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Nutrição e Dietoterapia do Adulto e do Idoso Anna Paula Oliveira Gomes Camila Munafó Serpa Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Gomes, Anna Paula Oliveira G633n Nutrição e dietoterapia do adulto e do idoso / Anna Paula Oliveira Gomes, Camila Munafó Serpa. – Londrina : Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2019. 224 p. ISBN 978-85-522-1596-7 1. Nutrição e saúde. 2. Dietoterapia do adulto. 3. Dietoterapia do idoso. I. Gomes, Anna Paula Oliveira. II. Serpa, Camila Munafó. III. Título. CDD 613 © 2019 por Editora e Distribuidora Educacional S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. Presidência Rodrigo Galindo Vice-Presidência de Produto, Gestão e Expansão Julia Gonçalves Vice-Presidência Acadêmica Marcos Lemos Diretoria de Produção e Responsabilidade Social Camilla Veiga Gerência Editorial Fernanda Migliorança Editoração Gráfica e Eletrônica Renata Galdino Supervisão da Disciplina Iara Gumbrevicius Revisão Técnica Fernanda Muller De Oliveira Rovai Iara Gumbrevicius Thamiris Mantovani CRB-8/9491 2019 Editora e Distribuidora Educacional S.A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR e-mail: editora.educacional@kroton.com.br Homepage: http://www.kroton.com.br/ mailto:editora.educacional@kroton.com.br http://www.kroton.com.br/ Sumário Unidade 1 Cenário atual de saúde do adulto e do idoso ......................................... 7 Seção 1 Tendências contemporâneas em saúde ....................................... 9 Seção 2 Principais barreiras em saúde ................................................... 20 Seção 3 Introdução ao cuidado de adultos e idosos saudáveis ............... 31 Unidade 2 Fundamentos relevantes no cuidado do adulto e idoso saudáveis ....... 51 Seção 1 Escolhas alimentares ................................................................ 53 Seção 2 Alterações fisiológicas no idoso................................................ 63 Seção 3 Recomendações nutricionais para adultos e idosos ................... 76 Unidade 3 Planejamento dietético .................................................................... 105 Seção 1 Guia alimentar para a população brasileira ............................ 108 Seção 2 Pirâmide alimentar ................................................................ 120 Seção 3 Lista de substitutos alimentares ............................................. 133 Unidade 4 Elaboração do plano alimentar ........................................................ 159 Seção 1 Cálculo da necessidade energética para adultos e idosos ....... 160 Seção 2 Planejamento dietético sustentável ........................................ 181 Seção 3 Rótulos de alimentos: informações e planejamento dietético ................................................................................ 194 C Palavras do autor aro aluno, Estamos prestes a adentrar juntos em um novo universo de conheci- mentos da nutrição. Temos acompanhado a transição demográfica que vem ocorrendo com a população mundial; tal fenômeno envolve uma maior sobrevivência do ser humano, aumentando em número indivíduos adultos e idosos. Tal fenômeno exigirá dos profissionais de saúde conhecimentos cada vez mais amplos a respeito das diversas necessidades destes. Com foco sobre a nutrição e dietoterapia, falaremos neste livro sobre os diversos aspectos relacionados à alimentação do adulto e do idoso com o objetivo de que você os conheça e saiba como os utilizar na prática. Com base nesses conhecimentos, você será capaz de elaborar ferramentas para avaliar, prescrever e monitorar as necessidades nutricionais de adultos e idosos; você estará apto, ainda, a desenvolver e prescrever dietas de forma harmoniosa e adequada, sabendo respeitar os aspectos psicossociais e cultu- rais que possam influenciar os hábitos alimentares desses indivíduos. Na primeira unidade deste livro, em cenário atual de saúde do adulto e do idoso, falaremos sobre as tendências contemporâneas e as principais barreiras em saúde e você será introduzido ao cuidado de adultos e idosos saudáveis. Já na segunda unidade, serão abordados fundamentos nutricionais indispen- sáveis no cuidado do adulto e idoso saudáveis, envolvendo a estimativa das necessidades energéticas, de macro e micronutrientes e algumas especifici- dades nutricionais destes. Na terceira unidade você aprenderá sobre a estru- turação e fundamentos-chave do atendimento nutricional do adulto e idoso, que envolverá a anamnese nutricional e inquéritos alimentares, o manejo de tabelas de composição de alimentos e o conhecimento a respeito dos guias alimentares. Na quarta e última unidade, serão apresentadas as ferramentas para orientação e acompanhamento nutricional. Você aprenderá a elaborar planos alimentares, orientações nutricionais e conhecerá as bases do atendi- mento nutricional em ambulatório. Viu como os conhecimentos que você adquirirá por meio deste livro são importantes para sua futura prática profissional? Dedique-se e se empenhe bastante, você não se arrependerá! Unidade 1 Camila Munafó Serpa Cenário atual de saúde do adulto e do idoso Convite ao estudo Nesta unidade falaremos sobre o cenário atual de saúde do adulto e do idoso. Já imaginou que esses indivíduos vivem cercados por uma série de fatores que podem influenciar sua saúde e seu comportamento alimentar? Por meio da leitura desta unidade, você conhecerá os diversos aspectos envol- vidos na promoção da saúde para adultos e idosos, assim como, a importância e a influência das escolhas alimentares na redução de riscos à saúde. Essas informações possibilitarão que você elabore um infográfico sobre barreiras em saúde, um tipo de “resumo dinâmico” sobre essa contextualização. Para o ajudar a compreender melhor os assuntos abordados e o aproximar da prática, você será apresentado a uma situação muito interessante; leia-a com atenção, pois ela será utilizada ao longo de toda a unidade um. Quando você estiver lendo, tente imaginar a situação e os personagens; você verá como tudo ficará mais próximo da realidade. Ontem de manhã, Luciana ligou o rádio no seu caminho para a Universidade. Ela estava ansiosa para ouvir uma boa música e chegar animada em seu destino. Era seu primeiro dia de aula do último semestre do Curso de Nutrição, no qual começaria seu estágio em atendimento ambula- torial. O ônibus estava cheio, então, ao mesmo tempo que tentava se segurar no corredor, tentava sintonizar sua rádio favorita. Nesse meio tempo, bem em frente à Luciana, uma jovem que estava sentada abriu um pacote de salga- dinhos e começou a comer. Sua amiga, sentada ao lado, disse: “Nossa, Josy, onde você quer chegar comendo tanta porcaria todo dia? Você precisa de ajuda, porque eu não sei mais como te ajudar! Todo dia te falo a mesma coisa! Só falta você tirar dessa sua bolsa uma lata de refrigerante e uma barra enorme de chocolate ao leite também!”, exclamou. “Eu não tenho nenhum problema de saúde, Roberta”, disse Josy, e continuou: “Meu peso está ótimo, tenho apenas 23 anos e muita vida pela frente. Quando eu for mais velha, começarei a me preocupar com essas coisas... Fora que, na correria que é minha vida, não tenho tempo pra preparar nada em casa; essas coisas aqui é que são baratas e práticas! Ah, e sim, meu refrigerante está bem aqui”... “tchiii”... “e o chocolate ao leite logo vou comer também,quer um pedaço?”. Roberta balançava a cabeça para a amiga com expressão de reprovação, mas não sabia mais o que dizer. Josy sorria, mas logo em seguida, pareceu pensa- tiva. Pela proximidade, foi inevitável que Luciana não presenciasse e ouvisse a conversa de Josy e Roberta. Ela começou a pensar e refletir muito. Sua vontade de aconselhar Josy era imensa! Você já presenciou alguma situação semelhante? Parece familiar? Situações desse tipo ocorrem diariamente e exigem que um profissional da nutrição saiba como lidar com elas. A leitura das seções desta unidade possi- bilitará a você conhecer mais sobre o impacto das escolhas alimentares sobre a saúde e quais barreiras estão envolvidas neste processo. Vamos lá? 9 Seção 1 Tendências contemporâneas em saúde Diálogo aberto Nesta seção falaremos sobre as tendências contemporâneas em saúde. Você já ouviu falar sobre hipertensão e diabetes? Você conhece alguém com alguma destas doenças? Essas doenças são duas dentre muitas outras chamadas doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), que têm crescido, em incidência e prevalência, mundialmente nos últimos anos. Mas, qual será o motivo desse aumento? Será que a alimentação e as escolhas alimentares nos dias de hoje podem ter algum tipo de influência sobre esse crescente fenômeno? É sobre isso que vamos falar nessa seção do livro. Você se lembra de Luciana, a aluna de nutrição que ouviu uma conversa sobre alimentação entre duas amigas no ônibus? Roberta criticava o compor- tamento alimentar de Josy e esta tentava justificar o porquê de suas escolhas alimentares. A alimentação fora do lar é um tema muito atual e também muito polêmico. Quantas vezes você já se deparou com conversas ou ouviu comen- tários semelhantes aos de Josy e Roberta? O que será que pode acontecer com Josy se ela mantiver esse padrão alimentar? E quanto às DCNTs, a quais ela poderia estar sujeita alimentando-se dessa forma? Para responder a essas questões, leia atentamente os conteúdos abordados nesta seção do livro, pois eles lhe mostrarão o impacto das escolhas alimen- tares inadequadas sobre a saúde e sua relação com o surgimento de doenças crônicas não transmissíveis. Bons estudos! Não pode faltar Na área da saúde utilizamos alguns termos importantes que você precisa conhecer melhor antes de prosseguirmos com os aspectos relacionados à alimentação e nutrição. Saúde, bem-estar, doença, prevenção e promoção da saúde são os que daremos maior enfoque nesta seção. Saúde, por exemplo, você sabe o que é? Em 1948, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) foi consti- tuída, foram propostos alguns princípios básicos voltados ao bem-estar das pessoas. Nesses princípios, a OMS definiu o termo saúde como “um estado 10 de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente ausência de afecções e enfermidades” (OMS, 2014, p. 1). Reflita Já imaginou que surpreendente seria poder viver assim com essa saúde plena o tempo todo? Será que diante de uma definição tão complexa acabamos por considerar que somos todos doentes? Diversos autores contestaram e ainda hoje contestam sobre tal definição de saúde, uma vez que a consideram utópica. O autor do livro “O que é saúde”, Naomar de Almeida Filho, refere que o termo saúde é utilizado para designar atos ou práticas que se tornam prestação de serviços (valor de uso, de troca, de vida). A ideia de que todos tenham saúde, acaba se tornando mercado- lógica e o bem-estar de um indivíduo fica, então, atrelado à aquisição; desta forma, cria-se uma economia em torno do que as pessoas almejam para atingir um “estado ideal de vida”, que possa ser supostamente preenchido por objetos e serviços de saúde. De fato, a saúde não é exclusivamente uma questão biológica; ela é socialmente determinada, ou seja, envolve aspectos demográficos, econômicos e, dentre outros, políticos. Pesquise mais Você sabia que a saúde é um direito do cidadão brasileiro? Leia a Consti- tuição da República Federativa do Brasil (1988), Título VIII, Capítulo II, Seção II, Artigo 196 e compreenda mais a respeito sobre esse direito. Fonte: BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil: texto constitucional promulgado em 5 de outubro de 1988, com as alterações determinadas pelas Emendas Constitucionais de Revisão nos 1 a 6/94, pelas Emendas Constitucionais nos 1/92 a 91/2016 e pelo Decreto Legis- lativo no 186/2008. – Brasília: Senado Federal, Coordenação de Edições Técnicas, 2016. 496 p. O termo bem-estar, envolvido na definição de saúde, também merece destaque. O Dicionário Aurélio o define como uma “Situação agradável do corpo e do espírito. Tranquilidade. Conforto. Satisfação”. Veja como o conceito de bem-estar nos remete ao que lemos sobre saúde. Agora que você já sabe que o termo saúde tem uma definição um tanto complexa e até mesmo polêmica, o que será, então, que significa o termo doença? 11 Em resumo, doença significa “um desvio em relação à normalidade”. Esse termo sofreu uma densa “evolução” ao longo da história do homem, e não pense que sua definição atual ainda não sofre questionamentos, afinal, o que consiste na “normalidade” para dela se originarem desvios? É uma discussão ainda sem fim, envolvendo diversos profissionais da saúde e da filosofia. Quando se fala em saúde, pensa-se em diversas maneiras para mantê-la; quando se fala em doença, pensa-se exatamente no oposto. Nesse contexto, tomam lugar os termos prevenção e promoção da saúde. A prevenção tem o objetivo de, por meio de intervenções, evitar que surjam doenças e viabi- lizar que estas acometam cada vez em menor número os indivíduos da socie- dade em que vivemos. Já o termo promoção da saúde tem uma abordagem mais ampla, uma vez que não está voltada a uma doença em específico, mas envolve uma série de ações que favoreçam a um indivíduo ter mais saúde e bem-estar de maneira geral. Reflita Você acha que as ações de prevenção e promoção da saúde são impor- tantes? Pensando na promoção da saúde, você acha que a alimentação saudável pode, de alguma forma, favorecê-la? E o que envolve um padrão alimentar saudável? As práticas alimentares saudáveis têm sido cada vez mais disseminadas e incentivadas nos últimos anos. É importante relembrarmos que a alimen- tação, de maneira geral, envolve a aquisição, pré-preparo, preparo e ingestão de alimentos e é influenciada direta ou indiretamente por diversos outros fatores, como os biológicos, sociais, culturais, econômicos e políticos. Tornar a alimentação saudável, portanto, requer tanto esforços individuais quanto coletivos e governamentais, uma vez que não depende de uma simples escolha. Assimile A prática alimentar saudável é aquela adequada às necessidades bioló- gicas e socioculturais de um indivíduo sem agredir ao meio ambiente, ou seja, sem deixar de lado a sustentabilidade. As diretrizes para a alimentação saudável preconizam, principalmente, a priorização à escolha de alimentos in natura ou minimamente proces- sados em detrimento aos ultraprocessados e à cautela na utilização de açúcar, sal, óleos e gorduras no preparo de alimentos. Com relação ao 12 ato de se alimentar, um padrão alimentar saudável vai envolver a reali- zação das refeições em horários regulares, destinando a ela o tempo que merece, sempre em ambientes favoráveis e, se possível, com companhia. Uma vez que a busca pela alimentação saudável vai se tornando uma realidade, alguns resultados positivos vão sendo gerados. Nos últimos anos, têm sido vastamente divulgados os benefícios das práticas alimentares saudá- veis, principalmente no que diz respeito à promoção da saúde, uma vez que estas podem, inclusive, favorecer a redução do risco do aparecimento e/ou agravos de algumas doenças, principalmente as DCNTs. Quando abordamos os temas da área da saúde, relação saúde-doença,alimentação saudável e promoção da saúde, abre-se um leque enorme de possibilidades de fontes de informações. Uma pessoa que tenha pouco conhecimento sobre a área da saúde de maneira geral pode obter o esclare- cimento de suas dúvidas com pesquisas no meio eletrônico, pode perguntar para seus amigos, familiares, colegas de trabalho, e por aí vai. Nem sempre as pessoas vão buscar as informações sobre saúde com um profissional da área ou em uma fonte de informação segura. Exemplificando Muitos adultos e idosos têm o hábito de buscar, por si só, as respostas para suas indagações, por exemplo, sobre a alimentação saudável. Isso pode vir a tornar-se um problema? Nessa busca, muitas informações não seguras podem ser obtidas e muitas outras, constituindo o marke- ting e publicidade de alimentos, podem induzir essas pessoas a conclu- sões equivocadas e, até mesmo, a aquisições alimentares não saudá- veis. Dessa forma, se as pessoas buscarem informações em fontes não confiáveis, com certeza isso pode se tornar um problema. Todos estamos rodeados e sendo bombardeados por ações de mídia, as quais tentam impor padrões e conceitos, de forma direta ou indireta, com o objetivo de que as pessoas consumam mais seus produtos e/ou serviços. Essa situação pode acabar afetando de alguma forma a saúde das pessoas; esses impactos podem ser positivos, mas, muitas vezes, são negativos. Além das ações de marketing e publicidade, as redes sociais vêm ganhando uma força intensa e ganharam bastante espaço no dia a dia das pessoas. Muitos estão envolvidos nas redes sociais não apenas para se conectarem aos seus amigos, mas também para “seguir” a rotina e o comportamento de 13 pessoas famosas, e isso inclui hábitos alimentares e de saúde. Algumas dessas pessoas deixam-se influenciar pelos hábitos das celebridades e simples- mente copiam seus padrões, sem mesmo buscar se estes estão de acordo com comportamentos adequados em saúde. Tais atos podem trazer sérios riscos à saúde e integridade física de quem os pratica. Diante destes cenários, torna-se indispensável o envolvimento dos profis- sionais da saúde na luta contra informações inadequadas em saúde e no escla- recimento e fornecimento de informações confiáveis à população. É impor- tante, ainda, que a população conheça as ações governamentais de promoção e educação em saúde para que saibam a importância de buscar informações seguras sobre saúde e tenham acesso às fontes confiáveis de informação. Pesquise mais A Política Nacional de Promoção da Saúde é uma fonte muito segura de informações em saúde. Leia as páginas de 29 a 33 e conheça mais sobre as diversas ações e objetivos governamentais na área da alimentação saudável. Fonte: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Política Nacional de Promoção da Saúde / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. 3ª ed. – Brasília: Ministério da Saúde, 2010. 60 p. Consequência das escolhas alimentares sobre a saúde: maior incidência de DCNTs As doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) estão em ascensão e merecem destaque, uma vez que trazem prejuízos, tanto econômicos para o país, quanto para a qualidade de vida das pessoas por elas acometidas. E por que a prevalência das DCNTs vem aumentando tanto? Para responder a esta pergunta, é importante que você primeiro conheça o termo “transição epidemiológica”. Com o avançar das tecnologias em saúde, desen- volvimento econômico e medidas governamentais em saúde coletiva, aquelas doenças infectocontagiosas e parasitárias, antes disseminadas em mais larga escala, puderam ter sua incidência e prevalência reduzidas. Por outro lado, as modificações nos padrões e no estilo de vida das pessoas, resultado da globalização, avanços tecnológicos, maior inserção das mulheres no mercado de trabalho, entre outros, desencadeou em um novo perfil de doenças “da modernidade”, as chamadas DCNTs. 14 Assimile As doenças crônicas não transmissíveis constituem um grupo de doenças de origem multifatorial, são de longa duração e, portanto, não têm cura, apenas controle. Os principais grupos de DCNTs são: • Doenças circulatórias: hipertensão arterial sistêmica, acidente vascular cerebral, infarto etc. • Diabetes. • Cânceres. • Doenças respiratórias crônicas: doença pulmonar obstrutiva crônica, asma etc. Com base nessas informações, o que todas as DCNTs têm em comum? Todas possuem fatores de risco passíveis de modificação, pois estão relacio- nados ao estilo de vida das pessoas. Esses fatores modificáveis podem ser a alimentação não saudável, o uso de produtos do tabaco, o consumo do álcool, a inatividade física e o descontrole do peso corporal, configurado no sobrepeso e obesidade. É possível, portanto, compreender que as DCNTs, uma vez instaladas, demandarão tratamentos complexos, multiprofissionais e onerosos. Veja que a alimentação é um dos fatores que pode, por si só, constituir um risco para o desencadeamento ou agravamento de DCNTs. Mas, por quê? Com o avançar da tecnologia no ramo alimentício, a disponibilização de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares e carboidratos refinados, sódio ou sal de cozinha e ricos em gorduras, principalmente trans e saturadas, foi ganhando espaço no mercado. Esse espaço no mercado, nos carrinhos de compras e nos armários dos consumidores vem sendo conquistado dia a dia por seus fabricantes, principalmente por sua praticidade de transporte, facili- dade de consumo, sabor atrativo, alto valor energético e baixo preço (além das ações de publicidade e marketing que comentamos anteriormente). O tempo que muitas pessoas disponibilizam hoje para cozinhar e se alimentar está cada vez mais reduzido, os recursos são escassos, então, muitos acabam, de fato, fazendo suas escolhas alimentares na direção desses tipos de alimentos. Exemplificando Quando há excesso no consumo de alimentos ricos em açúcares e carboidratos simples (carboidratos de rápida digestibilidade) os riscos do desenvolvimento de diabetes aumentam, inclusive devido à resis- tência ao hormônio insulina. Já os alimentos ricos em sódio podem constituir um risco ao desenvolvimento de hipertensão arterial quando 15 consumidos frequentemente e em elevada quantidade, uma vez que podem promover a constrição dos vasos e artérias e, como consequ- ência, elevar a pressão arterial, dentre outros mecanismos. Por sua vez, quando aqueles ricos em gorduras, principalmente trans e saturadas, são consumidos em excesso, o risco do desenvolvimento de doenças cardiovasculares também aumenta. Imagine que alguns alimentos ultraprocessados contêm a combinação de todos esses nutrientes em apenas uma formulação! Esses alimentos são amplamente comercia- lizados ao consumidor final, em forma de biscoitos recheados, choco- lates, sorvetes e outros doces, salgadinhos, embutidos como linguiça, salsicha, salame e presunto, entre outros. Cabe ao profissional da nutrição o importante papel de se envolver nas ações de orientação, conscientização, educação e promoção da saúde para com a população, ressaltando principalmente a relevância das escolhas alimentares mais saudáveis. Junto aos demais profissionais da saúde e inicia- tivas governamentais, tais ações favorecem e tornam possível o enfrenta- mento das DCNTs e dos agravos por elas provocados. Vamos compreender um pouco melhor o porquê da grande necessidade de enfrentar essas doenças? Um relatório mundial da OMS (2014) emitiu dados alarmantes sobre as consequências da elevada incidência das DCNTs, afirmando que conter e controlar essas doenças é o maior desafio do século 21. Segundo este relatório, mais de 38 milhões de pessoas morreram, em 2012, em decorrência das DCNTs; deste total, 40% configuraram-se mortes prematuras que, em sua maioria,poderiam ter sido evitadas se essas doenças estivessem sob o devido controle. No Brasil, esse quadro não é diferente; 72% das causas de morte são atribuídas às DCNTs, configurando o maior problema de saúde pública do país (BRASIL, 2011). Na última década, houve uma positiva redução de 20% na incidência de doenças cardiovasculares e respiratórias, contudo o número de óbitos atribu- ídos ao Diabetes Mellitus e câncer aumentou (BRASIL, 2011), mostrando a necessidade da continuidade no enfrentamento às DCNTs, iniciando com a atenção básica à saúde. Assimile Você sabe o que é atenção básica? No Brasil, a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), aprovada em 29/11/2011, tem como objetivo 16 aproximar as equipes de saúde da população em geral, de forma integral, abrangendo a “promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação, a redução de danos e a manutenção da saúde [...]” (BRASIL, 2012, p. 19). Veja o impor- tante papel das ações desenvolvidas pela PNAB que, de forma direta ou indireta, contribui para contenção e controle das DCNTs no Brasil. Diante do cenário em que o País se encontra, além da PNAB, uma série de outras políticas públicas foram traçadas, de forma direta, com o objetivo de deter e manter as DCNTs sob controle. Pesquise mais Em 2011, foi lançado o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrenta- mento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis, de 2011 a 2022 (BRASIL, 2011). Veja no documento disponível no link que segue, nas páginas 13 a 17, os principais objetivos, metas e principais ações deste Plano, inclusive no âmbito da alimentação saudável. Fonte: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise de Situação de Saúde. Plano de ações estra- tégicas para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissí- veis (DCNT) no Brasil 2011-2022 / Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise de Situação de Saúde. – Brasília: Ministério da Saúde, 2011. 160 p. O Plano elaborado para enfrentar as DCNTs tinha como uma das suas metas realizar, em 2013, a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A PNS foi reali- zada com sucesso e forneceu resultados importantíssimos sobre a incidência e prevalência das DCNTs no País e sobre o perfil da população, relacionado aos determinantes de saúde. Um dos principais resultados encontrados por meio da PNS foi a estima- tiva de que cerca de 40% da população brasileira apresenta ao menos uma DCNT. São 21,4% dos brasileiros acometidos pela hipertensão, 12,5% com os níveis de colesterol elevados acima do limiar normal, 6,2% apresentando diabetes, 4,2% já tendo recebido algum diagnóstico de alguma doença do coração, entre outros (IBGE, 2014). Quanto aos fatores passíveis de modificação pesquisados (relacionados ao estilo de vida), destacam-se os resultados obtidos no âmbito alimentar. Foram segmentadas questões a respeito do consumo regular de diversos tipos 17 de alimentos, tanto saudáveis quanto não saudáveis. No quesito ingestão de frutas, legumes e verduras (FLV), apenas 37,3% dos entrevistados referiram consumo adequado destes alimentos, sendo que os indivíduos com maior escolaridade apresentaram maior adequação (45,9%) do que aqueles com menor escolaridade (33%) (IBGE, 2014). No que se refere ao consumo regular de doces (chocolate, bolos, balas, bolachas doces, entre outros), adultos de 18 a 24 anos apresentaram maior consumo (32%) se comparados aos adultos de 40 a 59 anos (18,5%) e idosos (17,2%). 23,4% dos entrevistados referiram, ainda, consumir refrigerante em pelo menos cinco dias da semana (IBGE, 2014). Referente ao consumo de carnes (frango ou bovina), 37,2% dos pesqui- sados afirmaram ingeri-las com excesso de gordura, sendo que os homens foram os que apresentaram maior ingestão (47,2%) do que as mulheres (28,3%). Quanto à ingestão de sal, 14,2% dos pesquisados considerou o próprio consumo alto ou muito alto (IBGE, 2014). Como mencionamos anteriormente, a alimentação adequada e saudável é um dos fatores-chave na promoção da saúde e coadjuvante na prevenção das DCNTs. Por meio dos resultados mostrados é possível observar quanto trabalho os profissionais da saúde e o governo, por meio da execução adequada das políticas públicas, têm pela frente. Sem medo de errar No início da seção deste livro, apresentamos um contexto no qual Luciana, uma estudante de nutrição, presenciava a conversa entre duas amigas sobre os hábitos alimentares de uma delas. Logo em seguida, com base nessa conjuntura, descrevemos a seguinte situação-problema: quantas vezes você já se deparou com conversas ou ouviu comentários semelhantes aos de Josy e Roberta? O que pode acontecer com Josy se ela mantiver esse padrão alimentar? E quanto às DCNTs, a quais ela poderia estar sujeita alimentando-se dessa forma? Depois dos conteúdos apresentados nesta seção, você se sente mais prepa- rado para responder a essas perguntas? A primeira questão, sobre o número de vezes que você já se deparou com situações semelhantes à que Luciana se deparou, possuía perfil de resposta livre, uma vez que cada indivíduo encontra-se cercado por familiares, amigos e conhecidos distintos, com hábitos e modos de viver distintos. Entretanto, diante dos temas abordados nesta seção, principalmente quanto à evolução tecnológica, maior disponibilização de produtos industrializados no mercado, 18 escassez do tempo e dados epidemiológicos apresentados com base na PNS realizada em 2013, é possível refletir que muitos indivíduos, de fato, encon- tram-se na mesma situação de Josy, consumindo doces e alimentos ultrapro- cessados diariamente. Quanto à segunda indagação “O que pode acontecer com Josy se ela mantiver esse padrão alimentar?”, fica mais claro, agora, que nossas escolhas alimentares podem interferir diretamente em nosso estado de saúde e favorecer ou não o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis. No caso de Josy, ela poderá, muito em breve, desenvolver uma DCNT, uma vez que está se expondo a esse risco por meio de um padrão alimentar inade- quado e constante. Na última questão, que completa a anterior, perguntamos qual ou quais DCNTs Josy poderia desenvolver se não modificar seus hábitos alimentares. Vamos relembrar o que Josy estava consumindo no ônibus? A conversa começou enquanto ela abria um pacote de salgadinhos e, logo em seguida, um refrigerante e uma barra de chocolate ao leite. Os alimentos listados são ricos nos três produtos que não podem ser consumidos em excesso: sal, açúcar e gordura. Ao longo da seção, vimos que esses nutrientes, quando consumidos em quantidades inadequadas, podem favorecer o aparecimento de doenças, como hipertensão, diabetes e cardiopatias. Veja como a alimentação saudável é importante para promover saúde! Agora você será capaz de elaborar um infográfico com dados de situações / comportamentos que podem se constituir barreiras ou obstáculos em saúde. Vamos lá? Avançando na prática Cereal Repleto! Jorge é um senhor de 62 anos que gosta muito de assistir à televisão. Enquanto esperava o intervalo comercial para continuar a assistir seu programa predileto, o sr. Jorge deparou-se com a seguinte propaganda: “Com esse cereal matinal seu café da manhã completo, rápido e prático está garan- tido! Feito de milho, repleto de vitaminas e minerais e com uma cobertura de açúcar crocante, você experimentará um sabor inigualável! Compre já o seu ‘Cereal Repleto’!” Cheia de cores vibrantes, música, gente bonita e muitos sorrisos, a propaganda do Cereal Repleto chamou a atenção do sr. Jorge, que gritou da sala para a sua esposa na cozinha: “amor, precisamos comprar esse 19 tal Cereal Repleto! Me pareceu uma ótima opção paranosso café da manhã; é rápido, prático e não precisamos acrescentar mais nada nele. Vamos provar?”. “Hoje você tem consulta com a nutricionista, Jorge, você deve perguntar a opinião dela antes de adquirir este produto”, replicou a esposa do sr. Jorge. Diante da breve história do sr. Jorge, você acha que o Cereal Repleto é mesmo uma ótima opção para o café da manhã? Como o marketing da indústria de alimentos agiu para provocar tal desejo de compra no sr. Jorge? O que a nutricionista do sr. Jorge responderia a ele quando perguntasse se deveria ou não adquirir esse produto? Resolução da situação-problema Segundo o comercial, o Cereal Repleto é “rápido e prático, feito de milho, repleto de vitaminas e minerais” e também... açúcar! O fato de ele ter vitaminas e minerais pode superar o fato de conter bastante açúcar? Afinal, para fazer uma cobertura crocante de açúcar, certamente não é colocado pouco açúcar. O fato importante é que, além de conter muito açúcar, a propa- ganda ainda apela para que seja a garantia de um café da manhã completo. Certamente esse tipo de alimento industrializado não pode configurar um café da manhã saudável, muito menos completo. O marketing da indústria de alimentos, além de colocar todas as informações sobre o produto como benefício, ainda faz seu apelo para a praticidade e agilidade, utilizando cores, música e pessoas bonitas sorrindo para chamar a atenção. Indivíduos pouco orientados sobre a alimentação saudável e sobre as estratégias de marketing que podem os cercar, infelizmente, podem acabar sendo iludidos, como o que aconteceu com o sr. Jorge. Ao ser questionada pelo sr. Jorge sobre a aquisição ou não deste produto, a nutricionista, tendo conhecimento a respeito da influência da alimentação saudável sobre a saúde e a incidência de DCNTs, poderia responder a ele que, embora contivesse vitaminas e minerais, o Cereal Repleto não seria uma ótima opção para o café da manhã, pelo contrário, seria uma opção a ser consumida esporadicamente, principalmente pelo seu alto teor de açúcares e por não ser completo como um café da manhã tradicional e saudável, envol- vendo cereais integrais, frutas e fontes proteicas. 20 Seção 2 Principais barreiras em saúde Diálogo aberto Uma vez que você já conhece mais sobre a importância da promoção da saúde, principalmente voltada à diminuição da incidência e prevalência das doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), você aprenderá sobre os fatores que podem se tornar barreiras e dificultar o alcance de um cenário ideal na promoção da saúde. A situação que Luciana presenciou, envolvendo Josy e Roberta, abordada no início da unidade, é um exemplo de como alguns aspectos, se não manejados adequadamente, podem afetar negativamente escolhas alimen- tares e um estilo de vida saudável. A escassez do tempo e de recursos, por exemplo, vem acompanhando a humanidade com mais veemência nas últimas décadas. Na história contada, Josy informou à Roberta que os alimentos que estava consumindo eram baratos e práticos, servindo bem à sua rotina de vida corrida. Que outras barreiras podem impactar a saúde e rotina das pessoas além da escassez de tempo e recursos? Será que os alimentos que Josy consome, como lanche, diariamente são realmente mais baratos que lanches mais saudáveis? Roberta, amiga de Josy, estava tentando ajudá-la. Sem essa ajuda, Josy teria aquela expressão pensativa um tempo depois? Qual a importância de Roberta nessa situação? Não pode faltar Fonte: Licenciado sob CC0, via Pixabay. Disponível em: https://static.pexels.com/photos/39396/hourglass-ti- Tempo, bem precioso; corre e escorre entre os dedos sem pedir licença. 21 A evolução tecnológica, a globalização, as “exigências” do mundo capita- lista, entre outros aspectos, modificaram e vêm modificando cada vez mais o tempo e a rotina das pessoas. Muitos abandonam os momentos de lazer em troca de horas extenuantes de trabalho para conseguir mais dinheiro, outros nem se lembram da última vez que realizaram uma refeição à mesa em casa, e por aí vai. Não é raro ouvirmos e falarmos sobre o tempo em nossas conversas cotidianas, principalmente a respeito da falta dele. Todos, por ele pressio- nados contra a parede, tentam, de alguma forma, aprender a lidar com sua insistência e cronicidade. Todavia, nem sempre a temática tempo precisa ser angustiante; adminis- trar o tempo por meio do estabelecimento de uma rotina de vida é uma tarefa árdua para muitos, mas não impossível. Atitudes como disciplina, persistência e determinação estão envolvidas nesta longa jornada da administração do tempo. Quando essas e outras atitudes estão devidamente alinhadas, gerir o tempo de maneira inteligente e proveitosa torna-se mais fácil e menos desgastante. Reflita O que cabe em um dia com 24 horas? Reflita e discuta com seus colegas sobre esta indagação; a seguir, elabore um quadro descrevendo as principais tarefas de sua rotina diária, estabelecendo um tempo de execução para cada uma delas. Não se esqueça dos momentos de lazer! Foi possível encaixar tudo em um só dia? Seria necessário alternar as tarefas entre os sete dias da semana ou trinta dias do mês? Já parou para pensar quanto tempo você gasta do seu dia nas redes sociais? Provavelmente quando escreveu as tarefas de sua rotina diária, você deve ter listado atitudes relacionadas à sua alimentação, como fazer compras, cozinhar, ir ao restaurante e tomar café da manhã, e quanto à prática de atividade física, como caminhadas ou treinos na academia. Muitos indiví- duos acabam se esquecendo de separar, na sua rotina diária, um tempo para essas atividades e, no final, o que lhes resta são alguns minutos para colocar uma refeição pronta no microondas e comê-la sentado no sofá, em frente à televisão. 22 Exemplificando Comprar, higienizar e servir uma salada de alface, por exemplo, exige um tempo que muitos não se lembram de reservar; alguns até compram o pé de alface, mas, quando chegam em casa exaustos de sua jornada de trabalho, passam os olhos sobre ele no refrigerador e acabam prefe- rindo comer um pão com frios, um macarrão instantâneo ou um pacote de salgadinhos, por ser mais rápido. O que lhes falta é repensar suas prioridades de vida, refletir sobre o futuro e lembrar que as escolhas feitas hoje repercutirão sobre sua saúde amanhã. O profissional da nutrição deve estar pronto para auxiliar e instruir indivíduos que se encontram nessa e em outras situações semelhantes e os auxiliar a superar o tempo, configurado nesses casos como uma barreira em saúde. Para isso, merecem destaque alguns princípios básicos da adminis- tração clássica: planejamento e organização, associados à execução e controle (CHIAVENATO, 2011). Esses princípios podem nortear e facilitar a adminis- tração do tempo e rotina diária. Assimile É importante que as pessoas compreendam a real importância da alimentação saudável, destinando a ela um tempo realmente digno. O mesmo vale para a prática de atividade física, que deve ser incen- tivada coletivamente por todos os profissionais de saúde, uma vez que são amplamente divulgados seus benefícios à saúde humana. Por meio dessa conscientização, é possível que as pessoas estabeleçam prioridades de vida, realizando comparações e escolhas, classificando as tarefas diárias naquelas que mais importam até as que menos importam. Nestas escolhas estão envolvidas as etapas administra- tivas planejamento e organização. As pessoas devem ser orientadas a estabelecer prazos para cada uma das tarefas, seja de forma semanal, quinzenal ou mensal. Uma vez realizado o planejamento e organização, as tarefas devem ser executadas e controladas / monitoradas, para que tudo saia como planejado; se algo não sair dentro do esperado, é neces- sária uma avaliação. Talvez seja necessário reajustar prazose/ou reali- nhar prioridades. Além do tempo, há outro elemento que pode se tornar uma impor- tante barreira em saúde. Antes de abordá-lo, vale destacar um dos preceitos que já conhecemos sobre a alimentação saudável: que esta deve se basear principalmente no consumo de alimentos in natura em detrimento ao de 23 ultraprocessados. Consumir alimentos in natura envolve diversas etapas prévias, como seleção, aquisição, pré-preparo e preparo; envolve combinação de sabores, texturas, técnicas de cocção, higienização, entre outras. Todas essas e outras etapas estão inseridas no universo das habilidades culinárias. Nos dias de hoje, os indivíduos estão preparando cada vez menos suas próprias refeições e, dentre os diversos motivos, destacamos a falta de habili- dades culinárias. Essa falta de habilidades é causada por fatores como falta de informação, desinteresse, ausência dessa temática no ensino escolar, pensar que cozinhar é difícil, falta de incentivo da família e/ou amigos, falta de alguém que possa instruir ou transmitir conhecimentos culinários, entre outros. A falta de habilidades culinárias torna-se uma grande barreira em saúde, principalmente quando o indivíduo que não as possui começa a depender quase que exclusivamente da aquisição de alimentos processados e ultraprocessados. Exemplificando O arroz integral, por exemplo, é um alimento saudável, rico em nutrientes; se combinado com feijão, um filé de peixe grelhado, uma salada e um legume refogado, então, a mistura fica ainda mais completa. Se um indivíduo não sabe preparar suas refeições por falta de habili- dades culinárias, pode ficar à mercê da compra de uma refeição pronta, seja congelada ou destinada ao consumo imediato. O que ocorre é que muitas das refeições prontas não são preparadas de forma saudável. Muitas vêm carregadas com teores elevados de sal, gorduras saturadas, temperos industrializados e conservantes, o que acaba “empobre- cendo” seu valor nutricional. Isso significa que, ainda que o prato seja rico em proteínas e vitaminas, essa carga elevada de sal e gorduras saturadas torna o prato desbalanceado e não tão vantajoso assim. Um indivíduo que possui habilidades culinárias terá a opção de não se tornar “refém” da indústria de alimentos ou de terceiros para obter suas refei- ções e, sobretudo, poderá também auxiliar outros indivíduos que, porven- tura, não possuam essas habilidades. Vale ressaltar que as habilidades culinárias são necessárias independente do gênero. Uma vez que houve maior inserção da mulher no mercado de trabalho, as atividades outrora denominadas “femininas”, como a de fazer compras e cozinhar, passaram a ser compartilhadas por ambos os sexos, tanto masculino quanto feminino. 