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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA As relações das Forças Armadas com o governo de Getúlio Vargas (1951-1954): perspectivas dos jornais Tribuna da Imprensa e Última Hora Wagner Soares Pereira Niterói 2020 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA Wagner Soares Pereira As relações das Forças Armadas com o governo de Getúlio Vargas (1951-1954): perspectivas dos jornais Tribuna da Imprensa e Última Hora Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em História, da Universidade Federal Fluminense, como requisito para a obtenção do título de Mestre em História Social Orientador: Prof. Doutor Paulo Cruz Terra Niterói 2020 Wagner Soares Pereira As relações das Forças Armadas com o governo de Getúlio Vargas (1951-1954): perspectivas dos jornais Tribuna da Imprensa e Última Hora Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em História, da Universidade Federal Fluminense, como requisito para a obtenção do título de Mestre em História Social Aprovado em: 14/12/2020. BANCA EXAMINADORA ______________________________________________________________________ Professor Doutor Paulo Cruz Terra – Orientador/UFF ______________________________________________________________________ Professor Doutor Marcelo Badaró Mattos – Arguidor/UFF ______________________________________________________________________ Professor Doutor Rafael Vaz da Motta Brandão – Arguidor/UERJ/FFP Ficha catalográfica automática - SDC/BCG Gerada com informações fornecidas pelo autor Bibliotecário responsável: Sandra Lopes Coelho - CRB7/338 P436r Pereira, Wagner Soares As relações das Forças Armadas com o governo de Getúlio Vargas (1951-1954) : perspectivas dos jornais Tribuna da Imprensa e Última Hora / Wagner Soares Pereira ; Paulo Cruz Terra, orientador. Niterói, 2020. 162 f. Dissertação (mestrado)-Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2020. DOI: http://dx.doi.org/10.22409/PPGH.2020.m.10243073798 1. Forças Armadas. 2. Getúlio Vargas. 3. Tribuna da Imprensa. 4. Última Hora. 5. Produção intelectual. I. Terra, Paulo Cruz, orientador. II. Universidade Federal Fluminense. Instituto de História. III. Título. CDD - http://dx.doi.org/10.22409/PPGH.2020.m.10243073798 AGRADECIMENTOS Após todo esse período de luta, através do estudo e da pesquisa, o qual possibilitou a construção dessa dissertação de Mestrado, quero fazer os meus agradecimentos. Agradeço primeiramente à Deus, sem Ele, eu nada poderia fazer. Agradeço ao meu pai Virgílio Tristão Pereira (in memorian) e minha mãe Jecy Soares Pereira, pois quando eu era criança me fizeram dar os primeiros passos no conhecimento, me colocando na Escola. Sou grato aos meus pais pela força e o incentivo, e por terem me ajudado a lutar durante o meu Mestrado. Agradeço a minha esposa Jemima do Nascimento Soares, pelo apoio que me deu, compreendendo com carinho o esforço que eu precisava dedicar para alcançar o meu objetivo. A minha filha Laís Soares Pereira do Nascimento, que me trouxe alegria para lutar. A todos os meus irmãos: Lídia, Claudia, Eduardo, Cátia, Fátima e Elizabeth, que sempre me apoiaram e que cada um à sua maneira, puderam me ajudar. Aos meus cunhados e sobrinhos também. A todos os meus amigos e colegas, que torceram pela minha vitória, de maneira em geral, obrigado. Agradeço ao professor Paulo Terra, por ter sido o meu orientador e durante essa caminhada pôde contribuir através de sua dedicação, do seu conhecimento e experiência profissional para que essa dissertação pudesse ser desenvolvida e finalizada. Ao professor Marcelo Badaró, ao qual tive o privilégio de ter sido o seu orientando no período da Graduação e agora pôde fazer parte da minha banca de Mestrado, contribuindo mais uma vez para a minha formação. Também agradeço ao professor Rafael Brandão, que gentilmente aceitou a participar desta banca e pôde contribuir através do seu conhecimento. DEDICATÓRIA À memória do meu querido pai, Virgílio Tristão Pereira, o qual em sentido de carinho e respeito lhe chamava de “major-brigadeiro do ar”. RESUMO O presente trabalho tem por objetivo analisar o período do governo democrático de Getúlio Dornelles Vargas. Dentro desse recorte, trago como objeto de minha pesquisa as relações das Forças Armadas com o governo de Getúlio Vargas (1951-1954). Sendo assim, busquei analisar alguns aspectos que ocorreram durante esse contexto: o acordo militar firmado entre o Brasil e os Estados Unidos em 1952; a possível participação dos militares brasileiros na Guerra da Coreia; as eleições no Clube Militar para o biênio de 1952-1954; o Manifesto dos Coronéis; a morte do major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz; as consequências de aumento dessa crise político-militar; e, por fim, o quadro final que se deu entre as forças armadas e o suicídio de Getúlio Vargas. As análises desses aspectos foram desenvolvidas através das perspectivas dos jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora, que não foram apenas fontes, mas objetos dessa pesquisa de Mestrado. Palavras-chave: Forças Armadas, Getúlio Vargas, Tribuna da Imprensa, Última Hora. ABSTRACT This paper aims to analyze the period of Getúlio Dornelles Vargas’ democratic government. Within this framework, I bring as an object of my research the relations of the Armed Forces with the government of Getúlio Vargas (1951-1954). Therefore, I tried to analyze some aspects that occurred during this context: the military agreement signed between Brazil and the United States in 1952; the possible participation of the Brazilian military in the Korean War; the elections at the Military Club for the 1952-1954 biennium; the Colonels Manifesto; the death of Air Force major Rubens Florentino Vaz; the consequences of increasing this political-military crisis; and, finally, the final picture that took place between the armed forces and the suicide of Getúlio Vargas. The analyzes of these aspects were developed through the perspectives of the newspapers Tribuna da Imprensa and the Ultima Hora, which were not only sources, but objects of this Master’s research. Key-words: Armed Forces, Getúlio Vargas, Tribuna da Imprensa, Ultima Hora. SUMÁRIO INTRODUÇÃO............................................................................................................ 10 Capítulo 1 – O Governo Vargas e as fontes de pesquisa............................................ 22 1.1. Balanço historiográfico sobre o Governo Vargas (1951-1954)................................ 22 1.2. Tribuna da Imprensa e Última Hora: que jornais eram esses?.................................. 37 Capítulo 2 – As Forças Armadas e o Governo de Getúlio Vargas: acordos, instituições e política externa........................................................................................ 49 2.1. Forças Armadas........................................................................................................ 49 2.2. Apoios e interesses: o Acordo Militar entre o Brasil e os Estados Unidos............... 60 2.3. E os militares? Vão ou não lutar na Guerra da Coreia?............................................ 77 2.4. Forças Armadas e o Clube Militar............................................................................ 93 Capítulo3 – Mudam-se os rumos: Vargas perde apoio das Forças Armadas (1954)............................................................................................................................ 108 3.1. Surge um manifesto por parte do Exército.............................................................. 109 3.2. A Aeronáutica é atingida: morre o major Rubens Florentino Vaz........................... 121 3.3. Aumenta-se a crise político-militar no governo Vargas.......................................... 130 3.3.1. Os parlamentares e a crise político-militar........................................................... 131 3.3.2. As forças armadas e a crise político-militar......................................................... 133 3.4. As forças armadas e o suicídio de Vargas............................................................... 140 CONCLUSÃO............................................................................................................. 148 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...................................................................... 151 10 INTRODUÇÃO Ao entrar para o Mestrado em História Social, pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense – PPGH/UFF; tinha como recorte de minha pesquisa o período de 1951 a 1954. Nesse sentido, trago como tema de minha dissertação as relações das Forças Armadas com o Governo de Getúlio Vargas, perspectivas dos jornais Tribuna da Imprensa e Última Hora. Dessa forma, o meu objetivo é poder compreender as questões relacionadas a atuação das Forças Armadas com o governo de Getúlio Vargas procurando observar os seus posicionamentos, as suas contradições e acirramentos. Ou seja, discutir e analisar esses aspectos e construir um panorama que possibilite compreender a importância dessas relações militares diante do governo de Vargas. Com isso, escolhi como fontes e objetos para a minha análise de pesquisa trabalhar com os jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora mostrando como que se deram os seus posicionamentos e diferenças de opiniões, no que diz respeito à relação que foi desenvolvida entre as forças armadas e o governo democrático de Getúlio Vargas. Apesar do trabalho de investigação focar-se nos periódicos, entrevistas realizadas com Oficiais Generais no Programa de História Oral do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV); também serão utilizadas, no sentido de colaborarem com a pesquisa. Para isso, vem a ser necessário analisarmos, primeiramente, o papel da imprensa e da história oral. Mostrando não somente a sua importância enquanto fonte e objeto de pesquisa para o conhecimento historiográfico, mas também um pouco o seu próprio funcionamento. Pensar sobre o papel da imprensa é poder refletir sobre várias possibilidades, desde jornais, revistas, rádios, almanaques, dentre outros, dentro desse “universo” da comunicação. Esta comunicação se expressa hoje de forma variada, trazendo as informações de forma cada vez mais rápidas, possibilitando um melhor conhecimento, não só da informação em geral, mas para o ensino e para a pesquisa acadêmica, o que acaba de certa forma contribuindo para o avanço tecnológico e a afirmação de novidades1. 1 CRUZ, Heloísa de Faria; PEIXOTO, Maria do Rosário da Cunha. Na oficina do historiador: conversas sobre História e Imprensa. Projeto História, São Paulo, n.35, p. 253-270, dez. 2007. 11 Na área de História tem sido cada vez mais utilizada a imprensa enquanto fonte, tanto no ensino, quanto nos variados temas escolhidos pelos pesquisadores. A nossa ênfase neste trabalho será sobre os jornais. Neste ponto, podemos observar que na atualidade, nas Ciências Humanas de maneira em geral, a utilização dos jornais como fonte de pesquisa tem sido valorizada o que de fato não ocorria em tempos passados2. Dessa maneira, Tânia Regina de Luca nos mostra que na década de 1970, eram poucos os trabalhos que utilizavam os jornais como fonte de pesquisa. Segundo a autora, o problema não se encontrava em pesquisadores que escrevessem sobre a imprensa, mas na ausência dos mesmos em utilizar a Imprensa como fonte para suas pesquisas3. Para trazer à luz o acontecido, o historiador, livre de qualquer envolvimento com seu objeto de estudo e senhor de métodos de crítica textual precisa, deveria valer-se de fontes marcadas pela objetividade, neutralidade, fidedignidade, credibilidade, além de suficientemente distanciadas de seu próprio tempo. Estabeleceu-se uma hierarquia qualitativa de documentos para a qual o especialista deveria estar atento4 Sendo assim, a falta de credibilidade que era dada aos jornais enquanto fonte, teve o seu momento específico em fins do século XIX e inícios do século XX, onde imperava uma visão Positivista na História. De acordo com Maurilio Dantielly Calonga, “no século XIX a tradição positivista, restrita a descoberta da verdade, impedia a utilização dos impressos na produção historiográfica”5. De fato, o jornal não era bem visto neste sentido, pois ao trazer as informações careciam de credibilidade e imperava informações subjetivas dos acontecimentos, o que de fato o distanciava da credibilidade e da objetividade buscada pelos historiadores dessa época. Mas as mudanças ocorreriam logo após as críticas que vieram na década de 30 do século XX, através da Escola dos Annales, o que levou a uma mudança de pensamento sobre o conhecimento historiográfico, renovando metodologicamente e tematicamente a História. Entretanto, os benefícios da imprensa não foram reconhecidos de forma imediata6. 2 CRUZ, Heloísa de Faria; PEIXOTO, Maria do Rosário da Cunha. Op. Cit. 3 LUCA, Tania Regina de. “História dos, nos e por meio dos periódicos”. In: PINSKY, Carla Bassanezi, (Org.) Fontes Históricas. São Paulo. Editora Contexto, 2008. 4 LUCA, Tania Regina de. Op. Cit. p. 112. 5 CALONGA, Maurilio Dantielly. Jornal e suas representações: objeto ou fonte da História. Comunicação e Mercado/UNIGRAN – Dourados – MS, vol. 01, n 02 – edição especial, p. 79-87, nov 2012. p. 80. 6 LUCA, Tania Regina de. Op. Cit. 12 Através das propostas de análises históricas difundidas pela Écolle des Annales, os estudos históricos receberam novos ares. Ampliaram as pesquisas que passaram a tratar com novos objetos, novos enfoques e métodos, e com outros documentos capazes de responder as problemáticas surgidas na investigação. A partir de então, a noção do que se constituía como fonte histórica ampliou-se e o documento deixou de ser apenas o registro político e administrativo, identificado, pois, em um processo temporal de construção, portanto, histórico7 Sendo assim, com a renovação temática, ocorrida na França, com a Terceira Geração dos Annales, podemos perceber a importância que foi dada a outros temas para o estudo da História e também do reconhecimento da contribuição de outras áreas das Ciências Humanas, como a Sociologia, a Antropologia, a Linguística, a Psicanálise e a Semiótica, no qual o processo de interdisciplinaridade se fez presente, em que as renovações epistemológicas da Teoria da História, ocorrida durante o século XX, possibilitou um reconhecimento de novos aspectos8. Segundo Calonga, “somente a partir da chamada terceira geração dos Annales, os caminhos abriram-se efetivamente aos impressos”9. Dessa forma, o uso da imprensa enquanto fonte de pesquisa Histórica, ganhou um melhor reconhecimento nesse período e “as renovações no estudo da História política, por sua vez, não poderiam dispensar a imprensa, que cotidianamente registra cada lance dos embates na arena do poder”10. Com isso, Calonga nos apresenta que “a compreensão do passado faz-se por meio de fontes”, em que “o historiador apropria-se de documentos para construção de narrativas, por isso, tornou-se fundamental situar o contexto onde a história traçou novos caminhos,incluindo-se, dessa forma, os impressos na historiografia ”11. Simone da Silva Bezerril nos relata a importância de considerarmos essa relação do uso dos jornais enquanto um material de fonte de análise para a pesquisa no campo da História. Assim, ela ressalta que, ao fazermos a escolha, em ter o jornal como objeto de estudo da própria História não podemos deixar de estarmos atentos aos discursos que são produzidos por esses jornais, os quais são objetos de estudos que estão condicionados por diversos fatores, como o ramo do político, do econômico e do cultural. Assim, “a 7 CALONGA, Maurílio Dantielly. Op. Cit. p.80. 8 LUCA, Tânia Regina de. Op. Cit. 9 CALONGA, Maurilio Dantielly. Op. Cit. p. 80. 10 LUCA, Tania Regina de. Op. Cit. p. 128. 11 CALONGA, Maurílio Dantielly. Op. Cit. p.86. 13 imprensa necessita ser analisada à luz do seu tempo histórico, sendo fundamental para o pesquisador reconhecer as diretrizes que a norteiam”12. À vista disso, ao observarmos sobre a relação da comunicação da imprensa através dos jornais, podemos perceber que a crítica ou a defesa a determinada questão estará expressa através de determinados jornais. Ao tratar sobre a Imprensa, Ana Maria de Abreu Laurenza nos mostra que “é impossível que a imprensa possa abandonar, em algum momento, sua condição de instrumento político”. No entanto, Laurenza explica que quando um determinado periódico traz a informação de uma notícia por meio de sua matéria jornalística, e mesmo sem ter a intenção de fazer defesa ou crítica, esse veículo de comunicação acaba por servir como uma caixa de ressonância dos posicionamentos políticos ou posturas ideológicas, isso se justificaria no fato da repercussão que determinado assunto alcança. De acordo com a autora, “em determinadas conjunturas, esse processo se inicia na escolha da pauta a ser coberta”13. Sobre a temática política, Bezerril nos mostra que “os impressos se destacam e ganham dinamismo devido serem os jornais um suporte que mantém uma ligação direta com os setores representativos, ao registrar e traduzir, diariamente, os acontecimentos e as mudanças ocorridas no cenário político”14. Posto isso, podemos perceber que é bem verdade que a imprensa é um meio de comunicação que está associada à relação financeira. Os empresários, os donos dos jornais têm a intenção de vender uma ideia, passar a informação, mas a visão do lucro será sempre o objetivo maior. Mas, apesar disso, o interesse da informação pode ser muita das vezes aquele construído para agradar uma figura política, ou até mesmo uma questão de interesse social e também econômico, e nisso, pode não trazer necessariamente a realidade dos acontecimentos que confirmam determinados fatos. É importante observar que na construção do fato jornalístico, interfere não simplesmente a intenção de quem produziu, mas também os interesses que estejam associados a determinado jornal15. 12 BEZZERIL, Simone da Silva. Imprensa: objeto de pesquisa para a história política. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, julho 2011. p.2. 13 LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Lacerda x Wainer. O corvo e o bessarabiano. São Paulo. Editora SENAC São Paulo, 1998. p.99. 14 BEZERRIL, Simone da Silva. Op. Cit p.11 15 CAPELATO, Maria Helena Rolim. Imprensa e História do Brasil. São Paulo. Editora da Universidade de São Paulo. 1988. 14 Deste modo, Maria Helena Rolim Capelato nos faz refletir sobre a importância de entender que essa empresa jornalística tem um produto a ser vendido e que quando colocado no mercado é adquirido pelo povo. Ela nos chama a atenção para levar em conta a noção do público e do privado, em que o primeiro se relacionaria ao aspecto político e o segundo a questão empresarial16. Os empresários-jornalistas atuam na esfera privada, orientados pela lógica do lucro. Enfrentam os concorrentes com todas as armas de que dispõem: notícias, opiniões e atrativos diversos para atender a todos os gostos. No entanto, a Imprensa tem outra face: é veiculadora de informações, direito público, e nesse papel norteia-se pelo princípio de publicidade, colocando-se como intermediária entre os cidadãos e o governo17 Logo, Derocina Alves Campos Sosa ao tratar sobre a Imprensa e a História, aponta em relação à importância que a imprensa exerce nesse sentido, enquanto instituição pública e privada, na sua relação com a sociedade. Dessa forma, a autora nos apresenta que a imprensa atua nesses dois campos, quando acaba por mesclar o público e o privado, expressos de certa forma através dos interesses dos cidadãos e dos donos dos jornais. Isso ocorre da seguinte maneira: o jornal se apresenta como uma empresa todos os dias, estando em concorrência, tentando vender os seus jornais, mas ao mesmo tempo, a sua mercadoria que é colocada no mercado, tem um caráter particular, que é justamente a mercadoria política. Podemos observar que “as relações que se estabelecem, portanto, na esfera privada, não desaparecem na esfera pública”. Nesse sentido, Sosa afirma que: A visão da imprensa como fiel refletora daquilo que está ocorrendo na sociedade, no entanto, justifica apenas um dos componentes dessa mesma imprensa. O outro é aquele ligado ao papel que a imprensa escrita vem desempenhando ao longo da história e mais precisamente da história do Brasil, ou seja, o de espaço privilegiado de exercício da política, como exposição das ideias ou ainda da política partidária, responsável pela construção dos discursos18 É bem verdade que os jornais querem e precisam atrair o público leitor, e para isso os seus responsáveis procuram meios estratégicos que possam contribuir para tal objetivo. Mas de maneira em geral, os jornais se preocupam com a sua diagramação e de acordo com a sua condição financeira e sua força político e social, tem o seu aspecto gráfico- editorial sempre adaptado as melhores condições de informação. Isso valoriza a 16 CAPELATO, Maria Helena Rolim. Op. Cit. 17 Idem, Ibidem. p. 18. 18 SOSA, Derocina Alves Campos. Imprensa e História. Biblos, Rio Grande, 19: 109-125, 2006. p.113. 15 propaganda de determinado jornal, pois ao se inquietar com esses detalhes acaba por ter a possibilidade de aproximar os seus leitores, através do aspecto visual de seu jornal. Assim, Heloísa de Faria Cruz e Maria do Carmo do Rosário Peixoto nos fazem refletir sobre o posicionamento do historiador diante da imprensa e nos mostram que os jornais não existem para que sejam utilizados com o objetivo da pesquisa somente não foram feitos com esse fim, mas nos apresenta que isso se torna uma escolha por parte do historiador e dos cientistas sociais19. O jornal não se apresenta apenas com sua informação geral e na sua forma e contextos existem aspectos a serem descobertos. Periódicos que, segundo Cruz e Peixoto, “não nasceram prontos, mas são produtos de experimentação e da criação social e histórica”20. As autoras apresentam ainda que a imprensa tem uma linguagem própria e que dialoga com o social e que se faz necessário desvendar essas possibilidades e qualidades envolvidas nos jornais em específico. Mas essa função requer que essa fonte seja trabalhada, analisada, de forma a poder descrever as suas peculiaridades e poder compreender as relações existentes entre a imprensa e a sociedade21, no qual propõe benefícios ao historiador-pesquisador. A imprensa constitui um instrumento de manipulação de interesses e intervenção na vida social. Partindo desse pressuposto, o historiador procura estuda-lo como agente da história e captar o movimento vivo das ideias e personagens que circulam pelas páginas dos jornais. A categoria abstrata imprensa se desmistifica quando se faz emergir a figura de seus produtores como sujeitos dotados de consciência determinada na prática social22 Posto isto, Cruz e Peixoto nos apontam que se o nosso objetivo for à utilização dos jornaiscomo fonte de pesquisa, na construção de uma Dissertação ou Tese, se faz necessário entender esse jornal que vai se pesquisar. Isto é, procurar compreender qual o projeto editorial que esse periódico está se articulando, qual a configuração de seu projeto inicial, procurando saber sobre a sua historicidade e intencionalidade23. Assim, entenderemos melhor sobre esse jornal e teremos respostas necessárias para a pesquisa. Assim, nossas pesquisas iniciais e centrais são relativas a como determinada publicação se constitui com força histórica ativa naquele momento, isto é, como se constitui como 19 CRUZ, Heloísa de Faria. PEIXOTO, Maria do Rosário da Cunha. Op. Cit. 20 Idem, Ibidem. p. 259. 21 Idem, Ibidem. 22 CAPELATO, Maria Helena Rolim. Op. Cit. p. 21. 23 CRUZ, Heloísa de Faria; PEIXOTO, Maria do Rosário da Cunha. Op. Cit. 16 sujeito, como se coloca e atua em relação à correlação de forças naquela conjuntura, quem são os seus aliados ou amigos? Que grupos ou forças sociais são identificados como inimigos, adversários ou força de oposição?24 Para Maria Helena Rolim Capelato, o jornal enquanto documento não deve ser estudado de forma isolada, mas deve se relacionar com outros tipos de fontes, o que ampliará a sua compreensão. E não somente isso, mas se preocupar não somente com aquilo que esteja explícito no documento, mas observar além, fazendo um trabalho que recupere informações que não estejam manifestas25. Dessa forma, ao questionar os aspectos relacionados à notícia e a interpretação no que diz respeito à matéria jornalística, Luca expõe que a mesma é marcada de maneira que a imprensa periódica almeja que tal informação chegue até o público leitor, no embate entre a narração e o próprio acontecimento. Mas a autora livra o historiador de maiores problemas, pois reconhece que ele dispõe de ferramentas adequadas para analisar, identificar e problematizar o que está relacionado ao acontecimento narrado26. A notícia construída pelo jornal pode se apresentar de formas diversas em seu conteúdo específico e por isso é cada vez mais importante ampliar esse olhar de observação para o que está exterior a informação. Daí a importância de se identificar cuidadosamente o grupo responsável pela linha editorial, estabelecer os colaboradores mais assíduos, atentar para a escolha do título e para os textos programáticos (...) inquirir sobre suas ligações cotidianas com diferentes poderes e interesses financeiros, aí incluídos os de caráter publicitário27 Logo, podemos afirmar que se faz importante o conhecimento historiográfico através dos jornais não somente pela sua informação, que produz conhecimento aos leitores, mas no seu caráter qualitativo, o qual, enquanto fonte de pesquisa, hoje, se encontra bem mais valorizado. Como bem afirmou Capelato, “a imprensa registra, comenta e participa da História (...) compete ao historiador reconstruir os lances e peripécias dessa batalha cotidiana no qual se envolvem múltiplas personagens”.28 O que desencorajava no passado, na atualidade é meio de motivação, pois tantos são os 24 Idem, Ibidem. p. 260. 25 CAPELATO, Maria Helena Rolim. Op. Cit. 26 LUCA, Tania Regina de. Op. Cit. 27 Idem, Ibidem. p. 140. 28 CAPELATO, Maria Helena Rolim. Op. Cit. p. 13. 17 historiadores que têm se utilizado dos jornais como fonte de suas pesquisas, confirmando o interesse por esse documento. Manancial dos mais férteis para o conhecimento do passado, a imprensa possibilita ao historiador acompanhar o percurso dos homens através dos tempos. O periódico, antes considerado fonte suspeita e de pouca importância, já é reconhecido como motivo de pesquisa valiosa para o estudo de uma época29 Para reafirmar nossa argumentação podemos lembrar as afirmações de Tania Regina de Luca que mostrou a variedade de intelectuais reconhecidos e respeitados no meio acadêmico, como Gilberto Freyre, Emília Viotti da Costa, Fernando Henrique Cardoso, dentre outros, e que em suas pesquisas não se levaram pela desconfiança em relação ao uso da imprensa, e que ao abordarem questões econômicas, demográficas, sociais e política em suas pesquisas, não deixaram de usar os jornais em suas produções30, mas contribuíram e enriqueceram de fato os seus trabalhos. Entretanto, é bem verdade que não devemos nos esquecer que o jornal enquanto veículo de comunicação, um meio midiático, não carrega em si a inocência da propaganda. De fato, tudo que é construído em uma matéria jornalística, tudo aquilo que é objetivado passar como informação, é coberto por interesses diversos, que de certa forma não tem como escapar as realidades que determinado momento político e conjuntura social irão proporcionar aos criadores da reportagem. Neste segmento, Sosa afirma que “a defesa e a oposição aos governos e aos governantes também são outro componente bastante explorado pela imprensa”31. Essa afirmação ressalta o objetivo que será trabalhado nesta dissertação, em que os jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora, tendo objetivos opostos ao governo de Getúlio Vargas irão trazer as suas defesas e oposições ao governo desse presidente, construindo assim através de seus discursos jornalísticos a apresentação de um contexto político. Posto isto, Sosa afirma que “o jornalista, ao expressar suas opiniões, está canalizando os anseios da sociedade e o contexto de sua época”32, sendo que dentro do contexto do governo Vargas os jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora, se destacaram nesse sentido com muita importância. 29 Idem, Ibidem. p. 13. 30 LUCA, Tania Regina de. Op. Cit. 31 SOSA, Derocina Alves Campos. Op. Cit. 32 Idem, Ibidem. 18 Em suma, podemos perceber que essa importância entre a imprensa e a política é bem vista por Simone da Silva Bezerril, que aponta que a política é algo que está bem associada com a atuação dos meios de comunicação, sendo esses, de certa forma, uma extensão das instituições políticas33. Sobre a História Oral, Verena Alberti apresenta que essa metodologia de pesquisa surgiu em meados do século XX, sendo considerada como fonte para o estudo da História. Sendo assim, a História Oral, está pautada no processo de entrevistas, em que através de projetos de pesquisa, indivíduos dão o seu depoimento, daquilo que participaram ou testemunharam, nas conjunturas referentes ao passado ou também ao presente34. Através dessa importância e validade, podemos dizer que “a História Oral permite o registro de testemunhas e o acesso a “histórias dentro da história” e, dessa forma, amplia as possibilidades de interpretação do passado”35. Alessandro Portelli, ao tratar sobre a História Oral, nos aponta sobre a atenção que devemos ter sobre o testemunho que é dado sobre essa metodologia de pesquisa e não tomá-la como algo autêntico de forma imediata, e observa as fontes e o trabalho que é feito pelo historiador, numa questão de não se pautar pela objetividade da fonte e do pesquisador. O autor nos dá um exemplo ao mostrar a história de Frederick Douglass, negro, que no contexto abolicionista teve a possibilidade de contar a sua própria história de vida. Mas os seus patrocinadores brancos queriam que ele se limitasse a ser objetivo e que passasse apenas os fatos do que viveu e eles sim iriam filosofar, ou seja, contar a história na versão deles. Isso, segundo Portelli, seria justamente um erro, pois nesta distinção entre os fatos de Frederick Douglass e o filosofar dos patrocinadores brancos estariam um exemplo de má interpretação36. O principal paradoxo da história oral e das memórias é de fato, que as fontes são pessoas, não documentos, e que nenhuma pessoa, quer decide escrever sua própria auto-biografia (...) quer concordar em responder a uma entrevista, aceita reduzir a sua própria vida a um conjunto de fatos que possam estar à disposição da filosofia de outros, mas a motivação 33 BEZERRIL, Simone da Silva.Op. Cit. 34 ALBERTI, Verena. Fontes Orais. Histórias dentro da História. In: PINSKY, Carla Bassanezi. (Org.). Fontes Históricas. São Paulo. Ed. Contexto, 2008. 35 ALBERTI, Verena. Op. Cit. p. 155. 36 PORTELLI, Alessandro. “A filosofia e os fatos: narração, interpretação e significado nas memórias e nas fontes orais”. Revista Tempo, vol. 1, n. 12, dezembro de 1966, UFF. 19 para narrar consiste precisamente em expressar o significado da experiência através dos fatos: recordar e contar já é interpretar37 O exemplo de Frederick Douglass é fundamental, pois ele não abre mão de contar a sua própria história, mas quer falar e interpretar a si mesmo. Por mais que se tenha objetividade e subjetividade nesse embate, Frederick Douglass não quer esconder a sua própria história, passada e vivida na escravidão e deixar que os patrocinadores brancos as contem de maneira diferente38. Mediante essas questões, Alessandro Portelli nos aponta para a palavra possibilidade, pois ela desvendará os caminhos na representação textual das fontes orais e das memórias. Para ele não encontraremos algo esquematizado por experiências comuns, nem na história oral, nem nas memórias, pois as mesmas nos trazem possibilidades compartilhadas e diversas39. Alberti, por sua vez, aponta que o processo de construção da História Oral não está condicionado simplesmente a entrevistar pessoas e guardar a sua voz em um gravador, o que segundo ela, seria uma simplificação. A história oral é um método de pesquisa, está relacionada a um projeto e por ela se constrói um conhecimento. O fato de realizar um trabalho de depoimentos, através de entrevistas, não se justificará como o fim desta ação, pois se fará necessário ampliar esse conhecimento através das atividades de métodos de pesquisa do historiador40. Sendo um método de pesquisa, a história oral não é um fim em si mesma, e sim um meio de conhecimento. Seu emprego só se justifica no contexto de uma investigação científica, o que pressupõe sua articulação com um projeto de pesquisa previamente definido. Assim, antes mesmo de se pensar em história oral, é preciso haver questões, perguntas, que justifiquem o desenvolvimento de uma investigação 41 A escolha de também usar nesta Dissertação de Mestrado, entrevistas que foram feitas com oficiais generais do Exército, Marinha e Aeronáutica, no CPDOC-FGV, se justificam por poder encontrar a fala das Forças Armadas nesta pesquisa. Ou seja, militares que de alguma maneira viveram não somente no período do estudo da pesquisa, mas que viveram de alguma forma a conjuntura do Governo Democrático de Vargas. 37 PORTELLI, Alessandro. Op. Cit. p. 2. 38 Idem, Ibidem. 39 Idem, Ibidem. 40 ALBERTI, Verena. Manual de História Oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. 41 ALBERTI, Verena. Op. Cit. p. 29. 20 Podemos afirmar que a importância do trabalho de pesquisa através da História Oral ressalta a importância das entrevistas (depoimentos) dentro desse contexto de pesquisa historiográfica, mostrando que há uma complexidade metodológica que envolve esse tipo de trabalho, mas que tem possibilitado um enriquecimento de produção através do resultado de várias pesquisas. Nesse sentido, apresentaremos a partir de agora o que será tratado em cada capítulo desta dissertação. No primeiro capítulo, apresentamos um balanço historiográfico sobre o Governo de Getúlio Vargas (1951-1954). Nele indicamos as diversas leituras dos autores, que deram ênfase a diferentes aspectos desse governo, trazendo o foco para as Forças Armadas. Este breve balanço historiográfico procura mostrar aspectos importantes que ocorreram durante esse governo, sendo eles: a política econômica de governo, a política externa brasileira e a questão do petróleo. Também iremos abordar os assuntos concernentes à classe trabalhadora, a reforma ministerial de 1953 e a política partidária desse período. Além disso, investigaremos as questões relacionadas às forças armadas, no qual será este o fator de ênfase, por ser o mesmo objeto de análise nesta pesquisa. Ainda nesse capítulo, abordamos algumas características dos jornais trabalhados (Tribuna da Imprensa e o Última Hora), mostrando as suas singularidades e diversidades, no qual investigaremos sobre a sua formação e a atuação, apresentando a importância dos mesmos para o estudo da pesquisa em questão. No capítulo dois, abordamos alguns aspectos concernentes à atuação das Forças Armadas, no sentido de suas relações com o governo de Getúlio Vargas. Primeiramente, trazemos um levantamento teórico e também historiográfico sobre as Forças Armadas, mostrando o seu significado, atuação e importância. Também analisamos o posicionamento do Brasil diante dos Estados Unidos, em que ocorreu uma relação que se pautará por apoios e interesses entre ambos os países, resultando na formação de um acordo militar no ano de 1952. Um outro ponto sobre as relações das Forças Armadas com o governo de Getúlio Vargas é a possível atuação dos militares brasileiros no conflito na Guerra da Coreia, em que um debate havia se desenrolado não apenas nos círculos militares, mas em relação a outros órgãos do governo sobre a questão. Por fim, tratamos da importância e significado para as eleições do Clube Militar, para o biênio de 1952-54, e que, apesar de ser uma instituição civil de militares, apresentou características importantes enquanto a participação de militares diante do governo de Getúlio Vargas. 21 No terceiro e último capítulo, a intenção é poder investigar o quadro mais intenso das relações das Forças Armadas com o governo de Getúlio Vargas. Aborda-se o posicionamento de militares através do chamado de Manifesto dos Coronéis, levando a um primeiro momento de acirramento. Esse manifesto representará uma postura do Exército que colocará Getúlio Vargas numa posição de resposta, o qual comprometerá o seu governo, atingindo não somente o seu Ministério da Guerra, mas o Ministério do Trabalho, de forma que as reivindicações por parte desses coronéis e tenentes-coronéis iam contra uma proposta de aumento do salário mínimo. Outro ponto importante tratado diz respeito à morte do major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz, que contribuiu para um momento máximo de degeneração dos apoios das Forças Armadas ao governo, chamando para esse cenário não apenas a Aeronáutica, mas de forma gradativa o Exército e a Marinha, o que irá proporcionar um período de intensificação da crise político-militar de agosto de 1954. Por fim, e de forma progressiva, a situação de crise do governo de Getúlio Vargas, em plena relação com as Forças Armadas e o suicídio do presidente. 22 CAPÍTULO I O GOVERNO VARGAS E AS FONTES DE PESQUISA 1.1.Balanço historiográfico sobre o Governo Vargas (1951-1954) Analisaremos neste breve balanço historiográfico e em forma de síntese, sobre como alguns autores trabalharam determinados assuntos concernentes ao período do Governo Democrático de Getúlio Vargas (1951-1954). Neste sentido, iremos tratar das questões relacionadas por certos fatores que ocorreram durante essa gestão do presidente, sendo elas: a política econômica de governo, a política externa brasileira e a questão do petróleo. Também iremos abordar os assuntos concernentes a classe trabalhadora, a reforma ministerial de 1953 e a política partidária desse período. Por fim, investigaremos as questões relacionadas as forças armadas, no qual será esse o fator de ênfase, por ser o mesmo, objeto de análise nesta pesquisa. Sobre a questão econômica, Maria Celina Soares D’Araújo nos mostra que muita das propostas de Vargas para essa política em seu governo vem justamente das críticas que ele fez ao governo anterior, no qual a situação econômica do Brasil se tornou para o início do Segundo Governo Vargas à beira de um caos, o que mostrava a incompetênciado governo Dutra. Dentro dessa perspectiva de política econômica, Vargas precisaria inaugurar uma nova fase em seu governo42. Nesse sentido, D’Araújo nos aponta que o incentivo à produção industrial e à produção agrícola, assim como uma política relacionada a recursos minerais e ao capital estrangeiro, seriam quatro fatores principais na execução de uma política econômica objetivada por Vargas, em que a exploração de recursos, deveria ser feitos por capitais nacionais, mas desde que houvesse critérios seletivos, o capital estrangeiro também poderia participar na economia brasileira43. Nesse aspecto, Boris Fausto nos direciona a perceber que um dos planos econômicos propostos nesse período foi o Plano Lafer, de 1951, que foi uma estratégia de desenvolvimento, que 42 D’ ARAÚJO, Maria Celina Soares. O Segundo Governo Vargas. 1951-1954. Democracia, partidos e crise política. 2ª ed. São Paulo. Ática, 1992. 43 D’ARAÚJO, Maria Celina Soares. Op. Cit. 23 objetivou contar com apoio financeiro dos Estados Unidos, e buscava direcionar os investimentos em setores que eram prioritários44. D’Araújo nos mostra que um olhar do Brasil para a agricultura seria fundamental, pois o seu desenvolvimento contribuiria para a sua emancipação. Todo o processo de modernização no campo, estaria, segundo ela, relacionado ao fortalecimento do capital nacional. A industrialização, por exemplo, era uma questão que se refletia na defesa nacional, o que de certa maneira livraria o Brasil de uma dependência externa, nos quais, em sentido de recursos naturais, o petróleo era um exemplo45. Mas, segundo Fausto, esse destaque desenvolvimentista almejado pelo governo Vargas, acabou apresentando problemas, em que se pode destacar a inflação, que chegou a quase 21% em 1953. Em 1951 e 1952, a inflação já havia produzido forte aumento de preços de gêneros de consumo de alimentos popular46. Logo, Skidmore nos mostra que no ano de 1953, o presidente Vargas lançou um programa anti-inflacionário, pois desde o início da década de 1950, a inflação tinha atingido níveis consideráveis. A partir de 1953, através do novo ministro da Fazenda, Osvaldo Aranha e do novo presidente do Banco do Brasil, Souza Dantas, foi lançado um programa de combate à inflação, chamado de Plano Aranha, que trouxe um severo controle de créditos e um novo controle sobre as transações cambiais, e a partir daí o Brasil teve que conter até mesmo o processo de industrialização. Entretanto, a inflação persistiu47. Sendo assim, Bourne nos apresenta que desde o início de seu governo, Vargas buscou reduzir a taxa de inflação e estimular investimentos em quatros setores, nos quais: a indústria de base, em energia, em portos e ferrovias48. Nesse sentido, Skidmore nos aponta que Vargas optou por uma política econômica mista, preocupando-se com a balança de pagamentos no lado externo e enfrentando a inflação no lado interno49. Dessa forma, Fausto nos mostra que Vargas buscou um desenvolvimento nacionalista, onde a criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), criado em 1952, tinha esse objetivo de desenvolvimento industrial e de 44 FAUSTO, Boris. Getúlio Vargas: o poder e o sorriso. São Paulo. Companhia das Letras, 2006. 45 D’ARAÚJO, Maria Celina Soares. Op. Cit. 46 FAUSTO, Boris. Op. Cit. 47 SKIDMORE, Thomas E. Brasil de Getúlio a Castello – 1930-1964. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 48 BOURNE, Richard. Getúlio Vargas: a esfinge dos pampas. São Paulo. Geração Editorial, 2012. 49 SKIDMORE, Thomas E. Op. Cit. 24 infraestrutura para o Brasil50. Para Skidmore, a Comissão Mista para o Desenvolvimento Econômico entre o Brasil e os Estados Unidos e a formação do BNDE, foram reflexos da presença norte-americana nas questões econômicas brasileiras51. Entretanto, D’Araújo nos afirma que apesar do fortalecimento da economia nacional ter sido algo que Vargas sempre procurou defender, ainda assim, teve que ceder aos interesses norte-americanos, o que se pode mostrar que no plano econômico, o Brasil também foi marcado por contradições52. De 1953 a 1954 houve uma queda considerada de investimentos externos e a inflação e a taxa de crescimento econômico acabaram por estimular uma insegurança nacional53. Sobre as relações de política externa, através das ações entre o Brasil e os Estados Unidos, Mônica Hirst nos mostra que Vargas procurou um novo padrão no relacionamento do Brasil com os Estados Unidos, isso desde o momento da sua vitória em 1950, o que de certa forma já estava nítido em seus discursos durante a campanha eleitoral54. Durante o ano de 1951, os Estados Unidos eram destaque na América e o Brasil passou a ser mais atraído para as influências norte-americanas, o que acabaria favorecendo essa relação de política externa entre os dois países55. Essas relações bilaterais tiveram destaque nos preparativos para a IV Reunião de Consulta que ocorreu em Washington em 1951, onde os Estados Unidos também tinham expectativas com a cooperação brasileira, pois desde o período pós Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos construíram uma visão de dependência estruturada por parte da América Latina, sendo nesse caso específico o Brasil, em que os norte-americanos priorizavam por um “livre fluxo dos seus interesses privados” em sua política externa. O Brasil, por sua vez, vislumbrava variados interesses, dentre os quais: “a suspensão das restrições norte- americanas ao preço do café”. Dentro dessa relação de política externa, a busca pela formação de uma Comissão Mista do Brasil com os Estados Unidos, serviria de certa forma como um meio de o Brasil criar um comprometimento dos norte-americanos para o apoio das questões de industrialização no Brasil56. 50 FAUSTO, Boris. Op. Cit. 51 SKIDMORE, Thomas E. Op. Cit. 52 D’ ARAÚJO, Maria Celina Soares. Op. Cit. 53 BOURNE, Richard. Op. Cit. 54 HIRST, Mônica. O pragmatismo impossível. A política externa do Segundo Governo Vargas (1951- 1954). Rio de Janeiro. FGV-CPDOC, 1990. 