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Práticas Pedagógicas na Educação Básica Marcelo Silva Bastos Loise Tarouquela Medeiros Albertina Maria Batista de Sousa da Silva Daysi Lucidi Gomes de Farias Organizadores 2021 Comissão Científica e Editorial desta Edição Dra. Albertina Maria Batista de Sousa da Silva (IFRJ) Ma. Daysi Lucidi Gomes de Farias (IFRJ) Dr. Fábio José Paz da Rosa (UNESA) Dr. Ilydio Pereira de Sá (UERJ) Dr. Jorge Batista Fernandes (SECT-AR) Ma. Loise Tarouquela Medeiros (IFRJ) Me. Marcelo Silva Bastos (IFRJ) Dr. Rony Pereira Leal (CMRJ) MARCELO SILVA BASTOS LOISE TAROUQUELA MEDEIROS ALBERTINA BATISTA DE SOUSA DA SILVA DAYSI LUCIDI GOMES DE FARIAS Organizadores PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NA EDUCAÇÃO BÁSICA Alexandre Souza de Oliveira André Luiz Alves dos Santos Elton Flach Emerson Bastos Lomasso Érika da Silva Pereira Fernanda Paixão de Souza Gouveia Mário Barbosa da Silva Norma Suely Gomes Allevato Paulo Roberto do Amaral Ferreira Pedro Nogueira de Marins Rafael Rix Geronimo Rafaela Alves Luzia da Silva Roni Costa Ferreira Sandra da Silva Viana 2021 Copyright ©2021 by Organizadoras: Marcelo Silva Bastos, Loise Tarouquela Medeiros, Albertina Batista de Sousa da Silva e Daysi Lucidi Gomes de Farias editorameusritmos@gmail.com Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução desta obra, em seu todo ou em parte, por qualquer meio, sem a prévia autorização do autor. Projeto editorial / Diagramação Meus Ritmos Editora Capa Anderson Albérico Ferreira Ficha catalográfica: Catalogação na publicação Elaborada por Bibliotecária Janaina Ramos CRB-8/9166 P912 Práticas pedagógicas na educação básica / Marcelo Silva Bastos (Organizador), Loise Tarouquela Medeiros (Organizadora), Albertina Batista de Sousa da Silva (Organizadora), et al. Divinópolis-MG: Meus Ritmos Editora, 2021. Outra organizadora Daysi Lucidi Gomes de Farias Livro em PDF 145 p. ISBN 978-65-00-32238-5 1. Matemática. 2. Educação. 3. Pedagogia. 4. Interdisciplinaridade. I. Bastos, Marcelo Silva (Organizador). II. Silva, Albertina Maria Batista de Sousa da (Organizadora). III. Medeiros, Loise Tarouquela (Organizadora). IV. Título. CDD 372.7 Índice para catálogo sistemático I. Matemática : Educação Meus Ritmos Editora & Produções Artísticas MEI. Rua Cabo Mauricio Dos Santos, 42 Anchieta Divinópolis MG CEP 35502-825 Contato: editorameusritmos@gmail.com www.facebook.com/editorameusritmos Instagram: @MeusRitmosEditora (21) 9 8441-1642 Sumário Apresentação ....................................................................................................................................... 7 O jogo narrativo: uma experiência lúdica no ensino fundamental II..................................................... 10 Projeto Integrador: prática educativa na perspectiva da práxis ............................................................... 234 O papel da resolução de problemas na aprendizagem matemática na atualidade .......................................................... 367 Aplicação do plickers como estratégia de aprendizagem no ensino fundamental por meio do modelo sections .......................................... 567 Uma formação continuada, por meio de engenharia didática, de professoras polivalentes com o foco em conhecimentos e práticas pedagógicas referentes ao conceito de número natural ........................................................................................... 723 O milionário fluminense: o uso da gamificação como prática pedagógica para a educação financeira de crianças e adolescentes ............................................................................................................ 90 O ensino de aritmética nas escolas elementares estadunidenses e as preocupações de ordem metodológica no século XIX .....................................................................................................119 Os organizadores ........................................................................................................................... 143 Os autores .......................................................................................................................................... 144 6 Apresentação A Educação Básica no Brasil é um campo de pesquisa amplo, que possibilita a várias frentes uma interlocução com os atores que circulam nos espaços formais e informais. Uma dessas frentes é a extensão, ao ter como objetivo envolver a comunidade acadêmica com a sociedade. Ao fazê-lo, os muros que separam saberes, práticas, ideias, participação e inclusão são fissurados e, aos poucos, transformados em pontes. Dois projetos de extensão de uma rede federal de ensino, com dois campi localizados na Baixada Fluminense, construíram pontes. O projeto Compartilhar, do campus São João de Meriti, coordenado pela professora Loise Medeiros, integrou estudantes e professores (as) ao trazer a Matemática a partir de jogos como estratégia para aprendizagem no Ensino Fundamental II. O projeto NUPEMCI, coordenado pelo professor Marcelo Bastos, do campus Nilópolis, aproximou os estudantes da Educação de Jovens e Adultos, com propostas de uma Matemática construída em diálogo com situações do cotidiano. Ambos os projetos foram realizados em duas redes pública de ensino, estadual e federal. Essa prática foi possível por ter licenciandos (as) na elaboração de materiais e práticas investidas de um olhar sensível às diferenças, respeitando as limitações e potencialidades dos participantes centrais dos projetos. O e-book Práticas Pedagógicas na Educação Básica celebra a finalização de uma etapa dos projetos no Ciclo de Formação de Ensino em Matemática, envolvendo professores (as), licenciandos (as) e interessados (as) na formação docente e em materiais relacionados às práticas e experiências educacionais na Educação Básica. Este livro reúne o artigo O jogo narrativo: uma experiência lúdica no Ensino Fundamental II de Pedro Nogueira de Marins e Rafael Rix Geronimo, que traz o relato de uma prática envolvendo o uso de um jogo com desafios lógicos como estratégia para aprendizagem da Matemática. O Projeto Integrador, experiência abordada pelas autoras Sandra da Silva Viana e Fernanda Paixão de Souza Gouveia 7 no texto Projeto Integrador: prática educativa na perspectiva da práxis constitui uma prática pedagógica potente para o desenvolvimento e a interação do conhecimento do senso comum com os saberes para a formação técnica na EJA- EPT. Ao buscar acento nas metodologias ativas, visando à resolução de problemas, o encontramos, no texto de Mário Barbosa da Silva e Norma Suely Gomes Allevato, O papel da resolução de problemas na aprendizagem matemática na atualidade . Roni Costa Ferreira, Érika da Silva Pereira e Rafaela Alves Luzia da Silva presenteiam o leitor com a Aplicação do Plickers como estratégia de aprendizagem no ensino fundamental por meio do modelo sections , que traz o relato de uma prática em sala de aula com o uso da tecnologia Plickers, um aplicativo de perguntas e respostas que possibilita ao docente criar um ambiente para discussão a partir das respostas apresentadas pelos estudantes, de modo que as dúvidas possam ser esclarecidas e outras possibilidades de respostas sejam compartilhadas pelos estudantes. Uma formação continuada, por meio de engenharia didática, de professoras polivalentes com o foco em conhecimentos e práticas pedagógicas referentes ao conceito de número natural , por Emerson Bastos Lomasso, aponta o papel da professora polivalente na construçãode saberes matemáticos na Educação Básica. Ao percorrer os princípios da alfabetização financeira com o texto O milionário fluminense: o uso da gamificação como prática pedagógica para a educação financeira de crianças e adolescentes , Paulo Roberto do Amaral Ferreira, André Luiz Alves dos Santos e Elton Flach operam com a realidade, ilustrando como ocorre o endividamento e apresentam, de forma lúdica e próxima da realidade dos sujeitos do estudo, possíveis estratégias e criar manobras que mostrem outras possibilidades. Na apresentação do artigo Ensino de aritmética nas escolas elementares estadunidenses e as preocupações de ordem metodológica no século XIX , Alexandre Souza de Oliveira percorre um pouco da história da Educação Matemática. Para a produção deste e-book, voltado para a área acadêmica e com foco na formação docente e nas práticas pedagógicas, contamos com pessoas que, além de contribuírem com a elaboração de textos, de arte e a disposição para acompanhar o processo de organização dos artigos, acreditaram na nossa ideia. Nossos agradecimentos voltam-se, em especial, para essas pessoas. 8 Agradecemos, também, às direções dos campi Nilópolis e São João de Meriti por publicarem o edital interno para submissão de projetos de extensão do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, o que possibilitou a realização dos projetos. Dessa forma, reconhecemos a relevância, tanto para a sociedade quanto para a comunidade acadêmica, de que mais editais sejam publicados e novos projetos tenham o êxito que os nossos alcançaram. Parabéns a todas as equipes das coordenações de extensão! Nossa gratidão às equipes dos projetos Compartilhar e NuPEMCi, que, juntas e nas suas diferenças, construíram possibilidades de espaços de diálogo, de aprendizagem e de criação. À Editora Meus Ritmos, manifestamos, com muita alegria, reconhecimento por nos receber e acompanhar, respeitando nossas limitações e inquietações (muitas, por sinal!) e conduzindo, de forma profissional, todo o processo. Esperamos que a leitura contribua para novas pesquisas e diálogos com as redes de ensino, em especial, a pública, a fim de desenvolver projetos e práticas que expressem uma formação cidadã e emancipatória. Sejam felizes! Equipe dos projetos de extensão Compartilhar e NuPEMCi 9 O jogo narrativo: uma experiência lúdica no ensino fundamental II Pedro Nogueira de Marin Rafael Rix Geronimo Introdução O lúdico está presente e enraizado na formação humana, sendo um objeto da cultura não importando o tempo nem o espaço. Muitos povos, de diferentes partes do globo, ao longo de nossa história humana jogavam (HUIZINGA, 2008). Para ] exercer as atividades lúdicas representa uma Acreditando nessa premissa, que as atividades lúdicas podem auxiliar de maneira única o desenvolvimento cognitivo, afetivo, social e moral dos alunos, nosso objetivo foi relatar a aplicação de um jogo para 32 discentes do ensino fundamental, mais especificamente do sexto ano e do sétimo ano do ensino fundamental. Foram introduzidas questões matemáticas, referentes às sequências numéricas, visualizações espaciais e desafios lógicos com enigmas contextualizados na narrativa do jogo, durante uma feira de matemática em uma escola particular na cidade de Niterói, no estado do Rio de Janeiro. Essa investigação foi realizada a partir da metodologia do estudo de caso, para auxiliar a reflexão acerca de potencialidades e limitações desses recursos para o ensino. Este jogo foi desenvolvido em uma tentativa de diversificar a maneira como a disciplina de matemática é vista pelos alunos e assim abordar os conteúdos de maneira desafiadora. Para isso, realizamos uma breve discussão baseada na literatura, definimos nossos materiais e métodos para essa investigação e depois descrevemos os desafios formulados e sua aplicação com os estudantes. Por último realizamos uma discussão e considerações acerca de nossas observações, com destaque para o papel dos erros durante as partidas, a intenção dos formuladores de jogos com intenções didáticas 10 e a possibilidade de utilização de adaptações, feitas a partir de jogos existentes em sala de aula. Por tudo o que foi exposto, acreditamos que essa pesquisa foi um passo inicial referente à discussão de como pensar, elaborar e aplicar jogos em ambiente escolar. Breve discussão baseada na literatura Os jogos são recursos que podem ser utilizados com fins didáticos e existem muitas tentativas nesse sentido, em diferentes níveis. Um exemplo é a pesquisa de Rocha (2018), que aplicou jogos de subtração, memória, torre de Hanói e Algeplan com estudantes do ensino fundamental. Considerou que podem ser uma alternativa divertida para o ensino de matemática. Outro exemplo foi a pesquisa de Silva (2019), que sugeriu jogos como torre de Hanói, bingo de operações, roleta da divisão e dominó de equações com estudantes dos anos finais do ensino fundamental. Como resultados, observou que os alunos que utilizaram esses jogos tiveram resultados melhores em testes e avaliações que um grupo controle, que não teve acesso a estes recursos. Mais uma pesquisa foi a de Rostirola (2018), que criou o material: caderno de atividades lúdicas, combinando, arranjando e permutando no Ciclo de Alfabetização, propôs jogos de tabuleiro em que os estudantes tinham de descobrir todas as possibilidades de arranjos e combinações, a partir das peças disponibilizadas pela pesquisadora. Percebeu que essa estratégia auxiliou o desenvolvimento do raciocínio combinatório. Sousa (2016) sugeriu um jogo em que explorava competição em dinâmicas de perguntas e respostas referentes à porcentagem, nos anos finais do ensino fundamental. Sua intenção era desenvolver uma ferramenta lúdica para treinamento de cálculo mental, considerou que demonstrou o valor didático de seu jogo para o ensino. Outro trabalho com sequências aritméticas foi o de Gonzalez (2021), em que a autora apresentou um relato de experiência da aplicação do jogo: ACITEMTIRAP em uma escola da educação básica. A autora considerou que o uso deste jogo nas aulas de matemática foi motivador e atrativo para os alunos, e potencializou a aprendizagem do conteúdo de progressões aritméticas. 11 Essas pesquisas exploraram o potencial de alguns jogos como ferramentas para o processo de ensino e aprendizagem de conhecimentos matemáticos. Entendemos que é a partir da intervenção do professor que um jogo pode ser tornar educativo, Grando (2000, p. 4), pontuou que: [...] objetivo do jogo é definido pelo educador através de sua proposta de desencadeamento da atividade de jogo, que pode ser o de construir um novo conceito ou aplicar um já desenvolvido. Assim sendo, um mesmo jogo pode ser utilizado, num determinado contexto, como construtor de conceitos e, num outro contexto, como aplicador ou fixador de conceitos. Por essas razões e influenciados por todas essas práticas criamos, inspirados na história do jogo: Onde está Carmen Sandiego, um jogo para tratar algumas competências citadas em BRASIL (2017) da matemática escolar. Sobre a importância de utilizar este recurso em sala de aula é notório, pelas reflexões de Grando (2000), que a utilização dos jogos auxilia no desenvolvimento da postura dos alunos. A pesquisadora salienta que: [...] atitudes e emoções demonstradas pelas crianças, enquanto se joga, são as mesmas desejadas na aquisição do conhecimento escolar. Espera-se um aluno participativo, envolvido na atividade de ensino, concentrado, atento, que elabore hipóteses sobre o que interage, que estabeleça soluções alternativas e variadas, que se organize segundo algumas normas e regras e, finalmente, que saiba comunicar o que pensa, as estratégias de solução de seus problemas (GRANDO, 2000, p. 17) O tratamento de problemas,a partir de histórias de jogo, foi uma ideia advinda de nosso repertório com jogos como os Role Playing Games (RPG), que é um estilo de jogo que pode ser explicado por Jackson (1994, p. III): [...] O mestre inicia descrevendo o lugar onde estão os personagens, o seu nível de tecnologia, costumes, detalhes da política local e, então, leva a história até um ponto onde os personagens começam a atuar, a ter de enfrentar situações, resolver charadas ou lutar em guerras. O sucesso do jogo passa a depender de um esforço coletivo, uma espécie de teatro de ações e iniciativas. O objetivo de todos é sempre tornar o jogo instigante e divertido. O papel de mestre foi assumido pelo professor, que teve a função de mediar os desafios propostos, enquanto os estudantes interpretaram o papel de investigadores, que deveriam perseguir a ladra, uma personagem não jogadora. Foram formulados sete atos, com seis problemas a serem resolvidos pelos discentes, 12 que assumiram o papel de jogadores. A resolução de cada desafio levava os estudantes para novos atos. Esse tipo de proposição foi realizado por pesquisadores como Geronimo (2011) e Marins (2021). No primeiro a aplicação de um RPG teve objetivo de introduzir a noção de incógnita, com estudantes do ensino fundamental. O segundo focou no desenvolvimento socioemocional dos alunos e em questões referentes a visualização geométrica. Sousa, Azevedo e Alves (2020) também elaboraram um RPG para tratar de probabilidade no ensino médio; foi abordada a questão da importância da socialização neste tipo de jogo e da maneira como é possível ressignificar os desafios para um ensino mais lúdico, tal como foi previsto em Grando (2004). Acreditamos então que apesar de nosso esforço não ser uma iniciativa inédita, trata-se de uma reflexão pertinente acerca de suas potencialidades e limitações. Materiais e métodos O jogo proposto foi uma ad em que Carmem é uma ladra que rouba obras de arte em museus por todo o mundo. A proposta era de que os estudantes seriam investigadores, com o propósito de prender a ladra a partir de pistas dos próximos roubos, que eram deixadas pelo caminho. Essa franquia de jogos tem diversos títulos lançados para videogames, além de desenhos animados, gibis e livros. Essa atividade foi aplicada, em um encontro de 90 minutos, com 32 discentes de sextos e sétimos anos do ensino fundamental, separados em quatro grupos mistos, com oito integrantes cada. Como essa investigação foi feita no ano de 2021, em um contexto pandêmico, os problemas foram propostos remotamente, a partir do aplicativo Google Meets, assim os estudantes poderiam elaborar respostas coletivas aos problemas. Devido à impossibilidade de enviar os arquivos por esse aplicativo, foram criados grupos de conversa no aplicativo WhatsApp. Esse ambiente digital era o local onde os alunos deveriam enviar ao professor a resposta encontrada coletivamente, de modo a passar para a próxima fase. Também era por essa plataforma que recebiam instruções para os desafios e, ocasionalmente, dicas. Além dos discentes, 13 estes grupos nos aplicativos contavam com os dois professores de Matemática da escola monitorando e mediando as produções dos grupos e dois alunos monitores do terceiro ano do ensino médio, que contribuíram para a dinâmica de criação dos grupos, inserção dos alunos mais novos e motivação destes alunos. Esse jogo é uma história dividida em fases, que foram chamados de atos. Cada ato possuía uma pequena parte da história e problemas, em forma de desafios, que os alunos deveriam resolver. Acertando, receberiam o próximo ato seguindo até o fim da história, errando era solicitado para reelaborarem suas respostas. Nos dez primeiros minutos aconteceram explicações gerais e depois foi proposto o primeiro ato. A metodologia eleita para essa pesquisa foi o estudo de caso, que para Severino (2007) era a que se preocupava com um caso particular, considerado representativo e passível de generalizações. A seguir apresentamos os problemas formulados, assim como as respostas dos estudantes. Descrição da Proposição dos Problemas O primeiro problema proposto foi: Recentemente sua equipe de inteligência (S.E.I), conseguiu descobrir que Carmen voltou à ativa. Ela está novamente buscando obras de arte em um país desconhecido. Vocês terão a oportunidade de capturar Carmen agora, existe uma única chance dentro de no máximo 48 horas. Depois disso, ela vai sumir novamente. Portanto, seu objetivo é simples: encontrar e prender Carmen antes que suma com as obras de arte, boa sorte! Determine o país e a cidade em que Carmen está. A partir desse problema foi proposto que os estudantes observassem a Figura 1 para descobrirem o nome da cidade e do país que seria atacado pela ladra. Foram escolhidas imagens de alguns dos cartões postais da cidade do Rio de Janeiro, no Brasil, para que os estudantes pudessem se identificar com a história. 14 Figura 1: Pista do Primeiro Desafio Fonte: Arquivo pessoal. Para responder a essa pergunta, três dos grupos utilizaram 10 minutos cada e o quarto grupo precisou de 20 minutos. Essa relativa demora nas respostas pode ter acontecido pela falta de hábito dos estudantes com essa categoria de desafio ou ainda por não conhecerem alguns dos cartões postais da cidade do Rio de Janeiro. Após respondido o primeiro ato, os estudantes prosseguiram na história até a proposição do segundo ato, que era: Conseguir desvendar um código! Uma sequência formada pelos últimos termos das sucessões numéricas. Afirma o agente. Encontre o próximo número em cada série, precisamos localizar Carmen urgentemente! 1, 3, 5, 7, ____ 2, 4, 8, 16, 32, 64, ____ 0, 1, 4, 9, 16, 25, 36, ___ 0, 4, 16, 36, 64, ____ 0, 1, 1, 2, 3, 5, ___ 2, 10, 12, 16, 17, 18, ___ Esse problema teve o objetivo de trabalhar o desenvolvimento do pensamento algébrico, como preconizado em BRASIL (2017), especialmente com a identificação de regularidades e padrões em sequências numéricas para resolver problemas, sendo esse tipo de investigação solicitada para o ensino fundamental, nesse documento de referência. 15 Vimos que o tempo de resolução desse desafio esteve entre 18 e 31 minutos, denotando que os estudantes realizaram esforços e tiveram dificuldades para compreender as sequências e completá-las, resolvendo o segundo ato desse jogo. O terceiro desafio expandia essa habilidade, citada em BRASIL (op. cit.) e trabalhava com os valores numéricos associados a sequências que, se somadas, teriam os mesmos resultados numéricos, trabalhando com a unidade temática números, associada a álgebra. O terceiro problema foi proposto nos seguintes termos: Sabemos que o próximo quadro está na circunferência C. Protegido por um complicado sistema de proteção, para desarmá-lo é preciso descobrir seu segredo. Cada linha marcada precisa somar 11 usando apenas os números: 1, 2, 4, 5 e 6. Descubra os valores: a, b, c, d, e. Encontre o quadro, restam apenas 20 horas. Com a proposição desse desafio, inspirado na obra de Tahan (1998), foi elaborada a Figura 2, em que as circunferências deveriam ser preenchidas com os números 1, 2, 4, 5 e 6 sem repeti-los. Figura 2: Terceiro Desafio Fonte: Arquivo pessoal. Nesse desafio os grupos de estudantes utilizaram entre seis e 20 minutos, denotando que o trabalho no problema anterior pode ter auxiliado na resolução desse problema, visto que precisaram de menos tempo para responderem de maneira apropriada, quando comparado com o problema anterior. O quarto desafio, figura 3, proposto aos discentes, objetivava imersão na história, ao mesmo tempo em que tratava do repertório cultural dos alunos. Era uma 16 atividade que pedia para descobrirem o significado de palavras embaralhadas, a fim de trabalhar com criptografia, foi proposto como segue: De repente um dos agentes diz:interceptamos uma mensagem da Carmen, está criptografada e é preciso decodificá-la. Temos de descobrir o nome usado pelo contato, que é o autor e o nome da música: Figura 3: Quarto Desafio Fonte: Arquivo pessoal. Como o contexto do jogo era de uma ladra de obras de arte, ficou decidido criar um desafio musical em que os estudantes tivessem de encontrar uma estrofe de um clássico da música brasileira para prosseguir na aventura. Como os tempos de resposta de todos os grupos ficaram entre três e quatro minutos, consideramos que a obra poderia fazer parte do repertório dos estudantes e que este ato auxiliou na imersão nessa história. No quinto ato, o desafio era relacionar as posições das obras de arte com os ponteiros de um relógio. O desafio, ilustrado pela Figura 4, também foi resolvido pelos alunos em tempos que variaram entre três e quatro minutos, denotando que relacionaram corretamente as posições das obras com os ponteiros dos relógios. Figura 4: Quinto Desafio Fonte: Arquivo pessoal. 17 Para o sexto ato, foram solicitadas duas atividades, a primeira em que os alunos deveriam identificar quais os animais presentes na Figura 5 e a segunda em que era proposto um quebra-cabeça virtual. A escolha de um trabalho lúdico no final dessa aventura, foi para manter os estudantes engajados, visto que a proposta era de uma feira de matemática e não de uma aula tradicional. Figura 5: Sexto Desafio Fonte: Site https://www.funwithpuzzles.com. Acesso em 23 de março de 2021 O tempo para resolução desses dois desafios variou entre dez e 15 minutos, sugerindo que os alunos ainda estavam engajados com a atividade. Uma vez que tivessem terminado todos os atos, receberiam a mensagem final da aventura, que era: Vocês conseguem descobrir a senha e logo à frente está Carmen. Sentada em uma confortável cadeira, ao vê-los disse: -Vocês conseguiram, parabéns! Ela se rende e é levada para a central de operações. Durante a aplicação do jogo foi possível perceber que os estudantes encararam seus erros de maneira positiva, propondo respostas e reformulando-as quando percebiam que não chegavam à resolução esperada dos desafios. Esse caráter positivo das tentativas incorretas foi comentado por autores como Kaap (2012) e McGonigal (2012) como uma das características dos jogos que poderiam ser utilizadas por seus autores. Quando solicitado que descrevessem suas impressões referentes aos desafios, os estudantes consideraram o jogo difícil de ser resolvido, mas instigante e 18 sentido, supomos que alguns alunos não estivessem habituados com esse tipo de atividades, o que pode ter se refletido na demora em algumas resoluções dos desafios. Dessa forma, os enigmas talvez tenham gerado dificuldades por serem uma novidade para esses discentes. Em outros depoimentos, foi possível focar na importância deste tipo de atividade no desenvolvimento emocional dos alunos, como um trabalhar em equipe durante as aulas, como sugere Grando (2000). Acreditamos que o depoimento ilustrado pela figura 6, de um dos alunos do terceiro ano do ensino médio que contribuiu com a atividade e participou como mediador representa o sentimento do corpo discente. Figura 6: Depoimento de um aluno Fonte: Acervo pessoal. Outros depoimentos citaram que se divertiram durante a atividade, sendo possível perceber pela maioria dos alunos se engajaram por todos os 90 minutos em que estiveram nos grupos, formulando e validando suas respostas com os mediadores, podemos considerar que a estratégia de utilizar jogos pode ser uma alternativa pertinente para professores e pesquisadores. Discussão Acreditamos que relatos como o levado a efeito nesta pesquisa podem ajudar a explorar potencialidades e limitações dos jogos para dinâmicas de ensino. destacamos que o jogo pode ampliar a compreensão de múltiplas linguagens, o prazer em aprender; reforçar ou aprimorar determinadas habilidades sociocognitivas, pois permite que os professores, mediadores do processo, 19 identifiquem e sejam capazes de diagnosticar alguns erros e dificuldades dos alunos/jogadores. Com a utilização desse tipo de atividade o aluno se torna protagonista do seu próprio aprendizado, pois dialoga com o outro de uma maneira mais lúdica, apresenta suas percepções e formulações, significando e ressignificando determinados conceitos, além de poder motivar o relacionamento entre as disciplinas, em um trabalho interdisciplinar (GRANDO, 2000). Contudo, Grando (op. cit.) também pontuou a necessidade de os professores ficarem atentos, ao que ela classifica como desvantagens do uso de jogos na sala de aula. Em referência a isso, uma das questões levantadas, é o cuidado ao considerar apenas o caráter puramente aleatório do jogo, sem explicar para os alunos o motivo do uso do jogo naquele momento ou a utilização constante do recurso, transformando a aula em uma luderia. Outros problemas apontados por essa autora seriam a falta de planejamento ), e a necessidade de atenção do professor no que se refere à interferência constante do professor, minando o momento lúdico dos alunos e à obrigatoriedade da sua participação do aluno no ato de jogar, o que contraria a natureza voluntária do jogo. Outra questão que pode ser evidenciada sobre a problemática do jogo em sala de aula seria referente ao repertório dos formuladores deste tipo de recurso. Fortuna (2018) pontua que o professor não nasce professor, há uma construção ao longo da vida profissional, escolar, acadêmica e pessoal, de certa forma é o preciso que os docentes ao longo de sua trajetória possuam experiências dessa natureza para que possam refletir sobre esse tipo de prática. É importante para que consigam criar propostas que façam sentido, tanto do ponto de vista da ludicidade quanto do didático e esse é um ponto que precisa ser discutido pelo debate especializado. Por conta dessa necessidade, é importante que os formuladores de jogos com intenções didáticas reflitam acerca das potencialidades desses recursos, visto que a proposição de jogos não é nova na área da educação, mas a discussão de como podem ser utilizados com o objetivo de ensinar precisa ser mais abordada. 20 Mais uma discussão que podemos levantar é sobre o professor compreender o papel do jogo em seu planejamento. Não acreditamos na possibilidade deste recurso ser utilizado sem um objetivo claro em sala de aula, nesse sentido, corroboramos com Grando (2000), segundo a qual, por vezes, os docentes utilizam os jogos sem o real entendimento de como se deve proceder no pós-jogo. Assim, possibilidades dos jogos e avaliar os efeitos dos mesmos em relação ao processo ensino-aprendizagem refletir sobre o papel do jogo, seja para motivar ou mesmo ressignificar um conteúdo. O papel dos mediadores também é algo a ser debatido, pesquisas como a de Elorza (2013) já salientaram acerca da importância do professor durante a aplicação de jogos com intenções didáticas e pudemos considerar a importância da mediação durante nossa aplicação, de modo que concordamos com a pesquisadora e acreditamos na impossibilidade do ensino por meio de jogos sem mediadores que tenham intenções didáticas. Assim, este é um jogo em que existia destaque para o papel dos mediadores como responsáveis por organizar as respostas dos estudantes, buscando auxiliá-los durante suas construções coletivas, além de incentivarem com palavras de apoio e dando dicas quando os grupos não conseguiam responder. Considerações Finais Consideramos que a proposição de utilizar jogos como recurso didático pode servir de ponto de partida para diversas reflexões, como a do papel dos erros durante as partidas, as intenções didáticas dos formuladores das atividades, ou ainda com relação ao papel da mediação. Essas ponderações podem ajudar o debate especializado a discutir como os jogos podem ser utilizados comorecursos didáticos, além de descobrir ou ressaltar algumas de suas potencialidades e limitações, já cobertas pelo debate especializado. Foi possível observar que durante a partida, os erros foram encarados de maneira positiva pelos estudantes, além de terem se mantido engajados durante toda a partida. Acreditamos que manter 32 alunos de sextos e sétimos anos focados em uma atividade de 90 minutos foi uma característica que precisa ser levada em conta como potencialidade dessa estratégia didática. 21 Outra consideração relevante pode ser a intenção dos formuladores de jogos com intenções didáticas que, em nossa visão, precisa estar ligada a algum conhecimento a ser ensinado. Temos em conta que a colaboração, trabalho em equipe, respeito às regras e outras características positivas da realização de jogos em sala de aula são habilidades importantes de serem desenvolvidas em ambiente escolar, mas não podemos deixar de ter em mente o papel dos professores, que precisam ensinar conhecimentos presentes no currículo e acreditamos que jogos só podem ser aplicados em ambiente escolar quando levam em conta essa necessidade. Essa imposição das atividades escolares, que precisam ensinar conhecimentos curriculares, traz ao mediador um papel de organizador do trabalho discente, com o papel de estimular a formulação de novas respostas, organizador do estatuto do conhecimento desenvolvido pelos estudantes e institucionalizador do conhecimento que se pretende ensinar ao final da partida. Em nosso caso, consideramos possível que a utilização de adaptações, feitas a partir de jogos existentes, podem ser utilizadas com fins didáticos e acreditamos que este jogo pode servir como um passo inicial para discussões referentes a expressões numéricas, a partir da dinâmica proposta no terceiro desafio e questões relacionadas a formulação de sequências e até mesmo uma introdução à álgebra, utilizando como ponto de partida as resoluções dos estudantes ao segundo desafio. Vale ressaltar que, por ser um jogo proposto para uma feira de matemática, não teve o papel estrito para realizar uma institucionalização do conhecimento matemático. Porém, foi possível visualizar essa como uma perspectiva para futuras pesquisas. Essas considerações nos levaram a refletir que essa pesquisa foi um passo inicial referente à discussão de como pensar, elaborar e aplicar jogos em ambiente escolar. Acreditamos que apesar de existirem muitas pesquisas em que foram aplicados jogos, o debate referente a suas potencialidades e limitações ainda está dando seus primeiros passos e necessita de mais contribuições do público especializado. Referências Bibliográficas BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Básica. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. 22 ELORZA, N. S. L. O uso de jogos no ensino e aprendizagem de matemática nos anos iniciais do Ensino Fundamental: levantamento de teses e dissertações. 2013. 343 f. 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Dispomo-nos, ainda que de forma breve, a apresentar o PI como uma concepção de ensino que possibilita a articulação dos conteúdos curriculares com a realidade da vida, ou seja, através do estudo de uma temática de forma interdisciplinar e contextualizada, na perspectiva de solução de um problema a ser investigado. E o faremos, mediados por conceitos e categorias implicados com princípios da autonomia, da práxis e da liberdade. Em tempos recentes de crise do modelo neoliberal de Estado, do avanço ultraconservador, da desvalorização de distintos campos de conhecimento, de acentuada hierarquização dos saberes, de negacionismo científico e fake news, nos encontramos frente à disputa pela verdade e pela narrativa histórica. E no contexto em que escrevemos este artigo, com pouco mais de um ano de pandemia por COVID-19 e mais de 540 mil brasileiros mortos, ratificar a perspectiva do conhecimento e da ciência em seu sentido integral se faz urgente, principalmente no âmbito da educação, para superar a ignorância e o momento pré-iluminista1 que têm nos assombrado. Toda ciência é ciência da humanidade e são construçõeshistóricas e, assim sendo, as dicotomias e hierarquizações criadas entre as diferentes áreas do 1 A respeito da ideia de pré-iluminismo, recomendamos o artigo da Sociedade Brasileira par ao Progresso da Ciência (SBPC), Cf.: <http://portal.sbpcnet.org.br/noticias/a-volta-do-pre-iluminismo- quando-nao-se-acreditava-na-ciencia/>. Acesso em junho de 2021. 