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223 M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. Capítulo 15 As principais tendências da gestão do conhecimento no Brasil Neste capítulo, trataremos de um assunto amplo e de interesse para todas as pessoas que exercem uma atividade profissional: as principais tendências da gestão do conhecimento no Brasil. Conforme vimos dis- cutindo, o mundo moderno entende o conhecimento como a principal ferramenta para aquisição e manutenção de vantagem competitiva e, como abordado anteriormente, a gestão do conhecimento envolve, em sua essência, a competência que a organização deve ter para transfor- mar o conhecimento tácito, do indivíduo, em conhecimento explícito, a ser aproveitado pela organização. Nesse cenário de conhecimento como base para a perenidade organi- zacional, é recomendável que se compreenda quais as tendências que en- volvem a gestão desse tão precioso ativo organizacional, a fim de que as organizações possam analisar, selecionar e aplicar as técnicas que mais 224 Aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento Ma te ria l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . proveito poderão trazer à gestão do conhecimento e seu consequente aprendizado organizacional. Assim, após ter estruturado suas bases no tocante à gestão do conhecimento com o estudo dos temas abordados até aqui, você estará apto, ao final deste capítulo, a discutir as tendências atuais da gestão do conhecimento no Brasil e sua aplicabilidade. 1 Educação e universidade corporativas Antes de abordar a questão da educação corporativa, iniciemos este subcapítulo com o conceito de educação. No Dicionário Online de Português (2017), há diversas concepções desse vocábulo tão amplo, mas duas, em especial, servem para ilustrar o ponto-chave que deseja- mos, qual seja, demonstrar que a educação está estritamente relaciona- da à inovação e à autonomia das pessoas. Nele também, encontramos que educação é “ação ou efeito de educar, de aperfeiçoar as capacida- des intelectuais e morais de alguém” e “processo em que uma habilidade se desenvolve através de seu exercício contínuo” (DICIONÁRIO, 2017). Observe aqui que a educação envolve um aperfeiçoamento – logo, uma mudança constante – e o desenvolvimento de competências, por meio de ação contínua. Guarde essas ideias, para retornarmos a elas mais adiante, ao abordarmos a importância da educação para o apri- moramento constante das pessoas e das organizações em que atuam. Agora, passemos à análise desse conceito de educação no ambiente organizacional. O termo educação corporativa começou a ficar mais famoso quando as organizações perceberam que a tradicional área de Treinamento & Desenvolvimento não abarcava mais a dinamicidade do mundo moder- no. Ao contrário do ambiente mais local, reativo e orientado pela visão micro, típico de Treinamento & Desenvolvimento, o ambiente da edu- cação corporativa é holístico, dinâmico, proativo e dotado de sinergias (CHIAVENATO, 2015), com o mesmo ambiente multifacetado, caracte- rístico do século XXI. 225As principais tendências da gestão do conhecimento no Brasil M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. IMPORTANTE Pode-se considerar que a visão da educação corporativa como estraté- gica surge quando as organizações percebem que o aprendizado não é algo estanque; ele deve durar toda a vida e, por conseguinte, se essas organizações dispõem de um espaço e de uma estratégia para propiciar esse aprendizado permanente, elas também irão lucrar com a geração de conhecimento que seus colaboradores tiverem. De acordo com Carvalho (2012, p. 184), a educação corporativa procura “desenvolver e fortalecer o conhecimento e as competências organizacionais por meio da aprendizagem baseada nas necessidades estratégicas da organização”. Desse modo, constate que há, na educa- ção corporativa, uma associação entre competências e geração de co- nhecimento. Uma vez que a educação corporativa busca realizar essa associação estratégica, necessita de uma unidade organizacional vi- sando materializar a proposta de educação permanente voltada aos objetivos individuais e aos organizacionais. Essa unidade é chamada, conforme Carvalho (2012), de universidade corporativa. Ela é mais do que um espaço físico, é o que Chiavenato (2015, p. 418) chama de “um processo, uma mentalidade, um estado de espírito generalizado”. Do que você se lembrou? Certamente, do Ba, o contexto capacitante de Nonaka e Takeuchi (2008). A universidade corporativa deve estar estruturada, no intuito de aten- der