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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL CAMPUS DO PANTANAL – CPAN CURSO DE DIREITO VIOLÊNCIA PATRIMONIAL DAS VITIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR – LEI MARIA DA PENHA CORUMBÁ-MS 2022 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL CAMPUS DO PANTANAL – CPAN CURSO DE DIREITO VIOLÊNCIA PATRIMONIAL DAS VITIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR – LEI MARIA DA PENHA Projeto de Pesquisa apresentado ao Curso de Direito do Campus do Pantanal, da Fundação Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Direito, sob orientação do(a) Professor Adalberto Fernandes Sá Junior, Doutor em Direitos Humanos – USP, (conforme artigo 9.º, inciso II, da Resolução n.º 76, de 01 de dezembro de 2020, do Colegiado de Curso do Curso de Direito do Campus do Pantanal da UFMS, devem ser sugeridos, em ordem de preferência, dois nomes de professores ou professoras efetivas do Curso de Direito) CORUMBÁ-MS 2022 SUMÁRIO INTRODUÇÃO De acordo com a Constituição Federal Brasileira (1988), todos os cidadãos devem ser tratados sem distinções e de forma igualitária. No entanto, devido à cultura patriarcal ainda inserida na sociedade brasileira, ainda se cultiva um sentimento de superioridade do homem em relação à mulher, o que gerou a formação de uma cultura violenta, a qual oprime a figura feminina por meio de diversos mecanismos sociais, sendo a violência doméstica o principal deles. A violência doméstica contra a mulher é um fenômeno social extremamente amplo, pois, atinge mulheres de todas as idades, raças/etnias, escolaridades, crenças religiosas e orientação sexual. Este tipo de agressão adentra aos lares, atingindo, de forma brutal, a saúde física, psicológica e social das mulheres, impedindo-as do pleno desenvolvimento de sua cidadania. Sobre o assunto, entende-se que o desenvolvimento da personalidade adulta é influenciado por fatores relacionados aos modelos de atributos mentais, emocionais, temperamentais e comportamentos que os influenciam. Por sua vez, as mudanças estão relacionadas às crises normativas, e são importantes, previsíveis e mesclam a regulação individual e a contextual com o progresso e a realização potencial de cada pessoa. (COSTA E MCGRAE, 1994 apud PAPALIA E OLDS, 2000). Ou seja: as relações de violência interpostas entre os gêneros são construídas a partir dos costumes sociais normalizados por meio da cultura e reforçados por meio da legislação. Assim, importa refletir que os diversos tipos de relacionamentos que se desenvolvem no decorrer da vida são estabelecidos, levando em conta valores, crenças, normas e tabus. Esses fatores também determinarão o papel social que cada indivíduo desenvolverá em seu grupo mesmo que esteja em constante modificação e passíveis de compreender e rever tais modelos. Sobre o assunto, discorre RENA (2006): “ A pessoa não é um ser pronto e definitivamente acabado. Trata-se de alguém em construção contínua, independentemente da etapa do ciclo vital que esteja vivendo. […] A construção dessa pessoa se processa na interação com seu contexto cultural.” (RENA, 2006) A estrutura feminina, devido a divisões rígidas dos papéis dos homens e mulheres na cultura, apresenta recursos diferentes e vivências de pressões psicológicas e ambientais também diferentes. Não apenas isso, como há uma significativa submissão da figura feminina em detrimento da masculina, o que é o fator principal responsável pela perpetuação da violência contra a mulher, sobretudo em um contexto de patriarcalismo, no qual se insere o Brasil. No Brasil, os constantes episódios de violência contra a mulher ensejou a edição de diversas leis que visaram a proteção da vida da mulher em situação de violência, dentre elas a Lei do Feminicídio (Lei 13.104/2015) e a Lei Maria da Penha (11.340/2006). Esta última representou um marco para a proteção das mulheres no país, uma vez que estabeleceu diversas medidas de proteção às vítimas de violência doméstica. Não apenas isso, como também reconheceu a existência de diversas formas de violência, preocupando-se, também, com a saúde psicológica e patrimonial da figura feminina. Atualmente, a Lei Maria da Penha produz efeitos claros na vida das mulheres, principalmente na vida das que sofreram violência doméstica em algum momento de suas vidas, por meio dos direitos assegurados pela legislação. Dentre tais direitos, pode-se ressaltar o direito que garante prioridade na matrícula dos dependentes da mulher vítima de violência doméstica e familiar em educação básica mais próxima de seu domicílio (Lei 13.882/2019); o direito ao usucapião da cônjuge na propriedade da coisa dividida com ex-cônjuge após o abandono por mais de 2 anos contínuos do lar (Lei 12.424/2011); garantia de manutenção do vínculo trabalhista à mulher em situação de violência doméstica (Lei nº 11.340/2006). Não apenas isso, como ainda surgiram uma série de redes de enfrentamento à violência contra as mulheres após a promulgação da Lei Maria da Penha, mantidas pelo Poder Público, a exemplo do que é realizado na cidade de Corumbá. Outra inovação trazida pela Lei Maria da Penha é a de que a violência sofrida pela mulher em seu ambiente familiar não apenas se restringe ao campo físico, mas também se estende ao aspecto patrimonial e ao aspecto psicológico. Isso fez com que maior proteção fosse conferida às vítimas, tendo em vista que não necessariamente deveriam passar pela experiência de violência física para obter a proteção estatal. A partir dessa perspectiva, a Lei Maria da Penha se configurou como uma lei complexa, que tem como objetivo proteger diversos bens jurídicos, dentre eles a integridade física, a integridade psicológica, a vida e o patrimônio da mulher. Proteger o patrimônio da mulher, inclusive, vai de encontro com os próprios preceitos estabelecidos pelo Código Penal brasileiro, em seu art. 81, o qual confere imunidade aos cônjuges ante à subtração de elementos de seus companheiros. Contudo, isso não se dá de forma absoluta, tendo em vista que o contexto de violência sofrido pela mulher justifica a penalização do homem que lhe pratica violência de natureza patrimonial. A partir da edição da Lei Maria da Penha, reconheceu-se que uma Rede de Proteção às mulheres vítima de violência doméstica e familiar é fundamental para garantir a dignidade das mulheres. Entretanto, a sociedade brasileira só será reconhecida como defensora dos direitos fundamentais se melhorar as políticas públicas de enfrentamento à violência doméstica e familiar, vez que é nítido que o afastamento, a prisão e as garantias já estabelecidas tem se mostrado insuficientes na solução deste mal. Já de plano, portanto, é evidente a influência da Lei Maria da Penha na vida das mulheres brasileiras, sobretudos na vida daquelas que sofreram algum tipo de violência doméstica. Por isso, o presente artigo tem como objetivo a análise a respeito da violência patrimonial direcionada contra as mulheres brasileiras, sob a luz da Lei Maria da Penha e sua aplicação no estado do Mato Grosso do Sul. Além disso, têm-se como objetivos específicos i) a identificação da necessidade de afastamento do agressor do lar; ii) a proteção da mulher vítima de violência doméstica; iii) a proteção material da vítima, garantindo sua subsistência. Para que isso fosse realizado, por sua vez, optou-se pela realização de uma revisão bibliográfica, com o fim de construir uma pesquisa qualitativa e exploratória, o que se deu a partir do estudo jurisprudencial e doutrinário, bem como a análise de casos reais de casos reais de grande repercussão midiática. As naturezas qualitativa e exploratória foi escolhida tendo em vista que será utilizada com o fim de compreender o fenômeno da violência patrimonial no contexto brasileiro a partir da construção da sociedade patriarcal oriunda de raízes coloniais. Dentre as fontes escolhidas para fins de revisão bibliográfica, focou-se naquelas publicadas no estado do MatoGrosso do Sul, a fim de que fosse realizado um corte geográfico para a realização das pesquisas. Assim, serão analisados provimentos judiciais do TJMS, artigos relacionados à criação de redes de proteção no estado, legislação local e jurisprudências. Sendo assim, no primeiro capítulo deste trabalho, será delineado um histórico acerca da violência doméstica no Brasil, bem como a definição da palavra violência e como ela se dá no contexto do ambiente doméstico e familiar. Este capítulo, ainda, trará à tona os sujeitos e as formas de violência contra a mulher, e, na sequência, explicitará o ciclo pela qual esta percorre. No segundo capítulo, será discorrido a respeito dos tipos de violência doméstica admitidas pela Lei Maria da Penha e a evolução legislativa e cultural a respeito deles. Por sua vez, o terceiro capítulo se concentrará na análise a respeito da violência patrimonial em si, demonstrando estatísticas e pareceres jurisprudenciais a respeito do tema. Neste, serão apontados quais os impactos patrimoniais no enfrentamento das desigualdades vividas pelas mulheres em situações de ameaça, agressões, violações ou efetiva afronta à garantia de seus direitos. Ao final, será explicitado a respeito da violência patrimonial no Mato Grosso do Sul, bem como o entendimento jurisprudencial e análise cultural a respeito do Estado, os quais podem influenciar fortemente nos índices de violência doméstica. A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER NO BRASIL CONCEITO A violência contra a mulher é uma prática datada desde os tempos coloniais, advindas de uma cultura patriarcalista, a portuguesa, a qual submete a figura feminina à condição de pessoa submissa. Apesar de fortemente presente no Brasil, não se trata de um problema regional, mas sim global, na medida em que afeta países de todo o mundo. Nos tempos atuais, a violência contra a mulher é algo amplamente documentado, estudado e divulgado por toda a sociedade brasileira. Houve, a partir dos anos de 1988, com a promulgação da Constituição Federal, uma forte mudança paradigmática no que tange à proteção da população feminina contra o sofrimento doméstico, em todas as suas esferas, sendo a Lei Maria da Penha um dos maiores marcos da luta da mulher contra a violência. Entretanto, não se pode negar que a herança colonial patriarcalista deixada pela construção do Brasil ainda exerce grande influência sobre o comportamento da sociedade frente à figura feminina. Mas, afinal, o que constitui a violência doméstica? A resposta para esta pergunta é complexa, na medida