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1 
 
 
Júlia Morbeck – @med.morbeck 
 
Objetivos 
1- Estudar a epidemiologia, classificação, etiologia, 
fatores de risco, fisiopatologia, manifestações 
clínicas e diagnóstico do abdome agudo. 
Abdome agudo 
↠ Abdome agudo é definido como toda condição 
dolorosa de início súbito ou de evolução progressiva, 
localizada no abdome, que requer decisão terapêutica 
rápida, preferencialmente após definição diagnóstica 
(DANI; PASSOS, 2011). 
 A dor representa o melhor elemento para caracterizar ou 
mesmo para tentar definir o abdome agudo, fato que justifica o 
aforismo: não existe abdome agudo sem dor. Não devemos nos 
esquecer, entretanto, de que a dor é uma sensação subjetiva, que 
depende da consciência para sua interpretação e que é modulada por 
fatores educacionais, afetivos, culturais, e até religiosos, bem como 
pelo próprio estado psíquico de cada indivíduo (ansiedade, depressão) 
(DANI; PASSOS, 2011). 
 A cavidade abdominal comporta vários órgãos de 
diferentes sistemas e a sintomatologia do abdome agudo pode 
decorrer de alguma doença em qualquer uma de suas vísceras (DANI; 
PASSOS, 2011). 
↠ Diante desse quadro dramático, a essência da 
abordagem do paciente é realizar o diagnóstico de forma 
precisa o mais rapidamente possível. Tais atitudes podem 
determinar o prognóstico e evitar sequelas irreversíveis 
(LOPES et al., 206). 
 Alguns autores sugerem a denominação “dor abdominal aguda 
de 1 a 72 horas”, já que sintomas por períodos maiores ou menores 
em geral não necessitam de diagnósticos imediatos e/ou tratamentos 
de urgência (LOPES et al., 206). 
EPIDEMIOLOGIA 
↠ O Abdome Agudo (AA) é responsável por 7% a 10% 
dos atendimentos realizados nos Departamentos 
Emergência (DE) (KILESSE et al., 2022). 
O risco de erro na realização do diagnóstico aproxima-se de 35 
diagnósticos equivocados a cada 100 pacientes atendidos e consiste no 
mais frequente dos DE. Cerca de 30 casos/100 pacientes com dor 
abdominal aguda são classificados como dor abdominal inespecífica, 
recebendo alta, porém 3 retornam e recebem o diagnóstico correto 
(KILESSE et al., 2022). 
Perfil clínico-epidemiológico dos pacientes acometidos por abdome 
agudo em um hospital de referência em Salvador 
Foram incluídos no estudo 162 pacientes, sendo que dois deles 
apresentaram dois episódios diferentes de abdome agudo durante o 
ano de 2016. 
 
 
O tipo de abdome agudo mais prevalente foi o inflamatório, em 
seguida, o obstrutivo. As etiologias específicas mais prevalentes foram 
apendicite aguda, representando 32% dos casos, e neoplasia do trato 
gastrointestinal, com 14% dos pacientes acometidos. O abdome agudo 
inflamatório acometeu 85 pacientes, sendo em sua maioria homens. 
Dos 164 abdomes agudos, 95,1% tiveram resolução cirúrgica. 
 
↠ A etiologia do abdome agudo varia conforme a idade 
e o sexo. A apendicite costuma ser mais comum entre 
os jovens, enquanto a doença biliar, a obstrução e 
isquemia intestinal e a diverticulite são mais comuns em 
pacientes com mais idade (SCHAFASCHECK et al., 2021). 
Avaliação da dor abdominal aguda no departamento de emergência 
Este é um estudo observacional retrospectivo, onde foram avaliados 
prontuários de pacientes admitidos por Abdome Agudo no Hospital 
Estadual Antônio Bezerra de Faria do município de Vila Velha, no 
período de dezembro a julho de 2019. A partir da revisão dos 
prontuários de pacientes selecionados de acordo com os critérios de 
inclusão. 
Já o padrão de prevalência etiológica mostrou-se da seguinte forma, 
dos mais prevalentes aos menos: 
• 60,4% foram inflamatórios, sendo assim, definido como o tipo mais 
comum, que por sua vez, teve como principal etiologia relacionada, 
a apendicite aguda com 61,1% dos casos; 
• os quadros de AA de etiologia perfurativa ficaram com 14,1% dos 
casos, sendo então, o segundo abdome agudo mais frequente e 
APG 14 – “ONDE DÓI?” 
 
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Júlia Morbeck – @med.morbeck 
 
este teve como principal causa relacionada, a ulcera gástrica 
perfurada com 61,9% dos casos; 
• os de etiologia obstrutiva contou com 13,4% dos casos, cuja a 
etiologia mais frequente foi a hérnia estrangulada em 45% dos 
casos; 
• o hemorrágico com 6,7% foi relacionado principalmente à cisto 
ovariano hemorrágico em 50% dos casos; 
• vasculares com 5,4% casos, relacionado principalmente à isquemia 
mesentérica aguda em 75% dos casos. 
 
CLASSIFICAÇÃO 
↠ Existem mais de 42 afecções distintas de órgãos 
digestivos abdominais, como fígado, baço, órgãos 
pélvicos, peritônio, mesentério, além de estruturas 
vasculares e retroperitônio. Por isso, a fim de facilitar a 
propedêutica médica e raciocínio clínico, é aconselhável 
dividir o abdome agudo em síndromes: inflamatória, 
perfurativa, obstrutiva, vascular e hemorrágica 
(CARDOSO et al., 2022). 
↠ Muitas vezes, as características de mais de uma 
síndrome se sobrepõem durante a evolução de uma 
doença, à medida que ela progride e se complica, mas o 
quadro inicial predominante em geral permite a 
classificação etiológica (DANI; PASSOS, 2011). 
 
ABDOME AGUDO INFLAMATÓRIO 
↠ O abdome agudo inflamatório pode ser definido como 
um quadro de dor abdominal, com as características 
inicialmente mencionadas, decorrente de um processo 
inflamatório e/ou infeccioso localizado na cavidade 
abdominal, ou em órgãos e estruturas adjacentes (LOPES 
et al., 2006). 
↠ É o tipo mais comum de abdome agudo. 
Habitualmente, o processo se inicia com a obstrução 
mecânica de vísceras ocas normais, ou anatomicamente 
alteradas (divertículos, por exemplo), originando diversos 
fenômenos inflamatórios na parede da víscera, com 
tendência à progressão para infecção franca e 
comprometimento da vascularização do órgão (DANI; 
PASSOS, 2011). 
ETIOLOGIA 
 
APENDICITE AGUDA 
↠ A apendicite aguda é a principal causa de abdome 
agudo inflamatório. Afeta qualquer faixa etária, porém, é 
incomum antes dos 5 e após os 50 anos, com discreto 
predomínio no sexo masculino (KILESSE et al., 2022). 
 