55 BOURNE, Richard. Op. Cit. 56 HIRST. Mônica. Op. Cit. 25 Podemos observar que dois pontos importantes devem ser considerados nessa análise de política externa. As questões relacionadas à Guerra da Coreia e o Acordo Militar Brasil - Estados Unidos. Dessa forma, Bourne nos mostra que quando foi sugerido em Washington que o Brasil participasse da Guerra da Coreia, o presidente Vargas se posicionou, rejeitando a proposta. Entretanto, em 1952 seria assinado um acordo de ajuda militar entre o Brasil e os Estados Unidos, com o objetivo de defesa mútua no continente americano57. Nesse aspecto, Fausto nos apresenta que desde a Reunião de Chanceleres havia a proposta de que o Brasil enviasse tropas para lutar nessa Guerra, no entanto, Vargas levou o assunto com cautela e só daria à resposta contrária a ida dos militares, em dezembro. Mas é desse processo que Fausto aponta o lado contraditório da postura de Vargas, pois nos apresenta que apesar de Vargas ter sido contrário ao envio de tropas para a Guerra, ele conseguiu compensar a relação de outra maneira, ao facilitar a exportação de nossos minerais para os Estados Unidos, através de monazita, que era um mineral de suma importância para a energia nuclear e armas atômicas, algo que agradava aos EUA e estava justamente relacionado ao acordo militar58. Segundo Bourne, essa questão do acordo militar estaria de certa maneira condicionada as questões de ajuda econômica que Vargas esperava que pudesse vir por parte dos norte-americanos, assim como ocorreu no período da Segunda Guerra Mundial. Todavia, essa relação não se manteria tão amistosa, pois com a vitória de Eisenhower assumindo a presidência dos Estados Unidos em 1953, a ajuda econômica por parte dos norte-americanos não viria, o que acabou trazendo um clima não agradável nas relações de política externa entre os dois países, criando um sentimento de antiamericanismopor parte do Brasil59. Em relação ao Petróleo, podemos perceber que representou um nacionalismo na política econômica de Vargas. Mônica Hirst nos mostra que “a partir dos anos 50, o petróleo no Brasil passou a ocupar um espaço crucial no debate nacional em torno das necessidades básicas do desenvolvimento econômico no país”60. Contudo, o seu processo de consolidação, trouxe um grande desgaste entre os militares. Nesse sentido, Celso Castro declara que a ala “nacionalista” defendia a campanha pela criação da Petrobrás e o monopólio estatal do petróleo. Por outro lado, os militares da Cruzada Democrática 57 BOURNE, Richard. Op. Cit. 58 FAUSTO, Boris. Op. Cit. 59 BOURNE, Richard. Op. Cit. 60 HIRST, Mônica. Op. Cit. p.43. 26 defendiam a participação de grupos privados na exploração do petróleo61, o qual seria representado pelos Estados Unidos. Este embate refletiu com relevância no Clube Militar, no qual dentre os vários militares que defendiam os seus posicionamentos ideológicos, tínhamos os generais Estillac Leal e Horta Barbosa na ala nacionalista, enquanto os generais Alcides Etchegoyen e Nélson de Mello faziam parte da Cruzada Democrática. Boris Fausto nos aponta que em dezembro de 1951 o presidente Vargas enviou ao Congresso o projeto de criação da Petrobrás62, no qual Mônica Hirst declara que criou-se “um longo período de debates dentro e fora do Parlamento, que mobilizou os mais variados setores da sociedade brasileira”63. Antonio Faria e Edgard de Barros indicam que “no plano parlamentar, o projeto gerava acirrados debates, polarizados entre a bancada do PTB e seus aliados nacionalistas, e os políticos da UDN”64, apoiados pelos adeptos da Cruzada Democrática. Porém, Lúcia Hippolito nos mostra que durante o governo Vargas, a UDN foi o partido de oposição, mas surpreendeu no caso da Petrobrás, passando a defender o monopólio estatal do Petróleo65. Por certo a UDN tinha interesses nessa atitude, no qual Luis Carlos dos Passos Martins nos aponta que “a UDN, com o objetivo de se aproveitar dos “vacilos nacionalistas” de Vargas, fez uma mudança radical em sua orientação para o setor do Petróleo”66. Assim, Fausto relata que após passar por quase dois anos de intensa disputas políticas, a Petrobrás foi sancionada em outubro de 195367. A respeito das questões relativas à classe trabalhadora, podemos perceber que desde o seu período de campanha eleitoral, Vargas já havia prometido uma melhoria de vida para os trabalhadores. Logo no início de seu governo, eles passaram a viver um quadro complicado, onde os problemas inflacionários seriam o grande motivo de resposta dos trabalhadores ao governo. Nesse aspecto, Fausto relata que nem mesmo as medidas proporcionadas por Vargas, como por exemplo o aumento que ele deu ao salário mínimo em dezembro de 1951 - o que representou um nível considerável para os estados do Rio 61 http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/A Era vargas 2/ artigos/Ele Voltou/militares 62 FAUSTO, Boris. Op. Cit. p.171 63 HIRST, Mônica. Op. Cit. p.44. 64 FARIA, Antonio A. da Costa. BARROS, Edgard Luiz de. Getúlio Vargas e sua época. São Paulo. Global Ed, 2001. p.79. 65 HIPPOLITO, Lúcia. Vargas e a gênese do sistema partidário brasileiro. Porto Alegre, v.11, n19/20, p.21- 47, jan-dez – 2014. 66 MARTINS, Luis Carlos dos Passos. Petróleo e “Nacionalismo” no Segundo Governo Vargas: o debate em torno da criação da Petrobrás. Historiae, Rio Grande, 6 (2): 401-425, 2015. p.414. 67 FAUSTO. Boris. Op. Cit. http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/A%20Era%20vargas%202/ 27 de Janeiro e de São Paulo - não foi possível para desfazer o quadro de aflição que a inflação tinha proporcionado para a classe trabalhadora68. Fausto nos apresenta que esse descontentamento ficou evidente a partir do momento que a classe trabalhadora passou a questionar e protestar através do direito que lhe era cabível e que refletia grande notoriedade através dessa ação. Esses meios de ação por parte da classe trabalhadora foi justamente às atitudes de greves. Estas que iriam representar um desgaste considerável para o governo de Vargas, nas suas relações com a classe trabalhadora. Em janeiro de 1953 ocorreram greves por diversas partes do Rio de Janeiro69, no qual “os operários têxteis exigiram um aumento salarial de 60%. Com a mediação do governo, conseguiram 42% de aumento”70. Em março, em São Paulo, 300 mil operários se mobilizaram, numa ação que representou vários setores trabalhistas, onde se destacou o ramo da indústria têxtil71 “e que chegou a paralisar 276 empresas industriais”72. Essa paralisação teve destaque não somente pelo grande número de manifestantes, mas por ter dado origem a um Comando Intersindical, o qual nasceu à margem da estrutura sindical corporativista: o Pacto de Unidade Intersindical (PUI)73. Outra greve de grande destaque ocorrida em 1953 foi a que ocorreu em junho. Esta reuniu 100 mil trabalhadores e ficou conhecida como a greve dos marítimos74. Que foi marcada pela chegada de Jango ao ministério do Trabalho e também inaugurou uma estratégia de negociações entre governo e os sindicatos75. Juliana Martins Alves explica que a Lei de Defesa e Segurança Nacional criada em 1935 e reformulada em janeiro de 1953, foi utilizada contra essa greve dos “300 mil”, servindo como uma concepção de greve como um “antidireito”, o que também seria usado por Goulart, enquanto foi ministro do Trabalho de Vargas. Nessa questão, membros da política governamental observaram que Goulart teria agido com uma “política de tolerância”, nas quais as greves teriam sido “incompatíveis” com as funções da Justiça do 68 Idem. Ibidem. 69 Idem. Ibidem. 70 BRANDI, Paulo. Vargas da vida para a História. Rio de Janeiro. Zahar editores. 1985. p. 266. 71 FAUSTO, Boris. Op. Cit. 72 Cf. Mônica KORNIS. Marco Aurélio SANTANA. Greve. In: ABREU, Alzira Alves de. et al (coords). Dicionário Histórico – Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. 73http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/NoGovernoGV/Trabalhadores_movimento_sindic al_e_greves 74 FAUSTO, Boris. Op. Cit. 75http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/NoGovernoGV/Trabalhadores_movimento_sindic al_e_greves http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/No http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/No 28 Trabalho76. No entanto, Mônica Kornis e Marco Aurélio Santana apresentam que enquanto corria a proposta de aumento de salário em 100% por parte de João Goulart, as greves e protestos estavam correndo por todo o país, no qual setores militares antigetulistas, reagiram ante a proposta de Goulart. Apesar disso, mesmo Vargas tendo afastado Goulart em fevereiro de 1954, por causa da ação feita por oficiais do Exército, Getúlio Vargas concederia em maio aumento de 100% ao salário mínimo77. Acerca da reforma ministerial articulada por Vargas em 1953, podemos considerar que ocorreu em um momento difícil, no qual a situação política e econômica do seu governo estava ficando complicada, fruto das insatisfações da população ante o custo de vida e o acirramento entre os militares e a oposição política, o que o fez se posicionar ante essas questões. Nesse sentido, Vargas articulou essa reforma, no sentido de recuperar a confiança para o seu governo. Antonio Faria e Edgard de Barros relatam que essa reforma ocorreu “em parte forçado pelas demissões de alguns arrivistas, em parte forçado pela necessidade de estabelecer algumas modificações que permitissem a continuidade de seu programa”78 de governo. O reparo proposto por Vargas trouxe modificações em praticamente todas as pastas do governo, no qual Boris Fausto aponta que “Getúlio tratou de harmonizar as linhas do Ministério da Fazenda e do Banco do Brasil”, através de Osvaldo Aranha e Sousa Dantas79. Outra figura de destaque, dentre as várias modificações nessa reforma, foi João Goulart no ministério doTrabalho. Conforme Skidmore, a reforma ministerial, seria uma reação a própria posição política de Vargas, que estava se deteriorando. As atitudes de conciliação que ele havia feito com a UDN havia fracassado “e o ministério, ciente do plano de Getúlio de alterar o caráter político geral de seu governo, estava desmoralizado e sem nenhum sentido de coesão”80. Entretanto, para Maria Celina Soares D’Araújo a reforma ministerial feita por Vargas não seria um marco divisório do seu governo, onde prevaleceriam duas etapas. Verdade é que Vargas precisava de uma atitude política, que segundo ela, reformularia compromissos. Contudo, esta atitude do presidente não qualifica uma redefinição governamental por uma nova orientação. Na verdade, “a reforma significa principalmente 76 ALVES, Juliana Martins. Trabalho e trabalhadores no Segundo Governo Vargas: as greves como um “antidireito” (1951-1954). rev. Hist. (São Paulo), n. 172, p. 367-396, jan-jun, 2015. 77 Cf. Mônica KORNIS. Marco Aurélio SANTANA. Greve. In: ABREU, Alzira Alves de. et al (coords). Dicionário Histórico – Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. 78 FARIA, Antonio A. da Costa. BARROS, Edgard Luiz de. Op. Cit. p.80. 79 FAUSTO, Boris. Op. Cit. p.174. 80 SKIDMORE, Thomas E. Op. Cit. p.147. 29 uma nova investida junto aos setores conservadores na busca de um consenso máximo, até aquele momento inviável”81. De certa forma, podemos perceber que a Reforma Ministerial representou a urgência de combater problemas que estavam evidentes no governo. Sobre as questões relacionadas ao sistema político partidário, podemos perceber com D’Araújo, que embora no período de sua campanha eleitoral, Vargas tivesse o apoio do PTB e do PSD, ainda assim a sua candidatura se organizou de forma extra partidária. Onde Vargas atuava acima dos partidos políticos e isso não somente no início, mas durante a gestão do seu governo.82 Nesse aspecto, Lúcia Hippolito nos mostra que foi através da figura política do presidente Vargas, por meio de seu governo (1951-1954), que ocorreu a consolidação do sistema partidário. Este sistema começou em 1945 e teve a sua interrupção em 1964, com a Ditadura Militar. Os dois principais partidos políticos da época foram criados por Vargas, ainda em 1945. O primeiro a ser fundado foi o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), em maio de 1945. O segundo, foi o Partido Social Democrático (PSD), criado em julho do mesmo ano. Entretanto, antes mesmo da criação desses dois partidos, já havia sido criado a União Democrática Nacional (UDN), em abril de 1945. Além desses três principais partidos políticos, houve ainda outros partidos83. Hippolito mostra que na formação de seu ministério, Vargas baseou-se em critérios pessoais e não partidários, no qual participaram de seu governo ministros de diversos partidos, como do PSD, do PTB, do PSP e até mesmo da UDN84. D’Araújo aponta que o sucesso alcançado por Vargas nas eleições não foi o mesmo dos partidos que o aprovou. O PTB, que era o partido de Vargas, alcançou pouca expressividade durante o seu governo. Em questão ministerial, só assumiu uma pasta, a do Ministério do Trabalho. Entretanto, delegou ao PSD a maioria dos ministérios, recebendo ainda o PSP e até mesmo a UDN, partido de oposição, uma pasta no ministério. Isso representava de certa maneira a postura de articulação política exercida pelo presidente Vargas. D’Araújo relata que em 1950 Vargas se apresentou com uma política de conciliação, incluindo todos os partidos em sua política de governo85. 81 D’ARAÚJO, Maria Celina Soares. Op. Cit. p.127. 82 Idem, Ibidem. 83 HIPPOLITO, Lúcia. Op. Cit. 84 Idem, Ibidem. 85 D’ ARAÚJO, Maria Celina Soares. Op. Cit. 30 Hippolito afirma que durante o governo de Vargas, o PSD, não o atacou, mas também não o defendeu, com exceção a tentativa de impeachment que Vargas sofreu após a UDN ter levado esse pedido ao Congresso. Mas a partir do crime da Toneleros, o PSD retomou a sua omissão na defesa do governo no Congresso. Durante todo o período de crise aguda do governo, o PSD e o PTB se omitiram e deixaram a UDN livre para atacar Vargas no Congresso. Podemos dizer que o PSD consentiu para o afastamento de Vargas, mas o presidente deu solução a crise com o seu suicídio. Com a morte de Vargas, acabou- se beneficiando a política partidária brasileira, no sentido em que passou a haver a independência do sistema partidário, após a superação de sua principal figura política86. Após essa primeira parte dessa breve análise sobre o governo de Getúlio Vargas, podemos perceber como se desenvolveu os aspectos de seu governo, em fatores que foram mais considerados e apontados pelos autores durante esse período. Nesse momento, a atenção será dada as questões das forças armadas, entendendo como ponto central na discussão dessa pesquisa, para isso, daremos uma melhor atenção a esse tema. Ao tratar sobre os aspectos concernentes as forças armadas durante o período do governo de Getúlio Vargas (1951-1954), Maria Celina Soares D’Araújo nos mostra o posicionamento dos militares no período da sucessão presidencial de 1950, no qual ela aponta que as Forças Armadas não representaram obstáculos para a candidatura de Vargas, ou seja, o que dominou entre os militares foi à postura de se mostrarem isentos a terem a possibilidade de Vargas retornar ao poder em 1951, mesmo entendendo que as Forças Armadas não eram coesas em termos políticos e partidários. Mesmo assim, estavam prontos a acatar o que fosse decidido para a candidatura de Vargas na esfera político-partidária87. De certa forma, José Murilo de Carvalho apresenta que tinha ocorrido transformações no seio das Forças Armadas, nos quais Getúlio Vargas não percebeu que ele não conseguiria mais fazer ambições com os generais, jogando uns contra os outros. Para Carvalho, os amigos de Vargas, que antes eram seus tenentes, agora, se tornaram os seus inimigos generais88. Com isso, ao tratarmos sobre as questões relacionadas ao Clube Militar, podemos perceber que Nélson Werneck Sodré traz o enfoque para as questões concernentes a essa 86 HIPPOLITO, Lúcia. Op. Cit. 87 D’ARAÚJO, Maria Celina Soares. Op. Cit. 88 CARVALHO, José Murilo de. O pecado original da República: debates, personagens e eventos para compreender o Brasil. Rio de Janeiro. Bazar do Tempo, 2017. 31 instituição, mostrando a importância desse clube nos períodos de gestão de 1950 e 1952, como um local importante dos debates entre os militares ante o governo. Sodré apresenta que o Clube Militar teria ganhado um destaque desde o início do governo Vargas, mediante o papel político que assumiu, mediante as questões que estavam relacionadas ao petróleo e ao nacionalismo, que eram situações que iam em “confronto” aos interesses do imperialismo norte-americano, e ao posicionamento de militares durante esse período89. Boris Fausto nos mostra que nas eleições do Clube Militar em 1950 já se apresentava os confrontos internos que existia entre os oficiais e o crescimento de posicionamentos daqueles militares que eram contrários à Vargas90. Da mesma forma, Sodré aponta que de fato havia grupos entre os militares que eram favoráveis aos interesses estrangeiros, por isso, Vargas deveria estar junto dos militares nacionalistas. Um exemplo disso foi o general Estillac Leal, empossado por Vargas para assumir o ministério da Guerra e enquanto presidente do Clube Militar e líder nacionalista trazia de certa forma a atenção do imperialismo norte-americano91. Skidmore destaca que o general Estillac Leal, enquanto presidente do Clube Militar sofreu oposição por alguns oficiais que rejeitavam a sua posição de nacionalismo moderado. Em 1951 e 1952, foram anos marcados por acusações entre os oficiais nacionalistas e os anticomunistas, nos quais as lutas envolvendo essas duas alas militares provocaram ações políticas, emque Estillac sairia do cargo de ministro da Guerra, que Vargas nomeou o general Ciro do Espírito Santo Cardoso em seu lugar92. Richard Bourne nos apresenta que em 1952, uma ala formada pelos generais Etchegoyen e Nélson de Mello - que estavam sendo representados pela Cruzada Democrática - venceram e mostraram a rejeição por parte da maioria dos oficiais do Exército à política econômica nacionalista do governo Vargas93, em que Boris Fausto nos faz perceber que essas eleições foram marcadas por uma campanha repleta de torturas e prisões94. Para Bourne, em 1954, com as novas eleições no Clube Militar, ficaram ainda mais nítida a oposição de militares ao governo Vargas95, o que para Sodré, a escolha dos 89 SODRÉ, Nélson Werneck. História Militar do Brasil. Rio de Janeiro, 2ª ed. Civilização Brasileira, 1968. 90 FAUSTO, Boris. Op. Cit. 91 SODRÉ, Nélson Werneck. Op. Cit. 92 SKIDMORE, Thomas E. Op. Cit. 93 BOURNE, Richard. Op .Cit. 94 FAUSTO, Boris. Op. Cit. 95 BOURNE, Richard. Op. Cit. 32 generais Canrobert Pereira da Costa e de Juarez Távora, foi uma conveniência armada para o golpe contra Vargas96. Dentro desses aspectos relacionados com as forças armadas, o acordo militar acordado entre o Brasil e os Estados Unidos em 1952 é outro ponto interessante a ser ressaltado, o qual aconteceu em paralelo com a Guerra da Coreia, em que os Estados Unidos solicitavam que o Brasil enviasse tropas para esse conflito. Nesse sentido, Nélson Werneck Sodré mostra que esse conflito era uma realidade da Guerra Fria, em que trouxe dificuldades para o governo de Vargas, no qual entre os setores militares se discutiam a ida ou não das tropas brasileiras para esse conflito97. Nesse sentido, Antonio Faria e Edgard de Barros nos apontam que “a questão coreana acirrou ainda mais a séria divisão nas Forças Armadas, entre a corrente nacionalista e os grupos entreguistas: a grande parcela da alta oficialidade”98. Segundo eles, pelo fato de os Estados Unidos não apresentarem algo que compensasse o Brasil nessa relação, o presidente Vargas resolveu descartar essa possibilidade99. Sobre o acordo militar, Nélson Werneck Sodré nos mostra que o pedido de demissão do general Estillac Leal na função de Ministro da Guerra, teve nesse acordo o seu motivo principal, pois o mesmo não teria participado dessas negociações100, o que D’Araújo chamou de participação secundária de Estillac, no qual ficou a margem dessa situação. Os procedimentos ficaram de certa forma a cargo do Ministro das Relações Exteriores, João Neves da Fontoura, o que acabou provocando esse desentendimento. Para D’Araújo, a aproximação que Vargas tinha junto aos setores militares, teria sido abalada pela execução desse acordo militar, tornando-se tensa e instável as suas relações, onde criou-se uma espécie de descontentamento por parte dos militares ao governo. O acordo militar foi apenas uma das questões no qual se vê o enfraquecimento gradativo das relações entre os militares e o governo101. Assim, como esses aspectos tratados anteriormente foram importantes nessas relações militares, devemos também considerar o Manifesto dos Coronéis, o que para Nélson Werneck Sodré representou uma grande demonstração de indisciplina por parte 96 SODRÉ, Nélson Werneck. Op. Cit. 97 Idem. Ibidem. 98 FARIA, Antonio A. da Costa. BARROS, Edgard Luiz de. Op. Cit. p.76 99 Idem. Ibidem. 100 SODRÉ, Nélson Werneck. Op. Cit. 101 D’ ARAÚJO, Maria Celina Soares. Op. Cit. 33 do Exército, em que o veto ao aumento do salário mínimo e a acusação de corrupção no governo foram dois pontos importantes desse manifesto102. Já para Maria Celina Soares D’Araújo, o Manifesto dos Coronéis veio sinalizar que a corporação militar mostrou ao governo as suas preocupações pelas questões internas, no qual o governo teria desconsiderado essas questões, nas suas relações com os militares. Essa denúncia por parte desses coronéis representava perda de valores para a corporação do Exército, que precisavam ser mais valorizados nas questões salariais e de carreira, o que iam de encontro às propostas de João Goulart, em relação ao aumento do salário mínimo. Para D’Araújo, a declaração que foi representada pela jovem oficialidade do Exército, nos apresentou a situação interna das forças armadas, que no momento em que criticava o governo, passou também a reconhecer as suas próprias fraquezas e buscaram por se tornar fortemente organizados103. Segundo José Murilo de Carvalho, esse documento foi um meio para poder incentivar os generais a terem uma ação contra o presidente Getúlio Vargas104. No entanto, Boris Fausto observa que o “Manifesto dos Coronéis”, poderia representar algo fatal para o Brasil, diante do “comunismo que estava por perto”, pois essa crise militar teria criado divisões entre a oficialidade105. Dessa forma, Skidmore, reforça ainda mais essa questão e nos mostra que o memorando assinado por coronéis e tenentes-coronéis caiu como uma bomba na política de Vargas e lhe mostrou que não era mais possível desprezar as opiniões dos oficiais. O documento mostrou o descaso que o governo tinha dado ao Exército, onde até mesmo muitos oficiais haviam deixado o Exército para trabalhar em locais civis. De acordo com Skidmore, os coronéis do Exército esperavam que o presidente Vargas pudesse contemplar a instituição com mais dinheiro, no qual melhoraria as condições de equipamentos e de salários no Exército106. Assim sendo, as consequências políticas e militares desse governo iriam se intensificar e nesse sentido. Nélson Werneck Sodré mostra que com a morte de um oficial da Aeronáutica, no atentado da Rua Toneleros, em 5 de agosto de 1954, criou-se no país o que ele classificou como um segundo poder, que foi expresso por oficiais da Aeronáutica, através da formação de um local que foi classificado como “República do 102 SODRÉ, Nélson Werneck. Op. Cit. 103 D’ARAÚJO, Maria Celina Soares. Op. Cit. 104 CARVALHO, José Murilo de. Op. Cit. 105 FAUSTO, Boris. Op. Cit. 106 SKIDMORE, Thomas E. Op. Cit. 34 Galeão”. Para Sodré, a autoridade do presidente Getúlio Vargas e de seus ministros militares, foram reduzidos a nada, pois tamanha era a ação dos oficiais dessa Arma107. De acordo com José Murilo de Carvalho, o assassinato do oficial da Aeronáutica, teria sido a gota d’água, o que acabou levando a um quadro de irritação na Aeronáutica e que se alastrou para o Exército e a Marinha108. Boris Fausto, por sua vez, nos direciona a entender que com a morte desse major da Aeronáutica, foi instaurado um inquérito policial militar (IPM), na base aérea do Galeão, o que Fausto condicionou como um local de poder paralelo representado pelos oficiais da Aeronáutica109. Thomas Skidmore nos mostra que com a morte do major Rubens Vaz, houve-se um grande impacto político, no qual para defender a sua honra, a Aeronáutica através do seu corpo de oficiais passou a travar uma “briga” política com o presidente Vargas110. Nesse aspecto, Sodré nos apresenta que numa sequência de dias, Exército, Marinha e a Aeronáutica estavam em alerta e em reuniões, onde a Aeronáutica exigia a renúncia do presidente Vargas111. Para Carvalho, nessas reuniões, primeiro se pedia que o crime fosse apurado, mas logo depois quiseram a renúncia de Getúlio Vargas, o que ficou evidente no ultimato de generais, brigadeiros e almirantes112. Para Sodré, o manifesto de generais seria uma atitude subversiva diante da lei, mas colocava Vargas numa situação sem saída113. Já segundo Fausto, a partir daí surgiu uma pressão para a renúncia do presidente Vargas o que acabou ganhando mais adeptos da cúpula militar, no qual o clima que se formou nos jardins do Catete, representou a desagregação do poder e a sensação de golpe que se formava114. Neste contexto, Skidmore nos mostra que independentemente das investigações da Justiça, a Aeronáutica começou a desenvolver uma averiguaçãopor conta própria, no qual pedidos de renúncia contra o presidente Vargas foram liderados por importantes oficiais, como Eduardo Gomes e Juarez Távora. Oficiais ante-getulistas, em que faziam campanha de intervenção militar contra Getúlio, pelo qual nas três armas foi debatida essa crise política. Sem saída, Vargas contou então com o apoio de oficiais legalistas dentro 107 SODRÉ, Nélson Werneck. Op. Cit. 108 CARVALHO, José Murilo de. Op. Cit. 109 FAUSTO, Boris. Op. Cit. 110 SKIDMORE, Thomas E. Op. Cit. 111 SODRÉ, Nélson Werneck. Op. Cit. 112 CARVALHO, José Murilo de. Op. Cit. 113 SODRÉ, Nélson Werneck. Op. Cit. 114 FAUSTO, Boris. Op. Cit. 35 do Exército, como exemplo, o general Zenóbio da Costa, mas, os pedidos de renúncia na Aeronáutica e o manifesto de generais foram definitivos. Pela segunda vez, o presidente Getúlio Vargas recebia um ultimato do Exército115. Para Carvalho, essa foi a segunda vitória da facção militar que o derrubara em 1945, mas essa, não seria a vitória final116. Para finalizar essa análise, podemos observar que Celso Castro mostrou que durante todo o período de governo do presidente Getúlio Vargas, a área das Forças Armadas foi marcada por disputas políticas, que de fato estavam pautadas em divergências ideológicas entre os militares. Desta maneira, Celso Castro aponta que haviam duas alas de militares que divergiam, no qual um grupo era considerado de “nacionalistas”, e outros eram denominados de “democráticos”. Foram essas as duas tendências que predominaram durante esse período. Segundo Celso Castro, um fator importante a se observar é poder perceber que nas alternâncias que o presidente Getúlio Vargas articulou entre uma tendência e outra, o mesmo acabou por perder o seu apoio na área militar117. Após essa breve análise feita nesse balanço historiográfico, no qual a intenção foi de poder mostrar em síntese sobre as Forças Armadas no período do Governo Democrático de Getúlio Vargas, podemos perceber através desses autores aqui trabalhados, como se deram os processos relacionados a esses militares nesse governo e como esses autores buscaram tratar desses assuntos. Podemos então observar, que apesar de alguns desses autores terem pontuado mais por um determinado assunto, fato é, que em sua maioria buscaram o diálogo nessas questões. Nesse aspecto, após ter mostrado como foi apresentado às relações das forças armadas com o governo de Vargas, mostrarei o que pretendo trabalhar dentro da minha pesquisa. Neste sentido, trago como objeto de análise as relações das forças armadas com o governo de Getúlio Vargas. Nessa questão de pesquisa, encontrei aspectos para serem tratados, nos quais se pode dividir em dois momentos. O primeiro que se pauta no contexto que vai do início ao final do governo Vargas (1951-1954), pelo qual se pautará por questões que irão contemplar o papel dos militares diante de um Acordo Militar do Brasil com os Estados Unidos, assim como a uma possível ida das Forças Armadas para 115 SKIDMORE, Thomas E. Op. Cit. 116 CARVALHO, José Murilo de. Op. Cit. 117 https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/A Era vargas 2/ artigos / Ele Voltou /militares https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/A%20Era%20vargas%202/%20artigos%20/%20Ele%20Voltou%20/ 36 a Guerra da Coreia e a importância do Clube Militar. No segundo momento, o objetivo é poder trazer o ambiente militar no ano de 1954, nos quais o Manifesto dos Coronéis e a morte do major da Aeronáutica irão se correlacionar a postura final das Forças Armadas em relação ao governo do presidente Getúlio Vargas. Entretanto, apesar desses temas já terem sido tratados na historiografia, pretendo aqui, trazer o direcionamento para uma melhor preocupação de análise das fontes, buscando através delas uma construção um tanto diferenciada, procurando nesse sentido, valorizar posições, assuntos e personagens que não foram tão explorados durante esses estudos. Mas nesse sentido se faz importante realizar uma pergunta: mas o que trazer de novo? Dentro desse aspecto, o meu objetivo é justamente o de focar nos meus documentos de análise, que são os jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora, que enquanto fonte, serão também objetos de minha pesquisa. Em relação a isso, pretendo mostrar como essas relações das Forças Armadas com o governo de Getúlio Vargas foram representadas por esses jornais, mostrando como os jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora, enquanto meio de imprensa, se posicionaram durante esses acontecimentos. Neste ângulo, faz-se importante ressaltar que pensar nesses periódicos é poder pensar nas diferenças de opiniões, pois o jornal Tribuna da Imprensa era o de oposição ao governo de Getúlio Vargas, enquanto o jornal Última Hora, era o de apoio ao governo. Por isso, deve-se focar nos objetivos diferentes de suas mensagens. Nesse sentido, é importante nessa pesquisa poder mostrar justamente essas relações: as diferenças de opiniões e como de fato eles usaram de seu meio de comunicação para poder transmitir esses pontos que considerei por trabalhar nessas relações entre as forças armadas e o governo de Getúlio Vargas ou seja, como os jornais interpretaram essas questões. Pensando assim, quais foram os termos usados por esses jornais? Qual a interpretação que eles usaram nas escolhas das palavras, para poder transmitir essas informações e também na valorização dos termos específicos dos jornais? Em que se diferenciam? Esse deve ser um meio de observação e de valorização das reportagens durante os acontecimentos e a atenção que se deve ter a forma de se fazerem comunicar através das notícias, pensando justamente em compreender o assunto em questão: as Forças Armadas. Enfim, o objetivo é justamente o de poder mostrar na dissertação, as diferenças de ambos os periódicos - Tribuna da Imprensa e Última Hora - realçando de fato esse período da pesquisa, mostrando as relações das forças armadas com o governo de Getúlio Vargas, através da ótica desses jornais. Torna-se importante ressaltar que entrevistas 37 realizadas com oficiais generais no CPDOC-FGV, também serão utilizadas, no sentido de poder colaborar nesta análise de pesquisa, trazendo a fala desses militares para poder ressaltar a importância deste trabalho de pesquisa. 1.2. Tribuna da Imprensa e Última Hora: que jornais eram esses? Passaremos agora para análise dos jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora, ambos periódicos do Estado do Rio de Janeiro. Estes dois serão utilizados como fontes e objetos de pesquisa nesta Dissertação de Mestrado. De início, se faz importante uma construção de análise sobre ambos os jornais, observando as suas características, singularidades e pluralidades; mostrando que periódicos eram esses e a sua importância dentro do contexto do Governo de Getúlio Dornelles Vargas (1951-1954). Dentro desta análise, aparecerão dois nomes importantes, veiculados a esses periódicos. Um é Carlos Frederico Werneck de Lacerda, fundador do jornal Tribuna da Imprensa, e o outro é Samuel Wainer, fundador do Última Hora. Nesse sentido, dentro do contexto do governo Vargas, esses periódicos foram peças políticas fundamentais, no qual a Tribuna da Imprensa se destacou como o jornal de oposição ao governo, enquanto o Última Hora era o único meio jornalístico que apoiava o presidente. Podemos observar que o jornal Tribuna da Imprensa foi fundado no dia 27 de dezembro de 1949, por Carlos Frederico Werneck de Lacerda, após o mesmo ter passado por várias experiências no meio jornalístico. “Partidários e simpatizantes da UDN, partido que perdeu as eleições para Vargas [...] criaram a Tribuna através de uma subscrição pública, reunindo um capital de CR$ 12 mil”118. A Tribuna da Imprensa era um jornal vespertino e que tinha vendagem diária. O prédio que foi utilizado por Carlos Lacerda para que tivesse o funcionamento do jornal se encontra na rua do Lavradio,nº 98, no centro do Rio de Janeiro. Este imóvel foi adquirido por Carlos Lacerda no valor de CR$ 700,00. O jornal Tribuna da Imprensa, responde de certa forma a um objetivo trazido por Carlos Lacerda, que era de não ser apenas um jornal que se comprometesse a exercer o seu ofício, mas ser um veículo de oposição ao governo de Getúlio Vargas. Desse modo, o vespertino Tribuna da Imprensa, editado pela primeira vez em 27 de dezembro de 1949, caracterizar-se-ia, desde o início, como um veículo de divulgação de teses anti-nacionalistas e anti populares, e que teria como principal objetivo, a partir de 118 LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Op. Cit. p. 55. 38 1950, a liquidação de adversários, investindo sobretudo contra o getulismo e a política populista 119 Segundo Carlos Eduardo Leal, o nome Tribuna da Imprensa dado a esse jornal, não foi uma novidade, pois, Carlos Lacerda enquanto trabalhou como articulista do Correio da Manhã, escrevia uma coluna no qual assinaria com o nome “Na Tribuna da Imprensa”. Mas o erro de Carlos Lacerda foi ter usado essa coluna para atacar a família Soares Sampaio, que tinha laços de amizade com Paulo Bittencourt, que era proprietário do Correio da Manhã. Após ser punido por isso, sendo afastado deste jornal, Carlos Lacerda conservou esse mesmo nome para batizar o seu jornal.120 Agora, ele não teria apenas uma coluna para escrever, mas um jornal que seria de sua propriedade. A perda do emprego, no entanto, seria imediatamente compensada pelo surgimento da maior oportunidade de sua carreira profissional, pois os amigos Aluísio Alves, deputado pela UDN do Rio Grande do Norte, e Luís Camilo de Oliveira Neto logo o convenceram da viabilidade de fundar seu próprio jornal, o que foi conseguido por meio da mobilização de grupos empresariais vinculados ao capital externo, que forneceram os recursos necessários121 Sobre o jornal Tribuna da Imprensa, Ana Maria de Abreu Laurenza nos mostra que em junho de 1951, esse periódico que continha 12 páginas em sua formação, misturava em seu conteúdo jornalístico política nacional e notícias gerais, assim como dava destaque para assuntos sobre a cidade do Rio de Janeiro. Uma das questões de padronização estruturais do jornal Tribuna da Imprensa que não se assemelhava ao padrão dos jornais da época era o fato do jornal Tribuna da Imprensa não organizar as suas notícias em uma única página, mas dentro das dez primeiras páginas ficavam reunidas as matérias, começando com um assunto na página 1 e concluindo na maioria das vezes na página 10. As páginas 11 e 12 eram reservadas para o esporte122. Marcio de Paiva Delgado nos aponta que nos seus primeiros momentos de atuação, o jornal Tribuna da Imprensa foi dirigido por um grupo de intelectuais, no qual foi chamado de “Conselho Consultivo”. Fazia parte Adauto Lúcio Cardoso, Alceu 119 MENDONÇA, Marina Gusmão de. Imprensa e Política no Brasil: Carlos Lacerda e a tentativa de destruição da Última Hora. História. Revista Eletrônica de Arquivo Público do Estado de São Paulo, n31, 2008. p.8. 120 Cf. Carlos Eduardo LEAL. Tribuna da Imprensa. In: ABREU, Alzira Alves de et al (coords.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. Pós – 1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. 121 MENDONÇA, Maria Gusmão de. Op. Cit. p. 8. 122 LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Op. Cit. 39 Amoroso Lima, Gustavo Corção, Sobral Pinto e Dario de Almeida Magalhães. Entretanto, este Conselho de apoio ao jornal Tribuna da Imprensa não resistiu por muito tempo, em função da demanda que o jornal exigia, no qual seria necessário que eles se adaptassem a uma realidade cotidiana desse jornal, o que segundo Marcio de Paiva Delgado, eles não conseguiram. Em função disso, Carlos Lacerda assumiu toda a responsabilidade do periódico Tribuna da Imprensa123. Logo, Marcio de Paiva Delgado nos apresenta ainda que Carlos Lacerda se destacou na imprensa em função das investidas feitas ao governo de Getúlio Vargas, o que foi feito através de seu jornal, a Tribuna da Imprensa. Entretanto, o autor nos esclarece que Carlos Lacerda ampliou sua opugnação ao governo através de outros aparelhos de comunicação, no qual não seria somente a imprensa escrita, mas também através do rádio e da televisão, meios de comunicação que surgiram na década de 1950. Marcio de Paiva Delgado relata que é importante entender a ligação de Carlos Lacerda com dois grandes empresários do meio de comunicação da época. Um é o Assis Chateaubriand, dos Diários Associados, o outro é Roberto Marinho, do jornal O Globo. Ambos foram peças fundamentais para o acesso de Carlos Lacerda a outros meios de comunicação124. Estes que Carlos Lacerda utilizou para expressar as suas opiniões foram: a TV Tupi e a Rádio Globo. Ainda sobre o jornal Tribuna da Imprensa, Carlos Eduardo Leal nos mostra o comportamento crítico do mesmo ao governo de Getúlio Vargas. Durante esse período, o periódico se utilizou de seu meio de comunicação para fazer várias denúncias, como por exemplo, ao Banco do Brasil, nas questões de interferência desse Banco em importações de automóveis de luxo. Denunciou também a CEXIM, criticando os seus métodos de controle desse órgão para o comércio exterior, no qual segundo Carlos Eduardo Leal, eles não prestavam conta de seu trabalho aos órgãos fiscalizadores do Executivo. Entretanto, as críticas do jornal Tribuna da Imprensa não se limitaram as questões econômicas do governo Vargas, mas também as greves estudantis, a política externa brasileira para que houvesse uma aproximação com a Argentina, a possível infiltração comunista no Clube 123 DELGADO, Marcio de Paiva. O “Golpismo Democrático”. Carlos Lacerda e o jornal Tribuna da Imprensa na quebra da Legalidade (1949-1964). Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Juiz de Fora-FJFJ, 2006. 124 DELGADO, Marcio de Paiva. Op. Cit. 40 Militar, dentre outras questões125. Essas questões reforçam de certa maneira o papal oposicionista do jornal Tribuna da Imprensa ao governo de Getúlio Vargas. Marina Gusmão de Mendonça, por sua vez, nos apresenta que Carlos Lacerda desde o início de sua carreira profissional, seja no jornalismo ou na política, conseguiu em todo tempo se destacar, apresentando-se de forma diferenciada. Isto significa que Carlos Lacerda se distinguiu por ser um personagem radical e por conservar um estilo profissional que se destacava pela ação ofensiva. Para Marina Mendonça, isso seria uma “marca de sua carreira” e que por sua vez, através desses atributos, lhe proporcionaria desenvolver muitos adversários e situações adversas durante a sua trajetória.126 Sobre o jornal Última Hora, podemos observar que foi fundado em 12 de junho de 1951 por Samuel Wainer. Mas os passos para a formação desse jornal se deram segundo ele, em sua Memória de um repórter após a posse de Getúlio Vargas, em 31 de janeiro de 1951, no qual Wainer viajou para Petrópolis na intenção de fazer a cobertura jornalística do presidente eleito. Nesse episódio, o restante da imprensa não compareceu. O jornalista, trabalhava nessa época para os Diários Associados de Assis Chateaubriand. Foi nessa reunião que a intenção de construir um jornal que representasse o presidente Vargas começou a surgir. Entretanto, Getúlio Vargas não se envolveu na formação do periódico, ficando toda a responsabilidade com Samuel Wainer, mas o apoio que este recebeu por parte do presidente Vargas fez toda a diferença para que ele se sentisse autorizado a produzir o seu próprio jornal. Sendo assim, após conseguir um empréstimo de 30 mil cruzeiros com Walter Moreira Sales, Euvaldo Lodi e Ricardo Jafet, Wainer adquiriu a oficina do Diário Carioca e, mesmo após conseguir esse dinheiro, lhe faltava os recursos para fazer o jornal. Recursos que foram conseguidos com Juscelino Kubitschek, o JK. Para continuar os processos de um novo periódico, Samuel Wainer teve que se desligardos Diários Associados, o que por sua vez, acabou trazendo certa inimizade por parte de Assis Chateaubriand127. Estava assim formado o jornal Última Hora, que “nascia, portanto, da confluência dos interesses pessoais de Samuel Wainer com as necessidades de ampliação das bases de apoio do novo governo”128. 125 Cf. Carlos Eduardo LEAL. Tribuna da Imprensa. In: ABREU, Alzira Alves de et al (coords.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. Pós – 1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. 126 MENDONÇA, Marina Gusmão de. Op. Cit. 127 WAINER, Samuel. Minha Razão de Viver: memórias de um repórter. Rio de Janeiro. Record, 1988. 128 MENDONÇA, Marina Gusmão de. Op. Cit. p. 11. 41 Carlos Eduardo Leal, neste sentido, demonstra uma relação simultânea de Samuel Wainer e o presidente Getúlio Vargas, o que ele fala através de uma carta que o jornalista recebeu do presidente Vargas, isso, antes mesmo de sair o primeiro jornal da edição de o Última Hora. Nela, estava expressa a satisfação de Getúlio Vargas pela formação desse periódico, demonstrando o sucesso que ele almejava para esse jornal e a confiança esperada em Samuel Wainer. No dia 12 de junho de 1951, dia do lançamento do Última Hora, lá estaria publicada a carta.129 Essa proximidade com o poder acabaria por propiciar-lhe os recursos necessários à criação de seu próprio jornal, um vespertino que, desde o lançamento, em junho de 1951 obteve imediato sucesso de público, ultrapassando, em apenas seis meses, as vendagens de todos os concorrentes. Tamanho êxito logo atrairia contra Wainer a ira da grande imprensa, prejudicada pelo volume de recursos publicitários que passaram a ser destinados ao novo periódico130 Carla Siqueira nos apresenta que o jornal Última Hora realçou a relação entre o povo e o governo Vargas, mostrando que logo em sua primeira edição do jornal, o Última Hora anunciou urnas pela cidade, para receber informações que viessem dos leitores, desde denúncias, reclamações e também sugestões. Tudo que fosse coletado na rua, faria parte do jornal, através de uma seção que se chamaria “Fala o Povo na UH”. Essas notas eram todos os dias publicadas, expressando através do jornal Última Hora a opinião de cada um dos leitores131. Reforçava, dessa maneira, o jornal Última Hora, a sua importância social. Dessa forma, “dando continuidade à “defesa do povo”, o Última Hora instaurou os “tribunais populares” para julgar os “crimes contra a economia”. Tratava-se de júris simulados sobre casos de prelos abusivos cobrados pelos comerciantes”132. Assim, Daniele Chaves Amado nos mostra que com o lançamento do jornal Última Hora criou-se uma modificação na imprensa brasileira, pois através das várias inovações, vindo por meio de sua publicação, o jornal alcançou as aspirações populares, no qual Daniele Chaves Amado definiu essa imagem produzida pelo Última Hora como sendo de um defensor do povo. A autora nos aponta ainda que com a criação do jornal, o 129 Cf. Carlos Eduardo LEAL. Última Hora. In: ABREU, Alzira Alves de et al (coords.). Dicionário Histórico- Biográfico Brasileiro. Pós – 1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. 130 MENDONÇA, Marina Gusmão de. Op. Cit. p. 10. 131 SIQUEIRA, Carla. A novidade que faltava: sensacionalismo e retórica política nos Última Hora, O Dia e Luta Democrática no segundo governo Vargas (1951-1954). ECO-PÓS. V8. N2. Agosto-dezembro 2005. p. 46-66. 132 SIQUEIRA, Carla. Op. Cit. p. 55. 