 6 - Alunos entrando no mar iniciando posicionamento para remada ............................ 68 Figura 7- Aluna com paralisia cerebral em uma aula de surfe ................................................. 69 Figura 8 - Caiaque feito com garrafa pet .................................................................................. 72 Figura 9 - Aula de canoagem realizada na lagoa de Pitangui ................................................... 73 Figura 10 - Aluna com paralisia cerebral em uma aula de canoagem na lagoa de Pitangui .... 75 Figura 11- Prancha de esquibunda ............................................................................................ 76 Figura 12 - Aluno demostrando o posicionamento para descida na esquibunda ...................... 77 Figura 13 - Grupo de alunos auxiliando o posicionamento de uma aluna com deficiência intelectual na prancha da esquibunda ....................................................................................... 79 LISTA DE ABREVIATURAS BNCC – Base Nacional Comum Curricular PCAs – Práticas Corporais de Aventura PCANs- Práticas Corporais de Aventura na Natureza UERN – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte PPGED – Programa de Pós-graduação em Educação PPGEF – Programa de Pós-graduação em Educação Física SCIELO - Scientific Electronic Library Online BDTD – Biblioteca Digital de Teses e Dissertações REE – Revista Educação Especial RBCE – Revista Brasileira de Ciência do Esporte LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional PCN’s – Parâmetros Curriculares Nacional SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 12 CAPÍTULO I - NARRAÇÕES SOBRE EDUCAÇÃO INCLUSIVA E A EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR INCLUSIVA .................................................... 26 1.1 Breve histórico sobre educação inclusiva .......................................................... 26 1.2 O caminho percorrido pela educação física inclusiva ................................... .. 33 1.2.1 O professor de educação física na perspectiva inclusiva .................................... 36 CAPÍTULO II - PRÁTICAS CORPORAIS DE AVENTURA NA NATUREZA E A EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR INCLUSIVA ............................................41 2.1 Práticas corporais de aventura na natureza no contexto escolar .................... 41 2.2 Práticas corporais de aventura na natureza com perspectiva inclusiva ......... 49 CAPÍTULO III – PROPOSTA PEDAGÓGICA DE AULAS EM EDUCAÇÃO FÍSICA COM AS PRÁTICAS CORPORAIS DE AVENTURA .......................... 53 3.1 Elementos norteadores do ensino das práticas corporais de aventura nas aulas de educação física escolar inclusiva ................................................................ 53 3.2 Estratégias de ensino com as práticas corporais de aventura na natureza numa perspectiva inclusiva ....................................................................................... 58 3.2.1 Surfe .................................................................................................................... 64 3.2.2 Canoagem ........................................................................................................... 70 3.2.3 Esquibunda.......................................................................................................... 75 CONSIDERAÇÕES FINAIS – IMPRESSÕES SOBRE NOSSA AVENTURA .. 81 REFERÊNCIAS .........................................................................................................84 12 INTRODUÇÃO As práticas corporais em nosso país, de modo geral, têm conquistado a cada ano novos e diferentes contornos e expressões nas manifestações corporais. Entre essas novas expressões, surge o fenômeno das práticas corporais de aventura, que vêm alcançando a cada nova modalidade, mais e mais simpatizantes, esportistas ou não. São esportes cuja prática através da aproximação com a natureza trazem um alto nível de satisfação e prazer pessoal. As práticas corporais ao ar livre oferecem possibilidades de vivenciar o inesperado e o imprevisível pelo contato homem/natureza. O debate sobre o significado e a relevância das práticas corporais de aventura na natureza chegou ao Brasil na década de 1990, por meio de artigos publicados fora da academia, e pouco tempo depois surgiram as primeiras publicações científicas nacionais sobre essa temática, sendo disseminadas em todo país, principalmente na área do turismo, do esporte e do lazer, gerando alguns debates no meio acadêmico sobre o conceito e as diversas nomenclaturas1 usadas (INÁCIO, 1997). Nessa perspectiva, considerando as diversas terminologias e espaços utilizados para essa prática, adotaremos neste trabalho as Práticas Corporais de Aventura (PCAs) apresentadas por Inácio et. al. (2005), e que serão discutidas mais detalhadamente no Capítulo II. Com o passar dos anos, as PCAs vêm se destacando como manifestação corporal no cenário escolar em todo Brasil, como observado nos estudos de Franco (2008; 2014); Pereira e Armbrust (2010); Pimentel (2013); Armbrust, Maldonado e Silva (2016); Franco, Cavasini e Darido (2014); Tahara e Carnicelli Filho (2013), entre outros. No entanto, foi apenas com a homologação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), em dezembro de 2017, que se tornou uma das unidades temáticas da cultura de movimento obrigatória nos currículos de Educação Física do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental, em seus anos finais. A BNCC utiliza como critério para classificar as PCAs o ambiente utilizado nas vivências. Separando-os conforme praticados no meio urbano, indicados para as turmas de 6º e 7º anos; e na natureza, indicados para as turmas de 8º e 9º anos (BRASIL, 2018). Reconhecemos assim que, de acordo com Silva, Pereira e Silva (2016, p. 33-34), 1 Práticas Corporais de Aventura (PCAs), Práticas Corporais de Aventura na Natureza (PCANs), Esportes de aventura, Esportes de risco, Esportes urbanos/radicais, entre outros. 13 Independentemente da terminologia utilizada, tais atividades podem ser praticadas em meio urbano e no meio natural, seja como esporte competitivo ou como prática de atividade física nos momentos de lazer, e que possuem em comum a busca do desconhecido e da sensação de controlar o risco no momento de prática. É interessante compreender também que a BNCC classifica as demais práticas conforme o ambiente em que são realizadas, e os autores apontam essas possibilidades, como também identificam em atividades competitivas e atividades físicas nos momentos de lazer. No entanto, observamos a necessidade de ampliação dessa discussão dentro da Educação Física Escolar. Diante do exposto acima, destacamos algumas das motivações pessoais para desenvolver essa pesquisa, mostrando de início como a Educação Física entrou na minha vida. Tudo começou quando estava no ensino fundamental e fazia parte da equipe de handebol da escola na qual estudava. Os momentos vividos como atleta fizeram me apaixonar pela Educação Física e o sonho de ser professora acompanhou essa paixão. Anos depois cursei licenciatura em Educação Física pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), onde me formei no ano de 2008. Nesse processo acadêmico tive a oportunidade de participar da disciplina “Educação Física Especial”, e com essa experiência meu olhar para inclusão foi se formando. No ano de 2008, logo após minha formação acadêmica, fiz minha primeira entrevista para treinar uma equipe de Goalball 2 , sendo aí que tive o primeiro contato profissional com experiência de três meses, trabalhando junto a pessoas com deficiência. Outro momento marcante nesse percurso foi com a escolinha de natação que montei no interior de Jardim do Seridó, minha cidade natal. Neste período tive o contato com dois alunos que apresentavam deficiência, uma com deficiência visual e um com deficiência física. Caminho bastante desafiador e valioso para mim como pessoa e profissional, pois com muito trabalho e persistência consegui integrá-los ao meio líquido, respeitando os limites e as características individuais de cada um deles. Em interface com essas motivações iniciais retornei à capital do estado do Rio Grande do Norte, Natal, onde tive a oportunidade de cursar uma disciplina como aluna especial pelo Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED), intitulada Seminário: Educação de Pessoas Especiais II, que me estimulou ainda mais a olhar a inclusão como parte transformadora da educação e do meu papel como educadora. Em seguida, cursei duas 2 Desenvolvido especificamente para deficientes visuais, o Goalball é o único esporte paralímpico não adaptado. Foi criado em 1946, pelo austríaco Hanz Lorezen e o alemão Sepp Reindle, que tinham como objetivo reabilitar e socializar os veteranos de Segunda Guerra Mundial que ficaram cegos. Disponível em: http://cbdv.org.br/goalball. Acesso em: 22 de nov. 2021. http://cbdv.org.br/goalball 14 disciplinas também como aluna especial pelo Programa de Pós-Graduação em Educação Física (PPGEF), Corpo, natureza e cultura e Corpo e aprendizagem, que foram essenciais para perceber o corpo em uma perspectiva fenomenológica, compreendendo-o como sujeito que se constitui por meio das experiências vividas no mundo. Outro aprendizado, que me motivou nesse processo, foi a vivência como tutora do curso de Educação Física à distância, oferecido pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em que pude me aproximar das discussões acadêmicas, tendo a oportunidade de ampliar os conhecimentos com as disciplinas “Metodologia do Ensino da Ginástica”, “Aspectos Sócio-Filosóficos da Educação Física”, “Educação Física no Ensino Fundamental”, “Educação Física no Ensino Médio” e “Educação Física Adaptada”. Nessa ocasião, tive o prazer de trabalhar com professores que dedicadamente me incentivaram a seguir com as pesquisas acadêmicas, como a professora Dra. Maria Aparecida Dias, que carrega em suas veias o propósito da inclusão, e me inspira desde então e que tenho a honra de tê-la como minha orientadora. Durante uma trajetória de treze anos como professora de Educação Física, tenho buscado me aperfeiçoar, procurando e descobrindo inovações e conhecimentos para serem colocados em prática em minhas aulas de Educação Física Escolar, e a inclusão é uma constante sob várias formas, começando pela participação dos alunos com deficiência, incluindo sempre as meninas, fazendo questão de que em minhas aulas tivessem direitos iguais aos dos meninos, bem como os que se apresentam fora dos contextos de representações de corpo perfeito impostos pela sociedade, como: gordo, magro, alto, baixo, e também aqueles com dificuldade em se relacionar. Assim, todos tinham seu lugar e estavam aptos a participarem das minhas aulas. Por meio dessas experiências percebi que a Educação Física tem grande relevância no processo inclusivo e que, no âmbito escolar, é preciso ir mais além, quando se fala de aulas inclusivas, pois a inclusão não se restringe apenas à pessoa com deficiência, abrange também àqueles alunos com distorção idade/série, alunos com dificuldades comportamentais, dentre tantas diversidades que encontramos presentes nas escolas. Antes de darmos continuidade ao que foi desenvolvido nessetrabalho, é preciso deixar clara a nossa compreensão sobre o que entendemos por educação inclusiva. Em concordância com Rodrigues (2006), percebemos que é necessário desenvolver políticas públicas e culturais, bem como práticas que valorizem cada aluno na construção do conhecimento, de forma a atingir uma perspectiva educacional, social e cultural sem que haja discriminação relativa à diferença, respeitando as individualidades e singularidades ali encontradas. 15 Nesse sentido, também concordamos com Soler (2009) quando diz que a escola deve ser preparada para receber todas as diferenças, e perceber que cada ser humano é único, incomparável. Nesta dissertação o aluno teve sempre seu destaque, e foi tratado como único, na construção do processo de aprendizagem. Nós, professores, devemos garantir que esse processo seja construído para todos e todas, e que a aprendizagem chegue ao maior número possível de pessoas, transformando vidas e famílias, com responsabilidade e respeito à diversidade existente em uma sociedade. Hoje minha inquietação como professora e pesquisadora é me empenhar para que as PCAs sejam inclusivas, o que já venho vivenciando desde 2014 com meus alunos do Ensino Fundamental II em escola pública. Espero que elas me inspirem ainda mais nas discussões sobre a inclusão para a construção dessa dissertação e que esta estimule tantos outros colegas. Na busca de oportunizar o acesso dos alunos com deficiência às PCANs, espero que essas ações possam contribuir para o conhecimento acadêmico e construção de práticas pedagógicas sistematizadas que possibilitem uma Educação Física Escolar Inclusiva, e que outros profissionais também encontrem esse caminho. A partir das minhas experiências como professora de Educação Física em uma escola pública, localizada em uma comunidade de Pitangui/RN3, na zona costeira, com praias, dunas e lagoas, no município de Extremoz/RN, percebi-me em um ambiente propício às PCANs, uma vez que esta área possui um grande potencial turístico, e é explorado para o lazer com práticas de Tirolesa, do Surf, da Canoagem, Stand Up, entre outras. Deste modo, acreditando no aproveitamento deste ambiente privilegiado, tencionamos desenvolver uma proposta pedagógica na perspectiva inclusiva que possa dar oportunidade a alunos, com ou sem deficiência, a vivência de aulas na Educação Física Escolar acompanhada das PCANs. Nossa primeira intenção de trabalho nessa dissertação foi de uma intervenção pedagógica com as PCANs com a participação de alunos com e sem deficiência em algumas modalidades que pudessem ser realizadas ali mesmo, na comunidade e na natureza. O grande impasse para a realização da intervenção foi a pandemia da Covid-19, que ainda hoje enfrentamos. Em 31 de dezembro de 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS), foi alertada sobre vários casos de pneumonia na cidade de Wuhan província da China. Seria uma nova cepa (tipo) de coronavírus (Covid-19) que até então não teria sido identificada em seres humanos. Já 3 Praia de Pitangui fica no município de Extremoz, a 30 km do centro de Natal. Disponível em: https://www.praiasdenatal.com.br/praia-de-pitangui. Acesso em: 22 nov. 2022. 16 no dia 7 de janeiro de 2020, as autoridades chinesas confirmam a identificação de um novo tipo de coronavírus. No dia 31 de janeiro de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declara surto do novo coronavírus constituindo uma emergência de saúde pública de importância internacional. A Covid-19 foi caracterizada como uma pandemia no dia 11 de março de 2020, designando reconhecer surtos de Covid-19 em vários países de todas as regiões do planeta (HISTÓRICO DA PANDEMIA DE COVID-19, 2022). A pandemia nos privou de estarmos presencialmente nas escolas, do contato interpessoal, do sentir de perto as ações e emoções dos nossos alunos, que passaram um tempo isolados, carentes de afeto, de carinho, de segurança, que sentiam dentro do ambiente escolar. Como também muitos sentiram falta da merenda escolar, alimentação que para muitos era a única que tinham, entre outros situações tristes que essa pandemia nos causou nesses últimos meses. Em razão deste impedimento relatado acima, modificamos o objeto de estudo dessa dissertação para um novo tema, que consiste na: Elaboração de uma proposta pedagógica com as práticas corporais de aventura na natureza junto à Educação Física Escolar Inclusiva. Trabalharemos com uma nova proposta de prática pedagógica a ser elaborada a partir do formato de aulas inclusivas, que aumentem as possibilidades de participação dos alunos com deficiência na unidade temática “Práticas Corporais de Aventura na Natureza”. Diante de um novo olhar para nossas idealizações, em busca do possível a ser feito nesta nova dissertação, inicialmente realizamos um levantamento bibliográfico que mostrasse o estado da arte, por meio de produções científicas nacionais e internacionais, traduzidas para a língua portuguesa, que tratassem de práticas corporais de aventura na escola, na perspectiva inclusiva. Também procuramos propostas pedagógicas em Educação Física, na perspectiva inclusiva com o propósito de identificar o que vem sendo produzido e esteja relacionado à nossa pesquisa. Isso porque temos ciência de que as discussões não se esgotam, principalmente, no contexto atual que a escola pública vem enfrentando pela falta de investimentos e credibilidade do ensino público, dificultando as pesquisas e os debates que são fundamentais para produção de ciência. O estado da arte que configura nossa pesquisa foi desenvolvido em todo o mês de agosto de 2021, atentando para as pesquisas que estão vinculadas ao banco de dados do Portal de Teses e Dissertações (CAPES), Repositório de Teses e Dissertações da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (RTD/UFRN), no portal da Scientific Electronic Library Online (SCIELO) e na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). Em alguns periódicos como a Revista Educação Especial (REE) e a Revista Brasileira de Ciência do Esporte (RBCE), e no 17 site do Google Acadêmico, considerando o período de 01 de setembro de 2011 a 31 de agosto 2021. Para o recorte temporal consideramos um período de dez anos, suficiente para encontrarmos materiais disponíveis nas plataformas, levando em conta o ano de 2017, com os estudos da BNCC e sua promulgação em 2018, que veio alavancar publicações sobre a temática das PCAs por todo Brasil. Utilizamos os descritores e pareamentos precisos desta pesquisa que foram: Educação Física, Aventura, Inclusão e Deficiência. Apresentamos no quadro 1, abaixo, os resultados encontrados, bem como a quantidade dos trabalhos selecionados e escolhidos a serem utilizados em nossa pesquisa. Quadro 1 – Levantamento da pesquisa sobre o estado da arte BASE TRABALHOS ENCONTRADOS TRABALHOS SELECIONADOS PARA LEITURA TRABALHOS CONSIDERADOS DENTRO DA LEGIBILIDADE CAPES 1255 10 2 UFRN 84 7 2 SCIELO 95 3 (Portugal) 7 1 (Portugal) 2 0 BDTD 633 14 0 REE 49 2 1 RBCE 6 0 0 GOOGLE ACADÊMIC O 468 21 6 Total 2590 62 13 Fonte: Elaborado pela autora (2021). Utilizamos critérios de inclusão e exclusão em nossa busca a partir dos quais, primeiramente, realizamos uma leitura prévia dos resumos e dos textos completos selecionados, para que pudéssemos ter um melhor entendimento desses estudos. Nossos critérios de inclusão foram: monografias, artigos de periódicos, artigos de livros, dissertações e teses, que abordassem a Educação Física Inclusiva, e trouxessem propostas pedagógicas da Educação Física Escolar voltadas para as PCANs. Os trabalhos que não se encontravam dentro destes critérios foram excluídos da análise. Encontramos muitos trabalhos que discutem a Educação Física Inclusiva, que abordam e discutemdiversas questões, mas em relação às propostas pedagógicas com as PCANs na escola, na perspectiva inclusiva, não encontramos nenhum artigo, tese ou dissertação que discorresse sobre a temática. Identificamos três trabalhos que abordam a deficiência e as PCAs no âmbito do lazer. Com isso ressaltamos a existência de lacunas a serem discutidas sobre o 18 tema que o trabalho propõe, destacando a necessidade de ampliarmos os estudos e avançarmos as discussões no âmbito acadêmico para elaboração de uma proposta visando o ambiente escolar e que esta chegue diretamente às escolas. Continuando nosso estudo em relação ao estado da arte, destacamos as obras que consideramos relevantes e com legibilidade para a pesquisa. Logo, buscamos aprimorar nosso conhecimento delineando um caminho a ser percorrido. Após a leitura integral das obras escolhidas ficamos com um total de treze arquivos, sendo oito artigos publicados em periódicos, um artigo em livro, duas monografias e duas dissertações. No quadro 2, a seguir, as bases de pesquisa em que foram encontrados esses arquivos, os títulos, anos e tipos de publicação e seus referidos autores. Quadro 2 - Levantamento da pesquisa sobre o estado da arte BASE TÍTULO ANO/TIP O AUTOR(A) ES REE Educação inclusiva: uma escola para todos 2018 Artigo Silva Neto, Antenor de Oliveira Silva et al. SCIELO Dificuldades e sucessos de professores de Educação Física em relação à inclusão escolar 2016 Artigo Fiorini, Maria Luiza Salzani; Manzini, Eduardo José UFRN Práticas pedagógicas e inclusão escolar: o processo de ensino aprendizagem de alunas com deficiência intelectual 2015 Dissertação Monteiro, Mirela Granja Vidal GOOGLE ACADÊMICO Atividade física de aventura na natureza para pessoas com deficiência 2019 Artigo Silva, Darlan Pacheco et al. GOOGLE ACADÊMICO Esportes de Aventura para pessoas com deficiência 2019 Artigo Cantorani, José Roberto Herrera et al. GOOGLE ACADÊMICO Revisão sistemática das estratégias metodológicas utilizadas para adaptação da prática de esportes de aventura e da natureza para pessoas com deficiência. 