↠ O quadro é causado pela inflamação e infecção do 
apêndice cecal, tendo como patogênese a obstrução do 
lúmen apendicular por fecalito, hiperplasia linfoide, 
obstrução por áscaris, corpos estranhos e tumores, e o 
desenvolvimento de uma infecção polimicrobiana, sendo 
presentes microrganismos aeróbios e anaeróbios, 
destacando-se as bactérias Escherichia coli e Bacteroides 
fragilis (KILESSE et al., 2022). 
A fase inicial apresenta dor epigástrica ou periumbilical, tipo visceral, seguida 
por anorexia, náuseas e vômito (menos comuns), e posterior localização da dor 
em quadrante inferior direito, tipo somática. A constipação intestinal e a parada 
de eliminação de flatos é comum, mas ocasionalmente pode haver diarreia 
(DANI; PASSOS, 2011). 
A febre é baixa e a leucocitose moderada (até 15.000), com desvio para a 
esquerda. A localização retrocecal do apêndice modifica a apresentação clínica 
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Júlia Morbeck – @med.morbeck 
 
da apendicite, sendo a dor menos intensa, podendo estar localizada em 
hipocôndrio direito, especialmente quando o apêndice é ascendente, e com 
exame de urina revelando hematúria e piúria (DANI; PASSOS, 2011). 
 
Ao exame especifico, estão presentes os sinais de Blumberg (descompressão 
brusca dolorosa), Rovsing (dor em fossa ilíaca direita quando é realizada a 
compressão da fossa ilíaca esquerda) e Lapinsky (dor à compressão da fossa 
ilíaca direita enquanto o paciente eleva o membro inferior direito esticado). 
Ressalta-se, entretanto, que idosos, crianças e imunossuprimidos podem 
apresentar sintomas inespecíficos, dificultando o diagnóstico final (KILESSE et 
al., 2022). 
 
Na apendicite, o Escore de Alvarado é uma ferramenta diagnóstica útil, com 
uso dos sinais, sintomas e laboratório da doença. Os exames de imagem 
também auxiliam no diagnóstico, sendo a ultrassonografia o exame inicial, 
embora não afaste o diagnóstico devido aobaixo valor preditivo negativo. 
Com isso, pode haver prosseguimento da investigação com a TC abdominal 
(CARDOSO et al., 2022). 
 
COLECISTITE 
↠ É uma inflamação da parede vesicular, com 
predomínio a partir da 5ª década de vida, com maior 
frequência no sexo feminino (KILESSE et al., 2022). 
 
↠ A colecistite está associada à litíase biliar em 95% dos 
casos. A diferença em relação à cólica biliar simples é a 
presença de resposta inflamatória na parede da vesícula 
(DANI; PASSOS, 2011). 
A dor inicialmente é epigástrica, visceral, acompanhada de náuseas e vômito, e 
posteriormente mais intensa e localizada no quadrante superior direito, podendo 
irradiar-se para as regiões lombar direita e escapular direita (DANI; PASSOS, 
2011). 
A febre geralmente é baixa, e a leucocitose, moderada (até 15.000) (DANI; 
PASSOS, 2011). Elevações leves nas bilirrubinas, amilase, transaminases e 
fosfatase alcalina podem estar presentes (KILESSE et al., 2022). 
 
 
A avaliação da colecistite é realizada através da ultrassonografia abdominal, 
exame com sensibilidade e especificidade de 95% para o quadro. Para casos 
de dúvida, após realização da ultrassonografia, recomenda-se o emprego de 
TC ou cintilografia. Após o diagnóstico, o tratamento indicado é a 
colecistectomia (KILESSE et al., 2022). 
 Na ausência de cálculos, o espessamento da parede da vesícula acima 
de 3,5 mm, associado a sintomas, faz o diagnóstico de colicistite alitiásica (DANI; 
PASSOS, 2011). 
PANCREATITE 
↠Trata-se de um processo inflamatório agudo do 
pâncreas por ativação indevida das enzimas digestivas, 
ocorrendo a autodigestão (KILESSE et al., 2022). A 
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Júlia Morbeck – @med.morbeck 
 
principal causa de pancreatite aguda é a litíase biliar (DANI; 
PASSOS, 2011). 
 
O quadro clínico é polimorfo, sendo a dor de início súbito, contínua, localizada 
em epigástrio, hipocôndrios ou região umbilical. A dor tipicamente é em faixa, 
com irradiação dorsal, acompanhada de náuseas e vômito frequentes, além de 
distensão abdominal (DANI; PASSOS, 2011). 
 
No exame físico, está presente dor à palpação ou até mesmo irritação 
peritoneal, distensão abdominal, icterícia e, em apresentações hemorrágicas, os 
sinais de Grey-Turner (equimose em flancos), Cullen (equimose periumbilical) e 
de Fox (equimose na base do pênis) (KILESSE et al., 2022). 
 
Na avaliação laboratorial, observa-se elevação da amilase e da lipase; essas 
enzimas podem elevar-se em outras situações de abdome agudo, mas uma 
elevação superior a 4 vezes o valor de referência máximo será́ indicativa de 
pancreatite aguda (DANI; PASSOS, 2011). 
A tomografia é o método ideal para avaliação do parênquima pancreático, 
determinando a gravidade da doença e fornecendo critérios prognósticos 
(critérios de Balthazar). A ressonância magnética fornece informações 
semelhantes às da tomografia (DANI; PASSOS, 2011). 
A pancreatite aguda é diagnosticada com a presença de dois de três critérios: 
dor abdominal de início súbito, persistente, severa, geralmente epigástrica com 
irradiação para o dorso; elevação de enzimas 3 vezes acima do limite superior 
da normalidade (amilase e lipase) e/ou características radiológicas da inflamação 
do pâncreas aguda em exames de imagem, seja na ressonância magnética 
(RM), ultrassonografia transabdominal ou tomografia computadorizada com 
contraste (TC) (CARDOSO et al., 2022). 
 
