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CAPÍTUlO 5 modEloS E organização dE CurríCulo na EduCação BáSiCa A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: 3 Caracterizar dois modelos clássicos do currículo: Tyler e Freire, analisando seus impactos para a educação básica brasileira e no mundo. 3 Identificar outros modelos de organização de currículo com base em enfoques globalizadores (apresentados por ZABALA), visando à compreensão dos aspectos interdisciplinares e transdisciplinares do currículo escolar para a Educação Básica. 76 Estruturas Curriculares - inter e Transdiciplinaridade 76 77 mOdElOs E OrganizaçãO dE CurríCulO na EduCaçãO BásiCa 77 Capítulo 5 ContExtualização Conforme já vimos no primeiro capítulo, há uma polissemia em torno do que comumente se entende por currículo escolar. Historicamente, o currículo tem sido compreendido como um conjunto de disciplinas com os respectivos conteúdos a serem estudados. Obviamente, isso não impede que se tornem elementos integrantes de um currículo escolar. no entanto, há diferentes formas ou modelos de organização curricular. Quando tratamos do histórico do currículo, passamos por vários movimentos do campo, mas não necessariamente pelas suas formas de organização, foco deste capítulo. Já que conhecemos uma série de definições para o currículo, vamos identificar o currículo escolar por aquuilo que, atualmente, não o resume: [...] o currículo não é mais entendido, simplesmente, como sendo a relação e distribuição das disciplinas, com a sua respectiva carga horária. Não é, também, o número de horas- aula e dos dias letivos. [...] não se constitui apenas por uma seriação de estudos [...] ou uma listagem de conhecimentos e conteúdos [...]. O currículo não deve ser concebido apenas como uma relação de conteúdos ou conhecimentos delimitados ou isolados, estabelecendo tópicos estanques, numa relação ´fechada´, sem uma integração envolvente e ampla com todas as dimensões do conhecimento. [...] O currículo não é algo restrito somente ao âmbito da escola ou da sala de aula. (MEnEGOllA; sAnT AnnA, 1993, p. 50-51). Diante desta compreensão de currículo, fica o desafio: Como organizar um currículo, de modo que contemple os conteúdos e as necessidades da comunidade escolar? Existem modelos mais ou menos adequados? neste capítulo, o que se pretende é apresentar dois modelos clássicos de organização do currículo: o modelo Tyler e o modelo Freire. Ambos já foram citados nos capítulos anteriores; no entanto, aqui pretendemos explorá- los quanto às etapas de organização de um currículo. Além destes dois modelos, apresentaremos outros modelos considerados por Zabala (1998) como enfoques globalizadores e que são organizados numa perspectiva interdisciplinar e transdisciplinar. Conhecer estes diferentes modelos é fundamental para os profissionais da educação, pois, no momento em que forem organizar algum programa ou currículo escolar, terão elementos teóricos e práticos para fazer sua seleção, justificando sempre o seu processo de escolha por um ou por outro. Então, vamos lá! Convidamos você a se ligar neste processo, para melhor aproveitar seus estudos e melhor desenvolver suas práticas. 78 Estruturas Curriculares - inter e Transdiciplinaridade 78 Diante deste elenco de coisas que não se resumem a um currículo escolar, vamos recuperar um pouco daquilo que já estudamos no primeiro capítulo, na tentativa de entender melhor o que poderia ser um currículo escolar e os modelos teórico, epistemológico e prático. Por exemplo, para Menegolla e sant`Anna (1993, p. 51), [...] o currículo é algo abrangente, dinâmico e existencial. Ele é entendido numa dimensão que envolve todas as situações circunstanciais da vida escolar e social do aluno. [...]; é a escola em ação [...]; é o interagir de tudo e de todos que interferem no processo educacional da pessoa do aluno. neste momento, talvez você esteja pensando: existe um modelo adequado? Ou, quais são os modelos existentes e o que representam? Atividade de Estudo: Vamos pensar um pouco sobre isso. Use o espaço a seguir e faça os seus registros, a partir das questões reflexivas anteriormente referenciadas. ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ Difícil, não? Bom, continuemos! Vamos fugir dos binarismos e assumir que não há modelos certos ou errados. no entanto, há modelos que trazem subjacentes diferentes de ver o mundo, estar no mundo e de ser no mundo. Ou seja, cada modelo traz implicitamente formas didáticas e pedagógicas de explorar o conhecimento, concepções de aprendizagem, de ensino, de avaliação, de relação professor X aluno, entre outros. Isso significa dizer que cada um representa um conjunto de valores, crenças e ideologias, que vão sendo incorporadas pelos alunos no fazer pedagógico de sala de aula ou de qualquer ambiente de aprendizagem da escola. É com este objetivo que vamos apresentar alguns modelos neste capítulo, ou seja, de compreender que ênfases cada um traz em seu bojo e que escolhas iremos fazer na escola, dependendo do tipo de seres humanos 79 mOdElOs E OrganizaçãO dE CurríCulO na EduCaçãO BásiCa 79 Capítulo 5 que pretendemos formar. Dito de outra maneira, que tipo de personalidades pretendemos construir, formar ou deformar. Às vezes, o trabalho da escola traz impactos muito negativos em nossas subjetividades ou personalidades. Dito isto, é importante dizer que, nesta primeira parte do capítulo, vamos apresentar dois clássicos do campo: o primeiro, o modelo Tyler, que representa uma concepção tradicional de currículo e se situa num paradigma técnico- linear. O segundo, o modelo Freireano, que representa uma concepção crítica e de ruptura com o modelo anterior, situando-se num paradigma dinâmico- dialógico. Ambos os paradigmas já foram tratados no capítulo 2. modEloS CláSSiCoS dE CurríCulo: tylEr E frEirE O modelo Tyler é representado em sua obra imortal, intitulada: Princípios básicos de currículo e ensino. Foi publicado em 1949, logo após a Segunda Guerra Mundial, e se destacou como a produção teórica mais utilizada no desenvolvimento de currículos, nos Estados Unidos e no mundo, incluindo o Brasil. Seu modelo e sua obra se destacam pela objetividade e concisão. “[...] ele apresenta a sequência e os procedimentos para planejarmos, organizarmos e avaliarmos os currículos, com base em objetivos ou propósitos pré-determinados por especialistas” (GEssER, 2002, p. 76). sua imortalidade está associada, segundo Pedra (1997, p. 40), a uma simples premissa: “[...] a clareza e a linearidade da base racional, elaborada por Tyler, o que o torna um guia simples e seguro para a elaboração, o desenvolvimento e a avaliação do currículo.” Obra Clássica: TYLER, Ralf W. Princípios Básicos de currículo e Ensino. Porto Alegre: Ed. Globo, 1974 (edição esgotada). Em outras palavras, podemos dizer que esta obra de Tyler consiste em orientações sobre “[...] como selecionar os objetivos e como selecionar as estratégias de aprendizagem, como organizar essas experiências e como avaliar sua eficácia” (SANTOS; MOREIRA, 1995, p. 48). Isso é colocado em seu texto, em forma de quatro questões básicas, e que [...] devem ser respondidas quando se desenvolve qualquer currículo e planode ensino. Ei-las aqui: 1. Que objetivos educacionais deve a escola procurar atingir? 2. Que experiências educacionais podem ser oferecidas que tenham 80 Estruturas Curriculares - inter e Transdiciplinaridade 80 probabilidade de alcançar esses propósitos? 3. Como organizar eficientemente essas experiências educacionais? 