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25 - Traumatologia Forense I

Trecho sobre Traumatologia Forense que define trauma e lesão, aborda energias mecânicas, classifica lesões (contundentes, cortantes, perfurantes e mistas), modos ativo/passivo, sinais defensivos e de assinatura, e distingue lesões intra vitam/post mortem.

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Traumatologia Forense 
A Traumatologia Forense estuda os traumas, lesões, instrumentos e ações 
vulnerantes, visando a elucidar a dinâmica dos fatos. Trauma é o resultado 
do acréscimo e/ou da ação vulnerante que possui energia capaz de 
produzir lesão, adaptando os ensinamentos de Roberto Blanco. Lesão 
nada mais será que o dano tecidual temporário ou permanente, 
resultante do trauma. 
ENERGIAS MECÂNICAS 
As energias de ordem mecânica são aquelas que, incidindo sobre um 
corpo, são capazes de modificar o seu estado de repouso ou movimento. 
Podem atuar de várias maneiras, conforme a natureza dos agentes que as 
veiculam. 
As lesões podem ser produzidas por diferentes espécies de agentes físicos. 
Tais ações mecânicas, que agem essencialmente pela alteração da inércia, 
dividem-se em simples e mistas. 
As ações simples podem ser de três espécies: contundentes, cortantes e 
perfurantes. As ações mistas resultam da combinação das primeiras, 
podendo ser cortocontundentes, perfurocortantes e 
perfurocontundentes. 
Nas contusões ativas, o instrumento vulnerante vem de encontro à 
superfície corpórea. Ex.: soco. Nas contusões passivas, a superfície 
corpórea (a vítima) vai de encontro ao instrumento vulnerante. Ex.: a 
pessoa cai e bate com a cabeça no solo. Assim, a atuação pode ser 
ativa/direta, passiva/indireta ou mista (a combinação de ambas). 
A localização das lesões pode ajudar a sugerir a elucidação da verdade e as 
circunstâncias do incidente: 
• lesões na face interna das coxas e nádegas: podem sugerir delitos 
sexuais; 
• lesões semilunares (estigmas ungueais) no pescoço: sugerem 
esganadura; 
• lesões no antebraço e nas mãos (principalmente nas palmas): lesões de 
defesa. 
A forma das lesões, isto é, a sua configuração (desenho, extensão, 
profundidade etc.) permite caracterizar razoavelmente o instrumento 
utilizado. Além disso, existem as “lesões com assinatura”, em que o 
instrumento da agressão deixa marca peculiar e inconfundível. Ex.: 
chinelos, martelos, ferros de passar roupa, saltos de sapato, cassetete. 
Assim também ocorre com os estigmas ungueais, indicando esganadura 
ou agressão a unhada e com os atropelamentos (que deixam lesões 
extensas, profundas e pergaminhadas como surpefície de pneus). 
As lesões também podem ser intra vitam ou post mortem, ou seja, 
produzidas em vítima viva ou falecida, ou que faleceu logo após ou em 
consequência da agressão. Podemos diferenciar as lesões porque nas 
lesões intra vitam existe reação vital, que não é observada nas lesões post 
mortem. As lesões em vida cobrem-se de camada seroalbuminosa, 
sangue, formam crosta etc. No cadáver, ou quando a vítima morre logo 
após a lesão, as escoriações, por exemplo, pergaminham-se, isto é, ficam 
com aspecto semelhante ao couro ou pergaminho. 
Diante de tudo isso, é perceptível o grande valor do estudo dos aspectos e 
características das lesões. As lesões podem, conforme a hipótese, fornecer 
elementos informativos sobre: 
a) ponto ou área onde se produziu violência; 
b) a data provável do evento; 
c) a vida ou morte da vítima, quando da agressão; 
d) a forma do instrumento; 
e) a natureza do atentado ou ação; 
f) outros elementos. 
Observação importante. O dado essencial caracterizador da natureza de 
uma lesão não é o instrumento em si, mas a forma de utilização do 
mesmo. Certos instrumentos são tipicamente causadores de tal ou qual 
espécie de lesão, mas o que definirá efetivamente a natureza delas será a 
forma de emprego do objeto. Explica-se: uma agressão a machadadas 
gera, em princípio, lesões cortocontusas. Porém, se o agressor usar 
apenas o cabo, a lesão será contundente; se usar apenas a lâmina 
(deslizando-a sobre a vítima), a lesão será cortante. Assim, nas provas e na 
atividade profissional, é preciso cuidado para não confundir o instrumento 
utilizado com a ação produzida, sendo esta última o que determinará a 
espécie da lesão. 