à proposição de educação permanente com o desenvolvimento de competências que sejam interessantes, de maneira estratégica, para a organização. Eboli (2004) faz uma associação bem clara sobre essa relação entre o desenvolvimento de competências individuais e seu aproveitamento na organização, ao destacar que práticas de sucesso em educação corporativa são o que ela chama de escolhas organizacio- nais, as quais propiciam a transformação das competências empresa- riais, que são as escolhas estratégicas, em competências humanas, as chamadas escolhas pessoais. De modo esquemático, temos: 226 Aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento Ma te ria l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo .Figura 1 – A transformação das escolhas organizacionais em escolhas estratégicas e escolhas pessoais Fonte: adaptado de Eboli (2004). A escolha organizacional relacionada às práticas de sucesso em educação corporativa levará ao desenvolvimento de competências dos colaboradores que atendam às necessidades estratégicas que se torna- rão as competências empresariais. Exemplificando, Chiavenato (2015) comenta que as organizações atuais precisam ter cinco competências com o propósito de sobreviverem de forma competitiva no século XXI: elas devem ser focadas, velozes, flexíveis, amigáveis e divertidas. Assim, em busca dessas competências, as organizações procuram desenvolver as competências pessoais de seus colaboradores, dentre as quais, de modo geral, se enquadram os famosos três know aborda- dos no capítulo 8 (know-what, know-how, know-why), conforme mostra a figura 2, a seguir. Nela, destacam-se os fundamentos que envolvem: • o conhecimento cognitivo, ou “saber o quê” (know-what), que se refe- re a dominar conteúdos especializados, por exemplo ser contador, administrador, psicólogo, etc.; • as habilidades avançadas, ou “saber como” (know-how), associa- das a conseguir traduzir o aprendizado em ação – no caso, usan- do as mesmas profissões citadas acima, realizar um balanço, desenvolver um planejamento estratégico, elaborar um plano de seleção de pessoal, etc.; Competências empresariais (escolhas estratégicas) Competências humanas (escolhas pessoais) Práticas de sucesso em educação corporativa (escolhas organizacionais) 227As principais tendências da gestão do conhecimento no Brasil M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação aDistância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. • a compreensão dos sistemas, ou “saber por quê” (know- -why), que é “o profundo conhecimento das relações de causa e efeito que formam as bases de uma disciplina” (LACOMBE, 2011, p. 421). Seguindo nossos exemplos, temos o contador que define qual a melhor forma de registro con- tábil, prevendo tendências; o administrador que tem o feeling sobre como enfrentar a concorrência considerando o panorama futuro; o psicólogo que consegue escolher, dentre uma série de candidatos, o que mais se adequa à organização em termos téc- nicos e em termos psicossociais; • a criatividade automotivada, que é o “importar-se por quê” (care why) – esta, segundo Lacombe (2011), envolve motivação, vonta- de de fazer algo e um padrão flexível de comportamento. Nossa proposta é deixá-la no topo da pirâmide, não por ser mais impor- tante do que as demais, mas porque essa competência completa a pirâmide, sendo de todas as competências a mais subjetiva e, por conseguinte, mais difícil de gerir. Figura 2 – Competências pilares dos indivíduos Criatividade automotivada (care why) Habilidades avançadas (know-how) Conhecimento cognitivo (know-what) Compreensão de sistemas (know-why) Fonte: adaptado de Lacombe (2011). 228 Aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento Ma te ria l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . PARA PENSAR Pelo que foi abordado neste livro, até o momento, você pode identificar qual a associação entre educação e aprendizagem? Recorde-se de que a aprendizagem, conforme estudado anteriormente, é a modificação que ocorre em nosso comportamento, derivada de uma experiência ou uma reflexão. E a educação? Pense sobre isso... A educação, no sentido abordado aqui, reveste-se de uma prática cultural que tem por objetivo primordial tornar a pessoa autônoma, de maneira que ela possa aplicar o conhecimento aprendido na resolução de situações que surgem e, ao mesmo tempo, seja capaz de compar- tilhar esse conhecimento com outros e receber as ideias dos outros, em um processo de construção coletiva do conhecimento que muito lembra o modelo SECI de conversão de conhecimento, de Nonaka