4. Como podemos ter certeza de que esses objetivos estão sendo alcançados? (TYLER, 1974, p. 1). Com base nisso, seu modelo se resume em questões bastante técnicas, conforme vimos no esquema que elaboramos no primeiro capítulo. Por exemplo, para elaborar uma proposta curricular devia-se levar em conta três fontes (aluno, sociedade e matéria) de onde se definiriam os objetivos educacionais de forma ampla; isto é: seria preciso fazer um diagnóstico sobre os próprios alunos, sobre o cotidiano na sociedade e sugestões de especialistas nas matérias do currículo. Esta primeira etapa geraria uma imensidão de objetivos. Por isso, estes seriam submetidos a dois grandes filtros teóricos: a filosofia e a psicologia da aprendizagem. A partir desses filtros, então, seriam definidos “objetivos educacionais precisos” a serem ensinados pela escola. Tal precisão estava relacionada às mudanças de comportamentos, que deveriam ser observados nos alunos, no final de uma unidade. Sendo assim, Gesser (2002) afirma que a proposta curricular de Bobbit e de Tyler guardava semelhanças, pelo seu caráter técnico, embora houvesse distinções em ambos. Com base nos “objetivos educacionais precisos”, já definidos, haveria a necessidade de identificar que experiências educacionais seriam capazes de proporcionar o alcance desses objetivos (comportamentais). Após essa identificação, estas experiências que deveriam ser eficientemente organizadas, seriam rigorosamente avaliadas em função dos objetivos previamente determinados. É fundamental salientar que o modelo curricular elaborado por Tyler foi o mais influente no campo curricular nas décadas que o sucederam e, até hoje, se constitui num marco na história do currículo escolar, em todo o mundo. nem os americanos conseguem eleger outro. (MOREiRA, 1990). De acordo com Pedra (1997, p. 39), esta não era a pretensão de Tyler, até porque ele instigava seus estudantes de currículo a buscar e desenvolver outras propostas. No entanto, sua pretensão era a de desenvolver uma base racional “[...] para considerar, analisar, e interpretar o currículo [...].” Eis o modelo Tyler! Pense por um instante na sua escola, seja como profissional da educação ou como aluno. Você consegue identificar, no currículo dessa escola, alguma evidência do modelo Tyler? Em contraposição ao velho e clássico modelo Tyler, apresentamos o modelo de Paulo Freire. Em busca de um modelo de escola democrática, que dá vez e voz a seus atores, ele o concretiza nos preceitos da coletividade, em que a participação é premissa para o processo de mudança acontecer. nesta 81 mOdElOs E OrganizaçãO dE CurríCulO na EduCaçãO BásiCa 81 Capítulo 5 ótica, Freire (1987, p. 43) argumenta que uma das grandes, se não a maior, tragédia do homem moderno, está em que ele é hoje denominado pela força dos mitos e comandado pela publicidade organizada, ideológica ou não, e por isso vem renunciando cada vez mais, sem o saber, à sua capacidade de decidir. Vem sendo expulso da órbita das decisões. As tarefas de seu tempo não são captadas pelo homem simples, mas a ele apresentadas por uma “elite” que as interpreta e lhes entrega em forma de receita, de prescrição a ser seguida. Diante disso, sugere o que se faz há muito tempo, até que se possa pensar em algo novo. Acreditar no melhor para nossos alunos é investir no diferente, é também duvidar daquilo que se acredita saber fazer corretamente. Para isso, Freire (1987) considera a palavra mais que instrumento, ela representa a origem do diálogo. Ela abre a consciência para o mundo e com o mundo. A palavra na coletividade deve ser criadora, do contrário, a palavra repetida é monólogo das consciências que perderam sua identidade, ficando submissa ao silenciamento. nesta perspectiva, diz o autor: É próprio do pensar certo a disponibilidade ao risco, a aceitação do novo, que não pode ser negado ou acolhido só porque é novo, assim como o critério de recusa ao velho não é apenas o cronológico. O velho [sic] que preserva sua validade, ou que encarna uma tradição, ou marca uma presença no tempo, continua novo. (FREiRE, 1996, p.35) Segundo Costa (2009), diferentemente do “silêncio que escuta” e sua importância no espaço da comunicação, na conquista da dialogicidade o importante é a construção participativa do currículo. Isso se confirma em relação aos modelos tradicionais de currículo, pois, como afirma Freire (1987), é intolerável aceitar a educação “bancária”, na qual a possibilidade de ação oferecida aos alunos é a de receptores ou de depositários. É intolerável o direito que se dá a si mesmo o educador autoritário de comportar-se como o proprietário da verdade de que se apossa e do tempo para discorrer sobre ela. Para ele, quem escuta sequer tem tempo próprio pois o tempo de quem escuta é o seu, o tempo de sua fala. sua fala, por isso mesmo, se dá num espaço silenciado e não num espaço com ou em silêncio. Ao contrário, o espaço do educador democrático, que aprende a falar escutando, é cortado pelo silêncio intermitente de quem, falando, cala para escutar a quem, silencioso, e não silenciado, fala. (FREiRE, 1996, p. 117). O modelo freireano tem como propósito a conscientização dos sujeitos, para que possam refletir criticamente sobre sua situação, seu modo de ser e 82 Estruturas Curriculares - inter e Transdiciplinaridade 82 estar no mundo e, desta forma, superar as desigualdades e injustiças sociais, buscando a humanização da sociedade. Para tanto, novos currículos são necessários, pois o conteúdo curricular, para se constituir em instrumento de conscientização e emancipação do oprimido, precisa corresponder à reapresentação organizada, sistematizada e desenvolvida, aos indivíduos, das coisas que eles desejam entender melhor. Como consequência, o ponto de partida da seleção e organização do conteúdo curricular deve ser a situação existencial presente e concreta dos alunos. (MOREiRA, 1990, p. 129). Para Freire (1996), a prática curricular crítica envolve “o movimento dinâmico, dialético, entre o fazer e o pensar sobre o fazer”. Segundo este autor, os sujeitos envolvidos nesta prática são “epistemologicamente curiosos” e, por estarem “pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem, [é] que se pode melhorar a próxima prática”. Em sua perspectiva, os professores e alunos, bem como toda a comunidade escolar, se constituem agentes ativos no processo de desenvolvimento do currículo. Diante desta reflexão, percebemos que “[...] a prática pedagógica [e curricular] é uma práxis, não uma técnica. E investigar sobre a prática não é o mesmo que ensinar técnicas pedagógicas” (sÁCRisTAn, 2002, p. 82). O mesmo acontece com o currículo escolar. segundo Freire (1995, p. 98), “nem a educação e tampouco o desenvolvimento do currículo [...] é redutível à técnica, mas não se faz educação sem ela.” sendo assim, ao propor à prática curricular que os agentes de seu desenvolvimento e implementação façam a leitura e a compreensão a partir de um diagnóstico das práticas pedagógicas, buscamos romper com a mera transmissão/repasse de técnicas pedagógicas, o que não é a prática, como salienta o autor. A prática é ação, a qual dispõe de um conjunto de técnicas e recursos que possibilitam seu desenvolvimento no processo de ensino e de aprendizagem, e que se constitui na e pela intenção. Segundo Haas (2001), é a ação exercida que passa por uma elaboração teórica sempre em construção, sempre realizada, praticada com os autores, com os sujeitos que re-constroem/re-elaboram o conhecimento; é um movimento dialético, uma ação que identificao praticante, dá sentido ao seu modo de ser, agir e sentir. Ramalho, Nuñez e Gauthier (2004) afirmam que, para dar conta dos desafios postos ao campo, a organização curricular precisa pensar em novas dinâmicas de construção da profissão, como redes complexas, que nos levam a novas concepções sobre as disciplinas, as relações disciplinares e a formação de competências. 