2020 Artigo Paula, Gabriely Steffany GOOGLE ACADÊMICO Práticas corporais na natureza inseridas na Educação Física escolar 2016 Monografi a Massaia, Dionatan Rafael GOOGLE ACADÊMICO Atividades físicas de aventura: proposta de um conteúdo na Educação Física Escolar no ensino fundamental 2011 Artigo Franco, Laercio Claro P. et al. GOOGLE ACADÊMICO Possibilidades pedagógicas das práticas corporais de aventura nas aulas de Educação Física na rede municipal de ensino de Florianópolis 2017 Monografi a Bonora, Danilo Cristino CAPES Práticas corporais de aventura em aulas de Educação Física na escola 2016 Artigo Tahara, Alexander Klein; Darido, Suraya Cristina CAPES O esporte de aventura como conteúdo possível nas aulas de Educação Física escolar 2017 Artigo Paixão, Jairo Antônio da 19 UFRN Práticas corporais de aventura nos anos iniciais: a organização e a sistematização curricular nas aulas de Educação Física 2020 Dissertação Silva, Cybele Câmara da SCIELO Proposta de Classificação das práticas corporais de aventura para o ensino na Educação Física escolar 2021 Artigo Inácio, Humberto Luís de Deus Fonte: Elaborado pela autora (2021). Em seguida, apresentamos a discussão dos resultados obtidos com o levantamento bibliográfico que compõe o estado da arte, e constatamos estudos realizados que abordam as PCANs e a pessoa com deficiência no ambiente do lazer, mas não inserido na escola, como também encontramos trabalhos na temática das PCAs no contexto escolar, porém não mencionam a perspectiva inclusiva em seus estudos. Em seu estudo, Silva Neto et al. (2018) analisa a inserção de alunos com deficiência nas escolas, no ensino regular, sobre a qual destaca quatro fases: “fase de exclusão”, “fase da segregação”, “fase da integração” e “fase da inclusão total”. Tem como objetivo compreender o processo histórico da educação inclusiva, mediante uma pesquisa bibliográfica com resultados e apontamentos, no qual mostra que a inclusão escolar plena não é uma tarefa simples, visto que para isso seria necessário uma estrutura progressiva e uma mudança significativa no sistema educacional, mas principalmente um novo olhar na concepção de inclusão por parte da sociedade em geral. No artigo de Fiorini e Manzini (2016), o objetivo do estudo foi identificar situações de dificuldade e situações de sucesso de dois professores de Educação Física, em turmas regulares de uma escola pública. A conclusão alcançada foi que os dois professores encontraram dificuldades para incluir os alunos com deficiência em suas aulas, mas eles também destacam as vivências de situações de sucesso, como quando o próprio aluno apresentava interesse e motivação pelas aulas. Monteiro (2015) realiza uma pesquisa do tipo qualitativa, delineada como um estudo de caso, usando entrevista semiestruturada, observação participante, diário de campo e análise documental como instrumento de coleta de dados. A dissertação teve como objetivo analisar as práticas pedagógicas que vêm sendo desenvolvidas no processo de ensino-aprendizagem de alunas com Deficiência Intelectual (DI), e revela a necessidade de os docentes reverem algumas de suas ações relativas às práticas pedagógicas, assim como destaca a falta de investimentos e incentivos na qualificação dos docentes, no tocante à perspectiva inclusiva no contexto escolar, o que implica uma reorganização dos fazeres pedagógicos. 20 O artigo de Silva et al. (2019) mostra o mapeamento de pesquisas publicadas entre os anos de 2006-2016, envolvendo pessoas com deficiência realizando atividades de PCANs no contexto lazer. No estudo é evidenciado que a deficiência não é um impedimento para essa prática, todavia foi pouco explorado por este grupo. Nas suas considerações finais os autores constatam que nenhum desses trabalhos foi identificado com as PCANs e a pessoa com deficiência, relacionado ao ambiente escolar. O artigo de Cantorani et al. (2019) apresentam uma reflexão na qual observou que, na atualidade, cada vez mais pessoas buscam por atividades de lazer na natureza, bem como os motivos que levam as pessoas buscarem por essas atividades. Como subsídio o artigo traz o crescimento do interesse e da realização dessas atividades por pessoas com deficiência. Essa inovação em relação às PCAs é importante para seu crescimento e aceitação, na qual a pessoa com deficiência pode participar desses momentos, lembrando que, devido as suas especificidades, o acesso pode ser possível ou não a todos e todas. Para os autores, neste cenário, a acessibilidade passa a fazer parte dos debates, a fim de potencializar medidas voltadas para relação entre sociedade e as práticas corporais de aventura na natureza. Em Paula et al. (2020), a inclusão de pessoas com deficiência nas PCAs ainda é um aspecto muito carente de soluções. Identificaram que a deficiência visual foi aquela com mais casos de adaptações, tanto no espaço terrestre, como no espaço aquático. Os autores salientam que as iniciativas de inclusão evidenciam o aumento de aventuras turísticas e a sociabilização entre familiares, colegas e as PCAs, e trazem também os tipos de deficiência que não possuem publicações sobre procedimentos pedagógicos visando a inclusão, em discussão a pessoa com deficiência. Na monografia Práticas corporais na natureza inseridas na Educação Física escolar escrita por Massaia (2016), o objetivo foi investigar as expectativas dos alunos sobre as PCANs, bem como identificar se essas práticas são inseridas no currículo escolar. O estudo se caracteriza por ser uma pesquisa descritiva de cunho qualitativo e quantitativo, sendo analisado pormeio de um questionário sobre o conhecimento dos alunos sobre as PCAs e em sua análise e coleta de dados. Após os resultados obtidos o autor, em suas conclusões, aponta que os alunos já conheciam algumas das PCAs citadas por ele, as quais pelo menos uma dessas atividades já foram praticadas pelos alunos. Quando questionados sobre essas práticas serem inseridas nas aulas de Educação Física, 98% responderam que seria importante, relacionando maior interesse a esportes como tirolesa, orientação, escalada, canoagem e trilha. O autor fala em despertar a curiosidade e reflexão do aluno em sala de aula e fora dela nas PCAs, defendendo também que elas sejam disponibilizadas nas escolas. 21 Ao analisar a pesquisa de Franco et al. (2011), percebemos grande aceitação do conteúdo sobre as PCAs por parte dos alunos, como também o autor conclui que é possível alunos vivenciarem atividades físicas de aventura nas aulas de Educação Física Escolar. Além disso, identificou a necessidade de pequenas modificações em materiais e também na estrutura física das escolas, para a realização de aulas com as PCAs dentro da escola, superando as barreiras que por vezes são encontradas em relação ao conteúdo ser trabalhado no ambiente escolar. Bonora (2017) aponta no seu estudo a construção de uma unidade de conteúdo para formação continuada de uma rede pública de ensino, utilizando as PCAs como possibilidade pedagógica nas aulas de Educação Física. Neste trabalho, salientamos que não existe a preocupação com a inclusão de alunos com deficiência nessas aulas pensadas como unidade de conteúdo, deixando-os de fora. No mesmo sentido, Tahara e Darido (2016) apresentam em seu artigo, um levantamento bibliográfico sobre o tema com o objetivo de propor uma discussão e reflexão a respeito da relação entre a Educação Física nas escolas e as PCAs enquanto um possível conteúdo da área. O estudo estabeleceu três categorias para análises e discussões: primeiro, as definições terminológicas das PCAs; em seguida, o porquê de ensinar nas escolas com objetivos, motivos e dificuldades na inserção dessas práticas; e, por último, o que é ensinado nas aulas de Educação Física do conteúdo PCAs. Em suas reflexões, as autoras enfatizam que existem possibilidades de oportunizar determinadas PCAs aos alunos, por existir uma série de modalidades (aquáticas, terrestres ou aéreas, na natureza ou no meio urbano), como também há várias maneiras de possíveis modificações em algumas práticas, dependendo do contexto e local de sua realização. No estudo de Paixão (2017), a investigação é sobre o tratamento dado às diferentes modalidades que compõem o esporte de aventura como conteúdo da Educação Física Escolar. A pesquisa caracterizou-se como bibliográfica, que busca fortalecer novos elementos com potencial para o currículo escolar e alternativas para Educação Física. Vislumbra o potencial dos esportes de aventura enquanto conteúdo inserido nas escolas como componente curricular, que possibilita uma aprendizagem ao aluno da educação básica de reproduzir, transformar e partilhar as diversas formas de manifestações corporais nas aulas de Educação Física. A dissertação de Silva (2020) apresenta discussões e reflexões a partir da BNCC quanto a temática das PCAs e as proposições e aplicações no currículo da Rede de Municipal de Ensino do município de Natal-RN, nos anos iniciais do Ensino Fundamental. A pesquisa tem uma abordagem qualitativa do tipo pesquisa-ação, a qual foi realizada intervenção em duas turmas com um total de 32 alunos durante as aulas de Educação Física. Segundo a autora, “[...] É 22 possível pensar nas PCAs nos diversos espaços escolares, partindo da mudança de perspectiva que tem o docente, para o seu local de prática pedagógica” (2020, p. 116). Em suas análises, o reconhecimento do espaço de atuação dos professores, passa a expandir os horizontes das PCAs para além da BNCC, não limitando apenas às modalidades lá encontradas, além de também acessar o conhecimento que os alunos trazem, permitindo uma mudança no olhar sobre seu espaço de aula. Com isso, mostra que é possível às PCAs estarem presentes dentro da escola. Inácio (2021) expõe uma proposta com as PCAs voltadas ao ensino da Educação Física Escolar, que possa apresentar os mesmos moldes do âmbito do lazer, do esporte e do turismo, e suas estratégias a serem realizadas na escola. O autor discute as possibilidades de inclusão dos alunos com deficiência nessas práticas, seguindo uma evolução das mais simples modalidades, e de fácil desenvolvimento, até as mais complexas, que exigem requinte de técnicas, com equipamentos mais específicos para execução prática das atividades. Analisando os materiais encontrados, observamos uma carência nas discussões sobre inclusão de alunos com deficiência e as PCANs serem realizadas no ambiente escolar. Por este motivo ampliamos os estudos a fim de avançar os debates sobre os assuntos elencados. Com pouco material encontrado que discorra sobre a unidade temática PCANs e o pouco tempo que essa unidade de ensino foi incorporada à BNCC, argumentamos que é preciso discutir sobre nossas práticas pedagógicas inclusivas, e através dessas discussões avançarmos frente ao que já vem sendo pesquisado, visto que, ao encontrarmos formas de produzir e reproduzir aulas acessíveis e executáveis para todos e todas dentro das escolas públicas de norte ao sul do Brasil, podemos estabelecer relação com a Educação Física Escolar e as PCAs no contexto inclusivo. A falta de material didático, bem como as capacitações regulares em que possam ser discutidos novos conteúdos com os professores, sempre foram pontos muito cobrados pela grande maioria dos educadores, não sendo diferente para o caso da Educação Física, que também nos acompanha essa cobrança, associado a isso a falta de valorização e investimentos do poder público na área da Educação Física Escolar. Estando em condições precárias de materiais para desenvolver as aulas, observamos e buscamos junto ao meio natural condições de trabalho, que nosso aluno pudesse desenvolver competências físicas, cognitivas e afetivas presentes nas práticas das atividades físicas, que fazem parte do desenvolvimento individual e coletivo nas aulas de Educação Física, sendo ferramenta fundamental nesses últimos anos na nossa práxis. Ao explorarmos o potencial e as condições que o meio natural podem nos proporcionar na realização aulas, sem que sejam necessários muitos materiais específicos, pensamos que outros colegas pudessem despertar e 23 começar a desenvolver aulas próximo a natureza, principalmente que sejam inclusivas, para que todos e todas da escola possam participar e vivenciar tais experiências. Nesse contexto, como propiciar o conhecimento, com ênfase e compreensão na aprendizagem e na execução das PCAs, aos alunos com deficiência das escolas públicas por meio de atividades na natureza, nas aulas de Educação Física escolar? Temos como foco responder esse questionamento de forma que possamos contribuir com os conhecimentos acadêmicos e sociais da área. Portanto, colocamos como objetivo geral da nossa pesquisa: Apresentar uma proposta pedagógica para a Educação Física Escolar, com o conteúdo práticas corporais de aventura na natureza, numa perspectiva inclusiva. E como objetivos específicos propomos: a) descrever procedimentos pedagógicos com práticas corporais de aventura na natureza aplicadas a pessoas com deficiência; b) promover o ambiente natural na comunidade Pitangui/RN através da proposta pedagógica elaborada de práticas corporais de aventura, como espaço propício para realização de aulas inclusivas. Adotamos como percurso metodológico a abordagem de natureza qualitativa e descritiva, por considerar que as pesquisas descritivas relatam de forma geral o ambiente pesquisado e seus fenômenos, estabelecendorelações entre variáveis. De acordo com Gil “[...] As pesquisas deste tipo têm como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno ou o estabelecimento de relações entre variáveis” (2008, p. 28). A pesquisa é desenvolvida através da revisão teórica com a pretensão de responder nossos objetivos geral e específicos, nos aproximando de uma nova visão do problema, que se preocupa com a atuação prática, característica de uma pesquisa descritiva. Como procedimento técnico recorremos ao levantamento de conteúdo do estudo direto com a realidade pesquisada, obtendo grande quantidade de dados em curto espaço de tempo. Utilizamos a naturalidade no levantamento por se tratar de uma pesquisa descritiva que se propõe estudar, registrar, analisar e interpretar o problema, delineando nosso estudo com as características bibliográficas (GIL, 2008). Desse modo, nosso procedimento das técnicas de coleta de dados se propõe a análises de livros, artigos científicos, teses e dissertações. Acreditamos que esses saberes colaborarão com a ampliação, discussão e problematização do empreendimento que essa pesquisa se propõe a realizar. Na pesquisa bibliográfica, a consulta de materiais publicados manifesta-se ao longo de todo o processo de pesquisa, além disso identifica as etapas percorridas ao longo do processo (GIL, 2008). 24 Ao iniciar a pesquisa, surge o tema que parte de fontes ligadas ao nosso interesse; após a escolha do tema a ser pesquisado vem a primeira busca ativa na literatura a fim de facilitar a formulação do problema com a finalidade de aprofundar o tema (GIL, 2008). Em sequência apresentamos os objetivos, identificando o problema, definindo o que pretendemos atingir com nossas investigações. No momento seguinte, veio a análise minuciosa dos trabalhos identificados pelo estado da arte, a fim de encontrar possíveis lacunas existentes em relação ao tema proposto pelo estudo, e encontrar elementos que sirva para a construção de uma base teórica mais substancial. O terceiro momento foi de dedicação na construção da base teórica do nosso trabalho, identificando fontes através da consulta de livros, teses, dissertações, artigos científicos, sites de internet etc. De acordo com Gil (2008), recomenda-se, primeiramente, uma leitura exploratória a fim de identificar o material a ser selecionado. Nesse sentido, convém dialogar com a obra lendo sumário, prefácio, introdução, orelhas e algumas páginas do texto. Após a definição dos textos, é necessário que se faça uma leitura seletiva, ou seja, uma leitura mais aprofundada do que realmente interessa a pesquisa, para em seguida, realizar uma leitura analítica, com finalidade de ordenamento das informações contidas nas fontes. Por fim, uma leitura interpretativa, que pode ocorrer concomitantemente a leitura analítica, procurando estabelecer relação entre o conteúdo pesquisado e outros conhecimentos. O quarto momento compreendeu a redação definitiva do texto, cumprindo todos os processos e etapas do desenvolvimento da pesquisa. Nesse momento, estruturamos nosso referencial teórico, considerando pesquisas sobre os temas abordados nessa dissertação, finalizando com a elaboração de uma proposta pedagógica direcionada a uma perspectiva inclusiva com as PCANs em várias modalidades: surfe, canoagem e esquibunda. A fim de apresentarmos melhor esta pesquisa, descrevemos a seguir como a dissertação foi organizada. Iniciamos com a introdução, justificando as dimensões pessoais, acadêmicas, profissionais e sociais, apresentando o estado da arte com suas lacunas, e os possíveis avanços. Com isso, problematizamos o objetivo de estudo proposto, como também apontamos os objetivos específicos e a metodologia que foi utilizada na pesquisa. A seguir, apresentamos estruturação dos capítulos. No Capítulo I, Educação Física Inclusiva, iniciamos com o debate do histórico da inclusão no Brasil, levando em conta a relação da inclusão do aluno com deficiência, discutindo alguns conceitos que achamos relevantes diante desse desenvolvimento. Descrevemos a carência que ainda encontramos nesse processo, enfatizando um novo olhar na busca de garantir a construção de uma nova realidade. 25 No capítulo II, Práticas Corporais de Aventura, delineamos o aparecimento dos primeiros trabalhos que enfatizam as PCAs, bem como o caminho percorrido no contexto escolar até a promulgação da BNCC. Destacamos também a aventura no processo escolar e a carência de debates acerca desse tema no processo inclusivo. No capítulo III, Proposta pedagógica de aulas em Educação Física, foi o momento da construção de uma proposta na perspectiva inclusiva com a unidade temática práticas corporais de aventura na natureza. Traçamos estratégias e procedimentos pedagógicos de auxílio a professores que queiram trabalhar com as modalidades surfe, canoagem e Esquibunda, e apresentamos técnicas a serem observadas para alunos com deficiência. 26 CAPÍTULO I - NARRAÇÕES SOBRE EDUCAÇÃO INCLUSIVA E A EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR INCLUSIVA 1.1 Breve histórico sobre Educação Inclusiva A escola é uma das maiores ferramentas de transformação social, responsável por ser a porta de entrada para inclusão de pessoas com deficiência no exercício de seus direitos, levando em consideração o ambiente escolar onde crianças e jovens recebem suas primeiras orientações socioeducativas depois de obterem pela família. Para que aconteça essa transformação é necessária a quebra do paradigma da exclusão que perdura ao longo dos anos em relação às pessoas com deficiência, que sofrem com hostilidade, discriminação, preconceitos, e por muitos anos sequer puderam frequentar as escolas regulares. Falar em inclusão nas escolas é compreender a necessidade do acolhimento, respeitando as diferenças individuais, fazendo do ambiente escolar lugar de oportunidades, que assegura a participação dos alunos com deficiência no processo de aprendizagem. Certificando-se que todos devem ter garantido o direito ao convívio com outras pessoas dentro e fora do ambiente escolar. De acordo com Martins (2015), as primeiras experiências educacionais registradas de pessoas com deficiência aconteceram no período do Renascimento. Conforme a autora, ao mesmo tempo havia uma propagação das chamadas ideias humanistas, e na época iniciavam-se os atendimentos educacionais direcionados aos surdos. Ainda segundo Martins (2015) “[...] Entre os séculos XVI e XVII surgiram as primeiras tentativas para a criação de métodos que possibilitassem o acesso de pessoas cegas mais abastadas à leitura” (p. 39). Somente no século XIX foi que ocorreram atendimentos direcionados a pessoas com deficiência intelectual. Nesse período, as pessoas com deficiência eram atendidas em instituições, iniciando, assim, a fase do paradigma da segregação, em que essas pessoas começavam a conviver em seu ambiente doméstico, praticamente aprisionadas em seus lares, um tipo de cárcere, como também esquecidas em lugares conhecidos como manicômios. O processo de integração escolar surge com a quebra do paradigma da segregação, com a inserção de alunos com deficiência nas escolas comuns, não havendo, portanto, modificações estruturais nem metodológicas nessas escolas, e o aluno tinha que se adaptar ao sistema escolar. Esse período é conhecido como “Educação Especial”, como é observado nas palavras de Mantoan (2004, p. 15): 27 O processo de integração ocorre dentro de uma estrutura educacional que oferece ao aluno a oportunidade de transitar no sistema escolar – da classe regular ao ensino especial – em todos os seus tipos de atendimento: escolas especiais, classes especiais em escolas comuns, ensino itinerante, salas de recursos, classes hospitalares, ensino domiciliar e outros.Para a autora, o processo de integração do acesso às escolas acontece por inclusão de alunos com alguma deficiência nas escolas comuns, havendo possibilidades da inserção às salas de aula do ensino regular, assim como ao ensino em salas especiais nas escolas. Esse foi um período de diversas transições, durante o qual ocorreu uma sobrecarga no sistema educacional, falta de recursos e profissionais com qualificação específica para essa modalidade de ensino. Com a necessidade de mudanças no sistema educacional, a fase de integração dá lugar a inclusão, através da qual as escolas começam a receber os alunos com deficiência em sua totalidade em todos os níveis de ensino (MANTOAN, 2004). Vários movimentos pelo mundo vinham ocorrendo no século XX, em benefício da Educação Especial, dentre outros podemos destacar a Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais: Acesso e Qualidade, realizada na cidade de Salamanca, na Espanha, durante a qual representantes de 92 governos e 25 organizações internacionais, reunidos na Espanha, no período de 7 a 10 de junho de 1994, aprovaram a denominada Declaração de Salamanca (MARTINS, 2015). Para este autor, “[...] Esse documento contém princípios, políticas e práticas voltadas para o atendimento às necessidades educativas especiais. Nele é realçado, como princípio fundamental para reger as “escolas para todos [...]” (MARTINS, 2015 p. 69-70), e tem como objetivo a realização de políticas públicas em prol de uma educação inclusiva e igualitária para todos, e que as pessoas possam aprender no convívio escolar. A educação especial ganha visibilidade aqui no Brasil apenas em meados da década de 90, com a LDB, de 1996, considerada uma grande evolução, na qual se propõe um sistema