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1 CADERNO DE RESUMOS E52 VI Encontro estadual de ensino de história. ensino e aprendizado de história hoje, perspectivas de futuro em tempos distópicos.. Caderno de resumos VI encontro, 25 a 27 de Outubro de 2021./ Org: Alcinea da Silva França Fraga...[et al.] - - Vitória da Conquista, 2021. 1. Ensino de história – Caderno de resumos. 2. VI Encontro Estadual. I. ANPUH. II. UESB. III. Fraga, Alcinea da Silva França. IV. T. CDD: 907 Juliana Teixeira de Assunção– CRB-5/189 Bibliotecária – UESB - Campus de Vitória da Conquista-BA 3 COMISSÃO ORGANIZADORA Alcinea da Silva França Fraga- PPGED/UESB Célia Santana Silva - UNEB Cilmara Lédo de Araújo –PROFHISTÓRIA/UESB Edinalva Padre Aguiar – UESB Fábio dos Santos Teixeira - PROFHISTÓRIA/UESB Iracema Lima – UESB Isis Pollyana Teixeira – SEC/BA Janiclêide Moreno Gonçalves - PROFHISTÓRIA/UESB Kátia Rosane Santos Pereira - PPGED/UESB Kelvin Oliveira do Prado - PPGLITCULT/UFBA Leidiane Alves Sousa de Jesus - PPGED/UESB Maria Cristina Dantas Pina - UESB Nallyne Celene Neves Pereira – SEC/BA Valter Soares - UEFS Vinicius Ferreira Gomes - PROFHISTÓRIA/UESB Welma Avelina Rocha Reis - PROFHISTÓRIA/UESB COMISSÃO CIENTÍFICA Célia Santana Silva – UNEB Cleide Lima Chaves - UESB Edinalva Padre Aguiar – UESB Gilmário Moreira Brito - UNEB Iracema Lima – UESB Isis Pollyana Teixeira – SEC/BA Jairo Carvalho do Nascimento - UNEB Juliana Alves Andrade – UFPE Kleber Simões - UNEB Lídia Nunes – UESB Marcela Albaine Farias da Costa – UFRJ Maria Alessandra Aquino - SEC/BA Maria Cristina Dantas Pina – UESB Maria Lima - UFMT Monique Alves Brito - SEC/BA Nallyne Celene Neves Pereira – SEC/BA Nilton Mullet Pereira – UFRGS Sérgio Guerra Filho - UFRB Valter Soares - UEFS Identidade visual Israel Silas de Oliveira Diagramação Eline Luz 4 SUMÁRIO CULTURA ESCOLAR, LIVRO DIDÁTICO E PRÁTICAS DOCENTE REFLEXÕES EM TORNO DA HISTÓRIA DO ENSINO DE HISTÓRIA EDUCAÇÃO HISTÓRICA REFLEXÕES TEÓRICAS, CAMINHOS INVESTIGATIVOS E AÇÕES DIDÁTICO-HISTÓRICAS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL E ENSINO DE HISTÓRIA SABERES, PRÁTICAS E EXPERIÊNCIAS EDUCATIVAS ENSINO DE HISTÓRIA E RELIGIÃO PERSPECTIVAS PARA O ENFRENTAMENTO DA INTOLERÂNCIA FONTES, LINGUAGENS, MATERIAIS DIDÁTICOS EXPERIÊNCIAS E REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA DOCENTE EM HISTÓRIA GÊNERO, HISTÓRIA E ENSINO ABORDAGENS HISTÓRIA DA ÁFRICA E ENSINO POSSIBILIDADES, DEBATES E PERSPECTIVAS HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NA BAHIA INSTITUIÇÕES EDUCATIVAS, TRAJETÓRIAS DOCENTES E CULTURAS ESCOLARES HISTÓRIA E CULTURA INDÍGENA NA EDUCAÇÃO ESCOLAR BÁSICA SABERES E PRÁTICAS _____________________________06 _________________________28 ___________________________51 ________________________________70 _______________________90 __________________________________127 _________________143 ______________________152 ______________________________178 5 PROPOSTAS DIDÁTICAS PARA O ENSINO DE HISTÓRIA AULA-OFICINA, JOGOS, GAMIFICAÇÃO E HISTÓRIAS EM QUADRINHOS O ENSINO DE HISTÓRIA EM TEMPOS DE PANDEMIA RELATOS DE EXPERIÊNCIAS DIDÁTICO- PEDAGÓGICAS DO ENSINO REMOTO DE HISTÓRIA NO ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO RELATOS E EXPERIÊNCIAS NA EDUCAÇÃO BÁSICA ESTÁGIOS, FORMAÇÃO DOCENTE E VIVÊNCIAS PEDAGÓGICAS PROPOSTAS DE GRUPO DE DISCUSSÃO EIXO I - ENSINO DE HISTÓRIA CULTURA, DIFERENÇA E COTIDIANO EIXO II - HISTÓRIA EM CONTEXTOS DE ESCOLARIZAÇÃO SABERES, PRÁTICAS E EXPERIÊNCIAS EIXO III - LINGUAGENS, TECNOLOGIAS E PRODUÇÃO DE MATERIAL DIDÁTICO EIXO IV - CURRÍCULO DE HISTÓRIA E FORMAÇÃO DE PROFESSORES EIXO V - HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO E DO ENSINO DE HISTÓRIA EIXO VI - CULTURA HISTÓRICA E APRENDIZAGEM PRODUÇÃO, CIRCULAÇÃO E APROPRIAÇÃO DO CONHECIMENTO HISTÓRICO PROPOSTAS DE OFICINAS/MINICURSO _________________________187 ______________199 ___________________________212 _ ______________________233 _____________________242 _____________________________246 ________________________________251 ________254 __________________________259 __________________264 6 SIMPÓSIO TEMÁTICO CULTURA ESCOLAR, LIVRO DIDÁTICO E PRÁTICAS DOCENTE Reflexões em torno da História do Ensino de História 7 A formação inicial na licenciatura: um debate entre currículo e aprendizagem histórica Raissa Silva Vilas Boas (UESB) Jessica Maria Maciel Costa (UESB) O presente trabalho visa refl etir acerca da formação inicial, a partir da análise de como a apren- dizagem histórica se insere no currículo dos cursos de licenciatura em História nas Universidades da Bahia, e é parte da pesquisa desenvolvida na Iniciação Científi ca orientada pela Professora Dou- tora Maria Cristina Pina. Neste texto examinamos os Projetos Pedagógicos dos Cursos (PPCs) da Universidade Estadual da Bahia (UNEB), dos campi de Eunápolis, Caetité e Salvador; e da Universi- dades Estadual de Feira de Santana (UEFS). Pensar a formação de professores juntamente com a aprendizagem histórica demanda uma compreensão a respeito das questões que permeiam a vida profi ssional do docente em história. É notável a dicotomia histórica que se estabelece entre a teoria e a prática, o que nos leva a recorrer a Rusen (2012) “Enquanto as competências específi cas de um professor, ao mesmo tem- po, que as competências profi ssionais do historiador são necessárias, deve haver um lugar, no de profi ssionalização, em que as duas juntas sejam transmitidas. ’’ (p.70). Dessa forma, a problemáti- ca central da pesquisa é identifi car como os currículos da licenciatura tratam o ensino de história, posto que para ensinar é necessário inserir a didática da história no exercício da historiografi a, ademais, ‘’ [...] o domínio dos conhecimentos históricos a ensinar pelo professor não é condição sufi ciente para garantir a aprendizagem dos alunos, embora dele não se possa prescindir absolu- tamente.’’ (CAIMI, 2009. p.29). O Professor de História enfrentou ou enfrenta inseguranças, dúvidas quanto ao seu exercício profi ssional que, certamente, tem relação com os processos de interação entre os saberes historio- gráfi cos e o processo de reconstrução desses saberes na sala de aula. Ou mesmo em como ensinar de forma que o outro aprenda e construa sentido no que aprendeu. Quais os mecanismos que os formandos, ao concluir a licenciatura, podem utilizar no exercício da docência para “transmissão do conhecimento histórico relacionado as dimensões básicas do manejo prático no conhecimento” (RÜSEN, 2016, p.69) na sala de aula, ou seja, como a didática e o ensino de história são exercitadas durante a formação inicial. A pesquisa analisou pontos cruciais dos PPCs, a abordagem empregue consistiu na tabulação dos dados referente às cargas horárias das áreas de conhecimento e na análise crítica dos textos, apontando as concepções que sustentam os projetos, bem como, os fl uxogramas e ementas, com o intento de observar se há preocupação em estabelecer a relação direta entre ensino e pesquisa, e não obstante, se integra os processos de ensino e aprendizagem nas ementas. É fundamental entender que “para ensinar história é preciso saber como se aprende e para isso o conceito de Aprendizagem histórica de Jörn Rüsen é a base da pesquisa.o autor aponta quatro formas de aprendizagem: tradicional, exemplar, crítico e genético, em que fi ca evidente na forma- ção do sujeito em relação à experiência temporal, isto é, em algum momento devem ter passado por algum desses quatro modelos no desenvolvimento da consciência histórica em relação ao co- nhecimento histórico (CERRI, 2009, p.153). Portanto, para lidar com as carências de orientação é preciso que tenha compreendido a teoria do que é a aprendizagem, e com base nisso possibilitar uma elaboração de um currículo que atenda as principais demandas do processo de ensino-apren- dizagem, ainda mais importante na formação de professor/a, em vista que o currículo e a teoria orientam a didática da História. Na análise dos documentos da UNEB fi cou evidente o contraste dentro dos campi da mesma instituição. Iniciando pelas datas das diretrizes curriculares de história que regem os PPC’s vigente. Eunápolis e Salvador se assemelham por trabalharem com a legislação de 2002, que apesar de 8 pautar o enfrentamento da dicotomia entre teoria e prática, pouco consegue fazer na distribuição da carga horária dos eixos curriculares, além das emendas voltadas para o eixo de conhecimentos científi cos culturais não relacionam os processos de ensino. Já o campus de Caetité, segue a legis- lação de 2019 e apresenta mudanças signifi cativas, insere a dimensão pedagógica no eixo científi - co-cultural e altera toda carga horária do curso em favor do ensino, apresenta uma perspectiva em que se discute a prática dentro da teoria, ainda assim, revela lacunas na condução do projeto no que se refere a bibliografi a limitada utilizada para referenciar o ensino de história. O Projeto Pedagógico do Curso da UEFS coloca como objetivo formar professores-historiadores, e passou pela segunda reforma curricular atendendo a resolução CNE-CP no2, de 1o de julho de 2015. Com intuito de atender as competências tanto para professor quanto para pesquisador, inclui nas ementas de disciplinas obrigatórias que não tem relação direta com o ensino, a assertiva “a produção do conhecimento e o ensino de história nos níveis fundamental e médio”, com isso inten- ciona estabelecer a relação entre teoria e prática e construir uma didática histórica mais concreta. Além disso, amplia as disciplinas voltadas para questões indígenas e afro-brasileiras e desdobra a área de Estágio em 4 momentos que implica o ensino e pesquisa no campo do ensino de história. Seria interessante aprofundar a análise com a escuta dos sujeitos, professores do Curso, para iden- tifi car continuidades ou não em relação ao prescrito. A pesquisa está em andamento, mas podemos afi rmar até o momento que a formação inicial de professores deve ser pensada como um processo dialógico, que não privilegie a formação especí- fi ca em detrimento da pedagógica, para tanto, se torna imprescindível questionar o currículo e sua aplicação, já que a graduação apresenta os primeiros passos da vida profi ssional de um professor- -pesquisador, cabe a ela se responsabilizar por uma formação múltipla, capaz de romper com o currículo mínimo, dando ao egresso uma autonomia formativa a fi m de exercitar a cidadania plena dentro da educação básica. Este trabalho pretende apresentar algumas refl exões sobre um manual didático intitulado In- trodução ao Estudo da História, de autoria do professor João Wilson Mendes Melo. Tais refl exões, por sua vez, têm como pano de fundo a pesquisa intitulada “Saberes da disciplina, saberes da pro- fi ssionalização: uma leitura sobre a institucionalização da História por meio de Introdução ao Estu- do da História na UFRN (1960-1968)”, a qual passei a desenvolver no presente ano no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PPGH/UFRN), a nível de mestrado, sob orientação da Prof.a Dr.a Margarida Maria Dias de Oliveira. Tal pesquisa tem como objetivo compreender se é possível inverter uma lógica historiográfi ca que postula o surgimento dos cursos superiores como único foco narrativo explicador do processo de institucionalização da História no Brasil. Em outras palavras, se a disciplina Introdução ao Estu- do da História teria contribuído para tal processo. Seu criador na década de 1960, o professor João Wilson Mendes Melo, ao fi nal de sua atuação docente, produziu um manual com o objetivo de fornecer aos alunos do curso superior da então Fa- culdade de Filosofi a de Natal, uma ampla introdução ao que denominamos como “História”. A partir deste objetivo, o manual foi confi gurado sob uma estrutura singular, cujo propósito comunicativo acabou por delimitar um conjunto de saberes, ideias e proposições para uma comunidade científi ca que se formava em Natal. Assim, este trabalho parte do pressuposto de que um manual didático A institucionalização da História na Universidade Federal do Rio Grande do Norte a partir de sua escrita: o manual de Introdução ao Estudo da História Matheus Oliveira da Silva (PPGH/UFRN) 9 é um espaço de escrita da História e que, como tal, não apenas produto, mas também produtor de um campo. Neste sentido emerge a noção de institucionalização, compreendida como dimensão material de uma organização com suas estruturas, comitês, pessoal e fi nanciamento. Por outro lado, abrange uma dimensão social e simbólica na medida em que as instituições estabelecem normas e regras e fornecem orientação; são também locais de processos de negociação social, trabalho e estruturas de comunicação; e eles moldam as estruturas cognitivas das atividades que ocorrem dentro deles” (LINGELBACH, 2011, p.78, tradução livre). Para operacionalizar a análise dessa fonte, pretende-se partir da análise de conteúdo, que se- gundo Laurence Bardin é um conjunto de técnicas de análise das comunicações, visando obter por procedimentos, sistemáticos e objetivos de descrições de conteúdos das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de pro- dução/recepção (variáveis inferidas) desta mensagem (BARDIN, 2011, p.42). Tal opção se dá por entender que é no conteúdo do manual Introdução ao estudo da história que se encontram ideias e concepções de história, relacionadas ao objetivo de fornecer aos alunos e professores de graduação uma síntese didática do que seria fundamental ensinar e aprender para iniciar uma compreensão da História. Por isso, a natureza e razões de uso de ideias, conceitos, proposições (por exemplo: como estes saberes conformam um ser historiador?) não estão dados. A análise de conteúdo oferece ferramentas para identifi car e interpretar essas questões. Quais são, por exemplo, as principais ideias vinculadas a noção de interpretação utilizadas no manual Introdução ao estudo da história? Aliás, qual o papel da interpretação na tarefa historiadora? A fre- quência de aparição de termos e ideias indica algo? O autor pensa que a teoria tem maior peso do que a metodologia? Para isso, é necessário não só quantifi car, mas qualifi car dados e informações que, por sua vez, contribuirão para a construção de uma reposta à problemática apresentada no início deste projeto. Embora a pesquisa ainda esteja em fase inicial, alguns resultados já puderam ser constatados, como a caracterização do manual escrito pelo professor João Wilson. Por não trabalharmos com um gênero manual consolidado (e talvez ainda que estivéssemos), tentou-se observar como a fon- te constrói uma concepção de introdução. O que pode parecer óbvio, não é dado, o que signifi ca que se podemos esperar que um manual introdutório perpasse pela questão do fato, por exemplo, não é possível pressupor o como, ou seja, o fato pensado na História por meio de pressupostos fi losó- fi cos? Sociais? O manual em questão fundamenta uma introdução sob as dimensões fi losófi cas, sociais e prá- ticas, como por exemplo, a preocupação do homem com o homem, compreensão do mundo pelo historiador e pesquisa e documento (MELO, 1988). Referências:BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Tradução: Luís Antero Reto, Augusto Pinheiro. São Pau- lo: Edições 70, 2011. GALVÃO, Cláudio. João Wilson Mendes Melo: vivendo e ensinando. Natal: EDUFRN, 2018. LIMA, Maria Helena Oliveira de. Uma história do curso de história em Natal: 1957-1968. Mono- grafi a (Licenciatura e Bacharelado em História) – Departamento de História, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2002. LINGELBACH, Gabriele. The institutionalization and professionalization of History in Europe and the United States. In: MACINTYRE, Stuart; MAIGUASHCA, Juan; PÓK, Attila (Ed.). The Oxford History of Historical Writing: 1800-1945. Oxford: Oxford University Press, 2011, v. 4, p. 78-96. MEDEIROS, Cris- tiana Moreira Lins de. O programa acadêmico da Faculdade de Filosofi a de Natal e a formação de professores no Rio Grande do Norte (1956- 1960). Disponível em: http://www.histedbr.fe.unicamp. 10 br/acer_histedbr/seminario/seminario7/TRABALHOS/C/Cristiana%20moreira%20lins%20de%20 medeiros.pdf. Unicamp/SP. 2006. P. 12. MELO, João W. Mendes. Introdução ao estudo da História. Natal: EDUFRN, 3 ed. 1988. O contexto do fi nal da ditadura militar no Brasil (1964-1985) foi marcado, no campo educacional, por iniciativas de renovação do currículo escolar. A principal crítica na época era de que o modelo utilizado pelo governo militar esvaziava a função crítica da História, com uma narrativa de glorifi ca- ção de fatos e sujeitos, sem abordar a diversidade, os confl itos e desigualdades presentes ao longo da história do Brasil. Nesse momento, currículos elaborados pelas secretarias de educação de Es- tados como Minas Gerais e São Paulo foram infl uenciados por abordagens da escola dos Annales e do marxismo, buscando uma história escolar que destacasse temas como as “mentalidades”, ou a história “vista de baixo” em consonância com os debates correntes nas instituições universitárias. (FONSECA, 2001; BITTENCOURT, 2004; FONSECA, 2011). No Estado do Pará, a Secretaria Municipal de Educação de Belém (SEMEC), a partir das demandas dos professores da educação básica, buscou uma reformulação do currículo escolar que valorizasse a História regional da Amazônia e do Pará. A crítica realizada pelos professores de Belém no fi nal da década de 1980 e início dos anos 1990 era de que os livros didáticos disponíveis priorizavam narrativas com temáticas das regiões Sudeste e Sul do Brasil, sem ligação com as discussões sobre a Amazônia e o Pará, sendo assim uma história distante da realidade dos alunos de Belém. Assim, a Secretaria promoveu várias ações, como: for- mação continuada para os professores de História da rede municipal e a criação de disciplinas re- gionais como “Estudos de Questões Regionais”, “Literatura Paraense” e “História do Pará”. (ALMEIDA, 2012). Acerca desta última, o principal marco foi a produção do livro “História do Pará: Amazônia”. (BELÉM, 1992). Lançado em 1992, o livro buscava uma abordagem regional, valorizando sujeitos excluídos como os indígenas e os negros, temas da cultura amazônica e as questões ambientais. Desse modo, considerando a importância da iniciativa da SEMEC naquele contexto, nosso objetivo neste trabalho é analisar a política de valorização da História regional pela secretaria municipal de Belém após a ditadura militar, nas décadas de 1980 e 1990. Entendemos que a proposta regional da SEMEC está relacionada ao contexto de rejeição à História ensinada na ditadura, sendo dessa forma, uma invenção, uma criação do que entendia ser mais condizente com o contexto de retorno à democracia. Assim, dialogamos com autores que problematizam a ideia do “regional”, como Pierre Bourdieu (BOURDIEU, 2011), Durval Muniz de Albuquerque Júnior (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2008), Marcos Lobato Martins (MARTINS, 2010) e José D’Assunção Barros (BARROS, 2017). Dessa maneira, algumas questões nos orientam em nossa análise: qual a ideia de História regional para a SEMEC? Quais acontecimentos e personagens regionais são valorizados e como eles são abordados? Quais as infl uências teóricas e bibliográfi cas para a construção de um currículo regional do Pará e da Amazônia? Este trabalho é parte de nossa pesquisa desenvolvida na tese de doutorado intitulada “Da ‘História do Pará’ aos ‘Estudos Amazônicos’: os livros didáticos regionais entre produções e usos (séculos XX-XXI)”, defendida no Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia da UFPA no ano de 2020. (MENEZES NETO, 2020). Referências: ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. O objeto em fuga: algumas refl exões em torno do con- ceito de região. Fronteiras, Dourados, MS, v. 10, n. 17, p. 55-67, jan./jun. 2008. A Secretaria Municipal de Educação de Belém e a política de valorização da História regional no período pós-ditadura (décadas de 1980 e 1990) Geraldo Magella de Menezes Neto (SEMEC/Belém) (SEDUC/PA) 11 ALMEIDA, Eliana Pires de. O lugar dos saberes amazônicos no ensino da disciplina Literatura. Belém: Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade do Estado do Pará, UEPA, 2012. BARROS, José D’Assunção. História, Espaço, Geografi a: diálogos interdisciplinares. Petrópolis-RJ: Vozes, 2017. BELÉM. Secretaria Municipal de Educação. História do Pará: Amazônia, v. 1. Belém: CEJUP, 1992. BITTENCOURT, Circe. Ensino de história: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2004. BOURDIEU, Pierre. A identidade e a representação: Elementos para uma refl exão crítica sobre a ideia de região. In: O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011. FONSECA, Selva Guimarães. Caminhos da história ensinada. Campinas-SP: Papirus, 2001. FONSECA, Thais Nívia de Lima e. História & ensino de História. 3 ed. Belo Horizonte: Autentica Editora, 2011. MARTINS, Marcos Lobato. História Regional. In: PINSKY, Carla Bassanezi. (org.). Novos temas nas aulas de História. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2010. MENEZES NETO, Geraldo Magella de. Da “História do Pará” aos “Estudos Amazônicos”: os livros didáticos regionais entre produções e usos (séculos XX- XXI). Tese (Doutorado) - Programa de Pós-Graduação em História, Instituto de Filosofi a e Ciên- cias Humanas, Universidade Federal do Pará, Belém, 2020. Este texto apresenta resultados parciais da pesquisa Formação continuada de professores de história e expectativas dos docentes que atuam no ensino médio, desenvolvida no âmbito do Pro- fHistória/UESB. Diante da complexidade que o conceito formação continuada carrega, fez-se ne- cessário debruçar sobre as leis e documentos ofi ciais, que tratam do tema. Esse levantamento foi realizado no sentido de pensar que concepções de formação continuada estão presentes na legis- lação e como essas concepções se articulam com as demandas do presente? Nesse sentido, partimos da LDB, que demarca a obrigatoriedade dos entes federados garanti- rem formação continuada a profi ssionais do seu quadro. O estudo analisa os Planos Nacionais de Educação, Portarias do MEC e CNE, Plano de Carreira do Magistério da Educação Básica do Estado da Bahia, o Plano Nacional de Educação, o Plano Estadual de Educação, a BNCC do Ensino Médio e a Lei 13.415/17, que instituiu o Novo Ensino Médio. A legislação elencada é analisada sob os pressupostos da metodologia qualitativa e de análise de conteúdo, no sentido de compreender o que a legislação estabelece e concebe como formação continuada de professores e relacionar tais concepções com autores que pensam a formação do professor de história a partir de demandas sociais da atualidade. A LDB estabelece no artigo 62 a formação mínima em licenciatura plena, para o ingresso docen- te na carreira do magistério. Sobre a formação continuada, estabelece no parágrafo 1o do mesmo artigo que: “A União, o Distrito Federal, os estados e os municípios, em regime de colaboração, de- verão promover a formação inicial, a continuada e a capacitação dos profi ssionais de magistério.” Da LDB à BNCC, caminhos e concepções sobre formação continuada de professores de história Fábio dos SantosTeixeira (Colégio Estadual Antônio Carlos Magalhães de Mutans/Guanambi) 12 Com base na LDB outros documentos, como o Estatuto do Magistério do Estado da Bahia, pas- saram a normatizar a formação continuada dos professores do seu quadro. O primeiro PNE tam- bém estabeleceu metas para elevar a formação dos professores da educação básica. Nesse senti- do, percebe-se um tensionamento pela oferta de cursos de extensão, graduação e pós-graduação, com a justifi cativa de elevar o patamar da formação dos professores da educação básica. Com a crise política e institucional, estabelecida no país a partir de 2015, a educação foi direta- mente afetada e a oferta desses cursos passaram a diminuir e outras ações de estímulo à formação continuada começaram a minguar. Nesse contexto de mudanças e incertezas, entre os professores, a demanda por formação continuada tem se intensifi cado nos últimos 06 anos, sobretudo com as últimas reformas do ensino, que afetaram diretamente a história enquanto campo de ensino prá- tico e teórico, bem como as demandas sociais do presente. Como salienta Caimi (2015), “O próprio contexto de atuação docente na escola pública atualmente é altamente desafi ador!” Segundo a autora, vivemos uma ampliação da crise escolar e a descontinuidade da formação continuada é um desses elementos. Os debates acerca da formação inicial de professores nos cursos de graduação são de longa data, no caso da licenciatura em história, esse debate é ainda mais intenso, pois desde muito tem- po, se constatou, que os cursos de graduação em história, ainda tem a tradição de reservar uma parte menor do seu currículo para contemplar a área de ensino, o que para muitos teóricos é a cau- sa da insufi ciência presente na formação inicial. Decorrente dessa e outras questões, relativas ao ensino de história , o interesse pela pesquisa e debates sobre a formação continuada dos professo- res de história da educação básica também se intensifi caram nos últimos tempos, principalmente nos programas de pós-graduação e começa a delimitar espaço no ProfHistória. Para pensar essa questão, relacionada à formação continuada do professor de história, recorre- mos a estudos que discutem os saberes necessários para formar um professor de História e sabe- res que esse professor necessita para ensinar, a princípio provocado por Caimi (2015), cuja defesa é a de que: “o que precisa saber um professor de História depende de muitas variáveis, como, por exemplo, as demandas sociais em cada época, os preceitos disseminados pelas políticas educacionais pú- blicas, os diferentes contextos escolares, as especifi cidades cognitivas e culturais dos estudantes.” (CAIMI, 2015, p. 106) Essa questão se alarga na perspectiva apresentada por Noda (2019), que compreende a for- mação do professor na perspectiva da “formação em ação”. Concepção que vem sendo debatida há muito tempo por Cainelli (2017), que em seus estudos, detectou que dentre outros aspectos o signifi cado que os profi ssionais concebem em suas práticas a partir de uma perspectiva que toma o trabalho como princípio educativo para estruturar a formação continuada. Pensar a formação a partir do trabalho como princípio formativo confere ao professor um papel central, pois suas expe- riências, percepções e ações são norteadores da formação. É perceptível que nos últimos anos a iniciativa privada abarcou a maior fatia do espaço desti- nado à formação de professores no Brasil, através de institutos, faculdades privadas, sistemas de ensino e pela mídia. Aliados a grupos conservadores têm tensionado as formações para um viés conservador e acrítico, ilustrados no caso da proibição dos estudantes dos colégios do exército participarem da ONHB em 2019 e da censura do livro Meninos sem Pátria de autoria de Luiz Puntel no colégio Santo Agostinho, no Rio de Janeiro, pressionado pelos pais conservadores. Dessa forma, nossa pesquisa visualiza até o momento uma perspectiva de formação, prescrita nos documentos ofi ciais e em outras instituições, centrada numa discussão generalista de com- petências de habilidades do ensinar e aprender, sem qualquer investida mais fundamentada nas especifi cidades disciplinares, nem no aprofundamento teórico do seu campo de atuação. 13 Referências: BRASIL. Lei n.13.005, de 25 de junho de 2014. Aprova o Plano Nacional de Educação – PNE e dá outras providências. Diário Ofi cial da União, Brasília, DF., 26 jun 2014. CAIMI, Flávia Eloísa. O que precisa saber um professor de história? História & Ensino, [S.L.], v. 21, n. 2, p. 105-124, 5 dez. 2015. Universidade Estadual de Londrina. http://dx.doi.org/10.5433/ 2238-3018.2015v21n2p105. Disponível em: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/histensino/ article/view/23853/17741. Acesso em: 10 jan. 2021. CAINELLI, M. R.; RAMOS, M. E. T. A RELAÇÃO ENTRE TEORIA E PRÁTICA NA FORMAÇÃO DE PROFES- SORES DE HISTÓRIA. Revista História & Perspectivas, v. 27, n. 50, 27 ago. 2014. NODA, Marisa. Formação continuada de professores de história: a dependência das propostas governamentais. In: SCHMIDT, Maria Auxiliadora Moreira dos Santos; SILVA, Maria da Conceição; CAINELLI, Marlene. Formação e aprendizagem: caminhos e desafi os para a pesquisa em educação histórica e ensino de história. Goiânia: Editora Trilhas Urbanas, 2019. p. 9-305. O presente trabalho visa compartilhar com o leitor um conjunto de refl exões que acompanha- ram nossa trajetória de pesquisa. Neste, demonstramos como a busca por contribuir com uma percepção complexifi cada do que é o livro didático de História colaborou para que nossa temática de pesquisa gradualmente se modifi casse. Nossa trajetória com o livro didático de História teve início com um esforço de compreensão do que já havia sido produzido sobre o tema. Identifi camos que as pesquisas com o livro didático ten- diam a realizar abordagens similares enquanto outras questões não eram abrangidas. Com base nisso, passamos a buscar contribuir na complexifi cação da percepção sobre o livro didático, estu- dando a relação entre bibliografi a citada sobre Ditadura Militar e o conteúdo do livro escolar sobre esta conjuntura histórica. A proposta seria comparar como o conteúdo sobre Ditadura Militar é tratado nos três livros di- dáticos mais adquiridos do PNLD 2018 (BOULOS JR., 2016; COTRIM, 2016; MOTA; BRAICK, 2016) com- parando-o às afi rmações nas obras historiográfi cas citadas como referências bibliográfi cas. Para tanto, iniciaríamos observando quais obras historiográfi cas sobre Ditadura Militar eram ci- tadas nas três coleções didáticas escolhidas. Em seguida, realizaríamos o fi chamento destas obras historiográfi cas, levantando suas principais proposições historiográfi cas. Posteriormente, fi charí- amos o conteúdo de Ditadura Militar dos próprios livros didáticos, observando se convergia ao que identifi camos nas referências historiográfi cas que teriam os embasado. Por fi m, realizaríamos a comparação dos três casos. A metodologia se inspiraria, especialmente, em Laurence Bardin (1977) e Arilda Schmidt Godoy (1995). Porém, mesmo atentando para um elemento usualmente esquecido nas pesquisas, nossa pro- posta continuava observando a relação do livro didático com a historiografi a. Partiríamos, assim, para uma nova proposta de pesquisa. Percebemos que mesmo as produções que apresentavam potencial para compreender o livro didático de História de forma complexa não haviam dado conta de observar as várias dimensões que fazem parte deste. Assim, passamos a estudar os vários sa- beres e as várias demandas que compõem o livro escolar de História. Pois, mesmo sendo uma pesquisa que observasse a relação entre historiografi a e livro didáti- co a partir de outra abordagem, a proposta ainda continuava sendo mais uma abordagem que se Nossa Trajetória de Pesquisa Como Forma de Discussão Sobre o Livro Didático de História Rafael Fiedoruk Quinzani (Prefeitura Municipal de Giruá/RS) 14 limitava a observar o livro na relação com a historiografi a. Assim,mesmo que fosse uma pesquisa viável, não necessariamente era a mais pertinente para nossa jornada em busca de complexifi car a percepção que se estabelece quanto ao livro didático. Partiríamos, assim, para a contemplação de novas possibilidades de pesquisa. Desta forma, em reunião de orientação com a Profa. Dra. Margarida Maria Dias de Oliveira e discutindo sobre textos de “estados da arte” sobre livros didáticos, concluímos sobre um incômodo que nos acompanhava: quase todas as pesquisas reduziam o livro didático a alguma de suas várias dimensões, especial- mente, observando-o como uma extensão da historiografi a. Difi cilmente as pesquisas davam con- ta de observar o livro didático em si, ou de refl etir sobre os vários elementos que constroem o livro didático. Partindo deste incômodo, passamos a pensar em possibilidades de pesquisa com o assunto. Concluímos que um primeiro passo seria submeter esta hipótese a um teste inicial. Para tanto, realizei a leitura de algumas das potenciais obras da historiografi a que poderiam ter observado os vários saberes e as várias demandas que compõem o livro escolar. A leitura destas obras foi de resposta negativa. Em outras palavras, mesmo as produções com o principal potencial não haviam dado conta de observar o livro historiográfi co em si, nas várias dimensões que fazem parte deste. O mais próxi- mo que foi possível identifi car foram as refl exões sobre o livro didático de História ideal (OLIVEIRA; FREITAS, 2014; OLIVEIRA, 2012; RÜSEN, 2007). Porém, estas não apresentavam refl exões sufi cientes para compreender o que é o livro didático de História real. Estava identifi cada, assim, a lacuna que passaríamos a explorar. Iniciava-se a jornada por compreender o que constitui o livro didático de História, através do questionamento: “quais são os saberes e demandas que constituem os livros didáticos de História, especifi camente os que passaram pela seleção do PNLD?”. Este artigo, ao recuperar nossa trajetória de pesquisa até o momento, permite demonstrar questões que estão presentes no Estado da Arte das discussões sobre o livro didático de História. Pois, se repetimos que é necessário construir uma visão complexa sobre o livro didático de História, este processo não acontece naturalmente. Referências: BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977. BOULOS JR., Alfredo. História, sociedade & cidadania. FTD: São Paulo, 2 ed., 2016. COTRIM, Gilberto. História Global. 3 ed. São Paulo: Saraiva, 2016. FREITAS, Itamar; OLIVEIRA, Margarida Maria Dias de. Cultura histórica e livro didático ideal: algu- mas contribuições de categorias rüsenianas para um ensino de História à brasileira. Revista Espaço Pedagógico, Passo Fundo, v. 21, n. 2, p. 223-234, jul./dez. 2014. GODOY, Arilda Schmidt. Pesquisa qualitativa: tipos fundamentais. Rev. adm. empres., São Paulo, v. 35, n.3, p. 20-29, mai./jun. 1995. MOTA, Myriam Becho; BRAICK, Patrícia Ramos. História – das Ca- vernas ao Terceiro Milênio. Salvador: Mordena, 4 ed., 2016. OLIVEIRA, Carla Karinne Santana. “O livro didático ideal” em questão: estudo da teoria da forma- ção histórica de Jörn Rüsen em livros didáticos de História (PNLD-2008). Dissertação (Mestrado em História) - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa, 2012. RÜSEN, Jörn.História viva– Teoria da história III: formas e funções do conhecimento histórico. Brasília: Editora da UnB, 2007. 15 Tendo em vista a extrema necessidade de se pensar alternativas pedagógicas que reconheçam e que valorizem a diversidade cultural inerente ao contexto escolar, pesquisa-se sobre o currículo e seu papel na formação de identidades multiculturais, a fi m de compreender a contribuição do currículo escolar para a superação das desigualdades e para a efetivação da inclusão social. Para tanto, através de um levantamento bibliográfi co, analisa-se o percurso da teorização curricular e o que diz a legislação nacional vigente referente à educação, investigando como esta se posicio- na a respeito das desigualdades sociais e diversidades existentes na sociedade brasileira. Diante disso, ancorado na bibliografi a analisada, verifi ca-se a existência de leis nacionais que garantem o direito a uma educação que promova debates multiculturais e que reconhecem a necessidade de se pensar um currículo escolar de caráter inclusivo e emancipatório, afi nal, por estar envolvido nos processos de formação dos sujeitos, o currículo escolar representa um importante instrumento de luta política. Palavras-chave: Currículo. Educação. Multiculturalismo. Referências: ALMEIDA, Maria de Fátima Mello de; OLIVEIRA, Márcia Alves de; SALLES FILHO, Nei Alberto. A TRANSVERSALIDADE ENTRE ENSINO SUPERIOR E A EDUCAÇÃO BÁSICA NA BUSCA DE UMA EDUCA- ÇÃO PARA A PAZ. Disponível em: https://educere.bruc.com.br/CD2011/pdf/6198_3931.pdf. Acesso em: jul de 2021 BARZOTTO, Carlos Eduardo. Constituindo um sujeito-histórico: identidades e narrativas (re)cria- das nas três versões da Base Nacional Comum Curricular de História (2015, 2016, 2017). UFRGS, Rio Grande do Sul, 2017. (monografi a). Base Nacional Comum Curricular – BNCC. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov. br/implementacao/pro-bncc/material-de-apoio. Acesso em jul de 2021. Constituição Federal de 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constitui- cao/constituicao.htm. Acesso em jul de 2021. CREPALDI, Elaise Mara Ferreira. Currículo e multiculturalismo: perspectivas para conscientiza- ção das diferenças na escola. Paraná: EDUCERE. 2015. CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciên- cias sociais. Bauru, SP: Edusc, 1999. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra. 1996 Histórico da BNCC. 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A referida pesquisa teve como fonte principal as memórias de professores, inserindo-se no âmbito da História da Educação e do Ensino de História e teve como objetivo geral: compreender como ocorreu a prática do ensino de História durante a Ditadura Civil-militar, na redepública de Vitória da Conquista – BA. Analisamos as narrativas dos professores entrevistados, no sentido de compreender as rela- ções estabelecidas entre a disciplina ensinada, o contexto de repressão e como a memória desse período é reconstruída pelos professores, além dos signifi cados que atribuem a essas lembranças. O percurso teórico e metodológico valeu-se das ferramentas da História Oral, assim como a técnica de entrevista semiestruturada, para a coleta de dados no ambiente natural da pesquisa, que se ca- racteriza como uma pesquisa qualitativa. A discussão teórica se deu, sobretudo, com estudos sobre o currículo, a formação docente e a história do ensino de História no Brasil. Nessa perspectiva, bus- camos suporte nos estudos de FENELON (1981) FONSECA (1992, 2003), FERREIRA (2013), SCHMIDT (2012), SACRISTÁN (2000), entre outros. Sabemos que o período que se iniciou em 1964, com a deposição do presidente João Goulart, ca- racterizou-se, sobretudo pelo autoritarismo, arrocho salarial, repressão e violência a toda forma de manifestação contrária ao Regime, que se prolongou até 1985. Na dimensão educacional, o período em questão se destacou pelas reformas verticalizadas (ROMANELLI, 2003), sob a tutela das refor- mas educacionais concretizadas a partir da aprovação das Leis de Diretrizes e Bases no 5.540/68 de reforma do ensino superior e a no 5.692/71, de reforma do 1o e 2o graus, atingindo sobremodo, o ensino de História. No interior deste projeto educacional, o ensino de História constituiu alvo de especial atenção dos reformadores. Segundo Fonseca (1992), tais reformas geraram “uma desqualifi cação dos pro- fessores, sobretudo, de História no bojo do processo de reformas, caracterizada como medida es- tratégica utilizada pelo poder político autoritário” (p. 29). Vale salientar ainda que as disciplinas de Geografi a e História tiveram a sua carga horária reduzida pela legislação supracitada, com vistas a O Ensino de História em escolas públicas de Vitória da Conquista - BA no período da Ditadura civil- militar: memórias de professores. Vitória Régia Ferreira da Silva (Secretaria de Educação do Estado da Bahia) 17 ceder espaço às disciplinas Organização Social e Política Brasileira (OSPB) e Moral e Cívica (EMC). Assim, os conceitos de moral e civismo perpassaram todas as disciplinas, bem como a prática de atividades cívicas extraclasse, como, por exemplo, desfi les cívicos. No que se refere às questões educacionais locais, são poucas as pesquisas que abordam a his- tória da educação no período ditatorial, sendo as pesquisas em maior número aquelas que abordam os confl itos políticos envolvendo as disputas de poder entre grupos políticos locais, reforçando a necessidade desta pesquisa. Nesse sentido, nossa investigação, buscou compreender as condições históricas que marcaram o período recortado, bem como a forma como estas repercutiram nas di- retrizes ofi ciais para o ensino da disciplina História, na Educação Básica em Vitória da Conquista, ou seja, de que maneira o contexto histórico incidiu na prática pedagógica dos professores de História. A pesquisa evidenciou “o que” e “de que maneira” os professores entrevistados reconstruíram sua atuação como docentes e os desafi os enfrentados pelos mesmos, em um momento histórico de efervescência política e ideológica. Como em outras partes do Brasil, em Vitória da Conquista o ensino de História, fragmentado nas disciplinas de Estudos Sociais, OSPB, EMC e História, foi mar- cado pela presença intensa dos livros didáticos e planejamento que ressaltavam o civismo e edu- cação moral, apesar de em alguns momentos os professores relatarem que faziam outras esco- lhas, a História ensinada trazia uma concepção predominante de uma perspectiva factual, na qual destacavam-se, sobretudo, o tratamento cronológico. Também foi relatado por alguns professores seus questionamentos acerca da ausência da história local e do cotidiano do aluno. Posturas, por vezes contraditórias, também foram evidenciadas nas falas como: críticas ao livro didático, ao Re- gime imposto, aos conteúdos doutrinários da história ofi cial, a importância dos conhecimentos his- tóricos na vida do homem, a busca por autonomia em sala de aula, o que denominamos de “fi ssuras provocadas”. Enfi m, as concepções de educação e de ensino dos sujeitos da pesquisa se mostraram relacionadas à sua formação e às suas trajetórias pessoais de vida. Concluímos esta pesquisa acreditando ser ela um caminho que pode possibilitar o reconheci- mento da história da educação local e dos seus sujeitos principais, compreendo a relação insepa- rável entre a trajetória de formação e de atuação docente e os sentidos atribuídos às disciplinas escolares. Referências: ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil. 1964-1984. São Paulo: EDUSC, 2005. FENELON, Déa Ribeiro. A formação do profi ssional de História e a realidade do ensino. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História, v. 2, 1981. FONSECA, Selva Guimarães. Caminhos da História ensinada. 3 ed. Campinas, São Paulo: Papirus, (coleção Magistério: Formação e Trabalho Pedagógico), 1992. FONSECA, Selva Guimarães. Didática e prática de ensino de História. Campinas, São Paulo: Papi- rus, 2003. SACRISTÁN, José Gimeno. Uma refl exão sobre a prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2000. FERREIRA, Marieta de Moraes. A história como ofício: a constituição de um campo disciplinar. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2013. ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da educação no Brasil. 40. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003. 18 A presente pesquisa busca investigar e ampliar a compreensão sobre o Ensino de História no Liceu Provincial da Bahia, entre 1834 e 1889. Naquele contexto, assinalado pela construção de uni- dade constitucional, a referida província assumiu uma condição estratégica na consolidação do projeto imperial. Ora alinhando-se ao referido projeto, ora contestando-o, a província da Bahia foi essencial na gradual formação de um conceito de nacionalidade brasileira, planejado dentro dos quadros do Império do Brasil, materializado, também, na criação do Instituto Histórico e Geográ- fi co Brasileiro (1838). Assim, a disciplina de História, orientada para a construção de um sentido histórico da nacionalidade brasileira e a sua difusão por meio das escolas, assume gradual impor- tância para o projeto imperial. Observa-se, contudo, que o uso da História e o seu ensino admitiu particularidades regionais e provinciais ao longo de todo século XIX. O problema desta pesquisa consiste em investigar como ocorreu a implantação e desenvolvimento do Ensino de História no Liceu Provincial da Bahia ao longo do Período Regencial e Segundo Reinado e como as tensões so- ciais e políticas infl uenciaram no ensino da referida instituição. Para isso, pretende-se investigar a trajetória política e intelectual dos professores de História do Liceu Provincial da Bahia, a formação acadêmica desses professores, assim como a atuação profi ssional enquanto professores da ins- tituição. Além dos manuais e recursos didáticos utilizados no ensino de História, os métodos de ensino aplicados, a cultura escolar; as reformas, decretos e resoluções educacionais sancionadas na Corte e na Bahia durante o Império. Os manuais e recursos didáticos são peças- chave na cons- trução desta análise, pois são fontes históricas que revelam as ideias, costumes, projetos políticos e ideológicos que permeiam a sua produção e disseminação, assim como a conjuntura política e social da Província da Bahia e Império do Brasil no século XIX. A análise dos manuais didáticos per- mite perceber o que era ensinado, para quem, como e porque determinados temas em detrimento de outros. Através da análise dos manuais didáticos, é possível também vislumbrar se determina- dos programas curriculares foram colocados efetivamente em prática. A pesquisa dialoga com a Nova História Cultural e a História das Disciplinas Escolares, uma das ramificações da História da Educação, além da cultura escolar e cultura material escolar. Os compêndios, manuais e recursos didáticos utilizados nas aulas de História da instituição, serão analisados sob a ótica do método de amostragem. Esta análise não poderá ser realizada ignorando a situação social, política, econômica e cultural do Período Regencial ao Segundo Reinado, uma vez que a implantação e desenvolvimento do ensino de História no Liceu Provincial da Bahia - e demais instituições -, são consequências das tensões e necessidades de seu tempo e espaço. Compreender como foi implantado e desenvolvido o ensino de história no Liceu Provincial da Bahia é entender a sociedade de seu tempo, os projetos políticos e ideológicos do Estado Imperial, os anseios das autoridades políticas e como os sujeitos e agentes da educação pensavam a educação no período. É signifi cativo compreender também como se deu as origens do ensino secundário no Brasil e na Bahia e a história do ensino público, temas importantes para a história da educação e que ainda carecem de estudos sistemáticos em nosso presente. Referências: ABUD, Katia. Currículos de História e Políticas Públicas: os programas de História do Brasil na escola secundária. In: BITTENCOURT, Circe (Org.). O Saber Histórico na Sala de Aula. São Paulo: Con- texto, 2004. BITTENCOURT, Circe Fernandes. Refl exões sobre o Ensino de História. Revista Estudos Avança- dos, 32 (93), 2018. O Ensino de História no Liceu Provincial da Bahia (1834-1889) Maiara Alves do Carmo (Villa Global Education) 19 ______. Produção didática de história: trajetórias de pesquisas. Revista de História, v. 164, p. 487-516, 2011. ______. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2008. BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionario Bibliographico Brasileiro (Volumes 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7). 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O PNLD como política pública: elaborações e apropriações do conceito do livro didático entre 1996 e 2016 Jandson Bernardo Soares (UFRN/ PPGH) O PNLD como política pública: elaborações e apropriações do conceito do livro didático entre 1996 e 2016 Essa pesquisa visa tratar de como o Programa Nacional do Livro didático praticou/ corroborou com a produção de um conceito de livro didático, entre 1995 e 2016, intervalo que remete a cons- tituição da primeira edição do PNLD após a constituição de um processo de avaliação, e a última avaliação que se deu dentro de uma normalidade democrática. A constituição dessa problemática está associada a uma linha teórica que compreende a lingua- gem como elemento de criação e interação com o mundo, sendo os conceitos criadores de realida- des, ao mesmo tempo em que são produtos das mesmas. Diante disso, esses constructos teóricos aparecem como elementos a serem disputados socialmente. No caso do livro didático, esses pro- cessos de concorrência se assistem na relação entre as políticas públicas, a sociedade civil organi- zada, instituição escolar e seus agentes, tendo como arena desses combates a esfera pública. 