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I. O MOVIMENTO PROFÉTICO 
 
 
O título profético é aplicado a vários textos e papéis conhecidos no antigo Oriente Médio. Tais textos contêm previsões, aparentes previsões escatológicas, ou apocalípticas, crítica religiosa social e mensagens de divindades. 
A definição do papel profético inclui sacerdotes ordinários (Egito), adivinhos profissionais (Ásia Ocidental), bem como aqueles que falam diretamente sob a inspiração de uma divindade. 
A figura do profeta na discussão histórico-teológica é guiada, do ponto de vista da crítica, pela relação do profeta com a realidade. Assim, para alguns, o profeta é um crítico social, para outros, um anunciador do futuro e, para outros, ainda, um mensageiro carismático autorizado. 
A Bíblia não tem o monopólio desta atividade religiosa e, na realidade, o profeta bíblico deve muito aos seus colegas do oriente próximo; em especial os da Síria-Palestina, da Anatólia (Turquia), da Mesopotâmia e do Egito. 
Na Mesopotâmia, sobretudo, temos uma rica variedade de textos, incluindo a Babilônia, a Assíria e a localidade de Mari, bem como a Síria. A Mesopotâmia conhecia diversos tipos de profetas, dos quais dois se sobressaem: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
BARÚ
 
(
vidente
)
 
S
ua especialidade era anunciar o futuro. No 
livro dos Números 
temos um exemplo no episódio de Balaão (Nm 22
-
24).
 
MUHHÚ
 
(
profissional em êxtases
)
 
Sua especialidade era c
omunica
r
 
os avisos da divindade a cujo 
serviço estav
a agregado, em especial à deusa
 
Ischtar
 
do qual era 
considerado a boca.
 
Ele sempre tinha uma palavra a dizer. Não se 
podia empreender nenhuma atividade sem que a divindade fosse 
consultada. Tudo isso pelo segundo milênio a.C.
 
 
As populações que viviam na costa mediterrânea e as semíticas do Oeste apreciavam muito esses transes divinatórios. O delírio era produzido graças a técnicas de uma eficácia reconhecida: instrumentos de música, bater palmas, gritos, danças e mutilações (cf. 1Rs 18,28). 
Os profetas em Israel teriam sido o fruto do difícil embate que se verificou na Palestina, a partir do séc. XIII a.C., entre a fé javista e a civilização cananeia. E o termo profeta vem do grego prophétes (profh,thj = aquele que fala em lugar de outrem). O hebraico naby 
2 
 
(ybin)" vem de uma raiz que parece estranha à língua hebraica; o que indica ser, o profetismo, algo de origem estrangeira. 
Os primeiros profetas, mencionados pelo texto bíblico, foram profundamente influenciados pelos extáticos de Canaã. Os profetas, mas, sobretudo os chamados irmãosprofetas contestavam, com sua vida e mensagem, os vícios do novo estilo social, ou seja, o sedentarismo, que trouxe gritantes desigualdades sociais. Entre estes estavam os recabitas (Jr 35) e os nazireus (Jz 13,5), mas estes não eram considerados profetas. 
Uma possível cronologia do profetismo bíblico poderia ser a seguinte: 
 
	± 1040 – 1010 a.C. 
	Samuel 
	± 1000 – 970 a.C. 
	Natã e Gad 
	± 930 a.C. 
	Aías de Siló 
	± 860 a.C. 
	Miquéias 
	± 875 - 850 a.C. 
	Elias 
	± 850 - 790 a.C. 
	Eliseu 
 
	± 780 - 700 a.C. 
	Amós, Oséias, Isaías e Miquéias 
	± 650 - 585 a.C. 
	Sofonias, Naum, Habacuc e Jeremias 
	± 597 - 537 a.C. 
	Ezequiel e Dêutero Isaías 
	± 597 - 537 a.C. 
	Ezequiel, Abdias e Dêutero Isaías 
 
	 170 a.C. - séc. II a.D 
	Daniel (tempo da apocalíptica) 
 
O movimento profético é a expressão mais original e possante do pensamento hebraico. Era de caráter essencialmente religioso, mas de tal modo transcendeu a moralidade ritual e convencional que se tornou uma filosofia duradoura da conduta individual e social. 
Os escritos proféticos foram compilados durante um período de ±250 anos, abrangendo a queda dos reinos de Israel e Judá. No exílio, o povo de Israel foi politicamente dizimado e somente a sua fé, sustentada pelas promessas proféticas, foi que lhe garantiu subsistência. 
Os profetas eram motivados por um chamamento individual e vinham, frequentemente, com relutância a um povo que não os procurava. Sua mensagem era plena de críticas e reprovações e, constantemente invocavam o primitivo pacto entre Deus e seu povo. 
As circunstâncias políticas e sociais em que viveram os profetas foram marcadas por forte adversidade, mas, apesar disso, o pensamento profético tem uma unidade básica consistente. Possui também uma significação que transcende em muito os fatores temporais que ajudaram a criá-lo. 
 
 
1.1. Profetismo Bíblico 
 
O termo profeta traduz o hebraico ybin : (naby ) que tem como sentido último falar em lugar de, em vez de ou em nome de. Talvez este último sentido expresse a função fundamental do profeta, ou seja, falar em nome de hwhy. 
Não se exclui da função do profeta o anúncio do futuro, mas isto não lhe é essencial. É o que podemos deduzir de textos como Dt 18,15-22; Is 41,22; 48,3-7 que colocam lado a lado as duas ideias, ou seja, falar em nome de e prenunciar o futuro. 
 
	Dt 18,15-22 
	Is 41,22 
	O Senhor, teu Deus, te suscitará dentre os teus irmãos um profeta como eu: é a ele que devereis ouvir. Foi o que tu mesmo pediste ao Senhor, teu Deus, em Horeb, quando lhe disseste no dia da assembleia: Oh! Não ouça eu mais a voz do Senhor, meu Deus, nem torne a ver mais esse fogo ardente, para que eu não morra! E o Senhor disse-me: ‘Está muito bem o que disseram; eu lhes suscitarei um profeta como tu dentre seus irmãos: minhas palavras porei em sua boca e ele lhes fará conhecer as minhas ordens. Mas ao que recusar ouvir o que ele disser de minha parte, pedirei contas disso. O profeta que tiver a audácia de proferir em meu nome uma palavra que eu não lhe mandei dizer, ou que se atrever a falar em nome de outros deuses, será morto. Se disseres a ti mesmo: ‘Como posso eu distinguir a palavra que não vem do Senhor? ’ Quando o profeta tiver falado em nome do Senhor, se o que ele disse não se realizar, é que essa palavra não veio do Senhor. O profeta falou presunçosamente. Não o temas!” 
	Que se apresentem e nos predigam o que vai acontecer. Do passado ou do que souberam predizer, a que tenhamos dado atenção? Ou, então, anunciai-nos o futuro, para nos fazer conhecer o final. 
	
