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e IndIvIdual Prof.ª Etienne Alessandra Hafemann Prof.ª Talita Cristiane Sutter TerapIas ColeTIvas Indaial – 2022 1a Edição Impresso por: Elaboração: Prof.ª Etienne Alessandra Hafemann Prof.ª Talita Cristiane Sutter Copyright © UNIASSELVI 2022 Revisão, Diagramação e Produção: Equipe Desenvolvimento de Conteúdos EdTech Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI. Núcleo de Educação a Distância. HAFEMANN, Etienne Alessandra. Terapias Coletivas e Individual. Etienne Alessandra Hafemann; Talita Cristiane Sutter - SC: UNIASSELVI, 2022. 216p. ISBN 978-65-5466-182-9 ISBN Digital 978-65-5466-183-6 “Graduação - EaD”. 1. Terapias Coletivas 2. Terapia Individual 3. Centro Universitário Leonardo da Vinci CDD 616.89 Bibliotecário: João Vivaldo de Souza CRB- 9-1679 Na Unidade 1, abordaremos sobre as Práticas Integrativas e Complementares de Saúde (PICS) e sua inserção no Sistema Único de Saúde (SUS) como política de saúde, seus avanços e desafios. Os principais pilares teóricos da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) serão explicados, sendo eles: a teoria do Yin-Yang, a teoria dos Cinco Elementos e a teoria do Qi. Essas teorias são importantes para a compreensão da racionalidade Oriental no seu modo de entender o processo saúde-doença. Além disso, acadêmico, estudaremos as PICS que são utilizadas individualmente, sendo elas: acupuntura, auriculoterapia, moxaterapia e ventosaterapia. Estas práticas são realizadas em todo o Brasil, e há um aumento de interesse profissional e pelas pessoas que apresentam problemas de saúde na busca por essas terapias orientais. Dessa forma, abordaremos, além de suas teorias, sua aplicabilidade em diversos contextos. Destacamos que elas não invalidam, de forma alguma, o conhecimento científico em saúde Ocidental, e sim o complementam. Ao final da Unidade 1, aprenderemos sobre as práticas de dança que possuem inúmeros benefícios para a saúde, além do exercício físico realizado durante os encontros: a Dança Circular e a Biodança. Ambas possuem fundamentação filosófica e elementos simbólicos que são imprescindíveis para a realização dessas PICS. Essa abordagem será explicada detalhadamente na unidade a seguir. Na Unidade 2 abordaremos sobre o Ayurveda, sistema científico de medicina, considerado o mais antigo da humanidade. Seus fundamentos filosóficos e principais conceitos para o diagnóstico e intervenção serão descritos ao longo do texto: a teoria dos três doshas, os seis sabores (ou rasas), a dinacharya (rotina diária) e a abhyanga (massagem ayurvédica). Em seguida, estudaremos sobre o Yoga, prática oriental mente-corpo de origem indiana amplamente difundida no Ocidente na atualidade. Abordaremos brevemente sua origem histórica na Índia ancestral, a chegada do Yoga no Brasil com sua inserção SUS através da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares de Saúde (PNPICS). Assim como, os fundamentos teóricos e filosóficos das práticas de Yoga, enfatizando o Sistema Clássico de Patanjali, que apresenta uma estrutura de oito passos a serem seguidos pelos praticantes de Yoga para conquistar o desenvolvimento humano através do equilíbrio mente-corpo-espírito. Além disso acadêmico, estudaremos sobre o Tai Chi Chuan, expressão corpo- ral e arte marcial de origem Chinesa, utilizada atualmente como um recurso terapêutico que exercita o corpo e a mente. O processo de desenvolvimento do Tai Chi será abor- APRESENTAÇÃO dado, assim como seus cinco estilos, ou “famílias”, e as principais orientações para a prática. A forma de exercício chinesa denominada Qi Gong também será descrita, am- bas favorecem a circulação do Qi (energia) e promovem diversos benefícios para os seus praticantes. Na Unidade 3, aprenderemos sobre a Bioenergética, uma técnica terapêutica que promove o reencontro com o nosso próprio corpo por intermédio da autodescoberta. De acordo com essa abordagem, os processos energéticos do corpo originam o que acontece na mente e no próprio corpo. Existem estruturas de caráter (padrões tanto psicológicos como musculares) que são classificados em cinco tipos, cada um deles será descrito neste tópico. A prática do Reiki, seus níveis e símbolos também serão descritos na Unidade 3, perpassando pela história da prática e aplicabilidade como PICS. Além disso, aborda- remos sobre as PICS constelações familiares sistêmicas e a terapia comunitária, seus princípios filosóficos e métodos terapêuticos. Por fim, estudaremos sobre a arteterapia, uma forma de expressar a criativi- dade, pensamentos e sentimentos. Mais especificamente na abordagem Junguiana, refletiremos que por intermédio dela, símbolos pessoais podem emergir e auxiliar no processo terapêutico, com pessoas de todas as idades. As linguagens, materiais, utili- dade e indicações da arteterapia serão descritos, sendo recursos para atuação e meio de propiciar que o psiquismo se revele. Bom estudo! Profª. Etienne Alessandra Hafemann Profª. Talita Cristiane Sutter GIO Olá, eu sou a Gio! No livro didático, você encontrará blocos com informações adicionais – muitas vezes essenciais para o seu entendimento acadêmico como um todo. Eu ajudarei você a entender melhor o que são essas informações adicionais e por que você poderá se beneficiar ao fazer a leitura dessas informações durante o estudo do livro. Ela trará informações adicionais e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto estudado em questão. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material-base da disciplina. A partir de 2021, além de nossos livros estarem com um novo visual – com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura –, prepare-se para uma jornada também digital, em que você pode acompanhar os recursos adicionais disponibilizados através dos QR Codes ao longo deste livro. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com uma nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página – o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Preocupados com o impacto de ações sobre o meio ambiente, apresentamos também este livro no formato digital. Portanto, acadêmico, agora você tem a possibilidade de estudar com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Preparamos também um novo layout. 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QR CODE SUMÁRIO UNIDADE 1 — BASES CONCEITUAIS DAS PRÁTICAS INTEGRATIVAS DE SAÚDE E AS DANÇAS TERAPÊUTICAS ......................................1 TÓPICO 1 — PRÁTICAS INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES DE SAÚDE.......... 3 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 3 2 HISTÓRICO – O QUE SÃO AS PICS? .................................................................... 3 2.1 POLÍTICA NACIONAL DE PRÁTICAS INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES ..........5 3 PRÁTICAS INDIVIDUAIS ..................................................................................... 6 3.1 MEDICINA TRADICIONAL CHINESA ..................................................................................6 3.1.1 Teoria Yin-Yang ............................................................................................................9 3.1.2 Teoria dos Cinco Elementos ....................................................................................11 3.1.3 Teoria do Qi .................................................................................................................12 4 ACUPUNTURA ................................................................................................... 14 5 AURICULOTERAPIA ........................................................................................... 18 6 VENTOSATERAPIA ............................................................................................. 21 7 MOXATERAPIA ...................................................................................................24 RESUMO DO TÓPICO 1 ..........................................................................................30 AUTOATIVIDADE ................................................................................................... 31 TÓPICO 2 — DANÇA CIRCULAR ............................................................................33 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................33 2 HISTÓRIA DA DANÇA CIRCULAR ......................................................................33 3 ELEMENTOS SIMBÓLICOS ................................................................................35 3.1 A RODA E O CENTRO ......................................................................................................... 36 4 O FOCALIZADOR ................................................................................................38 5 A DANÇA CIRCULAR COMO PRÁTICA INTEGRATIVA E COMPLEMENTAR DE SAÚDE ........................................................................................................... 41 5.1 BENEFÍCIOS DA DANÇA CIRCULAR ...............................................................................41 5.2 POSSIBILIDADES E DESAFIOS PARA A DIFUSÃO DA PRÁTICA .............................44 RESUMO DO TÓPICO 2 ..........................................................................................46 AUTOATIVIDADE ................................................................................................... 47 TÓPICO 3 — BIODANÇA .........................................................................................49 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................49 2 HISTÓRIA DA BIODANÇA ...................................................................................49 3 FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS E BENEFÍCIOS DA BIODANÇA ....................... 51 4 LINHAS DE VIVÊNCIA ........................................................................................52 LEITURA COMPLEMENTAR ..................................................................................56 RESUMO DO TÓPICO 3 ..........................................................................................62 AUTOATIVIDADE ...................................................................................................63 REFERÊNCIAS .......................................................................................................65 UNIDADE 2 — PRÁTICAS INTEGRATIVA ORIENTAIS: AYURVEDA, YOGA E TAI CHI CHUAN ................................................................. 73 TÓPICO 1 — AYURVEDA – MEDICINA CLÁSSICA INDIANA ................................... 75 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 75 2 A AYURVEDA E SEU HISTÓRICO ....................................................................... 75 3 OS DOSHAS ....................................................................................................... 79 4 ALIMENTAÇÃO NO AYURVEDA .........................................................................83 5 DINACHARYA – ROTINA AYURVÉDICA ............................................................86 6 MASSAGEM AYURVÉDICA – ABHYANGA ..........................................................88 RESUMO DO TÓPICO 1 ..........................................................................................93 AUTOATIVIDADE ...................................................................................................94 TÓPICO 2 — YOGA ................................................................................................. 97 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 97 2 BREVE HISTÓRIA DO YOGA .............................................................................. 97 3 PRINCIPAIS RAMOS DO YOGA .........................................................................102 3.1 BHAKTI YOGA – O YOGA DA DEVOÇÃO ...................................................................... 102 3.2 KARMA YOGA – O YOGA DA AÇÃO COMUNITÁRIA .................................................. 102 3.3 JÑANA YOGA – O YOGA DO CONHECIMENTO ......................................................... 103 3.4 RAJA YOGA, ASHTANGA YOGA OU YOGA DE PATAÑJALI ................................... 103 3.4.1 O CAMINHO DE OITO PASSOS DO RAJA YOGA DE PATANJALI ................. 104 4 PRÁTICAS DE YOGA NA CONTEMPORANEIDADE – SUS ............................... 110 RESUMO DO TÓPICO 2 ........................................................................................ 114 AUTOATIVIDADE ..................................................................................................115 TÓPICO 3 — TAI CHI CHUAN – MEDICINA CHINESA ...........................................117 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................117 2 HISTÓRICO E FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DO TAI CHI CHUAN .................117 3 TAI CHI CHUAN NA PRÁTICA ........................................................................... 122 LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................................128 RESUMO DO TÓPICO 3 ........................................................................................ 135 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 136 REFERÊNCIAS ..................................................................................................... 139 UNIDADE 3 — TERAPIAS COMPLEMENTARES EM SAÚDE ............................... 147 TÓPICO 1 — BIOENERGÉTICA E REIKI ................................................................149 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................149 2 O DESENVOLVIMENTO DA BIOENERGÉTICA .................................................149 2.1 FUNDAMENTOSBÁSICOS ...............................................................................................152 2.1.1 Energia ........................................................................................................................152 2.1.2 Grounding ................................................................................................................ 153 2.1.3 Estruturas de Caráter ............................................................................................ 155 3 REIKI – BASES HISTÓRICAS ........................................................................... 159 3.1 OS 7 CHAKRAS ................................................................................................................. 162 4 APLICAÇÃO DE REIKI ...................................................................................... 165 RESUMO DO TÓPICO 1 ........................................................................................ 167 AUTOATIVIDADE .................................................................................................168 TÓPICO 2 — CONSTELAÇÕES FAMILIARES SISTÊMICAS E TERAPIA COMUNITÁRIA INTEGRATIVA .........................................................171 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................171 2 CONSTELAÇÕES FAMILIARES SISTÊMICAS E SUAS ORIGENS .....................171 3 AS LEIS DO AMOR ............................................................................................ 172 4 O MÉTODO TERAPÊUTICO DA CONSTELAÇÃO FAMILIAR ............................ 173 5 A TERAPIA COMUNITÁRIA INTEGRATIVA ...................................................... 176 5.1 OS PILARES DA PRÁTICA ............................................................................................... 180 6 ETAPAS E CONDUÇÃO DO PROCESSO ...........................................................182 6.1 ACOLHIMENTO .................................................................................................................. 183 6.2 ESCOLHA DO TEMA ........................................................................................................ 183 6.3 CONTEXTUALIZAÇÃO .................................................................................................... 183 6.4 PROBLEMATIZAÇÃO ...................................................................................................... 183 6.5 ENCERRAMENTO ............................................................................................................ 184 RESUMO DO TÓPICO 2 ........................................................................................185 AUTOATIVIDADE .................................................................................................186 TÓPICO 3 — ARTETERAPIA ................................................................................189 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................189 2 A ARTETERAPIA E SEU HISTÓRICO ................................................................189 3 O ARTETERAPEUTA ......................................................................................... 193 4 ARTETERAPIA DE ABORDAGEM JUNGUIANA ............................................... 195 5 ARTETERAPIA NA ÁREA DA SAÚDE ............................................................... 196 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................... 200 RESUMO DO TÓPICO 3 ........................................................................................207 AUTOATIVIDADE ................................................................................................ 208 REFERÊNCIAS ..................................................................................................... 211 1 UNIDADE 1 — BASES CONCEITUAIS DAS PRÁTICAS INTEGRATIVAS DE SAÚDE E AS DANÇAS TERAPÊUTICAS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • conhecer o processo de inserção das Práticas Integrativas de Saúde no Sistema Único de Saúde; • refletir sobre o contexto atual das Práticas Integrativas de Saúde; • entender a teoria e aplicabilidade de práticas complementares individuais; • compreender as práticas integrativas que envolvem a dança: dança circular e biodança. A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – PRÁTICAS INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES DE SAÚDE TÓPICO 2 – DANÇA CIRCULAR TÓPICO 3 – BIODANÇA Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 1! Acesse o QR Code abaixo: 3 PRÁTICAS INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES DE SAÚDE TÓPICO 1 — UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Prezado acadêmico, no Tópico 1 estudaremos sobre as Práticas Integrativas e Complementares de Saúde (PICS), assim como o processo de inserção delas no Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, abordaremos especificamente sobre PICS que po- dem ser aplicadas individualmente, e são usadas hoje em todo o Brasil. Algumas práticas individuais são de origem ocidental, como a Medicina Tradicional Chinesa e a Acupuntura. Aspectos referentes à aplicabilidade dessas PICS no território brasileiro, a discussão entre a medicina convencional e sua relação com práticas integrativas serão considerados ao longo do texto. Neste tópico, abordaremos a teoria e alguns exemplos de problemas de saúde em que podem ser utilizadas as terapias individuais: acupuntura, auriculoterapia, vento- saterapia, moxaterapia. Lembramos que o conhecimento prático também é imprescin- dível para aqueles que desejarem atuar com tais abordagens. 2 HISTÓRICO – O QUE SÃO AS PICS? São consideradas PICS os tratamentos terapêuticos que se baseiam em uma visão abrangente do ser humano e do processo saúde-doença, elas podem prevenir ou tratar enfermidades, assim como serem utilizadas como cuidado paliativo para algumas doenças crônicas (BRASIL, 2020a). Conforme podemos observar na própria nomenclatura, essas práticas são complementares, e não substituem os tratamentos convencionais. A integralidade da atenção em saúde, como um dos princípios do SUS, corrobora com a visão global que as PICS têm sobre o indivíduo, considerando a sua singularidade. Essa abordagem contribui para a ampliação do protagonismo do usuário e sua corresponsabilização pelo seu estado de saúde (BRASIL, 2015). Tais sistemas e recursos envolvem abordagens que buscam estimular os mecanismos naturais de prevenção de agravos e recuperação da saúde por meio de tecnologias eficazes e seguras, com ênfase na escuta acolhedora, no desenvolvimento do vínculo terapêutico e na integração do ser humano com o meio ambiente e a sociedade (BRASIL, 2006a). 4 AS PICS se enquadram no que a Organização Mundial de Saúde (OMS) chama de medicina tradicional e medicina complementar alternativa (MT/MCA). A MT e a MCA foram incentivadas pela OMS já nos anos 1970, por intermédio do “Programa de Medicina Tradicional, que possibilitou a criação do documento “Estratégias da OMS para a Medicina Tradicional para 2002-2005”. Esse documento se propôs a respaldar os países de modo a: • integrar a MT/MCA nos sistemas nacionais de saúde, desenvolvendo e implementan- do políticas e programas nacionais; • promover a segurança, eficácia e qualidade da MT/MCA, ampliando a base de conhecimento sobre essas medicinas e fomentando a orientação sobre pautas normativas e de controle de qualidade; • aumentar a disponibilidade e acessibilidade da MT/MCA, com ênfase ao acesso pelas populações pobres; e • fomentar o uso racional da MT/MCA tanto pelos provedores quanto pelos consumi-dores (OMS, 2002). Conforme dados de 2020, no Brasil já existiam 9.350 estabelecimentos de saúde ofertando 56% dos atendimentos individuais e coletivos de PICS nos municípios, a maioria deles, 8.239 mil, são na Atenção Básica em saúde. A distribuição dos serviços por nível de complexidade ocorre da seguinte forma: Atenção Básica 78%; Média 18%; Alta 4% (BRASIL, 2020a). O que corrobora com a recomendação da OMS aos seus Estados, para que haja políticas voltadas à integração ou inserção de MT e MTC aos sistemas oficiais de saúde, principalmente na Atenção Primária (BRASIL, 2012). Contudo, no Brasil, o caminho percorrido para que as PICS fossem reconhecidas desta forma iniciou bem antes de 2020. O Quadro 1 destaca alguns marcos desse trajeto. Quadro 1 – Histórico das PICS no Brasil Meados dos anos 1970 Início do debate sobre as PICS após a declaração de Alma Ata. 1986 8ª Conferência Nacional de Saúde valida ainda mais o debate, sendo um espaço legítimo de visibilidade das demandas e necessidades da população por uma nova cultura de saúde. 1996 10ª Conferência Nacional de Saúde que, em seu relatório final, aprovou a "incorporação ao SUS, em todo o País, de práticas de saúde como a fitoterapia, acupuntura e homeopatia, contemplando as terapias alternativas e práticas populares". 1999 Inclusão das consultas médicas em homeopatia e acupuntura na tabela de procedimentos do SIA/SUS (Portaria nº 1230/GM de outubro de 1999). 2000 11ª Conferência Nacional de Saúde que recomenda "incorporar na atenção básica: Rede PSF e PACS práticas não convencionais de terapêutica como acupuntura e homeopatia; 5 Fonte: adaptado de Brasil (2020a); Brasil (2018); Brasil (2006b); Brasil (2017) 2006 As PICS foram institucionalizadas no Sistema Único de Saúde (SUS) por intermédio da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), aprovada por meio de Portaria GM/MS no 971, de 3 de maio de 2006, aprovando cinco práticas. 2013 Aprovação da Portaria nº 2.761/GM/MS, que institui a Política Nacional de Educação Popular em Saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (PNEPS-SUS). 2014 Aprovação da Portaria nº 2.446/GM/MS, que redefine a Política Nacional de Promoção da Saúde (PNPS) que tem como um dos objetivos específicos: valorizar os saberes populares e tradicionais e as práticas integrativas e complementares. 2017 A PNPIC foi ampliada em 14 outras práticas a partir da publicação da Portaria GM nº 849/2017. A seguir, descreveremos sobre as PNPIC e sua contribuição para a aplicabilida- de das PICS no SUS. 2.1 POLÍTICA NACIONAL DE PRÁTICAS INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES Sabemos da importância da obtenção da PNPIC para a consolidação das práticas nos territórios, porém, mesmo com as conquistas, ainda podemos avançar. Consideramos ela uma política sempre em construção. A PNPIC é transversal em suas ações no SUS, e está presente em todos os níveis de atenção, prioritariamente na Atenção Primária à Saúde (APS). Dentre os seus objetivos, se propõe a contribuir com o aumento da resolubilidade do Sistema e ampliação do acesso às PICS, garantindo qualidade, eficácia, eficiência e segurança no uso (BRASIL, 2020b, p. 3). Em 2018, foi lançado o manual de implantação de serviços de práticas integrativas e complementares no SUS, com o objetivo de sugerir aos gestores um modelo de plano de implantação das PICS, e que também descreve os passos de cadastramento nos serviços. Acesse em: http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/ publicacoes/manual_implantacao_servicos_pics.pdf. DICA 6 Foram duas portarias aprovadas, que hoje totalizam 19 PICS a serem disponibi- lizadas no SUS: • A Portaria GM/MS nº 971/2006 contempla diretrizes e responsabilidades institucionais para oferta de serviços e produtos de: homeopatia, medicina tradicional chinesa/ acupuntura, plantas medicinais e fitoterapia, além de constituir observatórios de medicina antroposófica e termalismo social/crenoterapia (BRASIL, 2006c). • A portaria GM/MS nº 849/2017, aprova outras práticas: Arteterapia, Ayurveda, Biodan- ça, dança circular, Meditação, Musicoterapia, Naturopatia, Osteopatia, Quiropraxia, Reflexoterapia, Reiki, Shantala, Terapia Comunitária Integrativa e Yoga (BRASIL, 2017). Em 2021 a PNPIC completou 15 anos de criação. No link a seguir, você tem acesso a lista de experiências no SUS com as PICS registradas na plataforma do Banco de Práticas e Soluções em Saúde e Ambiente – IdeiaSUS. Acesse em: http://observapics.fiocruz.br/conheca-as-129- experiencias-com-pics-registradas-no-ideiasus/. DICA Muitos avanços foram conquistados nessa trajetória desde a criação das PICS, mas muitos desafios ainda estão presentes. O acesso aos usuários para essa variedade de práticas legitimadas pelo SUS, dependem de investimentos para a formação de profissionais para a atuação na rede. Identificar o potencial na equipe e ampliar a oferta das práticas é imprescindível para a disseminação das PICS na saúde pública. 3 PRÁTICAS INDIVIDUAIS Vários tipos de PICS somente podem ser utilizadas em grupo, como a dança circular, que depende de mais participantes para formar uma roda. A seguir, descreveremos PICS que não necessitam de um grupo para sua aplicação, ou, em alguns casos, que podem ser aplicadas somente de forma individual. 3.1 MEDICINA TRADICIONAL CHINESA Não se sabe ao certo quando a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) foi desenvolvida ao longo da história. Contudo, evidências arqueológicas demonstram que a maioria das técnicas oriundas dessa abordagem surgiram no Oriente há milhares de anos, alguns exemplos de técnicas são: moxaterapia, fitoterapia chinesa e a acupuntura. Todas essas práticas têm fundamento nessa teoria de saúde milenar, com pilares definidos, sendo eles: 7 • A teoria do Yin-Yang. • A teoria dos Cinco Elementos. • A teoria do Qi (MACIOCIA, 2017). A partir do conhecimento desses pilares, o especialista consegue realizar o diagnóstico, tratando o indivíduo em sua totalidade e não visando somente a parte doente ou a doença em si, como é evidenciado na Medicina Ocidental. É importante ressaltar que não temos a pretensão de abordar esses conceitos de forma a serem profundamente discutidos neste tópico, pois isso não seria possível em um primeiro debate, mas sim desvelar a base de seus conhecimentos para que você possa compreender o suficiente da teoria geral para refletir sobre o modo de racionalização da MTC. No Brasil, a Regulamentação para o exercício profissional da acupuntura foi aprovada através do Projeto de Lei nº 5983/2019 em todo território nacional. Este documento especifica quem pode exercer a profissão, além de outras diretrizes. Acesse em: https://bit.ly/3rBepG5. IMPORTANTE Atualmente, muitas categorias profissionais da área da saúde, além da medi- cina, já se manifestaram a favor dessa prática respaldando seus profissionais, como: Conselho Federal de Enfermagem, Conselho Federal de Farmácia, Conselho Federal de Fisioterapia, Conselho Federal de Psicologia, entre outras. Dessa forma, para atuar com a acupuntura, o profissional de saúde necessita realizar uma especialização – nível de pós-graduação – na área, e estar ativo em seu Conselho Regional. A partir do conhecimento das teorias e da relação dela com o que o indivíduo traz como demanda clínica, é que o especialista determinará o diagnóstico energético. Depois desta etapa, as práticas terapêuticas são escolhidas e aplicadas, de forma indi- vidual ou conjunta, a depender do caso. Além disso, como destacamos, a MTC considera o ser em sua integralidade. Nesse caso, a relação das teorias acontece também através da anamnese que o especialista utiliza na consulta clínica para compreender o caso em sua totalidade. Tratar é aplicar as técnicas apropriadas (...)O diagnóstico pas- sa pela tomada dos pulsos, detalhada e sutil; pela palpação do abdômen ou de outras partes do corpo; pelo exame da pupi- la, da tez, da língua, da vascularização superficial, das atitudes, do jeito de andar. Questionamos sobre o que entra e sai do cor- po, sobre os movimentos orgânicos, as sensações internas, so- bre os sentimentos e as disposições interiores. Inspecionamos o ambiente físico e moral do paciente” (DE LA VALLÉE, 2019, p. 19). 8 Sobre a avaliação do pulso, não existe uma regra de do que pode ser um “pulso” normal para um indivíduo e patológico para outro. É importante que o profissional determine o padrão do pulso, considerando a anamnese e os seus conhecimentos que se correlacionam com o quadro em estudo. Mann (1971) ressalta que é normal para algumas pessoas se sentirem com energia e ter agilidade, o que se refletirá na qualidade da artéria, perceptível na tomada do pulso. Dessa forma, o pulso trará mais dados sobre o estado de saúde do paciente, auxiliando no diagnostico energético e plano de tratamento com a acupuntura. “Seja qual for a sua origem, física, fisiológica ou mental, as doenças revelam-se através do pulso, desde que provoquem efeitos fisiológicos” (MANN, 1971, p. 104). Os efeitos fisiológicos alteram o processo orgânico de funcionamento do corpo. Assim, qualquer alteração no organismo irá refletir através do pulso. Se tratando da mudança de padrão de pulso conforme o clima, Mann (1971, p. 106), esclarece que: • Os pulsos tornam-se mais profundos no inverso e em casos de doenças relacionadas ao frio ou a processos de enrijecimento. • Os pulsos tornam-se mais superficiais no verão e em casos de doenças ligadas a estados febris. Assim, o especialista necessita ter um vasto conhecimento em medicina chi- nesa, considerando todos os fundamentos que estão envolvidos nessa racionalidade de saúde para atuar com qualidade e trazer resolubilidade para o problema do paciente. Cada aspecto clínico é avaliado minuciosamente antes de escolher a técnica adequada. Por exemplo, a tomada de pulso da MTC é feita de forma manual, e para realizar a análise do aspecto da língua, há um arcabouço teórico que o especialista necessita compreen- der para poder avaliar da maneira correta. Um livro que trata especificamente do assunto é o “Diagnóstico pela língua na medicina chinesa”, de Giovanni Maciocia (2013), sendo que este é um dos mais preciosos métodos na medicina chinesa. DICA Outra categoria de sentidos bastante abrangente utilizada na MTC é a de “Shen”: É o mais sutil e não substancial tipo de Qi ... Acredito que 'Mente' é uma tradução mais precisa para Shen; o que no Ocidente chamaríamos de 'espírito', trata-se do complexo de todos os cinco aspectos mentais e espirituais do ser humano, isto é, Alma Etérea (HUN), Alma Corpórea (PO), Inteligência (YI), Força de Vontade (ZHI) e Mente (SHEN) (MACIOCIA, 1996, p. 201). 9 O Shen, (espírito/mente) pré-natal é derivado dos pais e o Shen pós-natal derivado e manifestado pela essência (Jing) e pela energia (Qi). Enquanto o sangue (Xue) do coração (Xin) e Yin do coração fornecem moradia para o Shen, visto que na concepção da MTC, a consciência não reside tanto no cérebro, mas sim no coração. Shen é, portanto, totalmente associado à concepção, à organização inata e adquirida no meio do desenvolvimento, a própria transformação de um ser particular, ele é ao mesmo tempo o aspecto mais sutil daquilo que anima, colore a consciência individual e determina todos os níveis de surgimento desse indivíduo, até os mais concretos (EYSSALET, 2003, p. 82). O Shen vitaliza o corpo e a consciência e fornece a força da personalidade. Esta concepção implica na existência material do Shen, que é diferente do pensamento ocidental de espírito. Na MTC, Shen é uma parte integral do corpo e não um aspecto separado dele (ROSS, 2019). A partir desse texto introdutório sobre a MTC, a seguir, abordaremos sobre os pilares teóricos dessa medicina milenar. 3.1.1 Teoria Yin-Yang Conceituar o Yin-Yang é imprescindível, e essa teoria é possivelmente uma das mais importantes da MTC. São duas qualidades opostas, porém complementares: “cada objeto ou fenômeno poderia ser ele próprio ou seu contrário. Além disso, Yin contém a semente de Yang, de forma que o primeiro pode transformar-se no segundo, e vice- versa” (MACIOCIA, 2017, p. 3). Figura 1 – Símbolo yin-yang Fonte: https://bit.ly/3UarhA3. Acesso em: 21 jun. 2022. 10 O círculo exterior representa o próprio universo, o infinito, o todo energético, do qual tudo e todos fazemos parte. As duas esferas dentro do símbolo representam a união dos opostos, sendo que a li- nha ondulada no interior indica o equilíbrio constante entre as forças contrárias. O círculo branco pequeno no lado preto significa que o Yin possui o Yang e o círculo pequeno preto no lado branco, significa que o Yang possui o Yin (BUCHO, 2016, p. 2). Para exemplificar melhor, pensemos que após a noite vem o dia, que depois do verão chega o inverno, e essas mudanças são ciclos da vida que atingem a todos os seres (MACIOCIA, 2017). Yin e Yang representam esse ciclo. Ilustram essas contínuas mudanças, os ritmos da existência. Yin é o polo negativo, passivo, profundo, feminino. A noite e o inverno são Yin. Yang representa o polo positivo, ativo, superficial, masculino. O dia e o verão são yang. Esses conceitos não são estáticos. Representam dois polos de uma mesma energia. Yin está sempre se tornando Yang, e Yang se tornando Yin (JAHARA-PRADIPTO, 1986, p. 16). Eles se configuram como expressões do Qi (energia vital). Estudaremos sobre o Qi ainda neste tópico. Importante ressaltarmos que os conceitos de polo negativo e positivo não tem a ver com o bem e o mau, ou o que é bom ou ruim. Ambos são essenciais, e é importante manter um equilíbrio entre as energias. Dessa forma, podemos dizer que uma pessoa é mais Yin, em um estado mais fisicamente passivo ou mais Yang fisicamente ativo, entre outras características que podem ser consideradas (JAHARA-PRADIPTO, 1986). O antagonismo de Yin-Yang estende-se a todos os fenômenos e objetos do universo, isto é, a tudo que pode ser perceptível pelo ser humano. Assim: Yang: positivo, forte, dinâmico, quente, claro, leve, homem. Yin: negativo, fraco, estático, frio, obscuro, pesado, mulher. A MTC incorporou o princípio Yin-Yang para explicar a fisiologia e patologia humana, considerando o corpo um todo organizado, composto de duas partes, porém opostas. Os órgãos vitais são Yin, enquanto suas funções são Yang. Por exemplo, o coração, como estrutura anatômica é Yin, enquanto os batimentos e a circulação do sague são Yang; a massa muscular é Yin e a força muscular é Yang, assim por diante (PAI, 2005, p. 71). As doenças para a MTC são resultantes de uma desordem nas nossas trocas e ritmos Yin-Yang (DE LA VALLÉE, 2019). O estado normal seria o equilíbrio, porém, existem quatro quadros possíveis de desequilíbrio entre Yin-Yang: Predomínio de Yin. Predomínio de Yang. Fraqueza de Yin. Fraqueza de Yang (MACIOCIA, 2017, p. 7). 11 Pela racionalização da teoria do Yin-Yang, o especialista irá identificar as manifestações clínicas de um possível desequilíbrio entre essas duas energias, e por intermédio de estratégias de tratamento, aplicar as técnicas da MTC para equilibrá-las. As estratégias se resumem em quatro: Tonificar Yang. Tonificar Yin. Eliminar Yang em excesso. Eliminar Yin em excesso (MACIOCIA, 2017, p. 7). O especialista pode, por exemplo, utilizar pontos de acupuntura para eliminar acessos de Yang em determinado local do corpo, ou utilizar a moxabustão para tonificar o Yin, a dependerde cada caso, como afirma Ross (2019, p. 27), “de modo geral, se o corpo está saudável e forte, o Yin e o Yang estão em equilíbrio”. 3.1.2 Teoria dos Cinco Elementos Na visão desta teoria, o mundo natural é constituído por cinco elementos: madeira, fogo, terra, metal e água. Cada um destes elementos tem suas próprias características individuais e simbolizam também as cinco direções diferentes de movimentos dos fenômenos naturais (MACIOCIA, 2017). Os antigos chineses, observando os fenômenos da natureza e seu comportamento, identificaram a madeira, o fogo, a terra, o metal e a água como os “Cinco Elementos da Natureza”, básicos para a existência da vida no planeta. Verificaram também que entre esses “Cinco Elementos da Natureza” existia uma íntima relação, dinâmica e interdependente: a madeira, quando queima, transforma-se em cinza, misturando-se com a terra. Dentro desta, há depósito de metal que, por sua vez, submetido a altas temperaturas, torna-se líquido. A água, que é parte desse líquido, faz a árvore crescer e esta fornece a madeira para ser queimada, e assim por diante, de forma infinita e cíclica (PAI, 2005, p. 73). As teorias de Yin-Yang e dos Cinco Elementos representam um salto histórico da medicina – a visão da doença como algo causado por espíritos malévolos deu lugar a uma visão naturalista das doenças como algo associado ao estilo de vida (MACIOCIA, 2017, p. 16). ATENÇÃO Esses elementos representam o as energias do Yin-Yang, que, como vimos, se manifestam nos ciclos de transformação da natureza. Dessa forma, órgãos estão relacionados aos cinco elementos, por intermédio de um sistema de analogia e dedução. 12 No diagrama que representa os cinco elementos existe um órgão (zang) Yin e uma víscera (Fu) Yang para cada elemento. Cada par de órgãos é representado pelo elemento em questão: • Madeira: o fígado e a vesícula biliar. • Fogo: o coração e o intestino delgado. • Terra: o estômago e o baço-pâncreas. • Metal: o intestino grosso e o pulmão. • Água: o rim e a bexiga (PAI, 2005, p. 75). Dessa forma, “a interação de Yin e Yang gera as cinco fases (...). A teoria das cinco fases ou dos cinco movimentos postula que todos os fenômenos naturais correspondem a uma de cinco faixas associativas: Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água” (LUZ, 2012, p. 110-111). Para saber mais sobre a teoria dos cinco elementos, assista ao vídeo: “Os cinco Elementos da Medicina Tradicional Chinesa”. Acesse em: https://www.youtube.com/watch?v=HM8dBzmND6k. DICA A teoria dos cinco elementos possui sua origem na observação da natureza e em todo o processo que ela se constitui, assim foi compreendida e comparada às influências desses fenômenos naturais com a restauração do equilíbrio energético da pessoa com problemas de saúde. 3.1.3 Teoria do Qi O Qi (ou Chi), pode ser conceituado em português pela expressão “sopro vital”, sendo que na literatura chinesa ele é muito relacionado ao vento, respiração, ao ar e ao vapor (LUZ, 2012). Outros autores também denominam o Qi como “energia vital”, sendo a força que produz a vida. “Se enumerarmos as necessidades da vida: alimento, abrigo, vestimenta, água e ar; faltará alguma coisa? Sim, o Qi, algo tão básico para a vida que frequentemente nos esquecemos dele” (TOHEI, 2000, p. 9). Essa “energia” percorre pelos “meridianos”, que são canais por onde o fluxo energético circula pelo corpo. Há, inclusive, mapas que demonstram os meridianos existentes no corpo humano segundo a MTC. A energia vital (Qi) flui através dos doze meridianos em vinte e quatro horas, na seguinte ordem: Pulmões, intestino grosso, estômago, baço, coração, intestino delgado, bexiga, rins, circulação-sexo (pericárdio), 13 triplo aquecimento (triplo aquecedor), vesícula e fígado. É este fluxo de energia que conserva o homem vivo. Quando cessa, sobrevém a morte (...). Não existe prova científica absoluta da existência de Qi. Na linguagem característica dos antigos, para expressar o seu ponto de vista, Qi teve origem na ação simultânea do céu e da terra, cujo resultado foi a criação do homem, - a dádiva dos céus gerada no útero da terra” (MANN, 1971, p. 45-46) Quando um ponto do corpo está dolorido, pode ser indicação de um bloqueio da circulação de energia, que poderá estar em excesso ou em deficiência no organismo (ANDRADE, 2009). Existem técnicas para normalizar o fluxo de Qi através dos meridia- nos, como a acupuntura e a prática do Qi Gong (exercícios que procuram melhorar a circulação de Qi no corpo). O Qi Gong é o resultado de alguns milhares de anos de experiência do homem no desenvolvimento do uso da energia vital para vários propósitos definidos. Os antigos mestres desenvolveram a arte da energia para curar doenças, promover a saúde, a longevidade, melhorar as habilidades de luta, expandir a mente, alcançar níveis diferentes da consciência e atingir a espiritualidade. Essas artes de cultivo da energia desenvolveram-se separadamente, apesar de, às vezes, terem influenciado umas às outras e serem conhecidas por nomes diferentes. Porém, todas elas tinham em comum a prática de exercitar os fluxos de energia: o chi ou qi. Desde a década de 1950, essas artes ficaram conhecidas como Qi Gong, a arte da energia (LIVRAMENTO; FRANCO; LIVRAMENTO, 2010, p. 82). Faça você mesmo uma rotina de antigos exercícios chineses de Qi-Gong, através do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=Z2n4WfwIXnk DICA Assim, podemos afirmar que a MTC busca normalizar a circulação do Qi no corpo para que não haja desequilíbrios energéticos. Esse equilíbrio perpassa pela teoria Yin e Yang, que, conforme estudamos anteriormente, são duas energias opostas. O Qi que circunda pelos meridianos necessita estar equiparado de acordo com o Yin e Yang, em quantidade aceitável para fluir sem bloqueios e na direção certa (CENTRO DE ESTUDOS DE TERAPIAS NATURAIS, 2022). As energias de Yin e Yang circulam pelo corpo sem parar. Com o estudo do estado dessas energias nos 12 meridianos, poderemos determinar a origem da doença e se há energia em demasia ou em deficiência. Dessa forma, a localização dos distúrbios é possível. Com os conhecimentos acerca dos locais onde podemos incitar a alteração de energia entre os diferentes meridianos, poderemos equilibrar novamente o Yin e Yang (NEI JING apud WANG, 2001). 