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1 Júlia Morbeck – @med.morbeck Objetivos 1- Estudar a epidemiologia, classificação, etiologia, fatores de risco, fisiopatologia, manifestações clínicas e diagnóstico do abdome agudo. Abdome agudo ↠ Abdome agudo é definido como toda condição dolorosa de início súbito ou de evolução progressiva, localizada no abdome, que requer decisão terapêutica rápida, preferencialmente após definição diagnóstica (DANI; PASSOS, 2011). A dor representa o melhor elemento para caracterizar ou mesmo para tentar definir o abdome agudo, fato que justifica o aforismo: não existe abdome agudo sem dor. Não devemos nos esquecer, entretanto, de que a dor é uma sensação subjetiva, que depende da consciência para sua interpretação e que é modulada por fatores educacionais, afetivos, culturais, e até religiosos, bem como pelo próprio estado psíquico de cada indivíduo (ansiedade, depressão) (DANI; PASSOS, 2011). A cavidade abdominal comporta vários órgãos de diferentes sistemas e a sintomatologia do abdome agudo pode decorrer de alguma doença em qualquer uma de suas vísceras (DANI; PASSOS, 2011). ↠ Diante desse quadro dramático, a essência da abordagem do paciente é realizar o diagnóstico de forma precisa o mais rapidamente possível. Tais atitudes podem determinar o prognóstico e evitar sequelas irreversíveis (LOPES et al., 206). Alguns autores sugerem a denominação “dor abdominal aguda de 1 a 72 horas”, já que sintomas por períodos maiores ou menores em geral não necessitam de diagnósticos imediatos e/ou tratamentos de urgência (LOPES et al., 206). EPIDEMIOLOGIA ↠ O Abdome Agudo (AA) é responsável por 7% a 10% dos atendimentos realizados nos Departamentos Emergência (DE) (KILESSE et al., 2022). O risco de erro na realização do diagnóstico aproxima-se de 35 diagnósticos equivocados a cada 100 pacientes atendidos e consiste no mais frequente dos DE. Cerca de 30 casos/100 pacientes com dor abdominal aguda são classificados como dor abdominal inespecífica, recebendo alta, porém 3 retornam e recebem o diagnóstico correto (KILESSE et al., 2022). Perfil clínico-epidemiológico dos pacientes acometidos por abdome agudo em um hospital de referência em Salvador Foram incluídos no estudo 162 pacientes, sendo que dois deles apresentaram dois episódios diferentes de abdome agudo durante o ano de 2016. O tipo de abdome agudo mais prevalente foi o inflamatório, em seguida, o obstrutivo. As etiologias específicas mais prevalentes foram apendicite aguda, representando 32% dos casos, e neoplasia do trato gastrointestinal, com 14% dos pacientes acometidos. O abdome agudo inflamatório acometeu 85 pacientes, sendo em sua maioria homens. Dos 164 abdomes agudos, 95,1% tiveram resolução cirúrgica. ↠ A etiologia do abdome agudo varia conforme a idade e o sexo. A apendicite costuma ser mais comum entre os jovens, enquanto a doença biliar, a obstrução e isquemia intestinal e a diverticulite são mais comuns em pacientes com mais idade (SCHAFASCHECK et al., 2021). Avaliação da dor abdominal aguda no departamento de emergência Este é um estudo observacional retrospectivo, onde foram avaliados prontuários de pacientes admitidos por Abdome Agudo no Hospital Estadual Antônio Bezerra de Faria do município de Vila Velha, no período de dezembro a julho de 2019. A partir da revisão dos prontuários de pacientes selecionados de acordo com os critérios de inclusão. Já o padrão de prevalência etiológica mostrou-se da seguinte forma, dos mais prevalentes aos menos: • 60,4% foram inflamatórios, sendo assim, definido como o tipo mais comum, que por sua vez, teve como principal etiologia relacionada, a apendicite aguda com 61,1% dos casos; • os quadros de AA de etiologia perfurativa ficaram com 14,1% dos casos, sendo então, o segundo abdome agudo mais frequente e APG 14 – “ONDE DÓI?” 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck este teve como principal causa relacionada, a ulcera gástrica perfurada com 61,9% dos casos; • os de etiologia obstrutiva contou com 13,4% dos casos, cuja a etiologia mais frequente foi a hérnia estrangulada em 45% dos casos; • o hemorrágico com 6,7% foi relacionado principalmente à cisto ovariano hemorrágico em 50% dos casos; • vasculares com 5,4% casos, relacionado principalmente à isquemia mesentérica aguda em 75% dos casos. CLASSIFICAÇÃO ↠ Existem mais de 42 afecções distintas de órgãos digestivos abdominais, como fígado, baço, órgãos pélvicos, peritônio, mesentério, além de estruturas vasculares e retroperitônio. Por isso, a fim de facilitar a propedêutica médica e raciocínio clínico, é aconselhável dividir o abdome agudo em síndromes: inflamatória, perfurativa, obstrutiva, vascular e hemorrágica (CARDOSO et al., 2022). ↠ Muitas vezes, as características de mais de uma síndrome se sobrepõem durante a evolução de uma doença, à medida que ela progride e se complica, mas o quadro inicial predominante em geral permite a classificação etiológica (DANI; PASSOS, 2011). ABDOME AGUDO INFLAMATÓRIO ↠ O abdome agudo inflamatório pode ser definido como um quadro de dor abdominal, com as características inicialmente mencionadas, decorrente de um processo inflamatório e/ou infeccioso localizado na cavidade abdominal, ou em órgãos e estruturas adjacentes (LOPES et al., 2006). ↠ É o tipo mais comum de abdome agudo. Habitualmente, o processo se inicia com a obstrução mecânica de vísceras ocas normais, ou anatomicamente alteradas (divertículos, por exemplo), originando diversos fenômenos inflamatórios