e Takeuchi (2008). Então, a educação e a aprendizagem caminham lado a lado – a educação implica mudança de postura; a aprendizagem é uma mudança de postura que leva o indivíduo a agir de forma diferente, a pensar de forma distinta, a inovar. No caso da educação corporativa, há um impacto maior, por tratar do desenvolvimento de indivíduos em uma organização, havendo uma inter-relação entre os desenvolvimen- tos pessoais e os organizacionais. NA PRÁTICA A General Motors (GM), historicamente, é considerada a primeira compa- nhia a ter o que se chama universidade corporativa. Segundo Ricardo (2007), apud Kelly e Oliveira (2014), em 1920 a GM lançava o que seria a semente de uma universidade corporativa, ao incorporar a seu negócio uma escola noturna. Durante décadas, a ideia de educação corporativa foi crescendo, e a GM, por meio de seu General Motors Institute (GMI), foi desenvolvendo os colaboradores até que, em 1982, transformou-se em uma escola inde- pendente da montadora e se converteu, em 1997, em uma universidade: a Kettering. No Brasil, a empresa oferece aprendizagem contínua por meio 229As principais tendências da gestão do conhecimento no Brasil M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. da Universidade Chevrolet, que deriva de um programa de aprendizado a distância, chamado Pulsar Chevrolet. Mais detalhes podem ser encontrados em: KELLY, Gleyci; OLIVEIRA, Alessandra. O impacto da universidade cor porativa no âmbito organizacional: estudo de caso na Concessionária Che- vrolet. MPGOA, v. 3, n. 1, p. 64-86, 2014. Benedicto et al. (2008, p. 120), ao citarem a teoria da aprendizagem transformativa de Mezirow, comentam que a construção coletiva do conhecimento tem impacto sobre a organização, pois os saberes são resultado das interações entre pessoas, e eles “intervêm de forma signi- ficativa nas práticas sociais”. PARA SABER MAIS A teoria da aprendizagem transformativa ou transformadora, de Mezi- row, tem por finalidade gerar uma modificação nos modelos mentais das pessoas, levando a um processo de reflexão crítica na organiza- ção. Essa teoria abrange, de maneira indireta, as cinco disciplinas de Senge (2013). Para saber mais, uma indicação é o artigo “Teoria da aprendizagem transformadora: contribuições para uma educa- ção gerencial voltada para a sustentabilidade ”, de Lisiane Quadra- do Closs e Claudia Simone Antonello. RAM – Rev. Adm. Mackenzie, v. 15, n. 3, p. 221-252, maio/jun. 2014. 2 Mapeamento e gestão estratégica de competências Vale lembrar a definição de competência, estudada no capítulo 9, como a junção de conhecimento (saber) com habilidades (saber fazer) e atitudes (saber fazer acontecer – querer fazer). Dada essa definição, partimos para a questão de como mapear as competências organiza- cionais a fim de realizar sua gestão estratégica. 230 Aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento Ma te ria l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo .As competências organizacionais são resultado da combinação das competências pessoais com nossos modelos mentais (a forma com que vemos o mundo), nossas intuições e nossos insights. Para ma- peá-las, é preciso realizar o que Carvalho (2012, p. 177) denomina um “profundo exercício de conversão e criação de conhecimento”, porque envolve debates acerca da visão organizacional, do que ela oferece e do que deseja modificar, de tendências para o futuro, de que tipo de perfis de pessoas a organização precisará para atender às demandas futuras e manter-se competitiva e inovadora. Para mapear as competências, a organização deve ter consciência de que precisa identificar quais lacunas de conhecimento apresenta, tomando por base os debates sobre os pontos acima listados. Ela irá mapear os conhecimentos, tanto explícitos quanto tácitos, que possui. Os explícitos são mais simples, pois basta localizar, catalogar e avaliar seus documentos, deixando um output em forma de relatório, que pos- sa auxiliá-la a tomar decisões futuras, quando tiver problemas seme- lhantes aos já analisados. IMPORTANTE Você observou que os conteúdos estudados em cada capítulo vão se associando mais e mais? Neste caso, os sistemas de informação exer- cem um papel importante na gestão do conhecimento explícito. Um sis- tema bem estruturado, com catalogação precisa, pode auxiliar grande- mente no mapeamento de competências. Bem, mas e o conhecimento tácito? Como mapeá-lo? Novamente, Carvalho (2012), desta vez citando Prost, Raub e Romhardt (2002), relembra que o mapeamento das pessoas, que são as fontes de conhecimento, isto é, os especialistas, já é suficiente para que a organização possa contar com essas pessoas quando necessitar. 