83 mOdElOs E OrganizaçãO dE CurríCulO na EduCaçãO BásiCa 83 Capítulo 5 O currículo, mais que um conjunto de “competências que devem ser formadas”, constitui-se de experiências significativas, nas quais se constrói o fazer-pedagógico, em um contexto sócio-histórico dado, que se organiza de diversos modos para aproximar-se à intenção formativa do “modelo profissional” de cada agência formadora como espaço de inovação pedagógica. (RAMALHO, NUÑEZ E GAUTHiER, 2004, p.136). É nesta linha de pensamento que se articula um processo de desenvolvimento curricular com base no modelo Freireano. Seu foco está situado na problematização e na investigação, por exemplo, a partir de temas gerados no contexto da escola da sua comunidade. O currículo, numa perspectiva problematizadora [...], não é uma doação ou uma imposição [...], mas a devolução organizada, sistematizada e acrescentada, ao povo, daqueles elementos que este lhe entregou de forma desestruturada.” (FREiRE, 1987, p. 83-84). Assim, seus principais princípios para o desenvolvimento curricular, segundo Gesser (2001) são: contextualização, problematização da prática escolar, construção e reconstrução coletiva, autonomia, projeção crítica, processo democrático, diálogo, autêntica relação professor-aluno, solução de problemas, transformação social e humanização. Diante desses princípios, que devem ser levados em conta no processo de organização curricular, este processo deveria se constituir de várias etapas, de acordo com Freire (1995) e Gesser (2001): • No primeiro momento, especialistas de várias áreas do conhecimento devem reunir-se para estudar os diferentes movimentos educacionais. • No segundo momento, estes especialistas devem reunir-se para dialogar com as escolas e suas comunidades. Estas duas primeiras etapas irão compor o primeiro nível deste processo, o qual consistirá no diagnóstico das necessidades e desejos desses sujeitos. Além do diagnóstico, é o momento de problematização e sistematização, envolvendo todo o sistema na determinação de objetivos e estrutura básica. • No terceiro momento, este se daria em cada escola, se construiriam os projetos pedagógicos de cada unidade escolar, com apoio dos especialistas necessários. Nesta etapa, a partir dos objetivos e estrutura definida para o sistema como um todo, cada escola definiria sua metodologia e prática de currículo. Freire (1987) sugere como processo de seleção e organização dos conteúdos, os temas geradores como um caminho viável, entre outros possíveis. O currículo, numa perspectiva problematizadora [...], não é uma doação ou uma imposição [...], mas a devolução organizada, sistematizada e acrescentada, ao povo, daqueles elementos que este lhe entregou de forma desestruturada.” (FREIRE, 1987, p. 83-84). 84 Estruturas Curriculares - inter e Transdiciplinaridade 84 • Por fim, a avaliação da implementação deste currículo deve se constituir como um processo sistemático continuo, com base num programa intenso e continuo de formação continuada. Eis ai um modelo alternativo para o desenvolvimento do currículo, com base em Freire e nas teorias críticas deste campo. Você deve estar pensando: Seria isto tão simples quanto sugerir? Obviamente que não! No entanto, pesquisas e experiências já realizadas mostram que este modelo é uma possibilidade e uma realidade em alguns lugares. Atividade de Estudo: Use o quadro a seguir para registrar a síntese desta parte do capítulo. ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ EnfoquES gloBalizadorES dE CurríCulo A educação e o mundo contemporâneo sofrem transformações estruturais significativas com o advento das novas tecnologias por meio dos avanços da Ciência. O processo histórico do desenvolvimento da ciência e da tecnologia universalizou os meios de vida do homem moderno, proporcionando situações objetivas para que ele seja, simultaneamente, universal e local. Essas transformações vivenciadas pela humanidade, neste novo milênio, estão diretamente ligadas com o desenvolvimento das novas tecnologias da comunicação e da informação que, atualmente, ganham ênfase a partir do movimento de aproximação entre as diversas indústrias do setor tecnológico (de equipamentos, eletrônica, informática, telefone, cabos, satélites, entretenimento e comunicação). Esta situação potencializa as condições de comunicação entre as pessoas e as organizações empresariais ou educativas, nos mais diversos setores do contexto global e local. No entanto, como em toda era de transição, coexistem, neste mesmo período de tempo e espaço, valores antigos (ligados aos velhos paradigmas da sociedade, do currículo, etc) com 85 mOdElOs E OrganizaçãO dE CurríCulO na EduCaçãO BásiCa 85 Capítulo 5 os valores deste mundo em transformação; ou seja, valores conectados com paradigmas da sociedade emergente ou da emergência de novos modelos curriculares. Tais transformações, na argumentação de Moraes (1997), estão relacionadas com a emergência de uma sociedade global e digital não percebida anteriormente. Na concepção de Moraes (Idem, p. 125), “a interconectividade que se observa na sociedade atual vem sendo multiplicada, sem precedentes, na história da humanidade, em virtude de uma globalização cada vez maior que, apesar de enfrentar obstáculos e tentativas de interrupção, continua o seu processo em marcha”. Este contexto tem evidenciado sinais marcantes de um novo ciclo para a humanidade, ampliando os espaços de convivência com a cultura, com a informação, com os meios produtivos e com as redes de conhecimento em toda a esfera do globo Diante desse contexto, marcado por inúmeras transformações, as práticas curriculares escolares entram em pauta como um dos mais importantes aspectos a serem discutidos em torno da escola. Embora estejamos vivenciando esse contexto de transformações no cenário mundial e local, pelas pesquisas que temos recentemente realizadas, o currículo parece ter sido pouco transformado. A prática de currículo que se observa ainda nas escolas, especialmente na educação básica, constitui-se por um paradigma epistemológico positivista, o qual se configura por aspectos de um saber pronto e acabado em si mesmo, organizado e sequenciado linearmente e transmitido, na maioria das vezes, verbalmente pelo professor (modelo Tyler). Diante disso, verificamos a importância de se refletir sobre esta prática de currículo, ainda em curso, pelo fato de estarmos vivendo em tempos pós-modernos, o que significa dizer que necessitamos de práticas ou modelos que tenham por base outro paradigma; ou seja, que concebam os conhecimentos e práticas como espaço conceitual, no qual se constroem novos saberes, como: resultados sempre contraditórios de vários processos históricos, culturais, sociais, etc. (CUNHA, 2005). Nesse cenário de constantes modificações que se tem refletido na escola, é que nos propomos aapresentar modelos curriculares menos autoritários, e mais comprometidos com os processos de ensinar e aprender. Portanto, o currículo e o ensino podem ser caracterizados [...] como prática reflexiva [que está] estabelecida como uma tendência significativa nas pesquisas em educação, apontando para a valorização dos processos de produção do saber docente a partir da prática e situando a pesquisa como um instrumento de formação de professores, em que o ensino é tomado como ponto de partida e de chegada da pesquisa. (PiMEnTA, 2002, p. 22). 