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ISSN 1516-9162
REVISTA DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE
n. 37, jul./dez. 2009
CIÚMES
ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE
Porto Alegre
R454
Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre / Associação
Psicanalítica de Porto Alegre. - Vol. 1, n. 1 (1990). - Porto Alegre: APPOA, 1990, -
Absorveu: Boletim da Associação Psicanalítica de Porto Alegre.
Semestral
ISSN 1516-9162
1. Psicanálise - Periódicos. I. Associação Psicanalítica de Porto Alegre
CDU 159.964.2(05)
CDD 616.891.7
Bibliotecária Responsável Luciane Alves Santini CRB 10/1837
Indexada na base de dados Index PSI – Indexador dos Periódicos Brasileiros na área de
Psicologia (http://www.bvs-psi.org.br/)
Versão eletrônica disponível no site www.appoa.com.br
Impressa em junho 2010. Tiragem 500 exemplares.
REVISTA DA ASSOCIAÇÃO
PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE
EXPEDIENTE
Publicação Interna
n. 37, jul./dez. 2009
Título deste número:
CIÚMES
Editores:
Valéria Machado Rilho e Beatriz Kauri dos Reis
Comissão Editorial:
Beatriz Kauri dos Reis, Deborah Pinho, Glaucia Escalier Braga,
Maria Ângela Bulhões, Otávio Augusto W. Nunes,
Sandra Djambolakdjan Torossian, Valéria Machado Rilho.
Colaboradores deste número:
Marta Pedó, Paulo Afonso R. Santos e Maria Lúcia Stein
Editoração:
Jaqueline M. Nascente
Consultoria lingüística:
Dino del Pino
Capa:
Clóvis Borba
Linha Editorial:
A Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre é uma publicação semestral da APPOA que
tem por objetivo a inserção, circulação e debate de produções na área da psicanálise. Contém
estudos teóricos, contribuições clínicas, revisões críticas, crônicas e entrevistas reunidas em edições
temáticas e agrupadas em quatro seções distintas: textos, história, entrevista e variações. Além da
venda avulsa, a Revista é distribuída a assinantes e membros da APPOA e em permuta e/ou
doação a instituições científicas de áreas afins, assim como bibliotecas universitárias do País.
ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICADE PORTO ALEGRE
Rua Faria Santos, 258 Bairro: Petrópolis 90670-150 – Porto Alegre / RS
Fone: (51) 3333.2140 – Fax: (51) 3333.7922
E-mail: appoa@appoa.com.br - Home-page: www.appoa.com.br
ISSN 1516-9162
CIÚMES
SUMÁRIO
 EDITORIAL............................ 07
 TEXTOS
Psicopatologia da vida amorosa 09
Psicopathology of love life
Ângela Brasil
Os primórdios da construção
do ciúme e sua relação com
a constituição do laço social ..... 22
The beginnings of jealousy construction and its
relation to the constitution of the social tie
Robert Levy
Sobre o ciúmes ................................. 31
On jealousy
Daniel Paola
Sobre os tipos de ciúmes............. 36
About the different kinds of jealousy
Lúcia Alves Mees
Do ciúmes e da inveja ................... 46
On jealousy and envy
Marcia Helena de Menezes Ribeiro
O delírio de ciúme na gramática
da psicanálise: notas sobre a
psicopatologia dos
delírios passionais ........................ 55
Jelousy delirium in the psychoanalitical grammar:
notes about the psychopathology
of passionate delirium
Nilson Sibemberg
Um dente de ciúme na ficção
machadiana ........................................ 62
A clove of jealousy in the machadian fiction
Lucia Serrano Pereira
Sobre o amor e os ciúmes:
variações e desventuras
O pequeno Eyolf ............................... 75
On love and jealousy: variations and
misadventures The little Eyolf
Isidoro Vegh
 RECORDAR, REPETIR,
 ELABORAR
Amor pela mãe e amor materno ..112
Love for the mother and mother love
Alice Balint
 ENTREVISTA
Somos sempre ciumentos? ........ 131
Are we always jealous?
Antonio Quinet
 VARIAÇÕES
Lirismo, modernidade
e cantiga enganosa ...................... 137
Lyricism, modernity and deceiving lyrics
Antônio Marcos V. Sanseverino
A dúvida que não quer
(e não deve) calar ........................... 155
The doubt that does not (and should not) silence
Paulo Gleich
A banda de Mahler e
o violino sinistro ............................ 164
The Mahler band and the sinister violin
Elaine Starosta Foguel
Algumas observações acerca
de Um amor de Swann ................... 87
Observations on A love of swann
Martine Lerude
Ser o mano ...................................... 102
Brothers
Otávio Augusto Winck Nunes
7
EDITORIAL
Freud, esse grande pesquisador, percorreu a mente humana em diversasperspectivas, passando pelos fatos mais triviais de nossa constituição sub-
jetiva até aqueles mais representativos de nossa psicopatologia. Dessa forma,
em relação ao tema de nossa Revista, ele começou tratando do que considerou
um tipo normal de ciúme, aquele que acompanha o sujeito desde a rivalidade
entre os irmãos pela posse do amor exclusivo da mãe ou mesmo do ciúme do
amor existente entre os pais. Seguindo suas observações na direção da
psicopatologia, nos apresentou o ciúme na sua dimensão delirante, que é acom-
panhada da convicção inabalável de uma traição.
Portanto, no espaço intermediário entre o ciúme comum e o ciúme deli-
rante, descortina-se um campo a mapear. Questões se apresentam: o amor
vem sempre acompanhado do desejo de possuir o objeto? O ciúme é a demons-
tração de tal anseio de posse? Serão as mulheres mais ciumentas que os
homens? Quando o ciúme se torna sintoma? Há um ciúme tipicamente mascu-
lino e outro feminino? Essas questões interessam ao psicanalista na sua práti-
ca cotidiana? Ou são apenas dúvidas para serem tratadas por revistas de com-
portamento?
Hoje, inclusive por causa da Psicanálise, os temas que tratam dos afetos
humanos interessam à reflexão de número muito maior de pessoas. Todos têm
alguma história para contar de alguma situação de ciúme que pôde levar ao
choro e talvez, depois, ao riso, quando não ao contrário. Sendo assim todos
queremos entendê-lo melhor.
De qualquer forma se tomamos esse tema em discussão mais aprofundada
temos que, como Freud nos ensinou, partir do conhecimento que nos foi trans-
8
EDITORIAL
mitido pela Psicanálise, avançar nas hipóteses levantadas, e construir novos
pontos de vista. Ou, como Lacan nos ensinou, procurar os pontos que podem
definir a estrutura e caminhar na elucidação dessa cena familiar e na sua repe-
tição.
O que podemos iniciar afirmando é que o ciúme flerta com a totalidade:
aquela encontrada na certeza delirante da loucura, a pretendida pelo ciumento,
que quer tudo saber sobre o desejo do outro, ou ainda, a totalidade da idealização
do objeto que o sujeito teme perder para um outro. Na busca do domínio do
objeto de amor e desejo, o ciumento é atormentado pela dúvida. Talvez o enigma
do desejo que nos deixa um tanto quanto à deriva e sem mapas de navegação
busque no ciúme uma pista de fixação. A literatura tão bem demonstra, com
Machado de Assis e seu personagem Dom Casmurro, expressão máxima da
dúvida do ciumento, que a busca da certeza pode se dar na composição de uma
teoria a qual sofre o risco de chegar a ser delirante.
De qualquer forma, mesmo que todas as dúvidas não sejam resolvidas
através da leitura de nossos textos, estão lançadas questões instigantes sobre
esse tema, que mereceu interesse e nossa investigação.
TEXTOS
9
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, Porto Alegre, n. 37, p. 9-21, jul./dez. 2009
Resumo: O texto desdobra o caráter delirante que as manifestações de ciúmes
tidas como “normais” pelo senso comum carregam em si, bem como situa as
origens do ciúme e seu papel na constituição do sujeito.
Palavras-chave: ciúmes, amor, identificação, narcisismo, projeção.
PSICOPATHOLOGY OF LOVE LIFE
Abstract: The article unfolds the delusional character carried within the so called
“normal” jealousy expressions, as well as situates the origins of jealousy and its
role in the subject constitution.
Keywords: jealousy, love, identification, narcissism, projection.
PSICOPATOLOGIA
DA VIDA AMOROSA1
Ângela Brasil2
1 Texto elaborado a partir do trabalho apresentado na Jornada de Abertura da APPOA: Ciú-
mes, realizada em Porto Alegre, abril de 2009.
2 Psicanalista; Membro da APPOA.
1010
Ângela Brasil
Como ciumento sofroquatro vezes:
porque sou ciumento, porque me reprovo de sê-lo,
porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque
 me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído,
por ser agressivo, por ser louco, por ser comum.
Roland Barthes
Quando o assunto é ciúme, ninguém fica indiferente, o que inclui os quetentam estudá-lo. Aliás, os poucos textos sobre o assunto são rebusca-
dos, barrocos, dramáticos como letras de tango, talvez para dar conta do ex-
cessivo que o tema comporta. Entretanto, não deixa de causar espanto consta-
tar que psicanalistas, ou psicoterapeutas, fazem coro com o senso comum,
referindo-se aos ciúmes como “insegurança”, “baixa auto-estima”, “faz parte do
amor” e assim por diante, esquecendo o que Freud nos ensinou sobre projeção
e seu efeito de desconhecimento dos próprios desejos.
Para lembrar, à guisa de introdução, Freud ([1922] 1976) se refere ao
ciúme como um dos estados emocionais que, como o luto, podem ser descritos
como normais. E aqui, chama atenção a insistência do uso do termo “normal”
pelo autor de Psicopatologia da vida cotidiana (Freud, [1901] 1976), que, no
mais das vezes, faz questão de romper esses limites entre a norma e a patolo-
gia. Embora afirmando a existência dos ciúmes normais, Freud ([1922] 1976)
alerta para a intensidade anormal dos ciúmes “normais” que aparecem na clíni-
ca, apontando para sua não completa racionalidade, pois estariam “profunda-
mente enraizados no inconsciente”. Ele nos fala de camadas e não de tipos de
ciúmes. Teríamos, então, o ciúme competitivo ou normal, o projetado e o deli-
rante. Tal colocação nos leva a pensar que todo ciúme “normal” carrega em si as
outras camadas. Isto é, todo ciúme poderia ser delirante?
Como em muitos outros pontos de sua teoria, Freud encontra em si mes-
mo material para suas hipóteses. O noivo apaixonado de Martha, distante dela
por muito tempo (em quatro anos de noivado, três de separação), sofre todos os
tormentos do ciúme. Através de mais de 900 cartas que seu filho Ernst (Freud,
1982) reúne e publica, podemos acompanhar as concepções de Freud sobre o
amor e suas exigências. Novecentas cartas em três anos? Quer dizer, quase
uma por dia? Não posso deixar de associar aos telefonemas diários que rece-
bem nossos pacientes, frequentemente no preciso horário de sua sessão analí-
tica, a lembrá-los, como diz a canção: “onde você estiver, não se esqueça de
mim, não se esqueça de mim”. Desconfio de que o telefone celular tenha sido
ideia de um ciumento.
“Quando amo, sou exclusivista”, diz Freud em uma de suas cartas a
Marta. Em outra, escreve: “Daqui em diante você é apenas uma hóspede em
Psicopatologia da vida amorosa
11
sua família, como uma joia que eu empenhei e vou resgatar assim que ficar rico”
(Freud apud Bueno, 1994, p. 42). Com essa frase ele pretende anular todos os
laços que ela tenha com todo seu passado, como se ela tivesse nascido do
amor dele por ela. Nada diferente dos ciumentos atuais, procurando avidamente
saber cada detalhe do passado de suas amadas, para melhor montar a cena da
sua exclusão e sofrer-gozar dela.
A demanda de atenção total e exclusiva do objeto de amor pelo sujeito
acometido de ciúme indica que esse objeto sustenta algo referente à sua cons-
tituição como sujeito ou a sua identidade sexual: “Se ele me ama, sou mulher”;
“se ela me ama, sou homem”.
O ciúme é um afeto que engana
Em Freud, muitos e diferentes ciúmes são mencionados em toda a obra,
seja na elaboração de conceitos, seja na discussão de casos, mas ele o consi-
dera um sentimento, um afeto, e, como tal, uma espécie de pequeno ataque
histérico, como nos lembra em Inibição, sintoma e angústia (Freud, [1926] 1976),
referindo-se a qualquer afeto. Não privilegia o ciúme, como o faz com a angústia,
sobre a qual trabalha incansavelmente em suas hipóteses. O ciúme não é um
Witz, um ato falho, um lapso ou um sonho, embora seja material, resto diurno a
produzir muitos pesadelos.
Ao contrário da angústia, que não engana, o ciúme engana o sujeito, que
pode nada saber dele, transformado em mau humor repentino, reações exacer-
badas a pequenas contrariedades, mutismos inexplicáveis, que atormentam o
parceiro amoroso, o alvo do ciúme. O ciúme se mascara em zelo (de onde se
origina a palavra no latim, zelumen), cuidado amoroso, preocupação com o ou-
tro, proteção, medo de perder o objeto precioso. Porém, a etimologia da palavra
jaloux, francesa, derivada de gelosia, nos transmite com mais pertinência os
elementos que estão em jogo no ciúme. Gelosia, no século XIII designava a
persiana de uma janela que permite ver sem ser visto, e que tem sua origem no
costume dos árabes, que assim construíam as janelas dos quartos das mulhe-
res. Aliás, a palavra existe em português, com o mesmo significado3 .
No idioma havaiano, ciúme quer dizer também despedida. Pois, justa-
mente, temer a perda é a forma de antecipá-la ou de promovê-la, especialidade
dos ciumentos.
3 Gelosia remete a olhar, não qualquer olhar, mas o olhar proibido, obstaculizado, a um objeto
precioso de posse de outro: a mulher.
1212
Ângela Brasil
As origens do ciúme
Desde os primeiros textos freudianos, os ciúmes estão relacionados a
duas origens: os gerados pelo nascimento de um irmão e os oriundos do com-
plexo de Édipo. No texto de 1922, Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na
paranoia e na homossexualidade, Freud volta a mencionar as origens do ciúme
como “uma continuação das primeiras manifestações da vida emocional da cri-
ança” (Freud, [1922] 1976, p. 271). Refere-se explicitamente aos efeitos
perturbadores do nascimento de um irmãozinho em vários textos e em relatos
de casos.
Desde A interpretação dos sonhos, de 1900, no capítulo Sonhos sobre a
morte de pessoas queridas, Freud menciona a capacidade de crianças muito
pequenas manifestarem ciúmes em qualquer grau de intensidade e evidência e,
surpreendentemente, comenta: “Não sei por que pressupomos que essa rela-
ção [entre irmãos] deva ser de amor!” (Freud, [1900] 1976, p. 265).
No texto Uma recordação de infância em Poesia e verdade, Freud ([1917]
1976) faz uma hipótese interpretativa da única lembrança infantil de Goethe,
relatada em sua autobiografia, lembrança essa, deduz ele, anterior aos quatro
anos de idade. O pequeno Goethe lembra-se do grande prazer que encontra em
jogar pela janela, uma a uma, toda a louça de sua casa (que acabara de ser
comprada pela mãe) e em vê-la quebrar-se em pedaços com estrondo. Freud
qualifica a cena como um ato simbólico, uma ação mágica, pela qual a criança
deu expressão violenta a seu desejo de livrar-se de um intruso (sic): a irmã mais
nova.
Intrusão é a palavra que Lacan ([1938] 2003)) utiliza para dizer da origem
dos ciúmes: esse momento em que a criança teme perder seu primeiro objeto
de amor, ao perceber a presença de um irmãozinho. Momento traumático, nada
banal, alerta ele em Complexos familiares. Entre o desmame e o aparecimento
do intruso, a dor da primeira perda faz sua marca, inscreve-se e constitui o
psiquismo da criança. É contemporânea do estádio do espelho, momento em
que a criança se reconhece, pela fala da mãe, através da imagem do outro (ele
mesmo) no espelho, a quem endereça sua primeira agressividade.
A mãe se reparte: os outros existem!
Então, o ciúme está em relação com a perda fundamental, originária,
aquela que mutilou o Outro, para recortar o objeto a: “O seio não é mais meu”.
Dano narcísico irreversível, que produz raiva do intruso, que tão cruelmente reve-
lou o fracasso do desejo de posse ilimitada do primeiro objeto de amor. Existe
outro! Ele não está só no mundo! Existem outros susceptíveis de dividirem o
Psicopatologia da vida amorosa
13
amor da mãe. Esse ciúme nasce, nos diz Lacan, no próprio momento da iden-
tificação, não constituindo simplesmente uma rivalidade. O desejo de que o
outro desapareça está na mesma medida em que este representa e sustenta o
desejo do sujeito, pois não há desejo sem inscrição da falta.
Roland Barthes (1990) recorta do texto de Goethe ([1774] s/d), Os sofri-
mentos do jovemWerther, a cena que captura o protagonista:
Charlotte [a moça por quem o personagem Werther está enamo-
rado] corta uns pãezinhos doces e os distribui a seus irmãos e
irmãs. Charlotte é um doce, e esse doce se reparte: cada um tem
seu pedaço: eu não sou o único – em nada eu sou o único, tenho
irmãs, irmãos, tenho que repartir, tenho que me curvar diante da
repartição: as deusas do destino também não são, por acaso as
deusas da repartição, as Moiras – das quais a última é a Muda, a
Morte? Sofro assim, duas vezes: pela repartição em si e pela
minha impotência de suportar sua nobreza (Goethe apud Barthes,
1990, p 46). 
Amor à totalidade
Freud, numa das primeiras cartas a Martha, escreve:
Sou realmente meia pessoa no sentido da velha fábula platônica
que você certamente conhece, e desde o momento em que não
estou em atividade meu corte dói (Freud apud Bueno, 1994, p. 42).
Os ciúmes flertam com a totalidade, correspondem à tentativa de desco-
nhecer a falta fundamental, acusando o outro de roubo do que é, em si mesmo,
impossível: a posse total do objeto de amor. Isto é, em vez de reconhecer o
limite que me faz sujeito, e não apenas um pedaço que completaria o Outro
materno (o que me aniquilaria como sujeito), coloco a dor do corte na conta do
outro, transformado em rival: eu não possuo todo o objeto do amor (ou todo o
amor do objeto amado) não porque isso seja impossível, mas porque alguém me
rouba.
Se os ciúmes flertam com a totalidade, os ciumentos querem casar com ela.
O outro (rival) é estranho
Lúcia Pereira (2004), em seu belo livro, Um narrador incerto – entre o
estranho e o familiar, assinala o aparecimento do ciúme em Bentinho (persona-
1414
Ângela Brasil
gem de Machado de Assis ([1900] 1997) em Dom Casmurro) como tendo a
estrutura do conceito freudiano de estranho. A partir do olhar de Capitu, para o
amigo Escobar morto, que Bentinho recorta da cena do velório, vai sendo
construída uma espécie de ressuscitamento do falecido – que acaba, no fim das
contas, como que, reencarnado no filho Ezequiel (refiro-me à semelhança com
Escobar, que Dom Casmurro passa a ver em Ezequiel). Como sabemos, o efei-
to de estranhamento advém daquilo que fora familiar e recalcado, vindo aparecer
em lugar indevido e ameaçador.
Também é possível pensar que, frente à morte do amigo, tão amado,
Bentinho o faz reviver no ciúme de Capitu, o que evita que ele faça o doloroso
luto do amigo tão prezado. A recusa de fazer o luto é o que produz o ressenti-
mento, termo que Maria Rita Kehl (2004) introduz como questão para a clíni-
ca. Os ciúmes seriam, como o ressentimento, o resto de um luto não efetua-
do?
O rival amado
Octave Manoni, em Freud, uma biografia ilustrada (1994), chama-nos
atenção para uma das cartas de Freud a Martha, que nos mostra, com rara
clareza, o papel da identificação no ciúme, o lugar que o outro, o rival, tem na
economia psíquica do ciumento. Escreve ele em 27 de junho de 1882:
Ontem fiz uma visita a meu amigo Ernest Fleischl; até agora, e
desde o tempo que não conhecia Marty [frequentemente Freud se
dirigia a Martha, assim, na 3ª pessoa], era alguém que eu invejava
em todos os sentidos [...]. Sempre o considerei meu ideal e não
sosseguei enquanto não ficamos amigos [...]. Ontem me veio a
ideia do que ele poderia fazer de uma moça como Martha, que
engaste ele daria a esta joia... Como ela gostaria de participar da
influência e da importância de um tal amante... E estava come-
çando a imaginar o que ele pensaria de Martha. Então pus fim a
esse devaneio... Não posso também, por uma vez, ter algo de
melhor do que mereço? Fico com Martha (Freud apud Mannoni,
1994, p. 34).
Então, encontramos neste pensamento a clássica projeção dos homens
apaixonados: a projeção de seu desejo por Martha a todos os homens em geral
(“é certo que todos a desejam”) e em particular àquele admirado e tomado como
modelo por ele. E, por acréscimo, um ganho narcísico: “Eu possuo a mulher que
interessaria ao grande homem que eu invejo”.
Psicopatologia da vida amorosa
15
O que surpreende Octave Mannoni é que esse é o mesmo Freud, que
mais tarde, corajosamente, desenvolve sua interpretação do ciúme como proje-
ção do próprio desejo de trair do ciumento ou de seu amor ao rival. “Quem ama
quem?”, pergunta Mannoni. Freud vai revelando em seus textos outras camadas
para o tal “zelo”.
O rival amado constitui-se, via identificação, em esteio narcísico contra a
fragilidade das posições sexuadas, masculina ou feminina. Os rivais são ideali-
zados, portadores imaginários ou da potência masculina ou do segredo da femi-
nilidade e da sedução.
O amor promove certa ancoragem para o sujeito, mas, por querê-lo ga-
rantido e total, facilmente o ciumento converte o amor em hostilidade: o amado
estará sempre devendo algo e pagará caro por isso.
Como vemos, o ciúme não é só um sentimento, mas um sentimento que
acompanha a experiência muito particular e decisiva na constituição do sujeito:
a identificação; o intruso, que se deseja eliminar, também apresenta o mundo,
rompe com a relação dual imaginária com A Mãe, muito antes do Édipo. Se o
irmãozinho é o primeiro intruso, logo o pai vai se tornar também um intruso entre
a mãe e a criança, se aquela o autorizar, claro. Por isso, o ciúme se inscreve no
registro terciário.
O complexo de Édipo vai acrescentar ingredientes a essa receita básica
do ciúme e vai marcar algumas diferenças de posições entre os que se sexuam
do lado feminino ou masculino. Para as mulheres, para dizê-lo rapidamente,
haverá sempre outra, a que veio antes no amor do pai: a mãe. Esta, que ainda
por cima, não lhe contou o segredo da essência do feminino, deixando-a com a
árdua tarefa de inventar-se como mulher, condição que a faz olhar as outras e
comparar-se. Além da sua mãe, tem a mãe dele, esta, sim, o inesquecível e
proibido amor de quem agora ela é uma das representações.
Por isso, Freud dirá que as mulheres são mais ciumentas. A angústia de
castração toma a forma, para elas, do medo da perda do amor; enquanto que,
para o homem, a angústia de castração aparece no medo de perder a potência
ou de ser comparado, nesse quesito, ao que ele supõe (ao menos um) não
castrado.
O amor de um homem, e-ou um olhar desejante masculino, aplacaria o
não saber sobre o feminino e tornaria a mulher mais dependente desse amor:
“Se ele me ama, sou mulher”. É por isso que as mulheres apostam tanto no
amor e o inventam rapidamente sob qualquer pretexto. Se esse amor não vem,
é como se o pai tivesse fracassado em sua operação de salvamento (aquela que
interdita A mãe); o risco é de recair na relação dual, possibilidade sempre pre-
sente, pois é a mãe também o primeiro objeto de amor da menina, ao qual ela
ficaria colada, não fosse a intervenção paterna.
1616
Ângela Brasil
Para as mulheres valem também as camadas “normais”, projetivas e
identificatórias dos ciúmes. “A outra” que odeio, também fascina. O que ela tem
que eu não tenho? O que é ser mulher?, pergunta Dora à Sra K. (Freud, [1905]
1976). Olha, pai, como se deve amar uma mulher!, mostra a jovem paciente de
Freud ([1920b] 1976), quando passeia apaixonada com sua Dama na calçada
do escritório do pai. Com frequência, são os significantes do feminino que a
mulher procura nos bolsos do amado, restos da outra, A mulher. É o que pode-
mos ver no belo filme de Heitor Dhalia (Brasil), À deriva: a adolescente Felipa,
de 14 anos, segue, enciumada e curiosa, a amante do pai, invadindo mais tarde
a casa desta; lá, examina atentamente os objetos da mulher odiada, mas não
resiste em experimentar ver-se ao espelho com os adereços dela.
Mas o homem não é menos ciumento! Eles costumam falar menos, só
isso; já trabalhei em outra ocasião4 sobre o silêncio dos homens em relação ao
amor, que estará sempre marcado por uma proibição (edípica). Freud ([1910]
1976) aponta o ciúme como uma das condições para a escolha amorosa, pois é
pelo ciúme que um homem pode dar-se conta de que ama, como tão bem
descreve no artigo Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens. É
nesse textoque ele comenta a extrema fidelidade que um homem pode ter a
seu ciúme, isto é, ele pode trocar de parceria, numa série sem fim, mas não
troca o precioso ciúme que o faz amar. Aliás, essa é uma das características
dos ciumentos: são volúveis.
Freud ([1920a] 1976) observa, em Além do princípio do prazer, que os
pacientes sempre descobrem os objetos apropriados para seus ciúmes. Isto é,
escolhem parceiros que poderiam interessar aos outros; esse interesse é como
uma validação da sua escolha, já que o seu desejo não o orienta (como ocorre
na neurose obsessiva). Em muitos casos, vemos que os pais não permitiram à
criança apropriar-se dos significantes do desejo, de forma que é preciso roubá-
lo de outros. É esse roubo que o ciumento projeta no rival.
A certeza de que o outro trai não necessita de nenhuma comprovação,
qualquer detalhe funciona como prova cabal do que teme e-ou deseja. Mesmo
nas redes de relacionamento que ocorrem na internet, em meras trocas de
palavras escritas entre pessoas que não se conhecem, o fantasma do ciúme faz
sua aparição, com direito a cenas que pensaríamos possíveis somente em rela-
cionamentos estáveis: “Você está teclando com outro (ou outra), eu vi!”. O fan-
4 Brasil, Ângela. O telefonema do dia seguinte. In: APPOA (org). Masculinidade em crise.
Psicopatologia da vida amorosa
17
tasma do ciúme parece ter vida própria, não dependendo de qualquer circuns-
tância (daí seu caráter delirante).
Restos do amor ao pai e à mãe vão dar ao ciúme projetivo a aparência de
impulsos homossexuais, conforme Freud o menciona; mas isso não significa
homossexualidade, mas perguntas sobre a posição sexuada: “O que é ser uma
mulher? O que é ser homem?” O rival é amado, não sexualmente, mas
narcisicamente.
O trivial
O laço conjugal é o mais propício para que ali se instalem os ciúmes,
mesmo quando a proposta de casamento aberto tenta driblar a proposta
paranoiquizante da exclusividade. É o que podemos inferir dos relatos de casais
famosos e seus pactos.
O livro recém publicado sobre o relacionamento aberto entre os filósofos
Sartre e Simone de Beauvoir, de autoria da americana Hazel Rowley (2006),
relata o sofrimento de Simone com a obsessão da conquista de mulheres jo-
vens e lindas, a que o feio, baixinho e míope Sartre se lançava, desde o início do
relacionamento. Tampouco ele livrou-se dos ciúmes, quando ela se envolvia em
outros amores.
Mas o relato mais impressionante da dissonância entre uma filosofia de
vida de separação entre amor e sexualidade nos é dado por Catherine Millet
(2009), conceituada crítica de arte, especialista em Salvador Dali e Yves Klein,
diretora da prestigiosa revista Art Press, em seu livro Jour de suffrance5 . Nesse
livro, ela narra o aparecimento inesperado de uma longa crise de ciúmes deflagrada
por um detalhe banal da vida de seu marido, com quem mantinha um casamen-
to duradouro e totalmente aberto. Desde muito jovem, ela fizera a opção de
separar a vida amorosa da sexual, e o casamento não mudara isso, mas as
peripécias sexuais a que se dedicava com entusiasmo, não eram tema de con-
versa entre os dois; era como que assunto privado, uma espécie de vida parale-
la, com “a textura de um devaneio” (sic). Eis que, uma foto de mulher encontra-
da entre os escritos dele, faz aparecer A outra (“o que me chocou foi a presença
de uma intrusa”), que, a partir daí passa a frequentar os pensamentos e fantasi-
as dela, ocupando agora o seu lugar:
5 Publicado no Brasil com o título de A outra vida de Catherine M. (Millet, 2009), o qual remete
a seu livro anterior, A vida sexual de Catherine M. (Millet, 2001).
1818
Ângela Brasil
O ciúme se tornou o meu pão de todos os dias, [...] imaginava
Jacques com outras mulheres, em infindáveis façanhas sexuais.
O sofrimento era tão agudo que, às vezes, era comparável às
pulsões que dominam os assassinos e estupradores sexuais [...]
minha maior relação, inclusive física, era com o ciúme (Millet,
2009, p.76).
A crise de ciúme que Catherine Millet descreve é, segundo ela, uma de-
puração da construção fantasmática própria do ciúme, já que o medo de não ser
mais amada ou de ser abandonada eram praticamente inexistentes. Nisso con-
siste o interesse deste vivo relato. O ciúme-gozo, que aqui aparece, surge quan-
do o terceiro elemento, constituinte da estrutura de qualquer relação amorosa,
se encarna para sustentar o desejo.
Novos laços, velhos ciúmes?
Nas mudanças de configurações familiares que hoje acompanhamos,
podemos investigar se os ciúmes sofreram mudanças em suas manifestações.
Não pareceria mais ser possível, nos dias atuais, no que se refere à mudança do
papel social das mulheres, que seus parceiros pensem em isolá-las do mundo,
numa pretensão de posse exclusiva. Todavia, a experiência na clínica nos per-
mite pensar que o ciúme é uma dor atemporal e universal.
Como denunciam nossos pacientes, a paixão do ciúme reaparece sob
os mais diferentes disfarces: com frequência as mulheres reclamam de qual-
quer interesse que o parceiro demonstre (e haja cara amarrada para o futebol,
para a academia ou para o chopinho com os amigos!). Assim como se ouve
mais comumente os homens a atacarem as relações de amizade (ou familia-
res) da mulher, depreciando-as, colocando obstáculos ou, na impossibilidade
de sustentarem tal exigência de isolamento, oferecerem-se generosamente
para levá-las, buscá-las ou qualquer outro pretexto para se fazerem presentes,
vigilantes da exclusividade. As relações sociais dos casais tendem a incluir,
na melhor das hipóteses, outros casais, quando não produzem o afastamento
de todas as antigas relações. Aquela amiga solteira ou aquele colega desca-
sado será misteriosamente esquecido nas festinhas e passeios de fim de
semana. “Perigo! Perigo!” (Parece que uma luz vermelha acende e interdita
aquela ameaça ambulante).
O que os ciumentos não percebem é que o verdadeiro rival que eles com-
batem o tempo inteiro é o desejo, ou melhor, a autonomia do desejo, que tentam
controlar. Por isso, o ataque a qualquer interesse do parceiro, a qualquer ideia
ou gosto próprio, chegando a parecer sadismo o mau humor com o qual o ciu-
Psicopatologia da vida amorosa
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mento percebe alguma alegria no parceiro e tenta boicotá-la. Enfim, um especi-
alista em desmanchar prazeres alheios.
Mas a virulência do ataque ciumento, a paixão da exclusividade, do todo,
pode aparecer onde menos se espera, como nas novas reorganizações familia-
res. Refiro-me aos ciúmes que os filhos de um casamento anterior podem vir a
produzir no parceiro atual. Em alguns casos, o aparecimento de intensa angús-
tia quando da visita dos filhos do parceiro é o principal motivo da busca de
análise. Com mais frequência, esses ciúmes aparecem, no decorrer de uma
análise, como um mal-estar eventual que vai se agravando, ligado a circunstân-
cias cotidianas da convivência inevitável. É com surpresa que alguns pacientes
começam a relatar o monitoramento dos enteados, a contabilizar cada sanduí-
che, cada gesto de afeto do parceiro, numa insana e sofrida vigilância, difícil de
disfarçar e admitir. Mas isso não é prerrogativa feminina; também encontro em
homens um disfarçado ciúme dos enteados, que jamais é confessado, mas que
pode fazer fracassar a relação amorosa, minando o amor com um ressentimen-
to que desconhece sua origem.
A primeira interpretação que mais comumente se faz nesses casos é: os
filhos seriam representantes dos rivais, lembranças materializadas de que hou-
ve outros, de um passado que se quereria abolir. Pode ser; mas a violência do
ódio, que não raro se instala, nos obriga a sair do óbvio e a pensar algo mais. O
próprio ciumento se assusta com sua paixão de ódio, que não arrisca comentar
com ninguém. Esses filhos que seu parceiro deu à outra, a que veio antes, pode
representar o filho desejado no seu amor edípico, e que o pai deu à mãe e não a
ela. O intruso faz sua aparição. Sua simples presença produz grande angústia,
impossível de disfarçar, podendo abalar a nova relação. Para os homens, os
enteados podem reeditar osciúmes fraternos.
Quando essa angústia não encontra uma escuta (ou não a busca) pode
levar à passagem ao ato; momentos de loucura, nos quais a ameaça de
despossessão do objeto de amor, a confusão entre o rival e ele mesmo, podem
levar o ciumento a uma certeza: o intruso é a fonte da privação, causa de frustra-
ção antiga e mal recalcada, e deve ser eliminado. Não raro, ocorrem crimes,
como, tristemente acompanhamos nos noticiários.
Aqui, voltamos ao caso da jovem homossexual de Freud ([1920b] 1976),
a garota apaixonada pela dama mal falada. A jovem faz a inversão do objeto de
ciúme e ódio (a mãe que ocupa todo o lugar do feminino) em objeto de amor,
transposto para a Dama. Quando também esse amor lhe é negado, identifica-se
com o objeto do antigo e frustrado desejo edípico: o bebê. Na frente do pai, tenta
suicidar-se, “niederkomem”, diz a jovem a Freud, que ele interpreta como parir-
ser o bebê que o pai deu à mãe e não a ela. Passagem ao ato de um desejo que
não teve escuta.
2020
Ângela Brasil
Os não ciumentos
Há um tipo de ciumento do qual Freud falou muito pouco, os não ciumen-
tos: “Se alguém aparentar não possuir ciúmes, justifica-se a inferência de que
tal criatura enfrentou severo recalque” (Freud, [1922] 1976, p.271). É como se
ele dissesse que os não ciumentos não existem. É talvez o que justifique a tese
de Denise Lachaud (2001), de que a cura deveria passar pelo levantamento do
recalque, isto é, que a demanda ciumenta tenha expressão. Aqui abre-se um
campo de investigação: Ciúme tem cura?
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Psicopatologia da vida amorosa
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Recebido em 01/12//2009
Aceito em 29/12/2009
Revisado por Valéria Rilho
22
TEXTOS
22
Resumo: O presente texto trata da construção do sujeito do inconsciente na
instituição familiar. O autor dialoga com o texto de Lacan, Os complexos famili-
ares, em seus respectivos desdobramentos na constituição da imagem especu-
lar, bem como na implicação do outro (irmão) no aparecimento do ciúme e sua
repercussão no laço social.
Palavras-chave: sujeito, família, transitivismo, ciúme.
THE BEGINNINGS OF JEALOUSY CONSTRUCTION AND ITS
RELATION TO THE CONSTITUTION OF THE SOCIAL TIE
Abstract: The present text deals with the construction of the unconscious subject
in the family institution. The author dialogues with Lacan’s text The family
complexes, in its respective unfoldings in the constitution of the specular image,
as well as in the implication of the other (sibling) in the outcome of jealousy and
its effects in the social tie.
Keywords: subject, family, transitivity, jealousy.
OS PRIMÓRDIOS DA
CONSTRUÇÃO DO CIÚME
e sua relação com a
constituição do laço social1 
Robert Levy2
1 Tradução de Patrícia C. R. Reuillard (UFRGS).
2 Psicanalista; Membro da Analyse Freudienne; Autor de diversos artigo e livros, dentre eles,
O desejo contrariado (Companhia de Freud, 2004) e O infantil e a psicanálise(Editora Vozes,
2008). E-mail: robert.levypsy@aliceadsl.fr
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, Porto Alegre, n. 37, p. 22-30, jul./dez. 2009
Os primórdios da construção do ciúme...
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Embora não se possa negar que o sujeito tenha uma dimensão social, deve-se definir o que se entende por social, pois é evidente que, no fundo, as
diferentes “guerras do sujeito” não passam de diferentes maneiras de
enquadrá-lo numa versão social particular. Trata-se de um lugar específico
que lhe é atribuído, devido à sua própria estrutura, e que o leva sempre ou para
o antropológico ou para o linguístico. Lévi-Strauss (1978) emprega o termo “tra-
dução” para enfatizar a ideia de que psiquismo individual e estrutura sociológica
são duas expressões de uma única realidade. Encontramos esse mesmo
enquadramento do sujeito em Foucault, que apenas retoma de maneira muito
mais sistemática o que Lacan ([1932] 1980) já indicava em sua tese, ou seja,
que a introdução da história do sujeito mostra que o pensamento delirante é a
manifestação de uma normatividade interna, de uma maneira de ser, de uma
tendência concreta que só assume a forma de delírio porque não corresponde
aos sistemas reconhecidos em um lugar e momento dados.
Devemos nos reportar ao Lacan de 1938 (2001), portanto, para fazer a seguinte
constatação: é o próprio sujeito do inconsciente que depende das condições de pro-
dução familiar. Nessa época, as elaborações iniciais da teoria lacaniana do sujeito
são motivadas pelas circunstâncias sociais da organização familiar, que determinam,
segundo ele, os sintomas, expressando coletivamente o sofrimento que caracteriza
uma atualidade mórbida como o estilo clínico de uma época eminentemente mutável.
É interessante observar que Lacan apoia as primeiríssimas elaborações
de sua teoria do sujeito em uma institucionalização, aquela da dependência vital
do indivíduo em relação ao grupo. O que constitui o sujeito na origem é a univer-
salidade de sua prematuração no nascimento, o que o torna dependente do
grupo, é claro, mas sobretudo da nostalgia da mãe.
Nesse sentido, o sujeito esboçado por Lacan nessa dependência inicial
da mãe está muito próximo do que sustenta Winnicott, mas não se trata exata-
mente da dependência presente no corpus freudiano, que pregava certa nostal-
gia mitológica do pai originário como fundamento do laço social. De fato, para
Lacan, “o apelo ao grupo” é determinado por essa relação orgânica que explica
o apelo à regulação de uma função social que preenche a “insuficiência vital dos
primeiros anos”; ele esclarece, no entanto, que o desafio para a estruturação do
sujeito e para sua entrada na cultura permanece vital.
Por essa razão, em sua obra de1938, Os complexos familiares, Lacan
([1938] 2001) elevará o complexo de desmame à dignidade de uma constante
da espécie humana. Para ele, a nostalgia da mãe não só sustenta a instituciona-
lização do sujeito na família, na origem de sua vida, como também motiva sua
“inserção na multidão”, isto é, sua socialização no sentido mais amplo, por
motivar tanto as produções simbólicas iniciais da humanidade quanto a instau-
ração dos ideais sociopolíticos dos grupos.
2424
Robert Levy
Com essa concepção, Lacan rejeita a teoria freudiana do instinto de morte,
demasiadamente marcada pelo cunho biológico, preferindo a ela a clínica da nos-
talgia da matriz, que o leva a essa tendência psíquica à morte: “em seu abandono
à morte, o sujeito busca reencontrar a imago da mãe” (Lacan, [1938] 2001, p. 34).
Desde essa época, ou seja, desde 1938, Lacan antecipa um debate bas-
tante atual sobre os sintomas “modernos” relacionados sobretudo à toxicoma-
nia, à anorexia e aos suicídios, que ele situa diretamente como distúrbios do
desmame, sempre correlatos a nossos estados-limite e ao suposto enfraqueci-
mento da figura paterna. Percebe-se que Lacan não promove nenhuma “nova
economia psíquica”, mas, ao contrário, retoma o “querer morrer” descoberto por
Freud como uma parte da prematuração do falasser. Seria exatamente essa
tendência psíquica à morte que motivaria
[...] suicídios [...] não violentos [...], greve de fome da anorexia
mental, envenenamento lento de certas toxicomanias pela boca,
regime de fome das neuroses gástricas. A análise desses casos
mostra que, em seu abandono à morte, o sujeito busca reencon-
trar a imago da mãe (Lacan, [1938] 2001, p. 35).
Por conseguinte, nessa concepção do sujeito, Lacan não fala absoluta-
mente do declínio da figura do pai como causa de nova sintomatologia moderna,
mas abre uma verdadeira clínica do ideal, rejeitando, com seu complexo de
desmame, a teoria freudiana do ideal da nostalgia do pai, o que é muito diferente
do declínio da imagem do pai. Por essa razão, instinto de morte e aspiração à
morte diferenciam-se, o que leva, portanto, ao questionamento da noção freudiana
de narcisismo originário e, consequentemente, de eu ideal e de ideal do eu em
proveito da noção de “aspiração à morte” suscitada pela “nostalgia da matriz”.
Porém, a primeira forma de estruturação do sujeito à qual se refere Lacan
([1938]2001a) é uma estruturação narcísica pela imagem. Toda sua teoria do
narcisismo vai girar então em torno da noção de imagem.
O complexo da intrusão
Assim, após o complexo de desmame, virá o complexo de intrusão,
como segundo momento de estruturação psíquica do sujeito. De fato, como
o narcisismo originário é impensável na teoria lacaniana daquele momento –
“não falaremos aqui, como Freud, em autoerotismo, visto que o eu não é
constituído nem de narcisismo, já que não existe uma imagem do eu” (Lacan,
[1938] 2001, p. 30) –, é com a imagem do irmão, de certo modo, que se
conseguirá largar a mãe!
Os primórdios da construção do ciúme...
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Pode-se perceber desde já uma espécie de preenchimento pela imagem,
uma maneira de prosseguir a construção do sujeito, no que leva Lacan logicamente
ao estágio do espelho para preencher o que considera uma falha na herança
freudiana.
Lacan se diferencia de Freud porque, enquanto este fala da convocação
de um narcisismo originário estritamente masoquista, aquele considera que esse
masoquismo inicial não passa de um duplo do sadismo, ator principal da
estruturação do sujeito. Assim, para se liberar da mãe, do suicídio na mãe, por
assim dizer, é preciso dispor de uma imagem, a de um irmão com a qual o
sujeito possa se identificar:
[...] é a identificação com o irmão que permite (ao desdobramen-
to) se concluir: ela fornece a imagem que estabelece um dos
polos do masoquismo primário. Assim, a não violência do suicídio
primordial engendra a violência do assassinato imaginário do ir-
mão (Lacan, [1938] 2001, p. 41).
É preciso compreender claramente que se trata de uma função de su-
plência em que o simbólico ainda não está constituído; suplência esta que se
encontra explicitamente evocada no estágio do espelho:
[...] a identificação afetiva é uma função psíquica cuja originali-
dade foi estabelecida pela psicanálise, especialmente no com-
plexo de Édipo [...]. Mas o emprego desse termo na fase que
estamos estudando permanece mal definido na doutrina; é essa
lacuna que tentamos preencher por meio uma teoria da identifi-
cação cuja gênese designamos sob o termo estágio do espelho
(Lacan, [1938] 2001, p. 41).
Esse é o preço que o sujeito paga por tender originalmente a mascarar o
essencial de uma função de falta; ele paga por introduzir em seu âmago o prin-
cípio de discordância imaginária. No entanto, não se deve ver nisso nenhum
reconhecimento de sua própria pessoa, mesmo que a criança já reconheça sua
imagem no espelho: “a identificação pessoal ainda vacila”. Lacan ([1946] 1966)
busca em Charlotte Buhler algo do qual se apropria para retraçar o caminho que
leva aos primórdios do sujeito do inconsciente e que se encontra perfeitamente
bem descrito em seu artigo Formulações sobre a causalidade psíquica:
[...] na dialética que vai do ciúme (esse ciúme cujo valor de inicia-
ção Santo Agostinho já entrevia de modo fulgurante) às primeiras
2626
Robert Levy
formas da simpatia. Eles se inscrevem em uma ambivalência pri-
mordial que se mostra, já indico, em espelho, ou seja, o sujeito
se identifica, em seu sentimento de si, à imagem do outro, e a
imagem do outro vem nele cativar esse sentimento (Lacan, [1946]
1966, p.180-181).
Isso levanta forçosamente toda uma série de questões quando se supõe
que essa “passagem não ocorreu” ou se realizou apenas parcialmente.
Pensa-se instantaneamente naquele olhar que atravessa o outro das cri-
anças autistas; mas também em todas as metamorfoses constatadas nas pa-
tologias simbióticas, durante as quais certas crianças permanecem numa pro-
ximidade da mãe em que é manifesta a tentativa de encontrar um lugar no olhar
da mãe que não reflete nada do lugar da criança no espelho. Mas também se
pensa, ao contrário, naquelas mães igualmente simbióticas que tentam mani-
festamente, por meio da ascendência sobre o filho, acionar incansavelmente o
que, para elas mesmas, não se produziu desse reconhecimento como outro.
Trata-se igualmente da fascinação dual na relação do sujeito com sua própria
imagem, que funda uma semiologia que vai da sutil despersonalização à aluci-
nação do duplo e do que deriva da alienação do sujeito: “rumo à rivalidade, que
prevalece, totalitária”, como escreve Lacan, ([1966] 1966, p.70) em seu artigo
De nossos antecedentes.
Portanto, nesta pura fascinação pela imagem (Lacan, [1974] 1975), a
criança experimenta a forma distorcida de uma relação consigo mesma, que
passa por uma relação com o outro; mas é com o espelho que o sujeito é
moldado por um mundo de formas que o coloca acima de tudo como uma
exterioridade a si mesmo, que explica tão bem esse “desconhecimento siste-
mático da realidade que caracteriza o conhecimento paranoico” (Lacan, [1951]
1953, p. 3). Com essa noção, Lacan reúne certo número de temas já desenvol-
vidos nos Complexos familiares, como o do ciúme primordial sob a forma de
invídia; contudo, nessa denominação “conhecimento paranoico”, ele instaura
uma verdadeira consequência no estágio do espelho, que dá conta do sujeito
tomado na captação da imagem do outro e já antecipa o mecanismo cuja estru-
tura anuncia um conceito fundamentalmente importante: o de identificação. Mas
se trata então de um conceito de identificação revisitado por essa estrutura de
vetor duplo, o transitivismo: introjetiva e projetiva, que não é elaborada como tal
na obra de Freud, mesmo que pressentida. Evidentemente, esse importante
aspecto da estruturação do sujeito tampouco escapou a Winnicott, em que
Lacan sempre se inspira e que, como bom clínico alimentado pelos trabalhos de
Melanie Klein, assinala que “na excitação ligada a um bom objeto, acontece de
a criança morder: o objeto será,então, sentido como um objeto que morde”
Os primórdios da construção do ciúme...
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(Winnicott, 1978, p. 65). Percebe-se que a questão é se o indivíduo se identifica
[ao objeto] ou se se identifica consigo mesmo.
O transitivismo como modo iniciático do ciúme
Talvez já se possa pressentir nessa forma arcaica de transitivismo esse
modo de tratar o outro em seu grau de “estranheza do estranho”, que se encon-
tra tão presente em todos os processos de segregação e de xenofobia. O inabitual,
a inquietante estranheza do outro encontra toda sua razão de ser naquilo que é
mais próximo de nós mesmos e, por isso mesmo, mais inquietante. A paranoia
não seria certa forma de defesa contra essa estranheza do sujeito do inconsci-
ente, colocando-o assim fora de nós mesmos, no lugar do perseguidor assim
representado um por um?
Essa dimensão não escapou a Wernicke (neurologista e psiquiatra ale-
mão, 1848-1905), mas no sentido mais restrito de uma transferência para o
exterior de uma atribuição a outrem, mais próximo, portanto, da noção freudiana
de projeção. Assinalemos que, entre as duas versões do transitivismo – uma
psiquiátrica, outra psicanalítica, lacaniana em particular –, há também duas
versões do insuportável do outro. Uma que tende a querer suprimi-lo, outra que
visa a erradicar esse outro, inclusive enquanto lugar vazio. Por conseguinte,
observar-se-ão aqui dois estados do sujeito diretamente ligados ao outro quase
sem distinção, o sujeito se confundindo então com ele; um recobrindo este
amor amargo do qual já nos falou Lacan acerca de Santo Agostinho, o outro
referindo-se mais especialmente à fase posterior ao estágio do espelho e, por-
tanto, ao transitivismo.
Entretanto, insistamos ainda sobre essas duas versões do desapareci-
mento do outro, pois parece que isso nos remete ao jogo do carretel. Com
efeito, nesse jogo, trata-se do momento em que desaparece a mãe representa-
da pelo carretel e também quando a própria criança desaparece no espelho; o
primeiro tempo figura em uma nota do mesmo artigo, frequentemente esqueci-
da. Dois lugares vazios, portanto, um da imagem da criança, outro do carretel
associado a um “bebê oooooo”, representando em si mesmo um jogo a partir da
ausência da mãe. Não é, contudo, o mesmo vazio. Ora, Freud ([1920] 1953)
está totalmente convencido, na nota a que aludimos, que o bebê, vendo aniqui-
lar e reaparecer alternadamente sua própria imagem especular, pôde precisar
depois a significação do jogo do carretel. Freud fala então de “compensação
pela partida da mãe” (Freud, [1920] 1953, p. 52-3) (dasselbe Verschwinden und
Wiederkommen). Para esclarecer e justificar o que ele chama de “compensa-
ção pela ausência” e para aclarar essa noção, Freud indica que a criança recor-
re ao que ele chama de:
2828
Robert Levy
1º) pulsão de dominação (Bemachtigungstrieb), transposição da passivi-
dade em atividade, a fim de dominar pelo simbólico; e, o que parece mais impor-
tante,
2º) pulsão de agressão, que satisfaz o impulso diário reprimido pela cri-
ança, ou seja, vingar-se de sua mãe, já que ela se afastou. É aqui que entende-
mos a necessidade de suprimir, não o outro enquanto objeto faltante, mas de
suprimir o lugar vazio do outro, na medida em que não deve mais haver nem
mesmo vazio do outro.