24 Há ainda outros dois fatores muito relevantes na temática barreiras à alimentação saudável: o custo alimentar e a disponibilidade de alimentos. Para compreender melhor sobre como essas variáveis podem dificultar a alimentação saudável, primeiramente, vamos refletir: Reflita Quanto você acha que uma família de 5 pessoas, que vive com um salário mínimo mensal, dispõe para comprar alimentos? Se o chefe dessa família fosse a um nutricionista em busca de reedu- cação alimentar, esse nutricionista poderia sugerir a ele alimentos caros e difíceis de serem encontrados ou incomuns à região de moradia desse chefe de família? Que fatores limitantes você nota nesse quadro? Por meio da reflexão acima, você deve ter notado mais um elemento que pode dificultar o acesso dessa família a uma alimentação saudável e variada, além do custo e da disponibilidade de alimentos. A renda familiar (citada na reflexão como um salário mínimo mensal para sustentar cinco pessoas) caracteriza esse elemento, uma vez que seria impossível abordar a influência do custo e acesso aos alimentos sem envolver a condição socioeconômica do indivíduo ou família em questão. Portanto, poderíamos dizer que o custo e acesso aos alimentos são econômico-dependentes; quanto maior for a renda de um indivíduo, menos o custo influenciará na aquisição e acesso aos alimentos. O inverso também é verdadeiro: quanto menor a renda do indivíduo maior a influência do custo e acesso aos alimentos. Assimile No ramo da economia, há uma teoria clássica que afirma que os recursos existentes sempre serão escassos se comparados às infinitas necessi- dades que o homem tem; é como se os recursos nunca pudessem ser suficientes para suprir tantas carências existentes. Trazendo a essência dessa teoria para o nosso contexto, do custo como barreira à alimen- tação saudável, podemos compreender que, quanto maior a escassez de recursos financeiros de um indivíduo, maior será sua dificuldade em adquirir alimentos. É nesse cerne que o custo ganha maior força como barreira à alimen- tação saudável. Estudos mostram que indivíduos com menor renda preocupam-se primeiro com o custo dos alimentos e depois com sua qualidade (BENTO; ESTEVES; FRANÇA, 2015; STEAD et al., 2017; 25 PETROKA et al., 2017). Analisando este cenário mais profundamente, podemos considerar que um indivíduo com menor renda terá que, além de se alimentar, suprir suas necessidades de moradia, transporte, lazer, saúde e todas mais (remetendo-nos novamente à teoria econômica clássica “necessidades infinitas, recursos escassos”). Isso nos leva a uma maior compreensão do porquê desses indivíduos serem mais afetados pelo custo como barreira à alimentação saudável. Vale destacar, ainda, a questão do custo de uma dieta baseada em alimentos saudáveis. Muitas são as discussões a respeito desta temática. Alguns estudos recentes, realizados fora do país, comprovam que uma dieta composta por alimentos mais saudáveis custa mais caro (KERN et al., 2017; RAO et al., 2013); em contrapartida, outro estudo mostrou que alimentos mais saudá- veis não são necessariamente mais caros (REMNANT E ADAMS; 2015). No Brasil, o Guia Alimentar para a População Brasileira (BRASIL, 2014) aborda esse fato afirmando que, por aqui, a alimentação saudável não custa necessariamente mais caro. Em um país tropical como o nosso, é possível, por exemplo, contar com uma diversidade enorme de frutas e hortaliças, o que acaba barateando o preço de diversos destes, principalmente levan- do-se em consideração a época do ano. Todavia, não se deve esquecer que os alimentos in natura, mais saudáveis, por conterem mais água e serem ricos em nutrientes, também são mais perecíveis, o que envolve maiores custos na produção, transporte e armazenamento dos mesmos, desencadeando em uma vida de prateleira mais curta. Se todos esses fatores forem considerados, podemos compreender, por outro lado, que o custo de produção destes alimentos acabará aumentando. Sendo assim, o custo da alimentação saudável continua um tema um tanto polêmico e que merece mais estudos esclarecedores, que comprovem se de fato uma alimentação saudável custa mais caro ou não. O mesmo vale para o acesso aos alimentos; indivíduos que residem em regiões onde há menor oferta de alimentos in natura, como alguns tipos de frutas, legumes e verduras, e com baixa renda, dificilmente percorrerão grandes distâncias para encontrar tais alimentos e acabarão adquirindo aqueles disponíveis em sua região domiciliar. Esse fato acaba limitando o alcance da variedade dietética adequada, constituindo-se uma barreira à alimentação saudável e equilibrada. Pesquise mais Tendo em mente a exposição acima sobre o custo e acesso aos alimentos, leia o estudo a seguir, que teve por objetivo analisar a relação do preço 26 de frutas e hortaliças com sua aquisição, inclusive nas diferentes classes sociais, utilizando dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (reali- zada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 2002 e 2003). CLARO, R. M.; MONTEIRO, C. A. Renda familiar, preço de alimentose aquisição domiciliar de frutas e hortaliças no Brasil. Rev Saúde Pública. n. 44 v.6. p. 1014-20, 2010. Até o momento, abordamos as temáticas tempo e rotina, habilidades culinárias custo e disponibilidade de alimentos como possíveis barreiras à alimentação saudável. É importante, ainda, considerarmos a questão dos aspectos emocionais influenciando as escolhas alimentares. Exemplificando Imagine que Matheus é um indivíduo muito ansioso. Nos seus maiores picos de ansiedade, ele consome doces em grande quantidade, achando que isso aliviará um pouco sua ansiedade. O que acontece nesse quadro, não incomum nos dias atuais, é que Matheus está praticamente “condicionado” a consumir doces em momentos de ansiedade. O fator emocional acaba por “conduzir” a situação e o próprio organismo de Matheus começa a enviar sinais de que ele precisa consumir doces para melhorar o estado de ansiedade, o que é muito prejudicial à sua saúde. Nesse caso, o consumo de doces não resolve o problema da ansiedade de Matheus, apenas “ameniza o sintoma”, de forma momentânea. Por meio desse exemplo, é possível identificar que as escolhas alimentares são influenciadas, dentre outros fatores, pelo fator psicológico/emocional. No caso de Matheus, a ansiedade o leva a consumir doces; existem diversos outros tipos de situações em que a escolha alimentar do indivíduo é influen- ciada pelo estado emocional: solidão e isolamento social podem levar à diminuição do apetite e ingestão alimentar como um todo; pensamentos negativos sobre o peso corporal, podem conduzir a restrições calóricas severas, entre outros. Pesquise mais O artigo de Azevedo e Spadotto (2004), “Estudo psicológico da obesi- dade: dois casos clínicos”, traz um bom panorama da abordagem psico- lógica sobre a escolha alimentar, principalmente da obesidade, diferen- ciando-a entre psicossomática e comportamental. O artigo fornece um 27 bom arcabouço teórico e resumido da psicologia psicossomática, do ponto de vista de diversos autores. Acesse o link que segue e leia as páginas 129 a 132, tópico “O ponto de vista psicológico”. AZEVEDO, M. A. S. B. de; SPADOTTO, C. Estudo psicológico da obesi- dade: dois casos clínicos. Temas psicol. Ribeirão Preto, v. 12, n. 2, p. 127-144, 2004 . No artigo de leitura sugerido (AZEVEDO e SPADOTTO, 2004) a obesi- dade, epidemia presente e crescente em várias partes do mundo, é analisada do ponto de vista psicossomático, ou seja, quando sua causa é atribuída essen- cialmente a fatores psicológicos. O que é importante salientar aqui é que, mesmo que um indivíduo tenha conhecimento teórico sobre os benefícios da alimentação saudável e malefícios da alimentação não saudável, se os fatores psicológicos não estiverem sob controle, eles sobrepujarão o conhecimento teórico e levarão o indivíduo a realizar escolhas alimentares inadequadas. Neste contexto, é muito importante destacar a importância da multi- disciplinaridade. Indivíduos com maiores dificuldades em controlar seus impulsos e sentimentos devem ser encaminhados a um acompanhamento psicológico, com profissional especializado, que poderá auxiliá-lo e favorecer a obtenção de desfechos positivos. O aspecto do convívio social, também está intimamente ligado à temática psicológica. Este fator pode ser um potente influenciador da alimentação, seja ele positivo ou negativo. A antropologia mostra que, desde a antiguidade, entende-se a relevância do convívio social do homem para todas as esferas de sua vida, esteja ele envolvendo familiares, amigos, colegas, profissionais de saúde, entre outros. Na antropologia da alimentação vemos que, nas épocas mais primitivas, o homem caçava, pescava, coletava alimentos e repartia com os demais compa- nheiros do seu convívio, uma vez que uns dependiam dos outros. A forma que nos alimentamos hoje, portanto, ganhou uma série de signi- ficados e ressignificações ao longo da história. Herdamos dos nossos antepas- sados o hábito de sentar à mesa, repartir o pão, preparar alimentos para as mais diversas comemorações e festejos, presentear com alimentos (uma caixa de bombons, por exemplo) e muitos outros costumes, os quais marcam nossas relações interpessoais e com o meio em que vivemos. É importante ressaltar que a solidão, ou isolamento social, é um aspecto negativo que pode prejudicar todas as esferas de vida de um ser humano, dependendo do seu grau e intensidade, uma vez que exercerá efeito direto 28 sobre os fatores psicológicos individuais, que por sua vez desencadearão determinadas respostas, no geral, negativas. Dessa forma, o fator solidão é muito relevante e merece atenção, princi- palmente quando falamos dos indivíduos mais idosos que, muitas vezes, perdem seu companheiro, têm filhos ausentes ou familiares distantes. Seu interesse no preparo de refeições pode se reduzir, bem como seu apetite, e os desfechos desse quadro são desfavoráveis à sua saúde e qualidade de vida, podendo desencadear, por exemplo, desnutrição e fragilidade. Sem medo de errar Dando continuidade à história que contamos sobre Luciana, Josy e Roberta, no início da seção foi proposta uma situação-problema, envol- vendo as seguintes indagações: Que outras barreiras podem impactar a saúde e rotina das pessoas, além da escassez de tempo e recursos? Será que os alimentos que Josy consome, como lanche, diariamente são realmente mais baratos que lanches mais saudáveis? Roberta, amiga de Josy, estava tentando ajudá- la. Sem essa ajuda Josy teria aquela expressão pensativa um tempo depois? Qual a importância de Roberta nessa situação? Com base no contexto abordado sobre as principais barreiras de saúde, podemos concluir que as outras barreiras que podem impactar a saúde e rotina das pessoas, além do tempo, são o custo e acesso aos alimentos, influenciados pela renda dos indivíduos, habilidades culinárias, fatores psicológicos e convívio social. Quando falamos sobre o custo dos alimentos, vimos que a temática do custo de uma alimentação saudável ainda necessita de mais estudos, pois as opiniões de diversos autores ainda divergem, uma vez que esse custo dependerá de uma série de outros fatores, como a produção, processamento, transporte, conservação, armazenamento e tipo de alimentos. O último tema que abordamos na seção falava sobre a importância do convívio social na vida do ser humano. No caso de Josy e Roberta, podemos notar que Roberta estava, de alguma forma, tentando conscientizar sua amiga Josy sobre os malefícios de uma alimentação não saudável, desempenhando um papel fundamental, principalmente levando sua amiga Josy a parar e refletir sobre o que ambas haviam conversado. Nesse momento, Josy teve a oportunidade de repensar suas escolhas corriqueiras, algo que ela poderia não ter feito sem o 29 auxílio de sua amiga Roberta. Mais uma vez fica clara a importância do convívio social na rotina da sociedade em que vivemos. Avançando na prática Um novo casal! Victória é uma jovem de 26 anos que acabara de se casar. Seu esposo, Jonatas, também jovem, gosta muito de fazer refeições tradicionais à mesa em família, hábito que herdou de seus pais. As refeições em sua casa eram sempre preparadas por sua mãe, que tinha dedicação exclusiva ao lar. Victória morava sozinha há 3 anos, pois havia se mudado da cidade que seus familiares moravam para trabalhar e estudar, portanto havia se acostumado a comer lanches do tipo fast food, pedir suas refeições por telefone, omitir refei- ções, dando pouca importância para refeições à mesa. Somado a esses fatores, Victória também não sabia cozinhar direito, conhecendo a forma de preparo de pouquíssimos pratos. Jonatas também não sabia cozinhar, considerando que essa função era prioritariamente feminina, devido ao hábito familiar vivenciado por toda a sua vida. Como recém-casados, Jonatas e Victóriapossuem um montante de dívidas que restringem muito seu orçamento. Diante da situação exposta, como você acha que seria a alimentação de Victória e Jonatas em um primeiro momento? Que barreiras estão envolvidas nessa situação? Como eles poderiam resolver suas diferenças na forma de pensar a alimentação cotidiana? Resolução da situação-problema Diante do quadro exposto, vemos que Victória e Jonatas apresentam hábitos relacionados à alimentação completamente diferentes. Muito prova- velmente, em um primeiro momento, Victória e Jonatas passariam por um choque de realidades; Jonatas iria querer que suas refeições fossem preparadas por Victória e servidas à mesa, como de costume em sua casa, e Victória, por sua vez, teria dificuldades em atender às expectativas de seu marido, uma vez que não tinha o hábito de fazer refeições à mesa nem cozinhar. Provavelmente ambos iriam comer fora ou pedir comidas via delivery, em um primeiro momento, porém essa situação não poderia se sustentar por muito tempo, uma vez que ambos estão com o orçamento apertado. As principais barreiras envolvidas nessa situação, portanto, são a falta de habilidades culinárias e o custo da alimentação. Uma forma para que eles pudessem resolver suas 30 diferenças seria dialogando e chegando juntos a um consenso, que pudesse agradar e atender a ambos. Jonatas deveria modificar sua visão a respeito das práticas culinárias, interessando-se também por elas; Victória também deveria se interessar mais pelo desenvolvimento de suas habilidades culiná- rias e ambos poderiam preparar juntos suas refeições, favorecendo, assim, a economia de recursos financeiros. 31 Seção 3 Introdução ao cuidado de adultos e idosos saudáveis Diálogo aberto Nas Seções 1.1 e 1.2, você aprendeu sobre as tendências contemporâneas em saúde e os principais elementos que podem constituir-se barreiras em saúde, em especial a um padrão alimentar saudável. Nesta seção, introduzi- remos os aspectos envolvidos no cuidado nutricional com adultos e idosos saudáveis, abordando a temática da redução dos riscos à saúde e adesão em saúde. Também falaremos sobre os conceitos básicos no atendimento nutri- cional ambulatorial. No início da unidade, trouxemos uma situação interessante sobre o comportamento alimentar de uma jovem, Josy, que trazia consigo um padrão alimentar nada saudável e que não estava muito disposta à mudança; ela se considerava muito jovem, com peso ótimo e dizia não apresentar nenhum problema de saúde. Roberta, sua amiga, não sabia mais como ajudá-la. Nessa situação, qual seria a importância do conhecimento de Josy a respeito da prevenção em saúde? Luciana, estudante do último semestre de Nutrição, se tivesse abertura, como poderia ter aconselhado aquelas jovens? Com base nos conhecimentos que serão abordados nesta seção, você será capaz de compreender, principalmente, a importância do cuidado nutri- cional mesmo com indivíduos tidos como saudáveis e a relação da adesão em saúde com seus desfechos. Vamos lá? Não pode faltar São amplamente conhecidos e disseminados os conceitos a respeito dos padrões alimentares saudáveis que, uma vez adotados, podem trazer inúmeros benefícios à saúde. É importante destacar que a adoção desses padrões deve ser incentivada não somente para indivíduos que já apresentem alguma doença ou que estejam precisando perder peso. Todo indivíduo saudável pode ser um “candidato” a desenvolver alguma doença/desequilíbrio se forem alimentadas as condições favoráveis para tal. Na Seção 1.1 desta unidade, vimos que as doenças crônicas não transmissíveis 32 (DCNTs) estão em ascensão e possuem diversos fatores de risco passíveis de modificação. É nesse contexto que a temática da prevenção pode tomar lugar. Vejamos como a prevenção atua na área da saúde: Assimile Há três tipos de prevenção: • Prevenção primária: visa impedir que alguma doença surja, mantendo o estado de saúde de um indivíduo. Pode ser dividida em promoção da saúde e proteção específica. Na promoção da saúde são desenvolvidas ações que, de forma geral, favorecem a saúde (como alimentação, educação, saneamento etc.). Já na proteção específica, as ações são direcionadas a prevenir deter- minado agravo em específico, para impedir que este atinja um determinado indivíduo ou grupo de indivíduos. • Prevenção secundária: visa tratar adequadamente uma deter- minada doença, já instalada, a fim de evitar que complicações adicionais possam surgir em decorrência dela. São realizadas ações como diagnóstico precoce, intervenção rápida e contenção de possíveis efeitos deletérios da doença. • Prevenção terciária: uma vez instalada determinada doença no organismo e este ter sido acometido por complicações advindas dela, a prevenção terciária visa recuperar a saúde e os prejuízos sofridos pelo organismo. Dos três tipos de prevenção apresentados, é possível notar que no primeiro nível de prevenção, ou prevenção primária, os indivíduos não apresentam uma doença específica para a qual necessitam de tratamento, mas, sim, são indivíduos saudáveis, alvos de ações que terão como objetivo impedir que, de alguma forma, sua saúde seja subtraída nas mais diversas esferas. A prevenção primária é, de longe, a de melhor custo-efetividade, uma vez que a realização das ações que a envolvem tem um custo bem mais baixo em saúde pública, se comparadas às dos níveis de prevenção secundário e terciário, nos quais o indivíduo já possui alguma doença instalada (e irá envolver o custo de medicamentos, profissionais especializados, internações hospita- lares, insumos, entre outros). Além do custo menor, em questões monetárias, também se favorecem melhores níveis de qualidade de vida, beneficiando toda a sociedade e sendo, portanto, efetivas. Retomando o tema das DCNTs, no livro Nutrição nas doenças crônicas não transmissíveis os autores apontam que as “intervenções para prevenção 33 primária das DCNT têm a intenção de mover o perfil de toda a população para uma direção saudável” (CUPPARI, 2009, p. 17). Há indivíduos que apresentam certos perfis comportamentais que podem ser classificados em grupos de risco para desenvolvimento de certas DCNTs. Dessa forma, as ações de prevenção primária visam à conscientização, princi- palmente desses indivíduos que se encontram em grupos de risco, na tenta- tiva de promover modificações comportamentais em direção a um estilo de vida mais saudável. As ações concebidas e destinadas à prevenção primária podem envolver diversos métodos, técnicas e recursos voltados à divulgação de campanhas de conscientização sobre determinado tema, visando a uma abrangência considerável do público-alvo a que se destinam. Esses métodos podem ser verbais, nos quais são transmitidas informações claras aos indivíduos sobre determinado tema, por meio da elaboração de folhetos instrutivos, cartazes, cartilhas, livros, websites na internet, músicas, palestras, congressos, entre outros. Podem ser utilizados métodos ativos, nos quais o público-alvo é incentivado a participar ativamente do seu aprendizado, por meio de discus- sões, dinâmicas de grupo, estudos de casos, simulações e jogos, psicodramas, descobertas, entre outros. Vale destacar que a forma escolhida para educar/ ensinar refletirá diretamente sobre o resultado, a eficiência e a eficácia. Uma das formas de prevenção primária, exemplificada no box a seguir, é a alimentação, que pode estar envolvida tanto na promoção da saúde quanto na proteção específica, favorecendo a redução do risco da incidência de diversas doenças. A criação de guias alimentares é uma das formas adotadas pelos governos de diversos países do mundo, que têm por objetivo auxiliar e instruir indivíduos saudáveis a manterem-se saudáveis e longe de doenças, por meio das mais diversas práticas alimentares saudáveis, utilizandouma linguagem de fácil compreensão, regionalizada, e lançando mão de elementos didáticos como figuras, gráficos e exemplificações. Exemplificando As recomendações dos guias alimentares e diretrizes de alimentação saudável são as mais diversas. Dentre elas podem ser citados, por exemplo: • A redução do consumo de gorduras saturadas: recomendada para diminuir o risco do aparecimento de dislipidemias, como a hiper- colesterolemia e a aterosclerose. • A redução do consumo de sódio: recomendada para diminuir o risco do desenvolvimento da hipertensão arterial sistêmica e, por 34 consequência, reduzir o risco de doenças do sistema cardiovas- cular. • A redução do consumo de açúcares simples: recomendada para redução do risco do desenvolvimento de diabetes e obesidade. • O consumo adequado de frutas, legumes e verduras: pode reduzir o risco do desenvolvimento de doenças cardíacas, cerebrovascu- lares e cânceres gastrointestinais. A última versão do Guia Alimentar para a População Brasileira (BRASIL, 2014) tem seu foco pontuado na promoção da saúde e prevenção de enfermi- dades por meio da alimentação adequada. Pesquise mais Ao final do Guia Alimentar para a População Brasileira (BRASIL, 2014), é possível encontrar todas as suas recomendações resumidas, em dez passos, os quais visam ao alcance de um padrão alimentar adequado e saudável. Leia os dez passos contidos no guia, nas páginas 125 a 128. Discuta com seus colegas a respeito da importância da observação desses passos na redução dos riscos à saúde. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departa- mento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed., 1. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. 156 p. Ao longo das páginas do guia (BRASIL, 2014), são utilizadas diversas imagens contemporâneas e características do país e uma linguagem clara e simples de ser compreendida. Pode ser destacada, ainda, a ilustração de pratos saudáveis, destinados às principais refeições do dia contendo alimentos regionalizados, que tornam o aprendizado dos conceitos mais fácil, de forma que ele se aproxime mais do indivíduo e de sua realidade, da vida como ela é. Reflita Uma vez que os governos de tantos países têm investido e empregado esforços e recursos na disseminação de informações para a promoção da saúde e prevenção primária, utilizando inúmeras técnicas e métodos, algumas perguntas podem povoar nossa mente: por que, em meio a tanta informação, a incidência e prevalência das DCNTs só crescem? Por que as pessoas não param de adoecer por doenças plausivelmente 35 “preveníveis”, ocasionadas principalmente por estilos de vida não saudáveis, passíveis de modificação? As respostas a essas perguntas podem ser um tanto polêmicas e irão envolver o que denominamos “adesão”. Na literatura, em artigos publicados em português, encontramos também o termo aderência para tratar da adesão (utilizado em menor escala). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) (2003), adesão em saúde significa modificar comportamentos de vida de forma a atender às orientações propostas por profissionais de saúde. Quanto maior a adesão de um indivíduo e efetiva sua mudança de comportamento em direção às orien- tações recebidas pelos profissionais de saúde, melhores serão os desfechos e benefícios para sua própria qualidade de vida e minimização da probabili- dade do desenvolvimento de doenças, como as DCNTs. Por meio da definição de adesão é possível identificar um aspecto impor- tante: temos um sujeito que orienta e outro que segue essa orientação. É tendo esse aspecto em vista que surge um outro termo interessante para tratar da temática da mudança de comportamento: o termo concordância. Assimile Concordância, em saúde, envolve o processo em que, diante da neces- sidade da mudança, um indivíduo e um profissional de saúde, juntos, tomam as decisões sobre essa mudança. No contexto da concordância, o indivíduo não é um ser passivo que apenas ouve e obedece a todas as orientações, mas, sim, pode participar do processo de decisão até que se chegue a um consenso plausível para a mudança. A concordância ganha ainda mais relevância quando nos lembramos que a mudança de comportamento é multifatorial e envolve aspectos que talvez somente o próprio indivíduo consiga identificar, como, por exemplo, seus próprios limites. Mesmo sob a óptica da concordância, seguir uma nova orientação proposta envolve diversos aspectos que, em sua maioria, não são simples e fáceis de serem alcançados. Modificar um hábito arraigado por um longo tempo irá requerer esforços individuais em diversas esferas; podemos citar as esferas socioeconômica (renda, escolaridade, por exemplo) e individual (preferências, hábitos, fatores genéticos e psicológicos). É importante que façamos uma conexão desses aspectos com as barreiras citadas na Seção 1.2 desta unidade. Somente contando com as variáveis das 36 esferas socioeconômica e individual, o número de barreiras que se ergue para impedir o alcance da mudança de um hábito é grande o suficiente para até mesmo fazer um indivíduo desistir da mudança. Vale destacar que um indivíduo deve ser conscientizado de que toda mudança de comportamento e/ou hábito deve ser gradativa; choques grandes de realidade quase nunca apresentam desfechos favoráveis. Exemplificando Imagine um indivíduo que manteve o hábito de consumir doces todas as noites antes de deitar, durante vários anos. Se esses doces forem subita- mente removidos da sua “vida”, certamente seu organismo sentirá falta, pois os hábitos modulam respostas químicas e o organismo se adapta ao longo do tempo a essas respostas. Essa falta poderá ocasionar, por exemplo, um desejo cada vez mais voraz pelos doces até que, em algum momento, gera uma compulsão alimentar. Em outras palavras, se esse indivíduo remover o consumo desses doces de uma só vez, ele poderá passar por uma “crise de abstinência” e ver-se tentado a consumir doces ainda mais do que antes. Dessa forma, toda mudança de comportamento envolverá paciência, determinação e planejamento. É importante que sejam estabelecidas metas plausíveis a curto, médio e longo prazos e que elas sejam reajustadas conforme a realidade de cada indivíduo. Reflita Quantas vezes você já tentou modificar um hábito que considerava ruim para a sua saúde e não conseguiu? Quantas vezes você tentou novamente? Você avaliou todos os aspectos envolvidos nessa mudança de hábito? Quando pensamos em não adesão, devemos ter em mente dois aspectos. O primeiro é que a não adesão pode ser não intencional, ou seja, por vezes o indivíduo mantém hábitos de vida que podem ser deletérios em algum aspecto para sua saúde, mas sem saber. A falta de informação é algo impor- tante, devendo ser considerada, principalmente, nas ações de prevenção primária, abordada anteriormente. Entretanto, a adesão pode ser inten- cional, ou seja, o indivíduo sabe o que deve fazer, mas não faz, por uma série de motivos. 37 Para entender essas questões comportamentais relacionadas à mudança, na década de 1980 foi desenvolvido o modelo transteórico. Esse modelo é extremamente útil para identificar em que “fase de mudança” se encontra um determinado indivíduo. Ele pode ser utilizado para observar mudanças de comportamento em diversos segmentos, dentre eles a mudança de compor- tamento alimentar, e é constituído dos cinco estágios a seguir: • Pré-contemplação: A mudança de comportamento ainda não foi consi- derada pelo indivíduo ou não se deseja mudar, seja por falta de infor- mação ou por tentativas de mudança frustradas, que o desmotivam. • Contemplação: O indivíduo reconhece que necessita de mudança, deseja mudar, mas se usa de diversas barreiras como “desculpas” para não iniciar prontamente a mudança. • Decisão ou preparação:A mudança passa a tornar-se mais próxima da realidade do indivíduo, que passa a reconhecê-la como algo mais factível. • Ação: O indivíduo conseguiu iniciar a mudança, superando as barreiras anteriormente identificadas, e consegue mantê-la por um período longo de tempo (menos de 6 meses). • Manutenção: A mudança é mantida por mais de 6 meses, todavia, a vigilância deve ser permanente para que se evitem recaídas. Se estas ocorrerem, o indivíduo pode voltar a algum dos estágios anteriores e retomar o ciclo da mudança. Pesquise mais No artigo Estágios de mudança do comportamento para o consumo de frutas e hortaliças e sua relação com o perfil nutricional e dietético de universitários temos um ótimo exemplo da utilização do modelo trans- teórico. REIS, L. C.; CORREIA, I. C.; MIZUTANI, E. S. Estágios de mudança do comportamento para o consumo de frutas e hortaliças e sua relação com o perfil nutricional e dietético de universitários. Einstein, n. 12, v. 1, p. 48-54, 2014. Introdução ao atendimento nutricional ambulatorial: estrutura básica de um ambulatório O atendimento nutricional ambulatorial é destinado a atender indiví- duos, tanto saudáveis quanto não saudáveis, de acordo com suas mais 38 diversas necessidades. Esse atendimento pode ocorrer em um consultório que atenda apenas pacientes particulares, que atenda pacientes que possuam seguro-saúde, que atenda pacientes advindos do Sistema Único de Saúde (SUS), entre outros tipos. Nesta seção, focaremos no atendimento particular, em consultório. Tendo em vista a grande diversidade de doenças e condições clínicas, é importante que o nutricionista esteja preparado para lidar com inúmeras situações. A fim de reduzir a gama de possibilidades, o nutricionista pode focar em alguma(s) doença(s) e/ou situações mais específicas, de forma a delimitar um certo público-alvo. Tentar atender todo tipo de paciente pode comprometer a qualidade, desempenho e competitividade do nutricionista em um mercado muito disputado nos dias de hoje. Exemplificando O nutricionista pode se especializar, por exemplo, no atendimento de adultos esportistas e, portanto, direcionar suas ações de divulgação/ marketing a esse público-alvo específico. Vale ressaltar, entretanto, que os conhecimentos técnicos nutricionais básicos são estritamente necessários a qualquer escolha de público-alvo, uma vez que, mesmo estando mais delimitado, ainda pode representar um universo enorme de possibilidades. Por exemplo, seu atendimento nutricional é voltado a esportistas e, no seu consultório, você recebe um esportista que acaba de ser diagnosticado com diabetes. Por mais que seu foco não seja doenças crônicas não transmissíveis, você terá que saber como tratar esse paciente, pois o conhecimento da dietoterapia no diabetes é básico a todo nutricionista, bem como das demais DCNTs. Os distúrbios nutricionais também são de conhecimento estritamente necessário. Além do tipo de condição clínica, necessidade e/ou doença, o público- alvo do atendimento nutricional também sofrerá a influência dos seguintes fatores: • Localização do consultório (região central, mais afastada, grande fluxo de pessoas a pé, acesso somente com veículos, facilidade de acesso, estacionamento e transporte público etc.). • Aparência do consultório (aparência tanto externa quanto interna do consultório; muitos indivíduos se importam com as condições do local que vão, pois estão relacionadas às questões de cunho social e status; eles podem avaliar a conservação do local, decoração, serviços como wi-fi, secretária, lembrete de consultas etc; indivíduos de mais 39 alta renda tendem a direcionar seus recursos para o uso de terapias e serviços de saúde, enquanto que os de menor renda direcionam seus recursos para a aquisição de medicamentos). • Forma de trabalho do nutricionista e de entrega do plano alimentar (forma de tratamento do paciente, equipamentos disponíveis, experi- ência, compreensão, empatia, elaboração de plano personalizado, plano padronizado, entrega imediata, entrega em vários dias, entrega impressa ou por e-mail etc.). • Valor da consulta. Assim sendo, o local que um nutricionista decidir montar seu consultório irá influenciar diretamente sobre o tipo de paciente que ele irá receber, uma vez que, atualmente, as pessoas buscam praticidade e facilidade em tudo o que fazem, além da aparência do local. A forma de trabalho do nutricionista poderá influenciar até mais do que a localização; normalmente quando um indivíduo gosta de um atendimento nutricional, ele tende a divulgar para seus contatos mais próximos, o que favorece a exposição do profissional. Quanto melhor o atendimento e forma de trabalho, aliados a um preço justo, maior a possibilidade de conquistar novos clientes. Para tal, é importante que o indivíduo conheça seus concorrentes, os serviços oferecidos, forma de trabalho e preços praticados pelo mercado. Sem dúvida, porém, nenhum nutricionista pode se esquecer de valorizar seu trabalho! Para estruturar um consultório de nutrição, é necessário verificar todas as exigências legais para tal [verificar se o local escolhido pode abarcar o funcio- namento de um consultório perante a prefeitura (alvará de funcionamento e registro na Secretaria Municipal), corpo de bombeiros, legislações sanitárias pertinentes (perante a Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA); contatar um contador, abrir uma empresa por meio do Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ), registrar a empresa no Conselho Regional de Nutrição (CRN) etc.)]. Além disso, é necessário contabilizar todos os custos envolvidos com a operação. Sem um planejamento financeiro prévio e cálculo do prazo de retorno do investimento, por exemplo, um negócio que demandará tanto tempo e recursos financeiros pode, no final das contas, ao invés de trazer lucros, causar prejuízos. A estrutura do consultório envol- verá uma sala de espera/recepção, sanitários, sala para a consulta, copa, área para depósito de material de limpeza, escritório e resíduos. Devem ser definidos os recursos humanos envolvidos (serviços de atendimento, higie- nização, administração, contabilidade etc.). A seguir, definem-se os equipa- mentos, mobília e elementos decorativos. Nos equipamentos são necessários, no mínimo, um computador equipado com impressora, internet, programa 40 de nutrição, balança, estadiômetro, adipômetro, fita métrica e, se possível, aparelho de bioimpedância. O nutricionista deve, ainda, escolher como divulgar seu negócio para torná-lo lucrativo. Ações nas redes sociais, criação de sites, cartões, folhetos e material personalizado, são diferenciais importantes. Sem medo de errar Na situação-problema desta seção, abordamos o quadro de Josy, que aparentemente estava pouco preocupada com seu padrão alimentar e apresentava uma diversidade de “desculpas” para não o modificar, enquanto sua amiga Roberta tentava lhe aconselhar à mudança. Nesse momento, foi levantada a questão sobre a importância do conhecimento de Josy sobre a prevenção em saúde. A seguir, questionamos se Luciana, estudante de nutrição, tivesse abertura, como ela poderia ter aconselhado aquelas jovens. Como vimos ao longo da seção, a prevenção é estritamente necessária mesmo em indivíduos tidos como saudáveis e vimos que indivíduos com certos comportamentos podem enquadrar-se em grupos que chamamos “de risco” para o desenvolvimento de certas doenças. Josy é uma pessoa que pode se enquadrar nesse perfil; ela vem adotando um padrão alimentar não saudável há um tempo (pois sua amiga relata que já a alertou por diversas vezes) e mesmo assim não o modifica, apoiando-se em diversos motivos para manter-se da forma como está. Assim, uma vez que Josy tivesse oportunidade de conhecer a temática da prevenção em saúde e reconhecer sua importância em suavida, poderia, com maior facilidade, modificar seu comportamento alimentar. Se Luciana tivesse abertura, ela poderia de fato alertar as jovens, principalmente Josy, sobre a importância de se trabalhar com a prevenção primária, modificando hábitos alimentares em direção a um padrão mais saudável a fim de prevenir o aparecimento de DCNTs. Avançando na prática Montando um consultório Bianca acaba de graduar-se em Nutrição e deseja muito abrir seu próprio consultório. Ela tem poucos recursos financeiros, mas está ansiosa e afoita por realizar logo seu sonho. Ela pretende ainda fazer uma especialização no atendimento de indivíduos obesos e/ou que tenham realizado cirurgia 41 bariátrica. De toda forma, Bianca pretende começar logo seu negócio; ela não quer “perder tempo”. Assim sendo, ela pretende alugar uma sala de um amigo conhecido no centro da cidade e começar a atender, o mais tardar, em duas semanas. Analisando a situação, o que Bianca deve fazer primeiro? Esse é o momento apropriado para Bianca abrir seu próprio consultório? Existe algum risco? Resolução da situação-problema Observando a situação, é possível notar que a pressa de Bianca provavel- mente irá atrapalhá-la muito na realização do seu sonho. Primeiramente, ela deve realizar um planejamento, principalmente financeiro; planejar os custos operacionais e todas as etapas de abertura do consultório (principalmente no que diz respeito ao cumprimento legal e tributário) irá garantir maior sustentabilidade do negócio e mostrar se, de fato, a abertura nesse momento é viável. Além disso, Bianca precisa pensar em toda a estruturação do consul- tório, recursos humanos e forma de divulgação e alcance do público-alvo específico. Se Bianca não observar todas essas condições, certamente esse não será o momento ideal para abrir seu consultório e ela corre um grande risco de não pagar as contas ao final do mês. É importante observar, ainda, que Bianca pretende se especializar em uma área da nutrição; assim sendo, talvez seja melhor aguardar a finalização dessa especialização para poder oferecer um serviço com mais confiança, experiência e qualidade. 42 Referências da seção ALMEIDA FILHO, N. O que é Saúde? Rio de Janeiro: Fiocruz, 2013. ALVARENGA NETO, J. F. Como montar uma clínica de Nutrição. Brasília: Sebrae, [s.d.]. Disponível em: https://www.sebrae.com.br/appportal/reports.do?metodo=runReportWEM&-o nomeRelatorio=ideiaNegocio&nomePDF=Cl%C3%ADnica%20de%20nutri%C3%A7%- C3%A3o&COD_IDEIA=16ecd181c0ed0510VgnVCM1000004c00210a . Acesso em: 29 set. 2017. AZEVEDO, M. A. 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Assim, ao final desta unidade, você será capaz de sinte- tizar as alterações fisiológicas para escolha de dietas alimentares a fim de criar um planejamento dietético no envelhecimento. Nesta unidade, suponha que você seja estagiário da nutricionista Carla, que recebe uma família para atendimento. Elisa é uma senhora de 68 anos, mora com o marido Henrique, de 74 anos, ambos são sedentários. Elisa foi criada em uma cidade pequena, seus pais tinham horta em casa e sempre tiveram uma alimentação simples, porém, saudável. Elisa e Henrique se casaram e foram morar em uma cidade grande, onde construíram sua família. Hoje, o casal tem uma neta, Sofia, de 20 anos, que pratica natação 3 vezes por semana. Ela fica após o cursinho pré-vestibular na casa de seus avós até seus pais a buscarem, quando saem do trabalho. Sofia não gosta de nenhuma verdura, come poucas frutas e ama fast-food. No cursinho, durante o intervalo, ela e suas amigas sempre compram, na cantina da escola, o mesmo lanche: um salgado, um suco industrializado e um chocolate. Seu avô Henrique prepara o almoço da família, cujo cardápio sempre conta com arroz, feijão, carne (quase sempre cozida, pois Elisa tem uma certa dificuldade de comer comidas sem caldo), dois vegetais refogados, salada com temperos naturais e suco da fruta. A comida é sempre sem adição excessiva de sal ou temperos industrializados, pois Henrique é hipertenso, mas nem por isso ela tem menos sabor. Henrique sempre utiliza ervas para temperá-la, pois diz que sem tempero ele acaba não sentindo muito bem o gosto dos alimentos. Porém, apesar da variedade, Sofia coloca no prato arroz, feijão e carne, e vive pedindo a seu avô por uma batata frita. Elisa sempre insiste que a neta coma verduras durante o almoço e não tome sucos industrializados, e sim os naturais que o avô faz todos os dias. Elisa e Henrique sempre se perguntam por que sua neta não valoriza os alimentos in natura e prefere sempre alimentos prontos, além de não largar o celular nem quando está à mesa, comendo o mais rápido que pode para poder fazer outras atividades. Enquanto isso, os avós demoram para comer o dobro do tempo que a neta leva. Como lidar com a diferença de gerações, comportamentos e necessidades em uma mesma casa? Situações como essas aparecem a todo tempo para o profissional nutricionista. A leitura das seções desta unidade possibilitará a você conhecer mais sobre fatores relacionados às escolhas alimentares e diferenças fisiológicos no idoso. 47 Seção 1 Escolhas alimentares Diálogo aberto Olá, aluno. Nesta seção abordaremos a temática das escolhas alimentares. Você já parou para refletir sobre a quantidade de fatores que pode influenciar nossas escolhas alimentares? Desde de diferentes necessidades energéticas, que podem afetar a quantidadede alimentos que você irá consumir, até crenças, fatores socioeconômicos, valor afetivo agregado à comida, entre tantos outros. Os novos pacientes de Carla (Elisa, Henrique e Sofia) são de gerações diferentes e apesar de serem da mesma família e passarem uma parte do dia juntos, vivem em contextos distintos. As escolhas alimentares são processos que envolvem fatores socioculturais, pessoais e psicológicos. Elisa e Henrique fazem a sua própria comida, têm hábitos mais saudáveis e não estão o tempo todo conectados como a sua neta. Já Sofia vive cercada de informações o tempo todo, tem uma série de atividades a cumprir e recebe influência da mídia para realizar suas escolhas alimentares. Carla iniciará o acompanhamento desses pacientes, quais são os fatores ambientais que podem afetar as escolhas alimentares de Sofia, Henrique e Elisa? O fator econômico é diferente para os três? Algum determinante biológico pode fazer a diferença entre Sofia e seus avós? Como as escolhas alimentares podem afetar a nossa saúde? Como Carla pode lidar com esses determinantes em seu consultório? Não pode faltar Fatores inter-relacionados Caro aluno, nesta seção abordaremos temas importantes para sua carreira profissional, mostrando desafios que encontramos diariamente nos atendi- mentos ao paciente. Aqui você irá aprender a identificar e abordar esse tema na sua rotina. O comportamento alimentar dos indivíduos deve ser obser- vado atentamente, visto que escolhas alimentares inadequadas podem trazer prejuízo à saúde. O termo comportamento alimentar tem sido cada vez mais estudado e usado para expressar o consumo, modo de comer e outras questões relacionadas ao ato de comer (ALVARENGA e KORITAR, 2015). 