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Traumatologia Forense A Traumatologia Forense estuda os traumas, lesões, instrumentos e ações vulnerantes, visando a elucidar a dinâmica dos fatos. Trauma é o resultado do acréscimo e/ou da ação vulnerante que possui energia capaz de produzir lesão, adaptando os ensinamentos de Roberto Blanco. Lesão nada mais será que o dano tecidual temporário ou permanente, resultante do trauma. ENERGIAS MECÂNICAS As energias de ordem mecânica são aquelas que, incidindo sobre um corpo, são capazes de modificar o seu estado de repouso ou movimento. Podem atuar de várias maneiras, conforme a natureza dos agentes que as veiculam. As lesões podem ser produzidas por diferentes espécies de agentes físicos. Tais ações mecânicas, que agem essencialmente pela alteração da inércia, dividem-se em simples e mistas. As ações simples podem ser de três espécies: contundentes, cortantes e perfurantes. As ações mistas resultam da combinação das primeiras, podendo ser cortocontundentes, perfurocortantes e perfurocontundentes. Nas contusões ativas, o instrumento vulnerante vem de encontro à superfície corpórea. Ex.: soco. Nas contusões passivas, a superfície corpórea (a vítima) vai de encontro ao instrumento vulnerante. Ex.: a pessoa cai e bate com a cabeça no solo. Assim, a atuação pode ser ativa/direta, passiva/indireta ou mista (a combinação de ambas). A localização das lesões pode ajudar a sugerir a elucidação da verdade e as circunstâncias do incidente: • lesões na face interna das coxas e nádegas: podem sugerir delitos sexuais; • lesões semilunares (estigmas ungueais) no pescoço: sugerem esganadura; • lesões no antebraço e nas mãos (principalmente nas palmas): lesões de defesa. A forma das lesões, isto é, a sua configuração (desenho, extensão, profundidade etc.) permite caracterizar razoavelmente o instrumento utilizado. Além disso, existem as “lesões com assinatura”, em que o instrumento da agressão deixa marca peculiar e inconfundível. Ex.: chinelos, martelos, ferros de passar roupa, saltos de sapato, cassetete. Assim também ocorre com os estigmas ungueais, indicando esganadura ou agressão a unhada e com os atropelamentos (que deixam lesões extensas, profundas e pergaminhadas como surpefície de pneus). As lesões também podem ser intra vitam ou post mortem, ou seja, produzidas em vítima viva ou falecida, ou que faleceu logo após ou em consequência da agressão. Podemos diferenciar as lesões porque nas lesões intra vitam existe reação vital, que não é observada nas lesões post mortem. As lesões em vida cobrem-se de camada seroalbuminosa, sangue, formam crosta etc. No cadáver, ou quando a vítima morre logo após a lesão, as escoriações, por exemplo, pergaminham-se, isto é, ficam com aspecto semelhante ao couro ou pergaminho. Diante de tudo isso, é perceptível o grande valor do estudo dos aspectos e características das lesões. As lesões podem, conforme a hipótese, fornecer elementos informativos sobre: a) ponto ou área onde se produziu violência; b) a data provável do evento; c) a vida ou morte da vítima, quando da agressão; d) a forma do instrumento; e) a natureza do atentado ou ação; f) outros elementos. Observação importante. O dado essencial caracterizador da natureza de uma lesão não é o instrumento em si, mas a forma de utilização do mesmo. Certos instrumentos são tipicamente causadores de tal ou qual espécie de lesão, mas o que definirá efetivamente a natureza delas será a forma de emprego do objeto. Explica-se: uma agressão a machadadas gera, em princípio, lesões cortocontusas. Porém, se o agressor usar apenas o cabo, a lesão será contundente; se usar apenas a lâmina (deslizando-a sobre a vítima), a lesão será cortante. Assim, nas provas e na atividade profissional, é preciso cuidado para não confundir o instrumento utilizado com a ação produzida, sendo esta última