DIVERTICULITE 
↠ A diverticulose, isto é, o desenvolvimento de divertículos (bolsas) 
no cólon, possui, normalmente, uma apresentação assintomática ou 
oligossintomática, sendo rara entre indivíduos com menos 40 anos. A 
incidência chega a 60% em indivíduos comais de 70 anos, 
contudo, apenas 1% a 4% dos pacientes desenvolvem a 
diverticulite, quadro inflamatório e infeccioso (mais comum 
em obesos, idosos, sedentários, tabagistas e pacientes 
com alto consumo de carne vermelha) (KILESSE et al., 
2022). 
 
↠ A localização mais comum da diverticulite é no 
sigmoide, onde, associados ao cólon descendente, 
encontram-se 90% dos divertículos do cólon (DANI; 
PASSOS, 2011). 
Pode ser representada por uma dor aguda, semelhante, algumas vezes, a 
apendicite, contudo, em fossa ilíaca esquerda, juntamente a vômito, náuseas e 
alterações intestinais (KILESSE et al., 2022). 
 
 Em 12% dos casos, a diverticulite complica e apresenta adicionalmente perfuração, 
formação de abcesso, obstrução, peritonite e pneumoperitônio, com sintomas que incluem 
hematoquezia e fecalúria (KILESSE et al., 2022). 
Pode haver disúria e polaciúria devido à proximidade com a bexiga. Leucocitose 
é comum (DANI; PASSOS, 2011). 
O diagnóstico do quadro é normalmente clínico, não sendo necessário exames 
de imagem adicionais, porém, em caso de dúvidas ou na necessidade de se 
diferenciar um quadro não complicado de um complicado, a TC deve ser a 
ferramenta de escolha (KILESSE et al., 2022). 
5 
 
 
Júlia Morbeck – @med.morbeck 
 
 
FISIOPATOLOGIA 
Topograficamente, a membrana parietal divide-se em visceral e 
parietal. O peritônio visceral é inervado pelo sistema nervoso autônomo 
e o peritônio parietal, pelo sistema nervoso cerebroespinal, o mesmo 
da musculatura da parede abdominal (LOPES et al., 2006). 
 
↠ Todo agente inflamatório ou infeccioso, ao atingir o 
peritônio, acarreta irritação do mesmo, cuja intensidade é 
diretamente proporcional ao estádio do processo 
etiológico. Segue-se a instalação progressiva de íleo 
paralítico localizado ou generalizado. Esse fenômeno é 
justificado pela lei de Stokes que diz: “Toda vez que a serosa 
que envolve uma musculatura lisa sofre irritação, esta entra em paresia 
ou paralisia.” (LOPES et al., 2006). 
↠ Por outro lado, a resposta do peritônio parietal 
exterioriza-se clinicamente por dor mais bem localizada e 
contratura da musculatura abdominal localizada ou 
generalizada, dependendo da evolução do processo. É 
importante salientar que a contratura muscular pode ser 
voluntária ou, mesmo, determinada por doença extra 
abdominal (LOPES et al., 2006). 
↠ De fato, podemos concluir que a dor abdominal 
secundária à irritação do peritônio visceral (autônoma) é 
mal localizada e origina-se pela distensão e contração das 
vísceras, enquanto a dor que segue a irritação do 
peritônio parietal (cerebroespinal) é contínua, progressiva, 
piorando com a movimentação e sendo também mais 
localizada (LOPES et al., 2006). 
 
 Após instalada a peritonite, a deterioração clínica do indivíduo 
pode ser rápida, constituindo sinal de gravidade e mau prognóstico 
(SANARFLIX). 
↠ Nas fases iniciais há ainda pouca atividade inflamatória 
com aumento da efusão peritoneal e quimiotaxia de 
células inflamatórias. Já nas fases tardias existe uma 
exuberante resposta inflamatória com formação de 
fibrina, aderências, pus, e, por fim, fibrose (SANARFLIX). 
 
ABDOME AGUDO OBSTRUTIVO 
↠ O abdome agudo obstrutivo é caracterizado pela 
interrupção do trânsito intestinal, culminando em quadro 
clínico com dores abdominais difusas do tipo cólica ou 
periumbilicais, juntamente com náuseas, vômitos, parada 
de eliminação de flatos e fezes e distensão abdominal 
progressiva (CARDOSO et al., 2022). 
↠ Suas causas podem ser divididas em baixas e altas. As 
obstruções altas correspondem ao intestino delgado e, as 
baixas, ao cólon (CARDOSO et al., 2022). 
 É a segunda síndrome abdominal aguda mais frequente, ficando 
entre Abdome Agudo Inflamatório (1ª) e perfurativo (3ª) (SANARFLIX). 
 
6 
 
 
Júlia Morbeck – @med.morbeck 
 
ETIOLOGIA 
↠ As causas são diversas, podendo ser extrínsecas ou 
intrínsecas (intraluminais), variando de acordo com o 
segmento intestinal (KILESSE et al., 2022). 
 Ela é causada, em cerca de 65% a 75% dos casos, por 
aderências entre alças, provenientes de cirurgias abdominais prévias. 
As demais ocorrências se devem a hérnias, fecalomas,neoplasias, 
doença de Crohn, volvos, intussuscepção, íleo biliar, entre outras 
(KILESSE et al., 2022). 
 
↠ A principal causa de obstrução intestinal no adulto são 
as bridas e aderências, sendo também a principal causa 
de obstrução mecânica do delgado (75% dos casos). As 
hérnias parietais vêm em seguida como causadoras de 
obstrução intestinal (DANI; PASSOS, 2011). 
↠ O câncer colorretal é a causa mais comum de 
obstrução colônica no adulto, seguida de diverticulite 
complicada e vólvulo (DANI; PASSOS, 2011). 
 
FISIOPATOLOGIA 
Embora a obstrução intestinal mecânica simples, a obstrução com 
estrangulamento, a obstrução em alça fechada e o íleo paralítico 
tenham muitos aspectos em comum, existem diferenças importantes 
na fisiopatologia e no tratamento dessas entidades (LOPES et al., 2006). 
 