na parede da víscera, com tendência à progressão para infecção franca e comprometimento da vascularização do órgão (DANI; PASSOS, 2011). ETIOLOGIA APENDICITE AGUDA ↠ A apendicite aguda é a principal causa de abdome agudo inflamatório. Afeta qualquer faixa etária, porém, é incomum antes dos 5 e após os 50 anos, com discreto predomínio no sexo masculino (KILESSE et al., 2022). ↠ O quadro é causado pela inflamação e infecção do apêndice cecal, tendo como patogênese a obstrução do lúmen apendicular por fecalito, hiperplasia linfoide, obstrução por áscaris, corpos estranhos e tumores, e o desenvolvimento de uma infecção polimicrobiana, sendo presentes microrganismos aeróbios e anaeróbios, destacando-se as bactérias Escherichia coli e Bacteroides fragilis (KILESSE et al., 2022). A fase inicial apresenta dor epigástrica ou periumbilical, tipo visceral, seguida por anorexia, náuseas e vômito (menos comuns), e posterior localização da dor em quadrante inferior direito, tipo somática. A constipação intestinal e a parada de eliminação de flatos é comum, mas ocasionalmente pode haver diarreia (DANI; PASSOS, 2011). A febre é baixa e a leucocitose moderada (até 15.000), com desvio para a esquerda. A localização retrocecal do apêndice modifica a apresentação clínica 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck da apendicite, sendo a dor menos intensa, podendo estar localizada em hipocôndrio direito, especialmente quando o apêndice é ascendente, e com exame de urina revelando hematúria e piúria (DANI; PASSOS, 2011). Ao exame especifico, estão presentes os sinais de Blumberg (descompressão brusca dolorosa), Rovsing (dor em fossa ilíaca direita quando é realizada a compressão da fossa ilíaca esquerda) e Lapinsky (dor à compressão da fossa ilíaca direita enquanto o paciente eleva o membro inferior direito esticado). Ressalta-se, entretanto, que idosos, crianças e imunossuprimidos podem apresentar sintomas inespecíficos, dificultando o diagnóstico final (KILESSE et al., 2022). Na apendicite, o Escore de Alvarado é uma ferramenta diagnóstica útil, com uso dos sinais, sintomas e laboratório da doença. Os exames de imagem também auxiliam no diagnóstico, sendo a ultrassonografia o exame inicial, embora não afaste o diagnóstico devido aobaixo valor preditivo negativo. Com isso, pode haver prosseguimento da investigação com a TC abdominal (CARDOSO et al., 2022). COLECISTITE ↠ É uma inflamação da parede vesicular, com predomínio a partir da 5ª década de vida, com maior frequência no sexo feminino (KILESSE et al., 2022). ↠ A colecistite está associada à litíase biliar em 95% dos casos. A diferença em relação à cólica biliar simples é a presença de resposta inflamatória na parede da vesícula (DANI; PASSOS, 2011). A dor inicialmente é epigástrica, visceral, acompanhada de náuseas e vômito, e posteriormente mais intensa e localizada no quadrante superior direito, podendo irradiar-se para as regiões lombar direita e escapular direita (DANI; PASSOS, 2011). A febre geralmente é baixa, e a leucocitose, moderada (até 15.000) (DANI; PASSOS, 2011). Elevações leves nas bilirrubinas, amilase, transaminases e fosfatase alcalina podem estar presentes (KILESSE et al., 2022). A avaliação da colecistite é realizada através da ultrassonografia abdominal, exame com sensibilidade e especificidade de 95% para o quadro. Para casos de dúvida, após realização da ultrassonografia, recomenda-se o emprego de TC ou cintilografia. Após o diagnóstico, o tratamento indicado é a colecistectomia (KILESSE et al., 2022). Na ausência de cálculos, o espessamento da parede da vesícula acima de 3,5 mm, associado a sintomas, faz o diagnóstico de colicistite alitiásica (DANI; PASSOS, 2011). PANCREATITE ↠Trata-se de um processo inflamatório agudo do pâncreas por ativação indevida das enzimas digestivas, ocorrendo a autodigestão (KILESSE et al., 2022). A 4 Júlia Morbeck – @med.morbeck principal causa de pancreatite aguda é a litíase biliar (DANI; PASSOS, 2011). O quadro clínico é polimorfo, sendo a dor de início súbito, contínua, localizada em epigástrio, hipocôndrios ou região umbilical. A dor tipicamente é em faixa, com irradiação dorsal, acompanhada de náuseas e vômito frequentes, além de distensão abdominal (DANI; PASSOS, 2011). No exame físico, está presente dor à palpação ou até mesmo irritação peritoneal, distensão abdominal, icterícia e, em apresentações hemorrágicas, os sinais de Grey-Turner (equimose em flancos), Cullen (equimose periumbilical) e de Fox (equimose na base do pênis) (KILESSE et al., 2022). Na avaliação laboratorial, observa-se elevação da amilase e da lipase; essas enzimas podem elevar-se em outras situações de abdome agudo, mas uma elevação superior a 4 vezes o valor de referência máximo será́ indicativa de pancreatite aguda (DANI; PASSOS, 2011). A tomografia é o método ideal para avaliação do parênquima pancreático, determinando a gravidade da doença e fornecendo critérios prognósticos (critérios de Balthazar). A ressonância magnética fornece informações semelhantes às da tomografia (DANI; PASSOS, 2011). A pancreatite aguda é diagnosticada com a presença de dois de três critérios: dor abdominal de início súbito, persistente, severa, geralmente epigástrica com irradiação para o dorso; elevação de enzimas 3 vezes acima do limite superior da normalidade (amilase e lipase) e/ou características radiológicas da inflamação do pâncreas aguda em exames de imagem, seja na ressonância magnética (RM), ultrassonografia transabdominal ou