	Is 48,3-7 
	
	O que passou, eu predisse com muita antecipação; depois me pus à obra, e tudo se realizou. 4.Sabendo bem que és rígido, que tua cerviz tem músculos de ferro, e que tua fronte é de bronze, 5.eu te predisse os acontecimentos com muita antecedência, antes que acontecessem eu te preveni, para que não pudesses dizer: “Foi meu ídolo quem os fez, foi minha estátua esculpida ou fundida quem os provocou”. 6.Do que ouviste, vês a realização: não deves atestá-lo? Pois bem, vou revelar-te agora novos acontecimentos, ainda mantidos em segredo, e que tu não conheces. 7.Foram criados agora, e não antigamente; nunca até aqui ouviste falar disso, de maneira que não poderás dizer: “Já o sabia”. 
2 
 
 
O profeta é, entretanto, por excelência, o homem de Deus (1Sm 2,27; 1Rs 13; Dt 33; Esd 3,2; etc.). Todavia, nem sempre, sobretudo nos textos mais tardios, o título quer realçar a função profética. 
Com referência à missão profética é frequente também o título de Servo do Senhor ou Servo de Deus (2Rs 9,7; 17,13.23; 21,10; 24,2; Esd 9,11; Jr 25,4; 26,5; 29,19; 35,15; 44,4; Dn 9,6.10; etc.). Mais raro é o título de Mensageiro do Senhor (2Cr 36,15; Is 44,26; Ag 1,13; Ml 3,1) este, entendido, sobretudo, como referência a João Batista em Mc 1,2. Bem mais importante para a história do profetismo, entretanto, é um texto já consagrado de 1Sm 9,9-11: 
‘ATk.l,B. ‘vyaih' rm:Üa'-hKo) laeªrf" .yIB. Ÿ~ynIåp'l. 
~AYëh; ‘aybiN"l; yKiÛ ha,_roh'-d[; hkÞ'l.nEw > Wkïl. ~yhiêl{a/ vAråd>li 
`ha(r, oh' ~ynIßp'l. arEîQ'yI 
‘Wkl.Y)wE: hk'le_nE Ÿhkl'ä . ^ßr>b'D> bAjï Ar±[]n:l. lWaôv' rm,aYO“w: 
`~yhi(la{ /h' vyaiî ~v'Þ-rv,a] ry[iêh'-la, 
tAaßc.yO tArê[n'> Waåc.m' ‘hM'he’w> ry[iêh' hleä[]m;B. ‘~yli[ o hM'heª `ha(r, oh' hzß<B' vyEïh] !h,êl' Wråm.aYwO: ~yIm"+ baoåv.li 
 
profeta, outrora se chamava vidente. Antigamente, quando em Israel alguém ia consultar a Deus, se dizia: “Vamos ao vidente!” Pois o que hojeem dia se chama Saul respondeu ao empregado: “Tua sugestão é boa; portanto vamos!” E eles se dirigiram à cidade onde estava o homem de Deus. Quando estavam galgando a subida da cidade, encontraram um grupo de moças que vinham saindo para apanhar água, e lhes perguntaram: “O vidente está aqui? 
 