educacional único e de qualidade para todos. Com a publicação da lei surgiram algumas iniciativas para que pessoas com deficiência tenham acesso aos seus direitos educacionais garantidos e oficialmente reconhecidos, estabelecendo nesse período em nosso país, o paradigma da inclusão (BRASIL, 1996). Conforme Soler (2009), desde a promulgação da LDB, em 1996, está acontecendo uma verdadeira revolução no sistema educacional brasileiro, promovendo a transformação de um sistema que reconhece e valoriza a diversidade, favorecendo todos que fazem parte desse processo. No texto da LDB (BRASIL, 1996), em seu art. 58 encontramos: 28 Entende-se por educação especial, para os efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidade ou superdotação. Desta maneira, a LDB/1996 normatiza o ensino regular para os alunos com deficiência, oportunizando-os às mesmas condições educacionais oferecidas ao restante da população. A luta da pessoa com deficiência também tem como referência a Constituição Federal, promulgada em 05 de outubro de 1988, na qual está garantido que a educação é um direito de todos os brasileiros, inclusive os que tenham necessidades especiais, passando assim, a ter direito a ser matriculado na escola regular, em classes regulares, recebendo atendimento educacional de todos os profissionais da educação básica (BRASIL, 1988). Outras leis e decretos foram validados logo após a publicação da LDB, dentre os principais, citamos: O Plano Nacional de Educação – Lei nº 10.172, de 09 de janeiro de 2001; o Parecer nº 17, de 03 de julho de 2001, documento que fundamenta a Resolução 2/01; a Resolução CNE/CEB nº, de 11 de setembro de 2001, que institui as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica (CHICON, 2013). No processo político dos direitos à educação para a pessoa com deficiência no Brasil, destacamos a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), Lei nº 13.146, de 06 de julho de 2015, assegura e promove a igualdade de condições da pessoa com deficiência ante as demais pessoas, visando a inclusão social. Destacamos o art. 27 (BRASIL, 2015, p. 7), no que diz do direito à educação: A educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurados sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem. De acordo com essa lei, a pessoa com deficiência deve ter acesso à educação pública assegurada em todos os níveis de ensino, e garantido ao longo da vida. Desse modo, podemos fortalecer esse acesso dando visibilidade para uma melhor condição de vida às pessoas com deficiência, seja no contexto das habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais. Para Seabra (2012), o conceito de inclusão ganha espaço no ambiente escolar após o paradigma da integração, sendo que “[...] Esse novo conceito tem como premissa garantir que todos os alunos façam parte do mesmo contexto escolar, participando das mesmas atividades comuns, todavia, adaptadas para atender às diferenças individuais [...]” (p. 107). Portanto, entendemos que o conceito de inclusão escolar está relacionado ao acesso e permanência das 29 pessoas com deficiência nas escolas, sempre com o olhar de respeito às diferenças, suas particularidades e especificidades de cada indivíduo dentro do contexto escolar. No que se refere à inclusão escolar, salientamos o entendimento de Martins (2015, p. 71) quando afirma que: A inclusão escolar é um processo que percebemos como irreversível. No entanto, a partir dos posicionamentos e recomendações aqui registradas, consideramos que é comum e básica a compreensão de que todos os alunos têm direito a um atendimento no sistema regular de ensino e de que são capazes de aprender e maneira inclusiva, desde que sejam respeitadas as suas condições individuais e tenham o acesso a programas, currículos e metodologias apropriadas. Para a autora, as escolas passam a incluir todos os alunos que a buscam para um atendimento no sistema regular de ensino, considerando a capacidade que eles têm de aprender juntos, participando e convivendo no mesmo ambiente escolar. O sistema educacional será inclusivo quando permitir que as estruturas, os sistemas e as metodologias de ensino atendam às necessidades de todos os alunos, e precisa ser transformador e acolhedor para atender todos de forma inclusiva, mas ainda tem muito a melhorar. Nessa perspectiva, Soler (2009, p. 8) reflete que: [...] a escola deve mudar e se adaptar às diferenças e não, o contrário. Na Inclusão, a escola transforma a avaliação, a relação professor/aluno, o espaço físico, enfim, é criada uma nova escola, muito melhor, para abarcar todas as necessidades educacionais das crianças. Percebemos que as escolas necessitam moldar a realidade de uma nova perspectiva inclusiva, considerando as diferenças múltiplas entre toda diversidade, da qual fazemos parte enquanto sociedade, e para o autor, a escola passa a ter que se adaptar ao alunato e não apenas eles à escola. Sabemos que seria necessário um maior comprometimento das políticas públicas para que ocorram essas mudanças, em contrapartida, é preciso haver a cobrança e a fiscalização de toda a sociedade para cumprimento dessas modificações. Ressaltamos que uma proposta de educação inclusiva reconhece que todas as pessoas são diferentes e todas elas precisam aprender. Para isso, há a necessidade de transformação do sistema educacional. Segundo Mantoan (2004), a inclusão é uma inovação que implica na modernização e na reestruturação das condições atuais das escolas. É, portanto, necessário que a escola mude, sendo mais precisa, e a mudança tem que ocorrer no ensino nela ministrado. É fundamental desconstruir a ideia que tínhamos deescola segregadora pertinente ao paradigma tradicional, e repensá-la como um ambiente de convivência e aprendizado plurais, onde o aluno seja participativo integralmente em todos os espaços, nas atividades internas, ou fora da escola. 30 A inovação proposta pela autora acima mencionada também pode ser observada em Soler (2009), quando ele aponta que alguns dos objetivos dentro da escola são: o desenvolvimento de atitudes e conceitos, a participação e cooperação, solidariedade, autonomia, criticidade, fraternidade, dentre tantos outros. Podemos dizer que a inovação interliga facilmente com os objetivos expostos pelo autor, e com isso, a busca por esses conhecimentos se constitui em oportunidades de atuação a serem colocados em sala de aula pelos professores. Com o surgimento dessa mudança inclusiva, o cenário educacional brasileiro sofre diante do aparecimento de problemas no sentido da desinformação e do despreparo profissional, que afetam a todos. Ensinar na perspectiva inclusiva quer dizer ressignificar o papel do professor e da escola na busca de uma melhor educação para todos e todas com práticas pedagógicas voltadas para todas as diferenças encontradas dentro da sala de aula. Com essa nova realidade presente nos cursos de graduação em Educação Física, professores e suas coordenações começaram a promover aperfeiçoamentos nas formações, a fim de refletirem sobre novas propostas de conteúdos, que a grande maioria não teve acesso em sua graduação. A respeito da formação continuada, Chicon (2013) mostra que, “[...] está havendo um forte movimento em prol da formação inicial e continuada dos profissionais da educação, com objetivo de qualificá-los para atender à diversidade encontrada no interior da escola” (p. 87). Para Oliveira (2020) “[...] a formação continuada é uma possibilidade de ampliação do conhecimento, a fim de fortalecer o trabalho docente frente à educação para todos, adequando a proposta de ensino às necessidades educacionais presentes no espaço escolar” (p. 30). As formações de professores são ambientes para adquirir novo conhecimento através de lacunas existentes por novos conteúdos, espaços para o professor refletir sobre seu fazer docente e suas ações pedagógicas. Partindo desse entendimento, a formação continuada contribui para o desenvolvimento da Educação Física na perspectiva inclusiva, por visualizar como espaço possível em que todos participam de forma ativa com trocas de experiências, buscando novos conhecimentos em diálogo com a realidade de cada docente (OLIVEIRA, 2020). De acordo com Freire (2011), ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação, portanto, não podemos negar o novo e está mais do que na hora do professor libertar-se dessa carência, embora saibamos o quanto é difícil tanto para o professor como para o aluno esse despertar, que acontece em meio as discussões e reflexões 31 entre todos os envolvidos, e a partir disso surgem novas propostas de ensino na perspectiva inclusiva. De acordo com Dewey (1978, p.17), o conceito de educação é definido por ele “[...] como o processo de reconstrução e reorganização da experiência, pelo qual lhe percebemos mais agudamente o sentido, e com isso nos habilitamos a melhor dirigir o curso de nossas experiências futuras”. Conforme o autor, a educação é um processo de reconstrução e reorganização da experiência de vida, sendo esta última responsável pela construção do conhecimento. Educar exige amor, dedicação, reconhecimento de fraquezas e incertezas constantes diante do cotidiano de educador, e de buscar formas de aprender a desvencilhar-se de quaisquer amarras impostas pela sociedade cercada de indiferenças. Para Mantoan (2004) educar na perspectiva inclusiva vai mais além, é preciso transformar o papel do professor, da escola, da educação e de práticas pedagógicas que são usuais no contexto excludente do nosso ensino, em todos os seus níveis. Barbosa e Martins (2020, p. 103-104) acrescentam que: [...] cabe à escola procurar garantir a educação para todos, adequando o currículo, apresentando uma boa organização escolar, criando estratégias pedagógicas que atendam a todos, utilizando recursos adequados para as necessidades, eliminando, assim, as barreiras enfrentadas pelos alunos com alguma dificuldade no seu processo educativo. De acordo com as autoras, há uma demanda por uma nova visão estrutural no sistema educacional. É preciso estender oportunidade a todos os educandos, considerando o paradigma da inclusão escolar que não é específico apenas aos alunos com deficiência, mas antes, diz respeito a todos os alunos com dificuldade no aprendizado, sejam elas temporárias ou permanentes, respeitando o princípio da igualdade e equidade nas condições de aprendizagem de todos os discentes. Uma proposta de educação inclusiva pretende uma escola de qualidade, não apenas uma escola para todos, mas que seja uma educação também de qualidade, na qual o aluno participe plenamente das atividades, com espaços apropriados e práticas pedagógicas inclusivas. Um grande desafio dos professores é assegurar práticas pedagógicas que garantam a participação de todos em meio as atividades desenvolvidas. Desse modo, Seabra (2012, p. 89) propõe que [...] Nesse contexto de reorganização social e educacional, o atendimento à diversidade, no ambiente escolar, deve enfatizar também a ação do professor como uma práxis pedagógica que valorize a transformação do conhecimento, da 32 potencialidade e das possibilidades como condição básica no atendimento das diferentes características e necessidades explicativas dos alunos independente da condição que o precede. Em outras palavras, espera-se também uma mudança do e no próprio professor, seja naquele que já está atuando bem como nos que estão em seu processo de formação. A educação está em transformação e mudanças ocorrem a cada dia, sendo necessário que os profissionais em educação tenham a consciência dessas movimentações, repensando as suas estratégias pedagógicas a fim de garantir o acesso de todos. Para Magalhães (2009), deve- se examinar as concepções de práticas pedagógicas a partir dos currículos “[...] analisando não apenas em função de transmissão da cultura ou artefato técnico no processo de reprodução estabelecido pelas instituições escolares e sim como processo de criação de sentidos, significados e sujeitos [...]” (, p. 158). O currículo é um programa em processo de transformação permanente considerando que pode ser um campo epistemológico com seus espaços políticos. Sobre o currículo, Magalhães (2009, p. 158) recomenda que [...] ao pensarmos em currículos, devemos ter clareza de que estamos no contexto de uma sociedade marcada pela desigualdade na qual, por exemplo, o racismo, o sexismo, a homofobia permeiam práticas e discursos. Assim, a crítica à hegemonia cultural veiculada pela escola no âmbito de uma sociedade capitalista é necessária. As diferenças devem ser observadas considerando o respeito e o acolhimento de todos, evidenciando as práticas pedagógicas inseridas no currículo como processo capaz de desenvolver autonomia, prezando a forma que cada ser humano é inserido na sociedade, de modo a integrar-se no contexto de sala de aula e fora dos muros da escola, assegurando as condições para viver em sociedade. Segundo Silva (2014, p. 30), “[...] orienta-se que a atuação pedagógica seja dinâmica, cooperativa e que promova não só a sua socialização, mas também a aprendizagem em conjunto com os demais alunos”, assim a aprendizagem acontece em meio as relações, ao contato um com o outro, suas trocas, e a atuação do professor como mediador nesse processo é fundamental, desenvolvendo estratégias e possibilidades no meio onde todos possam aprender. Prosseguindo, Silva (2014, p. 46) esclarece que Compreendoque as práticas inclusivas são socialmente construídas e que é necessária a corresponsabilidade de todos os envolvidos, porém, nós, professores, temos uma grande responsabilidade nesse processo. Logo, é importante manter uma postura ética, aberta e disposta. Desse modo, percebemos que as práticas pedagógicas inclusivas emergem do comprometimento do professor, das relações e interações uns com os outros, efetivando meios que contribuam para uma educação onde todos possam aprender. 33 Consideramos também a afirmação das autoras que o ensino e suas práticas devem ser vistos como um processo, em que o professor passa a refletir sobre a prática pedagógica partindo da elaboração do currículo, em seguida é importante conhecer seus alunos fazendo o acolhimento de todos e todas, além de planejamentos, ações e estratégias pedagógicas sempre respeitando as características individuais na busca de superar as dificuldades encontradas pelos alunos com deficiência em sua relação com o restante da turma no ambiente escolar. 1.2 O caminho percorrido pela Educação Física Inclusiva O caminho percorrido pela Educação Física Inclusiva nas escolas ainda há de ser superado em vários pontos para que realmente aconteça a inclusão de forma satisfatória em nossa sociedade. Temos que aprender muito sobre ações e discussões inclusivas para ganharmos propriedade sobre esse novo paradigma da inclusão, sendo necessária uma nova forma de perceber ambientes plurais, como escolas, ruas, igrejas, praças, casas e também na vida das pessoas que, por algum motivo, sintam-se excluídos da garantia de direitos básicos como: alimentação, educação, saúde e moradia, criando grupos sociais excluídos, dentre os quais estão as pessoas com deficiência. Na história da Educação Física a inclusão ganha seus primeiros contornos de expansão através do esporte, precisamente o esporte adaptado, que surge no início do século XX, em consequência da segunda guerra mundial, com o propósito de integrar à sociedade os soldados que voltavam com lesões e mutilações da guerra, auxiliando também na recuperação da autoestima dos mesmos (SOLER, 2009). O mesmo autor considera que outro marco importante para o esporte adaptado acontece com as Paraolimpíadas realizadas em Roma, na Itália, no ano de 1960. Com essa projeção o esporte adaptado ganha visibilidade mundial, mostrando competições de modalidades adaptadas jogadas por atletas com alguma deficiência (SOLER, 2009), dando oportunidade de pessoas com deficiência participarem de uma competição tão grandiosa e significativa no âmbito esportivo mundial. A Educação Física Escolar no Brasil começa a se preocupar com a inclusão de pessoas com deficiência no contexto de participarem de atividades físicas e esportivas, apenas no final dos anos de 1959, durante os quais eram realizados atendimentos médicos, a fim de prevenir doenças, bem como a reabilitação, através de exercícios corretivos e de prevenção (CHICON, 2013). 34 De acordo com Chicon (2013), no Brasil, mais precisamente no ano de 1987, a partir do Parecer n° 215, do Conselho Federal de Educação, a disciplina Educação Física Adaptada foi elencada como sugestão a ser componente curricular nos cursos de graduação em Educação Física, entrando em vigor apenas no ano de 1990. Com isso, entendemos as razões de muitos professores que concluíram suas graduações antes desse ano, sentirem dificuldades por não terem recebido em sua formação conteúdos vinculados à integração, à adaptação e à inclusão. A Educação Física Adaptada chega fortalecendo um período de estímulo a discussões nos cursos de formação profissional em nível superior. O debate sobre a participação das pessoas com deficiência nas aulas de Educação Física Escolar, proporciona subsídios aos professores realizarem práticas pedagógicas com ações receptivas, colaborativas e com desempenhos possíveis aos discentes com alguma deficiência ou mobilidade reduzida. Com isso, entendemos que é possível contemplar, com efetividade, a presença dos alunos com deficiência nas aulas de Educação Física. Como bem coloca Chicon (2013, p. 82) [...] a Educação Física Adaptada veio para suprir essa lacuna existente, realizando uma ação paralela à Educação Física geral, desenvolvendo programas de atendimento às pessoas com NEEs4 em ambientes segregados e em espaço-tempo diferentes dos trabalhos realizados com pessoas que não apresentam NEEs. Com esse entendimento, percebemos a grande relevância que a Educação Física Adaptada tem para Educação Física Inclusiva quando engloba as pessoas com deficiência para que tenham acesso aos esportes. No entanto, a Educação Física Inclusiva não se restringe apenas ao esporte e suas adaptações, e entendemos que não é possível desvincular a Educação Física Adaptada da Educação Física Inclusiva, pois é necessário observarmos suas especificidades de cada um dentro dos seus contextos. De acordo com Cidade e Freitas (2009), a Educação Física Adaptada não se difere de Educação Física Inclusiva em seus conteúdos, mas compreendem técnicas, métodos e formas de organizações a serem aplicadas às pessoas com deficiência em contextos diferentes. Desse modo, a Educação Física Adaptada propõe atividades que são adequáveis exclusivamente para pessoas com deficiência. No entanto, a Educação Física Inclusiva abrange atividades realizadas para todos, a fim de atender a diversidade e as diferenças. Em vista disso, concordamos com Chicon (2013, p. 88) quando aponta que 4 Terminologia não mais utilizada. A nomenclatura adequada atualmente é pessoa com deficiência. 35 [...] entendemos que incluir na Educação Física não é simplesmente adaptar essa disciplina escolar para que uma pessoa com NEEs possa participar da aula, mas é adotar uma perspectiva educacional cujos objetivos, conteúdos e métodos valorizem a diversidade humana e que esteja comprometida com a construção de uma sociedade inclusiva. Para reforçar essa ideia, Silva (2022, p. 47) traz a seguinte reflexão: [...] a inclusão não se trata de processos adaptativos, sabemos o quanto é complexo o ensino para as diferenças, pois não está pronto e acabado, já que é uma (re)construção e (re)formulação de planejamentos de ensino na busca por possíveis soluções frente aos desafios encontrados na escola. Sendo assim, a concepção de uma Educação Física Inclusiva não apenas para os alunos com deficiência ou com transtornos de aprendizagem, mas para todos, envolvendo os alunos que podem ser observados em todos os níveis de aprendizagem. Portanto, é preciso organizar aulas na perspectiva inclusiva, as quais possam “abraçar” todas as diferenças, facilitando o conhecimento a todos que procuram a escola, e valorizando suas individualidades. A Educação Física Escolar, numa perspectiva inclusiva, deve criar caminhos para que todas as diferenças possam manter-se juntas dentro da mesma sala de aula, ampliando as possibilidades de participação do aluno com deficiência, favorecendo sua autonomia, criticidade e independência para um melhor convívio em sociedade (SOLER, 2009). Nesse aspecto, subscrevemos Seabra (2012, p. 129), quando este afirma que Se Educação Física pretende contribuir efetivamente para o desenvolvimento e construção da cidadania é necessário priorizar o princípio da inclusão, criando condições efetivas para que todos os alunos possam participar das aulas com o seu jeito particular de ser, pensar, fazer, e sentir. Para isso, a intervenção pedagógica, além de possibilitar a exploração e o desenvolvimento das diferentes capacidades dos alunos, seu sentimento de pertença, sua autoconfiança e autoestima, deve também propiciar momentos de reflexão e discussão acerca de temas como discriminação, preconceitos, deficiência e diferença. Nessa perspectiva,a Educação Física na escola não se limita a dimensão do ‘saber fazer”, da prática destituída de uma reflexão teórica acerca do conhecimento do ‘por que fazer’ e as ‘relações de atitudes’ advindas como consequência deste fazer. Diante do exposto acima, constatamos que a Educação Física Inclusiva avança em progressos na construção de uma educação possível e que abarca amplamente o contexto de uma perspectiva inclusiva, viabilizando que alunos com e sem deficiência participem de atividades desenvolvidas dentro das escolas. Desse modo, proporciona oportunidades em que discentes sejam valorizados e se entreguem no mesmo mundo uns com os outros, e com isso, acreditem no seu potencial enquanto ser humano. 