42 presidente Vargas tinha a intenção de acompanhar como estava seguindo esse periódico, para isso, era necessário que o responsável pelo jornal, Samuel Wainer, mantivesse o objetivo de Getúlio Vargas, no qual o jornal pudesse fazer aproximação entre o governo e as classes populares, dando o devido destaque em suas manchetes, aos assuntos políticos que pudessem agradar aos objetivos do presidente133. A particularidade, no caso de periódico como a Última Hora, é que o esforço de trabalhar a imagem de defensor do povo integrava a tarefa maior de construção de um vínculo entre leitores e líderes, como o presidente Getúlio Vargas (...) Provavelmente Vargas não queria que a Última Hora seguisse um caminho de afastamento do povo e parecia disposto a conduzir Wainer na missão de conjugar em um único veículo sua imagem de presidente preocupado com as expectativas das classes populares sem deixar de lado os assuntos políticos que pudessem auxiliar seu governo a conduzir a política nacional134 Theodoro de Barros mostra o processo de inovação ocorrido na década de 1950 através do jornal Última Hora. Inovações que não ocorreram apenas no aspecto editorial, mas também no aspecto visual e empresarial135. Já o jornal “Tribuna da Imprensa [...] tinha baixa tiragem, não apresentava inovações gráficas. Sustentava-se, apenas, na figura polêmica de Carlos Lacerda e seu texto inflamado”136. De forma mais detalhado, podemos dizer que no sentido visual, Última Hora inovou na diagramação e no uso da cor, no qual o nome de personalidades como de Andrés Guevara e Augusto Rodrigues foram responsáveis nestas modificações. O Última Hora, por sua vez valorizou o uso da fotografia, assim como a utilização de caricaturas e posteriormente da charge política que foi um bom artifício utilizado por esse jornal. Também se utilizou de historietas em quadrinho para atrair o público ao jornal. No aspecto editorial, Última Hora fez uso do folhetim, estimulou o colunismo. Valorizou o noticiário internacional, com uso de correspondentes itinerantes. Na sua estratégia de aspecto empresarial, Última Hora se preocupou com a circulação do jornal, para isso criou meios alternativos de fluxo, apesar de ter um equipamento industrial limitado. Por sua vez houve redução do número de 133 AMADO, Daniele Chaves. Nem tudo que reluz é ouro: A Última Hora, a Tribuna da Imprensa e a campanha de saneamento moral de Copacabana. Dissertação de Mestrado. UFF-Niterói, 2012. 134 AMADO, Daniele Chaves. Op. Cit. p. 22 e 23. 135 BARROS, Theodoro de. Imprensa era dominada por um grupo familiar até 1950. In: CASTRO, Moacir Werneck de. et.al. A Última Hora de Samuel nos tempos de Wainer. Rio de Janeiro. Grafitto Gráfica Editora Ltda, 1993 136 LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Op. Cit. p. 156. 43 páginas do periódico, buscando de certa forma uma padronização para o jornal137. Segundo Ana Maria de Abreu Laurenza podemos observar que: Nesse ponto, a Última Hora destaca-se, em termos qualitativos, em relação à Tribuna da Imprensa. Ao adotar uma evolução técnica, por meio da diagramação planejada que representava maior aproveitamento dos recursos humanos e economia de ativos, conseguia oferecer ao leitor um jornal com visual atraente, mais fácil de ler do que a Tribuna, que abrangia vários editoriais e oferecia informação diversificada à população alfabetizada urbana138 De certa forma, podemos observar que os jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora nasceram com objetivos diferentes, mas o foco era o mesmo: Getúlio Dornelles Vargas. O primeiro para atacá-lo, o segundo, para defendê-lo. Essa realidade se configurou durante todo o período do governo Vargas e nesse sentido, podemos dizer que se esses jornais tinham os seus objetivos particulares, o cenário que eles estavam era de transformação, período de modernização na imprensa brasileira, no qual o seu destaque foi justamente a década de 1950. Fernando Lattman-Weltman destaca a década de 1950 como momentos de grande importância para a imprensa no Brasil, um momento de mudanças, de renovações139. “Uma nova fase, contudo, se inicia quando a imprensa passa a incorporar, além das notícias, a opinião pública”140. Os jornais a Tribuna da Imprensa e o Última Hora viveram um embate político na década de 1950, e ambos representaram essas mudanças ocorridas na imprensa neste período. As mudanças nos jornais vieram de formas variadas, nas técnicas de impressão, no sentidográfico e editorial e se afirmaram com grande novidade no mercado. Foram também tempos de criação de jornais como a Última Hora (1951) e a Tribuna da Imprensa (1949), que introduziram novas técnicas de apresentação gráfica e inovações na cobertura jornalística, renovando a linguagem da imprensa [...] Foi nesses anos que se 137 BARROS, Theodoro de. Op. Cit. 138 LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Op. Cit. p.77. 139 WELTMAN, Fernando Lattman. Imprensa carioca nos anos 50: os “anos dourados”. In: ABREU, Alzira Alves de (Org.). A imprensa em transição: o jornalismo brasileiro nos anos 50. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 2008. 140 WELTMAN, Fernando Lattman. Op. Cit. p. 159. 44 deu a reforma do Jornal do Brasil, reforma que teria grande impacto sobre as transformações subsequentes na imprensa brasileira141 Ana Maria de Abreu Laurenza relata que os jornais Tribuna da Imprensa e Última Hora tinham missões opostas e, nesse sentido ampliaram as suas estratégias no embate de ataque e de defesa ao presidente Getúlio Vargas. Sendo inimigo de Vargas e tendo um jornal com pouca expressão, tendo em vista o número de tiragem de exemplares, Tribuna da Imprensa era o menor. Mas, de fato, Carlos Lacerda encontrava respaldo intelectual em outros jornais de oposição ao governo de Vargas, como O Estado de São Paulo e os Diários Associados.142. O jornal Última Hora, por sua vez, se destacou não apenas em tiragem de exemplares, mas em diversos assuntos de seu noticiário. Em contraste com todo o resto da imprensa brasileira da época, Última Hora distinguia- se pelas inovações que apresentou na área técnica. Foi essencialmente a mudança no aspecto técnico e gráfico que possibilitou o confronto do novo jornal com os demais órgãos da imprensa143 Assim, ao tratarmos sobre esses jornais e a sua importância, podemos perceber que Carlos Lacerda, da Tribuna da Imprensa e Samuel Wainer, do Última Hora eram “duas personalidades controversas, fascinantes e inimigas, ex-companheiros de quarto e redação, Samuel Wainer, jornalista, o “primeiro”, amigo do presidente Getúlio Vargas e Carlos Lacerda, jornalista e político, inimigo “número um” de Vargas”144. Mas apesar do quadro de inimizade que se fez a partir da década de 1950, quando Carlos Lacerda e Samuel Wainer passaram a viver num contexto de inimizade, hostilidade essa que segundo Marina Gusmão de Mendonça teve as suas origens em questões do período que trabalharam juntos no jornalismo,145 no qual se tornaram adversários políticos. Entretanto, podemos dizer que nem sempre foi assim a relação entre eles. Muito pelo contrário, Carlos Lacerda e Samuel Wainer foram amigos, e que no meio das dificuldades, souberam vivenciar as circunstâncias juntos e lutaram no meio dos percalços. “Wainer e Lacerda eram muito pobres, no começo da carreira, e moraram 141 ABREU, Alzira Alves de. Os suplementos literários: os intelectuais e a imprensa nos anos 50. In: ABREU, Alzira Alves de. (Org.). A imprensa em transição: o jornalismo brasileiro nos anos 50. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 2008. p.15. 142 LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Op. Cit. 143 Cf. Carlos Eduardo LEAL. Última Hora. In: ABREU, Alzira Alves de. et al (coords.). Dicionário Histórico- Biográfico Brasileiro. Pós – 1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. 144 LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Op. Cit. p.17. 145 MENDONÇA, Marina Gusmão de. Op. Cit. 45 juntos quando trabalharam nos Diários Associados.”146 Isso demonstra de certa forma, a amizade que um cultivava pelo outro e a necessidade de sobreviver as dificuldades da vida. No entanto, pode-se afirmar que o jornal Última Hora se destacou em relação ao jornal Tribuna da Imprensa na venda de exemplares, por exemplo, alcançando em determinado momento uma margem que chegava a 100 mil exemplares147. “Até o mês de setembro, o jornal teve uma tiragem diária de 15 a 16 mil exemplares. Em novembro atingiu 50 mil, e, após o carnaval de 1952, ultrapassou os cem mil. Às segundas feiras, a tiragem era superior a 150 mil.”148 A Tribuna da Imprensa, por sua vez, tinha uma baixa tiragem, por volta de 5 a 6 mil exemplares149. “Aliás, deve-se ressaltar que, dentre os principais periódicos do Rio de Janeiro, a Tribuna da Imprensa ocupava o último lugar em vendagem”150. Logo, Ana Maria de Abreu Laurenza nos aponta que esse embate entre os jornais Última Hora e Tribuna da Imprensa eram desiguais, pois, por mais que a Tribuna da Imprensa representasse a grande imprensa, mesmo assim ele era o menor, não tinha uma grande representação neste sentido, pois era pequena a sua tiragem de exemplares de jornal. Já o Última Hora conseguiu se equiparar em tiragens de jornais, aos da grande imprensa, como O Estado de São Paulo e o Correio da Manhã, e que segundo Ana Maria de Abreu Laurenza, o Última Hora ainda se destacava por dar voz aos grupos populares151. De fato, podemos observar que com o sucesso adquirido pelo Última Hora, até a remuneração de funcionários foi um destaque da época, pois também nisso, o periódico se destacou dos demais jornais. O “Caso Última Hora” seria uma questão emblemática para esse jornal, que após insistências de Carlos Lacerda em tentar provar questões de nacionalidade de Samuel Wainer e na tentativa de provar irregularidades na formação do jornal, insistindo em manchetes que pudessem acusar o adversário, enfraquecendo de certa maneira as estruturas do jornal Última Hora, o que por certo serviu para Carlos 146 LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Op. Cit. p. 43. 147 MENDONÇA, Marina Gusmão de. Op. Cit. 148 Cf. Carlos Eduardo LEAL. Última Hora. In: ABREU, Alzira Alves de et al (coords.). Dicionário Histórico- Biográfico Brasileiro. Pós – 1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. 149 LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Op. Cit. p. 58. 150 MENDONÇA, Marina Gusmão de. Op. Cit. p. 13. 151 LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Op. Cit. 46 Lacerda se vingar, atingindo não somente a Samuel Wainer, mas também ao presidente Getúlio Vargas152. Com isso, os jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora representaram momento impar na história política brasileira. Alguns jornais já tinham o seu destaque específico, como O Globo, e os Diários Associados, eles, eram a novidade de fins dos anos 40 e início dos anos 50. Momento marcado pelo final do governo do general Eurico Gaspar Dutra e da volta de Getúlio Dornelles Vargas. A Tribuna da Imprensa e o Última Hora representaram o embate de oposição e se conjugaram em um contexto acirrado, onde se fez presente a instabilidade política do governo de Getúlio Vargas. A Última Hora em sua pauta diária dava espaço para crimes sensacionalistas, artistas populares, serviços para facilitar o dia-a-dia e colunas como “Barômetro Econômico”, que analisava a política econômica do momento a luz do protecionismo da burguesia nacional e com um calculado cuidado à entrada do capital estrangeiro, de acordo com a imagem do governo adequada a Getúlio Vargas e à conjuntura. Já a Tribuna fazia questão de reforçar o lado autoritário e avesso às instituições democráticas de Vargas, legado através da Revolução de 30 e do hiato inconstitucional do Estado Novo (1937/1945), à figura do presidente da República. Lacerda se esforçava, centralizando o trabalho na redação, para que o leitor não esquecesse o passado de caudilho do presidente da República. Eram constantes as manchetes denunciando conspirações golpistas de Vargas e seu grupo de apoio153 Caso a Tribuna da Imprensa tinha a figura de Carlos Lacerda, opositor ferrenho de Getúlio Vargas, o Última Hora tinha Samuel Wainer, amigo do presidente e pronto a contribuir para defende-lo e ao seu governo. De certa forma, podemos observar que Carlos Lacerda se utilizou de um veículo de comunicação, da imprensa jornalística para atacar não apenas o governo Vargas, mas a própria figura do presidente, assim como, fez uso da televisão atravésda TV Tupi e da Rádio Globo. Samuel Wainer, por sua vez, também se utilizou de um meio da imprensa, no qual a formação do jornal Última Hora foi à possibilidade que Getúlio Vargas teve de se defender no meio da comunicação, onde a oposição jornalística a seu governo era grande. Podemos dizer que Samuel Wainer foi a pessoa certa e que se apresentou no momento oportuno para Vargas, onde a formação de um jornal com as características do Última Hora, representou de fato o governo de Getúlio Vargas. Sendo assim, Ana Maria de Abreu Laurenza nos afirma que: 152 MENDONÇA, Marina Gusmão de. Op. Cit. 153 LAURENZA, Ana Maria de Abreu. Op. Cit. p. 113. 47 Na história do jornalismo brasileiro, Última Hora e Tribuna da Imprensa desempenhou papéis opostos e bem definidos. A Última Hora é considerada um jornal revolucionário para certos autores, renovador, aberto as às manifestações populares, nacionalista e de esquerda. Já a Tribuna da Imprensa, foi transformada num púlpito de um jornalista- político, Carlos Lacerda, exacerbado em suas posições ideológicas, considerado reacionário, de direita, patronal, defensor dos interesses do capital estrangeiro na economia brasileira154 Assim, podemos afirmar que havia uma relação política e partidária que era representada pelo jornal Tribuna da Imprensa, pois a União Democrática Nacional (UDN), assim como Carlos Lacerda, eram meios de oposição ao governo de Getúlio Vargas, o que por sua vez só afirmava a postura que era apresentada por esse periódico. De fato, o jornal Tribuna da Imprensa “era editado sob medida para os inimigos de Getúlio Vargas, dando espaço para a ala mais ruidosa da União Democrática Nacional (UDN)”155. O Última Hora dava voz ao presidente Vargas e aos que faziam parte de seu governo, assim como a “classe média baixa urbana” que despontava no cenário desse período156. Após essa breve análise, podemos afirmar que os jornais Tribuna da Imprensa (jornal de oposição) e Última Hora (jornal da situação) são representações do governo de Getúlio Dornelles Vargas (1951-1954), o que nos possibilita compreender bem esse período, mas não somente isso nos possibilita entender a relação que se desenvolveu através deles, que enquanto meios de comunicação da imprensa, eram meios de interferência política, pois, apesar da liberdade que tinham de se expressar, os jornais Tribuna da Imprensa e Última Hora tiveram os seus próprios interesses e posicionamentos, servindo de certa forma para mostrar um mesmo governo, entretanto, com formas e objetivos diferentes. Após abordamos esse primeiro capítulo, podemos perceber a importância desses aspectos tratados até esse momento para o sentido de nossa análise nessa dissertação. A conjuntura apresentada através de um breve balanço historiográfico, expressando aspectos que foram desenvolvidos durante o governo de Getúlio Vargas nos revela o quanto durante esse período o presidente viveu um contexto marcado por diversas situações. De fato, as questões relacionadas à política econômica, a política externa, assim 154 Idem, Ibidem. p. 152. 155 Idem, Ibidem. p.53. 156 Idem, Ibidem. 48 como a questão que envolveu os procedimentos sobre a formação da Petrobrás, expressaram um período do governo de Vargas muito marcado pelas intenções de relações com os Estados Unidos, onde haviam interesses de ambos os países nesse sentido. Os aspectos abordados sobre a reforma ministerial de 1953, a classe trabalhadora e as questões no sistema político partidário, apresentam uma temática centralizada aos fatores internos do governo. Já os aspectos concernentes as forças armadas, tomam um caráter múltiplo e revelam que Vargas viveu um misto de emoções, pois em resumo encontrava apoios entre alguns grupos militares, mas, por outro lado os contrários ao seu governo eram maioria. Nesse sentido, em função dos diversos acontecimentos que ocorreram, só aumentaram os militares contrários ao seu governo. Ao considerar abordar as relações das forças armadas com o governo democrático de Getúlio Vargas, procurei por trazer os jornais para serem fontes e objetos dessa pesquisa. Logo, podemos considerar que apresentar o contexto de formação dos jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora, é poder sinalizar o leitor a conhecer as referências relacionadas a sua formação, o qual Carlos Lacerda, fundador do jornal Tribuna da Imprensa e Samuel Wainer, fundador do Última Hora, representaram através de sua história de vida em relação a esses periódicos, a importância para compreendermos os sentidos de produção desses jornais, durante o período do governo democrático de Getúlio Vargas, em que cada um desses periódicos tiveram as suas propostas para apresentar durante esse período, de poder mostrar quais eram as suas intenções de formação desses jornais e por apresentarem propostas antagônicas a esse governo, tiveram através desse capítulo a explicação que justifica os seus objetivos de imprensa que enquanto ferramenta política poderão expressar a ótica de suas opiniões, o qual apresentará o contexto das relações das forças armadas com o governo de Getúlio Vargas nos dois próximos capítulos. No capítulo 2, iremos trazer o foco centrado nas forças armadas e o governo de Getúlio Vargas, em que através do uso das fontes primárias, juntamente com o diálogo com a historiografia, teremos um primeiro processo de análise com a utilização dos jornais e das entrevistas (depoimentos) nessa pesquisa, onde o contexto das relações das forças armadas com o governo de Getúlio Vargas, que será apresentado através do Acordo Militar do Brasil com os Estados Unidos, da possível ida dos militares para a Guerra da Coreia, assim como as eleições para o Clube Militar para o biênio de 1952-54, serão os assuntos a serem abordados. 49 CAPÍTULO II AS FORÇAS ARMADAS E O GOVERNO DE GETÚLIO VARGAS: ACORDOS, INSTITUIÇÕES E POLÍTICA EXTERNA Sendo a nossa proposta de análise as relações das Forças Armadas com o governo de Getúlio Vargas, no período de 1951 a 1954, é importante abordar os aspectos dessas forças, tanto de forma teórica e também historiográfico dentro do Brasil República. Frisa- se o período da chegada de Getúlio Vargas ao poder em 1930 até o início do período da Ditadura Militar em 1964, e entende-se que durante esse recorte, as Forças Armadas passaram por diversas transformações. 2.1. Forças Armadas. Segundo a Constituição Federal Brasileira de 1988, em seu Artigo 142, as Forças Armadas podem ser assim definidas: As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem157 Formada pelo Exército, Marinha e Aeronáutica, as Forças Armadas brasileiras representam a segurança permanente da nossa nação. Até o início do século XX, só existiam duas instituições militares que representavam as Forças Armadas: o Exército e a Marinha. Segundo Leonardo Trevisan, “durante a longa fase colonial, a força armada era um ramo da aristocracia metropolitana. Conquistada a independência, formou-se um Exército nacional em um razoável regime de urgência”158. A Aeronáutica, que primeiro seria chamada de Força Aérea Brasileira (FAB), seria fundada em 1941, no Primeiro 157 www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm 158 TREVISAN, Leonardo. O pensamento militar brasileiro. São Paulo. Global Editora, 1985. p. 10. 50 Governo de Getúlio Vargas (1930-1945), através da junção do ramo aéreo do Exército e da Marinha, ficando, assim, formadas as três Forças Armadas atuais do nosso país. Nesse sentido, ao tratar sobre as Forças Armadas, Trevisan nos direciona a ter umolhar diferente, não a observando apenas como uma instituição que representa a segurança do país, mas poder enxergar o seu lado social, pois as mesmas - enquanto instituição e atreladas a ideia de força, poder e governo - também afastam por esse mesmo sentido uma melhor visão sobre si mesma, criando um aspecto de algo secreto ou de perigo. Logo, o autor nos apresenta os militares como seres comuns e que se enquadram como qualquer ser social dentro da história. A imagem trazida pelos militares durante o período da Ditadura Militar, por exemplo, marca de certa forma essa maneira de observar “de longe” as Forças Armadas159. Para Karla Carloni, essa ideia pejorativa relacionada às Forças Armadas já ocorria na década de 1950, quando os militares foram associados a “inimigos do trabalhador” e “entreguistas”160. Todavia, Carloni nos mostra que tradicionalmente existem duas concepções de pesquisas que apontam as relações entre os militares e os civis no Brasil: a concepção instrumental e a institucional-organizacional. A autora critica estes pareceres e aponta que no sentido da atuação dos militares com a sociedade, deve-se considerar o meio militar e o contexto histórico, veiculando as forças armadas à sociedade e aos outros grupos para a sua compreensão histórica e social161. A concepção instrumental, desenvolvida principalmente por Nélson Werneck Sodré, enfatiza os estímulos exteriores – interesses de classes e frações de classe em suas variadas formas e combinações – para explicar as manifestações militares na disputa pelo poder político e o controle do Estado. Já abordagem institucional-organizacional encontra seu principal representante em Edmundo Campos Coelho. Este autor enfatiza a autonomia da instituição militar ante a sociedade e o jogo político. Considera as Forças Armadas uma estrutura fechada e praticamente impermeável às influências externas162 De fato, as Forças Armadas têm sua representatividade dentro da história. São seres sociais que têm uma função específica e definida dentro da estrutura organizacional de um Estado; pautados pela hierarquia e disciplina, enquanto defensores da segurança 159 TREVISAN, Leonardo. Op. Cit. 160 CARLONI, Karla. Forças Armadas e Democracia no Brasil: o 11 de novembro de 1955. 1ª ed. Rio de Janeiro: FAPERJ/Garamond, 2012. 161 CARLONI, Karla. Op. Cit. 162 Idem, Ibidem. p. 25 e 26. 51 de nosso território seja na terra com o Exército, ou no mar com a Marinha e no ar com a Aeronáutica. Podemos dizer que as Forças Armadas atuaram durante os tempos, não apenas nas questões de cunho da instituição, mas se expandiram nas esferas políticas do Estado. Mário César Flores expõe que os militares são membros tanto das Forças Armadas, quanto da base societária, e que, enquanto cidadãos expressam os valores e anseios, assim como os demais cidadãos da sociedade163. É fato, que dentro do contexto de segurança das três armas é o Exército aquele que desempenha o papel de força máxima. Nesse sentido, Alain Rouquié afirma que o Exército se fez presente em vários momentos da história política e militar brasileira, no qual interviu em momentos de crise. Foi o Exército com Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto que deu início a República em 1889. E também aquele que colocou Vargas no poder em 1930. Por meio do Exército foi implantado em 1937 a Ditadura do Estado Novo e que depôs o Presidente Vargas em 1945, estabelecendo a partir daí um sistema democrático. Mas este mesmo Exército, que durante vários momentos interveio na política, deixou o seu papel “moderador” e em 1964 tomou o poder, assumindo o sistema político do país164. “O Poder Moderador”, segundo Eliézer Rizzo de Oliveira e Samuel Alves Soares, “foi essencialmente um poder de intervenção das Forças Armadas, cuja consequência mais acentuada e contraditória (o regime militar) significou a superação da condição de “intermediação” militar entre as forças políticas”165. Dessa forma, podemos perceber que as Forças Armadas, ou melhor, o Exército especificamente, atuou politicamente, usando a sua força militar, durante vários momentos da história, o que dá, de certa forma, um aspecto diferenciado a essa instituição. Sendo assim, Carloni, ao fazer importante retrospectiva histórica sobre as Forças Armadas no Brasil, demarca o período da Primeira República (1889-1930) e do Primeiro Governo Vargas (1930-1945), como momentos importantes nas ações dos militares na política brasileira durante o século XX. A autora afirma que, assim como a figura de 163 FLORES, Mário César. Bases para uma política militar. São Paulo. Editora da UNICAMP, 1992. 164 ROUQUIÉ, Alain. Os processos políticos nos partidos militares do Brasil. Estratégia de pesquisa e dinâmica institucional. In: ROUQUIÉ, Alain (Org). Os partidos militares no Brasil. Rio de Janeiro, Editora Record, 1980. 165 OLIVEIRA, Eliézer Rizzo de. SOARES, Samuel Alves. Brasil. Forças Armadas, direção política e formato institucional. In: D’ ARAÚJO, Maria Celina Soares. CASTRO, Celso. (Orgs). Democracia e Forças Armadas no Cone Sul. Rio de Janeiro. Ed. Fundação Getúlio Vargas, 2000. p. 99. 52 Deodoro da Fonseca e de Floriano Peixoto foram importantes para o fim da Monarquia, também Góis Monteiro e Eurico Gaspar Dutra foram relevantes para o processo de consolidação do Estado capitalista brasileiro, tendo todos representado o mesmo Exército. Entretanto, é a partir de 1930 que as Forças Armadas, em específico o Exército, irão adquirir um papel de destaque nas questões políticas nacionais166. A partir de 1930, “o Exército foi, desde então, uma entidade completamente diferente do Exército das décadas anteriores”167. Isso demonstra o período do Primeiro Governo Vargas (1930-1945), como um momento de “divisor de águas” na atuação da instituição. Logo, ao tratar especificamente sobre o Exército, Edmundo Campos Coelho indica que, a partir de 1930, essa instituição passou a ser concebido de maneira diferente, tornando-se mais visível na sociedade brasileira e tomando consciência de sua existência enquanto organização militar, adquirindo no período do Estado Novo (1937-1945), um poder considerável. Esse período de mudança de consciência e de postura por parte do Exército, a partir de 1930, foi classificado pelo autor como de fase institucional, em que este deixou de ser uma organização, para se transformar através de suas características em uma instituição. Esse período de fase institucional é também considerado por ele como de política laudatória. Esta expressão usada por ele, é utilizada para poder mostrar que houve uma perda de autonomia por parte da elite civil e ocorreu um crescimento de poder por parte do Exército. Nesse sentido de relação da fase institucional e da política laudatória, pode-se perceber que a sociedade brasileira passou a ser mais dependente das decisões do Exército168. Nesse sentido, a política laudatória é a expressão do oportunismo político, que se manifesta no cálculo dos custos e ganhos de uma adesão prematura – ou demasiadamente tardia – às correntes de opinião militar que venham a prevalecer dentro do Exército em momentos críticos169 Por isso, Carloni indica que o período do Estado Novo (1937-1945) foi um marco qualitativo para os militares. Destacaram-se a figura dos generais Góis Monteiro e Eurico Gaspar Dutra. Estes generais estiveram juntos, sendo importantes lideranças militares no período do Estado Novo, onde prevalecia um pensamento militar voltado para o 166 CARLONI, Karla. Op. Cit. 167 COELHO, Edmundo Campos. Em busca de identidade: o Exército e a política na sociedade brasileira. Rio de Janeiro, Record, 2000. p. 136. 168 COELHO, Edmundo Campos. Op. Cit. 169 Idem, Ibidem. p. 138. 53 nacionalismo autoritário170. De acordo com João Roberto Martins Filho, “com o apoio decisivo de Getúlio Vargas, os dois generais conseguiram tornar o Exército uma organizaçãocoesa, politicamente homogênea e socialmente permeável as classes média e alta da população”171. Entretanto, com a aproximação de Getúlio Vargas da classe trabalhadora nos inícios dos anos 1940, buscando um relacionamento dentro dos aspectos da legislação trabalhista, e, no contexto do fim da Segunda Guerra Mundial, o sentido do processo de redemocratização do país, Vargas perdeu apoio por parte das Forças Armadas172. De fato, essa política de aproximação do presidente com a classe trabalhadora, o fez perder a “aliança” construída com os militares no início do Estado Novo. Para João Alberto Martins Filho, “coube as Forças Armadas desempenharem o papel de ator principal no processo que levaria a queda de Getúlio Vargas e o fim do Estado Novo”173. O desaparecimento do Estado Novo não significou o fim da participação das Forças Armadas no jogo político, pelo contrário, a presença militar tornou-se cada vez mais decisiva. Ao mesmo tempo em que o rompimento da relação entre Vargas e os militares pode ser apontado como um dos principais fatores para a queda de seu governo, o episódio foi uma amostra de quanto as Forças Armadas tinham adquirido poder e autonomia dentro do Estado. O primeiro presidente eleito democraticamente foi o general Eurico Gaspar Dutra, ex-ministro da Guerra do Estado Novo174 Assim, Martins Filho nos mostra que a consolidação das forças políticas dos militares nesse período foi conquistada enfrentando diversos obstáculos, sendo que ele aponta três crises nacionais para caracterizar esse processo: a Revolução de 1932 em São Paulo, a revolta Comunista de 1935 e o golpe do Estado Novo em 1937. Somente após esses fatos, seria, segundo o autor, conquistada a vitória organizacional e institucional do Exército, que desde 1930, estava como parte integrante no poder político e que no período final do Estado Novo, tinha alcançado grande destaque político e social, o que nos mostra 170 CARLONI, Karla. Op. Cit. 171 MARTINS FILHO, João Roberto. Forças Armadas e Política, 1945-1964: a ante sala do golpe. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucília de Almeida Neves. O Brasil Republicano. O tempo da experiência democrática – da democratização ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003. p. 104. 172 CARLONI, Karla. Op. Cit. 173 MARTINS FILHO, João Roberto. Op. Cit. p. 105. 174 CARLONI, Karla. Op. Cit. p. 37. 54 que as Forças Armadas cresceram politicamente no sentido do aparelho do Estado, principalmente o Exército175. José Murilo de Carvalho ao tratar sobre as Forças Armadas (especificamente o Exército) e a sua relação com Getúlio Vargas, convencionou chamar o período que vai de 1930 até 1964 de Era Vargas. Nesse sentido, ele nos aponta esse período sendo de mudanças importantes nessas relações entre Vargas e os militares. Dentro desse contexto de modificações, Carvalho dividiu esse período em três momentos distintos, nos quais em cada um apresentou as características por parte das Forças Armadas ante o governo de Vargas. A primeira fase, considerada de Namoro, começando em 1930 com a chegada de Vargas ao poder, indo até 1937. Nessa fase, Vargas incentivou a condição dos militares em atores políticos, no qual ele mesmo se sustentou nesses militares. A segunda fase, chamada de Lua de Mel, começou em 1937, com a implantação do Estado Novo, indo até a queda de Vargas pelos militares em 1945. Nessa fase, houve a plena coincidência de interesses de Vargas e das Forças Armadas, tomando os militares um melhor papel político no Estado. Por fim, a terceira fase, considerada de Divórcio ocorreu de 1945 até 1964, quando os militares tomaram finalmente o poder e implantaram a Ditadura Militar no Brasil. Nessa fase, os militares não concordaram com as orientações políticas e ideológicas que foram seguidas pelo presidente Vargas. Entretanto, Carvalho expõe que, apesar do governo Vargas ter terminado em 1954, através do suicídio, o seu “fantasma” se encarnou em Juscelino Kubitscheck e em João Goulart, sendo ambos, herança política do presidente, que só teria o seu fim em 1964, com a vitória dos militares que eram contrários ao governo de Vargas176. Segundo Carvalho, Encerra-se o ciclo de Vargas com a vitória de seus inimigos. O feitiço voltara-se contra o feiticeiro. De 1930 a 1964, mudaram as Forças Armadas, mudou Vargas, mudou o Brasil. Politicamente, mudou o Brasil em boa medida em função das relações entre Vargas e as Forças Armadas [...] as Forças Armadas se tornaram mais fortes, mais coesas e mais conservadoras. Ajudaram a destruir a república oligárquica dos coronéis da Guarda Nacional, mas implantaram a república autoritária dos generais177 Alain Rouquié, ao tratar sobre as Forças Armadas, observou a noção de “partidos políticos” para se expressar sobre as posturas tomadas pelos militares. Esta expressão, segundo o autor, não alteraria a especificação das Forças Armadas. Ou seja, seria uma 175 MARTINS FILHO, João Roberto. Op. Cit. 176 CARVALHO, José Murilo de. Op. Cit. 177 Idem, Ibidem. p. 184, 185. 55 forma metafórica para expressar as Forças Armadas, enquanto a noção de “partidos militares”, o que daria a essa instituição a atuação de força política, mesmo que por meios diferentes aos partidos políticos e, que segundo Rouquié, as Forças Armadas por não ser uma instituição com caráter monolítico, desempenhariam através de seus grupos, funções que se comparam aos conjuntos políticos partidários. Dentro desse sentido, “o conceito de partidos militares enfatiza as situações em que Exército e política se relacionam e as instâncias institucionais de inserção da política no aparelho militar (e vice-versa)178”. Nesse contexto de “partido”, os militares agem na sociedade civil e buscam o poder na instituição militar e nas políticas do Exército179. Rouquié aponta que: As Forças Armadas podem ser forças políticas que desempenham, por outros meios, as mesmas funções elementares que os partidos, e sobretudo que conhecem em seu seio – tanto quanto os partidos, mas segundo outra lógica – processos de deliberação, de tomadas de decisão, e até mesmo de união e articulação sociais180 Alfred Stepan, por sua vez, ao tratar sobre os militares na política indica que, em diversos momentos da história política estiveram as Forças Armadas envolvidas em questões desse sentido. Nesse contexto de atuação, existe de certa forma uma relação que se dá entre os civis e as forças armadas, numa situação que não se pauta apenas numa resposta por parte dos militares, mas numa resposta por parte dos civis e dos militares, nas questões políticas na sociedade181. Alfred Stepan divide esses políticos civis em três grupos, sendo ele: 1 O presidente e seus conselheiros, isto é, o governo. 2. Os civis anti-regime, que se opõem não só ao governo, mas também ao próprio regime e pretendem alterar as leis básicas e a estrutura da autoridade. 3. Os civis pró-regime que, embora apoiando as leis básicas do regime, frequentemente discordam do governo e desejam controlar o executivo através de outros métodos que não o legislativo e os meios eleitorais182 De acordo com Stepan, os civis sempre procuraram se servir das Forças Armadas para alcançar os seus objetivos. O presidente da República, por exemplo, que representa o governo, buscou durante os anos de o Brasil República conseguir apoio dos militares, seja de forma direta ou indireta, o que consequentemente aumentaria o seu poder político, 178 ROUQUIÉ, Alain. Op. Cit. p. 13. 179 Idem, Ibidem. 180 Idem, Ibidem. p.12. 181 STEPAN, Alfred. Os militares na política. As mudanças de padrão na vida brasileira. Rio de Janeiro. Editora Artenova, 1975. 182 STEPAN, Alfred. Op. Cit. p. 53. 56 através da intervenção por parte das Forças Armadas. O ano de 1937 foi um exemplo central para poder demonstrar esse fato, cujo apoio direto dos militares possibilitou a instituiçãoda ditadura militar do governo de Getúlio Vargas, ou o Estado Novo. Tudo isso nos mostra o papel de decisão por parte das Forças Armadas concernentes às questões políticas no Brasil e que se ampliou de várias formas durante os anos do período democrático no Brasil (1946-1964)183. O autor aponta cinco movimentos militares ocorridos no período entre 1945 a 1964, retratando uma política que ocorreu entre a esfera civil e as forças armadas. Stepan nos mostra que em 1945, 1954, 1955, 1961 e 1964 foram períodos em que as Forças Armadas apareceram agindo como um poder moderador na questão política brasileira. Em 1945, as forças armadas atuaram na política depondo Getúlio Vargas da presidência. Em 1954, elas atuaram exigindo a renúncia de Vargas. Em 1955 e 1961, foram contra a posse de Juscelino Kubitscheck e em seguida contra João Goulart, mas o caráter da ação dos militares foi diferente nesse período, em relação aos anteriores, pois não agiram contra o presidente que estava exercendo a sua função, mas sendo contra aqueles que estavam prestes a assumir o governo. Em 1964, não foi apenas deposto o presidente, através da intervenção política feita pelos militares, mas assumiram de fato o poder político do Estado. Antes de 1964 as forças armadas atuaram no limite, respeitando de fato o seu poder moderador184, mas que não resistiram as consequências políticas do ano de 1964. Segundo Stepan: A partir da análise dos movimentos de 1945, 1954, 1955, 1961 e 1964, é evidente que os militares brasileiros, historicamente, não se consideravam isolados do sistema político, mas antes ligados indissoluvelmente à política e muitas vezes sensível a opinião civil, embora não dependesse exclusivamente dela. A tradicional imagem que os militares têm de si próprios como o povo fardado está de acordo com seu papel altamente político185 Dentro desse contexto, Richard Bourne nos apresenta a importância para a história brasileira no que diz respeito à dissonância que se fez presente nessas relações entre Vargas e as forças armadas. Em parte, mostrava a mudança ocorrida por parte do Exército, no qual após a revolução de 1930, os seus oficiais deixaram de ser classe insurgente e se tornaram em uma instituição política. Segundo o autor, após a derrubada de Vargas em 1945, pelos militares, o presidente poderia ter sido levado a pensar de forma errada, por 183 Idem, Ibidem. 184 Idem, Ibidem. 185 Idem, Ibidem. p. 75. 57 uma ideologia de democracia durante o governo de Dutra e, “esquecer o fato do poder do Exército e de que seria atingido pelo conservadorismo do poder”. Sendo assim, Bourne nos relata ainda que, Vargas foi eleito por grande votação em 1950, o que pode ter criado motivo para que ele achasse haver lealdade por parte dos militares, independente da política que ele implantasse em seu governo186. Ao pensar no período do governo democrático de Getúlio Vargas, 1951-1954, no que compete às Forças Armadas, podemos dizer que Vargas não conseguiu manter um ministério militar que estivesse coeso durante todo o seu governo. Enquanto presidente da República era Chefe das Forças Armadas e tinha a atribuição de escolher aqueles que seriam os seus ministros militares. Foram sete ministros ao total que atuaram durante o período do seu governo, demonstrando a instabilidade de permanência nesse setor. Três oficias generais passaram pelo Exército, dois pela Aeronáutica e apenas na Marinha conseguiu se manter o mesmo ministro. No Exército, o general Newton Estillac Leal ficou como Ministro da Guerra de 31 de janeiro de 1951 a 26 de março de 1952. O general Ciro do Espírito Santo Cardoso, atuou de 26 de março de 1952 até 22 de fevereiro de 1954. O terceiro e último Ministro da Guerra desse governo foi o general Euclides Zenóbio da Costa, atuando de 22 de março de 1954 a 25 de agosto de 1954187. Nesse sentido de inconstância dos ministros da Guerra, podemos perceber que, para o almirante Ângelo Nolasco de Almeida, o presidente Getúlio Vargas teria mudado três vezes os seus ministros no Exército, em função de não os ter considerados a altura188. Essa afirmação do almirante reforça de certa maneira o ambiente que se formou entre Vargas e esses militares, pois em função de seus interesses de governo e os problemas ocorridos durante esse período, acabou em não conseguir manter esses ministros nos cargos. Na Aeronáutica, o brigadeiro Nero Moura foi ministro de 31 de janeiro de 1951 a 18 de agosto de 1954189. O brigadeiro Epaminondas Gomes dos Santos atuou de 18 de 186 BOURENE, Richard. Op. Cit. 187 ESTEVES, Diniz. Ministros da Guerra e do Exército Brasileiro. 1951 a 1999. Brasília. Edição do Estado Maior do Exército, 1999. 188 ALMEIDA, Ângelo Nolasco De. Ângelo Nolasco de Almeida (depoimentos, 1986). Rio de Janeiro, CPDOC, 1990, 585p. 18/06/1986. p.334. 189 Cf. Sérgio LAMARÃO. Nero Moura. In: ABREU, Alzira Alves de et al (coords). Dicionário Histórico- Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. 58 agosto de 1954 até 24 de agosto de 1954190. Fato é que a escolha de Vargas pelo brigadeiro Nero Moura para ser Ministro da Aeronáutica não trouxe boa resposta por parte da Aeronáutica, que em uma reunião foi orientada fazer uma manifestação coletiva contra o ato do presidente. Nero Moura era um Coronel da reserva, o que pode ter trazido desconforto por parte de oficiais de patentes mais altas191. Nesse aspecto, José Murilo de Carvalho nos mostra que Getúlio Vargas no início do seu segundo governo, colocou como seu ministro da Guerra e ministro da Aeronáutica os oficiais Estillac Leal e Nero Moura, respectivamente. Entretanto, mesmo os tendo colocado, fato é que a quase totalidade do generalato não eram a favor do general Estillac Leal e nem do brigadeiro Nero Moura, o que por sua vez não tinha uma liderança de controle na Aeronáutica192. Com isso, Boris Fausto nos faz perceber que o ambiente militar no Segundo Governo Vargas era outro do período de seu governo anterior e de certa maneira se distanciava daquele que o presidente Getúlio Vargas havia se acostumado193. Richard Bourne dialoga com Boris Fausto e nos aponta que em nenhum momento Vargas conseguiu restabelecer com os comandantes e o oficialato a relação que conseguiu desenvolver no seu primeiro governo (1930-1945)194. Para tal, Fausto apresenta a figura de dois importantes generais: Góis Monteiro e Eurico Gaspar Dutra. Estes generais eram cúpulas de apoio no governo anterior de Vargas. Agora, o general Góis Monteiro não apresentava mais o poder de antes e o general Dutra havia se tornado inimigo do presidente Vargas, assim, como a perda de apoio de outros militares tinha se multiplicado195. Nesse sentido, continuando a tratar sobre os ministros militares do governo de Vargas, podemos perceber que o almirante Renato de Almeida Guilhobel atuou de 1º de fevereiro de 1951 até 25 de agosto de 1954196, ou seja, foi o único ministro militar que atuou durante todo o governo democrático de Vargas. Esse assumiu ainda o Ministério 190 Cf. Alzira Alves de ABREU et al (coords.). Dicionário Histórico – Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. In: <cpdoc.fgv.br.> Acesso em 03/02/2020. 191 MOURA, Nero. Nero Moura (depoimento, 1983/1984) Rio de Janeiro, CPDOC. 24/10/1983. 192 CARVALHO, José Murilo de. Vargas e os Militares: aprendiz de feiticeiro. In: D’ARAÚJO, Maria Celina Soares. (Org). As Instituições brasileiras da Era Vargas. Rio de Janeiro: Ed. UERJ: Ed. Fundação Getúlio Vargas, 1999. 193 FAUSTO, Boris. Op. Cit. 194 BOURNE, Richard. Op. Cit. 195 FAUSTO, Boris. Op. Cit. 196 Cf. Alzira Alves de ABREU et al (coords.). Dicionário Histórico – Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. In: <cpdoc.fgv.br.> Acesso em 03/02/2020. 59 da Aeronáutica de forma interina, substituindo o brigadeiro Nero Moura que estaria de viagem à França, para tal,houve uma cerimônia entre Renato Guilhobel e os membros de seu gabinete. Nessa viagem, Nero Moura estaria representando o Brasil, pelo aniversário de 50 anos da dirigibilidade no ar197, o que ressaltou a importância das forças armadas brasileiras em solo estrangeiro. No dia 2 de janeiro de 1951, exatos 29 dias antes de Vargas assumir o poder de presidente da República, o mesmo se encontrava no Clube da Aeronáutica, em um almoço de confraternização, oferecido pelas Forças Armadas, onde desejou êxito na trajetória das Forças. Ali estavam reunidos generais, almirantes e brigadeiros, que representavam as três Forças Armadas, no qual Vargas afirmaria “Senhores Generais, Almirantes e Brigadeiros: o vosso espírito de camaradagem quis a nossa presença nesta já tradicional festa de confraternização das Classes Armadas, no limiar do Ano Novo”198. Esse encontro se tornaria uma tradição durante os anos do governo de Vargas, e expressava um sentimento de união entre ambos. Segundo o jornal Última Hora, Essa festa de amizade, ao ensejo de um novo ano, tornou-se tradicional, desde o primeiro governo do sr. Getúlio Vargas. Desde então nunca foi interrompida. Em torno do Chefe da Nação, que é também o Chefe das Forças Armadas, reúnem-se os oficiais generais das três armas – Exército, Marinha e Aeronáutica – numa demonstração pública do espírito fraterno que a une de maneira indestrutível199 Sobre o discurso que o presidente Vargas pronunciou no almoço de confraternização das Forças Armadas, ocorrido em 1º de janeiro de 1954, no Clube da Aeronáutica, o general Góis Monteiro declarou que foi pronunciado do mesmo jeito dos anos anteriores e ainda declarou que “o papel das Forças Armadas é garantir a ordem e as instituições. O Presidente sabe muito bem disto, pois é o comandante em Chefe das Forças de Terra, Mar e Ar200. Através desta breve análise sobre as Forças Armadas, podemos verificar a importância desta instituição mediante os variados processos relacionados à sociedade brasileira durante o período em questão. Por mais que ela se paute no aspecto da defesa e 197 Última Hora. 18/06/1952. p. 6. 198 Tribuna da Imprensa. 02/01/1951. 199 Última Hora. 05/01/1952. p.1. 200 Última Hora. 04/01/1954. p.3. 