Prévia do material em texto
TRABALHO DOCENTE NA EDUCAÇÃO INFANTIL 1 INTRODUÇÃO Prezado aluno! O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 1 EDUCAÇÃO INFANTIL NO BRASIL: UMA CONSTRUÇÃO HISTÓRICA No século XVIII, os ideais da sociedade moderna, encarnados e expressos através do pensamento iluminista, começaram a emergir, trazendo consigo o sonho de uma escola para todos e colocando no horizonte, pelo menos no contexto europeu, o desejo e a possibilidade de uma educação em massa das crianças. Assim, um bom começo para esta conversa é resgatar os primórdios da educação em massa para as crianças e a história das instituições pelas quais essa pedagogia se coloca em cena. Recordemos que esses princípios e valores modernos valorizavam a lógica e a expansão da cultura escrita, base de sustentação de um novo modelo social ancorado na valorização da independência e da habilidade humana. A propagação da cultura, a preservação e a transmissão dos bens culturais, dos bens simbólicos produzidos pelas sociedades humanas, além da preparação para o labor e para a vida social eram empreendimentos exigentes e complexos demais para ficarem a cargo tão somente das famílias ou de entidades religiosas. Seria preciso criar uma instituição específica, um local que abrigasse muitos e que, ao mesmo tempo, assumisse, como propósito principal, esses objetivos. Essa instituição, criada e legitimada socialmente, foi a escola. Dessa forma, gradualmente, a escola passou a ser compreendida como uma instituição distinta e separada da família, cuja função era receber crianças ou indivíduos a partir dos 7 anos de idade com o intuito de educá-los, instruí-los e fornecer-lhes as ferramentas necessárias para agir no mundo com base na razão iluminista. Para sua estruturação e organização, a escola estabeleceu uma diferenciação das etapas da vida, criando a categoria de criança aprendiz, de criança-aluno, e instituiu na sociedade a obrigatoriedade escolar a partir dos 7 anos de idade (VIEIRA; BAPTISTA, 2023). É importante ressaltar que o cenário descrito anteriormente se refere principalmente à Europa e ao contexto iluminista. No entanto, ao abordarmos o processo docente na educação infantil sob uma perspectiva histórica, é fundamental ampliar nossa análise para além do Iluminismo europeu e considerar a situação histórica de países não europeus, como o Brasil, que passaram por processos coloniais distintos e possuem uma história educacional própria. Essas regiões colonizadas enfrentaram desafios singulares na criação de mecanismos, práticas e instituições educacionais capazes de responder às necessidades de um contexto social e histórico fortemente marcado pela colonização. Dessa forma, no próximo tópico, buscaremos apresentar as especificidades do cenário brasileiro, de onde emerge a educação infantil no Brasil. 1.1 A história das instituições de educação infantil no Brasil Diferentemente da Europa, no Brasil até o século XIX, praticamente não havia instituições voltadas para a educação infantil. Devido ao fato de vivermos em um ambiente rural, a ideia de que as mães deveriam cuidar e educar seus filhos era fortemente enraizada. Segundo Oliveira (2007, p. 91), “nas áreas rurais, onde a maioria da população do país vivia na época, famílias de fazendeiros assumiam a responsabilidade de cuidar das inúmeras crianças órfãs ou abandonadas, geralmente resultantes da exploração sexual de mulheres negras e indígenas pelos senhores brancos”. No entanto, essa prática não era comum nas áreas urbanas, onde as crianças abandonadas por suas mães eram deixadas nas “rodas dos expostos”, que existiam em algumas cidades brasileiras desde o século XVIII. A Roda dos Expostos marca a história das instituições de assistência a infância, especialmente no Brasil. Tais rodas surgiram na Santa Casa de Misericórdia de Salvador durante o período colonial, e logo depois no Rio de Janeiro, onde permaneceram em alguns recantos até a república. A área atendia mães solteiras que queriam esconder a vergonha de ter um filho ilegítimo, assim como bebês abandonados por famílias em situação precária. No Brasil, em 1862, encontram-se relatos das rodas dos expostos na Santa Casa de Misericórdia de Salvador, assistindo à infância nas instituições de caráter assistenciais (MENDES, 2015). A mudança da mulher do seu local de residência para o local de trabalho resultou em novos problemas para a estrutura familiar convencional, que acreditava que a mãe era responsável pela educação dos filhos. Para lidar com a questão que surgiu com a entrada da mulher no mercado de trabalho, já que a mãe não poderia mais educar e cuidar dos filhos, medidas emergenciais foram adotadas, como a proposta de mulheres que cuidariam dessas crianças em troca de dinheiro. Essas “cuidadoras” eram conhecidas como “fazedoras de anjos”, porque muitas crianças morriam devido às condições precárias de higiene. Os primeiros projetos de estabelecimentos escolares infantis no Brasil surgiram em 1889 com a criação da primeira Instituição de Proteção e Assistência à Infância no Rio de Janeiro. Essa instituição foi pioneira no ensino pré-escolar brasileiro. No mesmo ano, a creche da Companhia de Fiação e Tecidos Corcovado (RJ) foi inaugurada para cuidar dos filhos dos operários. Os primeiros espaços dedicados ao cuidado de crianças pequenas foram estabelecidos com o objetivo de prestar serviços, ou seja, como um ato de caridade, conforme afirmado por Oliveira (2007). [...] embora a necessidade de ajuda ao cuidado dos filhos pequenos estivesse ligada a uma situação produzida pelo próprio sistema econômico, tal ajuda não foi reconhecida como um dever social, mas continuou a ser apresentada como um favor prestado, um ato de caridade de certas pessoas ou grupos. (OLIVEIRA, 2007, p. 95). Em épocas posteriores, apesar de a creche ter sido vista como um problema por causar a separação da família, já que a mulher precisava deixar o lar para ingressar no mercado de trabalho, ela foi reconhecida como indispensável, pois combatia a precariedade das criadeiras, mulheres que cuidavam das crianças em condições desfavoráveis enquanto as mães trabalhavam. Ao abordar essa ambivalência de sentimentos presentes na sociedade brasileira, Vieira (1988) analisa a creche como um “mal necessário” para a sociedade nas décadas de 1940 a 1970. Contudo, no que se refere ao jardim de infância (kindergarten), ele foi criado por Friedrich Fröbel (1782-1852) no século XIX, com o propósito de educar crianças com idade entre 3 a 6 anos (idade pré-escolar) de famílias menos favorecidas. Uma das principais preocupações de Froebel era garantir que todas as crianças recebessem cuidados adequados durante a infância, para que no futuro, todos os homens tivessem as mesmas oportunidades. No entanto, em países europeus e no Brasil, que estão ligados ao sistema capitalista e suas mazelas, o jardim froebeliano foi apropriadoe utilizado como instrumento de discriminação social. Essa instituição atendia apenas crianças das camadas mais privilegiadas da sociedade, com o objetivo de criar um status de superioridade em relação às classes menos favorecidas (SILVA, 2017). Segundo certos funcionários públicos da primeira metade do século XX, essas organizações foram consequência do crescimento urbano, industrialização e desequilíbrio financeiro e moral, e, portanto, não deveriam ser consideradas como instituições educativas, conforme a observação de Kishimoto (1990, p. 61): “[...] os filhos dos trabalhadores necessitam apenas de cuidados médicos, higiênicos e alimentares, e as creches visavam apenas cumprir funções assistenciais”. A dissociação dos princípios da polarização entre as creches e os jardins de infância é abordada em Rosemberg (1992). De acordo com a autora, a entidade que oferecia atendimento assistencial - creches - era administrada pelo setor privado e a entidade que oferecia propostas educacionais (jardim de infância) era gerida pelo setor público. De acordo com Kuhlmann Jr. (2011), pode-se observar que as creches e os jardins de infância apresentavam diferenças significativas em relação ao público e à faixa etária. A creche era direcionada para atender bebês das classes menos favorecidas, o que influenciava os objetivos educacionais e o contexto social distintos dos jardins de infância. Quanto à faixa etária, Kishimoto (1990) destaca que no Brasil não havia a prática norte-americana de distinguir as instituições infantis de acordo com a idade das crianças. Ambos os autores concordam que a condição social era determinante para a existência de instituições de assistência e educação distintas, sendo que as creches eram destinadas às crianças pobres e os jardins de infância, às crianças ricas. 1.2 O período pós década de 1940 A partir da década de 1940, o governo brasileiro começa a assumir uma maior responsabilidade com os serviços sociais, consequentemente com a política do ensino infantil, em uma abrangência nacional, período em que se observa a criação de vários órgãos governamentais e são estabelecidas parcerias com órgãos assistenciais voltados à assistência e à infância. Em 1940, destaca-se a criação do Departamento Nacional da Criança (DNCr) que foi vinculado ao Ministério da Saúde. Esse órgão realizou diversas ações direcionadas ao atendimento das crianças, da maternidade e da adolescência, entre elas a produção de publicações, planejamento do atendimento escolar, suporte para a fundação de clubes de mães e associações de proteção à maternidade e à infância, assim como formação de profissionais para atuarem nas creches como médicos pediatras, supervisores e auxiliares, além de representação em eventos científicos nacionais e internacionais entre outras atividades. (VIEIRA, 1988). A partir da segunda metade do século XX, aumenta a participação feminina no mercado de trabalho devido ao avanço da urbanização e industrialização no Brasil. Mulheres que atuavam em estabelecimentos comerciais, órgãos públicos, indústrias e serviços domésticos, passam a buscar com mais frequência as creches e parques infantis que oferecem atendimento integral às crianças. Em 1961, ocorre uma grande mudança na área educacional com relação à educação infantil, quando é aprovada a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 4024/61), que propõe a inclusão dos jardins-de- infância no sistema de ensino: Art. 23 - A educação pré-primária destina-se aos menores de até 7 anos, e será ministrada em escolas maternais ou jardins-de-infância. Art. 24 - As empresas que tenham a seu serviço mães de menores de sete anos serão estimuladas a organizar e manter, por iniciativa própria ou em cooperação com poderes públicos, instituições de educação pré-primária. (BRASIL, 1961). Durante os anos 60, época em que o país era governado por militares, a educação infantil manteve sua abordagem assistencialista, como já mencionado, buscando atender às necessidades básicas e biológicas de crianças carentes. Nessa época, as políticas governamentais incentivavam a criação de programas emergenciais voltados a entidades filantrópicas, assistenciais ou iniciativas comunitárias, nas quais as mães eram responsáveis por cuidar de turmas com mais de cem crianças na pré-escola (MENDES, 2017). A transição política do regime militar para o regime democrático no Brasil, que teve início em torno de 1984, foi caracterizada pela intensa mobilização de diversos movimentos sociais, tais como o movimento feminista, o movimento pró-creche, os profissionais da educação e os grupos vinculados às universidades, que buscaram participar ativamente na elaboração da nova Constituição Federal (CAMPOS; FULLGRAF; WIGGERS, 2009; KISHIMOTO, 1990). A Constituição de 1988 é um marco importante para a educação infantil, pois, pela primeira vez na história, reconhece de forma tímida a Educação Infantil como parte integrante do sistema educacional do país, estabelecendo que a responsabilidade por ela é dos municípios, com a colaboração da União e dos Estados, por meio de ações redistributivas e supletivas de recursos, visando garantir a todos oportunidades educacionais e um padrão mínimo de qualidade (SILVA, 2017). Após a Constituição de 1988, a Educação Infantil foi estabelecida legalmente como a primeira fase da Educação Básica, incluindo creches e pré- escolas para crianças de zero a seis anos de idade (KISHIMOTO, 1990). Com a redemocratização do país, houve um aumento de projetos políticos dos governos que visavam investir em áreas sociais. Muitos desses projetos se opunham ao regime militar e foram eleitos nas eleições municipais seguintes, trazendo consigo propostas para melhorar o atendimento dessas crianças. (FARIA, 2005). Durante os anos 80, a educação pré-escolar, que se referia à educação antes da escolarização obrigatória, foi ampliada para incluir crianças de 0 a 6 anos de idade. Nesse contexto, surgiu a ideia de que a educação infantil deveria ser reconhecida como um direito da criança, em vez de ser vista apenas como um direito da família ou da mãe, conforme afirmou Kuhlmann (2000). A luta pelos direitos educacionais, incluindo o acesso a creches e a valorização dos profissionais dessas instituições, é uma batalha que se desenvolveu na educação infantil como resultado de uma construção social e histórica”. A frequente reivindicação da população feminina em busca de espaços adequados para cuidar das crianças, permitindo que elas possam trabalhar fora de casa para sustentar suas famílias, gerou novas demandas na sociedade, exigindo creches como um direito do trabalhador e uma obrigação do Estado. Como resultado dessas lutas, surgiram novos centros de cuidados infantis, com um aumento significativo no número de creches, tanto públicas quanto privadas, com destaque para as creches conveniadas com o governo municipal, estadual ou federal. De acordo com Junqueira Filho (2004), essas mudanças foram essenciais para atender às necessidades das mulheres trabalhadoras e suas famílias. No entanto, mesmo depois da criação da Constituição de 1988, que estabeleceu a educação para crianças como uma etapa fundamental do aprendizado humano, afirma Oliveira que (2007) [...] a insuficiência do número de crianças atendidas nas creches pressionava o poder público a incentivar outras iniciativas de atendimento à criança pequena. Eram as mães crecheiras, os lares vicinais, creches domiciliares? ou creches lares, programas assistenciais de baixo custo estruturados com a utilização de recursos comunitários, tal como ocorria em muitos países do chamado Terceiro Mundo. (OLIVEIRA, 2007, p. 114) Apenas na década de 90 é que a Educação Infantil inicia o desenvolvimento de sua identidade, sendo reconhecida como um espaço de ensino, onde as crianças adquirem conhecimentos e aprendemnovos conteúdos. A noção de educação infantil começa a ser concebida com um caráter pedagógico, o que é essencial para o trabalho com a criança na escola. Além disso, há uma mudança em relação à percepção da criança, que passa a ser vista como um sujeito ativo no processo de aprendizagem, tendo um papel importante na educação. Atualmente, segundo Kuhlmann (2000, p. 7), “a integração das creches nos sistemas educativos não tem necessariamente conduzido à eliminação da perspectiva educativa assistencialista. A falta de financiamento para a educação infantil tem até promovido novas separações por idades: apenas as crianças pequenas, dos 0 aos 3 anos, frequentariam as creches, enquanto as mais velhas, dos 4 aos 6, frequentariam as escolas pré-primárias”. Conforme mencionado por Santos (2005), a partir da promulgação da Constituição Brasileira em 1988, que formalizou o direito legal à creche para filhos de pais trabalhadores, o papel assistencialista da instituição evoluiu para um enfoque educacional. A Educação Infantil passou a ser considerada uma etapa da Educação Básica e foi transferida da Secretaria de Assistência para a Secretaria de Educação somente em 1996, com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Ao longo do tempo, conforme o autor observa, o cuidado com as crianças foi relegado a segundo plano, com as instituições voltadas para a infância concentrando-se no ensino e a creche tornando-se uma extensão das responsabilidades da família. Quadro 1 - História da educação Fonte: Adaptado de Soares, 2022. Este quadro ilustra a extensão da história da educação no Brasil e as várias adversidades que precisaram ser superadas para que a educação básica chegasse ao ponto em que se encontra atualmente. Inúmeras pessoas enfrentaram obstáculos para garantir que as crianças tivessem acesso ao conhecimento, o que permitiu impulsionar ainda mais a educação. Com isso, fica claro que é necessário dedicar-se e empenhar-se para disseminar conhecimento. Não basta apenas ter o desejo de transmitir informações, é fundamental lutar pela educação e enfrentar as diversas dificuldades que podem prejudicar a qualidade desse serviço. A trajetória percorrida foi extensa, o que pode ser facilmente verificado pelo quadro 1, permitindo compreender como tudo começou sem o propósito de disseminar conhecimento, porém sempre com o intuito de reunir algumas crianças. Observa-se que a sociedade e os poderes públicos passaram a reconhecer que a concentração de crianças em um espaço específico era um meio eficaz para criar um ambiente de curiosidade e desejo de aprender cada vez mais. Conclui-se que o início foi desafiador e surpreendente, mas a jornada que começou em 1737, com a criação da Roda dos Expostos, até os dias atuais foi planejada por profissionais comprometidos com o bem-estar das crianças, indicando que todas essas conquistas foram desejadas e cultivadas no íntimo de cada defensor da educação. Assim, ocorreram diversas batalhas, vitórias e fracassos, mas, ao final de um longo caminho, as crianças brasileiras com idade entre zero e cinco anos passaram a ser percebidas como indivíduos com direitos à educação, os quais devem ser garantidos por organizações dentro do âmbito escolar e governamental. Consequentemente, a Educação Infantil tornou-se um direito da criança, uma responsabilidade do Estado e um compromisso da família. 2 A DOCÊNCIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL Os estudos acerca da criança, em especial a partir das duas últimas décadas do século XX, apresentam distintas concepções e visões, mas giram ao redor de duas palavras-chave indissociáveis: educação e política, conforme aponta Souza (2010). Com base em diferentes pontos de vista metodológicos, acadêmicos e até ideológicos, concordamos que a produção do conhecimento relacionado a essa área está relacionada a maneiras de lidar e melhorar de experimentos nos níveis individual e social para crianças. Isso ocorre principalmente por meio da abordagem de temas mais específicos, conforme apontado por Souza. (2010), Crianças pobres; Família pobre; Instituições públicas, Deficiências e deficientes; Mulher pobre. Como consequência, passamos a tratar de uma categoria específica, denominada construção social. A infância como “tempo social” é, antes de tudo, uma percepção enraizada na “verificação” histórico-social. Indica a compreensão adquirida nos últimos vinte anos [...], de que tanto a disseminação das instituições públicas quanto a situação concreta na qual vivem as crianças, no Brasil, historicamente resultaram de assimetrias profundas nas correlações de força e nos desequilíbrios que se manifestaram na consolidação de direitos entre estratos sociais desiguais e diversificados (SOUZA, 2010, p. 8-9). Essa afirmação nos permite compreender, então, que a educação infantil não se refere apenas às leis, mas, sobretudo e infelizmente, a um jogo social que, por aqui, por vezes desfavoreceu de maneira significativa as crianças pobres (BELTHER, 2017). Houve, nesse processo de consolidação das instituições públicas voltadas à educação das crianças, uma crescente e gradativa desvalorização dessa esfera pública. A desvalorização social da esfera pública foi essencial no processo de estratificação através do qual a creche e também a escola pública tornaram-se instituições identificadas com as criança pobre e está criança pobre foi convertida socialmente em “imagem fundadora" de uma determinada noção de “criança problema' (SOUZA, 2010, p. 9). Esse cenário complexo só pode ser compreendido ao considerarmos o fato de que a triste realidade da educação infantil, especialmente quando acomodado pela esfera pública, é amplamente influenciado pela dinâmica interativa entre indivíduos de todas as classes sociais (BELTHER, 2017). Mais do que apenas justificar a negligência frequente com a qual essa educação destinada a crianças de baixa renda é vista como resultado de uma relação desigual entre dominantes e dominados, é essencial ampliar nosso conhecimento sobre a divisão do trabalho. Isso ocorre porque: De uma forma geral, a divisão que socialmente se legitima entre domínio público e domínio privado mantém certa “reserva de honorabilidade" para o trabalho feito fora de casa e certa “reserva de depreciação” para o trabalho feito dentro de casa. Não por acaso, há associação direta entre o domínio externo como “trabaIho de homem” e o âmbito doméstico como lugar do “trabalho de mulher” (SOUZA, 2010, p. 9). Vale destacarmos, então, que, quando nos referimos às minorias, não pensamos em critérios de natureza estatística para defini-las, mas na condição com que determinados grupos, setores e classes da sociedade padecem de falta de respeito e interesse, bem como da ausência à voz que se faz ouvir em meio ao funcionamento da sociedade no cotidiano. Entende-se, assim, que: Operando uma espécie de soma argumentativa, então, pode-se reconhecer que a pobreza foi (e é) um dado fundamental na construção social das instituições para a educação de “crianças “problema” e a dialética público/privado foi (e é) um dado fundamental para os estudos sobre a infância e suas conexões familiares (SOUZA, 2010, p. 11). A educação, dessa forma, vem sendo apontada como uma indispensável estratégia na organização do processo de socialização, indo além dos limites da família. Nesse sentido, conseguimos observar que muitos dos problemas educacionais apontados nada mais são que denúncias contra os distúrbios da esfera particular, que acabam por inviabilizar uma ação educacional sobre a vida social. Aprofundando um pouco esse contexto, Souza (2010, p. 11) ressalta: O deslocamento em direção às instituições da educação na infância vai se agregando ao campo dos direitos da criança e da mulher. À educação formal das crianças traz para si uma complexa trama de profissionalizaçãoque envolve profissionais do ensino, da saúde, da política, da emoção etc. Essa rede profissional participa dos jogos da economia atrelada a uma dimensão de luta permanente por cuidados públicos e privados. Quando paramos para fazer a contabilidade percebemos que são muitos os levantamentos que comprovam gastos superiores com adultos do que com crianças em quase todo o mundo, no transcorrer do século XX. Em outras palavras, embora haja estudos que enfatizem a importância da educação infantil como um caminho para a construção de uma sociedade mais justa e desenvolvida, na prática, deparamo-nos com uma realidade em que os investimentos são direcionados muito mais para os adultos do que para as crianças brasileiras (BELTHER, 2017). Um dos aspectos que chama a atenção do Ministério da Educação é a necessidade de investir na capacitação dos profissionais que atuam na educação infantil. O próprio Ministério da Educação (MEC) reconhece essa questão como um problema: No Brasil a formação dos profissionais que atuam em educação infantil, principalmente em creches, praticamente inexiste como habilitação específica. Assinala-se que algumas pesquisas registram um expressivo número de profissionais que lidam diretamente com criança, cuja formação não atinge o ensino fundamental completo. Outros concluíram o ensino médio, mas sem a habilitação de magistério e, mesmo quem a concluiu, não está adequadamente formado, pois está habilitação não contempla 2s especificidades da educação infantil (MEC apud GANHARANI, 2010, p. 181). Vemos, portanto, que os profissionais da educação infantil, como categoria profissional, estão sujeitos a uma frágil constituição. A maneira de identificar esses especialistas é variada: assistente, animador, orientador, educador, entre outros. Consequentemente, vários especialistas argumentam que aqueles com qualificações mais altas, geralmente assumem funções de liderança, gestão ou supervisão em creches e instituições educacionais, em vez de posições de ensino (BELTHER, 2017). Consequentemente, os profissionais menos capacitados são justamente aqueles que desempenham as funções que exigem mais preparo, já que passam mais tempo com as crianças, cabe, aqui, introduzir dois conceitos pertinentes para a realidade desses profissionais: saberes docentes e saberes invisíveis. Por saberes docentes, entendemos o conjunto de conhecimentos que o professor possui não apenas no que se refere ao que ele transmite, mas também à sua prática e por meio dos quais ele estabelece relações (BELTHER, 2017). Os saberes invisíveis, por outro lado, referem-se principalmente aos trabalhadores que nem sempre possuem uma educação superior, mas adquirem, através de suas experiências em creches e com as crianças, habilidades que de alguma forma contribuem para reduzir sua desvalorização. Ganharani (2010) sugere, portanto, o seguinte arranjo, descrito no quadro abaixo, para identificar e classificar o conhecimento dos educadores. Quadro 1 – Saberes dos professores Fonte: Belther, 2017. O Quadro 1 engloba diversos aspectos fundamentais relacionados ao saber docente. A começar, citamos que todos os saberes nele contidos são empregados pelos profissionais em suas práticas pedagógicas. Além dos conhecimentos pessoais, são usados livros didáticos e saberes escolares associados às disciplinas ensinadas. Ainda de acordo com Ganharani (2010): [..] pode-se constatar que os diversos saberes dos professores estão longe de serem todos produzidos diretamente por eles, que vários deles são de certo modo exteriores ao ofício de ensinar, pois provêm de lugares sociais anteriores à carreira, propriamente dita, ou fora do trabalho cotidiano. Por exemplo, alguns provêm da família do professor, da escola que o formou e de sua cultura pessoal; outros vêm das universidades; outros são decorrentes da instituição ou do estabelecimento de ensino [..]; outros, ainda provêm dos pares, cursos de reciclagem etc.