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FILOSOFIA ANALÍTICA 2 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 Sumário FILOSOFIA ANALÍTICA ....................................................................................................... 1 FILOSOFIA ANALÍTICA ........................................................................................................ 3 UM POUCO DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA ANALÍTICA ...................................................... 3 Wittgenstein e o projeto analítico .......................................................................................... 6 O BACKGROUND ANALÍTICO ............................................................................................. 7 George Edward Moore (1873 – 1958) .................................................................................. 8 Gottlob Frege (1848 – 1925) ............................................................................................... 12 O projeto de formalização da linguagem ............................................................................ 13 A ANÁLISE WITTGENSTEINIANA DA LINGUAGEM ......................................................... 14 Os Jogos de Linguagem ..................................................................................................... 16 Formas de Vida .................................................................................................................. 18 Gramática ........................................................................................................................... 20 LINGUAGEM E MUNDO: A REALIDADE COMO SOMBRA DA GRAMÁTICA................... 26 SUPERAÇÃO DA METAFÍSICA PELA ANÁLISE LÓGICA DA LINGUAGEM .................... 30 O significado de uma palavra ............................................................................................. 30 PALAVRAS METAFÍSICAS SEM SIGNIFICADO ................................................................ 33 O SENTIDO DE UMA PROPOSIÇÃO ................................................................................. 36 PSEUDOPROPOSIÇÕES METAFÍSICAS .......................................................................... 38 A FALTA DE SENTIDO DE TODA A METAFÍSICA ............................................................ 43 METAFÍSICA COMO EXPRESSÃO DE UM SENTIMENTO VITAL .................................... 48 Enriqueça seus estudos...................................................................................................... 51 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 52 3 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 FILOSOFIA ANALÍTICA A Filosofia analítica é uma vertente do pensamento contemporâneo, reivindicada por filósofos bastante diferentes, cujo ponto comum é a ideia de que a filosofia é análise - a análise do significado dos enunciados e se reduz a uma pesquisa sobre a linguagem. Inicialmente, Filosofia analítica assumiu a hipótese de que a lógica criada por Gottlob Frege, Bertrand Russell e outros, entre o final do século XIX e o início do século XX, poderia ter consequências filosóficas gerais e ajudar na análise de conceitos e no esclarecimento das ideias. Um dos mais claros exemplos dessa tendência é a análise de Russell de frases contendo descrições definidas. Os primeiros filósofos analíticos foram Frege, Russell, George Edward Moore e Ludwig Wittgenstein. Na Inglaterra, com Russell e Moore, opunha-se às escolas procedentes do idealismo alemão, principalmente o hegelianismo, representado sobretudo por J. M. E. McTaggart e F. H. Bradley. Mas há várias correntes dentro da filosofia analítica; dentre elas, o positivismo lógico, que se distingue pela rejeição de toda e qualquer metafísica. Neste contexto, convém destacar o Círculo de Viena, de corte neopositivista, fundado por Moritz Schlick e constituído por filósofos e lógicos austríacos e alemães: Carnap, eventualmente Hans Reichenbach e, em seus primeiros tempos, Wittgenstein. Suas teses foram proclamadas num manifesto, Concepção científica do mundo (1929). UM POUCO DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA ANALÍTICA Na passagem do século XIX para o século XX, a filosofia passou por uma nova e profunda remodelação, a chamada "virada linguística", sob a influência de Frege, Bertrand Russell e Wittgenstein. A atividade filosófica passou a ser considerada basicamente como um método lógico de análise do pensamento. Posteriormente, com os autores ligados ao Círculo de Viena e demais positivistas lógicos, será vista como um método de análise do significado das proposições da ciência; ou ainda, para autores como Peter 4 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 Strawson, será uma tentativa de se descrever alguns dos conceitos fundantes do nosso esquema conceitual. Nascia assim a chamada filosofia analítica. O surgimento da filosofia analítica marcou, portanto, uma nova divisão entre modos de se fazer filosofia. Os próprios filósofos analíticos forjaram o termo Filosofia continental para referir-se às várias tradições filosóficas procedentes da Europa Continental, principalmente da Alemanha e da França. Com o início da Segunda Guerra Mundial, muitos dos principais componentes do Círculo de Viena tiveram que fugir para os Estados Unidos, e da síntese de sua filosofia – o positivismo lógico – com a cultura americana nasceu uma nova corrente filosófica, o chamado Pragmatismo - ou o "Pragmatismo moderno", uma vez que, como corrente filosófica, o pragmatismo estava há mais tempo enraizado nos Estados Unidos, e precisamente com esse nome, sobretudo nas obras de William James (1842-1910), Charles Sanders Peirce (1839-1914) e John Dewey (1859-1952). A filosofia analítica, através de suas sucessivas manifestações, sempre comportou duas correntes: o empirismo lógico e a filosofia da linguagem ordinária. Na primeira geração o empirismo lógico é representado por G. Frege, cuja Begriffschrift (Halle, 1879) constitui a obra fundamental da lógica moderna. Ele leva adiante o projeto leibniziano, que permanecera suspenso, de uma "língua característica". Os Grundgesetze der Arithmetik (Breslau, 1884) proporcionam a primeira definição lógica de número cardinal. No caso da filosofia da linguagem ordinária, H. Sidgwick (1838-1900), em Method of Ethics (1874), representa a resistência da tradição empirista inglesa contra o idealismo neo- hegeliano na Inglaterra. Na segunda geração temos as filosofias de Russell, no caso do empirismo lógico, e George Edward Moore, na filosofia da linguagem ordinária. A partir de meados do século XX, mais uma vez sob a forte influência de estudos advindos do campo da Lógica – dessa vez especificamente da lógica modal – houve uma retomada, por parte dos filósofos analíticos, de questões metafísicas e epistemológicas, tal como tradicionalmente concebidas. Assim, a partir de alguns escritos seminais de autores como Saul Kripke, Hilary Putnam e Tyler Burge, passou-se mais uma vez a tematizar assuntos tais como o da relação entre o sujeito e o mundo – ou, mais especificamente, entre o sujeito e 5 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 seu ambiente físico e social – condições de identidade de objetos através de mundos possíveis, etc. Nascia assim o externalismo. Atualmente a filosofia analítica é a filosofia dominante nos departamentos universitários de filosofia nos países de anglófonos, bem como nos países escandinavos,em certos países do Leste Europeu, como a Polônia, e também em Israel. Algumas vezes é entendida por oposição à filosofia continental. Entretanto, considerando que algumas de suas raízes estão no continente europeu, e.g., com os trabalhos de Franz Brentano, e alguns dos seus seguidores (e.g. Alexius Meinong), em torno do conceito de intencionalidade, talvez a alegada oposição seja apenas aparente. Além da referência original à lógica contemporânea, não há ideia unificadora ou dogma característico da filosofia analítica: A epistemologia e a lógica de Frege opunham-se sobretudo ao empirismo. Todavia, muitos filósofos analíticos posteriores, notadamente os positivistas lógicos e Quine, defenderam posições empiristas e rejeitaram o racionalismo de Frege. Filósofos analíticos mais recentes, como Tyler Burge, rejeitam o empirismo e defendem o racionalismo. Em lógica, Frege se opôs ao "psicologismo" de John Stuart Mill. Algumas ideias atribuídas a Mill - e.g., que nomes próprios não têm o que chama de conotação - voltaram a circular entre os filósofos analíticos. Saul Kripke, por exemplo, defende uma teoria milliana dos nomes próprios, contra o alegado descritivismo do que chama "a concepção de Frege-Russell".) Russell, entre outros, defendeu posições realistas. Já seu primeiro aluno e depois colega Wittgenstein parece ter sido, ao menos por algum tempo, um anti-realista. O Círculo de Viena e a filosofia da linguagem ordinária se opunham a toda e qualquer metafísica. Hoje a metafísica floresce na filosofia analítica. Até o início da década de 1950, o positivismo lógico era o principal movimento dentro da filosofia analítica. No entanto, o movimento sofreu um golpe mortal em 1951, quando Quine publicou "Dois Dogmas do Empirismo". Foi o fim do positivismo lógico. Depois disso a filosofia analítica desenvolveu-se em diversas direções. A ciência cognitiva e a filosofia da mente tomaram o lugar da lógica e da filosofia da linguagem. Há uma metafísica e mesmo uma 6 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 teologia analítica. Há uma filosofia política (John Rawls e Robert Nozick) e diversos estudos sobre ética. Wittgenstein e o projeto analítico Ao final do século XIX surge uma nova concepção de filosofia que se constitui como uma reação ao idealismo especulativo de inspiração hegeliana e ao empirismo psicologista: a Filosofia Analítica da Linguagem. Esse movimento tem origem em Cambridge, sobretudo com George Edward Moore e Bertrand Russell, e, paralelamente, com Gottlob Frege na Alemanha. O recurso a entidades subjetivas, como ideias e representações mentais, ou a entidades metafísicas, como formas e essências, é questionado, já que são inverificáveis, inacessíveis a um exame empírico. Essa reação levou a uma concepção de Filosofia como análise conceitual realizada através de um método linguístico: é através da análise do funcionamento da linguagem, dos princípios que governam seu uso, que podemos analisar o pensamento. Devemos, portanto, explicar estes princípios para tornar possível a análise do pensamento. De acordo com Michael Dummett, a ruptura com a filosofia moderna (séc. XVI-XVII), que tinha como questão central a epistemologia, a investigação sobre a natureza e possibilidade do conhecimento, abre espaço para a questão lógicolinguística, ou seja, o conhecimento não pode ser entendido independentemente de sua formulação e expressão em uma linguagem, caracterizando a assim chamada “virada linguística” (linguistic turn). É nesse contexto que nasce a filosofia analítica contemporânea, que: [...] define sua tarefa como a análise dos conceitos, visando desse modo elucidar os problemas filosóficos [...]. A análise do conceito como parte da 7 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 tentativa de solução de um problema filosófico não depende de uma compreensão da história do conceito, de suas origens e evolução, mas sim, na concepção tipicamente analítica, apenas da determinação da definição desse conceito da forma mais clara e precisa possível. Inicialmente, a análise, na perspectiva da filosofia da linguagem, é vista como um procedimento, um método de investigação filosófica, que revela a essência da linguagem examinando sua estrutura, isto é, mostrando como os signos simples se relacionam entre si, e determinando como se dá a relação entre esses signos e a realidade. Este método de análise vai sofrer profundas alterações, como veremos em seguida. Mas a perspectiva analítica mantém seu objetivo de produzir um esclarecimento filosófico sobre perplexidades geradas por uma má compreensão da linguagem. Trata-se de analisar a linguagem como forma de dissolver problemas filosóficos. O BACKGROUND ANALÍTICO A filosofia analítica não teve um desenvolvimento linear e homogêneo, ao contrário, se deu de forma dispersa no tempo e no espaço, comportando uma heterogeneidade de concepções. Danilo Marcondes distingue, em meio a essa multiplicidade, duas grandes vertentes de análise. A primeira, que podemos chamar de semântica clássica, se desenvolve a partir das obras de Frege, Russell (sobretudo com a teoria das descrições definidas e com o atomismo lógico) e Wittgenstein (com o Tractatus logico-philosophicus). Esta vertente possui como traço comum a preocupação com a fundamentação da ciência, utilizando a lógica como recurso básico. Marcondes inclui ainda nessa tradição o positivismo lógico do Círculo de Viena, de início fortemente influenciado pelo Tractatus de Wittgenstein. A segunda grande vertente, também conhecida como “filosofia da linguagem ordinária”, parte da influência da „análise conceitual‟ proposta por Moore, de Gilbert Ryle, do “segundo” Wittgenstein (sobretudo com as Investigações Filosóficas) e de John Langshaw Austin e a Escola de Oxford. A distinção entre essas duas correntes, no entanto, não deve ser pensada em termos absolutos, já que elas interagem de diversas formas. 