em que a violência doméstica possui facetas diversificadas, todas com suas próprias peculiaridades e pontos de vista. Alguns conceitos, trazidos pela comunidade científica e legislativa, abordam o aspecto psíquico-emocional da mulher que sofre violência doméstica, além de abordar o aspecto físico em concomitância. Assim, é preciso ter em mente que a violência é um conceito múltiplo, cuja origem latina remete ao vocábulo vis, que significa “força”, referindo-se às noções de constrangimento e uso da superioridade física sobre o outro (MINAYO, 2003). A violência em si é conceituada como uso da força física, ou do poder, contra determinado grupo ou indivíduo, com o objetivo de subjugá-lo, provocando danos psicológicos, corpóreos ou até mesmo levando à morte (ANDRADE; SOUZA, 2021). Assim, há o uso da força e do poder para a subjugação da figura feminina, podendo provocada contra si por uma pessoa ou por um grupo de indivíduos, momento em que há a violação da integridade corporal, emocional, insuficiência de desenvolvimento, dentre outros problemas (ANDRADE; SOUZA, 2021). A Convenção do Belém do Pará, primeiro tratado internacional de proteção aos direitos humanos das mulheres a reconhecer expressamente a violência contra a mulher como um problema generalizado na sociedade (Âmbito Jurídico, 2010), nos traz uma definição de violência em seu artigo 1°: Para os efeitos desta Convenção, entender-se-á por violência contra a mulher qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública como na esfera privada. (BRASIL, 1996) Além disso, a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher define a violência aqui estudada como um ato ou conduta oriunda de desigualdades de gênero, os quais podem levar à morte, a algum dano ou a algum sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher (BRASIL, 1996). Machado e Gonçalves (2003) descrevem a violência doméstica como qualquer ato ou conduta ou omissão que infrinja com reiteração e intensidade qualquer tipo de sofrimento à mulher, seja sexual, psicológico, econômicos e físicos. Os autores ainda destacam que a violência pode ser empregada de forma tanto direta quanto indireta, por meio de ameaças, enganos, coação direta, dentre outros instrumentos. As autoras Maria Amélia de Almeida Teles e Mônica de Melo também elucidam acerca do tema ao discutirem sobre o assunto: Violência, em seu significado mais frequente, quer dizer uso da força física, psicológica ou intelectual para obrigar outra pessoa a fazer algo que não está com vontade; é constranger, é tolher a liberdade, é incomodar, é impedir a outra pessoa de manifestar seu desejo e sua vontade, sob pena de viver gravemente ameaçada ou até mesmo ser espancada, lesionada ou morta. É um meio de coagir, de submeter outrem ao seu domínio, é uma violação dos direitos essenciais do ser humano (MELO; TELES, 2002). A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), responsável por regulamentar os liames da violência doméstica e sua punição no contexto brasileiro, por sua vez, conceituou a violência doméstica como: Art. 5º Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial: I - no âmbito da unidade doméstica, compreendida como o espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas; II - no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa; III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação. Parágrafo único. As relações pessoais enunciadas neste artigo independem de orientação sexual (BRASIL, 2006). Art. 7º São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras: I - a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal; II - a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação; III - a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos; IV - a violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos,incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades; V - a violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria. (BRASIL, 2006) Assim, em resumo, a violência pode ser entendida então como emprego de força física ou intimidação psíquica relacionada a outrem de forma que impeça ou obrigue pessoa a fazer algo que não deseja. Pode-se dizer que violência é gênero, pois comporta diversas espécies desta; violência física, psicológica, moral, sexual, econômica e social. Podendo-se utilizar de uma ou mais tipos de violência concomitantemente nos atos praticados. Hoje, entende-se que a violência doméstica não se trata de um fator único, composto apenas por episódios violentos. Na verdade, trata-se de um processo constituído por uma série de fases, as quais constituem o chamado ciclo da violência. A primeira fase é o aumento da tensão, por meio do qual o agressor começa a se mostrar mais irritadiço e tenso com coisas insignificantes, momentos nos quais começam as humilhações e as ameaças contra as vítimas. Segundo Araújo e Lazzari (2017), “tudo o irrita (o agressor), e ele tende a descarregar suas frustrações e tensões na companheira, responsabilizando-a por todos os seus problemas. Não recorre à violência física, mas cria um clima hostil e de perigo para a mulher”. Na segunda fase, entretanto, iniciam-se os atos de violência. Trata-se da fase em que ocorre a explosão do agressor, em que toda a tensão acumulada na primeira fase se materializa em violência verbal, física, psicológica, moral ou patrimonial (MATO GROSSO DO SUL, 2021). Segundo Araújo e Lazzari (2017), a violência se inicia de forma gradual, com empurrões, torções nos braços, tapas e, após, socos e a utilização de armas brancas e de fogo. Nesta fase, Mesmo tendo consciência de que o agressor está fora de controle e tem um poder destrutivo grande em relação à sua vida, o sentimento da mulher é de paralisia e impossibilidade de reação. Aqui, ela sofre de uma tensão psicológica severa (insônia, perda de peso, fadiga constante, ansiedade) e sente medo, ódio, solidão, pena de si mesma, vergonha, confusão e dor. Nesse momento, ela também pode tomar decisões − as mais comuns são: buscar ajuda, denunciar, esconder-se na casa de amigos e parentes, pedir a separação e até mesmo suicidar-se. Geralmente, há um distanciamento do agressor. Após a explosão, inicia-se a terceira fase, na qual o agressor passa por aparente arrependimento, que tenta ao máximo conseguir a reconciliação com a vítima. Assim, a mulher se sente confusa e pressionada a manter o seu relacionamento, o que se torna mais agravado quando o casal possui filhos (MATO GROSSO DO SUL, 2021). O fato é que, após instalada a violência, os ciclos podem apresentar constantes repetições. Assim, “Pode haver a ocorrência cada vez menor da fase da tensão e do apaziguamento, e, em contrapartida, maior e mais intensa a fase da agressão” (ARAÚJO; LAZZARI, 2017). Por isso, o acompanhamento da vítima de violência doméstica é importante desde a primeira ocorrência/denúncia. TRAÇOS HISTÓRICOS E CULTURAIS DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NO BRASIL Conforme já indicado, a inferiorização da figura feminina é algo já enraizado na nossa sociedade, a qual herdou dos períodos coloniais os ideais patriarcalistas e falocêntricos que, apesar do transcorrer dos tempos, não se dissolveram completamente e ainda causam prejuízos. Sobre o tema, Marli da Costa e Quelen de Aquino (2011) destacam que não apenas se trata de um fator de relevância social, como também de relevância individual, na medida em que acarreta na afronta contra os direitos da mulher, até hoje arduamente conquistados. Trata-se, entretanto, de um problema não apenas concentrado em território brasileiro. Segundo a OMS – Organização Mundial da Saúde (1998) a violência contra a mulher no âmbito doméstico tem sido documentada em todos os países e ambientes socioeconômicos, e as evidências existentes indicam que seu alcance é muito maior do que se supunha. Assim, a violência contra a mulher é uma problemática que envolve todo o mundo, sobretudo nos países ocidentais, cuja sociedade industrializada já se concretizou a partir de ideais falocêntricos e machistas. No ano de 2002, a OMS classificou a violência contra a mulher como um grave problema de saúde pública e violação dos direitos humanos, apoiando o debate brasileiro no que tange ao combate à violência doméstica e a aprovação da Lei Maria da Penha, assim como a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher e a melhoria nos sistemas de atendimento no âmbito do SUS (Curia et al, 2020 apud CAMPOS; PAIVA; TCHALEKIAN, 2020). A preocupação com relação à saúde da mulher se deu devido às consequências geradas pela violência direcionada a ela, não apenas na dimensão física, como também na esfera psicológica. Segundo Campos, Paiva e Tchalekian (2020), as consequências da violência abrangem consequências tanto de médio quanto de longo prazo, variando entre lesão corporal até o óbito das vítimas. Além disso, tais consequências não se restringem apenas ao campo individual, como atingem, ainda, as relações familiares e sociais que a vítima possui. Mesmo com o passar dos tempos, este fenômeno antigo permaneceu silenciado. Parte da perpetuação histórica, relacionada à enorme quantidade de casos de violência contra a mulher, se deu por conta do silêncio das vítimas ao longo dos tempos, algo recorrente até os dias atuais, devido a fatores socioculturais que dão aval para sua tolerância. A sociedade em si sempre foi caracterizada pela opressão, todas as instituições, estruturas ou pessoas dominam ou são dominadas conforme sua raça, classe social, religião, idade ou sexo. Dentre todos, o sistema mais opressivo de dominação e subordinação existente é o de gênero, que podemos chamar também de patriarcado (ARRIAZU, 2000). No Brasil, durante os períodos coloniais, a mulher era considerada relativamente incapaz, devendo sua capacidade ser suprida pela figura paterna ou marital, de modo que estas figuras exerciam sobre ela o total domínio em todas as esferas da sua vida, sobretudo a esfera da sexualidade, o que desvaloriza a mulher enquanto pessoa e enquanto figura digna. Essa mentalidade, advinda dos preceitos do Direito Português, contribuiu para que o Direito brasileiro, por muito tempo, permanecesse silente quanto à violência direcionada à figura feminina (ANDRADE; SOUZA, 2021), fortalecendo o patriarcado em território brasileiro. O patriarcado é uma forte estrutura de dominação e subordinação, a qual tem origem ainda de definição extremamente complexa, mas que perdura até a atualidade. Trata-se de um instrumento poderoso e duradouro, que influi fortemente nas relações sociais, sobretudo