60 da força, podemos observar o seu aspecto de “poder moderador”, e suas vertentes nas questões política e “partidária”, que se fez presente em suas atuações. Exército, Marinha e Aeronáutica representantes de nossas Forças Armadas e símbolos da segurança nacional, atuaram de maneiras diversas durante os tempos e representaram durante o governo de Getúlio Vargas, 1951-1954, posicionamentos, interferências e estratégias enquanto militares, atuantes na caserna, na política, na sociedade e no Estado. A partir de agora, serão analisados alguns aspectos da associação entre as Forças Armadas e o governo Vargas. Nesse sentido, iremos abordar as relações do Brasil com os Estados Unidos, através da assinatura de um pacto militar, ocorrido em março de 1952, assim como a postura dos militares mediante a Guerra na Coreia e também os aspectos relacionados ao Clube Militar e sua relação com as Forças Armadas. 2.2. Apoios e interesses: o Acordo Militar entre Brasil e os Estados Unidos As relações militares entre o Brasil e os Estados Unidos na década de 1950 podem ser consideradas como consequência mais especificamente de uma aproximação que passou a ocorrer no momento em que o Brasil participou da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), apoiando os E.U.A., através da participação de nossas forças armadas, com a Força Expedicionária Brasileira (FEB), na luta contra os países do Eixo. Eduardo Munhoz Svartman observa que, com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial e a III Reunião Consultiva de Chanceleres, ocorrida no Rio de Janeiro, definiu- se, de certa forma, as relações militares entre o Brasil e os Estados Unidos, relação que continuou a ser crescente no decorrer dos anos201. Segundo o autor, Essa coincidência apenas parcial de objetivos e as clivagens no meio militar brasileiro, particularmente no Exército brasileiro, são a chave para se compreender a dinâmica das relações militares entre o Brasil e os Estados Unidos nas primeiras décadas da Guerra Fria202 Dessa forma, Moniz Bandeira nos apresenta que com a pretensão de um Acordo Militar com o Brasil, os Estados Unidos assumiram através de seu imperialismo “a 201 SVARTMAN, Eduardo Munhoz. Negociando a dependência: relações militares Brasil-Estados Unidos no início da Guerra Fria. OPSIS, Catalão-GO, v. 14, n. Especial, p. 160-184, 2014. 202 SVARTMAN, Eduardo Munhoz. Op. Cit. p. 163. 61 vanguarda da contra revolução mundial” (...) “numa série de atos e instrumentos que o Governo de Truman elaborou, ao deflagar a guerra fria contra a União Soviética”203. Deste jeito, se tornou mais propício, a partir desse momento, a atuação de apoios e interesses entre esses dois países, cujo acordo militar de 1952 foi um desses “pactos”, em que se tratou de um acordo que não foi apenas político-militar, mas também apresentou caráter econômico. Nesse sentido, ao dialogar sobre o acordo militar entre o Brasil e os Estados Unidos, Mônica Hirst nos mostra que ele, além de reforçar o relacionamento bilateral no sentido militar, criou ainda um conceito de coletividade, no qual substitui a concepção de reciprocidade, que havia entre esses países. Por esse conceito, houve um aprofundamento dos países latino-americanos ao que interessava aos Estados Unidos, criando uma noção de segurança que passou a ser “comum” para o continente, criando responsabilidades aos países do sistema interamericano204. Desta maneira, esse acordo militar assinado entre o Brasil e os Estados Unidos, pode ser considerado como uma das relações que envolveram as forças armadas com o governo Vargas, para tal, abordaremos como se deram essas relações nos anos de 1952 e 1953, visto através das páginas dos jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora. Nesse seguimento, podemos observar que a Tribuna da Imprensa na sua edição de 04 de janeiro de 1952, apresentou em letras bem grandes em sua primeira página o seguinte tema: “PACTO MILITAR BRASIL - E.UNIDOS”. Através dessa informação, o periódico trazia o seu primeiro posicionamento no ano de 1952 sobre essa possível relação político e militar entre o Brasil e os Estados Unidos. Nessa edição, foi informado ainda uma reunião que tinha ocorrido no dia anterior, no Itamaraty, tendo essa, contado com autoridades brasileiras e norte-americanas, em que estavam sendo estabelecidas as conversações para um pacto militar entre ambos os países205. Sobre esse acordo sugerido pelo governo norte-americano, Moniz Bandeira nos mostra algo interessante e que ia contra a soberania brasileira, no qual ele aponta que Washington visava realizar no Brasil os objetivos de duas leis dos Estados Unidos, sendo, a Lei de Assistência e Defesa Mútua (Mutual Defense and Assistence Act), de 1949, e a Lei de Segurança Mútua (Mutual 203 BANDEIRA, Moniz. Presença dos Estados Unidos no Brasil (Dois séculos de história). Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1973. p.334. 204 HIRST, Mônica. Op. Cit. 205 Tribuna da Imprensa. 04/01/1952. 62 Security Act), de 1951, o que segundo o autor, caberia ao Governo do Rio de janeiro o financiamento de sua execução”206. Dessa maneira, podemos perceber que nesse momento de Guerra Fria, os interesses de ambos os países se fizeram notórios. Os Estados Unidos pensavam de certa forma, em proteger o continente americano de possíveis ameaças de infiltração comunista, reflexo desse período. O Brasil, por sua vez, teve, dentre outras questões, a intenção de garantir investimentos. De acordo com Mônica Hirst, no que compete aos interesses políticos e militares dos Estados Unidos, eles apenas se modificaram durante uma década, pois, se em 1942 os norte-americanosobjetivavam bases militares no nordeste brasileiro, agora, em 1952, pretendia-se o suprimento através de materiais estratégicos e, de maneira em geral, o envolvimento do Brasil na política de Guerra Fria dos Estados Unidos207. Segundo Hirst, “a vitória de Vargas em 1950 implicou, desde o seu primeiro momento, a busca de um novo padrão de relacionamento do Brasil com os Estados Unidos”208. Com isso, continuando a observar o posicionamento dos periódicos, podemos perceber que apesar do Última Hora ser o jornal de apoio ao governo, não vemos uma ênfase de destaque ao anúncio sobre o acordo militar, em sua edição de 9 de janeiro de 1952. Ao contrário da Tribuna da Imprensa que utilizou a parte alta de seu periódico, o Última Hora colocou em pleno rodapé de sua primeira página, mas em letras grandes a seguinte definição: “Precede o Pacto Militar Brasil – Estados Unidos a Idênticas Conversações com a Argentina”. Entretanto, o destaque da reportagem estaria em sua terceira página, que embora em concordância com a Tribuna da Imprensa – que o acordo militar estava procedendo em discussão no Itamaraty – trazia aspectos não abordados pela Tribuna da Imprensa, que foi o de mencionar convites feitos pelos Estados Unidos a outros países do Continente Americano, ou seja: ao Peru e ao México e um possível acordo com a Argentina209. Faz-se importante ressaltar que em relação a esse acordo militar de 1952, se apresentou a figura de um oficial do Exército, que teve destaque desde o primeiro governo de Vargas, em 1930, que foi o general Pedro Aurélio de Góis Monteiro. Ele seria, 206 BANDEIRA, Moniz. Op. Cit. p.334. 207 HIRST, Mônica. Op. Cit. 208 Idem, Ibidem. p. 6. 209 Última Hora. 09/01/1952. 63 enquanto Chefe do Estado Maior das Forças Armadas (EMFA), figura importantíssima para os processos de negociações do acordo militar Brasil - Estados Unidos. Plínio de Abreu Ramos declara que Góis Monteiro ainda teria realizado “uma viagem diplomática a Buenos Aires, para desfazer junto ao governo de Juan Perón as desconfianças do presidente argentino de que o Acordo Militar Brasil-Estados Unidos tivesse sido forjado com o objetivo de isolar a nação platina no continente”210, o que reafirma a importância de Góis Monteiro nessas questões. Dessa maneira, a Tribuna da Imprensa daria voz ao general, que enquanto representante das forças armadas pôde se expressar nesse jornal da seguinte maneira: Eu sou uma espécie de assessor (...) e por isso estou acompanhando de perto os trabalhos preliminares do acordo militar que se vai firmar entre o Brasil e os Estados Unidos. Por enquanto, foram tomadas apenas os primeiros contatos e o resultado já foi exposto na nota oficial fornecida ontem pelo Itamaraty211 Prosseguindo nestas questões, podemos perceber que a Tribuna da Imprensa, em sua edição de 8 de janeiro de 1952, deu sequência ao assunto, repetindo, de certa forma, informações antes apresentadas. Contudo, o destaque pode ser percebido em sua manchete, no qual dizia: “Pacto Brasil – EE.UU” e mais abaixo em letras grandes afirmava: “FORÇAS BRASILEIRAS PARA QUALQUER EMERGENCIA”. Este destaque dado pelo jornal reforçava o papel militar que o Brasil teria que desempenhar, na provável aceitação desse acordo, em ter que atuar com um papel de auxílio e cooperação para a defesa do Continente Americano, em caso de uma agressão, demonstrando de certa maneira uma submissão aos interesses dos Estados Unidos212. Portanto, o periódico reforçava indiretamente que as forças armadas brasileiras ficariam numa total dependência militar aos interesses dos Estados Unidos, conforme os artigos que constavam do acordo militar. Maria Celina Soares D’Araújo cita que esse acordo militar além de trazer resposta por parte dos militares nacionalistas, iria favorecer as pretensões econômicas e militares dos Estados Unidos, através da soberania brasileira. No qual o Brasil se alinharia automaticamente aos interesses dos Estados Unidos213. 210 Cf. Plínio de Abreu RAMOS. Góis Monteiro. In: ABREU, Alzira Alves de. et al (coords). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – Pós – 1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. 211 Tribuna da Imprensa. 04/01/1952. p. 1. 212 Tribuna da Imprensa. 08/01/1952. 213 Cf. Maria Celina Soares D’ ARAÚJO. Acordo Militar Brasil-Estados Unidos (1952). In: ABREU, Alzira Alves de et al (coords.). Dicionário Histórico – Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. 64 Sendo assim, quando foi o ministro da Guerra, general Estillac Leal, atingido por discursos vindos da imprensa – no qual o Última Hora não relatou quais os periódicos – se posicionou este jornal com atitude que demonstrava ser de fato um periódico de apoio ao governo, pois em sua edição de 24 de janeiro de 1952 a manchete dizia da seguinte maneira sobre o acordo militar do Brasil com os Estados Unidos: “Assunto Subordinado ao Conselho de Segurança o Pacto com EE.UU” 214. O jornal fez questão de procurar o general Estillac, na intenção de entrevistá-lo e mesmo não o encontrando disponível para falar, justificou a questão que estava em debate da seguinte maneira: “quanto ao assunto divulgado pela imprensa, o Ministério da Guerra é órgão apenas de execução, sendo a matéria ligada diretamente ao Conselho de Segurança Nacional ou o Estado Maior das Forças Armadas”215. Através dessa postura, o Última Hora fazia o papel de amenizar a pessoa do general Estillac Leal diante de seus opositores, jogando diretamente para o Conselho de Segurança Nacional a responsabilidade do assunto referente ao pacto militar. Por outro lado, ao contrário de suas edições anteriores, a Tribuna da Imprensa se posicionou de forma bem diferente, pois em sua manchete de 14 de fevereiro de 1952 trouxe um novo olhar sobre os fatos. Antes estava apenas informando e sinalizando sobre o acordo militar. Todavia, vem nesta edição com uma postura crítica, usando a parte de editoriais, que não era o habitual para se referir a esse assunto, com um texto de dois parágrafos que questionava a falta de informações sobre o acordo militar e afirmava que essa questão estava relacionada à participação brasileira na Guerra da Coreia216. De fato, o jornal não se limitava apenas a esta intenção, mas mostrava o lado negativo para o Brasil nesse acordo, o que de certa forma deixava transparecer a postura do periódico ante o governo de Vargas, no qual sem ter grandes vantagens, o Brasil ainda se posicionava como um verdadeiro pedinte diante dos Estados Unidos. Nesse sentido, o texto afirmava da seguinte maneira: Em toda conversa sobre o assunto, entre os representantes autorizados dos governos dos dois países, surge sempre a menção aos dólares que o Brasil espera dos Estados Unidos, o que coloca a questão em termos extremamente desagradáveis para o Brasil. E isto sem a menor vantagem real para o país, pois este se põe numa situação de pedinte a sugerir barganhas217 214 Última Hora. 24/01/1952. 215 Última Hora. 24/01/1952. p.2. 216 Tribuna da Imprensa. 14/02/1952. p.4. 217 Tribuna da Imprensa. 14/02/1952. p. 4. 65 Moniz Bandeira nos mostra uma questão importante, pois durante as negociações desse acordo, o Brasil ficou na condição de fornecer importantes fontes de matérias primas aos norte-americanos e em grande quantidade. Tanto através de manganês, quanto de monazita. Por outro lado, Bandeira relata que o Brasil desejava que os Estados Unidos enviassem armamentos para as forças armadas brasileiras218. Nesse sentido de apoios e interesses, Moniz Bandeira afirma que “nem o Governo de Washington nem o do Rio de Janeiro podiam, na verdade, dissociar” (...) “o acordo econômico e o envio de soldados para a Coréia. Ambos serviam como instrumentos de pressão e de barganha”219. Logo, em 16 de fevereiro de 1952, o ministro das Relações Exteriores, João Neves da Fontoura, em uma carta direcionada ao presidenteGetúlio Vargas, reafirmava a pretensão dos laços com os norte-americanos, pois expunha sua visão positiva sobre o acordo militar do Brasil com os Estados Unidos. Dessa forma, o texto trazia as seguintes colocações: Conversei ontem com o General Cyro Espírito Santo Cardoso e o General Góes sobre o assunto referente à venda de monazita, assim como o Acordo Militar com os Estados Unidos. Depois das discussões entre os Delegados brasileiros e americanos quero crer que o texto está perfeito e que se enquadra com exatidão na ordem de prioridades do seu discurso as classes armadas220 É interessante observar, que enquanto estava ocorrendo os procedimentos sobre o acordo militar, a Guerra estava acontecendo na Coreia. Sendo assim, em 15 de março de 1952, exatos um mês após a publicação da Tribuna da Imprensa ter feito relações entre o acordo militar e a Guerra da Coreia, o Última Hora trazia em sua manchete a seguinte afirmação: “Prevista a Possibilidade de Envio de Tropas”. Nisso, podemos observar que, enquanto a Tribuna da Imprensa afirmava participação brasileira na Guerra da Coreia, como uma questão que estaria de fato envolvida nesse acordo, o Última Hora colocava que estava “Prevista a Possibilidade”, pois dentro do tratado militar havia a possibilidade de ajuda recíproca do Brasil para com os Estados Unidos, no caso de uma agressão estrangeira221. Podemos perceber, então, como o posicionamento dos periódicos se apresentaram de forma característico de sua opinião política, no qual se posicionavam 218 BANDEIRA, Muniz. Op. Cit. 219 Idem, Ibidem. p.329. 220 FONTOURA, João Neves da. [Carta] 16 fev. 1952. Rio de Janeiro [para] VARGAS, Getúlio. Nova York. 1f. Informações sobre o Acordo Militar entre o Brasil e os Estados Unidos. Documento de Arquivo Pessoal. CPDOC-FGV. 221 Última Hora. 15/03/1952. 66 para atacar ou defender uma situação que iria diretamente de uma posição a ser tomada pelo governo de Vargas. Assim, ainda na edição de 15 de março de 1952, o Última Hora ressaltava sobre a possível assinatura do acordo militar para essa data, expressando os passos que foram dados até essa realização222, o que expressava de certa forma os prosseguimentos de ambos os países nessa intenção. Logo, Maria Celina Soares D’Araújo nos mostra que o referido acordo foi assinado em 15 de março de 1952, em que a comissão vinda dos Estados Unidos para o Rio de Janeiro era chefiada pelo embaixador norte-americano Herschel W. Johnson. Segundo a autora, do lado brasileiro havia o ministro das Relações Exteriores João Neves da Fontoura, o chefe do Estado Maior das Forças Armadas, Góis Monteiro e o chefe do Estado Maior do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, sendo respectivamente o general Álvaro Fiúza de Castro, o almirante Raul San Tiago Dantas e o brigadeiro Vasco Alves Seco, dentre outros223. Logo após a assinatura do acordo militar, o Última Hora em sua edição de 17 de março de 1952 afirmava: “Novo Capítulo nas Relações Entre o Brasil – Estados Unidos”. Dessa maneira, podemos observar que mais um passo estava sendo dado nas relações entre o Brasil e os Estados Unidos. Assim, o jornal dedicava a matéria desse dia para confirmar a importância do acordo assinado entre estes dois países, mostrando a sua relevância na política externa, e chama os Estados Unidos como os “nossos amigos americanos do norte”. Esta conotação de amizade é ressaltada durante vários momentos do texto, apresentando uma expressão de proximidade utilizada pelo periódico para mostrar que nos interesses estratégicos de nosso país, estava sendo bem-vinda à relação assumida com os Estados Unidos, que compreendendo as necessidades brasileiras, fortaleceria essa relação. O Última Hora chegou até mesmo a utilizar as palavras do presidente Vargas, na intenção de ressaltar que a participação dos E.U.A., em colaboração as questões brasileiras, iriam proporcionar um melhor desenvolvimento para o país224. Entretanto, para Antônio Faria e Edgard de Barros, esse acordo militar assinado entre o Brasil e os Estados Unidos estaria condicionado as questões relacionadas diretamente ao momento da Guerra Fria. Segundo eles, 222 Última Hora. 15/03/1952. 223 Cf. Maria Celina Soares D’ ARAÚJO. Acordo Militar Brasil-Estados Unidos (1952). In: ABREU, Alzira Alves de et al (coords.). Dicionário Histórico – Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. 224 Última Hora. 17/03/1952. p. 23. 67 Na realidade esse Acordo era mais uma das aberrações da Guerra Fria, pois, alegando os dispositivos da Lei de Defesa e Assistência Mútua e da Lei de Segurança Mútua, criados entre 1949 e 1951, determinava a venda de nossos minerais atômicos – manganês, urânio e areias monazíticas – “in natura” e a baixos preços e fazia com que o Brasil aderisse, incondicionalmente, a toda e qualquer ação de guerra que os Estados Unidos empreendessem, alegando a defesa do “mundo livre”225 Desta maneira, podemos observar que após três meses da assinatura do acordo, o documento passou a ganhar um novo caráter, que era o de aprovação, que ainda precisaria ocorrer na Câmara dos Deputados e, posteriormente no Senado. Nesse sentido, o Última Hora, de 06 de junho de 1952, mostrou que com a análise desse acordo, por meio da reunião ocorrida no dia anterior, pela Comissão de Diplomacia da Câmara dos Deputados, foi possível perceber algumas dúvidas constitucionais nesse documento. Com isso, resolveu então essa Comissão ouvir a Comissão de Justiça, o que seria feito através do deputado Castilho Cabal que era membro da Comissão Diplomática e vice-presidente da Comissão de Justiça226. Assim, Nélson Werneck Sodré defende que ao se submeter a esse acordo, o Brasil criou uma questão negativa, no qual esse documento não era baseado na legislação brasileira, e sim na legislação norte-americana. Sendo assim, Sodré ainda mostraria que nos vários artigos desse acordo militar estavam representadas as vantagens que os Estados Unidos passariam a ter em relação ao Brasil, o qual se tornava submisso a essa potência estrangeira227. Nessa sequência de processos que envolveram a aprovação desse acordo, a Tribuna da Imprensa apresentou sua edição de 22 de outubro de 1952. Apesar da matéria dar voz ao relator da Comissão de Economia, Leoberto Leal - que afirmava não haver nada de errado no acordo – entretanto, a ênfase é voltada para mostrar que esse acordo se apresenta “prejudicial e humilhante para o Brasil”, o que foi visto por alguns deputados que pediram vista do processo, para assim poder estudá-lo melhor. Três pontos prejudiciais ao Brasil foram expostos no jornal: 1. Os Estados Unidos não assumem nenhuma obrigação categórica, pois que todas as suas obrigações ficarão na dependência de verbas orçamentárias. Basta que tais verbas não sejam votadas pelo Congresso americano para que tais obrigações sejam ilididas. 2. As armas recebidas pelo Brasil em virtude do cumprimento do acordo só poderão ser 225 FARIA, Antonio A. da Costa. BARROS, Edgard Luiz de. Op. Cit. p. 77. 226 Última Hora. 06/06/1952. p.3. 227 SODRÉ, Nélson Werneck. Op. Cit. 68 utilizadas na defesa do hemisfério. Dependerá de prévia licença do governo dos Estados Unidos a utilização dessas armas em atos para garantir a nossa segurança interna e até de legítima defesa. 3. Pelo “Battle-Act”, a que também ficamos obrigados em virtude do Acordo, o Brasil assume várias obrigações comerciais que ficam, entretanto, na dependência de um funcionário americano228 Podemos observar que diferentemente do que foi visto através da Tribuna da Imprensa, o Última Hora, em nenhum momento levantou alguma questão que pudesse colocar em insegurança as questões concernentes a esse referendo. Como exemplo, podemos mostrar que o termo usado pelo Última Hora, em sua última análise, foi o de ter sido encontrado “algumas dúvidas constitucionais”, enquanto a Tribunada Imprensa usou a expressão “Prejudicial e humilhante para o Brasil”. Nesse sentido, fica claro a diferença de posicionamento dos periódicos através do uso das palavras para poder expressar essas informações, outrora apresentadas. Posto isto, Maria Celina Soares D’Araújo nos apresenta que João Neves da Fontoura, enquanto ministro das Relações Exteriores passou a contactar os parlamentares, de forma que houvesse urgência na votação do acordo, visando que o mesmo fosse aprovado. Nesse sentido, teria apelado para o presidente Vargas, de forma que o mesmo orientasse Gustavo Capanema, que enquanto líder do governo na Câmara pudesse intervir para que não se atrapalhasse a votação, através de emendas e interpretações que pudessem prejudicar229. Dessa forma, em sua edição de 24 de outubro de 1952, A Tribuna da Imprensa dizia; “Sustada a Votação do Acordo Militar” e mais abaixo afirmava: “Capanema vai levar ao presidente da República as objeções levantadas na Comissão de Economia”. Dessa maneira, o contexto entre os parlamentares aumentava e Gustavo Capanema pediria o adiamento da votação, na intenção de conhecer as objeções que alguns deputados de oposição levantaram, levando o documento para a análise de Vargas230. No dia 31 de outubro, a Tribuna da Imprensa informou que: “Fracassou a reunião do Itamarati para tratar do acordo militar”231. Já o Última Hora, de forma diferente, se expressava da seguinte maneira: “Empolgante o Diálogo no Itamarati Entre Governo e 228 Tribuna da Imprensa. 22/10/1952. p. 3. 229 D’ ARAÚJO, Maria Celina Soares. Op. Cit. 172,173 230 Tribuna da Imprensa. 24/10/1952. p.3. 231 Tribuna da Imprensa. 31/10/1952 69 Oposição” e mais abaixo e em letras grandes afirmava: “Aprova a UDN o Acordo”232. É interessante observar a discordância que ocorre na abordagem de ambos os jornais, o que reforça as suas diferenças de opiniões ao abordar esse assunto. Um exemplo pode ser visto através da utilização das palavras, no qual a Tribuna da Imprensa utilizou o termo “fracassou”, enquanto o Última Hora usou a palavra “Aprova”, quando ambos os jornais tratavam de uma mesma notícia. Sendo assim, os periódicos ressaltavam os seus interesses em relação ao prosseguimento das questões concernentes a esse acordo. Analisando o assunto em questão, podemos perceber que o destaque que é dado pela Tribuna da Imprensa é de todo o momento poder mostrar os pontos negativos dessa reunião, pelo qual não teria produzido os resultados anunciados. O jornal fez questão de enfatizar que não era verdadeiro que a maioria dos parlamentares tivesse saído da reunião com a intenção de ratificar o tratado, abandonando assim as cláusulas que eles consideravam inconvenientes no referendo. De igual forma, desmentiu o fato das notícias que corriam por parte de alguns matutinos, dizendo que Osvaldo Aranha teria simplesmente defendido o acordo militar. Segundo o periódico, “Osvaldo Aranha fez objeções, por exemplo, à redação do acordo, que acha confusa e capaz de gerar as dúvidas que está gerando’233. Por outro lado, o Última Hora traria uma visão totalmente diferente dessa reunião, trazendo o destaque para a UDN – partido de oposição – mostrando que o mesmo, através de uma entrevista com o seu presidente, Odilon Braga, teria afirmada que agora estaria se sentindo à vontade para aprovar o pacto militar. O Última Hora ressaltaria ainda as palavras de Raul Fernandes, mostrando o destaque e as explicações que ele desenvolveu para se expressar sobre o acordo militar234. Dessa forma, ainda nesta edição, o Última Hora iria expor um resumo sobre o pacto militar, mostrando os pontos do acordo que tinham sidos debatidos e esclarecidos na reunião no Itamaraty235. Deste modo, Maria Celina Soares D’Araújo nos relata que “o texto do acordo, composto de 12 artigos, declarava, entre outras coisas, que o governo norte-americano se comprometia a fornecer equipamentos materiais e serviços ao Brasil, o qual, por seu lado, deveriam fornecer aos EUA materiais básicos e estratégicos”236. 232 Última Hora. 31/10/1952 233 Tribuna da Imprensa. 31/10/1952. p.3. 234 Última Hora. 31/10/1952. p.3. 235 Última Hora. 31/10/1952. p.4. 236 Cf. Maria Celina Soares D’ ARAÚJO. Acordo Militar Brasil-Estados Unidos (1952). In: ABREU, Alzira Alves de et al (coords.). Dicionário Histórico – Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. 70 Entretanto, é interessante observar que, um dia após o jornal Última Hora ter publicado esse resumo sobre o acordo militar, esclarecendo as questões do mesmo, a Tribuna da Imprensa lançou em sua edição de 1/2 de novembro de 1952 a seguinte expressão e em grande destaque: “TEXTO INTEGRAL DO ACORDO MILITAR” 237. Podemos observar que por meio dessa ação e dessa afirmação - texto integral - o jornal buscou mostrar e fazer com que o leitor passasse a conhecer na íntegra sobre esse documento, de forma a compreender as partes negativas, que segundo o periódico, havia nesse pacto. Dessa maneira, a Tribuna da Imprensa ressaltava o seu papel do periódico de oposição e pontuava de uma melhor maneira aquilo que não havia sido feito e transmitido pelo Última Hora, ressaltando de certa forma que esse acordo deveria ser compreendido pelo povo, no qual passariam a conhecer alguns pontos negativos que esse documento representava para o Brasil. Segundo a Tribuna da Imprensa: O assunto dominante, na imprensa e no Parlamento, é o acordo militar firmado entre o Brasil e os EE.UU. Todos falam dele, todos o comentam, mas o leitor, até agora, não o conhece. Deve conhece-lo. E para isso publicamos agora, na íntegra, nos termos em que se encontra na Câmara dos Deputados. O texto é difícil, com as suas remissões a leis norte-americanas e a outros tratados geralmente desconhecidos. Mas não tanto que não possa o leitor, examinando-o com cuidado, formar a sua própria opinião a respeito de certas cláusulas apontadas como lesivas aos nossos interesses econômicos e inaceitáveis pela nossa dignidade de nação soberana238 Sendo assim, os procedimentos sobre o acordo militar prosseguiram e a Tribuna da Imprensa, em sua edição de 04 de novembro de 1952 afirmava: “Volta a Debate o Acordo Militar”. Com isso, Capanema informou que levaria o documento com os esclarecimentos das cláusulas que haviam sido criticadas por Bilac Pinto e Hélio Cabal, assim que o documento fosse entregue por João Neves da Fontoura, retomando no dia seguinte os trabalhos sobre o acordo militar, pela Comissão de Economia. Entretanto, o jornal mostrou ainda que a UDN parou com seus estudos, sobre as inconveniências encontradas no acordo, pois o documento prometido por João Neves da Fontoura, após a última reunião no Itamaraty, ainda não tinha sido entregue à Afonso Arinos239. No entanto, um dia depois, Afonso Arinos receberia o material do acordo por parte do Itamaraty, assim como a Comissão de Economia receberia a carta entregue por Gustavo 237 Tribuna da Imprensa. 01 e 02/11/1952. p.3. 238 Tribuna da Imprensa. 01 e 02/11/1952. p.3. 239 Tribuna da Imprensa. 04/11/1952. p.3. 71 Capanema, com as respostas das críticas feitas pelos deputados Bilac Pinto, Hélio Cabal e Lobo Carneiro240. Podemos observar que durante esse período, houve de fato uma consideração sobre o acordo militar entre os parlamentares, no qual as discussões que ocorriam sobre pontos desse documento eram bem valorizadas pelos jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora, que constantemente estavam sendo apresentados nesta edição. Entretanto, enquanto o primeiro buscava reafirmar o posicionamento dos parlamentares que apresentavam esse pacto sendo negativo para o Brasil, o Última Hora, por sua vez, preferia por considerar aquilo que mostrava ser positivo em relação a esse acordo com os Estados Unidos. Sendo assim, em 06 de novembro de 1952, a Tribuna da Imprensa dizia: “Reiniciou-se a discussão sobreo acordo militar” e acima do início do terceiro parágrafo do texto dizia: “Estillac desmente João Neves”241. O Última Hora, trazia por sua vez, as seguintes expressões: “GÓIS E AS CRÍTICAS AO PACTO MILITAR”. “TUDO NÃO PASSA DE POESIA RUBRA”242. Podemos observar que o assunto em questão era o fato de ter havido ou não a participação do general Estillac Leal, enquanto ministro da Guerra na atuação dos assuntos concernentes a assinatura do acordo militar. Dessa maneira, podemos constatar que a Tribuna da Imprensa expõe a opinião do general Estillac, que de forma crítica desmente acusações feitas por João Neves da Fontoura, de que ele (Estillac Leal) tivesse participado das negociações do acordo militar243. Estillac chegou até mesmo a concordar com as críticas que estavam sendo levantadas sobre objeções e restrições no acordo, onde ocorria falta de clareza, que embora com rótulo de militar, o Itamaraty teria esquecido do ministério da Guerra. Sobre a atuação do general Estillac enquanto ministro da Guerra e sua participação nos procedimentos do acordo militar, podemos perceber, segundo Nélson Werneck Sodré, que o pedido de demissão do general Estillac, na função de ministro da Guerra, teve nesse acordo o seu motivo principal, pois o mesmo não teria participado dessas negociações244. Igualmente, Maria Celina Soares D’ Araújo destaca que “é interessante também ressaltar a participação secundária de Estillac Leal nas negociações do acordo 240 Tribuna da Imprensa. 06/11/1952. p.3. 241 Tribuna da Imprensa. 06/11/1952. p.3. 242 Última Hora. 06/11/1952. p.3. 243 Tribuna da Imprensa. 06/11/1952. 244 SODRÉ, Nélson Werneck. Op. Cit. 72 militar, que correm praticamente por conta de Góis Monteiro e, principalmente, de João Neves da Fontoura”245. Dessa maneira, para Moniz Bandeira, “a queda de Estillac Leal permitiu que a repressão se desencadeasse, dentro das Forças Armadas, sob a orientação direta de oficiais americanos”, no qual, “a cooperação dos Estados Unidos antecipou-se à aprovação, pelo Congresso, ao Acordo Militar”246. No entanto, o general Estillac não seria contra um acordo com os Estados Unidos, mas contra a maneira desse acordo ter sido firmado247. Segundo o próprio general: Pelo menos, enquanto ministro, nenhum convite recebemos nesse sentido e com essa amplitude, como também jamais conseguiu que nos esclarecesse sobre os tão falados “compromissos militares”, assumidos no campo internacional pelo nosso país, embora por mais de uma vez houvéssemos apelado para as luzes do dr. João Neves da Fontoura248 Por outro lado, o Última Hora traria uma visão bem diferente ao publicar uma entrevista com o general Góis Monteiro, o que pode ser caracterizado como uma forma de amenizar o tom crítico expresso pelo general Estillac Leal, sobre o acordo militar. Nesse sentido, Paulo Brandi nos mostra que houve realmente uma participação secundária do general Estillac nas negociações desse acordo, em que era de se esperar que o ministro da Guerra apresentasse uma oposição considerável sobre a ratificação desse documento249. Posto isto, o jornal procurou por vários momentos lembrar sobre a entrevista do general Estillac e sobre a participação de militares nesse acordo. Assim, o general Góis Monteiro se esquivou de falar sobre a postura do general Estillac, mas classificou essa atitude como uma questão de polêmica entre o ex-Ministro da Guerra e o Chanceler João Neves da Fontoura250. Ou seja, o Última Hora deu voz ao general Góis Monteiro, de forma a combater as críticas do general Estillac, sobre o acordo militar, trazido anteriormente pela Tribuna da Imprensa. Sobre a entrevista do general Estillac Leal, assim respondeu o general Góis Monteiro a Última Hora: “Li muito ligeiramente. Trata-se do começo ou da continuação de uma polêmica entre o Ministro das Relações Exteriores e o ex-Ministro da Guerra. É lógico que nela não devo me envolver, a menos que seja citado nominalmente como testemunha ou doutra maneira”251. 245 D’ ARAÚJO. Maria Celina Soares. Op. Cit. p.172. 246 BANDEIRA, Moniz, Op. Cit. p.338. 247 Tribuna da Imprensa. 06/11/1952. p.3. 248 Tribuna da Imprensa. 06/11/1952. p.3. 249 BRANDI, Paulo. Op. Cit. 252. 250 Última Hora. 06/11//1952. p.3. 251 Última Hora. 06/11/1952. p. 3. 73 Nesse sentido, durante os meses finais do ano de 1952, os jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora continuariam a fazer referência sobre as questões relacionadas à votação do acordo militar, o qual podemos perceber que todo esse processo sobre esse acordo que estava ocorrendo em 1952, seguiria durante o ano de 1953. Logo, em inícios de 1953, a Tribuna da Imprensa relatava a dificuldade que estava havendo, de o acordo militar estar pendente de aprovação no Congresso252. O Última Hora, por sua vez, mostrava que o Congresso deveria se pronunciar urgentemente sobre o acordo militar que já estaria pronto para ser votado após ter passado por várias discussões através das análises dos vários órgãos competentes253. Dessa maneira, através das edições dos jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora de 20 de fevereiro de 1953, podemos observar que ambos os periódicos se preocuparam em dar ênfase ao fato de mais uma vez ter sido protelado a votação do acordo militar na Câmara dos Deputados. A Tribuna da Imprensa ressaltaria ainda as três correntes para a votação do acordo. A primeira que buscava a votação integral, a segunda que esperava a aprovação com emendas, e a terceira que queria a rejeição integral do acordo254. O jornal classificaria como irresponsabilidade a falta de deputados para se realizar a votação do acordo255. O Última Hora justificaria de certa forma, apenas a falta de votação, mostrando que assim que houvesse número suficiente, ocorreria o pleito. Como vem acontecendo a vários dias, o acordo militar Brasil-Estados Unidos estará novamente hoje na ordem do dia na Câmara dos Deputados. Inúmeros deputados ainda se encontram nos seus Estados, em visita a seus colégios eleitorais, razão porque não tem havido número no Tiradentes para votação do convênio. Desse modo, em ordem do dia continuará o tratado, até que haja número para deliberar256 Dessa forma, tendo passado as dificuldades que haviam para que ocorresse o pleito entre os parlamentares, em que teria produzido um grande debate entre esses políticos, seria agora, o acordo levado a votação. Deste jeito, com a aprovação do acordo militar na Câmara, os jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora iriam se posicionar sobre essa questão, através da edição de 24 de fevereiro de 1953. A Tribuna da Imprensa expunha: “Aprovado o Acordo Militar” 257. O Última Hora, por sua vez, expressava: “Na 252 Tribuna da Imprensa. 12/01/1953. p.9. 253 Última Hora. 16/01/1953. p.1. 254 Tribuna da Imprensa. 20/02/1953. p.8. 255 Tribuna da Imprensa. 21 e 22/02/1953. p.3. 256 Última Hora. 23/02/1953. p.3. 257 Tribuna da Imprensa. 24/02/1953. p.3. 74 primeira etapa: Aprovado o Acordo Militar na Câmara dos Deputados” 258. Nesse sentido, após essa aprovação, que contou com um resultado de 135 votos a favor e 39 contra, faltariam agora serem votadas as emendas, que enquanto o Última Hora não havia expressado nenhuma opinião sobre o seu resultado, a Tribuna da Imprensa, por sua vez, apostava que os mesmos seriam rejeitados. Apesar dos esforços de João Neves para que houvesse uma rapidez da votação, o mesmo não teve esse sucesso. Sendo assim, Maria Celina Soares D’Araújo nos aponta que “a despeito dos esforços de João Neves, as reações negativas na Câmara dos Deputados fizeram com que o Acordo Militar tramitasse um ano nessa Casa só sendo aprovado em março de 1953”259. No entanto, no dia 26 de fevereiro de 1953, a Tribuna da Imprensa apontava: “Responsabilidade das Forças Armadas no Acordo Militar”. Trazia, de certa forma, a posição do ministro João Neves da Fontoura que atribuía às ForçasArmadas a apreciação, elaboração e participação nos processos desse acordo, no qual aproveitou para rememorar todos os percursos feitos até chegar a essa aprovação260. Dessa forma, podemos observar que essa publicação confronta, de certa maneira a postura levantada anteriormente pelo general Estillac Leal, em que afirmava não ter participado das questões concernentes ao acordo militar, assim como o ministério da Guerra. Consequentemente, as emendas que faltavam serem aprovadas pela Câmara dos Deputados foram concluídas em inícios de março, e os jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora se expressaram sobre esse resultado. A Tribuna da Imprensa dizia: “Concluída a votação do Acordo Militar” e mais abaixo afirmava: “Dupla interpretação da atitude de João Neves – Votação nominal: 141x43”261. O Última Hora assim se expressava: “Por 141 votos contra 43” e mais abaixo em caixa alta dizia: “AGORA, NO SENADO O ACORDO MILITAR”262. Assim, observando nos textos, ambos os jornais mostraram que o cenário para a ratificação do acordo se deu com a participação de vários oradores, sendo que apenas um discursou a favor. Nesse sentido, a Tribuna da Imprensa 258 Última Hora. 24/02/1953. p.3. 259 Cf. Maria Celina Soares D’ ARAÚJO. Acordo Militar Brasil-Estados Unidos (1952). In: ABREU, Alzira Alves de et al (coords.). Dicionário Histórico – Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. 260 Tribuna da Imprensa. 26/02/1953. p.10. 261 Tribuna da Imprensa. 06/03/1953. p. 3. 262 Última Hora. 06/03/1953. p.3. 75 apenas informou que “o único orador a defender o acordo foi o deputado Hélio de Macedo Soares”263. Já o Última Hora ampliou esse discurso, afirmando da seguinte maneira: A favor do projeto, discursou apenas o Sr. Hélio de Macedo Soares. Declarou o parlamentar fluminense que o Acordo fora elaborado com a participação ativa e inteira responsabilidade do Estado Maior das Forças Armadas do Brasil. Sua aprovação, assim, implicaria em reforço da defesa nacional e de nossa soberania264 Podemos ainda observar que enquanto a Tribuna da Imprensa ainda mostrava a fala do deputado Alberto Bottino que classificou que estaríamos diante de “um tratado infame”265, o Última Hora reforçava através do deputado Hélio Macedo Soares, que a sua aprovação representava a defesa da Soberania Nacional266. Logo, percebemos o posicionamento que foi dado por ambos os jornais, nos quais cada um, por meio da fala desses parlamentares - que mostravam opiniões totalmente antagônicas sobre o mesmo assunto - expressavam os seus interesses naquilo que deveria ser apresentado em suas manchetes, sobre esse assunto em questão. Hamilton Almeida destaca que o referido acordo representou uma das ações mais importantes do governo do presidente Vargas. Entretanto, ele não seria algo original, mas fruto de ações e obrigações de atos entre o Brasil e os norte-americanos. Os exemplos podem ser vistos através da Carta das Nações Unidas, do Tratado de Assistência Recíproca do Rio de Janeiro, em 1947, da Carta de Bogotá, de 1948, e as recomendações para a IV Reunião de Consulta de Ministros de Relações Exteriores das Repúblicas Americanas.267. Por outro lado, Edgard Carone vê esse acordo militar como um sinal da dependência do Brasil em relação aos Estados Unidos, no qual o presidente Vargas assina um documento que subordina o país à agressiva política dos Estados Unidos, que nesse ambiente de Guerra Fria procura os seus aliados para agir, no qual a Guerra da Coreia seria um primeiro momento de atuação268. Nessa sequência, foi nomeado para presidir a Comissão Militar Mista Brasil – Estados Unidos, o brigadeiro Eduardo Gomes, que através disso, seria segundo o Última Hora, o executor do pacto militar. O jornal indicou ainda que o Senador Álvaro Adolfo 263 Tribuna da Imprensa. 06/03/1953. p.3. 264 Última Hora. 06/03/1953. p.3. 265 Tribuna da Imprensa. 06/03/1953. p. 3. 266 Última Hora. 06/03/1953. p.3. 267 ALMEIDA, Hamilton. Sob os olhos de Perón. O Brasil de Vargas e as relações com a Argentina. Rio de Janeiro. Record, 2005. 268 CARONE, Edgard. A Quarta República (1945-1964). Rio de Janeiro-São Paulo. DIFEL. Difusão Editora S/A, 1980. 76 apontou a urgência, pois o mesmo deveria estar aprovado antes do dia 30 de abril 1953, porque “nesta data, estará terminando o orçamento dos Estados Unidos e certamente o Acordo terá que modificar dotações americanas”269. Nesse sentido, para Hamilton Almeida, a nomeação, em 1953, do brigadeiro Eduardo Gomes à presidência da Comissão Militar Mista Brasil-Estados Unidos, pelo presidente Getúlio Vargas, ajudou a aprovação do acordo militar no Senado. Nessa relação de apoios e interesses nesse acordo, Almeida nos mostra a discrepância entre os benefícios para o Brasil e os Estados Unidos270. Os Estados Unidos é que obtêm os melhores benefícios do convênio, visto que, enquanto o Brasil recebe escassos materiais bélicos para treinamento, sob a rigorosa supervisão de oficiais americanos, os produtos brasileiros de interesse estratégicos (minérios, aços, manganês etc.) estão saindo em grandes quantidades rumo aos portos americanos, sendo pagos, praticamente, a preço de custo. Esta é talvez, até agora, a principal consequência do Acordo de Assistência Militar271 Diante disso, logo após a aprovação do acordo pelo Senado, o qual teve um resultado de 40 votos a favor e 8 contra, o Última Hora apresentou a posição do Marechal Mascarenhas de Moraes, que desde 21 de janeiro de 1953 assumiu o Estado Maior das Forças Armadas no lugar do general Góis Monteiro, o qual mostrando o seu apoio a esse pacto feito entre o Brasil e os Estados Unidos e agora plenamente aprovado, dirigiu ao presidente Getúlio Vargas as palavras que representava a finalidade patriótica desse acordo, em que o general afirmou que: “em perfeita consonância com os interesses nacionais, apresento a vossa excelência, em meu nome e na do Estado Maior das Forças Armadas, congratulações pela ratificação desse importante instrumento por parte do Congresso Nacional”272 Em suma, podemos observar que as posições demonstradas por esses jornais durante esse período, possibilitou compreender os seus posicionamentos políticos. Ficou claro que o Última Hora procurou em todo o momento defender uma imagem que esse acordo militar era algo positivo para o Brasil. Já a Tribuna da Imprensa, em caráter diferente, se mostrava contrária a esse Pacto. Logo, para Maria Celina Soares D’ Araújo “o episódio do Acordo Militar constitui apenas uma das facetas das quais se pode analisar o enfraquecimento gradativo das 269 Última Hora. 27/03/1953. p.3. 270 ALMEIDA, Hamilton. Op. Cit. 271 Idem, Ibidem. p. 202. 272 Última Hora. 07/05/1953. p.1. 77 relações Governo-militares, bem como o conflito político ideológico dentro das Forças Armadas”273, no qual ela nos mostra que com a confirmação do acordo, ficou abalada a aproximação que o presidente Vargas tinha angariado ante aos setores nacionalistas militares, particularmente o Exército274. Segundo Boris Fausto, esse acordo militar foi motivo para muitas acusações terem sidas direcionadas a “subserviência” do presidente Vargas, no qual, entre os vários aspectos, o acordo militar incluía “o compromisso dos Estados Unidos de oferecer equipamentos e serviços ao Brasil, que por sua vez forneceria aos americanos materiais estratégicos, especialmente urânio e monazita”275, o que nos faz perceber o “jogo” político e ideológico que passou a existir no governo através desse pacto militar276. 2.3. E os militares? Vão ou não lutar na Guerra da Coréia? Dando sequência a essas relações entre as forças armadas e o governo de Vargas, podemos constatar a importância dessas relações no que diz respeito a influência dos Estados Unidos. Nesse sentido, ao tratamos da possível ida dos militares brasileiros para lutar na Guerra da Coreia, observamosque mais uma vez a conjuntura se relaciona com o contexto da Guerra Fria. A Guerra da Coreia (1950-1953), que surge um ano antes do início do governo democrático de Vargas (1951-1954), se apresenta como foco central dentro do período das disputas ideológicas entre os dois grandes vencedores da Segunda Guerra Mundial e, chama a atenção para os países da América Latina, no qual o Brasil se apresenta em destaque. Vágner Camilo Alves afirma que, dentre os países latino- americanos, o Brasil era o mais desejado pelos Estados Unidos, não apenas pelo peso que representava no continente americano, mas em função de ter se aliado, enquanto sul- americano, aos E.U.A. na Segunda Guerra Mundial277. Sendo assim, após poucos anos da intervenção brasileira na Segunda Guerra Mundial contra o Eixo e a favor dos Estados Unidos, estaria novamente o Brasil disposto a se envolver em um conflito de grande interesse para a ONU e para os norte-americanos? Segundo Celiane da Costa, a Guerra da Coreia foi: 273 D’ ARAÚJO. Maria Celina Soares. Op. Cit. p. 179, 180. 