(GANHARANI, 2010, p. 190-191). Dessa forma, o saber profissional consiste na relação entre várias fontes de saberes que perpassam a trajetória pessoal de cada indivíduo dentro da sociedade, nos mais diversos âmbitos (individual, social, educacional etc.). Devemos nos perguntar, então, quais são os fatores responsáveis pela caracterização da docência no âmbito da educação infantil. De acordo, com Ganharani (2010), quatro são as dimensões essenciais do profissional professor. Vamos conhecê-las: O professor é um analista simbólico - esta dimensão consiste em enxergar o professor como alguém que identifica, reflete e desenvolve estratégicas para solucionar problemas. Ser profissional da educação infantil, então, exige mais que os estudos acerca de crianças, mas a consideração de quem são as crianças sob a sua responsabilidade pedagógica, em qual contexto sociocultural elas estão inseridas etc. O professor é um profissional da relação - consiste em reconhecer a relevância da capacidade que o professor deve ter de agir profissionalmente por meio da relação com os alunos; isso porque o processo de ensino-aprendizagem se dá, quase que em sua totalidade, nessa relação. O professor é um artesão - para além dos conhecimentos que possui, o professor precisa lidar com o fato de que frequentemente encontrará necessidade de inventar práticas, de modo a facilitar e propiciar situações que contribuam para o desenvolvimento das crianças. O professor é um construtor de sentido - o professor não deve apenas reconhecer o processo pelo qual transmite informações, mas fazer que essas informações apresentem sentido para as crianças em todas as práticas pedagógicas a que elas forem submetidas. Percebemos, assim, que a docência na educação infantil apresenta algumas especificidades quando comparadas aos outros níveis da educação básica. Essas características singulares decorrem: Das características da criança pequena: globalidade, vulnerabilidade e dependência da família; Das características das tarefas: a abrangência do papel de educadora da infância; Da rede de interações alargadas: relação com pais, auxiliares, outros profissionais e comunidade; Da integração e interação entre o conhecimento e a experiência, as interações profissionais e a integração dos serviços entre os saberes e os afetos (GANHARANI, 2010 p. 195). Dessa maneira, a circunstância de que as crianças pequenas ainda necessitam de certos cuidados, por si só requer uma abordagem educativa distinta, que atenda a essa exigência e, ao mesmo tempo, explore a considerável pluralidade de atividades, começando pelos cuidados e avançando até o nível da instrução propriamente dita, isto é, o nível da socialização e do crescimento por meio de práticas recreativas e que incentivem as potenciais interações (BELTHER, 2017). O que queremos enfatizar é que a educação infantil é uma simbiose de cuidado e educação, conforme a Figura 1 demonstra Figura 1 – A docência na educação infantil Fonte: Belther, 2017. O ensino na educação infantil exige do profissional uma constante postura de análise de sua própria prática. É importante comprometer-se com a carreira escolhida e ter consciência de que sua atuação visa sempre contribuir para o crescimento de crianças pequenas, o que acontecerá por meio de conhecimentos, ideias e práticas sociais, mantendo sempre o respeito pelas condições de aprendizagem e buscando a autonomia e formação de identidade das crianças pequenas (BELTHER, 2017). 2.1 A formação inicial e continuada dos docentes da educação básica Uma das preocupações que mais ganha destaque, seja nos estudos da área ou mesmo em documentos e materiais oficiais, é a formação dos docentes. A legislação brasileira entende que todos os docentes precisam, no mínimo, de um curso superior, mas somente isso não basta. Os estudos e debates sobre a educação infantil estão em constantetransformação, em consonância com nossa própria realidade e o contexto em que as crianças são inseridas; dessa maneira, a formação dos docentes precisa ser continuada atualizando o docente e levando-o a refletir sobre sua prática e ação docente (BELTHER, 2017). A Resolução n°. 2, de 2015, define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada. Nesse documento, dentre outras, são consideradas as seguintes premissas: [...] a concepção sobre conhecimento, educação e ensino é basilar para garantir o projeto da educação nacional, superar a fragmentação das políticas públicas e a desarticulação institucional por meio da instituição do Sistema Nacional de Educação, sob relações de cooperação e colaboração entre entes federados e sistemas educacionais. [...] as instituições de educação básica, seus processos de organização e gestão e projetos pedagógicos cumprem, sob a legislação vigente, um papel estratégico na formação requerida nas diferentes etapas (educação infantil, ensino fundamental e ensino médio) e modalidades da educação básica. [...] a realidade concreta dos sujeitos que dão vida ao currículo e às instituições de educação básica, sua organização e gestão, os projetos de formação, devem ser contextualizados no espaço e no tempo e atentos às características das crianças, adolescentes, jovens e adultos que justificam e instituem a vida da/e na escola, bem como possibilitar a reflexão sobre as relações entre a vida, o conhecimento, a cultura, o profissional do magistério, o estudante e a instituição (BRASIL, 2015). O documento ainda estabelece que são considerados cursos de formação inicial para os profissionais da educação básica: Cursos de graduação de licenciatura; Cursos de formação pedagógica para graduados não licenciados; Cursos de segunda licenciatura. Além disso, para a formação inicial que possibilite o exercício da docência e gestão na educação básica é obrigatória a formação em nível superior, de acordo com a área de conhecimento pretendida, bem como com as etapas de atuação almejadas (BELTHER, 2017). A formação inicial deverá ser ofertada sempre buscando um alto padrão acadêmico, científico, tecnológico e cultural. O documento ainda prevê outros pontos que merecem destaque, como a pertinência de constar, nas atividades desenvolvidas dentro de creches, pré- escolas e demais instituições com educação infantil a atuação e participação na gestão de sistemas de educação básica, incluindo planejamento e desenvolvimento de projetos, dinâmicas pedagógicas e demais experiências educativas. A formação inicial requer um projeto por parte do curso de licenciatura que contenha identidade própria, articulando-se ao contexto educacional em suas diversas dimensões (sociais, cultural e econômicas) (BELTHER, 2017). Esses questionamentos nos colocam como desafios e compromissos de como reverter essa realidade posta aos docentes, particularmente, da Educação Infantil. No nosso ponto de vista, a educação continuada em contexto é uma possibilidade de apoio aos docentes para efetivação dessa prática. Assegurar treinamentos contínuos, engajados com o labor educacional do professor, pode auxiliá-lo a se distanciar dos treinamentos dominantes relacionados aos conhecimentos práticos e tradicionais dos educadores, concedendo-lhe habilidades para discernir e atender de maneira apropriada às exigências de aprendizado das crianças. (VIEIRA; VAILLANT, 2017). Expandir as áreas de atuação das instituições universitárias por meio de práticas educacionais é outra alternativa viável, sobretudo por intermédio do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) e da Extensão. Tais medidas podem incentivar e respaldar o desenvolvimento de pesquisas e consultorias, em colaboração com as prefeituras locais, visando a subsidiar a atuação dos docentes na educação infantil. Encorajar a interação entre programas de pós-graduação, centros de pesquisa e programas de capacitação para educadores, a fim de garantir o desenvolvimento de currículos e abordagens pedagógicas que incorporem os avanços em pesquisas relacionadas ao processo de aprendizagem e às teorias educacionais na educação infantil para crianças de 0 (zero) a 5 (cinco) anos e 11 meses. Além disso, apoiar e monitorar a regulamentação da educação infantil nos sistemas municipais de educação também asseguraria o princípio do direito à educação. A universidade, por meio de seu corpo docente, pode contribuir para esse processo de formação que visa à emancipação, indo além de uma formação meramente técnica e mecânica. Essa prática pode ajudar a superar a separação entre teoria e prática. (VIEIRA; VAILLANT, 2017). 3 RELAÇÃO DA FAMÍLIA E A INSTITUIÇÃO INFANTIL A família contemporânea apresenta uma configuração distinta, expandindo-se e rompendo com seu modelo tradicional devido à agitação da vida cotidiana e às novas formas de trabalho. De acordo com Althoff (1996), na literatura, o conceito de família é definido com base na estrutura e nas funções de cada sociedade em diferentes períodos históricos. As tradicionais famílias biológicas deram lugar a arranjos nos quais a figura dos pais pode ser substituída por responsáveis que oferecem dedicação, cuidado e afeto, como é o caso de crianças cuidadas por avós, padrastos ou madrastas. De acordo com o descrito no RCNEI (Referencial Curricular Nacional da Educação infantil/1998): Além da família nuclear, que é constituída pelo pai, mãe e filhos, proliferam hoje famílias monoparentais, nas quais apenas mãe ou pai está presente. Existem ainda as famílias que se reconstituíram por meio de novos casamentos e possuem filhos advindos dessas relações. Há, também, as famílias extensas, comuns na história brasileira, nas quais convivem, na mesma casa, várias gerações e/ou pessoas ligadas por parentescos diversos. É possível ainda encontrar várias famílias coabitando em uma mesma casa. Enfim, parece não haver limites para arranjos familiares na atualidade (BRASIL, RCNEI, 1998) Atualmente, observamos uma diversidade nas configurações familiares, o que nos leva a repensar essa nova realidade. Embora seja encarada por vezes como um desafio, devemos considerá-la como um alerta que nos abre novas possibilidades de integração e participação. Nesse contexto, novos papéis precisam ser definidos, promovendo um diálogo ampliado e uma maior participação da família na instituição escolar. A família, como o primeiro ambiente de aprendizagem da criança, desempenha um papel fundamental no fomento do convívio e no desenvolvimento dos valores humanos. Esses valores são transmitidos não apenas por laços sanguíneos, mas principalmente por laços afetivos. Uma família preocupada com a educação de seus filhos deve considerar suas necessidades físicas, psicológicas e sociais, pois são essas necessidades que moldarão seu caráter e seus critérios de valores ao longo da vida. É essencial que a família demonstre preocupação em inserir seus filhos em outros ambientes sociais além da escola, como igrejas, clubes e, principalmente, em contato com a cultura local. Dessa forma, busca-se integrar e apresentar diferentes costumes e formas de vida, para além dos limites da escola. Essas ações devem fazer parte da rotina da criança, enquanto a família possui a consciência e o conhecimento da importância de sua participação como instituição central na construção da educação de seus filhos. Este direito é assegurado à família através do artigo 4º do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente): “É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, a saúde, à alimentação, à educação,ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. ” (BRASIL, Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990). Portanto, a família desempenha um papel fundamental como referência principal na formação do caráter da criança. Ela é vista como um espelho, refletindo valores como respeito, amor, pontualidade e organização, que exercem grande influência na formação das atitudes da criança. Além disso, a família precisa estar atenta à questão dos limites, uma vez que o tempo de ausência devido aos afazeres profissionais pode levar a uma tendência de compensação excessiva por meio de permissividade. Para evitar esse cenário, é importante criar momentos de trocas pessoais e interpessoais que auxiliem no crescimento social, físico, psicológico e intelectual da criança. A família também deve considerar aspectos relacionados à instituição em que seu filho será inserido, como a estrutura física, a rotina, o corpo docente e, principalmente, a proposta pedagógica. Essa proposta deve estar em conformidade com a legislação existente, desenvolvendo um currículo que atenda às necessidades de cuidado e educação da criança. Devido às mudanças ocorridas na sociedade, com a participação das mulheres no mercado de trabalho e as transformações na estrutura familiar mencionadas anteriormente, os órgãos governamentais foram obrigados a criar leis que regulamentam o atendimento a crianças de 0 a 5 anos. Essas medidas visam garantir um cuidado adequado e uma educação de qualidade para as crianças nessa faixa etária. A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 208, inciso IV, trouxe à tona a responsabilidade do Estado para a educação das crianças de 0 a 5 anos em creches e pré-escolas, que deverá acontecer de forma não obrigatória e compartilhada com a família. A LDBEN (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), oito anos depois, consolidou o que já havia sido determinado pela Constituição: a educação infantil que atende crianças de 0 a 5 anos deve ocorrer em creches, e o atendimento das crianças de 4 e 5 anos deve ocorrer em pré- escolas. Por sua vez, a instituição escolar precisava conhecer e considerar as mudanças que ocorreram na sociedade, com os novos contornos socioeconômicos, sociais e culturais, tendo conhecimento de que estas mudanças afetariam o desenvolvimento das crianças, e considerando, ainda, que cada uma delas tem seu ritmo próprio de lidar com tais transformações. A instituição de ensino de 0 a 5 anos precisa estar consciente de sua função de formadora de seres humanos protagonistas de sua história. Para tanto, se faz necessário um resgate ético do reconhecimento familiar, como parceira no processo ensino aprendizagem. Garantir uma aprendizagem contínua e permanente, ampliando o relacionamento com as famílias, criando espaços de participação no dia a dia escolar, gerando um ambiente mais acolhedor que favoreça o desenvolvimento emocional e intelectual das crianças (BUCHWITZ, 2016). A instituição que busca fortalecer os laços com as famílias precisa levar em consideração os aspectos sociais dessas famílias, uma vez que as crianças trazem consigo suas próprias formas de comportamento, expressas por meio de gestos, vestimentas e palavras, que moldam suas identidades. Ao reconhecer e valorizar essas características individuais das crianças, a escola pode promover uma participação que envolva desafios, contribuindo para a construção de seu caráter, conforme mencionado por Zanoni em seu texto sobre a importância da parceria entre família e escola no desenvolvimento e aprendizagem das crianças. Nesse contexto, existem compromissos a serem assumidos pela família em relação à escola, incluindo: Manter-se informados sobre o ensino-aprendizagem adquiridos pelos filhos (as); Colaborar com educadores/as para tornar mais coerente e eficaz a atuação escolar; Valorizar a escola, os conhecimentos e habilidades que esta propicia para criar nos filhos (as) hábitos de respeito e uma expectativa positiva em relação ao conhecimento adquirido e socializado; Expressar em palavras e atitudes a confiança que tem em relação à escola e em seus (suas) educadores (as); Procurar saber o que o filho (a) realizou na escola e como foi seu dia; Zelar por uma relação de carinho e respeito com os/as educadores/as, pois a opinião da família influi sobre os filhos (as); Observar os materiais escolares e auxiliar as crianças nas tarefas de casa; Resolver problemas entre a família e escola; Reforçar sempre a autoestima e autoconfiança dos filhos (as). A instituição escolar e a família são responsáveis por introduzir os alunos em um ambiente socializante, em confronto com a realidade da sociedade, voltado para a formação de um cidadão consciente e crítico. A educação fornecida pela família vai além do aprendizado proporcionado pela escola, pois está enraizada em conteúdos culturais específicos das relações familiares. Para que essa educação seja absorvida pela criança, é fundamental que ela cresça em um ambiente acolhedor e saudável. Nesse sentido, a escola desempenha um papel crucial ao se aliar à família, aceitando e adaptando-se à cultura e aos costumes familiares, a fim de promover uma melhor compreensão dos direitos e deveres das crianças. Nenhuma das duas instituições, por si só, é capaz de lidar com a educação de forma completa, seja ela cultural ou formal. É por meio da consolidação dos valores culturais próprios da família, aliada à proposta pedagógica da escola e às novas abordagens de ensino e formação, que a educação pode ser efetivamente promovida. 3.1 Instituição infantil e o trabalho com os pais Buscando cada vez mais um maior e melhor desempenho, a instituição infantil tem como objetivo efetuar um trabalho de envolvimento dos pais em seu cotidiano, com vistas ao desenvolvimento da criança, com temáticas direcionadas à educação infantil. Os pais devem se sentir seguros em relação ao trabalho que é desenvolvido pela instituição e, da mesma maneira, saber lidar com demandas como a indisciplina, a violência e a agressividade. As nossas crianças, inclusive as menores, vivem muito expostas a situações de violência, seja através da mídia, ou até mesmo em sua própria vizinhança. Por sua vez, a escola deve saber lidar com tal situação, criando estratégias que minimizem o efeito dentro do ambiente educacional (BUCHWITZ, 2016). Na educação infantil, são comuns os conflitos entre as crianças, que podem resultar em puxões de cabelo, mordidas e empurrões. Essas situações costumam ser interpretadas como atos de indisciplina e violência. Nesse contexto, é responsabilidade da escola empregar estratégias pedagógicas e conhecimento para acalmar as famílias envolvidas. Ao lidar com a violência entre crianças de 0 a 5 anos, é importante ter em mente que elas ainda não possuem pleno controle emocional e não conseguem avaliar as consequências de suas ações, o que as leva a agir por impulso (BUCHWITZ, 2016). Além disso, devido ao desenvolvimento incompleto da linguagem nessa fase, as crianças recorrem a gestos agressivos, que frequentemente são mal interpretados pelos adultos. Também é necessário discutir a questão da indisciplina com as famílias, uma vez que as crianças ainda estão em processo de desenvolvimento das noções de regras. Jean Piaget, renomado estudioso do comportamento infantil, destacou a importância de construir a moralidade gradualmente na criança. Especialmente na faixa etária de 0 a 5 anos, é fundamental abordar a indisciplina e a violência com os pais com cuidado, pois as crianças não têm a intenção de prejudicar umas às outras com suas ações. A compreensão do que é certo ou errado se desenvolve progressivamente na vida da criança. É de extrema importância que, nessa fase, a escola trabalhe o convívioentre as crianças e promova relações sociais respeitosas entre professores e pais. (BUCHWITZ, 2016). No ambiente infantil, é comum que a agressividade surja como uma forma de descarregar energia, o que pode resultar em ações violentas. Por vezes, a criança manifesta movimentos agressivos como uma maneira de expressar a violência que está sofrendo. Neste caso, a instituição deve ter um olhar mais apurado, pois essas crianças podem estar pedindo socorro. Sobre estas mesmas crianças, podemos dizer que elas apresentam “condutas” agressivas e hostis, e não desempenho violento ou indisciplina. Além dos pais, outros adultos desempenham um papel importante no referencial de afeto e comportamento das crianças, como os avós e tios (as). Seja na escola ou creche, é essencial acolhê-los com confiança e estabelecer laços de presença entre os membros da família. Esses dois núcleos se complementam e compartilham da responsabilidade de educar e cuidar das crianças (BUCHWITZ, 2016). Essa colaboração entre adultos, sejam pais ou parentes, transmite para as famílias suas funções de cuidado e educação das crianças. É fundamental que a família seja informada sobre a rotina, a forma como as crianças são acolhidas e como são respeitadas em termos de comportamento social e emocional. Os pais devem sempre estar cientes das ações que são direcionadas aos seus filhos. Para os pais, é crucial que se sintam seguros em relação aos professores que lidam com seus filhos. Da mesma forma, esses profissionais devem conhecer as famílias, suas culturas e singularidades. Tanto a escola quanto os profissionais que atuam nela devem estabelecer laços de confiança, respeito e, acima de tudo, comprometimento ético. 