14 A citação supracitada é advinda do livro, “Os Princípios de Medicina Interna do Imperador Amarelo”, considerado um livro clássico Oriental e o primeiro a citar a técnica da acupuntura. Ele traz o relato das conversas do Imperador com o seu ministro, e desvela a filosofia oriental em que se baseia a acupuntura, como o Yin e Yang. IMPORTANTE A seguir, descreveremos algumas das técnicas mais utilizadas para equilibrar o fluxo de Qi pelo corpo: acupuntura, auriculoterapia, ventosaterapia e moxaterapia. Ressaltamos que elas têm como base as teorias da MTC citadas anteriormente 4 ACUPUNTURA A palavra "acupuntura" vem do latim, acus significa agulha e punctura se refere à punção. É uma técnica que utiliza agulhas finas e específicas para este fim a serem introduzidas em pontos distribuídos no corpo humano. Além das agulhas, esses pontos também podem ser estimulados por ventosas ou moxas, conforme estudaremos a seguir. A Figura 2 ilustra alguns objetos para comparação de espessuras. Um palito tem 3mm, a agulha de injeção, no centro da imagem, tem 0,70mm e uma agulha de acupuntura tem apenas 0,25mm, ou seja, referente a dois fios de cabelo humano. Ressaltamos que as agulhas não podem ser reaproveitáveis, dessa forma, após o uso, o descarte deve ser realizado em coletores específicos para serviços de saúde, sendo recolhidos por empresas de coleta e transporte de resíduos perfurocortantes. Figura 2 – Espessura da agulha de acupuntura Fonte:as autoras 15 Existem divergências sobre o período de origem e desenvolvimento da acupun- tura na história, porém, dados arqueológicos apontaram que pode ser originária da China entre 8.000 e 3.000 a.C. (LIANG, 2001). É considerada uma das terapias mais antigas do mundo. Há indícios da sua prática na época da Idade da Pedra (aproximadamente 4500 a.c.), quando as “agulhas” eram feitas de pedra polida, e muitas vezes utilizadas com a terapia através do calor (moxa), aquecendo as pedras e colocando-as em locais doloridos do corpo (WEN, 2014). Os chineses, ao longo de milhares de anos, descreveram cerca de 1.000 pontos de acupuntura, dos quais 361 (clássicos) foram classificados em catorze grupos principais. Todos os pontos que pertencem a um desses grupos são ligados na superfície do corpo por uma linha imaginária denominada meridiano. (...) Os pontos de acupuntura ao longo desses meridianos estão relacionados com o órgão mencionado, mas não necessariamente da mesma maneira que a medicina ocidental (PAI, 2005, p. 57-58). O objetivo da acupuntura é tratar o indivíduo em sua integralidade, partindo do pressuposto da MTC de tratar a pessoa doente e não a doença. Os pontos são escolhidos pelo acupunturista de acordo com o diagnóstico realizado com base nos fundamentos da MTC, anamnese, sinais e sintomas do indivíduo. Ela estimula a circulação de Qi (energia) e Xue (sangue) pelo organismo buscando o equilíbrio do corpo. No Ocidente, os acupontos (pontos de acupuntura) receberam numerações para facilitar a aprendizagem. Na tradicional medicina chinesa, mestres antigos ensinavam ser a doença uma alteração das funções do corpo ou desgaste deste, provocado por fatores externos, como frio, calor, umidade, fatores emocionais, nutricionais ou envelhecimento. Por meio da acupuntura seria possível a recuperação da saúde (PAI, 2005, p. 5). Ao numerarmos os pontos de acupuntura, perdemos uma riqueza de informações quando os termos chineses são esquecidos. Por exemplo, “o Zan-san-li” (três milhas da perna), tratado com acupuntura, faz aumentar a energia o suficiente para caminhar mais três milhas de distância. Entretanto, no ocidente ele foi designado como “E-36”, que significa “trigésimo sexto acuponto do Canal de Energia do Estômago”. As informações dos termos chineses poderiam ser interpretadas e usadas no tratamento (INADA, 2006). INTERESSANTE O ponto IG20 é muito utilizado para obstrução nasal. A Figura 6 demonstra esse ponto sendo utilizado bilateralmente das narinas, para alívio dos sintomas de sinusite. 16 Figura 3 – Aplicação de acupuntura para desobstrução nasal Fonte: as autoras O Quadro 2 descreve os mecanismos de ação da acupuntura: Quadro 2 – Mecanismos de ação da acupuntura Fonte: WEN (2014, p. 17-18) Altera a circulação sanguínea A partir da estimulação de certos pontos, pode-se alterar a dinâmica da circulação regional proveniente de microdilatações. Outros pontos promovem o relaxamento muscular, sanando o espasmo, diminuindo a inflamação e a dor. Libera hormônios O estímulo de certos pontos promove a liberação de hormônios, como o cortisol e as endorfinas, promovendo analgesia. Aumenta a resistência à doença A acupuntura ajuda a aumentar a resistência do hospedeiro. Quando há agressão externa, alguns sistemas orgânicos são prejudicados. Há uma regulação interna para oferecer resistência à doença. A acupuntura exacerba esses mecanismos para que, em menos tempo, o equilíbrio e a saúde sejam restabelecidos. Regula e normaliza as funções orgânicas As diversas funções no homem são inter-relacionadas. Se há algum distúrbio alternando esse inter-relacionamento, ocorre a manifestação de sintomas e a doença se estabelece. A acupuntura pode dinamizar e restabelecer os relacionamentos anteriores e apressar a recuperação. Promove o metabolismo O metabolismo é fundamental na manutenção da vida. Em certas condições de doença, há alteração do metabolismo dos diversos órgãos, com consequente prostração e deficiência do organismo. A acupuntura permite a recuperação desse metabolismo, importante no processo de cura. A acupuntura pode ser aplicada de forma sistêmica e microssistêmica, podendo as agulhas serem inseridas em pontos ao longo do corpo, com duração em média de 28 min e em tratamentos que possuem duração de até 10 sessões, conforme cada caso. No caso da acupuntura microssistêmica, ela torna-se mais comum na prática ambulatorial, 17 geralmente procurada por queixas de dores crônicas. Nesses casos, as agulhas são inseridas em pontos de reflexo das funções do corpo humano. Muitos acupunturistas utilizam da craniopuntura de Yamamoto, a acupuntura do Mestre Tung e Método Balance de Richard Tan. Esses métodos ampliam o conhecimento do acupunturista, permitindo obter ainda mais recursos para atuar na qualidade de vida do paciente. No município de Campinas, com a implantação da prática da técnica da Cra- niopuntura de Yamamoto, observou-se uma redução de 12,5% nos primeiros 8 meses e de 20% após 1 ano da emissão de receitas de anti-inflamatórios (BRASIL, 2009), com uso da acupuntura na prática clínica, principalmente envolvendo os casos de dores são surpreendentes, pois, geralmente, o paciente relata melhora considerável da dor com o uso dessa técnica. A acupuntura denominada Craniopuntura de Yamamoto se refere à aplicação da técnica no couro cabeludo, correspondente ao córtex cerebral. Ela não apresen- ta efeitos colaterais e diminui o consumo de medicamentos (YAMAMOTO; YAMAMOTO, 1998). Silva et al., (2011, p. 290) realizaram um estudo envolvendo a craniopuntura de Yamamoto e constataram que ela foi efetiva no “alívio da dor, na amplitude de movi- mento, qualidade de vida e funcionalidade de paciente com osteoartrite de joelho”. Além dos quadros de dores, a acupuntura também é uma técnica reconhecida e aliada na intervenção de problemas emocionais. No estudo de Silva (2010), foi aplicada a acupuntura para o transtorno de ansiedade. Neste caso, essa prática também demonstrou ser efetiva, diminuindo os sintomas e melhorando a qualidade de vida da paciente. O Do-in, que é a massagem com os dedos em pontos de acupuntura, também pode ser utilizado, inclusive no autocuidado. Cançado (1993) desenvolveu o primeiro livro de primeiros socorros voltados para a técnica do Do-In, que consiste na acupressão nos pontos de acupuntura com os dedos, na busca terapêutica através do processo do autocuidado. “Quando o primeiro homem massageou o próprio pé na tentativa de aliviar a dor, a idéia do Do-in já estava formada” (CANÇADO, 1993, p. 13). Assim, ao logo da história o homem pôde perceber que, além da prática lhe causar algum conforto, também era terapêutica, principalmente nos quadros que envolviam dores. No Do-In, os pontos relacionados recebem a massagem indutiva energética, e, para obter-se maior aproveitamento dessa técnica, é importante colocar o corpo numa condição de relaxamento (CANÇADO, 1993). Essa técnica da MTC, não possui contra indicações, exceto para pessoas que estejam com a integridade da pele prejudicada no local da prática. Qualquer indivíduo pode realizar a massagem nos pontos de acupuntura, esse conhecimento é muito útil em casos que ocorrerem situações de algum desconfor- to físico ou dores e não ter acesso a nenhum atendimento de saúde por perto, como em viagens. 18 A técnica de tratamento com o Do-in, segundo Cançado (1993, p. 26), consiste: a) Em caso de distúrbios causados pelo excesso de energia é preciso sedar o ponto. Para isso, pressionar profundamente e continuamente o ponto indicado durante um a cinco minutos. b) Em caso de deficiência, é preciso tonificar o ponto, pressionan- do-o repetidamente em intervalos de um segundo durante cinco minutos. Dessa forma, podemos inferir nos sintomas que são frequentes como enxaque- cas, ansiedade,cólicas, congestão nasal, constipação, dores na coluna, entre outros. 5 AURICULOTERAPIA Outra técnica muito utilizada, principalmente por não ser invasiva e ter mais fácil aceitação é a auriculoterapia, ou a acupuntura auricular. A auriculoterapia faz parte da MTC, assim como a acupuntura. Sua base é a utilização de punção no pavilhão auricular, relacionando-o com os diversos órgãos e regiões do corpo. Por volta de 1950, o médico francês Paul Nogier deu importante contribuição para o uso terapêutico do pavilhão auricular. Com estudos que partiram dos pontos auriculares chineses e da criação de novos métodos de mapeamento e estimulação dos pontos, Nogier estabeleceu a relação do pavilhão auricular com a figura de um feto na posição invertida e batizou sua descoberta de auriculoterapia (NEVES, 2018, p. 8). A figura do feto invertido é a base para a localização dos pontos auriculares, estabelecendo os pontos reativos de determinada região do corpo e que se situam no reflexo da imagem de um bebê invertido. Nessa projeção, a cabeça está localizada na altura do lóbulo da orelha e os pés na região superior do pavilhão da orelha, mais aproximado da fossa triangular. Segundo Senna, Silva e Bertan (2012, p. 27) “pontos auriculares são zonas específicas distribuídas na superfície do pavilhão auditivo (...) Essas zonas refletem fielmente a atividade funcional de todo o nosso corpo”. Os pontos são estimulados com diferentes tipos de materiais, podemos utilizar agulhas de acupuntura que permanecem por alguns minutos, agulhas semipermanen- tes, ou até mesmo sementes (vacaria ou mostarda), esferas (douradas, prateadas ou de cristais), que são fixadas no ponto com micropore, e podem permanecer por uma sema- na realizando o efeito terapêutico em um prazo mais longo. No caso de aplicação com o uso das sementes, é importante estar atento a sinais de mudança de coloração na área ou queixas de dor, neste caso é importante orientar a retirada dos pontos da orelha. As sementes, por serem materiais orgânicos, possuem maior risco de causar algum proble- ma na terapêutica. O especialista necessita estar atento e avaliando cada caso. 19 Figura 4 – Auriculoterapia com agulha Fonte: as autoras A princípio, os benefícios da auriculoterapia baseiam-se na facilidade de acesso aos acupontos, na possibilidade da prática clínica não invasiva, nas alterações auriculares de interesse diagnóstico, na produção de estímulos bioenergéticos auriculares (mesmo fora do consultório) e nos seus resultados já comprovados (SENNA; SILVA; BERTAN, 2012, p. 26). Mesmo com os mapas definindo os pontos de maneira objetiva, o diagnóstico em auriculoterapia perpassa por uma inspeção minuciosa da orelha, avaliando se há manchas, escamações, aumento da vascularização em determinados locais, entre outros sinais. Esse exame visual é realizado antes de tocar a orelha, para que os sinais não sejam alterados pela palpação. Nem sempre há alterações aparentes, porém é importante atentar-se a elas. Após esse exame inicial, a apalpação é realizada em diferentes pontos para revelar os pontos que são reagentes à dor, e possivelmente necessitam dos estímulos da auriculoterapia (NEVES, 2018). Figura 5 – Tratamento de auriculoterapia com esferas Fonte: as autoras 20 Na Figura 5, observamos que não há muitos sinais evidentes de alterações au- riculares, a não ser alguns vasos aparentes na região superior da orelha. Essa imagem é importante para ilustrar que, se o paciente possui alargadores ou piercings, não impede, de forma alguma, o tratamento, o que acontece, principalmente no uso de alargadores, é a perda de pontos que poderiam ser estimulados caso houvesse necessidade, como a região dos olhos que é perdida no caso do uso de alargadores. Contam lendas que os piratas utilizavam brincos de ouro no lóbulo da orelha, no ponto do olho, a fim de melhorar sua acuidade visual quando utilizavam lunetas para mirar o horizonte. INTERESSANTE O quadro a seguir demonstra as possíveis alterações auriculares e seu diagnóstico. Quadro 3 – Alterações e diagnóstico em auriculoterapia Fonte: Neves (2018, p. 28) Alteração Diagnóstico Manchas vermelhas Disfunções agudas Manchas brancas Disfunções crônicas Vasos vermelhos Disfunções recentes Vasos azulados Disfunções antigas Escamações Disfunções crônicas Nódulos Disfunções crônicas e provavelmente degenerativas Existem alguns riscos na auriculoterapia, como a fadiga ocular, que acontece quando são realizadas muitas sessões, neste caso a orelha pode apresentar algum sinal negativo (como pequenas lesões), por isso, é importante manter um tempo de repou- so durante as sessões para evitar esse processo. Além disso, pode ocorrer uma infla- mação na cartilagem, expressados por pequenos nódulos que doem e tem coloração vermelha nos locais de aplicação, neste caso é contraindicada a estimulação desses pontos. Quando são utilizadas agulhas semipermanentes, também é importante nos atentarmos a sinais de infecção, caso o paciente não mantenha uma boa higiene no local (NEVES, 2018). 21 Um estudo envolvendo essa técnica demonstrou que ela é eficaz envolvendo quadro de estresse psicológico e sintomas de depressão e ansiedade durante a pandemia da COVID-19, sendo aplicada em profissionais de enfermagem. Nesse estudo, Oliveira et al. (2021, p. 7) concluíram que em apenas uma sessão de auriculoterapia tiveram diminuições significativas no “nível de estresse e na pontuação das medianas de ansiedade e depressão dos profissionais de enfermagem que atuaram na linha de frente de enfrentamento à pandemia do coronavírus”. Na dor cervical crônica, a prática pode ser realizada como tratamento com- plementar, sendo um método eficaz para alívio da dor (SANT'ANNA et al., 2021). Res- saltamos que, além do exame visual e de palpação da orelha, é imprescindível que a anamnese seja realizada para avaliar a queixa da pessoa em tratamento. Assim como, os pontos auriculares se baseiam na mesma base teórica da MTC para definir os pontos mais eficazes para cada caso. 6 VENTOSATERAPIA O tratamento com ventosas é bastante antigo, assim como as outras práticas citadas, ele iniciou em países orientais e difundiu-se para o ocidente ao longo do tempo. Consiste em aplicar, por intermédio de pistolas de sucção de ar, copos de ventosas de plástico em diversas partes do corpo. Também é realizada a prática com ventosas de vidro, que necessitam que o oxigênio do “copo” de ventosa seja retirado por intermédio do calor, e, logo após, inserido no corpo da pessoa em tratamento. As Figuras 6 e 7 demonstram a utilização desses materiais, porém, ressaltamos que existem outros tipos atualmente no mercado, como as de silicone. Figura 6 – Utilização de ventosas de plástico Fonte: as autoras 22 A ventosaterapia promove a limpeza do corpo, ela age na troca de gases, purificando o corpo, podemos dizer que ela elimina a toxidade que afeta o organismo. Esse tipo de tratamento também é muito utilizado para aliviar tensões e proporcionar relaxamento físico. Na MTC, ela é principalmente um meio de diagnóstico clínico, pois através dos aspectos e características das manchas, o especialista consegue definir o padrão de desequilíbrio provocado por algumas doenças. Essa prática é indicada como foco terapêutico para desintoxicar o organismo, além de auxiliar no equilíbrio energético, aliviando os sintomas emocionais. Tem como objetivo ocasionar um vácuo e fazer uma sucção da pele gerando uma pressão negativa, para estimular a circulação sanguínea, liberar as toxinas existentes no sangue. Também atua limpando o sangue, o que faz com que aumente a resistência do organismo às doenças, melhor respiração da pele. A ventosa drena as áreas de congestão e liberta o corpo do excesso de energianegativa (AMARO et al., 2015 apud RIBEIRO et al., 2019). Após a sessão de ventosaterapia, é muito comum permanecerem algumas marcas por algum tempo, a área tratada pode inclusive ficar arroxeada, e quando isso acontece, é a demonstração de que há estagnações no corpo e/ ou pontos de tensão no corpo, ocasionados pelo estresse físico e apresentando desconforto muscular. Cabe ao especialista avaliar o nível e interpretar os sinais, conforme o quadro de comprometimento do paciente, para intervir com segurança. Nos casos em que há estagnação de energia nesses locais, a aplicação da téc- nica correta de ventosaterapia promoverá a movimentação e liberação da energia blo- queada. Com a circulação ativada, o fluxo de sangue favorece a nutrição dos múscu- los, aliviando as tensões, dores musculares e articulares. O tempo de aplicação é muito importante, sendo o especialista capaz de avaliar e intervir sem desconforto e riscos. Figura 7 – Marcas de ventosaterapia Fonte: as autoras 23 As ventosas de vidro são bastante utilizadas, e seu diferencial é a presença de calor no interior do copo, resultante da chama do fogo que deve ser inserida dentro dele antes de aplicar no corpo da pessoa. Essa técnica somente deverá ser realizada por pessoas habilitadas, pois há o risco de provocar queimaduras no paciente. Outra prática muito utilizada é a ventosa “deslizante”, neste caso, o terapeuta desliza a ventosa pelo corpo, ainda em sucção, o que promove o relaxamento muscular. Figura 8 – Utilização de ventosa de vidro Fonte: as autoras A Aplicação de ventosas fixas antes ou durante a sessão de acupuntura é uma terapêutica que pode ser aliada na sessão com outras técnicas da Medicina Tradicional Chinesa, sendo eficaz para o alívio da dor muscular, desbloqueio dos pontos energéti- cos, na restauração do fluxo de energia e na melhora da circulação sanguínea. Figura 9 – Aplicação de ventosaterapia com acupuntura Fonte: as autoras 24 O local, a intensidade da sucção e a duração das ventosas no corpo são ava- liadas pelo especialista com base nos sintomas e queixas do indivíduo, desenvolvendo um protocolo de atendimento para cada caso. 7 MOXATERAPIA A moxaterapia (podemos encontrar a moxaterapia descrita tanto com a palavra moxabustão quanto moxibustão) é utilizada nos pontos de acupuntura, mas, ao invés de agulhas, é o calor proveniente da queima da erva chamada Artemísia (Artemísia Vulgaris) que estimula os pontos. A moxabustão é um método terapêutico que visa utilizar determi- nadas substâncias ou ervas para aquecer pontos de acupuntura ou áreas do corpo a serem tratadas. O calor resultante deste processo produz estímulos que regularizam as funções fisiológicas, por inter- médio dos meridianos. A matéria prima mais utilizada para se fazer a moxa é a folha da planta Artemísia vulgaris, que possui propriedade antiinflamatória, cicatrizante, dispersa o frio e a umidade, regula a circulação e a energia. Existem várias técnicas para a utilização da moxabustão, desde a aplicação de cones acesos colocados direta- mente sobre os pontos ou áreas selecionadas, até bastões de moxa de vários tamanhos que são posicionados sobre a região a ser trata- da, sem tocá-la (YAMAMURA, 2001 apud WEGNER et al., 2013). Ela pode ser utilizada, inclusive, em conjunto com a acupuntura, como demonstra a Figura 10. Figura 10 – Aplicação de moxa com acupuntura Fonte: as autoras 25 É costumeiramente utilizada em pontos onde há deficiência de Yang, pois o calor estimula essa energia, equilibrando o corpo. Vários tipos de materiais são utilizados na moxaterapia, desde bastões mais finos, chamadas Mogussá-ko, como ilustra a figura a seguir, como bastões mais grossos e até mesmo caixas de madeiras, denominadas “berços para moxa”, que são colocadas sobre o corpo da pessoa em tratamento com a erva para que o calor permaneça nos pontos por mais tempo. Essa variedade de materiais pode ser observada na Figura 11. Figura 11 – Materiais utilizados na moxaterapia Fonte: as autoras A aplicação do “martelo” com moxa é demonstrada na Figura 12. Figura 12 – Utilização do martelo de moxa Fonte: as autoras 26 É preciso ter cuidado com o tempo e a proximidade do bastão de Artemísia junto à pele do indivíduo em tratamento, pois pode provocar queimaduras quando utilizada indevidamente. Outro aspecto a ser considerado é a observação da cinza quente prove- niente da queima, que deve ser sempre descartada em ambiente propício, pois também pode causar lesão se entrar em contato com a pele. Cada vez mais as PICS estão ganhando adesão dos usuários e profissionais frente a sua eficácia e benefícios. Muitos municípios no Brasil através da PNPICS im- plantaram as práticas integrativas, aproximando com diversos serviços ofertados para a população, como é o caso das UBS, aplicação das PICS na Visita Domiciliar, Ambulató- rios, Hospitais, Programas de Extensão com Universidades entre outros espaços. A seguir, abordaremos alguns exemplos de boas práticas na aplicação das PICS na saúde pública realizada nos municípios do Brasil. No Nordeste a prática da auriculoterapia foi implantada como PICS para ser realizada durante a visita domiciliar. Este trabalho amplia o acesso da população, principalmente no caso dos idosos vulneráveis ou pessoas acamadas, que possuem dificuldades na locomoção até a UBS. Observamos no início da implementação da Auriculoterapia, as mudanças na qualidade de vida dos Idosos, ajudando a tratar muitos problemas emocionais e físicos relacionadas ao envelhecimento, como a ansiedade, sintomas de depressão, equilibra o sono, o humor, fortalece o organismo, melhora o convívio social, entre outros (FIOCRUZ, 2021, p. 1). A iniciativa de incluir uma PICS como oferta ao cuidado do idoso durante a visita domiciliar, agrega benefícios além do cuidado à saúde, já que o idoso recebe o profissional na sua casa e possibilita, assim, o estabelecimento de vínculo, visto que o idoso, geralmente, reduz o seu convívio social conforme o avanço da idade. A auriculoterapia é uma prática considerada versátil, pois pode ser aplicada em qualquer lugar, por não apresentar riscos ao usuário. Em um Programa de Extensão de uma Universidade, essa prática foi inclusa também na visita domiciliar da população inscrita na UBS, beneficiando, inclusive, as pessoas cadeirantes. Os acadêmicos da área da saúde foram capacitados para atuar com essa PICS e puderam aplicá-la durante a prática de estágio. É um tratamento que promove imunidade e melhora o emocional em questões como ansiedade, nervosismo e depressão. Para os estudantes envolvidos também são vários os benefícios, entre os quais, o aprendizado prático da aplicação de técnicas de terapias complementares e a compreensão da humanização em saúde pública (SABELA, 2017, s. p.). 27 As PICS necessitam ser amplamente difundidas na formação do profissional de saúde, sendo inclusas no currículo dos Cursos e viabilizadas nos Projetos de Extensão que aproximam a Universidade, o campo de estágio e a comunidade. Cada país possui uma variedade própria de práticas de saúde – quer sejam próprias da cultura local ou importadas de outras tradições – reconhecidas com base nos aspectos socioculturais e diferentes graus de integração com a medicina convencional de cada país (BRASIL, 2020c, p. 6). A Prefeitura do Rio de Janeiro implantou várias PICS na saúde pública, estimulando o acesso da população com essas práticas terapêuticas. A estruturação e o fortalecimento da atenção em Práticas Integrativas e Complementares (PIC) na rede de atenção da cidade do Rio de Janeiro é um dos principais objetivos da Área Técnica de Práticas e Complementares da Secretaria Municipal de Saúde. A intenção é estimular o usode mecanismos naturais de prevenção de agravos e recuperação da saúde por meio de tecnologias eficazes e seguras, com ênfase na escuta acolhedora, no desenvolvimento do vínculo terapêutico e na integração do ser humano com o meio ambiente e a sociedade (PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO, 2022). Os serviços ofertados para a população envolvendo as PICS no município do Rio de Janeiro são: • Homeopatia ◦ assistência médica realizada por médicos homeopatas, distribuídos em unidades de saúde (nível ambulatorial) cobrindo as 10 Áreas de Planejamento (APs) da rede municipal; ◦ ações de educação permanente envolvendo capacitação dos homeopatas e dos oficiais e acadêmicos bolsistas da farmácia homeopática; ◦ assistência farmacêutica: farmácia de homeopatia na Prefeitura do Rio, implantada na Policlínica Hélio Pellegrino (Praça da Bandeira) com o objetivo de prestar assistência farmacêutica em homeopatia na rede municipal e garantir a qualidade do medicamento oferecido aos usuários. ◦ ações de Divulgação da Homeopatia: dirigido a profissionais de saúde da rede e eventos externos (PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO, 2022). • Plantas Medicinais / Fitoterapia ◦ cultivo de espécies medicinais no horto da Fazenda Modelo com o objetivo de fornecer matéria-prima vegetal para a produção de fitoterápicos, implantação de hortas e para a realização de oficinas de cultivo, promoção de saúde e geração de renda em unidades de saúde; ◦ produção de cremes fitoterápicos pela Farmácia de Manipulação de Fitoterápicos do município do Rio de Janeiro; ◦ prescrição de fitoterápicos industrializados e dos cremes fitoterápicos nas unida- des de saúde por profissional de saúde habilitado; 28 ◦ assistência farmacêutica nas unidades de saúde a partir da dispensação aos usuários dos fitoterápicos industrializados e dos cremes fitoterápicos nas unidades de saúde; ◦ educação permanente dos profissionais de saúde através da apresentação dos fitoterápicos disponíveis para a prescrição; ◦ ações de promoção de saúde e geração de renda a partir das plantas medicinais, oferta do curso básico de cultivo e oficinas com plantas medicinais voltadas para profissionais das unidades de saúde e para a comunidade (PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO, 2022). As ações com as Plantas Medicinais na Atenção Básica à Saúde do município do Rio de Janeiro com a Rede de Saúde Ambiental promoveram um Projeto denominado Viva Rio Saúde, ofertando através de cartilhas e capacitações desenvolver espaços de “aprendizagem contínua nos territórios, com atividades de promoção de saúde, aulas e oficinas de jardinagem, horticultura e plantas medicinais, fortalecendo o trabalho em rede e as parcerias institucionais” (PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO, 2015, p. 9). Vantagens no uso de plantas medicinais: • valorização e resgate da cultura popular; • fácil acesso às plantas pela população; • possibilidade de preparo caseiro; • baixo custo (PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO, 2015, p. 12). É necessário considerar que se deve ter cuidado e atenção tanto no preparo como no consumo da terapêutica utilizada com as plantas medicinais. É imprescindível ter atenção nas seguintes orientações (PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO, 2015): • Existem plantas que, mesmo sendo conhecidas como medicinais, são tóxicas. • Os Fitoterápicos são medicamentos, portanto, devem ser mantidos fora do alcance das crianças. • O Armazene as plantas secas em local arejado, sem incidência de luz e umidade. • Os Remédios caseiros são indicados em sintomas comuns e de pouca intensidade. Se não houver melhoras, procure sua equipe de saúde. Quanto à segurança na administração da medicação fitoterápica, as seguintes informações devem ser consideradas (PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO, 2015, p. 13): 1. Procure sempre orientação do profissional de saúde para obter um diagnóstico correto; 2. Informe ao profissional de saúde sobre todos os medicamentos, plantas medicinais e fitoterápicos que estiver usando; 29 3. Nunca substitua seu medicamento por plantas medicinais ou produtos fitoterápicos sem consultar previamente um profissional de saúde; 4. Em gestantes e mães em fase de amamentação não é recomen- dado o uso de plantas medicinais. 5. Apenas são seguras e eficazes na dosagem e forma recomendada; 6. Esteja seguro de ter entendido as informações dadas pelo médico sobre o uso e preparo das plantas medicinais. Mesmo sendo uma terapia natural, é importante salientar que podem ocorrer efeitos adversos, caso as recomendações do profissional de saúde não forem seguidas. Verifique sempre, ao adquirir plantas e chás medicinais: • a data de validade do produto; o rótulo com o nome científico da planta; procedência ou laboratório; nome do responsável técnico. • não adquirir se estiver com aparência de mofado ou coloração alterada, se tiver com a presença de insetos ou com a embalagem violada. • verificar se a parte utilizada da planta, cascas, flores, folhas, raiz, confere com o que está na embalagem (PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO, 2015). As orientações chamam atenção também para a coleta de folhas de árvores que estão situadas perto de estradas, esgotos, áreas agrícolas tratadas com agrotóxicos, pois essas plantas não são recomendáveis para o uso de chás, sendo descartadas para o uso terapêutico (PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO, 2015). Intervenções que se referem à Medicina Tradicional Chinesa, Acupuntura e Práticas Corporais: • assistência com acupuntura: realizada por profissionais acupunturistas, distribuídos em unidades de saúde (nível ambulatorial primário e secundário); • auriculoterapia: oferecida em várias unidades, inclusive como recurso complementar aos usuários em tratamento de tabagismo, sobrepeso e obesidade; • reflexologia podal: como prevenção e promoção ao pé diabético; • atividade física: os exercícios orientais auxiliam a necessária movimentação da energia pelo corpo, são suaves e relaxantes, estratégias para prevenção e promoção de saúde (PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO, 2022). Na cidade do Rio de Janeiro, foram implantadas 88 UBS com a oferta das PICS na rede municipal, contribuindo dessa forma, para a saúde integral da população do município (PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO, 2022). 30 Neste tópico, você aprendeu: • São consideradas PICS os tratamentos terapêuticos que se baseiam em uma visão abrangente do ser humano e do processo saúde-doença, elas podem prevenir ou tratar enfermidades, assim como serem utilizadas como cuidado paliativo para algumas doenças crônicas. • As PICS se enquadram no que a Organização Mundial de Saúde (OMS) chama de medicina tradicional e medicina complementar alternativa (MT/MCA). • A aprovação na PNPIC aconteceu em 2006, e em 2017 mais 14 práticas foram integradas a essa política. • A MTC é um conhecimento milenar que tem como pilares definidores: a teoria do Yin-Yang. a teoria dos Cinco Elementos e a teoria do Qi. • Meridianos são canais invisíveis por onde circulam os fluxos de Qi. • A acupuntura é uma técnica que utiliza agulhas finas e específicas para este fim a serem introduzidas em pontos distribuídos no corpo humano, mapeados pelos chineses a milhares de anos. • A auriculoterapia faz parte da MTC e sua base é a utilização de punção de agulhas, esferas ou sementes no pavilhão auricular, relacionando-o com os diversos órgãos e regiões do corpo. • O objetivo da ventosaterapia é ocasionar um vácuo e fazer uma sucção da pele gerando uma pressão negativa, para estimular a circulação sanguínea, liberar as toxinas existentes no sangue. • A moxabustão é um método terapêutico que visa utilizar determinadas substâncias ou ervas para aquecer pontos de acupuntura ou áreas do corpo a serem tratadas. O calor resultante deste processo produz estímulos que regularizam as funções fisiológicas,por intermédio dos meridianos. RESUMO DO TÓPICO 1 31 AUTOATIVIDADE 1 Com base nos pilares de conhecimentos da Medicina Tradicional Chinesa: a teoria do Yin-Yang, a teoria dos Cinco Elementos e a e teoria do Qi. Sobre o exposto, assinale a alternativa CORRETA: ( ) O Yin e Yang são duas energias opostas que se configuram como expressões do Qi. ( ) Os meridianos são caminhos por onde o sangue percorre, e, quando há bloqueios nessa circulação, na visão da MTC podemos considerar a pessoa doente. ( ) Os cinco elementos não possuem relação direta com a teoria do Yin e Yang. ( ) A doença é o foco maior do tratamento na racionalidade da MTC. 2 Considera-se como parte da MTC diversas práticas que buscam o equilíbrio da energia que circula pelo corpo. Quando há equilíbrio podemos dizer que a pessoa é saudável. Com base nas técnicas estudadas, analise as sentenças a seguir: I- A moxaterapia acontece pelo calor da queima da erva Artemísia sendo aproximada de pontos de acupuntura, costumeiramente utilizadas em locais com deficiência de Yang. II- A acupuntura é uma terapia milenar que pode tratar e prevenir doenças, desbloqueando e normalizando o fluxo de Qi pelo organismo. III– O livro de Nei Jing - Nei Jin, o Tratado de Medicina Interna do Imperador Amarelo, considerado um livro clássico Oriental e o primeiro a citar a prática da acupuntura. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença I está correta. c) ( ) As sentenças II e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 Na visão da teoria dos cinco elementos o mundo natural é constituído de: madeira, fogo, terra, metal e água. Sobre essa teoria, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) É justamente a interação do Yin e Yang que gera as cinco fases (ou os cinco elementos). ( ) Existe órgãos relacionados ao cinco elementos, e todos são relacionados à energia Yang. ( ) Cada um desses elementos tem suas próprias características individuais e simbolizam também as cinco direções diferentes de movimentos dos fenômenos naturais. 32 Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 4 A PNPIC foi um marco para as PICS serem consideradas como práticas seguras e viáveis a serem adotadas inclusive no SUS. Sobre essa política, disserte sobre seus principais marcos evolutivos de 2006 a 2017. 5 As doenças para a MTC são resultantes de uma desordem nas nossas trocas e ritmos Yin-Yang. O estado normal e saudável seria o equilíbrio, porém, existem quatro quadros possíveis de desequilíbrio entre Yin e Yang. Cite-os e disserte exemplos de características das energias Yin e Yang. 33 DANÇA CIRCULAR UNIDADE 1 TÓPICO 2 — 1 INTRODUÇÃO A Dança Circular pode ser compreendida como uma prática de dança em roda, sendo uma vivência grupal que possibilita o despertar de emoções saudáveis e de bem- estar. Sua formação remete à manifestação ancestral e simbólica dos povos na sua condição da busca de sintonia com as pessoas e com o sagrado. Essa prática é também conhecida em alguns países como Dança Sagrada, sendo mundialmente difundida através de um vilarejo chamado Findhorn, localizado na Escócia. Esse lugar, além de ser moradia para algumas pessoas, também recebe visitantes de toda parte do mundo para uma “experiência ímpar de amorosa convivência e de interesse comum pelo estabelecimento de valores mais humanos na vida pessoal e coletiva” (RAMOS, 1998, p. 5). Considera-se a Dança Circular como uma prática terapêutica, capaz de difundir energia através dos movimentos manifestados na roda, promotora de cultura de paz a nível individual, comunitário e universal. 2 HISTÓRIA DA DANÇA CIRCULAR Quando referimos a Dança Circular da forma como a conhecemos nos tempos atuais, o nome Bernhard Wosien é certamente a referência que repercute. Esse bailarino nascido na cidade de Passenheim, na Prússia Oriental, viajou por toda a Europa em busca de danças e música de aldeias remotas, tomado pelo interesse nas formas e simbolismo dos movimentos (BARTON, 2012; WOSIEN, 2015). O homem sempre dançou para expressar diferentes emoções – felicidade, tristeza, alegria, pesar ou êxtase. Antes de ter instrumentos musicais, o homem tinha o seu corpo – para bater palmas e marcar o ritmo com seus pés, para usar sua voz para cantar uma melodia, e todo o seu corpo para expressar a emoção que ele estava sentindo, e agradecer imitando os pássaros, os animais, as árvores e os diferentes elementos da natureza (BARTON, 2012, p. 12). Bernhard Wosien é considerado mundialmente como o pai da Dança Circular, aquele que pesquisou, reuniu e compôs coreografias que remetiam à cultura dos povos, iniciando, assim, a difusão dessa prática na contemporaneidade. Considerando que a dança em forma de roda sempre esteve presente na história, Bernhard se aproximou de diferentes povos para aprender seus rituais e significados. Além de bailarino, ele era pintor e desenhista. No ano de 1976, Bernhard foi convidado para compartilhar os seus 34 conhecimentos das tradições dessas danças na Fundação Findhorn. Ele regressou a Findhorn várias vezes, quase todos os anos seguintes, compartilhando mais coreografias. O montante das danças foi intitulado pelo seu criador de Danças Sagradas, na tentativa de expressar a espiritualidade contida nelas. Mais tarde, também se popularizou pelo mundo como Dança Circular (RAMOS et al., 2002; BARTON, 2012). A Comunidade de Findhorn cresceu, e passou a desenvolver propostas edu- cacionais para o desenvolvimento da paz, além de treinamentos de autoconhecimen- to e desenvolvimento pessoal. Inclusive, no ano de 1997, foi aceita como membro da U NESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) Planet Society Network (BERNI, 2002a). A Dança Circular se estabelece como um instrumento de cultura de paz. Essa prática contribui para disseminação de valores, atitudes e comportamentos que condu- zem ao diálogo, promovendo a aproximação de culturas e prevenindo a violência. Essa prática propicia a integração em roda, formando um grupo com várias singularidades e diferentes modos de se manifestar no círculo. A prática aproxima os participantes no objetivo comum de dançar e de participar de uma vivência que mobiliza o corpo e a mente. “Foi através dessas danças que Bernhard Wosien encontrou meios de trabalhar uma expressão corporal que pudesse transmitir organicamente um estado espiritual de alegria e amor” (RAMOS et al., 2002, p. 179). A Dança Circular é uma atividade que favorece a integração, união, apoio mútuo, a percepção do outro e de si, possibilitando o autoconhecimento e expressão de sentimentos. Até os dias atuais a Comunidade de Findhorn oferece vivências que incluem a Dança Circular Sagrada, seguindo os preceitos de Bernhard Wosien e de sua filha Maria-Gabriele Wosien, que mais tarde tornou-se referência mundial em Danças Sagradas, como o seu pai. Além da sua popularização com outros nomes, diferentes propostas para a utilização da Dança Sagrada surgiram, conforme ocorreu o movimento de expansão da Dança Circular pelo mundo (SUTTER; HAFEMANN, 2021). Figura 13 – Encontro de dança circular Fonte: as autoras 35 No contexto urbano, os grupos que praticam as Danças Circulares também parecem variar. Há os que a utilizam como forma de lazer, outros parecem buscá-la como uma forma terapêutica de toda ordem: quer psicológica, como forma de autoconhecimento, quer na cura de doenças ou, ainda, numa perspectiva mais religiosa, como busca pela transcendência (BERNI, 2002a, p. 21). A vivência com as Danças Circulares geralmente vem repleta de intenções, como o autoconhecimento, convivência,aprendizado sobre a arte e a outras culturas, aprofundamento espiritual ou por prazer, por indicação de profissionais da saúde ou ainda com o propósito de se tornar focalizador (COSTA, 2015). A presença de um focalizador é imprescindível nos encontros de Dança Circular, sobre o desempenho deste protagonista, abordaremos adiante. 3 ELEMENTOS SIMBÓLICOS Os elementos simbólicos que constituem a Dança Circular são fundamentais para a aplicabilidade desta prática com grupos de todas as idades, pois suprimindo tais fundamentos, se anula o processo da proposta na sua origem, estabelecendo-se apenas como uma dança de roda. Por isso, é importante que o mediador dessa prática tenha passado pela formação, proporcionando conhecimentos e habilidades necessárias para a condução de um grupo de Dança Circular. (...) a dança é, em tempo e espaço, um signo, um acontecimento visível, uma forma cinética para o invisível. Na dança, transmite-se, por signos, uma tradição de interioridade objetiva, que aponta para o seu conteúdo. Podemos questionar estes signos. Contudo, temos que começar pelo homem em sua totalidade. O homem vivencia na dança a transfiguração de sua existência, em uma metamorfose transcendente de seu interior, relativa a ser e, também, à elevação ao seu eu divino (WOSIEN, 2015, p. 27). A dança é uma manifestação simbólica do corpo, e os passos da Dança Circular podem trazer muitas formas de expressão. Por exemplo, as mãos direcionadas para o centro podem representar a busca ou entrega da energia, os passos para trás podem representar o passado e para frente o futuro. Geralmente, os movimentos contêm um sentido simbólico que formam a coreografia (SUTTER; HAFEMANN, 2021). A construção da dança, o processo coreográfico, o ritmo presente que necessita estar de acordo com os passos e, por fim, a mensagem que se quer transmitir com os movimentos, é um meio de se conectar com o propósito do que está sendo dançado em grupo. É uma vibração intensa e muitas vezes podemos sentir a energia circulante no ambiente. 36 3.1 A RODA E O CENTRO A humanidade se reunia desde a antiguidade para rituais e celebrações em forma de círculo, sendo o centro considerado como um altar simbólico e de referência para a manifestação com o sagrado. “O círculo tem um centro invisível, um fogo sagrado no centro de uma lareira redonda. Os antigos gregos chamavam essa fonte de luz e calor de Héstia, a divindade feminina no centro, Deusa da Lareira e do Templo” (BOLEN, 2003, p. 97). Na Dança Circular, o focalizador providencia um centro físico e o situa no meio da roda, na intenção de simbolizar elementos que se aproximem com a temática do encontro, e com os fundamentos dessa prática. Figura 14 – Exemplo de centro Fonte: as autoras Preparar o espaço, estabelecer um centro faz parte do ritual das danças sagradas. Tal como o círculo, tudo converge para o centro. É nele que está simbolizada a fonte, a criação, a luz, o ponto comum que une a todos. É ao redor de um centro que a roda gira. Este centro pode ser imaginário ou concretamente delimitado com toalhas, lenços coloridos, velas, flores, incensos e outros arranjos com objetos ou símbolos diversos (OSTETTO, 2014, p. 68). O significado simbólico do centro está atrelado ao centro de energia, como nos costumes da antiguidade. Nele, podemos incluir objetos para compor a intenção desejada, como imagens, fotos, mensagens, cristais, flores e velas. Em um encontro destinado particularmente à Dança Circular, geralmente, os participantes já dançaram ou tem algum conhecimento prévio sobre a prática. Eles manifestam a alegria por estarem presentes desfrutando da companhia de amigos dançantes em estado de união e paz (SUTTER; HAFEMANN, 2021). 