Prévia do material em texto
1 ÉTICA, RELIGIÃO E CULTURA NO ENSINO RELIGIOSO 1 Sumário NOSSA HISTÓRIA ..................................................................................................................................... 2 2 - RELIGIÃO E CULTURA ......................................................................................................................... 7 REFERÊNCIAS ......................................................................................................................................... 15 2 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 3 Se pudermos, de modo sumário, caracterizar a moralidade desse mundo, como não ferir ou matar os outros e, de um modo geral, tentar tornar a vida e o mundo melhor para todos e tudo o que nele existe, e se muitos seres humanos não aceitarem a existência de um mundo supranatural e, ainda assim agirem tão moralmente quanto quaisquer outros que acreditam, então deve haver alguns outros atributos, diferentes das crenças religiosas, que são necessários para alguém ser moral. Embora seja óbvio que a maioria das religiões contenha sistemas éticos, isso não transforma em verdade a afirmação de que todos os sistemas éticos tenham uma base religiosa; por tanto não existe uma ligação obrigatória entre moralidade e religião. O simples fato de que pessoas completamente não religiosas (como, por exemplo, vários eticistas ateus humanistas), podem desenvolver sistemas éticos significativos e consistentes, é prova suficiente disso. Fornecer um fundamento racional para um sistema ético já é bastante difícil, sem ter de oferecer também um fundamento para a religião que propõe tal sistema ético. E a dificuldade de fundamentar racionalmente a maioria dos sistemas religiosos é inescapável. É impossível comprovar conclusivamente a existência de alguma supranatureza, pós-vida, deus ou deuses. Nem precisamos apelar para os argumentos modernos e tradicionais, sobre a existência ou inexistência de um deus ou deuses neste ponto, mas simplesmente verificar que não há evidência conclusiva de que tais seres existam ou não existam. Portanto, se nenhuma evidência é conclusiva e nenhuma lógica dos argumentos é irrefutável, então a existência de um mundo supranatural, um pós-vida, um deus ou deuses, fica pelo menos colocada na categoria das coisas não provadas. Isso, naturalmente, não significa que grande número de pessoas não continuará a acreditar nas suas existências, baseando suas crenças na fé, no medo, na esperança ou na sua própria leitura das evidências. Todavia, como fundamentação lógica da moralidade, as religiões são, de fato, muito frágeis, exceto para aqueles que creem. Acreditar que Deus, ou um pós-vida exista, pode fazer as pessoas sentirem-se melhor agindo de determinadas maneiras. Pode igualmente fornecer poderosos reforços para alguém agir moralmente (ou, pelo menos, não agir imoralmente) . Só que isso não se 4 configura como uma fundamentação racional válida para a moralidade, que nos forneça razões, sentimentos, evidência ou lógica para agirmos de um modo e não de outro. A qualidade moral de um ato reside no fato dele ter sido escolhido livremente e não comandado. Como declarou Scriven: “A religião pode fornecer um fundamento psicológico, mas não lógico para a moralidade”. Ainda que as religiões pudessem ser racionalmente fundamentadas, qual religião deveria ser a escolhida como a base para a ética humana? Dentro de uma religião em particular, essa questão é facilmente respondida, mas, obviamente, não respondida de modo satisfatório para os membros de outras religiões conflitantes, ou para aqueles que não acreditam em qualquer religião. Mesmo se os pressupostos das religiões pudessem ser conclusivamente provados, qual religião deveríamos aceitar como a verdadeira e legítima geradora da moralidade? É claro que existem muitas religiões que têm muitas prescrições éticas em comum, como, por exemplo, não matar. Mas é também bastante evidente que existem numerosas prescrições não congruentes. Só para ficar no cristianismo, por exemplo, há muitas declarações éticas em desarmonia, relacionadas a sexo, guerra, casamento, divórcio, roubar e mentir. Em resumo, qual a conexão entre a religião e a moralidade? A resposta é que não há uma conexão necessária. Pode-se ter um sistema ético