3.2 Ajudar a conhecer a função educativa da escola As relações entre a família e o centro educativo devem proporcionar que os pais e as mães possam compreender, aceitar e valorizar a tarefa educativa da escola. Todas as professoras da educação infantil sabem que a ideia que existe entre os pais em geral, em um determinado nível social, é que aquilo que é feito na escola pode ser muito diferente do que corre na realidade. Pesquisas realizadas durante a década de 1990, como as de Palacios & Oliva (1991) e Oliva & Palacios (1993), revelam divergências entre as ideias das mães e das professoras em relação à educação infantil e aos princípios educacionais considerados necessários para orientar as intervenções. Por exemplo, essas pesquisas mostraram que as mães tendem a valorizar princípios educativos mais direcionados, enquanto os educadores favorecem a flexibilidade. Além disso, as mães costumam apoiar a introdução do ensino de leitura e escrita nessa etapa, ao contrário da opinião de muitos professores. Na educação infantil, é importante que as famílias conheçam e valorizem as práticas escolares, pois ainda há uma ampla disseminação da ideia de que as crianças pequenas estão apenas brincando e não é necessário ter um conhecimento profundo para cuidar delas, trocá-las ou alimentá-las. Embora seja verdade que essas qualidades sejam extremamente necessárias, educar nessa fase, assim como em outras, requer conhecimento profissional que permita analisar e compreender a situação de cada criança, bem como tomar decisões adequadas para cada caso. Portanto, é fundamental valorizar e incentivar iniciativas que permitam aos pais conhecer o funcionamento da escola e se envolver nesse processo (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). A reflexão sobre os propósitos e os métodos de ensino é fundamental para que a equipe de professores evolua em sua prática educativa de maneira mais fundamentada e explícita. É necessário, portanto, estabelecer com cuidado as reuniões coletivas com as famílias, evitando que sejam excessivamente formais ou impessoais. É importante ter um roteiro que explique a proposta da escola para essa faixa etária, os objetivos das atividades planejadas, bem como a forma como os pais e mães poderão se envolver e participar ativamente. É relevante destacar as semelhanças e diferenças entre uma instituição infantil e uma escola de ensino fundamental, para que os pais possam ajustar seus próprios critérios de valorização do que a criança faz na escola. Algumas famílias podem considerar apenas como "trabalho" aquilo que é levado para casa em forma de registros escritos, enquanto outras podem não estar cientes de que recolher brinquedos também é um objetivo educacional tão importante quanto aprender a escrever o próprio nome ou observar e registrar o crescimento de uma planta. As entrevistas individuais, mencionadas anteriormente, também são uma forma eficaz de garantir que os pais compreendam o que ocorre na escola e passem a confiar nela. Por vezes, as entrevistas podem parecer mais um interrogatório do que uma oportunidade de construir um conhecimento mútuo. A maneira como a professora se expressa e se comporta, assim como o que ela omite, oferece informações que os pais utilizam para formar suas representações sobre o professor, a escola e o que o filho ou filha estão vivenciando (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). De acordo com os autores, é importante considerar que há diversas formas de “mostrar” a escola aos pais por meio de um intercâmbio diário, seja de forma oral ou escrita. Isso pode ser feito por meio de um folheto informativo ou uma agenda que circula entre a escola e a família. Além disso, é válido expor publicamente, em um painel acessível a todos, as atividades gerais e extraordinárias planejadas para determinado período, como uma semana, quinzena ou mês. Outra opção é fornecer um informativo escrito que acompanha os álbuns que as crianças levam para casa, permitindo que os pais tenham uma visão mais ampla das atividades, já que o álbum em si apresenta apenas uma pequena parte das ações realizadas. Esse trabalho é um processo contínuo que auxilia a escola na construção de sua identidade, as equipes a se unirem e os pais a modificarem suas representações da escola, frequentemente distorcidas por experiências pessoais afastadas ou por estereótipos sociais que pouco têm a ver com a realidade, mas infelizmente são amplamente difundidos, inclusive pelos próprios profissionais da educação. É crucial garantir que o objetivo geral de compartilhar a ação educativa seja alcançado, unindo esforços em vez de distanciá-los do desenvolvimento infantil. Em relação a essas entrevistas, os grandes traços característicos podem ser distinguidos entre: A entrevista de ingresso da criança na escola. As entrevistas solicitadas pelos pais ou pelos próprios professores para tratar de algum aspecto relevante ou simplesmente para manter um intercâmbio de pontos de vista. As entrevistas vinculadas à comunicação da avaliação das crianças 3.3 As entrevistas de ingresso Refere-se às entrevistas que normalmente ocorrem durante a matrícula das crianças na escola. Como essa prática é comum, é frequente que cada instituição tenha um modelo mais ou menos padronizado para coletar dados básicos como informações iniciais sobre as crianças e suas famílias. Essas informações podem variar de uma instituição de educação infantil para uma escola de ensino fundamental ou maternal, assim como o caráter e a gestão da entrevista também podem variar. Nesse sentido, o primeiro contato geralmente assume uma natureza essencialmente formal, e há vários fatores que contribuem para isso. Inicialmente, o contato é mediado por um procedimento burocrático, como a formalização da matrícula. Além disso, a responsabilidade pelo contato pode recair sobre o coordenador, a coordenadora ou algum membro da equipe diretiva da instituição (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Às vezes, não se trata apenas de uma entrevista no sentido estrito, mas de uma atividade que envolve o preenchimento de um questionário elaborado com dados de filiação (nome, endereço, nomedos irmãos, ocupação dos pais e algumas informações gerais sobre a criança, como histórico de doenças, idioma habitual de comunicação em casa, com quem convive mais, etc.). Em alguns casos, especialmente em creches, quando já foi decidido quem será a professora da criança, é comum convocar o pai e a mãe para uma primeira entrevista com ela. É relevante considerar que tanto o contato mais formal descrito anteriormente quanto a primeira entrevista desempenham uma função essencial: estabelecer as bases para iniciar e manter uma colaboração progressiva com as famílias, o que exigirá um conhecimento gradual da escola. Portanto, é crucial que desde os primeiros contatos os pais se sintam acolhidos e acompanhados, e que possam, em alguns momentos, fazer perguntas e expressar suas dúvidas. Isso requer uma abordagem afável e respeitosa por parte do entrevistador, a fim de quebrar o gelo e evitar a sensação de estar sendo interrogado pelas famílias, promovendo progressivamente um intercâmbio, especialmente nos casos em que a reunião é predominantemente formal. Em relação aos objetivos e conteúdos da entrevista, existem algumas diferenças entre o primeiro e o segundo ciclo. No caso da creche, quando a criança talvez ainda não tenha completado um ano e esteja no início de uma gradual separação dos pais e do ambiente familiar, a entrevista deve ter o propósito de conhecer e entender os costumes para poder observá-los, especialmente no início. Por exemplo, é importante saber se a criança dorme com ou sem chupeta, se come alimentos em pedaços ou apenas na forma de cremes, entre outras informações úteis para que os educadores possam adequar suas intervenções aos hábitos e padrões familiares (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Na pré-escola, às vezes, as entrevistas fixam-se de maneira bastante exaustiva em aspectos como a gestação e o nascimento do bebê, sua evolução no primeiro período da vida e outras perguntas similares, cujas informações, por um lado, invadem a intimidade da família e, por outro, podem suscitar reações de certa angústia e mal-estar. Com frequência, e principalmente se a família tem mais de uma criança, os pais não recordam exatamente quando a criança começou a engatinhar ou quando disse a primeira palavra. Além do mais, muitas vezes, tais informações podem ser pouco necessárias; se for conveniente fazer uma história clínica, existem outros profissionais que poderão colaborar com as professoras para fazê-la e para adaptar seu significado à família. Pelo tipo de atuação que a escola realiza, provavelmente as informações que mais lhe interessam referem-se a como está a criança em casa, como é o seu dia habitual (o que faz, com que pessoas convive, do que mais gosta e do que não gosta), como a sua mãe e o seu pai a veem; como sentem o ingresso da criança na escola, como a prepararam, se foi possível; quais as expectativas que têm da escola, etc. Se nos colocarmos no lugar dos pais, é compreensível que eles também tenham muitas perguntas sobre a escola. É importante que saibam que podem fazer perguntas e que iremos responder, para que a situação da entrevista seja o mais interativa possível, mantendo sua funcionalidade. É necessário que os pais entendam por que fazemos perguntas sobre seu filho e sobre eles próprios, para que não vejam isso como uma invasão ou uma avaliação de sua tarefa educativa. A partir dessa explicação, poderão interpretar de forma positiva as questões que lhes fizermos, perceberão que estamos tomando notas enquanto falam e poderão expressar suas próprias impressões (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Em algumas escolas, a entrevista é considerada parte do próprio processo de adaptação da criança e como um meio de conhecer a criança em seu contexto familiar. Por esse motivo, o foco está mais no espaço de conhecimento mútuo e na aproximação da criança com a escola e sua professora. Nessas situações, a criança está presente, podendo brincar com os brinquedos e objetos da sala de aula, enquanto a família e a professora trocam impressões. Dessa forma, a educadora pode conhecer melhor a dinâmica e o caráter familiar, ao passo que a criança começa, naquele momento, a compartilhar a futura escola com a mãe e o pai. Convém ter presente que o conhecimento mútuo requer tempo; não se deve pensar em uma entrevista como uma situação na qual se obtenha inexoravelmente determinados dados; naturalmente que esses são importantes, porém teremos mais ocasiões de conversar e de consegui-los. Na primeira entrevista, o objetivo fundamental é estabelecer as bases para as futuras colaborações. Por outro lado, existe todo um conjunto de informações mais sutis que, às vezes, não se perguntam e que se leem nas atitudes, nas outras respostas e que podem ser captadas pela educadora (nervosismo, um pai que interrompe o outro, uma atitude de extrema familiaridade com a professora, etc.). A respeito disso, também é preciso ser prudente e não interpretar excessivamente. É preciso considerar que, nos primeiros contatos, todos podem estar muito preocupados em passar uma “boa imagem” e que as impressões somente sejam válidas quando as impressões posteriores confirmarem as primeiras (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Em qualquer caso, trata-se de um tema importante para refletir de maneira conjunta com a equipe de professores e para pedir, se necessário, assessoramento a outros profissionais que fazem das entrevistas as suas ferramentas de trabalho (psicólogos, pedagogos). O sentido de tal reflexão pode ser muito amplo, porém sempre haverá de ajudar a direcionar a entrevista como um instrumento cuja finalidade é ajudar a conhecer melhor a criança e a compartilhar os objetivos educativos entre a escola e a família. 3.4 As entrevistas solicitadas Durante o decorrer do curso, pode ocorrer que, além da entrevista do segundo trimestre, mais relacionada à avaliação, os professores considerem necessário convocar os pais de uma criança para discutir algum aspecto que os preocupe sobre a criança ou por algum outro motivo. Nesses casos, é importante ter em mente uma série de aspectos que contribuem para preparar a entrevista e garantir que ela seja satisfatória para todos os envolvidos. Esses aspectos podem ser aplicados tanto à entrevista inicial quanto à do segundo trimestre. Além dessas questões, é necessário ter uma consideração geral sobre quando é necessário realizar a entrevista. Deve-se agir assim que um problema for detectado? Apenas quando o problema atingir uma dimensão considerável? Apenas para tratar de questões problemáticas? Cada caso é único, mas existem algumas considerações que podem ser amplamente aplicáveis. Diante de um comportamento preocupante ou de algo que não está claro, o mais prudente pode ser esperar alguns dias, dar-se tempo e oportunidade para analisar o que está acontecendo, em quais situações ocorre e qual é o resultado das intervenções feitas em uma determinada direção. (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Essa espera – que não se confunde com uma negociação da dificuldade – se acompanhada de uma atitude de observação atenta, ajuda a compreender melhor o que se está passando, a situar-se de uma certa distância emocional, a valorizar com mais fundamento se é preciso alar com o pai e a mãe; em caso afirmativo, a formular o tema de maneira mais elaborada, portanto, com mais possibilidade de avanço. Esperar que os problemas se resolvam com o passar do tempo, sem fazer nada, é uma estratégia que pouco provavelmente poderá dar resultado; às vezes, parece que sim, mas em geral, se há mudanças, é porque nos dirigimos de uma maneira diferente à situação, talvez até sem percebermos. Também não é uma boa estratégia deixar que as situações problemáticas cheguem ao limite para começar a conversar. A combinação da prudência, a observação e a comunicação tranquila com a família da criançaparece ser a maneira mais adequada para compreender o que se passa e poder- se intervir (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Por último, as professoras e os professores devem valorizar o fato de ser gratificante dar boas notícias. Às vezes, foi realizado um trabalho muito interessante com a família e foi possível desbloquear uma situação, resolver um problema; para consegui-lo, foi necessário estar muito atento à criança, foram programadas sucessivas entrevistas, trabalhou-se conjuntamente. 3.5 As entrevistas solicitadas pelos pais Em determinado momento, a família pode solicitar uma entrevista para discutir algum aspecto que os preocupa em relação ao seu filho ou filha, à escola, à professora, ou simplesmente para trocar opiniões. A diversidade de situações é tão ampla que há pouco a ser dito, exceto que é essencial estar disponível para ouvir, tentar compreender o ponto de vista dos pais e orientá-los em relação a outros profissionais, quando considerarmos que não somos a pessoa adequada para lidar com as questões que eles apresentam. Em qualquer caso, antes da entrevista, é importante refletir sobre o progresso da criança, revisar o histórico familiar, recordar as anotações feitas em entrevistas anteriores e, enfim, preparar-se adequadamente (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Em algumas ocasiões, essas entrevistas podem ser momentos em que são expressas queixas ou críticas mais ou menos diretas em relação à instituição ou à professora. A tentação de se colocar na defensiva pode ser forte e até mesmo justificada. No entanto, essa não é necessariamente uma estratégia adequada se resultar em distanciamento e conflitos de posição, levando à impossibilidade de entendimento. Nessas situações, é importante ouvir e expor, de maneira respeitosa, nossa visão, destacando que nem sempre estaremos de acordo com tudo o que acontece e que é importante tentarmos entender juntos a origem dessa discrepância. Com frequência, ambas as partes precisarão abrir mão de suas representações individuais para alcançar uma representação mais compartilhada, embora às vezes isso possa não ser totalmente possível. Nessas situações, uma saída viável pode ser aceitar o desacordo, enfatizar os aspectos em que concordamos e tentar propor estratégias que restabeleçam a confiança mútua, com base tanto no que concordamos quanto no que discordamos (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Sempre é importante atender a qualquer solicitação de entrevista feita pelos pais, mesmo que a professora não a considere necessária ou urgente. Pode haver questões ocorrendo no ambiente familiar que seja relevante conhecer, ou os pais podem simplesmente estar inquietos e desejarem obter mais informações sobre a situação escolar de seus filhos. Nessa perspectiva, é interessante refletir sobre algumas estratégias que facilitem aos pais fazerem o pedido de entrevista com a professora: estabelecer um horário específico para essa finalidade, permitir que a solicitação seja feita por meio da secretaria ou da recepção do centro, informar, durante as reuniões de classe ou por outros meios, a disponibilidade da equipe para manter um diálogo com as famílias e tudo mais que possa ser considerado apropriado. Essa medida contribui para criar confiança e segurança nos pais, confirmando que a escola possui interlocutores dispostos a conversar com eles sobre a educação de seus filhos. 4 O SIGNIFICADO DOS CONCEITOS: ÉTICA E MORAL Atualmente, a ética tem ganhado destaque tanto na filosofia quanto nos currículos escolares, diferentemente do passado em que predominavam as chamadas "teorias críticas da sociedade". Conforme observado por Tugendhat (2000), essa mudança reflete um maior interesse dos jovens intelectuais pela ética, que tem sido objeto de diversas discussões nos meios acadêmicos e nas escolas. Essa valorização da ética se deve, em parte, à sua ênfase na reflexão sobre valores individuais e interpessoais, algo que está em consonância com a preocupação contemporânea com o eu. Outro motivo para o interesse crescente pela ética é a falta de orientação ética resultante do declínio da base religiosa, que durante muito tempo fundamentou os valores da sociedade. Atualmente, enfrentamos um sentimento de desorientação diante de problemas relacionados à sociedade globalizada, como o aborto, a pobreza, as questões das gerações futuras e a tecnologia genética, que são temas de relevância mundial. A discussão sobre ética continua a apresentar um paradoxo, pois enquanto alguns pesquisadores defendem sua validade universal, outros argumentam que ela é historicamente e socialmente relativa. Segundo Tugendhat (2000), “a observância de normas morais é algo que podemos exigir de todos (pelo menos aparentemente), e, para fazê-lo, devemos também esperar que isso possa ser compreensível para todos” (p. 13). Essa afirmação ressalta a necessidade de tornar compreensível a ética para que possamos exigir sua observância de todos. A dificuldade em conceituar tanto a ética quanto a moral gera opiniões divergentes nas instituições educacionais. Portanto, diante dos fundamentos teóricos apresentados, é necessário não apenas apresentar algumas definições dos termos ética e moral, mas também estabelecer a diferença entre eles de acordo com alguns autores. Segundo Tugendhat (2000), a distinção entre ética e moral não é necessária, pois "a pergunta sobre em que consiste em si a diferença entre ética e moral seria absurda. Ela soa como se a gente quisesse perguntar sobre a diferença entre veados e cervos" (p. 35). No entanto, o autor acaba por fazer uma distinção entre ética e moral, conceituando a moral como o juízo moral pelo qual se constrói o sentimento moral, e a ética como a reflexão filosófica sobre a moral. Frequentemente, moral e ética são usadas como sinônimos, representando a ideia de um conjunto de princípios ou padrões de conduta. De fato, suas origens - "mores" em latim e "ethos" em grego - remetem à ideia de costume. É por meio dos costumes que as pessoas criam valores, elaborando princípios e regras que regulam seu comportamento. Esses princípios e regras, em conjunto, indicam direitos, obrigações e deveres que orientam a conduta dos indivíduos. Esse é o campo da moral e da ética: ações e reflexões sobre as condutas humanas (TUGENDHAT, 2000; PCNs, 1998). Tanto a ética quanto a moral têm sua origem na mesma realidade humana - os costumes. O verbete “moral” da Enciclopédia de D'Alembert e Diderot (século XVIII) afirma que “moral (ciência dos costumes) é a ciência que nos prescreve uma conduta sábia e os meios de a ela conformar os nossos atos”, portanto, a moral é a ciência própria dos seres humanos. De acordo com Ferreira (1975), a ética é o estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja em relação a determinada sociedade, seja de forma absoluta. Ele propõe uma comparação com a moral, definindo-a como o conjunto de regras de conduta consideradas válidas, seja de forma absoluta para qualquer tempo ou lugar, seja para um grupo ou pessoa específica. Guimarães (1996) faz uma distinção entre moral e ética. Segundo ele, a moral está relacionada ao dever-ser, enquanto a ética está ligada ao querer- viver. A moral determina os caminhos a serem seguidos por um indivíduo ou por uma sociedade, explicando sua existência por meio de um conjunto de leis. Por outro lado, a ética organiza as pequenas atitudes cotidianas dos grupos menores, apontando para a relativização dos diferentes valores que integram um grupo. Chauí (1994, p. 340), retomando o sentido grego de ethos como “caráter, índole natural, temperamento”, afirma que a ação ética se fundamenta na integridade do ser humano diante de seus semelhantes. Nessa perspectiva, o sujeito moral é, por definição, aquele capaz de distinguir entre o beme o mal, sendo capaz, portanto, de se desviar do caminho prescrito, de decidir, escolher e deliberar - reconhecendo a fronteira entre o justo e o injusto. De acordo com Silva (2002, p. 92), “a ética abrange o domínio de investigação sobre as noções de felicidade e infelicidade, bem e mal, justo e injusto, e os valores aos quais os seres humanos se submetem por tradição ou adesão”. A conduta moral, por sua vez, é determinada por três elementos: respeitar os direitos alheios, buscar uma vida boa e merecer ser objeto de admiração moral (dignidade). Segundo Cela-Conde (1999), os seres humanos possuem uma predisposição especial, um sentimento moral, que está ausente em outras espécies animais. Portanto, é importante identificar o motivo pelo qual agimos de forma moral. O critério da ação moral e dos códigos éticos é uma construção cultural que é historicamente delimitada em cada sociedade e em cada período de tempo. Os valores éticos universais correspondem a estratégias adquiridas para a sobrevivência dos indivíduos de nossa espécie, na qual a linguagem fornece o meio coletivo para expressar o que é “bom para todos”. Para Heinemann (1993), ética é a doutrina da eleição moralmente verdadeira. Dela esperamos um exame aprofundado e resposta à questão: Que devo escolher? A qual inclui outras questões que, subordinadas, abrem-se aos fenômenos éticos gerando variados tipos de ética: - Ética de bens (ética de consequências práticas de uma ação) – Que devo escolher entre os bens desta terra? Há um valor supremo? Há uma hierarquia de valores? – Ética do ser (ética da perfeição, ou da auto realização, ou da felicidade/ eudemonia) – Que forma de vida devo escolher? Que espécie de homem devo ser? – Ética do dever-se (doutrina dos deveres) – Que devo querer? Que devo fazer? (p. 435). A partir dessa reflexão, podemos deduzir que a ética está intrinsecamente ligada à moralidade, que envolve responsabilidade (o exercício do livre arbítrio) e liberdade, associadas à consciência e à vontade. Cada ser humano se posiciona diante de um conjunto de valores que não foram criados por ele individualmente, mas no contexto das relações com outros seres humanos. Esse posicionamento ético-moral preserva, constitui e transforma o “lócus” cultural dos agentes sociais, pois, ao questionar a si mesmo e a seus valores, o ser humano enxerga seu contexto cultural, e por meio da criação cultural, instala-se não apenas o que é, mas também o que deve ser. Todas as esferas da vida social têm uma dimensão moral. A convivência em sociedade requer a posse de critérios e valores, e ainda mais, o estabelecimento de relações e hierarquias entre esses valores. As respostas aos conflitos passam pela decisão pessoal, influenciada pelas representações sociais e pela inserção cultural e política do indivíduo. Diante de conflitos e questões complexas, percebe-se os limites das respostas oferecidas pela moral e a necessidade de problematizar essas respostas, verificar a consistência de seus fundamentos. É aí que entra a ética. A ética é a reflexão crítica sobre a moralidade. Ela serve para verificar a coerência entre práticas e princípios, e questionar, reformular ou fundamentar os valores e normas que compõem uma moral, sem ser normativa em si mesma. Entre a moral e a ética, há um constante movimento que vai da ação para a reflexão sobre seu sentido e seus fundamentos, e da reflexão retorna à ação, revigorada e transformada (LIMA, 2003). Ao longo da história, as sociedades têm construído e modificado seus sistemas morais, focalizando diferentes questões em cada momento. Na Grécia antiga, por exemplo, seguir os preceitos morais significava ter um comportamento virtuoso com o objetivo de alcançar a felicidade. Essa felicidade era buscada no convívio dos cidadãos, porém os escravos eram excluídos desse grupo. Já na cultura judaico-cristã, as virtudes passaram a ser a obediência e o amor ao próximo, mas ainda assim a tortura e a extorsão de confissões eram utilizadas como forma de castigo e expiação. Na era moderna, a ideia de forças espirituais foi abalada pelo pensamento de que o mundo é regido por leis naturais, mas as mulheres continuaram sendo tratadas como inferiores aos homens. Portanto, em todos os períodos históricos, existiram preceitos morais e éticos, porém eles nunca garantiram a tolerância e a compreensão entre todos os membros da sociedade. Infelizmente, na atualidade, preconceitos e violência ainda dominam (LIMA, 2003). Nesse contexto, a educação surge como um caminho promissor para promover as transformações necessárias na formação ética e moral das pessoas. Educação e ética são dois aspectos interligados de uma mesma construção. A ética é uma questão em aberto, assim como os grandes temas que tocam profundamente a condição humana. No ser humano, existe a capacidade de cumprir leis estabelecidas para si mesmo e para os outros por meio de interações. Cumprir essas leis implica em seguir a força da vontade autônoma e controlar as paixões até onde for possível. Significa também examinar continuamente essas leis, sujeitas, em certa medida, a revisões periódicas. Percebemos que, apesar de terem a mesma origem etimológica, as palavras moral e ética possuem significados diferentes. Consideramos, portanto, a moral como um conjunto de princípios, crenças e regras que orientam o comportamento dos indivíduos em diferentes sociedades, enquanto a ética é entendida como a reflexão crítica sobre a moral (LIMA, 2003). 