24 conhecimento materializam a forma como lidamos com a ciência e como a esvaziamento do debate sobre a construção do saber científico e o ofuscamento da necessidade de integrá-las (ROQUE, 2019). Ao trazermos o tema do Projeto Integrador (PI) como uma estratégia pedagógica na Educação Básica, o fazemos à luz deste momento histórico de rejeição da ciência, do ataque à escola pública brasileira e dos cortes severos de financiamento que a mesma vem sofrendo, do desprezo aos campos de conhecimento desinteressantes aos objetivos mais imediatos e pragmáticos do capital. Para nós, o PI é potente na construção do conhecimento engajadamente político, interdisciplinar, transformador e comprometido com a totalidade social. Entendemos que o PI, na experiência da escola pública fundamentalmente, pode promover a interatuação entre a prática e teoria, visto que suas ações devem ser orientadas pelo amplo diálogo entre vida, ciência e cultura, da autonomia de sentidos, do corpo e da mente, nas formas de interpretar e agir no mundo, ou seja, na construção de um ser da práxis. Em Gramsci (2011) a práxis se traduz na aliança entre ser e pensamento, do sujeito e do objeto. O ser humano resulta do conjunto de relações ativas, interagindo com a natureza e sendo ele mesmo parte dela, mediado pelo trabalho e pela técnica. Assim, ele é síntese e relação resultante do saber acumulado na história. De forma similar, em Freire (1987), temos a interpretação de que é próprio da condição do quefazer, é exatamente porque seu fazer é ação e reflexão. É práxis. É (FREIRE, 1987, p. 121). As palavras de Freire (1987) expressam a totalidade que é o ser humano, uma síntese da reflexão e da ação sobre o mundo em que vive e que transforma. E é justamente por reunir esta condição, que sujeito histórico pode superar a contradição existente de opressor-oprimido marcante da sociedade de classes e suas desigualdades (FREIRE, 1987). Em nossa perspectiva o PI admite a práxis como referência e recorre às práticas educativas interdisciplinares e ao princípio científico e educativo da 25 pesquisa, onde a realidade social é o ponto de partida e o ponto de chegada na produção do conhecimento e na interação do ser sobre o mundo. A respeito do princípio científico e educativo da pesquisa, vale destacar Demo (2007) e a potência deste princípio para educar o conhecimento e no estabelecimento de uma sociedade mais solidária, ética e equitativa: Tendo-se tornado cada vez mais evidente a proximidade entre conhecer e intervir, porque conhecer é a forma mais competente de intervir, a pesquisa incorpora necessariamente a prática ao lado da teoria, assumindo a marca política do início até o fim. A marca política não aparece apenas na presença inevitável da ideologia, mas sobretudo no processo de formação do sujeito crítico e criativo, que encontra no conhecimento a arma mais potente de inovação, para fazer e se fazer oportunidade histórica através dele. Neste sentido, a cidadania que se elabora na escola não é, por sua vez, qualquer uma. (DEMO, 2007, p. 6-7) Demo (2007) destaca que é especifi [...] o fazer-se e refazer- coincidentes, já que ambas estão comprometidas em superar a ignorância e o senso comum, a partir do conhecimento e do questionamento num processo de reconstrução e inovação dos saberes, porque ambas buscam confluir teoria e prática, a liberdade crítica, a qualidade formativa, a criatividade (DEMO, 2007, p.8- 9). A pesquisa como princípio científico e educativo compõe o processo pedagógico da práxis e faz emergir a complexidade dos fenômenos que regem a sociedade e como os mesmos se interligam com as diversas áreas do saber. A vivência deste princípio na dinâmica da educação básica brasileira, produzirá o permanente movimento onde professores e educandos tornam-se pesquisadores/as, mediados pela pedagogia da investigação e na intervenção na realidade social do ponto de vista da transformação revolucionária. A perspectiva da interdisciplinaridade se soma a esta mediação como método, realidade e também necessidade (FRIGOTTO, 2008). Somos seres complexos, bem como a realidade. E somos relação, somos partes que se ligam a uma totalidade. E se assim somos, bem como a realidade, estas ligações precisam estar presentes na forma como vemos e construímos o conhecimento. 26 A interdisciplinaridade, mesmo que carregada de polissemia, é uma categoria importante e necessária para projetos integradores que aqui destacamos, pois nos ampara no diálogo entre as diferentes formas de saber científico e dos sentidos, integrando-os e dando sentido aos fenômenos que experenciamos no real. Pereira (2009) assim define tal categoria: Ainda que pese a polissemia do termo, a interdisciplinaridade pode ser traduzida em tentativa do homem conhecer as interações entre mundo natural e a sociedade, criação humana e natureza, e em formas e maneiras de captura da totalidade social, incluindo a relação indivíduo/sociedade e a relação entre indivíduos. Consiste, portanto, em processos de interação entre conhecimento racional e conhecimento sensível, e de integração entre saberes tão diferentes, e, ao mesmo tempo, indissociáveis na produção de sentido da vida. (PEREIRA, 2009) Até aqui, destacamos categorias que nos orientam e amparam. Elas estarão presentes em todo o debate sobre o Projeto Integrador. E em seguida, trataremos especificamente desta estratégia à luz da perspectiva do currículo, suas etapas de construção e como pode ser um instrumento para de emancipação dos sujeitos da escola pública. Sustentamos que é possível a organização do processo educacional de maneira a produzir uma educação transformadora, e que, a prática do PI, mesmo não sendo a única, constitui-se como um dos caminhos possíveis para o desenvolvimento de uma educação humanizadora. 1. Projeto Integrador como um caminho possível para integração curricular 1.1 Necessidade de superar a fragmentação do conhecimento a que se deva associar a disciplina cujo conteúdo se ensina, a realidade agressiva em que a violência é a constante e a convivência das 2015, p. 32) O que ensinar? O quanto ensinar? Como ensinar? Como se aprende? Estas questões sempre estiveram presentes nos estudos, pesquisas e discursos dos que se ocupam a pensar sobre o papel educativo da escola. Freire (2015) aponta em seu livro Pedagogia da Autonomia, os saberes educativos que julga importante para o desenvolvimento de uma prática pedagógica que integre os saberes prévios dos estudantes e os saberes escolares. 27 Iniciamos este tópico partindo de uma premissa que não se apresenta como consenso: os conhecimentos escolares podem e devem ser articulados com os saberes da realidade vivida pelo estudante. Os estudos sobre a área de currículo apontam que ao longo da história da educação, o sentido dado à educação, e a preocupação com a organização do ensino, sempre se apresentaram como temas em disputa. Vale destacar que, as diferentes teorias curriculares foram elaboradas buscando justificar a seleção de saberes e conhecimentos em detrimento de outros, visto como menos importante, é o que nos alerta Silva (2002), em seu livro Documentos de Identidade: uma introdução às teorias do currículo. [...] o currículo é também uma questão de poder. [...] Selecionar é uma operação de poder. Privilegiar um tipo de conhecimento é uma questão de poder. Destacar, entre múltiplas possibilidades, uma identidade ou subjetividade como sendo a ideal é operação depoder. (SILVA, 2002, p.16) Sabe-se que o conhecimento nas sociedades antigas não era segmentado como atualmente se apresenta na maioria das instituições de ensino. Foi na busca por responder às demandas da realidade que os seres humanos buscaram produzir conhecimentos para dar sentido à vida. Entretanto, com o acúmulo de conhecimento ao longo da história, foi se desenvolvendo também uma especialização do saber. Neste sentido, a escola passou então a sustentar a compartimentalização do saber, assim como o exercício do poder na seleção dos conteúdos a serem ensinados. Ao longo da história da educação, as práticas educativas baseadas na concepção tradicional da educação e do currículo se desenvolveram, e se desenvolvem, não reconhecendo e nem valorizando os saberes, vivências, experiências e realidade dos alunos. Na tentativa de superar esta visão fragmentada e descontextualizada do conhecimento, a integração dos saberes se apresenta como um caminho possível para desenvolver novos modos de organização do currículo, e, consequentemente, novos modos de produção da vida social. A concepção de integração curricular vem sendo discutida por vários autores e se apresenta como uma alternativa pedagógica capaz de dar sentido aos 28 conteúdos curriculares, contrapondo-se à simples transmissão de conteúdo e à aprendizagem mecânica e descontextualizada. Como dito anteriormente, neste trabalho nos propomos a apresentar o PI como uma concepção de ensino que possibilita a articulação dos conteúdos curriculares com a realidade da vida, ou seja, através do estudo de uma temática de forma interdisciplinar e contextualizada, na perspectiva de solução de um problema a ser investigado. Trabalhar com projetos em sala de aula implica no desenvolvimento de um fazer pedagógico cooperativo e compartilhado. Para que tal aconteça, é de suma importância que haja um ambiente interativo, de valorização dos diferentes saberes, e de construção de conhecimentos. Experiências educacionais realizadas por meio de projetos tem sua origem no movimento Escola Nova, surgido no fim do século XIX e início do século XX, principalmente, a partir das ideias de John Dewey (1859-1952), filósofo/pedagogo norte-americano, que defendia o ensino baseado na experiência direta dos alunos como forma de superar a dicotomia entre a escola e a vida/interesse dos alunos. Para Dewey (1973) a educação, sendo um processo de vida, deveria se vincular a vida social e cultural do estudante. De acordo com Menezes & Cruz (2007), no final do século XX, o educador espanhol Fernando Hernández (1988) também passou a defender o uso de projeto como estratégia de ensino-aprendizagem, na perspectiva da integração e construção de conhecimento. O termo Projeto de Trabalho foi utilizado pelo autor para denominar as experiências significativas vividas por ele nas escolas de ensino fundamental em Barcelona. Segundo o autor, para que haja construção global de conhecimento, é preciso que no processo edu aspectos de seus conhecimentos anteriores, enquanto, ao mesmo tempo, vai A partir das ideias de Dewey e Hernandez sobre o uso de projeto como estratégia de ensino e aprendizagem, neste trabalho buscamos apresentar a prática de projetos integradores na Educação Básica, como possibilidade de desenvolvimento de situações de aprendizagem reais e diversificadas, visto que, o 29 projeto integrador alia ensino e pesquisa, teoria e prática, na perspectiva do desenvolvimento do senso crítico e da práxis. Pensar o projeto integrador como uma estratégia pedagógica significa pensar na realização de atividades interdisciplinares, que possibilite ao estudante adquirir conhecimentos no sentido da integração curricular, rompendo com a fragmentação e hierarquização dos conhecimentos. Além disso, trabalhar com PI promove a autonomia dos estudantes, tornando-o sujeito do seu próprio processo de aprendizagem. 1.2. Planejando o Projeto Integrador Após a análise conceitual e a exposição de justificativa na utilização do PI como estratégia de ensino aprendizagem, passamos agora a considerar, alguns pontos importantes para o planejamento desta estratégia. a) Que objetivos podem ser alcançados com o desenvolvimento do PI? A seguir elencamos alguns deles, a saber: Contextualizar e articular os saberes; Melhorar a capacidade de tomar decisão; Desenvolver a capacidade do estudante de resolver problemas; Analisar, explicar e avaliar um determinado tema, articulando com a realidade; Promover a inter-relação entre temas e conteúdos abordados ao longo do curso; Ensinar a planejar ações; Estimular a oralidade; Desenvolver visão crítica; Despertar interesse pela pesquisa; Melhorar a capacidade de administrar conflitos; Estimular a construção de conhecimento coletivo. b) Quais são as fases e as etapas do PI? Convém pontuar que as etapas do PI se assemelham às etapas de um projeto de pesquisa. i). Escolha do tema; ii). Levantamento de hipóteses de pesquisa; iii). Planejamento das etapas das atividades; iv). Coleta de dados; v). Estudo bibliográfico; vi). Tratamento dos dados; vii). Preparação do trabalho escrito estruturado; viii). Preparação da defesa pública do projeto. 30 Percebe-se que esta metodologia exige rigorosidade metódica para que haja uma real produção de conhecimento. Sendo assim, o que fazer primeiro? Como sensibilizar meus alunos de forma a conseguir o engajamento na atividade? E como posso avaliar o desempenho dos alunos? Como integrar os saberes de todas as disciplinas envolvidas no projeto? Entendemos que são necessárias quatro etapas para o desenvolvimento do PI: sensibilização e planejamento, desenvolvimento do projeto, apresentação dos resultados e avaliação. Sensibilização e planejamento é uma etapa importante para a efetivação do projeto, pois é o momento no qual todos os envolvidos são esclarecidos acerca do propósito do trabalho, e o educador poderá perceber as expectativas dos estudantes com relação a este tipo de trabalho, assim como esclarecer as atribuições de cada um para que os objetivos do projeto sejam alcançados. Na etapa de execução do projeto as equipes iniciam as atividades planejadas, e tais atividades passam a fazer parte do planejamento do curso A, ou das disciplinas envolvidas. Sendo assim, todas as disciplinas envolvidas contribuem com discussões temáticas, e na construção de conhecimentos em torno da problemática a ser investigada no projeto. A partir desta vivência o estudante é levado a refletir sobre a integração dos saberes, isto é, sobre a inter-relação entre temas e conteúdos abordados nas disciplinas com a realidade, estimulando a curiosidade e o desenvolvimento do criatividade sem a curiosidade que nos move e que nos põe pacientemente impacientes diante do mundo que não fizemos, acrescentando a ele algo que Quanto à apresentação dos resultados, se faz necessário a definição de uma forma de apresentação, que dependendo do tipo de projeto, pode ser feita por meio de uma mostra científica e/ou técnica e/ou cultural. Seja qual for a escolha da apresentação, o ideal é que haja participação de toda comunidade escolar. No que diz respeito à avaliação se faz necessário que ela tenha critérios estabelecidos na etapa do planejamento para que os estudantes saibam de que forma serão avaliados. Vale a pena destacar que, esta estratégia de ensino prima 31 pela avaliação qualitativa, de caráter formativa, e, que, portanto, seja feita ao longo de todo o processo, e não apenas no momento da apresentação final. 1.3. Projeto Integrador: uma atividade a serviço da Educação Humanizadora A narração, de que o educador é o sujeito, conduz os educandos à memorização mecânica do conteúdo narrado. Mais ainda, a narração os transforma Desta maneira, a educação se torna um ato de depositar,em que os educandos são os depositários e o educador o depositante. Em lugar de comunicar- educandos, meras incidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem. Eis oferece aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá-los e arquivá-los. Margem para serem colecionadores ou fichadores das coisas que arquivam. (FREIRE, 1996, p.57) Paulo Freire (1996), ao criar o conceito de educação bancária, faz a crítica ao ensino na perspectiva da memorização e reprodução acrítica, e propõe um ensino baseado no diálogo com a realidade, e a colaboração entre os diferentes saberes. Como discutido até aqui, a proposta do PI estabelece a construção de uma educação que prioriza a construção de conhecimentos, a partir de diversas experiências, capazes de proporcionar ao estudante um ensino para além da memorização mecânica de conteúdo. Assim, como na visão defendida por Freire, o estudante na proposta do Projeto Integrador também se apresenta como um sujeito histórico, político, social, e protagonista do seu processo de aprendizagem. Segundo [...] é por isso que transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercíci . (FREIRE, 2015, p. 34) Sustentamos que é possível a organização do processo educacional de maneira a produzir uma educação transformadora, e que, a prática do PI, mesmo 32 não sendo a única, constitui-se como um dos caminhos possíveis para o desenvolvimento de uma educação humanizadora. Hoje, mais do que nunca, o sentido da escola, da educação e do professor, encontra-se em disputa. A lógica neoliberal impera na produção das políticas públicas. Neste sentido, as políticas educacionais atuais legitimam um ensino marcado pelo aligeiramento, com ênfase no desenvolvimento das competências e das habilidades, em detrimento da construção do conhecimento. Sobre o conceito de competências e o seu uso nas políticas educacionais, alinhamos o nosso pensamento às ideias defendidas por Kuenzer: A escola é o lugar de aprender a interpretar o mundo para poder transformá-lo, a partir do domínio das categorias de método e de conteúdo que inspirem e que se transformem em práticas de emancipação humana em uma sociedade cada vez mais mediada pelo conhecimento. O lugar de desenvolver competências, que por sua vez mobilizam conhecimentos, mas que com eles não se confundem, é a prática social e produtiva. Confundir estes dois espaços, proclamando a escola como responsável pelo desenvolvimento de competências, resulta em mais uma forma, sutil, mas extremamente perversa, de exclusão dos que vivem do trabalho, uma vez que os filhos da burguesia desenvolvem suas capacidades apesar da escola, que para muitos passa a ser apenas constitui no único espaço de relação intencional e sistematizada com o conhecimento. (KUENZER, 2002, p.10) O que estamos propondo, portanto, é que a escola invista em mecanismos de aprendizagem que possibilitem a formação de sujeitos críticos e reflexivos, a partir da construção de conhecimentos que possibilitem a emancipação humana, e não apenas o atendimento às necessidades do mercado de trabalho. Ao apostar na prática educativa a partir do desenvolvimento do PI estamos falando de uma perspectiva de educação que não está orientada pelo conceito de competência, defendido pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), e nem tão pouco pelos resultados de avaliações padronizadas. Trata-se de uma aposta em um fazer pedagógico para a formação humana, que gere transformações pessoais e sociais, ampliando o sentido da escola e do papel dos sujeitos na sociedade, partindo do aprendizado por meio do diálogo, da indagação e do trabalho coletivo. 33 Consideramos, portanto, que tanto as ideias de Hernandez (1988), quanto às ideias defendidas por Freire (1996; 2015) nos dão subsídios para afirmar a potência da prática do PI como atividade educativa humanizadora, que proporciona a curiosidade e o desejo de aprender, possibilitando assim a resistência ao modelo de educação aligeirado e superficial proposto pelo neoliberalismo. Existem algumas experiências com projeto integrador em diferentes instituições, níveis e modalidades de ensino, mas, como referência nesse trabalho, citamos o primeiro Projeto Integrador do Campus Chapecó, no curso de eletromecânica, na modalidade EJA. Silva & Coser (2009) relatam que A partir da experiência vivida no curso de PROEJA Eletromecânica, Campus Chapecó, podemos dizer que a integração é tarefa árdua, é construção cotidiana, é realidade por vezes aparentemente distante, outras vezes muito próxima. Mais do que a integração plena, o que se vivenciou a partir de 2009 foram momentos de proximidade, de interdisciplinaridade e também de integração. São estes momentos que tornam os grupos mais experientes e com esperança de avançar mais e mais. (SILVA & COSER, 2009, p. 11) Nesta perspectiva, se faz necessário também pensar sobre o papel dos professores no processo educativo. No contexto atual, a formação inicial e continuada de professores está imbuída de uma ideologia que privilegia estritamente o caráter técnico e instrumental do ofício do professor. O que consideramos uma ameaça ao desenvolvimento de uma educação pública na perspectiva da práxis. Entendemos, tal como Giroux (1997), o papel do professor como intelectual transformador, daí a necessidade de uma formação docente que permita espaços de reflexão-ação-reflexão críticas sobre o processo educativo, em todas as suas de intelectual transformador é a necessidade de tornar o pedagógico mais político e 97, p.5). Considerações finais. Como temos tratado até agora, consideramos urgente e premente a defesa de práticas de integração e interdisciplinares como estratégias potentes de transformação do trabalho pedagógico e político da/na escola pública. 34 Apostar em práticas educativas que promovam mudanças na esfera social faz parte do compromisso social do fazer docente. Para tanto, acreditamos no Projeto Integrador, como um caminho possível para o desenvolvimento de um ensino aprendizagem significativo. Mas apesar de parecer uma tarefa difícil, é possível aos educadores a criação de condições para que os estudantes sejam formados como cidadãos críticos, que assumam, corajosamente, o seu lugar de luta para uma vida mais justa e digna para todos. Referências Bibliográficas DEMO, P. Educar pela pesquisa. Campinas: Autores associados, 2007. FAZENDA, I. Interdisciplinaridade e transdisciplinaridade na formação de professores. Ideação. v. 10, n. 1, p. 93 104, 2008. Disponível em: http://e-revista.unioeste.br/index. php/ideacao/article/view/ 4146/3191/. Acesso em março de 2021. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2015. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1996. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1987. FRIGOTTO. G. A interdisciplinaridade como necessidade e como problema nas ciências sociais. Ideação, v. 10, n. 1, p, 41 62, 2008. 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Acesso em julho de 2021. 36 O papel da resolução de problemas na aprendizagem matemática na atualidade Mário Barbosa da Silva Norma Suely Gomes Allevato Introdução É notório como, inevitavelmente, estão ocorrendo as transformações sociais de forma cada vez mais rápida, profunda e essencial em nossa sociedade. Em particular, o mercado de trabalho tem exigido profissionais com novas habilidades, dentre as quais se pode destacar a de resolver problemas diversos. Para enfrentar essa diversidade de problemas no contexto profissional, os estudantes precisam ter uma formação, desde a Educação Básica, que os prepare para enfrentar os novos desafios que estão surgindo. Diante desta evolução mundial, desencadeou-se um esforço crescente para que a escola do século XXI melhore a qualidade do ensino de Matemática na Educação Básica, pois as pesquisas, programas e políticas públicas em âmbito nacional e internacional identificaram a necessidade de práticas de aula que valorizem a criatividade, a inovação, a investigação e a resolução de problemas pelos estudantes. Assim, diversos países tiveram que reestruturar os seus sistemas educacionais e reelaborar seus currículos, visando preparar melhor o professor para utilizar métodos eficazes oferecendo aos estudantes condições para inserção em uma sociedade global, preparando-os para enfrentar desafios, mudanças complexas e diversidades, que incluem resolver problemas novos e inesperados. Considerando essa realidade, o presente capítulo tem por objetivo refletir sobre como a Metodologia de Ensino-Aprendizagem-Avaliação de Matemática através da Resolução de Problemas (ALLEVATO; ONUCHIC, 2014) vem sendo uma das estratégias de ensino privilegiadas para contribuir com a melhoria da qualidade do ensino de conceitos e conteúdos de Matemática abordados na Educação Básica e na Educação Superior. Ela se mostra, ainda, com potencial formativo importante 37 ao desenvolvimento de atitudes e habilidades consideradas essenciais nesta nova configuração social. Esse processo tem evidenciado, ademais, a participação ativa dos estudantes no seu próprio processo de aprendizagem, além de aspectos ligados ao desenvolvimento profissional dos professores. Iniciamos o capítulo com uma explanação sobre as recomendações feitas pelos documentos norteadores, a Base Nacional Comum Curricular1, publicada em 2018, em âmbito nacional, e os Princípios e Padrões para Matemática Escolar2, publicados em 2000, em âmbito internacional. Em seguida, abordaremos as concepções sobre a resolução de problemas visando possibilitar uma melhor compreensão em relação ao principal objetivo da Metodologia de Ensino- Aprendizagem-Avaliação de Matemática através da Resolução de Problemas e à distinção entre (1) ensinar sobre resolução de problemas, (2) ensinar Matemática para resolver problemas e (3) ensinar Matemática através da resolução de problemas. Na terceira parte, apresentaremos algumas possibilidades de conexões através da resolução de problemas na aprendizagem e na formação inicial e continuada de professores de Matemática. A quarta parte será dedicada à proposição de problemas, conforme as recomendações dos documentos curriculares atuais e a quinta parte aos trabalhos desenvolvidos na linha Resolução de Problemas, no GPEAEM Grupo de Pesquisa e Estudos Avançados em Educação Matemática, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências da Universidade Cruzeiro do Sul, São Paulo/SP, encerrando com as considerações finais e referências. A Resolução de Problemas nos Documentos Oficiais A necessidade de promover uma Educação de excelência, ou seja, que vai ao encontro das demandas impostas à geração deste novo século, desencadeou processos de reformulação dos currículos escolares por diversos países, visando diminuir o distanciamento entre os contextos social, profissional e educacional. No Brasil, essa reformulação iniciou-se em 2015 quando diversos educadores brasileiros se debruçaram para elaborar o documento norteador intitulado Base 1 Referimo-nos à versão completa da BNCC, que inclui toda a Educação Básica, ou seja, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. 2 Principles and Standards for School Mathematics 38 Nacional Comum Curricular BNCC. Este importante documento foi homologado em 2017 para o Ensino Fundamental e, em 2018, para o Ensino Médio. Com a BNCC, pretende-se garantir um objetivo de aprendizagens essenciais aos estudantes brasileiros, seu desenvolvimento integral, concretização de projetos de vida e condições de continuidade nos estudos. Na área de Matemática, o estudante da Educação Básica precisa desenvolver habilidades essenciais para a compreensão significativa do conteúdo e, segundo as recomendações da BNCC, a resolução de problemas pode contribuir com a aprendizagem. O documento enfatizar que Os processos matemáticos de resolução de problemas, de investigação, de desenvolvimento de projetos e da modelagem podem ser citados como formas privilegiadas da atividade matemática, motivo pelo qual são, ao mesmo tempo, objeto e estratégia para a aprendizagem ao longo de todo o Ensino Fundamental. Esses processos de aprendizagem são potencialmente ricos para o desenvolvimento de competências fundamentais para o letramento matemático (raciocínio, representação, comunicação e argumentação) e para o desenvolvimento do pensamento computacional. (BRASIL, 2018, p. 266, grifo nosso) Para este documento norteador, a resolução de problemas é considerada uma estratégia de ensino para a Educação Básica ao contribuir com o desenvolvimento do processo de aprendizagem, promovendo o desenvolvimento de habilidades como a argumentação, a representação, a elaboração de conjecturas e de estratégias de resolução, a investigação, a criatividade e o raciocínio dedutivo. Além disso, destaca nas competências específicas de Matemática do Ensino Fundamental, que os estudantes precisam Utilizar processos e ferramenta matemáticas, inclusive tecnologias digitais disponíveis, para modelar e resolver problemas cotidianos, sociais e de outras áreas de conhecimento, validando estratégias e resultados. Enfrentar situações-problema em múltiplos contextos, incluindo-se situações imaginadas, não diretamente relacionadas com o aspecto prático-utilitário, expressar suas respostas e sintetizar conclusões, utilizando diferentes registros e linguagens (gráficos, tabelas, esquemas, além de texto escrito na língua materna e outras linguagens para descrever algoritmos, como fluxogramas, e dados). (BRASIL, 2018, p. 267, grifo nosso). Assim, a Base Nacional Comum Curricular enfatiza, uma vez mais, a importância da resolução de problemas, sugerindo que o estudante seja inserido em 39 um contexto que promove o pensar, o raciocinar em situações envolvendo o contexto real, no desafio de encontrar uma solução, se houver,coerente e correta, por meio de diversas formas de representação e estratégias de resolução, além de aperfeiçoar-se na elaboração de conjecturar e favorecer os aspectos imaginários fundamentais para o desenvolvimento da criatividade. Desse modo, a resolução de problemas transcende as atividades rotineiras caracterizadas pela repetição e que oferecem poucas oportunidades para o estudante refletir sobre o que está aprendendo. No que tange à diversidade dos aspectos cognitivos que a resolução de problemas desenvolve, especificamente no estudante do 6° ao 9° ano, a BNCC considera que [...] para a aprendizagem de certo conceito ou procedimento, é fundamental haver um contexto significativo para os alunos, não necessariamente o cotidiano, mas também de outras áreas do conhecimento e da própria história da Matemática. No entanto, é necessário que eles desenvolvam a capacidade de abstrair o contexto, apreendendo relações e significados, para aplicá-los em outros contextos. Para favorecer essa abstração, é importante que os alunos reelaborem os problemas propostos após os terem resolvido. Por esse motivo, nas diversas habilidades relativas à resolução de problemas, consta também a elaboração de problemas. Assim, pretende-se que os alunos formulem novos problemas, baseando-se na reflexão e no questionamento sobre o que ocorreria se alguma condição fosse modificada ou se algum dado fosse acrescentado ou retirado do problema proposto. (BRASIL, 2018, p. 299, grifo nosso) Desse modo, a BNCC destaca que a diversidade de habilidades que a resolução de problemas desenvolve no estudante da Educação Básica é inerente ao processo de raciocínio, de modo que o aluno possa elaborar e apresentar resoluções abordadas de múltiplas maneiras e por meio de diferentes representações. Além disso, a formulação de novos problemas também tem sido considerada essencial para a fixação e ampliação das aprendizagens sobre os conceitos abordados, e para o desenvolvimento da criatividade e da abstração. O documento explicita ainda que, no Ensino Médio, o estudante precisa desenvolver habilidades cognitivas, além de [...] desenvolver habilidades relativas aos processos de investigação, de construção de modelos e de resolução de problemas. Para tanto, eles devem mobilizar seu modo próprio de raciocinar, representar, 40 comunicar, argumentar e, com base em discussões e validações conjuntas, aprender conceitos e desenvolver representações e procedimentos cada vez mais sofisticados. (BRASIL, 2018, p. 529, grifo nosso) Assim, a resolução de problemas deve ser implementada para promover, gradativamente, habilidades de utilizar diferentes formas de representação dos objetos matemáticos, relevantes no processo de aprendizagem, além de possibilitar a comunicação das conexões do conteúdo matemático com outras áreas do conhecimento. Pela resolução de problemas, o aluno é levado a raciocinar, investigar, explicar e justificar as resoluções apresentadas, apropriando-se de conceitos e definições matemáticas para justificar os raciocínios utilizados. Também em âmbito internacional, a resolução de problemas é considera uma importante metodologia/estratégia de ensino e aprendizagem. Nos Estados Unidos, destacam-se os Princípios e Padrões para Matemática Escolar3, que foi desenvolvido pelo National Council of Teachers of Mathematics, em 2000, com a finalidade de promover o ensino e a aprendizagem de Matemática com compreensão e para todos. Os Standards, como é conhecida essa publicação, propõem uma visão relevante sobre a resolução de problemas enfatizando que ela [...] implica o envolvimento numa tarefa, cujo método de resolução não é conhecido antecipadamente. Para encontrar a solução, os alunos deverão explorar os seus conhecimentos e através deste processo desenvolvem, com frequência, novos conhecimentos matemáticos. A resolução de problemas não só constitui um objetivo da aprendizagem matemática, como é também um importante meio pelo qual os alunos aprendem matemática. Os alunos, deverão ter muitas oportunidades para formular, discutir e resolver problemas complexos que requeiram um esforço significativo e, em seguida, deverão ser encorajados a refletir sobre os seus raciocínios. (NCTM, 2000, p. 57, grifo nosso) A proposta americana sugere expressivamente que a aprendizagem ocorra com o professor utilizando a resolução de problemas como metodologia de ensino, e ressalta sua contribuição para o desenvolvimento integral do estudante nas disciplinas de Matemática, assim como é recomendado pela BNCC, pois a resolução 3 Principles and Standards for School Mathematics 41 de problemas possibilita oportunidades ricas para explorar, criar, discutir, aprender e refletir sobre o que se está aprendendo. Esse documento destaca, também, que A resolução de problemas constitui uma parte integrante de toda a aprendizagem matemática e, como tal, não deverá ser apresentada como uma unidade isolada do programa de matemática. Na matemática, a