completo, sem mencionar outra vida, que não esta, deus ou deuses, nada supranatural, ou qualquer pós-vida. Quer dizer, então, que para sermos morais precisamos evitar a religião? De modo nenhum! Os seres humanos devem ser permitidos livremente a acreditar ou desacreditar, desde que exista alguma base moral que proteja todas as pessoas contra tratamento imoral tanto nas mãos de religiosos, como de não-religiosos. Uma religião que advogue o sacrifício humano de não-voluntários, não pode ser permitida existir dentro de um sistema moral amplo. Se, por outro lado, as religiões puderem aceitar alguns princípios morais abrangentes e seus membros puderem agir de acordo com tais princípios, então eles podem coexistir com pessoas não religiosas e, ao mesmo tempo, manterem seus próprios princípios de modo significativo, sem pretenderem impor suas crenças. Nos dias atuais é uma insanidade pretender que as pessoas cresçam ingênuas. Não podemos, e certamente não devemos, re-introduzir a famigerada era da credulidade. Está muito claro que o dogmatismo é um terrível obstáculo à educação e temos a 5 convicção que representa um enorme perigo. Existe uma tendência, há muito perceptível nos Estados Unidos, e que vem aumentando também em outras partes do mundo, de tentar enveredar pelos caminhos do fundamentalismo religioso. A principal característica de qualquer religião fundamentalista seja cristã, judaica ou muçulmana, é que ela se baseia em um texto que supostamente deve funcionar como fundamento para a educação e a verdade. O conhecimento é, assim, finito, e essencialmente a- histórico. Dessa maneira, o único conhecimento novo permitido deve ser uma nova interpretação de um certo texto que, por supostamente conter verdades que foram definitivamente reveladas, não é um objeto adequado para uma investigação crítica ou histórica. O fundamentalismo é um convite, uma exortação, para se aceitar inquestionavelmente o que é tido como sendo os ensinamentos centrais da fé (e isto não apenas com relação a questões como a criação do mundo, mas em assuntos do século XX, como engenharia genética, clonagem terapêutica, células-tronco, etc.). Dessa forma negativa, o fundamentalismo atua como um empecilho à pesquisa científica e à busca de evidências históricas. O fundamentalista não acredita que seja desejável possuir conhecimento, seja para ondefor que este o possa levar. O conhecimento não é considerado um objetivo em si. A mensagem é que nós deveríamos acreditar naquilo que nossos professores de religião nos ensinam e não nos intrometer em questões que seria melhor deixar ocultas. No entanto, o fato é que não podemos desaprender o que foi uma vez descoberto e demonstrado. Não devemos e não podemos desejar voltar ao período medieval, à era pré-Galileu ou pré-cartesiana. É impossível, ainda que tentássemos, acreditar que o que Aristóteles e Tomás de Aquino disseram, consistia na soma de todo o conhecimento possível. Dizer que a ética é independente da religião não é negar que teólogos ou outros crentes religiosos possam ter um importante papel a desempenhar em Bioética. Tradições religiosas frequentemente têm longas histórias no trato com dilemas éticos; e o acúmulo de sabedoria e experiência que representam, podem fornecer valiosos modos de enxergar determinados tipos de problema. Só que esses modos de enxergar devem estar submetidos à análise crítica, na mesma medida em que quaisquer outras propostas devam sê-lo. Se, no final, nós as aceitarmos, será porque as julgamos sólidas e racional e emocionalmente justificáveis, e não meramente 6 porque sejam declarações de um papa, um bispo evangélico, um rabino, um monge budista, um mulá ou qualquer outra pessoa supostamente infalível ou sagrada. Toda decisão moral deve ser embasada, fundamentalmente, em três elementos: a maior quantidade de conhecimento que se possa adquirir sobre a questão, o tempero do sentimento e da emoção humanos e, sobretudo, o máximo de liberdade e isenção para fazer a escolha. Isso adiciona predicado humanitário à nossa estatura ética e confere responsabilidade real à escolha. Sem conhecimento, sem sentimento, sem isenção e sem liberdade para decidir, não há ação moral possível. Há imposição. Mando e obediência. E toda imposição é moralmente injustificada, teologicamente herética, subversiva da dignidade humana e, pior do que tudo é obscurantista e espiritualmente opressiva. 