no que tange às relações estabelecidas entre homem e mulher. A definição trazida por Arriazu (2002) acerca dessa estrutura é “a relação de poder direto entre homens e mulheres em que os homens, que têm interesses concretos e fundamentais no controle, uso, submissão e opressão das mulheres, efetivamente realizam seus interesses”. As causas para a violência contra a mulher podem ser estruturais, históricas, político-institucionais e culturais. Durante muitos anos, o papel da mulher perante a sociedade foi limitado ao ambiente doméstico, dessa forma, a mulher era enxergada como uma propriedade particular do seu cônjuge, sem direito à vontade própria e sem direito à cidadania. Assim, surgiram movimentos feministas na luta pelos direitos civis das mulheres, resultando nas conquistas recentes em muitos países, embora ainda não completamente efetivadas em nenhum lugar do mundo (ANDRADE; GONÇALVES, 2021). Tal estrutura se nutre através da formação social do gênero; enquanto a mulher se estrutura de forma frágil, submissa, passiva e quieta, o homem se molda de forma poderosa, agressiva, imperante e violenta, em outras palavras, esculpem-se nessa ideologia agressor e vítima (HYPENESS, 2021). Diante desta realidade, isto é, deste fenômeno social que construiu uma desigual relação entre osgêneros, dado a imposição ideológica e atribuição de papéis aos gêneros; interesses masculinos passaram a ser postos sempre em primeiro plano, não possuindo voz, tão pouco representatividade o sexo feminino durante séculos, sendo as agressões sofridas, no campo físico ou psíquico legitimadas pela própria sociedade. Sobre o assunto: [...] não é a natureza a responsável pelos padrões e limites sociais que determinam comportamentos agressivos aos homens e dóceis e submissos às mulheres. Os costumes, a educação e os meios de comunicação tratam de criar e preservar estereótipos que reforçam a ideia de que o sexo masculino tem o poder de controlar os desejos, as opiniões e a liberdade de ir e vir das mulheres. (MELO; TELLES, 2002, p. 13) Em contraposição, almejando a desconstrução deste pilar social que influi tanto na formação do masculino como do feminino, insurgem os movimentos feministas, muitas vezes desqualificados, ironizados ou mal caracterizados, intencionalmente, que buscaram no passado e buscam até hoje o fim da sociedade construída sobre esse paradigma (do patriarcado), vale destacar, que a conceituação de patriarcado surge através desse movimento que junto a outros conceitos, estuda e explica a sociedade e sua construção. Essa estrutura, por conseguinte, transforma a mulher em uma figura extremamente subjugada à figura masculina, tornando-a propensa ao sofrimento das diversas formas de violência. No ambiente doméstico, por exemplo, quando se estabelece uma relação matrimonial, o homem se sente dono de sua esposa, fazendo com que esta se torne submissa em todos os sentidos, de modo que ele possa controlar sua vida e seu próprio corpo. Trata-se de uma bomba relógio, na medida em que casamentos permeados com essa mentalidade, cedo ou tarde, acabam gerando alguma espécie de violência doméstica. Por óbvio, existem formas bem mais sutis de violência contra a mulher. É importante sempre lembrar a multiplicidade de formas que tal problema pode assumir dentro do contexto social. Mas o núcleo principal do problema são suas raízes falocêntricas, misóginas, machistas e patriarcalistas. Foi apenas recentemente, no fim dos anos 80, que a sociedade começou a enxergar a violência contra a mulher e o domínio masculino contra ela como um verdadeiro problema social e de saúde pública (MELO, TELES, 2002). Ao fim dos anos 80, a violência doméstica começou a ser associada a problemas como suicídio, abuso de entorpecentes e bebidas alcoólicas, cefaléia, distúrbios gastrointestinais, episódios depressivos, dentre outros problemas de saúde pública (MCCAULEY, 1995), o que chamou a atenção das autoridades e da sociedade ao redor do mundo. Parte da luta contra a violência doméstica se iniciou a partir dos movimentos feministas fortalecidos entre os anos de 1968 e 1977. Movimento social feito por mulheres para mulheres, o feminismo, foi e ainda é o movimento social e político que promove mudanças substanciais em nossa sociedade no que se refere a conquistas de direitos civis e busca da igualdade política, jurídica e social das mulheres, trazendo protagonismo as mesmas, para concretização da emancipação por parte do feminino, mas não subjugando um sexo em detrimento do outro, em outras palavras, com intuito de demonstrar superioridade, mas sim de transformar as relações existentes em relações iguais, equânimes (MUNDO EDUCAÇÃO, 2021). Segundo Garcia (2015), o feminismo se trata da tomada de consciência das mulheres como coletivo humano, da dominação, opressão e exploração às quais foram submetidas durante toda a vida. O objetivo principal do movimento era a busca pela liberdade e por direitos básicos, que garantam a igualdade plena entre homens e mulheres ao redor de todo o mundo. Segundo Alves e Pitanguy (1985, p. 5), o feminismo busca sempre repensar e recriar a identidade de gênero de modo que os indivíduos não tenham que se adaptar a um modelo social hierarquizado. O patriarcado é, portanto, o precursor da violência de gênero. Sobre o assunto: A violência de gênero e a violência contra a mulher no Brasil já se tornaram sinônimos. Estatisticamente, as mulheres são mais vítimas que os homens. 70% dos feminicídio são cometidos por seu atual ou ex companheiro. Especificamente quando elas quiseram romper com o papel de gênero que ele queria imputar a ela. Um exemplo comum, é quando a mulher quer romper com relacionamento e seu companheiro não aceita. A violência de gênero acontece quando a mulher rompe com estereótipos do que é ser mulher. Por essa razão podemos afirmar que hoje vivemos uma epidemia de violência contra a mulher no Brasil, que culturalmente ainda não aceitou a igualdade de gêneros mantendo a concepção machista do homem em relação à mulher e seu papel na sociedade (MEIRA, 2020). Nesse sentido, pode-se perceber que as reclamações trazidas pelos movimentos feministas implicaram fortemente no contexto da violência doméstica. Devido a eles e diversos outros movimentos populares, sobretudo os que buscavam a implementação da democracia, mecanismos jurídicos passaram a ser criados com o intuito de proteger as mulheres contra a violência. Atualmente , diversas ferramentas estão disponíveis para que tal problema seja completamente erradicado. Entretanto, o movimento ainda está longe de alcançar o resultado que almeja. A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NO BRASIL 1.3.1. Evolução legislativa No Brasil, o modelo patriarcal de sociedade foi base para a construção de toda a legislação anterior à Constituição Federal de 1988. Apesar de esta determinar a igualdade de gênero entre homens e mulheres, nossa legislação e sociedade ainda estão impregnadas de valores e normativas patriarcalistas, os quais impedem que as mulheres exerçam plenamente seus direitos. Atualmente, o Brasil se encontra na 5ª posição de países com relação ao meios número de feminicídios de todo o mundo, o que demonstra a gravidade do quadro brasileiro com relação à proteção à mulher e a perpetuação da violência de gênero (ANDRADE; GONÇALVES, 2021). A legislação brasileira e outras ao redor do mundo foram e ainda são, portanto, frutos de diversos ideias sociais culturalmente fundados a partir de ideais machistas e misóginos, prejudicando o acesso da mulher ao mercado de trabalho, limitando o alcance da mulher sobre sua própria vida jurídica e sobre seu próprio corpo. Os maus tratos contra a mulher no Brasil nos remetem a era colonial, iniciada a partir dos anos de 1530 pelos portugueses e jesuítas, os quais trouxeram da Europa ideais a serem implementados em território brasileiro (FIGUEIRA, 2011). Desde o princípio da formação da sociedade a violência já se fez presente, enraizado em costumes e amparado por lei, sobretudo devido à católica trazida de Portugal, a qual carregou consigo os valores familiares, que sempre enxergaram a figura masculina como soberana, retirando qualquer protagonismo advindo do feminino, resguardado a mesma apenas o papel de auxiliar, de subserviência. Isso, de certa forma, é oriundo da mentalidade de que as mulheres não são titulares de quaisquer direitos (CASTILHO, 2011). A influência do catolicismo acerca dessa perspectiva é latente, na medida em que pregava que a castidade feminina era a chave para alcançar os céus. Foi a ideologia católica que criou a figura feminina como algo a ser imaculado, criando, em conjunto, um tabu relativo à assuntos acerca da sexualidade feminina (GITAHY, MATOS, 2007). Mas é importante destacar a diferença racial que permeia o território brasileiro nessa época, o que, aliado ao patriarcalismo, impunha à base da pirâmide social as mulheres negras escravizadas (FIGUEIRA, 2011). Assim, para as mulheres integrantes da classe dominante, havia uma forte repressão no sentido sexual, feito pela Igreja Católica, assim como a submissão ao homem dentro do ambiente doméstico (SILVA; PALAR, 2017). Para as mulheres negras, entretanto, o tratamento era dado de forma diferente, na medida em que a dupla opressão sofrida fazia com que eles nem mesmo fossem consideradas como pessoas, mas sim como objetos aindamenos valiosos, motivo pelo qual a elas eram direcionadas violência de teor sexual e físico constante, assim como eram submetidas ao trabalho forçado. Nesse período, a opressão feminina era ratificada por meio das Ordenações Filipinas, sobretudo no que tange ao adultério. Segundo esse Diploma, “achando o homem casa sua mulher em adultério, licitamente poderá matar tanto ela como o adúltero (ORDENAÇÕES FILIPINAS). No Brasil Colônia, a legislação vigente via a mulher como incapaz, conferindo aos homens uma posição hierárquica superior, de domínio e poder, sob o qual “castigos” e até “assassinatos em defesa da honra e da moral” eram aceitos legalmente (MENDONÇA; RIBEIRO, 2010) . A primeira constituição brasileira, vigente a partir de 1824, em nada abordou os direitos da mulher. Já no âmbito penal, o Código Criminal de 1830 tratava de forma diversa a violência contra a mulher. Esse tratava da situação das mulheres em diversos dispositivos: o art. 219, por exemplo, tratava do estupro ao punir o defloramento da mulher virgem, menor de dezesseis anos; o art. 222 estipulava sanção à cópula carnal com mulher honesta por meio de violência ou ameaça; Entretanto, havia