37 Atualmente, percebemos cada vez mais pessoas buscando a prática da Dança Circular, atribuímos como fator o estresse e ansiedade, e essa prática pode auxiliar através de seus benefícios, que serão descritos ao longo do conteúdo. É uma prática que não exige que o participante saiba dançar, o interessado necessita somente se colocar presente na vivência, desfrutando do encontro na sua totalidade. Para dançar, os participantes em formação de círculo, iniciam de mãos dadas. A palma da mão direita fica voltada para cima, encontrando a mão esquerda do parceiro ao lado que está voltada para baixo e assim por diante. “Ao dançar, o mundo é de novo circulado e passado de mão e mão. Cada ponto na periferia do círculo é ao mesmo tempo um ponto de retorno” (WOSIEN, 2015, p. 120). Figura 15 – Formação em círculo Fonte: as autoras Essa disposição facilita a movimentação de energia pelo organismo, conforme os meridianos mapeados pelo corpo. Conforme afirma Berni (2002b), é possível sentir o calor emanando pelas mãos em direção ao corpo, já que a mão que está para cima recebe a energia, e a que está voltada para baixo doa a energia. “Foi também através da Dança que o Homem encontrou a si mesmo e ao outro, que rompeu fronteiras e deu as mãos na roda de ser. De, simplesmente, ‘Ser Humano’” (BERNI, 2002a, p. 59). Assim, a união do grupo através da forma estabelecida, possibilitará a movimentação de uma única energia enquanto se dança, formando uma totalidade constituída por cada um. O círculo tem como simbologia original a eternidade, e cada ponto dele possui a mesma distância para com o centro, assim todos na roda possuem o mesmo centro visual comum (WOSIEN, 2015). O Círculo conjuga o grupo como uma unidade, assim todos são pertencentes ao campo energético criado pelas danças. Os movimentos gerados pelo grupo esta- belecem um padrão vibratório na roda da Dança Circular, que podem ser percebidos pelos dançantes. 38 4 O FOCALIZADOR O termo “focalizador” é utilizado para designar o instrutor, mediador ou aquele que conduz o grupo de Dança Circular. É uma designação oriunda da Comunidade de Findhorn. No Brasil, as danças vieram através de pessoas que se formaram em Findhorn, 1984 esteve por seis meses na comunidade, e mais tarde, nos anos 1990, a professora Renata Ramos (SUTTER; HAFEMANN, 2021). Na configuração das Danças Circulares, o focalizador é a pessoa que realiza a mediação do grupo, porém, suas atribuições vão além disso. Ele é o eixo central dessa prática, já que é nele que se concentra a atenção e a liderança na condução da dança. Pode ser considerado como um condutor de energia, que, com seu magnetismo, guia o grupo e une os integrantes a um sentimento de pertencimento ao todo. Na formação para focalizadores, serão apresentados vários estilos coreográficos e, depois, ele descobrirá quais tipos de dança possui preferência para incluir no repertório, traçando o seu próprio modo de estar conectado com a prática e conduzindo os demais integrantes na roda. Eu cuido para que a maioria do grupo aprenda os passos antes de eu tocar a música. Isso exige algum malabarismo para ajudar os lentos e não deixar os rápidos se entediarem. Portanto, posicionar- se ao lado de alguém que precisa de ajuda e sugerir que outro aprendiz lento observe o dançarino (dizer o nome) que pegou os passos, invariavelmente faz com que a pessoa que você chamou conscientemente ajude o outro e, portanto, não se entedie. Tendo aprendido os passos na velocidade real da música, lá vamos nós (BARTON, 2012, p. 51). Ramos (2002, p. 7) enfatiza a criação de cursos de Danças Sagradas no Brasil dos anos 1980 em diferentes âmbitos, como “clínicas, institutos, escolas, empresas, órgãos públicos, praças, universidades, congressos e centros de cultura”. A partir daí, o movi- mento das danças circulares se expande e focalizadores de vários estados brasileiros se habilitam para ofertar a mediação com os fundamentos originários dessa prática. Se é o focalizador que apresenta a coreografia,demonstra os passos e acompanha o grupo no seu processo de crescimento, seja numa única sessão ou numa série de encontros, é ele também que está com a responsabilidade de “ler” os movimentos do grupo, dando- lhe continente quando necessário. Na medida que fica atento ao desenvolvimento da roda, pode criar e garantir um ambiente propício, aberto ao fluir leve e flexível da dança, para que o encontro aconteça da forma mais plena possível (OSTETTO, 2014, p. 69). Na Dança Circular, é possível perceber a aplicação de diferentes estilos de coreografias. Com o tempo, o focalizador vai desenvolvendo uma dinâmica única que imprime o seu modo de conduzir a roda e infundir o seu magnetismo da presença que se diferencia dos demais. O dançante pode, inclusive, frequentar diferentes rodas de dança circular que contenha a mesma coreografia daquela determinada música, sendo mediada por focalizadores distintos e será evidente a composição única do estilo. Tal vivência reverberará de modo diferente em cada participação e entrega no círculo. 39 A Dança Circular é expressa de forma orgânica, ou seja, flui naturalmente. Há uma nova consciência que se adquire ao vivenciar a experiência da Dança Circular quando nos entregamos ao movimento dela. A cristalização de outros formatos de dança nessa prática está equivocada. (BARTON, 2012). É importante não confundir outros estilos de dança com essa prática ancestral. São atribuições do focalizador, a escolha do repertório e coreografias, a elaboração do centro, o ensino das coreografias de forma simplificada aos participantes, assim como acolher o grupo frente às demandas que surgirem. Espera-se que durante a dança não haja interrupções, mesmo que ocorra “erro” dos passos ou outra distração entre os integrantes. As orientações necessárias podem ser repassadas ao final da coreografia, para que não aconteçam interferências constantes na vivência. É comum que o encontro de Dança Circular seja iniciado por uma dança me- ditativa, mais calma, para que o participante possa se tranquilizar e estar “presente” na roda. Dessa forma, a primeira dança tem como objetivo a conexão com os dançantes e a inteireza da presença deles nesse momento. Assim como a música inicial é geralmente de caráter meditativo, no término do encontro também é indicado uma dança que pos- sui a intenção de acalmar e introspectar, para que os participantes finalizem a prática em estado de harmonia e paz (SUTTER; HAFEMANN, 2021). “A dança circular pode ser considerada como uma dança social, já que possibili- ta o despertar para a promoção do bem-estar geral do indivíduo” (TABORDA, 2015, p. 61). Essa sensação é manifestada e percebida pelos participantes, sendo comum relatarem ao final de cada repertório e coreografia dançada e compartilhada em grupo. Com a disseminação do movimento da Dança Circular, várias músicas coreografadas passaram a ser regionais, não fazendo parte do repertório de danças folclóricas (RAMOS, 2002). Assim, as músicas contemporâneas podem ser utilizadas no repertório das Danças Circulares, porém o seu significado necessita ser analisado para que não se distancie dos fundamentos dessa prática. “Atualmente, existem músicas clássicas de Bach ou Vivaldi, por exemplo, coreografadas para um propósito específico, direcionando as pessoas da roda a compartilharem uma mesma atitude, que unifica a linha de pensamentos” (RAMOS, 2002, p. 180). À medida que as experiências dançantes acontecem, a compreensão sobre o contexto da Dança Circular é ampliada. Cada encontro é único e promove uma baga- gem de conhecimentos que podemos e devemos utilizar a favor de novas vivências. Quando o grupo é formado por idosos, provavelmente o focalizador terá a necessidade de adaptar algumas coreografias para esse público. A adaptação de coreografias con- forme o público que se constitui no grupo, além de outras demandas específicas, abor- daremos adiante no subtópico “Possibilidades e Desafios para a Difusão da Prática da Dança Circular”. 40 As músicas, elencadas para o contexto da Dança Circular, promovem bem- estar, diminuem o estresse e a ansiedade. Caberá ao focalizador selecionar o repertório de acordo com a intenção desejada para ser aplicada no encontro. Na Dança Circular o repertório inclui, principalmente, as danças étnicas, pertencentes a uma nação e à cultura de um determinado povo, simbolizando a sua expressão musical e corporal. Elas possuem os passos originais, dançados até hoje da mesma forma que antigamente (SUTTER; HAFEMANN, 2021). É comum, na prática da Dança Circular, a oferta de vivências através de encontros temáticos, como: Danças Meditativas, Danças dos Povos antigos, Danças de Celebrações, Danças alusivas à mudança das estações, Danças folclóricas, Dança Circular para a criança interior, Danças com repertórios terapêuticos (florais de Bach, chakras, conexão com o sagrado, nessa categoria poderia ser incorporada também as danças meditativas.), Danças Circulares em cadeiras, sendo inclusiva e integrando pessoas com deficiências motoras e idosos com problemas de equilíbrio. As temáticas, geralmente, são aplicadas também na oferta de oficinas, que podem ser incorporadas na programação com um conteúdo mais abrangente, sendo intercaladas danças e reflexões sobre determinado assunto. Caracteriza-se, dessa forma, um encontro em grupo, unidos pelo círculo, que se interrelaciona com suas memórias, percepções e sentimentos que são compartilhados na roda. Nesse desvelar coletivo, os participantes dançam na vibração íntima do que foi trabalhado com o repertório pré-selecionado pelo focalizador que, de antemão, já possui um objetivo específico para alcance com a vivência aplicada. Como citado por Barton (2012, p. 17), as danças também são “usadas com crianças, com pessoas com deficiência, em hospitais e igrejas, em celebrações e para ajudar pessoas a adquirir confiança em si com o apoio de seus grupos”. A Dança Circular com crianças é um meio de levar os benefícios terapêuticos dessa prática também para essa faixa etária. As rodas aplicadas pela focalizadora e psi- cóloga Debora Dubner, refletem a sua vivência com a prática infantil. A autora relata que eles se aproximam também das danças com repertório meditativo, e que o resultado é surpreendente (DUBNER, 2015). Dubner (2015) enfatiza que no início é comum as crianças estranharem certas melodias que nunca ouviram, mas é algo esperado, e deve ser tratado naturalmente pelo focalizador. Essa situação também é comum com os adultos, quando ouvem uma música pela primeira vez, numa melodia que geralmente não é de escolha ou acesso habitual. Ela relata que depois de algumas rodas, as músicas desconhecidas tornam-se grandes amigas das crianças, sendo importante repetir a coreografia várias vezes para o repertório se tornar familiar. As rodas de Dança Circular já são, inclusive, aplicadas há muitos anos em alguns espaços educacionais pelo Brasil, e ofertadas no contraturno escolar das crianças. 41 5 A DANÇA CIRCULAR COMO PRÁTICA INTEGRATIVA E COMPLEMENTAR DE SAÚDE Em 2017, a Dança Circular foi implantada como uma PICS pelo Ministério da Saúde dentro SUS, sendo contemplada como uma vivência terapêutica dentro da PNPIC (BRASIL, 2017). A partir da inclusão da dança circular na Portaria nº 849/2017, esta foi reconhecida como uma prática integrativa e complementar de saúde, sendo legitimada para sua aplicação no SUS. Atualmente, é utilizada como um recurso de intervenção à saúde, não medicamentoso que promove a conexão de mente e corpo, viabilizando o relaxamento, concentração e conscientização corporal (ALMEIDA, 2005). Nesse sentido, a aplicabilidade da Dança Circular no SUS poderá ser inserida nos Grupos de Educaçãoem Saúde, através da sua introdução com algumas danças nos grupos específicos de atuação com o usuário na Unidade Básica de Saúde (UBS). Os grupos de diabéticos, de hipertensos também podem ser uma estratégia de atuação aliando a prática da Dança Circular no espaço de saúde. Outra possibilidade é ofertar um Grupo de Dança Circular na UBS, promovendo as ações em conjunto com a área da saúde e usuários. A cidade de São Paulo foi a primeira capital a inserir as práticas integrativas e complementares de saúde como estratégia de oferta no âmbito do SUS, sendo utilizada como recurso terapêutico. No estudo de Rodrigues et al. (2009), identificou-se que 19 indivíduos apresentaram melhora no aspecto emocional, no padrão do sono e diminuição de dores com essa prática. A dança circular promove efeitos positivos em todos os aspectos, promovendo a saúde de forma integral ao praticante. 5.1 BENEFÍCIOS DA DANÇA CIRCULAR Os benefícios da Dança Circular são amplos, e muitos participantes percebem seus efeitos positivos na adesão continuada dessa prática, como: • desperta a atenção ao ritmo e coordenação motora; • aprimora o equilíbrio; • melhora a circulação sanguínea e oxigenação; • viabiliza a integração em grupo; • possibilita o autoconhecimento e autoconfiança; • promove a melhora da concentração e memória (auxiliando na função cognitiva); • desperta a sensação de bem-estar e de emoções saudáveis; • promove a meditação e o relaxamento. 42 A dança é também usada como uma ferramenta para canalizar a energia de cura para os dançarinos e para o restante do planeta. Nós não estamos apenas aprendendo danças como indivíduos, mas estamos nos unindo para criar alguma coisa a mais em um nível emocional, mental e espiritual” (BARTON, 2012, p. 17). Desse modo, a Dança Circular atua além da promoção da saúde e da prevenção de doenças, ela reverbera amor coletivamente! É utilizada em diferentes locais de atuação e na sua aplicação em grupos, possibilitando a qualquer pessoa participar! A Dança Circular pode ser, inclusive, implantada em hospitais. Santos et al. (2021), conduziram essa prática integrativa em uma maternidade pública na Bahia. As pesquisadoras ressaltaram em seu estudo que realizaram visitas para ambientação, e que os setores estavam aptos para receber as ações propostas, sem causar prejuízos à rotina do serviço. O espaço destinado à atividade permitia o uso de som em baixo volume e a realização das coreografias. A programação contou com a colaboração da equipe de saúde, que se mostrou receptiva à prática de Dança Circular nesse ambiente. A Dança Circular foi considerada como uma estratégia de cuidado satisfatória, de forma humanizada, capaz de promover o bem-estar, integração, relaxamento, benefícios físicos, espirituais e psicológicos para gestantes, puérperas, acompanhantes, equipe de saúde, discentes e docentes (SANTOS et al., 2021). No município de Blumenau/SC, tivemos a oportunidade de ofertar um encontro de Dança Circular para os profissionais de saúde de um hospital público. A ação dirigida para uma roda com um público específico, possibilitou trabalhar de uma forma pontual nas demandas das queixas do grupo, como o estresse, ansiedade e cansaço. O repertório utilizado foi fundamentado nas danças meditativas para promover o acolhimento, o relaxamento e bem-estar. Outro exemplo bem-sucedido, aproximando a Dança Circular no cenário da saúde, foi o resultado da pesquisa de Silva et al. (2019), envolvendo um projeto de extensão universitária no Estado de Goiás. A aplicação da ação envolvendo a PICS da Dança Circular foi ampliada para vários locais de acesso aos universitários, docentes, profissionais de saúde e usuários do SUS, como o CAPS – Centro de Atenção Psicossocial –, ESF – Estratégia de Saúde da Família –, UBS – Unidades Básicas de Saúde –, entre outros espaços de convivência na Universidade. Os usuários relataram que as vivências com a Dança Circular proporcionaram alegria, conexão com as pessoas na roda e uma sensação de bem-estar. Os autores do estudo ressaltam a importância da implantação dessa prática em vários ambientes, proporcionando qualidade de vida para a população e como uma estratégia para reduzir gastos na saúde pública. 43 As PICS, em comparação a outros custos de despesas no SUS, possui um percentual de menos de 1% para o Ministério da Saúde. “A implantação das PICS nos municípios tem registrado diminuição no uso de analgésicos, anti-inflamatórios e encaminhamentos para exames de alta complexidade, ou seja, promove economia nas unidades de saúde, além de melhorias na qualidade de vida da população beneficiada (CARVALHO, 2018, p. 1). Os estudos que temos realizado, principalmente em atendimentos especializados, demonstram que a relação entre o investimento e a efetividade das PICS é de muito bom retorno, visto que uma consulta em PICS não costuma gerar outras demandas na sequência. Ou seja, normalmente, o terapeuta consegue resolver a maioria dos casos sem precisar enviar para outros especialistas ou realizar novos exames, o que geraria mais gastos e estresse aos usuários do SUS (CARVALHO, 2018, p. 1). Ressalta-se que a Dança Circular é uma Prática Integrativa e Complementar de Saúde, neste caso, não possui o objetivo de substituir os tratamentos convencionais de saúde. Todos os benefícios já conhecidos e constatados dessa prática, acabam contribuindo para a qualidade de vida do praticante, sendo, inclusive, uma aliada na terapêutica para a manutenção da saúde das pessoas. Para o público idoso, os benefícios da Dança Circular tornam-se ainda mais evidentes. Para Silva et al. (2021, p. 10), essa prática para as pessoas acima de 60 anos possibilita resgatar um ser mais saudável, ou seja, “um ser que sente menos dores, se relaciona melhor com as outras pessoas, se sente mais tranquilo, paciente, solto, falante, participativo e otimista, sendo capaz de aprender coisas novas, resgatar boas lembranças do passado para viver um presente mais feliz”. A pessoa idosa se beneficia ainda mais com a prática da Dança Circular, inclusi- ve no âmbito social, pois os encontros favorecem a interação com outras pessoas, pos- sibilitam a criação de vínculos e momentos de descontração e amizade. Tais aspectos, muitas vezes, não são mais estimulados após a aposentadoria, condicionando o idoso a restringir seu círculo afetivo e social. O envelhecimento ativo é uma iniciativa a ser seguida, de fomento a uma vida saudável e de protagonismo da pessoa idosa frente à garantia dos seus direitos. O atendimento integral à saúde do idoso inclui ações de prevenção, promoção, proteção e recuperação da saúde. Também prevê a participação em grupos de terapias complementares e programas de atividades físicas (ZUCCO, 2017). A Dança Circular ainda necessita ser mais difundida entre os profissionais de saúde, para que se aproximem dessa prática e a reconheçam como possibilidade de atuação com os usuários. 44 5.2 POSSIBILIDADES E DESAFIOS PARA A DIFUSÃO DA PRÁTICA É comum muitos focalizadores, mesmo com a formação em Dança Circular, possuírem dificuldades na aplicabilidade da DC em grupo. Esta situação ocorre por diversos fatores, como a insegurança de conduzir um grupo, exposição e receio de julgamentos, dificuldades na memorização e aplicação da coreografia na roda, diversidades no processo de ensino das coreografias para os participantes, fragilidades no conhecimento dos fundamentos da DC e dificuldades de desempenhar o seu papel como focalizador na sua totalidade. Além disso, como já dito anteriormente, cada encontro de DC se configura numa vivência única. Nesse caso, se os participantes nunca tiveram contato com a prática, caberá ao focalizador explicar,ainda no início da formação da roda, os fundamentos da DC e como o encontro acontecerá. Essa iniciação é importante para sanar dúvidas e garantir que os integrantes se integrem de forma natural ao processo, pois é comum ocorrer um estranhamento no primeiro contato com a Dança Circular. O centro geralmente é alvo de questionamentos, por isso, antes de iniciar as danças realiza-se esse momento introdutório, esclarecendo que a prática da Dança Circular não está ligada a nenhuma religião. É possível também que algumas pessoas solicitem ensaios para “acertar” a coreografia, remetendo a exigência intrínseca de “não errar”, se preocupando com a técnica coreográfica. Dessa forma, enfatiza-se no grupo que na Dança Circular não há uma exigência de acerto dos passos. A vivência é considerada mais importante do que a coreografia perfeita. As coreografias voltadas para públicos com alguma dificuldade envolvendo equilíbrio, costumam ter passos básicos, por exemplo: dois passos e dois balanços em direção à roda. Músicas meditativas aderem a essa configuração de passos e possibilitam a execução sem grandes dificuldades, já os giros e os passos cruzados devem ser evita- dos. O focalizador poderá identificar essas especificidades na medida que for aplicando as coreografias para os grupos, tendo atenção para prevenir possíveis acidentes. O cuidado na escolha do repertório é uma atenção básica para a vivência ser bem-sucedida. No caso dos idosos, poderão ocorrer dificuldades de coordenação motora, dessa forma, passos simples e possíveis de serem executados são mais indicados. As coreografias devem evitar os giros quando os participantes relatarem tonturas. Ressalta-se que essas condições não são consideradas como regra em todos os grupos, mas a atenção a elas é indispensável. Geralmente, os idosos que participam dos grupos de Dança Circular recebem bem as músicas instrumentais e aquelas que marcaram época, principalmente a deles, já que trazem à tona momentos particulares que eles se recordam (SUTTER; HAFEMANN, 2021). 45 A formação de um grupo de Dança Circular misto, com faixas etárias diferentes, também se torna uma possibilidade de vivências interessantes, já que essa é a formação da raiz da Dança Circular, que promove a união de pessoas sem a preocupação de categorizar por idade, sexo ou etnias. Essa configuração na prática de um grupo aberto acaba, muitas vezes, sendo um meio facilitador para algumas dificuldades encontradas pelos dançantes mais idosos na roda, por exemplo. Dessa forma, aquele integrante que possui mais fluidez nos passos, pode ficar ao lado do que tem mais dificuldades, se tornando um espelho para o outro realizar o movimento. Barton (2012, p. 31) traz uma reflexão sobre a questão dos passos e o “acerto” coreográfico, já que, segundo ela, não devemos ser rígidos quanto a isso na Dança Circular, pois “corre-se o risco de perder o andamento orgânico e natural das danças”. A autora enfatizava que oscilava nas rodas como um pêndulo, de rígida a complacente, várias vezes. O movimento na Dança Circular necessita despertar de forma orgânica em cada um. No primeiro momento, talvez isso não ocorra de forma natural, mas ao logo da prática esse reconhecimento da singularidade de cada um na roda é tomado pela consciência e considerada no grupo. 46 Neste tópico, você aprendeu: • A Dança Circular pode ser compreendida como uma prática de dança em roda, sendo uma vivência grupal que possibilita o despertar de emoções saudáveis e de bem- estar. • Considera-se a Dança Circular como uma prática terapêutica, capaz de difundir energia através dos movimentos manifestados na roda, promotora de cultura de paz a nível individual, comunitário e universal. • Bernhard Wosien é considerado mundialmente como o pai da Dança Circular, aquele que pesquisou, reuniu e compôs coreografias que remetia a cultura dos povos, iniciando assim a difusão dessa prática na contemporaneidade. • Os elementos simbólicos que constituem a Dança Circular são fundamentais para a aplicabilidade desta prática com grupos de todas as idades, pois suprimindo tais fundamentos, se anula o processo da proposta na sua origem, estabelecendo-se apenas como uma dança de roda. • O termo “focalizador” é utilizado para designar o professor, mediador ou aquele que conduz o grupo de Dança Circular. É uma designação oriunda da Comunidade de Findhorn. • É importante não confundir outros estilos de dança com essa prática ancestral. São atribuições do focalizador, a escolha do repertório e coreografias, a elaboração do centro, o ensino das coreografias de forma simplificada aos participantes, assim como acolher o grupo frente às demandas que surgirem. • Enfatiza-se no grupo que na Dança Circular não há uma exigência de acerto dos passos. A vivência é considerada mais importante do que a coreografia perfeita. • A partir da inclusão da dança circular na Portaria 849/2017, esta foi reconhecida como uma prática integrativa e complementar de saúde, sendo legitimada para sua aplicação no SUS. RESUMO DO TÓPICO 2 47 AUTOATIVIDADE 1 A Dança Circular é compreendida como uma prática terapêutica, e reconhecida como uma PICS. Dessa forma, sobre o exposto, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A Dança Circular possui efeitos benéficos para o corpo e a mente do praticante. b) ( ) A origem da Dança Circular é oriental, sendo difundida através da prática meditativa. c) ( ) O círculo presente nas rodas é um simbólico do budismo. d) ( ) A prática da dança circular não é recomendável para os idosos. 2 O termo “focalizador” é utilizado para designar o professor, mediador ou aquele que conduz o grupo de Dança Circular. É uma designação oriunda da Comunidade de Findhorn. Com base nas suas atribuições, analise as sentenças a seguir: I- As músicas, elencadas para o contexto da Dança Circular promovem bem-estar, diminuem o estresse e a ansiedade. Caberá ao focalizador selecionar o repertório de acordo com a intenção desejada para ser aplicada no encontro. II- Para ser focalizador é necessário ser habilitado, dessa forma, o mediador terá garantias de não apresentar dificuldades em conduzir o grupo de Dança Circular. III- O focalizador é o eixo central da Dança Circular, já que é nele que se concentra a atenção e a liderança na condução da dança. Pode ser considerado como um condutor de energia. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 A dança em forma de roda é considerada uma expressão humana que sempre esteve presente na história. Atualmente a Dança Circular reúne vários tipos de danças tradicionais de diferentes culturas e locais do mundo. Sobre os fundamentos da Dança Circular, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) Bernhard Wosien é referência na história da Dança Circular, sendo nascido na Prússia Oriental, viajou por toda a Europa em busca de danças e música de aldeias remotas. ( ) O Vilarejo de Findhorn foi o local de origem de diversas práticas terapêuticas, além das danças circulares, também ofertavam a acupuntura, o shiatsu e o reiki. 48 ( ) Na Dança Circular há um centro físico no meio da roda, que possui elementos simbólicos que se aproximam com a temática do encontro e com os fundamentos dessa prática. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 4 Os benefícios da Dança Circular são amplos e muitos participantes percebem seus efeitos positivos na adesão continuada dessaprática. Descreva os benefícios apontados no estudo. 5 Atualmente, a Dança Circular é utilizada como um recurso terapêutico, não medica- mentoso e que promove muitos benefícios à saúde. Nesse contexto, disserte sobre a sua aplicabilidade no SUS. 49 TÓPICO 3 — BIODANÇA UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Acadêmico, no Tópico 3 abordaremos sobre a PICS Biodança, difundida em diversos espaços no Brasil. Assim como a Dança Circular, a Biodança possui bases filosóficas que serão descritas ao longo deste Tópico. Ela é considerada um sistema terapêutico que promove o bem-estar dos praticantes, como prática social, instaura vivências singulares e pode ser transformadora. A Biodança ou “dança da vida”, é fundamentada no Princípio Biocêntrico, que sugere a visão de que o universo é organizado em função da vida, nesse caso, a vida tem o maior valor e deve ser respeitada. A utilização do termo “vivência” também é uma de suas características, valorizando a espontaneidade e ineditismo de cada encontro. Sabemos que o ser humano é relacional por natureza, um encontro de Biodança é caracterizado pela relação consigo, com o outro e com o universo. Possibilita a afetividade e promove os potenciais saudáveis de cada integrante, por intermédio da música e da dança em um encontro grupal. 2 HISTÓRIA DA BIODANÇA A Biodança foi criada na década de 1960 por Rolando Toro, um psicólogo chileno que viveu de 1924 a 2010. Toro (2002, p. 33) estabelece que esta metodologia "consiste em induzir vivências integradoras por meio da música, do canto, do movimento e de situações de encontro em grupo". Os exercícios desenvolvidos por Toro são propostos pelo facilitador do grupo, ressaltando a essência da prática como movimento integrativo, com base no conceito de viver “o aqui e o agora”. E a Biodança nasceu nestes primeiros anos, entre 1968 e 1973, quando Rolando Toro assumiu como docente na Cátedra de Psicologia de Arte e Expressão, no Instituto de Estética, da Pontifícia Universidade Católica do Chile e, também, como professor do Centro de Antropologia Médica da Escola de Medicina da Universidade do Chile. A Biodança teve suas primeiras experiências ao ser aplicada por Rolando Toro no Hospital Psiquiátrico do Chile e no Instituto de Estética em que ele atuava como docente. As pesquisas realizadas durante este período permitiram-lhe estruturar um modelo teórico que possibilitava ao psicólogo um novo horizonte de trabalho. De fato, em 1970, foi criada no Departamento de Estética da Universidade Católica do Chile a primeira disciplina de Psicodanza. Em 1976, a denominação inicial foi substituída por Biodanza, modificação na qual o fundador inspirou-se no conceito de “dançar a vida” proposto pelo filósofo Roger Garaudy, justificando o termo Psicodança (REIS, 2009, p. 75). 50 Acadêmico, antes de continuar com a leitura, convidamos você a assistir ao vídeo que demonstra como ocorre um encontro de Biodança. Acesse em: https://www.youtube.com/watch?v=ACRFGEU7IJQ. DICA Toro estudou a antropologia e história da dança, e observou que o sentido original da dança é ser movimento de vida. Esse conhecimento, inclusive, antecede a palavra como forma de se relacionar com o outro (REIS, 2009). Ele também se inspirou no movimento oriental do sufismo, nas poesias de Rûmî, um teólogo e poeta sufi. Assim como para Bernhard Wosien na Dança Circular, a dança dos sufis, caracterizada por uma espécie de oração em movimento, onde os derviches realizam movimentos giratórios para entrar em comunhão com o sagrado, foi fonte de inspiração para a Biodança (WOSIEN, 2002). A experiência de Toro em hospitais psiquiátricos, envolvendo música e dança deu espaço para a experimentação de suas técnicas, pensando na humanização da medicina. Ele trabalhava com psicoterapia de grupo, arteterapia, psicodrama, entre outros. Com a observação dos pacientes, foi possível constatar que a música tem influência no psiquismo, pois alguns deles chegavam a entrar em “transe”. O trabalho de Toro foi estruturado, então, pela música, os movimentos e o contato afetivo dos integrantes. Ele criou os exercícios da Biodança a fim de potencializar a vitalidade, criatividade, o erotismo e a comunicação afetiva (NOUSIAINEN, 2007). No Brasil, foi criada a Rede Biodanza Brasil, conceituada como (...) uma Associação civil juridicamente constituída, sem fins lucrativos, composta por Escolas de Biodanza. Nossas Escolas estão localizadas em diferentes Estados do país: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Paraíba. A Associação é filiada à International Biodanza Federation, uma instituição que congrega o movimento de Biodanza mundialmente. O objetivo maior é contribuir para o fortalecimento mundial da Biodanza através de práticas colaborativas que envolvam Associações, Escolas de Formação, facilitadores/as, alunos/as de formação, assim como pessoas e instituições interessadas na área. A Rede Biodanza Brasil está estruturada a partir do legado deixado pelo criador da Biodanza, Rolando Toro Arañeda (REDE BIODANZA BRASIL, 2022, s. p.). Para se tornar um facilitador de grupos de Biodança, o curso de formação tem a duração mínima de três anos, além disso, as escolas recomendam ser participante de um grupo sistemático, necessitando possuir pelo menos 50h de vivência na prática. Ressalta-se também que o professor esteja vinculado à Associação Brasileira de Esco- las de Biodanza. “Atualmente, a Biodança está presente em 38 países, com aproxima- damente 200 escolas de formação de facilitadores, sendo 23 no Brasil e quatro no Rio Grande do Sul” (SECRETARIA ESTADUAL DA SAÚDE DO RIO GRANDE DO SUL, 2018, p. 7). https://www.youtube.com/watch?v=ACRFGEU7IJQ 51 3 FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS E BENEFÍCIOS DA BIODANÇA Podemos dizer que a Biodança é uma forma de meditação, conforme Toro (2002, p. 13), A base conceitual da Biodanza provém de uma meditação sobre a vida; do desejo de renascermos de nossos gestos despedaçados, de nossa vazia e estéril estrutura de repressão; provém, com certeza, da nostalgia do amor. (...) A Biodanza é por isso uma ampla transgressão dos valores culturais contemporâneos, das imposições de alienação da sociedade de consumo e das ideologias totalitárias. Propõe- se restaurar no ser humano o vínculo original com a espécie como totalidade biológica, e com o universo como totalidade cósmica”. Segundo o poeta sufi Rûmî, citado por Toro Araneda e Acuña (2010, p. 13), “todo o universo está dançando”: “Oh dia, te levanta!... os átomos dançam, as almas, arrebatadas de êxtases, dançam, a abóboda celeste, por causa desse ser, também dança. Te direi ao ouvido para onde conduz sua dança: Todos os átomos que existem no ar e no deserto, entendes bem, estão apaixonados como nós, e cada um deles, feliz ou desgraçado, se encontra deslumbrado pelo sol da alma livre” . “Uma sessão de Biodança é um convite para entrar na dança do Universo. Todos os seres nascem com um impulso para dançar e para desfrutar a música, porque o Cosmos é musical” (TORO ARANEDA, ACUÑA, 2010, p. 13). Em uma vivência, o contato com o outro é essencial e promove a afetividade e emoções positivas. A violência existente na sociedade faz com que o ser humano, muitas vezes, se distancie do amor, da empatia, e a Biodança procura estimular esse amor a si mesmo, ao outro e ao universo. Assim, a Biodança: Não tem o sentido clássico de dança. Quanto às áreas de aplicação a Biodança é aplicada em Educação; Biodança para a saúde (complementação terapêutica) e Biodança para organizações. Uma característica metodológica da Biodança é sua ação sobre a parte saudável do indivíduo. Utiliza uma metodologia cujos mecanismos induzem mudanças orgânicase existenciais, muito embora, para muitas pessoas os efeitos da Biodança são inexplicáveis. Danças e exercícios curam enfermidades psicossomáticas e elevam a qualidade de vida (VECCHIA, 2005, p. 1). 52 Seus benefícios são inúmeros. Dentre eles, podemos citar: • Na biodança acredita-se que, por meio das lentes da afetividade do mundo intrapsíquico, a pessoa poderá valorizar de forma menos traumática os conflitos íntimos, suas frustrações e sentimentos de perdas. • As cerimônias de encontro despertam a sensibilidade elevando qualidade da saúde, para desenvolver potenciais herdados geneticamente e restabelecer o vínculo afetivo de nós mesmos com o próximo e com a natureza. • A troca de calor e afeto, e ao som da música o corpo passa por uma dança de hormônios (substâncias produzidas por glândulas de secreção externa) e de neurotransmissores, de forma que o centro regulador límbico-hipotalâmico (centro das emoções e instintos) pode gerar entre outras coisas a resistência ao estresse e um melhor funcionamento dos órgãos internos. • Por meio dos movimentos e músicas vigorosas a noradrelina e dopamina (neurotransmissores) podem ter sua produção estimu- lada provocando uma reação adrenérgica no organismo, propor- cionando energia e disposição. • Por meio da dança, da música e de movimentos específicos o indivíduo pode entrar em contato consigo mesmo, integrando o psíquico e o somático, de forma a interferir positivamente no seu pensar sentir e agir. • Esse processo de renovação, por meio da vivência, (re) conduz o participante ao papel de principal personagem da sua própria vida, fortalecendo sua identidade, ao mesmo tempo em que desenvol- ve sua vinculação com a espécie. Somos todos iguais, nas emo- ções, nos desejos, na alegria e no sofrimento (CANTOS, SCHÜTZ, 2007, p. 1). Observamos que a prática da Biodança, além de ser benéfica para a saúde, pode ser utilizada em diversos contextos e com todas as idades. "A dança é espontânea e livre, sem uma coreografia ou técnica específica. O objetivo é deixar o praticante livre para se expressar a sua maneira. Apesar disso, existe uma proposta que envolve o tema sugerido pelo facilitador, que serve como um norte para os dançarinos" (RODRIGUES, 2012, p. 1). A ausência de formatação de uma coreografia, permite que o praticante imprima seu próprio modo de dançar no grupo, sem especificações técnicas e com liberdade para os movimentos. 4 LINHAS DE VIVÊNCIA Toro criou cinco linhas de vivência em Biodança, sendo que cada linha repre- senta a expressão de potencialidades genéticas que podem ou não se desenvolver no organismo (REIS, 2009). A expressão desse potencial genético se dá através das linhas de vivência, que serão descritas no quadro a seguir: 53 Quadro 4 – Linhas de vivência da Biodança Fonte: adaptado de Biodanzario (2022) V IT A L ID A D E A vitalidade se caracteriza, em termos gerais, por harmonia orgânica e um bom nível de saú- de. Do ponto de vista existencial, vitalidade é possuir fortes motivações para viver e possuir energia disponível para a ação (ímpeto vital). Sentimentos de alegria interior, entusiasmo, plenitude existencial são características de uma pessoa vital. A vitalidade está vinculada ao humor endógeno (estados de ânimo, eufórico ou depressivo). A integração das cinco linhas de vivência reforça a vitalidade devido à elevação global das motivações para viver. O amor à natureza, os jogos e o vínculo com os próprios instintos são características do “homem ecológico” – homem integrado a si mesmo, às pessoas e ao universo. A qualidade da vida não provém do êxito social ou econômico, mas sim dos vínculos profundos de co- nexão com a vida. S E X U A L ID A D E Em seu sentido mais amplo, a sexualidade é o conjunto de características particulares que distinguem física e emocionalmente o macho da fêmea, tanto nos animais como nos vegetais. Isto significa que na sexualidade participam componentes genéticos diferentes (exceto nas flores hermafroditas). É a diferenciação sexual que permite o processo de fe- cundação. A sexualidade possui, portanto, um papel basilar na reprodução das espécies e na continuidade da vida. Sexualidade e vida estão indissoluvelmente unidas. O desejo sexual constitui uma forte motivação para viver. No ser humano, a sexualidade está associada ao prazer, possivelmente como um recurso da natureza para assegurar a continuidade da espécie. A sexualidade humana adquire expressões emocionais, afetivas e de refinamento de gran- de importância, é um modo de ser e de crescer, no qual a sensualidade desempenha um papel importante. A sensualidade é a sensibilidade global aos estímulos de prazer e não só ao estímulo genital. A pessoa sensual tem uma grande receptividade ao contato corporal. Sensualidade é sentir prazer pelos alimentos, pelo banho, pela brisa a e pela chuva, pelas carícias e beijos. C R IA T IV ID A D E Criatividade é uma atividade que forma parte integrante da transformação cósmica, um caminho do Caos a ordem. A atividade criativa organiza uma linguagem única e partir da vivência. O ser humano se manifesta como impulso de inovação frente à realidade. A obra de criação é sempre o expressivo resultado do ato de viver. A criação é uma função de auto transcendência, uma extensão do processo de vida. A forma mais elevada de expressão da criatividade é a criatividade existencial que se traduz nos atos do cotidiano. A F E T IV ID A D E Afetividade é um estado de afinidade profunda para com os seres, capaz de originar senti- mentos de amor, amizade, altruísmo, maternidade, paternidade, companheirismo. No entanto, sentimentos opostos como a ira, os ciúmes, a insegurança, a inveja, podem ser considerados integrantes do complexo fenômeno da afetividade. Através da afetividade nos identificamos com outras pessoas e somos capazes de com- preendê-las, amá-las e protegê-las, mas, também, de recusá-las e agredi-las. Segundo Ortega e Gasset, a afetividade abarca qualquer das paixões do ânimo, em especial o amor, o carinho e o ódio. A linha de Afetividade tem em Biodanza sua expressão privilegiada no amor, manifestada através dos sentimentos de empatia, solidariedade e comunhão com a espécie. A afetividade pode ter a dimensão do “amor diferenciado”, dirigido a uma só pessoa, e a do “amor indiferen- ciado”, dirigido à humanidade. As formas patológicas da afetividade se expressam na des- trutividade, na discriminação social, no racismo, na injustiça e nos impulsos autodestrutivos. T R A N S C E N D Ê N C IA Em Biodanza o conceito de transcendência consiste na função natural do ser humano de vinculação essencial com tudo o que existe: seres humanos, animais, vegetais, minerais; em síntese, com a totalidade cósmica. Em Biodanza, o conceito de transcendência se refere a superar a força do Ego e ir para além da autopercepção, para identificar-se com a unidade da natureza e com a essência das pessoas. Transcender é superar um limite. Quem não pode abandonar a consciência de si mesmo, não tem a possibilidade de ingressar à experiência transcendente. 