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Material sobre Filosofia Analítica: histórico e conceitos centrais; apresenta autores como Frege, Russell, Moore e Wittgenstein; aborda formalização da linguagem, análise wittgensteiniana (jogos de linguagem, formas de vida, gramática), relação linguagem‑mundo e críticas à metafísica e ao positivismo lógico/Círculo de Viena.

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Questões resolvidas

A Filosofia analítica é uma vertente do pensamento contemporâneo, reivindicada por filósofos bastante diferentes, cujo ponto comum é a ideia de que a filosofia é análise - a análise do significado dos enunciados e se reduz a uma pesquisa sobre a linguagem.


Inicialmente, Filosofia analítica assumiu a hipótese de que a lógica criada por Gottlob Frege, Bertrand Russell e outros, entre o final do século XIX e o início do século XX, poderia ter consequências filosóficas gerais e ajudar na análise de conceitos e no esclarecimento das ideias.


Os primeiros filósofos analíticos foram Frege, Russell, George Edward Moore e Ludwig Wittgenstein.

Mas há várias correntes dentro da filosofia analítica; dentre elas, o positivismo lógico, que se distingue pela rejeição de toda e qualquer metafísica.


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Questões resolvidas

A Filosofia analítica é uma vertente do pensamento contemporâneo, reivindicada por filósofos bastante diferentes, cujo ponto comum é a ideia de que a filosofia é análise - a análise do significado dos enunciados e se reduz a uma pesquisa sobre a linguagem.


Inicialmente, Filosofia analítica assumiu a hipótese de que a lógica criada por Gottlob Frege, Bertrand Russell e outros, entre o final do século XIX e o início do século XX, poderia ter consequências filosóficas gerais e ajudar na análise de conceitos e no esclarecimento das ideias.


Os primeiros filósofos analíticos foram Frege, Russell, George Edward Moore e Ludwig Wittgenstein.

Mas há várias correntes dentro da filosofia analítica; dentre elas, o positivismo lógico, que se distingue pela rejeição de toda e qualquer metafísica.


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FILOSOFIA 
 ANALÍTICA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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 INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO 
 FILOSOFIA ANALÍTICA 
 
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Sumário 
FILOSOFIA ANALÍTICA ....................................................................................................... 1 
FILOSOFIA ANALÍTICA ........................................................................................................ 3 
UM POUCO DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA ANALÍTICA ...................................................... 3 
Wittgenstein e o projeto analítico .......................................................................................... 6 
O BACKGROUND ANALÍTICO ............................................................................................. 7 
George Edward Moore (1873 – 1958) .................................................................................. 8 
Gottlob Frege (1848 – 1925) ............................................................................................... 12 
O projeto de formalização da linguagem ............................................................................ 13 
A ANÁLISE WITTGENSTEINIANA DA LINGUAGEM ......................................................... 14 
Os Jogos de Linguagem ..................................................................................................... 16 
Formas de Vida .................................................................................................................. 18 
Gramática ........................................................................................................................... 20 
LINGUAGEM E MUNDO: A REALIDADE COMO SOMBRA DA GRAMÁTICA................... 26 
SUPERAÇÃO DA METAFÍSICA PELA ANÁLISE LÓGICA DA LINGUAGEM .................... 30 
O significado de uma palavra ............................................................................................. 30 
PALAVRAS METAFÍSICAS SEM SIGNIFICADO ................................................................ 33 
O SENTIDO DE UMA PROPOSIÇÃO ................................................................................. 36 
PSEUDOPROPOSIÇÕES METAFÍSICAS .......................................................................... 38 
A FALTA DE SENTIDO DE TODA A METAFÍSICA ............................................................ 43 
METAFÍSICA COMO EXPRESSÃO DE UM SENTIMENTO VITAL .................................... 48 
Enriqueça seus estudos...................................................................................................... 51 
REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 52 
 
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 FILOSOFIA ANALÍTICA 
 
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FILOSOFIA ANALÍTICA 
 
 
A Filosofia analítica é uma vertente do pensamento contemporâneo, 
reivindicada por filósofos bastante diferentes, cujo ponto comum é a ideia de que 
a filosofia é análise - a análise do significado dos enunciados e se reduz a uma 
pesquisa sobre a linguagem. 
Inicialmente, Filosofia analítica assumiu a hipótese de que a lógica criada 
por Gottlob Frege, Bertrand Russell e outros, entre o final do século XIX e o início 
do século XX, poderia ter consequências filosóficas gerais e ajudar na análise 
de conceitos e no esclarecimento das ideias. Um dos mais claros exemplos 
dessa tendência é a análise de Russell de frases contendo descrições definidas. 
Os primeiros filósofos analíticos foram Frege, Russell, George Edward Moore e 
Ludwig Wittgenstein. Na Inglaterra, com Russell e Moore, opunha-se às escolas 
procedentes do idealismo alemão, principalmente o hegelianismo, representado 
sobretudo por J. M. E. McTaggart e F. H. Bradley. 
Mas há várias correntes dentro da filosofia analítica; dentre elas, o 
positivismo lógico, que se distingue pela rejeição de toda e qualquer metafísica. 
Neste contexto, convém destacar o Círculo de Viena, de corte neopositivista, 
fundado por Moritz Schlick e constituído por filósofos e lógicos austríacos e 
alemães: Carnap, eventualmente Hans Reichenbach e, em seus primeiros 
tempos, Wittgenstein. Suas teses foram proclamadas num manifesto, 
Concepção científica do mundo (1929). 
 
UM POUCO DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA ANALÍTICA 
 
 
Na passagem do século XIX para o século XX, a filosofia passou por uma 
nova e profunda remodelação, a chamada "virada linguística", sob a influência 
de Frege, Bertrand Russell e Wittgenstein. A atividade filosófica passou a ser 
considerada basicamente como um método lógico de análise do pensamento. 
Posteriormente, com os autores ligados ao Círculo de Viena e demais positivistas 
lógicos, será vista como um método de análise do significado das proposições 
da ciência; ou ainda, para autores como Peter 
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Strawson, será uma tentativa de se descrever alguns dos conceitos fundantes 
do nosso esquema conceitual. Nascia assim a chamada filosofia analítica. 
O surgimento da filosofia analítica marcou, portanto, uma nova divisão 
entre modos de se fazer filosofia. Os próprios filósofos analíticos forjaram o termo 
Filosofia continental para referir-se às várias tradições filosóficas procedentes da 
Europa Continental, principalmente da Alemanha e da França. 
Com o início da Segunda Guerra Mundial, muitos dos principais 
componentes do Círculo de Viena tiveram que fugir para os Estados Unidos, e 
da síntese de sua filosofia – o positivismo lógico – com a cultura americana 
nasceu uma nova corrente filosófica, o chamado Pragmatismo - ou o 
"Pragmatismo moderno", uma vez que, como corrente filosófica, o pragmatismo 
estava há mais tempo enraizado nos Estados Unidos, e precisamente com esse 
nome, sobretudo nas obras de William James (1842-1910), Charles Sanders 
Peirce (1839-1914) e John Dewey (1859-1952). 
A filosofia analítica, através de suas sucessivas manifestações, sempre 
comportou duas correntes: o empirismo lógico e a filosofia da linguagem 
ordinária. Na primeira geração o empirismo lógico é representado por G. Frege, 
cuja Begriffschrift (Halle, 1879) constitui a obra fundamental da lógica moderna. 
Ele leva adiante o projeto leibniziano, que permanecera suspenso, de uma 
"língua característica". Os Grundgesetze der Arithmetik (Breslau, 1884) 
proporcionam a primeira definição lógica de número cardinal. No caso da filosofia 
da linguagem ordinária, H. Sidgwick (1838-1900), em Method of Ethics (1874), 
representa a resistência da tradição empirista inglesa contra o idealismo neo-
hegeliano na Inglaterra. Na segunda geração temos as filosofias de Russell, no 
caso do empirismo lógico, e George Edward Moore, na filosofia da linguagem 
ordinária. 
A partir de meados do século XX, mais uma vez sob a forte influência de 
estudos advindos do campo da Lógica – dessa vez especificamente da lógica 
modal – houve uma retomada, por parte dos filósofos analíticos, de questões 
metafísicas e epistemológicas, tal como tradicionalmente concebidas. Assim, a 
partir de alguns escritos seminais de autores como Saul Kripke, Hilary Putnam e 
Tyler Burge, passou-se mais uma vez a tematizar assuntos tais como o da 
relação entre o sujeito e o mundo – ou, mais especificamente, entre o sujeito e 
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seu ambiente físico e social – condições de identidade de objetos através de 
mundos possíveis, etc. Nascia assim o externalismo. 
Atualmente a filosofia analítica é a filosofia dominante nos departamentos 
universitários de filosofia nos países de anglófonos, bem como nos países 
escandinavos,em certos países do Leste Europeu, como a Polônia, e também 
em Israel. Algumas vezes é entendida por oposição à filosofia continental. 
Entretanto, considerando que algumas de suas raízes estão no continente 
europeu, e.g., com os trabalhos de Franz Brentano, e alguns dos seus 
seguidores (e.g. Alexius Meinong), em torno do conceito de intencionalidade, 
talvez a alegada oposição seja apenas aparente. 
Além da referência original à lógica contemporânea, não há ideia 
unificadora ou dogma característico da filosofia analítica: 
A epistemologia e a lógica de Frege opunham-se sobretudo ao empirismo. 
Todavia, muitos filósofos analíticos posteriores, notadamente os positivistas 
lógicos e Quine, defenderam posições empiristas e rejeitaram o racionalismo de 
Frege. Filósofos analíticos mais recentes, como Tyler Burge, rejeitam o 
empirismo e defendem o racionalismo. 
Em lógica, Frege se opôs ao "psicologismo" de John Stuart Mill. Algumas 
ideias atribuídas a Mill - e.g., que nomes próprios não têm o que chama de 
conotação - voltaram a circular entre os filósofos analíticos. Saul Kripke, por 
exemplo, defende uma teoria milliana dos nomes próprios, contra o alegado 
descritivismo do que chama "a concepção de Frege-Russell".) 
Russell, entre outros, defendeu posições realistas. Já seu primeiro aluno 
e depois colega Wittgenstein parece ter sido, ao menos por algum tempo, um 
anti-realista. 
O Círculo de Viena e a filosofia da linguagem ordinária se opunham a toda 
e qualquer metafísica. Hoje a metafísica floresce na filosofia analítica. 
Até o início da década de 1950, o positivismo lógico era o principal 
movimento dentro da filosofia analítica. No entanto, o movimento sofreu um 
golpe mortal em 1951, quando Quine publicou "Dois Dogmas do Empirismo". Foi 
o fim do positivismo lógico. Depois disso a filosofia analítica desenvolveu-se em 
diversas direções. A ciência cognitiva e a filosofia da mente tomaram o lugar da 
lógica e da filosofia da linguagem. Há uma metafísica e mesmo uma 
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teologia analítica. Há uma filosofia política (John Rawls e Robert Nozick) e 
diversos estudos sobre ética. 
 
 
Wittgenstein e o projeto analítico 
 
 
Ao final do século XIX surge uma nova 
concepção de filosofia que se constitui como 
uma reação ao idealismo especulativo de 
inspiração hegeliana e ao empirismo 
psicologista: a Filosofia Analítica da 
Linguagem. Esse movimento tem origem em 
Cambridge, sobretudo com George Edward 
Moore e Bertrand Russell, e, paralelamente, 
com Gottlob Frege na Alemanha. O recurso a 
entidades subjetivas, como ideias e 
representações mentais, ou a entidades 
metafísicas, como formas e essências, é 
questionado, já que são inverificáveis, inacessíveis a um exame empírico. Essa 
reação levou a uma concepção de Filosofia como análise conceitual realizada 
através de um método linguístico: é através da análise do funcionamento da 
linguagem, dos princípios que governam seu uso, que podemos analisar o 
pensamento. Devemos, portanto, explicar estes princípios para tornar possível a 
análise do pensamento. 
De acordo com Michael Dummett, a ruptura com a filosofia moderna (séc. 
XVI-XVII), que tinha como questão central a epistemologia, a investigação sobre 
a natureza e possibilidade do conhecimento, abre espaço para a questão 
lógicolinguística, ou seja, o conhecimento não pode ser entendido 
independentemente de sua formulação e expressão em uma linguagem, 
caracterizando a assim chamada “virada linguística” (linguistic turn). É nesse 
contexto que nasce a filosofia analítica contemporânea, que: 
[...] define sua tarefa como a análise dos conceitos, visando desse modo 
elucidar os problemas filosóficos [...]. A análise do conceito como parte da 
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tentativa de solução de um problema filosófico não depende de uma 
compreensão da história do conceito, de suas origens e evolução, mas sim, na 
concepção tipicamente analítica, apenas da determinação da definição desse 
conceito da forma mais clara e precisa possível. 
Inicialmente, a análise, na perspectiva da filosofia da linguagem, é vista 
como um procedimento, um método de investigação filosófica, que revela a 
essência da linguagem examinando sua estrutura, isto é, mostrando como os 
signos simples se relacionam entre si, e determinando como se dá a relação 
entre esses signos e a realidade. Este método de análise vai sofrer profundas 
alterações, como veremos em seguida. Mas a perspectiva analítica mantém seu 
objetivo de produzir um esclarecimento filosófico sobre perplexidades geradas 
por uma má compreensão da linguagem. Trata-se de analisar a linguagem como 
forma de dissolver problemas filosóficos. 
 