8 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 George Edward Moore (1873 – 1958) A reação de Moore ao idealismo absoluto pode ser considerada um dos estopins do movimento analítico. Essa investida de Moore começou em 1898, e foi enraizada, não no empirismo, mas no realismo. Ele defendeu a visão antiidealista de que conceitos não são abstrações de ideias, mas existências independentes em si mesmas. Existências que se combinam para formar proposições que são objetos de pensamento independentes da mente. A noção idealista de que a unidade de uma proposição depende da atividade sintetizadora da mente foi „jogada para escanteio‟ em favor de um platonismo irrestrito, insistindo que as relações são objetivas e independentes da consciência. Uma proposição verdadeira não corresponde à realidade, ela é parte da realidade. A verdade e falsidade de proposições são absolutas, e não uma questão de grau. Negado o monismo dos idealistas, Moore passou a atacar a ideia de que a realidade é subjetiva, espiritual ou mental. Afirmou que nenhuma boa razão tem sido dada para a doutrina de que não existe distinção entre a experiência e seus objetos, ou que o que nós percebemos não existe independentemente de nossa percepção. Em outras palavras, ele insistiu que objetos do conhecimento (incluindo proposições) existem independentemente de serem conhecidos. O conhecimento de alguma coisa, seja por meio da percepção ou do pensamento, é diferente do objeto que se conhece; é uma relação cognitiva exterior ao objeto do conhecimento. Em seus primeiros escritos, Moore evocou a noção de „análise‟ – ummétodo de fazer filosofia que iria ter grande influência sobre as próximas décadas. A análise não foi concebida, inicialmente, para ser da linguagem, mas de alguma coisa objetiva que é significada por expressões. Uma análise que se aplicasse estritamente a entidades linguísticas – como a decomposição de uma 9 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 expressão verbal em seus elementos simples constituintes, indicando-se sua ordenação – não teria, para ele, relevância filosófica, já que não envolve diretamente nenhuma determinação ou esclarecimento do significado da expressão. A análise linguística não é um fim em si mesma, mas um método através do qual conceitos são analisados e o significado das expressões determinados, produzindo-se assim um esclarecimento. A análise de um conceito seria a explicitação de seu significado, através de outra expressão equivalente que o torne mais claro, possibilitando um melhor entendimento de seu sentido e uma melhor determinação do objeto a que se aplica. Embora Moore não esclareça qual é sua concepção da natureza do conceito, de acordo com Hacker, fica claro que o conceito não é uma entidade mental, o que nos traria de volta ao idealismo que é rejeitado por ele. O conceito deve ser entendido como o conteúdo significativo das expressões verbais, ou seja, Moore tomou o conceito como sendo o significado de uma expressão – aquilo que a expressão substitui („stands for‟). Apesar de o conceito não se confundir com a expressão verbal, é necessário usar expressões verbais, através das quais o conceito se expressa, na análise. A concepção de Moore do método filosófico estava distante da orientação linguística que a filosofia assumiria subsequentemente. Para ele, o primeiro e mais importante problema da filosofia é dar uma descrição geral de todo o Universo, mencionando todas as coisas que sabemos estar nele, e como essas coisas se relacionam. Bertrand Russell (1872 – 1970) maneiras. Russell seguiu os passos de Moore na crítica ao Idealismo, substituindo esta doutrina, não pelo empirismo, mas pelo realismo platônico. Para Russell a realidade consistiria em uma pluralidade de itens externamente relacionados uns aos outros de múltiplas de 10 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 Ele aceitou a concepção referencialista de significado, a saber, que se uma expressão tem um significado, então deve haver alguma coisa que ela significa. Russell persuadiu-se que o caminho para a verdade em filosofia era a análise, sendo essa essencialmente a decomposição de coisas conceitualmente complexas (das quais o mundo supostamente consiste) em seus constituintes simples e não analisáveis. Dentro de pouco tempo, no entanto, Russell reformulou sua teoria (como fez ainda outras vezes). Até aquele momento, Russell, como Moore, acreditava que a expressão linguística de uma sentença era um meio transparente por meio do qual ver a real questão da reflexão filosófica – a saber, as proposições. Eram essas, seguindo seu ponto de vista, as portadoras de verdade e falsidade; e ele as concebia, assim como Moore, como objetos não linguísticos, independentes da mente, que contêm, não palavras, mas entidades objetivas. Sua teoria das descrições (1905), ao mostrar que a estrutura gramatical de uma expressão pode ocultar a verdadeira forma lógica da proposição expressa, gerou a possibilidade de um racha entre essas estruturas. Assim, seria necessário submeter as sentenças a uma análise lógica a fim de revelar ou tornar explícita a forma lógica oculta. Essa teoria surge da análise de expressões que não possuem uma referência ou denotação, e que, por não se referirem a nenhum objeto existente, não são nem verdadeiras nem falsas. Isso pode ser percebido no exemplo clássico da análise da sentença “O atual rei da França é careca”. Como não existe um rei da França, a sentença não pode ser verdadeira; mas dizer que é falsa implica dizer que o atual rei da França não é careca, o que não resolve o problema. Essa questão teve muitas implicações para sua concepção de análise filosófica, que se tornou um instrumento para descobrir a verdadeira forma lógica das proposições. Quando Russell começou a evocar a noção de que são fatos, ao invés de proposições, que compõem o mundo, ele distinguiu a forma gramatical de uma sentença da forma lógica do fato correspondente. Assim, argumentou que a primeira tarefa da filosofia é a investigação das formas lógicas dos fatos do mundo. A lógica e seu aparato técnico se tornaram ferramentas de análise, permitindo-nos penetrar nas características desviantes da gramática ordinária 11 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 para conseguir alcançar a verdadeira estrutura lógica das coisas, comum à linguagem e ao fato. A função da análise da linguagem seria, portanto, determinar os componentes últimos que constituem um fato na realidade. A análise revela a verdadeira forma da sentença, indicando como suas partes se articulam para formar o todo. Isso significa que o método de análise é também um procedimento de tradução de uma linguagem menos perfeita (a linguagem comum) – em que a forma gramatical oculta a forma lógica (a estrutura comum à sentença e ao fato) – para a linguagem lógica – que exibe a forma lógica de modo direto e explícito, dissipando possíveis dúvidas e mal-entendidos. Esse método supõe a existência de uma linguagem logicamente perfeita, que deve espelhar a forma lógica dos fatos e então revelar a estrutura lógica do mundo de maneira clara e correta, evitando equívocos e confusões. A teoria das descrições forçou Russell a conceder maior importância a investigação da linguagem e simbolismo do que fora dado até esse momento, ao menos porque revelou quão enganadora é a linguagem ordinária, se tomada como sendo um meio transparente através do qual investigar as formas das proposições (ou fatos). A força motriz da filosofia de Russell é o desejo de estabelecer uma rigorosa fundamentação para o conhecimento. Com esse intuito, defendeu o „método científico na filosofia‟. A filosofia, assim como a ciência, busca alcançar o conhecimento – uma compreensão teórica do mundo. Ela difere das outras ciências por sua generalidade e formalidade. Seu núcleo, a lógica, consiste de proposições completamente gerais, e fornece critérios para se justificar a determinação da relação verdadeira, correta, entre a linguagem e a realidade. Seu interesse deve ser naquilo que é verdade em qualquer mundo possível, independentemente dos fatos que só podem ser descobertos pela experiência sensível. Tanto Moore quanto Russell, em seus diferentes estilos de análise, inauguraram a filosofia analítica do século 20. No entanto, ambos os filósofos insistiram em enfatizar que sua análise era de fenômenos, e não da linguagem. Mesmo assim, os fundamentos que deixaram foram rapidamente adaptados a análise lógico-linguístico, assim que a „virada linguística‟ se deu na filosofia. 12 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 Gottlob Frege (1848 – 1925) Foi a obra de Frege que conferiu uma posição de destaque à linguagem, ao afirmar que é apenas através da análise da linguagem que podemos analisar o pensamento. A filosofia da linguagem seria, assim, o fundamento de toda outra filosofia. Frege pode ser considerado, nesse aspecto, o precursor da filosofia da linguagem de tradição analítica. É Frege, portanto, que estabelece que o objetivo da filosofiadeve ser a análise da estrutura do pensamento; e que o único método apropriado para efetuar essa análise é tornando explícitos os princípios que regulam nosso uso da linguagem. Frege rompe com a teoria kantiana em seu caráter subjetivista (ainda que transcendental) e em seu apelo à intuição pura na constituição do conhecimento. Assim, distingue o objeto do conhecimento e seu reconhecimento, afirmando que é o conteúdo objetivo da asserção que deve ser o objeto de investigação do lógico. A tarefa filosófica seria a investigação do pensamento como algo objetivo, impessoal e atemporal, e não como algo psicológico e subjetivo, como era característico das correntes idealistas. O princípio da investigação filosófica é a análise conceitual de definições, isto é, a análise do significado, e não de processos mentais, subjetivos. A análise do significado, por sua vez, depende de um modelo de como a linguagem funciona, da caracterização de sua estrutura. É dessa forma que passamos aqui a uma primazia da investigação lógica da linguagem. É a discussão de Frege do problema do significado que constitui um dos principais pontos de partida para o desenvolvimento da teoria semântica. Frege estabelece uma distinção fundamental entre o sentido (Sinn) e a referência (Bedeutung). A referência é o objeto designado, enquanto que o sentido é o modo de designar o objeto, de determinar a referência, ou seja, o modo pelo qual o objeto se apresenta. Duas expressões podem, portanto, ter a mesma referência e diferentes sentidos. 13 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 A Conceitografia (1879) de Frege toma como ponto de partida, como afirma Marcondes, a concepção de que as proposições com significado têm um conteúdo conceitual objetivo, e de que esse conteúdo não é adequadamente representado pela linguagem comum, devendo ser possível construir uma notação em que o conteúdo conceitual de qualquer proposição possa ser expresso de forma mais clara e adequada. A tarefa filosófica pode ser vista, então, como a determinação desse conteúdo objetivo a partir da crítica de sua expressão na linguagem comum e de sua tradução para uma linguagem lógica formal e depurada das imperfeições da linguagem comum. Segundo essa concepção, a análise filosófica se dá através de um processo de tradução de uma linguagem para a outra mais perfeita, em que os problemas da anterior são resolvidos. É a partir dessa concepção que se desenvolve a noção de análise lógica como descrição semântica da sentença capaz de distinguir na linguagem os elementos que refletem a estrutura do pensamento dos que não refletem. O projeto de formalização da linguagem Frege e Russell igualmente pensavam que as proposições lógicas são verdades perfeitamente gerais. De acordo com Frege, as „leis do pensamento‟ que a lógica investiga são generalizações sobre proposições, conteúdos julgáveis ou pensamentos. Uma proposição como “Chove ou não chove” é uma instância particular de uma lei lógica, mas não uma lei lógica em si. As leis da lógica governam tudo o que é pensável. Consequentemente a lógica é a ciência das leis mais gerais da verdade. Eles acreditavam que os axiomas primitivos da lógica são auto-evidentes, verdades indemonstráveis. O que é importante não é o fato de que pensamos de acordo com essas leis, mas o fato de que as coisas se comportam de acordo com elas. Em outras palavras, o fato de que quando pensamos de acordo com elas, pensamos verdadeiramente. Ambos os filósofos consideravam a linguagem natural logicamente defeituosa. A gramática ordinária é um guia falível para as estruturas reais que a lógica e filosofia devem investigar. A linguagem desenvolvida por Frege foi 14 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 concebida para revelar a verdadeira estrutura do pensamento, que a linguagem natural esconde. Todas as expressões em sua fórmula lógica são amplamente definidas, sendo impossível formar expressões sem referência ou sentenças expressando pensamentos sem valor de verdade. Russell, fiel ao atomismo metafísico e a correspondência entre a proposição verdadeira e o fato, afirma que, em uma linguagem perfeita, haverá uma palavra, e não mais, para cada objeto simples, e tudo que não é simples será expresso por uma combinação de palavras, derivada das palavras que se referem às coisas simples que formam o objeto complexo de que se trata. Uma linguagem desse tipo seria completamente analítica, deixando clara a estrutura lógica dos fatos afirmados ou negados. É evidente, afirma Hacker, que, apesar dos grandes avanços na formalização alcançada por Frege e Russell, havia muito pouco avanço na compreensão acerca da natureza da lógica e proposições da lógica. Foram essas questões que o jovem Wittgenstein confrontou na segunda década do século XX. A ANÁLISE WITTGENSTEINIANA DA LINGUAGEM A obra de Wittgenstein parece consolidar as intenções do movimento analítico: a rejeição ao idealismo e ao psicologismo, e a escolha do tema da linguagem como central para a reflexão filosófica. No entanto, o trabalho do filósofo reformula muitos pontos da discussão que vinha sendo travada no interior da filosofia analítica. Enquanto a filosofia da primeira fase da obra de Wittgenstein, representada pelo Tractatus Logico-philosophicus, ainda se aproxima bastante das ideias centrais de Russell e Frege, a segunda fase de sua obra, representada pelos escritos posteriores a 1929, sobretudo pelas Investigações Filosóficas, apresenta uma nova concepção de método filosófico e de análise da linguagem. Enquanto antes a análise