 
OBSTRUÇÃO INTESTINAL MECÂNICA SIMPLES 
↠ Ocorre acúmulo de líquido e gás acima do ponto de 
obstrução e a alteração da motilidade intestinal, que, 
somados, levam a alterações sistêmicas importantes 
(LOPES et al., 2006). 
↠ O acúmulo de líquido no interior da alça intestinal 
obstruída ocorre de modo progressivo. O movimento de 
líquidos entre a luz intestinal e o sangue ocorre de duas 
maneiras: absorção (movimento de líquido da luz intestinal 
para o sangue) e secreção (movimento de líquido do 
sangue para a luz intestinal). Após 48 horas de obstrução 
intestinal, o movimento de líquido é predominantemente 
do sangue para a luz intestinal, aumentando muito a 
quantidade de líquido no intestino obstruído. O mesmo 
fenômeno acontece com o sódio e o potássio. A 
composição do líquido acumulado na luz intestinal é 
semelhante à do plasma (LOPES et al., 2006). 
↠ O principal componente do acúmulo de líquido na alça 
intestinal obstruída é o aumento de secreção. Acredita-
se que a distensão abdominal aumenta a secreção de 
prostaglandina, que, por sua vez, produz um aumento na 
secreção intestinal. O segmento proximal à obstrução fica 
repleto de líquido e eletrólitos, o que provoca mais 
distensão e compromete a circulação. Esse conteúdo 
caminha em sentido proximal, chegando a segmentos 
intestinais que ainda possuem a capacidade absortiva. Caso 
a obstrução não se resolva, esses segmentos proximais 
também ficam distendidos e com a circulação e a 
absorção comprometidas (LOPES et al., 2006). 
 A soma de todas essas perdas depleta o fluido do 
espaço extracelular, produzindo hemoconcentração, hipovolemia, 
insuficiência renal, choque e morte, a não ser que o tratamento seja 
instituído rapidamente (LOPES et al., 2006). 
↠ Assim que a obstrução ocorre, o peristaltismo intestinal 
aumenta como resposta do intestino a fim de resolver a 
obstrução. Após algum tempo, o peristaltismo contínuo é 
substituído por períodos intermitentes de peristaltismo 
aumentado, intercalados com períodos de acalmia 
(LOPES et al., 2006). 
OBSTRUÇÃO COM ESTRANGULAMENTO 
↠ Denomina-se obstrução com estrangulamento a 
obstrução intestinal associada ao comprometimento da 
irrigação sanguínea. A compressão dos vasos do 
mesentério é a causa da interrupção do suprimento de 
sangue ao intestino, acarretando isquemia e necrose. Essa 
7 
 
 
Júlia Morbeck – @med.morbeck 
 
situação é mais frequente na obstrução por aderências, 
hérnias ou volvo (LOPES et al., 2006). 
↠ À compressão das veias e à dificuldade do retorno 
venoso soma-se o problema do acúmulo de líquido e gás 
já descrito, levando a pequenos sangramentos na luz 
intestinal e na parede das alças. O segmento de intestino 
necrosado libera substâncias tóxicas na cavidade 
peritoneal e na luz do intestino 
↠ Os fatores que mais interferem na fisiopatologia da 
obstrução com estrangulamento são os seguintes: o 
conteúdo da alça obstruída é tóxico; as bactérias aí 
presentes são importantes para a produção dessas to 
xinas; os segmentos de intestino que não estão 
necrosados não participam na formação dessas toxinas; 
as toxinas não passam através de mucosa normal; a 
absorção das toxinas é mais importante do que a sua 
produção; e os sintomas podem estar correlacionados 
com a formação dessas toxinas (LOPES et al., 2006). 
OBSTRUÇÃO EM ALÇA FECHADA 
↠ Quando uma alça intestinal encontra-se obstruída 
simultaneamente nas extremidades proximal e distal, 
caracteriza-se uma obstrução em alça fechada. A 
obstrução em alça fechada pode progredir rapidamente 
para o estrangulamento (LOPES et al., 2006). 
↠ A interrupção do suprimento sanguíneo pode ocorrer 
pela mesma causa que provocou a obstrução em alça 
fechada (aderências, hérnia ou volvo), ou simplesmente 
pela grande distensão da alça obstruída. A pressão no 
interior da alça obstruída pode atingir níveis iguais ao do 
sistema venoso, interrompendo o fluxo de sangue nas 
veias e aumentado o edema intestinal (LOPES et al., 2006). 
ÍLEO PARALÍTICO 
↠ O íleo paralítico pode apresentar-se sob três formas: 
o íleo adinâmico, o íleo espástico e o íleo da oclusão 
vascular (LOPES et al., 2006). 
• O íleo adinâmico é o mais comum e costuma ocorrer após 
cirurgias abdominais. A fisiopatologia do íleo adinâmico não 
está completamente esclarecida, porém parece envolver 
o comprometimento da resposta neuro-hormonal 
relacionada ao intestino. A recuperação da motilidade 
intestinal no período pós-operatório de cirurgia abdominal 
é diferente nos vários segmentos do trato gastrointestinal. 
O intestino delgado recupera sua motilidade em 
aproximadamente 24 horas, o estômago, em 48 horas e 
o intestino grosso, em três a cinco dias. Além da cirurgia 
abdominal, outras causas de inibição podem ocorrer. 
• O íleo espástico não é comum, porém surge em 
consequência de uma hiper-reatividade do intestino. Pode 
ocorrer na intoxicação por metais pesados, na porfiria e, às 
vezes, quando existe uremia. 
• O íleo com oclusão vascular caracteriza-se por uma 
incapacidade de coordenação da motilidade intestinal, em 
consequência da morte celular resultante da isquemia. 
MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS 
↠ O sintoma cardinal do abdome agudo obstrutivo é a 
cólica intestinal, demonstrando o esforço das alças para 
vencer o obstáculo que está impedindo o trânsito normal. 
A dor é visceral, localizada em região periumbilical, nas 
obstruções de delgado, e hipogástrica, nas obstruções de 
cólon, intercalada com períodos livres de dor no início da 
evolução (DANI; PASSOS, 2011). 
↠ Os episódios de vômito surgem após a crise de dor, 
inicialmente reflexos, e são progressivos, na tentativa de 
aliviar a distensão das alças obstruídas (DANI; PASSOS, 
2011). 
 A característica do vômito depende do local da obstrução, 
podendo evoluir de conteúdo gástrico, a bile, chegando até o aspecto 
fecalóide (CARDOSO et al., 2022). 
↠ O peristaltismo está aumentado, exacerbado, e é 
chamado de peristaltismo de luta. Este é mais bem 
caracterizado quando se ausculta o abdome no momento 
da crise dolorosa e se manifesta por uma cascata de 
ruídos (DANI; PASSOS, 2011). 
 Quanto mais alta a obstrução, mais precoces, 
frequentes e intensos serão os vômitos, menor a distensão abdominal 
e mais tardia a parada de eliminação de gases e fezes. Quanto mais 
baixa a obstrução, maior distensão abdominal, mais precoce a parada 
de eliminação de flatos e fezes, e, devido ao supercrescimento 
bacteriano no segmento obstruído, os vômitos, que são tardios, 
adquirem aspecto fecaloide. Febre normalmente não está presente 
(DANI; PASSOS, 2011). 
 
