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ÉTICA Atualizado 01.2020 Professor _____________________________ _____/____/_____ Início Previsão de término ____/_____/____ “A construção da postura de um bom técnico de enfermagem, requer um embasamento ético, a educação de condutas, deveres, direitos e proibições da profissão, é parte da construção de um profissional tecnicamente capacitado. Além da educação doméstica, o profissional de enfermagem adquire uma postura imparcial, técnica e legal que só o estudo dessa gama conhecimentos trás”. Elaboração Prof Enfª Prof Adriana Márcia Formatação, Edição e Revisão Prof Enfª Juliana Targino Direção Enfª Mônica de Moraes 3 Não importa que você nunca tenha participado de um debate sobre ética e que nunca tenha parado para entender o significado dessa palavra. Todos os dias de nossas vidas, nossas relações pessoais e profissionais, nossas atitudes são moldadas por ideias e conceitos que “moram” dentro de nós. Antes do nascimento de Jesus Cristo, há muitos anos, importantes pensadores - os filósofos - ocuparam suas vidas, preocupados em perguntar e em responder sobre o que é o bem e o que é ser bom. Nós, brasileiros, fomos colonizados pelos portugueses que também sofreram influência dos pensadores gregos. Portanto, nós, brasileiros, somos também herdeiros do pensamento desses homens. Ou seja, vivemos em uma sociedade que admite como certo um código de valores que é reconhecido e legitimado por outras sociedades que, como a nossa, foram influenciadas pelos filósofos gregos. O que é ética? Pode-se dizer que, no cotidiano, a ética aparece por meio de nossas ações e atitudes, as quais são classificadas como “boas” ou “ruins” pela sociedade. Isto é, nossas atitudes são aprovadas ou reprovadas socialmente, uma vez que são reconhecidas como adequadas ou não aos valores morais que norteiam nossa sociedade. É preciso observar, no entanto, que há valores morais próprios de outras sociedades e que, muitas vezes, esses valores são diferentes dos nossos. A intolerância de um povo em relação aos valores de outros povos, frequentemente, acaba em luta, briga ou guerra. Se olharmos à nossa volta e se conversarmos com familiares, com pessoas de gerações passadas e de diferentes classes sociais, vamos perceber que os valores e as regras do bem agir variam de lugar para lugar e se modificam ao longo do tempo. Um exemplo bastante conhecido de mudanças de valores através do tempo diz respeito às relações conjugais. Há 30 ou 40 anos o conceito de casamento era apenas um, o tradicional casamento com a benção apostólica, qualquer que fora desse padrão era motivo de discriminação social para as mulheres. Hoje, relacionamentos de diversas formas são aceitos e não causam espanto. Os hábitos e os valores morais, nesse caso, modificaram-se tanto, que exigiram uma reforma leis. Hoje os direitos da companheira são os mesmos da mulher casada oficialmente. É interessante observar que as leis são pensadas, escritas e entram em vigor sempre depois que uma determinada situação já se estabeleceu socialmente. Os valores morais se modificam no tempo, e o que poderia ser visto como uma atitude inadequada – o mal agir – ontem, pode ser hoje interpretado como perfeitamente aceitável e de acordo com o bem agir. Há situações em que fica fácil reconhecermos a falta de ética. Algumas são tão evidentes que existe uma unanimidade em condená-las socialmente. ÉTICA PROFISSIONAL Ética Data ___/___/____ Ciclo Básico 4 A história de nosso país tem, infelizmente, muitos exemplos evidentes de condenação unânime: juízes corruptos; utilização de cargos públicos para favorecimento próprio ou de parentes e amigos; erros médicos; troca de votos por benefícios diretos ou indiretos (dentaduras, óculos, ligadura de trompas, bica-d’água para a comunidade, etc). A nossa conduta ética também está relacionada às proibições e às permissões dos grupos corporativos aos quais pertencemos enquanto categoria profissional. Nesse caso estamos falando da ética das profissões, que podemos definir como sendo um conjunto de regras que regem a conduta do trabalho profissional. A ética de um grupo corporativo busca também a humanização do trabalho organizado e se coloca a serviço da promoção social humana. Não está, portanto, relacionada apenas a um conjunto de normas. Os conselhos de classe, por exemplo, agrupam as pessoas de uma mesma profissão e definem os limites de atuação profissional e as normas éticas para o exercício da profissão. É o caso dos Conselhos de Enfermagem, Medicina, Engenharia, Serviço Social, Nutrição, dentre outros. É claro que existem temas muito polêmicos, que acabam por misturar, no calor da discussão, valores morais, com valores religiosos e culturais, sem que se estabeleça com clareza uma distinção entre eles. Para exemplificar, basta lembrar de debates realizados em torno do aborto. Existem situações que se repetem tanto em nossa vida profissional, que viram “lugar comum”. Tornam-se situações “normais” e vão estar relacionadas com os conceitos ou (pré)conceitos que “moram” em nós e na sociedade em que vivemos. Por exemplo: é comum considerar que as mães das crianças atendidas por profissionais de saúde, ou as pessoas que acompanham os pacientes “só servem para atrapalhar”, porque “perguntam demais”, ou “são nervosas demais”. Às vezes, nem se consegue perceber que essas pessoas podem ser grandes aliadas na recuperação dos doentes e nas ações de saúde que estão sendo realizadas ou propostas. Escolhas Quando escolhemos trabalhar na área da saúde, escolhemos nos aproximar de outros seres humanos, em todos os sentidos, de um jeito que não acontece em nenhuma outra atividade profissional. A natureza de nosso trabalho nos obriga a uma proximidade que, dependendo de como é feita, pode ser muito positiva para a conquista da confiança da clientela. Mesmo que não estejamos pensando nisso a cada instante, nosso trabalho está o todo o tempo submetido às tensões causadas entre o que o usuário espera, e o que os serviços de saúde são capazes de oferecer. E hoje é preciso concordar: os usuários diversas vezes demonstram não estar contentes com esses serviços. E nós? Estamos satisfeitos com o que oferecemos? É verdade que, muitas vezes, trabalhamos em instituições onde faltam equipamentos e materiais considerados básicos para o desenvolvimento de nossas atividades. Por vezes, somos obrigados a realizar nosso trabalho de uma maneira diferente da que desejaríamos. Frequentemente somos excluídos das decisões, ou nem mesmo sabemos que podemos participar das definições sobre nosso trabalho. São comuns nas instituições normas e regras rígidas, que de tão impositivas bloqueiam qualquer iniciativa mais criativa do profissional. Podem ser esses os fatores que nos oprimem, determinando em nós um afastamento, isto é, uma certa insensibilidade em relação às nossas ações o que, é claro reflete no nosso trato com o cliente. Podemos também, sem intenção, estar provocando nos usuários uma reação de afastamento, e até de rejeição a nós e aos serviços. 5 Como podemos, então, encontrar o melhor caminho para que, cumprindo com nossas responsabilidades, tenhamos a certeza de que nossas ações eram o que de melhor poderia ser feito? Estamos fazendo a nossa parte? Estamos dando o melhor que podemos? Reflexão Todas as ações de saúde devem, obrigatoriamente, ser ações inquestionáveis do ponto de vista ético. Tanto os procedimentos que são dirigidos diretamente ao corpo dos pacientes, por exemplo, ministrar um medicamento, realizar um exame complementar ou uma intervenção cirúrgica, quantoàs atividades de educação em saúde, as visitas domiciliares ou mesmo o repasse de informações. Chamamos a atenção para o fato de que o trabalho em saúde se realiza por meio do ouvir, do olhar e do tocar. Na equipe de saúde, a especificidade do trabalho faz com que os profissionais de enfermagem fiquem, com mais frequência, mais próximos das dores e feridas dos seres humanos que buscam alívio por meio de nossos serviços. Se entendermos que faz parte de nosso papel acolher, ficará fácil entender que a acolhida se realiza ou não, através da maneira como escutamos, olhamos e tocamos. Se são especiais nosso olhar e nossa escuta, certamente o nosso toque será mais confortador, ficando possível ir além nos sentimentos e nas emoções daqueles que atendemos. Estaremos tocando mais que o corpo. A ação realizada por meio de uma assistência mais dialogada com o cliente pode trazer-lhe outras mensagens. Pode levá-lo a refletir sobre as mudanças necessárias para sua cura ou restabelecimento. Vamos pensar nas pessoas que chegam até nós. São indivíduos que podem estar doentes nos hospitais, ambulatórios ou em casa. Podem, ainda, estar em fase de recuperação ou reabilitação. Por vezes, são doentes terminais querendo conforto. Podem desejar a prevenção de doenças, ou estar buscando informações sobre saúde. A forma como nos relacionamos com essas pessoas, certamente influência no resultado da ação de saúde. Os que nos procuram têm coisas importantes a nos dizer sobre eles mesmos e sobre aquilo que estão sentindo e buscando. Quando não há a possibilidade de falarem conosco, como é o caso de doentes em coma, de crianças, ou de certos casos de deficiência física e/ou mental, devemos considerar as informações dadas por quem os acompanha e estarmos atentos para as possibilidades da comunicação não verbal. Muitas vezes, mesmo que o doente não esteja tentando se comunicar, o seu corpo, através da posição que assume, pode estar sinalizando uma série de informações valiosas. Seu rosto pode estar demonstrando dor, tristeza, desconforto, alívio e espera que nós valorizemos aquilo que diz e que, assim, realizemos nosso trabalho de maneira mais adequada. Nós, profissionais, temos coisas importantes a dizer e a fazer, e é fundamental que as pessoas entendam aquilo que dizemos e fazemos, para que possam cumprir com sua parte da melhor forma. Então, se há acordo sobre esse raciocínio, chegamos à conclusão de que uma boa relação dos profissionais de saúde com a clientela requer a existência de uma troca de saberes. Isso quer dizer que eu, profissional de saúde, entendo que o outro, cliente, tem um saber para me ensinar que desconheço. Da mesma forma, que eu, profissional de saúde, tenho um saber para ensinar que o outro desconhece. A troca é recíproca. Então, quando nossa clientela reconhece que nos interessamos pelo que ela tem a dizer, e que somos capazes de escutá-la e de olhá-la para além dos órgãos e dos membros de seu corpo, logicamente fica mais aberta a nos ouvir e a perguntar. Consequentemente, não terá vergonha de demonstrar desconhecimento em relação a determinado assunto. A confiança e o respeito se estabelecem mais rapidamente, o que é fundamental para a obtenção da cooperação tão desejada durante um tratamento, ou para as ações de prevenção e de promoção de saúde. 6 Preconceitos Nós, profissionais de saúde, convivemos com pessoas que têm valores morais diferentes dos nossos, isto é, pensam e agem de forma diferente da nossa; no entanto, isso não pode nem deve definir nossa forma de atendimento às pessoas. Estamos nos serviços com o propósito de realizar ações de saúde em benefício de quem nos procura e, portanto, não nos cabe (nem a ninguém) julgar seus atos. Agindo de acordo com os princípios éticos da profissão, portanto, com responsabilidade, sabemos que não nos é permitido criticar atitudes ou gestos de quem chega até nós. Temos obrigação de não permitir que ninguém o faça. Não cabe a nós, por exemplo, condenar ou dar a entender que reprovamos uma mulher que tenha procurado assistência com complicações resultantes de um aborto, ou fazer insinuações, e até perguntas sobre fatos que nada auxiliam na ação que vamos realizar. Obviamente, não nos cabe abandoná-la, ou deixá-la esperando sem tomar atitudes que lhe propiciem algum alívio. É sempre bom lembrar que, sejam lá quais forem os motivos que levaram uma mulher a provocar um aborto, essa decisão nunca é tomada sem conflitos e é um momento de muito sofrimento para a mulher e, por vezes, para quem a acompanha (quando ela está acompanhada). Outra situação bastante comum se refere à reprovação de adolescentes que estão grávidas. E, novamente, não nos cabe repreendê-las ou tratá-las como se fossem nossas filhas ou sobrinhas. Elas não o são. E talvez esperem de nós a compreensão que dos seus familiares não tiveram. Melhor seria alargar nossa escuta (lembra?), estimular sua autoestima e o cuidado consigo mesma durante o período de gravidez. Outra situação em que o preconceito não pode estar presente ocorre quando do atendimento a um assassino que acabou de ser baleado. Não nos cabe definir se ele merece ou não ser atendido, pois nos serviços de saúde todos devem ser atendidos. Nós temos um compromisso com a confidencialidade. Todos os dias vemos e ouvimos coisas que traduzem os sofrimentos e os conflitos mais íntimos das pessoas. Não temos o direito de revelar o que vemos e ouvimos a quem quer que seja, nem dar ouvidos a boatos que podem prejudicar a vida das pessoas, sejam elas famosas ou não. Ao longo dos últimos 15 anos, com o aparecimento da AIDS, temos sido levados a refletir sobre nossa capacidade de discutir sobre situações que mobilizam os tabus mais antigos da humanidade e enfrentá-las. A existência da AIDS impôs novos desafios a toda a sociedade, colocando em evidência toda a incapacidade dos serviços de saúde para lidar principalmente com questões relacionadas à sexualidade. Os serviços de saúde fazem parte de uma sociedade que encontra muitas dificuldades em lidar com tabus e preconceitos relacionados à sexualidade. Ora, esses