48 O processo de escolha dos alimentos constitui um processo amplo, complexo, que envolve, além de fatores socioculturais, biológicos e psicológicos, a interação entre eles. O ato de se alimentar recebe muita interferência de acordo com a cultura de cada local, que media e qualifica qualquer atividade realizada pelo indivíduo, seja ela física ou mental, e é compartilhada entre diferentes membros de um grupo social. Cultura é uma construção de significados para as ações e interações sociais (as quais sustentam as formas sociais vigentes), que auxilia na formação dos nossos hábitos (LANGDON e WILK, 2010). Quando pensamos em algumas datas comemorativas, logo associamos a algum alimento. Natal, com a ceia tradicional, festa de aniversário, com bolo de aniversário, festa junina, com derivados do milho, e assim por diante. Todos esses aspectos culturais têm interferência nas nossas escolhas alimen- tares. Nossas escolhas, muitas vezes, estão carregadas de significados, da história individual, da personalidade e fatores do meio ambiente. O processo de escolhas dos alimentos não é formado apenas por decisões baseadas em reflexões conscientes, mas formado, também, por ações automáticas, habituais e subconscientes (ESTIMA; PHILIPPI; ALVARENGA, 2009). O ser humano aprende a partir de modelos, replicando comportamentos e observando indivíduos. Isso acontece por meio de observação direta, interações sociais, experiências pessoais e interferências da mídia. Fatores individuais e ambientais A escolha alimentar do indivíduo pode ser guiada por fatores relacio- nados ao alimento, (sabor, textura e aroma), e fatores relacionados ao indivíduo (biológicos, socioculturais e psicológicos) (POULIN e PROENÇA, 2003). Esses fatores podem atuar sozinhos ou em conjunto, influenciando o momento da escolha dos alimentos. Vamos iniciar com os determinantes relacionados aos alimentos. No processo de escolha de um alimento, pesquisas mostram que aparência, sabor, variedade e valor nutricional, com foco na saúde, são razões que levam o homem a escolher determinado alimento (SILVA; SALAY, 2000; NIELD; KOZAK; LEGRYS, 2000; SCHOLDERER, et al., 2004). Sabor e cheiro tem um papel central na escolha do alimento. Mas, além disso, a aparência e a temperatura fazem parte do processo de percepção de sabor, trazendo prazer para o consumo alimentar. Vocabulário O significado da palavra SABOR, segundo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, refere-se à sensação produzida por certas substâncias, que 49 têm a capacidade de impressionar o paladar. Está relacionado às sensa- ções provocadas pelo sabor doce, amargo, azedo e salgado. Usamos essa palavra para expressar o complexo estímulo sensorial que auxilia na escolha e apreciação da comida. (SABOR..., 2018) Quando nos alimentamos, algum grau de prazer está envolvido nesse processo. Um alimento não será consumido, nem sequer comprado, se não parecer saboroso, independentemente da situação econômica do indivíduo ou da disponibilidade desse alimento. A fome intensifica o prazer derivado da ingestão dos alimentos, quanto maior a fome, mais saboroso o alimento. Porém, não é apenas quando estamos com fome que nos alimentamos. A oferta de alimentos é cada vez mais frequente e fácil, se comparada a décadas anteriores. Com o processo de industrialização e avanços na agroindústria, a produção de alimentos tem sido cada vez maior e mais diversificada. Em certos momentos simplesmente comemos na ausência de necessidade aguda de calorias, quando somos influenciados por uma propaganda, quando passamos em frente a um estabelecimento e somos atraídos pelo aroma daquela preparação (KORITAR; ALVARENDA, 2015 apud ALVARENGA et al., 2015; ESPEL-HUYNH; MURATORE; LOWE, 2018). Reflita Caro aluno, já parou para pensar quantas vezes você já comeu na ausência de fome? Quantas vezes você foi motivado a consumir um alimento pela sua aparência e aroma incríveis? O ganho de peso está associado ao consumo exagerado de calorias, muitas vezes associado ao consumo de alimentos com valores altamente recompen- sadores e calóricos. O tecido adiposo é hoje um dos principais focos das pesquisas em obesidade, devido a sua relação com atividade inflamatória. O nível circulante de citocinas como IL-6, o TNF-α, a leptina e a adiponec- tina e proteínas de fase aguda, elevam a produção de fatores relacionados à inflamação. Essa condição pró-inflamatória pode levar a condições como diabetes mellitus tipo II, hipertensão e doenças cardiovasculares. O consumo de alimentos calóricos é muito associado ao ganho de peso e suas consequências, levando muitos indivíduos ao medo de comer por prazer. Esse misto de sentimentos, vontade de consumir o alimento, prazer e culpa, pode gerar no indivíduo um quadro de ansiedade. Dessa forma, ele começa a fazer associações negativas com alimentação e, muitas vezes, esse sentimento de culpa traz um prejuízo à sua qualidade de vida, passando a ter uma relação 50 ruim com a alimentação. Essa relação pode afetar a saúde e autoestima do paciente, levando muitas vezes a um descontrole no peso corporal. Assim, entramos na análise dos fatores ligados ao indivíduo. Quando pensamos nos fatores biológicos, vemos que a alimentação é um item neces- sário à nossa sobrevivência, pois garante os nutrientes necessários para nossa vida. O ser humano é um ser onívoro, o que amplia seu leque de escolhas quando falamos sobre alimentação. Além disso, os mecanismos da fome e saciedade atuam nas escolhas alimentares e na homeostase energética. Pesquise mais Para saber mais sobre o controle da fome, leia o artigo de revisão a seguir, que traz informações importantes sobre os mecanismos do sistema serotonérgico na saciedade e no controle de consumo de alimentos. FEIJÓ, F. M.; BERTOLUCI, M. C.; REIS, C. Serotonina e controle hipotalâmico da fome: uma revisão. Rev Assoc Med Bras, v. 57, n. 1, p. 74-77, 2011. A sensibilidade gustativa do indivíduo, que também é mediada por fatores genéticos, atua na palatabilidade dos alimentos e, consequentemente, sobre as suas escolhas alimentares. A questão de palatabilidadeainda vai muito além disso. Nosso paladar começa a ser formado durante a gestação e o período de aleitamento materno. A forma como foi conduzida a alimen- tação complementar da criança pode ter uma interferência direta em suas escolhas alimentares na vida adulta. Já quando nos tornamos idosos, somos acometidos por modificações fisiológicas que alteram nossa percepção de sabor. O número de corpúsculos gustativos nas papilas linguais é reduzido, alterações na dentição dificultam o processo de mastigação e a língua tem redução do tônus muscular. Todas essas alterações impactam diretamente na percepção de sabor. Mas comer não é apenas um processo fisiológico, comer é um ato social e cultural. Alimentação é meio de prazer, então está sempre ligada a lembranças e memórias, sejam elas boas ou ruins. O ato de se alimentar vem cheio de representatividade e para entender esse processo, temos que levar em conta o comer emocional. Os determinantes econômicos também influenciam nossas escolhas alimentares, assim como classe social, nível de escolaridade, acesso à informação, influência familiar e cultural e a mídia. A nossa renda influencia diretamente nosso poder de compra e, conse- quentemente, os alimentos que compramos para nossa casa. Os alimentos que fomos apresentados no decorrer da vida, as preparações habituais de nossas famílias, tem um impacto direto na formação dos nossos hábitos 51 alimentares. E a mídia vem como forte influenciadora, estabelecendo um padrão de consumo, um padrão corporal e um padrão de comportamento. Influências nas escolhas dos alimentos Para o marketing, é preciso entender muito bem o perfil do seu consu- midor, por que ele come, quando, com quem, com que frequência, ou seja, como o indivíduo decide gastar seu dinheiro para obter algo que queira consumir. O consumidor escolhe um alimento não apenas pelo valor nutricional ou a aparência, mas pelo que esse alimento significa para aquele indivíduo. De acordo com o comportamento alimentar, tópico que abordaremos em breve, a escolha alimentar vem de um processo amplo, em que precisamos consi- derar fatores culturais, econômicos antropológicos, sensoriais e pessoais, logo, todo o contexto em que o indivíduo está inserido. De acordo com Costell, Tárrega, Bayarri (2010), além dos componentes sensoriais dos alimentos, precisamos considerar 3 comportamentos do consumidor: afetivo, cognitivo e comportamental. Assim, nesse modelo, a relação do indivíduo com o alimento (positiva ou negativa), seu conheci- mento e crença sobre o alimento, bem como a sua intenção e disposição em consumir o alimento direcionam as escolhas alimentares. Assimile A alimentação reflete as manifestações do pensamento simbólico, simbolizando a realidade. Crenças e valores populares vinculados à alimentação têm forte peso nas escolhas dos alimentos. Associação feita com a ação de um alimento promove, até mesmo, a construção de mitos, como mistura de leite com manga ser prejudicial, açúcar tirar acidez do molho, banana evitar câimbra. Quem nunca ouviu também a crença de que o bebê pode nascer com uma marca semelhante ao alimento que a mãe acabou não comendo? Todas essas relações podem impactar nossas escolhas. Nosso processo de escolha alimentar também é flutuante, sofre interfe- rência do momento que estamos vivendo. Transições de vida, estilo de vida que você optou por seguir em determinado momento, pensamentos que se modificam, experiências que trazem novas relações com o alimento, viagens, exposição a novos sabores, diagnóstico de alguma doença, amigos, família, situação financeira, preço dos alimentos em determinada época, aposenta- doria. Tudo isso reflete nas nossas escolhas. 52 Além disso, podemos realizar escolhas em determinados momentos que são completamente diferentes do que usualmente escolhemos. Após um dia inteiro de trabalho árduo, chateações, muitas vezes fazemos escolhas com apego emocional, comidas que nos fazem sentir bem. Mesmo que essa escolha seja uma torta de chocolate que não faz parte do seu consumo alimentar habitual. Nesse dia, devido a essas interferências, essa foi sua escolha para o jantar. A mídia também exerce uma forte interferência em nossas escolhas alimentares, muitas vezes, nos induzindo ao consumo de alimentos saborosos, de fácil consumo e altamente calóricos, ao mesmo tempo em que nos mostra corpos magros, que nos remetem ao que é considerado saudável. Cada vez mais as pessoas têm maior acesso à informação e ao que é apresentado pela mídia, até mesmo sobre o culto ao corpo, sobre uma gama de alimentos considerados saudáveis, orgânicos ou impróprios para alimentação. Existe, também, uma preocupação crescente com uma cadeia de produção sustentável, que ainda deve percorrer um longo caminho para ser alcançada. Precisamos debater muito sobre consumo, escolhas adequadas e nossa relação com a comida, e veremos um pouco disso falando sobre comportamento alimentar. Comportamento alimentar A nutrição comportamental é a área da nutrição que trabalha com o comportamento alimentar. É preciso lembrar que comportamento e hábitos não são a mesma coisa. Comportamentos são eventos controláveis e modifi- cáveis, cuja repetição altera o hábito. Na psicologia o termo comporta- mento é utilizado para designar interações entre o organismo e o ambiente (TODOROV, 2012). No campo da alimentação e nutrição o comportamento alimentar está vinculado aos aspectos psicológicos, emocionais, que levam a ingerir a comida. Já o hábito alimentar está relacionado à ingestão energética e de nutrientes (KLOTZ-SILVA; PRADO; SEIXAS, 2016). Para a nutrição comportamental é fundamental que o alimento e o nutriente não sejam considerados os únicos protagonistas da alimentação. O contexto em que esse alimento é consumido, os sentimentos, crenças e pensamentos sobre a comida, são mais importantes que o alimento em si. Exemplificando Para a nutrição comportamental, é importante levar em consideração o contexto em que você se alimenta. Por exemplo, se você não gosta de almoçar sozinho, mas se vê obrigado todos os dias a realizar seu almoço sem companhia, isso pode interferir na sua ingestão. Você pode ficar 53 triste e seu apetite diminuir. Dessa forma, por mais que suas escolhas tenham sido excelentes, que seu prato esteja extremamente nutritivo, sua aceitação da refeição foi baixa, devido à falta de companhia. Por isso, todo o contexto da alimentação precisa ser levado em consideração. De acordo com o IBOPE, os brasileiros consideram que médicos e nutri- cionistas são a segunda fonte mais confiável de informação sobre alimentos e produtos alimentícios. A fonte mais utilizada pelo brasileiro para informa- ções sobre alimentação é a televisão (FIESP e ITAL, 2010). Com esse dado, vemos um risco em relação ao excesso de informações incorretas vinculadas à alimentação e à nutrição. Muitas informações sobre alimentação são veiculadas diariamente. A circulação de informações, reportagens, livros sobre alimentação saudáveis e profissionais abordando sobre o tema nas redes sociais crescem a cada dia. Porém, as Doenças Crônicas Não Transmissíveis, que são associadas a fatores de risco modificáveis, continuam em crescimento. Essa visão que tem sido passada para a população, com informações contraditórias ou verdades absolutas sobre determinados alimentos, abordando alimentação saudável com muitas informações equivocadas, dietas restritivas, verdades absolutas, associação de perda de peso com uma dieta que causa sofrimento aos indiví- duos, leva cada vez a uma vinculação de culpa ao se comer com prazer. Isso não transforma a saúde do indivíduo, pelo contrário, pode acabar prejudi- cando sua saúde. O profissional de nutrição também é um formador de opinião e precisa ter muito cuidado com a opiniões e esclarecimento que vinculaem suas mídias. É preciso estabelecer uma comunicação responsável e positiva com as pessoas ao se falar sobre alimentação. O nutricionista não precisa proibir alimentos e sim saber inclui-los da maneira correta e em quantidade adequada, dentro de um contexto saudável. É preciso criar uma relação de empatia com a alimentação, de forma que o momento da refeição não se transforme em um momento de medo, culpa e insatisfação. Teoria social cognitiva A Teoria Social Cognitiva (TSC) é frequentemente indicada para aplicações sociais, aborda determinantes modificáveis e a maneira como podem e devem ser estruturados para trazer uma mudança para o indivíduo. Para que haja uma mudança de comportamento em relação a hábitos de saúde, é necessário que esteja claro para o indivíduo o porquê da mudança e que ele acredite que é capaz de mudar (BANDURA, 2004; BANDURA; POLYDORO; AZZI, 2008). 54 A TSC pode ser utilizada para verificar comportamentos que não dependem exclusivamente da vontade pessoal. Ela oferece uma visão mais individualizada que permite uma visão mais ampla sobre o problema. Na TSC verificamos que o indivíduo segue modelos, se identifica com compor- tamentos de outras pessoas e crenças. Nessa técnica é importante ser um bom modelo para o paciente e trabalhar com moldes que influenciem positiva- mente o comportamento alimentar. Para Bandura (1886; 2008), o indivíduo se desenvolve compreendendo a realidade, participando do processo, sendo devidamente motivado, trabalhando em grupo, tendo feedback do processo e estabelecendo metas. O profissional nutricionista precisa estar consciente de tudo que envolve a alimentação do seu paciente. É necessário ir muito além do “o que se come”, é preciso saber “como, com quem, e onde comer”, pois todos esses fatores, agregados à relação que o indivíduo tem com a comida, vão fazer toda a diferença no tratamento desse paciente. Esse olhar também é importante quando vinculamos informações sobre alimentação para a população geral. A compreensão dos diversos fatores relacionados às escolhas alimen- tares é fundamental e pode auxiliar o profissional nutricionista a direcionar sua conduta, tendo mais sucesso no tratamento e na orientação dada a esse indivíduo. Minimizamos a diferença entre o que de fato é recomendado e seguido pelo indivíduo. Sem medo de errar No início da seção, acompanhamos a história de Elisa, Henrique e Sofia e contextualizamos uma situação-problema na qual questionamos os fatores que podem afetar as escolhas alimentares dessa família. Quais são os fatores ambientais que podem afetar as escolhas alimentares de Sofia, Henrique e Elisa? O fator econômico é diferente para os três? Algum determinante bioló- gico pode fazer a diferença entre Sofia e seus avós? Como as escolhas alimen- tares podem afetar nossa saúde? Como Carla pode lidar com esses determi- nantes em seu consultório? As escolhas alimentares são um processo que envolve fatores sociocultu- rais, pessoais e psicológicos. Elisa e Henrique tiveram uma criação interio- rana, foram apresentados na infância a alimentos mais naturais, e hoje possuem mais tempo disponível para elaborarem suas refeições. Como não ficam o tempo todo conectados, não sofrem tanta interferência da mídia. Como vimos, a idade é um fator que contribuiu para nossas escolhas, assim como as experiências que já tivemos e o quanto fomos expostos a determi- nados alimentos. 55 Já Sofia, de apenas 20 anos, cresceu cercada da oferta de alimentos ultra processados, e com uma influência grande da mídia. Além disso, vive cercada por pessoas com os mesmos hábitos, que seriam suas amigas do cursinho. Vimos que os fatores econômicos têm interferências nas nossas escolhas. No caso da família estudada, o que difere Elisa, Henrique e Sofia não é o fator econômico, mas todo o contexto diferente em que vivem. Carla deve avaliar bem todos os hábitos, costumes, preferências alimentares da família para poder lidar com a diferença de escolhas alimentares que ela tem. Avançando na prática Relação com a comida Paola é uma paciente de 35 anos, com obesidade, que vive fazendo dietas para tentar perder peso. Paola ama comidas bem saborosas, tem um amor imenso por lasanha, por se lembrar da época que almoçava com seus avós aos domingos. Mas como Paola vive de dieta, ela não come lasanha há vários meses e se sente muito triste por isso. Ela tem uma relação muito forte com esse prato, mas ele não é visto com um prato saudável, sendo assim, ela acredita que ele não pode ser incorporado a uma dieta saudável. Hoje, Paola já vê o horário da refeição como um momento de esforço, pois não gosta de nada que está no seu prato, além de sempre relatar estar com fome. Sua amiga Cláudia sempre recomenda a Paola que procure um nutricionista para verificar quais seriam os melhores alimentos e quantidades para a dieta de Paola. Porém, ela sempre diz que já tem informações suficientes e que todos sabem o que é alimentação saudável. Que comer saudável é comer sem prazer. Diante do apresentado, qual o papel do nutricionista no caso de Paola? Como ele pode ajudá-la? Cláudia está certa em orientar a amiga a procurar esse profissional? Resolução da situação-problema Esse misto de sentimentos, vontade de consumir o alimento, prazer e culpa, pode gerar no indivíduo um quadro de ansiedade. O paciente começa a fazer associações negativas com os alimentos, e a hora da refeição passa a ser um momento nada prazeroso. Esse sentimento de culpa pode prejudicar a saúde de Paola. 56 Paola tem uma relação afetiva com o prato que seus avós preparavam na sua infância, e essas relações, as lembranças e sentimentos que temos com determinado alimento tem interferências nas nossas escolhas. O nutricio- nista pode explicar à Paola que esse tipo de preparação pode estar presente em uma dieta saudável, desde que com moderação e não frequentemente. Claudia está certíssima em orientar que a amiga procure um profissional. Observamos que Paola faz uma dieta bastante restritiva, pois relata sempre estar com fome. Essa é uma associação que vemos muito frequente na mídia, dietas saudáveis são pouco saborosas e em pequenas quantidades. É necessário adequar a necessidade energética da paciente e orientá-la que uma dieta saudável. Para isso, a alimentação não precisa ser sem graça. Podemos realizar um bom planejamento respeitando as preferências, cultura e história do paciente. 57 Seção 2 Alterações fisiológicas no idoso Diálogo aberto Caro aluno, você já aprendeu quais fatores tem interferência sobre as escolhas alimentares dos indivíduos. Nesta seção, falaremos um pouco sobre alterações fisiológicas no idoso que afetam sua vida e, consequentemente, a sua alimentação. Com a mudança demográfica que ocorre no país, temos um crescimento da população idosa e, também, o aumento da expectativa de vida do brasi- leiro. Quando chegamos à terceira idade, algumas diferenças são notadas no comportamento do organismo. No início da unidade conhecemos Elisa e Henrique. Vimos que Henrique geralmente prepara carnes cozidas, pois Elisa tem dificuldade de comer comidas mais secas, como carnes grelhadas. Imagine que você já iniciou sua carreira como nutricionista e está atendendo em uma clínica conceituada, quando, então, recebe esse casal. Quais alterações podem ter acometido Elisa para que ela tenha essa dificuldade? O fato de Elisa e Henrique morarem e fazerem as refeições juntos, faz alguma diferença? Henrique alega não sentir direito o sabor da comida se não estiver temperada, há alguma alteração no paladar de idosos? Essas alterações afetam diretamente sua alimentação? Com base nos conhecimentos que serão abordados nesta seção, você será capaz de compreender como essas alterações fisiológicas, fragilidade e fatores psicossociais impactam a alimentaçãodos idosos, além de aprender como orientá-los da melhor forma. Vamos ao trabalho! Não pode faltar Fragilidade e fatores psicossociais Caro aluno, você já parou para pensar na quantidade de idosos que temos no nosso país? Com o aumento da expectativa de vida e menores taxas de fecundidade e mortalidade, a população brasileira de idosos aumentou significativamente e tende a aumentar ainda mais. Essas mudanças trazem condições sociais diferentes e, na saúde, é importante reconhecer as neces- sidades dos diferentes grupos e capacitar os profissionais para receber essas demandas e promover o envelhecimento saudável. 58 O profissional que irá acompanhar um idoso precisa estar preparado não apenas para atender as demandas fisiológicas, mas também para lidar com mudanças psicossociais que ocorrem com essa faixa etária. Muitos idosos chegam à terceira idade e têm o contato com a família reduzido, muitos são até mesmo abandonados por seus parentes, alguns já perderam seus compa- nheiros, não têm mais uma rotina de trabalho, e acabam diminuindo o interesse pela vida. Níveis de satisfação com a vida mais elevados podem favorecer a saúde física e mental, além de boas relações sociais, tanto em adultos quanto em idosos. Essa satisfação com a vida não sofre grandes alterações ao longo dos anos, mas é possível observar um aumento de satisfação entre 40 e 70 anos e uma tendência de redução dessa satisfação após os 80 anos (TOMOMITSU; PERRACINI; NERI, 2014) As mudanças de satisfação nos idosos ocorrem justamente pelo maior número de sintomas clínicos, baixo senso de controle sobre sua vida, pior desem- penho funcional (principalmente quando afeta atividades rotineiras, como descer escadas, carregar peso, preparar a própria comida) e, como já falamos anterior- mente, estar ou morar sozinho. Fatores financeiros também exercem bastante influência, a maioria dos idosos acaba contando com rendimentos menores e custos maiores (principalmente os custos com saúde) na terceira idade. Essa maior vulnerabilidade a fatores internos e externos pode acabar levando ao desenvolvimento da fragilidade no idoso, uma síndrome clínica que tem ganhado destaque nos últimos 30 anos por pesquisadores do processo de envelhecimento. O termo fragilidade é utilizado desde a primeira metade da década de 1980, porém ainda existe um intenso debate sobre à sua definição, visto que os fatores etiológicos responsáveis pelo surgimento dessa síndrome não são completamente esclarecidos (BARRETO, 2008). O estudo dessa síndrome ainda é considerado recente, mas já apresenta algumas definições. Para Bourdel-Marchasson e Berrut (2005), a fragilidade pode ser definida como o estado compreendido entre autonomia completa e dependência irreversível ou morte. Uma das causas apontadas para o surgimento dessa síndrome são declínios no funcionamento dos sistemas endócrino-metabólico, cardiovascular, musculoesquelético, imunológico e neurológico, que levam à redução da capacidade de fazer atividades e diminuição do desempenho físico, os quais podem promover a incapacidade funcional. Segundo os pesquisadores, essa síndrome é mais prevalente no sexo feminino (JONES et al., 2005; MITNITSKI et al., 2005). Para realizar o diagnóstico clínico, são considerados os seguintes critérios de classificação: 59 • Perda de peso não intencional de igual ou superior a 4,5 kg, 5% ou mais do peso corporal no último ano. • Redução da força de preensão palmar, ajustada para sexo e índice de massa corporal. • Diminuição da velocidade de marcha em segundos. • Pouca resistência e energia, indicado pelo autorrelato de exaustão. • Baixo nível de atividade física, com uma pontuação ponderada de quilocalorias gastas por semana com base no autorrelato das ativi- dades e exercícios físicos específicos realizados (FRIED et al., 2001). Os pontos de corte utilizados para o diagnóstico clínico são a presença de: • 3 ou mais critérios = frágeis. • 1 ou 2 critérios = pré-frágeis. • nenhuma alteração = robustos. Entre os critérios adotados para diagnóstico da fragilidade, existem outros instrumentos, como a Escala de Fragilidade de Edmonton (EFE) (FABRÍCIO-WEHBE et al., 2009). Pesquise mais Você sabia que o termo fragilidade apareceu na literatura da área de saúde do idoso a partir da década de 1980? A partir daí foi usado para designar indivíduos em precárias condições funcionais. Para compre- ender um pouco da Síndrome de Fragilidade, leia o artigo Síndrome de fragilidade no idoso: uma revisão narrativa. LANA, L. D.; SCHNEIDER, R. H. Síndrome de fragilidade no idoso: uma revisão narrativa. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 3, n. 17, p. 673-680, 2014. Alterações no sistema cardiovascular e gastrintestinal As Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) são a maior causa de morte no país e no mundo. A Organização Mundial da Saúde estimou, em 2008, cerca de 33 milhões de mortes globais por DCNT, com destaque para diabetes, câncer, doenças respiratórias e Doenças Cardiovasculares (DCV). Essas doenças atingem ainda mais grupos vulneráveis, como os de baixa escolaridade, baixa renda e idosos (ALWAN et al., 2010). 60 São fatores de risco já conhecidos para as DCV: • Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS). • Tabagismo. • Sobrepeso. • Obesidade. • Diabetes. Outros fatores mais recentes e bastante relevantes incluem: • Alterações no metabolismo de lipoproteínas no período pós-prandial. • Disfunção endotelial. • Inflamação subclínica. Em idosos, é muito frequente quadros de HAS, hipercolesterolemia, inatividade física e dieta inadequada. Sabemos que as manifestações clínicas das DCV ocorrem sobre a forma de acidente vascular cerebral, angina, Infarto Agudo do Miocárdio (IAM), ou até mesmo morte súbita, e são mais frequentes em indivíduos entre os 50 e 60 anos do sexo masculino e 50 e 70 anos do sexo feminino, aumentando gradualmente com a idade. Cerca de 61% dos IAM ocorrem em pessoas com mais de 60 anos e 36% naquelas com mais de 75 anos. A possibilidade desse IAM levar a óbito também aumenta com a idade, chegando a 85% entre os indivíduos com idade superior a 65 anos (RAMOS et al., 2009). Além das alterações cardiovasculares, o envelhecimento também pode trazer mudanças para o trato gastrintestinal dos idosos. O esôfago liga a faringe ao estômago, realizando contrações involuntárias para levar o alimento até o seu destino. Nos idosos a força dessas contrações pode diminuir, assim como a tensão no esfíncter superior do esôfago, o que é denominado presbiesôfago. Essa alteração, em um grau mais avançado, pode prejudicar os movimentos peristálticos. Alguns medicamentos podem diminuir a pressão do Esfíncter Esofágico Inferior (EEI). São exemplos desses medicamentos bloqueadores dos canais de cálcio, agonistas adrenérgicos e nitratos, que aumentam a predisposição à Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) em idosos (ADHIP e BASSON, 2006). Na DRGE, o ácido estomacal e a bile refluem quando o EEI não está funcionando adequadamente e tem como sintomas azia, dor à deglutição, regurgitação e dor torácica. O tratamento envolve mudanças no estilo de vida, medicamentos, cirurgias, mas principalmente uma dieta alimentar adequada. 61 Outra alteração ainda comum é o megaesôfago chagásico, em pacientes com Doença de Chagas. A depender do grau de acometimento do esôfago os movimentos peristálticos ficam prejudicados, dificultando o transporte do bolo alimentar. Nessa patologia é comum o idoso relatar disfagia, sensação de plenitude após comer ou beber, dor torácica e regurgitação. Assimile Disfagia é o termo que define a dificuldade de deglutição e é um sintoma comum em várias doenças. Quando esse sintoma vem acompanhado de dor é denominado odinofagia. A disfagia aumenta o risco de causar engasgos, aspiração, problemas pulmonares, sufocamento,perda de peso, deficiências nutricionais e desidratação. Uma estratégia utilizada por nutricionistas é o uso de suplementação nutricional para aumentar o valor calórico total oferecido e o uso de espessantes, que podem ser industrializados ou realizando espessamento a partir da utilização dos próprios alimentos. O uso dessa estratégia aumenta a viscosidade da preparação e facilita a deglutição do paciente. Já no estômago pode ocorrer a redução da capacidade de defesa e de cicatrização da mucosa gástrica, devido à diminuição de secreção de muco e bicarbonato, da atividade da enzima óxido nítrico sintase, produção de prostaglandinas e do fluxo sanguíneo gástrico (SALLES, 2009). A queda da produção de óxido nítrico pelo fundo do estômago afeta o relaxamento adaptativo desse órgão, fato que reduz a dilatação da parede gástrica em resposta à ingestão de alimentos. Dessa forma, o aumento da taxa de enchimento do antro antecede a sensação de plenitude gástrica pós-pran- dial e, levando a uma sensação de saciedade precoce (MORLEY, 2013; MIR; ZAFAR; MORLEY, 2013). Outro acometimento comum em idosos é a Gastrite Atrófica, a qual se caracteriza por uma inflamação da mucosa do estômago, apresenta uma evolução lenta e muitas vezes assintomática, durando em média três meses, podendo levar a sangramentos e ao desenvolvimento de úlceras no estômago. A gastrite atrófica pode afetar a absorção de cálcio, uma vez que o carbonato de cálcio reage com o ácido clorídrico para formar cloreto de cálcio, que será absorvido no intestino delgado proximal. A hipo ou acloridria irá prejudicar a solubilização e, consequentemente, a absorção do cálcio (RUSSELL, 2001). Além disso, a absorção de folato também pode ser prejudicada em pacientes com gastrite atrófica (RUSSELL, 2001). O folato juntamente com a vitamina B12 é necessário para a formação de glóbulos vermelhos normais e 62 para a síntese do DNA. Uma baixa ingestão dessa vitamina pode aumentar o risco de fraturas em idosos. Exemplificando Imagine que você já é um nutricionista e que um paciente idoso procura seu consultório com a queixa de se sentir “empanzinado” por muitas horas após realizar suas refeições. Por conta disso, ele apenas realiza o café da manhã, almoço e jantar. Verificando que seu paciente tem um tempo de esvaziamento gástrico prejudicado, você pode elaborar um plano alimentar com orientações para que ele se sinta melhor. Orientar o paciente a não ingerir líquidos durante as refeições, dar preferência a alimentos mais leves, reduzir a quantidade de gordura das refeições, mastigar bem os alimentos (o que facilita a digestão), evitar o consumo de alimento processados e tentar fracionar melhor a quantidade de alimentos durante o dia, para que o paciente não fique tanto tempo sem se alimentar. No intestino temos apenas algumas pequenas mudanças de estrutura. Mas uma mudança notável é a redução da lactase, levando o indivíduo a ter intolerância a produtos lácteos, aumentando, por exemplo, a quantidades de gases no intestino. A lactose é um dicassacarídeo formado por uma molécula de glicose e outra de galactose. O acúmulo de galactose convertida a galac- titol, que é um poliálcool de toxicidade elevada, pode levar o indivíduo ao desenvolvimento de catarata (THOMSON, 2009). Além disso, o crescimento excessivo de determinadas bactérias se torna mais comum com o decorrer da idade, levando à redução da absorção de certos micronutrientes, como vitamina B12 e cálcio, e sintomas como inchaço, dor e flatulência. A constipação intestinal fica mais frequente com a idade. Ela pode ser acarretada por um retardo no movimento do conteúdo pelo intestino grosso, pela redução de contração do reto, devido a uma maior dilatação, e até mesmo por uso de medicamentos que podem favorecer a constipação. A microbiota intestinal se mantém constante ao longo da vida, porém, o envelhecimento pode sofrer alterações. Isso pode acontecer devido a modificações na alimentação, diminuição da produção de ácido clorídrico no estomago, funcionalidade do sistema imune e uso de medicamentos que alteram a estrutura da mucosa intestinal do idosos aumentando a suscepti- bilidade a infecções. O fígado também sofre alteração com o envelhecimento, reduzindo sua capacidade de metabolização. Com a sobrecarga de medicação de vários idosos, o fígado pode ficar ainda mais sobrecarregado. É importante ressaltar 63 que a capacidade de regeneração do fígado pode ser reduzida com a idade (TIMCHENKO, 2009; HOARE; DAS; ALEXANDER, 2010). Com o envelhecimento, há uma redução da capacidade proliferativa das células betapancreáticas, que pode estar relacionada à prevalência de diabetes mais acentuada no grupo de idosos. Os idosos são mais intolerantes à glicose e resistentes à insulina do que indivíduos jovens, mas ainda restam dúvidas se essas alterações são consequências inevitáveis do envelhecimento ou são devidas a variáveis ambientais ou do estilo de vida (BEATON e PUNTIS, 2010; SCHEEN, 2005). Com todas essas alterações, o nutricionista precisa estar muito atento a todos os sintomas. A redução da ingestão alimentar, aumento do tempo de esvaziamento gástrico e dificuldade de digestão podem prejudicar o estado nutricional do idoso. Além disso, o frágil controle do balanço hídrico, observado no envelhecimento, pode trazer prejuízos à saúde. Alterações na osmolaridade e no volume dos compartimentos dos fluidos corporais aumentam a frequência e gravidade da hipo e hiperosmolalidade em idosos (HODAK e VERBALIS, 2005). Adequações são necessárias para driblar essas dificuldades e garantir a saúde desses pacientes. Alterações no sistema musculoesquelético Com o avançar da idade, podemos observar uma modificação significa- tiva na composição corporal do idoso. É possível observar uma redução de massa magra e um aumento de massa gorda. Essas modificações são mais rapidamente observadas em idosos pouco ativos fisicamente, além de fatores como hábitos alimentares, meio ambiente e qualidade de vida influenciarem esse processo (GONÇALVES et al., 2015). A redução de massa magra está diretamente associada à massa óssea, e a redução de ambos está diretamente relacionada ao envelhecimento. Quando temos uma redução de massa magra mais expressiva associada à baixa força muscular, chamamos de sarcopenia. Quando a sarcopenia instala-se junto a um excesso de gordura corporal, chamamos de obesidade sarcopênica (DOS SANTOS et al., 2018). O European Working Group on Sarcopenia in Older People (EWGSOP) define Sarcopenia como perda de massa muscular esquelética e força que ocorre com o avançar da idade, formada por três componentes: índice de massa muscular esquelética baixo (≤8.90kg/m2 para homens e ≤6.37kg/m2 para mulheres; força muscular diminuída, avaliada por handgrip (< 30kg para homens e < 20kg para mulheres); e baixo desempenho físico, definido por velocidade de marcha < 0.8 m/s (CRUZ-JENTOFT, et al., 2010). 64 O diagnóstico de sarcopenia é dado para indivíduos com pelo menos 2 dos 3 critérios, sendo o baixo índice de massa muscular um critério obrigatório. A sarcopenia tem múltiplos fatores contribuintes: o processo de envelhecimento ao longo da vida, influências do desenvolvimento na primeira infância, dieta abaixo do ideal, repouso no leito ou estilo de vida sedentário, doenças crônicas e certos tratamentos com medicamentos (CRUZ-JENTOFT, et al., 2010). O EWGSOP classifica sarcopenia em 3 estágios: a Pré-sarcopenia (a perda da massa muscular sem impacto direto na força ou função muscular), a Sarcopenia (redução da massa muscular junto a diminuição da força ou função muscular) e a Sarcopenia severa (redução de massa, força e função musculares) (CRUZ-JENTOFT et al., 2010). Sarcopenia e osteoporose (perda acelerada de massa óssea) estão associadas à inflamação, a deficiências hormonaise nutricionais e à inati- vidade física. A sarcopenia é apontada como uma das razões para a redução da capacidade funcional dos idosos. Essa redução dificulta tarefas rotineiras na vida desses indivíduos e pode aumentar o risco de quedas e prolongar o tempo de internação hospitalar. Essa limitação muitas vezes leva idosos a um quadro depressivo, o que piora a sua situação de saúde. Longos períodos de internação são associados a doenças que pioram o quadro do idoso. Reflita Já imaginou perder a autonomia de executar tarefas do seu dia a dia? Como não conseguir lavar o cabelo na hora do banho, ou se abaixar para pegar uma panela no armário, ou descer a escada no hall do prédio? Essa é a rotina de muitos idosos no mundo todo. Já pensou que você, como profissional nutricionista, pode atuar auxiliando na redução de riscos dessas condições, com um acompanhamento clínico nutricional adequado na idade adulta? De acordo com as recomendações da Política de Envelhecimento Ativo e Saudável propostas pela World Health Organization (2005), a prática de atividade física regular pode retardar esses declínios funcionais, reduzir o aparecimento de DCNT e melhorar, assim, a qualidade de vida dos idosos. A prática de atividade física regular pode diminuir o risco de morte por problemas cardíacos em 20 a 25% em indivíduos com doenças cardíacas. Além disso, uma vida fisicamente ativa melhora a saúde mental e promove contatos sociais, aplicando o conceito de envelhecimento ativo. Essa atividade física deve ser prescrita pelo médico responsável pelo paciente e acompa- nhada por um profissional de educação física. O profissional nutricionista não tem autonomia para esse tipo de prescrição. 65 Além disso, é de extrema importância que o envelhecimento venha acompanhado de uma alimentação adequada de forma quantitativa e qualita- tiva. Como vimos acima, alguns idosos apresentam alterações expressivas no tempo de esvaziamento gástrico, o que dificulta a adequação quantitativa da dieta. Por isso, é importante realizar um bom acompanhamento nutricional e verificar as melhores possibilidades para adequação alimentar desse público. É importante ressaltar que os idosos vêm cheios de hábitos alimentares consolidados que muitas vezes são de difícil modificação. Nenhuma mudança radical deve ser sugerida no início do tratamento. Respeitar essas limitações irá fazer toda a diferença para o sucesso do tratamento nutricional, incenti- vando a adesão do paciente. Nesses casos também é de suma importância que a família ou cuidador estejam cientes das modificações sugeridas e respeitem o ritmo do idoso para se adequar a essas mudanças. Alterações no sistema nervoso O envelhecimento traz consequências também para o sistema nervoso. É possível observar uma redução no número de neurônios, restrição das respostas motoras, redução da velocidade de condução nervosa e da agili- dade nas reações. Esse declínio se inicia a partir da segunda década de vida, de forma discreta, lenta e progressiva (CANÇADO e HORTA, 2002). Na maior parte da vida adulta nosso cérebro tem um funcionamento estável. Com o decorrer do tempo, o volume do cérebro diminui (e conse- quentemente seu peso também), ocorre um alargamento dos sulcos, atrofia dos lobos frontais e parietais e redução na irrigação sanguínea do cérebro. Todas essas modificações podem variar de caso a caso. Figura 2.1 | Diferença no alargamento dos sulcos cerebrais provocadas pelo envelhecimento Fonte: https://i3.wp.com/i.redd.it/x8ltvlqo58a01.jpg. Acesso em: 22 jul. 2019. https://i3.wp.com/i.redd.it/x8ltvlqo58a01.jpg 66 Uma das mudanças que começamos a observar é a perda da memória de curto prazo. O idoso tem dificuldade de se lembrar de fatos que ocorreram há pouco tempo, mas se lembra muito bem de fatos que aconteceram décadas atrás. Outra modificação marcante ocorre nas habilidades verbais, que ficam prejudicadas, reduzindo o vocabulário do indivíduo. Muitas vezes é difícil diferenciar os efeitos do envelhecimento sobre as funções do cérebro de doenças comuns em pessoas idosas, como depressão, sequelas de um acidente vascular cerebral e Alzheimer. Nesse momento o diagnóstico de um médico é de extrema importância para orientar a forma de tratar esse paciente. Outra alteração comum ocorre na coluna vertebral. Os discos entre as vértebras da coluna se modificam, perdendo sua capacidade de amorteci- mento, podendo causar lesões nas fibras nervosas. Essas lesões podem levar a uma redução do equilíbrio e da força, levando a possíveis quedas. Os nervos periféricos, que têm como função conectar as partes do corpo ao Sistema Nervoso Central, começam a conduzir os sinais nervosos de maneira mais lenta. Isso pode levar a uma diminuição sensorial, reflexos lentos e até certa falta de coordenação motora. Os sentidos são os meios pelos quais nosso corpo se localiza e se situa no ambiente, alterações nesses sentidos podem nos levar à redução na gustação, tornando o sabor dos alimentos menos interessante. A alteração nos reflexos de deglutição pode levar a engasgos, e a coordenação motora alterada pode prejudicar o movimento de levar o garfo até a boca, resultando em uma diminuição de ingestão. Veremos algumas dessas alterações a seguir. Mudanças fisiológicas no envelhecimento: paladar, tato, olfato, audição Perdas sensoriais fazem parte das reduções fisiológicas que ocorrem durante o processo de envelhecimento. A redução auditiva, do paladar e do olfato pode afetar consideravelmente a qualidade de vida do idoso. Por mais que distúrbios no olfato (hiposmia) e no paladar (disgeusia) não ofereçam diretamente um risco à vida dos idosos, eles podem afetar consideravelmente um momento que vivemos diariamente: a hora da refeição. Olfato e paladar andam juntos, as papilas gustativas da língua identificam os sabores enquanto os nervos localizados no nariz identificam os odores. Essas alterações ainda podem ser intensificadas por alguns medicamentos de uso contínuo que afetam o paladar. Outra condição que afeta a perda do paladar é a queixa frequente de boca seca. Essa é uma condição conhecida como xerostomia, que pode ser causada 67 por certos problemas de saúde ou ser um efeito colateral de medicações. Com a redução da saliva na cavidade oral, ocorre dificuldade de deglutição e comprometimento em sentir o sabor dos alimentos. Essas alterações podem comprometer as escolhas alimentares dos idosos, levarem ao consumo excessivo de temperos como o sal, na tentativa de sentirem melhor o sabor dos alimentos e até mesmo a preferência por alimentos indus- trializados, cujo sabor é mais acentuado. Porém, essas escolhas podem agravar ou levar ao aparecimento de DCNT. Outra consequência é a inapetência. O idoso perde o prazer em comer e acaba reduzindo significativamente sua ingestão alimentar. Outras mudanças que podem alterar a ingestão alimentar é a perda da dentição ou uso incorreto da prótese dentária. É necessária uma grande atenção dos profissionais de saúde a esses sintomas, principalmente do nutricionista. Algumas estratégias podem melhorar a alteração no paladar, como uso de ervas para temperar os alimentos e até mesmo o uso de soluções que podem aliviar os sintomas de boca seca e a diminuição de paladar, utilizados minutos antes das refeições. A audição e o tato também são influenciados pelo envelhecimento. Os sons de alta frequência tornam-se mais difíceis de serem ouvidos, sendo essa alteração na audição decorrente da idade chamada presbiacusia. Essa dificul- dade em ouvir pode comprometer a socialização do idosos, que começam a achar que as pessoas estão falando muito baixo. É preciso ter paciência e articular melhor as palavras, falando mais devagar. Muitas vezes apenas falar mais alto não é suficiente para que o idoso entenda o que está sendo dito. A pele na terceira idademuda parcialmente devido a menor produção de colágeno e elastina, sendo mais susceptível a cortes. A camada de gordura abaixo da pele fica mais fina, prejudicando a conservação do calor do corpo, o que faz com que idosos sintam mais frio. O número de terminações nervosas é prejudicado, dessa forma, o idoso se torna menos sensível à dor, à tempera- tura e à pressão, ficando mais propenso a lesões, como cortes e queimaduras. Todas as questões abordadas nesta seção podem ser melhoradas com o tratamento adequado e paciência da equipe e dos cuidadores. O idoso pode ser um paciente difícil, mas se o tratamento for levado da maneira adequada, há muitas chances de sucesso. O ambiente em que o idoso vive deve estar adaptado para fornecer a ele um maior conforto e segurança. Sem medo de errar No começo da seção relembramos a história de Elisa e Henrique. Elisa apresenta dificuldade em comer comidas secas. Essa dificuldade pode se dar 68 devido a uma dificuldade de mastigação. A ausência de dentição e a xerostomia dificultam a mastigação e deglutição do idoso, levando muitas vezes a engasgos. Essas alterações podem ter acometido Elisa, explicando, assim, sua preferência por carnes cozidas. Já Henrique apresenta disgeusia. Essa alteração pode ser driblada com o uso de temperos. Acrescentar cebola, alho e algumas ervas pode intensificar o sabor dos alimentos. É necessário ter um cuidado com Henrique para que ele não opte por adicionar mais sal às preparações, o que pode ser um risco para agravar ou desencadear o surgimento de DCNT. Sabemos que o excesso de sódio pode levar a problemas na pressão arterial dos indivíduos. Henrique e Elisa moram juntos e são muito unidos. Fazem todas as refei- ções juntos e, além disso, no almoço, contam com a companhia da neta. Vimos nesta unidade que a solidão pode comprometer a ingestão alimentar dos idosos, levando a uma queda da quantidade de alimentos consumidos diariamente. Dessa forma, o fato de o casal não estar sozinho influencia positivamente no momento das refeições, podendo melhorar a ingestão alimentar de Henrique e Elisa. Avançando na prática Sarcopenia e alimentação Tadeu tem 80 anos, é viúvo, sedentário, tem 2 filhos que moram em outra cidade e é aposentado, recebendo 2 salários mínimos. Tadeu foi a uma consulta no seu consultório relatando que perdeu 3 Kg no último ano e sente-se mais fraco nos últimos meses. Ao realizar o seu recordatório, você notou uma baixa ingestão diária, pois Tadeu relatou que não tem muito apetite durante o dia, e que teve uma queda, da própria altura, há 3 meses, o que ocasionou uma fratura no braço direito. Quando foi ao médico foi diagnosticado com sarcopenia. Analisando o caso desse paciente, quais seriam as orientações nutricio- nais que você, como nutricionista, daria a esse paciente? Resolução da situação-problema Observando a situação problema, notamos que Tadeu foi diagnosticado com Sarcopenia. Além disso, foi observada uma baixa ingestão alimentar e sedentarismo. O paciente mora sozinho, é viúvo, o que verificamos que pode interferir na ingestão alimentar adequada. É necessário recomendar ao paciente uma dieta balanceada e que ele inicie uma atividade física regular, 69 orientada por um profissional de educação física, pois essas são as melhores opções de tratamento. Realizar alguma atividade em grupo pode trazer benefí- cios quanto à socialização, e isso pode refletir de forma positiva na ingestão alimentar do paciente. É necessária uma adequação da ingestão proteica para preservação da musculatura e regeneração dos tecidos, conteúdo que iremos estudar na nossa próxima seção. Esse acompanhamento nutricional deve se regular e as alterações devem ser feitas de acordo com os avanços no tratamento. 