274 Idem, Ibidem. 275 FAUSTO, Boris. Op. Cit. p. 177. 276 D`ARAÚJO, Maria Celina Soares. Op. Cit. 277 ALVES, Vagner Camilo. Op. Cit. 78 Um conflito de grande relevância mundial, dado o contexto em que aconteceu. Excetuada a Crise dos Mísseis em Cuba, 1962, esse conflito marca o episódio mais intenso da Guerra Fria, em que estadunidenses e soviéticos enfrentaram-se, ainda que de forma indireta. A guerra iniciou em junho de 1950 quando os comunistas da Coréia do Norte, que tinham apoio da União Soviética e da China, invadiram a Coréia do Sul. Os Estados Unidos logo reagiram e enviaram tropas para defender seus aliados do sul, com apoio da Organização das Nações Unidas (ONU)278 Dentro desse aspecto da política externa do governo de Vargas, o Brasil foi convocado a participar desse conflito no continente asiático. Sendo assim, Antonio Faria e Edgard de Barros nos mostram que “no dia 27 de junho de 1951, o Itamaraty recebeu a nota do Secretário-Geral da ONU, requisitando soldados para combater na Coréia”279. Entretanto, o general Cordeiro de Farias foi um dos militares que se preocupou com as possíveis consequências que a Guerra da Coreia poderia trazer para o país. O general ainda observou a postura dos Estados Unidos nesse conflito, que atuaram, segundo ele, como uma forma de poder manter a sua autoridade no continente americano280, o que de certa forma representava a realidade daquele momento, no qual, no contexto da Guerra Fria, os Estados Unidos representava a potência máxima nesse continente. Igualmente, o marechal Henrique Teixeira Lott mostrou que a Guerra da Coreia “era uma guerra com a qual o Brasil nada tinha a ver. Não seria sensato sacrificar brasileiros numa luta que envolvia problemas de um outro povo”281. Podemos perceber através desse contexto, então, que desde a sua campanha eleitoral em 1950, o presidente Vargas já vinha apresentando interesses nacionalistas e de industrialização para o Brasil, e também se mostrava interessado em recursos que pudessem vir dos Estados Unidos, em que se tornava mais uma vez alvo de potências mundiais. Dessa maneira, a possível participação do Brasil nesse conflito poderia ser um meio alternativo em que Vargas pudesse angariar recursos materiais e financeiros para o país. Segundo Eduardo Munhoz Svartman, os Estados Unidos possuíam uma estratégia no início da Guerra Fria que atrelava a sua postura militar e a aproximação com aliados, 278 COSTA, Celiane Ferreira da. O posicionamento do Brasil na Guerra da Coréia (1950-1953). XXIX Simpósio Nacional de História. ANPUH. Brasília, julho 2017. p.1. 279 FARIA, Antonio A. da Costa. BARROS, Edgard Luiz de. Op. Cit. p.76. 280 CAMARGO, Aspásia. GÓES, Walder de. Meio século de combate: diálogo com Cordeiro de Farias. Rio de Janeiro, Nova Fronteira. 1981. p. 440. 281 LOTT, Henrique Baptista Duffes Teixeira. Henrique Teixeira Lott (depoimento, 1978) Rio de Janeiro, CPDOC, 2002. 14/11/1978. p.67. 79 que era justamente o de poder conter o avanço comunista282, e se tornar um país hegemônico na América. Nesse caso, estender a ajuda à países da América, não seria um ato perdido. Mônica Hirst nos indica que, com a vitória de Vargas nas eleições presidenciais de 1950, duas ênfases de governo foram objetivadas por ele em relação à política externa brasileira. Uma questão seria a ênfase ao nacionalismo, a outra estaria relacionada à expectativa de haver uma maior cooperação econômica por parte dos Estados Unidos. Mas é importante observar que a conjuntura da década de 1950 já não era mais a mesma da década de 1940283, e as condições não seriam tão favoráveis assim. Sendo assim, durante o período da Guerra da Coreia, mais especificamente no ano de 1951, os jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora expressaram os seus posicionamentos sobre a possível participação das tropas brasileiras nesse conflito. Com isso, podemos observar que já em inícios de junho de 1951, enquanto a Tribuna da Imprensa ainda não havia se manifestado sobre o envio de tropas para a Coreia, o Última Hora trazia a importância dessa situação, numa sequência de reportagens que iam reafirmando essa possibilidade. Em sua edição de 19 de junho de 1951, o Última Hora expressava em sua capa: “Envio de Tropas Brasileiras Para a Europa” e mais abaixo trazia uma reportagem com o seguinte tema: “SOLDADOS BRASILEIROS SOB O COMANDO DE EISENHOWER”. Nesse sentido, mostrava-se as possibilidades de o Brasil estar à disposição da ONU, enviando tropas para a Europa, que estaria sob o comando do general norte-americano Eisenhower. Entretanto, ainda não havia uma confirmação das autoridades brasileiras284. Essa posição seria reafirmada em sua edição de 20 de junho de 1951, quando expressou em sua manchete e em caixa alta: “NEVES CONFIRMA: HÁ SONDAGENS PARA O BRASIL ENVIAR TROPAS”, e mais abaixo em letras menores dizia: “A Questão Está em Estudo no Estado Maior”285. Podemos observar através dessas edições, que o Última Hora fez uma sequência de posicionamentos positivos sobre a ida dos militares brasileiros para a Coreia, o que de fato contribui para reafirmar o seu possível posicionamento de apoio a essa questão. 282 SVARTMAN, Eduardo Munhoz. Op. Cit. 283 HIRST, Mônica. Op. Cit. 284 Última Hora. 19/06/1951. p.1. 285 Última Hora. 20/06/1951. p.1. 80 Logo, notamos que o periódico nos mostrava o interesse pela participação das forças armadas brasileiras na Guerra da Coreia, como um assunto constante no cenário político e militar internacional e também no Brasil, em que João Neves, enquanto ministro das Relações Exteriores, já confirmava as sondagens que estavam ocorrendo para o Brasil enviar as tropas para a Guerra. Sondagens que estavam relacionadas a compromissos que o Brasil já havia firmado com a ONU e que agora, diante desse convite especificamente, estavam em processo de estudo no Estado Maior das Forças Armadas brasileiras286. Nesse sentido, Paulo Brandi observa que o pedido de envio de tropas brasileiras para lutar nesse conflito ocorreu exatamente no momento em que estava sendo estabelecidas as negociações entre o Brasil e os Estados Unidos, no sentido de assistência econômica. Para tal, Vargas se aproveitaria, segundo Brandi, para aumentar as exigências em relação a essas negociações287. Sendo assim, a questão trazida pelo Última Hora em torno do envio de militares brasileiros para lutar na Guerra da Coreia ganhou destaque com o parecer do ex- presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, Osvaldo Aranha. Todavia, este apresentava um posicionamento contrário a esse envio, o qual afirmava que o Brasil não deveria enviar tropas para a Guerra da Coreia, uma vez que o país não estaria obrigado junto a ONU a fazer tal ação. Para Osvaldo Aranha, essa seria uma responsabilidade da ONU e não deveria envolver o Brasil nesse conflito.Ele mostrou ter ficado surpreso ao ler as declarações feitas pelo ministro João Neves da Fontoura à Última Hora, no qual confirmava as sondagens diplomáticas que estavam ocorrendo junto ao governo, para que houvesse o envio de tropas brasileiras para o exterior288. Nesse sentido, Moniz Bandeira nos mostra esse lado de oposição por parte de Osvaldo Aranha, à ida dos militares brasileiros à Guerra da Coreia, o qual observava esse conflito como sendo sem finalidade, no qual o Brasil nem teria se engajado nesse sentido. Ou seja, “um erro que os Estados Unidos cometeram e do qual deveriam ir sozinhos”289. Entretanto, ele não se mostrou contrário a ida dos militares brasileiros para a Europa. Por essa atitude, o Última Hora, de 21 de junho de 1951, escreveu “Para a Coreia, não! Para a Europa, talvez”, fazendo alusão a opinião de Osvaldo Aranha. Mas, por outro lado, a visão de Aranha estaria 286 Última Hora. 20/06/1951. p.1. 287 BRANDI, Paulo. Op. Cit. 288 Última Hora. 21/06/1951. p.6. 289 BANDEIRA, Moniz. Op. Cit. 329. 81 condicionada a uma solidariedade à ONU e não a participação brasileira em uma Guerra290. Segundo ele, Acredito que essas forças, sem que se venham engajar numa guerra, que me parece impossível, ou pelo menos muito distante, desempenharão a função de testemunhar a nossa solidariedade a ONU, constituindo ao mesmo tempo uma guarda avançada de nossa soberania e das nossas ideias291 Uma questão importante a se observar é que dentro do contexto da atuação dos jornais, eles podem expressar a sua opinião propriamente dita, dizendo o que pensam sobre determinado assunto. Entretanto, podem também dar voz para que outros se manifestem, não sendo isso, necessariamente a opinião do jornal. Esta afirmação, se justifica pelo posicionamento dado anteriormente pelo Última Hora, que ao dar voz a Osvaldo Aranha, que se mostrava contrário a esse envio, o qual não era esse o posicionamento que o jornal defendia. Assim, o Última Hora prosseguia e, em sua edição de 22 de junho de 1951, trazia na parte alta de sua primeira página: “CONTRA REMESSA DE TROPAS BRASILERIAS” e mais abaixo dizia “ASSIM OPINA A MAIORIA. SENADORES, DEPUTADOS E VEREADORES, OUVIDOS POR “ÚLTIMA HORA””. O jornal daria sequência a sua primeira entrevista, e procurou saber a opinião de senadores, deputados e de vereadores sobre a ida das tropas brasileiras para a Coreia. Em sua maioria, os políticos se mostraram contrários a esse envio, sendo raros os que foram favoráveis e outros que, desconhecendo o assunto em profundidade, preferiram se reservar292. Entretanto, podemos observar que o posicionamento do Última Hora não era propriamente contrário a ida dos militares brasileiros à Coreia, pois nessa mesma edição, o responsável por esse jornal, Samuel Wainer, em sua Coluna de Última Hora, se expressava sobre essa questão da seguinte maneira Cerca de trinta nações já participam das forças das Nações Unidas na Coréia. Agora, tudo indica, que chegou a vez do Brasil tomar posição nesse sentido. A notícia divulgada por Última Hora sobre as sondagens que vem sendo realizadas junto ao governo brasileiro para contribuir com contingentes humanos para as tropas aliadas, está plenamente confirmada. As declarações que o sr. João Neves nos fez a respeito, foram categóricas. 290 Última Hora. 21/06/1951. p. 6. 291 Última Hora. 21/06/1951. p. 6. 292 Última Hora. 22/06/1951. p. 1 e 3. 82 Subscrevemos a Carta de São Francisco e hoje, como sempre, não pensamos em fugir aos nossos compromissos293 Com isso, podemos observar que essa questão sobre envio de tropas para a Coreia, colocava o presidente Vargas em difícil situação, pois apesar de ter que se pronunciar sobre esse assunto, encontrava-se através das forças militares, posições opostas sobre essa questão. Sendo assim, o Última Hora enquanto jornal de apoio ao governo, faria, de certa forma um papel agradável aos olhos dos Estados Unidos, pois ao se posicionar de forma estratégica e equilibrada, não deixava de informar e levar o assunto adiante, sem no entanto se posicionar definitivamente sobre a sua intenção sobre esse conflito, o que automaticamente poderia refletir a opinião por parte do governo. Nessa mesma seção, o Última Hora aproveitaria para justificar as entrevistas que foram feitas, tanto a de Osvaldo Aranha, quanto aquelas feitas com outras figuras do Congresso, e que prosseguiria ouvindo nas ruas à voz do povo, para que os mesmos se fizessem presentes nesse debate, o qual respondendo às críticas feitas a esse jornal, o periódico mostrava que tal postura é “um grande serviço que podemos prestar não só ao governo, como a nação em geral”294. Este posicionamento ainda seria reafirmado por Samuel Wainer, que, em sua Coluna de Última Hora, mostrava que a questão relacionada à remessa de tropas para a Coreia já tinha passado de cogitações, no qual o Itamaraty e o Estado Maior Geral das Forças Armadas estavam preparando uma resposta à ONU, e afirmava que, mesmo que ocorresse a paz na Coreia, “a possibilidade de remessa de tropas brasileiras para o exterior continuará a existir e a ser um problema de interesse e discussão nacional”295. Desta maneira, em outra Coluna de Última Hora, seria ainda reafirmado esse posicionamento, em que Wainer expressava que “a decisão do Brasil seria, portanto, estritamente moral, mas seus efeitos poderão ser traduzidos em consequências materiais de maior importância para o país”296, fato que diante desse assunto, as questões de cunho econômico e político se tornam coisas consideráveis. Nesse sentido, para Antonio Faria e Edgard de Barros, enquanto Vargas percebia ser possível ganhar algo em troca dos Estados Unidos, no que dizia respeito a questão da Guerra da Coreia, o mesmo evitava 293 Última Hora. 22/06/1951. p.1. 294 Última Hora. 22/06/1952. p.1. 295 Última Hora. 25/06/1951. p.1. 296 Última Hora. 26/06/1951. p.1. 83 deixar claro a sua posição. No entanto, ao perceber que os Estados Unidos não dariam nenhuma compensação a esse respeito, o presidente optaria por desconsiderar essa possibilidade de envio de tropas297. Dessa forma, podemos observar que apesar do Última Hora trazer a opinião de pessoas que se mostravam contrárias a ida dos militares para a Guerra na Coreia, no entanto, através de Samuel Wainer, na sua Coluna de Última Hora, realçava-se a importância de atender aos convites de política externa feitas nesse sentido. Com isso, a partir desse momento, dando sequência a essas questões, a Tribuna da Imprensa passou a dialogar com o Última Hora. O primeiro mostrava que continuava os entendimentos para o envio de tropas, afirmando que o governo brasileiro parecia estar nesse propósito, seguindo o exemplo feito pela Colômbia, que havia mandado tropas para a Coreia298. Nesse sentido, Vágner Camilo Alves nos apresenta que um dos fatores sobre a ambição dos Estados Unidos pelo Brasil, era o fato do Exército brasileiro ter experiência moderna em combate e ser considerado o maior na América do Sul. Ainda assim, os gastos com as questões diversas na guerra seriam por conta dos Estados Unidos299. A Tribuna da Imprensa entrevistaria o marechal Mascarenhas de Moraes, que preferiu não responder sobre o envio de tropas para a Coreia300. O Última Hora, por sua vez, seguiria em concordância com esse procedimento, mostrando as palavras do ministro da Guerra, general Estillac Leal, que assim afirmou a Última Hora: Nada existe de positivo, ainda: tudo procedeu de um memorando do secretário da ONU, segundo os jornais. De forma que nada posso acrescentar, ao que já disse anteriormente, senão que o Exército está trabalhando sem alardes e cumprindo rigorosamente seus deveres301 A partir de sua edição de 28 de junho de 1951, a Tribuna da Imprensa passou a deixar mais nítido o seu posicionamento contrário a ida dos militares brasileiros para a Guerra da Coreia.Em sua manchete, na primeira página, o periódico expressava: “NINGUEM PARA A COREIA” e mais abaixo dizia: “NÃO SE TROCA POR DÓLARES A VIDA DOS BRASILEIROS”. Esses termos colocados na capa, seriam expressos em um texto extenso na sua quarta página, em que Carlos Lacerda mostrava o ponto de vista desse jornal, defendendo de certa forma, a permanência dos militares no Brasil. A opinião 297 FARIA, Antonio A da Costa. BARROS, Edgard Luiz de. Op. Cit. 298 Tribuna da Imprensa. 27/06/1951. p.1. 299 ALVES, Vágner Camilo. Da Itália à Coréia: decisões sobre ir ou não à guerra. Belo Horizonte. Editora UFMG; Rio de Janeiro: IUPERJ, 2007. 300 Tribuna da Imprensa. 27/06/1951. p. 1 e 10, 301 Última Hora. 27/06/1951. p.3. 84 de Lacerda, não seria propriamente um posicionamento contrário a ONU, e não era apenas de defender a posição contrária a ida dos militares para a guerra, mas deixava clara a mensagem direcionada ao governo Vargas, o qual, segundo ele, por interesses econômicos, estaria por sacrificar a vida de militares brasileiros, trocando-as por dinheiro302. Concluindo o seu texto, Lacerda afirmava: “Somos contra a participação militar na guerra da Coreia. Exigimos do sr. Getúlio Vargas que não troque vidas de brasileiros por dólares. Reclamamos coerência do ministro da Guerra. A vida dos brasileiros não está à venda. Não somos uma nação de mercenário”303. De certa forma, podemos perceber que Lacerda fazia uso de sua expressão política através do jornal, o qual usando essas reportagens podia reafirmar a sua oposição ao governo do presidente Vargas, no qual a possibilidade de perder militares em plena guerra que não nos dizia respeito, seria um fator relevante para ele se posicionar. Enquanto isso, o Última Hora, também em sua edição de 28 de junho de 1951, trazia em sua manchete na primeira página o seguinte termo: “A Nota da ONU Chegou Esta Manhã ao Itamarati”. Esta, refletia a decisão da Assembleia das Nações Unidas e, a partir desse momento, o Brasil deveria se posicionar, tendo em vista ter assumido compromissos de solidariedade a manutenção da paz e da segurança internacional ao concordar com a Carta da organização. Restava saber de que maneira o Brasil prestaria o seu auxílio304. A Tribuna da Imprensa, em discordância, mostraria que o documento direcionado por João Carlos Muniz, entregue a João Neves da Fontoura, sobre o envio de tropas, ainda não havia chegado ao Itamaraty305. Assim, reafirmando o seu ponto de vista contrário a ida de tropas brasileiras para a guerra na Coreia, a Tribuna da Imprensa expunha em sua primeira página, de 29 de junho de 1951, em grande destaque: “NÃO QUER O POVO IR PARA A COREIA” 306. Nesse sentido, Moniz Bandeira nos mostra como que estava se expressando essa questão da Coreia pela opinião pública brasileira, no qual reagindo a essa intervenção do Brasil numa possível ida dos militares brasileiros para a Coreia, o qual mostrava que os muros das cidades eram pintados com os dizeres de negação a essa questão307. Sendo assim, a 302 Tribuna da Imprensa. 28/06/1951. p.1 e 4. 303 Tribuna da Imprensa. 28/06/1951. p.4. 304 Última Hora. 28/06/1951. p.1 e 2. 305 Tribuna da Imprensa. 28/06/1951. p.1. 306 Tribuna da Imprensa. 29/06/1951. p.1 e 10. 307 BANDEIRA, Muniz. Op. Cit. p. 331 85 postura do jornal, pode ser vista como uma resposta ao Última Hora, que em edição anterior, havia feito uma pesquisa com o povo, para saber a sua opinião sobre a ida de militares para lutar na Guerra da Coreia, e agora, nessa edição, a Tribuna da Imprensa afirmava que o povo não desejava ir para a Coreia. No entanto, enquanto a Tribuna da Imprensa reforçava o seu posicionamento contrário a essa questão, o Última Hora, em mesma edição, de 29 de junho de 1951, não trazia nenhum posicionamento negativo sobre esse mesmo assunto. O jornal trazia apenas um pequeno texto que informava sobre a reunião que o presidente Getúlio Vargas havia convocado para o dia seguinte, no Palácio do Catete, com o Conselho de Segurança Nacional, o que mostrava a posição do Brasil para a participação de militares nessa Guerra. De forma positiva, o Última Hora assim se expressava: Apesar do absoluto sigilo, em torno da importante decisão, estamos absolutamente informados que o Brasil, na sua resposta à ONU, reafirmará sua integral fidelidade aos compromissos internacionais, que assumimos por ocasião da assinatura da Carta de São Francisco308 Seguindo em sequência aos posicionamentos desses periódicos, podemos observar que apesar de os mesmos tratarem de um mesmo assunto – possível participação de militares na Guerra da Coreia – as suas abordagens eram diferentes, pois de fato as suas opiniões eram opostas sobre essa questão. Na sua edição de 30 de junho de 1951, a Tribuna da Imprensa reforçava ainda mais o seu posicionamento, trazido em edições anteriores, e reafirmava constantemente, de forma que pudesse mostrar ser contrário a ida dos militares para a Coreia. Se expressando de forma a chamar toda a atenção para o texto e ocupando boa parte da primeira parte do jornal: “NINGUÉM PARA A COREIA. A RESPOSTA DO BRASIL”309. Nesta mesma edição, mas em outra manchete, o periódico trazia em sua capa, um texto de Carlos Lacerda, o qual tinha o seguinte tema: “NÃO”. Lacerda mostrava que era um direito poder dizer não para a ida dos militares para a Guerra na Coreia, onde o Brasil não estaria preparado para suportar tal questão. Lacerda criticava ainda as más intenções do presidente, o qual assumindo essa postura, estaria de certa forma valorizando os seus interesses por dólares310. Dessa maneira, Celiane Costa nos mostra a oposição que se dava ao governo Vargas, no qual procurava as brechas que pudesse explorar para poder enfraquecê-lo. No entanto, Vargas procurava se equilibrar, 308 Última Hora. 29/06/1951.p.1. 309 Tribuna da Imprensa. 30/06/1951. p. 1 e 6. 310 Tribuna da Imprensa. 30/06/1951. p. 1. 86 pois através de sua aproximação pragmática com os Estados Unidos, algo negativo poderia criar afastamento de investimentos que haviam sido assegurados pelos Estados Unidos311. Observamos que enquanto a Tribuna da Imprensa mostrava ser totalmente contrária a ida dos militares brasileiros para guerra da Coreia, sendo categórica em seu posicionamento. O Última Hora deixava transparecer ser favorável a esse envio, pois constantemente reafirmava essa possibilidade. Entretanto, não parava por aí, pois Samuel Wainer ainda através de sua Coluna de Última Hora, aproveitaria para contra-atacar a Tribuna da Imprensa, que através de sua posição contrária a ida dos militares para a Coreia, estaria de certa forma escondendo os seus verdadeiros interesses. Para Wainer, a Tribuna da Imprensa almejava a seguinte proposta: Capitalizar a simpatia das grandes massas brasileiras, ostensivamente hostis a ideia de remessa de tropas e criar dificuldades ao governo, certamente em dificuldades para definir, nessa emergência, sua posição perante os graves compromissos internacionais que assumimos após 1945312 Nesse sentido, a questão envolvendo a nota do Conselho de Segurança Nacional tomou importância entre os dois periódicos, os quais se expressaram em suas edições de 02 de julho de 1951. A Tribuna da Imprensa trazia em grande destaque em sua primeira página: “ENVIO DE TROPAS PARA A CORÉIA” e mais abaixo em letras maiores: “NÃO AGRADOU, A NOTA DO GOVERNO”. Nessa nota, ficou expresso os compromissos do Brasil pela cooperação econômica, política e militar, mas deixou claro que o Brasil não apresentava contingente para a guerra. O periódico mostrou ainda ter ouvido diversos parlamentares, os quais em sua maioria, mostraram não se agradar pela nota do Conselho de Segurança Nacional313. Nesse sentido, Muniz Bandeira nos mostra que na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, podia ver a expressão do vereador da UDN, Luís Paes Leme, que junto com outroscolegas – através de um documento – apelavam para que o governo Vargas não enviasse soldados para à Coreia. Entretanto, outros vereadores retiravam as suas assinaturas do documento, provocando confusão e aumentando o debate entre os vereadores na discussão do assunto314. 311 COSTA, Celiane Ferreira da. Op. Cit. 312 Última Hora. 30/06/1951. p.1. 313 Tribuna da Imprensa. 02/07/1951. p.1 e 6. 314 BANDEIRA, Muniz. Op. Cit. p.331. 87 O Última Hora, por sua vez, trazia o seguinte tema: “DEBATE SECRETO NO C.N.S”. Esse caráter secreto, seria para o Última Hora a possibilidade de poder perceber que o Brasil estava em difícil situação no contexto internacional e por isso, o conteúdo da nota não teria vindo a público. O periódico apresentou ainda a opinião do general Góis Monteiro, que apontou que o Brasil não se encontrava em condições de preparo e afirmou que o Exército estava desaparelhado para enfrentar uma possível guerra. As críticas do general foram direcionadas ao governo anterior, de Eurico Gaspar Dutra, que não teria dado a manutenção necessária para os equipamentos bélicos do Exército brasileiro. Diante disso e “com os recursos de que dispõe (...) o Brasil não poderia enfrentar tão grave situação, impondo-se que medidas dessa ordem fossem consertadas imediatamente, visando a restauração do Exército, da Aeronáutica e da Marinha”315. O jornal Tribuna da Imprensa mostraria também um discurso feito pelo senador Ismar de Góis, que afirmou estar desaparelhado e despreparado o Exército brasileiro para a guerra na Coreia. Ismar de Góis ainda teria criticado o projeto sobre Tiros de Guerra e a falta de reforma do sistema militar316. Nesse embate midiático das questões sobre a Guerra da Coreia, os jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora passaram a travar um papel de grande discordância, no qual em apenas dois dias de notícias, os mesmos se colocaram numa posição de provocação. Em sua edição de 02 de julho de 1951, o Última Hora em uma das suas manchetes dizia: “Torpe provocação à custa da Coreia”. O jornal procurou mostrar que a Tribuna da Imprensa teria publicado que o governo pretendia mandar oito mil militares para a guerra na Coreia, atendendo a um pedido da ONU, que queria um número de dezesseis mil soldados. Para piorar, o Última Hora mostraria ainda que a Tribuna da Imprensa teria calculado o valor em dólares que cada soldado iria valer, num valor de dezoito dólares e setenta e cinco centavos317. O Última Hora assim continuava: É evidente que se trata de uma das mais torpes provocações às custas da Guerra na Coréia. Notícia forjada na própria redação, é típica de certo gênero de jornalismo que não trepida em cavar falsa popularidade ainda que tenha de lançar a inquietação no seio da população (...) A nota da reunião do Conselho Nacional de Segurança desmascarou tacitamente a provocação, mas é necessário que esses escabrosos métodos da imprensa amarela sejam 315 Última Hora. 02/07/1951. p. 5. 316 Tribuna da Imprensa. 13/07/1951. p.4. 317 Última Hora. 02/07/1951. p.3. 88 nitidamente denunciados para que o povo não continue (...) servindo de plateia para o ignóbil sensacionalismo de falsos profissionais318 A Tribuna da Imprensa responderia imediatamente as provocações do Última Hora, na sua edição de 03 de julho de 1951, na parte “Prezado Leitor”, afirmando que realmente teria publicado a nota da ONU, em que a sugestão era que o Brasil enviasse dezesseis mil soldados para a Coreia e que o Governo pensava em oito mil e, afirmou ainda que o Governo pretendia um empréstimo dos Estados Unidos no valor de 300 milhões de dólares, e calculou o valor que representaria cada militar brasileiro319. Dentro desse contexto de relações e interesses entre o Brasil e os Estados Unidos, Moniz Bandeira nos mostra que os E.U.A. não atendiam as reivindicações por parte do Brasil. “Nem mesmo liberara os financiamentos, inclusive os 300 milhões de dólares, que João Neves negociara, nos primeiros meses do Governo”320. Nesse sentido, Bandeira nos mostra que as conversações iam se esfriando, no qual Vargas percebia que não iria conseguir nenhuma vantagem dos Estados Unidos. Sendo assim, nada compensaria a participação brasileira nessa guerra, “distante e impopular, com os riscos que acarretaria para a situação interna de seu Governo”321. Entretanto, a Tribuna da Imprensa afirmava que: Ontem o jornal do Governo (...) vem dizendo que isto é “torpe exploração” de nossa parte. Pois se é para desmentir a nossa notícia, nada mais fácil do que publicar a nota da ONU a qual nem se faz referência (...) Não acham que deveriam publicar para acabar com a “torpe exploração”?322 Dessa forma, Samuel Wainer utilizaria ainda a sua Coluna de Última Hora, na edição do jornal de 04 de julho de 1951, para desmentir as afirmações feitas pela Tribuna da Imprensa – em sua edição anterior – sobre o número de militares que teriam sido calculados pela ONU e pelo Governo de Getúlio Vargas. “Nunca ninguém, nem Truman, nem Trygue Lie, nem João Neves fez a menor referência ao número de homens a ser enviado para qualquer país”. Wainer afirmaria ainda que “a divulgação do memorando 318 Última Hora. 02/07/1951. p.3. 319 Tribuna da Imprensa. 03/07/1951. 320 BANDEIRA, Muniz. Op. Cit. p. 333 321 Idem. Ibidem. p. 334 322 Tribuna da Imprensa. 03/07/1951. p.1 89 da ONU veio caracterizar melhor ainda a essência torpemente provocativa da notícia forjada em torno da suposta remessa de 16.000 brasileiros para a Coréia”323. Contudo, o Brasil enviaria uma nota aos Estados Unidos, através do seu Conselho de Segurança Nacional, sobre o envio de tropas, o que foi exposto pelo Última Hora que afirmava: “SATISFAÇÃO NOS EE. UU. PELA NOTA BRASILEIRA”. A nota foi recebida com satisfação pelos norte-americanos, que dirigiram ao ministro João Neves da Fontoura, através do embaixador Herschel Johnson, afirmando ser louvável o gesto do Brasil, na sua reafirmação aos compromissos com a ONU324. Em função dessa mesma nota, a Tribuna da Imprensa apenas demonstrava em sua manchete aquilo que a ONU e os Estados Unidos almejavam: “A ONU QUER SOLDADOS BRASILEIROS”. Nesse sentido, esperava em breve, o embaixador João Carlos Muniz, entregar informações concernentes a essa nota325. Sendo assim, Celiane Costa relata que no lado interno a questão estava complicada para o presidente Vargas. De um lado estavam aqueles que o pressionavam para que o Brasil organizasse tropas para ir a Coreia, nos quais: a UDN, a grande imprensa e os militares “liberais”. Por outro lado, o PCB, a ala nacionalista das Forças Armadas e parte da opinião pública, eram contrários ao envio de tropas para esse conflito326. Na edição do Última Hora, de 06 de julho de 1951, a manchete anunciava: “RESPOSTA DO BRASIL À ONU” e mais abaixo dizia “Não temos tropas em condições de seguirem para a Coreia”. Nessa reportagem, explicava a situação brasileira para o envio de soldados para a Coreia, o que já havia sido informado em nota pela reunião do Conselho de Segurança Nacional, de que o Brasil carecia de tropas devidamente instruídas para serem enviadas, tendo em vista motivos econômicos e técnicos, mas buscava, de certa forma, cumprir os seus compromissos internacionais327. Com isso, os desencontros entre os dois jornais continuariam. Nesse sentido, a Tribuna da Imprensa mostrava que o Brasil teria dado a resposta a ONU, que teria tropas para enviar para a Coreia328. O Última Hora responderia que não dependeria de Góis Monteiro a responsabilidade para o envio de tropas, o que estaria restrito ao Conselho de 323 Última Hora. 04/07/1951. p.1. 324 Última Hora. 05/07/1951. p.1. 325 Tribuna da Imprensa. 06/07/1951. p.1. 326 COSTA, Celiane Ferreira da. Op. Cit. 327 Última Hora. 06/07/1951. p.6. 328 Tribuna da Imprensa. 12/07/1951. p.1. 90 Segurança Nacional329. A Tribuna da Imprensa rebateria, atravésde um pequeno texto, na parte “Prezado Leitor”, mostrando a falta de sinceridade do governo brasileiro, no caso relacionado ao envio de soldados para lutar nessa guerra, mostrando que em uma nota o Última Hora mostrava ao povo que não havia prometido o envio de tropas, mas em outra, direcionada a ONU, mostrava a posição positiva para isso330. Mediante a possibilidade do envio de tropas brasileiras para a guerra, e desse envio poder estar constando do acordo militar feito entre o Brasil e os Estados Unidos, o Última Hora expressou em sua manchete de 15 de dezembro de 1952: “Não Existe o Compromisso de Enviar Tropas Para o Exterior no Acordo Brasil – EE.UU”. Nesse sentido, se fez explicar pelo deputado Artur Santos que o acordo militar trata de auxílio a guerra no caso de guerra de agressão, conforme tratado no acordo de um Estado americano ser agredido por outro Estado não americano, o que de fato não estava ocorrendo. Nesse sentido, explica o deputado que para a ida dos militares brasileiros a Guerra da Coreia, seria necessário passar pela aprovação do Congresso Nacional, pois no acordo militar Brasil-Estados Unidos não havia nenhum compromisso quanto ao envio de tropas331. Dessa forma, Nélson Werneck Sodré, ao analisar as questões da Guerra da Coreia, observou o posicionamento dos Estados Unidos nesse conflito, pois antes mesmo da ONU intervir, os norte-americanos já combatiam na Coreia. Sodré aponta essa intervenção dos Estados Unidos como sendo um ato de brutalidade do imperialismo estadunidense que representava por certo as características da Guerra Fria. Nessa empreitada, ocorria a pressão para que os países do continente americano pudessem atuar nessa guerra, nesse caso em específico o Brasil. Para o autor, os Estados Unidos não dependiam da ajuda brasileira ou de outros países da América, mas queriam tê-los sob seu julgo, forçando o Brasil a participar militarmente de um conflito que não lhe interessava332. Logo, podemos dizer que o clima que se constituiu entre o Brasil e os Estados Unidos sobre a remessa de tropas brasileiras para lutar na Guerra da Coreia passou a ser marcado por incertezas, em que as opiniões se divergiam, tanto entre os setores militares e setores políticos brasileiros, ocasionando um quadro de instabilidade entre os mesmos. Por mais que o convite para a participação brasileira na guerra tenha sido feito pela ONU, 329 Última Hora. 12/07/1951. p.1. 330 Tribuna da imprensa. 13/07/1951. p.1. 331 Última Hora. 15/12/1952. p. 4. 332 SODRÉ, Nélson Werneck. Op. Cit. 91 fato é que os Estados Unidos, enquanto força em evidência já se destacava como controlador e direcionador de uma política de comando na América, e iria reafirmar esse convite e se tornar ele próprio o interessado em tal participação militar. Nesse contexto, Celiane Costa indica que havia dois grupos que divergiam sobre as relações do conflito da Guerra da Coreia, os liberais e os nacionalistas. Os liberais eram a favor do alinhamento do Brasil aos Estados Unidos, o que de certa forma faria com que o Brasil estreitasse relações com os norte-americanos. Um dos partidários seria, segundo a autora, o Ministro das Relações Exteriores, João Neves da Fontoura. Já os nacionalistas defendiam um distanciamento em relação aos Estados Unidos, discordando dessa participação dos militares brasileiros nessa Guerra no continente asiático333. Segundo a autora, Assim como no quadro político geral, nas Forças Armadas também era possível fazer a divisão entre “nacionalistas” e “liberais”. Os nacionalistas não viam com bons olhos o capital estrangeiro e a subordinação aos Estados Unidos como maneira para alcançar o projeto de industrialização. Os liberais temiam que ao invés do capital estrangeiro, a classe operária se mobilizasse para atingir a riqueza334 Com isso, o clima sobre o envio de tropas brasileiras para a Coreia tomou um aspecto diferenciado entre os periódicos, e a Tribuna da Imprensa que já havia se declarado oficialmente contrária ao envio de tropas para a Coreia, passou a publicar uma sequência de edições nos quais mostrava a opinião de pessoas que eram favoráveis a ir para o conflito na Ásia. O aspecto que passou a surgir naquele momento foi o de um voluntariado para a guerra, em que o capitão Humberto Brandão se colocou à disposição desse propósito335. No entanto, apesar da maioria de militares, políticos e pessoas de maneira em geral serem contrárias a ida de militares brasileiros para lutar na Guerra coreana, alguns outros, porém, se diziam a favor e até se colocaram à disposição para irem lutar nessa guerra. Essa proposta de voluntariados foi bem recebida pelo general Caiado de Castro, chefe da Casa Militar da presidência da República, que mostrou a sua opinião favorável e declarou receber como honra se tivesse que comandar uma tropa na Guerra da Coréia336. O jornal Última Hora, no entanto, mostraria em sua edição de 11 de 333 COSTA, Celiane Ferreira da. Op. Cit. 334 Idem, Ibidem. p. 10. 335 Tribuna da Imprensa. 02/02/1953. p.1. 336 Tribuna da Imprensa. 07 e 08/02/1953. p. 1. 92 fevereiro de 1953, através do Coronel Carlos Americano Freire, que esclareceria que as questões levantadas sobre o voluntariado para a Coreia eram questões infundadas337. Sendo assim, o contexto de interesses para participação brasileira em um conflito no continente asiático não se concretizou e o Brasil não enviou tropas para lutar na Guerra da Coreia. Logo, Celiane Costa nos mostra que desde 1951, o presidente Vargas não alterou o seu posicionamento ao envio de tropas para a Guerra da Coreia. Mas de acordo que o conflito ia terminando, foi se perdendo essa importância. Nesse sentido, sem uma solução interna sobre essa questão, a atuação das tropas brasileiras se tornou inviável. Para Costa, Vargas agiu com cautela e manteve bom relacionamento com os Estados Unidos e atendeu aos liberais e agradou os nacionalistas com o não envio de tropas para a Coreia338. Isso de certa forma nos demonstra que apesar de o Brasil ter apresentado para os Estados Unidos uma grande possibilidade de ajuda militar, ainda assim, os Estados Unidos não conseguiram, através de suas estratégias, reafirmar o seu destaque que havia enquanto país de comando no continente americano. Dessa forma, para Nélson Werneck Sodré, a Guerra da Coreia foi um dos episódios de maior importância da Guerra Fria, que proporcionou dificuldades para o governo de Vargas. Caso o Brasil aceitasse participar, estaria criando uma imagem de subordinação diante da política externa dos norte-americanos339. Nesse sentido, podemos observar que a resistência em vários setores pelo não envio de militares para se envolver nessa guerra, influenciou que as autoridades competentes brasileiras não autorizassem esse envio, desagradando de certa forma a ONU e os Estados Unidos. De acordo com Costa, o “Alto Comando do Exército era, em sua maior parte, contrário a participação do Brasil na Guerra da Coreia. Mas não podemos, considerando esse fato, deduzir que foram os militares os responsáveis pelo não envio de tropas”340. Por fim, podemos perceber que Vargas procurou o controle e o equilíbrio, evitando o conflito generalizado de opiniões que provavelmente se daria caso as tropas fossem enviadas para lutar na Coreia. De certa forma, nem dentro das próprias forças armadas havia consenso sobre essa questão. Nesse sentido, Vágner Camilo Alves nos 337 Última Hora. 11/02/1953. p.1. 338 COSTA, Celiane Ferreira da. Op. Cit. 339 SODRÉ, Nélson Werneck. A época de Vargas. In: ALVES FILHO, Ivan (Org.) Tudo é política: 50 anos do pensamento de Nélson Werneck Sodré. Em inéditos, em livros e censurados. Rio de Janeiro. Mauad. 1998. 340 COSTA, Celiane Ferreira da. Op. Cit. p. 11. 93 mostra que na conclusão desse processo de interesse norte-americano pela participação do Brasil na Guerra da Coreia,o presidente acabou mostrando ao cenário internacional a divisão que existia internamente sobre esse convite de guerra341, o que reafirma como um fator de instabilidade para o governo, naquilo que se relacionava a essa questão, no qual os jornais aqui abordados expressaram os seus posicionamentos ante essa questão. 2.4. Forças Armadas e o Clube Militar O Clube Militar é uma instituição que existe desde 1887, e que teve como seu primeiro presidente o general Deodoro da Fonseca e como vice-presidente, o oficial Custódio de Melo342. O Clube Militar ganhou um certo destaque durante o período do governo democrático de Vargas, alcançando um debate que foi além de seu aspecto institucional. Assim, Antonio Carlos Peixoto nos apresenta que “se o debate político nas Forças Armadas ganhou tal amplitude e se o Clube Militar se tornou o canal privilegiado para o confronto dessas correntes, isso se deve a que o Exército, a partir de 1945, integrara-se definitivamente, como força organizada, à esfera política do país”343. Mas podemos nos perguntar: que importância é essa que é dada ao um Clube? Por certo, o fato de conjugar pessoas de posições diferentes e de Armas diferentes, como militares não apenas do Exército, mas da Marinha e da Aeronáutica, tenha contribuído para a construção e a aceleração de um ambiente de polarização política e militar. Nesse sentido, sobre o Clube, o marechal Henrique Teixeira Lott, em depoimento ao CPDOC-FGV, declarou que: O Clube Militar, como qualquer outra associação, tem os seus problemas de política interna, que não são do Exército, são do clube, e são decididos por voto, de acordo com a vontade da maioria. Naturalmente, nem todos pensam da mesma maneira, é impossível que numerosas pessoas, mesmo de uma classe, mas de postos diferentes e origens diferentes, trabalhando em situações diferentes, tenham sobre um problema político a mesma ideia, sintam que a solução adequada é a mesma para todos344 341 ALVES, Vagner Camilo. Op. Cit. 342 Cf. Sérgio LAMARÃO; Sérgio MONTALVÃO. Clube Militar. In: ABREU, Alzira Alves de. et al (coords.). Dicionário Histórico – Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. 343 PEIXOTO, Antonio Carlos. O Clube Militar e os confrontos no seio das Forças Armadas (1945-1964). In: ROUQUIÉ, Alain. (Org.) Os Partidos Militares no Brasil. Rio de Janeiro, Editora Record, 1980. p.88, 89. 344 LOTT, Henrique Baptista Duffes Teixeira. Henrique Teixeira Lott (depoimento, 1978). Rio de Janeiro, CPDOC, 2002. 14/11/1978. p. 66. 94 O Lott nos mostra ainda que existiam vários tipos de Clubes militares, como por exemplo o Clube Naval, o Clube da Aeronáutica, dentre outros. Ele indica que os problemas que ocorrem em relação aos clubes, são problemas que estes não dizem respeito ao Exército, à Marinha e à Aeronáutica345. Ou seja, no Clube Militar existem militares que, enquanto seres sociais, opinam, têm os seus acirramentos e divergências, mas atuando em uma esfera civil. Logo, o Clube Militar (que é um Clube do Exército, mas recebe militares das outras duas Armas) não são as forças armadas, mas as forças armadas fazem parte do Clube Militar. Segundo o Última Hora, o “Clube Militar, (...) é uma sociedade civil de militares, tendo, em sua constituição, um duplo objetivo: beneficente e recreativo. Não se trata, pois, de um sindicato de classe, nem de uma instituição de estudos econômicos ou de uma organização de natureza política”346. Durante o ano de 1952, no que diz respeito aos processos que levaram as candidaturas e as eleições para o pleito do Clube Militar para o biênio 1952-1954, podemos observar o papel que foi desempenhado pelos jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora, que expressaram os seus posicionamentos sobre o assunto, o que de certa forma reafirma a importância dessa instituição no período do governo democrático de Vargas. Nesse sentido, podemos observar que as eleições para a diretoria no Clube Militar eram importantes para os militares que o compunha. Sendo assim, João Roberto Martins Filho aponta que, ao perceber os antinacionalistas das eleições de 1950, o destaque da chapa vencedora, criaram, então, em 1951, uma organização no qual chamaram de “Cruzada Democrática”, pensando assim melhorar a sua participação política para a eleição de 1952347 e “com o propósito de combater mais diretamente os militares nacionalistas”348. Dessa forma, durante o período que antecedeu as eleições, foram constantes as matérias expostas através dos jornais aqui analisados, no qual durante três de suas edições de janeiro de 1952, a Tribuna da Imprensa deixava claro em suas manchetes a intenção de reforçar o papel a ser desempenhado pela “Cruzada Democrática”. Na sua edição de 11 de janeiro de 1952, mostrava que um novo movimento 345 LOTT, Henrique Baptista Duffes Teixeira. Henrique Teixeira Lott (depoimento, 1978). Rio de Janeiro, CPDOC, 2002. 14/11/1978. p. 68. 346 Última Hora. 17/01/1952. p. 3. 347 MARTINS FILHO. João Roberto. Op. Cit. 348 KUNHAVALIK, José Pedro. Os militares e o conceito de nacionalismo: disputas retóricas na década de 1950 e inícios dos anos 1960. Tese de Doutorado. UFSC, Florianópolis, 2009. p.116. 95 recém fundado – a Cruzada Democrática – estaria disputando com os “nacionalistas”, que possivelmente teriam como candidato o general Newton Estillac Leal para a reeleição349. José Pedro Kunhavalik, então, apresenta que nesse período do governo Vargas, o Clube Militar foi uma instituição que naquele contexto acabou por canalizar o debate político que estava ocorrendo entre os militares350. Logo, “no referido período, a divisão no interior do Clube Militar ocorreu principalmente entre grupos antinacionalistas e grupos nacionalistas”351. Dessa maneira, podemos afirmar que os militares que faziam parte da Cruzada Democrática, eram considerados de antinacionalistas. Sendo assim, José Kunhavalik afirma que “a designação de militar antinacionalista refere-se a uma descrição relativa da posição dos referidos militares que organizavam suas ideias políticas em oposição ao pensamento dos militares que naquele contexto se autodenominavam de nacionalistas”352. Entretanto, durante esse período do governo de Vargas, prevaleceu as opiniões entre essas duas tendências, através da expressão de suas posturas políticas ante o governo. Nesse embate entre a ala nacionalista e a cruzada democrática, podemos observar através de Antonio Carlos Peixoto que a Cruzada Democrática se apresentou “como um agregado de todos os grupos e setores opostos ao nacionalistas: seu núcleo central é formado pelo grupo de veteranos da FEB e pelos setores superiores da alta hierarquia que se opunham a Vargas”353. Nesse sentido, Peixoto cita que esses “liberais” (Cruzada Democrática) queriam a derrota dos nacionalistas, tanto em sua hierarquia, quanto nas eleições para o Clube Militar, se apresentando essa ala, como uma nova hierarquia no Clube Militar354. Sendo assim, ao tratar sobre o Clube Militar, João Roberto Martins Filho nos relata que o mesmo se tornou “em tempos de guerra fria, palco de intensa disputa entre os anticomunistas e uma corrente militar nacionalista, que criticava o alinhamento do Brasil com os Estados Unidos e via no imperialismo e não no comunismo o principal inimigo do país”355. 