serviços têm profissionais que pertencem à coletividade. Sendo assim, somos obrigados a enfrentar questões que, por vezes, eram ignoradas, ou nunca admitimos que existissem, como o homossexualismo, o sexo anal, o sexo oral, que eram e continuam sendo, para muitos, problemas dos outros. É necessário lutar contra a rejeição ao doente de AIDS e o medo da contaminação. Finalmente começamos a exigir de nós o respeito às normas universais - elementares - de segurança para acidentes com material biológico. Tem sido necessário aprender a situar nosso sentimento diante de pacientes contaminados. Piedade ou desprezo? Amor ou ódio? Afastamento ou aproximação? A situação não é fácil e, de certa forma, a existência da doença AIDS tem permitido que os profissionais de saúde, mesmo que por caminhos transversos, falem sobre temas que nunca antes foram considerados importantes, como autoestima, prazer, desejo. E é claro que isso tinha que acontecer! Pense bem. 7 Hoje, mais do que nunca, precisamos aprender a lidar com os preconceitos. O que não falamos A prática do autoritarismo está tão presente nos serviços de saúde, que poucos se questionam, por que, em quase todos os hospitais, ambulatórios e postos de saúde, o primeiro profissional com quem o usuário entra em contato é um “guarda”, um “segurança”, um policial. Seja por falta de pessoal para recepcionar os clientes, seja por “necessidade” de transmitir uma ideia de ordem e autoridade aos serviços de saúde, invariavelmentenão proporcionamos uma entrada confortável aos usuários. Delegamos aos agentes da ordem pública um trabalho que cabia aos agentes de ações de saúde. É importante entender o porquê de aprovarmos essa forma de lidar com quem chega até nos, já que algumas vezes entendemos que são os clientes que atrapalham nossas funções. No momento de nosso primeiro contato com a clientela, estamos enviando- lhe um recado, mesmo sem dizer uma palavra. Será que essa recepção aos serviços aproxima ou nos afasta? E então, cabe a pergunta: como a clientela se sente? Ultrapassada a porta de entrada, vamos nos deter no interior dos serviços. Seria ingênuo e mesmo cruel imaginar que alguém sente prazer em estar dentro de hospitais e consultórios, seja porque está doente, seja porque acompanha alguém. De uma maneira geral, o cliente ou o acompanhante está triste, tenso e com medo. Temos também aqueles que vão às unidades básicas de saúde (postos ou centros de saúde), sem parecer doentes, mas que estão à procura de alguma coisa: uma palavra, atenção, orientação ou acolhimento. E é possível que, por puro preconceito (que muitas vezes nem percebemos), essas pessoas sejam recebidas como se fossem menos importantes, como se o motivo que as levou a procurar o posto não fosse importante porque muitas vezes se acredita que ela esteja “tirando a vaga de quem está doente e precisa”. O que podemos fazemos para que elas se sintam acolhidas? Quantas vezes, durante nossa jornada de trabalho, olhamos nos olhos daqueles de quem cuidamos? Quantas vezes sorrimos e paramos para escutar o que têm a nos dizer ou a perguntar? O que você pensa do profissional que , ao ser perguntado sobre os níveis tensionais que acabou de verificar num paciente, não responde nada ou diz: “está bom”, ou “não posso falar” O que você pensa ao ver uma mulher que sofreu uma cesariana, levantar-se sozinha , sem ajuda de um profissional, para ir ao banheiro ou para tomar o bebê nos braços, seja para amamentar, ou para acalmá-lo? O que você pensa de ter que esperar horas a fio numa sala de espera, aguardando por informações sobre a saúde de um ente querido, principalmente nas antessalas das UTI? Talvez muitos de nós nunca se tenham feito essas perguntas e é possível que, num primeiro momento, você tenha respostas como as que seguem, retiradas da fala de profissionais como nós : “também, pelo salário que a gente ganha...”; “a gente tem tanto trabalho, que não dá pra pensar nessas coisas...”; “não é só o profissional que atende mal, a clientela também não obedece, reclama...”. Se pararmos para interpretar o significado dessas frases, logo vamos perceber que elas se apoiam em ideias e argumentos que não se sustentam. São fruto do preconceito e de uma relação de poder que submete o outro. Senão, vejamos... 8 Será que as pessoas que chegam até nos têm culpa dos salários e da quantidade de trabalho que realizamos? Se é verdade que nossa remuneração frustra nossas expectativas, o nosso cliente não deve ser o alvo do nosso descontentamento. Pelo contrário, seria importante que a população fosse esclarecida sobre seus direitos e pudesse se aliar ao profissional na luta por melhores condições nos serviços de saúde. É desejável e primordial que os as auxiliares de enfermagem possam discutir sobre a falta de estrutura e organização dos serviços e percebam que isso as penaliza porque são eles / esses profissionais que mantêm um contato mais estreito e direto com a clientela, e enfrentam de perto, seu sofrimento e suas reais necessidades. Sabemos que é o técnico de enfermagem que responde de imediato pela falta de medicamentos; de materiais e equipamentos; pela ausência de vagas para internação e / ou atendimento e, por isso, é alvo do descontentamento, percebe as angústias e os sofrimentos do que procuram os serviços de saúde. Fica clara a importância de discutirmos e estimularmos a participação da comunidade nos espaços onde se decide o uso dos recursos, por exemplo, nos Conselhos Municipais e Distritais de Saúde. Hoje, no Brasil, as possibilidades de participação são maiores em alguns casos, como no Programa de Saúde da Família – PSF. Precisamos reconhecer que a passividade não é a melhor forma de encarar os problemas. Eles também interessam à comunidade e não são fatalidades, isto é, não acontecem por obra do destino, ou porque “tem que ser assim”. É preciso desenvolver as discussões e trocar ideias com nossos colegas. Se pudermos discutir em nossos espaços de trabalho, ótimo! Se não, vamos tentar criar condições para que seja possível no futuro. Podemos nos reunir nos sindicatos e em outros espaços corporativos. Será também proveitoso contar com o apoio das pessoas que atendemos. E isso é possível se, ao mesmo tempo em que lutamos pela melhoria das condições de trabalho, de remuneração e pela maior participação na definição dos recursos, prestamos mais atenção na forma de receber e de nos relacionar com a clientela. Os frutos de uma mudança de atitude frente à clientela seriam o reconhecimento e a valorização de nosso trabalho. É preciso responder a algumas perguntas que ficam no ar: se o trabalho que realizamos foi uma escolha, quem ou o que nos obriga a cuidar dos outros? Existem vários trabalhos que não requerem tanta proximidade com as pessoas... É importante que fiquemos atentos para a alegada “falta de tempo para pensar nessas coisas”. A falta de reflexão deixa nosso trabalho muito mecânico, automático. Acaba sendo, ao mesmo tempo, causa e consequência de um sentimento de desvalorização do nosso trabalho, por nós mesmos. Finalmente, chamamos sua atenção para o fato de que, se o profissional reconhece que atende mal, expõe seus preconceitos com relação à clientela e está revelando o seu descompromisso e descaso com aqueles a quem deveria dedicar sua atenção. Revela seu desprezo e desvalorização pelo outro. Ao mesmo tempo, quando espera que a população obedeça, admite uma relação de autoritarismo e de infantilização dos clientes. Ora, não temos que esperar a obediência de ninguém. As pessoas que chegam até nós, devem ser bem informadas e entender o que falamos, para avaliar se concordam com as ações que propomos ou se discordam delas. É possível que você nunca tenha parado para pensar nisso. No entanto, há princípios básicos de cidadania que precisam ser respeitados. As pessoas têm autonomia, isto é, têm independência, têm liberdade para decidir o que querem para si, e têm o direito de serem bem informadas, inclusive, para dizer não ao que estamos propondo. Quando são privadas dessa autonomia, em geral, terão um acompanhante para assumir as decisões (pais, filhos, irmãos, cônjuges). Então, não há motivos para ficarmos aborrecidos pelo fato de nossos clientes fazerem perguntas. Uma explicação que só use termos técnicos em nada ajuda o seu questionamento sobre o medicamento que lhe oferecemos, a necessidade de urinar na comadre, e não no vaso sanitário, o seu pedido de informações sobre a realização ou o resultado de exames. É sempre bom ter em mente que o corpo com que estamos lidando ou sobre o qual estamos falando, não nos pertence. Quando achamos que a clientela precisa se submeter a nossas ações 9 estamos, novamente, diante dos ingredientes básicos da violência: poder, arrogância e autoritarismo. O que a gente fala Existem situações que, de tão presentes em nosso cotidiano, não causam mais espanto ou constrangimento. As frases ditas nos espaços hospitalares e ambulatoriais pelos profissionais de saúde (não importando a categoria a que pertençam), podem ser muito duras. Podem até arrepiar, por revelarem grosseiras que envolvem os preconceitosmais escondidos! Quem nunca ouviu falar durante um trabalho de parto ou um aborto: “na hora de fazer, você gostou, não foi?” Diante de uma mulher que engravidou outra vez: “mas, outra vez?” ou “a senhora não tem televisão em casa?” Diante de uma mãe segurando a criança para uma injeção: “segura direito essa criança, mãe, ou ela vai ficar sem vacinar!” Diante de um alcoólatra: “lá vem aquele bêbado outra vez!” Diante de uma mulher ansiosa: “isso é chilique” Diante de paciente cirúrgico: “Isso não é nada, é lógico que o senhor tem que sentir dor”. Diante de uma pessoa em estado terminal: “pra que mudar o decúbito? vai morrer mesmo”. Diante de um homossexual: “lá vem a amiguinha (homem) dele!” Certamente existem outros exemplos que você será capaz de lembrar. O que parece claro é que os responsáveis por frases como as citadas esquecem que, na situação em que se encontram, cada um desses pacientes está fragilizado e submetido às normas dos serviços que nós, profissionais de saúde, estamos impondo. Certamente, não gostam do que ouvem; no entanto, muitas vezes não reagem ou permanecem passivas uma vez que, na situação, sentem-se desiguais, inferiorizados. Não se deve esquecer também qual é a clientela que, em geral, frequenta os serviços de saúde. São mulheres. Mulheres que levam as crianças, que vão às consultas de pré-natal, que vão dar à luz. Mulheres que vão buscar o remédio que acabou. Os homens, quando vão aos serviços de saúde, já estão sem condições de trabalhar, porque estão doentes, ou são idosos. A clientela a que fazemos referência corresponde, em geral, à parcela da população desvalorizada socialmente. E nós, dentro dos serviços de saúde, muitas vezes sem perceber, contribuímos para reforçar sua desvalorização. Trabalho em Equipe O trabalho em saúde é, sempre, um trabalho de equipe e exige, sempre, respeito entre os membros do grupo. Cada um dos membros de uma equipe que trabalha com saúde, reconhece que o trabalho que cada profissional realiza é importante e contribui para o conjunto e por isso todos precisam se encontrar para refletir sobre sua atuação. No entanto, embora haja consenso sobre essa necessidade, no cotidiano, os encontros não se verificam. Queremos, no entanto, estimular essa discussão por entender que a responsabilidade ética de que tanto falamos, passa pela existência de uma relação com outras pessoas, também profissionais de saúde que, como nós, têm um compromisso com a defesa da vida. O trabalho de equipe precisa ser entendido como um trabalho de parcerias. Numa equipe, todos têm uma função importante que será realizada da melhor forma possível, na medida em que os profissionais estejam integrados. Mas... Como fazer para que a integração aconteça? É evidente que a instituição onde estamos trabalhando, precisa reconhecer a importância do trabalho do grupo, a fim de que os profissionais tenham espaço para se reconhecer como tal. 10 Uma equipe de saúde trabalha bem, quando integra os papéis de seus membros. A integração é sempre muito proveitosa e não pode ser confundida com a sujeição de um membro da equipe por outro. Isso não quer dizer que os trabalhos nas equipes dispensem uma hierarquia, principalmente se são atividades relacionadas à realização de tratamentos ou de procedimentos curativos. É importante que cada um reconheça seus limites e os limites da atuação profissional dos membros de uma equipe, a fim de se aperfeiçoar, cada vez mais, naquilo que sabe e que foi preparado para realizar. O nosso enfoque diz respeito, basicamente, às relações interpessoais nos grupos. Portanto, relaciona- se a todos os seus membros. Queremos afirmar a necessidade de diálogo e de respeito entre as pessoas que trabalham juntas. Consideramos que é dever de todos nós contribuir para que nosso ambiente de trabalho seja agradável, para que cada um de nós também se sinta acolhido em nosso espaço de trabalho, seja ele o hospital, os consultórios e ambulatórios, ou os espaços onde discutimos as ações que vamos realizar nas casas das pessoas. Na verdade, é difícil dedicarmos algum momento da nossa jornada de trabalho, para pensarmos e conversamos sobre o quanto esta ou aquela situação mexeu conosco. Quantas vezes ficamos com um nó na garganta diante de uma situação (e são muitas!) de morte, ou diante da dor de alguém que recebe a notícia de que vai ficar com alguma deficiência? Quantas vezes nos fazem perguntas cujas respostas desconhecemos ou conhecemos, mas não podemos ou nos falta preparo para fornecer (como quando sabemos de um diagnóstico ou de um prognóstico ruim)! Situações assim geram em nós reações que não controlamos, como tremores, suores, frio na barriga, dor de cabeça. Quantas vezes somos obrigados a estar em contato com situações que nos causam aborrecimento e vergonha, como é o caso de doentes ou acompanhantes que fazem insinuações grosseiras apelando para temas que têm a ver com a sexualidade! Quantos já não presenciaram pacientes se masturbando? E quando estamos diante de situações que fogem ao controle do paciente, mas que somos obrigados a vivenciar diante de outros profissionais, como é o caso de estar cuidando do asseio de um doente no leito, e ocorrer uma ereção do pênis? E quando nos aborrecemos com outros colegas de trabalho? Você não acha que seria bom poder falar desses sentimentos com outras pessoas que também passam pelas mesmas situações? Que seria bom que encontrássemos, entre nossos pares, aquele olhar de compreensão diante de uma impossibilidade nossa? Que pudéssemos contar com a crítica construtiva das pessoas com as quais trabalhamos? Que não precisássemos ter medo de demonstrar nossa fragilidade em relação a determinadas situações? Então, é preciso que nos olhemos mais e nos escutemos mais. Principalmente porque o que nos une é estar lidando tão de perto com o sofrimento humano. É preciso parceria, seja para entender melhor do trabalho que vamos realizar, seja para reafirmar uma cumplicidade solidária, diante das situações de tensão, de tristezas e de alegrias, experimentadas no dia a dia de nosso trabalho. A cumplicidade solidária pode nos aliviar, fazer com que percebamos que nossa experiência guarda semelhanças com a experiência de outros colegas. Permite que nosso sentimento seja de inclusão num espaço que é coletivo, mas entendendo que temos necessidades individuais. Cria o conhecimento através da experiência coletiva. 