20 É nesse sentido que partimos das análises de Jüger Habermas (1997) e de quatro importantes conceitos: Esfera pública, racionalidade comunicativa, consenso e democracia procedural. O pri- meiro deve ser compreendido como um palco em que se desenrolam disputas comunicativas em torno de elementos de interesse coletivo, os quais, através da constituição de espaços de audiência e de argumentação, levariam a um consenso em torno dos melhores justifi cativas para resolução de tais demandas. O segundo é compreendido pelo uso e valorização da comunicação, argumentos e sua validade, como orientadores das ações, no caso em questão, administrativas. É através desse tipo de razão que as disputas socais se resolveriam mediante a constituição de consensos funda- dos a partir da participação comunicativa. É nesse ponto que entra o terceiro conceito. O consenso produzido comunicativamente não signifi ca que todos os envolvidos concordam com as posições em que o debate público chegou, mas compreendem que essa constituição remete a utilização de- mocrática na esfera pública e da escolha dos melhores argumentos para a resolução das deman- das coletivas. O último conceito demarca o papel do Estado diante da passagem dos atos de fala, ou seja, dos argumentos e discursos, em atos administrativos, garantindo assim a passagem daqueles às ações práticas, por meio procedimentos reconhecidos por todos os agentes sociais. Desta forma, os Guias do PNLD são observados, ao mesmo tempo, como resultado do debate público realizado em torno do que seria o livro didático constituído após a instituição do processo de avaliação, em 1996, assim como integrante desse debate, na medida em que estabelece inter- locução constituidores de uma interlocução com os agentes sociais que se relacionam com ele, a saber, professores que irão fazer escolha das obras didáticas (diretamente) e autores e editores (indiretamente). Tais materiais adquirem assim uma função formativa, na medida em que ao se apropriar dos materiais existentes no mercado, imprimem suas impressões, a partir de regras pré- -estabelecidas (Editais do PNLD e documentos orientadores do campo educacional), garantindo que tais procedimentos não sejam arbitrários e que, por sua vez, sejam reconhecidos por todos os envolvidos, garantindo um consenso obtido mediante procedimentos que envolvem todas as eta- pas da política pública, da inscrição das obras a chegada nas mãos dos alunos. Para tratar esse corpus documental, propôs-se analisar os guias do livro didático a partir da perspectiva de análise de conteúdo. Essa técnica da análise das comunicações tem como fi m, atra- vés da elaboração de ferramentas de registro, contagem e inferência, construir leituras que vão além da decodifi cação, possibilitando observar aspectos estruturais e estruturantes dos atos de fala, dando acesso a elementos de ordem psicológica, histórica, sociológica e política (BARDIN, 1970). Tal abordagem permitiu constatar duas orientações diferentes em torno da constituição da pre- sente política pública e a maneira de se utilizar do conceito de livro didático. A primeira se deu pela utilização de muito maisorientado por um paradigma técnico, em que o Estado exerce a tomada de decisões de forma mais autocrática na fi gura do professor e das disciplinas disciplina específi cas. Ao mesmo tempo, apresentou pouco dos parâmetros jurídicos legais que embasassem os critérios de qualidade do livro e de sua avaliação (documentos legais que orientavam a educação), não via- bilizando a transparência, elemento crucial para a constituição de um consenso social discursiva- mente orientado. A partir de 2003, esse cenário começou a se transformar, na medida em que houve uma apro- ximação com uma racionalidade discursiva que alterou a própria organização do Poder Executivo. Tal fato caracteriza-se pela constituição de fóruns públicos e secretarias especiais que corrobora- ram para a constituição de uma comunicação mais efetiva entre os agentes sociais coletivos e o Estado brasileiro. Esse elemento se refl etiu nos textos do guia a partir da transparência quanto ao processo e instrumentos de avaliação, assim como em relação a rede interlocutora de documentos que passaram a serem associados aos textos analisados. Ao mesmo tempo, assistiu-se a criação de mecanismos de transparência que puderam ser vistos através enumeração de procedimentos desempenhados entre a inscrição das obras na avaliação e sua chegada nas mãos dos alunos, 21 centralizados não apenas nas mãos do professor, mas de responsabilidade de toda a comunidade escolar. Referências: BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977. CERTEAU, Michel de. A invenção do Cotidiano: artes de fazer, v. 1. Petrópolis: Vozes, 2013. HABERMAS, Jürgen. Direito e Democracia: entre facticidade e validade. v. 1 e 2 Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997 Compreender o papel dos livros didáticos, assim como do ensino de História no âmbito da refor- ma do ensino primário da Bahia caracteriza o objetivo deste estudo. A discussão proposta situa-se no contexto da reforma do governo Góes Calmon, em 1925, que remodelou o ensino primário na Bahia, objetivando reduzir o alto índice de analfabetismo, almejando assim civilizar a população através da escola. Naquele período, o reduzido acesso e a permanência das camadas populares nas escolas estavam em desacordo com os projetos republicanos (SCHUELER; MAGALDI, 2009). Assim, foram empreendidas, nos estados brasileiros, reformas educacionais visando solucionar o problema do analfabetismo, reconhecido como um impasse rumo ao progresso. No contexto baia- no, as mudanças repercutiram na seleção de novos materiais, ideias pedagógicas e livros didáti- cos, pretendendo formar professores e, respectivamente, alunos em uma nova consciência cívica e patriótica. Entre a lista de livros indicados, a partir do ano de 1927, foram selecionados: Nossa Pátria, publicado por Rocha Pombo, em 1917, e História da Bahia, de Pedro Calmon, em 1927. Com- preendidos enquanto “bens culturais”, os livros são dotados de sentidos a partir de sua prescrição e de suas interpretações (CHARTIER, 2002, p. 46), sendo associados a um discurso ideológico de cunho nacionalista e ao cientifi cismo baseado no rigor e objetividade (PINA, 2009). Já pensando no saber histórico escolar, indagamos sobre seu destaque na construção da civilidade, haja vista que a escolarização primária objetivava formar uma consciência cívica por meio de uma cultura nacional e por meio dos saberes associados a noção de progresso. Chervel (1990) assinala que sua instau- ração obrigatória foi realizada em momentos diferentes em cada país, estando ligada a um projeto político que visava associar cada cidadão a nação à qual pertencesse. Nesse papel, permeado por representações e práticas sociais, o ensino de História, tanto no passando quanto na contempora- neidade, não pode ser compreendido como um processo pacífi co, haja vista que os alunos advêm de realidades em que as famílias, a comunidade e o espaço social aonde vivem possuem outras memórias coletivas que, por sua vez, contam com outras representações sociais. Por isso, o ensino de História permanece sendo um tema atual, atraindo pesquisadores a investigarem e ressignifi ca- rem suas implicações e possíveis efeitos, haja vista que constantemente a disciplina sobre ataques e negacionismos sobre seu papel e sobre os conteúdos a serem ensinados no espaço escolar. Para a realização desse estudo, dialogamos com referências teórico-metodológicas da história cultu- ral e da história da educação, priorizando trabalhos que dialogam com Choppin (2009; 2020); Julia (2001); Galvão e Batista (2008) e Chervel (1990). Ao focalizarmos principalmente a formação do caráter dos alunos a partir das concepções de moralidade e de civilidade encontradas nos conteú- dos do programa do ensino de História do Brasil de 1925, problematizamos os limites desse projeto vigente e da concentração de esforços na difusão de um modelo idealizado de cidadão patriótico. Nessa direção, indagamos se os livros didáticos de Pedro Calmon e de Rocha Pombo corroboraram Os livros didáticos de Pedro Calmon e de Rocha Pombo: refl exões e proposições sobre o ensino de História no contexto da Reforma Góes Calmon (1925) Cristina Ferreira de Assis (PPGEduC / UNEB) 22 com os objetivos do programa, analisando-se para isso suas narrativas históricas e a materialida- de das obras no contexto em que foram difundidas. Atentando-se para a relação desse estudo com a categoria de cultura escolar, Julia (2001, p. 19) contribui para o diálogo entre os livros e a cultura escrita da escola de modo que a partir dessa relação seja possível identifi car crenças, valores, hábi- tos a serem transmitidos. Se por um lado, as culturas escolares podem ser compreendidas a partir de um conjunto de normas a se ensinar e de condutas para seguir, também podem ser compreen- didas como um conjunto de “práticas” que permitem a transmissão desse conhecimento ou dessas condutas, assim como sua incorporação. Para isso, além da análise de livros didáticos, também nos amparamos em textos normativos, isto é, nas fontes ofi ciais que procuram “instituir, normatizar aquilo que constitui o dever ser”, como assinalam Galvão e Batista (2008, p. 179-180), sendo elas: o programa de 1925, procurando evidenciar as proposições para o ensino de história; a legislação estadual de 1925 que promove a reforma do ensino primário; e o relatório de Anísio Teixeira ao fi nal de sua gestão na Diretoria de Instrução, em 1928. Ao se debruçar sobre os livros didáticos Nossa Pátria e História da Bahia, publicados em São Paulo, pela editora Melhoramentos, serão priorizadas as análises de sua introdução ou prefácio e as notas para professores e alunos. Dito isso, nos inte- ressa observar a linguagem utilizada em direção aos alunos e professores e as possíveis instruções e orientações que contemplem valores civilizacionais e patrióticos ao longo das narrativas dos con- teúdos de história publicadas. Para essa análise contamos com o auxílio de Choppin (2009; 2020) compreendendo os livros didáticos em sua função ideológica e cultural, instrumental e referencial. Dentre os resultados iniciais oriundos da pesquisa em curso verifi cam-se pontos comuns entre as obras de Rocha Pombo e de Pedro Calmon em atendimento aos objetivos e fi nalidades pensadas para o ensino de História do Brasil segundo o programa de 1925. Contudo, há divergências em re- lação ao modo como os autores constroem suas narrativas históricas, incluindo-se críticas, ainda que os autores tivessem ocupado lugares estratégicos em instituições comuns, a exemplo da Aca- demia Brasileira de Letras (ABL) e o Instituto Histórico e Geográfi co Brasileiro (IHGB). Esse dado contribui para nossa compreensão sobre os desvãos e tensões entre os intelectuais na disputa de narrativas pela escrita da história brasileira e nos convida a pensar no papel exercido por esses au- tores especialmente na transposição dos conhecimentos científi cos para o saber histórico escolar. A luta dos movimentos feministas pela conquista de maisespaços em conjunto com as reno- vações historiográfi cas e debates a respeito da História das Mulheres, possibilitou estudos nas Universidades sobre esse “novo” sujeito histórico. Nesse sentido, objetivamos com esse ensaio co- nhecer as ideias históricas sobre as mulheres do período colonial que são fomentadas pelos Livros Didáticos de História avaliados pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) e identifi car as mulheres que são visibilizadas e ou silenciadas, assim como a forma em que são retratadas, os espaços ocupados e papéis desempenhados por elas na sociedade do período colonial da história do Brasil, assim como problematizar quais mulheres, desse período, assumem protagonismos nos acontecimentos históricos. Esse trabalho é parte da pesquisa de mestrado desenvolvida junto ao Programa de Pós-Gra- duação em Educação (PPGEd) da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Utilizamos como fonte os textos escritos e imagéticos do livro didático referentes às mulheres do período co- lonial. Realizamos pesquisa documental em que foi analisado o conteúdo presente no livro didático selecionado por meio da técnica de análise de conteúdo. A investigação desenvolvida no campo empírico e bibliográfi co, foi constituída de três momentos: revisão bibliográfi ca sobre as mulheres e sobre o Livro Didático, análise do conteúdo escrito e análise das iconografi as. O referencial teórico e Papéis Femininos na História do Brasil Colonial: o exemplo do livro de História de Gilberto Cotrim Kátia Rosane (Secretaria de Educação do Estado da Bahia) 23 metodológico utilizado apoia-se na historiografi a sobre mulheres e literatura no campo do ensino de História que trata do livro didático: Algrante (1993); Bittencourt (1998); Caimi (2018); Del Priori (2009); Fonseca (2004); Ginity (2015); Perrot (2019). Para a realização dessa pesquisa, selecionamos o segundo volume da coleção do livro didático História Global, de Gilberto Cotrim, avaliada pelo PNLD/2018, utilizado em escolas de Ensino Médio da rede pública estadual de Vitória da Conquista, no interior da Bahia entre os anos 2018-2020. Diante de estudos realizados, percebemos que não existe um livro didático perfeito ou ideal, porque as demandas e expectativas sobre ele são muitas e diversifi cadas, indicando que muito ainda tem que ser feito. Houve alguns avanços signifi cativos nestes últimos vinte anos: “melhoria na qualidade gráfi ca e de impressão, melhoria na linguagem utilizada, bem como inovações meto- dológicas”. [...] as coleções passaram a focalizar não só a história das políticas institucionais, mas a história das mentalidades e do cotidiano (GALZERANI, 2013, p. 63). Iniciando o exercício de análise do corpus documental, trabalhamos com os textos escritos e imagens de mulheres do período colonial brasileiro, apresentados nos capítulos 1, 2, 3, 4 e 13 do vo- lume 2 da coleção do livro didático História Global de Gilberto Cotrim, distribuída pelo PNLD de 2018. Nas páginas 8 e 9, na abertura do capítulo 1, com o título Trabalho e Sociedade, encontramos uma imagem de Jean-Baptiste Debret, intitulada Vendedores de Capim e de Leite, produzida entre 1834 e 1839, de coleção particular. Na cena, numa área rural, percebemos treze escravizados tra- balhando, um carro de boi e uma construção. À esquerda alguns aparecem carregando capim-de- -angola que era muito utilizado para alimentar os cavalos no Brasil Colonial. À direita, encontramos 02 homens escravizados e 02 mulheres escravizadas vendendo leite. Embora duas mulheres apa- reçam na imagem, o texto que explica a imagem refere-se a três escravizados. As mulheres foram invisibilizadas na imagem. No capítulo 2 intitulado Estado e Religião, visualizamos na página 22, referente ao subtítulo Ca- pitanias Hereditárias, o subitem Mulheres na Administração com referência a algumas mulheres de origem portuguesa que participaram da administração de capitanias hereditárias. Brites de Souza Carvalho que assumiu uma sesmaria no norte da Bahia, em 1583, após a morte do seu marido e Brites Mendes de Albuquerque que assumiu o controle da capitania de Pernambuco, também após a morte do seu esposo. Cotrim (2017) cita Brasil e Schumaher para os quais Durante o governo de Brites, Pernambuco era a mais desenvolvida capitania do Brasil. Tinha mais de mil colonos e mais de mil escravos. [...] nos anos 1570 havia na capitania cerca de 66 en- genhos, que produziam 200 mil arrobas de açúcar anuais [...] (BRAZIL e SCHUMAHER, 2000, p.122 In COTRIM, 2017, p. 22). Continuando a discussão sobre a atuação de mulheres na administração de capitanias heredi- tárias, na página 23 do referido livro, foi feita referência a Ana Pimentel que participou da adminis- tração de São Vicente após o seu esposo, Martim Afonso, retornar a Portugal para assumir o cargo de capitão-mor da armada da Índia. No livro didático referido acima, embora a mulher esteja presente, em algumas imagens elas são silenciadas, pois referem-se somente aos homens. Em outros momentos, elas são invisibiliza- das, pois embora apareçam, muitas vezes em maioria, nenhuma referência é feita a elas, nem nas imagens, nem nos textos escritos. As mulheres que aparecem em destaque no texto escrito do livro avaliado são brancas, pertencentes à nobreza portuguesa. A maioria das negras que aparecem são na condição de escravizadas. Não visualizamos a presença das mulheres indígenas nos capítulos analisados. Referências: ALGRANTI, Leila Mezan. Honradas e devotas: mulheres da colônia. RJ: José Olympio; Brasília: Edunb, 1993. BITTENCOURT, Circe (Org.). O Saber histórico na sala de aula. São Paulo: Contexto, 1998. 24 CAIMI, Flávia Eloísa. Escolhas e usos do livro didático de história: o que dizem os professores. In: BARROSO, Vera Maciel et al. Ensino de história: desafi os contemporâneos. Porto Alegre: EST/ Exclamação/ANPUH, 2010, p. 101-114. Disponível em:: https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/hand- le/10183/163894/000757416.pdf?sequence=1 Acesso em: 28 de out.2020. CAIMI, Flávia Eloísa. Sob nova direção: o PNLD e seus desafi os frente aos contextos políticos- -educativos emergentes. Revista História Hoje, v. 7, n.14, 2018. COTRIM, Gilberto. História Global. Editora Saraiva, 2017. DEL PRIORE, Mary. Ao sul do corpo: condição feminina, maternidade e mentalidades no Brasil Colônia. São Paulo:Editora UNESP, 2009. FONSECA, Selva Guimarães. Didática e Prática do Ensino de História. São Paulo: Papirus, 2a Ed., 2004. GINITY, Eliane G. M. Imagens de Mulheres nos Livros Didáticos de História. Revista do Lhiste, Por- to Alegre, n. 3, vol. 2, jul/dez. 2015. GALZERANI, Maria Carolina Bovério Galzerani; BUENO, João Batista Gonçalves; JÚNIOR, Arnaldo Pinto (Org.) Paisagens da Pesquisa Contemporânea sobre o livro didático de História. São Paulo: Paco Editorial, 2013. PERROT, Michelle. Minha História das Mulheres. 2a ed., 6a reimpressão. São Paulo: Contex- to,2019. No presente texto encontra-se parte das discussões apresentadas na dissertação de mestrado intitulada “Conhecimento histórico e Aprendizagem: o caso da proposta pedagógica do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)”, defendida junto ao Programa de Pós-graduação em Educação (PPGED) da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Aqui, versamos sobre o resultado da pesquisa empírica desenvolvida, cujo objetivo geral é compreender como o conhe- cimento histórico é concebido e abordado na proposta curricular das escolas de assentamento do Movimento Sem Terra – MST. Dentro dessa perspectiva maior, a investigação empírica debruçou- -se em analisar, na perspectiva dos professores que ministram aulas de História, a contribuição do conhecimento histórico para o MST bem como, as concepções que estes professores atribuem à aprendizagem histórica na proposta curricular do Movimento social, relacionando-as à sua prática docente. O estudo foi motivado pelo interesse em compreender como o ensino de História acontece numa escola de assentamento e como os professorescompreendem a aprendizagem história na perspectiva de um currículo específi co construído por um Movimento social, o MST, para nortear a educação em suas escolas. No levantamento do referencial teórico, buscamos autores que desenvolvem estudos relacio- nados à abordagem e temáticas da presente investigação. Para a compreensão da aprendizagem história recorremos a Rüsen (2010) que a apresenta como um processo mental em que as dimen- sões temporais são experienciadas pelos sujeitos e produzem sentidos para a compreensão de si e do mundo. Desta forma, a aprendizagem em História deve partir de um processo elaborado de construção do conhecimento levando os estudantes a pensarem historicamente e “pensar histori- camente, por conseguinte, consiste na capacidade de o ser humano entender a relação presente- Perspectivas dos professores de história sobre Conhecimento histórico e Aprendizagem histórica na proposta pedagógica do MST Priscila Machado da Silva (Centro Educacional Monteiro Lobato) 25 -futuro com respeito ao passado” (MARTINS, 2017, p. 323). Como bem destacam Cainelli e Schmidt (2009), esse desenvolvimento da capacidade de orientação do tempo permite torná-lo signifi cativo para nós, refl etindo na tomada de decisões. Para Schmidt (2009) quando aprendem história, os su- jeitos atribuem sentido, fazem diferenciações e conferem aos fatos um signifi cado histórico. Rüsen (2010) destaca a experiência, a interpretação e a orientação como elementos centrais da apren- dizagem histórica pois permitem a percepção da mudança temporal, o entendimento do passado como histórico, a atribuição de signifi cados e a orientação para a vida. Assim, o conhecimento histórico resulta da interpretação da experiência humana no tempo, lida com formas de compreensão do passado, o interpreta, apreende as relações temporais, seus enfo- ques, suas concepções e no contexto da sala de aula, por meio do saber escolar, este conhecimento vai agregando outros saberes para que o estudante tenha a compreensão da História, se posicione diante das informações que recebe e se perceba inserido no âmbito da construção do próprio co- nhecimento. Para o percurso metodológico, a pesquisa qualitativa foi defi nida juntamente com a Análise de Conteúdo para o tratamento dos dados apresentados. Os resultados são compreendidos através das lentes teóricas e estudos dos autores já citados. Nesse sentido, o texto apresenta a última eta- pa do caminho metodológico que envolve o levantamento bibliográfi co, o estudo e análise docu- mental (Dossiê MST) e por fi m, foco do deste trabalho, entrevista semiestruturada e questionários realizados com os professores das escolas de assentamento. Os sujeitos dessa análise são os professores que compõem o quadro de docentes das escolas escolhidas como campo empírico da pesquisa. São escolas de assentamento, do ensino médio e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST): o Colégio Estadual do Campo João Pedro Teixeira, situado no Assentamento Eldorado, s/n, Estado da Bahia e suas extensões localizadas no Assentamento Eldorado, Assentamento Esperança e Assentamento Carajás . São escolas do cam- po e vinculadas ao MST e se constituem como resultado de luta e direito dos assentados ao acesso à educação voltada para sua dinâmica e conjuntura social. O núcleo educacional é formado por quatro assentamentos: Eldorado, Esperança, Carajás e Monte Alegre. Os dados permitem discutir a triangulação da tensão entre a cultura escolar, representada pe- los discursos visíveis dos documentos do MST e da proposta curricular, assim como os discursos invisíveis das práticas docentes. Essas tensões são principalmente visíveis nas contradições de- tectadas entre o projeto do MST, a proposta curricular, o manual didático utilizado e a prática dos professores. Em relação à aprendizagem histórica, foi possível identifi car os limites, as contradi- ções e o desconhecimento dos professores para com a prescrição da proposta pedagógica, bem como uma concepção de aprendizagem distanciada dos pressupostos epistemológicos da ciência da História. Assim, os resultados da pesquisa apontam para a necessidade da ciência histórica ser tomada como referência no desenvolvimento das noções e conceitos específi cos para a formação do pensamento histórico dos alunos. Referências: CAINELLI, Marlene Rosa; SCHMIDT, Maria Auxiliadora. Ensinar história. São Paulo: Scipione, 2. ed. 2009. MARTINS, Estevão de Rezende. Teoria e Filosofi a da História: contribuições para o ensino de His- tória. Curitiba: W & A Editores, p. 81-105, 2017. RÜSEN, Jörn. Aprendizado histórico. In: SCHIMIDT, Maria Auxiliadora; BARCA, Isabel; MARTINS, Estevão de Rezende (Orgs.). Jörn Rüsen e o ensino de história. Curitiba: Ed. UFPR, 2010. p. 41-49. SCHMITD, Maria Auxiliadora. Cognição histórica situada: que aprendizagem histórica é essa?. In: SCHMITD, M. A; BARCA, I. (orgs.). Aprender história: perspectivas da educação histórica. Ijuí: Ed. Unijuí, 2009. 26 Prática docente e resistência: a disciplina história entre o prescrito e praticado Monique Alves Brito (Secretaria de Educação do Estado da Bahia) A presente comunicação parte da pesquisa desenvolvida entre 2016 e 2018 no Programa de Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEd) da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB): O currículo e a disciplina história no contexto da educação integral em tempo integral, que versa sobre o lugar que ocupa a disciplina história e sua importância nos currículos da educação básica contemporânea. Tal estudo encontra-se no campo da pesquisa educacional e, mais especi- fi camente, no campo do currículo, do ensino de história e da educação integral. A seguinte questão suscitou este estudo: qual o lugar da disciplina história na proposta de educação integral do ProEI e como são tecidas as mediações entre o currículo prescrito e o praticado, especialmente entre os professores de história? Para o desenvolvimento desta pesquisa, nos embasamos no aporte teó- rico-metodológico materialista histórico, além da metodologia de análise de conteúdo e da técnica de entrevista semiestruturada. Concluímos, com este estudo, que a ampliação da jornada escolar não proporciona, no que diz respeito ao aspecto prescritivo desse currículo, uma ampliação da dis- ciplina história e nem garante a qualifi cação do ensino de história ainda que de forma indireta. Quando levamos em consideração os elementos práticos da constituição desse currículo, per- cebemos, entretanto, que isso se coloca enquanto possibilidade e que o papel ativo dos sujeitos inseridos neste contexto, especialmente os professores, é fundamental no processo de instituição desta disciplina. A postura ativa dos professores e dos agentes pertencentes à comunidade es- colar representa uma resistência a processos mais amplos e generalizados de disseminação de perspectivas ideológicas dominantes. E, dessa forma, o currículo vai se constituindo a partir dessa relação de dominação e resistência, imposições e desvios, tensionamentos e mediações. Esta pes- quisa trouxe à tona como professoras de história inseridas neste contexto lidaram com as espe- cifi cidades dessa organização curricular e criaram mecanismos, como criação de uma disciplina diversifi cada, por exemplo, para abordagem dos conteúdos de história, mesmo quando isso não se colocava explicitamente no currículo. Esta apresentação pretende partir dos resultados desta pesquisa e focar nos elementos que apontam para como a prática docente pode representar uma forma de resistência no processo de implementação das prescrições e organizações curriculares da disciplina história. Este artigo busca compreender o processo que construiu o ideal de República em Belém no iní- cio do século XX. A partir deste estudo, investigamos a contribuição do intelectual paraense Theo- doro Braga ao ideal republicano, que criou símbolos dentro de uma História ofi cial. Através da arte e das cartilhas de educação, produzidas pelo intelectual,o Pará alcançou um lugar de destaque dentro da intelectualidade nacional, pelo investimento do Intendente de Belém Antônio Lemos em troca de propaganda do seu governo. Edilson da Silveira Coelho contribui em nosso trabalho ao percebermos a atuação de Theodoro Braga dentro do cenário da arte nacional; Emília Viotti em seus estudos sobre a República nos fez perceber a participação política ideológica das elites na constru- ção de um novo regime; Alain Choppin ao tratar de manual didático conceitua este objeto como um agente modifi cador da realidade, fazendo perceber a importância desse material como meio de do- minação das classes dirigentes. O presente trabalho conversa com os estudos da História cultural, tendo como base de análise o autor Pierre Bourdieu utilizando o conceito de poder simbólico. Pelos Theodoro Braga e a construção do ideal republicano em Belém (1900-1910) Vinicius Machado Ferreira (Instituto de Educação Básica Cristo Rei) 27 nossos estudos, entendemos a relevância em pesquisar a conjuntura política, econômica e social do período que demarca a Belém de um novo século, pois, os confl itos e interesses que giravam em torno da mudança entre Império e República, infl uenciaram uma nova cultura, sob um ideal de pensar e viver o espaço urbano, atraindo consequências para os dias atuais à respeito dos símbo- los que estão presentes na História do Pará. A construção do ideal republicano em Belém do início do século XX, se fez pelas telas e manuais didáticos de intelectuais fi nanciados pelo Estado, como foi o caso de Theodoro Braga que imprimiu através da arte moderna a base de uma nova cultura, em troca de propaganda e proteção política, pois, na perspectiva do Mecenas Antônio Lemos, era importante marcar na modernização de Belém o estilo europeu. Com a implementação do proje- to de higienização da cidade, marginalizou-se alguns grupos sociais, ou seja, aqueles que não se enquadravam nos padrões dessa elite republicana branca ou de origem europeia. Eram afetados na medida em que teorias raciais do século XIX, como o darwinismo social de Spencer justifi cavam as relações de poder simbólico na criação de um ideal republicano. Por esse estudo, conseguimos observar a complexa relação entre a classe política e intelectual em Belém, que criou o ideal repu- blicano. Nessa construção, percebemos que existia uma elite política que queria se perpetuar no poder educando o pensamento das pessoas e defendendo o discurso de civilização e modernidade, por telas e cartilhas didáticas. Os símbolos, centrados na fi gura europeia, excluíram e marginali- zaram as populações indígenas e negras dentro do discurso hegemônico. Problema que ainda se mantém presente na escrita da História. E neste aspecto, este trabalho acadêmico se torna enri- quecedor por nos proporcionar a refl exão sobre materiais didáticos utilizados por nós educadores. Ainda existem reminiscências do pensamento dominante do período aqui abordado, por isso, a ne- cessidade de leis como a 10.639/2003 e a 11.645/2008 que instituem a obrigatoriedade do ensino da História e cultura Africana, Afro-brasileira e Indígena no currículo escolar. Portanto, a fi gura de Theodoro Braga associado ao poder político em Belém, nos fez perceber o papel de infl uência de grupos sociais dominantes na escrita da História. Esperamos que esta pesquisa tenha resultado em uma contribuição para a desconstrução de símbolos há muito atribuídas aos europeus, marginali- zando minorias políticas como negros e indígenas, que ainda não possuem de maneira efetiva um lugar de protagonismo na escrita da História. 28 SIMPÓSIO TEMÁTICO EDUCAÇÃO HISTÓRICA Reflexões teóricas, caminhos investigativos e ações didático-históricas 29 Pensamento histórico e racionalidade de sentido – análise da Competência Narrativa de for- mandos em História na Universidade Estadual de Feira de Santana. Rafael Dantas, Valter Soares (Universidade Estadual de Feira de Santana) Resumo: Refere-se a uma pesquisa, em andamento, que trata de uma investigação acerca da Competência Narrativa dos formandos do curso de Licenciatura em História da Universidade Es- tadual de Feira de Santana (semestre 2019.1). Jörn Rüsen (2010a, p. 60) caracteriza a competência narrativa como a “competência específi ca e essencial da consciência histórica”, e a defi ne como a habilidade da consciência humana para levar a cabo procedimentos que dão sentido ao passa- do, fazendo efetiva uma orientação temporal na vida prática presente por meio da recordação da realidade passada. A partir desses pressupostos, buscamos analisar e categorizar, no quadro da Tipologia Geral do conhecimento histórico proposta por este autor (RÜSEN, 2010b), as narrativas elaboradas pelos sujeitos da pesquisa. Os objetivos giram em torno da avaliação de se o conhe- cimento histórico ofertado pela formação acadêmica contribuiu para que os sujeitos da pesquisa formassem opiniões reguladas cientifi camente, compreendessem e explicassem o tempo presente e o mundo que os cercam, assim como identifi car como esses sujeitos se relacionam com a história ensinada na Universidade, na perspectiva da aprendizagem histórica. Parte-se da premissa, ela- borada por Rüsen (2010b), de que a aprendizagem histórica pode ser tomada como um processo de desenvolvimento ontogenético da consciência histórica, implicando em mais que um simples acúmulo de conhecimento sobre os acontecimentos do passado, mas como um processo pelo qual competências são adquiridas progressivamente, das mais simples às mais complexas. Nesse sen- tido, considera-se esse desenvolvimento como um “processo estrutural” que possibilita a formação da competência narrativa. Na investigação empírica da competência narrativa dos sujeitos em questão, (formandos em História da UEFS, selecionados para o ENADE 2019), dividiu-se a pesquisa em duas etapas: a primei- ra, mais próxima de uma abordagem quantitativa, atendeu à necessidade do levantamento de da- dos socioeconômicos e culturais dos sujeitos da pesquisa, a partir de um questionário que também pergunta sobre suas trajetórias de sua formação acadêmica. A segunda etapa da investigação, de natureza qualitativa, consistiu num “instrumento de coleta” de narrativas, produzidas pelos sujeitos a partir da proposição de dissertar sobre um tema por eles/as considerado traumático da história do Brasil. Com estas narrativas, pretendeu-se levantar dados para a investigação da competência narrativa e das modalidades de sentido histórico formuladas por sujeitos que acabaram de passar por uma formação científi ca em História. Através da análise ou leitura cruzada dos dados, inter- pretamos como acontece a utilização do pensamento histórico por parte de sujeitos de diferentes grupos socioeconômicos e culturais, bem como a contribuição dos espaços de formação, como a universidade, nesse processo de constituição do pensamento histórico e, principalmente, da cons- ciência histórica desses sujeitos, futuros professores. Os resultados, ainda parciais e provisórios, apontam para o fato de que, de modo geral, todas as narrativas analisadas conformam-se ao tipo de constituição “crítica” de sentido, contrapondo-se aos mecanismos culturais disponíveis à memória histórica tradicionalmente cultivada. Nesse sen- tido, as suas formas narrativas de síntese do tempo sugerem, cada uma a seu modo, uma espécie de ruptura com as representações culturalmente hegemônicas do curso do tempo. Cabe, portanto, "Pensamento histórico e racionalidade de sentido – análise da Competência Narrativa de formandos em História na Universidade Estadual de Feira de Santana." Rafael Souza Dantas (UEFS) Valter Guimarães Soares (UEFS) 30 como tarefa futura da investigação, por meio da análise da “competência argumentativa” (RÜSEN, 2010b) dos sujeitos (em suas três dimensões: experiência, interpretação e orientação), mensurar e categorizar, no nível argumentativo, as expressões cognitivas utilizadas como princípios e modos de mobilizaçãodo pensamento histórico cientifi camente articulado. Busca-se, com esse movimen- to, avaliar se os sujeitos da pesquisa desenvolveram e expressaram o “equilíbrio” necessário entre as duas grandezas relacionadas à aprendizagem histórica: o conhecimento histórico como dado objetivo nas circunstâncias da vida prática, e o conhecimento histórico como construto subjetivo da orientação prática movida pelos interesses de ruptura elaborados por cada um. Já em andamento, esta é a principal promessa desta comunicação. PALAVRAS-CHAVE: competência narrativa; aprendizagem histórica; formação de professores. Referências: RÜSEN, Jörn. O Desenvolvimento da Competência Narrativa na Aprendizagem Histórica: uma hipótese ontogenética relativa à consciência moral. In. SCHMIDT, Maria Auxiliadora; BARCA, Isabel; MARTINS, Estevão de Rezende. Jorn Rusen e o Ensino da História. Curitiba: Editora UFPR, 2010a, p.51-77. RÜSEN, Jörn: História viva: teoria da história: formas e funções do conhecimento histórico. Brasília, Editora UNB, 2010b. Em seu livro “Apologia à História ou ofício do Historiador”, Marc Bloch (2002) discorre sobre um questionamento muito presente nas aulas de histórias da educação básica – para que serve a história? Para respondê-la faz uma análise a respeito do objeto de estudo da historiografi a – a ação do homem no tempo. Pensando sobre isso, como os professores da educação básica podem responder tal questão ao aluno? Partindo desta refl exão, este texto tem como objetivo apresentar a pesquisa em andamento, na Iniciação Científi ca, que pretende analisar como os alunos do Ensino Médio, em escolas que tiveram experiência com o Pidid, percebem a História e seu ensino, com base nos dados do questionário aplicado pelo Projeto Residente (UEPG, 2019) que investigou as ideias históricas de jovens escola- rizados em várias partes do Brasil. Os dados selecionados são de escolas de Vitória da Conquista. Nessa perspectiva, buscamos identifi car o que esses jovens pensam sobre a História enquanto co- nhecimento e disciplina e como percebem as práticas de ensino de História vivenciada. Após a delimitação da temática, procuramos referencial teórico para dar seguimento a nossa investigação. Uma das primeiras problemáticas levantada foi os estudos sobre aprendizagem his- tórica de Jorn Rusen. Para ele a consciência histórica pode ser defi nida como uma categoria que se relaciona a toda forma de pensamento histórico, por meio das experiências do passado os sujeitos interpretam a história. Sendo assim, a consciência histórica não é simplesmente o conhecimento do passado, mas sim uma forma de fazer conexão com o presente e perspectivar o futuro. Além disso, por meio dos estudos do pesquisador Peter Lee, buscamos compreender o sentido de orientação dos alunos. Três pontos são elencados pelo historiador para compreendermos as ideias que são trazidos pelos estudantes sobre a história, sendo eles: o conceito de permanência, pois muitos alunos veem o passado como algo imutável, ou seja, uma visão do senso comum. Isso ocorre, segundo o autor, é porque a pergunta “como sabemos?” simplesmente não existe, aquele conhecimento dado torna-se então verdadeiro e permanente. Muitos encaram como algo distante, que não pode ser alçado. O segundo ponto trata-se de que as coisas só podem ser certas, somen- te se a vermos (ou fazemos) diretamente, logo um acontecimento do passado é visto com certe A compreensão da História e seu ensino por alunosdo Ensino Médio de Vitória da Conquista Ivone Vieira da Silva (UESB) 31 desconfi ança. A maneira de saber o passado, para muitos alunos, é conhecimento pela própria ex- periência (estar presente) ou tivéssemos acesso a uma testemunha ocular do acontecimento, não resolvendo o problema, pois, a testemunha poderia não relatar a verdade. Em terceiro, a história o conta “o que aconteceu”, desde que esse acontecimento seja constituído de eventos ou ações loca- lizadas muito especifi camente no tempo e espaço, ou seja, o que “poderia ser testemunhado”. De forma geral, a pesquisa histórica se resume a testar as afi rmações das fontes de tal perío- do, muitos estudantes associam a construção do conhecimento histórico com a busca da verdade permanente e absoluta. Com base nessas refl exões, procuramos em nossa analise entender o que esses estudantes compreendem por conhecimento histórico e quais as principais formas que mais confi am e por qual motivo. Assim, investigar qual o pensamento desses jovens em relação a cons- trução desse conhecimento, é algo já dado e permanente ou possui mudanças? A metodologia utilizada por esta pesquisa é baseada na análise dos dados do questionário or- ganizado com base na busca apreender a reação/opinião do estudante, já que foi aplicado no espa- ço escolar. Em sua estrutura, o questionário apresenta os seguintes tópicos: 36 questões com múl- tipla escolha (exceto uma pergunta especifi ca, que pede ao aluno para listar 5 nomes, por ordem de relevância, da história do país), cada tema propõem uma série de afi rmações que são respondidas de acordo o nível de concordância do estudante, sendo assim, em uma escala de valorização tipo “Likert”, que ia do “discordo totalmente” a “concordo totalmente”, o aluno escolhe a alternativa que representa seu posicionamento. Buscamos cruzar respostas, visualizar e comentar cada questão, procurar entender o que essas respostas estão indicando e compreender o que esses jovens estão dizendo sobre o Ensino e aprendizagem da História. Delimitamos nossa análise nas 8 primeiras perguntas do questionário, uma vez que nossa pesquisa não daria conta de trabalhar todas as te- máticas e respostas dos alunos. As temáticas de tais questão estão relacionadas a visão dos alunos do signifi cado da história, as formas como a história aparece e quais as de maior confi ança desses alunos, quais as formas preferidas e o uso do livro de didático. Nosso intuito inicial é investigar as respostas desses jovens estudantes e compreender como a aprendizagem histórica está sendo desenvolvida por eles. Por meio desse estudo podemos perceber alguns pontos a respeito da compreensão dos jovens e o Ensino de História. A primeira constatação é que, no geral, os jovens entendem a história como um conhecimento mais que uma matéria escolar, ao relacionar o signifi cado da história as respos- tas indicam que eles compreendem a história como uma possibilidade de aprender com o passado. Na questão que trata sobre os meios que eles mais gostam de aprender História, eles sinalizam os vídeos de youtube e fi lmes como preferidos. No entanto, indicam que as formas que eles mais confi am estão na fala do professor e no livro didático. Uma contradição importante a ser investi- gada, visto que apesar de achar interessante outros meios, a fala do professor permanece muito forte. A forma como a história ensinada também sinaliza questões importantes, uma vez que a aula expositiva e o uso do livro didático se mostram muito presente. No prosseguimento da pesquisa pretendemos cruzar mais informações e problematizar as respostas dos estudantes no sentido se compreender os limites e possibilidades da aprendizagem histórica no contexto escolar. Referências: BLOCH, Marc. Apologia da História, ou, o Of i cio do Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2001 LEE, Peter. Em direção a um conceito de literacia histórica. Educar, Curitiba, n. especial, p. 131-150, 2006. OLIVEIRA, Nucia Alexandra Silva. CONCEPÇÕES DE ENSINO E APRENDIZAGEM DE HISTÓRIA ENTRE JOVENS ESTUDANTES DE FLORIANÓPOLIS/SC. CERRI, L.F., ed. Os jovens e a História: Brasil e América do Sul [online]. Ponta Grossa: Editora UEPG, 2018, 332 p. ISBN: 978-85- 7798-248-6. https://doi. org/10.7476/9788577982486. 32 RÜSEN, J. Aprendizagem histórica Fundamentos e paradigmas. (Com a contribuição de Ingetraud Rüsen). Curitiba: W&A Editores, 2012. Projeto Residente: observatório das relações entre jovens, história e a política na América Lati- na, 2019, coordenação Prof.Dr. Luís Fernando Cerri, UEPG. Disponível em: https://www2.uepg.br/ gedhi/projeto-residente/. Este trabalho busca apresentar o relato de experiência da construção e aplicação do Projeto de Docência intitulado: A gripe espanhola na Bahia: quando o fl agelo bate à porta!, . Sendo este, carac- terizado como uma proposta de intervenção pedagógica para o ensino de História na perspectiva da Aula Histórica (SCHMIDT, 2017) quanto ao uso das fontes em atividades que conduzem os alunos à interpretação e a inferências de materiais de diferente natureza para produzirem suas narrativas, possibilitando, de forma efetiva, o desenvolvimento da aprendizagem histórica. No intuito de se compreender como se estrutura a Aula Histórica e sua metodologia, buscou-se a sistematização proposta por Maria Auxiliadora Schmidt (2017) com infl uências das literaturas e dos seus diálogos com os pesquisadores europeus Jörn Rüsen, Peter Lee e Isabel Barca. Por isso, esse modelo de intervenção pedagógica e de pesquisa para o ensino de História está ligado ao campo da Educação Histórica, constituindo-se como campo de pesquisa que “insere-se no universo mais amplo das investigações em ensino de História, cujo interesse de análise volta-se ao processo de aprendizagem histórica em diferentes níveis escolares (GERMINARI, 2020, p. 181). Aula Histórica pelo seu caráter investigativo subsidia o professor da educação básica a desen- volver pesquisas, pois suas atividades pedagógicas de interpretação das fontes podem e devem ser utilizadas como instrumental de pesquisa empírica. Por está ligada à Educação Histórica, apresenta em seu referencial metodológico uma abordagem qualitativa quanto à análise e categorização da ideias históricas apresentadas pelos alunos em suas narrativas, a respeito do conceito substantivo (LEE, 2003), possibilitando, assim, o desenvolvimento da aprendizagem histórica com discussões que remetem às competências do pensamento histórico, a exemplo de empatia histórica, evidência histórica e interpretação histórica, conceitos metahistóricos ou de segunda ordem, como denomina Peter Lee (2003). Consideramos que o uso das diferentes fontes históricas em sala de aula incentiva o aluno a ter um contato pessoal com o passado e, por meio da inferência pode-se estimulá-los a imaginar como seria o passado, como era a vida das pessoas e que os motivaram como sujeitos históricos a tomarem determinadas decisões, promovendo, assim, o desenvolvimento do sentido de análise histórica. Dessa maneira, levamos em consideração que O trabalho com o documento histórico em sala de aula exige do professor que ele próprio amplie sua concepção e o uso do próprio documento. Assim, ele não poderá mais se restringir ao docu- mento escrito, mas introduzir o aluno na compreensão de documentos iconográfi cos, fontes orais, testemunhos da história local, além de linguagens contemporâneas, como cinema, fotografi a e in- formática. (SCHMIDT; CAINELLI, 2009, p. 117). Para isso, fez-se necessária a análise de fontes, “problematizando-as e interpelando-as, per- mitindo às crianças e jovens interpretar e problematizar esses vestígios do passado à luz de sua vida prática no presente” (SCHMIDT, 2017, p. 70), oportunizando o aprimoramento do pensamento histórico, ao tempo que se mantém uma relação dialética entre os envolvidos no processo de cons- A gripe espanhola na Bahia: uma proposta de intervenção pedagógica e pesquisa na perspectiva da Aula Histórica Izis Pollyanna Teixeira Dias de Freitas (Colégio Estadual Luís Prisco Viana/Ba) 33 trução da aprendizagem histórica. Dentro desta ótica, construímos o mencionado Projeto de Docência com previsão para ser apli- cado na primeira quinzena de setembro junto aos alunos do 90 ano ensino fundamental da Escola Municipal Natalino de Oliveira Lima, situada no município de Lagoa Real/BA. Busca-se assim, uma proposta de intervenção pedagógica para o ensino de História relacionado ao conteúdo histórico Gripe Espanhola, uma vez que temáticas ligadas às epidemias vividas pela a humanidade no pas- sado vêm despertando o interesse de alunos e professores “desde que outra doença respiratória aguda grave, provocada por um novo agente do coronavírus (SARS-CoV2), extrapolou as fronteiras da China, onde surgiu, atingindo vários países a partir de janeiro de 2020” (SOUZA, 2020, p. 1), pro- vocando a Pandemia da Covid-19. Assim, desenvolvemos esta proposta de intervenção pedagógica com o uso de diversas fontes relacionadas à temática em questão e atividades com provocações interpretativas que conduzem à leitura do passado de forma contextualizada e iniciada pelo levantamento das carências de orien- tações temporais apresentadas pelos alunos em relação o conceito substantivo a ser estudado e, posteriormente, a sua inserção na investigação e inferência de fontes de diferentes naturezas, pois esperamos que com esta atividade pedagógica o aluno seja capaz de levantar hipóteses, argumen- tos interpretativos das fontes e, assim, desenvolver sua metacognição na produção de narrativas sobre o conhecimento histórico em questão que explicitam atitudes relacionadas aos conceitos de segunda ordem (evidência histórica, empatia histórica, verdade histórica e passado histórico), promovendo, assim, a aprendizagem histórica; e subsidiando o professor a categorização de suas ideias históricas; bem como permitir a identifi cação que estes mantêm com a temática e como a relaciona com as ideias epistemológicas (de segunda ordem). Dessa forma, entendemos que o professor de História da educação básica quando se propõe realizar atividades dessa natureza busca-se levar o aluno a entender o outro, no contexto que o ou- tro estava vivendo, num exercício de empatia histórica revelada em narrativas, porque entendemos que narrar o conhecimento histórico e suas relações temporais se caracteriza como um procedi- mento fundamental para o desenvolvimento da consciência histórica. Referências: GERMINARI, Geyso D. Empatia Histórica. In: SCHMIDT, Maria A.; OBANSKI, Adriane de Q. Compe- tências do Pensamento Histórico. Coleção Educação Histórica, v. 2. Curitiba: W.A. Editores, 2020, p. 179-196. LEE, Peter. “Nós fabricamos carros e eles tinham que andar a pé”: Compreensão das pessoas do passado. In: BARCA, Isabel (Org.). Actas das Segundas Jornadas Internacionais de Educação Históri- ca. Braga: 2003, p. 9-19. SCHMIDT, Maria A. e CAINELLI, Marlene. Ensinar História. São Paulo: Scipione, 2009. SCHMIDT, Maria A. Jörn Rüsen e sua contribuição para a didática da História. Intelligere, Revista de História Intelectual vol. 3, no 2, DOSSIÊ: sentido e relevância da História no mundo contemporâ- neo out.2017. SOUZA, Christiane Maria Cruz de Souza. Quando o fl agelo bate à porta: a epidemia de “gripe espanhola” na Bahia (Artigo). In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https:// www.cafehistoria.com.br/a-gripe-espanhola-na-bahia/. Publicado em 13 abr. 2020. ISSN: 2674- 5917. Acesso: 22 ago. 2021. . 