Outro ponto importante a ser ressaltado é, segundo Roberto Blanco, o 
estudo da área da superfície atingida. De acordo com ele, “a pressão 
exercida em um ponto é igual à força aplicada dividida pela superfície de 
aplicação”. Com isso, temos que, com a mesma quantidade de força 
aplicada, podem-se ter lesões completamente diferentes, dependendo da 
área corpórea onde se dá o impacto (ex.: nádegas e crânio) e da área do 
objeto que é usado para lesionar (ex.: salto de sapato masculino e 
feminino). 
Lesões e mortes produzidas por ação contundente 
Instrumento contundente é todo objeto rombo, capaz de agir 
traumaticamente sobre o organismo. 
A ação causadora da lesão contusa pode ser por pressão, por 
deslizamento ou ambas. A regra é a causação por instrumento duro e 
rombo, como é o caso de paus, pedras, barras de ferro etc. 
Vale consignar que, excepcionalmente, a água e o ar podem causar lesões 
contundentes. Não é incomum pessoas terem lesões, muitas delas graves, 
derivadas de mergulhos, cujo choque com a água vem a causar danos. A 
água funciona como um verdadeiro “muro” em que a pessoa se choca, a 
depender de velocidade, altura, incidência etc. O deslocamento abrupto 
de ar, causado por explosões, também pode causar lesões contundentes. 
Os instrumentos contundentes têm como seus maiores exemplos, como já 
dissemos, paus, pedras, martelos, bastões, bengalas, barras de ferro etc. 
Também são contundentes as ações provocadas por chutes, socos, 
cabeçadas ou outras formas de ataque e defesa usadas pelo homem. 
Sabemos que outros podem ser os geradores dessas lesões, como, por 
exemplo, os atropelamentos. Por fim, note-se que também pode 
funcionar como instrumento contundente uma superfície resistente 
contra a qual o corpo se choque (uma parede, o chão), nas lesões 
passivas. 
Não deve ser esquecida, em momento algum, a classificação quanto à 
atuação ativa ou passiva dos instrumentos. Reprisando, nas contusões 
ativas o instrumento vulnerante vem de encontro à superfície corpórea 
(ex.: um martelo que atinja o rosto da vítima); nas contusões passivas, a 
superfície corpórea (a vítima) vai de encontro ao instrumento vulnerante 
(ex.: a pessoa se lança contra um muro, a vítima cai e sua cabeça vai de 
encontro ao solo, ou, ainda, o indivíduo que despenca de um precipício). 
Também são chamadas de diretas (ativas) ou indiretas (passivas). Há a 
combinação de ambas, as lesões mistas. 
Em geral, as lesões são classificadas também em leves (superficiais) ou 
profundas. 
Como já foi mencionado, a localização das lesões tem grande valor 
médico- -legal, porque ajuda na elucidação da verdade. Lesões na face 
interna das coxas, nas nádegas: dão notícia, geralmente, de agressões 
sexuais, como estupro consumado ou tentado. 
Lesões semilunares no pescoço noticiam tentativa de esganadura. Lesões 
no antebraço e nas mãos (principalmente nas palmas) podem ser as 
conhecidas lesões de defesa. Lesões de defesa, diga-se logo, são aquelas 
resultantes do esforço da vítima em se defender. Por exemplo, ao tentar 
evitar uma agressão a facadas, a vítima certamente terá lesões em suas 
mãos e braços. Roberto Blanco anota ainda as lesões de hesitação que, de 
acordo com ele, são aquelas produzidas pela hesitação, incerteza da 
vítima em produzir uma lesão fatal; são as lesões características de 
suicídio. 
A depender de inúmeros fatores, principalmente a forma e força da 
agressão, existirão diversas modalidades de lesões com repercussões e 
consequências diferentes, que devem ser estudadas de acordo com suas 
particularidades: rubefações, escoriações, equimoses, bossas e 
hematomas, feridas contusas, fraturas, luxações, subluxações, roturas 
viscerais e esmagamentos. 
1. RUBEFAÇÃO – Congestão de pouca intensidade. Ex.: uma bofetada de 
mão aberta. 