O profeta (ybin") é uma pessoa que sob a ação de um carisma divino e em determinadas ocasiões dizia, já não palavras suas, mas as próprias palavras de Deus. E antes de Samuel já haviam em Israel portadores ou intérpretes da Palavra de hwhy; Moisés foi um deles (cf. Dt 18,15-22), não ainda conhecido, entretanto, como naby (ybin)" 
O profetismo insere-se no centro da história de Israel com caráter e missão bem definidos: a defesa do javismo que, identificada com a própria vida da nação, perpassava os níveis religioso, social, moral e político. 
Daí a compreensão do porquê tantas vezes o profetismo se encontrou em oposição aberta com os chefes religiosos e políticos e com o próprio povo que, transviado pelos seus chefes, nem sempre conseguiu, na prática, reconhecer os enviados de hwhy. 
Um profetismo com características bem definidas apresenta-se, portanto, lá pela metade do séc. XI a.C., um momento bastante crítico para as tribos de Israel que, ainda se encontravam profundamente divididas entre si; e para o próprio javismo, transplantado em terreno novo e exposto aos ataques dos cultos cananeus, preexistentes e persistentes. 
Já nos séculos subsequentes a Samuel, o florescimento profético, seja de figuras singulares, seja de grupos ou corporações aumenta e nos conduz ao longo período dos chamados profetas escritores (séc. VIII - IV/III a.C.). 
Seria, entretanto, um grande erro, menosprezar os profetas não escritores, ainda que não tenham atingido a grandeza de Elias e Eliseu. Eles pregaram e agiram bastante mais do que dizem deles as poucas informações chegadas até nós. Destacamos assim, os seguintes profetas não escritores: 
· Gad (1Sm 22,5; 2Sm 24,11-14.18s) 
· Natã (2Sm 7,1-17; 12,1-15; 1Rs 1; 1Cr 29,29) 
· Semeías (1Rs 12,22ss) 
· Aías de Siló (1Rs 11,29) 
· Jeú (1Rs 16,1-13; 2Cr 20,34) 
· Profetas anônimos (1Rs 12,26-13,32) 
Mas, os dois gigantes que dominam, embora com diferenças de atitudes, a história do reino de Israel foram Elias e Eliseu, aos quais são consagrados dois ciclos narrativos (1Rs 17,1 - 2Rs 13,26 e 2Rs 2,1 - 13,25), que narram seus grandes feitos, em estreita relação com os fatos da vida política. 
Em torno de Elias e Eliseu movimentam-se os chamados filhos dos profetas ou irmãos dos profetas (cf. 1Rs 20,35-43; 2Rs 2,3.5.7.15), expressão equivalente a Profetas (1Rs 20,41), dos quais fazem parte, muito provavelmente, também, profetas isolados e anônimos que atuaram neste período. Eliseu exercia seu ministério com grande proximidade aos filhos dos profetas (2Rs 2,3; 4,1.38; 5,22; 6,1) e dispunha deles (2Rs 9,1). De proporções mais modestas, mas próximo quanto a espírito e coragem, às grandes figuras de Elias e Eliseu foi o profeta Miquéias, citado em 1Rs 22,5-18. 
É a partir do séc. VIII a.C. que começa a série dos, assim chamados, profetas escritores. Eles foram homens de ação tanto quanto os outros que os precederam. Por outro lado, os não escritores não desaparecem de todo com o aparecimento dos chamados profetas escritores. 
Até quando se prolonga a época dos profetas escritores é incerto; provavelmente não além do séc. III a.C., mas isto não significa o fim do carisma profético em Israel, mesmo no tempo do NT (cf. Lc 1,67; 2,25s.36), pois João Batista é considerado a última grande figura profética do AT. 
A figura do profeta em Israel tem características bastante distintas dos profetas circunstantes com seu caráter divinatório e mágico, orgíaco e extático, de mutilação e cultual. As semelhanças com o profetismo de Israel limitam-se a algumas exterioridades de forma e expressão, explicados pelo fundo comum da mentalidade e da língua. 
A produção literária profética mostra entrosamentos e paralelismos com fontes extra israelitas, mas o profetismo bíblico possui alguns elementos essenciais, ou seja, um chamado- vocação, que é uma intervenção pessoal de Deus na vida humana. 
Não existe, portanto, verdadeiro profeta, sem vocação divina (Jr 23,21), que poderia efetuar-se também por meio de um intermediário. Assim, Elias, por ordem divina, chama Eliseu para o ofício de profeta (1Rs 19,15-21). 
Notemos também que Elias entra em cena com a simples apresentação de o Tesbita (1Rs 17,1) e sem relato de vocação, mas esta está implícita, entretanto, em cada página do ciclo que trata dele. 
Deus, chamando para a missão profética, age com soberania e liberdade: chama a quem quer, como quer e quando quer. Não leva em consideração o fato de o escolhido pertencer a esta ou àquela condição social, nem a sua profissão, grau de cultura, idade ou sexo. 
Se Moisés era pastor e Amós, provavelmente, vaqueiro, Isaías, pelo contrário, pertencia à nobreza leiga de Jerusalém. Samuel dedicava-se ao serviço do tabernáculo, enquanto Jeremias e Ezequiel eram de estirpe sacerdotal (Jr 1,1; Ez 1,3). 
Notemos também, que Deus não ocultava, no momento do apelo, as dificuldades da missão (cf. Is 6,9s; Jr 1,6ss.17ss; Ez 2,3-7). E os profetas são os mais decididos defensores de que a glória toda se deve a Deus. 
Quanto ao sucesso da missão, o profeta não teve sempre a garantia de que haveria de ser pessoalmente testemunha dele. Os prazos eram reservados a Deus: ao profeta deveria bastar a certeza do triunfo divino, mesmo se não devesse vê-lo. 
A Palavra divina permanecia na base da certeza dos profetas e deveria ser verdadeiramente absoluta, pois, mediante a Palavra, Deus exprime o seu pensamento e vontade ao profeta. Este a escuta com docilidade e, por sua vez, a transmite aos outros. 
Assim, a Palavra aparece como o meio mais frequente das comunicações divinas ao profeta, seja sozinha, seja associada a uma visão, ou ainda é possível que o profeta veja (Is 2,1; 6,1; Jr 1,11ss; 24,1s.; Am 7,1-9; etc.) 
 
 
1.2. Pregação Profética 
 
Os profetas se apresentavam sempre como reformadores ou renovadores da religião e, nesse sentido foram os pregadores de três grandes temáticas essenciais da religião hebraica: 
 
	MONOTEÍSMO 
	CONVERSÃO 
	MESSIANISMO 
 
Esses três elementos podem ser considerados o coração da religião de Israel e ao redor dos mesmos podemos agrupar os temas mais característicos da pregação profética. 
 
 MONOTEÍSMO 
Podemos dizer ser o princípio comum do pensamento hebraico, o conceito fundamental de um Deus único, criador e juiz do mundo. Uma divindade não mitológica e não mágica, uma vontade suprema, livre de destino ou compulsão. 
A implicação sociopolítica desse conceito já havia sido sondada por profetas antigos como Samuel, Natã e Elias. A parábola de Natã sobre o homem pobre e o cordeiro (2Sm 12,1), permanece como um dos mais expressivos símbolos da espoliação. O não mataste e te apossaste de Elias (1Rs 21,19) é uma concisa obra prima de crítica social. 
Natã pode ser considerado o antepassado ideológico de todos os que desafiaram a instituição monárquica, invocando sua arbitrariedade. Mas, nem Natã, nem Elias foram teóricos. Sua indignação dirigia-se contra fatos e incidentes específicos. Samuel, não obstante sua convicção íntima, fundou a monarquia, contra a qual advertira Israel. 
Certo é que, os primeiros profetas não foram capazes de generalizar suas experiências ou de elevá-las ao nível de um princípio, porém, é fundamental nos profetas, um aprofundamento do antiquíssimo dado do decálogo (cf. Ex 20,3): a unicidade de Deus. 
E só a hwhy que Israel deve tudo (Os 2,8-15). E com o passar da história, a fé monoteísta se fortalece em Israel. Dado estranho, sobretudo depois que a nação foi abalada sob os duros golpes da Babilônia em 586 a.C. 
Pois, para os antigos orientais era quase evidente que a derrota de um povo equivalia à derrota de seu Deus ou dos seus deuses, que não teriam sabido defendê-lo. Mas os profetas negam firmemente tal pressuposto e, exatamente durante o exílio, satirizam as falsasdivindades, pretensas vencedoras de hwhy (Is 41,6s.21-24; 44,9-20; 46,1-7; Br 6; Dn 14). Somente hwhy é Deus e fora dele não há outros deuses; e ele é o criador de tudo (Is 44,5ss). Ele tem os seus planos e pode prenunciá-los com segurança infalível para o futuro (Is 46,9s). Além disso, hwhy é o Deus de Israel, ligado a si pelo pacto do Sinai. 
Tal verdade os profetas repetem sem cansaço, juntamente com o princípio do senhorio universal de hwhy. E é significativo, nesse sentido, que em quase todos os profetas, estejam presentes oráculos de ameaças contra as nações pagãs, juntamente com outro elemento bastante explorado pelos profetas, quando falam de hwhy,, ou seja a transcendência (santidade) e proximidade de hwhy. 
Tudo isso é experimentado pelos profetas, especialmente Isaías que disso obteve revelação direta (Is 6,3; cf. tb. 1,4; 5,19.24; 10,17.20; Jr 50,29; 51,5; Os 11,9). E, contudo, esse Deus altíssimo é o esposo de Israel. O simbolismo do amor conjugal exprime o amor entre hwhy e Israel, e toda a história de Israel é julgada e contemplada sob esse prisma. 
A nação nasce, chega à puberdade, é escolhida por hwhy como noiva, torna-se sua esposa, peca por infidelidade, prostituindo-se com muitos amantes e, recebe punição. Em tudo isso é Ezequiel quem emprega a linguagem mais concreta (Ez 16,4.7ss; 15-35; cf. tb. Os 1ss; Jr 2,2; 3,6-10; 13,27; etc.). Mas Deus não sabe permanecer para sempre sem a sua esposa, por isso reconcilia-se com ela, e até celebra com ela um novo casamento. 
 