34 Este estudo apresenta um diálogo entre a pedagogia da autonomia, tal qual obra homônima de Paulo Freire com a consciência histórica, conforme propõe Jörn Rüsen. Tanto a autonomia quanto a consciência são capacidades humanas que cada um pode e deve potencializar para contribuir na construção de uma sociedade mais justa. Para a compreensão dessa importância, este trabalho está dividido em dois momentos. O primeiro sintetiza as contribuições de Paulo Freire para uma pedagogia libertadora, assim como a colaboração de outros pedagogos tanto para a ética dos pro- fessores quanto para a formação dos estudantes. O segundo analisa os aportes de Jörn Rüsen para a didática da história, assim como o incentivo de outros historiadores para o desenvolvimento da consciência histórica no âmbito escolar. Vivemos uma época em que precisamos cada vez mais de diálogo para convivermos de forma humana e fraterna. O mundo está polarizado e os discursos se opõem e se distanciam ao ponto de violar os direitoshumanos. Todos nós que fazemos a educação democrática e com ela desejamos transformar o mundo em um lugar melhor, precisamos fazer do diálogo uma exigência existencial a fi m de que se torne uma práxis amorosa e libertadora. Por outro lado, os antidialógicos tentam impedir essa libertação para manter a dominação e os privilégios de uma minoria sobre a maioria. Cabe a nós resistir e enfrentar em compromisso com os valores democráticos de cidadania. Através da manipulação, as elites dominadoras pregam um discurso fatalista da história e inculcam nas massas dominadas o sentimento de que não é possível mudar a ordem neoliberal excludente que permeia o mundo. Contudo, precisamos estar convictos de que a história está em permanente construção e que a mudança é possível, por mais que pareça difícil. Precisamos nos pronunciar e advertir sobre os perigos de votar em candidatos reacionários que violam os direitos e colocam em risco a frágil de- mocracia do nosso país, constantemente assolado por golpes de diversos tipos, como o de 1964 ou o de 2016, sempre que a elite se sente ameaçada de perder seus privilégios. Nesse sentido, os professores têm um papel fundamental na formação da cidadania, pois ensi- nar exige comprometimento e intervenção no mundo. Não existe neutralidade da educação. Esse é mais um discurso ideológico dominador para impedir que os estudantes refl itam sobre as contra- dições excludentes do capitalismo. Sendo assim, é necessário sustentar a luta, afi nal de contas, “se a educação não pode tudo, alguma coisa fundamental a educação pode.” (FREIRE, 2020, 110). Ensinar História, considerando a pedagogia da autonomia e a consciência histórica, requer de- senvolver atividades que permitam ao educando produzir conhecimento histórico útil para a sua própria história enquanto cidadão autônomo, a fi m de que seja capaz de se posicionar criticamente. Ao mesmo tempo, possibilita ao educador democrático uma oportunidade de contribuir na constru- ção de um mundo mais justo e humano, apesar de todas as adversidades de nosso tempo. A pedagogia da autonomia e a consciência histórica Vítor Lins Oliveira (Colégio Marista Pio X/PB) O objetivo deste trabalho é relatar o processo de construção e execução de aulas inspiradas no modelo da Aula-Histórica, proposta adaptada por Schmidt (2017, p. 69) a partir da matriz da Didática da História de Jörn Rüsen (RÜSEN, 2016, p. 25 apud SCHMIDT, 2017, p. 63). Tal experiência está sendo desenvolvida na modalidade do ensino remoto, no Programa de Residência Pedagógica Aulas históricas no ensino remoto: um relato de experiência Amanda Souza Viana (UEFS) Emilly Késsia Ferreira de Brito Santos (UEFS) Thailan de Sousa Batista (UEFS) 35 (PRP), subprojeto de História da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e teve/tem como público-alvo os estudantes de duas turmas do segundo ano Ensino Médio do Colégio Modelo Luis Eduardo Magalhães, situado no município de Feira de Santana-BA. As aulas constituem-se parte do Projeto de Pesquisa e Ensino (PPE) em andamento, que tem a Educação Histórica como referencial teórico e metodológico. Para o desenvolvimento deste relato, recortamos duas aulas, nas quais procuramos articular o conceito substantivo Segundo Reinado com os conceitos epistemológicos de empatia histórica e evidência histórica, a partir do recorte temático “A ideia de sociedade brasileira defendida por Luiz Gama na segunda metade do século XIX”. Na fase de planejamento destas aulas históricas, utilizamos Azevedo (2003), Mota (2020), Silva (2019) e Ferreira (2008) como bibliografi as de apoio para o estudo acerca do recorte temático escolhido a partir do conceito substantivo previamente apontado no conteúdo programático do se- gundo ano do Ensino médio, além de outras, como Ashby (2006) e Aguiar (2018) para o estudo dos conceitos epistemológicos elegidos. Em ambas as aulas, foram selecionadas e utilizadas fontes históricas com o objetivo de via- bilizar o processo de evidenciação e debate entre os estudantes secundaristas e os residentes, a fi m de proporcionar algumas contribuições para o exercício da empatia histórica por parte dos primeiros. Além disso, tanto no momento síncrono quanto no assíncrono, os alunos foram estimu- lados a apresentar suas considerações e entendimentos a respeito do que estava sendo discutido a partir dos questionamentos que direcionamos aos mesmos acerca das fontes, através dos quais buscávamos identifi car como lidaram com tais conceitos a partir das aulas e como mobilizaram e articularam o passado e o presente de modo a construir alguma signifi cação que lhes oferecessem repertório para as ações futuras. Pretendemos fazer a exposição do processo de planejamento das aulas citadas, bem como a sua execução, abordando os desafi os enfrentados por nós na elaboração e adequação do modelo de Aula-Histórica proposto por Schmidt (2017, p. 69) à realidade remota, além da difi culdade de traquejo para a interpretação de fontes por parte de alguns alunos. Ademais, buscamos apre- sentar alguns critérios que estão sendo utilizados, uma vez que o PPE está em andamento, para avaliar se as contribuições geradas por essas aulas obtiveram êxito, por meio da análise das respostas dos estudantes ao formulário assíncrono e dos registros que fi zemos das aulas em um portfólio. Alguns desses parâmetros são a relação que os estudantes desenvolveram entre os conceitos substantivo e os de segunda ordem; como lidaram com os conceitos epistemológi- cos de evidência e empatia históricas; sinais de orientação na vida prática, isto é, se realizaram articulações entre o passado e o presente; receptividade, participação e interesse dos alunos no trabalho com fontes em sala de aula. A partir de uma análise preliminar dos dados, é perceptível que houve contribuições signifi ca- tivas no que se diz respeito ao entendimento de alguns estudantes sobre os conceitos que estão sendo utilizados para nortear todo o processo de elaboração, execução e avaliação das aulas. Ou- tros alunos, no entanto, não obtiveram uma compreensão tão satisfatória, o que já era esperado, uma vez que o exercício de articulação entre os conceitos substantivos e epistemológicos demanda tempo e práticas constantes até que sejam alcançados resultados mais proveitosos. Quanto aos níveis de desempenho dos alunos nos critérios supracitados, só poderemos ter maior clareza após o amadurecimento na investigação dos materiais obtidos, o que será realizado ao longo da monta- gem do PPE. Referências: AGUIAR, Edinalva Padre. A realização da empatia histórica no ensino e aprendizagem da História. Cadernos de Pesquisa: Pensamento Educacional, Curitiba, v. 13, n. 33, p.109-124, jan./abr. 2018. ASHBY, Rosalyn. Desenvolvendo um conceito de evidência histórica: as idéias dos estudantes sobre testar afi rmações factuais singulares. Educar em Revista, Curitiba, Especial, p. 151-170, 2006. 36 AZEVEDO, Elciene. O direito dos escravos: lutas jurídicas e abolicionismo na província de São Paulo na segunda metade do século XIX. 2003. Tese (Doutorado em História) - Universidade Esta- dual de Campinas, Instituto de Filosofi a e Ciências Humanas, Campinas, 2003. Disponível em: http:// www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/279890. Acesso em: 4 ago. 2021. FERREIRA, Lígia Fonseca. Luiz Gama por Luiz Gama: carta a Lúcio de Mendonça. Teresa. Revista de Literatura Brasileira da USP, n. 8/9, São Paulo, p. 300- 321, 2008. Disponível em: https://www. revistas.usp.br/teresa/article/view/116741/114299. Acesso em: 31 jul. 2021. MOTA, Luiz Gustavo Ramaglia. Ser advogado abolicionista no Brasil escravista: a concepção de Luiz Gama sobre o Direito e a Justiça. Anais Eletrônicos do XXV Encontro Estadual de História da ANPUH-SP, [S. l.], 2020. XXV Encontro Estadual de História da Anpuh- SP, 2020, on-line. Disponível em: https://www.encontro2020.sp.anpuh.org/resources/anais/14/anpuh-sp-erh2020/1596548214_ ARQUIVO_b46145d1b3804a385b24158e8fbc12d7.pdf. Acesso em: 02ago. 2021. SCHMIDT, Maria Auxiliadora. Jörn Rüsen e sua contribuição para a didática da História. Intellige- re, Revista de História Intelectual, v. 3, n. 2, p. 60-76, 2017. SILVA, Aline Freitas de Paula e. A lei de 1831 e os caminhos da liberdade através do judiciário no século XIX. 2019. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado em Direito) - Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2019. Disponível em: https://attena.ufpe.br/bitstream/123456789/37167/1/ Monografi a%20%20Aline%20Freitas.pdf. Acesso em: 31 jul. 2021. A disciplina escolar de História Antiga pode contribuir para a valorização da diferença, da diver- sidade, da heterogeneidade, da tolerância e para o combate à discriminação, rejeitando qualquer tipo de preconceito. Por seu potencial de abordagem multiculturalista e de diversidade presente em seu conteúdo, a História Antiga pode reforçar as perspectivas das Orientações Curriculares para o Ensino Médio apesar de muitos livros didáticos ainda conterem inúmeras generalizações, anacro- nismos e desatualizações, estando portanto, longe do ideal. A perspectiva eurocêntrica e evolucionista se encontra presente nos livros didáticos por meio da reafi rmação dos conceitos de “Ocidente” e “Oriente” e dos desdobramentos da Tradição Clássica. Daí a necessidade de fomentar a construção de um conhecimento histórico escolar crítico, a partir da compreensão e valorização à diversidade cultural, com material teórico atualizado. Assim, diferente de certas percepções de que o estudo da História Antiga está longe de nossa realidade, as socie- dades do mundo antigo têm despertado cada vez mais o interesse de estudantes e pesquisadores brasileiros, com temáticas próximas de nossa realidade, como: os estudos de gênero, diversidade, processos de integração, periferias, hegemonias, imperialismo etc. Além disso, o estudo da Antigui- dade não pode ser pensado sem uma refl exão sistemática e aprofundada sobre os usos do pas- sado, que são centrais para o estudo e releitura crítica desses passados, daí a presença de termos como apropriação e recepção, cada vez mais presentes no vocabulário de historiadores do mundo antigo, preocupados em investigar como os “antigos” se tornaram elementos fundamentais para a construção de identidades, em momentos distintos da história. Nesse campo dos usos do passado, o ensino da História Antiga assume relevância nos diversos níveis, principalmente nos debates do lugar do Ensino da História, na criação da BNCC no Brasil, além das mudanças que têm ocorrido na forma de se pensar o Ensino no mundo todo (FAVERSANI; SANTOS; LÓPEZ, 2020). Tais refl exões, tomadas como pressupostos, serão discutidas neste trabalho por meio da aná- Diálogos entre a História Antiga e o Ensino de História: algumas ponderações sobre o conteúdo de História Antiga para o 6º ano na BNCC Alexandre Galvão Carvalho (UESB) 37 lise mais detalhada nas competências específi cas de História para o ensino fundamental da BNCC, do 6o ano, em particular, na unidade temática relacionada com o mundo antigo clássico: “A invenção do mundo clássico e o contraponto com outras sociedades”. Procuraremos discutir de forma mais atenta a habilidade relacionada com este unidade temática: o conceito de Antiguidade Clássica, seu alcance e limite na tradição ocidental, assim como os impactos sobre outras sociedades e cul- turas, pois entendemos que os debates atuais na historiografi a caminham na superação de uma perspectiva eurocêntrica, centrada no protagonismo de uma suposta “origem da cultura ocidental”, presente no mundo antigo, que tal unidade temática e habilidade parecem pressupor. Os trabalhos de Martin Bernal, Norberto Guarinello e Jack Goody têm desconstruído a perspectiva eurocêntri- ca e acentuado as conexões dos povos do Mediterrâneo ao longo da Antiguidade. De acordo com Guarinello, a formação da identidade grega é um processo complexo, pois a Grécia nunca foi um país específi co, uma vez que os gregos se espalharam por toda a bacia do Mediterrâneo e além, sem nunca corresponder a uma sociedade uniforme, a uma mesma cultura ou a um Estado uni- fi cado. Portanto, é necessário repensar os parâmetros do ensino da História da Grécia, para além das esferas vagamente culturais e políticas, refl etindo acerca da diversidade das cidades-estados do mundo grego (GUARINELLO, 2003). De acordo com Martin Bernal, os estudos clássicos no XIX incorporaram as justifi cativas das ações imperialistas ou neocolonialista europeias. O modelo que promoveu essa visão, denominado de ariano, parte da hipótese de que a cultura grega foi resultado das invasões e conquistas de povos do norte, falantes de uma língua indo-europeia. Assim, abdica- va-se do modelo, no qual se admitia as profundas dívidas culturais que os gregos mantinham com o Oriente Próximo, chamado por Bernal de modelo antigo, abandonado após a década de 1820 pelo meio intelectual dominante, pelas infl uências do Romantismo, do Racismo e pelos defensores do conceito de progresso e da ideia de que os gregos representavam a infância da Europa. Segundo Goody, a Grécia Antiga não pode ser comparada com sociedades primitivas, com o objetivo de di- ferenciá-las das sociedades capitalistas modernas, pois as chamadas sociedades “primitivas” são muito diferenciadas entre si, inviabilizando uma comparação entre a Antiguidade com uma socie- dade “primitiva” indiferenciada (GOODY, 2008). Procuraremos mostrar como essas perspectivas ainda se apresentam em alguns livros didáti- cos do 6o ano e alguns caminhos para sua superação, por meio de pesquisa em desenvolvimento, levada a cabo no projeto de pesquisa “diálogos entre a História Antiga e o ensino de História”, de- senvolvido no Departamento de História da UESB por docentes e discentes. Referências: BERNAL, M. A imagem da Grécia como uma ferramenta para o colonialismo e para hegemonia europeia. In: BERNAL, M.; CANFORA, L.; FUNARI, P. P.; OLIVEIRA, L. Repensando o mundo antigo. Tex- tos Didáticos, n. 52. Campinas: IFCH/UNICAMP, 2005. FAVERSANI, F.; SANTOS, D. V. C.; LÓPEZ, C. R. Apresentação do dossiê: a História Antiga entre o local e o global: integração, confl ito e usos do passado. Revista Brasileira de História, v. 40, n. 84, p. 193-216, 2020. GOODY, J. O roubo da História. Como os europeus se apropriaram das ideias e invenções do Oriente. São Paulo: Editora contexto, 2008. GUARINELLO, N. L. Uma morfologia da História: as formas da História Antiga. Politeia, Vitória da Conquista, v. 3, n. 1, p. 41-61, 2003. _____. História Antiga. 4. ed. São Paulo: Contexto, 2019. 38 Prevaleceu, aqui no Brasil, um registro ofi cial que alterou o que foi um processo de luta por rede- mocratização por simples atos para abertura política, o que, provavelmente, limitou o alcance das medidas de justiça e memória pós ditadura militar (QUINALHA, 2013). Esta manipulação impediu, e ainda impede, o reconhecimento jurídico dos malefícios ocorridos e, por consequência, atrapalha a execução de ações em prol de suas correções, conhecida como justiça de transição. Tosi e Silva (2014) entendem que três dimensões são essenciais para a plena justiça de tran- sição: reconhecimento e reparação; justiça; direito à memória e verdade. O Reconhecimento é a atitude moral do Estado em se responsabilizar pelos atos criminosos cometidos por seus agentes, seguido de ações concretas para reparação dos danos causados. A justiça é a punição daqueles que cometeram crimes e, especifi camente no Brasil, a revisão da Lei de (auto)anistia de 1979. Enquanto a memória e a verdade são a reconstituição ampla de informações e conhecimentos omitidos du- rante o período autoritário. Especialmente no cerne da educação, Gamboa (1998, p. 111) destaca que “a educação é tida, em primeiro lugar, como adaptação do homem a seu meio social”. Portanto, o silenciamento e/ou invi- sibilização das violências ocorridas durante todo um regime acabaria por solidifi car memórias que favoreceriam a negligência do Estado em cumprir suas responsabilidadesquanto as ações que de- veriam ser efetivadas para que uma justiça de transição plena fosse efetuada. Nessa perspectiva, fi ca evidenciado que além de seu caráter meramente formativo e processual, a educação, enquanto instrumento político, possibilita/impede a (de)formação memorialística de uma consciência huma- na que extrapola suas dimensões individuais, o que implica reconhecimento de sua função social ou coletiva, enquanto “forma de luta política” (GAMBOA, 1998). A julgar que a memória é a possibilidade e a capacidade de dispor de conhecimentos passados e não uma reprodução das experiências, Le Go� (2010) alerta para o fato de que a memória coletiva pode ser utilizada como um objeto de poder, visto que permita compreender essa luta pela domi- nação da recordação e da tradição. Portanto, o objetivo desse manuscrito é analisar – a partir das políticas negligenciadoras im- postas a educação da história brasileira – os impactos na memória educacional relativa ao regime militar autoritário brasileiro A proposta se confi gura como de abordagem qualitativa, pois, dedica-se a analisar casos con- cretos em suas particularidades locais e temporais, embasando-se das expressões e atividades das pessoas em seus contextos de vida (FLICK, 2002). No Brasil, estudantes em geral estão expostos a toda sorte de infl uências quando se trata de refl etir sobre os signifi cados da história. Alberti (2015, 284) afi rma que fazem parte desse terreno “as narrativas padrão da história nacional e as muitas vezes confl itantes memórias coletivas, as quais tampouco estão imunes a um enquadramento mítico que conclama a uma adesão emotiva”. O Estado, através de suas políticas públicas, se preocupa e se dedica a composição da história ofi cial que será contada (ou imposta!), valorizando ou esquecendo questões, conforme a ideologia vigente. Esses comportamentos podem ser mais bem percebidos a partir dos escritos de Halbwa- chs (2009) ao afi rmar que a memória não está separada de seus condicionamentos sociais, ou seja, os indivíduos articulam sua memória em função de seu pertencimento a uma família, uma religião, um grupo, uma classe social determinada. Por conseguinte, a educação também está vulnerável as possibilidades de manipulação de determinados quadros sociais da memória que os projetos de manutenção de poder se concretizam. Ensino de História e a Memória da Ditadura Militar Construída na Redemocratização Política Brasileira Leila Maria Prates Teixeira Mussi (UESB) 39 No que concerne as diversas composições históricas, a brasileira não escapa de equívocos re- correntes, uma vez que ela se apresenta repleta de seleções e lacunas, realces e invisibilidades, persistências e esquecimentos, como também é feita da correlação de eventos que se acumulam e evocam alterações substanciais (SCHWARCZ, 2019). Reforçando um apego a uma história mítica que não condiz com a realidade do país. Publicações na área de ensino de história têm observado que debates importantes travados desde os anos 1980, aproximadamente, na história e nas ciências sociais muitas vezes fi cam de fora das escolas (ALBERTI, 2015). Muito disso se deu devido aos acontecimentos históricos que ocorreram nas últimas décadas do século XX, acontecimentos tidos como controversos. Apesar da discussão acerca da legitimidade da ação do historiador sobre a História do Tempo Presente já ter sido superada, as críticas sempre retornam quando o que está em questão é o pas- sado recente que envolve as experiências ditatoriais na América Latina. As críticas são sempre as mesmas: “falta objetividade, sobram paixão e interesse pessoal”. As difi culdades são desde problemas pedagógicos até mesmo a falta de interesse ou qualifi ca- ção docente. A inexistência de políticas públicas de valorização da memória. Defi ciência de mate- riais de apoio qualifi cado ou o pouco diálogo entre a academia e o espaço escolar, para explicar a abordagem secundária desta temática em sala de aula. Assim sendo, percebeu-se que esse período histórico brasileiro ainda é cheio de lacunas e pou- co refl etido em salas de aula de História da educação básica. A inefi cácia de políticas públicas para garantia do “dever de memória” é um dos grandes expoentes que reforçam tantas falhas em nosso ensino de história. A memória é passível de gerar consciência histórica. Então, o papel da escola e o papel docente passam a ser profundamente estratégicos para a consolidação da percepção de cidadania e da pró- pria democracia. A humanidade é quem constrói o passado e este é inevitável na construção de uma consciência humana, componente de valores, comportamentos e instituições de uma sociedade. Referências: ALBERTI, Verena. História e memória na sala de aula e o ensino de temas controversos. IN. QUA- DRAT, Samantha; ROLLEMBERG, Denise (orgs). História e memória das ditaduras do século XX – vo- lume 2. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2015. p. 283-300. FLICK, U. Introdução à pesquisa qualitativa. Porto Alegre: Artmed, 2002. GAMBOA, Silvio Sánchez. Epistemologia da pesquisa em educação. Campinas: Práxis, 1998. HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2009. LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Unicamp, 2010. QUINALHA, Renan. Justiça de transição: contornos do conceito. São Paulo: Outras Expressões; Dobras Editorial, 2013 SCHWARCZ, Lilian Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das letras, 2019. TOSI, Giuseppe; SILVA, Jair Pessoa. Justiça de transição no Brasil e o processo de democratização. IN. TOSI, Giuseppe; et al (Organizadores) Justiça de transição: direito à justiça, à memória e à verda- de. João Pessoa: Editora da UFPB, 2014. 40 Esta comunicação é uma refl exão sobre as possibilidades da História Pública para o Ensino de História. A História Pública é um movimento de ação e refl exão que nos últimos está em debate no Brasil, tendo como uma de suas possibilidades o Ensino de História. Este trabalho é resultado de refl exões preliminares de minha pesquisa de mestrado e de discussões realizadas no Programa de Pós-Graduação em História Pública (PPGHP) da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), em Campo Mourão. Cuja proposta é a de debates coletivos com estudantes em uma escola pública na cidade de Campo Mourão para produzirmos conhecimento históricos-educacionais tendo como mote de refl exão o gênero. Tal discussão pretende entender as demandas sociais e realizar atitudes e práticas para construir futuros outros por meio da via de mão dupla (FRISCH. 2016). Assim, objeti- vo neste trabalho refl etir acerca de alguns caminhos e problemáticas em torno de História Pública, bem como em seu entrecruzar com o Ensino de História, suas possibilidades e caminhos. Para tanto, realizei o estudo de livros e artigos que tratam das temáticas, e pude observar que a História Pública é um movimento que dialoga com o Ensino de História. No que tange à sua defi ni- ção, o historiador Ricardo Santhiago (2016) a entende como um campo ou uma prática historiadora que, em cada local, ganha formas e cores distintas, e que no Brasil apresenta quatro eixos que podem se entrecruzar: a história para o público, cujo foco é a ampliação das audiências; a história com o público, baseada numa construção conjunta; a história pelo público, realizada por indiví- duos e instituições de não-historiadores; e história e público, que compreende a refl exibilidade e autorefl exividade em torno da mesma. No ano seguinte o mesmo autor afi rmou que essa divisão é meramente didática, e que essas práticas se entrecruzam, além disso, colocou que a defi nição foi proposta para que não houvesse apenas uma perspectiva dominante (SANTHIAGO, 2017). Diante disso, a História Pública pode estar presente na sala de aula, e então cabe a seguinte indagação: será que todas as práticas realizadas em sala de aula podem ser consideradas Histó- ria Pública? Mesmo que este espaço seja privilegiado quando se propõe a refl etir sobre a História Públicae Ensino (FERREIRA, 2018), nem sempre encontramos uma atitude historiadora, ou seja, promotora de processos inclusivos de produção e divulgação histórica. Assim, parto da ideia de que a história com o público pode ser uma abordagem possível para entrecruzar esses dois campos (ou práticas), pois tem como principal viés o do refl etir, dialogar e construir juntamente com o público (no caso discentes e comunidade), ou seja, de um conhecimento construído em rede (ANDRADE; ANDRADE, 2016). Ademais, seu elo comum é o da autoridade compartilhada, proposta por Michael Frisch (2016), na qual não há uma hierarquização de saberes, e sim uma horizontalidade, com histo- riadores e não-historiadores dialogando cada qual com seus respectivos conhecimentos. Destarte, não se trata de desqualifi car a produção historiográfi ca em favor da realizada por não historiado- res, pois isso apenas inverteria a hierarquia que frequentemente é estabelecida e permitiria a ba- nalização do conhecimento, abrindo espaço para negacionismos (FERREIRA, 2018). Portanto, essa história feita junto com o público pode ser praticada em sala de aula, onde dis- cente e estudantes compartilham saberes (científi cos ou não) e experiências, a fi m de construir conhecimento histórico escolar (FERREIRA, 2018) por meio da autoridade compartilhada. Isso por- que durante o processo de ensino e aprendizagem, o professor realiza operações que confl uem para a divulgação e circulação do conhecimento histórico, além de produzir conhecimento histórico escolar – cujos conhecimentos dos discentes são contribuições valiosas nesse processo (FERREI- RA, 2018) para refl etir sobre a ciência histórica. E para isso é necessário que haja escuta, diálogo e negociação, não se esquecendo de que História Pública evidencia diversos interesses e relações de poder e cabe a nós lidarmos com isso nos mais diferentes espaços públicos, tendo a ciência o papel Ensino de História e História Pública: entrecruzares e possibilidades Drieli Fassioli Bortolo (UNESPAR/PR) 41 mediador, provocador e fundamental nos confrontos de narrativas. Por fi m, concordamos com a historiadora Jill Liddington (2011, p. 50) quando afi rma que “a his- tória pública é menos sobre ‘quem’ ou ‘o que’, e muito mais sobre ‘como’”. De acordo com as ideias apresentadas acima, entendo a História Pública como uma área com múltiplas possibilidades, cujo diálogo e construção com o público é, entre as possibilidades, a qual mais me aproximo e busco realizar cada vez mais. É nesse sentido que pretendo, na pesquisa de mestrado, praticar a História Pública em diálogo com o Ensino de História pela via da autoridade compartilhada, especialmente, refl etindo sobre questões socialmente vivas no presente, cuja temática principal é a questão de gênero. Referências: ALMEIDA, Juniele Rabêlo de; ROVAI, Marta. In: Simpósio Nacional de História: Conhecimento his- tórico e diálogo social, 27, 2013, Natal. Anais... Natal: Anpuh, 2013, p. 1-10. ANDRADE, Everardo Paiva de; ANDRADE, Nivea. História Pública e educação: tecendo uma con- versa, experimentando uma textura. In: MAUAD, Ana Maria; ALMEIDA, Juniele Rabêlo de; SANTHIA- GO, Ricardo. História pública no Brasil: sentidos e itinerários. São Paulo: Letra e Voz, 2016, p. 175-184. FERREIRA, Rodrigo de Almeida. Qual a relação entre a história pública e o ensino de história?. In: MAUAD, Ana Maria; SANTHIAGO, Ricardo; BORGES, Viviane Trindade. Que história pública queremos? What public history do we want?. São Paulo: Letra e Voz, 2018, p. 29-28. FRISCH, Michael. A história pública não é uma via de mão única, ou, de A Shared Authority à co- zinha digital, e vice-versa. In: MAUAD, Ana Maria; ALMEIDA, Juniele Rabêlo de; SANTHIAGO, Ricardo. História pública no Brasil: sentidos e itinerários. São Paulo: Letra e Voz, 2016, p. 57-69. LIDDINGTON, Jill. O que é História Pública? Os públicos e seus passados. In: ALMEIDA, Juniele Rabêlo de; ROVAI, Marta Gouveia de Oliveira. Introdução à história pública. São Paulo: Letra e Voz, 2011, p. 31-52. SANTHIAGO, Ricardo. Duas palavras, muitos signifi cados: alguns comentários sobre a história pública no Brasil. In: MAUAD, Ana Maria; ALMEIDA, Juniele Rabêlo de; SANTHIAGO, Ricardo. História pública no Brasil: sentidos e itinerários. São Paulo: Letra e Voz, 2016, p. 23-35. _____. A História Pública no Brasil entre práticas e refl exões: a ofi cina historiográfi ca de Ricardo Santhiago entre a história oral e a história pública. [Entrevista concedida a] Fagno da Silva Soares. Revista Observatório, Palmas, v. 3, n. 2, p. 569-585, abr./jun. 2017. Introdução A abordagem do tema da escravidão africana no Brasil é fundamental para o processo de apren- dizagem histórica, uma vez que sua discussão em sala de aula pode fomentar uma série de debates que se relacionam com as demandas do tempo presente, principalmente no que se refere às ques- tões raciais tão latentes na atualidade. Estabelecer esse diálogo exige repensar as relações escra- vistas numa perspectiva mais dinamizada e não apenas consubstanciada numa visão antagônica senhor/escravo, metrópole/colônia que pouco nos diz sobre esse passado escravista visto, muito a partir do olhar eurocentrado. Sendo assim o objetivo desse artigo é apresentar as contribuições do debate decolonail e da história social da escravidão para compreensão do processo escravista Escravidão africana no Brasil e aprendizagem histórica: Contribuições do pensamento decolonial e da História social da escravidão. Leidiane Alves Sousa de Jesus (PPGED/ UESB) 42 no Brasil bem como discutir a potencialidade desse debate para aprendizagem histórica dos estu- dantes principalmente no tange, a formação do seu pensamento histórico. No que se refere ao pen- samento decolonial nos referenciamos nesse artigo no debate ensejado por Aníbal Quijano (2009). 2-Fundamentação Teórica- As questões discutidas nesse trabalho fazem parte da pesquisa, em andamento, que está sendo desenvolvida junto ao Programa de Pós-graduação em Educação (PP- Ged) na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) . A pesquisa é de cunho qualitativo e tem como objetivo investigar o pensamento histórico de alunos do 9a ano do ensino fundamental acerca da escravidão africana no Brasil. A pesquisa investiga uma escola da rede pública, localizada no município de Poções, que está inserida na área do Ensino de história e, especifi camente, dialoga com as discussões que vem sendo realizadas no campo de investigação da Educação histórica, cuja preocupação central é com o processo de aprendizagem histórica. Nesse sentido, inserida nesse campo teórico, os principais conceitos abordados na pesquisa são: pensamento histórico, aprendi- zagem histórica e o conceito substantivo escravidão africana. O aprendizado histórico, no contexto escolar, exerce um importante papel nesse debate. Entretanto, ao observarmos o enfoque dados a alguns conteúdos, como por exemplo, o da escravidão em sala de aula, ainda é possível perceber, apesar das mudanças signifi cativas ocorridas na concepção de ensino e na própria historiografi a, uma aprendizagem voltada para memorização e visão eurocêntrica da temática, expressa, na maio- ria das vezes, por narrativas canônicas e que não problematizam a sua relação com o contexto do racismo no presente e uma perspectiva de futuro, na qual formas de violência e dominação como essa não tenham mais espaço. “[...] Logo o estudo desses passados, a escrita da História sobre esses passados e seu ensino não são atitudes desinteressadas, mas voltadas ao futuro, um futuro de tolerância, de reconciliação com a justiça e com os direitos” (PEREIRA & PAIM, 2018, p. 1244) Ao estabelecer algumas notas sobre a contribuição do pensamento decolonial para o ensino de his- tória, os autores Pereira e Paim (2018) asseveram que, de modo geral, os autores decoloniais com- partilham uma perspectiva crítico-social que, em linhas gerais, estabelecem críticas ao modelo do conhecimento hegemônico iniciado a partirda modernidade europeia. Ao longo de sua análise, os autores centram as discussões, neste momento, em torno da categoria da modernidade, explicita- da por Quijano. Ortegal (2018), em seu artigo sobre as relações raciais no Brasil, aponta para essas questões, assim afi rma que a tentativa de enquadrar a realidade brasileira na epistemologia dos países hegemônicos recorre ao risco de não compreender questões como o racismo na sua profun- didade, encarando-o como um processo resultante somente da divisão de classe. Partindo desses pressupostos, o autor assinala como os aportes teóricos oferecidos pela teoria da dependência, a noção de diáspora e a perspectiva decolonial podem propor caminhos interessantes. Quijano apre- senta nas suas produções, o principal conceito da sua teoria social: a colonialidade do poder e suas consequências para classifi cação social , divisão do trabalho e a produção do conhecimento , todos esses pontos instituídos e defi nidos com base na categoria raça. Superar essa racionalidade é dar lugar para outras formas de saberes, novas epistemologias que desorganizam uma concepção de sociedade que se desenvolve de forma dual e evolutiva. A su- peração dessa racionalidade é também, propor discussões e debates na sociedade, principalmente nas escolas, das formas de racismo, nas quais a população negra cotidianamente é vítima e que, portanto, não pode ser mais compreendido como sendo uma manifestação circunstancial ou indi- vidual e sim como um processo estrutural e também histórico, arquitetado para justifi car relações de dominação e exploração como da escravização dos povos africanos e indígenas. Resultados Parciais De modo geral, entendemos que a experiência escravista no Brasil pode ser problematizada em sala de aula tanto por meio da história social da escravidão, como também do pensamento deco- lonial. Ambas são potentes para uma aprendizagem histórica signifi cativa da temática, ao propor tanto uma abordagem que problematize o lugar naturalizado de subalternização — que comumen- te atravessa as narrativas eurocêntricas que tratam do passado escravista evidenciando as expe- 43 No primeiro ciclo formativo da Residência Pedagógica de História - UEFS foram desenvolvidas discussões nos campos da Didática da História e Educação Histórica. Na sequência foi proposto pela coordenação e professora preceptora um conjunto de “Atividades Conceituais”, planejadas e executadas com o objetivo de mobilizar as dimensões formativas dos conceitos de Segunda Ordem, em articulação aos conceitos substantivos. Os conceitos substantivos, conforme Peter Lee (2005), são observados quando estamos trabalhando com um determinado conteúdo nas aulas de histó- ria, aqueles reconhecidos como a própria substância da História, e são comumente identifi cados como assuntos, tidos por centrais, cujos seus signifi cados podem mudar de acordo com o tempo e/ ou espaço. Já os conceitos de segunda ordem, de acordo com Lee, são necessariamente mobiliza- dos no desenvolvimento da cognição histórica, imprescindíveis para o processo de ensino e apren- dizagem da História, são utilizados pela pesquisa histórica e a historiografi a, vão ser descritos e caracterizados como estruturais ou meta-histórico, são eles: evidência histórica, empatia histórica, causa e consequência, mudança e permanência, narrativa histórica, explicação histórica, verdade histórica, perspectiva histórica, passado histórico. Em continuidade às ações formativas realizadas no primeiro módulo, iniciamos um segundo momento do subprojeto de História do Programa Re- sidência Pedagógica, com o planejamento voltado para a regência na terceira unidade, em turmas do segundo ano do Ensino Médio, do Colégio Modelo Luís Eduardo Magalhães, localizado na cidade de Feira de Santana. Em uma das aulas síncronas, sobre o Segundo Reinado, o recorte temático defi nido foi “Família Escrava e Família Negra no Brasil”, resultado de um planejamento elaborado com duas outras colegas do PRP. Além do tempo síncrono de aula, também foi elaborado um for- mulário correspondente ao tempo assíncrono, com o mesmo recorte temático. Concluídas as aulas referentes à terceira unidade, iniciamos a quarta unidade, desta vez acompanhando outra turma a partir da reconfi guração escolar e redistribuição de novas turmas para a preceptora. A produção referente à presente comunicação diz respeito às refl exões realizadas sobre o estudo da formação da família negra e escrava, com investigação ao conceito de segunda ordem de Empatia Histórica, direcionado às turmas de segundo ano do Ensino Médio. Neste trabalho relatamos a utilização do conceito de segunda ordem de Empatia Histórica, nas ações formativas em tempo síncrono, as- síncrono, nas terceira e quarta unidades e também no tempo compatível com as atividades com- plementares. Segundo o teórico inglês Peter Lee (2003, p.19) “Os alunos, tal como os historiadores, precisam compreender por que motivo as pessoas atuaram no passado de uma determinada for- ma e o que pensavam sobre a forma com o que fi zeram, mesmo que não entendam isso tão bem quanto os historiadores”. O trabalho com o conceito de empatia histórica permite que os estudan- Família negra e escrava e o uso da empatia histórica na sala de aula. Taciane de Araujo Santos (UEFS) Edicarla dos Santos Marques (UEFS) riências dos escravizados — como a suas possibilidades de ação no sistema escravista. Referências: ORTEGAL, Leandro: Relações raciais no Brasil: Colonialidade, dependência e diáspora. Serv.Soc. Soc., São Paulo, n.133, p.413-431, set./dez.2018. PEREIRA, N.P.; PAIM, E.A: Para pensar o Ensino de História e os passados sensíveis: Contribuições do Pensamento decolonial. Educação e Filosofi a. Uberlândia, v.32.n.66,p.1229-1253, set./dez.2018. ISSN 0102-6801. QUIJANO, Anibal : Colonialidade do Poder e classifi cação Social. In: SANTOS, B. S. MAENESES, M. P: Epistemologias do Sul / (orgs) Boaventura de Sousa Santos, Maria Paula Meneses. – (CES) ISBN 978-972-40-3738-7. p.72-114. 44 tes compreendam circunstâncias às quais os sujeitos históricos estão inseridos, com seus valores, crenças, ideias de moral e ética, para terem desenvolvido tais ações, com isso não prevê a partilha de sentimentos tendo em vista que os sujeitos no tempo presente já conhecem os resultados. Para a compreensão do conceito é necessário, segundo Lee, realização e disposição, o primeiro “de algo que aconteceu quando sabemos o que os agentes históricos pensou, quais os seus objetivos, como entenderam aquela situação e se conectamos com tudo isso com o que aqueles agentes fi zeram” (2003, p. 21) e a disposição “de tratar as pessoas do passado de maneira honesta, compreender os motivos que levaram os indivíduos a determinada ação”(Idem). O autor ainda defende que não se pode haver uma rejeição completa às pessoas do passado, como se estas não fossem seres huma- nos. Na percepção de Lee, as ideias do senso comum seriam as grandes difi cultadoras do trabalho com a empatia histórica em sala de aula, ao tempo que possui a potencialidade de humanização dos sujeitos históricos, melhor compreensão do contexto do dado momento histórico, e promove a aproximação entre os estudados e os estudantes, auxiliando na superação do entendimento de que a História só se interessa pelo passado mórbido. Peter Lee (2003) compreende que há uma transi- ção de pensamento dos estudantes, de ideias menos poderosas às mais poderosas, com isso ele estabelece um Modelo de Progressão Empática da História, dividido em sete níveis, sendo possível observar e analisar a ideias dos alunos sobre os sujeitos históricos e o desenvolvimento do concei- to de empatia, e em qual nível os estudantes estão. Para o uso do conceito em questão é necessário articulá-lo ao conceito de evidência histórica. Situado nesse debate teórico metodológico, o intui- to deste trabalho é compartilhar experiências de docência desenvolvidas junto ao subprojeto de História do PRP da UEFS. Nosso principal referencialhistoriográfi co foi a dissertação de mestrado intitulada “Histórias de Vida Famíliar e Afetiva de Escravos na Bahia do Século XIX” (1998) e a tese de doutorado intitulada ”A família negra no tempo da escravidão Bahia. 1850-1888”(2007) ambos dá historiadora Isabel Cristina dos Reis, mobilizando o conceito de segunda ordem Empatia Histórica, além de autores/as outros que pesquisam sobre a História do Negro/a no Brasil. Referências: BARBARA, Lucas Carvalho Santana. “Ninguém mais escreve carta”: Empatia Histórica entre es- tudantes do 3° ano do Ensino Médio. Feira de Santana- BA.2018. GERMINARI. Geyso Dongley. Empatia Histórica. In: SCHMIDT, SOBANSKI (org). Competências do Pensamento Histórico. Vol 2. W.A. Editores. Curitiba, 2020. LEE, Peter. “Nós fabricamos carros eles tinham que andar a pé”: compreensão das pessoas do passado. In: BARCA, Isabel (org.). Educação histórica e museus. Minho/PT. Centro de Investigação em Educação: Instituto de Educação e Psicologia. Universidade de Minho. 2003. ______. Putting principles into practice: understanding history. In: BRANSFORD, J. D.; DONOVAN, M. S. (Eds.). How students learn: history, math and science in the classroom. Washington, DC: Na- tional Academy Press, 2005. REIS, Isabel Cristina Ferreira dos. A família negra no tempo da escravidão: Bahia, 1850-1888. Tese. UNICAP. 2007. ______. Histórias de Vida Familiar e Afetiva de Escravos na Bahia do Século XIX, Dissertação. UFBA. 1998. 45 Este texto apresenta o projeto de pesquisa de pós-doutorado a ser desenvolvido junto ao Pro- grama de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná, sob supervisão da Pro- f.a Dr.a Maria Auxiliadora Moreira dos Santos Schmidt. O tema da pesquisa surgiu de minha prática como professora do Curso de Licenciatura em História da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, atuando na área de Ensino de História: Teoria e Metodologia, do Departamento de História (DH/UESB) e no Programa de Pós-Graduação em Educação (mestrado acadêmico), da mesma insti- tuição. O objeto de pesquisa é a formação inicial de professores de História e a pergunta primordial que fazemos é “a formação inicial tem desenvolvido nos licenciandos/as em História do estado da Bahia a competência necessária para lidar com fontes históricas na educação básica, notadamente no que tange às evidências?”. O objetivo geral a nos mover é a busca por analisar essa formação em termos de lida com as fontes históricas e sua diferenciação da evidência, na prática docente da educação básica. Quanto aos objetivos específi cos foram traçados os seguintes: a) caracterizar as concepções de evidência histórica dos licenciandos/as; b) identifi car se os licenciandos/as diferen- ciam fontes históricas de evidência; c) avaliar se, ao lidar com fontes históricas, os licenciandos/ as consideram a evidência como fator decisivo para a elaboração de explicações históricas. A re- visão de literatura será pautada, especialmente, em Ashby (2003; 2006), Barca (2006), Bergmann (1989/1990), Collingwood (1981), Rüsen (2012; 2015); Schmidt (2019; 2020) e Simão (2011; 2007). A metodologia a ser empregada será a abordagem qualitativa em seu aspecto descritivo-interpre- tativo. Os sujeitos da pesquisa serão licenciandos/as do fi nal dos cursos em História das universi- dades estaduais públicas baianas. Os dados serão produzidos por meio de entrevistas e/ou a aula histórica (ainda a ser decidido no percurso da pesquisa), sua sistematização e análise se dará com base na análise de conteúdo. Como ainda será desenvolvia, tanto nos aspectos teóricos quanto empíricos, ainda não é possível apresentar resultados. Contudo, já vislumbramos como principais resultados, que a pesquisa possa contribuir para o aprofundamento das discussões, tanto acerca da formação inicial na licenciatura em História, quanto do conceito epistemológico evidência histó- rica, bem como para o avanço das pesquisas na área da Educação Histórica. Referências: ASHBY, Rosalyn. O conceito de evidência histórica: exigências curriculares e concepções de alu- nos. In: BARCA, Isabel. (Org.). Educação Histórica e Museus. Braga: Universidade do Minho, 2003, p. 37-57. ASHBY, Rosalyn. Desenvolvendo um conceito de evidência histórica: as idéias dos estudantes sobre testar afi rmações factuais singulares. In: Educar Especial, Curitiba: Editora UFPR, 2006, p. 151- 170. BARCA, Isabel. Literacia e consciência histórica. In: Educar, Especial, Curitiba: Editora UFPR, 2006, p. 93-112. BERGMANN, Klaus. A história na refl exão didática. In: Revista Brasileira de História. São Paulo, vol. 9, no. 19, set. 89/fev. 90, p. 29-42. COLLINGWOOD, Robin George. A idéia de história. Portugal: Editorial Presença, 1981. RÜSEN, Jörn. Aprendizagem histórica: fundamentos e paradigmas. Tradução: Peter H. Rautmann, Caio da C. Pereira, Daniel Martineschen, Sibele Paulino. Curitiba: W. A. Editores, 2012. Formação Inicial: Concepções e Usos da Evidência Histórica na Prática Docente dos Licenciandos/as em História do Estado da Bahia Edinalva Padre Aguiar (UESB) 46 RÜSEN, Jörn. Teoria da história: uma teoria da história como ciência. Trad. Estevão C. de Rezen- de Martins. Paraná: Editora da Universidade do Paraná, 2015. SCHMIDT, Maria Auxiliadora Moreira dos S. Didática da Educação histórica: contribuições para uma metodologia de ensino. In: SCHMIDT, Maria Auxiliadora Moreira dos S.; SILVA, Maria da Conceição; CAINELLI, Marlene. (Orgs.). Formação e aprendizagem: caminhos e desafi os para a pesquisa em educação histórica e ensino de história. Goiânia: Editora Trilhas Urbanas, 2019, p. 25-45. SCHMIDT, Maria Auxiliadora M. dos Santos. “Aula histórica”: uma metodologia para a didática reconstrutivista da história. In: SCHMIDT, Maria Auxiliadora M. dos Santos. Didática reconstrutivista da história. Curitiba: CRV, 2020, p. 127-157. SIMÃO, Ana Catarina Gomes L. L. A construção da evidência histórica: concepções de alunos do 3.o ciclo do ensino básico e secundário. 2007. 430 f. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade do Minho, Braga-PT, 2007. Disponível em: https://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/432/ browse? type=author&order=ASC&rpp=95&value=Sim%C3%A3o%2C+Ana+Catarina+Gomes+La- ge+Ladeira SIMÃO, Ana Catarina Gomes L. L. A importância da evidência histórica na construção do conheci- mento histórico. In: CAINELLI, Marlene Rosa; SCHMIDT, Maria Auxiliadora M. dos Santos. A educação histórica: teoria e pesquisa. Ijuí: Editora Unijuí, 2011, p. 143-166. Esta comunicação pretende discutir a memória enquanto trabalho de reinterpretação do passa- do, tomando como ponto de partida os lugares de vivência obliterados pela lógica urbana. O objetivo principal é proporcionar refl exões aos estudantes sobre o que tem sido construído como memória social e a quem tem sido negado a direito a ela. Neste atinente, os estudantes po- derão, no trabalho com a história local, reconhecer a multiplicidade de vozes que compõem nossa história, bem como ter condições de criar referências para a construção de sua identidade e de seus grupos de pertença social. A estratégia metodológica consistirá na leitura e interpretação da bibliografi a especializada, bem como do uso de relatos orais. A pesquisa encontra-se parcialmente construída, com etapa já iniciada o estudo das abordagens teóricas dos seguintes eixos temáticos: Memória, cidade e ensino de História, assim como de leituras sobre a formação histórica da cidade de Macapá e seu processo de modernização. O trabalho será concluído após uma análise combina- da de entrevistas orais com documentos escritos (artigos de jornais, relatórios de governo etc.) e das leituras concernentes ao ensino de História. Pretende-se com esta análise qualifi car as discus- sões tomando o estudo do meio como potencializador de uma História que ressignifi que processos e sujeitos marginalizados pelo História Ofi cial. Palavras-chave: Ensino de História. Memória. Cidade. Macapá. INTRODUÇÃO Pensar a docência em História na contemporaneidade,na Educação Básica, constitui em um movimento que implica considerar, dentre outros fatores, questões como o direito à memória e ao passado. Para tanto é necessário haver um redirecionamento teórico-metodológico que vá ao encontro das memórias perdidas da história cuja signifi cância são estranhas ao meio escolar. É necessário pois, que se toque nas lembranças dos sujeitos de outros segmentos sociais, e não so- mente os da classe dominante. Nesse contexto, Bittencourt (2018) assinala ser fundamental que se redimensione os estudos propondo temáticas e abordagens mais signifi cativas e, desta forma, revele diferentes experiên- História local e fontes orais: os lugares perdidos de memória no ensino de História Francisca Borges de Sousa (SEED) 47 cias para que assim os estudantes possam reconhecer-se enquanto indivíduos participantes de processo de ensino-aprendizagem. Caimi (2010) destaca a necessidade de se superar o verbalismo das aulas de história circunscritas a temporalidade remotas, a espaços distantes e a determinadas memórias com as quais a maioria dos estudantes não se identifi ca e não reconhecem as suas ex- periências. A opção pelo município de Macapá, como local de pesquisa, justifi ca-se por observar que esta cidade foi marcada por projetos hegemônicos norteados pela noção de progresso e pela rejeição da tradição ou do passado. Essa orientação explica, por exemplo, as diversas reconfi gurações ur- banísticas implementadas pelos governos, que visavam abolir os vestígios dos tempos idos então materializados na paisagem macapaense e nas vivências dos sujeitos sociais. Nesse sentido, Oriá (2019) enfatiza que a destruição dos lugares de memória de uma cidade reforça o que os setores dominantes resolveram manter como símbolo de uma memória elitista e excludente – a história ofi cial. Esta comunicação também traz a perspectiva de se preparar o estudante para a vida demo- crática, permitindo que estes possam progressivamente conhecer a realidade onde está inserido. Logo, pretende-se não apenas que estes aprimorem uma consciência histórica, mas também, como sujeito social, desenvolva sua capacidade de análise e intervenção crítica da realidade. Nessa pers- pectiva, entende-se a cidade como um cenário facilitador do processo de compreensão das condi- ções sociais, econômicas e políticas em que vivem seus habitantes. METODOLOGIA No que se refere ao percurso metodológico desta pesquisa, ele partiu da leitura e interpretação de acervos historiográfi cos, para, em outro momento fazer uso de relatos orais. Seu caminho está delineado por diversas etapas, e iniciou com um levantamento do referencial bibliográfi co (livros, artigos, teses e dissertações) visando subsidiar refl exões e debates sobre ensino de História e uso de memórias. Autores como Bittencourt (2018), Guimarães (2012), Carretero (2018) subsidiaram esse processo. Em seguida será feita a leitura e problematização da legislação pertinente ao tema de forma a analisar os espaços destinados à memória e ao ensino de história local. A etapa fi nal será destinada a realização de entrevistas orais com diversos sujeitos históricos que vivenciaram o processo de urbanização da cidade de Macapá, visando recuperar depoimentos e relatos de memória que retra- çam a experiência do vivido para aqueles que não estiveram na cidade do passado. CONSIDERAÇÕES FINAIS A temática que preside a escrita desta comunicação visa compreender a relação entre história local e ensino de História. A importância de se voltar para a referida temática está em oportunizar aos estudantes o reconhecimento da multiplicidade de vozes e de experiências que compõem a história de Macapá, de forma que possam (re) construir sua identidade, assim como de seus gru- pos de pertença social. Nesta perspectiva, esta proposta visa romper as fronteiras da escola e, em meio as tramas do diferentes espaços de memória, construir novas maneiras de ler e interpretar a História. Referências: BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: fundamentos e métodos. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2018. CAIMI, Flávia Eloisa. Meu lugar na história: de onde eu vejo o mundo? In: BRASIL. Ministério da Educação. História: Ensino Fundamental. Secretaria de Educação Básica. Brasília MEC, 2010. HORN, Geraldo Balduíno & GERMINARI, Geyso Dongley. O Ensino de História e seu currículo: te- oria e método. 5a edição. Rio de Janeiro: Vozes, 2013. ORIÁ, Ricardo. Memória e ensino de História. In: BITTENCOURT, Circe (org.). O saber histórico na sala de aula. 12a ed. São Paulo: Contexto, 2019. 48 A forma como as sociedades compreendem e signifi cam o tempo histórico contribui para alterar a vida social. Em diferentes momentos, novas engrenagens de passado, presente e futuro se cons- tituem. Essa relação das sociedades com a passagem do tempo, mais especifi camente com a cultu- ra epistemológica do tempo, gerou mudanças na ciência História à medida em que o conhecimento histórico se voltou para uma hermenêutica dos sentidos do tempo nas ações dos sujeitos. Em um período mais recente, essa forma de compreensão do tempo foi infl uenciada pelo ritmo acelerado das transformações na área tecnológica e da linguagem. No avanço das Tecnologias de Informa- ção e Comunicação, quase tudo acontece no imediato e nele também se desmancha, desaparece. Isso implica na necessidade permanente de atualização, de não se tornar ultrapassado, superado. Nesse presente em que a obsolescência se tornou risco iminente, que papel cumpre o ensino de História? Como lidar com identidades cada vez mais fl uidas e fragmentadas do presente de simul- taneidades, onde o político é cada vez mais pessoal e diz menos respeito aos projetos de trans- formação global? Como o ensino de História pode contribuir para formar sujeitos questionadores, atentos e conscientes do jogo de intenções e práticas que compõem a concepção do tempo atual? Sem dúvida, a compreensão da dinâmica do tempo a partir do fomento à consciência histórica é um dos elementos vitais do ensino de História e deve servir de parâmetro para a revisão de currículos, metodologias de ensino e para as práticas educativas. Faz-se necessário articulação mais efetiva entre o conhecimento da ciência especializada e o cotidiano da aprendizagem escolar para que as atualizações da produção científi ca alcancem a vida cotidiana, proporcionando o desenvolvimento da capacidade de interpretação do tempo histórico e da competência narrativa. O presente trabalho pretende trazer a baila o importante debate teórico sobre leitura do tempo histórico e seus efeitos na vida dos indivíduos, na produção do conhecimento histórico e na formação da consciência his- tórica no ambiente escolar. O ensino de História no contexto de ressignifi cação do tempo histórico Adriana Oliveira da Silva (IFBA) OBJETO DA PESQUISA O objetivo dessa apresentação é comunicar o projeto de pesquisa desenvolvido para o Progra- ma de Pós Graduação em Educação da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB, que visa analisar o uso de fontes em aulas de História do Ensino Fundamental em Vitória da Conquista. As indagações surgiram em conversas com professores atuantes sobre os desafi os de se trabalhar as fontes históricas em sala de aula. A defesa que esse projeto faz é de que as fontes são parte importante do ensinar História, pois o trabalho desenvolvido com elas permite que as habilidades de identifi cação, comparação, con- textualização, interpretação e análise, que são inerentes ao estudo da história, sejam abordadas, para que, a partir disso, se possa falar em uma História orientadora da vida prática, segundo os princípios defendidos por Jörn Rüsen (2007). Assim, a pergunta principal é: como os professores de História lidam com as fontes históricas em suas aulas? O objetivo geral deste projeto é compreender como esses professores utilizam as fontes em suas aulas. Os objetivos específi cos são: a) identifi car se os professores tiveram algum tipo de for-mação que contemplasse o uso de fontes no ensino de História na educação básica; b) avaliar as concepções de fontes históricas dos professores e c) analisar as práticas dos professores sobre o Uso de fontes no ensino de História: ideias de professores do Ensino Fundamental de Vitória da Conquista – Bahia Irglenia Santos Amaral (All Studio) 49 uso de fontes. Esse projeto justifi ca-se, quanto à relevância acadêmica, por contribuir nas discussões sobre ensino de História com o uso de fontes sob a perspectiva da Educação Histórica, sobre currículo, sobre formação docente e sobre aprendizagem histórica. Socialmente, na História ensinada. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Acerca dos conceitos apresentados acima, utilizaremos o texto de Jörn Rüsen (2007), intitulado “Didática – Funções do saber histórico”, e o texto de Maria Auxiliadora Schimdt (2020) “’Aula Histó- rica’: uma metodologia para a didática reconstrutivista da História”, acerca da didática da História, formação histórica e cultura histórica. Para as discussões sobre fontes e evidências históricas, recorremos a Rosalyn Ashby (2003) e a Ana Catarina Simão (2011). No sentido da formação docente, a obra de Maurice Tardif (2002) será de grande valia. Entendemos que para esse projeto a abordagem de cunho qualitativo apresentada por Bogdan e Biklen (1994) seja uma das mais adequadas, pois utilizará técnicas que privilegiarão a palavra, o signifi cado e os sentidos encontrados e as categorias criadas a partir dos dados conseguidos tam- bém terão esse caráter descritivo, não quantifi cável e darão importância ao contexto de atuação dos sujeitos participantes. METODOLOGIA E FONTES Para que se possa atingir os objetivos da pesquisa, o principal método de análise será a Análise de Conteúdo proposto por Laurence Bardin (1977), que utiliza da técnica de categorização, descrição e interpretação dos dados (MORAES, 1999). Esse método foi escolhido por proporcionar e facilitar o processo de criação de inferências a partir dos dados coletados (PUGLISI; FRANCO, 2005, p. 11). O corpus da pesquisa será construído mediante o uso de entrevistas semiestruturadas. Os su- jeitos participantes serão professores de História do Ensino Fundamental de Vitória da Conquista, com escolas e quantidade ainda a serem defi nidas. As entrevistas ocorrerão em plataformas online e levadas para posterior análise ou, se assim as condições sanitárias permitirem, presencialmente. As perguntas versarão sobre o uso de fontes em aulas de História, procurando compreender desde a sua formação inicial até o momento atual dentro da sala de aula como se dão esses pormenores. Sendo assim, os passos metodológicos desta pesquisa serão: • Selecionar as unidades de registro, que serão as mensagens captadas nas entrevistas, e as unidades de contexto, que no nosso projeto serão as vivências e os saberes dos professores dentro e fora da sala de aula, incluindo a sua formação inicial. • Fazer a “leitura fl utuante” dos dados colhidos, a fi m de ter uma ideia de como os professores lidam com as fontes em sala de aula; • Selecionar os conteúdos das mensagens, para elaboração de um corpus, atividade que irá montar um universo de conteúdos dentro das falas dos professores; • Defi nir as categorias de análise das mensagens, separando e reagrupando os conteúdos; • Fazer a análise das mensagens categorizadas levando em conta o aporte teórico utilizado nessa pesquisa. RESULTADOS Este projeto ainda está em fase de elaboração, portanto, não possui resultados a apresentar no momento, mas, com os objetivos, metodologia e aporte teórico apontados anteriormente, vislum- bra auxiliar na compreensão das práticas de professores de História acerca do uso de fontes em sala de aula. 50 Referências: BARDIN, L. Análise de conteúdo. Trad. Luís Antero Reta e Augusto Pinheiro. Lisboa: Edições 70, 1977. BOGDAN, R. C.; BIKLEN, S. K. Investigação qualitativa em Educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Trad. Maria João Alvarez, Sara Bahia dos Santos e Telmo Mourinho Baptista. Porto: Porto Editora, 1994. MORAES, R. Análise de conteúdo. Revista Educação, Porto Alegre, v. 22, n. 37, p. 7-32, 1999. Dis- ponível em: encurtador.com.br/hrwH8. Acesso em: 06 ago. 2021. PUGLISI, M. L.; FRANCO, B. Análise de conteúdo. 2. ed. Brasília: Liber Livro, 2005. RÜSEN, J. Didática – funções do saber histórico. In: RÜSEN, J. História viva: teoria da história: for- mas e funções do conhecimento histórico. Trad. Estevão de Rezende Martins. Brasília: UNB, 2007. p. 85-133. SCHIMDT, M. A. M. “Aula Histórica”: uma metodologia para a didática reconstrutivista da História. In: SCHIMDT, M. A. M. Didática reconstrutivista da História. Curitiba: CRV, 2020. SIMÃO, A. C. G. L. L. A importância da evidência histórica na construção do conhecimento histó- rico. In: CAINELLI, M. R.; SCHMIDT, M. A. M. A educação histórica: teoria e pesquisa. Ijuí: Editora Unijuí, 2011, p. 143-166. TARDIF, M. Saberes docentes e formação profi ssional. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2002. 51 SIMPÓSIO TEMÁTICO EDUCAÇÃO PATRIMONIAL E ENSINO DE HISTÓRIA SABERES, PRÁTICAS E EXPERIÊNCIAS EDUCATIVAS 52 Tema: Refl etir sobre o uso de patrimônios culturais afro-brasileiros para o ensino-aprendiza- gem de história que garanta a educação para as relações étnico- raciais na educação básica. Fundamentação teórica: A obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Africana, Afro-bra- sileira no currículo de todo o ensino básico de forma interdisciplinar e transversal foi estabelecida a partir da Lei 10.639/2003, o que enfatizou a importância desse conteúdo no ensino básico. Essa legislação foi uma conquista dos movimentos sociais negros importantíssimas para direcionar à educação em um caminho que garanta a equidade e democratização do ensino, pois, A Educação brasileira acumulou uma dívida altíssima em relação à população negra e aos co- nhecimentos que são transmitidos nas escolas, no tocante aos acervos culturais, sociais e religio- sos, entre outros, relacionados aos povos negros. Afi nal essa raça sempre esteve atrelada a sinô- nimos negativos que corroboraram com a afi nidade do/a negro/a aos infortúnios. (SOUZA, 2016, p. 65) O autor acredita ainda que o sistema escolar ao reproduzir tais práticas de silenciar a história dos negros contribuiu para a naturalização das desigualdades sociais entre brancos e negros, isso corrobora com SANTOS (2011), que mostra que; [...] o cotidiano escolar poderá revelar uma inclinação para corresponder ao padrão branco/ europeu, negligenciando os valores referentes às matrizes africanas, podendo levar, inclusive, à acentuação do estigma de ser inferior. Essas ações preconceituosas conduzem a um processo de despersonalização dos caracteres africanos, o que difi culta e, em alguns casos, inviabiliza a inser- ção do aluno no sentimento de pertença ao espaço escolar, comprometendo o afeto, impossibili- tando-o de ter um autoconhecimento individual ou cultural. (SANTOS, 2011, p.50-51) Nessa perspectiva excludente que ainda é notada na educação básica está também o Ensino de história o que ainda existe é o ensino numa perspectiva hegemônica positivista voltada à branqui- tude que tem a Europa como referência de civilidade O uso de patrimônios culturais como fontes de ensino vem ganhando destaque para o ensino de história. Como patrimônio cultural brasileiro a constituição de 1988 estabelece que são “os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira,”(BRASIL, 1988, Art. 2016). A essa identidade trazida acima Hall (2006) a defi ne como uma identidade cultural que é formado através do pertencimento a uma cultura nacional determinada com os processos de mudança. Nesse sentido pode-se determinar o conceito de patrimônios culturais afro-brasileiros como “a princípio, toda expressão cultural que evoca, como espaço de elaboração, a experiênciada es- cravidão ou, como origem, os signifi cados e simbologias que remetem à ancestralidade africana.” (LIMA, 2012, p.16), quanto a educação patrimonial o Guia Básico da Educação Patrimonial do IPAHN, a defi ne como; Trata-se de um processo permanente e sistemático de trabalho educacional centrado no Patri- mônio Cultural como fonte primária [...] que possibilita ao indivíduo fazer a leitura do mundo que o rodeia, levando-o à compreensão do universo sociocultural e da trajetória histórico-temporal em que está inserido [...] [...] (HORTA; GRUNBERG; MONTEIRO, 1999, p.04) Pensando a educação patrimonial para a implementação da Lei 10.639/2003 e educação para as relações étnico-raciais de modo que promova a diversidade no ensino de história essa metodo- A educação patrimonial como método para a efetivação da Lei 10.639/2003 no Ensino de História. Uelinton Alves Barbosa, Je� erson Queiroz da Conceição (UFRB) 53 logia permite através da análise de patrimônios culturais afro-brasileiros evidenciar a história dos negros a partir de locais de memória desse grupo étnico, trazendo uma perspectiva decolonial, pois esses patrimônios fazem referência a saberes, práticas, história e concepção da população negra construídas pelos próprios negros, outro ponto importante é que esses patrimônios muitas vezes fazem parte da vida cotidiana dos estudantes, pois muitas vezes estão nas comunidades deles, podendo gerar a sensação de pertencimento importante para a concepção do sujeito histórico. Zar- bato (2015), acredita que “Na interelação entre a disciplina escolar história, os currículos escolares, o conhecimento sobre patrimônio e a educação patrimonial desempenha um papel importante, na formação de uma memória coletiva vinculada ao Estado e a grupos de poder que o controlam”. Metodologia: A metodologia que utilizamos é a pesquisa qualitativa pois a essa cabe a função de caracterizar aspectos dos objetos de estudo que não podem ser quantifi cados, nesse tipo de pes- quisa existe um direcionamento mais efi caz para explicar e compreender as dinâmicas das relações sociais. Essa pesquisa qualitativa acontece através de revisão bibliográfi ca acerca dos conteúdos abordados. Resultado parciais: Podemos perceber com a pesquisa que o uso da educação patrimonial tendo como objetos patrimônios culturais afro-brasileiros, pode oferecer ao ensino de história a possi- bilidade de diversidade que os currículos e materiais didáticos não dão contam, de modo que pode contribuir para a inserção da Lei 10.639/2003 no ensino de história, proporcionando ainda o ensino em espaços ou expressões culturais que fazem parte do convívio dos educandos contribuindo para a sensação de pertencimento enquanto sujeitos históricos. Referências: BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da Re- pública. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Aces- so em: 30 de outubro de 2019. BRASIL. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD). Educação an- ti-racista caminhos abertos pela Lei Federal no 10.639/203. MEC/BID/UNESCO. Brasília, 2005. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. DP&A Editora. Rio de Janeiro, 2006. HORTA, Maria de Lourdes Parreiras; GRUNBERG, Evelina; MONTEIRO, Adriane Queiroz. Guia bási- co de educação patrimonial. Brasília: IPHAN, 1999. LIMA, Alessandra Rodrigues. Patrimônio Cultural Afro-brasileiro: As narrativas produzidas pelo Iphan a partir da ação patrimonial. (dissertação de mestrado). IPHAN, Rio de Janeiro, 2012. SANTOS, Roberto Carlos Oliveira Dos. Aluno negro em sala branca: Representações sociais de aluno/a sobre relações étnico-raciais afetadas no contexto educativo. (dissertação de mestrado). UNEB, Salvadora –BA, 2011 SOUZA, A. J. Identidades e cultura afro-brasileira na docência da roça: Documento de referência para educação básica. (dissertação de mestrado). UNEB, Jacobina- BA, 2016 YIN, Robert K. Pesquisa qualitativa do início ao fi m. Penso. Porto Alegre, 2016. ZARBATO, Jaqueline Aparecida Martins. Ensino de História, Patrimônio cultural e currículo: Refl e- xões sobre ações educativas em educação patrimonial. Revista labirinto, V.22, p. 77-90, Porto Velho, 2015. 54 A presente comunicação tem como objetivo refl etir sobre os “espaços abertos” como possíveis ferramentas para o professor em suas práticas educacionais pensando esses locais como lugares de memória que auxiliam na formação dos estudantes. Por “espaços abertos” entende-se todo e qualquer lugar – material e simbólico – que têm alguma relevância social e histórica em uma de- terminada comunidade. Desta forma, esses “espaços abertos” podem ser lidos como museus – na perspectiva que contempla a musealização de territórios enquanto um método que compreende os lugares sociais de maneira ampla, diversifi cada e elástica. A partir da experiência proporcionada por uma intervenção pedagógica – realizada com as alunas e os alunos do 2° ano do Ensino Médio da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Estadual Afonso Pena da cidade de Santa Bárbara (MG) – foi possível levantar algumas questões sobre a ideia de construção de lugares sociais, as narrativas presentes nestes espaços, a elaboração e preservação de memórias e o papel do ensi- no de História no debate sobre patrimônio e identidade. O objetivo da intervenção pedagógica foi promover uma atividade extraclasse fora dos muros da escola que tivesse como foco a experiên- cia dos estudantes com os espaços da cidade enquanto ambientes de aprendizagem. Ouro Preto (MG), cidade localizada há alguns quilômetros de Santa Bárbara e conhecida mundialmente como “patrimônio histórico e artístico da humanidade”, foi o objeto e local da intervenção pedagógica. Ao propiciar às alunas e aos alunos a possibilidade de andar por aquela “cidade histórica” e observar, a partir da mediação docente, vestígios de diferentes tempos históricos na arquitetura, apontar estilos arquitetônicos e compreender as transformações, intervenções e marcas sofridas pelos es- paços urbanos ao longo dos anos, percebeu-se a centralidade e importância não só das atividades extraclasses, mas também do signifi cado de incorporar a cidade, os seus lugares sociais e a mu- sealização desses espaços como uma atividade pedagógica, de pertencimento social e do papel da História enquanto um processo contínuo e iminente aos sujeitos, isto é, vivenciar a cidade é também experenciar e fazer História. Percebe-se que as atividades extraclasses ou extraescolares fazem a ponte entre os saberes teóricos (gerados no ensino e, majoritariamente, nas atividades intraclas- ses) e o universo social, realizado a partir de ações de integração junto à comunidade. Esse tipo de atividade deve ser lido como uma via de interação entre a escola e a sociedade capaz de operacio- nalizar a relação entre teoria e prática. Deste modo, tomando como premissa os conhecimentos dos estudantes e suas capacidades críticas, o objetivo dessa comunicação é abordar as dinâmicas sociais e sua relação com o(s) meio(s) em que estão inseridas a partir do conceito de “musealiza- ção de espaços abertos”. A hipótese é que esse conceito em diálogo com o ensino de História e a educação patrimonial desperta nos estudantes conhecimentos críticos e senso de pertencimento capazes de motivar transformações no modo como eles interagem e se relacionam com a sua co- munidade, de maneira específi ca, e com a sociedade, de maneira geral. A musealização de espaços abertos: uma aproximação entre práticas educacionais, ensino de História e patrimônio Wellington Gonçalves (SEE/MG) 55 O tema deste trabalho é o uso da toponímia como ferramenta para o ensino de História do Brasil Republicano. O objetivo central é propor formas de abordagem e materiais didáticos para utiliza- ção em aulas de História do Ensino Médio através dos nomes das ruas de São Miguel das Matas, que deverão servir de base a experiências didático-pedagógicasque valorizem a História Local e a Educação Patrimonial. As escolhas de personagens para dar nomes às ruas devem ser entendidas como construções simbólicas, realizadas sob o controle de grupos sociais e políticos locais, e, mui- tas vezes, não encontram correspondência na memória coletiva dos munícipes. A pesquisa deverá contemplar a pesquisa bibliográfi ca e leitura crítica sobre educação patrimonial, educação histórica a sobre a história do município de São Miguel das Matas. Em seguida, será realizada a pesquisa do- cumental sobre as leis municipais destinadas a criar ou legalizar a nomenclatura das ruas. A partir da leitura e análise crítica desses vários elementos, será feita a identifi cação dos sujeitos home- nageados e o delineamento dos caracteres fundamentais do grupo, como classes sociais, gênero, vinculações políticas e religiosas. O material didático-pedagógico, nomeado “Trilha da Memória”, construído com base nessas informações, deverá servir de estímulo à refl exão sobre os mecanis- mos de preservação da memória, mas também do esquecimento e do silenciamento da mesma. Como proposta de ação e solução mediadora do conhecimento, o material didático visa promover a aproximação dos estudantes com a disciplina História a partir de abordagens de temas do seu cotidiano. O agente motivador para esta pesquisa se concentra no objetivo central a que ela se propõe, que é alinhar uma discussão de história local com temas nacionais, utilizando o patrimônio do município como eixo articulador. Há trabalhos acadêmicos que estudam fatores relevantes sobre a cidade de São Miguel das Matas, mas nenhum deles está atrelado a um conteúdo didático, a uma produção escolar e a construção de um produto interativo entre educadores e estudantes. Para além dos fa- tores que nos ligam a história deste município, este trabalho pode ser adaptado a outras realidades e outras cidades colaborando, desta forma, para a melhoria da relação ensino-aprendizagem dos conhecimentos históricos. Do ponto de vista teórico-metodológico, é fundamental discutirmos e problematizarmos o con- ceito de cidade, micro história, Educação Patrimonial e História e memória. Quanto ao método de investigação, o projeto se fundamenta na pesquisa qualitativa, a partir de entrevistas semiestruturadas, com perguntas pré-formuladas, para que os entrevistados possam contribuir para além do que foi colocado como questões. Essas sessões de pesquisa acontecerão com moradores da cidade, familiares dos personagens que nomeiam as ruas e memorialistas que escrevem relatos sobre a história do município, assim como historiadores que possam contribuir com esta pesquisa, associando seus temas de estudo ao que é proposto neste projeto. A pesquisa se ampara também na documentação municipal referente às leis destinadas a criar, alterar ou legalizar a nomenclatura das ruas. Esses poucos documentos se encontram no arquivo municipal que está localizado na Câmara de Vereadores. A prefeitura da cidade também possui um arquivo, no entanto, só foi encontrado documentos do setor de Recursos Humanos. A partir da leitura e análise crítica da bibliografi a e da documentação, será feita a identifi cação dos sujeitos homenageados e o delineamento dos caracteres fundamentais do grupo, como clas- ses sociais, gênero, “raça” vinculações políticas e religiosas. Por fi m, confrontados com as discus- sões e as informações coletadas, o material didático-pedagógico produzido servirá de base para Caminhando pelas ruas de São Miguel das Matas: a toponímia como ferramenta para o Ensino de História do Brasil republicano Luciana Bispo da Rosa (UESB) 56 questionamentos, entre os alunos, sobre qual a importância dos homenageados em suas vidas, bem como nos espaços aos quais os seus nomes estão associados. As cantigas de roda são expressões da cultura popular e estão presentes nos diversos meios sociais e culturais. Este patrimônio cultural demarca vivências, convivências e memórias da infân- cia, e mesmo que sejam silenciadas no cotidiano a medida que o ser humano cresce e se desen- volve, as cantigas populares não podem ser apagadas, pois as mesmas residem e resistem na me- mória coletiva. É de suma importância manter reguardadas as tradições que fi zeram e fazem parte das gerações passadas, e graças a transmissão oral, mantém-se vivas. A presente pesquisa tem por objeto as cantigas de roda como expressão da memória coletiva e tem como objetivo investi- gar como as cantigas e suas variantes, presentes na memória social de habitantes do município de Itanhém-Ba, podem ser utilizadas como instrumentos de mediação nas aulas de História no Ensino Fundamental II. Tomando por referência os pressupostos teóricos da História Cultural e Me- todológicos da História Oral, as cantigas serão abordadas a partir dos conceitos de cultura popular e memória, de acordo com as proposições de Peter Burke e Jacques Le Go� . O levantamento das fontes será realizado por meio de entrevistas com moradores de diferentes gerações da cidade de Itanhém e o resultado da coleta de dados com as fontes orais será cotejado com os estudos de Luís da Câmara Cascudo relativos às tradições das cantigas de roda no Brasil. Presentes nas experiên- cias de vida e na memória afetiva de diferentes gerações, essas canções podem ser recuperadas e associadas a conteúdos curriculares de História dos anos fi nais do Ensino Fundamental. Tomadas como fontes para a produção de composições autorais, assentadas em estruturas melódicas e temas tradicionais, as cantigas servirão como elemento de abordagem de temas da história local. Como instrumento de mediação de aprendizagem, será produzido um EP audiovisual, com vídeo- clipes de versões de músicas tradicionais populares presentes na memória coletiva do município, para ser utilizado em aulas com alunos dos anos fi nais do Ensino Fundamental. Cantigas de roda e memória coletiva nas aulas de história no ensino fundamental II Vinicius Ferreira Gomes (Escola Municipal Professora Iêda Alves de Oliveira) Educação patrimonial e formação do pensamento histórico dos estudantes do ensino médio do Colégio Estadual Horácio de Matos em Mucugê-BA Alcinea da Silva França Fraga Edinalva Padre Aguiar Patrimônio é um conceito que remete à história antiga, quando o pater família em Roma detinha a posse dos bens, da família, empregados e de tudo o que estava nos limites de suas terras. Com o passar do tempo, esse conceito veio se ampliando e hoje podemos entender o patrimônio conforme sinaliza Pinto (2017, p. 207), como “o resultado de uma seleção que, ao longo do tempo e segundo critérios muito variados, foi colocando determinados elementos na categoria de objetos patrimo- niais”. Ou seja, patrimônio hoje signifi ca um processo de construção e representação social, que envolve o reconhecimento de determinados bens materiais e imateriais por determinados grupos sociais. Ao estudarmos os patrimônios de determinada sociedade muito pode ser compreendido a respeito dela, seus costumes, suas relações e acima de tudo, podemos problematizar e desnatura- lizar conhecimentos e informações que há muito se fazem presentes no imaginário popular. Além Educação patrimonial e formação do pensamento histórico dos estudantes do ensino médio do Colégio Estadual Horácio de Matos em Mucugê-BA Alcinea da Silva França Fraga (Colégio Estadual Horácio de Matos) 57 disso, o estudo do patrimônio pode permitir a compreensão de aspectos relativos às temporali- dades históricas e, consequentemente, contribuir na orientação temporal dos alunos e refl etir em suas vidas práticas. Dessa forma, o presente trabalho pretende apresentar parte da pesquisa de dissertação desenvolvida junto ao Programa de Pós-graduação em Educação (PPGEd-UESB), cujo objetivo é analisar como a Educação Patrimonial pode contribuir para a formação do pensamento histórico dos discentes do Ensino Médio do Colégio Estadual Horácio de Matos em Mucugê, Bahia, intitulada “Minha cidade tem valor: EducaçãoPatrimonial e formação do pensamento histórico dos discentes do Ensino Médio do Colégio Estadual Horácio de Matos, Mucugê-Bahia”. um grupo com 20 alunos, composto por cada uma das três séries do Ensino Médio. Depois de selecionados esses alunos, a metodologia para a recolha/produção de dados será a Aula Histórica que tem como ele- mento principal a produção de sentidos. De acordo com essa metodologia, o desenvolvimento da aula se faz partindo da vida prática e retornando a ela. Para isso, os professores, que também se constituem como pesquisadores devem analisar as carências de orientação e interesse dos alunos e trabalhá-las por meio do uso de fontes. O conhecimento produzido por meio das atividades deve ser refl etido na produção das narrativas dos alunos e o professor deve analisá-las para perce- ber os sentidos que foram atribuídos pelos alunos. Como não foi desenvolvida a parte empírica, a pesquisa ainda não apresenta resultados. Contudo, ao seu fi nal, esperamos que contribua para o campo da Educação Histórica e a potencialidade da Educação Patrimonial para uma aprendizagem histórica com sentido. Palavras-chave: Patrimônio; Educação Patrimonial; Pensamento Histórico. José Carvalho Lima Júnior (SEDUC MA) Esta pesquisa está centrada no esforço de estudar a História da cidade de Brejo, localizada no leste do Estado do Maranhão a partir do patrimônio material cultural e seus espaços de memó- rias, identidades e sociabilidades. O estudo sobre o patrimônio material cultural pretende analisar como as igrejas, praças e clubes recreativos existentes na cidade servirá de base para se conhe- cer e compreender história da cidade e consequentemente demonstrar como a articulação entre educação patrimonial e ensino de História transformou-se uma ferramenta importante para o de- senvolvimento do aprendizado histórico, visto que, ao articular passado e presente os discentes conseguirão pensar sua importância enquanto sujeitos históricos, compreendendo-se com parte substancial na construção social de sua comunidade, para o fortalecimento de sua identidade local e consequentemente se perceberem como agentes transformadores da História de sua localidade. No que tange ao ensino de História podemos destacar que os estudos sobre a cidade transforma- ram-se em um importante espaço de aprendizagens a partir do momento em que os historiadores buscaram desenvolver leituras sobre a mesma transformando-a em um lugar de ensino propaga- dor de conhecimentos históricos a partir das texturas, dos odores, dos sabores existentes na urbe. Ao entrecruzar o Ensino de História com a Educação Patrimonial a pesquisa possui o propósito de analisar os espaços da cidade como palco para a produção do conhecimento histórico escolar e de- senvolver junto aos alunos uma consciência histórica, um resgate das identidades e das memórias, um sentimento de pertencimento dos diversos segmentos da sociedade que buscam sobreviver em diferentes espaços citadinos e consequentemente provocar um diálogo onde se possa construir conexões sociais com os lugares onde vivem, cujo sentido de pertencimento corre o risco de desa- parecerem com o acelerado processo de urbanização e remodelamento prevalecente nas cidades contemporâneas na atualidade. Palavras chave: Ensino de História, Patrimônio Cultural, Educação Patrimonial, Cidade EDUCAR PELA CIDADE: a Educação Patrimonial como metodologia para o ensino de História. Alcinea da Silva França Fraga (Colégio Estadual Horácio de Matos) 58 O presente trabalho tem por objetivo central relatar a vivência e a regência no processo de Es- tágio Supervisionado Obrigatório em História a partir das práticas em sala de aula . O estágio é im- portante para o estudante, pois possibilita o mesmo experiênciar tudo que foi aprendido no espaço acadêmico com a realidade do espaço escolar. Por mais que a universidade tenha um grande fun- damento na nossa formação, ela não é sufi ciente para preparar o aluno no exercício da profi ssão docente. O estágio além de nos dá a oportunidade de se inserir no cotidiano escolar, nos mostra também como funciona o ensino nas escolas públicas, o que contribui para refl etirmos o mesmo, principalmente nos princípios teóricos aprendidos durante o estágio. Dessa forma, tive a oportuni- dade de superar minhas fragilidades, e analisar se a teoria convém com a prática docente na edu- cação fundamental e médio. Assim, foi proveitoso poder compreender os inúmeros processos da formação de identidade e construção da cidadania no espaço escolar. O estágio também é o passo principal para a formação dos professores, pois é a partir dos es- tágios que os profi ssionais da educação adquirem conhecimentos que possibilitam reproduzir em sala de aula como professores formado, para que os alunos possam através desses aprendizados reconstruir novos caminhos. A formação do profi ssional de educação quanto identidade docente é construída a partir do signifi cado que a profi ssão tem para o meio social e para a própria vida dele como profi ssional, pois a identidade dessa profi ssão está em constante mudança. Por esse motivo cada professor tem sua própria característica construindo seus saberes pedagógicos de acordo com as experiências adquiridas ao longo da caminhada. Ilma Alencastro nos informa que: “A identidade não é um dado adquirido, não é uma propriedade, não é um produto. A identidade é um lugar de lutas e confl itos, é um espaço de construção de maneira de ser e está na profi ssão”. (ALENCASTRO, 2010, p.17) O estágio supervisionado nos proporciona experiências gratifi cantes de conhecimentos e trocas de ideias. O sistema de educação pública e básica no Brasil tem a função de educar, formar cidadãos críti- cos e participativos, mas praticamente essa ideia não é concretizada no Brasil, pois é visível a con- dições de descasos para com a educação no âmbito estrutural, desde materiais didáticos, merenda e até mesmo as formações dos profi ssionais da área, é muito comum encontrarmos professores formados em uma área e ensinando outra. O Estado é o principal omissor no sucateamento da edu- cação, com base no caderno de campo podemos ver a omissão do Estado em relação a estrutura da escola, pois desde 2014 há uma promessa de reforma para melhor atender a comunidade escolar. Selma Fonseca parti da ideia que o papel da educação é de formar e socializar o homem para re- produzir conhecimento para a sociedade, porém o Estado torna essa prática inviável sendo que é um direito universal do homem, pois o mesmo omite a transmissão da educação de qualidade para todos os membros da sociedade que não condiz com os escritos de Selva Fonseca que diz: “Assim, educar é formar, socializar o homem para não se destruir, destruindo o mundo, e isso pressupõem comunicação, transmissão, reprodução. Daí a celebre frase “Sem reprodução não há educação e sem educação não há reprodução”. Essa ideia justifi ca um fenômeno da escolarização universal no século XX. A educação passa a ser um direito universal dos homens. O mundo contemporâneo tornou-se impensável sem escola. A função, a responsabilidade da educação escolar e de todos os mecanismos educativos é a transmissão, preservação da experiência humana entendida como cultura” (FONSECA, 2008, p. 30). Experiência em sala de aula na educação Básica Viviane dos Santos Silva (UNEB) 59 O trabalho visa debater as narrativas dentro de museus, partindo do entendimento de como as expressões da fé estão representadas nos acervos. A pesquisa sobre as coleções e exposições que propomos considera como ponto de partida os momentos históricos nos quais os dois museus fo- ram criados. A partir disso, observa-se como os museus promovem diferentes debates sobre uma educação histórica, trabalhando as relações dos sujeitos com as temporalidades no espaço urbano. Optou-se por fazer um recorte comparativo entre as exposições do Museu de Quilombos e Favelas Urbanos (MUQUIFU), localizado na cidade de Belo Horizonte e do Museu do Diamanteque se en- contra na cidade de Diamantina. Com isso, identifi car e interpretar as diferentes narrativas sobre religiosidades populares elaboradas por ambas Instituições com seus acervos e suas exposições, torna-se o objetivo central dessa pesquisa. O Museu do Diamante (1954), instalado na área central do tombamento pela Unesco em Diamantina, ocupa um casarão pertencente ao Instituto Histórico e Artístico Nacional - Iphan, e possui signifi cativa importância na construção da identidade local. Aberto à visitação desde a década de 1950, tem por fi nalidade “recolher, classifi car e conservar ob- jetos relacionados à mineração do diamante’’. Seu acervo sacro traça um paralelo entre a cidade e os objetos ali expostos, como parte da composição do que está exposto, imagens de santos de roca que faziam parte das celebrações locais. Entretanto, remontar uma história regional, da mineração, que se deu a partir de uma diversidade étnica e cultural que sintetizou e marcou a cidade, não pare- ce estar representada nas coleções do Museu do Diamante. Em contraponto a forma como o Museu do Diamante apresenta a religiosidade, a pesquisa documental pretende acessar outra concepção de museu e de religiosidade popular através de outra referência, inaugurada em 2012, a partir dos princípios da chamada museologia social, ou sociomuseologia, o museu comunitário e de território o Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos (MUQUIFU), sediado no aglomerado da Barragem Santa Lúcia, mais especifi camente na Vila Estrela em Belo Horizonte. O MUQUIFU possui um acervo pro- fundamente ligado às memórias dos moradores da localidade e expõe elementos da religiosidade popular em um núcleo sacro composto por cinco exposições intituladas: O Chá da Dona Jovem, A Igreja das Santas Pretas, Uma Rainha na Favela e O Rosário de Maria e Meu Reino Sem Folia. Nesta pesquisa pretende-se explorar este núcleo que registra em pinturas, objetos biográfi cos, instala- ções e fotografi as manifestações culturais de matrizes africanas que resistem ao racismo religioso e ao preconceito racial. Tomamos aqui o MUQUIFU como uma referência crítica às leituras acadê- micas e as práticas profi ssionais que isolam os museus das demandas identitárias da sociedade contemporânea Diante desses dois olhares sobre a religiosidade popular, cabe à pesquisa questio- nar os fundamentos historiográfi cos, as concepções museológicas e as motivações que sustentam as duas propostas de museus. Há uma diferença signifi cativa entre os museus. Do ponto de vista da pesquisa no campo do ensino de história a comparação entre os dois museus pode contribuir para a discussão curricular e ainda tematizar as cidades como fonte de permanência de grandes resistências acerca das dimensões culturais e da representação social de grupos sociais excluídos na vivência nos espaços de poder. A pesquisa parte de uma refl exão sobre as narrativas constituí- das e a partir delas fazer dialogar conceitos e experiências que se produzem no campo dos museus estabelecendo possibilidades e limites para abordagens no ensino de História. Diferentes matizes teóricos e metodológicos interdisciplinares orientaram estas pesquisas, dentre eles destacam-se: Chagas (2011,2018), Miranda e Siman (2013), Freire (1997), Galzerani (2021), Ricoeur (2007), Gum- brecht,( 2010). A abordagem metodológica desta pesquisa toma as narrativas dos museus como o foco central considerando o contexto de suas coleções históricas e as próprias instituições como Experiências de museus e religiosidades populares no Museu do Diamante e no Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos - Muquifu Paulo Henrique de Lacerda (UFVJM) Elizabeth Aparecida Duque Seabra (UFVJMI) 60 parte da herança patrimonial defendida por cada um deles. Do ponto de vista empírico, a pesquisa buscará identifi car objetos, coleções, cenários de exposição e propostas de atividades desenvolvi- das junto aos diversos públicos que, efetivamente, considerem os acervos relativos à religiosidade nos dois museus e que defi nem as relações entre cada museu e as comunidades no entorno. A pes- quisa documental se dará por meio da recolha dos registros produzidos pelos museus, tais como catálogos, materiais pedagógicos, folhetos informativos e orientações instrucionais, dentre outros. Outros procedimentos de investigação escolhidos nesta pesquisa são os registros fotográfi cos e os depoimentos orais (áudio e/ou videogravados). ABREU, Regina, CHAGAS, Mário. Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro, Lamparina, 2009. Referências: ABREU, Regina, CHAGAS, Mário de Souza; PIRES, Vladimir Sibylla (org.). Território, museus e so- ciedade: práticas, poéticas e políticas na contemporaneidade. Rio de Janeiro: UNIRIO, 2018. CHAGAS, Mário. Memória e poder: dois movimentos. Cadernos de Sociomuseologia. Lisboa, v. 19, n.19, p. 43-81. 2011. FREIRE, Paulo. Política e Educação: Ensaios. São Paulo: Paz e Terra, 2001 GUMBRECHT, Produção de presença. O que o sentido não consegue transmitir. Rio de Janeiro, Contraponto, Ed. PUC-Rio, 2010. RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. Tra- dução de: Alain François. SIMAN, Lana Mara; SÔNIA, Regina Miranda (Org.). Cidade, Memória e Educação. Juiz de Fora: UFJF, 2013. SIMAN, Lana Maria de Castro; MIRANDA, Sonia Regina (org.). Patrimônio no plural: educação, cidades e mediações. Belo Horizonte: Fino Trato Editora, 2017 ZAMBONI, Ernesta; GALZERANI, Maria Carolina; PACIEVITCH, Caroline. Memória, sensibilidades e saberes. Campinas, Alínea, 2015. Essa comunicação apresenta o Projeto de Pesquisa e Ensino “Histórias das Gerais: olhares para além das Minas” (2022/2021) desenvolvido em interface com as disciplinas de Estágio Supervisio- nado e Laboratórios de Ensino da Licenciatura em História da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Campus JK, em Diamantina. O projeto se insere entre as fronteiras permeáveis do campo de estudos e pesquisas em ensino de História, com ajuste de escalas para as narrativas históricas circulantes sobre Minas Gerais e suas reverberações na elaboração dos sentidos sobre seus patrimônios culturais, suas histórias e suas memórias. Dialoga, assim, com saberes e debates do campo da História Pública, da História Escolar, da Educação para o Patrimônio, da Aprendizagem Histórica e da Formação Docente. E abar- ca, ainda, os Projetos de Ensino em desenvolvimento pelos discentes dos Estágios Supervisionados em História I - “Caminhos da escola”, e II - “Enxergando o Invisível - um outro olhar para os patrimô- nios culturais do Vale do Jequitinhonha”. Desta feita, o projeto apresentado envolve ações de pesquisa, ensino e extensão, contemplando os três pilares formativos com os quais as universidades públicas brasileiras estão comprometidas, reafi rmando ainda a indissociabilidade entre pesquisa-ensino na formação docente. Os objetivos traçados podem ser agrupado em três grandes eixos com seus respectivos desdobramentos: Histórias das Gerais: olhares para além das Minas Rosiane da Silva Ribeiro Bechler (UFVJM) Elizabeth Aparecida Duque Seabra (UFVJM) 61 1) Investigação sobre o traçado narrativo reforçado por modelos de interpretação que circulam na historiografi a didática regional, em seleções patrimoniais e em narrativas audiovisuais sobre Minas Gerais, considerando os sentidos atribuídos à formação desse território; 2) Mapeamento de estudos, pesquisas e práticas pedagógicas voltadas para o trabalho com a história local/regional em Minas Gerais. 3) Elaboração de ofi cinas interdisciplinares que possibilitem abordagens criativas sobre nar- rativas históricas circulantes sobre as Minas Gerais e potencializem o alargamento de sentidos sobre os patrimônios culturais mineiros. Esperamos com esse projeto de pesquisa e ensino (re)conhecer sujeitos, teorias, práticas e sa- beres plurais, no intuito de promover outras inteligibilidades e aprendizagens históricas sobre as Minas Gerais,que ampliem os modelos de interpretação assentados nas narrativas históricas e patrimoniais sobre uma Minas Colonial que pouco corresponde a diversidade sociocultural e eco- nômica de um estado que conta com 853 municípios. Para tanto os diálogos teóricos- metodoló- gicos são orientados pela perspectiva dos jogos de escalas elaborada por Revel (1998), e o debate sobre a Educação para o Patrimônio, Memória e História parte das proposições de Matozzi (2008), Abreu e Chagas (2009), Hartog (2006), Nora (1993), dentre outros. Sobre historiografi a regional, nos aproximamos das refl exões de Albuquerque Jr. (2011, 2008) e Barros (2011). Vale destacar ainda a pedagogia freriana como um sul orientador das nossas refl exões e práticas educativas para o en- sino de História e a Formação Docente. Referências: ABREU, Regina, CHAGAS, Mário. Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro, Lamparina, 2009. ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz. A invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2011. . O objeto em fuga: algumas refl exões em torno do conceito de região. Fronteiras, v. 10, n. 17, p. 55-67, 2008. ALMEIDA, Juniele Rabêlo; ROVAI, Marta Gouveia de Oliveira. Introdução à História Pública. São Paulo: Letra e Voz, 2011. ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. Mitologia da mineiridade: o imaginário mineiro na vida política e cultural do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1990. BARROS, José D́ Assunção. História, Região e Espacialidade. Revista de História Regional 10(1): 95-129. UEPG,Verão, 2005. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à pratica educativa. 49ª. Edição. São Paulo: Paz e Terra, 2014 HARTOG, François. Temporalidade e Patrimônio. Varia história, v. 22, n. 36, p. 261-273, 2006. Acesso em 20/05/2021: Temporality and patrimony (scielo.br) NORA, Pierre et al. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Gradu- ados de História, v. 10, 1993. MATTOZZI, Ivo. Currículo de História e educação para o patrimônio. Educ. rev. [online]. 2008, n.47, pp.135-155. ISSN 1982-6621. REVEL, Jacques. Jogos de escalas: a experiência da micro-análise. Rio de Janeiro: FGV, 1998. 62 Esta comunicação tem como tema principal a análise das narrativas elaboradas pelos docentes de história da educação básica em Belo Horizonte, a partir de práticas educativas desenvolvidas na relação da escola com o museu. Busquei identifi car como essas práticas foram desenvolvidas, refl etidas e mobilizadas em salas de aula na dinâmica que envolve a pré-visita e o pós-visita. Fo- ram analisadas as perspectivas que orientaram os docentes de história a abordar o museu em sua prática educativa e fundamentaram suas ações no processo de preparação e realização para a atividade da visita e para a atividade do pós-visita. A pesquisa elucidou aspectos da relação es- cola-museu e, nela, do uso da literatura de divulgação científi ca na prática docente, colocando em discussão a relação entre as práticas e os saberes docentes no campo do conhecimento histórico. Essa análise se dá a partir dos dados coletados em entrevistas semiestruturadas feitas com os sujeitos diretos desta pesquisa (docentes) e profi ssionais do museu de Ciências Naturais da PUC Minas, de uma entrevista caminhante, realizada no museu com o coletivo de professores das esco- las participantes, das práticas do pós-visita gravadas e transcritas nas atividades (com os sujeitos indiretos: estudantes), além da análise de práticas estabelecidas no ambiente museal e do caderno de campo que foi utilizado em diversos momentos: museu (Setor Educativo e expositivo), escolas (salas de aula e visita ao museu). As principais contribuições da pesquisa dizem respeito à relação estabelecida entre os docentes, os ambientes culturalmente estruturados (como os museus) e os processos pedagógicos por eles desenvolvidos por meio de artefatos culturais (como os livros li- terários), com vistas à promoção de um ensino de história que considere os usos do passado e as formas de percepção das temporalidades pelos estudantes, por meio da promoção de uma prática pedagógica signifi cativa em ambientes que se situam para além dos muros e das salas de aula, porém, que retornam e estabelecem novos signifi cados para as práticas de ensino de história na Educação Básica brasileira. O Ensino de História com o museu: faces e interfaces de uma práxis educativa Júlio César Virgínio da Costa (Escola de Educação Básica e Profi ssional/Centro Pedagógico da UFMG) A criação de instituições universitárias no interior do país, na década de 1970, com a oferta de cursos superiores em História, possibilitou o encontro entre a historiografi a – produção acadêmica, com suas regras próprias – e o memorialismo já estabelecido nas respectivas regiões, elaborado por cronistas, romancistas, jornalistas e outros agentes. No caso da cidade de Londrina-PR, es- tes saberes que precedem à universidade, atrelados às elites de mando, promoveram exclusão de grupos diversos, como indígenas, posseiros e afrodescendentes, ignorados ou intencionalmente silenciados. Mesmo com a criação da primeira instituição pública de ensino superior, não houve em um primeiro momento ruptura com o memorialismo, ao contrário, a produção acadêmica teria sido, em parte, uma ampliação do campo de saberes já existente. A formação mais tradicional em termos historiográfi cos dos poucos docentes - aliada ao conceito de museu e de arquivo de Histó- ria, prevalentes naquele momento – teriam infl uenciado nesta perspectiva. Somente nos anos de 1980 novas histórias, produzidas no lugar social da universidade, representaram uma ruptura, com a exploração de territórios do conhecimento até então ignorados ou silenciados, quando narrativas as memorialísticas foram submetidas a uma leitura crítica. Tal revisionismo resultou no enfoque de novos personagens, com a desconstrução de determinadas “verdades” até então intocadas e sedi- O ensino de história na fronteira: entre a historiografi a e o memorialismo - Londrina-PR, 1960-1980 Wander de Lara Proença (UEL/PR) 63 mentadas, questionando-se inclusive lugares de memória que serviam como suporte material das representações regionais. Nas disputas pelos bens simbólicos do passado, as novas perspectivas enfrentaram resistências e não foram recepcionadas em determinados lugares onde a memória ofi cial se viu ameaçada, como foi o caso do Museu Histórico da cidade, que se confi gura como sím- bolo de um território de confl itos de memórias, sobretudo por se constituir como órgão da universi- dade pública da cidade. Esta comunicação, portanto, analisa as continuidades, rupturas e disputas pelos usos do passado na fronteira envolvendo a historiografi a, com destaque nas implicações de tais contextos no ensino de história. A análise se fundamenta conceitualmente na noção de campo, de Pierre Bourdieu, tendo como fontes produções memorialísticas, dissertações e teses produzidas no período, além de entrevistas com professores de História. Este texto é parte da pesquisa em desenvolvimento no Mestrado Profi ssional em Ensino de História, na Universidade estadual do Sudoeste da Bahia, e tem como objetivo propor novas formas de abordagem da História de Vitória da Conquista por meio da recuperação da memória de Aurino Cajaíba e da sua produção artística, disponível no Museu Histórico Cajaíba, compreendido como um “lugar de pedagogia”. A pesquisa tem por objeto o museu como espaço de memória e cultura histórica e como “lugar de pedagogia”. Tendo por referência o Museu Histórico Cajaíba visa demonstrar como o acervo mu- seológico pode ser utilizado para a aprendizagem e valorização da memória histórica local entre alunos de escolas públicas do município. A abordagem teórico metodológica baseia-se nos pressu- postos da Educação Histórica, especialmente dos estudos de Jorn Rüsen, que propõe potencializar os resultados do processo de aprendizagem histórica mediante o diálogo coma cultura histórica presente nos espaços de memória. Será contemplada, ainda, na abordagem teórico-crítica, a ideia de “lugar de pedagogia” conforme defi nição de Sthefanie Anderson. O projeto deverá resultar em formas de abordagem da História de Vitória da Conquista tendo como trilha a memória de Aurino Cajaíba e sua produção artística, e da associação desses registros com a história do tempo presen- te. Essa pesquisa nasce das minhas preocupações enquanto docente, na busca de tornar signifi ca- tiva a aprendizagem dos alunos e mobilizá-los a pensar historicamente e se envolver nos Projetos Pedagógicos com interesse e disposição. É na experiência escolar que aprendemos ser pessoas melhores e também melhores professores. Com isso, comecei a trabalhar com projetos escolares, momento em que percebi o quanto os projetos escolares, sejam eles dentro ou fora do espaço escolar, enriquecem e tornam o ensino de História muito mais signifi cativo e agradável aos meus alunos. Passei a realizar diversas atividades de campo, inicialmente dentro da comunidade em que meus alunos estavam inseridos, nos bairros circunvizinhos e, também, em outros bairros da cidade. Um desses Projeto foi a experiência com o Museu Histórico Cajaíba, iniciado em razão de um desejo pessoal de levar meus alunos a terem diferentes vivências de aprendizagem. E agora, no Mestrado, investigando essa experiência e recorro mais uma vez às memórias, por isso busco nelas o que me tocou, o que tocou meus alunos naquele museu. Que lições aprendemos ali? Diante disso surgem questionamentos acerca de que maneira contribuímos para a afi rmação daquele museu enquanto espaço de memória e como fomos transformados por ele enquanto ob- servadores, que têm pontos de vista e interpretações próprias? Perspectivando a melhoria do Ensino de História na Educação Básica em Vitória da Conquista na rede pública e, também, por entender a necessidade de inovar sempre a prática em sala de aula, é O Museu Cajaíba de Vitória da Conquista: “lugar de pedagogia” e cultura histórica Janiclêide Moreno Gonçalves (Secretaria Estadual de Educação da Bahia) 64 que propomos a pesquisa em mandamento, aqui apresentada. Buscamos oportunizar aos profes- sores e alunos das redes de ensino de Vitória da Conquista refl etir sobre a Educação Histórica, aqui discutida dentro do campo de Ensino de História, por meio do Museu Histórico Cajaíba como espaço de memória e de pedagogia. Objetiva-se resgatar e fortalecer a história local tendo esta instituição como vetor, buscando dar sentido às formas de representação do passado. Para tanto, faz-se ne- cessário defi nir o aporte teórico a partir desses desejos e utopias, contribuindo para o avanço dos debates sobre o Ensino de História. Pretendemos problematizar o conhecimento histórico a partir do saber histórico já produzido no museu histórico Cajaíba. Quais fatos sociais estão ali representados? Que memória o artista Aurino Cajaíba quis imortalizar em suas esculturas? Quais narrativas podemos observar a partir das escul- turas e da própria história do museu? Cabe ao professor, com base nestes questionamentos, contextualizar a problemática, relacio- nando a comunidade em que o aluno vive ao conhecimento ali produzido, buscando facilitar a inter- pretação do passado. Nesta pesquisa nos interessou também conhecer as concepções de museu e educação patri- monial. Cabe-nos a indagação: qual o papel dos museus na sociedade? Diversas são as perguntas, e muito pode ser dito sobre as funções dos museus, mas, a fi m delimitar o recorte do objeto de es- tudo deste trabalho, buscaremos estudar o Museu Histórico Cajaíba como um lugar de privilegiado potencial para o ensino de História. O Museu Histórico Cajaíba está instalado na cidade de Vitória da Conquista, a qual localiza-se no Centro-sul da Bahia. Ao revisitar a memória do “Museu Histórico Cajaíba”, é possível despertar um olhar mais crítico, ético e estéticos dos seus visitantes. Ao pensar a cidade e a importância do seu patrimônio cultural, enquanto parte da herança do passado de uma dada comunidade, pode-se evidenciar a relação en- tre estes e o ensino da História. “Ensinar a história de nossas utopias (signifi cativa, crítica e emanci- padora) quer dizer tomar a cidade como “documento/monumento”, quem sabe a partir de questões socialmente vivas” (TUTIAUX-GUILLON, 2011). Considerando as discussões mais recentes que vêm sendo produzidas sobre a aprendizagem histórica pelos pesquisadores do campo do ensino de História, buscamos na investigação da pes- quisadora Anderson (2017) amparo para discutir a consciência histórica como um projeto pedagó- gico, visto que a sua pesquisa objetiva, a partir de uma reconciliação das ferramentas disciplinares da educação histórica com práticas de consciência histórica, encorajar os alunos na refl exão sobre os dilemas morais associados ao legado do que foram silenciados e das variedades de identidades e das variedades em mudanças no presente. Referências: ANDERSON, Stephanie. The stories nations tell: Sites of pedagogy, historical consciousness, and national narratives. Canadian Journal of Education/Revue canadienne de l’éducation, v. 40, n. 1, p. 1-38, 2017. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, MEC/Brasil, 2018. CARVALHO, Cristina. Quando a escola vai ao museu. Campinas: Papirus, 2016. GIL, Carmem Zeli de Vargas; PACIEVITCH, Caroline. Patrimônio cultural e ensino de História: ex- periências na formação de professores. Revista OPSIS, v. 15, Out. 2015. Disponível em: https://www. researchgate.net/publication/283422585. Acesso em: 14 de fevereiro de 2021. HORTA, Maria de Lourdes Parreiras; GRUNBERG, Evelina; MONTEIRO, Adriane Queiroz. Guia Bá- sico da Educação Patrimonial, 1999. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/temp/guia_ educacao_patrimonial.pdf.pdf. Acesso em: 18 de maio de 2021. 65 A preservação do patrimônio cultural no contexto da modernidade urbana deve-se contextu- alizar nas questões históricas, artísticas e educacionais pautando-se na reeducação patrimonial como eixo norteador no processo de ensino e aprendizagem. O método dialético, com uma abor- dagem que tem características centrais no uso da discussão, argumentação e provocação, asso- ciasse a reeducação patrimonial para a preservação indenitária, podendo fornecer interpretações dinâmicas como base no processo interpretativo, considerando as infl uencias sociais históricas e culturais. Busca-se construções de diálogos a cerca da padronização social do patrimônio, que contribuiria diretamente com a segregação de uma historia, apresentando a importância da pre- servação desse patrimônio histórico como símbolo formador de identidade social, assumindo um papel de representação de valores que reforçam a incorporação desse patrimônio como referencial de cultura e memoria. O conceito de memória é fundamental para a compreensão do patrimônio cultural e da experi- ência cotidiana dos sujeitos com o mesmo. A memória é mais do que um simples arquivo de infor- mações, pois ela não só reinventa o passado (um passado convocado), como serve de elemento referencial norteador na construção das identidades. (MUNAIER, 2015, p.73). No sentido de conscientização da população o governo adotou o tombamento desses patri- mônios como medida protetiva dos mesmos e contribuiu diretamente no contexto do preservar, perpassando o dever do estado para uma medida social interligando o todo no processo de reedu- cação patrimonial. No Art. 216 da Constituição Federal do Brasil § 1o O poder público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação. § 2o Cabem à administração pública, na forma da lei, a gestão da documentação governamental e as providências para franquear sua consulta a quantos dela necessitem. § 3o A lei estabelecerá incentivos para a produção e oconhecimento de bens e valores culturais. § 4o Os danos e ameaças ao patrimônio cultural serão punidos, na forma da lei. Referências: BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Centro Gráfi co, 1988. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm Acesso em 15 jul de 2021 MUNAIER, Luiz Henrique De Lucca. O patrimônio cultural e a memória: uma visão dos moradores de Sabará-MG. 2015. Dissertação (mestrado)-Universidade Federal de Minas Gerais, 2015. Patrimônio Cultural: Importância do preservar. Kaity Anne Pereira Ferreira (SEDUC) RÜSEN, Jörn. Aprendizagem histórica: fundamentos e paradigmas. Curitiba: WA Editores, p. 113- 128, 2012. SCHMIDT, Maria Auxiliadora; CAINELLI, Marlene. Ensinar História. Coleção Pensamento em sala de aula, 2a ed. São Paulo: Scipione, 2012. 66 O presente trabalho tem como objetivo pesquisar o patrimônio arquitetônico e cultural da saú- de em Vitória da Conquista como espaços de memórias a serem trabalhados em sala de aula no ensino básico de História. Para tanto, buscaremos mapear as instituições de assistência em Vitória da Conquista, inventariá-las e estabelecer relação dessas com a aprendizagem signifi cativa da dis- ciplina de História no ensino fundamental e médio. No entanto, em função do contexto pandêmico, iniciamos a pesquisa com o mapeamento dos topônimos da área médica da cidade, relacionando- -os com a atuação de médicos da Santa Casa de Misericórdia, a fi m de contribuir para o ensino de História na Educação Básica. O patrimônio deve ser entendido como o indício da relação com o tempo: passado, futuro e, so- bretudo, presente. Segundo ele, o patrimônio é constituído de testemunhos, grandes e pequenos, e da nossa responsabilidade frente não apenas às gerações futuras, mas principalmente às mulhe- res e aos homens de hoje. Essa refl exão leva a considerar o patrimônio histórico como elemento importante para a aprendizagem histórica signifi cativa por parte dos/as discentes do ensino bási- co, haja vista que o contato com esse patrimônio pode potencializar a aprendizagem signifi cativa da História pelos/as estudantes. O patrimônio não deve ser visto como uma categoria restrita ao plano sensível, material, eco- nômico e lucrativo. Pelo contrário, ele estabelece relações diretas com a identidade e vivência de grupos sociais, de forma que há uma grande importância destinada aos objetos, permitindo ao indivíduo a transposição para um outro tempo histórico através da memória social, que sofre mui- tas transformações dentro de uma lógica capitalista que prioriza mais o valor monetário do que necessariamente a preservação patrimonial como um bem contribuinte para a formação dos sa- beres dos cidadãos (GONÇALVES, 2009). Todo espaço que possibilite e estimule o desenvolvimento e as experiências do viver, do conviver, do pensar e do agir consequente, é um espaço educativo. Portanto, qualquer espaço pode se tornar um espaço educativo, desde que um grupo de pessoas dele se aproprie, dando-lhe esse caráter positivo, tirando-lhe o caráter negativo da passividade e transformando-o num instrumento ativo e dinâmico da ação de seus participantes, mesmo que seja para usá-lo como exemplo crítico de uma realidade que deveria ser outra (FLORÊNCIO, 2015). Do ponto de vista metodológico, foram realizadas leituras da bibliografi a sobre o tema, além da educação patrimonial e ensino de história. A partir do conjunto das leituras e das discussões da bibliografi a, foi feito um levantamento das ruas, através do uso de páginas da Web e por meio do aplicativo de localização Google Maps. Por fi m, o intuito é o de apresentar esse material aos profes- sores de História do município para que se possa elaborar, coletivamente, propostas pedagógicas que envolvam o patrimônio da saúde no ensino de História. Os “lugares da memória” resguardam parte da história, no seu planejamento, na sua construção e nas reformas, as modifi cações que sofreram durante o tempo demostram a relação dos homens no seu tempo e espaço. Se cabe à história estudar os “lugares da memória” é através do estudo e conhecimento histórico, que podemos defender a a conscientização de que são documentos/mo- numentos importantes e que contribuem e contribuíram para a formação e o entendimento das so- ciedades. A memória é a herança do passado e, portanto, discutir memória é localizar a identidade de grupo, seus silêncios e permanências necessitam ser estudados os médicos fi lantropos, a elite conquistense, as Irmãs da Santa Catarina de Sena, os Irmãos da Santa Casa de Misericórdia e dos pobres que foram e continuam sendo atendidos por essas instituições. Patrimônio da saúde e ensino de História (Vitória da Conquista, 1910-1960) Cleide de Lima Chaves (UESB), Gabriela Alves de Oliveira (UESB) 67 A Toponímia é um conceito que permite além de nomear lugares, conhecer a realidade por trás de nomenclaturas até então comuns, que muitas vezes passam despercebidas aos olhos da socie- dade no que tange às relações intencionais de enfatizar não apenas elementos linguísticos, mas também geográfi cos, históricos, políticos e religiosos, imprimindo uma memória social, quase sem- pre determinada por elites locais, dotadas de ideologias (SEEMANN, 2005) O estudo da toponímia comporta uma série de signifi cações dentro do quadro cultural de for- ma diversifi cada. A memória histórica social ou individual, perpassa por uma série de signifi cações incluídas no bojo dos topônimos, ao se estabelecer relações com os espaços geográfi cos como: cidades, avenidas, ruas, praças, espaços escolares e diversos ambientes. Elaboramos um quadro que teve por objetivo apresentar o mapeamento de algumas locali- dades pertencentes a zona urbana do município de Vitória da Conquista que rememoram alguns profi ssionais pertencentes a história da irmandade da Santa Casa de Misericórdia, que prestaram serviço de assistência à saúde, tendo parte deles atuado também como agentes administrativos da instituição como foi o caso de Crescêncio Silveira e Régis Pacheco. Os registros encontrados destacam a presença de 13 endereços na cidade referentes a topô- nimos da área médica, onde consta a maioria no centro da cidade. Percebe-se que os nomes de médicos mais antigos e também membros da Irmandade das Misericórdias são referenciados em localidades do centro da cidade, enquanto os demais atuaram em especialidades médicas na Santa Casa e são homenageados na nomenclatura de endereços em bairros periféricos. A educação patrimonial não deve ser tratada como metodologia centrada no ambiente museo- lógico como único espaço de observação para ensino- aprendizagem. O patrimônio no ensino com- porta a materialização da história, ou seja, os resquícios de memória que sobrevivem no tempo, uma vez que os objetos revelam as permanências e as rupturas de uma época. Para identifi cá-las, emerge a necessidade de um olhar atento e ao mesmo tempo curioso do pesquisador, do educador e do educando, o que favorece a releitura de objetos e a construção de novas concepções que des- pertem para a educação patrimonial (GIL; PACIEVITCH; 2015). Referências: CHAVES, C. L (org.). História da Saúde e das Doenças no interior da Bahia, século XIX e XX. Vitória da Conquista: Edições UESB, 2013. FLORÊNCIO, S. R. R. Educação patrimonial: algumas diretrizes conceituais. IN: PINHEIRO, Adson Rodrigo S. (org.). Cadernos do patrimônio cultural: educação patrimonial. Fortaleza: Secultfor: Iphan, 2015. GIL, C. Z. V.. PACIETVICH, C. Patrimônio Cultural e ensino de História: experiências na formação de professores.v.15 n.1(2015). Dossiê Ensino de História e formação docente: pesquisas sobre o Ensino de História jan/jun. 2015. GONÇALVES, J. R. S. O patrimônio como categoria de pensamento. In: ABREU, R.; CHAGAS, M. (orgs). Memória e Patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro: Lamparina, 2009. SEEMAN, J. A Toponímia como construção histórico-cultural: os exemplosdo município do Ceará. Revista Vivência, no29, 2005. p.207-224. Projeto de Introdução à Ciência Política no Ensino Fundamental II Julia Melo dos Santos (UEFS) Na incessante busca por melhorias no contexto sócio-político no ambiente educacional, pen- samos um projeto que procurou inserir no cotidiano dos estudantes do Ensino Fundamental II, 68 conhecimentos políticos que tem como principal objetivo situá-los politicamente e criticamente no ambiente em que eles vivem, apresentando seus direitos e deveres, de acordo com o que é garantido pela Constituição do nosso país. O projeto tem como fundamentação teórica , estudos sobre a importância da leitura de mundo apresentado pelo Educador Paulo Freire, assim como as considerações feitas pela Filósofa Viviane Mosé, a respeito da departamentalização do ensino; as contribuições da teoria política de Nicolau Maquiavel, as teoria do cientista político Oswaldo do Amaral, para o suporte dos conceitos políticos, a fi m de desmistifi car a concepção de politicagem, que está difundida no meio político do cenário atual do país e é disseminado pelas redes midiáti- cas, principalmente as televisivas. Com o intuito de proporcionar interdisciplinaridade, os livros de George Orwell, A Revolução dos Bichos e 1984, serão fonte de discussão, para análise da sociedade distópica e das relações de poder. Para ocorrer a inserção do projeto, utilizamos principalmente as redes sociais, como o instagram e os ambientes digitais, como o google formulário e o google meet. A partir da interação com os estudantes, é possível observar a carência que existe a respeito dos conceitos de ciência política, além do interesse que eles demonstram em saber mais sobre a reali- dade em que estão inseridos a partir do ponto de vista da política que lhes está sendo apresentada. “A área de Ciências Humanas, tanto no Ensino Fundamental como no Ensino Médio, defi ne aprendizagens centradas no desenvolvimento das competências de identifi cação, análise, com- paração e interpretação de ideias, pensamentos, fenômenos e processos históricos, geográfi cos, sociais, econômicos, políticos e culturais. Essas competências permitirão aos estudantes elaborar hipóteses, construir argumentos e atuar no mundo, recorrendo aos conceitos e fundamentos dos componentes da área. No Ensino Médio, com a incorporação da Filosofi a e da Sociologia, a área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas propõe o aprofundamento e a ampliação da base conceitual e dos modos de construção da argumentação e sistematização do raciocínio, operacionalizados com base em procedimentos analíticos e interpretativos. Nessa etapa, como os estudantes e suas experiências como jovens cidadãos representam o foco do aprendizado, deve-se estimular uma leitura de mundo sustentada em uma visão crítica e contextualizada da realidade, no domínio con- ceitual e na elaboração e aplicação de interpretações sobre as relações, os processos e as múltiplas dimensões da existência humana.” (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2018) Tendo em vista, que o projeto ainda está em processo de desenvolvimento e aplicação, ainda não há resultados concretos sobre o desempenho dos alunos após o emprego dos conhecimentos de Ciência Política. Até o atual momento, foi-se observado a partir dos formulários, na interação dos post do instagram - historiapibid, e dos debates através do meet, que os alunos não têm domínio da estrutura básica da política do país, da estrutura política do país, tal observação foi checada, nas dúvidas, e nas falas dos estudantes que demonstravam pouco conhecimento, sobre a Ciência Polí- tica.Portanto, a partir desses pontos que foram notados com os questionários do Google Formulá- rio, da interação dos posts no instagram - historia pibid, e nos debates do Google Meet, a respeito das dúvidas sobre os conteúdos deCiência Política, além da necessidade que os alunos demonstra- ram ter desse conteúdo, para aperfeiçoar seus posicionamentos sócio-políticos, o projeto continu- ará sendo aplicado a fi m de sanar essas dúvidas, além de contribuir para abranger o conhecimento políticos, ajudando-os a aguçar sua visão crítica sobre a realidade que estão inseridos. Palavras-chave: Educação. Ciência Política. Ensino Fundamental. Referências: BRASIL. Rossieli Soares da Silva. Ministro da Educação. Base Nacional Comum Curricular. educação é a base. Educação é a Base. 2018. Disponível em: htto://basenacionalco- mum.mec.gov.br/imagens/BNCC_EI_EF_110518_versaofi cial_site.pdf. Acesso em: 15 jul. 2021. FREIRE, Paulo. A importância do Ato de Ler. In: FREIRE, Paulo. A importância do Ato de Ler. em três artigos que se complementam. 23. ed. São Paulo, Sp: Cortez Editora, 1989. Cap. 1. p. 11. (COLEÇÕES POLÊMICAS DO NOSSO TEMPO). Autores Associados: Cortez. 69 Esse trabalho se propôs a examinar as representações museais a respeito das histórias do escravizado Lucas Evangelista dos Santos, Lucas da Feira, no Pavilhão Anexo do Museu Casa do Sertão, buscando situar e contextualizar a presença do passado escravista neste espaço museal. Marcado pelos embates das memórias na cidade de Feira de Santana, o Pavilhão Anexo protago- niza um dos poucos lugares de assunção das histórias da escravidão na região do interior baiano, possibilitando assim uma discussão relacionada à emergência de histórias não hegemônicas so- bre este escravizado feirense por meio do questionamento dos saberes museológicos em questão. Dialogando com os estudos de Francisco Régis Lopes Ramos, Nil Barbosa Rodrigues, Marcelo Nas- cimento Cunha e Roger Chartier, tornou-se possível também, através de uma confi guração teórica que envolve as categorias de representação e escravidão, museu e aprendizagem, identifi car ques- tões candentes ao que trata a lei 10.639/03 e o ensino das histórias dos povos africanos e afro-bra- sileiros operando em espaços informais de saber. Concebido ao fi nal do século XX, no contexto de expansão e reforma do Museu Casa do Sertão/UEFS, o Pavilhão Anexo comporta grandes e médios objetos culturais advindos dos processos e experiências de escravidão e policultura no cenário do século XIX feirense e de região circunvizinha. Inseridos em novas semânticas, estes objetos com- põem uma exposição permanente que perpassa temas como relações de racismo e poder, história do trabalho e mundos da escravidão no interior da Bahia, assim como se tornaram portadores de outros saberes e signifi cados, de outras representações e histórias possíveis sobre o escravizado Lucas da Feira. Como um espaço potente no tocante às possibilidades de desestabilizar as histórias únicas que permeiam as representações sobre Lucas, o Pavilhão Anexo do Museu Casa do Sertão pode redefi nir sua relação com a presença do passado escravista na montagem das exposições, podendo assim extrapolar as restrições temporal (da escravidão) e espacial (do mundo rural) ins- tituídas silenciosamente aos povos negros no que diz respeito à signifi cativa parte das represen- tações museais brasileiras. Saberes museais na insurgência de outras histórias possíveis: a presença do passado escravista no Pavilhão Anexo Lucas da Feira-Museu Casa do Sertão/UEFS. Lázaro de Souza Barbosa (UEFS) ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 414. MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Editora Hb, 2014. 205. O QUE A ESCOLA DEVERIA APRENDER ANTES DE ENSINAR?. São Paulo: Cpfl Cultura, 2014. P&B. ORWELL, George. Revolução dos bichos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 152 p. AMARAL, Oswaldo E. do. O que sabemos sobre a organização dos partidos políticos: uma avalia- ção de 100 anos de literatura. Revista Debates, Porto Alegre, v. 7, n. 2, p. 11-32, out. 2013. Semestra. 70 SIMPÓSIO TEMÁTICO ENSINO DE HISTÓRIA E RELIGIÃO PERSPECTIVAS PARA O ENFRENTAMENTO DA INTOLERÂNCIA 71 Partindo dos conceitos de campo e de campo científi co, desenvolvidos pelo sociólogo Pierre Bourdieu, esta comunicação pretende refl etir sobre o atual cenário da produção historiográfi ca baianano campo da História das Religiões e das Religiosidades, com destaque para as produções inscritas no Grupo de Trabalho (GT) dedicado a esta temática no âmbito da seção estadual da Asso- ciação Nacional de História (ANPUH-BA), entre os anos de 2014 a 2020. O recorte proposto corres- ponde à institucionalização deste Grupo de Trabalho no espaço dos Encontros Estaduais de História e de Ensino de História, que transcorrem em anos alternados, o que pode ser entendido enquanto revelador da consolidação deste campo de estudos na historiografi a baiana. Dialogando com a sis- tematização proposta por José d’Assunção Barros, entendemos que a religião não se caracteriza, apenas, enquanto um domínio historiográfi co ou campo temático, podendo também ser caracteri- zada enquanto uma dimensão fundamental da vida social, cujas múltiplas confi gurações históricas, articuladas com as dimensões da cultura, da sociedade, da política e da economia, constituem o objeto de estudo da História das religiões e das religiosidades. Do ponto de vista teórico- meto- dológico, esta vertente do fazer historiográfi co se caracteriza, portanto, pela aproximação com a História Cultural, a História Social, a História Política e a História Econômica, sem perder de vista a especifi cidade do seu objeto. Por meio do levantamento da produção historiográfi ca reunida em torno do GT de História das Religiões e das Religiosidades nos Encontros Estaduais de História e nos Encontros Estaduais de Ensino de História, transcorridos entre os anos de 2014 a 2020, pretende- -se indicar a abrangência deste campo de estudos na produção historiográfi ca recente, bem como sua relevância para o ensino de História. Referências: ALBUQUERQUE, Eduardo Basto de. Da História religiosa à História cultural do sagrado. Ciências da Religião (Mackenzie Online), v. 01, p. 34-49, 2007. ALVES, Rubem. O suspiro dos oprimidos. 4 ed. São Paulo: Paulus, 1999. BARROS, José d’Assunção. O campo da História. Especialidades e abordagens. 4 ed. Petrópolis: Vozes, 2004. BELLINI, Lígia; SALES SOUZA, Evergton; SAMPAIO, Gabriela dos Reis (org.). Formas de crer. En- saios de história religiosa do mundo luso-afro-brasileiro, séculos XIV-XXI, Salvador, Edufba, Corru- pio, 2006. BERGER, Peter. O Dossel Sagrado: Elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulus, 1997. BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva; 1998. BOURDIEU, Pierre. Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científi co. São Paulo: Unesp, 2004. CERTEAU, Michel de. A escrita da história. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000. COUTO, Edilece Souza. Considerações sobre a produção historiográfi ca das Religiões e Religio- sidades na Bahia. In: DIAS, André Luís Mattedi; COELHO NETO, Eurelino Teixeira; LEITE, Márcia Maria da Silva Barreiros (org.). História, cultura e poder. Feira de Santana: UEFS Editora; Salvador: EDUFBA, 2010, p. 141-156. GRUZINSKI, Serge. O historiador, o macaco e a centaura: a “história cultural” no novo milênio. A consolidação do campo de estudos da História das religiões e das religiosidades na Bahia Fabricio Lyrio Santos (UFRB) 72 Estudos Avançados, 17 (49), p. 321-342, 2003. GUERREIRO, Silas (org.). O estudo das religiões: desafi os contemporâneos. São Paulo: Paulinas, 2003. KARNAL, Leandro (org.). História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas. 5 ed. São Paulo: Editora Contexto, 2008. MARANHÃO JÚNIOR, Eduardo Meinberg de Albuquerque (org.). (Re)conhecendo o Sagrado: Re- fl exões teórico-metodológicas dos estudos de religião e religiosidades. São Paulo: Fonte Editorial, 2013 MONTES, Maria Lúcia. “As fi guras do sagrado: entre o público e o privado”. In: SCHWARCZ, Li- lia Moritz. História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. MOTT, Luiz. “Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundú”. In SOUZA, Laura de Mello (org.). 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O objetivo da pesquisa foi problematizar o ensino de História da África e Cultura Afro-brasileira nas aulas de História, nas turmas do ensino médio. Durante o estudo das fontes, identifi camos alguns diários escolares com conteúdos sobre educação religiosa. O Ensino de História das Religiões em perspectivas plurais é fundamental para construir conheci- mentos acerca da pluralidade religiosa existente no Brasil e no mundo. Estudar a formação histó- rica das grandes religiões que constituem o complexo solo brasileiro é fundamental para construir sentimentos e atitudes de respeito e alteridade frente a diversidade religiosa presente na socieda- de nacional. O objetivo geral deste trabalho é analisar as principais temáticas religiosas abordadas nas aulas da disciplina de Educação Religiosa do Colégio Estadual Fênix, no ano de 2006. O Colégio está situado na cidade de Feira de Santana, no bairro Viveiros. Os objetivos específi cos são: identi- fi car os conteúdos trabalhados na disciplina Educação Religiosa; identifi car qual/quais religião/ões foram estudadas durante as aulas; compreender quais foram os recursos didáticos utilizados nas aulas. A metodologia adotada nesta pesquisa foi a de análise e interpretação de dados com base nas fontes estudadas e fundamentadas a partir dos teóricos que enriqueceram nosso trabalho. As fontes utilizadas foram: Diários escolares do Colégio Estadual Fênix – 2006 e entrevista oral reali- zada com a professora da disciplina de Educação Religiosa. A fundamentação teórica que embasou esta pesquisa é a de campo religioso problematizada pelo sociólogo Pierre Bourdieu em sua obra Economia das trocas simbólicas (1974), o conceito de Racismo de Kabengele Munanga (2004), os A importância do ensino de História das Religiões em perspectivas plurais: uma análise da disciplina Educação Religiosa do Colégio Estadual Fênix – 2006. Antonielson Adorno Santos (UEFS) 73 conceitos de prática, representação e ressignifi cação de Roger Chartier (1990), também utilizamos o conceito de conversão, a partir da defi nição de Rubem Alves (2005), de acordo com o autor “a con- versão se revela por meio de um novo falar. “Converter-se é abandonar um discurso e adotar outro” (ALVES, 2005, p. 68). Um conceito pertinente para compreendermos com alguns grupos religiosos buscam novos adeptos. Não há um consenso para defi nir o conceito de religião, escolhemos o con- ceito trabalhado por Rubem Alves (1984), pois, é o que mais se aproxima da proposta da pesquisa, para o autor religião é uma “Teia de símbolos, redes de desejos, confi ssão de espera, horizonte dos horizontes, a mais fantástica e pretensiosa tentativa de transubstanciar a natureza” (ALVES, 1984, p. 22). Para fundamentar a metodologia com fontes orais a referencia é Tânia Risério d’Almeida Gandon (2005). Como resultado provisório da pesquisa observamos, que o conteúdo ensinado nas aulas era sobre doutrinas do Cristianismo e as outras religiões, especialmente as Religiões de Ma- trizes Africanas não foram citadas. A religião da professora regente era Católica. 100% do conteúdo trabalhadona disciplina foi sobre a Bíblia, o que representa uma educação religiosa cristã. E não uma educação plural, que abrangesse outros públicos não cristãos, como é o caso de candomble- cistas, umbandistas, espiritas etc. Pretendemos nesta comunicação abordar sobre a formação de profi ssionais de História para o exercício pedagógico do Ensino Religioso no espaço escolar. O fenômeno religioso já foi estudado em várias perspectivas teóricas, alguns autores destacam a importância da religião na formação das sociedades, como Émile Durkheim, outros destacam a religião como um elemento opiáceo e alienante, a exemplo de Karl Marx e para outros pesquisadores os fenômenos do sagrado cum- prem, também, um papel na formação de utopias, de perspectiva e visão de mundo, conforme Ernst Bloch. Com desdobramentos sociais positivos ou negativos, todos são unanimes ao constatarem que a religião joga um papel relevante na formação sociocultural da Humanidade. Uma caracterís- tica do campo religioso brasileiro é a sua diversidade, a presença de várias confi ssões religiosas, que se apresentam com aparatos institucionais ou em forma de religiosidades e devoções particu- lares. A proclamação da República em 1889 e a ofi cialização do estado laico tirou da Igreja Católica o estatuto de religião ofi cial do Brasil e ao mesmo tempo promoveu a liberdade religiosa no País. A implementação do Ensino Religioso no sistema escolar nacional percorreu um grande e polêmico debate entre os favoráveis e os contrários. Culminou, recentemente, com a Lei 9.475/97, que insti- tuiu o Ensino Religioso nas escolas públicas como uma proposta de conhecimento sobre a diver- sidade religiosa brasileira para a formação do cidadão, com caráter facultativo, conforme o Artigo 33 da referida lei. A Escola, enquanto instituição educacional laica e pública congrega estudantes, funcionários e professores das mais diversas crenças, tendências politicas e opção sexual, confor- me garante a Constituição do Brasil, especialmente no seu artigo cinco parágrafos IV, VI, VIII e IX. É um local que por defi nição, quer ser universal abrangente e plural. Porque se trata de uma institui- ção laica, no espaço escolar não deve haver profi ssão de fé, doutrinação religiosa ou proselitismo. A proposta normativa é que seja ministrado o conhecimento histórico de todas as religiões que formam o campo religioso brasileiro, com uma perspectiva científi ca e respeitosa, como convêm para a formação de cidadãos e cidadãs brasileiros e brasileiras. O Brasil é um País de pluralidade étnica e religiosa, com uma trajetória histórica que remonta aos indígenas, africanos e europeus, que nos legaram uma herança cultural diversifi cada, de preciosos matizes, não podemos permitir que os preconceitos destruam a possibilidade de uma convivência saudável, harmoniosa e ecumê- nica entre pessoas que pensam diferente, rezam diferente ou não professam qualquer religião, mas que habitam o mesmo espaço, participam da mesma comunidade humana. O espirito acadêmico, A Religião como Conhecimento Histórico: Vacina Contra a Intolerância Elizete da Silva (UEFS) 74 a promoção do conhecimento sobre as probabilidades de relações de alteridade entre os diferen- tes credos religiosos existentes, podem se constituir num antidoto contra o racismo religioso e a intolerância que se perpetuam no cotidiano da sociedade brasileira, a qual se construiu a partir do escravismo e da hegemonia do Cristianismo, com expedientes inquisitoriais. A proposição legal vi- gente na atualidade, é que de fato, sejam ministrados disciplinas e conteúdos científi cos sobre as diversas formas de religião e religiosidades, que conformam a cultura mundial e nacional, com o objetivo de formar profi ssionais competentes e qualifi cados. Lembrando que a Universidade tem o dever de fomentar a difusão dos saberes que englobam a realidade. Investigamos a experiência pedagógica no Curso de História de algumas universidades públicas, dos componentes História das Religiões e Campo Religioso Brasileiro. Analisamos os conteúdos e objetivos específi cos, bem como a metodologia de trabalho aplicada e os resultados alcançados. Em tempos pandêmicos, negacionistas e distópicos, o estudo da História das Religiões e Religiosidades pode trazer bons aportes para o entendimento da realidade. A abordagem teórica se fundamenta na História Cultural (CHARTIER, 1990) em interfaces com a História das Religiões. O conceito de campo religioso auxilia no entendimento das relações e disputas internas e externas. (BOURDIEU, 1979). O presente trabalho tem por objetivo discutir propostas de um ensino anticolonial, na Rede Pú- blica de Ensino de Feira de Santana sobre a história da cidade, utilizando as análises e descobertas da pesquisa em andamento, realizada por mim sobre a festa em louvor a Santa Bárbara e Iansã no município de Feira de Santana, no período de 1970 a 1990. Pretendemos fazer uma refl exão sobre a lei Na10.639 que determina o ensino de História e Cultura Africana como obrigatório em instituições de ensino público e privado do País. A pesquisa tem como base o diagnóstico feito por mim após es- tagiar nos programas residência pedagógica e estágio voluntário de iniciação científi ca, quando foi percebido o desconhecimento sobre as práticas religiosas da cidade e a necessidade de informa- ções e discussão da formação da sociedade feirense. A observação parte não só da realidade dos currículos escolares dos estudantes, mas da sua própria trajetória familiar, uma vez que a educa- ção básica pública da cidade, conta com um número signifi cativo de estudantes afrodescendentes que não se reconhecem na história da cidade pois a mesma é sempre apresentada na perspectiva de quem colonizou o território, isto é, a elite branca e latifundiária e não de quem foi colonizado, que no caso são os seus antepassados. Tal mentalidade é claramente perceptível na literatura sobre a cidade em obras de memorialistas como Eurico Alves Boaventura, que chegou ao ponto de negar a presença africana na cultura local evidenciando apenas os brancos e os indígenas, os fi dalgos e os vaqueiros. Destacamos as festas religiosas de matrizes africanas, que persistiram em Feira de Santana, especialmente no Centro de Abastecimento, entre trabalhadores feirantes afrodescen- dentes. A festa é um espaço de lazer, mas ao mesmo tempo de preservação de rituais religiosos de Terreiros de Candomblé e de Centros de Umbanda, fenômeno importante para compreender os processos de (r)existência da cultura afro na cidade. A perspectiva teórica se ancora na História Cultural, na perspectiva de Roger Chartier (CHARTIER, 1990) e usaremos como fonte as notícias dos jornais locais e história oral. Palavras chave: ensino de história; colonialismo; iansã; As devoções afro-brasileiras e o ensino de História: caminhos possíveis na luta contra o racismo religioso. Isabela Catarina da Silva Costa 75 A proposta desta comunicação tem como objetivo fazer alguns apontamentos sobre o posi- cionamento da denominação Assembleia de Deus com relação à homossexualidade, no intuito de identifi car como as abordagens contidas nos periódicos Mensageiro da Paz e Lições Bíblicas, sobre o tema em questão, podem (ou não) contribuir com a intolerância relacionada aos indivíduos de sexualidades dissidentes. A Assembleia de Deus é uma denominação pentecostal bastante con- servadora que se mantêm resistente a diversas pautas que visam o reconhecimento de direitos de grupos historicamente marginalizados, como a população LGBTQIA+. As fontes através das quais o presente estudo se baseia são matérias do jornal Mensageiro da Paz – Periódico de publicação mensal e circulação nacional, criado em 1930 – e as Lições Bíblicas – material didático utilizado nas Escolas Bíblicas Dominicais (EBDs) desde a década de 1930 – que versam sobre o cristão e sexualidade. Ambos os periódicos são veículos ofi ciais de informação sobre diversos assuntos e, também, o meio de divulgação dasdoutrinas adotadas pela Assembleia de Deus. Esse material é produzido e distribuído pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) e, no caso das Lições Bíblicas, estudadas na Escola Bíblica Dominical nas Assembleia de Deus, Ministério Missão, de todo o Brasil. O método de análise desenvolvido no presente trabalho está amparado na análise bibliográfi ca através do cotejamento do conceito de gênero e sexualidade, compreendendo a com- plexidade, profundidade e relevância dos referidos conceitos para o entendimento das relações sociais, logo, produtivos para os estudos científi cos, bem como à análise do conteúdo, a partir do jornal Mensageiro da Paz e Lições Bíblicas. A discussão sobre a sexualidade não se ausentou dos diversos espaços religiosos. Especialmente no Protestantismo, esse tema se destacou nas últimas décadas, tornando-se o alvo das mensagens doutrinárias, suscitando grandes e calorosos debates, dentro e fora do âmbito religioso. Nas últimas décadas, entre os diversos grupos sociais – religiosos e não religiosos –, a sexualidade tem se tornado cada vez mais uma pauta de importante discussão e preocupação. Apesar de alguns avanços sobre o tema, a sexualidade ainda é um assunto caro à sociedade brasileira que, por uma formação cultural imergida na religiosidade cristã e nos padrões heteronormativos, se mantém resistente à aceitação e naturalização da homossexualidade. Assembleia de Deus e a homossexualidade: o que dizem os periódicos ofi ciais? Marcos Oliveira de Queiroz (Instituto Associados Saber e Cultura) O trabalho pretende analisar a presença de duas denominações protestantes a Assembleia de Deus e a Metodista Weslyana na aldeia indígena Caramuru- Paraguaçu, localizada entre os muni- cípios de Camacan, Pau-Brasil na região Sul da Bahia. Após a chegada das denominações na aldeia e conversão dos indígenas foi notável a rápida absorção de costumes não indígena e uma disputa pelo campo religioso, o que resultou na transição de membros de uma igreja para outra. O proseli- tismo dentro da comunidade indígena, gerou discórdias entre os Pataxós Há-hã-hãe, pois o cacique e demais líderes da comunidade não aceitavam “crentes” no meio deles. O principal argumento uti- lizado pelas lideranças e demais indígenas contra a inserção de uma igreja protestante na comuni- dade, pautou-se em torno do problema da manutenção dos costumes. Os Pataxó-hã-hã-hãe con- vertidos afi rmam que continuam sendo “índio” mesmo fazendo parte do protestantismo. De modo preliminar é possível que haja a predominância do cristianismo em detrimento da “religião Pataxó Hã-hã-hãe”. Desse modo, podemos fazer a analogia de que o cristianismo, com o seu monoteísmo, Conversão e identidade étnica na aldeia Indigena Pátaxó hã-hã-hãe (1982-1999) Simone Silva de Jesus (CESF) 76 se sobressai ao interagir com a religião Pataxó Hã-hã-hãe, pois o monopólio de um determinado culto confere poderes políticos aos monopolizadores da fé. As lógicas de manutenção de uma iden- tidade cultural é um dos grandes problemas a serem debatidos nesta pesquisa. Diante do exposto, analisaremos as mediações e confl itos na construção de uma identidade cultural com a inserção do protestantismo na aldeia Pataxó Hã-hã-hãe entre os anos de 1982-1999. Nessa perspectiva, usaremos o conceito de campo religioso por englobar uma relação de inter- dependência entre a religião e sistemas simbólicos, o qual se constitui autonomamente, a partir do “desenvolvimento de uma necessidade de ‘moralização’ e de ‘sistematização’ das crenças e práti- cas religiosas” (BOURDIEU, 1974, p. 34). A pesquisa é de caráter qualitativo, importante método de estudo para este trabalho que pre- tende compreender o ponto de vista dos participantes da situação estudada. Desse modo, será realizado a análise das fontes Escritas, orais e audiovisuais, a fi m de contemplarmos os questiona- mentos em questão dos sujeitos históricos. fonte oral é um dos principais recursos para o levan- tamento de dados necessários para construção de informações sobre a presença das igrejas na aldeia. A pesquisa continuará com o uso dos Jornais descritos a seguir: Jornal do Expositor Cristão e A revista Tempo e Presença da CEDI (Centro Ecumênico de Documentação e Informação). Usaremos, também, as edições do Jornal Expositor Cristão da Metodista, no 7 outubro de 1998. Essas fontes ajudam a compreender a concepção da igreja Metodista em relação aos trabalhos missionários e a sua atuação em áreas indígenas. Além das fontes já mencionadas, contaremos com a fonte escrita A Cartilha Diretrizes Pastorais para a Ação Missionária Indigenista. Essa cartilha pertence a igreja Metodista que pode ser consi- derado um manual de como a igreja se posiciona em relação à questões indígenas. Na primavera de 1983 era fundada a Congregação Assembleia de Deus do Feira VI, em Feira de Santana-Ba. Fruto do expansionismo pentecostal no Brasil, no qual chegou a partir de 1910 com os fundadores da Congregação Cristã do Brasil e depois, no ano seguinte, 1911 com a chegada dos missionários batistas Daniel Berg e Gunnar Vingren no estado do Pará. Assim, se espalhou pela re- gião nordestina através de trabalhadores que ali labutavam especialmente com os seringais e ao retornarem as suas cidades de origem, traziam consigo as mensagem pentecostal, de que “Jesus salva, batiza com o Espírito Santo e leva para o céu”. Chegou à Bahia ainda na década de 1920, na cidade de Canavieiras através da irmã Joaquina que ali anunciou a seus parentes a nova mensagem que se espalhou pela Bahia, chegando a Capital do estado em 1930. Em seguida chegou a cidade de feirense e se desenvolveu pelos bairros e conjuntos habitacionais, acompanhando o crescimento citadino da princesa do Sertão alcançando vários bairros e conjuntos habitacionais. Um desses lugares que Assembleia de Deus que chegou foi ao Conjunto habitacional Feira VI, em Feira de Santana. A região recebeu uma série de “conjuntos habitacionais e somavam 3546 casas construídas pela URBIS até a década de 1980. Embora a cidade fosse ganhando novos modelos e padrões de construção” apesar do crescimento signifi cativo de moradias marcado pela presença estudantil não apenas no Conjunto, mas também nos frequentadores da AD Feira VI. A proposta aqui apresentada é fruta da uma pesquisa que vem sendo desenvolvida da gradu- ação, da qual resultou na Monografi a defendida e aprovada e obtenção de grau de licenciado em Crentes e estudantes: o perfi l da Assembleia de Deus do Feira VI, Feira de Santana-BA (2000-2016) Jean Santos Dias (UEFS) 77 História. O objetivo foi traçar um perfi l dos frequentadores da Congregação Assembleia de Deus Feira VI. Utilizamos como metodologia entrevistas orais, entendendo-as enquanto etnotexto (GAN- DON,2012), através dos quais pudemos verifi car questões relacionadas a gênero, raça, escolarida- de, curso de graduação. Fizemos ainda leitura de cartas de membro, cartas de batismo, e aplicamos um questionário aos frequentadores desse centro religioso. Utilizamos ainda as contribuições de Rogier Chartir (1990) para avaliar as representações contidas nas falaras e nas narrativas através das entrevistas e questionários; campo religiosa de Pierre Bourdieu (1974), entendendo que as de- terminações e implicações são intrínsecas a cada campo. Pudemos notar que o perfi l dessa congregação é marcado por mulheres, de pessoas negras, com escolaridade de mais de 60% de ensino superior, completo ou em andamento. Também fi ca evidente nas analises realizadas até aqui que muitas pessoas que congregam nessa igreja vieram de outra demonizações, ou de outra localidade, e que não tem um publico fi xo, em virtude da reno- vação do público universitário. Referências: QUEIROZ, Marcos Oliveira. “Quando os justos governam, o povo se alegra”: uma análise sobre a Assembleia de Deus e a política em Eunápolis (1988-2016). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana, 2019. ANDON,Tânia Risério d Almeida. Entre Memória e História. Templos Múltiplos e um Discurso em Muitas Vozes. Proj. História, São Paulo, v.22, p. 139-155, jun. 2021. p. 151. BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1974. CHARTIER, Roger. História Cultural: Entre práticas e Representações. Trad. Maria Manuela Ga- lhardo. Lisboa: Difusão, 1990. Danillo Rangell Pinheiro Pereira - Universidade Federal da Bahia (UFBA) - E-mail – danilloran- gell@yahoo.com.br Palavras chaves: Igreja Católica, diálogo, hierarquia, povo de Deus. Atualmente, desenvolvemos uma pesquisa aceca das interpretações sobre o Concílio Vaticano II, presentes em escritos publicados pelos teólogos Joseph Ratzinger, atual Papa Emérito Bento XVI e Leonardo Bo� , teólogo e fi lósofo expoente da Teologia da Libertação. Nas fontes estudadas há entre os autores, espaços para o diálogo, pluralismo no interior da religião cristã e fora dela. A Igreja Católica é reconhecida como povo de Deus e corpo místico de Cristo. Todavia, o que os separa é a perspectiva que ambos possuem em relação a origem da autoridade e organização da instituição. Ratzinger, afi nado com a ortodoxia, defende princípios inegociáveis - entre eles - o poder delega- do por Jesus aos apóstolos, posteriormente associados à hierarquia sob controle do Papa e seus assessores mais próximos. Ainda que seja uma hierarquia, a Igreja Católica para o teólogo alemão, não deve ser uma mera cumplice do poder temporal e desvinculada do serviço ao mundo, aliás, em certos aspectos, é dever de seus membros, a subversão ao poder terreno em razão da fi delidade à sua missão. Já Bo� , sem desconsiderar os temas anteriores, reivindica também a concepção do Jesus histórico, e a tradição comunitária e colegial das primeiras comunidades cristãs. Em nome desta tradição apostólica, reivindica como dever moral da Igreja – baseada em sua fi delidade aos evangelhos – o serviço aos pobres e dignifi cação da humanidade. Nesta comunicação pretende-se discutir particularmente as interpretações acerca da relação entre Igreja católica, outras denomi- nações do Cristianismo e religiões não cristãs nos escritos de Joseph Ratzinger sobre o Concílio Vaticano II. O padre, teólogo, professor e pesquisador alemão, depois feito bispo, cardeal prefeito Diálogo Entre Religiões nos Escritos de Joseph Ratzinger Sobre o Concílio Vaticano II Danillo Rangell Pinheiro Pereira (Governo do Estado da Bahia) 78 da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé e por fi m Papa, participou daquele concílio e da confecção de alguns de seus textos. No decorrer de sua trajetória intelectual foi um dos estudiosos católicos engajado nas disputas pela interpretação considerada legítima do evento no interior da Igreja romana. Governador Mangabeira é uma pequena cidade do interior baiano que se encontra encravada no território do Recôncavo Sul da Bahia, espaço territorial que desde de o período colonial sempre foi marcado por uma forte presença religiosa, tanto do catolicismo como das religiões afro-brasileiras. Nesse trabalho pretendo me debruçar sobre o catolicismo e como este, a partir da presença dar Irmãs De Caridade Da Santa Cruz, contribuiu no processo educacional dos sujeitos do município no período que vai do ano de 1971 até 1990. É valido ressaltar que a presença da congregação religio- sa das Irmãs de Caridade da Santa Cruz -que se dá a partir dos anos de 1971- mudou os rumos do catolicismo vivenciado na cidade de Governador Mangabeira, no ano supracitado se estabeleceram na cidade três membros da congregação, isto é, a Ir. Adelia Seen, Ir. Marta Schimit e a Ir. Serafi na Marchhart. Apesar da difi culdade de traçar o perfi l social das primeiras Irmãs que estiveram na cidade, é importante marcar, que ambas eram brancas e de origem suíça, de acordo com o livro de tombo paroquial, estas eram responsáveis pelos serviços sociais e pela catequese paroquial. Logo após se estabelecerem na cidade, passaram a observar as condições de vida dos moradores e a partir das observações, criaram e colocaram em prática uma série de projetos que tinham por objetivo melhorar a vida dos homens e mulheres mangabeirenses. As Irmãs de Caridade da Santa Cruz, criaram creches, realizaram cursos de alfabetização de jovens e adultos, cursos profi ssio- nalizante de pedreiro, criaram ofi cinas e cursos de artesanato, além de contribuírem diretamente na criação de escolas primarias. Essas, dentre tantas outras ações realizadas pela congregaçao, eram, em sua maioria, conduzidas por mulheres e direcionada para mulheres. Vale ressaltar que as mulheres que auxiliavam as Irmãs na realização de suas atividades e cursos, eram em sua maioria, mulheres letradas que tiveram acesso a uma educação formal, tais como professoras e enfermei- ras, por exemplo, já as mulheres as quais eram direcionadas essas ações, eram em grande medida, mulheres negras e trabalhadoras do campo na produção agrícola, nas fabricas de fumo da cidade ou das cidades circunvizinhas. As Irmãs de Caridade da Santa Cruz direcionaram a maior parte de sua atenção para atividades de cunho educacional tanto no âmbito da educação formal, a partir de criação de escolas primarias, como no âmbito da educação não formal com a criação de cursos profi ssionalizantes e escolas de alfabetização de jovens e adultos, por exemplo, diante disto objetivamos pensar neste trabalho como essa congregação de religiosas contribuiu no processo educacional da cidade de Governa- dor Mangabeira, a partir de uma perspectiva de educação de base. Em tempos em que a religião e o fundamentalismo e a intolerância religioso dita o ritmo de marcha de nossa sociedade o debate aqui proposto apresenta signifi cativa relevância à medida que nos possibilitará perceber em quais medidas as religião, a partir do processo educacional, interferiu na formação social dos sujeitos mangabeirenses. Referências: ALBERT, Verena. 1990 - História oral: a experiência do CPDOC. Rio de Janeiro, Editora da Funda- ção Getúlio Vargas. Educação Libertadora? interferência das Imãs de Caridade da Santa Cruz no processo educacional de Governador Mangabeira (1971-1990) Ânila Teresa Santana Fratelis (Intelecto) 79 BOFF, Leonardo. Quarenta anos da Teologia da Libertação. Disponível em: https://leonardobo� . wordpress.com/2011/08/09/quarenta-anos-da-teologia-da- libertacao/ BOURDIEU, Pierre. Economia das Trocas Simbólicas. Perspectiva: São Paulo, 2004. CERRI, L. F. Didática da história: uma leitura teórica sobre a história na prática. Revista de História Regional, volume 15, n. 2. Inverno,2010. P.264-278. ______, L. F. . Os objetivos do ensino de história. História & Ensino (UEL) , Londrina - PR, v. 5, p. 137-146, 1999. CHARLOT, B. A pesquisa educacional entre conhecimentos, políticas e práticas: especifi cidades e desafi os de uma área de saber. Revista Brasileira de Educação v. 11 n. 31 jan./abr. 2006. GANDON, Tania. Palavras de Itapuã: literatura e história. In: neho-historia - Revista do Núcleo de Estudos em História Oral. Número 1, Novembro 1999 HISTÓRIA MAUAD, Ana Maria; LOPES, Marcos Felipe De Brum . Imagem, história e ciência. Boletim do Mu- seu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas , v. 9, p. 283-286, 2014. O que se pode depreender de parte da literatura contemporânea sobre experiências religiosas evangélicas é que há uma incompatibilidade entre a identidade negra e o “ser cristão”. Não raro, se- tores do movimento negro, alinham-se a essas refl exões e corroboram aquilo que se projeta sobre os evangélicos negros. Via de regra, os argumentos de sustentação do referido antagonismo identi- tário-religioso se baseiam em algumas premissas que entre as quais destacamos cinco: 1) a adesão ao protestantismo como uma alienação da ancestralidade africana; 2) o ingresso no protestantis- mo como vetor de uma assimilação à sociedade branca; 3) afi liação ao protestantismo impõe uma desidentifi cação com a negritude; 4) A uma ausência da discussão da identidade étnico-racialnas igrejas; 5) evangélicos como sinônimo de perseguição a religiões de matriz africana. De imediato é importante destacar que a identidade racial negra não é uma entidade dada, e pode variar no espaço e no tempo e de um contexto para outro. Não há como homogeneizar um tipo de identidade negra e defi ní-la a partir de uma única experiência religiosa, comumente caracteriza- da pelas religiões de matriz africana. Por outro lado, a narrativa acadêmica e de setores militantes negros negligenciou as investigações do “ser negro” no campo evangélico, construídas sob a força longos de processos históricos na diáspora. O negro evangélico, só nas últimas décadas, começou a ser pauta de discussões acadêmicas e protagonizou refl exões trazendo novos olhares sobre o tema. Nesse sentido, procuramos, a partir das obras: 1)“O Movimento Negro Evangélico” de Hernani Francisco da Silva (2011); “A Religião mais negra do Brasil” de Marcos Davi de Oliveira (2015); e “Te- ologia Negra” de Ronilso Pacheco (2019); analisar como a noção de identidade negra e luta antir- racista aparece nos trabalhos citados. É possível perceber, no debate promovido pelos autores, a construção de uma narrativa que quer “recuperar” e “visibilizar” os sujeitos históricos, no caso os evangélicos negros, integrando-os a história e memória do negro brasileiro. Simultaneamente, as obras apontam para um processo de bricolagem que se esforça em produzir uma narrativa que ar- ticula uma teologia negra da fé em Cristo, uma prática político-racial–religiosa e a descolonização da experiência cristã. Todas estas questões ladeadas pela aspiração de respeito as tradições matriz africana. A proposta do artigo é também avalizar o conceito de antirracismo cristão ancorado na análise de D’Adesky (2001) sobre os tipos de racismo e antirracismo no Brasil, a partir do modelo Entre glórias e aleluias: trajetórias iniciais de um antirracismo cristão Rogério Jose de Souza (UFRJ) André Luiz Guimarães Daniel (UEFS) 80 quadripartido de Pierre- André Taguie� (2008). Palavras-chave: Antirracismo cristão, identidade negra, evangélicos Esta comunicação analisa a representação de família construída pela denominação pentecostal Assembleia de Deus (AD) através de sua literatura religiosa, produzida pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) e, principalmente, analisa como as e os fi éis da Igreja Assembleia de Deus de Eunápolis (1970-2000) se apropriaram dessas representações. O aporte teórico e metodológico perpassa pelos estudos na área de gênero, História Oral e His- tória Cultural em interface com a História das Religiões. Compreende-se que estudar os fenômenos religiosos implica em considerar que a partir da cultura, normas, valores e comportamentos foram construídos e estabelecidos. Como fonte são utilizadas: as Revistas Lições Bíblicas- Jovens e Adultos, Nosso Lar, bem como entrevistas com membras/os da AD de Eunápolis. Para a análise do material escrito contou-se com a contribuição de Chartier (1985) com o conceito de representação. Dessa forma, ao analisar as fontes busca-se conhecer o contexto que foi produzida e principalmente por quem foram co- mentadas as revistas, compreendido que a função de comentador é uma das mais signifi cativas, especialmente por expor interpretações de lideranças assembleianas sobre os textos bíblicos, bem como para perceber como esse grupo religioso produziu e reproduziu a representação de família. Para essa discussão, ressalta-se a contribuição de Scott (1989). O conceito de gênero é impor- tante para compreender como as relações entre homens e mulheres foram construídas, legitima- das e mantidas. Para problematizar representações em que a fragilidade, irracionalidade, emoção foram conectadas à mulher, enquanto a força e a razão ao homem, amplamente difundidas em diferentes grupos. Para o tratamento das entrevistas conta-se com o subsídio metodológico da História Oral. Com- preendido que a historiografi a é feita de interpretações sobre um fato histórico e não de verdade absoluta, a análise sobre a entrevista consiste em perceber como “o passado é apreendido” (AL- BERTI, 2004, p.19). “O trabalho com história oral exige do pesquisador um elevado respeito pelo outro, por suas opiniões, atitudes e posições, por sua visão de mundo enfi m. Durante a coleta e análise das fontes preocupa-se em não emitir juízos de valores ou em depre- ciar as opiniões das e dos entrevistados, analisando seus depoimentos com respeito, procurando identifi car o signifi cado da religião em suas vidas. Compreende-se família não necessariamente dentro dos limites da consanguinidade e de uma estrutura composta por pai, mãe e fi lhos, mas essencialmente formada de laços afetivos que inde- pende da relação de parentesco. Um universo muito mais complexo do que se objetiva simplifi car, diverso do que similar. Fala-se em famílias no plural, por entender que possui uma multiformidade. Através de análises, percebeu-se que as revistas lições elegeram um modelo de família que preza pela sua uniformidade, simbolizando um desprezo a história e as vivências de seus fi éis, ao buscar modulá-la dentro de um padrão que foge de suas realidades. Entretanto, como atesta Cou- tinho (1994), essa não é natural, mas proveniente de uma construção social, que ganha contornos e assume novas especifi cidades em função do contexto e do ambiente cultural. De acordo com a referida autora, a Revolução Industrial implicou transformações nas relações de trabalho e familiares, Coutinho (1994) refuta a ideia de família como atemporal ou anti-histórica. Família e papéis sociais: representações e apropriações assembleianas Michele Soares Santos (CEAC) 81 Segundo sua concepção, essa sofre infl uências e interferências dos acontecimentos sociais de um dado contexto. Como exemplo, pode se destacar como a ascensão econômica e social da burguesia proveniente do desenvolvimento da industrialização na Europa, desencadeou na elevação de seus valores que foram incorporados como norte nas relações sociais. De como o amor passou a ser mote para a constituição do casamento e foi-se acentuado a se- paração entre espaço público e privado, com isso a divisão de funções tipifi cadas como femininas e masculinas foram demarcadas e sancionadas a partir do romantismo materno e conjugal. A edu- cação da criança tornou-se o centro dos debates, a mãe foi associada como a responsável pela ga- rantia do bem-estar e progresso dos fi lhos/as. Seu sucesso como progenitora passou a ser medido pelas conquistas ou fracassos de sua prole. Nesse modelo, o pai teve como principal incumbência o sustento do lar, entretanto, isso não o eximiu da atenção, cuidado e educação dos/as fi lhos/as, devendo aprender a conciliar seu trabalho com os assuntos de casa. Coutinho (1994), destaca que é nesse molde de família que a naturalização da fragilidade em torno da mulher e da virilidade do homem verberou. Ressalta-se que esse modelo de família não se limitou a Europa, mas alcançou países como o Brasil. Em sua pesquisa sobre as mulheres batis- tas soteropolitanas, Daeb’s (2006) identifi cou que as características atreladas as mulheres e aos homens contribuíram para as discrepâncias sociais, incidindo em maiores limitações dos corpos dessas e de sua atuação em sociedade. Cerceando-lhes de sua própria sexualidade, enquanto a eles foram lhe permitido e até mesmo cobrados a explorá- la, como sinal de demonstração de sua virilidade. O amor foi apropriado e representado como a base de todo relacionamento, serviu como justifi cativa e fundamentação para a submissão feminina e a autoridade masculina. Para grupos evangélicos como a AD, a família assumiu um papel fundamental, por ser um ins- trumento em que seus valores, costumes e doutrinas seriam transmitidos e perpetuados nas no- vas gerações. Durante a análise do material constatou-se que a AD a partir de sua literatura reli- giosa, padroniza as relações familiares dentro de um modelo heteronormativo, desconsiderandoe negando a existência de uma pluralidade social existente na sociedade. Salienta-se que essa deno- minação pentecostal ao apresentar para seus fi éis um modelo homogêneo, desrespeita a realidade brasileira e de sua própria membresia, limitando-os a se enquadrarem dentro de um arquétipo excludente e opressivo. Salienta-se a contribuição desta comunicação, tendo em vista a necessidade de trabalhar a in- terface de gênero e religião na educação básica. Referências: ALBERTI, Verena. Manual de História Oral. Rio de Janeiro: FGV, 2004. CHARTIER, Roger. A História Cultural entre práticas e representações, Lisboa: DIFEL, 1985. COUTINHO, Maria Lúcia Rocha. Tecendo por trás dos panos: a mulher brasileira nas relações fa- miliares. Rio de Janeiro: ROCCO, 1994. DAÉB’S, Bianca. Uma história das mulheres batistas soteropolitanas. 2006. Dissertação (Mes- trado em História Social) - Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2006. SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil para análise histórica. Trad. Christine Rufi no Dabat; Ma- ria Betânia Ávila. NY: University Press, 1989. 82 Ao longo dos séculos, os santos foram utilizados pelo cristianismo como forma de conversão, já para os devotos destes eles são vistos como místicos e superiores, capazes de promoverem milagres a quem lhes prestam homenagem. No Brasil, essas imagens foram trazidas a partir do século XVI no período da colonização. Entre esses, há um que está espalhado em cozinhas do país, tendo como sua narrativa um santo protetor dos negros e cozinheiros, São Benedito, homem ne- gro, nascido em 17 de Setembro de 15246 na cidade de San Fratello, na Sicília, fi lho de um africano escravizado trazido por negreiros ibéricos. Benedetto teria pertencido a uma ordem de frades me- nores, capuchino de regras franciscanas, localizado no convento de Santa Maria-di-Gesú, próxima a cidade de Palermo. Neste local, ele teria realizado a tarefa de cozinheiro humilde; a sua morte ocorreu em 1589, já com fama de santidade (VIEIRA, 2015). No distrito de Porto Seguro, Arraial d’Aju- da a devoção ao santo também se faz presente, através do festejo organizado pela irmandade. A respeito das irmandades ou confrarias religiosas, começaram a aparecer no Brasil ao longo do século XVI, e seguindo o modelo português, foram adaptados conforme as suas localidades e cir- cunstâncias, mas não perdendo as características e regras da Irmandade da Misericórdia de Lisboa. A irmandade de São Benedito do Arraial d’Ajuda passou por algum processo de estagnação, mas que atualmente não apresenta um caráter conceitual, não contendo, por exemplo, uma Mesa, Juiz, Tesoureiro e Procurador. O objetivo dessa comunicação é apresentar parte dos resultados do Tra- balho de Conclusão de Curso, destacando o festejo de São Benedito do distrito de Arraial d’Ajuda, procurando destacar as infl uências externas do distrito que ressignifi caram ao longo dos anos o festejo, buscando perceber o caráter dinâmico da festa, os confl itos com igreja e a busca e nego- ciações para a sua permanência. Para isso, as fontes foram baseadas na história oral (ALBERTI, 2013). A utilização desse tipo de fonte oferece meios para uma transformação do sentido social da história. É o momento dos senhores, senhoras e jovens, integrantes do festejo de São Benedito, exporem as suas memórias acerca da festividade, em todos os seus momentos (TOMPSON,1992). As entrevistas foram feitas com devotos do festejo; fotografi as e matérias de jornais. A partir dos levantamentos apontados, pode-se perceber que o festejo foi se reinventando ao longo dos anos, sendo uma devoção de afi rmação étnica. Palavras-chave: São Benedito. Arraial d’Ajuda. Devoção. Festejo. Festa de São Benedito no Arraial d'Ajuda: contexto, performances e tensões Lavínia Alves Oliveira (UNEB) Os anos que transcorrem de 1973 a 2004, recorte temporal da minha pesquisa de doutorado, foram palco de intensos confl itos entre trabalhadores e trabalhadoras rurais do sisal e grandes latifundiários locais na luta por direitos e melhores condições de vida e trabalho, sobretudo no campo. Não obstante, esses entraves disseminaram-se para campos mais alargados da esfera social, adentrando o cenário político e religioso da Região Sisaleira da Bahia, sobretudo em 04 (qua- tro) municípios: Retirolândia, Valente, São Domingos e Santaluz, que, no contexto inicial do recorte abordado, eram ainda mais marcados pelo processo de exploração dos trabalhadores e trabalha- doras do sisal. Luta por direitos e melhores condições de vida e trabalho na Região Sisaleira da Bahia no contexto das CEBS e do MER (1973-2004) Táfi la Sinara dos Santos Santana Oliveira (SEC) 83 Neste sentido, este artigo tem como objetivo discutir o processo de luta dos trabalhadores e trabalhadoras rurais por direitos e melhores condições de vida e trabalho nos recortes espacial e temporal citados, no contexto da gestação e atuação de dois importantes movimentos sócio reli- giosos: as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e o Movimento de Evangelização Rural (MER), dos anos de 1973 a 2004. É certo que, devido a extensão do recorte temporal, não será possível, neste momento, analisar a atuação desses trabalhadores e trabalhadoras com a precisão necessária, ademais, ele será de grande relevância para a introdução de uma discussão que pretendo alargar no capítulo 2 da tese, o qual abordará essas lutas de modo mais aprofundado. As experiências decorrentes do processo de organização comunitária na Região Sisaleira, ao longo do tempo, tiveram forte impacto em esferas locais, regionais e nacionais de atuação, no que concerne à adoção, por parte dos membros das CEBs e do MER, de atitudes sociais e políticas que visavam o fortalecimento dos objetivos das suas comunidades e da classe trabalhadora como um todo. Para este trabalho, serão utilizadas as discussões de Roger Chartier, Edward Palmer Thompson e Joan Scott, com base nos respectivos conceitos centrais norteadores: representação, apropriação e prática; experiência, luta de classe e consciência de classe; gênero. Como fontes orais, serão uti- lizados alguns depoimentos dos trabalhadores e trabalhadoras participantes das lutas que se pre- tende abordar, bem como de padres que contribuíram para a organização dos movimentos. Como fontes escritas, serão utilizados o jornal “A Voz das Comunidades” e algumas cantigas presentes em livros de cantos das CEBs e do MER de diversas comunidades dos municípios supracitados. Através desta pesquisa objetivamos compreender as ressignifi cações e transformações pro- porcionadas pelo trabalho de dois grupos de mulheres protestantes feministas, a saber, o coletivo Evangélicas pela Igualdade de Gênero(EIG) e a Rede de Mulheres Negras Evangélicas(RMNE) à re- alidade de suas participantes. Para Sandra Duarte de Souza(2008), gênero e religião ainda é uma relação pouco abordada nos estudos feministas. Pesquisas relacionadas ao trabalho de mulheres declaradamente feministas e evangélicas, por ser um fenômeno recente, é mais raro ainda. Desde a década de 80 do século passado, os movimentos feministas tem sido perseverantes na denúncia das violências vivenciadas pelas mulheres, em consequência da misoginia, do sexismo, machismo em nossa sociedade, além de mobilizá-las à luta para que possam exercer plenamente a sua cidadania. As feministas negras têm denunciado as sobreposições/interseccionalidades de opressões que as mulheres negras têm enfrentado. Sueli Carneiro(2003) afi rma que “ao politizar as desigualdades de gênero, o feminismo transforma as mulheres em novos sujeitos políticos”. Devido aos tabus relacionados ao feminismo no meio religioso, acreditamos na importância de evidenciar as ações desses coletivos de mulheres evangélicas que têm sido ousados ao se assu- mirem feministas, numa sociedade onde o Feminismo é demonizado, a ponto de muitos religiosos conservadores afi rmarem: “ou você é evangélica, ou você é feminista. As duas coisas não dá pra ser”. Apesar das oposições, essasmulheres seguem na luta para potencializar a luta de todas as mulheres, e se fundamentam na Teologia Feminista, que tem em Ivone Gebara e Elizabeth Fiorenza seus maiores expoentes. Autoras que representam o Feminismo Negro são normalmente citadas nos encontros desses coletivos Movimento de Mulheres Negras, a exemplo de Lélia Gonzalez, Bell Hooks, Angela Davis, dentre outras. Para Heleieth Safi otti(2001), a construção social da mulher foi pautada por muito tempo numa posição de submissão e inferioridade determinadas pela cultura machista e patriarcal, que sempre considerou a mulher como uma propriedade masculina. Observamos que, a mulher, nos espaços religiosos, assim como na sociedade em geral, tem sido silenciada, invalidada e subalternizada. Movimento de Mulheres Evangélicas e suas Insurgências Maria das Mercês de Sena Santiago (UFBA) 84 Através do conceito de gênero, a autora Joan Scott(1990), chama a nossa atenção para compre- endermos como tem se dado o estabelecimento de papéis sociais de cada sexo em nossa socieda- de. Aprendemos que gênero é uma lente pela qual compreendemos as hierarquizações de poder, como tem se constituído a dominação masculina sobre o sexo feminino na história. Julgamos essa pesquisa relevante, porque, conforme pesquisadora Sandra Duarte de Souza, as “representações religiosas de gênero, na medida em que produzem e reproduzem lugares diferen- ciados de poder de acordo com o sexo biológico, possuem papel ativo na produção de desigualdade de gênero,”(2003) já que legitimam um sistema de dominação simbólica que coloca a mulher numa condição de vulnerabilidade a inúmeras violências. Sinalizamos aqui a importância de estudarmos como tem se construído esse “feminismo evangélico”, que ainda é pouco evidenciado nos estudos acadêmicos. Sendo assim, pretendemos analisar dois grupos de mulheres evangélicas que têm se organi- zado na última década em nosso país, promovendo o fortalecimento e valorização da agência de feminina protestante. Esses grupos, nos últimos anos têm reunido centenas de mulheres (presen- cial e virtualmente) em torno de pautas comuns à grande parte dos movimentos feministas, como defesa dos direitos das mulheres, denúncia e enfrentamento à violência de gênero, denúncia do racismo, do machismo. Importante é registrar que nos encontros desses coletivos tem havido mo- mentos de refl exão do texto bíblico, com uma outra chave hermenêutica, sob a ótica da igualdade de gêneros Teologia Feminista. Intentamos compreender que contribuições e ressignifi cações esses coletivos têm trazido à re- alidade de suas participantes? Que transformações têm sido geradas no psicológico das mesmas. Como tem se dado a (re)construção da identidade dessas mulheres, enquanto mulheres e enquan- to negras? , já que para Lélia Gonzalez, a construção dessa identidade é uma árdua tarefa Pretendemos realizar um estudo de caráter qualitativo, sendo uma pesquisa de campo de na- tureza exploratória e descritiva, e para isso serão realizadas entrevistas estruturadas e semies- truturadas com mulheres que lideram e/ou participam dos grupos pesquisados, sendo utilizado os recursos da História Oral. Utilizaremos documentos construídos pelos grupos, como manifestos, cartilhas informativas e analisaremos os discursos dessas mulheres, extraídos de reportagens, lives, palestras fi lmadas e postadas nas redes sociais, bem como as fotos tiradas nos seus eventos. O texto analisa a produção documental audiovisual “O Mito de Bolsonaro: o que pensam e como se organizam seus apoiadores?”, produzido pela revista Vice Brasil. Na investigação, destacamos a participação de dois entrevistados, buscando fazer um panorama entre o perfi l não homogêneo do candidato e a ausência de evangélicos. Para isso, utilizamos parâmetros teórico-metodológicos da História Cultural- articulado com o pensamento de Pierre Bourdieu. Palavras-chave: Base eleitoral, evangélicos, messianismo Introdução: A premissa que orientava a análise da vitória de um candidato alterou-se radicalmente: uma grande soma de dinheiro para fi nanciar a campanha, tempo razoável no horário de propaganda eleitoral e construir uma rede de apoios nos estados. Bolsonaro não contaria com nenhum dos três elementos. À vista disso, para tentar entender esse suporte analisa-se a fonte audiovisual “O Mito de Bol- sonaro como pensam e organizam seus apoiadores” disponível no Youtube, desde 2018 ano de sua Neopopulismo digital: incorporação de meios digitais na política de recursos digitais: Fake News. Caius Costa Amaral de Sousa (Bolsista) 85 realização. Foi produzida pela revista Vice Brasil, empresa que pertence ao novo espaço de comu- nicação digital. A análise proposta tem como intuito desdobrar-se acerca da ausência de registro de um ele- mento fundamental no tema proposto pela obra audiovisual: durante seus 25 minutos e 34 se- gundos, o segmento evangélico será descartado, assim o tópico de dimensões signifi cativas para o entendimento que levou à vitória do ex-deputado será deixado de lado. Quanto ao uso da fonte e a formulação do questionamento que buscamos com ela responder empregamos a chamada Nova História Cultural, visto que temas como a religiosidade em propor- ções culturais recebem maior atenção a partir de seu surgimento. O sociólogo francês Pierre Bourdieu que realiza escritos sob a ótica da Nova História Cultural, nos fornece conceitos fundamentais para o desenvolvimento do texto como o de profeta. A partir disso, infere-se que o fenômeno religioso em relação à fi gura do profeta é resultado de algo não maquiavélico, mas respostas de anseios já existentes no público para qual dirige sua mensagem, sendo esse um elemento fundamental para assimilação do culto à personalidade. Ausência da categoria religiosa evangélica: Os caminhos apresentados ao longo do documentário dialogam com as incertezas do século XXI; a repórter Juliana Droghetti, acompanha apoiadores que agem no coletivo em torno de Bolso- naro, em contrapartida entendem-se que os valores individuais passaram a ter maior peso na hora de escolher em quem votar como é demostrado por Mauricio Severo, motorista de Uber na cidade de Viamão Porto Alegre-RS. Gay e pró-Bolsonaro, caminha olhando para baixo, enquanto conversa pelas ruas da cidade, ou seja, a entrevista discorre em um cenário informal. Ele diz não ter amigos gays, visto que nada con- tra a maré de apoio ao candidato. Porém, ainda que o documentário o apresenta como discrepantes pesquisadores da USP e da Unesp, em 2017, afi rmam tolerência do grupo entrevistado por parte de cristãos pertencentes a essa categoria: “Ao contrário do que poderia apontar o senso comum, as opiniões desses fi éis têm matizes com respeito à questão de gênero e de direitos das minorias LGBT do que o alinhamento fechado da infl uente bancada evangélica no Congresso”. (O GLOBO, 2019) O documentário também expõe Flávia Cristina Abreu, sargento da reserva da mesma cidade citada anteriormente, aparentando ter 48 anos de idade, branca e com cabelo liso, usa uma camisa com o slogan: “100% Bolsonaro. A fala da apoiadora ocorre no primeiro momento dentro de um car- ro que parte em direção a uma reunião de apoio ao presidente, nas palavras de Flávia no momento 8:04: “Quando a gente se reúne é muito bom, é tranquilo, é risada, é mitadas, como a gente diz para o nosso mito. É a nossa esperança”. Como demonstrado, há uma relação de messianismo, a ideia de que alguém foi designado des- de a eternidade pelo próprio Deus para estar em um lugar específi co, separado para uma missão específi ca: “O capital simbólico do líder religioso, enquanto agente social, se apresenta como um crédito, (no sentido, ao mesmo tempo, de crença e de confi ança concedida antecipadamente) posto à disposição de um agente pela adesão de outros agentes, que lhe reconhecem esta ou aquela pro- priedade valorizante”. (BONNEWITZ, Op.cit, p.103) Considerações fi nais: Na era da pós-verdade, em que fatos importam menos que crençasou emoções, não é a verda- de que liberta, mas as “nossas verdades”, a falto de entendimento sobre os chamados bolsonaris- tas enviesa uma cobertura jornalística acerca do assunto de maneira leviana. No Brasil, Jair Bolso- naro apresenta-se como um fenômeno ímpar, como dito por Wellington Bezerra, um dos principais líderes da maior denominação evangélica do país, as Assembleias de Deus: “o único candidato que fala o idioma evangélico” aquele capaz de defender um Brasil mais próximo da Bíblia que prioriza também a família”. (ÉPOCA, 2018). 86 A Vice Brasil, faz bem em tentar compreender os motivos que levam o apoio incondicional ao presidente, mas peca ao reduzir o perfi l do eleitor como incoerente, no qual vive em uma realidade paralela. A vitória de Bolsonaro e de Trump, engloba fatores e um ambiente de difícil entendimento, mas que se tratado de forma mais ampla e cultural possibilitará que futuros ensaios da ditadura não ocorram novamente. Referências: ALEXANDRE, Ricardo. E a verdade os libertará: refl exões sobre religião, política e bolsonarismo. 1. Ed. – São Paulo: Mundo Cristão, 2020. 256 p. BONNEWITZ, Patrice. Primeiras lições sobre a socio- logia de Pierre Bourdieu. Petrópolis: Vozes, 2003. ÉPOCA, “Como Bolsonaro se tornou candidato dos evangélicos”, 06/10/18. Disponível em: https:// oglobo.globo.com/epoca/como-bolsonaro-se-tornou- candidato-dos-evangelicos-23126650 acesso em: 12 ago. 2021. GLOBONEWS, Central das Eleições 2018, 03/08/18. Disponível em: https: / / globosatplay.globo. com / assistir / c / p / v / 69211428 / . Acesso em: 12 ago.2021. Resumo: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é uma instituição religiosa es- tadunidense oriunda do reformismo religioso do século XIX, que promove suas crenças e doutri- nas através de ferramentas como a revista A Liahona, periódico composto por discursos verbais e imagéticos. Entre os diversos materiais pensados para esta revista, encontra-se artigos sobre o processo de estabelecimento desta instituição em diversos países e continentes, e fotografi as de sujeitos negros e negras, neste sentido, está comunicação, fi nanciada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB), tem por objetivo analisar o processo de expansão da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias especialmente em Gana e Nigéria através dos arti- gos publicados, bem como as fotografi as no referido periódico entre os anos de 1980 a 1995. Para isso, este trabalho contará com a análise do discurso de Michel Foucault (1996) e uma abordagem Histórico-Semiótico da fotografi a de Ana Maria Mauad (2008) interpretada como resultado de um trabalho social de produção de sentido, sobre códigos convencionados culturalmente, que estabe- lece relação com o contexto social, que irá por sua vez infl uenciar na mensagem a ser transmitida, bem como a relação entre produtores e receptores, que se traduz numa negociação de signifi cados. Além disso, este trabalho conta com contribuições teóricas de raça e racismo de Kabengele Munan- ga (2004) que tal como empregamos hoje, é carregado de ideologia, como tal estabelece uma rela- ção de dominação, também a noção de representação de Roger Chartier (1985), que não é desligada do real, tão pouco do social. As representações não são apenas imagens acuradas ou enganosas de uma realidade supostamente externa, “mas possuem sua própria energia que nos persuade de que o mundo, ou o passado, é de fato o que elas dizem que é” (CHARTIER, 2014), logo são representações do mundo sociais, determinadas por interesses de grupos que as forjam. É importante salientar que tais conceitos e noção fazem parte do fenômeno religioso, muitas vezes tornando-se centrais. Em tempo, cabe ressaltar que esta pesquisa é um recorte do projeto de mestrado que está sendo de- senvolvido, logo, as hipóteses estão sendo construídas e relacionadas a conjuntura da instituição religiosa e o periódico estudado, e relacionando aos dados coletados. Por fi m, este trabalho busca contribuir para a relação História, fotografi as e religião, e pôr em pauta a presença de negros e ne- gras em uma instituição estadunidense, ofi cializa em um período de escravidão, e que por muitos anos excluiu os homens e mulheres de serem ativos nas ordenanças sagradas, as quais os demais membros participava. Os Mórmons na África: os discursos na revista A Liahona (1980-1995) Juliana Sales Rodrigues (FAPESB) 87 Referências: AMORIN, Nádia Fernanda Maia de. Os mórmons em Alagoas: Religião e Relações raciais. FFLCH/ USP, 1981. BURKE, Peter. Testemunha ocular: o uso de imagens como evidencia histórica. São Paulo: editora Unesp, 2017. CHARTIER, Roger. A história Cultural: Entre Práticas e Representações. 2.ed. Difel. 1985. __________. A mão do autor e a mente do editor. 1. Ed. São Paulo: Editora Unesp, 2014. FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. Leandro Karnal(org.). 3. Ed. São Paulo: Contexto, 2011. HENN, Willian. Mórmons. In: Paixão Netto, João. MACHADO, A.A. Lexicon-Dicionário Teológico En- ciclopédico. São Paulo: Loyola, 2003. KOSSOY, Boris. Fotografi a e História. São Paulo: Editora Ática, 2001. LEAL, Bruno. As fi chas consulares de estrangeiros no site FamilySearch. IN: Possibilidades de pesquisa em História. São Paulo: Contexto, 2017. MACHADO, Priscila Evely Marinho. Pureza, Perigo e a Palavra De Sabedoria: Um estudo sobre representações e sociabilidade alimentar entre mulheres mórmons. Monografi a (Instituto de Ciên- cias Humanas), Pelotas, 2013. MAUAD, Ana Maria. Através da imagem: fotografi a e história. In: Poses e fl agrantes: ensaios so- bre história e fotografi a. Niterói: Editora da UFF, 2008. MUNANGA, Kabengele. Uma abordagem con- ceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. In: Programa de educação sobre o negro na sociedade brasileira[S.l: s.n.], 2004. Disponível em: https://repositorio.usp.br/item/001413002, Acesso em 15 de Jul., 2021. QUINTAS, Maria de Fátima de Andrade. Os mórmons em Pernambuco: Uma sociedade fechada. CI & TROP. Recife. 4(1): 37-71, jan/jun, 1976. RODRIGUES, Juliana Sales. Religião, família e fotografi as: uma análise imagética na revista A Liahona (1995-2000). Monografi a (Universidade do Estado da Bahia, campus XVIII – Departamento de Ciências Humanas e Tecnologias), 2019. SILVA, Rubens lima da. Os Mórmons em Santa Catarina: origens, confl itos e desenvolvimento. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) Universidade Presbiteriana de Mackenzie, São Pau- lo, 2008. SILVA, Marta Fernandes da. Os EUA e o legado puritano: patriotismo e excecionalismo. Disser- tação (Mestrado em História, Relações Internacionais e Cooperação, no âmbito da unidade curricu- lar “Problemáticas da História da América Anglo-Saxónica”) Universidade de Porto, 2018. WEBER, Max. A ética protestante e o espirito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. Ao evidenciar investigações sobre o fenômeno da intolerância religiosa em instituições de ensino voltadas para a formação técnica/profi ssionalizante, em que diversos atores sociais são educados para o mundo do trabalho, tornar-se fundamental problematizar sobre temas sensíveis e ao mes- mo tempo de grande complexidade no universo educacional do país. A Constituição Brasileira de Por uma educação antirracista: combatendo à intolerância e o racismo religioso no Ensino Técnico/ Integrado Erivaldo Sales Nunes (IFBA) 88 1988 está fundada na organização de um Estado Laico, em que as esferas dos poderes legislativo, executivo e judiciário devem agir de modo imparcial com relação às questões de ordens religiosas, não apoiando nem se opondo a nenhuma das religiões praticadas e exercidas em todo o território nacional. Com isso, espera-se que o diálogo inter-religioso seja uma prática recorrente e saudável na formação histórica-crítica dos jovens brasileiros. É fundamental que docentes e discentes es- tejam atentos as diversas narrativas e discursosde ódio, de desrespeito, de desqualifi cação, que envolvem sobretudo, e quase que exclusivamente, as religiões de matrizes africanas (candomblé e umbanda). A presente comunicação caminha numa trilha formativa e informativa para jovens e adultos, lotados no Instituto Federal da Bahia, campus de Salvador, no sentido de contribuir para uma educação antirracista e combativa aos atos de intolerância religiosa, seja dentro ou fora do ambiente escolar. Serão apresentados resultados investigativos catalogados entre 2016 e 2019 so- bre o fenômeno da intolerância religiosa ocorrido em diversas regiões do Brasil, em especial na região Nordeste. Enquanto fontes de pesquisas, partiu-se de dados bibliométricos pautados em diversos periódicos impressos/virtuais, bem como relatórios institucionais de órgãos públicos e privados, a exemplo do Relatório sobre Intolerância e Violência Religiosa no Brasil (2011-2015), pu- blicado pelo Governo Federal e o Dossiê da Intolerância religiosa no Brasil elaborado e atualizado pela Instituição Koinonia desde 2010. Trata-se, portanto, de um tema vinculado a história do tempo presente – o racismo religioso, suscetível a possiblidades interpretativas que tangenciam o ensino de história na educação básica, técnica e profi ssionalizante. Palavras-chave: Educação Básica; Ensino Técnico/Integrado; Intolerância Religiosa; Racismo Religioso; O presente trabalho buscou investigar como se dão as vivências dos grupos religiosos existen- tes dentro da comunidade Quilombola de Baixa Grande. A Comunidade está localizada no distrito de São José do Itaporã, próximo a Cruz das Almas, mas é pertencente à Muritiba, e possui aproxima- damente 300 famílias majoritariamente negra formada por laços de parentescos. Em 2016, Baixa Grande foi certifi cada pela Fundação Cultural Palmares com o titulo de remanescente de quilombo graças ao esforço da comunidade através do Coletivo Chico Véi (nome que foi escolhido em ho- menagem ao primeiro morador da localidade). Foram colhidos depoimentos de moradores mais velhos e, por meio da oralidade, foi possível a certifi cação da comunidade. Diante da minha vivên- cia em meio à coletividade venho observando transformações culturais dentro da comunidade no campo religioso, pois antes existiam apenas uma Capela de Santo Antônio fundada por moradores em 1982, que inclusive funcionou como escola na falta de espaço para aplicação das aulas. No entanto, na atualidade a comunidade possui três templos evangélicos, um da Assembleia de Deus que foi o primeiro a se instalar no local, o segundo foi Adventista do Sétimo Dia e o terceiro foi ou- tro da Assembleia de Deus do Brasil. Junto a esse crescimento de outras denominações religiosas nota-se também um declínio na procura pela reza de cura por moradores da comunidade. Muitas pessoas tem se afastado da fé católica tradicional na Baixa Grande, a qual aceita a reza de cura, e ao ingressarem nas igrejas evangélicas e na RCC- Renovação Carismática Católica vertentes estas que não praticam as rezas e também condenam, por não fazer parte de suas doutrinas religiosas. Por outro lado, as rezadeiras e rezadores da comunidade por muito tempo foram considerados a única fonte de cura devido ao difícil acesso a medicina cientifi ca que agora vem ganhando espaço junto a Rezas de cura e confl itos religiosos na comunidade quilombola de Baixa Grande no município de Muritiba- Bahia Maria do Carmo Soares da Silva dos Santos (UFRB ) 89 outras dimensões da modernidade dentro do quilombo. A pesquisa foi estruturada no diálogo com a bibliografi a sobre rezadeiras, rezadores, cultura, representações e oralidade, além de leituras de textos teórico-metodológicos e historiográfi cos pertinentes ao tema proposto, seguidos da coleta e análise das entrevistas, buscando proceder a uma análise histórico-qualitativa dos relatos pro- duzidos por rezadeiras, rezadores e moradores da comunidade. Durante a pesquisa e análise do material coletado é notável a existência do confl ito religioso entre as religiões citadas acima. No entanto, existe também certa aceitação, pois, embora não praticando a reza de cura, os entrevis- tados relataram usar plantas medicinais receitadas por rezadeiras e rezadores. A compreensão da reza enquanto uma dimensão cultural da comunidade meio aos confl itos existentes é importante para se pensar a inclusão desta temática no ensino por meio da produção de materiais didáticos. Referências: ALBERTI, Verena. Manual da Historia Oral. 3. Ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2013. AMADO, Janaína; FERREIRA, Marieta de Moraes. Usos & abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006. BARROS, José D’Assunção. A História Cultural e a contribuição de Roger Chartier. Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 9, n. 1, p. 125-141, 2005. BARROS. José D’Assunção. O Lugar da História Local na Expansão dos Campos Históricos.In. (Org.). OLIVEIRA, Ana Maria Carvalho dos Santos e REIS, Izabel Cristina Ferreira dos. História Regio- nal e Local: discussões e práticas. Salvador: Ed. Quarteto, 2010. CONCEIÇÃO, Alaíze dos Santos. “O Santo é quem nos vale ‘rapaz! Quem quiser acreditar, acre- dita!”: Práticas religiosas e culturais nas benzeções/Alaíze dos Santos conceição – 1 ed. –Curitiba: Editora Prismas, 2015. FERREIRA, Marieta de Moraes; ABREU, Alzira Alves de... [et al.]. Entre-vistas: abordagens e usos da historia oral- Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1994. MOTT, Luiz. Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu. In: SOUZA, Laura de Mello e (Org.). História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América Portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 155-220. ORO, Ari Pedro; ALVES, Daniel. Renovação Carismática Católica: movimento de superação da oposição entre catolicismo e pentecostalismo? Religião & sociedade. Rio de Janeiro, RJ.Vol. 33, n.1 (2013). p.122-144. 2013. ORO, Ari Pedro. Neopentecostais e afro-brasileiros: quem vencerá esta guerra? Debates do NER, v. 1, n.1, 1997. ORO, Ari Pedro. Avanço pentecostal e reação católica. Petrópolis, Vozes, 1996 SANTOS, Antonia Fernanda dos Anjos dos. “REZAS COM MATO”: Registro do Ofício de Rezas com Ervas na Comunidade Quilombola de Baixa Grande. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Museologia). Cachoeira: Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, 2019. 90 SIMPÓSIO TEMÁTICO FONTES, LINGUAGENS, MATERIAIS DIDÁTICOS EXPERIÊNCIAS E REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA DOCENTE EM HISTÓRIA 91 Este trabalho irá discutir algumas questões sobre a História Pública nas redes sociais a partir da experiência do projeto cultural “Cajazeiras tem História”, realizado no início do ano de 2021 nas plataformas da página “H da História”. Idealizado e realizado pelo historiador Vitor Santos, o projeto contou com a participação de 17 pessoas envolvidas no contexto de produção de conhecimento cul- tural, artístico, intelectual, educacional nessa importante localidade da região do Miolo da capital baiana. Apesar de ser um dos bairros mais novos da cidade, é notável seu tamanho geográfi co e po- pulacional, refl etindo as grandes transformações ocorridas no Brasil durante o período da ditadura militar no fi nal do século XX e início do século XXI. Para isso utilizaremos como fontes de análise e discussão os materiais produzidos na página do Instagram e canal do Youtube. Nesse sentido, o ob- jetivo deste trabalho é fazer uma breve avaliação das mídias sociais na difusão de conhecimentos históricos para o grande público e também para o uso em sala de aula. Ademais, observaremos se a atividade cultural conseguiu cumprir o objetivo de observar Salva- dor por outro olhar, visto que pode-se concluir que nas periferias estão grande parte da população que compõe esta cidade, porém a memória popular em relação à capital baiana está muito mais ligada aos aspectos turísticos do que às particularidades dos bairros que a compõe. A partir das considerações do sociólogo Michael Pollak (1989) é possível afi rmar quehá um terreno de disputa intenso, em que a memória da população é colocada em esquecimento em relação a uma memória institucionalizada, reafi rmada a todo o tempo nos nomes de avenidas, ruas, praças, bairros, monu- mentos, entre outros. Para isso, ouvir essas outras vozes torna-se importante, visto que permite analisar como essas memórias suprimidas que formam uma localidade são essenciais na constru- ção dos grandes centros urbanos, oferecendo um panorama favorável à compreensão deste centro urbano. "Cajazeiras tem História": ensino de História em tempos de pandemia Vitor Rangel Souza dos Santos Objeto/tema Tendo em vista as comemorações em torno do bicentenário da Independência do Brasil, esta pesquisa, ainda em andamento, analisa a forma, o conteúdo histórico escolar e o conteúdo pedagó- gico relacionado à Independência na Bahia em duas edições diferentes do livro Segredos da Bahia (de 2001 e de 2011), a primeira, de autoria de Albani Galo Diez e, a segunda, em uma parceria entre Diez com Águeda Célia Flores. Fundamentação teórica Nas três últimas décadas, o ensino de História vem sendo o objeto de estudos de muitos pes- quisadores, em diferentes campos e com variadas abordagens. Uma das áreas mais pujantes está relacionada à história do livro didático. A partir desses estudos, é possível afi rmar que se trata de um objeto complexo de análise (CHOPPIN, 2004), cuja presença na vida escolar é marcante, es- pecialmente, nas atividades de ensino (SCHMIDT, BUFREN; GARCIA, 2013), sendo indício da cultura escolar (MUNAKATA, 2016) e, portanto, importante fonte de estudo para a compreensão da história das disciplinas escolares (CHERVEL, 1990; JULIA, 2001). Outrossim, o livro didático é um gênero tex- A Independência na Bahia em Livros Regionais de História dos Anos Iniciais Carollina Carvalho Ramos de Lima (UFBA) 92 tual específi co (BENITO, 2012) e um texto de memória (BECHLER, 2018), além de um artefato cultural (FREITAS, 2009; GARCIA, 2013) e uma mercadoria da indústria cultural (BITTENCOURT, 1993; 2018; MUNAKATA, 2012), cujo maior comprador - no Brasil - é o Estado (FREITAS, 2009; CASSIANO, 2013), através de políticas públicas como o Plano Nacional do Livro Didático (PNLD). No caso do Livro Didático Regional, o número de pesquisas é mais reduzido (FERREIRA, 2016), especialmente sobre a os livros acerca da Bahia. Nessa seara, destacam-se os estudos de Flávia Caimi (2010) acerca dos livros sobre o Rio Grande do Sul, o trabalho coordenado por Itamar Freitas (2009) que avaliou as características e a qualidade de edições aprovadas pelo PNLD e as pesquisas de Rosiane Bechler (2014, 2018) que propõe que as edições didáticas sejam lidas como textos de memória. A partir de tais estudos, é possível reconhecer que a história local e regional foi introduzi- da nos contextos escolares, acompanhando, em alguma medida, as discussões teórica-metodoló- gicas das últimas décadas que redefi niram o papel do ensino de História e impactaram os Parâme- tros Curriculares Nacionais (PCNs), promulgados nos anos de 1990. Considerando, portanto, que além de produto mercadológico, sujeito à lógica mercantil de pro- dução e circulação, o livro didático é também um “depositário de conteúdos escolares” que siste- matiza o que está previsto nos currículos, oferece suporte de métodos pedagógicos e transmite um sistema de valores e ideologias historicamente situados (BITTENCOURT, 2018, p. 247-248), busca- -se estabelecer uma refl exão sobre como a Independência na Bahia é apresentada nas diferentes edições de Segredos da Bahia (2001; 2011) e discutir o sentido dado a este evento histórico nesses livros didáticos regionais destinados aos Anos Iniciais. Etapa da formação escolar em que os con- teúdos históricos relacionados ao local são privilegiados, já que, desde a década de 1970, intro- duziu-se nas propostas curriculares a lógica dos círculos concêntricos (SCHMIDT, 2007; PEREIRA, 2019). No ensino de história escolar, em especial, nos Anos Iniciais é comum que as datas do calen- dário cívico ofi cial sirvam como mote para o trabalho didático com determinados conteúdos histó- ricos (AZEVEDO, 2010). Como argumenta Mário Carretero (2010, p.26), a escola e a história escolar contribuem para “fabricar, muito precocemente, as bases cognitivas e afetivas das ‘comunidades imaginadas”, imbricando a construção da identidade subjetiva com a da identidade nacional. Desse modo, ao investigar a forma como a Independência na Bahia é retratada pelos materiais didáticos, poderemos contribuir para as discussões sobre o Ensino de História em três dimensões: (1) as re- lações entre a memória e a história local/nacional, tendo em vista o conjunto de mitos e símbolos históricos relacionados a determinados marcos; (2) o lugar e os problemas que envolvem o ensino de história a partir de efemérides, como o Sete de Setembro e o Dois de Julho; (3) e o sentido de narrativas históricas sobre determinados eventos em livros didáticos, considerando o alcance e o impacto das edições escolares na cultura histórica e na cultura escolar. Metodologia e fontes Desde 2004, os editais do PNLD previam a seleção do Livro Didático Regional para séries iniciais. Inicialmente, ainda como resquício dos Estudos Sociais, os livros regionais poderiam juntar His- tória e Geografi a em um mesmo volume. Contudo, o edital de 2007 descartou essa possibilidade, obrigando as editoras a apresentarem obras regionais para cada uma dessas disciplinas. Em 2016, porém, o certame apresentou uma alteração em relação ao Livro Regional que, a partir daí, faria uma “abordagem integrada entre História e Geografi a, com foco em Arte e Cultura”. Em 2019, edital pós-BNCC, essa modalidade de livro foi extinta. Desse modo, tendo em vista o objeto de análise desta investigação, optamos por estabelecer como recorte temporal o período entre 2004 e 2016, no qual foram aprovados nove títulos (considerando, que alguns títulos foram indicados em mais de um certame e, portanto, contabilizados uma única vez). Dentre esses nove títulos, escolhemos analisar a obra Segredos da Bahia, editado pela FTD, por três razões: (1) trata-se de uma obra que foi aprovada em três edições diferentes do PNLD (2004, 2007 e 2013); (2) ao longo das edições o material foi revisado, sendo que o livro de 2013 contou com uma nova autora, além de Albani Galo Diez, Águeda Célia Flores; (3) foi editado pela FTD que, de acordo com os dados do FNDE (Fundo de 93 Desenvolvimento Nacional para a Educação), foi a segunda editora que mais teve exemplares de livros didáticos adquiridos pelo Governo, entre 2005 e 2013. As obras didáticas que são fontes des- ta pesquisa foram cedidas pelo projeto Memorial do Livro Didático, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, coordenado pela Profa Margarida Dias. Para uma leitura contextualizada dessas edições, incluímos os editais e os Guias do Livro Didático publicados a cada certame. Partindo da proposta de Circe Bittencourt (2018, p.254-258) para a análise dos livros didáticos, serão obser- vados três aspectos nas edições investigadas: (1) a forma, (2) o conteúdo histórico escolar e (3) o conteúdo pedagógico. Trata-se de uma pesquisa de natureza documental e bibliográfi ca. A análise das fontes é do tipo qualitativa, baseada em um arcabouço conceitual oriundo de estudos sobre o livro didático e das áreas de História da Educação e do Ensino de História. Ensinar história na atualidade é um grande desafi o, tanto pela concepção de “ensinar”, como pelo aprender das ferramentas digitais como recursos metodológicos ou ainda pela nova estrutura escolar do contexto pandêmico. Já há muitos anos que a relação com o ensino de história entre os estudantes da educação básica se constitui como desafi ador, pois há um desinteresse vigoroso que se propaga entre os discentes, que relatam com constância que não entendem o sentido de estudar coisas que já passaram e estão tão distantes no tempo. Essa percepção propagada de forma tão insistentetem como base as estruturas tradicionais de ensino usada muitos professores de histó- ria: quadro, marcador de texto e muita narrativa que os estudantes não conseguem compreender. Distantes da construção do sentido históricos e relegados a ouvintes, os discentes constroem uma relação preconceituosa com a disciplina e com os estudos históricos. Contudo, durante a pandemia do Covid - 19 e a adoção do ensino no formato remoto, a ausên- cia de olhares e das percepções comportamentais que o ensino presencial oferta, trouxe a tona a necessidade docente de atualização digital. É nesse contexto de adequações que a parceria entre o Programa de iniciação à docência (PIBID) e o Centro Juvenil de Ciência e Cultura - CJCC de Feira de Santana se estabeleceu. A experiência de formação dos estudantes bolsistas de iniciação à docên- cia lotados no CJCC é o foco deste texto. O CJCC é uma iniciativa do governo do Estado da Bahia e tem como propósito proporcionar am- pliação da jornada estudantil, diversifi cação curricular, estimulo à pesquisa cientifi ca e protagonis- mo juvenil através de atividades extracurriculares, principalmente no formato de ofi cinas de cará- ter interdisciplinar e incubadora de projetos. Assim, as atividades desenvolvidas no CJCC buscam fortalecer as aprendizagens utilizando metodologias baseadas no conceito de que as aprendiza- gens devem ser criativas e mão na massa, que o conhecimento é transmídia e o estudante preci- sa desenvolver autonomia para ser o protagonista de sua formação. O conceito de aprendizagem criativa tem por base as pesquisas do norte americano Mitchel Resnick (2020), que defende a ideia do “Lifelong Kintergard” ou o Jardim de infância para a vida toda, uma forma de compreender que a aprendizagem não deve deixar de ser divertida porque crescemos. Suas pesquisas apresentam da- dos que corroboram a percepção que aprendemos melhor e mais quando trabalhamos por “paixão”, em “pares”, através de “projetos” e “pensamos brincando”, traduzidos com os 4 Ps da Aprendizagem criativa. Seguindo a estrutura proposta por Resnick para o desenvolvimento de uma aprendizagem cria- Aprendizagem criativa e ensino de história: a experiência da construção de ofi cinas temáticas no Centro Juvenil de Ciência e Cultura de Feira de Santana. Jacqueline Melo de Souza Morais (Centro Juvenil de Ciência e Cultura) 94 tiva, elaboramos um projeto para colaborar com o processo de formação dos bolsistas Ids que fosse orientado por esses princípios, bem como na espiral da aprendizagem criativa. Iniciamos as atividades com a escuta dos interesses e paixões dos estudantes, em seguida foi proposto que imaginassem como desenvolver um projeto que associasse essa paixão ao ensino de história (esta etapa foi uma das mais difíceis pois não estavam acostumados a associarem o ensino - apŕendiza- gem de história a seus interesses pessoais). Os ids receberam orientação para criar propostas que trouxessem diversão e brincadeiras para o cenário do ensino de história, principalmente através de atividades mão na massa ou com uso de ferramentas digitais. Reuniões para compartilhar as experiências foram realizadas e eles se divertiram ouvindo e trocando ideias sobre como executar as propostas. Houve muito desconforto e até alguma resistência pois nunca tinham experimentado a sen- sação de que era possível aprender história de forma divertida. Para ambientá-los, alguns jogos foram apresentados e testados, com análise posterior sobre possibilidades de uso de jogos para as propostas que estavam desenvolvendo. A surpresa deles ao ver os projetos ganhando contornos foi interessante, a prática da refl exão continua, bem como retorno do projeto à prancheta para ser refeito e imaginado foi outro fator que inquietou os estudantes, mas permitiu algumas provocações sobre o exercício docente, sobre os processos de experimentação, conceito de erro e avaliação dis- cente. Inicialmente, oito projetos foram construídos, três já foram totalmente executados, um está em andamento, mais três terão inicio no próximo mês e dois voltaram para prancheta novamente para serem re-imaginados. Dentro da aprendizagem criativa há a perspectiva de que o conhecimento é uma casa em construção, que precisa ter “teto alto” para caber as ideias mais mirabolantes, “piso baixo” para permitir que mesmo quem nunca teve contato com este formato de ensino possa se de- senvolver, e “paredes largas” para receber quantidades extremamentes distantes de possibilidades de percepções. É a partir desta perspectiva que as experiências dos Ids estão sendo elaboradas. Ao serem provocados a construir ofi cinas ou atividades livres partindo da premissa do pensar brincando e de suas paixões, os estudantes vivenciaram os mais diversos sentimentos, pois são provocados constantemente a signifi car a aprendizagem da História para os estudantes da Edu- cação básica, levando para estes propostas de atividades e abordagens de temas e conteúdos que façam sentido tanto para sua vida escolar com para seu cotidiano pessoal. Esta concepção coaduna com a perspectiva de Juarez Dayrell (2001) ao questionar como e porque a escola exclui o contexto dos estudantes que a frequentam das suas dependências estruturais, alimentando o abismo entre o que é ensinado na escola e o que é vivenciado pelos estudantes fora dela. Desconstruir conceitos há muito consolidados, desmontar estruturas procedimentais, desorga- nizar a sala de aula, desaprender o ensinar para aprender a aprender, são as principais propostas deste experimento em formação docente e suas relações com um ensino de história signifi cativo. Referências: DAYRELL, Juarez. A escola como espaço sociocultural. In: Múltiplos olhares sobre educação e cultura. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2001, pp. 136-161. RESNICK, Mitchel. Jardim de infância para vida toda: por uma aprendizagem criativa, mão na massa e relevante para todos/ Mitchel Resnick; tradução: Mariana Casetto Cruz, Lívia Rulli Sobral. Porto Alegre: Penso, 2020. Disponível em:[PDF] Jardim de Infância para A Vida Toda - Free Download PDF (tuxdoc.com). 95 TEMA/OBJETO: Trajetórias de personagens baianos/as em biografi as históricas produzidas por estudantes do Ensino Médio. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: Segundo Giovani Levi “a biografi a constitui o canal privilegiado através do qual os questiona- mentos e as técnicas peculiares da literatura se transmitem à historiografi a” (p. 168). As refl exões e debates acerca do papel do indivíduo na História não são recentes nos estudos históricos e his- toriográfi cos. Exaltada em períodos mais antigos, onde narrava as vidas e epopeias de grandes heróis, monarcas europeus e santos católicos, a biografi a foi alvo de críticas ferrenhas no início do século XX, com a hegemonia das novas abordagens da Escola dos Annales. Por sua vez, a chamada “história vista de baixo”, no fi nal do século, converteu o olhar de historia- dores/as sociais para os sujeitos silenciados pelas narrativas ofi ciais, cujas experiências emergiam, sobretudo, nos arquivos das repressões. No prefácio da obra mais célebre da micro-história – O queijo e os vermes -, Carlo Ginzburg afi rma que “as vítimas da exclusão social tornam-se os deposi- tários do único discurso que representa uma alternativa radical às mentiras da sociedade constituí- da” (2006, p. 18), antes de nos apresentar a trajetória de Menocchio, o humilde moleiro que desafi ou a Inquisição italiana no século XVI. Para Kalina Silva, “o trabalho com biografi as em sala de aula se justifi ca por duas razões principais: “o forte apelo que esse gênero exerce sobre o público leigo e o papel que a biografi a pode desenvolver como representação do contexto histórico ao qual pertence o biografado”. (2010, p. 17). Enquanto professoras/es de História, em sala de aula não deixamos de ser historiadoras/es, e auxiliar nossas/os estudantes no processo de construção do conhecimento histórico é fundamental para a valorização científi ca das produções historiográficas. Não se trata de criar “historiadores adolescentes”, mas de possibilitar um horizonte de expectativas mais amplo que a simples reprodução dos manuais e/ou informações das aulas. A História da Bahia, tema e contexto das biografi as produzidas, está fortemente associada ao desenvolvimento da história do Brasil, sobretudo em relação aos mitos de origem que ancoraram a ideia de “descobrimento” por muitos anos, tendo a imagem da indígena Catarina Paraguaçú como “mãe das novas terras”. Essa ideia de maternidade do país atribuída a Bahia é descrita por Rinaldo Leite pelo fato de que foi “núcleo onde se originou e, portanto, onde teve berço o território, a vida econômica, política, social e religiosa, bem como o local onde se viu emergir os alicerces de uma cultura nacional”. (2012, p.46). Ainda que estudos historiográfi cos mais recentes tenham revelado características históricas diversas no imenso território baiano, nos sertões, chapadas e outras zo- nas litorâneas, os poucos materiais didáticos que se referem a história baiana concentram-se nos arredores da capital Salvador e do Recôncavo e nos personagens que protagonizaram episódios encenados nesses cenários. METODOLOGIA E DADOS/FONTES: A análise do processo de ensino-aprendizagem em História e iniciação cientifi ca em Ciências Humanas por meio da produção de biografi as ocorre numa perspectiva metodológica qualitativa, considerando a análise de conteúdo dos materiais produzidos. Por sua vez, esse trabalho se debru- ça sobre os próprios textos elaborados pelos/as estudantes, desde o desenvolvimento das pesqui- sas até a divulgação das produções escritas. A proposta de elaboração das biografi as foi realizada durante a vigência do ensino remoto emergencial no estado da Bahia e em etapas que envolveram aulas online sobre História da Bahia, ofi cinas sobre pesquisa histórica, disponibilização de materiais por meio da ferramenta Google Sala BIOGRAFIAS BAIANAS: A produção de biografi as históricas no Ensino Médio Mileia Santos Almeida (Secretaria de Educação do Estado da Bahia) 96 de Aula, correção da primeira versão do texto e fi nalmente, publicação dos textos selecionados em um blog: https://biografi ashistoricasbaianas.blogspot.com/ onde emergem fi guras históricas como Luiz Gama, Maria Quitéria, Lucas da Feira, Maria Odilia Teixeira, Luís Antônio Santa Bárbara, Mãe Stela de Oxóssi, entre outros. RESULTADOS PARCIAIS: O estudo, pesquisa e reconstituição de trajetórias de personagens baianos que protagoniza- ram determinados contextos históricos torna a utilização de biografi as históricas um importante recurso para o ensino de História. A partir do processo de orientação da produção das biografi as históricas baianas e a análise da versão fi nal do trabalho entregue como um instrumento avaliativo do componente História, convertida em material de divulgação científi ca no blog Alguns desafi os se apresentaram no processo de escrita das biografi as, identifi cadas tanto nos momentos de orientação/correção, quanto na análise da versão fi nal dos textos. Entre elas, pode- mos destacar a incidência frequente do plágio, incompreensão do recurso da paráfrase e difi culda- de de elaboração autoral de narrativas e refl exões próprias. Apesar das adversidades inerentes ao início de um percurso de pesquisa, os/estudantes entraram em contato com domínios científi cos (Scielo, Scholar Google, etc) e com normas de escrita e formatação acadêmica. Além disso, o estí- mulo a análise de fontes históricas acerca dos/as biografados/os auxiliou na compreensão da ci- ência histórica como construção metodológica, bem como observação dos indivíduos e suas ações nos contextos em que viveram e na memória cristalizada no decorrer dos tempos. Referências: DEL PRIORE, Mary. Biografi a: quando o indivíduo encontra a história. Topoi, v. 10, n. 19, jul.-dez. 2009, p. 7-16. GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. LEITE, Rinaldo Cesar Nascimento. A rainha destronada: Discurso das elites sobre as grandezas e infortúnios da Bahia nas primeiras décadas republicanas. Feira de Santana: UEFS Editora, 2012. LEVI, Giovanni. Usos da biografi a. In: FERREIRA, Marieta de Moraes. AMADO, Janaina. Usos e abu- sos da História Oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006. NASCIMENTO, Jairo Carvalho. OLIVEIRA, Jo- sivaldo Pires de. GUERRA FILHO, Sérgio Armando Diniz (orgs.). Bahia: ensaios de história social e ensino de história. Salvador: EDUNEB, 2014. SILVA, Kalina Vanderlei. Biografi as. In: PINSKY, Carla B. Novos Temas nas Aulas de História. São Paulo: Contexto, 2010. Esse texto analisa uma experiência realizada no Programa de Iniciação à Docência – PIBID, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB, Núcleo História, sobre a análise das coleções didáticas disponibilizadas para o Ensino Médio em 2021 - PROJETO INTEGRADOR E PROJETO DE VIDA). Ao tratarmos da formação docente na atualidade, consideramos adentrar em um debate, ur- gente e necessário, que tange diversas discussões como por exemplo a nova modalidade do ensino médio brasileiro e as especifi cidades que compõem as áreas do conhecimento e formação discente. Tendo em vista que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) entende que o ensino médio deve BNCC e novo ensino médio: As mudanças via coleções didáticas projeto integrador e projeto de vida Welington de Sena Santos (UESB ) Keila dos Santos Carvalho (UESB ) Mateus Santos da Silva (UESB) 97 construir “aprendizagens sincronizadas com as necessidades, as possibilidades e os interesses dos estudantes e também com os desafi os da sociedade contemporânea” a proposta do novo ensino médio já começou a ser implantado em todo país. Diante disso consideramos à necessidade de problematizar as concepções e abordagens de ensino contidas nos materiais didáticos que serão disponibilizados aos alunos, seus objetivos, potencialidades e limitações. A nova modalidade inse- re distintas áreas de conhecimento em diálogo, a exemplo da interdisciplinaridade pensada entre história e geografi a, assim como as demais ciências. Dessa forma, ao atuarmos no Pibid História, decidimos analisar os Livros didáticos Projetos Integradores e Projetos de Vida na Área de Ciências Humanas. Nessa atividade buscamos compreender quais as relações entre o ensino e a constru- ção de um pensamento histórico presentes no material e quais as possiblidades de formação do pensamento crítico. No geral, a análise feita constatou uma carência no que diz respeito a temas e abordagens, no entanto, notou-se uma possibilidade de autonomia por parte do docente em con- sonância com a BNCC para a execução das aulas. Partindo do pressuposto de que o livro didático é parte de um construto social, que envolve sujeitos e seus contextos, que é uma produção com especifi cidades e circunstâncias distintas de envolvimento; e como uma ferramenta cada vez mais articulada à BNCC, tendo por obrigação atender as competências e habilidades por ela exigidas, a análise realizada dos livros dos - Projetos integradores e Projetos de vida se deu com base em um roteiro que destacava as editoras que os publicaram, a atuação e a especialização dos autores que os produziram, bem como, os conteúdos destacados visando sua compatibilidade com a faixa etá- ria do público alvo, a interdisciplinaridade, as atividades propostas, examinando a interatividade, inovação, linguagem e acessibilidade dos recursos presentes nesses livros. Além disso, examinou- -se a bibliografi a observando as obras e autores utilizados para a produção desses livros, na qual identifi camos autores clássicos como Vigotsky e Paulo Freire. Ao experenciarmos uma observação mais concreta do material destinado a colaborar com o profi ssional docente, avaliamos que foi uma atividade que proporcionou uma aprendizagem potente para nós, futuros docentes. Esta experi- ência proporcionou resultados signifi cativos para a produção de um conhecimento que fortalece e desenvolve a formaçãode futuros docentes com olhar que se confi gura com enfoque mais crítico e análico para a realidade das salas de aula. Como somatória das análises e experiências, socia- lizamos as observações dos respectivos livros analisados numa reunião geral do grupo do Pibid História, fi cando perceptíveis, na maioria dos casos, que os materiais tendenciam ao incentivo para o mercado de trabalho, e também, a falta de aprofundamentos de conteúdo, bem como a ausência de um olhar para a realidade de modalidades de ensino como o EJA (Educação de Jovens e Adultos), entretanto, alguns livros se destacaram por disporem de uma linguagem mais acessível, propor contextualizar os conteúdos do currículo, preocupação em discutir temas atuais e atividades ino- vadoras centradas no protagonismo juvenil. Ambos os projetos tendem a estimular o aluno a uma aprendizagem interdisciplinar, por meio de um pensamento sistematizado que esteja relacionado à vida cotidiana desenvolvendo habilidades como cooperação, domínio tecnológico, respeito, analise de mundo abarcado pela BNCC, na qual contempla o projeto de vida em suas competências mais gerais, especifi camente a competência 6: “valorizar a diversidade e vivencias culturais, apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência critica e responsabilidade”. No entanto, um problema central percebido pelo grupo é o esvaziamento de conteúdos disciplinares, especialmente o de História. Diante do exposto é possível levar em consideração a relevância que há no contato entre estudantes de licenciatura, atuando através do PIBID, e a experiência feita de maneira coordenada e sistematizada da análise de livros didáticos que se constituirão futuramente como a ferramenta profi ssional dos mesmos. O exercício possibilita identifi car a proposta pedagógica que é abordada nas diversas faixas etárias e modalidades de ensino, de modo a fazer com que sejam percebidas as possibilidades de uma fundamentação teórica que consiga ser proporcional no desenvolvimento cognitivo e a assimila- ção por partes dos alunos, bem como, as concepções de aprendizagem que orientem as atividades teóricas e práticas propostas nos materiais didáticos, focalizando num melhor aproveitamento e 98 Resumo: As produções audiovisuais no ambiente escolar são recursos de grande importância quando é relacionada ao ensino-aprendizagem. Desta maneira, escolhemos como fonte o fi lme e as histórias em quadrinhos para trabalhar a questão do negro nas produções audiovisuais. Os personagens de negros no cinema e nos quadrinhos são representados como personagens cô- micos, vilões, com baixa inteligência e coadjuvantes. Nas produções audiovisuais tendo como o personagem principal negro e herói é um acontecimento que há algumas décadas seria impossível pela sociedade com visão do colonizador. Alguns personagens como: o Pantera Negra, a Môni- ca Rambeau na série WandaVision, a personagem Tempestade do X-Men, o Super Choque, o Luke Cage e entre outros, mostra algo pouco visto nas produções audiovisuais, um negro/negra sendo apresentado nas produções audiovisuais como herói/heroínas. Esses personagens estão trazendo um destaque para a valorização do negro/negra, trazendo uma refl exão social e racial na escola. Houve mudanças na imagem do negro estereotipada na maioria das produções da primeira metade do século XX até os dias de hoje e essas mudanças está proporcionando um envolvimento maior e de forma positiva nessas produções audiovisuais. Os primeiros personagens que foram descritos de forma mais realista, o aumento de personagens surgido na época da luta pelos direitos civis afro-americanos, a falha que há na representatividade e da abordagem racista e preconceituosa nestas produções, às distinções que existem na caracterização do esteriótipo do negro em vários países e uma análise das representações dos negros nas produções audiovisuais nos dias atuais. Desta forma, podemos utilizar essas produções audiovisuais que estão presentes na vida dos jo- vens no seu cotidiano como um recurso didático-pedagógico. Quanto ao suporte teórico de noste trabalho usaremos Stuart Hall (2003), Kathryn Woodward (2014),Napolitano (2019). Esse trabalho busca apresentar como os fi lmes e histórias em quadrinhos podem serem usadas na sala de aula pelo professor e quais temáticas étnico-raciais podemos utilizar em sala de aulas que são aborda- das nos fi lmes e histórias em quadrinhos. Palavras-chave: Cinema; História em Quadrinhos; Super-heróis Negros; Super-heroína Negra. Referências: HALL, A. A Identidade Cultural na pós modernidade. Tradução Tomaz Tadeu da Silva & Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. NAPOLITANO, M. Como usar o cinema na sala de aula. 5.ed. São Paulo: Contexto, 2019. Cinema e Histórias em quadrinhos: O uso das produções audiovisuais para o ensino de história na sala de aula Fabiana de Souza Santos Xavier (prefeitura) também na inovação tecnológica que consiga ser mais bem trabalhada em sala de aula. Sendo as- sim, a experiência proporcionada via análise do material didático é de suma importância para que haja um engajamento entre discentes de licenciatura e a formação inicial para carreira docente. Ao nos direcionarmos ao livro didático, encarado como uma ferramenta que auxilie o professor em seu ofício é cada vez mais considerável a necessidade desse contato ainda na parte de formação da carreira acadêmica, a fi m de constituir um profi ssional que se sinta mais próximo e com maior intimidade para se relacionar com as difi culdades e limitações que fazem parte do contexto, da cul- tura e do ambiente escolar. Em suma, são evidentes os resultados positivos que essa investigação desenvolvida com a função de aproximar o ensino de história e os futuros docentes, que a partir das realidades constituídas poderão transformá-las enquanto formam sujeitos autênticos, num mo- delo de educação cada vez mais tecnológico e bem desenvolvido que potencialize e faça do aluno, protagonista de uma educação emancipatória. Referências: Referências: BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018. 99 Este trabalho pretende propor caminhos para o uso de documentos contidos no Armazém da Memória como maneira de avançar no debate sobre as questões indígenas na ditadura militar, através da perspectiva da educação histórica e municiado pelos instrumentos fornecidos pela pes- quisa histórica. Pretendemos com isso fornecer aos professores da educação básica e alunos em processo de formação instrumentos para efetivar a lei 11.645/2008 no ensino de história. A Ditadura foi a conformação de diferentes interesses que juntaram as pretensões de uma eli- te nacional e internacional dentro da dinâmica da Guerra Fria, e se viabilizou pela aproximação de diferentes grupos brasileiros dirigido pelo grande capital que viam com maus olhos o crescimento dos movimentos sociais em torno do Estado. A saída que os burgueses encontraram foi colocar os militares no Poder para que, através de suas alianças, mantivessem seu projeto de exploração e expropriação do trabalhador, avanço so- bre as terras tradicionais e reservas indígenas, bem como sobre meio ambiente. Através desses projetos, as violências se intensifi caram, de modo que as práticas de torturas e repressão eram os métodos que os militares, direcionados pela elite orgânica, tinham como ação diária. Os Movimentos sociais não fi caram parados diante do terrorismo de Estado. A luta dos mo- vimentos negros, dos movimentos de mulheres, das organizações estudantis, de trabalhadores operários, de trabalhadores do campo e dos movimentos indígenas, se colocaram na contramão, denunciando as atrocidades, os problemas relacionando as condições de vida, a terra, a Reforma Agrária, a desvalorização dos salários, e a retomada da democracia eram questõesque mantinham a luta pela emancipação do País e visavam combater as desigualdades sociais e garantir direitos para autodertimanação dos povos. A historiadora Circe Maria Fernandes Bittencourt que há tempos vem se dedicando aos estudos do campo do ensino de História aponta para a atuação dos novos métodos e tecnologias e aponta para a necessidade de utilização por parte dos professores de história, para melhor desenvolvi- mento de suas atividades docentes no mundo globalizado. A autora lança alguns questionamentos sobre como a escola se prepara para receber as novas gerações na “cultura das mídias”. Além disso, ressalta o cuidado com as informações das novas mídias como a televisão e o computador – res- ponsável por criar o campo da História pública – que vem proporcionando vários estudos no intuito de dimensionar como estes atuam na consciência histórica dos sujeitos. O acesso a essas novas tecnologias não pode servir de instrumento de exclusão social e cultural, tendo em vista a realidade precária da escola. Pública brasileira, pelo contrário, são potenciais instrumentos para a vida escolar. Diante de tantos desafi os que as novas gerações fornecem para as propostas curriculares, podem ser des- tacados alguns avanços: maior autonomia do professor – isso implica uma prática de ensino de História mais crítica, mais problematizadora e próxima dos debates recentes da historiografi a; fun- damentação pedagógica construtivista – ou seja, os alunos, sendo atravessados por uma série de saberes, marcados pelas estruturas sociais às quais estão submetidos, não podem ser desconside- Ensino de história e os indígenas na ditadura militar: a pesquisa histórica e suas possibilidades João Paulo dos Santos Cerqueira (UEFS) Jean Santos Dias (UEFS) Carolaine Tomaz Silva (UEFS) Taciane de Araujo Santos (UEFS) WOODWARD, K. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Ta- deu da (org). Identidade e diferença: .a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. 100 rados no processo de ensino-aprendizagem; o aluno é visto como sujeito do processo, interferindo no andamento com seu “conhecimento prévio” , que consideramos necessariamente como ponto de partida e não como um delimitador.– tendo esta consciência histórica, qual o papel da disciplina História para sua vida? Embora os benefícios do uso de fontes históricas como instrumento de ensino tenham ampla aceitação, ele tem esbarrado no limite de como deve ser aplicado, acreditamos antes de tudo que o avanço nesse sentido passa pela melhor defi nição do que se pretende com o conteúdo e da me- todologia. Para tanto, entendemos que a utilização de fontes, problemáticas, teoria e abordagens bem defi nidas podem ser muito frutífera, levantando-se a partir delas questionamentos que per- mitam a construção e reconstrução do conhecimento histórico que oriente os alunos no tempo e sirva para que estes tenham um “plus” de racionalidade – sejam competentes em história. A Educação Histórica pressupõe uma aposta na inter-relação da teoria e práticas de Ensino de História, situando-se a investigação na sua interface: por um lado, alimenta-se dos princípios da aprendizagem situada, do saber histórico e sua epistemologia (conceitos substantivos e de segun- da ordem), dos procedimentos metodológicos da pesquisa social; por outro lado, à luz desses fun- damentos teóricos em simbiose, explora concepções e práticas dos agentes educativos, sobretudo dos alunos, colocando estes perante tarefas desafi ante (BARCA, 2012, p 01). Outro elemento central para o trabalho com a questão indígena na ditadura passa pela des- construção de certos mitos acerca dessa população, onde a invisibilidade é a carcterística principal que são amplamente divulgados na imprensa ou outros meios de informação e é justamente essa base que os documentos do Armazém da Memória nos dão Entretanto, o uso de instrumentos dife- rentes por si só não resolve os problemas, uma metodologia bem defi nida é condição sine qua non para avançar, e é esse o papel da pesquisa histórica. Com ela pretendemos municiar os professores e alunos em formação na construção de ativi- dades seguem os pressupostos da pesquisa histórica centralizando o uso das fontes, que SOUZA (2010) trata nos seguintes termos: É através das fontes que ocorre a possibilidade do educando evoluir de forma cognitiva e tornar se um cidadão mais crítico e seletivo no seu meio de interação social. As fontes de pesquisa são va- riadas podendo ter pesquisa apenas bibliográfi cas com consulta a livros, revista, internet e pesqui- sa mais prática como estudo de caso, pesquisa de campo e coletas de dados. O papel do professor na orientação do trabalho de pesquisa é importante, pois possibilita ao educando fonte segura que os ajudarão a realizar seus trabalhos com segurança. (SOUSA. 2010, p.50) Ao debater a Ditadura Civil-Militar sob a ótica das populações indígenas é possível alcançar um espaço importante, sobretudo pelo fato de associar duas construções de inexistência, primeiro das populações indígenas e segunda da corrupção no período militar, afi nal não é isso mesmo que o Relatório Figueiredo e a Comissão Nacional da Verdade demonstram? Ao aplicar essas questões a pesquisa histórica a partir do ensino de história atualizamos o debate e propiciamos aos estudan- tes não só conhecer história, mas atuar sobre ela com as armas que dispomos: a educação! 101 Este trabalho apresenta parte dos resultados preliminares do projeto de pesquisa sobre uso de memes como fonte para abordagem histórica em sala de aula do conteúdo substantivo Ditadura Empresarial Militar no Brasil. Suscita algumas refl exões sobre a área de Ensino de História no que tange às prescrições, a política curricular enquanto espaço de disputas e os refl exos na aula de História.A escolha do con- teúdo Ditadura Empresarial Militar é mote para essa discussão, por que se tornou um tema com- plexo para a sala de aula em função das narrativas revisionistas, sem compromisso com a verdade histórica, que tem adentrado o ambiente escolar. Atualmente essas discussões e combates se mostram bastante evidentes em virtude das mu- danças provenientes nos currículos prescritos que sinalizam para um momento de retrocesso do ensino, em virtude do caráter da Nova Base Nacional Comum Curricular com fortes características conservadoras e generalistas. Os ataques à disciplina de História e aos professores podem ser confi gurados em projetos como Escola sem partido, que nos alertam para a guerra ideológica que adentra o espaço escolar. Esse projeto é um exemplo de movimento que visa cercear a liberdade do professor na sala de aula. Destarte a responsabilidade do docente se torna ainda maior na busca por alternativas que bur- lem discursos ideológicos que investem sobre os direitos de liberdade do indivíduo. Dessa forma, é pertinente endossar a luta em prol da democracia e liberdade de expressão na sala de aula . A ascensão em 2018 de um Governo com fortes características autoritárias e com ideias contrá- rias a uma educação cidadã em seu sentido mais amplo, é que nos inspira a compreender melhor essas temáticas. Mexer nessas questões com segurança, buscando lidar com situações complexas em sala de aula em virtude de pontos de vistas contrários, vai instituir a sala de aula enquanto lu- gar de aprendizagem efetiva. Portanto, além de conteúdos aprende-se o respeito ao outro, base do bem-estar das relações sociais, pilar de uma sociedade verdadeiramente democrática. Partindo desse pressuposto trazer para o debate o período da Ditadura Empresarial Militar no Brasil é bastante relevante no sentido de entender esse período e suas especifi cidades a partir de construções de narrativas pautadas nos estudos das fontes para combater anacronismos históri- cos. Acrescenta- se a relevância de signifi car os conteúdos considerando as especifi cidades do seu tempo histórico, em virtude de todas as atrocidades ocorridas duranteo período e que ainda hoje suscitam vários questionamentos seja de indignação e negação, inclusive por que se trata também de testemunhas que vivenciaram esse momento As questões sobre a Ditadura são muito fortes e determinantes no contexto em que vivemos, a história em muitos casos precisa ser distorcida para legitimar jogos de interesses por parte do poder dominante. Além do mais, debruçar sobre esse tema pressupõe compreender esse período histórico para além do binômio de dominantes e dominados ou opressores e oprimidos,é preciso pôr em evidência outras questões do próprio cotidiano.Nosso papel enquanto docente é refl etir e problematizar as narrativas.Farias e Oliveira (2020), esboçam a conjuntura atual onde são cada vez mais frequentes opiniões canalizadas pela mídia e pelas redes sociais que convergem para a nega- ção da Ditadura, apresentam-na como um período de progresso e segurança para o povo brasileiro, narrativa já comum na década de 1960 a 1970 pelo discurso ofi cial do governo ditatorial. Por conseguinte, pretende-se abordar a Ditadura Empresarial Militar do Brasil enquanto um tema difícil (Schmidt, 2015), difícil para os professores que precisam organizar seu discurso de for- Ensino de história em tempo distópicos : Por que o fantasma ditadura ainda assusta? Cilmara Lédo de Araújo (Colégio Modelo Luis Eduardo Magalhães) 102 ma cuidadosa com argumentos bem fundamentados e conduzir as discussões com segurança para organizar um diálogo que possibilite dar vez e voz a todos que quiserem se expressar de forma democrática e, organizar o debate para a partir das visões confl itantes, cumprir os objetivos esta- belecidos com o estudo do tema. Ou seja, com vistas à construção do pensamento histórico, aproxi- mando os alunos da tarefa do historiador, para que entendam que a história é construída com rigor de suas teorias e métodos, esse é o melhor caminho para combater visões equivocadas acerca de fatos históricos difíceis e traumáticos. Em suma, na atual conjuntura onde ideias negacionistas e até mesmo anacrônicas se consoli- dam enquanto verdades, não só defendidas por alunos, mas também por alguns professores, fi ca cada dia mais complicado lidar com temáticas históricas, principalmente aquelas utilizadas para justifi car posições políticas e ideológicas. Essas temáticas precisam ser revisitadas, assim como outras possibilidades de análises em sala de aula pois, “[...] ainda não se estabeleceu um amplo debate que proporcionasse o resgate de fontes diversas para auxiliar os estudantes na constru- ção de narrativas que auxiliem ao desenvolvimento da consciência histórica sobre a Ditadura . [...]” (GONÇALVES,2018,555). A problematização do conteúdo Ditadura Empresarial Militar, com base no estudo das fontes, possibilita desconstruir narrativas anacrônicas com relação ao tema e favorece a compreensão de questões políticas do presente, com vistas ao fortalecimento dos princípios de liberdade e demo- cracia em concordância com a verdade histórica. Referências: FARIAS, José Aírton de; OLIVEIRA Danielle Rodrigues de. Ensino de ditadura civil-militar em tem- pos de “Escola Sem Partido” .|Revista Eletrônica de Educação, v. 14, 1-20, e2712020, jan./dez.2020. GONÇALVES, Rita de Cássia. O passado e a História Difícil para o ensino e aprendizagem da His- tória.Antiteses v. 11, n. 22, p.553-572, jul./dez. 2018 SCHMIDT, Maria Auxiliadora. Aprendizagem da “burderning history”: desafi os para a educação histórica. Dossiê Ensino de História. mneme – Revis- ta de humanidades.Caicó, v. 16, n. 36, p. 10-26, jan./jul. 2015. A trajetória do ensino de História no Brasil é marcada pelas idas e vindas das forças e interesses políticos em jogo num dado contexto, inclusive com momentos de supressão da disciplina do cur- rículo escolar. Ao ensino de História, sempre foi delegado o papel de formador de consciências críticas e cida- dãs e por isso, mesmo sua inserção como disciplina escolar, seus objetivos de ensino e até mes- mo o conteúdo a ser trabalhado, tem sido palco de combates políticos e ideológicos, ao longo da história da educação no Brasil. Diversos autores, dentre eles, Bittencourt (1993), Abud (1993, 1998, 2014), Reznik (1998), Ferreira (2015) Silva e Fonseca (2010) empreendem esse debate, enfatizando os interesses e perspectivas ideológicas que envolveram as defi nições tomadas sobre a disciplina História em vários períodos da história da educação e da própria história do Brasil. Segundo Bitten- court (1993, p. 194), “a História proposta para o ensino das escolas públicas brasileiras, desde os primeiros anos do surgimento do Estado nacional, foi objeto de disputas de grupos divergentes que se instalavam junto ao poder educacional”. Assim, suas propostas traziam à tona as perspectivas que tais grupos tinham tanto para a formação do futuro cidadão brasileiro como para o projeto de formação da identidade nacional. Ainda hoje permanece para a História a função de formar cidadãos, a partir da concepção de ENSINO DE HISTÓRIA PARA SURDOS: alguns caminhos trilhados Indinéia Ramos Paixão (IFBAIANO) 103 cidadania de um dado contexto sociopolítico. No cenário atual, o exercício da cidadania tem sido requerido e conquistado por outros segmentos sociais antes excluídos ou silenciados, dentre eles os surdos. Assim, começamos a refl etir e travar discussões acerca do ensino de História de carac- terísticas inclusivas, com o uso de estratégias pedagógicas mais adequadas às especifi cidades dos estudantes surdos, agora incluídos no sistema regular de ensino. Diante disso, somos levados a re- fl etir sobre tal proposta formativa, o que nos coloca entre outras questões, a das relações possíveis entre inclusão escolar, surdez e ensino de História. A legislação que dispõe sobre a inclusão escolar e a surdez não aborda sua relação com as disci- plinas, nem determina aportes que instruam o docente desta ou daquela disciplina a organizar suas estratégias pedagógicas para tal fi m. E assim, fatalmente, nos deparamos com algumas questões que envolvem a viabilização da inclusão escolar, na abordagem de uma disciplina específi ca, no nosso caso, a História. Referências: ABUD, K. M. O ensino de história como fator de coesão nacional: os programas de 1931. Rev. Bras. de Hist. S. Paulo, v. 13, no 25/26, p. 163-174, 1993. ABUD, K. M. O Ensino de História no contexto da Ditadura Militar: ajustamento e convivência. In.: SCHMIDT, M. A.; ABUD, K. 50 anos da Ditadura Militar: capítulos sobre o ensino de História do Brasil. Curitiba: W&A Editores, p. 53-69, 2014. BITTENCOURT, C. Os confrontos de uma disciplina escolar: da história sagrada à história profa- na. Rev. Bras. de Hist. S. Paulo, v. 13, no 25/26 p. 193-221, 1993. FERREIRA, M. de M. Por um novo ensino de história: os desafi os dos anos 1950-60. In: ROCHA, H.; MAGALHAES, M.; GONTIJO, R. (orgs.) Ensino de História em questão: cultura histórica, usos do pas- sado. Rio de. Janeiro: Editora FGV, 2015. MATTOS, C. O. Sinais do Tempo: construção de signifi cados de empo histórico em Libras para alunos surdos em uma perspectiva de letramento em História. Dissertação de mestrado. UFRRJ – Seropédica, 2016. Disponível em http://educapes.capes.gov.br/handle/capes/205585. Acesso em: 01 de jul. 2020. OLIVEIRA, B. C. de. Ensino de História e estudantes surdos: concepções das professoras e intér- pretes em duas escolas públicas de Criciúma. Dissertação de mestrado. UNESC – Criciúma, 2018. Disponível em: http://repositorio.unesc.net/handle/1/6261. Acesso em 13 dez. 2020. PADOVANI NETTO, E. Ensino de História para diferentes sujeitos: o acesso de alunos surdos às aulas de História. Dissertação de mestrado. UFPA – Ananindeua, 2018. Disponível em http://educa- pes.capes.gov.br/handle/capes/431558. Acesso em: 01 de jul. 2020. PERALES, H. L. Práticas pedagógicas do professor de história de ensino médio em turma regular com a presença de aluno surdo. Dissertação de mestrado. UFRN – Natal, 2018. Disponível em: ht- tps://repositorio.ufrn.br/jspui/handle/123456789/25803.Acesso em 13 dez. 2020. REZNIK, L. O lugar da história do Brasil. In: MATTOS, I. R. de (org.). História do ensino da História no Brasil. Rio de janeiro: Access, 1998. p.67-89. SANTOS, P. J. A. dos. 