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1 
 
 
ÉTICA, RELIGIÃO E CULTURA NO ENSINO RELIGIOSO 
1 
 
 
Sumário 
NOSSA HISTÓRIA ..................................................................................................................................... 2 
2 - RELIGIÃO E CULTURA ......................................................................................................................... 7 
REFERÊNCIAS ......................................................................................................................................... 15 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
2 
 
 
 
 
 
NOSSA HISTÓRIA 
 
 
A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em 
atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com 
isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível 
superior. 
A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de 
conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no 
desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de 
promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem 
patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras 
normas de comunicação. 
A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e 
eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. 
Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de 
cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do 
serviço oferecido. 
 
 
 
 
 
 
 
3 
 
 
 
 
Se pudermos, de modo sumário, caracterizar a moralidade desse mundo, como não 
ferir ou matar os outros e, de um modo geral, tentar tornar a vida e o mundo melhor 
para todos e tudo o que nele existe, e se muitos seres humanos não aceitarem a 
existência de um mundo supranatural e, ainda assim agirem tão moralmente quanto 
quaisquer outros que acreditam, então deve haver alguns outros atributos, diferentes 
das crenças religiosas, que são necessários para alguém ser moral. Embora seja 
óbvio que a maioria das religiões contenha sistemas éticos, isso não transforma em 
verdade a afirmação de que todos os sistemas éticos tenham uma base religiosa; por 
tanto não existe uma ligação obrigatória entre moralidade e religião. O simples fato 
de que pessoas completamente não religiosas (como, por exemplo, vários eticistas 
ateus humanistas), podem desenvolver sistemas éticos significativos e consistentes, 
é prova suficiente disso. 
Fornecer um fundamento racional para um sistema ético já é bastante difícil, sem ter 
de oferecer também um fundamento para a religião que propõe tal sistema ético. E a 
dificuldade de fundamentar racionalmente a maioria dos sistemas religiosos é 
inescapável. É impossível comprovar conclusivamente a existência de alguma 
supranatureza, pós-vida, deus ou deuses. Nem precisamos apelar para os 
argumentos modernos e tradicionais, sobre a existência ou inexistência de um deus 
ou deuses neste ponto, mas simplesmente verificar que não há evidência conclusiva 
de que tais seres existam ou não existam. 
Portanto, se nenhuma evidência é conclusiva e nenhuma lógica dos argumentos é 
irrefutável, então a existência de um mundo supranatural, um pós-vida, um deus ou 
deuses, fica pelo menos colocada na categoria das coisas não provadas. Isso, 
naturalmente, não significa que grande número de pessoas não continuará a acreditar 
nas suas existências, baseando suas crenças na fé, no medo, na esperança ou na 
sua própria leitura das evidências. Todavia, como fundamentação lógica da 
moralidade, as religiões são, de fato, muito frágeis, exceto para aqueles que creem. 
Acreditar que Deus, ou um pós-vida exista, pode fazer as pessoas sentirem-se melhor 
agindo de determinadas maneiras. Pode igualmente fornecer poderosos reforços para 
alguém agir moralmente (ou, pelo menos, não agir imoralmente) . Só que isso não se 
4 
 