86 Estruturas Curriculares - inter e Transdiciplinaridade 86 É neste momento que iremos apresentar alguns modelos que, segundo Zabala (1998), se apresentam como modelos por métodos globalizadores do conhecimento e com o qual preconizam práticas interdisciplinares e transdisciplinares no âmbito das escolas. Por conseguinte, os desejos de seus construtores e implementadores do currículo constituem ferramenta fundamental. são eles: Os centros de interesse, os projetos, a investigação do meio e os projetos de trabalho. Para Zabala (1998, p. 142), esses métodos globalizadores não tomam as disciplinas como finalidade básica do ensino; elas se constituem, sim, como meios ou instrumentos, que têm como papel subsidiar o alcance dos objetivos educacionais. Nos métodos globalizados, a aproximação ao fato educativo se realiza a partir da perspectiva de como os alunos aprendem e, secundariamente, do papel que devem desempenhar as disciplinas e a maneira como os alunos podem aprendê-las melhor. [...]Trata-se de perspectivas totalmente diferentes, mas estreitamente vinculadas, já que nem no caso um se prescinde das disciplinas, nem no outro se esquece dos alunos. (ZABALA, 1998, p. 142) linha de organização curricular, o aluno é o principal protagonista. Os Centros de Interesse, por exemplo (de Decroly), partem “[...] de um núcleo temático motivador para o aluno e, seguindo o processo de observação, associação e expressão, integram diferentes áreas do conhecimento.” Já o método de Projetos (de Kilpatrick) consiste basicamente “[...] na elaboração e produção de algum objeto ou montagem (uma máquina, um audiovisual, um viveiro, uma horta escolar, um jornal, etc).” De forma mais sistemática e científica, o Estudo do Meio (do MCE – Movimento de Cooperazione Educativa de Itália) [...] busca que meninos e meninas construam o conhecimento através da sequência do método científico (Problema, hipótese, experimentação).” E, por fim, os Projetos de Trabalhos Globais, que têm como finalidade [...] conhecer um tema: tem de se elaborar um dossiê como resultado de uma pesquisa pessoal ou em equipe” (ZABALA, 1998, p. 146). seu modus operandi também está fundado no método científico. Identifique seus pontos de partida e etapas de realização no quadro a seguir: 87 mOdElOs E OrganizaçãO dE CurríCulO na EduCaçãO BásiCa 87 Capítulo 5 CENTRO DE INTERESSE PROJETOS INVESTIGAÇÃO DO MEIO PROJETOS DE TRABALHOS GLOBAIS PONTO DE PARTIDA - INTENÇÃO Situação real. Tema a ser conhecido Situação real. Projeto a ser realizado Situação real. Perguntas ou questões Situação real. Elaboração de dossiê FASES - Observação - Associação . espaço . tempo . tecnologia . causalidade - Expressão - intenção - Preparação - Execução - Avaliação - Motivação - Perguntas - suposições - Medidas de informação - Coleta de dados - seleção e classificação - Conclusões - Expressão e comu- nicação - Escolha do tema - Planeja- mento - Busca de informação - sistemati- zação da informação - Desenvol- vimento do índice - Avaliação - novas perspectivas Quadro 5: Síntese das fases de realização dos enfoques Globalizadores de ZABALA Fonte: Zabala, 1998, p. 145. Leia mais detalhes sobre estes enfoques em: ZABALA, Antony. Enfoque globalizador e Pensamento complexo: uma proposta para o currículo escolar. Porto Alegre: ARTMED Editora, 2002. Para melhor compreensão, vamos ao detalhamento do que consiste cada fase; ou melhor, como realizar cada fase de cada método (ZABALA, 1998, p. 147-154): 88 Estruturas Curriculares - inter e Transdiciplinaridade 88 Centros de Interesse: Conforme quadro apresentado anteriormente, os Centros de interesse constituem-se em três fases distintas: a) Observação: constitue-se de um conjunto de atividades que têm por objetivo colocar os alunos em contato direto com os fatos, as coisas, os seres, os conhecimentos, para identificar, por meio de atividades de cálculo, experimentação, expressão oral e escrita, desenho, entre outros, o principal ou os principais temas de interesse dos alunos. b) Associação: Constituído pelos exercícios de associação. As crianças relacionam suas observações com outras situações e realidades, não- suscetíveis de contato e observação direta. Por exemplo, atividades de associação no espaço e no tempo, vinculadas às áreas de geografia e história; atividades de associação com as tecnologias e de relação com às necessidades sociais mais amplas, bem como associações de causa e efeito. c) Expressão: Consiste na demonstração e sistematização dos dados adquiridos mediante a observação e os exercícios de associação de maneira concreta. Na expressão, podem ser utilizados trabalhos manuais, trabalhos escritos e falados, bem como artísticos, como a música, o desenho, e outras formas de representação e tradução dos conhecimentos adquiridos. Ela expressa a sistematização das aprendizagens. O Método de Projetos de Kilpatrick: De acordo com o quadro anteriormente apresentado, este método se configura a partir de quatro fases: a) Intenção: Consiste num debate com os alunos e coordenado pelos professores sobre diferentes possibilidades de projetos a serem desenvolvidos. Juntos escolhem o que e como organizar: em grupos pequenos, toda a classe ou individual. Além disso, mapeiam as caraterísticas gerais do que querem fazer e os objetivos que pretendem alcançar. b) Preparação: Consiste na montagem ou realização do projeto. Define-se com precisão o projeto que se quer realizar. Além disso, definem-se as etapas para sua realização e os diferentes meios e/ou recursos, materiais, informações para o alcance do previsto em tempo hábil. c) Execução: Agora, de posse do planejamento, inicia-se a execução do projeto, conforme foi estabelecido. Técnicas e habilidades de diferentes áreas serão envolvidas em função das demandas que vão sendo originadas pelo próprio projeto. d) Avaliação: Após a conclusão ou montagem do projeto, comprovar-se-á a validade do produto realizado. será analisado como foi a realização de todo 89 mOdElOs E OrganizaçãO dE CurríCulO na EduCaçãO BásiCa 89 Capítulo 5 o processo, inclusive a participação dos alunos em cada atividade projetada e realizada. A Investigação do meio: Este método compreende dez fases para sua realização completa. Trata-se de um método mais abrangente e compreensivo, sendo, por isso, de maior complexidade científica. Suas fases são: a) Motivação: Esta fase consiste em colocar os alunos diante de situações relacionadas às suas experiências de vida, com o objetivo de os incentivar e desafiar nos seus interesses e motivações. Um debate sobre essas situações levará o grupo à definição de temas ou de um tema escolhido para o estudo. b) Perguntas ou Problemas: Consiste em identificar, a partir do debate, perguntas ou problemas que deverão ser resolvidos. Em grupo (maiores, menores) ou individualmente, serão selecionados e classificados os problemas ou perguntas que se constituirão objeto de pesquisa. c) Respostas Intuitivas ou hipóteses: Consiste nas suposições ou respostas que os alunos já trazem, intuitivamente, a partir de seus conhecimentos prévios. Elas funcionam como estímulos que os conduzirão à pesquisa e podem orientá-los quanto aos meios e instrumentos que poderão utilizar na realização da mesma d) Determinação dosinstrumentos para a busca da informação: Consiste em definir, de acordo com a natureza dos objetos de pesquisa, os instrumentos (visitas, entrevistas, experimentos, etc) e fontes de informação (artigos, livros, dados estatísticos, mapas, etc), para a busca de informações que possam responder aos problemas ou perguntas da pesquisa, contando inclusive com as informações/aulas dos professores. e) Fontes de Informação e planejamento da investigação: Consiste em planejar as etapas e formas de busca das informações, com esboços previamente conhecidos e um planejamento que possa prever ajustes, caso seja necessário. f) Coleta de Dados: Esta fase trata efetivamente da coleta dos dados ou das informações necessárias, de acordo com o planejamento prévio, realizada pelos estudantes por meio dos diferentes meios e fontes, com o objetivo de juntar informações que respondam ao objeto de pesquisa em questão. g) Seleção e classificação dos dados: De posse das múltiplas informações e dados coletados, será o momento de sistematizar, pela seleção e classificação das informações mais relevantes colhidas, para responder às 90 Estruturas Curriculares - inter e Transdiciplinaridade 90 questões ou problemas iniciais levantados. É o momento em que os alunos já começam a formular