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LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos - ensaio de antropologia simétrica. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994. Capítulos 1 (“Crise”) e 2 (“Constituição”), pp. 07- 52.
 Latour inicia sua argumentação com uma amostra da formação de híbridos, pontuando sobre a forma com que assuntos dos campos da política e ciência têm relação direta, implicando possibilidades aparentemente nunca abordadas. O primeiro capítulo faz referência à distinção das áreas de conhecimento e práticas científicas. Na atualidade, têm-se situações que o conhecimento intelectual é incapaz de promover uma classificação. O autor utiliza como exemplo diferentes tópicos discutidos em jornal, visto que a cultura e natureza estão presentes. Tal complexo cria essa mistura que, por sua vez, dá criação aos híbridos. 
 A divisão em diferentes áreas de conhecimento não traz perspectiva completa alguma, sendo não compreendidas se recortadas, separadas em três categorias: natureza, política e discurso. 
 Dessa forma, o autor mostra o cenário e mentalidade social moderna, construída para classificar suas áreas de conhecimentos. É pontuado o conceito de redes, que ligam as áreas antes vistas de forma distinta. De acordo com Latour, “redes” é a maneira mais adequada para que se explique p espectro de mundo proposto. A rede é, de forma inegável, o centro de seu argumento, uma vez que procura trazer uma justificativa para sua validade e adequação, para o entendimento do conhecimento e das disciplinas de forma complementar e comparativa. 
 Latour propôs uma antropologia moderna, tornando-a plausível através da mudança da própria designação do mundo. 
 O autor ressalta, como um exemplo, a relevância da queda do muro de Berlim para que os modernos se despossassem da segurança em seus prognósticos. Os questionamentos surgidos produziram efeitos, como: ceticismo pós-modernismo, um comportamento antimoderno. 
 A modernidade delineia dois lados para explicar as coisas, que são: “humano” e não-humano”. Com tal, Deus é deixado de lado. O que passou a importar é encontrado nas complexidades do que era humano e do que não era. É o que Latour compara com a constituição presente na lei: há o âmbito judicial e o executivo. Nesse caso, há uma cisão entre o mundo natural e o mundo social.
 Assim, os assuntos foram divididos de forma com que cada um fosse responsável por uma área distinta, como se não fossem passíveis de vínculos. 
 A constituição no âmbito do direito tem a função de estabelecer as diferentes facetas do poder, como sua transferência entre indivíduos, a organização de cargos e a criação de leis. Por outro lado, a constituição da natureza busca estabelecer a separação entre o humano e o não-humano, explorando como eles se relacionam ou se distanciam um do outro. O autor Latour destaca exemplos desse processo de separação e constituição, que resulta na segregação entre o humano e o não-humano. Esses exemplos são baseados nas ideias de duas figuras notáveis: Thomas Hobbes e Robert Boyle.
 Latour se apoia no livro "Leviathan and the Air-Pump: Hobbes, Boyle, and the Experimental Life" escrito por Steven Shapin e Simon Schaffer para fundamentar seu argumento sobre essa dicotomia. Na capa do livro, é possível observar uma combinação de elementos dos estudos de Hobbes e Boyle: a figura icônica do Leviatã segurando, em sua mão esquerda, uma bomba de ar, símbolo da ciência experimental de Boyle, substituindo o cetro que representava o poder absoluto do soberano político na figura original. Na mão direita, assim como na figura original, o Leviatã empunha uma espada, representando o instrumento político de proteção, com uma ênfase maior na política de Hobbes.
 O autor menciona outros exemplos, sob a perspectiva de Hobbes, que abordam a divisão do Estado e os perigos associados à transferência de poder para entidades imateriais e religiosas. Esses exemplos incluem os grupos Levellers e Diggers, que surgiram durante a Revolução Puritana no século XVII. Esses grupos se opunham aos gastos excessivos e à cobrança de altos impostos pelo rei Carlos I, e baseavam seus argumentos na Bíblia para afirmar que Deus concedia liberdade e igualdade a todos, independentemente de sua raça ou condição econômica. O termo "Levellers" deriva do verbo em inglês "to level", que significa nivelar, referindo-se à busca de igualdade jurídica nas condições sociais, conforme a vontade de Deus. Por outro lado, os "Diggers" vêm do verbo "todig", que significa cavar, já que esse grupo buscava uma reforma agrária espontânea que garantisse o acesso dos camponeses à terra, ou seja, planejavam uma ação direta contra o Estado e seu poder.
 De acordo com Latour, Shapin e Schaffer vão além de uma mera comparação historiográfica entre Hobbes e Boyle. Eles contextualizam esses pensadores dentro de uma história específica, considerando o lugar e o momento que influenciaram diretamente seus pensamentos. Os autores apresentam fatos políticos, questões religiosas e outros elementos que vão além da simples noção da bomba de ar. Essa ferramenta experimental fazia parte de um contexto muito mais complexo e amplo.
 De acordo com Latour, a separação entre as esferas na constituição moderna não implica em uma distância absoluta entre humanos e coisas, pois nem Hobbes nem Boyle estabeleceram uma separação abrupta entre o "mecanismo social puro" e o "mecanismo natural puro". Esses autores apenas estabeleceram uma distinção no que diz respeito às competências das coisas e das pessoas. Para explicar esse paradoxo evidente na modernidade, o autor recorre às concepções de "mediação" e "purificação". No sentido da mediação, na modernidade existe uma mistura de natureza e cultura, enquanto a purificação implica em uma separação total entre natureza e cultura. Hobbes, por exemplo, escreveu extensivamente sobre diversos assuntos, inclusive ciência, ao passo que Boyle também abordou questões políticas. No entanto, cada um deles acabou limitado a um único domínio específico.
 Por outro lado, se a sociedade fosse constituída apenas pelos seres humanos, o Leviatã, uma entidade artificial da qual somos simultaneamente a forma e a matéria, não seria capaz de se sustentar. Essa imanência exclusiva do humano resultaria em uma destruição do corpo político, uma luta de uns contra os outros. Portanto, as duas garantias - a da natureza que transcende e a da sociedade que é imanente - servem como "checks and balances" ou equilíbrio de poderes, segundo Latour, pois são dois ramos do mesmo governo. Em uma visão conjunta, essas garantias se invertem. De maneira geral, a natureza transcende a nós, existindo independentemente (purificação), mas ao mesmo tempo é criada pelos cientistas em laboratórios (mediação). No entanto, também é imanente. Por outro lado, a sociedade é imanente, uma vez que é criada pelos seres humanos (purificação), mas também transcende a eles. Como afirma Latour, "o Leviatã ultrapassa infinitamente o homem que o criou, pois mobiliza em seus poros, em seus vasos, em seus tecidos as coisas inumeráveis que lhe dão sua consistência e duração" (Latour, 1994, p. 37).
 Segundo o autor, a modernidade é resultado de três pares de transcendência e imanência: natureza, sociedade e Deus. Através desses pares, é possível mobilizar a natureza, objetivar o social e sentir a presença espiritual de Deus, enquanto também se defende que a natureza escapa ao nosso controle, que a sociedade é uma construção humana e que Deus não interfere mais ativamente.

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