231As principais tendências da gestão do conhecimento no Brasil M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educaçãoa Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. Há diversas maneiras de realizar um mapeamento de competências. De modo geral, as etapas seguem uma lógica, que é a de iniciar o tra- balho pelas informações registradas na organização, como manuais de procedimentos e regimentos internos – trata-se do levantamento do co- nhecimento explícito, conforme comentou Carvalho (2012) –, e, depois, partir para o levantamento das competências que podem ser identifica- das por meio de observação e experiência, bem como nos momentos de troca de conhecimentos entre pessoas. Todo o processo deve ser parti- cipativo, permitindo aos colaboradores darem sua visão sobre as com- petências desejadas para a função, bem como para o convívio pessoal. Após esse processo de discussão e levantamento, as competências devem ser validadas por todos para que se possa estruturar o processo de avaliação de competências (que envolve autoavaliação, avaliação por pares, avaliação 360 o , etc.); deve-se identificar a lacuna que há entre o grau de competência existente e o que se deseja alcançar para, por fim, elaborar uma proposta de treinamento e desenvolvimento para cada área e, dentro da área, para os indivíduos, e gerar indicadores de desem- penho e sistemas de avaliação pertinentes, os quais permitam identifi- car os avanços e trazer ações estimulantes e corretivas, se necessário. NA PRÁTICA Identificar quais as competências necessárias para o futuro é uma questão de sobrevivência. Em 2012, por exemplo, a Oxford Economi cs realizou uma pesquisa em 21 setores da economia, em 46 países, e levantou uma lista de competências profissionais que serão exigidas nos próximos anos. Competências digitais, pensamento ágil, comuni- cação e operações globais (habilidades de administrar equipes diver- sas, capacidade de trabalhar em múltiplos locais, sensibilidade cultural, domínio de línguas estrangeiras e entendimento de mercados interna- cionais) foram as mais apontadas (FONSECA, 2012). 232 Aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento Ma te ria l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo .Em 2008, Soffner, Silva Filho e Benedicto (2008) compilaram uma lista semelhante, na qual se destacam: gestão da informação, da co- municação, da inovação, do conhecimento, da aprendizagem individual e organizacional, das visões de mundo (que inclui os modelos mentais e os paradigmas), da inteligência competitiva e de incertezas. Observe que é exatamente todo o conteúdo estudado neste livro. Note, ademais, que a educação corporativa é essencial para que essas competências sejam desenvolvidas, bem como são fundamentais a existência de um contexto capacitante (Ba) e os modelos de conversão do conhecimento, de Nonaka e Takeuchi (2008). PARA SABER MAIS O Relatório da OCDE (2013) traz um apanhado completo e abrangente sobre política de competências em âmbito mundial. Você pode consul- tar em: “OCDE. Melhores competências, melhores empregos, melhores condições de vida: uma abordagem estratégica das políticas de compe- tências”, 2013. 3 Gestão estratégica – modelos BSC, Skandia Em busca de melhorarem seus processos e obterem vantagens competitivas duráveis, as empresas adotam modelos de avaliação de desempenho organizacional. Tais modelos são, em geral, robustos e abrangentes, de maneira a conseguir organizar indicadores que per- mitam verificar a performance de uma organização, considerando as distintas interações que ela tem, tanto com o ambiente interno quanto com o externo. Apresentamos, a seguir, dois dos mais conhecidos mo- delos de avaliação de desempenho: o Balanced Scorecard (BSC) e o Skandia Navigator. 233As principais tendências da gestão do conhecimento no Brasil M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. 