11 Um pouco de história Diariamente, todos construímos, de maneira individual e coletiva, a história do grupo social a que pertencemos. Em nosso meio, contribuímos ativamente para as transformações e para a consolidação de aspectos sociais, culturais e psicológicos. O estudo da história é importante para descobrirmos e entendermos os caminhos trilhados por nossos pais e antepassados, responsáveis pela atual realidade. Da mesma forma, o futuro será uma consequência ou reflexo da situação presente. Para compreender melhor os caminhos que, na sociedade brasileira, levam à construção da categoria profissional de enfermagem, precisaremos conhecer um pouco sobre o curso dos acontecimentos históricos. Este texto é um convite para uma viagem no tempo e na história. A ORIGEM DA PROFISSÃO A profissão surgiu do desenvolvimento e evolução das práticas de saúde no decorrer dos períodos históricos. As práticas de saúde instintivas foram as primeiras formas de prestação de assistência. Num primeiro estágio da civilização, estas ações garantiam ao homem a manutenção da sua sobrevivência, estando na sua origem, associadas ao trabalho feminino, caracterizado pela prática do cuidar nos grupos nômades primitivos,tendo como pano-de-fundo as concepções evolucionistas e teológicas, Mas, como o domínio dos meios de cura passaram a significar poder, o homem, aliando este conhecimento ao misticismo, fortaleceu tal poder e apoderou-se dele. Quanto à Enfermagem, as únicas referências concernentes à época em questão estão relacionadas com a prática domiciliar de partos e a atuação pouco clara de mulheres de classe social elevada que dividiam as atividades dos templos com os sacerdotes. As práticas de saúde mágico-sacerdotais, abordavam a relação mística entre as práticas religiosas e de saúde primitivas desenvolvidas pelos sacerdotes nos templos. Este período corresponde à fase de empirismo, verificada antes do surgimento da especulação filosófica que ocorre por volta do século V a.C. Inicia-se no século V a.C., estendendo-se até os primeiros séculos da Era Cristã. A prática de saúde, antes mística e sacerdotal, passa agora a ser um produto desta nova fase, baseando-se essencialmente na experiência, no conhecimento da natureza, no raciocínio lógico que desencadeia uma relação de causa e efeito para as doenças e na especulação filosófica, baseada na investigação livre e na observação dos fenômenos, limitada, entretanto, pela ausência quase total de conhecimentos anátomo fisiológicos. Mas não havia caracterização nítida da prática de Enfermagem nesta época. As práticas de saúde monástico-medievais focalizavam a influência dos fatores sócio econômicos e políticos do medievo e da sociedade feudal nas práticas de saúde e as relações destas com o cristianismo. Esta época corresponde ao aparecimento da Enfermagem como prática leiga, desenvolvida por religiosos e abrange o período medieval compreendido entre os séculos V e XIII. Foi um período que deixou como legado uma série de valores que, com o passar dos tempos, foram aos poucos legitimados a aceitos pela sociedade como características inerentes à Enfermagem. A abnegação, o espírito de serviço, a obediência e outros atributos que dão à 12 Enfermagem, não uma conotação de prática profissional, mas de sacerdócio. As práticas de saúde pós- monásticas evidenciam a evolução das ações de saúde e, em especial, do exercício da Enfermagem no contexto dos movimentos Renascentistas e da Reforma Protestante. Corresponde ao período que vai do final do século XIII ao início do século XVI. A retomada da ciência, o progresso social e intelectual da Renancença e a evolução das universidades não constituíram fator de crescimento para a Enfermagem. Enclausurada nos hospitais religiosos, permaneceu empírica e desarticulada durante muito tempo, vindo desagregar-se ainda mais a partir dos movimentos de Reforma Religiosa e das conturbações da Santa Inquisição. O hospital, já negligenciado, passa a ser um insalubre depósito de doentes, onde homens, mulheres e crianças utilizam as mesmas dependências, amontoados em leitos coletivos. Sob exploração deliberada, considerada um serviço doméstico, pela queda dos padrões morais que a sustentava, a prática de enfermagem tornou- se indigna e sem atrativos para as mulheres de casta social elevada. Esta fase tempestuosa, que significou uma grave crise para a Enfermagem, permaneceu por muito tempo e apenas no limiar da revolução capitalista é que alguns movimentos reformadores, que partiram, principalmente, de iniciativas religiosas e sociais, tentam melhorar as condições do pessoal a serviço dos hospitais. As práticas de saúde no mundo moderno analisam as ações de saúde e, em especial, as de Enfermagem, sob a ótica do sistema político- econômico da sociedade capitalista. Ressaltam o surgimento da Enfermagem como atividade profissional institucionalizada. Esta análise inicia- se com a Revolução Industrial no século XVI e culmina com o surgimento da Enfermagem moderna na Inglaterra, no século XIX. ENFERMAGEM MODERNA O avanço da Medicina favoreceu a reorganização dos hospitais. É na reorganização da Instituição hospitalar, que vamos encontrar as raízes do processo de disciplina e seus reflexos na Enfermagem, ao ressurgir da fase sombria em que esteve submersa até então. Naquela época, os ricos continuavam a ser tratados em suas próprias casas, enquanto os pobres, além de não terem esta alternativa, tornavam-se objeto de instrução e experiências que resultariam num maior conhecimento sobre as doenças em benefício da classe abastada. É neste cenário que a Enfermagem passa a atuar, quando Florence Nightingale é convidada pelo Ministro da 13 Guerra da Inglaterra para trabalhar junto aos soldados feridos em combate na Guerra da Criméia. PERÍODO FLORENCE NIGHTINGALE Nascida a 12 de maio de 1820, em Florença, Itália, era filha de ingleses. Possuía inteligência incomum, tenacidade de propósitos, determinação e perseverança o que lhe permitia dialogar com políticos e oficiais do Exército, fazendo prevalecer suas ideias. Dominava com facilidade o inglês, o francês, o alemão, o italiano, além do grego e latim. No desejo de realizar-se como enfermeira, passa o inverno de 1844 em Roma, estudando as atividades das Irmandades Católicas. Em 1849 faz uma viagem ao Egito e decide- se a servir a Deus, trabalhando em Kaiserswert, Alemanha, entre as diaconisas. Decidida a seguir sua vocação, procura completar seus conhecimentos que julga ainda insuficientes. Visita o Hospital de Dublin dirigido pela Irmãs de Misericórdia, Ordem Católica de Enfermeiras, fundada 20 anos antes. Conhece as Irmãs de Caridade de São Vicente de Paulo, na Maison de la Providence em Paris. Aos poucos vai se preparando para a sua grande missão. Em 1854, a Inglaterra, a França e a Turquia declaram guerra à Rússia: é a Guerra da Criméia. Os soldados acham-se no maior abandono. A mortalidade entre os hospitalizados é de 40%. Florence partiu para Scutari com 38 voluntárias entre religiosas e leigas vindas de diferentes hospitais. Algumas enfermeiras foram despedidas por incapacidade de adaptação e principalmente por indisciplina. A mortalidade decresce de 40% para 2%. Os soldados fazem dela o seu anjo da guarda e ela será imortalizada como a "Dama da Lâmpada" porque, de lanterna na mão, percorre as enfermarias, atendendo os doentes. Durante a guerra contrai tifo e ao retornar da Criméia, em 1856, leva uma vida de inválida. Dedica-se porém, com ardor, a trabalhos intelectuais. Pelos trabalhos na Criméia, recebe um prêmio do Governo Inglês e, graças a este prêmio, consegue iniciar o que para ela é a única maneira de mudar os destinos da Enfermagem - uma Escola de Enfermagem em 1959. Após a guerra, Florence fundou uma escola de Enfermagem no Hospital Saint Thomas, que passou a servir de modelo para as demais escolas que foram fundadas posteriormente. A disciplina rigorosa, do tipo militar, era uma das características da escola nightingaleana, bem como a exigência de qualidades morais das candidatas. O curso, de um ano de duração, consistia em aulas diárias ministradas por médicos. Nas primeiras escolas de Enfermagem, o médico foi de fato a única pessoa qualificada para ensinar. A ele cabia então decidir quais das suas funções poderiam colocar nas mãos das enfermeiras. Florence morre em 13 de agosto de 1910, deixando florescente o ensino de Enfermagem. 14 Assim, a Enfermagem surge não mais como uma atividade empírica, desvinculada do saber especializado, mas como uma ocupação assalariada que vem atender a necessidade de mão-de-obra nos hospitais, constituindo-se como uma prática social institucionalizada e específica. Primeiras Escolas de Enfermagem Apesar das dificuldades que as pioneiras da Enfermagem tiveram que enfrentar, devido à incompreensão dos valores necessários ao desempenhoda profissão, as escolas se espalharam pelo mundo, a partir da Inglaterra. Nos Estados Unidos a primeira Escola foi criada em 1873. Em 1877 as primeiras enfermeiras diplomadas começam a prestar serviços a domicílio em New York. As escolas deveriam funcionar de acordo com a filosofia da Escola Florence Nightingale, baseada em quatro idéias-chave: 1- O treinamento de enfermeiras deveria ser considerado tão importante quanto qualquer outra forma de ensino e ser mantido pelo dinheiro público. 2- As escolas de treinamento deveriam ter uma estreita associação com os hospitais, mas manter sua independência financeira e administrativa. 3- Enfermeiras profissionais deveriam ser responsáveis pelo ensino no lugar de pessoas não envolvidas em Enfermagem. 4- As estudantes deveriam, durante o período de treinamento, ter residência à disposição, que lhes oferecesse ambiente confortável e agradável, próximo ao hospital. Com o sistema Nightingale de ensino as escolas conseguiram sobreviver graças aos pontos essenciais estabelecidos: 1º. Direção da escola por uma Enfermeira. 2º. Mais ensino metódico, em vez de apenas ocasional. 