o que determinará a espécie da lesão. Outro ponto importante a ser ressaltado é, segundo Roberto Blanco, o estudo da área da superfície atingida. De acordo com ele, “a pressão exercida em um ponto é igual à força aplicada dividida pela superfície de aplicação”. Com isso, temos que, com a mesma quantidade de força aplicada, podem-se ter lesões completamente diferentes, dependendo da área corpórea onde se dá o impacto (ex.: nádegas e crânio) e da área do objeto que é usado para lesionar (ex.: salto de sapato masculino e feminino). Lesões e mortes produzidas por ação contundente Instrumento contundente é todo objeto rombo, capaz de agir traumaticamente sobre o organismo. A ação causadora da lesão contusa pode ser por pressão, por deslizamento ou ambas. A regra é a causação por instrumento duro e rombo, como é o caso de paus, pedras, barras de ferro etc. Vale consignar que, excepcionalmente, a água e o ar podem causar lesões contundentes. Não é incomum pessoas terem lesões, muitas delas graves, derivadas de mergulhos, cujo choque com a água vem a causar danos. A água funciona como um verdadeiro “muro” em que a pessoa se choca, a depender de velocidade, altura, incidência etc. O deslocamento abrupto de ar, causado por explosões, também pode causar lesões contundentes. Os instrumentos contundentes têm como seus maiores exemplos, como já dissemos, paus, pedras, martelos, bastões, bengalas, barras de ferro etc. Também são contundentes as ações provocadas por chutes, socos, cabeçadas ou outras formas de ataque e defesa usadas pelo homem. Sabemos que outros podem ser os geradores dessas lesões, como, por exemplo, os atropelamentos. Por fim, note-se que também pode funcionar como instrumento contundente uma superfície resistente contra a qual o corpo se choque (uma parede, o chão), nas lesões passivas. Não deve ser esquecida, em momento algum, a classificação quanto à atuação ativa ou passiva dos instrumentos. Reprisando, nas contusões ativas o instrumento vulnerante vem de encontro à superfície corpórea (ex.: um martelo que atinja o rosto da vítima); nas contusões passivas, a superfície corpórea (a vítima) vai de encontro ao instrumento vulnerante (ex.: a pessoa se lança contra um muro, a vítima cai e sua cabeça vai de encontro ao solo, ou, ainda, o indivíduo que despenca de um precipício). Também são chamadas de diretas (ativas) ou indiretas (passivas). Há a combinação de ambas, as lesões mistas. Em geral, as lesões são classificadas também em leves (superficiais) ou profundas. Como já foi mencionado, a localização das lesões tem grande valor médico- -legal, porque ajuda na elucidação da verdade. Lesões na face interna das coxas, nas nádegas: dão notícia, geralmente, de agressões sexuais, como estupro consumado ou tentado. Lesões semilunares no pescoço noticiam tentativa de esganadura. Lesões no antebraço e nas mãos (principalmente nas palmas) podem ser as conhecidas lesões de defesa. Lesões de defesa, diga-se logo, são aquelas resultantes do esforço da vítima em se defender. Por exemplo, ao tentar evitar uma agressão a facadas, a vítima certamente terá lesões em suas mãos e braços. Roberto Blanco anota ainda as lesões de hesitação que, de acordo com ele, são aquelas produzidas pela hesitação, incerteza da vítima em produzir uma lesão fatal; são as lesões características de suicídio. A depender de inúmeros fatores, principalmente a forma e força da agressão, existirão diversas modalidades de lesões com repercussões e consequências diferentes, que devem ser estudadas de acordo com suas particularidades: rubefações, escoriações, equimoses, bossas e hematomas, feridas contusas, fraturas, luxações, subluxações, roturas viscerais e esmagamentos. 