Por desaparecer em pouco tempo (minutos ou horas), é preciso rapidez na 
efetivação do exame pericial para configurá-la em função do seu caráter 
fugaz. 
Há, em grau menor, o eritemaleigamente chamado de vermelhidão ou 
eritema traumático, que é a forma mais insignificante ou branda de lesão. 
Tanto é assim que os tribunais, em geral, sequer consideram o eritema 
como ofensa à integridade física ou à saúde. Por vezes, nesse caso, punem 
a agressão como contravenção (vias de fato). 
Em um grau um pouco maior que o eritema traumático, encontraremos a 
rubefação, que desaparece com cerca de seis a 24 horas, dependendo da 
área ou local atingido, da sua irrigação sanguínea e da intensidade da ação 
contundente. 
2. ESCORIAÇÃO – O instrumento contundente age tangencialmente à 
superfície corpórea, produzindo o arrancamento da epiderme, deixando a 
derme descoberta. Em suma, é toda perda epidérmica traumática. A 
epiderme é a primeira camada do tecido humano, ao passo que a derme é 
a segunda. 
Entre a epiderme e a derme, encontramos a crista da papila, onde ficam 
os vasos sanguíneos, linfáticos e os terminais nervosos. 
Nas escoriações, que são feridas contusas superficiais, não ocorre 
cicatrização, mas sim regeneração. A pele se regenera, de baixo para cima. 
No início deste processo, é possível determinar-se a data da lesão. 
A crosta se forma com a substância que escorre da escoriação. Ela nos 
fornece dois importantes elementos de informação: sua cor e o seu 
deslocamento. Com o tempo, a crosta vai escurecendo e se descolando, 
das bordas para o centro. 
Quando a lesão atinge só a epiderme, temos a ruptura de vasos linfáticos, 
ficando a crosta amarelada. Na lesão que atinge a derme, a crosta já é 
pardo- -avermelhada, pois a lesão atinge os vasos sanguíneos que passam 
na derme. Havendo pressão acentuada no local, a lesão ficará 
apergaminhada, tanto no vivo quanto no morto. Não havendo infecção 
(que gera tom amarelado e purulento), a regeneração leva de 20 a 30 dias. 
Pouco antes da morte ou após esta, não há tempo para a formação da 
crosta. Forma-se apenas uma placa apergaminhada. Nos casos de 
comprometimento da derme, há resolução com formação de cicatriz. 
Segundo Roberto Blanco, é importante a observação da forma, da 
localização e da evolução das escoriações, pois podem determinar como 
foram produzidas, o motivo do seu aparecimento e a data em que foram 
produzidas. 
3. EQUIMOSE – O agente vulnerandi age com maior intensidade do 
que na rubefação, mas ainda se preserva a integridade e a elasticidade da 
pele. Os vasos superficiais rompem-se, causando extravasamento de 
sangue internamente, o qual fica entremeado nas tramas teciduais. O 
fenômeno dá coloração à pele, em virtude da transparência desta. A pele 
não se arrebenta, mas sim os vasos abaixo dela. 
Em resumo, equimoses são derrames sanguíneos nos quais o sangue 
extravasado se infiltra e coagula nas malhas dos tecidos do corpo. 
As equimoses podem ser superficiais ou profundas. Há também as 
equimoses causadas pela emoção (equimoses emotivas). 
A equimose à distância ocorre quando a lesão está em um lugar e a 
equimose, em outro. Isto acontece pela ação da gravidade sobre o sangue. 
Saiba-se também que as equimoses profundas podem levar de quatro a 
cinco dias para aparecer sob a pele. 
Espectro equimótico é a mudança da coloração da equimose, com o 
passar do tempo. O estudo da variação da cor da equimose no processo 
de recuperação é útil para determinar a data aproximada da lesão. Foi 
observado primeiramente por Legrand du Saulle, que emprestou seu 
nome ao fenômeno. 
Este fenômeno só ocorre nos vivos. Toma por base lesões de tamanho 
médio. A mudança é causada pela decomposição do sangue. O pigmento 
da hemácia (glóbulo vermelho) tem ferro, que é o elemento cuja 
decomposição dá a variação cromática, ao longo do tempo e da 
recuperação tecidual. O fenômeno ocorre até haver a reabsorção 
completa do sangue extravasado pelo organismo. 