4.1 Práxis Pedagógica e a relação entre Educação e Ética A prática educativa (práxis) na instituição escolar se baseia principalmente no conhecimento científico. É importante compreender que esse conhecimento é produzido, reproduzido, transformado e reconfigurado a partir de necessidades concretas das pessoas e dos problemas que enfrentam em sua prática social. Na Educação Infantil, no entanto, o conhecimento científico coexiste com outros saberes e práticas essenciais para o desenvolvimento saudável e integral da criança (LEITE; PIASSA; JOVANOVICH, 2015). A organização do trabalho pedagógico do professor de Educação Infantil visa atender às especificidades apresentadas pela criança em seu processo de formação, potencializando as experiências vivenciadas com intencionalidade, embasadas em conhecimento teórico e metodológico, e articuladas com a dimensão ética necessária para o acolhimento e cuidado. A relação entre o processo educativo e a ética na construção da democracia é fundamental para despertarmos sensibilidade em relação aos problemas que afetam a humanidade. Conforme mencionado por Severino: desenvolver ao máximo sua racionalidade filosófica, em sua tríplice dimensão: epistêmica, ética e estética, buscando delinear os telos da educação com sensibilidade profunda à condição humana. Sentir a razão de ser da existência e a pulsação da vida. Desenvolver ao máximo sua compreensão política, levando os educandos à apreensão do significado de sua inserção social e fornecendo referências para sua atuação no seio da sociedade. (SEVERINO, 2010, p. 156). A partir dessa perspectiva, a educação desempenha sua função ao ser entendida como uma mediação para estabelecer uma cidadania crítica como objetivo final. Tanto a Instituição de Educação Infantil quanto a Escola, em todos os níveis, devem ser espaços de crescimento. São ambientes nos quais a educação assume uma abordagem democrática e humanizada, evitando ser arbitrária. Conforme apresentado por Carvalho, os educadores constroem relações sólidas sem impor normas, possibilitando que, juntamente com os alunos, sejam construídas alternativas. Inicialmente como reflexões e, em seguida, como propostas e posturas renovadas. A Instituição de Educação Infantil, por meio de práticas reflexivas e intencionais, promove a valorização do conhecimento como uma produção dos seres humanoshistóricos e em interação, bem como a consciência das diversas dimensões que compõem o processo educativo e sua contribuição para a emancipação. Portanto, é essencial que haja alguém que questione, incomode e interaja, provocando mudanças tanto internas quanto externas (LEITE; PIASSA; JOVANOVICH, 2015). Como mediador, o professor assume um papel semelhante ao polo negativo na dinâmica dialética, pois é sua responsabilidade desestruturar ideias preconcebidas e conceitos estabelecidos como certezas e verdades. Em outras palavras, o professor busca promover uma relação de troca e movimento da criança com o meio e com os conhecimentos que ela já traz em suas experiências. Esse processo ocorre por meio da linguagem, do toque e do olhar, bem como das relações humanas afetivas que se estabelecem entre o professor e o aprendiz (LEITE; PIASSA; JOVANOVICH, 2015). 4.2 O que queremos dizer com “Salas de Aulas Morais” As salas de aula moral são espaços que promovem o desenvolvimento infantil por meio do ambiente socioemocional e das conexões interpessoais que ocorrem no ambiente escolar. Nesse contexto, é de grande importância a relação com os professores, colegas, estudos e regras. A relação professor-aluno e as interações entre as crianças são aspectos centrais nas salas de aula moral. Essa relação pode ocorrer de maneira autoritária ou cooperativa, sendo que o exercício de poder do professor como instrutor e orientador demonstra um ambiente de aprendizagem com influência mais efetiva e resultados mais promissores na formação das crianças. No entanto, é importante evitar um distanciamento excessivo causado por um estilo de ensino rígido e regras que limitam a autonomia das crianças (ASSUNÇÃO, 2016) As relações entre os colegas também são influenciadas pelo ambiente escolar. Em algumas abordagens, como o campo de treinamento, as interações entre as crianças são desencorajadas pela professora. Por outro lado, em um ambiente socioemocional mais aberto, as relações entre colegas podem ser amistosas ou tensas. No entanto, é fundamental que o ambiente socioemocional busque promover o desenvolvimento infantil (ASSUNÇÃO, 2016). Em resumo, as salas de aula moral são espaços onde a relação professor- aluno e as interações entre colegas desempenham um papel importante. É essencial que essas relações sejam construídas de forma cooperativa, respeitando a autonomia das crianças, e que o ambiente socioemocional seja propício ao desenvolvimento infantil, incentivando interações saudáveis entre os alunos. O ambiente sócio moral é considerado como parte integrante do currículo implícito, no qual o docente não apenas tem a percepção e responsabilidade direta pelo desenvolvimento intelectual dos alunos, mas também influencia claramente a dimensão sócio moral do cotidiano escolar por meio da comunicação. Nesse contexto, querendo ou não, a professora transmite valores aos seus alunos. No entanto, a ideia de exercer autoridade sem filtros é inaceitável, pois vai contra a noção de liberdade em uma sociedade livre. O ambiente sócio moral precisa evoluir de forma sistemática, assim como a comunidade, por meio de uma educação construtivista que respeite os direitos dos indivíduos de expressarem suas opiniões e emoções de forma plena e eficaz (ASSUNÇÃO, 2016). 4.3 A ética, os PCNs e o RCNEI A discussão sobre ética ganhou nova visibilidade no contexto escolar a partir da abordagem dos temas transversais propostos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Esses temas visam promover uma sociedade mais justa e equilibrada. Os PCNs foram publicados em 1997 pelo Ministério da Educação e do Desporto (MEC), por meio da Secretaria de Educação Fundamental (SEF), e consistem em uma coleção de dez volumes que fornecem orientações curriculares para o desenvolvimento do ensino fundamental no país. Além disso, o MEC publicou o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI), que faz parte dos documentos dos PCNs, com o objetivo de contribuir também para o ensino infantil, incluindo creches, instituições equivalentes e pré-escola. Essas propostas, elaboradas por especialistas em educação, têm como objetivo principal auxiliar os educadores e outros profissionais envolvidos na tarefa educativa a desenvolver uma intervenção pedagógica mais alinhada com os ideais de democracia e o efetivo exercício da cidadania (LIMA, 2003). Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) explicam o exercício da cidadania como a busca pela conquista da igualdade dos direitos sociais em diversas áreas, como relações de trabalho, previdência social, saúde, educação e moradia. Essa visão considera o cidadão não apenas como portador de direitos e deveres, mas também como um agente ativo na criação de direitos em um mundo pluralista. De acordo com os PCNs, a cidadania envolve a participação efetiva na produção e desfrute de valores e bens dentro de um determinado contexto: Ser cidadão é participar de uma sociedade, tendo direito a ter direitos, bem como construir novos direitos e rever os já existentes (...) O bem comum é bem coletivo, bem público. O público é ‘o pertencente ou destinado à coletividade, o que é de uso de todos, aberto a quaisquer pessoas’. É, então, ‘o campo da democracia’, como espaço de realização de direitos civis – liberdade de ir e vir, de pensamento e fé, de propriedade; de direitos sociais – de bem-estar econômico, de segurança; e de direitos políticos – de participação no exercício do poder – de todos os homens e mulheres. Ao entender o poder como possibilidade de atuação, de interferência e determinação de rumos na sociedade, verifica-se que, para haver uma sociedade realmente democrática, o exercício do poder deve se dar numa perspectiva de pluralidade (PCNs, 1998, p. 54 - 55). A concepção educacional presente nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e no Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI) visa à formação de indivíduos autônomos, críticos, participativos e capazes de atuar de maneira competente, digna e responsável na realidade. Essa abordagem do processo de ensino e aprendizagem é fundamentada na perspectiva construtivista, que se baseia principalmente na psicologia genética de Piaget e no modelo sócio-histórico de Vygotsky. A perspectiva construtivista considera que a aprendizagem vai além da simples incorporação de conhecimentos produzidos. Ela enfatiza a construção e reinvenção do conhecimento pelo próprio sujeito, ou seja, a compreensão por meio do pensamento da ação efetivamente realizada (LIMA, 2003). A construção é a única forma de os homens se apoderarem dos diversos conhecimentos. Portanto não se trata de opção pedagógica, mas sim de um mecanismo psicológico. (...) o construtivista pensa que seja qual for o método de ensino empregado, está havendo construção do conhecimento. (...) Em resumo, ser construtivista não é optar por um homem ‘diferente’, que constrói seu conhecimento (enquanto os outros não o construiriam): é reconhecer que o homem, seja qual for e em que situação for, constrói de fato seu conhecimento (LA TAILLE, 1996, p. 151-2). Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI) propõem que os educadores abordem transversalmente temas como ética, saúde, meio ambiente, orientação sexual, pluralidade cultural, trabalho e consumo no ensino infantil, fundamental e médio. Esses temas foram propostos com o objetivo de desenvolver o exercício da cidadania diante da crise de valores atual, que foi discutida anteriormente. Dentro dessa proposta, os Parâmetros Curriculares Nacionais fazem uma distinção entre moral e ética, definindo moral como “um conjunto de princípios, crenças e regras que orientam o comportamento dos indivíduos em diferentes sociedades”, e ética como “a reflexão crítica sobre a moral.Ela serve para verificar a coerência entre práticas e princípios” (1998, p.49). Dessa forma, a ética é estabelecida como um tema transversal para desenvolver a reflexão em sala de aula. Os PCNs propõem que não seja criada uma nova área ou disciplina ligada ao tema da Ética, mas sim que ela seja incorporada às áreas já existentes, como Português, Matemática, Geografia, História, etc., e ao trabalho educativo na escola infantil. Segundo os PCNs, a educação moral, que está ligada ao tema da ética, não ocorre em um horário especial dedicado à discussão de dilemas, mas sim ao longo de todo o processo de ensino-aprendizagem, permeando as ações do grupo envolvido no mesmo: [O ensino da ética] não pressupõe espaço de aula reservado aos temas morais; trata-se de democratizar as relações entre os membros da escola, cada um podendo participar da elaboração das regras, das discussões e das tomadas de decisão a respeito de problemas concretamente ocorridos na instituição (PCNs, 1998b, p. 66). Ao longo da história, a educação desempenha um papel fundamental na socialização das sociedades, tanto de forma formal quanto informal. Ela atua na conservação e na transformação da cultura, do conhecimento e dos valores, possuindo, assim, uma dimensão moral. A ética na escola tem como objetivo promover uma educação moral, visando o desenvolvimento da capacidade de autonomia das crianças e jovens com os quais se trabalha. É importante reconhecer que a moral já está presente na prática educativa desenvolvida nas escolas, seja nos princípios, nas regras, nas ordens ou nas proibições (LIMA, 2003). 5 PRÁTICAS EDUCATIVAS E ALTERNATIVAS PEDAGÓGICAS DA EDUCAÇÃO INFANTIL A educação infantil, enquanto etapa inicial da educação básica, é regulamentada por diversas leis, incluindo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN). Através dessa legislação, é estabelecido o trabalho pedagógico voltado para crianças de 0 a 6 anos, com o propósito de atender às particularidades do seu desenvolvimento e promover, como princípio fundamental, a construção da cidadania. Em 2006, após dez anos de ter sido instituída como parte da educação básica pela LDBEN, a educação infantil brasileira obteve uma conquista importante: foi incluída no Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB). Com a Lei n. 11.274, de 06 de fevereiro de 2006, as crianças de 6 anos de idade puderam ser matriculadas no ensino fundamental de 9 anos. É evidente que, embora o Ensino Fundamental permaneça como a principal ênfase da educação nacional, existe um respaldo para o financiamento da educação infantil. Essa iniciativa permite que os sistemas de ensino ampliem e aprimorem o atendimento em creches e pré-escolas. Diante desse cenário, as escolas de educação infantil enfrentam uma série de desafios que envolvem medidas políticas, pedagógicas e administrativas. Essas demandas exigem estudos aprofundados, reflexões cuidadosas e uma articulação eficaz para adequação dos espaços, aquisição de materiais, estabelecimento de rotinas estruturadas, desenvolvimento de planejamentos consistentes, formação contínua dos professores, integração entre teoria e prática, além de diversas outras necessidades que se apresentam (BUCHWITZ, 2016). Por isso, a educação infantil desempenha um papel fundamental na formação integral das crianças, e é essencial que sejam criadas práticas educativas e abordagens pedagógicas alternativas. Essas práticas devem estar voltadas para o desenvolvimento global do aluno, com enfoque na linguagem, expressão, exploração do espaço e na interdisciplinaridade do conhecimento. Além disso, é importante destacar a importância do registro do desenvolvimento dos alunos, bem como a implementação de um sistema de avaliação que acompanhe e analise os resultados. As DCNEI (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil) também abordam o tema que fortalece e orienta o desenvolvimento das práticas que devem ser desempenhadas. De acordo com o estabelecido na Revisão das DCNEI, quando trata do currículo e das práticas educativas na educação infantil, estes devem ser concebidos como: (...) um conjunto de práticas que buscam articular as experiências e os saberes das crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural, artístico, científico e tecnológico. Tais práticas são efetivadas por meio de relações sociais que as crianças desde bem pequenas estabelecem com os professores e as outras crianças, e afetam a construção de suas identidades. (DCNEI, 2009, p. 86). As DCNEI também determinam que: “As práticas pedagógicas que compõem a proposta curricular da educação infantil devem ter como eixos norteadores as interações e a brincadeira” (BRASIL, 2010, p. 25) e garantam experiências que: Causem o conhecimento de si e do mundo; Defendam a imersão da criança em diversas linguagens; Permitam sua integração com experiências de narrativa, interação oral e escrita; Criem argumentos expressivos de medidas, formas, espaços e tempos; Proporcionem o aumento da confiança e conhecimento nas atividades grupais e particulares; Permitam ocorrências de aprendizagem independentes de cuidado pessoal, auto- organização, saúde e bem-estar; Permitam experiências éticas, estéticas e culturais; Estimulem a curiosidade, exploração, encantamento, questionamento, investigação e sua informação relativa ao mundo físico, social, tempo e natureza; Promovam a convivência e o intercâmbio das crianças com expressões artísticas como música, artes visuais, artes gráficas, cinema, fotografia, dança, teatro, poesia e literatura; Estabeleçam a interação, o cuidado, a conservação e a compreensão da diversidade biológica e da sustentabilidade da vida na Terra, bem como a não utilização desnecessária dos recursos naturais; Ofereçam oportunidades de interação e conhecimento sobre tradições e expressões culturais típicas. Permitam o uso de gravadores, projetores, computadores, máquinas fotográficas e outros recursos tecnológicos e midiáticos. Apesar das diversas leis implementadas, um desafio significativo que persiste é garantir o acesso de todas as crianças às creches e pré-escolas. Esse desafio é ainda maior quando se trata da estruturação de uma proposta curricular que respeite e atenda às particularidades e necessidades das crianças em diversos aspectos, como socioeconômico, cultural, faixa etária, étnico, de gênero e, principalmente, das crianças com necessidades especiais e/ou educacionais. Na educação infantil, as práticas educativas têm o objetivo de oferecer à criança uma educação que transcenda aquilo que ela vivencia em seu cotidiano compartilhado. Essas práticas são distintas dos cuidados realizados pela família, buscando objetivos educacionais específicos. No entanto, é comum encontrar divergências nas abordagens pedagógicas, algumas vezes seguindo propostas direcionadas pelos processos de aprendizagem, enquanto em outras ocasiões prevalecem práticas espontâneas que não consideram plenamente os saberes prévios da criança (BUCHWITZ, 2016). Segundo Buchwitz (2016), a instituição escolar que prima por uma educação que atenda às demandas de formação humana e cultural deve garantir às crianças de 0 a 5 anos um saber sistematizado, estabelecido através das relações pedagógicas edificadas pelos professores, que garantam o acesso a níveis culturais mais elevados. O planejamento do professor na educação infantil deve ser elaborado com práticas que valorizem o contexto cotidiano das crianças, ao mesmo tempo em que não negligenciem os conhecimentos universais. O lúdico deve ser considerado como um eixo central do planejamento, reconhecendo a importância do brincar no processo de aprendizagem. É fundamental proporcionar atividades que estejam relacionadas ao cotidiano das crianças, abordando práticashistoricamente construídas e promovendo o desenvolvimento intelectual em etapas progressivas de construção do conhecimento. Piaget (2003) concebe o desenvolvimento psicológico como fruto de um processo espontâneo e o conhecimento como resultado da ação coordenada que permite assimilar o real às estruturas de transformação. Para que as práticas educativas se concretizem, o professor deve ter um olhar atento, mas, ao mesmo tempo, indireto. A escola precisa estar organizada de forma a tornar o tempo, os espaços, os materiais e seus ambientes favoráveis, pois serão vivenciados pela criança durante a sua infância. Essas adequações darão segurança para criança empreender e conhecer novos contextos. Neste sentido, o professor deve priorizar as atividades de aprendizagem que privilegiem os aspectos ativos no seu processo de ensino. Segundo Buchwitz (2016), as atitudes e gestos do professor desempenham um papel fundamental no desenvolvimento da confiança da criança para realizar novas experimentações e explorar o mudo ao seu redor. Contudo, para fortalecer esses laços, entre professor e crianças, é necessário que o educador permaneça com o grupo por um período determinado. Esse aspecto também permite um treinamento mais consistente do professor, já que o contato prolongando com uma turma lhe permite compreender melhor o mundo da criança. Ainda nesse sentido, cabe salientar que a função do educador exige um comprometimento ético e uma abordagem pedagógica cuidadosamente planejada e refletida, não apenas para cumprir prazos e obrigações, mas também para se comprometer com decisões teóricas e intervenções práticas que possam ser efetivas no mundo da criança e seu desenvolvimento. Conforme apontado por Buchwitz (2016), o professor responsável pelo planejamento da ação educacional deve desenvolver uma narrativa junto aos seus alunos, compreender o ambiente em que estão inseridos e possuir habilidades em diversos instrumentos teóricos e pedagógicos. É muito relevante, nesse contexto, por exemplo, que que o docente elabore um plano de aula que contemple atividades que estimulem a observação, o registro e a documentação, a fim de embasar o trabalho a ser executado. Os registros e documentos elaborados pelos professores em relação ao trabalho desenvolvido em instituições escolares tornam-se construções históricas e estilos de aprender, pensar e agir em nossa sociedade. Como indica o DCNEI (2009), as estratégias de ensino, assim como as opções pedagógicas, devem ser propositais, planejadas e avaliadas de maneira constante, levando em conta o dia a dia, abrangendo vida da criança em suas capacidades físicas, emocionais, mentais, linguísticas, éticas, artísticas e sócio- culturais, tratando sua existência como aquela de um ser completo e indivisível, respeitando suas vivências pessoais, que, por sua vez, precisam ser integradas ao processo de aprendizagem. Entende-se, assim, que no âmbito das metodologias pedagógicas, a análise, a escuta, o registro, o resgate e o arquivamento devem integrar o esquema do docente e estar presente em sua prática. Mediante a observação dos pequenos e do uso de instrumentos corretos, ele aprimora sua visão acerca dos modos pelos quais os infantes assimilam conhecimentos e estrutura eventos para programar o dia a dia, visando oportunidades relevantes para o processo de aprendizagem e desenvolvimento infantil. Por meio da escuta, por exemplo, o professor é capaz de perceber aspirações mais subjetivas dos estudantes, como as sensações, os pensamentos, os desejos e os planos, bem como registros, lembranças, documentações e outras atividades que devem ser incorporadas às práticas educacionais. Ao registrar essas informações, os docentes podem refletir sobre suas ações e ajustar seu planejamento. O professor deve providenciar quanto ao pensar, propor e planejar, tanto as práticas educativas, como também as alternativas pedagógicas, com ações que se encontram introduzidas nos afazeres dos professores. Logo no início do ano letivo, o professor deve pensar sobre o trabalho que irá realizar com as crianças durante os encontros com seus pares, propor as ações de atividades e, depois, planejar o trabalho que irá desenvolver de acordo com o conhecimento do grupo e, também, rever o seu planejamento conforme as necessidades pessoais e pedagógicas dos educandos (BUCHWITZ, 2016). O professor precisa buscar, cada vez mais, aproximar o seu planejamento da realidade das crianças, sempre considerando seu desenvolvimento pedagógico de acordo com sua faixa etária e com seu desenvolvimento psicopedagógico. É importante que as crianças em contato com espaços fora de seu referencial familiar ampliem seu espaço cultural através de alternativas pedagógicas como a participação em passeios a lugares como parques, museus, cinemas, teatros, musicais e, principalmente, locais que favoreçam a leitura, como as bibliotecas. A decisão de colocar essas crianças em contato com novos contextos deve sempre ser pensada com base em suas preferências e singularidades e suas formas de fazer na escola e na comunidade. É deixar de enxergá-la como um receptor, mas como um produtor de sua própria história (BUCHWITZ, 2016). As práticas devem privilegiar a realização de projetos, os temas devem ser sempre sistematizados, e os conhecimentos devem ser construídos com as crianças de forma lúdica e prazerosa, considerando o seu processo de interação alicerçado na escuta, no diálogo e na negociação, com sua diversidade e seu pertencimento. Outro item que deve fazer parte do planejamento e das práticas pedagógicas do professor é o processo de acompanhamento e avaliação das atividades desenvolvidas pelas crianças: a avaliação não pode ter caráter classificatório. De acordo com a LDBEN, a avaliação das crianças da educação infantil não será́ classificatória nem poderá́ dar margem à exclusão, mas será́ efetivada através de acompanha- mento continuo das atividades desenvolvidas. A avaliação deve ter como parâmetro as observações e registros, e não centrar em aspectos individuais, mas em produções coletivas que façam o professor pensar sobre os processos de construção das aprendizagens das crianças e, também, sobre como repensar o seu planejamento e as ações realizadas pela escola, em colaboração com pais e comunidade (BUCHWITZ, 2016). A avaliação do processo de ensino e aprendizagem tem sido um grande desafio, sendo amplamente discutida nas unidades de ensino que atendem a educação infantil. Nos últimos anos, busca-se, constantemente, redefinir o papel da avaliação e sua função social. A LDBEN, quando se refere à educação infantil, no artigo 31, recomenda que: (...) a avaliação far-se-á mediante o acompanhamento e registro do seu desenvolvimento, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao ensino fundamental. Em relação a isso, o parecer do CNE/CEB n. 20/2009 reforça que: A avaliação, conforme estabelecido na Lei n. 9.394/96, deve ter a finalidade de acompanhar e repensar o trabalho realizado. (...) Todos os esforços devem convergir para a estruturação de condições que melhor contribuam para a aprendizagem e desenvolvimento da criança sem desligá-las de seus grupos de amizade. (BRASIL, 2009). Assim, o professor deve ter clareza que a avaliação faz parte do processo de aprendizagem, sendo essencial que se conheça cada criança. Assim, ele poderá́ construir e reconstruir caminhos para que todos alcancem os objetivos educacionais. Por isso, a avaliação não pode ser baseada em julgamentos, pois seria uma forma de classificar e “condenar” os educandos, não levando em conta os acontecimentos que acompanham todo o cotidiano educacional em questão. Ao avaliar, temos que ter clareza dos princípios de avaliação que devem partir de uma concepção de pedagogia histórico-crítica, visando a compreensão da realidade,dando prioridade à educação como instrumento de transformação e de formação para a cidadania. A própria essência da pedagogia histórico-crítica perpassa pela compreensão do compromisso de mudança da sociedade, e não da sua perpetuação. Aliás, esse é o sentido básico da expressão histórico- crítica. Assim, podemos compreender a escola tal como se configura no momento presente, mas precisamos lembrar que tudo o que se mostra agora é resultado de um longo processo de transformação histórica (SAVIANI, 2012 p. 93). A avaliação escolar dentro da pedagogia histórico crítica está ligada ao contexto social de cada indivíduo, demandando do educador uma atuação pedagógica analítica que torne o procedimento claro, dialético e estruturado, investigando e examinando as