tomografia computadorizada com contraste (TC) (CARDOSO et al., 2022). DIVERTICULITE ↠ A diverticulose, isto é, o desenvolvimento de divertículos (bolsas) no cólon, possui, normalmente, uma apresentação assintomática ou oligossintomática, sendo rara entre indivíduos com menos 40 anos. A incidência chega a 60% em indivíduos comais de 70 anos, contudo, apenas 1% a 4% dos pacientes desenvolvem a diverticulite, quadro inflamatório e infeccioso (mais comum em obesos, idosos, sedentários, tabagistas e pacientes com alto consumo de carne vermelha) (KILESSE et al., 2022). ↠ A localização mais comum da diverticulite é no sigmoide, onde, associados ao cólon descendente, encontram-se 90% dos divertículos do cólon (DANI; PASSOS, 2011). Pode ser representada por uma dor aguda, semelhante, algumas vezes, a apendicite, contudo, em fossa ilíaca esquerda, juntamente a vômito, náuseas e alterações intestinais (KILESSE et al., 2022). Em 12% dos casos, a diverticulite complica e apresenta adicionalmente perfuração, formação de abcesso, obstrução, peritonite e pneumoperitônio, com sintomas que incluem hematoquezia e fecalúria (KILESSE et al., 2022). Pode haver disúria e polaciúria devido à proximidade com a bexiga. Leucocitose é comum (DANI; PASSOS, 2011). O diagnóstico do quadro é normalmente clínico, não sendo necessário exames de imagem adicionais, porém, em caso de dúvidas ou na necessidade de se diferenciar um quadro não complicado de um complicado, a TC deve ser a ferramenta de escolha (KILESSE et al., 2022). 5 Júlia Morbeck – @med.morbeck FISIOPATOLOGIA Topograficamente, a membrana parietal divide-se em visceral e parietal. O peritônio visceral é inervado pelo sistema nervoso autônomo e o peritônio parietal, pelo sistema nervoso cerebroespinal, o mesmo da musculatura da parede abdominal (LOPES et al., 2006). ↠ Todo agente inflamatório ou infeccioso, ao atingir o peritônio, acarreta irritação do mesmo, cuja intensidade é diretamente proporcional ao estádio do processo etiológico. Segue-se a instalação progressiva de íleo paralítico localizado ou generalizado. Esse fenômeno é justificado pela lei de Stokes que diz: “Toda vez que a serosa que envolve uma musculatura lisa sofre irritação, esta entra em paresia ou paralisia.” (LOPES et al., 2006). ↠ Por outro lado, a resposta do peritônio parietal exterioriza-se clinicamente por dor mais bem localizada e contratura da musculatura abdominal localizada ou generalizada, dependendo da evolução do processo. É importante salientar que a contratura muscular pode ser voluntária ou, mesmo, determinada por doença extra abdominal (LOPES et al., 2006). ↠ De fato, podemos concluir que a dor abdominal secundária à irritação do peritônio visceral (autônoma) é mal localizada e origina-se pela distensão e contração das vísceras, enquanto a dor que segue a irritação do peritônio parietal (cerebroespinal) é contínua, progressiva, piorando com a movimentação e sendo também mais localizada (LOPES et al., 2006). Após instalada a peritonite, a deterioração clínica do indivíduo pode ser rápida, constituindo sinal de gravidade e mau prognóstico (SANARFLIX). ↠ Nas fases iniciais há ainda pouca atividade inflamatória com aumento da efusão peritoneal e quimiotaxia de células inflamatórias. Já nas fases tardias existe uma exuberante resposta inflamatória com formação de fibrina, aderências, pus, e, por fim, fibrose (SANARFLIX). ABDOME AGUDO OBSTRUTIVO ↠ O abdome agudo obstrutivo é caracterizado pela interrupção do trânsito intestinal, culminando em quadro clínico com dores abdominais difusas do tipo cólica ou periumbilicais, juntamente com náuseas, vômitos, parada de eliminação de flatos e fezes e distensão abdominal progressiva (CARDOSO et al., 2022). ↠ Suas causas podem ser divididas em baixas e altas. As obstruções altas correspondem ao intestino delgado e, as baixas, ao cólon (CARDOSO et al., 2022). É a segunda síndrome abdominal aguda mais frequente, ficando entre Abdome Agudo Inflamatório (1ª) e perfurativo (3ª) (SANARFLIX). 6 Júlia Morbeck – @med.morbeck ETIOLOGIA ↠ As causas são diversas, podendo ser extrínsecas ou intrínsecas (intraluminais), variando de acordo com o segmento intestinal (KILESSE et al., 2022). Ela é causada, em cerca de 65% a 75% dos casos, por aderências entre alças, provenientes de cirurgias abdominais prévias. As demais ocorrências se devem a hérnias, fecalomas,neoplasias, doença de Crohn, volvos, intussuscepção, íleo biliar, entre outras (KILESSE et al., 2022). ↠ A principal causa de obstrução intestinal no adulto são as bridas e aderências, sendo também a principal causa de obstrução mecânica do delgado (75% dos casos). As hérnias parietais vêm em seguida como causadoras de obstrução intestinal (DANI; PASSOS, 2011). ↠ O câncer colorretal é a causa mais comum de obstrução colônica no adulto, seguida de diverticulite complicada e vólvulo (DANI; PASSOS, 2011). FISIOPATOLOGIA Embora a obstrução intestinal mecânica simples, a obstrução com estrangulamento, a obstrução em alça fechada e o íleo paralítico tenham muitos aspectos em comum, existem diferenças importantes na fisiopatologia e no tratamento dessas entidades (LOPES et al., 2006). OBSTRUÇÃO INTESTINAL MECÂNICA SIMPLES ↠ Ocorre acúmulo de líquido e gás acima do ponto de obstrução e a alteração da motilidade intestinal, que, somados, levam a alterações sistêmicas importantes (LOPES et al., 2006). ↠ O acúmulo de líquido no interior da alça intestinal obstruída ocorre de modo progressivo. O movimento de líquidos