Essa relação particular com a pulsão de morte, graças à compulsão de
repetição, tenta incansavelmente restabelecer a ausência de toda tensão, redu-
zindo ao máximo o grau de estranheza do outro, fonte permanente de todas as
tensões.
Porém, é a Wallon (1973), na verdade, que devemos a passagem do
transitivismo da psiquiatria à psicologia. Ele trabalhará sobretudo na ideia de
identificação centrífuga. Baseando-se em dois exemplos, primeiro no de uma
senhora epilética que se condoía de sua vizinha por ter tido uma crise que ela
própria tivera na noite anterior e, em seguida, no da pequena Anna, que bate em
sua colega, acusando-a a seguir de ter cometido essa ação desprezível contra
ela.
É Lacan, todavia, que vai estender “a noção de transitivismo” como o
descritor principal da organização psíquica própria do estágio do espelho, uma
categoria genérica que funciona, sob forma de leitmotiv essencial, como uma
espécie de:
[...] organizador nodal de onde se destacam e irradiam os outros
mecanismos específicos e mais localizados [...] a série: ostenta-
ção, despotismo, mimetismo, porte, inveja e simpatia. Todo esse
conjunto de condutas locais parece interpretado por ele como
subentendido por um mecanismo fundamental de projeção, de
movimento centrífugo e alocêntrico, o qual vem, por outro lado, se
unir ao tema integrador particular de ‘conhecimento paranoico’, de
ressonância ao mesmo tempo metapsicológica, filosófica e
surrealista (Lacan, [1938] 2001, p. 47).
Para tirar todas as consequências desse conceito, não esqueçamos a
extensão que Bergès e Balbo (2001) lhe deram, situando o transitivismo como
necessário também para a mãe. Transitivismo materno necessário para que ela
possa apreender o filho, interpretando seus desejos; verdadeiro conhecimento
paranoico, por assim dizer, para que esse bebê possa sobreviver a seu estado
de imaturidade:
Os primórdios da construção do ciúme...
29
Em relação aos cataclismos do nascimento, o transitivismo da mãe
vem fornecer as funções que tendem a apaziguá-los; em particular,
quando o transitivismo atribui à criança uma demanda cuja hipóte-
se foi levantada pela mãe. Ora, com muita frequência, é seu próprio
medo que leva uma mãe a levantar hipóteses de demandas do filho.
O medo é constitutivo dessa hipótese (Bergès; Balbo, 2001, p. 65).
Assim, é sempre graças ao transitivismo que a mãe vem constituir o Outro
da criança, dizendo-lhe: “estás com frio, estás com fome”, isto é, apelando para
o saber da criança, supondo portanto que ela é um sujeito; nesse sentido, pode-
se dizer que ela apela ao sujeito que sabe. Como diz Bergès: “Graças ao
transitivismo entre a mãe e o filho, essa troca discursiva só tem sentido e efeito
porque é constituída pela hipótese formulada pela mãe sobre as demandas do
filho” (ibid., p.17).
Enfim, ressaltemos também, para concluir, que esse transitivismo, ou esse
conhecimento paranoico, atua independentemente de qualquer fantasia e não
necessita, por consequência, de nenhum roteiro para se produzir. Talvez aqui
possamos retomar a ideia que Lacan desenvolve principalmente no seminário O
ato analítico (Lacan, [1967-1968]2001), a de um inconsciente sem sujeito, ou
seja, um conjunto de significantes que têm entre si apenas uma relação de pura
significância lógica. Não seria a esse propósito que se poderia falar de “insujeito”?
Percebe-se então a importância da dimensão do escópico na estruturação
do sujeito, importância que sabemos perturbada nas crianças autistas, mas
também importância deste mundo sem outro inteiramente estruturado pela ima-
gem especular no qual se encontra a dimensão do grupo:
[...] que o grupo familiar, reduzido à mãe e aos irmãos, delineia
um complexo psíquico em que a realidade tende a permanecer
imaginária ou, no máximo, abstrata. A clínica mostra, efetivamen-
te, que o grupo assim incompleto é muito propício à eclosão das
psicoses e que nele se encontra a maioria dos casos de delírios a
dois (Lacan, [1938] 2001, p.46).
Com o irmão, o sujeito encontra o outro e o objeto socializado.
Finalmente, o que permitirá ao sujeito sair de tudo isso é mais uma vez o
grupo familiar, quando se apresenta completo, isto é, dotado de pai. Avalia-se
bem então a importância que Lacan atribui ao grupo familiar na estruturação do
sujeito, mas com um instrumental que não leva absolutamente à concepção de
uma nova economia psíquica, mesmo que, sob muitos aspectos, pudéssemos nos
3030
Robert Levy
servir de seus conceitos para levar sua teoria a uma espécie de nova antropologia do
grupo familiar, na medida em que ele estrutura o sujeito do inconsciente em certa
relação com os primórdios do que aparecerá mais tardiamente como ciúme.
REFERÊNCIAS
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WINNICOTT, D. Processus de maturation chez l´enfant. Paris: Payot, 1978. (ed. bras.:
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Recebido em 09/11/2009
 Aceito em 03/12/2009
 Revisado por Otávio Augusto Winck Nunes
TEXTOS
31
Resumo: O presente texto aborda o tema dos ciúmes a partir da distinção
freudiana entre o ciúme normal e o patológico. Percorre as formulações de Lacan
e as elaborações shakesperianas sobre Otelo para tratar da posição do analis-
ta.
Palavras-chave : ciúme, paranoia, neurose, literatura.
ON JEALOUSY
Abstract: This paper addreses the theme of jealousy from de Freudian distinction
between normal and pathological jealousy. Runs lacanian production and
shakesperian elaboration on Othello to consider the position of the analyst.
Keywords: jealousy, paranoia, neurosis, literature.
1 Psicanalista, Membro da Escuela Freudiana de Buenos Aires (EFBA). Autor dos livros:
Psicosis y cuerpo, Erotomania, paranoia y celos, entre outros. E-mail: purple@sion.com
SOBRE OS CIÚMES
Daniel Paola1
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, Porto Alegre, n. 37, p. 31-35, jul./dez. 2009
3232
Daniel Paola
Mas nada disso vale o veneno que escorre
De teu verde olhar perverso,
Laguna onde minha alma se mira ao inverso...
Charles Baudelaire
À letra
Se consideramos como ponto de partida o texto de Freud ([1912-13] 1980)datado de 1912, onde os ciúmes se projetam no amplo intervalo que vai do
normal ao patológico, poderíamos a princípio afirmar, subtraindo importância ao
normal e ao patológico, que não haveria ser falante não tomado por esta paixão.
Ao parecer, isto é assim para além de que aquele que a sofra o reconheça,
inclusive naquelas psicoses em que o drama com a linguagem é prevalente.
Sendo impossível para todo ser falante situar-se fora dos ciúmes, as ca-
racterísticas que adornam a circunstância de sua aparição desvelam a referên-
cia ao discurso e, portanto, à letra.
Sabemos que, dentro da obra de Lacan ([1975-76] 2007), a conceituação
do objeto a varia desde a obturação da demanda no Outro à causa do desejo e
se refere também ao mais de gozar como agente que determina o discurso do
analista. Também se diversifica em espécies de objetos a no ponto de partida
dos Nomes do Pai, e o encontramos como declaração de ser a única verdadeira
invenção que Lacan reconhece de si mesmo no Seminário O sinthoma. Nessa
oportunidade, o eixo que guia este comentário tem o objeto a em sua determi-
nação de aparência, como aquele significante que faz de véu a possibilidade da
existência do A, nome do campo de Outro.
Os ciúmes nunca são compreensíveis, mesmo que alcancem a normali-
dade freudiana. Sempre haverá, ou do lado do partenaire, ou do lado do que os
sofre, um acento que leva a não compreender. Da letra é de onde podemos
afirmar, de acordo à lógica lacaniana, que não há compreensão, mas leitura em
sua literalidade por quem deseja analisar.
Encontro nesse paralelo uma primeira relação entre os ciúmes e aquilo
que a letra instaura. Tomando em conta o seminário A carta roubada (Lacan,
[1955] 1984), se a letra chega à polícia como paradigma através de Dupin, che-
ga primeiro a quem não pode compreender nada dela no sentido da palavra de
amor que ela porta, ficando todos os seres falantes sujeitos a uma infidelidade
de raiz. Por quê? Porque a letra situa todo ser falante na posição de ser burlado,
posto que para cada um há algum sentido que se escapa, e que o sem-sentido
nos tira qualquer possibilidade de posse.
A infidelidade
Que os ciúmes sejam às vezes negados situa a negação no próprio cen-
tro da cena reprimida que não se quer saber. Que os ciúmes sejam projetados
Sobre o ciúmes
33
não diz senão do desejo que o ciumento quer apreender do partenaire, no ponto
em que seria arriscado todo contato com o desejo que concerne ao sujeito, na
medida de levá-lo ao ato. São abundantes os exemplos que dão conta da minu-
ciosa descrição que o sujeito com ciúmes pede a seu partenaire, no afã de
capturar ilusoriamente aquilo que faz o outro desejante.
Se o impossível guia a ética do desejo como verdade, e aquele que dese-
ja se enfrenta com não poder desejar o impossível, fato que então o situa fora do
discurso, o sujeito com ciúmes encontra essa peculiar maneira de pretender
esse impossível ao situar-se no caminho do desejo do partenaire, esperando um
saber absoluto sobre a cena.
Deveríamos considerar, por parte do sujeito gerado pelo corte que o signo
dos ciúmes oferece, outra implicação certamente não discursiva, tendente à
pretensão de anular o efeito que a letra porta como limite ao gozo em sua
adequação ao falo, já que a evidência o mostra como puro olhar de uma cena.
Situando-se o sujeito como olhar de uma cena da qual não participa, o
que se pode ver não toma a característica de ser falaz. Pelo contrário, haverá,
como efeito de uma demanda de pureza, o que deve ser inacessível ao olhar, e
será deixado em suspenso o possível de ser olhado. Que não se olha mais que
o possível é o que determina a letra no muro antes de que seja escrita verdadei-
ramente, e assim, então, buscar a última verdade de uma cena que demonstra
uma infidelidade, paradoxalmente para o ciumento, não é senão encontrar letra
e mais letra sem acabá-la nunca.
Com Schreber
Por último, os denominados ciúmes patológicos levam a questão da letra
ao campo das psicoses. Se bem é no histórico de Schreber que Freud ([1910-
11] 1980) se refere a essa circunstância, o faz tomando o exemplo da adição ao
álcool como desencadeante desse tipo deciúmes. No entanto, que a enumera-
ção dos ciúmes delirantes se encontre descrita junto à erotomania e à paranoia
me faz aventurar a hipótese de uma ciumetipia paranoica. Deixo claro que essa
distinção tem por fim somente a mostração de um fato do real da clínica, saben-
do de antemão que, no terreno dos ciúmes, às vezes perde-se o exato divisor de
águas entre o que é ou não é psicose.
Para a paranoia e a erotomania, Freud descreve três momentos: eu o
amo-eu o odeio-ele me odeia, ou não a amo-amo a ele-porque ele me ama. No
entanto, para os “ciúmes paranoicos” são dois os tempos descritos: eu o amo-
ela o ama. Queria propor um terceiro tempo nesse imaginário e agregá-lo como
segundo, que sustentaria a mentalidade paranoica ciumenta para então poder
dizer: eu o amo-é ele que me ama-ela o ama. A inversão cai sobre a primeira
3434
Daniel Paola
pessoa gramatical de maneira inquietante, revelando a crença de um amor ho-
mossexual, por parte de um partenaire, que é forcluído e que de nenhuma ma-
neira é aceito.
Assim como o segundo tempo é o que mais complicações oferece ao
paranoico ou ao erotômano, descobrindo a difícil e enlouquecedora sustentação
do ódio ou do inconfessável amor que se teria como amante de um partenaire
que a duras penas se sustenta, o segundo tempo, por efeito de estrutura na
paranoia de ciúmes, ficou diretamente apagado por efeito da forclusão.
Os ciúmes paranoicos viriam a somar-se ao mesmo modelo de mentali-
dade que é representada topologicamente com o nó de trevo para a paranoia e
para a erotomania, mas com a diferença de que em sua constituição gramatical
o segundo tempo de passagem se forclui, até tal ponto que é difícil de ser
descoberto. Alguma implicação na letra terá que haver nisto, considerando que
seu efeito se assemelha à negação como instituinte do simbólico.
Se tomarmos Otelo como um recorte clínico da genial obra de Shakespeare
([1604] 1999), situarei agora o momento exato da aparição desse tempo forcluído.
Trata-se do instante crucial no qual, mediante argúcias, um lenço é a prova
irrevogável de que Cássio esteve em intimidade com sua amada Desdêmona,
revelado por Iago em uma posição de crença absoluta quanto ao amor que teria
por Otelo.
A posição do analista
Esse ponto de engano, que consiste em apresentar como prova de amor
aquilo que é tomado como verdadeiro sendo falso, provoca a arrancada de ciú-
mes em Otelo e o desencadeamento da passagem ao ato que culmina com o
assassinato. Sucede que o personagem dos ciúmes faz sua entrada na loucura
no ponto em que não há sustentação de uma letra, comandada pelo inconscien-
te, que seja indicador de algo falso, respeito à certeza que o cogito imporia no
ser.
Para o analista seria conveniente sempre suspeitar de que a transferên-
cia, cedo ou tarde, conduz a um lugar que deve suportar com sua presença.
Deveria induzir a uma falsidade no verdadeiro em que se vê comprometido por
uma demanda de acusação, e que sanciona gravemente o partenaire. Nesse
caso, deverá recorrer inclusive a retirar-se, antes de aceitar a prova irrefutável de
que o ciumento paranoico põe à sua disposição para argumentar uma acusação
longamente cozinhada na demanda.
O ciumento paranoico fará o possível para tornar efetiva essa acusação
que Otelo sustenta graças a Iago. O analista insistirá na falsidade, sabendo que
na verdade se trata do amor inconfessável que o ciumento paranoico desdobra à
Sobre o ciúmes
35
sua pessoa, e que, como em qualquer caso, terá de descartar, apesar da reci-
procidade que certamente foi despertada na dualidade transferencial.
Se o ciumento paranoico se desprende, possivelmente para outra trans-
ferência, ao menos não se terá renunciado a declarar o falsus que a transferên-
cia encerra, seja com quem seja, enquanto seu estatuto princeps é a abstinên-
cia. Que o ciumento se solte da dualidade, que inclusive por estrutura está
forcluído, pode ser o início de outra possibilidade em sua vida, em vez de ficar
submetido à passagem ao ato, assassinando o amor.
REFERÊNCIAS
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LACAN, Jacques. El seminario de ‘La carta robada’ [1955]. In: ______. Escritos.
México: Siglo Veintiuno, 1984. v. 1.
SHAKESPEARE, William. Otelo [1604]. Porto Alegre : L&PM Editores, 1999.
Recebido em: 10/09/2009
Aceito em:10/10/2009
Revisado por Sandra D. Torossian
36
TEXTOS
36
Resumo: A partir de Otelo, de Shakespeare, o texto destaca o objeto a como
balizador dos diferentes tipos de ciúme na neurose. A tentativa de domínio e
apagamento do objeto de desejo, na neurose obsessiva, e a busca da presença
do pequeno a, a fim de melhor indagar sobre ele, na histeria, particularizam o
ciúme em cada uma dessas modalidades clínicas.
Palavras-chave : ciúme, histeria, neurose obsessiva, objeto a.
ABOUT THE DIFFERENT KINDS OF JEALOUSY
Abstract: Departing from Othello,by Shakeaspeare, the text underlines the
object a as a landmark of the different kinds of jealousy in the neurosis. The
attempt of domination and extinguishment of the object of desire – in the obsessive
neurosis – and the search for the presence of the small a, in order to better
inquire it in hysteria – specify the jealousy in each one of these clinical modalities.
Keywords: jealousy, hysteria, obsessive neurosis, object a.
SOBRE OS TIPOS DE CIÚME1
Lúcia Alves Mees2
1 Texto baseado no trabalho apresentado na Jornada de Abertura da APPOA: Ciúmes , realiza-
da em Porto Alegre, abril de 2009.
2 Psicanalista; Membro da APPOA; Autora do livro Abuso sexual: trauma infantil e fantasias
femininas . Artes e Ofícios, 2001. E-mail: lmees@portoweb.com.br
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, Porto Alegre, n. 37, p. 36-45, jul./dez. 2009
Sobre os tipos de ciúmes
37
Um verme asqueroso e feio / gerado em lodo mortal. /
Morde, sangra, rasga e mina. / Aquele verme é o ciúme
Machado de Assis
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê/ Tanta gente canta,
tanta gente cala/ Tantas almas esticadas no curtume/
Sobre toda estrada, sobre toda sala/ Paira,
monstruosa, a sombra do ciúme
Ciúme, Caetano Veloso
É ele (o ciúme) o monstro de olhos verdes
que zomba da carne com que se alimenta
Shakespeare
Vermes, carne no curtume, monstro: as imagens associadas ao ciúme anun-ciam seu caráter assustador, invasivo, insidioso e mortífero. De intensida-
des variadas, o ciúme pode estar presente da normalidade à loucura, como já
apontou Freud ([1922]1976) através dos três tipos de ciúme que descreveu. O
primeiro tipo, o normal, enraíza-se no inconsciente a partir das relações entre
irmãos e no complexo de Édipo, sendo, portanto, comum ao psiquismo. O se-
gundo não obedece à sexuação e é consequência da colocação do outro na
posição da pretendida infidelidade: é o ciúme projetado. O terceiro e “pior tipo”,
segundo Freud, o ciúme delirante, caracteriza-se por ser a defesa contra dese-
jos homossexuais, levando a atribuir ao outro seu próprio amor pelo objeto do
mesmo sexo. Aquele que é amado se transforma em perseguidor.
Seguindo a trilha percorrida por Freud, gostaria, também, de propor uma
tipologia do ciúme na neurose, incluindo na descrição das espécies de ciúmes
o da neurose obsessiva e o da histeria.
Sabe-se que uma tipologia toma por referência um critério a partir do qual
é possível descrever e situar algo, pelo menos aquela que interessa aqui. Otelo,
de Shakespeare ([1604]1999), serviu de guia para destacar essa baliza que
demarca os diferentes campos do ciúme.
Nessa peça, Otelo não tem qualquer razão para desconfiar de sua espo-
sa Desdêmona, entretanto, com facilidade, cede ao ardil de Iago, o qualinsufla
a desconfiança, em razão de sua inveja3 . O general Otelo havia promovido Cás-
3 Observe-se que a peça percorre o caminho da inveja ao ciúme, assinalando a passagem da
dualidade da relação invejosa ao ternário do ciúme. Como indicou Lacan ([1964] 1985), a
inveja se relaciona com o olhar e a fase do espelho. A tensão agressiva gerada a partir da
noção imaginária de que só há lugar para um (enquanto imagem ideal), faz da inveja o “olho
gordo” e voraz que tudo quer e que acredita que terá de tomar do outro para conseguir.
3838
Lúcia Alves Mees
sio ao posto de tenente, pretendido por Iago, e essa é a causa a partir da qual
este tece a trama da vingança. Otelo capitula aos argumentos de Iago e crê que
Desdêmona o trai com Cássio. Acaba por assassiná-la e, quando descobre ser
mentirosa a acusação contra ela, Otelo termina com a própria vida. Iago, desco-
berto, será julgado por seus delitos. Emília – esposa de Iago e acompanhante
de Desdêmona – é quem revela as mentiras do marido.
Fica a pergunta sobre o porquê de Otelo ceder tão facilmente aos argu-
mentos de Iago: isso seria sinal de quanto o ciúme é inerente ao amor, bastando
a presença deste para ver o primeiro aparecer?
Uma pista para tentar responder à indagação está na cena inicial da obra,
na qual o pai de Desdêmona, Brabâncio, revela sua contrariedade com o (até
então não sabido) casamento da filha com o Mouro e se diz traído:“Oh céus!
Como foi que ela conseguiu sair? Traído pelo meu próprio sangue! – Ouçam-me,
aqueles de vocês que são pais: daqui em diante, não mais acreditem que sa-
bem o que suas filhas pensam baseados apenas naquilo que veem das ações
delas!” (Shakespeare, [1604] 1999, p.14).
“Se uma mulher trai seu pai quando casa com seu homem, por que ela
não trairia de novo”, parece se perguntar Otelo, inflado pelo veneno de Iago ,
porta-voz de suas próprias desconfianças. Dúvidas que se tornam tão insuportá-
veis de sustentar que Otelo se agarra à certeza – mesmo que falsa – de ter sido
traído.
Além da traição de Desdêmona ao abandonar o pai e ainda casar com
alguém não aprovado por ele, há ainda os motivos pelos quais seu pai condena
Otelo: ele não é “bem nascido” como ela, tem a pele escura dos árabes, não é
cristão como Desdêmona e é mais velho que ela; embora seja também admira-
do como combatente. Os traços de desvalorização de Otelo o deixariam teme-
roso de seu lugar junto à esposa, a ponto de facilmente duvidar dele e depois
dela? Ou será que a falta é tão negada no amor e idealização do objeto que
qualquer aparição do furo é interpretada como terrível, trágica, mortífera?
Otelo pede provas da traição da esposa a Iago e vê na desaparição de um
lenço (com o qual a presenteara) a comprovação de que ela teria (se) entregue
a outro homem. Desdêmona perdera o lenço; e Emília, sem saber da trama
armada, entrega o pedaço de tecido ao marido, Iago.
Otelo: Aquele lenço foi presente de uma mulher egípcia à minha
mãe. A mulher era feiticeira: praticamente lia os pensamentos das
pessoas. Disse ela à minha mãe que, enquanto conservasse o
lenço, ela seria pessoa afável e teria meu pai inteiramente sub-
misso ao seu amor. Mas, se ela o perdesse ou com ele presente-
asse outra pessoa, o olhar de meu pai a contemplaria com ódio, e
Sobre os tipos de ciúmes
39
o coração dele se poria à caça de novas fantasias. Ao morrer, ela
me deu o lenço e pediu-me para, quando meu destino a mim trou-
xesse minha esposa, presenteá-la com ele. Assim procedi. E toma
tu nota do seguinte: guarda-o como a um bem precioso, cuida
dele como cuidas de teus próprios olhos. Perdê-lo, ou com ele
presentear outra pessoa, representaria para ti danação tal que
nada se lhe pode comparar” (Shakespeare, [1604] 1999,p.106).
Nessa bela descrição do objeto a, o lenço envelopa o objeto de desejo.
No interior do lenço há o vazio que abriga o pequeno a, indefinível, mas circuns-
crito pelas bordas de tecido que indicam sua existência. O lenço de Otelo explicita
que o pequeno objeto marca a diferença entre amor e desejo: se o objeto cair
(perder-se), o amor fica questionado, pondo fim à suposição do encontro perfei-
to, fim do anseio de reunir os dois em um só.
O pedaço de pano de Shakespeare evoca o agalma4 analisado por Lacan
([1960-1961] s/d.) a partir do Banquete (Platão, 1991). Neste, Sócrates é a
caixa que contém em si o troço oculto – o agalma – o objeto de desejo de
Alcebíades. Este quer desvendar o mistério sobre o desejo enigmático através
da indagação da posição de desejante de Sócrates.
Alcebíades articula ao redor do tema do agalma, do tema do obje-
to escondido no interior do sujeito Sócrates. [...] O que ali se
revela é uma estrutura na qual podemos voltar a encontrar aquilo
que nós somos, capazes de articular como totalmente fundamen-
tal o que chamaria de posição do desejo (Lacan, [1960-1961], s/d,
p.41).
Através da análise da transferência, Lacan articula e diferencia desejo e
amor. Aquele que ama supõe presente o que lhe falta, enquanto que o desejante
terá de lidar com a ausência do objeto. O objeto a, portanto, traz a tensão entre
a presença e a ausência próprias do desejo, além de suas diferenças com o
amor. Ou ainda, mais que isto, aquele(a) que se acreditava amar, revela-se um
invólucro (agalma ou portador do lenço) do pequeno objeto que cada um quer
fazer amar em si mesmo, enquanto constrói o Outro como lugar da falta.
4 O agalma designa enfeite ou ornamento, aludindo a alguma coisa escondida; por exemplo, o
que está dentro de uma caixa de jóias.
4040
Lúcia Alves Mees
Ou como diz Lacan, no seminário A identificação: “O que estou acentu-
ando é esse limite, essa fronteira que separa desejo do amor. O que não quer
dizer que eles não se condicionem por todos os tipos de pontas” (Lacan,[1961-
1962] 2003,p.156). E, mais adiante: “A função eminente de Sócrates é de ser o
primeiro que tenha concebido qual a verdadeira natureza do desejo [...] O desejo
enquanto própria essência do homem” (id., ibid., p.157).
Além disso, na história do lenço, associam-se elementos da filiação de
Otelo. Há as referências diretas ao casal parental e à transmissão de um modo
de se relacionar. Origem que remete à história de sua vida e de seu povo5 , a
qual, ao contá-la, encanta Desdêmona.
No início da trama, Otelo parece estar certo do amor de Desdêmona e
assim o descreve:
Ela sempre me perguntava sobre a história de minha vida, ano a
ano...as batalhas, os cercos, as aventuras pelas quais passei [...]
Assim foi que passei a narrar acasos os mais desastrosos, aci-
dentes tocantes e sangrentos dos campos de batalha. Falei de
como consegui escapar por um fio da morte iminente, de como fui
feito prisioneiro pelo insolente inimigo e vendido como escravo.
Contei sobre minha libertação desse tempo e relatei a história de
minha conduta em minhas viagens [...]. Tendo contado minha his-
tória, em troca de minhas dores ela presenteou-me com um mun-
do de suspiros, declarando-me, na verdade, que minha história
era estranha e, ainda mais que estranha: era digna de pena, ma-
ravilhosamente digna de pena. [...] Ela me amava pelos perigos
por que eu havia passado, e eu a amava por ter ela se compadeci-
do de mim (Shakespeare, [1604] 1999, p.28).
Perder o lenço, portanto, é também pôr em xeque a posição do sujeito
Otelo: sua história, suas palavras impregnadas de gestos másculos e valentes,
e o sinal do reconhecimento disso através da admiração e do compadecimento.
A queda do objeto a leva Otelo a se ver apenas como pejorativamente digno de
pena, escravo de pele escura, desprivilegiado e, por isso, lutador.
Entre cada sujeito e o Outro há o inapreensível pequeno a, resto irresgatável
da operação de separação entre eles, marcando a cisão entre sujeito e objeto.
5 Habitantes muçulmanos do norte da África e da Espanha e, por extensão, tanto os pagãos da
África quanto os hindus da Índia.
Sobre os tipos de ciúmes
41
A função desse objeto está ligada à relação por onde o sujeito se
constitui na relação com o lugar do Outro, A maiúsculo, que é o
lugar onde se ordenaa realidade do significante. É no ponto onde
toda significação falha, se abole, no ponto nodal dito o desejo do
Outro, no ponto dito fálico, na medida em que significa a abolição,
como tal, de sua significância, que o objeto pequeno a, objeto da
castração, vem tomar seu lugar (Lacan, [1961-1962] 2003,p.426).
Essa relação fundamental do a com o ponto falho do Outro é o que susten-
ta e o que designa a função do fantasma. O a surge como o único suporte possível
do sujeito, sendo o fantasma aquilo que o sujeito tenta produzir neste lugar cego.
Shakespeare descortina a trama do ciúme com a genialidade que lhe é
característica: apresenta-o ligado à estrutura do desejo e amor, de $ e a, e tem
no objeto a sua referência. O terceiro – o rival – entre o sujeito e o Outro, assim,
associa-se ao pedaço caído entre eles. Rival que tem por função marcar a divi-
são entre amor e desejo e entre sujeito e objeto.
Será que o(a) parceiro(a) ama mais o rival? Ou o(a) deseja mais? Fica-se
despido de valor (da condição de sujeito) quando se deseja? De todo modo, as
inquietações do(a) ciumento(a) acompanham as divisões próprias do sujeito,
produto do objeto de desejo.
Otelo escolhe não manter a tensão entre presença e ausência do peque-
no objeto, entre amor e desejo, entre ser sujeito e ter um objeto, afirmando a
traição. Ele e Desdêmona morrem juntos, silenciando a falta6 .
O ciúme na neurose obsessiva
A partir da explicitação dos elementos que pautam a tipologia em ques-
tão, pode-se agora desmembrar o ciúme em obsessivo e histérico. Quer dizer,
tomar a relação ao objeto a em cada uma das neuroses, a fim de descrever as
peculiaridades do ciúme em cada uma delas.
O ciúme na neurose obsessiva se refere à colocação da mulher na posi-
ção do objeto perfeito. A mulher adorada do obsessivo facilmente ocupa o lugar
do que falta ao Outro, que ele quer crer não castrado, como forma de almejar
sua própria fuga da castração. Pois, trata-se, para o obsessivo, de escamotear
6 As mortes, aliás, rondam o ciúme: 70% dos homicídios de mulheres são cometidos por seus
companheiros, maridos, ou ex-namorados, motivados por ciúme ou pelo rompimento da rela-
ção (Mendonça, 2006).
4242
Lúcia Alves Mees
o objeto a como marca da falta do Outro, através da esperança do Outro sem
falhas, apagando os sinais da existência do desejo, deflagrador da falta. Para
sustentar a parceira sem falhas, o ciumento quer o controle e a posse do peque-
no a, como forma de domínio sobre a falta. O ciúme, assim, acompanha a
busca de controle do outro, cerceando seu desejo, e é sinal da idealização, pois
alimenta o sonho da plenitude e o domínio do objeto a, o que faz com que o
sujeito ali goze sem querer abandonar a desconfiança.
Logo, o ciúme do obsessivo não se dá apenas em relação a sua parceira
e um possível ou imaginado rival: pode ser de qualquer ligação que ela possua,
e que, com isso, revele seu desejo. Assim sendo, os interesses de sua compa-
nheira podem ser recusados pelo obsessivo na mesma violência e intensidade
que ele quer afirmar a existência da manipulável mulher ideal. As diferentes
intensidades do ciúme apontam para a magnitude da tentativa da constituição
da não castrada, para a intensidade da identificação da parceira ao objeto a e
para o grau de anseio de domínio sobre este objeto. Essas gradações, por sua
vez, remetem à possibilidade de colagem do sujeito ao objeto a, o que predis-
põe a passagem ao ato, produzindo a queda do objeto para a morte. A violência
e os homicídios ligados ao ciúme confirmam a associação entre ciúme e morte,
entre presença do objeto a e passagem ao ato. O niederkommen, a queda
produzida na passagem ao ato, já trabalhado por Freud ([1920] 1976), no caso
conhecido como da jovem homossexual, e retomado por Lacan ([1964] 1985),
marca a identificação do sujeito ao objeto. Ao ser esse objeto, o sujeito se
apaga e cai como dejeto. O sujeito torna-se o resto, não lhe sobrando nada a
não ser cair. Niederkommen refere-se, pois, ao que o sujeito é como a.
A idealização da parceira implica que ela não anseie por nada, que ne-
nhuma falta a impulsione na direção de um objeto, eventualmente nem mesmo
na direção do próprio obsessivo, o que acaba por incrementar ainda mais seu
ciúme. Ele formula, por vezes, portanto, essa demanda impossível de que ela
lhe seja fiel, sem desejar ou sem desejá-lo. Sabedor da incongruência de sua
demanda, o obsessivo teme e almeja que o rival revele essa impossibilidade.
Dividido sobre a castração, sonha em escapar dela, mas, circunscrito à neuro-
se, também anseia que o rival a restitua a seu lugar, restabelecendo o desejo.
Por vezes, almeja que o rival, o terceiro, deflagre que é só pelo desejo que uma
relação se sustenta, e mesmo assim, sem garantia de continuidade.
O ciúme e a relação com a totalidade podem vir ainda na busca de uma
marca primeira, e supostamente definitiva, da inscrição do Outro, pois este po-
deria ser satisfeito se não deixasse dúvidas sobre o que quer. Para o ciumento,
por vezes, essa marca pode ser aquela que é feita na mulher quando ela perde
a virgindade. Com a impressão de que ser o primeiro parceiro sexual de uma
mulher o faria se inscrever sem equívocos e “para sempre” nela, leva a que
Sobre os tipos de ciúmes
43
muitos obsessivos busquem a virgem ou revelem sempre sua desilusão por ela
não ser mais. É como se pudessem banir qualquer inscrição do desejo do
outro através do corpo intocado da mulher. Entretanto, a marca retorna na
temida e desejada traição. Pois mesmo a virgindade da parceira, quando a
encontra, não garante que ele deixe de buscá-la, pois sabe que uma mulher
nunca é completamente virgem, na medida em que todas já tiveram o primeiro
amor pelo próprio pai, ou seja, o Outro está indelevelmente inscrito se há um
sujeito em causa.
O ciúme na histeria
Na neurose histérica não se trata tanto de escamotear o objeto a, mas,
sim, de fazê-lo presente, na tentativa de melhor indagar sobre o desejo. Diferen-
temente do obsessivo, a histérica dificilmente considera que encontrou seu ob-
jeto, que é mesmo este, com certeza. Portanto, trata-se de encenar (e
problematizar) o encontro faltoso com o pequeno a. O terceiro da cena parece
ser, para a histérica, aquele que decodificou os enigmas do desejo. Assim, na
neurose histérica, o ciúme alude mais fortemente ao terceiro incluído na cena: a
outra mulher. Representante d´A mulher, aquela que convoca o ciúme é idealiza-
da mais pela parceira do que pelo homem envolvido. É para essa que a mulher
parece mais, embora frequentemente ela não consiga precisar no quê. A outra
sustenta para a histérica a pergunta “O que quer uma mulher?” E parece que
saberia como responder à indagação. Escolhida como aquela que sabe sobre o
feminino, a mulher passível de ciúme porta algum traço que aquela que teme ser
traída reconhece como desejável, embora frequentemente desconheça o que
seja. Assim, a outra mulher é mantida em seu lugar a fim de sustentar a pergun-
ta sobre o objeto a, que atenderia ao desejo feminino.
Além disso, as mulheres se constituem como sujeitos ao elaborarem
que a perda do amor (do pai) era indispensável. O primeiro homem amado as
abandonou por outra. Mais tarde, quando seu parceiro revelar que guarda traços
do pai, bem como através da reatualização da relação amorosa, o fantasma da
perda do amor reviverá. O ciúme aqui será sinal do medo da perda do amor, o
qual ronda a mulher a cada laço de amor e desejo.
A histérica se mira na outra e reflete-se em seu homem. Parece-lhe que ele
quer o que ela deseja, de modo que a histérica não se reconheça como desejante.
Ela tenta governar os lugares, dirigindo o foco para o homem e se escudando
por detrás da posição da outra: na histeria só há olhos para A mulher.
Se falasse sem nada ocultar, a histérica diria, como Marguerite Du-
ras(1985), no livro O amante, no trecho em que a moça, personagem principal,
fala sobre sua colega de pensionato:
4444
Lúcia Alves Mees
Hélène Lagonelle dá vontade de matá-la, desperta o sonho mara-
vilhoso de fazê-la morrerpor nossas próprias mãos. Essas formas
belíssimas ela ignora [...] sem ter ideia do seu poder fabuloso. Eu
gostaria de comer os seios de Hélène Lagonelle como são comi-
dos os meus no quarto da cidade chinesa aonde vou todas noites
[...]. Sinto-me extenuada de desejo por Hélène Lagonelle. Quero
levar comigo Hélène Lagonelle para lá, onde todas as noites, com
os olhos fechados, me é dado o prazer que me faz gritar. Gostaria
de dar Hélène Lagonelle àquele homem que faz isso em mim,
para que ele o fizesse nela. Tudo na minha frente, fazendo o que
eu mandasse, que se entregasse lá onde me entrego. Seria por
meio do corpo de Hélène Lagonelle que o prazer chegaria até o
meu, só assim definitivo. O bastante para morrer (Duras,1985, p.
82).
No jogo dos lugares que a histérica quer questionar, a outra mulher torna-
se amante de seu homem, e ela a espectadora, que poderia descobrir o objeto
a que intermedia as relações e que consequentemente permite e interdita o laço
com o Outro.
O ciúme da histeria, portanto, produz-se a partir de seu próprio jogo,
imputando ao homem seu anseio de possuir a mulher que lhe interessa.
Sua atração pela outra mulher pode levá-la para diversos caminhos, como
as análises demonstram: ou bem mostra a outra e insiste com seu homem que
a note, o que pode chegar a favorecer uma traição, a fim de supostamente
melhor saber e mais se aproximar da outra; pode aturdi-lo, num misto de de-
manda, que ele afirme as razões pelas quais ela seria desejável; ou que “confes-
se” seu desejo e, assim, revele o que ele teria descoberto d´A mulher; ou ainda
pode fazê-la trair seu homem, tanto com outro, na tentativa de se restabelecer
no desejo masculino, quanto com uma mulher, lançando-se diretamente ao en-
contro do objeto de seu interesse. Por fim, a ciumenta pode se deixar perpassar
pela questão que seu ciúme lhe interpõe, e sustentar em si a indagação que
exporta para a outra: quais as condições para desejar? Será que uma mulher
tem algo, ou é o que ela não possui que a torna atraente? É possível traçar algo
da feminilidade se a falta é o que a caracteriza?
Em comum as neuroses obsessiva e histérica possuem os traços desta-
cados por Freud sobre o ciúme: elas firmam as bases na relação edípica e
fraterna ou, mais exatamente, no fantasma que rege a relação do sujeito com o
objeto; tomam o parceiro como depositário da indagação que lhes é própria
(projeção); e, por fim, os ciumentos – mesmo os neuróticos – podem chegar a
“enlouquecer” se vierem a colar o sujeito ao objeto (passagem ao ato), ou mes-
Sobre os tipos de ciúmes
45
mo se o objeto for tão exterior a si próprios a ponto de parecerem retornar no
real, perseguindo-os.
REFERÊNCIAS
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www.paralerepensar.com.br . Acesso em: 28 fev. 2009.
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FREUD, S. A psicogênese de um caso de homossexualismo numa mulher [1920].
In:______. Edição standart brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio
de Janeiro: Imago, 1976. v. 18.
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lismo [1922]. In:______. Edição standart brasileira das obras completas de Sigmund
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LACAN, J. O seminário: a transferência [1960-1961]. (Publicação não comercial)
______. A identificação: seminário [1961-1962]. Recife: Centro de Estudos Freudianos
do Recife, 2003. (Publicação para circulação interna)
______. O seminário, livro 11 : os quatro conceitos fundamentais da psicanálise
[1964]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
MENDONÇA, A. P. O ínfimo percurso do ciúme ao crime passional [2006]. Disponível
em: http://www.boletimjurídico.com.br/ doutrina/texto.asp?= 1645. Acesso em: 5 mar.
2009.
PLATÃO. O banquete . Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 1991.
SHAKESPEARE, W. Otelo [1604]. Porto Alegre: L&PM Editores, 1999.
Recebido em 08/08/2009
Aceito em 08/10/2009
 Revisado por Maria Ângela Bulhões
46
TEXTOS
46
Resumo: A partir de dois casos clínicos, o presente artigo discute se o laço
social contemporâneo, marcado pela fragilização das referências simbólicas,
pela potência das relações imaginárias e pela primazia do objeto, em associa-
ção com condições subjetivas tais, colocaria em relevo o “tempo” da inveja –
como proposto por Lacan no Complexo de Intrusão – em algumas trajetórias de
adolescentes em conflito com a lei.
Palavras-chave: adolescência, complexo de intrusão, conflito com a lei, inve-
ja, ciúme.
ON JEALOUSY AND ENVY
Abstract: From the study of two clinical cases, the present article discusses if
the contemporary social tie marked, by the fragilization of the simbolyc references,
by the power of the imaginary relationships and by the primacy of the object, in
association with certain subjectiv conditions, would emphasize the time of envy,
– as proposed by Lacan in the Intrusion complex, – in some paths of adolescents
in conflict with law.
Keywords: adolescence, intrusion complex, conflict with law, envy, jealousy.
DO CIÚME E DA INVEJA1
Marcia Helena de Menezes Ribeiro2
1 Trabalho apresentado na Jornada de Abertura da APPOA: Ciúmes , realizada em Porto
Alegre, abril de 2009.
2 Psicanalista, Membro da APPOA; Psicóloga do Juizado Regional da Infância e da Juventude
de Santo Ângelo/RS. E-mail: marciar@cpovo.net
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, Porto Alegre, n. 37, p. 46-54, jul./dez. 2009
47
Do ciúme e da inveja
Adolescentes em conflito com a lei é uma expressão guarda-chuva: abrigasob a mesma designação um universo de situações e montagens tão vari-
adas quanto os próprios sujeitos humanos. Os profissionais que trabalham nes-
sa área, mas não só, seguem premidos pela angústia de compreender esse
fenômeno, construindo respostas para os inquietantes actings outs dos adoles-
centes: seria pelo desamparo social que grande parte da população brasileira
experimenta; pela família que se ausenta; pela escola que não é continente;
pelos amigos que levam para o mau caminho; pela falta de perspectivas para
ser? Enfim, faces do desamparo. Em um aspecto há consenso, a transgressão
dos adolescentes, tingida ou não de atos de violência, é experiência que provo-
ca desassossego.
A última pesquisa3 realizada nas 190 unidades de privação de liberdade
no Brasil traçou um perfil dos adolescentes presos. Destaco apenas alguns
dados para o que interessa neste trabalho: havia dez mil presos no universo de
23 milhões de adolescentes. Nove mil rapazes. Destes, cerca de 60% por cri-
mes contra o patrimônio (furto e roubo) e 26% por crimes contra a vida, sendo
que 6% deles por latrocínio (matar para roubar).
Adolescentes que cometem delitos de roubo e furto, ou matam como
desdobramento de um roubo, também é dado estatístico prevalente na comuni-
dade onde trabalho.
Encontrei Docinho da Mamãe ao iniciar trabalho com adolescentes em
conflito com a lei. Aos olhos da mãe, ele foi um menino frágil e doente, que
precisou de muitos cuidados para “vingar”. Ela atravessou a infância do filho
imaginando que ele poderia faltar, cair e se machucar de maneira irrecuperável.
Para poupá-lo de maiores sofrimentos e vencer a birra recorrente, convenceu-se
de que o melhor era nada negar, mesmo que isso lhe exigisse dose cada vez
maior de sacrifício, inclusive material. Era incansável em seu projeto de prover
sozinha ao filho.
3 IPEA Adolescentes em conflito com a lei: situação do atendimento institucional no Brasil,
2003. Pesquisa disponível: http://www.ipea.gov.br Acesso em fevereiro 2009. Levantamento
feito pela Secretaria Nacional dos Direitos Humanos em dezembro de 2008 encontrou cerca
de onze mil adolescentes presos, dado estatístico semelhante ao da pesquisa anteriormente
citada. As informações sobre adolescentes em conflito com a lei começarão a ser atualizadas
através do Cadastro nacional de adolescente em conflito com a lei, em processo de implanta-
ção pelo Conselho Nacional de Justiça.
4848
Marcia Helena de Menezes Ribeiro
O marido, pai de Docinho, era apresentadocomo uma nebulosa4 presen-
ça. Suas palavras não se faziam ouvir, ora porque preferia o silêncio da ressaca
alcoólica, ora porque, quando falava, sua voz era apenas um murmúrio
desconfortável aos ouvidos da esposa, que não o poupava de sua avaliação
feroz e depreciativa: “esse aí, não tem voz pra nada”. Nos momentos de embri-
aguez, a voz que calava surgia em ato, impondo-se pelo uso da força física e
pelo medo.
Mãe zelosa e vigilante, estava sempre de prontidão na rua, para defender
o filho dos amigos, que poderiam machucá-lo, abusar dele, lesá-lo5 . O apelido,
nomeação do grupo de iguais na entrada da adolescência, nasceu dessa fina
interpretação do lugar infantil objetal que ocupara para o Outro materno até
muito depois da infância. Tampouco recordo de seu nome civil enquanto escrevo
este trabalho.
A adolescência inaugurou para Docinho da Mamãe um tempo de ausên-
cias prolongadas de casa. Gostava de circular pela cidade na companhia dos
amigos, e quanto mais saía, mais a mãe apelava às instituições públicas para
impor-lhe limites. Ela própria o surrara, castigara, prendera-o ao pé da cama...
Coisa alguma o fizera parar. Na rua, deixava seu rastro nos furtos, roubos e
arrombamentos de casas e carros, realizados com os parceiros, até ser preso
por cometer crime de maior ousadia.
Privado de liberdade pela primeira vez aos 16 anos, narrou fragmentos de
sua trajetória. No início da adolescência, os amigos zombavam dele, colocavam
em questão sua coragem (leia-se também virilidade) porque estivera até ali es-
4 Há certo consenso de que a dissolução das referências simbólicas e de pouca efetividade
da função paterna cria campo propício para irrupção da transgressão. As indicações para
endurecer as leis nascem como solução prêt-à-porter – numa lógica: se não tem, há de se
impor -, como os movimentos pró-rebaixamento da maioridade penal para 16 e, mais radical-
mente ainda, para 14 anos. Temos os efeitos desse discurso que apela por mais pai, porque,
não raro, ele se fixa em sua face totalitária, em suplências ferozes e cruéis. Os excessos que
se cometem em instituições totais, em nome da obediência à norma, exemplificam bem o risco,
tão bem sublinhado por Melman no livro Alcoolismo, delinquência e toxicomania, citando
Lacan, que “quando as estruturas sociais se tornam reais são as condutas que se tornam
simbólicas” (Lacan apud Melman, 1992, p.43).
5 Uma relação ambivalente com o filho não é experiência incomum para uma mulher, pois ele
evidencia tanto a realização fálica quanto a castração da mãe. O esforço para manter o filho
na condição de objeto fálico pode decorrer dessa tentativa de evitar a castração. Dessa
forma, as medidas extremadas de proteção e zelo para com o filho poderiam decorrer dessa
condição, quando sua própria consistência imaginária, assentada na possibilidade de que o
filho lhe devolva essa imagem de completude, titubeia.
49
Do ciúme e da inveja
condido, “embaixo da saia da mãe”. Para provar sua coragem, aceitava o desa-
fio dos mais velhos e, à semelhança de um ritual de iniciação, recebia, a cada
vez, uma prova mais difícil. Primeiro, a ordem era olhar, cuidar para que ninguém
fosse surpreendido roubando, mas olhar também os parceiros, para aprender
como fazer. Cada passo da ação delitiva possuía grau de dificuldade crescente,
e sua execução exigia o olhar de reconhecimento dos pares, que atestavam
tanto suas condições de passar para o seguinte quanto que “da mamãe” era
coisa do passado. Ao estilo Robin Hood, dizia não se sentir “má” pessoa por-
que, afinal, não roubava de “trabalhador, pai de família”, “só” daqueles que ti-
nham “fácil”, “daqueles riquinhos”, que ficavam “se exibindo por aí, com roupa de
marca”.
“Entra fácil, sai fácil” era a fórmula para gastar sem demora os lucros do
delito, inscrevendo seu agir delinquencial no seguinte circuito de gozo: olhar,
destacar o objeto que brilha no outro, roubar, gastar-trocar-perder, olhar... se
fazer prender infinitas vezes. Docinho não fez fortuna, tampouco poupança. As
mercadorias roubadas, usadas e descartadas uma após outra, ocupariam o
lugar de objeto fetiche?
Não é de todo estranho que essa posição subjetiva se destaque, se no
discurso social a mercadoria ocupa o lugar de objeto fetiche e se sua posse
contribui para a definição e distribuição dos lugares – ter-não ter, poder-não
poder ou ter-poder, não ter-não poder. A solução perversa do objeto positivado
escamoteando a falta parece encontrar nessas condições sociais o cenário
mais favorável para se instalar6 .
Docinho só parava quando encontrava a polícia. Preso, queixava-se da
falta da mãe7 , sentia-se “abalado”, a vida ficava “embaçada”. Nessas circuns-
tâncias, voltava a ser o docinho da mamãe, menino frágil. Convencida de que
“tudo” era culpa das “más companhias”, porque “quando ele era só meu, de
casa, não era assim”, a mãe apelava para que o libertassem. Mas tão logo
retornava à casa materna, recomeçavam seus apelos por limites em face das
insondáveis e insaciáveis demandas do filho, que não conseguia prover.
Assim como a mãe de Docinho, outros pais de adolescentes em condi-
ções semelhantes se indagam, fazendo eco ao discurso social: “por que ele faz
6 Essa positividade do objeto, oferecendo suporte à existência, também parece ser a lógica
que comanda algumas adicções.
7 A ambiguidade é pertinente, sofria tanto da ausência da mãe quanto por fazê-la sofrer, por
deixá-la sem ele. Posição subjetiva reveladora de uma ligação imaginária anacrônica e potente
com o Outro materno.
5050
Marcia Helena de Menezes Ribeiro
isso, se tem tudo em casa? Não deixei faltar nada!” Enunciados que expressam
a confusão e a sobreposição frequente da necessidade e do desejo, tanto quan-
to a interpretação de que, estando a primeira suprida, não haveria porque dese-
jar ou, ainda mais grave, confinando o desejo do filho ao domínio doméstico.