limitações para a configuração do sujeito passivo nesses crimes: no art. 219, a mulher devia ser virgem, já o art. 222 estabelecia um juízo de valor ao exigir a honestidade. Assim a aplicação da lei decorria da situação social da mulher, de modo que aquelas que não preenchiam os requisitos tornavam-se mais vulneráveis (BRASIL, 1830). Nas relações conjugais, referido Código Criminal passou a considerar mais branda a contravenção de adultério, de modo que a pena da mulher passou a ser prisão com trabalho por um a três anos, não sendo mais legal que o marido a assassinasse em caso de flagrante adultério. Além disso, o homem adúltero também passou a ser punido, mas com a condição de que ele sustentasse a amante (BRASIL, 1830, arts. 250 e 251). O primeiro Código Civil do Brasil, de 1916, foi a personificação dos valores patriarcais da sociedade do século XIX, conservadora e muito influenciada pela legislação canônica, valorizando a família dita tradicional. Segundo Maria Berenice Dias, esse Código foi o responsável pela consolidação da superioridade masculina, transformando a força física do homem em poder pessoal, dando-lhe o comando exclusivo da família (BRASIL, 1916). A superioridade masculina também foi institucionalizada através de outros institutos no Código Civil. Além do pátrio poder, que designava todo o poder de controlar a família ao homem, O Código Civil de 1916 ainda estabeleceu que a mulher passaria a ser considerada relativamente incapaz assim que se casasse, o que lhe impedia de, juridicamente, exercer arbitrariamente alguns direitos dos quais os homens gozavam na época. A mulher não podia exercer profissão ou negociar bens sem a autorização de seu cônjuge (BRASIL, 1916). O Código também designa a mulher como administradora do lar, o que significava que a mulher deveria assumir a condição de companheira e auxiliar nos trabalhos domésticos. Além disso, a valorização da virgindade feminina, defendida pelos ideais cristãos, também era fortalecida pelo Código. O homem poderia pedir a anulação do casamento caso a descobrisse que a mulher não fosse virgem após a oficialização do casamento, uma vez que a preservação da virgindade da mulher significava a honra do pai, do marido e da família da moça (BRASIL, 1916). No período em que foi editado o Código Civil de 1916, uma onda feminista já se alastrava ao redor do mundo, o que teve influência na legislação brasileira. Em 1918, Bertha Lutz já era a maior líder na luta pelos direitos da mulher (MEIRA, 2020). Nesse período, iniciava-se a propagação de ideais de liberdade e igualdade, posteriormente defendidos na Liga pela Emancipação Intelectual da Mulher. Com essa iniciativa a mulher passou a ser alvo de atenção e a situação feminina a ser discutida no país. Nesse momento, desejavam o ingresso em escolas e o direito de votar (BICUDO, 1994 apud MEIRA, 2020). Mais adiante, o Código Penal de 1940 se mostrou mais uma legislação característica de uma sociedade patriarcal. Ainda hoje, essa legislação ainda é a principal do país, na área criminal, e foi criada durante o período da Era Vargas. Um dos principais pontos questionáveis do texto original dessa legislação é o chamado “crime contra os costumes”, o qual não só reproduzia como também reforçava o embate machista da “mulher casta e a mulher promíscua” (BRASIL, 1940). O Código Penal também abordou a questão da virgindade feminina. Um de seus redatores, Nelson Hungria, afirmou que a mulher quando era deflorada perdia seu valor social, dessa forma, era cabível a anulação do casamento caso o marido descobrisse que ela fora deflorada antes do casamento. Hungria também defendia a impossibilidade do marido cometer crime de estupro contra a própria esposa, reforçando o ideal de que a mulher deveria estar sexualmente a disposição do marido a qualquer momento que este desejasse, sendo direito dele que a mulher tivesse conjunção carnal com ele, tendo em vista que era uma das obrigações do casamento (GOMES; SANTOS, 2014) . Em 1941, as mulheres passaram a ser proibidas de praticarem esportes "incompatíveis com as condições de sua natureza”, por meio do Decreto-Lei nº 3.199 (BRASIL, 1941), o que atingiu principalmente àquelas que jogavam futebol. Entretanto, durante o século XX, as discussões acerca da igualdade de gênero geraram dentro do contexto legislativo burburinhos doutrinários de diferentes ideologias e pontos de vista. No campo político, esse ideal começava a ganhar força, mas o Direito ainda não acompanhava, permanecendo preso aos ideais já estabelecidos pela ordem jurídica. Assim, a força dos movimentos feministas se amplia, sobretudo referente aos direitos das mulheres que compunham a classe dominante (PALAR; SILVA, 2017). Assim, apesar de a lei infraconstitucional apresentar alguns preceitos ainda marcados pela desigualdade, as constituições redigidas durante esse período se mostraram, em certa medida, igualitárias e mais democráticas. A Constituição de 1934, por exemplo, estabeleceu a igualdade entre todos, não sendo mais possível a distinção legislativa de gênero. Noutro lado, no que tange aos direitos políticos, as mulheres conquistaram o direito ao voto no ano de 1932, por meio do Decreto nº 21.076. Ainda, em 1943, a Consolidação das Leis Trabalhistas passou a proibir a rescisão contratual por justo motivo frente à gravidez ou casamento da mulher. Mais à frente em 1962, o Estatuto da Mulher Casada alterou a situação jurídica da mulher, não mais considerando-a relativamente incapaz. Em 1977, a mulher passou a ter direito ao divórcio, mesmo ano em que se estabeleceu as cotas de gênero no contexto partidário. Mas foi em 1988, com a promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil, que a situação das mulheres começou a mudar de verdade, na medida em que o texto constitucional passou a expressamente considerar homens e mulheres como iguais, em seu art. 5ª, inciso I, assim como a instituir direitos fundamentais que protegem a mulher enquanto ser humano (BRASIL, 1988). Anteriormente a isso, em 1985, as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher começaram a ser implementadas em todo o território brasileiro, sendo a primeira na cidade de São Paulo. “ Essas delegacias realizavam a apuração, investigação e prevenção da mulher que sofria violência. Tinha por principal intuito dar um atendimento mais humanizado, especializado e acolhedor para a mulher vítima de violência.” (MEIRA, 2020). O mais importante, ainda, foi a cláusula de remissão prevista pelo dispositivo, a qual permite que mecanismos foram criados para que tal igualdade seja materialmente alcançada, assim como permite o tratamento desigual na medida das desigualdades dos indivíduos (GARCIA, 2009). Não apenas isso, como as primeiras Delegacias da Mulher, o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e o primeiro programa público de aborto legal puderam ser desenvolvidosgraças à redemocratização e o advento da Constituição de 1988 (AGUIAR et al 2020). Tal disposição deu suporte legal para que, em 2006, fosse criada a Lei Maria da Penha, uma das legislações mais importantes no contexto do combate à violência contra a mulher. Durante os anos 2000, diversas leis visando a proteção da mulher contra a violência foram criadas, implicando diretamente na articulação dos serviços da rede de atenção às mulheres, assim como nos equipamentos utilizados e nas modalidades de assistência ofertadas (CAMPOS; PAIVA; TCHAKERIAN, 2020). A Lei 11.340/06, Lei Maria da Penha, foi resultado de tratados internacionais, firmados pelo Brasil, com o propósito de não apenas proteger a mulher vítima de violência doméstica e familiar, mas também prevenir futuras agressões e punir devidos agressores. Foram duas as convenções firmadas pelo Brasil: Convenção sobre eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher (CEDAW), conhecida como Lei Internacional dos Direitos da mulher e a Convenção Interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher, conhecida como “Convenção do Belém do Pará” (SILVA, 2011, p. 1). Essa lei foi criada com o objetivo de combater a violência contra a mulher, objetivo este que se tornou mais latente após a história da farmacêutica Maria da Penha Maia se espalhar por todo o país. Maria passou por situações de violência doméstica durante seis anos, sofrendo duas tentativas de homicídio que a levaram à paraplegia irreversível (FRANKLIN; MARTINS, 2018) . […] A repercussão foi de tal ordem que o Centro pela justiça e o Direito Internacional – CEJIL e o Comitê Latino- Americano e do Caribe para a defesa dos direitos da mulher – CLADEM formalizaram denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos. Apesar de, por quatro vezes, a comissão ter solicitado informações ao governo brasileiro, nunca recebeu nenhuma resposta. O Brasil foi condenado internacionalmente, em 2001. O relatório n. 54 da OEA, além de impor o pagamento de indenização no valor de 20 mil dólares, em favor de Maria da Penha, responsabilizou o Estado brasileiro por negligência e omissão frente a violência doméstica, recomendando a adoção de várias medidas, entre elas “simplificar os procedimentos judiciais penais a fim de que possa ser reduzido o tempo processual”. A indenização, no valor de 60 Mil reais, foi paga a Maria da Penha, em julho de 2008, pelo governo do Estado do Ceará, em uma solenidade pública, com pedido de desculpas (DIAS, 2010 apud FRANKLIN; MARTINS, 2018) Os episódios de violência ocorridos contra Maria da Penha apenas demonstram de que forma a comunidade ainda se calava diante dos casos de violência contra a mulher dentro do ambiente doméstico. A partir disso, voltou-se mais a atenção à proteção da mulher contra a violência. Nesse contexto, surgiu em 2003 a primeira secretaria e política paras mulheres, a qual foi a responsável pela edição da Lei Maria da Penha. Assim, a promulgação da Lei Maria da Penha foi um grande passo para que as mulheres pudessem ser efetivamente protegidas contra esse tipo de abuso, bem como realmente punir aqueles que cometerem tais crimes. Sobre o assunto, discorre Meira (2020): A lei tem a particularidade, pois coloca a mulher como protagonista da sua vida. Além de esclarecer quais são os tipos de violência, ela disponibiliza para as mulheres direitos importantíssimos, porém para exigir esses direitos, a mulher precisa estar bem informada e buscar seus direitos denunciando o agressor. Continua sendo um desafio deixar as mulheres informadas de seus direitos, apesar de todos os meios publicitários e de políticas públicas implementadas no Brasil