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A CONSTITUIÇÃO E SEUS ELEMENTOS Constituição: o ideal de constituir, criar, delimitar, demarcar. O intuito de organizar e de conformar seres, entidades, organismos. Definição: conjunto de normas fundamentais e supremas, que podem ser escritas ou não, responsáveis pela criação, estruturação e organização político- jurídica de um Estado. Georges Burdeau (cientista político francês): a Constituição é o Estatuto do Poder, ou seja, um poder institucionalizado. Obediência voltada a uma entidade (Estado), regida por um documento (Constituição). Todo Estado precisa estar com seus elementos essenciais organizados, com o modo de aquisição e exercício do poder delimitados, com a forma de Governo e Estado definidas, seus órgãos estabelecidos, suas limitações fixadas, os direitos fundamentais e suas respectivas garantias asseguradas. J. J. Gomes Canotilho (jurista português): uma Constituição ideal deve conter os seguintes elementos: a) deve ser escrita; b) deve possuir um conjunto de direitos e garantias individuais; c) deve estabelecer expressamente o princípio da separação dos poderes; d) deve adotar um sistema democrático formal. Em razão da Constituição tratar dos assuntos mais importantes do Estado, ela ocupa no ordenamento jurídico uma posição diferenciada. Pirâmide de Kelsen Essa estrutura é conhecida como a Pirâmide de Kelsen (Hans Kelsen é um jurista austríaco muito importante na história da Teoria do Direito), que foi pensada para explicar a ideia de que existe hierarquia entre as normas que integram o ordenamento jurídico. Assim, existirão normas que serão superiores e normas que serão inferiores. As inferiores serão consideradas normas fundadas pelas superiores e delas retiram seu fundamento de validade, sua razão de existir. Algumas vezes, a Constituição passa por algumas modificações, necessárias para adequá-la ou aproximá-la da realidade. Essas alterações são feitas através de emendas constitucionais, realizadas pelo Poder Constituinte Derivado (representado pelo Congresso Nacional). Ou seja, a Constituição Federal possui normas provenientes do Poder Constituinte Originário, pois estão no texto constitucional desde 05/10/1988 e normas provenientes do Poder Constituinte Derivado, que foram inseridas ao longo dos anos. Porém, pouco importa se elas são originárias ou derivadas, elas são constitucionais e, por isso, situa-se no topo da Pirâmide de Kelsen. Isso significa que não há hierarquia entre normas constitucionais originárias e normas constitucionais derivadas. OBS: As normas constitucionais originárias não podem ser declaradas inconstitucionais, sendo sempre constitucionais. Já as derivadas (emendas constitucionais) poderão ter a sua inconstitucionalidade declarada. No eixo intermediário da pirâmide, verifica-se a existência de normas infraconstitucionais (estão abaixo da Constituição), tampouco há hierarquia entre elas, pois estão todas no mesmo patamar. Por isso, leis complementares não são superiores às leis ordinárias ou às medidas provisórias. Todas podem prever direitos, deveres e obrigações. Também não há hierarquia entre leis federais, estaduais e municipais, todas são leis, são normas infraconstitucionais. Portanto, se houver conflitos entre essas leis é necessário verificar qual ente da federação tem competência para legislar sobre o tema. Por último, repare que na pirâmide de Kelsen, abaixo das normas infraconstitucionais, temos as normas infralegais. Essas são normas secundárias que não podem gerar direitos, deveres ou prever obrigações. Por serem inferiores às normas infraconstitucionais, as secundárias devem obediências a elas, podendo ser invalidadas e retiradas do ordenamento em caso de desrespeito. Por exemplo, um decreto regulamentar não cria direitos ou deveres, ele só facilita a aplicação de determinada lei e se esse decreto desrespeitar a lei, deverá ser retirado do nosso ordenamento jurídico. Elementos das Constituições: Para identificar quais são os temas presentes em todas as Constituições, de maneira geral, a