 
configura como uma fundamentação racional válida para a moralidade, que nos 
forneça razões, sentimentos, evidência ou lógica para agirmos de um modo e não de 
outro. A qualidade moral de um ato reside no fato dele ter sido escolhido livremente e 
não comandado. Como declarou Scriven: “A religião pode fornecer um fundamento 
psicológico, mas não lógico para a moralidade”. 
Ainda que as religiões pudessem ser racionalmente fundamentadas, qual religião 
deveria ser a escolhida como a base para a ética humana? Dentro de uma religião em 
particular, essa questão é facilmente respondida, mas, obviamente, não respondida 
de modo satisfatório para os membros de outras religiões conflitantes, ou para aqueles 
que não acreditam em qualquer religião. Mesmo se os pressupostos das religiões 
pudessem ser conclusivamente provados, qual religião deveríamos aceitar como a 
verdadeira e legítima geradora da moralidade? É claro que existem muitas religiões 
que têm muitas prescrições éticas em comum, como, por exemplo, não matar. Mas é 
também bastante evidente que existem numerosas prescrições não congruentes. 
Só para ficar no cristianismo, por exemplo, há muitas declarações éticas em 
desarmonia, relacionadas a sexo, guerra, casamento, divórcio, roubar e mentir. 
Em resumo, qual a conexão entre a religião e a moralidade? A resposta é que não há 
uma conexão necessária. Pode-se ter um sistema ético completo, sem mencionar 
outra vida, que não esta, deus ou deuses, nada supranatural, ou qualquer pós-vida. 
Quer dizer, então, que para sermos morais precisamos evitar a religião? De modo 
nenhum! Os seres humanos devem ser permitidos livremente a acreditar 
ou desacreditar, desde que exista alguma base moral que proteja todas as pessoas 
contra tratamento imoral tanto nas mãos de religiosos, como de não-religiosos. Uma 
religião que advogue o sacrifício humano de não-voluntários, não pode ser permitida 
existir dentro de um sistema moral amplo. Se, por outro lado, as religiões puderem 
aceitar alguns princípios morais abrangentes e seus membros puderem agir de acordo 
com tais princípios, então eles podem coexistir com pessoas não religiosas e, ao 
mesmo tempo, manterem seus próprios princípios de modo significativo, sem 
pretenderem impor suas crenças. 
Nos dias atuais é uma insanidade pretender que as pessoas cresçam ingênuas. Não 
podemos, e certamente não devemos, re-introduzir a famigerada era da credulidade. 
Está muito claro que o dogmatismo é um terrível obstáculo à educação e temos a 
5 
 
 
convicção que representa um enorme perigo. Existe uma tendência, há muito 
perceptível nos Estados Unidos, e que vem aumentando também em outras partes do 
mundo, de tentar enveredar pelos caminhos do fundamentalismo religioso. A principal 
característica de qualquer religião fundamentalista seja cristã, judaica ou muçulmana, 
é que ela se baseia em um texto que supostamente deve funcionar como fundamento 
para a educação e a verdade. O conhecimento é, assim, finito, e essencialmente a-
histórico. Dessa maneira, o único conhecimento novo permitido deve ser uma nova 
interpretação de um certo texto que, por supostamente conter verdades que foram 
definitivamente reveladas, não é um objeto adequado para uma investigação crítica 
ou histórica. 
O fundamentalismo é um convite, uma exortação, para se aceitar inquestionavelmente 
o que é tido como sendo os ensinamentos centrais da fé (e isto não apenas com 
relação a questões como a criação do mundo, mas em assuntos do século XX, como 
engenharia genética, clonagem terapêutica, células-tronco, etc.). Dessa forma 
negativa, o fundamentalismo atua como um empecilho à pesquisa científica e à busca 
de evidências históricas. O fundamentalista não acredita que seja desejável possuir 
conhecimento, seja para ondefor que este o possa levar. O conhecimento não é 
considerado um objetivo em si. A mensagem é que nós deveríamos acreditar naquilo 
que nossos professores de religião nos ensinam e não nos intrometer em questões 
que seria melhor deixar ocultas. No entanto, o fato é que não podemos desaprender 
o que foi uma vez descoberto e demonstrado. Não devemos e não podemos desejar 
voltar ao período medieval, à era pré-Galileu ou pré-cartesiana. É impossível, ainda 
que tentássemos, acreditar que o que Aristóteles e Tomás de Aquino disseram, 
consistia na soma de todo o conhecimento possível. 
Dizer que a ética é independente da religião não é negar que teólogos ou outros 
crentes religiosos possam ter um importante papel a desempenhar em Bioética. 
Tradições religiosas frequentemente têm longas histórias no trato com dilemas éticos; 
e o acúmulo de sabedoria e experiência que representam, podem fornecer valiosos 
modos de enxergar determinados tipos de problema. Só que esses modos de 
enxergar devem estar submetidos à análise crítica, na mesma medida em que 
quaisquer outras propostas devam sê-lo. Se, no final, nós as aceitarmos, será porque 
as julgamos sólidas e racional e emocionalmente justificáveis, e não meramente 
6 
 