 CONVERSÃO 
A pregação profética seguiu na direção de uma total reconsideração das relações humanas enquanto tal. O profeta interessava-se não somente por fatos contingentes, mas pela própria estrutura da natureza humana e social. E por independer de qualquer contexto histórico particular, acha-se a profecia investida de um poder que nunca esmaecerá. 
Segundo os profetas, a essência daquilo que Deus exige dos homens, não está no culto, mas sim na moral: a bondade humana é que é a realização da vontade de Deus na terra, enquanto o culto em si mesmo não tem valor intrínseco ou transcendente (Os 6,6; Mq 6,8). 
Daí os veementes ataques à idolatria em suas várias expressões (Os 5,4; Is 2,8). Pois a idolatria não somente ofende a Deus, ela alimenta a ambição humana e a opressão. Razão pela qual é considerada como a fonte de todos os males sociais e morais do mundo, a fonte da ambição que procura domínio sobre o outro. Isaías vê o simbolismo disso na alegoria da torre, das muralhas ou fortificações (Is 2,12-15). 
Os profetas gritam veementemente contra a corrupção social, mas não se restringem a acusar os governantes (Am 2,6; Is 1,1-11.15-17). Existe, entretanto, uma constante ênfase sobre a culpabilidade da classe governante (Mq 3,1-3.12). 
Os opressores são identificados frequentemente com a nova classe de funcionários reais, estabelecida pela monarquia. Oséias chega mesmo a denunciar a própria monarquia como uma rebelião contra Deus (Os 13,9-11). 
As atitudes políticas dos Profetas estão intimamente ligadas às suas concepções éticas. O princípio que ressaltam é aquele da total condenação do militarismo como a pior expressão do orgulho pagão (Is 10,12-13). 
E se a confiança de Israel no poder militar é um pecado moral, também representa um crime religioso, pois implica na não confiança em Deus (Is 30,1-2.15-16). Nesse sentido, a profecia abrange também a crítica política (Jr 38,17). 
Nesse sentido, Deus é santo e o homem pecador; e esse Deus santo exige a santidade de quem se achega a ele. E o pecado humano consiste, sobretudo, em esquecer-se de hwhy; desconhecê-lo e distanciar-se dele, é má fé, rejeição explícita e injuriosa. 
No pecado o homem prefere a sua nobreza solitária, à riqueza de um diálogo que o tiraria de dentro de si, abrindo-o para Deus. Assim, procurar a hwhy e procurar o bem moral, o prescrito pelo decálogo, é a mesma coisa; e essa busca é para os seres humanos, questão de vida ou morte. 
E exatamente por saber que a felicidade de Israel consiste em corresponder a esse amor gratuito é que hwhy exige fidelidade e proíbe o pecado. Diante do arrependimento humano, hwhy fica como que desarmado, já não sabe como punir (Is 1,16-20; Ez 3,11.14ss); daí os apelos tocantes dos profetas ao arrependimento, apresentados, muitas vezes, sob a imagem de um retorno (Jr 2,19; 18,11; Os 6,1; etc.). 
E para quem resiste aos apelos insistentes do amor divino, existe certa e inelutável condenação (Am 5,18.20; Is 2,12-22; 5,18ss.; Os 5,9-14; Sf 1,14-18; Jl 2,1ss), num dia conhecido como o hwhy ~wOy I (Dia do Senhor). 
O hwhy ~wOy, dia de vingança, para a maioria dos profetas, não ameaçava apenas as nações I pagãs, pecadoras por excelência, mas o próprio povo de Deus. Pois Deus é tão cioso da justiça e do direito que está disposto a destruir até o seu próprio povo porquanto este viola estes dois princípios. O fenômeno é realmente único se o confrontamos com a mentalidade dominante no paganismo, sobretudo naquele oriental, segundo a qual a divindade deve proteger e defender sempre os próprios devotos. 
Em Israel, antes dos profetas, o conceito dessa retidão moral e dessa absoluta imparcialidade de Deus não era todo evidente. Os profetas proclamaram tal ensinamento por séculos, com um vigor que, às vezes, poderia dar a impressão de um convite à revolta (Is 5,8ss.23; Jr 5,27s; 6,13; Ez 7,23), mas que é, ao contrário, zelo refinadamente religioso. 
O homem jamais poderá agradar a Deus, se não se esforçar por harmonizar a sua conduta com a justiça divina, especialmente na relação com os pobres e os humildes, aqueles que não exercem nenhuma influência na vida e são espezinhados pelos poderosos. 
A causa dos pobres de hwhy, embora não seja exclusiva dos profetas, é sentida por estes com particular intensidade e compaixão (Os 4,2; Jr 2,34), mas, seria deformar a fisionomia dos profetas, fazer deles agitadores ou paladinos da justiça social no sentido moderno da palavra. O motivo e os objetivos da atividade deles são essencialmente religiosos: promover e Lei e o Direito que procedem de hwhy e dos quais ele é vingador. 
Houve tempos em que a tendência era considerar os profetas como estranhos ou contrários ao culto. Porém, está claro que houve profetas ligados ao culto como tais; da mesma maneira como haviam magos e adivinhos dedicados a templos pagãos, onde atuavam e eram consultados. 
Carece de fundamento também, a afirmação de que os profetas, ao menos vários dentre eles, fossem hostis ao culto legítimo em Israel. Mas é obvio o motivo profundamente religioso que inspira essa polêmica. 
Os santuários e os atos de culto não podem agradar a Deus se não vêm acompanhados de um senso de religiosidade interior e pela observância dos preceitos morais. O ritualismo exacerbado dos sacrifícios não serviria para nada, quando faltasse a prática da justiça e da misericórdia e o caminhar humildemente com Deus (Mq 6,6ss). 
 