3º. Seleção de candidatos do ponto de vista físico, moral, intelectual e aptidão profissional. História da Enfermagem no Brasil A organização da Enfermagem na Sociedade Brasileira começa no período colonial e vai até o final do século XIX. A profissão surge como uma simples prestação de cuidados aos doentes, realizada por um grupo formado, na sua maioria, por escravos, que nesta época trabalhavam nos domicílios. Desde o princípio da colonização foi incluída a abertura das Casas de Misericórdia, que tiveram origem em Portugal. A primeira Casa de Misericórdia foi fundada na Vila de Santos, em 1543. Em seguida, ainda no século XVI, surgiram as do Rio de Janeiro, Vitória, Olinda e Ilhéus. Mais tarde Porto Alegre e Curitiba, esta inaugurada em 1880, com a presença de D. Pedro II e Dona Tereza Cristina. No que diz respeito à saúde do povo brasileiro, merece destaque o trabalho do Padre José de Anchieta. Ele não se limitou ao ensino de ciências e catequeses. Foi além. Atendia aos necessitados, exercendo atividades de médico e enfermeiro. Em seus escritos encontramos estudos de valor sobre o Brasil, seus primitivos habitantes, clima e as doenças mais comuns. A terapêutica empregada era à base de ervas medicinais minuncioasamente descritas. Supõe-se que os Jesuítas faziam a supervisão do serviço que era prestado por pessoas treinadas por eles. Não há registro a respeito. Outra figura de destaque é Frei Fabiano Cristo, que durante 40 anos exerceu atividades de enfermeiro no Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro (Séc. XVIII). Os escravos tiveram papel relevante, pois auxiliavam os religiosos no cuidado aos doentes. Em 1738, Romão de Matos Duarte consegue fundar no Rio de Janeiro a Casa dos Expostos. Somente em 1822, o Brasil tomou as primeiras medidas de proteção à maternidade que se conhecem na 15 legislação mundial, graças a atuação de José Bonifácio Andrada e Silva. A escola de parteiras da Faculdade de Medicina diplomou no ano seguinte a célebre Madame Durocher, a primeira parteira formada no Brasil. Assim sendo, na enfermagem brasileira do tempo do Império, raros nomes de destacaram e, entre eles, merece especial menção o de Anna Nery. Anna Nery Aos 13 de dezembro de 1814, nasceu Ana Justina Ferreira, na Cidade de Cachoeira, na Província da Bahia. Casou-se com Isidoro Antonio Nery, enviuvando aos 30 anos. Seus dois filhos, um médico militar e um oficial do exército, são convocados a servir a Pátria durante a Guerra do Paraguai (1864-1870), sob a presidência de Solano Lopes. O mais jovem, aluno do 6º ano de Medicina, oferece seus serviços médicos em prol dos brasileiros. Anna Nery não resiste à separação da família e escreve ao Presidente da Província, colocando-se à disposição de sua Pátria. Em 15 de agosto parte para os campos de batalha, onde dois de seus irmãos também lutavam. Improvisa hospitais e não mede esforços no atendimento aos feridos. Após cinco anos, retorna ao Brasil, é acolhida com carinho e louvor, recebe uma coroa de louros e Victor Meireles pinta sua imagem, que é colocada no edifício do Paço Municipal. O governo imperial lhe concede uma pensão, além de medalhas humanitárias e de campanha. Faleceu no Rio de Janeiro a 20 de maio de 1880. A primeira Escola de Enfermagem fundada no Brasil recebeu o seu nome. Anna Nery que, como Florence Nightingale, rompeu com os preconceitos da época que faziam da mulher prisioneira do lar. Desenvolvimento da Educação em Enfermagem no Brasil (Séc. XIX e XX) Ao final do século XIX, apesar de o Brasil ainda ser um imenso território com um contigente populacional pouco e disperso, um processo de urbanização lento e progressivo já se fazia sentir nas cidades que possuíam áreas de mercado mais intensas, como São Paulo e Rio de Janeiro. As doenças infecto-contagiosas, trazidas pelos europeus e pelos escravos africanos, começam a propagar-se rápida e progressivamente. A questão saúde passa a constituir um problema econômico-social. Para deter esta escalada que ameaçava a expansão comercial brasileira, o governo, sob pressões externas, assume a assistência à saúde através da criação de serviços públicos. A formação de pessoal de Enfermagem para atender inicialmente aos hospitais civis e militares e, posteriormente, às atividades de saúde pública, principiou com a criação, pelo governo, da Escola Profissional de Enfermeiros e Enfermeiras, no Rio de Janeiro, junto ao Hospital Nacional de Alienados do Ministério dos Negócios do Interior. Esta escola, que é de fato a primeira escola de Enfermagem brasileira, foi criada pelo Decreto Federal nº 791, de 27 de setembro de 1890, e denomina-se hoje Escola de Enfermagem Alfredo Pinto, pertencendo à Universidade do Rio de Janeiro - UNI-RIO. 16 No início do século XX o ensino profissional ainda com traços assistencialistas, tinha objetivo de formar operários, trabalhadores, assistindo aos pobres e visando à diminuição da vagabundagem e da criminalidade (BRASIL, 1999). A formação profissionalizante na área da enfermagem seguiu a mesma lógica das demais categorias profissionais. Assim, o curso de Auxiliar de Enfermagem emergiu em 1949, articulado ao contexto sócio-econômico, com a industrialização e a urbanização crescente, aumentando a demanda de profissionais de enfermagem, com menor tempo de escolarização, para assistência no setor hospitalar (GEOVANINI, 1995). O curso técnico em enfermagem foi criado somente em 1966 para atender a demanda posta pelos avanços tecnológicos na área hospitalar (RODRIGUES, 2007). O técnico em enfermagem trabalha integrado à equipe de enfermagem e é encarregado de proporcionar os cuidados diários necessários para a assistência ao doente (AVELLO; GRAU, 2003)10. TEORIAS DE ENFERMAGEM Uma teoria científica é uma explicação de um aspecto do mundo natural que pode ser repetidamente testado e verificado de acordo com o método científico, usando protocolos aceitos de observação, medição e avaliação de resultados. Atualmente, a Enfermagem não é somente arte, mas uma ciência, pois baseia-se em princípios científicos1. As Teorias de Enfermagem, longe de serem meros conteúdos teóricos, traduzem em seus conceitos e modelos o infinito do trabalho da Enfermagem, fundamentado na ciência do conhecimento e do saber, cultural, social, comportamental, envolvendo o indivíduo não apenas como pessoa, mas enquanto família, social, profissional, comunidade, cultura e instituição1. As teorias de Enfermagem nos indicam, sugerem, apontam uma direção de como ver fatos e eventos para,assim, direcionar o planejamento e determinação das intervenções de Enfermagem. São teorias orientadas para tese das necessidades e problemas (POTTER;PERRY, 2004). O estudo das teorias de enfermagem, para o técnico de enfermagem, ajuda a compreender o cuidado de enfermagem como ciência, fundamentada em referenciais teóricos, de grandes cientistas da enfermagem, que regem a assistência de enfermagem focada no indivíduo de modo holístico. Entender o motivo de o cuidar ser de um ou de outro jeito, para diferentes indivíduos. Existem dezenas de teorias de enfermagem, vamos conhecer as principais delas. TEORIA AMBIENTAL (FLORENCE NIGHTNGALE 1920-1910) Foco principal da Teoria: Ambiente Homem: Indivíduo cujas defesas naturais são influenciadas por um ambiente saudável ou não; Saúde: Processo reparador Ambiente: Condições externas capazes de prevenir doenças, suprimi-las ou contribuir para ela. Enfermagem: Modificar os aspectos não- saudáveis do ambiente a fim de colocar o paciente na melhor condição para ação da natureza. 17 TEORIA DAS NECESSIDADES BÁSICAS (Virginia Henderson - 1897) Foco: Necessidades Básicas Homem: Indivíduos com necessidades humanas com significado e valor singular a cada pessoa Saúde: Capacidade para satisfazer as necessidades humanas (Físicas, Psicológicas e Sociais) Ambiente: Cenário em que o indivíduo aprende padrões singulares de vida. Enfermagem: Assistência temporária a um indivíduo que possua dificuldades para satisfazer uma ou mais necessidades básicas. TEORIA DO AUTOCUIDADO Dorothea Orem (1914) Foco: Autocuidado Homem: Indivíduo que utiliza o autocuidado para manter a vida e a saúde, recupera-se da doença e consegue enfrentar seus defeitos. Saúde: Resultado das práticas aprendidas pelos indivíduos para manter a vida e o bem- estar. Ambiente: Os elementos externos com os quais o homem interage em sua luta para manter o autocuidado. Enfermagem: Auxilia o indivíduo a maximizar, progressivamente, seu potencial para o autocuidado. Consiste basicamente na ideia de que os indivíduos, quando capazes, devem cuidar de si mesmos; quando existe incapacidade, a enfermagem interage no processo do cuidar. Uma das características que compõem a Teoria do Autocuidado é a Teoria do Déficit, compostas por três teorias inter-relacionadas: Teoria do Déficit do Auto, Cuidado, Teoria do Cuidado, Teoria dos Sistemas de Enfermagem. TEORIA DA ADAPTAÇÃO Sister Calista Roy (1939) Foco: Homem em adaptação Homem: Ser social, mental, espiritual e físico, afetado por estímulos do ambiente interno e externo. Saúde: Capacidade do indivíduo para adaptar-se a mudanças no ambiente. Ambiente: Forças internas e externas em um estado de contínua mudança. Enfermagem: Arte humanitária e ciência em expansão que manipula e modifica os estímulos de modo a promover e facilitar a capacidade adaptativa do homem. Neste processo a enfermagem como componente da equipe multidisciplinar que mais está perto do paciente, tem a responsabilidade de ajudar o cliente a passar por adaptações, fruto de um estado de doença, perda de um membro, uma nova condição patológica, todo esse processo de adaptação é importante para o processo de saúde física ou mental do próprio indivíduo. 18 TEORIA DAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS Hildegard Peplau (1952) Foco: Relação interpessoal Enfermeiro/Cliente Homem: Indivíduo que luta para reduzir a tensão gerada pelas necessidades. Saúde: É um símbolo que implica movimentos adiante da personalidade e outros processos humanos em curso, na direção de uma vida criativa, produtiva, pessoal e comunitária Ambiente: Considera cultura e costumes do cliente no ambiente hospitalar Enfermagem: Processo interpessoal, significativo e terapêutico, onde o enfermeiro é capaz de reconhecer a necessidade de ajudar o cliente a reagir a ela. Sua teoria teve como principal contribuinte para a reforma da lei da saúde mental, ela abriu o caminho para o tratamento humano de pacientes com distúrbios de comportamento e personalidade. Peplau via a enfermagem como uma profissão educativa que promove a saúde do indivíduo. TEORIA DAS NECESSIDADES HUMANAS BÁSICAS Wanda Horta (1970) Foco: O ser humano e as necessidades humanas básicas. Homem: O ser humano faz parte de um sistema familiar e social. E visto pela Teoria das Necessidades Humanas Básicas como um ser holístico, um todo, em interação com seu ambiente. Enfermagem: A Enfermagem tem como propósito assistir o ser humano no atendimento de suas necessidades básicas e, para isso, busca sempre acumular conhecimentos e técnicas empíricas, relacionadas entre si, que procuram explicar os fatos a luz do universo natural. Horta inspira-se no desenvolvimento de seus estudos, na Teoria da Motivação Humana de Maslow, fundamentada nas necessidades humanas básicas. Elaborou sua teoria sobre a motivação humana, fundamentado nas necessidades humanas básicas assim descritas: - Necessidades fisiológicas; - Segurança; - Amor; - Estima; - Autorrealização. CONFLITOS ÉTICOS Nas últimas décadas, com o progresso da tecnociência, tornou-se possível prolongar a vida de uma Pessoa portadora de doença irreversível e com prognóstico reservado, alterando o paradigma da morte e a percepção da sociedade, 19 focada na cultura e na religião, face às questões de fim de vida. Sendo os cuidados de fim de vida, um assunto delicado, as Pessoas doentes, famílias, enfermeiros e médicos tendem a atrasar ou adiar as conversas sobre o prognóstico e as opções de tratamento de fim de vida, podendo levar à implementação de tratamentos desnecessários, ou seja, à obstinação terapêutica. A obstinação terapêutica consiste no uso e manutenção de procedimentos diagnósticos ou terapêuticos, não eficazes na sobrevida da Pessoa ou na melhoria da qualidade de vida, possibilitando o prolongamento da vida, causando, frequentemente, sofrimento para a Pessoa e seus familiares, tornando o final de vida num momento solitário e doloroso. O paciente e o profissional estão inseridos nas esferas humana, ética e social com dilemas e ambiguidades no agir e no pensar, por isso o discernimento, a reflexão em relação às atitudes, crenças e valores devem fundamentar o agir livre, consciente e responsável2. A enfermagem por trabalhar em equipe, convive com pessoas que possuem aspectos culturais e sociais diversos, levando a ocorrência dos dilemas éticos pela diferença de valores, crenças e experiências, bem como da formação ética, humana e profissional de cada indivíduo. Oguisso diz que “os dilemas éticos são situações em que a pessoa se vê “forçada” (tem que decidir) a tomar decisão entre duas ou mais alternativas de ação2. Neste sentido a pessoa ao decidir deve ser o mais imparcial possível, pois muitas vezes as soluções dos dilemas éticos exigem um compromisso vinculado à responsabilidade pela escolha da ação” 2. Como os valores não são absolutos e as questões éticas não contém fórmulas matemáticas com respostas exatas e fechadas é preciso compreender e refletir sobre os princípios éticos e utilizar além das leis e orientações do código de deontologia, a autonomia e a experiência para caminhar às vezes na incerteza, mas nunca se omitindo da responsabilidade de cuidar o paciente e dos membros de sua equipe2. - A história da legislação básica de Enfermagem A Lei nº 775, de 6 de agosto de 1949, ao dispor sobre o ensino de enfermagem, criou oficialmente o curso de auxiliar de enfermagem, em dezoito meses, aberto para homens e mulheres. De acordo com a lei, a principal atividade dessa nova categoria deveria ser a de auxiliar o enfermeiro em suas atividades de assistência curativa.Não previa, portanto, o trabalho do auxiliar de enfermagem nos serviços de saúde pública. Em 1959, líderes da enfermagem, através da ABEn, fizeram um sério estudo sobre a situação e publicaram o Levantamento de Recursos e Necessidades de Enfermagem no Brasil, que mostrou, além das enormes diferenças existentes nos currículos dos cursos de auxiliar de enfermagem em todo o país, a insuficiência nos conteúdo das disciplinas, pois, na prática, os auxiliares de enfermagem estavam executando atividades mais complexas que as previstas no ensino, e na maior parte das vezes sem supervisão ou orientação de enfermeira O estudo também comprovou a existência de grande número de pessoas realizando atividades de enfermagem sem título ou preparo formal em curso reconhecido. Eram os atendentes de enfermagem que, na verdade, constituíam mais da metade do pessoal que trabalhava nos serviços de saúde. Embora fosse um grupo enorme, era marginalizado dentro da enfermagem. O preparo de atendentes de enfermagem havia sido feito, muitas vezes, em instituições hospitalares privadas ou filantrópicas ou através de cursos não reconhecidos pelas Secretarias de Educação. A promulgação ou aprovação e publicação da Lei nº 4.024/61, de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), em dezembro desse ano e em vigor a partir de 1962, foi de grande importância na regulamentação dos cursos na área de enfermagem, anos mais