O discurso social contemporâneo, que privilegia o objeto, associado à
fragilidade dos anteparos simbólicos e à fluidez dos personagens que suportam
as funções materna e paterna, poderiam dar novo vigor à inveja e impulsionar
esses crimes pela posse do objeto mercadoria?
É no texto A família que Lacan trabalha pela primeira vez a cena descrita
por Santo Agostinho em Confissões I, VII:
[...] eu vi com meus olhos [...] e observei bem um pequeno toma-
do de ciúmes, ainda não falava e não podia sem empalidecer,
lançar o seu olhar para o espetáculo amargo de seu irmão de leite
(Santo Agostinho apud Lacan, [1938] 1978, p. 37).
Para Lacan desse período, a cena interessa porque expressa o protótipo
do ciúme infantil e seu lugar de “gênese” das relações sociais.
Instalado depois do Estádio do Espelho, entre o Complexo de Desmame
e o de Édipo, o Complexo de Intrusão – demonstrado por essa cena do intruso
irmão-semelhante, usufruindo do objeto de que a criança acaba por se saber
privada – tem para Lacan valor estrutural: é o momento fundador concomitante
do objeto a, causa de desejo, e do sujeito do desejo. É paradigmática da expe-
riência com o semelhante como rival, “ainda que cada um confunda a parte do
outro com a sua e se identifica com ele, tornando o rival eu mesmo”.
Mais adiante, no curso do Seminário IX, Lacan ([1961-1962]) destaca
que naquela cena “(...) nasce a primeira apreensão do objeto enquanto o sujeito
é privado dele8 ”. É ao avançar na formulação do conceito de objeto a, que pro-
põe invídia como termo mais justo que ciúme para falar dessa posição da crian-
ça que olha o irmão ao seio da mãe. E no Seminário XI ([1964]) também encon-
traremos em relevo o valor estrutural do olhar, do duplo e do objeto causa de
desejo, e que vai lhe permitir avançar distinguindo inveja de ciúme, retomando o
Complexo de Intrusão que havia proposto duas décadas antes.
Cito Lacan:
8 Tradução livre do espanhol.
51
Do ciúme e da inveja
[...] para compreender o que é a inveja em sua função de olhar,
não pode confundir com ciúmes. A criança ou quem quer que seja
não inveja forçosamente aquilo que apetece. Acaso a criança que
vê seu irmãozinhonecessita mamar? Todos sabem que a inveja
costuma provocar comumente a possessão de bens, que não teri-
am nenhuma utilidade para quem os inveja e cuja verdadeira natu-
reza nem sequer suspeita.
Essa é a verdadeira inveja. Faz com que o sujeito fique pálido,
frente ao quê? Frente à imagem de uma completude que se fecha,
e que se fecha porque o pequeno a, o objeto a separado, ao qual
está suspenso, pode ser para outro a possessão com a qual se
satisfaz, a Befriedingun9 (Lacan, [1964], s/p).
Nas relações especulares, aquele que consegue ser objeto inatingível da
inveja se destaca, mas também corre o risco de ficar capturado por esse olhar,
que pode ser mortífero, como veremos adiante. A inveja então se inscreve nesse
registro paradoxal: o olhar que atribui valor é também o que contém o risco da
morte, mas, se não há validação desse lugar de invejável pelo olhar do seme-
lhante, a posse do objeto – e do sujeito(!) – também perde seu valor. É nessa
vertente estrutural, relativa a esse tempo da constituição subjetiva, que interes-
sa pensar a inveja. Que mostre sua face maléfica dependerá, no entanto, que
uma série de condições do discurso social e familiar esteja posta.
Enquanto a inveja guarda relação direta com a especularidade, o ciúme
se instala, ou não, num tempo lógico posterior pela entrada do terceiro real no
Complexo de Édipo. Ele introduz um corte decisivo nessa reversibilidade dos
lugares, comum à primazia das relações especulares e verificável, por exemplo,
na experiência do transitivismo nas crianças.
No texto Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia e na
homossexualidade, Freud ([1922] 1981) distingue três tipos de ciúme “dispos-
tos em camadas”: competitivo ou normal, projetado e delirante. Sendo coerente
com a proposição lacaniana de que a inveja – o olhar que localiza e recorta o
objeto – nasce nesse momento lógico fundador do sujeito do desejo, diríamos
que a inveja é berço do ciúme, sem a qual o ciúme não se instala. O ciúme
fraterno se organiza, então, quando já há separação do semelhante, ou seja,
quando pode ser visto como outro.
9 Traduzido do espanhol pelo autor.
5252
Marcia Helena de Menezes Ribeiro
No reino dos afetos, inveja e ciúme não são excludentes. Em Alembert
encontra-se uma distinção interessante:
Alguém é ciumento daquilo que possui e invejoso do que o outro
possui. Logo, o ciúme não exclui a inveja, pois, se o ciumento
tem ciúme do bem que possui é também porque ele é suscetível
de ser desejado e possuído pelo outro (Alembert apud Lagache,
1947, p. 5).
Nestes tempos de fragilidade nos anteparos simbólicos, de predomínio
de relações imaginárias, de primazia do objeto sobre o sujeito, num mundo em
que o valor do ser se sustenta na aparência do ter, estaríamos mais suscetíveis
ao reinado da inveja? Funcionaria a inveja como combustível, ou gatilho, dos
crimes contra o patrimônio, cometidos por adolescentes, quando o semelhante,
na condição de rival anônimo, se destaca no cenário pela imagem de privilegia-
do, sustentada pelo discurso social?
Por outro caminho, hoje, mais do que no tempo de Docinho, identifico
outra vertente, que, mesmo guardando semelhanças com essas escolhas por
inveja “pura” – por falta de termo melhor – a da “inveja ciumenta” do rival, que não
raro incendeia os crimes dentro do bando, entre bandos ou para que alguém se
firme dentro do bando em posição de mestria.
Freud ([1912-13] 1981) demonstra, com o mito da horda primitiva, que a
experiência da rivalidade entre os semelhantes é estrutural, acionada pelo dese-
jo de usufruir daquilo que está proibido por obra de um pai mítico todo poderoso
e ciumento de seus bens. Um passo além da rivalidade mortífera é dado pelo
assassinato do pai pelos filhos, quando, pelo temor de cada um, na sua tentati-
va de se fazer exceção como o pai, encontra o mesmo destino. O pai morto em
sua presença simbólica pacifica as relações, distribuindo os lugares, os objetos
e regulando o gozo.
E., 15 anos, caçula, tem uma irmã dois anos mais velha que não mora
mais com a família. Ele vivia com a mãe desde os sete anos, época da separa-
ção dos pais.
Ainda muito próximo da infância, não tem mais que algumas lembranças
daquele tempo: foi um “guri medroso”, que frequentava a cama dos pais à noite,
buscando proteção das sombras-monstros, devoradoras, produzidas pela luz
que entrava pelas frestas da janela. Não raro, o pai lhe concedia seu lugar na
cama, porque lhe parecia a solução mais fácil, a mãe o “entedia melhor”. Era
uma criança “obediente, parecia uma moça, não dava trabalho” – dizia a mãe.
A entrada na escola foi sofrida, temia os colegas, a professora, o ambien-
te e, mais que tudo, “perder a mãe”. Ela procurava satisfazer suas mínimas
53
Do ciúme e da inveja
vontades e não encontrava oposição a seu projeto, porque o pai, sempre doente,
muito nervoso, “não se envolvia em nada”. Dizia o pai que “não deixara faltar
nada”, numa alusão a seu papel de provedor da subsistência material da família.
E. foi preso por ter matado a facadas um colega, em uma emboscada,
arquitetada em conjunto com outro adolescente. O extermínio foi o primeiro
passo de um projeto maior, cuja fagulha se acendera ao cruzar com M. na
escola. Dizia ter visto que “M. se achava o grandão; sempre tinha grana e se
vestia que nem ´boizinho´. Passava se exibindo e se achando, humilhava os
outros. A gente não podia se olhar que já saía briga”. M. era operário do tráfico
de drogas, mas se comportava “como patrão”.
Com P., que “era ‘boizinho’, mas queria ser bandido”; arquitetou um pla-
no: P. convidaria M. para darem uma volta e o levaria até uma rua escura, sem
saída. E. estaria lá, escondido, esperando para matá-lo e tomar o revólver. Até
esse ponto o plano transcorreu como planejado. Foi abortado porque P., não
aguentando a pressão da polícia, confessou o crime. Relembrando a experiên-
cia E. exclama, numa raiva incontida: “só por isso a gente caiu10 . Ele, que era o
grandão, metido a bandido, não aguentou.”
Quanto ao homicídio, ele se admira de não ter sentido “nada”. Somente
pensou: “Tá feito!” – como quem cumpre dever. Ao voltar para casa naquela
noite, deitou e dormiu. A mãe não acreditava que o filho tivesse tirado a vida do
colega de escola, incredulidade alimentada também pelas diferentes versões
sobre o mesmo que ele contou. O que mais ele lastimava, durante a prisão, era
o sofrimento e a decepção causados à mãe, que sobrepujava qualquer sofrimen-
to próprio que porventura sentisse.
A parte final do plano, que não se cumpriu, era usar a arma do morto para
assaltar uma videolocadora e, com os filmes furtados, montar outra na vila onde
morava o rival eliminado. Depois, se apresentariam ao “patrão da boca” para
traficar, usando a loja como fachada. Ganhariam muito dinheiro, “fácil”.
Invídia em sua acepção primitiva, encontrada em Cícero (pensador roma-
no), designa um olhar maligno, envenenado. O mesmo olhar com o qual E.
brindara o rival morto. Em E. encontra-se ingrediente que não se destacava em
Docinho: a inveja faz parceria com o ódio. Para E., parecia não ser suficiente
tomar o que brilhava do lado do duplo, era preciso também tomar o lugar imagi-
nário, para ser ele mesmo o “grandão”, o filho dileto, ou talvez o pai-patrão, a
exceção.
10 Em “... mais cedo ou mais tarde a gente cai”, publicado no Correio da APPOA, Porto Alegre,
nº 57, p.13 -7, 1998, trabalhei sobre esta experiência de ser preso, designada pelos adoles-
centes com o verbo cair, e cuja queda pode não se inscrever como ato.
5454
Marcia Helena de Menezes Ribeiro
A “passagem adolescente” é marcada por novas edições do Estádio do
Espelho – esse momento lógico no qual a criança se vê com os olhos do outro
que a olha – pela queda das imagens que são suporte do eu (moi) da infância,
como propõe Rassial (1999). É na vivência mais radical desse desamparo, quando
as referências da infância já não são suficientes, que os semelhantes no grupo
de iguais demonstram toda sua potência. Nesse momento, quanto mais frágil o
anteparo simbólico, mais o semelhante,como intruso, pode se mostrar
perturbador, como exemplifica a trajetória de E.
Relativizar o nó da “servidão imaginária” pode ser questão-bússola, quan-
do a inveja persiste como olhar maligno nesses enfrentamentos com o seme-
lhante.
REFERÊNCIAS
FREUD, Sigmund. Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia e na ho-
mossexualidade [1922]. In: ______. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago: 1981,
v. XVIII.
______. Totem e Tabu [1912-13]. In: ______. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago,
1981. v. XIII.
IPEA. Adolescentes em conflito com a lei: situação do atendimento institucional no
Brasil, 2003. Pesquisa disponível: http://www. ipea.gov.br. Acesso em fevereiro 2009.
LACAN. Jacques. A família. Lisboa: Assírio e Alvin, 1978.
______. O seminário, livro 9: A identificação [1961-1962]. Edição eletrônica em espa-
nhol, uso não comercial.
______. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise
[1964]. Edição eletrônica em espanhol, uso não comercial.
LAGACHE, Daniel. La jalousie amoureuse. Tomo II. Paris: Presses Universitaires de
France, 1947.
MELMAN, Charles. Alcoolismo, delinquência e toxicomania - uma outra forma de
gozar. São Paulo : Escuta, 1992.
RASSIAL, Jean Jacques . O adolescente e o psicanalista. Rio de Janeiro: Companhia
de Freud, 1999.
Recebido em 10/09/2009
Aceito em 17/10/2009
Revisado por Deborah Nagel Pinho
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TEXTOS
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Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, Porto Alegre, n. 37, p. 55-61, jul./dez. 2009
Resumo: O texto aborda o debate promovido por Jacques Lacan nas primeiras
lições do seminário As psicoses , sobre a nosologia psiquiátrica e a psicanalíti-
ca, no que se refere à relação entre os delírios passionais e a paranoia. Basea-
do em textos de Freud e Clérambault, Lacan situa a base da psicopatologia do
discurso delirante na ordem da linguagem. Aprofunda sua tese tomando como
exemplo a construção dos delírios passionais (erotomania, reinvindicação e ci-
úme) e a paranoia.
Palavras-chave: delírio de ciúme, delírios passionais, psicose paranoica,
psicopatologia.
JELOUSY DELIRIUM IN THE PSYCHOANALITICAL GRAMMAR: NOTES
ABOUT THE PSYCHOPATHOLOGY OF PASSIONATE DELIRIUM
Abstract: The text discusses the debate promoted by Jacques Lacan in the first
lessons of the Seminar Psychoses on psychiatric and psychoanalytic nosology,
regarding the relationship between passionate delirium and paranoia. Based on
texts of Freud and Clérambault, Lacan situates the foundation of the
psychopathology of the discourse in the language order. Lacan deepens his
thesis taking as an example the construction of passionate delirium (erotomania,
claims and jealousy) and paranoia.
Keywords: jealousy delirium, passionate delirium, paranoic psychosis,
psychopathology.
1 Trabalho apresentado na Jornada de Abertura da APPOA: Ciúmes , realizada em Porto Alegre,
abril de 2009.
2 Psicanalista; Psiquiatra; Membro do Centro Lydia Coriat de Porto Alegre e Membro da APPOA. E-
mail: nsibemberg@gmail.com
O DELÍRIO DE CIÚME NA
GRAMÁTICA DA PSICANÁLISE:
Notas sobre a psicopatologia
dos delírios passionais1 
Nilson Sibemberg2
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Nilson Sibemberg
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Freud ([1921]1981), no texto Sobre alguns mecanismos neuróticos no ciú-me, na paranoia e no homossexualismo, coloca o ciúme, assim como a
tristeza, como um daqueles estados afetivos que podemos chamar de normais.
Desses que, quando parecem faltar em alguém, pensamos que sucumbiram de
forma enérgica à repressão; portanto, estariam desempenhando na vida anímica
do sujeito um papel muito importante. No entanto, a clínica psicanalítica nos
defronta com casos de ciúme anormalmente intensos, os quais ele distribuiu
em três estratos: o ciúme de rivalidade, o ciúme projetivo e o ciúme delirante.
O ciúme de rivalidade, concorrente, é por ele descrito como composto de
tristeza e dor, pela ideia de perda do objeto erótico, causa de uma ofensa narcísica
que se manifesta em sentimentos hostis contra o rival preferido e, com maior ou
menor autocrítica, quer fazer do eu o responsável pela perda amorosa. Essa
forma de ciúme pode ser tributária do complexo de Édipo ou do complexo frater-
no do período sexual infantil.
O ciúme projetivo nasce, tanto no homem como na mulher, das próprias
infidelidades do sujeito, ou do impulso de cometê-las, recalcadas no inconsci-
ente. Freud qualifica esse ciúme como de caráter quase delirante, já que não
resiste ao trabalho analítico que revela as fantasias inconscientes de infidelida-
de a ele subjacentes.
A terceira forma de ciúme, a que nos dirige neste trabalho, é a do ciúme
delirante. Freud ([1911] 1981), para abordar o tema, retoma a tese desenvolvida
no trabalho Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de
paranoia. O delírio de ciúme foi tratado nesse texto também como projeção de
tendências infiéis reprimidas; no entanto, o traço diferencial estava colocado no
caráter homossexual do objeto amoroso. O ciúme delirante apareceria como
defesa de um impulso homossexual rejeitado pelo sujeito. Nos casos de ciú-
mes delirantes podem aparecer, segundo Freud, as três graduações do ciúme.
Ele nos apresenta um caso clínico de ciúme paranoico, mostrando como esse
delírio passional ocupa um lugar entre as formas clássicas da paranoia.
Lacan ([1955-56] 1985) inicia a lição de 30 de novembro de 1955, do
seminário As psicoses, fazendo uma crítica ao modo de explicar o caso do
presidente Schreber, e a paranoia em geral, pela simples rejeição das fantasi-
as homossexuais dominantes no inconsciente do sujeito. Ele pergunta no que
consiste essa homossexualidade, a que ponto da economia do sujeito ela
intervém?
Ele prossegue a construção do conceito do outro, parceiro imaginário da
identificação especular e do grande Outro, distinguido do primeiro pela letra
maiúscula, representando o ordenamento simbólico da lei. O Outro aparece na
vida do sujeito pela palavra que carrega o interdito. No seu limite, essa instância
terceira confunde-se com a ordem da linguagem.
O delírio de ciúme na gramática...
57
A falta da inscrição da função simbólica do Outro coloca o sujeito numa
posição objetal diante de um Outro absoluto, onipotente e devorador, o que, no
imaginário masculino, leva o sujeito a ficar situado em posição feminilizada. Daí
nos parece ser tão frequente o fantasma do empuxo à mulher nos delírios
paranoicos.
Ainda nessa lição, Lacan ([1955-56] 1985) traz uma abordagem sobre a
estrutura do fenômeno delirante na sua relação com a linguagem, marcando
uma posição diferencial entre a abordagem psicanalítica, a fenomenologia de
Jasper e a psiquiatria. É na estrutura da linguagem que ele assenta a base da
psicopatologia psicanalítica. Em se tratando de delírio, se é na fala que o fenô-
meno se manifesta, é lá que podemos dissecar sua estrutura.
Freud ([1911] 1981) situou o delírio do ciúme como uma das formas clás-
sicas da paranoia. Getan Gatian de Clérambault ([1921] 2006) propõe, pelo lado
da psiquiatria, a separação nosológica entre os delírios interpretativos e os delí-
rios passionais do quadro geral da psicose paranoica.
Clérambault situava o delírio interpretativo no grupo da psicose paranoica.
O delírio de ciúme, a erotomania e o delírio de reivindicação ficavam abrigados
no grupo das psicoses passionais. Enquanto o paranoico, nos termos de
Clérambault, delira com seu caráter, o passional parte de um nó ideoafetivo
preciso, caracterizado por uma exigência consciente, imediatamente completa,
ligada a uma emoção veemente e profunda.
A erotomania, para Clérambault, não tem como fonte principal o amor;
sua marca recai no orgulho. O sujeito é objeto do amor de alguém muito impor-
tante. Temos aqui introduzida a noção do narcisismo na esfera da paixão. No
delírio de ciúme e de reivindicação, a indignação e a cólera são as emoções
predominantes.
Jean-Jacques Tyszler, no artigo A propósito das psicoses passionais,
defende a tese de que Lacan marca um tronco comum entre a interpretação
delirante, a erotomania, o delírio de reivindicação e o de ciúme dentro da estru-
tura da paranoia, mas não deixa deobservar uma diferença em como se estabe-
lece a inércia dialética:
A dialética do ‘ou eu’ ou ‘o outro’, a abordagem pela duplicidade do
eu, não explicita suficientemente a forma particular das psicoses
passionais, que trabalham mais do lado do ‘eu’ (Je), do sujeito e
do lado, digamos, mais normalmente compreensível desses te-
mas delirantes (Tyszler, 2005, p.123).
Tyszler se coloca a pergunta de por que Clérambault excluiria os delírios
passionais da paranoia.
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Nilson Sibemberg
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A inércia dialética coloca o acento, como indica Lacan ([1955-56] 1985),
do lado do “eu”, do sujeito, ao passo que nas formações paranoicas trabalhadas
pelo automatismo mental ou pela alucinação, a inflexão está no diálogo imposto
como um “tu”.
A erotomania, que em Lacan está no centro da paranoia, mostra o amor
como uma relação de eu a eu, na tentativa de formar o “um”. O objeto verdadeiro
do amor erotômano porta os traços do próprio eu, traços trabalhados pelo orgu-
lho.
No ciúme delirante, o duplo do ciumento carrega os traços ignorados do
próprio eu do sujeito, numa posição idealizada.
Outra característica que vem marcar a distinção entre os delírios passionais
e o interpretativo está colocada no tempo de construção e eclosão do delírio.
Na paranoia, Schreber é aqui nosso maior exemplo, a construção deliran-
te tem dois tempos. No primeiro momento, o saber sobre os fenômenos é exte-
rior ao sujeito. Ele é objeto de um Outro onipotente, que partilha com o clínico
essa dimensão do saber. Essa posição objetal o coloca numa relação feminilizada
frente a esse outro todo potente.
No entanto, com o passar do tempo, um deslocamento do lugar do saber
vai operando a ponto de o paranoico afirmar que domina sozinho o conhecimen-
to de todas as coisas.
Nos passionais, a construção do saber delirante não se dá nesses dois
tempos, ela é imediata. O postulado se impõe como amor à primeira vista.
Essas primeiras notas nos colocam na questão da nosologia, mas o que
é que, para a psicanálise, vem a constituir a base de sua psicopatologia?
Lacan diz ([1955-56] 1985, p. 43): “O sistema de linguagem, em qualquer
ponto em que vocês discirnam, nunca se reduz a um indicador diretamente
dirigido a um ponto de realidade, é toda a realidade que está abrangida pelo
conjunto da rede de linguagem”.
De que realidade ele nos fala? Ao comentar o texto de Freud, ([1924]
1981) A perda da realidade nas neuroses e nas psicoses, ele lembra que a
realidade da qual Freud fala é a realidade psíquica. Portanto, a psicopatologia
começa pela maneira como o sujeito se estrutura na linguagem.
O que define o delírio? Freud já deixava claro, no entender de Lacan
([1955-56] 1985), que não se trata do falso ou verdadeiro no conteúdo do pensa-
mento, em comparação com a realidade exterior compartilhada. Essa diferença
pode aparecer no discurso neurótico. O sujeito, sabemos que existe, quando na
fala aparece o engodo. O delírio se distingue por uma forma especial de
discordância com a linguagem comum. Se, na linguagem comum, uma signifi-
cação remete a outra significação, no delírio psicótico a significação de alguns
pontos-chave na rede de significantes só remete a ela própria, permanece
O delírio de ciúme na gramática...
59
irredutível. Como lembra Lacan: “... a palavra tem peso em si mesma” (Lacan,
[1955-56] 1985, p.43).
Avançando sobre o texto de Schreber, ele sublinha dois tipos de fenôme-
nos de linguagem em que se projeta o neologismo. “A intuição delirante é um
fenômeno pleno que tem para o sujeito um caráter submergente, inundante... a
palavra do enigma é a alma da situação” (id., ibid., p. 44).
De outro lado temos a forma cuja significação não remete mais a nada. É
uma repetição estereotipada, manifestação de fala que pode ser encontrada nos
quadros mais graves de esquizofrenia.
O que há de verdade ou mentira na fala de uma criança pequena que,
após bater em outra, nos diz que foi a outra quem bateu nela? O transitivismo
infantil está presente no curso das identificações primárias definidas por Lacan
no estádio do espelho. A fala da criança não é mentirosa, mas reveladora da
verdade na estrutura do sujeito.
É, então, na ordem do discurso que podemos discernir que se trata de
delírio, e na sua gramática, do que trata esse delírio. A fala é comunicação,
palavra dirigida a outros. A palavra falada é fundadora da posição dos sujeitos
envolvidos.
Em se tratando das psicoses passionais, é importante relembrar essas
lições de Lacan, pois nos ajudam a diferenciar o ciúme na neurose do delírio de
ciúme na psicose.
No ciúme competitivo, o normal segundo Freud ([1921] 1981), temos uma
relação triangular em que um quarto elemento, o falo, desliza entre os três
vértices. Em tratando da psicose, Lacan vai situar o discurso paranoico no pro-
longamento do eixo especular.
Ele diz: “O conhecimento dito paranoico é um conhecimento instaurado
na rivalidade do ciúme, no curso dessa identificação primeira que tentei definir a
partir do estádio do espelho” (Lacan, [1955-56] 1985, p. 50).
O ciúme, diz Lacan, está na origem da construção do conhecimento
humano. O ciúme fraterno, descrito por Santo Agostinho, o de rivalidade e o
concorrencial são superados na fala pela intervenção do terceiro.
A carência de efeito simbólico, da palavra como pacto para chegar a um
acordo, marca uma posição do Outro como afastada na dialética entre o eu e o
outro, outro do espelho, fonte de todo conhecimento. Na especularidade o outro
é o eu.
Lacan pergunta de que nos fala o paranoico e responde: “ele fala com
vocês de alguma coisa que lhe falou” (id., ibid., p.52).
Isso não significa que o paranoico é um papagaio a repetir a fala do outro
materno. Ele coloca que o fundamento da estrutura paranoica está no testemu-
nho que o sujeito dá de que alguma coisa tomou forma de palavra falada, que lhe
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Nilson Sibemberg
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fala. Para entender como isso fala na estrutura do discurso paranoico, Lacan
recorre então a Freud ([1911]1981).
Sobre o enunciado “eu o amo, e você me ama”, Freud (ibid., p.1518)
distingue três formas de negação.
A primeira maneira de negar é dizer: “não sou eu que o amo, é ela”, é a
minha mulher que o ama. Nesse caso, o sujeito faz levar sua mensagem por um
outro, a(o) parceira(o). Eis aí a estrutura de delírio de ciúme. “O ego fala por
intermédio do alter ego, que no intervalo mudou de sexo”, diz Lacan ([1955-56]
1985, p. 53).
Freud coloca que mesmo no delírio de ciúme, no qual o que o paranoico
não suporta é o empuxo à mulher, o mecanismo projetivo (o segundo tipo de
ciúme) entra em jogo. No entanto, Lacan faz uma distinção. Não se trata de
simplesmente imputar ao outro suas próprias infidelidades. No delírio de ciúme,
a identificação se dá por alienação invertida. É a sua mulher que o sujeito faz
mensageira de seu próprio desejo rejeitado. Encontramos aqui um mecanismo
projetivo que não é da mesma ordem da neurose. O delírio de ciúme paranoico
se estende não para um homem, mas, como ele coloca, para um número de
homens mais ou menos indefinido. Isso, porque o delírio de ciúme é indefinida-
mente repetível.
No segundo caso, ele diz: “não é ele que eu amo, é ela”, é ela que me
ama. Na erotomania, o outro ao qual se endereça o sujeito é um ser muito
especial. Daí a ideia do orgulho do erotômano, descrita por Clérambault. O su-
jeito tem com ele uma relação platônica, à distância. Porém, é o outro que o
ama primeiro. Por isso o erotômano, sujeito de um ser amado, é também objeto
de muito valor. A erotomania é, entre os delírios passionais, o que mais nos
coloca a questão do feminino na psicose, já que sua prevalência é de cerca de
80% em mulheres (Tyzler, 2005).
Na terceira possibilidade, “eu não o amo, eu o odeio”, uma simples inver-
são não é suficiente como defesa. É preciso que intervenha o mecanismo da
projeção: “ele me odeia”. Aí está estabelecido o delírio persecutório. O amor
recusado virou ódio, o ódio projetado no outro retorna como objeto persecutório.
Todo sistema de relação com o outro fica alterado. O que vem do outro aparececomo reflexo extensivo da sua interpretação do mundo. Como diz Lacan, é a
perturbação imaginária levada ao seu máximo.
A gramática freudiana do delírio paranoico e de suas posições passionais
nos remete ao campo das identificações primárias próprias do estádio do espe-
lho. Parece que esse outro contra o qual o passional se agita coloca em jogo a
imagem ideal de si mesmo. Ou em que outra posição poderia estar situada a
atriz vítima da violência passional de Aimée?
O delírio de ciúme na gramática...
61
REFERÊNCIAS:
CLÉRAMBAULT, G. Gatien. Os delírios passionais: erotomania, reivindicação, ciúme.
[1921]. Revista do Tempo Freudiano Associação Psicanalítica, Rio de Janeiro, mar. 2006.
FREUD, Sigmund. Observaciones psicoanaliticas sobre un caso de paranoia
(Dementia Paranoides) autobiograficamente descrito [1911] In: _____. Obras com-
pletas. 4. ed. Madrid: Bibl. Nueva,1981. v.2.
______. Sobre algunos mecanismos neuroticos em los celos, la paranoia y la
homosexualidad [1921]. In: _____. Obras completas. 4. ed. Madrid: Bibl. Nueva, 1981.
v.3.
______. La pérdida de la realidad en la neurosis y en la psicosis [1924] In: _____.
Obras completas. 4. ed. Madrid: Bibl. Nueva, 1981. v.3.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 3: as psicoses [1955-56]. Rio de Janeiro: J.
Zahar Ed., 1985.
TYZLER, J. Jacques. A propósito das psicoses passionais. Revista do Tempo
Freudiano Associação Psicanalítica, Rio de janeiro, jan. 2005.
Recebido em 10/11/2009
Aceito em 15/12/2009
Revisado por Beatriz Kauri dos Reis
62
TEXTOS
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Resumo: A partir de Dom Casmurro, de Machado de Assis, acompanhamos a
narrativa em torno de Bento e Capitu. Na vacilação inscrita pela posição do
personagem-narrador ocorre uma fratura, e nesse lugar surge um terceiro anco-
rado na certeza, que apaga todo o resto. Machado de Assis nos oferece, assim
como Shakespeare, Proust e Edgar Allan Poe, algo da verdade do ciúme: fixi-
dez que empurra o sujeito ao lugar de sua sombra.
Palavras-chave: ciúme, fixidez, duplo.
A CLOVE OF JEALOUSY IN THE MACHADIAN FICTION
Abstract: In Dom Casmurro, by Machado de Assis, we follow the narrative
surrounding Bento and Capitu. In the oscillation embedded by the narrator-
character perspective, there is a fracture, and out of this place comes out a third
one, anchored onto a certainty which wipes off all the rest. Thus Machado de
Assis grants us, as well as Shakespeare, Proust and Edgar Allan Poe do, with
something from the truth of jealousy: a rigidity which impels the subject to the
reign of his or her own shadow.
Keywords: jealousy, rigidity, double.
UM DENTE DE CIÚME
NA FICÇÃO MACHADIANA1
Lucia Serrano Pereira2
1 Este texto foi escrito na referência ao livro: Um narrador incerto entre o estranho e o familiar,
a ficção machadiana na psicanálise (Cia de Freud, 2008).
2 Psicanalista; Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA) e da Association
Lacanienne Internationale(ALI); Doutora em Literatura Brasileira (UFRGS). Autora dos livros: O
conto machadiano: uma experiência de vertigem – ficção e psicanálise (Cia de Freud, 2008);
Um narrador incerto entre o estranho e o familiar, a ficção machadiana na psicanálise (Cia de
Freud, 2004). E-mail: luciasp@portoweb.com.br
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, Porto Alegre, n. 37, p. 62-74, jul./dez. 2009
Um dente de ciúmes...
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Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento
para proclamar de peito aberto, no instante mesmo
de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um
sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher
como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele
se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta
Chico Buarque
Lembremos uma vez mais Capitu (Machado de Assis, [1900] 1997). É justo,pois não é em torno dela que se arma a grande expressão do mal-estar do
ciúme em nossa literatura?
Dom Casmurro, calado, recluso, Dom por ironia, ares de fidalgo. Ele é o
narrador que reconstitui sua vida, suas memórias. Dom Casmurro, Bentinho,
Bento Santiago. Três nomes do personagem-narrador desdobrando lugares dife-
rentes na narrativa. Bentinho é o narrador enquanto jovem-menino que, aos 15
anos, ouve atrás da porta uma conversa entre sua mãe e o agregado da casa,
José Dias, conversa que indica sua condição: está apaixonado por Capitu, a
menina da casa ao lado, e nem sabia. É José Dias quem aponta para Dona
Glória o fato, tem observado os dois jovens em segredinhos, sempre juntos.
Para Bentinho, as palavras de José Dias têm o efeito inusitado de revelação.
O romance: a primeira parte da narrativa apresenta esse tempo, em que
Bentinho vive o amor por Capitu. Vai ao seminário, estuda, e volta, tendo feito
um grande amigo, Escobar. Com a ajuda de José Dias e de Capitu, finalmente,
consegue desfazer-se dos votos eclesiásticos, que eram compromissos mater-
nos, já que Dona Glória havia feito a promessa de que o filho se tornaria padre.
Diante dessa conquista, Bentinho retorna à casa da família e consegue realizar
com a moça o sonho compartilhado: o casamento.
Primeiro tempo de casados, tudo corre bem, Bentinho já passa a marido e
proprietário, deixa para trás o menino tímido dominado pela mãe, D. Glória. Com-
partilha a vida com Capitu e com o casal Sancha e Escobar. O filho demora a vir;
quando nasce é festejado. Nesse primeiro tempo, tudo parece se encaminhar bem
e, então, a tragédia: Escobar, exímio nadador, morre afogado no mar. No velório,
Bento Santiago encontra algo no olhar de Capitu, para seu amigo morto, que come-
ça a transtorná-lo. O ciúme é deflagrado com violência; tudo vem a ser retroativa-
mente lembrado como indício da traição e, para culminar, Ezequiel, o filho, começa
a ser visto por Bento como refletindo a imagem de Escobar (padrinho do menino).
Filho do outro, ele conclui, como Otelo (Shakspeare, [1604]1999) deduz
a culpa de Desdêmona. A tragédia shakespeariana de Otelo compõe o pano de
fundo da história de Bento e Capitu, jogando especularmente uma história den-
tro da outra, estabelecendo a construção em abismo (mise-en-abîme).
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Lucia Serrano Pereira
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A narrativa é produzida desde o ponto de vista de Bento Santiago, certeza
da traição de Capitu, certeza essa que o romance ao mesmo tempo desautoriza
em sua trama.
O mal-estar e a crueldade ganham a cena – Bento Santiago desfaz-se de
Capitu e do filho, mandando-os para a Europa, mantendo as aparências com um
exílio sem volta para Capitu. Ela morre no estrangeiro, Ezequiel retorna jovem
adulto. Bento oscila entre fugazes impulsos amorosos que sucumbem em um
voto de morte dirigido ao filho: “bem que ele poderia pegar lepra [...]”. O rapaz
efetivamente morre em uma viagem, Bento diz sobre o dia em que soube da
morte do filho: “Apesar de tudo, jantei bem e fui ao teatro” (Machado de Assis,
[1900] 1997, p. 944).
A pergunta que Dom Casmurro se faz, para concluir, é se afinal, a Capitu
que trai já estava dentro da Capitu menina. Estrategicamente, o narrador induz
o leitor a convir que sim, que uma já estava dentro da outra como:
[...] a fruta dentro da casca. […] a minha primeira amiga e o meu
maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis
o destino que acabassem juntando-se e enganando-me...A terra
lhes seja leve! (Machado de Assis, [1900]1997, p. 944).
Se a fruta já estava dentro da casca (como na metáfora do repolho e da
rosa, em Chico Buarque), de que maneira a pergunta percorre Bentinho na tra-
ma do ciúme?
A transformação da menina em mulher atrai Bentinho e ao mesmo tempo o
perturba. O canapé, simplesmente o nome dessa peça do mobiliário intitula o
capítulo que diz da posição e do lugar de um e de outro. Um canapé que oferece
em sua palha (sua trama), lugar aos dois, alia a intimidade e o decoro. Um canapé
compartilhado por dois homens pode ser lugar do debate, do destino de um impé-
rio; por duas mulheres, o interesse por um vestido, diz o narrador, mas se por um
homem e uma mulher, ali se abre à fala sobre si mesmos. Bentinho e Capitu, a
jura de amor, os dedos entrelaçados, as cabeças quase juntas, muito próximas...
até que entrao pai da moça. Bentinho se levanta depressa, lembra da cena e de
seu constrangimento, metendo os olhos pelas cadeiras. Ela, ao contrário, sem
nenhum ar de mistério, envia as saudações à mãe dele, dá o até breve, estende a
mão, e sai de cena. Confirmação para Bentinho de que ela é mais mulher do que
ele, homem. “Tudo isso é obscuro, dona leitora, mas a culpa é do vosso sexo,
que perturbava assim a adolescência de um pobre seminarista”.
Na verdade, Capitu ia crescendo às carreiras, as formas arredon-
davam-se e avigoravam-se com grande intensidade; moralmente, a
Um dente de ciúmes...
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mesma cousa. Era mulher por dentro e por fora, mulher à direita e
à esquerda, mulher por todos os lados, e desde os pés até a cabe-
ça. [...] de cada vez que vinha a casa achava-a mais alta e mais
cheia; os olhos pareciam ter outra reflexão, e a boca outro império
(Machado de Assis, [1900]1997, p.892).
Como sustentar o lugar de homem frente, justamente, a essa mulher que
vai surgindo e que o deseja? A posição de Bentinho vacila, ele ainda guarda algo
do rapazinho que decide contar a D.Glória que, afinal, estava crescido, gostava
da Capitu e não queria voltar para o seminário, mas que quando se encoraja,
afinal, só consegue dizer “Eu só gosto de mamãe” (id., ibid., p. 853).
A mulher Capitu cresce aos seus olhos, metáfora que articula toda a
sequência, essa mulher dos olhos e olhares. São destacados os olhos que
José Dias apontou como de “cigana, oblíqua e dissimulada”, e sempre em torno
do olhar vai se armando a cena dos naufrágios, dos mares e das marés que
organizam os olhos de ressaca, redemoinho, “umbigo” do romance.
É no velório de Escobar que Bento se depara com o olhar de Capitu para
o morto. Ele repara, em meio à confusão geral, Capitu olhando o cadáver:
[…] tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltas-
sem algumas lágrimas poucas e caladas. […] Momento houve em
que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o
pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga
do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da
manhã (Machado de Assis, [1900] 1997, p. 927).
Aqui se concentram os cruzamentos e o ciúme ancora-se de uma vez por
todas. A relação com o olhar de Capitu para o morto, tal qual olhou para ele,
Bentinho, um dia (olhar de delícias, mas também de risco, mortífero); o
deslizamento de Capitu para “olhos de viúva”, de fixidez para paixão.
Escobar, o amigo atraído pelo desafio dos mares bravios, morre justa-
mente afogado. Por Capitu? Fica o suspense.
O que vem imediatamente antes dessa morte é a narrativa do encontro,
na noite anterior; dos dois casais de amigos, a pedido de Sancha, que anuncia
um projeto para os quatro, um convite, uma viagem à Europa. Bento percebe
qualquer coisa diferente naquela mulher, uma excitação naquela noite, uns olha-
res quentes e intimativos de Sancha para com ele, toda a cena pontuada pela
observação do mar batendo com força, e da ressaca na praia. Bento, na despe-
dida, com o toque dessa mulher, tem um momento de vertigem e pecado. A
situação é totalmente inusitada, ele tenta achar disso algum registro anterior, e
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Lucia Serrano Pereira
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observa: “Tive uma certeza só, é que um dia pensei nela como se pensa na bela
desconhecida que passa” (Machado de Assis, [1900]1997, p. 924).
Machado trabalha no intertexto, nos leva a associar a bela desconhecida
que passa com a poesia de Baudelaire (1980), a incrível ”passante”3 , que deixa
seu rastro de forma indelével, inesquecível, com o envio de um raio, de um olhar
fulgurante, derradeiro, antes de desaparecer na multidão. Para Bento, Escobar
havia recebido defunto, aqueles olhos.
O ciúme, para Bento Santiago, é rememorado desde o momento em que
o Otelo, de Shakespeare ([1604] 1999), é introduzido no capítulo Uma reforma
dramática. Bento brinca com a possibilidade de “reformar” a peça, de maneira
que ela começasse pelo fim. Otelo mataria Desdêmona e a si mesmo no primei-
ro ato, os três seguintes para a ação do ciúme e, por último, uma saída irônica,
com o conselho de Iago, o de meter dinheiro na bolsa. Tudo isso como uma
pergunta sobre o destino que os dramaturgos não anunciam como a vida – nada
se sabe ao certo, até que o pano caia. Nesse ponto da narrativa, tratava-se da
curiosidade de Capitu sobre a companhia de Bentinho, com quem ele ficara na
rua até tarde; é a introdução de Escobar entre eles. Esse outro que serve para
introduzir no romance o que o narrador chamou de “o segundo dente de ciúme”
(o primeiro vem depois, em retroação). A mordida se dá quando Bentinho vê um
rapaz a cavalo passar pela rua e voltar seus olhos para Capitu, ao modo dos
namoros de antigamente.
Ora, o dandy do cavalo baio não passou como os outros; era a
trombeta do juízo final e soou a tempo; assim faz o Destino, que é
o seu próprio contrarregra. O cavaleiro não se contentou de ir an-
dando, mas voltou a cabeça para o nosso lado, o lado de Capitu, e
olhou para Capitu, e Capitu para ele; o cavalo andava, a cabeça do
homem deixava-se ir voltando para trás. Tal foi o segundo dente de
ciúme que me mordeu (Machado de Assis, [1900]1997, p. 884-
885).
3 “À une passante. La rue assourdissante autour de mon hurlait. Longue, mince, em grand
deuil, douleur majestueuse, Une femme passa, d’une main fastueuse Soulevan, balançant le
feston et l’ourlet; Agile et noble, avec sa jambe de statue. Moi, je bouvais, crispé comme un
extravagant, Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan, La douceur qui fascine et le plaisir
qui tue. Un éclair… puis la nuit! – Fugitive beauté Don’t le regard m’a fait soudainement
renaître, Ne te verrai-je plus que dans l’éternité? Ailleurs, bien loin d’ici! Trop tard! Jamais
peut-être! Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais, Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le
savais! (Baudelaire, 1980, p. 68-69)
Um dente de ciúmes...
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O “primeiro dente de ciúme” é relatado em seguida. O narrador lembra do
tempo do seminário, quando José Dias comenta que Capitu não sossegaria até
pegar algum peralta da vizinhança que casasse com ela. Bentinho logo pensa
que essa era uma alusão ao cavaleiro, mas ao mesmo tempo se pergunta: “Tal
recordação agravou a impressão que eu trazia da rua; mas não seria essa pala-
vra, inconscientemente guardada, que me dispôs a crer na malícia de seus
olhares?” (Machado de Assis, [1990] 1997, p.885).
A partir daí, a consistência desse terceiro vai delineando-se, insistindo. Em
Embargos de terceiro, o capítulo, Bento vai ao teatro, mas volta logo preocupado
com Capitu, que havia dito não se sentir bem e preferira ficar em casa. Ele encon-
tra Escobar descendo as escadas, o amigo teria ido para falar com ele sobre uns
embargos. Antes desse encontro inesperado, o narrador vinha ponderando:
Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos. Um vizinho, um par de
valsa, qualquer homem, moço ou maduro, me enchia de terror e
desconfiança. É certo que Capitu gostava de ser vista, e o meio
mais próprio a tal fim (disse-me uma senhora, um dia) é ver tam-
bém, e não há ver sem mostrar que se vê (Machado de Assis,
[1900]1997, p. 918).
Fica claro que o “terceiro” dos embargos vai se armando em torno de
Escobar. Este, que desde a adolescência de Bentinho, aparecia como o amigo
devotado, mas também aquele que tinha os olhos “um pouco fugitivos, como as
mãos, como os pés, como a fala, como tudo” (id., ibid., p.868).
Escobar nos é apresentado metonimicamente, por contiguidade, as par-
tes pelo todo, os olhos e as mãos. Suas mãos, diz o narrador, são daquelas que
não apertam as outras e também não se deixam apertar, dedos que quando se
cuida de ter entre os seus, já não estão mais (também dissimulados?).
Duas vertentes fortes em Dom Casmurro apontam o surgimento e desdo-
bramento do ciúme: o olhar de Capitu para Escobar morto, que faz com que
Bento Santiago localize algumas situações que lhe retornam, lembranças de
episódios ambíguos que poderiam indicar para a cumplicidade entre Escobar e
Capitu, e, a outra vertente ressaltando a semelhança que passa a ver entreseu
filho Ezequiel e Escobar (portam o mesmo nome de batismo, Escobar chama-
se Ezequiel de Sousa Escobar).
A primeira via nos remete mais propriamente para a relação de ciúme, e a
segunda, para uma possibilidade que poderia indicar o caminho do “estranho”,
quase na constituição de um outro que retorna da tumba para vir, de certa ma-
neira, assombrá-lo (referimos “poderia indicar” o estranho por acharmos que
essa seria uma aproximação que o texto permite, mas não fecha; a semelhança
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Lucia Serrano Pereira
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pode ser lida em Dom Casmurro também como algo mais rarefeito, indefinível,
que vem surgindo aos poucos, sem acentuar seu contorno). Nesse percurso,
Bento, que era protagonista do amor por Capitu, se vê progressivamente empur-
rado para um lugar de sombra, de perda do lugar desejante, de homem e de pai.
Ele é aquele de quem a pintura mal disfarça o corpo da autópsia, derrocada de
sua posição de sujeito.
Tomemos a questão do ciúme em certa transversal, na relação com sua
possível participação na construção do efeito de “estranho”, que termina por fazer
Bento Santiago achar-se sentado à mesa com esse que “sai da sepultura”.
O ciúme, Freud ([1922] 1969) aponta em Sobre alguns mecanismos neu-
róticos nos ciúmes, a paranoia e a homossexualidade, assim como a tristeza,
pertencem àqueles sentimentos que, de alguma forma, participam da vida nor-
mal; ou seja, vão compor em maior ou menor grau a vida amorosa comum, com
mais ou menos recalque. Destaca ainda três formas: o que seria o ciúme dito
normal, o ciúme projetado (quando se deseja fora da relação amorosa e a seguir
se projeta esse desejo “infiel” ao parceiro) e o ciúme delirante. Podemos nos
perguntar se, no final das contas, essas fronteiras seriam tão delimitadas, se
esses elementos não estão constantemente imbricados. Mas, de qualquer ma-
neira, há um traço do ciúme que sempre comparece: o de ser fixador, o de
transformar tudo em sinal, em indício, um total desmantelamento da dimensão
polissêmica da linguagem. É nessa via que Lerude (1995) faz uma aproximação
da leitura do ciúme em Proust. Façamos um breve desvio até seu texto, referido
a Em busca do tempo perdido (Marcel Proust, 2006), na direção de certo encon-
tro entre o ciúme em Bento Santiago e Swann, o personagem da Recherche que,
como nosso narrador machadiano, se vê tomado em um delírio de ciúme – com
relação a Odete, essa mulher de condição social inferior (nesse ponto também
como Capitu, guardadas as diferenças, Odete era uma cocotte francesa).
Em Quelques remarques a propos d’un amour de Swann, M. Lerude co-
menta o ciúme de Swann, na obra de Proust, com relação a Odete:
E o ciúme consiste em um esvaziamento da equivocidade da lín-
gua, dos fenômenos: tudo faz signo, cada palavra, cada situação
indica que Odete está alhures, com um outro, em um outro gozo
que ele ignora, do qual ele é privado, amputado. A vida de Odete
não lhe é, no fundo, mais desconhecida neste momento do que
antes, mas é um “desconhecido” reconhecido como tal que se
trata a partir daí, de preencher infinitamente” (Lerude, 1995, p. 119)4 .
4 Tradução da autora.
Um dente de ciúmes...
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A autora indica o desencadeamento do ciúme no momento em que Odete
não se encontra mais no mesmo lugar. Há o surgimento de um duplo, um seme-
lhante, nomeado Forcheville (que frequenta o mesmo círculo social de Swann).
Ela não é mais totalmente dele, assim como Capitu não o é de Bento; cai a
miragem de que um homem pudesse possuí-la toda – a mulher – pontuar todos
os momentos de sua vida.
Capitu é mulher casada, tem relações sociais, o marido observa que ela
gosta disso; e, ponto principal, tem um filho, o que evidencia a não totalidade de
seu olhar na direção de Bento. O ciúme demanda essa exclusividade que é
impossível.
Roland Chemama (1995) na introdução da Révue Le Trimestre
Psychanalytique – La Jalousie aponta para o fato de que o ciúme, pelo menos
em parte, corresponde ao desconhecimento disso que podemos situar como
uma falta fundamental, uma defesa contra essa falta, defesa contra o que pode-
ríamos situar como a castração (é na defesa contra a castração que Freud
desenvolvia a noção do estranho); sendo assim a impossibilidade, o limite em
realizar o que se quer fica totalmente posto na conta do outro. No lugar de poder
reconhecer um limite que é da estrutura da subjetividade (cada um se constitui,
subjetivamente, através da identificação com o outro – o semelhante – mas isso
tem limite) acha-se alguém que, supostamente, deve arcar com essa conta. O
ciúme reforça o risco que o imaginário designa como relação de exclusividade:
só há lugar para um, então é um ou outro. Ao mesmo tempo, essa relação
indica, mais do que a rivalidade, um movimento identificatório, e é nisso que o
sujeito pode se ver questionado a respeito de sua posição; entra em cena a
possibilidade de sua queda, ligada à colocação em jogo de seu desejo.
Na relação Bento-Ezequiel-Escobar, as coisas iniciam por um aponta-
mento sutil, no texto, com respeito a um tecido de semelhanças, portanto, de
identificações. No capítulo intitulado O retrato, Bentinho vai à casa de Sancha
para encontrar Capitu com a amiga, e o pai de Sancha refere-se à semelhança
do retrato de sua mulher, já falecida, com a amiga tão querida da filha. Reforça
a opinião com o comentário de todas as pessoas que haviam conhecido a mu-
lher. Pondera, como que falando de casualidades, “Na vida há dessas seme-
lhanças assim esquisitas” (Machado de Assis, [1900]1997, p. 829).
Assim o assunto semelhanças tem início. A sequência vem no capítulo
As imitações de Ezequiel. Um só “defeitozinho”, Bento comenta com a mulher
a habilidade do menino em imitar os gestos, os modos, as atitudes. Imita tia
Justina, José Dias, até um jeito dos pés e dos olhos de Escobar... Há que se
corrigir com tempo, concordam. É depois da morte de Escobar que o assunto
será problematizado, assumindo, aos poucos, o contorno de estranho. Capitu
comenta um dia com o marido:
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Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos uma expressão esqui-
sita? […] Só vi duas pessoas assim, um amigo de papai e o defun-
to Escobar. Olha, Ezequiel; olha firme, assim, vira para o lado de
papai, não precisa revirar os olhos, assim, assim… (Machado de
Assis, [1900]1997, p. 931).