 MESSIANISMO 
A noção de redenção final é fundamental na ideia e pregação proféticas. A escatologia profética baseia-se na ideia da supremacia de Israel. Não se trata, certamente, de uma supremacia vulgar de força e poder, pois Israel haverá de governar o mundo não pela força das armas, mas por aquela do Espírito. O povo eleito foi incumbido de uma missão: 
É através de Israel que a humanidade aprenderá a conhecer a Deus e seguir seus mandamentos. Mas os profetas não foram utopistas ingênuos. Quanto mais alto seu ideal, mais cônscios estavam de sua inatingibilidade e, mesmo que o objetivo não pudesse ser alcançado, poderia ele, não obstante, indicar uma direção de conduta. A realização darse-ia no final dos tempos. 
Tendo, assim, feito a necessária concessão à realidade, o profeta dá largo ao seu pensamento imaginativo, ou seja, num futuro remoto, será Israel governado por um rei justo, ou seja, o Messias. 
Aqui atingimos o centro ideológico da escatologia profética (Is 11,2-5.6-9; 19,25). É provável que tal perspectiva provocasse entusiasmos num Israel oprimido pela Assíria e pelo Egito. Mas a mensagem profética não cortejaa popularidade (cf. Is 2,4). Nesse ponto, o papel de Israel, como depositário da verdadeira religião, é quase evidente por si mesmo: libertar a humanidade da idolatria que obstrui a salvação. 
Pois, conforme o compreendia Isaías, não pode haver redenção para o homem, a não ser que ele domine a autodeificação. Tem de abandonar a adoração de suas próprias criações e libertar-se de sua ânsia de poder, avareza, dominação e culto do estado. 
Nesse quadro, o messianismo reveste-se das características de um misterioso plano divino para a salvação de todos os homens e, neste sentido, o hwhy ~wOy I (dia do Senhor) tem às vezes sentido messiânico. 
E isso depende do fato que hwhy, vingador de toda iniquidade, não pune por simples punir, ou destruir, mas para curar. Em cada catástrofe, a começar pelo dilúvio (Gn 6-9), existe sempre um resto que se salva e que se torna a raiz de uma nova árvore: a semente de uma humanidade nova e agradável à Deus. 
O tema do resto torna-se, assim, um dos grandes temas proféticos e será Amós a apresentá-lo por primeiro (Am 5,15; 3,12; 9,8), sendo que, quem o desenvolve amplamente é Isaías para quem hwhy faz cintilar esse tema desde o primeiro encontro (Is 6,13). 
O mesmo tema será retomado por Miquéias (4,7; 5,2) e outros (Sf 2,7.9; 3,12; Jr 3,14; 5,18; Ez 5,3; 9,2-7; Zc 8,11ss). Pode-se afirmar que, após a queda do reino do norte (721 a.C.) é quase um cânon profético fazer com que o anúncio de cada desgraça social venha acompanhado da questão do resto sobrevivente. 
Sobre este resto se derramarão os bens prometidos: nova vida e fecundidade (Ez 37,2ss.31), poder (Mq 4,7; 5,6s), justiça e santidade interior (Is 9,6; 29,19-24), conversão do coração e perdão (Jr 31,31-34), conhecimento de Deus (Is 2,4; 11,6-9; 29,18) e influência benéfica sobre os outros povos (Is 2,3ss). 
E é sem dúvida o próprio hwhy quem haverá de realizar essas maravilhas no mundo, quando inaugurar o seu reino. Ele, porém, não agirá pessoalmente, mas haverá de servirse de um enviado, ou representante, propositadamente escolhido e consagrado para executar esse plano de salvação: o Messias. 
O Messias será um descendente da estirpe real de Davi (Is 11,1; Jr 33,14s.), e como Davi, deverá nascer em Belém (Mq 5,1). Os seus nomes: lae(WnM'î[i - Emmanuel (Is 7,14), ~Al)v'rf; d[;Þybia] rABêGI laeä ‘#[eAy al,P, - conselheiro admirável, herói divino, pai perpétuo, príncipe da Paz (Is 9,5), enfim, WnqE)d>ci hw"ïhy> - Senhor nossa justiça (Jr 23,6). 
O Messias haverá de levar infalivelmente a termo a sua missão, graças às qualidades e à abundância dos dons espirituais que hwhy haverá de derramar sobre ele (Is 11,2); no momento de realização da sua obra, cuidará particularmente de fazer a justiça aos pobres e aos oprimidos e nenhuma força poderá resistir-lhe (Is 11,13ss). 
Seus tempos são marcados pela paz universal (Is 11,9). Ao lado dessa imagem de Messias, existe também a de pastor-príncipe (cf. Ez 34,23ss.), humilde e manso (Zc 9,9) e servo de hwhy (Is 42,1-7; 49,1-6; 50,4-9; 52,13-53,12). 
Mas não podemos afirmar que tenha desaparecido a esperança de um rei todo-poderoso, de um reino universal e eterno. Essa concepção de um Messias e de um Reino Messiânico, já nitidamente religioso e fonte de salvação espiritual e universal, é o ponto mais alto atingido pelos profetas, particularmente durante e após o exílio. 
 