diferentes maneiras e ferramentas para mensurar a avaliação, observando as origens e as consequências ao longo de todo o processo de ensino-aprendizagem. Gasparin (2003) esclarece que a avaliação segue todo o processo didático pedagógico para a construção do conhecimento científico, desde o levantamento dos saberes prévios dos educandos até́ o momento da prática social final, em que os educandos desenvolvem uma nova maneira de compreender a realidade e se disporem dela. A prática de avaliação deve ser, nesse sentido, diagnóstica, independente e implicar uma tomada de decisão no âmbito pedagógico. Para tanto, após a fase de disposição dos instrumentos teóricos e práticos para a compreensão e solução, avaliam-se se os procedimentos empregados que realmente criaram uma nova postura mental nos educandos (catarse), para que se possa viabilizar a transformação da prática social. Com base nisso, ao se trabalhar com os Projetos Pedagógicos na educação infantil, o professor avaliará todos os passos, desde o levantamento de questões para elaborar a problemática, tendo um olhar crítico para as propostas desenvolvidas, até́ o momento da culminância do projeto (BUCHWITZ, 2016). Nessa expectativa, ao avaliar, deve-se visar o desenvolvimento integral e a construção da autonomia, a consciência crítica, a capacidade de ação e reação da criança, sendo um meio pelo qual o professor poderá́ considerar a prática pedagógica para estimar o que foi aprendido. A avaliação se estabelece em um conjunto de ações que permitem determinar critérios para esquematizar atividades e indicar situações que proporcionem aprendizagem. Assim, é função da equipe pedagógica acompanhar, orientar, regular e direcionar o processo educativo, pensando, inclusive, na passagem do educando da educação infantil para o ensino fundamental (BUCHWITZ, 2016). É indispensável que o registro das avaliações, feito pelo professor e deferido pelo coordenador e direção (se for o caso), o acompanhe em todo o seu processo educativo, não apenas ao longo do ano letivo, mas, também, ao mudar de turma ou de unidade de ensino. Deve-se atentar, sempre, às cinco formas de avaliação: Diagnostica: tem a função de diagnóstico, caracterizada pela realização de uma investigação do que as crianças sabem, quais dificuldades enfrentadas e porquê, sendo um instrumento para captação do processo de aprendizagem e grau de desenvolvimento do aluno. Exige reflexão constante, critica participativa, na qual o professor precisa situar um vínculo afetivo com a criança, aceitando-a em sua individualidade, identificando suas potencialidades e desafios a serem superados Contínua: orienta todas as ações, pois acontece no processo educativo, por meio do acompanhamento da aprendizagem, identificando as conquistas, de- safios, dificuldades e o desenvolvimento real da criança, oferecendo-lhe novas oportunidades de aprendizagem, por intermédio e interferência do professor, que deverá assumir o compromisso de elaborar novas estratégias pedagógicas que contribuam para o sucesso do educando; Formativa: aponta a formação integral, construção de valores e princípios de autonomia, colaborando na formação de um sujeito consciente, responsável e solidário. Nessa forma de avaliação, a grande apreensão seria formar melhor, ao invés de medir ou julgar. É de extrema importância que o professor, ao realizar seu planejamento, conjecture sobre seu grupo e suas crianças, considerando o desenvolvimento cognitivo e afetivo da faixa etária, além de considerar características culturais e individuais que as crianças socializam no espaço coletivo; Cumulativa: conjunto de avaliações realizadas no decorrer do trimestre, de forma continua e progressiva, com variáveis ferramentas e procedimentos, em contínuos momentos de aprendizagem e de recuperação da aprendizagem, retomando constantemente as habilidades essenciais no desenvolvimento da criança de acordo com a faixa etária, ampliando a capacidade de pensamento, linguagem e análise da realidade; Diversificada: parte da análise dos vários instrumentos usados para avaliar as diferentes situações de aprendizagem. Avalia também o desenvolvimento do educando nas dimensões cognitiva, afetiva, psicomotora e organizacional. Observações e registros realizados por escrito e também por meio de gravações de vídeo, áudio e fotografias servirão como instrumento de apoio e avaliação da prática educativa. Assim, o professor pode contextualizar os processos de aprendizagem, os intercâmbios com outras crianças, funcionários, espaço escolar e o processo de desenvolvimento do próprio educando. Finalmente, o conhecimento na educação infantil deve priorizar, de forma lógica, a problematização e reelaboração constante, sob uma perspectiva vygotskyana, na qual a aprendizagem estabelece suporte para todo o desenvolvimento que, por sua vez, situa suporte para novas aprendizagens. Deve ser formalizada por meio de um parecer descritivo, o qual traz conhecimentos individuais de cada criança sobre o seu desenvolvimento e sua aprendizagem. Os estudos de Lev Vygotsky têm uma grande relevância na área da educação, uma vez que se concentram no desenvolvimento humano, abrangendo desde a infância até a evolução subsequente. Suas pesquisas exploram como o desenvolvimento ocorre em interação com o ambiente e como ele é transformado ao longo desse processo. De acordo com Vygotsky, o desenvolvimento do indivíduo ocorre por meio das interações constantes com o meio social em que está inserido, uma vez que as formas psicológicas mais complexas emergem da vida em sociedade (REGO, 1995). Com base nisso, compreendemos que a interação desempenha um papel fundamental na formação do comportamento, pois é por meio dela que o indivíduo estabelece relações que lhe permitem conviver com os outros e aprender com eles. 5.1 Pedagogia de projetos na educação infantil A atual conjuntura econômica, política e social vem determinando alterações educacionais que levam a criança a entender o conhecimento de uma maneira crítica, consciente e reflexiva, a ter a capacidade de reconhecer-se e relacionar-se com os outros (BUCHWITZ, 2016). À instituição de ensino de educação infantil compete a função de ser intermediária desta função. Tendo em vista que convivemos com uma geração que descobre, a cada instante, conhecimentos e transformações numa velocidade espantosa, sendo as nossas crianças parte integrante e principal deste novo paradigma de sociedade. Nessa expectativa, é essencial que, desde a educação infantil, busquem- se táticas que colaborem para a formação de um cidadão autônomo, comprometido, crítico e participativo, e isso se tornará possível por meio da Pedagogia de Projetos, pela qual as crianças aprendem o processo de produção, levantamento de dúvidas, pesquisas, criação de relações, que incentivarão novas buscas, descobertas, captações e reconstruções de conhecimento (BUCHWITZ, 2016). Portanto, o papel do educador deixa de ser apenas o de quem ensina para criar situações de aprendizagem, com incidência direta sobre as relaçõesque se constituem no processo. A Pedagogia de Projetos é um processo criativo e envolvente, que busca valorizar a curiosidade, exploração, encantamento, questionamento e a espontaneidade infantil. Tudo se torna imaginável por meio das relações interpessoais que acontecem. São incontáveis as trocas de experiências entre educandos, educadores e demais profissionais envolvidos no projeto (BUCHWITZ, 2016). É uma sugestão que apresenta uma postura inovadora em relação ao raciocínio e à construção do saber na fase inicial da educação, contribuindo para o aprendizado e crescimento do aluno de maneira significativa, estabelecendo bases de independência e incentivando as diferentes aptidões previamente existentes, sem permitir a separação dos aspectos intelectuais, afetivos, físicos e sociais, imprescindíveis no desenvolvimento infantil. Através dessa pedagogia, é possível estabelecer uma aprendizagem abrangente, constituindo afinidades com vastas redes de conhecimento, cujo aprendizado está relacionado com os quatro pilares da educação citados pela UNESCO, ou seja, aprender a ser, a conhecer, a fazer e a conviver. Aprender a ser: desenvolve a personalidade atuando com maior capacidade de autonomia, discernimento e responsabilidade pessoal, pelos potenciais relacionados à comunicação, capacidade física, memória, raciocínio, senso estético, tendo intensa relação com as atitudes. Aprender a conhecer: relacionado com os conceitos, fatos da cultura geral e a possibilidade de trabalhar com profundidade um determinado tema para resolução de certo problema, relacionando-se com diferentes áreas do conhecimento. Aprender a fazer: relacionado com os teores procedimentais, com intuito de ampliar certas capacidades e habilidades que fazem com que a criança vivencie situações de aprendizagem tanto individual, como coletivamente. Aprender a conviver: relacionado com a solidariedade, compreensão e percepção das necessidades do outro, com bom convívio com as demais pessoas, beneficiando, por ações rotineiras, que todos defendam ideias próprias, optem por suas ações com autonomia e responsabilidade, tornem-se curiosos e, sobre- tudo, deem valor às várias maneiras que os outros têm de aprender. Em 1999, a UNESCO solicitou ao filósofo Edgar Morin a sistematização de um conjunto de reflexões que servissem como ponto de partida para se repensar a educação do século XXI. Os sete saberes indispensáveis necessários para a educação do futuro, pronunciados por Morin (2007), são: As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão; trata-se, nesse caso, de reconhecer as limitações do conhecimento humano, compreender que estamos sujeitos a erros e ilusões, e desenvolver uma postura crítica em relação ao conhecimento. Os princípios do conhecimento pertinente; Segundo Morin (2007), o objetivo dos princípios do conhecimento pertinente é promover uma educação que leve em conta a complexidade do mundo, sendo interdisciplinar, contextualizada e valorizando a relevância do conhecimento para a compreensão da realidade. Ensinar a condição humana; trata-se, quando o filósofo e educador francês fala de condição, do ensinamento do nosso ser no mundo, considerando dimensões biológicas, psicológicas, sociais e culturais. Isso inclui promover a consciência de si mesmo, o autodomínio, a empatia e o respeito mútuo. Ensinar a identidade terrena; trata-se de promover a compreensão de que somos cidadãos do planeta Terra, enfatizando a necessidade de cuidar do meio ambiente, da sustentabilidade e da interdependência global. Enfrentar as incertezas; trata-se de reconhecer e lidar com a incerteza e a complexidade do mundo, desenvolvendo habilidades de pensamento crítico, resolução de problemas, tomada de decisões e adaptação a novas situações. Ensinar a compreensão; no âmbito das reflexões de Morin (2007), ensinar e transmitir a compreensão mútua, a interculturalidade e a capacidade de diálogo entre diferentes perspectivas, superando preconceitos e estereótipos, e cultivando uma visão mais abrangente e inclusiva do mundo. A ética do gênero humano. Desenvolver uma consciência ética que vá além dos interesses individuais e nacionais, e que leve em consideração o bem-estar coletivo e a busca por uma sociedade mais justa, equitativa e sustentável. Se considerarmos esses princípios, a metodologia de projetos no campo pedagógico pode oferecer a oportunidade de ampliar o entendimento das crianças acerca do mundo físico e social, do tempo e da natureza. Além disso, proporciona a adaptação de situações que estimulam a responsabilidade, a convivência, a conservação e a compreensão da biodiversidade e da sustentabilidade do planeta, assim como a valorização dos recursos naturais (BUCHWITZ, 2016). 6 PLANEJAMENTO NA EDUCAÇÃO INFANTIL Segundo Machado (2010), inerente ao discurso que propõe o zelo e a instrução como indissociáveis, está a reflexão acerca da definição das prioridades e das concepções direcionadas às diversas facetas que compõem o desenvolvimento infantil, bem como as oportunidades de conexão entre elas e o ato de compreender. Sob essa ótica, a prerrogativa da interação social, desde a mais tenra idade, é encarada como a possibilidade de estabelecimento da educação infantil como ambiente em que, acima de qualquer fala, as crianças são visualizadas como indivíduos sociais, construtores de história e portadores de uma cultura singular, que, de maneira geral, refletirá o contexto em que vivem e as estímulos que recebem, mas que, sem exceção, ocorre devido à sua forma particular de perceber o mundo. Conforme Sarmento: As culturas da infância exprimem a cultura societal em que se inserem, mas fazem-no de modo distinto das culturas adultas, ao mesmo tempo em que vinculam formas especificamente infantis de inteligibilidade, representação e simbolização do mundo. (SARMENTO, 2004, p. 21). As experiências oferecidas na educação infantil devem ter como objetivo alcançar e expandir as diferentes formas de compreensão, representação e simbolização do mundo, conforme destacado por Sarmento (2004). Segundo essa pesquisadora, esse objetivo pode ser alcançado quando os professores planejam vivências para as crianças ao longo de sua jornada nas instituições educacionais. Essas vivências planejadas de forma consciente abrangem todas as situações do dia a dia vivenciadas nas instituições, buscando assim superar a dicotomia entre cuidado e educação. Lefebvre (citado por Barbosa, 2006) identifica o cotidiano como um amplo contexto repleto de possibilidades de aprendizado: Em contraposição à rotina, o cotidiano é muito mais abrangente e refere-se a um espaço-tempo fundamental para a vida humana, pois tanto é nele que acontecem as atividades repetitivas, rotineiras, triviais, como também ele é o lócus onde há a possibilidade, onde há margem para a inovação, onde se pode alcançar o extraordinário do ordinário (LEFEBVRE apud BARBOSA, 2006, p. 37, grifo da autora). Nessa perspectiva, e segundo o que sustenta Corrêa (2008), cabe aos educadores ponderar acerca das tarefas oferecidas e apreciar de modo equânime todas as circunstâncias diárias experimentadas pelos pequenos, como chances para o progresso completo deles. É no planejamento que esse propósito é pensado e delineado para, então, ser efetivado. De acordo com Angotti (2010), a prioridade ao se discutir a estruturação do trabalho docente é o planejamento. Segundo a autora, é por meio do planejamento que o professor realiza a ordenação sistemática de suas ideias, de suas convicções e de suas bases teóricas, ao projetar completamente suas ações (que estão sempre em movimento), em sintonia com o projeto pedagógico. O termo "planejamento" evoca a noção de ordem, organização e empreendimento, enquanto "planejamento educacional" se refere à intencionalidade sistemática no ato de ensinare à implementação de estratégias para atingir objetivos educacionais junto a um grupo de alunos. É esperado que, especialmente após a inclusão da educação infantil como a primeira etapa da jornada educacional, os professores utilizem suas competências para planejar suas práticas educacionais de forma a melhor atender às necessidades das crianças. O planejamento é uma ferramenta essencial para situar as intenções do professor em relação aos seus alunos. Planejar na educação infantil tem a mesma importância que planejar em qualquer outra fase educacional: o planejamento possibilita tornar consciente a intenção que guia a intervenção, antecipar as circunstâncias mais adequadas para alcançar os objetivos propostos e estabelecer critérios para gerenciar todo o processo. Conforme afirmado por Del Carmen (1993), se reconhecermos que os objetivos da educação - promover o desenvolvimento integral do aluno - são alcançados por meio do trabalho com os conteúdos do currículo, é inegável que a análise e a tomada de decisões sobre o planejamento são essenciais para garantir a coerência entre o que se espera e o que ocorre na sala de aula. De acordo com Oliveira-Formosinho, Kishimoto e Pinazza (2007), a pedagogia é um campo ambíguo baseado em uma prática que combina conhecimentos teóricos, crenças e valores culturais e experiências adquiridas na prática educativa. As autoras afirmam que a tradição pedagógica permite identificar claramente dois métodos de ensino: o transmissivo que são relacionados aos modelos tradicionais - e o participativo, exemplificado por propostas de temas geradores e projetos. De acordo com Gesser (2011), a prática pedagógica é uma práxis e não pode ser confundida com um método ou técnica. É necessário que o professor se torne um sujeito reflexivo para que sua prática não se torne uma simples aplicação de técnica pedagógicas de planejamento, que são tão ineficazes quanto os métodos transmissivos de ensino. Segundo a autora, a prática pedagógica é uma ação intencional que envolve um conjunto de técnica e recursos para promover o desenvolvimento no processo de ensino e aprendizagem. Essa prática é constituída pela intenção do professor e deve ser guiada por uma ética que o incentive a refletir constantemente sobre suas ações. O planejamento, nesse sentido, é uma ferramenta importante para a reflexão constante do docente. 6.1 Que utilidade tem planejar na educação infantil? É importante salientar o papel do planejamento na adaptação das atividades educacionais às necessidades individuais dos alunos. O respeito à diversidade é um dos princípios fundamentais da Lei Geral de Ordenação do Sistema de Educativo na Espanha (LOGSE). Além disso, diversas teorias afirmam que uma educação de qualidade é aquela que se adapta às necessidades dos alunos. Para garantir uma ação adaptativa eficiente, é necessário seguir diretrizes claras e evitar improvisações ou acasos. Somente quando temos uma compreensão clara do que queremos que nossos alunos alcancem, podemos oferecer uma proposta educacional adequada a cada um deles. Nesse sentido, alguns autores discutem a qualidade do ensino. (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Está claro, então, que planejar é necessário nessa atividade intencional e em qualquer outra. Também é preciso que fique claro que o planejamento de que estamos falando, supõe, essencialmente, reflexão sobre o que se pretende, sobre como se faz e como se avalia; uma reflexão que permita fundamentar as decisões que são tomadas e que sejam observadas pela coerência e pela continuidade. Tal como entendemos, o planejamento é uma ferramenta na mão do professorado que lhe permite dispor de uma previsão sobre o que acontecerá durante a aula; uma ferramenta flexível que permite fazer variações e incorporações, bem como deixar de lado o que a situação, no momento da prática, não aconselhar que seja feito. Entretanto, em meio aos entraves existentes ao alcance do ideal almejado em termos da oferta do atendimento de qualidade às crianças, observam-se, por intermédio das práticas e dos discursos informais, hábitos que vão se afirmando ao longo do tempo e impelindo ao planejamento na educação infantil um caráter utópico, idealizável, porém inatingível. Notoriamente, os professores sentem-se descrentes, impossibilitados, descomprometidos, sem conhecimento suficiente, diante da missão de elencar, transcrever e colocar em prática as suas ações cotidianas (FUSARI 1998; VASCONCELLOS, 2010). Diante disso, a elaboração de um roteiro que seja capaz de contemplar, simultaneamente, os cuidados a serem providos na instituição e as vivências que ofereçam condições mínimas para o desenvolvimento integral das crianças, torna-se para os professores, como aponta Ostetto (2010), um desafio que gera angústia e muitas dúvidas Frequentemente, o planejamento é compreendido como um procedimento rotineiro, uma questão eminentemente técnica que deve ser desenvolvida e, uma vez concluída, deve ser seguida passo a passo, como uma receita culinária, sem a possibilidade de ser modificada. Em outras perspectivas, o planejamento é visto como um documento que é criado e arquivado, disponível para ser solicitado por alguém. Nesse caso, é atribuída uma conotação excessivamente burocrática, que também não corresponde adequadamente ao seu papel no aprimoramento do ensino e da aprendizagem. (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Entendemos o planejamento como uma ajuda ao pensamento estratégico do professor, sendo um recurso inteligente por meio do qual ele pode elaborar suas aulas, não fechando nenhum caminho de acesso; ao contrário, o planejamento somente pode concretizar-se na aula, e lá será necessário tomar um conjunto de decisões que, às vezes, afetam pouco o que se havia previsto e, em outras, exigem modificações substanciais. Del Carmen (1993, p. 46) resume, de uma maneira breve, os benefícios trazidos pelo planejamento: Permite tomar decisões refletidas e fundamentadas. Ajuda esclarecer o sentido que queremos potencializar dentro do que ensinamos e do que aprendemos. Permite levar em consideração as capacidades e os conhecimentos prévios do alunado e adaptar a isso a programação das atividades. Esclarece as atividades de ensino que queremos realizar. Permite prever as possíveis dificuldades de cada criança e orientá-la com a ajuda necessária. Prepara e prevê os recursos necessários. Conduz a organizar o tempo e o espaço. Ajuda a concretizar o tipo de observação que é necessário para avaliar e prever os momentos de fazê-lo. Em outras palavras, planejar é fundamental para ordenar e organizar metas e práticas capazes de contribuir para um efetivo ensino de qualidade. E, se isso se aplica a todas as etapas educativas, poderíamos dizer que mais ainda na educação infantil, pelas razões que já apresentamos. Indicamos, também, que as características do alunado, juntamente com os conteúdos que configuram essa etapa, exigem da professora um dinamismo, uma capacidade de observação e de parâmetros gerais em que há de mover a aula no seu conjunto, o que lhe facilitará para responder, adequadamente, ao que requer quando se planeja educar pessoas curiosas e incansáveis, como os meninos e as meninas dessa etapa (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). 