e no mundo (MEIRA, 2020). Segundo a Organização das Nações Unidas, trata-se de uma das leis mais completas do mundo no que tange ao enfrentamento à violência contra a mulher (FRANKLIN; MARTINS, 2018). Destaca Corrêa (2010): A Lei Maria da Penha marca o início de um novo tempo, pois essa norma jurídica transformou os casos envolvendo mulheres vítimas de violência, uma vez que antes eram tratados pelo direito penal como irrelevantes, pois se enquadram em crimes de menor potencial ofensivo. Para a mesma autora, esse marco caracteriza uma mudança de um tempo onde as mulheres eram oprimidas por toda a ordem de violência para, a partir dessa lei, recuperar sua dignidade, por meio da conquista do respeito e consideração pelos operadores jurídicos. Segundo Campos, Paiva e Tchalekian (2020), Guimarães e Pedroza (2015) destacam a inovação jurídica, processual, política e cultural que redefiniu a violência depois da promulgação da Lei Maria da Penha, com impacto na formulação de políticas públicas na saúde, educação e assistência. O detalhamento das modalidades de violência definidas na lei ampliou a compreensão sobre suas expressões e situações que, como as diferentes formas de humilhação, não eram definidas como violência (Guimarães & Pedroza, 2015). Nesse contexto, se ampliou tanto a escuta das mulheres vítimas de violência para as diversas expressões das violências, quanto a compreensão sobre a construção histórica e cultural das relações desiguais de poder entre homens e mulheres. A Lei Maria da Penha, ainda, institui de forma mais incisiva a Política Nacional de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, em seu art. 8º. Além da Lei Maria da Penha, outra lei importante no âmbito da proteção à mulher é a Lei do Feminicídio. Segundo Souza (2016), o feminicídio se trata do assassinato de mulheres em razão do seu gênero. Percebe-se, então, que se trata de um clássico exemplo de como a misoginia pode afetar a saúde e a integridade física das mulheres. Assim como a violência doméstica no geral o feminicídio se relaciona intimamente à construção de uma sociedade baseada no patriarcado (SOUZA, 2018). Assim, destaca-se: O feminicídio apresenta-se como o culminar de um processo continuado de práticas de dominação e submissão sobre as mulheres, onde, a cada violação de direitos e de ofensa à dignidade, se sucedem outras violações. A este processo corresponde a perda de referenciais na relação entre sujeitos, onde a desigualdade de poder entre eles resulta na submissão reiterada e sistemática e na perda de direitos dos dominados ao ponto da depreciação do seu direito à vida. Sendo necessária alguma precaução metodológica na análise dos dados sobre o assassinato de mulheres, dado que, por vezes, as informações e os registros de dados são pouco detalhados ou encobertos, é, contudo, perceptível um padrão de crescimento de casos de feminicídio que se ocultam, por exemplo, entre os casos classificados de violência doméstica (SOUZA, 2016) Hoje, através da Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015), tipifica-se a prática do feminicídio como um crime hediondo, previsto pelo art. 121, §2º, IV, do Código Penal (BRASIL, 1940). Hoje, o feminicídio é compreendido como o assassinato de mulheres em razão dessa condição de ser mulher, muitas vezes motivada pelo ódio, pelo desprezo, ou até mesmo pelo sentimento de perda de controle sobre a figura feminina. Por isso, muitas fazes, o feminicídio ou a tentativa de feminicídio são cometidos pelos ex-companheiros das vítimas, ou por pessoas que se sentiram rejeitados por esta (ANDRADE; GONÇALVES, 2021). Nessa hipótese, a própria Lei Maria da Penha já previa, em seu art. 22, uma série de medidas protetivas que visam justamente a proteção da mulher em situação de violência, para que ela não fosse vítima de feminicídio, in verbis: Art. 22. Constatada a prática de violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos desta Lei, o juiz poderá aplicar, de imediato, ao agressor, em conjunto ou separadamente, as seguintes medidas protetivas de urgência, entre outras: I - suspensão da posse ou restrição do porte de armas, com comunicação ao órgão competente, nos termos da Lei no 10.826, de 22 de dezembro de 2003; II - afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a ofendida; III - proibição de determinadas condutas, entreas quais: a) aproximação da ofendida, de seus familiares e das testemunhas, fixando o limite mínimo de distância entre estes e o agressor; b) contato com a ofendida, seus familiares e testemunhas por qualquer meio de comunicação; c) freqüentação de determinados lugares a fim de preservar a integridade física e psicológica da ofendida; IV - restrição ou suspensão de visitas aos dependentes menores, ouvida a equipe de atendimento multidisciplinar ou serviço similar; V - prestação de alimentos provisionais ou provisórios. (BRASIL, 2006). Durante a pandemia da COVID-19, a Lei 14.022/2020 foi sancionada, tendo como objetivo principal a proteção das mulheres nesse contexto. Um ponto relevante da criação dessa nova Lei, é que ela obriga a agilidade ao atendimento, principalmente naquelas demandas de maior risco à integridade da mulher, do idoso, da criança e do adolescente, criando canais gratuitos de comunicação interativos para atendimento virtual, acessíveis por celulares e computadores, ou seja, as medidas protetivas de urgência poderão ser solicitadas por meio de atendimento online, levando as medidas protetivas que já estão em vigor a serem automaticamente prorrogadas durante todo o período de pandemia em território nacional (ANDRADE; GONÇALVES, 2021). Ainda, destaca-se que: A Lei Maria da Penha não criou novos tipos penais, mas propiciou uma releitura dos tipos penais existentes, ao mesmo tempo em que assegurou, no âmbito do processo penal, um tratamento diferenciado e protetivo da mulher (discriminação positiva), de modo a suprir as diferenças decorrentes do gênero. Ela mudou a forma de se interpretar a tipificação penal tradicional, ampliando o conceito de violência doméstica para abarcar certas condutas que antes eram excluídas dos tipos penais (DELGADO, 2021). Entretanto, um fator extremamente importante para o combate à violência doméstica no Brasil foi o reconhecimento de diversos tipos de violência, por meio da Lei Maria da Penha. A LEI MARIA DA PENHA E OS TIPOS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER Em linhas gerais, conforme já discorrido, a violência pode ser conceituada como toda e qualquer conduta que ofenda a integridade da vítima. Trata-se do conceito, inclusive, utilizado pela própria Lei Maria da Penha. O ponto é que a Lei também prevê certos tipos de violência, quais sejam a violência psicológica, a violência moral, a violência sexual e a violência que figura como objeto deste estudo, a violência patrimonial. Discorre Delgado (2021): A violência doméstica não se expressa apenas pela violência física, relacionada às ofensas à integridade ou saúde corporal, mas também pela violência psicológica, representada por qualquer conduta que cause prejuízo à saúde psicológica, à autodeterminação e à auto- estima da mulher (ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir, etc); pela violência sexual, que consiste em constranger a mulher a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos; pela violência moral, praticada por meio de calúnia, difamação ou injúria. E, finalmente, pela violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades (DELGADO, 2021). Sobre esses tipos de violência, importa ressaltar que o seu reconhecimento foi de extrema importância, tendo em vista que, por muito tempo, entendeu-se que apenas se consideraria violência aquela direciona contra a integridade física das pessoas (MEIRA, 2020). Não se tratam de novos crimes, mas sim de um anova visão a respeito sobre os mesmos crimes sancionados pelo Código Penal, desde que praticados contra a mulher em razão de questões de gênero (DELGADO, 2021). As penas cominadas a quem pratica a violência doméstica e familiar, portanto, são as mesmas prognosticadas no Código Penal para os crimes contra a integridade física, contra a honra ou contra o patrimônio, a depender do núcleo da conduta praticada. Como reflexo processual da tipificação, e pretendendo atribuir maior efetividade à norma repressora, a lei estabelece ser proibida a aplicação, nos casos de crimes cometidos com violência doméstica ou familiar contra a mulher, de penas de cesta básica ou outras de prestação pecuniária, bem como a substituição de pena que implique o pagamento isolado de multa (art. 17) (DELGADO, 2021). Tal perspectiva foi intrinsecamente adotada pelas próprias vítimas, as quais muitas vezes nem percebem que estão sofrendo violência doméstica. É sob essa perspectiva, portanto, que mulheres que têm seus bens subtraídos (violência patrimonial) e descasos psicológicos (violência psicológica) se mantém por tanto tempo sob tais formas de violência, acreditando que a lei apenas as protege contra a violência física. Sobre o assunto, Carvalho (2021) aponta que a violência patrimonial contra as mulheres, muitas vezes, passa desapercebida. Isso porque, para o autor, as mulheres passam por situações de dilapidação patrimonial ensejadas por seus parceiros sem saber que se trata de uma conduta reprovável penalmente. Assim, o estudo acerca da violência patrimonial é importante. A VIOLÊNCIA PATRIMONIAL NO CONTEXTO DA VIOLÊCIA DOMÉSTICA A violência patrimonial, segundo a Lei Maria da Penha, se trata daquela que resulta da retenção, subtração, destruição parcial ou total de objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos (BRASIL, 2006). Assim, não apenas os bens de relevância patrimonial e econômico-financeira direta são objetos violados com esse tipo de violência, como também aqueles bens que apresentam importância pessoal e profissional, indispensáveis à digna satisfação das necessidades vitais (LORETO, et al, 2013). Sobre o assunto, discorre Delgado (2021): O verbo subtrair conduz inicialmente a um tipo penal por todos conhecido: o furto, previsto no art. 155 do Código Penal. Se a subtração se deu com emprego de violência, temos o tipo denominado roubo. Assim, incorre nessa conduta típica tanto o cônjuge ou companheiro que subtrai às escondidas valores da mulher para compra de bebidas ou drogas (situações mais comuns), como aquele que subtrai da mulher a parte que lhe cabia dos bens comuns, alienando o automóvel ou os móveis da casa ou até mesmo o animal de estimação. Nas lições de Scarance Fernandes, “na