entre a luz intestinal e o sangue ocorre de duas maneiras: absorção (movimento de líquido da luz intestinal para o sangue) e secreção (movimento de líquido do sangue para a luz intestinal). Após 48 horas de obstrução intestinal, o movimento de líquido é predominantemente do sangue para a luz intestinal, aumentando muito a quantidade de líquido no intestino obstruído. O mesmo fenômeno acontece com o sódio e o potássio. A composição do líquido acumulado na luz intestinal é semelhante à do plasma (LOPES et al., 2006). ↠ O principal componente do acúmulo de líquido na alça intestinal obstruída é o aumento de secreção. Acredita- se que a distensão abdominal aumenta a secreção de prostaglandina, que, por sua vez, produz um aumento na secreção intestinal. O segmento proximal à obstrução fica repleto de líquido e eletrólitos, o que provoca mais distensão e compromete a circulação. Esse conteúdo caminha em sentido proximal, chegando a segmentos intestinais que ainda possuem a capacidade absortiva. Caso a obstrução não se resolva, esses segmentos proximais também ficam distendidos e com a circulação e a absorção comprometidas (LOPES et al., 2006). A soma de todas essas perdas depleta o fluido do espaço extracelular, produzindo hemoconcentração, hipovolemia, insuficiência renal, choque e morte, a não ser que o tratamento seja instituído rapidamente (LOPES et al., 2006). ↠ Assim que a obstrução ocorre, o peristaltismo intestinal aumenta como resposta do intestino a fim de resolver a obstrução. Após algum tempo, o peristaltismo contínuo é substituído por períodos intermitentes de peristaltismo aumentado, intercalados com períodos de acalmia (LOPES et al., 2006). OBSTRUÇÃO COM ESTRANGULAMENTO ↠ Denomina-se obstrução com estrangulamento a obstrução intestinal associada ao comprometimento da irrigação sanguínea. A compressão dos vasos do mesentério é a causa da interrupção do suprimento de sangue ao intestino, acarretando isquemia e necrose. Essa 7 Júlia Morbeck – @med.morbeck situação é mais frequente na obstrução por aderências, hérnias ou volvo (LOPES et al., 2006). ↠ À compressão das veias e à dificuldade do retorno venoso soma-se o problema do acúmulo de líquido e gás já descrito, levando a pequenos sangramentos na luz intestinal e na parede das alças. O segmento de intestino necrosado libera substâncias tóxicas na cavidade peritoneal e na luz do intestino ↠ Os fatores que mais interferem na fisiopatologia da obstrução com estrangulamento são os seguintes: o conteúdo da alça obstruída é tóxico; as bactérias aí presentes são importantes para a produção dessas to xinas; os segmentos de intestino que não estão necrosados não participam na formação dessas toxinas; as toxinas não passam através de mucosa normal; a absorção das toxinas é mais importante do que a sua produção; e os sintomas podem estar correlacionados com a formação dessas toxinas (LOPES et al., 2006). OBSTRUÇÃO EM ALÇA FECHADA ↠ Quando uma alça intestinal encontra-se obstruída simultaneamente nas extremidades proximal e distal, caracteriza-se uma obstrução em alça fechada. A obstrução em alça fechada pode progredir rapidamente para o estrangulamento (LOPES et al., 2006). ↠ A interrupção do suprimento sanguíneo pode ocorrer pela mesma causa que provocou a obstrução em alça fechada (aderências, hérnia ou volvo), ou simplesmente pela grande distensão da alça obstruída. A pressão no interior da alça obstruída pode atingir níveis iguais ao do sistema venoso, interrompendo o fluxo de sangue nas veias e aumentado o edema intestinal (LOPES et al., 2006). ÍLEO PARALÍTICO ↠ O íleo paralítico pode apresentar-se sob três formas: o íleo adinâmico, o íleo espástico e o íleo da oclusão vascular (LOPES et al., 2006). • O íleo adinâmico é o mais comum e costuma ocorrer após cirurgias abdominais. A fisiopatologia do íleo adinâmico não está completamente esclarecida, porém parece envolver o comprometimento da resposta neuro-hormonal relacionada ao intestino. A recuperação da motilidade intestinal no período pós-operatório de cirurgia abdominal é diferente nos vários segmentos do trato gastrointestinal. O intestino delgado recupera sua motilidade em aproximadamente 24 horas, o estômago, em 48 horas e o intestino grosso, em três a cinco dias. Além da cirurgia abdominal, outras causas de inibição podem ocorrer. • O íleo espástico não é comum, porém surge em consequência de uma hiper-reatividade do intestino. Pode ocorrer na intoxicação por metais pesados, na porfiria e, às vezes, quando existe uremia. • O íleo com oclusão vascular caracteriza-se por uma incapacidade de coordenação da motilidade intestinal, em consequência da morte celular resultante da isquemia. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS ↠ O sintoma cardinal do abdome agudo obstrutivo é a cólica intestinal, demonstrando o esforço das alças para vencer o obstáculo que está impedindo o trânsito normal. A dor é visceral, localizada em região periumbilical, nas obstruções de delgado, e hipogástrica, nas obstruções de cólon, intercalada com períodos livres de dor no início da evolução (DANI; PASSOS, 2011). ↠ Os episódios de vômito surgem após a crise de dor, inicialmente reflexos, e são progressivos, na tentativa de aliviar a distensão das alças obstruídas (DANI; PASSOS, 2011). A característica do vômito depende do local da obstrução, podendo evoluir de conteúdo gástrico, a bile, chegando até o aspecto fecalóide (CARDOSO et al., 2022). ↠ O peristaltismo está aumentado, exacerbado, e é chamado de peristaltismo de luta. Este é mais bem caracterizado quando se ausculta o abdome no momento da crise dolorosa e se manifesta por uma cascata de ruídos (DANI; PASSOS, 2011). Quanto mais alta a obstrução, mais precoces, frequentes e intensos serão os vômitos, menor a distensão abdominal e mais tardia a parada de eliminação de gases e fezes. Quanto mais baixa a obstrução, maior distensão abdominal, mais precoce a parada de eliminação de flatos e fezes, e, devido ao supercrescimento bacteriano no segmento obstruído, os vômitos, que são tardios, adquirem aspecto fecaloide. Febre normalmente não está presente (DANI; PASSOS, 2011). DIAGNÓSTICO ↠ O diagnóstico de abdome agudo obstrutivo pode ser feito a partir de anamnese e exame físico minucioso (SANARFLIX). 