6.2 Quem planeja, o que e quando planejar? Dentro da escola infantil, o planejamento tem diferentes protagonistas, diferentes objetos e diferentes momentos. Existe todo um conjunto de decisões relativas à educação da criança, que correspondem à comunidade educativa, incluindo as mães e os pais; essas decisões devem ser apresentadas no Projeto Educativo do Centro (PEC). Estamos comentando esse fato porque o PEC inclui, entre outros aspectos importantes, os princípios gerais sobre o alunado, os quais formarão, necessariamente, a orientação da prática da escola. Osprincípios apresentados e detalhados no Projeto Curricular do Centro desempenham um papel fundamental no planejamento das ações educativas. Como é conhecido, a elaboração do PCC é realizada pela equipe de professores e envolve acordos sobre os aspectos centrais do ensino: o que se pretende ensinar e por quê, como consideramos necessário fazê-lo, em quais momentos e como podemos ter certeza de que todo o sistema está funcionando adequadamente, e quando e como ajustar o conjunto como um todo. (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). A lógica subjacente ao PCC baseia-se em que a ação educativa de cada professor, tomada individualmente, não garante a coerência, nem a continuidade e nem a sujeição a determinados critérios compartilhados que caracterizam um ensino de qualidade. Por exemplo, a acolhida aos familiares e às crianças não pode ser decidida pela professora individualmente; as normativas em relação às refeições, no segundo ciclo, ou aos “cantinhos” propostos aos diversos níveis do primeiro ciclo, afetam o conjunto de profissionais que trabalham no centro, os tipos de materiais que são utilizados, as características das entrevistas, etc. Todos esses exemplos simples destacam a necessidade de as equipes de professores fazerem determinados acordos que fundamentem e dotem de coerência seu trabalho cotidiano. O PCC constitui um nível de planejamento correspondente ao conjunto dos professores; no caso da educação infantil, pode ser de todas as professoras da etapa – supondo que se fale de uma escola infantil de 0 a 6 anos ou de um ciclo – de 0 a 3 anos ou de 3 a 6 anos. Caberá observar se o PC da educação infantil seja coerente como o PC da escola primária, quando juntos funcionarem no mesmo centro de educação. Com relação ao que se planeja, por exemplo, quanto ao currículo, às características da escola e de seus usuários, já constando no PEC, o PC conduz a tomar decisões (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). O PCC desempenha um papel como referência no planejamento de cada ciclo e/ou curso, levando em consideração os acordos estabelecidos pela equipe de professores e estabelecendo parâmetros para o terceiro nível de concretização. No entanto, ele não é estático. De fato, a elaboração e a implementação, das programações em nível prático servem como um verdadeiro campo de testes para as decisões estabelecidas no PCC, podendo ser uma fonte de regulações e modificações possíveis e desejáveis. O caminho que percorre desde o Projeto Curricular até a programação da aula requer uma constante ida e volta, na qual sempre é possível colher frutos que enriqueçam e aprimorem ambos os aspectos. No que diz respeito à programação da aula, geralmente considera-se que é responsabilidade da professora ou do professor que a implementa. Em centros maiores, com turmas de classes paralelas, é comum sentir que essa responsabilidade é compartilhada por todos que compartilham o mesmo nível. Isso não significa que, ao planejar, não seja possível compartilhar com outros professores. Pelo contrário, um planejamento mais colaborativo e contrastado provavelmente será mais rico e bem ajustado. Ao mesmo tempo, a prática de planejar em conjunto e elaborar um plano para o ciclo, por exemplo, é uma excelente ferramenta para avaliar e aprofundar as decisões tomadas no Projeto Curricular. Da mesma forma, cada turma de alunos apresenta peculiaridades que exigem decisões também peculiares e que talvez não possam ser divididas entre vários professores. Começar com um projeto comum, com o acordo de todos, proporciona segurança e confiança, mas não substitui a capacidade de planejamento, diagnóstico e resolução de cada professor em relação aos alunos sob sua responsabilidade. (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Quando os professores e as professoras querem elaborar uma programação de aula ou de ano letivo, normalmente partem de sua experiência, daquilo que têm feito e do que têm visto ou percebem que os outros fazem; às vezes, dispõem de um planejamento escrito e, em outras, baseiam-se nas previsões que fazem nos guias didáticos dos materiais curriculares. Também não é habitual encontrar a programação do curso completamente “pronta”, quando o educador assume a classe: em geral, a partir do conhecimento das crianças pequenas que constituirão o grupo, da experiência e do que está disposto no Projeto Curricular, elabora-se um marco global com as previsões mais gerais para o curso. Estas previsões podem transformar-se em planos de trabalho a cada três meses, considerando as pausas para férias, feriados e a evolução do grupo ao longo do tempo; essa escolha é ainda respaldada pelo fato de que muitos materiais didáticos são organizados por trimestre. Algumas instituições também adotam planos de trabalho mensais, que permitem decisões mais próximas do cotidiano; em alguns casos, o período de referência pode ser quinzenal ou semanal, com programação diária das atividades escolares (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Ainda que cada docente ou equipe trabalhe de acordo com o que melhor se adequa e executa suas funções, é importante lembrar que cada escolha possui benefícios e desvantagens. Por exemplo, uma excessiva focalização na atividade diária pontual ou no que será feito ao longo da semana pode levar os educadores a se concentrarem apenas no que foi programado - como atividades, passeios, etc. - sem considerar o porquê de fazê-lo. Por outro lado, quando a programação é muito genérica, pode acontecer de não se pensar o suficiente sobre as atividades cotidianas e os resultados dependerem exclusivamente do uso adequado de materiais escolares. Além disso, os princípios gerais de uma programação para um curso inteiro ou trimestre podem perder o seu objetivo se não forem concretizados ou aprovados com a turma de alunos (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Buscar evitar as desvantagens e aproveitar os benefícios leva, muito provavelmente, à incorporação da programação nas diferentes dimensões temporais em que ela pode ser realizada. Isso garante a reflexão sobre as metas que pretendemos alcançar a longo prazo, em um plano global de ação, bem como a disposição das soluções que nos ajudarão a alcançá-las por meio do trabalho diário. Essa abordagem é a solução que encontramos ao propor as várias unidades de programação que devem ser consideradas na educação infantil. 6.3 Que unidades de programação são necessárias na educação infantil? Tipos e variáveis que contemplam A etapa da educação infantil abrange um conjunto de peculiaridades decorrentes das características tão distintas de seu alunado. Durante os primeiros meses até os seis anos de idade, ocorrem mudanças espetaculares nas crianças. Podemos afirmar que, nessa fase, as crianças passam de uma dependência total dos educadores para serem capazes de satisfazer suas necessidades vitais (como afeto, estímulo, alimentação, higiene, etc.) e se tornarem progressivamente autônomas na resolução dessas necessidades. De acordo com Bassedas; Huguet e Solé (2007), no decorrer da etapa, além disso, a curiosidade das crianças, a sua própria necessidade de conhecer o mundo que as envolve e aquilo que configura leva-as a desprender uma intensa e variada atividade que, muitas vezes, põe à prova a capacidade das pessoas adultas de lhes darem respostas, de abrir novos caminhos suscetíveis de satisfazer seus desejos de indagações e de exploração. Estas transformações significativas - que possivelmente não ocorrem em níveis educacionais similares - exigem que adaptemos as nossas propostas e os próprios fundamentos da escola em diferentes momentos pelos quais as crianças passam. Isso se reflete na impossibilidade de conceber um único padrão em torno do qual possamos organizar as unidades de programação, algo que pode ser feito com certa flexibilidade em outras fases. Em termos gerais, as professoras da educação infantilterão que fazer sua programação em relação aos seguintes âmbitos: Âmbito de programação: – Hábitos e rotinas da vida cotidiana e de cuidados da criança. – Unidades temáticas, centros de interesse, projetos e problemas. – Cantinhos ou oficinas. – Saídas, festas da sala, outros projetos. – Atividades de recreio, de acolhida e de reencontro do grupo. – Atividades mais especializadas (música, expressão corporal, etc.). Essa classificação é muito semelhante à proposta de Zabala (1993): unidades temáticas, projetos ou problemas; cantinhos ou oficinas; rotinas (que inclui acolhida, recreio, satisfação das necessidades básicas e outras). Interessa ressaltar que essas unidades não têm a mesma natureza, nem as mesmas características, o que deve ser considerado também na hora de planejá-las. Assim, enquanto um centro de interesse pode ser proposto como uma unidade de programação durante uma quinzena, no final da qual se propõe uma nova temática, a atividade de almoçar tem presença diária e pode ser uma programação mais ampla e leve (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). As celebrações, conforme abordamos, podem integrar um projeto, constituir um projeto específico ou serem vistas como uma atividade concreta; em cada caso, a agenda é distinta: mais ou menos detalhada, com objetivos explícitos ou implícitos em outros mais amplos e com um período de tempo definido ou mais extenso. A diversidade também se aplica aos espaços e às oficinas: é necessário estabelecer uma programação geral – que ultrapasse a programação da aula – e uma programação mais específica – que determine quem irá operá-los, por quanto tempo, com quais materiais e que tipo de intervenção será realizada, entre outros aspectos. Concluindo, a programação da educação infantil tem uma ampla gama de matizes, tanto por aquilo que se pode programar, de natureza muito variada, como pelo que afeta o período de tempo que abarca as diferentes unidades. Há todo um conjunto de fatores que incidem nesta diversidade, entre os quais convém destacar os seguintes: O fato que, no decorrer da etapa, as situações de vida cotidiana e familiar e as mais escolares convivem de maneira muito semelhante. Os pensamentos psicopedagógicos das professoras, a importância que atribuímos às diversas situações e às atividades, e o grau em que valorizamos a própria intervenção nesses cursos, como elemento de progresso da criança. A seguir, iremos nos concentrar nas práticas ou tarefas de atenção das crianças, como elementos de programação preferenciais – mas não únicos – no início do ciclo; nesta seção, também apresentamos as práticas de recepção e de reintegração, em particular aquelas que se distinguem das mencionadas anteriormente. 6.4 A programação: as atividades de cuidado das crianças e as atividades de acolhida e de reencontro No decorrer da educação infantil, mas especialmente no primeiro ciclo, a programação está condicionada de tal maneira às necessidades das crianças, que é a partir delas que se derivam os eixos para a sua organização. Nesse período, as atividades relacionadas ao cuidado das crianças pequenas – o afeto, a higiene, a alimentação, o descanso – determinam o tempo e as atividades da sala. Além de precisarem estar limpas, descansar quando necessário e comer em horários determinados, as crianças pequenas também precisam ser amadas, acolhidas, brincar com elas, receber afeto e ter conversas com elas. A qualidade da interação diácida estabelecida entre o bebê e sua educadora é o motor do seu desenvolvimento, o que confere uma nova dimensão às atividades consideradas “rotineiras” ou “rotinas de cuidado”. Do nosso ponto de vista, o único aspecto rotineiro nessas atividades é o fato de serem repetitivas ao longo do dia e de um dia para o outro. No entanto, os pequenos aprendem a organizar seu ritmo de acordo com o ritmo do grupo, facilitando a atenção de todos e de cada um. Nesse sentido, até mesmo as rotinas de cuidado repetitivas assumem um caráter educativo. Além disso, nada mais é rotineiro quando se trata de trocar fraldas de uma menina ou alimentar um menino: o jogo de observações, olhares, carinhos e palavras que ocorrem nesses momentos é sempre único, criado a cada vez entre o bebê e a professora. Vai muito além da higiene ou da alimentação, tornando-se um contexto de diálogo e desenvolvimento no sentido mais amplo do termo (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Quando se trata das necessidades individuais do bebê, como afeto, acolhimento e interação interpessoal, apresentamos um conjunto de atividades que compartilham sua natureza repetitiva com os cuidados físicos (alimentação, higiene, descanso e tempo livre). Ao abordar essas necessidades, concentramos nossa atenção principalmente nos conteúdos da área de “identidade e autonomia pessoal”. Referimo-nos aos momentos de entrada e acolhida, ao reencontro do grupo que ocorre durante a roda. Esses momentos são de extrema importância, pois o foco está na relação individual com o bebê e na relação dele com os outros. É essencial dedicar atenção cuidadosa e aproveitar ao máximo esses momentos, pois contribuem para o equilíbrio pessoal da criança e suas habilidades de interação interpessoal. Eles não são apenas uma formalidade ou um hábito; são atividades educativas que promovem o bem-estar do bebê. Prosseguindo, no primeiro ciclo, é importante refletir sobre o fato de que à medida que a criança se desenvolve e adquire maior controle sobre o seu corpo - quando consegue sentar-se e levar comida à boca, quando começa a caminhar - as atividades relacionadas ao cuidado (físico e afetivo) tornam-se cruciais no processo de buscar autonomia. Pode parecer exagerado, mas em nossa opinião, não há nada que impeça considerar tais atividades como grandes unidades didáticas que são retomadas diariamente, tendo como objetivo - muitas vezes implícito - fazer a criança progredir em sua autonomia e na formação de uma autoimagem positiva (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Se observarmos com atenção, perceberemos que por meio dessas atividades, a criança pode explorar os objetos ao seu redor, conhecer os outros e se conhecer. Ela pode utilizar seu sistema de comunicação, afirmar-se, colaborar, recusar e tomar iniciativas. Nessas situações, que são bastante procedimentais - como comer usando uma colher, lavar as mãos com água e sabão, sentar-se na roda e ouvir a professora - também se aprendem conceitos associados e se desenvolvem certas atitudes. As crianças incorporam, assim, com a ajuda dos outros e por meio da própria atividade, conhecimentos e padrões culturais que as auxiliam a crescer e se tornar pessoas únicas dentro do seu grupo social. Além disso, as atividades às quais nos referimos, ao exigirem a presença e a ajuda da educadora, permitem que ela acompanhe e auxilie na progressiva atribuição de responsabilidade à criança. Para Bassedas; Huguet; Solé (2007) é importante, portanto, parar, refletir e programar essas tarefas, não no sentido de suprimi-las, mas para tomar consciência dos objetivos que permitem alcançar, a partir dos conteúdos que se pode trabalhar através delas, quando requerem a atuação da professora e da criança, bem como dos critérios que adotamos para valorizar o seu desenvolvimento e o progresso das crianças. É verdade que os elementos clássicos da programação, como objetivos, conteúdos, atividades e proposta de avaliação, podem assumir uma dimensão diferente nesse caso. O tempo dedicado a essas atividades também pode ser distinto do tempo utilizado em uma programação mais “convencional”. Atividades como o almoço, o descanso, a higiene e aquelas relacionadas à acolhida e ao reencontro do grupo exigem um período mais longo - um trimestre ou até mesmo todo o curso - para que se possa observar um progresso substancial. No entanto, o fato deserem diferentes não significa que não precisam ser planejadas. O planejamento dessas atividades, com uma intencionalidade educativa, permitirá estabelecer os critérios necessários para avaliar o processo, além da observação diária. Essa avaliação ocorrerá em momentos determinados, e a partir dela, medidas adequadas e modificações devem ser adotadas para atender às necessidades das crianças (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). 7 AVALIAÇÃO E REGISTRO NA EDUCAÇÃO INFANTIL Nessa etapa, como nas outras, não se pode planejar a avaliação, as estratégias e as situações utilizadas, sem considerar o ensino, as situações ou as atividades que vamos propor em aula. A avaliação que se faz das crianças, nessa idade, pode ter algumas consequências e influências decisivas no seu processo de aprendizagem e de crescimento (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). A avaliação pode estar incorporada a todo o processo educacional e ser vista como principal fonte de dados e orientação para a (re) concepção de práticas pedagógicas que busquem a formação completa do estudante. É de extrema importância para que o professor tenha uma visão abrangente da criança levando em conta suas habilidades. Esse instrumento pode avaliar se os objetivos foram alcançados, se houve evolução no aprendizado, quais os aspectos positivos ou negativos que o professor deve explorar, de modo que isso também contribua para aprimorar um (re) planejamento reflexivo da ação educacional. Na fase educativa da primeira infância, é imprescindível que os profissionais responsáveis pela avaliação estejam atentos para evitar práticas avaliativas inadequadas, tais como testes baseados em notas e/ou conceitos estereotipados, fichas avaliativas e outros instrumentos que visam classificar a criança como “capaz ou incapaz” em vez de revelar a sua trajetória de desenvolvimento e aprendizado. É fundamental evitar esses modelos classificatórios, que nem sempre contribuem para o desenvolvimento adequado da criança. É crucial que as atividades propostas estimulem a reflexão, a busca por informações, o trabalho individual e em grupo, bem como a interação com o ambiente e as experiências de aprendizagem. Nessa perspectiva, a verificação do aprendizado pode ser empregada como apoio para o progresso de todas as crianças, inclusive aquelas com limitações, visto que, assim como qualquer outra criança, elas também têm o direito de desenvolver suas habilidades, garantido pela lei nacional que adotou a concepção de que o sistema educacional deve se focar nos alunos, sem levar em conta suas particularidades e exigências. (BRASIL, 1996). A avaliação educacional permite conhecer melhor esses aprendizes, identificando suas necessidades educacionais especiais, considerando suas capacidades e limitações, suas motivações, conhecimentos, hábitos, facilidades ou dificuldades em determinadas áreas do saber ou do fazer. A análise do processo de aprendizado pode ter um papel importante ao estimular a criança a se desenvolver e a aprender. Assim sendo, em vez de enfatizar as deficiências da criança, a avaliação busca atender às suas necessidades, a fim de torná-la uma ferramenta promotora da aprendizagem, com uma abordagem inclusiva, em vez de ser vista como uma ameaça ou algo que exclui. A prática de avaliação não é uniforme, visto que cada criança requer uma avaliação personalizada, baseada em suas habilidades, progressos e desafios. Esse recurso educacional pode fornecer informações sobre o desenvolvimento atual da criança, sua abordagem em relação a diferentes situações de aprendizado, identificar suas capacidades, ainda que com a ajuda de terceiros, além de permitir a criação de estratégias de ensino que sejam específicas e adequadas para cada criança individualmente. Dessa forma, a análise do progresso e aprendizado infantil pode ser um recurso capaz de embasar a prática educativa, reafirmando a chance de certos alunos que, independentemente de suas circunstâncias, merecem as mesmas possibilidades. Compreendemos que cada criança é única em sua medida, consequentemente, ao avaliar, não devemos realizar contrastes, mas sim destacar os avanços pessoais. Nesta situação, o professor precisa aprimorar sua prática com uma abordagem adequada à Educação Infantil, abandonando práticas compensatórias e assistencialistas. Por isso, a avaliação restrita apenas à classificação da criança e sem avaliar a ação do professor perde significado, permitindo que sejam adotadas práticas avaliativas que levem em conta os processos de aprendizagem das crianças e não apenas os resultados obtidos em momentos específicos, como o "dia da avaliação”. A avaliação do aluno na primeira etapa da educação básica requer que o professor realize uma observação reflexiva e cuidadosa. É um processo contínuo e dinâmico que envolve a interação entre aluno e professor, além da compreensão do desenvolvimento infantil como um todo. E conforme enfatizado por Hoffmann (1996, p. 11): Conceber o avaliar implica conceber a criança que se avalia, pois esta não é uma prática neutra ou descontextualizada como procura se caracterizar a avaliação no ensino regular, onde os professores determinam sentenças sobre os alunos sem perceber o seu inalienável compromisso com os julgamentos proferidos. Nessa ótica, surge a avaliação contínua, a qual é extremamente importante para o processo de ensino e aprendizagem em todas as fases da educação básica, incluindo a educação infantil. Avaliar de forma contínua não significa apenas avaliar em momentos específicos, mas é uma prática que deve ser realizada diariamente no ambiente escolar, durante as atividades propostas pelo docente. Dessa forma, o educador pode acompanhar o desenvolvimento da criança, identificando seus progressos e dificuldades no processo de aprendizagem. Essa reflexão avaliativa é apropriada para a educação infantil, pois é investigativa e não se limita apenas a um diagnóstico. Ela questiona e busca soluções (HOFFMANN, 2001). Na educação infantil, a avaliação não tem como objetivo fazer com que as crianças passem de ano, mas sim observar, priorizar os interesses e necessidades individuais de cada criança, além de acompanhar seu desenvolvimento e valorizar suas descobertas. A avaliação nesta fase não deve ser ocasional ou pontual, mas sim contínua, conforme definido pelo Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil: A avaliação não se dá no momento final do trabalho. É tarefa permanente do professor, instrumento indispensável à constituição de uma prática pedagógica e educacional verdadeiramente comprometida com o desenvolvimento das crianças (BRASIL, 1998, p. 203). Nesta proposta, a avaliação do progresso infantil é composta por uma série de medidas que ajudam o professor a refletir sobre as condições de aprendizado oferecidas às crianças, e também a ajustar sua prática de acordo com as necessidades individuais de cada uma. Partindo do princípio fundamental de que cada criança tem suas particularidades, a função do professor é observar e documentar constantemente as diversas reações dos alunos durante a realização das atividades propostas. A avaliação pode ser uma ferramenta valiosa de diagnóstico e comunicação, sendo um momento de reflexão do educador sobre o processo de aprendizagem e sobre as oportunidades oferecidas por ele para que ela possa ocorrer. Desse modo, será responsabilidade dele investigar sobre a pertinência dos temas selecionados, sobre o tempo e ritmo imposto ao trabalho tanto quanto caberá investigar sobre as conquistas das crianças em vista de todo o processo vivido, na sua relação com os objetivos estabelecidos. "O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (BRASIL, 1998) em seu livro de introdução apresenta o tópico "Observação, registro e avaliação formativa". De acordo com a legislação em vigor, o documento enfatizaa seguinte visão da avaliação: '[...] um conjunto de ações que auxiliam o professor a refletir sobre as condições de aprendizagem oferecidas e ajustar sua prática de acordo com as necessidades da criança'. Isso significa que não há nenhuma ligação com abordagens classificatórias, punitivas ou promocionais, que frequentemente são erroneamente associadas à avaliação." O documento completa: É um elemento indissociável do processo educativo que possibilita ao professor definir critérios para planejar as atividades e criar situações que gerem avanços na aprendizagem das crianças. Tem como função acompanhar, orientar, regular e redirecionar esse processo como um todo (BRASIL, 1998, p. 59). Dessa forma, a avaliação é uma atividade constante do docente e uma ferramenta essencial para estabelecer uma prática educativa e pedagógica genuinamente envolvida com o progresso infantil. A escritora Hoffmann destaca a relevância de ponderar sobre o modo como as crianças adquirem conhecimento e evoluem, a fim de evitar que a avaliação na Educação Infantil se torne um meio de segregação e avaliação negativa. Afirma que: Sem dúvida, a avaliação, na educação infantil, [...] passa a exigir [...] uma investigação dos reflexos sofridos do modelo de controle, vigente no ensino regular, que atrelado à finalidade de controle das famílias sobre a eficiência da instituição, acaba por comprometer seriamente o significado dessa prática em benefício ao processo educativo (HOFFMANN, 2001, p. 10). Hoffmann enfatiza que a maioria dos métodos de avaliação prioriza um registro destinado aos pais ou à instituição, negligenciando o estudante, pois os resultados apresentados não têm como objetivo subsidiar a prática educativa diária, mas sim garantir aos pais e à escola que as atividades estão sendo realizadas pela criança. (HOFFMANN, 2001). A avaliação é crucial para que os professores possam refletir e obter informações que favoreçam o desenvolvimento e ampliação do conhecimento das crianças, além de questionar e transformar suas ações pedagógicas, visando aprimorar o processo de ensino/aprendizagem. Analisar é monitorar e intervir regularmente, (re) estruturando a ação educativa para dar-lhe novo significado, adequando-a às necessidades específicas de cada criança e do grupo. A avaliação na educação infantil deve ser um mediador do desenvolvimento infantil. É essencial utilizar diferentes formas de registro que auxiliem na elaboração de um parecer sobre o trabalho realizado, destacando as melhorias, expectativas, mudanças e descobertas. (HOFFMANN, 2009). Há diversas maneiras de avaliação que recebem diferentes denominações dependendo da sua organização e, de modo geral, referem-se à coletânea de registros sobre o progresso da aprendizagem da criança que auxiliam o professor, os alunos e a família a terem uma visão evolutiva do processo de ensino-aprendizagem. Para isso, o docente necessita encontrar formas que permitam uma compreensão mais clara sobre quais ferramentas podem ser empregadas na avaliação e na documentação desta avaliação em termos práticos, pois esses métodos avaliativos são de suma importância para a qualidade e efetividade da avaliação. Nessa perspectiva, o processo avaliativo deve estar alinhado com a situação vivenciada pela criança, sendo observado e registrado pelo professor. Para implementar essa prática de forma efetiva, é fundamental que o professor (WELTER; MORAES, 2016). 1. Tenha domínio sobre as teorias do desenvolvimento infantil e aprendizagem; 2. Conheça as concepções de Educação Infantil expressas na proposta pedagógica da escola; 3. Compreenda o momento e as necessidades de cada uma das crianças; 4. Assume o papel de facilitador para que novas descobertas sejam realizadas pelas crianças e ao mesmo tempo, que exerça o papel de expectador, ou seja, daquele que assiste de forma ativa a esse momento de descobertas, estimulando, permitindo, incentivando e proporcionando situações que promovam o desenvolvimento e as aprendizagens. 