36 Silveira (2020), em seu estudo, mostra olhares e reflexões de professores da rede pública do município de Natal/RN, sobre a compreensão que eles têm da Educação Física Inclusiva (Figura 1). Figura 1- Resposta de grupo de professores da rede de ensino pública do município de Natal/RN Fonte: Silveira (2020). De acordo com a autora, a partir dos dados levantados, a maioria dos professores salientam que a Educação Física Inclusiva apresenta o mesmo sentido que a Educação Inclusiva, no qual ambas contemplam a participação de todos os alunos nas aulas em contextos educacionais, respeitando o sentido de igualdade. A mesma autora destaca em sua pesquisa que a Educação Física Inclusiva é muito mais que garantir a participação de todos, visto que o processo passa pelo acesso a vivências e práticas corporais que intensificam valores culturais, sociais e qualidade de vida dos alunos presentes em sala de aula. Nas aulas de Educação Física Escolar com perspectiva inclusiva, os alunos com deficiência devem ser inseridos nesse contexto e precisam acreditar que são capazes de participar e aprender sobre cultura de movimento. É importante que o aluno entenda que ele pode aprender a partir do momento que ele pratique e ou experimente. No caso da Educação Física, por exemplo, é especialmente importante que ele participe dos jogos, brincadeiras, das vivências corporais presentes no momento das aulas dentro e fora da escola. 1.2.1 O professor de Educação Física na perspectiva inclusiva A tarefa do professor de Educação Física Escolar é desafiadora como em qualquer outro componente curricular, não deixando de ser bastante complexa no tocante a aulas inclusivas, 37 tendo em vista as várias histórias de exclusão, muitas vezes presentes no ambiente escolar e no chão da quadra. Diante disso, ressaltamos que o papel do professor de Educação Física no contexto inclusivo, de acordo com Soler (2009, p. 107), é de que [...] como em qualquer outra modalidade de ensino, é o de criar desequilíbrios, apresentando a seu aluno, o novo e o desconhecido, pois diante do desafio, a criança tende a assimilar o conhecimento utilizando os recursos motores e mentais que possui. Provocar desequilíbrios, porém, não é deixar a criança à deriva; ela deve poder estabelecer uma ligação entre o conhecimento e o desconhecido. É fundamental que o professor atue como mediador entre o conhecimento e o educando sempre dando espaço para a reflexão: fazer, e muito mais importante do que isto, compreender o que fez. O professor é um componente importantíssimo no processo de uma proposta educacional inclusiva, visto que é a partir dele que o aluno recebe o conhecimento, dando oportunidade para incorporar novos elementos sejam eles motores, cognitivos e afetivos. Porém, é preciso alertar e tirar do professor o peso da não efetivação do processo inclusivo, considerando necessário o auxílio de toda a equipe escolar nesse desenvolvimento (CHICON, 2013). Conforme Oliveira, (2020, p. 46) para que a Educação Física seja efetiva para todos, [...] os professores devem refletir sobre sua realidade. Para isso, docentes precisam considerar as características gerais e individuais dos educandos, buscando, a partir de estratégias de ensino, a apropriação e materialização do conteúdo por todos que compõem aquele espaço de ensino-aprendizagem. Cabe ao professor planejar e sistematizar suas aulas considerando a diferença encontrada em sala, desenvolvendo uma práxis na qual os alunos participem garantindo acesso ao conteúdo planejado através de estratégias adequadas. Nesse sentido, Chicon, Mendes e Sá (2011) apontam que para que a inclusão seja bem-sucedida a participação dos alunos nas aulas e na vida da escola depende do convívio com outras crianças e da mediação do professor. Partindo do princípio de inclusão, é preciso que aconteça um engajamento de atuação em outras frentes, como “[...] ações que mobilizem toda a escola, seja por meio de reuniões, palestras, cursos de formação, em torno dos princípios que fundamentam o processo de inclusão escolar e social” (SILVA, 2022, p. 40). É necessária a corresponsabilização de professores, diretores, coordenadores e toda comunidade escolar envolvidos nesse processo. Nessa discussão, reafirmamos as ideias de Silveira (2020, p. 66) em relação a formação de professores de Educação Física, uma vez que “[...] Investir em um processo permanente que atenda às necessidades emergentes dos docentes, ampliando as discussões sobre a Educação 38 Física Inclusiva e tornando-os mais preparados para compreender as demandas da educação atual [...]”. Dessa forma, entendemos que fortalecer saberes sobre a educação inclusiva amplia possibilidades no fazer pedagógico dos professores. Como professores podemos refletir, agir e modificar nossas ações educativas para uma educação que almejamos, em prol de uma Educação Física para todos. Para isso, planejar intervenções pedagógicas de modo que o aluno possa participar e compreender todo o processo em que ele está inserido, possibilitando o pensar, o descobrir e o criar (LIMA, 2013). De acordo com Lima (2013), efetuar práxis pedagógicas inclusivas nas aulas de Educação Física para que todos os alunos participem, é necessário identificar: As diferenças individuais entre seus alunos, identificando o comportamento de cada um, tanto nas atitudes como na aprendizagem; Partir da premissa de que cada aluno pertence à turma, na qual cada aluno tem seu lugar e todos precisam ser acolhidos; Promover o aprendizado que oportunize apoio e ajuda para com o outro, mostrando que o apoio é mais que fazer, é perceber que cada um tem sua habilidade, talento, aptidão e dificuldade; Promover atividades com jogos cooperativos, estimulando os alunos a participar oferecendo oportunidades nas quais eles se apoiem mutuamente para aprender, exercitando a cooperação; Estimular atividades que experienciem movimentos corporais de forma livre, com materiais e com o outro, organizando a interação de forma que os alunos e socializem a partir das vivências; Desenvolver atividades que fomentem o respeito entre a equipe escolar, os pais, os alunos e a comunidade, explicando que o reconhecimento do outro é a forma de compreender nosso papel no universo, valor da responsabilidade para com a diversidade humana; e Aplicar metodologias instrucionais diversificadas, e quanto maiores forem as variações, melhores serão os encaminhamentos de uma Educação Física para todos. O professor que participa de todo o processo de aprendizagem dos seus alunos percebendo seus avanços, consegue entender as dificuldades pelas quais o discente passa na construção do conhecimento. Com isso, podem adequar suas práticas explorando o individual de cada um (MANTOAN, 2004), e dando visibilidade e protagonismo para os alunos. Na percepção de Dewey (1978), educar é crescer, seja no sentido espiritual, no sentido humano ou no sentido de uma vida cada vez mais longa, mais rica e mais bela. As palavras do autor nos fazem refletir sobre a forma como ensinamos, o impacto que este ensino gera na vida do nossoaluno, a responsabilidade de mudar a realidade de muitos garotos e garotas, seja na sua vida pessoal e cultural, seja na sua vida social. Com essa convicção, destacamos aqui o que aponta Soler (2009, p. 24), quando diz que 39 [...] educar para a diversidade deveria ser a missão de todo educador comprometido com a sua ação, uma vez que sabemos que os nossos problemas sociais podem ser resolvidos, bastando apenas que apoiemos a nossa pedagogia no amor, amor por todas as pessoas, sem distinção, e respeitando a singularidade do ser humano. Para Soler (2009), a diversidade deve ser respeitada, dentro e fora da escola permitindo que todos tenham acesso e participem dos jogos, brincadeiras, das vivências corporais presentes nesses momentos de aulas dentro e fora da escola. Precisamos nos questionar sobre a forma como estamos tratando nossos alunos com deficiência nas nossas práticas pedagógicas em sala de aula. Por que tanta exclusão? Seria necessário olharmos de maneira diferente para essas questões? No que precisamos melhorar? E o que precisamos mudar? Essas questões deveriam nos fazer repensar o que está posto, e quem sabe esse olhar pudesse se transformar em acolhimento e em desejo de mudar a realidade de muitos através da educação. Segundo Silva (2014), a partir do texto aprovado pela Convenção Internacional sobre os direitos das pessoas com deficiência, na ONU, em 2006, ratificado pelo Brasil em julho de 2008, no documento Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, conceitua o aluno com deficiência como “[...] aqueles que têm impedimentos de longo prazo, de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, que em interação com diversas barreiras, podem ter restringida sua participação plena e efetiva na escola e na sociedade” (SILVA, 2014, p. 28). Hoje a Educação Física é desafiada a realizar atividades que todos possam participar, e esse desafio é extremamente motivador, dando oportunidade ao professor produzir, utilizando sua criatividade, e assim formular um ensino no qual seu aluno com deficiência tenha a mesma participação que os outros. O ritmo e a performance de como cada um realiza e aprende na escola deve ser respeitado, lembrando que somos seres únicos, com características e vivências diferentes. Martins (2015) aponta para a importância da diversidade existente entre as pessoas, o valor individual de cada ser humano, o que assegura as possibilidades de interação mútua, como também as mudanças de cada um na sociedade que está inserido. O professor deve buscar identificar essa diversidade existente nas suas turmas, e uma vez identificada, deve procurar potencializar através de suas práticas a autonomia e independência dessas pessoas. O aluno com deficiência deve participar das aulas de Educação Física, e sabemos que para muitos é todo um processo de aceitação, integração e oportunidade. No Brasil, somente a partir de meados do século XX, o governo começou a assumir, mesmo de maneira tímida, a 40 educação de pessoas com deficiência (MARTINS, 2015). Nesse aspecto, embora sejam recentes as discussões sobre inclusão, são importantes para a ampliação de debates e oportunidades que possibilitem a participação das diferenças presentes no âmbito educacional, refletindo sobre as formas de minimizar a exclusão dessas pessoas em nossa sociedade. Refletimos sobre as palavras de Freire (1987) em sua Pedagogia do Oprimido, nos mostram que é necessária uma pedagogia que faça da opressão e suas causas objeto de reflexão dos oprimidos, o que resultará no engajamento necessário para a luta da libertação. Sábias palavras do autor que nos deixa como reflexão a liberdade da pessoa com deficiência, que quando sentir-se livre nada mais o atingirá e o prazer de aventurar-se pela novas descobertas e aprendizados será possível. 41 CAPÍTULO II – PRÁTICAS CORPORAIS DE AVENTURA NA NATUREZA E A EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR INCLUSIVA 2.1 Práticas corporais de aventura na natureza no contexto escolar As PCAs encontram-se relacionadas ao passado e ao presente nas tarefas do ser humano, quando eram necessárias atividades de caça, pesca, escaladas de árvores e montanhas, travessias de rios, mares, lagoas, com objetivos de sobrevivência e exploração da natureza. Com a evolução, essas práticas foram ganhando diversos contornos, agora utilizadas em diferentes objetivos, como nas atividades esportivas e de lazer (MOURA, 2018). Para Franco, Cavasini e Darido (2014, p. 103), As práticas corporais relacionadas às atividades de aventura, como o surf, trekking, skate, canoagem, paraquedismo, escalada, parkour e slackline, tem se tornado uma característica da atualidade. Foi a superação de obstáculos naturais que forçou a humanidade a criar técnicas e equipamentos no caminhar destes séculos, os quais serviram de base para as aventuras realizadas hoje em dia, por esportistas ou por interessados em aventura em finais de semana. Indivíduos em busca de um retorno à essência humana, de reaproximação ao meio natural e ao desejo do desafio e superação de limites. Compreendemos que as PCAs têm uma relação antiga com os seres humanos, sendo fato importante para sua sobrevivência no passar dos anos. O contato com a natureza sempre foi carregado de fortes emoções e desafios, sensações presentes na rotina dos adeptos dos esportes de aventura. De acordo com Moura (2018, p. 93), Inicialmente, a prática vinha acompanhada mais como uma alternativa de lazer, em oposição ao estresse e pelo prazer de aventurar-se. Todavia, devido à sua grande aceitação, muitos praticantes buscaram as práticas de aventura como uma atividade regular, tornando-se adeptos frequentes, buscando aperfeiçoar a técnica cada vez mais e assim foram surgindo as competições e organizações (associações, federações e regras especificas e padronizadas). A partir daí, essas práticas vêm se expandindo na perspectiva do lazer, muitas vezes realizadas eventualmente, mas vêm se tornando maior o número de pessoas que procuram o esporte de aventura como atividade de rotina, sempre em volta da natureza na busca de uma melhor qualidade de vida. Portanto, corroboramos com Souza e Araújo (2016, p. 74) quando afirmam que: O fato é que estas práticas têm sido cada vez mais procuradas por pessoas que desejam sentirem-se mais próximas a natureza, que desejam aventurarem-se em terrenos, mares ou ares desconhecidos para usufruir do caráter da imprevisibilidade da natureza 42 e suas intempéries, colocando seus limites e sua capacidade de resolução de problemas a prova. Explorar a natureza e entrar em contato com a riqueza de possibilidades existentes nela não tem preço, são experiências que nós seres humanos carregamos como a própria forma de ser, de existir, de sentir, de viver e de fazer parte dela. Segundo Darido (2011), nas últimas décadas a Educação Física Escolar vem definindo em suas pesquisas como área do movimento humano, na qual suas ações profissionais devem consistir em ampliar o potencial do corpo, contemplando sua forma interdisciplinar de conhecimento, que tenha objetivos no estudo do ser humano e seus movimentos de modo geral. A ideia de deleite da natureza para fins esportivos e de lazer não é um fenômeno recente. A busca pelo meio natural é encarada como um refúgio pelo ser humano, devido ao avanço das cidades ao longo do século XIX, quando recupera formas de diversão com o modo de vivências lúdico-recreativas como as práticas esportivas ao ar livre. Assim, “re-ocupando” o prazer da reaproximação com o ambiente natural (DIAS; ALVES JÚNIOR, 2007). De acordo com Dias e Alves Júnior (2007, p. 362), o ambiente natural é exposto como: Aqui colocamos o termo “natural” entre aspas porque desde aquele momento possívelidentificar que se tratava de uma apreensão bastante idealizadas. Naquele instante, “ir à natureza” significa se afastar um pouco dos centros urbanos, comparecendo às praias, rios e bosques localizados nas zonas da periferia, que aliás, já eram utilizados como local do despejo dos detritos da cidade. Nesses locais “selvagens” rapidamente se desenvolveu uma boa estrutura de entretenimento, que permitia aos frequentadores simular “aventuras” e “contatos com o campo” com consideráveis doses de conforto e segurança. Algo bastante similar ao que encontramos nos dias de hoje. Para os autores, um dos fatores do aumento das práticas esportivas inseridas no meio natural foi impulsionado pela modernização. Com o crescimento das cidades, o meio urbano passa a ser mais estressante, em contrapartida, desfrutar de momentos de lazer junto à natureza renova no ser humano o bem-estar e a percepção da boa qualidade de vida. Diante disso, Pimentel (2013, p. 698) questiona: É insofismável que o conceito esporte na natureza tem base histórica e coerência interna para agregar uma série de modalidades que interagem com valências naturais em terra, ar e água. É fundamental para se trabalhar terminologicamente com rigor as práticas com codificação esportiva presentes em ambiente natural. Porém, esse termo é limitado frente ao caos de práticas sinergicamente entrelaçadas no tempo presente. Sob essa categoria, seriam excluídas à análise atividades como acampamento, birdwatching ou arvorismo, por não serem esporte? E o que se dirá de outras práticas, algumas esportivas, típicas da interação com o urbano e bem divergentes das intenções do esporte do Século XIX? 43 O autor questiona a terminologia do Esporte de aventura (DIAS; ALVES JÚNIOR, 2007), por considerar que exclui algumas modalidades de práticas de aventura por não ser entendido como esporte. Os estudos apontam que pesquisadores não encontram um diálogo conclusivo sobre a terminologia a ser utilizada, portanto, ainda inconclusivo. Sendo assim, com o passar do tempo, e através de reflexões e debates pode se chegar a uma expressão terminológica perene (PIMENTEL, 2013). Inácio et al. (2016, p. 169) defendem, em seus estudos, que [...] Indicamos aqui que temos utilizado a expressão ‘Práticas Corporais de Aventura na Natureza’ (PCAN’s) por entender que, mesmo havendo algumas destas praticadas em meio urbano, é tendo a natureza como cenário de desenvolvimento que estas se disseminam. Conforme os autores, o meio natural é responsável pela difusão das PCAs, por se tratar de um ambiente desafiador, cheio de imprevisto e risco controlado, quer seja em espaços em terra, água e no ar, muitas vezes lugares com pouca interferência humana; bem como pelo termo natureza estar presente nos primeiros estudos publicados pela comunidade acadêmica brasileira. Utilizamos o conceito de PCAN’s por achar o mais próximo do que propomos. No Brasil, o caminho percorrido pelas PCANs inicia na década de 1990, quando chegaram os primeiros textos publicados pelos autores Betrán e Betrán, vindos da Espanha, nos quais aparece o debate sobre significado e relevância social para Educação Física das “Atividades Físicas de Aventura na Natureza”, apresentados pela sigla AFANs. Logo depois, pesquisadores brasileiros como Bruhns e Inácio produziram o que pode ser considerado como as primeiras publicações sobre o conteúdo das PCANs na comunidade acadêmica (INÁCIO et al., 2016). Estes são os primeiros relatos nacionais encontrados que apresentam as práticas corporais de aventura como um forte potencial para o turismo, o lazer e o esporte de alto rendimento. Já no contexto escolar, os primeiros sinais de algo relacionado às PCAs surgem com a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s), que trazem o tema transversal “Meio Ambiente” para os alunos de 5ª a 8ª séries do ensino fundamental, que atualmente se caracterizam como de 6º a 9º ano do mesmo nível de escolaridade. Com a intenção de ampliar os olhares sobre as práticas cotidianas, os temas transversais foram abordados como temas de urgência a serem trabalhados em todo país, relacionando a necessidade de cada região, e o meio ambiente partilha dessa carência em relação aos temas sugeridos (BRASIL, 2001). 