violência doméstica e familiar contra a mulher, o furto diz respeito à subtração de bens particulares da vítima ou à parcela da mulher na meação dos bens comuns”. Logo, consiste “na recusa do agressor em entregar à vítima seus bens, valores, pertences e documentos, como forma de vingança ou, até mesmo, como um meio de conseguir obriga-la a permanecer num relacionamento do qual pretende se retirar” (LORETO, et al, 2013). Sobre o assunto, destaca-se que o patrimônio se trata de bens de valor econômico considerável, de ordem material. Assim, a violência patrimonial, em síntese, será aquela que acarreta em danos de natureza patrimonial. Discorre Delgado (2018), que a violência patrimonial pode ocorrer em diversas ocasiões. In verbis: Assim, incorre nessa conduta típica tanto o cônjuge ou companheiro que subtrai às escondidas valores da mulher para compra de bebidas ou drogas (situações mais comuns) como aquele que subtrai da mulher a parte que lhe cabia dos bens comuns, alienando o automóvel ou os móveis da casa ou até mesmo o animalde estimação. Às vezes a subtração ocorre com finalidade de causar dor ou dissabor à mulher, pouco importando o valor dos bens subtraídos. Evidentemente que não é todo e qualquer furto contra a mulher, ainda que praticado por ex-cônjuge ou ex-companheiro, que irá caracterizar a violência patrimonial. É preciso que a subtração ocorra em situação de violência doméstica, ou seja, em razão do gênero. (DELGADO, 2018) Trata-se do tipo de violência que, segundo os estudiosos, age diretamente no poder de subsistência das mulheres, de modo que estas se tornem ainda mais subjugadas à autoridade masculina (RIBEIRO, 2017). Segundo Carvalho (2021), a violência patrimonial tem forte influência no modelo patriarcal de família, no qual o homem é provedor; nesse sentido, a atuação econômica da mulher representaria a diminuição do poder do homem. Em razão disso, e da própria natureza da Lei Maria da Penha, não se pode considerar qualquer subtração como violência patrimonial contra a mulher. Na verdade, para que esteja configurada tal violência, ela deve ocorrer em razão da condição do sexo feminino. É o que aponta Delgado (2018) ao indicar o seguinte julgado: APELAÇÃO. FURTO SIMPLES EM CONTEXTO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA FAMILIAR. RECURSO DO MINISTÉRIO PÚBLICO VISANDO A REFORMA DA SENTENÇA ABSOLUTÓRIA, DE MOLDE A VER CONDENADO O RECORRIDO NAS PENAS DO ART. 155 DO CÓDIGO PENAL, NA FORMA DA LEI n. 11.340/06. Antes do exame da pretensão condenatória manifestada pelo Parquet, cumpre verificar a existência dos requisitos necessários para a aplicação da Lei n. 11.340/06. A incidência da referida Lei, reclama a presença cumulativa de três vetores que caracterizam a situação de violência doméstica e familiar, representadas pela existência, passada ou atual, de relação íntima de afeto entre agressor e vítima, a violência de gênero direcionada à prática delitiva contra mulher, e a situação de vulnerabilidade da vítima em relação ao agressor. A Terceira Seção do Superior Tribunal firmou entendimento de que o legisla- dor, ao editar a Lei Maria da Penha, teve em conta a mulher numa perspectiva de gênero e em condições de hipossuficiência ou inferioridade física e econômica em relações patriarcais, consignando que o escopo da lei é a proteção da mulher em situação de fragilidade/vulnerabilidade diante do homem ou de outra mulher, desde que caracterizado o vínculo de relação doméstica, familiar ou de afetividade (CCn.88.027/MG, Ministro OGFERNANDES). Tal orientação encontra-se consolidada naquela E. Corte de Justiça, como se vê do julgado relatado pelo eminente Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE (HC 175.816/RS), onde restou pontuada a necessidade de ser empregada interpretação restritiva ao referido Diploma Legal. No caso, o Ministério Público denunciou o apelante pelo crime furto simples, afirmando que ele teria subtraído determinada quantia em dinheiro pertencente a sua ex-companheira. A inicial afirma que tal conduta teria ocorrido quando “denunciado estava visitando sua filha na residência da vítima, e quando esta se distraiu o denunciado subtraiu a res furtiva da bolsa da vítima, se evadindo do local em seguida”. No entanto, de acordo com o relato da excompanheira do recorrente em juízo, a mencionada subtração não ocorreu, como afirmado na denúncia, na sua residência, mas sim na residência de uma vizinha da sua mãe, que mora no andar de baixo. Segundo Pereira (2013), a violência patrimonial: São todos os atos comissivos ou omissivos do agressor que afetam a saúde emocional e a sobrevivência dos membros da família. Inclui o roubo, o desvio e a destruição de bens pessoais ou da sociedade conjugal, a guarda ou retenção de seus documentos pessoais, bens pecuniários ou não, a recusa de pagar a pensão alimentícia ou de participar nos gastos básicos para a sobrevivência do núcleo familiar, o uso dos recursos econômicos da pessoa idosa, da tutelada ou do incapaz, destituindo-a de gerir seus próprios recursos e deixando-a sem provimentos e cuidados. Assim, dentre as formas de violência patrimonial, destaca-se como uma das mais comuns aquelas que ocorrem no curso das dissoluções de casamentos ou de uniões estáveis, quando um dos cônjuges permanece na administração, posse e usufruto exclusivo da totalidade ou de grande parte dos recursos, bens e direitos, deixando o outro privado dos mesmos (SALZER, 2022). Nestas hipóteses, entretanto, o pleito será analisado pelo Juízo de Família, não pelo Juizado de Violência Doméstica e Familiar, conforme discorre a jurisprudência: “(...) O pleito de concessão de medida protetiva de caráter patrimonial pela refere-se à matéria afeta ao direito de família, que exige ampla produção probatória, cabendo ao Juiz da Vara de Família julgar a partilha dos bens do ex-casal. (...)” (TJ-MG. Agravo de Instrumento-Cr 1.0686.21.000179-4/001, relator: des. Antônio Carlos Cruvinel, 3ª Câmara Criminal, julgamento em 29/6/2021, publicação da súmula em 1/7/2021) Sobre o assunto, no ano de 2005, uma pesquisa indicou que apenas 1% das mulheres entrevistadas reconhecerem que estavam em situação de violência patrimonial (SEPO, 2005). Entretanto, destaca-se que: Esse baixo valor percentual da violência patrimonial, retratada na pesquisa Nacional, não é, entretanto, a realidade vivenciada pelas pessoas idosas, principalmente mulheres, considerando que estudos parciais feitos no país mostram que as denúncias dos idosos enfatizam, em primeiro lugar, os abusos econômicos ou a violência patrimonial, como tentativas dos familiares (filhos, cônjuges, genros e noras) de se apoderarem de forma imprópria ou sem consentimento das fontes de renda, da casa ou de outros bens e economias do idoso, além do abandono material cometido contra ele. Em segundo lugar, as agressões físicas e, em terceiro, recusa dos familiares em dar-lhes proteção (SILVA et. al., 2007; FLORENCIO, et. al., 2007). Assim, há uma certa dificuldade na identificação deste tipo de violência, em razão de as mulheres não saberem ao certo como identifica-la. Não apenas isso, como há um silenciamento por parte dos próprios órgãos de proteção. Segundo o projeto Gênero e Número (2021), apenas três estados brasileiros fazem a distinção de casos de violência patrimonial previstos na Lei Maria da Penha, quais sejam o Paraná, o Mato Grosso do Sul e o Rio Grande do Sul. Segundo o projeto EVA (2020), apesar de constar na legislação brasileira, a violência patrimonial passa despercebida pelos órgãos competentes, o que reflete diretamente na falta de informações sobre ele “seja porque as formas de como se expressa são naturalizadas, seja por falta de uma ampla discussão sobre o tema”. A respeito dos dados encontrados, segundo o projeto Gênero e Número (2020), no ano de 2018, foram registrados mais de 29 mil casos de violência patrimonial, mas apenas 1.962 deles foram tipificados como violência doméstica. No Mato Grosso do Sul, a violência patrimonial, neste ano, representou fração de 20% dos casos de violência doméstica (GÊNERO E NÚMERO, 2021). Em 2020, os dados sobre a violência patrimonial contra a mulher demonstraram que 2.995 mulheres haviam sofrido esse tipo de violência (FOLHA, 2021). Já em 2021, dados apresentados pelo projeto EVA (2021) indicaram que mais de 26 mil casos de violência patrimonial contra a mulher ocorreram no Brasil, estando o estado do Amapá liderando com a maior taxa de violência patrimonial a cada 100 mil habitantes, com 327,8. Entretanto, o estudo não foi capaz de identificar qual porcentagem deste número se enquadra nas disposições trazidas pela Lei Maria da Penha ou quais não tem qualquer relação com o gênero. Sobre o assunto, destaca o Gênero e Número que é importante destacar que a própria Lei Maria da Penha, em seu artigo 38, determina que as estatísticas a respeito da violência contra a mulher sejam devidamente registradas; contudo, não há informações a respeito de como esses dados devem ser sistematizados. Em razão disto, nem todos os estados separam os crimes por tipos de violência (GÊNERO E NÚMERO, 2021). Logo, Esse apagão de dados podeprejudicar as políticas públicas de combate ao problema, que passa, principalmente, pela conscientização das vítimas e dos profissionais envolvidos, principalmente advogados. A prática da violência patrimonial consiste em restringir acesso da vítima a valores que lhe são devidos ou destruir seu patrimônio, como imóveis, eletrodomésticos e até documentos. Essa disputa, em geral, desemboca na Justiça, que precisa fazer a mediação e devolver à vítima o que lhe é de direito. Mas em uma sociedade ancorada em valores que culpabilizam as mulheres, isso é ainda mais difícil, na opinião de Bianca Alves, advogada e coordenadora do Grupo de Trabalho de Enfrentamento à Violência de Gênero da OAB Mulher/RJ. (GÊNERO E NÚMERO, 2021) Por isso, destaca-se a necessidade de se entender a violência patrimonial também como uma questão de gênero, de modo que tais dados sejam melhor uniformizados. Assim, regista EVA (2020): A origem da violência contra mulheres é a desigualdade de gênero e a percepção de que homens e mulheres não têm o mesmo status na sociedade. É diante dessa aparente desigualdade que as mulheres — e seus corpos — deixam de ser seus e viram propriedade do outro, seja para satisfazê-lo, seja para puni-las. Por essa razão, não devemos menosprezar aqueles crimes que não deixam marcas físicas, já que as afetam e isolam e são indicativo de que estão vulneráveis a outros tipos de violência. Deve-se