tarde. Essa lei definiu a educação nacional em três faixas de ensino: primário, médio (ginasial e colegial) e superior, e a necessidade de formação de técnicos em nível colegial em qualquer ramo de atividade, como condição para o progresso da Nação. Com os dados obtidos no levantamento citado, a ABEn fez diversas recomendações ao Ministério da Educação e Cultura, que respondeu 20 ao apelo baixando a Portaria nº 106/65, para fixar normas reguladoras do curso de auxiliar de enfermagem, já agora com base na LDB. Entretanto, por essa portaria o currículo deveria ser desenvolvido em dois anos letivos, e incluir cinco disciplinas de cultura geral correspondentes às duas primeiras séries do curso ginasial. Em 1967, os enfermeiros conseguiram a aprovação, em caráter experimental, da criação de um curso intensivo de auxiliar de enfermagem, com a redução do currículo para onze meses letivos, mas tendo como requisito de ingresso o certificado de conclusão do curso ginasial. Com isso, os alunos não teriam que estudar as cinco disciplinas do ginásio e poderiam dedicar-se em tempo integral às matérias específicas de enfermagem. Na época, havia um movimento entre enfermeiros para criar outra categoria intermediária, a do Técnico de Enfermagem, prevista pela própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Era uma tentativa de formar um maior número de profissionais de enfermagem, com um poder de atuação mais amplo que o do auxiliar e com capacidade para substituir, em algumas situações, o profissional de nível superior. Assim, em 1966, embora nem todos os profissionais da área estivessem plenamente convencidos e de acordo, foi criado um curso intermediário que formaria o Técnico de Enfermagem, o mais novo membro da equipe de enfermagem. Alguns anos depois, em 1972, o governo federal aprovou uma nova Lei de Diretrizes e Bases, a Lei nº 5.692, de 11 de agosto de 1972, sobre o ensino de 1o e 2o graus, unificando o antigo primário e ginasial para formar o ensino de 1o grau, e o antigo colegial passou a ser curso de 2o grau. Com isso, a LDB alterou completamente o sistema de ensino e criou os cursos supletivos, inclusive o supletivo profissionalizante. Essa nova legislação federal provocou a necessidade de adaptação da legislação do ensino de enfermagem, o que foi feito pelas Resoluções nos 7/77 e 8/77, do Conselho Federal da Educação, que regulamentaram o ensino de ambos os níveis de enfermagem, determinando novo currículo e número de horas de estudo e estágios necessários para cada curso. No mesmo período, a Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), depois de mais de 20 anos de lutas, conseguiu a aprovação, pelo Congresso Nacional, da Lei nº 5.905, de 12 de julho de 1973, criando o Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) e os conselhos regionais de enfermagem (COREN), em cada estado do país. Conforme estabelece a lei, o COFEN e os COREN “são órgãos disciplinadores do exercício da profissão de enfermeiro e das demais profissões compreendidas nos serviços de enfermagem”. Como órgão disciplinador, o COREN deve fiscalizar o exercício profissional e, nele, todas as pessoas que exercem a enfermagem são obrigadas a estar devidamente inscritas. Além dos enfermeiros, técnicos de enfermagem e auxiliares de enfermagem, existem outras categorias - como obstetrizes e parteiras que também fazem parte do pessoal de enfermagem. Para fiscalizar o exercício profissional, o COREN funciona como um tribunal de ética e, como tal, tem por função: -Verificar quem pode exercer a profissão; -Averiguar os trabalhadores de enfermagem que estiverem exercendo ilegalmente sua profissão; -Avaliar se os profissionais que exercem legalmente a profissão estão cumprindo corretamente suas obrigações; -Aplicar as penalidades previstas às pessoas que ferem a ética profissional. A legislação atual Como parte de suas funções, o COFEN tratou de criar um código de ética profissional para orientar todos os membros da equipe de enfermagem sobre como agir quando no exercício de suas atividades. Está, atualmente, em vigor o Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem, ao qual todos os trabalhadores da 21 área estão obrigados a respeitar. Além de dar as linhas gerais do comportamento ético, o COFEN procurou também atualizar a legislação do exercício profissional. Para tanto, conseguiu a aprovação da Lei nº 7.498, de 25 de junho de 1986, regulamentada pelo Decreto-Lei nº 94.406, de 8 de junho de 1987. É importante destacar que a Lei nº 7.498 não reconheceu como categoria profissional os atendentes de enfermagem, estabelecendo em seu artigo 23 que os profissionais que executavam tarefas de enfermagem sem possuir formação específica seriam autorizados pelo COFEN a exercer atividades elementares de enfermagem, sempre sob a supervisão do enfermeiro. Ao mesmo tempo, determinou que essa autorização seria concedida durante o prazo de dez anos, a fim de que os trabalhadores que se encontrassem nessa condição viessem a se qualificar formalmente como auxiliar de enfermagem. Findo o prazo estipulado em Lei, o COFEN, no uso de suas atribuições legais passou a fiscalizar os trabalhadores que não estavam devidamente habilitados, enquadrando-os no exercício ilegal da profissão. Para escapar dessa fiscalização, algumas instituições usaram – e continuam usando até hoje – a estratégia de não registrar adequadamente os “atendentes de enfermagem” não qualificados, induzindo-os a uma relação informal de emprego, ou então, registrando-os em outras funções, tais como auxiliares de serviços gerais ou braçais, auxiliares de saúde, dentre outros. Legalmente, o ténico de enfermagem pode executar as seguintes atividades: - Preparar o paciente para consultas, exames e tratamentos; - Observar, reconhecer e descrever sinais e sintomas, ao nível de sua qualificação; - Executar tratamentos especificamente prescritos, ou de rotina, além de outras atividades de enfermagem, tais como: a) ministrar medicamentos por via oral e parenteral; b) realizar controle hídrico; c) fazer curativos; d) aplicar oxigenoterapia, nebulização, enteroclisma, enema e calor ou frio; e) executar tarefas referentes à conservação e aplicação de vacinas; f) efetuar o controle de pacientes e de comunicantes em doenças transmissíveis; g)realizar testes e proceder à sua leitura, para subsídio de diagnósticos; h) colher material para exames laboratoriais; i) prestar cuidados de enfermagem no pré e pós-operatório; j) circular em sala de cirurgia e, se necessário, instrumentar; l) executar atividades de desinfecção e esterilização - Prestar cuidados de higiene e conforto ao paciente e zelar por sua segurança, inclusive: a) alimentá-lo ou auxiliá-lo a alimentar-se; b) zelar pela limpeza e ordem do material, dos equipamentos e das dependências de unidades de saúde; - Integrar a equipe de saúde; - Participar de atividades de educação em saúde, inclusive: a) orientar os pacientes na pós-consulta, quanto ao cumprimento das prescrições de enfermagem e médicas; b) auxiliar o Enfermeiro e o Técnico de Enfermagem na execução dos programas de educação para a saúde ; - Executar os trabalhos de rotina vinculados à alta de pacientes ; - Participar dos procedimentos pós-morte; Para finalizar este tópico, ainda é preciso assinalar que a legislação educacional em vigor, a nova LDB, Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, estabeleceu novas diretrizes e bases da educação nacional e re-definiu os níveis de educação básica. O antigo primeiro grau passou a chamar-se ensino fundamental e o segundo grau, ensino médio. Além disso, foi estabelecida nova caracterização para a educação profissional. Desse modo, ficou instituído pelo Decreto nº 2.208, de 17 de abril de 1997 que a Educação Profissional das profissões técnicas se compõe de três níveis, relacionando-se com a educação geral, conforme descrito abaixo: Básico - destinado à qualificação, requalificação e reprofissionalização de trabalhadores, independentemente de escolaridade prévia; Técnico - com o fim de proporcionar habilitação profissional a alunos egressos do ensino médio; Tecnológico - que corresponde aos cursos de nível superior na área tecnológica, destinados a egressos do ensino médio e técnico. Especificamente sobre a Qualificação Profissional para a área de Enfermagem, o Parecer nº 10/2000 da Câmara de Educação Básica do Conselho 22 Nacional de Educação estipula que o requisito para entrar no curso de auxiliar de enfermagem é a conclusão do ensino fundamental. E o curso de Auxiliar de Enfermagem faz parte do itinerário para a formação de técnicos, representando um módulo ou um primeiro patamar dessa formação. CÓDIGO DE ÉTICA DOS PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM O Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem (CEPE) contém normas, princípios, direitos e deveres pertinentes à conduta ética do profissional, que deverão ser assumidos por todos. Além do código de ética, o exercício profissional é limitado pelo Código Penal Brasileiro (CPB). O Código de Ética Profissional de Enfermagem está relacionado às ações dos profissionais de enfermagem e o Código Penal Brasileiro se relaciona ao profissional como cidadão. Diante disso, destacamos a abordagem em ambos os códigos de alguns temas polêmicos tais como bioética, aborto, eutanásia, imperícia, imprudência e negligência, porque todos os profissionais poderão responder a estas duas instâncias. BIOÉTICA Bioética pode ser definida como a ética aplicada aos problemas da vida e da saúde dos indivíduos e das coletividades. Preocupa-se com os problemas éticos que envolvem a vida tais como métodos de fecundação, pesquisas em seres humanos, transplantes, eutanásia, aborto entre outros. A bioética surgiu no início dos anos 1970, nos Estados Unidos e ao Brasil, tardiamente, em meados da década de 90. Porém, neste curto espaço de tempo, o seu crescimento foi significante, conquistando admiração e respeitabilidade internacional. Nesse caminhar, em meio a esta expansão da bioética no Brasil, às mudanças ocorridas na política de saúde brasileira e às novas demandas de cuidados em saúde, devido principalmente às transformações ocorridas no perfil epidemiológico da população brasileira, houve a necessidade de formar novos perfis profissionais e de incluir os conteúdos da bioética no currículo de formação dos profissionais da saúde e, consequentemente, da enfermagem4. Falar em bioética como uma parte da ética, significa focalizar questões que se referem à vida humana. De acordo com a Encyclopedia of Bioethics, bioética pode ser conceituada como "o estudo sistemático do comportamento humano na área das ciências da vida e dos cuidados da saúde, quando se examina esse comportamento à luz dos valores e dos princípios morais". (Bellino, 1997, p.21)5. Então, a bioética se preocupa com as questões referentes à vida humana, desde o seu início até o seu final, à pesquisa com seres humanos, à engenharia genética, métodos de fecundação, transplante de órgãos, manutenção da vida, pacientes terminais, dentre outros temas5. ABORTO É abortamento a expulsão do ovo antes de sua vitabilidade. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, abortamento é a expulsão ou a extração do concepto pesando menos de 500g, que equivalem aproximadamente, a 20-22 semanas 23 completas. O abortamento pode ser espontâneo ou provocado. Qualquer doença materna grave, ou traumatismo pode levar ao abortamento. Tipos de aborto6: - Aborto espontâneo: acontece sem intervenção humana; - Aborto provocado: é desencadeado por atitude humana intencional ou não. INDICAÇÕES MÉDICAS6. 1. Quando certos testes (amniocentese) acusa feto com anomalia, malformação severa (espinha bífida), ou outro defeito genético grave. 2. Quando coloca a vida da mãe em risco. 3. No Brasil, além dos motivos citados, o estupro (Violência Sexual), também constitui indicação para aborto (respaldo da lei). DEONTOLOGIA E O ABORTAMENTO6 No artigo 45 do CEPE é vedado aos profissionais de enfermagem “provocar aborto, ou cooperar em prática destinada a interromper a gestação”. Entretanto, nos casos previstos em Lei, fica a critério do profissional de enfermagem a participação no ato abortivo. O código penal brasileiro tem como duas situações legais: a) Salvar a vida da mãe; b) Gravidez resultante de estupro. EUTANÁSIA É a prática pela qual se abrevia, sem dor ou sofrimento, a vida de um enfermo incurável. A eutanásia representa atualmente uma questão de bioética6. Independentemente da forma de Eutanásia praticada, seja ela legalizada ou não, é considerada como um assunto controverso, existindo sempre prós e contras – teorias eventualmente mutáveis com o tempo e a evolução da sociedade, tendo sempre em conta o valor de uma vida humana6. Na América Latina, o Uruguai tolera a eutanásia, porém, segundo cada caso, sendo que a análise é feita por um juiz. No país, existe a possibilidade de cancelar a pena quando o homicídio é feito em função de pedidos insistentes do paciente e considerando o seu histórico de vida7. Já no Brasil, a eutanásia é enquadrada como homicídio, podendo ainda ser tipificada como auxílio ao suicídio no caso do paciente solicitar ajuda para terminar com sua vida. Pode haver uma diminuição na pena ao homicídio privilegiado, quando o ato acontece sob domínio de violenta emoção ou por valor social ou moral. Desde o ponto de vista da ética médica, a eutanásia é uma prática antiética. No entanto, o Conselho Federal de Medicina aceita a prática da ortotanásia desde 20107. O CEPE, em seu artigo 46, proíbe que o profissional de enfermagem promova ou coopere na prática destinada a antecipar a morte do cliente e o CPB, em seu artigo 121, considera como homicídio culposo. DISTANÁSIA É o oposto de eutanásia. A distanásia defende que devem ser utilizadas todas as possibilidades para prolongar a vida de um ser humano, ainda que a cura não seja uma possibilidade e o sofrimento se torne demasiadamente penoso. Os avanços tecnológicos e científicostiveram sua importância na visão atual do que significa morrer. "Esta tecnologia permitiu um controle sem igual das funções fisiológicas do paciente, podendo prolongar sua vida nos momentos finais" (Moreira e Biehl, 2004, p.26). Ou sejam a distanásia significa prolongamento exagerado do processo de morte. 