349 Tribuna da Imprensa. 11/01/1952. p.3. 350 KUNHAVALIK, José Pedro. Op. Cit. 351 Idem, Ibidem. p.109. 352 Idem, Ibidem. p.218. 353 PEIXOTO, Antonio Carlos. Op. Cit. p.97. 354 Idem, Ibidem. 355 MARTINS FILHO, João Roberto. Op. Cit. p. 111. 96 Ao observarmos, assim, os posicionamentos trazidos pelos periódicos, podemos perceber que a Tribuna da Imprensa reforçaria ainda mais o seu destaque para a “Cruzada Democrática”, quando em sua edição de 15 de janeiro de 1952, afirmava, em sua primeira página:“54 Generais contra a diretoria do Clube Militar”. Reforçava de certa forma,esse jornal, a postura de oposição da “Cruzada Democrática” ante a gestão atual, que era administrada pelo general Newton Estillac Leal, militar de grande destaque que estava na presidência do Clube, e o general Horta Barbosa que era o vice-presidente. Logo após, o texto afirmava: “A quase totalidade do Exército disposta a redemocratizar o Clube”356. O periódico mostrava justamente a noção que era objetivada pela “Cruzada Democrática”, o de poder combater os “nacionalistas” e, com o apoio da maioria de oficias, poder ser uma nova chapa que redemocratizasse o Clube Militar. Já o Última Hora não apresentou nenhuma informação propriamente dita sobre as eleições no Clube Militar. O periódico apenas esboçava com um texto em edição de 17 de janeiro de 1952, em que dizia: “O Clube Militar Preocupa o Congresso”, em que Medeiros de Lima expõe, numa seção que se intitulava Última Hora na Política, que o Congresso observava o fato de muitas vezes se confundir o Clube Militar com as forças armadas. Entretanto, Medeiros Lima afirmava que “aos sócios e dirigentes do Clube Militar compete zelar pelos seus interesses e (...) da instituição, enquanto ao Governo, compete cuidar de política interna e externa do país”357. Sendo assim, nessa sequência de embates para as eleições no Clube Militar, se faz importante observar que o posicionamento do general Estillac Leal para concorrer ao pleito era algo possivelmente esperado pelos dois jornais, fato que o mesmo foi vencedor das eleições em 1950 e por ser nacionalista e de grande proximidade ao presidente Vargas, seria de esperar a sua permanência. A Tribuna da Imprensa em sua edição de 17 de janeiro de 1952 assim estampava em sua primeira página: “ESTILLAC ENTREGA OS PONTOS”, fazendo referência as falas do general Estillac, que se encontrava em repouso em Porto Alegre, o qual teria afirmado: “não desejo participar do próximo pleito do Clube Militar. Sou de opinião que se deveria articular um movimento de conciliação em torno de uma candidatura única, à qual então daria inteira solidariedade”. O periódico aproveitaria essa negação por parte do general Estillac para reafirmar que a “Cruzada Democrática” estava se tornando cada vez mais forte para concorrer às eleições358. O Última Hora, por sua 356 Tribuna da Imprensa. 15/01/1952. p. 1. 357 Última Hora. 17/01/1952. p.3. 358 Tribuna da Imprensa. 17/01/1952. p.1. 97 vez, em sua seção Última Hora Militar, classificaria esse posicionamento do general Estillac como “lançamento de água na fervura”, pois considerava difícil a composição de uma diretoria de conciliação. Entretanto, o jornal afirmava: “organizem uma chapa em que não entrem os extremados, nem os que competiram na última eleição”, mas deveriam direcionar o olhar para os chefes militares, tanto os da ativa, quanto os da reserva que seriam capazes de desempenhar tal função359. Logo, Nélson Werneck Sodré nos mostra que a Cruzada Democrática expressou através de seu documento de apresentação os motivos de sua intenção à direção do Clube Militar, o qual se apresentava por demonstrar um “nacionalismo sadio”, no qual propunha afastar o Clube Militar de influências que fossem totalitárias, tanto de direita, quanto de esquerda, no qual essa chapa visava apresentar um “nacionalismo racional”. Entretanto, Sodré destaca que toda essa demonstração apenas revelava a intenção de silenciamento da oficialidade patriótica360. Dessa forma, reforçando a postura da “Cruzada Democrática” que buscava a indicação de alguns candidatos, a Tribuna da Imprensa, em 23 de janeiro de 1952, seguia mostrando que após haver sondagens nas classes armadas, através da “Cruzada Democrática”, procurando saber sobre os nomes que melhor seriam indicados para concorrer às eleições do Clube Militar para o ano de 1952, destacou-se o marechal Mascarenhas de Moraes e o general Canrobert Pereira da Costa361. Entretanto, o marechal Mascarenhas deu a sua opinião sobre o caso, ao informar que só sendo convidado oficialmente poderia se manifestar362. O Última Hora, por sua vez, mostraria em sua edição de 31 de janeiro de 1952, um manifesto que havia sido lançado por 323 oficiais, das três forças armadas, o que apresentava vinte reivindicações em apoio aos generais Estillac Leal e Horta Barbosa, para as eleições de maio de 1952363, um manifesto que de certa forma reforçaria as pretensões da chapa “nacionalista”. A Tribuna da Imprensa rebateria o Última Hora, apresentando que esse manifesto não apresentava novidades, repetindo de certa forma os mesmos “slogans” de sempre364. Posteriormente a Tribuna da Imprensa afirmava que: 359 Última Hora. 23/01/1952. p.13. 360 SODRÉ, Nélson Werneck. Op. Cit. 361 Tribuna da Imprensa. 23/01/1952. 362 Tribuna da Imprensa. 23/01/1952. p. 1 e 10. 363 Última Hora. 31/01/1952. p.3. 364 Tribuna da Imprensa. 31/01/1952. p.1. 98 O general Canrobert Pereira da Costa se tem movimentado grandemente, nos últimos dias, figurando agora como um dos articuladores mais autorizados da “Cruzada Democrática”. O ex – ministro da Guerra tem mantido várias conferencias com o general Alcides Etchegoyen, que é dos mais prováveis candidatos à presidência do Clube365 No entanto, no início de março de 1952, prosseguiram as informações sobre os possíveis candidatos para concorrer às eleições, tanto os “nacionalistas” quanto os da “Cruzada Democrática”, fato que com a recusa do marechal Mascarenhas de Moraes e do general Canrobert Pereira da Costa para disputar as eleições, o apelo teria sido formulado aos generais Alcides Etchegoyen e Nélson de Mello, o que foi enfatizado pelo Última Hora em sua edição de 5 de fevereiro de 1952366. No entanto, A Tribuna da Imprensa em sua edição de 06 de março de 1952 fazia a sua propaganda para a Cruzada Democrática e assim afirmava: “LANÇAMENTO HOJE DA CANDIDATURA ETCHEGOYEN”. O periódico fez referência ao término do prazo acordado entre o general Estillac Leal e a “Cruzada Democrática”, na possível composição de uma chapa367. O general Etchegoyen era um forte candidato e o apelo por parte da Tribuna da Imprensa, só reforçava a ênfase para uma nova chapa na direção do Clube Militar. Contudo, esse caráter de conciliação não ocorreu entre os possíveis candidatos e os jornais em questão se expressariam de forma diferente. Em sua edição de 07 de março de 1952, a Tribuna da Imprensa utilizou do seguinte termo para se referir ao general Estillac, “ESTILLAC EMPREGANDO A “TÉCNICA VARGAS””. Nesse sentido, “a candidatura do general Etchegoyen foi lançada depois de ter se esgotado, pela terceira vez, um prazo solicitado pelo ministro da guerra, para conseguir uma candidatura de conciliação que evitasse uma cisão de natureza eleitoral nas classes armadas”368. O Última Hora afirmou na edição de 07 de março de 1952: “Não Foi Possível Conciliar as Duas Correntes Existentes no Clube Militar”369. Nesse sentido, Skidmore nos mostra que a ala da Cruzada Democrática vinha representada pelos generais Alcides Etchegoyen e Nélson de Mello, o qual estavam apoiados pelo grupo de oficiais que faziam rejeição ao nacionalismo de esquerda proposto pelo general Estillac Leal. Por outro lado, Skidmore nos apresenta que esses gerais traziam um “nacionalismo racional”, os quais estavam 365 Tribuna da Imprensa. 16 e 17/02/1952. p.3. 366 Última Hora. 05/02/1952. p. 1. 367 Tribuna da Imprensa. 06/03/1952. p.1 e 7. 368 Tribuna da Imprensa. 07/03/1952. p.1 e 10. 369 Última Hora. 07/03/1952. p.1. 99 receptivos aos investimentos do capital estrangeiro, no qual seguiam a linha dos Estados Unidos na Guerra Fria370. Podemos perceber até esse momento que os posicionamentos dos jornais se deram de formas opostas a questão relacionada ao pleito para o Clube Militar, no qual apresentavam esse pleito como algo importante. Sendo assim, enquanto a Tribuna da Imprensa era específica em sua postura de apoioe afirmação da Cruzada Democrática, valorizando as afirmações sobre o general Alcides Etchegoyen, no qual até mesmo se colocava com uma voz de crítica ao general Estillac Leal e reforçando a imagem da Cruzada Democrática, no qual trazia com ênfase os possíveis nomes de generais para compor essa nova chapa. O Última Hora, por outro lado, não fazia tanta referência ao seu posicionamento aos nacionalistas, mas de forma cautelosa e com um tom mais explicativo, apoiava o general Estillac Leal e consequentemente fazia o apoio para a permanência da ala nacionalista na direção do Clube. Ou seja, na defesa pelos seus interesses, ficava evidente as suas opções, entretanto, a Tribuna da Imprensa tinha um destaque mais centrado nas manchetes de seu candidato do que o posicionamento apresentado pelo Última Hora. Nessa sequência, um manifesto do general Estillac seria divulgado pela Tribuna da Imprensa, que mostrava que o mesmo reafirmava não ser candidato, optando por uma candidatura única, o qual mostrou várias medidas em seu documento e informou que não aceitava sua candidatura pelo fato de ser ministro da Guerra371. Segundo o jornal, esse Manifesto escrito pelo general Estillac não havia alcançado boa repercussão nas classes armadas, que prezavam pela redemocratização do Clube Militar, tendo os oficiais democráticos interpretado como uma manobra do general Estillac para poder enfraquecer a “Cruzada Democrática” e consequentemente favoreceria aqueles que eles chamavam de os comunistas do Clube372. O periódico utilizou de expressões fortes para rebater a postura de Estillac ante a “Cruzada Democrática”, no qual dizia: “Estillac propõe que se queime Etchegoyen”373. Na sua edição seguinte afirmava em sua primeira página: “Manobras comunistas para enfraquecer Etchegoyen” e mais abaixo, em letras garrafais, dizia: “OS GENERAIS DESCONFIAM DE ESTILLAC”374. Ou seja, as manobras 370 SKIDMORE. Thomas E. Op. Cit. 371 Tribuna da Imprensa. 08 e 09/03/1952. p. 1 e 7. 372 Tribuna da Imprensa. 10/03/1952. p. 1 e 9. 373 Tribuna da Imprensa. 08,09/03/1952. 374 Tribuna da imprensa. 10/03/1952. 100 apresentadas pela Tribuna da Imprensa contra o general Estillac, reforçava cada vez mais a sua ênfase para o general Etchegoyen. Sobre as questões concernentes às candidaturas da “Cruzada Democrática”, os jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora se mostraram em concordância em suas edições de 11 de março de 1952. Em sua primeira página em letras exageradas, a Tribuna da Imprensa trazia a seguinte manchete: “MANIFESTO DOS GENERAIS APOIANDO ETCHEGOYEN”375. O Última Hora afirmava: “OS GENERAIS LANÇAM MANIFESTO”376. Ambos os periódicos traziam a notícia de um manifesto ter sido escrito por generais, de forma a apoiar a candidatura, em caráter oficial, dos generais Alcides Etchegoyen e Nélson de Mello para concorrer às eleições no Clube Militar. Entretanto, enquanto o Última Hora não deu tanta ênfase ao assunto, trazendo apenas algumas informações sobre esse manifesto377, a Tribuna da Imprensa, ao contrário, valorizava o tema e apresentava todo o texto do documento378. Ou seja, ao mesmo tempo que a Tribuna da Imprensa reforçava o seu papel de apoio a Cruzada Democrática, o Última Hora apenas se fazia informativo. Nesse sentido de negação do general Estillac Leal para concorrer às eleições no Clube Militar, surge após uma crise no ambiente militar, ocasionando a sua saída da pasta do ministério da Guerra. Logo, o Última Hora confirmaria a candidatura do general, sendo noticiado pelo periódico em sua edição de 26 de março de 1952379. Sendo assim, Nélson Werneck Sodré nos mostra que sendo “demissionário da pasta da Guerra, voltou o general Estillac ao meio de seus companheiros de luta, aceitando o lançamento de sua candidatura à reeleição no Clube Militar, em pleito que estava previsto para a primeira quinzena de maio”380. Logo, com a aproximação da data das eleições para o Clube Militar, as correntes nacionalistas de Estillac Leal e a “Cruzada Democrática” de Alcides Etchegoyen eram noticiadas pela Tribuna da Imprensa, que afirmava, em sua manchete do dia 31 de março de 1952: “Choque estatístico nas eleições do Clube Militar”. Apresentava essa edição a corrida de cada um dos candidatos e as suas possíveis 375 Tribuna da Imprensa. 11/03/1952. p.1. 376 Última Hora. 11/03/1952. p.1. 377 Última Hora. 11/03/1952. p.3 378 Tribuna da Imprensa. 11/03/1952. p.10. 379 Última Hora. 26/03/1952. 380 SODRÉ, Nélson Werneck. Op. Cit. p. 326. 101 vantagens em cada região. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o general Estillac Leal levava vantagem, já em Santa Catarina, o general Alcides Etchegoyen estava na frente381. O Última Hora, por sua vez, em sua edição de 01 de abril de 1952, trazia a seguinte manchete: “MELHORA A POSIÇÃO DE ESTILLAC NAS ELEIÇÕES DO CLUBE MILITAR”. Reforçando o apoio ao general Estillac Leal, o jornal assim se pronunciava: “A posição do general Estillac nas eleições do Clube Militar melhorou sensivelmente, depois que deixou a pasta da Guerra. Com a sua demissão, o ex-ministro não tem mais motivo para não aceitar a sua candidatura à presidência da associação militar”382. Nesse sentido, Thomas Skidmore nos mostra que as dificuldades sofridas pelo general Estillac Leal no contexto de sua saída do ministério da Guerra, vinha de uma deterioração de sua relação pessoal com o general Zenóbio da Costa, no qual Estillac “se mostrou incapaz de manter a “disciplina” no corpo de oficiais”. No entanto, com o fervor que estava ocorrendo entre as duas alas militares, Estillac foi convencido por oficiais mais jovens da ala nacionalista, de que ele deveria se candidatar, juntamente com o general Horta Barbosa à reeleição da diretoria do Clube Militar383. Desta forma, com a aceitação do general Estillac, a Tribuna da Imprensa afirmava: “Nacionalistas, peronistas, comunistas e anti-americanistas querem tê-lo como chefe de um novo partido” 384. Já o Última Hora em posicionamento contrário, valorizava a candidatura de Estillac, afirmando: “Defesa Intransigente Dos Interesses Nacionais, o Programa do Candidato na Carta Que Dirigiu Aos seus Colegas”385. Na sequência, a Tribuna da Imprensa se posicionou de forma a mostrar a sua conduta a favor da “Cruzada Democrática”, quando, em sua edição de 18 de abril de 1952, estampava a seguinte afirmação: “PORQUE ESTILLAC SERÁ DERROTADO”. Justificava, esse periódico que o ex-ministro da Guerra nada tinha feito em benefício dos militares. Reforçando essa negativa ao general Estillac, o jornal afirmava que “a “Cruzada Democrática” está certa de sua vitória, no pleito de maio próximo386. Dentro desse contexto das eleições para o Clube Militar, é importante ressaltar como estava o ambiente nas Forças Armadas. Nisso, o Última Hora, de 19 de maio de 381 Tribuna da Imprensa. 31/03/1952. p. 1. 382 Última Hora. 01/04/1952. p.2. 383 SKIDMORE. Thomas E. Op. Cit. 384 Tribuna da Imprensa. 08/04/1952. p.1 e 10. 385 Última Hora. 08/04/1952. p.2. 386 Tribuna da Imprensa. 18/04/1952. 102 1952, dizia “O pleito não afetará a ordem, nem a disciplina das Forças Armadas”. O general Ciro do Espírito Santo Cardoso, enquanto Ministro da Guerra, havia sido procurado por esse jornal e deu a declaração de tranquilidade387, pois desde 1951, muitas desavenças haviam sido levantadas, mas o general tranquilizou afirmando que o pleito do Clube Militar, qualquer que seja o resultado, não deve ser causa de intranquilidade pública, pois não afetará a ordem, nem a disciplina das Forças Armadas.388 Nesse sentido, Sérgio Lamarão e Sérgio Montalvão expõem que o processo de votação para a presidência e vice-presidência do Clube Militar nas eleições de 1952 ocorreu em dois momentos, sendo o primeiro em março, com as votações no interior do país, e a segunda em maio, na capital, o Rio de Janeiro. Os autores apontam que era grande o apoiorecebido pela Cruzada Democrática, que contou com a ajuda de grandes chefes militares, como os generais Juarez Távora, Zenóbio da Costa, Góis Monteiro, o brigadeiro Eduardo Gomes, dentre outros389. O que de fato contribuiu para reafirmar uma posição de destaque conquistada pela “Cruzada Democrática”. Ainda sobre o processo eleitoral e as campanhas para as eleições, o general Nélson de Mello nos mostra, em seu depoimento dado ao CPDOC-FGV, que houve um trabalho intenso, tendo a “Cruzada Democrática” recebido apoio da imprensa. no qual as campanhas eleitorais eram feitas pelos delegados dos Clubes, indo até as guarnições. Isso ocorria tanto na região sul, quanto no Nordeste, assim como em outros locais do Brasil. Esse trabalho estratégico, deu a chapa do general Mello a noção dos possíveis votos para o dia da eleição, o que fez, segundo ele, ter a garantia da vitória. Ele chegou a afirmar: “Eu sabia que íamos ganhar”390. O general aponta ainda que toda a oposição que havia ao presidente Vargas, fazia campanha a favor de sua chapa, a “Cruzada Democrática”, que concorria as eleições do Clube Militar para o biênio de 1952-1954. Outra questão importante levantada por ele era que havia uma confusão, ou melhor, identificavam a “Cruzada Democrática” com o udenismo, mas o general aponta que eram contra o presidente Vargas391. 387 Última Hora. 19/05/1952. p. 2. 388 Última Hora. 19/05/1952. p. 2. 389 Cf. Sérgio LAMARÃO; Sérgio MONTALVÃO. Clube Militar. In: ABREU, Alzira Alves de. et al (coords.). Dicionário Histórico – Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. 390 MELLO, Nélson De. Nélson de Mello (depoimento, 1978/1979). Rio de Janeiro, CPDOC, p. 319. 391 MELLO, Nélson De. Nélson de Mello (depoimento, 1978/1979). Rio de Janeiro, CPDOC, p. 319. 103 Após as eleições no Clube Militar, saiu vitorioso o general Alcides Etchgoyen, deixando a tentativa de reeleição dos generais Estillac Leal e Horta Barbosa para trás. A Tribuna da Imprensa estampava em sua capa: “Etchegoyen 8.288 votos; Estillac, 4.489”, e mais abaixo dizia: “Derrota do ex-ministro da Guerra por 3.799 votos392. No Última Hora, a manchete informava: “O SENSACIONAL RESULTADO DAS ELEIÇÕES NO CLUBE MILITAR. Venceu Etchegoyen por mais de 3.000 votos sobre Estillac”. Dessa forma podemos perceber que do total de 16.700 militares associados, votaram 13.857393, tanto do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Nesse sentido, Boris Fausto afirma que as eleições para a diretoria do Clube Militar em 1952 indicaram um momento de confrontos internos e de crescimento de oficiais conservadores e contrários ao presidente Getúlio Vargas, em um período de campanha marcado por tensões, no qual a grande maioria de militares, que exercia o posto de comando, apoiou a “Cruzada Democrática” dos generais Alcides Etchegoyen e Nélson de Mello, que foram os vencedores das eleições394. A Tribuna da Imprensa apresentou que “no interior, Etchegoyen obteve 3.935 votos, enquanto a votação do general Estillac Leal foi de 2.712. Na capital, a vitória do general Etchegoyen se acentuou ainda mais, pois conquistou 4.353 votos, ao passo que o ex – ministro da Guerra obteve apenas 1.777”395. Nesse sentido, o general Nélson Werneck Sodré em seu depoimento ao CPDOC- FGV, indica que a perda do general Newton Estillac Leal na eleição se deu por vários motivos, dentre eles, o papel da grande imprensa, que o acusava de ser comunista, pelo fato de defender a tese do monopólio estatal do petróleo, assim também como o fato de ter aceitado ser ministro da Guerra no governo Vargas.396 Já o general Alcides Etchegoyen, vencedor da eleição de 1952, foi adepto do antimonopólio estatal do petróleo, mas segundo o general Werneck, isso não seria o motivo de sua vitória, mas sim o fato de ter desenvolvido uma campanha contra a corrente nacionalista do general Newton Estillac Leal e o general Horta Barbosa397. Nélson Werneck Sodré indica ainda que no dia da eleição na capital, a “Cruzada Democrática” se instalou com grande expressão, utilizando alto-falantes e transportes para trazer os militares associados. Todo 392 Tribuna da Imprensa. 22/05/1952. p.1 e 2. 393 Última Hora. 22/05/1952. p. 1 e 6. 394 FAUSTO. Boris. Op. Cit. 395 Tribuna da Imprensa. 22/05/1952. p.1. 396 SODRÉ, Nélson Werneck. Nélson Werneck Sodré (depoimento; 1987). Rio de Janeiro, CPDOC / FGV – SERCOM / Petrobrás, 1988. 33p. 08/10/1987. (“Projeto Memória da Petrobrás”). p. 10. 397 SODRÉ, Nélson Werneck. Nélson Werneck Sodré (depoimento; 1987. Rio de Janeiro, CPDOC / FGV – SERCOM / Petrobrás, 1988. 33p. 08/10/1987. (“Projeto Memória da Petrobrás”). p. 24. 104 esse aparato feito, foi classificado pelo general como a representação de um ato militar e não uma eleição de Clube Militar. Ele havia participado da mesa de votação e pôde perceber o comportamento dos fiscais adversários, buscando até mesmo identificar os votantes que faziam parte da ala nacionalista398. Com o resultado da eleição e a confirmação da perda dos seus partidários ele afirmou: O espantoso é que cinco mil oficiais tivessem, nas condições em que o pleito se processou, quando o terrorismo estava desencadeado, a coragem de escolher a chapa nacionalista, porque isso importava em correr todos os riscos, o de prisão, o de perder a carreira, o de passar aos fichários policiais do Estado Maior do Exército e não alcançar mais promoções por merecimento, nem comissões, nem prêmio de espécie alguma. Esse índice correspondeu a uma afirmação, a mais alta possível naquelas circunstancias, de fidelidade aos princípios democráticos e de cumprimento dos deveres para com a nação e o seu povo. Nem o terrorismo conseguiria esmagar esse indomável espírito de luta399 Logo, na manchete da edição de 23 de maio de 1952, o Última Hora anunciava: “Nova etapa no Clube Militar”. Nessa edição, Humberto Alves falava, em entrevista especial para o jornal, sobre a importância desse momento, cujo resultado teria mudado de fato o contexto do Clube Militar, que em vários momentos esteve vivendo situações de agitação. Considera ainda que mesmo sendo o Clube Militar uma associação civil de militares, com objetivos específicos de recreação e beneficência, seu debate sempre se repercutiu pelo país400. A Tribuna da Imprensa, em concordância, mostrava na edição de 24 e 25 de maio de 1952, o seguinte título “Novos rumos para o Clube Militar”, sinalizava a postura que seria tomada pelos vencedores da eleição, no qual, o general Alcides Etchegoyen pretendia poder apagar as divergências eleitorais em relação ao general Newton Estillac Leal, durante os anos do início do governo do presidente Getúlio Vargas401. O general chegou a afirmar: “julgo contar com a colaboração de todos os sócios, sem qualquer restrição ou distinção, porque consideramos apagadas, ontem, as divergências eleitorais que dividiam o quadro social em dois grandes grupos”402. Nesse sentido, Antônio Peixoto nos mostra que “o período 1950-52, durante o qual Estillac 398 SODRÉ, Nélson Werneck. Op. Cit. p. 397. 399 Idem. Ibidem. p. 341. 400 Última Hora. 23/05/1952. p. 3. 401 Tribuna da Imprensa. 24 e 25/05/1952. p.1. 402 Última Hora. 24/05/1952. p.2. 105 exerceu a presidência do Clube, conheceu confrontos bastante violentos entre as duas correntes”403. Dentro desse contexto, um dado importante a se observar é que nas eleições de 1950 o número de sócios no Clube Militar era de 9.000 militares, passando para 16.700 em 1952, tendo em apenas dois anos, um crescimento quantitativo considerável. A ala nacionalista representada pelo general Newton Estillac Leal venceu aquela que futuramente seria chamada de “Cruzada Democrática” e que era representada pelo general Osvaldo Cordeiro de Farias, nas eleições de 1950, por mais de 1.000 votos. Nas eleições de 1952, a “Cruzada Democrática” mudou radicalmente o cenário e venceu com maisde 3.000 votos a “batalha” contra a ala “nacionalista”. Novamente os “nacionalistas” estavam sendo representados pelo general Estillac Leal, mas a “Cruzada Democrática” vinha dessa vez representada pelo general Alcides Etchegoyen. Podemos, no entanto, observar que esse resultado representou que houve um crescimento de adeptos não somente ao general que concorreu à presidência do Clube, Alcides Etchegoyen, mas nos mostra que a mudança de mentalidade e de estratégia desenvolvida por essa ala anticomunista, desde 1950, pôde fortalecer esse grupo, angariando para si um número mais que considerável de eleitores. Por fim, Antonio Carlos Peixoto indica que, na década de 1950, o Clube Militar serviu como ligação no que dizia respeito a sociedade política e a instituição militar, pois de fato refletiu as opiniões desses diferentes grupos. A politização alcançada pelo Clube Militar e suas consequentes relações com as frações militares e a hierarquia militar, repercutiu e as vezes até de forma tensa, nas Forças Armadas. Peixoto afirma ainda que o Clube Militar, enquanto uma associação recreativa, alcançou uma amplitude considerável de formulação e discussão política404. Logo, Skidmore nos mostra que com a vitória da Cruzada Democrática houve uma dupla e importante derrota, tanto para os oficiais nacionalistas, quanto para o presidente Vargas, pois “como presidente, ele só poderia continuar no cargo enquanto contasse com o apoio da maioria da opinião militar”. Nesse sentido, a plataforma proposta por Estillac através do nacionalismo, havia sido rejeitada pela maioria dos oficiais405, e o nacionalismo radical vencedor das eleições, não se aproximavam dos interesses de Vargas. 403 PEIXOTO, Antonio Carlos. Op. Cit. p. 92. 404 Idem, Ibidem. 405 SKIDMORE, Thomas E. Op. Cit. p.142. 106 O presente capítulo permite perceber a relevância do tema proposto nesta dissertação. Neste sentido, a apresentação sobre as forças armadas em seu aspecto teórico, nos possibilitou perceber a importância da instituição e o quanto ela passou por transformações durante esse período da História do Brasil República. No período do governo democrático de Getúlio Vargas, as forças armadas se posicionaram de forma central, mostrando de certa maneira as características que essa instituição foi adquirindo durante os anos. Sendo assim, o Acordo Militar entre o Brasil e os Estados Unidos representou um primeiro momento dessas relações militares com o governo Vargas. Não somente os Estados Unidos, mas também o Brasil tinha interesses nesse acordo, o qual representava um contexto da Guerra Fria. Logo, observamos que a Tribuna da Imprensa se mostrou contrária a esse pacto. O Última Hora, por outro lado, deixou transparecer um caráter de apoio ao acordo. A questão que envolveu a Guerra da Coreia, trouxe por sua vez, uma dualidade de opiniões. Ao tratar sobre esse assunto, o jornal Tribuna da Imprensa deixou transparecer em todo o momento o seu posicionamento contrário ao envio de tropas brasileiras para lutar no conflito e direcionava sempre a pessoa de Vargas uma responsabilidade se tal proposta fosse levada adiante. O Última Hora, por sua vez, trazia até mesmo em suas edições a opinião daqueles que eram contrários. Entretanto, demonstrava ser muito mais a favor desse envio, pois em suas manchetes afirmava essa possibilidade e não apresentava posicionamento negativo em relação a este assunto, mas deixava sobressair um olhar positivo sobre essa questão. O tema que fecha esse capítulo nos mostra as eleições do Clube Militar, que ocorreu em maio de 1952. Sendo assim, ao se posicionar sobre esses aspectos, cada periódico deixou mostrar as suas preferências pelas alas que disputavam as eleições, em que os generais Estillac Leal e Horta Barbosa representavam os nacionalistas. Já os generais Alcides Etchegoyen e Nélson de Mello, representavam os da Cruzada Democrática. Nesse sentido, o jornal Tribuna da Imprensa deixou prevalecer que a sua intenção era de mostrar apoio aos militares da Cruzada Democrática, o que esse periódico procurou demonstrar com ênfase durante as várias abordagens de suas edições. O jornal Última Hora, por outro lado, apesar de ter se apresentado de forma mais cautelosa, se manteve com ênfase para a ala nacionalista, no qual afirmava o seu apoio à candidatura do general Estillac Leal. 107 No terceiro e último capítulo dessa dissertação, daremos continuidade a esse contexto das relações das forças armadas com o governo de Vargas. Nesse sentido, será abordado o ano de 1954, em que, os jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora irão se posicionar de forma muito mais nítida em suas intenções. Ou seja, o memorando dos coronéis do Exército será algo negativo para o governo Vargas. Logo, a Tribuna da Imprensa buscará se mostrar pronta a transmitir essas informações como algo positivo para o Exército. Entretanto, o Última Hora, buscará fazer o seu papel de defesa ao governo. De certa forma, podemos perceber que do assassinato do major Rubens Vaz ao suicídio do presidente Vargas, ficará mais notório ainda os seus posicionamentos, pois enquanto a Tribuna da Imprensa buscará de todos as formas manchar a imagem de Vargas e do seu governo, o Última Hora, por outra lado, tentará passar as manchetes com teor de defesa, fato que independente da realidade do contexto que se fará, o Última Hora se manterá como defensora da imagem do governo e do presidente Vargas. 108 CAPÍTULO III MUDAM-SE OS RUMOS: VARGAS PERDE APOIO DAS FORÇAS ARMADAS (1954) Após mostrarmos no capítulo anterior os primeiros processos que se deram nas relações entre as forças armadas e o governo de Vargas, sendo que, essas relações ainda se mantinham aparentemente com certo tom de harmonia. Ainda assim, podemos perceber que havia grupos militares que divergiam em estarem mais próximos ao governo e outros que eram contrários aos posicionamentos do presidente, o que foi expresso tanto através das questões relacionadas ao Acordo Militar do Brasil com os Estados Unidos, quanto ao momento crítico da Guerra Fria que fez com que os EUA se interessassem pelo envio de militares brasileiros para a Guerra da Coreia, bem, como os processos que ocorreram para o pleito das eleições no Clube Militar para o biênio 1952-54. Essas questões foram abordadas através da análise dos periódicos Tribuna da Imprensa e o Última Hora. Dessa forma, neste capítulo iremos analisar o quadro mais crítico do período do governo democrático de Getúlio Vargas: o ano de 1954. Nesse sentido, dois momentos serão muito importantes para compreendermos esse processo, que são os meses de fevereiro e de agosto. O primeiro, sendo marcado pela ação de coronéis e de tenentes- coronéis do Exército, no qual se manifestam ante o governo de Vargas através de um documento que foi chamado de Manifesto dos Coronéis. O mês de agosto, período mais emblemático e conhecido como período de crise desse governo, trará através da morte de um major da Aeronáutica o princípio de crise desse período, que se avolumará dentro desse curto espaço de tempo e irá conduzir ao desfecho final desse cenário através do suicídio do presidente. Essa trajetória será abordada nesse capítulo, sendo visto através das perspectivas dos jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora. 109 3.1. Surge um manifesto por parte do Exército O Manifesto dos Coronéis foi um documento produzido por oficiais superiores do Exército (coronéis e tenentes-coronéis), no dia 8 de fevereiro de 1954. Entretanto, sua abordagem pelos jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora só se dariam alguns dias depois. O jornal Última Hora foi o primeiro a se posicionar em relação ao que dizia respeito a esse manifesto. Em sua edição de 13 de fevereiro de 1954, trouxe o seguinte tema, em destaque na sua primeirapágina: “RESERVADO O MINISTRO DA GUERRA SOBRE O CONTEÚDO DO IMPORTANTE DOCUMENTO” e em letras maiores continuava: “HOJE: DECISÃO DO ALTO COMANDO SOBRE O MEMORIAL DOS CORONÉIS”406. De fato, os generais do Exército, enquanto os mais altos representantes militares do governo, deveriam se posicionar o mais rápido possível, de maneira a dar uma resposta sobre esse documento, pois de certa forma, essa atitude tomada por esses oficiais, teria sido um posicionamento ao qual o presidente Vargas provavelmente não se agradaria. Neste aspecto, mesmo que esse documento tendo sido entregue primeiramente ao ministro da Guerra, que era o maior representante militar, ele estava, no sentido do seu conteúdo, sendo direcionado diretamente ao governo de Vargas, no qual através de um texto extenso e com tantas assinaturas de tenentes-coronéis e coronéis, representava de certa maneira, um modelo máximo de inconformismo e de determinação por parte desses oficias do Exército. Nesse sentido, Nélson Werneck Sodré nos mostra que esse documento foi “a forma concreta de documento de denúncia assinado por militares, numa das mais flagrantes e escandalosas demonstrações de indisciplina já verificadas em qualquer Exército”407. Na mesma página o jornal trazia uma coluna que informava aos seus leitores sobre o documento produzido pelos oficiais: Oitenta e dois coronéis do Exército, servindo na guarnição desta Capital, enviaram um memorial ao Ministro da Guerra em que fazem alusões à elevação constante do nível de vida, que, em consequência está causando sérias perturbações as forças armadas. Aludem ainda ao aparelhamento atual e ao prestígio das forças armadas, que precisam ser mantidos. Pedem providências, visando ser melhorada a situação social dos militares408 406 Última Hora. 13/02/1954. p.1. 407 SODRÉ, Nélson Werneck. Op. Cit. 408 Última Hora. 13/02/1954. p.1. 110 Com o interesse jornalístico de poder saber melhores informações sobre esse documento, o Última Hora procurou ouvir o Ministro da Guerra, general Ciro do Espírito Santo Cardoso, pessoa a que havia recebido o memorial, e não se pronunciou sobre o assunto409. De certo modo, a falta de pronunciamento pela parte do general Ciro Cardoso poderia representar um primeiro momento de incertezas por parte da liderança do ministério da Guerra. Pois, tendo recebido uma manifestação como esta, formulada através desses oficiais - com um caráter de reivindicação e que mostrava a situação de desgaste dentro do Exército – não seria, de certa maneira, naquela situação, um momento propício para expor o governo. No entanto, o Última Hora informava que o documento seria encaminhado pelo Alto Comando do Exército, no qual “o Ministro da Guerra tomará as medidas necessárias”410. Para Maria Celina Soares D’Araújo, o manifesto dos coronéis veio sinalizar que a corporação militar mostrou ao governo as suas preocupações pelas questões internas, no qual o comando teria desconsiderado essas questões, nas suas relações com os militares411. Dando sequência a essas informações, a Tribuna da Imprensa e o Última Hora iriam se pronunciar em suas edições de 15 de fevereiro. A Tribuna da Imprensa estampava em letras grandes em sua primeira página: “CORONÉIS ADVERTEM O MINISTRO CONTRA AGITAÇÕES”. O periódico fazia alusão ao documento preparado pelos 82 comandantes, e que fora entregue ao Ministro da Guerra, general Ciro Cardoso412. É interessante observar que essa edição não apresentou o documento dos coronéis como um memorial, ou seja, como um documento que de fato representava uma reivindicação dos militares do Exército ao governo e sim como um relatório conjunto, desenvolvido por esses oficiais. Para o jornal, no documento não estariam sendo reivindicadas questões financeiras. Na verdade, o manifesto teria um caráter de advertência e que por conter um tom respeitoso, não teria produzido quebra de disciplina por parte dos coronéis e tenentes-coronéis do Exército. Segundo a Tribuna da Imprensa, O que há, de fato, é o seguinte: os comandantes de corpos são obrigados a fazer relatórios individuais, ao ministro da Guerra, sobre a situação das unidades que comandam. 409 Última Hora. 13/02/1954. p.1. 410 Última Hora. 13/02/1954. p.1. 411 D’ ARAÚJO, Maria Celina Soares. Op. Cit. 412 Tribuna da Imprensa. 15/02/1954. p.1. 111 Considerado que 1954 é um ano decisivo para o regime democrático no Brasil, os coronéis resolveram fazer, também, um relatório conjunto413 Faz-se importante observar como que o posicionamento da Tribuna da Imprensa se torna variável de acordo com os seus interesses. O tema trazido na manchete é sugestivo às reivindicações dos militares ao governo. Ao relatar o posicionamento por parte desses oficiais superiores do Exército, o periódico não aponta quebra de disciplina por parte dos mesmos, mas justifica as suas posturas como uma ação que estaria condicionada aos relatórios que são obrigatoriamente direcionados ao ministro da Guerra. Ou seja, acaba por apresentar essa postura como uma questão institucional e não propriamente uma forma desses militares mostrarem as suas “severas” reivindicações. Para o periódico, esse documento não se apresentaria como uma forma de manifestação por parte desses coronéis, em função de questionar o governo de Vargas. Nesse sentido, fica a impressão que esse jornal procurava, de certa forma, preservar a imagem desses oficiais do Exército. A Tribuna da Imprensa fez referência nessa edição aos assuntos tratados no Manifesto, mostrando, por exemplo, que, sendo elevado o valor do salário mínimo, o que iria criar um desequilíbrio financeiro, o que prejudicaria, por exemplo, os vencimentos dos sargentos. No entanto, em nenhum momento trouxe um olhar negativo sobre essa questão, mas afirmava que “o ministro da Guerra encara esse relatório como uma colaboração prestada por seus subordinados de imediata confiança”414. Nesse sentido, Maria Celina Soares D’ Araújo nos aponta que essa denúncia por parte desses coronéis, representava a perda de valores para a corporação do Exército que precisavam ser mais valorizados nas questões salariais e de carreira, o que ia de encontro as medidas de João Goulart, ao propor aumento de 100% no salário mínimo. O manifesto que foi representado pela jovem oficialidade do Exército nos apresentou a situação interna das forças armadas, que no instante em que criticava o governo, passou também a reconhecer as suas próprias fraquezas e buscaram se tornar fortemente organizados415. O Última Hora, em sua edição de 15 de fevereiro, trazia o seguinte tema: “REUNIDOS, OS GENERAIS EXAMINAM O MEMORIAL”416. Apresentou, de certa 413 Tribuna da Imprensa. 15/02/1954. p.1. 414 Tribuna da Imprensa. 15/02/1954. p.1. 415 D’ ARAÚJO, Maria Celina Soares. Op. Cit. 416 Última Hora. 15/02/1954. p.3. 112 forma, a continuidade dos encontros entre os generais, na intenção de apreciar o memorial e que mesmo após um longo período de reunião, não conseguiram esgotar o assunto. É interessante observar que a partir desse manifesto, os generais passaram a ter reuniões constantes, isso, demonstra que o documento representava relevância para esses generais, e aponta que seria necessário ter uma resposta por parte dessas lideranças. Nessa reunião, encontravam-se, além do Ministro da Guerra, general Ciro do Espírito Santo Cardoso, os generais Fiúza de Castro, chefe do Estado Maior do Exército. Zenóbio da Costa, comandante da Zona Militar do Leste e Olímpio Falconieri, chefe do D.G.A. O Última Hora assim se pronunciou sobre o Manifesto dos Coronéis: O documento faz uma análise da situação econômica financeira nacional, aponta as consequências da má administração da coisa pública, refere-se a queda da autoridade, face aos acontecimentos que se estão processando em todo o País e, por fim, enumera as dificuldades de vida dos oficiais subalternos e das praças,muito particularmente os sargentos que no posto inicial percebem apenas 1.800 cruzeiros, contra os pretendidos 2.400 cruzeiros do novo salário mínimo. O memorial denuncia o êxodo dos oficiais para as funções civis e os recentes desfalques que vem ocorrendo com exemplos de um estado de coisa que não pode perdurar. Frisam os signatários que visam, com sua atitude, oferecer ao chefe do Exército uma colaboração cercada de acatamento e respeito 417 Ao analisarmos o Última Hora, percebemos que o mesmo não se exime de apresentar as reivindicações por parte desses militares. Apesar disso, mostra que os responsáveis pelo memorial do Exército estavam colaborando com o ministro da Guerra e teria em sua atitude acatamento e respeito. Podemos perceber que nesse sentido esse periódico, retirava desse caso qualquer possibilidade de desgaste entre o Exército e o ministro da Guerra, o que naturalmente iria desembocar no governo de Vargas. Leonardo Trevisan, nos mostra que o manifesto dos coronéis não se resumia em apenas um pronunciamento que tinha a marca de oficiais que eram contrários ao governo do presidente Vargas, mas um caráter profissional, no qual esse documento teria sido acatado sem distinção entre os militares. Para Trevisan, o manifesto teria também um aspecto político “dada a oposição extrema da UDN que fazia questão de deixar público seus contatos com os militares”418. Continuando a abordagem destas questões, a Tribuna da Imprensa trazia em sua edição de 16 de fevereiro a seguinte chamada: “EXÉRCITO DESAPARELHADO, 417 Última Hora. 15/02/1954. p.3. 418 TREVISAN, Leonardo. Op. Cit. 113 INJUSTIÇA PROVOCADA, CORRUPÇÃO IMPUNE”. Nessa abordagem, o periódico fazia propaganda daquilo que o deputado Armando Falcão iria pronunciar em discurso na Câmara dos Deputados. Valorizando a fala dele, o jornal assim se apresentava: “O MEMORIAL dos coronéis é uma grave advertência à Nação em face de uma realidade que só o governo não enxerga”. O jornal expressou ainda os pontos do manifesto, fazendo referência à análise do deputado419. É importante observar que os termos utilizados pela Tribuna da Imprensa para se referir a esse período desconstroem qualquer possibilidade de o governo enxergar as questões no Exército de modo positivo. A tratar sobre o manifesto dos coronéis, Thomas Skidmore indica que, por ser um meio de protesto contra o abandono do Exército, o memorando seria um documento com caráter simplório. Segundo ele, se as exigências internas do Exército fossem consideradas, acatadas pelo governo de Vargas, muito daquilo que foi reivindicado não teria sido apresentado420. O Última Hora, por sua vez, na edição do dia 16 de fevereiro afirmava: “A Nação Tomará Conhecimento Dos Termos do Memorial Dos Coronéis”421. Mas diferentemente da Tribuna da Imprensa que usou termos mais firmes para se referir ao assunto, o Última Hora, se referia ao pronunciamento do deputado e general Lima Figueiredo. O parlamentar paulista hoje pela manhã esteve no Gabinete do Ministro da Guerra para conhecer os termos daquele documento. À tarde, dará conhecimento à nação do seu verdadeiro sentido para evitar as explorações e interpretações diversas que estão surgindo em torno do memorial, provocando apreensões e comentários, inclusive entre os parlamentares422 Tornar-se importante considerar a seguinte questão: em meio ao contexto que o manifesto dos coronéis trouxe para as relações militares e o governo Vargas, os periódicos passaram, logo de início, a apresentarem seus interesses. Tomemos como base a Tribuna da Imprensa, que, ao considerar a explanação que seria abordado pelo deputado Armando Falcão, fez de sua manchete uma crítica severa ao governo, mostrando que o Exército estava desaparelhado, sendo vítima de injustiça. A questão de enfatizar termos fortes em seu jornal era de fato uma possibilidade de confrontar o governo, dando apoio ao objetivo dos militares do Exército, mas agindo antes de tudo como uma voz discordante ante o 419 Tribuna da Imprensa. 16/02/1954. p.1. 420 SKIDMORE, Thomas E. Op. Cit. 421 Última Hora. 16/02/1954. p.1. 422 Última Hora. 16/02/1954. p.3. 