O BACKGROUND ANALÍTICO 
 
 
A filosofia analítica não teve um desenvolvimento linear e homogêneo, ao 
contrário, se deu de forma dispersa no tempo e no espaço, comportando uma 
heterogeneidade de concepções. Danilo Marcondes distingue, em meio a essa 
multiplicidade, duas grandes vertentes de análise. A primeira, que podemos 
chamar de semântica clássica, se desenvolve a partir das obras de Frege, 
Russell (sobretudo com a teoria das descrições definidas e com o atomismo 
lógico) e Wittgenstein (com o Tractatus logico-philosophicus). Esta vertente 
possui como traço comum a preocupação com a fundamentação da ciência, 
utilizando a lógica como recurso básico. Marcondes inclui ainda nessa tradição 
o positivismo lógico do Círculo de Viena, de início fortemente influenciado pelo 
Tractatus de Wittgenstein. A segunda grande vertente, também conhecida como 
“filosofia da linguagem ordinária”, parte da influência da „análise conceitual‟ 
proposta por 
Moore, de Gilbert Ryle, do “segundo” Wittgenstein (sobretudo com as 
Investigações Filosóficas) e de John Langshaw Austin e a Escola de Oxford. A 
distinção entre essas duas correntes, no entanto, não deve ser pensada em 
termos absolutos, já que elas interagem de diversas formas. 
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George Edward Moore (1873 – 1958) 
 
 
 
A reação de Moore ao idealismo absoluto 
pode ser considerada um dos estopins do 
movimento analítico. Essa investida de Moore 
começou em 1898, e foi enraizada, não no 
empirismo, mas no realismo. Ele defendeu a 
visão antiidealista de que conceitos não são 
abstrações de ideias, mas existências 
independentes em si mesmas. Existências que se combinam para formar 
proposições que são objetos de pensamento independentes da mente. A noção 
idealista de que a unidade de uma proposição depende da atividade 
sintetizadora da mente foi „jogada para escanteio‟ em favor de um platonismo 
irrestrito, insistindo que as relações são objetivas e independentes da 
consciência. Uma proposição verdadeira não corresponde à realidade, ela é 
parte da realidade. A verdade e falsidade de proposições são absolutas, e não 
uma questão de grau. 
Negado o monismo dos idealistas, Moore passou a atacar a ideia de que 
a realidade é subjetiva, espiritual ou mental. Afirmou que nenhuma boa razão 
tem sido dada para a doutrina de que não existe distinção entre a experiência e 
seus objetos, ou que o que nós percebemos não existe independentemente de 
nossa percepção. Em outras palavras, ele insistiu que objetos do conhecimento 
(incluindo proposições) existem independentemente de serem conhecidos. O 
conhecimento de alguma coisa, seja por meio da percepção ou do pensamento, 
é diferente do objeto que se conhece; é uma relação cognitiva exterior ao objeto 
do conhecimento. 
Em seus primeiros escritos, Moore evocou a noção de „análise‟ – ummétodo de fazer filosofia que iria ter grande influência sobre as próximas 
décadas. A análise não foi concebida, inicialmente, para ser da linguagem, mas 
de alguma coisa objetiva que é significada por expressões. Uma análise que se 
aplicasse estritamente a entidades linguísticas – como a decomposição de uma 
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expressão verbal em seus elementos simples constituintes, indicando-se sua 
ordenação – não teria, para ele, relevância filosófica, já que não envolve 
diretamente nenhuma determinação ou esclarecimento do significado da 
expressão. A análise linguística não é um fim em si mesma, mas um método 
através do qual conceitos são analisados e o significado das expressões 
determinados, produzindo-se assim um esclarecimento. A análise de um 
conceito seria a explicitação de seu significado, através de outra expressão 
equivalente que o torne mais claro, possibilitando um melhor entendimento de 
seu sentido e uma melhor determinação do objeto a que se aplica. 
Embora Moore não esclareça qual é sua concepção da natureza do 
conceito, de acordo com Hacker, fica claro que o conceito não é uma entidade 
mental, o que nos traria de volta ao idealismo que é rejeitado por ele. O conceito 
deve ser entendido como o conteúdo significativo das expressões verbais, ou 
seja, Moore tomou o conceito como sendo o significado de uma expressão – 
aquilo que a expressão substitui („stands for‟). Apesar de o conceito não se 
confundir com a expressão verbal, é necessário usar expressões verbais, 
através das quais o conceito se expressa, na análise. 
A concepção de Moore do método filosófico estava distante da orientação 
linguística que a filosofia assumiria subsequentemente. Para ele, o primeiro e 
mais importante problema da filosofia é dar uma descrição geral de todo o 
Universo, mencionando todas as coisas que sabemos estar nele, e como essas 
coisas se relacionam. 
 
 
Bertrand Russell (1872 – 1970) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
maneiras. 
Russell seguiu os passos de Moore na 
crítica ao Idealismo, substituindo esta doutrina, 
não pelo empirismo, mas pelo realismo 
platônico. Para Russell a realidade consistiria 
em uma pluralidade de itens externamente 
relacionados uns aos outros de múltiplas de 
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Ele aceitou a concepção referencialista de significado, a saber, que se 
uma expressão tem um significado, então deve haver alguma coisa que ela 
significa. Russell persuadiu-se que o caminho para a verdade em filosofia era a 
análise, sendo essa essencialmente a decomposição de coisas conceitualmente 
complexas (das quais o mundo supostamente consiste) em seus constituintes 
simples e não analisáveis. 
Dentro de pouco tempo, no entanto, Russell reformulou sua teoria (como 
fez ainda outras vezes). Até aquele momento, Russell, como Moore, acreditava 
que a expressão linguística de uma sentença era um meio transparente por meio 
do qual ver a real questão da reflexão filosófica – a saber, as proposições. Eram 
essas, seguindo seu ponto de vista, as portadoras de verdade e falsidade; e ele 
as concebia, assim como Moore, como objetos não linguísticos, independentes 
da mente, que contêm, não palavras, mas entidades objetivas. Sua teoria das 
descrições (1905), ao mostrar que a estrutura gramatical de uma expressão pode 
ocultar a verdadeira forma lógica da proposição expressa, gerou a possibilidade 
de um racha entre essas estruturas. Assim, seria necessário submeter as 
sentenças a uma análise lógica a fim de revelar ou tornar explícita a forma lógica 
oculta. Essa teoria surge da análise de expressões que não possuem uma 
referência ou denotação, e que, por não se referirem a nenhum objeto existente, 
não são nem verdadeiras nem falsas. Isso pode ser percebido no exemplo 
clássico da análise da sentença “O atual rei da França é careca”. Como não 
existe um rei da França, a sentença não pode ser verdadeira; mas dizer que é 
falsa implica dizer que o atual rei da França não é careca, o que não resolve o 
problema. Essa questão teve muitas implicações para sua concepção de análise 
filosófica, que se tornou um instrumento para descobrir a verdadeira forma lógica 
das proposições. 
Quando Russell começou a evocar a noção de que são fatos, ao invés 
de proposições, que compõem o mundo, ele distinguiu a forma gramatical de 
uma sentença da forma lógica do fato correspondente. Assim, argumentou que 
a primeira tarefa da filosofia é a investigação das formas lógicas dos fatos do 
mundo. A lógica e seu aparato técnico se tornaram ferramentas de análise, 
permitindo-nos penetrar nas características desviantes da gramática ordinária 
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para conseguir alcançar a verdadeira estrutura lógica das coisas, comum à 
linguagem e ao fato. A função da análise da linguagem seria, portanto, 
determinar os componentes últimos que constituem um fato na realidade. 
A análise revela a verdadeira forma da sentença, indicando como suas 
partes se articulam para formar o todo. 
Isso significa que o método de análise é também um procedimento de 
tradução de uma linguagem menos perfeita (a linguagem comum) – em que a 
forma gramatical oculta a forma lógica (a estrutura comum à sentença e ao fato) 
– para a linguagem lógica – que exibe a forma lógica de modo direto e explícito, 
dissipando possíveis dúvidas e mal-entendidos. 
Esse método supõe a existência de uma linguagem logicamente perfeita, 
que deve espelhar a forma lógica dos fatos e então revelar a estrutura lógica do 
mundo de maneira clara e correta, evitando equívocos e confusões. 
A teoria das descrições forçou Russell a conceder maior importância a 
investigação da linguagem e simbolismo do que fora dado até esse momento, 
ao menos porque revelou quão enganadora é a linguagem ordinária, se tomada 
como sendo um meio transparente através do qual investigar as formas das 
proposições (ou fatos). 
A força motriz da filosofia de Russell é o desejo de estabelecer uma 
rigorosa fundamentação para o conhecimento. Com esse intuito, defendeu o 
„método científico na filosofia‟. A filosofia, assim como a ciência, busca alcançar 
o conhecimento – uma compreensão teórica do mundo. Ela difere das outras 
ciências por sua generalidade e formalidade. Seu núcleo, a lógica, consiste de 
proposições completamente gerais, e fornece critérios para se justificar a 
determinação da relação verdadeira, correta, entre a linguagem e a realidade. 
Seu interesse deve ser naquilo que é verdade em qualquer mundo possível, 
independentemente dos fatos que só podem ser descobertos pela experiência 
sensível. 
Tanto Moore quanto Russell, em seus diferentes estilos de análise, 
inauguraram a filosofia analítica do século 20. No entanto, ambos os filósofos 
insistiram em enfatizar que sua análise era de fenômenos, e não da linguagem. 
Mesmo assim, os fundamentos que deixaram foram rapidamente adaptados a 
análise lógico-linguístico, assim que a „virada linguística‟ se deu na filosofia. 
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Gottlob Frege (1848 – 1925) 
 
Foi a obra de Frege que conferiu uma posição de 
destaque à linguagem, ao afirmar que é apenas através 
da análise da linguagem que podemos analisar o 
pensamento. A filosofia da linguagem seria, assim, o 
fundamento de toda outra filosofia. Frege pode ser 
considerado, nesse aspecto, o precursor da filosofia da 
linguagem de tradição analítica. É Frege, portanto, que 
estabelece que o objetivo da filosofiadeve ser a análise da estrutura do 
pensamento; e que o único método apropriado para efetuar essa análise é 
tornando explícitos os princípios que regulam nosso uso da linguagem. 
Frege rompe com a teoria kantiana em seu caráter subjetivista (ainda que 
transcendental) e em seu apelo à intuição pura na constituição do conhecimento. 
Assim, distingue o objeto do conhecimento e seu reconhecimento, afirmando que 
é o conteúdo objetivo da asserção que deve ser o objeto de investigação do 
lógico. A tarefa filosófica seria a investigação do pensamento como algo objetivo, 
impessoal e atemporal, e não como algo psicológico e subjetivo, como era 
característico das correntes idealistas. O princípio da investigação filosófica é a 
análise conceitual de definições, isto é, a análise do significado, e não de 
processos mentais, subjetivos. A análise do significado, por sua vez, depende 
de um modelo de como a linguagem funciona, da caracterização de sua 
estrutura. É dessa forma que passamos aqui a uma primazia da investigação 
lógica da linguagem. 
É a discussão de Frege do problema do significado que constitui um dos 
principais pontos de partida para o desenvolvimento da teoria semântica. Frege 
estabelece uma distinção fundamental entre o sentido (Sinn) e a referência 
(Bedeutung). A referência é o objeto designado, enquanto que o sentido é o 
modo de designar o objeto, de determinar a referência, ou seja, o modo pelo qual 
o objeto se apresenta. Duas expressões podem, portanto, ter a mesma 
referência e diferentes sentidos. 
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A Conceitografia (1879) de Frege toma como ponto de partida, como 
afirma Marcondes, a concepção de que as proposições com significado têm um 
conteúdo conceitual objetivo, e de que esse conteúdo não é adequadamente 
representado pela linguagem comum, devendo ser possível construir uma 
notação em que o conteúdo conceitual de qualquer proposição possa ser 
expresso de forma mais clara e adequada. A tarefa filosófica pode ser vista, 
então, como a determinação desse conteúdo objetivo a partir da crítica de sua 
expressão na linguagem comum e de sua tradução para uma linguagem lógica 
formal e depurada das imperfeições da linguagem comum. Segundo essa 
concepção, a análise filosófica se dá através de um processo de tradução de 
uma linguagem para a outra mais perfeita, em que os problemas da anterior são 
resolvidos. 
É a partir dessa concepção que se desenvolve a noção de análise lógica 
como descrição semântica da sentença capaz de distinguir na linguagem os 
elementos que refletem a estrutura do pensamento dos que não refletem. 
 
 
O projeto de formalização da linguagem 
 
 
 
Frege e Russell igualmente pensavam que as proposições lógicas são 
verdades perfeitamente gerais. De acordo com Frege, as „leis do pensamento‟ 
que a lógica investiga são generalizações sobre proposições, conteúdos 
julgáveis ou pensamentos. Uma proposição como “Chove ou não chove” é uma 
instância particular de uma lei lógica, mas não uma lei lógica em si. As leis da 
lógica governam tudo o que é pensável. Consequentemente a lógica é a ciência 
das leis mais gerais da verdade. Eles acreditavam que os axiomas primitivos da 
lógica são auto-evidentes, verdades indemonstráveis. O que é importante não é 
o fato de que pensamos de acordo com essas leis, mas o fato de que as coisas 
se comportam de acordo com elas. Em outras palavras, o fato de que quando 
pensamos de acordo com elas, pensamos verdadeiramente. 
Ambos os filósofos consideravam a linguagem natural logicamente 
defeituosa. A gramática ordinária é um guia falível para as estruturas reais que 
a lógica e filosofia devem investigar. A linguagem desenvolvida por Frege foi 
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concebida para revelar a verdadeira estrutura do pensamento, que a linguagem 
natural esconde. Todas as expressões em sua fórmula lógica são amplamente 
definidas, sendo impossível formar expressões sem referência ou sentenças 
expressando pensamentos sem valor de verdade. Russell, fiel ao atomismo 
metafísico e a correspondência entre a proposição verdadeira e o fato, afirma 
que, em uma linguagem perfeita, haverá uma palavra, e não mais, para cada 
objeto simples, e tudo que não é simples será expresso por uma combinação de 
palavras, derivada das palavras que se referem às coisas simples que formam o 
objeto complexo de que se trata. Uma linguagem desse tipo seria completamente 
analítica, deixando clara a estrutura lógica dos fatos afirmados ou negados. 
É evidente, afirma Hacker, que, apesar dos grandes avanços na 
formalização alcançada por Frege e Russell, havia muito pouco avanço na 
compreensão acerca da natureza da lógica e proposições da lógica. Foram 
essas questões que o jovem Wittgenstein confrontou na segunda década do 
século XX. 
 