8 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ Exames complementares auxiliam no diagnóstico diferencial e na diferenciação entre obstrução funcional ou mecânica, sítio da obstrução e identificação de complicações (SANARFLIX). ABDOME AGUDO PERFURATIVO ↠ Trata-se de uma das causas mais frequentes de cirurgia abdominalde urgência (DANI; PASSOS, 2011). O abdome agudo perfurativo tem como causa mais comum a ruptura de úlceras pépticas gastroduodenais, sendo mais frequente no duodeno do que no estômago. A úlcera duodenal normalmente perfura em região anterior do bulbo duodenal. As úlceras gástricas perfuradas encontram-se normalmente na parede anterior do antro (KILESSE et al., 2022). ETIOLOGIA ↠ A causa mais comum de perfuração é a úlcera péptica, e a perfuração é a primeira manifestação da doença ulcerosa em 30 a 40% dos casos (DANI; PASSOS, 2011). Os pacientes idosos são os mais afetados, devido ao uso crônico de anti-inflamatórios e ácido acetilsalicílico. Inicialmente, a dor se localiza no epigástrio, seguida de dor abdominal difusa (DANI; PASSOS, 2011). • Nas perfurações de intestino delgado, as causas mais frequentes são as doenças inflamatórias e infecciosas, os corpos estranhos deglutidos e os tumores (DANI; PASSOS, 2011). • No intestino grosso, os quadros de perfuração ocorrem devido a processos inflamatórios (diverticulite, megacólon tóxico, colite pseudomembranosa grave) ou neoplásicos, além de corpos estranhos (DANI; PASSOS, 2011). FISIOPATOLOGIA A gênese dessa síndrome se dá pela perfuração de uma viscera oca. Essa perfuração pode ser decorrente de diversas causas, como: processo inflamatório, neoplásico, obstrutivo e infeccioso (SANARFLIX). ↠ Os episódios etiológicos envolvem a liberação de conteúdo luminal, tornando suscetível a ocorrência de uma irritação e subsequente contaminação peritoneal. Com isso, a perfusão abdominal pode ser comprometida, apresentando uma alteração no fluxo sanguíneo da mucosa seguida de um aumento em sua permeabilidade e translocação bacteriana, além de promover o desenvolvimento de futuras hérnias na parede abdominal, hipoperfusão de órgãos viscerais e isquemia (CARDOSO et al., 2022). 9 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ As bactérias comumente encontradas são: (SANARFLIX). MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS ↠ A dor tem início súbito, geralmente dramático, já começando de forma intensa, rapidamente atingindo seu pico. Os pacientes costumam precisar a hora exata do início do sintoma. O problema advém do extravasamento de secreção contida no trato gastrintestinal para a cavidade peritoneal, o que é traduzido por peritonite (DANI; PASSOS, 2011). ↠ A dor tipo somática vem da irritação química do peritônio, e, quanto menor o pH, maior a irritação (DANI; PASSOS, 2011). As perfurações costumam ser divididas em altas (gastroduodenal e delgado proximal) e baixas (delgado distal e cólon). Nas perfurações mais baixas de delgado, a dor abdominal é mais discreta, e os sinais de irritação peritoneal são menos exuberantes, mas originam quadros sépticos mais precoces, em função da flora bacteriana local. Perfurações do delgado proximal comportam-se como as gastroduodenais, com dor abdominal intensa e grande irritação peritoneal. Perfurações do intestino grosso traduzem manifestações clínicas e peritoneais intensas, com evolução rápida para peritonite fecal, devido ao conteúdo altamente infectado desse segmento (DANI; PASSOS, 2011). A tríade clínica clássica para este acometimento consiste em dor abdominal, taquicardia e rigidez abdominal (KILESSE et al., 2022). DIAGNÓSTICO O diagnóstico de um Abdome Agudo Perfurativo se baseia na história clínica minunciosa, exame físico criterioso e exames de imagem. Os exames laboratoriais são inespecíficos, podendo nos ajudar a detectar apenas a presença de processos inflamatórios e infecciosos prévios (SANARFLIX). ↠ O exame clinico demonstra silêncio abdominal e rigidez muscular, detectada como “abdome em tábua”. A temperatura é normal, e náuseas e vômito podem estar presentes ↠ A radiografia simples revela pneumoperitônio, sendo o exame de imagem de escolha para o diagnóstico. Em 12 h de evolução do quadro, a peritonite química torna-se bacteriana, aparecendo os sinais de infecção (DANI; PASSOS, 2011). A característica principal é a presença de ar e/ou líquido na cavidade peritoneal, retroperitônio ou na parede dos órgãos. Em 75- 80% dos casos há pneumoperitônio e nos demais casos é esperado bloqueio no local da perfuração e, portanto, ausência de gás no segmento perfurado (SANARFLIX). 