3.1 Balanced Scorecard (BSC) O Balanced Scorecard (BSC) é um modelo de mensuração potente e muito utilizado, principalmente em organizações de grande porte. Em uma tradução livre, seu nome significa Indicadores Balanceados (ou Equilibrados) de Desempenho. Kaplan e Norton, autores do BSC, desen- volveram esse modelo em 1992. Em obra de 2004, reforçam a aplicação do BSC na prática e destacam as quatro perspectivas que compõem o modelo, a saber: Quadro 1 – As quatro perspectivas do BSC PERSPECTIVA PERGUNTA Do cliente Como os clientes nos veem? Interna Em que devemos ser excelentes? Financeira Como pareceremos para os acionistas? De inovação e aprendizado Seremos capazes de continuar melhorando e criando valor? Como sustentaremos nossas habilidades de evoluir e criar? Fonte: adaptado de Kaplan e Norton (2004); Alvarenga Neto (2008). Essas quatro perspectivas são traduzidas em: • objetivos (alvo que desejamos alcançar, aonde queremos chegar, com tais objetivos sendo considerados críticos para que a orga- nização tenha sucesso). Ex.: ser, em um ano, a empresa líder no segmento de embalagens); • indicadores (como mediremos e acompanharemos o sucesso do alcance de nossa estratégia). Ex.: porcentual de mercado da empresa daqui a seis meses – para verificar se estamos no rumo certo – e daqui a um ano; 234 Aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento Ma te ria l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . • metas (determinação do nível de desempenho esperado ou o re- sultado que se quer alcançar, quando esse resultado precisa ser alcançado e de quanto será). Ex.: alcançar 35% do mercado daqui a seis meses e 51% do mercado daqui a um ano); • iniciativas (programas de ação que desenvolveremos para alcan- çar os objetivos desejados). Ex.: o departamento de prospecção de clientes irá fazer uma campanha no intuito de angariar mais 200 clientes, por trimestre, no estado de São Paulo. Todas as perspectivas estão relacionadas entre si e todas têm, como norte, a visão e a estratégia organizacionais, conforme demonstra a figura 3. Figura 3 – Visão clássica do BSC Norte: visão e estratégia organizacionais Perpectiva do cliente Perspectiva de inovação e aprendizado Perpectiva financeira Perpectiva interna Fonte: adaptado de Kaplan e Norton (2004); Kallás e Coutinho (2005); Alvarenga Neto (2008). NA PRÁTICA O BSC é um modelo muito consolidado e bastante aplicado. No li- vro organizado por David Kallás e André Ribeiro Coutinho, Gestão da estratégia: experiências e lições de empresas brasileiras (2005), 235As principais tendências da gestão do conhecimento no Brasil M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. você encontrará 14 casos reais de implantação do BSC, abrangen- do empresas públicas e de economia mista, como Copel, Petrobras, Transpetro; de serviços (Banco Daimler Chrysler, Unibanco, AIG Segu- ros, Brasil Telecom); de energia (Duke Energy Brasil); indústrias (Grupo Gerdau, Oxiteno, Companhia Siderúrgica de Tubarão), etc. É uma leitura bem interessante. Deacordo com Alvarenga Neto (2008), esse modelo tem como principal atributo a oferta de uma estrutura robusta de avaliação de desempenho que consegue traduzir a estratégia da organização para as demais áreas da empresa. O BSC também se destaca por mirar no longo prazo e por trazer indicadores intangíveis para a discussão de geração de valor organizacional. Note que, em geral, as empresas dão muita ênfase a perspectivas financeiras e a indicadores quantitativos, os quais são mais fáceis de serem mensurados. No entanto, vimos estudando quanto as pessoas e o conhecimento por elas gerado são essenciais para que a organização alcance competitividade e perenida- de. Portanto, iremos nos ater mais à perspectiva de inovação e aprendi- zado, para que possamos entender a importância do BSC. PARA PENSAR Como a perspectiva de inovação e aprendizado pode se encaixar no modelo do BSC? O que ela deseja medir? Reflita sobre essas questões, enquanto seguimos na discussão sobre o modelo. De maneira resumida, o BSC apresenta uma proposta holística, que abrange tanto perspectivas tangíveis quanto intangíveis das organiza- ções. Ao abordar a perspectiva interna, ou de processos internos, e a perspectiva de aprendizado e inovação, o BSC consegue juntar ao me- nos quatro conceitos abordados em capítulos anteriores: informação, empowerment, inovação e aprendizado. 236 Aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento Ma te ria l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . O BSC parte da construção de metas departamentais associadas à meta maior da organização e passa pela comunicação e pelo alinha- mento do discurso com o propósito de envolver as pessoas e dar sen- tido ao que é feito. Envolve a existência de sistemas de informação e comunicação, a fim de que as metas possam ser compartilhadas, os resultados possam ser acompanhados e o sistema seja retroalimenta- do de informações. Por fim, quando existe a fase de feedback, ocorre o aprendizado organizacional, pois as pessoas discutem os resultados com base na visão e no contexto específicos da organização. Pense no BSC como um modelo que favorece o desenvolvimento de metas construídas com foco na visão e com a preocupação de ter a participação efetiva das pessoas nas ações em prol da visão organi- zacional. Uma crítica que pode ser feita é a de que o BSC não se atém à questão de como a visão foi construída, mas, mesmo sem esse foco, trata-se de um modelo robusto e adequado para incentivar o aprendiza- do individual e o coletivo e a mudança organizacional. 