 
porque sejam declarações de um papa, um bispo evangélico, um rabino, um monge 
budista, um mulá ou qualquer outra pessoa supostamente infalível ou sagrada. 
Toda decisão moral deve ser embasada, fundamentalmente, em três elementos: a 
maior quantidade de conhecimento que se possa adquirir sobre a questão, o tempero 
do sentimento e da emoção humanos e, sobretudo, o máximo de liberdade e isenção 
para fazer a escolha. Isso adiciona predicado humanitário à nossa estatura ética e 
confere responsabilidade real à escolha. Sem conhecimento, sem sentimento, sem 
isenção e sem liberdade para decidir, não há ação moral possível. Há imposição. 
Mando e obediência. E toda imposição é moralmente injustificada, teologicamente 
herética, subversiva da dignidade humana e, pior do que tudo é obscurantista e 
espiritualmente opressiva. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
7 
 
 
 
 
2 - RELIGIÃO E CULTURA 
 
 Marcia Avelino 
 
Segundo Abbagnano (2003), ética é a ciência da conduta, que pode ser vista de dois 
modos diferentes. A primeira concepção apresenta a ética como a ciência que aponta 
a finalidade da conduta do homem, mostrando então como se deve agir para atingir 
este objetivo. Já na segunda concepção a ética é vista como a ciência das 
possibilidades da conduta dos humanos, que pretende determinar os movimentos 
possíveis de uma forma que oriente sua ação. A primeira concepção de ética fala em 
termos ideais para o qual todo o humano se dirige por conta de sua natureza; algo 
universal. A segunda fala dos motivos da conduta humana, atendo-se ao 
conhecimento dos fatos. 
 
Alguns intelectuais fazem, então, uma distinção entre moral e ética. A moral seria 
esse conjunto de regras estabelecidas numa sociedade, que diz à pessoa de que 
modo ela deve se comportar, agir. Já a ética seria caracterizada pela reflexão que o 
humano faz dessas regras em relação à situação em que, normalmente, essas regras 
deveriam ser empregadas. Permeando esta distinção, está o ethos, uma espécie de 
casa íntima, subjetiva, constituída a partir das vivências sociais, na qual estão 
presentes, de algum modo, as normas culturais desses diversos âmbitos, e que são 
base para o agir pessoal e qualquer reflexão a respeito deste agir. O ethos é 
constituído, então, de forma singular, com as contribuições da família, da escola, dos 
amigos, da religião, e da cultura de forma geral. Porém, por algum tempo fez parte da 
visão ocidental, achar que as contribuições morais tenham vindo exclusivamente da 
religião, até porque os demais âmbitos da sociedade eram norteados pela religião – 
cristianismo no caso. (Por isso, apesar dessa reflexão pretender se estender às 
religiões, ele apresenta o cristianismo como exemplo eleito dentre elas). 
 
8 
 
 
Certos de que ética fosse, necessariamente, um conjunto de regras, muito tempo se 
acreditou que as leis oferecidas pela religião – sobretudo, as judaica e cristã – eram 
a mesma coisa que conduta ética, válidas para todos em qualquer situação. Isto quer 
dizer que seguir as normas de uma religião, ou dizer-se religioso, significava ser uma 
pessoa ética, confiável. E ainda hoje é assim para muitos. Porém, observando a 
multiplicação dos modos como a religião acontece e é vivida hoje – além do conflito 
entre elas –, é natural questionar se há realmente essa equivalência entre ética, moral 
e religião. Se acreditarmos que religião é a instância social que nos oferece as regras 
de conduta moral, desprovida de reflexão, considerando a multiplicidade religiosa do 
final do último século, em qual das religiões, ou denominações, estaria esta regra de 
condutas para todos? O que dizer das ações dos orientais? Se considerarmos que, 
mesmo refletindo, é necessário uma série de regras de conduta oferecidas por uma 
divindade como base do agir ético, estaríamos dizendo que os ateus não podem ser 
éticos? Seriam delinqüentes em potencial? No caso do agnóstico, haveria uma 
moralidade sem religião? Por outro lado, será que por haver um deus e regras de 
conduta, não é possível haver reflexão ética nas religiões? 
 