10 Júlia Morbeck – @med.morbeck ABDOME AGUDO ISQUÊMICO OU VASCULAR ↠ O abdome agudo vascular é uma emergência rara, pouco reconhecida e, por isso, apresenta péssimo desfecho, sendo altamente fatal. O paciente com o quadro tende a passar por mudanças rápidas na estabilidade, necessitando, portanto, de um maior acompanhamento (KILESSE et al., 2022). ↠ Com mortalidade atingindo 80% na maioria dos estudos. Tal fato se deve ao diagnóstico quase sempre tardio, e pelo fato de acometer principalmente pacientes idosos, que já apresentam várias doenças crônicas, por si sós graves, além da frequente progressão da isquemia após as cirurgias de revascularização (DANI; PASSOS, 2011). ETIOLOGIA ↠ Cabe a divisão entre as causas oclusivas e não- oclusivas. Das oclusivas podemos citar como mais frequentes a embolia (origem cardíaca, aórtica, tumoral ou por cristais de colesterol) e a trombose aguda (secundária geralmente à aterosclerose prévia) dos principais ramos arteriais viscerais (LOPES et al., 2006). ↠ A causa predominante entre as não-oclusivas é secundaria à diminuição importante do débito cardíaco (importando menos a causa da descompensação que a magnitude da insuficiência cardíaca), que pode ou não ser acompanhada do espasmo dos vasos. Outras causas citadas compreendem o choque de origem medular ou traumático, gastroenterites, hemoconcentração, pneumonia, placenta prévia e espasmo das artérias distais associado ao abuso de cocaína (LOPES et al., 2006). A isquemia mesentérica é responsável por cerca de 1% dos abdomes agudos, porém, ocasiona de 60% a 80% das mortes ocorridas nas primeiras 24 horas, podendo ser causada por trombose arterial, embolia arterial (principal causa), trombose venosa e por isquemia mesentérica não oclusiva (KILESSE et al., 2022). ↠ A isquemia mesentérica pode ser classificada pelo tempo de instalação em aguda ou crônica, e por localização como mesentérica e colônica (SANARFLIX). ↠ No caso da aguda, as três principais síndromes são a oclusão da artéria mesentérica superior por êmbolo (50% dos casos) ou trombo (25%), trombose da veia mesentérica superior (menos de 10% dos casos) e isquemia mesentérica não-oclusiva (20%) (CARDOSO et al., 2022). FISIOPATOLOGIA O intestino como um todo é um dos órgãos que apresenta, provavelmente, um dos sistemas de circulação colateral mais completos do organismo. As três artérias principais ou axiais contam com uma intrincada e extensa rede de ramos arteriais que se intercomunicam. Esse sistema funciona de forma tão eficiente que a oclusão de até duas das artérias principais pode ser pouco ou não- sintomática (LOPES et al., 2006). A aterosclerose, principal causa de isquemia crônica do intestino, tem como característica uma instalação lenta. Isso proporciona tempo para que haja acomodação da circulação colateral. De forma geral, a principal artéria responsável pela perfusão intestinal pode ser considerada a artéria mesentérica superior (AMS); quando ocluída ou estenótica é a que mais frequentemente causa sintomas de angina abdominal (LOPES et al., 2006). As regiões mais propensas à isquemia são as áreas pobres em circulação colateral, por dificuldade de compensar a perfusão em caso de obstrução na circulação principal, são áreas como a flexura esplênica e junção retossigmoide (SANARFLIX). 11 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ Não por acaso o fenômeno isquêmico agudo intestinal cursa com altas taxas de mortalidade,em torno de 70% dos casos. Como se trata de um quadro abrupto, e principalmente nos casos de embolia, não há tempo para o desenvolvimento de uma rede de circulação colateral que seja suficiente para manter nem mesmo o metabolismo mínimo intestinal. Curiosamente, a embolia apresenta as melhores taxas de sobrevida. O êmbolo normalmente aloja-se na circulação mais distal, poupa o óstio dos ramos principais e, assim sendo, pode preservar em maior ou menor grau territórios do órgão. A trombose aguda costumeiramente ocorre nos óstios das principais artérias e, associada a frequente presença de aterosclerose em múltiplas artérias, leva à isquemia de extensas áreas, sendo a sobrevida uma exceção (LOPES et al., 2006). ↠ A respeito das causas não-oclusivas, durante o choque de qualquer origem ocorre a vasoconstrição arterial visceral a fim de dirigir o fluxo sanguíneo para as áreas mais críticas como cérebro e coração, o que, associado à vasoconstrição venosa, pode acrescentar até 30% de volume ao espaço intravascular. Por algum mecanismo pouco elucidado ou pelo emprego de vasopressores para o controle da hipotensão, tal constrição pode prolongar- se por horas, mesmo após a normalização dos parâmetros hemodinâmicos (LOPES et al., 2006). A mucosa intestinal, principalmente do delgado, é a primeira e mais gravemente afetada. Isquemia acima de uma hora pode produzir edema da submucosa seguido de desprendimento da mucosa, ulcerações e sangramento das vilosidades intestinais. Há perda da barreira entre o conteúdo intestinal e o sangue, produção de fatores inflamatórios locais que agravam as lesões através da mobilização das células de defesa e fagocitárias e risco de translocação bacteriana (LOPES et al., 2006). Havendo a manutenção da isquemia, há piora do edema, que, associado ao processo inflamatório iniciado localmente, piora o ambiente celular local, permitindo a extensão da lesão para as demais camadas da alça. A camada muscular afetada não cumpre sua função de peristalse normal, determinando assim estase do conteúdo e aumento de pressão local, o que dificulta ainda mais a já deficiente perfusão tecidual. O último estágio desse processo mórbido compreende a gangrena de toda a parede