conclusões acerca do objeto estudado. h) Conclusões: Consiste em confirmar ou validar as suposições iniciais acerca do problema em estudo. Trata-se de explicar, a partir dos dados, as principais conclusões possíveis e, desta forma, ampliar seu campo de conhecimento. i) Generalização: nem sempre é possível generalizar os resultados de uma pesquisa. no entanto, esta etapa consiste em descontextualizar os resultados encontrados e tentar estender sua aplicação para outros contextos. j) Expressão e Comunicação: Consiste na socialização dos resultados da pesquisa realizada em outros espaços, para além da sala de aula, por meio de diferentes formas. Os resultados deste trabalho também deverão constar nos cadernos de registros ou dossiês individuais de cada aluno participante do projeto. Os Projetos de Trabalhos Globais: Conforme quadro anteriormente apresentado, este modelo constitui-se de sete fases distintas, porém, inter- relacionadas. são elas: a) Escolha do tema: Deve ser feita a partir de conhecimentos prévios, de algum fato ou atualidade. Parte-se do pressuposto de que os alunos devem trabalhar sobre algo e de uma determinada maneira. Por isso, são propostos temas e alunos e professor, em conjunto, decidem qual será o tema para o novo projeto. b) Planejamento: Tendo escolhido o tema, em grupo ou individualmente, elabora-se um sumário dos diferentes tópicos relacionados ao tema, que farão a composição de um dossiê. Também se organizam o tempo e as atividades que serão necessárias para a busca das informações que responderão a cada tópico do sumário do dossiê. Com base nisso, o professor determinará os objetivos de aprendizagem e conteúdos que pretende trabalhar para expansão do tema. c) Busca da Informação: O sumário comum que se construirá para o tema vai configurar o roteiro do trabalho. Tendo definido os meios e as formas mais apropriadas e possíveis, os alunos irão coletar as informações necessárias, em grupo ou individualmente. d) Tratamento da Informação: Este é o momento crucial do modelo. Do volume de informações coletadas, os alunos deverão reconhecer e 91 mOdElOs E OrganizaçãO dE CurríCulO na EduCaçãO BásiCa 91 Capítulo 5 selecionar o que é indispensável; identificar hipóteses, teorias, opiniões e pontos de vista; desenvolver estratégias para trabalhar a diversidade de meios e formas; classificar e organizar a informação de maneira lógica; tirar conclusões e descontextualizar processos para generalizar resultados, caso seja possível e, por fim, propor perguntas que suscitarão novas buscas. e) Desenvolvimento dos tópicos do sumário: Com base nas informações já selecionadas e organizadas, se elaboram os conteúdos, sínteses dos diferentes tópicos que compõem o sumário. f) Elaboração do Dossiê de síntese: nesta etapa se realiza o que para todos os alunos sintetiza o produto do projeto; ou seja, o que conduziu todas as fases anteriores. g) Avaliação: Consiste na avaliação das atividades internas, entre os alunos, os quais reconsideram cada etapa, visando elencar o que aprenderam; também avaliam-se , com a ajuda do professor , numa perspectiva de caráter externo, os alunos, os quais têm de se aprofundar no processo de descontextualização, tentando aplicar suas conclusões para situações diferentes. Desta forma, se exercita a habilidade de estabelecer relações, comparações e/ou generalizações que permitam a conceituação. h) Novas perspectivas: Por fim, os resultados deste projeto abrem perspectivas para a continuidade de um novo projeto, ampliando, desta forma, o grau de inter-relação e significados dos processos de aprendizagem. Em suma, estes não são os únicos modelos alternativos possíveis e existentes. No entanto, todos os métodos globalizadores aqui apresentados possibilitam um trabalho interdisciplinar e, por vezes, transdisciplinar, pois, em todos, a característica básica é o interesse e a curiosidade dos alunos e não as disciplinas. Estas, sim, se constituem como meios e processos que os levam às descobertas, a partir de diferentes abordagens, tanto do ponto de vista teórico, quanto do aspecto prático. no item a seguir, vamos explorar melhor essas abordagens: multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Atividade de Estudo: Você conseguiu vislumbrar novos horizontes em termos de modelos de organização do currículo escolar, a partir destes enfoques? Esperamos que sim. Para melhor sistematização de suas ideias, sugerimos que elabore um texto 92 Estruturas Curriculares - inter e Transdiciplinaridade 92 -síntese deste item, no espaço que segue. ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ aBordagEnS intErdiSCiplinarES E tranSdiSCiplinarES dE CurríCulo Uma reforma da educação para a cidadania envolve também uma reforma dos educadores. Essa é a tarefa política, cuja finalidade é fazer dos educadores cidadãos melhor informados e agentes mais eficazes de transformação da sociedade maior [...] ajudar os estudantes a desenvolver uma consciência social maior, e uma preocupação social. (GiROUX, 1986, p. 255). A contribuição relevante de Giroux (1986) está na materialização de uma abordagem emancipatória. Sua teoria tem com objetivo impedir práticas hegemônicas, ou seja, práticas que visam a reprodução de uma ordem. Ele reconhece que a ‘subjetividade’ é inquestionável no processo de conhecer e a história tem visão de ‘possibilidade’; é um constante vir-a-ser, pois a pedagogia crítica tem como principal objetivo autorizar os estudantes a intervirem na própria autoformação. Isto é possível através da reflexão feita sobre o relato da própria vida, pois, a partir do momento em que o sujeito passa a conhecer- se, a refletir, analisar e apropriar-se da história, da própria história, sabe como as subjetividades são produzidas e verifica como algumas marcas legitimam um tipo particular de vida. Giroux (1986) vê a pedagogia como espaço de “reconstrução social do conhecimento”, bem como uma “esfera da política cultural”. Para esse autor, confrontar os “tempos históricos” é relevantepara pensar uma sociedade fundamentada na esperança, libertadora, pois o campo de tensão é um espaço de possibilidades e de resistência. Sinaliza os problemas reais como ponto de partida para respostas que necessitam ser construídas pelos estudantes em 93 mOdElOs E OrganizaçãO dE CurríCulO na EduCaçãO BásiCa 93 Capítulo 5 sua formação, na medida em que os indivíduos, segundo Giroux (1997, p. 15), são ”tanto produtores quanto produtos da história”. sendo assim, se o homem faz sua história, pode transformá-la. As escolas devem ser o locus onde as relações sociais democráticas se tornem parte das experiências vividas. Assim, o fundamento desse currículo deve ser tão profundamente histórico quanto crítico. Deve dirigir- se às experiências pessoais e concretas, bem como reconhecer as múltiplas linguagens e as formas de capital cultural. O currículo deve abandonar a pretensão de ser isento de valor, e essa nova racionalidade terá que subordinar os interesses técnicos às considerações éticas. Portanto, o currículo tem que ser construído com ‘significado’ para o futuro, no qual se possam gerar possibilidades de ‘emancipação’. nesse sentido, é relevante um currículo que cultive o discurso teórico- crítico e reconheça a ‘singularidade’ e a necessidade individual dos sujeitos- alunos como parte da realidade social específica. O aspecto ‘dialético’ do conhecimento precisa ser desenvolvido como parte de uma pedagogia radical: desvelar o oculto, clarificar as relações de poder, a cultura e a ideologia, considerar as diferenças culturais individuais dos alunos, pois eles pertencem a grupos econômicos e sociais distintos e não apenas às crenças e rotinas da escola. Portanto, o currículo não está desconectado da realidade, do social, pois é um ato político, cultural e historicamente determinado. Assim, o