A ANÁLISE WITTGENSTEINIANA DA LINGUAGEM 
 
 
A obra de Wittgenstein parece consolidar as intenções do movimento 
analítico: a rejeição ao idealismo e ao psicologismo, e a escolha do tema da 
linguagem como central para a reflexão filosófica. No entanto, o trabalho do 
filósofo reformula muitos pontos da discussão que vinha sendo travada no 
interior da filosofia analítica. 
Enquanto a filosofia da primeira fase da obra de Wittgenstein, 
representada pelo Tractatus Logico-philosophicus, ainda se aproxima bastante 
das ideias centrais de Russell e Frege, a segunda fase de sua obra, representada 
pelos escritos posteriores a 1929, sobretudo pelas Investigações Filosóficas, 
apresenta uma nova concepção de método filosófico e de análise da linguagem. 
Enquanto antes a análise linguística se dava através de uma perspectiva 
semântico transcendental, a partir das Investigações essa perspectiva passa a 
ser pragmática, indicando a importância de se considerar a linguagem como um 
modo de comportamento social, devendo ser examinada 
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do ponto de vista de suas funções e efeitos que o contexto sócio-cultural lhe 
impõe. Como afirma Danilo Marcondes, agora a linguagem não é mais 
considerada tomando como base a forma lógica da proposição, a partir da qual 
se determina sua relação com o real, isto é, sua verdade ou falsidade. A noção 
de linguagem se dissolve em uma multiplicidade de “jogos de linguagem”, que 
se definem como um todo, consistindo do “conjunto da linguagem e das 
atividades com as quais está interligada”. A linguagem passa a ser entendida 
como ação, como sistemas de atos simbólicos, e não como representação 
mental ou sistema formal. “O termo „jogo de linguagem‟ deve aqui salientar que 
o falar da linguagem é uma parte de uma atividade ou de uma forma de vida”. 
Neste contexto, Wittgenstein produz uma transformação na discussão 
clássica da filosofia ao negar a existência de uma essência metafísica, 
apresentando a noção de “formas de vida” como o fundamento da linguagem, do 
pensamento e do significado. Assim, quando investigamos a linguagem, estamos 
igualmente investigando a realidade da qual falamos. 
Esta mudança na concepção de linguagem reflete-se também na 
concepção da tarefa da filosofia. Se desde o Tractatus Wittgenstein já afirmava 
que a filosofia não é um corpo doutrinário, mas uma atividade de elucidação, nas 
Investigações essa posição é radicalizada. A afirmação nas Investigações 
Filosóficas de que “a significação de uma palavra é seu uso na linguagem”, de 
que a linguagem “está em ordem tal como está”, ou que os problemas filosóficos 
“nascem quando a linguagem entra em férias”, procura pôr em evidência que a 
elucidação dos problemas filosóficos consistiria em“reconduzir as palavras do 
seu uso metafísico para seu uso cotidiano”, negando uma abordagem 
especulativa de um conceito, que consistiria em abstraí-lo do seu contexto de 
uso, isto é, isolá-lo das diferentes funções que pode exercer em atos 
comunicativos. É necessário examinar a linguagem a partir de seu uso, 
considerando os jogos de linguagem, suas regras, seu contexto. Os problemas 
filosóficos se originam, em grande parte, de uma consideração errônea, 
equivocada, da linguagem e de seu modo de funcionar. Assim, Wittgenstein 
defende que a filosofia deve apenas descrever a linguagem em seus contextos 
de uso, negando a formulação de uma teoria ideal da linguagem. Dessa forma a 
investigação filosófica se transforma numa análise gramatical, isto é, em uma 
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análise do conjunto de regras de uso de palavras que explica o significado de 
um termo nos diferentes jogos de linguagem de que participa. No §89 das 
Investigações, Wittgenstein afirma: “Mas não que devêssemos descobrir com 
isso novos fatos: é muito mais essencial para nossa investigação não querer 
aprender com ela nada de novo. Queremos compreender algo que já esteja 
diante de nossos olhos. Pois parecemos, em algum sentido, não compreender 
isto”. 
Delineado o contexto teórico em que se insere o pensamento de 
Wittgenstein, passemos agora a discutir mais detalhadamente algumas noções 
que assumem relevada importância em sua obra, apontando as transformações 
que desencadearam na análise da linguagem. 
 
 
Os Jogos de Linguagem 
 
 
 
O projeto de análise do uso das palavras e das frases na linguagem 
ordinária se consolida com o conceito de “jogos de linguagem”, que são sistemas 
de comunicação completos em si mesmos, com regras e propósitos que se 
justificam internamente. Descrevendo-se os diferentes jogos de linguagem em 
que é usada uma mesma expressão, isto é, descrevendo-se os diferentes atos 
comunicativos nos contextos sócio-culturais em que são realizados, elucida-se o 
sentido da expressão. A análise deste conceito permite uma melhor avaliação 
do novo método de análise linguística. 
Ao destacar a importância do sistema de referência, Wittgenstein renuncia 
à noção de objeto simples, central no Tractatus Logico-Philosophicus, bem como 
no atomismo lógico em geral. O que corresponde agora ao nome, e é 
imprescindível para que este tenha significação, é o sistema que é utilizado na 
linguagem em ligação com ele, e não uma referência supostamente fixada por 
alguma essência transcendental do objeto. 
Wittgenstein rompe com as concepções tradicionais da linguagem ao 
introduzir as noções de contexto e de ação do falante como relevantes para a 
determinação do sentido. Essa tese nega a ideia de uma relação essencial entre 
o signo e o objeto, justamente por aceitar que as expressões têm várias 
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funções determinadas pelos contextos de uso, e não apenas a função 
referencialista. 
Afirma: 
Quantas espécies de frases existem? Afirmação, pergunta e comando, 
talvez? – Há inúmeras de tais espécies: inúmeras espécies diferentes de 
emprego daquilo que chamamos de “signo”, “palavras”, “frases”. E essa 
pluralidade não é nada fixo, um dado para sempre; [...] É interessante comparar 
a multiplicidade das ferramentas da linguagem e seus modos de emprego, a 
multiplicidade das espécies de palavras e frases com aquilo que os lógicos 
disseram sobre a estrutura da linguagem. (E também o autor do Tractatus 
Lógico-philosophicus). 
Restringir as palavras de uma língua à função designativa significaria 
identificá-las ao papel dos substantivos nas linguagens naturais. Mas, 
evidentemente, nem todas as palavras designam objetos e mesmo quando não 
são designativas podem ser compreendidas, tendo, portanto, sentido. Afirma 
ainda que a exigência lógica da simplicidade do objeto exprime a necessidade 
de que a definição ostensiva25 associe à palavra uma característica essencial do 
objeto, abstraída de seus aspectos acidentais. Assim, a expressão 
supostamente denotaria aquilo que constitui o objeto, o que ele é, a sua 
essência. 
A crítica de Wittgenstein não consiste apenas em mostrar que a 
simplicidade é uma questão de contexto: que em certas circunstâncias um objeto 
pode ser considerado como simples e em outras como composto de partes mais 
elementares, mas em afirmar que a definição ostensiva pode ser sempre 
interpretada, o que significa que tal como a definição verbal, a definição 
ostensiva é ela também parte de um ato comunicativo onde os falantes 
desempenham papéis determinados e dominam uma linguagem, de tal maneira 
que atividades diferentes poderiam correlacionar uma mesma palavra com 
objetos diferentes. 
Wittgenstein considera que uma palavra em si mesma é morta, quem lhe 
dá vida é o uso. Isto significa que a palavra é um instrumento do ato 
comunicativo, uma ferramenta, e que só pode ser definida como palavra (e não 
apenas como sinal) pelo papel que exerce no ato comunicativo, dentro do 
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contexto geral em que a linguagem é usada, assim como as peças do xadrez, 
que não representam coisa alguma, só assumindo significação dentro das regras 
do jogo. 
O conceito de jogo não admite uma definição „traço por traço‟. Assim, não 
há qualquer conjunto de condições necessárias e suficientes para que uma 
atividade seja definida como jogo; teoricamente, o conceito pode ser 
indefinidamente estendido. Ademais, o objetivo do jogo permanece inteiramente 
interno a ele, não sendo determinado em nada pelo exterior. Chamamos de 
“jogos” determinadas atividades, não em virtude de um conjunto fixo de 
propriedades comuns, pois não existe nenhuma definição precisa de jogo, o que, 
no entanto, não nos impede de compreender ou explicar o que é “jogo”. O que 
faz diversas atividades serem chamadas de “jogos” é uma rede de semelhanças 
variadas, comparáveis às que observamos entre os membros de uma família. 
Explicar o que é um jogo é antes de tudo dar exemplos, isto é, descrever jogos, 
depois construir outros por analogia com eles, para mostrar o que deve ser 
excluído da família dos jogos. “Os jogos de linguagem figuram muito mais como 
objetos de comparação, que, através de semelhanças e dissemelhanças, devem 
lançar luz sobre as relações de nossa linguagem”. Os exemplos usados para 
explicar “jogo” são paradigmáticos, isto é, “centros de variações”. Mas mesmo 
que não tenha limites nítidos, o conceito de jogo não deixa de ter unidade. Sua 
extensão não é rigidamente demarcada. A explicação envolve o uso de 
paradigmas, sem que se precise especificar o grau de semelhança com eles. 
Se em certos casos é possível circunscrever o conceito de jogo, a localização 
dessa fronteira é determinada apenas pelo objetivo momentâneo. 
 
 
Formas de Vida 
 
 
 
 Nas Investigações Filosóficas, Wittgenstein procura precisar o conceito de 
jogos de linguagem através do conceito “formas de vida”. Coloca: “o termo “jogo 
de linguagem” deve aqui salientar que o falar da linguagem é parte de uma 
atividade ou de uma forma de vida”. 
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Se a expressão “jogos de linguagem” denomina uma família de atos 
comunicativos completos, e os atos linguísticos a unidade básica da 
comunicação linguística, é também verdade que, para Wittgenstein, é o modo de 
agir humano, a prática histórico-social, que especifica e identifica os atos 
comunicativos. Torna-se evidente,então, que o conceito de formas de vida 
remete a análise do falar à análise do agir. Em outras palavras, compreende o 
dizer através do fazer. 
Assim como as palavras derivam seu significado de seu contexto 
linguístico, os jogos de linguagem derivam seu significado das formas de vida. 
Nossos conceitos e jogos de linguagem são dependentes do mundo, mas eles 
não são diretamente produtos do mundo, mas de nossas vidas conduzidas no 
mundo. Os significados das palavras não são determinados pelos objetos aos 
quais eles se referem, pelas imagens mentais que eles evocam, mas pelos jogos 
de linguagem em que são usados, e estes, por sua vez, são manifestações de 
uma forma de vida. 
As regras da linguagem, como as de um jogo de xadrez, são regras 
autônomas. São arbitrárias, no sentido que não levam em conta uma pretensa 
essência ou forma da realidade, não podendo ser vistas como corretas ou 
incorretas de um modo filosoficamente relevante, mas alterá-las equivaleria a 
mudar o jogo. Afirmar que a linguagem é autônoma não é o mesmo que dizer 
que é facilmente alterável ou uma simples escolha individual. A linguagem está 
imersa numa forma de vida, estando, portanto, sujeita as mesmas restrições a 
que se sujeitam as atividades humanas em geral. 
Nossos jogos de linguagem e regras não repousam na vontade humana 
ou em escolhas individuais. As regras são conectadas com circunstâncias que 
justificam seu uso, com práticas e comportamentos de uma comunidade 
linguística. Na linguagem que usam, os homens estão de acordo, diz ainda 
Wittgenstein. Não é um acordo sobre os instrumentos e nem sobre os usos 
destes instrumentos; se há um acordo sobre a linguagem é porque há um acordo 
sobre a forma de vida. “Correto e falso é o que os homens dizem; e na linguagem 
os homens estão de acordo. Não é um acordo sobre as opiniões, mas sobre o 
modo de vida”. 
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A visão unitária da linguagem, própria do Tractatus, foi, a partir de então, 
ultrapassada. Essa pretensa linguagem unitária fragmenta-se em inúmeros 
sistemas, os “jogos de linguagem”. Mas esses sistemas linguísticos estão 
firmados sobre algo mais fundamental – um contexto humano ou uma forma de 
vida particular, que delimita a aplicação e interpretação de regras. Nós somos 
constrangidos não por uma forma lógica, mas por nossa “forma de vida”. Essa 
imagem repudia a ideia de uma única forma necessária de linguagem e introduz 
a ideia de muitas e variadas unidades de sentido inter-relacionadas, inseridas 
em um contexto de vida mais amplo. O falar passa a ser visto como uma prática 
social entre outras, abordável do ponto de vista antropológico. 
Fragmentada em jogos múltiplos, a linguagem não perde por isso sua 
unidade. Não mais aquela conferida pela essência, pela posse comum de um 
conjunto fixo de propriedades; trata-se agora da unidade de uma família de jogos 
de linguagem, ligados entre si por “semelhanças de família”, sem que se possa 
encontrar casos comuns a todos. Portanto, compreender o funcionamento da 
linguagem é compreendê-la como um conjunto de diferentes ações 
comunicativas que têm entre si “semelhanças de família”. 
 