intestinal, perda de sua estrutura física culminando em perfuração com extravasamento do conteúdo intestinal e, consequente, peritonite fecal (LOPES et al., 2006). A fisiopatologia envolve uma lesão isquêmica inicial, decorrente da redução do fluxo arterial ou venoso (o que leva a lesões precoces na mucosa, tornando-se posteriormente transmurais), perpetuada pelo vasospasmo reflexo da circulação mesentérica e completada pela lesão de reperfusão (principalmente pela formação e ação de radicais livres de oxigênio, que desencadeiam a síndrome da resposta inflamatória sistêmica, podendo evoluir para falência de múltiplos órgãos) (DANI; PASSOS, 2011). Na hipoperfusão, o comprometimento da oferta de oxigênio se dá com uma redução do fluxo intestinal maior que 50%. De forma geral, o intestino consegue compensar até 75% de hipoperfusão por até 12h sem dano substancial, pelo aumento da extração de oxigênio e circulação colateral. Se houver manutenção da hipoperfusão, teremos vasoconstrição e redução do fluxo colateral. Em alguns casos, mesmo após restauração do fluxo, a vasoconstrição é mantida. Na reperfusão a lesão se dá por ação de espécies reativas de oxigênio (SANARFLIX). ISQUEMIA COLÔNICA: A maioria das oclusões por êmbolos ou trombos cursa com isquemia do intestino delgado concomitante. É mais prevalente em mulheres e deve ser suspeitada em pacientes com dor em abdome inferior e diarreia ou hematoquezia (SANARFLIX). ISQUEMIA MESENTÉRICA AGUDA: Pode ocorrer por êmbolos ou trombos. Os êmbolos são provenientes de trombos do átrio esquerdo, ventrículo esquerdo, valvas cardíacas ou aorta proximal, tendo como fator de risco IAM, fibrilação atrial ou estenose mitral (SANARFLIX). ISQUEMIA MESENTÉRICA CRÔNICA: É decorrente de episódios constantes de hipoperfusão, típico de pacientes com oclusões e estenoses de vasos mesentéricos causados por aterosclerose. É caracterizada pela angina mesentérica ou intestinal nas primeiras horas após alimentar-se (SANARFLIX). MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS ↠ A dor abdominal é o sintoma inicial, geralmente muito intensa, fora de proporções com os achados clínicos, que são inespecíficos. A chave para o diagnóstico precoce é valorizar os sinais, ainda que inespecíficos, em pacientes com fatores de risco para isquemia mesentérica aguda (DANI; PASSOS, 2011). ↠ Passada a fase inicial de dor abdominal, vem a fase intermediária, caracterizada por peritonite, que frequentemente confunde o quadro clínico com outras causas de abdome agudo inflamatório. Na terceira fase, acentuam-se os sinais abdominais, surgindo a instabilidade hemodinâmica, o choque refratário e o óbito (DANI; PASSOS, 2011). 12 Júlia Morbeck – @med.morbeck DIAGNÓSTICO ↠ No exame físico inicialmente o abdome pode estar normal, com dor leve a moderada. A peristalse normal ou aumentada como reação inicial à hipóxia. Com a progressão da isquemia, temos: (SANARFLIX). • Distensão abdominal; • Timpanismo aumentado. Sinais de choque e peritonite generalizada são achados tardios e indicam prognóstico ruim (SANARFLIX). Os exames laboratoriais também são inespecíficos, não existindo marcadores de isquemia ou necrose intestinal, mas hemoconcentração, leucocitose e acidose metabólica, associados aos achados clínicos de distensão, defesa e ausência de peristaltismo sugerem doença avançada (DANI; PASSOS, 2011). ↠ A radiologia convencional afasta outras causas de abdome agudo e pode mostrar espessamento da parede das alças intestinais, alças tubuliformes, fixas e imutáveis, e pneumoperitônio, o que indica lesões em fase bem avançada (DANI; PASSOS, 2011). ↠ A ultrassonografia, principalmente associada ao recurso Doppler, pode identificar a obstrução vascular e estudar o fluxo dos vasos mesentéricos, especialmente dos segmentos proximais (DANI; PASSOS, 2011). A primeira escolha é a tomografia computadorizada, porém a angiografia é o exame padrão-ouro dessa síndrome (CARDOSO et. al., 2022). ↠ A angiotomografia e a angiorressonância podem ser muito úteis, ao mostrar as alterações isquêmicas nas paredes intestinais e demonstrar o local da obstrução mesentérica, mas um exame normal não exclui o diagnóstico de isquemia mesentérica. O diagnóstico de certeza é dado pela arteriografia, que é considerada o padrão-ouro no estudo da isquemia mesentérica, por suas possibilidades diagnósticas e terapêuticas. A arteriografia só deve ser realizada no paciente hemodinamicamente estável (DANI; PASSOS, 2011). ABDOME AGUDO HEMORRÁGICO ↠ O abdome agudo hemorrágico também se trata de uma manifestação rara, porém, com alta mortalidade, próxima a 40% (KILESSE et al., 2022). ↠ A ruptura espontânea de vísceras parenquimatosas e a ruptura vascular não são situações comuns, e o abdome agudo hemorrágico é mais frequentemente associado ao trauma, ao pós-operatório e a complicações pós- procedimentos (biopsias hepáticas, por exemplo). Na mulher em idade fértil, sempre ponderar a possibilidade de gravidez ectópica rota (DANI; PASSOS, 2011). ETIOLOGIA ↠ As causas da hemorragia intra-abdominal são numerosas e incluem doenças as mais variadas, como o traumatismo abdominal, a ruptura de aneurisma da aorta ou de alguma artéria visceral, as neoplasias malignas de vísceras sólidas, os processos inflamatórios erosivos (pancreatite e pseudocisto, por exemplo) e, nas mulheres, além dessas mencionadas, as afecções ginecológicas e obstétricas (LOPES et al., 2006). RUPTURA DE ANEURISMA DE AORTA ABDOMINAL ↠ Acomete geralmente pacientes idosos do sexo