resolução de problemas deverá englobar todas as cinco áreas de conteúdo descritas nestas normas. Os contextos dos problemas poderão variar desde experiências familiares aos alunos, relativas às suas vidas pessoais ou ao dia-a-dia escolar, até aplicações envolvendo as ciências e o mundo do trabalho. Bons problemas deverão integrar uma variedade de tópicos e envolver matemática significativa. (NCTM, 2000, p. 57, grifo nosso) Entendemos que os Standards recomendam que a resolução de problemas disciplinas matemáticas, diante de vários contextos, desde os familiares e ligados ao cotidiano, até os científicos e os relacionados aos vários campos profissionais. O documento aponta, também, que os bons problemas em Matemática proporcionam aos estudantes a oportunidade de consolidar e ampliar seus conhecimentos além de adquirir destreza para procedimentos e tarefas específicas. Sendo assim, acreditamos que a Resolução de Problemas como metodologia de trabalho em sala de aula é essencial ao ensino e à aprendizagem dos conteúdos matemáticos havendo unanimidade entre a BNCC e os Standards com relação à sua importância nos currículos escolares. Concepções sobre resolução de problemas De acordo com evidências de pesquisas (ONUCHIC, 1999; ALLEVATO, 2005), há presença expressiva de produções na literatura voltada à Educação Matemática que versam sobre a resolução de problemas, e este termo também pode ser encontrado em outros textos, livros-texto de Matemática e em outras áreas do conhecimento. Apesar das contribuições significativas que essas produções possam ter proporcionado à prática pedagógica dos professores, o mesmo não ocorreu com a aprendizagem matemática, que não apresentou uma melhora esperada na Educação Básica por não haver conformidade na compreensão do principal objetivo da res 42 ocorreu, possivelmente, pelas grandes diferenças existentes entre as concepções que pessoas e grupos tinham sobre o significado de resolução de problemas ser o foco da matemática 20 anos, consideramos que ainda hoje ela permanece válida. Nessa mesma perspectiva, Schroeder e Lester (1989 apud Allevato, 2005) em sempre é claro entre professores e pesquisadores em educação matemática. Em suas pesquisas, Schroeder e Lester (1989 apud Allevato, 2005) evidenciaram, no final da década de 1980, três formas distintas de abordar a resolução de problemas que podem auxiliar no entendimento e na reflexão sobre essa diferença de compreensão sobre a resolução de problemas no contexto da aprendizagem: (1) ensinar sobre a resolução de problemas; (2) ensinar Matemática para resolver problemas e (3) ensinar Matemática através da resolução de problemas4. Quando se trabalha com a concepção de ensinar sobre a resolução de problemas, o professor visa fundamentar e enfatizar, por exemplo, o modelo de Polya. Este modelo, estabelece que para ser bem-sucedido naresolução de um problema é essencial adotar as seguintes etapas: compreender o problema, estabelecer um plano de ação, executar o plano e fazer um retrospecto para analisar a solução encontrada (POLYA, 1945). Allevato (2005, p. 52) menciona que o ensino sobre resolução de problemas estrutura suas atividades por meio de estratégias e procedimentos gerais, e pelo processo de repetição que, embora contribua para obter algum rendimento em Matemática, apoia- desvinculando os problemas do seu contexto específico. Os conteúdos continuam sem sentido para o aluno, que é privado da oportunidade de descobrir por si ensinado pelo professor em suas atividades em sala de aula. Na concepção de ensinar matemática para resolver problemas, o professor valoriza como a Matemática é ensinada e procura relacionar o conteúdo abordado 4 43 com situações que envolvem o contexto social, educacional, científico e profissional do estuda preocupa com a habilidade dos alunos de transferirem o que aprenderam num contexto para problemas em outros contextos, ou seja, ele ensina para a resolução ao utilizar o conceito de progressão geométrica para estimar ou descrever o desenvolvimento de uma cultura de bactérias, em Biologia. Allevato (2005) adverte que, apesar desse formato proporcionar um ensino mais significativo em Matemática, pode desenvolver uma cultura limitada no estudante de que a Matemática sempre terá uma aplicação imediata: As limitações desta visão a respeito da Matemática, da forma como entendo, ocorrem por duas razões: porque limita a atividade do aluno à resolução de problemas rotineiros, uma vez que os problemas devem exigir a aplicação da teoria matemática já supostamente aprendida pelos alunos; e, também, porque ignora o potencial formador da Matemática, no tocante ao desenvolvimento do raciocínio, da capacidade de abstrair, relacionar, representar, tomar decisões e, por que não, criar. (ALLEVATO, 2005, p. 55) A concepção de ensinar Matemática através da resolução de problemas, surgiu após o trabalho do NCTM com diversas produções de caráter curricular e de orientação aos professores. Dentro dessa concepção, as pesquisadoras Allevato e Onuchic (2014) referem-se a adotar a resolução de problemas como um ponto de partida e um meio de ensinar Matemática, ou seja, adotar a resolução de problemas como uma metodologia de ensino. Nessa perspectiva, Onuchic (1999) enfatiza que [...] o problema é olhado como um elemento que pode disparar um processo de construção do conhecimento. Sob esse enfoque, problemas são propostos ou formulados de modo a contribuir para a formação dos conceitos antes mesmo de sua apresentação em linguagem matemática formal (ONUCHI, 1999, p. 207). Assim, segundo a pesquisadora, para ensinar Matemática através da resolução de problemas, o professor não deve iniciar o novo conteúdo apresentando as definições; mas, como ponto de partida, um problema gerador, que permitirá a participação ativa do estudante em todo o processo de construção do novo conhecimento matemático ao longo de sua resolução. Para Allevato e Onuchic (2014, p. 48), a resolução de problemas não deve se constituir ao estudante apenas como um momento de aplicação de um método, 44 estratégia ou conteúdo já conhecido ou já aprendido para resolver o problema formação de um cidadão crítico e reflexivo. Assim, as pesquisadoras acreditam que ensino, aprendizagem e avaliação devem ocorrer simultaneamente, durante todo o processo pelo qual o estudante desenvolve sua aprendizagem. O aluno deve proceder de forma autônoma e o professor atuar neste contexto como mediador. Nessa perspectiva, Cai e Lester (2012) apontam que a resolução de problemas tem a finalidade de promover desafios intelectuais visando a compreensão e a aprendizagem dos estudantes em relação aos conceitos matemáticos abordados. Para que esses pressupostos ocorram, Onuchic e Allevato (2011, p. 81) sugerem a Metodologia de Ensino-Aprendizagem-Avaliação de Matemática através da sala de aula, através da resolução de problemas, os alunos devem fazer conexões Esse ponto de partida é essencial para tirar o estudante, na aula de Matemática, do estado de receptor para inseri-lo em situações que exijam o pensar, a busca por uma resposta, e a elaboração de procedimentos para resolver problemas, descrever seu raciocínio e aprender Matemática. A dinâmica de trabalho com essa metodologia exige uma nova postura, tanto do professor como do aluno. Esse processo é centrado no aluno enquanto o professor atua como mediador, incentivador e questionador. Segundo Cai e Lester (2012, p. para uma boa aula de Matemática. Allevato e Onuchic (2014) sugerem dez etapas a serem seguidas para promover aprendizagem de Matemática em sala de aula com essa metodologia: (1) proposição do problema, (2) leitura individual, (3) leitura em conjunto, (4) resolução do problema, (5) observar e incentivar, (6) registro das resoluções na lousa, (7) plenária, (8) busca do consenso, (9) formalização do conteúdo, (10) proposição e resolução de novos problemas. (ALLEVATO; ONUCHIC, 2014, p. 45) A eficácia da Metodologia de Ensino-Aprendizagem-Avaliação de Matemática através da Resolução de Problemas decorre de um conjunto de fatores 45 e saberes, segundo os pesquisadores nesta linha de pesquisa; porém, para Onuchic e Allevato (2011, p. 82), os primordiais são as funções atribuídas ao professor e ao estudante: "o professor precisa preparar, ou escolher, problemas apropriados ao conteúdo ou ao conceito que pretende construir, sendo dos alunos a maior Ao trabalhar com a Metodologia de Ensino-Aprendizagem-Avaliação de Matemática através da Resolução de Problemas, é notório como a compreensão dos conteúdos matemáticos emergirá, a busca por justificativas embasadas em conceitos para refutar ou não uma resolução, a possibilidade de aprender diversas formas de resoluções, além do fornecimento de dados avaliativos durante todo o processo envolvendo a resolução do problema que conduzirá à aprendizagem. As Conexões e a Resolução de Problemas no Ensino-Aprendizagem-Avaliação de Matemática Para viver em uma sociedade que se transforma constantemente, é essencial que o cidadão esteja disposto a readequar seus saberes visando atender as expectativas das exigências impostas por essa nova sociedade. A nova realidade impõe múltiplos desafios, entre os quais a resolução de problemas novos e imprevisíveis em diversos contextos, e as respostas para esses novos problemas podem estar relacionadas com conexões, estabelecidas interna ou externamente a uma área do conhecimento. Essa perspectiva não é diferente na esfera educacional, pois as recomendações dos documentos oficiais (NCTM, 2000; BRASIL, 2018) e da comunidade de educadores matemáticos que se dedicam à resolução de problemas (VAN de WALLE, 2009; ALLEVATO; ONUCHIC, 2009, 2014, 2019; ALLEVATO, 2014), enfatizam a importância de estabelecer conexões no ensino e aprendizagem de Matemática. Allevato e Onuchic (2019, p. 05) mencionam que foi com as indicações dos Standards para o currículo de Matemática dos Estados Unidos que o conceito de conexão ganhou relevância na aprendizagem de Matemática. Os Standards (NCTM, 46 a serem desenvolvidos no trabalho com alunos desde a Educação Infantil até o Ensino Os Standards destacam, também, que Quando os alunos conseguem estabelecer conexões entre ideias matemáticas, a sua compreensão é mais profunda e duradoura. Podem observar a existência de conexões na abundante interação entre os vários tópicos matemáticos, em contextos que relacionam a matemática com outras disciplinas e nos seus próprios interesses e experiências. Através de um ensino que enfatize a inter-relação das diversas ideias matemáticas, os alunos não só aprendem matemática, como também aprendem a reconhecer utilidade da matemática. (NCTM, 2000, p. 71)Em âmbito nacional, a Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2018) aponta a importância em estabelecer conexões entre conteúdos distintos dentro da própria Matemática, entre a Matemática e outras disciplinas, entre a Matemática e as profissões, e entre a Matemática e a vida real, ressaltando que Da mesma forma que na fase anterior, a aprendizagem em Matemática no Ensino Fundamental Anos Finais também está intrinsecamente relacionada à apreensão de significados dos objetos matemáticos. Esses significados resultam das conexões que os alunos estabelecem entre os objetos e seu cotidiano, entre eles e os diferentes temas matemáticos e, por fim, entre eles e os demais componentes curriculares. (BRASIL, 2018, p. 297) Para Allevato e Onuchic (2019, p. 6), dentre os diversos benefícios que as conexões proporcionam na aprendizagem em Matemática, o principal que se pode consequentemente as conexões permitem aos alunos dar sentido à Matemática e entendê-la pesquisadoras consideram que a resolução de problemas e as conexões são processos relevantes para a aprendizagem na Educação Básica e para o entendimento tanto dos conteúdos internos como os de fora da Matemática. Estes fatos são corroborados com pesquisas (DUARTE, 2020; ALLEVATO; ONUCHIC, 2009, 2019; CORSI, 2018; PAGANI, 2016) que utilizaram a Metodologia de Ensino-Aprendizagem-Avaliação de Matemática através da Resolução de Problemas em pesquisas que possibilitaram aos estudantes estabelecer conexões no processo de aprendizagem dos conteúdos que foram abordados. 47 A pesquisa de Duarte (2020) foi realizada em uma disciplina do curso superior de Tecnologia em Jogos Digitais. Os estudantes da disciplina desenvolveram um jogo educacional digital de Matemática abordando conceitos de Lógica Proposicional, conforme a imagem a seguir: Figura 1 Fonte: DUARTE, 2020, p. 161 As conexões estabelecidas foram entre o conteúdo da disciplina Matemática Discreta e o cotidiano profissional dos estudantes, qual seja o do desenvolvimento de jogos eletrônicos. A pesquisa de Allevato e Onuchic (2019) abordou um problema que versa, inicialmente, sobre geometria espacial, conforme a seguir. Figura 2 Fonte: Trota, Imenes e Jakubovic apud Allevato e Onuchic, 2019, p. 08. Allevato e Onuchic (2019) mencionaram que este problema gerador estabelece conexões entre conteúdos de geometria plana e espacial, álgebra, trigonometria e números complexos. Constitui-se, ainda, em um problema rico para ser desenvolvido na formação inicial, pois os futuros professores vão ser inseridos na construção do seu conhecimento envolvendo conceitos novos e, também, ressalte- se, no resgate do que já foi aprendido para estabelecer conexões com o que estão 48 aprendendo, ou seja, há possibilidade de aprofundar o conhecimento dos novos conteúdos de forma dinâmica e em espiral. A pesquisa de Corsi (2018) teve por objetivo analisar a presença da Matemática nos cursos superiores de Administração, nos documentos oficiais institucionais e nas provas do ENADE5 de 2018. Apesar de não utilizar a Metodologia de Ensino-Aprendizagem-Avaliação de Matemática através da Resolução de Problemas, a pesquisadora analisa problemas que evidenciam as conexões entre diversos conteúdos de Matemática do curso, entre a Matemática e outras disciplinas específicas do curso de Administração, e entre a Matemática e o contexto profissional do administrador de empresas. Na pesquisa de Pagani (2016), foi abordado o conceito de derivada em um curso profissionalizante de eletrônica para estudantes do Ensino Médio de uma escola pública federal. Nesta pesquisa pode-se evidenciar conexões entre a Matemática e outras disciplinas e domínios dos saber, como a Física e as disciplinas técnicas do curso. Entendemos que as pesquisas apontadas por nós estão de acordo com as recomendações dos Standards, da BNCC e da comunidade de educadores matemáticos, que consideram a resolução de problemas e as conexões que podem ser estabelecidas como fundamentais no processo de aprendizagem dos alunos da Educação Básica e da Educação Superior, assim como dos futuros professores de Matemática em formação inicial. Ressalte-se que o professor tem um papel fundamental neste processo, pois para que esses pressupostos emergem em sala de aula, faz-se necessário conhecer as necessidades dos estudantes, considerando seus conhecimentos prévios além dos que deverão aprender na disciplina de Matemática durante todo o percurso da sua formação. A proposição de problemas na aprendizagem de Matemática A proposição de problemas tornou-se um tema relevante no âmbito da aprendizagem matemática devido às contribuições significantes que ela pode 5 ENADE Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes dos cursos de graduação em relação aos conteúdos programáticos previstos nas diretrizes dos cursos. 49 promover ao ser associada ao processo de ensino-aprendizagem-avaliação de Matemática através da resolução de problemas. Ocorre, porém, que alguns pesquisadores têm se referido a Formulação de Problemas (DUARTE, 2020; KILPATRICK, 2017; CAI; HWANG, 2003), outros a Proposição de Problemas (ANDRADE, 2017) ou a Elaboração de Problemas (ANDREATTA, 2020; BRASIL, 2018). A literatura não explicita, ainda, como clareza, as diferenças entre essas três possibilidades de modo que neste trabalho utilizaremos a nomenclatura Proposição de Problemas ou Formulação e Elaboração de Problemas respeitando os usos dos autores que serão citados. Para Andrade (2017, p. 365), são significativos os aspectos cognitivos que emergem do estudante ao desenvolver atividades que fomentem a proposição de problemas. Este pesquisador, acredita que o processo de resolução de problemas não se restringe apenas a encontrar uma solução ou a resposta ao que foi proposto, mas envolve atingir descobertas inimagináveis que não foram objetivadas pelo problema, ou seja, ir além, numa dimensão mais ampla como Exploração- Resolução-Proposição de Problemas- de problema como alguma coisa que não compreende apenas sua resolução, mas, também, a sua exploração em Nesta mesma perspectiva, Cai e Hwang (2003), mencionam que a resolução e a formulação de problemas estabelecem uma fusão eficaz, como uma amálgama, contribuindo com todo o processo de aprendizagem de Matemática, pois os bons solucionadores de problemas tendem, em sua maioria, a desenvolverem bons problemas, exigindo um grau maior de complexidade para solucioná-los. Corroborando esses pressupostos, Ramires (2006, apud Duarte; Allevato, 2020) vem desenvolvendo pesquisas que apontam as três etapas que as atividades de formulação de problemas promovem no processo de ensino e aprendizagem de Matemática: formular, resolver e melhorar. Esse pesquisador ressaltou que as interrelações entre essas etapas são constantes, conforme a imagem a seguir, chamada, pelo autor, de Metaproblema. 50 Figura 3 Fonte: Ramírez (2006, p. 5 apud Duarte; Allevato, 2020, p. 07) As atividades e processos que compõem este esquema podem ser explicadas do seguinte modo: O ponto de partida para processo do Metaproblema são as Necessidades Educativas, que podem ser reais ou fictícias e que constituirão um Objetivo a ser alcançado (1). Diante desse cenário, o professor ou aluno, começa o processo de Formulação de Problemas (2) e, em seguida, a Resolução de Problemas (3). Nessa fase poderá ocorrer, entre outras coisas, a necessidade de retornar à Formulação (4). Após a Resolução dos Problemas, é preciso retornar ao problema formulado, buscando possíveis correções, melhorias ou variações no grau de complexidade, chegando a Melhorias do Problema (5), verificando se o problema formulado atende ao Objetivo traçado no início do processo (6). No caso de não atender, há duas possibilidades: recomeçar, a partir da atividade de Formulação de Problemas (8), descartando o que foi realizado;ou retornar a Melhorias do Problema (7) para possíveis ajustes, de forma a atender ao Objetivo especificado (6). (DUARTE; ALLEVATO, 2020, p. 07) Ressalte-se, neste contexto, as contribuições que emergem no processo de ensino e aprendizagem: a criatividade do estudante; o desenvolvimento de habilidade argumentativas e apropriação do conhecimento matemático; o desenvolvimento dos aspectos linguísticos, especificamente, a produção de textos coerentes e coesos entre a língua materna e a linguagem matemática, necessárias para encontrar o que foi solicitado; a investigação para desenvolver o pensamento matemático; a busca constante pelo aprimoramento da resolução do problema; e o desenvolvimento do pensamento crítico e reflexivo. É notório neste contexto como o estudante pode desenvolver habilidades cognitivas para melhorar suas resoluções e conjecturas, ao ser inserido em situações que exijam o pensar, o refletir, o questionar em todo o processo, como ocorre no decurso da resolução de um problema. Por exemplo, na pesquisa de Andreatta 51 (2020), os estudantes do 5° ano do Ensino Fundamental de uma Escola Rural utilizaram o seu contexto social na elaboração e na resolução de problemas em relação às operações fundamentais da Matemática. A pesquisa de Duarte (2020) trabalhou com o conceito de lógica proposicional em um ambiente de desenvolvimento de jogos educacionais digitais na Educação Superior. Duarte (2020, p. 187), evidenciou como a formulação e a resolução de problemas foram relevantes para a transformação na concepção dos estudantes em relação à compreensão da Matemática e nas reuniões iniciais não participava das discussões, e no decorrer do processo passou a tecer comentários, formular e resolver problemas. No final do Entretanto, apesar de pesquisadores e documentos oficiais reconhecerem a importância da proposição de problemas na aprendizagem de Matemática na Educação Básica e na Educação Superior (SPINILLO; LAUBERT; BORBA; SANTOS; SILVA, 2017), evidencia-se que não são muitas as pesquisas que procuram criar situações de aprendizagem que possibilitem e estimulem o estudante na proposição de problemas de Matemática. Entre as mais recentes, considere-se a de Duarte (2020) e a de Andreatta (2020), inseridas no âmbito das pesquisas desenvolvidas no GPEAEM, conforme será descrito na próxima seção. As produções científicas do GPEAEM O Grupo de Pesquisas e Estudos Avançados em Educação Matemática GPEAEM foi formado em 2009 e é coordenado pela Profa. Dra. Norma Suely Gomes Allevato. Os encontros são semanais, realizados todas as sextas-feiras, no período vespertino, das 13h às 16h, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática da Universidade Cruzeiro do Sul UNICSUL, São Paulo/SP. As atividades que o grupo vem realizando atualmente estão focada nas questões que versam sobre o Ensino-Aprendizagem-Avaliação de Matemática através da Resolução de Problemas, na Educação Básica e Superior, envolvendo pesquisas em nível de mestrado e de doutorado; desenvolvimento de cursos de extensão; e atividades de formação continuada de professores vinculadas ao Programa de Pós- 52 Graduação, em eventos e por meio da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. A constituição do grupo ocorreu naturalmente na trajetória acadêmica que a Profa. Norma Allevato foi constituindo em sua vida profissional. Após finalizar seu curso de doutorado, a professora foi convidada a atuar no curso de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática da UNICSUL, em 2008. Assim, a constituição do GPEAEM representou o fortalecimento tanto da linha de pesquisa a que a professora se dedicou e dedica, a Resolução de Problemas em Educação Matemática, como dos trabalhos realizados até o momento pela Profa. Norma e seus alunos (orientandos) do curso de mestrado, doutorado e de pós- doutorado. Atualmente, o grupo conta com a participação de vinte e um professores integrantes: a professora Norma Allevato, dois alunos do curso de mestrado, oito alunos de doutorado, uma estagiária de pós-doutorado e dez ex-alunos que foram seus orientandos de mestrado ou de doutorado6. Os estudos e pesquisas desenvolvidas sob sua orientação, consideram as recomendações dos documentos oficiais e os resultados de pesquisas em Educação Matemática, destacando o Ensino- Aprendizagem-Avaliação de Matemática através da Resolução de Problemas preocupando-se com a qualidade do ensino, da aprendizagem, da formação do futuro professor e da formação continuada do professor de e que ensina matemática. As dissertações e teses já concluídas e as que se encontram em andamento pelos integrantes do grupo envolvem diversos conteúdos matemáticos, em todos os níveis de ensino. Também é vasta a produção em eventos, artigos científicos, livros e capítulos de livros. Toda essa produção tem representado relevante contribuição ao ensino e à aprendizagem matemática no país7. 6 O endereço para acesso às informações sobre o GPEAEM no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq é https://bit.ly/grupogpeaem. E algumas das atividades que realiza podem ser conhecidas no Instagran: @resprobemas. 7 Uma consulta ao currículo lattes da Profa. Norma Allevato e dos membros do GPEAEM permitirá ao leitor conhecer esses trabalhos. 53 Considerações finais O objetivo do presente estudo foi refletir sobre alguns aspectos que colocam a Metodologia de Ensino-Aprendizagem-Avaliação de Matemática através da Resolução de Problemas (ALLEVATO; ONUCHIC, 2014) como uma das estratégias de ensino privilegiadas para contribuir com a melhoria da qualidade do ensino de conceitos e conteúdos de Matemática abordados na Educação Básica e na Educação Superior. Estes aspectos são corroborados pelas recomendações e orientações de documentos oficiais como a BNCC (BRASIL, 2018), dos Standards (NCTM, 2000) e das pesquisas desenvolvidas pela comunidade de educadores matemáticos. Em especial, os trabalhos da professora Doutora Norma Suely Gomes Allevato e do Grupo de Pesquisa e Estudos Avançados em Educação Matemática GPEAEM envolvendo a Resolução de Problemas, enfatizam seu potencial formativo, no desenvolvimento de atitudes e habilidades essenciais para formação do cidadão crítico e reflexivo nesta nova configuração social, na promoção da participação ativa dos estudantes no seu processo de aprendizagem por todo o período da Educação Básica e no desenvolvimento profissional dos professores. É notório como do contexto de Ensino-Aprendizagem-Avaliação de Matemática através da Resolução de Problemas emerge a compreensão dos conteúdos matemáticos em sala da aula diante de uma diversidade de fatores. Porém, o principal elemento, para Onuchic e Allevato (2011), é a nova postura que estudante e professor assumem neste processo. O estudante tem liberdade, responsabilidade de ser o protagonista no processo de aprendizagem em Matemática, e oportunidades reais de superar suas próprias expectativas, desenvolvendo um elevado nível de pensamento matemático. O professor, por sua vez, deve identificar as necessidades dos estudantes para preparar, ou escolher, problemas que fomentem a curiosidade, a criatividade, a justificativa, e as conexões dentro e fora da Matemática. Também, deve inserir o estudante em situações de aprendizagem que estimulem a proposição de novos problemas relacionados ao que foi proposto ou relacionados a diversos contextos, visando promover o sucesso na 54 resolução de problemas e a construção de conhecimento matemático, conforme apontado nas pesquisas de Andreatta (2020) e Duarte (2020). O acervo de pesquisas desenvolvidas e trabalhos apresentados e publicados pelo GPEAEM é uma referência relevante em território nacional, diante da diversidade de conteúdos matemáticos a serem abordados na Educação Básica e Superior. Essas pesquisas visampromover melhorias da qualidade de ensino de Matemática em sala de aula, contribuem com a formação do futuro professor, com a formação continuada do professor e com a constituição de pesquisadores em Educação Matemática com foco na Resolução de Problemas. A professora Norma Allevato aponta que são bastante satisfatórios os resultados das pesquisas desenvolvidas sob sua orientação que implementaram a Metodologia de Ensino-Aprendizagem-Avaliação de Matemática através da Resolução de Problemas, e acredita ser este um caminho eficiente para a compreensão e a melhoria da qualidade de ensino de Matemática. Referências Bibliográficas ALLEVATO, N. S. G. 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VAN DE WALLE, J. A. Matemática no Ensino Fundamental: Formação de Professores e Aplicação em Sala de Aula. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009. 56 Aplicação do plickers como estratégia de aprendizagem no ensino fundamental por meio do modelo sections Roni Costa Ferreira Érika da Silva Pereira Rafaela Alves Luzia da Silva Introdução A Era Digital, marcada pelo desenvolvimento das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) e pela ampliação global das redes digitais, trouxe novos desafios para as relações humanas e uma diversidade de atividades humanas. Na área da Educação não poderia ser diferente, sendo também influenciada e impulsionada pelas mudanças tecnológicas. Em alguns casos, historicamente registrados, a simples imposição de tecnologias dentro da sala de aula não se configurou em bons frutos para o processo de ensino e aprendizagem, ao contrário, foram verdadeiros atropelos de frustação (VALENTE, 1999). Muitas etapas para uma boa adaptação de tecnologias no ambiente educacional são esquecidas ou ignoradas: planejamento pedagógico, formação docente, estratégias adequadas e um olhar voltado aos contextos pessoais, sociais e culturais dos alunos. Na verdade, é preciso lembrar, que muitas das tecnologias hoje utilizadas no espaço escolar não foram, se quer pensadas, e ou construídas para o processo de ensino e -se perceber que a educação adotou e adaptou tecnologia é uma tecnologia educacional e não apenas uma tecnologia? Diante de tal provocação, observa-se que as tecnologias são ferramentas que apoiam o processo de ensino e aprendizagem, quando são carregadas de intencionalidade pedagógica. Ainda mais, quando o docente explora o potencial que muitas tecnologias possuem de carregar diferentes mídias, como texto, imagem, áudio e vídeo, dando oportunidade dos alunos de serem ao mesmo tempo os 57 intérpretes e criadores do conhecimento. Assim, ao envolver sujeitos em práticas de aprendizagem que ampliam suas capacidades criativas e colaborativas, consegue- se de fato prepará-los para ações produtivas no contexto de uma cultura digital contemporânea, embasada na diversidade e pluralidade de formatos e modalidades linguísticas (ROJO et al., 2013). Assim, esse multiletramento, de línguas, matemática, ciências, histórico-social, atitudinal, oferecido na escola, ganha um reforço no significado de seu objetivo maior, que é o de formar sujeitos conscientes e críticos das temáticas de sua época, com capacidade de participar e intervir nos processos decisórios da sociedade. Neste sentido, o presente trabalho relata a experiência de uma prática pedagógica com o uso da tecnologia Plickers, em uma turma do Ensino Fundamental - graduação em Práticas de Letramento e demonstra a importância da formação continuada docente para que haja um bom planejamento e por conseguinte, uma implementação adequada aos objetivos pedagógicos almejados. O modelo SECTIONS (BATES, 2016) foi utilizado para orientar o planejamento e a aplicação da tecnologia escolhida, o que deu condições dos professores-pesquisadores de olharem para várias dimensões que a inserção de uma tecnologia impacta dentro da sala de aula. Portanto, o objetivo deste trabalho é o de demonstrar que quando o docente se orienta por algum modelo de planejamentoe implementação de tecnologias educacionais, na sua prática pedagógica, ele consegue mitigar os problemas e aumentar as chances de uma aprendizagem significativa para os seus alunos. O Modelo SECTIONS O modelo SECTIONS busca preencher uma lacuna na área educacional, onde ainda há poucas orientações de como escolher mídias e tecnologias para o processo de ensino e aprendizagem. Na década de 70 iniciam-se movimentos que enfatizam esta prioridade e levantam a discussão no espaço acadêmico: Não existe uma teoria suficientemente viável sobre selecionar mídias adequadas para determinados tópicos, tarefas de aprendizagem e 58 públicos-alvo [...] a prática mais comum é não usar modelo algum. Em tal caso, não é de se espantar que o uso das mídias tem se dado pelo controle mais da prática econômica e humana/política que pelas considerações pedagógicas. (KOUMI, 1994, p. 56) Apesar dos esforços de muitos professores, de trabalharem com as tecnologias que dispõem, mesmo sem formação adequada, como nos afirma Mackenzie (2002), só reforça a necessidade de modelos que tornem este processo de escolha, planejamento e implementação mais fácil. E o que torna esta tarefa ainda mais complexa, é que frequentemente os professores, por imposição técnica ou por uma maior efetividade, tendem a combinar mais de uma tecnologia. Em 1995, Bates desenvolve o modelo ACTIONS, mas que era direcionado apenas para a educação a distância. Tal modelo foi validado depois por Lambert e Willians (1999) e Koumi (2006), sofrendo alterações. Percebendo a necessidade de se alinhar o modelo também para o ensino presencial, Bates e Poole (2003) criam o modelo SECTIONS. Posteriormente, surgiram outros estudos e modelos para atender a questão de orientação na escolha de mídias e tecnologias para práticas pedagógicas, como Patsula (2002), Zaied (2007), Koumi (2006) e Mayer (2009), mas estes modelos trazem e refletem muitas dimensões abordadas pelo modelo SECTIONS. Destaque para o trabalho do Mayer (2009), que tenta combinar mídias diferentes, de forma a não causar sobrecarga cognitiva, discutindo apenas dimensões pedagógicas. Já no modelo SECTIONS, também são colocadas como categorias importantes, por exemplo, o custo e o acesso as tecnologias. Isto, permite que o docente analise o objetivo, mas também o ambiente e o público-alvo. A expressão SECTIONS é um acrônimo (na língua inglesa), que abrange as dimensões descritas na Tabela 1: Tabela 1 Significado do acrônimo SECTIONS e suas dimensões para análise Acrônimo Significado Objetivo S (students) Alunos Detalhe a escola e o perfil de alunos onde a atividade será implementada, além do cenário da comunidade, o nível de ensino da turma escolhida. Em relação ao acesso destes alunos, diga se a maioria tem computador, smartphone, tablet, internet e se a instituição fornece algum tipo de recurso tecnológico, como laboratórios, louças digitais ou tablets. E (ease of use) Facilidade de uso Descreva sobre as especificações e facilidades de uso da tecnologia, se os alunos já estão acostumados com o recurso ou irão demorar algum tempo para aprender a usar a interface de interação. Que formas pensou em 59 orientá-los, antes, durante e depois da atividade? Existe qualidade suficiente de imagem e som? C (costs) Custos Anote os custos que foram necessários para a realização da aula, se houve equipamento alugado ou emprestado ou precisou pagar por algum suporte de terceiros. T (teaching functions) Funções de Ensino Defina qual é o seu objetivo (conteúdos e habilidades = saberes) a ser alcançado com a atividade e qual metodologia pretende usar. Como foi feita as escolhas de conteúdo, metodologia e tecnologia precisa ser adequado ao objetivo desenhado para a disciplina. I (interaction) Interação Descreva os tipos de interação encontrados: interação com o material de aprendizagem, interação aluno- professor, interação aluno-aluno. O que você precisou mudar no ambiente ou na comunicação para favorecer a troca de conhecimento e a colaboração? Anote os feedbacks e as reações, e promova os resultados para a escola e famílias dos alunos. O (organisacional issues) Questões Organizacionais Registre o que a instituição ofereceu de apoio. O PPP ou o currículo contemplam este tipo de atividade? Houve alguma ajuda por meio de outros profissionais da escola? Já existem