 
Gramática 
 
 
 
Falar uma língua é tomar parte em uma atividade guiada por regras. 
Compreender uma linguagem envolve dominar as técnicas de aplicação de suas 
regras. A própria noção de linguagem implica a presença de uma forma 
gramatical, de regras através das quais palavras são conectadas, umas às 
outras, num sistema. Wittgenstein reconhece, portanto, a importância dessa 
forma gramatical na determinação do significado. 
Hacker, de forma esclarecedora, justapõe a concepção de Wittgenstein 
de gramática com sua concepção anterior de sintaxe lógica. De acordo com o 
Tractatus, linguagens ordinárias podem variar superficialmente, mas 
ocultam uma uniformidade latente, que se torna manifesta através da análise 
lógica. A análise traz à tona as regras essenciais de qualquer linguagem 
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possível. Há somente uma lógica “que abrange tudo e espelha o mundo”42, 
comum a todos os sistemas linguísticos capazes de afigurar a realidade. 
Muitas dessas regras da sintaxe lógica estão escondidas da visão. Elas 
não são evidentes no uso comum da linguagem, na qual expressões logicamente 
diferentes parecem enganosamente uniformes. Elas não são usadas nas 
atividades pedagógicas diárias – usadas para explicar como aderir corretamente 
às práticas que governam. Não são citadas para justificar o uso de expressões 
ou para criticar ou corrigir maus usos. As regras latentes de qualquer linguagem 
possível são sempre seguidas pelos falantes, mesmo se eles não são capazes 
de dizer o que elas são ou empregá-las como normas de correção para a 
avaliação do uso de expressões. De qualquer forma, no Tractatus, essas regras 
são absolutamente determinadas, pois são elas que, juntas com a atribuição de 
significados aos nomes simples, estabelecem o sentido das proposições. Elas 
não são usadas em atividades pedagógicas, mas funcionam como instrumento 
de garantia do discurso, impedindo que a 
„denotação‟ extrapole seus limites. A distinção entre sentido e não-sentido era 
concebida como sendo independente do contexto e propósito, estabelecido de 
uma vez por todas. 
A gramática, diferente da sintaxe lógica, não é universal, não consiste de 
regras que necessariamente sublinham qualquer linguagem possível – diferentes 
linguagens possuem diferentes gramáticas. A gramática de uma linguagem 
consiste de regras para o uso correto43 de expressões daquela linguagem. 
Regras da gramática são abertas à visão, e não ocultas como o são as 
regras da sintaxe lógica como concebidas no Tractatus. 
As „regras da gramática‟ são explicitas na maneira como uma linguagem 
é ensinada, em explicações dadas pelos falantes sobre o significado das 
palavras, na maneira como eles criticam e corrigem maus usos da linguagem, 
nas justificativas dadas para usar uma palavra de uma maneira ou de outra. 
“„Hidden rules‟ are not rules at all”, já que não podem ser usadas pelos falantes 
como regras, não podem desempenhar o papel de padrões de correção, guias 
para conduta, ou justificativas para empregar expressões. Dar o significado de 
uma palavra é especificar sua gramática. 
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O sentido de uma proposição é determinado por seu lugar no sistema 
gramatical, no sentido de que este determina suas relações lógicas com outras 
proposições [...]. A gramática de uma língua é o sistema global de regras 
gramaticais, das regras constitutivas que a definem, pela determinação daquilo 
que faz sentido dizer ao usá-la. 
A gramática filosófica não lida com regras especiais. Wittgenstein não 
buscou ampliar o conceito de gramática, ou mesmo introduzir um conceito 
diferente, mas sim indicar que existem dois tipos de interesse nas regras de uma 
linguagem. O interesse do filósofo na gramática é guiado pelo propósito de 
elucidar problemas filosóficos. Esses problemas derivam da má compreensão e 
mau uso da linguagem, e são clarificados e resolvidos apontando as formas 
pelas quais as expressões são mal utilizadas, questões ilegítimas formuladas, 
regras de linguagem violadas. Mas essas regras não são aquelas que 
interessam ao gramático; são primeiramente explicações do significado, e não 
regras sintáticas sobre as quais os gramáticos tendem a focar. 
Da mesma maneira, Wittgenstein não estava buscando estender o 
conceito de regras. Para Wittgenstein algo conta como uma regra da gramática, 
não se possui uma determinada forma (ex. uma determinadaforma de 
generalidade), mas se é usada de uma determinada maneira (ex. como um guia 
de conduta, explicando ou justificando ações, como um padrão de correção, 
etc.). O estatuto lógico de uma sentença não se deve à sua forma linguística, 
mas sim ao modo como ela é utilizada, podendo, portanto, alterar- se. 
Como afirma Hacker, depois de Platão, filósofos passaram a aceitar como 
explicação correta apenas aquela que captura a essência do explicandum em 
uma definição formal, dando as condições necessárias para a aplicação de uma 
expressão. Mas este seria, de acordo com Wittgenstein, um ideal equivocado, 
dado que nem todos os nossos conceitos são completamente definidos, 
preparados para todas as ocasiões possíveis, e eles não deixam de 
desempenhar sua função por isso. “We don‟t have to apply them in all 
conceivable eventualities but only in actual ones. If a rule for the use of an 
expression provides a standard for its correct use in normal 
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circumstances, than it has fulfilled its function”. Os conceitos são regras de 
aplicação de palavras de acordo com a gramática, e uma regra só pode ser 
julgada como adequada ou não dentro de um contexto. Se uma regra exerceu 
com sucesso seu papel na prática, está em ordem. Se essas condições de 
normalidade mudam, então as definições formais e explicações do significado 
de palavras podem se tornar obsoletas. As regras gramaticais surgem da práxis 
da linguagem. 
Mas, - questiona Wittgenstein – “um conceito impreciso é realmente um 
conceito?”, e também “não é a imagem pouco nítida justamente aquela de que, 
com frequência, precisamos?”. E mais à frente: 
Mas é absurdo dizer: „pare mais ou menos aqui!? Imagine que eu esteja 
com alguém numa praça e diga isso. Dizendo isso, não irei traçar um limite 
qualquer, mas farei com a mão um movimento indicativo – como se lhe 
mostrasse um determinado ponto. (...) A exemplificação não é aqui um meio 
indireto de elucidação, - na falta de outro melhor. Pois toda elucidação geral pode 
também ser mal compreendida. 
Exemplos, da mesma forma que definições ostensivas e explicações por 
meio de uma paráfrase contextual são explicações de significado perfeitamente 
legítimas. Todas são corretas e adequadas pois desempenham o papel de 
padrões de uso correto na prática de usar a linguagem. A gramática abrange 
todas as regras para o uso de palavras, e todas as explicações de significado, 
incluindo definições ostensivas. 
Wittgenstein distingue a “gramática profunda” da “gramática superficial” 
das palavras. Como afirma no §664 das Investigações: “poder-se-ia distinguir, 
no uso de uma palavra, uma „gramática superficial‟ de uma „gramática 
profunda‟. Aquilo que se impregna diretamente em nós, pelo uso de uma palavra, 
é o seu modo de emprego na construção da frase; a parte de seu uso 
– poderíamos dizer – que se pode apreender com o ouvido”. Esta última, isto é, 
as características imediatamente evidentes das palavras, seus aspectos 
superficiais, não deve ser objeto do filósofo, mas sim dos linguistas, uma vez que 
é essa a gramática responsável pela construção da frase de modo correto. 
A gramática de superfície (a estrutura sentencial) do enunciado “Eu estou 
com dor” é igual à do enunciado “Eu estou com um alfinete” (...). Suas 
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gramáticas profundas, entretanto, são completamente diferentes: as palavras 
possuem possibilidades combinatórias diversas, e as proposições constituem 
lances diferentes no jogo de linguagem, possuindo relações e articulações 
lógicas distintas”. 
A gramática profunda revela as diferentes espécies de uso das 
expressões, e é nela que o filósofo deve se concentrar. Ela é um instrumento 
que nos permite verificar a pluralidade dos usos das palavras e as diversas 
formações de proposições, permitindo-nos analisar os diversos modos do 
discurso. 
Esta distinção entre gramática profunda e superficial não indica, contudo, 
um contraste entre níveis diferentes de regras gramaticais. A ideia de 
profundidade sugere, enganosamente, como afirma Glock, que a gramática 
profunda é descoberta por meio da análise lógica, como no Tractatus, ou por 
meio da análise linguística como concebida por Chomsky. 
Estamos na ilusão de que o especial, o profundo, o essencial (para nós) 
de nossa investigação residiria no fato de que ela tenta compreender a essência 
incomparável da linguagem. Isto é, a ordem que existe entre os conceitos de 
frase, palavra, conclusão, verdade, experiência etc. Esta ordem é uma super 
ordem entre – por assim dizer – superconceitos. Enquanto as palavras 
“linguagem”, experiência”, “mundo”, se têm um emprego, devem ter um tão 
humilde quanto as palavras “mesa”, “lâmpada”, “porta”.” 
O contraste não se dá entre a superfície e a “geologia” das expressões, 
como era o caso no Tractatus, que propunha alcançar um ponto de vista lógico 
correto escavando sob as aparências da linguagem para descobrir sua estrutura 
latente. O contraste se dá “entre as cercanias locais, que podem ser apreendidas 
em um lance de olhos, e a geografia geral, isto é, o uso geral de uma expressão.” 
Não se trata, portanto, de uma investigação “geológica”, mas sim “topográfica”. 
Wittgenstein afirmou ainda que, assim como as violações corriqueiras da 
gramática, as proposições metafísicas são absurdas, pois não existem regras 
metalógicas ou conceitos logicamente mais fundamentais do que outros. A 
gramática é plana. Não existem “superconceitos”, pois todos os conceitos têm 
valores comuns, isto é, adquirem valor na medida em que são usados 
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dentro dos jogos de linguagem. Não existe uma separação entre linguagem e 
metalinguagem, enquanto uma super-ordem que garantiria a regulação da 
linguagem, constituindo sua essência. A gramática não se desvincula do próprio 
uso linguístico que regula. 
Não se trata de compreender a gramática profunda como um instrumento 
de normatização do discurso, o que se pretendia com o logicismo Tractatiano. 
Não se trata de corrigir a linguagem cotidiana através da gramática profunda 
como se ela fosse o parâmetro de uma linguagem ideal. Nas Investigações não 
existem conceitos privilegiados que possam servir de parâmetros para algum tipo 
de aferição. Com efeito, as Investigações eliminam essa concepção de uma 
“norma”, “ordem” ou “essência” de determinada parte da linguagem que sirva de 
parâmetro para toda linguagem. 
Ao refletir sobre nosso uso da linguagem, devemos nos ater ao que é 
chamado uma explicação do significado de uma expressão e resistir às 
tentações de um falso ideal de explicação. Não há uma linguagem ideal, 
desprovida de equívocos. “Se acreditamos que devemos encontrar aquela 
ordem, a ideal, na linguagem real, ficaremos insatisfeitos com aquilo que na vida 
quotidiana se chama “frase”, “palavra”, “signo”.” . 
Sendo assim, a explicação das regras gramaticais não constitui apenas 
uma tarefa secundária para a filosofia. “A essência está expressa na gramática”; 
“que espécie de objeto alguma coisa é, é dito pela gramática”, uma vez que 
especifica o que pode ser dito com sentido sobre ele. “Não analisamos um 
fenômeno (por exemplo, o pensar), mas um conceito (por exemplo, o do pensar), 
e portanto o emprego de uma palavra.”. 
As investigações empíricas quanto à natureza física ou matéria X 
pressupõem a gramática de „X‟, uma vez que essa última determina o que pode 
contar como X. A resposta à pergunta socrática “O que é X?” não nos é dada 
pelo exame de essências (objetos mentais ou abstratos), mas pelo 
esclarecimentodo significado de “X”, que é fornecido pelas regras de uso do 
termo “X”. 
A busca por essências, tarefa que perpassou toda a História da Filosofia, 
é então substituída pela investigação gramatical, por uma tentativa de entender 
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“como” a linguagem funciona. O que interessa é compreender os diversos 
“usos” da linguagem. 
 