linguística se dava através de uma perspectiva semântico transcendental, a partir das Investigações essa perspectiva passa a ser pragmática, indicando a importância de se considerar a linguagem como um modo de comportamento social, devendo ser examinada 15 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 do ponto de vista de suas funções e efeitos que o contexto sócio-cultural lhe impõe. Como afirma Danilo Marcondes, agora a linguagem não é mais considerada tomando como base a forma lógica da proposição, a partir da qual se determina sua relação com o real, isto é, sua verdade ou falsidade. A noção de linguagem se dissolve em uma multiplicidade de “jogos de linguagem”, que se definem como um todo, consistindo do “conjunto da linguagem e das atividades com as quais está interligada”. A linguagem passa a ser entendida como ação, como sistemas de atos simbólicos, e não como representação mental ou sistema formal. “O termo „jogo de linguagem‟ deve aqui salientar que o falar da linguagem é uma parte de uma atividade ou de uma forma de vida”. Neste contexto, Wittgenstein produz uma transformação na discussão clássica da filosofia ao negar a existência de uma essência metafísica, apresentando a noção de “formas de vida” como o fundamento da linguagem, do pensamento e do significado. Assim, quando investigamos a linguagem, estamos igualmente investigando a realidade da qual falamos. Esta mudança na concepção de linguagem reflete-se também na concepção da tarefa da filosofia. Se desde o Tractatus Wittgenstein já afirmava que a filosofia não é um corpo doutrinário, mas uma atividade de elucidação, nas Investigações essa posição é radicalizada. A afirmação nas Investigações Filosóficas de que “a significação de uma palavra é seu uso na linguagem”, de que a linguagem “está em ordem tal como está”, ou que os problemas filosóficos “nascem quando a linguagem entra em férias”, procura pôr em evidência que a elucidação dos problemas filosóficos consistiria em“reconduzir as palavras do seu uso metafísico para seu uso cotidiano”, negando uma abordagem especulativa de um conceito, que consistiria em abstraí-lo do seu contexto de uso, isto é, isolá-lo das diferentes funções que pode exercer em atos comunicativos. É necessário examinar a linguagem a partir de seu uso, considerando os jogos de linguagem, suas regras, seu contexto. Os problemas filosóficos se originam, em grande parte, de uma consideração errônea, equivocada, da linguagem e de seu modo de funcionar. Assim, Wittgenstein defende que a filosofia deve apenas descrever a linguagem em seus contextos de uso, negando a formulação de uma teoria ideal da linguagem. Dessa forma a investigação filosófica se transforma numa análise gramatical, isto é, em uma 16 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 análise do conjunto de regras de uso de palavras que explica o significado de um termo nos diferentes jogos de linguagem de que participa. No §89 das Investigações, Wittgenstein afirma: “Mas não que devêssemos descobrir com isso novos fatos: é muito mais essencial para nossa investigação não querer aprender com ela nada de novo. Queremos compreender algo que já esteja diante de nossos olhos. Pois parecemos, em algum sentido, não compreender isto”. Delineado o contexto teórico em que se insere o pensamento de Wittgenstein, passemos agora a discutir mais detalhadamente algumas noções que assumem relevada importância em sua obra, apontando as transformações que desencadearam na análise da linguagem. Os Jogos de Linguagem O projeto de análise do uso das palavras e das frases na linguagem ordinária se consolida com o conceito de “jogos de linguagem”, que são sistemas de comunicação completos em si mesmos, com regras e propósitos que se justificam internamente. Descrevendo-se os diferentes jogos de linguagem em que é usada uma mesma expressão, isto é, descrevendo-se os diferentes atos comunicativos nos contextos sócio-culturais em que são realizados, elucida-se o sentido da expressão. A análise deste conceito permite uma melhor avaliação do novo método de análise linguística. Ao destacar a importância do sistema de referência, Wittgenstein renuncia à noção de objeto simples, central no Tractatus Logico-Philosophicus, bem como no atomismo lógico em geral. O que corresponde agora ao nome, e é imprescindível para que este tenha significação, é o sistema que é utilizado na linguagem em ligação com ele, e não uma referência supostamente fixada por alguma essência transcendental do objeto. Wittgenstein rompe com as concepções tradicionais da linguagem ao introduzir as noções de contexto e de ação do falante como relevantes para a determinação do sentido. Essa tese nega a ideia de uma relação essencial entre o signo e o objeto, justamente por aceitar que as expressões têm várias 17 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 funções determinadas pelos contextos de uso, e não apenas a função referencialista. Afirma: Quantas espécies de frases existem? Afirmação, pergunta e comando, talvez? – Há inúmeras de tais espécies: inúmeras espécies diferentes de emprego daquilo que chamamos de “signo”, “palavras”, “frases”. E essa pluralidade não é nada fixo, um dado para sempre; [...] É interessante comparar a multiplicidade das ferramentas da linguagem e seus modos de emprego, a multiplicidade das espécies de palavras e frases com aquilo que os lógicos disseram sobre a estrutura da linguagem. (E também o autor do Tractatus Lógico-philosophicus). Restringir as palavras de uma língua à função designativa significaria identificá-las ao papel dos substantivos nas linguagens naturais. Mas, evidentemente, nem todas as palavras designam objetos e mesmo quando não são designativas podem ser compreendidas, tendo, portanto, sentido. Afirma ainda que a exigência lógica da simplicidade do objeto exprime a necessidade de que a definição ostensiva25 associe à palavra uma característica essencial do objeto, abstraída de seus aspectos acidentais. Assim, a expressão supostamente denotaria aquilo que constitui o objeto, o que ele é, a sua essência. A crítica de Wittgenstein não consiste apenas em mostrar que a simplicidade é uma questão de contexto: que em certas circunstâncias um objeto pode ser considerado como simples e em outras como composto de partes mais elementares, mas em afirmar que a definição ostensiva pode ser sempre interpretada, o que significa que tal como a definição verbal, a definição ostensiva é ela também parte de um ato comunicativo onde os falantes desempenham papéis determinados e dominam uma linguagem, de tal maneira que atividades diferentes poderiam correlacionar uma mesma palavra com objetos diferentes. Wittgenstein considera que uma palavra em si mesma é morta, quem lhe dá vida é o uso. Isto significa que a palavra é um instrumento do ato comunicativo, uma ferramenta, e que só pode ser definida como palavra (e não apenas como sinal) pelo papel que exerce no ato comunicativo, dentro do 18 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 contexto geral em que a linguagem é usada, assim como as peças do xadrez, que não representam coisa alguma, só assumindo significação dentro das regras do jogo. O conceito de jogo não admite uma definição „traço por traço‟. Assim, não há qualquer conjunto de condições necessárias e suficientes para que uma atividade seja definida como jogo; teoricamente, o conceito pode ser indefinidamente estendido. Ademais, o objetivo do jogo permanece inteiramente interno a ele, não sendo determinado em nada pelo exterior. Chamamos de “jogos” determinadas atividades, não em virtude de um conjunto fixo de propriedades comuns, pois não existe nenhuma definição precisa de jogo, o que, no entanto, não nos impede de compreender ou explicar o que é “jogo”. O que faz diversas atividades serem chamadas de “jogos” é uma rede de semelhanças variadas, comparáveis às que observamos entre os membros de uma família. Explicar o que é um jogo é antes de tudo dar exemplos, isto é, descrever jogos, depois construir outros por analogia com eles, para mostrar o que deve ser excluído da família dos jogos. “Os jogos de linguagem figuram muito mais como objetos de comparação, que, através de semelhanças e dissemelhanças, devem lançar luz sobre as relações de nossa linguagem”. Os exemplos usados para explicar “jogo” são paradigmáticos, isto é, “centros de variações”. Mas mesmo que não tenha limites nítidos, o conceito de jogo não deixa de ter unidade. Sua extensão não é rigidamente demarcada. A explicação envolve o uso de paradigmas, sem que se precise especificar o grau de semelhança com eles. Se em certos casos é possível circunscrever o conceito de jogo, a localização dessa fronteira é determinada apenas pelo objetivo momentâneo. Formas de Vida Nas Investigações Filosóficas, Wittgenstein procura precisar o conceito de jogos de linguagem através do conceito “formas de vida”. Coloca: “o termo “jogo de linguagem” deve aqui salientar que o falar da linguagem é parte de uma atividade ou de uma forma de vida”. 19 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 Se a expressão “jogos de linguagem” denomina uma família de atos comunicativos completos, e os atos linguísticos a unidade básica da comunicação linguística, é também verdade que, para Wittgenstein, é o modo de agir humano, a prática histórico-social, que especifica e identifica os atos comunicativos. Torna-se evidente,então, que o conceito de formas de vida remete a análise do falar à análise do agir. Em outras palavras, compreende o dizer através do fazer. Assim como as palavras derivam seu significado de seu contexto linguístico, os jogos de linguagem derivam seu significado das formas de vida. Nossos conceitos e jogos de linguagem são dependentes do mundo, mas eles não são diretamente produtos do mundo, mas de nossas vidas conduzidas no mundo. Os significados das palavras não são determinados pelos objetos aos quais eles se referem, pelas imagens mentais que eles evocam, mas pelos jogos de linguagem em que são usados, e estes, por sua vez, são manifestações de uma forma de vida. As regras da linguagem, como as de um jogo de xadrez, são regras autônomas. São arbitrárias, no sentido que não levam em conta uma pretensa essência ou forma da realidade, não podendo ser vistas como corretas ou incorretas de um modo filosoficamente relevante, mas alterá-las equivaleria a mudar o jogo. Afirmar que a linguagem é autônoma não é o mesmo que dizer que é facilmente alterável ou uma simples escolha individual. A linguagem está imersa numa forma de vida, estando, portanto, sujeita as mesmas restrições a que se sujeitam as atividades humanas em geral. Nossos jogos de linguagem e regras não repousam na vontade humana ou em escolhas individuais. As regras são conectadas com circunstâncias que justificam seu uso, com práticas e comportamentos de uma comunidade linguística. Na linguagem que usam, os homens estão de acordo, diz ainda Wittgenstein. Não é um acordo sobre os instrumentos e nem sobre os usos destes instrumentos; se há um acordo sobre a linguagem é porque há um acordo sobre a forma de vida. “Correto e falso é o que os homens dizem; e na linguagem os homens estão de acordo. Não é um acordo sobre as opiniões, mas sobre o modo de vida”. 20 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 A visão unitária da linguagem, própria do Tractatus, foi, a partir de então, ultrapassada. Essa pretensa linguagem unitária fragmenta-se em inúmeros sistemas, os “jogos de linguagem”. Mas esses sistemas linguísticos estão firmados sobre algo mais fundamental – um contexto humano ou uma forma de vida particular, que delimita a aplicação e interpretação de regras. Nós somos constrangidos não por uma forma lógica, mas por nossa “forma de vida”. Essa imagem repudia a ideia de uma única forma necessária de linguagem e introduz a ideia de muitas e variadas unidades de sentido inter-relacionadas, inseridas em um contexto de vida mais amplo. O falar passa a ser visto como uma prática social entre outras, abordável do ponto de vista antropológico. Fragmentada em jogos múltiplos, a linguagem não perde por isso sua unidade. Não mais aquela conferida pela essência, pela posse comum de um conjunto fixo de propriedades; trata-se agora da unidade de uma família de jogos de linguagem, ligados entre si por “semelhanças de família”, sem que se possa encontrar casos comuns a todos. Portanto, compreender o funcionamento da linguagem é compreendê-la como um conjunto de diferentes ações comunicativas que têm entre si “semelhanças de família”. Gramática Falar uma língua é tomar parte em uma atividade guiada por regras. Compreender uma linguagem envolve dominar as técnicas de aplicação de suas regras. A própria noção de linguagem implica a presença de uma forma gramatical, de regras através das quais palavras são conectadas, umas às outras, num sistema. Wittgenstein reconhece, portanto, a importância dessa forma gramatical na determinação do significado. Hacker, de forma esclarecedora, justapõe a concepção de Wittgenstein de gramática com sua concepção anterior de sintaxe lógica. De acordo com o Tractatus, linguagens ordinárias podem variar superficialmente, mas ocultam uma uniformidade latente, que se torna manifesta através da análise lógica. A análise traz à tona as regras essenciais de qualquer linguagem 21 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 possível. Há somente uma lógica “que abrange tudo e espelha o mundo”42, comum a todos os sistemas linguísticos capazes de afigurar a realidade. Muitas dessas regras da sintaxe lógica estão escondidas da visão. Elas não são evidentes no uso comum da linguagem, na qual expressões logicamente diferentes parecem enganosamente uniformes. Elas não são usadas nas atividades pedagógicas diárias – usadas para explicar como aderir corretamente às práticas que governam. Não são citadas para justificar o uso de expressões ou para criticar ou corrigir maus usos. As regras latentes de qualquer linguagem possível são sempre seguidas pelos falantes, mesmo se eles não são capazes de dizer o que elas são ou empregá-las como normas de correção para a avaliação do uso de expressões. De qualquer forma, no Tractatus, essas regras são absolutamente determinadas, pois são elas que, juntas com a atribuição de significados aos nomes simples, estabelecem o sentido das proposições. Elas não são usadas em atividades pedagógicas, mas funcionam como instrumento de garantia do discurso, impedindo que a „denotação‟ extrapole seus limites. A distinção entre sentido e não-sentido era concebida como sendo independente do contexto e propósito, estabelecido de uma vez por todas. A gramática, diferente da sintaxe lógica, não é universal, não consiste de regras que necessariamente sublinham qualquer linguagem possível – diferentes linguagens possuem diferentes gramáticas. A gramática de uma linguagem consiste de regras para o uso correto43 de expressões daquela linguagem. Regras da gramática são abertas à visão, e não ocultas como o são as regras da sintaxe lógica como concebidas no Tractatus. As „regras da gramática‟ são explicitas na maneira como uma linguagem é ensinada, em explicações dadas pelos falantes sobre o significado das palavras, na maneira como eles criticam e corrigem maus usos da linguagem, nas justificativas dadas para usar uma palavra de uma maneira ou de outra. “„Hidden rules‟ are not rules at all”, já que não podem ser usadas pelos falantes como regras, não podem desempenhar o papel de padrões de correção, guias para conduta, ou justificativas para empregar expressões. Dar o significado de uma palavra é especificar sua gramática. 