24 Pode também ser empregado como sinônimo de tratamento inútil. No mundo europeu fala-se de "obstinação terapêutica", e nos Estados Unidos de "futilidade médica" (medical futility). Para você, até que ponto se deve prolongar o processo de morrer quando não há mais esperança de reverter o quadro? ORTOTANÁSIA De acordo com os princípios éticos, tão logo seja definido que o paciente não é mais “salvável”, nossos esforços devem ser dirigidos no sentido de promover e priorizar o seu conforto, bem-estar e qualidade de vida, para diminuir o seu sofrimento e evitar o prolongamento de sua vida "a qualquer custo"9. Essa postura está muito distante da promoção do óbito, como proposto pela eutanásia que, à luz dos conhecimentos atuais, não se enquadra nem no princípio da beneficência nem no da não maleficência6. No que se refere a ortotanásia, esta, opondo-se a Distanásia, defende que se reconheça o momento natural da morte de um indivíduo, não se procedendo a qualquer tipo de meio para manter ou prolongar a sua vida. Significa que se deve deixar o ser humano morrer em paz, sem que se promova e acelere esse processo de deixar a vida6. A resolução do (CFM) possibilita a ortotanásia nos hospitais do País. Para doentes terminais e com enfermidades graves ou incuráveis, é permitido ao médico, com autorização do cliente ou de algum responsável, limitar procedimento ou tratamento que prolonguem a vida do doente. A prática é diferente da eutanásia, que antecipa uma morte inevitável6. Apesar de polêmica, a medida recebeu o apoio da Igreja Católica6. Ordem de Não Reanimar (ONR), (DNR). Ao falar-se de final de vida, pressupomos uma paragem cardiorrespiratória (PCR) e, segundo o princípio básico da reanimação, todas as vítimas de uma PCR devem ser reanimadas, a menos que haja uma decisão prévia para não reanimar, ou seja, exista uma Ordem de Não Reanimação (ONR) ou (DNR) decisão de não reanimação do inglês Do Not Resuscitate. Esta decisão é baseada no contexto e situação da Pessoa com doença terminal ou incurável e define que, em caso de paragem cardiorrespiratória, não se deverão tomar medidas de ressuscitação, uma vez que não existem quaisquer procedimentos que visem a cura3. Nesse caso, estaríamos a ser cúmplices no prolongar do desconforto da Pessoa doente3. Ordem de Não Reanimar (ONR) consiste na expressa autorização do paciente ou, quando pertinente, do cônjuge, companheiro, representante ou dos familiares para a não adoção de medidas de reanimação em caso de parada cardiorrespiratória na fase terminal de doença 25 incurável ou em circunstâncias que tornem irreversível sua recuperação. A decisão de não reanimar é adotada pelo médico assistente após ponderação e discussão com a equipe clínica sobre a inutilidade das manobras. Eticamente e segundo o código deontológico, o médico não pode prescrever a ONR sem conhecimento e aprovação da Pessoa e respetiva família3. A implementação da ONR não limita os cuidados de saúde e de conforto, pois as pessoas sujeitas a ONR continuam a receber fluídos intravenosos, medicação para conforto e alívio da dor, antibióticos e outros cuidados paliativos. Continuam a ser aplicadas terapêuticas focadas na patologia e efetuados cuidados diferenciados numa perspectiva holística, tendo em conta o bem- estar da pessoa e família3. Existem quatro dimensões a ter em conta na ONR3. 1 - Dimensão Clínica – a DNR deve ser tomada tendo em conta: diagnóstico; prognóstico; tempo de paragem cardiorrespiratória que decorre até à chegada da equipa de emergência; sobrevida da pessoa; qualidade de vida; 2 - Dimensão Ética – a Decisão de Não Reanimar deve ter em consideração: a idade da pessoa; evitar sofrimento humano; evitar a distanásia e futilidade terapêutica; Decisão do doente; Decisão da família; dignificação da morte; envolvimento da família na tomada de decisão; 3 - Dimensão legal, ética e deontológica – deve ser uma decisão tomada pela equipa multidisciplinar; não deve ser confundida com eutanásia; deve fazer parte da formação dos profissionais; 4 - Dimensão pessoal – existe ainda a referência a uma tomada de decisão baseada num pressuposto da formação pessoal. TRANSFUSÃO SANGUÍNEA Apesar das diferenças, o sangue é o mais facilmente partilhado dos tecidos humanos, salvando milhares de vida, a cada ano, por meio de transfusões. Uma transfusão é a transferência de sangue total, ou de componentes sanguíneos para a corrente sanguínea. Uma transfusão é feita, com maior frequência, para aliviar a anemia ou quando o volume de sangue estiver diminuído, após uma hemorragia grave, por exemplo. Tipos de transfusões: 1. Concentrado de hemácias= Usado para correção de anemias; 2. Concentrado de plaquetas= Usado para correção de deficiência plaquetária, evitando e tratando hemorragias; 3. Crioprecipitado= Componente rico em fatores de coagulação, utilizados para tratamento de hemofílicos A. 4. Plasma fresco congelado= Reposição de proteínas e fatores de coagulação, usado em clientes com infecção generalizada. Recusa por convicção religiosa Embora a prescrição de sangue seja atribuição médica, sua aplicação quando necessária, muitas vezes fica a cargo da enfermagem. Neste momento, às vezes, surge o impasse, pois há clientes que impedem a transfusão de sangue em seus filhos ou familiares, mesmo que disso sobrevenha à morte. Trata-se da religião Testemunhas de Jeová que considera a transfusão de sangue proibida pela Bíblia. A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia estudou a questão e expressou-se oficialmente em um documento cujas conclusões Os Conselhos Regionais de Medicina aceitam e 26 sugerem ser adotada, mas não impõem. O documento reduz o problema a três aspectos: 1. O adulto consciente; 2. O adulto inconsciente; 3. A criança, o menor de idade, ou incapaz. • O adulto consciente: sugere-se respeitar suas convicções, mas exige-se que ele assine uma declaração isentando de responsabilidade à instituição, o médico e quem dele cuidar. O adulto inconsciente: o documento admite que o sangue possa ser aplicado, desde que nem o cliente nem seus familiares venham, a saber. O problema básico é evitar o trauma psicológico e espiritual, enquanto a vida é salva; A criança menor de idade, o incapaz: aqui, o problema está nos pais e tutores que impõe sua convicção aos filhos e tutelados sob o amparo de pátrio poder. A orientação do documento é de que se respeite sua decisão, mas deve-se exigir deles a assinatura do termo de responsabilidade. • De todas as sugestões, salienta-se o respeito pelas convicções religiosas, embora possam ser consideradas radicais. NEGLIGÊNCIA X IMPRUDÊNCIA X IMPERÍCIA Imperícia refere-se à falta de conhecimento técnico científico para a realização de determinada ação. Exemplo: a realização da cateterização vesical pelo auxiliar de enfermagem sem o devido treinamento, colocando em risco a saúde da pessoa sob seus cuidados. Negligência trata-se de descuido e/ou desatenção na realização de uma atividade. Exemplos: a administração de uma medicação ao cliente errado; ou não elevar as grades das camas de pacientes confusos ou com agitação psicomotora. Imprudência está relacionada à precipitação, ou seja, à realização de ações de enfermagem sem cautela, não respeitando as normas de segurança. Exemplo, ministrar uma medicação sem que haja a confirmação da presença de fatores alérgicos.O CEPE, em seu capítulo sobre as responsabilidades, no artigo 16, prevê “assegurar ao cliente uma Assistência de Enfermagem livre de danos decorrentes de imperícia, negligência ou imprudência”, sendo fundamental que os profissionais saibam o significado desses conceitos com a finalidade de se defender de uma possível acusação. 27 ANEXO DA RESOLUÇÃO COFEN Nº 0564/2017 PREÂMBULO O Conselho Federal de Enfermagem, ao revisar o Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem – CEPE, norteou•se por princípios fundamentais, que representam imperativos para a conduta profissional e consideram que a Enfermagem é uma ciência, arte e uma prática social, indispensável à organização e ao funcionamento dos serviços de saúde; tem como responsabilidades a promoção e a restauração da saúde, a prevenção de agravos e doenças e o alívio do sofrimento; proporciona cuidados à pessoa, à família e à coletividade; organiza suas ações e intervenções de modo autônomo, ou em colaboração com outros profissionais da área; tem direito a remuneração justa e a condições adequadas de trabalho, que possibilitem um cuidado profissional seguro e livre de danos. Sobretudo, esses princípios fundamentais reafirmam que o respeito aos direitos humanos é inerente ao exercício da profissão, o que inclui os direitos da pessoa à vida, à saúde, à liberdade, à igualdade, à segurança pessoal, à livre escolha, à dignidade e a ser tratada sem distinção de classe social, geração, etnia, cor, crença religiosa, cultura, incapacidade, deficiência, doença, identidade de gênero, orientação sexual, nacionalidade, convicção política, raça ou condição social. Inspirado nesse conjunto de princípios é que o Conselho Federal de Enfermagem, no uso das atribuições que lhe são conferidas pelo Art. 8º, inciso III, da Lei nº 5.905, de 12 de julho de 1973, aprova e edita esta nova revisão do CEPE, exortando os profissionais de Enfermagem à sua fiel observância e cumprimento. PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS A Enfermagem é comprometida com a produção e gestão do cuidado prestado nos diferentes contextos socioambientais e culturais em resposta às necessidades da pessoa, família e coletividade. O profissional de Enfermagem atua com autonomia e em consonância com os preceitos éticos e legais, técnico-científico e teórico-filosófico; exerce suas atividades com competência para promoção do ser humano na sua integralidade, de acordo com os Princípios da Ética e da Bioética, e participa como integrante da equipe de Enfermagem e de saúde na defesa das Políticas Públicas, com ênfase nas políticas de saúde que garantam a universalidade de acesso, integralidade da assistência, resolutividade, preservação da autonomia das pessoas, participação da comunidade, hierarquização e descentralização político•administrativa dos serviços de saúde. O cuidado da Enfermagem se fundamenta no conhecimento próprio da profissão e nas ciências humanas, sociais e aplicadas e é executado pelos profissionais na prática social e cotidiana de assistir, gerenciar, ensinar, CAPÍTULO I – DOS DIREITOS Art. 1º Exercer a Enfermagem com liberdade, segurança técnica, científica e ambiental, autonomia, e ser tratado sem 28 discriminação de qualquer natureza, segundo os princípios e pressupostos legais, éticos e dos direitos humanos. Art. 2º Exercer atividades em locais de trabalho livre de riscos e danos e violências física e psicológica à saúde do trabalhador, em respeito à dignidade humana e à proteção dos direitos dos profissionais de enfermagem. Art. 3º Apoiar e/ou participar de movimentos de defesa da dignidade profissional, do exercício da cidadania e das reivindicações por melhores condições de assistência, trabalho e remuneração, observados os parâmetros e limites da legislação vigente. Art. 4º Participar da prática multiprofissional, interdisciplinar e transdisciplinar com responsabilidade, autonomia e liberdade, observando os preceitos éticos e legais da profissão. Art. 5º Associar•se, exercer cargos e participar de Organizações da Categoria e Órgãos de Fiscalização do Exercício Profissional, atendidos os requisitos legais. Art. 6º Aprimorar seus conhecimentos técnico•científicos, ético•políticos, socioeducativos, históricos e culturais que dão sustentação à prática profissional. Art. 7º Ter acesso às informações relacionadas à pessoa, família e coletividade, necessárias ao exercício profissional. Art. 8º Requerer ao Conselho Regional de Enfermagem, de forma fundamentada, medidas cabíveis para obtenção de desagravo público em decorrência de ofensa sofrida no exercício profissional ou que atinja a profissão. Art. 9º Recorrer ao Conselho Regional de Enfermagem, de forma fundamentada, quando impedido de cumprir o presente Código, a Legislação do Exercício Profissional e as Resoluções, Decisões e Pareceres Normativos emanados pelo Sistema Cofen/Conselhos Regionais de Enfermagem. Art. 10 Ter acesso, pelos meios de informação disponíveis, às diretrizes políticas, normativas e protocolos institucionais, bem como participar de sua elaboração. Art. 11 Formar e participar da Comissão de Ética de Enfermagem, bem como de comissões interdisciplinares da instituição em que trabalha. Art. 12 Abster•se de revelar informações confidenciais de que tenha conhecimento em razão de seu exercício profissional. Art. 13 Suspender as atividades, individuais ou coletivas, quando o local de trabalho não oferecer condições seguras para o exercício profissional e/ou desrespeitar a legislação vigente, ressalvadas as situações de urgência e emergência, devendo formalizar imediatamente sua decisão por escrito e/ou por meio de correio eletrônico à instituição e ao Conselho Regional de Enfermagem. Art. 14 Aplicar o processo de Enfermagem como instrumento metodológico para planejar, implementar, avaliar e documentar o cuidado à pessoa, família e coletividade. Art. 15 Exercer cargos de direção, gestão e coordenação, no âmbito da saúde ou de qualquer área direta ou indiretamente relacionada ao exercício profissional da Enfermagem. Art. 16 Conhecer as atividades de ensino, pesquisa e extensão que envolvam pessoas e/ou local de trabalho sob sua responsabilidade profissional. Art. 17 Realizar e participar de atividades de ensino, pesquisa e extensão, respeitando a legislação vigente. Art. 18 Ter reconhecida sua autoria ou participação em pesquisa, extensão e produção técnico• científica. Art. 19 Utilizar•se de veículos de comunicação, mídias sociais e meios eletrônicos para conceder entrevistas, ministrar cursos, palestras, conferências, sobre assuntos de sua competência e/ou divulgar eventos com finalidade educativa e de interesse social. Art. 20 Anunciar a prestação de serviços para os quais detenha habilidades e competências técnico•científicas e legais. Art. 21 Negar•se a ser filmado, fotografado e exposto em mídias sociais durante o desempenho de suas atividades profissionais. 