LINGUAGEM E MUNDO: A REALIDADE COMO SOMBRA DA GRAMÁTICA 
 
Vimos, portanto, que Wittgenstein mudou radicalmente a maneira de 
conceber as regras que regem a nossa linguagem. Essa mudança recoloca a 
problemática da relação entre linguagem e mundo, questão que perpassa toda 
a obra do autor. 
No Tractatus, Wittgenstein afirma que a estrutura da linguagem espelha a 
estrutura da realidade, refletindo a relação entre as coisas no mundo. Qualquer 
linguagem capaz de descrever a realidade deve ser governada pela sintaxe 
lógica, cujas regras devem corresponder aos traços estruturais da realidade: a 
forma lógica dos nomes deve espelhar a essência dos objetos aos quais 
correspondem. Afirma: “Especificar a essência da proposição significa 
especificar a essência de toda descrição e, portanto, a essência do mundo” 
Nas Investigações Filosóficas a ideia de um isomorfismo entre linguagem 
e realidade ganha outro sentido. Não sugere mais que a linguagem deve 
espelhar a forma lógica do universo, mas sim que a aparente „estrutura da 
realidade‟ não passa de uma sombra projetada pela gramática. 
A linguagem deixa de ter a função exclusiva de representação biunívoca. 
O que faz sentido em um sistema de linguagem dado, “o que é (logicamente) 
dito possível e o que não é”61, depende do que nossa gramática autoriza, e não 
de um acordo com uma „estrutura do mundo‟. A gramática constitui nossa forma 
de representação, estabelece o que pode contar como uma descrição inteligível 
da realidade, mas não é diretamente controlada por essa realidade. De acordo 
com essa nova concepção, a gramática é autônoma e autocontida, posto que 
não precisa “prestar contas” à realidade extralinguística para se legitimar. Essa 
concepção abre espaço para a possibilidade de existirem diferentes gramáticas. 
Ao negar o isomorfismo entre o fato e a proposição com base na 
adequação entre o objeto e o nome, ou entre a essência do mundo e seu 
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representante na linguagem, Wittgenstein desmonta a concepção denotacionista 
de linguagem. A crítica ao modelo metafísico de explicação da linguagem se 
relaciona a uma nova concepção de explicação do significado. É o uso que 
constitui a significação, e não a denotação de objetos. Assim, existindo uma 
multiplicidade usos, existe uma multiplicidade de significações. A questão da 
relação entre linguagem e o mundo, quando formulada com uma pretensão de 
validade universal, torna-se ociosa com a noção de autonomia da gramática. Isso 
porque toda mudança operada nas regras de uso de uma expressão será 
também uma mudança de significação. A significação, enquanto uso, muda de 
acordo com o jogo de linguagem. 
Assim, é a partir da noção de regras de uso que o problema da harmonia 
entre linguagem e realidade aparece no segundo Wittgenstein. A questão 
poderia tornar-se então: „Como se dá a relação entre as regras que regem um 
jogo de linguagem e as atividades com as quais está interligada?‟, ou „Como 
uma regra se relaciona com sua aplicação?‟, ou ainda, „Como se dá o acordo 
entre uma explicação de uso e esse uso propriamente dito?‟. Mas dentro do jogo 
de linguagem particular, a relação entre uma regra gramatical e o que está de 
acordo com ela é algo sem mistérios. O problema só surge quando abstraímos 
as palavras de seu contexto, quando tentamos estabelecer uma relação que se 
aplique a todas as situações, quando buscamos formular uma teoria sobre essa 
relação. Se investigarmos os casos em que as expressões aparecem inseridas 
em seu contexto, a relação e aplicação não serão problemáticas, mas dadas pelo 
próprio contexto. 
Uma relação entre duas coisas não se dá porque elas possuem algo em 
comum, mas porque nós selecionamos um critério para estabelecer essa 
relação. Uma matéria possui inúmeras propriedades que poderiam ser utilizadas 
como critério para definir diferentes conceitos. A escolha desses critérios, 
portanto, não se deve a uma correspondência com a realidade, mesmo que leve 
em consideração a maior ou menor utilidade, o maior ou menor poder 
explanatório. A gramática não está sujeita á refutação empírica. “As convenções 
gramaticais não podem ser justificadas descrevendo-se o que é representado. 
Qualquer descrição desse tipo já pressupõe as regras gramaticais. (...) Não se 
pode usar a linguagem para ir além daquilo que é possível comprovar”. Não 
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dispomos de um ponto de vista exterior à gramática, extralinguístico ou pré-
conceitual, a partir do qual poderíamos justificar nosso sistema gramatical. 
Dessa forma, para o segundo Wittgenstein, não podemos fundamentar 
filosoficamente a linguagem. Não existe uma essência oculta que possa servir 
de fundamento ontológico para nossa linguagem. As essências metafísicas são 
meras ilusões que enfeitiçam nosso entendimento, são apenas „sombras‟ da 
gramática. Cabe, portanto, à filosofia, apenas descrever os usos das palavras, e 
não postular teorias para fundamentar esses usos. 
Wittgenstein afirma: “A filosofia não deve, de modo algum, tocar no uso 
efetivo da linguagem; em último caso, pode apenas descrevê-lo. Pois também 
não pode fundamentá-lo. A filosofia deixa tudo como está”. E depois: “A filosofia 
simplesmente coloca as coisas, não elucida nada e não conclui nada. – Como 
tudo fica em aberto, não há nada a elucidar. Pois o que está oculto não nos 
interessa. Pode-se chamar também de „filosofia‟ o que é possível antes de todas 
as novas descobertas e invenções”. 
Dentro dessa perspectiva, os problemas filosóficos são como 
malentendidos gramaticais. Surgem, principalmente, quando confundimos nossa 
gramática profunda com a gramática de superfície, formando „falsas analogias‟. 
Para „dissolver‟ esses problemas, devemos adotar um método terapêutico de 
análise da linguagem para que possamos compreender como ela funciona e 
reconduzir as palavras para seu uso cotidiano. Wittgenstein assegura: 
Quando os filósofos usam uma palavra – “saber”, “ser”, “objeto”, “eu”, 
“proposição”, “nome” – e procuram apreender a essência da coisa, deve-se 
sempre perguntar: essa palavra é usada de fato desse modo na língua em que 
existe? – 
Nós reconduzimos as palavras do seu emprego metafísico para seu 
emprego cotidiano. 
Alguns filósofos, como salientou Stegmuller - “entre eles também Bertrand 
Russell – objetaram contra a filosofia da segunda fase de Wittgenstein, 
afirmando que este, de repente, estaria dividindo completamente a conexão 
entre linguagem e realidade‟; que não estaria mais se preocupando com 
esclarecer a questão de como a linguagem „se refere ao mundo real‟”. 
No entanto, é somente quando concebemos uma imagem metafísica do 
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“mundo real” separada da linguagem que o problema da relação entre eles 
aparece. De acordo com Wittgenstein, o que precisamos é dirigir nossa atenção 
para a maneira como essas expressões são usadas cotidianamente. O que 
devemos é investigar esses usos, e não propor teorias para responder a um falso 
problema. Ao verificarmos os usos das palavras „real‟ ou „realidade‟ dentro do 
jogo delinguagem em que estão sendo proferidas, constataremos que a 
aplicação se dá sem problemas ou ambiguidades. 
Assim, ao negar a existência de uma lógica como condição transcendental 
de possibilidade de representação do mundo pela linguagem, e, 
consequentemente, invalidar a ideia de que a linguagem deve ser um „quadro‟ 
da realidade, Wittgenstein torna a questão da simetria entre linguagem e mundo 
sem sentido. Ao adotar uma perspectiva pragmática essa questão passa a ser 
um falso problema. 
A dissolução do problema não implica na negação de que ao fazermos 
afirmações estamos realmente fazendo afirmações sobre as coisas no mundo. 
Mas implica na negação de uma lógica, externa à linguagem e ao mundo, que 
garanta uma relação biunívoca entre nomes e objetos simples, ou entre 
predicados e propriedades. Essa lógica só pode ser pensada como derivada do 
uso da linguagem na prática, do uso comum no interior de uma forma de vida. A 
lógica não mais representa uma „ordem a priori‟. Ela está expressa na gramática 
de nossos múltiplos jogos de linguagem. 
Condé afirma: “Se há uma relação entre a linguagem e o mundo, ela 
ocorre no jogo de linguagem, pois ele [o mundo], enquanto um conjunto de ações 
e usos de palavras, e, portanto, significações no interior de uma forma de vida, 
não privilegia conceitos (“Não há superconceitos”, I.F.§97). A realidade não é 
mais um superconceito fundamentado metafisicamente, mas simplesmente algo 
dado nas formas de vida.” É nossa forma de vida que constitui o fim da cadeia 
de razões, o fundamento último. 
Assim, como afirma Marcondes, quando investigamos a linguagem 
estamos ao mesmo tempo investigando a sociedade da qual ela é linguagem, o 
contexto social e cultural na qual é usada, as práticas sociais, os paradigmas e 
valores, a “racionalidade” desta comunidade. Não há, portanto, uma separação 
radical entre “linguagem” e “mundo”, já que a “realidade” é constituída pelo modo 
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como usamos a linguagem. 
Para Peter Winch, nossa ideia do que pertence ao domínio da realidade 
nos é dada pela linguagem que usamos. Os conceitos que temos estabelecem 
para nós a forma da experiência que temos do mundo. “O mundo é para nós o 
que se apresenta através desses conceitos. Isto não quer dizer que os nossos 
conceitos não possam mudar; mas quando mudam, isto quer dizer que o nosso 
conceito do mundo também mudou”. 
 
SUPERAÇÃO DA METAFÍSICA PELA ANÁLISE LÓGICA DA LINGUAGEM 
 
O significado de uma palavra 
 
Se uma palavra (em uma linguagem determinada) tem um significado, 
costuma-se também dizer que ela designa um “conceito”; se uma palavra parece 
ter um significado, mas na verdade não tem, falamos de um “pseudoconceito”. 
Como explicar o surgimento de um pseudoconceito? Não é verdade que cada 
palavra foi introduzida em uma linguagem apenas para exprimir algo 
determinado, de tal modo que desde sua primeira utilização ela tinha um 
significado determinado? Como pode haver palavras sem significado nas línguas 
tradicionais? Originalmente, toda palavra (desconsiderando algumas poucas 
exceções, das quais daremos exemplos posteriormente) tem um significado. No 
curso do desenvolvimento histórico, uma palavra muda frequentemente de 
significado. E acontece inclusive de uma palavra perder seu antigo significado, 
sem ganhar um novo. Desse modo, surge um pseudoconceito. 
Em que consiste, afinal, o significado de uma palavra? Quais estipulações 
devem ser feitas no que diz respeito a uma palavra para que ela tenha um 
significado? (Não importa para nossas considerações se essas estipulações são 
enunciadas explicitamente, como no caso de algumas palavras e símbolos da 
ciência moderna, ou se são admitidas tacitamente, como acontece no caso da 
maior parte das palavras das línguas tradicionais). Em primeiro lugar, a sintaxe 
da palavra precisa ser fixada, isto é, o modo de ocorrência na forma proposicional 
mais simples em que ela pode aparecer; chamamos essa forma proposicional 
de proposição elementar. A forma proposicional elementar da palavra “pedra” é, 
por exemplo, “x é uma pedra”; nas proposições com essa forma, há no lugar de 
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“x” qualquer designação pertencente à categoria das coisas, por exemplo, “este 
diamante”, “esta maçã”. Em segundo lugar, no que concerne à proposição 
elementar P com a respectiva palavra, é preciso dar uma resposta à seguinte 
questão, que pode ser formulada de diferentes maneiras: 
1. De que proposição P é dedutível, e quais proposições são 
dedutíveis de P? 
2. Sob quais condições P deve ser verdadeira e sob quais condições, 
falsa? 
3. Como se deve verificar P? 
4. Qual é o sentido de P? 
(1) é a formulação correta; a formulação (2) corresponde ao jargão da 
lógica; (3) corresponde ao jargão da teoria do conhecimento; (4) corresponde ao 
jargão da filosofia (fenomenologia). Wittgenstein declarou que aquilo que os 
filósofos querem dizer com (4) é apreendido por (2): o sentido de uma proposição 
reside em seu critério de verdade. [(1) é a formulação “metalógica”; uma 
exposição mais detalhada da metalógica como teoria da sintaxe e do sentido 
será feita à frente]. 
No caso de muitas palavras, inclusive no caso da imensa maioria das 
palavras da ciência, é possível especificar o significado de uma palavra 
recorrendo a outras palavras (“constituição”, definição). Por exemplo, 
“„Artrópodes‟ são animais com corpos articulados invertebrados, membros 
articulados e um exoesqueleto de quitina”. Através disso, está respondida a 
questão mencionada para a forma proposicional elementar da palavra 
“artrópode”, a saber, para a forma proposicional “a coisa x é um artrópode”; por 
meio disso, determina-se que uma proposição com essa forma deve ser 
dedutível das premissas da forma “x é um animal”, “x é invertebrado”, “x tem 
membros articulados”, “x tem um exoesqueleto de quitina”, e que, inversamente, 
todas estas proposições devem ser dedutíveis daquela proposição. Por meio 
dessa determinação da dedutibilidade (em outras palavras: do critério de 
verdade, do método de verificação, do sentido) da proposição elementar sobre 
“artrópode”, o significado da palavra “artrópode” é fixado. Desse modo, cada 
palavra da linguagem é reduzida a outras palavras e, em última instância, às 
palavras que ocorrem nas assim chamadas “proposições observacionais” ou 
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“proposições protocolares”. A palavra recebe seu significado por meio dessa 
redução. 
A questão acerca do conteúdo e da forma das primeiras proposições 
(proposições protocolares), que ainda não teve nenhuma resposta definitiva, 
pode ser deixada de lado em nossa discussão. Costuma-se falar na teoria do 
conhecimento que as primeiras proposições se referem ao “dado”; mas não há 
nenhum acordo sobre o que se deve considerar como sendo o dado. Às vezes, 
defende-se a concepção segundo a qual as proposições sobre o dado falam das 
qualidades sensoriais e afetivas mais simples (por exemplo, “quente”, “azul”, 
“felicidade” etc.); outros se inclinam para a concepção segundo a qual as 
primeiras proposições falam de vivências totais e relações de similaridade entre 
elas; segundo outra concepção, as primeiras proposições falam também de 
coisas. Independentemente da diversidade destas concepções, é certo que uma 
sequência de palavras tem um sentido apenas se suas relações de dedução são 
estipuladas a partir de proposições protocolares, seja esta ou aquela a natureza 
destas proposições protocolares; do mesmo modo que uma palavra tem um 
significado apenas se asproposições em que ela pode ocorrer são redutíveis a 
proposições protocolares. 
Uma vez que o significado de uma palavra é determinado por seu critério 
(dito de outro modo: pelas relações de dedução de sua proposição elementar, 
por suas condições de verdade, pelo método de sua verificação), depois de 
estipulado o critério já não há mais margem para se definir o que se “quer dizer” 
com a palavra. Não é preciso fornecer nada menos que o critério para que uma 
palavra obtenha um significado preciso; mas não se pode fornecer nada mais 
que o critério, pois todo o resto é determinado por ele. O significado está contido 
implicitamente no critério; resta apenas torná-lo explícito. 
Suponhamos, a título de exemplo, que alguém invente a palavra “babigo” 
e afirme haver coisas que são babigas e coisas que não o são. Para apreender 
o significado dessa palavra, colocamos a questão acerca do critério: como se 
determina, em casos concretos, se uma coisa é babiga ou não? Suporemos 
inicialmente que aquele que é questionado não tem uma reposta; ele diz que não 
há nenhuma característica empírica para a babiguidade. Neste caso, nós não 
permitiremos o emprego dessa palavra. Se aquele que utiliza a palavra, no 
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entanto, diz haver coisas que são babigas e coisas que não são, permanece um 
mistério eterno ao pobre e finito entendimento humano saber quais coisas são 
babigas e quais coisas não o são, de modo que consideramos isso um discurso 
vazio. Mas talvez ele queira nos assegurar que quer dizer algo com a palavra 
“babigo”. Com isso, apenas tomamos conhecimento do fato psicológico de que 
ele associa representações e sentimentos quaisquer à palavra. Mas uma palavra 
não ganha um significado desse modo. Não se estipulou nenhum critério para a 
nova palavra, de tal modo que as proposições em que ela ocorre não dizem 
nada, sendo meras pseudoproposições. 
Em segundo lugar, suponhamos o caso em que há o critério para uma 
nova palavra, por exemplo, “bebigo”; e que a proposição, “Isto é bebigo” é 
verdadeira se, e somente se, a coisa é quadrada. (Não importa para nossas 
considerações se esse critério é proposto explicitamente ou se o estipulamos 
observando em quais casos a palavra é utilizada afirmativamente e em quais 
casos ela é utilizada negativamente). Diríamos aqui: a palavra “bebigo” tem o 
mesmo significado da palavra “quadrado”. E nós não permitiremos que aqueles 
que a utilizam “queiram dizer” algo diferente de “quadrado”; toda coisa quadrada 
também é, decerto, bebigo, mas isso repousa no fato de que a quadridade é a 
expressão visível da bebiguidade, e esta é uma propriedade oculta, não 
perceptível. Nós retrucaríamos que, uma vez estipulado o critério, está 
estipulado que “bebigo” significa “quadrado” e que já não há liberdade para se 
“querer dizer” isto ou aquilo com a palavra. 
Resumamos brevemente nossas considerações. Seja “a” uma palavra 
qualquer e “S(a)” a proposição elementar em que ela aparece. A condição 
necessária e suficiente para que “a” tenha um significado pode ser dada pelas 
seguintes fórmulas, que no fundo dizem a mesma coisa: 
As características empíricas de “a” são conhecidas. 
1. Estipulou-se de quais proposições elementares “S(a)” pode ser 
deduzida. 
2. As condições de verdade de “S(a)” foram estipuladas. 
3. O método de verificação de “S(a)” é conhecido. 
 