salas apropriadas, como laboratório, sala de vídeo, etc.? N (networking) Rede Neste tópico relacione as redes usadas por você: internet da escola, 3G, colaboradores, mídias sociais, plataforma online de aprendizagem (AVA), etc. Especifique o porquê das escolhas. S (security and privacy) Segurança e privacidade Verifique se o ambiente de realização da atividade é seguro. Houve abertura de contas em alguma plataforma? Você aconselhou o uso de senhas seguras? Explique sobre o uso da tecnologia empregada, sobre quais são os procedimentos seguros, seus impactos e riscos. Fonte: Autores (2019) Na Tabela 1, observa-se que além de abranger questões pedagógicas, como adequação ao objetivo da prática pedagógica, o modelo SECTIONS propõe ao docente outras perspectivas que influenciam no processo de ensino e aprendizagem. Por exemplo, se haverá necessidade de aquisições e compras de tecnologias para atender as necessidades propostas e se os alunos possuem acesso e ou o hábito de manusear a tecnologia escolhida. A segurança da identidade digital dos alunos, ao acessarem determinadas plataformas e criarem contas e preencherem seus perfis de usuários, também é levada em consideração. Obviamente, nenhum modelo é capaz de ser largamente usado em todos os contextos de aprendizagem ou atender a todas as visões pedagógicas, contudo é cada vez mais nítida a carência de modelos que possam auxiliar os docentes na hora 60 (2016) oferece algumas motivações para a utilização do modelo SECTIONS neste processo de construção: a) funcionar em uma vasta variedade de contextos de aprendizagem; b) permitir que decisões sejam tomadas tanto em um nível estratégico e institucional, quanto em um nível tático e instrucional; c) prestar igual atenção a questões educacionais e operacionais; d) identificar diferenças críticas entre mídias e tecnologias, permitindo assim uma mistura apropriada a ser escolhida em qualquer contexto dado; e) de fácil compreensão, pragmático e efetivo em termos de custo; f) acomodar novos desenvolvimentos na tecnologia. (p. 316) Sendo assim, orientar-se por um modelo que amplia a visão do docente para um número considerável de variáveis envolvidas no processo de escolha de tecnologias o ajuda a tomar decisões de forma a garantir uma mitigação dos impactos negativos, tanto nos alunos, quanto nos professores. Pesquisas demonstram um alto índice de frustação de docentes quando não tomam por base nenhum tipo de auxílio ou experiência prévia, ao aplicarem tecnologias em suas práticas (LIMA; FERREIRA; SILVA, 2018). Estas constatações somente ressaltam a importância da antecedência de preparação e planejamento ao se introduzir uma tecnologia digital no contexto educacional. A Tecnologia Plickers O Plickers é uma aplicação web, que fornece um serviço de perguntas e respostas rápidas. A ferramenta foi criada por uma empresa estadunidense de mesmo nome e possui a possibilidade que docentes do mundo inteiro criem contas para seu uso, de forma gratuita. Assim, todo conteúdo depositado em sua plataforma é tratado sob a licença Creative Commons, isto é, pode ser reutilizado, modificado e distribuído entre sua comunidade de usuários. Sendo uma aplicação web, o Plickers pode ser utilizado como em diferentes dispositivos móveis, desde plataformas Android até plataformas IOS. No cenário educacional, o professor cadastra dentro do Plickers uma lista de perguntas e ou imagens, sobre determinado tema e depois pode projetá-la para os alunos.Cada aluno responde aos questionamentos feitos por meio de cartões, onde os lados representam uma das quatro sugestões de respostas possíveis. A captura das respostas é feita de forma automática pela interface de leitura do aplicativo, 61 bastando que o professor aponte seu smartphone ou tablet para os cartões dos alunos, que devem apresentar de maneira visível suas escolhas de respostas. Apesar de parecer bem simples o serviço de perguntas-respostas, o Plickers potencializa a discussão de pontos sensíveis de conteúdos real-time, durante a aula, pois apresenta instantaneamente as respostas dos alunos para o professor, que pode intervir imediatamente nos equívocos de entendimento, criando debates e discussões para construir colaborativamente com os alunos novas explicações e raciocínios para o conhecimento apresentado. A aplicação pode salvar tanto o desempenho individual de cada aluno, quanto o desempenho coletivo da turma. Do outro lado, o aluno também acessa visualmente o seu desempenho, levando-a argumentar suas respostas tanto com os colegas, quanto com o professor. Diante dos seus pontos de dificuldades, o aluno poderá intensificar seus estudos nestes pontos-chave e corrigir tendências e ou estratégias personalizadas de estudo. Na verdade, a aplicação, vem de encontro a um aspecto importantíssimo do processo de ensino e aprendizagem, que é a avaliação. No formato tradicional, o docente só saberá se os alunos entenderam os saberes apresentados somente no final do período. A forma do Plickers trabalhar traz dinamismo a esta etapa do processo educacional, podendo realizar acompanhamentos e correções sucessivos, não permitindo o acúmulo de dúvidas e alimentando o interesse dos alunos sobre o tema por mais tempo. Em resumo, quando se opta pela tecnologia Plickers como um recurso de determinada aula, realiza-se um movimento de abandono de uma aula padrão para se assumir uma aula onde a interação aluno-aluno e professor-aluno será constante e essencial para o funcionamento da estratégia adotada. O aluno dentro de um espaço como este, precisará (re)lembrar, (re)pensar e (re)avaliar suas respostas e o seu entendimento sobre o tema em discussão, além de intercalar entre os papéis de locutor e receptor dentro do debate coletivo que será estabelecido dentro da sala de aula. Percebe-se também que o papel controlador do professor não condiz com este tipo de planejamento pedagógico, onde ele assume realmente um papel de mediador, questionando os alunos sobre suas próprias convicções, provocando e desafiando os alunos a buscarem novos caminhos de se apropriarem do conhecimento, argumentando e trocando ideias com a turma. 62 Metodologia: utilizando o modelo SECTIONS A proposta de utilizar o Plickers como estratégia de ensino e aprendizagem foi implementada com uma turma do 4° ano do Ensino Fundamental do Colégio Pedro II, campus Tijuca I. A instituição está localizada no bairro de Vila Isabel, entretanto, as crianças moram em diferentes bairros do Rio de Janeiro e se deslocam até de Nova Iguaçu para chegar ao referido campus. A atividade foi realizada com a turma da professora Érika, composta por 25 estudantes entre 8 e 9 anos de idade. De modo geral, a turma é muito respeitosa, falante, afetuosa e interessada. Os estudantes são muito questionadores e participativos, especialmente quando se trata de alguma novidade. As crianças se mantêm atentas em aulas expositivas dialogadas, que são as mais recorrentes, mas preferem ser ativos no processo de ensino-aprendizagem. O campus onde a atividade foi desenvolvida possui 2 laboratórios de informática (com acesso à internet, 1 data show e 14 computadores). Além do horário destinado à aula de informática, o professor regente pode utilizar o laboratório com a turma quando desejar, de acordo com a disponibilidade. Cada sala de aula possui ainda 1 data show para utilização sem agendamento prévio. Além de utilizarem estes recursos na Unidade Escolar, todos estes estudantes acessam a internet pelo celular e a maioria possui computador em casa. Alguns estudantes têm canal no YouTube e se comunicam utilizando termos oriundos da linguagem digital em seu cotidiano, como "Dá um spoiler da aula de amanhã" e "Ele está stalkeando minhas respostas". A ferramenta foi selecionada considerando algumas especificidades que dialogam diretamente com a proposta educacional elaborada como a linguagem digital que desperta interesse nos alunos, a possibilidade de interatividade que mantém o interesse dos estudantes e a oportunidade de atrelar a funcionalidade de teste rápido com a proposta de revisão. Além disso, foi considerada também a facilidade de ser necessário apenas o uso de um aparelho celular com acesso à internet. Para a efetivação da proposta foram necessários alguns ajustes na configuração geral do aplicativo: Alteração na cor do gráfico das alternativas incorretas para vermelho; Desativação da função que aparece a resposta de cada um; Ativação da função para a lista da turma ficar visível; 63 Elaboração de 5 questões por questionário, considerando o máximo permitido na versão gratuita; Como o site está em inglês, foi necessário utili Os estudantes da turma possuem, semanalmente, dois tempos de aula no laboratório de informática (totalizando 90 minutos). Nesse momento, realizam atividades ligadas aos conteúdos de núcleo comum (Língua Portuguesa, Matemática e Estudos Sociais) com mediação da professora de informática e a professora regente da turma. Nessas aulas, as crianças apresentam facilidade para manuseio da tecnologia e realização das atividades propostas. Demonstram familiaridade para ligar e desligar o computador, utilizar processadores de texto como o Word, o PowerPoint e para acessar os sites e jogos sugeridos pela professora. Portanto, a utilização do Plickers foi pensada considerando o cenário favorável para o uso de tecnologias por parte dos nativos digitais (PRENSKY, 2001). Para o desenvolvimento da atividade foram previstas orientações prévias a respeito do desenvolvimento da atividade e funcionalidade do aplicativo, que era desconhecido para toda a turma. Durante a atividade os estudantes encontraram dificuldade apenas no manuseio do cartão QR Code impresso (Figura 1). Pode-se visualizar na Figura 1, que a letra D está na parte superior do cartão, portanto a escolha do aluno seria a opção D. Caso ele vire o cartão 90º graus, no sentido horário, ele mudará sua escolha para a opção C. Cada cartão possui uma numeração para associar o cartão ao jogador, e quando necessário, especificar quais cartões estão no jogo. Sendo assim, foi necessário orientá-los oralmente quanto à relação da posição do cartão e a alternativa escolhida como resposta. 64 Figura 1: Exemplo de cartão resposta com o QR Code gerado pelo Plickers Fonte: Autores (2019) Definiu-se que o objetivo pedagógico seria o de realizar uma revisão interativa para o teste de Estudos Sociais do 2º trimestre. Destinou-se então, 2 tempos de aula para o desenvolvimento da atividade (90 minutos), que foi desenvolvida considerando os momentos abaixo: 1° momento: Construindo as perguntas Inicialmente pensou-se em elaborar questões de acordo com o conteúdo do teste, porém, decidiu-se proporcionar às crianças serem protagonistas desta atividade. Assim, enviou-se para casa, como trabalho do trimestre, uma folha na qual cada estudante precisou elaborar uma questão de múltipla escolha com 4 alternativas para a revisão do teste. Para que não houvesse muitas questões repetidas, dividiu-se o conteúdo em 8 assuntos gerais: Franceses na Guanabara, Pontos Cardeais, Pontos Colaterais, Mém de Sá, Fundação da Cidade do Rio de Janeiro, Zonas da Cidade, Imediações do Município do Rio de Janeiro e Litoral. Desta forma, o mesmo assunto foi destinado a, no máximo, 4 estudantes. 65 2° momento:Input no Plickers Após o recebimento das tarefas de casa, incluiu-se as questões no Plickers, indicando a autoria de cada questão. 3°ºmomento: A revisão interativa Organizou-se o momento da revisão para, primeiramente, mostrar o cartão QR Code e questionar se os estudantes sabem do que se trata: Onde encontra-se um QR Code? Qual a função dele? Todos são iguais? Em seguida, o Plickers foi apresentado aos estudantes. Após a explicação inicial, iniciou-se a aplicação do questionário. A cada questão, após capturar a resposta de todos os alunos, revelou- se a quantidade de respostas dadas a cada Show Graph - Reveal Answer correta. Neste momento, foi proposto a discussão sobre as possíveis pegadinhas ou dúvidas que levaram ao erro na questão. 4°ºmomento: Avaliação Ao final da atividade entregou-se uma folha de papel A4 para que cada estudante registrasse sua opinião sobre a aula da maneira que preferir. Quanto a conexão de rede, foi necessário o acesso à internet no computador e no celular. Apesar de a instituição possuir rede Wi-fi disponível, no dia da aplicação da atividade não estava funcionando. Sendo assim, não foi possível conectar. Para que a realização da atividade não fosse adiada, conectou-se o computador interativo a rede 3G do celular da professora. Apesar de estar utilizando a mesma rede para o celular e computador, a velocidade de navegação atendeu a necessidade. Ainda para a realização da atividade não foi exigido aos estudantes abrir ou criar contas em plataformas. Entretanto, os estudantes se interessaram pelo funcionamento da ferramenta, perguntaram se era gratuita e se era possível que criassem seu próprio questionário para utilizar a ferramenta em casa. 66 Resultados: Relatando a Experiência Após a inclusão das questões no Plickers, percebeu-se que não havia questões repetidas. Ao comentar com os estudantes, os professores foram surpreendidos com a resposta de que eles se organizaram no grupo do Whatsapp da turma, com o intuito de não elaborarem questões iguais. Considerando a funcionalidade da ferramenta Plickers, não foi necessário utilizar o laboratório de informática. Além disso, não foram realizadas mudanças no espaço da sala de aula. Durante a atividade, o que mais impressionou e animou os estudantes, foi perceberem que após o QR Code ser capturado pela câmera do celular, seus nomes imediatamente ficavam azuis na tela projetada. Além disso, após revelarmos a alternativa correta, as crianças que haviam errado nos pediam esclarecimento sobre o conteúdo, e por vezes a explicação vinha de outro estudante. As crianças questionaram o fato de não ser possível ver quem errou na tela. Explicou-se então, que a proposta não era de competir, mas sim de cada um avaliar seu próprio desempenho e juntos construirmos novos conhecimentos. No decorrer da aula, a turma participou com muito entusiasmo. As crianças não tiveram dificuldades em compreender o funcionamento do Plickers (Figura 2). Figura 2: Momento de captura das respostas pela interface móvel do Plickers Fonte: Autores (2019) Na Figura 2, torna-se perceptível que o professor não faz muito esforço para capturar as respostas dos alunos, por meio da interface móvel do Plickers. Enquanto isto, os alunos visualizam se suas respostas foram computadas, por meio de um 67 Datashow, que projetava a imagem da porcentagem de acertos em um quadro branco. Ao longo da atividade, alguns alunos estavam respondendo errado propositalmente e outros estavam tentando olhar a posição do cartão do colega para copiar a resposta. Com isso, algumas crianças perceberam e nos relataram o ocorrido. Explicou-se a importância de testar nossos conhecimentos na revisão. A proposta resultou em um grande engajamento dos discentes e maior interesse nos conteúdos de Estudos Sociais. Durante e no término da atividade, os alunos expressaram opiniões positivas sobre a proposta, inclusive com pedidos para que se repita outras vezes. Fez-se alguns registros ao longo do desenvolvimento da atividade através de fotos e vídeo. Além disso, uma matéria sobre a experiência realizada com a turma foi publicada no blog do colégio1. Conhecer a turma facilitou o processo de elaboração e execução da proposta. Ainda assim, os resultados da atividade superaram as expectativas. A atividade nos proporcionou um rico momento de aprendizado e troca de conhecimentos. As crianças passaram as semanas seguintes comentando sobre a proposta em sala, com os responsáveis e ainda com colegas de outras turmas. Os relatos das crianças revelam detalhes das suas impressões sobre a experiência. Todos os relatos foram coletados por meio de formulário distribuído em sala de aula. Dentre eles, destacou-se alguns abaixo: não teve que escrever, isso é bom. Eu gostei porque meus amigos acertaram a minha pergunta nosso). uma revisão tão legal e tecnológica. Espero que tenha aulas como essa mais vezes grifo nosso). perguntas estavam legais, inclusive a minha, mas a que eu mais gostei foi a da Lívia. Eu acho que todas as pessoas gostaram porque foi interativo e tecnológico. Foi uma das melhores atividades do ano até de fazer uma correção (revisão) e também tecnológico que é uma coisa que criança gosta 1 http://www.cp2.g12.br/blog/tijuca1/atividade-de-estudos-sociais-turma-402-revisao-com-qr-code/ 68 sentido, o autor afirma que os relatos auxiliam no percurso do trajeto dos sujeitos pensantes praticantes que cotidianamente é berço de práticas libertadoras que precisam ser registradas. O autor também nos reúnem num só conjunto; deles fazem frases e itinerários. São percursos de (2013, p. 182). Duas semanas após a realização da proposta, foi proposto a escrita de um relato coletivo. Relato é o gênero textual que a turma está trabalhando no momento. Ao propor a escrita do relato, deixamos a escolha do tema a cargo das crianças. Elas poderiam escolher relatar qualquer atividade, visita ou até mesmo o recreio. QR Code assentiu. Considerações Finais A rotina da sala de aula tradicional pode contribuir para a evasão escolar, além de seus efeitos serem cotidianamente observados pelos professores: sonolência, falta de interesse, dispersão, conversas paralelas, entre outras. Provocados pela Pós-graduação em Práticas de Letramento, os professores- pesquisadores que relatam esta experiência decidem introduzir a tecnologia Plickers em sala de aula. Contudo, era necessário seguir uma metodologia capaz de analisar todos os fatores que implicam no sucesso ou fracasso, quando se pretende implementar uma tecnologia em uma prática pedagógica. Neste sentido, assumiu- se o modelo SECTIONS, que auxilia o docente a visualizar diversas dimensões que devem ser consideradas na escolha de uma tecnologia educacional. Desta forma, os impactos puderam ser minimizados, assim como planejar pautando-se na segurança de se prever pendências e interdependências que a complexidade do processo exige. Definiu-se que a experiência se daria em uma turma do 4º Ano do Ensino Fundamental I, onde seria feita uma revisão de temas de Estudos Sociais, trabalhados anteriormente. Os docentes decidiram não escolher as questões que seriam 69 suas próprias perguntas. Surpreendeu a atitude dos estudantes de combinarem via WhatsApp para não surgirem perguntas repetidas. Fora da sala, a intencionalidade de uma aula com recursos tecnológicos já havia causado uma iniciativa nos estudantes de serem protagonistas do processo e não meros expectadores. Durante a aula, os alunos ficaram à vontade e entenderam o funcionamento da ferramenta com facilidade. A participação foi unânime e até os mais desanimados eram os primeiros a responder as perguntas. Os alunos se sentiram livres, pois não se tratava de uma avaliação formal, mas de uma espécie de game, onde eles podiam tentar e mesmo errando, também eram ouvidos e reconhecidos.Errar não era constrangedor, era libertador, pois imediatamente o colega ao lado argumentava, querendo ajudar. A aprendizagem se deu não só com as respostas e explicações do professor, mas com a colaboração dos colegas. Acredita-se que a experiência tenha contribuído significativamente para o desenvolvimento de competências pessoais fundamentais para a convivência na atual sociedade em rede: interatividade, partilha e coletividade. Alguns problemas surgiram durante o processo de implementação, mas foram contornados pelos professores. Um deles foi a questão de conexão com a Internet, que no dia da aula, ficou indisponível. O professor já havia previsto tal necessidade pelo modelo SECTIONS e por isso levou uma conexão 3G como conexão alternativa ao Wi-fi da instituição escolar. Outro ponto, foi que alguns alunos começaram a responder errado de propósito para que outros não os copiassem. Obviamente, isto gerou um debate na turma, sendo ressaltado que o espírito não era o de competitividade, isto é, de quem sabia mais, mas o de colaboração, onde todos podiam testar seus conhecimentos e melhorar seus entendimentos com a ajuda dos colegas. Pode-se apontar algumas percepções importantes com a experiência realizada: A mudança dos alunos de expectadores para protagonistas do processo de ensino e aprendizagem; A socialização entre os alunos e grupos que antes não conversavam com frequência; 70 O aumento do interesse pelas temáticas que foram abordadas durante a aula; O entusiasmo dos alunos nas semanas seguintes, chegando a propor um relato da experiência; Uma participação mais assídua durante as aulas subsequentes; Uma proximidade maior com os professores. Assim sendo, a experiência obteve êxito na sua proposta de provocar os alunos e introduzir uma tecnologia educacional de forma que contribuísse para que a aula fosse um momento de desenvolvimento de habilidades como criatividade, comunicação, argumentação, colaboração, negociação, além de promover a valorização do processo educacional. O modelo SECTIONS se mostrou eficiente para organizar a implementação de tecnologias em sala de aula, auxiliando o professor na estratégia pedagógica, assim como na sua operacionalização. Referências Bibliográficas BATES, A. Teaching, open learning and distance education London . NY: Routledge, 1995. BATES, A. Educar na era digital: design, ensino e aprendizagem, São Paulo, 2016. BATES, A.; POOLE, G. Effective Teaching with Technology in Higher Education : Foundations for Success San Francisco: Jossey-Bass, 2003. CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: As artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 2013. KOUMI, J. 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The International Arab Journal of Information Technology, v. 4, n. 2, p. 141-147, 2007. 72 Uma formação continuada, por meio de engenharia didática, de professoras polivalentes com o foco em conhecimentos e práticas pedagógicas referentes ao conceito de número natural Emerson Bastos Lomasso Introdução Definir número natural, assim como conceituar esse objeto matemático considerando a maneira como se processa essa conceitualização pela criança, requer algo além de saber recitar uma ordem numérica. O fato de a criança contar verbalmente a sequência numérica não implica que ela domine o conceito de número. Estudos sobre como a criança concebe e conceitua número natural vem sendo temática para pesquisas por serem, dentre outros, questões de suma relevância no que tange a conhecer o início do processo de aprendizagem em matemática. Falar em aprendizagem remete a elencar também o ensino, e esse, em se tratando da matemática, apresenta distintos enfoques relacionados às crenças e concepções do professor. Aprofundar no que a criança precisa saber sobre número natural e como leva-la a esse conhecimento, tendo como foco os professores polivalentes que ensinam matemática (suas práticas metodológicas, como conceituam e concebem o número) é a temática que norteia esse artigo, recorte de uma tese de doutorado. Para tanto considerou-se pertinente investigar, junto a professores polivalentes que ensinam matemática em uma escola pública municipal da cidade de Belo Horizonte/MG, seus conhecimentos sobre número natural e suas práticas pedagógicas no ensino desse conceito matemático, por meio da Engenharia Didática de 2ª Geração, definindo-a ou não, como metodologia eficaz. O ensino do número tem sido alvo de muitas discussões no campo da educação matemática, dado o quão é relevante esse conteúdo. Segundo Belline, Burgo e 73 Nogueira (2007), antes do Movimento da Matemática Moderna era predominante ensinar número a partir da habilidade de contagem com a sequência de palavras/número e, dando ênfase à leitura e à escrita dos numerais. rraigados à prática docente no ensino do número era a do ensino clássico. Nesse predominava ensinar os convencional dos números é central e com isso escrever linhas inteiras do mesmo número era atividade considerada fundamental. Uma das ideias principais é a de que o conhecimento entrava pelos olhos, imitando e copiando. Diante disso, foi realizado nesta pesquisa, o estudo do desenvolvimento cognitivo relacionado ao número natural segundo a teoria Piagetiana. Jean Piaget (1896 1980) desenvolveu, dentre outros, um estudo de como a criança se apropria e constrói o conceito do número natural. Juntamente com Alina Szeminska (1907 1986), Piaget desenvolveu experiências com crianças buscando compreender como elas concebiam e conceituavam o número natural. Esses experimentos são relatados no livro , que contribuíram para com o desenvolvimento da tese base deste artigo sobre desenvolver uma prática pedagógica com professoras polivalentes que ensinam matemática. Essa prática priorizou as características basais para a existência do número natural, segundo Piaget e Szeminska (1975), em especial os aspectos cardinal e ordinal. Quanto a formação das professoras, sujeitos da pesquisa, o levantamento apontou que essa não acontece de forma satisfatória em se tratando da área de matemática. De acordo com Curi (2004), a concepção que fica sobre os cursos de formação inicial é de que o professor polivalente precisa saber somente ensinar matemática, sem a necessidade de ter conhecimentos sobre seus conceitos. Tal fato ocasionaalguma dificuldade junto à prática do magistério, pois, ainda segundo Curi (2004), há uma complexidade no processo de formação inicial de professores polivalentes e, a esses fatores, soma-se o desafio desses profissionais construírem competências específicas para lecionar diversas áreas do conhecimento. Quanto às competências relacionadas ao ensino de matemática, em especial ao ensino do número natural, foi possível constatar que estas eram direcionadas, exclusivamente, pela teoria de Jean Piaget. Essa situação também foi observada no 74 exame da realidade pedagógica dos sujeitos de pesquisa, uma vez que desenvolvem suas práticas metodológicas em matemática respaldados pela teoria Piagetiana. Segundo Piaget e Szeminska (1975) um número só é concebível se satisfizer, dentre outras, a propriedade da determinação dos valores cardinal e ordinal. Identificada a dificuldade dos sujeitos de pesquisa em conceituar e conceber o número natural, combinou-se esta à teoria piagetiana, visto que, a maioria dos professores polivalentes que ensinam matemática, quando ensinam número natural, enfatizam a função ordinal em detrimento da cardinal (CARVALHO, 2010). Assim sendo, a tese foi norteada tendo como questão de pesquisa, o levantamento das contribuições didáticas nas práticas docentes observadas em uma formação continuada com professoras polivalentes, quando os aspectos cardinal e ordinal de números naturais são abordados de forma complementar. Com base na revisão bibliográfica, suportada pelo referencial teórico e diante do que se pretendia com a pesquisa, ficou constatado que, as características da Engenharia Didática apresentam meios de fortalecer uma formação continuada de docentes. Tal processo foi concebido ao combinar o cotidiano da sala de aula do professor polivalente, quando esse ensina número natural, com um processo de formação continuada, por meio de uma sequência didática de atividades envolvendo situações-problema. A opção por essa metodologia se deu devido ao fato de ela favorecer um estudo experimental baseado em realizações didáticas. Essas são pautadas na observação e análise de sessões de ensino envolvendo a complementaridade de aspectos do número, a qual buscou-se por meio desse trabalho, mostrar ser fundamental no ato de ensinar. A construção do número natural segundo a teoria piagetiana Depois de anos estudando o desenvolvimento infantil, Jean Piaget (1896 1908) com a ajuda de Alina Szeminska (1907 1986) começou a procurar respostas para como a criança organizava seus esquemas em nível de pensamento operatório. Segundo esses autores, a construção do conceito de número pela criança é realizada seguindo uma relação próxima com a conservação numérica (invariância do número), com as operações lógicas de classificação (como classe de inclusão) e a seriação das relações assimétricas (ordenação de grandezas). Piaget e Szeminska 75 (1975) partem do princípio de que o conhecimento, seja ele de ordem científica ou se origine do simples senso comum, supõe um sistema, explícito ou implícito, de princípios de conservação. Diante dessas ideias de conservação, Piaget e Szeminska uma coleção não são concebíveis a não ser que seu valor total permaneça inalterado, sejam quais forem as mudanças introduzidas nas relações dos element segundo os autores, para que o número natural exista, ele deve satisfazer a algumas qualidades, ou seja, conservação de quantidades, correspondência termo a termo, determinação do valor cardinal e determinação do princípio ordinal. Alguns autores e educadores matemáticos ressaltam a importância de se trabalhar os aspectos cardinal e ordinal do número natural de forma dual, ou seja, sem priorizar um deles, abordando-os de forma complementar. Para Piaget e Szeminska (1975) isso deve ser feito para que a correspondência seja exata, de modo que cada termo seja contado apenas uma vez, sendo necessário que os diferentes termos estejam ordenados numa série que permita distinguir cada termo de todos os outros. Na percepção deles, esses dois aspectos se mostram tão complementares que a ausência da seriação espontânea vai de par com a ausência de correspondência cardinal espontânea. A relação entre os aspectos cardinal e ordinal do número natural é classificada por Otte (2003) como relação dual, assim como a noção de complementaridade de Niels Bohrs (1885 1962). Ela é utilizada para analisar e explicar o desenvolvimento epistemológico e cognitivo de conceitos matemáticos, em especial as noções de conjuntos e números. Ainda segundo Otte (2003) a complementaridade relacionada à noção de número é concebida segundo os aspectos intensional e extensional desse conceito, que não devem ser vistos apenas como uma dualidade, mas sim como complementares no desenvolvimento do conceito de número. Elementos empíricos da pesquisa A pesquisa fundamentou-se em uma proposta metodológica voltada para a formação continuada de professores que ensinam matemática nos anos iniciais do ensino fundamental em uma escola pública municipal de Belo Horizonte/MG, tendo como objeto de estudo a construção do conceito do número natural. Para tanto a 76 Engenharia Didática foi adotada como metodologia de pesquisa. Segundo Artigue experimental baseado nas realizações didáticas em sala de aula, ou seja, na segundo a autora, a Engenharia Didática perpassa por quatro fases: análises preliminares, concepção e análise a priori das situações didáticas, experimentação e análise a posteriori e validação. Nessa metodologia, considera-se um conteúdo do sistema de ensino cujo seu aproveitamento é pouco satisfatório. A intenção é, por meio das análises elencadas, propor mudanças capazes de minimizar o contexto insatisfatório que a ocasionou. No caso desse trabalho, refere-se ao ensino do número natural nos anos iniciais do ensino fundamental. Dentre as distintas concepções da Engenharia Didática e segundo o contexto ao qual a mesma será investigada, optou-se pelo tipo que consiste em um trabalho voltado para a formação de professores e para a produção de recursos didáticos pedagógicos, ou seja, a de 2ª Geração. Aliada a metodologia adotada nesta pesquisa, a Teoria das Situações Didáticas de Brousseau (1986) serviu como apoio teórico para a elaboração da sequência de atividades desenvolvidas com as professoras, sujeitos de pesquisa. Para Artigue (1988), a Teoria das Situações surgiu a partir do questionamento e crítica de uma série de tendências que podem influenciar o ensino da matemática. Considerado como pai da teoria das situações didáticas, Guy Brousseau buscou compreender como acontecem as relações entre alunos, professores e o saber em sala de aula, propondo situações que foram experimentadas e analisadas cientificamente. Em suma, o objetivo da Teoria das Situações Didáticas consiste em evidenciar um processo de aprendizagem, tendo como base uma série de situações que se reproduzem, acarretando mudanças de comportamentos dos alunos, sujeitos esses que, na conjuntura desta pesquisa, enquadraram-se as professoras polivalentes. A metodologia e os sujeitos de pesquisa Quanto ao professor, nessa proposta metodológica, ele tem a oportunidade de avaliar e refletir sua própria conduta pedagógica. Assim, a proposta não é dar aos 77 professores, soluções para as questões metodológicas, mas sim, segundo Perrin- Glorian e Mangiante-Orsola (2016), desenvolver pesquisas básicas e estruturas teóricas que permitam estudar os fenômenos didáticos, proporcionando, dessa forma, ferramentas que ajudem os professores a gerenciar os problemas de ensino e aprendizagem. A escola na qual foi desenvolvida a pesquisa conta com 25 professoras polivalentes, atuando nos dois primeiros ciclos dos anos iniciais do ensino fundamental. Desse total, 15 professoras ensinam matemática. Quanto a participação das mesmas napesquisa, no primeiro momento da formação participaram 8 docentes e no segundo 5. Portanto, foi de interesse desse projeto analisar a postura pedagógica do professor polivalente ao ensinar números naturais com amparo dessa metodologia que atravessa um processo constituído por determinados níveis. A cada nível alcançado, o objeto do conhecimento pesquisado atinge um determinado patamar, o que faz com que o professor repense e reavalie seus objetivos e propósitos. A metodologia engenharia didática e suas etapas 1º Etapa: Análises prévias Na primeira fase da Engenharia Didática, as análises prévias, é possível refletir sobre a forma como a estrutura do trabalho a ser desenvolvido pelo professor deve acontecer. Essa etapa ocorre a partir de considerações sobre o quadro teórico e conhecimentos didáticos adquiridos sobre o tema. Ainda nessa fase, se desenvolve o estudo da organização matemática, a análise da organização didática do objeto matemático escolhido e a definição das questões da pesquisa. Para Artigue (1996): A primeira fase está estruturada à volta da análise do funcionamento do ensino habitual, considerado como o estado de equilíbrio do funcionamento de um sistema, um equilíbrio que, durante muito tempo, foi estável, mas cuja obsolescência começa a fazer-se sentir. O extrato seguinte põe claramente em evidência as escolhas efetuadas a este nível e a forma como estas escolhas estão ligadas à perspectiva sistémica que constitui o fundamento teórico da análise. A investigação aqui documentada situa-se numa perspectiva de engenharia didática clássica: considera-se um ponto do sistema didático, cujo funcionamento parece, por razões que podem ser de natureza diversa, pouco satisfatório. Analisa-se esse ponto do funcionamento e os constrangimentos que tendem a fazer dele um 78 ponto de equilíbrio do sistema e depois, jogando com estes constrangimentos, procura-se determinar as condições de existência de um ponto de funcionamento mais satisfatório. (ARTIGUE, 1996, p.199). Assim sendo, no desenvolvimento das etapas seguintes da Engenharia Didática, o pesquisador deve recorrer às análises preliminares, de tal forma que estas o posicione continuamente, quanto ao contexto teórico que envolve todo o processo de estudo e execução da proposta metodológica. Análise a priori No nível da análise a priori, o professor/pesquisador busca determinar um número de variáveis a serem consideradas no processo. Isso pode ser realizado por meio da construção de hipóteses estabelecidas inicialmente por ele e que serão analisadas e validadas nas próximas fases. Para Brousseau (2004), o cálculo das situações e o estudo de suas variáveis são as bases do estudo a priori, indispensáveis tanto à observação da contingência quanto à produção de dispositivos com características conhecidas, descritas e presumidas, a Engenharia Didática. Experimentação A próxima fase da Engenharia Didática, a experimentação, é marcada por colocar em ação toda a situação-problema. Este é o momento clássico da metodologia, pois é onde se coloca em funcionamento todo o instrumento elaborado, sendo que este deve ser corrigido sempre que necessário, ou seja, retornar às análises a priori (ALMOULOUD, 2007). Análise a posteriori e validação Essa etapa corresponde ao conjunto de resultados que se obtém diante dos trabalhos desenvolvidos por meio da sequência didática. Formatado a partir das variáveis elencadas na análise a priori para a melhoria dos conhecimentos didáticos que se têm sobre as condições da transmissão do saber em Almouloud (2007), essa fase: Depende das ferramentas técnicas (material didático, vídeo) ou teóricas (teoria das situações, contrato didático etc.) utilizadas com as quais se coletam os dados que permitirão a construção dos protocolos de pesquisa. Esses protocolos serão analisados 79 profundamente pelo pesquisador e as informações daí resultantes serão confrontadas com a análise a priori realizada. O objetivo é relacionar as observações com os objetivos definidos a priori e estimar a reprodutibilidade e a regularidade dos fenômenos didáticos identificados (ALMOULOUD, 2007, p. 177). Em suma, ao finalizar essa etapa da engenharia didática, o pesquisador elencará, a partir das situações didáticas desenvolvidas, o que foi possível melhorar, no que tange ao processo de ensino e aprendizagem, quanto aos conhecimentos e as práticas metodológicas aplicadas na fase da experimentação. 