29 Art. 22 Recusar•se a executar atividades que não sejam de sua competência técnica, científica, ética e legal ou que não ofereçam segurança ao profissional, à pessoa, à família e à coletividade. Art. 23 Requerer junto ao gestor a quebra de vínculo da relação profissional/usuários quando houver risco à sua integridade física e moral, comunicando ao Coren e assegurando a continuidade da assistência de Enfermagem. CAPÍTULO II – DOS DEVERES Art. 24 Exercer a profissão com justiça, compromisso, equidade, resolutividade, dignidade, competência, responsabilidade, honestidade e lealdade. Art. 25 Fundamentar suas relações no direito, na prudência, no respeito, na solidariedade e na diversidade de opinião e posição ideológica. Art. 26 Conhecer, cumprir e fazer cumprir o Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem e demais normativos do Sistema Cofen/Conselhos Regionais de Enfermagem.Art. 27 Incentivar e apoiar a participação dos profissionais de Enfermagem no desempenho de atividades em organizações da categoria. Art. 28 Comunicar formalmente ao Conselho Regional de Enfermagem e aos órgãos competentes fatos que infrinjam dispositivos éticos•legais e que possam prejudicar o exercício profissional e a segurança à saúde da pessoa, família e coletividade. Art. 29 Comunicar formalmente, ao Conselho Regional de Enfermagem, fatos que envolvam recusa e/ou demissão de cargo, função ou emprego, motivado pela necessidade do profissional em cumprir o presente Código e a legislação do exercício profissional. Art. 30 Cumprir, no prazo estabelecido, determinações, notificações, citações, convocações e intimações do Sistema Cofen/Conselhos Regionais de Enfermagem. Art. 31 Colaborar com o processo de fiscalização do exercício profissional e prestar informações fidedignas, permitindo o acesso a documentos e a área física institucional. Art. 32 Manter inscrição no Conselho Regional de Enfermagem, com jurisdição na área onde ocorrer o exercício profissional. Art. 33 Manter os dados cadastrais atualizados junto ao Conselho Regional de Enfermagem de sua jurisdição. Art. 34 Manter regularizadas as obrigações financeiras junto ao Conselho Regional de Enfermagem de sua jurisdição. Art. 35 Apor nome completo e/ou nome social, ambos legíveis, número e categoria de inscrição no Conselho Regional de Enfermagem, assinatura ou rubrica nos documentos, quando no exercício profissional. § 1º É facultado o uso do carimbo, com nome completo, número e categoria de inscrição no Coren, devendo 30 constar a assinatura ou rubrica do profissional. § 2º Quando se tratar de prontuário eletrônico, a assinatura deverá ser certificada, conforme legislação vigente. Art. 36 Registrar no prontuário e em outros documentos as informações inerentes e indispensáveis ao processo de cuidar de forma clara, objetiva, cronológica, legível, completa e sem rasuras. Art. 37 Documentar formalmente as etapas do processo de Enfermagem, em consonância com sua competência legal. Art. 38 Prestar informações escritas e/ou verbais, completas e fidedignas, necessárias à continuidade da assistência e segurança do paciente. Art. 39 Esclarecer à pessoa, família e coletividade, a respeito dos direitos, riscos, benefícios e intercorrências acerca da assistência de Enfermagem. Art. 40 Orientar à pessoa e família sobre preparo, benefícios, riscos e consequências decorrentes de exames e de outros procedimentos, respeitando o direito de recusa da pessoa ou de seu representante legal. Art. 41 Prestar assistência de Enfermagem sem discriminação de qualquer natureza. Art. 42 Respeitar o direito do exercício da autonomia da pessoa ou de seu representante legal na tomada de decisão, livre e esclarecida, sobre sua saúde, segurança, tratamento, conforto, bem• estar, realizando ações necessárias, de acordo com os princípios éticos e legais. Parágrafo único. Respeitar as diretivas antecipadas da pessoa no que concerne às decisões sobre cuidados e tratamentos que deseja ou não receber no momento em que estiver incapacitado de expressar, livre e autonomamente, suas vontades. Art. 43 Respeitar o pudor, a privacidade e a intimidade da pessoa, em todo seu ciclo vital e nas situações de morte e pós•morte. Art. 44 Prestar assistência de Enfermagem em condições que ofereçam segurança, mesmo em caso de suspensão das atividades profissionais decorrentes de movimentos reivindicatórios da categoria. Parágrafo único. Será respeitado o direito de greve e, nos casos de movimentos reivindicatórios da categoria, deverão ser prestados os cuidados mínimos que garantam uma assistência segura, conforme a complexidade do paciente. Art. 45 Prestar assistência de Enfermagem livre de danos decorrentes de imperícia, negligência ou imprudência. Art. 46 Recusar•se a executar prescrição de Enfermagem e Médica na qual não constem assinatura e número de registro do profissional prescritor, exceto em situação de urgência e emergência. § 1º O profissional de Enfermagem deverá recusar•se a executar prescrição de Enfermagem e Médica em caso de identificação de erro e/ou ilegibilidade da mesma, devendo esclarecer com o prescritor ou outro profissional, registrando no prontuário. § 2º É vedado ao profissional de Enfermagem o cumprimento de prescrição à distância, exceto em casos de urgência e emergência e regulação, conforme Resolução vigente. Art. 47 Posicionar•se contra, e denunciar aos órgãos competentes, ações e procedimentos de membros da equipe de saúde, quando houver risco de danos decorrentes de imperícia, negligência e imprudência ao paciente, visando a proteção da pessoa, família e coletividade. Art. 48 Prestar assistência de Enfermagem promovendo a qualidade de vida à pessoa e família no processo do nascer, viver, morrer e luto. Parágrafo único. Nos casos de doenças graves incuráveis e terminais com risco iminente de morte, em consonância com a equipe multiprofissional, oferecer todos os cuidados paliativos disponíveis para assegurar o conforto físico, psíquico, social e espiritual, respeitada a vontade da pessoa ou de seu representante legal. Art. 49 Disponibilizar assistência de Enfermagem à coletividade em casos de emergência, epidemia, catástrofe e desastre, sem pleitear vantagens pessoais, quando convocado. Art. 50 Assegurar a prática profissional mediante consentimento prévio do paciente, representante ou responsável legal, 31 ou decisão judicial. Parágrafo único. Ficam resguardados os casos em que não haja capacidade de decisão por parte da pessoa, ou na ausência do representante ou responsável legal. Art. 51 Responsabilizar•se por falta cometida em suas atividades profissionais, independentemente de ter sido praticada individual ou em equipe, por imperícia, imprudência ou negligência, desde que tenha participação e/ou conhecimento prévio do fato. Parágrafo único. Quando a falta for praticada em equipe, a responsabilidade será atribuída na medida do(s) ato(s) praticado(s) individualmente. Art. 52 Manter sigilo sobre fato de que tenha conhecimento em razão da atividade profissional, exceto nos casos previstos na legislação ou por determinação judicial, ou com o consentimento escrito da pessoa envolvida ou de seu representante ou responsável legal. § 1º Permanece o dever mesmo quando o fato seja de conhecimento público e em caso de falecimento da pessoa envolvida. § 2º O fato sigiloso deverá ser revelado em situações de ameaça à vida e à dignidade, na defesa própria ou em atividade multiprofissional, quando necessário à prestação da assistência. § 3º O profissional de Enfermagem intimado como testemunha deverá comparecer perante a autoridade e, se for o caso, declarar suas razões éticas para manutenção do sigilo profissional. § 4º É obrigatória a comunicação externa, para os órgãos de responsabilização criminal, independentemente de autorização, de casos de violência contra: crianças e adolescentes; idosos; e pessoas incapacitadas ou sem condições de firmar consentimento. § 5º A comunicação externa para os órgãos de responsabilização criminal em casos de violência doméstica e familiar contra mulher adulta e capaz será devida, independentemente de autorização, em caso de risco à comunidade ou à vítima, a juízo do profissional e com conhecimento prévio da vítima ou do seu responsável. Art. 53 Resguardar os preceitos éticos e legais da profissão quanto ao conteúdo e imagem veiculados nos diferentes meios de comunicação e publicidade. Art. 54 Estimular e apoiar a qualificação e o aperfeiçoamento técnico•científico, ético•político, socioeducativo e cultural dos profissionais de Enfermagem sob sua supervisão e coordenação. Art. 55 Aprimorar os conhecimentos técnico•científicos, ético•políticos, socioeducativos e culturais, em benefício da pessoa, família e coletividade e dodesenvolvimento da profissão. Art. 56 Estimular, apoiar, colaborar e promover o desenvolvimento de atividades de ensino, pesquisa e extensão, devidamente aprovados nas instâncias deliberativas. Art. 57 Cumprir a legislação vigente para a pesquisa envolvendo seres humanos. Art. 58 Respeitar os princípios éticos e os direitos autorais no processo de pesquisa, em todas as etapas. Art. 59 Somente aceitar encargos ou atribuições quando se julgar técnica, científica e legalmente apto para o desempenho seguro para si e para outrem. Art. 60 Respeitar, no exercício da profissão, a legislação vigente relativa à preservação do meio ambiente no gerenciamento de resíduos de serviços de saúde. 32 CAPÍTULO III – DAS PROIBIÇÕES Art. 61 Executar e/ou determinar atos contrários ao Código de Ética e à legislação que disciplina o exercício da Enfermagem. Art. 62 Executar atividades que não sejam de sua competência técnica, científica, ética e legal ou que não ofereçam segurança ao profissional, à pessoa, à família e à coletividade. Art. 63 Colaborar ou acumpliciar•se com pessoas físicas ou jurídicas que desrespeitem a legislação e princípios que disciplinam o exercício profissional de Enfermagem. Art. 64 Provocar, cooperar, ser conivente ou omisso diante de qualquer forma ou tipo de violência contra a pessoa, família e coletividade, quando no exercício da profissão. Art. 65 Aceitar cargo, função ou emprego vago em decorrência de fatos que envolvam recusa ou demissão motivada pela necessidade do profissional em cumprir o presente código e a legislação do exercício profissional; bem como pleitear cargo, função ou emprego ocupado por colega, utilizando•se de concorrência desleal. Art. 66 Permitir que seu nome conste no quadro de pessoal de qualquer instituição ou estabelecimento congênere, quando, nestas, não exercer funções de enfermagem estabelecidas na legislação. Art. 67 Receber vantagens de instituição, empresa, pessoa, família e coletividade, além do que lhe é devido, como forma de garantir assistência de Enfermagem diferenciada ou benefícios de qualquer natureza para si ou para outrem. Art. 68 Valer•se, quando no exercício da profissão, de mecanismos de coação, omissão ou suborno, com pessoas físicas ou jurídicas, para conseguir qualquer tipo de vantagem. Art. 69 Utilizar o poder que lhe confere a posição ou cargo, para impor ou induzir ordens, opiniões, ideologias políticas ou qualquer tipo de conceito ou preconceito que atentem contra a dignidade da pessoa humana, bem como dificultar o exercício profissional. Art. 70 Utilizar dos conhecimentos de enfermagem para praticar atos tipificados como crime ou contravenção penal, tanto em ambientes onde exerça a profissão, quanto naqueles em que não a exerça, ou qualquer ato que infrinja os postulados éticos e legais. Art. 71 Promover ou ser conivente com injúria, calúnia e difamação de pessoa e família, membros das equipes de Enfermagem e de saúde, organizações da Enfermagem, trabalhadores de outras áreas e instituições em que exerce sua atividade profissional. Art. 72 Praticar ou ser conivente com crime, contravenção penal ou qualquer outro ato que infrinja postulados éticos e 33 legais, no exercício profissional. Art. 73 Provocar aborto, ou cooperar em prática destinada a interromper a gestação, exceto nos casos permitidos pela legislação vigente. Parágrafo único. Nos casos permitidos pela legislação, o profissional deverá decidir de acordo com a sua consciência sobre sua participação, desde que seja garantida a continuidade da assistência. Art. 74 Promover ou participar de prática destinada a antecipar a morte da pessoa. Art. 75 Praticar ato cirúrgico, exceto nas situações de emergência ou naquelas expressamente