É pela mão de Capitu que Bento é levado a estabelecer a conexão que
virá a torturá-lo.
Em especial nesse desenvolvimento do texto, Machado de Assis nos
oferece, na construção e na trama, toda a maestria de seu estilo: na narrativa,
do ponto de vista do narrador, o trato com a semelhança vai tomando a direção
do sentido único e fixo, tudo leva a Escobar; cada detalhe só confirma a “presen-
ça” de um no outro. Do outro lado, simultaneamente e também pela voz do
narrador, apresentam-se aqui e ali todas as pequenas observações que desautori-
zariam a convicção de Bento, mas que ele não pode enxergar, tão obcecado
com esse duplo que escolhe encontrar para usurpar seu lugar de pai, e de
homem, no desejo de sua mulher.
A ambiguidade tem seu desenvolvimento maior. Se José Dias fosse vivo,
Bento diz, “acharia nele minha própria pessoa” (id., ibid., p. 931). Acontece que
José Dias, ao mesmo tempo, é apresentado ao leitor como alguém não confiável,
o agregado da família que se movimenta sempre pela contingência das conveni-
ências.
Tia Justina pede para rever Ezequiel quando este retorna da Europa; po-
deria ser aí outro momento de dar provas ao leitor de que suas fantasias
correspondem (ou não) à realidade. Bento trata de evitar essa visita, até o fale-
cimento da tia. E fica-se com a dúvida, pois o fato de Capitu mesma levantar a
questão da semelhança não serve para alimentar a dúvida de uma possível ino-
cência.
Bento pega o que lhe impõe o ciúme e joga o resto fora. Capitu havia
salientado a semelhança do filho, lembrando dois homens, um dos quais Bento
descarta imediatamente – o amigo do pai – para manter a exclusividade: “Apro-
ximei-me de Ezequiel, achei que Capitu tinha razão; eram os olhos de Escobar”
(Machado de Assis,[1900]1997, p. 931). Aposta até o fim nessa duplicação
identificada. A perplexidade de Capitu, desde então, só conta como um olhar de
plateia, excluído da possibilidade de qualquer palavra que faça diferença. Ela já
foi cortada da cena. Como o é Desdêmona (Shakspeare, [1604] 1999), na trama
armada por Iago; Otelo não vê mais nada a não ser a mulher e o amigo traidor.
A partir daí, o que se apresenta como semelhança passa a vir diretamen-
te associado com o morto, é uma identificação que vem como se “desde a
tumba”:
Um dente de ciúmes...
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Dos olhos de Ezequiel vai ressurgindo Escobar.
Nem só os olhos, mas as restantes feições, a cara, o corpo, a pessoa
inteira, iam apurando-se com o tempo. Eram como um debuxo primi-
tivo que o artista vai enchendo e colorindo aos poucos, e a figura
entra a ver, sorrir, palpitar, falar quase, até que a família pendura o
quadro na parede, em memória do que foi e já não pode ser. Aqui
podia ser e era. […] Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do
seminário e do Flamengo para sentar-se comigo à mesa, receber-
me na escada, beijar-me no gabinete de manhã, ou pedir-me à noite
a benção do costume (Machado de Assis, [1900] 1997, p. 932).
Lacan ([1962-63]1997) aponta para a figura de um “hóspede” que surge
de repente, com relação à angústia. Ele vem desenvolvendo a questão do
enquadramento da angústia, como ela surge: se a angústia seria relativa ao
tempo de espera, de estado de alerta, como resposta de defesa a algo que vai
acontecer; termina por dizer que a angústia é outra coisa, e que se a espera tem
sua importância nesse enquadramento, a angústia é quando surge, quando apa-
rece nesse contexto, “aquilo que já estava muito mais perto, em casa, Heim, o
hóspede, dirão vocês.” (id., ibid., p.83).
Segue, dizendo que esse hóspede que surge inopinadamente tem tudo a
ver com o que se encontra no unheimlich, mas que designá-lo assim é muito
pouco. Ressalta que o termo em francês hóspede, hôte, em seu sentido corren-
te, é já alguém bem trabalhado pela espera:
Este hóspede, é o que já havia passado no hostil (hostile) [...] Este
hóspede, no sentido comum, não é o heimlich, não é o habitante
da casa, é o hostil apaziguado, abrandado, admitido. O que é heim,
o que é Geheimnis, nunca passou por estes rodeios... (Lacan,
[1962-63] 1997, p. 83).
Nunca passou pelas redes, pelas peneiras do reconhecimento, continua
Lacan, ele permaneceu unheimlich:
[...] menos inabituável que inabitante, menos inabitual que inabitado.
Esse surgimento do heimlich no quadro é que é o fenômeno da angústia,
e é por isso que é falso dizer que a angústia é sem objeto (id., ibid., p. 83).
Machado de Assis nos faz bem ter a noção dessa dimensão do cerco
que se fecha com a chegada do hóspede, ao dizer: “Eu, posto que a ideia da
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paternidade do outro me estivesse já familiar, não gostava da ressurreição. Às
vezes, fechava os olhos para não ver gestos nem nada, mas o diabrete falava e
ria, e o defunto falava e ria por ele” (Machado de Assis, [1900] 1997, p. 942-943).
E quanto mais Escobar ressurge, sendo sempre ressaltado nesse apare-
cimento algo da vida, da alegria, do acolhimento e da satisfação do encontro
(afinal, é um menino, depois um rapaz no entusiasmo dos encontros e das
descobertas, como Bentinho o era), mais Bento vai virando uma sombra, dei-
xando-se perder a vida, abrindo mão das relações, passando aos pensamentos
de morte para consigo, para com Capitu e Ezequiel, o hostil e o agressivo sem
disfarces. No “par maléfico” que reúne o eu a um outro fantasmático, o real não
fica situado do lado do eu, e, sim, colocado do lado do fantasma. Interessante
efeito de torção dos lugares, pois não é o outro que duplica a mim, mas, sim, eu
que sou o duplo do outro, observa Clèment Rosset (1998) em seu trabalho sobre
o real e o duplo. O outro é quem fica com o real, e o sujeito propriamente com a
sombra.
Voltemos a Proust por um momento: no estudo de Grimaldi (1994) sobre
o ciúme em Proust, podemos seguir algo do cruzamento que com Lerude esbo-
çamos, na trajetória pelo ciúme em Bento e em Swann:
Mas a imaginação ciumenta sempre há de finalmente passar do
que ela ignora ao que já sabe, e recriar o desconhecido como uma
simples excrescência do que já é conhecido. Pois em qualquer
situação, por infame, horrível ou ignóbil que seja, como figurar uma
pessoa a não ser pela própria experiência que dela se tem? Eis
porque embora Swann soubesse muito bem, de maneira abstrata
e geral, ’que a vida dos seres é cheia de contrastes’, nem assim
conseguia imaginar tudo o que não conhecia da vida de Odete
senão ‘como idêntico à parte que [dela] conhecia’ (p.186). Desse
modo, assim como a memória é o sótão da imaginação, assim o
ciúme só pode reconstituir os amores que ele ignora com o que ele
conheceu do amor. É, portanto, com aquilo que foi o tecido da sua
felicidade que lhe cumpre agora talhar a roupa de sua infelicidade.
Como a sombra é o duplo de cada um, Proust pode então dizer
que o ciúme é a sombra do amor, já que lhe faz imaginar na escu-
ridão e no dilaceramento o duplo daquilo que ele viveu na claridade
e na alegria (Grimaldi, 1994, p. 41-42).
Swann fica com Odete, mas vive entre ela e o caminho de Guermantes,
divisão que não se atenua; Bento mata, exila a mulher e o filho; quando o rapaz
retorna, moço, oscila entre o amor por ele e o voto de morte.
Um dente de ciúmes...
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Seguindo o desenvolvimento de Rosset (1998) sobre o eu e a sombra, há
o apontamento para um cuidado: o pior erro a ser cometido por quem se consi-
dera perseguido por um duplo, mas que é, na verdade, o original que ele próprio
duplica, é o de tentar matar o seu duplo:
Matando-o, matará ele próprio, ou melhor, aquele que desespera-
damente tentava ser, como diz muito bem Edgar Poe no final de
William Wilson, quando o único (aparentemente o duplo de Wil-
son) sucumbiu aos golpes de seu duplo (que é o próprio narrador):
’Venceste e eu sucumbo, mas, de agora em diante, também estás
morto. Morto para o mundo, para o céu, para a esperança! Existias
em mim, e agora que morro, vê nessa imagem que é a tua, como
mataste na verdade a ti mesmo’ (Rosset, 1998, p.78-79).
Proust, Edgar Alan Poe, Machado. A pintura mal disfarça o corpo da
autópsia, Bento Santiago já desertou de si mesmo. No ciúme ocorre uma espé-
cie de irrupção real do terceiro, relativo a uma precariedade no campo das iden-
tificações e da identidade. Bento “não era tão homem quanto ela mulher” não
pode legitimar a paternidade, e nessa vacilação do lugar surge um terceiro,
ancorado na certeza, que apaga todo o resto. Machado de Assis nos oferece
algo da verdade do ciúme, na sua face dura: a pintura mal disfarça o corpo da
autópsia – Bento, ou mesmo o crime da paixão, exílio de Capitu.
REFERÊNCIAS
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Internationale, 1995, n. 2, p. 113-128.
PEREIRA, Lucia Serrano. Um narrador incerto entre o estranho e o familiar – a ficção
machadiana na psicanálise. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2004.
74
Lucia Serrano Pereira
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PROUST,Marcel. No caminho de Swann. Em busca do tempo perdido. Rio de Janei-
ro: Editora Globo, 2006.
ROSSET, Clément. O real e seu duplo. Tradução de José Thomaz Brum. Porto Ale-
gre: L&PM Editores, 1998.
SHAKSPEARE, W. Otelo [1604]. Porto Alegre: L&PM Editores, 1999.
Recebido em 07/09/2009
Aceito em 11/10/2009
Revisado por Otávio Augusto Winck Nunes
75
TEXTOS
75
Resumo: Discute-se, neste artigo, a temática do amor e dos ciúmes através da
obra de Ibsen O pequeno Eyolf. Os fios desta obra entelaçam-se com a análise
do Homem dos ratos e com questionamentos sobre o que seria o tempo do pós-
lacanismo. Tecem-se, também, considerações sobre os efeitos e o fim de uma
análise.
Palavras-chave: amor, ciúmes, tragédia, drama.
ON LOVE AND JEALOUSY: VARIATIONS AND MISADVENTURE
THE LITTLE EYOLF
Abstract: The present article discusses love and jealousy on Ibsen´s work. The
lines of this work are interlaced with The Rat Man analysis and with some questions
about the time of post lacanism. The end of analysis and analysis efects are
also appreciated in this text.
Keywords: love, jealousy, tragedy, drama.
1 Texto elaborado a partir de aula proferida pelo autor.
2 Psicanalista. Membro fundador da Escuela Freudiana de Buenos Aires, dentre suas mais
recentes publicações encontram-se: Las intervenciones del analista (Agalma, 2004), El sujeto
borgeano (Agalma, 2005), Lectura del seminário L´etourdit (Escuela Freudiana de Buenos
Aires, 2007). E-mail: isidoro@vegh.com.ar.
SOBRE O AMOR E OS CIÚMES:
variações e desventuras
O pequeno Eyolf1
Isidoro Vegh2
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, Porto Alegre, n. 37, p. 75-86, jul./dez. 2009
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No título que escolhi, Sobre o amor e os ciúmes: variações e desventuras, aordem não é arbitrária. Estamos acostumados a falar de como se relacio-
nam o amor, o desejo, o gozo, como se enlaçam ou desenlaçam. Também pelo
ensino de nosso mestre Freud temos um trânsito pela questão do intrincamento
e desintrincamento das pulsões, pulsões de vida, pulsões de morte. Mas talvez
tenhamos menos percurso em pensar que há distintos tipos de amores, que
podem jogar de modo propiciatório, ou bem como barreira para a realização do
amor.
O tema que escolhi foi a tragédia do Pequeno Eyolf, desse grande escri-
tor norueguês que foi Henrik Ibsen (1966), e o tomei porque, além disso, é um
clássico dentro da psicanálise. O pequeno Eyolf é uma associação que faz um
paciente de Freud ([1909]1980), a quem conhecemos como O homem dos ra-
tos. Tem interesse para nós vermos como se situa nesse histórico a direção da
cura. Por que digo isso? Porque estamos, como venho insistindo, em tempos
do pós-lacanismo, assim como houve um tempo do pós-freudismo: é um tempo
em que está em jogo a desvirtuação, no pós-freudismo, do ensino de Freud, e
no pós-lacanismo, do ensino de Lacan. Está em jogo de distintos modos. Um é
a acentuação de apenas uma faceta, desconhecendo as demais. Por exemplo,
temos colegas que sublinharam, e muito bem, o valor que tem que o analista
esteja atento ao som do significante, como joga com o equívoco com a letra, o
que se chama de homofonia. No entanto, dizemos que reduzir a isso a retórica
do inconsciente é desconhecer o que nossa prática nos ensina, o que nos
ensina a obra de Freud, o que nos ensina a própria obra de Lacan, quando nos
diz, no último capítulo de Encore (Lacan, 1975), que esse significante que retorna
representando o sujeito pode se jogar ao nível do fonema, da palavra, da frase,
do enunciado ou de um conjunto de enunciados. Creio que este tema que esco-
lhi, a tragédia de Ibsen, vai nos servir para testemunhar do empobrecimento que
significaria para nossa prática desconhecer essa variedade que o próprio Lacan
sublinhou.
Do histórico do Homem dos ratos vou ler a vocês onde Freud o cita ([1909]
1980, p. 168-169): “No entanto, em desafio a todo este rico material, durante longo
tempo não se fez luz alguma sobre o significado de sua ideia obsessiva – a ideia
obsessiva tinha a ver com os ratos, com a tortura dos ratos que um capitão lhe
havia contado enquanto ele estava no exército como suboficial de reserva: con-
sistia em pôr no ânus do torturado uma lata com ratos que se introduziam pelo
intestino destruindo-o por dentro – até que um dia apareceu a Senhora dos
Ratos, do Pequeno Eyolf, de Ibsen, e tornou-se irrefutável a conclusão de que
em muitas configurações de seus delírios os ratos significavam também filhos;
quando se investigou a gênese deste novo significado, tropeçou-se em seguida
com as mais antigas e substantivas raízes”. Então fala também dos ratos que
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poderiam ter saído da tumba do pai, ratos que ele podia ter visto no cemitério,
etc. Freud diz “ratos eram, então, filhos”.
Neste percurso, vamos nos encontrar com algo já não da magnitude de
um rato, mas tão grande quanto um elefante: me surpreende que nem Freud
nem Lacan o tenham sublinhado.
 Lembro a vocês brevemente: o Homem dos Ratos é um jovem de 27
anos que vai a Freud desesperado, com fantasias de suicídio (cortar sua jugular)
por certas ideias obsessivas das quais não pode se desprender. A última, o
desencadeante, é que tem de pagar uns óculos desses que se apoiam no nariz,
que se chamam pincenê, em alemão Zwicker (Zwicken quer dizer beliscar), que
ele havia perdido durante as manobras militares. Ele sabia, mas decidiu seguir
e encomendar outro. A empregada do correio o recebeu, ele acreditou que o
devia ao Tenente A, resultou que era o Tenente B, mas como o capitão lhe disse
“tens que pagar ao Tenente A”, essa ordem se impôs a ele. O que era um
absurdo, porque em definitivo ele sabia que não devia nem ao Tenente A nem ao
Tenente B, mas à empregada do correio. Com essa dúvida obsessiva, e com a
ideia de inventar uma cena absurda, em que ele paga a um, que dá ao outro, e
este à mulher da estafeta, vai ver Freud, desesperado porque, para ele, tudo
isso não era piada. Na primeira entrevista conta a Freud ([1901] 1980) que foi vê-
lo por coisas que leu em Psicopatologia da vida cotidiana e que pensava que
podia ajudá-lo. Mas, por sua neurose, pede a Freud um certificado para que os
tenentes se prestem a sua cena. Freud lhe diz que de maneira alguma, que
unicamente vai se prestar é a ajudá-lo com o que ele pode, que comece a
associar e ele vai ver como o ajuda. Já desde o começo lhe conta, na segunda
entrevista, uma fantasia, que é a dessa tortura que acabo de descrever, a do
próprio capitão que lhe disse “tens que pagar ao Tenente A”. Ou seja, um capi-
tão que funciona como um Supereu cruel e sádico, e que tem em seu mandato
a própria estrutura do Supereu, um sintagma coagulado, imodificável. Avançan-
do o histórico, vamos ver que essa tortura dos ratos terá a ver com um jogo
significante, homofônico, que em alemão se escreve assim:
Ratten = ratos
Raten = dívida
Quando a análise avança, Freud descobre que há algo em relação aos
ratos que tem a ver com uma dívida. Vamos ver logo de que dívida se trata.
 Agora irei ao relato de Ibsen, O pequeno Eyolf (1966). Ibsen escreve este
relato em sua última etapa, no ano de 1894. Pensemos que grande parte de sua
obra foi escrita entre 1860-1870; já era um dramaturgo muito renomado. Há
antecedentes na biografia, mas que não nos servem para articular uma resposta
sobre por que escreveu isto. Efetivamente, dizem que houve uma tia que era
louca e que dizia que era a mulher dos ratos. Também é verdade que havia um
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irmãozinho que ficou paralítico por um acidente, coisas que aludem à trama da
tragédia. Mas não são suficientes para explicar por que o autor escreveu esta
tragédia.
O pequeno Eyolf nos convida a reconhecer uma série de personagens;
para facilitar a trama, vou escrevê-los deste modo:
 Estes são os personagens que a tragédia de Ibsen nos propõe. Iremos
apresentando-os com suas próprias palavras.
 Quem é este pai? É alguém que volta, antes do tempo, de uma viagem
que havia feito às montanhas, com a ideia de escrever o grande livro de sua vida,
um livro que se intitularia “Sobrea responsabilidade humana”. E diz a sua mu-
lher, que o esperava, e a sua irmã, que estava de visita, que mudou de ideia, que
não escreveu nada, nem uma letra, e que daqui em diante a obra de sua vida vai
ser outra. Perguntam-lhe o quê e diz:
Alfredo Allmers: Pensei em Eyolf, querida Rita […] Desde aquela
desgraçada queda da mesa…, e mais ainda desde que sem lugar
a dúvidas soubemos que o acidente seria irreparável…
Rita: Mas, Alfredo, já não podes te ocupar mais dele!
Alfredo Allmers: Não como um mestre de escola, mas sim como
um pai. E um pai é o que quero ser de hoje em diante para Eyolf.
Alguém diria “que maravilha!” Não, escutem.
Alfredo Allmers: Eyolf será o varão mais completo da família. E eu
empregarei toda minha vida na nova obra de convertê-lo em um
homem cabal (Ibsen, 1966, p. 36).
Vocês imaginam o que é ter um pai dedicado a alguém desse modo?
Sublinho como se inspirou:
Alfredo Allmers: Sim! E ao subir até as infinitas solidões, ao con-
templar o sol nascente iluminando os cumes, ao sentir-me mais
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perto das estrelas, quase em comunhão com elas…, foi quando
consegui meu desígnio.
É um pai que se autopropõe no lugar do Ideal e que estende até seu
filho esse Ideal. Mas não o Ideal que põe limite ao Eu. Não é San Martín
dizendo “serás o que deves ser ou não serás nada”, quando o futuro está
dizendo que San Martín, nosso pai da pátria, não pensava o Ideal idêntico ao
Eu, mas com uma distância, é o Ideal propiciatório. Este, no entanto, ali nas
alturas, encontrou-se em comunhão com as estrelas, ele passa a ser essas
estrelas e descobre seu desígnio: vai fazer de seu filho um homem cabal,
completo, através de seu filho vai lograr o Ideal que não pôde realizar através
de sua obra.
Quem é a mãe? Vamos apresentá-la com algumas de suas frases. Quan-
do menciona o cortejo que o engenheiro Borgheim faz a sua cunhada, diz:
Rita: Para mim seria uma verdadeira alegria vê-lo casado com Asta.
Alfredo Allmers: E isso por quê?
Rita: Porque ela iria para longe e não viria como vem agora. […]
Porque assim serias ao final só para mim. Mesmo que…não;
tampouco assim me pertencerias por inteiro. (Rompe em soluços
convulsivos) Alfredo, Alfredo! Não posso renunciar a ti!
Alfredo Allmers: Mas, Rita…, sê razoável!
Rita: Não quero sê-lo! Não me importa nada no mundo mais que tu
(Abraçando-o) Tu, só tu!
Começa o crescendo da tragédia.
Alfredo Allmers: Por Deus, mulher! Estás me estrangulando!
Rita (separando-se dele): Ah! Se, efetivamente, eu pudesse sufo-
car-te! (Lançando fogo pelo olhos) Se soubesses quanto te odiei!
Alfredo Allmers: Odiar-me, tu..?
Rita: Sim. Te odiava vendo-te passar horas e horas junto à tua
mesa de trabalho. (Com uma expressão de desaprovação) Que
horas tão longas! Oh Alfredo, não sabes quanto odiei teu trabalho!
Alfredo Allmers: Bem; pois já acabei com ele resolutamente; não
falemos mais disso.
Rita: Não; mas agora há algo pior ainda.
Alfredo Allmers: Ainda pior? Te referes ao pequeno?
Rita: Sim, me refiro ao menino! Em nossas relações ele se mani-
festa pior ainda que o livro. O menino é algo vivo, que palpita. (Com
crescente calor) Mas isso eu não suportarei, Alfredo! Te digo que
não suportarei!
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Diz mais algo:
Rita: Sofri cruelmente ao dá-lo à luz; mas suportei tudo gozosa por
teu amor.
Alfredo Allmers: Eu sei, eu sei!
Rita: Acabou-se! Quero viver contigo sem limitações! Não posso
conformar-me em ser só a mãe de Eyolf! Não posso, não quero!
Quero ser tudo para ti!
E diz uma frase que é digna de atenção: “Rita: Eu estava destinada a ser
mãe, mas não a seguir sendo mãe”.
Rita propõe a seu marido um amor possessivo. Agora, vamos ver se isso
surge sem razão ou porque há algo que a situa no mau lugar.
E Eyolf? Nos é dito que é um menino de nove anos, pálido, que anda com
uma muleta porque ficou paralítico desde que teve um acidente.
Neste primeiro ato aparece um personagem estranho, que faz limite com
a lenda: é a Mulher dos Ratos, uma versão feminina do flautista de Hamelin.
Dedica-se a tirar os ratos dos lugares onde esses pequenos animaizinhos inva-
dem a vida cotidiana. No relato clássico, o conto que vocês talvez tiveram opor-
tunidade de escutar em sua infância, O flautista de Hamelin vai com seu instru-
mento, sua flauta, com a qual seduz os ratinhos que o seguem e, desse modo,
os retira dos lugares aonde o chamam. O conto relata como em um povoado lhe
pediram ajuda e, quando tiveram de lhe pagar, se negaram. O flautista se vingou
levando, em vez dos ratos, as crianças. Daí surge a associação de Freud, ratos
= crianças. Até aí a agudeza de nosso Herr Professor. A Mulher dos Ratos diz,
fazendo sua apresentação, que está de visita na zona, pergunta se precisam de
uma ajuda; dizem-lhe que não, mas fazem-na passar. O pequeno Eyolf escuta
que ela conta como, ajudada por seu cachorrinho, que se chama Mopsemand,
que significa ratoeiro3 , um cachorrinho preto que causa desgosto, trabalham
juntos: ela os seduz com seu instrumento musical, o cachorrinho vai guiando-
os, ela sobe num barco, os ratos não podem deixar de seguir o cãozinho, que
vai nadando, vão adentrando no fiorde – penetrações do mar na terra – até que
todos os animaizinhos se afogam. A Mulher dos Ratos (Ibsen, 1966, p.41) diz
assim: “a Mulher dos Ratos: a bem da verdade, não se deveria cansar jamais de
3 No original, ratonero. Significa “caçador de ratos” e é também uma raça de cães.
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fazer bem a essas pobres criaturas odiadas e perseguidas tão duramente. Mas
chega a ser algo esgotante…” (Ibsen, 1966, p.41). Ambiguidade com que o
poeta nos descreve “essas pobres criaturas”: se refere, no manifesto, aos rati-
nhos, mas com o que a mãe de Eyolf confessou, há um desejo de morte e ódio
para com Eyolf que vem de sua própria mãe, e que o condena ao lugar de pobre
criatura.
O primeiro ato termina assim que Eyolf sai ao jardim; os adultos ficam
conversando entre si. Subitamente, chegam gritos, algo aconteceu. Um menino
se afogou. É Eyolf.
No ato seguinte duas cenas resultam terroríficas para esses pais. Houve
um tempo em que o corpo de Eyolf esteve no fundo do fiorde, na água transpa-
rente viam-se os olhos abertos. Esse olhar que persiste, dirão eles, os persegui-
rá por toda a vida. Também a muleta, flutuando na superfície. Quando averiguam
como foi que o menino morreu, descobrem que seguiu, até afogar-se, a Mulher
dos Ratos. A Mulher dos Ratos aparece como a voz da morte que conduz o
pequeno Eyolf a seu final.
Segundo ato, Eyolf já morreu. Ficamos sabendo o que antecede esse
desenlace: tinha havido um tempo no qual esses pais, segundo Rita, haviam se
amado, haviam estado juntos. Quando Eyolf era bebê ela tomou Alfredo ardente-
mente em seus braços, ele estava cuidando da criança, mas, apaixonado pelo
abraço, tiveram uma relação e ele esqueceu o bebê, que caiu da mesa e ficou
paralítico para o resto de sua vida. O poeta não necessita ler Freud ou Lacan
para reparar em quando o amor de um casal pode fazer cair, no real, o fruto da
relação. Nesse encontro amoroso, sexual desses pais, não havia lugar para um
bebê. Cai, cai no real. E fica para sempre excluído, além disso, do jogo com as
demais crianças, porque nos inteiramos de que não só caiu e a partir daí teve
que usar as muletas, mas de que, desde esse momento, o pai não podia supor-
tar vê-lo com elas. Então, condenou-o a não brincar com as demais crianças, ia
notar a diferença. Reclamou que estudasse, que estivesse sempre trancado,
lendo. Mesmo que Eyolf dissesse que no dia de amanhã queria ser um soldado,
nem mais nem menos que um soldado.
A tragédia vai subindo de tom. Alfredo, totalmente acabado, pensa em
suicidar-se. Sua mulher, desesperada. Alfredo fala com sua irmã Asta, lembra-
se de que quando eram pequenos o pai havia morrido, e em seguida a mãe de
Asta, eram meios-irmãos. Quando ficaram órfãos, ele começou a cuidar de sua
irmã e a chamava “pequeno Eyolf”. Amor fraterno. Podemos intuir que o amor
possessivo de Rita não é produto de um genoma ou de que tivesse umimpulso
natural ao amor possessivo. Ele havia lhe contado uma vez, como que de pas-
sagem, em meio a uma relação sexual, em plena intimidade, que chamava sua
irmã, quando eram pequenos, de “meu pequeno Eyolf”. Ela sabia que atrás
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desse pequeno Eyolf estava o outro, esse amor pela irmã, da qual Rita disse
“quisera que desaparecesse”. Há um ódio que se translada do ciúme a esse
amor fraterno ao ciúme e ao desejo de morte do próprio filho.
A tragédia avança no horror, quando alcança a verdade
Quando digo que estamos no tempo do pós-lacanismo, assim como an-
tes Lacan se enfrentou com o pós-freudismo, estou dizendo que estamos no
tempo em que, mais uma vez, a verdade tende a se perder. Por exemplo, diz-se
que o povo judeu é o povo escolhido. É o povo escolhido para perder sistemati-
camente a verdade. A série dos profetas é a daqueles que, uma e outra vez,
tinham que recordar-lhe a verdade que voltava a ser abandonada. Porque o des-
tino da verdade é seu esquecimento. Quando Newton desenvolve sua fórmula da
atração dos grandes corpos celestes não diz “senhores, eu venho porque estamos
em pleno pós-copernicanismo, a verdade de Copérnico se perdeu”. Porque a
ciência moderna exclui a dimensão do sujeito. Não se trata de uma verdade que
concerne ao sujeito, essa de que ninguém quer saber, que só chega quando não
há outro remédio. Quando Einstein produz sua fórmula da relatividade não diz
“venho recuperar a verdade de Newton”; abre um novo espaço onde as fórmu-
las de Newton delimitam o lugar de sua eficácia. Mas na psicanálise, que tem
a ver com a verdade, e é a verdade do sujeito, tende a ser reprimida. Cada novo
livro de psicoterapia surge porque o anterior já fracassou e precisa ser propos-
ta uma nova opção. Para quê? Para voltar novamente a velar a verdade do
inconsciente.
Leiamos como surge o horror da verdade. Rita recorda continuamente
esses olhos abertos de seu filho. Alfredo também, lhe diz “por favor, não sigas”.
Inclusive alucina a palavra “mu-le-ta”, que ficou flutuando desde que seu filho se
afogou.
Alfredo diz, lentamente, com olhar severo:
Alfredo Allmers: De hoje em diante, é forçoso que haja um muro
entre nós dois.
Rita: Por quê?
Alfredo Allmers: Quiçá nos observem dia e noite os olhos desme-
suradamente abertos de um menino (Ibsen, 1966, p.55).
Retorna do real o que havia sido expulso do simbólico. Ter um filho de
verdade instaura uma dívida, não é um bichinho de pelúcia, uma boneca.
Alfredo Allmers: Cedo ou tarde, isso havia de terminar assim, Rita.
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Rita: Que havia de terminar assim o que começou por um amor
mútuo?
E aqui começa o horror.
Alfredo Allmers: Por minha parte não foi tal desde sempre.
Rita: Então, que sentimento te inspirei…ao princípio?
Alfredo Allmers: Espanto.
Rita: Entendo. Mas como pude, pois, conquistar-te?
Alfredo Allmers (entre dentes): Com tua atração irresistível, Rita.
Rita (Lançando-lhe um olhar de incredulidade): Nada mais que por
isso, Alfredo? Nada mais?
Alfredo Allmers (com esforço): Não…, havia algo mais também.
Rita (em uma exclamação): Já adivinhei! Era minha “generosidade
a mãos cheias”, como costumavas dizer. Não é certo, Alfredo?
Alfredo Allmers: Sim.
Rita: Como pudeste…, como pudeste fazê-lo?
Alfredo Allmers: Tinha que velar por Asta (Ibsen, 1966, p. 62).
Asta, a quem quando menino chamava “pequeno Eyolf”. Freud não o per-
cebeu e Lacan não o percebeu: é a mesma história do Homem dos Ratos. A dívida
do pai, a verdadeira dívida, é que se casou com a mãe do Homem dos Ratos por
dinheiro. Em plena transferência com Freud, quando Freud aumenta os honorári-
os, o Homem dos Ratos diz a Freud “tantos ratos, tantos florins”. É seu fantasma
fundamental. Um homem dá ratos = filhos a uma mulher em troca dos florins que
recebe. É o que seu pai e sua mãe lhe transmitiram. Quando chega a Freud, e
quer suicidar-se, é porque, tendo terminado seus estudos de direito, chegou o
momento, como se diz coloquialmente, de assentar a cabeça. O que lhe diz sua
mãe? Querido, tens que te casar. Repete-se no real a história: ele ama sua prima
pobre (como seu pai amava uma namorada pobre) e a mãe e o pai, antes de
morrer, lhe dizem que tem de se casar com a prima rica. Quando o Homem dos
Ratos associa com o pequeno Eyolf, o analista faria bem em ir ler a tragédia. Está
contada a trama na qual ele está preso. Uma trama da qual o pequeno Eyolf só
pôde sair no real, com sua morte. Só lhe restava um caminho: completar o ideal
do pai e suportar o desejo de morte de sua mãe. Era um lugar invivível. O chamado
da morte que lhe é oferecido pela Mulher dos Ratos era a única liberdade que lhe
restava. As duas cenas se somam: quando ele contou a sua mulher que chamava
sua irmã de “pequeno Eyolf” com o momento em que o bebê caiu da mesa. É uma
metáfora realizada, posta no real. Eyolf cai como filho quando se revela que seu
lugar, em realidade, era o lugar de um amor fraterno incestuoso.
Temos, então, o amor narcisista desse pai que quer se igualar ao lugar do
Ideal, um filho posto como complemento desse Ideal (“será o homem cabal da
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família”), uma mulher que nisso se sente excluída do amor desse homem –
porque vamos diferenciar: no momento em que a verdade é dita, Alfredo revela
que se casou com Rita por seus bens e porque a deseja e goza com ela, mas
não porque a ama. Como diz Lacan ([1960-61] 2003), a fórmula forte do amor:
dar o que não se tem a alguém que não o é, põe em jogo a falta. Alfredo não põe
em jogo a falta, ele anela identificar-se ao lugar do Ideal, da completude. E se
não pode sê-lo, porque o livro não o logra, propõe que seu filho seja sua obra.
Percebem por que o título Variações e desventuras do amor e os ciúmes? Um
amor narcísico pode impedir o amor de um casal. O amor de um casal pode
articular-se de tal modo que não deixe lugar para o desejo de um filho. Um amor
fraterno incestuoso pode fazer obstáculo para que um homem ame uma mulher.
Variações do amor. E é chamativo, como nem Freud nem Lacan registraram,
que, além da equivalência criança = rato, o pequeno Eyolf, como o Homem dos
Ratos, fosse o filho de um intercâmbio, o que a frase “tantos ratos, tantos florins”
resume.
O final da tragédia foi discutido nos tempos de Ibsen (1966, p. 78). Asta
decide ir-se porque conta a seu irmão que descobriu uma carta que sua mãe
havia deixado. Nessa carta, que Alfredo não quer ler, ela lhe diz que há algo que
tem a ver com a história. E ele diz “eu dessa história já tive o bastante, eu tive
que me encarregar de ti porque nosso pai te tratava mal. Eu vi que ele te tratava
mal e me parecia injusto”. A história remonta à terceira geração. Asta lhe conta
que descobriu uma carta de sua mãe na qual revela que ela não é irmã de
Alfredo, que a mãe de Asta a havia concebido com outro homem. Por isso, o pai
de Alfredo, e supostamente de Asta, a odiava. Estrutura de tragédia. Até este
dado poderia se dizer de Alfredo “que porcaria de tipo”, mas não, é uma vítima.
Ele tenta reparar com sua irmã o mau tratamento do pai , mas, por sua vez,
esse homem maltrata a menininha porque evidentemente sabia que não era sua
filha. Como Ibsen é um grande dramaturgo, ninguém se salva. Cada persona-
gem não apenas tem a contradição com o outro, mas consigo mesmo. Porque
esse homem, o suposto pai, foi traído por sua mulher, casa-se com ela sendo
um homem mais velho. Temos muitas comédias – faz pouco apresentou-se Don
Pascuale, que conta as aventuras de quando um homem ancião quer desfrutar
dos encantos maritais de uma jovem dama. Mesmo sendo uma especulação
própria dos psicanalistas, que pensamos mal e acertamos, pergunto: por que
essa mulher jovem, a mãe de Asta, casou-se com um homem mais velho, a
quem depois enganou? Como diz o ditado, “bilheteira mata galã”. Não há nin-
guém inocente nessta história. Salvo o pequeno Eyolf que é, como diria nosso
amigo Lênin, o elo mais frágil da cadeia, o que paga com sua vida.
No final da obra, Alfredo, que se sentiu muito mal, mas não o suficiente
para se matar, aceita uma propostaque sua mulher lhe faz. Quando lhe diz que
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irá à montanha, à solidão, ela o convence de que poderia fazer algo melhor do
que morrer na solidão. Anuncia-lhe que vai encher a casa de meninos pobres,
os que vivem nos casebres à margem do fiorde, a quem Alfredo havia querido
matar. Ela lhe diz “mas não pensas que esses meninos não ajudaram Eyolf a
salvar-se quando caiu no fiorde porque nós nunca fizemos nada por eles?”
(p.82). Assim decidem dedicar sua vida a oferecer-lhes sua casa, os brinque-
dos de Eyolf, a fazer algo por eles. Reparação altruísta, como tentativa de
transformar a tragédia em drama? Ibsen não era tão ingênuo. O último diálogo
de Rita e Alfredo diz:
Rita: E para onde convém olhar, Alfredo?
Alfredo Allmers: Para cima.
Rita (com um gesto de conformidade): Sim, sim…, para cima.
Alfredo Allmers: Para cima…, para os cumes, para as estrelas. E
para o grande silêncio (Ibsen, 1966,p 101).
A morte está à espreita
A psicanálise propõe outra resolução. Sabemos que o Homem dos Ratos
concluiu sua análise com Freud, o que lhe serviu para liberá-lo do mandato de
seu pai e de sua mãe, cortar com a que teria sido a repetição trágica da história,
e casou-se com a prima pobre. Lamentavelmente morreu, como tantos milhares
de jovens, como soldado na Primeira Guerra Mundial. Mas é certo que pagou a
dívida simbólica. A diferença entre tragédia e drama é que o drama tem resolu-
ção, a tragédia nos propõe um destino inexorável, progride de modo inexorável
para seu fim. Uma psicanálise, se tem desenvolvimento adequado, propõe um
corte que poupa a tragédia. É a maneira de recordar o aforismo lacaniano: o que
se expulsa do simbólico, retorna no real. Eu o digo mais forte: o que se expulsa
do simbólico, retorna pior no real. Na análise do Homem dos Ratos, se não
retornou pior foi porque a análise permitiu esse corte.
REFERÊNCIAS
FREUD, Sigmund. A propósito de un caso de neurosis obsesiva: el Hombre de las
Ratas [1909]. In: ______. Obras completas. Buenos Aires : Amorrortu Editores, 1980.
Tomo X.
______. Psicopatologia de la vida cotidiana [1901]. In: _______. Obras completas.
Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1980. Tomo VI.
GRIMM, Jacob e GRIMM, Wilhelm. El flautista de Hamelin [1816/18]. Disponível em < http:/
/www.flautistico.com/articulos/el-flautista-de-hamelin-grimm>. Acesso em: 3 jan. 2009.
IBSEN, Henrik: El pequeno Eyolf [1894]. In: _________. Teatro completo . Madrid:
Ediciones Aguilar, 1966.
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Isidoro Vegh
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LACAN, Jacques. El seminario de Jacques Lacan, libro 8: la transferencia [1960-61].
Buenos Aires: Paidós, 2003.
______. Le seminarie, livre XX: Encore. Paris: Seuil, 1975.
Recebido em 11/11/2009
Aceito em 30/11/2009
Revisado por Sandra Torossian
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TEXTOS
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Resumo: O presente texto, a partir da obra Em Busca do Tempo Perdido – No
Caminho de Swann, narra o desdobramento de uma cena cotidiana que se pas-
sa numa família aristocrática. Temos como ponto-chave dessa narrativa o ciúme
que Swann experimenta em relação à Odette. A partir desse sentimento, apare-
ce o desejo e se desenrola uma relação amorosa, que os inscreve simbolica-
mente, por meio do casamento. É isso que a autora analisa, tomando o ciúme
como componente essencial e cuja trajetória finalizaria no enigma do amor e do
desejo.
Palavras-chave: ciúme, desejo, amor.
OBSERVATIONS ON A LOVE OF SWANN
Abstract: This article, based on In search of the lost time – On Swann’s way,
narrates the unfolding of a daily scene that takes place in an aristocracy family.
As key point of this narrative there is the jealousy Swann feels towards Odette.
From that feeling, comes desire and a love relationship develops, which marks
them symbolically, through marriage. That is what the author analyses, taking
jealousy as an essential component, whose trajectory would end in the enigma
of love and desire.
Keywords: jealousy, desire, love.
1 Tradução de Patrícia Chittoni Ramos Reuillard (UFRGS).
Todas as citações em português são extraídas da obra PROUST, Marcel. No caminho de Swann.
Tradução de Mario Quintana. 20. ed. São Paulo: Globo, 1999; a ela se refere a indicação das
páginas.
2 Psicanalista, Psiquiatra; Membro da Association Lacanienne Internationale (ALI).
ALGUMAS OBSERVAÇÕES
ACERCA DE UM AMOR
DE SWANN1
Martine Lerude2
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, Porto Alegre, n. 37, p. 87-101, jul./dez. 2009
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Isolado do restante da obra Em busca do tempo perdido, No caminho de Swann(Proust, 1999) poderia ser lido como um percurso amoroso que teria o ciúme
como componente essencial e cuja trajetória finalizaria no enigma do amor e do
desejo nesta frase famosa:
E com esta grosseria intermitente que lhe voltava logo que ele não
mais sofria e que rebaixava o nível de seu caráter moral, exclamou
consigo mesmo: “E dizer que estraguei anos inteiros de minha vida,
que desejei a morte, que tive o meu maior amor, por uma mulher que
não me agradava, que não era o meu tipo” (Proust, 1999, p. 365).
Tal conclusão parece deixar Swann livre para mais uma rodada, para um
novo amor. Nada disso; não se trata de um amor, mas do Amor de Swann, e a
sequência imediata de Em busca do tempo perdido nos oferece um Swann
transformado, pai de Gilberte, marido de Odette, além de toda uma parte de
À sombra das raparigas em flor dedicada à senhora Swann, a ex-mundana,
que se tornou excelente esposa, uma mulher “rodeada por sua toalete como
pelo aparato delicado e espiritualizado de uma civilização”, que fascina o
narrador.
O ciúme de Swann assume então valor bem diferente e se inscreve – eis
nossa hipótese – como um momento decisivo de ruptura, como tempo de
flutuação a partir do qual o sujeito, Swann, vai poder realizar um ato, envolver-se,
não ser mais exatamente o mesmo; ele deixará então de ser “o filho Swann”.
Para além da descrição sutil dos fenômenos, o ciúme de Swann nos
interessa:
– porque levanta a questão do casamento, isto é, a questão do ato e da
doação simbólica do nome. Esse nome, que ele não pode exaltar, e o título que
lhe falta percorrem implicitamente todo o romance.
– porque a posição de Swann em relação ao conhecimento e ao reconhe-
cimento do outro se refere ao ceticismo e permite situar a dimensão da alteridade
do outro sexo do ponto de vista masculino.
– e porque essa posição cética, inteligente, tem analogia com a neurose
obsessiva.
Como esse ciúme vem se inscrever em relação ao ceticismo?
De início, um rápido olhar sobre o romance
Seu pano de fundo é o salão da casa dos Verdurin, verdadeiro organismo
social, cujas discussões são reguladas por afirmações peremptórias e por certa
tolice.
Algumas observações...
89
Odette de Crecy é uma das raras mulheres assíduas; ali ela se beneficia
de favores e de certa promoção social. Odette é apresentada ao leitor quase
como uma mundana, uma cortesã, “sem grande inteligência e com pouca virtu-
de”. É uma mulher sustentada ou já o foi. Seu passado é vago, incerto, sua
fortuna se baseia em uma carreira sexual junto aos homens. Ela “é charmosa,
seu corpo é admirável”. Demonstra saber lidar com os homens: Proust insiste
na descrição de sua toalete, de seus enfeites e de seu estilo britânico. É a única
mulher a suportar a ortodoxia e o radicalismo dos Verdurin.
Como nesse ponto eram as mulheres mais rebeldes do que os
homens [...], foram levados a rejeitar sucessivamente todos os
“fiéis” do sexo feminino (Proust, 1999, p. 187).
Sua beleza não é do tipo que agrada a Swann:
[...] ela se afigurara a Swann não por certo sem beleza, mas de um
gênero de beleza que lhe era indiferente, que não lhe inspirava
nenhum desejo, que até lhe causava uma espécie de repulsa física
(Proust, 1999, p. 194).
É uma mulher livre, sem homens, sem família, uma espécie de duplo
feminino de Swann. Assim como ele, teve muitas relações amorosas. Swann é
um sedutor, enquanto ela conduz o jogo e procura conquistá-lo. Ele a deixa agir,
sem reagir. Mesmo não lhe agradando, Odette se inscreve progressivamente no
quadro da mulher amada e se torna objeto de uma paixãoavassaladora, por três
motivos:
– em razão de uma imagem estética; de fato, Swann reconhece nela
certos traços da Céfora de Botticelli (Roma, Capela Sistina);
– em razão da vulgaridade das palavras que acompanham Odette – “mu-
lher sustentada” – e de tudo que essa fórmula tem de mau gosto, de falso
chique, de ignorância mundana, fórmula que a coloca no oposto da imagem
estética e que acompanha seu desejo;
– e também em razão de uma imagem sonora, a da “pequena frase” da
sonata de Vinteuil que, ao longo de todo o romance, acompanha o personagem
de Odette.
Não mais apreciou o rosto de Odette segundo a melhor ou pior
qualidade de suas faces ou a suavidade puramente carnal que
lhes supunha encontrar ao contato dos lábios, se jamais ousas-
se beijá-la, mas sim como uma meada de linhas sutis e belas
90
Martine Lerude
90
que seus olhares dobravam, seguindo a curva de seu enrolamento,
ligando a cadência da nuca à efusão dos cabelos e à flexão das
pálpebras, como num retrato dela em que seu tipo se tornava
inteligível e claro. Contemplava-a: transparecia em seu rosto e
em seu corpo um fragmento do afresco, que desde então procu-
rou vislumbrar sempre que estava junto de Odette ou quando ape-
nas pensava nela, e embora certamente só se ativesse à obra-
prima porque nela encontrava a sua amada, todavia tal parecença
conferia a Odette maior beleza, tornava-a mais preciosa (Proust,
1999, p. 220).
Em um primeiro momento, Odette parece conduzir o jogo de sedução.
Ela o visita, lhe envia mensagens e ele – “contradizendo os rumores – espera”,
não reage e a deixa assumir pouco a pouco um lugar no quadro, instalar-se em
suas convicções estéticas. “Eu te peço para pedir” parece ser sua posição.
Assim, ele se apresenta como o que não é: um tímido respeitoso de uma mu-
lher, enquanto Proust o descreve como um galante que sabe forçar os favores.
Ela o corteja: “Eu nunca tenho nada que fazer! Sempre estou livre, e para você o
estarei sempre”; leva-o à casa dos Verdurin, “Nada me diverte tanto como fazer
casamentos”, diz o pintor ao recebê-los. Todo um jogo de trocas de cartas, de
visitas, de espera começa entre eles, jogo regulado por uma surpreendente
falsa moralidade (ainda que ambos sejam libertinos).
Swann é um homem refinado, mundano, reconhecido, que evolui no me-
lhor clã e que gosta das mulheres. Para conquistar uma mulher, seja duquesa
ou criada, está disposto a fazer uso de todas suas relações, desentender-se
com amigos; seu laço social é fundado nas mulheres. Ele gosta daquelas de
beleza bastante vulgar, “A profundeza, a melancolia da expressão, lhe gelavam
os sentidos, que despertavam, ao contrário, ante uma carne sadia, abundante e
rosada”.
Ainda que seu nome seja comum e não tenha nenhum título, é recebido
nos melhores salões da aristocracia. É um cético, inteligente, e seu ceticismo
se manifesta por suas tendências à denegação. Deste modo, enquanto Odette
tem a fama de não ser nem virtuosa nem inteligente, contrariando esse julga-
mento, ele a trata como uma mulher virtuosa (o que surpreende Odette e todo o
mundinho dos Verdurin) e inteligente, expondo-lhe teorias musicais. Isso não
significa que a julgue inteligente ou que a creia virtuosa, mas ele saboreia a
inversão dos julgamentos.
E se gosta do mau gosto de Odette, se não a contradiz em sua concep-
ção de elegância (como tampouco corrige seus erros), é porque considera que
o mau gosto de Odette se iguala a seu gosto refinado e que o senso de elegân-
Algumas observações...
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cia que ela tem talvez não seja mais inepto do que o seu próprio, é um cético.
Voltaremos a isso.
Tendo aliás deixado enfraquecerem as crenças intelectuais da sua
juventude, e havendo o seu cepticismo de mundano penetrado até
elas, sem que o soubesse, pensava (ou pelo menos o pensara
tanto tempo que ainda o dizia) que os objetos do nosso gosto não
possuem em si mesmos um valor absoluto, que tudo é questão de
época, de classe, tudo consiste em modas, as mais vulgares das
quais valem tanto como as que passam por mais distintas (Proust,
1999, p. 241).
O pano de fundo de seu vínculo com Odette é o discurso que anima o clã
dos Verdurin. Cada membro desse clã “tem um lugarzinho” à mesa, seu lugar.
Swann vai lá todas as noites, tarde, após ter encontrado sua amante, uma
jovem operária; sua existência é clivada, bem organizada. Ao contrário de sua
liberdade sexual respectiva, Swann e Odette percorrem um Mapa da Ternura3
regulado pelo estilo obsessivo de Swann: ele não se move, não faz um gesto,
não vai ao fim do que sugere e suscita no outro.
Assim, o simples funcionamento daquele organismo social que
era o pequeno “clã” proporcionava automaticamente a Swann en-
contros cotidianos com Odette e permitia-lhe fingir indiferença de a
ver, ou até desejo de não mais a ver, que não lhe trazia grandes riscos,
visto que embora lhe tivesse escrito durante o dia, forçosamente a
veria à noite e a conduziria até em casa (Proust, 1999, p. 222).
Odette fica perplexa e interpreta o comportamento de Swann como o de
um ser ideal e tímido.
Cá entre nós, disse a Sra. Verdurin, acho que Odette faz mal e se
porta como uma verdadeira tranca. [...] Como está sem ninguém
no momento, eu lhe disse que deveria deitar-se com Swann (Proust,
1999, p. 223).