DIAGNÓSTICO 
↠ O diagnóstico de abdome agudo obstrutivo pode ser 
feito a partir de anamnese e exame físico minucioso 
(SANARFLIX). 
8 
 
 
Júlia Morbeck – @med.morbeck 
 
↠ Exames complementares auxiliam no diagnóstico 
diferencial e na diferenciação entre obstrução funcional 
ou mecânica, sítio da obstrução e identificação de 
complicações (SANARFLIX). 
 
 
 
ABDOME AGUDO PERFURATIVO 
↠ Trata-se de uma das causas mais frequentes de 
cirurgia abdominalde urgência (DANI; PASSOS, 2011). 
 O abdome agudo perfurativo tem como causa mais comum a 
ruptura de úlceras pépticas gastroduodenais, sendo mais frequente no 
duodeno do que no estômago. A úlcera duodenal normalmente 
perfura em região anterior do bulbo duodenal. As úlceras gástricas 
perfuradas encontram-se normalmente na parede anterior do antro 
(KILESSE et al., 2022). 
ETIOLOGIA 
↠ A causa mais comum de perfuração é a úlcera 
péptica, e a perfuração é a primeira manifestação da 
doença ulcerosa em 30 a 40% dos casos (DANI; PASSOS, 
2011). 
 Os pacientes idosos são os mais afetados, devido ao uso crônico 
de anti-inflamatórios e ácido acetilsalicílico. Inicialmente, a dor se localiza 
no epigástrio, seguida de dor abdominal difusa (DANI; PASSOS, 2011). 
 
• Nas perfurações de intestino delgado, as causas 
mais frequentes são as doenças inflamatórias e 
infecciosas, os corpos estranhos deglutidos e os 
tumores (DANI; PASSOS, 2011). 
• No intestino grosso, os quadros de perfuração 
ocorrem devido a processos inflamatórios 
(diverticulite, megacólon tóxico, colite 
pseudomembranosa grave) ou neoplásicos, 
além de corpos estranhos (DANI; PASSOS, 2011). 
FISIOPATOLOGIA 
 A gênese dessa síndrome se dá pela perfuração de uma viscera 
oca. Essa perfuração pode ser decorrente de diversas causas, como: 
processo inflamatório, neoplásico, obstrutivo e infeccioso (SANARFLIX). 
↠ Os episódios etiológicos envolvem a liberação de 
conteúdo luminal, tornando suscetível a ocorrência de 
uma irritação e subsequente contaminação peritoneal. 
Com isso, a perfusão abdominal pode ser comprometida, 
apresentando uma alteração no fluxo sanguíneo da 
mucosa seguida de um aumento em sua permeabilidade 
e translocação bacteriana, além de promover o 
desenvolvimento de futuras hérnias na parede 
abdominal, hipoperfusão de órgãos viscerais e 
isquemia (CARDOSO et al., 2022). 
9 
 
 
Júlia Morbeck – @med.morbeck 
 
 
↠ As bactérias comumente encontradas são: 
(SANARFLIX). 
 
MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS 
↠ A dor tem início súbito, geralmente dramático, já 
começando de forma intensa, rapidamente atingindo seu 
pico. Os pacientes costumam precisar a hora exata do 
início do sintoma. O problema advém do extravasamento 
de secreção contida no trato gastrintestinal para a 
cavidade peritoneal, o que é traduzido por peritonite 
(DANI; PASSOS, 2011). 
↠ A dor tipo somática vem da irritação química do 
peritônio, e, quanto menor o pH, maior a irritação (DANI; 
PASSOS, 2011). 
As perfurações costumam ser divididas em altas (gastroduodenal e 
delgado proximal) e baixas (delgado distal e cólon). Nas perfurações 
mais baixas de delgado, a dor abdominal é mais discreta, e os sinais de 
irritação peritoneal são menos exuberantes, mas originam quadros 
sépticos mais precoces, em função da flora bacteriana local. 
Perfurações do delgado proximal comportam-se como as 
gastroduodenais, com dor abdominal intensa e grande irritação 
peritoneal. Perfurações do intestino grosso traduzem manifestações 
clínicas e peritoneais intensas, com evolução rápida para peritonite 
fecal, devido ao conteúdo altamente infectado desse segmento (DANI; 
PASSOS, 2011). 
 
 A tríade clínica clássica para este acometimento consiste em dor 
abdominal, taquicardia e rigidez abdominal (KILESSE et al., 2022). 
DIAGNÓSTICO 
O diagnóstico de um Abdome Agudo Perfurativo se baseia na história 
clínica minunciosa, exame físico criterioso e exames de imagem. Os 
exames laboratoriais são inespecíficos, podendo nos ajudar a detectar 
apenas a presença de processos inflamatórios e infecciosos prévios 
(SANARFLIX). 
↠ O exame clinico demonstra silêncio abdominal e rigidez 
muscular, detectada como “abdome em tábua”. A 
temperatura é normal, e náuseas e vômito podem estar 
presentes 
↠ A radiografia simples revela pneumoperitônio, sendo o 
exame de imagem de escolha para o diagnóstico. Em 12 
h de evolução do quadro, a peritonite química torna-se 
bacteriana, aparecendo os sinais de infecção (DANI; 
PASSOS, 2011). 
 A característica principal é a presença de ar e/ou líquido na 
cavidade peritoneal, retroperitônio ou na parede dos órgãos. Em 75-
80% dos casos há pneumoperitônio e nos demais casos é esperado 
bloqueio no local da perfuração e, portanto, ausência de gás no 
segmento perfurado (SANARFLIX). 
 
 
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Júlia Morbeck – @med.morbeck 
 
ABDOME AGUDO ISQUÊMICO OU VASCULAR 
↠ O abdome agudo vascular é uma emergência rara, 
pouco reconhecida e, por isso, apresenta péssimo 
desfecho, sendo altamente fatal. O paciente com o quadro 
tende a passar por mudanças rápidas na estabilidade, 
necessitando, portanto, de um maior acompanhamento 
(KILESSE et al., 2022). 
 