1. RUBEFAÇÃO – Congestão de pouca intensidade. Ex.: uma bofetada de mão aberta. Por desaparecer em pouco tempo (minutos ou horas), é preciso rapidez na efetivação do exame pericial para configurá-la em função do seu caráter fugaz. Há, em grau menor, o eritemaleigamente chamado de vermelhidão ou eritema traumático, que é a forma mais insignificante ou branda de lesão. Tanto é assim que os tribunais, em geral, sequer consideram o eritema como ofensa à integridade física ou à saúde. Por vezes, nesse caso, punem a agressão como contravenção (vias de fato). Em um grau um pouco maior que o eritema traumático, encontraremos a rubefação, que desaparece com cerca de seis a 24 horas, dependendo da área ou local atingido, da sua irrigação sanguínea e da intensidade da ação contundente. 2. ESCORIAÇÃO – O instrumento contundente age tangencialmente à superfície corpórea, produzindo o arrancamento da epiderme, deixando a derme descoberta. Em suma, é toda perda epidérmica traumática. A epiderme é a primeira camada do tecido humano, ao passo que a derme é a segunda. Entre a epiderme e a derme, encontramos a crista da papila, onde ficam os vasos sanguíneos, linfáticos e os terminais nervosos. Nas escoriações, que são feridas contusas superficiais, não ocorre cicatrização, mas sim regeneração. A pele se regenera, de baixo para cima. No início deste processo, é possível determinar-se a data da lesão. A crosta se forma com a substância que escorre da escoriação. Ela nos fornece dois importantes elementos de informação: sua cor e o seu deslocamento. Com o tempo, a crosta vai escurecendo e se descolando, das bordas para o centro. Quando a lesão atinge só a epiderme, temos a ruptura de vasos linfáticos, ficando a crosta amarelada. Na lesão que atinge a derme, a crosta já é pardo- -avermelhada, pois a lesão atinge os vasos sanguíneos que passam na derme. Havendo pressão acentuada no local, a lesão ficará apergaminhada, tanto no vivo quanto no morto. Não havendo infecção (que gera tom amarelado e purulento), a regeneração leva de 20 a 30 dias. Pouco antes da morte ou após esta, não há tempo para a formação da crosta. Forma-se apenas uma placa apergaminhada. Nos casos de comprometimento da derme, há resolução com formação de cicatriz. Segundo Roberto Blanco, é importante a observação da forma, da localização e da evolução das escoriações, pois podem determinar como foram produzidas, o motivo do seu aparecimento e a data em que foram produzidas. 3. EQUIMOSE – O agente vulnerandi age com maior intensidade do que na rubefação, mas ainda se preserva a integridade e a elasticidade da pele. Os vasos superficiais rompem-se, causando extravasamento de sangue internamente, o qual fica entremeado nas tramas teciduais. O fenômeno dá coloração à pele, em virtude da transparência desta. A pele não se arrebenta, mas sim os vasos abaixo dela. Em resumo, equimoses são derrames sanguíneos nos quais o sangue extravasado se infiltra e coagula nas malhas dos tecidos do corpo. As equimoses podem ser superficiais ou profundas. Há também as equimoses causadas pela emoção (equimoses emotivas). A equimose à distância ocorre quando a lesão está em um lugar e a equimose, em outro. Isto acontece pela ação da gravidade sobre o sangue. Saiba-se também que as equimoses profundas podem levar de quatro a cinco dias para aparecer sob a pele. Espectro equimótico é a mudança da coloração da equimose, com o passar do tempo. O estudo da variação da cor da equimose no processo de recuperação é útil para determinar a data aproximada da lesão. Foi observado primeiramente por Legrand du Saulle, que emprestou seu nome ao fenômeno. Este fenômeno só ocorre nos vivos. Toma por base lesões de tamanho médio. A mudança é causada pela decomposição do sangue. O pigmento da hemácia (glóbulo vermelho) tem ferro, que é o elemento cuja decomposição dá a variação cromática, ao longo do tempo e da recuperação tecidual. O fenômeno ocorre até haver a reabsorção completa do sangue extravasado pelo organismo. As equimoses nas regiões