3 Carte du Tendre: mapa de um país imaginário, na obra de Madeleine Scudéry (1607-1701),
cujos sítios simbolizam as diferentes fases dos sentimentos amorosos (N. de trad.).
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Martine Lerude
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Ela precisa apenas estar presente todas as noites na casa dos Verdurin,
no lugar e no horário determinados. Swann a seduz, demonstra-lhe seu interes-
se, mas não conclui o laço sexual, embora acene para ele, tratando-a com um
respeito que aparentemente contradiz seu desejo. Trata-se de uma estratégia?
De uma denegação obsessiva ou de uma posição cética de suspensão do julga-
mento? Insidiosamente, Odette se instala no quadro, ela é ao mesmo tempo
bela e carnal, tal como a Céfora de Botticelli, primeiro pintor das virgens e das
mulheres de carne velada.
Assim, Swann só se interessa por Odette porque ela vem ocupar um
lugar determinado, por seus traços estéticos e pela promessa de gozo que
a expressão “mulher sustentada” nele suscita. Ele não tem por ela nenhuma
curiosidade, nem outro interesse. É quando Odette vem a faltar nesse lu-
gar, que é também um lugar à mesa, que o amor e o ciúme se desencadei-
am.
O desencadeamento do amor e do ciúme é simultâneo e brutal: uma
noite, por ter se demorado com a jovem operária, Swann chega mais tarde em
casa dos Verdurin. Odette fora embora. Ela falta a seu lugar, e Proust voltará
com frequência ao momento que ele considera decisivo:
O mal se declarara na noite em que não a tinha encontrado nos
Verdurin. Talvez a essa angústia devia Swann a importância que
Odette tomara para ele (Proust, 1999, p. 231).
É por faltar ao lugar que ele lhe atribuiu, por sair da composição, indican-
do um espaço aberto e desconhecido (ele parte à sua procura em Paris), que
surge a angústia e que ele consegue enfim, ao reencontrá-la, realizar um ato, no
caso, o ato sexual – isto é, ser homem e reconhecê-la como Outro sexo, tratá-
la como mulher. Desse modo, parece que, para possuí-la sexualmente, para
concluir, ele deva necessariamente passar pela perda da imagem, pela realiza-
ção de sua ausência, pela abertura da composição.
Mais tarde, depois de Odette ter se tornado sua amante, a relação deles
prossegue de acordo com um recorte preciso do tempo, seus encontros são
sempre sustentados pelo fundo social dos Verdurin e ordenados graças às mo-
dalidades de clivagem, de defesa que Swann aplica.
Novamente, seu amor é bem regulado, ele a encontra todas as noites,
acompanha-a em casa, passa um tempo com ela, depois volta para casa após
“fazer catleia”. Swann continua sua vida mundana aparentemente sem grandes
mudanças. No entanto, gradualmente, ele faz em sua vida certo número de
cortes de ordem material, de renúncias que não lhe são solicitadas. “Ele sacri-
fica interesses intelectuais e sociais àquele prazer imaginário” (Id.,ibid., p. 232)
Algumas observações...
93
e começa a dar dinheiro a ela. De Odette, de sua pessoa, de seus interesses,
de sua vida, ele não quer saber nada:
Só ia vê-la de noite, e nada sabia do emprego do seu tempo duran-
te o dia, como nada sabia de seu passado, de modo que lhe faltava
até esse insignificante dado inicial que, permitindo-nos imaginar o
que não sabemos, nos dá desejos de o conhecer... Sorria apenas
algumas vezes ao pensar que, anos atrás, quando não a conhecia,
lhe haviam falado de uma mulher que, se bem se lembrava, devia
sem dúvida ser ela. Como de uma cortesã, uma mulher sustenta-
da...” (Proust, 1999, p. 234).
Ainda que reconheça em Odette as mulheres pintadas por Botticelli, a
ponto de dar a seu pescoço, por exemplo, a inclinação do quadro ou de cruzar
suas mãos à maneira de uma virgem, ainda que a ame de acordo com um
conhecimento estético, seu desejo está ligado a esta fórmula insistente de “mu-
lher sustentada”.
Odette realiza a imagem narcísica da dama, ao mesmo tempo que faz
surgir o caráter “fundamentalmente perverso” das mulheres sustentadas, mas é
ao preço de uma negação de sua pessoa, de sua subjetividade que ela se
inscreve tão perfeitamente na construção de Swann. “E a vida de Odette, duran-
te o resto do tempo, como ele não conhecia nada a seu respeito, lhe aparecia
com o seu fundo neutro e sem cor. ..” (Id., ibid., p. 235).
É preciso que um amigo intervenha e que lhe relate ter cruzado com
Odette para que repentinamente ele perceba “[...] que Odette possuía uma vida
que não era inteiramente dele” (Id., ibid., p. 235).
Após esse período preparatório, o ciúme explode com violência em um
momento de precipitação: em um jantar na casa dos Verdurin, Odette convida o
Conde de Forcheville, que se instala à mesa ao seu lado; honrado por Madame
Verdurin, que se arrumou com muito esmero, Forcheville ocupa junto a Odette o
lugar habitualmente atribuído a Swann. O ciúme se expressa então pela associ-
ação de duas ideias. Primeiro, uma denegação que invoca imediatamente a
ideia de casamento:
Por certo não tinha mínima veleidade de ciúmes... e quando Brichot,
começando a contar a história da mãe de Branca de Neve “que
estivera durante anos com Henrique Plantageneta antes de casar
com ele”, quis que Swann corroborasse, dizendo-lhe: “não é, Sr.
Swann?”. (Proust, 1999, p. 248).
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Martine Lerude
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O ciúme irrompe quando Odette não está mais no mesmo lugar, quando
surge um duplo, um semelhante (Forcheville e Swann frequentam o mesmo
mundo), mas semelhante com nome, com título.
De repente, a vida de Odette se mostra a ele com tudo o que tem de
desconhecido, como uma possibilidade infinita de gozos outros, sem ele, com
Forcheville, com outros homens – primeiro, todos os homens, depois, as mulhe-
res, ou seja, como um lugar inapreensível em que gozos fora de seu conheci-
mento, de seu alcance, de seu próprio imaginário se encadeariam infinitamente.
Ela não é “inteiramente dele”, assim como a sonata de Vinteuil, da qual ele
apreende apenas um fragmento, “a pequena frase”. E o ciúme consiste em um
esgotamento da equivocidade da língua, dos fenômenos: tudo é signo, cada
palavra, cada situação indica que Odette está em outro lugar, com um outro, em
outro gozo, que ele ignora, do qual é privado, amputado. No fundo, a vida de
Odette não lhe é mais desconhecida agora do que antes, mas é um “Desconhe-
cido” reconhecido como tal, que é preciso então preencher infinitamente. A ver-
dade se torna sua paixão, diz Proust, mas de que verdade se trata? Verdade da
distribuição do tempo? Verdade sobre o gozo? Ela goza? E com que goza? São
as perguntas masculinas usuais.
Imaginando Odette nos braços de outros homens, ele tenta desespera-
damente trazê-la de volta para a composição da qual ela escapa, tenta manter
una sua imagem narcísica de virgem e de puta, sem espaço desconhecido,
Outro. Podemos entender essa paixão pela verdade como a questão impossível
sobre o gozo feminino e como o esforço infinito para que ela permaneça essa
mulher, conforme a imagem narcísica ideal que a aliena.
E, para garantir essa imagem total, ele paga com joias, com dinheiro.
Não há nem troca, nem doação, mas um pagamento que jamais é suficiente.
O amor de Swann parece ser essencialmente um amor ciumento. E Proust
descreve perfeitamente o tecido de signos no qual o sujeito se debate. Ou o
mundo é desinvestido, inexistente, ou ele não deixa de falar do outro. O apaixo-
nado, o ciumento não é mais o mesmo; ele é submetido a uma espécie de
loucura que o exclui do senso comum. Homens e mulheres podem se reconhe-
cer no ciúme de Swann, no desvio de sentidos que ele cria, no túnel em que o
sujeito entra e no qual coloca seu ser à prova. Verdadeiro esgotamento do ser, o
ciúme só interessa pelas saídas que levar o sujeito a encontrar. Entretanto, o
ciúme não parece ter valor de experiência. Para Swann, ele constitui um verda-
deiro “fanatismo”, fanatismo privado, individual, suscitado pela dimensão intole-
rável da alteridade de sua parceira, que lhe lembra sua própria divisão.
Ele instala Odette em um lugar que organiza seu pensamento, suas in-
terpretações, sua língua. Ela é colocada no lugar do Outro enquanto desconhe-
cido, no lugar do gozo, do qual nada se sabe, no lugar da verdade impossível. É
Algumas observações...
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sua imagem de “virgem-mulher sustentada” que, tal como uma nova metáfora,
regula agora as relações de Swann com o mundo. Ela é tudo o que ele não é, e
ele, em oposição, se apequena, fenece. Swann paga em dinheiro, em joias, em
oferendas, faz dela uma mulher sustentada (ele a humilha, saberemos mais
tarde) e nada ouve de sua demanda.
E aquela voluptuosidade de estar enamorado, de só viver de amor,
de cuja realidade outrora duvidava, o preço que em suma lhe custa-
va, como diletante de sensações imateriais, vinha ainda aumentar-
lhe o valor... (Proust, 1999, p. 260).
Swann dá, mas sem fazer nenhuma doação. A dialética da troca está
agora suspensa, porque não é isso e porque seu ciúme é uma verdadeira nega-
ção da alteridade, isto é, da divisão subjetiva (a sua própria, a de Odette). As-
sim, ele dá sem dar verdadeiramente nada que o comprometa e é o dinheiro de
seu pai que, no fundo, ele redistribui.
Então, de súbito, indagou se aquilo não seria precisamente
“sustentá-la” (como se, de fato, essa noção de sustentar se pu-
desse inferir, não de elementos misteriosos ou perversos, mas
pertencentes ao fundo cotidiano e privado de sua vida, tal como
aquela nota de mil francos, doméstica e familiar...) e se não se
poderia aplicar a Odette, desde que a conhecia, aquela designa-
ção de “mulher sustentada” que julgara tão incompatível com Odette
(Proust, 1999, p. 261).
Quando surge a ideia do casamento, ela é imediatamente rejeitada.
Ah! Se o destino houvesse permitido que Odette e ele não tives-
sem mais que uma só morada, que Swann, estando em sua casa,
estivesse também em casa dela... e se o seu dever de bom espo-
so o obrigasse... (Proust, 1999, p. 289).
Logo abandona essa hipótese, temendo perder seu mal, sem o qual ele
não seria mais nada.
Ao longo de todo o texto, o ciúme de Swann se encontra relacionado a
dois termos: a inteligência e o conhecimento. Enquanto Swann é descrito como
um homem inteligente, Odette é apresentada como uma “famosa tranca, sem
grande inteligência”. Proust propõe um paradoxo: é Swann, o homem inteligen-
te, que vai se alienar em uma tolice incompreensível para os outros (“O quê? Por
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Martine Lerude
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essa mulher, que nem mesmo é inteligente?”, dizem os comentários), ao passo
que Odette tem a inteligência da neurose de seu parceiro e sabe utilizar seu
sintoma.
Os significantes conhecimento e reconhecimento balizam o texto. A
inteligência e o conhecimento constituem os fundamentos do ceticismo de
Swann. Para Proust, como para Montaigne, a dúvida é a inteligência, é a
recusa do dogmatismo. O ciúme, ao contrário, efetua uma verdadeira inversão
dessa posição: ele constitui uma verdadeira humilhação da inteligência, uma
recusa em reconhecer o outro,ele enceta um processo de interpretação
dogmática do outro. O ceticismo inteligente cede o lugar a um fanatismo indi-
vidual bestificante.
Um pequeno desvio pela questão do ceticismo
Skepis significa exame, em grego. O uso da palavra ceticismo sofreu
inúmeros contrassensos (em filosofia) e seu sentido habitual designa uma atitu-
de negativa do pensamento, uma mente hesitante, incapaz de se pronunciar
sobre algo; é um erro comum tomar o ceticismo por uma posição de recusa, de
retraimento. O filósofo cético não se permitiria nenhuma posição radical, inclusi-
ve dizer “sei que nada sei”.
Seu fundador, que não deixou textos, é Pirro de Élida (fim do século IV
a.C.). A filosofia cética é conhecida graças aos historiadores gregos Diógenes
Laércio (século II a. C.) e Sexto Empírico, que Montaigne leu e traduziu, e,
evidentemente, graças aos historiadores latinos Cícero e Aulus Gellius.
Diógenes Laércio e Sexto Empírico estabelecem distinção muito estrita entre
os acadêmicos que sustentam a impossibilidade de nada conhecer (Cícero
defende essa ideia) e os céticos, tais como Pirro, que tomam a vida e a expe-
riência como critérios de sua conduta e para quem o conhecimento é relati-
vo.
Os acadêmicos são a fonte daqueles que, como Sêneca, Santo Agosti-
nho, Hume, Kant ou Hegel, apresentam o ceticismo antigo como um niilismo
radical, que leva à indiferença e à inação. Em contrapartida, para Sexto Empírico
ou Diógenes Laércio, o ceticismo é uma filosofia do conhecimento e da experi-
ência. Os céticos são então pesquisadores que praticam a suspensão do julga-
mento (epoché), o relativismo. São filósofos do inconveniente, da solução não
encontrada. Eles não recusam a ciência e o saber, são, ao contrário, solidários
do desenvolvimento da física da percepção. Eles têm o conhecimento dos fenô-
menos (o conhecimento do real), mas este permanece relativo ao observador, à
época, à sua cultura, isto é, parcial, incompleto, sempre marcado por uma di-
mensão desconhecida. A dialética é o instrumento de uma terapêutica destina-
Algumas observações...
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da a dividir a alma em duas partes (o lugar da alma em que se exerce a dúvida
é a memória), isto é, a impedir o juízo de dogmatizar, confiando nos sentidos
(sensações), ou na vida, na experiência. Para o cético grego, o conhecimento é
relativo, subjetivo, diríamos. Os fenômenos jamais são apreendidos senão par-
cialmente, não há conhecimento total universal, mas um real opaco, desconhe-
cido. Mesmo que o conhecimento progrida, mesmo que o conhecimento permi-
ta vencer o real, sempre subsiste o desconhecido.
O modelo cético de Montaigne, que Proust conhecia, é estritamente
pirrônico. Sua convicção é aquela do relativismo universal. Ele está intimamente
persuadido de que o sujeito é incapaz de ultrapassar a singularidade de suas
impressões, de seus sentidos e de sua imaginação para alcançar um conhe-
cimento universalmente válido. O conhecimento é limitado, relativo, depende
de sua posição e não pode valer para todos. Montaigne jamais praticou o
desespero acadêmico, mas “ele foi pirrônico de ponta a ponta”, ao julgar que a
honestidade o forçava a falar de maneira singular como ele via o mundo através
de si mesmo, ao invés de adotar um ponto de vista universal definitivo e
dogmático sobre o mundo. Por essa razão, declara ser ele mesmo a matéria
de seu livro, ou seja, que todo conhecimento é relativo a um sujeito, a senti-
dos, a uma imaginação particular, o que em termos lacanianos poderia ser
expresso por: não há outra realidade além da realidade psíquica, aquela recor-
tada pela fantasia.
O ceticismo de Swann, de Proust, filia-se a Montaigne. A pouca inteligên-
cia de Odette se iguala à inteligência de Swann. O mau gosto de Odette se
iguala ao gosto sutil de Swann. Sua ideia de chique talvez seja tão verdadeira
quanto a de Swann.
Observemos que o ceticismo antigo exalta o espírito de tolerância (e
Sexto Empírico foi traduzido para o francês no início do século XVII com essa
preocupação) e que a relatividade faz parte de nosso saber científico. Einstein e
Heisenberg revigoraram o relativismo de Pirro.
Deve-se a Santo Agostinho o contrassenso absoluto no nível do ceticis-
mo. De fato, ele inaugura a dúvida vivenciada. Não se trata mais de separar em
duas partes as funções da alma. A unidade do espírito humano confere à dúvida
a dimensão total de um desespero integral, e a dúvida se torna então a experiên-
cia crucial no percurso cristão: é um momento de negação que transforma o
saber humano em certeza fundada na fé em Deus. Para Pascal, o ceticismo
tem função apologética: humilhar a inteligência, rebaixar o saber humano, mani-
festar a miséria do entendimento abandonado por Deus. Assim, a busca cética
deixa de ser, com os pensadores cristãos, a busca zetética dos meios de sus-
pensão do julgamento e se torna o momento de busca de uma verdade que não
se possui ainda e que a ciência não pode possuir. Dá-se então um deslizamento
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do sentido grego da busca cética para o sentido cristão de uma busca da verda-
de, una, integral, a de Deus. O ceticismo grego acabou se desviando, de certo
modo, para uma espécie de dogmatismo, até mesmo de fanatismo cristão, que
visava a estabelecer Deus como termo último do conhecimento.
Voltando a Swann
Proust o descreve várias vezes como um cético (Id., ibid., p. 215, 250,
353). Ele suspende seu juízo, aprecia a denegação, sabe que o juízo é relativo
à imaginação, ao lugar social, à língua, às tradições, à cultura a que se perten-
ce. É inteligente, mas o ciúme vem inverter essa posição, ele se torna desespe-
rado, embrutecido, com uma ideia fixa, em busca de uma falsa verdade, engajado
em uma verdadeira negação do conhecimento, do reconhecimento do outro e do
desconhecido irredutível que o constitui. Protege-se da alteridade de sua parcei-
ra, que nada mais é do que a expressão de sua própria divisão. Odette, em
compensação, entende seu parceiro, sua neurose obsessiva, sua clivagem, sua
distância. Distanciando-se, ela sabe se apegar a Swann de maneira bem mais
radical do que com todas suas coqueterias. Desse modo, o ciúme, ao contrário
da dúvida inteligente, instala um fanatismo individual privado. Qual é portanto
sua função?
Antes de conhecer Odette, “Swann gozava da companhia de mulheres
cada vez mais grosseiras, a sedução de obras mais e mais refinadas...”(Id.,
ibid., p. 241).
Odette alia o objeto obsceno do desejo à estética da pintura antiga. Ela
carrega em si – sem o saber – uma representação da clivagem de Swann. O
ciúme corresponderia então ao momento em que é identificada ao objeto causa
do desejo, ao passo que, no amor, ela se confundiria com a imagem perfeita de
mulher de Botticelli. Mas talvez as coisas não sejam tão simples.
Pode-se pensar que Swann instala Odette em posição de ídolo e que, ao
mesmo tempo, ela se torna uma figura da morte, de sua destruição. Com seu
ciúme, ele tenta desesperadamente manter a unidade dessa imagem da mulher
Toda (virgem e puta) que organiza seu pensamento de ciumento. O que Swann
recusa, nega, graças ao processo do ciúme, é que Odette possa ser uma mu-
lher que não seja inteiramente apreensível.
Abrindo o quadro da fantasia de Swann, Odette designa um outro lugar, um
além da fantasia desconhecida do sujeito, lugar de um outro gozo que ele supõe,
mas que a linguagem é insuficiente para dizer. Odette presentifica esse desco-
nhecido para além da linguagem, para além do conhecimento de si mesmo e da
imagem narcísica. Colocada no lugar do Outro, ela designa um real impossível de
dizer, isto é, esse gozo desconhecido que o sujeito Swann submete à dúvida. A
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dúvida em ação no ciúme masculino pode ser entendida como uma dúvida que
incide sobre o gozo feminino. Onde o reconhecimento de Deus suspendia a dúvi-
da e a delimitava, uma mulher colocada nesse lugar não pode senão relançá-la
infinitamente, a menos que seja trazida, reconduzida para a ordem simbólica
organizada pelo falo, graças ao casamento, por exemplo, ou por uma outra doa-ção simbólica de seu parceiro, que lhe garanta enfim um reconhecimento.
A metáfora da sonata de Vinteuil é uma ilustração disso. Swann conhece
somente um fragmento dessa sonata, a “pequena frase” (que cabe em 5 notas).
Infinitamente repetida, tocada pelo pianista, depois por Odette, ela provoca o
mesmo prazer, o mesmo gosto conhecido (Id., ibid., p. 338-339).
Quando ele escutar mais tarde toda a sonata, descobrirá fragmentos no-
vos, sonoridades insuspeitas, sem nunca conseguir “possuí-la inteira”. A sonata
é a metáfora de Odette; nela, como em Odette, ele encontra – para além do
fragmento conhecido cujos efeitos antecipa – o desconhecido, o não-todo, ou
seja, a dimensão inconsciente de seu desejo, aquele mesmo do qual se defen-
de pela denegação famosa “ela nem mesmo é meu tipo.”
Dando-lhe dinheiro, joias, ele lhe oferece tudo salvo o que ela espera, isto
é, uma aliança, um nome. Ela pede uma doação simbólica, um reconhecimento
diferente daquele de “mulher sustentada”, mas em troca recebe presentes ape-
nas. Mesmo não sendo muito inteligente, ela tem um saber sobre o outro sexo,
sobre os homens: sabe exaltar o objeto sexual (cf. a cena de sedução em seu
salão, as flores, o penhoar que desliza, os braços desnudos) e, com Swann, ela
sabe encontrar outras soluções. Com suas ausências e suas viagens, ela dese-
nha territórios desconhecidos onde se precipita o imaginário de Swann, seu
ciúme; ciúme que levará finalmente ao casamento.
Ela sabe finalmente fazer com que ele a despose. Também sabe se
posicionar como sua mulher, por exemplo, apontando seu retraimento, o reco-
lhimento de sua subjetividade em seu estudo sobre Vermeer. E o ciúme de
Swann se resolve por meio de um sonho (o sonho de Napoleão III, que parte com
Odette), sonho que faz surgir uma imagem paterna narcísica em relação àquela
da dama. A posição cética de Swann não deixa de ter relação com a neurose
obsessiva sobre os pontos seguintes. De fato, se o obsessivo “sofre por dever
colocar em discussão todas suas referências, todos seus conhecimentos ad-
quiridos e, portanto, por não poder se fiar em nada nem ninguém ao mesmo
tempo” (Melman), para o cético isso é, ao contrário, um imperativo ético e não
um sofrimento. A dúvida cética não é um sintoma, não é nem forçada nem
imposta, faz parte da dialética filosófica de seu conhecimento do mundo.
Em contrapartida, a neurose obsessiva de Swann parece poder ser
identificada em sua relação com o tempo e com o imobilismo (sua divisa parece
ser de que tudo permanece no mesmo lugar) e sobretudo em sua preocupação
100
Martine Lerude
100
de evitar concluir (o ciúme parecendo constituir seu paroxismo), de evitar reali-
zar um ato, de pôr um ponto final (por mais provisório que seja). Todos os esfor-
ços de Swann – ciúme inclusive – consistem em evitar um tipo de conclusão, de
comprometimento. É necessária uma situação de surpresa, de pressa, para
que ele realize um ato. O ciúme fracassa na medida em que o sujeito não
consegue, apesar desse processo, evitar dizer sim – ou dizer não. Mesmo que
ele ganhe tempo, essa política de retraimentos sucessivos, de despojamento
do ser, leva-o necessariamente a se retirar do jogo com o outro, ou a encontrar
saídas, e então uma doação simbólica é necessária, tal como o casamento, a
fim de restabelecer a dialética. As ofertas diversas que substituem essa doação
simbólica que ele recusa a Odette não fazem senão aumentar seu tormento e
suas preocupações libidinais.
Conclusão
Que o ciúme possa constituir um tempo para compreender (tempo de
loucura, em que a língua perde sua equivocidade, em que o mundo é desinvestido),
um tempo necessário para realizar um ato, para reconhecer a negação que está
em jogo (negação de seu desejo, negação da alteridade, negação de sua pró-
pria divisão) para chegar ao termo do que se passou com o outro sexo, conclu-
são que pode ser um fim, o final de um laço, ou um casamento (o casamento
significando o comprometimento simbólico do sujeito, e não forçosamente o juiz
de paz), é com certeza a leitura que propomos desse texto.
No fundo, o ciúme pode ser o caminho paradoxalmente cego e necessá-
rio de um reconhecimento do desejo inconsciente que nos conduz e do amor, na
medida em que ele se dirige àquilo que, do outro, desconhecemos e nos esca-
pa, e que visa um além da imagem narcísica, isto é, a dimensão inconsciente
do outro.
No fundo, Swann passa de “eu te amo por este objeto inominável que tu
escondes sob teu belo adorno ou atrás de tua bela imagem de virgem de Botticelli,
pelo qual pago com dinheiro e múltiplos presentes a um eu te amo por esse
gozo que não me pertence, do qual nada sei, e te dou meu nome”.
Reconhecer que não se pode saber com o que goza o outro, mas que se
pode ouvir e responder a seu desejo por uma doação simbólica, talvez seja este
o ponto a que pode levar o caminho tortuoso do ciúme. Reconhecer o outro
como sujeito de uma falta, de um desejo, de uma divisão, e não mais como bela
imagem, adorno soberbo que cerca o objeto a (o que destina ou à idolatria ou ao
lixo), não se dá sem danos. O ciúme pode ser então como a passagem obriga-
tória que permite se inscrever com o parceiro em uma dialética interessante
inventiva e não somente no fechamento narcísico e mortal.
Algumas observações...
101
Talvez seja necessário que o obsessivo perca a mulher ideal para poder
encontrar uma mulher e talvez seja isso que está em jogo nesse tempo de
suspensão e de alternância que o ciúme testemunha.
REFERÊNCIAS
MELMAN, Charles. Le scepticisme et le phenomena. Paris: J.P. Dupont, 1972.
PROUST, Marcel. A la recherche du temps perdu. Paris: Bibliothèque de la Pléiade,
Gallimard, 1954. Tome I. [Ed. bras.: PROUST, Marcel. No caminho de Swann. Tradu-
ção de Mario Quintana. 20. ed. São Paulo: Globo, 1999].
Recebido em 07/08/2009
Aceito em 20/09/2009
Revisado por Gláucia Escalier Braga e Valéria Rilho
102
TEXTOS
102
Resumo: O presente artigo discute a relação das fratrias e a irrupção do ciúme
entre os irmãos, como elemento sintomático frente à demanda materna de tota-
lidade, especificamente entre gêmeos. Para tanto, utiliza a obra de Milton
Hatoum, Dois irmãos, como ilustração dessa questão.
Palavras-chave: demanda, ciúmes, fratrias, rivalidade, gêmeos.
BROTHERS
Abstract: This article discusses the relationship of brotherhood and the irruption
of jealousy among brothers as a symptomatic element in response to the mother´s
demand of totality, specifically among twins. The article takes the work of Milton
Hatoum, The brothers, as an illustration of this issue.
Keywords: demand, jealousy, brotherhood, rivalry, twins.
SER O MANO!
Otávio Augusto Winck Nunes1
1 Psicanalista; Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre; Mestre em Psicologia do
Desenvolvimento/UFRGS; Mestre em Psicopatologia e Psicanálise – Universidade Paris 7. E-mail:
otaviown@terra.com.br
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, Porto Alegre, n. 37, p. 102-111, jul./dez. 2009
Ser o mano!
103
[...] Nem parece o homem
que eu conheci, é como se
fossem duas pessoas,
Ninguém é uma só pessoa, tu,
caim, és também abel, [...].
José Saramago
Otema das fratrias é sempre atual. E dentre as questões emergentes sobreas fratrias, a do ciúme tem, sem dúvida, lugar privilegiado Não houve tempo
em que o desdobramento dessa temática não estivesse presente no interior das
discussões familiares, sociais, religiosas ou políticas. Basta lembrar os primei-
ros irmãos de que se tem notícia: Caim e Abel, filhos de Adão e Eva. Passagem
evocada pelo mais recente romance de Saramago (2009). De maneira mais
ampla, a discussão sobre as fratrias passa pelos ideais da Revolução France-
sa: Igualdade, Liberdade e Fraternidade. Pelos “irmãos” e pelas “irmãs”, tanto
das congregações religiosas quanto da maçonaria. Até os atuais “mano” ou
“brothers (“brô”) das tribos e, mesmo, no interior de muitas organizações comer-
ciais, como se todos pertencessem à mesma família2 .
Na psicanálise não seria diferente. Talvez, não ainda em toda a complexi-
dade teórica que o tema comporta,mas sem dúvida, muitas associações livres
sobre o divã giram em torno dessa caudalosa temática.
Freud ocupou-se do tema das fratrias em diversos textos, de maneiras
distintas. Em Sobre as teorias sexuais infantis, texto de 1908, Freud ([1908]
1976) indicava que o conhecimento adquirido em relação à diferença3 sexual,
inicialmente, passava pelos pais, e poderia acontecer junto aos irmãos. Totem e
tabu (Freud, [1912-13] 1976) talvez seja o texto mais contundente a respeito da
complexidade que a relação das fratrias apresenta na psicanálise. É para as-
sassinar o pai, o momento em que os irmãos se reúnem para formar uma nova
unidade, rebelando-se contra a autoridade paterna – única –, resultando numa
nova forma de relação com o estabelecimento da lei.
Por sua vez, no texto de Freud ([1922] 1976), Alguns mecanismos neuró-
ticos no ciúme, na paranoia e no homossexualismo, encontramos a indicação
precisa a respeito dos processos psíquicos que estão envolvidos na questão
2 O recente blockbuster Avatar, de James Cameron (2009), começa pela substituição, na missão
espacial, de um irmão gêmeo morto, pelo outro, vivo. Sem falar da atual novela da rede Globo,
Viver a vida, de Manoel Carlos (2009-2010), em que a substituição de um irmão gêmeo, pelo
outro, ocorre no campo amoroso. E ainda o Big Brother...
3 A esse respeito, ver o livro A função fraterna, Maria Rita Kehl (org.), Relume Dumará, 2000.
104
Otávio Augusto Winck Nunes
104
das fratrias, em sua imbricação com o ciúme. Segundo Freud, os ciúmes divi-
dem-se em três camadas: o normal ou competitivo, o projetivo e o delirante.
No ciúme normal ou competitivo, o que está em jogo é a própria constitui-
ção subjetiva. Ou seja, o ciúme aparece tanto pela sua origem no complexo de
Édipo, quanto pela relação entre irmãos. Então, na perspectiva da normalidade
postulada por Freud, ninguém escaparia da experiência desse “estado emocio-
nal como o luto que pode ser descrito como normal” (Freud, [1922] 1976, p.
271); antes de qualquer derivação, o ciúme é constituinte do sujeito, e sua
origem está no mecanismo psíquico por excelência da neurose, o recalque. O
recalque, quando opera na produção da neurose, não extingue o conflito psíqui-
co. Ele, apenas, faz com que a expressão do conflito apareça com outra confi-
guração. Então, o recalque, produzido a partir do complexo de Édipo, age sobre
o ciúme, mas não é capaz de acabar com ele. Ele retorna sob diferentes mati-
zes, indo da sua negação (os mais ciumentos, diria Freud) até os mais violen-
tos, como vemos em situações-limite, agressão, sequestro e assassinato de
parceiros amorosos.
Inicialmente, a origem do ciúme era vista a partir da rivalidade presente na
relação vertical entre pais e filhos, em que a disputa pelo amor de um dos genitores
seria a matriz, tendo como objeto de amor privilegiado a mãe, o que desencadeia
no filho o ódio pelo seu opositor, o pai. Mas, fez-se necessário pensar, ainda, o
que acontece na horizontalidade das relações fraternas, fato que não passou
despercebido por Freud. Nesse mesmo texto, ele evidencia que a rivalidade exis-
tente entre os irmãos pelo amor dos pais é, também, própria ao ciúme.
Dessa forma, no ciúme encontramos a estrutura triangular como caracte-
rística privilegiada desse afeto. Por seu turno, a inveja, que muitas vezes pode
ser confundida com o ciúme, apresenta estrutura dual, marcada, no mais das
vezes, pela disputa e pela posse de um objeto. Aliás, tanto um quanto o outro,
o último um dos sete pecados capitais, são alvos constantes de críticas pela
presença permanente nas relações amorosas.
Aqui vale a recorrência a um texto de Santo Agostinho (1996), que viveu
no século III, na sua obra Confissões, livro I, A infância, pois retrata de maneira
exemplar o que, posteriormente, começamos a entender a partir da psicanálise.
Assim, a debilidade dos membros infantis é inocente, mas não a
alma das crianças. Vi e observei uma, cheia de ciúme4 , que ainda
4 As traduções dessa obra não são unânimes, podem-se encontrar tanto ciúmes quanto inveja,
nessa passagem, que embora não sejam a mesma coisa, apresentam certa proximidade. Refor-
çada inclusive pela origem etimológica da palavra. A referida passagem faz parte de Prognósti-
cos de vícios , justamente antes de Como aprendi a falar, capítulo que segue suas Confissões.
Ser o mano!
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não falava e já olhava, pálida de rosto colérico para o irmãozito
colaço. Quem não é testemunha do que eu afirmo? Diz-se até que
as mães e as amas procuram esconjurar esse defeito, não sei
com que práticas supersticiosas. Mas, enfim, será inocente a cri-
ança quando não tolera junto de si, na mesma fonte fecunda do
leite, o companheiro destituído de auxílio e só com esse alimento
para sustentar a vida? Indulgentemente se permitem estas más
inclinações, não porque sejam ninharias sem importância, mas
porque hão de desaparecer com o andar dos anos. É este o único
motivo, pois essas paixões não se podem de boa mente sofrer,
quando se encontram numa pessoa mais idosa (Santo Agostinho,
1996, p.45).
Essa passagem é prototípica da experiência do ciúme. Os trabalhos que
tratam do tema fazem sistematicamente referência a ela. E é, justamente, a
partir dela que Jacques Lacan dá um passo a mais na sua releitura da obra
freudiana, pois Lacan acrescenta a conhecida rivalidade, a identificação mental,
com o irmão, como elemento constituinte da subjetividade.
A imagem do objeto perdido para aquele, o irmão, que goza, em seu
lugar, do corpo materno, como se o lugar fosse seu, é impactante. Como não
odiar esse outro, que pode ser visto como o desdobramento de si mesmo? Será
essa visão – mesmo mítica – condensadora e aprisionante das relações frater-
nas? Enfim, o gozo do olhar é privilegiado no ciúme? Seja pelas evidências que
o ciumento encontra como prova cabal da traição sexual ou privilégio amoroso,
tanto em seu aspecto real quanto imaginário?
Vemos coincidir na afirmação de Santo Agostinho um dos momentos
cruciais da constituição subjetiva, o estágio do espelho. Qual é o principal enfoque
dado por Lacan nesse momento? Que, frente à imaturidade biológica, haja uma
operação psíquica que se antecipa ao motor. Se lermos que a alma, apontada
por S. Agostinho, é o equivalente ao conceito de eu proposto pela psicanálise,
vemos que há uma coincidência, a alma ou o eu seriam capazes de, apesar da
debilidade dos membros físicos da criança, depositar no olhar toda a carga
emocional que a experiência da amamentação do rival desperta.
Lacan ([1938] 2003), no texto Os complexos familiares, utiliza a passa-
gem acima para ilustrar a experiência do ciúme, em seu estado embrionário.
Nele, Lacan, retomando Freud, apresenta a instituição familiar como o núcleo de
toda a construção subjetiva. Divide o texto em três partes, que dizem respeito à
relação entre o sujeito e a família. O momento inicial é o complexo de desmame,
o segundo, o complexo de intrusão, e a seguir o complexo de Édipo. Ou seja,
apresenta o mais básico da intricada experiência humana para a psicanálise.
106
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Mas, para o que interessa aqui discutir, irei me deter no segundo momen-
to, no complexo de intrusão, o recorte que me parece necessário para
problematizar a questão do ciúme entre irmãos, especificamente, de gêmeos5 .
Lacan pergunta-se, ao final do complexo de intrusão, se a fórmula que ele apre-
senta seria confirmada pelo estudo de gêmeos6 , mas, afinal, de que intrusão se
trataria nos casos de gemelaridade? Na medida em que o tempo, em toda a sua
extensão, em que se dá a intrusão é aparentemente suprimido ou suspenso?
Referimo-nos, normalmente, a gêmeos quando se fala de crianças nasci-
das no mesmo parto, o que poderia aparentar ser um nascimento no mesmo
tempo, mas não é precisamente isso que ocorre. Então, como acontece em
outras fratrias, estabelece-se uma série, o que nasceu primeiro e o que nasceu
após; o primeiro e o segundo, ou o primeiro e o último, o primogênito e o caçula.
Enfim, a linguagem bem que tenta recobrir a ordem que anatureza propõe aos
humanos, e nessa tentativa acaba produzindo seus efeitos. O que poderia ser
tomado como igual, desde o início já se mostra diferente.
Inventariando o imaginário familiar, não é difícil encontrar a ideia de que,
naquelas famílias em que existam irmãos, particularmente gêmeos, incida so-
bre eles a expectativa de que sejam amigos/companheiros/camaradas. Ou ain-
da, muito frequentemente, complementares. Mais especificamente, a cultura
familiar invariavelmente espera que os irmãos tenham uma relação marcada
pela ausência de conflito, pela ausência de rivalidade, por vezes pela ausência
de diferenças, por uma identificação completa. Pois bem, essa não parece ser
a característica das relações fraternas, pelo menos de um bom número delas.
Mas, o que será que acontece nas relações fraternas em que a consanguinidade
não assegura a esperada união? As respostas às demandas de apaziguamento
ainda podem se tornar as relações fraternas mais belicosas?
Atribui-se a consanguinidade como sendo um dos limites reais aos quais
é preciso deparar-se na família. Por outro lado, o nome de família poderia servir
como o grande “guarda-chuva” que acoberta as divergências existentes no inte-
rior das mesmas, privilegiando a filiação. O problema é que nem um nem outro
conseguem garantir a inexistência de diferenças brutais nas relações humanas,
pois elas precisam de uma costura que garanta a manutenção dos laços, permi-
5 A etimologia latina da palavra gêmeo remete a duplo, dobrado, duplicado.
6 A ciência, em geral, deposita no estudo de gêmeos expectativas muito grandes em relação à
confirmação de hipóteses, pois não são poucos os protocolos científicos que se utilizam de
estudos com gêmeos, em especial, univitelinos, por causa da carga genética idêntica, o que
pareceria esclarecer muitas questões.
Ser o mano!
107
tindo a aproximação, sem fusão, e o afastamento sem ruptura. Ou seja, os
registros do real, simbólico e imaginário exercem suas funções sem que ocorra
o predomínio de um sobre o outro.
Então, é no interior da cultura familiar que encontraremos os elementos
que poderão fornecer algumas pistas para elucidar algumas dessas questões
que aparecem com bastante frequência na clínica, e que não é matéria vencida
em outros âmbitos.
Assim, gostaria de propor uma apreciação sobre o tema a partir de um
recorte literário. O texto é o já clássico romance Dois irmãos, de Milton Hatoum,
editado em 2000. Texto e autor que ganharam inúmeros prêmios, tal a pertinência
e apropriação que a leitura do romance suscita.
Na introdução do livro, poder-se-ia dizer o seu ponto zero, a questão que
centraliza o romance. Zana, mãe dos gêmeos Yaqub (o primogênito) e de Omar
(o caçula), está no leito de morte, agonizando, e enuncia em árabe (sua língua
materna) a pergunta: “Meus filhos já fizeram as pazes?7 ” (Hatoum, p. 10). A
resposta é o silêncio. A passagem é contundente.
A partir dessa introdução, o romance passa a ser dividido em capítulos.
Em cada um deles é remontada toda a história dessa família, de origem libane-
sa, estabelecida em Manaus, composta por Zana e Halim, os pais; Omar, Yaqub
e Rânia, os filhos; além dos agregados. O narrador do livro é filho de um dos dois
irmãos: Yaqub ou Omar, com a empregada da família, Domingas, na verdade,
para Zana, “eu (referindo-se ao narrador da história) só existia como rastro dos
filhos dela” (Hatoum, p. 28). A dúvida quanto à paternidade é um enigma que não
se resolve. Filho de um ou do outro, dos dois?
Essa dúvida atualiza, na vida adulta, a triangulação (os gêmeos com
Domingas), característica das relações de amor experimentadas ao longo da
vida dos gêmeos com as mulheres. A grosso modo, personificada na infância
entre os gêmeos e a mãe, Zana; na tenra juventude entre os gêmeos e Lívia,
paixão de adolescência. Ou seja, a repetição situa-se entre os dois, horizontal-
mente, e uma mulher.
 Ou seja, o engate da demanda de amor frente às mulheres parece situar-
se sempre no registro da totalidade. Os dois amam ou são amados ao mesmo
tempo.
7 A conhecida rivalidade entre árabes não é exclusividade desse povo, talvez só acentue e
evidencie o que ocorre entre os laços fraternos, como dissemos inicialmente no aspecto político,
social ou religioso.
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Otávio Augusto Winck Nunes
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O desenrolar da história dessa família apresenta, em diversas situações,
a questão da rivalidade, que é uma das mais frequentes experiências entre
irmãos, colocando em cena o que na maioria das vezes é traduzido pela disputa
do amor materno. Afinal, de quem a mãe gosta mais? Qual é o seu objeto de
amor privilegiado? Questão que reaparece na disputa por Lívia. Esse episódio
termina por marcar a única diferença existente na imagem entre os irmãos: uma
cicatriz no rosto de Yacub, em forma de meia lua, resultado da briga com o
irmão Omar. Momento que antecede e desencadeia a separação dos irmãos, o
grande temor do pai, Halim:
Ele (o pai) teve que engolir o vexame. Esse e outros, de Yacub e
também do outro filho, Omar, o Caçula, o gêmeo que nascera pou-
cos minutos depois. O que mais preocupava Halim era a separa-
ção dos gêmeos, ‘porque nunca se sabe como vão reagir depois...’.
Ele nunca deixou de pensar no reencontro dos filhos, no convívio
após longa separação (Hatoum, p. 12).
Mesmo que essa preocupação estivesse presente desde o início, a sepa-
ração torna-se inevitável:
Os pais tiveram de conviver com um filho silencioso. Temiam a
reação de Yacub, temiam o pior: a violência dentro de casa. Então
Halim decidiu: a viagem, a separação. A distância que promete
apagar o ódio, o ciúme, e o ato que os engendrou (Hatoum, p. 23).
Pode-se pensar, a partir desse momento, que há uma hesitação entre a
perspectiva de uma separação “física” por assim dizer, e a tomada dos gêmeos
como um só. Como aparece na seguinte passagem em relação ao caçula: “Ele
não olhou para ninguém: desfilou com um ar de filho único que não era” (Hatoum,
p. 32). Ou nas palavras de Halim, o pai, em conversa com a mãe, Zana: “Ele
discordava: ‘Nada disso, tu tratas o Omar como se ele fosse nosso único filho’”
(Hatoum, p. 22).
Essa parece ser a grande questão apresentada, a complementaridade, a
formação do um, da totalidade. Elemento tão presente nas fratrias (que não se
restringe aos casos entre gêmeos), está na perspectiva da demanda materna
de que os filhos formem Um, tomados em uma posição objetal. Claro, nos ca-
sos da existência da gemeralidade isso aparece com mais força. De qualquer
forma, vale lembrar aqui que, em Totem e tabu (Freud [1912-13] 1976), trata-se
de algo similar, a reunião dos irmãos para derrotar o pai, e fazer uma nova lei.
Mas, diferentemente no caso do livro Dois irmãos, a totalidade formada pelos
Ser o mano!
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irmãos entraria noutra vertente. Ou seja, a reunião dos irmãos pode ser tomada
na perspectiva de ser uma resposta à demanda materna, como enuncia Zana? A
derrota da lei paterna, que poderia provocar a separação dos filhos do corpo
materno? E com isso obstaculizar a dimensão do desejo? “Alguém disse que
ele era mais altivo que o irmão. Zana discordou: ‘Nada disso, são iguais, são
gêmeos, têm o mesmo corpo e o mesmo coração’” (Hatoum, p. 19).
Lacan ([1938] 2001) insiste, no texto dos Complexos familiares, que não
é só a rivalidade que está presente no complexo de intrusão, mas também o que
chama de identificação mental. Então, não será o apaixonamento dos irmãos, a
mesma posição tomada frente ao amor como característico dessa identifica-
ção? E que na totalização haveria um ideal comum que os congregaria?
Os dois se olharam. Yacub tomou a iniciativa: levantou, sorriu sem
vontade e na face esquerda a cicatriz alterou-lhe a expressão. Não
se abraçaram. Do cabelo de Yacub despontava uma pequena me-
cha cinzenta, marca de nascença, mas o que realmente os distin-
guia era a cicatriz pálida e em meia-lua na face esquerda de Yacub.
Os dois irmãos se encararam. Yacub avançou um passo, Halim
disfarçou, falou do cansaço da viagem, dos anos de separação,
mas de agora em diante a vida ia melhorar.Tudo melhora depois de
uma guerra (Hatoum, p. 20).
Desde o estágio do espelho, Lacan anunciava que o reconhecimento da
imagem do espelho como outro que não o “eu” mesmo, proporcionado pelo retor-
no da imagem, evidenciava que o “eu” e o “outro” se formam ao mesmo tempo.
Vejamos uma passagem do romance:
Agora ele estava de volta: um rapaz tão vistoso e alto quanto o
outro filho, o Caçula. Tinham o mesmo rosto anguloso, os mesmos
olhos castanhos e graúdos, o mesmo cabelo ondulado e preto, a
mesmíssima altura. Yacub dava um suspiro depois do riso, igualzi-
nho ao outro (Hatoum, p. 13).
Paul-Laurent Assoun (1998) trabalha a questão das fratrias em duas pe-
quenas obras chamadas Frères e soeurs. Encontramos nelas o seguinte escla-
recimento a esse respeito:
Mas o que se revela nessa relação especular básica, é que o duplo
mostra a verdade inconsciente de uma ligação a um irmão. O ir-
mão/ou irmã produz o efeito, essa possibilidade existencial que eu
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me confronto com ele – eu me encontro cara a cara com ele – e eu
perco em dado momento o sentido dos meus limites próprios, ou
parece que ele invade meus próprios limites. Na tentação de ante-
cipar o duplo com seus gestos e posturas, é o ser mesmo desse
desdobramento que está em causa (Assoun, 1998, p. 22) (Tradu-
ção do autor).
Poderia se pensar no olhar materno, em seu caráter demandante, como
o que proporciona o recobrimento existente nas diferenças entre irmãos? E
teríamos como resposta a essa demanda, o aparecimento sintomático e gozante
do ciúme? Ou seja, a construção de uma lógica inconsciente do laço fraterno,
que poderia ser lida como: um e outro? Com isso evidenciado, o aparecimento
do objeto terceiro, fálico, e nesse caso, dentro do registro da neurose. Mas que,
também, poderia ser levada ao caso mais extremo, no ciúme, pela via da exclu-
são, ou eu ou ele? Que apareceria no campo da psicose?
Na obra Dois irmãos, um recorte poderia ilustrar essa questão, pela via
do olhar da irmã, nesse caso, num deslocamento do olhar materno:
Rânia hipnotizava-se com a presença do irmão: uma réplica quase
perfeita do outro, sem ser o outro. Ela o observava, queria notar
alguma coisa que o diferenciasse do Caçula. Olhou-o de perto, de
muito perto, de vários ângulos; percebeu que a maior diferença
estava no silêncio do irmão recém-chegado (Hatoum, p. 17).
O silêncio evocado para marcar uma diferença entre os gêmeos não faria
evidenciar a questão da imagem? No início do romance a pergunta de Zana
(“Meus filhos já fizeram as pazes?”) fica sem resposta, impera o silêncio. Se a
hipótese que indica o olhar materno como recobridor das diferenças entre os
irmãos procede, produzindo o ciúme como resposta sintomática, teríamos que
pensar numa outra forma de produzir diferença, em que especularidade que
provoca a confusão entre o um e o outro não se fixe, nem pelo silêncio, nem pela
cicatriz.
REFERÊNCIAS
ASSOUN, Paul-Laurent. Leçons psychanalytiques sur frères et soeurs. Tome 1. Le
lien inconscient. Paris: Anthropos, 1998.
FREUD, Sigmund. Sobre as teorias sexuais infantis [1908]. In: ______. Edição
standard das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976, v. 9.
p. 213-228.
______. Totem e tabu [1912-13]. In: ______. _____. v. 13. p. 17-193.
Ser o mano!
111
______.Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranoia e no homossexua-
lismo [1922]. In: ______. _____. v. 18. p. 269-281.
HATOUM, Milton. Dois irmãos. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
LACAN, Jacques. Complexos familiares [1938]. In: ______. Outros escritos. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001. p. 29-90.
SANTO AGOSTINHO. Confissões. Coleção os Pensadores. São Paulo: Editora Nova
Cultural, 1996.
SARAMAGO, José. Caim . São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
Recebido em 20/10/2009
Aceito em 30/11/2009
Revisado por Deborah Pinho
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RECORDAR
REPETIR
ELABORAR
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Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, Porto Alegre, n. 37, p. 112-130, jul./dez. 2009
Dentre os muitos analistas que compunham o cenário europeu da psicanálise
nas primeiras décadas de 1900, Alice Balint (1898-1939) é personagem que
merece destaque.
Antropóloga e psicanalista húngara, filiada à Associação Psicanalítica de Buda-
peste, estudou e se analisou com Ferenczi, tal qual seu marido, Michael Balint.
Alinhando-se àqueles que, na década de cinquenta, vieram a constituir o cha-
mado grupo independente, dentro da Sociedade Britânica de Psicanálise, não
se furtava de ocupar-se de temas cruciais da clínica psicanalítica no diálogo
com seus contemporâneos.
Assim o fez no texto que segue, dedicado à relação mãe-bebê. Sob a ótica do
primeiro relacionamento objetal, vemos desdobrar-se a concepção da teoria da
relação de objeto que marcou época na psicanálise teorizada e praticada pelos
discípulos e herdeiros de Freud.
AMOR PELA MÃE
E AMOR MATERNO1
Por Alice Balint
 [1939]
1 Tradução de Paulo Afonso R. Santos Fº. Revisão de Roberto Graña. Versão para o português
do artigo “Love for the mother and mother love”, publicado no cap. VI do livro: BALINT, Michel.