professor- coordenador, organizador e instigador do processo educativo, precisa ser um intelectual transformador, um político, para que o pensar, o ser e o fazer educação aconteça em meio ao diálogo entre a história e a historicidade, tanto dos seres, quanto do conhecimento que se pretende veicular no espaço educativo. Um conhecimento que passa a ser construído pelo caminho da teoria e da prática, entrelaçadas pelas experiências individuais dos sujeitos que se põem a conhecer. Giroux (1997) reconhece que a subjetividade é inquestionável no processo de conhecer; a história para ele tem visão de possibilidade, de vir-a-ser. No prefácio da obra de Giroux, “Os professores como intelectuais”, Mclarem (1997) apresenta argumentos contra a visão tradicional do ensino e da aprendizagem, como sendo um processo neutro ou transparente, afastado da conjuntura de poder, da história e do contexto social. Questiona a escola como sendo um mecanismo para o desenvolvimento da ordem social democrática e igualitária. salienta a importância de uma pedagogia que se impõe contra as práticas ideológicas e sociais, que não objetivam a preparação de estudantes para serem cidadãos críticos, participativos, ativos e capazes de correr riscos. Nesse sentido, faz-se necessário pensar e selecionar abordagens, a partir 94 Estruturas Curriculares - inter e Transdiciplinaridade 94 das quais os educadores possam desenvolver o relacionamento entre ensino escolar e as relações sociais mais amplas dos sujeitos. Para Giroux (1997, p. 15), a pedagogia crítica tem como principal objetivo autorizar os estudantes a intervirem na própria autoformação. Para tanto, os problemas reais devem ser tomados como ponto de partida para respostas que necessitam ser construídas pelos estudantes em sua formação, visto que os indivíduos são ”tanto produtores quanto produtos da história”. Assim, precisam usar o conhecimento crítico para mudar, muitas vezes, o próprio curso dessa história. nesse sentido, Mclarem (1997) sinaliza a relevância de ter ressonância entre os conteúdos que se trabalha na escola e as experiências da vida dos alunos, tornando-a problemática, contextualizando política, histórica e socialmente as próprias experiências. O comprometimento do professor com uma abordagem emancipadora se faz necessária. Uma prática que prima pela reconstrução social do conhecimento, ou seja, uma prática em que seja possível confrontar os tempos históricos e perceber a tensão presente entre o silêncio estruturado pela história e a luta libertadora fundada na esperança. Nessa linha de pensamento, Santomé (1998, p. 150) ratifica esta abordagem, ao mencionar que a educação democrática e não excludente [...] não é aquela que trabalha com conteúdos culturais fragmentados, que representam apenas a história, tradições, produtos e vozes dos grupos sociais hegemônicos (em geral, a denominada cultura européia, que representa os interesses e valores dos grupos sociais com poder econômico, social, político, militar e religioso). Ao contrário, uma educação antimarginalizadora tem de ser planejada e desenvolvida com base na revisão e reconstrução do conhecimento de todos e cada um dos grupos e culturas do mundo. Diante dos conhecimentos prévios dos nossos alunos, seus conceitos, experiências de vida, concepções de vida, seus preconceitos, devem ser tomados como ponto de partida para o trabalho de antimarginalização. Esses conhecimentos, assimilados praticamente de maneira passiva, devem ser submetidos à crítica, ao diálogo, construídos e reconstruídos democraticamente, considerando-se as perspectivas de classe social, gênero, sexualidade, etnia e nacionalidade. nesta perspectiva, Costa (2009) explica que para a construção de um modelo de currículo antidiscriminatório faz-se necessária a reconstrução da história e da cultura dos povos minoritários. Para que isto aconteça, é preciso promover debates sobre as interpretações conflituosas do presente, identificar suas próprias posições, interesses, ideologias e pressuposições. É preciso também compreender como é elaborado, difundido e legitimado o conhecimento e quais as influências na 95 mOdElOs E OrganizaçãO dE CurríCulO na EduCaçãO BásiCa 95 Capítulo 5 seleção e organização: os preconceitos, referenciais e posições de poder inerentes. Esta autora argumenta, ainda, que os propósitos de Williams, Kress e Santomé (apud MOREIRA; SANTOS, 1995) sobre a seleção do conhecimento escolar, demonstram, a preocupação hoje emergente em nossa sociedade, de trabalhar com ênfase na diferença, na especificidade e no pluralismo cultural. É perceptível como a seleção do currículo escolar perpassa conflitos, lutas e negociações, nos quais emergem os saberes escolares. O cuidado deve também ser dado às atividades que envolvem estes saberes, que desenvolvem tanto conhecimentos e habilidades, como consciência, disposições e sensibilidades, que forjam comportamentos e estruturam a personalidade. Portanto, as aprendizagens que ocorrem como resultado das relações que se constroem nos espaços, contribuem à formação de personalidades, identidades, como também o desenvolvimento de aspectos relativos à subordinação e à obediência dos alunos. Como uma trama complexa, o currículo envolve os rituais e as práticas escolares, as relações hierárquicas desenvolvidas na escola e, até mesmo, as características físicas do ambiente escolar. Essa abordagem crítica de perceber o currículo nos remete a uma outra, que se reporta ao que Apple (1986) denomina de currículo oculto. Conforme vimos no primeiro capítulo, o currículo oculto se refere àquilo que é ensinado pela escola, de forma intencional ou não, mas que não está prescrito e não necessariamente há consciência do professor em relação a isso. Por isso, há a necessidade de novas abordagens para colocar em suspense aquilo que temos como verdade ou como prática, para uma reconstrução reflexiva e crítica da realidade consagrada pelo trabalho coletivo. Precisamos desocultar as vozes silenciadas no currículo, pois não se trata de episodicamentepermitir que algumas dessas vozes se façam ouvir através das benevolentes vozes dos dominantes, mas sim de se privilegiarem as subjetividades e os discursos até aqui reprimidos e de se reduzir ao mínimo o processo de silenciamento. Daí a importância de uma cuidadosa análise do que a literatura vem chamando currículo nulo ou vazio – o que a escola elimina dos seus planos e atividades, bem como dos elementos do currículo oculto que validam a desigualdade e a opressão. (MOREiRA, 1997, p. 26) Para Costa (2009), salientar a importância do currículo oculto, no desenvolvimento de uma abordagem crítica, se faz necessário para que na prática se construa uma noção de crítica, que seja capaz de investigar os pressupostos que dão normas tanto à sua lógica como ao discurso. Devemos analisar não apenas as relações sociais que se dão em sala de aula, mas 96 Estruturas Curriculares - inter e Transdiciplinaridade 96 também as relações que advêm de outros contextos e que impactam na organização do conhecimento escolar. segundo santomé (1994), a forma de organização escolar e os mobiliários também participam da rotina e da monotonia escolar, desenvolvendo aspectos relacionados à subordinação e à obediência dos alunos. Em concordância, Silva (1992) explica que o currículo oculto é o resultado de uma trama complexa, que envolve os rituais e as práticas escolares, as relações hierárquicas desenvolvidas na escola e as características físicas do ambiente escolar. Em estudo recente, Costa (2009) identificou vários dispositivos e rituais que dão materialidade ao currículo oculto, ao mesmo tempo em que vozes são implicitamente silenciadas no currículo. Por exemplo: • O diagnóstico escolar, como ritual que segrega e estigmatiza: aluno fraco e forte, não aprende porque é pobre, aptos e inaptos, adiantados e