doutrina estabeleceu um rol de ‘elementos das Constituições’. Repetiremos a classificação de José Afonso da Silva, que consideramos a mais correta, identificando, ao todo, cinco elementos: a) Elementos Orgânicos: são elementos que organizam a estrutura do Estado. Na Constituição Brasileira, podemos mencionar o art. 2º (que trata da Separação dos Poderes), o art. 18 (que trata da Federação), o art. 92 (que organiza o Poder Judiciário), o art. 144 (que organiza a Segurança Pública), dentre outros. b) Elementos Limitativos: são elementos que limitam o poder do Estado, fixando direitos à população. Nesse caso, temos um extenso rol, na Constituição de 1988, de Direitos e Garantias Fundamentais. Quando a Constituição, por exemplo, no art. 5º, XI, prevê a inviolabilidade do domicílio, no momento em que prevê um direito do indivíduo, está limitando a atuação do Poder do Estado. c) Elementos Socioideológicos: são dispositivos de cunho ideológicos, principiológicos previstos na Constituição. Revelam um compromisso de constituições modernas. Na Constituição de 1988, temos por exemplo, “os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa” como fundamentos da República (art. 1º), mostrando uma coexistência dos valores liberais e sociais do constituinte originário. d) Elementos de Estabilização Constitucional: são dispositivos que buscam uma estabilidade política e social, em caso de tumulto institucional. Temos como exemplo a intervenção federal, prevista no art. 34 da CF. Por exemplo, Se um estado-membro tenta se separar do Estado Brasileiro, será punido com intervenção federal por parte da União. e) Elementos formais de aplicabilidade: são dispositivos constitucionais que auxiliam na aplicação de outras normas constitucionais. Em outras palavras, são dispositivos instrumentais: ajudam na aplicação de outros artigos. Exemplo mais importante é o art. 5º, § 1º, da CF: “as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata”. Ou seja, não é necessária regulamentação, não é necessária edição de uma lei posterior para a aplicação dos direitos fundamentais. Estrutura: Nossa Constituição pode ser dividia em três partes: a) Preâmbulo b) Parte permanente (ou parte dogmática) c) ADCT (Ato das Disposições Constitucionais Transitórias) Preâmbulo: o preâmbulo não é uma norma jurídica, não é uma norma constitucional. Representa um ‘recado’ do legislador constituinte a nós, que somos destinatários da Constituição. Sua importância é histórica, de guia/diretriz interpretativa. Logo, ele não serve de paradigma para declaração de inconstitucionalidade de uma lei. Parte permanente: representa o texto constitucional propriamente dito e se inicia no art. 1º e vai até o 250. São os artigos que organizam o Estado, estruturam os Poderes e estabelecem os direitos e as garantias fundamentais. Essa parte é chamada de permanente não porque esses artigos sejam imutáveis, mas para diferenciá-lo da última parte da Constituição, que é transitória. ADCT: é a parte transitória da Constituição, Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Seu intuito é de facilitar a passagem de uma ordem jurídica antiga para a nova, evitando o colapso entre um ordenamento jurídico e outro. Suas normas são formalmente constitucionais. Assim como a parte dogmática, a parte transitória pode ser modificada por reforma constitucional. Além disso, pode servir como parâmetro para o controle de constitucionalidade das leis. Direito Constitucional: é um dos ramos do Direito Público, a matriz que fundamenta e orienta todo o ordenamento jurídico. Surgiu com os ideais liberais atentando-se, a princípio, para a organização estrutural do Estado, o exercício e transmissão do poder e enumeração de direitos e garantias fundamentais dos indivíduos. Atualmente, preocupa-se nãosomente com a limitação do poder estatal na esfera particular, mas também com a finalidade das ações estatais e a ordem social, democrática e política. Fonte: Masson, Nathalia. Manual de direito constitucional – 10. Ed. rev. ampl. e atual. – Salvador: JusPodivm, 2022. * *com adaptações