54 Para cada linha de vivência, o mediador propõe exercícios que contemplem o despertar do objetivo do que se quer trabalhar em cada categoria dessa metodologia. O Modelo Teórico de Biodanza estrutura, então, a forma como esta opera e tem na sua base um eixo vertical ascendente e um eixo horizontal pulsante. Esta pulsação horizontal dá-se no trânsito renovador e integrativo (transe) entre a consciência intensificada de si mesmo e do mundo (vivência/consciência) e a regressão (dissolução com o todo, indiferenciado) (GAROUPA, 2018, p. 39). A biodança pode ser considerada como um meio de estímulo para sensações que muitas vezes são esquecidas ou estão adormecidas. Através da dança, os partici- pantes podem se libertar de padrões ou dos papéis que desempenhame se expressar na sua singularidade. O repertório utilizado para a vivência proporciona muitos efeitos no organismo, como a regulação dos sistemas simpático e parassimpático. Os movi- mentos podem alterar a pressão arterial, induzir o sono, despertar a vigília e viabilizar a harmonia íntima (GAROUPA, 2018). Os encontros são momentos que promovem relaxamento e autoconhecimento. Os movimentos são livres, orgânicos e que possibilitam conectar-se com o próprio ser. BioMúsica é o termo denominado para o repertório utilizado na Biodança. Para que tenha os efeitos indicados, elas necessitam conter os seguintes aspectos: • A coerência entre a prolepse e o desenvolvimento musical; • Um conteúdo emocional definido e intenso; • A presença de um tema musical estável; • A presença de um tema musical que, além do mais, expresse um estado de ânimo elevado (TORO, 2002, p.130). Toro (1991 apud GAROUPA, 2018, p. 50) define o Grupo de Biodanza como um Biogerador, um centro gerador de vida. Dessa forma, a energia sutil produzida no grupo estabelece um campo magnético onde manifestam e refletem emoções, desejos e sensações físicas intensas. No grupo ocorre uma vivência encantadora de ternura, sob o efeito transformador da música. As músicas são selecionadas em suas especificidades de forma que integre a proposta do encontro. Na prática da Biodança “experimentam-se sensações de harmonia, calor e voluptuosidade. A sensibilidade extrema é tão intensa que música e corpo são um só: o dançarino “é” a música” (GAROUPA, 2018, p. 54). Fica evidenciado na vivência com a Biodança a imersão da experiência do dançarino com a música e a manifestação de suas emoções. Tudo se integra, sem muitas vezes conseguir separar o que está entregue no momento presente. É intenso e transformador. “O efeito harmonizador orgânico derivado dos estados de transe e de regressão possibilita aos participantes de Biodanza a adopção de um estilo de vida mais equilibrado e uma profunda vivência de renovação” (SARPE, 2017, p. 146 apud GAROUPA, 2018). 55 É a dança da vida. Um movimento pleno de intensidade, em que a pessoa está íntegra neste movimento. Quando uma pessoa salta na praia, quando uma mulher embala uma criança em seu colo, quando um homem cava na terra; quando dois amigos se abraçam, todos estão dançando. Quando um par faz amor, no êxtase da paixão, estão realizando a mais cósmica das danças eróticas. Os átomos dançam; as galáxias avançam pelos espaços siderais, em um ritmo sintonizado com a música das esferas, o mar embalando-se de acordo com o ritmo da lua, sua polifonia infinita, são as formas mais profundas da dança cósmica (TORO, 1991, p. 70 apud GAROUPA, 2018, p. 46). O contato do homem com a sua natureza, a conexão que se estabelece com a energia universal, a dança que movimenta o corpo e equilibra os polos, as emoções desveladas em grupo, um processo de catarse que possibilita descobrir-se. Os exercícios de Biodança, através da unidade música, movimento, vivência e encontros, promovem e estimulam esse processo evolutivo, reforçando a diferenciação da identidade rumo a sua integração plena, a comunhão com a totalidade (TORO, 2002). A conexão com o sagrado é um dos aspectos que as danças meditativas proporcionam, viabilizando a total entrega nos movimentos que ocorrem durante o encontro, expandindo a mente e relatando efeitos benéficos de bem-estar. 56 LEITURA COMPLEMENTAR INTEGRATIVAS COMPLEMENTARES EM ABRIGOS TEMPORÁRIOS NO CONTEXTO DA PANDEMIA DE COVID-19 Jorgeane Pedrosa Pantoja Maria Elenilda do Milagre Alves dos Santos Adna Vivianne Rocha Freire Alessa de França Cunha Medeiros Anne Louise de Souza Soares Carlos Roberto Monteiro de Vasconcelos Filho Jessyca Alves das Neves Costa INTRODUÇÃO Em março de 2020, foi declarado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) o início do período pandêmico, em função do COVID-19, que se relaciona à síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoV-2), chamado como “novo coronavírus” (OMS, 2020). Em função desse fato, medidas de segurança decorreram, como isolamento e distanciamento social, uso de máscaras, “toque de recolher” e lockdown – paralisação de atividades com aglomeração –, com permanência apenas dos serviços considerados essenciais como saúde e segurança pública (OMS, 2020; BRASIL, 2020). Dessa forma, os limites das políticas públicas no Brasil foram refletidos e se tornaram mais aparentes: pandemia, alto índice de desemprego e queda na renda da população e aumento da população em situação de rua (PSR). A PSR é um grupo heterogêneo, composto por pessoas com diferentes realidades, grau variado de vulnerabilidade, vínculos interrompidos e/ou fragilizados, excluídos do acesso aos bens e serviços, como trabalho, educação, habitação, transporte, lazer e saúde, compelido a utilizar a rua como espaço de moradia e sustento, por contingência temporária ou de forma permanente (BRASIL, 2009; LIRA et al., 2019). Baseado em dados fornecidos pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em março de 2020, o Brasil registrava 221.869 pessoas em situação de rua. No Estado do Pará, a Fundação Papa João XXIII, estima que na capital Paraense, cerca de 1200 pessoas vivem em situação de rua em Belém (IPEA, 2020; FUNPAPA, 2020). O governo do Estado do Pará instituiu em março de 2020 locais destinados a abrigar pessoas que já se encontravam em situação de rua antes da Pandemia, como para os que se tornaram desabrigados (PARÁ, 2020). De forma geral, o público dos abri- 57 gos se divide em dois grupos: pessoas em situação de rua anteriormente à pandemia e pessoas em situação de rua em consequência da pandemia, em diversos âmbitos (financeiro, social, desemprego e por adoecimento). Apesar das disparidades de contex- tos, um fator que aproxima os dois grupos é o uso abusivo de substâncias psicoativas e álcool. Além disso, outro fator que merece destaque é a presença de alterações psí- quicas e emocionais nos abrigados, como ansiedade, abstinência, alterações de humor, episódios depressivos, relacionados à ociosidade na rotina do abrigo. Com o avanço da Pandemia, no mês de março de 2021, formaram-se três abrigos em funcionamento, situados em escolas da rede de ensino público da capital paraense. Aulas presenciais na rede estavam suspensas em decorrência da pandemia, assim as escolas passaram a ser espaço para os abrigados. Um dos locais funcionou exclusivamente para triagem, cadastro e isolamento para casos suspeitos e confirmados de COVID-19 e de outras patologias infectocontagiosas. Um outro local era destinado para famílias constituídas e mulheres cisgênero e, por fim, um que abrigava exclusivamente homens e mulheres transgênero. Logo, entendeu-se que não bastava apenas oferecer espaço físico a esse segmento, foi necessário incrementar proposta governamental para oferecer assistência e cuidados de saúde para pessoas em situação de rua, durante o contexto da pandemia da COVID-19. Para fortalecer esse suporte, a Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda (SEASTER), com apoio de diversos órgãos, entre eles, a Secretária Municipal de Saúde (SESMA) de Belém e a Universidade do Estado do Pará (UEPA) estiveram à frente para direcionar as ações de cuidados. Frente a esse contexto, o Programa de Residência multiprofissional da Saúde da Universidade do Estado do Pará, com objetivo promover especialização de diferentes categorias profissionais para atuar no contexto de Atenção Primária à Saúde (APS), voltado ao Sistema Único de Saúde – SUS – (BRASIL, 2012), precisou reformular os cenários de treinamento em serviço do programa Saúde da Família e, assim, foram inseridos os abrigos temporários para campo de prática dos residentes sob a supervisão dos preceptores,servidores da SESMA, que foram designados a atuarem nos consultórios de Práticas Integrativas e Complementares (PIC). Aprovada pela portaria GM/ MS nº 971, de 3 de maio de 2006, as PICS foram institucionalizadas no Sistema Único de Saúde (SUS) por intermédio da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), que visa a prevenção de agravos e da promoção e recuperação da saúde, com ênfase no cuidado continuado, humanizado e integral em saúde (BRASIL, 2006). Diante do contexto pandêmico e com o novo campo de treinamento em serviço para a aprimoração dos residentes da Saúde da Família da UEPA e o fortalecimento das políticas das práticas integrativas e completares no Estado do Pará, gerou-se a pergunta norteadora da pesquisa: quais os resultados da aplicação das práticas integrativas e complementares no contexto de abrigamento? 58 Embora a política tenha sido inserida em 2006, no momento, o Estado do Pará encontra-se na fase de implementação de consultórios especializados em promover as PIC. Sendo de extrema relevância abordar sobre os impactos que as práticas ocasionam nos usuários e, assim, compartilhar a experiência. Então, para transcorrer na pesquisa, elencou como objetivo: Identificar as repercussões das intervenções das Práticas Integrativas e Complementares (PCI) em Saúde no contexto de abrigamento de pessoas em situação de rua na pandemia da Covid-19 na capital paraense. TRAJETÓRIA METODOLOGICA Trata-se de um relato de experiência gerado a partir de vivências de dois Terapeutas Ocupacionais e dois Fisioterapeutas residentes do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Universidade do Estado do Pará, área de concentração Saúde da Família em abrigo temporário na capital paraense, durante o período de março a maio de 2021. Durante esse período de três meses, o abrigo temporário foi cenário de prática da residência, no qual realizava atendimento de segunda a sexta no período da manhã e tarde, totalizando 60 horas semanais conforme o regimento do programa. Cada resi- dente realizava acerca de quatro atendimentos por turno, cerca de 8 atendimentos/dia, 40 semanal, aproximadamente 200 mensais, sempre sob supervisão duas preceptoras da residência multiprofissional, servidoras da secretaria de saúde. As atividades descritas neste relato estão divididas em duas seções: 1. Implantação e Ambientação do Atendimento com uso de PICS e 2. Atendimento do Público pelos Residentes Terapeutas Ocupacionais e Fisioterapeutas. 1. Implantação e Ambientação do Atendimento com uso de PICSA implantação do atendimento com o uso de PICS teve como princípio a necessidade de promover qualidade de vida e saúde aos abrigados, sendo inédita, no contexto dos abrigos, a iniciativa do uso de Auriculoterapia, Ventosaterapia e Guasha como estratégias de melhora das inúmeras demandas álgicas relatadas pela população em questão. Inicialmente, houve a necessidade de explanar os tipos de atendimentos, contextualizar a população na compreensão do uso das Práticas Complementares, além de estabelecer e organizar os atendimentos a partir da demanda espontânea dos abrigados. O acolhimento era efetuado através do preenchimento dos prontuários físicos individuais, contendo dados da anamnese, avaliação e evolução, facilitando a continuidade do cuidado. Os prontuários eram compostos, inicialmente, dos dados de identificação como nome completo, nome da mãe, idade e número do cartão SUS. No primeiro contato, eram investigadas as queixas principais do indivíduo, sua história pregressa clínica e pessoal. 2. Atendimento do Público pelos Residentes Terapeutas Ocupacionais e Fisioterapeu- tas. Os atendimentos ocorriam de forma simultânea, sendo os pacientes divididos entre os profissionais residentes a partir da demanda. As principais queixas estavam 59 relacionadas a demandas físicas e psicoemocionais, como algias de coluna, articu- lações, consequências de lesões por violência doméstica e das ruas, pela realização de atividades físicas sem orientação profissional, déficit no funcionamento típico de órgãos e crises de ansiedade e depressão. Os atendimentos tinham duração média de 30 a 40 minutos, nos quais cada paciente era atendido por um profissional e com uma das práticas anteriormente citadas, entretanto, por vezes, eram solicitados o uso de outras técnicas complementares, assim como eram realizadas interconsul- tas entre os profissionais. Ao fim de cada atendimento, eram realizados os registros em prontuários físicos individuais que ficavam armazenados na sala de atendimento. Os pacientes rotineiramente repetiam as sessões de Ventosaterapia, Auriculoterapia e Guasha, pois eles relataram melhoras na qualidade e quantidade do sono, assim como no alívio das dores musculares e na melhora dos quadros de ansiedade. RESULTADOS E DISCUSSÃO Inicialmente, o estádio de futebol da capital foi habilitado para abrigar as pes- soas em situação de rua. A chegada delas até o local foi realizada por demanda espon- tânea e busca ativa do Programa de Consultório de Rua. Com aproximadamente mil pessoas abrigadas pelo Estado, entre homens, mulheres, casais com crianças, idosos e população gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros (LGBTQI+) (PARÁ, 2020). Esta população demanda especial atenção, pois para o Ministério da Saúde (MS), esta tem como uns dos agravantes na saúde: vírus da imunodeficiência humana (HIV), gravidez de alto risco, consumo abusivo de álcool e outras drogas, tuberculose, problemas res- piratórios, além de diabetes mellitus e hipertensão arterial. Dentre estas, algumas se enquadram como risco de gravidade na Covid-19 (BRASIL, 2012). À medida que se expande a demanda por cuidados e práticas que promovam a promoção da saúde, a prevenção de doenças e a melhoria do bem-estar físico, psi- cológico e social dos usuários abrigados, utilizou a técnica da aplicação das práticas integrativa complementares. Com 29 práticas existentes, no abrigo temporário foram ofertadas mais de 10. A pesquisa se deterá em abordar a vivência dos Residentes da UEPA com três práticas: Ventosaterapia, Auriculoterapia e Guasha, pois os profissionais residentes desenvolveram a prática por apresentarem formação prévia à aplicação das PIC, e buscaram fundamentar e treinar mais sobre a aplicação onde ocorreu trocas entre os profissionais que manejavam as práticas, e, assim, alcançar a proposta da residência quando busca um novo cenário de prática para o treinamento em serviço. Com aproximadamente 600 atendimentos realizados no consultório das PIC pelos profissionais residentes e preceptores, observou-se melhora na qualidade de vida dos abrigados, por meio dos discursos realizados por eles nos momentos de avaliação dos atendimentos e dos retornos ao consultório. Embora, a PICS tenha algumas práticas milenares e tenha sido implementada no SUS em 2006, são poucos os profissionais que apresentam habilitação para exercê-las. A aproximação dos residentes da Universidade do Estado do Pará com os profissionais 60 da Secretária de Saúde possibilitou trocas de qualificações no uso das técnicas. E como resultado, da aplicação das PICS os abrigados relataram melhora do quadro clínico, ou seja, diminuição das queixas álgicas, ganho na flexibilidade muscular e prevenção de lesões. Proporcionando, portanto, benefícios imediatos e a longo prazo na saúde dos indivíduos atendidos, no aspecto físico. Assim como no estudo de Rodrigues, Galdino e Polaz (2018), observou-se, ao longo das sessões realizadas, a redução, estagnação ou o fim das queixas de dores nos joelhos, ombros, coluna vertebral e dores de cabeça. Além dos aspectos físicos, as práticas de auriculoterapia realizadas possibilita- ram a intervenção em aspectos da saúde mental, como ansiedade, depressão, insônia e estresse, entre outros. No que diz respeito aos efeitospsicoemocionais, os relatos dos abrigados corroboram com o estudo de Jales et al. (2019), que observaram em seis estudos analisados os benefícios da aplicação da auriculoterapia, constataram que, em todas as pesquisas, a utilização do manejo da prática teve resultado positivo em relação ao controle de ansiedade e/ou depressão. No estudo de Beckman, Christovam e Pitta (2018), os autores relataram ter melhorado o quadro clínico com diminuição da ansie- dade e insônia. A utilização da ventosaterapia nos abrigados estava relacionada principalmente às questões álgicas musculares, em região da coluna lombar e coxas, mas em alguns casos também era utilizada para drenagem em regiões edemaciadas. Após aplicação da técnica, os usuários relataram redução do quadro álgico e melhora da mobilidade. De acordo com o estudo de Moura et al. (2018), que avaliou as evidências da literatura a respeito dos efeitos da ventosaterapia sobre a dor crônica nas costas em adultos, concluiu-se que, na maioria dos estudos, houve redução na intensidade da dor, melhora da capacidade física e da qualidade de vida. A aplicação do Gua-sha, assim como a ventosaterapia, foi direcionada às queixas musculoesqueléticas, o instrumento utilizado no deslizamento era composto de aço inox, favorecendo a higienização. Por sua simples aplicação e baixo custo, favoreceu a sua combinação com as outras intervenções, alcançando resultados mais eficazes. Em seu estudo, Artioli e Bertolini (2019), por meio de revisão sistemática da literatura, buscaram analisar a aplicação do Gua-sha e seus resultados no tratamento das condições dolorosas musculoesqueléticas concluem que, essa técnica se destaca como opção no tratamento de queixas álgicas relacionadas à coluna vertebral e regiões adjacentes. CONCLUSÃO Com as mudanças ocasionadas com a pandemia da COVID-19, foi necessário reformular as práticas de assistência à saúde, entre elas, atuar nos abrigos temporários, no qual buscou-se favorecer aspectos físicos, psíquicos, emocionais e sociais, por meio de práticas complementares ao modelo convencional, enfatizando, assim, a promoção 61 global do cuidado humano. Vale destacar a importância das parcerias dos órgãos públicos, principalmente com a Universidade, para o aprimoramento na formação dos profissionais do programa de residência em saúde vinculados à secretaria de saúde. Dessa forma, foi possível traçar estratégias de intervenções e ampliar as possibilidades de cuidados. Assim, foi concebível perceber os resultados das aplicações das PICS com no cuidado a saúde desse segmento populacional. Por meio de relatos sobre as reper- cussões das práticas que refletiam diminuição nas dores físicas e emocionais, a busca pelos atendimentos superou as expectativas, obtendo curas de dores crônicas e ainda resgatou a possibilidades de cuidados consigo. A partir desta vivência sugere-se maior aproximação da universidade com o serviço de saúde, sobretudo com as práticas in- tegrativas, onde possa fortalecer as interações em prol da melhoria da população em situação de rua com uma assistência baseada na medicina no ajuste do organismo e não apenas na enfermidade, na doença. Possibilitando um olhar mais individual na sua singularidade, entendendo o contexto e suas emoções, e não apenas a doença. As PICS proporcionam uma nova cultura de cuidado, empoderando o indivíduo no processo de cura. Logo, precisam ser mais difundidas na atenção à saúde e a universidade como formadora de profissionais de saúde precisa ser protagonista desse entrelace. Fonte: https://www3.ufrb.edu.br/seer/index.php/revise/article/view/2437/1645. Acesso em: 5 jul. 2022. 62 Neste tópico, você aprendeu: • A Biodança foi criada na década de 1960, por Rolando Toro, um psicólogo chileno. • Os exercícios desenvolvidos por Toro são propostos pelo facilitador do grupo, ressal- tando a essência da prática como movimento integrativo, com base no conceito de viver “o aqui e o agora. • Para ser um facilitador de grupos de Biodança, o curso de formação tem a duração mínima de três anos. • Em uma vivência, o contato com o outro é essencial, e promove a afetividade e emoções positivas. • Toro criou cinco linhas de vivência em Biodança, sendo que cada linha representa a expressão de potencialidades genéticas que podem ou não se desenvolver no organismo: vitalidade, sexualidade, criatividade, afetividade e transcendência. • Os exercícios de Biodança, por meio da unidade música, movimento, vivência e en- contros, promovem e estimulam esse processo evolutivo, reforçando a diferenciação da identidade rumo a sua integração plena, a comunhão com a totalidade. RESUMO DO TÓPICO 3 63 AUTOATIVIDADE 1 A biodança é uma PICS que promove a sensação de bem-estar através da realização dos movimentos de dança que acontecem nas vivências. Além do exercício corporal em si, a Biodança apresenta diversos benefícios aos seus participantes. De acordo com eles, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Por meio dos movimentos e músicas vigorosas a noradrelina e dopamina (neurotransmissores) podem ter sua produção diminuída durante as vivências. b) ( ) A troca de calor e afeto, e ao som da música o corpo passa por uma dança de hormônios e de neurotransmissores, de forma que o centro regulador límbico- hipotalâmico pode gerar, entre outras coisas, a resistência ao estresse e um melhor funcionamento dos órgãos internos. c) ( ) Os passos da Biodança são chamados de exercícios, estes devem ser realizados de forma correta e sem espontaneidade para que os benefícios sejam assegurados. d) ( ) Na Biodança acredita-se que a pessoa deve se desapegar do outro para promover o amor a si mesmo, fortalecendo a identidade do participante. e) ( ) Os benefícios desta prática só podem ser sentidos após anos de vivências. 2 A Biodança possui como característica promover vivências, que são pautadas no aqui e agora, espontaneidade e ineditismo. De acordo com as cinco linhas de vivências elaboradas por Toro, analise as sentenças a seguir: I- O desejo sexual constitui uma forte motivação para viver. No ser humano, a sexualidade está associada ao prazer, possivelmente como um recurso da natureza para assegurar a continuidade da espécie. II- A vitalidade se caracteriza em termos gerais por desarmonia orgânica, comum aos seres humanos, e um bom nível de saúde. III- A atividade criativa organiza uma linguagem única e partir da vivência. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 Através da afetividade, nos identificamos com outras pessoas e somos capazes de compreendê-las, amá-las e rotege-las, mas, também, de recusá-las e agredi-las. De acordo com a linha de vivência da afetividade, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: 64 ( ) Afetividade é um estado de afinidade profunda para com os seres, capaz de originar sentimentos de amor, amizade, altruísmo, maternidade, paternidade, companheirismo. ( ) Na prática da Biodança, a afetividade não tem um papel central, visto que como as pessoas do grupo não se conhecem, esse vínculo não é estabelecido. ( ) Existem formas patológicas de afetividade, que se expressão na discriminação social, no racismo, na injustiça e os impulsos autodestrutivos. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 4 Rolando Toro foi um professor, antropólogo, psicólogo, pintor e poeta de origem chilena. Na década de 1960 ele desenvolveu o Sistema da Biodança, ele também foi o criador dos conceitos do Princípio Biocêntrico. Dissertesobre a experiência de Toro em hospitais psiquiátricos que possibilitaram a criação da Biodança. 5 Atualmente, a Biodança é difundida em vários estados do Brasil, sendo utilizada inclusive em Unidades Básicas de Saúde por intermédio do SUS. Disserte sobre os requisitos para ser um facilitador desta prática. 65 REFERÊNCIAS ALMEIDA, L. H. H. Danças circulares sagradas: imagem corporal, qualidade de vida e religiosidade segundo uma abordagem junguiana. 2005. Tese (Doutorado em Ciências Médicas) – Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas, 2005. ANDRADE, A. Energia e Saúde: Do In, Fitoterapia e outras terapias alternativas. São Paulo: Ed. Biblioteca 24 horas, 2009. BARTON, A. Dançando o Caminho Sagrado. São Paulo: Ed. Triom, 2012. BERNI, L. E. V. A Dança Circular Sagrada e o Sagrado: um estudo exploratório das relações históricas e práticas de um movimento "New Age", em busca de seus aspectos numinosos e hierofânicos. 2002, 220 f. 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TÓPICO 1 – AYURVEDA – MEDICINA CLÁSSICA INDIANA TÓPICO 2 – YOGA TÓPICO 3 – TAI CHI CHUAN – MEDICINA CHINESA Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 74 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 2! Acesse o QR Code abaixo: 75 TÓPICO 1 — AYURVEDA – MEDICINA CLÁSSICA INDIANA UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Acadêmico, o Ayurveda é um sistema científico de medicina, considerado o mais antigo da humanidade. Ele é proveniente dos textos clássicos nomeados “samhitas”, desenvolvido durante milhares de anos por médicos indianos, e transmitidos de geração em geração. Essa racionalidade médica não dicotomiza corpo e mente, aliás, inclui também o espírito na sua compreensão da totalidade da vida. Mesmo tendo relação com o hinduísmo, o Ayurveda não é considerado religião, pessoas de qualquer crença podem estudar e/ou se favorecerem dos seus tratamentos. No Brasil, o Ayurveda se popularizou somente a partir dos anos 1980, e em 2017 foi considerado uma Prática Integrativa e Complementar de Saúde (PICS), que pode ser utilizada no Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro. Atualmente, seus tratamentos são reconhecidos como eficazes pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Neste Tópico, abordaremos sobre as bases conceituais do Ayurveda, enfatizan- do a teoria dos três doshas, que é a base para a intervenção e diagnóstico nesse siste- ma de saúde. Também estudaremos sobre os hábitos alimentares de rotina diária que favorecem a saúde, ou na visão ayurvédica, promovem a harmonia e o equilíbrio do ser. Por fim, conheceremos a abhyanga (massagem ayurvédica) e seus benefícios. 2 A AYURVEDA E SEU HISTÓRICO A palavra Ayurveda é denominada em sânscrito: “ayus” = vida e “veda” = conhecimento”. Neste caso, significa literalmente “conhecimento da vida”. É considerado um sistema médicoque existe há aproximadamente cinco mil anos (GOKANI, 2014). Mesmo com uma quantidade considerável de materiais para pesquisa sobre o tema, inclusive textos antigos preservados, não se sabe ao certo as suas fontes iniciais (DEVEZA, 2013a). No entanto, é de consenso entre diversos autores que “algumas práticas médicas estiveram presentes durante todo o desenvolvimento da cultura indiana, desde os mais remotos tempos e que essas ideias foram se organizando e tornando o Ayurveda um corpo de doutrina unificado e organizado” (WUJASTYK, 1998 apud DEVEZA, 2013a p. 157). 76 A medicina ayurvédica é a mais antiga ciência da saúde, originária na Índia a partir dos ensinamentos existentes nos “Vedas”. Os Vedas são quatro obras escritas em sânscrito e consideradas a mais antiga literatura do mundo e a base das escrituras sagradas do hinduísmo. Durante muito tempo, a Ayurveda foi ensinada de mestre para discípulo, e, a partir dela, outras racionalidades médicas se desenvolveram ao longo da história (ROCHA, 2022a). Conforme afirma Carneiro (2009), não se tem memória da não existência do Ayurveda, sendo assim, é considerado eterno, com intensa ligação com a cultura indiana. Ao contrário da medicina alopática (ou tradicional) moderna, que se transforma com frequência, o Ayurveda não perde sua essência. É recomendado pela OMS como um sistema efetivo e comprovado cientificamente (DE LUCA, 2008). Compreendemos o Ayurveda como um sistema naturopático e antropológico, e está associado à religião hinduísta. A medicina alopática trata os sintomas por intermédio de medicamentos. Já a medicina ayurvédica foca na possibilidade de a pessoa mudar seu estilo de vida e equilibrar o corpo para obter a resolutividade dos sintomas. Nossa atual visão ocidental da medicina alopática é basear o tra- tamento nos sintomas apresentados. Medicamentos e injetáveis são frequentemente usados para tratar os sintomas, permitindo o alívio dos sintomas em questão. Medicamentos preventivos são administrados para diminuir a gravidade da doença e aliviar a sin- tomatologia aguda. A abordagem oriental, especificamente ayurvé- dica, oferece uma nova camada ao modelo alopático. Nessa abor- dagem, curar a mente e o corpo envolve tomar medidas ativas para entender como alcançar um estado de equilíbrio mudando o estilo de vida, os hábitos alimentares e o uso de ervas. Nesta abordagem, são tomadas medidas para criar uma fisiologia equilibrada, que, se completamente equilibrada, deve permitir a resolução dos sintomas (GOKANI, 2014, p. 1103). Percebemos que a abordagem terapêutica do Ayurveda é baseada na possibilidade do autocuidado, sendo este o principal tratamento (BRASIL, 2017). As medidas que são tomadas para a mudança de estilo de vida decorrem da observação de hábitos adequados em busca de uma vida saudável. Esses hábitos perpassam por uma dieta específica, a prática de Yoga, entre outros (DE LUCA, 2009). Aliás, o Yoga e o Ayurveda são frequentemente chamados de “ciências irmãs”, ambos têm conceitos e técnicas em comum, por exemplo: “tanto o Ayurveda quanto o Yoga afirmam convictamente a unidade interativa que existe entre a mente e o corpo. As doenças físicas podem afetar adversamente a mente, e o desequilíbrio mental pode produzir 77 doenças de todo tipo” (FEUERSTEIN, 2006, p. 122). Em outras palavras, essas terapias consideram a unificação mente-corpo, o corpo influencia a mente e vice-versa. O espírito também é considerado, dessa forma, o equilíbrio da tríade mente-corpo-espírito resulta em uma boa saúde. Sobre suas bases filosóficas, uma filosofia antiga da Índia (Samkhya Darçana), proveniente de um dos textos mais antigos de Ayurveda, o Susruta Samhita, descreve o que afirma ter sido o processo de criação do universo: O universo surgiu quando o Criador, saindo de um estado de profundo silêncio e meditação decidiu manifestar-se em múltiplos indivíduos. O processo que teria se originado com o rompimento do silêncio da Consciência Absoluta do Criador manifestou-se primariamente como Consciência Individual (vyakti, que significa “o que se manifesta”), no emanar do Seu desejo de se manifestar. Da consciência individual ou desejo de criação surgiu a inteligência pura, que reconhece o que deve ser criado, também chamado de Intelecto ou Mahat que, em sânscrito, literalmente significa “o grande”. Assim que a inteligência pura determinou com precisão o plano da criação, surgem as mais variadas formas de existência em diferentes indivíduos, ou Egos pessoais, ahamkara na língua original, responsáveis pela memória e pelo instinto de sobrevivência de cada ser criado. A criação dessas múltiplas formas de existência tornou necessários também um aparelho de percepção (para que cada indivíduo criado pudesse perceber o restante da existência, além de si próprio) e também de órgãos com capacidade de ação (para que os indivíduos pudessem interagir mutuamente). Para a interação adequada entre o sentir e o agir, se fez necessário um centro de processamento que, recebendo as informações do aparelho de percepção, comandasse as ações adequadas para cada momento. Assim, os cinco sentidos são nossos órgãos de percepção (visão, audição, paladar, olfato e tato) e são chamados de Jñanendriya; os órgãos de ação, Karmendriya, representam a capacidade de atuação no mundo: comunicação, preensão, locomoção, reprodução e excreção; por fim, Manas ou mente pensante, literalmente, “a função de pensar”, recebe as informações dos cinco sentidos e decide a ação que melhor nos adapta ao meio a cada instante (BHISHAGRATNA, 1996 apud DEVEZA, 2013a, p. 158). Na visão descrita anteriormente, nós somos parte do Criador. A partir do desejo Dele de se manifestar, houve a quebra o silêncio da Consciência Absoluta. Assim, com o surgimento de uma Consciência Individual foi possível a criação de diversas formas de existência em diferentes seres. Além disso, o Ayurveda acredita que toda a forma de existência, animada ou inanimada, é composta por alguns elementos, descritos no quadro a seguir: 78 Quadro 1 – conjunto de elementos que compõem a existência dos seres Fonte: Deveza (2013a, p. 158) Elemento Descrição Consciência Absoluta ou Corpo Espiritual A presença do criador em cada criatura. Consciência Individual Fruto do desejo, e que representa o papel de cada um na história da criação. Intelecto Inteligência sem emoções com capacidade de discernimento entre o certo e o errado no cumprimento do papel individual de cada criatura. Ego Memórias de experiências vividas em cada existência e instinto de sobrevivência Mente Pensante Responsável pelas emoções, dúvidas, fantasias e desejos. Órgão dos sentidos Percepção dos cinco sentidos. Corpo Físico Responsável pelas ações. Quando a relação entre todos esses elementos é harmônica e não há conflitos entre eles, desfrutamos um estado de plena saúde. Por outro lado, a desarmonia da relação de qualquer um desses componentes desencadeia as doenças. O “Charaka-Samhita” de Agnivesa, o “Susruta-Samhita” de Susruta e o “Ashtanga-Hrdrayam” de Vagbhata são considerados textos clássicos de Ayurveda, os “tratados” desse sistema. Destes, o Charaka- Samhita é considerado a maior autoridade, a “bíblia” do Ayurveda. NOTA Destacamos três objetivos do Ayurveda: • Preservar a saúde das pessoas saudáveis e prevenir doenças; • Promover e lapidar a saúde das pessoas saudáveis; • Contribuir para a rearmonização das pessoas enfermas (CARNEIRO, 2009 p. 25). No Brasil, a medicina ayurvédica chegou no ano de 1985, por intermédio de um convênio com o Instituto Nacional de Assistência e Previdência Social (o extinto INAMPS), do Ministério da Saúde, com o Instituto de Ciência e Tecnologia Maharishi. Apartir desse convênio, os estados de Pernambuco, Rio de Janeiro e Goiás foram os primeiros a aceitarem a inserção da prática. Contudo, somente em Goiás houve o desenvolvimento do projeto ao longo dos anos, sendo que em 1986 e 1987 ocorreu um curso de fitoterapia ayurvédica para profissionais da saúde da rede pública e estadual. No ano de 1988, o governo do estado de Goiás instituiu um centro ambulatorial de 79 referência em fitoterapia ayurvédica, instalado em Goiânia. No Rio de Janeiro, nos anos de 1995, 1998 e 1999 houve a oferta de cursos de Ayurveda, e pelo crescente interesse dos alunos e outros profissionais na prática, foi criada a Associação Brasileira de Ayurveda (ABRA) (CARNEIRO, 2009). Em 2017, o Ayurveda foi incluído na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), por intermédio da Portaria nº 849/2017, que descreve a prática da seguinte forma: • É considerado uma das mais antigas abordagens de cuidado do mundo, foi desenvolvido na Índia durante o período de 2000-1000 a.C. Utilizou-se de observação, experiência e os recursos naturais para desenvolver um sistema único de cuidado. Ayurveda significa a Ciência ou Conhecimento da Vida. Este conhecimento estrutura- do agrega em si mesmo princípios relativos à saúde do corpo físico, de forma a não desvinculá-los e considerando os campos energé- tico, mental e espiritual. • A OMS descreve sucintamente o Ayurveda, reconhecendo sua uti- lização para prevenir e curar doenças, e reconhece que esta não é apenas um sistema terapêutico, mas também uma maneira de viver. • No Ayurveda a investigação diagnóstica leva em consideração tecidos corporais afetados, humores, local em que a doença está localizada, resistência e vitalidade, rotina diária, hábitos alimenta- res, gravidade das condições clínicas, condição de digestão, deta- lhes pessoais, sociais, situação econômica e ambiental da pessoa. Considera que a doença inicia-se muito antes de ser percebida no corpo, aumentando o papel preventivo deste sistema terapêutico, tornando possível tomar medidas adequadas e eficazes com an- tecedência. Os tratamentos no Ayurveda levam em consideração a singularidade de cada pessoa, de acordo com o dosha (humo- res biológicos) do indivíduo. Assim, cada tratamento é planejado de forma individual. São utilizadas técnicas de relaxamento, mas- sagens, plantas medicinais, minerais, posturas corporais (ásanas), pranayamas (técnicas respiratórias), mudras (posições e exercí- cios) e o cuidado dietético (BRASIL, 2017 p. 1). Com base no texto da Portaria nº 849/2017, observamos que a investigação para o diagnóstico no Ayurveda é complexa. Nela, é realizada a análise de vários fatores e integra-se os conceitos próprios da prática para associar com as características individuais de cada pessoa. Assim, a seguir, falaremos sobre a teoria dos “doshas”, de suma importância para essa prática, descrevendo cada um deles. 3 OS DOSHAS A teoria do tridosha, ou “três doshas”, é o princípio de diagnóstico e intervenção no Ayurveda. Ela parte da ideia de que todo o organismo é composto pelos cinco elementos: terra, água, ar, fogo e éter, em seus diferentes estados de manifestação, ou seja: sólido, líquido, ígneo, gasoso e espaço (eles estão descritos no Quadro 2). A combinação e proporção desses elementos em cada corpo é singular, dessa forma, pode haver predominância de um ou mais deles, o que, segundo o Ayurveda, afeta o corpo e mente, diferencia as pessoas em termos fisiológicos e até mesmo em tipo de personalidade (ELIAS, 2014). 80 Na medicina indiana, o corpo é visto como o microcosmo que reflete as mesmas propriedades do universo (macrocosmo). O universo é constituído de cinco elementos fundamentais que são terra, água, fogo, ar e éter ou espaço. Sendo assim, o corpo reflete a mesma combinação de elementos em sua estrutura (CARNEIRO, 2009, p. 32). IMPORTANTE Quadro 2 – Os cinco elementos e suas manifestações no corpo Fonte: Las (1997) apud Elias (2014, p. 2-5) Elemento Manifestação do Elemento nos diferentes estados da matéria Manifestação do elemento no corpo Terra O elemento terra representa a matéria no seu estado sólido. Manifesta as qualidades de estabilidade, imobilidade, dureza, peso, massa, opacidade, frio e possui forma bem definida. Presentifica-se nas estruturas sólidas do corpo como os ossos, músculos, tendões, cartilagens, unhas, pele, cabelos e tecidos. Água O elemento água representa a matéria em seu estado líquido. Manifesta as qualidades de estabilidade, peso, massa e frio, porém diferente do estado sólido, o qual tende a ser duro, imóvel e apresentar forma, os líquidos são menos densos, mais voláteis, macios e não apresentam forma definida. Presentifica-se nas secreções, sucos digestivos, glândulas salivares, membranas mucosas, plasma (parte líquida do sangue) e citoplasma, além de ser a base dos fluídos sexuais, daí o seu vínculo com a fertilidade e sexualidade. Fogo O elemento fogo representa a energia de calor e luz. Manifesta as qualidades do movimento, da ignição, da leveza e secura, da potência para queimar, consumir, aquecer e iluminar. Uma característica marcante da luz e do calor é a sua irradiação, ou seja, o atributo penetrante. Se faz presente no metabolismo do corpo, que é a fonte de todo o calor. Concentra-se no sistema digestivo, ativa o funcionamento das retinas e a inteligência (luz) proveniente das células nervosas. Todo o metabolismo e sistema de enzimas são controlados por este elemento. Ar O elemento ar representa a matéria em seu estado gasoso, como vento ou simplesmente como impulso, movimento. Manifesta as qualidades da instabilidade, inquietude, pulsatilidade, leveza, sutileza, secura, adaptação, tendência a subir, flutuar. O espaço em movimento é o que chamamos de ar. No corpo humano, está presente no movimento dos músculos, nas batidas do coração, na expansão e contração dos pulmões, nas contrações do estômago e intestinos. Éter (ou espaço) O elemento éter é o que chamamos de espaço ou vácuo. Consiste no “campo” onde repousam todos os outros elementos e possui os atributos da vastidão, do ilimitado, do amorfo, imóvel e imperceptível. No corpo humano há muitos espaços, tais como as cavidades da boca, nariz, trato gastrintestinal, trato respiratório, abdome, tórax, vasos capilares, linfáticos, tecidos e células. Estes espaços presentificam o elemento éter do corpo. 81 A partir da observação da combinação dos cinco elementos (que estão presen- tes em tudo) o Ayurveda enumera três biotipos essenciais, que são os doshas presentes no corpo: kapha, pitta e vata. “Doshas” são substâncias materiais presentes em cada célula do corpo, e atuam nas diversas funções dele (CARNEIRO, 2009). O equilíbrio deles resulta em uma boa saúde: “o ponto principal dos tratamentos em Ayurveda é restabelecer as funções adequadas dos doshas” (DEVEZA, 2013a p. 163). Em síntese, sobre os doshas: Todas as funções físicas e mentais do corpo são governadas pelos três princípios vitais ou tridosha – vata, pitta e kapha. Um funcionamento coordenado e equilibrado dos três princípios vitais sustenta a vida e ajuda a manter a boa saúde. Seus desequilíbrios causam a decadência no corpo e problemas na personalidade. A variação humana na forma física, nos traços de personalidade e nas reações biológicas são devido à predominância de um ou mais destes princípios vitais (VERMA, 2003 p. 45). A teoria do tridosha pode ser entendida como a integração dos cinco elementos que constituem o universo no campo biológico, ou seja, no corpo. Para o Ayurveda, existem cinco doshas, dois da mente e três do corpo. A seguir, definimos quais elementos são predominantes em cada dosha do corpo: • O doshavata é uma combinação de elementos do ar e do espaço. • O dosha pitta é uma combinação dos elementos Fogo e Água. • O kapha dosha é uma combinação dos elementos Terra e Água. Cada um desses tipos de dosha se manifesta de maneira única, com base nos elementos que os compõem (GOKANI, 2014, p.1104). Cada dosha possui características ligadas aos elementos que o constitui, ou seja, suas funções no corpo são semelhantes à natureza desses elementos. A seguir descreveremos mais detalhadamente cada um deles. • Vata, união de Espaço e Ar Origem do termo: “Vata é derivado do radical va, que significa movimento e sensação de estímulo” (CARNEIRO, 2009, p. 38). Função: “sua função é colocar a energia em movimento e dar-lhe uma direção. Diz respeito principalmente ao sistema nervoso. É responsável por pensamento, atividade neuromuscular, respiração, circulação e movimentos peristálticos. Está diretamente conectado ao tecido ósseo” (DE LUCA; BARROS, 2007, p. 119). Qualidades físicas: “maciez, leveza, frieza, sutileza, secura, delicadeza, volatilidade, aspereza, mobilidade, instabilidade, insidiosidade” (CARNEIRO, 2009, p. 37). Estilo de vida: “indivíduos (...) do tipo vata, geralmente tendem a ter a necessidade de permanecer ativos. As personalidades vata são entusiasmadas e vivazes, mas também tendem a ser muito excitáveis” (GOKANI, 2014, p. 1104). 