70 Seção 3 Recomendações nutricionais para adultos e idosos Diálogo aberto Nas seções anteriores você já aprendeu quais fatores têm interferência sobre as escolhas alimentares dos indivíduos e como alterações fisioló- gicas impactam a alimentação dos idosos. Agora vamos aprender sobre as recomendações nutricionais de macronutrientes e micronutrientes para adultos e idosos. Além disso, veremos como realizar escolhas alimentares adequadas ao envelhecimento. Você já conheceu Carla, nutricionista da família de Elisa, Henrique e Sofia. Como Carla pode realizar a distribuição de macronutrientes tanto para Elisa como para Sofia? Vamos considerar para Elisa carboidratos 45%, proteínas 25%, lipídios 30% e 2100 Kcal /dia e para Sofia 1950 Kcal/dia, sendo carboidratos 50%, proteínas 30% e lipídios 20%, qual será o resul- tado final? É importante olhar para a recomendação de micronutrientes? As recomendações para adultos e idosos são iguais? Como Carla pode orientar Elisa para que ela faça escolhas alimentares mais adequadas a sua faixa etária e particularidades? Não pode faltar A alimentação deve ser, além de prazerosa, nutritiva. Os alimentos são carreadores de nutrientes necessários ao desenvolvimento e manutenção da saúde em todos os ciclos da vida. As necessidades de nutrientes e energia são determinadas de acordo com o estágio de vida, o sexo, a prática de ativi- dade física e as medidas corporais (PADOVANI et al., 2006). Nesta unidade veremos as recomendações para o público adulto e idoso. Para entender melhor sobre recomendações nutricionais é necessário conhecer as DRIs, dietary reference intakes, em português Ingestão Dietética de Referência, a revisão mais recente dos valores de recomendação de nutrientes. As DRIs têm como objetivo a determinação de uma faixa de ingestão segura para cada nutriente e fortificação de alimentos. São divididas em quatro categorias, descritas a seguir e demonstradas na Figura 2.2: Necessidade média estimada (EAR): esse valor de referência envolve o nível de ingestão habitual estimado que alcance as necessidades de ao menos 71 50% dos indivíduos saudáveis de um determinado grupo. Corresponde à mediana da distribuição das necessidades de um nutriente em um grupo de indivíduos saudáveis do mesmo gênero e estágio de vida. Ingestão dietética recomendada (RDA): essa recomendação é obtida a partir da EAR e do desvio-padrão da necessidade do nutriente. A RDA atende cerca de 97% a 98% das necessidades dos indivíduos saudáveis do mesmo gênero e estágio de vida. Ingestão adequada (AI): quando não for possível determinar a EAR, logo a RDA, é estabelecida a AI. Esse valor é possivelmente maior que a EAR, mas sobre o qual ainda há considerável incerteza. Esse valor é usado apenas quando não temos as recomendações e EAR e RDA. Limite superior tolerável de ingestão (UL): o UL é definido como o mais alto valor de ingestão diária prolongada de um nutriente que, aparentemente, não oferece risco de efeito adverso à saúde da maioria dos indivíduos. Esse é o limite máximo e não ideal de ingestão. Figura 2.2 | Valores de referência para dietas EAR +2 DP RDA AI UL Distribuição da necessidade média do nutriente Legendas: EAR: necessidade média estimada; RDA: ingestão dietética recomen- dada; AI: ingestão adequada; UL: nível máximo tolerável de ingestão. Fonte: Marchioni, Slater e Fisberg (2004, p. 207-216). Assimile O Brasil não possui dados suficientes que permitam o estabeleci- mento de recomendações de nutrientes específicas para a população brasileira. Por essa razão, utilizamos inicialmente as RDAs dos Estados Unidos para avaliação e planejamento de dietas seguida das DRIs, P o rc en ta ge m d e in d iv íd u o s 72 feitas em colaboração com cientistas canadenses e norte-americanos considerando as populações desses países. É muito importante que o profissional nutricionista avalie de forma crítica os dados para a nossa população, levando em conta o perfil nutricional bioquímico e clínico do indivíduo. Na Tabela2.1 você verá as recomendações de macronutrientes e fibras de acordo com as DRIs. Na Tabela 2.2 você verá outras três recomendações de macronutrientes e fibras. No decorrer da seção, falaremos sobre a recomen- dação de cada um e sua devida importância. Tabela 2.1 | Valores de ingestão de macronutrientes para indivíduos > 19 anos, segundo gênero e faixa etária em anos Idade (Anos) Carboidrato Fibras Gorduras Totais Proteína EAR (g) RDA (g) AMDR (%) AI (g) EAR (g) RDA (g) AMDR (%) EAR (g/Kg/d) RDA (g/ Kg/d) AMDR (%) Homens 19 a 30 100 130 45-65 38 ND ND 20-35 0,66 0,8 10-35 31 a 50 100 130 45-65 38 ND ND 20-35 0,66 0,8 10-35 51 a 70 100 130 45-65 30 ND ND 20-35 0,66 0,8 10-35 >70 100 130 45-65 30 ND ND 20-35 0,66 0,8 10-35 Mulheres 19 a 30 100 130 45-65 25 ND ND 20-35 0,66 0,8 10-35 31 a 50 100 130 45-65 25 ND ND 20-35 0,66 0,8 10-35 51 a 70 100 130 45-65 21 ND ND 20-35 0,66 0,8 10-35 >70 100 130 45-65 21 ND ND 20-35 0,66 0,8 10-35 EAR = necessidade média estimada; RDA = ingestão dietética recomendada; AMDR = faixa de ingestão da fonte particular de energia dada como porcentagem que está associada ao risco reduzido de doença crônica; AI = ingestão adequada; ND = não foi possível estabelecer seu valor. Fonte: adaptada de Previdelli, Goulart e Aquino (2017, p. 70-80). 73 Tabela 2.2 | Comparação dos valores de ingestão de macronutrientes para todas as faixas etá- rias de acordo com FAO/OMS, 2003, SBC, 2007 e SBAN, 1990 Referência Carboidrato Fibras Gorduras totais Proteína FAO/OMS, 2003 55-75% >25 g/dia 10-30% 10-15% SBC, 2007 50-50% 20 a 30 g/dia 25-35% 15% SBAN, 1990 60 a 70% - 20 a 25% 1 g/kg/dia 8 a 10%* 10 a 12%** 12 a 14%*** FAO: Food and Agriculture Organization of the United Nations; OMS: Organização Mundial de Saúde; SBC: Sociedade Brasileira de Cardiologia; SBAN: Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição. *Crianças e adultos sadios que ingerem dietas com boa qualidade protéica e adequação energética. **Po- pulações que consomem pequenas quantidades de proteínas de origem animal e que vivem em condições adversas. ***Idosos com ingestão energética reduzida por inatividade ou debilidade. Fonte: FAO/OMS (2003), SBC (2007) e SBAN (1990). É importante destacar que em casos de doenças as recomendações de macronutrientes podem se modificar. Determinadas doenças, até mesmo crônicas, apresentam a necessidade de ingestão de nutrientes de forma diferenciada, um exemplo disso é o Diabetes Mellitus (DM). Carboidratos Os carboidratos são compostos orgânicos que fornecem 4 kcal/grama. A função mais importante dos carboidratos é a de fornecer energia, especial- mente às células que dependem de glicose para seu funcionamento, como os neurônios. De acordo com o Instituto de Medicina (2005) a ingestão de carboidratos deve ser entre 45% a 65% do total de energia ingerida ao longo de um dia por um indivíduo. Essa recomendação é válida tanto para adultos, quanto para idosos, conforme podemos observar na Tabela 2.1. Ainda não temos recomendações de macronutrientes específicas para idosos. Mesmo com a heterogeneidade física, social e cultural e as alterações fisiológicas do metabolismo oxidativo e das proteínas que acontecem nessa faixa etária, as recomendações de macronutrientes para adultos e idosos são as mesmas. Já a recomendação para indivíduos com DM é diferente. De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (2017) a recomendação de ingestão de carboidratos para o paciente com DM é de 45 a 60%, não devendo ser inferior a 130 g/dia. A recomendação de fibra alimentar é de no mínimo 14 g/1.000 kcal e para o paciente com DM2 de 30 a 50 g/dia. 74 Reflita Os carboidratos, apesar de serem o maior percentual nas recomen- dações de nutrientes (45-65%), são tidos como vilões. Mas, afinal, eles realmente são prejudiciais à saúde? Uma ingestão muito baixa de carboidratos, poderia ser prejudicial? Os carboidratos podem ser classificados em fibrosos e não fibrosos. Os carboidratos fibrosos apresentam polímeros que compõem sua parede celular, junto da lignina, uma macromolécula tridimensional amorfa, que associada à celulose na parede celular tem o objetivo de conferir aos tecidos vegetais rigidez, impermeabilidade e resistência a ataques microbiológicos e mecânicos. Assim, são lenta e parcialmente disponíveis e ocupam espaço no trato gastrin- testinal, sendo de digestão demorada. Já os carboidratos não fibrosos são rápida e completamente digeríveis no trato gastrintestinal (MERTENS, 1987; MERTENS, 1996). Podemos citar como exemplos de carboidratos não digerí- veis a celulose, a pectina, os frutoligossacarídeos e a hemicelulose. Os carboidratos podem ser classificados como simples (não fibrosos) e complexos (fibrosos). Os carboidratos simples têm sua digestão e absorção feitas de forma muito rápida, o que resulta em fome logo após a refeição, elevação rápida das taxas de glicose no sangue e picos de insulina. Já os carboi- dratos complexos são digeridos mais lentamente pelo organismo, levando a um aumento gradual da glicose sanguínea e evitando picos insulínicos. O amido encontrado em algumas fontes de carboidratos, como o arroz, milho, aveia, trigo e tubérculos (por exemplo, a batata-doce, a batata, o inhame, o cará e a mandioca) é composto por amilose e amilopectina que são degra- dados em glicose de forma lenta. O amido resistente é a total quantidade de amido e produtos derivados da sua degradação à digestão no intestino delgado, e tem uma atuação semelhante à das fibras, presente principalmente em leguminosas, banana verde, grãos, batata. Esses alimentos sofrem fermen- tação no intestino grosso por bifidobactérias, e são considerados alimentos prebióticos (PEREIRA, 2007). A ingestão adequada de fibras pode auxiliar no controle glicêmico e níveis lipídicos no sangue. Associada a uma dieta saudável pode reduzir o risco de desenvolvimento de algumas Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), como Doença Arterial Coronariana (DAC), Acidente Vascular Cerebral (AVC), hipertensão arterial, Diabetes Mellitus (DM) e algumas desordens gastrintestinais (BERNAUD e RODRIGUES, 2013). As recomendações de 75 ingestão diária variam de acordo com a idade e sexo, e você pode visualizar na Tabela 2.1 e na Tabela 2.2, junto das recomendações de macronutrientes. Proteínas As proteínas constituem um fator importante da ingestão alimentar. Elas fornecem 4 Kcal/g e a recomendação é que a dieta seja constituída por 10% a 35% do total de energia ingerida por um indivíduo (Tabela 2.1 e Tabela 2.2). As proteínas são compostas por aminoácidos em ligações peptídicas e esses aminoácidos podem ser classificados em essenciais e não essências. Os aminoácidos são formados por ácidos carboxílicos com um grupo amino ligado ao carbono α. Aminoácidos essenciais possuem um esqueleto de carbono que não somos capazes de sintetizar, dessa forma, devem ser obtidos por meio da alimentação. São eles: metionina, valina, isoleucina, leucina, fenilalanina, triptofano, lisina e treonina. Já os aminoácidos não essenciais são sintetizados pelo nosso organismo, sendo eles: alanina, ácido aspártico, ácido glutâmico, cisteína, glicina, glutamina, hidroxiprolina, prolina, serina e tirosina (MAHAN; ESCOTT-STUMP; RAYMOND, 2012). Pesquise Mais Quer conhecer um pouco mais sobre os aminoácidos? Dê uma olhada na publicação a seguir e veja um pouco sobre suas funções e recomen- dações de ingestão. MARCHINI, J. S.; VANNUCHI, H.; SUEN, V. M. M.; DA CUNHA, F. S. C. Aminoácidos.São Paulo: ILSI Brasil-International Life Sciences Institute do Brasil, 2016. As proteínas possuem um papel primário no nosso organismo, tendo um papel estrutural, nas enzimas, hormônios, transporte e imunoproteínas. Assim, as proteínas atuam no crescimento muscular, recuperação tecidual e aumento do ganho de força. A capacidade de sintetizar as proteínas depende da disponibilidade de todos os aminoácidos necessários. Assim, a qualidade de uma proteína depende da sua constituição e da biodisponibilidade de seus aminoácidos (MAHAN; ESCOTT-STUMP; RAYMOND, 2012). A digestibilidade é o fator mais importante que afeta a absorção das prote- ínas. Esse processo é definido como a proporção de proteína alimentar derivada de aminoácidos que é efetivamente digerida e absorvida pelo nosso organismo. 76 A proteína animal é altamente digerível, cerca de mais de 90%, dependendo do modo de preparo e de fatores antinutricionais, que são componentes da dieta que interferem na digestão e absorção (FAO, 2013). Já a proteína vegetal é menos digerida quando comparada à proteína animal, pois a proteína fica nas paredes celulares, menos disponíveis para as enzimas digestivas. Uma dieta balanceada deve conter fontes de proteína animal e vegetal, uma vez que o perfil de aminoácidos de um alimento não supri sozinho as necessidades do organismo. Fontes de proteínas com diferentes aminoácidos complementam a oferta proteica para o indivíduo. O consumo adequado de proteínas tem associação com a atenuação e prevenção de perda de massa magra, consequentemente prevenindo a sarco- penia e a osteoporose. No Brasil o consumo de proteínas na população idosa é o mais adequado dentro dos valores de referências de macronutrientes, sendo que as mulheres apresentam um consumo menor do que os homens. Uma das justificativas pode ser o hábito alimentar do brasileiro, baseado no consumo de carnes, arroz e feijão, fontes de proteína animal e vegetal (PREVIDELLI; GOULART; AQUINO, 2017). Lipídeos Os lipídeos são o segundo nutriente energético mais abundante nas recomendações da dieta de um indivíduo. Como a gordura é rica em energia, fornece 9 Kcal/grama. De acordo com o Instituto de Medicina (2005) a recomendação de ingestão de lipídeos para adultos e idosos é de 20% a 35% do total de energia ingerida diariamente. As gorduras podem ser classificadas em saturadas, monoinsaturadas e poli-insaturadas, de acordo com o número de ligações duplas na sua cadeia. São exemplos: ácidos graxos saturados (AGS) láurico, mirístico, palmítico e esteárico. Podemos encontrar AGS em produtos de origem animal, como leite e derivados, carnes, embutidos e ovos. Os ácidos graxos insaturados são divididos em duas categorias, os monoinsaturados e poli-insaturados. Os ácidos graxos monoinsa- turados são representados pelo Ômega-9 (oléico) e têm como principais fontes o óleo de oliva, óleo de canola, azeitona, abacate e as oleaginosas. Já os poli-insatu- rados são ômega-6 (linoléico e araquidônico) e ômega-3 (alfalinolênico, eicosa- pentaenóico-EPA e docosahexaenóico DHA) (SBC, 2007). Os ácidos graxos ômega-6 e ômega-3 são muito importantes para a saúde humana. Na Tabela 2.3 você poderá verificar as recomendações de consumo da razão entre esses dois ácidos graxos para população brasileira e para outros países. 77 Tabela 2.3 | Valores recomendados para a razão entre os ácidos graxos Ômega – 6/Ômega-3 na dieta em diferentes países País ou Instituição Ômega – 6/Ômega-3 Brasil* 2:1 – 3:1 Canadá** 4:1 – 10:1 EUA** 2:1- 3:1 EUA** 4:1 França** 5:1 Japão** 2:1 – 4:1 Suécia** 5:1 WHO/FAO** 5:1 – 10:1 * Fonte: Mahan, Escott-Stump e Raymond (2012). ** Fonte: Martin et al. (2006, p. 761-770). Na dieta ocidental os indivíduos consumem uma proporção maior de ácido linoléico (ômega-6). Tem-se tentado diminuir a razão ômega-6/ ômega-3 nas dietas modernas devido a resultados de alguns estudos clínicos realizados na última década (MARTIN et al., 2006), pois esse perfil é desfa- vorável à saúde, principalmente em indivíduos que se apresentam em uma situação inflamatória exacerbada. O consumo de ácido linoleico aumentado promove um aumento de ácido araquidônico nas membranas celulares, o que leva um aumento na produção de prostaglandina E2, e leucotrieno B4, um dos leucotrienos envolvidos no processo de inflamação. A ingestão de ômega 3 introduz EPA nas membranas celulares inibindo o ácido araquidônico, promovendo formação de prostaglan- dina E3 e leucotrieno B5, que são mediadores inflamatórios menos ativos do que a prostaglandina E2, a qual induz à febre, promove vasodilatação, aumenta a permeabilidade vascular e potencializa a dor e o edema; e leucotrieno B4, que também aumenta a permeabilidade vascular, o fluxo sanguíneo e a quimiotaxia dos leucócitos, além de aumentar a produção de espécies reativas de oxigênio e de TNF-α, IL-1 e IL-6 (GARÓFOLO; PETRILLI, 2006). Muito se fala sobre os AGS, cujo consumo tem sido alertado por médicos e nutricionistas nas últimas décadas. Isso se dá devido a ação dos AGS no aumento do LDL-c e no aumento do risco de doença cardiovascular (DCV). 78 A Dietary Guidelines for Americans (USDA, 2005) recomendou que menos de 10% do consumo das calorias deve ser proveniente de AGS. Já a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) (2007) preconiza que o consumo de AGS não deva ser ≤ 7% das calorias totais. Dessa forma, deve ser preconizado o consumo de ácido graxo poli-insaturado, do inglês polyunsaturated fatty acids (PUFA), que pode levar a diminuição do LDL-c, aumento da razão HDL/LDL, diminuição da razão CT/HDL, reduzindo, assim, o risco das DCV, segundo diretrizes da FDA e WHO 2009 (JAKOBSEN et al., 2009). O consumo de colesterol também merece atenção. A SBC recomenda que ele não deva ultrapassar 200 mg/dia. Para isso, é necessário que o consumo de alimentos de origem animal, em especial as vísceras, leite integral e seus derivados, embutidos, frios, pele de aves e frutos do mar sejam feitos com moderação (SBC, 2007). Os acídos graxos trans (AGT) têm sua principal fonte a gordura vegetal hidrogenada, presente em inúmeras preparações industrializadas e em alguns alimentos produzidos em redes de fast-foods. Ainda não se tem um consenso sobre sua ingestão, mas recomenda-se que a ingestão de AGT deva ser menor que 1% das calorias totais da dieta. Os AGT aumentam o LDL-c e reduzem o HDL-c, e assim como outros ácidos graxos, aumentam os triglicérides (SBC, 2007). Assim como os carboidratos, não há uma recomendação específica para idosos. Porém, já verificamos aqui nesta unidade que a terceira idade vem junto a inúmeras alterações fisiológicas. Umas delas é a capacidade de oxidação da gordura em repouso, pós-prandial e durante atividade física, o que pode contribuir para o acúmulo de gordura. Avaliando a contribuição de proteína, lipídio e carboidrato no total de energia da dieta de idosos nas diferentes regiões brasileiras, observa-se que a ingestão de lipídeo foi maior do que a recomendação em 10% da população idosa. Já em relação à gordura saturada, o percentual energético é maior na área urbana e no gênero feminino (PREVIDELLI; GOULART; AQUINO, 2017). Dessa forma, é importante avaliar a ingestão dos pacientes idosos e orientar um plano alimentar adequada ao percentual de lipídeos dentro das recomendações. Micronutrientes Os micronutrientes são nutrientes não calóricos, podendo ser vitaminas ou minerais. É necessário observar o gênero e a faixa etária do indivíduo na hora de adequar os micronutrientes nas refeições que irão compor o seu plano alimentar. Vamos verificar as recomendações nas Tabelas 2.4, 2.5 e 2.6. 79 Tabela 2.4 | Valores diários para adultos e idosos de UL, EAR e AI* ou RDA para vitaminas lipossolúveis Vitami- na Homens Mulheres 19 a 30 31 a 50 51 a 70 >70 19 a 30 31 a50 51 a 70 >70 Vitamina K UL ND ND ND ND ND ND ND ND EAR ND ND ND ND ND ND ND ND AI* ou RDA (mcg) 120* 120* 120* 120* 90* 90* 90* 90* Vitamina A, RAEa UL (mcg) 3000 3000 3000 3000 3000 3000 3000 3000 EAR (mcg) 625 625 625 625 500 500 500 500 AI* ou RDA (mcg) 900 900 900 900 700 700 700 700 Vitamina E, como α-tocoferol UL (mg) 1000 1000 1000 1000 1000 1000 1000 1000 EAR (mg) 12 12 12 12 12 12 12 12 AI* ou RDA (mg) 15 15 15 15 15 15 15 15 Vitamina D, como coleclaciferolb UL (mcg) 50 50 50 50 50 50 50 50 EAR ND ND ND ND ND ND ND ND AI* ou RDA (mcg) 5* 5* 10* 15* 5* 5* 10* 15* aRAE: equivalentes de atividade de retinol. 1 RAE= 1μg de retinol, 12μg de β-caroteno, 24μg de α-caroteno ou 24μg de β-criptoxantina; b coleclaciferol:1mcg de colecalciferol= 40 UI vitamina D. Fonte: adaptada de Padovani et al. (2006, p. 741-760, 2006). Tabela 2.5 | Valores diários para adultos e idosos de UL, EAR e AI* ou RDA para vitaminas hidrossolúveis Vitami- na Homens Mulheres 19 a 30 31 a 50 51 a 70 >70 19 a 30 31 a 50 51 a 70 >70 Tiamina UL ND ND ND ND ND ND ND ND EAR (mg) 1 1 1 1 0,9 0,9 0,9 0,9 80 AI* ou RDA (mg) 1,2 1,2 1,2 1,2 1,1 1,1 1,1 1,1 Riboflavina UL ND ND ND ND ND ND ND ND EAR (mg) 1,1 1,1 1,1 1,1 0,9 0,9 0,9 0,9 AI* ou RDA (mg) 1,3 1,3 1,3 1,3 1,1 1,1 1,1 1,1 Niacina como equivalentes de niacina (NE)a UL (mg) 35 35 35 35 35 35 35 35 EAR (mg) 12 12 12 12 11 11 11 11 AI* ou RDA (mg) 16 16 16 16 14 14 14 14 Ácido pantotênico UL ND ND ND ND ND ND ND ND EAR ND ND ND ND ND ND ND ND AI* ou RDA (mg) 5* 5* 5* 5* 5* 5* 5* 5* Vitamina B6 UL (mg) 100 100 100 100 100 100 100 100 EAR (mg) 1,1 1,1 1,4 1,4 1,1 1,1 1,3 1,3 AI* ou RDA (mg) 1,3 1,3 1,7 1,7 1,3 1,3 1,5 1,5 Colina UL (g) 3,5 3,5 3,5 3,5 3,5 3,5 3,5 3,5 EAR ND ND ND ND ND ND ND ND AI* ou RDA (g) 550* 550* 550* 550* 425* 425* 425* 425* Folato, como equivalente alimentar de folato (DFE)b UL (mcg) 1000 1000 1000 1000 1000 1000 1000 1000 EAR (mcg) 320 320 320 320 320 320 320 320 AI* ou RDA (mcg) 400 400 400 400 400 400 400 400 Biotina UL ND ND ND ND ND ND ND ND EAR ND ND ND ND ND ND ND ND 81 AI* ou RDA (mg) 30* 30* 30* 30* 30* 30* 30* 30* Vitamina B12 UL ND ND ND ND ND ND ND ND EAR (mcg) 2,0 2,0 2,0 2,0 2,0 2,0 2,0 2,0 AI* ou RDA (mg) 2,4 2,4 2,4 2,4 2,4 2,4 2,4 2,4 Vitamina C UL (mg) 2000 2000 2000 2000 2000 2000 2000 2000 EAR (mg) 75 75 75 75 60 60 60 60 AI* ou RDA (mg) 90 90 90 90 75 75 75 75 a NE: 1 mg de niacina= 60 mg de triptofano; b DFE: 1 equivalente alimentar de folato DFE = 1 mcg de folato alimentar = 0,6 mcg de ácido fólico de alimento fortificado ou como suplemento consumido com alimento= 0,5 mcg de suplemento tomado com o estômago vazio. Fonte: adaptada de Padovani et al. (2006, p. 741-760). Tabela 2.6 | Valores diários para adultos e idosos de UL, EAR e AI* ou RDA para minerais Vitami- na Homens Mulheres 19 a 30 31 a 50 51 a 70 >70 19 a 30 31 a 50 51 a 70 >70 Cálcio UL (g) 2,5 2,5 2,5 2,5 2,5 2,5 2,5 2,5 EAR ND ND ND ND ND ND ND ND AI* ou RDA (mg) 1000* 1000* 1200* 1200* 1000* 1000* 1200* 1200* Fósforo UL (g) 4 4 4 3 4 4 4 3 EAR (mg) 580 580 580 580 580 580 580 580 AI* ou RDA (mg) 700 700 700 700 700 700 700 700 Ferro UL (mg) 45 45 45 45 45 45 45 45 EAR (mg) 6 6 6 6 8,1 8,1 5 5 AI* ou RDA (mg) 8 8 8 8 18 18 8 8 Cromo UL ND ND ND ND ND ND ND ND 82 EAR ND ND ND ND ND ND ND ND AI* ou RDA (mg) 35* 35* 30* 30* 25* 25* 20* 20* Magnésio UL (mg) 350 350 350 350 350 350 350 350 EAR (mg) 330 350 350 350 255 265 265 265 AI* ou RDA (mg) 400 420 420 420 310 320 320 320 Flúor UL (mg) 10 10 10 10 10 10 10 10 EAR ND ND ND ND ND ND ND ND AI* ou RDA (mg) 4* 4* 4* 4* 3* 3* 3* 3* Boro UL (mg) 20 20 20 20 20 20 20 20 EAR ND ND ND ND ND ND ND ND AI* ou RDA ND ND ND ND ND ND ND ND Níquel UL (mg) 1,0 1,0 1,0 1,0 1,0 1,0 1,0 1,0 EAR ND ND ND ND ND ND ND ND AI* ou RDA ND ND ND ND ND ND ND ND Cobre UL (mcg) 10000 10000 10000 10000 10000 10000 10000 10000 EAR (mcg) 700 700 700 700 700 700 700 700 AI* ou RDA (mcg) 900 900 900 900 900 900 900 900 Iodo UL (mcg) 1100 1100 1100 1100 1100 1100 1100 1100 EAR (mcg) 95 95 95 95 95 95 95 95 AI* ou RDA (mcg) 150 150 150 150 150 150 150 150 Selênio UL (mcg) 400 400 400 400 400 400 400 400 EAR (mcg) 45 45 45 45 45 45 45 45 83 AI* ou RDA (mg) 55 55 55 55 55 55 55 55 Manganês UL (mg) 11 11 11 11 11 11 11 11 EAR ND ND ND ND ND ND ND ND AI* ou RDA (mg) 2,3* 2,3* 2,3* 2,3* 1,8* 1,8* 1,8* 1,8* Zinco UL (mg) 40 40 40 40 40 40 40 40 EAR (mg) 9,4 9,4 9,4 9,4 6,8 6,8 6,8 6,8 AI* ou RDA (mg) 11 11 11 11 8 8 8 8 Vanádio UL (mg) 1,8 1,8 1,8 1,8 1,8 1,8 1,8 1,8 EAR ND ND ND ND ND ND ND ND AI* ou RDA ND ND ND ND ND ND ND ND Molibdênio UL (mcg) 2000 2000 2000 2000 2000 2000 2000 2000 EAR (mcg) 34 34 34 34 34 34 34 34 AI* ou RDA (mcg) 45 45 45 45 45 45 45 45 Fonte: adaptada de Padovani et al. (2006, p. 741-760, 2006). É muito importante que o nutricionista, ao calcular o plano alimentar do paciente, faça todas essas adequações, não se esquecendo das recomendações de fibras que vimos na Tabela 2.2. É importante ressaltar que das 20 a 30 g/ dia de fibra total recomendadas, segundo a SBC (2007), 5 a 10 g devem ser de fibras solúveis, como medida para redução do colesterol. Pesquise mais Para saber um pouco mais sobre adequação de nutrientes em adultos e idosos brasileiros, faça a leitura do artigo Consumo de nutrientes em adultos e idosos em estudo de base populacional: Projeto Bambuí. Você terá uma percepção de como anda o consumo de nutrientes dessas faixas etárias. 84 SOUZA LOPES, A. C. S.; CAIAFFA, W. T.; SICHIERI, R.; MINGOTI, S. A.; LIMA-COSTA, M. F. Consumo de nutrientes em adultos e idosos em estudo de base populacional: Projeto Bambuí. Caderno de Saúde Pública, v. 21, n. 4, p. 1201-1209, 2005. Dessa forma, vamos considerar o paciente P.G.L. para um exemplo. Esse paciente tem 40 anos, sexo masculino, e seu gasto energético total é de 2500 Kcal/dia. Vamos fazer a distribuição de macronutrientes em Kcal e em gramas, levando em consideração as recomendações das DRI. Usaremos 60% de carboidratos, 25% de lipídeos e 15% de proteínas. Para fibras usaremos as recomendações da SBC (2007) e usaremos 25/dia de fibras. Carboidratos: pensando que 2500 é seu 100%, precisamos verificar quantas Kcal equivalem a 60%. Em seguida, para transformar esse valor em gramas, basta dividir o valor encontrado por 4, uma vez que cada 1 g de carboidrato tem 4 Kcal. x = 60% x 2500 Kcal = 1500Kcal = 100% 4 Proteínas: pensando que 2500 é seu 100%, precisamos verificar quantas Kcal equivalem a15%. Em seguida, para transformar esse valor em gramas, basta dividir o valor encontrado por 4, uma vez que cada 1 g de proteína tem 4 Kcal. x = 15% x 2500 Kcal = 375Kcal = 100% 4 Lipídeos: pensando que 2500 é seu 100%, precisamos verificar quantas Kcal equivalem a 30%. Em seguida, para transformar esse valor em gramas, basta dividir o valor encontrado por 9, uma vez que cada 1 g de lipídeo tem 4 Kcal. x = 25% x 2500 Kcal = 625Kcal = 100% 9 Pensando na recomendação de fibras, quando você for calcular seu plano alimentar, deve se lembrar de atingir de 20 a 30 g de fibras. Para concluir seu planejamento, é necessário que você faça a distribuição entre as refeições que o paciente realizará. Vamos considerar que P.G.L fará cinco refeições ao dia: café da manhã, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar. Dessa forma, você delimitará quantos % de carboidratos, prote- ínas elipídeos deseja colocar em cada refeição, conforme exemplo a seguir: 375 g 93,75 g 69,4 g 85 Tabela 2.7 | Distribuição de macronutrientes em percentual e em gramas para cada refeição Refeição Carboidrato Proteína Lipídeo % g % g % g Café da manhã 15 56,25 15 14,0 15 9,7 Lanche da manhã 10 37,5 0 0 10 6,5 Almoço 30 112,5 35 32,8 30 19,5 Lanche da tarde 15 56,25 20 18,7 20 13,0 Jantar 30 112,5 30 28,1 25 16,2 TOTAL 100 375,0 100 93,6 100 64,9 Fonte: elaborada pela autora. Vejamos um exemplo do cálculo de distribuição, para o café da manhã, que tem 15% de carboidratos. Para nosso paciente, a recomendação que calculamos é de 375 g de carboidratos total, assim, para sabermos quanto representa 15% faremos o seguinte cálculo: x = 15% x 375 g = 100% E, assim, replicamos as contas para as demais recomendações. Para verificar os micronutrientes, você precisa olhar as tabelas pelo gênero e idade. Caso o micronutriente em questão tenha RDA, esse será o valor que você se planejará para atingir quando for calcular o plano alimentar. Na ausência da RDA, você deve verificar a AI desse micronutriente. Faremos aqui um quadro de distribuição para o paciente P.G.L, levando em consi- deração que ele é do gênero masculino e possui 40 anos. Vamos considerar vitamina C, vitamina D, cálcio, fósforo e magnésio. Quadro 2.1 | Recomendação de ingestão de alguns micronutrientes para o paciente P.G.L, 35 anos, gênero masculino Micronutriente Valores Recomendação disponível Vitamina C 90 mg RDA Vitamina D 5 mcg AI Cálcio 1000 mg AI Fósforo 700 mg RDA Magnésio 420 mg RDA Fonte: elaborado pela autora. As recomendações expostas anteriormente serão sua meta de adequação no momento do cálculo do plano alimentar, que você fará na Unidade 4. É muito importante lembrar que nenhum valor deve ultrapassar a UL, garan- tindo assim uma ingestão segura ao paciente. 56,25 g 86 Escolhas alimentares adequadas ao envelhecimento Com as mudanças que ocorrem junto ao envelhecimento são necessárias algumas adaptações na alimentação dos idosos, para promover mais conforto, autonomia e segurança no preparo das refeições. Vamos abordar aqui algumas orientações que devem ser passadas a esse público e aos seus cuidadores. O cuidado deve começar na compra do alimento, é preciso adquirir alimentos de procedência segura, dentro do prazo de validade e sem embala- gens danificadas. Parecem recomendações simples, mas os idosos, ao irem ao supermercado sozinhos, muitas vezes têm dificuldades de enxergar as pequenas letras nas embalagens e perceber pequenos danos. É preciso ficar atento. Para atender a alguns princípios de alimentação saudável e para facilitar a digestão, deve-se dar preferência a alimentos menos gordurosos, optar por leite e derivados com menor teor de gordura, como os desnatados, ter cuidado com excesso de sal e dar preferências a outros temperos, para agregar sabor às preparações. Ao planejar as refeições, é preciso respeitar as preferências alimentares dos idosos, mas também estimular diferentes modos de preparo, para que a dieta não fique repetitiva e o idoso não enjoe facilmente. Em casos de dificul- dades de mastigar e engolir, dar preferência a alimentos moídos, ralados, ou picados em pedaços pequenos. Assim, diminuímos a recusa alimentar e garantimos que o idoso irá conseguir se alimentar. Estimular que o momento da refeição seja feito em um lugar agradável também aumenta a aceitação dos alimentos. Se o idoso tiver uma companhia nos momentos da refeição, essa aceitação aumenta ainda mais. É importante, também, que essa refeição seja realizada em um local que ofereça o mobili- ário resistente e adequado, para que não haja dificuldades na hora de apoiar o prato, por exemplo. Essas orientações simples podem fazer toda a diferença na aceitação alimentar do paciente idoso e garantir, assim, que ele consiga ingerir o que foi calculado para suas necessidades nutricionais. Exemplificando Um paciente de 75 anos, procurou um nutricionista e relatou que tem comido menos nos últimos tempos devido à dificuldade de mastigar e engolir a comida. Durante o atendimento, o nutricionista fez algumas perguntas e constatou que o paciente se alimentava na bancada de uma cozinha americana, cujo banco era difícil de sentar, fato que o desmo- tivava a se alimentar. Diante do exposto e dos exames realizados na consulta, o nutricionista fez algumas orientações. Ele aconselhou o 87 paciente a preferir alimentos mais cozidos, deixar o arroz um pouco mais cozido e fracionar a carne em pedaços menores, para facilitar a mastigação. Dessa forma, o paciente conseguirá adequar a alimentação e não comprometerá a aceitação. Sem medo de errar No início desta seção relembramos sobre Elisa e Sofia. A nutricionista Carla foi questionada sobre as recomendações nutricionais para as duas. Vamos começar pela distribuição de nutrientes para Elisa, considerando, por exemplo, carboidratos 45%, proteínas 25%, lipídios 30% e 2100 Kcal: Carboidratos: x = 45% x 2100 Kcal = 945Kcal 100% Proteínas: x = 25% x 2100 Kcal = 525Kcal 100% Lipídeos: x = 30% x 2100 Kcal = 630Kcal 100% Podemos verificar a distribuição de macronutrientes de Elisa na tabela a seguir: Tabela 2.8 | Distribuição de macronutrientes para planejamento alimentar da paciente Elisa Carboidratos Proteínas Lipídeos 45% 25% 30% 945 Kcal 525 Kcal 630 Kcal Fonte: elaborada pela autora. Já para Sofia, vamos considerar carboidratos 50%, proteínas 30% e lipídios 20% e fazer a mesma conta matemática: Carboidratos: x = 50% x 1950 Kcal = 975Kcal 100% Proteínas: x = 30% x 1950 Kcal = 585Kcal 100% 88 Lipídeos: x = 20% x 1950 Kcal = 390Kcal 100% Assim, podemos verificar a distribuição de macronutrientes de Sofia na tabela a seguir: Tabela 2.9 | Distribuição de macronutrientes para planejamento alimentar da paciente Sofia Carboidratos Proteínas Lipídeos 50% 30% 20% 975 Kcal 585 Kcal 390 Kcal Fonte: elaborada pela autora. É muito importante que, além dos macronutrientes, Carla leve em consi- deração os micronutrientes na prescrição da dieta de Elisa e Sofia, visto que são essenciais para o bom funcionamento e equilíbrio do corpo. As recomen- dações diferem dependendo do gênero e da faixa etária. Elisa apresenta algumas dificuldades na hora de se alimentar. Carla deve orientá-la a escolher alimentos que requerem certa habilidade de mastigação, mas que sejam macios, úmidos e, consequentemente, de deglutição mais fácil. Um exemplo é o consumo de carnes mais cozidas, opções de lanches mais pastosos. Vimos na seção anterior que é comum os idosos serem acometidos por disfagia, sendo essencial que Carla dê atenção a essa condição de Elisa. Fracionar as refeições é uma boa estratégia para que Elisa não se canse durante o processo e acabe diminuindo sua ingestão alimentar diária. Avançando na prática Distribuição de nutrientes no planejamento dietético Laila foi ao consultório da nutricionista Carla para realizar uma consulta e rever seus hábitos alimentares. Carla, após a anamnese, fez seu cálculo na necessidade energética que teve como resultado 2000 Kcal. Laila realiza 5 refeições ao dia: café da manhã, lanche da manhã, almoço, lance da tarde e jantar. Como Carla irá distribuir os macronutrientes no planejamento alimentar de Laila, para cada refeição, considerando 55% de carboidratos, 15% de proteínas e 30% de lipídeos? 89 Resolução da situação-problema Para distribuir os macronutrientes por refeição no planejamento alimentar de Laila, precisamos inicialmente realizar a distribuição dos macronutrientes totais do dia: Carboidratos: x = 55% x 2000 Kcal = 1100Kcal 100% Proteínas: x= 15% x 2000 Kcal = 300Kcal 100% Lipídeosx= 30% x 2000 Kcal = 600Kcal 100% Agora, vamos transformar essas Kcal em gramas: Carboidratos: Se cada 1 g de carboidrato fornece 4 kcal, 1100 Kcal fornecem: x = 1100 Kcal = 4Kcal Proteínas: Se cada 1g de proteína fornece 4 kcal, 300 Kcal fornecem: x = 300Kcal = 4Kcal Lipídios: Se cada 1 g (ou 1 mL) de lipídio fornece 9 kcal, 600 Kcal fornecem: x = 600Kcal = 66,7 g 9Kcal 275 g 75 g 90 Agora faremos a distribuição dos macronutrientes nas 5 refeições que Laila realiza durante o dia, e você pode conferir na tabela a seguir: Tabela 2.10 | Distribuição de macronutrientes em percentual e em gramas para cada refeição Refeição Carboidrato Proteína Lipídeo % g % g % g Café da manhã 15 41,25 15 11,25 15 10,01 Lanche da manhã 10 27,50 0 0 10 6,67 Almoço 30 82,50 35 26,25 30 20,01 Lanche da tarde 15 41,25 20 15,00 20 13,34 Jantar 30 82,50 30 22,50 25 16,68 TOTAL 100 275,00 100 75,00 100 66,70 Fonte: elaborada pela autora. A distribuição deve ser feita de acordo com as necessidades do paciente, podendo variar os valores. Essa distribuição é definida pelo nutricionista. 91 Referências ADHIP, P. N. M.; BASSON, M. D. Effect of aging on the gastrointes-tinal tract. In: JOHNSON, L. R. Physiology ofthe gastrointesti-nal tract. 4. ed. Burlington: Academic Press, 2006. ALVARENGA, M.; KORITAR, P. Atitude e comportamento alimentar – determinantes de escolhas e consumo. In: ALVARENGA, M. et al. Nutrição Comportamental. São Paulo: Editora Manole, 2015. Cap. 02, p. 23-50. ALWAN, A. et al. Monitoring and surveillance of chronic non-communicable diseases: progress and capacity in high-burden countries. Lancet, v. 376, n. 9755, p. 1861-1868, 2010. ARAUJO; M. C. et al. Consumo de macronutrientes e ingestão inadequada de micronutrientes em adultos. Revista de Saúde Pública, v. 47, 1 Supl., p. 177S-89S, 2013. BANDURA, A. Social Foundations of Thought and Action: A Social Cognitive Theory. 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Em seguida, discutiremos sobre a pirâmide alimentar, quando abordaremos os grupos alimentares. Na última seção, trataremos das listas de substitutos alimentares. Dessa forma, nas próximas seções você conhecerá o guia alimentar da população brasileira e a pirâmide alimentar que subsidiará o conhecimento para o cálculo da lista de substi- tutos alimentares, que você calculará ao final desta unidade. Imagine que você já seja um nutricionista e uma grande empresa tenha o chamado para realizar um projeto de conscientização sobre alimentação saudável e o atendimento individualizado de alguns colaboradores. A empresa observou que os colaboradores têm pouca informação sobre o que é uma alimentação saudável, como fazer escolhas adequadas para a alimen- tação, sobre as quantidades adequadas para ingestão, e isso tem impactado o rendimento de muitos deles. Na empresa há um refeitório onde os colaboradores podem fazer as refeições em conjunto. Todos os dias são servidos café da manhã, almoço e lanche da tarde, com pratos variados, sempre com opções da culinária brasi- leira. A empresa ainda oferece, ao final do expediente, uma aula de exercício funcional, três vezes por semana, mas não tem tido muita adesão dos colabo- radores, apesar de a maioria deles ser sedentária. O sr. Hugo será um dos seus pacientes do atendimento individualizado. Ele é casado, tem 36 anos e trabalha no departamento de RH da empresa. É cearense, porém mora em São Paulo há 5 anos, não pratica atividade física, tem sobrepeso e hipertensão arterial.O sr. Hugo relata que no café da manhã sempre opta por uma tapioca com manteiga e café e que não tem o hábito de beber água nem de consumir frutas, legumes e verduras. Ele realiza as três refeições oferecidas pela empresa no refeitório e janta em casa com sua esposa. O paciente está com excesso de peso e tem sofrido com crises hiper- tensivas. Ele relata que utiliza sal de adição em casa e no refeitório, ou seja, 97 adiciona sal ao seu prato após a comida já ter sido preparada. Também diz que leva salgadinhos industrializados para comer entre as refeições na empresa todos os dias. Em casa, é o sr. Hugo que vai ao supermercado, e, apesar de gostar de frutas, comenta que o hortifrúti do local não é muito variado, por isso acaba não comprando frutas com regularidade. Já imaginou quantas pessoas têm acesso a uma boa alimentação, mas por falta de informação acabam fazendo as escolhas inadequadas? Quantas pessoas não têm conhecimento sobre os grupos alimentares, sobre sua importância e seus benefícios, e, ainda, sobre a quantidade adequada de cada grupo alimentar que deve ser consumida diariamente? 98 Seção 1 Guia alimentar para a população brasileira Diálogo aberto Nessa seção, falaremos sobre o Guia alimentar da população brasileira. Veremos quais são as novidades da sua última edição, os princípios impor- tantes abordados nele, as orientações para a escolha dos alimentos, os hábitos alimentares regionais apresentados pelo Guia e discutiremos os dez passos para uma alimentação saudável. Dessa forma, pensando que você é o nutricionista contratado pela empresa, como podemos orientar os colaboradores a respeito do guia alimentar? Quais são informações importantes a serem passadas a todos? Como você pode orientar o sr. Hugo sobre adequações alimentares? O fato de a empresa ter um refeitório onde os colaboradores realizam as refeições em conjunto é um fator positivo? Por quê? A empresa oferece pratos variados da culinária brasileira. O guia alimentar fala sobre regionalidade? Não pode faltar O que há de novo na última edição do Guia alimentar para a população brasileira O Guia alimentar para a população brasileira teve sua primeira versão publicada em 2008, onde foram apresentadas as primeiras diretrizes alimen- tares oficiais para a população, acima de dois anos. Ele foi elaborado por uma construção coletiva, a partir de uma consulta pública por meio da internet e recolhimento de contribuições de diversos participantes. O guia alimentar surgiu devido à necessidade de instruir a população brasileira quanto à alimentação saudável, visto seu impacto na prevenção das mortes prema- turas, causadas por doenças cardíacas e câncer. Ele traz informações para prevenção não apenas de doenças cardíacas e câncer, mas também para prevenção de outras Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), tais como diabetes, hipertensão e obesidade. Além disso, traz orientações sobre as deficiências nutricionais e sobre as doenças infecciosas, uma das prioridades de saúde pública no Brasil na época (BRASIL, 2008). Muitas das diretrizes do guia publicado em 2008 têm relação com a alimentação e as refeições consumidas pelas famílias brasileiras de todos os 99 níveis socioeconômicos. O documento tem a intenção de ser descomplicado para todas as classes sociais e de mostrar que uma alimentação saudável pode ser acessível para todos. A primeira versão do guia alimentar é dividida em três partes. • Na primeira parte, constam os referenciais teóricos e as bases epide- miológicas das diretrizes nacionais de alimentação e nutrição, formando o embasamento teórico para a produção do guia. • Na segunda parte, traz as diretrizes formuladas, com instruções práticas para aplicação no contexto familiar e orientações quanto à rotulagem de alimentos para auxiliar na sua seleção. • A terceira parte apresenta uma sistematização do panorama epide- miológico brasileiro e dados do consumo alimentar brasileiro. Devido às transições demográficas, nutricionais e epidemiológicas que aconteceram na população brasileira, foram necessárias alterações nas orien- tações, adequando a orientação de práticas alimentares para promoção da saúde e prevenção de doenças. As doenças infecciosas saem do foco e entram as DCNT, sendo responsáveis por cerca de 80% das mortes em países de baixa ou média renda (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2011). As mudanças sociais e políticas também levaram a mudanças, com redução do número de filhos por família e aumento da expectativa de vida, levando à necessidade de adequação nas orientações do guia (BRASIL, 2014). A segunda edição tentou aproximar o guia da população geral, trazendo informações sobre qualidade dos alimentos e respeitando a regionalidade. Foram abordados temas como os princípios da alimentação saudável, a escolha dos alimentos, o ato de comer e a comensalidade, a compreensão e a superação dos obstáculos e os dez passos para uma alimentação adequada e saudável. Princípios do Guia alimentar para a população brasileira O Guia alimentar para a população brasileira foi norteado por cinco princípios. Exporemos aqui quais são esses princípios e sua importância para a promoção da saúde da população. É possível notar um crescente interesse da população científica em avaliar a qualidade da dieta da população brasileira. A maioria das pesquisas focam a Região Sudeste, seguida da Região Sul, 63% e 22%, respectivamente (MOREIRA et al., 2015). É importante lembrar que cada região do país apresenta uma realidade alimentar diferente, com hábitos regionais variados. No guia, essa regionalidade será abordada, sobre o que discutiremos em breve. 