 
PALAVRAS METAFÍSICAS SEM SIGNIFICADO 
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Fica patente, pois, que muitas palavras metafísicas não cumprem as 
condições fornecidas acima, de tal modo que não têm significado. 
Tomemos como exemplo o termo metafísico “princípio” (enquanto 
princípio do ser, não enquanto princípio do conhecimento ou axioma). Diferentes 
metafísicos responderam à pergunta sobre o que seria o “princípio (supremo) do 
mundo” (ou “das coisas”, “do ser”, “do ente”), por exemplo: a água, o número, a 
forma, o movimento, a vida, o espírito, a ideia, o inconsciente, a atividade, o bem 
etc. Para descobrir o significado que a palavra “princípio” tem nessas questões 
metafísicas, devemos perguntar aos metafísicos sob quais condições a 
proposição da forma “x é o princípio de y” deve ser verdadeira e sob quais 
condições ela deve ser falsa; em outras palavras, perguntamos pela nota 
característica ou pela definição da palavra “princípio”. O metafísico responde 
mais ou menos da seguinte forma: “x é o princípio de y” deve significar “y surge 
de x”, “o ser de y reside no ser de x”, “y existe por causa de x” etc. Essas palavras, 
porém, são ambíguas e indeterminadas. Elas geralmente têm um significado 
claro; por exemplo, nós dizemos de uma coisa ou de um evento y que ele “surge” 
de x se observamos que coisas ou eventos do tipo y frequentemente ou sempre 
se seguem daquelas do tipo x (relação causal no sentido de sucessão regular). 
Mas o metafísico nos diz que não fala dessa relação empírica constatável; caso 
contrário, suas teses metafísicas seriam simples proposições empíricas do 
mesmo tipo que as da física. A palavra “surgir” não deve ter aqui o significado de 
uma relação de sucessão temporal e condicional que ela normalmente tem. No 
entanto, nenhum critério para outro significado é fornecido. Consequentemente, 
não existe de maneira alguma o suposto significado “metafísico” que a palavra 
deveria ter por oposição ao significado empírico. Se pensarmos no significado 
original da palavra “princípio” (e da palavra grega correspondente “ἀρχή”), 
notamos o mesmo processo de desenvolvimento. A palavra é destituída 
explicitamente do significado original de “início”; ela já não deve significar o que 
é primordial no tempo, mas o que é primordial sob outra perspectiva, 
especificamente metafísica. Os critérios para essa “perspectiva metafísica” não 
são fornecidos. Nos dois casos, a palavra é destituída de seu significado anterior 
sem que ganhe outro; ele permanece uma concha oca. Diferentes 
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representações de um período anterior ainda estão associadas a elas; elas se 
vinculam a novas representações e sentimentos nos contextos em que ela é 
agora utilizada. Mas uma palavra não tem significado em função disso; e ela 
permanece sem significado até que se possa indicar um método de verificação. 
Outro exemplo é a palavra “Deus”. No caso dessa palavra, 
desconsiderando as variantes de seu uso no interior de um dado domínio, 
devemos distinguir o uso linguístico em três diferentes casos ou períodos 
históricos, que, no entanto, se sobrepõem temporalmente. No uso mitológico da 
linguagem, a palavra tinha um significado claro. Às vezes, designavam-se com 
esta palavra (assim como com as palavras equivalentes de outras línguas) os 
seres corpóreos que habitavam o Olimpo, o céu ou o mundo subterrâneo, 
dotados de força, sabedoria, bondade e felicidade em maior ou menor grau de 
perfeição. Outras vezes, a palavra designava seres espirituais, que não tinham 
um corpo humano, mas que de alguma forma se revelavam nas coisas e 
processos do mundo visível e, por isso, eram empiricamente constatáveis. No 
uso metafísico da linguagem, ao contrário, “Deus” designa algo supra-empírico. 
A palavra foi explicitamente despojada do significado de um ser corporal ou de 
um ser espiritual encarnado. E, como não foi dado nenhum novo significado, ela 
se tornou sem significado. No entanto, tudo se passa como se a palavra “Deus” 
tivesse um significado mesmo no âmbito da metafísica. Mas as definições que 
são apresentadas se revelam pseudodefinições em um exame mais detido; elas 
conduzem ou a cadeias de palavraslogicamente inadmissíveis (das quais se 
falará adiante) ou a outras palavras metafísicas (por exemplo, “fundamento 
originário”, “o absoluto”, “o incondicionado”, “o autônomo”, “o auto-suficiente” 
etc.), mas em nenhum caso as definições levam às condições de verdade de 
suas proposições elementares. No caso dessa palavra, nem mesmo a primeira 
exigência da lógica é satisfeita, isto é, da forma da proposição elementar em que 
ela ocorre. A proposição elementar deveria ter aqui a forma “x é um Deus”; o 
metafísico ou recusa completamente essa forma, sem apresentar outra, ou, 
quando a admite, não especifica a categoria sintática da variável x. (Categorias 
são, por exemplo: corpos, propriedades de corpos, relações entre corpos, 
números etc.). 
No que concerne à palavra “Deus”, entre o uso mitológico e o uso 
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metafísico da linguagem, há o uso teológico da linguagem. Aqui, não há nenhum 
significado próprio, mas oscila-se entre aqueles dois empregos. Muitos teólogos 
têm um conceito de Deus claramente empírico (na nossa designação, 
mitológico). Nesse caso, não há pseudoproposição; mas o inconveniente para o 
teólogo consiste em que as proposições da teologia são proposições empíricas 
e, por isso, o juízo pertence à ciência empírica. No caso de outros teólogos, 
impõe-se claramente o uso metafísico da linguagem. No caso de outros tantos, 
o uso linguístico não é claro, seja porque eles seguem ora este, ora aquele uso, 
seja porque eles se valem de expressões que nãos são claramente apreensíveis 
e que oscilam entre os dois lados. 
Assim como os exemplos examinados, “princípio” e “Deus”, os outros 
termos são, em sua maior parte, termos especificamente metafísicos sem 
significado, por exemplo, “ideia”, “o absoluto”, “o incondicionado”, o “infinito”, “o 
ser do ente”, “o não-ser”, “coisa em si”, “espírito absoluto”, “espírito objetivo”, 
“essência”, “ser em si”, “ser em si e para si”, “emanação”, “manifestação”, “cisão”, 
“o eu”, “o não-eu” etc. Com essas expressões, ocorre o mesmo que ocorria com 
a palavra “babigo” no exemplo inventado anteriormente. O metafísico nos diz que 
não pode indicar condições de verdade empíricas; quando ele acrescenta que, 
não obstante, “quer dizer” algo com tal palavra, sabemos que ele se refere 
apenas a representações e sentimentos acompanhando a palavra, por meio das 
quais ela não obtém nenhum significado. As supostas proposições metafísicas 
contendo tais palavras não têm sentido, não dizem nada, são meras 
pseudoproposições. Consideraremos posteriormente a questão de como 
explicar seu surgimento histórico. 
 
O SENTIDO DE UMA PROPOSIÇÃO 
 
 
Até aqui consideramos pseudoproposições em que ocorre uma palavra 
sem significado. Há ainda um segundo tipo de pseudoproposições. Elas 
consistem em palavras com significado combinadas de tal modo que não resulta 
nenhum sentido. A sintaxe de uma linguagem especifica quais combinações de 
palavras são admissíveis e quais são inadmissíveis. Mas a sintaxe gramatical 
das linguagens naturais não cumpre inteiramente a tarefa de excluir 
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combinações de palavras sem-sentido. Tomemos como exemplo as duas 
sequências de palavras seguintes: 
1. “César é e” 
2. “César é um número primo” 
A sequência de palavras (1) é formulada contrariamente à sintaxe; a 
sintaxe requer que haja no terceiro lugar não um conectivo, mas um predicado, 
isto é, um substantivo (com artigo) ou um adjetivo. A sequência de palavras 
“César é um general”, por exemplo, é formulada de acordo com a sintaxe; ele é 
uma sequência de palavras dotada de sentido, uma proposição genuína. Mas a 
sequência de palavras (2) é formulada igualmente de acordo com a sintaxe, pois 
ela tem a mesma forma gramatical da proposição mencionada. (2) é, no entanto, 
sem-sentido. “Número primo” é uma propriedade de números; ela não pode nem 
ser atribuída a uma pessoa nem ser negada dela. Como (2) parece uma 
proposição, mas não é, não diz nada, não exprime nem um estado de coisas 
existente nem um estado de coisas inexistente, chamamos essa sequência de 
palavras de “pseudoproposição”. Como a sintaxe gramatical não é violada, é-se 
tentado à primeira vista a adotar a opinião errônea de que se trata de uma 
proposição, ainda que se trate de uma proposição falsa. “a é um número primo”, 
porém, é falsa se e somente se a é divisível por um número natural diferente de 
a e de 1; aqui, “a” não pode evidentemente ser substituído por “César”. O 
exemplo foi escolhido para que a falta de sentido fosse facilmente notada; no 
caso de muitas das chamadas proposições metafísicas não é fácil reconhecer 
que são pseudoproposições. Que seja possível formular na linguagem comum 
uma sequência de palavras sem-sentido sem ferir as regras da gramática mostra 
que a sintaxe gramatical, considerada do ponto de vista da lógica, é insuficiente. 
Se a sintaxe gramatical correspondesse exatamente à sintaxe lógica, não 
poderia haver nenhuma pseudoproposição. Se a sintaxe gramatical distinguisse 
não apenas as categorias de substantivo, adjetivo, verbo, conjunção etc., mas 
fizesse também distinções lógicas necessárias no interior dessas categorias, não 
poderiam ser formuladas pseudoproposições. Se os substantivos, por exemplo, 
fossem divididos em mais categorias de palavras, conforme designem corpos, 
números etc., as palavras “general” e “número primo” pertenceriam a categorias 
de palavras diferentes, e (2) seria tão contrária à gramática quanto (1). Nessa 
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linguagem corretamente formulada, todas as sequências de palavras sem-
sentido seriam, portanto, do mesmo tipo que o exemplo (1). Elas seriam, com 
isso, excluídas automaticamente pela gramática; isto é, não seria preciso atentar 
para o significado das palavras individuais a fim de evitar a falta de sentido, mas 
apenas para as categorias de palavras (a “categoria sintática”, por exemplo: 
coisa, propriedade de coisa, relação de coisas, número, propriedade de 
números, relação de números etc.). Se nossa tese de que as proposições da 
metafísica são pseudoproposições for correta, a metafísica não poderia ser 
expressa em uma linguagem formulada de modo logicamente correto. Daí a 
grande importância filosófica da tarefa de formular uma sintaxe lógica, na qual 
trabalham atualmente os lógicos. 
 
PSEUDOPROPOSIÇÕES METAFÍSICAS 
 
 
Gostaríamos agora de indicar alguns exemplos de pseudoproposições 
metafísicas, nas quais é possível reconhecer claramente que a sintaxe lógica é 
violada, embora a sintaxe gramatical tradicional seja respeitada. Escolhemos 
algumas frases da doutrina metafísica que exerce atualmente a maior influência 
na Alemanha. 
Investigado deve ser apenas o ente e mais – nada; somente o ente e além 
dele – nada; unicamente o ente e para além disto – nada. Que acontece com 
este nada? (...) Há o nada apenas porque há o não, isto é, a negação? Ou ocorre 
o contrário? Existe a negação e o não apenas porque há o nada? (...) Nós 
afirmamos: o nada é mais originário que o não e a negação (...) Onde 
procuramos o nada? Onde encontramos o nada? (...) Nós conhecemos o nada. 
(...) A angústia torna manifesto o nada. (...) Diante de que e por que nós nos 
angustiávamos não era „propriamente‟ – nada. De fato: o próprio nada – 
enquanto tal – estava aí. (...) O que acontece com o nada? (...) O próprio nada 
nadifica. 
A fim de mostrar que a possibilidade de formação de pseudoproposições 
repousa sobre uma falha lógica da linguagem, propomos o esquema abaixo. As 
proposições em I estão isentas deobjeções tanto gramatical quanto logicamente, 
sendo, portanto, dotadas de sentido. As proposições em II (com exceção de B 3) 
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estão em perfeita analogia com as proposições em I. A forma proposicional II A 
(pergunta e resposta) não satisfaz, porém, as exigências de uma linguagem 
logicamente correta. Ela é, apesar disso, dotada de sentido, uma vez que pode 
ser traduzida em uma linguagem correta; isso é mostrado pela proposição III A, 
que tem o mesmo sentido de II 
A. A inadequação da forma proposicional II A se mostra no fato de que, a partir 
dela e por meio de operações gramaticais irrepreensíveis, podemos chegar às 
formas proposicionais semsentido II B, que foram extraídas da citação acima. 
Essas formas não podem sequer ser formuladas na linguagem correta da coluna 
III. Entretanto, sua falta de sentido não é notada à primeira vista, uma vez que 
somos iludidos facilmente pela analogia com as proposições dotadas de sentido 
de I B. O erro de nossa linguagem constatado aqui reside em que, ao contrário 
de uma linguagem logicamente correta, ela permite a identidade formal entre 
sequências de palavras dotadas de sentido e sem-sentido. A toda proposição 
verbal está associada uma fórmula correspondente na notação da logística; 
essas fórmulas permitem reconhecer de modo particularmente claro a analogia 
inadequada entre I A e II A e as formas sem-sentido II B, engendradas por ela. 
 