22 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 O sentido de uma proposição é determinado por seu lugar no sistema gramatical, no sentido de que este determina suas relações lógicas com outras proposições [...]. A gramática de uma língua é o sistema global de regras gramaticais, das regras constitutivas que a definem, pela determinação daquilo que faz sentido dizer ao usá-la. A gramática filosófica não lida com regras especiais. Wittgenstein não buscou ampliar o conceito de gramática, ou mesmo introduzir um conceito diferente, mas sim indicar que existem dois tipos de interesse nas regras de uma linguagem. O interesse do filósofo na gramática é guiado pelo propósito de elucidar problemas filosóficos. Esses problemas derivam da má compreensão e mau uso da linguagem, e são clarificados e resolvidos apontando as formas pelas quais as expressões são mal utilizadas, questões ilegítimas formuladas, regras de linguagem violadas. Mas essas regras não são aquelas que interessam ao gramático; são primeiramente explicações do significado, e não regras sintáticas sobre as quais os gramáticos tendem a focar. Da mesma maneira, Wittgenstein não estava buscando estender o conceito de regras. Para Wittgenstein algo conta como uma regra da gramática, não se possui uma determinada forma (ex. uma determinadaforma de generalidade), mas se é usada de uma determinada maneira (ex. como um guia de conduta, explicando ou justificando ações, como um padrão de correção, etc.). O estatuto lógico de uma sentença não se deve à sua forma linguística, mas sim ao modo como ela é utilizada, podendo, portanto, alterar- se. Como afirma Hacker, depois de Platão, filósofos passaram a aceitar como explicação correta apenas aquela que captura a essência do explicandum em uma definição formal, dando as condições necessárias para a aplicação de uma expressão. Mas este seria, de acordo com Wittgenstein, um ideal equivocado, dado que nem todos os nossos conceitos são completamente definidos, preparados para todas as ocasiões possíveis, e eles não deixam de desempenhar sua função por isso. “We don‟t have to apply them in all conceivable eventualities but only in actual ones. If a rule for the use of an expression provides a standard for its correct use in normal 23 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 circumstances, than it has fulfilled its function”. Os conceitos são regras de aplicação de palavras de acordo com a gramática, e uma regra só pode ser julgada como adequada ou não dentro de um contexto. Se uma regra exerceu com sucesso seu papel na prática, está em ordem. Se essas condições de normalidade mudam, então as definições formais e explicações do significado de palavras podem se tornar obsoletas. As regras gramaticais surgem da práxis da linguagem. Mas, - questiona Wittgenstein – “um conceito impreciso é realmente um conceito?”, e também “não é a imagem pouco nítida justamente aquela de que, com frequência, precisamos?”. E mais à frente: Mas é absurdo dizer: „pare mais ou menos aqui!? Imagine que eu esteja com alguém numa praça e diga isso. Dizendo isso, não irei traçar um limite qualquer, mas farei com a mão um movimento indicativo – como se lhe mostrasse um determinado ponto. (...) A exemplificação não é aqui um meio indireto de elucidação, - na falta de outro melhor. Pois toda elucidação geral pode também ser mal compreendida. Exemplos, da mesma forma que definições ostensivas e explicações por meio de uma paráfrase contextual são explicações de significado perfeitamente legítimas. Todas são corretas e adequadas pois desempenham o papel de padrões de uso correto na prática de usar a linguagem. A gramática abrange todas as regras para o uso de palavras, e todas as explicações de significado, incluindo definições ostensivas. Wittgenstein distingue a “gramática profunda” da “gramática superficial” das palavras. Como afirma no §664 das Investigações: “poder-se-ia distinguir, no uso de uma palavra, uma „gramática superficial‟ de uma „gramática profunda‟. Aquilo que se impregna diretamente em nós, pelo uso de uma palavra, é o seu modo de emprego na construção da frase; a parte de seu uso – poderíamos dizer – que se pode apreender com o ouvido”. Esta última, isto é, as características imediatamente evidentes das palavras, seus aspectos superficiais, não deve ser objeto do filósofo, mas sim dos linguistas, uma vez que é essa a gramática responsável pela construção da frase de modo correto. A gramática de superfície (a estrutura sentencial) do enunciado “Eu estou com dor” é igual à do enunciado “Eu estou com um alfinete” (...). Suas 24 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 gramáticas profundas, entretanto, são completamente diferentes: as palavras possuem possibilidades combinatórias diversas, e as proposições constituem lances diferentes no jogo de linguagem, possuindo relações e articulações lógicas distintas”. A gramática profunda revela as diferentes espécies de uso das expressões, e é nela que o filósofo deve se concentrar. Ela é um instrumento que nos permite verificar a pluralidade dos usos das palavras e as diversas formações de proposições, permitindo-nos analisar os diversos modos do discurso. Esta distinção entre gramática profunda e superficial não indica, contudo, um contraste entre níveis diferentes de regras gramaticais. A ideia de profundidade sugere, enganosamente, como afirma Glock, que a gramática profunda é descoberta por meio da análise lógica, como no Tractatus, ou por meio da análise linguística como concebida por Chomsky. Estamos na ilusão de que o especial, o profundo, o essencial (para nós) de nossa investigação residiria no fato de que ela tenta compreender a essência incomparável da linguagem. Isto é, a ordem que existe entre os conceitos de frase, palavra, conclusão, verdade, experiência etc. Esta ordem é uma super ordem entre – por assim dizer – superconceitos. Enquanto as palavras “linguagem”, experiência”, “mundo”, se têm um emprego, devem ter um tão humilde quanto as palavras “mesa”, “lâmpada”, “porta”.” O contraste não se dá entre a superfície e a “geologia” das expressões, como era o caso no Tractatus, que propunha alcançar um ponto de vista lógico correto escavando sob as aparências da linguagem para descobrir sua estrutura latente. O contraste se dá “entre as cercanias locais, que podem ser apreendidas em um lance de olhos, e a geografia geral, isto é, o uso geral de uma expressão.” Não se trata, portanto, de uma investigação “geológica”, mas sim “topográfica”. Wittgenstein afirmou ainda que, assim como as violações corriqueiras da gramática, as proposições metafísicas são absurdas, pois não existem regras metalógicas ou conceitos logicamente mais fundamentais do que outros. A gramática é plana. Não existem “superconceitos”, pois todos os conceitos têm valores comuns, isto é, adquirem valor na medida em que são usados 25 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 dentro dos jogos de linguagem. Não existe uma separação entre linguagem e metalinguagem, enquanto uma super-ordem que garantiria a regulação da linguagem, constituindo sua essência. A gramática não se desvincula do próprio uso linguístico que regula. Não se trata de compreender a gramática profunda como um instrumento de normatização do discurso, o que se pretendia com o logicismo Tractatiano. Não se trata de corrigir a linguagem cotidiana através da gramática profunda como se ela fosse o parâmetro de uma linguagem ideal. Nas Investigações não existem conceitos privilegiados que possam servir de parâmetros para algum tipo de aferição. Com efeito, as Investigações eliminam essa concepção de uma “norma”, “ordem” ou “essência” de determinada parte da linguagem que sirva de parâmetro para toda linguagem. Ao refletir sobre nosso uso da linguagem, devemos nos ater ao que é chamado uma explicação do significado de uma expressão e resistir às tentações de um falso ideal de explicação. Não há uma linguagem ideal, desprovida de equívocos. “Se acreditamos que devemos encontrar aquela ordem, a ideal, na linguagem real, ficaremos insatisfeitos com aquilo que na vida quotidiana se chama “frase”, “palavra”, “signo”.” . Sendo assim, a explicação das regras gramaticais não constitui apenas uma tarefa secundária para a filosofia. “A essência está expressa na gramática”; “que espécie de objeto alguma coisa é, é dito pela gramática”, uma vez que especifica o que pode ser dito com sentido sobre ele. “Não analisamos um fenômeno (por exemplo, o pensar), mas um conceito (por exemplo, o do pensar), e portanto o emprego de uma palavra.”. As investigações empíricas quanto à natureza física ou matéria X pressupõem a gramática de „X‟, uma vez que essa última determina o que pode contar como X. A resposta à pergunta socrática “O que é X?” não nos é dada pelo exame de essências (objetos mentais ou abstratos), mas pelo esclarecimentodo significado de “X”, que é fornecido pelas regras de uso do termo “X”. A busca por essências, tarefa que perpassou toda a História da Filosofia, é então substituída pela investigação gramatical, por uma tentativa de entender 26 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 “como” a linguagem funciona. O que interessa é compreender os diversos “usos” da linguagem. LINGUAGEM E MUNDO: A REALIDADE COMO SOMBRA DA GRAMÁTICA Vimos, portanto, que Wittgenstein mudou radicalmente a maneira de conceber as regras que regem a nossa linguagem. Essa mudança recoloca a problemática da relação entre linguagem e mundo, questão que perpassa toda a obra do autor. No Tractatus, Wittgenstein afirma que a estrutura da linguagem espelha a estrutura da realidade, refletindo a relação entre as coisas no mundo. Qualquer linguagem capaz de descrever a realidade deve ser governada pela sintaxe lógica, cujas regras devem corresponder aos traços estruturais da realidade: a forma lógica dos nomes deve espelhar a essência dos objetos aos quais correspondem. Afirma: “Especificar a essência da proposição significa especificar a essência de toda descrição e, portanto, a essência do mundo” Nas Investigações Filosóficas a ideia de um isomorfismo entre linguagem e realidade ganha outro sentido. Não sugere mais que a linguagem deve espelhar a forma lógica do universo, mas sim que a aparente „estrutura da realidade‟ não passa de uma sombra projetada pela gramática. A linguagem deixa de ter a função exclusiva de representação biunívoca. O que faz sentido em um sistema de linguagem dado, “o que é (logicamente) dito possível e o que não é”61, depende do que nossa gramática autoriza, e não de um acordo com uma „estrutura do mundo‟. A gramática constitui nossa forma de representação, estabelece o que pode contar como uma descrição inteligível da realidade, mas não é diretamente controlada por essa realidade. De acordo com essa nova concepção, a gramática é autônoma e autocontida, posto que não precisa “prestar contas” à realidade extralinguística para se legitimar. Essa concepção abre espaço para a possibilidade de existirem diferentes gramáticas. Ao negar o isomorfismo entre o fato e a proposição com base na adequação entre o objeto e o nome, ou entre a essência do mundo e seu 27 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 representante na linguagem, Wittgenstein desmonta a concepção denotacionista de linguagem. A crítica ao modelo metafísico de explicação da linguagem se relaciona a uma nova concepção de explicação do significado. É o uso que constitui a significação, e não a denotação de objetos. Assim, existindo uma multiplicidade usos, existe uma multiplicidade de significações. A questão da relação entre linguagem e o mundo, quando formulada com uma pretensão de validade universal, torna-se ociosa com a noção de autonomia da gramática. Isso porque toda mudança operada nas regras de uso de uma expressão será também uma mudança de significação. A significação, enquanto uso, muda de acordo com o jogo de linguagem. Assim, é a partir da noção de regras de uso que o problema da harmonia entre linguagem e realidade aparece no segundo Wittgenstein. A questão poderia tornar-se então: „Como se dá a relação entre as regras que regem um jogo de linguagem e as atividades com as quais está interligada?‟, ou „Como uma regra se relaciona com sua aplicação?‟, ou ainda, „Como se dá o acordo entre uma explicação de uso e esse uso propriamente dito?