autorizadas na legislação, desde que possua competência técnica•científica necessária. Art. 76 Negar assistência de enfermagem em situações de urgência, emergência, epidemia, desastre e catástrofe, desde que não ofereça risco a integridade física do profissional. Art. 77 Executar procedimentos ou participar da assistência à saúde sem o consentimento formal da pessoa ou de seu representante ou responsável legal, exceto em iminente risco de morte. Art. 78 Administrar medicamentos sem conhecer indicação, ação da droga, via de administração e potenciais riscos, respeitados os graus de formação do profissional. Art. 79 Prescrever medicamentos que não estejam estabelecidos em programas de saúde pública e/ou em rotina aprovada em instituição de saúde, exceto em situações de emergência. Art. 80 Executar prescrições e procedimentos de qualquer natureza que comprometam a segurança da pessoa. Art. 81 Prestar serviços que, por sua natureza, competem a outro profissional, exceto em caso de emergência, ou que estiverem expressamente autorizados na legislação vigente. Art. 82 Colaborar, direta ou indiretamente, com outros profissionais de saúde ou áreas vinculadas, no descumprimento da legislação referente aos transplantes de órgãos, tecidos, esterilização humana, reprodução assistida ou manipulação genética. Art. 83 Praticar, individual ou coletivamente, quando no exercício profissional, assédio moral, sexual ou de qualquer natureza, contra pessoa, família, coletividade ou qualquer membro da equipe de saúde, seja por meio de atos ou expressões que tenham por consequência atingir a dignidade ou criar condições humilhantes e constrangedoras. Art. 84 Anunciar formação profissional, qualificação e título que não possa comprovar. Art. 85 Realizar ou facilitar ações que causem prejuízo ao patrimônio das organizações da categoria. Art. 86 Produzir, inserir ou divulgar informação inverídica ou de conteúdo duvidoso sobre assunto de sua área profissional. Parágrafo único. Fazer referência a casos, situações ou fatos, e inserir imagens que possam identificar pessoas ou instituições sem prévia autorização, em qualquer meio de comunicação. Art. 87 Registrar informações incompletas, imprecisas ou inverídicas sobre a assistência de Enfermagem prestada à pessoa, família ou coletividade. Art. 88 Registrar e assinar as ações de Enfermagem que não executou, bem como permitir que suas ações sejam assinadas por outro profissional. Art. 89 Disponibilizar o acesso a informações e documentos a terceiros que não estão diretamente envolvidos na prestação da assistência de saúde ao paciente, exceto quando autorizado pelo paciente, representante legal ou responsável legal, por determinação judicial. Art. 90 Negar, omitir informações ou emitir falsas declarações sobre o exercício profissional quando solicitado pelo Conselho Regional de Enfermagem e/ou Comissão de Ética de Enfermagem. 34 Art. 91 Delegar atividades privativas do(a) Enfermeiro(a) a outro membro da equipe de Enfermagem, exceto nos casos de emergência. Parágrafo único. Fica proibido delegar atividades privativas a outros membros da equipe de saúde. Art. 92 Delegar atribuições dos(as) profissionais de enfermagem, previstas na legislação, para acompanhantes e/ou responsáveis pelo paciente. Parágrafo único. O dispositivo no caput não se aplica nos casos da atenção domiciliar para o autocuidado apoiado. Art. 93 Eximir•se da responsabilidade legal da assistência prestada aos pacientes sob seus cuidados realizados por alunos e/ou estagiários sob sua supervisão e/ou orientação. Art. 94 Apropriar•se de dinheiro, valor, bem móvel ou imóvel, público ou particular, que esteja sob sua responsabilidade em razão do cargo ou do exercício profissional, bem como desviá•lo em proveito próprio ou de outrem. Art. 95 Realizar ou participar de atividades de ensino, pesquisa e extensão, em que os direitos inalienáveis da pessoa, família e coletividade sejam desrespeitados ou ofereçam quaisquer tipos de riscos ou danos previsíveis aos envolvidos. Art. 96 Sobrepor o interesse da ciência ao interesse e segurança da pessoa,família e coletividade. Art. 97 Falsificar ou manipular resultados de pesquisa, bem como usá•los para fins diferentes dos objetivos previamente estabelecidos. Art. 98 Publicar resultados de pesquisas que identifiquem o participante do estudo e/ou instituição envolvida, sem a autorização prévia. Art. 99 Divulgar ou publicar, em seu nome, produção técnico•científica ou instrumento de organização formal do qual não tenha participado ou omitir nomes de coautores e colaboradores. Art. 100 Utilizar dados, informações, ou opiniões ainda não publicadas, sem referência do autor ou sem a sua autorização. Art. 101 Apropriar•se ou utilizar produções técnico•científicas, das quais tenha ou não participado como autor, sem concordância ou concessão dos demais partícipes. Art. 102 Aproveitar•se de posição hierárquica para fazer constar seu nome como autor ou coautor em obra técnico•científica. CAPÍTULO IV – DAS INFRAÇÕES E PENALIDADES Art. 103 A caracterização das infrações éticas e disciplinares, bem como a aplicação das respectivas penalidades regem•se por este Código, sem prejuízo das sanções previstas em outros dispositivos legais. Art. 104 Considera•se infração ética e disciplinar a ação, omissão ou conivência que implique em desobediência e/ou inobservância às disposições do Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem, bem como a inobservância das normas do Sistema Cofen/Conselhos Regionais de Enfermagem. Art. 105 O(a) Profissional de Enfermagem responde pela infração ética e/ou disciplinar, que cometer ou contribuir para sua prática, e, quando cometida(s) por outrem, dela(s) obtiver benefício. Art. 106 A gravidade da infração é caracterizada por meio da análise do(s) fato(s), do(s) ato(s) praticado(s) ou ato(s) omissivo(s), e do(s) resultado(s). Art. 107 A infração é apurada em processo instaurado e conduzido nos termos do Código de Processo Ético•Disciplinar 35 vigente, aprovado pelo Conselho Federal de Enfermagem. Art. 108 As penalidades a serem impostas pelo Sistema Cofen/Conselhos Regionais de Enfermagem, conforme o que determina o art. 18, da Lei n° 5.905, de 12 de julho de 1973, são as seguintes: I – Advertência verbal; II – Multa; III – Censura; IV – Suspensão do Exercício Profissional; V – Cassação do direito ao Exercício Profissional. § 1º A advertência verbal consiste na admoestação ao infrator, de forma reservada, que será registrada no prontuário do mesmo, na presença de duas testemunhas. § 2º A multa consiste na obrigatoriedade de pagamento de 01 (um) a 10 (dez) vezes o valor da anuidade da categoria profissional à qual pertence o infrator, em vigor no ato do pagamento. § 3º A censura consiste em repreensão que será divulgada nas publicações oficiais do Sistema Cofen/Conselhos Regionais de Enfermagem e em jornais de grande circulação. § 4º A suspensão consiste na proibição do exercício profissional da Enfermagem por um período de até 90 (noventa) dias e será divulgada nas publicações oficiais do Sistema Cofen/Conselhos Regionais de Enfermagem, jornais de grande circulação e comunicada aos órgãos empregadores. § 5º A cassação consiste na perda do direito ao exercício da Enfermagem por um período de até 30 anos e será divulgada nas publicações do Sistema Cofen/Conselhos Regionais de Enfermagem e em jornais de grande circulação. § 6º As penalidades aplicadas deverão ser registradas no prontuário do infrator. § 7º Nas penalidades de suspensão e cassação, o profissional terá sua carteira retida no ato da notificação, em todas as categorias em que for inscrito, sendo devolvida após o cumprimento da pena e, no caso da cassação, após o processo de reabilitação. Art. 109 As penalidades, referentes à advertência verbal, multa, censura e suspensão do exercício profissional, são da responsabilidade do Conselho Regional de Enfermagem, serão registradas no prontuário do profissional de Enfermagem; a pena de cassação do direito ao exercício profissional é de competência do Conselho Federal de Enfermagem, conforme o disposto no art. 18, parágrafo primeiro, da Lei n° 5.905/73. Parágrafo único. Na situação em que o processo tiver origem no Conselho Federal de Enfermagem e nos casos de cassação do exercício profissional, terá como instância superior a Assembleia de Presidentes dos Conselhos de Enfermagem. Art. 110 Para a graduação da penalidade e respectiva imposição consideram•se: I – A gravidade da infração; II – As circunstâncias agravantes e atenuantes da infração; III – O dano causado e o resultado; IV – Os antecedentes do infrator. Art. 111 As infrações serão consideradas leves, moderadas, graves ou gravíssimas, segundo a natureza do ato e a circunstância de cada caso. § 1º São consideradas infrações leves as que ofendam a integridade física, mental ou moral de qualquer pessoa, sem causar debilidade ou aquelas que venham a difamar organizações da categoria ou instituições ou ainda que causem danos patrimoniais ou financeiros. 36 § 2º São consideradas infrações moderadas as que provoquem debilidade temporária de membro, sentido ou função na pessoa ou ainda as que causem danos mentais, morais, patrimoniais ou financeiros. § 3º São consideradas infrações graves as que provoquem perigo de morte, debilidade permanente de membro, sentido ou função, dano moral irremediável na pessoa ou ainda as que causem danos mentais, morais, patrimoniais ou financeiros. § 4º São consideradas infrações gravíssimas as que provoquem a morte, debilidade permanente de membro, sentido ou função, dano moral irremediável na pessoa. Art. 112 São consideradas circunstâncias atenuantes: I – Ter o infrator procurado, logo após a infração, por sua espontânea vontade e com eficiência, evitar ou minorar as consequências do seu ato; II – Ter bons antecedentes profissionais; III – Realizar atos sob coação e/ou intimidação ou grave ameaça; IV – Realizar atos sob emprego real de força física; V – Ter confessado espontaneamente a autoria da infração; VI – Ter colaborado espontaneamente com a elucidação dos fatos. Art. 113 São consideradas circunstâncias agravantes: I – Ser reincidente; II – Causar danos irreparáveis; III – Cometer infração dolosamente; IV – Cometer a infração por motivo fútil ou torpe; V – Facilitar ou assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou a vantagem de outra infração; VI – Aproveitar-se da fragilidade da vítima; VII – Cometer a infração com abuso de autoridade ou violação do dever inerente ao cargo ou função ou exercício profissional; VIII – Ter maus antecedentes profissionais; IX – Alterar ou falsificar prova, ou concorrer para a desconstrução de fato que se relacione com o apurado na denúncia durante a condução do processo ético. CAPÍTULO V – DA APLICAÇÃO DAS PENALIDADES Art. 114 As penalidades previstas neste Código somente poderão ser aplicadas, cumulativamente, quando houver infração a mais de um artigo. Art. 115 A pena de Advertência verbal é aplicável nos casos de infrações ao que está estabelecido nos artigos:, 26, 28, 29, 30, 31, 32, 33, 35, 36, 37, 38, 39, 40, 41, 42, 43, 46, 48, 47, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 55, 56, 57,58, 59, 60, 61, 62, 65, 66, 67, 69, 76, 77, 78, 79, 81, 82, 83, 84, 85, 86, 87, 88, 89, 90, 91, 92, 93, 94, 95, 98, 99, 100, 101 e 102. 37 Art. 116 A pena de Multa é aplicável nos casos de infrações ao que está estabelecido nos artigos: 28, 29, 30, 31, 32, 35, 36, 38, 39, 41, 42, 43, 44, 45, 50, 51, 52, 57, 58, 59, 61, 62, 63, 64, 65, 66, 67, 68, 69, 70, 71, 72, 73, 74, 75, 76, 77, 78, 79, 80, 81, 82, 83, 84, 85, 86, 87, 88, 89, 90, 91, 92, 93, 94, 95, 96, 97, 98, 99, 100, 101 e 102. Art. 117 A pena de Censura é aplicável nos casos de infrações ao que está estabelecido nos artigos: 31, 41, 42, 43, 44, 45, 50, 51, 52, 57, 58, 59, 61, 62, 63, 64, 65, 66, 67,68, 69, 70, 71, 73, 74, 75, 76, 77, 78, 79, 80, 81,82, 83, 84, 85, 86, 88, 90, 91, 92, 93, 94, 95, 97, 99, 100, 101 e 102. Art. 118 A pena de Suspensão do Exercício Profissional é aplicável nos casos de infrações ao que está estabelecido nos artigos: 32, 41, 42, 43, 44, 45, 50, 51, 52, 59, 61, 62, 63, 64, 68, 69, 70, 71, 72, 73, 74, 75, 76, 77, 78,79, 80, 81, 82, 83, 85, 87, 89, 90, 91, 92, 93, 94 e 95. Art. 119 A pena de Cassação do Direito ao Exercício Profissional é aplicável nos casos de infrações ao que está estabelecido nos artigos: 45, 64, 70, 72, 73, 74, 80, 82, 83, 94, 96 e 97. REFERÊNCIA 1. MEDEIROS, A, Juliane. TEORIAS DE ENFERMAGEM. Instituto de Tecnologia da Paraíba. 2. Disponível em: https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/enfermagem/a- enfermagem-e-a-acao-etica/38468 3. Maria Assunção, Maria Ferreira, Isabel Lucas. O contributo do enfermeiro na decisão da equipe de saúde de não reanimação. REVISTA DE CIÊNCIAS DA SAÚDE DA ESSCVP. Vol.10 – Dezembro 2018. 4. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/tce/v19n2/19.pdf 5. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/reben/v51n4/v51n4a10.pdf 6. COLÉGIO TÉCNICO SÃO BENTO, ÉTICA PROFISSIONAL. Disponível em: http://www.colegiotecnicosaobento.com.br/apostilas/enfermagem/modulo- profissional-1/etica-profissional.pdf 7. Disponível em: https://www.mundoadvogados.com.br/artigos/o-que-e-a-eutanasia-e-por- que-no-brasil-ela-e-proibida 8. Moreira, E. C., & Biehl, J. G. (2004). Práticas médicas de aceitação da morte na UTI de um hospital geral no Nordeste do Brasil. Bioética,12(1), 22-28. 9. Jeferson Piva. Análise de Possíveis Condutas Frente ao Paciente Terminal – Revista Bioética v.1 n.2. 1993. 10. Disponível em: http://www.fiepbulletin.net/index.php/fiepbulletin/article/viewFile/2818/5491 38