3.2 Skandia Navigator O modelo Skandia Navigator foi criado em 1997 por Edvinsson e Malone. De forma semelhante ao BSC, o Skandia procura realizar a implantação da estratégia organizacional mediante um planejamento holístico que envolve a gestão de pessoas de forma integrada e a preo- cupação com a captação e disseminação da informação, a comunica- ção e o compartilhamento do conhecimento. Seu foco está no capital intelectual,1 conceituado como o conjunto de valores intangíveis, repre- 1 O capital intelectual é formado pelo intercâmbio entre capital humano, capital relacional e capital estrutural. (STWART, 1998 apud ALVARENGA NETO, 2008). Recapitulando o que estudamos no capítulo 9, o capital humano é a soma do conhecimento tácito com o explícito (CARVALHO, 2012), é o resultado da combinação de know- how, habilidades e competências das pessoas que atuam na organização. O capital relacional é a soma dos recursos relacionados a pessoas que se relacionam com a organização, como clientes, parceiros, investidores, parceiros; e o capital estrutural ou organizacional é a soma dos processos internos com os sistemas, a cultura organizacional, softwares, bancos de dados, etc., dando como resultado o conhecimento do qual a organização se apropria. (MALAVSKI; LIMA; COSTA, 2010). Na visão de Alvarenga Neto (2008, p. 129), esse capital estrutural é uma “forma de alavancar o capital humano via sistemas de informação, laboratórios, redes, entre outros”. 237As principais tendências da gestão do conhecimento no Brasil M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. sentado pelos conhecimentos que trazem valor à organização e lhe per- mitem adquirir vantagens competitivas. O nome Skandia Navigator teve origem no fato de ter sido na empre- sa de seguros de origem sueca, Skandia, que Edvinsson primeiro im- plantou seu modelo, aperfeiçoado posteriormente por ele e por Malone. Esse modelo abrange cinco perspectivas, sempre partindo do ponto de vista da criação de valor para a organização, de modo diferente do BSC, que parte da visão e da estratégia organizacionais. As cinco perspectivas contêm seus respectivos indicadores, alcan- çando um total de 31, e elas são divididas temporalmente, com a cons- trução da clássica casinha para mensurar valor. Figura 4 – A casa do Skandia Navigator FOCO FINANCEIRO FOCO NA RENOVAÇÃO E DESENVOLVIMENTO FOCO NO CLIENTE FOCO HUMANO FOCO NO PROCESSO HISTÓRICO HOJE CAPITAL INTELECTUAL AMANHÃ AMBIENTE OPERACIONAL Fonte: adaptado de Edvinsson e Malone (1998). A clássica casinha demonstra que o foco financeiro, tão presente em modelos de avaliação de desempenho, é importante, mas representa a parte histórica, o resultado dos processos. O “hoje”, o tempo presente, deve estar focado no humano, que envolve o foco no cliente e o foco no processo, a fim de que haja o amanhã, que é o foco na renovação e no desenvolvimento. O ambiente operacional é o chão, o que sustenta todas as operações. 238 Aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento Ma te ria l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . Podemos associar o modelo Skandia Navigator às questões relacio- nadas à quinta disciplina, de Peter Senge (2013). Observe a importân- cia de se ter uma visão compartilhada para que esses distintos focos possam convergir na perenidade da organização. Note, ainda, quanto o pensamento sistêmico deve estar atuante, no intuito de que a empresa tenha a visão holística, completa, do histórico associado ao tempo pre- sente e nas ações em prol do amanhã. Por fim, vamos abordar mais um ponto importante do modelo Skandia Navigator: a metáfora usada no modelo de Edvinsson e Malone (1998) é a de uma árvore invertida, porque o mais importante, na ver- dade, é identificar se suas raízes, que representam o valor oculto da or- ganização, estão saudáveis. Logo, o que se deve olhar é como está a estrutura da organização a longo prazo, dado que os frutos, que são a parte visível, são apenas as indicações de saúde a curto prazo. A orga- nização, qualquer que seja ela, deve ter suas raízes nutridas, pois serão elas que trarão a perspectiva de futuro saudável. Figura 5 – A árvore