‟. Mas dentro do jogo de linguagem particular, a relação entre uma regra gramatical e o que está de acordo com ela é algo sem mistérios. O problema só surge quando abstraímos as palavras de seu contexto, quando tentamos estabelecer uma relação que se aplique a todas as situações, quando buscamos formular uma teoria sobre essa relação. Se investigarmos os casos em que as expressões aparecem inseridas em seu contexto, a relação e aplicação não serão problemáticas, mas dadas pelo próprio contexto. Uma relação entre duas coisas não se dá porque elas possuem algo em comum, mas porque nós selecionamos um critério para estabelecer essa relação. Uma matéria possui inúmeras propriedades que poderiam ser utilizadas como critério para definir diferentes conceitos. A escolha desses critérios, portanto, não se deve a uma correspondência com a realidade, mesmo que leve em consideração a maior ou menor utilidade, o maior ou menor poder explanatório. A gramática não está sujeita á refutação empírica. “As convenções gramaticais não podem ser justificadas descrevendo-se o que é representado. Qualquer descrição desse tipo já pressupõe as regras gramaticais. (...) Não se pode usar a linguagem para ir além daquilo que é possível comprovar”. Não 28 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 dispomos de um ponto de vista exterior à gramática, extralinguístico ou pré- conceitual, a partir do qual poderíamos justificar nosso sistema gramatical. Dessa forma, para o segundo Wittgenstein, não podemos fundamentar filosoficamente a linguagem. Não existe uma essência oculta que possa servir de fundamento ontológico para nossa linguagem. As essências metafísicas são meras ilusões que enfeitiçam nosso entendimento, são apenas „sombras‟ da gramática. Cabe, portanto, à filosofia, apenas descrever os usos das palavras, e não postular teorias para fundamentar esses usos. Wittgenstein afirma: “A filosofia não deve, de modo algum, tocar no uso efetivo da linguagem; em último caso, pode apenas descrevê-lo. Pois também não pode fundamentá-lo. A filosofia deixa tudo como está”. E depois: “A filosofia simplesmente coloca as coisas, não elucida nada e não conclui nada. – Como tudo fica em aberto, não há nada a elucidar. Pois o que está oculto não nos interessa. Pode-se chamar também de „filosofia‟ o que é possível antes de todas as novas descobertas e invenções”. Dentro dessa perspectiva, os problemas filosóficos são como malentendidos gramaticais. Surgem, principalmente, quando confundimos nossa gramática profunda com a gramática de superfície, formando „falsas analogias‟. Para „dissolver‟ esses problemas, devemos adotar um método terapêutico de análise da linguagem para que possamos compreender como ela funciona e reconduzir as palavras para seu uso cotidiano. Wittgenstein assegura: Quando os filósofos usam uma palavra – “saber”, “ser”, “objeto”, “eu”, “proposição”, “nome” – e procuram apreender a essência da coisa, deve-se sempre perguntar: essa palavra é usada de fato desse modo na língua em que existe? – Nós reconduzimos as palavras do seu emprego metafísico para seu emprego cotidiano. Alguns filósofos, como salientou Stegmuller - “entre eles também Bertrand Russell – objetaram contra a filosofia da segunda fase de Wittgenstein, afirmando que este, de repente, estaria dividindo completamente a conexão entre linguagem e realidade‟; que não estaria mais se preocupando com esclarecer a questão de como a linguagem „se refere ao mundo real‟”. No entanto, é somente quando concebemos uma imagem metafísica do 29 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 “mundo real” separada da linguagem que o problema da relação entre eles aparece. De acordo com Wittgenstein, o que precisamos é dirigir nossa atenção para a maneira como essas expressões são usadas cotidianamente. O que devemos é investigar esses usos, e não propor teorias para responder a um falso problema. Ao verificarmos os usos das palavras „real‟ ou „realidade‟ dentro do jogo delinguagem em que estão sendo proferidas, constataremos que a aplicação se dá sem problemas ou ambiguidades. Assim, ao negar a existência de uma lógica como condição transcendental de possibilidade de representação do mundo pela linguagem, e, consequentemente, invalidar a ideia de que a linguagem deve ser um „quadro‟ da realidade, Wittgenstein torna a questão da simetria entre linguagem e mundo sem sentido. Ao adotar uma perspectiva pragmática essa questão passa a ser um falso problema. A dissolução do problema não implica na negação de que ao fazermos afirmações estamos realmente fazendo afirmações sobre as coisas no mundo. Mas implica na negação de uma lógica, externa à linguagem e ao mundo, que garanta uma relação biunívoca entre nomes e objetos simples, ou entre predicados e propriedades. Essa lógica só pode ser pensada como derivada do uso da linguagem na prática, do uso comum no interior de uma forma de vida. A lógica não mais representa uma „ordem a priori‟. Ela está expressa na gramática de nossos múltiplos jogos de linguagem. Condé afirma: “Se há uma relação entre a linguagem e o mundo, ela ocorre no jogo de linguagem, pois ele [o mundo], enquanto um conjunto de ações e usos de palavras, e, portanto, significações no interior de uma forma de vida, não privilegia conceitos (“Não há superconceitos”, I.F.§97). A realidade não é mais um superconceito fundamentado metafisicamente, mas simplesmente algo dado nas formas de vida.” É nossa forma de vida que constitui o fim da cadeia de razões, o fundamento último. Assim, como afirma Marcondes, quando investigamos a linguagem estamos ao mesmo tempo investigando a sociedade da qual ela é linguagem, o contexto social e cultural na qual é usada, as práticas sociais, os paradigmas e valores, a “racionalidade” desta comunidade. Não há, portanto, uma separação radical entre “linguagem” e “mundo”, já que a “realidade” é constituída pelo modo 30 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 como usamos a linguagem. Para Peter Winch, nossa ideia do que pertence ao domínio da realidade nos é dada pela linguagem que usamos. Os conceitos que temos estabelecem para nós a forma da experiência que temos do mundo. “O mundo é para nós o que se apresenta através desses conceitos. Isto não quer dizer que os nossos conceitos não possam mudar; mas quando mudam, isto quer dizer que o nosso conceito do mundo também mudou”. SUPERAÇÃO DA METAFÍSICA PELA ANÁLISE LÓGICA DA LINGUAGEM O significado de uma palavra Se uma palavra (em uma linguagem determinada) tem um significado, costuma-se também dizer que ela designa um “conceito”; se uma palavra parece ter um significado, mas na verdade não tem, falamos de um “pseudoconceito”. Como explicar o surgimento de um pseudoconceito? Não é verdade que cada palavra foi introduzida em uma linguagem apenas para exprimir algo determinado, de tal modo que desde sua primeira utilização ela tinha um significado determinado? Como pode haver palavras sem significado nas línguas tradicionais? Originalmente, toda palavra (desconsiderando algumas poucas exceções, das quais daremos exemplos posteriormente) tem um significado. No curso do desenvolvimento histórico, uma palavra muda frequentemente de significado. E acontece inclusive de uma palavra perder seu antigo significado, sem ganhar um novo. Desse modo, surge um pseudoconceito. Em que consiste, afinal, o significado de uma palavra? Quais estipulações devem ser feitas no que diz respeito a uma palavra para que ela tenha um significado? (Não importa para nossas considerações se essas estipulações são enunciadas explicitamente, como no caso de algumas palavras e símbolos da ciência moderna, ou se são admitidas tacitamente, como acontece no caso da maior parte das palavras das línguas tradicionais). Em primeiro lugar, a sintaxe da palavra precisa ser fixada, isto é, o modo de ocorrência na forma proposicional mais simples em que ela pode aparecer; chamamos essa forma proposicional de proposição elementar. A forma proposicional elementar da palavra “pedra” é, por exemplo, “x é uma pedra”; nas proposições com essa forma, há no lugar de 31 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 “x” qualquer designação pertencente à categoria das coisas, por exemplo, “este diamante”, “esta maçã”. Em segundo lugar, no que concerne à proposição elementar P com a respectiva palavra, é preciso dar uma resposta à seguinte questão, que pode ser formulada de diferentes maneiras: 1. De que proposição P é dedutível, e quais proposições são dedutíveis de P? 2. Sob quais condições P deve ser verdadeira e sob quais condições, falsa? 3. Como se deve verificar P? 4. Qual é o sentido de P? (1) é a formulação correta; a formulação (2) corresponde ao jargão da lógica; (3) corresponde ao jargão da teoria do conhecimento; (4) corresponde ao jargão da filosofia (fenomenologia). Wittgenstein declarou que aquilo que os filósofos querem dizer com (4) é apreendido por (2): o sentido de uma proposição reside em seu critério de verdade. [(1) é a formulação “metalógica”; uma exposição mais detalhada da metalógica como teoria da sintaxe e do sentido será feita à frente]. No caso de muitas palavras, inclusive no caso da imensa maioria das palavras da ciência, é possível especificar o significado de uma palavra recorrendo a outras palavras (“constituição”, definição). Por exemplo, “„Artrópodes‟ são animais com corpos articulados invertebrados, membros articulados e um exoesqueleto de quitina”. Através disso, está respondida a questão mencionada para a forma proposicional elementar da palavra “artrópode”, a saber, para a forma proposicional “a coisa x é um artrópode”; por meio disso, determina-se que uma proposição com essa forma deve ser dedutível das premissas da forma “x é um animal”, “x é invertebrado”, “x tem membros articulados”, “x tem um exoesqueleto de quitina”, e que, inversamente, todas estas proposições devem ser dedutíveis daquela proposição. Por meio dessa determinação da dedutibilidade (em outras palavras: do critério de verdade, do método de verificação, do sentido) da proposição elementar sobre “artrópode”, o significado da palavra “artrópode” é fixado. Desse modo, cada palavra da linguagem é reduzida a outras palavras e, em última instância, às palavras que ocorrem nas assim chamadas “proposições observacionais” ou 32 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 “proposições protocolares”. A palavra recebe seu significado por meio dessa redução. A questão acerca do conteúdo e da forma das primeiras proposições (proposições protocolares), que ainda não teve nenhuma resposta definitiva, pode ser deixada de lado em nossa discussão. Costuma-se falar na teoria do conhecimento que as primeiras proposições se referem ao “dado”; mas não há nenhum acordo sobre o que se deve considerar como sendo o dado. Às vezes, defende-se a concepção segundo a qual as proposições sobre o dado falam das qualidades sensoriais e afetivas mais simples (por exemplo, “quente”, “azul”, “felicidade” etc.); outros se inclinam para a concepção segundo a qual as primeiras proposições falam de vivências totais e relações de similaridade entre elas; segundo outra concepção, as primeiras proposições falam também de coisas. Independentemente da diversidade destas concepções, é certo que uma sequência de palavras tem um sentido apenas se suas relações de dedução são estipuladas a partir de proposições protocolares, seja esta ou aquela a natureza destas proposições protocolares; do mesmo modo que uma palavra tem um significado apenas se asproposições em que ela pode ocorrer são redutíveis a proposições protocolares. Uma vez que o significado de uma palavra é determinado por seu critério (dito de outro modo: pelas relações de dedução de sua proposição elementar, por suas condições de verdade, pelo método de sua verificação), depois de estipulado o critério já não há mais margem para se definir o que se “quer dizer” com a palavra. Não é preciso fornecer nada menos que o critério para que uma palavra obtenha um significado preciso; mas não se pode fornecer nada mais que o critério, pois todo o resto é determinado por ele. O significado está contido implicitamente no critério; resta apenas torná-lo explícito. Suponhamos, a título de exemplo, que alguém invente a palavra “babigo” e afirme haver coisas que são babigas e coisas que não o são. Para apreender o significado dessa palavra, colocamos a questão acerca do critério: como se determina, em casos concretos, se uma coisa é babiga ou não? Suporemos inicialmente que aquele que é questionado não tem uma reposta; ele diz que não há nenhuma característica empírica para a babiguidade. Neste caso, nós não permitiremos o emprego dessa palavra. Se aquele que utiliza a palavra, no 33 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 entanto, diz haver coisas que são babigas e coisas que não são, permanece um mistério eterno ao pobre e finito entendimento humano saber quais coisas são babigas e quais coisas não o são, de modo que consideramos isso um discurso vazio. Mas talvez ele queira nos assegurar que quer dizer algo com a palavra “babigo”. Com isso, apenas tomamos conhecimento do fato psicológico de que ele associa representações e sentimentos quaisquer à palavra. Mas uma palavra não ganha um significado desse modo. Não se estipulou nenhum critério para a nova palavra, de tal modo que as proposições em que ela ocorre não dizem nada, sendo meras pseudoproposições. Em segundo lugar, suponhamos o caso em que há o critério para uma nova palavra, por exemplo, “bebigo”; e que a proposição, “Isto é bebigo” é verdadeira se, e somente se, a coisa é quadrada. (Não importa para nossas considerações se esse critério é proposto explicitamente ou se o estipulamos observando em quais casos a palavra é utilizada afirmativamente e em quais casos ela é utilizada negativamente). Diríamos aqui: a palavra “bebigo” tem o mesmo significado da palavra “quadrado”. E nós não permitiremos que aqueles que a utilizam “queiram dizer” algo diferente de “quadrado”; toda coisa quadrada também é, decerto, bebigo, mas isso repousa no fato de que a quadridade é a expressão visível da bebiguidade, e esta é uma propriedade oculta, não perceptível. Nós retrucaríamos que, uma vez estipulado o critério, está estipulado que “bebigo” significa “quadrado” e que já não há liberdade para se “querer dizer” isto ou aquilo com a palavra. Resumamos brevemente nossas considerações. Seja “a” uma palavra qualquer e “S(a)” a proposição elementar em que ela aparece. A condição necessária e suficiente para que “a” tenha um significado pode ser dada pelas seguintes fórmulas, que no fundo dizem a mesma coisa: As características empíricas de “a” são conhecidas. 