2º Etapa: O desenvolvimento da engenharia didática na pesquisa A análise preliminar na pesquisa Considerando as características dessa fase na Engenharia Didática, foi analisado o ensino do número natural nos anos iniciais do ensino fundamental e seus efeitos, partindo das práticas metodológicas usadas pelas professoras. Fez-se ainda um estudo das propostas curriculares para essa etapa de ensino adotado pela Prefeitura Municipal de Belo Horizonte/MG, tomando como referencial o objeto matemático pesquisado. Quanto aos principais problemas relacionados ao ensino e à aprendizagem do número natural, constatou-se que, dentre outras, o que se refere a ensinar os aspectos cardinal e ordinal de forma complementar, predomina entre as professoras, ou seja, pode haver o tratamento de um conceito em detrimento do outro. Com intuito de nortear e clarear o entendimento do propósito desse trabalho, foi realizado um levantamento teórico sobre a formação do professor polivalente. Estudos como legislação, características do curso, currículo, dentre outros, foram elencados de forma a posicionar e caracterizar o professor dos anos iniciais do ensino fundamental. A análise a priori na pesquisa Com base nos estudos feitos nas análises preliminares, foi elaborado e aplicado um questionário para as professoras, cujas respostas serviram de referencial para o levantamento das variáveis de estudo dessa fase da metodologia, as quais resumiram-se em (I) resgatar a ideia de número natural enfatizando os aspectos cardinal e ordinal e (II) promover a interação entre as professoras de tal 80 modo que as mesmas externassem suas experiências sobre o ensino do número natural, gerando um confronto de ideias, tais que servissem para elucidar a eficácia ou não de algumas práticas metodológicas desenvolvidas. De posse dessa investigação, foi elaborada uma sequência didática de atividades do tipo situações-problema. Para essa construção foram priorizadas algumas características, tais como: se as professoras entenderiam facilmente os dados do problema e se os conhecimentos que elas possuíam seriam suficientes para resolver as situações. Diante disso, as atividades contempladas na sequência tiveram como eixo norteador as experiências de Piaget e Szeminska (1975) abordadas no livro A gênese do número na criança. Para que essas atividades alcançassem os objetivos previstos os quais se resumem em uma nova proposta metodológica para o ensino do número natural nos anos iniciais , foram escolhidas situações que provocassem mudanças no processo de ensino e aprendizagem. As análises dessas foram realizadas observando-se as questões epistemológicas, cognitivas e didáticas. A primeira, associada às características do saber, buscou nos parâmetros curriculares adotados pela Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte/MG, significar todos os ciclos em que se ministra o conceito de número natural, seja na fase inicial e/ou ao iniciar as operações adição e multiplicação. Esses momentos foram priorizados tendo em vista o ano em que as professoras lecionavam. Para a questão cognitiva, o referencial foi o questionário que as professoras responderam. Partindo das respostas, foi possível elencar algumas hipóteses sobre o conhecimento que elas tinham a respeito do conceito de número e as práticas adotadas para ministrar esse conteúdo. A questão didática está associada àscaracterísticas do sistema de ensino em que as professoras estão inseridas. As docentes, como supracitado, lecionam em uma escola pública situada na periferia de Belo Horizonte/MG e convivem com muitas dificuldades, delas e dos alunos, que perpassam o campo didático, pedagógico e cognitivo. Conversas desenvolvidas entre pesquisador e sujeitos de pesquisa, a respeito do processo de ensino e aprendizagem que é desenvolvido em sala de aula, forneceram argumentos que ajudaram no levantamento das variáveis de estudo nessa fase da metodologia. 81 A experimentação na pesquisa Adaptando as características dessa fase da Engenharia Didática a proposta da pesquisa, foi ofertada uma formação às oito professoras, abordando experimentos desenvolvidos por Piaget e Szeminska (1975) - particularizando o conceito do número natural - sendo que essa foi dividida em dois momentos. O primeiro deles, foi constituído por duas etapas, tal que na primeira as docentes desenvolveram as atividades da sequência didática entre elas e em seguida, com seus respectivos alunos (as). Ambas as etapas foram observadas pelo pesquisador, cuja intenção do mesmo foi analisar as professoras executarem em suas práticas pedagógicas, o recurso metodológico oferecido por meio da formação. No segundo momento foi proposta outra formação cujo objetivo foi apresentar a teoria abordada nas experiências desenvolvidas por Piaget e Szeminska (1975) apresentadas anteriormente. Essa fase teve como eixo norteador a Engenharia Didática de 2ª geração. Na didática da matemática há diferentes concepções da Engenharia Didática. Elas se dividem em Engenharia Didática Clássica ou de 1ª Geração, Engenharia Didática de 2ª Geração, Engenharia Didática do Percurso de Estudo e Pesquisa (PER) e Engenharia Didática de Domínios de Experiência. Por sua vez, a Engenharia Didática de 2ª Geração se ramifica em dois tipos, dando origem à proposta da Engenharia Didática de Investigação (IDR) e à de Desenvolvimento (IDD). A primeira analisa os fenômenos didáticos com a intenção de avançar nos resultados da investigação, por meio de experimentações elaboradas em função da questão de pesquisa, enquanto a segunda visa a produzir recursos para professores ou para a formação deles. Desse modo, a segunda ajustou-se aos objetivos da pesquisa, que tratou da formação continuada para professores polivalentes. Nesse sentido, essa investigação buscou produzir recursos para o ensino do número natural para professores polivalentes, além de investigar as situações atuais desses docentes, suas exigências, culturas e crenças sobre o ensino e a aprendizagem do número, seus conhecimentos matemáticos e didáticos necessários para a implementação das situações didáticas com seus alunos. 82 Essa escolha fundamenta-se em Perrin-Glorian e Mangiante-Orsola (2016), visto que, segundo essas autoras, desenvolver uma Engenharia Didática com professores é um meio de estudar como eles lidam com os conteúdos, identificando suas necessidades e o conhecimento que os mesmos têm da profissão e, diante disso, continuar o estudo da transposição didática. E complementam: O projeto visa a desenvolver pesquisas básicas e estruturas teóricas que nos permitam estudar fenômenos didáticos e, ao invés de dar aos professores soluções, dar-lhes-á ferramentas que os ajudem a gerenciar os problemas de ensino e aprendizagem que encontram em suas vidas diárias (PERRIN-GLORIAN; MANGIANTE-ORSOLA, 2016, p. 2). Ao analisar as práticas pedagógicas das professoras polivalentes, quando elas estão ensinando número natural, essa pesquisa buscou compreender como elas conceituam esse objeto matemático. A prática pedagógica sucede à forma como se processa todo entendimento a respeito desse conteúdo. Caracterizando todo esse contexto, buscou-se intervir junto ao mesmo de tal forma que o produto dessa formação pudesse somar ao cotidiano da sala de aula dessas professoras, indo ao encontro dos objetivos da Engenharia de Desenvolvimento e Formação. Ainda segundo Perrin-Glorian e Mangiante-Orsola (2016): Como esses resultados podem ser traduzidos para um professor que precisa preparar e administrar sua classe, organizar o trabalho de seus alunos para garantir seu aprendizado, por um pesquisador em contato direto com as demandas urgentes dos professores? Um professor precisa integrar esses resultados em seu funcionamento normal e levando em conta os resultados da pesquisa, relacionados a certos aspectos de seu trabalho para a exclusão de outros, o mesmo pode desestabilizar mais do que melhorar a prática, partindo da resistência dos professores quanto aos efeitos as vezes negativos da disseminação da pesquisa na educação. Para que a pesquisa contribua para a melhoria da formação e treinamento de professores, ela deve ter em conta o funcionamento real das classes e as necessidades dos professores. (PERRIN-GLORIAN; MANGIANTE- ORSOLA, 2016, p. 2) Dessa forma, foi de suma relevância a compreensão de todo o processo percorrido pelas professoras ao conceituar e ensinar o número natural. Por meio do questionário, buscou-se verificar como as docentes lidam com situações típicas de sala de aula, pois, de acordo com as autoras supracitadas, a questão de investigação deve priorizar os anseios delas, como também as necessidades identificadas pelo pesquisador. 83 Análise a posteriori na pesquisa: resultados da formação Conceituar e ensinar número natural priorizando de forma dual seus aspectos cardinal e ordinal foi uma das questões mais destacadas, seja pelos estudos teóricos ou diretamente identificados pelo pesquisador diante das respostas de um questionário respondido pelas professoras sujeitos da pesquisa. Portanto, na elaboração das situações-problema, priorizou-se desenvolver atividades contemplando o conceito de número natural por meio da seriação, ordenação, cardinação e conservação de quantidades. Esperava-se que diante dessa formatação, bem como da ampla coleta de dados, fosse possível contribuir para com o conhecimento das professoras sobre o assunto e, por consequência, dos seus respectivos alunos. Assim avaliam Perrin-Glorian e Mangiante-Orsola (2016): Na engenharia didática para o desenvolvimento e a formação, procuramos ter acesso simultâneo a um número bastante elevado de turmas e desenvolver um recurso útil para o máximo possível dessas turmas, de tal forma que isso possa melhorar a aprendizagem dos alunos (PERRIN-GLORIAN; MANGIANTE-ORSOLA, 2016, p. 4). Para a primeira das duas variáveis elencadas na análise a priori - resgatar a ideia de número natural enfatizando os aspectos cardinal e ordinal - objetivou-se solidificar o entendimento das professoras sobre esse objeto matemático enfatizando seus aspectos. No primeiro momento da formação as experiências piagetianas foram apresentadas por meio de uma sequência didática de atividades. Buscou-se contemplar todos os princípios piagetianos que compõem a conceituação genética do número natural. Nessa ocasião não foi discutido com as professoras nada a respeito sobre como resolver as situações, ou seja, nenhuma teoria a respeito foi explanada (Quadro I). Quadro 1: Situação-problema Formação Primeira situação-problema Os cartões em escada Essa sequência didática visa levar às professoras atividades que as proporcionem uma releitura das ideias de conservação de quantidades, da ordenação e cardinação. Segundo Piaget e Szeminska (1975), por meio da ordenação de elementos dispostos em duas fileiras correspondentes é possível atribuir um valor cardinal Segunda situação-problema Os tapetes e as barreiras Quando se diz que alguém está em seu vigésimo ano, isso significa que esse alguém não possui mais que dezenove anos feitos; desde logo, é mais fácil para a análise, embora mis difícil para o sujeito, distinguir em caso semelhante o aspecto ordinal, que é o do ano em viade escoamento, do aspecto cardinal, que é o dos anos completados, do que no 84 a esses conjuntos. Ainda segundo os mesmos, a criança consegue distinguir as diferentes unidades que vêm uma após a outra, levando em consideração a reunião de cada uma dessas às suas precedentes. Espera-se, com essa atividade, que as professoras a levem aos seus alunos quando trabalharem o conceito de número, abordando os aspectos cardinal e ordinal do mesmo, entre outros. Assim propõem Piaget e Szeminska: Começa-se por pedir à criança para confeccionar ela própria a série, para que tome consciência do princípio desta ordenação e se lhe faz contar os cartões interrompendo seu número em 10 ou no limite da numeração conhecida sem hesitação. Após isso, pergunta- cartões como (A) poder-se-ia fazer com (B), ou segundo cartão pose ser decomposto em 2; o 3° em 3A etc. Uma vez compreendida esta lei, designa-se um cartão qualquer (F por exemplo), com a escada permanecendo inteira, e pergunta-se quantas unidades se poderia fazer com esse cartão. É a solução descoberta pela criança para este terceiro tipo de questão que nos interessa aqui: se o sujeito é capaz de fazer corresponder de saída o valor cardinal 6 desse cartão F à sua posição (6°), é claro que a relação entre a ordenação e a cardinação se acha adquirida (Piaget & Szeminska, 1975, p. 192). Objetivos - Consolidar o princípio da ordenação de elementos; - Desenvolver o controle da contagem; -Desenvolver e estender o significado das - Desenvolver a ideia de cardinal e ordinal. Atividade Há um quadrado de cartão A, representando uma unidade, um retângulo B, que possui a mesma largura que A e duas vezes sua altura (representando, portanto, duas unidades), um retângulo C a representar 3 unidades superpostas (mesma largura e 3 vezes a altura) e assim sucessivamente. Tem-se, portanto, A = 1; B = 2A; C = 3A; D = 4A; E = 5A; F = 6A; G = 7A; H = 8A; J = 9A e K = 10A. a) Construa a sequência da série desses cartões usando o material de apoio. b) Quantos cartões como A podem ser feitos com B, ou C, ou D? c) Tome aleatoriamente um cartão qualquer. Quantos unidades podem ser feitas com esse cartão? caso em que as duas noções coincidem. Unicamente, como a medida do tempo é especialmente complicada para a criança, procuramos um equivalente espacial da situação (Piaget & Szeminska, 1975, p. 198). Com base nessa citação, pode-se depreender o quão é complexa a abordagem dos aspectos cardinal e ordinal do número natural, principalmente em se tratando do 1° ciclo do ensino fundamental. Por isso, buscou-se, por meio de mais uma das experiências de Piaget e Szeminska (1975), levar às professoras ferramentas capazes de auxiliar na reflexão e adaptação de técnicas para se ministrar o ensino do número natural. Para essa experiência, Piaget e Szeminska propõem: Seja um escolar que se exercita no salto: ele passa por cima de uma primeira barreira, depois de uma segunda mais alta, uma terceira mais alta ainda, etc., até a sétima. Mas, para tomar impulso e cair sem se ferir, tem necessidade, achando-se com sapatos de ginástica, de pequenos tapetes que se estendem sobre o chão antes e depois de cada barreira, ou seja, 8 tapetes ao todo. Apresenta-se naturalmente ao sujeito um material composto de 7 barreiras graduadas, 8 pequenos tapetes de dimensões constantes e de um boneco que desempenha o papel de ginasta. Desta maneira, se o boneco se acha sobre o 3° tapete, isso significa que saltou 2 barreiras, e se ultrapassou a 5ª barreira significa que tocou em 6 tapetes etc. (Piaget & Szeminska, 1975, p. 198). O propósito é de que as professoras identifiquem a ideia de seriação entre o número dos tapetes e o das barreiras, como também a ideia da composição ordinal enquanto determinada por um número dado de tapetes. Objetivos - Consolidar a ideia de seriação e/ou seriar uma coleção; - Consolidar a ideia de correspondência entre dois conjuntos distintos; - Desenvolver a ideia de cardinação ou número cardinal, determinado pela posição dos elementos de uma coleção; - Introduzir e desenvolver a ideia de cardinação e ordenação usando a complementaridade. Atividade Um atleta de corrida com obstáculos passa por cima de uma primeira barreira, depois de uma segunda mais alta e de uma terceira mais alta ainda, consecutivamente, até a sétima. Para tomar impulso e cair sem se ferir, tem necessidade, achando-se 85 d) Elenque os objetivos de se trabalhar os conceitos de número cardinal e ordinal dentro dessa perspectiva lúdica. com sapatos de ginástica, de pequenos tapetes que se estendem sobre o chão antes e depois de cada barreira, somando, ao todo, 8 tapetes. Perguntas a) Após haver colocado os 2 primeiros tapetes antes e depois da primeira barreira, quantos tapetes é preciso pôr para demais barreiras? b) Quantas barreiras foram saltadas e quantos tapetes foram tocados estando o boneco sobre o 4° tapete? c) Retirando-se os 8 tapetes e algumas barreiras aleatoriamente, quantos tapetes são necessários para as barreiras restantes? d) Considerando sua prática pedagógica usada para ensinar o número natural e seus aspectos cardinal e ordinal, você usaria algumas dessas situações problema para somar ou substituir a sua metodologia? Fonte: Próprio autor. Como parte da sequência, buscou-se saber das professoras como elas compreendiam os objetivos envolvendo cada uma das experiências desenvolvidas, relacionadas ao número natural. Diante das respostas pôde-se concluir que as docentes visualizaram as propostas apresentadas, mas não as atribuíram como sendo princípios Piagetianos relativos à concepção genética do número natural. Ainda relativamente a essa etapa da formação, por meio da sequência de atividades pôde-se concluir que as professoras utilizam pouco em suas aulas, ao trabalharem com número natural, os materiais manipulativos, tal como foi apresentado. 86 Quanto aos aspectos cardinal e ordinal do número natural, as professoras não ressaltaram nenhuma dessas características. Piaget e Szeminska (1975) abordam em suas experiências tais dimensões desse objeto matemático, fato que leva à conclusão de que, como supracitado no desenvolvimento desta pesquisa, pode haver sim o ensino de um dos aspectos em detrimento do outro, ou, ainda, pode haver uma lacuna ao se ensinar número natural. Como uma das características da Engenharia Didática de 2ª geração, a produção de recurso pedagógico, esse primeiro momento da formação contribuiu para somar recursos às práticas pedagógicas das professoras para o ensino do número natural. Elas salientaram que as experiências Piagetianas desenvolvidas foram relevantes ao somarem às suas metodologias, principalmente pelo fato dessas serem manipulativas, características consideradas mais apropriadas à faixa etária dos(as) alunos(as) dos anos iniciais do ensino fundamental. Ainda seguindo as características da metodologia da Engenharia Didática de 2ª Geração, quanto à produção de recursos pedagógicos, três observações em sala de aula foram realizadas pelo pesquisador durante o primeiro momento da formação. Diante dessas e segundo as necessidades apresentadas pelas professoras, quanto a abordarem os aspectos cardinal e ordinal, pôde-se constatar que a primeira etapa da formação contribuiu com a prática docente em sala de aula, no que tange a metodologia de ensino, e não somente para produção de recursos pedagógicos, pois algumas das professoras desenvolveu com suas respectivas turmas, atividades que lhes foram propostas. Quanto ao segundo momento da formação, esse teve uma característica mais teórica. O intuito foi analisar com as professoras a teoria que Piaget e Szeminska (1975) usaram para desenvolver suas pesquisas quanto à concepção genética do 87 conceito do número natural. De acordo com a Engenharia Didática de 2ª Geração, ela deveráprover, além de recursos pedagógicos, formação de professores. Com base nessa particularidade, a segunda etapa da formação desenvolvida com as docentes contribuiu para com a forma com que elas conceituam e ensinam o número natural. Tal afirmação se sustenta levando-se em consideração o debate final entre as participantes. Elas salientaram as dificuldades relacionadas ao ensino desse conteúdo, como também enalteceram a oportunidade de terem uma amostra via formação de possibilidades que envolvem os aspectos didáticos, pedagógicos e conceituais, em se tratando de abordar de forma complementar os aspectos cardinal e ordinal. A segunda variável elencada nas análises a priori, ou seja, a promoção e interação entre as professoras sujeitos da pesquisa, foi priorizada nas formações de tal modo que elas pudessem externar suas metodologias desenvolvidas ao ensinarem o número natural. De acordo com o debate entre as participantes, ocorrido no segundo momento da formação, há inúmeros percalços envolvendo o ensino e a aprendizagem do número natural, tais como: grande quantidade de alunos; número de conteúdos e tempo reduzido para apresentá-los; falta de material mais compatível para a faixa etária, ou seja, material concreto; chegada de crianças sem conhecimentos prévios; qualidade da formação na graduação em pedagogia, entre outros. Pode-se constatar, com isso, que as professoras necessitam de um aporte teórico e pedagógico quando se trata de ensino de matemática, em especial o número natural. Considerações finais As professoras evidenciaram que se surpreenderam com as experiências piagetianas apresentadas e apontaram o quanto elas podem contribuir no cotidiano escolar, no que se refere ao ensino do número natural. Três professoras desenvolveram com seus (suas) alunos (as) as atividades apresentadas na sequência didática. Elas salientaram o quanto esse recurso metodológico contribuiu para o ensino e, principalmente, para o aprendizado, alegando também que, mais capacitadas, elas podem prover um ensino mais qualificado. Ainda por meio das experiências piagetianas, foi possível proporcionar às professoras conhecimentos 88 teóricos e enriquecimento pedagógico direcionados ao número natural e às estratégias pedagógicas para ensiná-lo. O ensino de conceitos matemáticos em geral e do número natural em particular, favorece a aprendizagem, quando embasado em constructos teóricos. A formação continuada de professores polivalentes que ensinam matemática, tema da investigação base desse artigo, revelou que estratégias metodológicas para o ensino do número natural, fundamentado na teoria Piagetiana, implica na ampliação de possibilidades para o ensino e de desenvolvimento do conhecimento para esses (as) professores (as). O que, em consequência, deve ampliar também o processo de aprendizagem, interesse último de uma formação de professores, pois traz em seu bojo os elementos essenciais da formação do conceito de número em um indivíduo, no caso o(a) aluno(a) dos anos iniciais do ensino fundamental. Já quanto a especificidade da Engenharia Didática de 2ª Geração, tendo como sujeito o professor polivalente que ensina matemática, essa é uma possibilidade capaz de nortear processos metodológicos para ensinar número natural, como também, futuras pesquisas. Referências Bibliográficas ALMOULOUD, S. Fundamentos da Didática da Matemática. Curitiba/PR: Editora UFPR, 2007. 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Rio de Janeiro/RJ: Zahar, 1975. 90 O milionário fluminense: o uso da gamificação como prática pedagógica para a educação financeira de crianças e adolescentes Paulo Roberto do Amaral Ferreira André Luiz Alves dos Santos Elton Flach Introdução Este artigo tem como objetivo promover uma reflexão sobre o uso da gamificação como prática pedagógica para a educação financeira nas escolas e encontra-se estruturado da seguinte forma: (i) introdução, com um debate conceitual sobre alfabetização financeira, apresentação das motivações do estudo, estado da arte sobre do tema e exemplos de iniciativas de promoção da alfabetização no âmbito governamental, acadêmico e científico; (ii) marco conceitual sobre gamificação, por meio da discussão dos elementos e mecânicas dos jogos de entretenimento voltados para a educação; (iii) gamificação como prática pedagógica, através de apresentação de um exemplo real de projeto de pesquisa de uma IES que trata da utilização da gamificação como prática pedagógica na educação financeira de crianças e jovens; (iv) considerações finais, apresentando uma síntese das contribuições do artigo, limitações quanto ao uso da gamificação nas escolas e sugestões para pesquisas futuras. É muito comum acadêmicos e pesquisadores confundirem em suas aulas e estudos os conceitos de alfabetização financeira e educação financeira. A alfabetização financeira, também conhecida por letramento financeiro, é definida como o processo mediante o qual os indivíduos melhoram a sua compreensão em relação aos conceitos e produtos financeiros, de maneira que, com informação, formação e orientação, possam desenvolver os valores e as competências necessários para se tornarem mais conscientes das oportunidades e riscos neles envolvidos e, então, poderem fazer escolhas bem informadas, saber onde procurar 91 ajuda e adotar outras ações que melhorem sua qualidade de vida (OCDE, 2013). Portanto, conforme ilustrado pela Figura I, a alfabetização financeira é uma combinaçãode conhecimento, atitude e comportamento necessários para os indivíduos tomarem as decisões financeiras de maneira eficaz e alcançarem o bem- estar financeiro. A educação financeira ou conhecimento financeiro (o que eu sei?) é um tipo particular de capital humano que se adquire ao longo do ciclo de vida, por meio da aprendizagem de assuntos relacionados a crédito, investimentos, aposentadoria, orçamento e seguros, os quais afetam positivamente a capacidade de consumir, gerir receitas e despesas, e planejar poupança (POTRICH; VIEIRA; KIRCH, 2016). O comportamento financeiro (o que eu faço?), por outro lado, é caracterizado por iniciativas praticadas pelos indivíduos no dia-dia e que demandam conhecimento financeiro para o êxito das decisões relacionadas com acumulação de riqueza, prática de reservas contingenciais, investimentos em renda fixa e variável, captação de crédito por meio de empréstimos e financiamentos, operações diversificadas na bolsa de valores, planejamento de aposentadorias no longo prazo, aquisição de seguros e assim por diante (LUSARDI; MITCHELL, 2014). Por último, a atitude financeira (o que eu penso?) tem relação com cultura, hábitos, valores e preferências dos indivíduos que tomam as decisões (ATKINSON; MESSY, 2012). Por exemplo, os indivíduos podem ter uma atitude negativa em relação a poupar para o futuro, dando prioridade total ao presente. Se estes indivíduos preferem priorizar desejos no curto prazo em detrimento de segurança no longo prazo, então é improvável que eles invistam, por exemplo, em seguros de vida ou em plano de previdência privada. orientada para o curto prazo. 92 Figura 1: Ilustração da alfabetização financeira em três dimensões: o conhecimento financeiro, o comportamento financeiro e a atitude financeira1. Fonte: Elaborado pelos autores a partir de Potrich, Vieira e Kirch (2016), Lusardi e Mitchell (2014), Atkinson e Messy (2012). A partir de agora o marco conceitual do artigo será delimitado ao construto a gamificação como prática pedagógica será debatida à luz de práticas de ensino-aprendizagem que envolvem a formação financeira através dos conceitos de crédito, investimentos, aposentadoria, seguros, orçamento e consumo. Qual o nível do conhecimento financeiro da população brasileira? O conhecimento financeiro da população brasileira é precário e muito limitado em relação à população de países mais desenvolvidos, segundo plano diretor da Estratégia Nacional de Educação Financeira (CONEF, 2018). Dois a cada três adultos no mundo são analfabetos financeiros. Apenas um terço da população adulta dos países apresenta alto nível de letramento financeiro, sendo capaz de tomar decisões financeiras conscientes relacionadas com inflação, juros compostos e risco (LUSARDI; MICHELL, 2014). Os resultados recentes do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) mostram o quão frágil é sistema educacional básico no Brasil quanto à formação financeira e conscientização das crianças para o consumo responsável. Dentre os 144 países avaliados pelo eixo educação financeira do PISA em 2020, o Brasil ficou na 74 colocação, atrás de países como Madagascar, Togo e Zimbábue. 