82 Pelas características citadas, pessoas com predominância de vata são menos propensas a manter uma rotina, podendo desenvolver quadros de ansiedade. Nesse caso, uma boa forma de equilibrar esse dosha são práticas de meditação, Yoga, mindfulness etc. • Pitta, união de Fogo e Água Origem do termo: “Pitta é derivado do radical tap, que pode significar santapa (produzir calor), daha (queimar, digerir, metabolizar) ou aisvarya (dotar com elevadas atividades mentais)” (CARNEIRO, 2009, p. 38). Função: “sua função é gerar energia. Diz respeito, principalmente, aos sistemas digestivos, endócrino e enzimático. É responsável por clareza mental, percepção visual, digestão, metabolismo e regulagem de temperatura. Está diretamente conectado ao tecido do sangue” (DE LUCA; BARROS, 2007, p. 119). Qualidades físicas: “leveza, calor, sutileza, secura, ardência, leve untuosidade, agudeza, profunda penetração” (CARNEIRO, 2009, p. 37). Estilo de vida: “os tipos pitta tendem a ser perfeccionistas, organizados e determina- dos. Essas personalidades tendem a ficar com raiva e irritadas se ficarem estressa- das” (GOKANI, 2014, p. 1104). • Kapha, união de Água e Terra Origem do termo: “os textos védicos dizem: “O dosha que se expande através dos elementos aquosos é chamado kapha” (CARNEIRO, 2009, p. 39). Função: “sua função é regular a energia. Diz respeito, principalmente, ao sistema linfático. É responsável por dar suporte e nutrir o sistema nervoso, lubrificar o trato digestivo, as articulações e o trato respiratório, regular água e gordura” (DE LUCA; BARROS, 2007, p. 120). Qualidades físicas: “maciez, liquidez, frieza, oleosidade, letargia, viscosidade, dureza, estabilidade, peso, grossura, densidade etc”. (CARNEIRO, 2009, p. 37). Estilo de vida: “Os tipos kapha tendem a ser compassivos, calmos e relaxados. Essas personalidades são as menos afetadas pelo estresse. Indivíduos kapha podem ficar pesados e congestionados facilmente, então para eles é essencial adicionar movimento ao seu dia” (GOKANI, p. 1104). Ressaltamos que todos nós somos constituídos pelos cinco elementos, sendo assim, pelos três doshas. O que varia é a quantidade e a combinação desses elementos. “Prakriti”, conceito utilizado no Ayurveda, é resultado disso, ou seja, a nossa constitui- ção singular, a especificidade de cada ser humano nos âmbitos emocionais, psíquicos, físicos e de saúde, o que é determinado já no nascimento. Prakriti pode ser assemelha- do ao DNA, e a partir dele é que nossas características se manifestam. No decorrer da vida, de acordo com nossos hábitos alimentares, condições sociais, ambientais etc. o prakriti pode ser modificado para vikriti, uma alteração da nossa constituição natural do tridosha para que nos adaptemos às transformações existentes na vida. Caso as dife- renças entre os dois sejam muito enfáticas, poderá haver desequilíbrios e doenças, pois estamos nos distanciando da nossa natureza básica (MARINO, DAMBRY, 2004). 83 4 ALIMENTAÇÃO NO AYURVEDA O Ayurveda afirma que é possível determinar os alimentos mais adequados para cada pessoa de acordo com o seu dosha predominante. Destacamos que as estações do ano influenciam nessa escolha, há alimentos adequados para cada uma delas. O poder digestório (fogo digestivo ou agni, em sânscrito) de cada um varia, inclusive, de acordo com as estações, “afirma-se que no inverno e na juventude a capacidade di- gestiva é maior que no verão e na velhice” (ÁGORA, 2017 p.1). Outro fator que influencia na alimentação e que deve ser observado é a faixa etária do indivíduo, em função do metabolismo que se altera conforme a idade (BARBOSA, s. d.). O agni é considerado em todos os momentos quando pensamos em uma alimentação saudável, para o Ayurveda, pois nosso “fogo digestivo” determina a capacidade que temos em metabolizar os alimentos. IMPORTANTE A nutrição ayurvédica significa que você deve comer de acordo com a sua constituição ayurvédica básica. Por exemplo, se você tem predominância de pitta, deve evitar alimentos que promovam este princípio vital e, se ingeri-los, deverá equilibrá-lo com outros nutrientes que diminuam pitta para que o equilíbrio dos princípios vitais do corpo seja mantido (VERMA, 2003, p. 185). Seguir uma rotina alimentar segundo o Ayurveda requer conhecimentos que perpassam pelos cinco elementos, os doshas, os “seis sabores” ou “rasas” em sânscrito, entre outros. Lembramos que cada constituição de tridosha é única em cada pessoa, então, a dieta será descrita de acordo com o “prakriti” ou constituição individual. Neste tópico, descreveremos de forma ampla a associação dos alimentos aos doshas, sendo que o diagnóstico e orientação sobre uma mudança de hábitos alimentares deve ser realizada por um profissional Ayurveda, através de exames, anamnese, entre outros. 84 Quadro 3 – Os seis sabores ou rasas Fonte: Barbosa (s. d., p. 8) Sabor + Elementos Alimentos DOCE terra + água Presente nos carboidratos, amidos, como os cereais, grãos, raízes (batatas, arroz, milho, inhame, mandioca, trigo, entre outros) e no açúcar. ÁCIDO terra + fogo Alimentos fermentados e frutas ácidas. SALGADO água + fogo Os únicos alimentos salgados por natureza são as algas marinhas e alguns frutos do mar. Esse sabor é obtido pela adição do sal na comida. AMARGO ar + éter Vegetais verdes e plantas medicinais (boldo, carqueja). PICANTE fogo + ar Geralmente presente nas especiarias, como gengibre e pimentas em geral. ADSTRINGENTE terra + ar Alguns legumes e vegetais e frutas ainda não maduras, com cica. Cada sabor é constituído por dois elementos específicos. Ao analisarmos a associação do Quadro 3 com os doshas, concluímos os sabores mais adequados para cada um. Por exemplo, o sabor doce é constituído pelos elementos terra + água, sendo assim, pessoas predominantemente kapha devem consumir pequenas quantidades desse sabor, sendo que a própria constituição do biotipo kapha é naturalmente terra + água. Nesse caso, se a pessoa consumir muito doce, esse dosha poderá entrar em desequilíbrio. O doce deve ser consumido como pacificador por pessoas predominantemente vata, já que elas não possuem maior proporção desses elementos. O Quadro 4 demonstra os impactos dos sabores em cada dosha. Quadro 4 – Os seis sabores e os doshas Fonte: adaptado de Rodrigues (2015) Sabor Impacto nos doshas Doce Aumenta kapha e reduz pittae vata. Ácido Aumenta, sobretudo, pitta, mas também kapha, reduzindo vata. Salgado Tende a agravar kapha e pitta, reduzindo vata. Amargo Agrava naturalmente vata, reduzindo pitta e kapha. Picante Muito quente, é o sabor que mais aumenta pitta. É composto por fogo e ar, agravando também vata por sua qualidade seca. Ao esquentar e secar é o mais eficaz para reduzir kapha. Adstringente Aumenta vata, reduz pitta e kapha. 85 Observamos no Quadro 4 que cada sabor influencia os doshas. Eles podem “aumentar” ou “desarmonizar” os doshas, assim como “diminuir” ou “harmonizá-los”. Em outras palavras: • Pitta é harmonizado pelo sabor doce, depois pelo amargo e final- mente pelo adstringente, sendo irritado, pelos sabores picantes, ácidos e salgado. • Vata é harmonizado primeiramente pelo sabor doce, depois pelo ácido e por último pelo salgado, mas é desarmonizado (ou irritado) pelo sabor picante, amargo e adstringente. • Kapha é harmonizado pelos alimentos de sabor picante, em segundo lugar pelos amargos e por último pelos adstringentes, sendo desarmonizado primeiramente pelo sabor doce, depois pelo ácido e, por fim, pelo salgado (LAD, 2004 apud DE GASPERI; RADUNS; GHIORZI, 2008 p. 501). Dessa forma, ao escolher a alimentação diária em quantidades maiores ou menores de cada sabor, favorecemos o equilíbrio dos doshas, juntamente com outros hábitos da rotina ayurvédica. Para aprofundar mais o estudo sobre os seis sabores no Ayurveda, os benefícios de cada um deles, suas relações com os doshas e uma forma de memorizá-las, assista ao vídeo no link a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=3bp0xTfnjXg. DICA De acordo com o Charaka Samhita, citado anteriormente, a quantidade apropriada de comida que devemos consumir é a que não perturbe o equilíbrio dos doshas, e o processo de digestão ocorre no tempo certo, “por exemplo: se nós jantarmos de forma compatível, pela manhã a comida já terá sido digerida e teremos fome novamente” (ÁGORA, 2017, p. 1). É essencial respeitarmos o tempo de digestão, “uma refeição somente deve ser tomada depois da completa digestão da refeição anterior, a qual deve ser adequada em quantidade e qualidade à constituição da pessoa e ao seu estado de saúde atual” (CARNEIRO, 2009, p. 112). O Ayurveda ensina que não é adequado comermos além da saciedade, mas sim “sair da mesa com um pequeno espaço no estômago. Durante a refeição podemos usar um pouco de água, jamais ser gelada, ou até uma pequena quantidade de chá de ervas digestivas como o funcho ou erva doce” (ÁGORA, 2017, p. 2). A seguir, destacamos alguns ensinamentos do Ayurveda para uma alimentação saudável: 86 • “Tomar café como um príncipe, almoçar como um rei e jantar como um mendigo”. Esta postura pode ser utilizada aqui, pois o nosso Agni segue as forças da natureza: o sol é o grande doador de Agni e está na sua plenitude no meio do dia, quando devemos fazer a principal refeição. Já no final do dia o poder digestório está diminuído e a refeição deve ser mais leve. • o Ayurveda recomenda usarmos os 6 sabores na dieta, ou seja, quanto mais variada a nossa comida, melhor será. Devemos evitar os alimentos que nós não conseguimos imaginar crescendo na natureza, pois não são de fontes naturais e tornam-se inadequados a saúde do corpo, como exemplo pode-se citar as margarinas, os refrigerantes e os achocolatados. • Nesta filosofia médica indiana acredita-se que na região e na estação do ano que nós vivemos é onde achamos os melhores alimentos para a nossa saúde. Estes são encontrados nas feiras orgânicas (ÁGORA, 2017, p. 2). Em síntese, a partir do conhecimento do nosso Prakriti poderemos adequar os nossos hábitos alimentares. Para o Ayurveda, a alimentação mais adequada é aquela que favorece o equilíbrio dos seis sabores, sem exagerar no consumo de nenhum de- les, e relacionando-os com as condições do organismo que os consome. Dessa forma, como recurso terapêutico, essa dieta individualizada pode prevenir e tratar doenças (DE GASPERI; RADUNS; GHIORZI, 2008). 5 DINACHARYA – ROTINA AYURVÉDICA Dinacharya quer dizer “rotina diária”, são hábitos de autocuidado que o Ayurveda ensina para integrarmos ao nosso dia a dia, obtendo seus benefícios à saúde. A seguir, descreveremos alguns destes hábitos. • Acordar antes do nascer do sol, praticar as rotinas espirituais e de limpeza com calma. • Tomar um copo de água morna com algumas gotas de limão, o que auxilia na evacuação (DE LUCA; BARROS, 2007). • Limpeza da Boca, dentes e língua: a higiene destas partes é de suma importância, a boca deve estar sempre limpa. Além de lavá-la após cada refeição, a escova de dentes não deve ser dura. É recomendado o uso de pós de erva e sal para limpar os dentes, já que a maioria das pastas dentais contêm químicos que podem ser prejudiciais. Outro hábito para a limpeza da boca é o de usar raspadores de língua todas as manhãs para retirar a sujeira acumulada, eles podem ser de prata, ouro, bronze, sendo mais utilizado o de cobre (VERMA, 2003). Ressaltamos que, atualmente, existem pastas dentais que são produzidas a base de plantas e escovas super macias, que seriam ideais para a escovação adequada (CARNEIRO, 2009). 87 Para saber mais sobre o processo de higiene bucal no Ayurveda, assista ao vídeo a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=kmaphM_pT_g. DICA • Realizar, pela manhã, os ciclos de surya namaskar (saudação ao sol), pranayamas (técnicas de respiração), assim como um tempo de meditação “a meditação faz uma espécie de faxina geral. A mente apaziguada auxilia na prevenção de doenças, acelera a recuperação física e pode até curar” (DE LUCA; BARROS, 2007, p. 211). Figura 1 – Postura de meditação Fonte: https://br.freepik.com/fotos-gratis/full-shot-mulher-meditando_12810627. htm#query=ayurveda&position=34&from_view=search. Acesso em: 1° set. 2022. Aprenda a realizar surya namaskar assistindo ao vídeo através do link a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=5jCyt5KXT10. DICA • Realizar técnicas de automassagem, tomar banho sem pressa. • O café da manhã deve ser desfrutado de forma que mate a fome, sem exageros. Toda a refeição deve ser realizada com atenção, sem estímulos externos como a TV ligada ou o uso do celular. 88 • À noite, a meditação também é bem-vinda, assim como uma alimentação leve, de preferência até no máximo às 19h. • Estar na cama antes das 22h, não comer e nem ver TV na cama (DE LUCA; BARROS, 2007). • O óleo de gergelim é muito utilizado no Ayurveda, tanto para as automassagens antes do banho, como para realizar um gargarejo que beneficia a saúde das gengivas e da mandíbula. • Os exercícios físicos são fundamentais na visão ayurvédica, porém, é importante não exceder a prática para além das nossas capacidades físicas atuais (CARNEIRO, 2009). Cada dosha tem o seu horário específico do dia, o Ayurveda ensina a utilizar esse conhecimento para organizarmos nossa rotina diária. O Quadro 5 demonstra os horários de cada dosha e as orientações do dinacharya: Quadro 5 – Rotina diária Ayurveda Fonte: adaptado de Ayusante (2019) Horário Dosha Rotina 10:00 às 14:00 Pitta Realizar trabalhos que exigem desafios da mente. Hora em que o agni está mais forte, almoçar bem. 14:00 às 18:00 Vata Criatividade. Planejar coisas para o próximo dia. Prática de exercícios. 18:00 às 22:00 Kapha Jantar leve. Bem-estar. Relaxamento. 22:00 às 02:00 Pita Dormir. Processar e metabolizar alimentos e pensamentos do dia. 02:00 às 06:00 Vata Sonhos. Acordar. Eliminação. Meditação. Exercício Físico. 06:00 às 10:00 Kapha Café da manhã leve. Hora de trabalhar. Produção. Realização. Observamos no Quadro 5 que a hora vata do dia é das 2h às 6h. Esse é o perío- do em que há mais Sattva (ou qualidade do ar). Além disso, esse momento é chamado de Brahma-muhurta,ótimo para aprendizados, considerada a hora mais pura do dia (AYUSANTE, 2019). Por isso, é recomendado acordar antes do nascer do sol. Diversas associações são possíveis de serem realizadas com base nos horários dos doshas e das orientações do dinachaya. 6 MASSAGEM AYURVÉDICA – ABHYANGA Como vimos anteriormente, a automassagem é um dos hábitos integrados no dinacharya, sendo assim, o ideal é realizá-la diariamente. As massagens ayurvédicas de forma geral são feitas passando óleos vegetais no corpo, como o óleo de girassol ou de coco: “o termo abhyanga vem do sânscrito e significa untar, friccionar com óleo. Conhecido também como snehana externo ou popularmente como massagem ayurvédica” (CARNEIRO, 2009 p. 162). 89 Figura 2 – Óleo vegetal de coco Fonte: https://elements.envato.com/pt-br/composition-with-natural-organic-coconut-oil-cosme-9EFR446. Acesso em: 1° set. 2022. Os óleos geralmente são aquecidos para serem utilizados mornos, e são dife- rentes para cada tipo de dosha. Durante a massagem, também podem ser usadas ervas. Figura 3 – Utilização de óleo vegetal na massagem ayurvédica Fonte: https://elements.envato.com/pt-br/woman-getting-ayurvedic-massage-with-organic-oil-o-83CLMN2. Acesso em: 1° set. 2022. A seguir, apresentamos alguns benefícios dessa prática: • Consegue equilibrar corpo-mente-energia. • Reequilibra os doshas. • Fortalece o sistema imunológico, ajudando o indivíduo a criar re- sistência e flexibilidade internas e externas para se defender e se adaptar às mudanças e intempéries. • Promove o aumento da circulação periférica nos vasos capilares, o que auxilia na redução da pressão arterial e contribui para aumen- tar a oxigenação dos tecidos. 90 • Sendo um tratamento de rejuvenescimento (rasayana) do Ayurve- da, o abhyanga aumenta a força do tecido, melhora a circulação do sangue, rejuvenesce os tecidos, remove celulite, embeleza a pele, atrasa a velhice, induz ao sono saudável, promove a vitalidade, pa- cifica desarmonias dos doshas (especialmente vata), reduz toxinas e remove stress (CARNEIRO, 2009, p. 163). As regiões do corpo em que podem ser feitas o abhyanga são: • Mukhabhyanga = massagem facial • Padabhyanga = massagem nos pés • Pristhabhyanga = massagem nas costas • Shiroabhyanga = massagem na cabeça (CARNEIRO, 2009, p. 163) O Ayurveda nos ensina que as dores são consequências de acúmulos de energia, e obstruem o fluxo dela pelo corpo. A massagem ayurvédica favorece o fluir do fluxo energético e desobstrui a dor. Para a automassagem do dia a dia, quando não disponibilizamos de muito tempo, recomenda-se massagear os pés por 2 a 3 minutos, o couro cabeludo com movimentos circulares curtos, a testa, atrás das orelhas, a nuca e o pescoço. Após, pode-se tomar um banho e lavar o cabelo (ROCHA, 2022b). A shirodhara é outra técnica de massagem que consiste em derramar gentil- mente um óleo vegetal confeccionado especificamente para cada prakriti na testa (lo- calização do ajna chakra) da pessoa em tratamento. O período dessa massagem é de, no mínimo 30 e no máximo 60 minutos (CARNEIRO, 2009). Figura 4 – Aplicação de massagem shirodhara Fonte: https://elements.envato.com/pt-br/ayurveda-massage-alternative-healing-therapy-beaut-WG2KHR2. Acesso em: 1° set. 2022. A massagem da cabeça realizada com as mãos é chamada de champi, é importantíssima no Ayurveda. Além de aliviar dores de cabeça, favorece a memória e promove a longevidade. Pode ser realizada com a pessoa sentada em uma cadeira mais baixa, não causando desconforto para quem irá massagear. O óleo deve ser aplicado na 91 ponta dos dedos e é feita uma unção do couro cabeludo, esfregando suavemente. Após o couro cabeludo estar untado, a massagem começa com o movimento dos dedos por todas as partes da cabeça, depois os lóbulos das orelhas. Esse processo se repete de forma mais vigorosa, dependendo da tolerância da pessoa (VERMA, 2003). Figura 5 – Técnica de massagem na cabeça Fonte: https://elements.envato.com/pt-br/young-woman-doing-healthcare-indian-traditional-tr-XJBHBGU. Acesso em: 1° set. 2022. A shantala corresponde a uma técnica de massagem específica para bebês, no Ayurveda é nomeada como kumara abhyanga. É muito parecida com o abhyanga, o que muda é a duração da massagem, tipo de óleo e a aplicação em alguns pontos do corpo (CARNEIRO, 2009). Figura 6 – Massagem em bebê Fonte: https://bit.ly/3T7YdYP. Acesso em: 1° set. 2022. 92 Existe diversas técnicas manuais no Ayurveda que não foram citadas. Para aprofundar seus conhecimentos sobre a abhyanga, assista a entrevista no vídeo a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=lB281ivCEjc. DICA Ressaltamos que as terapias corporais de massagem do Ayurveda são trata- mentos de saúde, realizados por um terapeuta com formação que vai selecionar a forma de terapia mais indicada para cada caso. 93 Neste tópico, você aprendeu: • A “medicina ayurvédica” é a mais antiga ciência da saúde, originária da Índia. • Que a abordagem terapêutica do Ayurveda é baseada na possibilidade do autocuida- do, sendo esse o principal tratamento. • Na medicina indiana, o corpo é visto como o microcosmo que reflete as mesmas propriedades do universo. • A abordagem terapêutica da Ayurveda é baseada na possibilidade do autocuidado. • “Doshas” são substâncias materiais presentes em cada célula do corpo, e atuam nas diversas funções dele. • Ao escolher a nossa alimentação diária, em quantidades maiores ou menores de cada um dos seis sabores (ou rasas), favorecemos o equilíbrio dos doshas. • O dinacharya nos ensina que, pela manhã, o ideal é acordar cedo e praticar uma série de atividades que envolvem limpeza do corpo, automassagem, meditação, exercícios físicos e um café da manhã leve. • O abhyanga ou massagem ayurvédita é realizada com óleos vegetais friccionados no corpo. • As regiões do corpo em que podem ser feitas o abhyanga são: massagem facial; massagem nos pés; massagem nas costas; massagem na cabeça. RESUMO DO TÓPICO 1 94 AUTOATIVIDADE 1 Ayurveda quer dizer, literalmente, “conhecimento da vida”, é considerado um sistema médico que existe há aproximadamente cinco mil anos. Com base nos fundamentos desta racionalidade, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Os conhecimentos do Ayurveda estão presentes nos Vedas, 4 obras escritas em sânscrito. b) ( ) O Ayurveda se assemelha à medicina alopática, por suas constantes transformações ao longo do tempo. c) ( ) Para o Ayurveda, o melhor tratamento para a saúde é consultar periodicamente um terapeuta com formação nesse sistema médico. d) ( ) No tratamento a partir da visão ayurvédica, o foco é somente no corpo-mente. 2 Considera-se a teoria do tridosha, ou “três doshas”, o princípio de diagnóstico e intervenção no Ayurveda. Restabelecer as funções adequadas dos doshas é o ponto principal do tratamento. Com base nas definições desta teoria, analise as sentenças a seguir: I- A proporção dos doshas em cada corpo é igual para todos. II- O dosha pitta é uma combinação dos elementos Ar e Água. III- Cada dosha possui características ligadas aos elementos que o constitui. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 A partir da observação da combinação dos cinco elementos, o Ayurveda enumera três doshas presentes no corpo: kapha, pitta e vata. De acordo com as características dos doshas, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) A função do dosha pitta é colocar a energia em movimento e dar-lhe uma direção. ( ) Os tipos kapha tendem a ser compassivos, calmos e relaxados. ( ) Indivíduos do tipo vata, geralmente tendem a ter a necessidade de permanecer calmos e parados. 95 Assinale a alternativa que apresentaa sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 4 O Ayurveda afirma que é possível determinar os alimentos mais adequados para cada pessoa de acordo com o seu dosha predominante. Disserte o que são os seis sabores e cite dois alimentos que devem ser consumidos em pequenas quantidades por pessoas com predominância do dosha kapha. 5 Dinacharya quer dizer rotina diária, são hábitos de autocuidado que o Ayurveda nos ensina. Um ponto importante desta rotina é a limpeza da boca. Disserte sobre os cuidados com a higiene bucal de acordo com os ensinamentos do Ayurveda. 96 97 YOGA UNIDADE 2 TÓPICO 2 — 1 INTRODUÇÃO O Yoga é uma tradição espiritual milenar da Índia, sua origem consta nos antigos escritos dos Vedas. Não é possível entender sua verdadeira natureza somente pela leitura de um texto ou de livros sobre esse tema, pois muito da compreensão do Yoga é advinda da experiência prática. Nesse sentido, os ensinamentos presentes nas escrituras nos mostram a direção que devemos seguir. Vastamente difundido no ocidente, no Brasil, o Yoga é considerado uma PICS e pode ser realizado no SUS. Suas posturas físicas (asanas), frequentemente reconhe- cidas pela sua popularidade, se configuram como um dos métodos de Yoga diante de tantos outros que guiam ao mesmo objetivo principal, o samadhi. No Tópico 2, descreveremos uma breve história do Yoga e suas subdivisões. Também abordaremos sobre as suas principais ramificações, aprofundando o estudo no Raja Yoga de Patañjali, seus princípios e práticas. Por fim, discutiremos sobre o Yoga na contemporaneidade, referenciando estudos atuais sobre a integração da prática no SUS. 2 BREVE HISTÓRIA DO YOGA Yoga significa união, pode ser designado como qualquer método prático que guie ao samadhi, podemos classificá-lo como uma filosofia prática (DE ROSE, 2007). Samadhi é o estado de hiperconsciência e autoconhecimento que o Yoga proporciona (DE ROSE, 2007, p. 51). NOTA Tanto no oriente quanto no ocidente “o Yoga é a técnica da junção ou união da alma individual com o Espírito absoluto. É um meio de libertação. É, por isso, ígneo, quente, intenso, extático. Vai levar você além de você mesmo; alguns dizem que pode levá-lo ao infinito” (WILBERT, 2005, p. 14). Em outras palavras, “da raiz sânscrita “yug”, que significa unir, o Yoga diz respeito à junção de corpo, mente e espírito e um contínuo 98 único, que, por sua vez, se conecta ao espírito ou consciência universal” (DE LUCAS, BARROS, 2007, p. 239). Conforme afirma o grande mestre Paramahansa Yogananda, “o objetivo do caminho, que é a realização divina, faz com que tudo seja possível, pois ensina a tornar imortal o que é mortal” (YOGANANDA, 2014, p. 320). Desde a antiguidade, o ser humano possui uma aspiração a obter o estado hiperconsciência de transcender a condição humana para conectar-se a algo “maior”. Podemos citar exemplos de fenômenos de diversas partes do mundo, como nas pinturas rupestres da Europa Meridional e nos túmulos paleolíticos do Oriente Médio. Entretanto, a Índia foi berço da maior variedade de crenças, as práticas espirituais da população indiana têm como objeto uma dimensão de realidade que vai além do que percebemos, chamada de Deus, Ser supremo, o Eterno, o Espírito, o Si Mesmo (transcendental) entre outros (FEUERSTEIN, 2001). A Realidade última, que é imutável, a pura consciência, é chamada de Brahma, quando o “eu” individual se une a ela o espírito se liberta do sentido de separação “o ser humano liberta-se de maya, a ilusão de tempo, espaço e causa, e atinge o samadhi, que é o estado de autoconsciência e felicidade plena objetivado pelo Yoga (DE LUCA, BARROS, 2007, p. 239). Nessa visão, tudo no mundo que é percebido pelos sentidos é maya (ou ilusão), como se a vida fosse somente um filme visto por nossa verdadeira essência, estamos “presos” a um corpo limitado, enquanto o espírito é isolado dessa realidade alternativa, causa do processo de reencarnações sucessivas (ou samsara). Para compreender mais sobre o conceito de samsara, assista ao vídeo a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=X3ZbasRw2vk. DICA Os pensadores, sábios e místicos (não somente da Índia), que procuram explicar a Deus (ou Realidade última) e sua relação com o universo, concordam quase que em unanimidade sobre três coisas relacionadas a ele: 1. É único – isto é, um Todo indivisível e completo em si mesmo, fora do qual nada existe; 2. Tem um grau mais alto de realidade do que o mundo da multiplici- dade que se reflete para nós através dos sentidos; e 3. É o nosso bem. (...) isto é, o mais desejável de todos os valores possíveis (FEUERSTEIN, 2001 p. 26). Percebemos que o Yoga tem uma forte ligação com a busca humana pela conexão com algo maior, porém, não é uma religião, e sim a espiritualidade da Índia (FEUERSTEIN, 2001). Em resumo, “o Yoga é a disciplina física, mental e espiritual que se originou na Índia antiga, cujo objetivo último é a realização do máximo potencial do ser 99 humano” (VILLEGAS; PUJOL, 2017, p. 15). Também não é uma forma de ginástica, mas sim: “o caminho e o caminhar que conduzem a Deus (...) Religação da alma individual com a Alma Universal, do homem finito com o Infinito, do homem imperfeito com a Perfeição (...)” (HERMÓGENES, 1980, p. 32). O Yoga, assim como a Ayurveda e o Tai Chi Chuan (TCC), são práticas que o homem ocidental está “começando a experienciar, transitar, usufruir e descobrir novas dimensões de si mesmo, a partir de uma perspectiva holística que o enxerga cada vez mais como um ser “bio-psico-social-espiritual”” (THRÉSKEIA, 2014, p. 146). A origem do Yoga é datada há cinco mil anos. No vale do rio Indo (atual território do Paquistão), houve descobertas arqueológicas que demonstraram figuras em posturas de Yoga em fósseis de pedra (de 3 mil a.C). Já as ideias práticas surgiram primeiramente nos Vedas (citados no tópico anterior), mais precisamente na parte das escrituras denominada “Upanishads”. A tradição do Yoga conta que seu criador foi Shiva (divindade do hinduísmo), Brahma (o criador do universo) e Vishnu (o preservador) (DE LUCA, BARROS, 2007). Upanishad significa, literalmente, “sentar-se junto”, mas normal- mente é traduzido como “comentário”. É que as Upanishads são os comentários dos Vedas e, por isso, estão situadas no final dele” (DE ROSE, 2007, p. 45). NOTA Ao longo de sua história, o Yoga incluiu “um grande número de abordagens, escolas, mestres, textos, práticas e termos técnicos” (FEUERSTEIN, 2005a, p. 7). Assim, é dividido em dois grandes grupos: • Yoga Antigo: que se subdivide em Pré-clássico e Clássico. • Yoga Moderno: que se subdivide em Medieval e Contemporâneo. Essas subdivisões podem ser chamadas de “troncos, já que se diferenciam em suas características, e a partir delas surgiram vários ramos de Yoga. Os troncos determinam a fundamentação filosófica global e postura comportamental genérica. Por outro lado, os ramos definem que técnicas vão ser utilizadas e em que proporção” (DE ROSE, 1996, p. 19). Os quatro troncos são: • Sámkhya (Yoga Antigo) – teórico, naturalista. • Vêdantá – (Yoga Moderno) teórico, espiritualista. • Tantra – (Yoga Pré-Clássico e Contemporâneo) comportamental. • Brachmácharya – (Yoga Clássico e Medieval) comportamental (DE ROSE, 1996). 100 A seguir, apresentamos o Quadro 6, que demonstra a cronologia histórica do Yoga com os troncos (antigo e moderno) e suas divisões (ou ramos) em cada época, seus mestres e livros clássicos. Quadro 6 – Cronologia do yoga Fonte: De Rose (1996, p. 23) Divisão Yoga Antigo Yoga Moderno Tendência Sámkhya Vêdantá Período Pré-Clássico Clássico Medieval Contemporâneo Época + de 5 mil anos +/- século III AC +/- século VIII +/- século XI Antes de 1950 Depois de 1950 Mestre ShivaPátañjali Shankara Gôraskha Ramana Ramakrishna Vivêkánanda Shivánanda Aurobindo Yogêndra Krishnánanda Satyánanda Chidánanda Vishnudêvánanda Muktánanda Livro Upanishad Yoga Sútra Vivêka- Chudamani Hatha-Yoga Fase Proto-histórica Histórica Fonte Shruti Smriti Povo Drávida Árya Sistema Tantra Brahmacharya Observamos no Quadro 6 que as evidências sobre a existência do Yoga podem ser constatadas no desenvolvimento da cultura védica: principalmente no período pré-clássico, representados no Gita e nos Upanishads. Estes indícios do Yoga se consolidam no período clássico, com Patañjali, e são desenvolvidos no período pós-clássico, com as descrições anatômicas e fisiológicas nos textos sobre Hatha-Yoga” (SIEGEL, 2010, p. 28). O Bhagavag Gita, é um livro sagrado do hinduísmo, a obra relata o diálogo do príncipe Arjuna e seu mestre Krishna em um campo de batalha. Nele há lições que fazem alusões com os ramos de Yoga. NOTA 101 O Yoga chegou ao Ocidente por intermédio de Swami Vivikenanda, que o apresentou no Parlamento das Religiões (Chicago, 1983) (SIEGEL; FILICE DE BARROS, 2014). Ele é considerado fundamental na integração do Yoga e do Vedanta no Ocidente. No Brasil, Caio Miranda começa a ensinar Yoga em 1940, na Sociedade Teosófica do Rio de Janeiro. Em 1960 publica a primeira obra sobre o assunto no país, intitulada Libertação pelo Yoga. Contudo, a prática se propagou no país durante os anos 70, juntamente com outras terapias alternativas, introduzidas durante o movimento de contracultura. Nos anos 80, o Yoga se institucionalizou e várias organizações foram criadas para regular os professores de Yoga: a Federação de Yoga do Brasil; a Associação de Yoga do Estado de São Paulo; a Associação Brasileira de Professores de Yoga e a Associação Brasileira de Yoga, responsável pela criação do código e ética para professores de Yoga (SIEGEL; FILICE DE BARROS, 2013, p. 173). Nos textos sobre Yoga Clássico, a palavra “doença” é raramente citada, já que a prática era mais voltada para a área espiritual. Todavia, podemos pressupor que suas técnicas, quando realizadas de forma adequada, favorecem a saúde (DEVEZA, 2013b). Dessa forma, as principais áreas em que o Yoga permeia são: a da saúde e a espiritual. Muitas pessoas iniciam a prática simplesmente para buscar a melhora das condições físicas, outras para fins espirituais (ou ambos). Nesse caso, “o Yoga pode se configurar como uma atividade secular, espiritual ou mista” (SIEGEL; FILICE DE BARROS, 2014, p. 33). Na PNPIC, por exemplo, a definição de Yoga é focada mais na parte física e de meditação: É uma prática que combina posturas físicas, técnicas de respiração, meditação e relaxamento. Atua como uma prática física, respiratória e mental. Fortalece o sistema músculoesquelético, estimula o sistema endócrino, expande a capacidade respiratória e exercita o sistema cognitivo. Um conjunto de ásanas (posturas corporais) pode reduzir a dor lombar (...). Para harmonizar a respiração, são praticados exercícios de controle respiratório denominados de prânâyâmas. Também, preconiza o autocuidado, uma alimentação saudável e a prática de uma ética que promova a não-violência. A prática de Yoga melhora a qualidade de vida, reduz o estresse, diminui a frequência cardíaca e a pressão arterial, alivia a ansiedade, depressão e insônia, melhora a aptidão física, força e flexibilidade geral (BRASIL, 2017, p. 1). Em síntese, sobre a parte histórica, a base do Yoga provém dos Vedas, e a maioria dos livros identificam o Yoga descrevendo a raiz da palavra, ou seja, “união”. Eles discorrem que essa união acontece entre o Eu individual com Deus, o Si Mesmo, a Consciência Cósmica, entre outros nomes utilizados para nos referirmos a “algo maior ou além de nós”. Além disso, também é relacionado ao samadhi, o estado de êxtase, de autorrealização. O Yoga, nas divisões dos “troncos”, abriu espaço para diversas ramificações e escolas diferentes, que são descritas a seguir. 102 3 PRINCIPAIS RAMOS DO YOGA A retirada da consciência do mundo externo para conectar-se com algo “além” dos sentidos, é possível a partir do controle do corpo físico, de forma que a energia cós- mica possa chegar a ele. Isso ocorre por intermédio de práticas que podem ser: exercí- cios físicos e respiratórios (do ramo Hatha Yoga); por meio de repetição de palavras ou frases para a mente (Mantra Yoga), pelo controle de nossas ações (Karma Yoga), entre outros (SLATER, 2008). Nesse caso, observamos que os diversos ramos ou métodos do Yoga buscam o mesmo objetivo, com um conjunto de técnicas específicas. A seguir, descreveremos alguns dos principais ramos de Yoga. 3.1 BHAKTI YOGA – O YOGA DA DEVOÇÃO O significado de Bhakti é devoção. Entretanto, esse tipo de Yoga não é somente espiritualista. Ressaltamos que o mesmo conjunto de técnicas pode ser executado considerando uma interpretação cultural absolutamente diferente, como, por exemplo, o Bhakti Yoga possui a linha Vedanta, que é espiritualista e cultua santos e Deuses (DE ROSE, 1982). Assim como a linha Sámkhya, antiga e autêntica, pré-clássica, com fundamentação naturalista, que reverenciará as forças da Natureza, o sol, a lua, as árvores, os rios etc. (DE ROSE, 2007). O Bhakti Yoga, É, até hoje, o mais popular na Índia. Consiste em uma prática espiritual, que preconiza o reconhecimento do divino em todos os seres e formas. Por meio de oração, veneração e rituais o praticante se rende ao Divino, canalizando e transmutando suas emoções em amor incondicional e devoção. Os mantras são uma das partes mais importantes desse treinamento (CARNEIRO, 2009, p. 182). No Bhakti Yoga, o amor à Deus e sua criação é desenvolvido “através de oração, adoração, ritual e, finalmente, rendição de si mesmo a Deus, ele transmuta suas emo- ções em amor incondicional ou devoção” (OBEROM, 2014, p. 133). 3.2 KARMA YOGA – O YOGA DA AÇÃO COMUNITÁRIA O significado de Karma é ação. Nesse caso, a ação é induzida por esse tipo de Yoga, e se refere ao trabalho, à realização. Todavia, a ação não deve ter fins egoístas (DE ROSE, 2007). São todos os atos do dia a dia, feitos em benefício do outro, sem visar a qualquer ganho próprio. Purifica o coração, ensinando a agir sem egoísmo. O desapega dos frutos das ações ensina a sublimar o ego e ajuda a manter a mente focada, mesmo em meio a um turbilhão (CARNEIRO, 2009, p. 182). 103 O Karma Yoga é baseado “no sentido de que o serviço purifica o coração, ensinando a pessoa a agir de forma desinteressada, sem pensar em ganho ou recompensa. Ao retirar-se dos frutos das ações e oferecer a Deus, sublima-se o ego, dando lugar à humildade (...)” (OBEROM, 2014, p. 133). 3.3 JÑANA YOGA – O YOGA DO CONHECIMENTO O significado de Jñana é conhecimento. A resposta para a pergunta “quem sou eu”, criada pelo nosso próprio psiquismo, é fonte de meditação para os praticantes desse Yoga (DE ROSE, 2007). Consiste na busca do conhecimento universal: como o universo foi criado, o sentido da vida, como cada um de nós se encaixa no todo. É a modalidade mais difícil, que requer uma enorme força de vontade e intelecto. O praticante utiliza sua mente para refletir sobre sua pró- pria natureza e chegar ao Divino – ou à melhor versão de si mesmo, para quem preferir. Antes de praticar Jñana Yoga, o aspirante deve ter integrado as outras lições dos outros caminhos de Yoga (CARNEI- RO, 2009, p. 182). Esse ramo do Yoga “busca reconhecer a identidade divina do ser, e experimentar assim a unidade com Deus pelo empenho da investigação que dissipa a ignorância” (OBEROM, 2014, p. 133). 3.4 RAJA YOGA, ASHTANGA YOGA OU YOGA DE PATAÑJALI O significado de Raja é real (dos reis). Considerado o Yoga Clássico, sua obra de referência é o Yoga Sutra (DE ROSE, 2007). Podemosdizer que “o Raja oferece um método abrangente para controlar as ondas do pensamento, transformando a nossa mente e energia física em energia espiritual” (OBEROM, 2014, p. 133). É o Yoga do controle físico e mental, do qual derivam todas as demais modalidades que trabalham corpo e que foram se adaptando para suprir as necessidades dos seres humanos. É o chamado “caminho real” e oferece um método para controlar a oscilação dos pensamentos e transformar nossa energia física e mental em energia espiritual (CARNEIRO, 2009, p. 183). O Raja Yoga foi sistematizado pelo sábio Patañjali, sendo desenvolvido por rishis da Índia antiga. 104 Rishis foram sábios da Índia antiga, a quem os Vedas foram intuitivamente revelados. NOTA No entanto, Patañjali não “inventou” o Yoga, mas compilou as técnicas a partir de trabalhos já existentes. A obra deste sábio foi composta em sutras sendo que o Yoga Sutra é dividido em quatro capítulos: • Samadhi Pada: que trata da definição de samadhi, um estado meditativo da mente e dos processos para alcançar este estado. • Sadhana Pada: que trata da prática que leva ao estado meditativo, a disciplina que dissolve os obstáculos que podem ser encontrados. • Vibhuti Pada: que trata dos resultados obtidos com a prática da meditação profunda (samyama); é conhecimento que pode resultar em habilidades especiais ou poderes. • Kaivalya Pada: que trata do objetivo final do Yoga proposto nos su- tras, o estado de desidentificação e a dissolução do praticante no Universo, produzindo a liberação (kaivalyam) (OBEROM, 2014, p. 135). Os “sutras” são um tipo de composição literária sânscrita, cuja finalidade é facilitar a memorização de um assunto complexo. Extremamente concisos, apresentam o assunto de forma linear, sendo que cada aforismo decorre naturalmente do anterior (OBEROM, 2014, p. 135). NOTA O Raja Yoga “combina as formas mais elevadas de outras Yogas: devoção, ação correta, autocontrole físico e mental e comunhão divina por meio de técnicas científicas de concentração e meditação” (YOGANANDA, 2014, p. 320). Ressaltamos que o Hatha Yoga, conhecido por sua popularidade no ocidente, foi desenvolvido a partir do Yoga de Pañtajali (OBEROM, 2014). 3.4.1 O CAMINHO DE OITO PASSOS DO RAJA YOGA DE PATANJALI O Raja Yoga é constituído por um sistema de oito partes, chamado Ashtanga Yoga, mencionadas no Yoga Sutra no capítulo II, sutra 29, são eles: Yama; Niyama; Ásana; Pranayama; Pratyahara; Dharana; Dhyana; Samadhi, estes serão descritos a seguir. 105 1. Yama – O que não fazer. São cinco proscrições morais, subdivididos em cinco diretrizes: • Ahimsa – o princípio da não violência: As ações englobam também as palavras e o pensamento. É o princípio de não realizar quaisquer ações violentas em qualquer momento, por qualquer motivo e com qualquer ser, o que inclui os animais “isso inclui uma ação correta em relação aos animais, que envolve a abolição das diversas atividades e diferentes usos a que foram submetidos pelo homem” (OBEROM, 2014, p. 165). • Satya – o princípio da veracidade: dizer sempre a verdade. As palavras têm um gran- de poder, quando a pessoa não mente, tudo o que fala é verdadeiro e seus desejos são realizados (JOIS, 2020). Melhor dizendo, “quando o indivíduo assume o compro- misso interno de ater-se à verdade, ela o protegerá” (OBEROM, 2014, p. 166). • Asteya – o princípio do não roubar: além de não roubar nada que seja posse de outra pessoa, Asteya quer dizer não ter inveja, ressentimento, não enganar (JOIS, 2020). • Brahmacharya – o princípio da continência, da não promiscuidade: este yama frequentemente é compreendido como celibato, “mas pode ser visto simplesmente como a não promiscuidade ou até a observação da fidelidade conjugal” (OBEROM, 2014, p. 169). A prática de brahmacharya tem obstáculos, principalmente atualmente já que estamos repletos de estímulos sensoriais externos. Contudo, podemos adquirir um certo grau deste yama ao não conviver com pessoas vulgares, não mentir no relacionamento etc. (JOIS, 2020). Uma pessoa que faz o voto de brahmacharya chama-se brahmachari, “a escritura hindu afirma que, “pela prática do brahmacharya, aumentam a longevidade, a glória, a força, o vigor, o conhecimento, a riqueza, a fama imorredoura, as virtudes e a devoção à verdade”” (STONE, 2006). • Aparigraha – o princípio do desapego, da não possessividade: Aparigraha engloba a alimentação, os alimentos devem ser puros e frescos, consumidos em quantidade suficiente para nutrir o corpo, sem excessos ou desejando coisas supérfluas (JOIS, 2020). Neste caso, engloba “a abnegação do prazer no paladar, especialmente aquele que gera violência” (OBEROM, 2014, p. 173). Estas cinco ações de autocontrole em relação com o meio externo criam um ambiente favorável para que os objetivos das práticas sejam alcançados, ou seja, falar sempre a verdade, não se apropriar de nada que não lhe pertence, não acumular ou cobiçar, entre outros (DEVEZA, 2013b). 2. Niyama – Cinco prescrições éticas. São o controle em relação a si mesmo, também divididos em cinco pontos: • Saucha – pureza: são dois tipos de Saucha: a purificação externa e interna. A pureza refere-se a cuidados com o corpo externo, com a alimentação e inclusive com as condutas sociais. 106 • Santosha – contentamento: contentamento não no sentido momentâneo por causas externas que são finitas, mas sim, advindo do próprio ser, de forma a não sentir mais nenhum tipo de pesar. O estado de felicidade interno é o contentamento, sendo que os fenômenos da vida não são vistos como “positivos” ou “negativos”, e sim chances de aprender. • Tapas – austeridade, disciplina, autossuperação: a autodisciplina requer comprome- timento, tapas sugere que você faça algo que não quer visando as consequências positivas dessa experiência. Um exemplo de “tapas” é a prática do jejum, pois refe- re-se a nos privarmos de algo que é hábito cotidiano em nossas vidas, dessa forma podemos perceber a nossa dependência em coisas externas. • Svadhyaya – autoestudo, estudo espiritual: O autoestudo é relacionado aos textos estudados sobre a natureza essencial do ser, e a observação da própria experiência que a prática do Yoga traz (DEVEZA, 2013b). • Ishvarapranidhana – entrega a Deus, confiança e dedicação ao Divino: A auto entrega a Deus faz parte da devoção, o Ishvarapranidhana nos ensina a entregar inclusive nossas ações a uma vontade superior a nossa. Os Niyamas são “observâncias”, ou seja, referentes à relação do Yogue consigo mesmo. O autoestudo é relacionado aos textos estudados sobre a natureza essencial do ser, e a observação da própria experiência que a prática do Yoga traz (DEVEZA, 2013b). 3. Asanas – São chamadas de “posturas psicofísicas”, por quê: além de promoverem alongamentos de grupos musculares para re- laxamento físico, associam visualizações e movimentos respiratórios específicos que alteram também estados de consciência. Uma boa prática de posturas deve incluir conforto e estabilidade na posição final do corpo, relaxamento de todo esforço desnecessário para sua execução e a etapa psíquica da postura que segundo Patañjali é a fusão da consciência com o ilimitado (DEVEZA, 2013b, p. 208). De acordo com a história, o sentido proposto por Patañjali nos asanas “seria estar assentado de forma estável e confortável. Posteriormente, os documentos trazem variadas formas de posturas que, inclusive, são intensas e fortes, e trabalham o equilíbrio do corpo e da mente” (OBEROM, 2014, p. 137). Nesse caso, no princípio do Yoga, as posturas praticadas eram o padmasana (posição de lótus completa) ou o siddhasana (posição de lótus simplificada). Estes dois asanas mantém a coluna ereta, o que é condição básica para a realização de exercícios respiratórios e da meditação. Contudo, “com o passar dotempo, os mestres Yogins sentiram a necessidade de fortalecer o corpo para melhor atingir o objetivo final do Yoga. A saúde é um fator indispensável para se conseguir evoluir na prática” (CARNEIRO, 2009, p. 186). 