estar atento a todas as formas de violência, seja para entender o que os dados disponíveis mostram, seja para chamar atenção à importância de compilar esses dados como forma de interromper ciclos de violência. Dar visibilidade à violência contra mulheres ajuda a desnaturalizá-la. Entretanto, apesar de difícil identificação e de baixos índices de denúncia, a Lei Maria da Penha, em seu artigo 24, prevê diversas formas de proteção ao patrimônio das vítimas, entretanto, Tannuri e Gagliato (2012) apontam que são pouco aplicadas na prática. Tratam-se das tutelas para proteção dos bens da mulher em suas relações com os agressores (LORETO, et al, 2013). São elas: I - restituição de bens indevidamente subtraídos pelo agressor à ofendida; II - proibição temporária para a celebração de atos e contratos de compra, venda e locação de propriedade em comum, salvo expressa autorização judicial; III - suspensão das procurações conferidas pela ofendida ao agressor; IV - prestação de caução provisória, mediante depósito judicial, por perdas e danos materiais decorrentes da prática de violência doméstica e familiar contra a ofendida (BRASIL, 2006). Todas têm natureza extrapenal e podem ser formuladas perante a autoridade policial no registro da ocorrência, originando o procedimento de medida protetiva de urgência a ser enviado ao juízo (VALE, 2016). Tais pretensões podem ser concedidas com fundamento na tutela provisória de urgência prevista no atual Código de Processo Civil no Livro V, denominado “Da tutela provisória” (art.294 e segs.) e no Título II, sob a rubrica “Da tutela de urgência” (art.300 e segs.) e devem ser tomadas de ofício pelo juiz (LMP, art.22, § 4º) (VALE, 2016). Essas medidas serão aplicadas ao casamento, com exceção se realizado em regime de separação de bens (art. 1687, CC), onde há a administração exclusiva dos bens de cada um dos cônjuges e sua livre alienação ou oneração, bem como se estipulado pelos noivos em pacto antenupcial (art. 1639, CC). Há discussão se estende à união estável (art. 1725, CC), referentes aos bens comuns dos conviventes, adquiridos onerosamente durante o período de convívio e se são aplicadas as disposições acerca de bens excluídos da comunhão previstas no art. 1668, do Código Civil (VALE, 2016). Assim, a violência patrimonial se trata de uma violência cometida silenciosamente. Entretanto, existem mecanismos legais de proteção às mulheres contra esse tipo de violência. A VIOLÊNCIA PATRIMONIAL NO ESTADO DO MATO GROSSO DO SUL Ao redor do país, o conceito de violência patrimonial vem sendo disseminado, o que ensejou também em efeitos jurisprudenciais. O Tribunal de Justiça de São Paulo, por exemplo, já apresenta alguns julgados relevantes sobre o tema, a destacar: ALIMENTOS. PROVISÓRIOS. EX-COMPANHEIROS. VIOLÊNCIA PATRIMONIAL. Insurgência contra decisão que indeferiu alimentos provisórios à autora. Decisão reformada. Ainda que tenha transcorrido lapso temporal importante entre a separação e o ajuizamento da demanda, peculiaridades do caso. Dedicação exclusiva ao lar durante o período da união estável, atual estado de depressão profunda da autora, utilização indevida de seu CPF pelo ex-companheiro para abertura de firma. Agravado mostra ainda mantém a agravante sob violência patrimonial (art. 7º, IV, Lei 11.340/2006). Circunstâncias a indicar que ela não teria condição de trabalhar para prover o próprio sustento. Alimentos provisórios fixados em meio salário mínimo. Recurso provido. (TJ-SP - AI: 20226016820208260000 SP 2022601-68.2020.8.26.0000, Relator: Carlos Alberto de Salles, Data de Julgamento: 29/06/2021, 3ª Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 29/06/2021) Já o Tribunal de Justiça do Distrito Federal também se apresenta da mesma forma. Vejamos: Competência. Juizado Especial de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher. Estelionato. Apropriação indébita. Relação íntima. Violência patrimonial. 1 - Para os efeitos da Lei Maria da Penha (L. 11.340/06), caracteriza violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial. 2 - Se a violência - psicológica e patrimonial -, ocorreu no contexto de convivência íntima (relacionamento amoroso) e teve motivação de gênero, sobretudo porque não há dúvidas sobre a vulnerabilidade da vítima em relação ao indiciado, a violência é doméstica, a justificar a competência do juizado especializado. 3 - Conflito de competência conhecido para declarar competente o juízo suscitante - 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Brasília - DF. (TJ-DF 07066736420218070000 - Segredo de Justiça 0706673-64.2021.8.07.0000, Relator: JAIR SOARES, Data de Julgamento: 12/05/2021, Câmara Criminal, Data de Publicação: Publicado no PJe : 25/05/2021 . Pág.: Sem Página Cadastrada.) Por sua vez, discorre o Tribunal de Justiça de Minas Gerais: EMENTA: APELAÇÃO CRIMINAL - MEDIDAS PROTETIVAS - VIOLÊNCIA PATRIMONIAL - FORMA DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA - NECESSIDADE DE PROSSEGUIMENTO DO FEITO - SENTENÇA ANULADA. A violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos é uma das formas de violência doméstica e familiar contra a mulher elencadas no art. 7º da Lei 11.340/06. (TJ-MG - APR: 10024170638456001 MG, Relator: Fernando Caldeira Brant, Data de Julgamento: 29/08/2018, Data de Publicação: 05/09/2018) Conforme o mencionado, o estado do Mato Grosso do Sul é um dos únicos que diferenciam os tipos de violência doméstica, de modo que os dados apresentados pelos órgãos oficiais de proteção do estado fornecem de forma completa os dados a respeito da violência patrimonial ocorridos, quando denunciados. Na verdade, o Mato Grosso do Sul é um dos estados mais ativos no combate contra a violência doméstica, sendo um dos programas adotados, o Agosto Lilás, um dos mais importantes do país, cujo objetivo principal é enfrentar a violência doméstica e familiar contra a mulher, instituída pela Lei Estado nº 4.969/2016 (MATO GROSSO DO SUL, 2022). Segundo o projeto EVA (2021), no ano de 2020, foram registrados cerca de 8887 incidentes de violência patrimonial contra as mulheres. Isso tem reflexos direitos nas políticas adotadas pelo estado e pelo entendimento construído jurisprudencialmente a respeito do assunto. Primeiramente, é cediço que o TJMS considera, acertadamente, violência doméstica como aquela relacionada ao gênero, conforme indicam as seguintesjurisprudências: CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA – DESCUMPRIMENTO DE MEDIDA PROTETIVA DE URGÊNCIA CONTRA IRMÃ E AMEAÇAS CONTRA MÃE E IRMÃ, EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA – CONFLITO PROCEDENTE. É considerada violência doméstica e familiar contra a mulher toda e qualquer ação ou omissão baseada no gênero, isto é, em que haja uma relação de superioridade do agressor ou de objetificação da vítima, em decorrência de discriminação do sexo feminino, dentro do convívio intrafamiliar ou por relação de afeto. Caracterizam violência doméstica as agressões e ameaças praticadas no âmbito familiar que tenham como base a violência de gênero. Constatado que as supostas ameaças foram praticadas contra a mãe e irmã do réu, havendo, em tese, descumprimento de medida protetiva de urgência fixada em favor da irmã, crimes os quais foram supostamente cometidos em situação de dependência química do acusado, sua condição não pode ser considerada como causa das agressões, mas catalisador para a prática da conduta contra a parte frágil em decorrência do gênero das vítimas. (TJMS - 0000037-22.2021.8.12.0021, Relator: Des. Ruy Celso Barbosa Florence, 2ª Câmara Criminal, DJ 31/01/2022, DJe 03/02/2022 - grifei) E M E N T A – CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA – AMEAÇA PRATICADA CONTRA GENITORA E IRMÃ – CONDUTA CONCRETAMENTE PERMEADA DO PROPÓSITO DE OPRESSÃO AO SEXO FEMININO – VIOLÊNCIA DE GÊNERO – INCIDÊNCIA DA LEI N. 11.340/06 – CONFLITO PROCEDENTE. I – A violência doméstica ou familiar é caracterizada pela ação ou omissão baseada no gênero, circunstância que pressupõe uma relação de superioridade ou objetificação da mulher pelo homem, em decorrência da discriminação do sexo feminino. Segundo consta dos autos, o agressor teria ameaçado as vítimas, sua genitora e irmã, dizendo que iria colocar fogo na casa se o denunciasse. Nesse contexto, a ação encontra-se permeada do propósito de opressão decorrente da vulnerabilidade das vítimas pelo fato de serem mulheres (violência voltada ao gênero), atraindo, pois, a incidência da Lei Maria da Penha. II – Conflito julgado procedente para declarar a competência do Juízo da 2ª Vara de Violência Doméstica ou Familiar Contra a Mulher de Campo Grande. (TJMS, 1600613-85.2016.8.12.0000, Relator: Francisco Gerardo de Sousa, DJ: 22/02/2018, DJe: 26/02/2018 – grifei) Além disso, reconhece-se que o dano moral sofrido pela vítima de violência doméstica é in re ipsa, ou seja, inerente à violência, não sendo necessária a sua comprovação. E M E N T A – APELAÇÃO CRIMINAL – RECURSO MINISTERIAL – VIOLÊNCIA DOMÉSTICA – CRIME DE AMEAÇA (ART. 147, DO CP) – PEDIDO DE FIXAÇÃO DE REPARAÇÃO CIVIL PELO DANO SOFRIDO PELA VÍTIMA – VIABILIDADE – PEDIDO EXPRESSO NA DENÚNCIA – CRIME PRATICADO EM CONTEXTO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA – CONSTRANGIMENTO E DORES PSICOLÓGICAS EVIDENTES - INDENIZAÇÃO DEVIDA – DANO MORAL QUE PRESCINDE DE PROVA COMPLEXA QUANTO À QUANTIFICAÇÃO DE SUA INTENSIDADE – VALOR ARBITRADO QUE OBEDECE A CRITÉRIO DE RAZOABILIDADE – PLEITO DE AFASTAMENTO DA SUBSTITUIÇÃO DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE - POSSIBILIDADE – RECURSO PROVIDO. A possibilidade de reparação mínima de danos deriva da previsão legal legal do art. 387, IV, do CPP, que é de cunho imperativo, e não faz qualquer distinção quanto ao tipo de dano reparável (se material ou moral), pois veio para prestigiar a vítima e conceder-lhe maior celeridade na obtenção da antecipação da reparação de todo e qualquer dano. Nos termos do art. 91, I do Código Penal, a condenação em reparação de danos é efeito da sentença condenatória definitiva e tem cunho imperativo, e ademais, no caso concreto, houve pedido de reparação mínima expresso na denúncia. Em se tratando de violência doméstica e familiar contra a mulher, estamos diante do dano moral "in re ipsa", o dano decorre da própria prática delituosa contra a vida, a liberdade, a igualdade, a segurança, a propriedade, a honra, a imagem da mulher, e a vítima tem proteção constitucional nos termos do art. 5º , X da Constituição Federal, que não exclui a reparação por dano moral. Não