7 2 - RELIGIÃO E CULTURA Marcia Avelino Segundo Abbagnano (2003), ética é a ciência da conduta, que pode ser vista de dois modos diferentes. A primeira concepção apresenta a ética como a ciência que aponta a finalidade da conduta do homem, mostrando então como se deve agir para atingir este objetivo. Já na segunda concepção a ética é vista como a ciência das possibilidades da conduta dos humanos, que pretende determinar os movimentos possíveis de uma forma que oriente sua ação. A primeira concepção de ética fala em termos ideais para o qual todo o humano se dirige por conta de sua natureza; algo universal. A segunda fala dos motivos da conduta humana, atendo-se ao conhecimento dos fatos. Alguns intelectuais fazem, então, uma distinção entre moral e ética. A moral seria esse conjunto de regras estabelecidas numa sociedade, que diz à pessoa de que modo ela deve se comportar, agir. Já a ética seria caracterizada pela reflexão que o humano faz dessas regras em relação à situação em que, normalmente, essas regras deveriam ser empregadas. Permeando esta distinção, está o ethos, uma espécie de casa íntima, subjetiva, constituída a partir das vivências sociais, na qual estão presentes, de algum modo, as normas culturais desses diversos âmbitos, e que são base para o agir pessoal e qualquer reflexão a respeito deste agir. O ethos é constituído, então, de forma singular, com as contribuições da família, da escola, dos amigos, da religião, e da cultura de forma geral. Porém, por algum tempo fez parte da visão ocidental, achar que as contribuições morais tenham vindo exclusivamente da religião, até porque os demais âmbitos da sociedade eram norteados pela religião – cristianismo no caso. (Por isso, apesar dessa reflexão pretender se estender às religiões, ele apresenta o cristianismo como exemplo eleito dentre elas). 8 Certos de que ética fosse, necessariamente, um conjunto de regras, muito tempo se acreditou que as leis oferecidas pela religião – sobretudo, as judaica e cristã – eram a mesma coisa que conduta ética, válidas para todos em qualquer situação. Isto quer dizer que seguir as normas de uma religião, ou dizer-se religioso, significava ser uma pessoa ética, confiável. E ainda hoje é assim para muitos. Porém, observando a multiplicação dos modos como a religião acontece e é vivida hoje – além do conflito entre elas –, é natural questionar se há realmente essa equivalência entre ética, moral e religião. Se acreditarmos que religião é a instância social que nos oferece as regras de conduta moral, desprovida de reflexão, considerando a multiplicidade religiosa do final do último século, em qual das religiões, ou denominações, estaria esta regra de condutas para todos? O que dizer das ações dos orientais? Se considerarmos que, mesmo refletindo, é necessário uma série de regras de conduta oferecidas por uma divindade como base do agir ético, estaríamos dizendo que os ateus não podem ser éticos? Seriam delinqüentes em potencial? No caso do agnóstico, haveria uma moralidade sem religião? Por outro lado, será que por haver um deus e regras de conduta, não é possível haver reflexão ética nas religiões? É um fato histórico que práticas religiosas e tabus, bem como os costumes sociais são constituições humanas pré-históricas, anteriores, inclusive, à constituição da linguagem. Nestas culturas já havia a idéia de punição e recompensa de acordo com as ações do povo e de cada um. Contudo, o fato de surgirem praticamente juntas, religião e conduta social, não quer dizer que estejam necessariamente ligadas – embora também não seja possível comprovar que elas não estão ligadas, até porque para alguns estudiosos há uma relação de moral e religiosidade (no sentido de uma relação com aquilo que nos transcende) para além da religião. Assim, uma das propostas neste texto, é responder às questões levantadas de modo a discutir a possibilidade de haver moral, ética desvinculada da religião – pois temos algumas razões para desconfiar disso – e nela mesma (na religião) como isto se dá. Observamos que os motivos que temos para sermos éticos, são o modo como nós (humanos) vivemos, nossas ideias e valores que, diga-se de passagem, não são universais, pelo contrário, são típicos de cada cultura. Mandamentos