 
1.3. Profetismo e Sociedade 
 
O rei era o maior dos homens, o representante dos deuses que o colocaram sobre o trono e ali o mantinham. No período mais antigo de que temos notícia, os deuses eram pessoalmente o rei da cidade. O governante humano evitava o título de rei e se chamava a si mesmo de vice-rei, vigário de Deus. 
Este antigo escrúpulo desapareceu cedo da história documentada, mas o princípio sobre o qual se baseava não desapareceu. Portanto, o rei era considerado uma encarnação visível da lei divina e do próprio estado. 
Todos os anos ele recebia de novo sua realeza das mãos dos deuses que então mostravam o seu favor e continuavam a aceitá-lo como seu representante. Os deuses marchavam adiante dele nas batalhas, concediam-lhe sabedoria para fazer leis e julgar os súditos e sua autoridade divina sancionava sua vontade. 
Não havia outro que participava dessa autoridade divina, nem mesmo os sacerdotes, pois o rei era o sumo-sacerdote, o representante do seu povo perante os deuses. Este rei divino não desapareceria do cenário histórico com os estados que regia. A realeza divina dos antigos reis da Mesopotâmia passou em sucessão aos vencedores da Mesopotâmia: os reis persas, Alexandre e seus sucessores, os imperadores romanos. 
Em relação ao povo hebreu, observamos o contraste que isso oferece. O governo do povo judeu era de natureza patriarcal, investido pelos anciãos do clã, da tribo, da cidade. E os anciãos governavam por uma espécie de consenso comum; nada havia de divino ou de sacro ao redor desta autoridade. 
Nenhum ser humano poderia representar Deus, bem como nenhuma imagem poderia representá-lo. A figura do líder era carismática, daí a instituição do Juiz (Samuel). O rei israelita não poderia ser representante da divindade. Deus permanecia acima e além da sociedade e da política israelitas, exatamente da mesma forma em que permanece acima e além da natureza do mundo. 
É certo que ele intervém no curso dos acontecimentos, mas não se torna uma parte deles. Identificá-lo com a realeza seria de certo modo, igual a identificá-lo com as forças da natureza. 
O rei israelita era um líder carismático, um instrumento pelo qual Deus operava e como tal, possuía um caráter sagrado, ou seja, era um Ungido do Senhor. Mas não podia elevarse acima da sujeição a Deus, que é a posição própria de todo ser humano. A lei suprema da terra não era a vontade do rei, mas a vontade de Deus. E desta, o rei não era o único órgão. O rei era defrontado pelo profeta, o homem da palavra de Deus. 
E a história da monarquia israelita nos mostra uma série de esforços para alcançar um equilíbrio entre estas duas figuras carismáticas. Estes esforços são dignos de atenção, pois representam o crescimento da compreensão bíblica da vida social do homem. 
Samuel tinha acreditado poder estabelecer uma teocracia, na qual o rei seria um instrumento dócil do profeta - o executor da vontade do Senhor manifestada através do profeta. Seu plano, entretanto, falhou, como se poderia esperar, pois o poder não pode ser dissociado de responsabilidade. Neste sentido, o crime de Saul foi a desobediência ao profeta. 
Profecia e monarquia não conseguiram alcançar um entendimento sobre como a monarquia deveria conduzir a sociedade governada pela vontade de Deus. Ambas sofreram, neste trágico insucesso e Israel sofreu com elas. 
Mas, se a profecia não poderia administrar os negócios do estado, podia, entretanto, fazer uso da vontade popular para por um freio ao monarca. Houve também profetas em atividade no cisma do reino de Salomão, sob Roboão, seu filho; mas a tradição nada nos conta de qualquer atividade semelhante àquela de Elias e Eliseu. 
Profetas posteriores irão escandalizar-se com a riqueza da classe dominante e os males sociais consequentes. Mas, a profecia do décimo século teve resultados mais efetivos, impondo um freio à monarquia, quando operou com os próprios meios e as próprias armas, ou seja, com a Palavra de Deus. 
O duelo profeta x reis continuou através da subsequente história dos reinos, embora não na forma aguda que acabamos de descrever. A profecia foi ao encontro da realeza no alto nível que Natã atingiu para repreender Davi. 
Os choques são expressões ulteriores do princípio de que o rei está sob a vontade de Deus e o profeta é o porta-voz credenciado desta mesma vontade. E a sociedade governada pela vontade de Deus é possível quando as instituições humanas estão submetidas à vontade de Deus, especialmente quando esta vontade é expressa pelos profetas. Segundo os profetas, a sociedade ideal era o reino de Deus estabelecido sobre a terra. 
Por um governo legítimo, pela profecia, pela lei, remover-se-ia o mal e criar-se-ia umacomunidade na qual prevaleceria o bem. Mas, este ideal, não foi realizado em Israel; a teocracia não foi uma sociedade governada pela vontade de Deus. 
A institucionalização não poderia cumprir a vontade de Deus sobre a terra. O rei falhou porque representou a vontade o povo em vez de representar a vontade de Deus; os israelitas não foram capazes de atingir este ideal por meios políticos. 
Não há sistema, não há planejamento, nem organização que possa assegurar a realização da vontade de Deus na sociedade. Se o reino de Deus se identificasse com qualquer sociedade, governo ou lei humana, não seria reino de Deus. 
E é uma glória para os profetas israelitas nunca terem olhado o pecado como coisa abstrata e teórica. Eles não fazem distinção entre mal religioso e mal moral e a corrupção social flui da corrupção religiosa, da idolatria. Para os profetas a moralidade estava em conhecer a Deus fonte de todo o bem e a grande corrupção para os profetas era o SINCRETISMO. 
Um Deus cujo interesse primário para com os seus adoradores fosse o bem estar nacional não seria um Deus verdadeiro. Um Deus que prometesse unicamente bênçãos, de ordem material, como riqueza, prazer, vitória sobre os inimigos, não seria mais do que uma consagração da concupiscência da carne. 
Uma religião na qual a segurança nacional e a segurança dos cidadãos tivessem preferência sobre a fé e o culto não seria religião. É isso que podemos depreender dos discursos proféticos. Se a religião do Senhor não fosse em nada diferente da religião de Canaã, então, ela teria perecido, quer seu nome fosse conservado ou não. 
Para os profetas, como para os israelitas, os homens encontravam a Deus como membros de um grupo. Mas em toda a literatura profética não encontramos uma só palavra de louvor a medidas planejadas para garantir o bem-estar social da nação. 
Nunca aparece uma palavra de alegria pelo fato de a nação ter se tornado mais rica por negócios e comércio, pois a riqueza não era difundida entre todos. O contraste entre os ricos da cidade e a pobreza das vilas e dos campos era agudo. 
Os recursos da nação, pelo fato de não serem da posse da maioria eram esbanjados em luxo e não para as necessidades da vida. Quando os seres humanos são tratados como trastes, pouco respeito sobra pela vida humana e muito menos para a dignidade da pessoa. 
Os profetas referiam-se à sua comunidade de tal forma como se tivesse desaparecido a mútua confiança que é o cimento das relações humanas. Os pobres são oprimidos pelos ricos e nada inflama os profetas, mais do que este fato. Consideravam-se os porta-vozes de hwhy em favor dos desesperados. 
Mesmo assim não é conveniente querer apresentar os profetas como reformadores sociais, pois um reformador social tem um programa de reforma, aceita a instituição existente em princípio, mas não na prática; gostaria de modificá-la, mudar seu funcionamento, corrigila, mas não destruí-la ou mudar-lhe a natureza. 
Não vemos como os profetas possam ser chamados de reformadores sociais neste sentido ou em outro qualquer. É a própria procura de riqueza, dizem eles, que traz consigo estes abusos. Eles não apresentam programas para procurar riquezas de uma maneira ordenada. 
Eles apenas ameaçam, dizendo que a riqueza da nação a está devorando e, finalmente, acabará com ela. As medidas que os israelitas tomaram para assegurar o bem nacional estão destruindo o próprio bem nacional, porque não estão de acordo com a vontade de Deus. 
Também não parece ser conveniente o título de revolucionários para eles. Um revolucionário é aquele que entrevê uma nova ordem socioeconômica surgir das ruínas da antiga; a não ser que chamemos de nova ordem uma sociedade submetida à vontade de Deus. 
Ou seja: tudo isso ultrapassa a temática do bem-estar-social e nacional. São, portanto, revolucionários, no sentido de anunciar a destruição da ordem existente. Esta não pode continuar a existir, porque criou as sementes de própria destruição, perece por sua própria atividade. 
Naturalmente nós dizemos assim porque eles dizem que é hwhy quem lhe dará um fim; e assim, os israelitas parecem estar presos dentro de um ciclo econômico que, infalivelmente, retorna ao seu começo: a busca da riqueza resulta na perda da riqueza. 
Não encontramos nos profetas nenhuma espécie de plataforma socioeconômica. De fato, eles não têm um programa no qual o homem, pelo emprego de sua razão e de sua vontade, possa submeter com segurança, sua vontade à vontade de hwhy. 
Não apresentam sistema que livre o homem da necessidade de enfrentar cada dia as decisões que dirijam sua vida de acordo com a vontade de hwhy ou o ponham em rebeldia contra ela. 
Os profetas também não querem dar a entender que o bem estar nacional esteja assegurado, que o bem comum seja obtido, quando a busca dos bens materiais for conduzida com ética. Sua ideia de bem comum é diferente. 
Bem comum é sujeição da sociedade à vontade de hwhy. Riquezas e propriedades eram os bens que os deuses dos pagãos prometiam aos seus adoradores. O fiel não fazia a vontade de hwhy com o fim de assegurar a obtenção de tais coisas. Pois tal motivo tornava impossível fazer a vontade de Deus. 
Por outro lado, os profetas recusam-se a aceitar o pecado como parte normal da vida humana e não querem dar ouvidos a nenhuma outra explicação para os males da sociedade. Não há elementos de esperança baseado sobre a vontade humana. 
Mas, apesar disso, o profeta bíblico se sentia muito ligado com o seu povo (Is 6,5), e esta solidariedade só era quebrada pela recusa da palavra profética (Is 8,16-18; cf. tb. Jr 15,10.17; 16,1-9). E na desgraça, a solidariedade rompida era restabelecida. O profeta vivia, então, ao extremo, a infelicidade que afligia o povo (Jr 42). 
Servo de hwhy, cujos traços eram manifestamente proféticos, iria ao extremo, na solidariedade ao povo e até mesmo com as multidões (Is 53). Vemos esta solidariedade particularmente na intercessão do profeta em favor do povo. 
 