100 O primeiro princípio abordado diz respeito à ingestão de alimentos ser maior do que a ingestão de nutrientes. Muitas pesquisas mostram o resultado isolado de micronutrientes na alimentação. A vitamina C está associada a uma menor incidência de sangramento de úlcera péptica, melho- rando a eficácia no tratamento do H. pylori (ADITI; GRAHAM, 2012), o zinco desempenhando funções importantes na resposta imune (GAMMOH; RINK, 2017), o consumo de ômega 3 associado à redução dos fatores de risco cardiovascular, relacionados ao envelhecimento (DAVINELLI et al., 2018). Porém, o efeito de nutrientes isolados tem se mostrado insuficiente para explicar a relação entre alimentação e saúde (BRASIL 2014). As preparações culinárias resultam de um conjunto de alimentos, que constituem uma parte importante da cultura e estão relacionados com senti- mento de pertencimento, de prazer associado à comida e bem-estar físico e mental. O ato de se alimentar não é apenas nutricional, logo, não se deve considerar apenas os nutrientes que estão sendo ingeridos. Comer é social, cultural, e esse momento tem um impacto direto na nossa saúde. A segunda diretriz diz respeito a recomendações sobre o fato de a alimentação estar em sintonia com o seu tempo. Os guias devem estar relacionados ao cenário de saúde atual, atualizados de acordo com ele. Padrões alimentares estão em constante mudança, principalmente em países em desenvolvimento. As principais mudanças observadas foram a substi- tuição de alimentos in natura por produtos industrializados. Reflita Já observou a quantidade de lugares que vendem alimentos proces- sados a o nosso redor? Cada dia temos mais aplicativos relacionados à entrega de refeições, sendo a maioria dos alimentos oferecidos, proces- sados. Como podemos reverter essa situação? Avaliando o consumo alimentar do brasileiro, podemos verificar que a média diária de energia per capita é de 1.866 kcal, sendo 9,0% prove- nientes de alimentos processados e 21,5% de alimentos ultraprocessados. O consumo do brasileiro excede as recomendações de energia, proteína, açúcar livre, gordura trans e sódio, e fica abaixo do recomendado quanto à fibra e aopotássio. Quando comparada a dieta que inclui alimentos in natura ou minimante processados com a que inclui alimentos processados, é obser- vada maior concentração de açúcar, quase o dobro de gorduras saturadas e oito vezes mais gorduras trans, além de apresentar 2,5 vezes mais energia por grama (LOUZADAI et al., 2015). 101 Assimile Relembre aqui os conceitos das quatro categorias diferentes de alimentos abordados pelo guia. Alimentos in natura ou minimamente processados Os alimentos in natura são obtidos diretamente de plantas ou de animais, e não sofrem nenhum processamento. Já os minimamente processados passaram por processos de limpeza, seleção das partes comestíveis, moagem, secagem, fermentação, pasteurização, refrigeração, conge- lamento e processos similares. O consumo desses alimentos deve ser priorizado. Óleos, gorduras, sal e açúcar São usados para temperar e cozinhar alimentos e para criar preparações culinárias variadas. São extraídos de alimentos in natura. O consumo excessivo não é recomendado. Alimentos processados Esses alimentos passam por métodos de preservação como salga, salmoura, cura e defumação, com o objetivo de aumentar a duração de alimentos in natura ou minimamente processados. Seu consumo deve ser evitado devido às altas quantidades de sódio, óleo e açúcar, cujo consumo excessivo está associado à DCNT. Alimentos ultraprocessados São formulações industriais que envolvem a utilização de uma grande quantidade de ingredientes, feitas inteiramente ou principalmente de substâncias extraídas de alimentos. Esses alimentos têm composição nutricional desbalanceada, além de o seu consumo ter impacto sobre a cultura, a vida social e sobre o meio ambiente. Devem ser evitados. A terceira diretriz discute que alimentação adequada e saudável deriva de sistema alimentar socialmente e ambientalmente sustentável. É neces- sário levar em conta ao se passar uma orientação nutricional como será o impacto nas formas de produção e distribuição no meio ambiente. Mostra-se necessário discutir sobre o sistema de produção. Muitos fatores devem ser analisados, como técnicas empregadas para produção, uso de ferti- lizantes, que podem ser naturais ou sintéticos, controle biológico ou químico de pragas, o tratamento dos dejetos e resíduos, distância entre produtores e consumidores, pois existe uma relação direta no valor e também na quanti- dade de combustível consumida nesse transporte, logo, maior emissão de poluentes no ar (BRASIL 2014). 102 O Guia alimentar para população brasileira estimula que o sistema de produção e distribuição seja socialmente e ambientalmente sustentável. Dessa forma, estimula a agricultura familiar, a produção de produtos orgânicos, que perdem força e mercado para as produções de larga escala. A quarta diretriz aborda os diferentes saberes que geram o conheci- mento para a formulação de guias alimentares. Vários são os estudos que ajudam a entender a interação de diferentes componentes dos alimentos com a fisiologia e o metabolismo, sendo importantes para a formulação de recomendações sobre alimentação. No decorrer dos anos, propriedades funcionais foram identificadas em diversos alimentos, mostrando que fornecem benefícios à saúde, além de suas funções nutricionais já conhecidas. E as pesquisas não param. Evidências científicas recentes sugerem que as proteínas alimentares podem modular as funções fisiológicas do corpo, sendo consideradas como um composto líder para o desenvolvimento de nutracêuticos ou alimentos funcionais (CHAKRABARTI; GUHA; MAJUMDER, 2018). Pesquisas como essas auxiliam nas recomendações do guia, que são embasadas em conhecimentos gerados por estudos experimentais, clínicos, populacionais e antropológicos. A quinta diretriz do guia aborda como os guias alimentares ampliam a autonomia nas escolhas alimentares. O acesso a uma informação de quali- dade e de fontes confiáveis contribuem para a autonomia dos indivíduos. Essa autonomia é construída pelo sujeito e pelo ambiente em que ele vive. Adotar uma alimentação saudável não é apenas uma escolha individual, ela é determinada por vários fatores que podem influenciar de forma positiva ou negativa. A disponibilidade de alimentos saudáveis em locais próximos, por exemplo, em feiras e mercados que comercializam frutas e hortaliças, ou onde o indivíduo realiza suas refeições, e a exposição à publicidade de alimentos não saudáveis, têm uma relação direta com as escolhas alimentares. Estudo realizado para analisar a publicidade de alimentos no Brasil, com base nas recomendações do guia, observou quatro canais de televisão durante dois dias consecutivos. Dos 2.732 comerciais avaliados, propagandas de alimentos e bebidas representaram 10,2% dos comerciais, sendo a terceira maior categoria anunciada. Já os alimentos ultraprocessados representaram 60,7% das propagandas. Os alimentos in natura foram apenas cerca de 7% dos anúncios (MAIA et al., 2017). Muitos são os fatores que podem impactar na alimentação. O guia foi elaborado com a proposta de tornar informações confiáveis e de fácil interpretação para a população brasileira acessíveis. 103 Orientações do Guia alimentar para a população brasileira para a escolha dos alimentos O guia alimentar traz orientações quanto ao consumo alimentar, levando em consideração as quatro categorias de alimentos definidas de acordo com o tipo de processamento. Essas categorias são os alimentos in natura ou minima- mente processados; óleos, gorduras, sal e açúcar; alimentos processados e alimentos ultraprocessados (conforme vimos anteriormente em Assimile). Essas orientações têm o objetivo de auxiliar a população a fazer escolhas nutricionalmente balanceadas e culturalmente apropriadas. Todas as orien- tações vêm com uma lista dos alimentos que fazem parte daquele grupo para facilitar a compreensão de todos. • A primeira orientação é para que a população faça de alimentos in natura ou minimamente processados a base de sua alimentação. Os alimentos in natura têm uma deterioração rápida, dessa forma, para alguns alimentos, são utilizados processamentos mínimos a fim de aumentar sua durabilidade, como o polimento dos grãos. Essas técnicas podem diminuir o conteúdo de nutrientes dos alimentos e, por essa razão, devemos dar preferência aos grãos menos proces- sados, como os grãos integrais (BRASIL, 2014). São exemplos de alimentos in natura ou minimamente processados: os legumes, as verduras e as frutas; o arroz branco, integral ou parboilizado; milho em grão ou na espiga, grãos de trigo e de outros cereais; feijão e demais leguminosas; castanhas; farinhas de mandioca, milho, trigo, macarrão, massas frescas; carnes; leite pasteurizado, ultrapasteurizado ou em pó, iogurte sem adição de açúcar; ovos; chá, café e água (BRASIL, 2014). A seguir, uma figura que ilustra essa categoria de alimentos. Figura 3.1 | Exemplos de alimentos in natura ou minimamente processados Fonte: https://saudebrasilportal.com.br/eu-quero-me-alimentar-melhor/in-natura-processados-ultraproces- sados-conheca-os-tipos-de-alimento. Acesso em: 15 maio 2019. 104 Em uma revisão realizada em 2015, que encontrou 7.573 artigos relacionados à avaliação da população brasileira, foram selecionados 32 artigos que utilizavam o Índice de Alimentação Saudável (IAS), um questionário desenvolvido por Kennedy et al. (1995 apud MOREIRA et al., 2015). Nessa revisão foram encon- trados que, quando avaliado o consumo de frutas e hortaliças, o consumo regular em adultos variou entre 23,4% a 46% (MOREIRA et al., 2015). Uma outra pesquisa realizada com uma amostra composta de partici- pantes do Inquérito de Saúde de São Paulo (1.661 participantes) mostrou que aproximadamente 60% da população consome abaixo da recomendação de legumes e verduras. Além disso, cerca de 80% da população consomeabaixo do recomendado para leite e derivados; frutas e sucos de frutas; e cereais, tubérculos e raízes; 30%, para feijões; e 8%, para carnes e ovos (VERLY JUNIOR et al., 2013). Essas pesquisas mostram que o consumo dos alimentos in natura ou minimamente processados ainda é muito aquém do recomendado para a população brasileira. Muitas ações de conscientização devem ser realizadas para que essa meta seja alcançada, visto que o consumo desse grupo de alimentos está ligado à prevenção de várias DCNT e suas complicações. • A segunda recomendação é que a utilização de óleos, gorduras, sal e açúcar seja feita em pequenas quantidades ao temperar e cozinhar alimentos e criar preparações culinárias. Esses alimentos, se usados com moderação, trazem sabor à comida e não interferem negativa- mente no valor nutricional dessas refeições (BRASIL, 2014). Porém, quando usados em excesso, trazem prejuízo à saúde. É um grupo de alimentos altamente calóricos e inflamatórios. O excesso de consumo de açúcar pode levar ao diabetes e agravar o caso de pacientes já diagnosticados. Excesso do consumo de sal pode lavar à alteração na pressão arterial e o consumo de gorduras acima do recomendado está associado à resistência insulínica e hiper-homocisteinemia de adultos. • Outra orientação que encontramos no guia é limitar o uso de alimentos processados, consumindo-os em pequenas quantidades, como ingredientes de preparações culinárias ou como parte de refei- ções baseadas em alimentos in natura ou minimamente processados. São exemplos de alimentos processados: extrato ou concentrados de tomate; vegetais preservados em salmoura ou em solução de sal e vinagre; frutas em calda e frutas cristalizadas; queijos e pães feitos de farinha de trigo, leveduras, água e sal; carne seca e toucinho; e sardinha e atum enlatados. 105 Esses alimentos passam por métodos de processamento que alteram de modo desfavorável a composição nutricional, com adição muito superior às usadas nas preparações culinárias de sal ou açúcar, fazendo com que seu consumo excessivo seja associado a doenças cardíacas, a obesidade e a outras doenças crônicas. • A última orientação é para que a população evite alimentos ultra- processados. Esses alimentos são formulações industriais, e alguns exemplos são: cereais com adição de açúcar para o desjejum matinal; bolos e misturas para bolo; macarrão e temperos “instantâneos”; molhos; salgadinhos; biscoitos; refrigerantes; iogurtes e bebidas lácteas adoçados e aromatizados; barras de cereal; pizzas; hambúr- gueres e extratos de carne de frango ou peixe empanados; salsichas e outros embutidos; pães de forma; entre inúmeros outros exemplos (BRASIL, 2014). Figura 3.2 | Exemplo de alimentos ultraprocessados Fonte: http://www.fsp.usp.br/nupens/projeto/o-impacto-da-variacao-temporal-no-consumo-de-alimentos-ultrapro- cessados-na-evolucao-da-prevalencia-da-obesidade-no-brasil-2002-2003-2008-2009/. Acesso em: 2 maio 2019. Conforme dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares, realizada no Brasil, a participação de produtos prontos para o consumo teve um aumento considerável, de 23% para 27,8% das calorias, devido ao elevado consumo de alimentos ultraprocessados, que saltou de 20,8% para 25,4% entre 2002-2003 e 2008-2009 (MARTINS et al., 2013). Esse aumentou aconteceu indepen- dentemente de renda, mostrando a grande participação dessa categoria de produtos na alimentação da nossa população. Alimentos ultraprocessados são saborosos, o que chama a atenção do consumidor. Além disso, contam com estratégias agressivas de marketing que auxiliam no crescimento de consumo desses alimentos. Esses produtos são ricos http://www.fsp.usp.br/nupens/projeto/o-impacto-da-variacao-temporal-no-consumo-de-alimentos-ultrapro- 106 em açúcares livres e gordura, pobres em fibras, são extremamente calóricos, e seu consumo excessivo é considerado fator de risco para a obesidade. O guia ainda traz uma informação muito relevante sobre os alimentos ultraproces- sados: eles afetam negativamente a cultura, a vida social e o ambiente. Hábitos alimentares regionais abordados pelo Guia alimen- tar para a população brasileira No capítulo 3 do Guia alimentar para a população brasileira, encontramos orientações específicas sobre como combinar alimentos na forma de refeições, baseadas no consumo alimentar dos brasileiros e privilegiando alimentos in natura e minimamente processados. As informações abordadas pelo guia têm como bases os dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) de 2008-2009 (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2010). Pesquise Mais Você sabia que o Ministério da Saúde tem uma publicação sobre os alimentos regionais brasileiros? Nela, que já está em sua segunda edição, você encontra as mais variadas espécies de frutas, hortaliças, leguminosas, tubérculos, cereais, ervas, entre outros existentes em nosso país, além de várias receitas para cozinhar com mais saúde. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Depar- tamento de Atenção Básica. Alimentos regionais brasileiros. 2. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde; Secretaria de Atenção à Saúde; Depar- tamento de Atenção Básica, 2014. A POF 2008-2009 (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2010) traz que um quinto da população ainda tem como base da sua alimentação alimentos in natura e minimamente processados. Dessa forma, 85% ou mais do total das calorias que consomem no dia são provenientes desses alimentos e de suas preparações culinárias. Dessa forma, o guia trouxe exemplos de preparações, procurando representar homens e mulheres, os vários grupos etários, as cinco regiões do país, o meio rural e urbano e todas as classes de renda. Os exemplos contemplados no guia abordam as três principais refeições do dia, café da manhã, almoço e jantar. As refeições apresentadas trazem sugestões, e não regras, sobre o que pode ser adotado para uma refeição saudável. Também não são colocadas quantidades exatas a serem seguidas. 107 Exemplificando Analisando os exemplos fornecidos pelo guia, observamos que os alimentos presentes nas refeições exemplificadas são consumidos em diversas regiões do país. Dessa forma, se um indivíduo da Região Sudeste ou da Região Nordeste lerem o guia, encontrarão exemplos que se encaixam em sua realidade. A seguir, apresentamos um exemplo que ilustra a abordagem do guia. Figura 3.3 | Sugestões de café da manhã que ilustram oito brasileiros, de diferentes regiões do Brasil, que baseiam sua alimentação em alimentos in natura ou minima- mente processados Fonte: Brasil (2014, p. 57-58). 108 O guia ainda traz algumas sugestões para lanches, além de uma expli- cação sobre os principais grupos de alimentos que fazem parte da alimen- tação brasileira. Comer não é apenas ingerir alimentos, o guia traz informa- ções sobre comer em comensalidade, destacando três orientações principais que fazem a diferença para um momento alimentar de qualidade: comer com regularidade e com atenção; comer em ambientes apropriados; comer em companhia. Dez passos para uma alimentação saudável Ao final do guia alimentar, temos os Dez passos para uma alimentação saudável, um fechamento, que resume tudo o que foi abordado no decorrer do guia. São os dez passos (BRASIL, 2014): 1. Fazer de alimentos in natura ou minimamente processados a base da alimentação. 2. Utilizar óleos, gorduras, sal e açúcar em pequenas quantidades ao temperar e cozinhar alimentos e criar preparações culinárias. 3. Limitar o consumo de alimentos processados. 4. Evitar o consumo de alimentos ultraprocessados. 5. Comer com regularidade e atenção, em ambientes apropriados e, sempre que possível, com companhia. 6. Fazer compras em locais que ofertem variedades de alimentos in natura ou minimamente processados. 7. Desenvolver, exercitare partilhar habilidades culinárias. 8. Planejar o uso do tempo para dar à alimentação o espaço que ela merece. 9. Dar preferência, quando fora de casa, a locais que servem refeições feitas na hora. 10. Ser crítico quanto a informações, orientações e mensagens sobre alimentação veiculadas em propagandas comerciais. Sem medo de errar No começo da unidade, você foi contratado para assessorar uma empresa a promover hábitos saudáveis aos colaboradores. Agora que você conhece os princípios do guia, é hora de colocar esses conhecimentos em prática. 109 Você pode disponibilizar o Guia alimentar para população brasileira (BRASIL, 2014) para todos os colaboradores através do email institucional e organizar uma palestra, em que, de maneira interativa, você apresentará a todos os princípios do guia, destacando os pontos positivos do refeitório da empresa. Você pode destacar, por exemplo, que o fato de terem um espaço tranquilo e organizado para fazerem as refeições favorece esse momento de interação entre o indivíduo e o alimento, além de permitir que façam essas refeições na companhia dos colegas de trabalho. É importante incen- tivar os colaboradores a escolherem os alimentos mais saudáveis, e mostrar que a empresa se preocupa com a diversidade de paladar e oferece sempre alimentos diversificados e de diferentes regiões do Brasil. O sr. Hugo, que será um dos seus pacientes do atendimento individu- alizado, tem dúvidas sobre adequações alimentares. Em seu consultório, você pode mostrar ao paciente os diferentes tipos de grupos alimentares e os diferentes exemplos que o guia oferece sobre uma alimentação adequada e diversificada, priorizando sempre o consumo dos alimentos in natura e minimamente processados. Avançando na prática Alimentos ultraprocessados César é um jovem de 19 anos, que consome majoritariamente alimentos ultraprocessados em sua alimentação. Ele consome alimentos congelados como lasanhas e pizzas, quase todos os dias da semana. Quando se alimenta fora de casa, suas opções são os fast-foods . Porém, César foi a uma consulta médica e está com sobrepeso, além de já ter apresentado alterações no seu perfil lipídico. Quais orientações você daria a César, de acordo com o Guia alimentar para a população brasileira? Resolução da situação-problema De acordo com o Guia alimentar para a população brasileira, o consumo dos alimentos ultraprocessados deve ser evitado. César precisa começar um processo de reeducação alimentar. Apresentar o guia para esse paciente é importante para que ele conheça as recomendações, a fim de ter uma alimen- tação saudável e prevenir doenças. Também é importante trabalhar os dez passos para uma alimentação saudável como a base do tratamento de César. 110 Seção 2 Pirâmide alimentar Diálogo aberto Prezado aluno, nesta unidade daremos prosseguimento ao nosso conhe- cimento para o planejamento alimentar. Agora, falaremos sobre a pirâmide alimentar e discutiremos os grupos alimentares. Esse conhecimento será importante para que você possa elaborar as listas de substitutos na próxima seção. Durante sua consulta, o sr. Hugo demonstrou muitas dúvidas sobre a importância de cada grupo alimentar. Ele relatou que já tinha feito acompa- nhamento uma vez com uma nutricionista, mas que não entendia sobre os grupos alimentares. Então, questiona: quais grupos representam alimentos comuns? Qual grupo alimentar devemos consumir em maior quantidade e por quê? Quantas frutas devemos consumir por dia? Podemos consumir açúcar todos os dias? Assim, baseando-se no conceito da pirâmide alimentar, quais serão as respostas que você dará ao sr. Hugo? Não pode faltar Introdução Hábitos saudáveis são importantes para a manutenção da saúde, e recomendações nutricionais adequadas podem significar escolhas alimen- tares melhores e mais sustentáveis. A publicação de tabelas de composição de alimentos e padrões dietéticos surgiram a partir da publicação de Atwater e Woods (1986), com o boletim contendo dados de uma extensa lista de alimentos e sua composição, e deram início às bases científicas que permi- tiram estabelecimento de relações entre consumo alimentar, composição dos alimentos e saúde. Os guias alimentares podem ser resumidos em uma figura, uma repre- sentação gráfica, para chamar mais a atenção da população e facilitar o entendimento, logo, a adesão. Essas representações podem acontecer de várias maneiras, por exemplo, na forma de rodas, pratos e pirâmides, como a representação brasileira atual. 111 Pirâmide alimentar A pirâmide alimentar é uma forma de promover hábitos alimentares saudáveis para a saúde do indivíduo e prevenção de doenças (ACHTERBERG; McDONNELL; BAGBY, 1994). Na década de 1980, a representação gráfica utilizada pelo Brasil era a roda de alimentos, usada por muito tempo, que trazia os alimentos classificados de acordo com suas funções no organismo, tendo, assim, o grupo de alimentos construtores (proteína), energéticos (carboidratos e gorduras) e reguladores (alimentos fontes de vitaminas e minerais) (PHILIPPI et al., 1999). Em 1974, o Instituto de Saúde da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo sugeriu que a recomendação fosse feita por grupos de alimentos, adotando seis grupos: leites, queijos, coalhada e iogurtes; carnes, ovos, legumi- nosas; hortaliças; cereais e feculentos; frutas e açúcares; e gorduras (KALIL et al., 1974). Em 1992, o modelo de pirâmide alimentar foi adotado pelo departa- mento de agricultura dos Estados Unidos (UNITED STATES DEPARTMENT OF AGRICULTURE, 1992), e, para o Brasil, foi realizada uma adaptação dessa pirâmide em 1999, para que refletisse os alimentos disponíveis em nosso país e os hábitos alimentares da população (PHILIPPI et al., 1999). Assim, a pirâmide foi proposta em quatro níveis e oito grupos alimentares: • Primeiro nível: foi representado o grupo dos cereais, tubérculos e raízes. • Segundo nível: hortaliças e das frutas. • Terceiro nível: o grupo do leite e produtos lácteos, o grupo das carnes e ovos, e o grupo das leguminosas. • Quarto nível: o grupo dos óleos e gorduras, e o grupo dos açúcares e doces. Os grupos foram divididos por semelhança entre os alimentos e foi definido o número de porções diárias para cada um, considerando como distribuição de macronutrientes, proteínas (de 10% a 15%), carboidratos (de 50% a 60%) e lipídios (de 20% a 30%), para dietas padrão de 1.600 Kcal, 2.200 Kcal e 2.800 Kcal, conforme Tabela 3.1, na qual as distribuições percentuais discriminadas são consideradas, praticamente, todas dentro dos intervalos preconizados, podendo haver pequenas diferenças levando a uma somatória de 99%. Tabela 3.1 | Distribuições percentuais de macronutrientes para três dietas com valores ener- géticos diferentes Dietas em Kcal Carboidratos % Proteínas % Lipídeos % 1.600 61 15 23 2.200 58 14 27 2.800 60 15 25 Fonte: Philippi et al. (1999, [s.p.]). 112 Os alimentos foram distribuídos então nos seguintes grupos: pães, cereais, raízes e tubérculos (pães, farinhas, massas, bolos, biscoitos, cereais matinais, arroz, feculentos e tubérculos: de 5 a 9 porções); hortaliças (todas as verduras e legumes, com exceção das citadas no grupo anterior: de 4 a 5 porções); frutas (cítricas e não cítricas: de 3 a 5 porções); carnes (carne bovina e suína, aves, peixes, ovos, miúdos e vísceras: de 1 a 2 porções); leite (leites, queijos e iogurtes: 3 porções); leguminosas (feijão, soja, ervilha, grão de bico, fava, amendoim: 1 porção); óleos e gorduras (margarina/manteiga, óleo: de 1 a 2 porções); açúcares e doces (doces, mel e açúcares: de 1 a 2 porções) (PHILIPPI et al., 1999), conforme Figura 3.4. Figura 3.4 | Pirâmide alimentar brasileira, versão 1999 Fonte: adaptada de Philippi et al. (1999). Em 2005, a Pirâmide Alimentar Brasileira foi mais uma vez adaptada(Figura 3.5), e essa necessidade foi observada após: a proposta de uma nova pirâmide alimentar americana, a publicação do Guia Alimentar para População Brasileira e da legislação de rotulagem dos alimentos pelo Ministério da Saúde. Esse novo modelo proposto foi baseado em uma dieta de 2.000 Kcal, considerada a quantidade de energia suficiente para suprir as necessidades da maior parte da população adulta. As porções também foram 113 alteradas, baseadas na quantidade usualmente consumida e em medidas caseiras, com um valor calórico fixo, a fim de se estipularem os seus equiva- lentes e uma lista de substituições. A dieta foi dividida em seis refeições diárias, distribuídas com os seguintes percentuais: 25% do Valor Energético Total (VET) para o café da manhã, 5% para o lanche da manhã, 35% para o almoço, 5% para o lanche da tarde, 25% para o jantar e 5% para o lanche da noite (PHILIPPI et al., 2014). Figura 3.5 | Pirâmide Alimentar Brasileira reformulada (2005) Fonte: adaptada de Philippi (2014). Em 2013, Philippi fez uma nova proposta para a pirâmide alimentar, a fim de destacar e incentivar alimentos como quinoa, linhaça, chia, iogurte, frutas regionais, vegetais verdes-escuros, sucos, maior presença de grelhados e de azeite, alimentos importantes na dieta do brasileiro. A proposta para maior destaque desses alimentos foi realizada devido ao aumento crescente e preocupante das doenças crônicas não transmissíveis, principalmente da obesidade, que são doenças com fatores de risco modificáveis com os 114 hábitos alimentares. Dessa forma, quanto mais informações sobre alimen- tação saudável forem veiculadas à população, para escolhas alimentares melhores, maior será o combate às Doenças Crônicas não Transmissíveis e suas complicações. Quanto às Kcal para cada porção estabelecida na nova proposta da pirâmide, temos a Tabela 3.2: Tabela 3.2 | Comparativo entre a recomendação de porções e Kcal por porção da primeira e última versão da pirâmide alimentar Grupo Alimentar Pirâmide Antiga (1999) Nova Pirâmide (2013) Kcal/porção Porções Diárias Kcal/porção Porções Diárias Arroz, pão, massa, batata, mandioca 150 5 a 9 150 6 Frutas 35 3 a 5 70 3 Legumes e verduras 15 4 a 5 15 3 Carnes e ovos 190 1 a 2 190 1 Leite, queijo e iogurte 120 3 120 3 Feijões 55 1 55 1 Óleos e gorduras 73 1 a 2 73 1 Açúcares e doces 110 1 a 2 110 1 Fonte: adaptada de Philippi et al. (1999) e Philippi (2014). Assimile Uma alimentação saudável deve conter todos os grupos de alimentos, respeitando as necessidades individuais. Para isso é importante que você saiba a função de cada nutriente no organismo e como eles estão distribuídos nos alimentos. Essas informações vão auxiliá-lo no momento de calcular a lista de substitutos e realizar o cálculo do seu planejamento alimentar. Grupos dos carboidratos, frutas e hortaliças Na base da pirâmide, encontramos o grupo denominado arroz, pão, massa, batata e mandioca (Figura 3.6). Esse grupo é constituído por cereais, tubérculos e raízes e seus produtos e foram agrupados por possuírem em sua composição predominantemente o carboidrato. Os carboidratos são importantes fontes de energia, são convertidos em glicose durante o processo de digestão, sendo a glicose a principal fonte de energia para o funcionamento do cérebro. A classificação dos carboidratos pode ser feita em simples e em complexos. Dentre os carboidratos simples mais encontrados nos alimentos, temos exemplos de fonte animal e vegetal, sendo eles glicose, frutose, sacarose 115 e lactose. Carboidratos simples são formados por açúcares simples ou um par deles. Por possuírem estruturas químicas simples, são de fácil digestibili- dade e facilmente absorvidos. Entre os carboidratos complexos, destacamos o amido (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2009). Figura 3.6 | Grupo dos carboidratos Fonte: adaptada de Philippi (2014). Os alimentos fontes de amido são: arroz, milho e seus produtos, cevada, centeio, batatas, mandioca, aveia, trigo e seus produtos, inhame e cará. Já como representantes das fibras temos os cereais integrais, como: arroz integral, pão integral, aveia e milho em grão. Para ficar ainda mais claro como usamos as porções de alimentos, você encontrará três dietas de exemplo, de acordo com Philippi et al. (1999), no Anexo 3.1 – Dieta para indivíduo adulto com 1.600 Kcal; Anexo 3.2 – Dieta para indivíduo adulto com 2.200 Kcal e Anexo 3.3 – Dieta para indivíduo adulto com 2.800 Kcal. Sugerimos que consulte também a tabela de alimentos equivalentes para pães, cereais, raízes e tubérculos (Anexo 3.4). A recomendação de ingestão desse grupo alimentar é de 6 porções ao dia, sendo que uma porção corres- ponde a 150 Kcal. Essa porção pode ser exemplificada com 2 fatias de pão integral; 4 colheres de sopa de arroz ou 1 unidade e 1/2 de batata cozida. Assim, ao final do dia, esse grupo fornecerá 900 Kcal para o indivíduo. Para isso, basta multiplicar o número de porções pelo valor calórico de cada porção: x = 6 porções x 150Kcal x = 900Kcal Reflita A nutrição é uma ciência que passa por constantes modificações. A curiosidade da população sobre temas relacionados a essa ciência é cada vez mais crescente, e, dessa forma, muitas vezes somos bombarde- ados com informações imprecisas sobre alimentação. A quantas infor- mações você já teve acesso sobre o consumo de carboidratos? Como o consumo de carboidratos é visto hoje pela maioria da população? Reflita sobre isso! 116 O grupo alimentar das frutas e o grupo de hortaliças (Figura 3.7) têm em comum a oferta de vitaminas, minerais e fibra alimentar e sua recomen- dação de ingestão é de 3 porções por dia de cada grupo. O grupo das horta- liças engloba as verduras e os legumes, que são plantas ou partes delas que servem para o nosso consumo. Utiliza-se a denominação verduras quando a parte comestível do vegetal são as folhas, as flores e as hastes, como alface e brócolis, por exemplo. Cada porção de frutas tem um valor calórico de 70 Kcal (PHILIPPI, 2014) e pode ser exemplificada por 1 unidade de banana prata, 1 fatia de abacaxi ou meia unidade de mamão papaia. Já o grupo das hortaliças tem cada porção com valor calórico médio de 15 Kcal, sendo exemplos dessas porções: 2 colheres de sopa de abóbora cozida, 6 folhas de alface americana ou 4 colheres e 1/2 de sopa de brócolis cozido (GOMES; TEIXEIRA, 2016). De acordo com a primeira pirâmide alimentar (PHILLIPI et al., 1999), a porção de fruta era de 35 Kcal, porção essa que foi atualizada na reformulação da pirâmide alimentar em 2005 para 70 Kcal. Sugerimos que você consulte a tabela de alimentos equivalentes de frutas (Anexo 3.5) e hortaliças (Anexo 3.6). Figura 3.7 | Grupo das frutas, verduras e legumes Fonte: adaptada de Philippi (2014). Para saber a contribuição energética de cada grupo, basta multiplicar as Kcal por porção, pelo número de porções recomendadas por dia. Dessa maneira, para as frutas, temos 3 porções de 70 Kcal. x = 3 porções x 70Kcal x = 210Kcal Para o cálculo da contribuição energética do grupo das hortaliças, calcu- laremos as 3 porções, sendo cada uma com valor calórico médio de 15 Kcal. x = 3 porções x 15Kcal x = 45Kcal De acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009, o alimento mais frequentemente referido pela população brasileira foi arroz (84%). Frutas e hortaliças não aparecem entre os 5 alimentos mais 117 consumidos, mas, sim, entre os menos consumidos: frutas (16%) e hortaliças (16%) (SOUZA et al., 2013). Grupo de leite e derivados e grupo das carnes e ovos Na parte intermediária alta da Pirâmide Alimentar Brasileira, encon- tramos o grupo das proteínas animais e proteínas vegetais, que englobam três grupos de alimentos que têm em comum a quantidade e a qualidade proteica. Neste estão osalimentos de fontes de proteínas animais, carnes, ovos, leite e derivados; e proteínas vegetais, como as leguminosas (Figura 3.8). Consulte a tabela de alimentos equivalentes de leite, queijo, iogurte (Anexo 3.7) e de carnes e ovos (Anexo 3.8). Figura 3.8 | Grupo de proteínas animais e proteínas vegetais Fonte: adaptada de Philippi (2014). A recomendação de ingestão do grupo de leite, queijo e iogurte é de 3 porções por dia, sendo cada uma com valor calórico de aproximadamente 120 Kcal. Além da boa quantidade proteica oferecida por esse grupo, temos uma oferta satisfatória de cálcio. Estudo transversal de base populacional, que avaliou a frequência de consumo de leite e derivados, segundo caracte- rísticas demográficas e socioeconômicas entre adultos e idosos, mostra que a prevalência de consumo regular de leite e/ou derivados foi de 45,9%, sendo maior entre idosos quando comparado àqueles com 20-29 anos de idade em 1,7 vezes (MUNIZ; MADRUGA; ARAÚJO, 2013). Uma porção desse grupo alimentar corresponde a 1 copo de requeijão de iogurte natural, 1 fatia e 1/2 de queijo tipo Minas (50g) ou 1 copo de leite integral (200 mL). Para averiguar a contribuição energética desse grupo, basta calcular conforme segue: x = 3 porções x 120Kcal x = 390Kcal De acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira, deve-se orientar o consumo de uma porção de carne vermelha, aves, peixes ou ovos por dia, devido à sua oferta de proteína e nutrientes essenciais, como ácidos graxos, minerais e vitaminas (BRASIL, 2014). Cada porção do grupo de carnes e ovos oferece aproximadamente 190 Kcal. Uma porção desse grupo 118 alimentar é representada por 1 unidade de bife grelhado (100 g), 2 ovos cozidos, 1 filé de peixe cozido (100 g) ou 1 unidade de sobrecoxa cozida (sem pele), por exemplo (GOMES; TEIXEIRA, 2016). Segundo o Inquérito Nacional de Alimentação, composto de amostra probabilística da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009, dentre os alimentos mais frequentemente referidos pela população está a carne bovina, com 48,7%, aparecendo entre os cinco alimentos mais consumidos pela população (SOUZA et al., 2013). Porém, quando avaliamos essa ingestão em idosos, a frequência de inadequação do consumo de carnes e ovos pode chegar a 47,8% (CLOSS et al., 2014). Menor poder aquisitivo, dificuldades de deglutição e problemas de dentição podem justificar essa inadequação. Grupos das leguminosas e oleaginosas O grupo das leguminosas e oleaginosas é uma divisão exclusiva da pirâmide brasileira devido ao alto consumo destes alimentos, em especial o feijão. Está representado na parte intermediária alta da Pirâmide Alimentar, ao lado do grupo de carnes e ovos e leite e seus derivados, devido a sua contribuição proteica na dieta (Figura 3.8). A combinação arroz e feijão corresponde a quase um quarto da alimentação do brasileiro, sendo uma combinação alimentar saudável e completa em proteínas (BRASIL, 2008; BRASIL, 2014). Consulte a tabela de alimentos equivalentes de leguminosas e oleaginosas (Anexo 3.9). Nesse grupo, temos alimentos como feijões, grão de bico, tremoço, lentilha, ervilha, amendoim, soja, castanhas, nozes e amêndoas. A recomen- dação é de 1 porção por dia (PHILIPPI, 2014), tendo cada porção, em média, 55 Kcal. O feijão é destacado como o terceiro alimento mais consumido, sendo referido por 72,8% da população (SOUZA at el., 2013). No grupo das leguminosas 1 porção equivale a 1 concha de feijão cozido, 1 colher e 1/2 de servir de soja ou 4 unidades de castanha de caju (GOMES; TEIXEIRA, 2016). Para checar a contribuição desse grupo para a dieta alimentar, temos o seguinte cálculo: x = = 3 porções x 55Kcal x =165Kcal Exemplificando Um indivíduo relata para você que consumiu durante um dia: • 1 pão de francês com 1 ovo mexido. 119 • 2 conchas de feijão, 1 colher de servir de arroz, 1 bife médio, 2 colheres de sopa de abóbora cozida, 6 folhas de alface americana. • 4 castanhas de caju com 1 copo de requeijão de iogurte natural. • 1 colher de servir de arroz, 1 sobrecoxa de frango, 6 folhas de alface americana. Esse indivíduo já consumiu a recomendação diária de leguminosas e oleaginosas e de leites e derivados? Para responder a essa questão, basta analisar os grupos alimentares, os alimentos que os compõem e as recomendações. A recomendação de ingestão diária de leguminosas e oleaginosas é de 1 porção. Dos alimentos que o paciente consumiu, fazem parte desse grupo o feijão e as castanhas. Ele consumiu 2 conchas de feijão no almoço. Uma porção de leguminosas equivale a 1 concha de feijão. Dessa forma, no almoço o paciente já consumiu 2 porções do grupo de leguminosas e oleaginosas. Para completar a recomen- dação, ele consumiu 4 castanhas de caju, que equivalem a 1 porção. Assim, esse paciente consumiu 3 porções de leguminosas e oleaginosas, excedendo a recomendação em duas porções. Já a recomendação de leite e derivados é de 1 porção no dia. Faz parte desse grupo o iogurte, que foi consumido durante o dia. Uma porção de leite e derivados equivale a 1 copo de iogurte natural, logo, essa recomendação diária de ingestão foi atingida. Grupos dos óleos e gorduras, açúcares e doces No último nível da pirâmide dos alimentos, encontramos dois grupos: o dos óleos e gorduras e o dos açúcares e doces (Figura 3.9). A contribuição energética de cada um desses grupos é, em média, de 73 Kcal e 110 Kcal, respectivamente, e a recomendação é de 1 porção/dia. Por estarem no topo da pirâmide alimentar, lado a lado, pode-se entender erroneamente que o grupo de óleos e gorduras seja prejudicial, como o de açúcar. Indicamos a consulte da tabela de alimentos equivalentes de óleos e gorduras (Anexo 3.10) e de açúcares e doces (Anexo 3.11). Figura 3.9 | Grupo de óleos e gorduras, e dos doces e açúcares Fonte: adaptada de Philippi (2014). 120 Óleos e gorduras são essenciais para a manutenção da saúde, pois auxiliam no transporte e na absorção das vitaminas lipossolúveis, são reserva e fonte de energia. Porém, a ingestão deve ser realizada dentro da recomen- dação. A ingestão inadequada pode aumentar excessivamente a densidade energética da dieta e, como consequência, levar ao aparecimento de obesi- dade e do diabetes mellitus tipo 2 (SANTOS; AQUINO, 2008). Uma porção de óleos e gorduras pode ser exemplificada por 1 colher de sopa de azeite de oliva, 1 colher de sopa de óleo de soja ou meia colher de sopa de manteiga (GOMES; TEIXEIRA, 2016). A recomendação de ingestão é a de preferir azeites e óleos vegetais. A ingestão de açúcar deve ser limitada a 110 Kcal por dia, ou seja, cerca de 5% da contribuição energética do dia, baseado em uma dieta 2.000 Kcal. De acordo com o Guia Alimentar para População Brasileira, o consumo de açúcar deve ser em pequenas quantidades e, desde que usado com moderação, contribui para diversificar e tornar mais saborosa a alimentação. Vale ressaltar que o açúcar tem de 5 a 10 vezes mais calorias por grama do que a maioria das frutas (BRASIL, 2014). No entanto, o consumo dos grupos de açúcares e doces, e de óleos e gorduras é feito acima da recomendação estabelecida pela pirâmide alimentar por mais da metade da população (VERLY JUNIOR et al., 2013). Quando avaliado por classes sociais, nas classes intermediárias de rendimentos, a participação do açúcar alcança quase 15% do valor energético total diário (LEVY-COSTA et al., 2005). Pesquise Mais Para entender um pouco melhor sobre o consumo da população idosa brasileira de alimentos dos grupos que compõem a pirâmide alimentar, leia o artigo Consumo de alimentos dos grupos que compõem a pirâmide alimentar americana por idosos brasileiros: uma revisão, indicado a seguir. DEON, R. G. et al. Consumo de alimentos dos grupos que compõem a pirâmide alimentar americana por idosos brasileiros: uma revisão. Ciência& Saúde, [s.l.], v. 8, n. 1, p. 26-34, 2015. Sem medo de errar No começo da unidade, você foi contratado como nutricionista para uma consultoria e para o atendimento individualizado de alguns funcionários, e o sr. Hugo é o seu paciente do momento. Como ele tem muitas dúvidas sobre os grupos alimentares, você deve explicar ao paciente que eles são divididos, de acordo com a pirâmide alimentar, em: arroz, pão, massa, batata 121 e mandioca; legumes e verduras; frutas; leite, queijo e iogurte; carnes e ovos; feijões e oleaginosas; óleos e gorduras; e açúcares e doces. O grupo que deve ser consumido em maior quantidade é o grupo do arroz, pão, massa, batata e mandioca. Ele representa o grupo dos carboidratos, que fornecem a maior parte da energia necessária para as atividades diárias. Carboidrato é convertido em glicose, que é a principal fonte de energia para o funcionamento do cérebro. O grupo das frutas tem uma recomendação de 3 porções por dia, que podem ser de variadas frutas, garantindo, assim, uma oferta variada de micronutrientes do dia a dia desse indivíduo. A recomen- dação é que seja consumida no máximo 1 porção de açúcar por dia, respei- tando a quantidade da porção. Vale ressaltar que vários produtos industria- lizados têm em sua composição açúcar, e que essa quantidade já contabiliza para a ingestão diária. Avançando na prática Colocando em prática as recomendações da Pirâmide Alimentar Brasileira A sra. Julia relatou na consulta com seu nutricionista, após explicação sobre os grupos alimentares e suas porções, que consome por dia 4 porções de carboidratos, 3 porções de carnes e ovos, 1 porção de hortaliças, 2 porções de frutas, 2 porções de leite, 1 porção de óleos e gorduras e 2 porções de açúcares e doces. Quais recomendações o nutricionista deve repassar à sra. Julia para que ela possa adequar sua ingestão alimentar? Resolução da situação-problema De acordo com as recomendações da pirâmide alimentar, a sra. Julia está consumindo 2 porções de carboidratos a menos do que o recomen- dado. O consumo adequado desse grupo é importante para assegurar o fornecimento de energia e de nutrientes. Para adequar a ingestão de leite e seus derivados, ainda falta 1 porção, importante não só pela sua oferta de proteína, mas também pela quantidade de cálcio. O consumo de frutas e hortaliças também está inadequado, pois a recomendação para ambos é de 3 porções/dia. O consumo de frutas e hortaliças auxilia no consumo de fibras e fornece vitaminas essenciais ao bom funcionamento do nosso organismo. A porção de óleos e gorduras está adequada, porém o consumo das porções de açúcares e doces está o dobro do recomendado. O consumo em excesso 122 de açúcar pode trazer malefícios à saúde e deve ser evitado, sendo consu- mido no máximo 1 porção/dia. Já em relação ao grupo das leguminosas e oleaginosas, a paciente não faz ingestão, sendo necessária orientá-la sobre a importância desse grupo, fonte de proteína vegetal e micronutrientes como ferro e zinco. 