44 Nesse recorte temporal, para além dos temas transversais, começam a aparecer publicações de relatos de experiência com o ensino das PCAs no contexto escolar, através dos estudos do lazer (SOUZA; ARAÚJO, 2016). O debate sobre as PCAs no Brasil vem ganhando, ultimamente, grande potencial por se tratar de uma prática turística, de lazer e esportiva de grande relevância nas relações pessoal, social, cultural e econômica. Destacamos nesse período diversos autores que pesquisam sobre as PCAs, e que trazem terminologias diferentes em seus objetos de estudo como Esportes Radicais, Esportes na Natureza, Esportes de Aventura e de Ação, Atividades de Aventura, Atividades Físicas de Aventura na Natureza, Esportes de Ação, Atividades Físicas de Aventura na Natureza, Práticas Corporais de Aventura na Natureza (PIMENTEL, 2013; SEVERINO; PEREIRA; SANTOS, 2016; SOUSA; ARAÚJO, 2016). As PCAs aparecem como terminologia utilizada no Programa Segundo Tempo (PST), e em sua concepção baseia-se de acordo com ambiente em que é realizada, classificando-as em modalidades praticadas na terra, na água e no ar. O PST chega com o propósito de promover as práticas corporais através do esporte na perspectiva educacional. Trazem também ações que incluem outras práticas corporais como as danças, as ginásticas, as lutas, a capoeira, as PCAs e as atividades circenses. Reconhecendo as práticas corporais como expressões ricas em potencializar o ambiente como um espaço formativo para crianças e jovens. Desse modo, para Franco, Cavasini e Darido (2014, p. 107) Os esportes tradicionais, tais como o basquete, o voleibol, o futebol, e o handebol, tratados na maioria das aulas de Educação Física escolar e do PST, podem dar conta de atender ao gosto de uma parcela dos alunos, mas não de todos. Tem-se a convicção de que estas crianças, adolescentes e jovens têm o direito de vivenciar outras situações presentes na cultura corporal e assim, aumentar seus conhecimentos, experiências e possibilidades de escolhas. Com base nessas reflexões, para incluir novos conteúdos dentro do contexto escolar, é preciso superar barreiras construídas ao longo do tempo, como a tradição do esporte escolar, por ser bastante significativo para muitos alunos, que ver o esporte como única forma de realizar atividade físicas dentro das escolas. Mas a capacidade que as PCAs têm em proporcionar momentos, sensações e aprendizagem pode ser considerada única dentro desse contexto. Nessa mesma perspectiva, de acordo com Fonseca e Maia (2021), a influência da esportivização no contexto das aulas de Educação Física Escolar, constitui o enfoque histórico- social de como os esportes foram construídos historicamente, como conteúdos dominantes na Educação Física Escolar. A partir daí, discutimos a aplicação e as formas como o esporte, nas 45 aulas, seja possibilitada a participação de todos, desconstruindo o histórico excludente que o esporte como unidade de ensino acarreta. É com a BNCC, documento normativo para as redes de ensino que as PCAs ganham destaque como unidade temática na educação básica. Conforme Severino, Pereira e Santos (2016, p. 109) “[...] Em relação aos Parâmetros Nacionais Curriculares, a BNCC é mais detalhada na definição dos objetivos. Daí a estratégia de envolver na sua discussão os agentes educadores de todos os Estados da Federação”. Ainda de acordo com Severino, Pereira e Santos (2016, p. 111), A aventura não poderia ficar de fora da educação pela importância que vem obtendo na sociedade e acredita-se que sua presença é um avanço na BNCC, quepode ampliar o conceito de cultura corporal de movimento, sendo este o primeiro documento federal a buscar sistematizar seu ensino nas escolas brasileiras. Para eles, a valorização das PCAs quando incorporadas a um documento que rege a educação básica brasileira, é de grande importância para sua divulgação e aceitação no ambiente escolar. Porém, encontramos falta de discussão relacionada a práticas inclusivas nas referências da BNCC, visto que, “[...] um dos desafios que emergem dessas discussões concerne quanto à elaboração de currículos alinhados à educação inclusiva” (SILVA, 2022, p. 55). Esse documento deve conter garantias suficientes da permanência de todos na escola. Entretanto, as PCAs em suas características na perspectiva da BNCC, requerem de nós reflexões críticas em suas regras normativas. Para isso, é necessário considerar frágeis alguns aspectos na construção de condições de implementar no currículo as PCAs. Determinados aspectos, como a formação de professores, as estruturas das escolas, bem como o controle de risco e condições de equipamentos a serem feitos pelo professor a cada aula planejada (SEVERINO; PEREIRA; SANTOS, 2016), são pontos a serem discutidos e analisados ao projetar as PCAs como unidade de ensino. As PCAs se diferenciam no seu exercício de acordo com o espaço a ser utilizado: na natureza ou no meio urbano, como observamos no texto da BNCC (BRASIL, 2018, p. 218- 219): As práticas de aventura na natureza se caracterizam por explorar as incertezas que o ambiente físico cria para o praticante na geração da vertigem e do risco controlado, como em corrida orientada, corrida de aventura, corridas de mountain bike, rapel, tirolesa, arborismo etc. Já as práticas de aventura urbanas exploram a “paisagem de cimento” para conduzir essas condições (vertigem e risco controlado) durante a prática de parkour, skate, patins, bike etc. 46 A BNCC utiliza como critério para classificar as PCAs o ambiente em que elas são vivenciadas, é o que as separa. É indicado no meio urbano para as turmas de 6° e 7° anos, e na natureza para as turmas de 8° e 9° anos (BRASIL, 2018). Acreditamos que essa intenção de classificação não é ruim, porém, refletimos o porquê de não trabalhar atividades no ambiente natural com alunos de 6° e 7° anos, visto que é também necessária a realização de atividades em um nível acessível para essa faixa etária. Com essas possibilidades é importante o olhar para fora da escola, como as oportunidades de aulas na Educação Física Escolar no ambiente natural, seja ele na cidade ou na natureza. Pereira e Richter (2019, p. 89) falam, no texto a seguir, da necessidade de perceber que existirão obstáculos na aplicação das PCAs, pois, [...] a aventura é um conteúdo a ser aplicado na escola, mas qualquer um que decide por isso deverá se atentar para alguns obstáculos e serem superados: o espaço escolar, os equipamentos inexistentes, a falta de conhecimento do professor, a necessidade de conhecer as técnicas de segurança de tais atividades, o diálogo com a equipe gestora da escola e a abertura à comunidade escolar (pais, vizinhos, professores, funcionários). De acordo com os autores acima citados, são muitos os desafios encontrados na escola para o professor executar aulas com as PCAs. E também para Pereira (2016), alguns fatores como a falta de conhecimento, o espaço e o material dificultam esse processo, como é exposto no texto a seguir: “[...] só um professor com uma concepção aberta de Educação Física poderá ampliar sua percepção dos espaços escolares e extraescolares como devidamente credenciados para educar as crianças e jovens” (p. 75). Sabemos que não é fácil realizar essas mudanças, e fica mais ainda complicado para os professores quando não recebem nenhuma formação sobre o conteúdo. Sair dessa limitação talvez só ocorra após o próprio professor começar a realizar algumas dessas atividades, e a partir dessas experiências o docente possa identificar vários potenciais ao trabalhar com PCA na escola. Com isso, o próprio professor perceberá motivos para olhar o espaço ao redor da escola de outra forma (PEREIRA, 2016). O ambiente escolar é um campo gigantesco de aventura a ser explorado na busca do aprendizado de cada indivíduo, sendo ambiente responsável no amadurecimento pessoal e coletivo dos profissionais. As aulas de Educação Física têm seu papel considerável na formação moral e ética dos alunos para vida. É no ambiente escolar que passamos grande parte de nossa infância e adolescência, sendo que nesse período turbilhões de mudanças são possíveis, uma fase primordial para troca de experiência no processo de aprendizagem. 47 Em Dewey (1978, p. 13) chama de experiência “[...] um conjunto infinito de elementos, que se relacionam de maneira a mais diversa possível”. Podemos dizer que vivemos em função das relações mútuas, nas quais os corpos atuam uns sobre os outros, modificados reciprocamente. A escola pode ser o caminho para essas experiências, especificamente nas aulas de Educação Física, nas quais o aluno pode ter seu primeiro contato com esse mundo encantador da natureza, cheio de espaços e possibilidades a serem explorados. Hoje, em meio a todo esse caos que enfrentamos no período pandêmico, presenciamos o aumento na realização de atividades corporais praticadas em ambientes abertos e próximos à natureza. Junto a esses novos hábitos acompanhamos as problemáticas enfrentadas pelo meio ambiente com sua destruição, muitas vezes por interesses pessoais e econômicos que se sobrepõem a preservação da natureza, nos deixando cada vez mais pobres e carentes em condições de vivenciar as experiências de sentir a natureza como parte de nós. Relacionamos essa reflexão sobre a importância do ser humano se reconectar à natureza com as discussões de Dias (2012), que defende a experiência impregnada no corpo como marcas que podem ser positivas e negativas, e se nos privarmos delas deixamos de produzir marcas importantes para sabermos quem somos e qual o nosso papel na sociedade que vivemos. Assim, ao deixarmos de vivenciar as experiências no ambiente natural nos desconectamos de parte de nós, passando a perceber o eu e a natureza dissociados um do outro. Desse modo, fica tangível que as experiências no meio natural precisam fazer parte das vivências humanas, sendo necessárias na aprendizagem e no sentir do ser vivo próximo ao meio, sendo experimentado na escola. Dessa forma, refletimos como a Educação Física poderia tratar em suas aulas sobre um tema tão importante e atual em nossa sociedade? Que estratégias a escola desenvolve através de ações relacionando homem/natureza que busquem, atualmente, o nível reflexivo sobre essas questões nas crianças e jovens? Essas são questões bastante preocupantes, que a cada dia fica mais difícil respondê-las, por isso é considerável essa reflexão diante de um trabalho em que a natureza é parte essencial, indispensável e valiosa aos nossos olhos. Nesse sentido, o texto dos PCNs (BRASIL, 2001, p. 40), descreve que: Com a realização de atividades no meio natural, pode-se desenvolver uma atitude de observador atento às mudanças, traçando possíveis relações que o meio estabelece com o organismo durante uma prática, e de uma atitude no cotidiano que busque minimizar as marcas deixadas pelo homem no meio ambiente. 48 Ressaltamos que a Educação Física Escolar permite vivências de diferentes práticas corporais e suas variadas combinações influenciam a vida cotidiana dos alunos e de todos os outros que fazem parte da comunidade escolar. Nesse sentido, retomo o pensamento de Freire (1987), no qual afirma que a oportunidade de o aluno vivenciar ativamente as PCANs, evidencia mudanças em relação ao seu comportamento, como também em relação ao sentir-se livre junto ao ambiente natural no modelo de umaeducação libertadora. Em suas observações, Tahara e Darido (2016, p. 131) esperam que tenha ficado claro que: [...] existem possibilidades de se conseguir oportunizar uma determinada PCA aos alunos, haja vista que tais práticas compreendem uma série de modalidades em si (aquáticas, terrestres ou aéreas/na natureza ou meio urbano). Ademias, há variadas maneiras em promover adaptações em algumas práticas a depender do contexto e realidade local da instituição. As PCAs chegam como um grande despertar de acordo. De acordo com os autores acima, é viável investir e promover diálogos cada vez mais sólidos entre a comunidade acadêmica e o conteúdo de PCAs, proporcionando um debate para que haja a incorporação dessas práticas de aventura no ambiente escolar, destacando essas práticas a partir do ambiente em que estejam inseridas. É comum professores de Educação Física restringirem suas aulas a unidade temática “Esporte”, impossibilitando seus alunos de experimentar outras práticas corporais, tão importantes quanto essa, na composição e formação do que chamamos de cultura de movimento. Ao longo do tempo, a Educação Física trouxe consigo uma identidade excludente, em virtude de utilizar majoritariamente práticas esportivas seletivas como futebol, voleibol, basquete e handebol, nas quais só eram estimuladas a participação dos alunos mais hábeis, excluindo o aluno com deficiência, os obesos, e as meninas. Segundo Soler (2009), na atualidade, as aulas de Educação Física devem ser desafiadoras, criativas e possíveis para a participação de todos, e esse desafio é extremamente motivador. Para Paixão (2017, p. 172) “[...] O esporte de aventura como conteúdo das aulas de Educação Física escolar surge como possibilidades de novas vivências [...]”. Para o autor, o tema como esporte de aventura se diferencia das modalidades consideradas clássicas na escola, como o futsal, vôlei, basquete e handball, cedendo espaço a temas diversos, que por sua vez possam contribuir na variedade de vivências motoras ao longo da educação básica. O autor 49 também defende o valor educativo do esporte de aventura nas aulas de Educação Física Escolar no sentido motivacional, com ambientes diversificados como eixo norteador de fortes emoções. As PCAs são uma unidade temática que por si só abrange, de forma singular, a participação de todos, sempre respeitando os limites e o ritmo de cada um. Segundo Tahara e Darido (2016) o debate vai além do universo que se amplia das vivências puramente esportivas e tecnicistas para condução de novos segmentos de práticas corporais. Desse modo, os novos conteúdos devem, frequentemente, ser contextualizados para assuntos atuais, e que seja significativo para o aluno. Para Darido (2011), as discussões vêm ocorrendo entre pesquisadores da área educacional na tentativa de romper o modelo hegemônico do esporte e a aptidão física. A partir da década de 1980, surgiram os novos teóricos com referencial crítico baseado em tendências marxistas. É essencial investimentos nessas áreas para que sejam compreendidas essas novas tendências educacionais que relaciona a aventura como prática corporal nas aulas de Educação Física Escolar. 2.2 Práticas Corporais de Aventura na natureza com perspectiva inclusiva As PCAs vêm ganhando espaço e aumentando o debate entre professores e alunos na possibilidade de vivenciarem as aventuras dentro do contexto escolar, contribuindo, assim, para que fatores culturais, educacionais e sociais auxiliem todos os participantes. Diante disso, um dos grandes desafios são as discussões que apontam as PCAs no contexto escolar alinhadas à educação inclusiva, considerando as diferenças dos estudantes e suas singularidades. O cenário das PCAs vem se modificando ao longo dos anos, e mesmo sendo uma realidade distante, as pessoas com deficiência começam a ter esse acesso. Com ajuda, avanço nas metodologias, das técnicas, dos equipamentos de segurança e o forte poder das mídias, esses esportes se popularizaram, permitindo sua prática pelas pessoas com deficiência (SILVA et al., 2019). Para estes autores, [...] a atuação com públicos específicos como as pessoas com deficiência, ainda se depara com a não qualidade profissional para o atendimento de alunos com deficiência, bem como o despreparo ou desconhecimento dos professores de Educação Física acerca das possibilidades pedagógicas dos Esportes de Aventura na Educação Física Escolar (SILVA et al., 2019, p. 42). Considerando esse aumento na procura de informações sobre essa nova temática, percebemos a falta de discussões quando se fala das PCAs para alunos com deficiência, bem 50 como a quebra de paradigmas ao propor incluir as PCAs nas escolas com uma nova temática inclusiva. Isso nos faz questionar por que não partimos das PCAs em busca de aulas de Educação Física inclusivas? É uma nova experiência, uma unidade temática que poucos professores tiveram acesso em suas formações, mas que agora precisam conhecer e aplicar na práxis. Segundo Fonseca e Maia (2021), a Educação Física carrega uma impressão histórica excludente, envolta em influências militaristas, eugenista e competitivista, que são ascendências que deixaram reflexos até dias atuais, como na formação de currículos, práticas pedagógicas exercidas por professores, e também na formação docente. Nesse mesmo sentido, reconhecemos as reflexões de Fonseca e Maia (2021, p. 74), quando propõem o processo de ensino numa perspectiva inclusiva, uma vez que Seja qual for a ênfase do currículo, considerando a perspectiva inclusiva, é importante ensejar debates que se distanciem da prática pela prática como eixo norteador da formação docente para que o foco não seja priorizar aspectos técnicos, biologizantes e de rendimento, pois a chance de excluir quem não apresenta tais requisitos técnicos é imensa, e a prática sem reflexão, se evidencia. Em conformidade com tal reflexão, podemos afirmar que uma educação inclusiva é constituída pelo currículo, pelas práticas pedagógicas realizadas pelos docentes, bem como na forma de oportunizar o conhecimento e novos conteúdos. Acreditamos que as PCAs, como unidade temática a ser implantada nas escolas, aparece como avanço, respeitando as diversidades encontradas, e podem com isso, elaborar outros caminhos para a participação dos demais alunos. Se as PCAs são novidades nas aulas de Educação Física, por que não aprofundar e planejar partindo do princípio da inclusão? Entendemos que é preciso deixar de lado o velho discurso de que na formação acadêmica não houve ou não participou de discussões que aprofundassem aspectos sobre inclusão, bem como o acesso a conhecimentos de como realizar aulas onde alunos com deficiência pudessem de fato participar. Para Inácio et al. (2016, p. 172), [...] quando os alunos apreendem as PCAs como construtos humanos, percebemos que as mesmas podem ser reconfiguradas, moldadas, adequadas às suas necessidades, aos seus interesses e às suas possibilidades, independente da forma pela qual é realizada hegemonicamente. Tal processo também lhes favorece, então, perceber relações de poder e dominação ali presentes, bem como criar estratégias e agir para sua superação. Esses subsídios nos motivam a pesquisar, falar e discutir sobre PCAs nas aulas de Educação Física Escolar, principalmente numa perspectiva inclusiva. Acreditando que isto 51 ocorre porque as PCAs oferecem um campo privilegiado de experimentação corporal, inovação e melhorias na área pedagógica da escola. De acordo com Silva et al. (2019, p. 56), O ensino dos Esportes de Aventura para pessoas com Síndrome de Down é possível e de relevância, principalmente no contexto escolar, permitindo trabalhar os aspectos históricos dos esportes e da formação humana, bem como questões ligadas à segurança, à confiança, à superaçãode limites, à cooperação e ao respeito ao próximo e ainda a possibilita ensinar aos alunos a lidar com frustações existentes tanto nas práticas esportivas como na vida cotidiana. Em seus estudos, os autores apontam consideráveis reflexões sobre a inclusão de esportes de aventura para pessoas com Síndrome de Down. Os autores avaliam de maneira positiva essa experiência, garantindo a participação do aluno com deficiência com o intuito de contribuir no processo de aprendizagem e compreensão de vida dentro e fora da escola. As PCAs antes de chegarem na escola percorreram caminhos voltados a prática do lazer, caminho este percorrido também pela inclusão da pessoa com deficiência na prática em atividades físicas de aventura na natureza. Essas práticas foram sendo reproduzidas na escola na configuração de atividades de lazer a partir de experiências interdisciplinares, produzido com os temas transversais, discutidos no capítulo anterior. Nas aulas de Educação Física Escolar com perspectiva inclusiva, os alunos com deficiência devem ser inseridos e precisam acreditar que são capazes de participar e aprender sobre as PCANs. Sabendo que são práticas com dificuldades maiores, por serem realizadas em ambiente natural, onde os desafios e as incertezas que este ambiente cria para o praticante a sensação da vertigem e do risco (BRASIL, 2018). Ainda segundo Silva et al. (2019, p. 52), [...] alguns professores acabam por não explorar as potencialidades arquitetônicas e os espaços vazios em suas escolas, às vezes por não possuírem conhecimento de atividades esportivas de aventura, que possuem forte relação com práticas ao ar livre como pode ser o caso da escala, do slackline, da corrida de obstáculos e da corrida de orientação. Esta oportunidade pode estar bem ali, no interior dos muros das escolas, e basta olharmos com um pouco mais de atenção para tudo que encontramos ao nosso redor e transformar isso em possibilidades, para que o nosso aluno vivencie esses momentos em meio a comunidade escolar, com seus colegas de sala de aula e professores. As aulas de Educação Física podem e devem ser realizadas além dos limites da escola, sendo possibilitada pelas PCAs, e o aluno com deficiência tem o direito de participar e 52 aprimorar seu conhecimento corporal a partir das aulas de Educação Física na escola e para além do espaço escolar. As PCAs proporcionam o contato com paisagens naturais e na superação de limites físicos e psicológicos, além de vários outros aspectos culturais e motores. Nesse sentido, para Cantorani (2019), o acesso às PCAs é um fator importante na vida da pessoa com deficiência, pois com o acesso, essas pessoas encontram a surpresa, a alegria, as motivações, que são emoções geradas pela prática desses esportes de lazer, devido as suas condições de limitações encontradas nas práticas através da superação, da confiança e do prazer que as atividades de aventura proporcionam àqueles que são desafiados em seus limites. 