Primary love and psycho-analytic technique. London: The Hogarth Press and The Institute of
Psychoanalysis, 1952, p. 91-108. (N. do E.)
Partes deste artigo foram primeiramente publicados sob o título “Reality Sense and the Development
of the Ability to Love” no Memorial de S. Ferenzi, volume Lélekelemzéki tanulmányok, Buda-
peste, 1933. A versão final foi publicada em alemão, com o título “Liebe zur Mutter und Mutterliebe”
em Int. Z. f. Psa. u. Imago (1939) 24, 33-48, em inglês em: Int. J. Psycho-Anal. (1949) 30, 251.
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Amor pela mãe e amor materno
Em Love for the mother and mother love, Balint inova ao situar na díade primor-
dial o cenário da primeira relação amorosa; o que, sem dúvida, fornecerá as
bases para a teoria do amor primário de Michel Balint, contraponto do narcisismo
primário e autoerótico freudiano.
Abordar a clínica sob a perspectiva da teoria da relação de objeto era a prática
dominante em tal contexto; pano de fundo sobre o qual se projeta o Seminário 4,
proferido por Lacan nos anos 1956-57. Suas reflexões sobre as conseqüências
éticas de tal abordagem para a concepção de cura e condução da transferência
ainda hoje mantêm seu vigor. E, sem dúvida, constituem importante referência
para aqueles que, em sua formação analítica, se deixam atravessar pelo ensino
de Jacques Lacan.
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Arelação mãe-bebê tem estado no centro do interesse psicanalítico desde oinício. Sua importância se tornou ainda maior quando, na exploração dos
nossos casos, viu-se que era necessário regressar regularmente ao período pré-
edípico. Uma vez que a relação mãe-bebê é o primeiro relacionamento objetal,
seu começo – que chega em tempos nebulosos nos quais as fronteiras do ego
se fundem com as do mundo externo – é de importância primordial, tanto para a
teoria quanto para a prática clínica. Assim, é perfeitamente compreensível que
dediquemos tanta atenção à relação mãe-bebê. Minha contribuição a esse pro-
blema é, principalmente, uma tentativa de retomada do assunto, e minha origi-
nalidade está apenas no ponto de vista a partir do qual efetuei uma síntese do
tema.
I
Exemplos clínicos podem servir como ponto de partida. Começo com um
caso em que o amor pela mãe foi expresso de maneira bastante peculiar. Esse
foi o caso de uma paciente mulher, cujo principal sintoma era que tinha de servir
de escrava de sua mãe. Suas infrutíferas tentativas de se libertar logo se revela-
ram como uma maneira de reagir às suas frustrações, pois, na realidade, ela
amava sua mãe e fazia enormes sacrifícios para tentar satisfazê-la, apesar de
nunca ter êxito. Era espantoso como a filha ficava totalmente impotente frente
às acusações irracionais de sua mãe, e reagia a elas com sentimentos de culpa
– o que era muito incompreensível para ela. Um complexo masculino extraordi-
nariamente forte forneceu uma primeira explicação para esses sentimentos de
culpa. Logo no início da análise, ficou bem claro que ela queriaser para sua mãe
viúva um substituto de seu pai (e um amante generoso), de igual para igual. Os
primeiros anos de análise foram quase que completamente tomados pelo traba-
lho sobre seu complexo de masculinidade. Ao final dessa fase, sua relação com
a mãe melhorou consideravelmente. Ela adquiriu uma liberdade de movimentos
quase normal, podia ir e vir como queria, e obteve uma vida privada que convém
aos adultos. Em sua vida sexual também houve melhoria. No lugar de uma
absoluta frigidez, desenvolveu a capacidade de ter orgasmos, embora com certa
instabilidade; também ficou grávida algumas vezes, e, apesar de que a gravidez
sempre fora interrompida, já significava que ela estava na direção da aceitação
do papel feminino. Porém, apesar de todos esses avanços, sua ansiedade e
seu sentimento de culpa com relação à mãe permaneceram fortes e inabalá-
veis. Foi a análise de seus desejos de morte contra a mãe que levaram à desco-
berta das raízes profundas de seus sentimentos de culpa. Ficou nítido que os
desejos de morte não tiveram origem em qualquer ódio à mãe. Esse ódio serviu
apenas como uma racionalização secundária de uma atitude muito mais primi-
tiva, a partir da qual a paciente, de acordo com suas necessidades, considerava
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Amor pela mãe e amor materno
que a mãe “deveria estar lá” ou “deveria não estar lá”. O pensamento da morte de
sua mãe preencheu a paciente com os mais calorosos sentimentos, que não
significavam arrependimento, mas algo como “que gentil de sua parte que você
morreu, como eu a amo por isso”. O sentimento de culpa da paciente provou ser
bem fundamentado na realidade, quer dizer, no tipo de amor que ela sentiu por
sua mãe. Esse era um tipo de amor que poderia até provocar medo, e que
realmente podia explicar o fato de a paciente nunca ter tido vontade de ter filhos.
Nisso descobrimos sua profunda convicção de que faz parte das tarefas da mãe
que ama seus filhos deixar-se matar, se for o caso, em prol do bem-estar de
suas crianças. Em outras palavras descobrimos nesta “filha de uma mãe má”
que, no fundo, ela exigia absoluto altruísmo (unselfishness) de sua mãe. Ela
amava sua mãe como o único ser humano que – ao menos inconscientemente –
permitia a possibilidade de tal exigência. Tanto as tentativas de se libertar quan-
to os esforços feitos na tentativa de satisfazer sua mãe agora ganhavam novo
significado. Eles também eram, obviamente, contracatexias, que a ajudavam a
sustentar a repressão de sua forma primitiva de amor. Isso nos permitiu reco-
nhecer a verdadeira importância da identificação com o marido (amante2 ) de sua
mãe. Numa primeira camada, essa identificação, como atestado previamente,
serviu como um modo de satisfazer seus desejos masculinos. Numa camada
mais profunda, contudo, essa identificação era a expressão, de forma invertida,
da necessidade da paciente de ser amada. A filha queria ser amada por sua mãe
da mesma maneira como sua mãe era amada por seus amantes. E, assim
como a mãe, inescrupulosamente, explorava os homens e os largava quando se
tornavam inúteis (velhos ou doentes), a filha também queria usar sua mãe e se
livrar dela, de acordo com seus caprichos. Enquanto a paciente se deixava
explorar por sua mãe, buscava, secundariamente, obter com o ódio a força
necessária para a impiedade inescrupulosa que tanto invejava em sua mãe.
Essa, a camada mais profunda da atitude frente a sua mãe, não pode ser
tomada como propriamente ambivalência (assim como não podemos dizer que
o caçador odeia a presa que pretende matar). Seria bastante equivocado dizer
que uma criança está sentindo ódio quando, com a maior inocência do mundo,
diz que gostaria que morresse uma pessoa que ela ama – especialmente se
esse desejo faz referência à mãe ou algum de seus substitutos. A pequena filha,
que acha que a mamãe deveria simplesmente morrer – para que ela (a filha)
pudesse se casar com o papai – não está, necessariamente, odiando sua mãe;
2 Lover no original. (N. do T.)
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ela apenas acha que é bem natural que a simpática mamãe deveria simples-
mente desaparecer naquele momento. A mãe ideal não possui interesses pró-
prios. O verdadeiro ódio3 e a ambivalência podem se desenvolver muito mais
facilmente na relação com o pai, que desde o início a criança percebe como um
ser que possui interesses próprios.
Meu próximo caso é o de um paciente homossexual de vinte e um anos
que reclamava, acima de tudo, de sua incapacidade de encontrar e conquistar
alguém que o amasse. Com o tempo, começou a ficar claro que era ele quem
não tinha a capacidade de amar (no sentido social do termo). Percebemos en-
tão o quão pouco ele conhecia dos homens com quem teve relações homosse-
xuais, e de quem ele exigia carinho excessivo. Ficou clara sua falta de interesse
em outras pessoas, e, com isso, a tendência de esperar de qualquer um e de
todo mundo o mesmo amor gratuito que a criança espera de sua mãe. Nesse
nível, também foi possível observar que ele não queria amar e ser amado da
maneira que é própria dos adultos. Através de suas demandas, o parceiro que o
amava causava-lhe ansiedade, assustava-o. Eventualmente, o paciente tomava
consciência de que realmente desejava encontrar alguém que, não sem amor –
pois amantes são egoístas – mas sem cavalheirismo, iria enchê-lo de presen-
tes. Logo percebemos que, para ele, a “função de cavalheiro” estava relacionada
à “função parental”. A essência da função parental é que os pais não têm neces-
sidades com relação aos seus filhos, pois somente fazem sua função – de
acordo com o senso comum – de dar sustento aos seus filhos independente-
mente de estes serem corajosos ou levados. Nessa relação os filhos ficam na
posição de “amantes” confortáveis. Não é difícil de descobrir que, por baixo desse
disfarce, está o modo primitivo de amar da criança, que ainda não concebe sua
mãe como uma entidade separada – e que tem seus próprios interesses –, e que
ainda não foi forçada a fazer essa descoberta. Posteriormente, quando a mãe
esperar o retorno por seu amor, a criança a sentirá como um estorvo, e suas
exigências serão recusadas. Nesse ponto a criança poderia dizer “eu não quero
que você me ame”, querendo dizer na realidade “por que eu não sou amada da
mesma maneira (quer dizer, altruística4 ) como eu era antes?”.
O mesmo medo de ser amado, ou, para expressar mais corretamente,
medo das exigências do (amor) parceiro, é demonstrado no terceiro caso. O
paciente, em análise, contou o seguinte sonho: “Assim que entra em seu apar-
3 O verdadeiro ódio é agressividade pura; pseudo-ódio é originalmente sempre necessidade de
desprendimento (unselfishness) da mãe.
4 Unselfishly no original. (N. do T.)
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Amor pela mãe e amor materno
tamento, ele vê um grande tubo no meio do quarto; deita nele como se fosse
uma cama. O tubo se transforma numa cama (ou sofá), mas logo depois se
transforma em uma senhora de idade que faz indecências e barulhos semelhan-
tes a grunhidos. Ele sente nojo e desce dela, embora ela tente segurá-lo”. Ele
logo associou a causa desse sonho ao fato de ter visto como sua mãe mimava
seu neto, querendo-o completamente para si. Com grande dúvida, reconhece o
erotismo reprimido na ação de sua mãe, e ao mesmo tempo sente vergonha de
seu próprio ciúme. Sob o ciúme também há certa simpatia e compaixão com
relação ao seu sobrinho que, aparentemente, terá que enfrentar o mesmo desti-
no que ele (o paciente) próprio. Chegará o tempo em que seu sobrinho também
tentará se livrar das garras de sua avó, e ela vai tentar segurá-lo da mesma
maneira que o prendeu, seu filho. O sonho contém várias camadas, entre várias
outras indicações da ansiedade de castração do paciente. Do nosso ponto de
vista, a característica mais importante é a indignação que o paciente experi-
mentou ao descobrir o erotismo no amor materno (e de avó). Até então, quando
criticava a atitude de sua mãe, ele pensava em falta de compreensão e não em
egoísmo. Agora ela havia se transformado em uma coisa velha e grudenta, que
usava seu filho para a própria cobiça.De fato, ele tem a mesma atitude com
todas as mulheres. Sente o desejo sexual da mulher como algo assustador e
doloroso. A mulher deve ser disponível, mas não ser exigente. Ele prefere relacioná-
la a um bebê que chora e que quer ser acolhido e confortado. O casamento é
proibido, pois a mulher tem ganhos com ele, e, por conta disso, ele não pode
acreditar na pureza de seu amor. A reciprocidade das exigências é tão incom-
preensível para ele quanto é para uma criança que vive como um ectoparasita de
sua mãe. Um dos seus principais sintomas é sua preferência por garotas muito
pequenas que, contudo, podem ser representadas por fotografias obscenas de
crianças. As crianças, que ele trata como bonecas e cujos sentimentos não
precisa levar em consideração, significam de fato a mãe. Elas são os verdadei-
ros e altruísticos objetos de amor.
Nesses três casos, a atitude com relação ao objeto de amor foi interpre-
tada, no curso da análise, de maneiras diferentes: como uma tendência oral de
incorporação, como uma atitude narcisista, como uma necessidade de ser
amado, como egoísmo, etc. – conforme o material de análise sugeria, no mo-
mento particular da interpretação. Em última instância, a versão que pareceu
mais adequada foi a que usei quando descrevi o material do caso. A tendência
oral de incorporação era apenas uma forma especial de expressão desse tipo
de amor, que poderia se apresentar de outra maneira, mais ou menos clara e
marcante. A concepção de narcisismo não se ajustaria a esse tipo de atitude,
devido ao fato de que se tratava de um tipo de amor fortemente direcionado ao
objeto; o conceito de amor objetal passivo (o desejo de ser amado) era ainda
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menos satisfatório, especialmente por causa da qualidade essencialmente ativa
desse tipo de amor. A concepção que mais nos aproxima é a de egoísmo. A
atitude com relação ao objeto, nesses casos é, de fato, uma maneira de amar
arcaica e egoísta, originalmente direcionada com exclusividade à mãe; sua prin-
cipal característica é a completa falta de senso de realidade, no que diz respeito
aos interesses5 do objeto. Doravante chamarei esse egoísmo – que é, de fato,
apenas consequência da falta de senso de realidade – de egoísmo ingênuo,
para diferenciá-lo da negligência consciente dos interesses do objeto.
Uma representação particularmente clara desse amor, que se direciona
especialmente à mãe, emerge, em minha opinião, a partir de certos fenômenos
gerais da transferência, que ocorrem em cada caso independente de idade,
sexo ou tipo de enfermidade, e que também podem ser encontrados nas análi-
ses didáticas, ou seja, em pessoas praticamente saudáveis. Em um artigo,6
sobre o manejo da transferência, descrevi esses fenômenos da transferência
como uma supersensibilidade paranoica e, ainda, como uma atitude desrespei-
tosa e egocêntrica, e sua manutenção se torna possível a partir de uma ceguei-
ra característica da pessoa do analista. Pois, durante o tratamento, o analista
não é um homem como os outros, que possuem seus próprios interesses. O
insight necessário para mudar essa atitude é obtido, via de regra, somente du-
rante o período do desligamento progressivo da análise, e mesmo assim so-
mente muito gradualmente. A título de ilustração, citarei um exemplo.
Um paciente solicita uma sessão a mais por semana. Justifica seu dese-
jo por mais uma sessão dizendo que, até o momento, vinha somente quatro
vezes por semana por não dispor de mais tempo. A despeito disso, preservo
uma atitude passiva e me restrinjo à análise desse desejo, que nos ajuda a
obter uma visão mais profunda da vida emocional do paciente. O desejo por
mais uma sessão a cada semana revela-se como a declaração de amor, de um
paciente muito inibido afetivamente. Ao mesmo tempo, contudo, era uma defesa
contra se tornar consciente de sua demanda emocional. Ele queria ter mais
uma sessão para evitar sentir o anseio intenso pelo qual seu amor se dava a
conhecer. Na realidade, ele queria a sessão extra para não ser forçado a me
amar – como me explicou em detalhes na ocasião. O pensamento que mais lhe
provocava sofrimento era que eu poderia não ter tempo para ele, isto é, que
tivéssemos interesses diferentes. Ele queria estar comigo, mas, se possível, de
5 Aqui me refiro tanto aos interesses libidinais quanto aos interesses egoicos do objeto.
6 Balint, A.: Handhabung der Übertragung auf Grund der Ferenczi’schen Versuche, Int. Z. F.
Psa. (1936) 22.
119
Amor pela mãe e amor materno
tal maneira que não necessitasse estar ciente da minha presença. Teria sido
fácil atribuir essa atitude ao desinvestimento narcísico de libido, em um momen-
to em que a tensão criada pelo anseio passou de certo ponto. Por outro lado,
seu desejo era inegavelmente uma declaração de amor. O certo é assumirmos
que, neste ponto, temos que lidar com o amor, esse amor arcaico cuja condição
fundamental é a completa harmonia de interesses.7 Para esse amor, o reconhe-
cimento do real objeto-de-amor é supérfluo; quer dizer, “de qualquer maneira, ele
quer o mesmo que eu”. Na minha opinião essa observação, aparentemente in-
significante, é, de fato, importante, pois ela pode nos fornecer uma explicação
sobre a essência dessa autossuficiência subjetiva que nós presumimos que a
criança satisfeita possui.
Outra característica do amor arcaico é a pseudoambivalência. No caso
das relações objetais primitivas, uma alteração no comportamento com relação
ao objeto não é necessariamente a consequência de uma alteração na atitude
emocional (amor, ódio), mas se origina no egoísmo ingênuo da criança. No
egoísmo ingênuo, o antagonismo que existe entre o autointeresse e o interesse
do objeto não é de modo algum percebido; por exemplo, quando uma criança
pequena, ou o paciente nesse estado particular de transferência, sente que a
mãe (ou o analista) não deve ficar doente, isso não significa uma consideração
pelo bem-estar do outro, mas, sim, pelo próprio bem-estar – que possivelmente
seria ameaçado pela doença do outro. Um exemplo disso é o modo bastante
hostil com o qual a criança – ou o paciente – reage à eventual ocorrência dessa
doença. Devemos então questionar que tipo de amor há nesse comportamento?
Depois de uma doença, que durou vários meses, eu tive uma boa oportunidade
para estudar essa questão. Meus pacientes, sem exceção, ficaram bravos co-
migo porque se sentiram injustiçados pelo fato de eu ter estado doente – um
sentimento que foi, de certo modo, justificado pela situação real. Sua raiva foi a
expressão mais enérgica de seu apego e de seu amor infantil. Quero chamar a
atenção ao fato de que as expressões apego, ligação, assim como o termo
alemão Anhänglichkeit e o termo húngaro ragaszkodás (adesividade), descre-
vendo este tipo de amor infantil, são belos exemplos de conhecimento inconsci-
ente.
Embora eu não duvide de que todos reconhecerão nesta descrição o tipo
de amor que é direcionado especialmente à mãe (eu somente repeti aquilo que
já é conhecido de forma geral), gostaria de enfatizar que a maioria dos homens
7 Outro paciente com a mesma inibição emocional disse uma vez, ao final da sessão, “Es geth zu
Ende mit uns” (Estamos beirando nosso fim).
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(e mulheres) – mesmo quando são capazes de amar de maneira normal, “adul-
ta” e altruísta, reconhecendo o desejo do parceiro – mantém, durante toda sua
vida, essa atitude de egoísmo ingênuo com suas próprias mães. É evidente para
todos nós que os interesses da mãe e da criança são idênticos, e a maneira
mais comum de medir a bondade ou a maldade da mãe é aferir até que ponto ela
sente essa identidade de interesses.
Antes de abandonar esse assunto e passar a discutir o amor materno,
quero retornar a um comentário que fiz sobre o amor ao pai8 . Apesar de o
paterfamilias9 ter assumido muitos traços maternos e ser, portanto, tratado pela
criança muitas vezes como se fosse a mãe, ainda falta o laço arcaico que liga
mãe e bebê. A criança percebe seu pai como sendo regido pelo princípio de
realidade. A opinião geral, porexemplo, de que as crianças costumam ser mais
obedientes aos pais do que às mães, não pode ser totalmente explicada pelo
fato de o pai ser mais rigoroso que a mãe. Com relação ao pai, a criança apre-
senta comportamento mais ajustado à realidade porque não houve, nessa rela-
ção, as fundações arcaicas de uma identidade original e natural de interesses.
A mãe, contudo, não deve querer nada que possa ir contra os desejos da crian-
ça. Essa concepção também serve para explicar a grande efetividade pedagógi-
ca que um estranho possui. Crenças populares parecem confirmar isso, pois a
mãe desagradável é sempre a madrasta, enquanto o pai desagradável nem sempre
é o padrasto; e isso se aplica tanto para o filho quanto para a filha. (Isto é, de
fato, um argumento adicional para a natureza arcaica do tipo de amor descrito
acima; se revela de forma semelhante em ambos os sexos, e é, portanto, prová-
vel que seja de origem pré-edípica.) Em suma: o amor à mãe é originalmente um
amor sem um senso de realidade, enquanto amor e ódio ao pai – incluindo a
situação edípica – está no âmbito da realidade.
II
Voltando agora a atenção ao amor materno, também começarei com um
exemplo. Uma jovem mãe me contou sua opinião acerca de uma conferência
sobre psicologia criminal, que tinha ouvido no dia anterior. O conferencista falou
sobre o caso de uma mulher que tinha um casamento infeliz, e em situação de
desespero ela assassinou suas duas filhas e depois tentou cometer suicídio.
Contudo ela não morreu, e foi condenada a quinze anos de prisão. O conferen-
cista considerou essa sentença como injusta, e minha paciente concordou com
8 Balint, A.: Der Familienvater, Imago (1926) 12, 292-304.
9 O termo paterfamilias indica o papel do pai na família. (N. do T.)
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Amor pela mãe e amor materno
ele. A explicação que ela deu foi, contudo, muito notável. Ela considerou a sen-
tença injusta porque a mulher não poderia ser considerada como um “perigo
público” – pois ela matou somente suas duas filhas. Na discussão que tivemos,
ficou claro que nem passou pela sua cabeça a ideia de as crianças terem algum
direito de expressar sua opinião. Ela considerou toda a ocorrência como assun-
to particular da mãe, porque o próprio filho de alguém não é na verdade o mundo
externo.
Não preciso enfatizar o quão estranha se sentiu a mulher depois ter
verbalizado esses pensamentos que eram, para ela, muito naturais. O que ela
disse era um pedaço da realidade arcaica que – em nossa civilização – se
expressa somente sob vários disfarces. Pessoas primitivas, contudo, conside-
ram o infanticídio como algo que não está, de modo algum, relacionado com
assassinato. É assunto particular e doméstico da família, e a sociedade não
tem nada a ver com isso.
Róheim escreveu que as mães da Austrália Central, quando estavam sob
o domínio de uma “fome de comer carne”, faziam um aborto com seus próprios
dedos e comiam o feto. Ele não fez menção a nenhum sentimento de culpa ou
remorso. O feto parece ser, para essas mulheres, no estrito senso da palavra,
sua propriedade, com o que elas podem fazer o que quiserem. Podemos tam-
bém refletir sobre a regra pela qual todo segundo filho é comido pela família
como uma restrição de soberania, porque através disso a vida é protegida para
certo número de filhos. Mas não devemos pensar que as mulheres australianas
são mães “más”. Pelo contrário, elas dão grande quantidade de carinho materno
aos seus filhos vivos. São até mesmo capazes de grande sacrifício, passando
noites em posição de engatinhar – apoiadas sobre os joelhos e cotovelos –, de
modo a protegê-los do frio com os próprios corpos.
Algumas pesquisas sobre os esquimós mostram um estágio intermediá-
rio, entre aquelas mães australianas que despreocupadamente comem seus
filhos, e nossa atitude consciente. (Eu me refiro a “atitude consciente” porque
desejos canibalísticos com relação às crianças não são nada raros em sonhos,
etc.) Por exemplo, foi relatado que uma mulher esquimó que comeu seu filho
durante um período de escassez está agora paralisada e não consegue contro-
lar sua urina. Os habitantes da vila consideram que ela ficou nesse estado
porque “ela comeu parte de si mesma”10. Durante períodos de escassez, é
ainda mais frequente deixar crianças para trás para morrerem de frio. Essa
10 Rasmussen: Thulefahrt (1926), p. 358.
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dureza e determinação que demonstram os esquimós nessas ocasiões impres-
sionaram o autor que fez esses relatos, pois ele conhecia bem o amor e o
carinho que eles sentem por seus filhos. É sob grande pressão e terrível emer-
gência que as crianças são abandonadas dessa forma, assim como sacrificarí-
amos nossas mais preciosas posses para nos salvar de um naufrágio. Um outro
detalhe importante, que é bastante familiar às pessoas de pensamento mais
primitivo que o nosso, e que nos parece estranho somente por causa de nossa
grande consideração pelo indivíduo, é o fato de que crianças podem ser produzi-
das à vontade, assim como qualquer outro objeto.
Comer seu filho, que para a mulher australiana representa a simples sa-
tisfação de uma necessidade instintiva e livre de qualquer peso ou culpa, e é
para a mulher esquimó uma ação desesperada tomada somente em casos de
extrema emergência – que pode ter terríveis consequências, não por questões
de condenação, mas por conta do sofrimento que pode surgir como resultado
desse ato –, aparece no folclore húngaro como uma punição infernal às mulhe-
res que têm aborto espontâneo11 .
A instituição do aborto é um fator preeminente na relação entre mãe e
filho. Mulheres no mundo todo sabem sobre o aborto artificial, então são as
mulheres que têm a palavra final sobre a existência ou a não-existência de um
filho. (Esse fato é indubitavelmente uma das razões pelas quais a mãe às vezes
se comporta de maneira tão horrível e estranha com sua criança, de quem sua
vida depende no mais verdadeiro sentido da palavra, independente de agradá-la
ou não.) A esterilidade psicogênica, cuja existência é inegável, nos leva a outro
fato, o de que a criança que nasce é sempre a criança que foi querida pela mãe.
A condenação moral ou acusação penal do aborto artificial são, provavelmente,
apenas medidas defensivas contra o absoluto e perigoso poder da mãe. Outra
medida defensiva é que o direito sobre a vida da criança, que era originalmente
materna, foi transferida para o paterfamilias. Argumenta-se que o direito mater-
no é um assunto privado e informal da mulher. O direito paterno, contudo, é uma
instituição social.
A despeito dessas limitações que foram impostas pela civilização aos
direitos maternos arcaicos, provavelmente seja verdade que a maioria das crian-
ças nasce como a realização dos desejos instintivos de suas mães. A gravidez,
o parto, a amamentação e o carinho materno são demandas instintivas da mu-
lher, que ela satisfaz com a ajuda de seu bebê12 . É prazeroso tanto para a mãe
11 A magyarság néprajza (Folclore dos Magyars), 4, 156.
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Amor pela mãe e amor materno
quanto para a criança manter, enquanto for possível, a proximidade física. De
fato, acredito – voltando novamente à antropologia – que aqueles costumes que
separam o homem e a esposa após o nascimento da criança, frequentemente
por muitos meses, têm sua origem no desejo da mulher de desfrutar sem pertur-
bação do novo relacionamento com sua criança. A confiança ilimitada do bebê
no amor de sua mãe provém dessa mutualidade; porém, mais tarde, essa con-
fiança será gravemente abalada, seja por um presságio, seja pela experiência
real da capacidade da mãe de dissolver essa ligação por sua própria vontade, e
por seu poder de substituí-la por outra criança.
O amor materno é voltado – de acordo com suas fontes instintivas –
somente aos bebês, ou seja, às crianças que dependem do corpo da mãe. É
por isso que frequentemente temos contato com mães que – influenciadas por
seus padrões culturais – continuam a amamentar e afagar suas crianças muito
além da infância inicial, fazendo-o mesmo até quando elas já estão bem cresci-das. Mesmo que as crianças já estejam grandes e altas, essas mães continu-
am considerando-as como “pequenas”, e expressam esse sentimento aberta-
mente, através de seus gestos e de suas palavras. Para a mãe, a criança nunca
está crescida, pois quando crescer ela já não será mais sua criança. Não seria
essa ainda mais uma prova do distanciamento do amor materno da realidade,
assim como o amor da criança também se distancia, pois ela nunca imagina
sua mãe como um ser com divergências, por assim dizer, de seus interesses
pessoais? Amor materno é a contraparte quase perfeita do amor para com a
mãe.
Portanto, assim como a mãe está para a criança, a criança está para a
mãe – um objeto de gratificação. E assim como a criança não reconhece a
identidade separada da mãe, a mãe vê seu filho como uma parte de si mesma,
cujos interesses são idênticos aos dela. A relação entre mãe e filho é construída
sobre a interdependência das metas instintivas recíprocas. O que Ferenczi dis-
se sobre a relação do homem e da mulher no coito também é verdadeiro para a
relação mãe-filho. Ele disse que no coito não pode haver questões de egoísmo
ou altruísmo, há somente mutualidade, quer dizer, o que é bom para um é certo
para o outro. Em consequência da interdependência natural das metas instinti-
vas recíprocas, não há necessidade de se levar em consideração o bem-estar
do parceiro.
12 Veja a noção de Ferenczi sobre erotismo dos pais em “Thalassa: uma teoria da genitalidade”,
New York, Psychoanalytic Quarterly, 1938. (Original alemão: “Versuch einer Genitaltheorie”,
Viena, Int. PsA. Verlag, 1924).
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Eu chamo esse comportamento de maternidade instintiva, em oposição
à maternidade civilizada. 13 Pode-se estudar isso melhor em animais, ou em
pessoas muito primitivas. Nestes, o egoísmo ingênuo desempenha o mesmo
papel que tem no amor da criança em relação a sua mãe. Porém, se considerar-
mos ambos os parceiros (mãe e filho) simultaneamente, podemos falar, como
Ferenczi, sobre mutualidade. A mutualidade é o aspecto biológico, e o egoísmo
ingênuo é o aspecto psicológico. A interdependência biológica torna o egoísmo
ingênuo psicologicamente possível. Todo distúrbio nessa interdependência im-
plica posteriormente um desenvolvimento para além do egoísmo ingênuo.
Se no homem, como é no caso dos animais, a unidade mãe-bebê fosse
substituída sem nenhum intervalo pela sexualidade madura, ou seja, pela unida-
de homem-mulher, o egoísmo ingênuo poderia talvez bastar como método de
amor por toda a vida. O intervalo, característico para o homem, entre o período
adulto e o infantil – isto é, as duas fases da vida na qual a interdependência
mútua dos dois seres é naturalmente dada –, ocasiona um conflito que precisa
ser resolvido. Esse conflito, que progride paralelamente com o desenvolvimento
da civilização, é resolvido em grande parte pelo progressivo fortalecimento do
poder do senso de realidade sobre a vida emocional.
Sensibilidade, insight, consideração, compreensão, gratidão, ternura (en-
quanto sensualidade inibida) são sinais e consequências do aumento da força
do senso de realidade na esfera das emoções. A capacidade real de amar, no
sentido social do termo, é uma formação secundária criada por uma perturba-
ção externa. Não tem relação direta com a genitalidade. O ato genital é a situa-
ção em que é recriada aquela interdependência recíproca experimentada na
primeira infância. Tudo o que é aprendido nesse intervalo pode ter papel impor-
tante no cortejo, mas deve ser esquecido durante o ato. Muito senso de realida-
de (tato), uma delimitação muito precisa entre um parceiro e o outro, é
perturbadora, causa frieza, e pode até mesmo levar à impotência. Temos como
exemplo a ansiedade de alguns neuróticos – originada pelo treinamento de lim-
peza –, que podem ficar perturbados, até mesmo terem nojo do parceiro, por
causa de seu odor corporal ou de algum som ou movimento involuntário.
A primeira perturbação no egoísmo ingênuo é causada pelo ato da mãe
de se distanciar de seu filho que cresce. Esse afastamento pode ser expresso
tanto diretamente, como verdadeira hostilidade, quanto indiretamente, na tenta-
13 Sobre “maternidade civilizada”, veja Alice Balint: “Die Grundlagen unseres Erzie hungssystems”,
Z.f.psa.Päd. (1937) 11, 98-101.
125
Amor pela mãe e amor materno
tiva da mãe de atrasar de alguma maneira o desenvolvimento da criança. Creio
que para esse assunto não há necessidade de dar exemplos. Tanto para o
menino quanto para a menina, poderia ser muito natural a mãe permanecer
sendo seu parceiro sexual mesmo depois do período da infância. A relutância da
mãe só pode ser atribuída pela criança a alguma influência perturbadora de
algum poder externo. De fato, isso é verdade com os animais, nos quais o
período infantil é imediatamente seguido pela maturidade sexual. A força do pai
é o único obstáculo à união sexual entre mãe e filho. Com o homem é diferente:
a importância sexual da criança para a mãe cessa de existir muito antes da
época em que a criança atinge maturidade sexual, ou seja, a época em que ela
poderia ser um parceiro sexual adulto da mãe. O apego instintivo à mãe é subs-
tituído pela rejeição instintiva da mãe. A partir disso, se torna claro qual é a
diferença essencial – a despeito das inúmeras semelhanças – entre o amor
materno e o amor pela mãe. A mãe é única e insubstituível, mas a criança pode
ser substituída por outra. Nós experimentamos a repetição desse conflito em
toda neurose de transferência. Cada paciente, em um momento ou outro, e à
sua maneira, fica preocupado com o caráter insubstituível do analista, se com-
parado com a real ou presumida facilidade com a qual o analista pode preencher
um horário vago de qualquer um de seus pacientes. A separação da mãe, no
sentido de dissolução do apego primitivo baseado na mutualidade, significa a
reconciliação com o fato de que a mãe é um ser separado e que possui seus
próprios interesses. Ter ódio da mãe não é uma solução, pois isso significa a
preservação do apego, porém com um sinal negativo. Odeia-se a mãe porque
ela não é mais o que costumava ser. (Na prática analítica já é sabido que o ódio
do paciente pelo analista, depois de terminada a análise, é sinal de uma trans-
ferência não dissolvida.)
Em suma: a criança que passou da infância não é mais tão agradável à
mãe (ainda pensando em termos da maternidade instintiva), no entanto, ela se
liga à mãe e não conhece nenhuma outra forma de amor exceto a do egoísmo
ingênuo. Esse egoísmo ingênuo, contudo, se torna insustentável, porque já não
há mais mutualidade, o que era sua base. Então a criança enfrenta a tarefa de
se adaptar aos desejos daqueles de cujo amor necessita14 . É nesse ponto que
a domínio do senso de realidade inicia na vida emocional do homem15 .
14 A infantilidade prolongada pode ser um tipo de adaptação.
15 Gostaria de dizer que essa regra de senso de realidade sobre a vida emocional não é idêntica
à noção de Ferenczi de senso erótico de realidade. O conceito de senso erótico de realidade faz
referência exclusivamente às funções eróticas, cujo desenvolvimento é pensado como busca
para a maneira mais perfeita de descarga das tensões eróticas.
Alice Balint
126126126
III
Dando continuidade ao tema, gostaria de discutir brevemente o problema
do autoerotismo. Sabemos que o autoerotismo é arcaico. Sua qualidade mais
importante, do ponto de vista da adaptação à realidade, é sua grande indepen-
dência com relação ao mundo externo. A atividade autoerótica não precisa ser
aprendida pela criança, e para sua prática não há necessidade de auxílio do am-
biente; ela pode, contudo, ser perturbada ou até mesmo inibida pelo mundo exter-
no. Além disso, ela não é independente de processos internos. Como sabemos,
muitos autoerotismos podem suplantar uns aos outros quando um ou outro méto-
do de descarga se tornou impossível. Mas a dissolução da interdepen-dência
instintiva da mãe e da criança também influencia a função autoerótica. Até se
poderia dizer que é nesse ponto que realmentecomeça o papel psicológico do
autoerotismo. No período que se segue, rico em frustrações amorosas, o
autoerotismo assume a importância de uma satisfação substitutiva. Dessa ma-
neira, ele se torna a base biológica do narcisismo secundário, cuja precondição
psicológica é a identificação com o objeto não confiável. Quanto mais cedo termi-
na a harmonia infantil, mais cedo o autoerotismo assume esse papel na vida
mental do homem. Ao contrário da opinião da maioria dos analistas, eu não acho
que isso seja uma regressão à fase autoerótica; além disso, penso que o
autoerotismo e o apego arcaico à mãe existem simultaneamente, mantendo equi-
líbrio e, apesar de serem dois fatores distintos desde o início, sua diferença ape-
nas se torna aparente depois que a harmonia original sofre perturbações. Na mi-
nha opinião, não há fase da vida que seja dominada somente pelo autoerotismo.
Quando o homem falha em obter satisfação suficiente do mundo de objetos, o
autoerotismo se oferece como um meio de obter conforto. Se a frustração não é
muito grande, tudo isso ocorre sem muita delonga. Contudo, a sobrecarga da fun-
ção do autoerotismo logo leva ao fenômeno patológico; a atividade autoerótica se
transforma em vício. Mas, inversamente, podemos observar que a supressão pe-
dagógica bem sucedida do autoerotismo é seguida da sobrecarga das relações
objetais, que geralmente aparece como dependência anormal e ligação patológica
à mãe (ou aos seus substitutos). Por outro lado, a inibição comedida do autoerotismo
reforça o apego ao objeto de maneira desejável para a educação da criança. Apa-
rentemente há, para cada idade, uma proporção ideal entre o autoerotismo e o
apego ao objeto. Esse equilíbrio é elástico, ou seja, a frustração deve ser balance-
ada com a satisfação, mas não pode ultrapassar certos limites. Essa circunstância
assegura o desenvolvimento do senso de realidade na vida emocional. O homem
não pode renunciar o amor objetal sem sofrer grave deterioração16.
16 Cf. as observações do analista e do pediatra, E.Petö: “Säugling und Mutter”, Z.f.psa.Päd.(1937)
11,244. Em inglês: Int. J Psycho-Anal. (1949) 30, 260.
127
Amor pela mãe e amor materno
IV
As diferentes formas de amar têm sido classificadas pela psicanálise de
acordo com diversos princípios: primeiro em relação com a inibição de suas
metas, secundariamente, por sua pertença a um instinto componente ou à
genitalidade. Os conceitos de amor oral, anal e genital se desenvolveram a partir
do primeiro princípio; os de amor terno e sensual partem do segundo. Um tercei-
ro princípio de classificação surge a partir do contraste entre narcisismo e libido-
objetal, levando a formas de amor narcisistas e libido-objetais, que estão de
alguma forma relacionadas com a diferença entre egoísmo e altruísmo. E, final-
mente, devemos mencionar a diferenciação de Ferenczi sobre o amor ativo e o
amor passivo, que ele frequentemente utiliza, não em lugar dos termos usuais –
amor narcisista e amor libido-objetal – mas sem definir precisamente se o amor
objetal passivo é ou não idêntico ao amor narcisista. O princípio que utilizo para
diferenciar as diversas formas de amor é sua relação com o senso de realidade.
O amor objetal possui dois pilares principais, (a) satisfação das necessidades
por seus objetos e (b) senso de realidade.
(a) existe desde o início, especialmente se aceitamos os ensinamentos da
Teoria da Genitalidade de Ferenczi, de acordo com a qual toda a sexualidade,
incluindo a função autoerótica, é fundada sobre uma tendência orientada ao objeto.
(b) este somente é desenvolvido gradualmente. A partir de observações
de uma forma de amor, cujo traço mais característico é o insuficiente desenvol-
vimento do senso de realidade (o objeto é reconhecido, mas seus interesses
não), parto do princípio de que junto com o gradual desenvolvimento do senso de
realidade há um gradual desenvolvimento do amor objetal. O paralelo entre es-
ses dois desenvolvimentos ainda não está muito completo. A extensão do domí-
nio do senso de realidade sobre as relações objetais é limitada por dois fatores
importantes: como sabemos, um desses fatores é a grande independência do
mundo externo, que se torna possível na esfera libidinal pelo método de satisfa-
ção autoerótica (de acordo com Ferenczi, autoplástica). O segundo fator é a
interdependência entre mãe e bebê (e posteriormente entre homem e mulher
durante o coito). A interdependência instintiva entre duas pessoas cria uma situ-
ação em que é desnecessário o reconhecimento dos interesses próprios do
objeto. Esta é a base do egoísmo ingênuo na esfera da libido objetal.
Chego ao conceito de relação objetal arcaica e primordial sem senso de
realidade por extensão. Esse é o último elo de uma série que é construída a
partir de vários graus de adaptações à realidade no campo da relação objetal.
Assim, existe uma forma arcaica de amor cuja determinação essencial é a falta
de senso de realidade frente ao objeto de amor, e não a prevalência de qualquer
componente instintivo. (Para evitar um possível mal-entendido, gostaria de sa-
lientar que se devem necessariamente diferenciar as formas de satisfação, por
Alice Balint
128128128
exemplo, oral, anal, etc., das formas de amor, por exemplo, egoísmo ingênuo,
altruísmo17 , etc.). O desenvolvimento das formas de amor mais socialmente
elevadas deriva da adaptação à realidade. Essa classificação está intimamente
relacionada com a distinção de Freud entre amor sensual e amor inibido em
suas metas, pois a inibição das metas é realmente o mais importante dos fato-
res, que se origina da influência do mundo externo, que desperta o desenvolvi-
mento da vida emocional; a pura sensualidade, por outro lado, conhece apenas
“o senso de realidade erótico” e pode existir, em relação ao parceiro, associada
ao egoísmo ingênuo de maneira bastante confortável.
O ponto em que a minha maneira de pensar diverge um pouco da de
Freud é na importância que atribuo ao papel da relação de objeto libidinal nesse
contexto. Freud também relaciona o desenvolvimento do amor objetal ao fato de
o mundo externo ser insubstituível, mas a base dessa característica, de acordo
com Freud, não reside nos instintos eróticos, mas nos instintos de autopreser-
vação. As primeiras relações objetais se desenvolvem na dependência da satis-
fação dos instintos de autopreservação; contudo, são logo substituídas pelo
investimento autoerótico da libido. É só por esse desvio através do autoerotismo
que a libido encontra o seu caminho de volta – no decurso de um desenvolvimen-
to maior – para o mundo dos objetos. Freud parte do princípio de que “alguns
dos componentes do instinto sexual têm, portanto, desde o início, um objeto e
aderem a ele – por exemplo o instinto de domínio (sadismo) e os instintos
escoptofílico e epistemológico”18 19 . Após a conclusão da teoria da libido com a
teoria do narcisismo, fica posto que “o autoerotismo seria, pois, a atividade
sexual do estágio narcisista da distribuição da libido”20 , em que essa fase narci-
sista é assumida, como se sabe, como sendo a fase primordial.
Tenho tentado, a partir de fenômenos observáveis, representar essa fase
inicial como a relação objetal arcaica em que falta qualquer senso de realidade,
mas a partir da qual se desenvolve, sob a influência direta da realidade, aquilo
que estamos acostumados a chamar de amor.
17 Cf. M. Balint: “Zur Kritik der Lehre von den prigenitalen Libidoorganisa-tionen“, Int. Z.f. Psa.
(1935) 21, 525-43. Versão inglesa (Critical Notes on the Theory of the Pregenital Organizations
of the Libido) reimpressa neste volume.
18 Freud: Conferências Introdutórias; Standard Edition. XVI, p.328-416.
19 Desde as recentes pesquisas de I. Hermann, o número dos componentes dos instintos
sexuais dirigidos para um objeto externo a partir do início deve ser aumentada pelo instinto de
agarrar.
20 Freud: op. cit., p.347.
129
Amor pela mãe e amor materno
21 Artigos recentes que tratam de temas semelhantes:
Balint, M.: “Zur Kritik der Lehre Von den prägenitalen Libidoorganisationen’’, Int. Z.f. Psa. (1935)
21. Versão inglesa (Critical Notes on the Theory of the Pregenital Organizations of the Libido’)
reimpressa neste volume. Cap. III.
Balint, M.: “Frühe Entwicklungsstadien des Ichs. Primäre Objektliebe”, Imago (1937) 23. Versão
inglesa (Early Developmental States of the Ego. Primary Object-love) reimpressa neste volume,
capítulo V.
Hermann, I.: “Sich-Anklammern-Auf-Suche-Gehen“, Int. Z.f. Psa. (1936) 22 (To Cling-to Go).
Hoffmann, E. P.: “Prokjektion und Ich-Entwicklung“, Int. Z.f. Psa. (1935) 21 (Projection and Ego
Development).
Rotter-Kertesz, L.: “Der tiefenpsychologische Hintergrund der inzestuosen Fixierung“, Int. Z.f.
Psa. (1936) 22 (The Depth-Psychological Background of the Incestuous Fixation).
A minha suposição pode ser facilmente descrita em termos de ego e id.
O amor arcaico sem senso de realidade é a forma de amor do id, que persiste,
como tal, ao longo da vida, ao passo que a forma de amor baseada na realidade
social representa a forma de amar do ego21.
Apêndice
Unidade-dual e relação objetal primária (arcaica)
Em diversas contribuições à discussão do presente artigo me foi sugeri-
do que abandonasse a expressão relação objetal primária em favor da expres-
são “unidade dual”. Contudo, sou da opinião de que é mais útil fazer uso dos
termos técnicos de modo a provocar o mínimo possível de desvios teóricos, e,
assim, aumentar sua compreensão geral. I. Hermann, E. P. Hoffmann, e L. Rotter-
Kertész insistem enfaticamente no fato de que eles de maneira alguma conside-
ram a unidade dual como forma de relacionamento objetal, enquanto eu, ao
contrário, realmente considero uma possível, e muito primitiva, relação objetal
que já existe antes mesmo que se possa ter a capacidade de distinção entre o
ego e o objeto – ou seja, que já existe, por assim dizer, no id. O ponto de partida
dessas ideias é o conhecido conceito de Ferenczi de “objeto de amor passivo”.
No meu artigo sobre esse assunto – publicado no Ferenczi memorial volume –
uso somente esse termo. Mais tarde, sob a influência das ideias de M. Balint
sobre o “novo começo”, em que ele enfatiza as características ativas dos primei-
ros comportamentos infantis, e também sob influência parcial do trabalho de I.
Hermann sobre o instinto de agarrar, achei que o termo passivo não servia para
a descrição adequada de uma relação em que tais tendências definitivamente
ativas, como o instinto de agarrar, desempenham papel primordial. Desde então
tenho usado – como no presente artigo – em lugar de “amor objetal passivo”,
principalmente os termos “arcaico” ou “relação objetal primária” (amor objetal).
Alice Balint
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Esse último termo eu só poderia mudar para “unidade dual” se aqueles
que o usam mudassem de perspectiva e aceitassem a unidade dual como um
tipo primitivo de relação objetal, ou então se, de minha parte, eu pudesse aban-
donar a ideia de que as relações objetais são tão antigas quanto suas bases
biológicas.
ENTREVISTA
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Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, Porto Alegre, n. 37, p. 131-136, jul./dez. 2009
Antonio Quinet, entrevistado deste número de nossa revista, é psicanalista e
dramaturgo. Doutor em filosofia, foi professor-assistente do departamento de
Psicanálise da Universidade de Paris VIII e, atualmente, é professor e orientador
no mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade na Universidade Veiga de
Almeida, no Rio de Janeiro. Conhecido autor de diversos livros como Teoria e
clínica da psicose (Forense Universitária, 2000), Um olhar a mais (Jorge Zahar,
2002), Psicose e laço social (Jorge Zahar, 2006) entre outros. Quinet reside e
clinica na cidade do Rio de Janeiro, onde é membro da Escola de Psicanálise
dos Fóruns do Campo Lacaniano, instituição de cuja fundação participou após a
ruptura com a Escola da Causa Freudiana.
Em Porto Alegre, esteve na APPOA, para um duplo lançamento: o livro A estra-
nheza da psicanálise (Jorge Zahar, 2009) e o DVD da peça que escreveu e
dirigiu Óidipous, filho de Laios (Atos e Divãs Produções, 2009).
No livro Teoria e clínica da psicose o autor escreve um capítulo sobre o tema do
ciúme, intitulado: “O caso Dom Casmurro: as mordidas do ciúme”. Nesse capí-
tulo, Quinet apresenta-nos, de forma clara e didática, os desdobramentos dos
ciúmes do personagem mais discutido da literatura brasileira quando se trata
desse tema, Dom Casmurro. O ciúme vai sendo apresentado a partir de uma
leitura cuidadosa dos textos freudianos e lacanianos. Ele começa nos dizendo:
“Não podemos afirmar que Machado tenha sido influenciado por Freud, mas o
ciúme em Dom Casmurro mostra o quanto Machado é freudiano avant la
SOMOS SEMPRE CIUMENTOS?
Antonio Quinet
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Antonio Quinet
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lettre”.Trata, então, do ciúme projetivo, do ciúme do rival, como ciúmes constitu-
intes da subjetividade, e, também, representação a descoberto da estrutura de
toda relação amorosa. Na continuidade, faz uma leitura bastante interessante
do ciúme paranoico de Dom Casmurro. Talvez, até mesmo o personagem con-
cordasse com as hipóteses que Quinet elabora sobre sua história.
Em nossa entrevista, realizada por correio eletrônico, acompanhamos algumas
de suas considerações sobre a dinâmica do ciúme na clínica e nas obras de
Freud e Lacan. O autor gentilmente respondeu às perguntas formuladas sobre o
prisma da psicanálise, e tratou do tema que, com certeza, também faz parte da
novela privada de cada leitor.
Somos sempre ciumentos?
133
REVISTA: Considerando seu percurso sobre o tema do ciúme, gostaría-
mos que nos especificasse sobre a relação existente entre ciúme e paranoia,
considerando que ela está presente desde o princípio da obra freudiana!
QUINET: Encontramos em Freud a relação entre ciúme e paranoia atra-
vés do mecanismo de projeção, que se encontra em jogo em ambos os casos,
o que não quer dizer que o ciúme seja sempre paranoico nem que a projeção
especifique a paranoia, pois, com Lacan, sabemos que sua condição é a
foraclusão do Nome-do-Pai.
REVISTA: Poderia situar-se no complexo de Édipo a relação existente,
também desde Freud, entre ciúme e homossexualidade?
QUINET: A homossexualidade é o terceiro termo que relaciona ciúme e
paranoia, em Freud, na medida em que o ciumento projeta seu desejo homos-
sexual em seu parceiro heterossexual excluído do par que seu ciúme constitui,
fazendo existir (nesse par) a relação sexual impossível de ser escrita. Assim, o
sujeito, enquanto excluído da cena primitiva (condição estruturante do desejo),
atualiza sua rejeição do campo do Outro, supondo que este está completado
por um parceiro.
REVISTA: O ciúme é presença constante na vida amorosa, mas também
emerge na psicopatologia. Em que podemos sustentar sua abrangência? Seria
na produção de um recorte específico do Outro: o objeto olhar?