↠ Com mortalidade atingindo 80% na maioria dos 
estudos. Tal fato se deve ao diagnóstico quase sempre 
tardio, e pelo fato de acometer principalmente pacientes 
idosos, que já apresentam várias doenças crônicas, por si 
sós graves, além da frequente progressão da isquemia 
após as cirurgias de revascularização (DANI; PASSOS, 
2011). 
ETIOLOGIA 
↠ Cabe a divisão entre as causas oclusivas e não-
oclusivas. Das oclusivas podemos citar como mais 
frequentes a embolia (origem cardíaca, aórtica, tumoral 
ou por cristais de colesterol) e a trombose aguda 
(secundária geralmente à aterosclerose prévia) dos 
principais ramos arteriais viscerais (LOPES et al., 2006). 
↠ A causa predominante entre as não-oclusivas é 
secundaria à diminuição importante do débito cardíaco 
(importando menos a causa da descompensação que a 
magnitude da insuficiência cardíaca), que pode ou não ser 
acompanhada do espasmo dos vasos. Outras causas citadas 
compreendem o choque de origem medular ou traumático, 
gastroenterites, hemoconcentração, pneumonia, placenta prévia e 
espasmo das artérias distais associado ao abuso de cocaína (LOPES 
et al., 2006). 
 A isquemia mesentérica é responsável por cerca de 1% dos 
abdomes agudos, porém, ocasiona de 60% a 80% das mortes 
ocorridas nas primeiras 24 horas, podendo ser causada por trombose 
arterial, embolia arterial (principal causa), trombose venosa e por 
isquemia mesentérica não oclusiva (KILESSE et al., 2022). 
↠ A isquemia mesentérica pode ser classificada pelo 
tempo de instalação em aguda ou crônica, e por 
localização como mesentérica e colônica (SANARFLIX). 
↠ No caso da aguda, as três principais síndromes são a 
oclusão da artéria mesentérica superior por êmbolo (50% 
dos casos) ou trombo (25%), trombose da veia 
mesentérica superior (menos de 10% dos casos) e 
isquemia mesentérica não-oclusiva (20%) (CARDOSO et 
al., 2022). 
 
 
FISIOPATOLOGIA 
 O intestino como um todo é um dos órgãos que apresenta, 
provavelmente, um dos sistemas de circulação colateral mais 
completos do organismo. As três artérias principais ou axiais contam 
com uma intrincada e extensa rede de ramos arteriais que se 
intercomunicam. Esse sistema funciona de forma tão eficiente que a 
oclusão de até duas das artérias principais pode ser pouco ou não-
sintomática (LOPES et al., 2006). 
A aterosclerose, principal causa de isquemia crônica do intestino, tem 
como característica uma instalação lenta. Isso proporciona tempo para 
que haja acomodação da circulação colateral. De forma geral, a 
principal artéria responsável pela perfusão intestinal pode ser 
considerada a artéria mesentérica superior (AMS); quando ocluída ou 
estenótica é a que mais frequentemente causa sintomas de angina 
abdominal (LOPES et al., 2006). 
 As regiões mais propensas à isquemia são as áreas pobres em 
circulação colateral, por dificuldade de compensar a perfusão em caso 
de obstrução na circulação principal, são áreas como a flexura 
esplênica e junção retossigmoide (SANARFLIX). 
 
11 
 
 
Júlia Morbeck – @med.morbeck 
 
↠ Não por acaso o fenômeno isquêmico agudo intestinal cursa com 
altas taxas de mortalidade,em torno de 70% dos casos. Como se 
trata de um quadro abrupto, e principalmente nos casos 
de embolia, não há tempo para o desenvolvimento de 
uma rede de circulação colateral que seja suficiente para 
manter nem mesmo o metabolismo mínimo intestinal. 
Curiosamente, a embolia apresenta as melhores taxas de sobrevida. O 
êmbolo normalmente aloja-se na circulação mais distal, poupa o óstio 
dos ramos principais e, assim sendo, pode preservar em maior ou 
menor grau territórios do órgão. A trombose aguda 
costumeiramente ocorre nos óstios das principais artérias 
e, associada a frequente presença de aterosclerose em 
múltiplas artérias, leva à isquemia de extensas áreas, 
sendo a sobrevida uma exceção (LOPES et al., 2006). 
↠ A respeito das causas não-oclusivas, durante o choque 
de qualquer origem ocorre a vasoconstrição arterial 
visceral a fim de dirigir o fluxo sanguíneo para as áreas 
mais críticas como cérebro e coração, o que, associado 
à vasoconstrição venosa, pode acrescentar até 30% de 
volume ao espaço intravascular. Por algum mecanismo 
pouco elucidado ou pelo emprego de vasopressores para 
o controle da hipotensão, tal constrição pode prolongar-
se por horas, mesmo após a normalização dos 
parâmetros hemodinâmicos (LOPES et al., 2006). 
A mucosa intestinal, principalmente do delgado, é a primeira e mais 
gravemente afetada. Isquemia acima de uma hora pode produzir 
edema da submucosa seguido de desprendimento da mucosa, 
ulcerações e sangramento das vilosidades intestinais. Há perda da 
barreira entre o conteúdo intestinal e o sangue, produção de fatores 
inflamatórios locais que agravam as lesões através da mobilização das 
células de defesa e fagocitárias e risco de translocação bacteriana 
(LOPES et al., 2006). 
Havendo a manutenção da isquemia, há piora do edema, que, 
associado ao processo inflamatório iniciado localmente, piora o 
ambiente celular local, permitindo a extensão da lesão para as demais 
camadas da alça. A camada muscular afetada não cumpre sua função 
de peristalse normal, determinando assim estase do conteúdo e 
aumento de pressão local, o que dificulta ainda mais a já deficiente 
perfusão tecidual. O último estágio desse processo mórbido 
compreende a gangrena de toda a parede intestinal, perda de sua 
estrutura física culminando em perfuração com extravasamento do 
conteúdo intestinal e, consequente, peritonite fecal (LOPES et al., 
2006). 
 A fisiopatologia envolve uma lesão isquêmica inicial, decorrente 
da redução do fluxo arterial ou venoso (o que leva a lesões precoces 
na mucosa, tornando-se posteriormente transmurais), perpetuada pelo 
vasospasmo reflexo da circulação mesentérica e completada pela 
lesão de reperfusão (principalmente pela formação e ação de radicais 
livres de oxigênio, que desencadeiam a síndrome da resposta 
inflamatória sistêmica, podendo evoluir para falência de múltiplos 
órgãos) (DANI; PASSOS, 2011). 
Na hipoperfusão, o comprometimento da oferta de oxigênio se dá 
com uma redução do fluxo intestinal maior que 50%. De forma geral, 
o intestino consegue compensar até 75% de hipoperfusão por até 
12h sem dano substancial, pelo aumento da extração de oxigênio e 
circulação colateral. Se houver manutenção da hipoperfusão, teremos 
vasoconstrição e redução do fluxo colateral. Em alguns casos, mesmo 
após restauração do fluxo, a vasoconstrição é mantida. Na reperfusão 
a lesão se dá por ação de espécies reativas de oxigênio (SANARFLIX). 
 