107 Figura 7 – Exemplo de Asana - Postura psicofísica de Yoga Fonte: https://elements.envato.com/pt-br/girl-practicing-yoga-on-fitness-mat-in-yard-NSNYTWR. Acesso em: 1° set. 2022. Todo asana tem três estágios: Entrada na postura, permanência e sa- ída. O verdadeiro trabalho é feito durante a permanência. Com o pas- sar do tempo, o Yogin chega a um ponto em que pode permanecer em determinada postura sem qualquer flutuação da mente. É nesse momento que ele de fato pratica um asana, definido por Patañjali como “a postura tão firme e tão controlável que se pode permanecer nela enquanto se medita no infinito” (CARNEIRO, 2009, p. 187). Os asanas preparam o corpo para a meditação. Durante a prática, a respiração é controlada em cada movimento. As posturas podem ser desde as mais simples até mais complexas. Elas promovem maior estabilidade e flexibilidade do corpo. O mais importante é que as posturas são somente a “pele” do Yoga. Por trás delas se oculta a “carne e o sangue” do controle da respiração e das técnicas mentais que são ainda mais difíceis de aprender, além de práticas morais que exigem toda uma vida de perseverante aplicação e correspondem ao esqueleto do corpo (FEUERSTEIN, 2005b, p. 19). Os asanas são frequentemente confundidos com “ginástica”, o que é um erro. Os yamas e niyamas são o seu apoio, e, além do físico, elas impactam nos nossos pensamentos e emoções, mantendo a calma. 4. Pranayama – Domínio da bioenergia através de exercícios respiratórios: o objetivo principal desta prática é a retenção da respiração, preparando a pessoa para as técnicas de concentração (DEVEZA, 2013b). Um exemplo de pranayama é o Nadi-shodana (Nadi = conduto energético e shodhana = limpeza). O passo a passo para a realização do exercício é o seguinte: 108 Sentar-se com a coluna e os olhos fechados. Unindo polegar e indicador da mão direita, usar o dedo médio para obstruir a narina direita e inspirar pela esquerda. Reter o ar com os pulmões cheios e, ainda com os pulmões cheios, trocar a narina em atividade, obstruindo a narina esquerda com o mesmo dedo e expirar pela direita. Reter o ar com os pulmões vazios e inspirar novamente pela narina direita – ou seja, a mesma narina que acabou de fazer a expiração. Reter o ar com os pulmões cheios, trocar a narina em atividade e expirar pela narina esquerda (DE LUCA, BARROS, 2007, p. 266). Figura 8 – Demonstração de Nadi-shodana Fonte: https://elements.envato.com/pt-br/fit-woman-practicing-yoga-pranayama-breath-control-T8GM6PZ. Acesso em: 6 set. 2022. Recomenda-se que, inicialmente, seja realizado três ciclos completos do exercício, aumentando o tempo até 10 minutos (DE LUCA, BARROS, 2007). 5. Pratyahara – “Ahara” significa em sânscrito “alimento” no sentido de coisas que consumimos de fontes externas (ar, água, pensamentos, emoções...), e “prati” significa “controle” ou “afastado” (THAKUR; SINGH; TRIPATHI, 2019). Pratyahara é a abstração dos sentidos externos, uma forma de introspecção para a maior atenção às experiências psíquicas (DEVEZA, 2013b). É uma forma de “recolher os sentidos para não ser afetado pelos estímulos externos, que poluem a busca pelo silêncio interno” (OBEROM, 2014, p. 186). 6. Dharana – Concentração mental, focar a atenção do pensamento somente em uma coisa, frequentemente essas práticas incluem: “atenção em partes do corpo, (...) fi- guras de divindades ou seus atributos, na própria respiração, num som ou num dia- 109 grama místico (mantras e yantras, respectivamente) ou na observação dos próprios pensamentos” (DEVEZA 2013b, p. 209). Esses métodos auxiliam no desenvolvimento do poder de atenção. 7. Dhyana – Meditação: os limites dessas três últimas partes são difíceis de serem explicados, sendo que “a passagem de uma para outra é muito sutil e não tem uma marca distintiva explícita” (DEZEVA, 2013b, p. 209). A meditação também exige concentração, sendo um resultado “espontâneo da consciência quando firmada em si mesma, sem oscilações, concentrada, assim constitui a postura perfeita para gerar a pressão que desperta e condiciona o florescimento do estado transcendental, livre de barreiras” (OBEROM, 2014, p. 189). Os benefícios da prática frequente de meditação são muitos, entre eles estão: “acalmar o sistema nervoso; controlar a tendência ao medo e à ansiedade; contraba- lançar a hipersensitividade e hiperatividade; ajuda na conciliação do sono; melhorar a digestão; otimiza o sistema imunológico” (CARNEIRO, 2009, p. 206). 8. Samadhi – Estado de hiperconsciência, de integração. Como já citado anteriormente, é o objetivo maior do Yoga “o estado de integração ocorre quando a concentração no objeto de meditação é tal que, a consciência individual do observador e do objeto observado paulatinamente se fundem em etapas sucessivas de concentração” (DEVEZA, 2013b, p. 209). Os quatro ramos do Yoga citados anteriormente, se desdobraram em várias modalidades, sendo populares, entre tantas outras, os seguintes tipos: • Hatha Yoga: forte nas posturas corporais • Swasthya Yoga: a prática em forma de coreografia • Iyengar Yoga: privilegia o trabalho de alinhamento corporal • Ashtanga Vinyasa Yoga: privilegia o movimento acoplado à respiração • Kundalini Yoga: trabalha a energia dando ênfase aos respiratórios (CARNEIRO, 2009, p. 199). Em síntese, o Yoga é dividido em diversos ramos, citamos alguns dos principais tipos, porém existem outros, e não há um consenso sobre o número de escolas existentes na atualidade. As abordagens podem ser mais relacionadas ao corpo físico, mais devocionais. Podem ser utilizadas individualmente ou em conjunto. O Raja Yoga contempla as formas mais elevadas de outros Yogas, seus ensinamentos perpassam pelo exercício do autocontrole físico e mental, a comunhão com o divino. Ensinam também as ações adequadas para lidarmos com o mundo exterior, os yamas e niyamas. As experiências individuais advindas das práticas (asana, meditação, pranayama ou outra qualquer), se transformam em sabedoria aplicável no dia a dia. 110 4 PRÁTICAS DE YOGA NA CONTEMPORANEIDADE – SUS A partir da inserção do Yoga na PNPIC, foi possível de se ofertar esta prática para as comunidades no Brasil, sendo constituinte de uma política pública na atenção primária à saúde. A partir desse momento, conheceremos alguns exemplos de experiências de implantação do Yoga no SUS, convidando à reflexão sobre sua aplicação na contemporaneidade a partir da sua inserção na PNPIC. A Universidade Federal de Minas Gerais (MG), através do seu programa de ex- tensão, em parceria com a Prefeitura de Ituiuaba – MG – capacitaram profissionais de saúde para promoverem a prática da Sahaja Yoga no SUS desse município, com a im- plantação de meditação gratuita para a comunidade em geral, especialmente aos ido- sos. O Sahaja Yoga é um método de meditação que permite ao participante vivenciar a prática com a mente consciente no presente. Essa técnica promove a tranquilidade à medida que se desperta o silêncio interior, atua na redução do estresse, atenção focada e relaxamento (STUCHI; FREIRE; CALABRIA, 2020). O yoga também é visto como uma ferramenta útil na saúde mental, especialmente para tratar os transtornos mentais comuns em pacientes que não se adequam ao tratamento medicamentoso. Além disso, um dos subtipos do yoga, que é o Nidra, tem revelado bons resultados contra os distúrbios do sono (SIEGEL, 2010, p. 90). No município de Niterói – RJ –, o Yoga foi ofertado para mães que estavam cadastradas no Banco de Leite Humano e amamentando de forma exclusiva.Um estudo mostrou que as emoções negativas relatadas pelas participantes no processo do aleitamento materno foram minimizadas pela prática do Yoga como recurso terapêutico, assim como houve modificação do enfrentamento das inseguranças no amamentar, além do suporte e rede de apoio com as outras mulheres participantes da prática de Yoga (AGUIAR et al., 2021). Nesse caso, o Yoga aplicado às mulheres lactantes demonstrou ser uma prática importante e com muitos benefícios para esse público-alvo. Nesse momento da vida, de dedicação quase que exclusiva ao bebê, o Yoga promove um momento de relaxamento para as mães, sendo utilizado como um recurso terapêutico. O Yoga, inclusive, demonstrou resultados como tratamento para dor crônica e aguda em adultos e idosos, principalmente em relação à dor lombar e cervical. Um estudo demonstrou que “a qualidade de vida e o humor melhoraram com Yoga em relação a cuidados habituais” (RIBEIRO et al., 2019, p. 2). Entre os principais benefícios obtidos por meio da prática do yoga estão a redução do estresse, a regulação do sistema nervoso e respiratório, o equilíbrio do sono, o aumento da vitalidade psicofísica, o equilíbrio da produção hormonal, o fortalecimento do sistema imunológico, o aumento da capacidade de concentração e de criatividade e a promoção da reeducação mental com consequente melhoria dos quadros de humor, o que reverbera na qualidade de vida dos praticantes (PINTO, 2021 p. 17). 111 Outra perspectiva contemporânea é a implantação das PICS nos espaços da escola, atuando com alunos e professores. O Yoga, por exemplo, foi incluído numa escola pública em Santa Catarina com o objetivo de contribuir para a diminuição do estresse e a inibição das crianças em sala de aula, aumentar a autoconfiança e a concentração (SILVA, 2008). A aplicação do Yoga no espaço escolar com as crianças buscou se aproximar dos ensinamentos do Yoga de Patañjali e suas etapas, conforme descrito a seguir (SILVA, 2008): a) Viver juntos: O objetivo é conseguir que a criança viva a sensação de pertencer a um grupo que viaja num mesmo barco. Pretende se formar o espírito de equipe, desenvolvendo o sentido de responsabilidade diante do contexto. Os educadores são os capitães responsáveis pelo ambiente e pelo estado de ânimo de toda a tripulação. b) Eliminar toxinas e pensamentos negativos: Limpar a casa: Este segundo ponto refere se ao pensamento positivo, ao cultivá-lo, a mente acalmasse e aliviasse de seu fardo de temores e angústias. Os exercícios de desbloqueio, de abertura, de irrigação do cérebro são partes da higiene básica da vida em sala de aula. c) Adotar postura correta: A coluna vertebral foi denominada de "árvore da vida". Seu endireitamento e cuidado diário terão uma influência decisiva sobre o nosso comportamento psíquico e saúde física. d) Respirar bem, ter calma: Aqui são equilibradas as energias através de um bom domínio da respiração. É possível sentir que respiramos com todo o corpo e não só com os pulmões. Exercícios respiratórios adequados conseguem tanto acalmar aos alunos quanto energizá -los. Quando experimentamos essa sensação em cada uma das fibras de nosso ser, nos invade um profundo bem- estar. A tomada de consciência de uma respiração amplificada é o segredo de um domínio potencial sobre nossos órgãos. Portanto, é um fator essencial para manter a saúde. e) Relaxamento: Tal como as fotos são desenvolvidas em uma câ- mara escura, as informações são gravadas na massa cerebral graças ao descanso. Por isso a pausa é tão importante na apren- dizagem. Se concedermos pausas em nosso tempo pedagógico, permitiremos que o aluno processe a informação que acabamos de entregar lhes. Pequenos espaços de relaxamento injetados no curso sob diferentes formas tornam-se grandes no caminho que permite ao cérebro digerir e assimilar as informações recebidas. f) Concentração: É neste nível que se joga a qualidade de apren- dizagem em nosso ensino: concentrar se, ser capaz de prestar atenção, escutar para reter o que devemos guardar na cabeça. É aqui que nos é de grande ajuda o cultivo dos sentidos interiores. Por exemplo, posso suscitar em mim a imagem de algo percebi- do no exterior, evocar um som, um cheiro ou voltar a encontrar uma sensação táctil. De tal modo, os conhecimentos que são in- cutidos não serão letra morta e sim um saber VIVO. A criatividade tirará muito proveito desse cultivo intenso dos sentidos interiores (SILVA, 2008, p. 3). 112 O Yoga (assim como as outras terapias inclusas na PNPIC) possui ainda muitos territórios para chegar. A área da educação é um campo necessário para a atuação, há muito a ser feito se tratando de promoção da saúde nesses espaços. São inúmeros, igualmente, os benefícios do Yoga integrado à Educa- ção nas escolas. Embora este campo de atuação esteja só brevemente florescendo, as experiências que existem são suficientes para a de- monstração de uma melhora no aprendizado, um apaziguamento de crianças hiperativas, uma melhora no relacionamento com os colegas e professores em classe, pois as crianças aprendem a lidar melhor com suas dores físicas e emocionais, a se mover com maior agilidade no espaço e tempo escolar através de uma percepção mais adequada de si mesma, do outro e do seu entorno (VÉRAS, 2004, p. 33). Em São Paulo, o Yoga foi implantado em uma escola da rede pública de ensino, localizada em uma periferia. O grupo foi constituído por crianças entre sete e onze anos de idade. Os resultados do estudo demostraram que os participantes tiveram interesse pelas aulas, com frequência acima de 70%. Os pais relataram que perceberam seus filhos mais felizes, calmos, concentrados e relacionando-se melhor com familiares e amigos, observaram também que despertaram a autoconfiança e estavam mais seguros. As crianças relataram que se sentiram mais calmas e com sensação de bem- estar (CORRÊA; COSTA, 2021). A prática do Yoga também é benéfica para a pessoa idosa. Durante a pandemia da COVID-19, ela foi aplicada de forma remota via teleatendimento para o público acima de 60 anos, com o objetivo de “ter o acesso ao cuidado, sem que necessitasse sair de suas casas se expondo ao risco de contaminação” (FERREIRA, 2020, p. 1). A pandemia da COVID-19 teve impactos significativos em diversos âmbitos, causando uma diminuição da qualidade de vida, sobretudo das pessoas idosas. A reclusão imposta e os riscos à saúde das pessoas mais vulneráveis à doença colocaram essa população em uma situação de perda de seus direitos, de falta de convivência com os amigos e familiares, algumas vezes até proibição de circulação (direito de ir e vir), e de acesso a diversos serviços. O Yoga é uma ferramenta importante para o cuidado da pessoa ido- sa, pois, durante esta atividade, são trabalhados aspectos físicos im- portantes para promoção da saúde do idoso como a lateralidade, o ritmo, o equilíbrio e a consciência corporal, além da melhora de as- pectos psicológicos, já que o Yoga prestigia valores como simplicida- de, ingenuidade, pureza, contentamento, verdade, retidão, amor, paz e não violência. Valores estes que são de muita importância em um momento tão difícil como o da Pandemia” (FERREIRA, 2020, p. 1). 113 A prática do Yoga, como citado anteriormente, é voltada tanto para a mente quanto para o corpo. Pode abranger técnicas fisiológicas e psíquicas, e visa uma conexão íntima com a sua essência (SIEGEL, 2010). Dessa forma, permite a comunhão com o corpo através das posturas, a ampliação da consciência pelo estado meditativo que a prática promove, assim como o autoconhecimento, sendo que o Yoga é praticado em silêncio, em um momento de interiorização. O yoga chegou ao Ocidente há pouco mais de umséculo e rapidamente se espalhou às principais capitais do mundo ocidental, daí a importância de pesquisá-lo com suas aplicações para o campo da saúde. No que tange aos diferentes tipos de yoga, todos aqueles que chegaram até a atualidade incluem variações dos oito passos do yoga Clássico, temperados com algumas técnicas menores diferentes, tendendo mais para a devoção, o estudo, o serviço, a prática de posturas físicas, a recitação de mantras, ou uma combinação de algumas ou todas as técnicas anteriores (SIEGEL, 2010 p. 29). A partir da implantação do Yoga como PICS, e sendo cada vez mais inserido nos espaços do SUS para a população, percebemos o quanto essa prática se popularizou, sendo reconhecida pelos seus benefícios e melhora da qualidade de vida dos usuários. A inserção do Yoga no SUS demonstra eficácia diante de vários estudos que já comprovaram seus benefícios para a comunidade. 114 Neste tópico, você aprendeu: • A palavra Yoga quer dizer “união”, e sua origem é datada há cinco mil anos. As ideias práticas surgiram primeiramente nos Vedas. • Ao longo da história foi incluído no Yoga várias abordagens, escolas, mestres, textos, práticas e termos técnicos. • Os quatro principais ramos do Yoga citados neste tópico são: Bhakti Yoga – o Yoga da devoção; Karma Yoga – o Yoga da ação comunitária; Jñana Yoga – o Yoga do Conhecimento; Raja Yoga – o Yoga de Patañjali. • Os diversos ramos ou métodos do Yoga buscam o mesmo objetivo, o samadhi. • Samadhi é o estado de hiperconsciência e autoconhecimento que o Yoga proporciona. • O significado de Raja é real (dos reis) e é considerado o Yoga Clássico. • O Raja Yoga não foi inventado por Patañjali, mas este sábio compilou as técnicas a partir de trabalhos já existentes no seu “Yoga Sutra”. • O Raja Yoga é constituído por um sistema de oito partes, chamado Ashtanga Yoga. • Os asanas são posturas psicofísicas de Yoga. Durante cada movimento, a respiração deve ser controlada. • A inserção do Yoga no SUS demonstra ser efetiva diante de vários estudos que já comprovaram seus benefícios e suas eficácias para a comunidade. RESUMO DO TÓPICO 2 115 AUTOATIVIDADE 1 O Yoga é uma prática milenar originaria no oriente e difundida pelo ocidente. Ele é di- vidido em dois “troncos”: Yoga Antigo e Yoga Moderno. Com base nessas subdivisões, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O Yoga Antigo se subdivide em Pré-clássico e Clássico. b) ( ) Os troncos definem que técnicas que serão utilizadas e em que proporção, já os ramos de Yoga determinam a fundamentação filosófica global e postural comportamental genérica. c) ( ) O Yoga Tantra é um sistema Clássico de Yoga. d) ( ) Mesmo com abordagens práticas diferentes provenientes dos troncos, são poucas as escolas de Yoga. 2 O Raja Yoga é constituído por um sistema de oito partes, chamado Ashtanga Yoga, mencionadas no Yoga Sutra no capítulo II, sutra 29. Sobre este sistema, analise as sentenças a seguir: I- Os yamas são proscrições morais. Nos indicam o que não fazer. Entre seus princí- pios está a não violência contra qualquer ser, inclusive os animais. II- O princípio do desapego, aparigraha, engloba a alimentação, os alimentos devem ser consumidos em quantidade suficiente para nutrir o corpo, sem excessos. III- O princípio de satya ensina o total celibato para manter a força vital. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 Os niyamas são “observâncias” referentes à relação do Yogue consigo mesmo, ou seja, seu autocontrole. A partir dos cinco niyamas citados, classifique V para as sen- tenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) A pureza refere-se a cuidados com o corpo externo, com a alimentação e inclusive com as condutas sociais. ( ) A auto entrega a Deus faz parte da devoção, o ishvarapranidhana nos ensina a entregar, inclusive, nossas ações a uma vontade superior à nossa. ( ) Tapas sugere que você faça tudo o que quer, visando as consequências positivas dessa experiência. 116 Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – V – V. c) ( ) V – V – F. d) ( ) F – F – V. 4 Os asanas são posturas psicofísicas, cujo sentido proposto seria estar assentado de forma estável e confortável. Com o passar do tempo, os mestres Yogins sentiram a necessidade de fortalecer o corpo para melhor atingir o objetivo final do Yoga. Disser- te sobre os asanas e porque não podem ser comparados a simplesmente ginástica. 5 É possível ofertar Yoga no SUS a partir da sua integração na PNPIC. A sua inserção na rede de saúde promove diversos benefícios para os usuários, principalmente na rede de atenção primária. Nesse contexto, disserte os trabalhos científicos publicados que discorrem sobre estes benefícios. 117 TÓPICO 3 — TAI CHI CHUAN – MEDICINA CHINESA UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Acadêmico, o TCC é considerado uma arte milenar oriunda do Oriente. Durante a prática, ocorre a circulação do Qi (energia), manifestado através do corpo em movimento em determinadas posturas e sequências. O silêncio e a atenção plena existentes em sua condução permitem acessar um estado meditativo e viabilizar a transmutação de emoções. Essa prática corporal favorece, entre outros benefícios: alívio do estresse, fortalecimento dos músculos, autoconhecimento e longevidade. O TCC foi inserido na PNPIC como prática corporal da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), assim como o Lian Gong e o Chi Gong (que também promovem a circulação do Qi). Atualmente, todos são ofertados como recursos terapêuticos para os usuários do SUS. Neste tópico, abordaremos sobre o TCC, seu processo histórico e fundamentos filosóficos, e suas ações terapêuticas e de atuação na área da saúde. Outras práticas corporais da MTC também serão destacadas. 2 HISTÓRICO E FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DO TAI CHI CHUAN O TCC é considerado uma expressão corporal e arte marcial de origem Chinesa, que exercita o corpo e a mente, suas bases filosóficas são oriundas do Tao (palavra chinesa que significa “caminho”), ou seja, enraizada no Taoísmo. Taoísmo é uma antiga filosofia chinesa e foi ensinada por Lao Tze nos séculos 5 e 4 a.C. A doutrina taoísta está focada na tranquilidade da mente, e seu objetivo é alcançar a longevidade pela meditação e mo- dificação do estilo de vida (LAN et al., 2013 p. 1). NOTA 118 O TCC “tem seu trabalho interior e energético baseado nos conceitos e técnicas da Alquimia Interior Taoísta”. A alquimia Interior ou Alquimia Espiritual “é um caminho de reintegração, ou seja, de restauração da integridade do ser” (CHERNG, 1998, p. 52). Na corrente filosófica do confucionismo, o homem deve ser simples e de não centralidade, resultando como conceito o eixo, o caminho, a visão e a naturalidade do centro. O eixo no TCC é a essência de todas as coisas e essa prática simboliza a transformação ideal do corpo e do espírito numa existência vigorosa e unificada (CHERNG,1998; SOHN, 1989). Podemos considerar o TCC como uma técnica de Yoga Taoísta, assim, não foca somente no corpo físico (SOHN, 1989). Os Alquimistas têm uma visão de união entre opostos. Dessa forma, o Tai Chi busca essa união, seus praticantes não vivem a vida entre extremos, o físico é tão importante quanto o intelecto e vice-versa. Em outras palavras, a prática busca o equilíbrio entre o Yin e Yang (opostos). Em cada movimento, a respiração é controlada de forma adequada, “a conscientização do movimento e da respiração estimula, de modo automático e ao mesmo tempo, o corpo físico e o energético, para um equilíbrio integral corpo-energia-mente” (CHERNG, 1998, p.52). Yin (negativo) e Yang (positivo) são duas energias opostas que se complementam. Na visão da MTC, todas as manifestações do universo são resultantes de Yin e Yang. NOTA Figura 9 – Prática de TCC ao ar livre Fonte: https://elements.envato.com/pt-br/mature-chinese-woman-do-tai-chi-outdoor-in-the-par-7D78RWQ. Acesso em: 8 set. 2022. 119 Sobre o desenvolvimento do TCC, Chu (2004) destaca: • Há 1700 anos, o médico chinês Huo To, ressaltou exercícios físicos e mentais como meio de melhorar a saúde. Em seus exercícios, os movimentos dos animais eram imi- tados, como pássaros, tigres, cobras e ursos, com o objetivo de recuperar habilidades originais da vida que foram perdidas. A organização dos exercícios era em uma arte de luta folclórica, chamada Cinco Jogos dos Animais. Esta foi a primeira arte marcial sistematizada na China. • Por volta de 475 d.C, Ta Mo (Bodhidharma) veio da Índia para a China com o objetivo de difundir seus ensinamentos religiosos. Ele residia no templo Shaolin no Tang Tung, norte da China. Além do culto religioso e da meditação, ele ensinou o treinamento físico na rotina diária. Ele expandiu o “Cinco Jogos dos Animais” para a arte marcial conhecida Shaolin. Este foi o início do desenvolvimento sistemático das artes mar- ciais externas na China. • Em 1200 d.C, um monge taoísta, Chang San-Feng, fundou um templo nas montanhas Wudang, para a prática do taoísmo. Ele acentuou a importância da harmonia do Yin- -Yang como meio de desenvolver a capacidade mental e física. Além disso, encorajou a meditação e o movimento do corpo impulsionado por um poder interno, chamado Qi. Um conjunto original de 13 movimentos para exercícios foi compilado, imitando os movimentos naturais dos animais. Este sistema de arte marcial foi chamado de Tai Chi, ou arte marcial interna, enfatizando a desenvolvimento da força interna como Qi, em oposição à arte marcial externa, dando importância ao desenvolvimento da força externa (Li). • O Tai Chi foi passado de geração em geração. Muitos sobrenomes familiares foram associados a diferentes estilos de Tai Chi, como o estilo Wu, estilo Yang e estilo Chen. • Por volta de meados de 1600, os “Manchus” invadiram a China e estabeleceram a di- nastia Ch'ing. Os construtores do império pediram ao mais famoso mestre Tai Chi de todos os tempos Yang Lu Chang (1799-1872) para ensinar a prática na corte real. Ele, relutante em ensinar aos Manchus, modificou deliberadamente o sistema de Tai Chi em um tipo de exercício físico exterior – desprovido de filosofia interior e exercícios mentais. Este estilo de exercício de Tai Chi foi encorajado e praticado por membros da a Corte Imperial. Tornou-se uma moda da classe ociosa na China até o fim da dinastia Ch'ing. • Quando a dinastia Ch'ing foi derrubada em 1910, muitas famílias nobres espalharam- -se por toda a China. A prática viajou com eles. Nesse caminho, a forma modificada do Tai Chi tornou-se o TCC de hoje. Não há um consenso entre os pesquisadores sobre a história do TCC. Por exemplo, alguns consideram o monge Bodhidharma persa, outros indiano. Em suas biografias, não consta que ele criou uma técnica de combate. Entretanto, alguns tratados de artes marciais referem-se, igualmente, a Bodhidharma (DESPEUX, 2011). Sobre a história do TCC, a Sociedade Brasileira de Tai Chi Chuan e Cultura Oriental (2022, p. 1) salienta: 120 Foi lendariamente criado por um monge taoísta de nome Chang San Feng. Conta a lenda que este monge era versado em diversas artes marciais e queria reunificar os princípios filosóficos e os princípios físicos que na época estavam dissociados devido a muitas guerras na China. Chang San Feng, observando a luta entre uma garça (grou) e uma serpente idealizou os movimentos do Tai Chi Chuan. Outra versão da origem do Tai Chi Chuan descreve seu nascimento no seio da família Chen com o Mestre Chen Wanting há 300 anos atrás. O que se sabe é que de uma forma ou de outra, as técnicas indianas influencia- ram a China, e Zhang Sanfeng (ou Chang San-Feng) é, geralmente, referenciado como o criador do Tai Chi, segundo diferentes lendas (DESPEUX, 2011). As “habilidades originais da vida” são compreendidas na visão do TCC como o movimento espontâneo, aquele que possuímos quando criança e é esquecido ao longo dos anos. O treino pode favorecer o praticante a reencontrar esse movimento, ou sua “sintonia com o movimento cósmico, universal”. Os movimentos do Tai Chi são inspirados na Natureza: nos animais, na água, no vento, no próprio homem etc. (VINITSKY, 1992). Sobre os aspectos éticos da prática, Severino (1994, p. 93-94) aponta: • Eticamente, do ponto de vista dos participantes do TCC em relação à vida, é a síntese do Confucionismo, Taoísmo e Zen Budismo e é a mais profunda realização do povo chinês. • No TCC, as posturas foram compostas com o propósito de lutar com o meio ambiente hostil, em defesa pessoa, com pressões de todas as forças inimigas. Mas, em princípio, o que se enfatiza é a não-agressão, não violência, não-resistência ou não-oposição e o triunfo da suavidade sobre a força bruta. • Acredita-se que um conflito, seja de qualquer tipo, acarreta a destruição de cada criatura envolvida. O fruto do conflito é apenas a morte. O amor tende a destruir a morte e substituí-la pela imortalidade. • No sistema do TCC, enfatiza-se a dedicação espiritual, dedicação à uma causa nobre e humanitária para o Amor Cósmico. • De acordo com o TCC, pretende-se dominar a atividade com a inatividade, a força bruta com a suavidade e fazer uso da força de ataque do oponente para devolver-lhe o golpe: isto equivale a receber calmamente qualquer força inimiga e criar as situações favoráveis para agir. • Para os adeptos seguidores do Zen Budismo, o segredo da longevidade daqueles que praticam TCC, reside não apenas nos exercícios, mas também na dedicação para a educação altruísta do gênero humano e o cultivo da paz de espírito. Ressaltamos também o valor dessa arte marcial para fins de defesa pessoal. A prática de TCC é eficiente em termos de combate, e basta que o praticante aprenda alguns padrões de luta para poder defender-se de agressões, “é um sistema de luta conciso e abrangente, que cobre todas as quatro principais categorias de ataque, ou seja: bater, chutar, derrubar e agarrar” (KIT, 1996, p. 17). 121 Citamos três vantagens do estilo do TCC como técnica de autodefesa: 1. É possível se utilizar menos força para se defender de um ataque dotado de força, e então concentrar no contra-ataque ao adversá- rio de modo a dar fim ao combate; 2. Na medida em que se reduz a força utilizada e a energia consu- mida é possível manter o corpo em boa forma lutando por mais tempo, derrotando assim o adversário; 3. Preparar pessoas que possam utilizar estes princípios para se proteger contra oponentes mais fortes (MACEDO, 2015, p. 3). Diversas artes marciais da China são divididas em “externas e internas”. Entre as externas podemos citar o Kung Fu, Tae Kwon do e o Karatê. Suas técnicas de treinamento destacam a construção do corpo, dependem da força bruta do praticante para o combate. Já as artes marciais internas enfatizam a edificação de Qi no corpo para aplicá-lo nas técnicas físicas de autodefesa. A maioria das artes marciais possuem ambos os estilos, o que muda é a ênfase e preferência de cada uma delas (SHOU-YU, JWING-MING, HSING YI; 1990 apud CHU, 2004). O tai chi chuan é uma arte una e trina: marcialidade, alquimia e a corporalidade unem-se para formar uma joia com que a cultura chinesa presenteia o ocidente. A depender do perfil de cada pra- ticante, uma ou ambas as facetas do tai chi chuan podem ser ex- ploradas para se alcançar aquilo que desejar, da flexibilidade cor- poral à transcendência, não há limites para a colheitade resultados (THRÉSKEIA, 2014, p. 158). Existem cinco estilos de TCC, ou “famílias” sendo que levam o nome do seu criador, conforme a Sociedade Brasileira de Tai Chi Chuan e Cultura Oriental (2022, p. 1): • Estilo Chen: ◦ Nome do local original de nascimento: Vila Chenjagou, Condado Wen, província Hunan. ◦ Criador: Mestre Chen Wanting. ◦ Características especiais: alterna movimentos lentos e rápidos, inclui saltos e explosões nos movimentos e pisadas vigorosas. A Velha Forma, foi desenvolvida a partir da 17ª Geração da Família Chen. Estilo Yang: ◦ Nome do local original de nascimento: cidade Guangfuzhen na área de Guangpingfu; Condado de Yongnian, província de Hebei +- 200 anos atrás. ◦ Criador: Mestre Yang Lu chan que aprendeu com Mestre Chen Changxing 14ª geração da Família Chen. ◦ Características especiais: movimentos suaves, lentos, velocidade homogênea, sem alteração de alturas, movimentos longos e grandes. • Estilo Wu/Hao: ◦ Nome do local original de nascimento: cidade de Guangfu, condado de Yongnian. Província Hebei. ◦ Criador: Mestre Wu Yuxiang que aprendeu com os Mestres Yang Luchan + Yang Banhou + Chen Qingping. ◦ Características especiais: lento, suave, com posturas pequenas e altas. Sua forma é menor. 122 • Estilo Wu: ◦ Nome do local original de nascimento: desconhecido. ◦ Criador: Mestre Wu Jian Quan que aprendeu com seu pai Wu Quanyu que aprendeu com Yang BanHou. ◦ Características especiais: Eles inclinam o corpo para o lado, mas quando inclinam, pensam em estar eretos. • Estilo Sun: ◦ Nome do local original de nascimento: desconhecido. ◦ Criador: Mestre Sun Lutang que aprendeu com o Mestre Hao Weijian. ◦ Características especiais: seus movimentos combinam 3 estilos de artes marciais: Estilo Wu de Tai Chi Chuan + Hsing I + Ba Gua. Outra forma de exercício, originário da China, que faz parte da MTC, é o Chi Kung ou Qi Gong. Chi (ou QI) significa energia e Kung (que pode ser escrito Gong) significa treinar ou cultivar, então, Chi Kung quer dizer “a arte de treinar e cultivar a energia” (MACEDO, 2015). Segundo Chu (2004), não há um registro de quando o Qi Gong foi criado. Assim como o TCC, seus exercícios imitam os animais e a natureza que favorecem o desenvolvimento de Qi e a longevidade. Existem de sete a oito mil conjuntos diferentes de exercícios de Qi Gong, sendo que alguns deles podem ser específicos para certas doenças (CHU, 2004). Acesse o vídeo a seguir, que contém uma rotina diária de exer- cícios de Qi Gong, denominado Oito peças de brocado de seda. https://www.youtube.com/watch?v=cwlvTcWR3Gs&t=2s. DICA Em síntese, ao praticar Tai Chi, a mente é “esvaziada”, essa expressão corporal objetiva que encontremos o nosso eixo, a união dos opostos (harmonia, equilíbrio) uti- lizando o Chi e não a força física. Cada movimento, associado à respiração, é um meio de transmutação na busca por saúde e longevidade. Além disso, é uma arte marcial útil para a autodefesa. 3 TAI CHI CHUAN NA PRÁTICA No Brasil, o TCC é considerado pela PNPIC uma prática corporal que integra as atividades de atenção à saúde da MTC (BRASIL, 2006). Denominamos como prá- tica corporal a “manifestação cultural em que o corpo e os gestos possuem papel preponderante na expressão de sentidos significados” (SANTOS, BRAGANÇA, 2018, p. 38). A PNPIC orienta a desenvolver estratégias de qualificação em MTC para profissio- nais no SUS, por intermédio dos princípios e diretrizes da Educação Permanente no SUS, enfatizando: 123 Incentivo à capacitação para que a equipe de saúde desenvolva ações de prevenção de agravos, promoção e educação em saúde - individuais e coletivas - na lógica da MTC, uma vez que essa capacitação deverá envolver conceitos básicos da MTC e práticas corporais e meditativas. Exemplo: Tuí-Na, Tai Chi Chuan, Lian Gong, Chi Gong, e outros que compõem a atenção à saúde na MTC (BRASIL, 2006 p. 29-30). Dessa forma, várias cidades do país integraram práticas corporais como o TCC em suas ações ofertadas para a comunidade. No município de Brumadinho, em Minas Gerais, os usuários da rede pública de saúde possuem acesso as PICS, inclusive para participar do grupo de TCC. Para integrar o grupo, não é preciso encaminhamento de um profissional de saúde. A pessoa interessada pode se inscrever diretamente no local com o cartão SUS. Podem participar pessoas de qualquer idade, inclusive crianças (PREFEITURA MUNICIPAL DE BRUMADINHO, 2019). Iniciativas como essa facilitam o acesso e promovem uma maior integração da comunidade na prática. A técnica de TCC pode ser realizada por pessoas de todas as idades, a área de prática pode ser relativamente pequena, em ambientes fechados ou espaços abertos. As roupas utilizadas em um treinamento devem ser confortáveis e o calçado flexível. Durante os exercícios, é importante manter um estado de quietude mental de forma que os pensamentos não interfiram no foco nos movimentos. Tanto o TCC como o Qi Gong se diferenciam dos exercícios físicos tradicionais em alguns aspectos, citados a seguir: • Lentidão: Deve-se realizar exercícios de Qi Gong ou Tai Chi lentamente. O mais lentamente se realiza Qi Gong ou Tai Chi, mais eficazes são os exercícios são. • Foco: A concentração total é necessária nos exercícios de Qi Gong ou Tai Chi. Pode-se realizar os exercícios com os olhos fechados para evitar distrações. • Respiração: Praticantes de Qi Gong e Tai Chi aprendem a incorporar os movimentos físicos com a respiração. • Relaxamento: Relaxar é um dos fatores mais importantes na práti- ca do Qi Gongo e Tai Chi. Foi dito no Tai Chi Clássico, ao praticar Qi Gong, é preciso estar solto e relaxado e não permitir nem mesmo o a menor tensão, o que reduz a velocidade do fluxo de Qi. A tensão resulta em contração muscular, prejudica o fluxo sanguíneo e di- minui o fluxo de Qi nomeados por Chu (CHU, 2004, p. 774). Para um praticante iniciante, é importante prestar atenção redobrada para realizar os movimentos de forma perfeita. O mestre eventualmente pode corrigir a postura, ajustando a posição do corpo (DESPEUX, 2011). Alguns princípios a serem observados na execução dos movimentos podem auxiliar, sendo explicados pelo mestre: 124 • A cabeça: Durante a execução dos movimentos, talvez convenha imaginar que a cabeça esteja suspensa por um fio, a fim de mantê- la bem ereta, sem, todavia, enrijecê-la por um esforço voluntário. Essa posição da cabeça dá ao resto do corpo e mais particularmente ao tronco, a liberdade de adotar igualmente uma postura ereta, evitando o arqueamento das costas, liberando a caixa torácica e melhorando, por conseguinte, a respiração do praticante. • Os ombros e os cotovelos: Se não conseguirmos relaxar os ombros, haverá preponderância da caixa torácica, arqueamento das costas, o que acarretará um embaraço na circulação do sangue e do sopro. • As costas. Dizem os mestres: “Mantenham o cóccix no centro e no eixo”. A coluna vertebral comporta naturalmente duas curvas, uma ao nível do pescoço e outra na região das vértebras lombares. Cumpre visar a uma atenuação das duas curvas, esticando a colu- na para evitar o amontoamento das vértebras nesses dois níveis. • A cintura: Todos os movimentos do TCC partem da cintura e são dirigidos por ela. O menor movimento da mão é, de fato, um movimento da cintura. “A cintura deve estar relaxada e os quadris, puxados para baixo”. • As pernas: Nunca estão completamente estendidas nem comple- tamente dobradas; em geral, os joelhos não ultrapassam a ponta dos pés. Entretanto, as pernas são mais ou menos fletidas segun- do as escolas e segundo a habilidade de cada participante (DES- PEUX, 2011, p.129-133). Os aspectos técnicos citados anteriormente são fundamentais. Os movimentos do Tai Chi sãoleves, graciosos, fluidos, com o objetivo de favorecer um senso de unidade com o cosmos, “a base da graciosidade e da verdadeira espiritualidade é a harmonia entre o ego e o corpo [...] a ioga ou o tai chi chuan refletem o interesse da pessoa pelos aspectos espirituais do corpo” (LOWEN, 1997, p. 22-23 apud THRÉSKEIA, 2014, p. 147). Percebemos através de pesquisas que o Tai Chi é considerado uma prática benéfica, especialmente para a população idosa. Isso é particularmente importante no Brasil, pois o aumento da longevidade média da população global é um fato, e no Brasil ele ainda maior, estima-se que em 2100 o número de idosos deverá chegar a 72,4 milhões, ou seja, 40,1% do total de habitantes do país (ALVES, 2019) O TCC é uma atividade terapêutica, promove a socialização e a manutenção de um estilo de vida ativo, reduz a incidência de quedas, entre outros ganhos para a pessoa idosa (MARINHO et al, 2007). Durante a prática de TCC com pessoas idosas, é importante observar se o ambiente possui desníveis no chão ou objetos que possam causar quedas. “Em casos de pacientes com limitações de marcha e equilíbrio importantes ou com histórico de mais de duas quedas no ano anterior, orienta-se que passem em uma avaliação médica para a liberação” (DOREA, 2020, p.1). Conhecer o perfil dos praticantes é primordial para a eficácia de qualquer terapia corporal em grupo, ainda mais quando envolve movimentos e posturas. O público idoso requer atenção especializada com cuidados a serem analisados tanto na adequação do 125 ambiente como na observação da condução da prática, pois ela não deverá ser realiza- da em um nível de esforço que impacte negativamente no bem-estar, tão pouco de forma dolorosa. O Tai Chi é o movimento que mantém a vida em equilíbrio; um aprendizado da natureza onde não há competição, não se almeja quebrar recorde, derrubar barreiras ou superar limites. De acordo com Harvard, o Tai Chi pode ser a atividade perfeita para o resto da vida, por ser uma técnica segura; é uma suave forma de exercício que pode prevenir ou aliviar muitos males do envelhecimento; ele oferece grandes ganhos sem dores e não deixa as pessoas sem fôlego (ROBERTO, 2016, p. 1). Como prática complementar, o Tai Chi tem potencial para atuar em doenças neurológicas, reumatológicas, ortopédicas, cardiopulmonares entre outras (LAN, et al., 2013). Entre os motivos para recomendá-lo, enfatizamos: Primeiro, o Tai Chi não precisa de instalações especiais ou equipa- mentos caros, e pode ser praticado a qualquer hora e em qualquer lugar. Em segundo lugar, o Tai Chi é eficaz no aumento da capaci- dade aeróbica, força muscular e equilíbrio e na melhoria dos fatores de risco cardiovascular. Terceiro, o Tai Chi é um exercício de baixo custo e baixa tecnologia, e pode ser facilmente implementado na comunidade (LAN et al., 2013, p. 12). O TCC também é utilizado na promoção de saúde, sendo um ótimo programa de exercícios para pessoas saudáveis e para aquelas com doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) (LAN et al., 2013). As DCNT são consideradas um problema de saúde pública que causam impacto na qualidade de vida das pessoas. Atualmente as PICS são recomendadas para pessoas com DCNT com o objetivo de ampliar os recursos terapêuticos disponíveis pelo sistema de saúde (OLIVEIRA et al., 2021). Como forma de prevenção dessas doenças, o TCC vem se mostrando uma prática de auxílio inclusive para quadros de hipertensão, fibromialgia, ansiedade e depressão (HARVARD, 2009). Um estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) buscou conhecer quais as PICS que a população aderiu nos tempos da pandemia pela COVID-19. Participaram do estudo 12.531 brasileiros que recorreram às práticas como forma de autocuidado, manejo do estresse, insegurança e ansiedade durante o ano de 2020 (BOCCOLINI, 2021). De acordo com a pesquisa, as práticas integrativas e complementares em saúde mais utilizadas em 2020 foram plantas medicinais e fitoterapia (28%), meditação (28%), reiki (21,6%); aromaterapia (16,4%); homeopatia (14,5%); terapia de florais (14%); yoga (13%), apiterapia (11%), imposição de mãos (10%) e medicina tradicional chinesa/ acupuntura (7,8%). Foi registrada maior adesão da população a essas terapias nas regiões Centro-Oeste (71%) e Sul (70,8%), seguidas de Sudeste (63,4%), Norte (52,3%) e Nordeste (45,6%) (BOCCOLINI, 2021 p. 1). 