 
1.4. Literatura Profética 
 
A mensagem divina não entrou, através da palavra do profeta, para depois ser recolhida tal e qual nos livros chegados até nós. Estes nos transmitiram o essencial e num grau difícil de precisar, que varia segundo o livro e segundo a linguagem. 
Esta percorreu um caminho bastante longo e sofreu retoques e adaptações, antes de atingir a forma fixada pelos vários compiladores e redatores que hauriram, o mais das vezes, de fontes orais. 
Assim, não devemos imaginar o profeta como sendo, simultaneamente, inspirado e pregador da mensagem divina. Existe um período de maturação que significa mais do que de tempo, de um processo intelectual, psicológico. 
Resta sempre ao profeta o encargo de traduzir a palavra de hwhy ou de expressá-la em linguagem apropriada. Narrar o que vira em visão interna ou externa, servindo-se das suas próprias categorias, da sua formação intelectual, dos elementos oferecidos pelo ambiente social, religioso e familiar em que vivia. 
Houve, portanto, um trabalho de humanização das comunicações divinas, e este processo, às vezes, foi penoso, também para o profeta. O texto de Jr 36,17s. que sublinha a maneira fluente pela qual as palavras brotavam da boca de Jeremias, para serem registradas no rolo do secretário Baruc, traz caráter hiperbólico e apologético bastante evidentes. Querse realçar a origem divina e a imutabilidade da mensagem. 
O trabalho de formulação da mensagem divina em palavras humanas deve, portanto, ser considerado à maneira do que ocorre na inspiração bíblica. Temos aqui a liberdade e a personalidade do autor humano, na busca de categorias expressivas da roupagem literária. 
E o meio normal da promulgação profética era a linguagem oral (Is 6,8; 7,3; 38,5; Jr 2,2). O escrito tornava-se o documento autêntico do anúncio oral, válido tanto para os ouvintes quanto para os pósteros. 
Casos de oráculos ou, mais genericamente, de pregação profética, fixados por escrito, não faltam. Mas não tanto porque o profeta pensasse num livro ou numa compilação dos seus dizeres, quanto para impressionar mais e demaneira inequívoca (Jr 36) ou para que o escrito permanecesse como testemunho para o futuro (Is 30,8). 
Os profetas, em todo caso, não foram escritores profissionais e a primeira elaboração escrita da mensagem profética é atribuída frequentemente aos discípulos ou seguidores dos profetas (Is 8,16), mais que ao próprio profeta. Personalidades fortes como as de Isaías e Ezequiel, eram talhadas para formar discípulos, uma escola que certamente favoreceu a difusão e a conservação da mensagem deles. 
Muitos críticos modernos supõem, no máximo, três fases na formação dos atuais livros proféticos: 
 