53 CAPÍTULO III – PROPOSTA PEDAGÓGICA DE AULAS EM EDUCAÇÃO FÍSICA COM AS PCAs 3.1 Elementos norteadores do ensino das PCAs nas aulas de Educação Física Escolar Inclusiva Com o tempo tecemos olhares ao nosso redor de formas diferentes, percebendo maneiras de sentir e ouvir tudo o que se passa por perto e dentro de nós. Foi com esses sentimentos que seguimos observando a natureza como fonte e ambiente de aprendizagem, e paralelamente a isso surgem as PCAs como fenômenos crescentes para Educação Física Escolar. As possibilidades de aprendizagens com essas práticas são inúmeras, e por esse motivo, compreendemos que podem ser abordadas em diferentes perspectivas elencadas na Educação Física Escolar Inclusiva. Para viabilizar esse caminho, refletimos sobre estratégias inclusivas possíveis de serem planejadas e orientadas, sobre uma prática docente que acredite no processo de construção de atividades com as PCAN’s numa perspectiva inclusiva. Ponderarmos, nesse sentido, a respeito da aprendizagem e do processo de planejar e executar. A BNCC orienta os sistemas e redes de ensino a construírem currículos considerando a grande diversidade cultural do país, dando possibilidades às escolas de “[...] elaborar propostas pedagógicas que considerem as necessidades, as possibilidades e os interesses dos estudantes, assim como suas identidades linguísticas, éticas e culturais” (BRASIL, 2018, p. 15). Elaborar currículos respeitando as diferenças nos aproxima de uma educação igualitária para todos e todas, principalmente se levarmos em consideração o contraste de regiões em nosso Brasil, por isso as decisões curriculares e didático-pedagógicas devem sair das secretarias de educação e suas instituições escolares. A elaboração do currículo é feita a partir do projeto político-pedagógico da escola, definindo e orientando o trabalho pedagógico do dia a dia nessa instituição, dos trabalhos realizados dentro e fora da sala de aula, dos conteúdos programáticos, suas atividades e ações em um período letivo de maneira clara e que a comunidade escolar possa ter acesso. O currículo tem papel importante ao assegurar as aprendizagens essenciais definidas para cada etapa da educação básica (BRASIL, 2018). Essas deliberações vão adequando as proposições da BNCC à realidade local, considerando a autonomia dos sistemas e redes de ensino. O ensino fundamental é a etapa mais longa da educação básica, sendo um desafio na elaboração de currículos, por motivos como: as 54 mudanças que crianças e adolescentes passam nesse período relacionados a aspectos físicos, cognitivos, afetivos, sociais e emocionais, entre outros. Na BNCC o ensino fundamental dos anos finais da Educação Física foi organizado em dois blocos (6º e 7º anos, 8° e 9° anos), referindo a unidade temática “Práticas Corporais de Aventura” da seguinte forma, apresentada no quadro 3: Quadro 3 - Práticas Corporais de Aventura UNIDADE TEMÁTICA 6° ano e 7° ano 8° ano e 9° ano Práticas Corporais de Aventura Práticas Corporais de Aventura Urbanas Práticas Corporais de Aventura na Natureza Fonte: Elaborado pela autora (2021). Nossa proposta apresenta reflexões a partir dos anos finais do ensino fundamental (8° e 9° anos), que corresponde às PCAN’s, como observamos no quadro 3, acima, sendo um período de transição entre infância e adolescência (BRASIL, 2018). Todas as fases da escolarização apresentam sua importância na construção do conhecimento do aluno, considerando suas aprendizagens anteriores e ampliação através de vivências ao longo de sua vida escolar. Atentar a esse conteúdo nas escolas aumenta as possibilidades de os educandos despertarem movimentos e experiências corporais, ampliando sua relação com a cultura de movimento. A Educação Física tem como umas das suas áreas de conhecimento a cultura de movimento que apresenta as formas de como os povos se movimentam ao longo dos tempos. Mendes (2013) refere-se a cultura de movimento como “[...] relações existentes entre os movimentos e a compreensão de corpo de uma determinada sociedade, comunidade, de uma cultura” (p. 17). Essa compreensão é estabelecida de acordo com os movimentos e comportamentos de uma determinada sociedade, suas reflexões sobre corpo, natureza e cultura, em que o homem é sujeito de suas próprias ações dentro do contexto em que se encontra. Essa proposta tem como base a metodologia crítica da Educação Física, que direciona a construção do conhecimento através das relações professor e aluno, por meio de ações reflexivas que promovem a autonomia dos educandos, valorizando a criticidade do estudante dentro da realidade vivida por ele. Trazemos concepções demarcadas pela abordagem crítico- emancipatória (KUNZ, 2004), no que diz respeito aos princípios norteadoresrelacionados a prática pedagógica e seleção de conteúdo. A abordagem crítico-emancipatória foi inspirada na teoria crítica da escola de Frankfurt e tem como marco inicial a publicação do livro Transformação Didático-Pedagógica do 55 Esporte, de autoria de Elenor Kunz, na qual “[...] o autor busca apresentar uma reflexão sobre as possibilidades de ensinar os esportes pela sua transformação didático-pedagógica, de tal modo que a Educação Física contribua para a reflexão crítica e emancipatória das crianças e jovens” (DARIDO, 2011, p. 15). Conforme essa concepção o aluno deve ter acesso à Educação Física Escolar voltada à sua formação, construída a partir de sua visão de mundo. A prática pedagógica na Educação Física voltada às reflexões crítico-emancipatórias dos conteúdos, implica tornar o aluno consciente de todo o processo educativo que acontece dentro do espaço escolar e suas relações envolvidas, sejam elas dentro de sala de aula ou no ambiente externo. Para Kunz (2004) é fundamental que o professor reflita sobre suas práticas pedagógicas, assim, considerando que o aluno atribua valor à prática esportiva, internalizando- a em sua vida cotidiana de forma consciente. Desse modo, tem por finalidade contribuir com os avanços das reflexões didático- pedagógicas do ensino da Educação Física, com o propósito de “[...] estimular mudanças reais e concretas, tanto na concepção de ensino, de conteúdo e de método, como nas suas condições de possibilidades, na prática pedagógica” (KUNZ, 2004, p. 8). Conforme o autor, é importante acreditar nas reais possibilidades de mudanças das práticas pedagógicas na Educação Física, haja visto o avanço dessas novas concepções no sentido de estimular o trabalho pedagógico no contexto escolar. Entendemos que ao refletir sobre a prática pedagógica utilizada no ensino do esporte na Educação Física Escolar numa perspectiva crítico-emancipatória, Kunz (2004) amplia sua contribuição para pensar na transformação didática, e neste sentido, o autor assinala que: O esporte analisado sob a perspectiva pedagógica, para um ensino crítico- emancipatório como pretendo, deve fornecer uma compreensão muito mais ampla, uma compreensão enquanto fenômeno sociocultural e histórico, o que me faz refletir sobre todas estas manifestações que deram origem a muitas modalidades esportivas e continuam a influenciar estilos e formas de atuar no esporte de acordo com a característica cultural que o movimento humano assume em determinados contextos (KUNZ, 2004, p. 67). Portanto, o mencionado autor se refere aos estudos do movimento humano, tendo o esporte como área de conhecimento. Nesse aspecto, a transformação didática através do esporte defende que o movimento humano de forma contextualizada é relevantes tanto na forma de agir e pensar, como nas relações entre os próprios homens. Entendemos ser necessário ampliar essa reflexão sobre ensinar os esportes pela transformação didático-pedagógica, tornando possível uma educação de qualidade (KUNZ, 56 2004). Desse modo, compreendemos as PCAN’s como um legítimo conteúdo da Educação Física Escolar. As PCANs como unidade temática da Educação Física, exploram as práticas corporais em um ambiente desafiador. A experimentação corporal em meio a natureza provoca situações de imprevisibilidade, gerando vertigem e o risco controlado (BRASIL, 2018). Trabalhar com aventura é embrenhar-se no desconhecido, por isso é importante o professor realizar a gestão de risco, antes de qualquer outro procedimento da aula, para que o imprevisto não pegue todos e todas de surpresa. Outro fator relevante no que se refere as PCANs é o contexto desafiador em que elas sempre se encontram, dando sentido ao prazer em viver para muitos adeptos. Esportistas radicais buscam intensidade de se reencontrar em sua plenitude, algumas vezes ameaçada por uma vida excessivamente regrada, e se desafiam no deleite de vivenciar atividades que provoquem o risco (LE BRETON, 2009). Nesse sentido, validamos esse ponto de vista, entendendo que [...] aqui a noção de conduta de risco como um jogo simbólico ou real com a morte, um arriscar-se, não para morrer, muito pelo contrário, mas que contém em si a possibilidade não desprezível de perder a vida ou de vir a sofrer alteração das capacidades físicas ou simbólicas do indivíduo. Ela atesta um enfrentamento com o mundo, cuja aposta não é morrer, mas viver mais (LE BRETON, 2009, p. 2). Com essa reflexão, o autor mostra que o risco faz parte do sentir-se vivo, que tais atividades representam mais do que uma paixão, e sim a procura para a adrenalina ser presente em sua rotina. O risco não é representado apenas no contexto das PCAs, como também em outras esferas da vida, representando uma maneira deliberada de valorizar o melhor de si mesmo na busca de superação. Na BNCC, uma das habilidades das PCAs para o Ensino Fundamental é de formular estratégias e identificar riscos no sentido de superar desafios. De acordo com Severino, Pereira e Santos (2016, p. 118): [...] identificar os riscos que as práticas dessas atividades podem ter para que a segurança da prática seja contemplada, afinal não se pode desprezar que são práticas com potencial dano. Entende-se que nas Práticas Corporais de Aventura devemos identificar o perigo para controlar o risco e assim obter realização segura. Os autores acima falam da identificação do risco e do perigo que estão presentes nas PCAs, e que é necessário identificá-los para que seja realizada uma prática segura. Para uma prática de aventura cheia de adversidades é preciso uma avaliação do perigo e o correto controle 57 de risco, com gerenciamento de estratégias e o uso de equipamentos de segurança de acordo com a atividade a ser desenvolvida. Nesse aspecto, considerando o controle e a gestão de risco percebemos que o professor de Educação Física Escolar é responsável em transmitir aos alunos essas informações, para que haja atenção e responsabilidade durante a prática dessas modalidades. O convívio com o risco e o perigo são respeitados e estão implícitos nessas atividades, desse modo, nessa linha de pensamento, Silva, Pereira e Silva (2016, p. 34) apontam as definições de risco e perigo: [...] O risco pode ser controlado por equipamentos, técnicas específicas e conhecimento sobre as variáveis presentes dentro dos Esportes Radicais. Por outro lado, o perigo é algo imanente à atividade, pode ameaçar a existência do sujeito, não pode ser controlado, e está presente em situações que fogem do controle técnico, ambiental ou climático. Sendo assim, compreendemos que o risco pode ser controlado, já o perigo estará sempre presente, por fugir do controle e por suas imprevisibilidades. Os autores acima apontam uma condição relacionada ao perigo para o sujeito que “[...] por meio do enfrentamento da situação de perigo, pode-se superar e transcender, dando sentido à sua existência, pois seu corpo transmite informações intensas de que ele está vivo [...]” (SILVA; PEREIRA; SILVA, 2016, p. 34). Essa sensação está relacionada à liberação, devido ao estresse, de fortes descargas de adrenalina na corrente sanguínea aumentando a frequência cardíaca, o que causa no praticante de tais atividades a sensação de estar mais vivo. À vista disto, entendemos que realizar aulas com a unidade temática PCAs, fortalece o sentido de um estilo de vida que busca o prazer de sentir fortes emoções. Portanto, cabe ao professor contribuir com a elaboração de alternativas para que o aluno tenha a oportunidade de vivenciar essas práticas no contexto escolar, levando o aluno a experimentar diferentes emoções, como o medo, a alegria, a autonomia e o sentimento de imensidão ao sentir que está vivo (SILVA; PEREIRA; SILVA, 2016). Para Franco, Cavasini e Darido (2014), as PCAs tem uma forte relação com o risco eisso não impede a sua realização dentro das escolas. Para tanto, torna-se relevante a compreensão destes riscos, com gerenciamento das abordagens específicas de cada modalidade. Os autores defendem que estas atividades se relacionam com os aspectos de superação e motivacionais que se fazem presentes nas aulas de Educação Física Escolar. Com a disseminação das PCAs, que retratam como elementos centrais o risco e o desafio às leis da natureza, iniciou-se o despertar do sentimento de liberdade em seus praticantes (SILVA et al., 2019). No entanto, essas novas práticas ganham adeptos de todas as faixas 58 etárias, em condições físicas e sociais nas suas mais diversas formas. Quando o indivíduo procura vivenciar uma dessas modalidades, está buscando valores que são traduzidos em prazer e superação. Considerando o avanço da divulgação das PCAs, e o surgimento de técnicas e equipamentos de segurança, fizeram com que aumentasse o número de pessoas com deficiência na procura de aventurar-se a essas novas emoções. Nesse sentido, ratificamos o pensamento de Catorani et al. (2019, p. 147), no qual coloca que, Em tempos mais recentes tem havido, por parte das pessoas com deficiência, uma busca por atividades de aventura. Essa busca pode indicar aspectos importantes das necessidades sentidas por essas pessoas. E abre caminho para uma melhor compreensão da relação entre essas necessidades e a condição de vida das mesmas. Com esse olhar, ressaltamos que as pessoas com deficiência precisam explorar essa nova temática, seja dentro ou fora da escola. Existe uma necessidade de acesso a essas práticas por pessoas com deficiência, apesar de já acontecer, sobretudo no ambiente do lazer. O que falta são opções de maior visibilidade nas possibilidades existentes, que favoreçam o alcance maior na vivência dessas práticas aos alunos com deficiência. Diante das discussões aqui suscitadas, entendemos que professores de Educação Física que atuam na Educação Básica, devem se permitir conhecer, vivenciar e desenvolver em suas aulas as PCAN’s numa perspectiva inclusiva, oportunizando o acesso e a aprendizagem dos alunos com deficiência a essa unidade temática. 3.2 Estratégias de ensino com as PCANs numa perspectiva inclusiva Diante da precariedade de materiais disponíveis para desenvolver as aulas, começamos a observar e buscar alternativas e condições de trabalho junto ao meio natural, no qual os alunos pudessem desenvolver competências físicas, cognitivas e afetivas presentes nas práticas das atividades físicas, com capacidades quer sejam físicas e motoras, que fazem parte do desenvolvimento individual e coletivo, trabalhadas nas aulas de Educação Física Escolar, sendo que esta ferramenta foi e segue fundamental na minha práxis como professora do Ensino Fundamental. Ao explorar o potencial e as condições que o meio natural pode nos proporcionar a realizar aulas de Educação Física Escolar, pensamos que outros colegas podem também visualizar esse potencial, despertar e começar a desenvolver aulas próximo às paisagens 59 naturais, que sejam abrangentes e agreguem a perspectiva inclusiva para que todos e todas da escola possam participar e vivenciar tais experiências. Percebemos que na praia de Pitangui/RN dispomos de um ambiente natural e rico em possibilidades para desenvolvermos atividades físicas com PCAN’s. Daí, foi que surgiu, inicialmente, a principal inspiração para experimentar tais práticas com meu grupo de alunos, bem antes mesmo da própria regulamentação da BNCC, e que venho desenvolvendo desde 2013, com aulas de surfe, canoagem, esquibunda, corrida de aventura, trilhas, entre outras, sempre direcionadas à igualdade e à oportunidade na participação de todo alunado. A Figura 2 mostra uma parte da natureza que dispomos na comunidade de trabalho, o que facilita a realização de aulas junto a esse ambiente. Podemos dizer que a atividade das aulas com o conteúdo das PCANs possibilita estratégias dentro das aulas de Educação Física Escolar em novo formato, que podem ser ricas em informações, divertidas e prazerosas para todos os envolvidos. Figura 2- Descida de dunas localizados na comunidade Pitangui Fonte: Fotografada pela autora (2018). Desse modo, percebemos a sublimidade que oportunizar a aproximação dos alunos com deficiência às PCAN’s no ambiente escolar. Considerando nosso objeto de estudo, realizamos um trabalho de pesquisa sobre essas práticas e com o resultado dessa análise elaboramos uma nova proposta de aula com a unidade temática PCANs na perspectiva inclusiva, a fim de acolher professores e alunos nessa nova experiência. De acordo com Freire (2011), ensinar exige mudança e essa mudança é possível a partir do momento que nos tornamos conscientes. Somos capazes de intervir na realidade, tarefa muito mais complexa do que simplesmente nos adaptarmos ao que já estamos acostumados a realizar. 60 O professor é responsável pela elaboração de suas práticas pedagógicas, portanto, quem media, facilita e articula o conhecimento a ser direcionado aos alunos. Numa proposta de concepção crítica o professor é responsável em provocar o aluno, convidá-lo a enxergar sua realidade no espaço em que está inserido, visando trabalhar com uma metodologia que incentive a autonomia e a criatividade, para com isso podermos chamar de “leitura do mundo” (FREIRE, 2011; KUNZ, 2004). Além disso, para efetivar uma proposta na concepção inclusiva é necessário ampliar essas possibilidades com ações de igualdade e oportunidades. Acerca disso, descrevemos procedimentos pedagógicos que chamamos de estratégias pedagógicas inclusivas, a serem realizados em aulas com a unidade temática PCANs, numa perspectiva inclusiva. Nesse sentido, entendemos que o professor deve ficar atento à diversidade encontrada dentro da sala de aula, necessitando realizar um levantamento prévio da turma, como aponta Soler (2009, p. 127): O professor deve buscar identificar, em suas aulas, quais as necessidades e capacidades de cada pessoa, e com isso procurar potencializar sua autonomia e independência. O professor, durante a atividade, deve observar individualmente cada criança, e descobrir suas necessidades, e a partir daí, planejar suas aulas. Sendo assim, é importante um levantamento das características individuais da turma, para que se organize e planeje atividades em que todos possam participar. É preciso refletir sobre estratégias adequadas mediante cada público, sendo que cada turma apresenta variedades de pessoas com suas particularidades, que devem ser observadas e respeitadas, e com isso, realizar aulas em que todos os alunos sejam integrados, sem que haja diferença entre eles. Existindo ou não aluno com deficiência, a prática pedagógica deve estar sempre voltada às concepções de inclusão, por saber que nem sempre incluir está relacionado à deficiência. Nessa perspectiva, Silva (2014, p. 43) propõe que “[...] crie e adapte5, quando necessário, recursos didáticos que favoreçam a aprendizagem de todos os alunos. Use os pressupostos do desenho universal [...]”. Sendo assim, enfatizamos ser essencial construir procedimentos pedagógicos que alcancem a construção do conhecimento das pessoas envolvidas nas atividades previstas. As aulas de Educação Física Escolar, numa perspectiva inclusiva, devem criar um ambiente acolhedor e dar oportunidades para que todos participem do momento das aulas, 5 Não entendemos por adaptação, compreendemos que são estratégias utilizadas. 61 sempre respeitando a individualidade de cada um. Soler (2009) enfatiza que o esporte como conteúdo da Educação Física é um processo e não um produto, o rendimento é esperado de acordo com a limitação de cada indivíduo. Outro aspecto importante nas estratégias metodológicasvoltadas a realização de aulas com a unidade temática das PCAN’s, é que o professor conheça o entorno da escola, e faça uma pesquisa dos lugares próximos à escola que possam ser utilizados para as aulas de PCAN’s, sejam eles campos, matas, dunas, lagos, rios, mar, entre outros que contemplem a natureza ao ar livre. De acordo com Dias, Melo e Alves Júnior (2007), buscar a natureza como elemento de forte ligação à diversão e ao prazer, marca os esportes na natureza. Os valores construídos na interação com o meio ambiente estão presentes na maneira de apreciar e de se relacionar com as paisagens naturais. Enfim, o hábito de buscar o campo como instrumento das práticas pedagógicas não é um fenômeno recente, mesmo que a ideia dessa valorização seja encarada como uma nova estratégia a ser explorada pelos professores. Inácio et al. (2016), em suas reflexões, discutem sobre atividades realizadas e o acesso ao espaço programado para essas práticas no contexto escolar, “[...] o entorno é um espaço ao qual os alunos teriam o acesso caminhando, no tempo estabelecido para as aulas de Educação Física e em tempo de retornar para as aulas de outras disciplinas” (p. 179). Os autores justificam para que essas atividades, caracterizadas como entorno da escola, deve haver um planejamento a fim de que não seja atribuída nenhuma perda ao aluno. Outra realidade exposta pelos mesmos autores é que sejam realizadas aulas no contra turno ou aos sábados para experimentação dessas práticas fora da escola, facilitando a saída dos alunos, e as aulas que concentram aspectos mais teóricos e técnicos sejam realizadas no turno específico das aulas de Educação Física Escolar. Outro ponto importante questionado é que não ocorram custos, seja com transporte ou qualquer outra despesa extra. A respeito dessas reflexões concordamos com Inácio et al. (2016, p. 179), quando expõem que: [...] é inquestionável a superioridade das experiências advindas de vivências com as PCAs realizadas fora do espaço escolar – contudo, alertamos que as possibilidades devem ser ofertadas igualmente a todos os estudantes, sem que isso gere sacrifícios econômicos e/ou constrangimento de outras ordens. À vista disso, ressaltamos que ao planejar essas aulas o professor deve estar atento a todas essas situações, pois as referências ao acesso do espaço destinado às PCANs devem ser consideradas, por ser esse entorno um espaço mais distante da escola. 