126 Neste estudo, é possível perceber que as práticas de expressão como o Tai Chi e o Qi Kong não foram apontadas nos resultados. Como estão constituídas como PICS que integram as terapias coletivas, ou seja, frequentemente realizadas de forma grupal, não foram referidas como praticadas pelos participantes da pesquisa durante a pan- demia da COVID-19. No entanto, o TCC foi um aliado para muitos profissionais de saúde que atuaram em um hospital durante a pandemia da COVID-19. Uma das categorias que mais tem sentido isso na pele – e na mente – é a dos profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate ao coronavírus. Confrontados com a realidade do que acontece nos postos de saúde, clínicas e hospitais de todo o país; pressionados por situações limite e jornadas exaustivas; muitas vezes optando por se afastar da família para evitar o risco do contagiar a quem amam; vendo crescer o número de colegas de trabalho infectados e mortos pelo vírus, esses profissionais – médicos, enfermeiros, técnicos e equipes de apoio – precisam de um suporte extra para manter seu equilíbrio físico e mental (SANCHES, 2020, p. 1). Os profissionais de saúde que participaram dos encontros de TCC durante a pandemia relataram ter percebido essa PICS como um suporte importante, como uma “válvula de escape”. Destacaram esses momentos como essenciais para ter paz, tranquilidade e equilíbrio, possibilitar o encontro consigo mesmo através de uma meditação em movimento. Também houve o apontamento com relação ao benefício físico, trazendo o alívio para as dores do corpo, já que foi exigido desses profissionais horas de trabalho exaustivos em pé (SANCHES, 2020). Outro efeito causado pela pandemia foi o desenvolvimento de sintomas físicos e emocionais em relação ao estresse, ansiedade, pânico e outros problemas que não se manifestavam com tanta frequência e que a partir dessa situação, se tornou parte da vida da população. Anos após o início da pandemia e com a imunização já disponível com vacinas, as PICS tiveram um aumento na procura. As pessoas buscam equilíbrio mental, manejo de uma série de sintomas que ainda estão presentes em suas rotinas, e autocuidado de forma geral. Já é uma tendência global as práticas integrativas fazerem parte do contexto de prevenção da saúde e do bem-estar físico e emocional. E, durante a pandemia, isso ficou ainda mais evidente, ocupando um papel de importância na saúde mental, na redução do estresse e no aumento da imunidade, fatores que possibilitam ampliar o processo preventivo e de recuperação de cada indivíduo na Covid-19 (FERREIRA, 2021, p. 1). O contexto pandêmico trouxe à tona a importância de conservar a saúde física e mental, mantendo caminhos que favoreçam um estilo de vida saudável. Com o avanço da longevidade da população brasileira essa preocupação é cada vez mais importante, tanto como forma de prevenir doenças como favorecendo maior qualidade de vida. 127 A pandemia também trouxe à tona a reflexão sobre a situação dos profissionais de saúde que atuaram na linha de frente contra a COVID-19. Compreendendo esse cenário, várias instituições de saúde atualmente ofertam rede de suporte para os seus colaboradores. Um exemplo dessa iniciativa, é do Hospital Universitário de Brasília (HUB), que promove grupo de TCC para os profissionaisde saúde (BACELAR; MEIRA; CASTRO, 2021). O desgaste físico e psicológico é uma consequência possível no trabalho dos profissionais da saúde que atuaram e que atuam na pandemia, principalmente no início dela. Havia o anseio e medo de serem infectados e em ter que lidar com o sentimento de impotência frente ao óbito de um paciente. Também há a preocupação em contaminar alguém próximo, a perda de familiares e amigos, esses fenômenos podem impactar inclusive o desempenho do trabalho. Os problemas de saúde levantados pelo Departamento de Psicologia do HUB que os profissionais de saúde manifestavam, foram: “ansiedade, depressão e estresse pós-traumático”, sendo eles recorrentes durante o cenário pandêmico, o estudo ressalta ainda que “uma pessoa que está tomada pelo medo não consegue trabalhar” (BACELAR; MEIRA; CASTRO, 2021, p. 1). Exemplos como esse do HUB, promovendo um grupo de TCC para os colaboradores, são imprescindíveis como estratégias para garantir o acolhimento e momentos de relaxamento e bem-estar no local de trabalho dos profissionais de saúde. Um documento elaborado pelo Governo do Paraná intitulado “Recomendações aos Gestores de Saúde sobre os Cuidados à Saúde Mental dos Trabalhadores da área da Saúde em razão da pandemia da COVID-19” traz o levantamento dos impactos físicos e mental desses profissionais e reconhece a importância da criação de espaços para o acolhimento. Recomenda-se como medidas protetivas a construção de espaços para ações individuais e coletivas que deem apoio aos trabalhadores, oportunizando um olhar singular a cada caso e oferecendo escuta para que esses possam elaborar e ressignificar as experiências vividas, seja no âmbito pessoal, seja no profissional. Cada serviço terá a sua forma de estruturar e oferecer atenção à saúde mental de seus trabalhadores, no entanto, para isso é importante que se esteja sensibilizado para as possíveis situações que se apresentem (SECRETARIA DE SAÚDE DO ESTADO DO PARANÁ, 2020, p. 5). O documento ainda sugere a criação de grupos de apoio e momentos de relaxamento voltado aos colaboradores, priorizando a estabilização emocional dos profissionais de saúde (SECRETARIA DE SAÚDE DO ESTADO DO PARANÁ, 2020). Dessa forma, ações de promoção da saúde em espaços ocupacionais, principalmente por meio das PICS, consolidam um novo olhar de atenção à saúde e qualidade de vida para os funcionários. 128 LEITURA COMPLEMENTAR YOGA: UM DIÁLOGO COM A SAÚDE COLETIVA Marina Lima Daleprane Bernardi Maria Helena Costa Amorim Luciane Bresciani Salaroli Eliana Zandonade INTRODUÇÃO O yoga apresenta uma proposta indiana de conhecimentos e práticas para exploração dos domínios da mente. A inserção dessa prática ao cotidiano permite aos indivíduos desenvolverem suas possibilidades naturais e relacionarem-se harmonicamente com o meio que os rodeia, na medida em que se libertam das inquietações que lhes tolhem a liberdade. Patanjali, mítico responsável pela codificação do yoga, organizou esse sistema em oito partes: yamas, nyamas, asana, pranayama, pratyahara, dharana, dhyana e samadhi. Yamas representam os cinco valores morais e proibitivos a serem praticados: não violência, compromisso com a verdade, honestidade, continência nos prazeres sensuais, desapego. Nyamas referem-se às cinco práticas disciplinares e construtivas: purificação, contentamento, esforço sobre si mesmo, estudo, consagração a Deus. Juntos, yamas e nyamas representam um código de conduta ética destinado a eliminar perturbações mentais e emocionais dos praticantes e destiná-los a viver de forma virtuosa. Asana corresponde à postura física estável e confortável, na qual se trabalha gradualmente o relaxamento do esforço. Pranayama consiste no controle da respiração. Na sequência, os conceitos de pratyahara (emancipação da atividade sensorial), dharana (concentração) e dhyana (meditação), aprofundam o desenvolvimento da concentração e da percepção interna e se encerram em samadhi (integração), que representa uma imersão nas camadas mais profundas da consciência. A repercussão do yoga na racionalidade ocidental se deu em um contexto de crise em seu pensamento racional e ético, concomitante à busca por valores e às práticas de bem-estar. A apropriação dessa e de outras tradições orientais em outro contexto sociocultural implica a hibridização, o desenvolvimento de novos comportamentos e de uma nova consciência ética. Na atualidade, a prática de yoga é reconhecida no mundo como modalidade terapêutica tradicional em ascensão, coadjuvante à medicina convencional, destinada a promover saúde e longevidade aos indivíduos. A incorporação dessa tradição no terri- 129 tório brasileiro tem contribuído no processo de ressignificação de “saúde” e corroborado com a integralidade no cuidado, orientada pela conduta ética e pelo emprego de téc- nicas autoadministráveis, tais como: posturas físicas, exercícios respiratórios, controle das percepções orgânicas e meditação. Considerando esse legado em sua grandeza milenar e implicações para o campo da saúde no Brasil e no mundo, realizamos um ensaio teórico fundamentado na revisão da literatura. Nosso objetivo é discutir a reper- cussão do yoga como prática de saúde na racionalidade ocidental. INSERÇÃO DO YOGA COMO PRÁTICA DE SAÚDE DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE (SUS): Atualmente, qualquer discussão relativa à saúde como saber interdisciplinar, construído nas últimas décadas, não escapa à necessidade de compreensão da influência das dinâmicas do Capitalismo sobre os valores da sociedade. Desde então, essas dinâmicas influenciam o modo de compreender “saúde” e alocam a utilidade de suas práticas dentro das regras e da lógica de mercado. Arouca, ao estabelecer relações entre as regras do discurso da medicina preventiva e o modo de produção capitalista, evidencia as contradições fundamentadas no modelo de saúde fragmentado, assistencialista e capitalizado, marcado pelo fortalecimento de ações médicas individuais mediante a quitação de um valor. Diante das necessidades instauradas pelo Capitalismo na cultura da saúde – cuja lógica propõe a priorização da doença, a fim de que se tenha mais doentes, mais consultas e exames, e mais lucros –, faz-se inevitável a insuficiência do sistema de saúde em saná-las. Essa incapacidade consiste no comprometimento da assistência e, consequentemente, na resolubilidade e na humanização dos atendimentos, que passam a ser proporcionais ao tempo de consulta. Ao longo das décadas, novas concepções vêm trazendo progressos ao contra- por a obsessão pelo lucro a uma maior preocupação com bem-estar, qualidade de vida e melhorias sociais. Assim, a inserção do yoga vai ao encontro dos ideais propostos por importantes teóricos na construção de uma visão ampliada em Saúde. Campos retrata essa situação ao reforçar a necessidade da compreensão ampliada do processo saú- de-doença e da construção de abordagens compreensivas no redimensionamento da gestão em Saúde à luz do método Paideia. Essa proposta demanda o compartilhamen- to de conhecimentos e poderes com a finalidade de produzir saúde, e concretiza-se à medida que permite o empoderamento dos indivíduos a intervir no mundo, conscientes de seus próprios desejos e interesses, de sua relação com a cultura e as organizações dominantes; e aptos a incorporar intervenções sobre si mesmo ou sobre a coletividade. O yoga integra o conjunto de sistemas terapêuticos que se fizeram oportunos a partir da década de 1960, em meio à crise médica e sanitária, e configuraram um cenário de rejeição ao modelo de saúde proposto. Apoiados no movimento de contracultura, esses sistemas fundamentados em concepções holístico-integrativas representaram uma alternativapara atenuar o individualismo atribuído ao padrão hegemônico. A busca por essas terapias tem influenciado o processo de ressignificação de saúde, doença, 130 tratamento e cura. Ao discorrer sobre essa mudança de paradigmas, Campbel afirma a adesão a esses sistemas como um processo gradual, traduzido pela ampla aceitação das crenças há muito tempo estabelecidas e confinadas a uma minoria influente, que compunha o movimento de contracultura. No Brasil, esse movimento sucedeu em meio à fase mais crítica da ditadura militar, o que contribuiu com a fragmentação dessas ideologias em campos apartados pelo regime opressor. As terapias que o constituíram apresentavam caráter menos invasivo e menos iatrogênico que o modelo médico predominante, e foram frequentemente associadas, de forma desdenhosa, ao movimento hippie. Apesar da tendência à marginalização desse movimento, houve ampla difusão dessas práticas e a consequente afirmação de um novo paradigma a contrapor o modelo médico hegemônico. A proposta desse padrão alternativo é fundamentada na valorização da saúde; no reposicionamento do indivíduo (paciente) como centro de investigação e da prática terapêutica; na relação médico-paciente como estratégia essencial da terapêutica; na busca de meios terapêuticos mais simples e menos onerosos, com igual ou maior eficácia em termos curativos nas situações de adoecimento; e na autonomia dos indivíduos. A partir da década de 1980, com o restabelecimento da democracia e a conquista de direitos sociais, como a concretização do Sistema Único de Saúde (SUS), essas propostas terapêuticas alternativas passaram a ser cada vez mais difundidas, e em 2006 foram categorizadas como Práticas Integrativas e Complementares (PICs) do SUS. A devida regulamentação do yoga nessa categoria é muito recente, por meio da portaria 849, em 27 de março de 2017. Assim como em outras modalidades de PIC, a compreensão do yoga como prática de saúde na racionalidade ocidental não foge à necessidade de ponderar o conceito de saúde de forma holística, em todos os aspectos da vida humana. Com a pretensão de explorar as percepções de influentes líderes de yoga da cidade de São Paulo acerca das contribuições dessa filosofia prática para o sistema de saúde, Siegel e Barros identificaram extensões em que foi percebida como relevante a efetivação de importantes contribuições sintetizadas nos seguintes aspectos: totalidade, consciência, virtudes e espiritualidade. A concepção de totalidade refere-se à integração de corpo-mente-alma- universo e corresponde à abrangência dos cuidados de saúde. O cultivo da consciência, seja corporal, emocional, mental, seja espiritual, não tem correspondência direta com os princípios do sistema nacional, mas as consequências de sua construção reforçam valores como: autonomia, liderança, corresponsabilidade, racionalização, controle e participação. A prática de virtudes – verdade, honestidade, cultura de paz, fraternidade, tolerância, abstenção do que não traz benefício, disciplina, universalidade de conceitos, integração de grupos étnicos, gêneros e culturas –, que tem como base os yamas e nyamas, foi almejada como valor na mudança de paradigmas em saúde por meio dos movimentos de contracultura, e serviu como orientação para a construção de símbolos e valores da política de saúde atual. 131 Finalmente, a consciência espiritual – correspondente à harmonia, conexão e purificação –, apesar de não estar explicitamente representada como política de saúde, já é compreendida como importante por alguns profissionais de saúde empenhados na criação de estratégias para sua aplicabilidade. Desse modo, o yoga pode ser compreendido como um conjunto de práticas físicas, sociais e filosóficas úteis para o campo da Saúde. Há um crescente empenho científico em publicar estudos que reconheçam benefícios físicos e psicológicos advindos da prática de yoga ou de suas técnicas isoladas em indivíduos com diferentes condições de saúde. Todavia, apesar das evidências de mudanças terapêuticas positivas, a assimilação de suas técnicas é diferente entre indivíduos, grupos e sociedades. As investigações devem levar em conta essas diferenças sem perder de vista a complexidade subjetiva e social das potencialidades humanas. Esse campo ainda é emergente, especialmente no Brasil, e necessita ser explorado de forma mais sistemática em diferentes grupos em associação com outras ciências. A ÍNDIA ANTIGA NO CONTEXTO GLOBALIZADO O diálogo intercultural que qualifica o mundo globalizado advém, entre outros fatores, do desenvolvimento econômico, político, científico, industrial e das comuni- cações no mundo. A liberdade de expressão e de opinião e o avanço dos meios de comunicação ofereceram às pessoas a oportunidade de reinventar seus modos de vida e produzir culturas heterogêneas, baseadas em um diálogo de troca com múltiplos re- ferenciais culturais. Desse modo, indivíduos tornaram-se menos restritos às imposições de sua tradição e das organizações, e mais autônomos para criticar e recriar valores e costumes. A Índia, como lar de trajetórias civilizacionais tão antigas, caracteriza-se na atualidade por ser um território de grandes contrastes e disparidades sociais, como um verdadeiro caleidoscópio. Ao longo de sua história assimilou as mais diversas culturas que culminaram em um cenário de heterogeneidade cultural, social e religiosa, e fortalecem o regime democrático liberal. Seus grandes avanços científicos possibilitaram um maior desenvolvimento tecnológico e a configuraram como uma potência econômica emergente no âmbito global. Esse grande território, por outro lado, está em constantes conflitos e disputas geopolíticas, o que somado ao sistema de castas impacta o desenvolvimento econômico e social. Essa compreensão se contrasta com o produto vendido pelo turismo ao imaginário ocidental, em seus repertórios de espiritualidade, exotismo e bem-estar, que colocam a Índia em um plano atemporal e idílico de um Oriente criado para e pelo Ocidente, ou mesmo ao encontro da invenção do Oriente pelo próprio Oriente. Nesse território, a prática de yoga é vendida como bem-estar e ganha conotação singular ao ser veiculada com autenticidade indiana, irreprodutível em outro local. Em sua análise sobre diferenças culturais, Zimmer esclarece que os indianos em sua percepção histórica e filosófica, assim como os indivíduos incursos na racionalidade ocidental, têm 132 suas próprias disciplinas psicológicas, éticas, físicas e teoria metafísica; e que, por isso, a Índia também se utiliza da estrutura e das potências mensuráveis da psique, analisa as faculdades intelectuais do homem e as operações de sua mente, avalia as teorias do entendimento humano, estabelece os métodos e as leis da lógica, classifica os sentidos e estuda os processos pelos quais aprendemos, assimilamos, compreendemos e interpretamos as experiências. Entretanto, enquanto a racionalidade ocidental, em seu pensamento crítico, aponta a informação como objeto de interesse para o progresso das ciências racionais, a Índia Antiga aponta a transformação como base para a mudança radical na natureza humana, na compreensão do mundo e da própria existência. APROPRIAÇÃO DO YOGA NO MUNDO CONTEMPORÂNEO A apropriação do yoga por outras culturas é resultado de sua popularização, e faz parte um processo contínuo e gradual de interpretação relativa ao meio a que está inserido. Tal processo é baseado na lógica de uma tradição, mas está longe de ser algo rígido ou imutável. Ao contrário, gera ampla interpretação, ultrapassando os limites do concreto ao possibilitar que diferentes indivíduos de várias procedênciasalcancem uma maior compreensão da realidade que os cerca, e por isso os níveis de realidade alcançados são proporcionais ao entendimento e à entrega dos praticantes. Em sua proposta pedagógica, baseada no respeito à autonomia dos indivíduos, Freire alude a questão da inconclusão como parte da natureza humana, da necessidade do indivíduo em reconhecê-la em si próprio e adentrar-se em uma permanente busca: “Inacabado, sei que sou um ser condicionado, mas consciente do inacabamento sei que posso ir mais além dele” (FREIRE, 2016, p. 52-3). O autor condena a absolutização de um ponto de vista e afirma a obrigação de se ter ética, respeito e lealdade para criticar o ponto de vista alheio. Com base na crise de valores em que se encontra nossa sociedade, faz-se urgente a instauração de um sentido ético que torne os indivíduos livres e soberanos, e contenha a reprodução espasmódica dos gestos impostos nos moldes de seu campo social e histórico: Ganhar dinheiro, consumir e quando possível gozar. Pinto Jesus retrata essa busca como uma necessidade de integração de dicotomias, de reencontro dos homens consigo mesmos e com seus semelhantes: trata-se mais de um paralelismo, no qual o Ocidente está acordando para pontos há milhares de anos levantados pelo Oriente, do que de uma influência direta. Não é questão de importar o zen do extremo oriente, mas perceber o que podemos aprender com ele. Nesse sentido, há uma íntima relação entre a visão zen e a atual evolução do pensamento homem ocidental em relação a seu corpo, desencadeada pela penetração desse novo paradigma em nossa sociedade. A tal propósito, o yoga oferece às pessoas, em sua prática regular e persistente, ferramentas necessárias para atingir níveis mais profundos da consciência. O autoconhecimento adquirido nesse processo de busca pela sua essência permite a esses praticantes alcançar maior visão da realidade e o estado de autorrealização sem perder de vista o ideal maior. Em meio a modismos e apelos comerciais, a popularização 133 do yoga também favorece as distorções dos princípios dessa tradição. Em tal acepção, essa tradição milenar é frequentemente identificada na cultura Ocidental como prática de relaxamento do estresse ou esporte, o que dificulta a apreensão de sua natureza dicotômica, entre corpo e espírito. Essa sociedade, que idealiza o culto ao corpo como elemento central das relações sociais, apresenta dificuldades na compreensão do yoga como prática espiritual. O relatório mundial da Unesco, ao descrever a importância de se investir na diversidade cultural e no diálogo, aponta como um dos principais efeitos da globalização a fragilização do vínculo entre um fenômeno cultural e a sua circunstância geográfica. Desse modo, cautela e vigilância epistemológica são indispensáveis para não descaracterizar uma tradição milenar e desnaturar seus princípios. O diálogo é o primeiro passo para superação das interpretações limitadas e inadequadas acerca dessa filosofia prática milenar oriental. Partindo dessa premissa, a educação auxilia os indivíduos a adquirir as competências interculturais, permite-lhes conviver com as diferenças culturais e não apesar delas, e contribui com o exercício da cidadania e da democracia. Trata-se da busca pela verdade com base em diferentes apreensões da realidade. No entanto, essa construção apresenta princípios intangíveis e inacabados, com opiniões sobrepostas tornando o conteúdo mais rico e englobante, e, portanto, sem palavra final. Santos reforça essa ideia ao propor o conceito de ecologia de saberes, movimento que reconhece os saberes como heterogêneos, autônomos e articulados entre si, assentados em um sistema aberto em processo constante de criação e renovação. Danucalov e Simões apontam essa cooptação de conceitos no yoga e na meditação, advinda do diálogo com essa tradição, como importante no desenvolvimento da humanidade. Yoga e a meditação parecem estar em constante transmutação. Analisando se coerentemente suas histórias evolutivas, percebe-se que essas escolas vêm sofrendo constantes transformações e adaptações através dos tempos. Impedir reinterpretações saudáveis dos antigos textos, assim como futuras adaptações de âmbito sociocultural, é restringir o crescimento de sistemas que supostamente nasceram da mais sincera e íntima necessidade investigativa do ser humano. Restringir tais questionamentos é impedir o avanço da ciência e a continuidade do crescimento social, cultural e espiritual do homem. A transdisciplinaridade, por sua vez, representa uma tentativa de superação da disciplinaridade na configuração do saber. Ela oferece uma compreensão mais abrangente de um determinado problema a ser resolvido uma vez que permite trocas de saberes entre conhecimentos ditos científicos, que seguem regras teóricas metodológicas, como também inferência ao conhecimento holístico mais abrangente e avançado. Essa busca implica autoanálise e identificação do homem como ser integrante de um sistema maior. A mudança que opera permite a reorganização no saber, o restabelecimento de relações entre os diversos aspectos da realidade e o reposicionamento dos dados complexos e contraditórios no interior de um sistema global e hierarquizado, sem fronteiras estáveis entre as disciplinas e os sujeitos. 134 CONCLUSÃO Usufruir do legado indiano por meio do yoga conduz o desenvolvimento dos indivíduos em todos os sentidos da personalidade humana, permitindo-lhes o autoconhecimento e a aproximação do que lhes é essencial. Esse sistema filosófico e prático os torna mais críticos e autônomos na busca de seu bem-estar, na melhoria de suas vidas e na construção de uma sociedade mais saudável e consciente. A interpretação do yoga é diferente entre os indivíduos, grupos, sociedades e na racionalidade ocidental, e vai ao encontro do conceito ampliado de saúde construído ao longo da história que envolve: valorização do componente subjetivo, integralidade do empoderamento dos indivíduos, novas perspectivas de reflexão e ações individuais e coletivas. O conteúdo oferecido pela tradição do yoga vai de encontro à influência dos valores impostos pelo Capitalismo nas sociedades contemporâneas sob a lógica do consumo, da acumulação, da individualidade e da competitividade. Para maior usufruto desse legado é preciso contextualizar e flexibilizar o yoga estabelecendo pontes culturais com a contemporaneidade, sem descaracterizá-lo em seus princípios éticos, filosóficos e práticos. Essa discussão contribui para o aprofundamento dos debates no campo da Saúde Coletiva e requer uma postura criativa e arrojada em ressignificar saúde e fortalecer a proposta de integralidade que fundamenta o SUS. Fonte: https://bit.ly/3Co7yER. Acesso em: 6 set. 2022. 135 Neste tópico, você aprendeu: • O TCC é considerado uma expressão corporal e arte marcial de origem Chinesa, que exercita o corpo e a mente, suas bases filosóficas são oriundas do Tao. • A prática do TCC busca o equilíbrio entre o Yin e Yang (dois polos opostos). Em cada movimento, a respiração é controlada de forma adequada. • Além dos benefícios de redução do estresse, aumento da longevidade, fortalecimento do tônus muscular, o Tai Chi também tem potencial como arte marcial para fins de defesa pessoal. • Outra forma de exercício originário da China que faz parte da MTC é o Chi Kung ou Qi Gong. que significa treinar ou cultivar, então, Chi Kung quer dizer “a arte de treinar e cultivar a energia”. • O TCC pode ser realizado por pessoas de todas as idades, e seus movimentos devem respeitar alguns aspectos, como: a lentidão nos movimentos, foco nos exercícios, respiração adequada, relaxamento durante a prática para favorecer o fluxodo Qi. • Conhecer o perfil dos praticantes do grupo é primordial para a eficácia de qualquer terapia corporal em grupo, ainda mais quando envolve movimentos e posturas. • As formas de utilização da PICS nas comunidades para diversos fins. Pesquisas já demonstram seus benefícios para pessoas com DCNT, sintomas de depressão e estresse, doenças cardiovasculares, na prevenção de queda de idosos, entre outros. RESUMO DO TÓPICO 3 136 AUTOATIVIDADE 1 O TCC é uma prática corporal referenciada na PNPIC como parte das atividades da MTC. Pode ser utilizado tanto prevenção como auxiliar no tratamento de doenças. Sobre a sua atuação em diferentes problemas de saúde, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As pessoas idosas se beneficiam da prática somente por ser uma atividade oferecida em grupo, o que estimula as conexões sociais nessa fase da vida. b) ( ) As DCNT são consideradas um problema de saúde pública no Brasil. Contudo, nestes casos, a prática de TCC não é utilizada de forma preventiva. c) ( ) O Tai Chi tem potencial para atuar em doenças neurológicas, reumatológicas, ortopédicas, cardiopulmonares entre outras. d) ( ) Não é recomendado que crianças menores participem de grupos de TCC. 2 O TCC, assim como a prática de QI-Gong, se diferencia dos exercícios físicos tradicionais por alguns aspectos. A partir dos pontos citados no texto sobre a realização dos movimentos, analise as sentenças a seguir: I- Um dos pontos principais para a realização dos movimentos do TCC é a rapidez na execução deles. II- Praticantes de Qi Gong e Tai Chi aprendem a incorporar os movimentos físicos com a respiração. III- A concentração total é necessária nos exercícios de Qi Gong ou Tai Chi. Pode-se realizar os exercícios com os olhos fechados para evitar distrações. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças II e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 Não há um consenso entre os pesquisadores sobre a criação do TCC, porém, existem algumas teorias bastante conhecidas. Sobre o desenvolvimento histórico do TCC, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: 137 ( ) Sobre a origem do TCC, uma das teorias mais conhecida é a de que quem o desenvolveu foi monge Taoísta Chang San-feng, que fundou um templo na Montanha Wudang para a prática do Taoísmo. ( ) Foi Bodhidharma que acentuou a importância da harmonia do Yin-Yang como meio de desenvolver a capacidade mental e física. ( ) O TCC foi passado de geração em geração. Muitos sobrenomes familiares foram associados a diferentes estilos de Tai Chi, como o estilo Wu, estilo Yang e estilo Chen. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 4 O TCC é especialmente recomendado para as pessoas idosas, citadas em diversos estudos sobre o tema. Disserte sobre os benefícios desta prática para essa população e os cuidados na condução de grupos em que idosos participem. 5 As bases do TCC partem da “Alquimia Interior Taoísta”. Disserte sobre o que é o Taoísmo, “Alquimia Interior” e sua relação com o TCC. 138 139 REFERÊNCIAS ÁGORA. Espaço de Treinamento Mental. AHARA: A Dieta Ayurvedica, 2017. Ebook. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1Mw_f3WdrULEg9Jgn- wRD4uQkwVUeSuWQ/view. Acesso em: 31 ago. 2022. AGUIAR, C. et al., Yoga como prática integrativa e recurso terapêutico no apoio ao aleitamento materno. Revista Enfermagem em Foco, [s. l.], v. 12, n. 2, 2021. Disponível em: http://revista.cofen.gov.br/index.php/enfermagem/article/view/3786. Acesso em: 30 set. 2022. ALVES, J. E. D. 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Califórnia: Self-Realization Fellowship, 2014. 146 147 TERAPIAS COMPLEMENTARES EM SAÚDE UNIDADE 3 — OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • identificar a terapia bioenergética e seus principais conceitos; • entender os princípios do Reiki e a sua prática; • conhecer o processo terapêutico das constelações familiares sistêmicas e da terapia integrativa comunitária; • explicar sobre a história e a prática profissional da arteterapia. A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – BIOENERGÉTICA E REIKI TÓPICO 2 – CONSTELAÇÕES FAMILIARES SISTÊMICAS E TERAPIA COMUNITÁRIA INTEGRATIVA TÓPICO 3 – ARTETERAPIA Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 148 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 3! Acesse o QR Code abaixo: 149 TÓPICO 1 — BIOENERGÉTICA E REIKI UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Acadêmico, no Tópico 1, abordaremos sobre duas práticas integrativas e com- plementares de saúde (PICS), a bioenergética e o Reiki. O objetivo é que você conheça essas PICS e entenda alguns de seus conceitos centrais. Ressaltamos que é necessária a realização de cursos específicos de bioenergética e Reiki para utilizar essas práticas profissionalmente. A bioenergética é um modo de entender a personalidade e baseia-se na pro- posição da unificação de corpo e mente. Parte da premissa de que a energia que flui pelo corpo é produzida pela respiração e pelos processos metabólicos, e sua descar- ga acontece pelos movimentos corporais e expressões de sentimentos. Nesse caso, durante a terapia, os possíveis bloqueios energéticos serão dissipados por exercícios inerentes à prática e pelo processo de autoconhecimento do indivíduo. O Reiki também traz em seus ensinamentos o conceito de energia, porém, o objetivo da prática é a canalização da energia universal pelo terapeuta (ou Qi), no intuito de repassá-la à pessoa. Essa passagem de energia acontece por intermédio da imposição de mãos, que perpassam pelos sete chakras e que vibram em pontos vitais do corpo. 2 O DESENVOLVIMENTO DA BIOENERGÉTICA A bioenergética foi baseada nos estudos do psiquiatra e psicanalista Wilhelm Reich, percursor da psicologia corporal, sendo desenvolvida pelo também médico e psicanalista Alexandre Lowen, que foi aluno de Reich (1940-1952), além de seu professor, Reich foi o seu analista durante três anos (1942-1945) (LOWEN, 1982). Dessa forma, podemos dizer que a análise bioenergética teve como base também a psicanálise, abordagem teórica desenvolvida por Sigismund Schlomo Freud sobre o funcionamento da mente humana. Reich, no entanto, nos apresenta uma nova perspectiva, utilizando como base principalmente a proposiçãode que o corpo e a mente são uma unidade (BRASIL, 2018a). O que Reich nos traz é a teoria de que toda experiência humana é “impressa” em nosso corpo e em nossa mente, e, como são uma unidade, as experiências de vida afetam ambos. 150 A análise bioenergética (AB) adota dois princípios reichianos básicos: 1. Limitações do movimento frequentemente são resultados de difi- culdades emocionais. Elas surgem como resultado de um conflito histórico, antigo, não resolvido, mas é a persistência da tensão no presente que cria dificuldades emocionais atuais que colidem com a realidade do adulto. 2. Restrições da respiração natural são associadas com ansiedade. A ansiedade, vivida em situações de infância, perturba a respiração natural atual (WEIGANT, 2005, p. 10). No ano de 1953, Lowen firmou parceria com John C. Pierrakos, também segui- dor de Reich, e após com Willian B. Walling, ambos médicos. Em 1956, ele funda o Inter- national Institute for Bioenergetic Analyses (IIBA), instituição sem fins lucrativos com o objetivo de ensinar aos terapeutas os conceitos básicos do trabalho com o corpo. Após a morte de Reich, Lowen iniciou a terapia com Dr. Pierrakos, e a partir dela, no trabalho com o seu próprio corpo, ele desenvolveu posições e exercícios que são considerados padrões da bioenergética, assim como conceitos únicos a esta abordagem, como o de Grounding (LOWEN, 1982). Lowen aprofundou o marco descritivo do indivíduo como mente-corpo, descrito por Reich, incluindo nele a sua forma e mobilidade, ou seja, o corpo da pessoa como um aspecto a ser considerado na análise (BRASIL, 2018a). Se- gundo a Sociedade Brasileira de Análise Bioenergética (2022, p. 1), Alexandre Lowen: Ao estruturar, desenvolver e aprofundar a descrição do funcionamento dos tipos caracterológicos descritos por Wilhelm Reich, introduziu a leitura corporal. Esta ferramenta permite que o psicoterapeuta entenda a dinâmica energética dos bloqueios ligada à compreensão da história do paciente. Assim, os aspectos corporais são enfatizados nesse tipo de análise, seus pressupostos perpassam pela “importância do corpo como forma de reconhecimento do percurso de desenvolvimento emocional do paciente e instrumento de trabalho terapêutico” (OLIVEIRA JÚNIOR, 2016, p. 29-30). Sendo uma psicoterapia analítica- relacional-corporal profunda, a análise bioenergética (AB) busca promover a saúde integral do indivíduo, nela, o terapeuta considera as linguagens corporal e verbal nos atendimentos clínicos, expressadas através de exercícios corporais e outros recursos utilizados durante os atendimentos (BRASIL, 2018a). A bioenergética é uma técnica terapêutica que ajuda o indivíduo a reencontrar-se com o seu corpo, e a tirar o mais alto grau de proveito possível da vida que há nele. Essa ênfase dada ao corpo inclui a sexualidade, que é uma das suas funções básicas. Mas inclui também as mais elementares funções da respiração, movimento, sentimento e autoexpressão. O indivíduo que não respira corretamente reduz vida do seu corpo. Se não se movimenta livremente, limita o seu corpo. Se não se sente inteiramente, estreita a vida de seu corpo e, se sua autoexpressão é reduzida, o indivíduo terá a vida de seu corpo restringida (LOWEN, 1982, p. 38). 151 No Brasil, a psicóloga Myrian de Campos, fascinada pelo trabalho de Lowen e após ler vários de seus livros, pode conhecê-lo pessoalmente e formar-se por intermé- dio do treinador internacional de AB. Em 1981, a Sociedade Brasileira de Análise Bioe- nergética (SOBAB) foi criada em São Paulo, e a partir dos anos 1990 outras instituições abriram com a mesma finalidade em outras cidades do país (CAMPOS, 2009). Dessa forma, Myrian foi precursora, introduzindo a Bioenergética na América Latina. Em 1989, Lowen visita o Brasil e outros países da América Latina, difundindo ainda mais seu trabalho no continente Sul-Americano. Atualmente no Brasil há seis entidades filiadas ao IIBA, três no estado de São Paulo, e as demais no Rio de Janeiro, Brasília e Recife (atuando em diversas localidades do Nordeste). Além do Brasil, a comunidade ativa de profissionais da AB com sociedades filiadas ao IIBA encontra- se em todos os continentes do mundo, atuando em diversos países como: Alemanha, Argentina, Áustria, Bélgica, Canadá, China, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Israel, Itália, Noruega, Nova Zelândia, Polônia, Portugal, Rússia, Suécia e Suíça. No Brasil, de um modo geral, as informações e estudos acerca deste campo encontram-se escassamente difundidos e sistematizados, percebendo-se também, a presença de impressões limitadas e preconceituosas acerca da AB, que podem ser desmistificadas com o acesso às produções na área (BARRETO; SANTOS; SILVA, 2020, p. 78-79). No contexto do SUS, no ano de 2018 a AB foi considerada uma prática integra- tiva e complementar de saúde, compondo oficialmente a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) (BRASIL, 2018b). Segundo Weigant (2005, p. 9), a AB é uma técnica para: • Entender a personalidade em termos do corpo. • Melhorar as funções da mente, aumentando a energia corporal. • Aumentar a capacidade de um indivíduo para experimentar prazer liberando as atitudes crônicas estruturadas no corpo. A AB pode ser aplicada em diversas áreas, tais como: “psicoterapia individual, de grupo, de casal e hospitalar, clínica social em comunidades e em programas de saúde, apoio a estudantes de vestibulares e demais concursos, integração de grupos e desenvolvimento da cidadania” (INSTITUTO DE ANÁLISE BIOENERGÉTICA DO CENTRO OESTE DO BRASIL, 2018, p. 1). No Brasil, a AB é relacionada a diversas demandas de saúde, como: na saúde mental e no tratamento de transtornos psiquiátricos, com grupos específicos (gestantes, idosos), aplicações da bioenergética em doenças crônicas não transmissíveis e autoimunes, no cuidado de profissionais do SUS e na educação permanente, entre outros (BRASIL, 2018a). 152 2.1 FUNDAMENTOS BÁSICOS Acadêmico, constatamos anteriormente que a AB tem como uma de suas ba- ses a unificação mente-corpo, considerando, a partir dos estudos de Lowen, sua forma e mobilidade. Assim, cada experiência humana interfere diretamente em todos esses elementos. Mas como? E, quais consequências dessa interferência no nosso corpo ma- terial? Essas perguntas serão respondidas a seguir, pois para compreendermos melhor a AB, é preciso aprofundarmos os estudos em alguns conceitos da teoria. 2.1.1 Energia A bioenergética procura entender a personalidade do indivíduo, perpassando pelos seus processos energéticos (BRASIL, 2018a) A “energia” na bioenergética é a força que está envolvida em todos os processos da vida: A Bioenergética acredita que a energia está envolvida em todos os processos da vida, movimentos, sentimentos e pensamentos – e que se manifesta numa unidade, representada pela carga e pela descarga, ou, em outros termos, pelo ritmo natural de se abrir, ir ao encontro de algo/alguém e afastar-se, fechar-se (VOLPI; VOLPI, 2012, p. 6). Podemos compará-la com o conceito de “Chi” da Medicina Chinesa, porém, conforme Lowen (1982, p. 40-41) afirma: Não acredito que seja importante para o estudo presente determinar com precisão o caráter real da energia da vida. (...) Podemos, porém, aceitar a proposta fundamental de que a anergia está envolvida em todos os processos da vida, nos movimentos, sentimentos e pensamentos, e que os mesmos chegariam ao fim se a fonte de energia para o organismo se esgotasse. Uma falta de alimentos, por exemplo, haveria de esgotar a energia do organismo de uma forma tão severa que poderia inclusive sobrevir a morte; um corte na entrada do oxigênio necessário ao organismo interfere no processo normalda respiração, conduzindo o indivíduo à morte. Os venenos que bloqueiam as atividades metabólicas do corpo, reduzindo assim sua energia, provocam o mesmo efeito. Nesse caso, a energia chega ao ser humano por intermédio do oxigênio, de alimentos etc. Ela é disseminada no corpo pelos seus fluídos, com destaque para o sangue. O “fluxo” é um dos conceitos da bioenergética que explica esse processo. Na medida em que o sangue flui através do corpo, transporta metabólicos e oxigênio para os tecidos, fornecendo a eles energia e removendo os produtos residuais da combustão. Mas o sangue se constitui em mais do que um simples veículo; é, na verdade, o fluido energeticamente carregado do corpo. Sua chegada a qualquer parte do corpo significa vida, calor e excitação para aquela parte (...) Além do sangue, existem outros fluidos energéticos no corpo: a linfa, os fluidos intersticiais e os intracelulares (LOWEN, 1982, p. 45). 153 Assim, produzimos energia por mediação da respiração e do metabolismo, e a “descarga” da energia gerada acontece por intermédio dos movimentos corporais, “isto quer dizer que, a quantidade de energia que uma pessoa tem e como a usa, determinam o modo como responde às situações da vida” (BRASIL, 2018a, p. 12). Quando se fala em "energia" no âmbito da abordagem bioenergéti- ca, a referência é exatamente à energia biológica, que é dinâmica, fluindo e pulsando. Esta energia é sentida pelo corpo como um mo- vimento interno que, em estado de equilíbrio, é tido como agradável, expressando-se em bem-estar (VOLPI; VOLPI, 2012, p. 6). Em outras palavras, a forma como nosso corpo desenvolve a energia vai in- fluenciar diretamente em nossos sentimentos e ações. Poderá haver bloqueios ener- géticos, estes, por sua vez, impactam negativamente na saúde como um todo. Para a AB, as tensões dos músculos são costumeiramente decorrentes da supressão de senti- mentos. Durante as sessões esses pontos são desbloqueados por intermédio do toque e outros exercícios inerentes à prática. 