123 Seção 3 Lista de substitutos alimentares Diálogo aberto Caro aluno, nesta unidade faremos o cálculo da lista de substitutos por poções de carboidratos, frutas e hortaliças, leguminosas, oleaginosas, carnes e ovos, leite e derivados, óleos e açúcares. A lista de substitutos alimentares contém os alimentos substitutos que compõem uma dieta qualitativa e quantitativamente equilibrada e seus equivalentes em energia. Nesta seção, você, enquanto nutricionista contratado por uma empresa para um projeto de conscientização sobre alimentação saudável, conti- nuará acompanhando o sr. Hugo, colaborador da empresa, em um atendi- mento individualizado. Imagine que você calculou o plano alimentar do sr. Hugo e que agora precisa calcular a lista de substitutos. A seguir, seguem duas refeições do sr. Hugo, para as quais você precisará calcular a lista de substitutos: Tabela 3.3 | Café da manhã e almoço do paciente Hugo CAFÉ DA MANHÃ Alimento Peso (g) Medida Caseira Pão de forma integral 50,0 2 unidades Ovo mexido 120,0 2 unidades Banana-prata 80,0 1 unidade ALMOÇO Alimento Peso (g) Medida Caseira Arroz branco cozido 125,0 4 colheres de sopa Feijão cozido (50% de caldo) 86,0 1 concha Carne moída refogada 100,0 5 colheres de sopa Abobrinha cozida 80,0 2 colheres de sopa Alface americana 30,0 3 folhas Azeite de oliva 8,0 1 colher de sopa Fonte: elaborada pela autora. Nesta unidade, aprenderemos a calcular a lista de substitutos e qual a sua importância para a dieta do seu paciente, para adesão e sucesso desse plano alimentar. 124 Não pode faltar Conceitos gerais O plano alimentar do paciente deve conter as refeições que serão reali- zadas, com descrição do horário, quantidade em medidas caseiras e uma substituição, que é feita por equivalentes de densidade energética. Assim, a lista de substitutos alimentares é uma ferramenta utilizada pelo profissional nutricionista, que contém alimentos em seus equivalentes em energia, para compor uma dieta qualitativa e quantitativamente equilibrada (PHILIPPI et al., 1999), possibilitando ao indivíduo que varie suas escolhas e foque a necessidade de o paciente manter as quantidades ingeridas nas diferentes refeições adequadamente. A primeira lista de substitutos alimentares surgiu em 1950, elaborada pela American Dietetic Association e pelo Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos da América. O objetivo era que fosse possível prescrever de forma simples um conjunto de alimentos que fossem equivalentes em energia e em nutrientes, adequado para indivíduos com diabetes mellitus (WHEELER et al., 2008). Dessa forma o paciente conseguiria montar seu planejamento diário, de acordo com as recomendações e orientações do nutricionista, não tendo uma dieta monótona. Na seção anterior, aprofundamos nosso conhecimento sobre a pirâmide alimentar, e vimos que ela é baseada em uma dieta de 2.000 kcal. As sugestões de porções feitas foram baseadas na quantidade usualmente consumida e em medidas caseiras, e, assim, foi estabelecida uma porção padrão em kcal. Esse valor calórico fixo foi proposto com o objetivo de estipular os seus equiva- lentes e elaborar uma lista de substituições. Para isso, relembraremos aqui as kcal médias de cada grupo alimentar. O grupo de carboidratos, intitulado arroz, pão, massa, batata e mandioca, tem 150 kcal/porção; o das frutas, 70 kcal/porção; o dos legumes e verduras, 15 kcal/porção; o das carnes e ovos, 190 kcal/porção; o grupo leite, queijo e iogurte, 120 kcal/porção; o de feijões, 55 kcal/porção; o de óleos e gorduras 73 kcal/porção; o de açúcares e doces, 110 kcal/porção (PHILIPPI, 2014). Assimile É muito importante estar atento às recomendações das porções e suas kcal. Para que sua lista esteja correta, retome a Seção 3.2 e relembre os grupos alimentares e suas recomendações. 125 No entanto, a lista de substitutos também apresenta suas dificuldades. Os grupos alimentares não conseguiriam contemplar a infinidade de alimentos in natura e processados disponíveis no mercado, assim como a quantidade dos nutrientes dentro dos porcionamentos, pois mesmo alimentos semelhantes podem ter uma distribuição de nutrientes diferente (NARCIZO, 2010). Cálculo da lista de equivalentes por porções de carboidratos Começaremos a distribuição de alimentos por grupos alimentares. É muito importante ressaltar que cada nutricionista pode elaborar sua lista de substitutos, personalizando as listas para as necessidades dos seus pacientes, atendendo a demandas de preferências alimentares ou de alguma necessi- dade específica. A seguir, você encontrará a Tabela 3.4 e a Tabela 3.5 com exemplos de listas de substitutos alimentares do grupo dos carboidratos e suas porções. Destacamos que sua lista de substitutos deve orientar o indivíduo a perma-necer em uma alimentação saudável, e caberá a você, como nutricionista, avaliar a necessidade de incluir alimentos lançados pela indústria de alimentos diariamente e orientar adequadamente seus pacientes a respeito desse consumo. A lista de substitutos foca o valor calórico das porções de alimentos e a oferta qualitativa desses substitutos. Assim, os micronu- trientes não são substituídos na mesma proporção em todos os alimentos do mesmo grupo. Exemplificando Avaliemos o caso a seguir, a respeito da oferta de alimentos: um indivíduo pode consumir 2 fatias de pão de forma tradicional, que é equivalente a 1 unidade de pão de queijo. Porém, esses alimentos têm composições nutricionais diferentes. A quantidade de gorduras, proteínas e sódio, por exemplo, são diferentes. Todavia, ainda assim, dentro do grupo de carboi- dratos esses dois alimentos são equivalentes em calorias. Dentro dos equivalentes de carboidratos, está o grupo arroz, pão, massa, batata e mandioca, sendo a recomendação de ingestão desse grupo alimentar de 6 porções ao dia, e uma porção corresponde a 150 kcal. Podemos dividir esse grupo em dois: o grupo dos cereais, raízes e tubérculos (Tabela 3.4) e o grupo dos pães e biscoitos (Tabela 3.5). O objetivo é separar os alimentos que compõem as principais refeições (almoço e jantar) dos que compõem as pequenas refeições, ficando mais fácil a compreensão para os indivíduos. 126 Tabela 3.4 | Lista de substitutos do grupo dos cereais, raízes e tubérculos, com porções de 150 kcal Alimento Peso (g) Medida Caseira Arroz branco cozido 125,0 4 colheres de sopa Arroz integral cozido 200,0 6 colheres de sopa Batata cozida 200,0 1 unidade e 1/2 Batata-doce cozida 150,0 1 colher e 1/2 de servir Batata-doce frita 43,0 1 colher de sopa cheia Batata-inglesa frita 65,0 1 escumadeira média Batata frita tipo “palha” 27,0 1 colher de servir Cará cozido 126,0 3 colheres e 1/2 de sopa Farinha de mandioca 40,0 2 colheres e 1/2 de sopa Farinha de milho 42,0 3 colheres e 1/2 de sopa Farofa de farinha de mandioca 37,0 1/2 colher de servir Inhame cozido 126,0 3 colheres e 1/2 de sopa Macarrão cozido 105,0 4 colheres de sopa Mandioca cozida 128,0 4 colheres de sopa Milho-verde espiga 100,0 1 unidade Polenta cozida 250,0 3 fatias Purê de batata 130,0 2 colheres de servir Fonte: adaptada de Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2011a; 2011b) e Philippi (2008). Tabela 3.5 | Lista de substitutos do grupo dos pães e biscoitos, com porções de 150 kcal Alimento Peso (g) Medida Caseira Biscoito tipo cookies 30,0 2 unidades Biscoito tipo água e sal/cream cracker 33,0 6 unidades Biscoito do tipo salgado (embalagem individual) 26,0 1 pacote Biscoito do tipo salgado e integral (emba- lagem individual) 26,0 1 pacote Biscoito de leite 30,0 6 unidades Biscoito tipo Maizena® 35,0 7 unidades Biscoito tipo Maria 35,0 7 unidades Bolo de banana 50,0 1 fatia Bolo de cenoura com cobertura de chocolate 40,0 1 fatia Bolo de milho 50,0 1 fatia Bolo simples 50,0 1 fatia Farinha de aveia 37,0 2 colheres e ½ de sopa Pão de batata 50,0 1 unidade Pão caseiro 55,0 1/2 unidade Pão de centeio 60,0 2 fatias Pão de forma integral 50,0 2 fatias Pão de forma tradicional 50,0 2 fatias 127 Pão de queijo 60,0 1 unidade Pão francês com miolo 50,0 1 unidade Torrada 40,0 4 unidades Fonte: adaptada de Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2011a; 2011b) e Philippi (2008). Para que você calcule a sua lista de substitutos, basta verificar os dados do alimento em uma tabela de composição de alimentos e uma tabela de medidas caseiras. Nesse exemplo, usaremos os dados da Tabela de Composição Nutricional dos Alimentos Consumidos no Brasil (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2011a) e da Tabela de Medidas Referidas para os Alimentos Consumidos no Brasil (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2011b). Vamos calcular a porção de bolo de milho. De acordo com a tabela do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2011a; 2011b), 100 g de bolo de milho tem 311 kcal. Dessa forma, queremos saber inicialmente quantos gramas tem 150 kcal: 100g --- 311Kcal x ---------- 150Kcal x = 15.000 311 x = 48,23g Dessa forma, sabemos que a porção de bolo de milho que tem 150 kcal tem cerca de 48,23 g de bolo. Agora, verificamos a tabela de medida caseira para encontrar qual medida mais se aproxima de uma porção de 48,23 g. De acordo com a Tabela de Medidas Referidas para os Alimentos Consumidos no Brasil (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2011b), a medida de 1 fatia de bolo equivale a 50 g, sendo um valor bem aproximado do encontrado em nosso cálculo, 48,23 g. Esse é o cálculo que devemos fazer para todos os itens a fim de construirmos a nossa lista de substitutos. Pesquise Mais Para encontrar as informações nutricionais, você pode utilizar as tabelas nutricionais. Pesquise as informações em tabelas diferentes e compare os valores. A seguir, indicamos a Tabela de Composição Nutricional dos Alimentos Consumidos no Brasil, elaborada pelo IBGE e a Tabela Brasi- leira de Composição de Alimentos (TACO), elaborada pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação. 128 INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa e Orçamentos Familiares 2008 – 2009: Tabelas de Composição Nutri- cional dos Alimentos Consumidos no Brasil. Rio de janeiro: IGBE, 2011a. NÚCLEO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM ALIMENTAÇÃO (NEPA). Tabela brasileira de composição de alimentos. 4. ed. rev. e ampl. Campinas: NEPA – UNICAMP, 2011. Cálculo da lista de equivalentes por porções de frutas e hortaliças No segundo nível da pirâmide alimentar, temos o grupo das frutas e o das hortaliças. Começaremos pela lista de substitutos das frutas. Cada porção de frutas tem um valor calórico de 70 kcal. A seguir, você encontrará exemplos de equivalentes de frutas (Tabela 3.6). Tabela 3.6 | Lista de substitutos do grupo das frutas, com porções de 70 kcal Alimento Peso (g) Medida Caseira Abacate (amassado) 45,0 2 colheres de sopa Abacaxi pérola 145,0 1 fatia Acerola 220,0 32 unidades Ameixa-preta desidratada 30,0 3 unidades Ameixa vermelha 130,0 2 unidades Banana-da-terra 79,0 3/4 de unidade Banana-prata 75,0 1 unidade Caju 142,0 1 unidade e 1/2 Caqui 100,0 1 unidade Coco fresco (ralado) 20,0 2 colheres de sopa Cereja fresca 96,0 24 unidades Damasco desidratado 30,0 4 unidades Figo 86,0 1 unidade e 1/2 Fruta-do-conde 75,0 1/2 unidade Goiaba vermelha 138,0 1 unidade Jabuticaba 140,0 20 unidades Jaca 75,0 5 bagos Kiwi 115,0 1 unidade e 1/2 Laranja-baía 144,0 1 unidade Laranja-lima 153,0 1 unidade e 1/2 Laranja-pera 137,0 1 unidade Limão Taiti 252,0 3 unidades Maçã argentina 120,0 1 unidade Maçã gala 120,0 1 unidade Mamão formosa 220,0 1 fatia Mamão papaia 180,0 1/2 unidade Manga bourbon 110,0 1 unidade 129 Manga Haden 110,0 1/2 unidade Maracujá suco puro 94,0 1/2 xícara de chá Melancia 220,0 2 fatias Melão amarelo 200,0 2 fatias Mexerica ponkan 160,0 1 unidade Morango 216,0 18 unidades Pera Willians 120,0 1 unidade Uva Itália 100,0 8 bagos Fonte: adaptada de Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2011a; 2011b) e Philippi (2008). Devemos seguir o mesmo raciocínio de quando calculamos a lista de substitutos dos carboidratos. Tomemos o morango como exemplo. De acordo com a tabela do IBGE que estamos usando para o cálculo (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2011a), 100 g de morango tem 32,0 kcal. Assim: 100g --- 32,0Kcal x ----------- 70Kcal x = 7000 32,0 x = 218,8g Ao verificar a tabela de medidas caseiras (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2011b), temos que 1 morango médio tem 12 g. Dessa forma: x = 218,8 12,0 x =18,2 unidades Paraficar ainda mais claro, vejamos mais um exemplo. Dessa vez, utiliza- remos o mamão papaia. 100 g de mamão papaia tem 39,0 kcal (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2011a): 100g --- 39,9Kcal x ----------- 70Kcal x = 7000 39,9 x =175, 4 g De acordo com a tabela de medidas caseiras (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2011b), 1/2 mamão papaia contêm 155 130 g, chegando próximo da medida dos nossos cálculos, 175,4 g. É importante que na sua lista as medidas caseiras sejam viáveis ao paciente, e de fácil aplicação, pois, dessa forma, algumas aproximações de valores podem ser necessárias, como no caso do mamão. O grupo das hortaliças tem cada porção com valor calórico médio de 15 kcal. Na Tabela 3.7, você encontrará exemplos do grupo das hortaliças. Tabela 3.7 | Lista de substitutos do grupo das hortaliças, com porções de 15 kcal Alimento Peso (g) Medida Caseira Abóbora cozida 70,0 2 colheres de sopa Abobrinha cozida 80,0 3 colheres de sopa Acelga crua 90,0 2 colheres e 1/2 de sopa Agrião 132,0 22 ramos Aipo cru 80,0 2 unidades Alface lisa 120,0 11 folhas Alface americana 120,0 6 folhas Berinjela cozida 60,0 2 colheres de sopa Beterraba cozida 43,0 3 fatias Beterraba crua ralada 42,0 2 colheres de sopa Brócolis cozido 60,0 4 colheres e 1/2 de sopa Broto de feijão cozido 80,0 1 colher e 1/2 de servir Cenoura cozida (fatias) 35,0 7 fatias Cenoura crua (picada) 40,0 1 colher de servir Chuchu cozido 57,0 2 colheres e 1/2 de sopa Couve-flor cozida 69, 0 3 ramos Couve-manteiga cozida 42,0 1 colher de servir Ervilha em conserva 13,0 1 colher de sopa Ervilha fresca 20,0 1 colher e 1/2 de sopa Espinafre cozido 67,0 2 colheres e 1/2 de sopa Jiló cozido 40,0 1 colher e 1/2 de sopa Mostarda 60,0 6 folhas Palmito em conserva 100,0 2 unidades Pepino picado 116,0 4 colheres de sopa Pimentão cru fatiado 56,0 8 fatias Quiabo cozido 52,0 2 colheres de sopa Rabanete 90,0 3 unidades Repolho branco cru picado 72,0 6 colheres de sopa Repolho roxo cru picado 60,0 5 colheres de sopa Rúcula 90,0 15 ramos Tomate caqui 75,0 2 fatias e 1/2 Tomate cereja 70,0 7 unidades Tomate comum 80,0 4 fatias Vagem cozida 44,0 2 colheres de sopa Fonte: adaptada de Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2011a; 2011b) e Philippi (2008). 131 Usaremos como exemplo nesse grupo a vagem. Cada 100 g de vagem tem 35 kcal (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2011a). Dessa forma, para sabermos quantas gramas possuem 15 kcal, temos o cálculo abaixo: 100g --- 35Kcal x ------------ 15Kcal x = 1500 35 x = 42,9g Cada colher de sopa (CS) de vagem possui 20kcal (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2011a): 1CS -------20g x --------- 42,9g x = 42,9 20 x = 2,1CS Dessa forma, a medida caseira utilizada é de duas colheres de sopa. Cálculo da lista de equivalentes por porções de leguminosas, oleaginosas, carnes e ovos No terceiro nível da pirâmide alimentar, temos os grupos das legumi- nosas e oleaginosas e das carnes e ovos. O grupo do leite e derivados será tratado logo em seguida. No grupo das leguminosas e oleaginosas, a porção tem em média 55 kcal (Tabela 3.8). Tabela 3.8 | Lista de substitutos do grupo das leguminosas e oleaginosas, com porções de 55 kcal Alimento Peso (g) Medida Caseira Ervilha seca cozida 72,0 2 colheres e 1/2 de sopa Feijão branco cozido 48,0 1 colher e 1/2 de sopa Feijão cozido (50% de caldo) 86,0 1 concha Grão-de-bico cozido 36,0 1 colher e 1/2 de sopa Lentilha cozida 48,0 2 colheres de sopa Soja cozida (somente grãos) 43,0 1 colher e 1/2 de sopa Amêndoa 10,0 9 unidades Amendoim torrado 9,0 22 unidades Avelã 9,0 22 unidades Castanha de caju 10,0 4 unidades 132 Castanha-do-brasil 8,0 2 unidades Macadâmia 9,0 3 unidades Nozes 9,0 4 unidades Fonte: adaptada de Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2011a; 2011b) e Philippi (2008). Utilizaremos a castanha-do-brasil como exemplo para nosso cálculo. A cada 100 g dessa castanha, temos 656,0 kcal (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2011a) e cada unidade (und) apresenta 4 g (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2011b). 100g --- 656Kcal x ----------- 55kcal x = 5500 656 x = 8, 4 g Para avaliarmos quantas castanhas constituem nossa medida caseira, para o cálculo, consideraremos as castanhas por unidade (und): 1 und ------- 4 g x ----------- 8, 4 g x = 8, 4 4 x = 2,1 und Assim, duas castanhas-do-brasil formam uma porção que constitui nossa lista de substitutos para o grupo de leguminosas e oleaginosas. Já no grupo das carnes e ovos, cada porção oferece aproximadamente 190 kcal. Na Tabela 3.9 você encontrará exemplos de alimentos que constituem a lista de substi- tutos desse grupo alimentar. Tabela 3.9 | Lista de substitutos do grupo das carnes e ovos, com porções de 190 kcal Alimento Peso (g) Medida Caseira Atum em lata 112,0 2 colheres e 1/2 de sopa Bife de fígado frito 100,0 1 unidade Bife grelhado 100,0 1 unidade Camarão cozido 190,0 20 unidades Camarão frito 104,0 13 unidades Carne assada 75,0 1 fatia Carne moída refogada 100,0 5 colheres de sopa Espetinho de carne 92,0 2 unidades Frango assado 100,0 1 pedaço médio 133 Frango filé à milanesa 80,0 1 unidade Frango filé grelhado 100,0 1 unidade Frango sobrecoxa cozida (sem pele) 100,0 1 unidade Hambúrguer de frango 84,0 1 unidade e 1/2 Hambúrguer grelhado 100,0 1 unidade Linguiça de porco frita 100,0 1 unidade Merluza cozida 200,0 2 filés Mortadela 45,0 3 fatias Ovo cozido 90,0 2 unidades Ovo frito 45,0 1 unidade Ovo de codorna 120,0 15 unidades Peito de peru defumado 150,0 5 fatias Peixe espada cozido 100,0 1 filé Peixe frito 75,0 1/2 filé Porco lombo assado 95,0 1/2 fatia Presunto 100,0 5 fatias Salame 75,0 11 fatias Salmão 100,0 1 filé Salsicha 60,0 1 unidade e 1/2 Salsicha de frango 80,0 2 unidades Salsicha de peru 80,0 2 unidades Sardinha em conserva 40,0 1 unidade Fonte: adaptada de Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2011a; 2011b) e Philippi (2008). A seguir, exercitaremos os cálculos de equivalentes. Tomemos o exemplo da carne assada. Cada 100 g de carne assada apresenta 242 kcal (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2011a). Quanto à medida caseira, cada bife apresenta 75 g (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2011b). Dessa forma: 100g --- 242Kcal x ---------- 190Kcal x = 19000 242 x = 78g Para o cálculo da medida caseira: 1bife ------- 78g x ------------- 75g x = 78 75 x = 0,96 bife 134 Aqui podemos trabalhar a questão de adequação. Como falamos nesta seção, nos cálculos das medidas caseiras muitas vezes precisamos adequar as quantidades para que seja viável a substituição para o paciente. Se colocarmos 0,96 de um bife, como o paciente poderá mensurar essa quantidade? Para isso, arredondamos o dado para 1 bife, pois é uma medida caseira viável a ser seguida. Cálculo da lista de equivalentes por porções de leite e derivados, óleos e açúcares Ainda no terceiro nível da pirâmide alimentar, temos o grupo do leite e derivados. Nesse grupo temos como macronutriente prevalente as prote- ínas, por isso ele fica no mesmo nível das leguminosas e oleaginosas e carnes e ovos. Cada porção apresenta um valor calórico de aproximadamente 120 kcal. Na Tabela 3.10 você encontrará exemplos de alimentos que fazem parte da lista de substitutos do grupo de leite e derivados. Tabela 3.10 | Lista de substitutos do grupo de leite e derivados, com porções de 120 kcal Alimento Peso (g) Medida Caseira Coalhada 100,0 1/2 copo de americano Cream cheese 75,0 2 colheres e 1/2 de sopa Iogurte desnatado de frutas 120,0 1/2 copo americano Iogurte desnatado natural 200,0 1 copo americano e 1/2 Iogurte integralnatural 200,0 1 copo americano Iogurte integral de frutas 150,0 3/4 de copo americano Leite de cabra integral 182,0 1 xícara de chá Leite em pó integral 26,0 2 colheres de sopa Leite em pó desnatado 30,0 3 colheres de sopa Leite integral longa vida 190,0 1 copo americano Leite semidesnatado 285,0 1 copo americano e 1/2 Queijo tipo minas 50,0 1 fatia e 1/2 Queijo tipo muçarela 45,0 3 fatias Queijo tipo parmesão ralado 30,0 3 colheres de sopa Queijo prato 30,0 1 fatia e 1/2 Queijo provolone 35,0 1 fatia Requeijão cremoso 45,0 1 colher e 1/2 de sopa Ricota 100,0 2 fatias Fonte: adaptada de Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2011a; 2011b) e Philippi (2008). Para nossos cálculos, usaremos como exemplo o leite integral. A cada 100 mL de leite, temos 60,03 kcal (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2011a) e cada copo americano cheio, apresenta 190 mL: 135 100mL --- 60,03Kcal x ---------- 120Kcal x = 12000 60,03 x =199,9 mL Assim, podemos considerar que 1 copo americano cheio é a nossa medida caseira para o leite integral. Já no último nível da pirâmide dos alimentos, encontramos dois grupos: o dos óleos e gorduras e o dos açúcares e doces. Cada porção do grupo dos óleos e gorduras tem 73 kcal, enquanto cada porção do grupo dos açúcares e doces, 110 kcal. Na Tabela 3.11, você encon- trará exemplos de substitutos para o grupo dos óleos e gorduras, e na Tabela 3.12, para o grupo dos açúcares e doces. Tabela 3.11 | Lista de substitutos do grupo dos óleos e gorduras, com porções de 73 kcal Alimento Peso (g) Medida Caseira Azeite de oliva 8,0 1 colher de sopa Bacon (gordura) 7,5 1/2 fatia Banha de porco 7,0 1/2 colher de sopa Creme vegetal 10,0 1/2 colher de sopa Manteiga 10,0 1/2 colher de sopa Margarina 10,0 1/2 colher de sopa Óleo de canola 8,0 1 colher de sopa Óleo de girassol 8,0 1 colher de sopa Óleo de milho 8,0 1 colher de sopa Óleo de soja 8,0 1 colher de sopa Fonte: adaptada de Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2011a; 2011b) e Philippi (2008). Tabela 3.12 | Lista de substitutos do grupo dos açúcares e doces, com porções de 110 kcal Alimento Peso (g) Medida Caseira Achocolatado 30,0 2 colheres de sopa Açúcar cristal 28,0 1 colher de sopa Açúcar mascavo fino 25,0 1 colher de sopa Açúcar mascavo grosso 27,0 1 colher e 1/2 de sopa Açúcar refinado 28,0 1 colher de sopa Bombom 21,0 1 unidade Brigadeiro 30,0 2 unidades Doce de leite cremoso 40,0 2 colheres de sopa Geleia 45,0 3 colheres de sopa Mel 37,0 2 colheres e 1/2 de sopa Pudim 50,0 1 fatia Fonte: adaptada de Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2011a; 2011b) e Philippi (2008). 136 Para os cálculos do nosso exemplo, utilizaremos primeiramente o azeite de oliva. Cada 100 mL de azeite apresenta 887,81 kcal (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2011a). Dessa forma, para descobrir quantos mL representa nossa porção de 73 kcal, devemos fazer o seguinte cálculo: 100g --- 887,31Kcal x ------------ 73Kcal x = 7300 887,31 x = 8,2g Cada colher de sopa de azeite de oliva apresenta 8 g. Dessa forma, utili- zaremos como medida caseira para nossa lista e substitutos alimentares do grupo de óleos e gorduras, 1 colher de sopa de azeite de oliva. Para os cálculos do nosso exemplo de doces e açúcares, utilizaremos o açúcar cristal. Cada 100 g de açúcar cristal apresenta 387 kcal (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2011a). Assim, para obter 110 kcal da nossa porção, são necessários: 100g --- 387Kcal x ---------- 110Kcal x = 11000 387 x = 28, 4 g Reflita Em vários momentos, a medida caseira não será exatamente igual à quantidade em gramas de determinado alimento, que compõe as kcal recomendadas das porções. Para isso, é necessário ter bom senso e tentar arredondar da maneira mais precisa. Já pensou como seria entregar a lista de substituição com medidas pouco didáticas, como 1 colher e 1/4 de sopa? Como o paciente conseguirá colocar em prática essa medida caseira? De acordo com a Tabela de Medidas Referidas para os Alimentos Consumidos no Brasil (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2011b), cada colher de sopa de açúcar apresenta 24 g; cada colher de sobremesa cheia, 16 g; e cada colher de chá cheia, 5 g. Dessa forma, para tornamos essa medida mais viável para os pacientes, colocamos 1 colher 137 de sopa, que é o valor que mais se aproxima da medida e não a ultrapassa. Poderia ser usado também 5 colheres de chá cheia, porém, é mais compli- cado para o paciente contabilizar cinco vezes sua medida de açúcar, mas não deixa de ser uma possibilidade de medida a ser colocada na sua lista. Dessa forma, você pode personalizar a lista de substituição de acordo com as necessidades e preferências do seu paciente, criando listas diferentes para situações diferentes. Sem medo de errar No cálculo alimentar que você realizou para o sr. Hugo, temos os seguintes alimentos: pão de forma Integral, ovo mexido, banana-prata, arroz branco cozido, feijão cozido (50% de caldo), carne moída refogada, abobrinha cozida, alface lisa e azeite de oliva. O primeiro passo é separarmos os alimentos por grupos alimentares: Carboidratos: pão de forma Integral, arroz branco cozido. Frutas: banana-prata. Hortaliças: abobrinha cozida e alface lisa. Carnes e ovos: ovo mexido e carne moída refogada. Leguminosas: feijão cozido (50% de caldo). Óleos e gorduras: Azeite de oliva. Esses são os cinco grupos presentes nas refeições, em que colocaremos uma lista de substitutos. Assim, apresentaremos uma lista com seis exemplos cada, de acordo com as listas apresentadas nesta unidade: Tabela 3.13 | Lista 1 – substitutos para carboidratos Alimento Peso (g) Medida Caseira Arroz branco cozido 125,0 4 colheres de sopa Arroz integral cozido 200,0 6 colheres de sopa Batata cozida 200,0 1 unidade e 1/2 Batata-doce cozida 150,0 1 colher e 1/2 de servir Pão de forma integral 50,0 2 fatias Pão de queijo 60,0 1 unidade Fonte: elaborada pela autora. Tabela 3.14 | Lista 2 – substitutos para frutas Alimento Peso (g) Medida Caseira 138 Banana prata 75,0 1 unidade Caqui 100,0 1 unidade Goiaba vermelha 138,0 1 unidade Laranja-baía 144,0 1 unidade Maçã argentina 120,0 1 unidade Mamão formosa 220,0 1 fatia Fonte: elaborada pela autora. Tabela 3.15 | Lista 3 – substitutos para hortaliças Alimento Peso (g) Medida Caseira Abóbora cozida 70,0 2 colheres de sopa Alface lisa 120,0 11 folhas Alface americana 120,0 6 folhas Brócolis cozido 60,0 4 colheres e 1/2 de sopa Cenoura cozida (fatias) 35,0 7 fatias Tomate comum 80,0 4 fatias Fonte: elaborada pela autora. Tabela 3.16 | Lista 4 – substitutos para leguminosas Alimento Peso (g) Medida Caseira Feijão cozido (50% de caldo) 86,0 1 concha Grão-de-bico cozido 36,0 1 colher e 1/2 de sopa Lentilha cozida 48,0 2 colheres de sopa Soja cozida (somente grãos) 43,0 1 colher e 1/2 de sopa Amendoim torrado 9,0 22 unidades Castanha de caju 10,0 4 unidades Fonte: elaborada pela autora. Tabela 3.17 | Lista 5 – substitutos para carnes e ovos Alimento Peso (g) Medida Caseira Bife grelhado 100,0 1 unidade Frango assado 100,0 1 pedaço médio Frango filé à milanesa 80,0 1 unidade Ovo cozido 90,0 2 unidades Ovo frito 45,0 1 unidade Porco lombo assado 95,0 1/2 fatia Fonte: elaborada pela autora. 139 Tabela 3.18 | Lista 6 – substitutos para óleos e gorduras Alimento Peso (g) Medida Caseira Azeite de oliva 8,0 1 colher de sopa Creme vegetal 10,0 1/2 colher de sopa Margarina 10,0 1/2 colher de sopa Manteiga 10,0 1/2 colher de sopa Óleo de milho 8,0 1 colher de sopa Óleo de soja 8,0 1 colher de sopa Fonte: elaborada pela autora. E como colocar a lista de substitutos no plano alimentardo paciente? Para isso, basta verificar quantas porções equivalem ao que você prescreveu no plano alimentar: Tabela 3.19 | Plano alimentar com a lista de substitutos CAFÉ DA MANHÃ Alimento Peso (g) Medida Caseira Lista e substituição Pão de forma integral 50,0 2 unidades 1 porção (lista 1) Ovo mexido 120,0 2 unidades 1 porção (lista 5) Banana-prata 80,0 1 unidade 1 porção (lista 2) ALMOÇO Alimento Peso (g) Medida Caseira Lista e substituição Arroz branco cozido 125,0 4 colheres de sopa 1 porção (lista 1) Feijão cozido (50% de caldo) 86,0 1 concha 1 porção (lista 4) Carne moída refogada 100,0 5 colheres de sopa 1 porção (lista 5) Abobrinha cozida 80,0 2 colheres de sopa 1 porção (lista 3) Alface americana 30,0 3 folhas 1/2 porção (lista 3) Azeite de oliva 8,0 1 colher de sopa 1 porção (lista 6) Fonte: elaborada pela autora. Avançando na prática Compreendendo a lista de substitutos alimentares A nutricionista Fernanda elaborou um cardápio para seu paciente, e decidiu colocar no lanhe da tarde dele uma porção de pão de forma (2 fatias), uma porção de queijo minas (1 fatia e 1/2) e uma porção de fruta, sendo uma 140 banana-prata (1 unidade). Para o segundo lanche da tarde do seu paciente, conhecendo previamente os seus hábitos e sabendo que o paciente lancha duas vezes no período vespertino, Fernanda calculou para essa refeição: Iogurte integral natural (1 copo americano) e castanhas de caju (4 unidades). Pensando nos alimentos que Fernanda ofertou, quais listas de substitutos ela terá de calcular? Resolução da situação-problema Para iniciar esse processo, precisamos colocar os alimentos que são do mesmo grupo juntos. Apenas o queijo minas e o iogurte integral natural pertencem ao mesmo grupo. Assim, Fernanda terá de calcular para essas refeições oferecidas uma lista de substitutos de pães e biscoitos, que contem- plam o pão de forma; uma lista de substitutos para frutas, que contemplam a banana-prata; uma lista de substitutos para o grupo de leite e derivados, para substituir o queijo minas e o iogurte natural integral; e, por fim, uma lista de substitutos para o grupo das leguminosas e oleaginosas, que oferecerá opções para a substituição da castanha de caju. Referências ACHTERBERG, G.; McDONNELL, E.; BAGBY, R. How to put the food guide into pratice. Journal of American Dietetic Association, Chicago, v. 94, n. 9, p. 1.030-1.035, 1994. ADITI, A.; GRAHAM, D. Y. Vitamin C, Gastritis, and Gastric Disease: a historical review and update. Digestive Diseases and Sciences, [s.l.], v. 57, n. 10, 2012. ATWATER, W. O.; WOODS, C. D. The chemical composition of American food material. Farmer´s Bulletion. US Departament of agriculture, [s.l.], n. 28, 1986. BRASIL. Ministério da Saúde. 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Portanto, nesta última unidade você irá conhecer o que envolve o planejamento e elaboração do plano alimentar, desde o cálculo do gasto e necessidades energéticas, o que deve ser levado em consideração no planeja- mento de cardápio, o que envolve o planejamento dietético sustentável, até os principais aspectos dos rótulos de alimentos. Continuaremos com Hugo, nosso paciente no atendimento individu- alizado da unidade anterior. Retomando o seu perfil, sabemos que ele é casado, tem 36 anos e trabalha no departamento de RH da empresa. Hugo mora em São Paulo há 5 anos, não pratica atividade física, tem sobrepeso e hipertensão arterial. Foi relatado na unidade anterior que Hugo costuma ingerir no café da manhã tapioca com manteiga e café e não temo hábito de beber água nem de consumir frutas, legumes e verduras. Outro ponto relevante desse paciente é que ele realiza as três refeições oferecidas pela empresa no refeitório, e o jantar em casa com sua esposa. Durante a consulta, você verificou que Hugo tem 1,68 de altura e pesa atualmente 82 kg. Além disso, ele relatou que teve várias crises hipertensivas nos últimos tempos. Lembrando que Hugo também costuma levar para o trabalho salgadinhos industrializados para comer entre as refeições todos os dias e não consome frutas com regularidade. Como determinar uma estratégia nutricional adequada e individualizada para cada paciente e assim planejar e elaborar um cardápio? O que devemos considerar para um planejamento dietético sustentável? Qual é a importância dos rótulos alimentares? Como interpretar rótulos alimentares e utilizar as informações fornecidas a nosso favor no dia a dia? 145 Seção 1 Cálculo da necessidade energética para adultos e idosos Diálogo aberto Nesta seção, primeiramente falaremos sobre gasto energético (basal, de repouso e total) e fatores que influenciam no gasto energético de cada pessoa. Discutiremos, também, sobre a adequação do peso e o gasto estimado em diferentes níveis de atividade física. Ao final desta seção, falaremos sobre o planejamento de cardápios e os principais pontos que devemos considerar na definição da estratégia nutricional para que seja um planejamento de quali- dade nutricional e adesão satisfatória pelo paciente. Hugo, seu paciente desde a unidade anterior, tem 36 anos, não pratica atividade física, tem sobrepeso e hipertensão arterial. Foi relatado na unidade anterior que ele costuma ingerir no café da manhã tapioca com manteiga e café e não tem o hábito de beber água nem de consumir frutas, legumes e verduras. Hugo realiza as três refeições oferecidas pela empresa no refeitório, e o jantar em casa com sua esposa. Durante a consulta, você verificou que Hugo tem 1,68 de altura e pesa atualmente 82 kg. Qual será o gasto energé- tico do Hugo? Como determinar seu peso ideal ou desejável? O que deve ser levado em consideração no planejamento do cardápio para o ele? Não pode faltar Gasto energético basal e de repouso O processo de gasto de energia, ou gasto energético é a oxidação ou combustão de alimentos para geração de energia no corpo e se assemelha a um fogão a lenha que queima madeira para liberar calor de maneira contro- lada. Nessa analogia, grandes pedaços de madeira são colocados no fogão e a madeira é gradualmente queimada na presença de oxigênio para liberar dióxido de carbono, vapor de água e calor. Da mesma forma, no corpo, o alimento consumido é oxidado ou queimado na presença de oxigênio para liberar dióxido de carbono, água e calor. Quando a comida ingerida é usada para energia, a liberação e a trans- ferência de energia ocorrem por meio de uma série de vias metabólicas muito bem reguladas, nas quais a energia potencial dos alimentos é liberada lentamente e gradualmente ao longo do tempo. Esse processo garante que o 146 corpo tenha um armazenamento de energia gradual e constante, em vez de depender de uma liberação repentina de energia de uma combustão imediata dos alimentos ingeridos em determinado momento. O gasto energético basal (GEB), também chamado de taxa metabólica basal (TMB) ou metabolismo basal, é a energia que uma pessoa gasta estando acordada de, aproximadamente, 12 a 14 horas de jejum, após oito horas de descanso físico, não tendo se exercitado exaustivamente no dia anterior e em repouso completo, em um estado físico e mental tranquilo e em temperatura ambiente. O gasto energético basal é, portanto, a quantidade de energia que o nosso organismo necessita para manter os processos metabólicos essen- ciais para funcionar adequadamente, o que inclui, por exemplo, a secreção de hormônios, excreção renal, contração muscular, atividades dos sistemas nervoso, respiratório e cardiovascular (MAHAN; ESCOTT-STUMP, 2005). O gasto energético em repouso (GER), também chamado de taxa metabó- lica em repouso, é a energia gasta quando o indivíduo se encontra sem jejum longo prévio (mas com três a quatro horas da última refeição) e em repouso por 30 minutos antes da realização do teste, para compensar qualquer esforço físico feito anteriormente ao exame. Essas diferenças nas condições de repouso fazem com que o gasto energético de repouso seja cerca de 10%maior que o gasto energético basal. Esse aumento acontece por causa do efeito térmico do alimento ou da energia gasta com a digestão de alimentos (termogênese) e/ou à influência da atividade física ou movimento prévios (mesmo que tenham sido mínimos) (MAHAN; ESCOTT-STUMP, 2005). Assimile Cada um dos componentes do gasto de energia é determinado por vários fatores. O gasto energético de repouso é altamente variável entre diferentes indivíduos (± 25%), mas é muito consistente intra-indivíduo, ou seja, entre repetidas medidas na mesma pessoa (<5%) (GIBNEY et al., 2009). Como o GER ocorre predominantemente no músculo e nos principais órgãos do corpo, a principal fonte de variabilidade individual no GER é a quantidade de órgãos e massa muscular de um indivíduo. Assim, a massa livre de gordura (a massa total do corpo que não é gordura, isto é, órgãos, ossos, músculos, água e tecidos) explica 60-80% da variação no GER entre diferentes indivíduos (GIBNEY et al., 2009). Esse conceito pode ser explicado usando a analogia do fogão a lenha; quanto maior o fogão a lenha (ou a massa livre de gordura) maior a quantidade de produção de calor (ou maior o GER). Há também uma diferença fundamental no gasto energético entre os sexos. Se alguém estudasse um grupo de homens e mulheres com massa livre 147 de gordura idêntica e idade semelhante, o GER seria maior nos homens do que nas mulheres, em torno de 50 kcal/dia (GIBNEY et al., 2009). Pessoas mais ativas também tendem a ter um GER mais alto do que pessoas seden- tárias. Essa diferença pode ser explicada em parte pelos efeitos residuais do exercício na taxa metabólica. Em outras palavras, o GER pode estar elevado por causa dos efeitos duradouros do exercício. No entanto, outros fatores também estão envolvidos, uma vez que o maior GER em indivíduos mais ativos persiste muito tempo após a última sessão de exercícios ter sido completada. Em conjunto, massa livre de gordura, massa gorda, idade, sexo e atividade física contribuem para cerca 80-90% da variação no GER (GIBNEY et al., 2009). Além disso, uma parcela da variação no GER entre diferentes indivíduos pode ser atribuída a fatores genéticos. Outros fatores que demonstraram influenciar a taxa metabólica incluem os hormônios tireoidianos (níveis mais altos aumentam a taxa metabólica) e ações do sistema nervoso simpático. Existem várias equações para estimar o gasto energético basal e de repouso a partir de outras medidas simples. Essas equações são muito úteis para fazer estimativas em situações clínicas, para avaliar as necessidades de energia de pacientes. As equações clássicas de Harris e Benedict são a mais frequentemente usadas para esse propósito. Essas equações foram desen- volvidas a partir de medidas limitadas realizadas no início dos anos 1900 e preveem o GER baseado na idade, altura e peso, mas podem ter precisão limitada. Essas equações foram revisadas ao longo dos anos desde a criação e a mais atual foi publicada em 1990 por Mifflin and St Jeor. As equações originais de Harris-Benedict publicadas em 1918 e 1919, para gasto energético basal são: • Para homens GEB = 66,5 + (13,75x peso em kg ) + (5,003 x altura em cm)-(6,755 x idade em anos) • Para mulheres GEB = 655,1 + (9,563 x peso em kg ) + (1,850 x altura em cm)- (4,676 x idade em anos) As equações de Harris-Benedict revisadas por Mifflin e St Jeor em 1990: • Para homens GEB = (10 x peso em kg ) + (6,25 x altura em cm)-(5 x idade em anos) + 5 • Para mulheres GEB = (10 x peso em kg ) + (6,25 x altura em cm)-(5 x idade em anos) +161 148 Exemplificando Luiz tem 45 anos de idade, pesa 88 kg e tem 1,78 m de altura. Qual o seu GEB baseado nas equações de Harris-Benedict? GEB = 66,5 + (13,75 x 88) + (5,003 x 1,78)- (6,755 x 45) GEB = 66,5 +1210 + 8,90534 - 303,975 GEB = 981, 43Kcal Equações mais recentes foram desenvolvidas em grupos maiores de indivíduos para prever o GEB baseado no peso corporal, como os exemplos a seguir: • Schofield (1985): 18 - 30 anos =[(0,052 x peso) + 2,036] x 239 30 - 60 anos =[(0,034 x peso) + 3,538] x 239 • FAO/WHO/UNU (1985): 18 - 30anos =(14,7 x peso) + 496 30 - 60 =(8,7 x peso) + 829 • Henry & Rees (1991): 18 - 30anos =[(0,048 x peso) + 2,562] x 239 30 - 60anos =[(0,048 x peso) + 2, 448] x 239 Reflita Todas as equações expostas anteriormente oferecem uma estimativa do gasto energético basal de um indivíduo. Será que todas darão o mesmo resultado? Será que encontraremos resultados muito diferentes entre cada uma dessas equações? O que podemos fazer para garantir a consistência das informações de cada paciente durante o acompanha- mento nutricional? Adequação de peso A definição do peso ideal (PI) deve sempre levar em consideração os parâmetros individuais do paciente, como a idade, biotipo, sexo e altura. Muitas pessoas tendem a determinar seu próprio peso ideal, baseando-se em sua própria percepção de corpo e saúde, muitas vezes influenciadas por padrões de beleza. Cabe ao nutricionista orientar seu paciente a deter- minar o peso desejável sempre com foco prioritário na saúde. De forma 149 simples e prática, o peso ideal pode ser calculado por meio do IMC ideal, da seguinte forma: Peso ideal ou desejável = IMC desejável x estatura (m2) As classificações do IMC desejável para o adulto mais frequentemente usadas são: 22 Kg/m2 para homens e 21 Kg/m2 para mulheres. Nos idosos, dois problemas diferentes relacionados ao balanço energético devem ser considerados. Em muitos deles, há uma diminuição na ingestão de alimentos associada a mudanças dinâmicas na composição corporal, em que há uma tendência a perder massa magra, ocasionando a perda da mobilidade e funcionalidade. Em outros, há uma tendência a ganhar massa gorda, o que aumenta o risco de obesidade, doença cardiovascular e diabetes não indepen- dente. Esses dois padrões opostos sugerem que a capacidade de autorregular o equilíbrio energético de todo o corpo pode diminuir com o envelheci- mento. Assim, a prescrição nutricional baseada em necessidades individuais de energia é uma importante ferramenta para prevenir a deterioração da composição corporal relacionada à idade. Outras considerações especiais em idosos relacionam-se ao atendimento de necessidades energéticas em populações especiais, como aquelas com doença de Alzheimer e Parkinson, que frequentemente podem levar a estados desnutridos e diminuição do peso corporal. Acreditou-se por muito tempo