7.1 Avaliar os alunos em diferentes momentos A avaliação, como já vimos, pode ser realizada em diferentes momentos e pode ter diversas finalidades. A seguir, falaremos dos três tipos de avaliação que são considerados necessários na escola: a avaliação inicial, a avaliação formativa e a avaliação somativa. A avaliação inicial e a avaliação somativa são realizadas em um momento concreto (no início ou no final do processo de ensino-aprendizagem, tanto se este for mais longo como se for mais curto) e têm a finalidade de abordar informações sobre o saber ou não-saber dos alunos em um determinado momento. Mais adiante, falaremos de cada uma com detalhes (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Quando nos referimos à avaliação formativa, já não se trata de fazê-la em um momento concreto e previsto, mas que se realiza de uma maneira contínua ao longo de diferentes atividades e situações que propomos na sala de aula avaliação inicial. 7.2 A avaliação inicial A avaliação inicial informa sobre o conhecimento e as capacidades dos alunos em relação aos novos conteúdos de aprendizagem. É utilizada para ajustar ou modificar as atividades que haviam sido preparadas em função dos conhecimentos e as dificuldades que as crianças demonstram no início de uma sequência de ensino-aprendizagem. Informa, ainda, sobre os conhecimentos prévios das crianças em relação aos conteúdos e às atividades que queremos propor a seguir. Pode ser realizada quando se inicia uma atividade didática, quando se começa um novo curso escolar ou no início de uma determinada atividade; também em situações que ajudem a explicitar o que as crianças já sabem sobre o que se quer ensinar (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Essa primeira avaliação serve para relacionar o que se ensina na escola e o que se aprende fora dela, com a intenção de favorecer aprendizagens o mais significativo possível. A avaliação inicial compreende, desse modo, diversas funções: utiliza-se para externar informações sobre o que os meninos e as meninas de uma mesma turma sabem ou o que não sabem; é útil para planejar, programar e apresentar melhor a atividade ou a unidade a ser trabalhada, além de proporcionar às crianças a darem sentido ao que se faz na escola e envolverem-se mais ativamente nas atividades da aula. (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). A partir dos seus comentários, poderemos ver o que lhes interessa, o que sabem, o que querem saber, que peixes conhecem, com o que poderemos trabalhar ou o que poderão levar à aula para observar. Poderemos sugerir que tragam livros ou peixes de casa, se há algum pai ou alguma mãe que saibam muitas coisas sobre peixes e que possam vir um dia à sala explicar às crianças, etc. Enfim, partir do que sabem, do que trazem de suas vivências e do que lhes interessa saber. Essa atividade de introdução servirá para motivá-las e envolvê-las na atividade com a qual decidimos trabalhar. Dessa maneira, poderão participar e conhecer o planejamento que havíamos previsto e compartilharemos as intenções que temos. As estratégias que podemos utilizar na avaliação inicial, nessa etapa, dependem do conteúdo; não será a mesma coisa avaliar a capacidade de desenhar e os conhecimentos sobre o ambiente. Em todos os casos, devem ser planejadas situações adequadas ao tipo de conteúdo e nas quais poderemos observar, perguntar, escutar, propor, deixar falar, deixar fazer e ir detectando as suas competências e as suas dificuldades, etc (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). 7.3 A avaliação formativa A avaliação formativa é aquela que se realiza de modo progressivo e contínua, ocorrendo também de maneira simultânea às diferentes situações e atividades desenvolvidas. Essa forma de avaliação possui um significado e importância fundamentais na prática educativa, pois permite ajustar e modificar a intervenção com basenas informações obtidas durante as próprias atividades em sala de aula. Em outras palavras, a avaliação contínua possibilita adaptar o processo educacional de acordo com os dados e observações obtidos ao longo das atividades realizadas. Segundo Bassedas, Huguet e Solé (2007), muitos professores realizam essa avaliação de forma mais ou menos intuitiva. No entanto, no contexto da atual reforma educativa, atribui-se a ela um papel indispensável na regulação dos processos de ensino-aprendizagem em sala de aula. Essa abordagem destaca a importância da avaliação como uma ferramenta essencial para orientar e direcionar as práticas educacionais, fornecendo subsídios para ajustes e melhorias ao longo do processo de ensino. A avaliação formativa insere-se no processo educativo e tem a finalidade de proporcionar informações que servem para ajustar ou mudar a atuação educativa. Trata-se, então, de adaptar o ensino às características e às necessidades que as crianças apresentam no decorrer das diferentes atividades: enquanto se ensina, enquanto jogam, enquanto trabalham... especialmente a partir da observação e da escuta. A observação não é entendida como passiva, mas de uma maneira ativa: quando se está perguntando, ajudando-os, propondo coisas diferentes às diferentes crianças e detectando, dessa maneira, a sua capacidade de receber ajuda, de aceitá-la e de aproveitá-la (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Esse tipo de observação participativa produz-se quando se ajuda uma menina a acabar um quebra-cabeças; quando se diz a um menino que está tentando fazer uma casa para observar um companheiro que também tenta fazer uma; quando se vai verbalizando as partes do corpo a uma criança que está fazendo o desenho de uma pessoa e em muitos outros momentos, nos quais se tenta verificar o que os alunos são capazes de fazer, quando são ajudados, ou quando se faz uma atividade juntamente com eles. Em situações como essas, não se avalia somente o que a criança sabe fazer sozinha, mas também o que sabe fazer com a ajuda ou a interação de outras pessoas. Valoriza-se, como disse Vygotsky, a “zona de desenvolvimento próximo” e o potencial de aprendizagem dos alunos quando interagem com os outros ou recebem um pouco mais de ajuda (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Essa avaliação proporciona informações sobre o que as crianças aprendem, sobre as dificuldades que apresentam, etc., a fim de poder ajudá-las de maneira diversificada e para replanejar a programação quando for necessário. Nessa etapa da educação infantil, e especialmente quando se adota enfoques globalizantes, os três tipos de avaliação aparecem muito relacionados e com uma função claramente reguladora. De fato, a avaliação não é a finalidade que se deve alcançar; a finalidade é organizar uma prática educativa adaptada e estimuladora das possibilidades de cada criança (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). 7.4 A avaliação somativa Fala-se de uma avaliação somativa quando ela se realiza ao final de um processo de ensino-no-aprendizagem com a finalidade de externar informações sobre o que as crianças aprenderam em relação aos conteúdos que foram trabalhados. Nesse caso, trata-se de atividades específicas para avaliar os resultados das aprendizagens realizadas. É basicamente uma avaliação para emitir um juízo em relação ao aluno e aos seus progressos em um momento determinado. Conforme propusemos, também possui, evidentemente, uma função reguladora, pois serve para replanejar o processo de ensino que foi realizado. Pode, dessa maneira, servir para modificar a unidade didática que se havia planejado, quando se avalia que não foram atingidos os objetivos previstos; ou pode alertar sobre a necessidade de retomar, em momentos posteriores, determinados conteúdos trabalhados (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). A avaliação somativa permite realizar uma valorização dos conhecimentos adquiridos pelos alunos. Realiza-se ao final de uma atividade de ensino, seja um curso, um ciclo, uma quinzena ou uma unidade didática. Permite estabelecer o grau de alcance de alguns objetivos previamente estabelecidos sobre os quais supostamente se trabalhou no decorrer de um espaço de tempo determinado. No final dos cursos da pré-escola, as atividades com lápis e papel podem começar a ser um instrumento de avaliação somativa ao finalizar determinado tipo de unidades didáticas. 7.5 Como se avalia? Com bastante frequência, quando os professores e as professoras se propõem a realizar uma avaliação eficaz de seus alunos, e tentam fazê-la de maneira coerente e eficaz, sentem uma certa ansiedade ou preocupação pela dificuldade que significa querer avaliar “todos os conteúdos” de uma maneira sistemática e objetiva. Nessa situação, propõem-se fazer minuciosas e exaustivas observações com a finalidade de controlar todos os dados e de poder realizar uma avaliação completa e objetiva (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Devemos relativizar a eficácia geral desse tipo de avaliação. É preciso recolher dados, observar, obter informações sobre o que as crianças são capazes de fazer; porém, o que realmente importa é que tais informações sejam úteis para poder tomar decisões, para poder ajudar os meninos e as meninas e para propor-lhes um ensino cada vez mais ajustado às suas necessidades. Nesse sentido, devemos recolher aquela informação que seja pertinente a um momento determinado e que permita interpretar e entender o que acontece, de modo que sirva para regular a nossa intervenção e para compreender melhor as crianças e as suas necessidades. A educadora dessa etapa, ao invés de realizar registros muito extensos, que podem ser difíceis de interpretar, deve procurar aprender a observar, tentar manter uma atitude receptiva e aberta. Para isso, precisa recolher aquelas informações que lhe sirvam para interpretar e questionar os processos de ensino-aprendizagem que ocorrem na sala de aula e com seus alunos. Sobretudo, deverá saber o que quer dizer aprender, desenvolver-se e ensinar, sem o que é muito difícil estabelecer uma prática educativa coerente, bem como poder introduzir as modificações pertinentes (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). É preciso, pois, evitar o registro de mais informações do que se pode digerir ou interpretar e esquecer a pretensão de observar tudo. O mais importante é a atitude que se tem, a capacidade de ser receptivo, de escutar, de observar, de perguntar, etc.; é melhor não se preocupar muito quando for necessário interromper a atividade que se havia preparado e passar a “fechar” com respostas às perguntas e dúvidas que as crianças queiram propor. Trata-se de integrar essa atitude na maneira de fazê-la e coletar informação sobre o que as crianças sabem ou o que não sabem em relação àquele momento proposto, como o enfrentam, como solicitam ajuda e como respondem, etc. Essa afirmação sim é pertinente, já que serve para regular a intervenção naquele momento e está relacionada com algumas atividades e com alguns conhecimentos concretos (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Essa atitude conduz, algumas vezes, a estar ativo, planejando e propondo atividades e dando orientações; outras vezes, propondo atividades com a finalidade de observar, de escutar, de compreender o que as crianças querem comunicar. Essa mudança de atitude não acontece de uma maneira mágica e espontânea. Como todos aprendemos, é preciso fazê-lo gradualmente, prevenindo maneiras de organizar-se em aula e com instrumentos que o facilitem. Requer também a aprendizagem, como no caso dos alunos, de alguns determinados procedimentos, de algumas técnicas e algumas habilidades que não se consegue de um dia para o outro. Mesmo que muitos professores, nessa etapa, realizem esse tipo de avaliação contínua e formativa de uma maneira intuitiva ou mais ou menos consciente, convém incentivar tal capacidade e criar situações paradesenvolvê- la. Nesse sentido, existem diversos recursos e maneiras de fazer que podem ser úteis e que podem favorecer esse processo (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Referimo-nos, por exemplo, a prever situações que possam ser observadas sem que se intervenha (quando se faz uma observação na sala sobre uma companheira, quando se planejam atividades que requerem pouca intervenção, etc.). Também podem ser utilizadas filmagens realizadas na sala, que depois podem ser comentadas e analisadas. Uma outra possibilidade é destinar alguma sessão concreta semanal para esse tipo de situação e atividades planejadas com a finalidade de aprender a observar. Nessas sessões, pode ser realizada uma aprendizagem dessa troca de atitude: não se trata de atuar, de mostrar, de intervir, mas, basicamente e sobretudo, de iniciar somente observando, escutando, fazendo perguntas, etc., para ver o que as crianças sabem em relação aos conteúdos trabalhados (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Um instrumento interessante e útil que alguns professores utilizam para aprender a observar e a refletir sobre o que acontece na aula é o diário de classe (Díez Navarro, 1995), no qual se anotam as situações, as experiências e os diversos aspectos da caminhada do grupo, das crianças individualmente e de seus processos, seja no âmbito da aprendizagem ou no âmbito relacional e de grupo. À medida que se tornem mais capazes, é importante fazer uma observação participativa na qual se estimule a sua curiosidade para sabermos o que as crianças pensam, o que dizem ou o que fazem em relação à situação que foi proposta. Por esse motivo, dizemos que se trata de uma observação participativa, porque tenta avaliar a capacidade de melhora e de aprendizagem do aluno, quando sejam propostos ajustes à criança, aos modelos e às pautas. Procura- se, assim, valorizar a capacidade de aprendizagem potencial do aluno, sempre intervindo na zona de desenvolvimento próximo e, por sua vez, observando de que maneira se pode auxiliá-lo mais: quando estamos a seu lado e o ajudamos a organizar um desenho que não sabe por onde começar, quando lhe pegamos a mão para que ponha a letra que deseja escrever ou quando o ajudamos a explicar o que lhe aconteceu no pátio (BASSEDAS; HUGUET; SOLÉ, 2007). Portanto, não devemos dizer: "Não sabe pronunciar bem, quando a criança fala não se entende o que diz", mas sim observar quais erros a criança comete ao solicitarmos que pronuncie uma palavra após outra que pronunciamos para ela. Devemos verificar se a criança consegue pronunciar sílaba por sílaba e identificar quais sons são mais desafiadores para ela. Além disso, devemos investigar se essas dificuldades podem estar relacionadas a outros fatores, como timidez ou bloqueio, que se manifestam mais quando a criança fala em um grande grupo e menos quando interage em pequenos grupos. 8 OBSERVAÇÃO E REGISTRO NA EDUAÇÃO INFANTIL A observação é o meio pelo qual o docente consolida sua prática pedagógica. Nesse contexto, são anotados os procedimentos de aprendizagem realizados pelos estudantes, a frequência e qualidade das relações estabelecidas pelos alunos com outras crianças, o professor e demais indivíduos envolvidos na sua educação. Rovira e Peix (2004) enfatizam que a observação é uma técnica que oferece informações úteis para o aprimoramento e complementação do conhecimento da criança, inclusive para identificar sinais de alerta quanto a possíveis dificuldades ou anomalias no processo educativo. No texto de Madalena Freire “Observação, registro e reflexão”, a autora afirma que: “O instrumento da observação apura o olhar (e todos os sentidos) tanto do educador quanto do educando para a leitura e diagnóstico de faltas e necessidades da realidade pedagógica” (FREIRE, 1996, p. 3). A principal finalidade da observação é oferecer uma perspectiva geral sobre todas as crianças, mas que evidencie as especificidades de cada uma. A observação é um método essencial para que o professor possa conhecer o aluno, e identificar a posição do aluno em relação ao tempo e espaço na escola (SANTOS, 2022). A observância possibilita, ainda, o estabelecimento de conexões favoráveis entre o docente e seus alunos. Ao compreender a criança, o professor altera sua atitude em relação a ela, gerando novas condutas em ambos. Segundo Jablon, Dombro e Dichtelmiller (2009, p. 23): Quanto observa, você se acalma, escuta com mais cuidado e pausa para refletir antes de intervir e de oferecer direcionamento ou ajuda. Você olha e responde a quem a criança é e àquilo que a criança precisa. Observar ajuda a construir relacionamentos, revelando a singularidade de cada criança – incluindo o temperamento, as potencialidades, a personalidade, o estilo de trabalhar e o modo preferido de expressão da criança. Entende-se, assim, que a prática da observação melhora todas as habilidades do professor, especialmente sua visão e a do aluno. No entanto, é importante ter um foco específico para evitar distrações. Para isso, é responsabilidade do professor ter um planejamento prévio sobre o que deseja observar. Weffort (1992) estabelece três áreas de foco que fortalecem a construção do trabalho pedagógico e contribuem para a elaboração da visão direcionada, são elas: "o foco na aprendizagem individual e/ou coletiva; o foco na dinâmica da construção do encontro; e o foco na coordenação em relação ao desempenho da aula" (WEFFORT, 1992, p.12). O professor pode escolher o ponto de observação que lhe interessa. Compreende-se que observação e avaliação estão intimamente ligadas, mas para a observação ser um recurso para a avaliação, ela deve ser organizada. Acredita-se que a avaliação é um momento de análise dos progressos da prática educacional, permitindo a leitura e identificação das mudanças que já foram implementadas. (MANFRÉ; ARIOS, 2019) Ao elaborar a lista de observação, o professor já possui algumas suposições acerca de seus alunos. Dessa forma, as questões que guiam o processo de observação podem confirmar ou refutar essas suposições iniciais durante a avaliação realizada no final da aula. Essas observações devem ser posteriormente trabalhadas por meio de anotações, resumos dos encontros e reflexão, a fim de revisitar a avaliação e planejamento para os próximos encontros. Portanto, para garantir a eficácia dos métodos, é necessário organizar e sistematizar a observação, anotação, reflexão, avaliação e planejamento (MANFRÉ; ARIOSI, 2019). A observação é um método de avaliação através do qual o professor implementa sua prática educativa, ela é a principal ferramenta que o educador possui para avaliar o desenvolvimento do aprendizado, essa técnica pode fornecer uma perspectiva abrangente sobre todas as crianças e levar em conta as peculiaridades individuais de cada uma. (PONTES; PESSOA, 2010). 8.1 As formas de registro e a observação É crucial que sejam empregados meios de documentação na observação realizada, que podem incluir a escrita, gravações, fotografias e um portfólio da evolução das crianças ao longo do tempo. A documentação é significativa porque descreve o processo de assimilação do conhecimento pelo estudante. A relevância da documentação, como indicado por Hoffmann (1996, p. 53), "ao mesmo tempo em que reconta e registra a história do processo dinâmico de construção do conhecimento, sugere, direciona e aponta possibilidades da ação educativa para pais, educadores e para a própria criança". Através do registro será possível se formar um conjunto de dados e saberes essenciais para o educador, ao possibilitar o registro da evolução, dos êxitos, das revelações, dos obstáculos pessoais e coletivos, proporcionando uma análise detalhada sobre cada infante, além de auxiliar em sua capacitação, podendo torná-lo um docente reflexivo, que pesquisa e procura embasamento teórico para sustentar sua atuação(PONTES; PESSOA, 2010). Ao término dos anos 80, Kramer (1989) menciona a registro como uma das técnicas para a avaliação, incluindo nessa metodologia as crianças, docentes e todo o conjunto pedagógico. Uma das diretrizes para a observação e o registro, segundo a escritora: Diariamente, cada professor observa três a cinco crianças, fazendo anotações nos “relatórios de avaliação” individuais, de forma que avaliar se torne de fato um processo construído, não se prendendo somente aos momentos da entrega de cópia desses relatórios aos pais. Cada relatório é preenchido pela professora da turma e discutido com a supervisora (KRAMER, 1989, p .97). Para além de ser visto como uma forma do professor organizar as suas observações acerca das crianças, o registro deve igualmente ajudar na criação do plano semestral, semanal e diário. É importante ter em mente que quaisquer mudanças ou novidades devem ser registradas no caderno de planos, que se tornará um arquivo progressivo e acumulativo da vida da turma, sendo um instrumento fundamental para os planejamentos futuros. (KRAMER, 1989). Na década de 90, inaugurou-se uma nova função para o registro pedagógico, conforme apresentado na publicação de Warschauer (1993), onde a autora descreve suas experiências com a roda e o registro em atividades realizadas com alunos da 4ª série do 1° grau em uma escola particular de São Paulo. Ao longo de sua trajetória como professora, a autora utilizava dois tipos de registro: o individual e o coletivo. Segundo ela, o registro individual tinha como objetivo fornecer subsídios para reflexões sobre a prática pedagógica, enquanto o coletivo era construído em conjunto com os alunos. A escritora defende que o registro pedagógico é uma ferramenta importante para o aprimoramento do ensino e da aprendizagem, ainda considera que: O registro ajuda a guardar na memória fatos, acontecimentos ou reflexões, mas também possibilita a consulta quando nos esquecemos. Este “ter presente” o já acontecido é de especial importância na transformação do agir, pois oferece o conhecimento de situações arquivadas na memória, capacitando o sujeito a uma resposta mais profunda, mais integradora e mais amadurecida, porque menos ingênua e mais experiente, de quem já aprendeu com a experiência. Refletir sobre o passado (e sobre o presente) é avaliar nas próprias ações, o que auxilia na construção do novo. (WARSCHAUER 1993, p.62). No documento do Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (BRASIL, 1998), há menção à conexão entre o registro e a observação e a avaliação formativa. Conforme descrito no texto: Por meio deles o professor pode registrar, contextualmente, os processos de aprendizagem das crianças; a qualidade das interações estabelecidas com outras crianças, funcionários e acompanhar os processos de desenvolvimento obtendo informações sobre as experiências das crianças na instituição. Esta observação e seu registro fornecem aos professores uma visão integral das crianças ao mesmo tempo em que revelam suas particularidades (BRASIL, 1998, p. 58-59). 