114 presidente. Por outro lado, o oposto ficava evidente nas expressões do Última Hora, que ao considerar as falas do deputado Lima Figueredo, preferiu mostrar que a intenção do periódico era fazer com que o povo tomasse conhecimento verdadeiro referente ao assunto em questão, o qual evitaria explorações e interpretações negativas sobre o memorial, e dessa forma não causaria expressões de alardes através de suas manchetes, o que de fato já estava ocorrendo por parte do jornal de oposição. Sendo assim, nessa mesma edição, o Última Hora afirmava: “LÓGICO E OPORTUNO, O MEMORIAL DOS CORONÉIS DEVE SER CONSIDERADO”. O texto trouxe a fala do general Ciro Cardoso, que esclarecia o sentido do Memorial dos Coronéis. Segundo o general, este seria um documento de colaboração e que não feria os regulamentos das forças armadas423. Desta forma, podemos perceber através dessa fala que o general Ciro Cardoso, enquanto ministro da Guerra, deixava claro que não teria a intenção de punir esses oficiais. Neste contexto, para Carlos Heitor Cony, ao escolher por essa postura de enxergar o memorial como um documento de colaboração, o general Ciro Cardoso retirou a sua responsabilidade de encarar essa crise424. Além disso, o Última Hora mostrava que o memorial tratava de forma geral de dois assuntos: o aparelhamento técnico e o custo de vida, sendo que no sentido do aparelhamento técnico o governo estava tentando fazer a sua parte, independente da crise monetária que estaria atrapalhando naquele momento. Sobre o custo de vida, o periódico mostrava ser um problema não apenas dos militares, mas da sociedade em geral425. Para Trevisan, o manifesto dos coronéis do Exército tinha um caráter político, técnico e profissional. Quanto à questão política, ele aponta apenas uma referência: que era justamente a questão do salário mínimo aumentar, conforme estava sendo proposto pelo governo, e a mão-de-obra sem formação ganharia na mesma proporção daqueles com formação universitária, o que levaria os oficiais do Exército a um esforço extremo se quisessem manter compatível o seu padrão de vida426. O posicionamento do Última Hora sobre o assunto era voltado para mostrar que mesmo havendo exigências por parte do Exército, o governo deveria ter a sua imagem 423 Última Hora. 16/02/1954. p.1. 424 CONY, Carlos Heitor. Quem matou Vargas: 1954, uma tragédia brasileira. São Paulo. Editora Planeta do Brasil, 2004. p.186. 425 Última Hora. 16/02/1954. p.1. 426 TREVISAN, Leonardo. Op. Cit. p. 66. 115 conservada. Entretanto, isso não tirava o direito de militares exigirem os seus anseios e necessidades. Para tal, terminava o seu texto afirmando que “O memorial dos Coronéis, portanto, tem a sua oportunidade, a sua lógica, e deve ser considerado”427. O posicionamento do Última Hora não foi em nenhum momento ofensivo contra o documento, muito pelo contrário, pois sendo o jornal de apoio ao governo, o mais conveniente seria que ele combatesse a imagem e a atitude tomada pelos oficiais do Exército. Ainda assim, de uma forma equilibrada, soube mostrar a importância que deveria ser dada ao posicionamento tomado por esse grupo de oficiais do Exército, sem ferir, no entanto, a imagem do governo diante dessa questão, sem utilizar manchetes que pudessem ser ofensivas, o que estava sendo trazido pela Tribuna da Imprensa. Nas próximas abordagens o foco dos jornais tomarão um caráter diferente, no que diz respeito às consequências que esse manifesto dos coronéis do Exército produziu em relação ao ministério da Guerra e também do Trabalho, mostrando um cenário de insegurança e de instabilidade do governo Vargas. Sendo assim, na sua edição de 19 de fevereiro a Tribuna da Imprensa estampava em sua primeirapágina: “O EXÉRCITO DEFENDE A PAZ E A LIBERDADE” e mais abaixo continuava: “NOTICIÁRIO DA CRISE”428. O periódico se preparava de certa maneira para começar as informações daquilo que ele classificou de “crise”, ou seja, o período de instabilidade que se construiu entre o governo Vargas, alguns de seus ministros e as forças armadas, após a divulgação do manifesto dos coronéis. Esta informação de crise trazida pela Tribuna da Imprensa não seria uma realidade para o Exército, mas mostrava e reforçava a situação que o governo havia chegado após as consequências produzidas por esse memorial. Segundo Antonio Faria e Edgard de Barros, esse documento “manifestava a genuína expressão do descontentamento dos oficiais jovens, muitos dos quais nunca havia estado diretamente ligados ao movimento antigetulista anteriormente”429. Assim, expressando esse noticiário de crise, o periódico colocou em sua primeira página dois tipos de informações, no qual de um lado vinha o seguinte tema: “Eis os boatos” e do outro lado afirmava: “EIS OS FATOS”430. Este tipo de atitude iria se repetir em outras edições, nos quais o periódico iria manter essa mesma estratégia, o que reforçaria aos seus leitores a conjuntura negativa que havia se formado para o governo. 427 Última Hora. 16/02/1954. p.1. 428 Tribuna da Imprensa. 19/02/1954. p.1. 429 FARIA, Antonio A. da Costa. BARROS, Edgard Luiz de. Op. Cit. p.83. 430 Tribuna da Imprensa. 19/02/1954. p.1. 116 Igualmente procurava esclarecer as informações que estavam circulando e quais e o porquês seriam boatos ou verdades. É importante observar que com tantas informações sendo transmitidas, logo após o documento dos coronéis ter entrado em circulação, a Tribuna da Imprensa tinha através dessa estratégia de reportagem um meio de defender a sua imagem, fato que o mesmo estava se posicionando à favor da conduta desses oficiais, pois o memorial acabava de certa forma indo de encontro ao governo do presidente Vargas. Sob o mesmo ponto de vista, a Tribuna da Imprensa continuava ressaltando o papel e a importância do manifesto por parte dos coronéis do Exército, em que o título do texto dizia: “FATOS CONCRETOS E POSITIVOS RECOMENDA O EXÉRCITO”. Mostrava através desse texto que os coronéis não tinham pedido vantagens para os militares e buscavam levantar o estado de espírito da tropa431. Seguindo nessa questão, podemos perceber, segundo Skidmore, que Vargas teria se surpreendido com o posicionamento do Exército, pois sempre teria tratado com atenção as questões de exigências salariais desses militares. Entretanto, sua maior surpresa seria com o seu ministro da Guerra, que não teria o informado das insatisfações que naquele momento estavam ocorrendo por parte desses oficiais432. Nesse sentido, a partir desse momento, o acirramento em questões relacionadas aos ministérios da Guerra e do Trabalho iriam se intensificar e as consequências relativas à instabilidade causada pelo manifesto seriam tratados pelos periódicos aqui abordados, no qual seria enfatizada essa mudança de ministérios. Ainda em sua edição de 19 de fevereiro, o Última Hora continuou informando que: “DEMITIU-SE O GENERAL CIRO CARDOSO”, e mais abaixo, em letras menores dizia: “ZENÓBIO, MINISTRO DA GUERRA”433. Faz-se importante observar que o Última Hora ao mencionar a situação que se encontrou o ministério da Guerra, preferiu em não atribuir a falta de permanência do general Ciro Cardoso no ministério em função da realidade política que se formou, o que era algo relevante. Por sua vez, culpou os jornais mal intencionados, nos quais a Tribuna da Imprensa era destaque. Nesse sentido, o Última Hora assim declarou: O memorial dos coronéis trouxe obviamente ao ministro da Guerra uma série de embaraços, conquanto tivesse ele aceito o documento como uma colaboração `a 431 Tribuna da Imprensa. 19/02/1954. p.1. 432 SKIDMORE, Thomas E. Op. Cit. 433 Última Hora. 19/02/1954. p.1. 117 administração. Por outro lado, a confusão gerada pelos jornais mal intencionados levou o General Ciro Cardoso a solicitar, ontem, à tarde, ao Presidente da República, sua demissão do cargo. (...) pôs o Chefe do Governo a par da situação militar do país, tendo mostrado as providencias tomadas em face do memorial e das consequências que estavam se esboçando, como resultando do mesmo. Ao fim da sua exposição, o General Ciro Cardoso, colocou o cargo nas mãos do Presidente da República434 Deste modo, sobre o memorial dos coronéis, Zenóbio respondeu a Tribuna da Imprensa: “Não tomarei conhecimento do caso. Não creio que tenha havido indisciplina, mas, de qualquer forma, a solução já foi dada”435. Sobre o mesmo assunto o Ciro Cardoso respondeu: “Não há mais questão. Os coronéis firmaram um documento de colaboração com o governo. Reafirmo que não haverá indisciplina. Não há, portanto, que se pensar na aplicação de sanções”436. Podemos observar que a Tribuna da Imprensa reforçou mais uma vez, através da fala desses dois generais, que o procedimento tomado pelos coronéis e tenentes-coronéis não representaram indisciplina diante da instituição do Exército, de forma que não seria necessário haver punições. Em outros termos, o jornal reafirmava, aquilo que os generais Ciro Cardoso e Zenóbio da Costa achavam mais conveniente para esse momento de tensão entre as forças armadas e o governo. Nesse sentido, José Murilo de Carvalho nos mostra que esses oficiais teriam agido à revelia de seus comandantes, pois os mesmos nem foram punidos pela legislação militar, o que poderia mostrar que os chefes generais fossem coniventes ao documento. Para Carvalho, esse documento teria o objetivo de incentivar os generais para agirem contra o presidente Vargas437. Tratando desse mesmo assunto, o Última Hora, por sua vez, mostrava apenas os generais Zenóbio da Costa e Ciro Cardoso em suas rotinas, os quais mantiveram os seus compromissos militares438. A Tribuna da Imprensa continuou a tratar sobre os assuntos que estavam sendo trazidos sobre as possíveis demissões de ministros, e em sua edição de 22 de fevereiro estampava em letras garrafais, em sua primeira página: “FRACASSOU A GREVE GERAL” e continuava: “JANGO DEMITE-SE”. O texto apresentava a possível greve que seria feita pelos “pelegos”, em protesto contra a demissão de Goulart, na pasta do 434 Última Hora. 19/02/1954. p.2. 435 Tribuna da Imprensa. 20/02/1954. p.1. 436 Tribuna da Imprensa. 20/02/1954. p.1. 437 CARVALHO, José Murilo de. Op. Cit. 438 Última Hora. 20/02/1954. p.1 e 3. 118 Ministério do Trabalho439. O Última Hora, por sua vez, afirmava: “Irrevogáveis os pedidos de Ciro e Jango” e continuava: “As Cartas Dos Ministros da Guerra e do Trabalho Serão Hoje, Despachadas Pelo Presidente da República”440. Ainda nesta edição, o Última Hora trazia o seguinte tema: “CAIADO PORTADOR DO CONVITE A ZENÓBIO”. No decorrer deste texto, o periódico informava que a crise outrora ocorrida em função do memorial dos coronéis estava para ser encerrada e apresentava que apesar dos boatos sobre as mudanças do ministério da Guerra e do Trabalho, estaria sendo confirmado por meio do general Caiado de Castro o convite do presidente Vargas a ser feito ao general Zenóbio da Costa para assumir o ministério da Guerra441, em que o jornal apresentava a fala do general Caiado em que tranquilizava a todos, afirmando não haver nesse momento crise política, nem militar442. Nesse sentido, dando atenção ao pedido de demissão por parte do general Ciro Cardoso, o presidente Getúlio Vargas o atendeu através da seguinte carta que foi enviado em 23 de fevereiro de 1954. A correspondência começava dizendo que: “atendendo ao seu pedido e somente em vista do caráter irrevogável de que se reveste, vejo-me forçado a conceder-lhe exoneração do cargo de ministro da Guerra (...) inicialmente na Chefia do Gabinete Militar da Presidência da República”. E considerandoa importância do general enquanto esteve à frente do ministério da Guerra, Vargas assim terminou a sua carta: (...) “por todos os títulos, das tradições de sua brilhante carreira de armas. Com os reiterados agradecimentos do Governo, que são também os de todo o País, receba a segurança do meu alto apreço e de toda a minha consideração”443. Podemos observar que o general Nélson de Mello declarou em entrevista ao CPDOC-FGV que o manifesto dos coronéis foi uma política contra o governo444 e que impressionou muito a Getúlio Vargas, que tiraria o general Ciro do Espírito Santo Cardoso e colocaria o general Zenóbio da Costa em seu lugar, o que não seria o suficiente445. Também em entrevista ao CPDOC-FGV, o brigadeiro Nero Moura declarou: 439 Tribuna da Imprensa. 22/02/1954. p.1. 440 Última Hora. 22/02/1954. p.1. 441 Última Hora. 22/02/1954. p.1. 442 Última Hora. 22/02/1954. P. 1 e.3. 443 VARGAS, Getúlio. [Carta] 23 fev. 1954. Petrópolis [para] CARDOSO, Ciro. Rio de Janeiro. 2f. Carta de Getúlio Vargas ao General Ciro do Espírito Santo Cardoso concedendo-lhe exoneração do cargo de Ministro da Guerra e agradecendo pelo bom desempenho de suas atribuições. Documento de Arquivo Pessoal. CPDOC-FGV. 444 MELLO, Nélson De. Nélson de Mello (depoimento, 1978/1979). Rio de Janeiro, CPDOC, p.325. 445 MELLO, Nélson De. Nélson de Mello (depoimento, 1978/1979). Rio de Janeiro, CPDOC, p.324. 119 “a mudança do presidente em trocar um ministro da estirpe de Ciro do Espírito Santo Cardoso por um homem como o Zenóbio, numa situação difícil, não me parece muito boa”446. Entretanto, para o brigadeiro, se o marechal Lott fosse escolhido ministro da Guerra, teria colocado o Exército em seu Lugar447. Sendo assim, em meio a esse clima de “crise” que o manifesto tinha causado, a Tribuna da Imprensa fazia referência a uma reunião de generais e coronéis e estampou o seguinte tema em sua página de 23 de fevereiro: “A noite dramática de sexta-feira”. O texto mostrava que o tema “noite dramática” se justificaria pelo descontentamento dos coronéis, em função da possível permanência de João Goulart no ministério do Trabalho. Logo, o jornal mostrou a declaração do general Zenóbio da Costa, o qual estava presente nessa reunião. Nesse sentido, Zenóbio afirmou que o maior serviço que João Goulart poderia prestar ao Brasil e ao presidente Getúlio Vargas, seria deixar de forma imediata o Ministério do Trabalho, de maneira que ele permanecendo “no cargo, continuaria a ser a grande fonte de descontentamento que vinha sendo nos últimos tempos”448. Skidmore aponta que apesar do memorando dos coronéis não mencionar expressamente o nome de Jango, o presidente Vargas já teria recebido várias advertências de militares de que o passo para restaurar a confiança entre ele e os oficiais do Exército, seria a demissão do ministro João Goulart449. O que segundo Paulo Brandi, seria um meio de o presidente poder estar bem com a oficialidade450. Seguindo nessa questão, percebemos que o Última Hora, por sua vez, não trazia nenhuma referência a essa reunião, mas sim ao posicionamento de Zenóbio da Costa, novo ministro da Guerra, que mostrava que o seu objetivo era o de poder unir cada vez mais as classes armadas. Sobre o memorial dos coronéis, o general respondeu ao Última Hora que: “Não é possível partir de mim a iniciativa, porquanto o caso foi adstrito ao ex- Ministro Ciro Cardoso. Quanto ao conteúdo do documento (...), posso adiantar que é do máximo interesse nacional e foi patrioticamente lançado”451. Nesse contexto, para Nélson Werneck Sodré, o manifesto dos coronéis representou uma grande demonstração de indisciplina por parte do Exército, em que o veto ao aumento do salário mínimo e a 446 MOURA, Nero. Nero Moura (depoimento, 1983/1984) Rio de Janeiro, CPDOC. 24/10/1983. 447 MOURA, Nero. Nero Moura (depoimento, 1983/1984) Rio de Janeiro, CPDOC. 24/10/1983. 448 Tribuna da Imprensa. 23/02/1954. p.2. 449 SKIDMORE, Thomas E. Op. Cit. 450 BRANDI, Paulo. Op. Cit. 451 Última Hora. 23/02/1954. p.3. 120 acusação de corrupção no governo de Vargas, foram dois pontos importantes desse manifesto, nos quais, segundo Sodré, esses coronéis e tenentes-coronéis responsáveis pela composição desse manifesto, teriam sido acobertados por generais da cúpula militar452. Podemos observar que desde o momento em que o manifesto dos coronéis comprometeu os dois ministros do governo de Vargas, os jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora se concentraram em informações bem detidas, em que prevaleceu as informações sobre essas mudanças de cargo. A Tribuna da Imprensa mostrou de fato o seu lado de oposição ao governo, pois em todas as suas manchetes aqui abordadas sobre esse assunto, trazia sempre uma conotação negativa, pois mostrava, que o Exército estava descontente com o governo. Por outro lado, o Última Hora buscou enfatizar os acontecimentos, sem realçar, no entanto, o lado negativo que esse manifesto poderia representar para o governo de Vargas. De fato, o Manifesto dos Coronéis não criou principalmente um conflito para Vargas, pois os oficiais envolvidos nesse contexto tinham que combater uma realidade que ia de encontro aos interesses do governo, como exemplo, a questão do aumento do salário mínimo, que tinha apoio do presidente e se pautava no Ministério do Trabalho, o que acabou de certa forma trazendo exonerações de ministros de Vargas, os quais acabaram por enfraquecer a sua presidência. Nesse sentido, Paulo Brandi afirma que, a partir da saída de João Goulart da pasta do ministério do Trabalho, Vargas se tornou novamente o alvo dos oposicionistas, nos quais as lideranças da UDN, tendo como base o manifesto dos coronéis, reafirmaram essa ligação com os militares contrário ao presidente. Segundo Brandi, “a trama para a deposição de Vargas começou a ganhar consistência”453. No entanto, Célia Maria Leite Costa indica que “em 10 de maio, todavia, Getúlio anunciou, em discurso inflamado, o novo salário mínimo, nos termos propostos pelo ex-ministro João Goulart. Com isso, a oposição civil e militar retomou o movimento conspiratório”454. A partir de agora, iremos analisar o mês de agosto de 1954, momento crucial nas relações militares e o governo de Vargas. Divididos aqui em três momentos: morte do major Rubens Vaz, aumento da crise político-militar e o suicídio de Vargas, nos quais as diferenças de posicionamentos e de defesas por parte dos jornais Tribuna da Imprensa e 452 SODRÉ, Nélson Werneck Op. Cit. 453 BRANDI, Paulo. Op. Cit.p.282. 454 http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/ManifestoCoroneis http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/Manifesto 121 o Última Hora, aqui analisados, marcarão a apresentação dessas questões que formam a conhecida crise de agosto de 1954. 3.2. A Aeronáutica é atingida: morre o major Rubens Florentino Vaz Seguindo nessas relações das forças armadas com o governo de Getúlio Vargas, podemos perceber que até o presente momento da análise deste capítulo o foco esteve principalmente no Exército. A partir desse momento, a Aeronáutica passará a fazer parte, o que trará a intensificação da participação das forças armadas em sua totalidade no ano de 1954. Nesse sentido, podemos observar que o início de agosto de 1954, seria marcante nas relações entre as forças armadas e o governo do presidente Vargas, mais especificamente o dia 5, em que o oficial da Aeronáutica, major Rubens Florentino Vaz foi assassinado enquanto fazia a segurança do deputado federal e oposicionista ao governo, Carlos Lacerda. De fato, a morte de um militar da Aeronáutica iria comprometer de vez essas relações e construir um ambiente que se abriria para as possibilidades de confrontos que causaria o ápice da crise político-militar do governo, ou mais precisamente a crise de agosto de 1954. Nesse sentido, o marechal Henrique Teixeira Lott em entrevistaao CPDOC-FGV assim declarou; O assassinato de um oficial da Aeronáutica foi uma covardia gritante, que provocou um natural aborrecimento nos oficiais da Aeronáutica, como em todos os militares. O assassinato de um companheiro, qualquer que seja a arma a que ele pertença, é sempre desagradável para todos nós455 Podemos perceber que este momento permitirá o melhor embate nas relações de posicionamentos dos jornais tratados aqui. A Tribuna da Imprensa e o Última Hora enquanto jornais com objetivos opostos, se veem agora na possibilidade de expressar o seu papel jornalístico. Em sua edição de 5 de agosto de 1954, a Tribuna da Imprensa iria explorar o seu meio jornalístico de forma a ir de encontro ao governo de Vargas, fato que Lacerda, sendo vítima do atentado – e responsável por esse jornal – não iria medir esforços para poder atacar o seu inimigo. O Última Hora, por sua vez, por ser um jornal de apoio ao governo - era o único meio jornalístico de apoio a Vargas – e por isso mesmo 455 LOTT, Henrique Baptista Duffes Teixeira. Henrique Teixeira Lott (depoimento, 1978). Rio de Janeiro, CPDOC, 2002. 14/11/1978. p.69. 122 procurava naquele momento proteger o presidente das afrontas midiáticas. Nesse sentido, se posicionou de forma a não valorizar tanto as manchetes sobre este crime. Thomas Skidmore expõe que, pelo fato de Carlos Lacerda já ter sido vítima de vários atentados, teve através de oficias da Aeronáutica um direito a sua proteção, o qual era feita dia e noite. Entretanto, o mesmo sofreria um atentado em 05 de agosto de 1954, no qual o major Rubens Vaz acabaria sendo morto. Segundo Skidmore, esse incidente teria causado um impacto político considerável para o presidente Vargas, o qual acabou por ferir a honra dos oficiais da Aeronáutica, no qual os “militares foram arrastados diretamente para a briga política entre o presidente e os antigetulistas”456. Para Boris Fausto o major Rubens Vaz não era de fato o alvo do atentado e sim Carlos Lacerda, o qual saiu ileso. Esse último, era ferrenho opositor de Vargas, que já vinha sofrendo acusações por parte desse líder da UDN. Para Fausto, esse crime “dera munição a Lacerda”, para que o mesmo pudesse reafirmar a sua oposição a Getúlio e assim juntamente com os outros líderes udenistas poder combater o governo de Vargas457. Quanto a apresentação dos jornais, podemos perceber que a primeira página da Tribuna da Imprensa do dia 5 de agosto foi totalmente ocupada por informações e fotos que se relacionavam ao assassinato do major Vaz, no qual dentre esses vários assuntos trazia o seguinte tema, em letras muito exageradas, ocupando boa parte do jornal, que dizia: “A Nação exige os nomes dos assassinos”458. Nesse mesmo sentido, a Tribuna da Imprensa continuava a reafirmar essa situação, trazendo na parte alta do jornal a seguinte expressão do brigadeiro Eduardo Gomes: “A HONRA DA NAÇÃO BRASILEIRA EXIGE A PUNIÇÃO DESTE CRIME”459. Devemos considerar que o brigadeiro Eduardo Gomes - chefe do Estado Maior da Aeronáutica - era uma figura importantíssima não apenas para as forças armadas, mas principalmente para a Aeronáutica, e de certa forma, esse crime teria produzido para ele uma “atmosfera” de inconformismo contra o presidente Vargas, no qual segundo ele, a punição aos infratores desse crime seria exigida pela nação brasileira. Nessa sequência, o periódico trazia no canto direito do jornal, um trecho, em que trazia uma foto do major Vaz, em que ao lado estava escrito: “O sangue de um inocente”. 456 SKIDMORE, Thomas. Op. Cit. 457 FAUSTO, Boris. Op. Cit. 458 Tribuna da Imprensa. 05/08/1954. p.1. 459 Tribuna da Imprensa. 05/08/1954. p.1. 123 Essa coluna era um texto escrito por Carlos Lacerda, que bem diferente do seu habitual – pois Lacerda sempre se utilizava da quarta página para escrever os seus textos – trazia agora, em sua primeira página as seguintes afirmações: RUBENS Florentino Vaz, herói do Correio Aéreo Nacional, pai de quatro crianças, caiu esta noite ao meu lado. Meu próprio filho correu, com ele, o risco a que estão sujeitos os brasileiros entregues a um regime de corrupção e de terror. Os que não cedem à corrupção caem sob a ação da violência. Temos dito isto. Há neste país quem não saiba que a corrupção do governo Vargas gera o terror de seu bando? Dia após dia, noite após noite, a ronda da violência faz o cerco aos que não cedem à coação do dinheiro. Hoje, que mais posso dizer? A visão de Rubem Vaz na rua, com duas balas à queima-roupa; a viagem interminável que fiz com ele até o Hospital, vendo-o morrer nos meus braços, impede- me de analisar a frio, neste momento, a hedionda emboscada desta noite. Mas, perante Deus, acuso um só homem como responsável por esse crime. É o protetor dos ladrões, cuja impunidade lhes dá audácia para atos como o desta noite. Esse homem chama-se Getúlio Vargas. Ele é o responsável intelectual por esse crime. Foi a sua proteção; foi a covardia dos que acobertaram os crimes dos seus asseclas que armou de audácia os bandidos. Assim como a corrupção gera a violência, a impunidade estimula os criminosos. Penso nessas crianças e no meu filho. Rubens Vaz morreu na guerra. Morreu, esse querido amigo, na mais terrível, na mais insidiosa das guerras: a de um povo inerme contra os bandidos que constituem o governo de Getúlio Vargas460 Podemos observar através deste texto, o quão enfático e carregado de revolta era a declaração de Lacerda, o que nos apresenta uma das formas que esse periódico se utilizou para poder noticiar esse fato, e trazer ao leitor a primeira informação de uma impunidade e direcionamento de responsabilidade pelo crime ao governo de Getúlio Vargas. Segundo Jorge Ferreira, a partir da tentativa de morte contra Carlos Lacerda, o que custou a vida do major Rubens Vaz, Getúlio Vargas teve o seu destino político selado. Embora o presidente não tivesse informações dos planos de Gregório Fortunato - que era o chefe de sua Guarda Pessoal - ainda assim não seria possível de se eximir das responsabilidades do crime, no qual a partir desse momento se tornaria intenso os ataques contra o seu governo461. O Última Hora, também em edição de 5 de agosto trazia um enfoque bem diferente, pois ao contrário do exposto pela Tribuna da Imprensa, não se preocupou em 460 Tribuna da Imprensa. 05/08/1954. p.1. 461 FERREIRA, Jorge. Crises da República: 1954, 1955 e 1961. In; DELGADO, Lucília de Almeida Neves (org.) O Brasil Republicano. O tempo da experiencia democrática, da democratização de 1945 ao golpe civil-militar. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2003. 124 dar tanta ênfase a esse acontecimento. O periódico trazia em sua primeira página, sem dar grande destaque a informação, junto a foto do corpo do major, as seguintes informações: “Em consequência da tentativa de morte contra o jornalista Carlos Lacerda, perdeu a vida, atingido pelas balas, o major Rubens Florentino Vaz. Também ferido, o guarda municipal Sálvio Romeiro”462. É interessante observar que a capa da Tribuna da Imprensa foi toda voltada para trazer a informação deste incidente, enquanto a capa do Última Hora reservou para esta informação um mínimo de espaço, o que de fato revelava a verdadeira tensão que esse incidente causaria para o governo. O Última Hora ainda traria mais informações sobre o incidente, no qual dizia: “O ATENTADO DA MADRUGADA DE HOJE” e continuava: “MOBILIZADOS TODOS OS RECURSOS DO GOVERNO PARA ESCLARECER O CRIME”463. Nota-se a partir desse momento que o Última Hora já percebia o drama que essa situação traria para o presidente Vargas e mostrava de certa forma através de seu veículo de informação que o governo estaria se mobilizando ao máximo para que o crime que ocasionou a morte do major Rubens Vaz fosse solucionado. Todavia, apesar de na parte interna do jornal, apresentar um texto longo e com várias informações detalhadassobre o caso, o jornal mostrava um tom de cuidado em seu discurso inicial, procurando valorizar em todo o momento a posição do governo. De forma a defender o presidente Vargas, das informações de acusações criadas contra o seu governo e que vinha exatamente por parte da Tribuna da Imprensa, através de seu diretor, Carlos Lacerda, o Última Hora assim afirmava: Não é lícito a ninguém, tendo em vista a atmosfera de exacerbação, ódio, intolerância e subversão que domina o país nesses últimos anos, atmosfera essa em que possivelmente gerou-se o impulso de ódio, que armou a mão criminosa, não é lícito a ninguém adiantar- se as inevitáveis conclusões a que a polícia, agindo com o máximo rigor, deverá chegar464 Como dito anteriormente, bem diferente do que vinha sendo apresentado pelo Última Hora, a Tribuna da Imprensa continuou a se utilizar de várias de suas páginas para realçar o ocorrido, dando a esse fato uma valorização em seus variados aspectos. Sendo assim, uma sequência de depoimentos mostrava as falas daqueles que estiveram 462 Última Hora. 05/08/1954. p.1. 463 Última Hora. 05/08/1954. p.1 e 3. 464 Última Hora. 05/08/1954. p.3. 125 na cena do crime465, assim como, através das falas de outros jornalistas, mais depoimentos sobre o atentado foram apresentados”466. O periódico trazia ainda o pronunciamento de diversas pessoas e órgãos institucionais, tendo se apresentado militares, políticos, líder de imprensa, dentre outras personalidades467. No dia seguinte ao ocorrido, a Tribuna da Imprensa manteria o seu mesmo objetivo de ser o mais exigente possível em suas reportagens e acusações, valorizando as suas reportagens sobre o caso nas mais diversas páginas. Contudo, é importante destacar que diferentemente da edição anterior, o Última Hora se apresentaria de forma mais intensa, tentando mostrar através da fala de algumas personalidades e utilizando mais páginas de seu jornal para tratar sobre o assunto. Dentre as várias manchetes trazidas pela Tribuna da Imprensa, em sua edição de 06 de agosto, uma de grande destaque dizia: “Povo e classes armadas unidas no enterro do major assassinado”468. Mais uma vez, a Tribuna da Imprensa mostrava que não somente os militares, mas também a população estava indignada pela morte do major Vaz. Assim se expressou a Tribuna da Imprensa: Milhares de pessoas estiveram ontem à tarde e à noitinha, no cemitério de São João Batista, para prestar a sua derradeira homenagem ao jovem oficial, morto na emboscada de ontem. Gente humilde de todas as profissões e níveis sociais, reverenciou a memória do major Vaz. (...) entre muitos outros, um contínuo do Ministério da Aeronáutica, que conhecera o major Vaz e a ele devotara grande amizade469 Diferentemente da Tribuna da Imprensa, o Última Hora apenas apresentou a seguinte definição: “O Povo Carregou o Corpo do Major”. Logo abaixo trazia uma imagem de homens que carregavam uma faixa, em pleno cortejo, em que vinha a seguinte frase do brigadeiro Eduardo Gomes: “para honra da nação confiamos que esse crime não ficará impune”470. Essa informação continuaria ainda de forma mais intensa, em que o periódico mostrava com textos e imagens alguns dos episódios daquele último momento com o major Vaz471. Paulo Brandi nos mostra que um dia após o assassinato do major Rubens Vaz, o presidente Vargas teria divulgado através de Tancredo Neves, seu ministro 465 Tribuna da Imprensa. 05/08/1954. p.2. 466 Tribuna da Imprensa. 05/08/1954. p.6. 467 Tribuna da Imprensa. 05/08/1954. p.3,4 e 6. 468 Tribuna da Imprensa. 06/08/1954. p.1. 469 Tribuna da Imprensa. 06/08/1954. p.8. 470 Última Hora. 06/08/1954. p.1. 471 Última Hora. 06/08/1954. p.3. 126 da Justiça, que o governo se empenharia com rigor nas apurações para esclarecer esse crime. Nesse mesmo dia, oficiais da Aeronáutica, do Exército e da Marinha atenderam à convocação do brigadeiro Inácio de Loyola Daher, o qual foi realizado “a primeira manifestação militar de protesto contra o crime”472. Sendo assim, ainda em sua edição de 06 de agosto, a Tribuna da Imprensa continuava e em letras grandes a manchete expressava: “Carlos Lacerda escreve: COMEÇOU A IMPOSTURA DOS MANDANTES”473. Conforme era o seu habitual, Lacerda traria um texto extenso para continuar a se posicionar contra o governo. Nele, Lacerda expunha a sua indignação e sua postura de defesa contra a morte do major Vaz, mostrando não somente que os criminosos estariam no Palácio do Catete. Não se limitando a isso, ele trazia um tom de crítica ao Ministro da Aeronáutica, brigadeiro Nero Moura, que teria declarado a jornais que a morte do major Vaz teria sido em defesa de um amigo e não propriamente como major da Aeronáutica, o que trouxe a indignação por parte de Lacerda. A sua crítica se estenderia ao ministro da Justiça, Tancredo Neves, assim como ao jornal Última Hora e, principalmente e de forma agressiva, ao presidente Getúlio Vargas474. Essa postura por parte de Lacerda seria recorrente em outras edições, em que ele manteria o tom de crítica contra o posicionamento do governo diante da apuração desse caso, dentre outras questões. A Tribuna da Imprensa traria ainda o nome de milhares de brasileiros, que por telegrama, telefone ou até mesmo em visita a redação desse jornal, expressaram a sua revolta, condenando o atentado475. Ainda nesta edição o Última Hora traria um tom mais defensivo para abordar o assunto. Dentre as suas manchetes de primeira página, o periódico trazia a seguinte expressão do deputado Lutero Vargas: “Enquanto Meu Pai For Presidente da República, Eu me Empenharei Para Que Carlos Lacerda Não Sofra Qualquer Atentado”. Lutero daria uma entrevista ao jornal em que mencionava o atentado, e mostrou confiar nas autoridades do país e se solidarizou pela morte do major Vaz476. Devemos considerar que aqui estava em jogo não somente a imagem do presidente Vargas, mas também de sua 472 BRANDI, Paulo. Op. Cit. p.287. 473 Tribuna da Imprensa. 06/08/1954. p.1. 474 Tribuna da Imprensa. 06/08/1954. p.4. 475 Tribuna da Imprensa. 06/08/1954. p.4 e 7. 476 Última Hora. 06/08/1954. p.1. 127 própria família, através da acusação que recaia sobre o seu filho Lutero, o que acabava por tornar o contexto de insegurança mais tenso do que já estava. Mostrando defesa ao governo de Vargas, Lutero assim declarava: Quanto ao crime em si, desejo me externar apenas sobre um ponto; a quem interessaria, neste momento em que o povo se prepara pacificamente para uma vez mais manifestar a sua vontade soberana nas urnas, a quem interessaria a subversão da ordem e a exacerbação dos ódios, senão aqueles que buscam num ambiente de intranquilidade e agitação, baseada na mais desenfreada demagogia e agitação política, a sua própria sobrevivência eleitoral477 Como dito anteriormente, esse fato ocorrido com o major Vaz não se concentraria apenas nas preocupações das forças armadas, mas de fato alcançaria o meio político também. Logo, podemos observar que durante a trajetória do governo Vargas, não somente Lacerda era oposição, mas a própria UDN, que era o partido ao qual ele fazia parte e que tinha parlamentares que também se inflamavam contra o presidente Vargas. Nesse sentido, Sérgio Lamarão aponta que “a bancada udenista na Câmara, liderada pelo deputado Afonso Arinos de Melo Franco, colocava sistematicamente o assunto em discussão. Ao mesmo tempo, em plena campanha eleitoral, a UDN utilizava seus comícios para mobilizar a população contra o governo”478. Esse atentado, e a consequente morte de um oficial de posição reconhecida na Aeronáutica, seria um bom motivo para que as consequências também repercutissem em outros seguimentos do governo. O episódio também repercutiu nas Câmara dos Deputados e no Senado, trazendo horas de declarações feitas pelos diversos políticos que compunham essas instituições. A Tribuna da Imprensa assimdefiniu em sua primeira página: “VIOLENTA A REAÇÃO NO CONGRESSO”479. No entanto, se faz importante observar como cada um desses periódicos aqui tratados procuraram evidenciar essa reunião. A Tribuna da Imprensa assim se expressou: “Durante quatro horas, repercutiu no Congresso, o brutal assassinato” e na parte inferior continuava: “No Senado: Indignação e revolta”480. O periódico valorizou ao máximo o posicionamento ofensivo que foi trazido contra o 477 Última Hora. 06/08/1954. p.1. 478 Cf. Sérgio Lamarão. TONELEROS, Atentado da. In: ABREU, Alzira Alves de et. Al (coords.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. Pós – 1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. 479 Tribuna da Imprensa. 06/08/1954. p.1. 480 Tribuna da Imprensa. 06/08/1954. p.3. 128 governo Vargas, o que foi expresso em sua esmagadora maioria por deputados e senadores. O Última Hora, por outro lado, faria um papel de defesa ao presidente Vargas e traria apenas a fala do deputado Gustavo Capanema. Em sua manchete dizia: “Capanema Responde Aos Demagogos Profissionais” e continuava mais abaixo: “Cabe ao Poder Judiciário Punir os Autores do Covarde Atentado”481. Repare que o Último Hora, ao se posicionar através de sua manchete, mostrava que o poder de manipulação por parte desses políticos não deveria prevalecer, mas somente a Justiça deveria punir os criminosos. Nesse extenso texto o Última Hora trazia o posicionamento de Capanema, que em seus discursos criticou as acusações por parte de deputados e senadores, trazidos por meio da Tribuna da Imprensa e fez defesa a Lutero e ao governo de Vargas. Capanema assim concluiu sua fala Consideremos as palavras serenas do Sr. Brigadeiro Eduardo Gomes, que, no tumulto da noite funesta, na hora em que uma ou outra voz, dentre os seus companheiros, tinha palavra de excessiva agressão contra a pessoa do chefe do Governo, conservava o ânimo calmo, esse ânimo bem próprio de quem é digno de ser chefe, para dizer apenas isto: “ A honra da nação brasileira exige a punição deste crime”. É esta palavra serena e confiante que todos aqui devemos proferir, sem adiantar nenhum julgamento, que seria temerário e poderia ser injusto482 Por certo, apesar desse incidente ter repercutido entre os políticos, fato é que o seu grande destaque estava entre as forças armadas. Segundo Paulo Brandi, “começava a se delinear um sério conflito, entre as forças armadas e o Presidente da República, agravado no dia 7 pelo depoimento de Nélson Raimundo, na Polícia Militar, incriminando um membro da guarda pessoal de Getúlio, Climério Euribes de Almeida”483. Dessa maneira, esse nome se tornaria um grande destaque nesse processo, o qual seria acompanhado por grandes informações. Nesse sentido, na sua edição de 7/8 de agosto, a Tribuna da Imprensa trazia o seguinte tema, em letras garrafais: “APURAR TUDO, ATÉ O FIM”484. O periódico trazia um texto em que mostrava a reunião ocorrida, no Clube da Aeronáutica, entre oficiais não somente da Aeronáutica, mas do Exército e da Marinha, que mostravam o compromisso 481 Última Hora. 06/08/1954. p.2. 482 Última Hora. 06/08/1954. p.2. 483 BRANDI, Paulo. Op. Cit. p.287. 484 Tribuna da Imprensa. 07,08/08/1954. p.1. 129 de tomarem a responsabilidade das investigações, caso os órgãos oficiais não dessem conta do recado485. A Tribuna da Imprensa fez questão de trazer essas informações, mostrando estarem unidas as forças armadas na investigação desse caso. Nesse contexto, João Roberto Martins Filho mostra que, com o episódio do dia 5 de agosto, acabou-se por colocar a situação militar num outro patamar, em que se unificaram as alas da Aeronáutica, do Exército e da Marinha, que se colocaram como capazes para indicar que Vargas deveria ser afastado486. Podemos perceber que não demorou muitos dias após o ocorrido e as forças militares já estavam se posicionando para começar a agir. Logo, em edição de 07 de agosto, o Última Hora trazia em letras grandes em sua primeira página: “CERCO DE FERRO EM TORNO DO ASSASSINO”. O periódico mostrava de certa forma o seu compromisso de resposta à Tribuna da Imprensa, apresentado que o governo também se empenhava na busca por descobrir o criminoso e os mandantes desse crime487. Diante das apurações do crime que ocasionou a morte do major, a Tribuna da Imprensa prosseguia tentando mostrar quem eram os culpados. Nesse sentido, em sua edição de 9 de agosto, trazia a seguinte afirmação de Carlos Lacerda: “CLIMÉRIO ESTEVE COM LUTERO NA AUDIÊNCIA DA 14ª VARA”. Dentre outras informações trazidas por esse periódico, o mesmo mostrava a relação entre o governo e Climério e estampando uma foto do acusado afirmava: “PROCUREM ESTE HOMEM”. Por várias de suas páginas, o periódico procurou, mostrar a possível relação entre Climério e o governo, sempre com um tom de acusação, no qual o jornal terminava trazendo a seguinte definição: “A POLÍCIA CONFESSA: CLIMÉRIO ESTAVA À DISPOSIÇAO DO CATETE”488. Thomas Skidmore mostra que, com o vazamento dos resultados das investigações, o presidente Vargas acabou por ficar numa situação mais difícil, em que seus assessores estariam entre os envolvidos nesses relatos de corrupção, e o próprio Gregório Fortunato teria sido responsável por providenciar o atentado489. 485 Tribuna da Imprensa. 07,08/08/1954. p.2. 486 MARTINS FILHO, João Roberto. Forças Armadas e política, 1945-1964: a ante sala do golpe. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucília de Almeida Neves. O Brasil Republicano. O tempo da experiencia democrática – da democratização ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003. 487 Última Hora. 07/08/1954. p.1. 488 Tribuna da Imprensa. 09/08/1954. p.1. 489 SKIDMORE, Thomas E. Op. Cit. 130 Dessa maneira, o Última Hora também seguiria reafirmando a sua postura de identificação contra o criminoso. No entanto, buscava mostrar o compromisso do governo através da força policial. Estampando a foto de Climério em sua primeira página, trazia ainda as seguintes afirmações: “ESPETACULAR CAÇADA PARA A CAPTURA DE CLIMÉRIO, O ASSASSINO DO MAJOR”490. Podemos observar que diferentemente de seu primeiro subitem aqui tratado, o Última Hora passou a apresentar mais notícias sobre o caso, o que nos mostra que devido a intensificação das acusações contra o governo, se fez necessário que fosse melhor expressado a sua opinião sobre o assunto, no qual ele era a voz do governo nesse sentido. A Tribuna da Imprensa, por sua vez, não mediu esforços para através dessas informações sobre o incidente, intensificar as informações e trazer a responsabilidade da morte do major Rubens Vaz para o governo e também para a pessoa do presidente Getúlio Vargas. 3.3. Aumenta-se a crise político-militar no governo Vargas O desfecho da morte do major Rubens Vaz seria algo marcante nas relações entre as forças armadas e o governo Vargas. Dessa forma, faria com que o quadro político- militar que havia sido comprometido a partir de 05 de agosto se acirrasse, trazendo um clima de maior tensão para o lado dos militares, mas principalmente para o governo do presidente Vargas. Thomas Skidmore aponta que, após a morte do major Rubens Vaz, houve-se um grande impacto político, em que para defender a sua honra, a Aeronáutica, através de seu corpo de oficiais, passou a travar uma “briga” política com o presidente, o que nos mostra que independentemente das investigações da Justiça, a Aeronáutica começaria a desenvolver uma investigação por conta própria491. Abordaremos, a partir desse momento, as edições de 10 a 23 de agosto de 1954, entendendo esse período como o momento de crescimento da crise político e militar do governo. Nesse sentido, a atuação das forças armadas ficará cada vez mais crescente, em que o destaque de oposição continuará em maior intensidade pela Aeronáutica, sendo seguida com o apoio da Marinha e do Exército. Richard Bourneindica que a Aeronáutica era a força militar que apresentou uma posição clara em relação aos destinos do que deveriam ser dados ao presidente Vargas. Nesse sentido, a Marinha, apesar de ser uma 490 Última Hora. 09/08/1954. p.1. 491 SKIDMORE. Thomas E. Op. Cit. 131 instituição conservadora, não ficava atrás492. No entanto, o foco de exploração desse assunto, se concentrará também em outros setores, tanto através do quadro político- partidário, quanto na sociedade de maneira em geral, o que será visto e analisado através das perspectivas dos jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora. Faz-se interessante observar que as matérias jornalísticas e as páginas de referências a esses acontecimentos se darão em número muito mais considerável pela Tribuna da Imprensa, o qual explorará não apenas em informação, mas em tom de acusação ao governo de Getúlio Vargas, pois de certa forma poderemos perceber que Carlos Lacerda manterá ao máximo o tom de exploração sobre a apresentação dos fatos. O Último Hora, por sua vez, manterá uma maneira mais branda e menos expressiva, sem, no entanto, deixar de mostrar os seguimentos dos fatos. 