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Ao examinar mais precisamente as pseudoproposições de II B, outras 
diferenças se revelam. A formação das proposições (1) reside simplesmente no 
erro de empregar a palavra “nada” como nome de um objeto, pois ela costuma 
ser empregada na linguagem comum dessa forma para formular uma proposição 
existencial negativa (ver II A). Em uma linguagem correta, entretanto, não é um 
nome particular, mas uma determinada forma lógica que serve a esse propósito 
(ver III A). Na proposição II B 2, aparece algo novo, a saber, a formação da 
palavra destituída de significado “nadificar”; a proposição é sem-sentido, 
portanto, por uma dupla razão. Nós dissemos anteriormente que as palavras 
destituídas de significado da metafísica normalmente surgem do fato de que uma 
palavra dotada de significado se torna destituída de significado na metafísica 
pelo emprego metafórico. Aqui, porém, temos diante de nós um dos poucos 
casos em que é introduzida uma nova palavra que não tem significado desde o 
início. A proposição II B 3 deve ser igualmente rejeitada por uma dupla razão. 
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O erro em empregar a palavra “nada” como nome de um objeto vai de par com 
o da proposição anterior. Além disso, ela encerra uma contradição. Pois mesmo 
que fosse legítimo introduzir a palavra “nada” como nome ou caracterização de 
um objeto, a existência seria negada a esse objeto em sua definição, ao passo 
que ela seria novamente atribuída na proposição (3). Se já não fosse sem-
sentido, essa proposição seria, pois, um contrassenso. 
Tendo em vista os erros lógicos grosseiros que encontramos nas 
proposições II B, poderíamos supor que, no artigo citado, a palavra “nada” deva 
ter um significado completamente diferente. E essa suposição se fortalece ao 
lermos ali que a angústia torna manifesto o nada, que na angústia o nada está 
aí enquanto tal. Aqui, a palavra “nada” parece dever designar certa disposição 
afetiva, talvez de cunho religioso, ou algo que esteja na base de tal disposição. 
Fosse esse o caso, os erros lógicos indicados nas proposições II B não 
ocorreriam. Mas o início da citação acima mostra que essa interpretação não é 
possível. A combinação de “apenas” e de “e mais nada” mostra claramente que 
a palavra “nada” tem o significado usual de uma partícula lógica, que serve para 
expressar uma proposição existencial negativa. Dessa introdução da palavra 
“nada”, segue-se imediatamente a questão fundamental do artigo: “Que 
acontece com este nada?”. 
Nossa desconfiança de que talvez tenhamos interpretado 
equivocadamente é completamente dissipada quando notamos que o autor do 
artigo tem perfeita clareza de que suas questões e suas sentenças contradizem 
a lógica. “Pergunta e resposta são, no que diz respeito ao nada, igualmente 
contraditórias em si mesmas (...) A regra fundamental do pensamento a que 
comumente se recorre, o princípio de nãocontradição, a „lógica‟ geral, destrói 
essa pergunta”. E tanto pior para a lógica! Devemos derrubar seu reinado: “Se 
assim se rompe o poder do entendimento no campo da interrogação acerca do 
nada e do ser, então também se decide, com isto, o destino do domínio da 
„lógica‟ no interior da filosofia. A própria ideia de „lógica‟ dissolve-se no 
redemoinho de uma interrogação mais originária”. Estará, porém, a ciência 
sóbria de acordo com uma interrogação contrária à lógica? Mesmo quanto a isso, 
a resposta já está dada: “A aparente sobriedade e superioridade da 
 ciência transforma-se em ridículo, se não leva a sério o nada”. Encontramos, pois, 
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uma boa confirmação para nossa tese; um metafísico chega aqui, ele próprio, à 
constatação de que suas perguntas e respostas não se conciliam com a lógica e 
o modo de pensar da ciência. 
A distinção entre nossa tese e aquela dos antimetafísicos anteriores 
agora é clara. A metafísica não é para nós “pura fantasia” ou “fábula”. As 
proposições de uma fábula não contradizem a lógica, mas apenas a experiência; 
elas são inteiramente dotadas de sentido, ainda que falsas. A metafísica não é 
“superstição”; pode-se acreditar em proposições verdadeiras ou falsas, mas não 
em sequências de palavras sem-sentido. As proposições metafísicas não podem 
sequer ser consideradas como “hipóteses de trabalho”; pois é fundamental para 
uma hipótese a relação dedutiva com proposições empíricas (verdadeiras ou 
falsas), e precisamente isso falta às pseudoproposições. 
Para salvar a metafísica, será levantada, considerando a chamada 
limitação da faculdade de conhecimento humana, a seguinte objeção: as 
proposições metafísicas não podem ser verificadas pelo homem ou mesmo por 
um ser finito; mas elas podem ser consideradas talvez como conjecturas sobre 
aquilo que poderia ser respondido por um ser com faculdades de conhecimento 
superiores ou mesmo perfeitas, e enquanto conjecturas, elas ainda assim seriam 
dotadas de sentido. Contra essa objeção, faríamos a seguinte consideração. Se 
o significado de uma palavra não pode ser especificado, ou a sequência de 
palavras é formulada contrariamente à sintaxe, já não há uma questão. (Que se 
pense, por exemplo, nas pseudoquestões: “Esta mesa é babiga?”, “O número 
sete é sagrado?”, “São os números pares ou os números ímpares os mais 
escuros?”). Ali onde não há uma questão, nenhum ser onisciente pode 
responder. Aquele que objeta dirá talvez: assim como alguém dotado de visão 
pode comunicar um conhecimento novo a um cego, um ser superior talvez possa 
nos comunicar um conhecimento metafísico, por exemplo, que o mundo visível 
é a manifestação de um espírito. Aqui, deveríamos refletir sobre o que 
“conhecimento novo” significa. Podemos sempre imaginar que encontramos 
animais que nos relatam sobre um novo sentido. Se esses seres tivessem 
provado o teorema de Fermat ou tivessem inventado um novo instrumento físico 
ou tivessem estipulado uma lei natural até então desconhecida, nosso 
conhecimento teria sido enriquecido com sua ajuda.Pois nós podemos provar 
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tais coisas, assim como um cego pode compreender e provar toda a física (e, 
com isso, todas as proposições de alguém dotado de visão). Se, no entanto, os 
supostos seres nos disserem algo que não podemos verificar, também não 
poderemos compreender isso; não se tratará para nós de uma informação, mas 
de meros sons vocais sem sentido, ainda que sejam acompanhados de 
associações de ideias. Por meio de um outro ser, conheça ele mais ou menos 
ou tudo, nosso conhecimento pode ser apenas qualitativamente ampliado, mas 
não pode se tratar de um conhecimento, em princípio, de outro tipo. O que é 
incerto para nós pode se tornar mais certo com o auxílio de outro ser; mas aquilo 
que é incompreensível para nós é sem-sentido, não pode se tornar dotado de 
sentido com o auxílio de outro ser, mesmo que ele tenha o conhecimento. 
Portanto, nenhum deus e nenhum diabo podem nos proporcionar uma 
metafísica. 
 