1. Estipulou-se de quais proposições elementares “S(a)” pode ser deduzida. 2. As condições de verdade de “S(a)” foram estipuladas. 3. O método de verificação de “S(a)” é conhecido. PALAVRAS METAFÍSICAS SEM SIGNIFICADO 34 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 Fica patente, pois, que muitas palavras metafísicas não cumprem as condições fornecidas acima, de tal modo que não têm significado. Tomemos como exemplo o termo metafísico “princípio” (enquanto princípio do ser, não enquanto princípio do conhecimento ou axioma). Diferentes metafísicos responderam à pergunta sobre o que seria o “princípio (supremo) do mundo” (ou “das coisas”, “do ser”, “do ente”), por exemplo: a água, o número, a forma, o movimento, a vida, o espírito, a ideia, o inconsciente, a atividade, o bem etc. Para descobrir o significado que a palavra “princípio” tem nessas questões metafísicas, devemos perguntar aos metafísicos sob quais condições a proposição da forma “x é o princípio de y” deve ser verdadeira e sob quais condições ela deve ser falsa; em outras palavras, perguntamos pela nota característica ou pela definição da palavra “princípio”. O metafísico responde mais ou menos da seguinte forma: “x é o princípio de y” deve significar “y surge de x”, “o ser de y reside no ser de x”, “y existe por causa de x” etc. Essas palavras, porém, são ambíguas e indeterminadas. Elas geralmente têm um significado claro; por exemplo, nós dizemos de uma coisa ou de um evento y que ele “surge” de x se observamos que coisas ou eventos do tipo y frequentemente ou sempre se seguem daquelas do tipo x (relação causal no sentido de sucessão regular). Mas o metafísico nos diz que não fala dessa relação empírica constatável; caso contrário, suas teses metafísicas seriam simples proposições empíricas do mesmo tipo que as da física. A palavra “surgir” não deve ter aqui o significado de uma relação de sucessão temporal e condicional que ela normalmente tem. No entanto, nenhum critério para outro significado é fornecido. Consequentemente, não existe de maneira alguma o suposto significado “metafísico” que a palavra deveria ter por oposição ao significado empírico. Se pensarmos no significado original da palavra “princípio” (e da palavra grega correspondente “ἀρχή”), notamos o mesmo processo de desenvolvimento. A palavra é destituída explicitamente do significado original de “início”; ela já não deve significar o que é primordial no tempo, mas o que é primordial sob outra perspectiva, especificamente metafísica. Os critérios para essa “perspectiva metafísica” não são fornecidos. Nos dois casos, a palavra é destituída de seu significado anterior sem que ganhe outro; ele permanece uma concha oca. Diferentes 35 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 representações de um período anterior ainda estão associadas a elas; elas se vinculam a novas representações e sentimentos nos contextos em que ela é agora utilizada. Mas uma palavra não tem significado em função disso; e ela permanece sem significado até que se possa indicar um método de verificação. Outro exemplo é a palavra “Deus”. No caso dessa palavra, desconsiderando as variantes de seu uso no interior de um dado domínio, devemos distinguir o uso linguístico em três diferentes casos ou períodos históricos, que, no entanto, se sobrepõem temporalmente. No uso mitológico da linguagem, a palavra tinha um significado claro. Às vezes, designavam-se com esta palavra (assim como com as palavras equivalentes de outras línguas) os seres corpóreos que habitavam o Olimpo, o céu ou o mundo subterrâneo, dotados de força, sabedoria, bondade e felicidade em maior ou menor grau de perfeição. Outras vezes, a palavra designava seres espirituais, que não tinham um corpo humano, mas que de alguma forma se revelavam nas coisas e processos do mundo visível e, por isso, eram empiricamente constatáveis. No uso metafísico da linguagem, ao contrário, “Deus” designa algo supra-empírico. A palavra foi explicitamente despojada do significado de um ser corporal ou de um ser espiritual encarnado. E, como não foi dado nenhum novo significado, ela se tornou sem significado. No entanto, tudo se passa como se a palavra “Deus” tivesse um significado mesmo no âmbito da metafísica. Mas as definições que são apresentadas se revelam pseudodefinições em um exame mais detido; elas conduzem ou a cadeias de palavraslogicamente inadmissíveis (das quais se falará adiante) ou a outras palavras metafísicas (por exemplo, “fundamento originário”, “o absoluto”, “o incondicionado”, “o autônomo”, “o auto-suficiente” etc.), mas em nenhum caso as definições levam às condições de verdade de suas proposições elementares. No caso dessa palavra, nem mesmo a primeira exigência da lógica é satisfeita, isto é, da forma da proposição elementar em que ela ocorre. A proposição elementar deveria ter aqui a forma “x é um Deus”; o metafísico ou recusa completamente essa forma, sem apresentar outra, ou, quando a admite, não especifica a categoria sintática da variável x. (Categorias são, por exemplo: corpos, propriedades de corpos, relações entre corpos, números etc.). No que concerne à palavra “Deus”, entre o uso mitológico e o uso 36 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 metafísico da linguagem, há o uso teológico da linguagem. Aqui, não há nenhum significado próprio, mas oscila-se entre aqueles dois empregos. Muitos teólogos têm um conceito de Deus claramente empírico (na nossa designação, mitológico). Nesse caso, não há pseudoproposição; mas o inconveniente para o teólogo consiste em que as proposições da teologia são proposições empíricas e, por isso, o juízo pertence à ciência empírica. No caso de outros teólogos, impõe-se claramente o uso metafísico da linguagem. No caso de outros tantos, o uso linguístico não é claro, seja porque eles seguem ora este, ora aquele uso, seja porque eles se valem de expressões que nãos são claramente apreensíveis e que oscilam entre os dois lados. Assim como os exemplos examinados, “princípio” e “Deus”, os outros termos são, em sua maior parte, termos especificamente metafísicos sem significado, por exemplo, “ideia”, “o absoluto”, “o incondicionado”, o “infinito”, “o ser do ente”, “o não-ser”, “coisa em si”, “espírito absoluto”, “espírito objetivo”, “essência”, “ser em si”, “ser em si e para si”, “emanação”, “manifestação”, “cisão”, “o eu”, “o não-eu” etc. Com essas expressões, ocorre o mesmo que ocorria com a palavra “babigo” no exemplo inventado anteriormente. O metafísico nos diz que não pode indicar condições de verdade empíricas; quando ele acrescenta que, não obstante, “quer dizer” algo com tal palavra, sabemos que ele se refere apenas a representações e sentimentos acompanhando a palavra, por meio das quais ela não obtém nenhum significado. As supostas proposições metafísicas contendo tais palavras não têm sentido, não dizem nada, são meras pseudoproposições. Consideraremos posteriormente a questão de como explicar seu surgimento histórico. O SENTIDO DE UMA PROPOSIÇÃO Até aqui consideramos pseudoproposições em que ocorre uma palavra sem significado. Há ainda um segundo tipo de pseudoproposições. Elas consistem em palavras com significado combinadas de tal modo que não resulta nenhum sentido. A sintaxe de uma linguagem especifica quais combinações de palavras são admissíveis e quais são inadmissíveis. Mas a sintaxe gramatical das linguagens naturais não cumpre inteiramente a tarefa de excluir 37 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 combinações de palavras sem-sentido. Tomemos como exemplo as duas sequências de palavras seguintes: 1. “César é e” 2. “César é um número primo” A sequência de palavras (1) é formulada contrariamente à sintaxe; a sintaxe requer que haja no terceiro lugar não um conectivo, mas um predicado, isto é, um substantivo (com artigo) ou um adjetivo. A sequência de palavras “César é um general”, por exemplo, é formulada de acordo com a sintaxe; ele é uma sequência de palavras dotada de sentido, uma proposição genuína. Mas a sequência de palavras (2) é formulada igualmente de acordo com a sintaxe, pois ela tem a mesma forma gramatical da proposição mencionada. (2) é, no entanto, sem-sentido. “Número primo” é uma propriedade de números; ela não pode nem ser atribuída a uma pessoa nem ser negada dela. Como (2) parece uma proposição, mas não é, não diz nada, não exprime nem um estado de coisas existente nem um estado de coisas inexistente, chamamos essa sequência de palavras de “pseudoproposição”. Como a sintaxe gramatical não é violada, é-se tentado à primeira vista a adotar a opinião errônea de que se trata de uma proposição, ainda que se trate de uma proposição falsa. “a é um número primo”, porém, é falsa se e somente se a é divisível por um número natural diferente de a e de 1; aqui, “a” não pode evidentemente ser substituído por “César”. O exemplo foi escolhido para que a falta de sentido fosse facilmente notada; no caso de muitas das chamadas proposições metafísicas não é fácil reconhecer que são pseudoproposições. Que seja possível formular na linguagem comum uma sequência de palavras sem-sentido sem ferir as regras da gramática mostra que a sintaxe gramatical, considerada do ponto de vista da lógica, é insuficiente. Se a sintaxe gramatical correspondesse exatamente à sintaxe lógica, não poderia haver nenhuma pseudoproposição. Se a sintaxe gramatical distinguisse não apenas as categorias de substantivo, adjetivo, verbo, conjunção etc., mas fizesse também distinções lógicas necessárias no interior dessas categorias, não poderiam ser formuladas pseudoproposições. Se os substantivos, por exemplo, fossem divididos em mais categorias de palavras, conforme designem corpos, números etc., as palavras “general” e “número primo” pertenceriam a categorias de palavras diferentes, e (2) seria tão contrária à gramática quanto (1). Nessa 38 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 linguagem corretamente formulada, todas as sequências de palavras sem- sentido seriam, portanto, do mesmo tipo que o exemplo (1). Elas seriam, com isso, excluídas automaticamente pela gramática; isto é, não seria preciso atentar para o significado das palavras individuais a fim de evitar a falta de sentido, mas apenas para as categorias de palavras (a “categoria sintática”, por exemplo: coisa, propriedade de coisa, relação de coisas, número, propriedade de números, relação de números etc.). Se nossa tese de que as proposições da metafísica são pseudoproposições for correta, a metafísica não poderia ser expressa em uma linguagem formulada de modo logicamente correto. Daí a grande importância filosófica da tarefa de formular uma sintaxe lógica, na qual trabalham atualmente os lógicos. PSEUDOPROPOSIÇÕES METAFÍSICAS Gostaríamos agora de indicar alguns exemplos de pseudoproposições metafísicas, nas quais é possível reconhecer claramente que a sintaxe lógica é violada, embora a sintaxe gramatical tradicional seja respeitada. Escolhemos algumas frases da doutrina metafísica que exerce atualmente a maior influência na Alemanha. Investigado deve ser apenas o ente e mais – nada; somente o ente e além dele – nada; unicamente o ente e para além disto – nada. Que acontece com este nada? (...) Há o nada apenas porque há o não, isto é, a negação? Ou ocorre o contrário? Existe a negação e o não apenas porque há o nada? (...) Nós afirmamos: o nada é mais originário que o não e a negação (...) Onde procuramos o nada? Onde encontramos o nada? (...) Nós conhecemos o nada. (...) A angústia torna manifesto o nada. (...) Diante de que e por que nós nos angustiávamos não era „propriamente‟ – nada. De fato: o próprio nada – enquanto tal – estava aí. (...) O que acontece com o nada? (...) O próprio nada nadifica. A fim de mostrar que a possibilidade de formação de pseudoproposições repousa sobre uma falha lógica da linguagem, propomos o esquema abaixo. As proposições em I estão isentas deobjeções tanto gramatical quanto logicamente, sendo, portanto, dotadas de sentido. As proposições em II (com exceção de B 3) 39 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 estão em perfeita analogia com as proposições em I. A forma proposicional II A (pergunta e resposta) não satisfaz, porém, as exigências de uma linguagem logicamente correta. Ela é, apesar disso, dotada de sentido, uma vez que pode ser traduzida em uma linguagem correta; isso é mostrado pela proposição III A, que tem o mesmo sentido de II A. A inadequação da forma proposicional II A se mostra no fato de que, a partir dela e por meio de operações gramaticais irrepreensíveis, podemos chegar às formas proposicionais semsentido II B, que foram extraídas da citação acima. Essas formas não podem sequer ser formuladas na linguagem correta da coluna III. Entretanto, sua falta de sentido não é notada à primeira vista, uma vez que somos iludidos facilmente pela analogia com as proposições dotadas de sentido de I B. O erro de nossa linguagem constatado aqui reside em que, ao contrário de uma linguagem logicamente correta, ela permite a identidade formal entre sequências de palavras dotadas de sentido e sem-sentido. A toda proposição verbal está associada uma fórmula correspondente na notação da logística; essas fórmulas permitem reconhecer de modo particularmente claro a analogia inadequada entre I A e II A e as formas sem-sentido II B, engendradas por ela. 40 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 Ao examinar mais precisamente as pseudoproposições de II B, outras diferenças se revelam. A formação das proposições (1) reside simplesmente no erro de empregar a palavra “nada” como nome de um objeto, pois ela costuma ser empregada na linguagem comum dessa forma para formular uma proposição existencial negativa (ver II A). Em uma linguagem correta, entretanto, não é um nome particular, mas uma determinada forma lógica que serve a esse propósito (ver III A). Na proposição II B 2, aparece algo novo, a saber, a formação da palavra destituída de significado “nadificar”; a proposição é sem-sentido, portanto, por uma dupla razão. Nós dissemos anteriormente que as palavras destituídas de significado da metafísica normalmente surgem do fato de que uma palavra dotada de significado se torna destituída de significado na metafísica pelo emprego metafórico. Aqui, porém, temos diante de nós um dos poucos casos em que é introduzida uma nova palavra que não tem significado desde o início. A proposição II B 3 deve ser igualmente rejeitada por uma dupla razão. 