atrasados, etc. • O planejamento escolar, como ritual de massificação, que ignora a diversidade, as diferenças pela realização do processo de homogeneização dos alunos; • A relação professor-aluno, como ritual de domesticação, por colocar o professor no centro, com o controle do processo de ensino e aprendizagem através da avaliação; • A avaliação do rendimento escolar, como ritual de seletividade, que identifica os estudantes competentes dos demais; • A disciplina escolar, como ritual do silenciamento, que estabelece rotinas para sua imposição; • O espaço-temporal da escola, como ritual de disciplinamento dos corpos, diante da disposição das mobílias, de corpos, no ambiente escolar; • A ausência das novas tecnologias, como ritual do descompasso à participação efetiva dos alunos nos espaços sociais informatizados - analfabetismo computacional; • As filas, que instituem a ordem, organização, servem também para silenciar; • As homenagens cívicas e os desfiles, sinônimos de civismo, de patriotismo, que também demonstram o disciplinamento de corpos, uma atuação, às vezes, sem crítica; • “Ideais curriculares”, o velho com roupagem nova, que interfere nas 97 mOdElOs E OrganizaçãO dE CurríCulO na EduCaçãO BásiCa 97 Capítulo 5 atividades escolares, ao consentir que a educação ande em círculo; • O sino, o controle do tempo de cada indivíduo, condiciona o que fazer “estímulo-resposta”, ensaio à sociedade capitalista, à ‘fábrica’; • A entrega de boletins, documento que legitima o trabalho da escola, resposta dada a alunos e pais por ora sem perguntas. Crise família & escola & sociedade; • As tarefas de casa, por vezes, não condizem à vida fora dos muros da escola. • O livro didático, que substitui o ato de planejar, declara o que ensinar de forma linear. • O projeto político pedagógico, construção coletiva a atender as diferentes vozes que compõem o todo escolar; • A formatura, ato que legitima quem coube na “fôrma” denominada escola. (COsTA, 2009, p. 61-62). Para a autora, essa correspondência se processa, fundamentalmente, por meio da hierarquia escolar e pela estrutura de relações de trabalho estabelecidas. Subordinação entre direção e os professores e entre os professores e os alunos, que os prepara para as relações de trabalho na sociedade atual capitalista, que os adapta. O currículo oculto refere-se, [...] às conseqüências não intencionais do processo de escolarização. Os educadores críticos reconhecem que as escolas modelam os estudantes através de situações de aprendizado padronizado, e através de outras agendas, incluindo regras de conduta, organização de sala de aula e procedimentos pedagógicos informais usados por professores com grupos específicos de estudantes. O currículo oculto também inclui estilos de ensino e aprendizado enfatizados na sala de aula, as mensagens transmitidas ao estudante pelo ambiente físico e instrucional como um todo, estruturas de liderança, expectativas do professor e procedimentos de avaliação. (MClAREn, 1997, p. 216). Uma outra abordagem em relação ao currículo se refere ao projeto arquitetônico da escola. A sala de aula, por excelência, o lugar usual da atividade instrutiva, também necessita de atenção, de repensar sua concepção e estrutura arquitetônica. Para Costa (2009) designar, demarcar espaços específicos às atividades de ensino e aprendizagens sequenciais, ordenadas, 98 Estruturas Curriculares - inter e Transdiciplinaridade 98 é um ritual que persiste como um mecanismo seguro do trabalho do professor. Investir num espaço flexível e propício as atividades escolares exige do professor uma “visão arquitetônica” diferenciada: [...] significa fazer do mestre ou professor um arquiteto, isso é, um pedagogo e, da educação, um processo de configuração de espaços. De espaços pessoais e sociais, e de lugares. Ao fim e ao cabo, o espaço – assim como a energia, enquanto energia – não se cria nem se destrói, apenas se transforma. A questão final é se se transforma em um espaço frio, mecânico ou em um espaço quente e vivo. Em um espaço dominado pela necessidade de ordem implacável e pelo ponto de vista fixo, ou em um espaço que, tendo em conta o aleatório e o ponto de vista móvel, seja antes possibilidade que limite. Em um espaço, em suma para a educação, um âmbito que não pertence ao mundo da mecânica, mas ao mundo da biologia, ao mundo dos seres vivos. (FRAGO; EsCOlAnO, 1998, p. 139), Para Mognol (2005), a reflexão sobre a representação dos espaços e do currículo na escola incide sobre o olhar necessário aos elementos da linguagem arquitetônica e do modo como as características desses espaços disciplinam a disposição dos corpos e a atitude humana. Tendo em vista que nenhum espaço é neutro, representam formas de pensamento e relações de poder. O espaço, onde se desenvolvem ações educativas, é pleno de significados; nele se realizam, se produzem e reproduzem aprendizagens ocultas e significados sociais. Conforme argumenta silva (1999, p. 80): [...] a coisa toda consiste, claro, em desocultar o currículo oculto. Parte de sua eficácia reside precisamente nessa sua natureza oculta. O que está implícito na noção de currículo oculto é a idéia de que, se conseguirmos desocultá-lo, ele se tornará menos eficaz, ele deixará de ter os efeitos que tem pela única razão de ser oculto. supostamente, é essa consciência que vai permitir alguma possibilidade de mudança. Tornar-se consciente do currículo oculto significa, de alguma forma, desarmá-lo. Segundo Libâneo (2006, p. 866), seus objetivos estão relacionados com “[...] a mediação de saberes e modos de agir, que promovam mudanças qualitativas no desenvolvimento e na aprendizagem das pessoas, [...] a se constituírem como sujeitos [...] para viver e agir na sociedade e na comunidade”. Como se pode perceber, as abordagens curriculares escolares não podem ser confundidas com ações repetitivas e improvisadas que, em muito, ainda vem se observando nas escolas. É fundamental nos pautarmos em abordagens que recusam o trivial, o passivo, o que reproduz e perpetua modelos.Esta é uma abordagem, segundo Alves (2002), que configura um modelo de currículo 99 mOdElOs E OrganizaçãO dE CurríCulO na EduCaçãO BásiCa 99 Capítulo 5 como árvore. A abordagem que se busca é a ideia de currículo em rede, na qual a tessitura de conhecimentos de faz a partir dos cotidianos escolares e dos contextos que os constituem. De acordo com Beanne (2002), esta abordagem se configura pela ideia de currículo integrado, o qual se constitui a partir de uma rede de relações que se estabelecem entre temas, áreas do conhecimento, contextos, cotidiano escolar, relação professor-aluno-escola, entre outros. Esta perspectiva vai para além da interdisciplinaridade, que já representa avanços para o currículo. Aqui já adentramos numa concepção transdisciplinar a qual transcende todas as fronteiras entre as disciplinas, apesar da imensa necessidade de se conhecer, profundamente, as áreas que compõem o conhecimento de cada disciplina. Diante disso, é necessário decifrar as distinções entre multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. A multidisciplinaridade é a organização dos conteúdos mais tradicionais. Os conteúdos escolares são apresentados por matérias independentes umas das outras. O conjunto de matérias ou disciplinas é proposto simultaneamente, sem que apareçam explicitamente as relações que podem existir entre elas. Trata-se de uma organização somativa. A interdisciplinaridade é a interação entre duas ou mais disciplinas, que podem ir desde uma simples comunicação de idéias até a integração recíproca dos conceitos fundamentais e da teoria do conhecimento, da metodologia e dos dados da pesquisa. [...] A transdisciplinaridade é o grau máximo de relações entre as disciplinas, daí que supõe uma integração global dentro de um sistema totalizador. Este sistema favorece uma unidade interpretativa, com o objetivo de constituir uma ciência que explique a realidade sem parcelamento. (ZABALA, 1998, p. 143-144). Atividade de Estudo: Considerando sua realidade profissional, pense em um tema gerador e elabore uma atividade com enfoque multidisciplinar. na sequência, adapte a mesma atividade para os enfoques inter e transdisciplinares. Utilize o espaço a seguir para realização desta atividade. ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ Estas abordagens podem orientar tanto a organização dos currículos 100 Estruturas Curriculares - inter e Transdiciplinaridade 100 quanto as práticas pedagógicas das escolas. Por exemplo, o professor pode ter uma postura norteadora do processo ensino-aprendizagem, levando em consideração que sua prática pedagógica em sala de aula tem papel fundamental no desenvolvimento intelectual de seu aluno. Desta maneira, ele pode ser o responsável pelo crescimento ou pela introspecção do seu aluno, em virtude da forma como conduz a sua prática pedagógica. Assim, o professor se constitui em um mediador do conhecimento diante do aluno, que é o sujeito da sua própria formação. neste sentido, os professores, por meio de suas práticas, não só ajudam o aluno a transformar a informação em conhecimento e em consciência crítica, mas também ajudam na formação de personalidades e de currículos. Afinal, quais são as tendências atuais e o que se pretende? As tendências atuais estão anteriormente referenciadas e o que se pretende é formar alunos críticos, autônomos e protagonistas, instrumentalizados para múltiplas leituras e possibilidades de intervenção em sua realidade. Tal tarefa exige esforço conjunto dos sistemas escolares, dos professores e das escolas. Formados em sua maioria em cursos nos quais as dicotomias teoria/prática e ensino/pesquisa eram a tônica, nossos professores têm dificuldade para refletir, confrontar e reformular suas práticas curriculares e pedagógicas. não se trata de culpabilizar o professor, nem de dar a ele o rótulo de vítima impotente. No entanto, não podemos ignorar as dificuldades (currículos lineares, espaços e tempos rígidos, a escassez de recursos, a desarticulação entre os colegas e equipes, os instrumentos tradicionais de avaliação, entre outros). Apesar disto, é importante que vislumbremos as diferentes possibilidades de superá- las, visto que as novas demandas sociais levaram a escola a assumir novas características e novos papéis. Diante de tais transformações, é necessário que os sistemas de ensino e seus professores investiguem e reflitam sobre suas práticas curriculares e pedagógicas, buscando intencionalmente modificá-la. Considerando a importância da prática reflexiva, é interessante retomar as ideias de Schön (1992), que apresenta o paradigma do professor reflexivo, e de Alarcão (2000), da escola reflexiva. Para ambos, a reflexão ocorre na ação. Assim, talvez, possamos contribuir para (re) significar práticas, espaços e tempos escolares, fatores fundamentais para romper com a linearidade e fragmentação dos currículos e, consequentemente, das práticas pedagógicas ainda em foco. Atividade de Estudo: Que tal, você ainda está nos acompanhando? Utilize o espaço, que segue, para sintetizar os principais aspectos desta seção, que finaliza o capítulo. 101 mOdElOs E OrganizaçãO dE CurríCulO na EduCaçãO BásiCa 101 Capítulo 5 ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ ______________________________________________________________ algumaS ConSidEraçõES Caracterizar dois modelos clássicos do currículo: Tyler e Freire, analisando seus impactos para a educação básica brasileira e no mundo, foi um dos objetivos deste capítulo. De maneira bem sintética, podemos afirmar que: • O modelo Tyler se resume em questões bastante técnicas. Por exemplo, para elaborar uma proposta curricular, deve-se levar em conta três fontes (aluno, sociedade e matéria), de onde se originam os objetivos educacionais de forma ampla; ou seja, um diagnóstico a ser feito sobre os próprios alunos, sobre o cotidiano na sociedade e sugestões de especialistas nas matérias do currículo. Esta primeira etapa gera uma imensidão de objetivos. Por isso, eles devem ser submetidos a dois grandes filtros teóricos: a filosofia e a psicologia da aprendizagem. A partir desses filtros, então, serão definidos “os objetivos educacionais precisos” a serem ensinados pela escola. Tal precisão está relacionada às mudanças de comportamentos que deverão ser observados nos alunos, ao final de uma unidade. Sendo assim, Gesser (2002) afirma que a proposta curricular de Bobbit e a de Tyler, embora com várias distinções, guardam semelhanças, pelo seu caráter técnico. Com base nos já definidos “objetivos educacionais precisos”, colocam a necessidade de identificar que experiências educacionais são capazes de proporcionar o alcance desses objetivos (comportamentais). Estas, por sua vez, devem ser experiências eficientemente organizadas e, por fim, rigorosamente avaliadas em função dos objetivos previamente determinados. • O modelo de Freire coloca seu foco inicial na problematização e na investigação; por exemplo, a partir de temas gerados no contexto da escola, da sua comunidade. seus principais princípios para o desenvolvimento curricular são: contextualização, problematização da prática escolar, construção e reconstrução coletiva, autonomia, projeção crítica, processodemocrático, diálogo, autêntica relação professor-aluno, solução de problemas, transformação social e humanização. 102 Estruturas Curriculares - inter e Transdiciplinaridade 102 Identificar outros modelos de organização de currículo com base em enfoques globalizadores (Apresentados por ZABALA), visando à compreensão dos aspectos interdisciplinares e transdisciplinares do currículo escolar para a Educação Básica, foi o outro objetivo que tínhamos para esta unidade. Zabala (1998) apresenta quatro enfoques, conforme segue: • O Centros de Interesse, por exemplo, (de Decroly), partem “[...] de um núcleo temático motivador para o aluno e seguindo o processo de observação, associação e expressão, [e] integram diferentes áreas do conhecimento.” • Já o método de Projetos (de Kilpatrick) consiste basicamente “[...] na elaboração e produção de algum objeto ou montagem (uma máquina, um audiovisual, um viveiro, uma horta escolar, um jornal, etc).” • De maneira mais sistematizada e científica, o Estudo do Meio (do MCE – Movimento de Cooperazione Educativa de Itália) [...] busca que meninos e meninas construam o conhecimento através da sequência do método científico (Problema, hipótese, experimentação).” • E, por fim, os Projetos de Trabalhos Globais, tem como finalidade [...] conhecer um tema e elaborar um dossiê, como resultado de uma pesquisa pessoal ou em equipe.” (ZABALA, 1998, 146). Em todos os enfoques o aluno é o principal protagonista e todas essas propostas têm caráter interdisciplinar e/ou transdisciplinar. Obviamente, estes não são os únicos modelos alternativos possíveis e existentes. no entanto, todos estes métodos globalizadores aqui apresentados possibilitam um trabalho interdisciplinar e, por vezes, transdisciplinar, pois em todos a característica básica é o interesse e a curiosidade dos alunos e não as disciplinas. Estas, sim, se constituem como meios e processos que os levam a descobertas, a partir de diferentes abordagens tanto do ponto de vista teórico quanto do aspecto prático. rEfErênCiaS AlARCÃO, i. Escola Reflexiva. Lisboa, Porto editora, 2000. AlvEs, nilda. Criar currículo no cotidiano. são Paulo: Cortez, 2002. 103 mOdElOs E OrganizaçãO dE CurríCulO na EduCaçãO BásiCa 103 Capítulo 5 APPEL, Michael W. A política do conhecimento oficial: faz sentido a idéia de um currículo nacional? In: MOREIRA, A. F.; SILVA, T.T. (Orgs). 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