30 Tanto a observância quanto o registro devem estar a serviço da identificação dos elementos que interferem nas relações de ensino/aprendizagem. O docente precisa estar atento àqueles indícios que possuem significados para o contexto de seu trabalho. Não é uma tarefa simples, por isso é fundamental que se tenha clareza de que pressupõe um exercício diário de olhar para além do que se vê, de desvendar o significado oculto, frequentemente, em uma expressão de surpresa, no silêncio, no gesto, no corpo. Também pressupõe um exercício contínuo de dedicação, realizado por um professor pesquisador, reflexivo, envolvido com a educação. (PONTES; PESSOA, 2014). Com base na psicologia do desenvolvimento, o registro é significativo para: 1) ajudar os professores a compreenderem a criança; 2) ajudar os pais a compreenderem a criança; 3) demonstrar a evidência do crescimento e do desenvolvimento; 4) descobrir e satisfazer às necessidades especiais; 5) descobrir as dificuldades da personalidade e do comportamento; 6) determinar a classificação do aluno na escola; 7) fornecer uma base para registros confidenciais para especialistas e clínicas; 8) fornecer dados para registros de outras escolas; 9) servir como guias para o planejamento dos currículos; 10) fornecer informações úteis aos professores; 11) fornecer dados para pesquisa (FOSTES; HEADLEY, 1967, p. 505). De acordo com os autores, o registro desempenha várias funções essenciais no contexto da compreensão da criança, no planejamento curricular e na pesquisa. Um aspecto destacado nessa obra é a importância do registro cumulativo, que tem como objetivo “resumir os acontecimentos importantes da vida pré-escolar da criança”, tanto no aspecto individual como coletivo, e “preencher as lacunas entre o jardim de infância e a primeira série” (FOSTES; HEADLEY, 1967, p.506). A configuração de um formulário de inscrição deve levar em conta alguns pontos: onde, quantos, o quê, como e quando registrar informações sobre os estudantes e, por fim, incluir um espaço para as particularidades de cada aluno. Seu conteúdo e requisitos devem ser apropriados para cada ano escolar. (ROVIRA e PEIX, 2004). O relatório, considerado um dos registros mais apropriados para a Educação Infantil, deve ser elaborado sem a inclusão de valores ou indicativos que possam discriminar ou rotular a criança em relação às demais. Por exemplo: Fulano é o melhor da sala ou Beltrano nunca aprende. Porque, novamente mencionando Hoffmann, o relatório deve servir “não como lições de atitudes à criança ou sugestões de procedimentos aos pais, mas sob a forma de atividades a oportunizar materiais a lhe serem oferecidos, jogos, posturas pedagógicas alternativas na relação com ela” (1996, p. 53). As três formas mais comuns de registro são o dossiê, o portfólio e as atividades escritas, que visam aferir se os objetivos propostos estão sendo alcançados pelo grupo. Para o desempenho individual, segundo Hoffmann (1996), existem a ficha de registro docente e o relatório descritivo (da criança), que podem se configurar ou se desdobrar nos seguintes documentos: Dossiê: coletânea de atividades individuais ou coletivos, obtidos em períodos regulares e sucessivos. Portfólio: conjunto de registros relativos aos grupos, que não obedece a cronologia necessariamente e usualmente aplicados em projetos específicos. Atividades escritas: são aquelas relacionadas ao tema trabalhado no momento, onde haja atividades que estimulem as crianças a pensar sobre o tema, antes de se expressar, seja por palavras, desenhos ou qualquer outra forma gráfica. Zabalza (1994), em sua pesquisa desenvolvida com sete sujeitos, todos eles alunos regulares de um curso de Pedagogia e professores de diferentes escolas e níveis, procurou analisar a contribuição dos diários para o estudo do ensino e do pensamento do professor, bem como dos dilemas por eles enfrentados em sua prática. O autor argumenta que os diários docentes, assim como outros documentos pessoais e materiais autobiográficos, constituem importante instrumento de análise do pensamento do professor, já que “no diário o professor expõe-explica-interpreta a sua ação cotidiana na aula e fora dela” (p. 91). O diário funciona ainda como reflexão para seu escritor, encerrando, portanto, possibilidades formativas. O diário é um documento reflexivo do professor, assim designado por ser, em analogia com os diários de bordo ou os diários de adolescentes, uma produção pessoal, individual, apoiada no relato do dia-a-dia. No entanto, a analogia para por aí, pois enquanto os diários socialmente conhecidos se limitam a uma descrição de fatos organizados de forma cronológica, o diário do professor vai muito além disso: constitui-se em lugar de reflexões sistemáticas, constantes; umespaço onde o professor conversa consigo mesmo, anota leituras, revê encaminhamentos, avalia atividades realizadas, documenta o percurso de sua classe. Um documento com a história do grupo e dos avanços do professor (MAGALHÃES; et al. 1995, p. 5). Tomando por base o paradigma do pensamento docente, que tem como pressupostos a consideração dos professores como profissionais racionais e a percepção de que a atuação docente é dirigida pelo pensamento do professor, no qual a relação teoria-prática não é totalmente objetiva e direta, Zabalza enfatiza a complexidade da prática pedagógica, concebendo o professor como um “prático” produtor de conhecimentos com base em sua ação e nos dilemas nela presentes. Nesse sentido, a produção do registro diário, entendido como “diálogo que o professor, através da leitura e da reflexão, trava consigo mesmo acerca da sua atuação nas aulas” (p. 95), possibilita a expressão do pensamento do professor e a autoformação por meio da reflexão. Zabalza (1994), considerando a diversidade de formas empregadas pelos professores para registrar sua ação cotidiana, distingue quatro tipos de diário: Diário como organizador estrutural da aula: diários com especificação de horários e atividades apenas; Diário como descrição das tarefas: diários cujo foco principal são as atividades desenvolvidas na aula, narradas com maior ou menor detalhamento; Diário como expressão das características dos alunos e do professor: diários nos quais o foco são os sujeitos envolvidos no processo, descrevendo características dos alunos, sentimentos, percepções; Diário misto: no qual todos os aspectos acima apontados encontram-se presentes, o que potencializa ainda mais seu papel formativo. A reflexão, “uma das componentes fundamentais dos diários de professores” (p. 95), aparece nos diários sob duas formas: Reflexão sobre o objeto narrado (componente referencial dos diários); Reflexão sobre si próprio (componente expressiva). O diário traz consigo grande implicação pessoal, o que, para o autor, o converte em um documento pessoal e autobiográfico ao lado de outros, como história de vida, cartas, diários íntimos, biografias. No diário expressa-se não apenas o professor, mas também a pessoa, seus anseios, dúvidas, valores e crenças. Até que ponto o professor/autor efetivamente se expõe ao leitor? A escrita do diário dependerá em grande parte do modo como esses registros são recebidos pelo leitor/interlocutor; nesse sentido, pelo diário o professor pode revelar-se de maneira mais aberta ou, ao contrário, proteger-se por meio da escrita, construindo uma imagem "adequada" de seu "eu" profissional. Segundo Cecília Warschauer (1993, 2001), em sua dissertação de mestrado, ela realiza uma reflexão e análise sobre seus registros e ações como professora da 4ª série do ensino fundamental. Warschauer acredita que o registro não apenas favorece a reflexão, mas também possibilita a construção da memória e da história, destacando o papel do diálogo e da experiência grupal na formação. Além do registro, ela considera a roda como um símbolo de encontro, interação e diálogo, também sendo um instrumento formativo. Warschauer percebe o registro como uma oportunidade de formação, reflexão e introspecção, buscando compreender e atribuir sentido à ação cotidiana em sala de aula. O Registro é um instrumento valioso para sistematizar e organizar o conhecimento. Além disso, ele oferece a oportunidade de que a Roda não se restrinja apenas a si mesma, mas se abra para o mundo. Por meio de textos, os conhecimentos desenvolvidos ali podem alcançar outros grupos, ampliando seu alcance e impacto. (WARSCHAUER, 1993, p. 56). Nesse contexto, o registro aparece como instrumento formativo, favorecendo a construção da identidade pelo estabelecimento de pontes entre passado e futuro, entre memória e projetos, possibilitadas pela narrativa. A preocupação com a pessoa e com a subjetividade do professor faz que a autora, assim como Zabalza (1994), considere o diário como instrumento no qual as dimensões pessoal e profissional apareçam integradas: "o professor enquanto pessoa, identidade única, mostra-se em seu texto" (WARSCHAUER, 2001, p. 187). A escrita, como oportunidade formativa, possibilita a construção da autoria, a teorização das práticas, a construção de história e de identidade. O registro oferece a possibilidade de compreender a realidade e, consequentemente, transformá-la. Ele desempenha um papel fundamental na aprendizagem da documentação pedagógica como prática para o desenvolvimento e reflexão. Nesse contexto, a documentação pode ser vista como um processo de aprendizagem, uma ferramenta para reflexão e um ponto de partida para a reconstrução do trabalho pedagógico. Através da análise da realidade, é possível identificar dificuldades e aspectos a serem trabalhados, visando aprimorar a ação pedagógica. (LOPES, 2022). Oliveira-Formosinho e Azevedo falam-nos ainda dá não neutralidade do ato de registrar: "a documentação não é uma representação direta do que a criança faz ou diz, ou seja, não é uma verdadeira prova do que aconteceu" (2002, p. 133). O registro passa pela subjetividade de seu autor, que seleciona o que vai ser documentado e interpreta o vivido de acordo com as próprias concepções e crenças. Para finalizar sua apresentação, Júlia Oliveira-Formosinho e Ana Azevedo completam: A documentação oferece aos professores uma oportunidade ímpar para escutar de novo, para olhar de novo, para revisitar os acontecimentos e os processos dos quais indireta e colaborativamente foram coprotagonistas [...]. Por isso, a documentação é também um processo dialógico de construção social de significados atribuídos ao processo de aprendizagem das crianças, dos adultos e por elas responsáveis e dos que co-pesquisam o processo no contexto da intervenção (OLIVEIRA-FORMOSINHO; AZEVEDO, 2002, p. 135). Madalena Freire (1996), situa o registro como instrumento metodológico ao lado do planejamento, da observação e da avaliação. Destaca-o como instrumento favorável à reflexão sobre a realidade observada, construção de memória e de história. “O registrar de sua reflexão cotidiana significa abrir-se para seu processo de aprendizagem” (Freire,1996 p. 6), significa perguntar, questionar, inquietar-se perante o observado, o que leva à busca, à transformação, à ampliação do pensar. Para tornar-se efetivamente sujeito de sua prática, o educador precisa apropriar-se de sua reflexão, de seu pensamento, de sua ação. E o registro possibilita a reflexão sistemática sobre a prática, imprescindível à tarefa do educador. “Este aprendizado do registro é o mais poderoso instrumento de construção da consciência pedagógica e política do educador”, afirma Freire (1996, p. 6). Mediado pela reflexão possibilitada pelo registro, o educador apropria-se das teorias subjacentes à sua ação, o que o conduz ao aprofundamento do pensar. Paulo Freire (1993), educador renomado, ressalta a complexidade do ato de escrever, destacando que não se trata apenas de uma ação mecânica precedida pelo pensamento. Ele enfatiza que a escrita se inicia antes mesmo de chegarmos ao papel, tendo suas raízes em nossas experiências e na forma como nos posicionamos diante dos acontecimentos, refletindo sobre eles. Essa reflexão continua durante o processo de escrita e além dele, quando retornamos ao que foi escrito e atribuímos novos significados, percebendo outras implicações. Freire enfatiza que o professor é também um aprendiz e que o ato de ensinar contém um momento valioso de aprendizado pessoal. Esse aprendizado se baseia na análise crítica da prática do professor, mediada pelo estudo da realidade e pela reflexão sobre sua própria ação. Para o autor, estudar implica o ato de ler não apenas a palavra, mas também a realidade. Ler e escrever entendidos como processos inseparáveise relacionados ao processo geral de conhecer, atitudes indispensáveis ao ofício docente. Paulo Freire enfatiza a necessidade de vivermos intensamente a leitura e a escrita, sugerindo que, ao menos três vezes por semana, escrevêssemos algo a fim de exercitar essa ação (LOPES, 2022). Para que o educador seja efetivamente autor de sua prática, é preciso que ela se torne objeto de estudo, de observação, de reflexão. Recorrendo à definição apresentada para o ato de estudar, percebemos sua relação com o registro: “Estudar é desocultar, é ganhar a compreensão mais exata do objeto, é perceber suas relações com outros objetos. Implica que o estudioso, sujeito do objeto do estudo, se arrisque, se aventure, sem o que não cria nem recria” (FREIRE, 1993, p. 33). Registrar pode ser considerado, então, ato de estudar, o que pressupõe observação e leitura da realidade, construção de sentido para aquilo que nos é apresentado. “Precisamos exercitar a capacidade de observar, registrando o que observamos. Mas registrar não se esgota no puro ato de fixar com pormenores o observado tal qual para nós se deu. Significa também arriscar-nos a fazer observações críticas e avaliativas a que não devemos, contudo, emprestar ares de certeza” (FREIRE, 1993, p. 68). Os diferentes autores empregam nomenclaturas próprias ao tratar do objeto de pesquisa em questão. Os vários nomes empregados (diário, registro, documentação, relato) explicitam também formas diferenciadas de compreensão: enquanto o diário se refere ao caderno de registros do professor (no qual anota planos de trabalho e narra seu dia a dia), por documentação entendemos uma gama mais ampla de registros, incluindo os diários, mas não se restringindo a eles. Optamos pelo termo "registro", propondo a ampliação do conceito a fim de incluir as diferentes linguagens e os vários meios que podem ser empregados nessa produção. Registrar a prática não é apenas escrever sobre ela; registro é relato, narrativa, descrição e ainda mais. Registrar é refletir, planejar, avaliar. Não é apenas escrever: desenhos e imagens podem ser considerados formas de registro, especialmente no caso da criança. Registro como meio e fim, processo e produto: meio de reflexão, pensamento, avaliação, formação, melhoria da ação; é também documento, história, conhecimento. O registro tem um valor anterior e posterior à produção, vale como processo e como produto. Não é fim em si mesmo, tampouco meio apenas (LOPES, 2022). Entendemos que, nesse sentido, é necessário ampliar a noção de registro a fim de incluir as múltiplas linguagens e os diferentes meios de registrar, concebendo-o especialmente como leitura da realidade e reflexão sobre ela. Nesse contexto, entendemos também a criança como produtora de registros, construtora de cultura, de história. Os registros produzidos pela criança unem- se aos do professor na construção de um relato, uma narrativa. Seus registros podem ser lidos, pois expressam pensamento, conhecimentos, hipóteses. Ampliando a concepção de registro, percebendo-o como expressão, comunicação, pensamento, identificamos também o desenho como forma privilegiada de linguagem (LOPES, 2022). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALTHOFF, R. Dimensionando o espaço da família no âmbito do público e do privado. Cogitare Enferm., Curitiba, v. 1 n. 2, p. 35-38 - jul./dez. 1996. ANGOTTI, M. Semeando o trabalho docente. In: Educação infantil: muitos olhares. OLIVEIRA, Z. de M. R. de (Org.). 9. ed. São Paulo: Cortez, 2010, p. 54- 73. ASSUNÇÃO, M. C. A moral na educação infantil: cenas pedagógicas. 2016. Monografia (Especialização em Docência na Educação Infantil). Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2016. BARBOSA, M. S. S. Por amor & força: rotinas na Educação Infantil. Porto Alegre: Artmed, 2006. BASSEDAS, E; HUGUET, T; SOLÉ, I. Aprender e ensinar na educação infantil.; tradução Cristina Maria de Oliveira. Porto Alegre: Artmed, 2007. BASSEDAS, E; HUGUET, T; SOLÉ, I. Aprender e ensinar na educação infantil; tradução Cristina Maria de Oliveira. Dados eletrônicos – Porto Alegre: Artmed, 2007. BASSEDAS, E; HUGUET, T; SOLÉ, I. Aprender e ensinar na educação infantil. Porto Alegre: Artmed, 2007. BELTHER, J. M. Educação infantil. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2017. BODNAR, R. T.M. A observação e o registro pedagógico na formação em serviço: um estudo sobre as relações teórico-práticas com professoras da educação infantil. 2006. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2006. BRASIL, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília, DF: MEC/SEF/DPE/COEDI, 1998. BRASIL, Ministério da Educação. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília, DF: MEC/SEF/DPE/COEDI, 1998. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Diário Oficial da União, 05 out 1988. BRASIL. Lei nº 4.024, de 20 de dezembro de 1961. Fixa as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em: https://shre.ink/HSbI. Acesso em: 25 mai 2023. BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Disponível em: https://shre.ink/1dQE. Acesso em: 29 mai 2023. BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Disponível em: https://shre.ink/mZof. Acesso em: 25 mai 2023. BRASIL. Lei nº 9.394/1996. L.D.B-Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF: Diário Oficial, 23. dez, 1996. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998. BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Resolução n º 5, de dezembro de 2009. Brasília: MEC, 2009. BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Temas transversais e Ética. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto/ Secretaria de Educação Fundamental, 1998. BRASIL. Resolução CNE/CEB n. 20, de 17 de dezembro de 2009. Fixa as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília: Ministério da Educação, 2009. BRASIL. Resolução nº 2, de 1º de julho de 2015. Define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada. Disponível: https://shre.ink/cMSe. Acesso em 18 mai 2023. BRASIL. Revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais para a educação infantil. Parecer n. 20/2009. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Brasília: Ministério da Educação, 2009. BRASIL. Secretaria de Educação Básica. Diretrizes curriculares nacionais para a educação infantil. Brasília: MEC, SEB, 2010. BUCHWITZ, T. M. A. Pedagogia da infância: cotidiano e práticas educativas. São Paulo: Cengage, 2016. BUCHWITZ, T. M. A. Pedagogia da infância: cotidiano e práticas educativas. [Recurso eletrônico]. – São Paulo, SP: Cengage, 2016. CAMPOS, M. M.M.; FULLGRAF, J.; WIGGERS, V. Qualidade na educação infantil: alguns resultados de pesquisas. In: BRASIL. Política de educação infantil no Brasil: Relatório de avaliação. Brasília: MEC, SEB; Unesco, 2009. CARMEN, L. DEL: La planificació de cicle i curs. Barcelona: Graó/ICE, 1993. CARVALHO, A. B. A relação professor e aluno: paixão, ética e amizade na sala de aula. Curitiba: Appris, 2016. CELA-CONDE, C.J. Ética, diversidade e universalismo: a herança de Darwin. In: CHANGEUX, J. (Org.). Uma ética para quantos? São Paulo: Edusc, 1999. CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1994. CORRÊA, G. V. Reflexões e proposições sobre o conceito de atividade pedagógica dos professores de crianças de 4 a 6 anos. 2008. Dissertação (Mestrado em Educação). Universidadedo Vale do Itajaí. Itajaí, 2008. DÍEZ NAVARRO, M.C.: “El diario de clase”. Cuadernos de Pedagogía, n. 232, 1995, pág. 38-42. FARIA, A. L. G. Políticas de regulação, pesquisa e pedagogia na educação infantil, primeira etapa da educação básica. Educação e Sociedade, v. 26, n. 92, p. 1013-1038, 2005. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975. FERREIRA, J. C. Planejamento na educação infantil: reflexões sobre teorias e práticas. 2012. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade do Vale do Itajaí, Itajaí, 2012. FREIRE, M. Observação, registro e reflexão: instrumentos metodológicos. São Paulo: Espaço Pedagógico, 1996. FREIRE, P. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. São Paulo: Olho d'Água, 1993. FUSARI, J. C. O planejamento do trabalho pedagógico: algumas indagações e tentativas de respostas. Artigo Série Idéias, n. 8. São Paulo: FDE, 1998, p. 44- 53. GARANHANI, M. C. A docência na educação infantil. In: SOUZA, G. de. (Org). Educar na infância: perspectivas histórico-sociais. São Paulo: Contexto, 2010. GASPARIN, J. L. Uma didática para a pedagogia. Histórica-Crítica. 3. ed. Campinas: Autores Associados, 2003 GESSER, V. O planejamento educacional: da gênese histórico-filosófica aos pressupostos da prática. Curitiba: CRV, 2011. GUIMARÃES, A. M. Indisciplina e violência: a ambiguidade dos conflitos na escola. In: AQUINO, J. (Org.). Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1996. HEINEMANN, F. A filosofia no séc. XX. 4 a ed. Lisboa: Fundação Calonste Gulbenkian, 1993. HOFFMANN, J. M. L. A Avaliação na pré-escola: um olhar sensível e reflexivo sobre a criança. 10. ed. Porto Alegre: Mediação, 2001. HOFFMANN, J. M. L. Avaliação na Pré-Escola. Porto Alegre: Mediação, 1996. HOFFMANN, J. M. L. Avaliação na pré-escola: um olhar sensível e reflexivo sobre a criança. Porto Alegre: Mediação,1996. JABLON, J. R.; DOMBRO, A. L.; DICHTELMILLER M. L. O poder da observação. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009. JUNQUEIRA FILHO, G. A. Seleção e articulação de conteúdos em educação infantil no Brasil: da negação a busca da produção de sentido. Revista Ciências e Letras, n. 36, p. 105-127, jul./dez. 2004. KISHIMOTO, T. M. A pré-escola na República. Pro-Posições, v. 1, n. 3, p. 55- 66, 1990. KRAMER, S. A política do pré-escolar no Brasil: a arte do disfarce. 2. ed. Rio de Janeiro: Achiamé, 1984 KRAMER, S. Currículo de educação infantil e a formação dos profissionais de creche e pré-escola: questões teóricas e polêmicas. In: BRASIL/MEC/SEF/COEDI. Por uma Política de formação do profissional de educação infantil. Brasília, 1994, p. 69-84. KUHLMANN JR., M. História da Educação Brasileira. Revista Brasileira de Educação. Mai/Jun/Jul/ago, nº 14, 2000. LA TAILLE, Y de. A educação moral: Kant e Piaget. In: MACEDO, L de. (Org.) Cinco estudos de educação moral. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1996. LEITE, S. R. M; PIASSA, Z. A. C; JOVANOVICH, J. O. Educação, Ética e atuação de professores da infância: Vivências e Experiências em tempos de pandemia. Cadernos Cajuína, v. 6, n. 4, p. 107-124, 2021. LIMA, A. E. O. A Ética e o ensino infantil: o desenvolvimento moral na pré- escola. 2003. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Estadual Paulista, Marília, 2003. LOPES, A. C. T. Educação infantil e registro de práticas [livro eletrônico]. 1. ed. -- São Paulo: Cortez, 2022. MACHADO, M. L. A. Educação Infantil e Sociointeracionismo. In: OLIVEIRA, Z. R. de Educação Infantil: muitos olhares. (org.). 9. ed. São Paulo: Cortez, 2010. MAGALHÃES, L et al. (Orgs) A história de uma classe: alunas de 4 a 5 anos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. MANFRÉ, V. B; ARIOSI, C. M F. A observação na educação infantil como forma de respeito às crianças. Colloquium Humanarum, [S. l.], v. 16, n. 3, p. 156–161, 2019. MENDES, S. L. Tecendo a história das instituições do Brasil infantil. SABERES, Natal, v. 1, n. 11, fev. 2015, p. 94-100. MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, 2007. NICOLAU, M. L. M. A Educação Pré-escolar Fundamentos e Didática. Ed. Àtica. São Paulo. 1988. OLIVA, A.; PALACIOS, J.: “Familia-escuela infantil. El problema de la discrepancias en ideas y valores educativos”. Aula de Innovación Educativa, núm. 11, pág. 27-30, 1993. OLIVEIRA, Z. R. Educação Infantil: fundamentos e métodos. 2ed. São Paulo: Cortez, 2005. OLIVEIRA-FORMOSINHO, J.; KISHIMOTO, T. M.; PINAZZA, M. A. (Orgs.). Pedagogia (s) da Infância: dialogando com o passado: construindo o futuro. Porto Alegre: Artmed, 2007. OSTETTO, L. E. (Org.). Encontros e encantamentos na educação infantil. 9. ed. Papirus: Campinas, 2010. PALACIOS, J.; OLIVA, A.: Ideas y actitudes de madres y educadores sobre la educación infantil. Madrid. CIDE. Ministerio de Educación y Ciencia, 1991. PIAGET, J. Psicologia e Pedagogia. Trad. de D. A. Lindoso e R. M. R. da Silva. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003. PONTES, E. G; PESSOA, R. M. L. A importância da avaliação do desenvolvimento da criança na educação infantil. 2014. Monografia (Bacharelado em Pedagogia) – UFPB/CE, João Pessoa, 2014. PONTES, E. G; PESSOA, R. M. L. A importância da avaliação do desenvolvimento da criança na educação infantil. Monografia (Graduação em Pedagogia) – UFPB/C – João Pessoa: UFPB, 2014. REGO, T. C. Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. Petrópolis: Vozes, 1995. ROVIRA, M. C; PEIX, O. D. A observação e a avaliação na escola infantil. In ARRIBAS, T. L. Trad. Fátima Murad). Porto Alegre: Artmed, 2004. SANTOS, A. S. S., et al A avaliação na educação infantil. Revista Ibero- Americana de Humanidades, Ciências e Educação. São Paulo, v.8. n.09. set. 2022. SANTOS, M. O. V. A identidade da profissional de educação infantil. In: GUIMARÃES, C. M. (Org.). Perspectivas para educação infantil. Araraquara: Junqueira & Marin, 2005. p. 87- 101. SARMENTO, M. J. As culturas da infância nas encruzilhadas da 2ª modernidade. In: SARMENTO, M. J.; CERISARA, A. B. (Orgs.). Crianças e miúdos: perspectivas sócio-pedagógicas da infância e educação. Porto: Asa, 2004, p. 9- 34. SEVERINO, A. J. Desafios da formação humana no mundo contemporâneo. Revista de Educação, Campinas, n. 29, p. 153-164, jul./dez. 2010. SILVA, A. C. G. Trabalho docente na educação infantil: concepções e práticas. 2017. 146 f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade Federal de Goiás, Jataí, 2017. SILVA, N. P. Entre o público e o privado: um estudo sobre a fidelidade à palavra empenhada. Tese de Doutorado. São Paulo: Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, 2002. SILVA, O. H. F.; SOARES, A. S. Educação infantil no Brasil: história e desafios contemporâneos. Argumentos Pró-Educação, v. 2, n. 5, 29 ago. 2017. SOARES, D. S. A evolução da história da educação infantil no Brasil pós- LDB. 2022. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Pedagogia). Instituto Federal Goiano, Doverlândia, 2022. SOUZA, G. Educar na infância: perspectivas histórico-sociais. São Paulo: Contexto, 2010. TUGENDHAT, E. Lições sobre ética. Petrópolis: Vozes, 2000. VASCONCELLOS, C. S. Planejamento: projeto de ensino-aprendizagem e projeto político-pedagógico. São Paulo: Libertad, 2010. VIEIRA, E.; VAILLANT, F. O trabalho docente na educação infantil. RTPS - Revista Trabalho, Política e Sociedade, v. 2, n. 3, p. p. 363-376, 29 dez. 2017. VIEIRA, L. F; BAPTISTA, M. C. Educação infantil. São Paulo: Contexto, 2023. VIEIRA, L. M. F. Mal necessário: creches no Departamento Nacional da Criança (1940-1970). Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n. 67, p. 3–16, 1988. Disponível em: https://publicacoes.fcc.org.br/cp/article/view/1215. Acesso em: 19 jul. 2023. WARSCHAUER. C. A Roda e o Registro. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1993. WEFFORT, M. F. Educando o olhar da observação. In: FREIRE, M. Observação, Registro, Reflexão: Instrumentos metodológicos. São Paulo: Espaço Pedagógico, 1992, p. 10-19. WELTER, C. B; MORAES, C. F. Referencial Curricular Municipal de Educação Infantil – RCMEI. RS, Caxias do Sul: Educs, 2016. ZABALZA, M. Á. Diários de aula: contributo para o estudo dos dilemas práticos dos professores. Porto: Porto Editora, 1994.