41 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 O erro em empregar a palavra “nada” como nome de um objeto vai de par com o da proposição anterior. Além disso, ela encerra uma contradição. Pois mesmo que fosse legítimo introduzir a palavra “nada” como nome ou caracterização de um objeto, a existência seria negada a esse objeto em sua definição, ao passo que ela seria novamente atribuída na proposição (3). Se já não fosse sem- sentido, essa proposição seria, pois, um contrassenso. Tendo em vista os erros lógicos grosseiros que encontramos nas proposições II B, poderíamos supor que, no artigo citado, a palavra “nada” deva ter um significado completamente diferente. E essa suposição se fortalece ao lermos ali que a angústia torna manifesto o nada, que na angústia o nada está aí enquanto tal. Aqui, a palavra “nada” parece dever designar certa disposição afetiva, talvez de cunho religioso, ou algo que esteja na base de tal disposição. Fosse esse o caso, os erros lógicos indicados nas proposições II B não ocorreriam. Mas o início da citação acima mostra que essa interpretação não é possível. A combinação de “apenas” e de “e mais nada” mostra claramente que a palavra “nada” tem o significado usual de uma partícula lógica, que serve para expressar uma proposição existencial negativa. Dessa introdução da palavra “nada”, segue-se imediatamente a questão fundamental do artigo: “Que acontece com este nada?”. Nossa desconfiança de que talvez tenhamos interpretado equivocadamente é completamente dissipada quando notamos que o autor do artigo tem perfeita clareza de que suas questões e suas sentenças contradizem a lógica. “Pergunta e resposta são, no que diz respeito ao nada, igualmente contraditórias em si mesmas (...) A regra fundamental do pensamento a que comumente se recorre, o princípio de nãocontradição, a „lógica‟ geral, destrói essa pergunta”. E tanto pior para a lógica! Devemos derrubar seu reinado: “Se assim se rompe o poder do entendimento no campo da interrogação acerca do nada e do ser, então também se decide, com isto, o destino do domínio da „lógica‟ no interior da filosofia. A própria ideia de „lógica‟ dissolve-se no redemoinho de uma interrogação mais originária”. Estará, porém, a ciência sóbria de acordo com uma interrogação contrária à lógica? Mesmo quanto a isso, a resposta já está dada: “A aparente sobriedade e superioridade da ciência transforma-se em ridículo, se não leva a sério o nada”. Encontramos, pois, 42 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 uma boa confirmação para nossa tese; um metafísico chega aqui, ele próprio, à constatação de que suas perguntas e respostas não se conciliam com a lógica e o modo de pensar da ciência. A distinção entre nossa tese e aquela dos antimetafísicos anteriores agora é clara. A metafísica não é para nós “pura fantasia” ou “fábula”. As proposições de uma fábula não contradizem a lógica, mas apenas a experiência; elas são inteiramente dotadas de sentido, ainda que falsas. A metafísica não é “superstição”; pode-se acreditar em proposições verdadeiras ou falsas, mas não em sequências de palavras sem-sentido. As proposições metafísicas não podem sequer ser consideradas como “hipóteses de trabalho”; pois é fundamental para uma hipótese a relação dedutiva com proposições empíricas (verdadeiras ou falsas), e precisamente isso falta às pseudoproposições. Para salvar a metafísica, será levantada, considerando a chamada limitação da faculdade de conhecimento humana, a seguinte objeção: as proposições metafísicas não podem ser verificadas pelo homem ou mesmo por um ser finito; mas elas podem ser consideradas talvez como conjecturas sobre aquilo que poderia ser respondido por um ser com faculdades de conhecimento superiores ou mesmo perfeitas, e enquanto conjecturas, elas ainda assim seriam dotadas de sentido. Contra essa objeção, faríamos a seguinte consideração. Se o significado de uma palavra não pode ser especificado, ou a sequência de palavras é formulada contrariamente à sintaxe, já não há uma questão. (Que se pense, por exemplo, nas pseudoquestões: “Esta mesa é babiga?”, “O número sete é sagrado?”, “São os números pares ou os números ímpares os mais escuros?”). Ali onde não há uma questão, nenhum ser onisciente pode responder. Aquele que objeta dirá talvez: assim como alguém dotado de visão pode comunicar um conhecimento novo a um cego, um ser superior talvez possa nos comunicar um conhecimento metafísico, por exemplo, que o mundo visível é a manifestação de um espírito. Aqui, deveríamos refletir sobre o que “conhecimento novo” significa. Podemos sempre imaginar que encontramos animais que nos relatam sobre um novo sentido. Se esses seres tivessem provado o teorema de Fermat ou tivessem inventado um novo instrumento físico ou tivessem estipulado uma lei natural até então desconhecida, nosso conhecimento teria sido enriquecido com sua ajuda.Pois nós podemos provar 43 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 tais coisas, assim como um cego pode compreender e provar toda a física (e, com isso, todas as proposições de alguém dotado de visão). Se, no entanto, os supostos seres nos disserem algo que não podemos verificar, também não poderemos compreender isso; não se tratará para nós de uma informação, mas de meros sons vocais sem sentido, ainda que sejam acompanhados de associações de ideias. Por meio de um outro ser, conheça ele mais ou menos ou tudo, nosso conhecimento pode ser apenas qualitativamente ampliado, mas não pode se tratar de um conhecimento, em princípio, de outro tipo. O que é incerto para nós pode se tornar mais certo com o auxílio de outro ser; mas aquilo que é incompreensível para nós é sem-sentido, não pode se tornar dotado de sentido com o auxílio de outro ser, mesmo que ele tenha o conhecimento. Portanto, nenhum deus e nenhum diabo podem nos proporcionar uma metafísica. A FALTA DE SENTIDO DE TODA A METAFÍSICA Os exemplos de proposições metafísicas que analisamos foram todos tirados de um único artigo. Mas os resultados valem de modo semelhante, em parte literalmente, para outros sistemas metafísicos. Quando tal artigo cita uma frase de Hegel com aprovação (“O puro ser e o puro nada são, portanto, o mesmo”), ele o faz com pleno direito. A metafísica de Hegel tem, de um ponto de vista lógico, exatamente o mesmo caráter que encontramos naquela metafísica moderna. E o mesmo vale inclusive para os outros sistemas metafísicos, ainda que sua expressão verbal e, com isso, o tipo de erros lógicos se distancie mais ou menos daquele dos exemplos discutidos. Não seria necessário aduzir aqui outros exemplos para a análise de proposições metafísicas particulares de diferentes sistemas. Indiquemos apenas os tipos de erros mais frequentes. Provavelmente, a maior parte dos erros lógicos cometidos em pseudoproposições repousam sobre os defeitos lógicos que se prendem ao uso da palavra “ser” em nossa língua (e das palavras correspondentes nas outras línguas, ao menos, na maior parte das línguas europeias). O primeiro erro é a ambiguidade da palavra “ser”; às vezes, ela é utilizada como cópula antes de 44 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 um predicado (“Eu sou esfomeado”), às vezes, como a indicação de existência (“Eu sou”). Esse erro é agravado pelo fato de que os metafísicos frequentemente não são claros acerca dessa ambiguidade. O segundo erro reside na forma do verbo no segundo significado, o de existência. Por meio dessa forma verbal, tem- se a ilusão de um predicado ali onde não há nenhum. Sabe-se há muito tempo que a existência não é uma propriedade (cf. a refutação de Kant da prova ontológica de Deus). Mas apenas a lógica moderna é completamente consequente a esse respeito: ela introduz o sinal de existência em uma forma sintática tal que ele não pode se vincular a sinais para objetos, mas apenas a um predicado (cf., por exemplo, proposição III A na tabela acima). A maior parte dos metafísicos desde a Antiguidade se deixou enganar pela forma verbal e predicativa da palavra “ser”, chegando a pseudoproposições, por exemplo, “Eu sou”, “Deus é”. Encontramos um exemplo desse erro no “cogito, ergo sum” de Descartes. Desconsideremos aqui completamente as reservas acerca do conteúdo que foram levantadas contra a premissa – se a proposição “Eu penso” é a expressão adequada do estado de coisas em questão ou se inclui talvez uma hipóstase – e consideremos as duas proposições apenas do ponto de vista lógico-formal. Notamos aí dois erros lógicos essenciais. O primeiro está na conclusão “Eu sou”. O verbo “ser” é tomado aqui sem dúvida no sentido de existência; pois uma cópula não pode ser usada sem predicado; o “Eu sou” de Descartes foi entendido neste sentido. Com isso, essa proposição vai de encontro à regra lógica mencionada acima de que a existência só pode ser afirmada em ligação com um predicado, não em ligação com um nome (sujeito, nome próprio). Uma proposição existencial não tem a forma “a existe” (como tem aqui “eu sou”, isto é, “eu existo”), mas “existe algo de tal e tal tipo”. O segundo erro reside na passagem de “eu penso” para “eu existo”. Se for deduzida da proposição “P(a)” (“a tem a propriedade P”) uma proposição existencial, a existência só pode ser afirmada em relação ao predicado P, não em relação ao sujeito a da premissa. De “Eu sou europeu”, não se segue “Eu existo”, mas “Existe um europeu”. De “Eu penso”, não se segue “Eu sou”, mas “Existe algo pensante”. O fato de que nossas línguas expressam a existência por meio de um verbo (“ser” ou “existir”) não é, em si mesmo, um erro lógico, mas apenas inadequado, perigoso. É se facilmente levado pela forma verbal à concepção 45 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 errônea de que a existência é um predicado; chega-se, assim, às formulações logicamente errôneas e, por isso, sem-sentido, como acabamos de examinar. Formas como “o ente”, o “não-ente”, que há muito têm desempenhado um papel importante na metafísica, têm a mesma origem. Em uma linguagem logicamente correta, essas formas não podem ser formuladas. Parece que, no latim e no alemão, talvez por influência do modelo grego, as formas “ens” e “seiend” foram introduzidas especialmente para uso dos metafísicos; desse modo, a linguagem foi logicamente deteriorada, embora se acreditasse melhorar uma série de coisas. Outra violação muito frequente da sintaxe lógica é a chamada “confusão de esferas” dos conceitos. Enquanto o erro mencionado acima consiste em que um sinal com significado não-predicativo é empregado como um predicado, aqui um predicado é empregado como predicado, mas como predicado de uma outra “esfera”; há uma violação das regras da chamada “teoria dos tipos”. Um exemplo artificial é a proposição considerada anteriormente: “César é um número primo”. Nomes próprios e numerais pertencem a esferas lógicas distintas e, consequentemente, também predicados de pessoas (“general”) e predicados de números (“número primo”). O erro da confusão de esferas não é, diferentemente do uso linguístico mencionado do verbo “ser”, exclusivo da metafísica, mas aparece frequentemente na linguagem cotidiana. Mas, neste caso, ele raramente conduz à falta de sentido; a ambiguidade das palavras em relação às esferas é tal que pode ser facilmente evitada. Exemplo: 1. “Esta mesa é maior que aquela”. 2. “A altura desta mesa maior que a altura daquela”. A palavra “maior” é empregada em (1) como relação entre objetos, e empregada em (2) como relação entre números, logo, para duas categorias sintáticas distintas. O erro não é importante aqui; ele poderia, por exemplo, ser eliminado ao se escrever “maior1” e “maior2”; “maior1” é, então, definido a partir de “maior2”, na medida em que a forma proposicional (1) é explicada como tendo o mesmo significado que a forma (2) (e algumas outras semelhantes). Como a confusão de esferas na linguagem cotidiana não causa nenhum dano na linguagem cotidiana, não se costuma dar atenção a ela. Isso se adéqua ao uso ordinário da linguagem, mas teve consequências danosas na metafísica. 