É um fato histórico que práticas religiosas e tabus, bem como os costumes sociais 
são constituições humanas pré-históricas, anteriores, inclusive, à constituição da 
linguagem. Nestas culturas já havia a idéia de punição e recompensa de acordo com 
as ações do povo e de cada um. Contudo, o fato de surgirem praticamente juntas, 
religião e conduta social, não quer dizer que estejam necessariamente ligadas – 
embora também não seja possível comprovar que elas não estão ligadas, até porque 
para alguns estudiosos há uma relação de moral e religiosidade (no sentido de uma 
relação com aquilo que nos transcende) para além da religião. 
Assim, uma das propostas neste texto, é responder às questões levantadas de modo 
a discutir a possibilidade de haver moral, ética desvinculada da religião – pois temos 
algumas razões para desconfiar disso – e nela mesma (na religião) como isto se dá. 
 
Observamos que os motivos que temos para sermos éticos, são o modo como nós 
(humanos) vivemos, nossas ideias e valores que, diga-se de passagem, não são 
universais, pelo contrário, são típicos de cada cultura. Mandamentos vindos de um 
mundo sobrenatural, que se aplicasse ao nosso mundo, nos faria pensar que este 
9 
 
 
outro mundo não é sobrenatural, mas, tal como o nosso, carente de regras de conduta 
– contraditório, portanto –; ou, no mínimo, que algum dos mandamentos lá 
desenvolvidos não serviria para nós, na medida em que não somos seres 
sobrenaturais capazes de vivências sobrenaturais. Lançando mão de exemplos 
teológico-cristãos, podemos dizer que o sacrifício do Cristo torna-se válido, por estar, 
ele mesmo, desprovido – ainda que parcialmente – de sua condição divina. Seu 
legado ganha dimensões magníficas justamente pelo fato de ter se tornado homem, 
recebido influências culturais (judaicas, no caso), e em meio às limitadas condições 
humanas poder provocar testemunhos de como agir com justiça. Se fosse 
exclusivamente um deus entre humanos, seu modo de agir não se configuraria 
parâmetro para qualquer povo – contrário ao que pregam os cristãos. 
Se aplicássemos as regras divinas de uma religião para todas as pessoas, em 
qualquer cultura, o que aconteceria? Seria ainda ética? Sabemos que mesmo entre 
os cristãos há diferentes leituras das regras extraídas da Bíblia (seu manual de 
conduta). É o que acontece entre cristãos e católicos e, mais escancaradamente, o 
que acontece em meio aos protestantes. A falta de reflexão sobre essas leituras, por 
vezes, causa exatamente o oposto da intenção primeira destas regras: o respeito ao 
outro – ao próximo,se desejar. Infelizmente a guerra entre católicos e protestantes 
na Irlanda parece ser um “bom” exemplo disso. 
 
Se voltarmos, então, àquelas duas concepções de ética, poderíamos dizer que na 
religião encontram-se somente as regras de conduta moral, mas da maneira como 
estão dispostas não favorecem a reflexão da pessoa frente à situação – postura que, 
parece, estaria mais próxima ao movimento filosófico, à reflexão. Isso traz algumas 
implicações por justificar atitudes como os preconceitos e a guerra, e, ainda, a falta 
de atitudes básicas como o respeito, compaixão. Entretanto, há que se dizer que esta 
postura, presente em grande parte das religiões, aponta, na verdade, o 
fundamentalismo como mediador da relação religiosa, com o qual as pessoas se 
deparam e abraçam na esperança de encontrarem segurança na resolução de suas 
questões, uma certeza para seu futuro. O fundamentalismo é uma forma de viver uma 
religiosidade desprovida das leituras hermenêutica e exegética, ou mesmo, cultural; 
uma forma desnecessária à vivência religiosa. 
 