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O presente trabalho é resultado da realização de um projeto de ensino de história visando in- troduzir os discentes as discussões referentes ao patrimônio, partindo da conceituação e diferen- ciação entre os patrimônios materiais e imateriais. Empenhando-se em contribuir para a formação dos educandos, induzindo a valorização, o cuidado e a preservação do patrimônio, em especial, ao patrimônio local. Objetivando proporcionar uma refl exão expositiva e crítica referente às difi culda- des enfrentadas, as ações educativas, as parcerias criadas e os resultados pedagógicos alcança- dos. O arcabouço teórico utilizado para tratar os temas apresentados perpassa pelos seguintes au- tores(as):Circe Bittencourt (2011), Átila Bezerra Tolentino (2016), Denise Grispum (2000), Simone Scifoni (2017), Evelina Grunberg (2007) Aldo Rossi (1995) e Pierre Nora (1993). Tendo como proce- dimento metodológico a apresentação de um relato de experiência descritivo (LAKATOS; MARCO- NI,2007) partindo de algumas refl exões efetuadas a partir da prática docente no contexto escolar. Expondo a realização de um projeto efetuado durante as aulas de história com discentes do funda- mental II na cidade de Cabaceiras do Paraguaçu, localizado no recôncavo da Bahia, utilizando dessa práxis pedagógica e de aportes bibliográfi cos para possibilitar uma educação para o patrimônio. A cidade de Cabaceiras do Paraguaçu no Recôncavo da Bahia, localizada a 158 km da capital Salvador foi o lugar de nascimento de um dos mais importantes poetas da literatura nacional: Castro Alves. Considerado uma referência primordial na poesia romântica do século XIX, atuante contra a es- cravidão com uma vasta produção literária, poemas sobre a libertação dos grupos escravizados, a presença da natureza e principalmente os românticos fez de Castro Alves um nome importante na história nacional. Com o objetivo de construir um espaço de memória em homenagem ao referido poeta no seu local de nascimento no interior da Bahia foi criado o primeiro parque histórico do estado no século seguinte. Pela iniciativa do professor Edivaldo Machado Boaventura e outros colegas de governo foi inaugurado o Parque Histórico Castro Alves (PHCA) em 1971. Uma homenagem devida ao lugar que é berço do poeta Castro Alves, a fazenda Cabaceiras, a qual pertencia a seu avô materno major Antônio da Silva Castro, que foi moradia da família por um tempo. No projeto descrito neste trabalho buscou-se criar diálogos e experiências constantes entre os discentes e esse espaço que fi ca no centro da cidade, sendo composto por um museu, biblioteca e uma galeria de arte. Recebendo constantemente grupos culturais como o samba de roda e exposi- ções temporárias que circulam na Bahia. No primeiro momento desse relato irei descrever a loca- lização da cidade, a centralidade do parque histórico, o contexto social escolar e as características da turma discente onde foi realizado o projeto. Por conseguinte, a descrição detalhada do projeto, as difi culdades e parcerias para a sua rea- lização e alguns resultados dessa prática, expondo os conceitos trabalhados e algumas fotos da concretização da proposta. E por fi m, relatar a importância do professor de história como mediador de ações e/ou práticas educativas de forma enriquecedora e transversal entre as turmas propor- cionando educação para o patrimônio e novas alternativas para o ensino de história. Ensino, arte e educação para o patrimônio: experiência docente entre a sala de aula e o Parque Histórico Castro Alves Rodrigo da Silva Lucena (UFBA) 105 No decorrer do processo de formação dos professores de História, eles sempre serão levados a debates de enfrentamento sobre o ensino de história na sala de aula. E, durante este processo que diversos questionamentos são levantados, refl etidos e analisados nas seguintes perguntas: As teorias acadêmicas serão aplicadas na prática de um determinado projeto escolar ou aula? Quais serão os resultados alcançados durante a realização do mesmo? Quais serão os materiais didáti- cos e suportes tecnológicos (Celulares, tabletes, computares entre outros) que podemos utilizar para a construção de uma aula signifi cativa e efi ciente? Quais são os possíveis de serem usados? Como devemos usá-los? Ao analisamos tais questionamentos, entendemos que nos adentramos no campo das deman- das que estão voltadas para o ensino de história e seus desafi os na construção do saber. Segundo Selva Guimarães Fonseca (2003, p.60) nos afi rma que há muito tempo a formação do professor de História se processa ao longo de toda sua jornada como docente, tanto de cunho pessoal, como profi ssional, pois o mesmo perpassava por diversos tempos vivenciados e espaços socioeducati- vos. Por isso ao longo da sua trajetória, o professor de História tem a possibilidade de mergulhar por diferentes suportes pedagógicos que estejam a sua disposição. Como por exemplo, letras de músicas e canções, textos acadêmicos ou populares (cordéis, cartas, jornais ou revistas), produ- ções fílmicas, vídeos, fotografi as entre outros suportes de vertente tecnológica (tabletes, celulares entre outros). Assim, desenvolver uma proposta de se construir uma ferramenta tecnológica (site) como um apoio pedagógico para o professor de História (mediador), se trilhará por meio da utilização e aná- lise dos conceitos das novas Tecnologias da Informação e Comunicação – TIC’s – que podem pro- porcionar caminhos para o ensino de história na sala de aula. Mas, neste sentido, Lopes e Monteiro (2016, p. 238), nos mostram que os usos dessas ferramen- tas ainda se apresentaram como um caminho de controversas e desafi os, pois estão carregados em suas práticas de uma didática pedagógica que por muitas vezes ainda está pautada em ações arcaicas e impositivas ao uso destas TIC’s, e isso se ligará á um total fracasso educacional, mas que se analisado, extraído e mediado pelo professor, será possível obter um potencial que confl uirá para o melhor desempenho do ensinar história em sala de aula. De forma geral, com poucos “cliques”, temos em nossa frente milhares de informações que são acessadas de maneira rápida, sobretudo através dos sites de buscas, como por exemplo, Google, Bing, Yahoo entre outros mais que nos apresenta os milhares de páginas de informações que está na rede virtual. E é partir deste processo de procura de conteúdo nestes buscadores, que caberá ao professor o papel de mediador em relação a todos estes conteúdos que estão disponíveis por meio da rede virtual mundial de informação. O site “Em Roda de Vadios é fruto de diversas experiências que permitiram acúmulo, desde as aulas de Laboratório de Ensino de História e também os meus estágios de docência do curso de li- cenciatura em História pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB/CampusXVIII. O site foi cons- truído para possibilitar ao professor de História trabalhar em suas aulas a historização da capoeira, suas principais fi guras - mestres e praticantes desta brincadeira ou luta, ou ainda prática cultural -, e a importância para história baiana, além de estimulá-lo para a criação de atividades signifi cativas através das fontes disponíveis. Estimulando assim uma inserção desses conteúdos que possibili- tam contribuir com a representatividade dos afro-brasileiros no ensino de história, bem como de- Entre TDIC’s e Ensino de História: A construção do Site “Roda de Vadios” como suporte pedagógico para o ensino da Capoeira nas aulas de História. Reinan Mota Costa 106 bater sobre as diversas representações dos capoeiristas através das imagens, fotografi as e fi lmes. Também pretendemos incentivar a pesquisa sobre o assunto, pretendemos também promover ati- vidades pedagógicas de interação entre os sujeitos e os textos, imagens, vídeos e músicas que podem ser trabalhadas na sala de aula. E, além disso, fornecer ao professor ideias que despertem o senso crítico dos alunos ou que contribuam para uma ressignifi cação dos saberes desses discen- tes sobre a capoeira. Auxiliando os alunos a se perceberem como indivíduos ativos no contexto em que vivem, utilizando o site como materialização deste processo: Sujeito, Espaço, Capoeira, Tempo e História. Laboratório de Ensino de História: Implantação do Arquivo Histórico do Judiciário de Ilhéus A presente comunicação busca sumariar as ações iniciais desenvolvidas no âmbito do Projeto de Ensino “Laboratório do Ensino de História: Implantação do Arquivo Histórico do Judiciário de Ilhéus”, integrante do Programa de Apoio ao Ensino de Graduação da Universidade Estadual de Santa Cruz (PAEG/UESC), regulamentado pela Resolução CONSPE 095/2009. O PAEG busca, entre outros obje- tivos: contribuir para a melhoria do ensino, através de ações coordenadas que visem à introdução, discussão de novas práticas e experiências pedagógicas, no âmbito da UESC; intensifi car a coopera- ção entre discentes e docentes, criando condições de aprofundamento teórico e desenvolvimento de habilidades relacionadas à atividade da docência; preparar o aluno para a docência responsável e comprometida com a qualidade acadêmica e o processo de ensino-aprendizagem; São entendidas como Projetos de Ensino, conforme a já citada Resolução, propostas de trabalho que visam à introdução e à discussão de novas abordagens teórico-metodológicas a partir de um contato direto com as áreas de atuação profi ssional de cada curso de graduação. Os Projetos de Ensino precisam atender as seguintes características: ser uma atividade emi- nentemente de ensino; proporcionar o contato direto com as áreas de atuação profi ssional dos graduandos a serem atendidos pelo projeto; ter por público alvo os alunos de graduação da UESC e envolver, no mínimo, uma turma de um dos cursos de graduação da UESC. O Laboratório de Ensino de História: Implantação do Arquivo Histórico do Judiciário de Ilhéus busca alavancar ações interdiciplinares, que envolvam as disciplinas do eixo articulador “pesquisa histórica” e seus respectivos professores, possibilitando a efetiva implantação do Laboratório de Pesquisa Histórica, oferecendo múltiplas possibilidades dos estudantes exercitarem a compreen- são crítico-histórica das formulações pedagógicas e políticas educacionais, e ainda a vivência prá- tica do futuro professor de História no ensino fundamental e médio, constituindo espaços interdis- ciplinares de articulação dos diversos saberes oriundos das vivências e experiências do curso de História, sem perder de vista a importância da pesquisa em suas formações. Localizada no sul da Bahia, Ilhéus é um dos municípios mais antigos do Brasil. Proveniente des- sa localidade, a documentação judicial da comarca de Ilhéus pertence originalmente ao acervo do Fórum da comarca daquele município. Essa documentação atualmente não se encontra em situa- ção ideal de conservação e disponibilidade para pesquisa, o que motivou a celebração do Convênio de Cooperação celebrado entre o Tribunal de Justiça do Estado da Bahia e a Universidade Estadual de Santa Cruz (43-19) A motivação vem do grande volume de documentação inadequadamente acumulado em um imóvel externo ao Fórum, locado pela Instituição. Sem ter um local adequado no próprio Fórum e nem ter como dar o devido tratamento àquele Arquivo, a Direção do Fórum chegou a cogitar a sua Laboratório de Ensino de História: Implantação do Arquivo Histórico do Judiciário de Ilhéus Carlos Alberto Oliveira de Oliveira (UESC) Maria Luísa dos Santos Gomes (UESC) 107 transferência para a capital do Estado, o que representaria inestimável prejuízo à sociedade ilheen- se. O PPC do Curso de Licenciatura em História (Resolução CONSEPE No 56/2018) compreende “Os Laboratórios de Ensino e os Seminários partirão dos princípios, técnicas, métodos e conceitos ca- racterísticos ao Ensino de História, para coordenar – com as disciplinas indicadas no fl uxograma do curso, no respectivo semestre do Laboratório – atividades teórico-práticas que sistematizem e articulem de modo interdisciplinar os conteúdos, habilidades e competências trabalhadas ao longo do semestre letivo”. (Regulamento das Disciplinas Práticas, Art. 3o, § 1o) Além disto, os Laboratórios de Ensino e os Seminários têm como objetivos: “ interligar o Ensino de História às demais áreas de atuação profi ssional do historiador, tais como, Arquivística, Paleo- grafi a, Museologia, Arqueologia e outros; “ (Regulamento das Disciplinas Práticas, Art. 3o, § 2o, item III). Deste modo, o presente Projeto de Ensino busca oportunizar aos alunos das disciplinas Labo- ratório de Ensino de História que atuem, ao longo de sua formação, na implementação do Arquivo Histórico do Judiciário da Comarca de Ilhéus, atuando em todas as etapas, bem como refl etir sobre a importância da preservação das fontes do judiciário para o Ensino de História. Importante salientar que os Laboratórios não se constituem em espaços isolados. Suas ativi- dades necessariamente precisam estar articuladas com as demais disciplinas ofertadas nos res- pectivos semestres, obrigatórias ou optativas. A relação de disciplinas não é defi nitiva, pois quanto maior a participação de disciplinas ofertadas concomitantemente com os Laboratórios de Ensino, implicará em uma maior participação de professores. Em síntese, mesmo sendo importantes en- quanto espaço da Prática de Ensino, os Laboratórios não se confi guram como exclusivos. O presente projeto deverá, ainda, proporcionar a realização de atividades práticas das ciências correlatas à História, como Arquivística, Paleografi a, Museologia, Arqueologia, orientar ações de organização de acervos particulares e públicos, a produção e utilização de material de pesquisa e fontes primárias relacionadas à área desse conhecimento. Referências: KICH. Tassiara J. F.; KONRAD, Glaucia V. R. Arranjo e descrição arquivística em processos judiciais. In: Perspectivas em Ciência da Informação, v. 16, n. 4, out./dez. 2011, p. 212-227 MIRANDA. Marcia E. Os arquivos e o ofi cio do historiador. In: Anais do XI Encontro Estadual de História: História, Memória e Patrimônio (ANPUHRS). Rio Grande: FURG, 2012, p. 900-911. SILVA, Marcos A. da. História: o prazer em ensino e pesquisa. São Paulo: Brasiliense. 1995. VIEIRA, Maria do Pilar de Araújo et alii. A Pesquisa em História. São Paulo: Ática, 1991. 108 O presente texto tem como objetivo trazer uma discussão acerca dos materiais didáticos (pro- dução e utilização) na sala de aula de história. Os materiais didáticos são fundamentais no processo de ensino e aprendizagem na educação, pois eles são instrumentos pedagógicos que podem ser utilizados pelo professor para tornar o saber escolar acessível ao estudante, contribuindo para uma boa formação do mesmo. Geralmente, os materiais didáticos são utilizados pelo educador numa perspectiva metodologicamenteplanejada, com um, ou mais objetivos previamente defi nidos. Não há prática educativa consistente e signifi cativa sem o uso racional dos materiais didáticos. Do tradicional livro didático ao uso de um aplicativo recém baixado na Play store, a diversidade de materiais didáticos, em suas diversas naturezas, potencializam o ensino, dinamizam as aulas, estimulam a participação dos estudantes, que também podem produzir tais materiais, quando o procedimento quanto ao seu uso é bem aplicado. Nas aulas de história os professores têm buscado cada vez mais os usos dessas ferramentas, pois é senso comum que os alunos tinham/tem uma visão que o ensino de história é chato, pois aborda o passado, pelo passado, sendo este um tempo/espaço frio e morto. Ao lançar mão desses materiais, os professores de história objetivam tornar sua aula mais atrativa, dinâmica, signifi cativa e agradável. Circe Bittencourt (2009) traz uma refl exão importante sobre o papel dos materiais didáticos no ensino e na aprendizagem de História destacando que esses materiais são importantes media- dores no processo de aquisição de conhecimento histórico. Para ela, “os materiais didáticos são mediadores do processo de aquisição de conhecimento, bem como facilitadores da apreensão de conceitos, do domínio de informações e de uma linguagem específi ca da área de cada disciplina” (BITTENCOURT, 2009, p. 296). Um outro ponto importante no debate acerca dos materiais didáticos, é que parte dos profes- sores confundem, igualam ou entendem como semelhante ao livro didático. Erinaldo Cavalcanti (2016) que trabalhou na confecção de livro didático regional faz essa necessária diferenciação, res- saltando que embora o livro didático seja um “produto cultural amplamente legitimado, é comum professores, professoras e profi ssionais ligados à educação falarem em livro didático como sinôni- mo de material didático.” (CAVALCANTI, 2016, p. 270). Esse texto também tematiza essa questão dos materiais didáticos, trazendo defi nições, con- ceitos, não apenas focando no Livro didático, símbolo maior dos materiais didáticos no país, como também abordando a produção de paradidáticos, fundamentais para se alcançar um ensino de História local mais sensível as demandas dos estudantes. Os livros paradidáticos são uma realidade da educação brasileira há algum tempo e atualmente, o PNLD já tem uma crescente demanda de aquisição dessas obras. Uma característica que ajuda a defi ni-lo e diferencia-lo do livro didático, é que eles são produzidos para ampliar ou aprofundar uma determinada temática que não foi contemplado no livro didático ou que por questões de limi- tação da carga horária escolar, seria inviável de ser debatido na sala de aula. Assim, os professores geralmente lançam mão dessa ferramenta complementar, que permite uma ampliação do conhe- cimento daquela temática. Em sua celebrada tese Produzindo livros didáticos e paradidáticos, Kazumi Munakata (1997) também traz um excelente panorama tantos sobre os livros didáticos quanto dos livros e materiais paradidáticos. Material didático e ensino de história local: considerações iniciais Robenilton Pinto Carneiro (Governo de Estado da Bahia) 109 Por fi m, abordaremos também a contribuição dos Mestrados profi ssionais nesse caminho. A criação dos cursos de mestrados profi ssionais no país tem provocado uma demanda crescente por produções de materiais didáticos para o ensino geral, e o ensino de história em específi co, isso porque em sua essência esses mestrados pretendem estimular o aprimoramento profi ssional do educando na refl exão entre teoria e prática, inclusive solicitando da parte dos mestrandos um pro- duto que esteja relacionado a sua práxis educativa. Embora essa modalidade de aperfeiçoamento stricto sensu ainda esteja engatinhando no Brasil, visto que data de 2003 o primeiro curso, e ainda não se tenha tantas opções de cursos, já existem pesquisas sobre seu impacto no campo do ensino de história, como também já ocorreram eventos acadêmicos e publicações de artigos que abordaram essa pauta. Na Bahia a produção de material didático para ensino de história local tem sido favorecida com a criação dos mestrados profi ssionais na área da História, como a rede ProfHistória da UNEB e UESB, além do Mestrado Profi ssional de História da África, da Diáspora e dos Povos Indígenas, na UFRB. Embora não seja exclusivo do mestrado, mas também da Licenciatura em História, os materiais produzidos no Laboratório de Ensino de História do Recôncavo da Bahia (LEHRB), vinculado a UFRB. Atuando a mais de 10 anos, o LEHRB tem feito um trabalho de muita importância no fomento às produções de materiais didáticos que visa potencializar o Ensino de História com artigo de divulga- ção histórica, materiais paradidáticos, sequências didáticas, e outros. Referências: BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: fundamentos e métodos. 2.ed. São Paulo: Cortez, 2008. CAVALCANTI, Erinaldo. Livro didático: produção, possibilidades e desafi os para o ensino de His- tória. Revista História Hoje, v. 5, no 9, p. 262-284 – 2016. Disponível em: https://rhhj.anpuh.org/ RHHJ/article/view/219/183 . Acesso 09 de junho de 2021. FONSECA, Selva Guimarães. Fazer e ensinar história. Belo Horizonte: Dimensão, 2009. 296 p. MUNAKATA, Kazumi. Produzindo livros didáticos e paradidáticos. Tese (Doutorado em História e Filosofi a da Educação) – Programa de Estudos Pós- Graduados em Educação: História, Política, Sociedade, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 1997. Tema: A comunicação expõe minha experiência no Ensino de História na Rede Municipal do Rio de Janeiro. Para tornar a disciplina histórica atraente, elaborei o projeto dos “trabalhos práticos”, que são tarefas fomentadoras da vivência histórica. As propostas são desenvolvidas pelos alunos, estimulando a participação da escola como um todo, lhes conferindo o papel de agentes de seu tempo. Metodologia: As atividades, em geral, são formuladas no decorrer de um assunto tratado em sala de aula, dividido em subtemas, sorteados para cada grupo, que então se organizam, atri- buem responsabilidades a cada componente e preparam suas apresentações, pensando, é claro, na inclusão da comunidade escolar em seus feitos. Além de contribuir para a formação da consci- ência histórica (MARTINS, 2019), o projeto se volta para a narrativa do aluno sobre alguns ângulos: o de autor de sua produção, sendo crítico de si mesmo; o de aprendiz a partir da troca de saberes com os demais colegas e o da percepção dos desdobramentos de suas criações, como: relação que a escola e o responsável estabelecem a partir da construção do conhecimento de seu aluno e fi lho, respectivamente, e que é solidifi cada na culminância das atividades em dias determinados. Resul- tados parciais: Considerando os laços de sentido estabelecidos com a História, aponta-se como um dos principais resultados, que é um dos objetivos inclusive, a autoestima do aluno, um produtor de O "chão da escola" na "prática" Lucilia Maria Esteves Santiso Dieguez (Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro) 110 ideias, que gere seu repertório e atende seus anseios em ensinar e aprender, exercendo seu prota- gonismo e contribuindo para um dos pilares da educação histórica, que é o posicionamento político e cidadão, servindo de espelho para o meio em que vive, auxiliando na perpetuação do conhecimen- to e modifi cando a si mesmo enquanto sujeito histórico. Em suma, os projetos diversifi cados, edifi - cados nas turmas das séries básicas, tem o compromisso ainda de assegurar o lugar da História na vida dos educandos e do espaço escolar, que se materializa pelas ações práticas dos estudantes, representações de suas vozes e opiniões. Referências: BITTENCOURT, Circe. Método de Ensino. IN: FERREIRA, Marieta de Moraes; OLIVEIRA, Margarida Maria Dias de (Orgs.). Dicionário de Ensino de História. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2019.LUCCHESI, Anita; MAYNARD, Dilton. C.S. Novas Tecnologias.IN: FERREIRA, Marieta de Moraes; OLIVEIRA, Margarida Maria Dias de (Orgs.). Dicionário de Ensino de História. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2019.MARTINS, Estevão Rezende. Consciência histórica. IN: FERREIRA, Marieta de Moraes; OLIVEIRA, Margarida Maria Dias de (Orgs.). Dicionário de Ensino de História. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2019. O cinema e a história vêm dialogando durante muito tempo. Não é curta a lista de historiadores que decidiram se aprofundar nesse debate ao longo de todo o século XX. Autores como Marc Ferro, Pierre Nova e Jacques Le Go� apontam para a coexistência dessas duas áreas (cinema e história), culminando em debates relacionados às técnicas metodológicas para utilização do cinema no en- sino da história. Os líderes dessa nova discussão foram, os já citados, Marc Ferro e Jacques Le Go� , o último em conjunto com Pierre Nora. Contudo, as discussões fi caram centradas na questão meto- dológica, não abordando em seus estudos os conceitos estéticos do cinema – inseridos no início do século XXI. Hoje, esses conceitos começam a ter visibilidade, devido ao estudo da relação cinema- história, apesar da metodologia ainda ser o principal ponto de discussão. Nesta perspectiva, o presente artigo tem como objetivo apresentar o cinema como ferramenta de transmissão de informação, através da mediação e de observações feitas pelo educador res- ponsável, visando, deste modo, analisar as habilidades e competências desenvolvidas por estu- dantes da educação básica através de fi lmes. Sabe-se que, no Brasil, a conexão do cinema com o ensino da história só começou a ser uma área de debate na década 80, e é neste momento que encontra, então, o seu maior desafi o: a falta de profi ssionalização dos professores com essa ferramenta. O debate metodológico entre a sétima arte e o ensino de história é centro da discussão para se criar um ambiente favorável para essa fer- ramenta de ensino-aprendizagem; abordando novas formas de utilizá-lo na sala de aula, fortale- cendo a já citada relação do educador com os alunos e a película, tornando um fator primordial para a compreensão da análise fílmica quanto para uma valorização da sétima arte no ambiente escolar, não com uma mentalidade superfi cial generalizada encontrada nos atuais educadores que pos- suem uma ideia errônea do cinema em sala. O fi lme é visto como uma reprodução de determinada época e acontecimento, um interlocutor solitário, sem contradição ou pareamento, suas imagens são vistas como completamente verídicas e sem contradições. METODOLOGIA Os principais pontos a serem analisados nesta pesquisa se baseiam nos conceitos desenvolvi- dos por Marc Ferro (1988; 1992), que inicia um diálogo aprofundado sobre a relação do cinema com a história. A discussão é gerada em dois tópicos: a marginalização do cinema no mundo acadêmico, com o mesmo sendo visto como algo secundário, “fi lho” da imagem, não sendo caracterizado como documento e nem arte. E, no segundo tópico, inicia-se um debate inovador para a época, servindo O cinema em sala de aula: Novas condutas com a ferramenta cinematográfi ca Daniel de Farias Chaves 111 como ponto de ignição para o fortalecimento da discussão entre o ensinar história e a sétima arte – o autor interroga a realidade da sociedade refl etida nas câmeras com a interrogativa frase que dá título ao estudo: ‘O fi lme: uma contra-análise da sociedade?’. A análise aborda de forma crível os tipos de imagens que são mostradas nas películas, e como elas representam as sociedades das quais são originárias, dessa forma, tendo o poder de infl uenciar outros espaços que recebem o ma- terial – destacando o poder político e propagandista que o cinema possui, bem como evidenciando o seu poder em alimentar a consciência crítica do público. Nas décadas seguintes, o estudo da relação entre cinema e história direcionou o seu campo de estudo para a educação marxista, procurando encontrar e formular métodos que evoluíssem o ensino-aprendizagem da história através dos fi lmes. Durante as últimas décadas, a utilização de fi lmes em sala de aula se tornou limitada a uma “ilustração” de épocas passadas, sem um mínimo preparo ou estudo cinematográfi co – uma questão extremamente importante. Por vezes, a ideia e a visão que o seu criador tentou transmitir para o público não é a mesma recebida e/ou propagada, isto, partindo da premissa de que a arte é interpretativa e cada observador terá uma interpretação diferente do outro. RESULTADOS PARCIAIS Embora o debate cinema-história seja renovado com novos nomes de tempos em tempos, exis- te uma repercussão singela, isto quando comparado com outros objetos de pesquisa. Dentre os nomes mais importantes para o campo em âmbito nacional, Marcos Napolitano (2003) e Eduardo Morettin (2007) se destacam, pois ambos possuem uma extensa bibliografi a sobre o tema e são referência tanto na discussão sobre a análise do fi lme como fonte histórica quanto na área do en- sino de história. Já no início dos anos 90, Mônica Kornis (1992) publica o texto ‘História e Cinema: um debate metodológico’, material no qual a autora cita os desafi os que o historiador enfrenta ao abordar sobre um material cujo tratamento exige uma refl exão nova, a partir de bases diferentes. A película cinematográfi ca, juntamente com o professor e os estudantes são pilares de um de- bate que utilizou de maneira simples, ou seja, sem se aprofundar, uma rica ferramenta: o cinema. No campo educacional, por bastante tempo, ele foi enxergado apenas como um meio de entrete- nimento, desqualifi cando todos os seus outros usos. É importante ressaltar o papel da sétima arte no campo da educação, quebrando, assim, velhas amarras e trazendo um novo fôlego para o ato de estudar/ensinar história. Tendo em vista todos os pontos de resistência e obstáculos na melhora da utilização do cinema na sala de aula, essa é a área de estudo praticada, assim como diminuir os preconceitos ainda existentes do uso do mesmo no ambiente escolar. O cinema, assim como qualquer outra arte, alimenta fatores, sentimentos e consciências no ser humano, se rebela contra sistemas que querem ser impostos e também reavalia conceitos da sociedade a qual fazemos parte. É por causa disso que ele sempre criará e alimentará debates nos campos do saber, da sociedade e da consciência humana. Referências: FERRO, Marc. O fi lme: uma contra-análise da sociedade? In: LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre (Orgs.). História: novos objetos. Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves, 1988. ______. Cinema e História. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. KORNIS, Mônica Almeida. História e Cinema: um debate metodológico. Revista Estudos Históri- cos, Rio de Janeiro, v. 5, n.10, p. 237-250, 1992. MORETTIN, Eduardo. O cinema como fonte histórica na obra de Marc Ferro. In: CAPELATO, Maria Helena et al. História e Cinema: dimensões históricas do audiovisual. São Paulo: Alameda, 2007. p. 39-64. NAPOLITANO, Marcos. Como usar o Cinema em sala de aula. São Paulo: Contexto, 2003. VYGOTSKY, L. S. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1989. 112 Diante da vasta produção historiográfi ca que possuímos nas últimas décadas, principalmen- te aquelas voltadas para as experiências da comunidade negra durante o período escravista, as vivências do cotidiano da escravidão estão cada vez mais sendo desvendadas. São mais que ex- periências de resistência ou de sobrevivência. São narrativas, trajetórias de vida que devem ser redescobertas e como demonstração da complexibilidade que mulheres e homens negros pos- suíam, mesmo em condições de escravizados. Sendo assim, a partir de inquietações em torno das memórias, trajetórias de vidas, obras de personalidades negras intelectuais do século XIX e nas resistências educacionais que adentram no século XX. Surgir a Revista e Blog: ÓDÀ GÓÒLÚ, tendo como principal objetivo trazer experiências de pes- soas negras que marcaram a História da diáspora do povo negro nas américas, seja através de experiênciascoletivas ou individuais, famosas ou anônimas. Isto posto, que todas as trajetórias aqui apresentadas terão uma temática em comum: a importância da escrita como um instrumen- to potente de resistência e fazendo o exercício de resgate de memórias.Logo, tal material didático basear-se em uma proposta de atividade do componente curricular Tópicos Especiais em Educação II: Educação para as relações étnico-raciais do curso de licenciatura em História da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), semestre 2020.1. Orientado pelas Profas Dras Luciana da Cruz Brito e Martha Rosa Figueira Queiroz. Referências: ARIZA, Marília B. A; SAMPAIO, Maria Clara Carneiro. Narrativas de mulheres escravizadas nos Estados Unidos do século XIX. ESTUDOS AVANÇADOS 33 (96), 2019. BRITO, Luciana. O Brasil por Frederick Douglass: Impressões sobre escravidão e elação raciais no império. Pp.199-222. Estudos Avançados 33 (96), 2019. CEARÁ, Secretaria da Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos. “Quem foi Tereza de Benguela?”. 2020. DOMINGUES, Petrônio. Um “templo de luz”: Frente Negra Brasileira (1931-1937) e a questão da educação. Revista Brasileira de Educação v. 13 n. 39 set./dez. 2008; DOUGLASS, Frederick. Narrativa da Vida de Frederick Douglass, Um Escravo Americano; traduzi- do por Leonardo Poglia Vidal.Título original Createspace Independent Publishing Platform, 2016. P. 73-86. FERREIRA, Ligia Fonseca. Luiz Gama: um abolicionista leitor de Renan. Revista Estudos Avança- dos (USP). v. 21. n. 60. São Paulo, 2007. JACOBS, Harriet Ann. Incidentes na vida de uma menina escrava. Ed. Todavia. São Paulo, 2019. OLIVEIRA, Rafael Domingos. Uma história social da escrita de si : autobiografi as e a escravi- dão nas Américas. XXVIII Simpósio Nacional de História. Disponível em: http://www.snh2015.anpuh. org/. REIS, Maria Firmina dos. Úrsula. -Porto Alegre: Taverna, 2018. ____________. Conto: A Escrava. 7.ed. Belo Horizonte. Editora PUC Minas, 2018. Pp. 193- 207. ÓDÀ GÓÒLÚ: Educação e Letramento Afrodiaspórico nas Américas Camila Sena da Luz (UFRB) Samile de Souza Carvalho (UFRB) Wivian Maria Garcia Menezes (UFRB) 113 SILVA, Adriana Maria Paulo. A escola de Pretextato dos Passos e Silva: questões de respeito das práticas de escolarização do mundo escravista. Revista Brasileira de História da Educação, no4. Paraná, 2002. SILVA, Alexandra Lima da. Folhas de ébano: (auto)biografi as de escravizados e ensino de his- tória. Revista História Hoje, v. 7, no 14, p. 263-284 – 2018. ____________. Escritores da liberdade: autobiografi as de escravos, impressos e História da Educação. Educação em Foco, ano 19 - n. 28 – mai./ago. 2016 p. 103- 132. WISSENBACH, Maria Cristina. Cartas, procurações e patuás: os signifi cados da escrita no mundo da escravidão.in: MACCORD, ARAÚJO E GOMES (orgs.). Rascunhos cativos: educação, escolas e ensi- no no Brasil escravista. Rio de Janeiro: 7 letras, 2017. P. 59 INTRODUÇÃO A utilização de podcasts, programas de áudio gravados e que chegam até nós através, também, das inúmeras redes sociais, se tornou algo bastante comum no cotidiano das pessoas, sendo cada vez mais popular no Brasil, representando “[...] uma boa oportunidade de comunicação, com a pro- posta de levar mais informação, educar o público, além de produzir materiais que sejam criativos”. (BOSCARIOL, 2019, p.2). Os podcasts têm abordados os mais variados conteúdos, indo desde orientações sobre receitas culinárias, para quem se dedica a arte do preparo das refeições, até orientações sobre pesquisas científi cas e escolares, conhecimentos destinados a alunos de escolas, universidades, passando, é claro, pela discussão dos temas de natureza política e econômica. Comum a todos esses públicos, está a busca por um conteúdo com o qual se identifi cam, bem como a possibilidade de acessá-los em tempos/espaços que não os convencionalmente estabele- cidos pelas empresas de comunicação. Por fazer parte do universo de vários segmentos sociais, independentemente da idade, é signifi - cativo pensarmos a construção dos podcasts como uma ferramenta didática e que, como tal, possa auxiliar os professores durante as suas aulas, aproximando o aluno dos objetos de aprendizagens. No campo da Educação, a ideia da sua construção como instrumento que pode ajudar a impulsionar o ensino tem se tornando cada vez mais frequente e há vários sites que trazem podcasts, como o Escriba Café11, o História Online12 e o Scicast13 (SOUZA, 2017, pp. 45-46). OUTRAS LINGUAGENS NO ENSINO DE HISTÓRIA Durante longo período, o ensino de História esteve restrito a uma concepção historiográfi ca considerada tradicional que, em suma, só atribuía valor à História política, preocupando-se, predo- minantemente, com determinadas instituições, a exemplo do Estado ou da Igreja e com persona- gens a elas relacionadas “[...] como reis e papas, ou seja, os ‘grandes homens’, como se as pessoas comuns, com suas experiências cotidianas, não fi zessem parte da História” (GUERRA; DINIZ, 2007, p.127). Como destacam Guerra e Diniz (2007, p.127), a concepção acerca do que constituía um docu- Podcast: uma outra linguagem para se pensar o ensino de história Artur Nascimento dos Santos (UNEB) Tainara Silva Azevedo Sabrina Guimarães Carneiro Ana Clara do Vale Mendes Fernanda Araújo dos Santos Joab de Oliveira Jesus 114 mento histórico era também extremamente limitada, sendo considerados signifi cantes unicamente textos escritos, concebidos por instituições ofi ciais. O incentivo para alteração desse cenário veio do surgimento da Escola dos Annales, nas décadas iniciais do século XX, na França. Tal Movimento buscou dar visibilidade a personagens anteriormente “esquecidos” pela historiografi a. Além disso, combateu a restrição a outras fontes que não as ofi ciais. Isso afetaria, sobremaneira, as maneiras de lecionar História, pois houve um distanciamento do método tradicional e os profi ssionais des- vencilharam-se da exclusividade do livro didático. (LINHARES; RODRGUES, 2016). PRODUÇÃO DE PODCASTS: DISCUTINDO E EXPERENCIANDO Considerando a capacidade da utilização dos podcasts como uma ferramenta didática, princi- palmente em um contexto em que as novas tecnologias da informação e da comunicação fazem parte da vida de uma parte exponencial da população brasileira, é que resolvemos, pesquisar, dis- cutir e produzir uma série de podcasts, trabalho que será, posteriormente, reproduzindo nas aulas da Educação Básica. Tal qual o planejamento detalhado de uma aula, a construção de um texto ou a produção de uma sequência didática (ZABALA), assim encaramos a produção dos podcasts. Tudo começou com a es- colha dos temas que seriam objetos da construção dos áudios. Como se tratava da primeira vez que incursionávamos por este tipo de elaboração, eles não se limitaram, única e exclusivamente, aos conteúdos da disciplina História, mas ultrapassaram essas fronteiras, possibilitando- nos inserir, por exemplo, uma produção que abordasse “o contexto pandêmico e o ser aluno universitário”. Passada a fase da escolha do tema, demos início ao levantamento de informações. É ai que en- tra todo um trabalho de pesquisa, anotações, redação de textos, correções. Para o professor que está em sala de aula, trata-se de um momento muito importante, pois ele pode acompanhar a atu- ação dos alunos, orientando-os para a realização das investigações, sejam bibliográfi cas, ou não. Uma espécie de roteiro foi criada para orientar toda a construção. Através dele, visualizamos, como mais clareza, as etapas a serem seguidas. Essas não seriam lineares, pois o recurso da edição nos permitiria, posteriormente, juntar as falas. Para alguns grupos, devido às difi culdades com os processos de edição, a gravação se deu de forma linear e em um único momento, o que exigiu uma atenção redobrada, pois qualquer descuido poderia prejudicar todo o trabalho. Para aqueles grupos que optaram por uma gravação em tempos diversos, um momento foi re- servado paraa edição das falas, visando dá sequência e coerência à mensagem. Com o auxílio de um programa gratuito, houve uma audição dos trechos gravados, seguida de uma comparação com o roteiro e, como em um texto, verifi camos se existia coesão entre o término das falas de um com- ponente da equipe e o início das outras. Conferido, salvamos e distribuímos no grupo de WhatsApp para os demais colegas ouvirem e avaliarem. A experiência de produzir o podcast foi bastante signifi cativa, pois estávamos nos colocando como protagonista dos aprendizados. Não se tratava de um momento de audição da fala de um professor e tão somente a escuta da nossa parte. Em todo o processo, investigamos, debatemos, discutimos, criamos, enfi m, assumimos um outro e diferente lugar: o da autoria. Referências: BOSCARIOL, Matheus. Podcast: o que é, para que serve e como fazer um podcast. Disponível em: www.comunidade.rockcontent.com. Acesso em: 04 ago. 2021. GUERRA, Fabiana De Paula; DINIZ, Leudjane Michelle Viegas. A incorporação de outras lingua- gens ao ensino de história. História & Ensino, Londrina, v.13. p.127-140, set. 2007. LINHARES, Juliana Magalhães; RODRIGUES, Geovanio Carlos Bezerra; SOUSA, Joilson Silva de. Ensino de História e Novas Linguagens. Sobral: INTA, 2016. SOUZA, Raone Ferreira de. O podcast no ensino de História e as demandas do tempo presente: 115 que possibilidades? Transversos: Revista de História. Rio de Janeiro, n. 11, dez. 2017. Como explicitado em Cruz et al. (2021), urge a necessidade de revermos a narrativa consolidada sobre a história do ensino de História no Brasil. Fruto de uma necessidade política da segunda me- tade da década de 1980 para se contrapor ao ensino, supostamente, dominante durante a ditadura militar de 1964 a 1985 no Brasil, esta síntese instituiu a homogeneização a partir das experiências do eixo Rio de Janeiro/São Paulo no que denominamos, atualmente, educação básica. Por sua vez, conforme amplamente apontado por Ferreira (2006), a história da Universidade de São Paulo (USP) e do Curso de História, instituído a partir de 1934 e que continua sendo efetivado ininterruptamente desde então, dominou a escrita das histórias dos cursos superiores de História. Dos outros cursos – que tiveram ou não continuidade – Ferreira (2013) sistematizou uma série de dados que demons- tram de um lado os poucos estudos referentes aos cursos e, do outro, a dominância das narrativas no âmbito da institucionalização. Ou seja, contam-se as articulações, a legislação, a construção dos instrumentos normativos, mas pouco se analisa os currículos, os programas, as bibliografi as utilizadas e, até, as memórias de docentes e/ou discentes, mesmo em universidades de grandes centros políticos. Em outra oportunidade, foi revista a bibliografi a concernente aos cursos superiores (OLIVEI- RA; SOUZA, 2021) e demonstra-se a predominância da realização das pesquisas nos Programas de Pós-graduação em Educação; a diversidade de local (regiões brasileiras) dos estudos; concentra- ção das análises entre os anos 1960 e 1980, ou seja, periodicidade que marca o início das institui- ções estudadas. Tudo isso, reforça, o que aponta Ferreira (2013) sobre a necessidade de irmos além, de dialogar com outras fontes. Com essa afi rmativa, Marieta de Moraes Ferreira faz uma observação fundamental para o olhar sobre os projetos diferenciados de universidades – no caso do seu estudo, a UDF e a FNFi – e, nessa oportunidade, um projeto inovador antes de outro, mais coerente com as orientações mais con- servadoras, fazendo-nos refl etir sobre a naturalização da ideia de progresso. Portanto, a autora nos desafi a a encontrar por meio de outras fontes como programas de cursos, planejamentos do- centes, memórias, projetos diversos e que exibam a pluralidade das propostas em curso, às vezes, dissonantes, a história dos cursos superiores de História no Brasil. Partimos da experiência da Universidade Federal da Paraíba, mais especifi camente, da elabo- ração e implantação do Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional (NDIHR) sediado na capital, João Pessoa, para tentar contribuir com a pluralização da história da pesquisa e do en- sino de história circunscrita nas atividades de formação dos profi ssionais de História no Brasil na segunda metade do século XX, quando se criam a maioria dos cursos de História das universidades federais. Durante o período de 1976 a 1980, a Universidade Federal da Paraíba foi dirigida por Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque. No seu reitorado que Motta (2014) defi ne como um dos reitores articu- lados com os interesses da modernização que se empreendia nesse momento pelo Ministério da Educação, a UFPB passou de três para sete campi e com uma vigorosa contratação de professores (MOTTA, 2014, p. 270). O impacto da transformação pela qual passou a UFPB fez-se sentir em variados aspectos: na ampliação da oferta de vagas tanto para alunos quanto para professores; na chegada de muitos docentes de fora do estado; na ocupação do espaço urbano da capital, entre outros aspectos . Por uma história plural da pesquisa e do ensino nas instituições de ensino superior no Brasil: o caso do NDIHR/UFPB Margarida Maria Dias De Oliveira (UFRN) 116 Em todos os âmbitos seria possível demonstrar alterações signifi cativas nas formas de sentir, pensar e agir. Contudo, move-se com o interesse pela tentativa de recortar essa experiência para, fundamentada nos estudos de Ferreira (2013a; 2013b), buscar compreender uma realidade bem mais complexa do que nos fez acreditar a historiografi a produzida ao término da ditadura militar (1964-1985) que, aos poucos, moldou o campo do ensino de História e que restringiu a uma única chave explicativa a atuação docente e a refl exão sobre o ensino-aprendizagem de História: que os anos 80 do século XX construíram todas as novidades no campo − dos objetos, objetivos e recursos mobilizados para caracterizar o exercício docente e delimitar o campo de pesquisa, (embora não relacione esse nascedouro com o chão da sala de aula) − e foi determinante para a construção do objeto de pesquisa ensino de história. Buscamos por meio desse estudo contribuir para compreender as infl exões que se delineiam na escrita da História para muito além de uma História tradicional x inovadora ou marxista x positivis- ta, e outras visões dicotômicas dos fenômenos sociais. Compreende-se que, como ressalta Motta (2014), os sujeitos que atuaram nas universidades brasileiras, no período ditatorial militar no Brasil, vivenciaram relações de resistência e conforma- ção que delinearam muitos dos cursos de graduação e pós-graduação, bem como modelos de pro- jetos de ensino, pesquisa e extensão ou tantos outros modos de agir acadêmicos que hoje estão consolidados e que aparentam naturalidade e perenidade. Mas, como se sabe, na História não é assim. Se, por um lado, nós temos uma homogeneização da narrativa do ensino de História no geral (educação básica e ensino superior), por outro lado, a formação dos profi ssionais de História tam- bém foi circunscrita a parâmetros bastante restritos que estabelecem uma cronologia a partir da fundação da Universidade de São Paulo, da criação da sua Faculdade de Filosofi a e uma interpre- tação baseada na evolução dos cursos para um futuro do qual o nosso presente parece ser a única possibilidade . Deseja-se, portanto, pluralizar a narrativa do ensino de História, por meio da busca e sistemati- zação de informações, interpretação de dados e análise de fontes que exemplifi quem a diversidade de experiências formativas de cursos superiores de História, desta feita, por meio do entendimento do que signifi cou a convivência de formas de produção do conhecimento histórico na Universidade Federal da Paraíba no período de 1976-1980, no NDIHR. Nesta oportunidade, especifi camente, pretende-se apresentar e analisar um material didático produzido pelo Núcleo intitulado “Textos NDIHR”, voltados para a graduação e fruto pesquisas