46 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 Foi-se levado aqui, seguindo o hábito na linguagem cotidiana, a confusões de esferas que já não podem, ao contrário daquelas da linguagem cotidiana, ser traduzidas em uma forma logicamente correta. Pseudoproposições desse tipo se encontram particularmentecom frequência, por exemplo, em Hegel e Heidegger, que emprestou, juntamente com muitas particularidades do idioma hegeliano, muitos de seus equívocos lógicos. (Por exemplo, propriedades que devem se aplicar a objetos de um certo tipo, são aplicadas, ao invés disso, a uma propriedade desses objetos ou ao “ser” ou ao “ente” ou a uma relação entre esses objetos). Depois de termos descobertos que muitas proposições metafísicas são sem sentido, levanta-se a questão sobre se há um estoque de proposições dotadas de sentido na metafísica, que permaneceriam após termos eliminados as proposições sem-sentido. A partir de nossos resultados até aqui, poder-se-ia chegar à conclusão de que há na metafísica muitos perigos de se cair na falta de sentido e de que, se quisermos praticar metafísica, devemos nos esforçar para evitar cuidadosamente esses perigos. Mas, na realidade, o fato é que não pode haver proposições metafísicas dotadas de sentido. Isso decorre da tarefa que a metafísica se coloca: ela pretende encontrar e exprimir um conhecimento que não é acessível à ciência empírica. Dissemos anteriormente que o sentido de uma proposição reside no método de sua verificação. Uma proposição afirma apenas o que nela é verificável. Portanto, uma proposição, se afirma algo, só pode afirmar um fato empírico. Algo que em princípio residiria para além da experiência não poderia ser dito, nem pensado, nem questionado. As proposições (dotadas de sentido) se dividem nos seguintes tipos: primeiramente, há proposições que são verdadeiras apenas em razão de sua forma (“tautologias” segundo Wittgenstein; elas correspondem, mais ou menos, aos “juízos analíticos” de Kant); elas não afirmam nada sobre a realidade. A esse tipo pertencem as fórmulas da lógica e da matemática; elas próprias não são enunciados factuais, mas servem para a transformação de tais enunciados. Em segundo lugar, há as negações de tais proposições (“contradições”); elas são contraditórias, portanto, falsas em razão de sua forma. Para todas as demais 47 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 proposições, a decisão acerca de sua verdade ou falsidade reside nas proposições protocolares; elas são, pois, proposições empíricas (verdadeiras ou falsas) e pertencem ao domínio da ciência empírica. Se quisermos formular uma proposição que não pertença a esses tipos, ela será automaticamente sem- sentido. Como a metafísica não pretende afirmar proposições analíticas nem cair no domínio da ciência empírica, ela deve necessariamente ou empregar palavras para as quais não se pode especificar nenhum critério e que são, portanto, vazias de significado ou combinar palavras dotadas de significado de tal modo que não resulta nem uma proposição analítica (ou contradição) nem uma proposição empírica. Em ambos os casos, resultam necessariamente pseudoproposições. A análise lógica decreta, com isso, a falta de sentido de todo suposto conhecimento que pretende ir além ou aquém da experiência. Esse veredito atinge, primeiramente, toda metafísica especulativa, todo suposto conhecimento resultante do pensamento puro ou da intuição pura, que acredita poder passar ao largo da experiência. Mas o veredito diz respeito também àquela metafísica que, partindo da experiência, pretende conhecer, por meio de inferências particulares, o que está fora ou atrás da experiência (isto é, ele diz respeito, por exemplo, à tese neovitalista de uma “enteléquia” atuando nos processos orgânicos, que não pode ser apreendida fisicamente; à questão acerca da “essência do nexo causal” para além da constatação de determinadas regularidades da sucessão; ao discurso da “coisa em si”). Além disso, o veredito vale também para toda filosofia dos valores ou das normas, para toda ética ou estética enquanto disciplina normativa. Pois a validade objetiva de um valor ou de uma norma não pode (inclusive segundo a concepção dos filósofos dos valores) ser verificada empiricamente ou ser deduzida de proposições empíricas; ela não pode, pois, ser dita (por meio de uma proposição dotada de sentido). Dito de outro modo: ou se especifica critérios empíricos para “bom” e “belo” e os demais predicados das ciências normativas ou não. Uma proposição com um predicado desse tipo será, no primeiro caso, um juízo de fato empírico, mas não um juízo de valor; no segundo caso, ela será uma pseudoproposição; uma proposição que exprimisse um juízo de valor não pode de modo algum ser formulada. O veredito da falta de sentido atinge, por fim, também aquelas correntes 48 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 que se costuma chamar impropriamente de teoria do conhecimento, a saber, o realismo (na medida em que ele pretende afirmar mais do que a descoberta empírica, isto é, que os eventos mostram uma certa regularidade por meio da qual é dada a possibilidade de aplicação do método indutivo) e seus adversários: o idealismo subjetivo, o solipsismo, o fenomenalismo, o positivismo (no antigo sentido). Mas o que resta, então, para a filosofia se todas as proposições que podem ser afirmadas são de natureza empírica e pertencem à ciência do real? O que resta não são proposições nem teoria, nem sistema, mas apenas um método, a saber, o método de análise lógica. No que precedeu, mostramos a aplicação desse método em seu uso negativo: ele serve aqui para a eliminação de palavras destituídas de significado, de pseudoproposições sem-sentido. Em seu uso positivo, ele serve para a clarificação de conceitos e proposições dotados de sentido, para a fundamentação lógica da ciência do real e da matemática. Aquela aplicação negativa do método é necessária e importante na atual situação histórica. Mas a aplicação positiva é mais fecunda, inclusive na prática atual; entretanto, não podemos entrar em detalhes aqui. A tarefa mencionada da análise lógica, a investigação dos fundamentos, é o que entendemos por “filosofia científica” em oposição à metafísica; a maior parte das contribuições nesta revista pretendem realizar essa tarefa. A questão acerca do caráter lógico das proposições que obtemos como resultado da análise lógica, por exemplo, as proposições deste artigo e de outros artigos lógicos, pode ser respondida aqui apenas indicando que tais proposições são, em parte, analíticas, em parte empíricas. Essas proposições sobre proposições e partes proposicionais pertencem, em parte, à metalógica pura (por exemplo, “Uma sequência que consiste em um sinal de existência e um nome de objeto é sem sentido”), em parte, à metalógica descritiva (por exemplo, “A sequência de palavras em tal e tal passagem de tal e tal livro é sem-sentido”). A metalógica será tratada em outro lugar; ali será mostrado que a metalógica, que fala das proposições de uma linguagem, pode ser formulada nessa própria linguagem. METAFÍSICA COMO EXPRESSÃO DE UM SENTIMENTO VITAL 49 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 A afirmação de que as proposições da metafísica são completamente sem sentido, não dizem nada, causará um sentimento de estranheza mesmo naquele que concorda intelectualmente com nossos resultados: teriam, de fato, tantos homens de diferentes tempos e povos, entre eles, cabeças eminentes, despendido tanto esforço ou mesmo fervor na metafísica, ainda que ela não consistisse senão em meras palavras ordenadas sem-sentido? E seria compreensível que essas obras exercessem tamanho efeito nos leitores e ouvintes, ainda que contivessem não erros, mas nada sequer? Essas reservas se justificam na medida em que a metafísica, de fato, contém algo; só que isso não é umconteúdo teórico. As (pseudo) proposições da metafísica não servem para a representação de estados de coisas, nem de estados de coisas existentes (pois seriam proposições verdadeiras) nem de estados de coisas inexistentes (pois seriam proposições falsas); elas servem para expressar um sentimento vital. Talvez possamos supor que a metafísica se originou do mito. A criança está com raiva da “mesa malvada” que a atingiu; o primitivo se esforça para satisfazer o ameaçador demônio do terremoto ou ele venera em gratidão a divindade da chuva caudalosa. Temos diante de nós personificações de fenômenos naturais, que são a expressão quase poética da relação emocional do homem com o ambiente. A herança do mito aparece, por um lado, na poesia, que produz e eleva conscientemente o efeito da mitologia para a vida; por outro lado, na teologia, na qual a mitologia é desenvolvida em um sistema. Qual é o papel histórico da metafísica? Talvez possamos ver nela o substituto da teologia no nível do pensamento sistemático, conceitual. As fontes (supostamente) sobrenaturais do conhecimento da teologia são substituídas aqui por fontes naturais, mas (supostamente) supra-empíricas, do conhecimento. Em um olhar mais detido, reconhece-se na roupagem modificada o mesmo conteúdo do mito: descobrimos que inclusive a metafísica surge da necessidade de trazer à expressão o sentimento vital, a postura segundo a qual o homem vive, a atitude sentimental e volitiva em relação ao ambiente, aos outros homens, às tarefas às quais se dedica, aos percalços que sofre. Esse sentimento vital se manifesta, na maioria das vezes inconscientemente, em tudo que o homem faz e diz; ele marca suas expressões faciais, provavelmente inclusive sua postura ao andar. Muitos 50 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 homens têm a necessidade de colocar seu sentimento vital sob uma expressão particular, na qual ele se torna perceptível do modo concentrado e vigoroso. Se tais homens forem talentosos artisticamente, eles encontram na forma de uma obra de arte a possibilidade de se expressar. Já foi explicado por muitos (por exemplo, Dilthey e seus discípulos) como o sentimento vital se manifesta no estilo e nas características de obra de arte. (A esse respeito, utiliza-se com muita frequência a expressão “visão de mundo”; evitamo-la por causa de sua ambiguidade, por meio da qual se borra a distinção entre sentimento vital e teoria, que é, no entanto, decisiva para nossa análise). A esse respeito, apenas o seguinte é essencial para nossa reflexão: a arte é a forma de expressão adequada para o sentimento vital, a metafísica, entretanto, é uma forma inadequada. Em si mesma, não haveria naturalmente nada a objetar contra o emprego de uma forma de expressão qualquer. Mas no caso da metafísica a situação é que ela, por meio de suas obras, finge ser algo que não é. Essa forma é aquela de um sistema de proposições, que (aparentemente) estão em uma relação de fundamentação, isto é, na forma de uma teoria. Daí que seja forjada a ilusão de um conteúdo teórico, embora, como vimos, ele não esteja dado. Não apenas o leitor, mas também o próprio metafísico se encontra sob a ilusão de que algo é dito por proposições metafísicas, que estados de coisas são descritos. O metafísico acredita se mover no domínio em que se trata do verdadeiro e do falso. Na realidade, ele não disse nada, mas apenas trouxe algo à expressão, assim como um artista. Que o metafísico se encontre sob essa ilusão não podemos inferir imediatamente do fato de que ele tome a linguagem como meio de expressão e proposições declarativas como forma de expressão; pois o mesmo é feito pelo poeta lírico, sem cair, entretanto, nessa auto-ilusão. Mas o metafísico aduz argumentos a favor de suas teses, ele exige a concordância com seu conteúdo, ele polemiza contra os metafísicos de outras orientações ao tentar refutar as proposições destes. O poeta lírico, ao contrário, não se esforça em sua poesia para refutar as proposições da poesia de outro poeta; pois ele sabe que ele se encontra no domínio da arte e não da teoria. Talvez a música seja a forma de expressão mais pura para o sentimento vital, pois ela está completamente livre de tudo que diz respeito a objetos. O sentimento vital harmônico, que o metafísico pretende expressar em um sistema 51 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 monista, é expresso mais claramente na música de Mozart. E se o metafísico exprime seu sentimento vital dualista-heroico em um sistema dualista, ele não o faz porque provavelmente lhe falte o talento de Beethoven para expressar esse sentimento vital na forma adequada? Os metafísicos são músicos sem talento musical. Por isso, eles possuem uma forte inclinação para trabalhar teoricamente, vinculando conceitos e pensamentos. Ao invés, por um lado, de cultivar essa inclinação no campo da ciência e, por outro lado, de satisfazer a necessidade de expressão na arte, o metafísico confunde ambos e forja uma forma que não produz nada para o conhecimento e produz algo inadequado para o sentimento vital. Nossa suposição de que a metafísica é um substituto, embora inadequado, para a arte parece ser confirmada também pelo fato de que o metafísico, que talvez possua o maior talento artístico, a saber, Nietzsche, seja aquele que menos caia no erro de tal confusão. Uma grande parte de sua obra tem predominantemente conteúdo empírico; trata-se aí, por exemplo, da análise histórica de determinados fenômenos artísticos ou da análise histórico- psicológica da moral. Mas na obra em que expressa mais fortemente aquilo que outros exprimem por meio da metafísica ou da ética, a saber, no Zaratrusta, ele não escolhe a enganosa forma teórica, mas escolhe explicitamente a forma artística, poética. Enriqueça seus estudos Assista ao vídeo: Ludwig Wittgenstein e o Jogo de Linguagem Publicado em 14 de set de 2015. Este é um breve estudo introdutório ao 52 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 conceito de jogo de linguagem de Ludwig Wittgenstein preparado para alunos do Ensino Médio, conceito chave não somente dentro do pensamento deste filósofo, mas também para toda filosofia da linguagem e para a filosofia geral contemporânea. https://www.youtube.com/watch?v=AqjagczB-9Q REFERÊNCIAS Arrington, R. 2005 Wittgenstein and Quine, London: Routledge. Ayer, Alfred J. 1936 Language, Truth and Logic, London: Victor Gollancz. Ayers, Michael 1993 Locke: Epistemolgy and Ontology, London: Routledge. Backer, 53 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO FILOSOFIA ANALÍTICA WWW.INSTITUTOINE.COM.BR – (31) 3272-9521 Gordon P. e Hacker, P. M. S. 2005 Wittgenstein: Understanding and Meaning (Analytical Commentary on the „Philosophical Investigations‟, Oxford: Blacwell. 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