1 A ilustração apresenta a definição de alfabetização financeira adotada pelo grupo de estudos sobre alfabetização financeira do IFRJ. 93 As informações apresentadas pela ENEF e pelo PISA são refletidas em um cenário atual de alto grau de endividamento, inadimplência e negativação das famílias brasileiras. Segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), realizada em fevereiro de 2021, mais de 66% das famílias brasileiras encontram-se endividadas e com grande dificuldade de arcar com compromissos orçamentários de curto prazo. Portanto, a saúde financeira das famílias brasileiras está em risco. É preciso uma intervenção urgente de órgãos internacionais como Banco Mundial, Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e Fundo Monetário Internacional (FMI), dos Governos e Banco Centrais nacionais, dos acadêmicos e dos pesquisadores para estancar o sangramento causado pelo quadro de superendividamento da população que se sustenta por anos nos países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil. Como exemplo de intervenção de órgãos internacionais, destaca-se o papel da OCDE na realização de pesquisas e no desenvolvimento de ferramentas que visam apoiar os países a desenhar e implementar estratégias nacionais de educação financeira desde 2005. A OCDE é uma organização internacional composta atualmente de 35 países, com sede em Paris, na França, e tem por objetivo promover políticas que visem ao desenvolvimento econômico e ao bem-estar social de pessoas por todo o mundo. Em 2012, a OCDE estabeleceu os princípios de alto nível sobre estratégias nacionais de educação financeira, que deveriam ser seguidos pelas redes internacionais de educação financeira, incluindo todos os membros do G20, grupo formado pelos ministros de finanças e chefes dos bancos centrais das 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia (FORTE, 2020, p.20). No âmbito da Rede Internacional de Educação Financeira, o Brasil é representado pelo Banco Central (BCB) e pela Comissão de Valores Imobiliários (CVM) como membros plenos. Além disso, participam como membros regulares a Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), a Superintendência Nacional de Previdência Complementar (PREVIC), a Secretaria Nacional do Consumidor do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), a Secretaria da Previdência do Ministério da Economia e o Ministério da Educação (MEC). Como exemplo de intervenção de governos, destaca-se a publicação do Decreto nº 10.393, de 9 de junho de 2020, que criou-se a nova Estratégia Nacional de 94 Educação Financeira (ENEF) e foi instituído o Fórum Brasileiro de Educação Financeira (FBEF), unindo Banco Central do Brasil (BCB), Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Superintendência Nacional de Previdência Complementar (PREVIC), Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), Secretaria Nacional do Consumidor (SENACON), Secretaria do Tesouro Nacional (STN), Secretaria de Previdência (SPREV) e Ministério da Educação (MEC) para compor a governança da nova ENEF. O objetivo do Fórum Nacional é convergir esforços para promover e disseminar a cultura de educação financeira no Brasil, ampliar a compreensão do cidadão para que seja capaz de fazer escolhas conscientes quanto à administração de seus recursos, e contribuir para a eficiência e a solidez dos mercados financeiro, de capitais, de seguros, de previdência e de capitalização (FORTE, 2020, p.23-27). Uma conquista relevante da ENEF no Brasil foi a inclusão, a partir de 2020, da educação financeira na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento oficial, previsto em lei, que define os conhecimentos essenciais que todos os alunos da educação básica têm o direito de aprender, devendo-se ser obrigatoriamente observada na elaboração e na implementação de currículos das redes públicas e privadas, urbanas e rurais. Até 2020, a educação financeira nas escolas estava ancorada na intencionalidade dos professores e nas campanhas nacionais que tivessem algum elemento da economia a elas vinculado (FORTE, 2020, p.79-80). A partir de 2020, no entanto, a educação financeira e a educação fiscal tornaram-se temas transversais que devem constar obrigatoriamente no currículo do ensino básico brasileiro, universalizando a educação financeira nas escolas e ajudando o aluno, desde cedo, a desenvolver a capacidade de planejar sua vida e tomar boas decisões financeiras. Como exemplo de intervenção no âmbito da pesquisa, no período de 2000 a 2021, mais de dois mil artigos foram indexados na base de dados Web of Science (WoS) sobre alfabetização financeira. Conforme gráfico apresentado na Figura II, a produçãoanual de artigos vem crescendo exponencialmente, demonstrando a relevância do tema e sua aderência às demandas e complexidades do mundo atual. A autora que mais contribui com estudos científicos e citações no mundo é a italiana Annamaria Lusardi, professora da universidade norte-americana George Washington e diretora do Centro de Excelência Global em Alfabetização Financeira, 95 sediado em Washington, nos Estados Unidos. Nos últimos vinte anos, a professora Lusardi publicou trinta artigos na base WoS e acumulou mais 4.200 citações em produções científicas relacionando a alfabetização financeira com variáveis econômicas e sociais. No Brasil, a pesquisadora que mais produz na temática de alfabetização financeira é a professora Kelmara Mendes Vieira, com 9 publicações e 51 citações no WoS. A professora Kelmara é filiada ao Programa de Pós-Graduação em Administração Pública da Universidade Federal de Santa Maria e tem como especialidade as áreas de Finanças Comportamentais e Gestão Pública. Seus artigos concentram-se na aplicação de métodos estatísticos para mensuração da alfabetização financeira de grupos de indivíduos. Figura 2: Produtividade Anual de Artigos sobre Alfabetização Financeira nos últimos 20 anos Fonte: Elaborado pelos autores a partir da base de dados Web of Science, na qual utilizou-se no algoritmo de busca as palavras-chaves financial literacy financial education, considerando o período de 2000 a 2021. Como exemplo de intervenção no âmbito acadêmico, cabe antes destacar que mais da metade da produção científica nacional e internacional sobre alfabetização financeira nos últimos vinte anos concentrou-se na área de cativas para os eixos aposentadoria, consumo, seguros e investimentos. No entanto, somente 10% dos estudos concentrou-se na área da educação. Esse fato pode ser um indicador de alerta para a comunidade acadêmica nacional, que diante da diretriz proposta pela BNCC de inclusão da educação financeira no currículo das escolas, talvez venha encontrando dificuldades no processo de curricularização, na formação dos 96 professores e no desenho de práticas pedagógicas por conta da escassez de estudos que deem subsídios e alternativas que atendam às idiossincrasias culturais e regionais das escolas públicas e privadas espalhadas por todas as regiões do Brasil. Ciente das dificuldades encontradas pelas escolas, a Associação de Educação Financeira do Brasil (AEF-Brasil), uma entidade sem fins lucrativos cujo objetivo é promover a educação financeira no Brasil, vem rodando o país para implantar polos regionais de educação financeira e consolidar a formação da Rede Nacional de Educação Financeira, iniciada entre 2017 e 2018, contribuindo com orientação, formação e informação de professores, coordenadores e diretores sobre o processo de curricularização da educação financeira. Por exemplo, a implantação do Polo de Educação Financeira do Estado da Paraíba, originária da parceria formada em 2017 entre a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a Associação de Educação Financeira do Brasil (AEF-Brasil), a Secretaria de Estado da Educação Ciência e Tecnologia da Paraíba (SEECT/PB) e a Fundação Parque Tecnológico da Paraíba (PacTqPB), esteve pautada na necessidade de levar conceitos relacionados à educação financeira para a sociedade paraibana, em especial aqueles atendidos pelas escolas públicas (FORTE, 2020, p. 120-121). A primeira etapa consistiu nas atividades de planejamento a partir do levantamento de informações dos professores. O foco nesta etapa foi discernir e debater módulos de formação de professores multiplicadores, conforme apresentado na Tabela I, que levariam a educação financeira para as salas de aula das escolas públicas do estado da Paraíba. A formação contou com equipe de professores dos quadros dos programas de pós-graduação do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da UFPB, além de professores oriundos de instituições parceiras, como a UFCG e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A seleção de professores foi por meio de edital público dentro dos padrões estabelecidos pelas resoluções da UFPB, orientadas pela Procuradoria da AGU/MPF/UFPB, compreendendo calendário com etapas de período de inscrição, local, horário, contatos, divulgação das homologações das inscrições, dos resultados, prazos recursais para cada etapa e os critérios de seleção amplamente divulgados. No total, foram selecionados 83 candidatos representantes de 60 escolas públicas distribuídas em 25 cidades. 97 Tabela 1: Módulos do Projeto Pedagógico Curricular do Curso de Formação de Professores Multiplicadores da Educação Financeira no Polo do Estado da Paraíba2. Fonte: Fortes (2020, p.124). Um segundo exemplo de intervenção acadêmica para melhoria da educação financeira no Brasil é o trabalho realizado pelo grupo de estudos em alfabetização financeira do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), sediado no Campus Nilópolis. Desde 2019, o grupo de estudos tem concentrado seus esforços na promoção da alfabetização financeira na Baixada Fluminense do Estado do Rio de Janeiro através de iniciativas de pesquisa, ensino e extensão voltadas para crianças, jovens, adultos e microempreendedores que residem em um dos treze municípios da região. Coordenado pelo professor Paulo Roberto do Amaral Ferreira (IFRJ, Campus Nilópolis), a equipe de trabalho entende que a alfabetização financeira é um meio para redução das desigualdades sociais, melhoria da qualidade de vida e alcance do bem-estar financeiro. Como exemplo de iniciativas de extensão, o grupo promove anualmente a Jornada da Alfabetização Financeira, aproximado os residentes da Baixada Fluminense dos professores e especialistas do IFRJ no intuito de fazer uma reflexão sobre endividamento, investimentos, planejamento financeiro para aposentadoria, controle financeiro através de orçamentos e comportamentos de consumo por meio de palestras, minicursos e assessoria. Como exemplo de iniciativas de pesquisa, a cada 2 anos, o 2 Curso coordenado por Bruno Frascaroli, professor do departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba. Contato: frascaroli.b@gmail.com. 98 grupo promove o mapeamento da alfabetização financeira da Baixada Fluminense, no intuito de mensurar o nível da alfabetização financeira da população fluminense de três formas: de forma agregada, de forma estratificada por municípios e de forma estratificada por variáveis socioeconômicas. Como exemplo de iniciativas de ensino, os pesquisadores, desde 2019, vêm criando um banco de casos de ensino sobre educação financeira para serem trabalhados em turmas de graduação e pós- graduação sobre situações reais relatadas por residentes da Baixada Fluminense através de entrevistas em profundidade e grupos focais, cujo temas englobam as áreas de crédito, investimento, aposentadoria, orçamento, seguros e consumo. Os casos de ensino são compostos por narrativas que descrevem dilemas que serão analisados pelos alunos à luz da teoria. Os casos também são compostos por notas de ensino que sugerem quando, como e por que aplicá-lo em uma determinada disciplina ou um determinado curso. A gamificação como prática pedagógica Outra iniciativa de ensino promovida pelos grupos de estudos em alfabetização financeira do IFRJ é uso da gamificação como prática pedagógica para a educação financeira de crianças e jovens residentes na Baixada Fluminense, com matrícula ativa no ensino básico público ou privado. Porém, antes de nos aprofundarmos neste exemplo de prática pedagógica do IFRJ, será definido o conceito de gamificação e debatido como ocorre sua aplicação como prática pedagógica. A gamificação é um fenômeno emergente, que deriva diretamente da popularização dos games, e de suas capacidades intrínsecas de motivar a ação, resolverproblemas e potencializar aprendizagens nas mais diversas áreas do conhecimento e da vida dos indivíduos (FARDO, 2013a). A produção científica sobre gamificação se tornou relevante somente a partir de 2012, ano que registrou cinco produções científicas publicadas por autores americanos, canadenses, australianos e franceses que exploraram, principalmente, a aplicação da gamificação na área da saúde. De 2012 até então, a produção científica anual tem crescido significativamente, com destaque para pesquisadores finlandeses liderados por Juho Hamari (Universidade de Tampere), através de estudos sobre a aplicação da 99 gamificação no marketing e como estratégia empresarial. Cabe destacar, também, pesquisadores da Espanha, liderados por Luis de Marcos (Universidade de Alcala), que é autor do artigo sobre gamificação mais citado nos últimos 21 anos, intitulado Gamifying learning experiences: Practical implications and outcomes, publicado em 2013 pelo periódico científico Computers & Education. Dois pesquisadores brasileiros estão entre os mais produtivos e mais citados no mundo na área de gamificação. Um deles é o professor Seiji Isotani, com 8 artigos publicados e 48 citações no WoS, filiado ao Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP). Isotani é reconhecido internacionalmente por seus trabalhos nas áreas de Inteligência Artificial na Educação, Sistemas Tutores Inteligentes, Gamificação, Aprendizagem Colaborativa com Suporte Computacional (CSCL) e Dados Abertos Conectados. Adicionalmente, o professor Isotani é Vice-Presidente da Academia Brasileira de Tecnologias Educacionais e membro do Comitê Gestor da Rede de Inovação para a Educação Brasileira. Outro pesquisador de destaque no Brasil é o professor Ibsen Mateus Bittencourt Santana Pinto, com 7 artigos publicados e 56 citações no WoS. Bittencourt é pesquisador do Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais da Universidade Federal de Alagoas. É Cofundador das Startups D0Zero, GIDLE, HÉLLIX e da IT4LIFE, empresas que desenvolvem softwares baseados em recomendações humanas e consultoria na gestão de negócios complexos. Entende-se por gamificação como uma estratégia de metodologia ativa para desenvolver práticas pedagógicas permeadas por elementos típicos de jogos (MARTINS; GIRAFFA, 2018). Gamificação é aplicar elementos e mecânicas de jogos em contextos que não são jogos, no intuito de engajar pessoas, motivar ações, promover aprendizados e resolver problemas (DETERDING; DIXON; KHALED; NACKE, 2011; KAPP, 2012). A literatura aponta três perspectivas diferenciadas para as práticas pedagógicas mediadas pelos jogos. A primeira compreende-os como meras ferramentas pedagógicas, isto é, como ambientes que por suas características interativas podem tornar as atividades mais interessantes, caracterizando uma perspectiva mais instrumental. A segunda indica os games como possibilitadores de mudanças significativas no processo de ensino aprendizagem. E, finalmente, a terceira discute que os jogos se constituem em espaços de criação e invenção, 100 possibilitando que seus alunos jogadores, possam construir trilhas diferenciadas de aprendizagem (FREITAS; ALVES; TORRES, 2018). Tais perspectivas sintonizam-se com a importância de constantes desafios que motivam os jogadores a avançarem e superarem os obstáculos propostos pelo jogo, o que implica na necessidade de mudanças de atitude, tomadas de decisão e elaboração de estratégias, colocando em prática habilidades que vão além dos conteúdos curriculares. A gamificação contempla elementos como dinâmicas (Quadro I), mecânicas (Quadro II) e componentes (Quadro III) dos jogos para engajar pessoas, motivar a ação, promover a aprendizagem e resolver problemas. A gamificação como uma estratégia que permite o desenvolvimento de práticas pedagógicas a partir de elementos típicos de jogos, pode levar o docente à reflexão-crítica e à autorreflexão sobre sua atuação, bem como a ressignificá-la, considerando elementos socioculturais que condicionam nosso tempo histórico (KAPP, 2012). A gamificação pressupõe a utilização de elementos tradicionalmente encontrados nos games, como narrativa, sistema de feedback, sistema de recompensas, conflito, cooperação, competição, objetivos e regras claras, níveis, tentativa e erro, diversão, interação, interatividade, entre outros, em outras atividades que não são diretamente associadas aos games, com a finalidade de tentar obter o mesmo grau de envolvimento e motivação que normalmente encontramos nos jogadores quando em interação com bons games (FARDO, 2013a). Quadro 1 Dinâmica dos Jogos (Compreende os aspectos principais a serem considerados e administrados em uma aplicação da gamificação). Fonte: Fardo (2013b, p.59). Os jogos são definidos como um subconjunto de diversão e de brincadeiras, mas com uma estruturação que contém um ou mais elementos, tais como missão, enredo, avatar, níveis de desafio, objetivos específicos, recursos, colaboração, help, itens, desempenho e pontuação. Missão se configura como a meta apresentada para justificar a realização da atividade. Enredo é a representação de um cenário ou 101 contexto por meio de elementos narrativos e imaginários. O avatar vai além do personagem que é incorporado a partir de um perfil definido. O avatar é a representação virtual (digital ou não) do estudante. Níveis de desafio são etapas determinadas pelos objetivos específicos. Ao atingi-los, se avança a uma nova etapa. Objetivos específicos são pontuais e claros, orientados por regras passíveis de serem concluídas conforme o término dos níveis. Recursos são auxílios recebidos pelos estudantes ao longo da realização da missão. Podem vir de pessoas ou de ferramentas. Constituem-se nas ajudas (online ou não), na colaboração de outros sujeitos e nos tutoriais explicativos. A colaboração acontece por meio da interação entre sujeitos através de grupos ou equipes. Os itens são bônus ou habilidades específicas conferidas aos personagens durante as etapas percorridas de acordo com o desempenho obtido. O desempenho constitui-se nos resultados quantitativos e qualitativos das aprendizagens alcançadas ao longo das etapas atreladas dos níveis/desafios. Considera todo o processo de ensino e aprendizagem desenvolvido na resolução da missão. A pontuação é o resultado quantificado por meio de pontos. Está diretamente relacionado ao desempenho quantitativo e aos itens recebidos pelo estudante (MARTINS; GIRAFFA, 2018). Quadro 2: Mecânica dos Jogos (Compreende os processos básicos que promovem a ação e a participação dos jogadores). Fonte: Fardo (2013b, p.60). s jogadores se envolvem em um desafio abstrato, definido por regras, interatividade e feedback, que resulta em uma saída quantificável e frequentemente provoca uma reação emocional (KAPP, 2012). O jogo é uma atividade livre, conscientemente tomada como "não-séria" e exterior à vida habitual, mas ao mesmo tempo capaz de absorver o jogador de maneira intensa e 102 total. É uma atividade desligada de todo e qualquer interesse material, com a qual não se pode obter qualquer lucro, praticada dentro de limites espaciais e temporais próprios, segundo uma certa ordem e certas regras (FARDO, 2013b). A concepção de jogo, da qual a gamificação deriva, implica em concebê-lo como um sistema, composto por elementos interconectados que, ao agregarem-se em um todo, resulta em um fenômeno que é maior do que a soma de suas partes. Dessa forma, podemos utilizar desde um número reduzido de elementos, até uma quantia maior, fazendo com que o produto final possa produzir uma experiência próxima a de um game completo. Portanto, a escolha dos elementos e a forma como aplicá-los em um contexto específico dependerá da finalidade do projeto em questão. Por exemplo, é possível construir sistemas gamificadosbaseados apenas em pontos, medalhas e tabelas de líderes, que são apenas as mecânicas mais básicas de um game, com a finalidade única de promover mudanças no comportamento dos indivíduos através de recompensas extrínsecas, semelhantes às ideias da economia comportamental ou podemos construir uma experiência significativa que vá muito além do que as mecânicas básicas dos games oferecem e motivar intrinsecamente os indivíduos a desempenharem os seus papéis da melhor forma possível dentro do contexto em que se encontram (FARDO, 2013a). Quadro 3: Componentes dos Jogos (São as instâncias específicas das dinâmicas e mecânicas). Fonte: Fardo (2013b, p.60-61). 103 O projeto de uma gamificação deve ser elaborado através de documento denominado Game Document Design (GDD). Um GDD tem o objetivo de mapear o máximo de informações possíveis sobre como será desenvolvido o jogo, o que os jogadores irão experimentar e como irão interagir com o universo do game. Para a criação de um GDD é possível seguir um modelo específico ou mesclar mais de um modelo em função do perfil do documento que se pretende desenvolver. De um modo geral, a composição de um GDD eficiente tem como principal desafio manter uma boa estruturação e organização dos conteúdos, de forma a facilitar a comunicação entre as pessoas envolvidas no projeto e a implementação do jogo (FREITAS; ALVES; TORRES, 2018). Sugere-se que o GDD seja dividido em cinco documentos que evidenciam os seguintes aspectos: Design, Engenharia, Gestão, Escrita e Jogadores. essas informações devem ser apresentadas em um documento envolvendo entre 50 e 100 páginas, visando facilitar a consulta de forma rápida e fácil. O Design é composto pela visão geral do design do jogo, documento escrito em poucas páginas para que a equipe de gestão possa compreender o suficiente sobre o jogo; pelo Design Detalhado, que descreve detalhadamente toda a mecânica e interfaces com o propósito de lembrar aos designers e engenheiros as minúcias do projeto; e pela visão geral da história, apresenta os diálogos e narrativas e também é utilizado para descrever a importância dos cenários, personagens e ações que compõem o jogo (FREITAS; ALVES; TORRES, 2018, p.11-12). A Engenharia se constitui em um documento composto por Documento de Design do Técnico, que registra os aspectos técnicos para além do jogo, como conexões com redes, compatibilidade com sistemas, etc.; Pipeline Overview, que descreve como os artistas/designers devem fazer para que suas criações sejam compatíveis com a capacidade de processamento dos consoles, computadores e dispositivos móveis; Limitações do Sistema, que estabelece limites que não devem ser ultrapassados pelos artistas/designer, como quantidade de polígonos na tela ao mesmo tempo, número de explosões simultâneas, taxa de quadros por segundo, entre outros; Bíblia de Arte, que proporciona um olhar único para os artistas, utilizando fichas de personagens, exemplos de ambientes, paleta de cores, exemplos de interface e outros elementos visuais do projeto; e Visão Geral do Conceito de Arte, que define as principais imagens que conceituam o jogo, possibilitando uma visão 104 geral dos visuais que devem ser utilizados no projeto (FREITAS; ALVES; TORRES, 2018, p.12). O Documento da Gestão envolve Orçamento do Jogo e o Cronograma do projeto. O orçamento discrimina os valores e custos envolvidos no desenvolvimento do game, sendo, geralmente, um dos primeiros a ser criado, com o intuito de captar financiamentos para o projeto. O cronograma lista todas as tarefas que precisam ser realizadas, o tempo estimado para o desenvolvimento e conclusão de cada tarefa, mantendo atualizações constantes. A Escrita compreende o Bible Story, Script e o Manual do Jogo. O Bible Story estabelece as regras, indicando o que é ou não possível no universo do jogo, facilitando a contribuição dos envolvidos no projeto com as ideias para a história, integrando arte, tecnologia e jogabilidade. O Script apresenta os diálogos existentes entre os NPCs (personagens não jogáveis) e os jogadores, facilitando o entendimento da equipe de desenvolvimento do projeto. O Manual do Jogo explica aos jogadores o funcionamento do jogo, possibilitando o entendimento das regras e jogabilidade (FREITAS; ALVES; TORRES, 2018, p.12-13). Jogadores é um documento que apresenta o Passo a Passo do Jogo, uma contribuição dos jogadores que costumam escrever documentos relacionados ao jogo e publicá-los online, contribuindo para a comunidade do jogo e até mesmo para os criadores. Esses documentos são estudados pelos desenvolvedores para analisarem o que pode ser melhorado no projeto em questão ou em futuros jogos a serem desenvolvidos (FREITAS; ALVES; TORRES, 2018, p.13). A estrutura de um GDD para elaboração do projeto de jogos educacionais deve incluir aspectos pedagógicos, agregando notas de ensino que tratem diretamente da pedagogia, aprendizagem e metodologia a ser empregada no jogo. As notas de ensino normalmente são formatadas com os seguintes tópicos: (1) relevância do jogo, (2) objetivos didáticos, (3) relação com objetivos de um curso ou disciplina, (4) fonte de dados primários e secundários utilizados durante o jogo, (5) aspectos pedagógicos, como hora/aula, modalidade EaD ou presencial, atividades individuais ou em grupos, atividades desenvolvidas em casa ou em sala de aula, método indutivo ou dedutivo de explanação dos conceitos e teorias, (6) lista de questões que serão respondidas ao longo do jogo, com respectivas respostas embasadas pela literatura. Um exemplo de gamificação como prática pedagógica: O Milionário Fluminense 105 A partir de agora, retoma-se o debate do uso da gamificação pelo IFRJ como prática pedagógica para a educação financeira de crianças e jovens residentes na Baixada Fluminense. De 2020 a 2021, pesquisadores do grupo de estudos em alfabetização financeira do IFRJ se reuniram por doze meses para planejar uma aula gamificada sobre educação financeira de crianças e jovens para aplicação em nos eixos ensino e extensão. No primeiro trimestre, o grupo realizou um teste bibliométrico utilizando -chaves. O objetivo nesta etapa foi identificar o estado da arte do tema nos últimos vinte anos, utilizando como base de dados o Web of Science. Foram identificados, no Brasil e no mundo, autores renomados e mais citados, periódicos com maior produção científica, universidades que mais produzem na área de gamificação e áreas do conhecimento com maior ocorrência da gamificação. No segundo trimestre, fez-se uma revisão sistemática dos vinte artigos nacionais e internacionais sobre gamificação e educação financeira mais citados nos últimos vinte anos. Esta etapa contou com a técnica de análise de conteúdo, a qual permitiu-se descontruir os artigos analisados em nove categoriais: justificativa, objetivos, hipóteses, metodologia, mapa conceitual, contribuições, limitações de pesquisa, sugestões de pesquisas futuras e referências. A desconstrução dos artigos ocorreu através de um processo de triangulação, ou seja, pelo menos dois pesquisadores realizaram a mesma análise de conteúdo, compartilhando diferentes perspectivas e experiências pessoais para análise de um fenômeno comum. No terceiro trimestre, a partir do banco de informações levantadas e organizadas pela análise de conteúdo, deu-se início à construção do Game Document Design (GDD) do jogo O Milionário Fluminense, tendo-se como base os elementos dos jogos de entretenimento Banco Imobiliário, Monópoly e Administrando seu Dinheiro. Optou-se pela estrutura proposta por Freitas, Alves e Torres (2018), que divide o GDD em cinco tópicos que evidenciam os seguintes aspectos: Design, Engenharia, Gestão, Escrita e Jogadores. Quanto ao nome do jogo, o termo maior do jogo, que é a Baixada Fluminense do Estado do Rio de Janeiro. O Milionário 106Fluminense é personificado através do avatar apresentado na Figura III, o qual será utilizado na publicidade do jogo em eventos de extensão, congressos e nas mídias sociais do grupo de estudos. Figura 3: Avatar do Jogo o Milionário Fluminense3 Fonte: Elaborado pelos autores a partir do aplicativo de Zepeto. Quanto à justificativa de gamificação do jogo para a prática pedagógica, trata-se de um jogo educativo sobre alfabetização financeira que pode ser aplicado de forma lúdica tanto em disciplinas da área financeira (matemática, matemática financeira, princípios de economia, gestão de finanças pessoais, gestão orçamentária, gestão de investimentos etc.) como em cursos de extensão voltados para educação financeira de jovens e adultos. A iniciativa de elaboração deste jogo se justifica pelo cenário caótico de endividamento da população brasileira, principalmente das classes mais pobres da sociedade, resultando em elevadas taxas de inadimplência e negativação. Portanto, atento às necessidades da maioria da população brasileira, o jogo tem como missão propagar conhecimento financeiro às crianças e jovens residentes na Baixada Fluminense do Estado do Rio de janeiro, através da orientação sobre fundamentos básicos das finanças pessoais e princípios básicos da economia, permitindo-lhes ter uma visão crítica das oportunidades e ameaças que fazem parte do sistema financeiro nacional. Portanto, no intuito de formar, ainda no ensino básico, cidadãos críticos e conscientes e eliminar a miopia financeira das famílias, este jogo trabalhará com os seguintes conteúdos financeiros: noções básicas de investimentos 3 A opção pelas cores verde e vermelho da roupa tem relação com a identidade do personagem com o IFRJ. A juventude do personagem e estilo moderno (terno e tênis) dialoga com o público-alvo do jogo, que são crianças e jovens do ensino básico das escolas públicas e privadas do Brasil. A cartola e o bigode representam adereços que caracterizam o status milionário, objetivo do jogo. 107 (dilema: investir ou alugar uma propriedade?); noções básicas de empréstimos (dilema: operar com recursos próprios ou de terceiros?); noções básicas de financiamentos (dilema: comprar à vista ou a prazo?); noções básicas do uso da calculadora HP12C em operações de investimento e crédito; noções sobre relatórios financeiros (como ler e usar a favor as informações financeiras?); noções básicas de seguros (dilema: reserva de contingência versus vulnerabilidade financeira); noções básicas de orçamento (dilema: reserva de emergência versus resiliência financeira versus vulnerabilidade financeira); noções de contabilidade tributária (pagamento de tributos sobre operações financeiras pela ótica do pagador e pela ótica do governo); e noções de Economia (influência da Taxa Selic e inflação sobre operações de crédito e investimentos). Trata-se de um jogo de estratégia baseado na classificação PVP (player versus player), recomendado para a faixa etária a partir de 15 anos, pois o exige que os jogadores tomem decisões baseadas em cálculos numéricos relacionados com razão, proporção, porcentagem, potenciação, radiciação, logaritmo e cálculo de juros compostos, além do uso de calculadoras financeiras para a projeção de ganhos e perdas. A cada rodada, os jogadores competirão entre si sendo moderados por um representante bancário e por um representante do governo. O representante bancário conduzirá operações de empréstimos e financiamentos, cobrando juros e taxas administrativas por cada operação. O representante do governo supervisionará o representante bancário e fiscalizará os relatórios financeiros dos participantes no intuito de garantir o cumprimento das obrigações fiscais, tais como o pagamento de imposto de renda e imposto sobre operações financeiras. A competição dar-se-á por tomada de decisões que envolvem habilidades de pensamento e planejamento para maximizar o patrimônio líquido ao longo das 13 rodadas. Entretanto, como alternativa à competição, é possível que haja cooperação entre dois ou mais jogadores no intuito de reduzir ameaças resultantes de um monopólio construído por determinado jogador. Cada rodada seguirá o seguinte escopo: (1) apresentação do tabuleiro e explicação das regras do jogo específicas para a rodada; (2) explicação dos conceitos financeiros e matemáticos que serão necessários na rodada; (3) filme sobre o município que serve de cenário na rodada, enfatizando-se aspectos culturais, econômicos, políticos, gastronomia, 108 entretenimento e lazer; (4) momento para discussão, dúvidas e perguntas; (5) início do Jogo; (6) término do Jogo e prestações de contas ao banco e ao governo; (7) feedback aos jogadores. O Milionário Fluminense é um jogo de tabuleiro sobre compra, venda e aluguel de propriedades da Baixada Fluminense no Estado do Rio de Janeiro, que pode ser jogado tanto na modalidade presencial como na modalidade virtual. Cada rodada é jogada por quatro jogadores. Os jogadores utilizam pinos para caminhar pelo tabuleiro. Dados são utilizados para indicar quantas casas cada jogador irá percorrer. O objetivo é acumular o maior patrimônio líquido em 13 rodadas, se tornando o Milionário Fluminense, e levar os demais jogadores à falência. Cada rodada tem duração aproximada de 2 horas, totalizando 26 horas de prática pedagógica de gamificação. Cada uma das 13 rodadas apresenta ao jogador um portfólio de propriedades específicas de um Município da Baixada Fluminense, conforme mostrado na Tabela V, tornando o jogo uma plataforma de promoção da Baixada Fluminense, enfatizando aspectos sociais, culturais e econômicos da região. Cada tabuleiro disponibiliza 30 propriedades para os participantes realizarem operações de compra, venda ou aluguel. Tais operações serão realizadas entre os jogadores ou entre os jogadores e o banco. As propriedades são compostas por pontos turísticos, shopping centers, universidades, rodoviárias, estações de trem, clubes de futebol, escolas de samba, igrejas e Templos, praças e parques, hospitais e clínicas. Adicionalmente, cada tabuleiro disponibiliza 10 empresas locais para os participantes comprarem e venderem suas ações. Na Figura IV, é possível ver o tabuleiro utilizado na rodada 1, cujo cenário é composto por propriedades do município de Guapimirim. A iniciativa de inclusão de propriedades específicas de cada um dos treze municípios da Baixada Fluminense, conforme evidenciado no Quadro IV, visa estimular a identificação dos jogadores com a região em que residem, preservando-se tradições históricas, a cultura, hábitos e valores locais. 109 Figura 4: Tabuleiro do Jogo O Milionário Fluminense aplicado à rodada 14 Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos elementos dos jogos Banco Imobiliário, Monópoly e Administrando seu Dinheiro. A cada rodada, os participantes contabilizarão lucros ou prejuízos em seus orçamentos dependendo do desempenho de suas operações. Para acumular maior patrimônio líquido, o jogador terá que demonstrar conhecimentos matemáticos (tais como proporções, porcentagem, regra de três, potenciação, radiciação e logaritmos) e financeiros (como cálculo de juros compostos, cálculo de prestações, cálculo de montantes, cálculo de taxa de juros, cálculo de período, cálculo do valor presente) para que tome decisões sobre (i) comprar e vender propriedades à vista, (ii) comprar 4 Cada rodada representará o contexto de um município específico da Baixada Fluminense, disponibilizando para compra, venda e aluguel um conjunto de propriedades com representatividade local no âmbito econômico, político, cultural, religioso ou do turismo. 110 e vender propriedades a prazo, (iii) alugar propriedades, (iv) pegar dinheiro emprestado com banco, (v) pegar dinheiro emprestado com jogadores e (vi) aplicar dinheiro em investimentos. Adicionalmente, o jogador teráque demonstrar conhecimentos sobre a Baixada Fluminense, respondendo corretamente perguntas auxiliar os jogados com conceitos matemáticos, financeiros e sobre a Baixada Fluminense, as rodadas serão moderadas por professores e monitores que terão como objetivo gerenciar a aplicação de nudges para incentivar os jogadores a tomarem decisões mais otimizadas, mas sem coibir ou alterar o seu comportamento e atitude financeira. A aplicação de nudges contará com mecanismos de facilitação (através da exposição de conceitos), mecanismos de confrontação (através de reflexão sobre custo, benefício e risco), mecanismos de influência social (desejo dos indivíduos de agir em conformidade com o que eles acreditam ser o esperado pela estrutura social), mecanismos de medo (perda e incerteza para incentivar um comportamento desejado) e mecanismos de reforço (reforçar comportamentos positivos, aumentando sua presença no pensamento dos indivíduos). Quadro 4: Estética do jogo O Milionário Fluminense5 Fonte: Elaborado pelos autores. 5 O desenho da estética do jogo a partir de cenários da Baixada Fluminense teve como finalidade resgatar a identidade fluminense dos jogadores a partir do conhecimento mais profundo dos aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais da região. 