QUINET: Situei em meu livro, Um olhar a mais, a estrutura do ciúme,
colocando o objeto a olhar como o terceiro elemento entre o sujeito e seu par-
ceiro do amor – na medida em que muitas vezes o ciúme se manifesta no
âmbito escópico. O ciumento atribui o olhar do parceiro em direção ao outro
como suposto objeto de desejo e, assim, ele se sente ocupando o lugar de
objeto causa de desejo do parceiro.
REVISTA: O olhar, como articulador do ciúme, sustentaria tanto o gozo
quanto o desejo?
QUINET: Há evidentemente, além do desejo, também um gozo do ciúme,
jalouissance, como designou Lacan – é um gozo paradoxal em que prevalece o
sofrimento sobre a satisfação. É um gozo derivado da inclusão do objeto a no
grande Outro, tendo como resultado a constituição de um Outro consistente e
gozador, como aparece na paranoia de ciúme. Freud propõe a equação do ho-
mem ciumento de sua mulher em relação a um outro homem: “Não sou eu que
o amo – é ela quem o amo”. Esse deslocamento projetivo é também encontrado
no ciúme presente em casais homossexuais: o sujeito nega seu desejo e o
atribui ao parceiro. Por vezes, esse desejo “negado” não é nem inconsciente e
134
Antonio Quinet
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pode se converter em proposta de jogos sexuais que envolvam terceiros ou até
mesmo outro casal(cf. clubes de swing heterossexuais). O que é importante
nessa relação estabelecida por Freud é a interversão entre desejo e ciúme. Por
outro lado, tem que lembrar que no complexo de Édipo completo (cf. O Eu e o
Isso de Freud): tanto o menino quanto a menina se situam ambos como objeto
sexual do pai e têm a mãe como objeto sexual. Assim, o ciúme é tanto do pai
com a mãe, quanto da mãe com o pai.
REVISTA: No seu livro Teoria e clínica da psicose, há um capítulo, que se
chama “O caso Dom Casmurro – as mordidas do ciúme”, em que se dedica a
uma análise dos diferentes tipos de ciúmes preconizados por Freud, a partir da
posição do narrador – Bentinho – protagonista da célebre obra de Machado de
Assis. Nesse seu texto, tão original, você situa a seguinte posição: “O caso
Dom Casmurro” é um caso de delírio de ciúmes. Você então inocenta Capitu, ao
avaliar que Dom Casmurro era um verdadeiro paranoico?
QUINET: Dom Casmurro é um romance cujo narrador é Bento Santiago,
que conta sua versão da história com Capitu. Daí só existir o ponto de vista dele,
incriminando Capitu de traí-lo com o melhor amigo. Sua narrativa é uma tentativa
de convencer o leitor disso, semelhante a Schreber, que conta suas memórias
para convencer que já está em condições de sair do hospício. Não há, em Dom
Casmurro, um ponto de vista externo, como em Otelo, no qual o leitor-especta-
dor sabe da inocência de Desdêmona e das armadilhas de Iago. Em Dom Cas-
murro, o narrador é seu próprio Iago, “Sant Iago”. Encontramos aqui toda a
lógica do delírio paranoico – desde o desencadeamento até o enclausuramento
voluntário, que desvela o status do sujeito de fora do laço social, cujo isolamen-
to lhe vale o apelido de Dom Casmurro da parte dos vizinhos. A certeza delirante
da traição de Capitu advém, para Bento, a partir do que este percebe do olhar da
mulher para o corpo morto do amigo Escobar: “os olhos de Capitu fitaram o
defunto como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nada-
dor”. Desde então, ele passa da suspeita à certeza, fixando o gozo no Outro. O
delírio de ciúme vem desnudar o aspecto real do ciúme, com a entrada em cena
do objeto a, condensador de gozo, em sua modalidade escópica: o olhar pre-
sente nos “olhos de ressaca” de Capitu.
REVISTA: Nesse mesmo capítulo de seu livro você afirma: “O ciúme nor-
mal não quer dizer justificado por uma infidelidade. Origina-se no complexo de
Édipo e é, em certas pessoas, experimentado bissexualmente”. Sendo assim,
podemos considerar que o ciúme é constituinte do sujeito?
QUINET: Freud relaciona a vida amorosa do sujeito à estrutura edípica do
terceiro excluído – condição do amor e do desejo. No caso do ciúme, esse
Somos sempre ciumentos?
135
terceiro é o próprio sujeito que se sente fora da relação sexual que ele projeta no
parceiro, fazendo um casal com um rival, reatualizando assim a cena primitiva
dos pais, de que ele é excluído. Mas esse ciúme é experimentado de acordo
com o complexo de Édipo completo, no qual tanto o menino quanto a menina
tem uma identificação com o pai e com a mãe, e têm com ambos uma relação
de rivalidade. Assim, o ciúme é experimentado bissexualmente, isto é, “um
homem não apenas sofrerá pela mulher que ama e odiará seu rival, mas tam-
bém sentirá pesar pelo homem a quem ama inconscientemente e ódio pela
mulher como sua rival“ (Freud).
REVISTA: Ainda sobre o seu texto — “O caso Dom Casmurro: as mordi-
das do ciúme” — é possível compreender que o ciúme anda de mãos dadas
com o desejo em sua face de tensão para poder fazer existir o elemento tercei-
ro. Isso que você chama de face de tensão do desejo seria o aspecto do ciúme
que poderia aproximá-lo do crime passional?
QUINET: No ciúme, o sujeito pensa possuir o objeto que preencherá sua
falta... se não fosse o temor de perdê-lo. Ele acredita possuir o objeto agalmático,
mas o afeto de ciúme vem despossuí-lo desse objeto fazendo aparecer a falta
tão logo achado, tão logo perdido. O ciúme é o temor de perder objeto de desejo
para um outro. Quem é esse outro? É um semelhante, um outro-ele-mesmo,
igual e real, um outro faltante, que procura preencher sua falta com o objeto que
“é do sujeito” – é o outro no qual o sujeito projeta seu ser de falta. O crime pode
advir na tentativa desesperada de separar o objeto do desejo do sujeito de seu
outro usurpador. O ciúme é, portanto, o outro lado do desejo – é o sinal da
incompletude do sujeito.
REVISTA: O ciúme como modalidade de gozo entraria na concepção de
sintoma neurótico?
QUINET: O ciúme não é um sintoma, e se aproxima mais da angústia. O
ciúme é um afeto que marca, por um lado, a falta do lado do sujeito ciumento, ou
seja, lhe desvela sua castração e, por outro lado, é sinal da emergência do
objeto a como separado dele e roubado, supostamente, por um outro.
REVISTA: O delírio de ciúme poderia funcionar como uma tentativa de
ortopedia para um sujeito à deriva no simbólico? O ciúme teria uma aceitação
social que favoreceria esse arranjo?
QUINET: No caso da psicose, como todo delírio, o ciúme é uma suplên-
cia à foraclusão do Nome-do-Pai e, assim, ele localiza efetivamente o sujeito no
registro simbólico. Como todo paranoico, o delirante de ciúme encontra seu
lugar no campo social, na medida em que aquilo que faz para ele função de
136
Antonio Quinet
136136
Nome-do-Pai o favorece em sua tentativa de estabelecer laço social, como de-
senvolvo em meu livro Psicose e laço social.
REVISTA: O que você pensa da seguinte hipótese clínica: “o ciúme deli-
rante” apresentado por alguns homens indicaria sua dificuldade com o significante
Nome do Pai. Isso poderia, inclusive, produzir uma psicose nos filhos, que fica-
riam verdadeiramente sem condições de serem filiados por esses pais? Na medida
em que esses pais duvidariam de sua condição paterna em função do ciúme.
QUINET: Efetivamente, no caso do paranoico, a função paterna se encon-
tra prejudicada, o que não significa que ele terá filhos psicóticos, pois não há
como se prever nem evitar uma “transmissão” da foraclusão do Nome-do-Pai,
que depende muito mais do que é veiculado pelo discurso da mãe.
REVISTA: Poderíamos considerar que, por vezes, é tênue a diferença
entre o delírio de ciúme encontrado na psicopatologia da paranoia e o “ciúme
delirante” que se apresenta em algumas vivências amorosas ditas normais?
QUINET: Concordo. Mas a grande diferença é que, no caso do neurótico,
por mais “delirante” que seja seu ciúme, há sempre uma dialética possível, uma
dúvida, uma desconfiança de que aquilo que o sujeito imagina e sente seja uma
produção sua. No caso da paranoia, a certeza da traição é bem mais difícil de
ser abalada, e o sujeito dificilmente se retifica e se questiona sobre sua partici-
pação na acusação que ele faz ao outro.
VARIAÇÕES
137137137
Ao se pensar o nexo entre poesia e emoção, estamos lidando com complexapassagem do mergulho interior, dilacerante experiência interior, para as
palavras do poema. A poesia é linguagem, mas traz dentro de si a carga da
experiência, o nexo vivo com a dimensão humana. Assim, no presente texto, há
o esforço de definir a natureza da lírica. Não se quer definição absoluta, mas
diretrizes que ajudem a compreender (a partir de Hegel) as peculiaridades des-
se gênero literário que se volta para a subjetividade. A seguir, como falamos
desde a condição presente, que põe em xeque a possibilidade de uma expres-
são autêntica da emoção, vem a necessidade de pensar a lírica moderna. Não
há mais correspondência necessária entre o autor e o eu poético, a subjetivida-
de é construção discursiva, a unidade se desfaz em fragmentos desconexos, os
níveis expressivos se misturam... Enfim, a poesia (em sua fragilidade) lida, a
partir da modernidade, com seus próprios limites. Por fim, há o desafio de em-
preender a leitura do poema de Drummond, Cantiga de enganar (Andrade, [1951]
2002)2 . Ponto de chegada, ele esteve sempre no horizonte do empreendimento
teórico anterior, como exemplo maior do impasse entre tradição e ruptura na
lírica moderna.
LIRISMO, MODERNIDADEE CANTIGA ENGANOSA
Antônio Marcos V. Sanseverino1
1 Professor Adjunto de Literatura Brasileira da UFRGS.
2 Todas as citações da obra de Carlos Drummond de Andrade foram feitas a partir da edição de
sua poesia completa (2002), conforme consta na referência ao final do artigo. Assim, cabe
registrar as datas de primeira edição de Sentimento do mundo (1940), José (1942), Rosa do
povo (1945) e Claro enigma (1951).
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, Porto Alegre, n. 37, p. 137-154, jul./dez. 2009
Antônio Marcos V. Sanseverino
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Da natureza da lírica
No presente ensaio, o interesse é estudar a natureza da lírica moderna.
Para isso, voltamos à definição e à caracterização hegeliana dos gêneros literá-
rios. Na narrativa, personagens agem e lutam em um determinado lugar e tem-
po. Um narrador constrói um mundo em que se busca a superação dos confli-
tos. Na lírica, ao se separar da objetividade, o espírito volta-se para si, perscruta
sua consciência e dá satisfação à necessidade que sente de exprimir, não a
realidade das coisas, mas o modo por que elas afetam sua alma. Observe-se
que é um enriquecimento da experiência pessoal, do conteúdo e da atividade da
vida interior. Talvez o aspecto central esteja na definição da função da lírica, que
deve “libertar o espírito, não do sentimento, mas no sentimento” (Hegel, 1993, p.
607). Graças a essa libertação, a alma torna-se capaz de se exprimir e dar aos
sentimentos, até então obscuros, a forma de intuições e de representações
conscientes. Esse aspecto é crucial, pois o movimento de exteriorização pela
palavra não sufoca, nem nega o sentimento, mas traz o esforço de lhe dar limite
e contornos. Talvez seja possível dizer que o sentimento permanece vivo, mas
em vez de controlar o indivíduo passa a ser dominado por ele. A poesia lírica
satisfaz uma necessidade de nos levar a perceber o que sentimos, nossas
emoções, nossos sentimentos, nossas paixões, mediante a linguagem e as
palavras com que o revelamos (Hegel, 1993, p.608).
Objeto e tema são acidentais, pois o mais importante é a expressão
artística “cujo encanto, no que se refere à poesia lírica, pode consistir no terno
perfume que a alma exala, na novidade e na originalidade das ideias, nos aspec-
tos surpreendentes dos pensamentos” (Hegel, 1993, p. 610). Observe-se que
Hegel usa a imagem de terno perfume que a alma exala, capaz de provocar um
encanto no leitor. Essa imagem figura um conceito de lírica centrada na identifi-
cação entre poeta e ouvinte, pautados pela possibilidade de haver um encontro
entre a expressão particular do indivíduo e o interlocutor que nela se reconhece.
É a ideia da arte simbólica, em que o mergulho no particular (individual) ganha
relevância na medida em que exprime um conteúdo universal, comum a outros
seres humanos. Sem avançar no assunto por enquanto, vale apenas referir que
a lírica moderna, considerando o modo como Hugo Friedrich (1991) a define,
trabalha com a agressão do poeta sobre o leitor, com a dissonância...
A natureza das disposições psíquicas e o estado da alma individual, im-
pulsos, transportes e intensidade da paixão ou a serenidade da alma e da con-
templação, possuem regras variadas. “Por isso, dada a multiplicidade das cau-
sas de que as variações interiores dependem, é impossível estabelecer princípi-
os gerais e regras fixas” (Hegel, 1993, p.609). Com efeito, o poeta se propõe a
evocar no leitor uma disposição de alma semelhante à que fez nascer o fato que
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relata. Para isso, a coesão interior é dada não pelo motivo que gerou o poema,
mas pela forma com que ele é composto, que vai da imagem selecionada ao
ritmo escolhido.
A expressão lírica pode levar em conta até mesmo o curso de aconteci-
mentos ou a mudança brusca do destino. Mesmo com esse aspecto, mantém-
se essencialmente lírica, porque o conteúdo essencial é o universo interior do
indívíduo: “tudo emana do coração e da alma ou, mais exatamente, das disposi-
ções e situações particulares do poeta” (Hegel, 1993, p. 609). Em outros ter-
mos, interessa sempre o impacto sobre o sujeito e o modo como a reação
subjetiva ganha forma poética. A partir daí podemos estabelecer o conceito de
lírica, considerando os seguintes aspectos:
a) No discurso monológico da subjetividade, há a fusão da alma com o
mundo exterior. As imagens construídas não buscam representar a realidade,
mas são projeção da experiência interior do eu poético. Assim, em um poema
como Canção do exílio, de Gonçaves Dias (1998), a natureza (sabiá, palmeiras,
estrelas) é uma projeção da interioridade, mais do que figuração do mundo.
b) As coisas, as cenas e os elementos sensíveis são, então, a represen-
tação do mergulho interior do sujeito, e as imagens materializam a interioridade
do poeta. No máximo, os elementos externos suscitam a expressão lírica, mas
são elementos acessórios.
c) De modo diferente do drama, em que há movimento e conflito na ação
dos personagens, a lírica destaca um instante, uma cena, para preservá-la do
fluxo temporal. Normalmente, não há passagem do tempo. Ficando o discurso
preso no tempo presente.
d) A busca de unidade é fruto da aspiração da identidade, capaz de abar-
car as contradições entre o eu e o mundo, entre o sujeito e a sociedade. Essa
unidade almejada está expressa em todos os níveis: entre som e sentido –
eufonia e repetição; entre sujeito lírico e objeto representado; entre poeta e
leitor-ouvinte, que, por empatia, compartilham de um estado anímico semelhan-
te.
e) Há ausência de distanciamento, pois o eu poético parece construir o
mundo, que se transforma em uma expressão do sujeito. Ao contrário do narrador,
o eu poético não se separa do mundo objetivo, há uma espécie de fusão.
f) A ênfase na lírica está sobre o discurso poético. Há um deslocamento
do centro de interesse do objeto para a forma de dizer; em outros termos, o
interesse não está no objeto, mas principalmente no olhar que o sujeito lírico
lança sobre ele e no poema resultante do esforço discursivo.
Podemos falar, então, de unidade formal da poesia lírica. A realização
material do poema, sua dimensão literária, é percebida no uso peculiar da lin-
guagem que provoca estranhamento, desautomatização da linguagem prosai-
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ca. O ritmo, pela alternância regular de sons no tempo, cria uma forma de dizer
que distingue o poema lírico da fala cotidiana. Assim, o ritmo cria uma base
externa às palavras, que facilita a memorização do dito, o que se resume no
verso, que impõe ao fluxo verbal a lógica do ritmo. Além disso, vários recursos
sonoros – aliteração, assonância, rima, repetição de palavras –, despertam a
atenção sobre a dimensão sensível da palavra. A redundância sonora de uma
consoante ou de uma vogal tenta construir uma forma expressiva que se asse-
melhe ao conteúdo expresso. Nunca é demais lembrar a origem musical da
lírica (lira), expressa ainda nos termos usados para nominar vários poemas (lira,
canção, ode, hino, balada...).
O que se mostra, então, é o conjunto orgânico do poema, que vai da
dimensão lírica, da expressão subjetiva, e alcança dimensão material da lingua-
gem. A poesia usa ao máximo a potência expressiva da linguagem comum,
dotando de sentido até suas menores partes. Uma palavra evidentemente não é
poética em si mesma, torna-se poética pela forma como se insere no poema e
se combina com as outras. Deve-se pensar na estrutura poética, em que a
função poética coloca a palavra fora do uso pragmático da língua, priorizando os
jogos imagéticos e sonoros construídos no poema.
Nesse sentido, importa lembrar a construção da imagem poética, da
metáfora. O traço fundamental da linguagem poética está no conjunto integral
do poema, em que a sonoridade é a base, mas não seu traço essencial. A
figuração, em que a palavra ganha um sentido além do que lhe é próprio, cons-
titui o traço poético fundamental, pois diz da capacidade humana de construir
analogias inexistentes no mundo e apenas construídas ou descobertas no uso
poético da linguagem.Assim, é possível inventar uma semelhança entre escre-
ver e catar feijão. Pode-se ver a ressaca do mar nos olhos alguém. Ou que um
homem se afagou no rio de seus problemas...
A metáfora, segundo Antônio Candido (2006), é uma forma essencial ao
ser humano, em que se descobre a semelhança entre objetos, seres, natureza.
Para isso, o homem procede à comparação entre dois objetos, abstraindo o que
há em comum entre eles. Na união dos dois termos, homem-leão ou homem-
rato, transpomos o sentido de um termo para o outro, formando uma nova reali-
dade semântica, que quebra a barreira entre objetos diferentes. Deve-se atentar
entre quais elementos se constrói a analogia. Se um homem é chamado de
cavalo, trazemos para o campo da natureza, podendo ressaltar a força, a capa-
cidade de trabalho. Se é chamado de máquina, sua frieza e sua artificialidade
vem a primeiro plano.
O texto lírico se caracteriza pelo processo de interiorização,
centrada num sujeito poético, eminentemente egocêntrico. Consi-
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Lirismo, modernidade...
deremos, então, que as imagens que penetram o poema (visuais,
auditivas, táteis, olfativas ou gustativas) são um caminho do poeta
mostrar como uma vivência penetrou em seu universo interior. “Esse
processo de interiorização – do exterior da vida para o interior do
sujeito poético – não pretende ser exaustivo”. As imagens são índi-
ces ou representações simbólicas (notações) captadas seletiva-
mente pelo sujeito poético (Reis, 2003, p. 307).
O texto lírico representa, então, uma atitude marcadamente subjetiva,
com consequências no plano técnico-compositivo. O sujeito poético, construído
no discurso, revela-se através das imagens compostas. Do ponto de vista se-
mântico e técnico-compositivo, os textos líricos regem-se, então, pelo princípio
da motivação. A poesia tem como princípio maior a busca de semelhanças entre
os sons (ritmo, repetição de palavras, rima, aliteração e assonância), entre as
palavras, entre as imagens... De certo modo, a imagem poética traz a ambição
de uma relação de semelhança entre a palavra e o referente, como se o signo
fosse motivado. É o contrário do signo arbitrário e imotivado, que não constitui
relação de identidade com objeto representado. Vale lembrarmos que, para
Jakobson (2003), a linguagem poética é regida pelo eixo da similaridade que se
sobrepõe ao eixo da contiguidade.
Em síntese, a lírica é um discurso em que o sujeito passa a ter consciên-
cia de si mesmo, pelo movimento lírico de sair de si para se concretizar na
forma do poema, como expressão livre e gratuita, em que o Espírito penetra as
coisas mais simples e prosaicas, dotando-as de significação e construindo uma
conciliação entre o sujeito e o mundo.
Do caráter histórico da lírica na poesia moderna
Se considerarmos que há uma necessidade essencial de exprimir a
interioridade, a poesia lírica é uma forma entre outras possíveis de organizar a
subjetividade. Essa expressão, no entanto, sofre mudança histórica que afeta o
núcleo de sua própria definição. Lidando com a literatura ocidental, pode-se
dizer que a lírica passa por uma significativa transformação no século XIX. Exis-
te o questionamento da possibilidade de se escrever poesia e de se expressar
liricamente em um mundo desumanizado pela emergência das grandes cida-
des, pela dominação da produção capitalista.
As formas expressivas tradicionais são questionadas. Não haveria mais
possibilidade de o sujeito revelar-se por inteiro, por causa do limite da lingua-
gem. Entre o sujeito e o objeto, assim como entre o autor e leitor, há um abismo
insuperável. Os choques cotidianos das grandes cidades rebaixam a condição
Antônio Marcos V. Sanseverino
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do poeta (e da poesia), colocando-os ao rés do chão. A prosa cotidiana entra na
poesia, impedindo muitas vezes a distinção...
O lirismo não morre, mas ele é transformado e permeado por novos ele-
mentos. A relação entre autor e leitor passa a ser, muitas vezes, de tensão e de
agressividade, em que fica marcada a distância entre o poeta (sensível) e o leitor
(alienado da sensibilidade da arte). O feio, o fragmentário, o obscuro, o confuso,
a mistura, os lampejos destrutivos e prosaicos, a perda dos limites são alguns
elementos inaceitáveis para a lírica tradicional que entram na poesia a partir do
século XIX, principalmente com Baudelaire. Segundo Friedrich (1991), esses
elementos passam a ser as categorias negativas que definem a lírica moderna.
Auerbach (2000) define a novidade, trazida a partir de Baudelaire, como a mistu-
ra entre níveis que antes ficavam separados.
Mas já nas primeiras estrofes encontramos coisas que dificilmente
parecerão compatíveis com a dignidade do sublime. Um leitor mo-
derno quase não se dá conta delas, pois está acostumado a esse
estilo, estabelecido por Baudelaire, em que tantos poetas, cada
um à sua maneira, se instalaram depois como em sua própria
casa. Mas os contemporâneos de Baudelaire, mesmo os que cres-
ceram habituados às ousadias dos românticos, devem ter sentido
um choque, sé é que não ficaram horrorizados. Já na primeira linha
o céu é comparado a uma tampa de uma panela ou talvez de um
caixão (Auerbach, 2000, p. 84).
Ao comentar um soneto de Flores do mal, Spleen (Baudelaire, 1995),
Auerbach mostra a novidade trazida por Baudelaire. Aos leitores do século XX,
essa mudança não seria mais perceptível. Observem-se os termos fortes usa-
dos para caracterizar a possível reação dos contemporâneos: choque, horrori-
zados. A mistura entre o tema sublime e a realidade baixa, prosaica, aparece na
metáfora construída que une tampa de caixão, ou panela, e céu. Sem perder o
tom elevado, sem perder a seriedade própria do sublime, Baudelaire introduz um
traço irônico que quebra a unidade típica da lírica tradicional.
A lírica moderna é definida, então, por Hugo Friedrich como uma arte que
intencionalmente faz-se obscura, que torna seus conteúdos e sua linguagem
não-familiar para o leitor, ao torná-los estranhos ou deformá-los. O ponto de
partida da definição de dissonância é a dificuldade de acesso à lírica moderna,
e a explicação está no caráter desagradável e estranho de sua linguagem. Ela é
escrita não para conciliar, mas para provocar inquietude no leitor.
É feita então uma oposição entre lírica moderna e romântica, cuja defini-
ção está dada pela manifestação de sentimento – linguagem do estado de âni-
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Lirismo, modernidade...
mo (Hegel, 1993, p. 616) – que precisa de distensão do leitor, de uma intimidade
comunicativa, para que ele compartilhe a emoção expressa no poema. A lírica
moderna estabelece o contrário: uma relação tensa, enfatizando a transforma-
ção, a ação do leitor.
As harmonias são evitadas pelas palavras duras, que quebram a harmo-
nia, assim como Baudelaire justificava, em uma alegoria, o uso do chicote para
despertar o burguês letárgico, sem vontade ou ânimo para agir e trabalhar. É a
defesa da quebra de expectativa, do choque pela linguagem, como uma função
social.
Dramaticidade agressiva: (...) Mas ela determina também a rela-
ção entre poesia e leitor, gera um efeito de choque, cuja vítima é o
leitor. Este não se sente protegido, mas alarmado (Friedrich, 1991,
p.17).
Hugo Friedrich propõe o conceito de anormalidade, não como critério de
valor, mas como juízo descritivo que ajude a compreender a natureza da lírica
moderna, como uma forma poética não assimilável. Como a poesia é mais do
que deleite, uma forma de cognição, a lírica moderna encerra em si um significa-
do que não satisfaz o leitor.
Shoshana Felman (2000), em um estudo sobre literatura de testemunho,
curiosamente discute a crise do verso e, talvez de modo inusitado, traz um
depoimento (testemunho) de Mallarmé. No final do século XIX, o poeta francês
aponta a crise do verso (definido pelo ritmo regular). A prosa invade a poesia, e o
verso se torna livre, ou seja, possui uma irregularidade rítmica. Não há mais
regra de composição que oriente o poeta a escrever. No presente ensaio, impor-
ta destacar que a poesia moderna, que incorpora o gesto agressivo,traz para
dentro o feio e o repulsivo, mistura o elevado e o rebaixado, perde seu último e
mais antigo traço distintivo – o ritmo regular, típico do verso metrificado. Ele
continua presente na poesia popular ou na canção, mas surge como novidade a
possibilidade uma poesia de ritmo irregular, com palavras comuns, que toma a
vida cotidiana como matéria, fragmentário e que provoca o leitor. Isso pode ser
chamado de poesia. Em síntese, na lírica moderna, a relação entre sujeito e
objeto passa a ser de afastamento e de agressiva tensão; as imagens, construídas
de modo fragmentário e obscuro, podem ser feias e grotescas; e a linguagem
poética torna-se prosaica, próxima da fala comum e diária. A definição de poesia
mudou.
Ao caracterizar a lírica moderna, vemos que a poesia traz para dentro de
si aquilo que antes ficava fora de si. Em outros termos, o discurso poético
incorpora a sua própria negação: ao discurso monológico, integram-se outras
Antônio Marcos V. Sanseverino
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vozes; às imagens da natureza misturam-se resíduos sujos do cotidiano; à
emoção autêntica, agregam-se a dúvida e a ironia... Assim, cabe perguntar ago-
ra o que levou à alteração da poesia lírica, a partir do século XIX. A modernidade
é marcada pela perda do consolo da transcendência. O tédio, a angústia da
morte e da passagem do tempo devorador, a tensão entre desejo de conciliação
(eternidade) e impossibilidade de se alcançar o ideal (tempo histórico) dominam
os novos indivíduos inseridos nas grandes cidades depois da Revolução Indus-
trial. A mercadoria, valor de troca, termina por transformar as relações humanas
em negócios. Assim, o principal valor (que gera satisfação, agrado, aplauso...) é
econômico. O critério para se avaliar o sucesso e a realização de uma obra ou
pessoa é traduzido, quantitativamente, em dinheiro, mercadoria. Nessa condi-
ção, não há espaço para a arte ou para valores de qualidade. Nesse contexto, a
tendência da lírica moderna é o isolamento.
Em Lírica e sociedade, Theodor Adorno (1983) apresenta a lírica (objeto
delicado) como um discurso avesso à socialização, expressão da subjetividade
do sujeito. A expressão individualizada, para se tornar universal, no entanto,
deve expressar-se na linguagem, que vai além da individualidade. Na lírica, as-
sim, a elevação ao universal é a manifestação de algo ainda não desfigurado,
não captado, não subsumido ao conceito universal, pois o poeta é um dos
poucos capaz de mergulhar em si e expressar sua subjetividade, encontrando o
universal.
A qualidade de uma obra, em Adorno, é medida, assim como em George
Lukács (1968), por sua capacidade de expressar o que está além ou aquém da
ideologia, revelando o que ela esconde. Na leitura de Lukács, a ideologia não
permite a visão do todo, cabendo ao romancista recompô-lo. Na perspectiva de
Adorno, é o contrário. Na modernidade, em que não há mais possibilidade de
totalidade, é no fragmento, no resíduo, no resto, na sobra, no elemento estra-
nho, no que não está subsumido... Enfim, a capacidade subjetiva revela-se au-
têntica apenas quando escapa ao padrão identitário, quando se enquadra na
totalidade.
A universalidade do poema é sempre social. Não é possível um salto
direto da expressão lírica para o universal, pois então seria uma revelação de
ordem sagrada. O todo da sociedade, como unidade contraditória, aparece den-
tro da obra, mas deve ser analisado de modo imanente. Ele não revela apenas a
ideologia, como falsa consciência ou mentira, mas mostra aquilo que a ideolo-
gia esconde. Por isso, Adorno enfatiza que esse saber só é válido quando se
redescobre no puro abandonar-se à coisa mesma, na medida em que o sujeito,
ao se abandonar à coisa em si, é capaz de descobrir as marcas estranhas e
diferentes que não se assemelham à ideologia. O foco do lírico moderno é pôr-
se à distância do mundo e, como protesto, enunciar o sonho de outro lugar
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Lirismo, modernidade...
possível. Contra a prepotência das coisas, reação à coisificação do mundo, à
dominação de mercadorias sobre homens, que desde a Revolução Industrial se
desdobrou em poder dominante da vida, o discurso lírico se afirma como resis-
tência solitária.
O conceito de lírica é socialmente determinado, já que a formulação
hegeliana, antes apresentada, pressupõe a possibilidade de um indivíduo que
alcançará, pela expressão lírica, a superação de sua desordem interior em uma
forma única. Assim, o desligamento da objetividade, da coerção, do reino da
necessidade para a livre expressão do espírito são marcas da posição social do
discurso lírico. A partir do século XIX, a lírica romântica busca a expressão da
autêntica natureza humana, resgatando a supremacia da subjetividade sobre o
mundo desencantado. Essa seria uma forma de revolta em que se procura esta-
belecer na poesia o encantamento perdido de um mundo em que a divisão do
trabalho fez com que o homem perdesse o domínio sobre as atividades concre-
tas, tornando-as meramente abstrações e a si mesmo um ser mutilado. Desse
modo, a primazia do sujeito no discurso lírico funciona como contrapartida da
sua coisificação na realidade objetiva, desencantada, posto que baseada na
separação entre sujeito e objeto.
O afastamento e o isolamento do poeta são, assim, socialmente motiva-
dos, principalmente considerando a sociedade capitalista que está baseada na
atomização individualista, cuja falsa mediação entre as pessoas é a mercado-
ria. O lírico é levado pela sociedade ao isolamento, portanto. No caso românti-
co, existe a busca da conciliação através da arte, como se ausência de violên-
cia do momento estético levasse à eliminação da barbárie real. No caso moder-
no, a lírica é o testemunho de sua impossibilidade, em que a arte é a consciên-
cia da infelicidade do homem, é a experiência do sofrimento, através da capaci-
dade de exprimir o singular que não está subsumido pela ideologia, pela falsa
universalidade do capital.
A linguagem, mediação entre a lírica e a sociedade, é dupla. Através de
suas configurações, ela se molda inteiramente às emoções subjetivas, dando
forma e materialidade discursiva, de tal modo que a emoção parece brotar do
próprio discurso lírico. Mesmo nessa radical individualidade, a poesia continua a
ser o meio dos conceitos, aquilo que restabelece a referência irrenunciável ao
universal e à sociedade. Mesmo quando o sujeito esquece de si mesmo e abre
possibilidade de que a linguagem resgate seu valor humano, ainda assim a
dimensão social está presente.
Ao mesmo tempo, a linguagem, como expressão subjetiva, não é sagra-
da, porque ela não existe de modo absoluto, como exterioridade pura, fora do
indivíduo, mas faz parte dele como sujeito. Assim, o autoesquecimento não é o
sacrifício porque não tem o caráter de violência ritual, em que se resgata o valor
Antônio Marcos V. Sanseverino
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do ser. É o instante de conciliação, uma pausa momentânea do processo. O
sujeito não é nem um ser fechado que se baste a si mesmo, que possa negar a
sociedade; nem é um ser que funcione apenas como parte determinada da
sociedade. Ele nega os dois lados porque não aceita o isolamento, o rompimen-
to da ligação entre indivíduo e sociedade. Assim, a lírica pode promover pela
linguagem a conciliação entre ambas, um equilíbrio momentâneo e frágil.
A subjetividade lírica deve sua própria existência ao privilégio: so-
mente a pouquíssimos seres humanos foi dado, a despeito da pres-
são da necessidade vital, captar o universal no mergulho em si
mesmos ou, mesmo, simplesmente desenvolver-se como sujeitos
autônomos, mestres da livre expressão de si mesmos (Adorno,
1983, p. 195).
Os outros, não privilegiados, como objetos, permanecem submetidos às
contingências materiais das quais não se distanciam e nas quais caem aliena-
dos. Eles também têm, no entanto, a necessidade inalienável de expressar a
subjetividade, mesmo que de modo fragmentário. O frágil lugar da lírica fica
garantido por sua força, por sua capacidade de resistência à totalidade, dando
vazão à expressão das individualidades mutiladas.Em um poema de Drummond, A flor e a náusea (Andrade, [1945] 2002),
publicado em 1945, em A rosa do povo, o sujeito poético se move pela cidade,
se constitui pelos fragmentos que apresenta. Uma flor rompe o asfalto, o eu
poético para e senta a fim de observá-la e convida a todos para observarem-na,
apesar de sua feiúra, sua falta de cheiro ou cor. Há aí a expectativa de realiza-
ção pelo aparecimento da flor, como possibilidade de conciliação, mesmo que
precária. A situação desenhada parece inverossímil, exagerada. O convite feito
mostra, ao mesmo tempo, a impotência do poeta e de sua fala, incapaz de
realizar plenamente a conciliação a que convida, a não ser pelo exagero fantasioso.
Em outra leitura, poder-se-ia ver na flor a perspectiva utópica, uma promessa de
conciliação trazida pela flor, figuração da poesia.
É necessário, então, que se compreendam concretamente as variações
histórico-culturais que penetram o discurso poético e se misturam ao desejo de
expressão lírico. Hoje, a lírica fala muitas vezes da impossibilidade de se fazer
poesia. Na lírica, no discurso frágil e individual, pode-se encontrar a própria
constituição social do sujeito. O indivíduo distancia-se da mera existência, ne-
gando a coisificação, o senso comum. Busca escapar à desumanização pela
expressão dos sentimentos, das sensações, das estranhezas que têm dentro
de si, mas que o discurso racional não consegue classificar ou que o senso
comum não consegue explicar. No mergulho interior, no abandonar-se às coisas
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Lirismo, modernidade...
concretas, lança um olhar novo sobre si, sobre o estar no mundo e sobre a
sociedade. A forma expressiva resgata o valor da linguagem, afasta-se do padro-
nizado, revitaliza a língua pela valorização do estranho e do residual. Assim, a
flor rompe o asfalto e traz um consolo ao leitor.
Tensão entre tradição e modernidade em um poema enganoso
Cantiga de enganar3
Carlos Drummond de Andrade
1. O mundo não vale o mundo,
meu bem.
2. Eu plantei um pé-de-sono,
3. brotaram vinte roseiras.
4. Se me cortei nelas todas
5. e se todas me tingiram
6. de um vago sangue jorrado
7. ao capricho dos espinhos,
8. não foi culpa de ninguém.
9. O mundo,
 meu bem,
 não vale
10. a pena, e a face serena
11. vale a face torturada.
12. Há muito aprendi a rir,
13. de quê? de mim? ou de nada?
14. O mundo, valer não vale.
15. Tal como sombra no vale,
16. a vida baixa... e se sobe
17. algum som deste declive,
18. não é grito de pastor
19. convocando seu rebanho.
20. Não é flauta, não é canto
21. de amoroso desencanto.
3 Fiz a opção pela transcrição integral do poema, pois assim fica melhor para o leitor acompanhar
a análise que segue.
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22. Não é suspiro de grilo,
23. voz noturna de nascentes,
24. não é mãe chamando filho,
25. não é silvo de serpentes
26. esquecidas de morder
27. como abstratas ao luar.
28. Não é choro de criança
29. para um homem se formar.
30. Tampouco a respiração
31. de soldados e de enfermos,
32. de meninos internados
33. ou de freiras em clausura.
34. Não são grupos submergidos
35. nas geleiras do entressono
36. e que deixem desprender-se,
37. menos que simples palavra,
38. menos que folha no outono,
39. a partícula sonora
40. que a vida contém, e a morte
41. contém, o mero registro
42. de energia concentrada.
43. Não é nem isto, nem nada.
44. É som que precede a música,
45. sobrante dos desencontros
46. e dos encontros fortuitos,
47. dos malencontros e das
48. miragens que se condensam
49. ou que se dissolvem noutras
50. absurdas figurações.
51. O mundo não tem sentido.
52. O mundo e suas canções
53. de timbre mais comovido
54. estão calados, e a fala
55. que de uma para outra sala
56. ouvimos em certo instante
57. é silêncio que faz eco
58. e que volta a ser silêncio
59. no negrume circundante.
60. Silêncio: que quer dizer?
61. Que diz a boca do mundo?
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Lirismo, modernidade...
62. Meu bem, o mundo é fechado,
63. se não for antes vazio.
64. O mundo é talvez: e é só.
65. Talvez nem seja talvez.
66. O mundo não vale a pena,
67. mas a pena não existe.
68. Meu bem, façamos de conta.
69. de sofrer e de olvidar,
70. de lembrar e de fruir,
71. de escolher nossas lembranças
72. e revertê-las, acaso
73. se lembrem demais em nós.
74. Façamos, meu bem, de conta
75. – mas a conta não existe –
76. que é tudo como se fosse,
77. ou que, se fora, não era.
78. Meu bem, usemos palavras.
79. façamos mundos: ideias.
80. Deixemos o mundo aos outros
81. já que o querem gastar.
82. Meu bem, sejamos fortíssimos
83. – mas a força não existe –
84. e na mais pura mentira
85. do mundo que se desmente,
86. recortemos nossa imagem,
87. mais ilusória que tudo,
88. pois haverá maior falso
89. que imaginar-se alguém vivo,
90. como se um sonho pudesse
91. dar-nos o gosto do sonho?
92. Mas o sonho não existe.
93. Meu bem, assim acordados,
94. assim lúcidos, severos,
95. ou assim abandonados,
96. deixando-nos à deriva
97. levar na palma do tempo
98. – mas o tempo não existe –,
99. sejamos como se fôramos
100. num mundo que fosse: o Mundo.
(Andrade, [1951] 2002, p. 258-261).
Antônio Marcos V. Sanseverino
150150150
Publicado em Claro Enigma (Andrade, [1951] 2002), Cantiga de enganar
é aparentemente um poema de feição tradicional. Como já mostrou Vagner Camilo
(2001), a passagem de Rosa do Povo (Andrade, [1945] 2002) para Claro Enigma
representa mais do que uma classicização da poética de Carlos Drummond de
Andrade. Não se trata apenas da virada metafísica apontada por José Guilherme
Merquior (1976). Trata-se da expressão irônica dos impasses vividos na virada
dos anos 40 para os 50, da possibilidade de a lírica expressar o universo social
e propor a superação utópica da desigualdade. De certo modo, o desejo do
poeta ser o porta-voz de outras falas se desfaz na condição melancólica, assim
não haveria mais a crença no poder da lírica como ainda aparece em A flor e a
náusea (Andrade, [1945] 2002). Resta a fragilidade do verso, incapaz de trazer
para dentro de si a dona traída pelo marido, de Caso do vestido (Andrade, [1945]
2002), o leiteiro, de Morte do leiteiro (Andrade, [1945] 2002), Carlitos, de Canto
ao homem do povo (Andrade, [1945] 2002). A voz melancólica do sujeito não
consegue escapar de seu isolamento.
O acento positivo na emoção poética, capaz de criar empatia com o
interlocutor, se perde na fixidez gélida da pedra. O resgate das coisas residuais
ou dos excluídos ganhava espaço na voz lírica de A rosa do povo. Isso se perde
em Claro Enigma. Essa perda traz a dor melancólica do eu poético, que abdica
de ler a máquina do mundo.
Nesse contexto de publicação, Cantiga de enganar é um texto longo, de
100 versos. Construído em redondilhas maiores, sete sílabas poéticas, com
versos brancos, não rimados, o poema traz a feição própria da canção, como o
título, cantiga, sugere. Não bastasse isso, suas imagens não trazem a marca
do mundo moderno. Não encontramos remissão direta ao universo urbano, à
modernização, nem mesmo a marcas características do indivíduo fragmentado.
O eu poético apresenta a feição serena de quem se dirige respeitosamente ao
seu interlocutor, meu bem, traduzindo sua concepção de mundo (o mundo não
vale o mundo; o mundo não vale a pena). O tom é melancólico, mas não se dilui
em desordem verbal ou fragmentação do discurso. Essa organização rigorosa
constrói uma forma tradicional para o poema, que traz em si a tendência elevada
do sublime, a pureza do vocabulário, o teor natural de suas imagens, evitando
comparações que pudessem ser corroídas pela transformação histórica. Se
seguimos Adorno (1983), no seio da modernidade, o poeta constrói a possibili-
dade da conciliação pela forma e pela projeção de uma relação harmônica com
a natureza.
O interesse de Drummond, no entanto, não está apenas nesse resgate
das formas líricas elevadas em plena modernidade. O poeta mineiro não busca
a lírica essencial. Sua força desenvolve-se na medida em que o espinho, a
ironia, doloroso, que se encrava no corpo do poema lírico, pondo em suspensão
151
Lirismo,modernidade...
o puro derramamento emotivo. Cabe olhar de perto para alguns pontos dissonantes
do poema que indicam de modo sutil a presença moderna da corrosão de sen-
tido.
A abertura do poema traz a única quebra da metrificação do poema pela
introdução de meu bem. Trata-se de um desvio rítmico que insere o interlocutor
na ordem do discurso. Por oito vezes, o eu poético se dirige diretamente a meu
bem. Além de ser uma forma afetiva, trata-se de um modo uniforme que cria um
único padrão de escuta. Não há variação na referência à posição de escuta,
posta sempre na mesma posição.
Mais uma vez, Drummond emprega aqui uma estratégia dramática
recorrente na sua obra, a que já tive oportunidade de me referir:
personificação do eu (Merquior) ou diálogo a um (Sant´Anna), atra-
vés do qual o eu se desdobra em um tu, a fim de encenar uma
dualidade ou conflito de posições diante de um mesmo problema,
que, no caso em questão, diz respeito às vicissitudes de sua poe-
sia, sintetizadas já na estrofe de abertura do soneto (Camilo, 2001,
p. 192).
No desdobramento do eu em outro, cria-se uma situação tensa, ambí-
gua, em que o leitor não sabe se o eu poético fala com outro ou consigo mesmo.
De certo modo, o eu torna-se o outro. Há várias possibilidades para se tentar
entender por que motivo Drummond usa como forma recorrente a segunda pes-
soa. Em uma primeira hipótese, pode-se supor que há um grau insuportável de
dor de tal modo que o sujeito precisa se projetar no papel do outro para se
expressar com distanciamento. Coloca fora de si, com certa objetividade, o
sofrimento, para contemplá-lo em seu grau incompreensível e paradoxal. Desde
os poemas José (Andrade, [1942] 2002) e Não se mate (Andrade, [1934] 2002),
Drummond põe em cena situações paradoxais, sem solução possível. Pode-se
supor também que o sujeito poético moderno não se constrói necessariamente
por uma fala homogênea. Ao contrário, sua subjetividade é cortada por outras
vozes e por outros resíduos discursivos que ameaçam romper a unidade
monológica da lírica. Se a lírica testemunha o sofrimento, o diálogo a um traduz
a tensão interior.
Drummond colocava que sua poesia era confessional, Candido (1995)
afirmava haver uma oscilação entre a tirania do eu e a culpa por projetar-se na
poesia. O resultado pode ser que o eu, além de todo retorcido, torne-se uma
criação imagética e discursiva móvel (boi, elefante, mão suja, Carlos, José),
de tal modo que o sujeito projete-se prismaticamente em personagens dife-
rentes.
Antônio Marcos V. Sanseverino
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Desse modo, as posições de eu poético e de interlocutor tornam-se pa-
péis encenados na dimensão poética. Assim, em plena feição tradicional do
poema, o discurso monológico se rompe para introduzir outra voz, ou no míni-
mo, outra posição. Então, o eu poético usa o imperativo de primeira pessoa
(façamos de conta) e, no verso seguinte, surge outra voz (mas a conta não
existe). Se é resposta direta do meu bem, ou se o próprio eu poético questiona
sua posição, não é possível definir, mas, em todo caso, o poema instaura um
movimento de afirmação e negação. O conselho é posto e logo a seguir questi-
onado. A cada momento do poema esse movimento se repete.
Depois de observar a situação dialógica construída, vale observar o movi-
mento discursivo. Pode-se dizer que temos um primeiro movimento que parte do
convite ao diálogo e que termina no 13º verso (de que? de mim? de nada?),
questionando o objeto do riso. Talvez nas formas interrogativas apareça o
questionamento que abre espaço para outra voz, para a interação com outra
posição, diversa do eu poético.
A seguir vem um longo trecho, em que começa com a busca de um símile
para o som que emerge do lugar para onde a vida baixa. Desse lugar, uma
imagem da morte para onde o indivíduo desce, vem um som. Começa aqui e vai
até o verso 50 um interessante trecho em que o eu poético constrói imagens
para definir esse som. Faz através de negações: não é grito; não é flauta; não é
suspiro; não é mãe... As imagens são suscitadas, são postas para o interlocutor
ver, mas nenhuma dá conta de expressar o som que sobe deste vale da morte:
não é nem isto nem nada. O som antecede a qualquer forma humana, precede
a música.
No verso 51, o trecho seguinte abre com uma sentença forte, de tom
proverbial: o mundo não tem sentido. Novamente, através das imagens acústi-
cas, o poema mostra o silêncio como ponto de definição do mundo. Talvez
possa se dizer que seja um silêncio paradoxal, já que ele se “faz eco / e volta a
ser silêncio / no negrume circundante”. Em um poema, uma cantiga como está
proposta, um convite ao diálogo, a afirmação do silêncio e da escuridão reforça
ainda mais a melancólica posição do eu poético em seu isolamento. Essa parte
do poema finaliza com o esforço de definir o mundo – fechado, vazio, talvez, só
– para logo em seguida voltar a dúvida (talvez nem seja talvez).
Na passagem para o trecho seguinte, vem o convite para o interlocutor:
façamos de conta. Depois de afirmar a falta de sentido (som que precede a
música), depois de colocar que existe apenas silêncio e negrume, e de propor
que o mundo nada diz, resta a possibilidade de fazer de conta. É a dimensão da
ficção, do pensamento puro, que perde o nexo imediato com a realidade e se
instaura a partir de suas próprias premissas, de suas próprias regras, construin-
do um mundo que faz sentido em si mesmo. É interessante observar que o
153
Lirismo, modernidade...
diálogo se intensifica a partir daqui com a repetição de uma resposta: não exis-
te. Como questionamento do outro ou questionamento de si mesmo, o que está
proposto não tem existência no mundo (é ficção, faz-de-conta, abstração). As-
sim, num movimento complexo e sutil, o interlocutor é convidado a deixar de
lado o que foi – pois “se fora, não era” – e a usar as palavras para fazer mundos
e ideias. O poema finaliza com um paradoxo, pois afirma a condição de vigília,
de lucidez e de severidade e, ao mesmo tempo, a condição ficcional: “sejamos
como se fôramos / num mundo que fosse: o Mundo”. A instabilidade não se
encerra com esse belo convite para o interlocutor ser num mundo ficcional que
fosse um Mundo maiúsculo, pois o poema inteiro é uma cantiga de enganar.
No verso façamos de conta, o eu poético convida à dimensão ficcional.
Existe uma força autoconsciente de que o regresso ao seio da tradição lírica
não passa de um jogo de faz de conta. O aspecto reflexivo parece barrar a
capacidade de superação do sentimento pelo sentimento, ou da passagem da
melancolia para expressão poética da melancolia, como vimos antes na defini-
ção de lirismo feita por Hegel. De modo auto-reflexivo, o poema se propõe como
canção (no título, na forma e no andamento), mas declara no seu núcleo que o
mundo e suas canções de timbre mais comovido estão calados. O que resta é
o silêncio, e a partir daí o uso da palavra para construir uma dimensão ficcional,
temperada pela lucidez irônica de se saber ficção. Para finalizar, cabe destacar
que o poema de Drummond foi o ponto de partida de toda reflexão sobre a
condição da lírica moderna, que traz dentro de si a necessidade de expressão e
ao mesmo tempo registra a impossibilidade fazê-lo.
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Recebido em 10/04/2010
Aceito em 17/04/2010
Revisado por Valéria Rilho
VARIAÇÕES
155155155
Embora não se trate de conceito propriamente psicanalítico, a questão dadúvida atravessa a obra de Freud, assim como a prática clínica do psicana-
lista, em vários momentos. Apesar de estarmos habituados a considerá-la na
sua expressão psicopatológica, especialmente como um dos sintomas mais
conhecidos da neurose obsessiva, não é apenas nessa estrutura clínica que ela
se apresenta: a dúvida sustenta a possibilidade de o sujeito se interrogar a
respeito de algo, sendo, portanto, comum às neuroses. Sem a dúvida, a análise
não é possível: faz-se necessário que o sujeito se interrogue para que avance no
trabalho junto ao analista.