vindos de um mundo sobrenatural, que se aplicasse ao nosso mundo, nos faria pensar que este 9 outro mundo não é sobrenatural, mas, tal como o nosso, carente de regras de conduta – contraditório, portanto –; ou, no mínimo, que algum dos mandamentos lá desenvolvidos não serviria para nós, na medida em que não somos seres sobrenaturais capazes de vivências sobrenaturais. Lançando mão de exemplos teológico-cristãos, podemos dizer que o sacrifício do Cristo torna-se válido, por estar, ele mesmo, desprovido – ainda que parcialmente – de sua condição divina. Seu legado ganha dimensões magníficas justamente pelo fato de ter se tornado homem, recebido influências culturais (judaicas, no caso), e em meio às limitadas condições humanas poder provocar testemunhos de como agir com justiça. Se fosse exclusivamente um deus entre humanos, seu modo de agir não se configuraria parâmetro para qualquer povo – contrário ao que pregam os cristãos. Se aplicássemos as regras divinas de uma religião para todas as pessoas, em qualquer cultura, o que aconteceria? Seria ainda ética? Sabemos que mesmo entre os cristãos há diferentes leituras das regras extraídas da Bíblia (seu manual de conduta). É o que acontece entre cristãos e católicos e, mais escancaradamente, o que acontece em meio aos protestantes. A falta de reflexão sobre essas leituras, por vezes, causa exatamente o oposto da intenção primeira destas regras: o respeito ao outro – ao próximo,se desejar. Infelizmente a guerra entre católicos e protestantes na Irlanda parece ser um “bom” exemplo disso. Se voltarmos, então, àquelas duas concepções de ética, poderíamos dizer que na religião encontram-se somente as regras de conduta moral, mas da maneira como estão dispostas não favorecem a reflexão da pessoa frente à situação – postura que, parece, estaria mais próxima ao movimento filosófico, à reflexão. Isso traz algumas implicações por justificar atitudes como os preconceitos e a guerra, e, ainda, a falta de atitudes básicas como o respeito, compaixão. Entretanto, há que se dizer que esta postura, presente em grande parte das religiões, aponta, na verdade, o fundamentalismo como mediador da relação religiosa, com o qual as pessoas se deparam e abraçam na esperança de encontrarem segurança na resolução de suas questões, uma certeza para seu futuro. O fundamentalismo é uma forma de viver uma religiosidade desprovida das leituras hermenêutica e exegética, ou mesmo, cultural; uma forma desnecessária à vivência religiosa. 10 Para discorrer a esse respeito vamos a outro exemplo cristão: ao narrar a parábola do bom samaritano (Lc 10.25-37), Jesus quer mostrar a seus discípulos e amigos que não se deve desconsiderar as leis, mas é necessário abstrair o motivo de sua pertinência ou se esvairá o real motivo de sua existência. Um perito da Lei se levantou e, querendo experimentar Jesus perguntou: “Mestre, que devo fazer para recebe a vida eterna em herança?” Jesus disse-lhe: “O que está escrito na Lei? Como lês?” Ele respondeu: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e com toda a tua alma, com toda a tua força e com todo o teu entendimento: e o teu próximo como a ti mesmo!” Jesus lhe disse: “Respondeste corretamente. Faze isso e viverás”. Ele, porém, querendo justificar-se, disse a Jesus: “E quem é o meu próximo?” Jesus retomou: “Um certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de assaltantes. (...) o deixaram quase morto. Por acaso, um sacerdote estava passando por aquele caminho. Quando viu o homem, seguiu adiante, pelo outro lado. O mesmo aconteceu com o levita (...). Mas um samaritano, que estava viajando, chegou perto dele, viu e moveu-se de compaixão. Aproximou-se dele e tratou-lhe as feridas, derramando nelas óleo e vinho. (...) E Jesus perguntou: “Na tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes? Ele respondeu: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Então Jesus lhe disse: “Vai e faze tu a mesma coisa”. Talvez o homem pensasse que “amar o teu próximo como a ti mesmo” se referisse tão somente a um sentimento, pensamento que se deve ter em oposição ao ódio. Mas, com um exemplo prático, Jesus mostra ao fariseu a interpretação dessa lei. O que Jesus lhe propõe é mais que uma simples postura de ajudar o necessitado, mas diz a ele, judeu - e bom conhecedor da lei - que um samaritano (povo rejeitado pelos judeus; considerados inferiores) que a lei é universal na medida em que o próximo não é somente compatriota e que o samaritano, desconhecedor das leis, cumpri uma lei judia sem ter de recitá-la, pela capacidade de olhar a situação e compreender a 11 necessidade do outro. Jesus aponta esta como a postura amorosa: observar a situação, refletir e agir em favor do bem do outro – que aliás, pode ser uma referência transcendente. Coloca em xeque a atitude: cumprir a lei em sua literalidade ou suprir a necessidade que se mostra na reflexão da situação que se mostra em relação ao ideal da lei? Falando em cristianismo, quem poderia dizer melhor a forma de proceder do que o próprio “Cristo” (também um judeu)? Haveria uma contradição na própria religião, quanto ao que é ser ético? Porque parece que Jesus indica o caminho da reflexão como o melhor em lugar de mera contemplação da lei. Em outra de suas falas, ele mesmo demonstra uma postura de refletir sobre a situação, quando um contra argumento lhe faz reconsiderar uma decisão designada a priori: (...) A mulher não era judia, mas de origem siro-fenícia, e pedia que ele expulsasse o demônio de sua filha. Jesus lhe disse: “Deixa que os filhos se saciem primeiro; pois não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-lo ao cachorrinhos”. Ela respondeu: “Senhor, também os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem as migalhas que os filho deixam cair”. Jesus, então, lhe disse: “Por causa do que acabas de dizer, podes voltar para casa. O demônio já saiu da tua filha”. (Mc, 7.24-30). Nesse caso, Jesus, que veio somente para os judeus, reconsidera o pedido de uma estrangeira e lhe concede o pedido. Por estes exemplos, dentre tantos outros, podemos dizer que se os cristãos preferem cumprir leis em detrimento da reflexão, é por opção ao fundamentalismo, presente no cristianismo, distante da postura cristã, que, como vimos, supõe reflexão ética. Sabemos, então, que, a exemplo do cristianismo, em geral na postura religiosa – que na maioria das vezes é fundamentalista (pois é pressuposto do membro religioso acreditar que a verdade de sua religião é absoluta, por exemplo, para o cristão, só há salvação em Jesus Cristo e para aproximar-se dele deve-se seguir as orientações 12 bíblicas literalmente) – realmente não há espaço para a reflexão sobre as regras de conduta moral. Mas sabemos, por outro lado, que a postura ética é possível. Se abstrairmos dos ensinamentos, exemplos de Jesus, assim como dos de Buda e Maomé, entre outros, a “moral” da história – como nossos pais costumam dizer –, veremos que são ensinamentos reflexivos, que foram cristalizados em algum momento. De algum modo são derivadas da lei universal de preservação da vida. Esse tipo de leitura tornaria qualquer livro sagrado bem-vindo em todas culturas. Não se trata de abandonar sua cultura, seus costumes, mas conhecer e até somar. Seria, para tanto, necessário uma compreensão de religião como modo cultural. Se pensarmos no que há em comum entre as diversas regras morais, presente em muitas culturas, inclusive nas orientais, como não matar, não ferir e tornar a vida e o mundo melhor para todos, os seres humanos que agirem moralmente mesmo não tendo religião, indicaria que não há a uma ligação obrigatória entre moralidade e religião. Conforme a observação logo no início desse texto, a respeito da constituição do ethos, a noção de moralidade é oferecida não apenas pela religião, mas pelos demais âmbitos do universo social. Por isso é natural que ateus e agnósticos tenham posturas morais e éticas tanto quanto os religiosos.. Existem muitos outros motivos e exemplos que nos mostrariam que a ética, reflexão sobre uma moral, é a concepção mais adequada; também muitos outros que nos mostrariam que a ligação entre religião e ética não é certeira. Há, porém outra provocação que salta aos olhos em decorrência dessa reflexão: havendo hoje “éticas” – como dizem – ou, modos de agir em cada âmbito da vida e do saber (ética médica, ética docente, ética empresarial, ética política, etc), porque não falar em “ética”, um modo de proceder dentro da religião? Por exemplo, é preciso ter respeito acima das leis, para com outras religiões, sua existência, o fim que elas indicam às pessoas com as regras que criam e como fazem isto – até porque, não respeitar o modo de alguém viver de acordo com sua religião é dito antiético. (Parece esquizofrênico!) Muitos brasileiros ainda se lembram do pastor evangélico que agrediu a santa padroeira do País, para os católicos. 