As equimoses nas regiões conjuntival e da bolsa escrotal, por serem estas 
regiões densamente vascularizadas, não passam pelo espectro 
equimótico. Normalmente, estas regiões ficam vermelhas até a cura. 
O ex-diretor do IML, Iran Barbieri, apresenta a seguinte sequência: cor 
avermelhada (um a dois dias), cor azulada (três a cinco dias), cor violácea 
(seis a oito dias), cor esverdeada (nove a 12 dias), cor amarelada (13 a 20 
dias) e, após este prazo, volta a pele à coloração normal. 
Hélio Gomes dá a seguinte sequência na coloração: vermelho-escuro, 
violeta, negro, azul, verde, amarelo. Flamínio Fávero3 apresenta uma 
quase igual: vermelho-escuro, roxo, violáceo, azul, verde e amarelo. 
Devergie e Tourdes, embora com datações diferentes, consignam a 
seguinte ordem: vermelho, violáceo, azulado, esverdeado, amarelado. Os 
prazos, lembre-se, variam em consequência, principalmente, da extensão 
da equimose. 
É importante o conhecimento sobre como diferençar uma equimose intra 
vitam de uma equimose post mortem. Naquela, o sangue se coagula entre 
as malhas dos tecidos, existe infiltração leucocitária na região, verifica-se o 
índice de Verderau, há reação inflamatória etc.; já na equimose post 
mortem, o sangue não se coagula, não existe infiltração leucocitária, não 
há alteração do índice de Verderau, não há reação inflamatória etc. 
Roberto Blanco anota os tipos especiais de equimoses. 
a) Petéquias – equimoses puntiformes, como cabeças de alfinete, 
frequentes nas mortes rápidas, septicemias, asfixias, 
coqueluche.Decorrem do aumento da permeabilidade dos vasos capilares 
por hipoxia (diminuição do oxigênio) e/ou aumento da pressão nestes 
vasos (hipertensão capilar). 
b) Manchas equimóticas lenticulares de Tardieu – têm o tamanho de uma 
lentilha, sendo patognomônicas de asfixias mecânicas do tipo sufocação 
direta (patognomônicas vem de patognomonia, que é o estudo dos sinais 
e/ou sintomas considerados característicos das doenças). 
c) Manchas subpleurais de Paltauf – ocorre nos casos de afogamento e 
insuficiência respiratória aguda. São extensas e de contornos irregulares. 
d) Cianose cérvico-facial ou máscara equimótica de Morestin – ocorre 
nos casos de compressão do tórax (sufocação indireta). A pressão do tórax 
mantém os vasos cervicais e faciais cheios de sangue, causando o 
fenômeno. 
e) Equimoses perianais ou vulvo-vaginais – ocorrem como decorrência de 
parasitoses locais e das alterações dermatológicas provenientes da coceira 
ou prurido, que obrigam o seu portador a coçar e arranhar a região, 
sobretudo em infecções, comuns no Brasil, pelo verme oxiúros. Não 
confundir com aquelas causadas por atos libidinosos. 
f) Mobilidade equimótica – noticiam-se aqui as equimoses que se 
deslocam do ponto de contusão para regiões mais afastadas e as 
equimoses profundas, que só se fazem visíveis com quatro a cinco dias. 
g) Equimose retrofaringeana de Brouardel – indica constrição do pescoço 
(compressão da faringe contra a coluna vertebral). 
h) Equimose nos tecidos moles subjacentes à pele do pescoço – indica 
agressão, por estrangulamento, enforcamento, esganadura ou mera 
contusão local. 
i) Equimoses de etiologia não mecânica – devem-se diferenciar as 
equimoses decorrentes de trauma mecânico ou psíquico e as chamadas 
equimoses espontâneas. As equimoses não traumáticas são chamadas de 
púrpura e decorrem de entidades mórbidas que evoluem deixando 
manchas arroxeadas (equimoses) pelo corpo. 
j) Equimose à distância – equimoses que surgem em pontos 
completamente diferentes do local onde ocorreu a lesão. Podem decorrer 
dos efeitos sistêmicos que o trauma exerce no organismo ou do 
escoamento de sangue, em razão da força da gravidade. 
Roberto Blanco classifica, ainda, como tipos especiais de equimose, os 
hematomas e as bossas sanguíneas (o material que se acumula na 
cavidade neoformada é o sangue) e serosa (o material que se acumula na 
cavidade é a linfa extravasada).

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