2.1.2 Grounding Grounding significa “enraizamento”. É uma técnica que Lowen e Piekarros desenvolveram em suas sessões de terapia, na busca pela melhoria da respiração e liberação de emoções e de tensões que bloqueavam os fluxos de energia do corpo, eles determinam que as pernas, além do contato mecânico com o chão, podem originar sentimentos (WEIGANT, 2008). Durante a realização dos exercícios de grounding, por intermédio da atenção plena às sensações, podemos experienciar novas formas de nos reconhecermos em nosso corpo. Bioenergeticamente falando, grounding serve para o sistema energético do organismo da mesma forma que para um circuito elétrico de alta tensão e é constituído de uma válvula de segurança para a descarga de excessos de excitação. Num sistema elétrico, o acúmulo súbito de carga pode queimar uma parte da instalação ou provocar um incêndio. Na personalidade humana, o acúmulo de energia também poderá ser perigoso caso a pessoa não tenha contato com o chão. A pessoa pode fragmentar-se, ficar histérica, sentir ansiedade ou entrar em depressão (LOWEN, 1982, p. 171). Lowen se propõe a trabalhar na vertical com o seu cliente, e não mais na horizontal como acontecia na terapia reichiana. Nessa posição, o indivíduo pode sentir o chão e o eixo de seu corpo, lembrando que o “chão” aqui descrito, tem significado material e simbólico (PIAUHY, 2014). Manter os pés no chão provoca o “enraizamento” da pessoa, isto é, o contato com a realidade no momento presente. Para isso, há uma ênfase no cuidado quanto à respiração e como a postura do corpo está na vertical, “a pessoa estabelece o contato com a terra através de suas pernas e pés, e também se conecta com as realidades básicas de sua existência” (LOWEN, 1985 apud BRASIL, 154 2018a, p. 19). Nesse caso, “estar grounding”, nos termos da bioenergética, quer dizer: “estar aterrado, assentado, fundamentado, é estar conectado, com seu próprio corpo e sua sexualidade, com a realidade e com o solo onde pisa” (BORGES DA FRONCESCA, 2011, p. 82). No Quadro 1, destacamos experiências de pessoas que vivenciaram o grounding, que sentiram a energia fluir através de seus corpos para baixo, para a terra: Quadro 1 – Vivências de grounding Fonte: Lowen (1982, p. 172-173) Tristeza Em geral, uma das primeiras experiências quando se deixa “ir para baixo” é a tristeza. Se a pessoa puder aceitar e ceder a este sentimento, começará a chorar. Dizemos que “rompemos” em lágrimas. Há em todas as pessoas uma tristeza muito profunda e em suspenso (“obsessão”) e muitos prefeririam continuar em suspen- so a enfrentar tal sentimento, dado que estão prestes ao desespero, em muitos casos (...) A tristeza e o choro estão contidos na barriga que também é a câmara onde acumula-se a energia para a irrupção da descarga sexual e da satisfação. O caminho para a alegria invariavelmente atravessa o desespero. Sensações sexuais pélvicas Sensações sexuais pélvicas profundas também ameaçam muitas pessoas. Estas conseguem suportar a excitação limitada da carga genital que é superficial e facilmente descarregada, dado que não exige uma entrega total às convulsões orgásticas. As sensações doces e ternas da sexualidade pélvica levam a este tipo de rendição, evocando o medo de perder o controle, um dos aspectos da ansiedade de cair. O problema por nós enfrentado na terapia não é a genitalidade; é a sexualidade, o medo de se derreter ou de permitir-se afundar na paixão que queima a barriga e a pelve. Ansiedade Há a ansiedade de se ficar em pé sobre seus dois pés, o que denota o estado de a pessoa permanecer só. Quando adultos, permanecemos sós (...). Mas a maioria das pessoas reluta em aceitar tal realidade. (...) Por trás de uma fachada de indepen- dência, apegam-se a relacionamentos e ficam obcecadas por estes. Quando ficam dependentes da relação, destroem o seu valor e, não obstante, temem deixá-la seguir seu curso e então serem responsáveis por si mesmas. Mas, se o fazem, ficam surpresas por descobrirem que não estão sozinhas, na medida em que a relação melhora a ponto de tornar-se uma fonte de prazer para ambos os lados. A dificuldade reside na transição, pois no intervalo de tempo que decorre entre abandonar a obsessão e sentir os pés firmemente plantados no chão passa-se pela sensação de cair e pela ansiedade assim evocada. Em síntese, identificamos o exercício de grounding como uma maneira de promover a independência, de deixar fluir sentimentos e sensações de forma equilibrada. Esse enraizamento ocorre pela relação dos pés com o chão, mas muito mais do que isso, estar realmente “de pé”, envolve um profundo autoconhecimento. 155 2.1.3 Estruturas de Caráter O “caráter” para a bioenergética é conceituado como um padrão de comporta- mento, um modo de estar no mundo a fim de evitar a ansiedade. Cada pessoa possui um caráter dominante, por mais que possa ter traços de outras estruturas. O caráter predominante é formado desde a concepção até a primeira infância, e segue pelo resto da vida. Ele é “marcado” no corpo por tensões musculares que bloqueiam o fluxo dos impulsos energéticos. Podemos dizer que a história de cada um é registrada no psiquis- mo e no corpo, de acordo com o processo de envelhecimento singular a cada pessoa. Conforme afirmam Volpi e Volpi (2002, p. 6) “a identidade funcional do caráter psíquico com a estrutura corporal ou atitude muscular é a chave da compreensão da personali- dade, já que nos permite ler o caráter a partir do corpo e explicar uma atitude corporal por meio de seus representantes psíquicos e vice-versa”. Vimos que a AB consiste na teoria de que qualquer problema que passamos se manifestará também no corpo, dessa forma, podemos “enxergar” os problemas pela forma do corpo e sua linguagem corporal. Nesse caso, o terapeuta consegue aprofun-dar a análise identificando o caráter predominante e auxiliar o indivíduo. A seguir, des- creveremos sobre as estruturas de caráter propostas pela bioenergética. • Estrutura de caráter esquizoide Inicialmente, ressaltamos que há uma diferença entre a estrutura de caráter esquizoide e uma pessoa esquizofrênica, sendo a questão de grau o ponto a ser demarcado para avaliar se a pessoa possui a patologia esquizofrenia. Nesse caso, um esquizoide poderá se tornar esquizofrênico ou não, por mais que as tendências estejam presentes em sua personalidade (LOWEN, 1982). As tendências destacadas são as seguintes: 1. Cisão no pensamento unitário da personalidade. Por exemplo, o pensamento tende a dissociar-se dos sentimentos; o que a pessoa pensa parece ser uma pequena ligação com aquilo que sente ou com o modo pelo qual se comporta; 2. Refúgio dentro de si mesmo, rompendo ou perdendo o contato com a realidade externa (LOWEN, 1982, p. 132). Nesse caso não há espontaneidade, pois ela é resultante das emoções, e há uma desconsideração das emoções. O contato com o corpo e com o meio externo é impactado negativamente em um conflito interno entre existir e ter necessidades: “um bebê que não tem necessidades, principalmente físicas, não corre o risco de se ver abandonado à própria sorte e ter sua existência ameaçada” (VOLPI; VOLPI, 2012, p. 8). 156 A seguir, descreveremos alguma características físicas que esse “padrão de comportamento” resulta: • Na maioria dos casos, o corpo é estreito e contraído. Frente à existência de elementos paranóides na personalidade, o corpo fica mais cheio e mais atlético. • A face tem uma aparência de máscara. Os olhos, embora não se- jam vagos como os dos esquizofrênicos, não têm a vivacidade nor- mal e nem contatuam com os demais. • Os braços pendem como apêndices mais do que como extremidades extensivas do corpo. • Os pés estão contraídos e frios; é comum os pés serem revirados; o peso do corpo está jogado nas bordas externas dos mesmos. • Frequentemente, há uma discrepância marcante entre as duas metades do corpo (LOWEN, 1982, p. 134). Não há conexão consigo mesmo no caráter esquizoide, a não identificação com o corpo faz com que a pessoa tenha um senso de si inadequado. Esse caráter é muito sensível e pode evitar relacionamentos íntimos (LOWEN, 1982). A AB poderá auxiliar a reestabelecer o contato com o corpo, suas necessidades, autoexpressão e o meio externo (VOLPI; VOLPI, 2012). • Estrutura de caráter Oral Na pessoa em que predomina a estrutura de caráter oral, há uma sensação de carência afetiva, muitas vezes de vazio. Podemos comparar suas características com traços da primeira infância, quando necessitamos de apoio e cuidado. É exatamente a falta de satisfação na primeira infância que inscreve essa estrutura no ser. Pode ser que o indivíduo procure compensar esse fato com a demonstração de independência exa- cerbada, porém em situações de tensão, tal condição não é sustentada. Identifica-se nessa estrutura um estado de baixa carga energética, que flui até a periferia do corpo, mas de forma fraca, principalmente na parte inferior. Há a tendência a miopia e o nível de excitação genital é diminuído (LOWEN, 1982). Características físicas: • Corpo tende a ser esguio e fino. • A musculatura é subdesenvolvida (...) a falta de desenvolvimento evidencia-se mais nitidamente nos braços e pernas. • Pernas compridas e magricelas são um sinal comum deste tipo de estrutura. • Os pés também são estreitos e pequenos. • As pernas não dão a impressão de sustentarem devidamente o corpo todo. • Os joelhos estão normalmente encolhidos, fornecendo apoio extra. • A respiração é superficial, o que explica o baixo nível energético em seu corpo. • Frequentemente encontramos sinais físicos de imaturidade. A pelve é menos que o normal. (...) O pelo do corpo é esparso (LOWEN, 1982, p. 137). 157 O esforço continuado é muito difícil para uma pessoa com essa estrutura de caráter, que vive muito abaixo de suas verdadeiras potencialidades. O indivíduo de caráter oral é reprimido. (...). Come mal e a comida não lhe apetece. (...) Morde os lábios, engole com frequência, e é propenso a ficar de mau humor. (...). É muito sensível e se magoa a troco de nada. Precisa de elogios e encorajamentos contínuos. Espera ser compreendido e amado sem qualquer esforço de sua parte (...). Tende a lutar por objetivos que não tem a energia para atingir ou sustentar (BACKER, 1980, p. 161-162) Nesse caso, para esse tipo de caráter, é como se o mundo lhe devesse algo. Isso pode ser resultado de alguma ausência materna na infância, como a necessidade de a mãe trabalhar, ou até mesmo por motivo de doença ou morte (LOWEN, 1982). Em tratamento, essa pessoa necessita de encorajamento, de enxergar seu potencial e se sentir digno, deixando de lado seus objetivos muito grandiosos, nesse caso a energia do indivíduo deve ser aumentada (BACKER, 1980). • Estrutura de caráter Psicopática Essa estrutura de caráter é complexa, nela há a atitude de negação dos sentimentos. Existe um acúmulo de energia na própria imagem, ou seja, no seu ego. Nesse caso, ocorre uma grande necessidade de controle. Uma estratégia desses indivíduos é de alguma forma fazer com que precisem dele, assim ele não precisa expressar suas próprias necessidades, estando “acima” dos outros (LOWEN, 1982). A defesa psicopática se estrutura na fase anal, mais especificamente na etapa de expulsão descrita por Freud (Abraham, 1970) e surgimento do controle, aproximadamente entre os 18 e os 30 meses. Percebe- se que a questão básica dessa estrutura permeia os temas de sedução e controle. O indivíduo psicopata foi traído em sua essência e manipulado na fase de desenvolvimento da sua autonomia. Para ser aceito e reconhecido, desenvolve a característica de atender às expectativas que os outros projetam nele. Por essa habilidade, é considerado um indivíduo sedutor e/ou manipulador. Isso foi aprendido na relação sedutora com seus genitores, em especial o genitor do sexo oposto (LOWEN, 1982, 1976 apud OLIVEIRA JÚNIOR, 2016, p. 119). Existe dois tipos de estrutura psicopática: o tipo tirânico (que oprime os outros) e o tipo sedutor (debilita a pessoa por meio de aproximações sedutoras), Lowen (1982, p. 140) descreve as características físicas deles: • O corpo do tirânico mostra um desenvolvimento desproporcional da metade superior, passando a impressão de estar cheio de ar; isto corresponde à imagem do ego da pessoa, toda cheia de si. A parte de baixo é mais estreita e poderá evidenciar a fraqueza típica da estrutura oral de caráter. 158 • O corpo do segundo tipo, (...) sedutor ou debilitador, é mais regular e não apresenta a aparência inflada. Em geral, as costas são hiperflexíveis. Tornar-se adulto antes do tempo por essa “sedução” por um dos genitores, consequentemente faz com que indivíduo com essa estrutura de caráter seja exatamente como o seu genitor desenha sua imagem, especial, melhor que todos. Na terapia, há a importância em resgatar os sentimentos e abandonar a manipulação (VOLPI; VOLPI, 2012). • Estrutura de caráter Masoquista Uma pessoa masoquista está em sofrimento e é incapaz de alterar essa situa- ção, nesse caso há a dedução que se deve ficar nela, possui alto nível de energia, mas esta é presa ao organismo – não flui – “a estrutura masoquista de caráter descreve aquele que sofre e lamenta-se, que se queixa e permanece submisso. A tendência ma- soquista predominante é a submissão” (Lowen, 1974, p. 142-143). Esse tipo de pessoa “não aguenta mais”, está constantemente sobrecarregada e renuncia a sua independência, sente que os outrosé que devem lhe dar a direção (VOLPI; VOLPI, 2012). Pelo seu bloqueio de caráter, busca o prazer, mas não o obtém, pois o inibe quando chega a um estágio em que ocorre sentimentos de ameaça, culpa e punição (BACKER, 1980). Características físicas: • O corpo típico do masoquista é curto, grosso, musculoso. • Há um crescimento acentuado de pelos no corpo. • É particularmente característico um pescoço curto e grosso, que denota um atarracamento da cabeça. • A cintura é mais curta e mais grossa também. • Outra marca importante é a projeção da pelve à frente, que seria mais precisamente descrita como um encurtamento para cima e um achatamento para das nádegas. A postura recorda a figura de um cão com o rabo entre as pernas. • A pele de todas as pessoas de estruturas masoquistas tende a um tom acastanhado devido à estagnação de energia (LOWEN, 1982, p. 144). Neste tipo de caráter, há o medo de ser abandonado, sendo que o amor é aclamado em excessividade (BACKER, 1980). Os sentimentos reprimidos de hostilidade e negativismo devem ser liberados para que a pessoa possa agir de forma mais descontraída em sua vida (LOWEN, 1982). • Estrutura de caráter Rígida A rigidez dessa estrutura de caráter evidencia-se no sentimento de orgulho como forma defensiva, há o medo de ceder, então são pessoas eretas, rígidas de orgulho. Desconfiadas, tem medo de ser enganadas, e de tanto defenderem-se, contém 159 os impulsos de “abrir-se” para o exterior. A contenção da energia ocorre na periferia do corpo, sendo assim, por mais que a carga energética seja boa e flui, manifesta-se de forma limitada (LOWEN, 1982). Características físicas: • O corpo do indivíduo de caráter rígido é proporcional e mostra harmonia entre as partes. • Uma característica importante é a vivacidade do corpo: olhos brilhantes, boa cor de pele, leveza nos gestos e movimentos. • Se a rigidez for grave, haverá uma redução correspondente no nú- mero de elementos positivos notados acima (LOWEN, 1982, p. 147). Por não querer demonstrar fraqueza, tem dificuldade em demonstrar seus sentimentos, pois a pessoa vê essa abertura como uma forma de ser vulnerável. Nessa estrutura observamos um medo de deixar-se levar, de se entregar às sensações, por isso, em terapia, deverá ser tratada a entrega e a expressão (VOLPI; VOLPI, 2012). Agora que conhecemos as estruturas de caráter, grifamos dois pontos importantes: 1. As características de cada um dos tipos acima descritos devem ser respeitadas; as couraças são vistas, segundo a Bioenergética, como a melhor solução que a criança encontrou no momento em que se sentiu ameaçada. As couraças têm valor de sobrevivência e conferem a identidade. A proposta desta modalidade terapêuti- ca é dissolver as couraças nos espaços em que ela se tornou des- necessária. Segundo Alexander Lowen, um guerreiro precisa de sua armadura para enfrentar a guerra, mas não necessariamente para viver todos os momentos de sua vida, seu dia a dia (VOLPI; VOLPI, 2012 p. 10). 2. Os terapeutas não tratam de tipos de caráter e sim de pessoas. A terapia centraliza-se na pessoa e em seus relacionamentos imediatos: com o corpo, com o chão onde pisa, com os indivídu- os com quem está evoluindo, com o terapeuta. Estes elementos compõem a primeira linha de interesses da abordagem terapêuti- ca (LOWEN, 1974, p. 149). Sendo assim, o terapeuta avaliará cada caso individualmente, considerando todos os dados obtidos sobre o paciente, como: postura do corpo, padrões de compor- tamento e história de vida, analisando e construindo a melhor forma de condução para a terapia. 3 REIKI – BASES HISTÓRICAS O Reiki é uma terapia de energia vibracional (ou sutil), esta palavra tem a seguinte origem: • Rei significa universal e refere-se ao aspecto espiritual, à Essência Energética Cósmica que permeia todas as coisas e circunda tudo o que existe. 160 • Ki é a energia vital individual que flui em todos os organismos vivos e os mantém. Quando a energia Ki sai de um corpo ela deixa de ter vida. • A energia Reiki é um processo de encontro dessas duas energias, a Energia Universal e a nossa energia física (DE’CARLI, 2017, p. 28). Para a aplicação da energia cósmica universal do Reiki, primeiramente passamos pelos cursos e iniciações específicos da técnica, neles aprendemos seu histórico, utilização e os símbolos que “sintonizam” essa energia. O Reiki pode ser utilizado tanto em outras pessoas como no auto tratamento, também em animais e plantas. É uma prática complementar que não é baseada em uma religião ou credos específicos. O descobridor do Reiki foi o japonês Mikau Usui, que viveu entre 1865 e 1926. Não há registros oficiais de sua história, ela foi repassada de Mestre a discípulo. Importante salientar que, principalmente sua formação religiosa cristã, pode ter sido inserida propositalmente na história de Usui quando o Reiki chegou ao Ocidente, de forma que fosse mais bem aceito. Sendo assim, de acordo com a lenda sobre a vida de Usui, destacamos: • Mikao Usui tornou-se um padre católico. Além de sacerdote cristão, teria lecionado e sido reitor de uma pequena universidade cristã em Kyoto (Japão), a Doshisha University. • Usui ouvia e lia muitas histórias sobre Jesus que, no passado, pelo uso das mãos e uma técnica específica, proporcionava milagres e ajudava outras pessoas com suas habilidades metafísicas. • Curioso, observava que grande parcela das pessoas eram infelizes e improdutivas, elas eram assoladas por estados depressivos e doentios, situações que o introduziram ardentemente a conhecer também habilidades terapêuticas. • Em 1898, Mikao viajou para os Estados Unidos onde estudou o Cristianismo e a Bíblia e, após anos de estudos, doutorou-se em Teologia. • Estudou línguas arcaicas para ler as antigas escrituras, inclusive o chinês e o sânscrito, a mais antiga língua indiana. • Mestre Usui resolveu retornar ao Japão e pesquisar mais sobre as curas realizadas por Buda. • Peregrinou à procura das antigas escrituras nas bibliotecas de monastério em monastério. • Mikao decidiu que ia estudar os sutras no Tibete e já que dominava bem o sânscrito, viajou para a Índia. • Em uma de suas pesquisas num antigo manuscrito de um discípulo anônimo de Buda, em sânscrito, conforme a lenda encontrou os quatros símbolos sagrados da fórmula usada por Buda para tratar e recuperar a saúde das pessoas. • Os sutras, escritos a mais de 2.500 anos, acionavam uma energia poderosíssima que poderia levar a um ilimitado poder de recuperação das disfunções (DE’ CARLI, 2017, p. 44-47-48-49). 161 A história oficial do Reiki nos conta que em março de 1922 Mikao Usui decidiu iniciar um tempo de jejum e meditação de 21 dias, em busca de purificação e esperando receber visões que indicassem esclarecimentos. Ele subiu o Monte Karuma no Japão, conhecido como montanha sagrada, e levou consigo os sutras encontrados, água e 21 pedras para contar os dias. No 21º dia teve uma visão de símbolos sagrados e recebeu também a compreensão dos seus significados e utilização deles (DE’CARLI, 2017). Estes símbolos canalizam a Energia Universal para repassá-la. Sendo assim, o Reiki foi “descoberto” e não “criado”. Essa experiência pode ser vista como uma revelação, uma manifestação do sagrado. O dr. Usui meditou durante três semanas no Monte Karuma. (...) Então, na última noite, quando já acreditava que voltaria para casa na manhã seguinte sem alcançar seu objetivo, de repente viu à distância uma luz que se aproximava. Quando a luz o alcançou, ele entrou em transe (...). Essa foi a realização de um sonho longamente acalentado. Agora ele podia não apenas aplicar o Reiki, mas também iniciar outras pessoas no Reiki (HOSAK, LÜBECK, 2010, p. 203).O Monte Karuma tem aproximadamente 600m de altura e localiza-se na cidade de Quioto. “Hoje é possível ir até a base do Karuma de trem. Desse ponto, a subida da montanha é uma caminhada agradável. Entretanto na época do Dr. Usui, o acesso era muito difícil” (HOSAK, LÜBECK, 2010, p. 198). NOTA A aplicação do Reiki iniciou-se no próprio Usui como auto tratamento, depois foi repassada a seus familiares. Mais tarde, em abril de 1922, a associação Usui Reiki Ryoho Gakkai foi formada para ensinar o método de tratamento (MAGALHÃES, 2015). No Brasil, o Reiki foi instituído no SUS em 2017, pela ampliação da PNPIC (BRASIL, 2017). Existem três níveis de iniciação em Reiki, sendo que o nível 3 é dividido em nível 3A e 3B, este último é direcionado à iniciação no nível de Mestre Reiki, ou seja, quem poderá ministrar os cursos e iniciar outros interessados na prática. Em cada nível conhecemos símbolos que atuam em campos determinados: nível 1 – corpo físico; nível 2 – corpo emocional e mental; nível 3 – corpo espiritual. Importante salientar que a iniciação ou sintonização procura ativar no aluno, em cada nível, a energia Reiki, e é realizada pelo Mestre Reiki. Os “reikianos”, como são chamados os iniciados em Reiki, passam a incorporar e vivenciar no seu dia a dia os cinco princípios do Reiki, sendo eles: 162 Só por hoje... • Não se zangue. • Não se preocupe. • Expresse sua gratidão. • Seja aplicado em seu trabalho. • Seja gentil com os outros (USUI, s.d. apud DE’CARLI, 2017). Estes princípios, quando adotados em nossa postura da vida diária, podem evitar doenças e desequilíbrios energéticos (DE’CARLI, 2017). 3.1 OS 7 CHAKRAS Para compreendermos melhor o método Reiki, é importante ampliarmos a visão para uma dimensão holística do corpo, nesse caso, compreender os chakras. Os chakras são centros de energia que existem no interior do corpo fluídico do Espírito, que, em sânscrito, significa círculos. São vórtices de energia sutis que têm movimentos circulares de expansão e concentração, nos sentidos vertical e horizontal. Esses movimentos podem ocorrer de forma lenta ou rápida, dependendo do nível de energia que está impregnando o chakra. Fisiologicamente atuam como transformadores de energia, tornando-a mais condensada para poder ser utilizada no corpo físico. Cada chakra liga-se aos demais por meio de fios de energia chamados nadis. E por meio desses fios que eles se ligam aos plexos nervosos e às glândulas. Assim como temos no corpo físico uma rede de nervos, vasos sanguíneos e linfáticos, no corpo fluídico existe uma rede de nadis (CERQUEIRA FILHO, 2015, p. 13-14-15). Em outras palavras, “os chakras são centros ou órgãos superfísicos através dos quais as energias dos diferentes campos são sincronizadas e distribuídas ao corpo físico” (KARAGULLA, KUNZ, 2014, p. 35). Possuímos sete chakras maiores, quando eles funcionam sem bloqueios, estão “abertos” e giram na direção dos ponteiros do relógio para metabolizar as energias do campo universal, que entram no corpo. Caso o movimento esteja acontecendo ao contrário, a corrente flui para fora do corpo, influenciando no metabolismo, dessa forma, o chakra está “fechado” para as energias que entram (BRENNAN, 2005). O Quadro 2 busca sinterizar algumas características dos sete chakras: 163 Quadro 2 – Os sete chakras Fonte: Hosak e Lübeck (2010, p. 424-431) Chakra Localização Funções 7º – Chakra Coronário Topo da cabeça. O sétimo chakra irradia para cima, em direção ao céu. Integra em si os estados dos seis chakras principais abaixo dele e os organiza para que trabalhem juntos; abertura para o divino; trabalhar para o benefício de toda a Criação; realizar nossa própria divindade etc. 6º – Chakra Frontal Ponto entre as sobrancelhas. O sexto chakra irradia para a frente. Percepção do nosso caminho no contexto cósmico; capacidade de encontrar o lugar apropriado na vida; pensamento holístico, intuitivo e perspicácia; transmissão e controle de energias espirituais; criar a realidade pelo poder do pensamento, entre outras. 5º – Chakra Laríngeo Na garganta. O quinto chakra irradia para a frente. Individualidade; autoexpressão; inspiração; expansividade mental; clareza mental e sabedoria; transformação do medo e de outros sentimentos opressivos em ações apropriadas, construtivas; criatividade prática; comunicação, carisma etc. 4º – Chakra Cardíaco Região do coração. O quarto chakra irradia para a frente. Amor (com a expectativa de receber amor em retribuição); tolerância; compaixão; gratidão; diplomacia; harmonia; amor-próprio; capacidade de dizer “sim” com sinceridade; unir conscientemente o espiritual e o material entre outras. 3º – Chakra Plexo Solar Cerca de 4 cm abaixo do esterno. O terceiro chakra irradia para a frente. Poder; medo; habilidades organizacionais; pensamento analítico; dizer “não”; sabedoria intelectual; autoconfiança e autoestima; transformação da matéria em energia etc. 2º – Chakra Sexual (ou Sacro/Umbilical) Aproximadamente 4 cm acima do osso pubiano. O segundo chakra irradia para a frente. Alegria na vida; sentimentos expressos diretamente, sem reflexão; sexualidade em geral; distribuição das forças vitais; percepção instintiva; relação com o corpo; criatividade; energia para atividades prolongadas, entre outras. 1º – Chakra Raiz (ou básico) Base da espinha dorsal. O primeiro chakra irradia para baixo, para terra, a partir do períneo. É a fonte de poder vital para o organismo inteiro e para o sistema de energia. É o centro da vontade, da energia para atividades de curta duração e da manifestação de todos os tipos de circunstâncias da vida. 164 A Figura 1 demonstra a localização dos chakras no corpo humano: Figura 1 – Localização dos chakras Fonte: adaptado de https://br.freepik.com/vetores-premium/contorno-do-corpo-masculino-e- feminino_26577888.htm. Acesso em: 9 ago. 2022. Acadêmico, para conhecer com mais profundidade os Chakras e suas funções, assista ao vídeo no link a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=F6p060Zeg_w. Nele, você compreenderá, além do que já foi visto, quais são os órgãos vinculados a cada um dos sete chakras. DICA O método Reiki atua nos sete chakras, dessa forma, uma sessão de Reiki pro- cura equilibrar os chakras de forma que estejam alinhados, desobstruindo bloqueios e proporcionando a livre passagem da energia. 165 4 APLICAÇÃO DE REIKI A aplicação do Reiki pode ser realizada tanto de forma presencial como a dis- tância, esta última é ensinada ao reikiano a partir do nível 2. A energia que flui a partir do método é de frequência alta, que flui pelo corpo da pessoa em tratamento, limpando e equilibrando os centros de energia. A representação simbólica do método Reiki é o bambu: O bambu que, em sua simplicidade, resistência (quando enverga), vazio, retidão e perfeição, podem representar metaforicamente o funcionamento da energia. O bambu é flexível, apesar de ser forte. Ele reverencia o vento que o toca soprando, ele se dobra mostrando- nos que quanto menos um ser se opuser à realidade da vida, mais resistente se tornará para viver em plenitude. (...) Entre um nó e outro, o bambu é oco, vazio, como vazio é o espaço entre o céu e a terra, representando os que escolheram ser canais de energia Reiki, que passam a funcionar nesse vazio como verdadeiros “tubos” direcionadores de Energia Cósmica” (DE’CARLI, 2013, p. 144). Por intermédio dessa metáfora, os reikianos são representados como “bambus”, eles sintonizam a Energia Cósmica (que está disponível em todos os lugares) e repas- sam para a pessoa em tratamento. A aplicação possui posições próprias que são ensi- nadas nos cursos, porém, há vários sistemas de Reiki. O método de Mikao Usui é o mais popular no Ocidente, mas existem outros sistemas “queagem de maneira diferente no tratamento completo, o que não torna um sistema menos eficaz que o outro” (DE’CARLI, 2013, p. 294). Uma sessão de Reiki pode iniciar com o terapeuta explicando resumidamente como funciona o método para aqueles que estão em tratamento pela primeira vez. Costumeiramente a aplicação começa com a pessoa deitada de barriga para cima, após sintonizar a energia, o terapeuta a repassa para os pontos energéticos do corpo, a destacar a localização dos sete chakras. Depois, pede que a pessoa vire, pois como a energia circula o corpo, é necessário realizar o processo nos dois lados. Frequentemente uma sessão de Reiki dura em média 30 minutos, e em cada localização o terapeuta envia a energia de aproximadamente 3 minutos. Há músicas que podem ser utilizadas nas sessões que “marcam” o tempo de 3 minutos com um sino ou outro tipo de sinal, porém, caso o terapeuta intua que é necessário passar mais tempo em um determinado chakra ou ponto do corpo, esse tempo pode aumentar. 166 Figura 2 – Sessão de Reiki Fonte: https://elements.envato.com/pt-br/cropped-view-of-woman-putting-hands-above-body-whi-8XRUZHC. Acesso em: 9 ago. 2022 Pode haver ou não o toque durante a sessão, porém, frequentemente, as mãos ficam a uma distância de alguns centímetros da pessoa. O terapeuta sintoniza a energia a partir da visualização dos símbolos sagrados recebidos nos níveis pelo seu Mestre Reiki. Durante uma aplicação, é normal a pessoa em tratamento sentir sensações, como: arrepios, leveza, frio ou calor, e até mesmo despertar sentimentos que provocam o choro. Por não ter efeitos colaterais ou riscos para a saúde, o Reiki é indicado como tratamento complementar para todas as pessoas. 167 Neste tópico, você aprendeu: • Os aspectos corporais são enfatizados na análise bioenergética, seus pressupostos perpassam pela importância do corpo como forma de reconhecimento do percurso de desenvolvimento emocional do paciente e instrumento de trabalho terapêutico. • Grounding significa “enraizamento”. É uma técnica que Lowen e Piekarros desenvol- veram em suas sessões de terapia, na busca pela melhoria da respiração e liberação de emoções e de tensões que bloqueavam os fluxos de energia do corpo. • A estrutura de caráter predominante, segundo a bioenergética, é formada desde a concepção até a primeira infância, e segue pelo resto da vida. • O Reiki é uma terapia de energia vibracional, descoberta por Mikao Usui, que se utiliza de símbolos sagrados para sintonizar a Energia Cósmica e repassá-la a pessoa em tratamento. • Rei significa universal e refere-se à Essência Energética Cósmica que permeia todas as coisas e circunda tudo o que existe, Ki é a energia vital individual. • Uma sessão de Reiki, entre outros aspectos, procura equilibrar os sete chakras do corpo. RESUMO DO TÓPICO 1 168 AUTOATIVIDADE 1 Com base no desenvolvimento histórico da Bioenergética, desde os estudos rea- lizados pelo psicanalista Wilhelm Reich, precursor da psicologia corporal, até o seu desenvolvimento por Alexandre Lowen, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Durante o desenvolvimento da Bioenergética, Lowen procurou se “desvencilhar” dos estudos de Reich, a fim de criar uma terapia inovadora. b) ( ) Lowen foi aluno de Reich, além de seu professor, Reich também foi o seu terapeuta por alguns anos. c) ( ) Freud, desenvolvedor da psicanálise, já estudava a unificação do corpo e mente, a partir dessa influência é que Reich se interessou pela psicologia corporal. d) ( ) No Brasil, a Análise Bioenergética foi instituída no SUS em 2018, porém, ainda são poucos os campos em que esse tipo de prática pode ser utilizada. 2 A Bioenergética acredita que a energia está envolvida em todos os processos da vida. Com base na definição do conceito de “Energia”, analise as sentenças a seguir: I- A energia chega ao ser humano por intermédio do oxigênio, de alimentos etc. Ela é disseminada no corpo pelos seus fluídos, com destaque para o sangue. II- Não há influência significativa dos processos energéticos no corpo humano. III- A energia é sentida pelo corpo como um movimento interno que, em estado de equilíbrio, é tido como agradável, expressando-se em bem-estar. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças I e II estão corretas. b) ( ) Somente a sentença II está correta. c) ( ) As sentenças I e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 O “caráter” para a bioenergética é conceituado como um padrão de comportamento, um modo de estar no mundo, a fim de evitar a ansiedade. Cada pessoa possui um ca- ráter dominante, por mais que possa ter traços de outras estruturas. De acordo com as estruturas de caráter definidas pela Bioenergética, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: 169 ( ) Na pessoa em que predomina a estrutura de caráter oral, há uma sensação de carência afetiva, muitas vezes de vazio. ( ) A estrutura masoquista de caráter descreve aquele que sofre, porém não se lamenta nem se queixa pelo seu sofrimento. ( ) Na estrutura de caráter rígida, há um medo de deixar-se levar, de se entregar às sensações. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F. b) ( ) V – F – V. c) ( ) F – V – F. d) ( ) F – F – V. 4 O Reiki é um método de canalização e transferência da Energia Universal, que foi descoberto pelo japonês Mikao Usui. Foi difundido no Ocidente, sendo utilizado, inclusive, no contexto do SUS no Brasil. Disserte sobre como a história conta que Usui descobriu o método. 5 Para se tornar um “reikiano”, o interessado deve passar por cursos que são divididos em níveis, em cada um deles há uma iniciação diferente. Disserte sobre os níveis e cite sobre o que cada um deles aborda. 170 171 CONSTELAÇÕES FAMILIARES SISTÊMICAS E TERAPIA COMUNITÁRIA INTEGRATIVA UNIDADE 3 TÓPICO 2 — 1 INTRODUÇÃO Acadêmico, no Tópico 2, abordaremos sobre as Constelações Familiares Sistêmicas, terapia que pode ser utilizada tanto em grupos quanto de forma individual. Conheceremos a sua origem, seus principais conceitos teóricos e o processo de aplicação desta prática. Além disso, haverá um breve debate sobre temas contemporâneos envolvendo as constelações familiares. Abordaremos sobre a sua utilização na área jurídica e na área da saúde, assim como a discussão sobre a sua eficácia terapêutica. Em seguida, estudaremos sobre a Terapia Comunitária Integrativa (TCI), seus objetivos, suas “regras” para que estes objetivos sejam alcançados, o processo de formação e perfil do terapeuta comunitário. Também descreveremos as bases teóricas que serviram de alicerce para a criação da TCI. Por fim, apresentaremos as etapas que fazem parte do processo da terapia, destacando os principais pontos de cada uma delas. 2 CONSTELAÇÕES FAMILIARES SISTÊMICAS E SUAS ORIGENS A constelação familiar (CF) ou, em alemão, “Familienstellen”, foi fundada por Bert Hellinger, sobre a vida do seu autor, destacamos: • Bert Hellinger nasceu na Alemanha em 1925. • Com 20 anos, ele se prepara para se tornar padre. • Trabalha como missionário na África do Sul entre os zulus durante dezesseis anos. • Depois de 25 anos como padre, ele deixa sua congregação religiosa, volta à Alemanha, parte para uma formação em psicanálise e se casa. • Hellinger estuda inúmeras abordagens terapêuticas (...) hoje se define como filósofo (MANNÉ, 2008). No ano de 1978 ele iniciou seus estudos sobre o fenômeno da representa- ção, descobriu em suas pesquisas as ordens básicas da vida, ele as chamou de “Or- dens do Amor”, estas ordens são os alicerces da CF criada por Hellinger (HELLINGER SCHULE, 2022). 172 A CF é baseada na terapia familiar sistêmica. Nesse tipo de terapia, a família é vista como uma unificação,como se cada comportamento de um de seus membros repercutisse em todo o sistema familiar (STONE, 2006). A técnica da constelação fami- liar facilita a identificação no sistema familiar se “existe alguém que esteja emaranhado nos destinos de membros anteriores da família (..) trazendo à luz os emaranhamentos, a pessoa consegue se libertar facilmente deles” (HELLINGER, HÖVEL, 2007 p. 10). Chamamos de “destino” as forças que, a partir do passado, vinculam-nos necessariamente aos efeitos, bons ou maus, de acontecimentos. Esses efeitos nos são “destinados” independentemente de nossa vontade. Por outro lado, estamos sujeitos a uma “sorte”, isto é, a acontecimentos que nos atingem casualmente, sem que possamos escapar (SCHNEIDER, 2007 p. 11). NOTA As constelações familiares podem ser praticadas individualmente ou em grupo, elas promovem intensas experiências e descobertas humanas, segundo Schneider (2007, p. 9) “a solução de problemas psíquicos associa-se à descoberta das ligações da alma, em conexão com as ocorrências e os destinos familiares e com os grupos e os contextos maiores que os abrangem”. Durante a prática, sentimentos e traumas relacionadas ao histórico familiar vem à tona por intermédio de representações dos familiares por outras pessoas no encontro, assim, a pessoa em tratamento pode expor suas sensações. Nesse caso, há um aspecto teatral nesse tipo de terapia, em que pessoas assumem papéis representativos para aquele em tratamento. Podemos dizer que situações vividas são recriadas e há a busca pela transformação delas para ressignificar esses momentos. 3 AS LEIS DO AMOR Hellinger associou às constelações familiares três leis que promovem equilíbrio no sistema familiar quando são respeitadas, da mesma forma, se ignoradas, poderá haver desarmonia neste mesmo sistema, são elas: Lei do pertencimento – Lei da hierarquia – Lei do equilíbrio. O Quadro 3 descreve cada uma delas. 173 Quadro 3 – As leis do amor Fonte: Gonçalves e Tescarolli ([20--?], p. 1-3) Lei do pertencimento Cada pessoa que nasce ou é vinculada a um sistema, necessita ser reconhecida como membro integrante e respeitada no seu lugar e papel dentro desse mesmo sistema. No Sistema Familiar os membros são únicos e todos têm o direito de pertencer. Isso equivale dizer que ninguém pode ser excluído, não importando suas características, dificuldades ou virtudes pessoais. Todos são importantes para o Sistema. Quando ocorre uma exclusão no sistema familiar acontece um desequilíbrio. Essa situação passa a ser vivida por um descendente, sem que, necessariamente, ele tenha conhecimento ou afinidade com o antepassado excluído. Lei da Hierarquia A Hierarquia ou Ordem de Chegada, diz respeito a quem chegou primeiro na família. Portanto, os mais velhos merecem ser olhados com muito respeito e cuidado, pois foi através deles que a família veio se mantendo. (...) Eles chegaram primeiro! Lei do Equilíbrio A Lei do Dar e Receber, também chamada de Lei do Equilíbrio de Troca, foi observada nos grupos sociais por Bert Hellinger, como algo de fundamental importância para o funcionamento e manutenção dos sistemas de uma forma geral. Todo ser é dotado da capacidade de troca, oferecendo a outros seus dons, capacidades e habilidades e recebendo daqueles o que for importante para satisfazer suas necessidades de sobrevivência, crescimento e desenvolvimento. Uma relação equilibrada, quando ambas as pessoas compartilham mutuamente, dando e recebendo aquilo que cada um é capaz, é uma relação que promove o amadurecimento a liberdade e o bem-estar. Com base no Quadro 3, identificamos que para Hellinger, na estrutura familiar, a prioridade é de quem chegou primeiro, pela lei da hierarquia, ou seja, pais sobre filhos, avós sobre pais etc. Nesse os mais velhos têm poder de decisão e devem ser considerados. O vínculo entre os familiares é percebido na lei do pertencimento, e é tão importante que, quando um membro é excluído, ocorre um desequilíbrio no sistema. O “equilíbrio” ou a “lei do dar e receber”, descreve sobre a nossa capacidade de manter relações em um compartilhamento mútuo para a satisfação das necessidades, crescimento e desenvolvimento. 4 O MÉTODO TERAPÊUTICO DA CONSTELAÇÃO FAMILIAR A maior parte das constelações familiares são realizadas por um grupo. Inicia com o terapeuta esclarecendo a questão levantada pela pessoa em tratamento. Após, os representantes são escolhidos no grupo, estes darão “vida” aos membros familiares sobre quem é o foco da constelação. A constelação se desenrola progressivamente até que haja uma solução para a questão levantada, mesmo que essa seja “a solução é impossível”. Ao final pode haver uma espécie de ritual de encerramento da sessão (MANNÉ, 2008). 174 O vídeo disponível no link a seguir, demonstra a prática da conste- lação familiar, e uso das representações na relação de mãe e filho: https://www.youtube.com/watch?v=gawPa91wGxQ. DICA No ano de 2006, o Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Goiás criou um grupo para atender pacientes com dor pélvica crônica em tratamento no ambu- latório de ginecologia. A terapia das constelações familiares foi incluída como prática integrativa nos encontros mensais. Em 2018 já tinham sido atendidas 1.440 pessoas in- teressadas na abordagem. A equipe é formada por profissionais de áreas distintas como: medicina, enfermagem, administração, direito, musicoterapia e serviço social. A médica que media os encontros esclarece que: É importante que se compreenda que a constelação familiar não substitui a terapia médica e/ou psicológica. O método deve ser con- cebido como um recurso adicional para a melhoria da qualidade de vida das pessoas consteladas. Para os casais, esse método pode contribuir com o ‘amor à segunda vista’, pois a constelação, muitas vezes, possibilita uma nova chance. De qualquer modo, quando não é mais possível manter o relacionamento, a abordagem contribui para que o casal possa se despedir e seguir suas vidas em paz (CAMPOS, 2020, s. p.). A Terapia das Constelações Familiares teve a sua implantação no SUS em 2018 após ser legitimada através da Política Nacional das PICS, porém sua abordagem também é utilizada na área jurídica. Muitas vezes o processo jurídico do direito da família torna-se demorado e é cada vez mais comum a busca de métodos alternativos que auxiliem a mediação e resolução de conflitos. A Terapia das Constelações Familiares vem sendo estudada e aplicada por Tri- bunais de Justiça com o intuito de facilitar esse processo e preservar os vínculos afeti- vos familiares (FIGUEIREDO; PAIVA, 2021). Tais recursos auxiliam na análise do processo como um todo e podem, muitas vezes, contribuir para a tomada de decisão do juiz. No interior do Estado de Minas Gerais, essa prática integrativa foi implantada em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), que acolhia demandas dos usuários referentes a saúde mental. Também é comum a procura desse serviço por dores físicas sem explicação, difusas e crônicas. Os problemas trabalhados com os participantes no grupo da Terapia das Constelações Familiares foram: problemas na família, ansiedade, problemas no trabalho, depressão, problemas no relacionamento e insônia. Após o término das sessões, foi possível verificar a satisfação dos usuários e relatos da melhoria das relações interpessoais e familiares, assim como identificar que eles possuíam dificuldade de encontrar apoio para seus problemas emocionais que trazem prejuízo à saúde (RESENDE et al., 2020, p. 2016). 175 Contudo, a Terapia das Constelações Familiares tornou-se atualmente centro de estudos e debates com análises divergentes sobre esse método aplicado em grupo. Algumas reflexões são levantadas questionando essa prática, são elas: • Influência da formação religiosa do criador