13 Seria conveniente que, nestas situações, a ética como reflexão sobre os próprios interesses ou modo de pensar fosse exercitada. Nos últimos dias temos visto já manifestações públicas que indicam a necessidade de se pensar nessa “categoria específica de ética”. No final de Junho de 2008 uma lei aprovada no senado aponta qualquerofensa aos homossexuais como crime, a exemplo da lei contra a discriminação “racial”. Imediatamente surgiu um grupo de evangélicos em frente ao palácio do planalto reivindicando seu direito de dizer que homossexualismo é pecado sem, por isso, ser incriminado. E então, o que fazer? Abrir mão da convicção fundamentada pela Bíblia de que os homossexuais não entrarão no céu – e, consequentemente, desobedecer a ordenança de Deus de dizer isso a essas pessoas? Ou cumprir com a obrigação cristã de apontar o erro visando a cura e ser indiciado pela justiça do país? E agora? Cumpre-se as leis de Deus ou do país? É interessante notar que em nenhum momento a manifestação voltou-se aos beneficiados pela lei (ambos, religiosos e juristas não tiveram a preocupação de reunir outras opiniões a respeito – o que seria pertinente visto que cada um quer cumprir leis que, em suas leituras, são para o bem dessas pessoas, apesar da contradição entre elas), mas esteve, todo o tempo, voltada à preocupação de não se poder falar, ou não, que homossexualismo é pecado. Ora, isso tudo também indica que não há uma relação necessária entre agir ético e religião, sendo possível – talvez necessário – falar em ética na religião, para além das regras que ela mesma prega. Se entendermos que leis de preservação da vida são universais e que religião é uma necessidade cultural, social, na medida em que a sociedade muda suas convicções, seus valores, seu parâmetro de normalidade, deverá haver um movimento também na religião. Além de tudo, esses movimentos indicam que nossa cultura já não é tão cristã, pois, se fosse, não haveria tantas manifestações homossexuais – pelo menos públicas –; e perante esse tipo de lei não só evangélicos se manifestariam, mas muitos outros membros da sociedade. Da mesma forma, não podemos deixar de observar que, se pensássemos, enquanto sociedade, em promover a reflexão ética – ainda que em longo prazo – não precisaríamos criar tantas leis específicas, pois, no fim das contas, nordestinos e mulheres, dentre outros, são vítimas das mesmas intolerâncias. (Seria esta uma 14 contribuição religiosa para o ocidente?). Outro exemplo é a bioética, a ética da vida, que trata principalmente de casos complexos, situações únicas, onde se deve analisar os contextos e as consequências da ação no contexto, como pensar em cumprir regras estabelecidas a priori? Ou ainda, como aceitar que concepções morais religiosas sejam o pano de fundo da reflexão? Isso nos faz concluir que, em qualquer âmbito social, laico ou religioso, em que se pretenda um agir ético consciente, a reflexão, compreensão da lógica da moral e a interdisciplinaridade são pressupostos necessários. Do contrário, em algum momento haverá um conflito moral, que, por vezes, tem implicações terríveis. 15 REFERÊNCIAS ABBAGNAN0, N. Dicionário de Filosofia. ALMEIDA, M. Moralidade, Ética e Religião, 2008. disponível em: ... BÍBLIA SAGRADA. Trad. João Ferreira de Almeida. (Lucas, Marcos). VAZ, H. L. Escritos de Filosofia IV: Introdução à ética filosófica I. Max Weber; Peter R. Baehr; Gordon C. Wells (2002). WEBER, Max (1967). A ética protestante e o espírito do capitalismo (São Paulo: Pioneira). WEBER, Max (2004). A ética protestante e o “espírito” do capitalismo (São Paulo: Companhia das Letras (Tradução de José Marcos Mariani de Macedo)). PIERUCCI, Antonio Flávio (2004). O desencantamento do mundo Companhia das Letras [S.l.] SCHLUCHTER, Wolfgang (1981). The Rise of Western Rationalism: Max Webers Developmental History (Berkeley: University Press). SELL, Carlos Eduardo (2013). A racionalização da vida (Petrópolis: Vozes). «ISA - International Sociological Association: Books of the Century». International Sociological Association. 1998. Consultado em 25-07-2012.