111 A abordagem dos mecanismos de nudges dependerá do feedback dos jogadores ao longo das rodadas. Quanto ao feedback do jogador para os administradores do jogo, no início da rodada, cada jogador recebe um montante de dinheiro em conta corrente e tem autonomia para elaborar sua estratégia de jogo. Ao fim da rodada, os jogadores deverão prestar contas ao governo através da entrega de um relatório sobre seu fluxo de caixa na rodada, informando todas as saídas e entradas de recursos, além do saldo do caixa conforme Quadro 5. Quadro 5: Demonstração de Fluxo de Caixa (DFC) por Rodada Saldo no Início da Rodada R$ Atividades Operacionais Entrada de Recursos Saída de Recursos Saldo Atividades Operacionais Atividades de Investimento Entrada de Recursos Saída de Recursos Saldo Atividades de Investimento Atividades de Financiamento Entrada de Recursos Saída de Recursos Saldo Atividades de Financiamento Saldo no Final da Rodada Fonte: Elaborado pelos autores a partir de Eliseu Martins (2018) A Demonstração de Fluxo de Caixa (DFC) representa o histórico da estratégia de jogo utilizada pelos participantes durante a rodada e serve como parâmetro para análise do patrimônio líquido acumulado do jogador. Todas as vendas, compras, aluguéis e investimentos deverão constar neste relatório e poderão ser consultadas por outros jogadores, ao fim das rodadas, para mapeamento de estratégias e tomadas de decisão. Adicionalmente, por rodada, cada jogador deve entregar ao governo seu balanço patrimonial (Quadro 6), informando relação de bens, direitos e obrigações, para que seja calculado o patrimônio líquido acumulado. O patrimônio líquido é o principal indicador do jogo. O jogador que acumular o maior patrimônio líquido após 13 rodadas, será o Milionário Fluminense. Quadro 6 Balanço Patrimonial (BP) por Rodada ATIVO PASSIVO Ativo Circulante Passivo Circulante Caixa Impostos a pagar Duplicatas a Receber Prestações a pagar Ativo não Circulante Passivo não Circulante Investimento em Renda Variável Financiamentos a pagar 112 Investimento em Renda Fixa Empréstimos a pagar Ativo Permanente Impostos a pagar Imóveis Patrimônio Líquido (-) Depreciação de 3% por Rodada Patrimônio Terrenos Reserva de Lucros (-) Depreciação de 1% por Rodada TOTAL DO ATIVO TOTAL DO PASSIVO Fonte: Elaborado pelos autores a partir de Eliseu Martins (2018) Por fim, por rodada, cada jogador deve entregar sua demonstração dos resultados do exercício (DRE) ao governo (Quadro 7), informando suas receitas, despesas e resultados. O jogador que obtiver o maior lucro, será o campeão da rodada e receberá emblemas e troféus que simbolizam o êxito de suas decisões e estratégias nas rodadas. Nos games os jogadores são sempre capazes de visualizar o efeito de suas ações em tempo real. Nas escolas normalmente acontece o inverso e os alunos só conseguem visualizar seus resultados depois de certo tempo, muito maior do que aquele que estão acostumados nos games. Acelerar esse processo de feedback estimula a procura por novos caminhos para atingir os objetivos, bem como o redirecionamento de uma estratégia, caso ela não esteja apresentando os resultados esperados (FARDO, 2013). Quadro 7: Demonstração dos Resultados (DRE) por Rodada (+) Receita com Venda de Propriedades R$ (+) Receita com Aluguel (+) Receita com Rentabilidade de Investimentos (=) Receita Total (-) Gastos com Reforma e Manutenção de Propriedades (-) Gastos com taxas bancárias (-) Gastos com IOF (-) Gastos com juros de empréstimos e financiamentos (=) Gasto Total (=) LAIR (Receita Total Gasto Total) (-) Gastos com IR (=) Lucro Líquido Fonte: Elaborado pelos autores a partir de Eliseu Martins (2018) Será aumentada progressivamente a dificuldade das tarefas por rodada conforme o desenvolvimento das habilidades dos alunos. Proporcionar diferentes níveis de dificuldade para os desafios propostos auxilia na construção de um senso de crescimento e avanço pessoal nos estudantes, e faz com que cada um siga o seu próprio ritmo de aprendizagem (FARDO, 2013a). Dessa forma, as rodadas iniciais exigem a aplicação de operações matemáticas mais simples como soma, 113 multiplicação, divisão, subtração, porcentagem e proporção. Por outro lado, as rodadas finais exigem a aplicação de logaritmos, potenciação, radiciação, fórmulas de juros compostos, conhecimentos básicos sobre investimento, fluxo de caixa, balanço patrimonial, demonstração de resultados, e conhecimento básico sobre Taxa Selic e impostos. No quarto trimestre, o GDD foi transformado em um protótipo de papel e avaliado em um experimento pré-teste. O público-alvo foi composto por oito alunos s quatro planejada pelo método expositivo tradicional. Na turma teste, a aula de educação rio foram juros compostos, investimentos e risco. Ambas as aulas tiveram duração aproximada de uma hora e foram conduzidas por professores que compõem a equipe de pesquisa. No decorrer do experimento, os alunos tiveram que responder dois questionários. O primeiro questionário foi aplicado antes do experimento iniciar. O segundo foi aplicado após o término do experimento. O questionário inicial estruturou-se por dois eixos: eixo socioeconômico, com perguntas sobre faixa etária, renda familiar, tamanho da família, estado civil, ocupação, gênero e cor; e eixo conhecimento financeiro, com cinco perguntas sobre juros compostos, investimentos e risco. O questionário final estruturou-se apenas por perguntas do eixo conhecimento financeiro. Após o preenchimento do questionário final, foi realizada uma entrevista em profundidade, com duração de 15-20 minutos, com os participantes para avaliação 360 do experimento. Três proposições teóricas foram testadas no experimento: (P1) os alunos que participaram da aula gamificada apresentaram maior conhecimento financeiro ao término do experimento; (P2) os alunos que participaram da aula gamificada apresentaram maior engajamento durante o experimento; (P3) os alunos que participaram da aula gamificada apresentaram maior motivação para formações futuras na área de alfabetização financeira. 114 Considerações Finais Apesar dos números crescentes de intervenções em busca da melhoria da educação financeira dos brasileiros, são cada vez maiores os índices de endividamento, inadimplência e negativação no país. O que pode estar errado? Neste artigo, foi apresentado uma proposta de prática pedagógica a partir da gamificação de uma aula de educação financeira voltada para formação básica de crianças e adolescentes matriculadosem escolas públicas e privadas do país. A contribuição deste estudo, no curto-prazo, é apresentar uma alternativa pedagógica para transmitir conhecimentos básicos financeiros a partir de uma metodologia compatível com as necessidades culturais indivíduos mais jovens, pertencentes às gerações digitais, e, no longo-prazo, mudar hábitos e comportamentos financeiros o, inadimplência e negativação da população brasileira, principalmente dos indivíduos com menor faixa de renda e escolaridade, como é o caso de parcela significativa dos residentes da Baixada Fluminense do Estado do Rio de Janeiro. A gamificação proposta neste estudo partiu da utilização de elementos de jogos tradicionais de entretenimento, como Banco Imobiliário, Monópoly e Administrando seu Dinheiro, dando origem ao jogo O Milionário Fluminense, com fins estritamente didáticos e recomendado como ferramenta pedagógica e metodologia ativa em disciplinas do ensino básico, conforme recomendado pela BNCC. Os pontos significativos da gamificação quando se refere a aprendizagem são: a) a velocidade de aprendizado, considerando que a geração digital tende a aprender muito mais rápido que as anteriores; b) o processamento paralelo, em virtude da característica de multitarefas dessa geração atual associada ao processamento simultâneo de diversas informações; c) o acesso não linear a informação, a partir de diversos estímulos que podem proporcionar a ligação de distintos conteúdos dentro do ambiente do jogo; d) o processo ativo de aprendizagem, deslocando o aluno da posição de mero espectador para o papel de protagonista que interage com os objetos de estudo; e) a recompensa imediata e atrativa a partir do esforço do aluno na interação com o jogo. Estes aspectos evidenciam um papel mais ativo dos alunos jogadores, contribuindo para a construção significativa de conceitos (FREITAS; ALVES; TORRES, 2018). 115 A gamificação está calçada no processo de mutação pelo qual a sociedade está passando, baseando-se no prazer e satisfação, em oposição à sua prioridade inicial de sobrevivência. A Gamificação promove motivação e pode encorajar pessoas a participar de algo. Suas técnicas são usadas em aplicações e processos para melhorar o envolvimento dos usuários, aumentar o retorno sobre o investimento, a qualidade dos dados, a percepção de oportunidades e elevar o nível de aprendizado. O desenvolvimento de atividades utilizando elementos de games insere o componente lúdico em atividades necessárias como agente de promoção da satisfação do usuário. A motivação através de gamificação pode potencialmente modificar algum comportamento e criar hábitos, estimular pessoas ao engajamento de ativi determinado contexto (MENEZES, TARACHUCKY, PELLIZZONI, PERASSI, GONÇALVES, GOMEZ, FIALHO, 2014). O que se observa nas escolas são ciclos demasiadamente lentos de feedback. Dificilmente um aluno tem a oportunidade de verificar seus erros em tempo real, o que possibilitaria refletir sobre eles na medida em que acontecem. As provas e avaliações são elementos que vão exatamente contra o que é proposto pelo uso do feedback nos games. Os alunos somente podem avaliar o caminho que percorreram dias depois, quando o professor os corrigir. A gamificação pode promover a aprendizagem porque muitos de seus elementos são baseados em técnicas que os designers instrucionais e professores vêm usando há muito tempo. Características como distribuir pontuações para atividades, apresentar feedback e encorajar a colaboração em projetos são as metas de muitos planos pedagógicos. A diferença é que a gamificação provê uma camada mais explícita de interesse e um método para costurar esses elementos de forma a alcançar a similaridade com os games, o que resulta em uma linguagem a qual os indivíduos inseridos na cultura digital estão mais acostumados e, como resultado, consegue alcançar essas metas de forma aparentemente mais eficiente e agradável (FARDO 2013b). Porém, é preciso atentar para algumas limitações do uso da gamificação como prática pedagógica. A gamificação motiva a autonomia dos indivíduos, eles partem em busca de novos conhecimentos e o professor perde parte do controle que possuía sobre os caminhos da aprendizagem naquele ambiente. Partindo desse 116 pressuposto, o professor pode se deparar com situações em que o conhecimento trazido pelo aluno é desconhecido por ele. Por isso pode ser dito que a gamificação, aplicada em um ambiente de aprendizagem, afeta os dois processos, a aprendizagem e o ensino (FARDO 2013b). O uso de recompensas como forma de motivação é apenas um recurso que motiva o indivíduo a novas recompensas, não desenvolvendo o comportamento que a recompensa está a premiar. A prática da engendrar expectativas irrealistas em relação à aprendizagem (FADEL; ULBRICHT; BATISTA; VANZIN, 2014). A gamificação é um fenômeno emergente e, por isso, existem poucos relatos de experiências empíricas em processos educacionais, devido ao fato de que os educadores precisam dominar bem essa linguagem antes de serem capazes de utilizá-la em seus projetos, o que normalmente ainda não ocorre em nossa realidade. Sem um conhecimento aprofundado sobre a gamificação, aplicá-la na educação pode impactar de forma não esperada os processos de ensino e aprendizagem. Pode ainda ser empregada de forma incorreta ou equivocada, reforçando mais ainda alguns problemas presentes no sistema de ensino atual como, por exemplo, o fato de ocorrer uma valorização maior das notas obtidas do que da aprendizagem em si (FARDO 2013a). Como sugestão para iniciativas de pesquisas, ensino e extensão futuras relacionadas com gamificação, destaca-se a defasagem hoje existente, entre a formação de base do professor e as demandas que lhe são impostas em face do contexto da cibercultura, especialmente no que tange à gamificação, necessitam de ações de restruturação do currículo de formação docente para que possamos ressignificar as práticas pedagógicas à luz desse novo, desafiador e promissor contexto em que as tecnologias digitais emergem como elementos coadjuvantes da atuação docente. Portanto, há a necessidade de compreensão dos hábitos que os estudantes têm fora da escola, da maneira como eles se comunicam, de como eles resolvem os seus problemas em redes, para trazer alguns desses hábitos para dentro da escola porque fora da escola a cibercultura está estabelecida. A escola faz parte desse contexto. Esse é um dos motivos pelo qual a gamificação retorna à pauta das possibilidades educacionais, adotando aproximações relevantes e com potencial pedagógico dos comportamentos dos estudantes relacionados aos jogos digitais 117 (MARTINS; GIRAFFA, 2018). Outra sugestão se refere ao fato de que um problema comum nos estudos empíricos sobre gamificação é o seu design. Especificamente, a maioria dos estudos não executou análises estatísticas (e subsequentemente não puderam gerar tamanhos de efeito), não isolou o efeito de gamificação (por exemplo, usando um controle e comparando sistemas gamificados e não gamificados) e foi de curto prazo e / ou de natureza única. No futuro, tais estudos precisarão ser replicados, ter desenhos comparativos e longitudinais. Meta-comparações devem ser executadas para tirar conclusões mais fortes e generalizáveis sobre o valor da gamificação para os usuários finais (FELS; SEABORN, 2015, artigo 2 internacional). Agradecimentos Em nome do Grupo de Estudos sobre Alfabetização Financeira do IFRJ, Campus Nilópolis, gostaríamos de agradecer aos nossos patrocinadores e parceiros pelo apoio recebido para o desenvolvimento de nossos projetos de pesquisa e extensão. Em particular, gostaríamos de agradecer à Direção Geral do Campus Nilópolis do IFRJ por reconhecer o mérito do nosso trabalho e nos fornecer toda a infraestrutura necessária para a realização de experimentos, grupos focais e entrevistasem profundidade com a comunidade acadêmica e fluminense. Gostaríamos de agradecer também à Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação do IFRJ por nos conceder recursos financeiros através do programa Prociência, que foram de importantes para a aquisição de materiais e equipamentos que constituem nosso laboratório de gamificação. Gostaríamos de agradecer à Capes e ao CNPq pela concessão de bolsas de iniciação científica aos nossos discentes pesquisadores, contribuindo com sua formação científica e com a necessidade de recursos humanos de nossos projetos. Por fim, agradecemos ao Banco Central do Brasil pela parceria na formação financeira de crianças, jovens e adultos, através do fornecimento de material didático impresso sobre educação financeira para nossos projetos de extensão. Referências Bibliográficas ATKINSON, A.; MESSY, F. Measuring financial literacy: Results of the OECD/ International Network on Financial Education (INFE) Pilot Study. OECD Publishing. (Working Paper 15). Publicado em 2012. 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Para responder esta questão consultamos livros- textos relacionados ao ensino de aritmética que comumente eram utilizados naquela época, com vistas a exercitar o diálogo entre História da Matemática e Educação Matemática, seguindo de perto as orientações de Dias e Saito (2009) e Saito (2010), que propõem a construção de interfaces entre história e ensino por meio da articulação de dois eixos de investigação, o contexto do desenvolvimento dos conceitos matemáticos e o movimento do pensamento na formação desses mesmos conceitos, de modo a fazer emergir elementos potencialmente didáticos para o ensino de matemática. No que diz respeito à análise dos livros-textos, este trabalho teve por base a articulação de três esferas de análise, historiográfica, epistemológica e contextual, seguindo as atuais tendências historiográficas da história da ciência (ALFONSO- GOLDFARB; WAISSE; FERRAZ,2013; SAITO, 2013a; 2013b; 2013c). Por historiografia entende- 1 Alin 120 narrativas históricas relacionadas ao tema de estudo aqui considerado. A esfera epistemológica busca compreender os livros-textos tendo como referência um tópicos na história da matemática com vistas a compreender o processo e o Articulada à esfera epistemológica, buscamos compreender os aspectos internos e conceituais ligados aos documentos tendocomo referência um conjunto de conhecimentos, práticas e critérios aceitos na época em que os documentos foram utilizados. Por meio da articulação dessas duas esferas de análise à outra, contextual, pesquisamos o contexto no qual os mesmos documentos foram elaborados, tendo por base as relações sociais e culturais que podem ser detectadas neles mesmos2. Especificamente, para este trabalho, primamos alguns aspectos que emergiram na esfera contextual e epistemológica, evidenciadas nas propostas de ensino de aritmética elementar para as escolas elementares estadunidenses no século XIX incorporado de algumas características muito peculiares, isto é, as discussões vinculadas fortemente ao método de ensino que melhor atendiam às finalidades de modernização do país em decorrência de diferentes interesses políticos, ideológicos, religiosos, sociais, econômicos e culturais na época. Contexto científico e matemático do século XIX Segundo Karnal et al (2007), o século XIX é marcado pelas oportunidades econômicas, trilhando assim pela consolidação do capitalismo como sistema, que promoveu diversas transformações culturais, sociais, políticas e econômicas. As transformações ocorridas nesse período, especialmente no modo produção, marcaram o desenvolvimento da ciência. O desenvolvimento e a consolidação do cada vez mais passou a atender a uma demanda por produção. 2 Ressaltamos que teremos como princípio não somente a observação pontual dos documentos, mas também as variantes regionais e circunstanciais que as envolveram e particularizam dentro do contexto mais geral no qual pertenciam. 121 Naquela época, a ciência e a matemática modernas começaram a adquirir os contornos e as características que hoje reconhecemos, bem como passaram a delinear novas frentes de investigação cada vez mais especializadas em diferentes regiões da Europa. Todavia, nos Estados Unidos da América, embora alguns campos do conhecimento, como a química, a medicina e a biologia começassem a ocupar lugares próprios e específicos na ciência moderna, a matemática, entretanto, se p.03). Segundo Eisele (1979), a matemática americana só começou a florescer a partir de 1876, quando foi fundada a Johns Hopkins University, em Baltimore. A fundação dessa universidade teve grande impacto no desenvolvimento científico norte-americano, visto que não só fez florescer as investigações em matemática nos Estados Unidos, mas também incentivou o estabelecimento de cursos de pós- graduação em outras universidades, entre as quais, a Universidade Clark, em Worcester, Massachusetts, fundada em 1889 e da Universidade de Chicago fundada em 1892, influente no Centro-Oeste. Entretanto, devemos aqui considerar que a emergência da moderna universidade nos Estados Unidos foi resultado de um processo multifacetado de modernização da sociedade norte-americana. De acordo com Barrow (1990, p.14), esse processo pode ser entendido como "um componente cultural da Revolução Industrial, relacionada às transformações na estrutura de classe e a culminação dessas grandes e perturbadoras mudanças nos movimentos de racionalização social da era progressiva". Compreendida entre o início da década de 1880 e a Primeira Guerra Mundial, alguns setores da classe média norte-americana, em nome do progresso social e científico, passaram a clamar por eficiência e justiça social, reivindicando maior controle das grandes empresas por meio de uma administração científica. Esse movimento acabou desencadeando, assim, uma série de reformas nas instituições sociais, principalmente nas escolas e nas universidades, que passaram a ser reorganizadas e expandidas. Nesse cenário, era viva a sensação de que o progresso nos padrões de vida acompanhava o progresso da ciência. Podemos dizer que a matemática do século 122 XIX esteve associada não só às novas demandas propiciadas pela indústria, mas também àquelas que incentivavam a busca pelo conhecimento abstrato propiciadas pela especialização de novos ramos de investigação na Álgebra e pelos métodos simbólicos. De fato, a divisão do processo de trabalho caracterizado pela especialização nas tarefas efetuadas no ambiente da fábrica, caracterizada pela particularização das atividades exercidas pelo operário, encontra paralelo com o próprio processo de especialização ocorrido na matemática do século XIX. Uma característica dessa época foi que a matemática começou a ser fragmentada em campos diversos com resultados de suma importância, haja vista que os especialistas, por focarem um objetivo específico, tinham a oportunidade de aprofundá-lo cada vez mais. (BARROW, 1990). Segundo Mondale e Patton (2001), o processo de institucionalização das diversas áreas trouxe, desse modo, transformações e inovações nos diversos espaços ou locais de prática da matemática, porém, nos diversos âmbitos universitários e escolares estas mudanças não ocorreram de forma simples e natural, muito pelo contrário, envolveu uma grande diversidade de aspectos, muitos deles por vezes contraditórios. É nesse cenário que, de acordo com Bacha (2014, p.76), os cientistas começaram a se especializar. Nesse processo, o progresso científico foi caracterizado como um saber que aumentava conforme as futuras gerações e contribuíam com novos desdobramentos e descobertas científicas, num movimento infinito que nunca se completaria. Isso fomentou a ideia de que a ciência (e, portanto, a matemática) avançava continuamente de tal modo a compreender que progresso científico era um processo imanente à própria história da humanidade. Assim, por meio do progresso científico e técnico, justificava-se o progresso político, econômico, e até o moral. Ainda em relação ao progresso científico, Saito (2018) complementa: Foi nesse contexto que a ciência e a matemática modernas começaram a ganhar corpo. Esse processo foi acompanhado pela crescente convicção de que as novas gerações de estudiosos de ciências e de ento para que o futuro edifício da ciência e da matemática modernas pudesse ser construído. (SAITO, 2018, p. 613) 123 Estados Unidos. A partir das últimas décadas do século XIX, vemos lá surgir o espaço institucional da ciência, que estabeleceu os papéis sociais do cientista, bem como os das universidades por meio de uma filosofia capaz de oferecer, segundo Eisele (1979), A influência desta filosofia se estendeu por toda a formação cultural americana, na medida em que fundamentou as concepções de modernidade, além de atuar como suporte ideológico e fundamental no projeto de construção e afirmação de uma ordem social nos Estados Unidos e de definição do científico como forte componente do ideário da inteligência americana. É por essa razão muito provavelmente que os norte-americanos buscaram ensino superior responsável pela formação de uma nova elite intelectual dotada de costumes, hábitos e traços científicos, buscando incorporar, inclusive, a classe desfavorecida nas relações de trabalho e de bem-estar social, de modo que se organizasse uma nação com condições básicas para a conquista da modernidade no país. Foi nesse contexto que houve a necessidade de desenvolver pesquisas em matemática e a discutir sobre o seu ensino. Em outros termos, foi num ambiente em que era viva a necessidade de formar jovens para o futuro da ciência e da nação que Peirce elaborou suas ideias. Contexto educacional e o ensino de aritmética no século XIX Em períodos anteriores ao século XIX, a educação norte-americana não se encontrava sistematizada. A extensão e o tipo de escolaridade dependiam exclusivamente dos recursos disponíveis e das ambições de cada cidade, que geralmente seguiam preceitos e orientações religiosas, que acabavam estabelecendo vários tipos de escolas, em muitas das quais o ensino de aritmética não era considerado essencial para todas as crianças, mas sim destinado somenteaos meninos que fossem entrar na vida comercial. Isso porque, entre a nobreza e a como algo comum e mecânico, pois seu ensino estava voltado aos artesãos e 124 comerciantes, ou seja, era um aprendizado direcionado para a prática. (MONROE, 1917). A partir da primeira metade do século XIX, o conteúdo e o método ensino de aritmética elementar foram alvo de intensos debates. Esses debates eram reflexos da crença no poder da escola como fator que propiciava o progresso, a modernização e a mudança social articulada com as exigências do desenvolvimento industrial e o processo de urbanização estadunidense. (MELANDRI, 2006) A necessidade de mudanças nas propostas de ensino se fez sentir no âmbito da instituição universitária e do ensino em geral, provocando nos centros mais tradicionais, reações de nítido conservadorismo. Tal reação tinha em vista evitar o surgimento de uma estrutura de ensino que visasse formar mão-de-obra especializada para atender as exigências da expansão econômica, que, por consequência, conduziria a abertura de cursos superiores a camadas mais amplas e heterogêneas da população. No entanto, conforme Silveira (1982) esse conservadorismo não prevaleceu devido a pressões políticas, econômicas e sociais. Em linhas gerais, o período que compreende o final do XIX e início do XX foi marcado por mudanças em diversas áreas, que também impactaram na educação. De acordo com Urban, Wagoner e Jennings (2014), até 1890, cerca de 27 estados americanos haviam aprovado leis que obrigavam as crianças a frequentarem a escola e isso fomentou calorosas discussões sobre a formação de professores e métodos de ensino, provocando confrontos entre educadores, intelectuais e diferentes grupos sociais que solicitavam reformas no sistema educacional. Isso porque era crescente a sensação de que os saberes elementares, isto é, leitura, escrita e cálculo, passaram a ser considerados insuficientes para preparar as novas gerações para viverem em sociedades modernas, urbanizadas e industrializadas. De acordo com Warde (2000), a modernização do currículo das escolas estadunidenses era de suma importância para satisfazer as novas exigências advindas do processo de modernização e urbanização naquela época. A educação elementar passou a ser discutida em conjunto com os temas de desenvolvimento econômico e progresso social. Assim, a seleção de conteúdos e a sequência de ensino, bem como os métodos de ensino em cada série, entraram na pauta de discussão e passaram a fazer parte de prática racional de controle do ensino e da aprendizagem 125 nas escolas norte-americanas. Esse processo fomentou a crença de que, por meio da escola, o progresso, a modernização e a mudança social articulada com as exigências do desenvolvimento industrial e o processo de urbanização estadunidense estariam garantidas. Com o crescimento das cidades a partir da primeira metade do século XIX, o surgimento da manufatura, a invenção de máquinas, novos modos de viagem e transporte, e outros fatores combinaram-se para produzir uma demanda por um grau mais elevado de educação do que o necessário. Como consequência, surgiu um novo conceito do propósito e escopo da educação oferecida pelas escolas e um interesse desperto nas escolas públicas para uma nova demanda, isto é, suprir as necessidades do comércio e das indústrias que ali estavam se instalando. Logo, a ampliação dos programas do ensino elementar acompanhou a ampliação das finalidades sociais e culturais atribuídas à educação popular nos Estados Unidos. Face à ampliação da seleção cultural tornou-se necessária a constituição de novos dispositivos de ordenação curricular. Emergia uma nova exigência, isto é, a de unificação dos programas. Tal debate foi desencadeado no interior dos estudos científicos da educação, que se tornaram a base de legitimação de posições conflitantes sobre a criança, a escola e o currículo. (MONDALE e PATTON, 2001) Ainda nesse contexto, Filkestein (1989), Kastle (1999) e Tyack (2000) observam que ocorreram grandes mudanças relacionadas à aprendizagem que, cada vez mais, se embasavam em teses psicológicas. Além disso, foi crescente o os símbolos e os ideais norte-americanos, num contexto em que se mesclavam o espírito nacionalista e o desenvolvimento econômico e social. Neste cenário, houve um aumento crescente da discussão sobre a obrigatoriedade da formação escolar que se desdobrou na ampliação do programa do ensino primário que passou a incluir nos currículos escolares novas disciplinas. Segundo Kliebard (1992;1995), Tompkins (1957) e Monroe (1917), isso fomentou grandes debates relacionados a formação de professores, métodos de ensino, disputas curriculares, que se intensificaram até os finais do século XIX. Assim, além do ensino ordinário da leitura, da gramática, do cálculo e da instrução religiosa, que buscou adaptar a escola primária às exigências da formação do homem moderno, 126 portador de uma visão mais racional do mundo e dos valores da modernidade, o currículo se expandiu e passou a incluir disciplinas como História, Geografia, Ciências Físicas e Naturais, Desenho Geométrico, Música, Geometria, Aritmética, Educação Física, Trabalhos Manuais e Instrução Moral e Cívica. Desse modo, além da decisão do que ensinar, tornou-se fundamental a prescrição do método de ensino que, segundo os profissionais da educação daquela época, deveriam ser vistos como fundamental para a renovação pedagógica, a base racional do trabalho docente e a condição de eficiência do empreendimento educativo.3 Em relação à escola elementar, um dos primeiros esforços de elaboração de programas para o ensino primário foi na década de 1860. Nesses programas, como observa Souza (2016), a criança e o currículo tornaram-se objetos de conhecimento e de intervenção política. Ao se referir ao âmbito educacional, Tompkins (1957) destaca que as mudanças que se processaram no século XIX refletiram preocupações de ordem metodológica, bem como do conteúdo de aritmética a ser abordado nas escolas elementares, como, por exemplo, o método intuitivo, conhecido pela expressão object teaching. Entretanto, a vulgarização do método intuitivo naquele país ocorreu através da expressão object lesson (SOUZA, 2005). Ainda considerando o contexto os de Pestalozzi consubstanciados no método intuitivo foram apropriados de forma peculiar para a sua adoção na Conforme aponta a NCTM (2003), Warren Colburn4 abriu um caminho para uma completa reorientação na educação aritmética, baseando-se nas ideias de Froebel5 e Pestalozzi6, que valorizaram a manipulação de objetos por parte das 3 Ver: Oliveira e Saito (2018) 4 Warren Coulburn (1793-1833), graduado em Harvard em matemática, foi um homem de negócios em Massachusetts. Ver mais em: Monroe (1917) 5 Friedrich Wilhelm August Froebel (1782-1852) foi um pedagogo e pedagogista alemão com raízes na escola Pestalozzi. Ver mais em: Liebschner (1992). 6 Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827), suíço alemão nascido em Zurique, atraiu a atenção do mundo como mestre, diretor e fundador de escolas. Como discípulo de Rousseau estava convencido da inocência e bondade humanas e entendia que a tarefa do mestre era estimular o desenvolvimento espontâneo do aluno, procurando compreender o espírito infantil, atitude que o afasta do ensino dogmático e autoritário. Ver mais em: Pestalozzi (1946) 127 crianças.7 Podemos dizer que havia duas técnicas pedagógicas relacionadas no método de ensino de Colburn. A primeira dessas era o aprendizado de aritmética como um exercício mental, sem recorrer a lápis e papel. Ela era utilizada antes de as crianças aprenderem símbolos abstratos para números e operações. Colburn acreditava que as crianças poderiam desenvolver suas próprias técnicas de cálculo sem a utilização de regras. Ele denominava esta técnica de aritmética intelectual, epelas palavras mental e intelectual designava os cálculos aritméticos que não envolvessem a representação escrita.8 Assim, uma vez que os alunos desenvolvessem a habilidade de cálculo mental, eles poderiam então avançar para aritmética escrita. Essa técnica se relacionava com outra que envolvia o raciocínio regras básicas da aritmética por elas mesmas, trabalhando com exemplos De acordo com Moore (1917) a partir de meados do século XIX a aritmética, que começou a ser ensinada para diversas crianças e jovens, passou a ser específico e importante. Isso levou algumas universidades a selecionar alunos que tivessem uma boa instrução de aritmética. Segundo Tompkins (1957), este reconhecimento da aritmética como uma das exigências para a entrada nas universidades, exigiu outras formas de instruir a matemática elementar nas escolas. Devido a tantas mudanças ocorrendo nesse período, houve a necessidade de revisar os materiais utilizados por professores e alunos. Assim a partir de meados do século XIX começaram-se a publicar muitos livros-textos dedicados à instrução de aritmética. Assim, livros escritos por autores norte-americanos e outras numerosas edições de autores ingleses já bem conhecidos, começaram a ser comercializados em grande quantidade. 7 Monroe (1917) e Clason (1968) destacam a publicação, em 1821, de First Lessons in Arithmetic on the Plan of Pestalozzi With some improvement reeditado várias vezes. Em 1822, 1826, 1847, 1863, com alterações inclusive no título. Em 1826, passou a ser . Mas, em 1913, quase um século após a primeira edição, ainda estava sendo impresso, com significativas alterações de editores, só que as vendas tinham caído e a tiragem, a essa época, era de 1000 cópias pela editora Houghton Mifflin Co. 8 Monroe (1917) relata que alguns autores criticavam o uso da expressã os cálculos que envolvem a escrita também envolvem o uso da mente. 