10 
 
 
Para discorrer a esse respeito vamos a outro exemplo cristão: ao narrar a parábola 
do bom samaritano (Lc 10.25-37), Jesus quer mostrar a seus discípulos e amigos que 
não se deve desconsiderar as leis, mas é necessário abstrair o motivo de sua 
pertinência ou se esvairá o real motivo de sua existência. 
Um perito da Lei se levantou e, querendo experimentar Jesus 
perguntou: “Mestre, que devo fazer para recebe a vida eterna em 
herança?” Jesus disse-lhe: “O que está escrito na Lei? Como 
lês?” Ele respondeu: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu 
coração, e com toda a tua alma, com toda a tua força e com todo 
o teu entendimento: e o teu próximo como a ti mesmo!” Jesus lhe 
disse: “Respondeste corretamente. Faze isso e viverás”. Ele, 
porém, querendo justificar-se, disse a Jesus: “E quem é o meu 
próximo?” Jesus retomou: “Um certo homem descia de Jerusalém 
para Jericó e caiu nas mãos de assaltantes. (...) o deixaram quase 
morto. Por acaso, um sacerdote estava passando por aquele 
caminho. Quando viu o homem, seguiu adiante, pelo outro lado. 
O mesmo aconteceu com o levita (...). Mas um samaritano, que 
estava viajando, chegou perto dele, viu e moveu-se de 
compaixão. Aproximou-se dele e tratou-lhe as feridas, 
derramando nelas óleo e vinho. (...) E Jesus perguntou: “Na tua 
opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos 
dos assaltantes? Ele respondeu: “Aquele que usou de 
misericórdia para com ele”. Então Jesus lhe disse: “Vai e faze tu 
a mesma coisa”. 
 
Talvez o homem pensasse que “amar o teu próximo como a ti mesmo” se referisse 
tão somente a um sentimento, pensamento que se deve ter em oposição ao ódio. 
Mas, com um exemplo prático, Jesus mostra ao fariseu a interpretação dessa lei. O 
que Jesus lhe propõe é mais que uma simples postura de ajudar o necessitado, mas 
diz a ele, judeu - e bom conhecedor da lei - que um samaritano (povo rejeitado pelos 
judeus; considerados inferiores) que a lei é universal na medida em que o próximo 
não é somente compatriota e que o samaritano, desconhecedor das leis, cumpri uma 
lei judia sem ter de recitá-la, pela capacidade de olhar a situação e compreender a 
11 
 
 
necessidade do outro. Jesus aponta esta como a postura amorosa: observar a 
situação, refletir e agir em favor do bem do outro – que aliás, pode ser uma referência 
transcendente. Coloca em xeque a atitude: cumprir a lei em sua literalidade ou suprir 
a necessidade que se mostra na reflexão da situação que se mostra em relação ao 
ideal da lei? 
 
Falando em cristianismo, quem poderia dizer melhor a forma de proceder do que o 
próprio “Cristo” (também um judeu)? Haveria uma contradição na própria religião, 
quanto ao que é ser ético? Porque parece que Jesus indica o caminho da reflexão 
como o melhor em lugar de mera contemplação da lei. Em outra de suas falas, ele 
mesmo demonstra uma postura de refletir sobre a situação, quando um contra 
argumento lhe faz reconsiderar uma decisão designada a priori: 
 
 
(...) A mulher não era judia, mas de origem siro-fenícia, e pedia 
que ele expulsasse o demônio de sua filha. Jesus lhe disse: 
“Deixa que os filhos se saciem primeiro; pois não fica bem tirar o 
pão dos filhos para jogá-lo ao cachorrinhos”. Ela respondeu: 
“Senhor, também os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem as 
migalhas que os filho deixam cair”. Jesus, então, lhe disse: “Por 
causa do que acabas de dizer, podes voltar para casa. O demônio 
já saiu da tua filha”. (Mc, 7.24-30). 
 