A FALTA DE SENTIDO DE TODA A METAFÍSICA 
 
 
Os exemplos de proposições metafísicas que analisamos foram todos 
tirados de um único artigo. Mas os resultados valem de modo semelhante, em 
parte literalmente, para outros sistemas metafísicos. Quando tal artigo cita uma 
frase de Hegel com aprovação (“O puro ser e o puro nada são, portanto, o 
mesmo”), ele o faz com pleno direito. A metafísica de Hegel tem, de um ponto 
de vista lógico, exatamente o mesmo caráter que encontramos naquela 
metafísica moderna. E o mesmo vale inclusive para os outros sistemas 
metafísicos, ainda que sua expressão verbal e, com isso, o tipo de erros lógicos 
se distancie mais ou menos daquele dos exemplos discutidos. 
Não seria necessário aduzir aqui outros exemplos para a análise de 
proposições metafísicas particulares de diferentes sistemas. Indiquemos apenas 
os tipos de erros mais frequentes. 
Provavelmente, a maior parte dos erros lógicos cometidos em 
pseudoproposições repousam sobre os defeitos lógicos que se prendem ao uso 
da palavra “ser” em nossa língua (e das palavras correspondentes nas 
outras línguas, ao menos, na maior parte das línguas europeias). O primeiro erro 
é a ambiguidade da palavra “ser”; às vezes, ela é utilizada como cópula antes de 
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um predicado (“Eu sou esfomeado”), às vezes, como a indicação de existência 
(“Eu sou”). Esse erro é agravado pelo fato de que os metafísicos frequentemente 
não são claros acerca dessa ambiguidade. O segundo erro reside na forma do 
verbo no segundo significado, o de existência. Por meio dessa forma verbal, tem-
se a ilusão de um predicado ali onde não há nenhum. Sabe-se há muito tempo 
que a existência não é uma propriedade (cf. a refutação de Kant da prova 
ontológica de Deus). Mas apenas a lógica moderna é completamente consequente 
a esse respeito: ela introduz o sinal de existência em uma forma sintática tal que 
ele não pode se vincular a sinais para objetos, mas apenas a um predicado (cf., 
por exemplo, proposição III A na tabela acima). A maior parte dos metafísicos 
desde a Antiguidade se deixou enganar pela forma verbal e predicativa da palavra 
“ser”, chegando a pseudoproposições, por exemplo, “Eu sou”, “Deus é”. 
Encontramos um exemplo desse erro no “cogito, ergo sum” de Descartes. 
Desconsideremos aqui completamente as reservas acerca do conteúdo que 
foram levantadas contra a premissa – se a proposição “Eu penso” é a expressão 
adequada do estado de coisas em questão ou se inclui talvez uma hipóstase – e 
consideremos as duas proposições apenas do ponto de vista lógico-formal. 
Notamos aí dois erros lógicos essenciais. O primeiro está na conclusão “Eu sou”. 
O verbo “ser” é tomado aqui sem dúvida no sentido de existência; pois uma 
cópula não pode ser usada sem predicado; o “Eu sou” de Descartes foi entendido 
neste sentido. Com isso, essa proposição vai de encontro à regra lógica 
mencionada acima de que a existência só pode ser afirmada em ligação com um 
predicado, não em ligação com um nome (sujeito, nome próprio). Uma 
proposição existencial não tem a forma “a existe” (como tem aqui “eu sou”, isto 
é, “eu existo”), mas “existe algo de tal e tal tipo”. O segundo erro reside na 
passagem de “eu penso” para “eu existo”. Se for deduzida da proposição “P(a)” 
(“a tem a propriedade P”) uma proposição existencial, a existência só pode ser 
afirmada em relação ao predicado P, não em relação ao sujeito a da premissa. 
De “Eu sou europeu”, não se segue “Eu existo”, mas “Existe um europeu”. De 
“Eu penso”, não se segue “Eu sou”, mas “Existe algo pensante”. 
O fato de que nossas línguas expressam a existência por meio de um 
verbo (“ser” ou “existir”) não é, em si mesmo, um erro lógico, mas apenas 
inadequado, perigoso. É se facilmente levado pela forma verbal à concepção 
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errônea de que a existência é um predicado; chega-se, assim, às formulações 
logicamente errôneas e, por isso, sem-sentido, como acabamos de examinar. 
Formas como “o ente”, o “não-ente”, que há muito têm desempenhado um papel 
importante na metafísica, têm a mesma origem. Em uma linguagem logicamente 
correta, essas formas não podem ser formuladas. Parece que, no latim e no 
alemão, talvez por influência do modelo grego, as formas “ens” e “seiend” foram 
introduzidas especialmente para uso dos metafísicos; desse modo, a linguagem 
foi logicamente deteriorada, embora se acreditasse melhorar uma série de 
coisas. 
Outra violação muito frequente da sintaxe lógica é a chamada “confusão 
de esferas” dos conceitos. Enquanto o erro mencionado acima consiste em que 
um sinal com significado não-predicativo é empregado como um predicado, aqui 
um predicado é empregado como predicado, mas como predicado de uma outra 
“esfera”; há uma violação das regras da chamada “teoria dos tipos”. Um exemplo 
artificial é a proposição considerada anteriormente: “César é um número primo”. 
Nomes próprios e numerais pertencem a esferas lógicas distintas e, 
consequentemente, também predicados de pessoas (“general”) e predicados de 
números (“número primo”). O erro da confusão de esferas não é, diferentemente 
do uso linguístico mencionado do verbo “ser”, exclusivo da metafísica, mas 
aparece frequentemente na linguagem cotidiana. Mas, neste caso, ele raramente 
conduz à falta de sentido; a ambiguidade das palavras em relação às esferas é 
tal que pode ser facilmente evitada. 
Exemplo: 1. “Esta mesa é maior que aquela”. 2. “A altura desta mesa 
maior que a altura daquela”. A palavra “maior” é empregada em (1) como relação 
entre objetos, e empregada em (2) como relação entre números, logo, para duas 
categorias sintáticas distintas. O erro não é importante aqui; ele poderia, por 
exemplo, ser eliminado ao se escrever “maior1” e “maior2”; “maior1” é, então, 
definido a partir de “maior2”, na medida em que a forma proposicional (1) é 
explicada como tendo o mesmo significado que a forma (2) (e algumas outras 
semelhantes). 
Como a confusão de esferas na linguagem cotidiana não causa nenhum 
dano na linguagem cotidiana, não se costuma dar atenção a ela. Isso se adéqua 
ao uso ordinário da linguagem, mas teve consequências danosas na metafísica. 
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Foi-se levado aqui, seguindo o hábito na linguagem cotidiana, a confusões de 
esferas que já não podem, ao contrário daquelas da linguagem cotidiana, ser 
traduzidas em uma forma logicamente correta. Pseudoproposições desse tipo se 
encontram particularmentecom frequência, por exemplo, em Hegel e Heidegger, 
que emprestou, juntamente com muitas particularidades do idioma hegeliano, 
muitos de seus equívocos lógicos. (Por exemplo, propriedades que devem se 
aplicar a objetos de um certo tipo, são aplicadas, ao invés disso, a uma 
propriedade desses objetos ou ao “ser” ou ao “ente” ou a uma relação entre 
esses objetos). 
Depois de termos descobertos que muitas proposições metafísicas são 
sem sentido, levanta-se a questão sobre se há um estoque de proposições 
dotadas de sentido na metafísica, que permaneceriam após termos eliminados 
as proposições sem-sentido. 
A partir de nossos resultados até aqui, poder-se-ia chegar à conclusão 
de que há na metafísica muitos perigos de se cair na falta de sentido e de que, 
se quisermos praticar metafísica, devemos nos esforçar para evitar 
cuidadosamente esses perigos. Mas, na realidade, o fato é que não pode haver 
proposições metafísicas dotadas de sentido. Isso decorre da tarefa que a 
metafísica se coloca: ela pretende encontrar e exprimir um conhecimento que 
não é acessível à ciência empírica. 
Dissemos anteriormente que o sentido de uma proposição reside no 
método de sua verificação. Uma proposição afirma apenas o que nela é 
verificável. Portanto, uma proposição, se afirma algo, só pode afirmar um fato 
empírico. Algo que em princípio residiria para além da experiência não poderia 
ser dito, nem pensado, nem questionado. 
As proposições (dotadas de sentido) se dividem nos seguintes tipos: 
primeiramente, há proposições que são verdadeiras apenas em razão de sua 
forma (“tautologias” segundo Wittgenstein; elas correspondem, mais ou menos, 
aos “juízos analíticos” de Kant); elas não afirmam nada sobre a realidade. A esse 
tipo pertencem as fórmulas da lógica e da matemática; elas próprias não são 
enunciados factuais, mas servem para a transformação de tais enunciados. Em 
segundo lugar, há as negações de tais proposições (“contradições”); elas são 
contraditórias, portanto, falsas em razão de sua forma. Para todas as demais 
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proposições, a decisão acerca de sua verdade ou falsidade reside nas 
proposições protocolares; elas são, pois, proposições empíricas (verdadeiras ou 
falsas) e pertencem ao domínio da ciência empírica. Se quisermos formular uma 
proposição que não pertença a esses tipos, ela será automaticamente sem-
sentido. Como a metafísica não pretende afirmar proposições analíticas nem cair 
no domínio da ciência empírica, ela deve necessariamente ou empregar palavras 
para as quais não se pode especificar nenhum critério e que são, portanto, vazias 
de significado ou combinar palavras dotadas de significado de tal modo que não 
resulta nem uma proposição analítica (ou contradição) nem uma proposição 
empírica. Em ambos os casos, resultam necessariamente pseudoproposições. 
A análise lógica decreta, com isso, a falta de sentido de todo suposto 
conhecimento que pretende ir além ou aquém da experiência. Esse veredito 
atinge, primeiramente, toda metafísica especulativa, todo suposto conhecimento 
resultante do pensamento puro ou da intuição pura, que acredita poder passar 
ao largo da experiência. Mas o veredito diz respeito também àquela metafísica 
que, partindo da experiência, pretende conhecer, por meio de inferências 
particulares, o que está fora ou atrás da experiência (isto é, ele diz respeito, por 
exemplo, à tese neovitalista de uma “enteléquia” atuando nos processos 
orgânicos, que não pode ser apreendida fisicamente; à questão acerca da 
“essência do nexo causal” para além da constatação de determinadas 
regularidades da sucessão; ao discurso da “coisa em si”). Além disso, o veredito 
vale também para toda filosofia dos valores ou das normas, para toda ética ou 
estética enquanto disciplina normativa. Pois a validade objetiva de um valor ou 
de uma norma não pode (inclusive segundo a concepção dos filósofos dos 
valores) ser verificada empiricamente ou ser deduzida de proposições empíricas; 
ela não pode, pois, ser dita (por meio de uma proposição dotada de sentido). 
Dito de outro modo: ou se especifica critérios empíricos para “bom” e “belo” e os 
demais predicados das ciências normativas ou não. Uma proposição com um 
predicado desse tipo será, no primeiro caso, um juízo de fato empírico, mas não 
um juízo de valor; no segundo caso, ela será uma pseudoproposição; uma 
proposição que exprimisse um juízo de valor não pode de modo algum ser 
formulada. 
O veredito da falta de sentido atinge, por fim, também aquelas correntes 
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que se costuma chamar impropriamente de teoria do conhecimento, a saber, o 
realismo (na medida em que ele pretende afirmar mais do que a descoberta 
empírica, isto é, que os eventos mostram uma certa regularidade por meio da 
qual é dada a possibilidade de aplicação do método indutivo) e seus adversários: 
o idealismo subjetivo, o solipsismo, o fenomenalismo, o positivismo (no antigo 
sentido). Mas o que resta, então, para a filosofia se todas as proposições que 
podem ser afirmadas são de natureza empírica e pertencem à ciência do real? 
O que resta não são proposições nem teoria, nem sistema, mas apenas um 
método, a saber, o método de análise lógica. No que precedeu, mostramos a 
aplicação desse método em seu uso negativo: ele serve aqui para a eliminação 
de palavras destituídas de significado, de pseudoproposições sem-sentido. Em 
seu uso positivo, ele serve para a clarificação de conceitos e proposições 
dotados de sentido, para a fundamentação lógica da ciência do real e da 
matemática. Aquela aplicação negativa do método é necessária e importante na 
atual situação histórica. Mas a aplicação positiva é mais fecunda, inclusive na 
prática atual; entretanto, não podemos entrar em detalhes aqui. A tarefa 
mencionada da análise lógica, a investigação dos fundamentos, é o que 
entendemos por “filosofia científica” em oposição à metafísica; a maior parte das 
contribuições nesta revista pretendem realizar essa tarefa. 
A questão acerca do caráter lógico das proposições que obtemos como 
resultado da análise lógica, por exemplo, as proposições deste artigo e de outros 
artigos lógicos, pode ser respondida aqui apenas indicando que tais proposições 
são, em parte, analíticas, em parte empíricas. Essas proposições sobre 
proposições e partes proposicionais pertencem, em parte, à metalógica pura (por 
exemplo, “Uma sequência que consiste em um sinal de existência e um nome 
de objeto é sem sentido”), em parte, à metalógica descritiva (por exemplo, “A 
sequência de palavras em tal e tal passagem de tal e tal livro é sem-sentido”). A 
metalógica será tratada em outro lugar; ali será mostrado que a metalógica, que 
fala das proposições de uma linguagem, pode ser formulada nessa própria 
linguagem. 
 
METAFÍSICA COMO EXPRESSÃO DE UM SENTIMENTO VITAL 
 
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A afirmação de que as proposições da metafísica são completamente 
sem sentido, não dizem nada, causará um sentimento de estranheza mesmo 
naquele que concorda intelectualmente com nossos resultados: teriam, de fato, 
tantos homens de diferentes tempos e povos, entre eles, cabeças eminentes, 
despendido tanto esforço ou mesmo fervor na metafísica, ainda que ela não 
consistisse senão em meras palavras ordenadas sem-sentido? E seria 
compreensível que essas obras exercessem tamanho efeito nos leitores e 
ouvintes, ainda que contivessem não erros, mas nada sequer? Essas reservas 
se justificam na medida em que a metafísica, de fato, contém algo; só que isso 
não é umconteúdo teórico. As (pseudo) proposições da metafísica não servem 
para a representação de estados de coisas, nem de estados de coisas existentes 
(pois seriam proposições verdadeiras) nem de estados de coisas inexistentes 
(pois seriam proposições falsas); elas servem para expressar um sentimento 
vital. 
Talvez possamos supor que a metafísica se originou do mito. A criança 
está com raiva da “mesa malvada” que a atingiu; o primitivo se esforça para 
satisfazer o ameaçador demônio do terremoto ou ele venera em gratidão a 
divindade da chuva caudalosa. Temos diante de nós personificações de 
fenômenos naturais, que são a expressão quase poética da relação emocional 
do homem com o ambiente. A herança do mito aparece, por um lado, na poesia, 
que produz e eleva conscientemente o efeito da mitologia para a vida; por outro 
lado, na teologia, na qual a mitologia é desenvolvida em um sistema. Qual é o 
papel histórico da metafísica? Talvez possamos ver nela o substituto da teologia 
no nível do pensamento sistemático, conceitual. As fontes (supostamente) 
sobrenaturais do conhecimento da teologia são substituídas aqui por fontes 
naturais, mas (supostamente) supra-empíricas, do conhecimento. Em um olhar 
mais detido, reconhece-se na roupagem modificada o mesmo conteúdo do mito: 
descobrimos que inclusive a metafísica surge da necessidade de trazer à 
expressão o sentimento vital, a postura segundo a qual o homem vive, a atitude 
sentimental e volitiva em relação ao ambiente, aos outros homens, às tarefas às 
quais se dedica, aos percalços que sofre. Esse sentimento vital se manifesta, na 
maioria das vezes inconscientemente, em tudo que o homem faz e diz; ele marca 
suas expressões faciais, provavelmente inclusive sua postura ao andar. Muitos 
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homens têm a necessidade de colocar seu sentimento vital sob uma expressão 
particular, na qual ele se torna perceptível do modo concentrado e vigoroso. Se 
tais homens forem talentosos artisticamente, eles encontram na forma de uma 
obra de arte a possibilidade de se expressar. Já foi explicado por muitos (por 
exemplo, Dilthey e seus discípulos) como o sentimento vital se manifesta no 
estilo e nas características de obra de arte. (A esse respeito, utiliza-se com muita 
frequência a expressão “visão de mundo”; evitamo-la por causa de sua 
ambiguidade, por meio da qual se borra a distinção entre sentimento vital e 
teoria, que é, no entanto, decisiva para nossa análise). A esse respeito, apenas 
o seguinte é essencial para nossa reflexão: a arte é a forma de expressão 
adequada para o sentimento vital, a metafísica, entretanto, é uma forma 
inadequada. Em si mesma, não haveria naturalmente nada a objetar contra o 
emprego de uma forma de expressão qualquer. Mas no caso da metafísica a 
situação é que ela, por meio de suas obras, finge ser algo que não é. Essa forma 
é aquela de um sistema de proposições, que (aparentemente) estão em uma 
relação de fundamentação, isto é, na forma de uma teoria. Daí que seja forjada 
a ilusão de um conteúdo teórico, embora, como vimos, ele não esteja dado. Não 
apenas o leitor, mas também o próprio metafísico se encontra sob a ilusão de 
que algo é dito por proposições metafísicas, que estados de coisas são descritos. 
O metafísico acredita se mover no domínio em que se trata do verdadeiro e do 
falso. Na realidade, ele não disse nada, mas apenas trouxe algo à expressão, 
assim como um artista. Que o metafísico se encontre sob essa ilusão não 
podemos inferir imediatamente do fato de que ele tome a linguagem como meio 
de expressão e proposições declarativas como forma de expressão; pois o 
mesmo é feito pelo poeta lírico, sem cair, entretanto, nessa auto-ilusão. Mas o 
metafísico aduz argumentos a favor de suas teses, ele exige a concordância com 
seu conteúdo, ele polemiza contra os metafísicos de outras orientações ao tentar 
refutar as proposições destes. O poeta lírico, ao contrário, não se esforça em sua 
poesia para refutar as proposições da poesia de outro poeta; pois ele sabe que 
ele se encontra no domínio da arte e não da teoria. 
Talvez a música seja a forma de expressão mais pura para o sentimento 
vital, pois ela está completamente livre de tudo que diz respeito a objetos. O 
sentimento vital harmônico, que o metafísico pretende expressar em um sistema 
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monista, é expresso mais claramente na música de Mozart. E se o metafísico 
exprime seu sentimento vital dualista-heroico em um sistema dualista, ele não o 
faz porque provavelmente lhe falte o talento de Beethoven para expressar esse 
sentimento vital na forma adequada? Os metafísicos são músicos sem talento 
musical. Por isso, eles possuem uma forte inclinação para trabalhar 
teoricamente, vinculando conceitos e pensamentos. Ao invés, por um lado, de 
cultivar essa inclinação no campo da ciência e, por outro lado, de satisfazer a 
necessidade de expressão na arte, o metafísico confunde ambos e forja uma 
forma que não produz nada para o conhecimento e produz algo inadequado para 
o sentimento vital. 
Nossa suposição de que a metafísica é um substituto, embora 
inadequado, para a arte parece ser confirmada também pelo fato de que o 
metafísico, que talvez possua o maior talento artístico, a saber, Nietzsche, seja 
aquele que menos caia no erro de tal confusão. Uma grande parte de sua obra 
tem predominantemente conteúdo empírico; trata-se aí, por exemplo, da análise 
histórica de determinados fenômenos artísticos ou da análise histórico- 
psicológica da moral. Mas na obra em que expressa mais fortemente aquilo que 
outros exprimem por meio da metafísica ou da ética, a saber, no Zaratrusta, ele 
não escolhe a enganosa forma teórica, mas escolhe explicitamente a forma 
artística, poética. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Enriqueça seus estudos 
Assista ao vídeo: Ludwig Wittgenstein e o Jogo de Linguagem 
Publicado em 14 de set de 2015. Este é um breve estudo introdutório ao 
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conceito de jogo de linguagem de Ludwig Wittgenstein preparado para alunos do 
Ensino Médio, conceito chave não somente dentro do pensamento deste filósofo, 
mas também para toda filosofia da linguagem e para a filosofia geral 
contemporânea. 
 
 
https://www.youtube.com/watch?v=AqjagczB-9Q 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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