ISQUEMIA COLÔNICA: A maioria das oclusões por êmbolos ou trombos 
cursa com isquemia do intestino delgado concomitante. É mais 
prevalente em mulheres e deve ser suspeitada em pacientes com dor 
em abdome inferior e diarreia ou hematoquezia (SANARFLIX). 
ISQUEMIA MESENTÉRICA AGUDA: Pode ocorrer por êmbolos ou trombos. 
Os êmbolos são provenientes de trombos do átrio esquerdo, 
ventrículo esquerdo, valvas cardíacas ou aorta proximal, tendo como 
fator de risco IAM, fibrilação atrial ou estenose mitral (SANARFLIX). 
ISQUEMIA MESENTÉRICA CRÔNICA: É decorrente de episódios 
constantes de hipoperfusão, típico de pacientes com oclusões e 
estenoses de vasos mesentéricos causados por aterosclerose. É 
caracterizada pela angina mesentérica ou intestinal nas primeiras horas 
após alimentar-se (SANARFLIX). 
MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS 
↠ A dor abdominal é o sintoma inicial, geralmente muito 
intensa, fora de proporções com os achados clínicos, que 
são inespecíficos. A chave para o diagnóstico precoce é 
valorizar os sinais, ainda que inespecíficos, em pacientes 
com fatores de risco para isquemia mesentérica aguda 
(DANI; PASSOS, 2011). 
↠ Passada a fase inicial de dor abdominal, vem a fase 
intermediária, caracterizada por peritonite, que 
frequentemente confunde o quadro clínico com outras 
causas de abdome agudo inflamatório. Na terceira fase, 
acentuam-se os sinais abdominais, surgindo a instabilidade 
hemodinâmica, o choque refratário e o óbito (DANI; 
PASSOS, 2011). 
 
12 
 
 
Júlia Morbeck – @med.morbeck 
 
 
 
DIAGNÓSTICO 
↠ No exame físico inicialmente o abdome pode estar 
normal, com dor leve a moderada. A peristalse normal ou 
aumentada como reação inicial à hipóxia. Com a 
progressão da isquemia, temos: (SANARFLIX). 
• Distensão abdominal; 
• Timpanismo aumentado. 
 Sinais de choque e peritonite generalizada são achados tardios e 
indicam prognóstico ruim (SANARFLIX). 
 Os exames laboratoriais também são inespecíficos, não 
existindo marcadores de isquemia ou necrose intestinal, mas 
hemoconcentração, leucocitose e acidose metabólica, associados aos 
achados clínicos de distensão, defesa e ausência de peristaltismo 
sugerem doença avançada (DANI; PASSOS, 2011). 
↠ A radiologia convencional afasta outras causas de 
abdome agudo e pode mostrar espessamento da parede 
das alças intestinais, alças tubuliformes, fixas e imutáveis, 
e pneumoperitônio, o que indica lesões em fase bem 
avançada (DANI; PASSOS, 2011). 
↠ A ultrassonografia, principalmente associada ao recurso 
Doppler, pode identificar a obstrução vascular e estudar 
o fluxo dos vasos mesentéricos, especialmente dos 
segmentos proximais (DANI; PASSOS, 2011). 
 A primeira escolha é a tomografia computadorizada, porém a 
angiografia é o exame padrão-ouro dessa síndrome (CARDOSO et. al., 
2022). 
 
↠ A angiotomografia e a angiorressonância podem ser 
muito úteis, ao mostrar as alterações isquêmicas nas 
paredes intestinais e demonstrar o local da obstrução 
mesentérica, mas um exame normal não exclui o 
diagnóstico de isquemia mesentérica. O diagnóstico de 
certeza é dado pela arteriografia, que é considerada o 
padrão-ouro no estudo da isquemia mesentérica, por suas 
possibilidades diagnósticas e terapêuticas. A arteriografia 
só deve ser realizada no paciente hemodinamicamente 
estável (DANI; PASSOS, 2011). 
ABDOME AGUDO HEMORRÁGICO 
↠ O abdome agudo hemorrágico também se trata de 
uma manifestação rara, porém, com alta mortalidade, 
próxima a 40% (KILESSE et al., 2022). 
↠ A ruptura espontânea de vísceras parenquimatosas e 
a ruptura vascular não são situações comuns, e o abdome 
agudo hemorrágico é mais frequentemente associado ao 
trauma, ao pós-operatório e a complicações pós-
procedimentos (biopsias hepáticas, por exemplo). Na 
mulher em idade fértil, sempre ponderar a possibilidade 
de gravidez ectópica rota (DANI; PASSOS, 2011). 
ETIOLOGIA 
 
↠ As causas da hemorragia intra-abdominal são 
numerosas e incluem doenças as mais variadas, como o 
traumatismo abdominal, a ruptura de aneurisma da aorta 
ou de alguma artéria visceral, as neoplasias malignas de 
vísceras sólidas, os processos inflamatórios erosivos 
(pancreatite e pseudocisto, por exemplo) e, nas mulheres, 
além dessas mencionadas, as afecções ginecológicas e 
obstétricas (LOPES et al., 2006). 
RUPTURA DE ANEURISMA DE AORTA ABDOMINAL 
↠ Acomete geralmente pacientes idosos do sexo 
masculino, população na qual a incidência de aneurisma émaior. A aterosclerose é a causa principal, mas trauma, 
infecção (sífilis) e artrites são causas possíveis (DANI; 
PASSOS, 2011). 
↠ A sede mais comum do aneurisma é a aorta 
abdominal, estando quase todos localizados abaixo das 
artérias renais. O risco de ruptura aumenta com o 
tamanho do aneurisma, sendo baixo nos menores de 5 
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Júlia Morbeck – @med.morbeck 
 
cm. Cinquenta por cento dos aneurismas que atingem 6 
cm se rompem em 1 ano (DANI; PASSOS, 2011). 
 