	 TRECHOS AVULSOS 
	
	 COMPILAÇÕES 
	
	
	 LIVRO 
 
Os críticos tendem a atribuir as compilações e o livro a uma época geralmente posterior ao desaparecimento do profeta. Existem conteúdos fundamentais que se encontram com maior ou menor abundância em todos os livros proféticos e que poderiam passar também sob a etiqueta de gêneros literários. A esses conteúdos denominamos materiais de base: 
	A. CONTEÚDO ORACULAR 
	B. TRECHOS BIOGRÁFICOS 
	C. TRECHOS AUTOBIOGRÁFICOS 
 
Sob o título de conteúdo oracular entendemos aquelas comunicações divinas em que o profeta recebeu o encargo de anunciar; trechos biográficos é a denominação corrente para aquelas partes em que se fala do profeta, suas ações e vicissitudes, usando a terceira pessoa, o que dá a impressão de serem outros a escreverem. Os trechos autobiográficos são, ao invés, aqueles em que o profeta fala de si em primeira pessoa. 
Todos esses conteúdos se encontram em Isaías, Jeremias, Amós e Oséias. Só o conteúdo oracular apresentam-nos Sofonias, Naum, Joel, Abdias, Zacarias e o Dêutero- Zacarias. Além do fundo oracular encontram-se vestígios mínimos de trechos autobiográficos em Mq 3,1 e em Hb 1,2-2,4. Ezequiel fala amiúde em primeira pessoa, bem como Zc 1-8 (Proto-Zacarias). Ageu está escrito em estilo biográfico. 
Deve-se supor que o próprio profeta estava em condições de recordar por longo tempo aquilo que tinha visto, sentido e, em certos casos, realizado. Quanto aos discípulos, fortemente influenciados pela personalidade do mestre e ligados a esse por veneração profunda, deve-se supor neles, além da força da memória vivamente impressionada, o anseio de transmitir fielmente o que tinham ouvido. Acrescente-se que o patrimônio profético era confiado, na maioria dos casos, a um grupo ou a uma escola, empenhados, por várias razões, na sua fiel conservação. 
Agora, alterações de maior ou menor natureza, foram introduzidas nos textos proféticos, quase inevitavelmente, pelo simples fato de se terem transmitido em compilações ou livros; o que foi realizado, às vezes, com prejuízo da fisionomia primitiva do texto e, em muitos casos, as palavras do profeta não chegaram até nós, tais e quais lhe saíram da boca. 
Frequentemente, nos escritos proféticos atuais, apenas o essencial e, talvez, o escrito geral, são da atribuição do profeta. Certas particularidades de estilo e linguagem, pelo contrário, pertencem bastante, mais provavelmente, ao compilador e, na classificação e nos números dos gêneros literários dos livros proféticos, como na Bíblia em geral, os autores não são concordes, ainda que as divergências se encontrem, muitas vezes, apenas na terminologia. 
 
ORÁCULO 
AÇÃO SIMBÓLICA 
EXORTAÇÃO PROFÉTICA 
 
O oráculo é uma declaração solene feita pelo profeta em nome de Deus e diz respeito a um fato futuro-distante ou também de realização próxima. Os acontecimentos anunciados podem ser prósperos ou adversos (cf. Jr 19,11; 28,16). O indício quase infalível do oráculo é a presença de fórmulas introdutórias e conclusivas como: Assim diz hwhy ou Palavra de hwhy. 
A ação simbólica se trata de um recurso expressivo que se ajunta à palavra, instrumento, portanto, de caráter geral como esta última. É chamada também, às vezes de ação profética, exatamente por ser característica dos profetas. 
São ações que exprimem uma determinada realidade ou verdade com uma extrema evidência, bastando poucas palavras às quais, ordinariamente acompanham a ação (Is 20,1-5; Jr 19). De tais gestos estão cheios os escritos proféticos (cf. Jr 13,1-11; 18,1-10; 25,15-29; 27s; Ez 5; 1Rs 11,29-39; 19,19s; 20, 35-42; 22,11ss). 
A ação é considerada objetiva e tem a função de chamar a atenção para os dizeres do profeta e a eficácia encontra-se nas palavras que acompanham a ação. Tais palavras são pronunciadas, normalmente, em nome de Deus. 
Quanto à exortação profética, é verdadeira pregação, introduzida muitas vezes com tais fórmulas, desde os tempos de Amós (3,1; 4,1; 5,1). O objetivo é convencer os ouvintes a corrigirem a sua vida moral, sobretudo a manterem a fidelidade javista, contra o perigo, sempre ameaçador, dos desvios da idolatria. 
A exortação se encontra em estado puro, menos que os outros gêneros e, muitas vezes forma, por assim dizer, o tecido de conexão do discurso, no qual vêm inserir-se outros gêneros, como por exemplo: narrativas de vocação (Is 6,1-13; Jr 1,4-17); narrativas de caráter litúrgico (Jl 1,2-2,17; Br 4,5-59); canto ou salmo penitencial (Jr 3,22-25; 10,1925; 14,7ss.19-22; Lm 5; Zc 12,10-14); oração de súplica (Is 24-27; 51,9ss; 63,7-64,11; Jr 33,16-25) e parábola (Is 5; 28,23; Am 5,18s).

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