invertida Raízes: a saúde da organização a longo prazo Frutos: a saúde da organização a curto prazo 239As principais tendências da gestão do conhecimento no Brasil M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. IMPORTANTE Asaúde da organização está, portanto, nas pessoas – o fator humano é que fará a diferença a longo prazo, pois a renovação e o desenvol- vimento, que representam o “amanhã” da organização, dependem das pessoas, da gestão do conhecimento e do aprendizado organizacional. Uma crítica ao Skandia pode estar no fato de os autores tentarem expressar todas as medidas em termos monetários ou quantitativos, o que nem sempre é possível; também não há clareza na inter-relação entre as cinco perspectivas, diferentemente do que ocorre no BSC. Entretanto, o Skandia também é um modelo adotado por muitas organi- zações, porque consegue captar o valor do capital intelectual e atende às exigências da sociedade do conhecimento no que diz respeito a iden- tificar e buscar mensurar o que realmente gera valor. Considerações finais Neste capítulo, abordamos as tendências atuais da gestão do conhe- cimento no Brasil e sua aplicabilidade. Identificamos, primeiro, quanto a educação corporativa, que é uma associação estratégica entre com- petências e geração de conhecimento, é importante para a organização que quer criar conhecimento. Por meio de seu Ba, que é a universidade corporativa, a educação corporativa atua em prol do ativo mais valioso das organizações: as pessoas. Também relembramos a importância das competências para as or- ganizações e aprofundamos o estudo sobre as competências fundantes que envolvem: o conhecimento cognitivo, ou “saber o quê” (know-what); as habilidades avançadas, ou “saber como” (know-how); a compreensão dos sistemas, ou “saber por quê” (know-why); a criatividade automotiva- da, que é o “importar-se por quê” (care why). 240 Aprendizagem organizacional e gestão do conhecimento Ma te ria l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . Independentemente do ramo da organização, descobrimos que há competências individuais que serão requeridas nas próximas décadas, como as que envolvem gestão da inovação, da informação, da aprendi- zagem, do conhecimento, dos modelos mentais e da inteligência com- petitiva. Para mapeá-las, identificamos quão essencial é envolver as pes- soas no processo construtivo de identificar tendências e as lacunas que a organização precisa preencher visando estar preparada para o futuro. Por fim, abordamos dois modelos clássicos de gestão estratégica que envolvem a dimensão humana: o Balanced Scorecard, de Kaplan e Norton, e o Skandia Navigator, de Edvinsson e Malone. Ambos abran- gem a importância de se criar indicadores de mensuração para o ativo mais valioso das organizações, o fator humano – e o foco no aprendiza- do e na inovação (BSC) e na renovação e no desenvolvimento (Skandia) como instrumentos poderosos de vantagem competitiva. Pelo que foi estudado, pode-se identificar que as tendências da gestão do conheci- mento no Brasil não somente seguem os modelos clássicos de acom- panhamento do fator humano, mas estão relacionadas à compreensão da importância das pessoas e da gestão do conhecimento para a pere- nidade das organizações. No próximo capítulo, concluiremos esse estudo sobre gestão do co- nhecimento com as tendências futuras na área, com ênfase à arquitetu- ra estratégica, à gestão de stakeholders e às redes interorganizacionais em um cenário globalizado e cheio de desafios. Referências ALVARENGA NETO, Rivadávia Correa Drummond de. Gestão do conhecimento em organizações: proposta de mapeamento conceitual integrativo. São Paulo: Saraiva, 2008. BENEDICTO, Samuel Carvalho de et al. Aprendizagem transformativa no es- paço organizacional: uma análise da proposta andragógica da Universidade 241As principais tendências da gestão do conhecimento no Brasil M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. Corporativa Petrobrás. In: SILVA FILHO, Cândido Ferreira da; BENEDICTO, Gideon Carvalho de (Org.). Aprendizagem e gestão do conhecimento: fundamentos te- óricos e experiências práticas. Campinas: Editora Alínea, 2008. CARVALHO, Fábio Câmara Araújo de. Gestão do conhecimento. São Paulo: Pearson, 2012. CHIAVENATO, Idalberto. Recursos humanos: o capital humano das organiza- ções: como atrair, aplicar, manter, desenvolver e monitorar este valioso tesouro organizacional. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015. CLOSS, Lisiane Quadrado; ANTONELLO, Claudia Simone. 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