A apresentação clássica é dor abdominal difusa, intensa, associada a 
hipotensão e massa abdominal pulsátil. Antes da ruptura, o aneurisma 
passa por um processo de distensão aguda (dito expansão), o que 
leva ao estiramento do plexo nervoso perivascular, gerando dor 
intensa nos flancos ou no dorso (DANI; PASSOS, 2011). 
O local mais comum de ruptura é no retroperitônio, e o hematoma 
que se forma contém a hemorragia por algumas horas. O diagnóstico 
é confirmado por ultrassonografia. Na suspeita clínica, não é necessário 
realizar exames, indicando-se laparotomia imediata, sendo a 
reanimação feita no bloco cirúrgico (DANI; PASSOS, 2011). 
 
RUPTURA DE ANEURISMA DAS ARTÉRIAS VISCERAIS 
ABDOMINAIS 
 
↠ Os pacientes podem ser assintomáticos no Aneurisma 
de Artéria Esplênica (AAEs). Entretanto quando há 
presença de sintomas, os mais comuns incluem massa 
abdominal pulsátil, dor abdominal no quadrante superior 
esquerdo e até choque hipotensivo secundário se caso 
tenha ruptura desse aneurisma (CARDOSO et. al., 2022). 
↠ A apresentação clínica dos aneurismas de artéria 
hepática (AAH) podem não perdurar com os sintomas 
por longo tempo. As manifestações clínicas podem não 
ser específicas, assim como o exame físico, em 
especial nos casos em que não existe repercussão 
hemodinâmica. Todavia, alguns pacientes apresentam 
massas abdominais, icterícia, hipovolemia e choques 
secundários com sangramento gastrointestinal ou ruptura 
(CARDOSO et. al., 2022). 
↠ Ainda, os aneurismas de artéria mesentérica superior, 
ao contrário dos outros aneurismas, são sintomáticos em 
mais de 90% dos casos. O quadro é composto por dor 
abdominal associada a sangramento gastrointestinal, assim 
como náuseas, vômitos e febre (CARDOSO et. al., 
2022). 
RUPTURA DA GRAVIDEZ ECTÓPICA 
↠ A gravidez ectópica (GE) ocorre entre 1-2% das 
gestações e corresponde a 10-15% das mortes maternas 
no 1º trimestre. Tem como principais fatores de risco 
cirurgias tubárias, gravidez ectópica prévia, uso de 
Dispositivo Intrauterino (DIU), tabagismo ≥ 20 cigarros por 
dia; técnicas de reprodução assistida e endometriose 
(SANARFLIX). 
 
↠ Quando forma da cavidade endometrial, o lugar mais 
frequente são as trompas, representando cerca de 95% 
dos casos. Contudo, também pode ocorrer nos ovários e 
na cavidade abdominal (SANARFLIX). 
Os sintomas de uma GE rota pode se apresentar como atraso 
menstrual, geralmente o útero é menor do que o esperado, além de 
dor abdominal intensa, súbita, inicialmente em baixo ventre, que pode 
irradiar para ombro (Sinal de Lafond). Instabilidade hemodinâmica, 
hipotensão, taquicardia e choque hipovolêmico (SANARFLIX). 
14 
 
 
Júlia Morbeck – @med.morbeck 
 
 
DIAGNÓSTICO 
↠ Os exames laboratoriais podem ser importantes para 
quantificar o sangramento e suas repercussões fisiológicas. 
Na maioria das vezes, auxiliam no reconhecimento de 
alguma condição predisponente ao sangramento 
(SANARFLIX). 
↠ Se a hemorragia for em quantidade considerável e se 
houver tempo suficiente para que se instalem os 
mecanismos compensatórios desencadeados pela 
hipovolemia, os valores da hemoglobina e a do 
hematócrito estarão reduzidos (SANARFLIX). 
↠ O número de leucócitos pode variar, dependendo do 
tempo de instalação do hemoperitônio. A contagem do 
número de plaquetas é obrigatória. O estudo global da 
coagulação é útil para o diagnóstico e orienta o 
tratamento. A atividade da protrombina, a tromboplastina 
parcial ativada e a trombina são os mais utilizados 
(SANARFLIX). 
↠ O teste de gravidez é realizado quando a suspeita for 
prenhez ectópica rota (SANARFLIX). 
EXAMES DE IMAGEM 
↠ A investigação complementar do quadro tem como 
primeiro exame de escolha a ultrassonografia, que pode 
ser realizada ainda na emergência (KILESSE et al., 2022). 
↠ Em caso de estabilidade do paciente, a TC torna-se o 
exame de escolha, visto que permite uma melhor 
distinção das causas de sangramento, que variam desde 
causas ginecológicas a rompimentos de órgãos e 
aneurismas e tumores gastrintestinais (KILESSE et al., 
2022). 
↠ A ressonância magnética, pouco utilizada em abdomes 
agudos, vem ganhando destaque na investigação do 
abdome agudo hemorrágico, para pacientes com 
insuficiência renal, crianças e grávidas. O uso rotineiro, não 
obstante, ainda não é recomendado (KILESSE et al., 
2022). 
Referências 
DANI, Renato; PASSOS, Maria do Carmo 
F. Gastroenterologia Essencial, 4ª edição. Grupo GEN, 2011. 
LOPES et al. Abdome agudo: clínica e imagem. São Paulo: 
Editora Atheneu, 2006. 
CARDOSO et al. Manejo e conduta do abdome agudo: 
uma revisão narrativa. Revista Eletrônica Acervo Saúde, v. 
15, n. 5, 2022. 
KILESSE et al. Abdome agudo no departamento de 
emergência: uma revisão. Brasília Medicina, v. 59, n. 10, 
2022. 
MAGALHÃES et. al. Perfil clínico-epidemiológico dos 
pacientes acometidos por abdome agudo em um hospital 
de referência em Salvador. Revistas USP, v. 52, n. 3, 2019. 
SCHAFASCHECK et al. Avaliação da dor abdominal aguda 
no departamento de emergência. Brazilian Journal of 
Health Review, v. 4, n. 5, 2021. 
 
 
Ruptura de gravidez ectópica

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