Perguntando-me sobre o lugar da dúvida na psicanálise, deparei-me com
uma série delas, que busco desdobrar neste escrito com auxílio do edifício
teórico legado por Freud e Lacan. Que função tem a dúvida no psiquismo? É
possível situar o tempo em que se dá sua constituição no sujeito? Qual o lugar
da dúvida na clínica? Foram esses os pontos de partida para a reflexão que
segue.
No entanto, vale fazer uma pequena parada para nos determos no próprio
significado da palavra dúvida. Buscando sua definição no Dicionário Houaiss,
encontramos com as seguintes acepções:
A DÚVIDA QUE NÃO QUER
(E NÃO DEVE) CALAR1
Paulo Gleich2
1Trabalho elaborado para a jornada da turma VIII do Percurso de Escola da APPOA sob orienta-
ção de Norton Cezar Dal Follo da Rosa Jr.
2 Jornalista e graduando em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail:
p_gleich@yahoo.com
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, Porto Alegre, n. 37, p. 155-163, jul./dez. 2009
Paulo Gleich
156
“1) ação, estado ou efeito de duvidar, de sentir desconfiança, hesitação,
incerteza; 2) incerteza entre confirmar ou negar um julgamento ou a realidade de
um fato; 3) hesitação entre opiniões diversas ou várias possibilidades de ação;
4) falta de crença; ceticismo; 5) estado de desconfiança; suspeita; 6) sensação
de escrúpulo ou receio de fazer algo; 7) certo tipo de problema ou dificuldade”
(Houaiss, 2001).
O que há em comum entre esses significados parece ser a dimensão de
certa suspensão ante uma decisão, um problema, um fato. Suspensão que
aponta para a iminência de uma escolha por parte do sujeito: entre opiniões ou
possibilidades de ação, entre crer ou não crer, agir ou não agir. Encontramos
essa dimensão da escolha, de mais de uma possibilidade, na própria raiz da
palavra, dub, que aponta, em sua etimologia, para o dois, conforme é encontra-
do em dúbio, dublagem, entre outros.
Buscando na obra freudiana os momentos em que foi trabalhada a ques-
tão da dúvida, encontra-se, em Totem e tabu (Freud, [1912-1913]1997) um curi-
oso enunciado que pode servir-nos de ponto de partida. No capítulo III desse
escrito, no qual apresenta seu mito da constituição do sujeito psicanalítico,
Freud compara o brincar das crianças às representações imitativas nos rituais
dos povos “primitivos”, pois em ambos os casos se trataria da realização de um
desejo através da “alucinação motora”. Freud usa essa expressão para distin-
gui-la da alucinação sensorial, mecanismo primitivo do bebê para a satisfação
pulsional, e do próprio ato empreendido visando à transformação do mundo ex-
terior com vistas à realização de um desejo.
 Segundo ele:
Na etapa do pensamento animístico ainda não há oportunidade
para comprovar as circunstâncias objetivamente, porém sim pos-
teriormente, quando tais procedimentos ainda são todos manti-
dos, mas já se faz possível o fenômeno psíquico da dúvida como
expressão de uma inclinação ao recalque3 (Freud, ibid., p. 373).
Chama-nos a atenção que Freud não relaciona o surgimento da dúvida ao
recalque propriamente dito, mas, sim, a uma inclinação, predisposição ao
recalque. Se se trata de predisposição, podemos pensar que concerne uma
condição, necessária embora não suficiente, para que haja recalque; como um
3 A tradução das obras citadas de Freud foi realizada pelo autor a partir do original em alemão.
Grifo nosso.
 A dúvida que não quer...
157
germe a partir do qual este poderá, ou não, se desenvolver. É, portanto, em algo
anterior ao Édipo, ao término do qual o recalque fica instaurado, que há de se
buscar as condições para essa inclinação ao recalque expressada pela dúvida.
Deixemos, por ora, suspensa com um ponto de interrogação a ligação estabelecida
por Freud entre a expressão do desejo e a dúvida.
Seguimos com pistas de Freud para pensar a inscrição da dúvida no
psiquismo. No texto A denegação (Freud, [1925]1997), Freud fala de uma ope-
ração psíquica logicamente anterior ao recalque; operação que concerne à ex-
pulsão, de algo reconhecido pelo eu-prazer como desprazeroso, estranho a si. A
partir dessa operação, instaurar-se-ia um primeiro dentro-fora, sendo que dentro
estaria situado o que é incorporado pelo eu-prazer, e fora aquilo que é percebido
como desprazer. Seria, portanto, a partir de uma expulsão primeira, de um “não”
outorgado a algo percebido como desprazeroso, que se fundariam, de um só
golpe, a afirmação e a negação, o eu e o não-eu; em outras palavras, a possibi-
lidade de uma forma primitiva de alteridade e de separação.
A partir da denegação se instaurariam, no sujeito, duas formas de juízo: o
juízo de atribuição e o juízo de existência. Ambos os juízos confrontam o sujeito
com a necessidade de uma escolha: sim ou não, dentro ou fora, bom ou ruim.
Nessa operação primeira de diferenciaçãopodemos talvez situar a “origem” –
mítica, assim como é, segundo Lacan ([1956]1998, p. 384), o momento em que
se dá essa primeira denegação – da dúvida, pois esta se coloca ao sujeito como
uma detenção ante possibilidades entre as quais deve posicionar-se ou, em
outras palavras, fazer um juízo.
Em seu Comentário sobre A denegação, Jean Hyppolite ressalta o cará-
ter desta como “atitude fundamental de simbolicidade explícita” (Hyppolite apud
Lacan,[1956]1998, p.901), com o que indica que, nessa operação que instaura
a possibilidade dos juízos e, portanto, da dúvida, há algo do simbólico em cau-
sa. Hyppolite afirma que, com a denegação:
[...] em vez de ficar sob a dominação dos instintos de atração e de
expulsão, pode produzir-se uma margem do pensamento, um apa-
recimento do ser sob a forma do não ser, que se produz com a
denegação, isto é, onde o símbolo da negação fica ligado à atitude
concreta da denegação (Hyppolite, ibid., p. 901).
Com isso, Hyppolite parece apontar para a função do “não” como simbó-
lica, na medida em que já se apresenta como representante de um terceiro, a
partir do qual os lugares de “ser” e “não ser” se organizam.
“Ser ou não ser”: eis a questão com a qual Hamlet (Shakespeare,
[1601]2001, p. 63) expressa a dúvida que até hoje mantém sua atualidade, por
Paulo Gleich
158
expressar o conflito que é próprio do sujeito moderno. Lacan dedicou grande
parte de seu trabalho de 1958/1959 ao que esse personagem de Shakespeare
tem a nos ensinar sobre a intrincada relação do sujeito com seu desejo. A
respeito dessa questão que atormenta Hamlet ao longo da obra, na qual divide-
se entre obedecer ou não ao mandato paterno, Lacan afirma:
Hamlet é, desde o início do jogo, culpado de ser. Para ele é insupor-
tável ser. O problema, o crime de existir, se coloca para ele nos seus
próprios termos, ou seja, to be or not to be, que o engaja irremedia-
velmente no ser. […] Mas, por este ou... ou... ele confirma que está
de qualquer forma preso na cadeia do significante. Desta escolha
ele é de qualquer forma a vítima (Lacan, [1958-1959] 1986, p. 9).
Nessa passagem, Lacan parece situar a dúvida, e não a resposta, a
certeza, como elemento central da apreensão do sujeito nas malhas do
significante. O engajamento do sujeito no ser se dá justamente pela incidência
da lógica significante, que o atravessa, dividindo-o, fundando o que Lacan deno-
minou o sujeito barrado. Seria, portanto, justamente por sua possibilidade de
duvidar que o sujeito neurótico estaria situado na dimensão do ser?
Chama-nos a atenção que Lacan articula a condição de ser na dúvida à
culpa. De que culpa se trata? Em que medida esta se articula com as relações
entre a dúvida, a negação e o simbólico? Contardo Calligaris nos oferece alguns
elementos para avançar, em seu texto Dívida e culpa (Calligaris, 1991). Nesse
escrito, ele destaca o fato de que a palavra alemã Schuld compreende dois
sentidos – o de dívida e o de culpa –, e nos lembra que, na obra de Freud, esse
termo se refere a ambos, o que situa, portanto, dívida e culpa em certa equiva-
lência. Calligaris nos adverte de que culpa não é o mesmo que culpabilidade,
sendo esta da ordem do afeto e, portanto, do âmbito da psicologia. O que inte-
ressa à psicanálise, portanto, é a culpa.
Calligaris encontra no termo utilizado por Lacan, faute (em português
falta), com sua dupla acepção – erro e falta –, um equivalente da culpa da qual
se trata no texto freudiano. Essa culpa é aquela que remete a um credor, àquele
a quem se deve, e que é, também, o que instaura a falta, marca da perda de um
paraíso mítico de completude. É, portanto, da dívida ao pai de que se trata;
dívida com a qual Hamlet se enfrenta ao longo de toda a peça, e que só conse-
gue pagar, ao final, com a própria morte. Dívida, portanto, já de saída destinada
a não ser paga, pois seu credor também é devedor.
A dívida ao pai nos remete novamente ao Édipo, tempo no qual essa
dívida é contraída pelo sujeito, permitindo-lhe, através dela, ser. Lembramos,
com Lacan, que esse é um momento em que dúvidas cruciais se apresentam
 A dúvida que não quer...
159
ao sujeito, cujas escolhas terão efeitos retumbantes em seu psiquismo. Em um
primeiro momento, trata-se da escolha entre ser ou não ser o falo da mãe –
momento em que o pai faz sua entrada na cena, privando o bebê do corpo
materno. Logo, a dúvida entre ter ou não ter o falo, que diz respeito a que lugar
ocupar entre os que lhe são oferecidos:
O sujeito experimenta a ameaça da castração […] sob os dois
aspectos que implica o triângulo. Se quer tomar o lugar do pai,
será castrado. Se quer tomar o lugar da mãe, também o será. […]
Assim, em relação ao falo, o sujeito está capturado numa alterna-
tiva fechada que não lhe deixa nenhuma saída (Lacan, [1958-
1959]1986, p. 81).
Vemos aqui novamente a dúvida hamletiana, pois é apenas implicando-
se nesta “alternativa fechada, que não lhe deixa nenhuma saída”, que o sujeito
tem acesso à dimensão do ser, a saída que resta aos neuróticos. A dúvida “ter
ou não ter o falo” é aquela na qual o sujeito neurótico, após o Édipo, se vê preso.
Poderíamos talvez acrescentar que a saída seria justamente a aceitação da
castração, uma vez que nenhuma das posições acena ao sujeito com a possi-
bilidade de ter o falo. Esse que é, conforme Lacan, um significante que circula,
e não uma posse.
Ainda sobre a castração e seus efeitos na constituição subjetiva, Lacan
afirma que o sujeito “foi simbolicamente castrado no nível de sua posição como
sujeito falante e não no nível de seu ser. Seu ser tem de fazer o luto do que ele
ofereceu em sacrifício, em holocausto à função de significante falante” (Lacan,
ibid., p. 84). Ou seja, é abdicando do falo imaginário, essa “libra de carne” ofe-
recida em holocausto, que o sujeito tem acesso à dimensão de ser na ordem
simbólica. Dimensão que é, como vimos com Hamlet e Lacan, marcada pela
dúvida, uma vez que a falta instaurada pela perda do falo torna o sujeito para
sempre castrado e devedor.
Podemos talvez entrever aí a relação apontada em Totem e tabu, por
Freud ([1912-1913]1997), entre a dúvida e o desejo. Este já está presente no
brincar, que oferece às crianças pequenas uma satisfação substitutiva à sua
realização. A onipotência do pensamento e a equivalência entre coisas e pala-
vras que marcam a primeira infância – e também o funcionamento psíquico dos
sujeitos psicóticos –, no entanto, ainda não estão sob o domínio dos juízos de
existência e de atribuição: as alucinações, bem como as brincadeiras – e os
rituais dos primitivos – equivalem à satisfação do desejo, embora essa se dê
apenas no nível dos processos psíquicos e não correspondam à realidade. Essa
“prova de realidade” é apenas possível em momento posterior, quando, conforme
Paulo Gleich
160
Freud aponta, o fenômeno da dúvida é possível e o sujeito se confronta com a
necessidade de julgar se seus atos têm efeito no mundo externo, e não apenas
na realidade psíquica e nas satisfações substitutivas que esta oferece.
No mesmo texto, Freud traz uma interessante passagem, que articula o
desejo à dúvida, que instaura a separação entre a coisa e sua representação.
Ele afirma que é apenas quando da instauração do fenômeno da dúvida que os
homens têm a possibilidade de admitir que “a evocação de espíritos não serve
de nada, se não há a crença neles, e que também a força mágica da oração
fracassa, quando não opera por detrás dela a devoção” (Freud, [1912-1913] 1997,
p. 372-373). Ou seja, com essa “inclinação ao recalque” dá-se a possibilidade
de separar-se do pensamento mágico no qual o sujeito até então se encontrara
imerso, e poder atuar no mundo externo para buscar sua modificação de acordo
com seu desejo. Esse distanciamento, essa separação de palavra e coisa, no
entanto, tem seu preço: o preço da dúvida e da necessidade de posicionar-se
em relação às “crenças”, estas já não situadas no nível da realidade, mas de
possíveis realidades.
O desejo articula-se com a busca de algo perdido nesses tempos míticos
e que, desde então, deixaum buraco que não pode ser preenchido. É na medida
em que essa falta-dívida está presente – curiosamente, por uma ausência (de
algo perdido e de algo não pago) – que o sujeito tem acesso à função desejante.
E o que marca a função desejante para o sujeito é o mesmo que, como vimos,
sustenta sua função duvidante: a linguagem, o Outro. É também uma dúvida o
que retorna do Outro ao qual o sujeito se endereça, esperando daquele um
“oráculo” sobre seu desejo, como se o desejo se tratasse de algo preestabelecido
e passível de lhe ser revelado. Essa dúvida, que Lacan ([1960]1998, p. 829)
formulou como Che vuoi? – o que quer você? –, é a resposta do Outro ao sujeito
que lhe endereça a pergunta pelo enigma de seu desejo: cabe ao sujeito encar-
regar-se de seu desejo.
Voltemos aos primórdios da constituição psíquica do sujeito para buscar
apreender como se constitui essa dúvida sobre o desejo do Outro – e, portanto,
“o desejo do próprio sujeito”, como indica Lacan (ibid., p. 829). Bergès e Balbo
(2002), no escrito que dedicam ao transitivismo, nos aportam algumas valiosas
pistas. A mãe, ao “ler” aquilo que o filho lhe endereça sob a forma de balbucios,
choro, movimentos, etc., faz nele a hipótese de uma demanda – “ele está com
frio”, “ele tem fome”, etc. Essa hipótese, aparentemente tão banal, só pode se
constituir se ela supõe que essa demanda se articula a seu desejo de mãe. É
importante salientar, nesse caso, uma dimensão da dúvida na própria mãe: ela
supõe que o filho lhe demanda algo sobre o qual ela não tem certeza, mas que
seu desejo de mãe tentará descobrir, enunciando-o para ele. Se é uma mãe que
duvida, ou seja, que mantém a dimensão de desconhecimento em relação ao
 A dúvida que não quer...
161
que supõe que o filho lhe endereça, essa mãe irá, fatalmente, falhar; ela “tem a
necessidade de constatar que não vai satisfazê-las [as demandas] incessante-
mente” (Bergès e Balbo, 2002, p.36). O que leva, então, ao surgimento da de-
manda na criança, sob forma de dúvida: “mas o que ela [a mãe] quer?” Pergunta
que, como vimos, é a mesma que é endereçada ao Outro, mas que também é a
dúvida do próprio Outro, nesse momento primordial encarnado pela mãe. Vale
ressaltar que aqui falamos de uma mãe que duvida, que se oferece como Outro
barrado; que não chega a supor que sabe totalmente sobre o que o sujeito lhe
demanda.
A presença da dúvida na mãe é, como vimos, crucial para que se inscre-
va, no sujeito, a dimensão de desconhecimento. Se o discurso do Outro primor-
dial sobre a criança apresenta buracos, será necessário o trabalho da própria
criança para tentar dar conta desses furos. Essa é a condição para o surgimento
das fantasias sexuais infantis: construções da criança sobre aquilo que perma-
nece opaco no discurso do Outro, isto é, o saber sobre suas origens e sobre o
pulsional que atravessa seu corpo, sobre os quais paira dúvida. As teorias forja-
das pelas crianças para dar conta dessa dúvida, jamais respondida de forma
satisfatória pelos adultos – no melhor dos casos –, são a base sobre a qual se
erige, posteriormente, com o seu recalque, a pulsão epistemofílica, o desejo de
saber.
Se os autores insistem na dimensão do desconhecimento, da dúvida da
mãe que acolhe seu filho na trama linguageira, é porque a ausência dessa dúvi-
da, na mãe que tudo sabe, tem efeitos nefastos na constituição do sujeito. Ao
não manter presente em seu discurso sua própria castração, pretendendo as-
sim ter saber absoluto sobre seu filho, ela o toma como seu objeto de gozo,
posição em relação ao Outro que é a do sujeito na psicose. Isso, no entanto,
não priva o psicótico de constituir um saber; mas o que diferencia esse saber
daquele constituído na neurose é justamente o fato de que ele se fundamenta
não sobre a dúvida, mas sobre a certeza.
Disso nos fala Calligaris (1989), ao diferenciar o lugar que sustenta o
saber nas neuroses e nas psicoses. Naquelas, o saber existe na suposição de
um sujeito suposto que o detém – o pai –, com o qual o sujeito mantém para
sempre, mesmo que à revelia, uma dívida – e, também, conforme vimos, uma
dúvida. Já nas psicoses, esse saber é sem sujeito suposto, cabendo, portanto,
ao próprio sujeito sustentá-lo com sua certeza egoica. Certeza que encontra
sua expressão máxima no delírio do paranoico, que visa sempre a manter o
saber total sobre si e o mundo; ao não ter um garante exterior desse saber, o
próprio sujeito se vê eclipsado ante algo que ameace sua totalidade. Vale desta-
car que, em ambos os casos, há um saber, saber esse armado no simbólico,
mas é a relação do sujeito com o simbólico que se constitui de forma diferenci-
Paulo Gleich
162
ada. Lacan o resumiu em uma fórmula breve, mas ilustrativa dessa relação, que
aponta para o efeito de certeza operado por esse saber: “se o neurótico habita a
linguagem, o psicótico é habitado, possuído pela linguagem” (Lacan, [1955-
1956]2006, p.358).
Com isso, não afirmamos que na psicose não há dúvida e na neurose,
certeza. Se assim fosse, o psicótico jamais endereçaria uma questão a outro
sujeito, e o neurótico não buscaria defender, com unhas e dentes, suas certe-
zas imaginárias. A dúvida e a certeza de que se trata são justamente aquelas
que se relacionam, como vimos, à inscrição (ou não) da falta no Outro, dúvida
(ou não) em relação ao saber que diz ao sujeito quem ele é.
Se até aqui vimos o importante lugar ocupado pela dúvida no psiquismo,
bem como alguns dos efeitos da ausência de sua inscrição, não podemos es-
quecer de abordá-la em sua versão mais frequente na clínica: a vertente patoló-
gica da dúvida, que encontra na neurose obsessiva seu paroxismo; a dúvida que
inibe o sujeito, podendo levá-lo até a paralisação. O impasse do neurótico ob-
sessivo é, assim como o de todo neurótico, com seu desejo. Ele se refugia na
dúvida para não ter de agir – tomando esse ato como expressão de seu desejo
– e, com isso, evitar a responsabilidade pelo que sua ação acarretaria. Nesse
mecanismo, um curioso paradoxo se apresenta: detendo-se na dúvida (enquan-
to indecisão) para não ter de agir, o neurótico obsessivo quer se proteger, preci-
samente, de algo que para ele é intolerável – a incerteza, ou seja, a dúvida. A
insuportabilidade da incerteza para o neurótico obsessivo, que quer a todo custo
sustentar um pai não castrado, encontra sua expressão nos rituais e “delírios” que
constrói para tentar, em vão, eliminá-la. No entanto, o obsessivo sempre volta a se
encontrar com essa falta-dúvida no Outro, falta que aponta não apenas para a
impossibilidade de recobrir o real com a linguagem – pois o Outro é, mesmo à sua
revelia, castrado –, mas para sua própria castração, da qual nada quer saber.
Para encerrar esse breve percurso pelos lugares da dúvida na psicanáli-
se, percurso que certamente não sanou as dúvidas levantadas, mas que talvez
tenha trazido algumas questões para pensarmos, cabe interrogar sobre seu
lugar na prática e no discurso do analista. Encontramos, em Maria Rita Kehl,
uma formulação que vem ao encontro dessa pergunta, quando ela se refere à
ética da psicanálise como a “ética da dúvida”. Essa ética concerne não apenas
ao analisando, mas ao próprio analista, pois trata-se de poder abrir, com a dúvi-
da, furos nas certezas imaginárias com as quais o eu se defende do isso, e que
leva ao sofrimento neurótico. Trata-se, segundo a autora, de “levá-lo a duvidar de
suas convicções, introduzindo-o aos poucos na lógica de uma outra razão, a
lógica da razão inconsciente” (Kehl, 2002, p.146).
Essa lógica, já o sabemos desde Freud, é de não-contradição: não há
certeza absoluta, ou, em outras palavras, há várias certezas que, ao nível do eu,
 A dúvida que não quer...
163
seriam antagônicas. E o inconsciente não cessa de falar – queiramos ou não.
Portanto, “para que eu advenha onde isso era”, como afirma Freud ([1932-1933]
1997, p.516) ao falar do propósito de uma análise, talvez seja necessário manter
viva essa dúvida, dúvida que impertinentemente questiona nossas pequenas
grandes certezas, mas que assim nos permite avançar para alémdelas e de
nossos pequenos grandes eus.
REFERÊNCIAS
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2001.
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Alegre: CMC, 2002.
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Alegre – A cura, Porto Alegre, n. 5, p. 19-21, maio 1991.
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FREUD, Sigmund. Totem und Tabu (Einige Übereinstimmungen im Seelenleben der
Wilden und der Neurotiker) [1912-1913]. In: Studienausgabe Bd. IX. 9.ed. Frankfurt
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______. Die Zerlegung der psychischen Personalität [1933(1932)]. In: Studienausgabe
Bd I. 9.ed. Frankfurt am Main: S. Fischer, 1997.
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KEHL, Maria R. Sobre ética e psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
LACAN, Jacques. El seminario de Jacques Lacan: libro 3 – Las psicosis [1955-1956].
Buenos Aires: Paidós, 2006.
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______. Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano [1960].
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SHAKESPEARE, William. Hamlet[1601]. Porto Alegre: L&PM, 2001.
Recebido em 19/11/2009
Aceito em 22/12/2009
Revisado por Otávio Augusto Winck Nunes
164
VARIAÇÕES
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A inspiração
Som, silêncio, som, silêncio, som, silêncio.
Esta é a estrutura mínima de uma peça musical.
Entre dois silêncios criados pela existência mesma da
música temos um encadeamento mais ou menos complexo
e sofisticado de tempos de som e tempos de silêncio na
intenção de produzir um máximo de efeito estético.
Elaine Starosta Foguel
Apaixonei-me pela IV sinfonia de Mahler quando assisti ao filme belga Omestre da música, de 1987, do diretor Gerard Corbiau, que colocou em
evidência o terceiro movimento, que é aparentemente o mais belo. No entanto, o
segundo me chamou especial atenção e me capturou de maneira peculiar, pela
sua estranheza, criatividade, ousadia musical e beleza. Eu senti que aquela
música era uma fita circular que se enrolava e que me enrolava, provocando uma
grande curiosidade pela sinfonia, pela vida de Gustav Mahler e por esse segun-
do movimento. Não apenas eu desejava interpretar minha experiência com a
peça musical, eu tinha que ouvir melhor as palavras por trás daquele som, eu
A BANDA DE MAHLER
E O VIOLINO SINISTRO
Elaine Starosta Foguel1
1 Psicanalista; Mestre em Ensino, Filosofia e História das Ciências (UFBA); Membro da APPOA;
Membro do Campo Psicanalítico de Salvador. E-mail: elainefoguel@terra.com.br
Rev. Assoc. Psicanal. Porto Alegre, Porto Alegre, n. 37, p. 164-173, jul./dez. 2009
A banda de Mahler...
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queria ouvir Mahler. Tornara-se uma assombração, uma obsessão musical que
se impunha mentalmente, independente da minha vontade, uma compulsão à
repetição.
Diante de tão instigante sintoma, que só pode ser explicado por alguma
identificação obscura a Mahler, ou, quem sabe, por uma paixão anacrônica,
encontrei-me no imperativo da decifração e comecei a entrar mais na melodia e
a interpretar imaginariamente a melodia que escutava, as sensações, os afetos
que a música provocava. Desnecessário mencionar o número de vezes que eu
retornei ao segundo movimento, e já estava perdendo as esperanças de Mahler
vir falar comigo e me responder: “afinal, que banda é esta”, quando resolvi então
fazer algumas pesquisas. Como se verá adiante, Mahler falou.
Em 1925, Theodor Reik (1975) teve uma compulsão musical que motivou
longa pesquisa e transformou-se no livro The haunting melod:. psychoanalytic
experiences in life and music. Ele relata que estava passando o natal num hotel
nas montanhas quando recebeu um telefonema de Viena, no fim da tarde, avi-
sando que Karl Abraham havia falecido. O colega ainda lhe disse que Freud lhe
pedira que pronunciasse o discurso em memória a Abraham, na reunião da
Sociedade Psicanalítica de Viena. Ora, Abraham havia sido analista de Reik e
eles mantinham relações de trabalho e amizade. Relata que, frente à má notí-
cia, imediatamente sentiu um impacto imenso, que durou apenas alguns minu-
tos, se lembrou do amigo, seu aspecto, o timbre da sua voz, mas não sentiu
pesar algum.
Saiu do hotel e foi caminhando montanha acima, por uma trilha no meio
do bosque, o chão nevado. No entanto, o mesmo bosque pelo qual passara
durante o dia tinha, naquele momento, um aspecto pouco familiar:
As árvores pareciam mais altas, mais sombrias e se elevavam,
quase ameaçadoras em direção ao céu. A paisagem parecia mu-
dada. Agora era solene e sinistra como se transmitisse uma men-
sagem misteriosa. […] Em torno de mim e dentro de mim só reina-
va um pesado e opressivo silêncio (Reik, 1975, p.12).
Começou a pensar no discurso que Freud lhe delegara e que se realizaria
poucos dias depois, no dia 6 de janeiro de 1926. Repentinamente surpreendeu-
se cantarolando uma melodia que não conseguia reconhecer; logo depois a
localizou: eram os primeiros compassos do coro do último movimento da Se-
gunda Sinfonia de Mahler.
Tinha a impressão de ouvir o ataque fantasmal do coro, as vozes,
elevando-se em oitavas, mas a princípio misterioso, solenemente.
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Elaine Starosta Foguel
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Elevar-te-ás, meu pó, após breve repouso
Dará ele vida imortal àquele que o invocou
(Reik, 1975, p.12).
Relata que essa melodia, juntamente com as palavras do poema Ressur-
reição, o acompanhou durante as horas seguintes, toda vez que pensava no
discurso que tinha que fazer, “[...] mas começou a me obsessionar quando
queria pensar no Dr. Abraham” (Reik, 1975, p.12).
A partir desses fatos e da estranha força de repetição da melodia, que
não o abandonava, Reik iniciou uma pesquisa de mais de 20 anos sobre Mahler
e terminou por produzir o livro acima mencionado. A sua obsessão musical fora
claramente provocada por um terrível evento do real, a notícia inesperada da
morte de seu psicanalista.
A minha obsessão foi aparentemente provocada pela própria música, ou
melhor, a música certeiramente deve ter encontrado um ponto real em mim, e
tentava falar nesse lugar. Aos poucos, foi ficando mais claro de que modo a
música do segundo movimento havia me pegado: primeiramente pelo solo do
violino que puxa a orquestra, num tema bastante improvável em relação ao resto
da sinfonia; em segundo lugar, através do contraste entre essa melodia repetitiva
e inquietante e aquela outra, que se intercala, mais calma e mais comum. Em
terceiro lugar porque a passagem de um modo para o outro provoca uma sensa-
ção estética de que algo se enrola, desenrola, torce, parece que vai cair, mas
não cai. Então a melodia chegava como improvável, inquietante, repetitiva, e
comportando uma torção. Havia também um forte sentimento de que o violino
avisava algo, uma chegada, uma hora de saída, alguém que se aproxima um
acontecimento estranho.
Nascia também a ideia de que Freud e Mahler disseram a mesma coisa
sobre a condição humana, quase como se fosse tudo um só opus, letra by
Freud, música by Mahler: as pulsões, o desamparo, a paixão, o amor, a angús-
tia, o sinistro, e principalmente o inconsciente: o inconciliável e o impossível. Eu
realmente acredito nisso, de que ambos abordam os mesmos temas. É uma
crença inabalável. No entanto, não pela descrição lírica dos tormentos, não pela
música de um drama circunstancial, mas aquela de um drama na estrutura.
Gustav Mahler nasceu na Boêmia em 1860 e morreu em Viena em 1911,
aos 51 anos de idade. Estudou música no conservatório de Viena e, aos 20
anos, já tinha duplacarreira, de compositor e regente. Aos 22 anos foi nomeado
diretor da ópera de Budapeste, aos 31 tornou-se o primeiro regente da Ópera de
Hamburgo; aos 37 alcançou o grande cargo de diretor da Ópera de Viena.
Casou-se com Alma Maria Schindler, em 1902, e teve duas filhas; a pri-
meira morreu de escarlatina em 1907, aos quatro anos; nesse mesmo ano ele
A banda de Mahler...
167
perde seu posto na Ópera de Viena, devido à política antissemita que começava
a ter peso e influência na Áustria. E foi ainda em 1907 que os médicos o diag-
nosticam com uma doença cardíaca incurável. Foi convidado a trabalhar nos
Estados Unidos, onde morou durante quatro anos, regendo em várias cidades,
inclusive no Metropolitan Opera House, em Nova Iorque.
Leonard Bernstein, um dos maiores responsáveis pela divulgação da obra
de Mahler a partir de 1960, escreveu que Mahler tinha uma fonte dualista de
energia e que essa é a chave para o entendimento de sua música:
Agora que o mundo da música começou a compreender a fonte
dualística de energia da música de Mahler, que é a chave apropria-
da para seu significado, fica mais fácil entender este fenômeno em
termos mahlerianos específicos. Pois a duplicidade da música é a
duplicidade do homem. Mahler estava dividido ao meio, com o cu-
rioso resultado que qualquer qualidade que seja perceptível e deci-
frável em sua música, a qualidade diametralmente oposta também
o é. [...] Mahler nisso era único: é tudo isso, grosseiro e feminino,
sutil e barulhento, refinado e rude, objetivo e sentimental, impetuo-
so e tímido, grandioso e auto-aniquilador, confiante e inseguro,
adjetivo, antônimo; adjetivo, antônimo. A primeira imagem que bro-
ta na minha mente ao mencionar o nome de Mahler, é a de um
colosso equilibrado na mágica data de 1900. Lá está ele, seu pé
esquerdo, mais próximo do coração firmemente calcado no rico e
maravilhoso século XIX e seu pé direito, um pouco menos seguro,
procurando solo firme no século XX (Bernstein, s/d, p.1)2 .
Acrescenta que suas marchas parecem ataques cardíacos, seus corais
são o enlouquecimento da humanidade.
2 “Now that the world of music has begun to understand the dualistic energy source of Mahler’s
music, the very key to its meaning, it is easier to understand this phenomenon in specific
Mahlerian terms. For the doubleness of the music is the doubleness of the man. Mahler was
split right down the middle, with the curious result that whatever quality is perceptible and
definable in his music, the diametrically opposite quality is equally so. (…) But Mahler, uniquely,
is all of these – rough-hewn and epicene, subtle and blatant, refined, raw, objective, maudlin,
brash, shy, grandiose, self-annihilating, confident, insecure, adjective, opposite; adjective,
opposite. The first spontaneous image that springs to my mind at the mention of the name
Mahler is of a colossus straddling the magic dateline 1900. There he stands, his left foot
(closer to the heart!) firmly planted to the rich, beloved nineteen century; and his right, rather
less firmly, seeking solid ground in the twentieth”.
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O resultado deste exagero é naturalmente a intensidade neurótica
que por tantos anos foi rejeitada como insuportável e na qual nós
nos encontramos espelhados agora (Bernstein, ibid., p.1)3 .
Porém, Mahler queria expressar algo, tinha uma intenção em mente, um
tema. O já citado ensaio de Theodor Reik traz a seguinte passagem de uma
carta de Mahler: “[...] sempre chega ao ponto em uma sinfonia em que se tem
que fazer que a palavra seja portadora da ideia final” (Mahler apud Reik, 1975,
p.78).
 Essa palavra é trazida por um poema escolhido pelo compositor, é
musicado e cantado por solistas, ou por um coro, ou ambos, o que torna explí-
cita a ideia da sinfonia. Mahler fez isto em várias de suas composições, inclusi-
ve no quarto movimento da IV sinfonia, em que a voz de uma soprano entoa
versos de Heavenly life e a sinfonia termina, curiosamente, como um conto de
fadas.
Françoise Giroud (1989), em sua biografia de Alma Mahler, descreve que
Gustav Mahler era baixo, de aparência frágil, porém vigoroso, agitadíssimo, sem-
pre em movimento, de um nervosismo cansativo. Uma amiga descreveu seu
andar peculiar:
Ele levanta a perna e bate com o pé no chão, como um cavalo. Os
passos seguintes nunca têm o mesmo ritmo. Às vezes, quando
pega um interlocutor pela mão e pela roupa ele bate o pé no chão,
como um javali. Suas cóleras eram célebres, seu riso largo, jovial e
contagiante, seu humor se transformava a cada momento. Era in-
congruente, perfeccionista e tirânico. As pessoas o amavam ou
odiavam, bajulavam-no ou o ridicularizavam (Giroud, 1989, p.33).
Em 1910, o casamento de Mahler com Alma Marie sofre uma grande
crise. Ela, 31 anos, apaixona-se pelo famoso arquiteto Walter Gropius. Mahler,
50 anos, sofre uma crise de impotência e insegurança, fica desesperado, escre-
ve cartas para a esposa, tem crises de angústia e culpa, por não ter lhe dado
mais atenção. Kennedy (1990) reproduz alguns trechos do que ele escrevia nas
páginas da décima sinfonia, que tentava acabar, e comenta: “O homem estava
num inferno só dele, quase delirando” (Kennedy, 1990, p.99). O Dr. Neppalek,
parente de Alma, sugere que Mahler consulte Freud.
3 “The result of all this exageration is, of course, that of neurotic intensity which for so many
years was rejected as unendurable, and in which we now find ourselves mirrowed”.
A banda de Mahler...
169
Freud estava de férias no Báltico e Neppalek telegrafa pedindo-lhe uma
entrevista para Mahler. A contragosto, Freud telegrafa de volta, concedendo a
sessão. Não gostava de ter suas férias interrompidas, entretanto não poderia se
negar a atender um homem tão famoso. Mahler retroage e cancela. Torna a
pedir a entrevista, Freud concede, Mahler cancela novamente, e tudo isso de
novo pela terceira vez. Freud faz um diagnóstico de neurose obsessiva e manda
um telegrama de ultimato, colocando uma data limite. Finalmente eles se en-
contram em Leyden, na Holanda, e caminham durante quatro horas pela cidade,
numa única e longa sessão de análise.
Vinte e sete de agosto de 1910: escutemos essa sessão. Ela tem o som
do segundo movimento da Quarta Sinfonia. A orquestra toca a paisagem, Mahler
fala com a voz do violino. Violino estranho, sinistro, angustiado, que sobressai
no belo cenário. Freud ouve e decifra. Ele percebe que nem a mais bem sucedi-
da sublimação livra o homem de seus tormentos reais? É espantoso que se
saiba tanto sobre uma sessão de análise, conhecendo-se o nome do paciente,
mas parece que Freud se sentiu de algum modo à vontade para descrever em
cartas partes da sessão com Mahler.
Freud descobre em Mahler um Complexo marial: significa uma grande
fixação em sua mãe, que, no caso, se chamava Marie. Freud lhe pergunta como
foi possível que ele se casasse com uma mulher cujo nome não era Marie, e sim
Alma. Mahler responde que o nome dela era Alma Marie e que ele frequente-
mente a chamava de Marie. Isso pelo lado da mãe, interpretando o sintoma de
dificuldade sexual: a esposa seria uma espécie de mãe intocável. Pelo lado do
que ocorrera na sua relação com o pai, Mahler produz uma lembrança ruim, o
pai era um homem grosseiro, que tratava mal a esposa. Numa das brigas do-
mésticas da infância, Mahler saiu correndo de casa e, nesse momento, na rua,
ouviu um realejo tocando uma alegre música popular vienense Ach Du lieber
Augustin. O compositor esclareceu que esse evento o marcou com uma conjun-
ção musical de grande tragédia misturada a um leve divertimento, um estado de
espírito sempre conduzia à produção do outro.
No decorrer da conversa, Mahler subitamente disse que então com-
preendia porque sua música sempre fora impedida de alcançar o
nível mais elevado através das passagens mais nobres, as inspira-
das pelas mais profundas emoções, sendo prejudicada pela intrusão
de alguma melodia banal (Jones, 1989, p. 93).
Freud o interpreta pelo significante, Maria. Mahler aceita e completa a
interpretação. Logo produzuma lembrança: o pai grosseiro. A música alegre o
livraria da cena triste, mas não sem cobrar o preço, na forma de uma impossibi-
170
Elaine Starosta Foguel
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lidade sentida mais por Mahler do que por seus ouvintes, de que determinadas
profundidades sinfônicas não lhe eram permitidas.
Freud escreve em quatro de janeiro 1935 a Theodor Reik sobre essa
entrevista:
[...] tive a oportunidade de admirar a capacidade de compreensão
psicológica que tinha esse homem genial. Nenhuma luz esclare-
ceu sua neurose obsessiva. Foi como se se tivesse cavado uma
única e profunda fenda em uma construção misteriosa (Freud apud
Reik, 1975, p.154).
Mahler morreu um ano depois, de infecção cardíaca. Segundo Kennedy
(1990), um antibiótico o teria salvado.
Ainda de acordo com Theodor Reik (1975), Mahler terminou de escrever a
IV sinfonia aos 40 anos, nas férias de verão de 1900, em meio a um tumulto
psíquico provocado por sua neurose obsessiva, que lhe trazia pensamentos
tristes, culposos e supersticiosos, além da angústia. Intitulou a peça musical a
Sinfonia humoresque – que não significa na música algo engraçado, não é um
adjetivo. Uma humoresque é uma composição musical tipicamente excêntrica,
que pode mudar repentinamente de humor, que tem caprichos. Essa mudança é
bastante evidente no segundo movimento, que é um scherzo, movimento sinfô-
nico em três tempos de ritmo vivo.
Leonard Bernstein (s/d) relata que Mahler recomendou por escrito que
esse segundo movimento fosse considerado pelos maestros que viessem a
regê-lo como mystisch, verworren und unheinmlich: místico, confuso, estranho.
O violino deveria ser afinado um tom mais alto, para dar ao som efeito pálido,
que trouxesse ameaça e cores sinistras para o idílio. O compositor recomenda-
va também que essa afinação deveria trazer o som de violino das festas popula-
res de rua. Segundo Michel Kennedy (1990), com essa afinação, denominada
scordatura, o compositor teve a intenção de que o violino soasse como ein
Fiedel, que é o protótipo medieval do violino. Há ainda a seguinte instrução:
Freund Hein spielt auf, isso é, o amigo Hein brinca: esse personagem do folclo-
re germânico é um violinista fantasmagórico, que conduz ou para a eternidade
ou para a perdição. De acordo com Bernstein, Mahler desejou que “de modo
muito precipitado, as sonoridades estranhamente arcaizantes do violino repre-
sentassem Freund Hein” (Berstein, s/d, p.1). Hein é também a alegoria da mor-
te, nas danças medievais macabras. A morte tem sua coreografia esboçada
nessa pequena peça de oito minutos.
Natalie Bauer-Lechner (1980), amiga e correspondente de Gustav e Alma
Mahler, cita um escrito do compositor sobre a IV Sinfonia:
A banda de Mahler...
171
[...] tudo o que se seguiu transferiu-se tão completamente que de
repente, para meu espanto, eu me dei conta que me encontrava
num mundo totalmente diferente, como se você estivesse se ima-
ginando a passear nos floridos campos Elísios, mas subitamente
se sentisse transportado para o meio dos terrores noturnos do
Tártaro, seu sangue correndo frio pelas suas veias. Nos meus tra-
balhos há muitos traços e emanações destes mundos que provo-
cam em mim um sentimento de horror e mistério. Desta vez tam-
bém é a floresta que me domina, com suas maravilhas e terrores e
que invade meu mundo de som (Mahler apud Kennedy, 1990,
p.130)4.
O familiar, que adquire um aspecto sinistro, sem, no entanto, perder sua
possibilidade estética, remete a um aspecto intrigante da angústia que Freud
([1919] 1974) explorou, no seu artigo de 1919, O estranho; remete também à
experiência de Reik, frente à notícia da morte de Abraham, quando a angústia
não aparece como despersonalização imobilizante, que o deixaria desampara-
do, mas, sim, como estranhamento na paisagem cotidiana, que se torna, de
repente, aterradora.
Tanto no scherzo, quanto na sua sessão com Freud ocorre, segundo o
depoimento do próprio Mahler, um fenômeno de redobramento sobre si mesmo,
que se pode pensar de dois modos: o primeiro, mais notável, é a transformação
do familiar em estranho. O sério no banal, o calmo no tumultuado, o idílio no
pesadelo. A intrusão do desamparo psíquico, a queda no vazio. São as forma-
ções da angústia, que Lacan concentrou de forma inacreditavelmente sintética
nas letras do matema $<>a, mais exatamente quando um evento do real vem
obturar o buraco necessário da estrutura do desejo, produzindo uma
desestabilização maior no já instável equilíbrio de todo ser de linguagem. Dentre
as produções da angústia, uma das mais dolorosas e misteriosas é o fenômeno
do aparecimento do duplo, que provoca dúvida e estranhamento do homem so-
bre o seu próprio ser.
4 “(...) everything that followed transferred itself so completely that suddenly, to my astonishment,
I became aware that I was in a completely different world: as if you had imagined yourself to be
wandering in a flowery Elysian fields, but suddenly find yourself transported into the midst of the
nocturnal terrors of Tartarus, with your blood running cold in your veins. In my works there are
many traces and emanations of such worlds, which excite even in me a sense of horror and
mystery. This time, too, it’s the forest, with its marvels and terrors that dominates me and steals
into my world of sound.”
172
Elaine Starosta Foguel
172172
Há, simultaneamente, outra percepção e esta não se respalda nos textos
de Mahler, nem nos seus rabiscos, nem nas suas cartas, nem em depoimentos
de seus familiares e amigos. Só se apoia na sensação imaginária, sinestésica,
estética, hipnótica, hipotética, que a música produziu e que talvez vocês com-
partilhem comigo, que, no segundo movimento, a cadeia sonora, a cada vez que
muda de melodia, produz uma torção tal qual a banda de Moebius, como a
repetição do mesmo, sob um aspecto, aterrorizante, como o fenômeno do du-
plo.
Otto Rank, no seu ensaio de 1914, escreve que o duplo,
[...] criado em suas origens como um desejo de defesa contra uma
terrível destruição eterna, reaparece na superstição como o men-
sageiro da morte (Rank, [1914] 1982, p.133)5.
Podemos então perguntar: O amigo Hein mora dentro de Mahler? Ele
teria domínio sobre a expressão de seus pensamentos e afetos? Mais uma vez,
Mahler responde: “Eu comprovo mais e mais, a gente não compõe, a gente é
composto” (Mahler apud Kennedy, 1990 p. 130)6 .
REFERÊNCIAS
BAUER-LECHNER, Natalie. Recollections of Gustav Mahler. London: Peter Franklin,
1980.
BERNSTEIN, Leonard. Mahler: his time has come. s/d. (vide nota abaixo sobre esta
referência)7
FREUD, Sigmund. O estranho [1919]. In:______. Edição standard brasileira das
obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Tradução e direção de Jayme
Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v.17. p. 275-314.
GIROUD, Françoise. Alma Mahler: a arte de amar. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.
JONES, Ernest. A vida e a obra de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1989. v.1.
KENNEDY, Michael. Mahler. London: J.M.Dent, 1990.
RANK, Otto. El doble [1914]. Buenos Aires: Orión, 1982.
REIK, Theodor. Variaciones psicoanalíticas sobre um tema de Mahler. Madrid: Taurus,
1975.
5 “(…) creado en sus orígenes como un deseo de defense contra una temible destrucción
eterna, reaparece em la superstición como el mensajero de l a muerte”.
6 “One does not compose, one is composed”.
7 Este texto eu encontrei num livreto que acompanha um CD da Quinta Sinfonia de Mahler, da
Deutsche Grammophon 431-037-2 GBE regida por Leonard Bernstein. O texto foi retirado de um
livro que Bernstein escreveu sobre Mahler, conforme citado acima, mas não há outros dados
sobre o livro, tais como editora, cidade e ano. A tradução é minha e a citação no original se encontra
em nota de rodapé. Encontrei um resumo deste livro em: http://www.esnips.com/doc/e3a805e9-
03a1-4c81-8d80-c2e5815bf49b/Leonard-Bernstein,-Mahler—His-Time-Has-Come—CRVV.
A banda de Mahler...
173
Recebido em 12/10/2009
Aceito em 19/11/2009
Revisado por Glaucia Escalier Braga
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I APRECIAÇÃO PELO CONSELHO EDITORIAL
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torial da Revista e consultores ad hoc, quando se fizer necessário.
Os autores serão notificados da aceitação ou não dos textos. Caso se-
jam necessárias modificações, o autor será comunicado e encarregado de
providenciá-las, devolvendo o texto no prazo estipulado na ocasião.
Aprovado o artigo, o mesmo deverá ser enviado para a APPOA, aos cui-
dados da Revista, por e-mail.
II DIREITOS AUTORAIS
A aprovação dos textos implica a permissão de publicação, sem ônus,
nesta Revista. O autor continuará a deter os direitos autorais para futuras publi-
cações.
III APRESENTAÇÃO DOS ORIGINAIS
Os textos devem ser apresentados contendo:
– Folha de rosto: título, nome e créditos do autor (em nota de rodapé),
contendo títulos acadêmicos, publicações de livros, formação profissional, in-
serção institucional, e-mail; resumo (com até 90 palavras); palavras-chaves (de
3 a 5 substantivos separados por vírgula); abstract (versão em inglês do resu-
mo); keywords (versão em inglês das palavras-chaves).
– Corpo do texto: deverá conter título; usar itálico para as palavras e/ou
expressões em destaque e para os títulos de obras referidas.
– Notas de rodapé: as notas, inclusive as referentes ao título e aos crédi-
tos do autor, serão indicadas por algarismos arábicos ao longo do texto.
IV REFERÊNCIAS E CITAÇÕES
No corpo do texto, a referência a autores deverá ser feita somente menci-
onando o sobrenome (em caixa baixa), acrescido do ano da obra. No caso de
autores cujo ano do texto é relevante, colocá-lo antes do ano da edição utiliza-
da.
Ex: Freud ([1914] 1981).
As citações textuais serão indicadas pelo uso de aspas duplas, acresci-
das dos seguintes dados, entre parênteses: autor, ano da edição, página.
V REFERÊNCIAS
Lista das obras referidas ou citadas no texto. Deve vir no final, em ordem
alfabética pelo último nome do autor, conforme os modelos abaixo:
OBRA NA TOTALIDADE
BLEICHMAR, Hugo. O narcisismo; estudo sobre a enunciação e a gra-
mática inconsciente. 2. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 5: as formações do inconsciente
[1957-1958]. Rio de Janeiro: J. Zahar Ed., 1999.
PARTE DE OBRA
CALLIGARIS, Contardo. O grande casamenteiro. In: CALLIGARIS, C. et
al. O laço conjugal. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1994. p. 11-24.
CHAUI, Marilena. Laços do desejo. In: NOVAES, Adauto (Org). O desejo.
São Paulo: Comp. das Letras, 1993. p. 21-9.
FREUD, Sigmund. El “Moises” de Miguel Angel [1914]. In: ______. Obras
completas. 4. ed. Madrid: Bibl. Nueva, 1981. v. 2.
ARTIGO DE PERIÓDICO
CHEMAMA, Roland. Onde se inventa o Brasil? Cadernos da APPOA,
Porto Alegre, n. 71, p. 12-20, ago. 1999.
HASSOUN, J. Os três tempos da constituição do inconsciente. Revista
da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, Porto Alegre, n. 14, p. 43-53, mar.
1998.
ARTIGO DE JORNAL
CARLE, Ricardo. O homem inventou a identidade feminina. Entrevista
com Maria Rita Kehl. Zero Hora, Porto Alegre, 5 dez. 1998. Caderno Cultura, p.
4-5.
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO
KARAM, Henriete. Sensorialidade e liminaridade em “Ensaio sobre a
cegueira”, de J. Saramago. 2003. 179 f. Dissertação (Mestrado em Teoria Lite-
rária). Faculdade de Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul, Porto Alegre. 2003.
TESE DE DOUTORADO
SETTINERI, Francisco Franke. Quando falar é tratar: o funcionamento da
linguagem nas intervenções do psicanalista. 2001. 144 f. Tese (Doutorado em
Lingüística Aplicada). Faculdade de Letras, Pontifícia Universidade Católica do
Rio Grande do Sul, Porto Alegre. 2001.
DOCUMENTO`ELETRÔNICO
VALENTE, Rubens. Governo reforça controle de psicocirurgias. Disponí-
vel em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff01102003 23.htm>. Acesso
em: 25 fev. 2003.
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