62 Propomos, então, que os professores adquiram conhecimento sobre aulas de campo, aula passeio, porque este tipo de aula objetiva que o aluno tenha o contato com a natureza por diversos meios. A partir das aulas de campo, os alunos articulam os conhecimentos adquiridos dentro da sala de aula, com a vivência no espaço onde a aula acontece. Nas aulas-passeio o professor busca estratégias pedagógicas que despertem nos meninos e meninas o prazer pelo conhecimento. Essas ocasiões nos faz refletir sobre as descobertas que esses momentos tão ricos proporcionam aos estudantes. Nas palavras de Dias (2012, p. 131) “[...] O mundo está ali ao lado para ser descoberto. A aula-passeio é uma técnica que aproxima as disciplinas de suas teorias”. Com isso, podemos dizer que as aulas-passeio são responsáveis por um mundo de descobertas, através das quais crianças, jovens e adultos constroem seu caminho. Muitas vezes esse tipo de organização de aula é compartilhado por duas ou mais disciplinas. Numa proposta pedagógica com perspectiva inclusiva é relevante desenvolver atividades interdisciplinares, no intuito de integrar conhecimentos distintos de várias áreas. Estratégias pedagógicas como essas geram estímulos que permitem aos participantes um maior interesse nas atividades propostas. Darido e Rangel (2008) propõem que nas aulas no contexto interdisciplinar “[...] as disciplinas justificam os conteúdos próprios de aprendizagem e não perdem sua identidade como matéria diferenciada” (p. 81). Nesse caso, duas ou mais disciplinas trabalham com um conteúdo que seja comum entre elas, com abordagens diferentes. Portanto, as mesmas autoras justificam as aulas interdisciplinares como “[...] a interação entre duas ou mais disciplina, que podem ir desde a simples comunicação de ideias até a integração recíproca dos conceitos fundamentais e da teoria do conhecimento, da metodologia e dos dados da pesquisa” (DARIDO; RANGEL, 2008, p. 81). Um dos objetivos de realizar trabalhos interdisciplinares na escola é proporcionar que o aluno amplie o entendimento sobre a realidade e construa percepções diferentes sobre ela (DARIDO; RANGEL, 2008). Para implementar trabalhos interdisciplinares nas aulas de Educação Física relembramos os temas transversais, que foram apresentados no capítulo anterior. Precisamos criar alternativas de conhecimento na Educação Física Escolar com proposta de aulas inclusivas com as PCAN’s, assim, sugerimos elaborar aulas com temas transversais. Os temas transversais chegam às escolas para tratarem de questões procedentes da sociedade brasileira, visando o desenvolvimento integral do aluno. São conteúdos viáveis de serem 63 trabalhados em qualquer disciplina como: Ética, Meio ambiente, Pluralidade cultural, Saúde, Orientação sexual, Trabalho e Consumo (DARIDO; RANGEL, 2008). As PCANs possibilitam que o professor desenvolva estratégias pedagógicas relacionadas aos temas transversais, podendo ser estimulada a resolução de problemas, estratégias de superação de desafios, além de proporcionar o contato com temas emergentes discutidos na nossa sociedade. Desse modo, concordamos com Armburst, Maldonado e Silva (2016, p. 50), quando dizem que a valorização de práticas pedagógicas associadas aos temas transversais com as PCAN’s são: [...] temáticas tratadas com o “tempero” da aventura permitem inovar nas experimentações e reflexões referentes à cultura de movimento e expressar saberes que se relacionam em abordagens interdisciplinares durante as aulas de Educação Física na escola. Isso posto, entendemos que é possível trabalhar a aproximação com esses temas, que articulam diferentes saberes para que os alunos aprendam na escola sobre questões importantes e necessárias para nossa sociedade. Outro ponto fundamental é a organização do material necessário, de acordo com o conteúdo que o professor tenha planejado desenvolver com as PCAN’s. Conforme com Soler (2009, p. 159), “[...] O material utilizado nas aulas interfere diretamente na qualidade e no aprendizado”, e portanto, quanto mais específico for o material utilizado, mais próximo da realidade podemos chegar. Sabemos das dificuldades enfrentadas pelas escolas públicas em relação a material esportivo, porém algumas vezes esse material pode ser construído dentro da escola e com ajuda dos alunos. A produção do material didático construído pelos alunos, pode estimulá-los nos aspectos de criatividade, responsabilidade e reaproveitamento de materiais. Que pode influenciá-los a desenvolverem essas habilidades em sua vida. Podemos, por exemplo, pensar na criação de pranchas para as aulas de surfe, com materiais como: papelão, garrafas plásticas, espaguete/macarrão etc., e deixando-os livres para criação com possibilidades de utilizarem cores, tamanhos e formas diferenciadas, partindo da imaginação e criatividade dos alunos. Para Soler (2009, p. 162), “[...] O material pode ser recriado, adaptado, improvisado, mas sempre uma atividade não poderá ser deixada de lado por falta de um material específico”. A produção do material específico de forma coletiva com a turma se torna muito mais significativa, porém ressaltamos a importância da segurança que precisa ser preservada, a fim de evitar acidentes. 64 Pensando nessa proposta o professor deverá estar atento às modificações necessárias, sejam elas das atividades pedagógicase do material a ser utilizado. Para que uma proposta pedagógica na perspectiva inclusiva seja efetivada é indispensável que o professor reflita sobre os procedimentos necessários que possibilitem ao aluno uma maior compreensão do que está sendo proposto, as limitações e capacidades, como também auxiliam num melhor resultado na aprendizagem (CIDADE; FREITAS, 2009). No que diz respeito as estratégias pedagógicas inclusivas, destacamos Silva (2014, p. 46), quando explicita que “[...] compreendo que as práticas inclusivas são socialmente construídas e que é necessária a corresponsabilidade de os envolvidos, porém, nós, professores, temos uma grande responsabilidade nesse processo.” A autora mostra a importância que nós professores temos diante de nossa práxis, nos alertando que depende de cada um para que a transformação didática aconteça no âmbito da escola. Nesse sentido, a seguir apresentamos uma proposta pedagógica inclusiva direcionada para o ensino das PCANs a ser desenvolvida com os alunos do 8° ano (Ensino Fundamental - anos finais) nas aulas de Educação Física, seguindo as recomendações da BNCC, considerando a abordagem crítico-emancipatória, as recomendações dos estudiosos das PCAs aqui referenciados, bem como as estratégias elencadas acima. A proposta será exposta por meio da exploração de algumas modalidades (surfe, canoagem e esquibunda), considerando e respeitando a diversidade dos sujeitos encontrados na escola. 3.2.1 Surfe Iniciamos com o esporte surfe, que é realizado sobre uma prancha que desliza por cima das ondas do mar. Muitos autores defendem que o surfe foi o precursor das PCANs, tendo sua origem por volta do século XVIII, difundido pelo havaiano Duke Kahanamou. No Brasil, o surgimento do surfe aconteceu no Rio de Janeiro, na década de 1950 (FRANCO; CAVASINI; DARIDO, 2014). Ao planejar uma unidade de ensino com o tema surfe é relevante que o professor inicie apresentando a história da modalidade, mostrando as roupas utilizadas na sua prática, os equipamentos, como a prancha, além de acessórios de segurança, por exemplo, a leash6, que é a corda fixada na ponta da prancha com a outra extremidade atada no tornozelo do surfista. 6 Item de segurança. 65 Explicando todo o processo e controle de risco, como quedas, colisão entre pranchas, e referindo-se a possibilidade de imprevistos no momento da aula, e de como os alunos devem se comportar em tais situações. Dando continuidade, o professor pode explicar sobre as posturas que são realizadas na prancha, como a entrada na água, iniciando na posição em decúbito ventral, na sequência dando remadas, flexão para se posicionar em pé na prancha, e o deslize na onda e suas manobras que consistem em se equilibrar sobre a prancha. Essas orientações devem ser realizadas por etapas, e repassadas pelo professor para que os alunos assimilem os principais fundamentos da modalidade. Para estimular o interesse dos alunos no conteúdo das aulas de Educação Física Escolar sobre o surfe, podemos utilizar imagens e vídeos. Os objetivos definidos nessa proposta são de assegurar a todos os alunos o conhecimento sobre a modalidade, aproximando-os da realidade, e possibilitando a prática dessa aventura. Para realização de aulas na perspectiva inclusiva com o conteúdo surfe ratificamos Rocha (2016, p. 173-174), quando fala dessa importância para os discentes: [...] entendemos que seria importante que elas: aprendessem sobre história e as manobras de surfe; vivenciassem movimentos e brincadeiras relacionadas ao universo do surfe; vivenciar movimentos, brincadeiras e posicionamentos que permitam uma melhora nas capacidades físicas e habilidades motoras; participassem das atividades e nessa participação foram estimuladas a desenvolverem mais concentração, autoconfiança, superação de medos, respeito a si, aos outros, e, ao meio ambiente. Considerando uma proposta de aulas inclusivas concordamos com o pensamento da autora, pois o aluno necessita da oportunidade de conhecer e vivenciar práticas pedagógicas relacionadas às PCANs, uma vez que, de acordo com a autora supracitada, o conhecimento e a prática dessas atividades conduzem o aluno a uma melhor percepção de si mesmo e do meio em que vive. A partir desse entendimento apresentamos uma unidade temática com a modalidade surfe, que corresponde a quatro aulas, as quais chamaremos de etapas, descritas a seguir. Primeira etapa: orientações teóricas no tocante a modalidade, como: estudar o histórico do surfe, conhecer os equipamentos, inclusive através do tato, explicar sobre os fundamentos para a prática do surfe com orientações corporais de como é realizado cada movimento: remada, posições e manobras. O professor poderá explorar o universo do surfe exibindo vídeos, preferencialmente com legendas em português, para que os alunos com deficiência auditiva e alunos com deficiência intelectual consigam ter acesso às informações, e sugerimos, além disso, 66 descrever as imagens para os alunos com deficiência visual, de modo que o conhecimento seja bem explorado e acessível a todos. Segunda etapa: realizar junto com os alunos a construção de pranchas de surfe. Nessa etapa o aluno pode explorar alguns materiais como papelão ou garrafas pet, desenvolvendo sua criatividade. Se na turma tiver algum aluno com deficiência visual ou deficiência intelectual severa, nossa sugestão é que eles participem da oficina com um par tutor, de forma colaborativa, para que ele consiga construir também sua prancha e possa realizar a próxima aula. Essas pranchas serão utilizadas na etapa seguinte, antes dos alunos vivenciarem o surfe no contato com a água, seja no mar, lagoa ou rio. Nas Figuras 3 e 4, a seguir, temos exemplos de algumas pranchas produzidas com materiais reciclados: papelão e garrafas PET. No caso da prancha feita com garrafa PET pode ser colocada na água no momento da realização da aula, já a prancha de papelão servirá apenas como ilustração utilizadas nas manobras a serem realizadas na areia, antes da turma entrar na água. Figura 3 - Pranchas de surfe feitas de papelão Fonte: Instagram @chaodaquadra (2022). Figura 4- Pranchas de surfe feitas de garrafa PET Fonte: https://www.artereciclada.com.br/passo-a-passo/prancha-de-surf-de-garrafa-pet/ https://www.artereciclada.com.br/passo-a-passo/prancha-de-surf-de-garrafa-pet/ 67 Terceira etapa: com as pranchas produzidas pelos alunos, a aula deverá ocorrer na areia, dando-lhes oportunidade de conhecerem o ambiente mais próximo antes do contato com a água. Recriando movimentos específicos do surfe, posicionamento e execução da remada já na prancha, realizar a subida na prancha para ficar de pé, simular o equilíbrio como estivesse nas ondas. Nessa ocasião, caso haja algum aluno com deficiência física e deficiência intelectual severa, e que sintam alguma dificuldade na realização desses movimentos, recomendamos o auxílio do professor ou de um par tutor que pode ser um colega de sala para que o aluno consiga realizar os movimentos, lembrando sempre de respeitar seu ritmo e limite. Essa sequência antes simulada é importante pois facilita o aprendizado para que no momento de entrar na água o aluno já tenha uma experiência de como realizar as técnicas. Quarta etapa: nesse momento o aluno já deverá conhecer os equipamentos, ter noção de movimentos e posicionamentos, e é necessário que o professor explique sobre o controle de risco como quedas, choques entre pranchas, para todos os discentes ficarem atentos no momento da aula. Com solicitação de empréstimos de algumas pranchas de fibra que flutuam na água, realizar a prática de todos os ensinamentos anteriores para o aluno vivenciar o desempenho prático da modalidade. Nessa etapa sugerimos que o professor separe aturma em pequenos grupos, tornando as vivências mais significativas e seguras. Nas Figuras 5 e 6, a seguir, temos imagens que mostram a experiência de aula que realizamos com alunos na comunidade de Pitangui. Durante essa atividade meninos e meninas puderam juntos realizar uma aula de surfe. Momento bastante participativo que contribuiu para o desenvolver da interação entre a turma, com participação das meninas, o que nos deixou maravilhada. Apesar de morarem a beira mar, muitas delas nunca tiveram a oportunidade de conhecer a modalidade e praticá-la. Figura 5 - Alunos com prancha de surfe antes de entrarem na água Fonte: Fotografia da autora (2016). 68 Figura 6 - Alunos entrando no mar iniciando posicionamento para remada Fonte: Fotografia da autora (2016). Para o aluno com deficiência vivenciar essa experiência de entrar na água e realizar os movimentos específicos do surfe, são necessárias algumas alterações, e nesse estudo consideramos a deficiência intelectual, deficiência auditiva, deficiência visual, deficiência física para essas adequações (QUADRO 4, a seguir). Quadro 4 – Estratégias da modalidade surfe TIPO DE DEFICIÊNCIA ESTRATÉGIAS NECESSÁRIAS Deficiência intelectual Realizar uma exposição o mais minuciosa possível da aula, com detalhes nas instruções, quais procedimentos a serem seguidos pelo aluno. Deixar claro que o professor estará sempre próximo na realização da atividade. Observar se as informações foram compreendidas, caso não sinta segurança, repetir até que o discente compreenda. Relembrar ao aluno o passo a passo dos posicionamentos antes de entrar na água e com a prancha. Orientar o aluno para conseguir ficar na prancha de surfe, seja na posição de remada, sentado ou em pé. Caso seja necessário estar próximo ao aluno para auxiliar todo o processo. Deficiência auditiva Considerar a forma de comunicação do aluno, seja por Libras, leitura labial ou comunicação alternativa, para detalhar as informações sobre a aula. Antes de entrar no mar repassar as instruções da aula na forma de comunicação do aluno. Observar se as informações foram compreendidas, caso não sinta segurança, repetir até que o discente compreenda. Orientar para o aluno conseguir ficar na prancha de surfe, seja na posição de remada, sentado ou em pé. Deficiência visual Realizar uma descrição das instruções da aula, do ambiente (condições da temperatura, areia, mar, ondas). Fazer o reconhecimento da prancha de surfe através do tato, para que o aluno conheça espessura, tamanho e largura da prancha que irá conduzi-lo. Acompanhar o aluno conduzindo para ele sua prancha de surfe caso seja necessário Orientá-lo nos posicionamentos do surfe dentro da água. 69 Estimular para o aluno conseguir ficar na prancha de surfe, seja na posição de remada, sentado ou em pé. Narrar para o aluno todo o processo caso seja necessário. Deficiência física Considerar os diversos corpos na deficiência física para realizar as atividades, tanto no deslocamento como no posicionamento. Antes de entrar no mar repassar as instruções da aula. Acompanhar o aluno conduzindo para ele sua prancha de surfe, caso seja necessário. Dependendo da deficiência orientar para que o aluno consiga fazer a remada do surfe; caso não consiga, levar o aluno sentado na prancha, com um auxiliar dando apoio ao que for necessário à vivência. Estimular para o aluno conseguir ficar na prancha de surfe, seja na posição de remada, sentado ou em pé. Fonte: Elaborado pela autora (2022). Esses procedimentos são orientações pedagógicas que consideramos fundamentais para que aconteça uma prática inclusiva, por acreditarmos nas inovações didáticas como ferramentas que auxiliam na inclusão (MAGALHÃES, 2009), lembramos que essas alterações podem e devem ser pertinentes à realidade de cada escola, turma e alunos. Figura 7 – Aluna com paralisia cerebral em uma aula de surfe Fonte: Fotografia da autora (2017). Nessa aula de surfe, uma aluna com paralisia cerebral participou junto aos seus colegas da experiência com o esporte, conseguindo ficar sentada na prancha, com o apoio de sua irmã, que no caso também era aluna da turma. Logo, a todo momento foi priorizado a inclusão da aluna na aula, com intenção de construir experiências novas e que envolvesse todos nesse processo. Nesse sentido, após priorizarmos ações inclusivas entendemos que novas experiências sejam encorajadas por outros colegas a trabalhar com o surfe e suas discussões inclusivas priorizadas, para garantir que crianças e jovens possam participar na escola de momentos que contribuam na formação de uma cultura de movimento (ROCHA, 2016). 70 Trabalhar com um novo conteúdo como o surfe nas aulas de Educação Física oportuniza que jovens tenham o contato com essa modalidade, pois mesmo sendo próximo a realidade de alguns, se torna distante pela falta de oportunidade em conhecer de perto. Apesar de viverem em uma comunidade litorânea, muitos dos meus alunos só tiveram o contato com o surfe a partir das minhas aulas. Essa pode ser a realidade de muitos alunos que moram em cidades litorâneas, onde o surfe é presente, mas pouco disponível ou indisponível para a maioria das crianças e jovens locais. Assim, defendemos que, em situações em que a escola esteja próxima ao mar, o professor de Educação Física possa vislumbrar a possibilidade de tornar o surfe um objeto de conhecimento em suas aulas na escola, com a preocupação de incluir todos naquele momento de aprendizagem. 3.2.2 Canoagem A canoagem surgiu na Groenlândia, onde canoas eram utilizadas como veículo de pesca e trabalho. As palavras “canoa” e “caiaque” são utilizadas para designar a origem desse esporte de acordo com cada país. No Brasil a maioria das associações, como por exemplo, a Confederação Brasileira de Canoagem (CBC), utilizam “canoagem” como referência (CANOAGEM-VELOCIDADE, 2022). A canoagem é um esporte náutico que pode ser praticado individualmente ou em dupla. Sua participação como esporte olímpico aconteceu nas Olimpíadas de 1936, na Alemanha. A modalidade é regulamentada aqui no Brasil pela CBC, que foi instituída em 1988. A partir daí é responsável por organizar as competições e determinar os campeões por cada modalidade (CANOAGEM-VELOCIDADE, 2022). Os tipos de caiaques têm suas diferenciações de acordo com o seu uso e objetivo. Existe a canoagem de velocidade, praticada na sua grande maioria de forma competitiva; a canoagem Slalon, que é uma modalidade Olímpica, realizada em percurso pequeno, mas com grande velocidade, além da canoagem de turismo e aventura, que não inclui competições em sua prática, seu objetivo principal é a aproximação do homem com a natureza, não sendo incluído nos padrões de esporte competitivo (EDUCAÇÃO FÍSICA-CANOAGEM, 2022). Diante disso, essas observações são parte da construção do processo educativo a ser utilizado pela escola, a fim de oferecer aos alunos as PCAN’s como unidade temática da Educação Física Escolar. Nesse aspecto, Paixão (2017, p. 173), aponta que 71 Sobre o valor educativo do esporte de aventura como conteúdo das aulas de Educação Física escolar têm-se aspectos motivacionais como ambiente diversificado de práticas, tendo como eixo norteador o risco e fortes emoções. Esses elementos, comuns ao esporte de aventura, podem configurar-se como estímulo às sensibilidades corporais dos alunos possibilitando-os a partir do (re) encontro com as sensações corporais, experimentando e sentindo o próprio corpo [...]. Os conteúdos da Educação Física Escolar devem ser ampliados, e as PCAN’s chegam como possibilidade na mudança de paradigmas existentes no histórico de ensino da disciplina Educação Física. O autor destaca o valoreducativo no ensino do esporte de aventura no processo educacional de crianças e jovens, favorecendo o ambiente diversificado que tais práticas costumam nos levar, como estímulos, sensações de bem estar e melhorias no condicionamento físico. Paixão (2017) considera que, para a unidade temática com o conteúdo canoagem, o professor deverá delinear o histórico da modalidade, visualizar os locais de prática, expor os equipamentos utilizados para essa prática. No que diz respeito ao controle de risco, o professor deve realizar uma apresentação prévia dos riscos que possam ocorrer, sempre que planejar uma unidade temática com as PCAN’s. Esse processo deve ser realizado sempre que qualquer modalidade com características de aventura for apresentada aos alunos. Sugerimos dividi-lo em quatro etapas, que detalhamos a seguir. Primeira etapa: o professor deverá mostrar o histórico da canoagem, para que o aluno conheça o esporte. Apresentar os tipos de modalidades e seus caiaques específicos de acordo com cada tipo de canoagem. Nessa estratégia o professor pode expor vídeos preferencialmente com legendas em português para que os alunos com deficiência auditiva e com deficiência intelectual, consigam ter acesso às informações. Se na turma tiver algum aluno com deficiências visual fazer a descrição das imagens, procurar conteúdo que facilite a compreensão e o acesso de todos sobre as informações do esporte que pode ser aplicado de forma profissional ou recreativa. Segunda etapa: através de oficinas, construir com os alunos botes (caiaques) e remos, para serem utilizados na etapa seguinte das aulas. Podendo ser utilizados como material: madeira, caixas de papelão, garrafas PET, isopor, como mostra a figura 8, a seguir. Durante a oficina alunos com deficiência visual e deficiência intelectual severa podem desempenhar a atividade de forma colaborativa, junto aos seus colegas na realização da construção do caiaque. Os caiaques confeccionados pelos alunos serão explorados na próxima aula. Com isso, consideramos que essa sequência pedagógica chegue o mais perto possível da realidade dos 72 caiaques profissionais, para utilizarmos na etapa seguinte com aula prática antes de entrar na água. Figura 8 – Caiaque feito com garrafa pet Fonte: https://www.artesanatopassoapassoja.com.br/como-fazer-caiaque-de-garrafa-pet Terceira etapa: são os procedimentos a serem executados antes de entrar na água, com o material produzido nas oficinas. É quando o aluno tem seu primeiro contato com a orientação sobre o posicionamento no caiaque, tipos de remadas e giros realizados na canoagem, para melhor assimilação da prática. O aluno simulará, ainda em terra firme, os movimentos, atentando para o controle de riscos, tais como: choque entre os caiaques, queda do remo. Recomendar, veementemente, que caso aconteça de cair o remo é preciso aguardar alguém que venha/virá auxiliá-lo no resgate, e nunca entrar na água para empurrar o caiaque ou tentar alcançar o remo. Propomos que para esse processo, se na turma tiver alunos com deficiência auditiva, o professor deve realizar a explicação dos movimentos da remada através de gestos e que o aluno esteja na frente para uma melhor compreensão; para aluno com deficiência visual o professor deve executar essa movimentação junto ao aluno; se tiver alunos com deficiência física e intelectual que não consiga realizar os movimentos, serão acompanhados pelo par tutor ou pelo professor, ou algum auxiliar ou colega. Recomendamos que para um melhor resultado, é importante que essas estratégias sejam realizadas antes de entrar na água. Quarta etapa: nesse momento o aluno já deverá ter noção dos movimentos da canoagem e conhecer o controle de risco. O equipamento específico para essa prática ser realizada com segurança, deve ser o caiaque de fibra de vidro ou de plástico, remos e colete salva vidas. Essa etapa sabemos que será um pouco complicada, por não ser tão comum aquisição desse tipo de material, então propomos que os professores realizem, quando for possível, o empréstimo dos caiaques, remos e coletes, para que seja feita com toda segurança. Com a garantia dos empréstimos de alguns caiaques específicos para a canoagem profissional ou de lazer, o professor deverá levar seus alunos para um lugar com água que pode ser um rio, lago ou lagoa. 