Nesse caso, Jesus, que veio somente para os judeus, reconsidera o pedido de uma 
estrangeira e lhe concede o pedido. Por estes exemplos, dentre tantos outros, 
podemos dizer que se os cristãos preferem cumprir leis em detrimento da reflexão, é 
por opção ao fundamentalismo, presente no cristianismo, distante da postura cristã, 
que, como vimos, supõe reflexão ética. 
 
Sabemos, então, que, a exemplo do cristianismo, em geral na postura religiosa – que 
na maioria das vezes é fundamentalista (pois é pressuposto do membro religioso 
acreditar que a verdade de sua religião é absoluta, por exemplo, para o cristão, só há 
salvação em Jesus Cristo e para aproximar-se dele deve-se seguir as orientações 
12 
 
 
bíblicas literalmente) – realmente não há espaço para a reflexão sobre as regras de 
conduta moral. Mas sabemos, por outro lado, que a postura ética é possível. Se 
abstrairmos dos ensinamentos, exemplos de Jesus, assim como dos de Buda e 
Maomé, entre outros, a “moral” da história – como nossos pais costumam dizer –, 
veremos que são ensinamentos reflexivos, que foram cristalizados em algum 
momento. De algum modo são derivadas da lei universal de preservação da vida. 
Esse tipo de leitura tornaria qualquer livro sagrado bem-vindo em todas culturas. Não 
se trata de abandonar sua cultura, seus costumes, mas conhecer e até somar. Seria, 
para tanto, necessário uma compreensão de religião como modo cultural. 
 
Se pensarmos no que há em comum entre as diversas regras morais, presente em 
muitas culturas, inclusive nas orientais, como não matar, não ferir e tornar a vida e o 
mundo melhor para todos, os seres humanos que agirem moralmente mesmo não 
tendo religião, indicaria que não há a uma ligação obrigatória entre moralidade e 
religião. Conforme a observação logo no início desse texto, a respeito da constituição 
do ethos, a noção de moralidade é oferecida não apenas pela religião, mas pelos 
demais âmbitos do universo social. Por isso é natural que ateus e agnósticos tenham 
posturas morais e éticas tanto quanto os religiosos.. 
 
Existem muitos outros motivos e exemplos que nos mostrariam que a ética, reflexão 
sobre uma moral, é a concepção mais adequada; também muitos outros que nos 
mostrariam que a ligação entre religião e ética não é certeira. Há, porém outra 
provocação que salta aos olhos em decorrência dessa reflexão: havendo hoje “éticas” 
– como dizem – ou, modos de agir em cada âmbito da vida e do saber (ética médica, 
ética docente, ética empresarial, ética política, etc), porque não falar em “ética”, um 
modo de proceder dentro da religião? Por exemplo, é preciso ter respeito acima das 
leis, para com outras religiões, sua existência, o fim que elas indicam às pessoas com 
as regras que criam e como fazem isto – até porque, não respeitar o modo de alguém 
viver de acordo com sua religião é dito antiético. (Parece esquizofrênico!) Muitos 
brasileiros ainda se lembram do pastor evangélico que agrediu a santa padroeira do 
País, para os católicos. 
 
13 
 
 
Seria conveniente que, nestas situações, a ética como reflexão sobre os próprios 
interesses ou modo de pensar fosse exercitada. Nos últimos dias temos visto já 
manifestações públicas que indicam a necessidade de se pensar nessa “categoria 
específica de ética”. No final de Junho de 2008 uma lei aprovada no senado aponta 
qualquerofensa aos homossexuais como crime, a exemplo da lei contra a 
discriminação “racial”. Imediatamente surgiu um grupo de evangélicos em frente ao 
palácio do planalto reivindicando seu direito de dizer que homossexualismo é pecado 
sem, por isso, ser incriminado. E então, o que fazer? Abrir mão da convicção 
fundamentada pela Bíblia de que os homossexuais não entrarão no céu – e, 
consequentemente, desobedecer a ordenança de Deus de dizer isso a essas 
pessoas? Ou cumprir com a obrigação cristã de apontar o erro visando a cura e ser 
indiciado pela justiça do país? E agora? Cumpre-se as leis de Deus ou do país? 
 