3.3.1. Os parlamentares e a crise político-militar Toda a repercussão do aumento da crise político-militar no governo, ocasionada logo após a morte do oficial da Aeronáutica iria continuar a repercutir também no plano político partidário. Nesse sentido, não somente na Câmara dos Deputados, mas também no Senado, os políticos iriam expor as suas opiniões sobre os fatos, e o que se sobressaiu foram palavras de revoltas contra a morte do major Vaz e os pedidos de renúncia ao presidente Vargas, o qual era reforçado através dos pedidos de busca pelos culpados. Esses períodos de debates foram um momento propício para os periódicos se posicionarem, o que foi bem explorado pela Tribuna da Imprensa. Podemos observar que durante essas edições aqui abordadas, a Tribuna da Imprensa se “aproveitou” do que lhe era favorável na Câmara e no Senado e expôs esses acontecimentos em suas manchetes. Durante todo esse período, a Tribuna da Imprensa estampou as diversas reuniões ocorridas, utilizando várias de suas páginas para transmitir essas informações, assim como, explorou textos longos e apresentou vários discursos de políticos importantes da UDN, como por exemplo Afonso Arinos e Eliomar Baleeiro, e também o senador Hamilton Nogueira, dentre outros. Assim sendo, Sérgio Lamarão mostra que a confirmação de que a guarda pessoal de Vargas estaria envolvida no crime que causou a morte do major Rubens Vaz acabou levando os grupos de oposição a 492 BOURNE, Richard. Op. Cit. 132 intensificarem a sua campanha, exigindo a renúncia de Vargas. A bancada udenista, por exemplo, liderada pelo deputado Afonso Arinos, colocava o assunto em plena discussão e através de comícios, mobilizava os populares contra o governo de Vargas493. A Tribuna da Imprensa trazia na edição de 10 de agosto a seguinte manchete: “Afastamento, licença ou renúncia de Getúlio, exige a oposição”494. Ou seja, o periódico fazia coro com os parlamentares de oposição e deixava claro que Vargas não poderia mais permanecer na presidência e deveria se submeter a uma dessas possibilidades. Isso de certa forma era o começo de muitas das manchetes que a Tribuna da Imprensa iria trazer para expor o posicionamento dos políticos que eram contrários ao governo. Trazia em quase todas as suas páginas o posicionamento dos deputados Afonso Arinos e Eliomar Baleeiro - que de certa forma eram dois políticos de grandes destaques na UDN - que exigiam a saída de Vargas, de forma a não atrapalhar aquilo que deveria ser apurado sobre o crime. Entretanto, segundo Lúcia Hippolito “na Câmara, enquanto crescia a violência dos discursos da oposição udenistas, menos da metade da bancada pessedista comparecia ao plenário”495. O Última Hora, por sua vez, expunha o seu lado defensivo ao governo e estampava em sua primeira página no dia 16 de agosto: “Vieira Lins e Capanema na Tribuna da Câmara, hoje e amanhã, contra a onda demagógica dos líderes oposicionistas”. E mais abaixo continuava: “O CRIME DE TONELEROS NÃO DEVE CONTINUAR A ENVENENAR O BRASIL!”496. Através dessa manchete, o jornal fazia questão de mostrar a que ponto havia chegado as consequências desse crime, em que não somente os políticos de oposição, mas de forma mais ampla, a sociedade brasileira, estaria sendo “envenenada” por esse fato. Nesse sentido, o Último Hora se posicionava na intenção de combater as várias afrontas que foram levantadas pela Tribuna da Imprensa. O almirante Ângelo Nolasco de Almeida em entrevista ao CPDOC-FGV afirmou que o apoio no Congresso a Vargas era muito fraco. Ele assim declarou: Ele tinha que ter defesa contra a agressão que se movia contra ele. Porque a defesa é importante: ninguém pode ser atacado sem se defender; ele não tinha defesa. Eu, nesse ponto, acho que o Capanema era fraquíssimo, fraquíssimo. O Capanema era incapaz de 493 Cf. Sérgio LAMARÃO. ATENTADO DA TONELEROS. In: ABREU, Alzira Alves de. et al (coords). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. 494 Tribuna da Imprensa. 10/08/1954. p.3. 495 HIPPOLITO, Lúcia. Op. Cit. p.37. 496 Última Hora. 16/08/1954. p.1. 133 levantar a voz para defender, para criar uma atmosfera, um ambiente pelo menos de neutralidade, de neutralizar as ações de tendência a destruir a personalidade do presidente da República497 Podemos perceber que a crise político-militar, fruto do assassinato do major Vaz, trouxe consideração de resposta por parte desses políticos, os quais puderam expressar as suas opiniões, sendo que os ataques ao governo de Getúlio Vargas foram bem explorados pela Tribuna da Imprensa, que enquanto isso, a defesa ao governo por parte de determinados parlamentares foi apresentada somente pelo Última Hora. Dessa forma, fica ressaltado o sentido político e de interesse por parte desses periódicos, em relação à questão. 3.3.2. As forças armadas e a crise político-militar No que compete às forças armadas, podemos perceber durante esse período de acirramento político-militar, que o seu posicionamento continuou a ser trazido pelos jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora, que mostraram que os militares haviam se desagradado com o governo de Vargas, em consequência do trágico assassinato do oficial da Aeronáutica. Nesse contexto de acirramentos das relações político-militares com o governo, as forças armadas passaram a intensificar a sua postura, o que continuou a ser apresentado pela Aeronáutica, tendo consequentemente o apoio da Marinha e do Exército. Sendo assim, ambos os periódicos puderam apresentar a sua ótica sobre os fatos. Nesse sentido, Jorge Ferreira nos mostra que após a morte do major Rubens Vaz, a Aeronáutica foi a primeira a se posicionar, querendo a partir daí desvendar o crime contra o oficial, cujos militares envolvidos nesse processo foram conhecidos como “República do Galeão”498. Já Nélson Werneck Sodré expõe que essa República do Galeão apoderou-se de um comando considerável para apurar as responsabilidades do crime. Essa República se achava no direito de invadir dependências e até mesmo a casa presidencial. Segundo Sodré, a autoridade do presidente Vargas e de seus ministros foram reduzidas a nada499. 497 ALMEIDA, Ângelo Nolasco De. Ângelo Nolasco de Almeida (depoimentos, 1986). Rio de Janeiro, CPDOC, 1990, 585p. 18/06/1986. p.331. 498 FERREIRA, Jorge. Crises da República: 1954, 1955 e 1961. In; DELGADO, Lucília de Almeida Neves (org.) O Brasil Republicano. O tempo da experiencia democrática, da democratização de 1945 ao golpe civil-militar. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2003. 499 SODRÉ, Nélson Werneck. Op. Cit. 134 Podemos perceber que a Tribuna da Imprensa, em sua edição de 10 de agosto, mostrava a seguinte manchete: “Repúdioao atentado em quatro reuniões de militares”. O periódico fazia o papel de mostrar que não somente os brigadeiros na Aeronáutica, mas também as outras duas forças armadas estavam se reunindo para reclamar ante ao governo de Vargas a morte do major Rubens Vaz500. Dessa forma, esse número crescente de reuniões era a prova de que os militares estavam de fato se intensificando nessa preocupação de esclarecer os fatos. Skidmore afirma que nesta mesma data, o presidente Vargas havia concordado em desfazer a sua guarda pessoal, entretanto, o protesto por parte de militares aumentava, sendo os militares contrários a Vargas, como Eduardo Gomes e Juarez Távora feito uma exigência ao ministro da Guerra, general Zenóbio da Costa, solicitando que Vargas renunciasse. No entanto, “o ministro da Guerra se recusou, sublinhando, com isso, a divisão de opiniões dentro do corpo de oficiais”501. Em sua edição seguinte, o periódico trazia a seguinte informação: “Oficiais das forças armadas pedem a deposição de Vargas”. O jornal mostrava através dessas informações que mais uma vez, a Aeronáutica, a Marinha e o Exército estavam se unindo para protestar contra o ocorrido e questionavam a permanência de Vargas no poder, pedindo a sua deposição502. O texto afirmava que: “a destituição do sr. Getúlio Vargas para que a Constituição seja respeitada foi tese defendida, ontem à noite, por numerosos oficiais da Aeronáutica, do Exército e da Marinha”503. Interessante observar como que no decorrer desses dias, as forças armadas iam tomando cada vez mais os rumos da “briga” político-militar, mostrando intensamente o seu descontentamento ao governo e a pessoa do presidente Vargas. Para a Tribuna da Imprensa, isso servia gradativamente aos seus objetivos, pois partindo de uma situação que de fato estava ocorrendo, no qual se intensificava progressivamente uma instabilidade entre esses diversos setores, acabava por fazer de suas manchetes uma arma política contra o governo de Vargas. Nessa mesma edição, a Tribuna da Imprensa reforçava o seu posicionamento e mostrava outra manchete que dizia: “A Marinha não está alheia aos acontecimentos”504, e apresentava 500 Tribuna da Imprensa. 10/08/1954. p.7. 501 SKIDMORE. Thomas. E. Op. Cit. 502 Tribuna da Imprensa. 11/08/1954. p. 1. 503 Tribuna da Imprensa. 11/08/1954. p.8. 504 Tribuna da Imprensa. 11/08/1954. p.1. 135 em seu texto a solidariedade que era trazida por essa força militar, através das palavras do almirante Salalino Coelho, chefe do Estado Maior da Armada505. Posteriormente, o periódico reforçaria essa aproximação com a seguinte afirmação: “A Marinha está ao lado da Aeronáutica”. Nesse sentido, assim se pronunciava a Tribuna da Imprensa: “Quinhentos oficiais da Marinha, reunidos (...) no Clube Naval, decidiram solidarizar-se com as duas outras armas (Exército e Aeronáutica) das Forças Militares do país, na exigência da punição dos culpados do assassinato do major Rubens Florentino Vaz”506. Dessa forma, podemos perceber como a preocupação de atuação contra o incidente era constante nas forças armadas, pois cotidianamente a Tribuna da Imprensa reforçava essa aproximação entre os militares. Nesse sentido, Jorge Ferreira indica que, a partir da morte do major Rubens Vaz, não bastou por parte dos opositores de Vargas esperar as eleições que estavam por ocorrer, mas, foi necessário que se fizesse uma intervenção com um caráter emergencial, que foi justamente através das forças armadas. Para Ferreira, “a aliança que há tempos vinha sendo implementada pelas elites conservadoras e por setores das três forças, foi definitivamente selada com o tiro que alvejou o major Vaz”507. Enquanto a Tribuna da Imprensa trazia essas informações, o Última Hora, por sua vez, não apresentava o lado de protesto por parte das forças armadas, mas de forma a tentar mostrar mais tranquilidade a toda a situação que estava ocorrendo trazia a seguinte manchete na primeira página de sua edição de 10 de agosto: “O Alto Comando das Forças Armadas decide” e em letras grandes continuava: “GARANTIR O REGIME CONTRA A DESORDEM”508. Na sua edição do dia seguinte, o Última Hora mostrava o que havia sido decidido pela Aeronáutica, e trazia a seguinte manchete: “SESSÃO PERMANENTE ATÉ A APURAÇÃO DO CRIME E PUNIÇÃO DOS CULPADOS”509. É interessante observar que diferentemente da Tribuna da Imprensa, o Última Hora não apresentou a sua manchete de forma que pudesse atingir ao governo, mas de maneira informativa apresentou a reportagem com um caráter de responsabilidade das forças armadas na busca pela solução dos problemas. 505 Tribuna da Imprensa. 11/08/1954. p.2. 506 Tribuna da Imprensa. 14/15/08/1954. p.2. 507 FERREIRA, Jorge Luis. O carnaval da tristeza: os motins urbanos do 24 de agosto. In: GOMES, Ângela de Castro (Org.). Vargas e a crise dos anos 50. Rio de Janeiro. Relumé-Delumará. 1994. p.68. 508 Última Hora. 10/08/1954. p.1 509 Última Hora. 11/08/1954. p.3. 136 Por outro lado, essas informações que levavam cada vez mais as aproximações dos militares em buscar os criminosos e mostrar a falência do governo de Vargas, era gradativamente reforçada pela Tribuna da Imprensa que com manchetes nesse sentido alarmava em suas edições os seguintes temas: “Reunião, hoje, de todos os generais do Exército”. “Amanhã, Clube Naval, sábado, Clube Militar”510. Na sua edição de 16 de agosto, a Tribuna da Imprensa trazia a seguinte manchete: “As forças armadas exigem a renúncia de Getúlio”511. Em edição anterior, o periódico já havia mostrado que Vargas teria proposto a formação de um triunvirato militar como condição dessa renúncia, em que o general Zenóbio da Costa seria o representante do Exército, o que segundo esse jornal, havia sido recusado pelas Forças Armadas512. Sobre a reunião dos militares, assim informava a Tribuna da Imprensa: “mais de dois mil oficiais do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, reunidos (...) no Clube da Aeronáutica, exigiram, sob aclamações, a renúncia imediata do sr. Getúlio Vargas513. Para Skidmore, a revelação de que havia corrupção dentro do governo acabou por conceder aos militares contrários a Vargas a possibilidade de atrair os militares “legalistas” da necessidade de que Vargas deveria ser deposto514. De fato, a confirmação do envolvimento da guarda pessoal de Vargas no assassinato do major Vaz acabou por contribuir como algo a mais que faltava para a oposição e principalmente pelas forças armadas para intensificarem os seus posicionamentos de pedido de renúncia contra Vargas. Nesse sentido, podemos observar ainda que com a saída do brigadeiro Nero Moura e a entrada do brigadeiro Epaminondas Gomes dos Santos, para assumir o ministério da Aeronáutica, o mesmo declarou o seu apoio aos processos de investigação do crime. A Tribuna da Imprensa trouxe o seguinte tema em sua manchete: “Apoio do novo ministro à apuração do crime”. O brigadeiro assim se pronunciou: “Darei todo apoio ao presidente do inquérito policial-militar, instaurado para apurar as responsabilidades dos culpados no bárbaro assassínio do major Rubens Vaz, afim de que possam ser implacavelmente punidos os implicados no monstruoso crime”515. No entanto, o brigadeiro Nero Moura em entrevista ao CPDOC-FGV nos mostrou que o brigadeiro Eduardo Gomes teria dito que 510 Tribuna da Imprensa. 12/08/1954. p.2. 511 Tribuna da Imprensa. 16/08/1954. 512 Tribuna da Imprensa. 13/08/1954. P.1. 513 Tribuna da Imprensa. 16/08/1954. p.3. 514 SKIDMORE. Thomas E. Op. Cit. 515 Tribuna da Imprensa. 19/08/1954. P.2. 137 a nomeação do brigadeiro Epaminondas como ministro teria sido uma afronta para a Aeronáutica. Nisso teriam feito uma reunião de brigadeiros, no qual fizeram um manifesto pedindo a renúncia do presidente Vargas516. Com o propósito de seguir mostrando que a ordem seria mantida pelas forças militares, o Última Horta traria uma reuniãode 63 generais, que estavam sob a liderança do general Zenóbio517. Esse mesmo objetivo seria expresso na capa de sua edição de 14 de agosto, que dizia: “ZENÓBIO, GUILHOBEL E ESTILAC” e continuava: “PELA PAZ, CONTRA A CALÚNIA E O GOLPE”518. O objetivo de manter a ordem e a Constituição em meio a todo esse clima de revolta era um dos objetivos desses líderes militares do governo, que o Último Hora procurava valorizar. Nesse sentido, exaltando a pessoa do ministro da Guerra, trouxe um texto de Eurílio Duarte que mostrava o general Zenóbio como sendo aquele que soube defender a Constituição em meio à crise político e militar que se criou519. Skidmore nos mostra que quando o general Zenóbio da Costa fez referência que a “disciplina” e a “unidade” deveriam ser mantidas dentro das forças armadas, apresentava que esses oficiais que eram contrários ao governo de Vargas estavam avançando naquilo que seria uma campanha por uma intervenção militar contra o presidente Vargas520. Por fim, o dia mais emblemático desse período ocorreria em 23 de agosto, em que o clima se tornava de decisão. Analisando a capa de ambos os periódicos nesse dia, podemos perceber o quão diferente eles foram em suas apresentações. A Tribuna da Imprensa ocupou toda a sua página para mostrar as suas acusações ao governo e mostrar que a situação para Vargas era definitiva. Na parte alta da edição era marcada por informações que mostravam a posição firme dos militares, e assim dizia: “GREVE NA MARINHA E NA AERONÁUTICA SE VARGAS FICAR MAIS 48HS”. Logo abaixo continuava: “Os brigadeiros reunidos. DECISÃO UNÂNIME: RENÚNCIA DE VARGAS”521. É importante observar que os termos trazidos pela Tribuna da Imprensa mostravam uma urgência para que Vargas se posicionasse. 516 MOURA, Nero. Nero Moura (depoimento, 1983/1984) Rio de Janeiro, CPDOC. 24/10/1983. 517 Última Hora. 13/08/1954. p.1. 518 Última Hora. 14/08/1954. P.1. 519 Última Hora. 20/08/1954. P.1e 2. 520 SKIDMORE. Thomas E. Op. Cit. 521 Tribuna da Imprensa. 23/08/1954. p.1. 138 Dentro desse contexto, podemos analisar que Vargas já vinha sofrendo um grande abalo por parte de diversos setores, no qual José Murilo de Carvalho nos mostra que “abalado pelas investigações do assassinato que incriminaram membros de sua guarda pessoal, acuado também pela UDN, cujo líder na Câmara, Afonso Arinos (...) pedia a sua renúncia, Vargas se viu indefeso”522. Podemos observar que a Tribuna da Imprensa unia as suas intenções aos protestos das forças armadas e fazia de suas manchetes um verdadeiro apelo para que Vargas renunciasse à presidência. O Última Hora, por outro lado, trazia uma imagem bem diferente de seu oponente. Entretanto, dentro do assunto mais importante em questão, o periódico mostrava uma foto do presidente Getúlio Vargas, afirmando que tudo estava tranquilo no Catete. Logo abaixo, o jornal trazia outra foto, no qual apareciam sorridentes e abraçados os generais Zenóbio da Costa, Canrobert Pereira e Altair Queiroz e para completar todo esse clima de otimismo, trazia no centro do jornal em letras exageradas a seguinte afirmação: “O BRASIL ESCAPA À GUERRA CIVIL”523. Boris Fausto nos mostra que com a pressão que Getúlio Vargas passou a sofrer pela renúncia, o caso se agravou, e aumentou os adeptos na cúpula das forças armadas. No dia 22 de agosto, através da Aeronáutica, teria sido aprovada a proposta do brigadeiro Eduardo Gomes, de que Getúlio Vargas deveria deixar a presidência, o que foi apoiado pelos oficiais da Marinha. Em 23 de agosto seria endossado uma nova exigência de renúncia através do manifesto dos generais524. Sendo assim, após a Aeronáutica exigir a renúncia do presidente Vargas, o qual se manteria resistente, logo após viria a confirmação do manifesto dos generais, que dentre os várias oficiais que assinaram o documento, tinha a assinatura do ilustre general Henrique Teixeira Lott, no qual “divulgaram um “Manifesto à Nação” que exigiam a renúncia de Vargas”525. O manifesto terminava da seguinte maneira: (...) Considerando, enfim, que a perduração da atual crise política militar está trazendo ao País irreparáveis prejuízos em sua situação econômica e poderá culminar em graves comoções internas, em face da intranquilidade geral e da repulsa e indignação de que se acham possuídas todas as classes sociais do País, OS ABAIXOS ASSINADOS oficiais- generais do Exército, conscientes de seus deveres e responsabilidades perante a Nação, 522 CARVALHO, José Murilo de. Op. Cit. p.181. 523 Última Hora. 23/08/1954. p.1. 524 FAUSTO, Boris. Op. Cit. 525 SKIDMORE, Thomas E. Op. Cit. 176. 139 honrando compromissos públicos e livremente assumidos, e solidarizando-se com o pensamento dos camaradas da Aeronáutica e da Marinha, declaram julgar, em consciência, como melhor caminho para tranquilizar o povo e manter unidas as Forças Armadas a renúncia do atual presidente da República, processando-se sua substituição de acordo com os preceitos constitucionais526. Sendo assim, o Manifesto dos Generais pode ser considerado como um momento de ruptura entre as forças armadas e o governo do presidente Getúlio Vargas. Por isso, podemos observar que, apesar de mesmo após o assassinato do major, a Aeronáutica ter sido a força militar que tomou a dianteira nos posicionamentos de combate ao governo de Vargas. Entretanto, podemos observar que é do Exército que vem a postura final. O documento escrito por esses generais do Exército, que demonstrava solidariedade à Aeronáutica e à Marinha, representava de certa forma que a renúncia de Vargas era o único meio que pudesse trazer naquele momento tranquilidade as forças armadas e a sociedade em geral. Nesse sentido, na madrugada do dia 24 ocorreria a última reunião ministerial de Getúlio Vargas, que selaria o seu destino. Nessa reunião estava em jogo os rumos que o governo Vargas seguiria, fato que o clima entre as autoridades do governo estava tomando contornos incontroláveis, que não dava a Vargas a liberdade de continuar à frente da presidência. Suely Braga nos mostra que “naquela madrugada do dia 23 para 24 de agosto, o país tomou conhecimento da decisão do presidente. Poucas horas separaram este comunicado da notícia que Vargas recebeu, de que os generais não aceitavam a solução da licença. Ou renunciava ou seria deposto”527. No entanto, o general Nélson de Mello em entrevista ao CPDOC-FGV assim declarou sobre esta reunião: “A última reunião foi uma tristeza. O Getúlio disse que não renunciava, mas não deu nenhuma ordem, nada. Disse: “Resolvam!’ Foi para o quarto. Não foi um chefe (...) teve o gesto de suicidar-se. Mas, atuação? Ele não teve nenhuma. Achei que o Getúlio nisso aí foi de uma fraqueza incrível”528. Na mesma entrevista o general Nélson de Mello afirmou que Vargas não tomou as providencias cabíveis e a Aeronáutica teria abusado demais. Ele assim declarou: 526 Retirado de: SILVA, Hélio. 1954: um tiro no coração. O ciclo de Vargas. Porto Alegre: L&PM, 2010. p.359. 527 http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/A Era vargas 2/ artigos/ Crise Política/Suicídio 528 MELLO, Nélson De. Nélson de Mello (depoimento, 1978/1979). Rio de Janeiro, CPDOC. p.329 e 330. http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/A%20Era%20vargas%202/%20artigos/ 140 Achei o Getúlio muito frouxo. Se ele quisesse, decretava o estado de sítio. O pessoal da Vila Militar era contra o Getúlio, mas ele foi apodrecendo com aquela campanha, de modo que todo mundo ficou contra. Se ele tivesse agido com energia, o Lacerda não levava aquela coisa. Ele não mandou mata-lo – todo mundo sabe disso. Mas deixou, acovardar-se, deixou que o Exército falasse, revirasse os papéis de Gregório, não reagiu como deveria àquele inquérito horrível da Aeronáutica, Galeão. Ele devia ter chamado o Exército (...) acabava aquilo e pronto529 Podemos observar que nesse embate de oposição entre a Tribuna da Imprensa e oÚltima Hora, o primeiro estava mais próximo da realidade daquilo que estava por vir. Ou seja, por todas as consequências trazidas desde o dia 5 de agosto com a morte do major Vaz, o governo Vargas, nas suas relações com os militares, veria comprometer de vez o seu governo. Entretanto, foi o Última Hora que acabou por antecipar a notícia do dia seguinte, pois na sua edição do dia 23, na página 10, o periódico trouxe a seguinte manchete: “Vargas não cederá nem à violência, nem às provocações, nem ao golpe!”. E em letras grandes ao lado da foto do presidente concluía: “Só morto sairei do Catete!”530 3.4. As forças armadas e o suicídio de Vargas. Durante a trajetória aqui abordada, podemos perceber como os militares se mobilizaram em relação à morte do major Vaz e consequentemente se pronunciaram com a permanência de Vargas na presidência. Num ciclo de fatos que se sucederam nesse contexto, Vargas perdia o apoio político e militar, e as forças armadas se fortaleciam e se uniam a favor da deposição do presidente. Nesse sentido, no dia 24 de agosto de 1954, sem suportar mais as afrontas e a falta de apoio, a trajetória política de Getúlio Vargas chegaria ao fim e com o suicídio do presidente tivemos o ápice da instabilidade desse governo. Sendo assim, o general Nélson de Mello assim declarou em entrevista ao CPDOC-FGV: O Getúlio não tinha condições de voltar mais. Então, suicidou-se porque viu que ia acabar no Galeão. Seria uma humilhação muito grande. Suicidou-se para não ser humilhado, esta é a verdade. Houve uma comoção geral. Ele morreu, mas quem falhou foi ele próprio. Não tomou a menor providencia, nada, nada. Não houve uma gente dele que desse um 529 MELLO, Nélson De. Nélson de Mello (depoimento, 1978/1979). Rio de Janeiro, CPDOC. p.323. 530 Última Hora. 23/08/1954. p.10. 141 telefonema para mim, por exemplo. Nunca ninguém chegou lá em casa, nesses dez dias. Nunca ninguém falou comigo. Nem de um lado, nem de outro531 Dessa forma, para o almirante Ângela Nolasco de Almeida, o suicídio do presidente Getúlio Vargas não foi uma surpresa, o qual em entrevista ao CPDOC-FGV declarou: “Fiquei penalizado de ver o desespero dele a ponto de chegar a se suicidar. Agora, eu acho que ele não tinha outra saída; que acho que na situação dele também eu me liquidava, não ficava para presenciar uma situação humilhante”532. Podemos perceber, que a afirmação do almirante, reforça, o ponto crítico que Vargas havia chegado em seu governo. Nesse sentido, para Alberto Aggio, Agnaldo Barbosa e Hercídia Coelho, a crise de agosto não foi uma ruptura institucional, mas uma crise que girou em torno da própria pessoa do presidente Vargas. Esses autores, ao utilizarem o termo “a personificação da crise em torno da figura de Vargas”533, se aproximam de Ângela de Castro Gomes e Maria Celina Soares D’Araújo quando fizeram a seguinte afirmação: “a crise que levaria ao desfecho traumático do governo em agosto de 1954, tinha a marca da personificação”534. De certa forma, assim como a Tribuna da Imprensa havia considerado de forma mais intensa o noticiário sobre a morte do major Rubens Vaz, o Última Hora, nesse momento, iria considerar o suicídio de Getúlio Vargas. Podemos perceber logo de início que a capa do jornal Tribuna da Imprensa de 24 de agosto estampava de forma considerável o ato que havia sido cometido pelo presidente Vargas, no qual com letras mais que exageradas se expressava: “SUICIDOU-SE GETÚLIO VARGAS”535. Provavelmente, a utilização do termo da palavra “suicidou-se”, de forma a tomar toda a parte superior do periódico e como a primeira expressão em destaque no jornal, poderia não ser apenas uma informação de um fato, mas poderia revelar uma atitude em que o jornal mostrava aos seus leitores que a total responsabilidade do caso seria unicamente de Vargas. Exceto a informação de sua primeira página, o periódico trouxe apenas um pequeno texto que tratava sobre a morte do presidente Vargas. 531 MELLO, Nélson De. Nélson de Mello (depoimento, 1978/1979). Rio de Janeiro, CPDOC. p.330. 532 ALMEIDA, Ângelo Nolasco De. Ângelo Nolasco de Almeida (depoimentos, 1986). Rio de Janeiro, CPDOC, 1990, 585p. 18/06/1986. 337. 533 AGGIO, Alberto. BARBOSA, Agnaldo de Souza. COELHO, Hercídia Mara Facuri. Política e Sociedade no Brasil. 1930-1964. São Paulo, Annablume, 2002. p.39. 534 GOMES, Ângela de Castro. D’ARAÚJO, Maria Celina Soares. Getulismo e Trabalhismo: tensões e dimensões do Partido Trabalhista Brasileiro. Rio de Janeiro, FGV-CPDOC. 1987. p.69. 535 Tribuna da Imprensa. 24/08/1954. p.1. 142 Jorge Ferreira afirma que o suicídio do presidente Vargas não era algo esperado, mas acabou por surpreender e paralisou, por algum momento, aqueles que eram conservadores e que “torciam” de certa forma por uma crise institucional. Devido isso, com a morte de Vargas, a oposição percebeu que a sua estratégia de aumentar a crise, de forma a deixar Vargas desmoralizado politicamente, abrindo caminho para uma intervenção militar, havia sido frustrada536. Por outro lado, a valorização sobre aquele que assumiria a presidência da República foi mais que notória, o periódico preferiu considerar essa mudança, trazendo as informações sobre Café Filho, a ter que melhor noticiar o suicídio. O jornal assim dizia: “Primeiras declarações do presidente Café Filho: PACIFICAR OS ÂNIMOS PARA UM GOVERNO DE UNIÃO NACIONAL”537. Entretanto, diferentemente da Tribuna da Imprensa, o Última Hora explorou ao máximo o noticiário sobre a morte de Vargas, em que procurou valorizar a todo o momento a sua trajetória e mantinha vivo nas mentes de todos a memória de Getúlio. A sua primeira página de 24 de agosto foi ocupada totalmente e somente com informações sobre o suicídio. Logo em sua parte superior dizia: “MATOU-SE VARGAS”. Ao centro do jornal continuava: “O PRESIDENTE CUMPRIU A PALAVRA: “SÓ MORTO SAIREI DO CATETE””538. Com isso, podemos notar que aqui estava expressa toda a indignação por parte do jornal de apoio ao governo, que ao expressar literalmente em sua manchete a frase do presidente, mostrava que o mesmo não admitiu de nenhuma forma se submeter aos posicionamentos por parte das forças armadas, os quais de fato não conseguiram retirá-lo do poder. Essa importância e valorização trazida pelo Última Hora, seguiria pela parte interna do jornal, em que o noticiário de sua trajetória, assim como os últimos momentos de seu governo, receberam grande importância. Com várias fotos e pequenos textos, o jornal trazia as notícias dos últimos acontecimentos, no qual através de várias imagens se mostrava o clima de tensão que havia se tornado aquele momento. A manchete assim afirmava: “Documentário fotográfico dos acontecimentos dessa madrugada”539. Em outra página o Última Hora 536 FERREIRA, Jorge. Crises da República: 1954, 1955 e 1961. In; DELGADO, Lucília de Almeida Neves (org.) O Brasil Republicano. O tempo da experiencia democrática, da democratização de 1945 ao golpe civil-militar. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2003. 537 Tribuna da Imprensa. 24/08/1954. p.1 538 Última Hora. 24/08/1954. p.1. 539 Última Hora.24/08/1954. p.3. 143 dizia: “Estes foram os chefes militares que atuaram mais decisivamente na grande crise”540. É importante observar que ao trazer esse destaque para esses militares, o Última Hora os conectava aos últimos momentos do governo de Vargas, os quais nesse sentido teriam sido peças fundamentais ou para ajudá-lo a se manter no cargo ou simplesmente serviram para afastá-lo do governo. Assim, estampou as fotos de Zenóbio da Costa, Eduardo Gomes, Juarez Távora, Canrobert Pereira, Estillac Leal, Caiado de Castro, Mendes de Moraes, Nero Moura, Armando Âncora, Mascarenhas de Moraes, Dyott Fontinelle, Loyola Daher e Paulo Torres. No mesmo dia, o Última Hora traria uma edição Extra, em que seria dado seguimento as informaçõesque estavam cobrindo as notícias após a morte do presidente Vargas e o que mais se destacou a partir desse momento foram uma quantidade enorme, muito considerada de fotos e pequenos textos, que se repetiam por cada página e mostrava em cada uma delas especificamente, as relações que Vargas tinha desenvolvido com o povo541 e como chefe de família542, assim como a dedicação de sua vida à política543. O periódico faria ainda referência a carta testamento de Vargas e terminava o seu noticiário sobre os acontecimentos com a seguinte manchete: “NO LIMIAR DA ETERNIDADE VARGAS DIRIGIU-SE AO POVO NUMA MENSAGEM QUE É UM LIBELO CONTRA A TRAIÇÃO!”544. Logo após, no dia 25 de agosto, algo interessante aconteceria: a Tribuna da Imprensa não circularia os seus jornais. Essa impossibilidade foi fruto do cenário que se construiu, onde as manifestações de populares, através de suas indignações e protestos, inviabilizou essa ação. Jorge Ferreira aponta sobre as manifestações populares que ocorreram em vários estados do Brasil: os motins no Rio de Janeiro, a insurreição popular em Porto Alegre, manifestações em São Paulo e em Belo Horizonte, assim como a emoção e o desalento por vários estados do nordeste; como Pernambuco, Recife, Bahia e Natal545. Deste modo, apenas o Última Hora conseguiu colocar os seus jornais à venda, e por sua vez continuou a dar uma cobertura mais que considerável sobre os fatos. Na capa 540 Última Hora. 24/08/1954. p.4. 541 Última Hora.24/08/1954. p.11,12 e 15. 542 Última Hora. 24/08/1954. p.14. 543 Última Hora. 24/08/1954. p.13. 544 Última Hora. 24/08/1954. p.16. 545 FERREIRA, Jorge Luís. Op. Cit. 144 de sua edição trazia a seguinte expressão: “ÚLTIMO ENCONTRO DO POVO COM O GRANDE PRESIDENTE MORTO!”. Logo abaixo, vinha uma foto enorme com Vargas no caixão e um homem comovido que o admirava546. É interessante observar que as fotos apresentadas eram todas marcadas com a preocupação de levar o leitor a se aproximar dos fatos. As imagens de Vargas no caixão, e as outras fotos que mostravam a multidão que “carregava” o seu corpo, assim como a imagem do avião que levava o seu cadáver, era de certa maneira, uma das formas de reforçar aos leitores do Última Hora a relevância desse acontecimento. Boris Fausto aponta que a morte do major Rubens Vaz e o suicídio do presidente Getúlio Vargas, tendo uma diferença entre um e outro de apenas vinte dias, acabaram produzindo grande impacto político. A primeira dera “munição” a Lacerda e às outras autoridades udenistas, o que contribuiu para que Getúlio Vargas chegasse ao suicídio. A segunda questão, inverteu o “jogo político” e tirou da oposição aquilo que lhes favorecia547. Posteriormente, a Tribuna da Imprensa trazia a seguinte manchete em sua edição do dia 26 de agosto: “Afirma o general Brochado da Rocha: VARGAS MORREU VÍTIMA DOS MAUS AMIGOS”. Através desta expressão, o periódico trazia referência a uma entrevista dada pelo general Brochado a esse periódico. O mesmo trazia um texto em sua primeira página, no qual era intitulado: “PELO BRASIL”. Nesse texto, Lacerda buscava mostrar que a morte de Vargas teria sido causada por aqueles que haviam provocado a morte do major Rubens Vaz. Lacerda assim afirmava: Os que arrumaram o atentado da rua Toneleros são os responsáveis pela tragédia da ruía do Catete. Os que financiaram e aproveitaram e deixaram impunes todos os escândalos, culminando no da “Última Hora”, são os que hoje tratam de continuar a sua obra, condenando o nosso esforço de esclarecimento e de denúncia dos crimes contra a nação, por eles impunimente praticados. Os mandantes da morte de Rubens Vaz são os responsáveis pela morte de Getúlio Vargas548 Ao se utilizar dessa escrita, Lacerda procurava retirar a imagem e o peso que ele havia contribuído para todo esse cenário. O que de fato ele procurava fazer, era poder se defender. Como exemplo, podemos observar que quando Lacerda afirmou que “nunca 546 Última Hora. 25/08/1954. p.1. 547 FAUSTO, Boris. Op. Cit. 548 Tribuna da Imprensa. 26/08/1954. p.1. 145 pregamos e nem praticamos a violência. Nunca organizamos atentados. Nunca usamos o nome do sr. Getúlio Vargas para enganar o povo e corromper a nação”549, criava ele mesmo uma postura de exagero e desconsiderava toda a postura que havia adotado contra o governo de Vargas. No entanto, o Última Hora mantinha o seu objetivo de ser o periódico do governo e nesse sentido trazia a seguinte expressão em sua primeira página: “Vargas está mais vivo que nunca!”. Mostrava de certa maneira a imagem de vários policiais que tentavam conter a multidão que se encaminhavam junto ao aeroporto, no qual seguiam para a partida do corpo de Vargas para São Borja, no Rio Grande do Sul550. Vale ressaltar, que durante o período de 27 a 31 de agosto de 1954, o jornal Tribuna da Imprensa se manteve distante de mostrar qualquer aspecto que pudesse valorizar a memória de Vargas, pois esse era o seu objetivo, fato que foram poucas as informações que se voltavam a considerar o ocorrido. Essa postura, vinha desde as suas edições do dia 24 de agosto. Logo, o Última Hora seguia o seu compromisso de manter as informações sobre a morte do presidente Vargas e em 27 de agosto trazia as informações sobre o seu enterro em São Borja, no Rio Grande do Sul, no qual deixou o jornal repleto de textos e imagens, mostrando a multidão que conduzia o corpo de Vargas ao sepultamento. Na capa de sua edição vinha a seguinte afirmação: “ARANHA NO TÚMULO DE VARGAS: “JURO CONTINUARA A LUTA””. Mostrava também personagens como Osvaldo Aranha, Darcy e Alzira Vargas, assim como Tancredo Neves551. Interessante observar que Carlos Lacerda trouxe um texto em sua edição do dia 30 de agosto, no qual a manchete dizia: “Os verdadeiros inimigos de Getúlio Vargas”, o periódico trazia o seu discurso na íntegra, feito na Rádio Globo, em que Lacerda desabafava com toda insistência em mostrar que as estruturas do governo Vargas teria sido os seus próprios inimigos, e a verdadeira causa que o levou a ter a atitude de chegar ao suicídio552. Lacerda fazia de certa maneira, mais uma vez, um meio de apresentar a sua defesa, contra aqueles que após o suicídio de Vargas, tentaram lhe culpar. Como de 549 Tribuna da Imprensa. 26/08/1954. p.1 550 Última Hora. 26/08/1954. p.1. 551 Última Hora. 27/08/1954. p.1. 552 Tribuna da Imprensa. 30/08/1954. p. 1 e 4. 146 costume, Lacerda mantinha escrevendo editoriais, mostrando sempre que o presidente Vargas havia sido derrotado pelo seu próprio governo. No entanto, o Última Hora não se calaria ante essa postura de Lacerda e traria, a seguinte manchete: “LACERDA TEM MEDO ATÉ DE APARECER NA RÁDIO”. O periódico aproveitaria através deste texto para poder mostrar a sua indignação quanto a postura de Lacerda, em combater, através de seus discursos, a memória de Getúlio Vargas e criticou a sua falsa postura de ter aparecido na Rádio Globo, para fazer o seu pronunciamento, mostrando que o mesmo estaria se eximindo de aparecer. O Última Hora assim afirmava: O corvo do Lavradio apareceu ontem na Rádio Globo, não de corpo presente, como tentou fazer crer, mas sob a forma de disco. O homem “popular” está abandonado pela valorosa equipe da Lanterna e se esconde vergonhosamente, desde o dia em que a morte de Getúlio Vargas deslocou a maior massa humana de que há memória no Rio (...) Com isto, fica apenas adiado o primeiro encontro do corvo do Lavradio com o povo, depois da telúrica manifestação que encheu as cidades e os campos no dia da morte de Vargas. Veremos até quando Lacerda lançará mão do disco para continuar a vomitar suas infâmias contra a memória de Vargas553 Nesse sentido, no dia 30 de agosto, com a publicação da seguinte manchete: “INDIGNADO UM MAJOR DO EXÉRCITO COM A SORDIDEZ DO CORVO LACERDA”, o Última Hora teria ainda a possibilidade de continuar ase posicionar e a defender a memória de Getúlio Vargas e de ir contra as posturas de Carlos Lacerda, pois um oficial do Exército, major Edwaldo Santos, havia pedido de próprio punho, ao Última Hora que publicasse a sua carta de protesto as ações e os pronunciamentos de Lacerda. A carta assim afirmava: Carlos Lacerda: tua ambição desmedida e precipitada trouxe ao nosso Brasil a beira do abismo de uma guerra civil cruenta e inglória. Se isto se confirmar, escondas onde te esconderes, terás o teu poste de expiação em lugar bem destacado. Inimigo pérfido do nosso Brasil, buscaste nos galões da gloriosa farda de uma de nossas forças armadas um escudo para a reação natural as tuas mórbidas investidas e reduto para guardar a tua infame linguagem. Ofendes a dignidade da Nação, encobre com falsas aparências teus desígnios sinistros. Pois bem, eu fui amigo de Getúlio Vargas, quando desterrado em outubro de 1945, e agora, que ele jaz morto ante tantos covardes, eu recordo mais uma vez que fui seu amigo e lhe apertei sua bondosa mão. Cuida-te, Lacerda, para que o 553 Última Hora. 30/08/1954. p.2. 147 inquérito prove a culpabilidade direta de Getúlio Vargas naquele atentado que tu tanto provocaste e ao qual fugiste covardemente, deixando morrer um inocente em teu lugar554 Podemos declarar que esse foi o cenário que se construiu após a morte de Getúlio Vargas, em que a Tribuna da Imprensa, jornal de oposição e o Última Hora, jornal de apoio ao governo, puderem expressar os seus posicionamentos, no contexto que permeou os dias 24 a 31 de agosto de 1954, em que a imagem de Getúlio Vargas parecia ter sido silenciada pela Tribuna da Imprensa, mas enquanto isso, o Última Hora buscou afirmar e reafirmar durante os dias de 24 a 31 de agosto a imagem do presidente Vargas, tentando manter cada vez mais viva, a memória de Getúlio Vargas, na mente e nos corações dos leitores. 554 Última Hora. 30/08/1954. p.6. 148 CONCLUSÃO Nesses três capítulos tratados nesta dissertação de Mestrado, procuramos apresentar a análise do nosso objeto de estudo, os que consistem às relações que as forças armadas desenvolveram com o governo democrático de Getúlio Vargas (1951-1954). No capítulo um, tratamos de alguns aspectos que ocorreram durante esse governo, através de um breve balanço historiográfico. Nesse mesmo capítulo, analisamos algumas características dos jornais Tribuna da Imprensa e o Última Hora, tendo apontado a importância desses periódicos, para o processo ocorrido durante o período aqui abordado. No segundo capítulo, apresentamos a importância das forças armadas, discutindo o acordo militar entre o Brasil e os Estados Unidos em 1952, a possível participação brasileira na Guerra da Coreia, e as eleições para o Clube Militar, para o biênio 1952-54. Por fim, o terceiro capítulo trouxe o momento mais crítico dessas relações, tanto através do Manifesto dos Coronéis; da morte do major da Aeronáutica, Rubens Vaz, do aumento da crise político-militar e o do suicídio do presidente Vargas. Logo, ao tratar do tema das relações das Forças Armadas com o governo de Getúlio Vargas (1951-1954); procuramos mostrar como os periódicos buscaram abordar essas relações, trazendo as suas diferenças de opiniões sobre o assunto. Sendo assim, a Tribuna da Imprensa demonstrou durante esse período a sua função política, que enquanto meio de imprensa e contrário ao governo do presidente Vargas buscou ressaltar em suas edições os aspectos que não favorecessem ao governo. Por outro lado, o Última Hora, dava apoio ao governo de Vargas, durante as apresentações de suas manchetes. Dentro dos aspectos apresentados nos capítulos, procuramos mostrar que num primeiro momento Vargas ainda tinha um certo apoio por parte das Forças Armadas, no que dizia respeito às suas relações com esses militares. Nesse sentido, sobre o acordo militar entre o Brasil e os Estados Unidos, a Tribuna da Imprensa reforçava esse destaque desde o início de suas edições, em que criticava o acordo e mostrava o lado negativo do mesmo para o Brasil. O Última Hora, por outro lado, buscava trazer uma conotação positiva a esse tratado para o Brasil e ressaltava ser uma relação de proximidade entre o país e os Estados Unidos. Como exemplo, podemos observar que quando esse assunto foi discutido entre os parlamentares, a Tribuna da Imprensa fez questão de enfatizar os pronunciamentos contrários ao governo, valorizando a fala negativa, estampando-as em 149 suas manchetes. O Última Hora, por sua vez, buscava manter a tranquilidade para o governo, através dos pronunciamentos de Capanema. Podemos perceber que durante esse período esses periódicos buscaram, cada um a sua maneira, defender os seus interesses. Nesse sentido, ao tratar sobre o tema da Guerra da Coreia, a Tribuna da Imprensa se mostrou categórica em suas apresentações, afirmando em várias de suas manchetes que era contrária ao envio de tropas brasileiras para lutar nesse conflito. O Última Hora, desde o início de suas edições, apresentava manchetes que informava constantemente sobre esse envio, ampliando o olhar positivo do Brasil para as suas relações com os Estados Unidos. O Última Hora não foi tão claro em seu posicionamento, mas apontava um papel de equilíbrio e deixava transparecer ser favorável, pois reafirmava em suas edições essa possibilidade, o que poderia ser estratégico para o governo de Vargas. Quando das eleições no Clube Militar, ficou notório que a Tribuna da Imprensa procurou desde o início de suas edições demonstrar o seu lado de apoio a Cruzada Democrática, fazendo sempre referência a posicionamentos que favorecessem a candidatura dessa ala para as eleições. O Última Hora, apesar de ter usado as suas manchetes para ser defensora da ala Nacionalista, se mostrou mais informativo, ao contrário da Tribuna da Imprensa que manifestou um aspecto mais defensivo em suas edições. O segundo momento dessa análise trouxe a perda de apoio de Vargas, no que diz respeito à sua relação com as forças armadas. Podemos observar que quando ocorreu o Manifesto dos Coronéis, a Tribuna da Imprensa buscou dar ênfase em suas manchetes, de forma que valorizasse as reivindicações dos oficiais do Exército. O Última Hora, por sua vez, buscava não apresentar o lado negativo que o manifesto poderia trazer para o governo. Quando da morte do major Rubens Vaz, a Tribuna da Imprensa apenas deixou valorizar cada vez mais o seu posicionamento de oposição ao governo do presidente Vargas. Foram várias as suas manchetes que traziam a indignação pela morte do major e repúdio ao governo, culpando-o pelo incidente. O Última Hora procurava apresentar os fatos ocorridos, mas sempre buscando o equilíbrio na informação, de forma a não comprometer o governo através de suas manchetes. Esses tipos de posicionamentos da Tribuna da Imprensa e do Última Hora se manteriam durante a intensificação dessa crise político-militar. A partir do suicídio do presidente Vargas, a Tribuna da Imprensa toma um posicionamento muito mais defensivo ao expor as suas manchetes, e mesmo assim não deixou de trazer informações que buscavam afetar o governo e a personificação de 150 Vargas. O Última Hora, por outro lado, passou a utilizar de seu veículo de informação e explorou ao máximo as suas edições com o objetivo de defender a imagem e a memória do presidente Getúlio Vargas. Em suma, podemos afirmar que nesse objetivo de apresentar o tema proposto, percebe-se a importância da utilização dos periódicos não apenas como fonte, mas principalmente objeto de pesquisa, o que procuramos nessa dissertação apresentar. Assim sendo, enquanto fonte podemos observar que os jornais demonstraram que num primeiro momento Vargas soube lidar com o posicionamento das Forças Armadas, nas suas diversas relações. Entretanto, em uma segundaocasião, Vargas perde esse apoio e se torna impossível de se manter no governo. Enquanto objeto de pesquisa, os jornais nos mostraram as suas diferenças de opiniões, sendo que em cada aspecto tratado nessa dissertação, pudemos compreender o que cada um defendeu e a maneira que se posicionaram para demonstrar e confirmar as suas preferências. Logo, através dessa pesquisa, identifica-se o papel político desenvolvido por meio da imprensa, em que pudemos considerar que, apesar desses jornais terem posições opostas, apresentaram as relações entre as forças armadas e o governo de Getúlio Vargas. 151 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FONTES PRIMÁRIAS HEMEROTECA DIGITAL – ACERVO DA BIBLIOTECA NACIONAL Jornal Tribuna da Imprensa (RJ) janeiro de 1951 a agosto de 1954. 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