masculino, população na qual a incidência de aneurisma émaior. A aterosclerose é a causa principal, mas trauma, infecção (sífilis) e artrites são causas possíveis (DANI; PASSOS, 2011). ↠ A sede mais comum do aneurisma é a aorta abdominal, estando quase todos localizados abaixo das artérias renais. O risco de ruptura aumenta com o tamanho do aneurisma, sendo baixo nos menores de 5 13 Júlia Morbeck – @med.morbeck cm. Cinquenta por cento dos aneurismas que atingem 6 cm se rompem em 1 ano (DANI; PASSOS, 2011). A apresentação clássica é dor abdominal difusa, intensa, associada a hipotensão e massa abdominal pulsátil. Antes da ruptura, o aneurisma passa por um processo de distensão aguda (dito expansão), o que leva ao estiramento do plexo nervoso perivascular, gerando dor intensa nos flancos ou no dorso (DANI; PASSOS, 2011). O local mais comum de ruptura é no retroperitônio, e o hematoma que se forma contém a hemorragia por algumas horas. O diagnóstico é confirmado por ultrassonografia. Na suspeita clínica, não é necessário realizar exames, indicando-se laparotomia imediata, sendo a reanimação feita no bloco cirúrgico (DANI; PASSOS, 2011). RUPTURA DE ANEURISMA DAS ARTÉRIAS VISCERAIS ABDOMINAIS ↠ Os pacientes podem ser assintomáticos no Aneurisma de Artéria Esplênica (AAEs). Entretanto quando há presença de sintomas, os mais comuns incluem massa abdominal pulsátil, dor abdominal no quadrante superior esquerdo e até choque hipotensivo secundário se caso tenha ruptura desse aneurisma (CARDOSO et. al., 2022). ↠ A apresentação clínica dos aneurismas de artéria hepática (AAH) podem não perdurar com os sintomas por longo tempo. As manifestações clínicas podem não ser específicas, assim como o exame físico, em especial nos casos em que não existe repercussão hemodinâmica. Todavia, alguns pacientes apresentam massas abdominais, icterícia, hipovolemia e choques secundários com sangramento gastrointestinal ou ruptura (CARDOSO et. al., 2022). ↠ Ainda, os aneurismas de artéria mesentérica superior, ao contrário dos outros aneurismas, são sintomáticos em mais de 90% dos casos. O quadro é composto por dor abdominal associada a sangramento gastrointestinal, assim como náuseas, vômitos e febre (CARDOSO et. al., 2022). RUPTURA DA GRAVIDEZ ECTÓPICA ↠ A gravidez ectópica (GE) ocorre entre 1-2% das gestações e corresponde a 10-15% das mortes maternas no 1º trimestre. Tem como principais fatores de risco cirurgias tubárias, gravidez ectópica prévia, uso de Dispositivo Intrauterino (DIU), tabagismo ≥ 20 cigarros por dia; técnicas de reprodução assistida e endometriose (SANARFLIX). ↠ Quando forma da cavidade endometrial, o lugar mais frequente são as trompas, representando cerca de 95% dos casos. Contudo, também pode ocorrer nos ovários e na cavidade abdominal (SANARFLIX). Os sintomas de uma GE rota pode se apresentar como atraso menstrual, geralmente o útero é menor do que o esperado, além de dor abdominal intensa, súbita, inicialmente em baixo ventre, que pode irradiar para ombro (Sinal de Lafond). Instabilidade hemodinâmica, hipotensão, taquicardia e choque hipovolêmico (SANARFLIX). 14 Júlia Morbeck – @med.morbeck DIAGNÓSTICO ↠ Os exames laboratoriais podem ser importantes para quantificar o sangramento e suas repercussões fisiológicas. Na maioria das vezes, auxiliam no reconhecimento de alguma condição predisponente ao sangramento (SANARFLIX). ↠ Se a hemorragia for em quantidade considerável e se houver tempo suficiente para que se instalem os mecanismos compensatórios desencadeados pela hipovolemia, os valores da hemoglobina e a do hematócrito estarão reduzidos (SANARFLIX). ↠ O número de leucócitos pode variar, dependendo do tempo de instalação do hemoperitônio. A contagem do número de plaquetas é obrigatória. O estudo global da coagulação é útil para o diagnóstico e orienta o tratamento. A atividade da protrombina, a tromboplastina parcial ativada e a trombina são os mais utilizados (SANARFLIX). ↠ O teste de gravidez é realizado quando a suspeita for prenhez ectópica rota (SANARFLIX). EXAMES DE IMAGEM ↠ A investigação complementar do quadro tem como primeiro exame de escolha a ultrassonografia, que pode ser realizada ainda na emergência (KILESSE et al., 2022). ↠ Em caso de estabilidade do paciente, a TC torna-se o exame de escolha, visto que permite uma melhor distinção das causas de sangramento, que variam desde causas ginecológicas a rompimentos de órgãos e aneurismas e tumores gastrintestinais (KILESSE et al., 2022). ↠ A ressonância magnética, pouco utilizada em abdomes agudos, vem ganhando destaque na investigação do abdome agudo hemorrágico, para pacientes com insuficiência renal, crianças e grávidas. O uso rotineiro, não obstante, ainda não é recomendado (KILESSE et al., 2022). Referências DANI, Renato; PASSOS, Maria do Carmo F. Gastroenterologia Essencial, 4ª edição. Grupo GEN, 2011. LOPES et al. Abdome agudo: clínica e imagem. São Paulo: Editora Atheneu, 2006. CARDOSO et al. Manejo e conduta do abdome agudo: uma revisão narrativa. Revista Eletrônica Acervo Saúde, v. 15, n. 5, 2022. KILESSE et al. Abdome agudo no departamento de emergência: uma revisão. Brasília Medicina, v. 59, n. 10, 2022. MAGALHÃES et. al. Perfil clínico-epidemiológico dos pacientes acometidos por abdome agudo em um hospital de referência em Salvador. Revistas USP, v. 52, n. 3, 2019. SCHAFASCHECK et al. Avaliação da dor abdominal aguda no departamento de emergência. Brazilian Journal of Health Review, v. 4, n. 5, 2021. Ruptura de gravidez ectópica