73 Nesse momento, o aluno experimentará a prática da canoagem junto a natureza, com todas as sensações e emoções presentes nesse tipo de prática, o que enriquece a consciência corporal de nossos alunos. Na Figura 9, a seguir, temos o momento de aula realizada na lagoa de Pitangui/RN, onde alunos puderam praticar a canoagem com os equipamentos específicos e de segurança, cedidos pela administração da lagoa para essa ocasião. Gratificante para nós essa parceria entre comunidade e escola, que propicia a realização de aulas como essa, assim, todos os alunos participaram da aula, praticando individualmente ou em dupla a canoagem. Figura 9 - Aula de canoagem realizada na lagoa de Pitangui Fonte: Fotografia da autora (2018). Para nossa proposta consideramos que todos os alunos têm o direito de participar desses momentos das aulas com as PCAN’s. É importante destacar algumas modificações que avaliamos serem necessárias. Atentamos nesse estudo a deficiência intelectual, deficiência auditiva, deficiência visual, deficiência física para essas adequações. Sugerimos no quadro 5, abaixo, as estratégias pedagógicas inclusivas divididas pelo tipo de deficiência. Quadro 5 – Estratégias da modalidade canoagem TIPO DE DEFICIÊNCIA ESTRATÉGIAS NECESSÁRIAS Deficiência intelectual Realizar uma exposição da aula detalhada das instruções, quais procedimentos a serem seguidos pelo aluno, o mais esmiuçado/pormenorizado possível. Esclarecer que a atividade será realizada em dupla. Observar se as informações foram compreendidas, e caso não sinta segurança, repetir até que o discente compreenda. Orientar o aluno sobre a realização dos movimentos com o remo. De princípio, nossa orientação é que a prática dessa atividade possa ser realizada com canoa dupla, ou a depender do aluno, em canoa individual. Sempre que for necessário ser acompanhado por um par tutor, seja o professor auxiliar, um colega, o professor ou o instrutor de canoagem. 74 Deficiência auditiva Considerar a forma como o aluno se comunica, seja por Libras, leitura labial ou comunicação alternativa. Antes de entrar na água repassar as instruções da aula na forma de comunicação do aluno. Observar se as informações foram compreendidas, e caso não sinta segurança, repetir até que o discente compreenda. Incentivar a realização da vivência da aula junto aos seus colegas. Nesse caso, nossa orientação é que a prática possa ser realizada individualmente. Deficiência visual Realizar uma descrição das instruções da aula, do ambiente (condições da temperatura, do vento e da água). Fazer o reconhecimento do caiaque e do remo através do tato, para que o aluno conheça tamanho, largura e local do acento do caiaque. Refazer junto ao aluno os movimentos que serão realizados pelo remo, orientar sua posição com o caiaque já dentro da água, para que ele faça o reconhecimento da altura da água para o caiaque. De princípio, nossa sugestão é que essa atividade seja realizada em dupla, com o apoio de um par tutor, seja o professor auxiliar, um colega, o professor ou o instrutor de canoagem. Deficiência física Considerar os diversos corpos na deficiência física para realizar as atividades, seja no deslocamento e posicionamento no caiaque e orientação com o remo. Dependendo da deficiência orientar para que o aluno consiga fazer a remada; caso não consiga, conduzir o aluno em caiaque duplo, com o apoio de um par tutor, seja o professorauxiliar, um colega, o professor ou o instrutor de canoagem. Incentivar a realização da vivência da aula junto aos seus colegas. Nesse caso, nossa orientação é que a prática possa ser realizada individualmente, a depender do tipo de deficiência do aluno. Fonte: Elaborado pela autora (2022). As estratégias pedagógicas citadas acima não são modelos fechados para serem seguidos em busca de aulas inclusivas, contudo possibilitam ao professor ter uma direção do que precisa ser modificado para contemplar todos os alunos, de acordo com a sua realidade. Retomando as discussões sobre as PCANs, salientamos Pereira (2016), quando nos indica que o professor de Educação Física pode ampliar seus espaços escolares e extraescolares, para isso é necessário que tenha uma concepção aberta e enxergue espaços possíveis para realização das PCANs. Os espaços escolares não colaboram para esse tipo de atividade, por isso é necessário ir além dos muros da escola. A Figura 10, a seguir, mostra a aula realizada na lagoa de Pitangui/RN com a modalidade canoagem. Destacamos uma aluna com paralisia cerebral com a colaboração do instrutor de canoagem da lagoa, realizando a aula. São esses momentos que nos enchem de alegria e motivação para planejar aulas com as PCANS. Experiência significativa em que o aluno vivencia uma aula com uma modalidade de aventura, in loco com seus colegas de turma. 75 Figura 10 - Aluna com paralisia cerebral em uma aula de canoagem na lagoa de Pitangui Fonte: Pesquisadora, 2017 Todavia, conforme Armbrust, Maldonado e Silva (2016), “[...] Esses recursos podem ser ressignificados pelos docentes e pelos alunos e se tornarem apenas um estímulo para que possam ser criados novos materiais e novas propostas de ensino, tornando o professor autor de sua prática pedagógica” (p. 69). Dessa forma, vale recomendar que os professores fiquem atentos a essas possibilidades de ampliar seu campo de conhecimento e que lhes permitam trabalhar com as PCAN’s nas escolas dentro da Educação Física Inclusiva, considerando os diversos corpos que encontramos dentro de sala de aula. 3.2.3 Esquibunda A esquibunda é uma prática de atividade física comum na Região Nordeste do Brasil, que consiste em escorregar sentado em uma prancha de madeira do alto das dunas para baixo, caindo, em sua grande maioria, dentro d’água, seja de uma lagoa, rio ou mar. A esquibunda se originou em Florianópolis na década de 1980, através dos surfistas que adequaram as pranchas de Sand board7, para serem utilizadas nas descidas, onde a pessoa fica sentada na prancha de madeira. Essa PCA é realizada na natureza em pontos turísticos, e vem crescendo há alguns anos na região litorânea do Rio Grande do Norte. Considerando que o Brasil é um país extenso e com diversidade em seus relevos, o professor de Educação Física Escolar pode planejar essa prática que em outros relevos geográficos também é possível, mesmo não sendo sua realidade a faixa litorânea. 7 Sandboard é um desporto que consiste em descer dunas de areia, com a utilização de uma prancha similar à prancha de snowboard usada na neve. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sandboard 76 Continuando a nossa proposta de aulas com as PCAN’s, dividimos em quatro as etapas dessa sequência didática com a esquibunda. Primeira etapa: o professor deverá mostrar o histórico da modalidade, como surgiu, e as modificações da modalidade Sandboard, para que o aluno conheça essa atividade física a partir de sua origem, cuja prática é frequente no litoral nordestino. Nesse momento, o professor pode expor vídeos dando preferência aos legendados em português para que alunos com a deficiência auditiva e alunos com deficiência intelectual tenham acesso às informações, e compreendam o conteúdo em relação à esquibunda. Como também fazer uso de recursos como audiovisual e descrição das imagens para que atenda aos alunos com deficiência visual. Segunda etapa: construir com os alunos as pranchas de madeira que serão usadas na atividade para descida na areia. Utilizar a madeira como material para construção das pranchas, que serão utilizadas na vivência da modalidade realizada na quarta etapa da sequência das aulas. Lembramos que alunos com deficiência visual devem ter auxílio ou colaboração nesse momento da oficina, como também nossa sugestão é que alunos com deficiência intelectual e física em membros superiores recebam essa cooperação, seja do professor, do auxiliar ou dos colegas. Na figura 11, abaixo, apresentamos uma prancha de esquibunda, que já utilizamos em nossas aulas. Figura 11- Prancha de esquibunda Fonte: Pesquisadora, 2022 Terceira etapa: com o material produzido pelos alunos, nesse momento o professor demonstra as posições para que se orientem no momento da descida, sentado, pernas esticadas a frente, braços paralelos ao tronco apoiados na areia para fazer impulsão. Durante a descida, procurar manter os braços abertos para facilitar o equilíbrio. O professor deve expor o controle de risco como quedas, rolar na areia, e que no momento da aterrissagem é preciso cuidado para que areia não entre nos olhos. Nossa sugestão de estratégia para alunos com deficiência visual, 77 física e intelectual, é refazer com ele todos os gestos e posições de como ficar sentado na prancha, e tentar garantir que os alunos consigam ficar sentados e orientá-los sobre a descida. Destacamos a importância desse momento para que o aluno, antes de subir as dunas, já tenha aprendido como realizar essa modalidade. Quarta etapa: nessa etapa o aluno já deverá ter noção da posição e dos movimentos a seguir, conforme ensinado na aula, e saber como controlar o risco, ou seja, orientados sobre qualquer imprevisto que possa acontecer na realização da aula. Com equipamento específico para essa prática, os alunos devem ser conduzidos a um local de dunas ou areia, possível ao deslizamento da prancha. Na Figura 12, a seguir, temos um aluno fazendo a demonstração de como o corpo fica posicionado em cima da prancha no início. Depois que o aluno sai da inércia8, a posição dos braços é aberta na altura dos ombros para ajudar no equilíbrio do corpo. Figura 2 - Aluno demonstrando o posicionamento para descida na esquibunda Fonte: Pesquisadora, 2022 Visando conseguir que todos os alunos possam participar desses momentos de aula, destacamos em nosso trabalho as modificações necessárias para que os alunos com deficiência possam participar. Observamos em nossa proposta deficiência intelectual, deficiência auditiva, deficiência visual, deficiência física e suas estratégias, que segue no quadro 6, a seguir. Quadro 6 – Estratégias da modalidade esquibunda TIPO DE DEFICIÊNCIA ESTRATÉGIA NECESSÁRIA 8 Inércia: corpo em repouso. 78 Deficiência intelectual Realizar uma aula com exposição detalhada das instruções, e quais procedimentos a serem seguidos pelo aluno. Esclarecer que o professor estará sempre próximo na realização da atividade. Observar se as informações foram compreendidas, e caso não sinta segurança, repetir até que o discente compreenda. Relembrar ao aluno o passo a passo dos posicionamentos na prancha da esquibunda e no momento da descida. Orientar para o aluno conseguir ficar na prancha da esquibunda, sentado com as pernas para frente e braços abertos no momento da descida. Caso seja necessário, ficar próximo ao aluno durante todo o processo. Deficiência auditiva Considerar a forma de como o aluno se comunica, seja por Libras, leitura labial ou comunicação alternativa. Antes de entrar no mar repassar as instruções da aula na forma de comunicação do aluno. Observar se as informações foramcompreendidas, caso não sinta segurança, repetir até que o discente compreenda. Orientar para o aluno conseguir ficar na prancha da esquibunda, sentado com as pernas para frente e descer com braços abertos para um melhor equilíbrio. Deficiência visual Realizar uma descrição das instruções da aula, do ambiente (condições da temperatura, areia, vento da aterrissagem). Descrever para ele a realização da atividade que algum outro colega realizou. Fazer o reconhecimento da prancha da esquibunda através do tato, para que o aluno conheça espessura, tamanho e largura da prancha que irá descer pela areia. Acompanhar o aluno conduzindo para ele sua prancha de madeira, caso seja necessário. Orientá-lo nos posicionamentos da prancha. Nossa sugestão é que o aluno possa escolher se quer realizar a atividade sozinho ou acompanhado por alguém. Nessa especificidade, o aluno deverá ter o apoio do professor ou dos próprios colegas para retornar da fase final de aterrissagem para o alto das dunas novamente. Sugerimos que alguém possa esperar o aluno no local de aterrissagem, para acolhê-lo na fase final da atividade. Deficiência física Considerar os diversos corpos na deficiência física para realizar as atividades, seja no deslocamento e no posicionamento da esquibunda. Acompanhar o aluno conduzindo para ele sua prancha de madeira caso seja necessário. Dependendo da deficiência, orientar para que o aluno consiga ficar sentado com as pernas à frente e braços abertos. Sugerimos que alguém possa esperar o aluno no local de aterrissagem, para acolhê-lo na fase final da atividade. Fonte: Elaborado pela autora (2022). Destacamos que essas estratégias são sugeridas em virtude da necessidade de garantias de igualdade durante a realização da prática, e que seja oportunizado sua vivência para todos os alunos, independentemente de sua singularidade. O professor deve procurar desenvolver 79 estratégias, a fim de tornar possível a prática das modalidades de aventura às pessoas com deficiência. Escolhemos a esquibunda por fazer parte do contexto cotidiano da comunidade em que trabalho, localizada em uma região privilegiada pela natureza, onde encontramos dunas em diversos lugares, o que torna possível esse tipo de aula. Assim, observamos que dois aspectos favorecem esse tipo de aula: o espaço é rico em dunas e a familiaridade dos alunos com esse ambiente que faz parte do dia a dia deles, contribuindo para que se envolvam nas aulas e auxiliem os colegas com dificuldade, como se observa na Figura 13, a seguir. Figura 13 - Grupo de alunos auxiliando o posicionamento de uma aluna com deficiência intelectual na prancha da esquibunda Fonte: Pesquisadora (2019). Essa atividade possibilitou que a aluna com deficiência intelectual e outra colega com deficiência auditiva participassem da aula com a esquibunda. As estratégias inclusivas utilizadas nessa prática foram orientar repetidamente todo o processo da descida, como também observar se para elas tinham ficado claras as instruções. Nessa sequência, tivemos auxílio de colegas da turma para a aluna ficar sentada na prancha e fazer a descida. Momento rico de aprendizagem promovendo a cooperação entre os alunos na hora de auxiliar colegas para a prática da atividade, como também podemos destacar a superação de limites físicos, cognitivos e afetivos por todos os envolvidos na atividade. Em nossa proposta expomos as PCANs com abordagens inclusivas, sugerindo atividades através de estratégias possíveis, de modo que possa contribuir no fazer pedagógico de outros colegas. Desse modo, ao apresentarmos algumas de nossas experiências com as PCANs nas aulas de Educação Física realizadas na comunidade em que trabalhamos, desejamos 80 que sirvam de referência para que professores se estimulem e planejem sua prática educativa com as modalidades esportivas realizadas no contato com a natureza. Com isso, acreditamos que é preciso despertar o interesse por parte dos professores, para que conteúdos como os das PCANs sejam trabalhados nas aulas de Educação Física Escolar. Sendo indispensável repensar a maneira como viabilizar essas atividades, de modo que a diversidade encontrada no chão da escola seja atendida, com ações e ampliação das oportunidades é possível fazer a diferença. 81 CONSIDERAÇÕES FINAIS – IMPRESSÕES SOBRE NOSSA AVENTURA Diante da gigantesca aventura que trilhamos na vida, nesta foi necessário arriscar em algo novo, como o processo de pós-graduação que resulta no aprimoramento do nosso conhecimento acadêmico e contribuir com a ciência e a sociedade. Então, chegamos ao final deste processo ampliando nossas expectativas e resultados, mesmo assim, considerando que foi um caminho difícil e árduo. Aprendi há muitos anos que “o que vem fácil, vai embora fácil”, por isso, é de grande estima que apresentamos nossas considerações finais desse trabalho, respeitando todo o processo na formação do conhecimento acadêmico. Nesta pesquisa elaboramos uma proposta pedagógica junto à Educação Física Escolar Inclusiva com a unidade temática PCANs, que demonstra a viabilidade de modalidades de aventura como unidade temática nas aulas de Educação Física nas escolas. Tudo isso é atual e deslumbrante no desenvolvimento da Educação Física Escolar, e as PCAs passando a ser consideradas um avanço na diversificação de conteúdo na área, vêm sendo aceitas como uma nova prática de ensino. Entendemos que nossos objetivos foram alcançados de forma satisfatória, levando em consideração toda a articulação do nosso trabalho. Com isso, descrevemos procedimentos pedagógicos usando as PCANs de forma inclusiva, promovendo o ambiente natural como espaço propício, e a realização de estratégias que possibilitem a inclusão nas escolas, em especial dialogamos com minha experiência como professora na comunidade de Pitangui/RN. À vista disso, identificamos conhecimentos sobre Educação Inclusiva e Educação Física Inclusiva, deixando claro nossa compreensão de se tratar de uma educação com direitos para todos, com respeito e acolhimento a diversidade, dessa forma, apontamos algumas das carências que ainda encontramos no processo inclusivo. Além disso, identificamos o papel do professor nesse processo como responsável por criar estratégias e ações que garantam o protagonismo dos educandos, e com novos olhares sobre práticas pedagógicas inclusivas e sobre seu papel do professor na Educação Física Escolar. Tratamos de relacionar as PCAN’s com aulas inclusivas, onde o aluno com ou sem deficiência possa participar e aprender junto aos seus colegas. Por se tratar de um conteúdo novo para Educação Física Escolar, e que vem se expandindo há alguns anos na perspectiva do lazer, caminho esse também percorrido pela inclusão de pessoas com deficiência na prática de esportes de aventura no campo do turismo. Na Educação Física tais práticas ganharam mais visibilidade e aceitação com a promulgação da BNCC, incorporando como unidade temática as 82 PCAs no ensino da educação básica. Acreditamos que a escola possa ser o lugar onde aconteçam práticas corporais em contato com a natureza, possibilitando um aprendizado rico em motricidade, sociabilidade e afetividade em toda comunidade escolar. Além disso, evidenciamos que aulas de Educação Física Escolar podem e devem ser realizadas em uma perspectiva inclusiva e para além dos limites de sala de aula, sendo necessário o professor conhecer as possibilidades do espaço próximo à escola. Todavia, é importante ressaltar que cada PCANs tem especificidades em suas práticas, podendo ser ou não acessíveis e inclusivas para todos, exigindo um cuidado e atenção no planejamento para sua realização. Contudo, descreveremos atividadesem três modalidades: surfe, canoagem e esquibunda, para apresentação de uma proposta na perspectiva inclusiva, na qual toda diversidade presente nas escolas possa participar, sugerindo algumas adaptações nos procedimentos e estratégias pedagógicas inclusivas. Com isso, acreditamos ter avançado na aplicação de possibilidades a serem refletidas sobre alunos com deficiência participarem de forma efetiva de aulas com as PCAs realizadas no contato com a natureza. Portanto, modalidades que estão recheadas de emoções, imprevistos e riscos em sua experiência, possibilitam aos alunos desenvolverem habilidades físicas, cognitivas e emocionais a partir dessa experiência com as PCANs. Queremos deixar claro que a proposta pode e deve ser modificada de acordo com cada situação e realidade em que os alunos estejam inseridos, apresentando algumas sugestões que podem ou não ser seguidas pelos colegas, e com isso destacamos a importância dela para que outros professores tenham acesso ao conhecimento, com estratégias já prescritas na proposta e desenvolvam em suas escolas. Para isso, dependerá apenas de profissionais que estejam dispostos a modificar sua rotina, em busca de conhecimentos novos e desafiadores. Entre os desafios, nos deparamos com a falta de discussões sobre inclusão de alunos com deficiência nas PCANs a serem realizadas no ambiente escolar, dificultando que professores tenham acesso ao conhecimento, para que possam planejar estratégias pedagógicas inclusivas tornando-as acessíveis a todos os discentes. As PCAN’s são um avanço na diversificação de conteúdo na Educação Física Escolar, tirando de foco a esportivização, que está enraizada em muitos professores. Dessa forma, realizamos uma pesquisa que caracteriza essas práticas como inclusivas e possíveis de serem executadas por todos os alunos com ou sem deficiência. Logo, as experiências vividas em todo esse processo foram inúmeras, e além disso, os direcionamentos sobre as estratégias pedagógicas frente a inclusão de alunos com deficiência, nos levou a 83 repensar a práxis e a forma como vemos o mundo. Diante do exposto, entendemos que precisamos promover mais desdobramentos com a temática “Prática Corporal de Aventura na Natureza” e a “Educação Física Escolar Inclusiva” no campo da Educação Física Escolar. Por fim, enquanto professora sigo inspirada a trabalhar com as PCAs junto ao ambiente natural, lugar que me sinto em paz, acolhida e feliz. 84 REFERÊNCIAS ARMBRUST, I.; MALDONADO, D. T.; SILVA, S. A. P. S. 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