que essas condições neurológicas podem levar à perda de peso corporal devido a uma condição hipermetabólica associada, em que a taxa metabólica pode aumentar acima do normal, aumentando assim as necessidades de energia. No entanto, estudos mais recentes mostram claramente que a perda de peso corporal frequentemente associada a essas condições é explicada por uma redução na ingestão de alimentos, provavelmente devido a uma perda na funcionalidade (NOWSON; O’CONNELL, 2015; MORIGUTI et al., 2001; ROUBENOFF, 1999). É importante, portanto, lembrar que as classificações do IMC, segundo a Organização Mundial da Saúde são diferentes para idosos, como podemos ver a seguir (LIPSCHITZ, 1994): IMC Magreza: < 22 Kg/m2 Eutrofia: 22 - 27 Kg/m2 Excesso de peso: > 27 Kg m2 A porcentagem de adequação do peso permite que o peso corporal seja avaliado em relação ao risco nutricional. O peso atual do indivíduo é dividido pelo peso considerado ideal ou desejável, multiplicado por 100 (portanto, é expresso em porcentagem). A diferença entre a avaliação do IMC e da 150 adequação do peso é que o IMC considera apenas peso e altura, enquanto a adequação do peso considera também o sexo. Essas diferenças podem gerar grandes diferenças na classificação do risco nutricional. Não existe um consenso em relação a qual avaliação é mais adequada, IMC ou adequação do peso. Masuma dica para que não haja confusão é não utilizar mais de uma ao mesmo tempo (com o mesmo paciente e para o mesmo objetivo). Isso significa que devemos escolher um único um método e utilizá-lo sempre, em todas as avaliações posteriores de acompanhamento. A porcentagem de adequação do peso atual em relação ao ideal ou desejável pode ser calculada a partir da fórmula a seguir: Adequação do peso (%) = (peso atual x 100) ÷ peso ideal Após a determinação da adequação do peso, o estado nutricional pode ser classificado como na Tabela 4.1 a seguir: Tabela 4.1 | Classificação do estado nutricional de acordo com a adequação do peso Adequação do peso (%) Estado nutricional < 70 Desnutrição grave 70,1 – 80 Desnutrição moderada 80,1 – 90 Desnutrição leve 90,1 – 110 Normal 110,1 – 120 Sobrepeso > 120 Obesidade Fonte: Blackburn; Thornton (1979, p. 1103-115). Uma adequação do peso com resultado de 75%, por exemplo, significa que o peso atual do indivíduo está 25% abaixo do peso ideal determinado, assim como um resultado de 130% significa um peso atual 30% acima do peso ideal usado como referência. Quando a adequação do peso é classificada entre 90% a 120%, o estado nutricional é considerado aceitável. Exemplificando Olga tem 25 anos, 1,65 m de altura e 68 kg. Como podemos classificar seu estado nutricional? Peso desejável (ideal) = IMC desejável x altura2 Peso desejável (ideal) = 21 x 1,652 = 57,2 kg Peso desejável (ideal) = 57,2 kg Adequação do peso (%) = (peso atual x 100) / peso desejável (ideal) Adequação do peso (%) = (68 x 100) ÷ 57 Adequação do peso (%) = 118% 151 O estado nutricional de Olga é, portanto, considerado aceitável (entre 90 – 120%), porém, é classificado como sobrepeso. Peso ajustado Ao se determinar a necessidade energética e de micronutrientes, o peso ideal pode ser corrigido (ou seja, ajustado), caso seja inferior a 90% (desnutrição) ou superior a 120% (sobrepeso/obesidade) do peso ideal (BLACKBURN; THORNTON, 1979). O peso ajustado é obtido por meio da equação a seguir: Peso ajustado = (peso atual – peso ideal) x 0,25 + peso ideal Gasto energético total O Gasto Energético Total (GET) é a estimativa da ingestão média de energia dietética para manter o equilíbrio de energia em um adulto saudável de determinado sexo, peso, altura, idade e nível de atividade física, visando a manutenção da saúde. Em outras palavras, o GET equivale às necessidades energéticas diárias de uma pessoa e irá variar de acordo com a idade, peso, altura e o nível de atividade física. O GET dependerá, também, de altera- ções fisiológicas (por exemplo, gestação, lactação) ou decorrentes de patolo- gias (como câncer, queimaduras, traumas, coma), intervenções (cirurgias, hemodiálise, transplante) e tratamentos (medicamentos). De forma simpli- ficada, o GET é o resultado da multiplicação do GEB pelo nível de atividade física diária e possíveis alterações fisiológicas que influenciam na demanda de calorias . O GET pode ser calculado com a seguinte equação: GET = (GEB x fator atividade física) + patologia* *Pode ser calculado pela fórmula de sua preferência, conforme a neces- sidade específica. Classificação de estilos de vida em relação à intensidade de atividade física habitual (fator atividade física) (FAO/WHO/UNU, 2004): Estilo de vida sedentário ou de atividade leve = 1,40 – 1,69 Estilo de vida moderadamente ativo ou ativo = 1,70 – 1,99 Estilo de vida intenso ou muito intenso = 2,00 – 2,40 * * Valores > 2,40 são difíceis de manter por um longo período Fator atividade: 152 Acamado = 1,2 Deambulando = 1,3 Gasto estimado de energia em diferentes níveis de atividade física Atividade física não diz respeito somente a exercícios físicos programados ou esportes, mas a toda a atividade diária que requer um gasto energético para realização de trabalho muscular (incluindo movimentação da postura, agitação, inquietude, tremor). O gasto energético com a atividade física depende não apenas da intensidade da atividade, mas igualmente da duração e frequência. Definir o nível (fator) de atividade física em termos de hábitos de ativi- dade e exercício físico não é fácil e pode acabar sendo bastante subjetivo, além de muitas vezes influenciado pela veracidade do relato do paciente e pela interpretação pelo profissional de saúde dos fatos apresentados. Por isso, é preciso muito cuidado no discernimento e classificação do fator atividade física, uma vez que irá influenciar de forma relevante a determinação do gasto e necessidade energética e, portanto, o cálculo e planejamento de cardápios. Estilos de vida sedentários ou de atividade leve se referem a pessoas que têm ocupações/profissões que não demandam grande esforço físico, não precisam percorrer longas distâncias para chegar ao trabalho ou geralmente usam veículos para transporte. As pessoas com esse estilo de vida não têm o hábito de praticar exercícios físicos ou esportes, mas podem eventualmente praticar atividade física leve como caminhada. As atividades de lazer são, em sua maioria, realizadas sentado ou em pé, com pouco deslocamento corporal (por exemplo, sentado ou deitado lendo um livro, assistindo a um filme, ouvindo música, usando computadores) (GIBNEY et al, 2009). Estilos de vida ativos ou moderadamente ativos se referem a pessoas que têm ocupações /profissões que não são extenuantes em termos de demandas de energia, mas envolvem mais gasto de energia do que o descrito para estilos de vida sedentários. Podem ser, também, pessoas com ocupações sedentárias, mas que praticam regularmente atividades físicas moderadas como rotina. Por exemplo, a prática diária ou regular de pelo menos uma hora de exercí- cios moderados a vigorosos (uma vez ao dia ou em diferentes momentos do dia), como corrida, ciclismo, exercícios aeróbicos, dança ou atividades espor- tivas, pode aumentar o fator atividade física (GIBNEY et al, 2009). Estilos de vida vigorosos ou vigorosamente ativos dizem respeito a pessoas que têm ocupações/profissões extenuantes ou praticam atividades física ou de lazer extenuantes por várias horas. Alguns exemplos são os atletas, que treinam 153 uma média de duas a quatro horas por dia, ou indivíduos que trabalham com uso da força extenuante por várias horas diárias e percorrem longas distâncias, muitas vezes carregando cargas pesadas (GIBNEY et al, 2009). O gasto energético por atividade física engloba todos os tipos de ativi- dades, incluindo esportes e lazer, atividades relacionadas ao trabalho, ativi- dades gerais da vida diária e inquietação. A taxa metabólica de atividade física é determinada pela quantidade ou duração da atividade (ou seja, pelo tempo), o tipo de atividade física (por exemplo, caminhada, corrida, cortar a grama ou digitação em computadores) e a intensidade com a qual a atividade particular é realizada. O gasto energético total diário, incluindo a atividade física, é varia bastante entre indivíduos. Portanto, a atividade física fornece a maior fonte de plasticidade ou flexibilidade no sistema de gasto de energia e é considerado o componente por meio do qual grandes mudanças no gasto de energia podem ser alcançadas. Planejamento de cardápios Aprendemos nas seções anteriores como estimar o gasto energético de uma pessoa, considerando as principais variáveis que podem influenciar o gasto individual de cada um. É muito importante que o gasto energético de cada paciente seja calculado com muita atenção às particularidades mencio- nadas anteriormente. Para fazer o planejamento dietético de um indivíduo adulto e saudável, a sua necessidade energética (GET) para a manutenção da saúde e atividades cotidianas será a base para definir o aporte de quilo- calorias via alimentação que deverá ser oferecido. O valor energético total (VET) é, então, a quantidade de energia dos alimentos queserá oferecida para suprir os requerimentos individuais do paciente e alcançar as metas traçadas. Estudaremos, agora, como utilizar essas informações para planejar planos alimentares e cardápios. Anteriormente, vimos que o tamanho e, principalmente, o número de porções recomendadas pela pirâmide dos alimentos se baseiam em uma dieta de aproximadamente 2000 kcal (recomendação é satisfatória para boa parte da população adulta). No entanto, quando estamos diante de um paciente, ou seja, de um caso particular de um indivíduo, precisamos determinar qual é a necessidade energética dele. Assimile Sabemos que cada alimento possui uma quantidade de energia (quantidade de quilocalorias), enquanto cada indivíduo terá uma necessidade específica de energia para que todas as funções do corpo funcionem adequadamente. 154 É a partir dos macronutrientes que adquirimos a energia que nosso corpo necessita para manter um funcionamento saudável e equilibrado. A quantidade de energia fornecida por cada macronutriente é igual a 4 kcal para cada 1 g de carboidrato; 4 kcal para cada 1 g de proteína; 9 kcal para cada 1 g de lipídio. O planejamento alimentar deve sempre levar em consideração, principal- mente as características do paciente, como o estado de saúde, a alimentação habitual, o estilo de vida e rotina. O planejamento deve ter o objetivo de promover e/ou recuperar a saúde, juntamente com um incentivo a melhora de hábitos alimentares. A avaliação da ingestão alimentar é uma ferramenta importante na determinação da estratégia nutricional e no planejamento de cardápios. É recomendável que sejam traçadas metas realistas e possíveis de serem executadas pelo indivíduo em questão para que se tenha uma aceitação satisfatória do cardápio proposto. O planejamento de cardápios deve considerar a individualidade e contexto do paciente, como a rotina, a ocupação, os horários, a condição financeira, os hábitos culturais e religiosos, entre outros, para que se alcance um bom nível de adesão do paciente ao cardápio. Um plano alimentar que não respeite a realidade de quem irá segui-lo dificilmente será cumprido e pode, muitas vezes, acabar desestimulando o paciente e gerar grande estresse e ansiedade em relação à alimentação. Uma boa anamnese e consequentemente um correto diagnóstico nutri- cional é fundamental para a estratégia nutricional adequada. A estratégia nutricional é a definição da oferta de alimentos a fim de prover as necessi- dades nutricionais do indivíduo para manutenção ou recuperação da saúde. A tarefa de planejar um cardápio individualizado para cada paciente é, sem dúvidas, complexa e, portanto, deve ser feita com muito cuidado e atenção. Para elaborar um plano alimentar eficaz, tenha sempre em mente que a estra- tégia deve ser, principalmente, capaz de atender as demandas nutricionais do paciente e alcançar os objetivos traçados de forma saudável e visando a mudança de hábito e não uma dieta temporária. A prescrição de dietas é um ato privativo do nutricionista e deve ser sempre baseado em evidências científicas e no código de ética profissional. Reflita É muito importante conversar com bastante atenção e paciência com o seu paciente, antes de elaborar o cardápio individualizado, para que haja adesão com tranquilidade. Não podemos nunca gerar estresse, ansiedade ou dificuldades para o paciente seguir o cardápio proposto. 155 Algumas perguntas básicas que devem ser feitas durante o atendimento (anamnese), a fim de que se possa planejar um cardápio adequado para cada paciente são: • Quanto tempo você tem disponível para cada refeição? • É possível cozinhar todos os dias? • É possível congelar os alimentos para utilizá-los durante a semana? • É possível levar alimentos/refeições prontas para o trabalho? • Quem cozinha as refeições em casa? • Qual período do dia você sente mais fome? • Quantas refeições por dia costuma fazer? Planejar cardápios, comumente chamado de calcular dieta, não é tarefa simples e exige muita prática, paciência, ética e, principalmente, atenção à individualidade de cada paciente. O primeiro e mais importante passo do planejamento de cardápios é a definição das recomendações para o indivíduo em questão. O planejamento do cardápio deve ter como base recomenda- ções dietéticas. É a partir disso que serão definidos os valores que devem ser alcançados durante o cálculo da dieta. A partir da anamnese, antropometria, avaliação clínica e bioquímica e determinação do GET é possível propor uma estratégia nutricional individu- alizada e definir o VET. Mas atenção: não devemos aumentar a oferta calórica de forma arbitrária. A mudança (incremento ou diminuição) de energia ofertada deve ser gradual até se alcançar o GET determinado. De forma simples, a definição do VET pode ser baseada no GET e nos objetivos traçados: VET = GET: manutenção do peso VET < GET: perda de peso VET > GET: ganho de peso A orientação principal é que o VET ofertado no cardápio proposto deve ser sempre maior que o gasto energético metabólico (podem existir algumas exceções, as quais deverão ser devidamente ponderadas e validadas). O GET é uma estimativa e o VET é uma proposta, ou seja, não significa que sejam exatamente esses valores que serão gastos e ingeridos pelo paciente. O valor real do GET depende bastante do cálculo correto e o VET vai depender da adesão do paciente ao cardápio proposto e, consequentemente, o sucesso da estratégia nutricional será relativo a ambos. 156 Fique atento a estratégias nutricionais ou tratamentos da moda e crenças falsas que não possuem respaldo científico (ou seja, sua eficácia e segurança não foram comprovadas cientificamente por meio de estudos e experimentos clínicos), como a restrição severa ou total de um algum nutriente para a perda de peso. Devemos evitar propostas muito radicais de cardápio e nem sempre é necessário ou indicado manter a ingestão proposta no cardápio nos limites, sejam inferiores ou superiores, das recomendações de ingestão. Por exemplo, é muito mais relevante se preocupar com uma maior oferta de carboidratos complexos, carboidratos junto com fibras e de gorduras do tipo monoinsaturadas e poli-insaturadas, do que a restrição generalizada desses macronutrientes. O mais importante no planejamento de cardápios é selecionar os alimentos de forma que todos os nutrientes sejam ofertados em proporções ou quantidades adequadas para se atingir o objetivo traçado para o paciente, sempre com foco principal na manutenção da saúde. Ao elaborar cardápios com restrição calórica significativa (hipocalóricas, ou seja, menos de 1500 - 1600 Kcal), há um grande risco de haver defici- ência de micronutrientes (por exemplo, ferro, cálcio, magnésio, vitaminas), por isso, é imprescindível que seja feito o cálculo de micronutrientes e que se considere a necessidade de suplementação temporária. O Conselho Federal de Nutrição (CFN), na Resolução no 304/2003 de 25/02/2003, estabelece critérios para prescrição dietética na área de nutrição clínica, em que: Compete ao nutricionista a prescrição dietética, como parte da assistência hospitalar, ambulatorial, em consul- tório de nutrição e dietética e em domicílio. A prescrição dietética deve ser elaborada com base nas diretrizes estabelecidas no diagnóstico nutricional. [...] O nutricionista, ao realizar a prescrição dietética, deverá: I. Considerar o cliente-paciente globalmente, respei- tando suas condições clínicas, individuais, socioeco- nômicas, culturais e religiosas; II. Considerar diagnósticos, laudos e pareceres dos demais membros da equipe multiprofissional, definindo com estes, sempre que pertinente, os proce- dimentos complementares à prescrição dietética; III. Respeitar os princípios da bioética. (BRASIL, 2003, [s.p.]) 157 Macronutrientes A definição da proporção daoferta de macronutrientes pode ser feita de acordo com as recomendações publicadas por organizações e instituições de saúde, como já vimos na Seção 2.3 e conformeTabela 4.2. Tabela 4.2 | Distribuição de macronutrientes Nutriente SBAN (1990) RDA (1985) DRI (1985) OMS/FAO (1989) Carboidratos 60-70% 50-60% 45-65% 55 – 75% Proteínas 10-12% 10-15% 10-35% 15 – 30% Lipídios 20-25% 25-30% 20-25% 10 – 15% Fonte: National Research Council (1989; [s.p.]); Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição. (1990, [s.p.]); Food and Agriculture Organization/World Health Organization (1985, [s.p.]). Ao definir a proporção da oferta de macronutrientes, é possível calcular quantos gramas de cada macronutriente o cardápio deverá ter . Por exemplo, digamos que o alvo de ingestão calórica seja 2000 calorias por dia. A conta é simples: 60% das calorias serão ofertadas por carboidratos: 100% – – – – 2000 Kcal 60% – – – – 1200 Kcal Ou 2000 x 0,60 = 1200 kcal 60% de 2.000 kcal é equivalente a 1200 calorias. Se cada grama de carboidrato oferecerá 4 kcal, para atingir o total de 1200 kcal advindas de carboidratos, serão necessários 300 gramas de carboidratos: 1g – – – – 4 kcal X – – – – 1200 kcal X = 300 g Ou 1200 g ÷ 4 kcal = 300 g O processo é, então, repetido para proteínas e gorduras. 158 Micronutrientes O planejamento de cardápios deve considerar, também, a adequação de micronutrientes, contemplando as necessidades mínimas do indivíduo baseado nas recomendações nutricionais chamadas Dietary Reference Intake (DRIs, em português: Ingestão Diária Recomendada – IDR), estabelecidas pelo Food and Nutrition Board do Instituto de Medicina (IOM). Atenção: essas recomendações variam de acordo com o sexo e a idade do paciente. O RDA e o AI são as referências utilizadas para definição das necessidades de micronutrientes na condição individual . Assimile As IDRs /DRIs incluem quatro conceitos de referência para consumo de nutrientes, com definições e aplicações diferenciadas: necessidade média estimada (Estimated Average Requirement – EAR); ingestão dieté- tica recomendada (Recommended Dietary Allowance – RDA), Ingestão adequada (Adequate Intake – AI), Nível de Ingestão Máxima Tolerável (Tolerable Upper Intake Level – UL). Fracionamento do cardápio O fracionamento da dieta significa a definição do número de refeições por dia e respectivos horários. É de extrema importância que a rotina do paciente seja levada em consideração na definição do fracionamento para que seja garantido o respeito à individualidade e à realidade do paciente e, consequentemente, uma melhor adesão ao tratamento. A recomendação mais comum são as três refeições principais (desjejum, almoço e jantar) intercaladas com pequenos lanches. A determinação de intervalos entre as principais refeições pode evitar importantes consequ- ências gastrointestinais, como a azia, gases ou dores de estômago, hipo ou hiperglicemia, bem como fome e saciedade . Veja a seguir um exemplo da distribuição de calorias a serem ofertadas em cada refeição. Quadro 4.1 | Exemplo de distribuição de calorias a serem ofertadas em cada refeição Refeição Distribuição em percentual (%) Café da Manhã 20% Lanche da Manhã 5% Almoço 35% Lanche da Tarde 10% Jantar 25% Ceia 5% Fonte: adaptado de Galisa e Esperança (2008, [s.p.]). 159 Pode-se fazer a distribuição como achar mais adequado ou conveniente para seu paciente, de acordo com o que foi avaliado na anamnese e com os objetivos traçados . De forma geral, o café da manhã costuma incluir alimentos como pães, cereais, leite ou derivados e frutas. Já o almoço e o jantar geralmente incluem alimentos do grupo das verduras e legumes, do grupo dos cereais (como arroz, batata, mandioca), do grupo das leguminosas e carnes e/ou ovos. Os lanches intermediários podem ser compostos por frutas, leite ou derivados e alimentos do grupo dos cereais e castanhas. Depois de determinar as proporções do cardápio e distribuir os alimentos ao longo do dia, a adequação nutricional da dieta deve ser determinada. Devemos conferir se o cardápio elaborado corresponde às necessidades e particularidades do paciente. Pode ser bastante desafiador e frustrante tentar adequar todos os nutrientes no cardápio de acordo com o as recomendações específicas de cada, principalmente dos micronutrientes. Em primeiro lugar, o VET e a distribuição de macronutrientes deve estar de acordo com o estimado e planejado para o cardápio (diferenças de no máximo 5% são aceitáveis). O cardápio proposto deve contemplar aparência, aroma e textura agradá- veis dos alimentos, ao mesmo tempo que ofereça uma alimentação saudável e nutricionalmente adequada. Por mais desafiador que isso pareça, com prática, irá tornar-se mais simples e automático. Tenha cuidado para não oferecer refeições monótonas e pouco atrativas com alimentos da mesma cor, preparações sem molho ou sem tempero ou com aromas/sabores que não combinam. Nesse aspecto, é muito importante também respeitar as preferên- cias pessoais, culturais e religiosas de cada paciente. Ter uma noção prática de medidas caseiras e equivalente em gramas irá facilitar bastante o planejamento e elaboração de cardápios. Conhecer as porções mais comuns e o equivalente em gramas irá, com certeza, ajudar bastante durante o planejamento do cardápio. Por exemplo, ingerir 1 colher de sopa de granola e 1 banana é muito diferente, em macro e micronutrientes, do que ingerir 10 colheres de sopa de granola e 4 bananas em uma única refeição. Mas além da quantidade de nutrientes em questão, haverá uma diferença importante de digestão, satisfação e saciedade do paciente. Nesse sentido, a anamnese sempre poderá te ajudar a extrair ao máximo as infor- mações sobre seu paciente para que se possa planejar um cardápio realmente adequado e individualizado. Exemplificando Imagine um sanduíche feito com 3 fatias de pão de forma integral, 8 colheres de sopa de frango desfiado seco e 2 tomates inteiros. O cálculo de macro e nutrientes pode estar excelente, mas com esses 160 ingredientes será mesmo possível fazer um sanduíche saboroso e com aparência atrativa? Esse exemplo mostra que é preciso haver harmonia e coerência na montagem das refeições. Uma dica é fazer testes em casa, anotar detalhadamente as receitas das refeições testadas e estudar medidas caseiras, em sua própria balança de alimentos. Seguir um cardápio prescrito significa que seu paciente irá passar a consumir alimentos com os quais não estava acostumado ou até mesmo nem conhecia ou sabia como consumir. Significa também que ele deixará de consumir alimentos com os quais ele estava familiarizado, seja por prefe- rência de sabor, praticidade ou hábito. Sendo assim, é possível que, mesmo que a dieta não seja restritiva, o paciente se sinta de certa forma privado ou limitado em opções de alimentos. É essencial que o cardápio possua uma lista de equivalentes muito bem planejada e diversificada, como vimos na unidade anterior, de forma a amenizar essa sensação inicial dando mais possibilidades de escolhas adequadas. O paciente precisa entender que há muitas coisas que podemos comer além do que estamos acostumados e a importância de uma alimentação variada e equilibrada. Para facilitar essa mudança de hábitos e aceitação do plano alimentar, fique atento durante o planejamento do cardápio, tentando sempre que possível incluir opções que o paciente goste mais ou tenha mais costume de consumir. Tenha, também, bastante atenção para não incluir no cardápio alimentos que seu paciente relatar não gostar ou não ter acesso, respeitando assim a individualidade de cada um. Apresentação do cardápio É muito importante que o material entregue ao paciente seja bem feito, visualmente agradável, compreensível e prático. O paciente sempre receberá o cardápio e nãoo cálculo da dieta. Portanto, é preciso lembrar que o cardápio é um relatório do cálculo (planejamento) alimentar que precisa ser traduzido de maneira acessível e clara para seu paciente. O cardápio alimentar deve discriminar: refeições, alimentos, forma de preparo do alimento, horários, quantidade em grama ou ml e em medida caseira. As orientações nutricionais devem ser entregues com o cardápio e são uma excelente ferramenta para reforçar a ingestão de alimentos específicos e aumentar a aceitação e adesão do seu paciente. Alguns pontos importantes a serem abordados nas orientações nutricio- nais incluem: 161 • Recomendações gerais para uma alimentação saudável, baseadas nas recomendações do Guia Alimentar, estudadas na unidade anterior. • A importância da perda de peso gradual e orientada, ao contrário de dietas milagrosas. Oriente seu paciente a não criar expectativas e metas irreais, que não serão cumpridas a longo prazo e acabarão causando frustrações e ansiedade. Sugira que seu paciente tenha calma e tranquilidade pois mudanças não ocorrem da noite para o dia e exigem dedicação e paciência. • Explique ao seu paciente, com muita ética e empatia, que a saúde e bem-estar devem estar em primeiro lugar. Muitos pacientes desejam alcançar mudanças físicas baseadas em padrões de beleza, indepen- dentemente dos meios e consequências. O nutricionista tem o impor- tante papel de constantemente conscientizar, incentivar e motivar sobre a importância de uma alimentação equilibrada e adequada, por meio de uma mudança gradual e definitiva de hábitos, sendo a mudança física uma das consequências e não simplesmente o objetivo. • Oriente seu paciente em relação a escolhas saudáveis, não apenas baseado em calorias, mas na composição completa dos alimentos e lista de ingredientes, a fim de que ele tenha cada vez mais autonomia para fazer escolhas mais inteligentes. É papel do nutricionista estimular uma mudança de hábitos completa. A alimentação tem uma magnitude muito grande na vida das pessoas, não apenas na saúde, mas de igual grandeza na socialização, identificação cultural e muitas vezes até na resposta emocional a diversas situações. Comer não signi- fica apenas suprir as necessidades do corpo, fornecer energia ou matar a fome. É também uma forma de sentir prazer, socializar com familiares, amigos ou colegas de trabalho, viver novas experiências, conhecer outras culturas e até mesmo uma forma de lidar com emoções e momentos diversos, como comemo- rações e celebrações, ansiedade, frustações, estresse ou tristeza. Portanto, a mudança de hábitos alimentares irá afetar vários aspectos diferentes da vida (por exemplo, fisiológico, social, emocional, econômico, etc.) e do cotidiano de uma pessoa. Sendo assim, é preciso muita empatia, responsabilidade, respeito e paciência ao orientar e auxiliar seu paciente a melhorar seus hábitos e estilo de vida em busca de mais saúde, e se sentir melhor consigo mesmo. Pesquise Mais O Ministério da Saúde publicou em 2016, em parceria com a Universi- dade Federal de Minas Gerais, um material de apoio para profissionais da saúde, desmistificando dúvidas sobre alimentação e nutrição. Esse 162 documento inclui informações sobre dietas da moda (alcalina, sem glúten e sem lactose, detox, vegetariana, suplementação vitamínica, alimentos termogênicos), alimentação colorida, custo dos alimentos, preparo de alimentos, redução de peso por meio da alimentação e muito mais. BRASIL. Ministério da Saúde. Desmistificando dúvidas sobre alimen- tação e nutrição: material de apoio para profissionais de saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. Sem medo de errar Lembra do caso de Hugo comentado no início desta seção? Agora você pode determinar as necessidades energéticas e planejar o cardápio individu- alizado para ele, baseado nas informações do paciente e no que foi aprendido nesta seção. Calculando o gasto energético de Hugo: Idade: 36 anos Peso: 82 kg Altura: 1,68 m Estilo de vida sedentário = fator atividade física 1,40 O GEB baseado nas equações de Harris-Benedict será: GEB = 66,5 + (13,75 x 82) + (5,003 x 1,68) – (6,755 x 36) GEB = 66,5 + 1127,5 + 8,40504 – 243,18 GEB = 959,22 Kcal O GET de Hugo será: GET = GEB x fator atividade física GET = 9,59,22 x 1,40 GET = 1342,90 Kcal Determinando o peso ideal ou desejável e a adequação do peso de Hugo: Peso desejável (ideal) = IMC desejável x altura2 Peso desejável (ideal) = 22 x 1,682 Peso desejável (ideal) = 62,09 kg 163 Adequação do peso (%) = (peso atual x 100) ÷ peso desejável (ideal) Adequação do peso (%) = 82 x 100 ÷ 62,09 Adequação do peso (%) = 132% O estado nutricional de Hugo é, portanto, classificado como obesidade (>120%). O que deve ser levado em consideração no planejamento do cardápio para ele: • O VET do cardápio deverá ser menor que o GET para que haja perda de peso, lembrando que o VET deve ser sempre superior ao GEB. • Considerando a distribuição recomendada de macronutrientes (SBAN, 1990), com um alvo de ingestão de 1300 calorias por dia, teremos: 60% das calorias serão ofertadas por carboidratos: 100% --------- 1300Kcal 60% ----------- x Kcal x = 780Kcal ofertados por carboidratos Se cada grama de carboidrato oferecerá 4 kcal: 1g --------- 4Kcal x ---------- 780Kcal x =195g de carboidratos 25% das calorias serão ofertadas por proteínas: 100% -------- 1300Kcal 25% --------- x Kcal x = 325Kcal ofertadas por proteínas Se cada grama de proteína oferecerá 4 kcal: 1g --------- 4Kcal x ---------- 325Kcal x = 81,25g de proteínas 164 15% das calorias serão ofertadas por lipídios: 100% ---------- 1300Kcal 15% ----------- x Kcal x =195Kcal ofertadas por lipídios Se cada grama de lipídios oferecerá 9 kcal: 1g - ---- 9Kcal X ----- 195Kcal x = 21,66 g de lipídios Fracionamento do cardápio: Hugo realiza as três refeições oferecidas pela empresa no refeitório, e o jantar em casa com sua esposa. Lembrando que ele costuma levar para o trabalho salgadinhos industrializados para comer entre as refeições todos os dias. O fracionamento do cardápio de Hugo deve considerar o hábito e rotina relatados, sendo por exemplo: Café da manhã – 20% (refeitório da empresa) Lanche da manhã – 5% Almoço – 35% (refeitório da empresa) Lanche da tarde – 10% Jantar – 25% (em casa) Ceia – 5% Orientações individualizadas: Hugo relatou ter tido várias crises hipertensivas nos últimos tempos, não consome frutas com regularidade e não pratica atividades físicas. Portanto, as orientações entregues com o cardápio devem incluir recomendações de redução do consumo de sal e produtos industrializados, aumento do consumo de frutas e verduras e incentivo à prática de atividades físicas. É importante lembrar que o nutricionista não deve indicar nenhum tipo de atividade física e sim recomendar que o paciente procure orientação e acompanhamento de um profissional de educação física. 165 Avançando na prática Determinação da necessidade energética do paciente e planejamento do cardápio Luiza tem 35 anos, trabalha como secretária em um escritório de segunda a sexta e mora sozinha. Nos finais de semana, trabalha como voluntária em uma instituição de caridade e gosta de pedalar e correr no parque em frente à sua casa. Seu peso atual e a altura são 68 kg e 1,59 m. Luiza pratica atividade física em uma academia de ginástica (musculação), de 2 a 3 vezes por semana. Ela diz não ter tempo de cozinhar refeições durante a semana, mas que tem prazer em cozinhar aos sábados e domingos. Luiza afirma gostar bastante de frutas e verduras, mas que não compra com frequência pois, por morar sozinha, muitas vezes acaba perdendo alimentos frescos. Além disso, Luzia diz sempre ter algum evento social no final de semana, em que consome de 3 a 4 copos de cervejageralmente. Quando se sente estressada ou perto do período menstrual, Luiza relata ter muito desejo de comer doces, podendo comer até 2 barras de chocolate ao leite de uma vez. Quais são as primeiras etapas para o planejamento do cardápio dessa paciente considerando suas características e necessidades energéticas individuais? Resolução da situação-problema A primeira coisa a ser feita é calcular o gasto energético total de Luiza, por meio do cálculo do GET, baseando-se no GEB e no fator atividade física da paciente. Em seguida, é necessário determinar a estratégia nutricional e o VET e planejar o cardápio indicando a distribuição de macronutrientes, adequação de micronutrientes e fracionamento. Por fim, deve-se elaborar o cardápio e as orientações nutricionais a serem apresentados a paciente. 166 Seção 2 Planejamento dietético sustentável Diálogo aberto Caro aluno, nesta segunda seção, iremos discutir sobre os aspectos envol- vidos em um planejamento dietético sustentável, além de refletir sobre nossas próprias ações e forma de consumo. Também iremos aprender como orientar pacientes e comunidades a buscarem um estilo de vida mais sustentável. Continuando seu atendimento com o paciente, você identificou durante a anamnese que uma das dificuldades relatadas no consumo de frutas e verduras é o alto custo desses alimentos e que, muitas vezes, alimentos frescos acabam sendo perdidos rapidamente e são jogados fora visto que, no caso, Hugo mora apenas com a esposa e faz grande parte das refeições na empresa onde trabalha. Além disso, o paciente relatou não ter costume de reutilizar sobras de alimentos ou refeições. De que maneira você, como nutricionista, pode auxiliar Hugo quanto ao custo dos alimentos? Há alguma orientação que pode ser passada ao paciente sobre o uso integral dos alimentos para evitar desperdícios? Como adotar um estilo de vida mais sustentável relacio- nado à alimentação? Não pode faltar Cadeia alimentar A cadeia alimentar ou o sistema alimentar abrange todos os aspectos (ambiente, pessoas, insumos, processos, infraestrutura, instituições, mercados e comércio) envolvidos no consumo humano de alimentos. Desde a produção, incluindo processamento e distribuição, até a comercialização e preparação, considerando também aspectos socioeconômicos e ambientais, a cadeia alimentar está envolvida. A definição de uma cadeia alimentar sustentável é complexa, pois varia de acordo com as vertentes teóricas aplicadas ao contexto. Em termos gerais, uma cadeia alimentar sustentável engloba objetivos e impactos sociais, ambientais e econômicos dos principais processos da cadeia de suprimento alimentar, visando uma integração logística, ética e transparente. Nosso atual sistema alimentar está enfrentando grandes desafios de sustentabili- dade. Cerca de 65% do consumo diário de água é utilizado para a produção e processamento de alimentos (FAO, 2009; UN, 2017). Tanto a água como o combustível fóssil estão se tornando cada vez mais escassos, junto de um 167 esperado crescimento da população mundial, passando dos atuais 7,6 bilhões para 9,8 bilhões até 2050 e cerca de 11,2 bilhões até o ano de 2100 (UN, 2017). Além disso, o uso de pesticidas e fertilizantes químicos contribuiu para a poluição e a degradação ambiental (FAO, 2009; UN, 2017). O foco em variedades de plantas e raças de animais de alto rendimento tem causado seleção genética maciça, levando ao desaparecimento da diver- sidade de cultivos e animais, os quais são produzidos e criados por agricul- tores e, portanto, adaptados às circunstâncias locais. Por exemplo, atual- mente, no Brasil e nos Estados Unidos, variantes transgênicas do milho correspondem a mais de 85% das atuais lavouras do produto. Esse valor é considerado relevante e de grande impacto, uma vez que, com apenas 15% da produção advinda de variedades naturais, o desgaste ao solo e a resistência (e, portanto, o uso) de agrotóxicos e pesticidas se tornarão cada vez maiores. Grandes áreas de floresta tropical e, consequentemente, espécies de flora e fauna, estão desaparecendo à medida que mais terras são necessárias para a produção de ração animal e biocombustíveis. Por fim, nosso sistema alimentar é caracterizado por problemas de saúde relacionados à dieta: uma a cada oito pessoas no mundo estão acima do peso e muitas sofrem de doenças relacionadas à obesidade, enquanto uma a cada nove pessoas no mundo sofrem de desnutrição e fome (FAO, 2018). Falta de recursos, degradação ambiental e complicações de saúde relacionados à dieta são apenas alguns dos problemas inerentes ao nosso sistema alimentar. Outras questões preocupantes são, por exemplo, o desperdício de alimentos, a mudança climática, a degradação do solo, a competição pelo uso da terra e as grandes desigualdades sociais no acesso aos alimentos. Levando em conta o desafio de alimentar mais de 9,8 bilhões de pessoas até 2050 (UN, 2017), o atual sistema de abastecimento de alimentos parece estar caminhando para uma catástrofe. Isso pode, de fato, se tornar verdade em breve, se mantivermos o sistema alimentar como sempre foi e mais ainda se continuarmos focados em problemas pontuais, ou seja, se buscarmos soluções apenas para alguns aspectos específicos, sem enxergar o contexto todo. As soluções para um único problema pontual podem acabar levando ao agravamento de outros. Assim, os desafios mencionados anteriormente não podem ser tratados como questões únicas, mas precisam ser tratados como um conjunto de desafios inter-relacionados e que se reforçam mutuamente. Apesar do quadro sombrio, também há motivos para se ter esperanças: em todo o mundo há muitos exemplos emergentes (iniciados por agricultores, consumidores, varejistas, indústrias alimentícias, profissionais de saúde e/ou ONGs) que tentam abordar os desafios mencionados, por meio de campanhas de 168 incentivo a ações sustentáveis, além da realização de cobranças às nações e aos seus líderes para que eles adotem políticas públicas de menor impacto ambiental ou que busquem maior proteção ambiental, elaborando e divul- gando informações e recomendações a nível de comunidade, etc. Um sistema alimentar sustentável é um sistema alimentar que oferece segurança alimentar e nutricional para todos, de forma que as bases econô- micas, sociais e ambientais gerem segurança alimentar e nutricional para as futuras gerações. Se quisermos garantir a segurança alimentar de forma sustentável, devemos principalmente fazer uso mais eficiente de matérias- -primas e energia, mas também reduzir significativamente o desperdício de alimentos. Dimensões da sustentabilidade Um sistema alimentar sustentável é um processo dinâmico no qual a segurança alimentar é alcançada no presente, mas deve ao mesmo tempo contribuir para que a segurança alimentar também seja garantida para gerações futuras. Essa definição demonstra a importância de buscar susten- tabilidade em três dimensões – ambientais, econômicas e sociais – e em todas as fases de um sistema alimentar, da produção agrícola, processamento e varejo até o consumo. Ecossistemas críticos dos quais dependemos, incluindo ar e água puros, formação do solo, controle de doenças, polinização e redução da vulnera- bilidade estão cada vez mais comprometidos, enquanto desastres naturais, como inundações, secas e desabamentos de terras são cada vez mais comuns e têm consequências cada vez maiores. O estado dos ecossistemas do mundo, avaliado em 2005 (MEA, 2005), concluiu que as ações humanas estão, funda- mentalmente e de forma significativa, mudando irreversivelmente a diver- sidade da vida na Terra e a integridade do meio ambiente. A conversão de terras para agricultura, levando à perda de habitat, fragmentação e degra- dação de terras, a exploração excessiva de espécies devido à caça, à pesca e ao comércio sãoconsiderados os principais impulsionadores das consequências negativas sobre a integridade ambiental. As dimensões ambientais, sociais e econômicas de um sistema alimentar sustentável podem variar entre países e devem ser associadas de forma a refletir as condições desses países. No entanto, a Organização das Nações Unidas (ONU) recomenda orientações básicas em um conjunto de princí- pios que todo país precisará alinhar para melhor alcançar sustentabilidade em alimentos e agricultura (FAO, 2012), como segue: 169 • Melhorar a eficiência do uso de recursos (como terra, água, pesca e florestas). • Proteger e melhorar a sustentabilidade dos recursos naturais (por exemplo, reduzindo emissões de metano no ar e óxido nitroso no solo). • Proteger e melhorar os meios de vida rurais, a equidade, o empodera- mento das mulheres e o bem-estar social. • Melhorar a resiliência das pessoas, comunidades e ecossistemas. • Assegurar um sistema de governança responsável e eficaz, particular- mente em relação ao uso e a conservação de recursos naturais. Assimile A sustentabilidade social diz respeito à satisfação das necessidades humanas básicas e provisão do direito e da liberdade de satisfazer as aspirações e demandas de uma pessoa durante a vida. Isso se aplica desde que o atendimento de suas necessidades não comprometa o atendimento das necessidades dos outros, ou das gerações futuras, de fazer o mesmo. Desenvolvimento sustentável O fortalecimento do desenvolvimento sustentável na alimentação e na agricultura é um processo complexo e longo, devendo ser levado em conta o contexto de cada país. O desenvolvimento sustentável precisa ser embasado e sustentado por evidências científicas e estudos de qualidade, para deter- minação de estratégias eficazes. Ele requer convicção, compromisso social e político, conhecimento e participação de todos, como sociedade e individualmente. Os estados membros da ONU chegaram recentemente a um acordo sobre a nova agenda de desenvolvimento sustentável, adotada desde 2015. O processo de negociação contou com a participação ativa de cientistas e líderes mundiais, bem como da sociedade civil. Foi elaborada, então, uma agenda global apresentando 17 metas de desenvolvimento sustentável a serem cumpridas até 2030, com o objetivo principal de acabar com a pobreza, promover a prosperidade e o bem-estar de populações em todo o mundo, ao mesmo tempo protegendo o meio ambiente e o planeta (ONU, 2015). 170 A meta número 12, “Garantir padrões sustentáveis de consumo e produção”, inclui, entre outros, os seguintes objetivos relevantes para um planejamento dietético sustentável (ONU, 2015): • “[...] uso eficiente de recursos naturais” (ONU, 2015, p. 31). • Redução, pela metade, do desperdício global per capita de alimento. • Redução das perdas de alimentos nas cadeias produtivas e de fornecimento. • Redução substancial da geração de resíduos por meio da prevenção, redução, reciclagem e reuso. • Alcançar o manejo ambientalmente saudável de produtos químicos. • “ [...] garantir que as pessoas, em todos os lugares, tenham informação relevante e conscientização para o desenvolvimento sustentável e estilos de vida em harmonia com a natureza” (ONU, 2015, p. 31). Pesquise mais O site da ONU Brasil disponibiliza, em versão em português, o relatório completo da Agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável, o qual define metas e ações a serem realizadas até o ano de 2030, que envolvem cinco aspectos principais: pessoas, planeta, prosperidade, paz e parceria (ONU, 2015). ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Transformando Nosso Mundo: a agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável. Roma, 2015. Alguns outros pontos recomendados recentemente pela Organização das Nações Unidas para um desenvolvimento sustentável na cadeia alimentar são citados a seguir: Melhorar a eficiência no uso de recursos: inclui o uso de recursos naturais, insumos externos de energia e mão de obra. Modificar as práticas atuais pode fazer muito para melhorar a produtividade de muitos alimentos e sistemas de produção agrícola. Ações diretas para conservar, proteger e aprimorar recursos naturais: a produção alimentar e agrícola depende dos recursos naturais e, portanto, a sustentabilidade da produção depende da sustentabilidade dos recursos em si mesmos. Muito pode ser feito para reduzir os impactos negativos e melhorar o estado dos recursos naturais. 171 Proteger os meios de subsistência rurais e melhorar a equidade e bem-estar social: assegurar que os produtores tenham acesso adequado e controle de recursos, e abordar a disparidade de gênero, pode contribuir significativa- mente redução da pobreza e insegurança alimentar nas zonas rurais. Melhorar a resiliência das pessoas, comunidades e ecossis- temas, especialmente para mudanças climáticas e volati- lidade do mercado: eventos climáticos extremos, volatili- dade do mercado e conflitos civis prejudicam a estabilidade agricultura. Políticas, tecnologias e práticas que fortalecem a resiliência dos produtores ameaças também contribuiria para a sustentabilidade. A boa governança é essencial para a sustentabilidade dos sistemas natural e humano: a transição para a produção sustentável só pode ocorrer quando existe o equilíbrio certo entre as iniciativas do setor público e privado, bem como responsabilidade, equidade, transparência e o estado de direito. (FAO, 2014, p. 18, tradução nossa, grifo nosso) Reflita Na primeira metade deste século, com o aumento da população mundial, a demanda global por alimentos e ração irá quase dobrar, enquanto, cada vez mais, a agricultura também pode ser usada para bioenergia e outras finalidades industriais. A nova demanda por produtos agrícolas colocará pressão crescente sobre recursos agrícolas já escassos. E enquanto a agricultura for forçada a competir por terra e água com áreas urbanas, também será necessária a atuação em outras grandes frentes: adaptação e contribuição para a mitigação da mudança climática, ajudando a preservar habitats naturais, protegendo espécies ameaçadas e mantendo um alto nível de biodiversidade. Como se isso não fosse suficientemente desafiador, na maioria das regiões, menos pessoas viverão em áreas rurais e menos ainda serão agricultores. A agricultura precisará de novas tecnologias para crescer mais com menos terra e com menos mão de obra. Nesse contexto, é importante nos perguntarmos enquanto sociedade: • Será que conseguiremos produzir alimentos suficientes a preços acessíveis ou o aumento dos preços dos alimentos levará mais pessoas no mundo à pobreza e à fome? • Quanta capacidade de reserva em termos de terra e água temos para alimentar o mundo em 2050? 172 • Como podemos utilizar recursos naturais já escassos, de forma mais eficiente e mais sustentável? • Novas tecnologias serão acessíveis para as pessoas e comuni- dades que mais precisarão delas? • O que podemos fazer para ajudar a agricultura a se adaptar às mudanças climáticas e até que ponto a agricultura pode contri- buir para a mitigação de eventos climáticos extremos? Ações sustentáveis no planejamento alimentar Dietas saudáveis contribuem para um ambiente saudável. Há um crescente reconhecimento de que mudanças na nutrição são essenciais para se alcançar vários dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Padrões dietéticos devem ser examinados não apenas pelo seu impacto na saúde, mas também impactos sobre o meio ambiente e, particularmente, sua ligação com as mudanças climáticas. Exemplificando Dietas ricas em carne, particularmente as de origem bovina, estão associados a maiores custos ambientais e maiores emissões de gases de efeito estufa: metano, resultante da fermentação entérica; dióxido de carbono, que é liberado da limpeza de florestas parapastagem; e óxido nitroso, que é gerado na produção de ração (GERBER et al., 2013; FAO, 2016b). Dietas com menor consumo de carne têm emissão signi- ficativamente menor. Os sistemas pecuários industrializados tendem a gerar menos emissões de gases de efeito estufa do que outros sistemas pecuários, mas têm outros impactos sociais e ambientais significativos, incluindo retiradas de água doce, mais poluição, maior uso de antimi- crobianos com os riscos associados ao aumento da resistência antimi- crobiana e potencialmente mais surtos de doenças zoonóticas. Evidências crescentes sugerem que é possível conciliar uma alimentação saudável com padrões alimentares que tenham baixo impacto ambiental (FAO, 2009). Encontrar formas mais eficientes de cultivar carne e optar por dietas com uma menor quantidade desse alimento – mesmo que apenas passando da carne de vaca para carnes de frango, porco ou peixe, ou reduzindo a frequência de consumo durante a semana – pode ser uma ação sustentável relevante no planejamento alimentar. Dessa maneira uma boa opção para reduzir o impacto ambiental da produção animal seria uma dieta com mais proteína vegetal. Uma 173 desvantagem é que a proteína vegetal não possui um perfil completo de aminoácidos, exigindo, portanto, a combinação certa para ter todos os aminoácidos essenciais na dieta. Uma segunda desvantagem é que as prote- ínas vegetais são mais difíceis de serem quebradas pelo sistema digestivo humano. No entanto, talvez a questão mais difícil que nós humanos enfren- tamos na redução do consumo de produtos animais é a preferência que a maioria das pessoas têm pela proteína animal. Espera-se que as mudanças climáticas também tenham impactos diretos sobre a qualidade dos alimentos e nutrição. Por exemplo, os níveis elevados de dióxido de carbono estimados para atmosfera até 2050 são associadas a declí- nios substanciais no teor de zinco, ferro e proteína no trigo, arroz, ervilhas e soja (FAO, 2016a). Além disso, as temperaturas mais altas e o clima mais quente – ambos eventos associados à mudança climática – criam ambientes favoráveis para o desenvolvimento de patógenos alimentares (IFPRI, 2015). Outra consideração é a sazonalidade. Hoje em dia, como resultado de transporte e logística de baixo custo, a maioria dos produtos alimentícios está disponível durante todo o ano. Devido a sua curta vida útil, frutas e legumes são, na maioria dos casos, transportados por caminhão ou avião, com alto impacto ambiental associado. Os alimentos produzidos localmente têm, portanto, um impacto ambiental menor do que os alimentos cultivados ou criados em outro lugar e transportados. Como regra geral, quanto mais rápido o modo de transporte, maior o impacto ambiental que produz. Em relação à energia utilizada, os aviões têm o maior consumo por tonelada de alimentos transportados, seguidos por caminhões, trens, barcaças terrestres e navios marítimos. Precisamos considerar, cada vez mais, ações sustentáveis no planeja- mento de dietas e sistemas alimentares, mas certamente essa não é uma tarefa simples de alcançar. De acordo com a definição da FAO, a sustentabilidade das dietas vai além da nutrição e do meio ambiente, incluindo também as dimensões econômica e sociocultural. Assimile De acordo com a FAO (2010), dietas sustentáveis apresentam baixo impacto ambiental e garantem segurança alimentar e nutricional para as gerações presentes e futuras. As dietas sustentáveis devem buscar sempre proteger e respeitar a biodiversidade e os ecossistemas, serem cultural- mente adequadas, acessíveis e economicamente justas, nutricionalmente adequadas, seguras e saudáveis; ao mesmo tempo em que otimiza a utili- zação e reutilização de recursos naturais e humanos. (FAO, 2010). 174 Na última década, mais e mais países começaram a incorporar conside- rações de sustentabilidade em suas políticas de alimentos e programas de educação do consumidor. O desenvolvimento e a integração de recomenda- ções que promovem práticas e escolhas alimentares específicas têm sido uma estratégia importante para abordar a sustentabilidade, principalmente em suas dimensões de nutrição e meio ambiente. Tais recomendações incluem, por exemplo: ter uma dieta baseada principalmente em vegetais, foco em alimentos sazonais e locais, redução do desperdício de alimentos, consumo de peixes provenientes de estoques sustentáveis e redução de carne vermelha e processada, assim como alimentos altamente processados. Ações sustentáveis simples e práticas que podemos adotar no planeja- mento alimentar e fazer a diferença: • Reduzir resíduos e desperdício Reduzir o desperdício de alimentos (e embalagens) economiza a energia, o esforço e os recursos naturais usados para produzi-los e descartá-los, além de dinheiro. Evitar ou diminuir a utilização de plásticos e embalagens desne- cessariamente, não utilizar canudos, talheres e copos de plástico. Uma boa orientação para pacientes que buscam uma alimentação ambientalmente sustentável é que tenham sempre na bolsa ou mochila copos, canudos e talheres reutilizáveis para que não precisem utilizar utensílios descartáveis em estabelecimentos, lanchonetes, restaurantes, etc. • Alimentação mais saudável e redução do consumo de carne e laticínios Consumir mais vegetais e frutas, grãos e leguminosas e quantidades menores de produtos de origem animal ajuda a reduzir riscos à saúde, desma- tamento, desgaste de terras e emissão de gases de efeito estufa. • Comprar alimentos locais, sazonais e produzidos de forma sustentável Isso beneficia a vida selvagem e o campo, minimiza a energia usada na produção, transporte e armazenamento de alimentos e ajuda a proteger a economia local. Esta recomendação de buscar sempre fornecedores locais e alimentos que tenham sido produzidos de forma sustentável serve tanto para produtos de origem animal quanto frutas, verduras ou cereais. • Preferir produtos com certificação Fairtrade (comércio justo e solidário) Esse esquema de Faritrade (Figura 4.1) para alimentos e bebidas garante um acordo justo para produtores desfavorecidos, por meio de práticas comer- ciais éticas que sigam regras sociais, ambientais e econômicas. 175 Figura 4.1 | Certificação Fairtrade Fonte: https://bit.ly/2m0il4H. Acesso em: 19 set. 2019. • Consumir peixes somente de fontes sustentáveis Precisamos garantir que as gerações futuras possam comer peixe e frutos do mar agindo agora para proteger nossos rios e mares e as criaturas que vivem lá. • Buscar sempre o equilíbrio alimentar e nutricional Precisamos reduzir o açúcar, o sal e a gordura e evitar ingredientes e processos questionáveis, como alimentos ultraprocessados, artificiais e aditivos químicos. • Cultivar alimentos em casa e comprar o restante em diferentes comér- cios locais Um alimento fresco vindo direto do nosso jardim é imbatível e uma mistura diversificada de mercados locais, pequenas lojas e cafés e outros varejistas oferece escolha, variedade e bons meios de subsistência. Desperdício e geração de resíduos sólidos e reflexões no planejamento dietético Globalmente, cerca de um terço de todos os alimentos produzidos são perdidos ou desperdiçados ao longo da cadeia alimentar, da produção ao consumo (HLPE, 2014). Em um mundo onde mais de 900 milhões de pessoas passam fome (FAO, 2012), isso é uma clara indicação da inefici- ência dos sistemas alimentares atuais. Quando o alimento é desperdiçado, também são desperdiçados a água, o solo, a biodiversidade e outros recursos naturais e insumos que foram usados para produzi-lo e movê-lo pela cadeia de produção. As perdas e desperdícios de alimentos geralmente se traduzem em perdas econômicas para os agricultores e outras partes interessadas na cadeia alimentar, além de preços mais altos para os consumidores, os quais 176 afetama insegurança alimentar ao tornar os alimentos menos acessíveis aos grupos mais vulneráveis. A redução das perdas e desperdícios de alimentos aumentaria a oferta de alimentos disponíveis e fortaleceria a segurança alimentar global. As perdas e desperdícios de alimentos também impedem a transição para sistemas alimentares ambientalmente sustentáveis. Eles representam um considerável desperdício de terra, água, energia e insumos agrícolas e causam a emissão de milhões de toneladas de gases de efeito estufa. Esforços futuros para lidar com as mudanças climáticas precisarão encontrar maneiras de reduzir perdas e desperdício de alimentos. Como a produção de alimentos é responsável por uma grande parcela das emissões de gases de efeito estufa, a redução das perdas de alimentos e do desper- dício contribui para a mitigação das mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, porque as mudanças climáticas ameaçam a produção de alimentos em muitas áreas de insegurança alimentar, reduzir as perdas e desperdícios de alimentos pode ser uma parte importante das estratégias de adaptação às mudanças climáticas (BELLÚ, 2016). É possível contribuir para redução significativa do desperdício de alimentos adotando medidas simples, como servir porções menores, reuti- lizar/consumir sobras, folhas e talos (aproveitamento integral dos alimentos) e cobrar e incentivar cafeterias, restaurantes e supermercados a desenvolver medidas para reduzir os resíduos e desperdícios. Pesquise mais O Mesa Brasil Sesc foi um “Programa de Segurança Alimentar e Nutri- cional voltado para a inclusão social, constituindo-se numa rede Nacional de Solidariedade contra a fome e o desperdício” (SESC, 2003). Entre os vários materiais produzidos e distribuídos pelo Mesa Brasil Sesc, o manual de Aproveitamento Integral dos Alimentos é uma excelente ferramenta na busca de um planejamento alimentar mais sustentável e inclui conceitos básicos do aproveitamento integral de alimentos, bem como sugestões de receitas práticas que podem ser inclusas no cardápio. SESC. Banco de alimentos e colheita urbana: Aproveitamento Integral dos Alimentos. Rio de Janeiro: SESC/DN, 2003. 45 p. (Mesa Brasil SESC - Segurança Alimentar e Nutricional). Programa Alimentos Seguros. Convênio CNC/CNI/SEBRAE/ANVISA. 177 Sem medo de errar Vamos retomar agora o caso de Hugo. Alguns dos pontos que podem orientar os indivíduos quanto a uma alimentação sustentável incluem: reduzir resíduos e desperdício; consumir mais vegetais e frutas e reduzir o consumo de carne e laticínios; comprar alimentos locais, sazonais e produzidos de forma sustentável; preferir produtos com certificação de comércio justo e solidário; cultivar alimentos em casa e comprar o restante em diferentes comércios locais; reutilizar sobras ou partes que não costumamos consumir, como casca, talos e folhas de diversos vegetais e frutas. Hugo, seu paciente, relatou apresentar dificuldades em relação ao consumo de frutas e hortaliças. Ele relatou que esses produtos são caros. Por isso, é preciso orientar o paciente quanto à sazonalidade. Além do sabor de produtos sazonais ser melhor, o valor sofre modificações. Alimentos sazonais tendem a ter um melhor valor no mercado, sendo assim mais acessíveis. Você pode também fornecer ao Hugo receitas práticas que utilizem partes que não temos o hábito de consumir e que muitas pessoas nem mesmo imaginam ser possível, como o suco de talo de beterraba ou talo de espinafre. Veja a seguir um exemplo de receita que pode ser passada ao seu paciente para auxiliar na utilização integral dos alimentos (receita adaptada do Manual Mesa Brasil Sesc): Bolinho de talos, folhas ou cascas Ingredientes: • 1 xícara (chá) de talos, folhas ou cascas bem lavadas e • picadas • 2 ovos • 5 colheres (sopa) de farinha de trigo • 1/2 cebola picada • 2 colheres (sopa) de água • sal a gosto Modo de Preparo: bater bem o ovo e misturar o restante dos ingredientes. Assar os bolinhos em forno pré-aquecido. Podem ser usados: talos de acelga, couve, agrião, brócolis, couve-flor, folhas de cenoura, beterraba, nabo, rabanete ou cascas de chuchu. 178 Obs.: no caso dos talos da couve, couve-flor e brócolis recomenda-se dar uma pré-fervura antes do preparo. Aproveitar a água do cozimento dos talos para outras preparações (arroz, sopa, etc.). Avançando na prática Uso de utensílios plásticos Durante uma consulta, seu paciente relatou estar em busca de um estilo de vida mais sustentável e que tem adotado condutas ambientalmente susten- táveis no seu dia a dia. Ele relata já ter reduzido o consumo de carne, diz procurar comprar sempre os alimentos da estação em feiras locais e orgânicas e reduziu o desperdício a partir do aproveitamento integral dos alimentos. Ele relatou, também, que quando leva alimentos para o trabalho sempre utiliza utensílios descartáveis (copos e talheres) e embalagens de plástico descaráveis (caixas ou sacos plásticos). Então, o paciente pergunta quais outras medidas ele poderia tomar para ter uma alimentação mais ambien- talmente sustentável? Resolução da situação-problema Primeiramente, é importante elogiar e reforçar a iniciativa do seu paciente em se preocupar com o estilo de vida sustentável. Nesse caso, é preciso então recomendar a redução da utilização de utensílios plásticos descartáveis como uma forma de reduzir resíduos, incentivando seu paciente a ter sempre um copo, talheres e canudos reutilizáveis com ele para quando fizer refeições no trabalho ou fora de casa, por exemplo. 179 Seção 3 Rótulos de alimentos: informações e planejamento dietético Diálogo aberto Caro aluno, nesta última seção, você conhecerá definições de termos relacionados à rotulagem de alimentos bem como as legislações que a regulam. É de extrema importância que o nutricionista entenda não apenas a rotulagem de alimentos, mas também como são elaboradas e calculadas as informações nutricionais fornecidas no rótulo. Mais ainda, deve saber orientar seu paciente em relação à leitura do rótulo de alimentos, o que o ajudará a ter maior autonomia na escolha de alimentos, contribuindo para a manutenção e para a melhoria de sua saúde e de sua qualidade de vida. Continuando o atendimento do paciente sr. Hugo, como nutricionista, você pode orientá-lo em relação à leitura de rótulos de alimentos e indicar como utilizá-los para fazer escolhas alimentares melhores. Há alguma orien- tação que você poderia dar em relação à compreensão da tabela de informa- ções nutricionais e da lista de ingredientes? Como orientar o sr. Hugo a saber qual pão de fôrma, por exemplo, é mais saudável, baseando-se no rótulo? Não pode faltar Definições Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão responsável pela regulação dos rótulos de alimentos, rotulagem de alimentos é “toda inscrição, legenda, imagem ou toda matéria descritiva ou gráfica, escrita, impressa, estampada, gravada, gravada em relevo ou litografada ou colada sobre a embalagem do alimento” (BRASIL, 2002). Já a rotulagem nutricional é “toda descrição destinada a informar ao consumidor sobre as propriedades nutricionais de um alimento” (BRASIL, 2003b). De acordo com a legislação da Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA), […] estabelecimentos só podem expedir ou comercializar matérias-primas e produtos de origem animal registrados pelo Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal e identificados por meio de rótulos, dispostos em 180 local visível, quando destinados diretamente ao consumo ou quando enviados a outros estabelecimentos que os processarão. (BRASIL, 2017, [s.p.]) Além disso, a legislação determina que os rótulos devem ser resistentes às condições de armazenamento e de transporte dos produtos (BRASIL, 2017). A Resolução RDCnº 259, de 20 de setembro de 2002, define também diversos termos envolvidos no processo de rotulagem e fornecimento de informações nutricionais. No Quadro 4.2 encontram-se os termos definidos pela resolução em questão. Quadro 4.2 | Definições de termos envolvidos no processo de rotulagem Embalagem Recipiente, pacote ou embalagem destinada a garantir a conserva- ção e facilitar o transporte e manuseio dos alimentos. Embalagem primária ou envoltório primário Embalagem que está em contato direto com os alimentos. Embalagem secundária ou pacote Embalagem destinada a conter a(s) embalagem(ns) primária(s). Embalagem terciária ou embalagem Embalagem destinada a conter uma ou várias embalagens secun- dárias. Alimento embalado Todo o alimento que está contido em uma embalagem pronta para ser oferecida ao consumidor. Consumidor Toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza alimentos. Ingrediente Toda substância, incluídos os aditivos alimentares, que se emprega na fabricação ou no preparo de alimentos, e que está presente no produto final, em sua forma original ou modificada. Matéria-prima Toda substância que, para ser utilizada como alimento, necessita sofrer tratamento e ou transformação de natureza física, química ou biológica. Aditivo alimentar Qualquer ingrediente adicionado intencionalmente aos alimentos, sem propósito de nutrir, com o objetivo de modificar as carac- terísticas físicas, químicas, biológicas ou sensoriais, durante a fabricação, processamento, preparação, tratamento, embalagem, acondicionamento, armazenagem, transporte ou manipulação de um alimento. Isso implicará direta ou indiretamente fazer com que o próprio aditivo ou os seus produtos se tornem componentes do alimento. Essa definição não inclui os contaminantes ou substân- cias nutritivas que sejam incorporadas ao alimento para manter ou melhorar suas propriedades nutricionais. Alimento Toda substância que se ingere no estado natural, semielaborada ou elaborada, destinada ao consumo humano, incluídas as bebidas e qualquer outra substância utilizada em sua elaboração, preparo ou tratamento, excluídos os cosméticos, o tabaco e as substâncias utilizadas unicamente como medicamentos. Denominação de venda do alimento Nome específico e não genérico que indica a verdadeira natureza e as características do alimento. Será fixado no Regulamento Técnico espe- cífico que estabelece os padrões de identidade e qualidade inerentes ao produto – o Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade (RITQ). 181 Fracionamento de alimento Operação pela qual o alimento é dividido e acondicionado, para atender à sua distribuição, comercialização e disponibilização ao consumidor. Lote Conjunto de produtos de um mesmo tipo, processados pelo mes- mo fabricante ou fracionador, em um espaço de tempo determina- do, sob condições essencialmente iguais. País de origem Onde o alimento foi produzido ou, tendo sido elaborado em mais de um país, onde recebeu o último processo substancial de transformação. Painel principal Parte da rotulagem onde se apresenta, de forma mais relevante, a denominação de venda e marca ou o logotipo, caso existam. Fonte: adaptado de Brasil (2002). Uso dos rótulos nas decisões alimentares Os rótulos alimentares são essenciais para a escolha de alimentos pelo consumidor e consiste no ponto principal da comunicação entre consumidor e produtor. Portanto, é de extrema importância que as informações sejam fornecidas de forma clara e objetiva para que possam ser facilmente utili- zadas por qualquer consumidor. Segundo o Ministério da Saúde (ANVISA, 2005), apesar de cerca de 70% das pessoas relatarem ter o hábito de ler o rótulo dos alimentos antes de comprar, mais da metade diz não entender completamente as informações fornecidas. Algumas informações sempre estarão presentes em qualquer rótulo de alimentos. Elas são consideradas básicas e obrigatórias, e precisamos identi- ficá-las para o adequado entendimento das propriedades do alimento em questão. Tais informações básicas incluem lista de ingredientes, identificação da origem, prazo de validade, conteúdo líquido, porção (Quadro 4.3 (1)), medida caseira (Quadro 4.3 (2)), percentual de valores diários, ou %VD, (Quadro 4.3 (3)). Além disso, a tabela nutricional deverá sempre conter o valor energético total, a quantidade de macronutrientes (carboidratos, prote- ínas e gorduras – totais, saturadas e trans) sódio e fibra alimentar por porção (Quadro 4.3 (4)). Outras informações obrigatórias incluem denominação de venda do alimento, nome ou razão social e endereço do importador, no caso de alimentos importados, identificação do lote e instruções sobre o preparo e uso do alimento, quando necessário. O Serviço de Inspeção Federal (S.I.F.), vinculado ao Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (DIPOA), é responsável por garantir e atestar a qualidade de produtos de origem animal comestíveis e não comestíveis destinados tanto ao mercado interno quanto ao externo, incluindo produtos importados. 182 Quadro 4.3 | Exemplo de rótulo nutricional INFORMAÇÃO NUTRICIONAL Porção de ......g ou mL (1) (medida caseira) (2) Quantidade por porção (4) %VD(*) (3) Valor energético kcal e kJ % Carboidratos g % Proteínas g % Gorduras Totais Gorduras saturadas Gorduras trans g g g % % - Fibra alimentar g % Sódio mg % Outros minerais mg ou mcg Vitaminas mg ou mcg (*)% Valores Diários de referência com base em uma dieta de 2.000 kcal ou 8.400 kJ. Seus valores diários podem ser maiores ou menores, dependendo de suas necessidades energéticas. Fonte: elaborado pela autora. Lista de ingredientes A lista de ingredientes deve constar em todo rótulo de alimentos (exceto no daquelas com um único ingrediente) e apresentar todos os ingredientes que compõem o produto em ordem decrescente, de acordo com a quanti- dade proporcional. Portanto, os primeiros ingredientes listados serão aqueles com maior quantidade proporcional relativa à composição do produto. Essa informação é considerada uma das mais importantes na leitura dos rótulos de alimentos justamente por permitir uma identificação objetiva da compo- sição do produto. No entanto, alguns termos podem ser desconhecidos pelo consumidor e é papel do nutricionista orientar o paciente quanto à identi- ficação de diferentes ingredientes que podem influenciar tanto o plano alimentar proposto quanto a manutenção da saúde de forma geral. Exemplificando Por exemplo, o açúcar pode ser apresentado na lista de ingredientes com diferentes denominações de acordo com o tipo utilizado no produto, como: sacarose, glicose, frutose, lactose, maltodextrina, dextrose, xarope de milho, xarope de malte, açúcar mascavo, glicose de milho, açúcar invertido, mel, melaço, maltose, rapadura, xarope de agave, xarope de açúcar, entre outros. 183 Identificação da origem A identificação da origem informa a procedência do produto e oferece ao consumidor informações sobre onde o produto foi fabricado bem como informações a respeito do fabricante e como contatá-lo. Prazo de validade É obrigatório que toda embalagem de produto alimentício forneça de forma clara e visível, no mínimo o mês e o ano de validade para produtos com validade maior do que três meses. É muito importante que o nutricio- nista oriente seus pacientes e a população em geral a sempre conferirem o prazo de validade e a não consumirem alimentos vencidos, alertando para os sérios riscos de contaminação alimentar. Além disso, o hábito de observar o prazo de validade e de levá-lo em conta no planejamento alimentar é considerado uma ação sustentável efetiva para a diminuição do desperdício e da produção de resíduos, com conse- quente redução do impacto ambiental. Porção e conteúdo líquido A porção indicada no rótulo de um alimentorefere-se à quantidade comumente ingerida por pessoas (ou recomendada) para manutenção ou promoção da saúde. A quantidade total do alimento contida na embalagem deve ser indicada no rótulo, sendo expressa em quilos ou litros. Esse é um item importante a ser considerado na leitura da tabela nutri- cional, que pode fornecer informações relativas a uma determinada porção, não necessariamente equivalente à quantidade total contida na embalagem. Dessa forma, um produto com conteúdo líquido de 100 g, por exemplo, cuja tabela nutricional indica que há 200 kcal em uma porção de 50 g, pode gerar confusão no consumidor, pois ele poderá interpretar que o consumo do produto por inteiro (100 g) fornecerá 200 kcal (valor fornecido por 50 g), enquanto, na realidade, o consumo seria de 400 kcal. Reflita Como vimos, as informações nutricionais fornecidas nos rótulos dos alimentos são referentes às porções cujas quantidades são pré-es- tipuladas no rótulo, e não pela quantidade total contida no produto. Por exemplo, um pacote de bolachas de 200 g poderá trazer apenas valores referentes a uma porção de 5 bolachas, equivalente a aproxi- madamente 30g. No entanto, sabemos que é comum que uma pessoa 184 coma um pacote de bolachas inteiro de uma só vez. Portanto, pode haver uma confusão entre as informações nutricionais e a quantidade de nutrientes ingerida. Você acha que essa confusão poderia acabar gerando uma ilusão de que se está consumindo um valor menor e adequado? Percentual de Valores Diários (%VD) O Percentual de Valores Diários (%VD) se refere à porcentagem de contribuição de cada nutriente contido no produto baseado em um cardápio diário de 2.000 kcal. O Quadro 4.4 apresenta os valores diários (para uma dieta de 2.000 kcal/dia) para os macronutrientes e alguns micronutrientes comumente reportados em tabelas nutricionais de alimentos. Quadro 4.4 | Valores Diários (VD) em gramas para uma dieta de 2.000 kcal/dia Nutriente VD Carboidratos 300 gramas Proteínas 75 gramas Gorduras totais 55 gramas Gorduras saturadas 22 gramas Colesterol 300 miligramas Fibra alimentar 25 gramas Cálcio 1.000 miligramas Ferro 14 miligramas Sódio 2.400 miligramas Gordura Trans* - * Não existe um valor de ingestão diária recomendada para gordura trans. Fonte: adaptado de Anvisa (2005). Assimile Não é necessário, e nem mesmo é o objetivo do %VD, preocupar-se em somar as quantidades de cada nutriente de cada alimento consumido, durante todo o dia, para se checar se as recomendações diárias estão sendo atingidas. Podemos até dizer que não seria nem viável. O objetivo do %VD é auxiliar na identificação de alimentos mais saudáveis ou menos, em acordo com as determinações do planejamento alimentar. A partir desses valores é possível também comparar alimentos similares no momento da escolha. Por exemplo, alimentos que apresentam um %VD mais alto de gorduras saturadas apresentam alto teor desse nutriente, enquanto um %VD menor indica um teor menor. 185 Medida caseira A indicação da medida caseira equivalente à porção considerada no rótulo é uma informação de extrema relevância para o maior entendimento, por parte do consumidor, das informações nutricionais fornecidas, uma vez que é mais aplicável e comum do que quantidades em quilos/gramas ou litros/mililitros. A indicação da medida caseira referente à porção indicada no rótulo é obrigatória. Legislação em rotulagem A legislação que regulariza a rotulagem de alimentos, determinada pela Anvisa, apresenta alguns princípios gerais que devem ser conhecidos para melhor compreensão dos rótulos de alimentos. Segundo a RDC nº 259 (BRASIL, 2002), os rótulos alimentares não devem conter ou ser descritos apresentando [...] vocábulos, sinais, denominações, símbolos, emblemas, ilustrações ou outras representações gráficas que possam tornar a informação falsa, incorreta, insuficiente, ou que possa induzir o consumidor a equívoco, erro, confusão ou engano, em relação à verdadeira natureza, composição, procedência, tipo, qualidade, quantidade, validade, rendi- mento ou forma de uso do alimento. (BRASIL, 2002, [s.p.]) Além disso, rótulos alimentares não devem atribuir a alimentos certas propriedades ou benefícios não comprovados cientificamente e não podem destacar características que sejam naturais do próprio alimento ou de alimento de natureza semelhante, seja a ausência ou a presença de compo- nentes específicos. A legislação que regula a rotulagem de alimentos proíbe também que sejam ressaltados em alimentos processados componentes que foram adicio- nados como parte do processo industrial e/ou tecnológico na produção ou fabricação do alimento em questão. É vedado também ressaltar caracterís- ticas que distorçam os reais ou possíveis benefícios que certos componentes possam ter quando consumidos em quantidades divergentes da porção fornecida pelo alimento ou quando consumidos de forma suplementar, com dose e frequências terapêuticas. É proibido ainda indicar que determinado produto alimentício tem benefícios medicinais ou recomendar, no rótulo, o consumo do produto com o propósito de prevenir ou curar doenças ou de melhorar o estado de saúde. 186 Informações nutricionais As informações nutricionais devem obrigatoriamente apresentar o percentual de valores diários (%VD) para cada macronutriente, incluindo porção indicada com sua respectiva medida caseira. As informações nutri- cionais no rótulo de alimentos devem seguir as regras estabelecidas pela Resolução RDC nº 360 (BRASIL, 2003b) – Regulamento técnico sobre rotulagem nutricional de alimentos embalados. Algumas regras importantes e obrigatórias, com o intuito de melhorar o acesso do consumidor às informações nutricionais e a compreensão satisfa- tória, incluem: • Apresentação da informação nutricional estruturada no formato de tabela (horizontal ou vertical) ou linear, caso o espaço não seja suficiente para a tabela. • Apresentação de todos os nutrientes da mesma forma em relação ao tamanho e destaque. • Apresentação de medida caseira. • Informações em português, com letras legíveis, em lugar visível e com cor contrastante com o fundo. • Apresentação da quantidade do nutriente em questão (informação nutricional complementar), caso seja feita a declaração de proprie- dades nutricionais especiais ou benéficas de algum nutriente ou ingrediente. • A possibilidade de a quantidade de açúcares, polióis, amido e outros carboidratos também ser apresentada como porcentagem do total de carboidratos. De forma opcional, vitaminas e minerais podem ser apresentados quando presentes no alimento em quantidade igual ou maior do que 5% da Ingestão Diária Recomendada (IDR) por porção indicada. É recomendado pela ANVISA a apresentação das informações nutricionais do conteúdo de coles- terol, cálcio e ferro também para produtos que possuam quantidade igual ou superior a 5% da IDR destes nutrientes (BRASIL, 2003b). Agora veja um modelo linear de como as informações nutricionais devem ser apresentadas no rótulo dos alimentos: Informação Nutricional: Porção g ou m (medida caseira); Valor energético.... kcal =…….kJ (...%VD); Carboidratos ...g (...%VD); Proteínas ...g (...%VD); Gorduras totais ........g (...%VD); Gorduras saturadas. .. g (%VD); 187 Gorduras trans...g (VD não estabelecido); Fibra alimentar ...g (%VD); Sódio ..mg (%VD). *% Valores Diários com base em uma dieta de 2.000 kcal ou 8.400 kJ. Seus valores diários podem ser maiores ou menores dependendo de suas necessidades energéticas. Cálculos para a elaboração de rótulos de alimentos O primeiro passo para o cálculo das informações nutricionais de rótulos de alimentos é a identificação da porção de referência do alimento a partir da consulta na Tabela de Valores de Referência para Porções de Alimentos e Bebidas Embaladospara Fins de Rotulagem Nutricional. Veja a seguir um exemplo de cálculos para elaboração de rótulo para uma porção (uma fatia de 60 g) de bolo simples, disponibilizado pela Anvisa, em seu Manual de Orientação às Indústrias de Alimentos (ANVISA, 2005). Produto: bolo simples (produção de dez bolos, de 425 gramas cada). Ingredientes: 1.000 g de farinha de trigo; 800 g de açúcar refinado; 800 g de água; 500 g de ovos (10 unidades); 300 g de gordura vegetal hidrogenada; 200 g de coco ralado e 60 g de fermento em pó. Após consultar uma Tabela de Composição Química de Alimentos, é possível construir uma tabela de composição para cada ingrediente do produto em questão (Tabela 4.3). Tabela 4.3 | Tabela de composição para cada ingrediente do bolo Carboidratos (g) Proteínas (g) Gorduras totais (g) Gorduras saturadas (g) Fibra alimen- tar (g) Sódio (mg) Farinha de trigo 77,7 9,4 1,3 0,2 3,6 3 Açúcar refinado 99,9 0 0 0 0 1 Ovos 1,23 12,5 10 3,1 0 12 Gordura vegetal hidrogenada 0 0 100 23,3 0 0 Coco ralado 15,2 3,34 33,5 29,7 9,4 20 Fermento em pó 37,8 5,2 0 0 0 11,8 Fonte: adaptada de Anvisa (2005). 188 Com os dados de cada ingrediente da tabela nutricional teórica, temos condições de calcular a quantidade total do produto final. Cálculo da quantidade de carboidratos Farinha de trigo (1.000 gramas) Açúcar refinado (800 gramas) 100g---------- 77,7 g 1000g ---------- x x =(1000 x 77,7)/100 x = 777 g 100g ---------- 99,9g 800g --------- x x =(800 x 99,9)/100 x = 799,2 g Ovos (500 gramas) Gordura vegetal hidrogenada (300 gramas) 100g ---------- 1,23g 500g---------- x x =(500 x 1,23)/100 x = 6,15 g 100g ---------- 0g 300g ---------- x x =(300 x x)/100 x = 0 g Coco ralado (200 gramas) Fermento em pó (60 gramas) 100g --------- 15,2g 200g ---------- x x =(200 x 15,2)/100 x = 30, 4 g 100g --------- 37,8g 60g---------- x x =(60 x 37,8)/100 x = 22,68g TOTAL =1635, 43g A porção do bolo é de 60 g e o rendimento total da receita é de 10 bolos de 425 gramas, ou seja, 4.250 gramas. A quantidade total de carboidratos da receita é de 1.635,43 gramas. Dessa forma, sendo que 10 bolos, de 425 gramas cada, apresentam, no total, 1.635,43 gramas de carboidratos, em 60 g (porção do bolo), teremos: 4250g (bolo) -------- 1635, 43g(carboidratos) 60g (bolo) -------- x g (carboidratos) x =(1635, 43 x 60) / 4250 x = 23,088g 189 A porção de 60 g de bolo = 23,088 g de carboidratos. Exatamente o mesmo processo é então repetido para proteínas, gorduras totais, gorduras saturadas, fibras alimentares e sódio. Como calcular o valor energético Como vimos anteriormente, a quantidade do valor energético para carboi- dratos é de 4 kcal/g, de 4 kcal/g para proteínas e de 9 kcal/g para gorduras. Com os dados calculados anteriormente, referentes aos carboidratos, às proteínas e às gorduras (nutrientes presentes nesse exemplo que serão fonte de calorias), é possível calcular o valor energético da porção, como demons- trado a seguir: Cálculo de kcal 1 porção de bolo (60 g) Carboidratos: 23,088g x 4 = 92,352kcal Proteínas: 2,348 g x 4 = 9,392kcal Gorduras totais: 6,070g x 9 = 54,630kcal Total por porção de 60 g de bolo: 156,374kcal Cálculo de kJ 1 kcal equivale a 4,2 kJ: 1 porção de bolo (60 g) 156,374 kcal -------- x 1 kcal -------- 4,2 kJ X = 656,7708 kJ Uma porção de 60 g de bolo fornece 156,374 kcal ou 656,7708 kJ de valor energético. Cálculo dos percentuais de Valores Diários (%VD) Outro exemplo disponibilizado pela Anvisa é o do cálculo dos percentuais de Valores Diários (%VD) baseado na mesma receita de bolo do exemplo 190 anterior e nos valores diários de referência, apresentados anteriormente na Tabela 4.4: Tabela 4.4 | Cálculo dos percentuais de Valores Diários (%VD) Quantidade por porção Cálculo do %VD Valor energético 156 kcal 2000kcal --------- 100% 156kcal --------- x% x =(100 x 156)/2000 x% = 7,80% 657 kJ 8400kJ --------- 100% 657 kJ ---------- x% x =(100 x 657)/8400 x% = 7,82% Carboidratos 23 g 300g ---------- 100% 23g ---------- x% x =(100 x 23)/300 x% = 7,67% Proteínas 2,3 g 75g ---------- 100% 2,3g ---------- x% x =(100 x 2,3)/ 75 x% = 3,07 Gorduras totais 6,1 g 55g --------- 100% 6,1g ---------- x% x =(100 x 6,1)/55 x% =11,09 Gorduras saturadas 2,1g 22g --------- 100% 2,1g ---------- x% x =(100 x 2,1)/ 22 x% = 9,55 Fibra alimentar 0,8 g 25g ---------- 100% 0,8g ---------- x% x =(100 x 0,8)/ 25 x% = 3,2 Sódio 110 mg 2400mg ---------- 100% 110mg --------- x% x =(100 x 110)/ 2400 x% = 4,58 Fonte: Anvisa (2005). 191 É possível utilizar apenas uma declaração simplificada de nutrientes quando o produto alimentício não apresenta quantidades significativas de determinados nutrientes. Nesse caso, a informação nutricional do nutriente em questão pode ser substituída por “Não contém quantidade(s) significa- tiva(s) de... (valor energético e ou nome(s) do(s) nutrientes(s))” (ANVISA, 2005, p. 30). Pesquise mais Existem diversas tabelas de composição dos alimentos que podem ser utilizadas e consultadas no cálculo das informações nutricionais, como as indicadas a seguir: NÚCLEO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM ALIMENTAÇÃO (NEPA); UNIVER- SIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS (UNICAMP). Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TACO) – Nepa/Unicamp/ MS/MDS. Campinas: NEPA – UNICAMP, 2011. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa e Orçamentos Familiares 2008 – 2009: Tabelas de Composição Nutri- cional dos Alimentos Consumidos no Brasil. Rio de janeiro: IGBE, 2011a. PHILIPPI, S. T. Tabela de Composição de Alimentos: suporte para decisão nutricional. São Paulo: Coronário, 2001. Tabela de valores de referência para porções de alimentos e bebidas embalados para fins de rotulagem nutricional, disponível no Anexo da Resolução – RDC nº 359, de 23 de dezembro de 2003: BRASIL. Ministério da Saúde (MS). Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Resolução RDC nº 359, de 23 de dezembro de 2003. Brasília, DF: Anvisa/MS, 2003. Sem medo de errar Ao orientar o paciente sr. Hugo, você deve explicar cada informação contida no rótulo dos alimentos, como foram estabelecidas e qual o signi- ficado dessas informações no dia a dia e na hora da escolha de alimentos. Mais ainda, é importante esclarecer que a ordem da lista de ingredientes é decrescente e, portanto, os primeiros alimentos listados são aqueles contidos em maior quantidade proporcional no produto. É preciso também orientar quanto à diferença entre valores da tabela de informação nutricional referentes à porção recomendada comparados à quantidade total da embalagem. Em relação ao exemplo do pão de forma, você pode orientar que o sr. Hugo sempre confira na lista de ingredientes se o primeiro ingrediente é 192 farinha de trigo integral, pois isso significará que é o tipo de farinha presente em maior quantidade na composição do alimento. Avançando na prática Leitura de rótulo alimentar Durante a consulta, sra. Maria relata estar confusa sobre quantas calorias está ingerindo ao comer as quatro torradas sugeridos no plano alimentar que você passou a ela. A Tabela de Informação Nutricional no pacote da torrada diz apenas o valor para uma porção de duas unidades. Você deve orientá-la, buscando responder às seguintes questões: qual o valor calórico que está sendo ingerido pela paciente ao consumir quatro torradas? Como você pode ensiná-la, de forma clara e simples, a identificar o valor da porção de quatro torradas do seu plano alimentar? Resolução da situação-problema A porção de quatro torradas do plano alimentar da sra. Maria é o dobro da porção indicada na tabela nutricional.Portanto, para determinar as quantidades de cada nutriente ingeridas por ela em uma porção de quatro torradas, basta multiplicar os valores da tabela por dois. Você deve, então, explicar de forma clara à sra. Maria que a quantidade da porção será sempre identificada com medida caseira e também em gramas. Dê um exemplo numérico para que fique mais fácil de entender: se duas torradas fornecerem 90 kcal, quatro torradas (o dobro) fornecerão 180 kcal (o dobro de calorias, ou seja, 90 kcal vezes 2). 193 Referências AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (Anvisa). Rotulagem nutricional obrigatória: manual de orientação às indústrias de alimentos, 2º versão. Brasília, DF: Ministério da Saúde, Universidade de Brasília, 2005. BELLÚ, L. G. Food losses and waste: issues and policy options. FAO. Rome, 2016. Disponível em: www.fao.org/docs/up/easypol/882/defining_development_paradigms_102en.pdf. Acesso em: 19 set. 2019. BLACKBURN, G. 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