128 De acordo com Moore (1917), um dos pioneiros a publicar textos referentes sobre aritmética especificamente norte-americanos foi Nicolas Pike (1743-1819) em 1788. O livro de Pike, intitulado A New and Complete System of Arithmetic composed for the use of the citizens of the United States, continha 512 páginas, sendo 408 destinados aos assuntos relacionados a aritmética, 4 páginas a geometria, 11 páginas a trigonometria, 45 páginas a superfícies de sólidos, 33 páginas a introdução a álgebra e 10 páginas a introdução para seções cônicas. Depois de Pike, Moore (1917) relata que foram publicados outros livros especificamente por autores norte- americanos até por volta de 1800. Podemos dizer que o estabelecimento da necessidade de um currículo comum obrigatório aos alunos de um mesmo nível educativo implicou na necessidade da produção de livros-textos, com finalidade de apresentar às crianças conteúdos básicos. Nesses materiais seguiu-se uma organização do conhecimento matemático de forma mais clara para então poder ser ensinado. No que diz respeito ao ensino de aritmética, esses livros-textos introduziam inicialmente as crianças à contagem e, em seguida, ensinava-se as primeiras regras e operações (somar, subtrair, multiplicar e dividir). Nesse sentido, podemos dizer que esses livros-textos, como observa Monroe (1917), refletiram preocupações de ordem metodológica do ensino de aritmética. Essas preocupações alavancaram debates que buscavam decidir qual seria o melhor método de ensino. Assim, de um lado, os defensores do método dedutivo, conhecido rule method), sugeriam ensinar primeiro as regras teóricas para depois aplicá-la. De outro, os partidários do método indutivo, defendiam que o melhor caminho era iniciar com exemplos e a partir deles chegar às regras. Embora houvesse duas possibilidades, a realidade, entretanto, era outra de modo que a discussão sobre o melhor método de ensino teve que considerar outros aspectos que não eram meramente formais. A esse respeito, Tompkins (1957) observa que, a partir da segunda metade do século XIX, a aritmética a ser ensinada era predominantemente baseada na memorização de regras. Isso porque os cálculos aritméticos eram vistos como bons exercícios para fortalecer e amadurecer a mente. Assim, os exercícios mentais de cálculo, aqueles que os alunos devem fazer sem o recurso de lápis e papel, eram 129 adotados de modo exaustivo pelas escolas. Isso inclusive é observado por Brownell (1954) em The revolution in Arithmetica em que o autor relata que o ensino de aritmética ensinado no último quarto do século XIX era muito difícil e com pouca relação com aspectos práticos da vida. Monroe (1917) observa que propostas como estas tiveram por base o reconhecimento da teoria da psicologia na educação, que considerava que a mente estava constituída por diversas ações como imaginação, memória, percepção e raciocínio, consideradas análogas aos músculos, e que, como tais, deveriam ser exercitados por meio de treinamentos. Nessa nova perspectiva, as faculdades mentais poderiam ser exercitadas e fortalecidas de modo que os cálculos aritméticos passaram a ser vistos como bons exercícios para fortalecer e amadurecer a mente. Isso fomentou a ideia de que as atividades, aquelas que os alunos deveriam fazer sem o recurso de lápis e papel, isto é, mentalmente, fossem aplicadas exaustivamente. Mas a questão não se voltava apenas para a aplicabilidade prática da aritmética. Como já mencionamos, o ensino de aritmética passou a ser requisitado não só para atender a demanda prática do comércio e da indústria, mas também da pesquisa científica. Assim, o que estava em jogo não era só uma aritmética voltada para o cotidiano das pessoas, mas ela passou também a ser exigida nos exames de admissão para as universidades. Nesse sentido, a contagem e o ensino das regras e das operações deveriam ser orientados cientificamente. Para orientar ações nessa direção, fundou-se em 1892, a National Education Association (NEA) que tinha como finalidade o estudo da situação educacional e fazer indicação de recomendações. Assim, em 1893, os gestores dessa instituição a Committee of Ten reformar o currículo escolar. (TOMPKINS, 1957; SOUZA, 2016). Em 1893 o Committee of Ten apresentou o relatório que criticava a inclusão de tópicos obsoletos e apontava para a necessidade de uma abordagem diferenciada no ensino de aritmética elementar, como por exemplo, o uso de material concreto e o desenvolvimento da compreensão dos processos fundamentais da aritmética. Segundo Tompkins (1957), o comitê sugeria suprimir alguns conteúdos e incluir um maior número de exercícios focando cálculos simples e problemas concretos. Nesse 130 sentido, podemos dizer que os membros do comitê foram unânimes em afirmar que a prática pedagógica, até então em vigor, precisava passar por mudanças radicais e recomendaram que o programa de aritmética fosse, ao mesmo tempo, resumido e enriquecido. Entre os assuntos que devem ser reduzidos ou completamente omitidos, são a proporção composta, a raiz cúbica, as medidas abstratas de quantidades obsoletas e grande parte da aritmética comercial. Porcentagem pode ser reduzida às necessidades da vida atual. [...] O método de ensino deve ser objetivo, e pôr em prática exercício para a atividade mental do aluno (COMMITTE OF TEN REPORT apud TOMPKINS, 1957, p. 105, tradução nossa). Ainda de acordo com Tompkins (1957), para um maior estudo sobre o ensino de aritmética foram designados do Committee of Ten um subcomitê, denominado Committee of Fifteen que tinha a finalidade de reportar a situação em que se encontrava o ensino por meio de relatórios. Apesar destes tratarem de aritmética elementar em apenas um tópico, Monroe (1976) observa que ele pode ser visto como de um grande número de grandes educadores em defesa da reforma do ensino de Sob a coordenação de William Torrey Harris (1835-1909), que era naquela época Comissárioda Educação nos EUA, esse comitê contou com um subcomitê dedicado exclusivamente às questões da educação elementar, principalmente no que dizia respeito à Formação de Professores e à organização das escolas, apontando para a importância do ensino da aritmética para o quotidiano das crianças, bem como sua a relevância para a continuidade em estudos futuros. (TOMPKINS, 1957) O subcomitê reconhecia a importância do ensino de aritmética enquanto disciplina escolar, bem como sua relevância para as necessidades diárias, como a utilização para e no comércio, quanto para o ensino superior. O relatório, assim, enfatizou a importância do aprendizado do número observando que: O estudo do número também torna possível para todas as outras ciências da natureza que dependem mensuração exata e registro exato dos fenômenos quanto aos seguintes itens: ordem de sucessão, data, duração, localidade, ambiente, extensão da esfera de influência, número de manifestações, número de casos de intermitência. Todos estes podem ser definidos com precisão apenas 131 por meio de números. O seu valor educacional é indispensável e evidente para toda ciência da natureza. (NATIONAL EDUCATION ASSOCIATION OF THE UNITED STATES, 1985, p. 52-53, tradução nossa) Notemos que a ênfase no ensino de aritmética recaía agora sobre o ensino dos números. A esse respeito, os estudos de Clason (1968) apontam que, por volta de 1880, as ideias numéricas eram expressas por definições gerais e princípios filosóficos. Isso porque a abstração e a intuição eram tidas como fundamentais para se conhecer o número. Nesse sentido, o ensino de aritmética privilegiava, como já mencionamos, um método dedutivo. Contudo, a partir da década de 1890, houve uma tendência que buscou reduzir o uso de definições e enfatizar aspectos menos formais, para se ensinar aritmética. Assim, os livros-textos deram mais ênfase nos objetos físicos, associando os números abstratos a esses objetos. Era comum encontrar nesses livros figuras de objetos concretos do cotidiano das crianças e objetos mais abstratos tais como pontos, bolinhas e outras figuras associadas aos números, bem como recorrendo ao uso de medidas, à medida que avançamos em direção ao início do século XX. Clason (1968) aponta que, por volta de 1880, as ideias numéricas eram expressas por definições gerais e princípios que pretendiam refletir o que era considerado um conceito de número. Desse modo, no que diz respeito à metodologia geral de ensino, a abstração e intuição eram tidas como fundamentais e a aproximação era dedutiva, incentivando um ensino a partir de uma base axiomática. Isso refletiu nos livros-textos publicados após 1895, que passaram a reduzir e até excluir figuras de objetos concretos e semi-concretos, como conjuntos de pontos pretos. Nos anos que se seguiram, entre 1897 e 1904, houve um aumento na preocupação com a mensuração, perceptível no uso das ideias de medida nas definições, o que parece estar associado às discussões de McLellan e Dewey sobre a ideia de número. (CLASON, 1968) Próximo ao fim do século XIX, três versões sobre a natureza do número ganharam destaque: 1) o número enquanto relação percebida diretamente; 2) o número baseado na contagem em sequência; 3) o número enquanto razão obtida por meio de mensurações. 132 Podemos dizer que essas mudanças, encontradas nos livros-textos, são reflexos da ampliação do programa do ensino primário nos Estados Unidos da América a partir dos meados do século XIX. Porém cabe aqui destacar que não havia uma proposta clara que esclarecesse sobre o tratamento que deveria ser dado aos conteúdos aritméticos nas escolas elementares. Assim, embora recomendassem mudanças, não estava claro de que maneira as crianças poderiam ser preparadas para se dedicarem às atividades da vida, como por exemplo no comércio, na indústria, e/ ou para estudos posteriores. (OVERN, 1935) As preocupações de ordem metodológica do ensino de aritmética Num contexto de grandes transformações sociais, políticas, econômicas e religiosas a partir do século XVIII e com vistas a atender a essa nova demanda, houve a necessidade de elaborar textos e livros que pudessem instruir professores e alunos do ensino primário, conduzindo a uma grande produção literária relacionada à instrução de Aritmética por autores norte-americanos e outros, ingleses. Essas publicações refletiram as preocupações de ordem metodológica do ensino de aritmética, bem como do conteúdo a ser abordado nas escolas elementares. Durante todo o século XIX, os métodos dedutivos ou Rule Method (método de regra) e indutivos competiam pela popularidade nos clássicos americanos. (NCTM, 2003, p.85). Podemos dizer que o ensino baseado no método dedutivo era muito comum até o início do século XIX. Segundo este método, como observa Monroe (1917), seria função do professor instruir basicamente os alunos a somar, usar as regras adequadas e transmitir a exatidão seu trabalho ao aluno. A obra intitulada The Scholar´s Arithmetic or Federal accountant, publicada pela primeira vez por Daniel Adams em 1801, nos fornece um bom exemplo de aplicação deste método para o período. O autor começa na seção I: Regras Fundamentais da Aritmética. Estas são quatro, Adição, Subtração, Multiplicação e Divisão; elas podem ser simples ou compostas [...]. Elas são chamadas de Princípio ou Regras Fundamentais, porque todas as outras regras e operações na Aritmética não são mais do que vários usos dessas quatro regras. (ADAMS, 1801, p. 13, tradução nossa) 133 Adams (1801) passou a descrever adição com a seguinte regra: 1. Coloque os números a serem adicionados um sob outro, com unidades sob unidades, dezenas sob dezenas, e assim por diante. E trace uma linha abaixo do número mais baixo. 2. Adicione a coluna da direita e, se a soma for inferior a dez, escreva-a sob a coluna; mas se for dez, ou qualquer número exato de dezenas, escreva um cypher; E se não for um número exato de dezenas, escreva o excesso acima de dezenas ao pé da coluna, e para cada dez carregue um para a próxima coluna, e adicione-o da mesma maneira que o anterior. 3. Proceder da mesma forma para adicionar as outras colunas, carregando para as dezenas de cada um para o próximo, e definir a soma total da última coluna ou da mão esquerda. (ADAMS, 1801, p. 13, tradução nossa) O autor também fornece a "prova", ou a maneira de verificar o que foi calculado: Reconheça as figuras de cima para baixo, e se o trabalho estiver certo, este montante será igual ao primeiro - ou, o que é muitas vezes praticado, "cortar a linha superior de figuras e encontrar a quantidade do resto, então se o montante e linha superior quando adicionado, ser igual ao total da soma, o trabalho é considerado certo ". (ADAMS, 1801, p. 13, tradução nossa) Adams (1801), além de fornecer o conteúdo e a abordagem pedagógica para será desanimado por uma pequena dificuldade que, no início, pode ocorrer ao formular sua pergunta, mas se a 1801, p. 14, tradução nossa). Depois de 1821, os alunos eram geralmente instruídos nas salas de aula em nas aulas tornou-se América do Norte uma abordagem inteiramente nova, o raciocínio indutivo, tornando os livros baseados no método dedutivo obsoletos. Esta era uma época em que a Aritmética adquiria um lugar especial no conceito secularizado de educação, sendo Warren Colburn um dos primeiros e mais influentes defensores da ideia de instrução aritmética para todas as crianças. (AMERICAN JOURNAL OF EDUCATION, 1828, p.693, tradução nossa). A abordagem indutiva tendia a ser mais proeminente nos textos de aritmética mental e àqueles que recomendavam o uso de manipulativos, enquanto os livros de 134 regras eram anunciados como sendo "práticos" ou "abrangentes", ou seja, eles tendiam a cobrir uma ampla gama de tópicos e aplicações voltados a memorização em vez de enfatizar o processode resolução de um problema. Stoddard (1852) deixou suas intenções claras a esse respeito no prefácio de seu texto: Não foi meu projeto preparar este trabalho para apresentar ao aluno teorias inúteis [análises], ou uma longa lista de curiosidades [tópicos não comerciais], mas estabelecer, de forma correta, concisa e clara, os Princípios Fundamentais da Ciência dos Números, empregado praticamente em todos os dias nas transações comerciais práticas da vida. (STODDARD, 1852, p. iii apud NCTM, 2003, p. 103-104, tradução nossa e itálico conforme o original) Assim, enquanto os livros de regras estavam mais voltados às aplicações da Aritmética e da Álgebra ao negócio e à vida cotidiana, os textos de teor indutivo e analítico, embora não desinteressados na aplicabilidade dos conceitos ensinados, estavam mais preocupados com a compreensão dos processos do que com sua memorização. Alguns dos textos com abordagens indutivas e analíticas não apresentavam todas as regras (por exemplo, os textos de Colburn e White), preferindo pedir ao aluno que "pensasse dessa maneira", em vez de "fazê-lo desta maneira", como na abordagem dos livros de regras. (NCTM, 2003, p. 105, tradução nossa e aspas conforme o original) Uma reação contra o método indutivo e uma série de textos foram publicados na década de 1830, tornando-se clara a oposição ao método. Um destes textos, intitulado The Soutbern and Western Calculator, foi publicado na Filadélfia em 1831. Nele encontra-se declarado que as regras eram necessárias e que não podia esperar dos alunos que eles próprios pudessem inventá-las. A esse respeito, Bridge (1831), um dos críticos do método indutivo daquela época, relatou que começaram a surgir diversas queixas que a má instrução aritmética estava promovendo, levando diversos estudantes a chegar aos escritórios de contabilidade com uma confusão caótica de ideias sobre números e nenhum conhecimento prático, (BRIDGE, 1831, p.3). Nessa mesma direção, outro texto de publicado em Hartford, Connecticut, em 1836, Todas essas críticas ao método indutivo convergiam para observação feita por 135 Charles Davies, em The Common School Arithmetic de 1833, de que os pais que (AMERICAN ANNALS OF EDUCATION, 1834, p. 148 apud NCTM, 2003, p. 90). Assim, cinco anos depois, uma revista expressou crescente dúvida sobre o método indutivo: Alguns anos atrás, esse método estava ganhando grande força, e foram feitas diversas tentativas de estendê-lo a uma grande variedade de ramos de instrução. Mas imaginamos que seus amigos, ao formar essa opinião favorável, consideravam mais a sua beleza científica intrínseca do que sua real adaptação aos propósitos da instrução. Há agora uma tendência evidente para um retorno ao modo antigo, em que o grande sistema é reconstruído em diversas partes, ensinadas em detalhes, - são tomadas as direções sobre a confiança, - a memória é empregada para corrigi-los. A prática é recorrida, para o que são familiares, - e finalmente o sistema como um todo é tratado e compreendido no final pela combinação de elementos e em partes comunicados lentamente e dogmaticamente. (AMERICAN ANNALS OF EDUCATION, 1839, p. 265 apud NCTM, 2003, p. 90, tradução nossa). Entretanto, essas críticas não intimidaram os defensores do método indutivo. De acordo com a NCTM (2003), foi publicado em 1843, no Southern Literacy Messenger, uma nota elogiando a habilidosa capacidade de ensinar os princípios fundamentais da indução, seguida de demonstração e repetição, compartilhando juvenil e nacional acrescentando uma ideia de que a aritmética indutiva era (SOUTHERN LITERARY MESSENGER,1844 p. 390-91; APPLETON´s CYCLOPEDIA, 1888 apud COHEN, 2003, p. 63, tradução nossa). Diferentemente do que pensavam os defensores do método dedutivo, os proponentes dos métodos indutivo e analítico acreditavam firmemente que as crianças poderiam entender o que estava calculando, e não apenas fazer contas aritméticas. (BIDWELL e CLASON, 1970) Embora o método de regras do século XVIII continuasse a ter seus seguidores durante todo o século XIX (e até mesmo no vinte), as abordagens indutiva e analítica de Colburn eram muito populares entre os professores e encontrou amplo uso em suas salas de aula. Usando estes métodos, os professores do século XIX promoveram o que, no final do século XX, foi chamado de matemática mental, raciocínio lógico e sentido numérico. (NCTM, 2003, p.106) 136 Uma indicação adicional de que o novo estilo de ensinar aritmética, isto é, por meio do método indutivo, não era aceito unanimemente pelas escolas pode ser constatado nos relatórios periódicos de livros didáticos de Connecticut publicadas pelo Connecticut Common School Journal e divulgado pela NCTM (2003): Por exemplo, em 1839, com 555 relatos de escolas os textos indutivos mantiveram a liderança com 296 adoções, mas em outras 166 escolas, os textos tradicionais estavam em uso. Em 55 escolas, o texto de dupla abordagem de Adams foi preferido, apresentando análise e síntese. As outras 38 escolas usaram um texto da Botham, que não localizamos. (CONNECTICUT COMMON SCHOOL JOURNAL, 1840, p. 224 apud NCTM, 2003, p. 63, tradução nossa). Lewis (1851) pondera que, nesta época, os mestres eram extremamente autoritários, tinham como função ensinar e explicar as verdades conhecidas aos estudantes, que as recebiam primeiro pela fé e depois por claras demonstrações de memória, seja nos passos ou na conclusão, e ambos são rapidamente obscurecidos, -273, tradução nossa). Outra crítica do autor ao método indutivo tem relação com a perda da autoridade do professor, já que tal método de ensino tende a dar ide mente foi capaz de descobri-la antes. O aluno é encorajado a acreditar que ele é um Todas as coisas devem ser tomadas como ainda desconhecidas. É mérito de um aluno que pensa assim. Todos os seus estudos devem seguir tal suposição de independência imaginada. Outras mentes não descobriram nada pelo menos nada para ele ... Ele cresce com essa presunção miserável de pensar por si mesmo, e desprezar toda autoridade. (LEWIS, 1851, p. 274, tradução nossa). Na citação acima Lewis (1851) menciona que desprezar a autoridade9 seria o caos, porque os jovens tenderiam a desprezar aqueles que são mais sábios e os mais avançados em idade, que de acordo com o autor eram aqueles que tinham mais experiência e sabedoria. Lewis (1851) também tecia sua crítica aos alunos que não sabiam expressar suas ideias numa linguagem certa e adequada, observando que: 9 Segundo nosso entendimento a autoridade citada por Lewis (1851) refere-se ao mestre (professor). 137 mesmos e a expressar suas ideias em sua própria língua, algo melhor do que isso é ensiná-los a pensar direito e ensiná-los a expressar suas ideias numa linguagem certa e adequada (LEWIS, 1851, p. 278-279, tradução nossa). A partir da década de 1850, de acordo com a National Council of Teachers of Mathematics - NCTM (2003), as atenções se voltaram para a instrução sintética. Um autor de livro-texto, James B. Dodd, comparou seu novo livro com outros que Aritmética era por natureza uma ciência dedutiva, em que axiomas e definições vieram em primeiro lugar D, 1859, p.4). O autor ainda menciona que o modelo indutivo era profundamente confuso para os alunos. Após diversas críticas que a aritmética ensinada nas escolas não atendia às demandas da sociedade da época, diversos autores, fizeram uma combinação entre o método dedutivo e o indutivo, para satisfazer tanto os comitês escolares quanto os não estarem certos de que a memorização de regras realmente facilitaria o aprendizado, o que para alguns se tornaria um tanto antiquada e deveria ser Daniel Adams fez uma revisão de alguns tópicos de sua obra The Scholar´s Arithmetic or Federal accountant, após a década de 1840, como a regra de três, no qual foram utilizadas novas palavras para solucionar os problemas propostos,como por tais problemas eram sobre proporções. De acordo com Moore (1917) na década de 1848, Adam´s New Arithmetic era um livro de destaque no qual o autor (Daniel Adams) enfatiza os dois métodos em discussão naquela época, o método dedutivo e o indutivo. Apesar de defender o método indutivo o autor declarava que o método sintético ou dedutivo era o melhor para a revisão deste conhecimento, observando que ambos os métodos eram úteis, conforme trecho do prefácio abaixo. Existem dois métodos de ensino: o sintético e o analítico. No método sintético, é primeiro apresentada ao aluno uma visão geral da ciência que está estudando, e depois os detalhes dos quais ele é constituído. O método analítico inverte esta ordem: são primeiro apresentados ao aluno os detalhes, nos quais ele é conduzido por certas etapas 138 naturais e fáceis, para chegar nas conclusões mais genéricas e abrangentes. A Scholar´s Arithmetic publicada em 1801 é sintética. Se isso é uma falha de trabalho, é uma falha que só o tempo pode nos mostrar. O método de ensino analítico ou indutivo, como agora é aplicado à instrução elementar, está entre as melhorias realizadas durantes anos. Sua introdução é atribuída a Pestalozzi, um renomado professor da Suíça. Foi aplicada à Aritmética, com grande ingenuidade, pelo Mr. Colburn em nosso próprio país. A analítica é com certeza o melhor método de adquirir conhecimento; o sintético é o melhor método de recapitulação ou revisão. É um acordo concebido para a educação escolar, pois ambos os métodos são úteis. [...] mesmo devido aos seus inúmeros trabalhos com outras coisas, a grande demanda para o Scholar´s Arithmetic, adquirida por longos anos, não me permitiu declinar o trabalho de uma revisão, que deve ser adaptada às visões mais atuais de ensinar esta ciência em nossas escolas. Ao fazer isso, foi necessário ir até Nova York. (ADAMS 1849, trecho do prefácio, tradução nossa, grifo nosso). A preocupação do autor é fazer com que o aluno veja de forma clara o uso imediato de seu aprendizado por meio de uma aplicação, que está articulada por meio de questões e exercícios. O autor indica que o ensino de Aritmética deve ser intuitivo, prático, raciocinado e gradual. É enfático ao defender também as regras e definições. Embora diversas críticas ao método indutivo, Cohen (2003) ressalta que este método trouxe uma grande transformação para a instrução aritmética, promovendo diversas publicações de obras sobre o ensino de aritmética, cada uma tentando resolver os problemas das aproximações baseadas na memória, seguindo de perto aquela tendência de ensinar aritmética comercial típica do século XVIII. As contribuições de Colburn trouxeram insatisfação com os métodos de ensino que eram adotados há décadas e os professores ficaram surpresos que as crianças poderiam aprender a base aritmética mesmo antes que pudessem ler e escrever. De a vasta difusão das habilidades numéricas das décadas de (COHEN, 2003, apud NCTM, 2003, p. 63, tradução nossa). Considerações finais É importante ressaltar que a partir da metade do século XIX, houve grande reflexões didáticas e filosóficas sobre os fundamentos das matemáticas. Os livros- 139 textos aritméticos desta época tornaram-se o campo de discussões. Por um lado, encontramos diversas concepções sobre os fundamentos da Aritmética, e por outro, os debates sobre a natureza do conhecimento. Neste estudo, percebemos que os métodos e os finalidades de ensino da aritmética elementar no século XIX oscilaram entre dois extremos a fim de atender as demandas que visavam não só a modernização do país em decorrência de diferentes interesses políticos, ideológicos, religiosos, sociais, econômicos e culturais, mas também científicas. Os livros-textos para a escola primária a partir do século XIX visavam preparar as crianças para as atividades seculares da vida estadunidense e para o conhecimento científico. Essas publicações refletiram as preocupações de ordem metodológica do ensino de aritmética, ou seja, debates em relação ao método de ensino: dedutivo, conhecido também naque rule method) - que consiste em ensinar as regras teóricas para depois fazer a aplicação e o indutivo - que consiste em partir de exemplos para deles chegar às regras. Nesse aspecto, a nossa pesquisa indicou que o conceito de número foi abordado em seu sentido mais prático, recorrendo-se a recursos que permitissem apreendê-lo por meio de sua aplicação, sempre enfatizando a relação do número com a quantidade que expressa. Para tanto, os métodos indutivo e dedutivo foram combinados de tal forma a induzir o número a partir das quantidades contadas para então deduzi-lo a partir de sua generalização. Essa combinação de métodos tinha por objetivo caracterizar o número como objeto abstrato. Desse modo, a proposta buscava, por meio da contagem e, portanto, da quantidade concreta de objetos contados, generalizar o conceito de número e, num movimento inverso, aplicá-lo a situações práticas e concretas do cotidiano. Com este trabalho, entendemos que o estudo dos conhecimentos aritméticos envolvidos na elaboração dos manuscritos fora trabalhado com a preocupação com aplicabilidade ou contextualização e também conhecimentos mais graduados, que preparavam as crianças para acessar os níveis secundário e superior de ensino, conduzindo-nos a refletir sobre como era o saber fazer matemático de uma época. Assim, o estudo desses manuscritos parece ser potencialmente didático no sentido de que introduz a possibilidade de refletirmos sobre um ensino de matemática em geral, e de aritmética em particular. 140 Sabemos que não esgotamos o assunto e que muitas discussões podem ser suscitadas por meio de questões que ainda não foram contemplados neste trabalho. No entanto, estes primeiros apontamentos são importantes por possibilitar o contorno inicial da pesquisa em desenvolvimento e que nos trará elementos importantes, como por exemplo uma reflexão sobre a finalidade do ensino que está em debate até os dias de hoje. Referências Bibliográficas ADAMS, D. The Scholar´s Arithmetic: or Federal Accountant. Leominster: Adams & Wilder, 1801. ADAMS, D. Adam´s New Arithmetic. Leominster: Adams & Wilder, 1849. ALFONSO-GOLDFARB, A. M.; M. H. M. Ferraz & Waisse. Reflexões sobre a constituição de um corpo documental para a história da ciência. Acervo, v. 26, n. 1, p. 42-53, Jan./jun. 2013. AMERICAN JOURNAL OF EDUCATION. Infant Schools. v. 3, 1828. BACHA, M. L. Realismo e Verdade. Legnar Informática; Editora Ltda. São Paulo, 2003. BACHA, M. L; SAITO, F. Revista Brasileira de História da Matemática, v. 14, n. 28, p. 1-23, 2014. BARROW, C. 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Especialista em Gestão de Recursos Humanos e Reengenharia, UCAM, e em Estratégia e Organização, LATEC - UFF. Bacharel em Administração de Empresas, UNIGRANRIO. Professora do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico e do programa de pós-graduação lato sensu em EJA do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro - IFRJ. Pesquisadora nas áreas de EJA, formação de professores, representações rociais, ecossistemas de inovação e empreendedorismo. Membro do Fórum de Educação de Jovens e Adultos do IFRJ (FEJA-IFRJ) e do Núcleo e Atendimento às Pessoas com Necessidades Específicas - NAPNE-IFRJ. Consultora na área de desenvolvimento de pessoas e plano de negócios. Daisy Farias Mestre em Administração pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ (2018), graduação em Pedagogia pela Universidade Estácio de Sá (2006), graduação em Administração pela Universidade do Grande Rio (1997). Atualmente é professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ) no curso Técnico de Administração e nas especializações Prática de Letramento e Gestão e Negócio. Atuou como Coordenadora do curso Técnico em Administração entre 2016 e 2020. Louise Tarouquela Doutoranda no Programa de Pós Graduação em Ensino de Ciências e Matemática da Universidade Cruzeiro do Sul e Mestre em Engenharia Mecânica pelo Instituto Militar de Engenharia. Atualmente é coordenadora de extensão e docente de matemática do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: educação matemática, currículo, jogos matemáticos, saberes docentes, formação continuada e atividades lúdicas. Marcelo Silva Bastos Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ensino de Matemática da Universidade Federal do Rio de Janeiro e mestre em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Docente de matemática no ensino básico da Cidade do Rio de Janeiro. Professor assistente na Universidade Estácio de Sá nos cursos presenciais de Pedagogia e Licenciatura em Matemática. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro-Campus Nilópolis, atuando no Ensino Médio Técnico e no Curso de Licenciatura em Matemática. Desenvolve projetos na área de Educação Matemática com ênfase em formação do professor de Matemática e ensino e aprendizagem de Matemática no Ensino Fundamental e Médio. 144 Os autores Alexandre Souza de Oliveira Doutor em Educação Matemática pelo programa de Pós-Graduação Stricto Sensu da PUC- SP. Atua como professor em disciplinas na área de Exatas (Engenharias) numa Universidade Privada de São Paulo e como professor efetivo de matemática na Rede Estadual de Ensino do Estado de São Paulo. Participante do Grupo HEEMa (História e Epistemologia na Educação Matemática), do GHEMAT (Grupo de Pesquisa de História da Educação Matemática) e membro da SBEM (Sociedade Brasileira de Educação Matemática), SBHC (Sociedade Brasileira da História da Ciência) e da SBM (Sociedade Brasileira da Matemática). André Luiz Alves dos Santos Possui graduação em Engenharia Química pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1997). Atualmente é coordenador na área de Gás e Energia da PetrobrasS.A. e professor do IFRJ Nilópolis. Tem experiência na área de Sistemas de Gestão e Energia. Elton Flach Mestre em Engenharia Elétrica pela COPPE/UFRJ. Docente no Curso Superior em Tecnologia em Gestão da Produção Industrial no Instituto Fedreal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro Emerson Bastos Lomasso Doutor em Educação Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC- SP). Mestre em Educação Matemática pela Universidad San Lorenzo, especialista em Educação Matemática pela UFOP e especialista em Matemática pela FIJ. Érika da Silva Pereira Mestranda em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas (UERJ/FEBF de 2020 até a presente data), e integrante do Grupo de Estudo, Pesquisa e Aprendizagem em Educação Matemática (GEPAEM) na mesma instituição; Especialista em Práticas de Letramento (IFRJ - 2020); Especialista em Educação Matemática (CPII - 2018); Licenciada em Matemática (UNIGRANRIO-2016) e Normalista pelo Colégio Setembro (2012); Professora efetiva do Ensino Básico no Colégio Pedro II, onde atua como regente nos anos iniciais. Fernanda Paixão de Souza Gouveia Doutora em Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente é Técnica em Assuntos Educacionais no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ) lotada na Coordenação Técnico-Pedagógica do Campus Duque de Caxias. É professora colaboradora da Pós-Graduação Lato Sensu em Educação de Jovens e Adultos (EJA) deste mesmo Instituto no Campus Nilópolis e professora contratada de História pela Fundação de Apoio à Escola Técnica (FAETEC). Mário Barbosa da Silva Doutorando Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática Universidade Cruzeiro do Sul; Professor de Matemática IFSP campus Itaquaquecetuba, São Paulo Brasil; Membro do GPEAEM Grupo de Pesquisa e Estudos Avançado em Educação Matemática. 145 Norma Suely Gomes Allevato Doutora em Educação Matemática pela UNESP-Rio Claro/SP. Docente, pesquisadora e vice- coordenadora do Programa de Pós-graduação em Ensino de Ciências e Matemática da Universidade Cruzeiro do Sul, São Paulo/SP/Brasil; Coordenadora do GPEAEM - Grupo de Pesquisa e Estudos Avançado em Educação Matemática. Paulo Roberto do Amaral Ferreira Doutor em Administração pelo Instituto COPPEAD - UFRJ. Desenvolve pesquisas na área de Negócios Internacionais pela UFRJ e Alfabetização Financeira pelo IFRJ. Docente no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), atuando nas disciplinas matemática financeira, gerenciamento de custos, princípios de economia e inovação tecnológica. Coordenador Adjunto do Curso Superior em Tecnologia em Gestão da Produção Industrial, ofertado pelo IFRJ, campus Nilópolis. Pedro Nogueira de Marins Doutorando em Educação (UFF). Mestre em Educação e Especialista em Ensino de Matemática pela UFF. Professor do Ensino Superior e da Educação Básica. Tem experiência na área de Educação e Educação Matemática, com ênfase em novas tecnologias para o ensino, atuando principalmente com jogos analógicos. Participa dos grupos HEDUMAT (História e Educação Matemática), CEL (Ciências, Educação e Lúdico) e Se Jogando na Matemática. Rafael Rix Geronimo Doutor em Educação Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC- SP). Atualmente é professor da Prefeitura Municipal de São Paulo, atuando principalmente nos seguintes temas: Ensino Fundamental, Jogos Educativos e Gamificação. Rafaela Alves Luzia da Silva Doutoranda em Ensino de Ciências (IFRJ de 2020 até o presente). Possui Mestrado em Ciências (FIOCRUZ - 2017), Especialização em Práticas de Letramento (IFRJ- 2020) e Graduação em Pedagogia (UFF - 2012). Atua no Colégio Pedro II como Professora do Ensino Fundamental - Anos Iniciais. Na instituição integra o GEPES - Grupo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Educação e Sociedade. Roni Costa Ferreira Doutorando no Programa de Pós-graduação em Engenharia de Produção e Sistemas (PPPRO/2018), Mestre em Ciência, Tecnologia e Educação pelo Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ/2017) e Especialista em Computação Aplicada à Educação (USP/2020). Atualmente é docente no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), onde leciona no Curso Técnico de Informática para a Internet e nos Programas lato sensu de Pós-graduação em Práticas de Letramento e de Docência para a Educação Profissional e Tecnológica. Participa dos Grupos de Pesquisa Novas Abordagens em Tecnologia e Educação (N@meLab/CEFET-RJ) e Tecnologias Educacionais e Educação a Distância (TEEaD/IFRJ). 146 Sandra da Silva Viana Doutora em Políticas Públicas e Formação Humana PPFH/UERJ. Professora do Campus Nilópolis/IFRJ, ministrando as disciplinas: História, Política e Legislação da Educação (HPLE), Educação de Jovens e Adultos (EJA), Estágio e Currículo Sociedade nos cursos de licenciaturas. Atua também como professora orientadora do Projeto Integrador, no Curso Manutenção e Suporte em Informática, na modalidade EJA (PROEJA). Além de ministrar as disciplinas no curso de Especialização em EJA. 1° edição NOVEMBRO de 2021 tipografia LOUIS GEORGE CAFÉ