conjuntival e da bolsa escrotal, por serem estas regiões densamente vascularizadas, não passam pelo espectro equimótico. Normalmente, estas regiões ficam vermelhas até a cura. O ex-diretor do IML, Iran Barbieri, apresenta a seguinte sequência: cor avermelhada (um a dois dias), cor azulada (três a cinco dias), cor violácea (seis a oito dias), cor esverdeada (nove a 12 dias), cor amarelada (13 a 20 dias) e, após este prazo, volta a pele à coloração normal. Hélio Gomes dá a seguinte sequência na coloração: vermelho-escuro, violeta, negro, azul, verde, amarelo. Flamínio Fávero3 apresenta uma quase igual: vermelho-escuro, roxo, violáceo, azul, verde e amarelo. Devergie e Tourdes, embora com datações diferentes, consignam a seguinte ordem: vermelho, violáceo, azulado, esverdeado, amarelado. Os prazos, lembre-se, variam em consequência, principalmente, da extensão da equimose. É importante o conhecimento sobre como diferençar uma equimose intra vitam de uma equimose post mortem. Naquela, o sangue se coagula entre as malhas dos tecidos, existe infiltração leucocitária na região, verifica-se o índice de Verderau, há reação inflamatória etc.; já na equimose post mortem, o sangue não se coagula, não existe infiltração leucocitária, não há alteração do índice de Verderau, não há reação inflamatória etc. Roberto Blanco anota os tipos especiais de equimoses. a) Petéquias – equimoses puntiformes, como cabeças de alfinete, frequentes nas mortes rápidas, septicemias, asfixias, coqueluche.Decorrem do aumento da permeabilidade dos vasos capilares por hipoxia (diminuição do oxigênio) e/ou aumento da pressão nestes vasos (hipertensão capilar). b) Manchas equimóticas lenticulares de Tardieu – têm o tamanho de uma lentilha, sendo patognomônicas de asfixias mecânicas do tipo sufocação direta (patognomônicas vem de patognomonia, que é o estudo dos sinais e/ou sintomas considerados característicos das doenças). c) Manchas subpleurais de Paltauf – ocorre nos casos de afogamento e insuficiência respiratória aguda. São extensas e de contornos irregulares. d) Cianose cérvico-facial ou máscara equimótica de Morestin – ocorre nos casos de compressão do tórax (sufocação indireta). A pressão do tórax mantém os vasos cervicais e faciais cheios de sangue, causando o fenômeno. e) Equimoses perianais ou vulvo-vaginais – ocorrem como decorrência de parasitoses locais e das alterações dermatológicas provenientes da coceira ou prurido, que obrigam o seu portador a coçar e arranhar a região, sobretudo em infecções, comuns no Brasil, pelo verme oxiúros. Não confundir com aquelas causadas por atos libidinosos. f) Mobilidade equimótica – noticiam-se aqui as equimoses que se deslocam do ponto de contusão para regiões mais afastadas e as equimoses profundas, que só se fazem visíveis com quatro a cinco dias. g) Equimose retrofaringeana de Brouardel – indica constrição do pescoço (compressão da faringe contra a coluna vertebral). h) Equimose nos tecidos moles subjacentes à pele do pescoço – indica agressão, por estrangulamento, enforcamento, esganadura ou mera contusão local. i) Equimoses de etiologia não mecânica – devem-se diferenciar as equimoses decorrentes de trauma mecânico ou psíquico e as chamadas equimoses espontâneas. As equimoses não traumáticas são chamadas de púrpura e decorrem de entidades mórbidas que evoluem deixando manchas arroxeadas (equimoses) pelo corpo. j) Equimose à distância – equimoses que surgem em pontos completamente diferentes do local onde ocorreu a lesão. Podem decorrer dos efeitos sistêmicos que o trauma exerce no organismo ou do escoamento de sangue, em razão da força da gravidade. Roberto Blanco classifica, ainda, como tipos especiais de equimose, os hematomas e as bossas sanguíneas (o material que se acumula na cavidade neoformada é o sangue) e serosa (o material que se acumula na cavidade é a linfa extravasada).