há que se exigir que a mulher , para conseguir a reparação, traga prova concreta de que ela sofreu abalo psíquico, emocional ou moral, pois o dano moral deflui do simples reconhecimento do crime, sendo presumido em caso de violência doméstica. Não se demanda complexa instrução para apuração de valores do dano, se o caso é de arbitramento judicial de dano moral, e se a reparação foi fixada em valor mínimo, com respeito a critério de razoabilidade. Incabível a substituição da pena privativa de liberdade por restritivas de direitos, se o Apelante não preenche o requisito previsto no art. 44, inciso I do Código Penal. Com o parecer, recurso provido. (TJMS, 0003171-93.2016.8.12.0001, Relator: Desª. Maria Isabel de Matos Rocha, 1ª Câmara Criminal, DJ 17/07/2018, DJe 24/07/2018-grifei). Ao pesquisar por termos com o objetivo de identificar o entendimento jurisprudencial a respeito da violência patrimonial contra a mulher, entretanto, houve certa dificuldade em encontrar julgados a respeito do tema. Na verdade, a maior parte dos julgados encontrados não tem relação com a violência patrimonial em si, mas apenas com os efeitos da condenação penal de devidamente reparar as vítimas pelos danos causados. Demonstra-se: E M E N T A – EMBARGOS INFRINGENTES EM APELAÇÃO CRIMINAL – VIOLÊNCIA DOMÉSTICA – LESÃO CORPORAL E AMEAÇA – PEDIDO DE AFASTAMENTO DA INDENIZAÇÃO – MANTIDA – RECURSO DESPROVIDO. Nos termos do art. 387, IV, CPP, o juiz deve fixar valor mínimo para reparação dos danos causados pela infração, independentemente de pedido expresso da parte, tratando-se de efeito automático da sentença condenatória. No presente caso, houve sim pedido expresso na denúncia de valor mínimo de indenização a título de danos morais, nos termos do art. 387, IV, do CPP. (TJSM – 0026213-11.2015.8.12.0001, Relator: Des. Luiz Gonzaga Mendes Marques, DJ 10/05/2017, DJe 16/05/2017 – grifei) E M E N T A - APELAÇÃO CRIMINAL – DISPARO DE ARMA DE FOGO – INSURGÊNCIA MINISTERIAL E DA ASSISTENTE DE ACUSAÇÃO -- PEDIDO DE CONCESSÃO DE REPARAÇÃO CIVIL PELOS DANOS SOFRIDOS PELA VÍTIMA – VIABILIDADE – PEDIDO EXPRESSO NA DENÚNCIA – EFEITO DA SENTENÇA CONDENATÓRIA - CRIME PRATICADO EM CONTEXTO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA – PREJUÍZOS MATERIAIS PELOS DANOS CAUSADOS A BENS DA VÍTIMA - PROVA DOCUMENTAL ATESTANDO O VALOR DESSES PREJUÍZOS - DANOS MORAIS GERADOS POR CONSTRANGIMENTO E DORES PSICOLÓGICAS EVIDENTES - INDENIZAÇÃO DEVIDA – DANO MORAL QUE PRESCINDE DE PROVA COMPLEXA QUANTO À QUANTIFICAÇÃO DE SUA INTENSIDADE – VALOR ARBITRADO QUE OBEDECE A CRITÉRIO DE RAZOABILIDADE - TEMA REPETITIVO Nº 983 DO STJ - RECURSOS PROVIDOS. Nos termos do art. 91, I do Código Penal, a condenação em reparação de danos é efeito da sentença condenatória definitiva, tem cunho imperativo, e tem fundamento na previsão legal do art. 387, IV, do CPP, que não faz qualquer distinção quanto ao tipo de dano reparável (se material ou moral), pois veio para prestigiar a vítima e conceder-lhe maior celeridade na obtenção da antecipação da reparação de todo e qualquer dano. Se há pedidos expressos nos autos, tanto do Ministério Público, desde a denúncia, como da vítima, reclamando a indenização por danos, está atendido o princípio do contraditório e da ampla defesa. Devem ser indenizados prejuízos materiais atestados em laudo pericial e cujo valor está provado por documentação (orçamentos e notas fiscais dos bens danificados pela ação do apelado) Quanto ao dano moral em condutas de violência doméstica e familiar contra a mulher, é um dano moral "in re ipsa", não se exigindo que a mulher, para conseguir a reparação, traga prova concreta de que ela sofreu abalo psíquico, emocional ou moral, pois o dano moral é presumido em caso de violência doméstica. Nos casos de violência contra a mulher praticados no âmbito doméstico e familiar, é possível a fixação de valor mínimo indenizatório a título de dano moral, vez que, no caso houve pedido expresso da acusação, nos termos do tema nº 983 do STJ (recursos repetitivos). (TJMS,0014067-11.2010.8.12.0001, Relator: Maria Isabel de Matos Rocha, DJ: 26/06/2018, DJe: 30/06/2018 - grifei). Um julgado que chamou atenção, entretanto, é o seguinte: E M E N T A – CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA – AMEAÇA PRATICADA CONTRA GENITORA E IRMÃ – CONDUTA CONCRETAMENTE PERMEADA DO PROPÓSITO DE OPRESSÃO AO SEXO FEMININO – VIOLÊNCIA DE GÊNERO – INCIDÊNCIA DA LEI N. 11.340/06 – CONFLITO PROCEDENTE. I – A violência doméstica ou familiar é caracterizada pela ação ou omissão baseada no gênero, circunstância que pressupõe uma relação de superioridade ou objetificação da mulher pelo homem, em decorrência da discriminação do sexo feminino. Segundo consta dos autos, o agressor teria ameaçado as vítimas, sua genitora e irmã, dizendo que iria colocar fogo na casa se o denunciasse. Nesse contexto, a ação encontra-se permeada do propósito de opressão decorrente da vulnerabilidade das vítimas pelo fato de serem mulheres (violência voltada ao gênero), atraindo, pois, a incidência da Lei Maria da Penha. II – Conflito julgado procedente para declarar a competência do Juízo da 2ª Vara de Violência Doméstica ou Familiar Contra a Mulher de Campo Grande. (TJMS, 1600613-85.2016.8.12.0000, Relator: Francisco Gerardo de Sousa, DJ: 22/02/2018, DJe: 26/02/2018 – grifei) Observe que, apesar de o julgado não indicar de forma clara que se trataria de violência patrimonial, a descrição do caso aponta exatamente para esse tipo de violência: o agressor ameaçou incendiar a casa da família caso a vítima o denunciasse. Isso se trata de clássica violência patrimonial, cumulada com a violência moral, na medida em que ameaça um objeto patrimonial importante para a subsistência das vítimas em seu ambiente doméstico. A falta de julgados que classificam a violência patrimonial como tal, entretanto, podem servir de indicativo para diversos fatores, dentre eles: 1) A deficiência do Tribunal em identificar e classificar, nos termos da lei, os tipo de violência, de acordo com cada um dos tipos identificados pela Lei Maria da Penha; 2) O problema de segurança pública em se identificar de forma clara os tipos de violência, nos termos da lei; 3) A falta de denúncias por parte das vítimas. Todos esses problemas são fatais para a construção de um sistema legal eficiente e devidamente capaz de proteger as mulheres. CONSIDERAÇÕES FINAIS Em razão do patriarcado e da submissão da mulher frente à figura masculina, as relações de gênero, existentes desde o período colonial , reforçam os estereótipos e as noções de poder, mesmo dentro do ambiente doméstico, o que implica no controle do homem sobre a mulher. Entende-se que, para que esse controle seja mantido, o uso da violência, em suas diversas formas, é um dos meios utilizados pelo homem para que a posição de submissão da mulher seja mantida. Apesar de ser um fenômeno global, as mulheres no Brasil têm a tendência a sofrer mais com essa violência, na medida em que o país oscila entre as posições 4 e 5 dos países mais violentos contra as mulheres em todo o mundo. Entretanto, a evolução legislativa indica que as mulheres hoje têm muito mais apoio e muito mais respaldo pela lei do que anteriormente. Hoje, a mulher é considerada pelo ordenamento jurídico brasileiro um sujeito de direitos, capaz e autônoma, dotada de dignidade da pessoa humana. O que é o oposto do que ocorria durante os períodos coloniais até 1916, época em que a mulher tinha sua capacidade suprida pela figura paterna ou marital e era subjugada até mesmo legislativamente à figura masculina. Hoje, uma das melhores leis do mundo voltadas à proteção da mulher foram criadas pelo legislador brasileiro, após muitos anos de luta das mulheres. A Lei Maria da Penha, neste contexto, representou um marco para a legislação brasileira, principalmente em razão de seu papel educativo e supressor das violências das quais sofrem as mulheres. Uma das novidades apresentadas pela Lei Maria da Penha é a classificação das violências em várias, por meio da possibilidade de se classificar a violência sofrida pela mulher, no ambiente doméstico, em diversas categorias, dentre elas a violência patrimonial, a violência moral, a violência física, dentre outras. Isso foi importante para o reconhecimento de que a mulher não apenas sofre a violência física, que deixa marcas aparentes, como também violência psicológicas e patrimoniais, as quais ofendem de forma clara a integridade das mulheres. Entretanto, a violência patrimonial ainda carece da devida atenção. Conforme o demonstrado no presente artigo, os mecanismos utilizados pelos órgãos de proteção e de pesquisa brasileiros não são eficientes para a identificação do número concreto de mulheres que anualmente sofrem desse tipo de violência. Na verdade, apenas três estados efetivamente apresentam a classificação entre os tipos de violência sofrida. Tal fatos dificulta não apenas a criação de outros mecanismos de proteção à mulher, como até mesmo a criação de políticas públicas que visam efetivamente tal proteção. Inclusive, isso é demonstrado a partir do estudo jurisprudencial dos julgados apresentados pelo Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul. Apesar de o estado ser um dos mais ativos na luta contra a violência doméstica, a análise jurisprudencial demonstrou que há uma clara deficiência na identificação dos tipos de violência pelo tribunal. Tal status vai contra os outros julgados apresentados pelos tribunais nacionais, como o TJSP e TJMG, que já fazem tal classificação. Como resultado da pesquisa, identifica-se, portanto, que é necessário um maior cuidado com relação à violência patrimonial, haja vista a recorrência desta modalidade de violência e a forma como ela se expressa socialmente. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, Branca Moreira; PITANGUY, Jacqueline. O que é feminismo. 6.ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985 ANDRADE, Aline Ricelli Gonçalves; SOUZA, Thalita Graziele Pereira. O impacto da violência doméstica na vida da mulher que exerce o trabalho remoto em tempos de pandemia de COVID-19. Faculdade UNA. Contagem, 2020. Disponível em:https://repositorio.animaeducacao.com.br/bitstream/ANIMA/13938/1/Artigo%20Cient%C3%ADfico%20-%20Aline%20Ricelli%20e%20Thalita%20Graziele%20-%202021.pdf . Acesso em 09 de mar de 2022 AQUINO, Quelen Brondani de; COSTA, Marli Marlene Moraes. A violência contra a mulher: breve abordagem sobre a Lei Maria da Penha. Revista Philosophy, 2011. 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