É interessante notar que em nenhum momento a manifestação voltou-se aos 
beneficiados pela lei (ambos, religiosos e juristas não tiveram a preocupação de reunir 
outras opiniões a respeito – o que seria pertinente visto que cada um quer cumprir 
leis que, em suas leituras, são para o bem dessas pessoas, apesar da contradição 
entre elas), mas esteve, todo o tempo, voltada à preocupação de não se poder 
falar, ou não, que homossexualismo é pecado. Ora, isso tudo também indica que não 
há uma relação necessária entre agir ético e religião, sendo possível – talvez 
necessário – falar em ética na religião, para além das regras que ela mesma prega. 
Se entendermos que leis de preservação da vida são universais e que religião é uma 
necessidade cultural, social, na medida em que a sociedade muda suas convicções, 
seus valores, seu parâmetro de normalidade, deverá haver um movimento também 
na religião. Além de tudo, esses movimentos indicam que nossa cultura já não é tão 
cristã, pois, se fosse, não haveria tantas manifestações homossexuais – pelo menos 
públicas –; e perante esse tipo de lei não só evangélicos se manifestariam, mas muitos 
outros membros da sociedade. 
 
Da mesma forma, não podemos deixar de observar que, se pensássemos, enquanto 
sociedade, em promover a reflexão ética – ainda que em longo prazo – não 
precisaríamos criar tantas leis específicas, pois, no fim das contas, nordestinos e 
mulheres, dentre outros, são vítimas das mesmas intolerâncias. (Seria esta uma 
14 
 
 
contribuição religiosa para o ocidente?). Outro exemplo é a bioética, a ética da vida, 
que trata principalmente de casos complexos, situações únicas, onde se deve analisar 
os contextos e as consequências da ação no contexto, como pensar em cumprir 
regras estabelecidas a priori? Ou ainda, como aceitar que concepções morais 
religiosas sejam o pano de fundo da reflexão? 
 
Isso nos faz concluir que, em qualquer âmbito social, laico ou religioso, em que se 
pretenda um agir ético consciente, a reflexão, compreensão da lógica da moral e a 
interdisciplinaridade são pressupostos necessários. Do contrário, em algum momento 
haverá um conflito moral, que, por vezes, tem implicações terríveis. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
15 
 
 
 
 
 
 
REFERÊNCIAS 
 
ABBAGNAN0, N. Dicionário de Filosofia. 
ALMEIDA, M. Moralidade, Ética e Religião, 2008. disponível em: ... 
BÍBLIA SAGRADA. Trad. João Ferreira de Almeida. (Lucas, Marcos). 
VAZ, H. L. Escritos de Filosofia IV: Introdução à ética filosófica I. 
Max Weber; Peter R. Baehr; Gordon C. Wells (2002). 
WEBER, Max (1967). A ética protestante e o espírito do capitalismo (São Paulo: 
Pioneira). 
WEBER, Max (2004). A ética protestante e o “espírito” do capitalismo (São Paulo: 
Companhia das Letras (Tradução de José Marcos Mariani de Macedo)). 
PIERUCCI, Antonio Flávio (2004). O desencantamento do mundo Companhia das 
Letras [S.l.] 
SCHLUCHTER, Wolfgang (1981). The Rise of Western Rationalism: Max Webers 
Developmental History (Berkeley: University Press). 
SELL, Carlos Eduardo (2013). A racionalização da vida (Petrópolis: Vozes). 
 «ISA - International Sociological Association: Books of the Century». International 
Sociological Association. 1998. Consultado em 25-07-2012.